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MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO RIO DE JANEIRO INSTITUTO DE VETERINÁRIA DEPARTAMENTO DE MICROBIOLOGIA E IMUNOLOGIA VETERINÁRIA (DMIV) MICROBIOLOGIA GERAL Sergio Gaspar de Campos Francisco de Assis Baroni Miliane Moreira Soares de Souza Irene da Silva Coelho Shana de Mattos de Oliveira Coelho 2014 Registro ISBN 93.675 2 Dr. Sergio Gaspar de Campos, Médico Veterinário. Prof. Associado DMIV, Microbiologia Geral, Microbiologia Básica, Micologia Veterinária. Colaboradores: Dr. Francisco de Assis Baroni, Médico Veterinário. Prof. Associado DMIV, Microbiologia Geral, Microbiologia Básica, Micologia Veterinária. Dr.ª Miliane Moreira Soares de Souza, Médica Veterinária. Prof.ª Associada DMIV, Bacteriologia Veterinária, Microbiologia Geral, Microbiologia Básica. Dr.ª Irene da Silva Coelho, Agronoma. Prof.ª Adjunta DMIV, Microbiologia Geral. Dr.ª Shana de Mattos de Oliveira Coelho, Bióloga. Prof.ª Adjunta DMIV, Microbiologia Geral, Microbiologia Básica. Departamento de Microbiologia e Imunologia Veterinária – Instituto de Veterinária Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro Sala 78 do Instituto de Veterinária, BR 465, km7, 23897-000, Seropédica, RJ, Brasil. UFRRJ – Imprensa Universitária Quarta Edição 2014 Registro ISBN 93.675 3 PREFÁCIO Primeira Edição A Biologia é o estudo da vida; as vidas microscópicas são estudadas pela Microbiologia. Segundo Carl Lamanna não deveria existir o termo microbiologia porque não existe uma macrobiologia. Devido a diversidade de características dos microrganismos é difícil reconhecer a microbiologia como ciência separada, são poucos os que intitulam-se “microbiologistas”, preferindo a maioria a especialização em determinados grupos: Virologia/ Virologistas; Bacteriologia/ Bacteriologistas; Micologia/ Micologistas, etc. Visando facilitar o entendimento dos elementos básicos necessários a cada uma dessas divisões da microbiologia, reunimos aqui, idéias atualmente aceitas e experiências diárias nos laboratórios. Isso, com certeza, facilitará o estudo microbiológico tão dificultado pela falta de bibliografia atual e, por fatores que fogem a nossa competência. UFRRJ, 1990. Sergio Gaspar de Campos Segunda Edição Os desafios continuam entre o conhecimento e o desenvolvimento de microrganismos; a cada dia mais se exige para a sua correta identificação. De técnicas tradicionais a sofisticações exigidas para atualizar-se o DNA ou RNA como fator de identificação segura, o mundo científico mobiliza-se na busca incessante do controle microbiológico, diminuindo assim os riscos a vida sobre nosso planeta. Mais uma vez, passamos nossas experiências ao papel na tentativa de colaborar com o entendimento da microbiologia e, munindo os alunos seja de que área for, de elementos necessários exigidos nas rotinas laboratoriais microbiológicas. UFRRJ, 2003. Sergio Gaspar de Campos Terceira Edição A atualização constante dos conhecimentos em microbiologia são requisitos indispensáveis ao correto estudo dos microrganismos. As carreiras antigas e muitos dos novos cursos criados agora, tem na microbiologia um de seus pilares para a aplicação dos conhecimentos e a plena atividade do profissional beneficiando a sociedade no denominador comum que é a saúde pública. Assim, esperamos que cada um se conscientize da importância do presente estudo e, possa beneficiar-se do mesmo em sua profissão. UFRRJ, 2010. Sergio Gaspar de Campos Registro ISBN 93.675 4 Quarta Edição A ciência continua e a microbiologia evolui; novas tentativas para entendimento do mundo microbiano levam a técnicas cada vez mais sofisticadas exigindo dos profissionais, cada vez mais conhecimentos que possam embasar e garantir as identificações de