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INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO “A Faculdade Católica Paulista tem por missão exercer uma ação integrada de suas atividades educacionais, visando à geração, sistematização e disseminação do conhecimento, para formar profissionais empreendedores que promovam a transformação e o desenvolvimento social, econômico e cultural da comunidade em que está inserida. Missão da Faculdade Católica Paulista Av. Cristo Rei, 305 - Banzato, CEP 17515-200 Marília - São Paulo. www.uca.edu.br Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem autorização. Todos os gráficos, tabelas e elementos são creditados à autoria, salvo quando indicada a referência, sendo de inteira responsabilidade da autoria a emissão de conceitos. Diretor Geral | Valdir Carrenho Junior INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 3 SUMÁRIO AULA 01 AULA 02 AULA 03 AULA 04 AULA 05 AULA 06 AULA 07 AULA 08 AULA 09 AULA 10 AULA 11 AULA 12 06 15 24 33 42 51 61 70 79 88 97 106 INTRODUÇÃO: O QUE SÃO AS CIÊNCIAS SOCIAIS? OBJETIVOS, METODOLOGIA E IMPORTÂNCIA A ANTROPOLOGIA E SEUS AUTORES A SOCIOLOGIA E SEUS AUTORES A CIÊNCIA POLÍTICA E SEUS AUTORES CONSOLIDAÇÃO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS COMO CAMPO DE PESQUISA E CONHECIMENTO TEMAS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS: A DIVISÃO SOCIAL DO TRABALHO TEMAS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS: AS FORMAS DE PODER AUTORITÁRIAS E DITATORIAIS TEMA DAS CIÊNCIAS SOCIAIS: AS FORMAS DE PODER DEMOCRÁTICAS E REVOLUCIONÁRIAS TEMAS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS: O QUE É CULTURA ? TEMAS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS: SENSO COMUM E IDEOLOGIA TEMAS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS: A QUESTÃO DA ECONOMIA TEMAS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS: A QUESTÃO DA HISTÓRIA INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 4 SUMÁRIO AULA 13 AULA 14 AULA 15 115 124 134 A ANÁLISE DO BRASIL A PARTIR DAS CIÊNCIAS SOCIAIS INDIVÍDUO E SOCIEDADE: AS MARCAS QUE EXIBIMOS NA NOSSA ATUAÇÃO NA SOCIEDADE OS DESAFIOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS NO MUNDO CONTEMPORÂNEO INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 5 INTRODUÇÃO Caro aluno, seja bem-vindo a nossa disciplina de Introdução à Ciências Sociais e Políticas! Essa disciplina tem como objetivo principal introduzir em sua formação as Ciências Sociais, pois essa é uma ciência muito importante para entendermos o mundo em que vivemos, bem como a nossa atuação profissional e pessoal. Dessa maneira, aguçamos o pensamento crítico conforme conhecemos as metodologias dessa área e seus fundamentais autores que nos auxiliam a compreender um pouco mais da nossa sociedade. As nossas 15 aulas serão suficientes para que você conheça de maneira introdutória o que são as Ciências Sociais, quais são os objetivos dessa ciência, o que é antropologia e os autores mais importantes, bem como a sociologia, a Ciência Política, a história, a economia e as temáticas que as Ciências Sociais refletem. Com as nossas aulas você também terá a oportunidade de compreender qual foi e como foi o processo de consolidação das Ciências Sociais enquanto campo de pesquisa que atua nas mais diversas áreas do conhecimento. Sobre os temas das Ciências Sociais, a divisão social do trabalho, as formas de poder e de governos, sejam elas autoritárias, ditatoriais, revolucionárias ou democráticas, com certeza, irão te auxiliar a compreender mais sobre o funcionamento da nossa sociedade e de questões políticas. Temas atuais como a cultura, senso comum e ideologia também irão te auxiliar no seu processo formativo enquanto profissional, acadêmico, e futuro pesquisador, pois são problemas das Ciências Sociais essenciais em qualquer área do conhecimento. As nossas últimas três aulas foram realizadas para você com objetivo de desvendar os mistérios e as análises sobre a formação histórica, política, cultural e econômica do Brasil. Assim como te abrirá a possibilidade de pensar a atuação dos seres humanos na relação entre indivíduo e sociedade, bem como a importância das Ciência Sociais em nosso mundo, sempre em movimento e transformação. Espero que você goste muito das nossas aulas e que utilize a nossa disciplina em sua formação acadêmica e profissional Agora é com você, boa leitura e boa aula! INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 6 AULA 1 INTRODUÇÃO: O QUE SÃO AS CIÊNCIAS SOCIAIS? OBJETIVOS, METODOLOGIA E IMPORTÂNCIA Lupa - pessoas Fonte:https://pixabay.com/pt/illustrations/lupa-pessoas-cabe%c3%a7a-rostos-1607208/ Olá, caro estudante! Tudo bem? É muito bom tê-lo aqui conosco e participar contigo deste trajeto tão importante em sua vida! Não tenho dúvidas de que estudar Ciências Sociais será fundamental para sua vida acadêmica. Utilizaremos noções básicas, introdutórias, mas também categorias e conceitos das Ciências Sociais e de suas subáreas: a Antropologia, a Sociologia e a Ciência Política, de forma que você desenvolva os requisitos necessários para sua atuação acadêmica e profissional. Com o passar das nossas aulas e dos seus estudos, você será capaz de entender que as Ciências Sociais são fundamentais para qualquer formação acadêmica, independentemente da área de atuação, pois você estará sempre em contato com https://pixabay.com/pt/illustrations/lupa-pessoas-cabe%c3%a7a-rostos-1607208/ INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 7 pessoas, com a sociedade e estabelecendo relações sociais, políticas, econômicas e culturais. Primeiramente, gostaria de propor para vocês um breve momento de reflexão. Vamos lá! Fonte:https://pixabay.com/pt/vectors/pergunta-quest%c3%b5es-homem-cabe%c3%a7a-2519654/ Gostaria que você refletisse sobre as questões abaixo: Para você, o que é sociedade? Em sua opinião, o que são relações sociais? Qual a relação entre indivíduo e sociedade? O que é cultura? Qual a nossa importância, enquanto indivíduos, e atuação no mundo contemporâneo? Por fim, você sabe o que são as Ciências Sociais? Agora que você refletiu bastante sobre as Ciências Sociais, espero que consiga compreender que nosso objeto de estudo é a sociedade e as formas em que os seres humanos se relacionam no mundo que habitam. https://pixabay.com/pt/vectors/pergunta-quest%c3%b5es-homem-cabe%c3%a7a-2519654/ INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 8 Para tanto, nosso material e nossas aulas possuem o objetivo principal de trazer a você, estudante, as principais noções, categorias, termos e conceitos utilizados nas Ciências Sociais para que você compreenda melhor como a sociedade funciona, assim como as diversidades culturais e políticas dos diversos grupos sociais existentes em nosso planeta. 1.1 O que são as Ciências Sociais? As Ciências Sociais possuem grande importância para a humanidade, mas muitas pessoas não sabem ao certo o que significam e qual sua relevância. Então, vamos a fundo sobre o que são as Ciências Sociais e seu surgimento! As Ciências Sociais estão dentro das Ciências Humanas e também se subdividem em outras áreas: a Antropologia, a Sociologia e a Ciência Política. Cada uma dessas áreas serve para que você consiga compreender e analisar como se organizam as sociedades, assim como investigar eventos históricos, políticos, culturais, crises econômicas, bem como investigar as estruturas e os fenômenos que regem a nossa sociedade e as atuais condições do mundo, de um país, de um Estado, de uma cidade ou de um grupo social. ANOTE ISSO Além disso, o objeto de estudo das ciências sociais mescla indivíduos e comunidades, classes e grupos sociais, gêneros e raças/etnias, religiosidades e ecologia, identidadese diversidade, realidades e imaginários, regiões e nacionalidades. Confronta e agrupa indivíduo e sociedade, natureza e sociedade. Percorre as diversas forças e formas de divisão social, sexual e técnica do trabalho e da produção. Diferencia a parte do todo, o singular do universal, o público do privado, assim como a democracia, da tirania e da revolução. Confronta as guerras de classe, fundamentalismos religiosos, as guerras étnicas, promovendo tanto a destruição como a criação de riquezas entre os indivíduos e as nações (CAVALCANTE; SILVA, 2011, p.03-06). Agora, vamos descobrir como as Ciências Sociais se consolidaram como ciência, ou seja, qual seu surgimento e consolidação no campo científico e dentro das Universidades. Para isso, é preciso que voltemos a nossa atenção para o século XIX, principalmente para as transformações sociais, políticas, econômicas e culturais causadas pela INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 9 Revolução Industrial e os processos de urbanização, expansão e colonização de países periféricos (que não fossem os grandes centros imperiais da Europa). Caro estudante, te convido a voltarmos um pouquinho na história para relembrar sobre a Revolução Industrial. Nosso objetivo é que você compreenda como os processos de industrialização da sociedade e o contexto histórico, ambos possibilitadores do desenvolvimento social, bem como a necessidade de investigação de pesquisadores sobre as transformações do mundo para uma nova sociedade capitalista. Fonte:https://www.pexels.com/pt-br/foto/foto-da-roda-dentada-dourada-em-fundo-preto-3785935/ A Revolução Industrial foi um marco muito importante para a história da humanidade, sendo que seus desdobramentos e desenvolvimentos afetaram todo o mundo. Ocorreu quando a sociedade européia, especificamente a Inglaterra, mudou seu modo de produção para o capitalismo, para uma sociedade utilizadora de máquinas. Ou seja, o processo passou de manufaturado para faturado, sendo que mais mercadorias passaram a surgir no mercado, bem como preços atrativos. (CAVALCANTE; SILVA, 2011, pp.03-06). Nesse caso é possível afirmar que https://www.pexels.com/pt-br/foto/foto-da-roda-dentada-dourada-em-fundo-preto-3785935/ INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 10 ANOTE ISSO a Revolução Industrial, ocorrida na Inglaterra no século XVIII foi o grande precursor do capitalismo, ou seja, a passagem do capitalismo comercial para o capitalismo industrial. É fascinante, como a revolução industrial mudou a vida das pessoas daquela época e como até hoje seus reflexos continuam transformando o nosso dia a dia com a revolução tecnológica. [...] Escritores consagrados como Adam Smith, Karl Marx, Eric Hobsbawm entre outros exploram a importância da Revolução Industrial e o surgimento do capitalismo moderno (CAVALCANTE; SILVA, 2011, pp.03-06). Como a Revolução Industrial foi responsável por concentrar muitos trabalhadores nas fábricas que recebiam salários, temos como um dos principais resultados o desenvolvimento urbano e o aumento de pessoas nas cidades que também aumentaram. Londres chegou a ter 1 milhão de habitantes no ano de 1800, e o progresso que se desenvolvia, desenvolvia também uma massa de trabalhadores em condições precárias e muito miseráveis. ANOTE ISSO Os artesãos acostumados a controlar o ritmo de seu trabalho, agora tinham de submeter-se à disciplina da fábrica. Passaram a sofrer a concorrência de mulheres e crianças. Na indústria têxtil do algodão, as mulheres formavam mais de metade da massa trabalhadora. Crianças começavam a trabalhar aos seis anos de idade. Não havia garantia contra acidente nem indenização ou pagamento de dias parados neste caso (CAVALCANTE; SILVA, 2011, p.03-06). ISTO ESTÁ NA REDE O trabalho infantil é um problema muito sério e a ser combatido em nossa sociedade. Sobre o assunto, é possível verificarmos o seguinte trecho de uma redação escolar, escrita por um menino de 12 anos, que trabalhava. “Assim que me levanto pela manhã, tenho que descer as escadas até o porão, para começar minha jornada. São mais ou menos cinco e meia da manhã. Aí eu tenho que enfiar as linhas nas agulhas dos teares até às sete horas e só então tomo o café-da-manhã. Depois volto ao trabalho até a hora de ir para a escola. Quando a escola termina, às onze horas, vou para casa e volto para as agulhas até às doze horas. Almoço e volto a trabalhar até pouco antes da uma da tarde. Retorno à escola, onde aprendo muitas coisas úteis. Quando chego em casa, trabalho até escurecer. Aí janto. Depois da janta, trabalho novamente até às dez da noite. Às vezes, quando o trabalho é urgente, fico até às onze da noite no porão. Depois digo aos meus pais boa noite e vou dormir. É assim todos os dias.” Veja a matéria na íntegra no site: https://www.swissinfo.ch/por/trabalho-infantil-na-su%C3%AD%C3%A7a_a-inf%C3%A2ncia-roubada-dos- oper%C3%A1rios--fabriklerkinder-/43508762 https://www.swissinfo.ch/por/trabalho-infantil-na-su%C3%AD%C3%A7a_a-inf%C3%A2ncia-roubada-dos-oper%C3%A1rios--fabriklerkinder-/43508762 https://www.swissinfo.ch/por/trabalho-infantil-na-su%C3%AD%C3%A7a_a-inf%C3%A2ncia-roubada-dos-oper%C3%A1rios--fabriklerkinder-/43508762 INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 11 Como notamos, portanto, com a revolução industrial, muitas coisas foram modificadas de forma muito rápida, tanto para o mundo do trabalho, como para a política e para questões econômicas e culturais. Isso originou novos comportamentos sociais, novas formas de sociabilidade e de modelos de sociedade. (CAVALCANTE; SILVA, 2011, p.03- 06). Desde então, surgiu o interesse de muitos filósofos e pensadores em analisar e compreender o funcionamento da sociedade e explicar os fenômenos, as contradições e os complexos movimentos da nossa sociedade contemporânea. As Ciências Sociais, então, começou a ter sua existência enquanto uma ciência que possibilitava a formulação de novos conhecimentos, assim como a sistematização de teorias e práticas que já existiam e que explicavam, e para explicar, as transformações em curso da sociedade. Portanto, as Ciências Sociais é uma ciência que possibilita ao profissional contribuir para a análise de fatos e fenômenos históricos, mas também atuais, pois é uma área destinada à análise da sociedade e de seus problemas que entende a causa (a origem) e o desenvolvimento de diversas questões, bem como pode pensar e planejar a melhoria e soluções, já que estuda os fenômenos da sociedade. 1.1.1 Objetivos e importância das Ciências Sociais Caro aluno, agora que você já conhece o principal fundamento das Ciências Sociais: estudar os fenômenos da nossa sociedade, convido você a explorar os objetivos e a importância dessa ciência. Como as Ciências Sociais têm por objetivo e principal importância de ser uma ciência crítica, analítica, interpretativa e que oferece possibilidades de intervenção na realidade social. Elencamos seus principais objetivos: • Reflexão crítica da sociedade; • Reflexão crítica das relações sociais, culturais e políticas; • Analisar a complexidade da sociedade e da vida social; • Analisar a complexidade das culturas e das relações culturais; • Reflexão sobre o conhecimento, a cultura, os processos históricos e políticos; • Possibilitar o exercício da cidadania e da autonomia; • Reflexão sobre as práticas cotidianas e relação com teorias sistematizadas; INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 12 Caro aluno, agora você consegue compreender, portanto, que o objeto de estudo das Ciências Sociais é muito dinâmico e está sempre em movimento? Pois bem, a partir disso compreendemos que são vários recursos a serem utilizados para a reflexão, bem como inúmeras estratégiasmetodológicas e técnicas para analisar o que se é pesquisado e entendido. É dessa maneira que as Ciências Sociais não é apenas importante para o cientista social ou para o antropólogo, sociólogo e cientista político, mas para todas as áreas do saber, pois é imprescindível que os profissionais, das diversas áreas do conhecimento, se dediquem à compreensão da sociedade em que vivemos e das relações sociais que nós, seres humanos, estabelecemos ao longo de nossas vidas. ANOTE ISSO Portanto, as Ciências Sociais, Configura-se com novos significados, alargando suas fronteiras para outros campos disciplinares, articula-se e desarticula-se com as ciências da natureza e do espírito. Combinam-se diferentes temporalidades e lugares, revelando desenvolvimentos desritmados, descompassados e desiguais. Articulam-se as tradições e a história com os tempos futuros e mediáticos (ROSSO, BANDEIRA, COSTA, 2020, p.238). Dessa forma, podemos frisar que o objeto de estudo das Ciências Sociais abrange os indivíduos, comunidades, grupos sociais, classes, gêneros, raças e etnias, religiosidades e ecologia, as diversidades, as realidades e os imaginários sociais, também as regiões e as nacionalidades. Sendo assim, as Ciências Sociais é uma ciência que “Confronta e agrupa indivíduo e sociedade, natureza e sociedade. Percorre as diversas forças e formas de divisão social, sexual e técnica do trabalho e da produção”, pois “diferencia a parte do todo, o singular do universal, o público do privado, assim como a democracia, da tirania e da revolução” conforme “Confronta as guerras de classe, fundamentalismos religiosos, as guerras étnicas, promovendo tanto a destruição como a criação de riquezas entre os indivíduos e as nações” (ROSSO, BANDEIRA, COSTA, 2020, p.238). INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 13 ISTO ACONTECE NA PRÁTICA Como vimos, a pesquisa e a prática de pessoas ligadas com a área das Ciências Sociais é muito importante. Na dissertação de mestrado, intitulada Adoecimento no trabalho, a metamorfose do trabalhador do campo na cidade e os reflexos da reestruturação produtiva em uma fábrica de confecções têxteis no interior do Estado de São Paulo, o pesquisador sociólogo Vitor Luiz Carvalho da Silva (2020) realizou um trabalho de campo, por meio de entrevistas e fundamentações teóricas, com trabalhadores da fábrica têxtil Ares Confecções. Em seu trabalho, o sociólogo aborda questões relacionadas ao mundo do trabalho e à saúde dos trabalhadores. Conheça o trabalho do pesquisador: https://repositorio.unesp.br/bitstream/ handle/11449/202698/silva_vlc_me_mar.pdf?sequence=3&isAllowed=y Fonte: Repositório UNESP:https://repositorio.unesp.br/handle/11449/202698 1.1.1.1 Metodologia das Ciências Sociais Como vimos, as Ciências Sociais é uma ciência que nasceu com o desenrolar da revolução industrial, no século XIX, e que tem como principal objetivo realizar uma reflexão crítica da sociedade, das relações sociais, culturais e políticas, assim como analisar a complexidade da sociedade e da vida social; das culturas e das relações culturais; também sobre o conhecimento, a cultura, os processos históricos e políticos, de forma que possibilita o exercício da cidadania e da autonomia por meio da reflexão e da possibilidade de mudanças de práticas cotidianas fundamentadas em teorias sistematizadas, podendo ser utilizada como instrumento para as diversas áreas do conhecimento. Assim sendo, as Ciências Sociais, por ser uma ciência, é constituída por métodos e metodologias. Convido você, aluno, a compreender um pouquinho mais sobre isso, iniciando nosso trajeto sobre o que é metodologia e depois sobre as metodologias utilizadas nas Ciências Sociais. Entendemos a metodologia científica como uma ciência que estuda os métodos, ou seja, os caminhos necessários para que o pesquisador percorra e que consiga, da melhor forma possível, alcançar seus objetivos propostos, assim como demonstrar/comprovar sua hipótese de pesquisa. Então, a ciência, enquanto acúmulo de conhecimentos sistematizados, precisa possuir métodos, técnicas e metodologias adequadas para se chegar ao resultado final daquilo que se estuda ou que se quer comprovar/demonstrar. https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/202698/silva_vlc_me_mar.pdf?sequence=3&isAllowed=y https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/202698/silva_vlc_me_mar.pdf?sequence=3&isAllowed=y https://repositorio.unesp.br/handle/11449/202698 INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 14 Nas Ciências Sociais, temos três principais pensadores que articularam métodos diferentes para compreendermos o mundo. A partir desses três pensadores, Karl Marx (1818-1883), Émile Durkheim (1858-1917) e Max Weber (1864-1920), outros pensadores, sociólogos, antropólogos, cientistas sociais e cientistas políticos passaram a desenvolver novas metodologias de estudos e de análise da sociedade. Vamos agora conhecer um pouquinho mais sobre a metodologia de cada um deles: • Karl Marx e o método materialista histórico dialético. O método em Marx compreende uma posição do pesquisador em relação ao seu objeto de estudo, analisando as contradições e as formas de modificação e de transformação da realidade voltada para todos os aspectos: econômicos, culturais e políticos. (PIMENTEL; SILVA, 2019, pp.34-40). • Émile Durkheim e o método sociológico. Já o método sociológico, desenvolvido por Durkheim, é bastante diferente do método de Marx e de Weber, pois o objeto já traz características dadas, que garantem sua objetividade. Para Durkheim, o fato social é fator mais relevante da nossa sociedade, pois o fato social são as “entidades reais, autônomas, passíveis de constatação empírica e não redutíveis a qualquer outra ordem de fatos”, podendo ser “captados de forma cristalizada no modo de pensar, agir e sentir que são regularmente adotados pelos indivíduos em sociedade.”. Dessa maneira, Durkheim compreende que a ciência social deve explicar as coisas, mas não se envolver ou atuar na sociedade, ou seja, ser neutro (REIS, 2016, p.10). • Max Weber e a sociologia compreensiva: Para Weber, as diferentes esferas da vida social são autônomas. A relação entre elas está expressa no agente individual. É através dele que as diferentes esferas entram em contato. Em Weber, o objeto do conhecimento não se impõe à análise, mas é constituído pelo cientista através de procedimentos edificados pelo pesquisador. A partir do caos fenomênico, que é o mundo social, o cientista seleciona aspectos e imputa uma ordem racional estabelecendo as causas e consequências de forma compreensiva e neutra (COHN, 2017). Em síntese, cabe ao pesquisador, independentemente da área, enfrentar as dificuldades de caracterizar sua pesquisa e a melhor metodologia e método a ser aplicado. Mas sendo de grande importância que compreenda as Ciências Sociais e sua importância no mundo. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 15 AULA 2 A ANTROPOLOGIA E SEUS AUTORES Arte. Trabalhos Manuais Africanos Fonte: https://pixabay.com/pt/photos/arte-trabalhos-manuais-africano-1219116/ Caro aluno, agora que você já compreendeu o que é as Ciências Sociais, seus objetos de estudo, suas metodologias mais importantes e sua relevância para a sociedade, começaremos a aprofundar sobre as subáreas das Ciências Sociais. Normalmente, cada um de nós nos identificamos com uma área específica e, por muitas vezes, acabamos dividindo todas elas, como se fossem muito distintas umas das outras, mas você verá que a Antropologia, a Sociologia e a Ciência Política perfazem o universo crítico e teórico das Ciências Sociais e que caminham juntas para que consigamos analisar da melhor forma possível o mundo que vivemos e as relações que estabelecemos com outras pessoas.Compreendemos, portanto, a antropologia como o estudo do homem e seu interesse em específico sobre as diversas culturas. Imagine só como foi o processo de chegada https://pixabay.com/pt/photos/arte-trabalhos-manuais-africano-1219116/ INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 16 dos europeus no continente americano: o espanto dos povos nativos. O espanto ocorreu de ambos os lados, chegando a ponto dos espanhóis e portugueses se perguntarem se os habitantes daqui eram realmente seres humanos. Podemos perceber, no entanto, que diferenças culturais não são apenas quando nos deparamos com povos completamente diferentes de nós, mas com diferenças culturais e costumes distintos dos quais estamos acostumados. Isso ocorre no nosso cotidiano, em alguma viagem para outra cidade, outro estado, outro país! Até mesmo em algum bairro que você tenha ido pela primeira vez, ou também quando isso ocorre com questões religiosas; ao conhecer e ter contato com um colega de religião diferente da sua. Ou seja, vivemos diferenças culturais diariamente. Portanto, caro aluno, convido você a adentrar esse universo teórico e científico incrível das Ciências Sociais. Começaremos pela Antropologia e, nas aulas seguintes, abordaremos a Sociologia e também a Ciência Política. 2.1 O que é e o que estuda a Antropologia? Caro estudante, provavelmente você já ouviu falar ou já se interessou em aprender um pouco sobre a Antropologia. Nesta aula, iremos nos aprofundar um pouco sobre os estudos dessa ciência, seus principais conceitos e autores. A primeira coisa é que devemos entender que a Antropologia é uma subárea das Ciências Sociais muito importante para compreendermos o mundo, pois ela é um estudo do homem como ser social, cultural e biológico. A Antropologia é vista, portanto, como uma ciência que trabalha com dicotomias. Veremos que é muito importante entender o contexto em que os autores estão inseridos, as condições sociais de produção do conhecimento e o contexto intelectual. A Antropologia, pode, muitas vezes, ser entendida erroneamente como uma área que estuda apenas os povos primitivos, considerados “atrasados”, enquanto a sociologia seria uma área que estudaria apenas o mundo civilizado, contemporâneo e urbano, e a Ciência Política as formas de governo. A Antropologia surgiu como uma ciência que refletia e se perguntava sobre quem e o que era o homem. Significa, inclusive, a partir da etimologia da palavra de origem grega: Anthropos (homem) e logos (estudo, conhecimento, ciência). Sendo assim, definimos que a busca por conhecimento, por fazer ciência, por descobertas sobre quem é o homem, acabou por ser base fundamental de estudos para a Antropologia, INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 17 principalmente no contexto da colonização, em que homens brancos e europeus se colocaram em contato com as denominadas sociedade primitivas e passou a colonizá- las, mas também estudá-las. A Antropologia surgiu, portanto, com o interesse de conhecer e saber como eram os homens em seu estado de natureza, para as populações nativas, para a formação tribal e comunitária, e para territórios pouco conhecidos. Para o antropólogo Claude Lévi - Strauss, no artigo “A crise moderna da antropologia” (1962), a Antropologia lança o olhar para a questão da diferença: Enquanto as maneiras de ser ou de agir de certos homens forem problemas para outros homens, haverá lugar para uma reflexão sobre essas diferenças que, de forma sempre renovada, continuarão a ser o domínio da antropologia (LÉVI-STRAUSS, 1962, p.26). Sendo muito importante que entendamos que os conceitos elaborados pela Antropologia são socialmente e historicamente produzidos e que o antropólogo ou o estudante da Antropologia deve aprender a desnaturalizar, sendo possíveis as distintas formas de análise do mundo. Portanto, definimos a antropologia, de maneira simplificada, como uma ciência que tem como principal objeto de estudo o ser humano em todas as suas dimensões, ou seja, essa ciência estuda o ser humano em todas as particularidades da vida social. Os principais focos de estudo e de interesse da Antropologia são: • Estudar o cotidiano de determinado grupo social; • Estudar a cultura, o modo de vida, as festas e tradições; • Estudar a religiosidade, as relações entre o sagrado e o profano; • Estudar os movimentos sociais, os movimentos migratórios, as relações entre campo e cidade, área rural e urbana; • Estudar as diversas formas de comunicação, organização e produções culturais, políticas e sociais. Portanto, podemos afirmar que o campo principal de estudo da Antropologia é a diversidade e os modos distintos de viver em sociedade com o objetivo de buscar respostas para compreendermos o que somos e o que os outros são, pois é uma forma de verificarmos e analisarmos a maneira que os outros são, como vivem, como se sentem. Sendo assim, alargamos os diversos mundos culturais, políticos e sociais que estão colocados na sociedade. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 18 ISTO ACONTECE NA PRÁTICA O trabalho do antropólogo é muito importante para a nossa sociedade. Foram vários os antropólogos que ficaram muito conhecidos e famosos com relevantes trabalhos sobre a sociedade e diversos grupos sociais, bem como sobre a diversidade cultural. Na prática antropológica, a etnografia é essencial, assim como a observação participante e as pesquisas de campo. Nessa lógica de conhecer o outro e realizar pesquisa de campo, muitos antropólogos foram à Ilha Sentinela do Norte, considerado o povo mais isolado do nosso planeta. O objetivo desses estudiosos era o de compreender a forma de vida social daquele povo, assim como a cultura e as relações sociais. Veja mais sobre a Ilha Sentinela do Norte e a importância dos antropólogos: Fonte: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/impressionante-saga-dos-sentinelenses-o-povo-que-vive-em-total-isolamento.phtml 2.1.1 As principais escolas antropológicas A Antropologia possui diversos autores que fundaram ou que são oriundos de diversas escolas antropológicas. Nas seleções de imagens abaixo, vocês poderão notar com facilidade cada uma delas. Os primeiros apontamentos que podemos observar, que formam uma literatura etnográfica voltada para a diversidade cultural, remonta os séculos XVI ao século XIX, o período histórico de colonização do Brasil e da América do Sul. Na Imagem 01, é possível observarmos que as principais características etnográficas foram relatos de viagens por meio de cartas, diários e relatórios feitos por missionários, viajantes, comerciantes, exploradores, militares, administradores coloniais para a Coroa. Imagem 01 Fonte: https://antropologia.fflch.usp.br/antropologia https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/impressionante-saga-dos-sentinelenses-o-povo-que-vive-em-total-isolamento.phtml https://antropologia.fflch.usp.br/antropologia INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 19 Logo abaixo, na imagem 02, observamos que durante o século XIX, a escola do Evolucionismo Social entra em cena e começa a sistematizar o conhecimento sobre os chamados povos primitivos por meio do estudo de relatórios, cartas e documentos oficiais. Imagem 02 Fonte:https://antropologia.fflch.usp.br/antropologia Na imagem 03 veremos um pouco sobre o funcionalismo, uma escola oriunda dos anos 20 do século XX, influenciou muitos antropólogos nos anos seguintes e foi muito importante para a Antropologia. O modelo de trabalho mais utilizado pelos pesquisadores sobre o funcionamento da sociedade era o de monografias sobre a funcionalidade da vida cultural. Imagem 03 Fonte:https://antropologia.fflch.usp.br/antropologiahttps://antropologia.fflch.usp.br/antropologia https://antropologia.fflch.usp.br/antropologia INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 20 O importante antropólogo Bronislaw Malinowski foi um importante articulador da antropologia como objeto de estudo que possui métodos, teorias e objetivos próprios da área. Em seu importante trabalho “Os argonautas do pacífico ocidental”, Malinowski desenvolveu um estudo sobre o kula, uma prática de trocas, com caráter intertribal, que as comunidades da Nova Guiné realizavam. Abaixo, na imagem 04, conhecemos sobre o culturalismo norte-americano, mais uma importante escola antropológica desenvolvida nos anos de 1930, que tinha como principal objetivo compreender os padrões culturais e os estilos de cultura. Imagem 04 Fonte: https://antropologia.fflch.usp.br/antropologia Franz Boas, diferente dos diretores do Museu em que trabalhou, buscava evidenciar a escala evolutiva dos povos, por materiais coletados de viajantes. Boas, acreditava no relativismo, onde um comportamento só pode ser entendido e analisado no contexto cultural que ocorre. Outro elemento importante, que revigora o trabalho de Franz Boas – o trabalho de campo, ou seja, o método etnográfico e a busca por captar o ponto de vista do outro, através de filmagens, diários e fotografias, dessemelhante, dos antropólogos de gabinete, dos antropólogos evolucionistas, que, cujo trabalho, pauta- se, nos relatos e materiais coletados dos viajantes – dando ressonância como um dos (pais) fundadores da antropologia moderna juntamente com a então chamada Escola Cultural Americana. Na imagem 05, observamos questões relativas ao estruturalismo, desenvolvido durante os anos de 1940, fundamentado principalmente nas regras que norteiam e estruturam a sociedade, com principais abordagens acerca da dicotomia natureza x cultura. https://antropologia.fflch.usp.br/antropologia INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 21 Imagem 05 Fonte: https://antropologia.fflch.usp.br/antropologia Claude Lévi-Strauss é um dos mais conhecidos antropólogos da modernidade. Para o antropólogo, os debates acerca dos conceitos de cultura e natureza constituem problema fundamental para o pensamento antropológico, visto que enquanto ciência do homem é preciso se ter claro o que é biologicamente natural ao homem e o que é culturalmente construído. Na imagem 06, observamos alguns elementos sobre a antropologia interpretativa, desenvolvida nos anos 60, que teve como principal representante e pesquisador Clifford Geertz. Imagem 06 Fonte: https://antropologia.fflch.usp.br/antropologia Geertz, antropólogo insatisfeito com as abordagens positivistas das representações etnográficas e da antropologia, se firmou para construir uma nova metodologia. Marcado pela interdisciplinaridade, Geertz não exprimiu suas reflexões de maneira https://antropologia.fflch.usp.br/antropologia https://antropologia.fflch.usp.br/antropologia INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 22 sistemática e fundou a denominada antropologia hermenêutica ou interpretativa. Para o antropólogo, a antropologia está voltada para a natureza da experiência etnográfica. Na imagem 07, mais recentemente com estudos sobre os modelos das etnográficas e na relação politizada entre observador e observado, a antropologia pós-moderna surge com o objetivo principal de contestar os padrões e os paradigmas das outras escolas antropológicas. Imagem 07 Fonte: https://antropologia.fflch.usp.br/antropologia James Clifford foi um dos principais representantes dessa escola antropológica que se desenvolve principalmente a partir da multidisciplinaridade: a história, a literatura e a antropologia. Para os antropólogos pós-modernos, a crítica e as descrições culturais que estão presentes na etnografia clássica devem servir para que se avalie a própria forma de fazer etnográfica e a relação entre observador e observado. Portanto, questões sociais, de dominação e políticas são parte do diálogo e do encontro etnográfico e não podem ser deixados de lado. 2.1.2 Cultura e etnocentrismo Na história da constituição da Antropologia enquanto uma área do conhecimento científico, dois conceitos sempre foram centrais para sua epistemologia: Natureza e Cultura. Se passarmos por todas as grandes correntes teóricas que tiveram hegemonia no pensamento antropológico euro-ocidental, encontraremos esses dois conceitos servindo de base para suas legitimações, se excluindo, ou se modificando, porém sempre estando nos centros das discussões entre os teóricos. O conceito não está https://antropologia.fflch.usp.br/antropologia INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 23 separado do momento histórico em que é produzido, podemos historicizar esses conceitos de acordo com sua definição e utilização por determinadas correntes do pensamento antropológico. Você pode estar se perguntando os motivos de o conceito de cultura ser tão importante para a antropologia. Como vimos ao longo da nossa aula, o conceito de cultura possibilita uma explicação do mundo e das relações sociais que o fundamentam. Sendo assim, a antropologia se desenvolveu a partir deste conceito chave, na tentativa de interpretar a sociedade, principalmente, por meio dele, de forma que o homem passa a ser mais do que puramente biológico e ligado à raça. Claro que ao estudarmos as diversas escolas antropológicas, concluímos que o conceito de cultura é muito diverso para cada autor e para cada momento da nossa sociedade, de forma que são vinculados aos cursos da sociedade, às suas modificações, transformações e contradições. O conceito de etnocentrismo dialoga muito com o conceito de cultura, sendo também fundamental para o desenvolvimento da antropologia enquanto ciência, pois é quando entramos em contato com o outro, com o diferente que podemos sentir sentimentos de rejeição, de estranhamento, de curiosidade ou de fascínio. Em síntese, Etnocentrismo é uma visão do mundo com a qual tomamos nosso próprio grupo como centro de tudo, e os demais grupos são pensados e sentidos pelos nossos valores, nossos modelos, nossas definições do que é a existência. No plano intelectual pode ser visto como a dificuldade de pensarmos a diferença; no plano afetivo, como sentimentos de estranheza, medo, hostilidade, etc. Perguntar sobre o que é etnocentrismo é, pois, indagar sobre um fenômeno onde se misturam tanto elementos intelectuais e racionais quanto elementos emocionais e afetivos. No etnocentrismo, estes dois planos do espírito humano – sentimento e pensamento – vão juntos compondo um fenômeno não apenas fortemente arraigado na história das sociedades como também facilmente encontrável no dia-a-dia das nossas vidas (ROCHA, 1984, p.07). Ou seja, o etnocentrismo é uma forma de demonstrar a incapacidade de compreensão da cultura do outro a partir de parâmetros que são estranhos para nós. Atualmente, nas pesquisas antropológicas contemporâneas, a questão de superar o etnocentrismo se tornou regra metodológica, pois não é possível realizar uma pesquisa sobre um grupo diferente do qual eu pertenço, caso eu não conseguir compreender o outro e me manter preso aos meus valores, crenças e formas de pensar em que estou acostumado. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 24 AULA 3 A SOCIOLOGIA E SEUS AUTORES Indivíduos, pessoas, lupa Fonte: https://pixabay.com/pt/illustrations/indiv%c3%adduo-pessoas-lupa-exame-5131429/ Caro aluno, já percorremos bastante conteúdos das Ciências Sociais e da Antropologia. Agora, chegou o momento de você refletir sobre a sociologia. Uma ciência, também subárea das CiênciasSociais e que está muito presente no nosso dia a dia. Com certeza você já teve aulas de Sociologia no Ensino Médio e talvez se lembre de algumas delas, bem como dos conteúdos que seus professores trabalharam. De toda forma, nosso objetivo agora é o de aprofundar na teoria dos principais pensadores da https://pixabay.com/pt/illustrations/indiv%c3%adduo-pessoas-lupa-exame-5131429/ INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 25 sociedade que auxiliaram outros pesquisadores, por meio de suas teorias, a refletirem sobre a sociologia, as relações sociais e a sociedade. Como vimos em nossa primeira aula (caso você não se lembre, volte um pouquinho conteúdo, pois é muito importante que você já conheça a metodologia de Karl Marx, Max Weber e Émille Durkheim), as Ciências Sociais é uma ciência bastante ampla que serve para interpretar, compreender e intervir na realidade social. Portanto, a partir de agora, aprofundaremos um pouco mais nas teorias de Auguste Comte, Émille Durkheim, Max Weber e Karl Marx. Espero que ao final da nossa aula você seja capaz de compreender as diferenças teóricas e conceituais de cada desses três importantes autores e que eles te auxiliem a analisar, a partir da sociologia, o mundo em que vivemos. 3.1 O que é sociologia e quais os objetivos dessa ciência? Primeiramente, gostaria que você refletisse sobre algumas questões importantes da sociologia. • O que é fato social? • O que é dominação? • O que é luta de classes? • Por fim, o que é sociologia? A Sociologia é uma das ciências mais complexas, pois tem como objeto de estudo a sociedade. O sociólogo tem em si a busca de explicações das coisas. Como cada área do conhecimento, que se desenvolve em ciência, tem como objeto de estudo algo bastante específico, por exemplo, questões biológicas e o funcionamento de um órgão vital ou a matemática, a sociologia surgirá com o objetivo de compreender, analisar, interpretar e, se for possível, dependendo do viés teórico, intervir na realidade social de maneira a transformá-las. Por ser uma ciência, é necessário entendermos que a sociologia é expressada através de categorias, termos e conceitos, bem como de fundamentos teóricos e metodológicos. Para tanto, a sociologia tem como objetivo principal explicar a realidade por meio da observação, análise e estudo dos fatos. Portanto, a sociologia não especula sobre as relações sociais e na observação simples dos fatos, entendemos, portanto, que não se faz sociologia nos gabinetes e que os sociólogos não devem possuir juízos de valores. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 26 Objetivos da Sociologia: • Analisar e compreender diferentes culturas e sociedades; • Compreender o funcionamento do Estado, governo, instituições, movimentos sociais, partidários e sindicais, bem como movimentos do campo e questões educacionais; • Pesquisas quantitativas e qualitativas, bem como de campos e teóricas; • Análise da sociedade e de sua formação social, bem como das relações sociais que a envolvem (trabalho, cultura, política, história, economia, arte, literatura). 3.2 Auguste Comte, Émille Durkheim e a Sociologia Caro aluno, agora que você já conhece um pouco o que é a sociologia e os objetivos principais desta ciência, chegou o momento de você compreender as reflexões teóricas que envolvem a sociologia, principalmente o desenvolvimento dessa ciência e suas contribuições para a humanidade. Começaremos com Auguste Comte (1798-1857), conhecido como o pai da sociologia e grande influenciador de Émille Durkheim. Como vimos nas aulas anteriores, conforme a sociedade foi se transformando e desenvolvendo seu modo de produção para o capitalismo, os pensadores passaram a questionar e buscar entender o novo paradigma social, político e cultural da sociedade moderna. Isidore-AugusteMarie-François-Xavier Comte, mais conhecido como Comte, nasceu em 19 de janeiro de 1798, em Montpellier, e faleceu no dia 5 de setembro de 1857, em Paris. O filósofo e líder religioso foi quem nomeou essa ciência como sociologia e foi o primeiro a transformá-la em disciplina científica. Auguste Comte Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Sociologia https://pt.wikipedia.org/wiki/Sociologia INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 27 Até o ano de 1839, a sociologia era chamada de Física Social, ano em que Comte passa a chamar essa ciência de sociologia, com o significado de Societas, do latim= sociedade, e logos, do grego= estudo, razão. Conforme os anos foram se passando e as sociedades se transformando em estruturas muito complexas, a sociologia passou a ser a ciência capaz de analisar o que ocorria. Muito bem, agora já temos uma compreensão maior do que é a sociologia e como ela surge: de um momento de transformação para a sociedade capitalista. Como muitos pensadores passaram a tentar analisar essas mudanças, Comte foi muito importante na fundação da sociologia enquanto ciência. Agora já deu para entender um pouco mais, vamos adentrar mais um pouco no pensamento de Émille Dukrheim (que já abordamos um pouquinho na nossa primeira aula). Durkheim foi muito influenciado pelas ideias positivistas de Auguste Comte. Foi, no entanto, o primeiro a teorizar sobre a sociedade. O autor nasceu na França, no dia 15 de abril de 1858 e faleceu em Paris, em 15 de novembro de 1917. Ele é considerado um dos principais fundadores da sociologia moderna, sendo visto como o primeiro sociólogo, pois formulou as primeiras regras da sociologia, pensando também no método sociológico. Émille Durkheim Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Sociologia https://pt.wikipedia.org/wiki/Sociologia INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 28 ANOTE ISSO O fato social é uma das principais reflexões de Durkheim. Para o autor, o fato social é uma forma de a sociedade agir, pensar ou sentir. Ou seja, quer dizer que os comportamentos são sociais (BITENCOURT; BEZERRA, 2011). Vamos descobrir um pouquinho mais sobre o fato social e suas principais características: • A generalidade, entendida como algo comum para a maioria em uma sociedade; • A exterioridade, significa que não depende do indivíduo para acontecer; • A coercitividade, ou seja, a pressão que a sociedade exerce sobre o indivíduo. ISTO ACONTECE NA PRÁTICA O casamento é um exemplo de fato social, pois ele possui uma generalidade, já que muitas pessoas em nossa sociedade pensam em casar. O casamento também é algo externo, ou seja, possui a característica da exterioridade, que Durkheim desenvolve em relação ao fato social, pois há pessoas que não pensam em se casar. No entanto, os casamentos continuam ocorrendo. Ainda assim, a característica da coercitividade é bastante presente, pois há pressões de diversos tipos, em nossa sociedade, para que as pessoas se casem. Anéis de casamento Fonte:https://pixabay.com/pt/photos/an%c3%a9is-de-casamento-an%c3%a9is-de-noivado-3611277/ 3.3 Max Weber e as formas de dominação Ao estudarmos um pouco das reflexões de Durkheim, já conseguimos entender que a sociedade e os fatos sociais são elementos de interesse da sociologia. Agora, espero que vocês compreendam um pouco mais da sociologia e de suas bases fundamentais. https://pixabay.com/pt/photos/an%c3%a9is-de-casamento-an%c3%a9is-de-noivado-3611277/ INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 29 Para isso, iniciaremos um trajeto no pensamento de Marx Weber e veremos que esse autor, também muito importante da sociologia, interpreta a sociedade de outra maneira. Weber foi um importante intelectual, jurista e economista alemão; é considerado também um dos pais e autores mais importantes da sociologia. Ao pensarsobre a sociedade, também a organização capitalista, desenvolveu inúmeros conceitos e uma metodologia específica, a sociologia compreensiva, para explicar o mundo e as relações sociais. Um dos conceitos de grande importância no pensamento sociológico weberiano é o de dominação. Vamos agora aprofundar e entender um pouco mais sobre o que é dominação. Para Weber, dominação é a probabilidade de encontrar obediência para ordens específicas em determinado grupo de pessoas. A dominação pode ser encontrada em diversos hábitos, tanto racionais, quanto inconscientes. A vontade de obedecer, ou seja, de interesse na obediência, faz parte da relação de dominação. É dessa maneira que o autor entende que o quadro de dominação com pessoas deve estar vinculado à obediência do senhor ou senhores, por costume, afeto, ou interesses materiais, ou motivos ideais (racionais referentes a valores). Para Weber (2015), a natureza desses motivos é que determina o grau e o tipo de dominação. Max Weber Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Sociologia Todas as dominações procuram despertar e cultivar a crença em sua legitimidade e dependendo da natureza da legitimidade é que diferem o tipo de obediência, além do caráter de três tipos de dominação legítima. https://pt.wikipedia.org/wiki/Sociologia INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 30 Caro aluno, agora que compreendemos o que é dominação para Weber, vamos entender um pouquinho sobre as formas de dominação para esse importante autor. ANOTE ISSO • racional: baseada na crença da legitimidade das ordens estatuídas e do direito de mando de quem está nomeado para exercer a dominação legal. • tradicional: baseada na crença cotidiana na santidade das relações vigentes e na legitimidade daqueles que representam a autoridade. • carismática: baseada na veneração extracotidiana da santidade, do poder heroico e do caráter de uma pessoa exemplar e das ordens reveladas por ela. Nas dominações baseadas em estatutos, é obedecida a ordem impessoal, objetiva e legalmente estatuída, em virtude da legalidade formal. Na dominação tradicional, obedece a pessoa do senhor nomeada pela tradição e vinculada aos hábitos dos costumes. Na dominação carismática, obedece ao líder carismaticamente qualificado em virtude do exemplo ou do heroísmo. Weber diz que esses são tipos ideais e puros, mas que não devem ser encaixados puramente na realidade histórica empírica. Os efeitos também partem disso, portanto, é necessário diferenciar as classes de dominação e suas pretensões para a legitimidade. 3.4 Karl Marx e a luta de classes Caro aluno, agora iniciaremos nossa reflexão acerca da teoria política de Karl Marx. Assim como Comte, Durkheim e Weber, Marx é um pensador muito importante para a sociologia que se colocou no objetivo de compreender a sociedade capitalista e refletir sobre as possibilidades de transformação desse sistema. Karl Marx (1818 – 1883) nasceu em Treves, no reino da Prússia, atual Alemanha. Escreveu muitos livros e foi de grande importância para entendermos a sociedade moderna capitalista. Em sua grande obra, Marx, desenvolveu vários conceitos para explicar como as relações de trabalho ocorrem no capitalismo. O diferencial de Marx e de seu companheiro Engels, foi o de compreender as contradições desse sistema político e econômico e buscar soluções para sua superação, ou seja, transformar a sociedade por sua base, pelos trabalhadores. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 31 Ao longo da nossa aula notamos que a teoria de todos esses autores estudados, é muito mais ampla e que nossas aulas trazem a introdução de conceitos, termos, categorias e reflexões teóricas desenvolvidas por esses pensadores. Sendo assim, em Comte vimos a formação da sociologia como ciência; em Durkheim entendemos o conceito de fato social; em Weber estudamos sobre as formas de dominação e, agora, em Marx, refletiremos sobre a luta de classes. Vamos começar por dois elementos essenciais: o primeiro é desfazendo uma interpretação equivocada a respeito das classes sociais. Para Marx, e para os marxistas, a classe não é definida pela renda, mas pelo o que ela possui, ou seja, os meios de produção. O exemplo presente em um dos principais textos de Marx e de seu camarada Engels, O Manifesto Comunista, é de que no feudalismo, os senhores feudais eram os donos de produção e no capitalismo, os burgueses possuem os meios de produção, não os operários (classe trabalhadora assalariada). Antes de Marx muitos economistas e estudiosos pensaram também a questão das classes sociais como uma forma de compreensão e de divisão da sociedade. Mas, a inauguração, “a novidade”, trazida por esse autor alemão foi de que a existência das classes sociais está ligada à forma que a sociedade se desenvolve e, conforme o sistema capitalista se desenvolveu e se consolidou, os trabalhadores passaram a ser mais explorados, principalmente com os adventos tecnológicos. Karl Marx Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Sociologia https://pt.wikipedia.org/wiki/Sociologia INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 32 ANOTE ISSO Segundo Marx, a sociedade é dividida em classes sociais: os trabalhadores e os patrões (a classe dominada e a classe dominante), e isto é uma relação desigual que gera conflitos e contradições. No capitalismo, a classe dominante é a burguesia (aquela que possui os meios de produção, as fábricas, as indústrias e o controle do Estado e do Governo), os trabalhadores fazem parte da classe dominante, são assim chamados de proletariado (são os operários e os camponeses), diferente dos patrões que possuem os meios de produção, a classe trabalhadora possui apenas a força de trabalho, a vontade e a necessidade de trabalhar. O trabalhador vende a sua força de trabalho para o patrão como se fosse uma mercadoria, no final do mês, recebe um salário (MARTINS, 1994). Portanto, a luta de classes é mais do que uma oposição de ideias de diferentes grupos sociais. É a consequência do capitalismo e da divisão de classe no próprio sistema em que define quem é a burguesia e quem é o operariado (classe trabalhadora assalariada). ISTO ACONTECE NA PRÁTICA A greve é uma das manifestações mais conhecidas e que configura a luta de classes na sociedade capitalista, pois é o reflexo das contradições desse sistema: dos lucros, diferenças de salários, a desigualdade social e miséria para alguns e riqueza para outros. Veja na notícia abaixo um exemplo de greve em São Paulo. Fonte: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/greve-dos-professores-atinge-93-das-escolas-municipais-de-sp.ghtml https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/greve-dos-professores-atinge-93-das-escolas-municipais-de-sp.ghtml INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 33 AULA 4 A CIÊNCIA POLÍTICA E SEUS AUTORES Europa Fonte: https://pixabay.com/pt/photos/europa-viajar-por-mapa-mundo-1264062/ Caro aluno, chegamos em mais um momento muito importante da nossa disciplina: aprofundar em mais uma subárea das Ciências Sociais, agora, a Ciência Política. Muitas vezes ouvimos dizer que política não se discute, ou temos a visão de que política significa propaganda eleitoral, candidatos, dissimulação por parte de alguns políticos, voto e cidadania. https://pixabay.com/pt/photos/europa-viajar-por-mapa-mundo-1264062/ INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 34 Agora iremos compreender que política é muito mais do que isso e que, inclusive, é uma ciência. Como a Ciência Política está presente no nosso dia a dia muito mais do que imaginamos e não apenas em época eleitoral, uma das definições possíveis de CiênciaPolítica é que ela é o estudo que envolve método, prática, teoria e metodologia da política. Começaremos nossa abordagem com o surgimento dessa ciência e com alguns dos principais autores da Ciência Política com o objetivo de compreendermos o que é a Ciência Política e como ela foi se consolidando como campo de pesquisa, mas, além disso, sobre como, assim como a Antropologia e a Sociologia, ela é muito importante para entendermos o mundo em que vivemos, os sistemas políticos e as relações sociais que a Sociologia e a Antropologia visam analisar. É dessa maneira que, compreendendo as três áreas que envolvem as Ciências Sociais, você estará muito bem preparado para sua formação e também atuação profissional. 4.1 Maquiavel e a arte da política Nicolau Maquiavel nasceu em Florença, na Itália, no ano de 1469 e faleceu na mesma cidade no ano de 1527. Um homem de seu tempo, com formação bastante ampla, Maquiavel é considerado um dos pensadores mais importantes para o nascimento da Ciência Política. Nicolau Maquiavel Fonte:https://pt.wikipedia.org/wiki/Nicolau_Maquiavel https://pt.wikipedia.org/wiki/Nicolau_Maquiavel INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 35 Maquiavel foi autor de muitos textos. Dentre eles estão: Comentários sobre a Primeira Década de Tito Lívio, Arte da Guerra, a peça Mandrágora, História de Florença, e O Príncipe, um pequeno livro muito famoso e que iremos conhecer um pouquinho! O livro O Príncipe é na verdade um aglomerado de relatórios de trabalho do florentino que demonstram ampla preocupação com o desaparecimento da Igreja e dos Estados com tendências democráticas, além de buscar transformar a sociedade, por meio de uma nova figura, a fim de propor uma união dos Estados. Para tanto, a política do período em que Maquiavel está inserido fortifica o nacionalismo e as monarquias. Devido aos interesses dos senhores, a unificação italiana perdeu espaço, somado ao fato da ausência de um grande líder que desse fim aos estrangeiros que colocavam estados uns contra os outros, em intensa oposição que aumentou e fortificou o nacionalismo e as monarquias. Para tanto, é possível notarmos que a preocupação de Maquiavel é a Independência da Itália e a restauração do Estado forte e da prosperidade (MAQUIAVEL, 2019). Maquiavel é um homem de seu tempo e simpatizante de monarquias e de Repúblicas constitucionais. Compreendeu muito bem a política do contexto a qual esteve inserido e foi o primeiro teórico a elaborar uma teoria do Estado moderno. ANOTE ISSO Nessa teoria é possível notar o caráter historicista e não racionalista. O autor preocupou-se em desenvolver uma teoria de Estado realista, entendendo que o Estado deve ser fundado nas leis ou na força, todavia, a forma coercitiva é mais importante do que a forma legal. Para Maquiavel, o Estado deve ser forte e próspero, pois significa que há um exército competente e disciplinado, fiel ao governante, que deve ser antes temido do que amado, pois deve despertar temor e respeito. (MAQUIAVEL, 2019). Para Ames (2014, p.89), em Maquiavel percebemos que a ação política é igual a ação estratégica, mas isso é incerto e o contingente se defronta com a fortuna: o imprevisível e aleatório que interfere no êxito das ações, isto torna necessário a virtù, que é um complexo de aptidões que permite aos homens impor as coisas ao rumo decidido. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 36 4.2 Hobbes e o Leviatã Caro aluno, agora que você conheceu um pouco do pensamento e das reflexões políticas de Nicolau Maquiavel, te convido para adentrarmos no campo da ciência política que foi formulado por autores contratualistas. O que isso quer dizer? Bom, esses autores contratualistas compreendem que apenas é possível viver em sociedade, harmoniosamente, se houver um Estado (aquele que organiza racionalmente a sociedade). ANOTE ISSO Os contratualistas compreendem a sociedade como um conjunto de indivíduos isolados que precisam conviver em sociedade; esses indivíduos isolados viviam no estado de natureza, um momento de guerra de todos contra todos, e decidiram abrir mão de suas liberdades e transferir para um poder centralizado que garantirá a vida social, a liberdade, a propriedade e que desenvolve todas as possíveis liberdades. Dessa forma, para os autores contratualistas, esses indivíduos realizam um pacto social e decidem criar uma sociedade que possua um governo, Estado, direitos, propriedades e deveres. Ainda no debate sobre o Estado, temos a obra Leviatã, de Thomas Hobbes, um pensador inglês que viveu entre os anos de 1588 e 1679. Hobbes foi influenciado por Maquiavel para constituir suas reflexões teóricas em relação ao Estado e à sociedade. Além disso, um dos aspectos essenciais em sua obra é que abriu espaço para que o racionalismo e o empirismo convivessem. Thomas Hobbes Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Thomas_Hobbes https://pt.wikipedia.org/wiki/Thomas_Hobbes INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 37 Hobbes (2003) também um dos autores mais importantes da ciência política, analisou qual a melhor forma de governo em seu país. Compreendeu que o Estado autoritário, para o autor, absorve a liberdade e os direitos individuais, acreditando, portanto, na monarquia absoluta. O Leviatã, livro publicado em 1651, contexto histórico de guerra civil inglesa em que o Estado era muito questionado. Em seu livro, aborda um sistema de ética, psicologia, antropologia, educação, método, economia política e uma forma de jurisprudência analítica. Hobbes compreende que há o pacto social, ou seja, o momento em que os homens, ao desistirem do seu direito natural, submetem-se a um soberano visando apenas a salvação dos indivíduos em sociedade. ANOTE ISSO Portanto, Hobbes (2003) defende o poder absoluto do Estado sob a sociedade. O Estado serve para dar ordem à sociedade e limitar a liberdade individual, como se o Estado fosse um “mal necessário”, mas de forma que qualquer ação contra o Estado seria uma ação injusta, pois, para Hobbes (2003), o Estado deve trazer consigo a força para que os indivíduos obedeçam. E se alguém não obedecer o Estado, o que Hobbes pensaria? O pensador inglês compreende que caso alguém não obedeça, o Estado pode fazer uso da força para que os indivíduos obedeçam, de forma que a força será fundamental e legítima para garantir o pacto social. 4.3 John Locke John Locke, também um pensador contratualista, nasceu em 1632 e faleceu em 1704, no Reino Unido. É considerado o pai do liberalismo político, sendo, portanto, muito importante para nossa aula de Ciência Política. Suas principais reflexões foram colocadas nos livros: “Cartas sobre a tolerância”, “Ensaio sobre o entendimento humano” e os “Dois tratados sobre o Governo Civil”. John Locke Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/John_Locke https://pt.wikipedia.org/wiki/John_Locke INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 38 Com a sua filosofia, Locke influenciou a Revolução Gloriosa Inglesa e a Revolução Norte-Americana, que proclamou a Independência dos Estados Unidos, a Constituição dos Estados Unidos, assim como muitos pontos da nossa Constituição Federal possuem influências de suas ideias. Esse pensador também foi importante para os filósofos iluministas franceses, principalmente Voltaire e Montesquieu. Agora que você já conhece um pouquinho sobre quem foi John Locke, vamos aprofundar alguns conceitos desse autor. ANOTE ISSO • Estado de Natureza: Para Locke, é a situação em que vivia o homem antes de qualquer organização social, ou seja, antes do Estado existir, antes da sociedade civil; • Para Locke, a existência do indivíduo é anterior à sociedade e ao Estado; • Em sua concepção, no Estadode Natureza os homens eram livres, iguais e independentes. Inclusive eram dotados de razão e desfrutavam da propriedade que designava simultaneamente a vida, a liberdade e os bens como direitos naturais do ser humano; • Para Locke, os homens poderiam viver harmoniosamente nesse estado de natureza, se não houvessem os criminosos, os transgressores, aqueles que não seguem o que determina a razão e são a causa do estado de guerra entre os homens; • Há o perigo também da miséria e da fome, sempre presentes. É a falta de alimentos em certo estágio do estado de natureza que leva o homem a mudar seu procedimento mais solidário levando-o a ser individualista e preocupado com a acumulação. Isto propicia as trocas, a propriedade privada e o aparecimento do dinheiro. Mas também leva às disputas e às lutas, gerando o estado de guerra entre os homens. Devido a todos esses conflitos e problemas, para John Locke, os homens se uniram e estabeleceram livremente entre si o contrato social. Esse momento, que não é determinado com datas, realiza a passagem do estado de natureza para a sociedade política ou civil, único estado onde o homem pode ser efetivamente livre podendo preservar a si mesmo e à sua propriedade. Esse momento é denominado, para o autor, como o contrato social. Vamos aprofundar um pouquinho sobre o que isso significa para o pai do liberalismo. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 39 ANOTE ISSO Para Locke, o contrato social é um pacto de consentimento em que os homens concordam livremente em fundar a sociedade civil para preservarem e consolidarem ainda mais os direitos que possuem no estado de natureza. • Através deste pacto os indivíduos aceitam limitar sua liberdade, seu poder de fazer justiça com as próprias mãos, em troca da preservação da sua propriedade; • Estabelecido o estado civil o passo seguinte é a escolha pela comunidade de uma determinada forma de governo; • Para Locke, o governo pode ser de um só indivíduo ou de vários, mas o que importa é concentrar para si todo o direito de julgar e de castigar os criminosos de modo a assegurar para toda a comunidade e para cada um de seus membros a segurança, o conforto, a vida, a propriedade, os bens, a liberdade e a paz. 4.4 Jean-Jacques Rousseau Caro aluno, seguiremos na nossa jornada de conhecimento em relação à ciência política e as reflexões de alguns de seus mais importantes teóricos. Agora, iniciaremos nossa jornada para compreendermos um pouco sobre o pensamento iluminista, pois percorremos o pensamento de Maquiavel e sua visão de Estado; Hobbes e o Estado Monárquico; John Locke e o liberalismo. Nossa tarefa mais importante nesse momento é compreender quais as contribuições de Jean-Jacques Rousseu, que viveu entre os anos de 1712 e 1778, para a Ciência Política e para interpretarmos um pouquinho mais da sociedade em que vivemos. Primeiramente, vamos contextualizar o período histórico em que Rousseau escreveu um de seus mais importantes livros: O contrato social. Vocês irão perceber que esse autor não possui uma concepção semelhante com os outros que já estudamos, pois ele defende aspectos como a participação política dos indivíduos explorados e a soberania do povo. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 40 Jean-Jacques Rousseau Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jean-Jacques_Rousseau Rousseau viveu e escreveu durante o “século das luzes”, um período de destituição das monarquias absolutistas e de ascensão da burguesia. Sua obra reflete justamente o contexto histórico em que esteve inserido, além de ter influenciado a Revolução Francesa e causar muitas controvérsias em relação ao que antes já havia sido publicado por importantes pensadores. Vamos lembrar rapidamente o que foi o iluminismo? Segundo Ersching et al (2018, p.54): O Iluminismo, como movimento intelectual do século XVIII, buscava desenvolver a razão e a criticidade buscando liberdade e justiça, visto que a sociedade da época era hierárquica, sendo o Rei o detentor do poder e a Igreja responsável por influenciar e guiar a sociedade (ERSCHING et al, 2018, p.54). Ao escrever neste período de mudanças significativas para a estrutura da sociedade como um todo: política, cultura e economia, Rousseau “defendia uma sociedade justa, na qual as relações seriam baseadas na liberdade e na justiça”. (ERSCHING et al, 2018, p.54). Sendo assim, Rousseau entende que a soberania do povo é o que garante o Estado. Sua formulação teórica sobre Estado teoriza que esse é um ente administrativo que deve expressar a liberdade do povo e que todas as ações devem reproduzir a liberdade do povo (que é o alicerce do contrato social). https://pt.wikipedia.org/wiki/Jean-Jacques_Rousseau INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 41 Como o povo exerce seu papel? Por meio do que Rousseau chama de vontade geral, que significa que um indivíduo é livre, mesmo quando submetido a uma autoridade política, porque obedece a leis às quais ele próprio deu seu consentimento. É nesse ponto que repousa a questão da autonomia, isto é, o indivíduo é livre, porque obedece a uma vontade que é a sua própria vontade, a qual está abarcada pela lei à qual ele está submetido. Não se trata da submissão a qualquer autoridade, mas à autoridade da lei, considerada legítima. Por essa razão, a liberdade não está igualmente atrelada a qualquer Estado, mas a um Estado legítimo, que é o republicano (CONSANI, 2018, p.99). Portanto, votar é de grande importância para Rousseau, pois demonstra uma questão de autonomia, de liberdade, de vontade própria que está permeada no Estado, não mais monárquico, mas um Estado que pertence a todos e que realiza a manutenção do pacto social; algo que deve envolver uma participação política de quem o criou. ISTO ACONTECE NA PRÁTICA No site da Câmara dos Deputados do Brasil, é possível verificar uma análise de um cientista político a respeito do voto como importante instrumento para a democracia brasileira. Segundo Oliveira, “O que é importante é o eleitor ver quais são os problemas de política pública que afetam a vida dele, o lugar, as pessoas que estão próximas dele e aquilo que ele acredita ser importante para o país. E, a partir daí, identificar quais os candidatos e, especialmente, quais os partidos. O voto - especialmente, o voto proporcional, o voto na eleição para deputado federal - leva em consideração o partido ou a coligação. Então, é fundamental o eleitor ver não apenas quem é o candidato, mas o partido para o qual ele está dando o voto”. (OLIVEIRA, 2018). Fonte:https://www.camara.leg.br/radio/radioagencia/541329-cientista-politico-destaca-importancia-do-voto-como-instrumento-de-mudanca-politica-e- social/ https://www.camara.leg.br/radio/radioagencia/541329-cientista-politico-destaca-importancia-do-voto-como-instrumento-de-mudanca-politica-e-social/ https://www.camara.leg.br/radio/radioagencia/541329-cientista-politico-destaca-importancia-do-voto-como-instrumento-de-mudanca-politica-e-social/ INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 42 AULA 5 CONSOLIDAÇÃO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS COMO CAMPO DE PESQUISA E CONHECIMENTO Livros, conhecimento Fonte:https://pixabay.com/pt/photos/biblioteca-livros-educa%c3%a7%c3%a3o-869061/ Caro aluno, chegamos a um estágio muito importante das Ciências Sociais e das nossas aulas, pois agora você já conhece muito bem sobre o que são as Ciências Sociais, sua importância e para quais grandes áreas ela se desenvolve: a Antropologia, a Sociologia e a Ciência Política. No decorrer das nossas aulas iremos entender também a relação das Ciências Sociais com outras áreas do conhecimento. Este é um momento muito importante, pois agora iremos nos aprofundarsobre questões bastantes teóricas e sua relação com as Ciências Sociais. Para https://pixabay.com/pt/photos/biblioteca-livros-educa%c3%a7%c3%a3o-869061/ INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 43 compreendermos o debate em torno da consolidação das Ciências Sociais como campo de pesquisa e de conhecimento, é necessário refletirmos sobre o que é ciência, o que é o conhecimento científico e, para isso, utilizaremos diversas abordagens, com autores muito influentes em questões teóricas e científicas desta área de estudo. 