gêneros e espécies. Segue nossa contribuição para o início do entendimento de grande mundo microscópico. UFRRJ, 2014. Sergio Gaspar de Campos Registro ISBN 93.675 5 Índice Introdução à Microbiologia 06 Segurança no Laboratório de Microbiologia 10 Materiais de Uso Freqüente no Laboratório de Microbiologia 15 Limpeza e Preparo do Material de Uso no Laboratório de Microbiologia 20 Uso do Microscópio 23 Nutrição Microbiana 27 Princípios de Esterilização em Microbiologia 37 Noções de Crescimento Microbiano 43 Influência do Ambiente Químico Sobre os Microrganismos 55 Influência do Ambiente Físico Sobre os Microrganismos 63 Isolamento de Bactérias 68 Estudo Bacteriano 71 Técnicas Para o Preparo de Lâminas Para a Visualização de Bactérias 75 Estudo dos Fungos 80 Virologia 87 Isolamento de Microrganismos 101 Metabolismo Microbiano 108 Fatores de Virulência, Toxinas Bacterianas e Toxinas de Fungos 115 Genética Microbiana 130 Princípio de Caracterização e Identificação de Microrganismos 152 Ecologia microbiana 165 Transformações Biogeoquímicas na Biosfera 178 Microrganismos e mudanças climáticas 192 Conceito de Saúde Única (“One Health”) 198 Bibliografia Recomendada 203 Catálogos 204 Apêndice 205 Partes de Um Microscópio 205 Morfologia Bacteriana - esquemas 206 Morfologia de Fungos – esquemas e fotos 210 Teste Bioquímicos 233 Registro ISBN 93.675 6 INTRODUÇÃO À MICROBIOLOGIA A Biologia é o estudo da vida; as vidas microscópicas são estudadas pela Microbiologia. Segundo Carl Lamanna não deveria existir o termo microbiologia porque não existe uma macrobiologia. Devido à diversidade de características dos microrganismos é difícil reconhecer a microbiologia como ciência separada; são poucos os que se intitulam “Microbiologistas”, preferindo a maioria a especialização em determinados grupos: Bacteriologistas, Micologistas, Virologistas, etc. Devido à necessidade do homem manter-se vivo sobre a terra, a Microbiologia Médica é a mais desenvolvida. A cada dia novas técnicas e novos aparelhos tentam identificar novos microrganismos e muitos conceitos se modificam, notadamente em nossos tempos na virologia. Os microrganismos podem ser utilizados na produção de alimentos (iogurte, fermento biológico, etc.), bem como, desenvolver-se neles, produzindo substâncias indesejáveis como as toxinas; participam ainda na produção de uma infinidade de compostos como antibióticos, enzimas, etc., sendo de competência da Microbiologia de alimentos e da Microbiologia Industrial. De vital importância também é a Microbiologia da água e do ar, pois, muitos microrganismos podem ser veiculados através das águas superficiais, principalmente as contaminadas com matéria orgânica e através do ar, notadamente os fungos filamentosos. Estudos modernos pesquisam uma série de microrganismos visando o controle biológico de insetos, podendo num futuro próximo substituir o uso de pesticidas extremamente tóxicos à saúde humana e animal. A Microbiologia do solo torna-se extremamente importante na manutenção da ecologia, uma vez que procura estudar a atuação dos microrganismos na natureza, determinando seus ciclos biogeoquímicos de transformação das matérias e mecanismos para manutenção do equilíbrio na superfície da terra, o que proporciona maior fertilidade aos solos. Os últimos acontecimentos mostraram o desenvolvimento de uma “Microbiologia da guerra”, ondea utilização de microrganismos e/ou suas toxinas são destinadas à destruição em massa de populações, pondo em risco a sobrevivência da humanidade. Com base no futuro e em estudos atuais, a Microbiologia espacial visa à detecção de microrganismos em outros mundos e testar microrganismos Registro ISBN 93.675 7 conhecidos em ambientes livres de gravidade, o que, preliminarmente, parece favorecer o desenvolvimento dos mesmos e a produção de compostos de melhor qualidade. Muito se fala e pouco se sabe realmente sobre a origem da vida. Ao contrário dos homens e animais, os microrganismos não deixaram vestígios ósseos para uma avaliação relativamente segura do tempo de seu aparecimento na terra. Das várias teorias da origem da vida separamos os dois extremos para discussão. A teoria dos esporos de organismos simples, vindos do espaço, torna-se praticamente inviável devido às barreiras que existem entre os planetas (radiações, etc.), a não ser que, para quem crê em “Eram os Deuses Astronautas”, tais esporos viessem protegidos dentro de uma nave espacial, povoando a terra nos períodos de sua formação. A teoria mais lógica e, portanto, mais aceita é a de Haldane e Oparin, na qual a matéria orgânica teria sido formada por reações fotoquímicas devido ter sido a atmosfera da terra pré-histórica constituída diferentemente da atual. Por algum motivo parte dessa matéria orgânica passou a ter capacidade de duplicação e desenvolveu-se utilizando a própria matéria orgânica formada. Neste momento foi formado o primeiro organismo vivo. Com a modificação da atmosfera terminaram as reações fotoquímicas e a matéria orgânica foi acabando, o que forçou o desenvolvimento da fotossíntese pelos primeiros microrganismos. A Microbiologia demorou muito a se desenvolver por uma série de fatores. Haviam desconfianças quanto a quem e como eram produzidas as doenças no homem e animais mas, nada era realmente comprovado. Conhecia-se a doença e se sabia que algumas coisas e o próprio ambiente poderia levar uma pessoa ou animal a ficar doente também. Os termos “contagium e miasma” vieram dessa época. “Contagium” referia-se a algo que saía do doente e causava a mesma doença em alguém sadio e, “miasma” a algo que estava no ambiente e também levava à doença. Assim o termo malária significava ambientes de “mau ar”, bem como, influenza referia-se a ambientes que influenciavam levando a quadros característicos como os da gripe de nossos dias. Em 1546, mesmo sem conhecer o que era um microrganismo, Hieronymus Fracastorius postulou “Contagium per contactum per formitem et ad distans”; poderia haver contaminação pelo contato direto com um doente, pelo uso de utensílios comuns do doente ou, mesmo à distância. Registro ISBN 93.675 8 Muito se falava e nada se visualizava, até que alguns curiosos deparam-se com um mundo novo: minúsculas vidas. Existem algumas citações de que o primeiro microrganismo teria sido visualizado por um frade mas, como não ficaram documentos que comprovassem essa façanha, os méritos são depositados a Mynherr Antony van Leewenhoek, holandês que tinha como passa-tempo tornar visível o invisível lapidando e polindo lentes de vidro. Com o passar do tempo conseguiu montar um “microscópio” que apesar de rudimentar, conseguia visualizar seres minúsculos em água estagnada e em outros materiais, o que era impossível de se crer pois se conhecia como vivos os homens, animais e vegetais, e certamente não caberiam milhares de vidas em uma pequena gota. Desta maneira criou-se o termo animálculos para estes seres descobertos. Segundo a história, de 1665 a 1718, Leewenhoek preencheu sete volumes de livros com suas observações microscópicas. Os esquemas dessas observações foram apreciados pela “Real Sociedade Inglesa de Ciência”. Com a nova descoberta, novos pesquisadores seguiram este caminho e, em 1762 Plencis atribuiu aos “animálculos” a causa específica de doenças. Para explicar o aparecimento dos micróbios desenvolveu-se a teoria da “geração espontânea”; tais microrganismos poderiam surgir do nada como o que ocorria com infusos de carne expostos ao ambiente. Em 1776, Spallanzani tentou acabar com esta polêmica, fervendo