5.1. A questão do conhecimento científico Quando pensamos em conhecimento científico, principalmente na área das Ciências Humanas e Sociais, Lucien Goldmann (1913-1970) é um autor de grande importância e que coloca problemas acerca da objetividade nas Ciências Humanas. Goldmann nasceu na Romênia e adentrou na área da filosofia e da sociologia. Muito influenciado por Durkheim, Weber e Gyorgy Lukács, passa a constatar que Durkheim retirou de Marx dois pontos centrais: “a) O estudo científico dos fatos humanos não pode fundar logicamente por si só nenhum juízo de valor” e que “b) O pesquisador deve esforçar-se por chegar à imagem adequada dos fatos, evitando toda deformação provocada por suas simpatias ou por suas antipatias pessoais”. (GOLDMANN, 1978, np). Dessa forma, o autor coloca dois pontos para refletirmos: o primeiro é a pergunta que nos fazemos: Afinal, o que é o conhecimento científico? E, a segunda, a questão é o problema da objetividade nas Ciências Humanas, de forma que pensaremos nas Ciências Sociais. ANOTE ISSO Primeiramente, devemos compreender que o conhecimento científico é na verdade um processo e que é próprio do ser humano. Para tanto, se torna um processo humano, histórico e social e, O processo do conhecimento científico é ele próprio um fato humano, histórico e social; isso implica, ao estudar a vida humana a identidade parcial entre o sujeito e o objeto do conhecimento. Eis porque o problema da objetividade se coloca diferentemente nas ciências humanas do que na física ou na química.” (GOLDMANN, 1978, np). Dessa maneira, compreendemos que as ciências humanas são a análise da ação, da estrutura e “das aspirações que animam e das alterações que sofre”. (GOLDMANN, 1978, np). INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 44 Para tanto, a questão da objetividade nas Ciências Humanas e Sociais é uma questão de método e de organização metodológica e teórica, bem como pode ser voltado para a história. Por ser esse um problema que sempre chamou a atenção das Ciências Sociais e de seus cientistas, “poderiam ser as Ciências Sociais objetivas?”, muitos foram os pesquisadores que passaram a responder essa questão. Como o objetivo das Ciências Sociais é o de apreender e analisar a realidade concreta, os pesquisadores acabam enxergando a possibilidade de analisar diferentes aspectos da realidade a ser pesquisada. A importância da objetividade, portanto, está no fato de compreender a relação com o real e a análise do todo, ou de uma parte específica de grande importância e que esteja estritamente relacionada com aquilo que se analisa. Para Goldmann, a objetividade está relacionada com a interpretação de que o comportamento é um fato total (de uma totalidade relativa, claro está; não é senão um elemento da totalidade homens-natureza), as tentativas de separar seus aspectos “material” e “espiritual” não podem ser, no melhor dos casos, senão abstrações provisórias, sempre implicando grande perigo para o conhecimento. É a razão pela qual o investigador sempre deve esforçar-se por encontrar a realidade total e concreta, ainda que saiba não poder alcançá-la a não ser de uma maneira parcial e limitada, e para isso esforçar-se por integrar no estudo dos fatos sociais a história das teorias a respeito desses fatos, assim como por ligar o estudo dos fatos de consciência à sua localização histórica e à sua infra-estrutura econômica e social”. (GOLDMANN, 1978, np). É dessa maneira que o autor passa a interpretar que os maiores e principais problemas colocados para as Ciências Sociais, assim como os valores sociais, os interesses, são muito divergentes. Para ele, estando todo pensamento intimamente ligado à ação, não se tem mais legitimamente o direito de falar de “ciência” da sociedade ou de sociologia; seria, portanto, um processo de conscientização, de consciência que se exprime “no plano da descrição ou da explicação dos fatos humanos”. Para tanto, o autor constata que todo pensamento histórico ou sociológico sofre profundas influências sociais, no mais das vezes, não explícitas para o pesquisador individual, influências que ele nunca poderá eliminar mas que, ao contrário, deverá tornar conscientes e integrá-las na investigação científica para evitar ou para reduzir ao mínimo sua ação deformante (GOLDMANN, 1978, np). INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 45 5.2 A produção das Ciências Humanas e Sociais Caro aluno, a nossa perspectiva central é de que o pensamento científico e novas teorias sempre surgem em novos tempos e devido às mudanças das sociedades, de paradigmas: sejam elas econômicas, culturais ou políticas. ANOTE ISSO A emergência de novas teorias é geralmente precedida por um período de insegurança profissional pronunciada, pois exige a destruição em larga escala de paradigmas e grandes alterações nos problemas e técnicas da ciência normal (KUHN, 2011, p.95). ISTO ACONTECE NA PRÁTICA Como exemplo prático do assunto que estamos falando, a questão de Marte aparece como essencial. Marte é um assunto que tem mexido com pesquisadores em todo o mundo e desenvolvido muitas pesquisas científicas, nas mais diversas áreas. Com esse exemplo, é possível observarmos na prática o que Kuhn (2011) compreende sobre a relação entre ciência e a emergência de novas práticas e teorias junto com mudanças de paradigmas. Na reportagem abaixo é possível observar indagações de cientistas e as tentativas de respondê-las, de forma que isso causa transformações em diferentes, múltiplos e variados aspectos da esfera da vida social. Fonte: https://www.cartacapital.com.br/mundo/robo-da-nasa-inicia-trajeto-a-marte-para-buscar-rastros-de-vida/ ANOTE ISSO Portanto, compreendamos os pontos essenciais: As ciências são construções humanas, de tal maneira são também construções sociais e históricas. O resultado é um entendimento sobre os processos científicos; Ciência é a complexa relação entre teorias, dados e paradigmas, e não é neutra, pois define o que pode ou não ser possível; A partir da observação há o que se pode ver; https://www.cartacapital.com.br/mundo/robo-da-nasa-inicia-trajeto-a-marte-para-buscar-rastros-de-vida/ INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 46 De forma muito semelhante (ao que ocorre nas revoluções políticas), as revoluções científicas iniciam-se com um sentimento crescente, também seguidamente restrito a uma pequena subdivisão da comunidade científica, de que o paradigma existente deixou de funcionar adequadamente na exploração de um aspecto da natureza, cuja exploração fora anteriormente dirigida pelo paradigma. [...] o sentimento de funcionamento defeituoso, que pode levar à crise, é um pré-requisito para a revolução (KUHN, p.2011, 126). ANOTE ISSO Nesse sentido, a questão do progresso está voltada para o desenvolvimento capitalista e tudo que “conduz ao capitalismo e à industrialização fabril, esta visão da história desqualificava qualquer forma alternativa de organização como retrógrada ou inviável (utópica)”. (FONTANA, 2004, p.159). Compreendendo, portanto, o contexto histórico que o desenvolvimento do pensamento científico e a produção das ciências humanase sociais está inscrita, observamos que o advento está justamente no processo de transição do capitalismo, e, politicamente, inscrita a partir dos antigos ideais da revolução burguesa, bem como destruição da monarquia e de tal ordem social vigente. a nova sociedade necessitava de um modelo explicativo que, por um lado, se expressasse em termos de governo representativo nascido da revolução de 1688 e, por outro, que associasse o interesse com a consciência, tornando possível estabelecer a base de “confiança” – de “trust” -, sem a qual seria impossível o funcionamento do mundo dos negócios (FONTANA, 2004, p.149). Para tanto, é possível verificar, de acordo com Fontana (2004, p.147), que nesse contexto “a nova ordem social e a nova estrutura do estado necessitavam de uma nova legitimação que já não podia ser das monarquias divinas assentadas no direito divino”, articulando, portanto, uma nova visão de mundo, “uma tarefa em que ciência e história atuaram intimamente associadas” (FONTANA, 2004, p.147). 5.3 Consolidação das Ciências Sociais Como vimos com decorrer da nossa aula, a ciência e a produção do conhecimento científico sempre irão surgir com um processo de renovação, conforme a mudança dos paradigmas sociais demonstra a necessidade de explicar com teorias científicas, INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 47 fundamentos metodológicos, hipóteses, observações e fundamentações os novos aspectos que se quer compreender. O processo de consolidação das Ciências Sociais, como já vimos em aulas anteriores, foi iniciado no final do século 19 e no começo do século 20, quando a Europa e os Estados Unidos acabaram vivenciando o processo de surgimento de muitas ciências que se tornaram independentes da filosofia. A partir de então, as contribuições de autores como Comte, Marx, Durkheim e Max Weber colocaram as Ciências Sociais, principalmente a Sociologia, no cenário internacional. Nesse contexto histórico, essa área do conhecimento científico passou a conquistar cadeiras universitárias pelo mundo todo, bem como passou a ganhar espaço além das discussões e publicações em jornais. ANOTE ISSO No Brasil, essa nova ciência surgiu pouco depois de uma década do desenvolvimento e consolidação a nível internacional. Os primeiros cursos de Ciências Sociais em nosso país foram abertos entre os anos 30 no estado de São Paulo e no Rio de Janeiro. Cabe lembrar que esse foi um período conturbado politicamente e economicamente para o país. Esse período pode ser denominado, portanto, como processo de constituição e de delimitação do campo científico das Ciências Sociais, principalmente da sociologia, por essa ciência possuir teorias, metodologias, técnicas e métodos para que se tratasse dos problemas da sociedade. Ou seja, dos problemas das estruturas sociais, culturais, políticas e econômicas. Por volta dos anos 50, autores muito importantes como Antonio Candido (1918- 2017) e Florestan Fernandes (1920-1995) começaram a vir à tona como os primeiros sociólogos do nosso país. A produção cultural e política dos anos 50 e dos anos 60 surgiu como um fio condutor por trazer as temáticas importantes para o Brasil e para se pensar a sociedade e os processos de modificação que passava: questões como: INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 48 ANOTE ISSO • o campo e a cidade; • a industrialização; • as relações trabalhistas; • os movimentos sociais; • a educação e a importância da sociologia; • o Brasil e sua inserção nas relações internacionais; • o Brasil e sua lógica de dependência; • o desenvolvimento do capitalismo brasileiro; • o processo de revolução no Brasil. É nesse momento que se consolidava no Brasil as Ciências Sociais, principalmente a sociologia e a antropologia com um tipo de ecletismo teórico em que se seguia e aproveitava os pontos positivos dos principais nomes da Sociologia: Weber, Durkheim e Marx. Será a partir dos anos 50 até os anos 70 que o principal sociólogo brasileiro, Florestan Fernandes, formado pela USP, irá produzir diversos textos, artigos e ensaios científicos sobre os fundamentos da sociologia. Fernandes desenvolve em sua obra uma “mistura teórica” em que aborda autores como Marx, Durkheim e Weber para conseguir consolidar aos poucos a sua própria teoria do que é a sociologia, bem como sua visão de Brasil. Florestan Fernandes Fonte: https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Florestan_Fernandes https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Florestan_Fernandes INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 49 ISTO ESTÁ NA REDE Na reportagem abaixo, de julho de 2020, você pode conhecer um pouquinho mais sobre esse importante sociólogo brasileiro. “Simples como os sábios, bondosos e afáveis no convívio diário, um dos mais portentosos pensadores brasileiros, Florestan Fernandes era antes de tudo um ser humano exemplaríssimo. Diferenciado. Qual o professor emérito da USP, professor nas universidade…” Carta Capital, 2020. Leia mais em https://www.cartacapital.com.br/opiniao/cem-anos-de-florestan- fernandes-um-intelectual-do-povo/. O conteúdo da CartaCapital está protegido pela legislação brasileira sobre direito autoral. Essa defesa é necessária para manter o jornalismo corajoso e transparente de CartaCapital vivo e acessível a todos Fonte: https://www.cartacapital.com.br/opiniao/cem-anos-de-florestan-fernandes-um-intelectual-do-povo/ No âmbito escolar, a Sociologia passou por inúmeros trajetos tortuosos para se manter como disciplina obrigatória na Educação básica, sendo retirada inúmeras vezes por ser compreendida como uma área crítica do saber, mesmo que seja essencial para a formação humana e para a formação de qualquer profissional, independentemente da área de atuação. Segundo Silva e Silva (2012, p.98), com a nova realidade de obrigatoriedade da sociologia no ensino médio, enquanto disciplina, acabou se tornando urgente a necessidade de discutir o processo de institucionalização e também de consolidação, não só das análises sociológicas do Brasil, mas do quão importante são as Ciências Sociais e a sociologia. É dessa maneira que compreende-se que a institucionalização das Ciências Sociais no Brasil “ocorreu em meio períodos distintos e teve seu processo um primeiro grupo de intelectuais que ocuparam o lugar de intérpretes do Brasil, configurando certo modo de pensar e analisar os problemas sociais do país”. (SILVA & SILVA, 2012, p.98). Portanto, compreendemos que o processo de institucionalização e de consolidação das Ciências Sociais no Brasil, assim como da sociologia, acompanhou o processo de desenvolvimento industrial e de modernização do nosso país. Isso foi de grande importância e influência para a compreensão e análise dos acontecimentos políticos e econômicos, assim como culturais, sobre a realidade brasileira. https://www.cartacapital.com.br/opiniao/cem-anos-de-florestan-fernandes-um-intelectual-do-povo/ INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 50 ANOTE ISSO É dessa forma que vemos a importância de pesquisadores e profissionais engajados na área das Ciências Sociais para o processo de consolidação dessa ciência em nosso país, assim como para seu desenvolvimento em nosso dia a dia. Compreende-se por fim que a Sociologia e as Ciência Sociais são de grande importância para a formação de qualquer profissional e, de qualquer área, desde a rede básica de ensino até a formação em um curso superior. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 51 AULA 6 TEMAS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS: A DIVISÃO SOCIAL DO TRABALHO Faz tudo. Local de construção Fonte: https://pixabay.com/pt/photos/faz-tudo-local-de-constru%c3%a7%c3%a3o-3094035/ Caroaluno, a cada aula você está mais familiarizado com as Ciências Sociais. Espero que esteja gostando de conhecer essa ciência, pois, com certeza, as Ciências Sociais terão muita utilidade na sua vida acadêmica e profissional. https://pixabay.com/pt/photos/faz-tudo-local-de-constru%c3%a7%c3%a3o-3094035/ INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 52 Como já estudamos o que são as Ciências Sociais e as três principais áreas que ela abrange, Antropologia, a Sociologia e a Ciência Política, agora daremos um foco para as principais temáticas trabalhadas e analisadas nessa grande área do saber. Nosso principal objetivo é que você consiga cada vez mais compreender as Ciências Sociais de modo teórico e prático, em suas diversas metodologias, teorias e possibilidades analíticas. É dessa maneira que nossa aula de hoje tratará sobre um tema muito importante nas Ciências Sociais: a divisão social do trabalho. Para nossa introdução, precisamos primeiro entender o que é trabalho. Para essa tarefa, nada melhor do que voltarmos aos clássicos Émille Durkheim, Max Weber e Karl Marx para nossa jornada. Você pode estar se perguntando os motivos de voltarmos aos autores clássicos. A primeira dica é que os clássicos sempre nos servem para analisar a atualidade. Sobre isso, temos a reflexão aprofundada de Fernandes (2021, p.122): a leitura dos clássicos não se trata de um processo fechado, na verdade, implica em observarmos novos elementos que serão superados a cada leitura, a cada contato. Afinal, um clássico é um livro que tinha para dizer, sobretudo pelo fato de que, quando chega a nossas mãos, está carregado de interpretações anteriores. toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira e toda primeira leitura de um clássico é, na realidade, uma releitura (FERNANDES, 2021, p.122-123). Então, mãos à obra! 6.1 Afinal de contas, o que é trabalho? Todos nós possuímos, ou iremos possuir, uma relação com o trabalho. Seja ela uma boa ou má relação. Mas, a verdade é que é impossível viver em sociedade sem trabalharmos e sem desfrutarmos do trabalho de outras pessoas, pois o trabalho é uma atividade fundamental para desenvolver a nossa sociedade e também nos desenvolvermos. Você pode estar pensando agora: Por que o trabalho é tão importante para as Ciências Sociais sendo que é algo “natural”, que todos fazem ou farão em algum momento da vida? Pois bem, ao focarmos nosso olhar nas Ciências Sociais, precisaremos ir à fundo para ver o trabalho como algo para além de comum, “normal”, e “natural”. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 53 ISTO ESTÁ NA REDE A Sociologia possui uma área específica que se chama Sociologia do Trabalho e que reflete sobre as contradições, estruturas e conflitos no mundo do trabalho. Essa ciência acompanha também o desenvolvimento da nossa sociedade. Veja que interessante um trecho da entrevista do pesquisador Dr. Ricardo Antunes sobre o trabalho uberizado e questões digitais, principalmente no cenário da pandemia da Covid-19. Algo muito interessante e presente no nosso cotidiano! “Portanto, o trabalho uberizado – e isso em si já é trágico – não se restringe aos trabalhadores que trabalham em plataformas como Uber ou iFood. Há hoje plataformas de diversas modalidades de trabalho: médicos, engenheiros, empregadas domésticas, jornalistas, professores. Todos os trabalhadores desse amplo campo dos serviços tendem a se converter em trabalhadores uberizados”. Fonte:http://abet-trabalho.org.br/ricardo-antunes-a-expansao-do-trabalho-uberizado-nos-levara-a-escravidao-digital/ Certamente, algum dia todos nós precisamos e precisaremos trabalhar, mas, que tal compreendermos o conceito de trabalho a partir de algumas abordagens teóricas? Você verá que trabalho é também um conceito nas Ciências Sociais e que muitos pesquisadores e pensadores importantes já refletiram sobre isso. Você verá que As diferenças de interpretação da categoria trabalho estão associadas, como veremos, à forma com que esses cientistas procuraram estabelecer seus métodos sociológicos para compreensão da sociedade capitalista (FERNANDES, 2021, p.124). A partir desse ponto de vista, devemos compreender que um dos pontos mais importantes é a análise e a compreensão da nossa sociedade atual, ou seja, do sistema capitalista. Para isso, observemos a reflexão de Machado (2020, p.12-13): em cada período histórico o ser humano se adapta de acordo à realidade determinada e possui determinado perfil no ambiente de trabalho. No período feudal há o servo da gleba, no capitalismo existe o trabalhador assalariado [..]. (MACHADO, 2020, p.12-13). As diferenças entre as duas formações sociais está justamente na forma de trabalho, na passagem da manufatura para as fábricas, para um aglomerado de trabalhadores que produzem mercadorias e que recebem um salário para isso, pois vendem a sua força de trabalho. http://abet-trabalho.org.br/ricardo-antunes-a-expansao-do-trabalho-uberizado-nos-levara-a-escravidao-digital/ INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 54 Para Silva (2020, p.17), no capitalismo, há uma mudança No âmbito do processo de trabalho, o emprego de novas técnicas e métodos organizacionais que estimula a polivalência, tem resultado em intensificação dos ritmos de trabalho e sobrecarga para os trabalhadores e trabalhadoras, sobretudo porque há uma mescla entre: novas técnicas e métodos de trabalho [...]. (SILVA, 2020, p.17). ANOTE ISSO Definimos que o trabalho como algo que é modificado dependendo da sociedade em que ele está inserido. No feudalismo o trabalho era um; no capitalismo, com o advento das máquinas e do salário, o desenvolvimento é outro. Portanto, trabalho é uma atividade intelectual ou física que é realizada pelo ser humano com o objetivo de transformar algo. 6.2 Durkheim e a divisão do trabalho Émille Dukheim, autor que já conhecemos alguns conceitos e concepção de sociedade, escreveu sobre o trabalho e, principalmente, sobre a divisão do trabalho. Para o sociólogo, isso é algo normal e um fato social (se você não se lembra o que é o fato social, volte um pouquinho nas nossas aulas anteriores). Mas, como todos os fatos sociais e biológicos, a divisão do trabalho apresenta formas patológicas. Para o autor (2001), normalmente, com a divisão do trabalho, se produz a solidariedade social, um tipo de harmonia. No entanto, pode ocorrer que tenha resultados opostos. Um desses é o que o autor denomina como a profissão do criminoso, entre outras do mesmo sentido, que são a negação da solidariedade. As crises, as falências, entre outras, são vistas por Durkheim como rupturas parciais da solidariedade orgânica e testemunham que certas funções sociais não se ajustam às outras e conforme o trabalho se divide mais, tais fenômenos tornam-se mais frequentes. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 55 ANOTE ISSO Conforme o mercado se estende, a grande indústria surge e tem como efeito transformar as relações entre patrões e operários. O trabalho mecânico substitui o trabalho do homem, ou seja, da manufatura. As condições novas da vida social requerem uma nova organização da vida, mas como foi tudo muito rápido e a partir de interesses isto não teve tempo de se equilibrar. Portanto, a divisão do trabalho é uma fonte de solidariedade. A divisão do trabalho pressupõe que o trabalhador, bem longe de permanecer curvado sobre a sua tarefa, não perca de vista os seus colaboradores, aja sobre eles e receba a sua influência. Não é portanto uma máquina que repete movimentos de que não apercebe a direcção, mas sabe que tendem para algum lado, para uma finalidade que ele concebe mais ou menosdistintamente. Conforme a especialização foi introduzida no espaço científico, na visão de Durkheim, cada cientista se fechou mais em uma ordem especial de problemas. A divisão do trabalho tornou-se fonte de desintegração entre os operários. O autor entende que a diversidade das funções é útil e necessária (DURKHEIM, 2001, p.151). ANOTE ISSO Ou seja, como a divisão do trabalho possui efeitos de dispersão, devem se desenvolver sem resistência. Contudo, a unidade das sociedades organizadas é a solidariedade interna que também é necessária. As partes devem ser solidárias umas às outras para o todo tomar consciência de si. É necessário o espírito do conjunto e o sentimento da solidariedade em comum. Trabalho em equipe - cooperação Fonte: https://pixabay.com/pt/photos/trabalho-em-equipe-coopera%c3%a7%c3%a3o-debate-3213924/ https://pixabay.com/pt/photos/trabalho-em-equipe-coopera%c3%a7%c3%a3o-debate-3213924/ INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 56 Na sociedade há uma maior distância entre as disposições hereditárias do indivíduo e a função social que ele preenche. Para que a divisão do trabalho tenha solidariedade não basta que cada um tenha sua tarefa, mas que a tarefa lhe seja conveniente. Segundo Durkheim (2001), a instituição das classes têm conflitos porque a distribuição das funções sociais não responde aos talentos naturais. ANOTE ISSO Pode-se dizer que a divisão do trabalho produz a solidariedade quando é espontânea e por espontaneidade deve ser entendida a ausência de tudo que pode entravar o livre desenvolvimento da força social que cada um traz. O trabalho não se divide espontaneamente senão quando a sociedade estiver constituída de maneira que as desigualdades sociais expressam as desigualdades naturais. • Para a divisão do trabalho ocorrer são necessárias certas circunstâncias e normalmente não se desenvolve a atividade funcional; • O trabalho é mais contínuo conforme melhor dividido; • Conforme se avança, o trabalho se torna uma atividade de ocupação permanente, um hábito e uma necessidade, portanto a divisão do trabalho se torna uma fonte de coesão social; • Conforme a divisão do trabalho se torna a fonte da solidariedade social, ela torna-se a base da ordem moral. 6.3 Weber e a ética do trabalho Weber, como já vimos ao longo das nossas aulas, criou o método compreensivo. Em seu método, o autor propõe uma compreensão do sistema capitalista partindo de questões culturais e religiosas ao invés de questões econômicas e políticas. Para o autor (2004), o capitalismo surge com as Revoluções Industriais e possui sua origem nas religiões protestantes, especificamente na ideologia puritana e calvinista. Com a queda da Igreja Católica, devido a Reforma Protestante no século XVI, a Igreja perdeu o monopólio de poder e abriu espaço para novas religiões protestantes. A presença nas fábricas, dos capitalistas, era em sua maioria de protestantes e Weber compreende uma relação entre os valores calvinistas e a gênese do capitalismo moderno. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 57 ANOTE ISSO É dessa maneira que o autor apontou mudanças na esfera religiosa quando relacionadas com as transformações na economia, que, em sua análise, é espírito do capitalismo. Para Weber (2004), o trabalho está conectado com mudanças de valores e de atitudes, e isto causou uma predisposição ao trabalho como salvação da alma. Dessa forma, o trabalho, para Weber, é uma fonte de glorificação e de salvação, já que é entendido um valor em si. Na concepção desse autor, os seguidores da religião protestante deveriam desenvolver a vocação para o trabalho, que é um comportamento social comedido, uma busca para o desenvolvimento espiritual. A partir de então, Weber passou a racionalizar uma explicação para o surgimento das relações capitalistas, de forma que o trabalho se tornou, em sua visão, uma vocação. Arquiteto homem pulando Fonte: https://pixabay.com/pt/photos/arquiteto-homem-pular-pulando-1080592/ Para Weber, a explicação da desigualdade social está relacionada em como os ricos seriam disciplinados e possuíam um espírito empreendedor, já os pobres acabariam por se deixar levar pela preguiça e pela imprevidência, o que explicaria o motivo por não prosperarem. https://pixabay.com/pt/photos/arquiteto-homem-pular-pulando-1080592/ INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 58 ANOTE ISSO Portanto, a riqueza seria o sinal da salvação e a ética o nexo de causalidade entre a conduta humana e a prosperidade, a ética do trabalho serviria para que os frutos do trabalho fossem direcionados para a acumulação e não gastos com luxos e consumos, o que significa ser um fator cultural determinante para o capitalismo e seu desenvolvimento. 6.4 Marx e a divisão social do trabalho Para Marx, o trabalho é uma atividade sócio-metabólica, ou seja, o homem estabelece uma relação com a natureza e a transforma em mercadorias e bens de consumo. Para Marx, o trabalho transforma o homem conforme transforma a natureza. Observou outras questões que estão relacionadas com o trabalho. Os conceitos de luta de classes, exploração, alienação e fetichismo, que irão demonstrar como ocorre o processo de trabalho no capitalismo. Segundo o autor, o trabalho estranhado emerge de mãos dadas com o surgimento da propriedade privada, pois os trabalhos pré-capitalistas, manufaturados, em que não havia a detenção dos meios de produção por uma só pessoa, não gerava tamanho estranhamento, afastamento, diante da produção que o trabalhador realizava. Apenas a partir das revoluções industriais é que se intensifica a produção e a força de trabalho precisa ser constante e universal, fazendo com que essa servidão ao trabalho traga fortes consequências às potencialidades humanas. ANOTE ISSO Para Marx, as sociedades nunca estiveram tão unidas e tão separadas, pois o trabalhador não se reconhece nos produtos que fabrica, pois a divisão social do trabalho se encarrega de dar pequenas funções a cada trabalhador nessa grande estrutura que é o capitalismo. E essas pequenas funções acabam sendo tão mecanicamente realizadas que o próprio homem não se identifica no que faz, realiza seu trabalho apenas para receber seu salário ao fim do mês, não se importando se realiza algo de importância social, política, econômica, apenas reproduzindo o que lhe é comandado. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 59 E é aí que encontramos vários problemas, pois ao assalariado só lhe cabe reproduzir, mesmo que seja o produto final, algo extremamente nocivo a ele mesmo, como trabalhos veemente prejudiciais à saúde dele e de outros que a produção atinja. Mas, tudo é superado pelo salário a ser recebido, já que a propriedade agora é privada e sem o assalariamento, não existiriam condições de alimentação, moradia, até de sobrevivência. Para Marx, grande parte dos problemas na sociedade contemporânea tem a ver com o estranhamento do trabalhador com seu próprio trabalho e produção, esse estranhamento ao produto final faz com que o trabalhador veja esse trabalho como sacrifício, flagelo, não mais uma satisfação interna do indivíduo, mas uma necessidade externa que mantém a sua subsistência e a de outros. ANOTE ISSO A exploração, a alienação e o fetichismo são relações de exploração estabelecidas no capitalismo com a retirada da chamada mais-valia do trabalhador. Segundo Marx, a classe trabalhadora é explorada pelos patrões ao vender sua força de trabalho, ter uma longa jornada de trabalho e receber um salário menor do que deveria. A exploração do trabalhador começa com as expropriações dos meios de produção. As relações de exploração no trabalho separa o trabalhador da sua mercadoria,do fruto do seu trabalho, que é produzido pelo trabalhador. Sapatos, abandono Fonte: https://pixabay.com/pt/photos/sapatos-abandono-preto-e-branco-1731131/ https://pixabay.com/pt/photos/sapatos-abandono-preto-e-branco-1731131/ INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 60 No entanto, os trabalhadores muitas vezes não percebem essa condição de exploração. Durante o processo de trabalho, o trabalhador não percebe que a mercadoria é fruto de seu trabalho e se aliena daquele trabalho gerando o que chamamos de fetichismo. A alienação é decorrente da divisão social do trabalho, além do grande poder e propriedade do Estado e dos mais ricos. O trabalhador não percebe as relações de trabalho que são envolvidas na produção da mercadoria, as relações entre pessoas são como relações entre coisas, e as mercadorias acabam se relacionando como pessoas. Portanto, é como se as mercadorias tivessem um valor a mais do que já possuem, estivessem enfeitiçadas por valores humanos. Qual a contradição do trabalho? Para Marx, o aumento de trabalho não melhora a vida dos trabalhadores, o que ocorre é um processo de pauperização, de pobreza e miséria, do proletariado, com a maior consequência: desigualdade social. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 61 AULA 7 TEMAS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS: AS FORMAS DE PODER AUTORITÁRIAS E DITATORIAIS Homem silenciado Fonte:https://pixabay.com/pt/illustrations/homem-silencioso-cobrindo-a-boca-6054357/ Caro aluno, fico muito feliz que você tenha chegado até aqui com as nossas aulas. Espero que você esteja gostando de conhecer o universo teórico das Ciências Sociais e suas possíveis áreas de atuação enquanto uma ciência que analisa a sociedade. Agora, iremos adentrar alguns temas muito importantes das Ciências Sociais: temas que estão presentes no nosso dia a dia, no nosso cotidiano. Começaremos refletindo sobre as formas de poder e de governos em uma sociedade. Para isso, precisaremos https://pixabay.com/pt/illustrations/homem-silencioso-cobrindo-a-boca-6054357/ INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 62 recorrer também a autores muito importantes das Ciências Sociais, da Sociologia, da Ciência Política e da Antropologia. Caro aluno, nesta aula, nosso objetivo é entender o que é autoritarismo e o que é ditadura. Para isso, precisamos compreender primeiramente o que é o poder para o filósofo clássico da Ciência Política, Montesquieu (1689-1755) e, também, para um dos sociólogos mais importantes da Sociologia, o francês Michael Foucault (1926- 1984) e, também. 7.1 Montesquieu e poder Com nosso objetivo de compreender o que é poder, traçamos a necessidade de entender a concepção de Montesquieu, autor importante que vislumbrou a importância de separar os três poderes: legislativo, e duas formas de poder executivo, questão de suma importância e vigente em diversas sociedades. Charles Louis de Secondat, o Barão de Montesquieu Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Montesquieu Charles Louis de Secondat, o Barão de Montesquieu, foi um importante filósofo e ficou muito conhecido pela sua teoria de separação dos três poderes. É por isso, caro aluno, que para compreendermos o que é poder, na análise da Ciência Política, entraremos no debate acerca do poder despótico para Montesquieu. Nossa principal referência é o cientista político Dr. Marcos Del Roio e seu artigo “Montesquieu e o poder despótico”, de 2017. https://pt.wikipedia.org/wiki/Montesquieu INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 63 Em seu artigo, Del Roio (2017, p.172) compreende que Montesquieu é continuador do liberalismo de Locke, enquanto crítico do absolutismo, embora discorde de sua visão jusnaturalista / contratualista, buscando na teoria política anterior os elementos para compor a representação do Oriente construída na modernidade (DEL ROIO, 2017, p.172). Ou seja, esse autor foi um iluminista muito importante e suas ideias influenciaram, inclusive, a formação de Estados modernos e democráticos. As reflexões de Montesquieu encontraram boa receptividade devido ao contexto histórico ser de “recomposição e expansão da monarquia absolutista no Ocidente”. O momento que Montesquieu escreve, na França, era de “concentração do poder político nas mãos do monarca” (DEL ROIO, 2017, pp.173-174). ANOTE ISSO Contrário ao despotismo, Montesquieu entendia a República e também a Monarquia como uma forma de governo moderado, pois o despotismo demonstrava “a degeneração dos governos moderados”, de forma que, para o autor, “o Ocidente, havia já sido vítima do despotismo no seu passado remoto” (DEL ROIO, 2017, p.178). Portanto, para Montesquieu, formar e dividir três poderes significa “a divisão entre as funções de legislar, de executar e de se manifestar, julgando os conflitos, bem como entre as atividades necessárias à gestão do Estado”, pois essa é uma maneira em que se evita “qualquer forma de tirania, e hoje é considerada um mandamento básico e elemento estrutural ao Estado democrático e de direito.” (PINHEIRO; VIEIRA; MOTTA, 2011, p.1735). 7.2 O que é poder para Foucault? Foucault Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Michel_Foucault https://pt.wikipedia.org/wiki/Michel_Foucault INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 64 Michel Foucault foi um importante pesquisador, com ampla formação intelectual, que muito nos auxiliou a compreender o que é Foucault. Para o autor, que analisa a sociedade contemporânea, sujeitos e objetos, assim como a história, são formados por discursos que contêm interesses particulares e próprios. É dessa forma que as relações de poder são construídas de forma histórica e particular. Foucault discute a teoria política sobre o poder e o soberano. Para o autor (2006), o poder aumenta cada vez que um soberano decide questões. O poder é algo que se exerce sobre a vida. Um exemplo pode ser encontrado nas guerras e nas ações violentas. Para o autor, a modernidade é algo brutal e que estabelece relações verticais: de baixo para cima. Para tanto, há uma questão de poder social e de hierarquias. As relações sociais são relações de poder, relações políticas e que estão presentes nas relações dos indivíduos, pois são relações de poder. Ou seja, todas as relações são relações de poder. Mesmo que contenha liberdade, não se elimina, para o autor, o fato de ter relações de poder, pois a liberdade é uma estratégia de poder. Dessa forma, para o autor (2006), não existem homens livres, mas mecanismos liberais. ANOTE ISSO Para o autor, as relações de poder é o que constituem as práticas de discursos que irão construir saberes e estratégias que legitimam determinado discurso. Portanto, é necessário “reencontrar as diferentes cenas onde eles desempenharam papéis distintos” (FOUCAULT, 2006, p. 15). Compreendemos, portanto, poder, para Foucault como algo que não é homogêneo, pois ele é uma prática, de forma que é construído historicamente e é exercido de formas diversas e variadas. Poder: • Não é algo concentrado apenas nas mãos de um indivíduo; • Não é algo concentrado apenas em uma instituição; • O poder é encontrado e disseminado em diversos focos; • É uma questão de exercício, não apenas de posse; • Para Foucault, são práticas de poder que obedecem, quando exercidas, diversos e variados interesses para legitimar algo. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 65 ISTO ESTÁ NA REDE Um exemplo prático e que está na rede, sobre as formulações teóricas de Foucault é sobre o corpo. Para o autor, há técnicas de disciplina, de controle, de atividades que as instituições criame que são necessárias de obedecimento. Na visão do autor, as instituições fabricam corpos dóceis, que são submissos e educados para a vida em sociedade. Um exemplo prático seria a maneira que os estudantes permanecem nas salas de aulas. Veja abaixo um pouco sobre os corpos e a questão do poder em Foucault: https:// colunastortas.com.br/corpos-doceis/ 7. 3 Formas de poder: autoritarismo, totalitarismo e ditadura Raiva, batalha, punho Fonte: https://pixabay.com/pt/photos/raiva-batalha-punho-disputa-m%c3%a3o-1564031/ Caro aluno, agora que já compreendemos o que é poder para dois diferentes intérpretes da sociedade: Montesquieu e Foucault, iremos percorrer um novo trajeto. Nosso objetivo principal é que você entenda as formas de poder e de governo. Para tanto, iniciaremos nossa reflexão sobre o que é autoritarismo para compreendermos, em seguida, o que é ditadura. https://colunastortas.com.br/corpos-doceis/ https://colunastortas.com.br/corpos-doceis/ https://pixabay.com/pt/photos/raiva-batalha-punho-disputa-m%c3%a3o-1564031/ INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 66 Lembro você que estes dois assuntos são de grande importância para as Ciências Sociais, assim como para sua formação profissional e atuação acadêmica, pois as formas de poder são questões muito presentes no nosso cotidiano, algo que é discutido para além de períodos eleitorais. Então, vamos lá! O autoritarismo é uma forma de poder político utilizado durante muitos anos na história da humanidade; tanto em governos monárquicos absolutistas, como em ditaduras e Repúblicas. Uma importante pensadora que muito refletiu sobre o que é autoritarismo e também sobre totalitarismo foi Hanna Arendt (1906-1975). . Hanna Arendt Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Hannah_Arendt ANOTE ISSO Para Arendt (1989), o regime totalitário tem como principal característica a função de terror que causa uma insegurança generalizada e que cria propagandas para se manter no poder com diversas propagandas. Esses regimes totalitários são diferentes de ditaduras, pois há uma penetração de partidos em torno das dimensões da vida, mesmo que elas sejam privadas. https://pt.wikipedia.org/wiki/Hannah_Arendt INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 67 Assim, para Arendt (1989), é necessário que se exerça o culto ao partido e ao Estado, de forma que seja realizada uma propaganda massiva e doutrinária para partidos, pessoas (líderes autoritários) e a verdade é aquilo que o partido político ou o líder diz. Dessa forma, a autora (1989) compreende que os líderes totalitários são facilmente substituídos, de forma que mesmo Hitler (ditador nazista da Alemanha de 1934-1945), já foi esquecido e mal representa algo nos grupos neofascistas e neonazistas da Alemanha. ANOTE ISSO Os movimentos totalitários só conseguem permanecer no poder enquanto estiverem em movimento e transmitirem movimento a tudo que rodeia, de forma que também há apoio das massas para o líder autoritário e/ou democrático. Um exemplo da autora, foi o apoio que as massas deram para Mussolini, Stálin e Hitler. Sobre isso, observemos o seguinte: • O líder se preocupa em manter seu status sempre intacto; • Os movimentos totalitários conseguem organizar as massas, não as classes, dependem de força numérica; • Os movimentos totalitários são possíveis onde quer que existam massas que, por um motivo ou outro, desenvolveram certo gosto pela organização política. As massas não se unem pela consciência de um interesse comum e falta- lhes aquela específica articulação de classes que se expressa em objetivos determinados, limitados e atingíveis. Portanto, em sua obra, Arendt (1989) busca explicar as origens dos regimes totalitários que se espalharam pelo século XX. Explica a Rússia stalinista, o nazismo e como o imperialismo e o pensamento racial levaram a tais movimentos. Entende que no totalitarismo a política volta para si mesma e não para o bem comum. A autora considera o totalitarismo como algo novo, tanto que não constata sua origem. Se apresenta como um movimento caótico, destruidor, não utilitário, dinâmico e que ataca todos os atributos da natureza humana e do mundo que possa se tornar política. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 68 ISTO ACONTECE NA PRÁTICA As concepções teóricas de Hanna Arendt, sobre o totalitarismo e o autoritarismo, aconteceram na nossa história da humanidade. Um dos períodos mais conhecidos foi o do nazismo (1934-1945), um período de grande horror para a humanidade, em que ideologias perversas foram colocadas em prática. Veja abaixo um pouco sobre o holocausto para melhor compreender as reflexões de Hanna Arendt. Fonte: https://mundoeducacao.uol.com.br/historiageral/nazismo-1.htm ANOTE ISSO A autora compreende o totalitarismo como algo novo e que não possui precedentes, sendo diferente das outras tiranias políticas. Os regimes totalitários, implicam em ter um governante forte, mas o governante não procura, em primeiro plano, o aplauso. • Primeiro o totalitarismo busca promover a ideologia do regime mais do que o ganho pessoal do governante; • Nazismo: racismo e Stalinismo: erradicar o capitalismo e a burguesia; • O governante fundamenta todas as suas ações na ideologia; • O totalitarismo, diferente das tiranias, querem conquistas de modo internacional e não apenas nacional; • O governo totalitário se mantém sem uma estrutura hierárquica, mas com níveis de administração e de burocracia. Portanto, cabe frisar que, para Arendt (1989), o totalitarismo usa o terror para ter obediência das massas ao Estado, a polícia tem a tarefa de capturar as pessoas que foram visadas para a ideologia, prender ou aniquilar. As vítimas são grupos escolhidos e declarados inaptos para viver. O totalitarismo é individualista, as pessoas são leais ao governo, se transformam em inimigos para salvarem suas vidas. As ditaduras também possuem autoritarismo e, muitas vezes totalitarismo, em sua composição orgânica e desenvolvimento. Portanto, é possível afirmarmos que ditadura é uma forma de poder autoritária que se manifesta no governo seja por uma pessoa, por um grupo de pessoas, por uma classe social, por um partido ou por militares, em que os direitos individuais são suprimidos ou restritos. No Brasil, tivemos dois governos ditatoriais: o período conhecido como Era Vargas (1930-1945). No período da Era Vargas, o governo e o poder estavam centralizados https://mundoeducacao.uol.com.br/historiageral/nazismo-1.htm INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 69 nas mãos do ditador Getúlio Vargas. No Estado Novo (período conhecido do governo de Vargas), o ditador muito se aproximou das massas, criando, inclusive, direitos trabalhistas importantes. A Ditadura Militar (1964-1985) também foi um período muito complexo para a história do Brasil. Em 1964 houve um golpe militar em que os avanços de direitos sociais e reformas sociais deram um passo atrás. Por meio da violência, os setores reacionários atuaram com prisões de lideranças, torturas, assassinatos, expulsão de líderes esquerdistas do país e intervenção em sindicatos. Sob o contexto da Guerra Fria e em nome do anticomunismo, as forças reacionárias do país instituíra uma ditadura civil-militar que objetivou promover a internacionalização da economia e a reconcentração de renda, poder e propriedade nas mãos de corporações transnacionais, monopólios estatais e privados e grandes latifundiários, aprofundando sua integração com o mercado mundial e suas ligações com o capital financeiro e industrial internacionais (LARA, SILVA, 2015, p.278). É dessa forma que Durante a ditadura, um dos elementos centrais de sua busca pelo reconhecimento era o empenho em atestar,a partir dos valores sociais, principalmente, que havia uma suposta identificação perfeita entre os militares no poder e o povo. O seu pretenso ideário de democracia situava-se constantemente diante do desafio de garantir para os diversos segmentos sociais que sua realização era possível tendo em vista que aqueles primeiros tinham os seus desejos, objetivos e interesses estritamente vinculados aos segundos (REZENDE, 2013, p.04). Observamos, portanto, caro aluno, como ocorre na prática as formas de governos autoritárias e totalitárias, bem como ditatoriais. Agora, nosso próximo passo é compreender como são as formas democráticas e revolucionárias de poder e de governo. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 70 AULA 8 TEMA DAS CIÊNCIAS SOCIAIS: AS FORMAS DE PODER DEMOCRÁTICAS E REVOLUCIONÁRIAS Democracia - pessoas Fonte:https://pixabay.com/pt/vectors/multid%c3%a3o-pessoas-democracia-296520/ Caro aluno, após compreendermos o que é poder e quais são as formas de poder e de governo, autoritárias, totalitárias e ditatoriais, o nosso objetivo neste momento é compreender o que é democracia e, portanto, o que é e como se consolidou a democracia no Brasil, nosso país. Também é importante que neste momento compreendamos o que é revolução e quais foram as tentativas revolucionárias do século XX. https://pixabay.com/pt/vectors/multid%c3%a3o-pessoas-democracia-296520/ INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 71 ANOTE ISSO Em primeiro lugar, gostaria de frisar a importância de discutirmos o que é democracia e o seu processo de constituição e de consolidação no Brasil, principalmente quando compreendemos que a democracia, perto das outras formas de poder que nós já estudamos durante as nossas aulas anteriores, tanto as formas totalitárias autoritárias e ditatoriais, a democracia se apresenta como a melhor forma de poder das massas e de governo. A democracia garante os direitos, a participação popular, o sufrágio universal, as instituições democráticas, a liberdade política e liberdade de expressão que essas outras formas de poder e de governo, ditatoriais, autoritárias e totalitárias, não oferecem. 8.1 O que é democracia? A democracia é um tema bastante antigo e que já resultou em inúmeros estudos de grande importância para compreendermos o desenvolvimento das formas democráticas durante a história da humanidade. Dessa forma, entendemos então que a democracia, até os dias de hoje, mas, desde a antiguidade, traz em si um conjunto de contradições. Essas contradições que estão então incorporadas na compreensão da população sobre o que é ou não a democracia. ANOTE ISSO Portanto, entendemos que a democracia é uma forma histórica tanto de poder quanto de governo. Essa forma Histórica de poderes e de governo foi primeiramente expressa na experiência ateniense. Precisamos entender que a democracia ateniense foi muito diferente da forma democrática de poderes de governo que nós temos nos dias atuais. Naquele período participavam apenas os cidadãos de classes mais altas. Esses acabavam, então, usufruindo dos direitos civis e dos direitos políticos, de forma que esses cidadãos poderiam portanto participar do governo e também das assembleias deliberativas. Essas pessoas, esses que eram considerados cidadãos, acabavam então tomando decisões políticas de grande importância (NETO, 1997). Entendemos também que a democracia ateniense, mesmo que tenha sido um processo de um ótimo desenvolvimento político para a época, no campo democrático e também cultural, foi, de fato, marcada também por elementos de exclusão e desigualdade, pois não era toda a população e não era para toda a população que o direito a participar de questões políticas e organizativos da sociedade estavam incluídos(NETO, 1997). INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 72 Portanto, compreendemos que a democracia surge, em primeiro momento, na Grécia antiga. Em segundo momento, devemos compreender então que foram vários os pensadores desse período que escreveram sobre a democracia e sobre a constituição dessa sociedade. Os nomes que podemos vislumbrar são Sócrates, Platão, Heródoto e Aristóteles. Esses foram autores e pensadores muito importantes que falaram e estudaram sobre a democracia ateniense. ANOTE ISSO Devemos entender, portanto, que no plano formal a democracia ateniense segurava de fato uma igualdade política e que era estendida para aqueles que eram considerados cidadãos. Durante esse período, no entanto, ela também caracterizava uma forma de desigualdade e de exclusão social daqueles que não eram considerados cidadãos nessas sociedades escravocratas (NETO, 1997). Para compreendermos o processo de democracia de construção da democracia para a modernidade, para o nosso mundo contemporâneo e para nossa sociedade capitalista, devemos, então, voltar um pouquinho nos processos de revoluções democráticas, por exemplo, a Revolução Francesa e, também, na Revolução Industrial. Dessa forma, conseguiremos compreender as formas de democracia representativa e também de democracia direta. Observamos, portanto, a importância dos estudos acerca dos autores Federalistas e de autores contratualistas (que já vimos no decorrer das nossas aulas), pois o pensamento liberal serve de fundamento de grande importância para compreensão sobre a democracia moderna a partir do momento que entende a democracia com valores da tradição liberal. Devemos nos atentar ao processo de transformação do ambiente político e cultural que vai desencadear uma era de democracias liberais e de formação de estados liberais, pois os estados deixam de ser monárquicos e autoritários. Dessa forma, há uma relação com o declínio do feudalismo e a transição para o capitalismo. Um dos autores importantes que podemos verificar acerca da democracia, algo relacionado com a liberdade e igualdade, é Alexis de Tocqueville (1805-1859), pensador francês. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 73 Alexis de Tocqueville Fonte: https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Alexis_de_Tocqueville Influenciado pelo jusnaturalismo e pelo contratualismo (lembrem-se que vimos nas nossas aulas anteriores bastante sobre os autores contratualistas, principalmente John Locke), Tocqueville (2005), ao falar sobre a democracia compreende que no mundo há povos que vão partir de concepções diferentes do mundo e que para avançar nesse tema possui também pontos de partidas diferentes, caminhos diferentes. O ponto central é o de encontrar a liberdade individual e a igualdade na política. ANOTE ISSO Era essa a forma que falar de liberdade e de igualdade, para Tocqueville (2005) se relaciona com a liberdade e a igualdade a partir do desenvolvimento da sociedade. Para o autor, é necessário falar de democracia. Portanto, identificamos igualdade e uma relação direta com democracia. Sobre a democracia, a partir de suas análises teóricas e reflexivas, há também uma relação com hábitos, costumes e valores democráticos que as instituições sociais e políticas do povo americano (o povo que Tocqueville (2005) está analisando) vão desenvolver. Ou seja, uma forma democrática de poder. https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Alexis_de_Tocqueville INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 74 ISTO ACONTECE NA PRÁTICA A democracia norte-americana acontece na prática durante anos. A carta democrática interamericana demonstra que a democracia deve ser a única forma de governo nos Estados Unidos da América: com direitos humanos, cultura, eleições e combate à pobreza. Verifique mais no link abaixo! Fonte: http://www.oas.org/pt/democratic-charter/ Caro aluno, você deve compreenderque as reflexões presentes na obra de Tocqueville (2005) foram desenvolvidas no contexto de expansão do ocidente para América do Norte, em fins do século 18. Nesse momento histórico, a discussão sobre o Estado, instituições políticas e a formação de novos Estados, liberais e democráticos, estava na ordem do dia. O fio condutor era um futuro com uma nova forma de se fazer política ocidental, frente às massas populares e aos trabalhadores manuais. Compreendemos, portanto, que o pensamento liberal do século 19 preserva essas características e que Tocqueville (2005) pensa em democracia. Entende-a como a situação social que convive com o risco iminente do despotismo, portanto, com o perigo do retorno ao absolutismo ou da democracia radicalizada em socialismo; pontos que o autor era contrário. ANOTE ISSO Baruch Spinoza (1632-1677) também foi um autor muito importante para compreendermos o conceito de liberdade. Para esse autor, liberdade é o que fundamenta o estado civil. Portanto, é uma questão de concordância e legitimidade do Estado democrático de Direito com um número maior de pessoas, ou seja, um governo que fundamenta a sua existência na maioria com o Parlamento e que dá voz ao conjunto que representa. No entanto, o pensamento teórico-político de Baruch Spinoza também possui contradições. Muito ligado à ideia divina, Spinoza exclui de seu ideal de democracia “os estrangeiros, as mulheres, as crianças, os servos e aqueles que estão encarcerados” (MIRANDA, MIRANDA, 2019, p.85). Baruch Spinoza (1632-1677)Fonte: https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Baruch_Espinoza http://www.oas.org/pt/democratic-charter/ https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Baruch_Espinoza INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 75 O pacto democrático é, para Spinoza, o mais natural possível e o que mais aproxima da liberdade que a natureza concede a cada um. É pelo valor da liberdade que a democracia é mais perfeita que os demais regimes, pois ela é firmada por um compromisso transindividual. [...] A democracia tem, pois, uma função específica dentro da política de Spinoza. Ela produz as condições externas para a estabilidade do uso adequado da razão e, nisso, favorece a liberdade (MIRANDA; MIRANDA, 2019, pp.89-90). Compreendemos, por fim, que democracia, é também um conceito muito importante nas Ciências Sociais, possui diferenças nas concepções reflexivas de diversos autores. Todavia, enquanto definição, compreendem-na como um processo de caráter universal, oriundo dos processos de revoluções democráticas no contexto da Revolução Francesa e da Independência dos Estados Unidos e que se espalhará a outras formas a outros países. ANOTE ISSO Portanto, a nossa definição de democracia é que essa é uma forma de governo, mas também de poder (do povo) e que está associado a um processo igualitário que não pode ser suprimido, pois desenvolve a questão da igualdade e da liberdade, mesmo com suas variações culturais. Portanto, a democracia é a construção de uma sociedade onde hábitos, valores e culturas possam ser definidos independentemente do governo. 8.1.1 A democracia no Brasil Caro aluno, agora que você conhece mais sobre o que é a democracia, nosso objetivo é compreender um pouquinho sobre nosso país e o processo democrático aqui desenvolvido. Vamos lá! ANOTE ISSO • A democracia é um sistema de governo e de participação popular; • Esse sistema de governo parte do ideário burguês e foi desenvolvido e centralizado pelo liberalismo econômico; • Tanto a participação política, como o sufrágio universal e os direitos de cidadania popular foram submetidos ao capitalismo. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 76 Para compreendermos o processo de desenvolvimento e de consolidação da democracia brasileira, partimos dos anos de 1930, quando o liberalismo assumiu no Brasil o conceito de democracia em suas defesas. Para tanto, a questão democrática e o conceito de democracia no Brasil acabou generalizando o reconhecimento de que a democracia é uma virtude. Quando observamos a democracia do Brasil e a condição brasileira, precisamos entender suas especificações e o seu processo de formação social capitalista e também de construção da democracia. A partir das inúmeras reflexões que podem se fazer presentes, entendemos que o capitalismo brasileiro foi tardiamente desenvolvido e ocorreu por meio de um projeto de desenvolvimento das elites, um processo que ocorreu pelo alto. Esse processo de transformação e desenvolvimento da nossa sociedade não contou com grande participação popular, pois as mudanças ocorreram pelo alto de forma que as classes dominantes e a elite do país acabaram sendo as protagonistas de um processo que devia ser popular. Avançando para o capitalismo e para uma formação social diversa, a caracterização do estado brasileiro foi de um estado forte e autoritário (lembrem-se da nossa aula em que falamos sobre a Era Vargas e a Ditadura Militar), também permeado de períodos ditatoriais e repressivos. É dessa forma que a particularidade brasileira é muito diferente de outros países. ANOTE ISSO A democracia é no Brasil, não tivemos uma revolução burguesa como no caso da França e dos EUA. A industrialização do nosso país também teve o seu desenvolvimento muito complexo e guiado pelo Estado, além de ser agravado por processos e períodos de seca no nordeste e também de crises na questão agrária. Ou seja, tivemos uma revolução pelo alto em que a construção e o desenvolvimento das nossas elites e das nossas classes dominantes impediram a direção por parte de camadas populares no Brasil, causando, inclusive, grande afastamento das classes populares nas questões políticas. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 77 8.2 O que é revolução? ANOTE ISSO Entendemos a revolução como uma transformação do Estado, do poder político, da economia, das relações sociais e políticas. É dessa forma que uma revolução social ocorre: em meio a transformação das contradições do desenvolvimento das relações de produção, das relações culturais e das relações políticas. Portanto, sendo uma disputa de poder de classes sociais. Dentro universo teórico das Ciências Sociais, caro aluno, o pensador Karl Marx (já estudamos e nos debruçamos sobre as reflexões desse autor em nossas aulas anteriores), por meio de sua interpretação do mundo do trabalho e das contradições do sistema capitalista, compreendeu que a sociedade precisa transformar e superar o capitalismo por meio de um processo revolucionário do qual as condições de trabalho se transformam e as classes sociais passam a não existir. Ou seja, de forma que a nossa sociedade deixa de ser dividida entre pobres e ricos. ANOTE ISSO Como nosso objetivo neste momento é caracterizar o que é revolução e, aqui a caracterizamos como um processo de transformação das estruturas, de uma sociedade em que a partir de um movimento de baixo, ou seja, das camadas populares, é capaz de modificar tudo e criar novas instituições, nova economia e nova política, observamos uma experiência clássica e muito conhecida: a revolução russa de 1917. Esse processo de revolução na Rússia, com a figura principal do teórico e político Vladmir Lenin (1870-1927), em que as estruturas foram completamente modificadas e onde o poder político foi amplamente desenvolvido e expandido para as massas populares, para os trabalhadores e para os camponeses, ficou conhecido como revolução socialista. Além da Rússia, a revolução muito chamou atenção dos outros países, das lideranças socialistas e das lideranças das massas dos trabalhadores, dos partidos e dos sindicatos, para que revoluções ocorressem em seus países. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADECATÓLICA PAULISTA | 78 Caro aluno, no final de mais uma aula, gostaria que refletisse um pouquinho junto comigo. Aprendemos que as formas de governo e de poder político são muitas e que diversos autores se colocaram a analisar cada uma delas, sendo de grande importância, inclusive, para compreendermos a atualidade e as discussões que sempre estão em voga. ISTO ESTÁ NA REDE Nessa reportagem da Carta Capital, “Nove livros que retratam a revolução russa”, há um breve levantamento sobre livros que tratam sobre o levante popular de 1917. Fonte:https://www.cartacapital.com.br/educacao/livros-que-retratam-a-revolucao-russa/ https://www.cartacapital.com.br/educacao/livros-que-retratam-a-revolucao-russa/ INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 79 AULA 9 TEMAS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS: O QUE É CULTURA ? Caro aluno, você já está bastante familiarizado com o universo teórico-científico das Ciências Sociais, também com a Antropologia, a Ciência Política e a Sociologia. Dessa forma, neste momento, iremos nos aprofundar um pouquinho na Antropologia e seus importantes autores. Nosso principal objetivo é compreender o que é cultura, algo que está presente em nosso cotidiano e que muitas pessoas falam. Nas Ciências Sociais, quando pensamos o conceito de cultura muita coisa nos vem à mente, principalmente quando entendemos que a sociedade é muito diversa e que há diversos grupos sociais e políticos, assim como novas formas de manifestações culturais em uma sociedade. Com o objetivo de compreender o processo de mudança, de transformação, da sociedade, assim como de compreender como os povos se organizam, aqui estamos falando de diferentes povos e das diferentes regiões do planeta, muitos sociólogos, antropólogos e até mesmo cientistas políticos se colocaram na tarefa de averiguar, analisar e compreender o que é o conceito de cultura. Você provavelmente pode compreender a cultura como um conjunto de hábitos, costumes Cultura Fonte: https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Cultura#/media/Ficheiro%3ASri_ Mariamman_Temple_Singapore_3_amk.jpg https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Cultura#/media/Ficheiro%3ASri_Mariamman_Temple_Singapore_3_amk.jpg https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Cultura#/media/Ficheiro%3ASri_Mariamman_Temple_Singapore_3_amk.jpg INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 80 e normas, ou até mesmo pensar que cada país possui a sua cultura, cada povo possui a sua cultura. No entanto, nesta aula o nosso objetivo é ir além e compreender, portanto, a origem do conceito de cultura. Para isso, precisaremos passar por uma análise acerca do evolucionismo, também aprofundaremos nossos conhecimentos acerca do conceito de cultura a partir da interpretação de Franz Boas e também da antropóloga de grande importância Ruth Benedict. É necessário também compreendermos a questão da natureza e cultura, pois é uma forma de explicar o mundo que vivemos e a forma que nos relacionamos com ele. Portanto, perceberemos que a cultura é um dos temas centrais da antropologia, mas que por estar relacionada com a sociedade, as outras das Ciências Sociais compreenderão e desenvolverão o conceito de cultura. 9.1 O que é cultura? A origem do conceito com o evolucionismo Devemos compreender agora a cultura enquanto conceito científico que ganhou espaço nas discussões da Antropologia no momento de sua consolidação enquanto campo científico institucionalizado. Iniciando com o pensamento de Edward Tylor, autor que inaugurou os debates em torno da cultura no âmbito antropológico, no século XIX. Essas concepções inaugurais serão incorporadas e, ao mesmo tempo, superadas, por Franz Boas, do Culturalismo Norte-Americano, tendo seu pensamento ganhado uma ampliação e maiores consequências em sua discípula, Ruth Benedict. Voltemos brevemente ao contexto histórico da época: A sociedade europeia vivia sob o impacto da revolução industrial inglesa e da revolução francesa. Nesse período a Europa começa a criar colônias, que desembocará na assinatura “em 1885, do Tratado de Berlim, que rege a partilha da África entre as potências europeias e põe um fim às soberanias africanas.” (LAPLATINE, 2003, p.63-64). A África, a Índia, a Nova Zelândia e a Austrália passam a ser povoadas por imigrantes europeus, sobretudo, administradores que enviaram relatos para a Europa, relatos estes que irão desdobrar as primeiras obras antropológicas, como a de Tylor em 1871, A Cultura Primitiva, a de Morgan em 1877, A sociedade Antiga, e os primeiros volumes da obra de Frazer em 1890, O ramo de ouro. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 81 ANOTE ISSO Essas obras possuem um fio condutor em comum que se inspiram na perspectiva cientificista iluminista: “o estabelecimento de um verdadeiro corpus etnográfico da humanidade.” O “outro”, é compreendido como o “ancestral do civilizado”. Nesse sentido, a antropologia atuará com a finalidade de conhecer a origem, a gênese da humanidade, as formas mais simples de organização social que tendem a evoluir para as mais complexas. Em suma, daí surge a tese evolucionista, na qual existiria uma espécie humana idêntica que se desenvolve em ritmos desiguais, passando pelas mesmas etapas de desenvolvimento, atingindo seu ápice na “civilização”. A partir desta tese, cabe ao cientista procurar determinar a sequência desses estágios de transformação (LAPLATINE, 2003, p.65). Os evolucionistas compreendem que a espécie humana se desenvolveu e foi marcada por traços em comum, portanto, através do estudo das diversas sociedades e culturas, o pesquisador poderia traçar leis gerais de desenvolvimento humano. Compreender essas leis possibilitaria também a compreensão das causas que retardam o desenvolvimento das sociedades mais simples. As sociedades passariam por três estados: a selvageria, a barbárie e a civilização. ANOTE ISSO O evolucionismo cultural é uma tentativa de responder o porquê das diferenças e variabilidades entre as sociedades e as culturas, mas salvaguardar a unidade psíquica humana, ou seja, a diferença é explicada através da unidade do tempo e dos traços em comum. Nesse sentido, essa perspectiva trata a cultura de forma singular, estudando-a através do método comparativo. Edward Tylor Fonte: https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Edward_Burnett_Tylor https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Edward_Burnett_Tylor INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 82 Edward Tylor, importante antropólogo, escreveu, em 1871, uma obra em contexto da Europa sob o impacto da obra de Darwin e do nascimento da Antropologia. Nessa perspectiva, todas as culturas e, consequentemente, todas as sociedades, teriam de passar pelo mesmo processo de desenvolvimento para chegar à civilização. Tylor fora o autor que tornou a cultura um dos objetos de estudo da nascente Antropologia, percebendo que o ser humano é um ser cultural, pois tudo, para o homem, deve fazer um sentido, construído a partir de sua cultura. Para analisar a cultura, sua gênese e ordenação, buscou apoio nas ciências naturais, tratando-a como “um fenômeno natural que possui causas e regularidades” (LARAIA, 2010, p.30), ou seja, através de seu estudo seria possível a elaboração de leis sobre o processo cultural e sua evolução. Na perspectiva de Tylor, a natureza humana é única, e através do estudo de seu desenvolvimento seria possível a compreensão dos estágios que sua evolução passaria. A diversidade é explicada pelo autor como “resultado da desigualdade de estágios existentes no processo de evolução.” (LARAIA, 2010, p.32) O autor toma a cultura como fator explicativo da diversidade humana, ao mesmo tempo em que a usa para explicar as desigualdades materiais e sociais em relação à cultura do investigador.Dessa forma, notamos que o evolucionismo está vinculado ao positivismo, e o tempo se torna dividido em etapas ou estágios. O positivismo e o evolucionismo entendem que o melhor está por vir em um futuro próximo e rompe com a história. A antropologia social discute o conceito de cultura dentro de uma perspectiva da ciência natural. Especificamente, para Edward Burnnet Tylor, cultura é o complexo que inclui conhecimento, moral, lei, arte, crenças e costumes, sendo tudo o que o homem construiu como membro da sociedade, portanto, não é algo inato. A cultura é construída socialmente. Portanto, o resultado dessa pesquisa é que os estágios da cultura “podem ser comparados sem se levar em conta o quanto tribos que usam o mesmo implemento, seguem o mesmo costume ou acreditam no mesmo mito podem diferir em sua configuração corporal e na cor de pele e cabelo” (CASTRO apud TYLOR, 2005). INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 83 9.2 O que é cultura? A interpretação de Franz Boas Franz Boas Fonte: https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Franz_Boas A principal reação ao evolucionismo, então denominado como método comparativo, foi iniciada com Franz Boas (1858-1949). Sua principal crítica ao evolucionismo, está em atribuir à antropologia duas funções: a reconstrução histórica de povos ou regiões particulares e a comparação da vida social de diferentes povos. São as investigações históricas – reafirma Boas – que convêm para descobrir a origem deste ou aquele traço cultural e para interpretar a maneira pela qual toma lugar num dado conjunto sociocultural. Boas desenvolveu o particularismo histórico (ou a chamada Escola Cultural Americana), segundo a qual cada cultura segue os seus próprios caminhos em função dos diferentes eventos históricos que enfrentou. A partir daí a explicação evolucionista da cultura só tem sentido quando ocorre em termos de uma abordagem multilinear (LARAIA, P.35-36). https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Franz_Boas INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 84 ANOTE ISSO A partir de 1920, antropólogos como, Boas, Wissler Kroeber, entre outros, refutaram este tipo de determinismo e demonstraram que existe uma limitação na influência geográfica sobre os fatores culturais, sendo possível e comum existir uma grande diversidade cultural localizada em um mesmo tipo de ambiente físico. Não refletindo assim, como queria os evolucionistas, uma classificação eurocêntrica, evolutiva, unilinear, onde determina, por exemplo, que o negro está abaixo do branco, tendo este, não evoluído para civilizado, por conta da pigmentação da sua pele. A cultura, mais do que a herança genética, determina o comportamento do homem e justifica as suas realizações, ou seja, o homem age de acordo com os seus padrões culturais. Os seus instintos foram parcialmente anulados pelo longo processo evolutivo por que passou, antes de diferenciar-se dos outros animais pela cultura. Assim sendo, a cultura é o meio de adaptação aos diferentes ambientes ecológicos. Adquirindo cultura, o homem passou a depender muito mais do aprendizado do que a agir através de atitudes geneticamente determinadas. Como já era do conhecimento da humanidade, desde o Iluminismo, é este processo de aprendizagem que determina o seu comportamento e a sua capacidade artística ou profissional. A cultura enquanto um processo acumulativo, resultante de toda a experiência histórica das gerações anteriores. Este processo limita ou estimula a ação criativa do indivíduo. ISTO ACONTECE NA PRÁTICA Na reportagem abaixo é possível verificar a questão prática da cultura voltada para a língua de um povo. O processo de ocidentalização acaba por limitar as línguas faladas nas comunidades indígenas, uma vez que o idioma nativo é eliminado. Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br/cultura/noticia/2014-12/brasil-pode-perder-30-de-suas-linguas-indigenas-nos-proximos-15-anos 9.3 O que é cultura? A interpretação de Ruth Benedict Ruth Benedict (1887 – 1948), influenciada por Boas, também foi uma importante antropóloga que juntamente com seu mestre, Boas, refutou a possível hierarquia da raça, linguagem e cultura. Ou seja, é incapaz de se aproveitar dessa crença para colonização e opressão de outros povos. https://agenciabrasil.ebc.com.br/cultura/noticia/2014-12/brasil-pode-perder-30-de-suas-linguas-indigenas-nos-proximos-15-anos INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 85 Ruth Benedict Fonte: https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Ruth_Benedict O livro Padrões de Cultura, publicado em 1934, explora a singularidade de cada cultura em relação a aceitar, considerar útil, um determinado tipo de características da personalidade e critica outras características. Por exemplo, na Grécia Antiga, os adoradores de Apolo consideravam a calma e a prudência adjetivos ótimos para a vivência enquanto os de Dionísio enfatizavam a despreocupação e displicência. ANOTE ISSO Dessa forma, Benedict manifesta a confiança no relativismo cultural – ou seja, observar os sistemas culturais sem a visão etnocêntrica; realizar a análise sem privilegiar valores e costumes da cultura vigente. Há de se entender que os antropólogos, ao estudarem comunidades diferentes das quais são acostumados, podem ter o movimento arbitrário: aquela comunidade ser inferior por alguns motivos e insuficiências técnicas, ou/e, como homem ocidental, alegar superioridade. Esse comportamento traz em voga a questão de que a cultura do homem branco é suficiente em si mesma. https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Ruth_Benedict INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 86 9.4 A questão da natureza e cultura Explicamos o mundo através da natureza e da cultura, isto faz parte de uma produção social. Um dos temas centrais da Antropologia, portanto, é a dicotomia entre natureza e sociedade. Algumas nações passaram por um processo civilizador e têm consciência de que a civilização é sinônimo de orgulho e de progresso. ANOTE ISSO Para o autor Norbert Elias (1994), o conceito de civilização expressa a ideia que o ocidente tem de si mesmo: um local civilizado que está em constante movimento para frente, para o progresso. Entretanto, este conceito difere entre os ingleses e os alemães, sendo respectivamente, o orgulho pela importância de suas nações para o progresso do ocidente e da humanidade. Para Elias (1994), é necessário analisar de forma dialética o comportamento do homem ocidental, como o que o levou a tais mudanças e no que este se constituiu. O método de análise é a observação de técnicas corporais dentro do cotidiano, como manuais de boas maneiras, poemas e cardápios, focando em elementos sociais. Isto molda o comportamento das pessoas dentro de padrões que a sociedade proíbe ou permite. Elias está analisando como naturalizamos questões do cotidiano para nos mostrar civilizados, entendendo, portanto, que a natureza do ser humano é a capacidade de se diferenciar entre si, pois o restante é uma construção social através de um processo civilizatório. Os conceitos de indivíduo e sociedade estão, em sua obra (1994), numa relação de dependência e num processo que é base para a dicotomia natureza/cultura que se modifica constantemente num processo a caminho do progresso e do que se pensa civilizado. O conceito de cultura está sendo pensado a partir de relações cotidianas naturalizadas que se construíram num processo de civilização e que demonstram uma hierarquização entre as relações de poder. Para tanto, Nobert Elias resgata de Marcel Mauss que a sociedade modela a consciência e que o corpo é um instrumento e retrato que apreende traços de civilização, se tornando um sistema simbólico. A cultura se tornou um tema de análise e está impregnado de questõeshistóricas. Elias coloca que estes conceitos são reflexos de história comum e sentimento coletivo e a cultura é o comportamento da corte. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 87 ANOTE ISSO Compreendemos, assim, que o meio em que vivemos foi moldado por questões históricas e comportamentais e, que sim, a cultura é uma manifestação do homem, também impregnada por questões históricas, sociais, políticas e econômicas que revelam e interferem na natureza (meio em que vivemos), as relações de poder e consequentemente, as relações sociais. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 88 AULA 10 TEMAS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS: SENSO COMUM E IDEOLOGIA Romã. Simpatia. Fonte: https://pixabay.com/pt/photos/rom%c3%a3-fruta-aberta-simpatia-ch%c3%a1-3349840/ Caro aluno, chegamos no momento em que começaremos a discutir o que é senso comum e ideologia, pois esses são dois conceitos essenciais das Ciências Sociais, além de serem trabalhados por autores da Sociologia, da Antropologia e da Ciência Política. Para começo de conversa, você deve estar se perguntando os motivos de ter uma imagem da fruta romã em nossa aula. E eu te pergunto: alguma vez você já comeu romã na virada de ano para dar sorte? A romã é conhecida por ser uma fruta abundante, que simboliza a prosperidade. No entanto, não há nenhuma comprovação científica https://pixabay.com/pt/photos/rom%c3%a3-fruta-aberta-simpatia-ch%c3%a1-3349840/ INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 89 de que a romã é capaz de gerar prosperidade, assim como muitas simpatias, chás e receitas de nossas avós. Agora que lançada a problematização inicial, vamos descobrir o que é senso comum e ideologia? 10.1 Afinal, o que é senso comum? Muitas vezes pensamos no senso comum e acabamos entendendo isso como se fosse algo ruim. Mas gostaria que vocês compreendessem o senso comum de outra maneira. O senso comum é um conhecimento popular, ou seja, ele é adquirido pela observação, por questões do próprio dia a dia, por vivência de outras pessoas, mas que não foram testados metodicamente, cientificamente, por meio de métodos de técnicas e de teorias já estabelecidas anteriormente. ANOTE ISSO Para tanto, o senso comum é algo adquirido por meio do convívio coletivo, por experiências, histórias ouvidas durante o dia a dia e que estão diretamente relacionadas com a cultura, com as tradições, com os costumes e conhecimentos de muitas pessoas. No entanto, o senso comum muitas vezes não entende a importância do conhecimento científico e até mesmo pode ser que refute a ciência, mesmo que tal conhecimento já tenha sido testado cientificamente. Portanto, o senso comum: • contém tradições culturais específicas; • passa a ser algo visto como verdade; • pode utilizar vários conceitos, conhecimentos populares e sabedorias, • mas não é testado cientificamente. Dessa maneira, novamente as Ciências Sociais acabam sendo de grande importância para compreender as questões que envolvem a nossa sociedade nos diversos âmbitos e esferas da vida social. Sempre que o mundo está em processo de movimento de desenvolvimento e de evolução, tão rápido e turbulento, as Ciências Sociais retornam como uma ciência de grande importância para que as análises saiam do senso comum. Entendemos, então, que senso comum é a expressão que muitas vezes aparece associada ao folclore, de maneira que existem vários sensos comuns que são diferentes INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 90 devido à condição geográfica e social. O senso comum é parte da concepção de vida e moral de estratos sociais e massas difusas, de forma que “não é algo rígido e imóvel, mas se transforma continuamente, enriquecendo-se de noções científicas e opiniões filosóficas introduzidas no costume” (GRAMSCI, Q.1, §65, p.76, 1977). ANOTE ISSO • O senso comum cria o folclore que é uma fase mais enrijecida de certo tempo e lugar; todo estrato social tem um senso comum e na sociedade vários deles existem. O senso comum é definido como a concepção de vida e a moral mais difusa de um tempo e lugar e é derivado da sedimentação deixada por outras correntes filosóficas; por se modificar incessantemente, há vários sensos comuns; • O senso comum parece uma variação do conceito de ideologia, entendida como concepção do mundo. É a concepção do mundo de um estrato social, com frequência caracterizada como momento de recepção passiva se comparada à elaboração ativa de grupos científicos; • Enquanto passivo, o senso comum evidencia atrasos, bem como momentos elementares de elaboração (LIGUORI, 2017, p.723). • O senso comum não é concepção única, é o folclore da filosofia – filosofia não dos filósofos - e se apresenta de inúmeras formas, é concepção de mundo e, portanto, folclore da filosofia. 10.2 Questões práticas para fugir do senso comum Agora que você já possui bastante conhecimento sobre o que é o senso comum, vamos pensar algumas questões práticas de como isso ocorre em nossa sociedade. O suícidio é um tema que não está apenas ligado às áreas específicas da saúde, como medicina e psicologia, mas também é problema e temática importante das Ciências Sociais. Você provavelmente já ouviu o senso comum tentar dar algumas explicações, ou fazendo julgamentos, dos motivos que levam uma pessoa a tirar a própria vida. Mas, você sabia que como problema das Ciências Sociais, essa temática é frequentemente analisada? E essa análise já encontrou espaços, inclusive, na obra de Durkheim? Pois é! Esse autor já dedicou muito de suas análises para compreender essa questão. Vamos agora conhecer um pouquinho mais sobre essas análises. O autor classifica em três tipos: suícidio altruísta, anômico e egoísta. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 91 Classificadas as espécies e leis que caracterizam o suicídio, Durkheim define a necessidade de pesquisar a atitude que as sociedades devem adotar ao objeto analisado, o suicídio, para que solucione através de reformas necessárias e possíveis a fim de refrear o fenômeno ou aceitá-lo mesmo que continuemos a condená-lo (DURKHEIM, 2010). ANOTE ISSO Entretanto, o senso comum julga como anormal tudo aquilo que é considerado imoral. Para entendermos esta premissa o autor explica que a palavra doença não nos causa nenhum incômodo, pois entendemos como algo que possa ser evitado, fazendo uma alusão ao mórbido e à criminalidade. Segundo Durkheim, “(...) não há sociedade conhecida em que, sob formas diferentes, não se manifeste uma criminalidade relativamente desenvolvida” (DURKHEIM, 2010, p.398). Dentro dessa perspectiva o autor procura demonstrar a criminalidade não como uma doença, mas algo normal dentro de uma sociedade ligada fundamentalmente pela organização social. Portanto, é uma imperfeição necessária e não uma doença, em que há necessidade de punição do crime como uma forma de reprimir o ato criminal, defendendo um sistema repressivo como forma de exemplo; o afrouxamento do elo entre o crime e a punição causaria uma intensidade anormal do ato (DURKHEIM, 2010). Para que a classificação fosse possível entre os países pesquisados foram necessárias informações jurídicas para tal comprovação; os países que não entraram na estatística dispuseram de informações insuficientes ou o suicídio não foi alvo de regulamentação jurídica, entretanto, a moral e o direito nunca foram indiferentes; teve importância suficiente para atrair a atenção da consciência pública. Durkheim conclui que o suicídio é um elemento de organização normal dos povos e de todas as organizações sociais (DURKHEIM, 2010). O sociólogo passou a estudar profundamente essa questão e passou adividir os tipos de suicídios. Vamos conhecer um pouco mais! • Suicídio egoísta: como o próprio nome diz, vem de uma extrema individualidade, podemos pensar que todos os tipos de suicídios são individuais, mas neste a causa é individual, é algo somente da pessoa. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 92 Muito diferente do suicídio anômico, onde a causa está relacionada aos fatores que permeiam a sociedade, ou o altruísta, onde a pessoa tem uma relação de honra com a sociedade pertencente (ligação extrema à sociedade). No suicídio egoísta a pessoa se sente desligada da sociedade, não consegue se identificar com ela e geralmente se encontra isolada de grupos sociais. Uma vez que o indivíduo não se sente ligado a sociedade, não há o que impeça sua morte e sua morte pouco é sentida pelas estruturas sociais (DURKHEIM, 2010). Como observou Durkheim (2010), o índice de suicídio entre pessoas casadas é menor do que entre as solteiras, pois existe um laço familiar que para o teórico é imunizante aos suicídios, o coeficiente de suicídio é ainda menor entre pessoas casadas e quem têm filhos, pois os laços entre família estão ainda mais estreitos. • Durkheim observa também os altos índices de suicídios durante a viuvez, principalmente da parte dos homens, e explica o motivo dizendo que após a morte da mulher, que na família é uma engrenagem fundamental, a sociedade doméstica fica entravada e o esfacelamento do laço familiar favorece o suicídio. • Outra observação interessante de Durkheim, é o suicídio entre os celibatários, pois não existe laços que os prendam, o único laço que eles têm é com a religião, porém se cometerem suicídio, sua morte pouco será sentida pela estrutura religiosa. Por fim, Durkheim analisa os números de suicídio entre países predominantemente católicos e países predominantemente protestantes, e conclui que nos países onde predomina a religião protestante o índice de suicídio é maior, pois é uma igreja menos integrada do que a católica. Entre os judeus, a taxa é ainda menor, pois eles vivem mais fortemente unidos devido aos hostis ataques de outros grupos religiosos que os cercam. Por isso, estes suicídios são chamados de egoístas, pois não remetem a fatores de ligação com a sociedade, muito pelo contrário, significa um afrouxamento nos laços que podem ligar a vida de uma pessoa à sociedade, desta forma não impede que ela cometa suicídio (DURKHEIM, 2010). Para fixar sobre o suicídio egoísta: • Suicídio entre pessoas casadas. • Suicídio entre pessoas casadas e com filhos. • Suicídio na viuvez. • Suicídio entre celibatários. • Suicídio nas religiões. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 93 • Suicídio altruísta: é a classificação formulada por Durkheim para os indivíduos que se matam por sentirem-se no dever de fazê-lo, pois as questões externas e coletivas tornam-se maiores ou mais importantes do que as suas. Apesar de subsistir na sociedade moderna e complexa, o autor aponta que esse tipo de suicídio ocorria com mais frequência nas sociedades primitivas, ou seja, nas sociedades simples e não industrializadas, nas quais o sentimento de integração e união entre as pessoas se configuravam de forma bastante abundante. Esse tipo de interação intensa entre as pessoas e as coisas diminui a individualização do indivíduo e inferioriza seus interesses pessoais diante da sociedade e de suas práticas e vivências (DURKHEIM, 2010). • A teorização de Durkheim sobre o suicídio altruísta conta com uma série de três subgrupos: suicídio altruísta obrigatório, suicídio altruísta facultativo e suicídio altruísta agudo (DURKHEIM, 2010). No primeiro subgrupo, o suicídio altruísta obrigatório se dá por uma clara imposição da sociedade que exerce a força de sua opressão em potência máxima. Uma mulher que se suicida após a morte de seu marido por não encontrar mais sentido em viver, já que era considerada socialmente uma extensão desse marido, assim como um servo perdia os sentidos com a morte de um patrão, ou um idoso que se suicida por não ser honroso se tornar um peso inútil ao grupo social ao qual ele pertence, são exemplos dessa classificação (DURKHEIM, 2010). Sequencialmente tem-se o segundo subgrupo denominado suicídio altruísta facultativo, onde a sociedade não direciona de forma tão expressa sua opressão sobre o indivíduo, e os motivos das mortes ocorrem geralmente por motivações que parecem rasas ou por conta de ofensas pessoais como, broncas públicas em bares ou em jogos ou alguém que opta por saltar de uma janela em um incêndio (DURKHEIM, 2010). Por fim, o último subgrupo, o suicídio altruísta agudo, em que o ato tem caráter religioso ou místico e as entidades ou representantes se tornam mais importantes que a vida da pessoa, assim como em seitas que praticam suicídios coletivos por figuras messiânicas ou por crenças apocalípticas, os kamikazes na segunda guerra mundial ou homens bomba (DURKHEIM, 2010). INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 94 ANOTE ISSO Por fim, Dukrheim entende que as consequências da tentativa ou do ato consumado tornam o suicídio passível de indulgência pela consciência comum, como um ato ofensivo à moral. Para o autor necessitaria de medidas de punição mais enérgicas, atenuar tal ato seria um fenômeno anormal, entretanto punições severas não seriam toleradas pela consciência pública. O fato da morte inspira demasiada piedade, diferentemente do homicídio e o roubo que são atos explícitos sem objeções para punição. Penas morais que condenaram o ato, recusaram ao suicida as honras de uma sepultura regular; e ao autor da tentativa, certos direitos cívicos, políticos ou familiares negando o pátrio poder e a elegibilidade para funções públicas (DURKHEIM, 2010). Entretanto, Durkheim conclui dizendo que tais medidas seriam insuficientes para refrear uma corrente de tamanha violência. “(...) quando a lei pune atos que o sentimento público considera inofensivos, acaba por ser ela que suscita a nossa indignação, e não o ato punido.” (DURKHEIM, 1897, p.409). Sendo assim, a punição de qualquer natureza não teria utilidade como forma de coibir o suicídio. Uma das soluções seria o de agir incisivamente nas correntes pessimistas trazendo ao seu leito natural preservando as consciências e fortificando-as como forma de obter êxito (DURKHEIM, 2010). 10.3 Ideologia O conceito de ideologia, mais um de grande importância nas Ciências Sociais, foi inventado por Destrutt de Tracy, um filósofo francês que, em 1801, publicou o livro Eléments d’Idéologie, que seguia uma análise de cientificismo materialista. Segundo o filósofo, a ideologia é o estudo científico das ideias e elas são o resultado da interação entre natureza e organismo vivo - se tornando um subcapítulo da Zoologia. Em 1812, Destrutt e seu grupo de enciclopedistas entraram em conflito com Napoleão, que os chamava de ideólogos. A partir disso, percebe-se a diferença de sentido que a palavra ideologia terá para Napoleão, pois para ele, os ideólogos são metafísicos, que vivem em um mundo especulativo e que, na realidade, fazem abstrações. Como Napoleão tinha mais intensidade ideológica, o termo obteve sucesso no linguajar francês (LOWY, 2010). Marx ao encontrar o termo no sentido napoleônico, utiliza-o a partir de 1846, na Ideologia Alemã como falsa consciência, o que traz novas mudanças no sentido da palavra. Posteriormente, amplia o conceito, intensificando-o nas formas ideológicas INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 95 das quais os indivíduos tomam consciência, sendo a religião, a moral, o direito e as doutrinas políticas – que são ideologias dominantes na sociedade (LOWY, 2010). Percebe-se que para Marx, ideologiaé um conceito pejorativo que se dá pela classe dominante, intensificando no indivíduo a ilusão e a consciência deformada e distorcida dos fatos. Ele observa que quem cria ideologias são as classes sociais e quem lhes dá forma teórica são os representantes literários ou políticos. Ele utiliza o termo: “uma maneira de pensar” para caracterizar essa visão de mundo (LOWY, 2010). Lenin também difere o sentido de ideologia mesmo pertencendo ao marxismo. Diz que a ideologia vem como qualquer concepção da realidade social ou política, estando em vínculo com a classe social que exercerá um interesse. Tanto que, para o discípulo de Marx, existe a ideologia burguesa e a ideologia proletária. Em sua luta comunista o conceito foi utilizado no movimento operário, que fala de luta ideológica e de trabalho ideológico (LOWY, 2010). • Em 1988, vemos a popularização que a palavra ideologia ganhou, mesmo tardiamente “chegou ao Brasil”, pois o cantor Cazuza, lançou seu terceiro álbum com o nome de Ideologia – “ Ideologia, eu quero uma pra viver! ” E a ideologia ganhou para aquela geração o desejo de aderir a uma bandeira e a uma ideia. Percebemos como o sentido da palavra vai se transformando e antropologicamente a mesma palavra vai ganhando um conceito distinto (percebe-se a diferença entre conceito e palavra), mais aprofundado ou não e coerente com o período em que cada autor vivia. ANOTE ISSO Entretanto, surge Karl Mannheim, com seu livro Ideologia e Utopia, com a finalidade sociológica de colocar “ordem” nessas diferenças. Diferenciando-se dos outros já citados, Mannheim diferenciará Ideologia de Utopia (LOWY, 2010). Na obra desse autor, ideologia terá dois sentidos: ideologia total, que será o conjunto das formas de pensar, pontos de vista, estilos de pensamento, que são vinculados a interesses diversos; e ideologia em seu sentido estrito, que será a forma conservadora que a ideologia total irá tomar, fazendo oposição à forma crítica – que ele chamou de Utopia. Mannheim, mostra uma semelhança entre os conceitos de utopia e de ideologia, pertencendo ao mesmo fenômeno - é a existência de um conjunto estrutural de teorias que são expressões de interesses sociais, sendo segundo o caso utópico ou ideológico - porém, se manifestando diferentemente (LOWY, 2010). INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 96 Michael Lowy (2010) usa o termo “visão social de mundo” para deixar ainda mais claro a distinção que Mannheim faz entre utopia e ideologia. Para Lowy, visões sociais de mundo seriam, todos os conjuntos estruturados de valores, ideias e orientações cognitivas, que serão vistos por diferentes perspectivas, sendo tais determinadas pelo ponto de vista social que a classe social do indivíduo exercerá. As visões sociais de mundo podem ser de dois tipos: ANOTE ISSO Visões ideológicas, quando servissem para legitimar, justificar, defender ou manter a ordem social do mundo; visões sociais utópicas, quando tivessem uma função crítica, negativa, subversiva, quando apontassem para uma realidade ainda não existente (LOWY, 2010, p.14). Esse princípio se aplica também às ideologias, às utopias e às visões sociais de mundo, pois todas são produtos sociais que devem ser analisadas em sua historicidade, no seu contexto histórico, na sua transformação histórica e na sua limitação histórica. No caso do conceito de Ideologia, compreendemos, portanto, como a visão social do mundo e sua relação com o conjunto da vida social. (LOWY, 2010). INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 97 AULA 11 TEMAS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS: A QUESTÃO DA ECONOMIA Título: Estoque. Negociação. Fonte: https://pixabay.com/pt/photos/estoque-negocia%c3%a7%c3%a3o-monitor-1863880/ Caro aluno, em nossa jornada nas Ciências Sociais, o campo da economia é altamente explorado por essa nossa grande ciência, pois dialoga diretamente com as questões da nossa sociedade e com o desenvolvimento do sistema, além de explicar inúmeras questões sobre lucratividade, trabalho, movimentações do mercado, desigualdade social, entre outros. Nosso objetivo é que você tenha as noções básicas da economia. Portanto, iniciaremos um caminho bastante interessante sobre os principais conceitos dessa área e sua relação com as Ciências Sociais. Espero que você goste de me acompanhar nessa jornada! Vamos lá! https://pixabay.com/pt/photos/estoque-negocia%c3%a7%c3%a3o-monitor-1863880/ INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 98 11.1 Conceitos básicos de economia nas Ciências Sociais 11.1.1 A questão da moeda Começamos por entender o que é moeda e qual seu funcionamento em nossa sociedade. Dessa forma, para melhor compreensão sobre as funções da moeda é necessário entender seu surgimento e importância para o crescimento junto da consolidação do sistema capitalista. ANOTE ISSO A moeda é um meio de troca que em nossa economia usamos para comprar. Ganhamos a moeda, dinheiro ou salário, como resultado da venda da força de trabalho. Consequentemente, a nossa economia de mercado é uma economia de troca. O capital existe como uma fonte de poder que gera cada vez mais riqueza. Existiram economias de mercado chamadas de economia de escambo – a troca de mercadoria por mercadoria-, antes da consolidação do capitalismo, essa economia existiu. Muitas mercadorias já desempenharam o papel de moeda - sal, gado, ouro, cobre, bronze, prata, escravos, entre outros – entretanto, seria necessário para a persistência desse meio de troca eficaz, algo que possuísse uma maior durabilidade. O ouro e a prata tiveram sua vez, pois tinha uma maior durabilidade, facilitava o uso e o transporte; o ferro oxidava e seria desvalorizado. A chamada moeda passou por inúmeras fases de “adaptação” para se consolidar da forma que a conhecemos (SINGER, 1983). ANOTE ISSO Portanto, as funções da moeda são: meio de troca, unidade de compra, reserva de valor (poder de comprar usado futuramente, principalmente nos períodos de crise) e crédito (o crédito é o oxigênio do capitalismo; sem crédito a economia para). Atualmente, a moeda é utilizada como papel moeda. O cheque não é dinheiro, ele exerce um papel de moeda como forma de riqueza. (SINGER, 1983). A moeda é uma criação do Estado, que passa a ter controle sobre os bancos. Nos últimos trinta anos, os bancos começaram a ter mais individualidade, mas o Estado continua fiscalizando, pois se os bancos emprestarem demais pode causar uma crise – lembrando que as crises são inerentes ao capitalismo. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 99 Notamos a tendência ao monopólio e a distância entre banco e Estado, pois o Estado usa um poder coercitivo para impor suas moedas e o banco exerce sua função fundamental para o poder do capital, a geração de moedas. Em outras palavras, o banco central fiscaliza os bancos privados e tem o poder de emitir moedas; “salva” os outros bancos emprestando dinheiro através da cobrança de juros e o Estado acaba criando uma dívida pública, que nada mais é do que empréstimos feitos ao longo dos anos. Esses empréstimos terão efeitos sobre a população através do corte de políticas públicas e gerando mais desigualdades sociais. (SINGER, 1983). 11.1.2 A questão da inflação e deflação Quando há período de inflação nem as pessoas e nem as empresas poupam dinheiro, pois este se desvaloriza. A inflação é um mecanismo perverso para a acumulação de riquezas e a variação do valor da moeda é o que causará a inflação ou a deflação. Ou seja, temos de forma clara a moeda como causa da inflação. ANOTE ISSO Distingue-se: • Inflação: a moeda vale mais, ou seja, há uma perda de poder de compra da moeda e mais se deseja dinheiro; • Deflação: grande queda de preços onde a moedaperde o seu valor. É mais eminente nos períodos de crise capitalista. ISTO ACONTECE NA PRÁTICA Na reportagem abaixo é possível verificarmos como a questão da economia é de grande importância e atualidade para compreendermos o mundo em que vivemos, pois ela fere diretamente questões que são debatidas e analisadas nas Ciências Sociais, por exemplo, o desemprego. Veja abaixo sobre o assunto. Fonte: https:// g1.globo.com/economia/noticia/2020/09/01/zona-do-euro-registra-deflacao-e- desemprego-em-leve-alta.ghtml Para a economia, a inflação irá agravar as consequências da crise, durante essas épocas é preciso reter a moeda; estar em uma situação de liquidez, pois é dado https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/09/01/zona-do-euro-registra-deflacao-e-desemprego-em-leve-alta.ghtml https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/09/01/zona-do-euro-registra-deflacao-e-desemprego-em-leve-alta.ghtml https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/09/01/zona-do-euro-registra-deflacao-e-desemprego-em-leve-alta.ghtml INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 100 pela incerteza. A especulação entrará nesse contexto nos auxiliando a entender a moeda como causa da inflação. Esse é o caráter especulativo que a moeda exerce no capitalismo (SINGER, 1983). Existe uma necessidade e procura de moeda – a demanda. Quanto maior a demanda, maior a reserva – mais uma vez nota-se a moeda como causa da inflação. É importante notar que, para os monetaristas, a inflação é culpa do Estado, pois houve excesso de moedas e permitiram maiores empréstimos, ou seja, não houve cuidado com a preservação das moedas, pois quanto mais lançado menor seu valor. 