os infusos de carne por longo tempo, fechando a seguir os gargalos das vidrarias com algodão. Desta forma o material permanecia sem o aparecimento de formas de vida. Mas, o esforço durou pouco. Os defensores da teoria diziam que a rolha de algodão impedia a entrada de oxigênio suficiente ao nascimento dos organismos e, a geração espontânea voltou à discussão. Pasteur conseguiu em 1861 acabar de vez com esta teoria usando para tanto ferver os infusos de carne em balões de vidro e, em seguida, tornando o gargalo do mesmo sinuoso. O infuso de carne ficou em contato direto com o ar sem se turvar, sem o aparecimento dos “animálculos”. Só em 1878 é que surgiu o termo “micróbio” denominando as vidas microscópicas descobertas. A cada estudo feito novas descobertas e novos problemas foram sendo criados. Tais micróbios ora apresentavam características de animais, ora de vegetais. Como classificá-los então?. Só se conhecia nessa época dois reinos: Reino Animal e Reino Registro ISBN 93.675 9 Vegetal. Em 1866, o zoólogo alemão Haeckel propôs a criação do 3o Reino, denominado de Protista. Comporiam este reino as Bactérias, os Fungos, as Algas e os Protozoários. Mas os estudos mostraram que havia diferença estrutural entre alguns microrganismos com relação ao tipo celular: a maioria tinha célula eucariótica (com núcleo individualizado por membrana e organização celular) e, um pequeno grupo célula procariótica (material genético disperso no citoplasma). Ao final, os protistas ficaram compostos por: Bactérias, Cianobactérias (antigamente denominadas algas cianofícias) e Arqueobactérias (um grupo extremamente rudimentar de bactérias, provavelmente o grupo mais primitivo de organismo na terra), com célula procariótica e, Fungos, Algas e Protozoários com célula eucariótica. Existe ainda a possibilidade de desmembramento dos Mixomicetos dos Fungos. Mais recentemente em 1969, Whittaker propôs a criação de cinco Reinos, baseando-se em estudos de evolução: o Reino primitivo seria o Reino Monera, que por evolução de seus constituintes (bactérias) passariam ao Reino Protista, constituído pelos protozoários. Caso esses por evolução fizessem fotossíntese, passariam ao Reino Plantae; se fizessem absorção de alimentos através de membranas, passariam ao Reino Fungi, e se fizessem ingestão, passariam ao Reino Animalia. Registro ISBN 93.675 10 SEGURANÇA NO LABORATÓRIO DE MICROBIOLOGIA Embora os microrganismos ditos “saprófitas” sejam considerados inofensivos ao homem e animais, a sua manipulação no laboratório envolve, geralmente, uma grande massa desses indivíduos, resultado daí o seu perigo potencial. O emprego correto das técnicas de assepsia, procedimentos e manuseio de utensílios e equipamentos evitará contaminações ao ambiente laboratorial e ao laboratorista, inclusive quando o trabalho for com microrganismos conhecidamente patogênicos. Em geral as fontes de infecção mais comuns no laboratório são os aerossóis, minúsculas gotas de água formadas pelo esguicho de líquidos, como por exemplo no uso de pipetas, no vibrar da alça de platina ou pela evaporação brusca de uma suspensão, que podem carrear microrganismos para o ambiente. Essas gotículas permanecem suspensas no ar por longos períodos e podem, ocasionalmente, ser inaladas ou se depositarem na pele e mucosas, podendo ser ponto de partida para infecção. A quebra de vidraria e o derramamento de culturas em meio líquido podem também resultar em infecção nos olhos e na pele, enquanto que a ingestão de microrganismos é mais comum na “pipetagem” incorreta de culturas e suspensões de microrganismos.Qualquer acidente que ocorra, por mais banal que lhe pareça, deve ser imediatamente comunicado ao professor. A segurança de todos no laboratório de aulas práticas de microbiologia depende do grau de obediência a itens como: 1. É obrigatório o uso de jaleco ou guarda-pó sempre que estiver trabalhando no laboratório; ele evitará contaminação da roupa com culturas e o protegerá contra respingos de corantes e outras substâncias químicas. As roupas deverão cobrir todas as áreas expostas do corpo e, os calçados deverão ser fechados. Registro ISBN 93.675 11 2. Evite mexer em qualquer objeto sem a permissão do professor. 