11.1.3 Taxa de câmbio A taxa de câmbio é o preço de uma moeda em relação a outra, ou seja, é a medida pela qual a moeda de um país pode ser convertida em moeda de outro país. É por meio da taxa de câmbio que podemos relacionar dois sistemas de preços em dois países. A taxa de câmbio sofre uma influência pela oferta e pela demanda por divisas – ou seja, pela demanda e oferta por moeda estrangeira em um país. A demanda por divisas é realizada por indivíduos que desejam comprar através de moedas estrangeiras em outras nações. (SINGER, 1983). Quanto maior a taxa de câmbio, menor a quantidade que as firmas desejam importar e menor, portanto, a demanda por divisas; quanto menor a taxa de câmbio, maior a quantidade que as firmas desejam importar, portanto, maior a demanda por divisas. (SINGER, 1983, np). Quando a taxa de câmbio está em equilíbrio, a quantidade de divisas que os exportadores querem vender é a mesma que querem comprar. Conecta-se com a taxa de câmbio flexível, onde o preço da moeda varia, sendo influenciada pela inflação, ou seja, pela demanda de dólares; ou quando a taxa de câmbio é fixa, a qual centraliza a compra de dólares para usar como “munição”, uma reserva. Observemos que o Estado compra e vende dólares para manter fixa a taxa de câmbio. Há um exemplo no cenário externo da Argentina, aliada aos Estados Unidos, começou a fixar a taxa de câmbio e houve grande desvalorização do peso. A China é exemplo de um país que possui a taxa de câmbio fixa e determinada pelo Banco Central. A vantagem é diminuir a especulação se tiver reserva. Entretanto, com o aumento da globalização não há meios de manter a taxa de câmbio fixa, ou seja, ela necessita ser variável. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 101 Portanto, oferta e demanda; diferenças entre as taxas de câmbio, sendo tais variáveis ou fixas, representam desejos e comportamentos de exportadores e importadores, o que também implicará na relação da taxa de câmbio sobre a economia, devido às suas variações. 11.1.4 Para pensar o que é a balança de pagamentos O balanço de pagamentos é o registro contábil de todas as transações de um país com outros países. Ou seja, estão nesse registro todas as importações e exportações que o Brasil faz de outros países, todos os fretes pagos, os empréstimos feitos pelo Brasil, o capital de firmas estrangeiras que são abertas no Brasil e que saem do Brasil. De forma simplificada, estão registradas todas as compras e vendas de moeda estrangeira. Entrará como componentes da Balança de Pagamentos: • A balança de transações correntes, que engloba todas as transações de bens e serviços, envolvendo a produção corrente anual, exportações e importações; • A balança de pagamentos de capitais, sendo o fluxo de capitais, os pagamentos da dívida externa, a entrada e saída de dinheiro. Investimento estrangeiro líquido. Balança conta corrente: • Balança comercial: exportação e importação; o superávit e o déficit. O superávit vem caindo, sendo influenciado pela taxa de câmbio; • Balança de serviços: viagens internacionais, receitas e despesas com cartão de crédito no exterior; os transportes, exemplo, os navios, também entram nessa balança – entretanto, o Brasil tem mais despesa do que ganho em relação aos navios. 11.2 A questão prática das Ciências Sociais e da Economia Caro aluno, chegamos agora no momento em que nosso objetivo é o de contextualizar questões históricas econômicas do Brasil de forma a analisar com base em importantes intelectuais e pesquisadores: sociólogos, historiadores e economistas. Para tanto, começaremos nossa reflexão acerca da economia e produção cafeeira no Brasil, de forma a compreendermos os conceitos básicos apresentados acima e INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 102 também a análise diversa de importantes pesquisadores relacionados com as Ciências Sociais. ANOTE ISSO Para compreendermos os motivos para que a economia cafeeira fosse o motor do desenvolvimento capitalista na Primeira República, é necessário buscar nas raízes históricas um pouco de tal relação com a maneira que se consolidava o desenvolvimento do café e da indústria, em um segundo plano. Como sabemos, no final do século XIX a situação do Brasil tornou-se adequada e favorável para a cultura de café e com o efeito da inflação de crédito tal período foi de grande benefício para a classe cafeicultora, pois as sacas aumentaram amplamente, junto à colaboração de crédito para financiar novas terras e elevar o preço do produto. A produção cafeeira teve grande crescimento no Brasil ao longo do século XX, a partir de 1880 atinge cerca de cinco milhões de sacas por ano, o que torna o café o grande motor para o desenvolvimento capitalista brasileiro. Durante os anos 80 a produção de São Paulo ultrapassa a do Rio de Janeiro. O modo de produção foi modificado – o que torna compreensível tal mudança-, pois o trabalho ao subir os planaltos de SP, deixa de ser escravo e se constitui em assalariado/mecanizado, além das redes de estradas de ferro. Segundo Sérgio Silva, o trabalho assalariado no Brasil foi realizado devido à imigração massiva, fato que tornou o trabalho escravo deixado de lado e cedeu lugar ao trabalhador livre. O trabalhador europeu, chega a São Paulo e é empregado nas plantações de café, o contrato de trabalho é realizado pelo escritório de imigração, contrato de um ano, aviso prévio de um mês e pode ser rescindido pelas duas partes. O salário era atribuído ao trabalhador perante ao número de pés de café, além de juntar uma espécie de prêmio quando a colheita é positiva. De tal modo, o trabalhador podia cultivar um pedaço seu de terra, podendo plantar somente para a subsistência e uso da família, utilizando a cultura intercalada. A migração é consequência das próprias relações capitalistas que tinham como centro a economia cafeeira. As estradas de ferro exerceram importante papel neste contexto, pois traziam trabalhadores de Minas Gerais e da Bahia para a conquista de trabalho em São Paulo, o que fez com que os salários baixassem. Em 1920, o número de estrangeiros é muito maiordo que de brasileiros, todavia, não aceitavam sem luta, a exploração, devido à divergências ideológicas e distintas, as lutas se expressavam INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 103 de diferentes formas, umas mais violentas do que outras, também pelo fato dos fazendeiros reprimirem e proibirem o direito à associação. As terras foram palco de muitas greves que acabavam, por vezes, em tiros e assassinatos. No começo do século XIX, devido à crise de superprodução e à repressão, muitos trabalhadores buscam lugar na Argentina ou voltam para a Europa. A indústria cafeeira, portanto, é o resultado da luta de muitos trabalhadores que não aceitavam as condições de trabalho e a mecanização tem ligação com estas questões. Vejamos que as operações de beneficiamento foram consequência da substituição do escravo pelo assalariado, o que acarretou em certa mecanização, que apresentou grande importância no sistema das grandes plantações dominadas pelo capital. O desenvolvimento da indústria de café não teria sido possível sem as estradas de ferro, a distância deixaria de ser um obstáculo e o interior de São Paulo estava preparado para ser conquistado pelos pioneiros do café. Junto à mecanização é possível assinalar que o processo de transformação das plantações de café é o processo de formação da burguesia cafeeira e o desenvolvimento da economia cafeeira é o desenvolvimento do capital cafeeiro. Os principais líderes da marcha pioneira financiavam o estabelecimento de novas plantações junto à modernização de seu equipamento e se estabeleceram nas grandes cidades, sobretudo em SP. Conforme a economia brasileira/cafeeira se desenvolviam, as casas de exportação centralizavam toda a compra da produção. ANOTE ISSO A importância desses capitais aplicados em tal esfera da economia está interligada ao surgimento dos primeiros bancos brasileiros, já que as operações comerciais explicam o nascimento e desenvolvimento dos bancos. O capital cafeeiro apresenta características do capital agrário, industrial, bancário e comercial. Os diferentes aspectos tendem ao desenvolvimento do capitalismo no Brasil. A economia cafeeira é caracterizada por um pequeno grau de capitalismo e não definem frações de classes autônomas (não havia uma burguesia agrária, cafeeira, comercial, etc.) e sim uma burguesia cafeeira que exerce várias funções. A análise das relações entre as funções dessa burguesia faz com que seja possível identificar e ressaltar a dominação das frações comerciais, que caracteriza o capital cafeeiro como capital dominantemente comercial. A importância do capital cafeeiro condiz com a sua importância nas funções comerciais. É possível identificar o INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 104 capital cafeeiro que representa a unidade dos dois sob o primeiro (grande capital). A preponderância do capital comercial é o resultado do desenvolvimento fraco das relações capitalistas no Brasil. A acumulação capitalista é realizada em torno do comércio e acarreta um lento desenvolvimento das forças produtivas. Portanto, notamos como a economia cafeeira foi importante para o desenvolvimento do capitalismo no Brasil, na Primeira República e inserimos a necessidade de compreender o desenvolvimento da indústria cafeeira no século XX e seus problemas de superprodução, valorização, questão das terras, pontos essenciais para compreensão do desenvolvimento industrial no Brasil e da consolidação capitalista. Todavia, o preço cairia a longo prazo, devido às diversas ações como por exemplo, estradas de ferro, portos e ambientes marítimos, mão de obra, etc. “As condições excepcionais que oferecia o Brasil para essa cultura valeram aos empresários brasileiros a oportunidade de controlar três quartas partes da oferta mundial desse produto.” (FURTADO, p. 175, 1982) É possível compreender que tal circunstância foi a chance de manipular a oferta mundial do café e que teria uma evolução dos preços deste produto. Durante a crise de superprodução nos primeiros anos do século XX, os empresários perceberam uma situação privilegiada e foram contrários à baixa de preços. Os estoques do produto deveriam ser mobilizados, segundo Celso Furtado, quando a “renda estivesse a altos níveis nos países importadores”. Em 1906, na cidade de Taubaté, no interior paulista, foram celebradas as bases do que conhecemos como política de valorização do café. Os objetivos foram analisados por Furtado, sendo eles: o governo deveria comprar os excedentes, o que equilibrava a lei de oferta e demanda; as compras deveriam ser financiadas por empréstimos em bancos estrangeiros; o pagamento deste empréstimo deveria ser custeado através de um novo imposto sobre a exportação do café; medidas que desencorajaram a expansão das plantações. Esta política foi aplicada pelo Estado de SP, o Governo Federal não aceitou logo de início, mas devido à autonomia concedida pela Constituição de 1889, aos governos dos estados federados, isto foi realizado pela burguesia cafeeira paulista. O governo federal acabou seguindo tal política, o que de fato, demonstrou o poder hegemônico crescente da burguesia cafeeira paulista. Esta política de valorização constituiu-se em uma indicação das transformações que operam a estrutura política do Brasil, que concebia poder aos Estados e descentralizou INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 105 o poder federal, servindo aos interesses da oligarquia cafeeira. Há o importante crescimento, neste período, da classe média urbana brasileira junto à burocracia civil e militar que foi afetada pela depreciação cambial. Portanto, temos um cenário em que a entrada de capital estrangeiro no país ocorre e acompanha a “valorização” do café e o desenvolvimento capitalista. É o momento de criação e desenvolvimento de um sistema bancário poderoso. No caso do Brasil, a entrada de capital estrangeiro influenciou muito a economia do país, a indústria, o açúcar, o café, o comércio, a exportação e a importação. ANOTE ISSO Este mercado nacional possibilitou o avanço no processo de industrialização e os produtos nacionais passaram a tornar-se produtos internacionais, em termos de consumo. Gerava também um aumento na demanda interna, pois com a política de defesa do café, houve um agravamento no desequilíbrio das forças externas e influenciou a compra nacional, imprimindo a aparência de uma crise mais amena. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 106 AULA 12 TEMAS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS: A QUESTÃO DA HISTÓRIA Título: Cartas antigas Fonte: https://pixabay.com/pt/photos/cartas-antigas-pena-fotos-antigas-1082299/ Caro aluno, você está cada vez mais familiarizado com noções das Ciências Sociais, portanto, falaremos sobre a importância da história e a sua relação com essa área de nossos estudos principais. Como nas Ciência Sociais são variadas as pesquisas que se utilizarão de questões históricas, seja para contextualizar algo ou para fazer uma análise histórica, análise teórico-histórica ou então uma análise histórico-cultural, análise histórico-econômica sobre determinado fato, nada mais do que essencial aprendermos um pouco sobre a trajetória da história e sua relação com as Ciências Sociais. https://pixabay.com/pt/photos/cartas-antigas-pena-fotos-antigas-1082299/ INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 107 Ao observarmos a relevância da história nas Ciências Sociais, assim como a importância daqueles que irão seguir a pesquisa científica e que abrangem alguma parte de conhecimento que esteja relacionado com as Ciências Sociais, necessariamente precisará utilizar um pouco de história.Afinal, a história é presente em todas as áreas do conhecimento e é essencial para compreendermos questões, fatos e eventos do nosso tempo presente, pois história é uma área do conhecimento que serve principalmente para compreendermos e analisarmos fatos passados, mas que também possui grande utilidade quando analisamos o tempo presente. Ou seja, a nossa contemporaneidade. Assim como a antropologia e a sociologia tiveram um surgimento e um processo de desenvolvimento para serem consolidadas como campo científico, a história também passou por tais processos. É por isto que nesta aula iremos percorrer um pouco sobre a questão da história e o seu desenvolvimento. Alguns conceitos que já trabalhamos em aulas anteriores irão aparecer novamente, principalmente a necessidade de compreendermos a história a partir de uma perspectiva crítica e não positivista, assim como vimos na sociologia e também na antropologia. Espero que você goste desse nosso novo trajeto e que você consiga cada vez mais em sua trajetória acadêmica ou científica utilizar-se das ciências sociais em sua vida profissional! 12.1 Questões introdutórias A História nasceu há 4.000 mil anos, na Ásia Ocidental e na Europa. Na historiografia Greco-Romana os hebreus tinham a tendência de se afastarem do particularismo e manterem uma proximidade com o universalismo. No século V, a história grega é uma investigação; ela é humanista, tendo como assuntos coisas humanas e não coisas divinas. Os gregos viveram uma época de evolução rápida da história. A natureza era vista como espetáculo em constante mutação. A vida humana se transformava mais violentamente. Em seus teatros interpretavam o que ocorria na vida: a desgraça, a felicidade, o orgulho, a humilhação, entre os sentimentos distintos que existem dentro de nossos vícios e das nossas paixões. Esse pequeno trecho serve para termos uma breve noção de como a história foi estudada e enxergada há séculos atrás, pois é importante pensarmos História, pois essa transição de pensar o “passado” e o presente nos auxilia muito em nossas vidas enquanto seres humanos, pesquisadores e profissionais. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 108 Os autores que conheceremos ao longo dessa aula pensaram a história, claro que dentro de suas contradições, perspectivas, ideologias e contextos distintos, porém alguns colaboraram para se fazer a história dos vencidos e mudar a metodologia da História Tradicional. Dessa maneira, perceberemos muitas distinções do método de cada autor. 12.2 História e Ciências Sociais August Comte (1798-1857), o fundador da Sociologia, escreveu muito sobre a história e sua relação com a Sociologia. Devemos compreendê-lo e compreender sua influência dentro da História, como “filho do seu tempo” histórico, nascido do processo da Revolução Francesa, tendo vínculo com as ciências naturais e tendo como objetivo a necessidade da doutrina como princípio que rege a ciência, entendemos que o positivismo (nacionalismo europeu; onde a história se movimenta no sentido do progresso) teve seu início dentro da filosofia com grande laço nas Ciências Naturais. ANOTE ISSO Para os positivistas, primeiramente deveriam estabelecer os fatos para depois estabelecerem as leis. A partir disso, surgiu a Historiografia Positivista, que sofreu rupturas, mas que ainda é presente. Um exemplo são os documentos “chancelados” que possuem maior valor no Estado e nas relações sociais. No período positivista a história teve grande enriquecimento; o ideal literário foi transformado em monografia, tendo como foco o objeto fixo e determinado. É importante colocar que Comte é visto como alguém que interpretava a história e a sociedade de maneira positiva, pois pretendia reformas na sociedade e enxergava que os avanços aconteceriam de forma linear. Ao falar sobre reforma, constrói uma lei da física: a dinâmica e estática: todo corpo celeste tem dois movimentos, a estática (o parado) e a dinâmica (possibilidade de movimento) para explicar a sociedade vista como progresso dentro dessas duas formas de equilíbrio que propunha uma reorganização. Criou a lei dos três Estados, colocando como sentido único da História: Estágio Teológico, Estágio Metafísico e Estágio Positivo. Entretanto, a evolução, o desenvolvimento e a superação me levam a entender essas passagens como construtivas e desconstrutivas. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 109 Comte e Leopold Von Ranke recebem inúmeras críticas do Movimento dos Annales – A crítica de Fernand Braudel para Von Ranke parte de que sua teoria é ultrapassada por não abranger as concepções de tempo e de espaço para compreender o objeto - surgido no século XX, que tinha como princípios a renovação teórico-metodológico e a reconstrução da História no tempo presente. Há uma consideração da simultaneidade e a dominação da simetria entre passado e futuro; a história torna-se outra. Título: Marc Bloch, um dos mais importantes historiadores da Escola dos Annales. Fonte: https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Escola_dos_Annales#/media/Ficheiro%3AMarc_Bloch.jpg ANOTE ISSO Os Analles tinham como objetivo a revisão e reconstrução do conceito de homem, humanidade e história. Sendo o homem um sujeito livre, potente criador e resultado da história: • Um novo homem surge; • O homem se emancipa; • Para os Annales, o principal olhar do historiador deve ser a repetição, a permanência, a quantificação de movimentos reversíveis e a longa duração; • A história se torna pesquisa e teoria, tendo grandes problematizações; • A história problema. A história tradicional existia, porém alguns autores quiseram fazer outra coisa; formalizado foi em 1929, mas antes já havia uma movimentação que fugia do tradicionalismo. March Bloch (lembrando que foi um escritor militante, resistente ao regime nazista, escreve seu livro “Apologia à História”, em 1944) e Lucien Febvre foram https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Escola_dos_Annales#/media/Ficheiro%3AMarc_Bloch.jpg INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 110 os líderes da Revolução da Historiografia, colocando o dever da história estudar os novos tipos de história, de comportamento e de cultura. Título: Lucien Febvre. Fonte: https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Escola_dos_Annales#/media/Ficheiro:Lucien_Febvre-Strasbourg.jpg Bloch e Febvre foram diretores da revista Annales d’histórie économique et sociale, criada em 1929. Há uma interlocução da história com a psicologia, com as ciências sociais, com a geografia e com outras áreas para melhor entender a história do objeto escolhido. Colocaram o dever de utilizar todas as descobertas sobre a humanidade realizadas por sociólogos, psicólogos, antropólogos, geógrafos e economistas. Nas palavras de Febvre: [...] os únicos objetos da história – de uma história que se inscreve no grupo das disciplinas humanas de todas as ordens e de todos os graus, ao lado da antropologia, da psicologia, da lingüística, etc.; uma história que não se interessa por não sei que homem abstrato, eterno, de fundo imutável e perpetuamente idêntico a si mesmo. (FEBVRE apud SILVA, 2005, p.131). ANOTE ISSO • Bloch estuda o homem em sociedade e rebate a questão de estudar o homem somente no passado, pois compreende que a história é o resultado de um passado e do presente; • Bloch critica o historicismo, o tempo linear e fontes documentais. Para o autor, fontes do Estado não são as únicas fontes para fazer história, a memória oral é um meio excelente para o historiador. https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Escola_dos_Annales#/media/Ficheiro:Lucien_Febvre-Strasbourg.jpg INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 111 Dessa forma, a totalidade histórica começa a ser visualizadacomo meio de melhor compreensão da história, pois é o fenômeno e a essência que a compõem, tendo em seu núcleo o evento, o tempo e o espaço. É uma tentativa de fazer historicidade com o objeto escolhido – a tentativa de colocar um objeto dentro da história. Segundo Silva (2005, p.132): Com efeito, os fundadores dos Annales concentraram muito de seus combates no terreno mais sólido da escola metódica: a crítica dos testemunhos históricos. Ambos preconizaram a intervenção ativa do historiador diante dos documentos, alargando simultaneamente o diálogo com outras ciências. Erigindo a “história positivista” em inimigo comum, uniram diferentes disciplinas e intelectuais em torno de uma “escola”. (SILVA, 2005, p.132). • Percebemos uma imensa distinção com Comte quando se pensa a história dentro da sucessividade, a história que vai do passado para o presente e propondo que o tempo não é linear; ao contrário, o tempo é múltiplo e muitas coisas estão acontecendo; • Diferente do positivista, que pensava a história como um caminho positivo e progressista, organizando os fatos históricos em uma linha cronológica. Após March Bloch, outros indivíduos darão sequência ao movimento dos Annales, dentre eles está Fernand Braudel e o político Jacques Le Goff. Jacques Le Goff, lança seu livro “A nova história” que, de forma contraditória ao que Bloch colocou sobre a não linearidade, divide os Annales em três gerações e se nomeia como parte dessa terceira geração. Em maio de 78, Le Goff e Norrá escreveram o texto “Nova história”, uma coletânea que reunia críticas à história linear e sobre as fontes. Estavam preocupados com o ensino da História, de certo que havia uma neutralidade com o governo e então não havia tensão, ou seja, não estavam preocupados com a militância e com os movimentos do maio de 68. Percebe-se mais uma contradição do Movimento dos Annales. ANOTE ISSO • Diziam que a história que era vivida era a história que escreviam; • A história nova tinha como objeto o fato histórico, o evento cotidiano, os acontecimentos regulares. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 112 12.3 A História crítica e as Ciências Sociais Contudo, há um crítico do movimento dos Annales, sobretudo de Jacques Le Goff. O chamado Jean Chesneaux, escreveu seu livro, em 1976: “É possível fazer tabula rasa do passado?” e chama os historiadores para irem para a rua, ou para um debate: ANOTE ISSO • ele questiona a ordem colocada e a contradição de não ser possível fazer a separação do que se vive e do que se escreve; • Coloca como pontos centrais o intelectual e a política, o engajamento do intelectual, os historiadores e a Política; Enfim, para esse autor, a história que se escreve é a história que se vive. Há uma dialética das temporalidades, a história que se escreve é a história que se vive. Ele dizia que há uma relação entre passado e presente e que não podemos fazer a história em migalhas. Em sua visão, é preciso entender os eventos através da longa duração, da totalidade histórica, da dialética das temporalidades. Seu pensamento sobre história é pautado na totalidade histórica. A perspectiva crítica, de Karl Marx, é a interferência dentro da realidade para uma mudança radical; • o homem como sujeito histórico em processo de emancipação que será base para a revolução; • O homem com engajamento político ou o intelectual engajado. Para Marx a história é o modo como conduzir a vida, há um movimento, uma relação, uma totalidade histórica, uma dialética que está em constante transformação e que terão imensas contradições : esse movimento histórico será de muitas rupturas e permanências. 12.4 A importância da História nas Ciências Sociais Como vimos até o presente momento, a história e as Ciência Sociais possuem uma relação estrita e muito importante, pois essas duas áreas do conhecimento têm como INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 113 objetivo principal compreender e analisar questões voltadas para a vida social e as estruturas da sociedade. Ao longo de nossa aula observamos as questões introdutórias sobre a história, desde seu nascimento até o processo de desenvolvimento da história na área positivista, até a história crítica. Portanto, notamos como essas áreas dialogam diretamente com as Ciências Sociais. ISTO ACONTECE NA PRÁTICA Muitos cientistas sociais se utilizam da história, tanto de suas metodologias, materiais e documentos para comporem suas pesquisas acadêmicas. Assim como, muitos historiadores utilizam metodologias e técnicas, também teorias das Ciências Sociais para desenvolverem suas pesquisas. Confira abaixo o trabalho de uma cientista social que utilizou a história, bem como estudou um fato histórico em seu mestrado. Fonte:https://repositorio.unesp.br/handle/11449/193615 Confira também um importante historiador que trabalha a questão da história e das Ciências Sociais. Fonte:https://repositorio.unesp.br/handle/11449/128088 Portanto, percebemos que estas relações entre História e Ciências Sociais remontam uma disputa dentro das Universidades, principalmente os embates conceituais, metodológicos e categoriais. Mas, mais do que isso, pois mesmo com termos cunhados tanto pela história, quanto pelas Ciências Sociais, ambos possuem objetos de análise em comum. Para tanto, observamos as relações de interdependência entre essas duas áreas. As relações da história com as ciências sociais remontam ao momento em que ambas passaram a disputar posições no interior do establishment acadêmico por meio de embates conceituais que visavam a definir um estatuto de cientificidade para o conjunto de sua produção. Os termos dos debates iniciados há mais de um século marcaram profundamente os rumos tomados pelas duas disciplinas, fazendo-as oscilar entre movimentos de aproximação e distanciamento, confrontação e reciprocidade. Conceitos como evento e estrutura, sincronia e diacronia, ruptura e continuidade, narrativa e interpretação fundamentaram epistemologicamente as relações entre história e ciências sociais. (SILVA, 2005, p.127). https://repositorio.unesp.br/handle/11449/193615 https://repositorio.unesp.br/handle/11449/128088 INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 114 Foram vários os autores e intelectuais das Ciências Sociais e da História, interligados em torno das ciências humanas, pois se trata do passado e também da atualidade. Sendo, portanto, de grande importância por estarem no campo teórico-científico com metodologias em comuns e teorias comuns para compreender a história da humanidade. Verificamos, então, que o encontro entre essas áreas do saber, não precisam necessariamente fazer com que cada uma perca sua autonomia. Ao contrário, o que se propõe e o que propuseram inúmeros pensadores, foi o encontro entre essas áreas, ainda que cada uma tivesse sua autonomia, mas que esse encontro promovesse trocas conceituais, de diálogos e intercâmbios institucionais, já que ambas possuem o mesmo objetivo que é analisar a questão da humanidade, das estruturas sociais, políticas, econômicas e culturais. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 115 AULA 13 A ANÁLISE DO BRASIL A PARTIR DAS CIÊNCIAS SOCIAIS Título: Brasil no mundo. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Brasil Olá, aluno! Muito bom tê-lo por aqui, quase no final da nossa jornada de introdução às Ciências Sociais. Essa nossa aula tem como assunto principal a discussão sobre o Brasil, pois agora você está pronto para compreender autores importantes que estão dentro do universo das Ciências Sociais e que analisaram questões importantes sobre o nosso país. https://pt.wikipedia.org/wiki/Brasil INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIAGABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 116 Portanto, nosso principal objetivo é compreender o Brasil a partir da perspectiva de historiadores, antropólogos, cientistas sociais, cientistas políticos e sociólogos. Aqui, como nosso objetivo é introduzir você ao debate, partiremos de vários pensadores que possuem diferentes visões de mundo, ou seja, que são provenientes de diferentes matrizes teóricas, conceituais e metodológicas. Espero que você goste da aula, já que a nossa tarefa, nesse momento, é compreender um pouco sobre o desenvolvimento político histórico do Brasil, assim como cultural e econômico. Esses importantes autores são vistos nos cursos de Ciências Sociais do Brasil afora, por isso, espero que você aproveite muito nossa aula e que você consiga compreender o Brasil a partir de uma ótica mais aprofundada das Ciências Sociais. Espero também que você perceba a importância dessa ciência enquanto um campo de conhecimento que está cada vez mais aberto e no auge do nosso dia a dia. Recordo você que durante as nossas aulas anteriores nosso objetivo foi acompanhar um pouco de cada conceito introdutório sobre as Ciências Sociais, assim como a sua história em relação a outras áreas do conhecimento e também temas de pesquisa mais importantes. Como o Brasil também é um tema de pesquisa das Ciências Sociais e, neste caso, ao contrário das aulas anteriores em que estudamos muitos autores europeus, nesta nossa aula apenas autores brasileiros de grande importância serão analisados. Conto com você nessa jornada e espero que goste muito de compreender um pouco mais sobre o país em que vivemos! 13.1 Um pouco de contexto histórico O projeto que o Brasil visava a partir da segunda metade do século XIX era o modelo norte-americano ou europeu. Um país agrário, que tinha como poder político uma monarquia-escravista absolutista com grande aparato da Igreja. Um país desde sua história com as relações entre público e privado misturadas, ou seja, sem uma sociedade civil e um Estado, de fato, e sem uma burguesia nacional que tivesse um programa revolucionário, como nos países da Europa. O país foi alvo de uma revolução pelo alto, onde as classes populares não estavam dentro do governo político, segundo FHC, o Brasil não teve a herança de se discutir política como nos países europeus, trazidos pela revolução burguesa. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 117 Já segundo Nabuco, o país teve como grande problema a escravidão, que é uma mancha que corrompe o país. Visava como modelo político uma monarquia constitucional, aos moldes europeus. Seria necessário que o Imperador fizesse algo para modificar a situação escravista do país. Para Sérgio Buarque de Holanda o Brasil vive em condições patrimonialistas e patriarcais. Foi um país agrário-feudal com condições de servidão. A solução será um acordo entre a burguesia, a oligarquia e a burguesia já que não há uma burguesia nacional jacobina que faça uma revolução e o país tem a necessidade urgente de se industrializar. Bom, você já conseguiu observar um pouco sobre as principais e diferentes análises do Brasil. Certo? 13.2 Intérpretes do Brasil: Joaquim Nabuco Filho da oligarquia de Pernambuco, Nabuco tinha um pai senador anti-escravista, do qual escreveu, em 1954, uma reafirmação de uma lei abolindo o tráfico negreiro, que já tinha sido aprovada (a Lei Eusébio de Queiroz em 1850). Nascido em 1849, depois das revoltas praieiras de Recife, Nabuco faleceu em 1910, em Washington. Durante sua vida, se bacharelou em direito, em São Paulo. Em 1878, foi eleito deputado por Recife. Em 1881, Nabuco viajou para Londres, quando escreveu o livro “O abolicionismo” publicado em 1883. Anos depois, em 1887, foi reeleito deputado, cumprindo seu mandato como defensor da monarquia e também defensor da reforma da monarquia. Se mostrava contra a escravidão e pensava que o processo de abolição deveria ser realizado por distribuição de terras e qualificação profissional, de escola e trabalho, aos ex-escravos. Ou seja, condições para que fossem produtivos por conta própria, tornando-os cidadãos. Título: Joaquim Nabuco Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Joaquim_Nabuco https://pt.wikipedia.org/wiki/Joaquim_Nabuco INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 118 O contexto social em que Nabuco se desenvolvia, nos anos de 1870, demonstrava que o Brasil enfrentava inúmeros problemas: • A grande distância do porto; • Seria necessário a construção de estradas de ferro; • Outro problema seria de que o afluxo de escravos não conseguia suprir a necessidade de força de trabalho e, ainda que os fazendeiros do café defendessem a manutenção da escravidão, essa estaria prestes a ser proibida. Na década de 70 aparece um novo liberalismo, chamado de liberalismo democratizante, com o nome de destaque, Joaquim Nabuco. Aparece também o republicanismo, mas contrário do que se poderia imaginar, era liberal-conservador, muito forte em São Paulo, sendo uma ameaça na época que poderia derrubar a monarquia se for o caso, mas para preservar a economia, na gestão paulista, defendiam o escravismo. Então tem-se um ambiente difícil para os intelectuais, para a cultura brasileira, do qual estes poucos elementos têm que sobreviver. No geral, os intelectuais tendem a viver sob a sombra do poder. Os intelectuais na verdade eram cooptados pelo Estado e ganhavam emprego, prêmios. A rigor, o pensamento político e social estava voltado para a preservação da ordem social e isso implicava em uma distância das classes populares. Portanto, o fato de existir escravidão dificultava demais a geração de intelectuais críticos, além de a igreja católica ser uma instituição muito forte do Estado. ANOTE ISSO Os pontos essenciais para Nabuco eram: • abolir a escravidão, mas fazer a reforma da monarquia, não extinguindo-a; • devido a influência de Stuart Mill (grande papel nas reformas democráticas na Inglaterra), Nabuco entendia que o modelo inglês de sociedade poderia ser aplicado no Brasil; • Fazer reformas na monarquia para que essa se tornasse uma monarquia democratizante, parlamentarista. Ou seja, com a ampliação do estatuto da cidadania; INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 119 Entendemos, portanto, que a análise de Nabuco da sociedade brasileira está muito relacionada com a sociologia positivista, a qual, em nosso país teve uma tendência ao autoritarismo. ANOTE ISSO Observemos, então: • como pensa Nabuco? O movimento abolicionista teria que ganhar força criando uma opinião pública contrária á escravidão, com escritores, militares, poetas; • mas, ao fim das contas, quem pode fazer isso? Só o imperador. Nabuco contava com a figura do imperador. Para ele, o imperador deveria abolir a escravidão e tudo se libertaria, até o próprio imperador estaria liberto, tornando o Brasil uma monarquia republicana, parecido com a Inglaterra e os EUA; • Nabuco pensa em um país de cidadãos, independente da origem, cor, etc., tem um pensamento revolucionário, mesmo que truncado na medida em que se vê preso a ideia de monarquia e de estabilização do poder. 13.3 Intérpretes do Brasil: Sérgio Buarque de Holanda O contexto histórico político que Sérgio Buarque de Holanda escrevia era bastante diferente do contexto em que Joaquim Nabuco esteve inserido. Perceberemos, portanto, muitas diferenças entre esses dois autores. Passados anos, por volta de 1928, a burguesia industrial brasileira era liberal e estava preocupada com seus próprios interesses: propriedade e negócios. Fazia política por meio dos partidos políticos. No entanto, como a pressão por direitos sociais começaram a ficar muito fortes, a burguesia industrial paulista aliou-se ao partido republicano paulista, sob a bandeira do liberalismo,da liberdade individual e contra os direitos sociais que, em suas visões, afetariam a liberdade individual. O que pensava a burguesia brasileira industrial? • Industrializar o país; criar uma sociedade civil urbana industrial, mas continuar com o Estado liberal, fortemente composto de ideia de direitos sociais, direitos de trabalho; • Controlar a força de trabalho a partir do processo produtivo; INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 120 No entanto, na vida prática da burguesia e das oligarquias agrárias o liberalismo não existiu e o projeto do autoritarismo corporativo, ou seja, o de imposição feita aos trabalhadores, como um modo de controlá-los, passou a vingar durante a Era Vargas. Nota-se, portanto, que o liberalismo estava oscilando, às vezes se aproximava da democracia, às vezes do autoritarismo. Nesse momento, as comunicações se expressavam bastante: literatura política e ficção apareciam nas editoras, mas nos anos de 1930 deu um salto, pois, em termos de jornais, revistas, livros, traduções, as publicações eram maiores. Essa mudança pode ser compreendida como a expressão do capitalismo que estava se desenvolvendo em uma sociedade civil que se iniciava. A maior expressão intelectual do liberalismo democrático foi Sérgio Buarque de Holanda. Esse intérprete do Brasil nasceu em 1902 em São Paulo. Título: Sérgio Buarque de Holanda. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A9rgio_Buarque_de_Holanda Em sua formação na área do direito, acabou se interessando muito por estudos literários, além de ter, ao estudar na Alemanha, conhecido a filosofia e a sociologia, que têm autores importantes para sua formação: Kant, Simmel e Weber, além de seu interesse pela historiografia francesa (também com os Annales). No Brasil, ele foi convidado para ser professor na universidade do Distrito Federal e se tornou professor de história, sendo depois também professor na Escola de Filosofia e Política de SP, além de outras universidades. https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A9rgio_Buarque_de_Holanda INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 121 ANOTE ISSO Nesse período, Holanda escreveu seu principal livro, o conhecido “Raízes do Brasil”. Holanda escreve em seu livro de acordo com o método weberiano: • buscando as raízes do processo histórico; • distinção feita entre os diferentes tipos de legitimação; • A busca pelas raízes do Brasil se deve à busca pela identidade nacional, tratando-se de uma identidade de dualidades. Por exemplo, entre o trabalhador e o aventureiro; • Raízes do Brasil – clássico da historiografia e da sociologia - Livro composto por 7 capítulos em que o autor insere um contexto histórico, a busca de uma identidade nacional: “o que é ser brasileiro?” • A resposta é em grande medida psicológica, pois, para o intérprete do Brasil, o brasileiro possui determinadas características psicológicas; no entanto, o português aventureiro no Brasil compõe uma sociedade agrária, rural, que gira em torno da família patriarcal no momento que constrói cidades; • Para o autor, o problema do Brasil é que não havia a separação do público e do privado; • Conceito do “homem cordial”: Para Holanda, essa é uma herança rural e patriarcal. Portanto, o homem cordial é um ser arcaico; • mas, para o autor, o que é cordialidade afinal? São expressões legítimas de um fundo emotivo vinculado à família; o cordial não quer dizer que uma pessoa tem polidez, tem os bons costumes; o brasileiro faz esse papel, mas não tem essa polidez • Cordialidade é falta de regra; não tem norma nenhuma, vale tudo; é o contrário da polidez; • Polidez é a cortesia, civilidade, urbanidade; organização de defesa ante a sociedade; você é um indivíduo conformado, você tem uma individualidade; o homem cordial não tem individualidade, ele é inseguro, ele não sabe bem quem é; ISTO ESTÁ NA REDE No link abaixo você conhecerá um pouco mais sobre a obra de Sérgio Buarque de Holanda e sua importância para compreensão do Brasil. Fonte: https://www.jornaljurid.com.br/colunas/gisele-leite/saga-ingloria-do-homem-cordial https://www.jornaljurid.com.br/colunas/gisele-leite/saga-ingloria-do-homem-cordial INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 122 13.4 Intérpretes do Brasil: Caio Prado Jr. Dos anos 30 até os anos 70, o principal assunto de debate no país era a formação do Estado brasileiro e seu processo revolucionário e de consolidação do capitalismo. A partir dessas análises, é possível trazermos a concepção crítica do importante historiador, que se debruça nas Ciências Sociais, Caio Prado Jr. Título: Caio Prado Jr. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Caio_Prado_J%C3%BAnior Caio Prado Jr. compreendia que a revolução no Brasil deveria se constituir do complexo de transformações em curso ou potenciais que diziam respeito à estrutura econômica, social e política do país que se desenvolviam de forma lenta. ANOTE ISSO Para o autor, o que se encontra é a progressiva transformação do Brasil colônia que vem desde o passado e se constitui do complexo de situações, estruturas e instituições em que ocorreu a colonização brasileira. Vejamos que é “na situação sócio-econômica presente no campo brasileiro que se encontram as contradições fundamentais e de maior potencialidade revolucionária na fase atual do processo histórico-social que o país atravessa.” (PRADO JR., 2014, p.136). No campo, os trabalhadores têm suas reivindicações em torno de emprego, condições mais favoráveis de trabalho, salário, segurança, etc. Para o autor, nessas reivindicações se encontram a transformação da vida dos camponeses com elevação do padrão social e estatuto social. https://pt.wikipedia.org/wiki/Caio_Prado_J%C3%BAnior INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 123 Prado Jr. colocava a questão da terra e a luta pelo campo. Para ele, “os movimentos e agitações que têm por base a reivindicação da terra são de pequena expressão [...]”. (PRADO JR., 2014, p.138). A conclusão de Caio Prado é que a reivindicação e luta pela terra não tem em nosso país a significação revolucionária que pretende atribuir com base na simples teoria. Para o autor, a maioria da população rural brasileira não se constitui e nem se constituiu de camponeses na acepção própria do termo, ou seja, de trabalhadores e produtores autônomos que exploram por sua conta a terra que ocupam. No Brasil, a população se constitui de africanos e descendentes mesclados, diferente dos países andinos e do México, com índios. Portanto, para Prado JR., a luta pela terra não traz nenhuma nova forma de organização capaz de liberar as forças produtivas. Essa luta pela terra ainda não é proposta em primeiro plano nas atuais circunstâncias do processo histórico-social brasileiro. O que o autor pretende não é eliminar nem subestimar o debate, mas retirar a generalidade e vagueza com que está escrito nos programas da esquerda brasileira. Existe um problema agrário no Brasil e o autor verifica isto como a concentração da propriedade rural constitui um dos elementos de grande relevo na compressão dos salários e do padrão do trabalhador rural para outros. ANOTE ISSO Segundo o autor, a luta por melhores condições de vida para os trabalhadores impulsionou o processo de transformação. Deve ser amparado e regularizado por uma política agrária que objetifica o desmembramento e efetive a utilização das grandes propriedades menos produtivas. • Programa: assegurar a efetiva aplicação e promover a ampliação e extensão da legislação rural trabalhista destinada a conceder ao trabalhador empregado um estatuto material e social que seja adequado; • tratar de ampliar os horizontes de trabalho e emprego oferecidos pelas atividades econômicas dopaís para assegurar ao conjunto da população trabalhadora, ocupação e meios de subsistência. O primeiro ponto se refere à mobilização e organização da massa trabalhadora do campo para que ela lute efetivamente pela conquista de seus direitos, pois é a única maneira de assegurar sua ascensão econômica e social, pois esta é a tarefa, segundo o autor. Portanto, a herança colonial ainda faz sentir no essencial os seus principais efeitos, sendo um deles, a hierarquização das categorias sociais com a marginalização de algumas parcelas da sociedade. Os problemas do Brasil se ligam às deficiências orgânicas da própria estrutura econômica e social do país que atingem o conjunto da vida brasileira. “São tais deficiências que se trata de superar. O que implica verdadeira reorganização e reorientação de nossa economia.” (PRADO JR., 2014, p.159). INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 124 AULA 14 INDIVÍDUO E SOCIEDADE: AS MARCAS QUE EXIBIMOS NA NOSSA ATUAÇÃO NA SOCIEDADE Título: Os gêmeos Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Grafito#/media/Ficheiro:OsGemeos.jpg Caro aluno, esse é momento muito importante da nossa disciplina de Introdução à Ciências Sociais, pois estudaremos um pouco mais sobre os conceitos de sociedade, assim como a dicotomia entre indivíduo e sociedade, tão essencial para Ciências Sociais independentemente da área; seja antropologia, sociologia ou a ciência política. Além disso, compreender quais as nossas atuações na sociedade é de grande importância, pois o ser humano interage com o meio em que vive e o transforma, exemplo disso é a grande quantidade de movimentos sociais urbanos e agrários que temos em nosso país e no mundo inteiro, além da transformação de paisagens por meio da arte, da música, poesia, ou até mesmo da nossa atuação profissional. Tudo isso é capaz de transformar um pouquinho da nossa sociedade! Sem mais conversa, vamos desvendar mais sobre esse universo das Ciências Sociais! https://pt.wikipedia.org/wiki/Grafito#/media/Ficheiro:OsGemeos.jpg INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 125 14.1 A relação indivíduo e sociedade Com o passar das nossas aulas verificamos que o grande objetivo das Ciências Sociais é a compreensão do funcionamento da sociedade. Entendemos que a vida em sociedade exige que os indivíduos se conformem e se comportem de acordo com os comportamentos, valores, tradições e culturas socialmente construídas em determinados momentos históricos. É essa relação entre indivíduo e sociedade, um dos temas mais importantes das Ciências Sociais, que possui amplo debate, oriundo desde Marx, Max Weber e Durkheim, mas também desenvolvido por inúmeros autores da antropologia, da sociologia e da Ciência Política. Esses três autores clássicos deixaram as matrizes interpretativas para que outros autores pudessem desenvolver mais sobre essa relação entre indivíduo e sociedade. ANOTE ISTO • Para Durkheim, como já vimos em aulas anteriores, é a sociedade que determina a ação dos indivíduos, sendo isso evidenciado pelos fatos sociais. Durkheim compreende a sociedade como se fosse um organismo vivo. Como se fosse uma máquina em funcionamento. Os indivíduos seriam peças ou órgãos que contribuem para o funcionamento dessa máquina, para o funcionamento dessa ordem. A sociedade seria dotada de uma ordem que direciona os indivíduos para sua manutenção e reprodução, até o seu aperfeiçoamento; • Para Max Weber, a partir da sociologia compreensiva, entendemos que a sociedade é o resultado da ação social dos indivíduos. Weber compreende a sociedade a partir dos tipos fundamentais da ação social, seja ação tradicional afetiva ou racional, assim como a irracional, orientada a valores ou orientada para determinados fins. Dessa forma, entende a sociedade e essa relação entre indivíduo como algo constituído com base sempre na ação individual, ou seja, na ação do indivíduo sobre a sociedade; • Para Marx, a sociedade e os indivíduos são contradições das classes sociais e elas são determinadas de acordo com a formação social e histórica da época, portanto, no feudalismo há uma estrutura determinada e uma relação entre indivíduo e sociedade bastante diferente do que há no capitalismo. Marx vai se diferenciar dessa análise dos outros autores e tem como essencial o conceito de classe social para determinar a relação entre indivíduo e sociedade, pois, para o autor essa relação é determinada conforme a luta de classes acontece. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 126 Além dessas concepções clássicas sobre a relação entre indivíduo e sociedade, a perspectiva das Ciências Sociais contemporânea é bastante ampla. Teremos então a concepção do sociólogo alemão Norbert Elias, também a concepção do sociólogo britânico Anthony Giddens, entre outros autores como Richard Sennett. Compreendemos, portanto, que essa relação entre indivíduo e sociedade são questões muito importantes para compreendermos a questão da construção da identidade e a questão dos direitos sociais, bem como das estruturas que formam a nossa sociedade. 14.2 Sociedade em Eduardo Viveiros de Castro Eduardo Viveiros de Castro é um importante antropólogo brasileiro e atual professor do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Título: Antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Eduardo_Viveiros_de_Castro Em um de seus principais trabalhos, “O conceito de sociedade em Antropologia: um sobrevoo”, o autor analisa criticamente o conceito a partir da dicotomia natureza/ cultura. Primeiramente, sobre natureza e cultura, Viveiros possui uma interpretação muito relevante e crítica a outras escolas antropológicas. Veja abaixo: https://pt.wikipedia.org/wiki/Eduardo_Viveiros_de_Castro INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 127 ‘Sociedade’ e ‘cultura’ vieram ainda dividir o campo estruturado pela oposição jusnaturalista entre ‘(estado de) natureza’ e ‘sociedade (civil)’, com a diferenciação das duas antinomias basilares das ciências humanas, que lhes circunscrevem o campo discursivo e lhes fornecem os problemas característicos: ‘natureza/cultura’ e ‘indivíduo/sociedade’. Ambas remetem para o mesmo dilema de fundo, a saber, o de decidir se as relações entre os termos opostos são de continuidade (solução ‘reducionista’) ou de descontinuidade (solução ‘autonomista’ ou ‘emergente’). (CASTRO, 2002, p.06). É notável no texto de Viveiros de Castro um conhecimento antropológico que parte dos clássicos. Dessa maneira, o autor demonstra como a Escola Francesa trabalha a questão da natureza humana, assim como a Escola Inglesa trabalha com organização social, estrutura social e estrutura de grupos sociais a partir da noção ampla de parentesco. Já a escola culturalista que tem como ícone Franz Boas, trabalha com o conceito de cultura, sendo o principal tema da Antropologia. ANOTE ISTO Em Viveiros de Castro, há dois sentidos de sociedade: • O primeiro é o atributo básico e não exclusivo da natureza humana que está predisposto à vida social e a outras espécies; Nas palavras do autor: a sociedade é uma condição universal da vida humana. Esta universalidade admite uma interpretação biológica ou instintual, e outra simbólicomoral, ou institucional. Assim, a sociedade pode ser vista como um atributo básico, mas não exclusivo, da natureza humana: somos geneticamente predispostos à vida social; a ontogênese somática e comportamental dos humanos depende da interação com seus conspecíficos; a filogênese de nossa espécie é paralela ao desenvolvimento da linguagem e do trabalho (da técnica), capacidades sociais indispensáveis à satisfação das necessidades do organismo. (CASTRO, 2002, p.01). • O segundoparte de uma dimensão constitutiva e exclusiva da natureza humana, que significa viver em sociedade, sendo característica única da espécie humana. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 128 Vejamos que Castro compreende que esse segundo ponto a partir da visão de que a sociedade também pode ser vista como dimensão constitutiva e exclusiva da natureza humana, definindo-se por seu caráter normativo: o comportamento humano torna se agência social ao se fundar, não em regulações instintivas selecionadas pela evolução, mas em regras de origem extra-somática historicamente sedimentadas. (CASTRO, 2002, p.01). O autor ao teorizar sobre regras utiliza um sentido historicamente construído e sedimentado. As regras são o princípio da ação e organização social, portanto, todas as sociedades teriam regras. A noção de ‘regra’, aqui, pode ser tomada em sentido moral e prescritivo-regulativo (como no estrutural-funcionalismo) ou cognitivo e descritivo-constitutivo (como no estruturalismo e na ‘antropologia simbólica’); apesar desta importante diferença, em ambos os casos a ênfase nas regras exprime o caráter instituído dos princípios da ação e da organização sociais. (CASTRO, 2002, p.01). Viveiros vê a sociedade como sinônimo de povo, um tipo de humanidade, um grupo humano que tem a noção de regra (cidadania, autoridade, hierarquia, modos de troca). Os problemas associados à noção de ‘sociedade’ em sentido particular dizem respeito principalmente ao estabelecimento de tipos históricos e morfológicos de sociedade e aos princípios de relação entre eles. (CASTRO, 2002, p.09). Dessa maneira, para o autor, a palavra sociedade expressa um sentido atribuído à cultura, remetendo a características singulares que diferenciam um povo do outro. Viveiros de Castro trabalha a ideia que o social e o cultural estão acima do natural, ou seja, há um processo de continuidades e de rupturas. ANOTE ISTO Portanto, a sociedade é a cultura, o meio em que vivemos, limitados com regras e organização social e a cultura que, para o sociólogo, é o fenômeno humano também terá sentido no conceito de sociedade trabalhado por Viveiros de Castro. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 129 ISTO ESTÁ NA REDE Na reportagem abaixo você pode conhecer um pouco mais sobre o trabalho de Eduardo Viveiros de Castro como antropólogo e também sobre sua concepção de sociedade. “Modelos são, por definição, uma simplificação da realidade. Modelos podem ser usados para entender a realidade (heurística) ou, de forma normativa, para moldar a realidade, o que sempre é uma simplificação violenta sobre o mundo e a vida em sociedade. O modelo normativo impõe e sempre esteve na raiz do projeto modernista de achatar os muitos mundos, de modo a produzir um único nomos global”, explicou Eduardo Viveiros. Fonte:https://www.ufmg.br/90anos/viveiros-de-castro-sociedades-tradicionais-podem-servir-de-exemplo/ 14.3 Comunidade e Sociedade em Tonnies Ferdinand Tonnies foi um importante sociólogo que também refletiu sobre a questão da sociedade, mas a partir da noção de comunidade e sociedade. Seus escritos datam do século XIX, mas ainda possuem demasiada importância para a sociologia e a interpretação do que é sociedade. Nascido no reino da Dinamarca, o autor foi muito apegado ao campo e às frações camponesas, questões que irá apresentar em seus textos. (MIRANDA, 1995). Título: Ferdinand Tonnies. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ferdinand_T%C3%B6nnies https://www.ufmg.br/90anos/viveiros-de-castro-sociedades-tradicionais-podem-servir-de-exemplo/ https://pt.wikipedia.org/wiki/Ferdinand_T%C3%B6nnies INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 130 Tonnies caminhava para a sociologia conforme se interessava pelas obras de Comte, Spencer e de Hume. Trava um debate sobre a questão do marxismo e compreende o capitalismo como uma doença da essência social. Passa, portanto, a divulgar o pacifismo entre as nações e as classes, desenvolvendo uma sociologia muito impactante para a ciência social norte-americana. Sua obra trata sobre a questão da comunidade e da sociedade, de forma que esses dois conceitos, de grande importância, aparecem como uma crítica à modernidade. No entanto, o autor elabora suas reflexões não no sentido de modificar a realidade social, mas no sentido interpretativo para compreender a modernização do ocidente devido ao processo de transição do feudalismo para o capitalismo. ANOTE ISTO Para o autor, a sociedade modificou os laços familiares da comunidade e, na sociedade capitalista, existem ainda formas comunitárias e societárias de convivência. O capitalismo, portanto, é uma formação social baseada na racionalização instrumental e também na vontade arbitrária. A vontade natural que fundamenta a comunidade aparece como uma linhagem romântica, até por conta de sua tradição de apego ao campo e às tradições camponesas.(MIRANDA, 1995). • compreende o capitalismo como uma doença da essência social e como uma crítica à modernidade; Conforme Tonnies pensa a questão da sociedade e da comunidade, é possível ver em sua obra uma recusa da antinomia natureza-história, mas a presença da compreensão sobre os riscos das posições e limites para a construção da Ciência e da própria noção de racionalidade (MIRANDA, 1995, p.27). • Tonnies, assim como Weber (se não lembra, volte para a nossa aula sobre Weber), trabalha com tipos ideais. Os dois principais são os conceitos e noções de comunidade e sociedade; • Comunidade e sociedade: uma forma que o autor interpreta a sociedade burguesa a partir do momento que cria conceitos para se aproximar da realidade. Para tanto, algo de grande relevância em sua obra é a discussão de modernidade capitalista, ainda que na modernidade seja possível ver formas comunitárias e societárias. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 131 ANOTE ISTO • Sociedade é o conjunto das ações; • Capitalismo é uma forma social que reduz as relações comunitárias e a sociabilidade mercantilista; • O capitalismo provoca o desenvolvimento de cidades e as trocas comerciais; • O capitalismo modifica os laços familiares e os planos das relações sociais, de forma que o poder do capital legitima as estruturas do poder patriarcal e do patrimonialismo . O sociólogo compreende e cria os conceitos - através de tipos ideais- de comunidade e sociedade para explicar a vida atual e fazer uma crítica à modernidade burguesa que vive, pois toda a reflexão de Tonnies é para entender o processo de modernização no ocidente. 14.4 Atuação na sociedade: os movimentos sociais urbanos Caro aluno, você já conhece os conceitos de sociedade, comunidade, entre tantos. Como vimos, as Ciências Sociais analisam a sociedade e suas estruturas, bem como as relações políticas, econômicas e culturais. Agora, no momento em que falaremos sobre a atuação na sociedade, é muito importante compreendermos os movimentos sociais urbanos; também um tema de grande importância para as Ciências Sociais e para o conceito de sociedade. ANOTE ISTO Os movimentos sociais urbanos lutam pelos espaços como um direito soberanamente público e coletivo e são verdadeiros exemplos de resistência e de oposição ao sistema vigente, à segregação social e à especulação imobiliária. As grandes cidades formam uma fortaleza e isso impede que muitos residam nos grandes centros e se divirtam, de maneira que há uma segregação à margem periférica e que aos olhos de muitos tornam-se inimigos da ordem social. Diz-se, equivocadamente, que a violência das cidades é decorrente dos bairros pobres e de seus moradores, quando na verdade é a periferia que mais sofre com essa violência, seja a violência da completa ausência das condiçõesbásicas de existência, INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 132 seja a violência da falta de opções, ou a violência do aparato do Estado e do sistema ao qual pertence. As crises urbanas são consequências de um aumento populacional, cuja infraestrutura não acompanha e se torna, assim, defasada. Na cidade ideal, aparentemente sem conflitos e problemas, associa-se a desordem, causada pela infraestrutura ultrapassada e a violência aos pobres e o lugar onde eles vivem. É por esse motivo que, segundo muitos, os conjuntos habitacionais para os pobres localizam-se nas periferias, distanciando os pobres e a sua violência; projetos de ampliação das áreas urbanas visam afastar ainda mais os pobres desordeiros do espaço urbano. Muitos são os movimentos sociais que lutam por direitos sociais, moradias, o direito de ir e vir. Dessa forma, a cidade como direito atribui importância ao espaço, considerando-o fundamental para a compreensão dos processos de luta social e estratégico para as atividades econômicas, políticas, culturais e sociais. É no espaço que ocorrem as lutas que visam uma moradia adequada para todos os seres humanos. ANOTE ISTO Para as ciências sociais, o que é urbano? • Urbano é o espaço que qualifica um modo de vida que contém a maioria da sociedade; • Cidade é uma definição, pois é um projeto de sociedade urbana num local delimitado espacialmente; diferente de urbano. O processo de urbanização, a globalização, as redefinições de apropriação e propriedade do capital e predomínio de corporações financeiras internacionais, acirram e aceleram a desigualdade socioespacial.” (RODRIGUES, 2007, p.4). Segundo Arlete, no final de 1960, num período onde os movimentos sociais urbanos adquirem maior visibilidade, moradores de bairros da periferia, organizados em grupos, se dirigem ao poder local reivindicando iluminação pública, água potável, creches, postos de saúde, postos policiais, financiamento para habitação dos moradores e o direito de se manterem no local em que estão instalados (RODRIGUES, 2007). Vinte anos depois, no final de 1980, os movimentos populares brasileiros ganharam dimensões nacionais. Em consequência da mobilização nacional, diversos municípios INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 133 brasileiros iniciam projetos de aprovação de leis com o objetivo de facilitar o acesso à terra para moradia, todavia, somente em 2001, com o Estatuto da Cidade, as funções sociais da cidade e da propriedade se tornam normatizadas (RODRIGUES, 2007). Como consequência da II Conferência dos Assentamentos Humanos, a Agenda Habitat II determinou como direito humano o direito à moradia, esse como fruto das lutas sociais (RODRIGUES, 2007). Diferente do que acontece, o direito à moradia como direito humano “incluiria o fim de despejos forçados” (RODRIGUES, 2007). • Os avanços da globalização e do neoliberalismo formam o terreno onde verificamos interesses e atuações a favor das classes mais ricas; • Onde o que é público se torna privado; • A cidade e seus lugares, desde as ruas, praças e áreas para se habitar; • A cidade e suas utilidades, como hospitais, ambientes de lazer, escolas e locais de trabalho integram um bem coletivo; A valorização do que é individual em detrimento do que é coletivo expressa um dos principais objetivos da nossa sociedade, que é o lucro. As consequências deste cenário são muitas, e entre elas podemos apontar a crescente desigualdade socioespacial, com a precarização das relações de trabalho. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 134 AULA 15 OS DESAFIOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS NO MUNDO CONTEMPORÂNEO Título: Favela em Jakarta, Indonésia. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Pobreza#/media/Ficheiro:Jakarta_slumlife31.JPG Como já estamos no processo final da nossa disciplina, na aula de hoje nada mais importante do que falarmos sobre um dos principais problemas que encaramos em nossa sociedade: o consumo e a desigualdade. Devido ao fato de vivermos no mundo capitalista, essa realidade é uma das questões mais estudadas nas Ciências Sociais. Dessa forma, a nossa aula tem como objetivo https://pt.wikipedia.org/wiki/Pobreza#/media/Ficheiro:Jakarta_slumlife31.JPG INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 135 principal refletir sobre a questão do consumo e da desigualdade em nossa sociedade. Como em nosso trajeto analisamos autores clássicos e muito importantes das Ciências Sociais, em nossa jornada hoje quem nos acompanhará serão Fredric Jameson e Jean- Jacques Rousseau. Será um autor chamado Jamison e outro autor muito importante para as Ciências Sociais. Espero que você goste muito da nossa aula e que consiga aproveitar um pouco mais sobre as Ciências Sociais, assim como ver a importância no desenvolvimento teórico científico dessa ciência e também para sua vida pessoal e profissional. 15.1 Sociedade de consumo e pós-modernidade Pós-modernidade é um conceito muito importante nas Ciências Sociais, mas pouco estudado. Os casos de pós-modernismos aparecem em sua maioria como reações específicas a formas canônicas da modernidade e se opõem à predominância na universidade, nos museus, etc. O autor Fredric Jameson compreende que são tantas as formas de pós-modernismo quantas forem as formas modernas. As formas pós- modernistas não passam de reações específicas e locais contra os seus modelos. A corrente da pós-modernidade não se fundamenta em si mesma, mas em relação ao próprio modernismo contra o qual ela investe. Outro traço dessa linha de pós-modernismos é a dissolução de algumas fronteiras e divisões fundamentais. Como, por exemplo, o desgaste entre cultura erudita e cultura popular; a cultura de massa. Segundo Jameson (1984), os pós-modernismos têm se fundamentado nessa cultura de massa, principalmente no meio universitário, que engloba seriados, livros de bolso, etc. Este termo não é apenas algo para denominar este conceito, mas é conceito de periodização que tem a função de correlacionar a emergência de novos traços formais na vida cultural com a necessidade de compreender a emergência de uma nova ordem econômica e social, chamada de sociedade pós-industrial, modernização, sociedade de consumo, sociedade do espetáculo ou do capitalismo multinacional. Essa nova fase do capitalismo pode ser datada a partir do crescimento econômico do pós-guerra nos EUA, final dos anos 40, anos 50. Na França, a partir da Quinta República, em 1958. A década de 60 marca esse período de transição que a nova ordem internacional (neocolonialismo, revolução verde, informatização e mídia eletrônica) se funda e é abalada em suas condições internas e externas. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 136 ANOTE ISSO Um dos pontos essenciais trabalhados por Jameson é que a pós-modernidade é capaz de expressar a verdade interior do capitalismo tardio e dessa nova ordem emergente. Um dos fatores que oferecem a especificidade dessa experiência pós- moderna, para o autor, é o pastiche ou paródia. • Pastiche ou paródia envolvem imitação ou mimetismo de outros estilos, particularmente dos maneirismos; • Para o autor, a paródia se aproveita da singularidade destes estilos para incorporar suas idiossincrasias (reagir de modo pessoal) e singularidades ao criar uma imitação que simula o original. A problemática estabelecida por Jameson aparece no sentido da linguagem, pois se cada grupo específico tratar a linguagem à sua maneira, disporemos da diversidade e da heterogeneidade estilísticas. Neste momento, segundo o autor, é quando o pastiche aparece e a paródia se torna impossível. • O pastiche, é como a paródia, a imitaçãode um estilo singular ou exclusivo, a utilização de uma máscara estilística, uma fala em língua morta: mas a sua prática desse mimetismo é neutra, sem as motivações ocultas da paródia, sem o impulso satírico, sem a graça, sem aquele sentimento ainda latente de que existe uma norma, em comparação com a qual aquilo que está sendo imitado é, sobretudo, cômico; (JAMESON, 1984). Há duas correntes: • A primeira que é mais radical e outra não que analisa isto. Vejamos que a primeira corrente diz que na era clássica do capitalismo, com o apogeu da família nuclear e na ascensão da burguesia existia o individualismo, todavia, hoje com o capitalismo corporativo, o homem da organização e de burocracias empresariais estatais, o que existe não é mais o sujeito individual burguês. • A segunda corrente, mais radical, pode ser considerada como pós-estruturalista (lembrem-se das nossas aulas de Antropologia e as escolas antropológicas) e analisa que não existe e nunca existiu um sujeito individual burguês, que isto é um mito e isto não passa de uma mistificação filosófica e cultural para persuadir as pessoas de que elas tinham sujeitos individuais e possuíam uma identidade como pessoa singular. Segundo o autor, não há mais nada para inventar, pois tudo já foi inventado e repetimos então o pastiche, pois tudo que restou foi imitar estilos mortos, falar com máscaras e com as vozes dos estilos do museu imaginário. Entendemos que a emergência da pós-modernidade, para esse autor, está relacionada com o advento do capitalismo avançado, multinacional e consumista. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 137 ANOTE ISSO Portanto, dois traços importantes da pós-modernidade: • a transformação da realidade em imagens, a fragmentação do tempo em uma série de presentes perpétuos; • Existe um modo pelo qual a pós-modernidade repercute e reproduz reiterando a lógica do capitalismo da sociedade de consumo. 15.2 A questão das classes sociais Como vimos nos autores clássicos das Ciências Sociais, há várias interpretações sobre a sociedade e sua lógica estruturante. As concepções são diversas. Agora veremos um pouco da concepção sobre classes sociais e a forma que está relacionada com a desigualdade social. Muitos autores, a partir de um viés crítico, compreendem que as determinações econômicas e políticas se reúnem para além da aparência superficial. Nesse caso, entendem que nas lutas sociais a fraseologia e as pretensões dos partidos e seus interesses podem ser diversos. Entendemos que a representação política não é uma mera manifestação da natureza social, e a luta política das classes não é somente o reflexo de uma essência, ela opera pelas contradições e condensações sociais. ANOTE ISSO • Dessa forma compreendem que as relações de produção se articulam com o Estado. Esse é o lugar onde interferem as relações de classe e o corpo burocrático do Estado. • A relação entre a estrutura social e a luta política é mediada pelas relações de dependência e de dominação entre as nações em escala internacional; • A estrutura social de classe não determina mecanicamente a representação e os conflitos políticos. Vejamos abaixo alguns pontos essenciais sobre o capitalismo e a questão das classes sociais. Os fatores principais são: • No processo de produção capitalista, muitas vezes o trabalhador se porta no trabalho como um castigo; • Sociedade dividida em classes sociais devido ao processo produtivo; • Exploração do trabalho; • Concentração de renda por uma pequena parcela da população. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 138 A mitificação do universo mercantil apresenta as relações sociais como coisas, mas Marx as concebe como relações de conflito, penetra seu movimento íntimo e retira as linhas de polarização das massas, percorre um caminho da totalidade, parte dos enlaçamentos e de suas subversões amorosas ao invés de separar o sujeito do objeto. Existe a ideia de dialética de sua luta ao invés de classes como realidade separáveis. São heterogêneas e desiguais, a consciência é inerente ao conflito que surge com a força do trabalho e resistência à exploração. 15.3 A desigualdade social Em 1749 a Academia de Dijon propôs para prêmio do ano a seguinte questão: Qual a origem da desigualdade entre os homens e será ela permitida pela lei natural? Rousseau resolveu concorrer e publicou a obra em 1755, que apareceu impressa com o título de Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. Segundo alguns pesquisadores da época, o autor estava sob influência da filosofia enciclopédica e das ciências naturais e históricas. O Discurso não foi premiado pela academia. A dedicatória foi uma descrição da cidade dos sonhos de Rousseau e não da própria realidade. O autor instaurou na literatura o mito do selvagem livre, feliz, robusto e puro, com uma superioridade da vida simples na natureza em oposição à vida doentia das cidades, voltando a dar forma no ideal de vida em comunidade. O método de Rousseau é do raciocínio, pois possui rigor lógico nas conclusões hipotéticas, conhece um estado – de natureza - que não existe mais, que talvez nunca tenha existido e não existirá. Esse método está de acordo com outro, do recurso à experiência. O autor afirma que seu Discurso traz o potencial de solucionar o problema do direito natural (Rousseau define direito natural não em função do estado social, mas do homem natural na origem). No Discurso é possível encontrar os dois fundamentos do direito natural: instinto de conservação, que prende o homem a si mesmo, e a piedade, que prende o homem a outro. consiste em reconstruir racionalmente a história humana em lugar de basear-se exclusivamente nos dados da geografia, da erudição e da teologia; por ai pode-se fazer um julgamento dessa história, justificando-a ou condenando-a. (BASTIDE, 1999, p.137). INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 139 No livro de Rousseau o contexto histórico fica muito claro. Ele se refere ao Estado perfeito de Genebra, as condições são divididas por razões morais e políticas. • Por razões morais: virtude individual semelhante com a social, unidade entre os governantes e os governados, a liberdade dos homens. Entende que a lei é para todos e não reconhece privilégios; • Por razões políticas: Direito é algo comum a todos e são os magistrados que propõem as leis. Há também razões de bom clima e solo, mulheres de bons costumes e paz, pastores da religião, entre outros. No prefácio, o autor expõe a ideia geral do Discurso. Dentre eles, o conhecimento do homem é o mais importante de todos. A dificuldade é diferenciar o homem do estado de natureza original, do homem que se transformou. No entanto, há no homem uma bondade original que foi corrompida pela evolução social. Quanto à desigualdade, para Rousseau, existe uma igualdade original inscrita no homem natural, causas físicas produziram as diversas desigualdades que são artificiais. O autor compreende que há uma diferença entre a desigualdade natural ou física, e a desigualdade moral e política. • Rousseau rejeita os conhecimentos sobrenaturais e a evolução biológica do homem, pois compreende que no estado de natureza o homem está constituído biologicamente de acordo com o hoje; • O homem no estado de natureza: organização fisiológica perfeita, necessidades facilmente satisfeitas, capaz de adquirir os instintos dos animais, temperamento robusto e reforçado pela seleção natural que elimina os fracos, é audacioso. • O que nos distingue do animal é a liberdade, posteriormente a faculdade de se aperfeiçoar e também de retroceder; faculdades intelectuais superiores que nascem das faculdades inferiores; • Conclui que a sociabilidade não está inscrita na natureza humana, ohomem não tem necessidade de outro, “O estado de natureza caracteriza-se pela suficiência do instinto, o estado de sociedade pela suficiência da razão.” (BASTIDE, p.142). Para Rousseau, o estado de natureza proporciona mais felicidade do que o estado social, pois o primeiro princípio da moral natural é o instinto de conservação de si mesmo. No estado de natureza a desigualdade é quase nula, e em nenhuma de suas formas possui grande realidade ou influência. Há dois tipos de desigualdade na espécie humana: a física ou natural, que por ser estabelecida pela natureza, consiste nas diferenças de idade, saúde, forças do corpo, qualidade do espírito; e a outra que é a desigualdade moral ou política, compreendida por depender de uma espécie de convenção e estabelecida ou autorizada pelo consentimento dos homens. A segunda consiste nos privilégios de alguns sobre outros. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 140 ANOTE ISSO Primeira forma de desigualdade: • Sobre a desigualdade Rousseau compreende que essa está relacionada com a propriedade. • O progresso da desigualdade está relacionado com a propriedade e suscita a existência da desigualdade que separa os ricos dos pobres desde a formação das primeiras sociedades civis, baseadas em leis; • Primeira causa da desigualdade: o desenvolvimento da metalurgia e da agricultura. Uma das consequências, na análise de Rousseau, foi a cultura das terras e sua divisão, ou seja, a posse contínua por quem as trata, coisa que gera um direito à propriedade. • Ocorre também uma desigualdade dos talentos naturais que é multiplicada pelo rendimento do trabalho, os mais corajosos são os mais ricos, desenvolvem as riquezas, artes e línguas; • Formação da sociedade e das leis: os ricos imaginam dar aos pobres as instituições além das naturais, surge a formação de governantes, associações e a perda da liberdade e do direito natural; • As sociedades começam a se multiplicar e o direito civil mantém a ordem no interior de uma sociedade. ANOTE ISSO Segunda forma de desigualdade: • Magistrados: quando criou os magistrados, a sociedade criou também uma segunda parte de desigualdades, de poderosos; • O primeiro pacto é que os indivíduos se constituem em sociedade e trazem a necessidade de outro pacto que a sociedade criar um governo; • As várias formas de governo estão em função do grau de desigualdade, que com o lucro de um só resulta na monarquia, com lucro de outros, na aristocracia, e com lucro de maior número à democracia. Terceira forma de desigualdade: • O terceiro progresso da desigualdade é o despotismo, pois a modificação do poder legítimo em poder arbitrário provoca o aparecimento da terceira forma de desigualdade: do senhor e do escravo. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 141 ISTO ACONTECE NA PRÁTICA As questões colocadas por Rousseau há muitos anos possuem relação explícita com a nossa sociedade capitalista, fundamentada no lucro e consumo. Com a pandemia, o Brasil e o mundo observaram a desigualdade social, problema retratado por Rousseau, aumentar gradativamente. Na reportagem abaixo é possível ler sobre mais um caso de desigualdade em nosso país. Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-58879411 Concluímos que a desigualdade não é legítima do ponto natural, houve uma alteração da alma e das paixões humanas que transformou a natureza. O homem natural desapareceu gradualmente e cedeu lugar a um agrupamento de homens artificiais. ANOTE ISSO Em um diálogo sobre as sociedades mais simples, Rousseau fala da desigualdade na maneira de viver: o excesso de ociosidade de uns, excesso de trabalho de outros, facilidade de satisfazer as necessidades, ricos com alimentos muito rebuscados, a má alimentação dos pobres, os transportes imoderados, etc., são indícios funestos de que a maioria dos nossos males é obra nossa e que poderia ter sido evitado. Segundo Rousseau, a natureza nos destinou a sermos sãos, e o estado de reflexão é contrário ao estado de natureza, o homem que medita é um animal depravado. Entre a condição selvagem e doméstica, a diferença de homem para homem deve ser maior do que existe de animal para animal. 15.4 Afinal, quais os desafios das Ciências Sociais? Caro aluno, como você estudou ao longo das nossas aulas, com certeza percebeu que muitos são os desafios das Ciências Sociais. E devido a história da humanidade estar sempre em movimento, novas contradições, conflitos, hábitos, costumes, formas de fazer política, cultura, mudanças na economia, entre tantos, mudam as relações políticas e sociais, assim como são possíveis de modificar também as estruturas que regem nossa sociedade. https://www.bbc.com/portuguese/brasil-58879411 INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 142 É dessa forma que não seria possível elencarmos apenas um desafio para as Ciências Sociais, pois são vários e cada vez mais crescentes. Em um mundo cheio de mudanças e muito turbulento, as Ciências Sociais são muito necessárias. Mesmo que você não seja um antropólogo, cientista político, sociólogo ou cientista social, a formação nessa área, mesmo que introdutória, muito te auxiliará em sua trajetória acadêmica e profissional. Portanto, ao nosso ver, o maior desafio atualmente das Ciências Sociais é o de proporcionar uma visão múltipla, interdisciplinar e crítica de sociedade para que você, futuro profissional e pesquisador, seja capaz de possuir uma formação bastante ampla e completa para que consiga intervir diretamente na sociedade. ISTO ESTÁ NA REDE Na matéria abaixo, a professora Arminda do Nascimento Arruda, professora titular do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, define a importância das Ciências Sociais em nossa sociedade. Fonte:https://jornal.usp.br/artigos/tempos-de-pandemia-a-essencialidade-das-ciencias-humanas-sociais-e-das-artes/ https://jornal.usp.br/artigos/tempos-de-pandemia-a-essencialidade-das-ciencias-humanas-sociais-e-das-artes/ INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 143 CONCLUSÃO Caro aluno, chegamos agora ao final da nossa jornada nas Ciências Sociais! Espero que você tenha conseguido apreender todas as nossas aulas. O nosso curso tratou de diversos assuntos e temas que muitas vezes estão presentes no nosso cotidiano, mas que passamos a vê-los como naturais, normais, muitas vezes comuns. É para isto que as Ciências Sociais possuem sua fundamentalidade: entender que muitos dos nossos comportamentos, culturas, formas de organização social, assim como a história e economia são construídas historicamente por meio da relação entre indivíduo e sociedade no processo de construção social. Como vimos ao longo de todo o nosso curso, as Ciências Sociais é uma ciência de grande importância para compreendermos o processo histórico de desenvolvimento de inúmeros países, assim como as formas em que as diversas sociedades, com diversos povos e culturas se estruturam. Sabemos que estudar Ciências Sociais e a nossa sociedade não é tarefa fácil, mas espero ter conseguido facilitar um pouco para você que está iniciando os seus estudos. Espero também que você tenha conseguido compreender e aprender os conteúdos aqui trabalhados. O nosso objetivo principal é passar o pensamento crítico e desvendar os mistérios, as teorias, as metodologias, os autores, e as áreas específicas que se debruçam e que refletem sobre a vida social, tendo conquistado em sua profissão e formação acadêmica um espaço muito importante. Torço para que você consiga chegar ao final da nossa disciplina entendendo as questões que trabalhamos ao longo da nossa jornada. Espero também que você tenha gostado das Ciências Sociais eque a utilize em sua profissão e em seus estudos. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 144 ELEMENTOS COMPLEMENTARES LIVRO Título: Germinal. Autor: Émile Zola. Editora: Seguinte. (Possível encontrar publicado por diversas editoras e na internet para Download). Sinopse: Um dos grandes romances do século XIX, expressão máxima do naturalismo literário, Germinal baseia-se em acontecimentos verídicos. Para escrevê-lo, Émile Zola trabalhou como mineiro numa mina de carvão, onde ocorreu uma greve sangrenta que durou dois meses. Atuando como repórter, adotando uma linguagem rápida e crua, Zola pintou a vida política e social da época como nenhum outro escritor. Mostrou, como jamais havia sido feito, que o ambiente social exerce efeitos diretos sobre os laços de família, sobre os vínculos de amizade, sobre as relações entre os apaixonados. Germinal é o primeiro romance a enfocar a luta de classes no momento de sua eclosão. A história se passa na segunda metade do século XIX, mas os sofrimentos que Zola descreve continuam presentes em nosso tempo. É uma obra em tons escuros. Termina ensolarada, com a esperança de uma nova ordem social para o mundo. Adaptada para leitores jovens, esta edição é complementada por textos de apoio sobre a vida de Zola e sobre o contexto histórico e literário de suas obras. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 145 FILME Título: Nigth Shyamala. Ano: 2004. Sinopse: O filme revela de forma cinematográfica justamente o que Tonnies procura explorar no seu texto; aspectos como o romantismo de viver em comunidade, os laços de fraternidade e claramente o fato de viver em uma comunidade se tornar uma crítica à modernidade. A Vila é um filme norte americano de suspense, de 2004. Em busca de viver melhor, um grupo de pessoas funda uma vila em uma área da Pensilvânia com a expectativa de manter os filhos longe da violência da cidade, entretanto, este local tem por proteção uma floresta – foi gerado um misticismo de que os habitantes da floresta eram seres malignos e misteriosos – e uma jovem cega vai até o outro lado da vila para buscar medicamentos para um rapaz, seu noivo, que foi ferido por uma facada. Todavia, apenas quem guarda os segredos sobre os seres misteriosos da floresta são os anciões. No decorrer do filme fica claro que os anciões criaram este mito para que os jovens amedrontados não saíssem do seu lugar de origem para à cidade. O interessante é que o filme expressa que a história é um processo de rupturas e de continuidades, focando principalmente em como o capitalismo reduz as relações comunitárias. Mesmo na modernidade capitalista existe a possibilidade de “pequenas manchas” de outro tempo, como no filme, onde pessoas criaram um misticismo para manter tal comunidade e não deixar que a sociedade interfira nos distintos valores e na formação social. WEB A Revista Aurora é produzida por discentes de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da Unesp de Marília-SP. Possui diversos artigos científicos escritos e publicados por professores estudantes das Ciências Sociais de todo o Brasil. Há muita coisa interessante!!! <https://revistas.marilia.unesp.br/index.php/aurora/about> https://revistas.marilia.unesp.br/index.php/aurora/about INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 146 REFERÊNCIAS AMES, José Luiz. Metáforas da Ação Política e figuras de Príncipe: Uma tentativa de aproximação conceitual à noção de ação política em Maquiavel. In: SALATINI, Rafael., DEL ROIO, Marcos. (org.) Reflexões sobre Maquiavel. Oficina Universitária; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2014. ARENDT, Hanna. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. BENSAID, Daniel. Marx: o intempestivo: grandezas e misérias de uma aventura crítica. Civilização Brasileira: Rio de Janeiro, 1999. CARNEIRO, Ricardo. Desenvolvimento em crise: a economia brasileira no último quarto do século XX. São Paulo: EDUNESP/IE – UNICAMP, 2002. SINGER, Paul. A crise do “Milagre”. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985. Castro, Celso. Evolucionismo cultural – Texto de Morgan, Tylor e Frazer. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 2005. CASTRO, Eduardo Viveiros de. O conceito de sociedade em antropologia: um sobrevôo., 2002. CAVALCANTE, Zedequias Vieira. SILVA, Mauro Luís Siqueira da. A importância da revolução industrial no mundo da tecnologia. In: Anais Eletrônico VII EPCC – Encontro Internacional de Produção Científica Cesumar CESUMAR – Centro Universitário de Maringá Editora CESUMAR Maringá – Paraná - Brasil, 2011. CONSANI, Cristina Foroni. O conceito de vontade na filosofia política de Rousseau e Condorcet. In: Trans/Form/Ação, Marília, v. 41, n. 1, p. 99-140, Jan./Mar., 2018. DEL ROIO, Marcos. Montesquieu e o Poder Despótico. In: Aurora, Marília, v.10, n. 2 , p. 171-182, Jul./Dez., 2017. DURKHEIM, E. O Suícidio. São Paulo: Martins Fontes, 2000. DURKHEIM, Émile. As formas anormais. In: A divisão do trabalho social. Lisboa: INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 147 e Filosofia. “O que é a Sociologia?”. São Paulo: Difel, 1974. Elias. Norbert. O processo civilizador v.1 -2.ed. -Rio de Janeiro: Jorge ZaharEd., 1994. Ersching, Clevia Bittencurt et al. JEAN-JACQUES ROUSSEAU: UMA SISTEMATIZAÇÃO DOS ARTIGOS SOBRE SUA TEORIA . In: SABERES, Natal RN, v. 1, n. 18, Maio, 2018. FONTANA, Josep. A invenção do progresso In: A História dos homens. Bauru: Editorial Presença, [19--]. Livro terceiro, v. 2, p. 145-207. 62 páginas EDUSC, 2004. FOUCAULT, Michel. Em Defesa da Sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 2016. FOUCAULT, Michel. Nietzsche, a Genealogia e a História. In: ________. Microfísica do poder. 22ª Ed. Rio de Janeiro: Graal, 2006. FOUCAULT, MIichel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. (tradução de Raquel Ramalhete.) 41ª Ed. Petrópolis: Vozes, 2013. 291 p. GOLDMANN, Lucien. Ciências Humanas e Filosofia: o que é a Sociologia? Trad. Lupe Cotrim Garaude; José Arthur Giannotti, Ed. 6. Rio de Janeiro: Difel, 1978. GRAMSCI, A. Quaderni del Carcere. Edizione Critica dell’Istituto Gramsci. A cura di Valentino Gerratana. Roma: IGS, 1977. HOBBES, Thomas, 1588-1679. Leviatã 1 Thomas Hobbes ; organizado por Richard Tuck ; tradução João Paulo Monteiro, Maria Beatriz Nizza da Silva, Claudia Berliner ; revisão da tradução Eunice Ostrensky. - Ed. brasileira supervisionada por Eunice Ostrensky. - São Paulo: Marlins Fontes, 2003. - (Clássicos Cambridge de filosofia política). JAMESON, Fredric. Pós modernidade e sociedade de consumo. In: New Left Review , nº 146, julho-agosto, 1981. KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Editora Perspectiva S.A, 2011. LAPLATINE, François. Aprender Antropologia. São Paulo: ed. Brasiliense, 2003. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 148 LARA, Ricardo. SILVA, Mauri Antonio da. A ditadura civil-militar de 1964: os impactos de longa duração nos direitos trabalhistas e sociais no Brasil. In: Serv. Soc. Soc., vol. 122, Apr- Jun 2015. LARAIA, Roque de Barros. Cultura: Um conceito antropológico. 14ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. Lévi-Strauss, C. (1962). A crise moderna da antropologia. Revista De Antropologia, vol. 10, n.01, 19-26. LIGUORI, Guido. Senso Comum In Dicionário Gramsciano. Boitempo: São Paulo, 2017. p.722-724. Lõwy, Michael. Ideologias e ciência social: elementos para uma análise marxista I Michael Lõwy. -19. ed.- São Paulo: Cortez, 2010. MACHADO, Marília Gabriella. Conselhos de Fábrica e Democracia Operária em Gramsci (1919-1926). 2020. 158 f. Dissertação (Mestrado Acadêmico em Ciências Sociais). – Faculdade de Filosofia e Ciências de Marília, UniversidadeEstadual “Júlio de Mesquita Filho”, Marília, 2020. MACHIAVEL, Nicolau. O príncipe / Maquiavel; com notas de Napoleão Bonaparte e Cristina da Suécia; tradução de Mário e Celestino da Silva – 1. reimpr. – Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2019. 160 p. – (Edições do Senado Federal; v. 248) MAZUCATO, Thiago Pereira da Silva. Florestan Fernandes e a consolidação das ciências sociais no Brasil – da antropologia e sociologia à ciência política. In: Revista Florestan, vol.01, n.01, 2014. MIRANDA, Wandeilson silva de. MIRANDA, Alina Silva Sousa de. A função dA democrAciA no pensAmento de spinozA. In: REVISTA Conatus FilosoFia de spinoza - volume 11 - númeRo 21, 2019. NETO, Antônio Cabral. Democracia: velhas e novas controvérsias In: Estudos de Psicologia, vol. 2, n.2, 1997. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 149 PRADO JÚNIOR, Caio. A revolução brasileira; A questão agrária no Brasil / Caio Prado Júnior; entrevista Chico de Oliveira; posfácio Lincoln Secco e Rubem Murilo Leão Rêgo. — 1a ed. — São Paulo: Companhia das Letras, 2014. REIS, Elisa Pereira., REIS, Fábio Wanderley., VELHO, Gilberto. AS CIÊNCIAS SOCIAIS NOS ÚLTIMOS 20 ANOS: TRÊS PERSPECTIVAS. In: Revista Brasileira de Ciências Sociais, vol.12, n35, 1997. Rezende, Maria José de. A ditadura militar no Brasil : repressão e pretensão de legitimidade : 1964-1984 [livro eletrônico] / Maria José de Rezende. – Londrina : Eduel, 2013. ROCHA, Everardo P Guimarães. O que é etnocentrismo. São Paulo, Brasiliense, 1984, p. 07. RODRIGUES, Arlete Moyses. 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SILVA, Vitor Luiz Carvalho da Adoecimento no trabalho, a metamorfose do trabalhador do campo na cidade e os reflexos da reestruturação produtiva em uma fábrica de confecções têxteis no interior do Estado de São Paulo. Dissertação (mestrado) - Universidade Estadual Paulista (Unesp), Faculdade de Filosofia e Ciências, Marília, 2020. https://www.scielo.br/j/rbcsoc/a/TMdrp9cZXDj8T9fdDqgnFXH/?lang=pt https://www.scielo.br/j/rbcsoc/a/TMdrp9cZXDj8T9fdDqgnFXH/?lang=pt https://www.scielo.br/j/rbcsoc/a/TMdrp9cZXDj8T9fdDqgnFXH/?lang=pt INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 150 SINGER, Paul. Aprender Economia, São Paulo: Brasiliense, 1983. TOCQUEVILLE, Alexis de. A democracia na América: leis e costumes de certas leis e certos costumes políticos que foram naturalmente sugeridos aos americanos por seu estado social democrático / Alexis de Tocqueville; tradução Eduardo Brandão; prefácio, bibliografia e cronologia François Furet. - 2a ed. - São Paulo: Martins Fontes, 2005. - (Paidéia) WEBER, Max. Economia e Sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2015. WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. AMES, José Luiz. Metáforas da Ação Política e figuras de Príncipe: Uma tentativa de aproximação conceitual à noção de ação política em Maquiavel. In: SALATINI, Rafael., DEL ROIO, Marcos. (org.) Reflexões sobre Maquiavel. Oficina Universitária; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2014. ARENDT, Hanna. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. BENSAID, Daniel. Marx: o intempestivo: grandezas e misérias de uma aventura crítica. Civilização Brasileira: Rio de Janeiro, 1999. CARNEIRO, Ricardo. Desenvolvimento em crise: a economia brasileira no último quarto do século XX. São Paulo: EDUNESP/IE – UNICAMP, 2002. SINGER, Paul. A crise do “Milagre”. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985. Castro, Celso. Evolucionismo cultural – Texto de Morgan, Tylor e Frazer. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 2005. CASTRO, Eduardo Viveiros de. O conceito de sociedade em antropologia: um sobrevôo., 2002. CAVALCANTE, Zedequias Vieira. SILVA, Mauro Luís Siqueira da. A importância da revolução industrial no mundo da tecnologia. In: Anais Eletrônico VII EPCC – Encontro Internacional de Produção Científica Cesumar CESUMAR – Centro Universitário de Maringá Editora CESUMAR Maringá – Paraná - Brasil, 2011. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 151 CONSANI, Cristina Foroni. O conceito de vontade na filosofia política de Rousseau e Condorcet. In: Trans/Form/Ação, Marília, v. 41, n. 1, p. 99-140, Jan./Mar., 2018. DEL ROIO, Marcos. Montesquieu e o Poder Despótico. In: Aurora, Marília, v.10, n. 2 , p. 171-182, Jul./Dez., 2017. DURKHEIM, E. O Suícidio. São Paulo: Martins Fontes, 2000. DURKHEIM, Émile. As formas anormais. In: A divisão do trabalho social. Lisboa: e Filosofia. “O que é a Sociologia?”. São Paulo: Difel, 1974. Elias. Norbert. O processo civilizador v.1 -2.ed. -Rio de Janeiro: Jorge ZaharEd., 1994. Ersching, Clevia Bittencurt et al. JEAN-JACQUES ROUSSEAU: UMA SISTEMATIZAÇÃO DOS ARTIGOS SOBRE SUA TEORIA . In: SABERES, Natal RN, v. 1, n. 18, Maio, 2018. FONTANA, Josep. A invenção do progresso In: A História dos homens. Bauru: Editorial Presença, [19--]. Livro terceiro, v. 2, p. 145-207. 62 páginas EDUSC, 2004. FOUCAULT, Michel. Em Defesa da Sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 2016. FOUCAULT, Michel. Nietzsche, a Genealogia e a História. In: ________. Microfísica do poder. 22ª Ed. Rio de Janeiro: Graal, 2006. FOUCAULT, MIichel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. (tradução de Raquel Ramalhete.) 41ª Ed. Petrópolis: Vozes, 2013. 291 p. GOLDMANN, Lucien. Ciências Humanas e Filosofia: o que é a Sociologia? Trad. Lupe Cotrim Garaude; José Arthur Giannotti, Ed. 6. Rio de Janeiro: Difel, 1978. GRAMSCI, A. Quaderni del Carcere. Edizione Critica dell’Istituto Gramsci. A cura di Valentino Gerratana. Roma: IGS, 1977. HOBBES, Thomas, 1588-1679. Leviatã 1 Thomas Hobbes ; organizado por Richard Tuck ; tradução João Paulo Monteiro, Maria Beatriz Nizza da Silva, Claudia Berliner ; revisão da tradução Eunice Ostrensky. - Ed. brasileira supervisionada por Eunice Ostrensky. - São Paulo: Marlins Fontes, 2003. - (Clássicos Cambridge de filosofia política). INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 152 JAMESON, Fredric. Pós modernidade e sociedade de consumo. In: New Left Review , nº 146, julho-agosto, 1981. KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Editora Perspectiva S.A, 2011. LAPLATINE, François. Aprender Antropologia. São Paulo: ed. Brasiliense, 2003. LARA, Ricardo. SILVA, Mauri Antônio da. A ditadura civil-militar de 1964: os impactos de longa duração nos direitos trabalhistas e sociais no Brasil. In: Serv. Soc. Soc., vol. 122, Apr- Jun 2015. LARAIA, Roque de Barros. Cultura: Um conceito antropológico. 14ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. Lévi-Strauss, C. (1962). A crise moderna da antropologia. Revista De Antropologia, vol. 10, n.01, 19-26. LIGUORI, Guido. Senso Comum In Dicionário Gramsciano. Boitempo: São Paulo, 2017. p.722-724. Lõwy, Michael. Ideologias e ciênciasocial: elementos para uma análise marxista I Michael Lõwy. -19. ed.- São Paulo: Cortez, 2010. MACHADO, Marília Gabriella. Conselhos de Fábrica e Democracia Operária em Gramsci (1919-1926). 2020. 158 f. Dissertação (Mestrado Acadêmico em Ciências Sociais). – Faculdade de Filosofia e Ciências de Marília, Universidade Estadual “Júlio de Mesquita Filho”, Marília, 2020. MACHIAVEL, Nicolau. O príncipe / Maquiavel; com notas de Napoleão Bonaparte e Cristina da Suécia; tradução de Mário e Celestino da Silva – 1. reimpr. – Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2019. 160 p. – (Edições do Senado Federal; v. 248) MAZUCATO, Thiago Pereira da Silva. Florestan Fernandes e a consolidação das ciências sociais no Brasil – da antropologia e sociologia à ciência política. In: Revista Florestan, vol.01, n.01, 2014. INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 153 MIRANDA, Wandeilson silva de. MIRANDA, Alina Silva Sousa de. A função dA democrAciA no pensAmento de spinozA. In: REVISTA Conatus FilosoFia de spinoza - volume 11 - númeRo 21, 2019. NETO, Antônio Cabral. Democracia: velhas e novas controvérsias In: Estudos de Psicologia, vol. 2, n.2, 1997. PRADO JÚNIOR, Caio. A revolução brasileira; A questão agrária no Brasil / Caio Prado Júnior; entrevista Chico de Oliveira; posfácio Lincoln Secco e Rubem Murilo Leão Rêgo. — 1a ed. — São Paulo: Companhia das Letras, 2014. REIS, Elisa Pereira., REIS, Fábio Wanderley., VELHO, Gilberto. AS CIÊNCIAS SOCIAIS NOS ÚLTIMOS 20 ANOS: TRÊS PERSPECTIVAS. In: Revista Brasileira de Ciências Sociais, vol.12, n35, 1997. Rezende, Maria José de. A ditadura militar no Brasil : repressão e pretensão de legitimidade : 1964-1984 [livro eletrônico] / Maria José de Rezende. – Londrina : Eduel, 2013. ROCHA, Everardo P Guimarães. O que é etnocentrismo. São Paulo, Brasiliense, 1984, p. 07. RODRIGUES, Arlete Moyses. A cidade como direito. Porto Alegre, 28 de maio - 1 de junho de 2007. Artigo científico. ROSSO, Sadi Dal., BANDEIRA, Lourdes Bandeira., COSTA, Arthur Costa. Pluralidade e Diversidade das Ciências Sociais: uma contribuição para a epistemologia da ciência. In: Sociedade e Estado, Brasília, v. 17, n. 2, p. 231-246, jul./dez. 2002. ROUSSEAU, J. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. In: Jean-Jacques Rousseau (a vida e a obra). Org. BASTIDE, P. Rio de Janeiro: Globo. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens; Discurso sobre as ciências e as artes –Tradução de Lourdes Santos Machado. Introdção e notas de Paul Arbousse-Bastide e Lourival Gomes Machado. São Paulo: Nova Cultural, 1999. (Coleção Os pensadores). https://www.scielo.br/j/rbcsoc/a/TMdrp9cZXDj8T9fdDqgnFXH/?lang=pt https://www.scielo.br/j/rbcsoc/a/TMdrp9cZXDj8T9fdDqgnFXH/?lang=pt https://www.scielo.br/j/rbcsoc/a/TMdrp9cZXDj8T9fdDqgnFXH/?lang=pt INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROF. MARÍLIA GABRIELLA BORGES MACHADO FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 154 SILVA, Fernando Teixeira da. História e Ciências Sociais: zonas de fronteira. In: HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.1, P.127-166, 2005. SILVA, Vitor Luiz Carvalho da Adoecimento no trabalho, a metamorfose do trabalhador do campo na cidade e os reflexos da reestruturação produtiva em uma fábrica de confecções têxteis no interior do Estado de São Paulo. Dissertação (mestrado) - Universidade Estadual Paulista (Unesp), Faculdade de Filosofia e Ciências, Marília, 2020. SINGER, Paul. Aprender Economia, São Paulo: Brasiliense, 1983. TOCQUEVILLE, Alexis de. A democracia na América: leis e costumes de certas leis e certos costumes políticos que foram naturalmente sugeridos aos americanos por seu estado social democrático / Alexis de Tocqueville; tradução Eduardo Brandão; prefácio, bibliografia e cronologia François Furet. - 2a ed. - São Paulo: Martins Fontes, 2005. - (Paidéia) WEBER, Max. Economia e Sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2015. WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. _heading=h.ymviim26di64 _heading=h.i0t5smmepicy _heading=h.g8xt7tbugsjf _heading=h.vxe8yjltsrck _heading=h.i9swc6itet42 _heading=h.e1wy4qvs5vas _heading=h.kdk95hbrojpv _heading=h.d08j5yuzxjbl _heading=h.mkwftlt760it _heading=h.zeh8gkl4hufj _heading=h.l8cu2al8baez _heading=h.d4z8d5bmdhvz _heading=h.mxir9untokdl _heading=h.rn5nifcyxtmk _heading=h.72unpqe6gn8t _heading=h.p9rr24t05ila _heading=h.p3d55w76b8zf _heading=h.u99oyy8w5spq _heading=h.2ot2a6cz4dpg _heading=h.segx7mcc1v6c _heading=h.tmavuo37bado _heading=h.623mbao95ct4 _heading=h.zi7c2aqk6mra _heading=h.3fcj03flsd4y _heading=h.9umeu2ple9h8 _heading=h.gjdgxs _heading=h.2wflqvj0mdy1 _heading=h.yburhuiovgvo _heading=h.8pfzpufut4kr _heading=h.lvazc4rb2yup _heading=h.30j0zll _heading=h.1fob9te _heading=h.sz28pguz9w0f _heading=h.gm7rcyozhmob _heading=h.xw4lfwihuu8f _heading=h.lw7o9j7ipg0o _heading=h.4vf1en2tcuw7 _heading=h.goamexyaefhb _heading=h.r2yymx43eiey _heading=h.wv8ui8jltefv 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Objetivos, metodologia e importância A antropologia e seus autores A sociologia e seus autores A Ciência Política e seus autores Consolidação das Ciências Sociais como campo de pesquisa e conhecimento Temas das Ciências Sociais: a divisão social do trabalho TEMAS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS: AS FORMAS DE PODER AUTORITÁRIAS E DITATORIAIS Tema das Ciências Sociais: as formas de poder democráticas e revolucionárias Temas das Ciências Sociais: o que é Cultura ? Temas das Ciências Sociais: senso comum e ideologia Temas das Ciências Sociais: a questão da economia Temas das Ciências Sociais: a questão da história A análise do Brasil a partir das Ciências Sociais Indivíduo e sociedade: as marcas que exibimos na nossa atuação na sociedade Os desafios das Ciências Sociais no mundo contemporâneo