3. Providencie para que o menor corte ou erosão da pele, de partes expostas do corpo, estejam protegidas antes de iniciar os trabalhos no laboratório. 4. Não leve a mão à boca, quer seja para comer ou fumar; tome cuidado com os olhos afim de evitar respingos de material contaminado. 5. Nunca utilize a vidraria do laboratório para ingerir alimentos ou beber água. 6. Tome cuidado para que a chama do bico de Bunsen não atinja os cabelos ou pele; em caso de acidente procure imediatamente o professor. 7. O vidro aquecido tem o mesmo aspecto de um vidro frio, portanto nunca segure o tubo de ensaio pela extremidade superior, mas sempre do meio do tubo para a base onde certamente estará frio. 8. A rolha de algodão pode pegar fogo num descuido quando da flambagem, neste caso segure o tubo de ensaio pela base e molhe a rolha imediatamente. Caso a rolha esteja na mão, coloque-a no frasco destinado a lâminas usadas. 9. Em caso de queimaduras, comunique imediatamente ao professor. As queimaduras localizadas e sem gravidade serão tratadas com água gelada imediatamente, afim de não criar bolhas no local e evitar a dor. 10. Comunique imediatamente ao professor a quebra de qualquer utensílio de vidro para que possa ser providenciada uma eventual desinfecção local. 11. Cortes nas mãos ou nos braços, não muito profundos, devem ser lavados com água corrente. Verifique se não há estilhaços de vidro ou corpo estranho no ferimento. Pressione o corte com a palma da mão ou com os dedos sobre uma atadura, isso evita a perda de sangue sem interferir na circulação normal. Numa emergência podemos comprimir o ferimento até que se consigam as compressas. Se possível eleve o ferimento acima do nível do coração, isso diminuirá a pressão sangüínea ao nível da lesão e facilitará a formação do coágulo: nunca retire a atadura embebida em sangue para Registro ISBN 93.675 12 colocar ou seca. Coloque novas ataduras por cima das anteriores a fim de não romper o coágulo já formado no ferimento. 12. Não esguiche o conteúdo de pipetas, deixe o líquido escorrer naturalmente ou sob leve pressão, assim não haverá produção de aerossóis. 13. Jamais se desloque do lugar conduzindo objetos perfurantes, tais como pipetas e alça de platina; estes objetos deverão ser deixados sobre uma estante ou suporte imediatamente após o seu uso. 14. A ingestão acidental de culturas deve ser comunicada imediatamente ao professor. Se for necessário será instituída uma terapia com antibióticos pelo serviço médico. 15. Não permita que outra pessoa desvie sua atenção quando estiver manipulando microrganismos. 16. Quando executar repicagens assegure-se de que os instrumentos utilizados tenham sido adequadamente esterilizados antes e depois dos procedimentos. Caso a alça de platina esteja coberta com material gorduroso ou líquido, seque alguns instantes ao lado da chama e em seguida leve à chama redutora e depois na chama oxidante até o rubro. Isso evitará aspersão de microrganismos pelos respingos do material (aerossóis). 17. Não é permitido abrir ou cheirar recipientes contendo culturas, salvo quando for autorizado pelo professor. 18. As lâminas de microscopia já usadas em preparações vivas ou fixadas, devem ser colocadas imediatamente após o uso em frascos com desinfetante. 19. As pipetas usadas também devem ser colocadas em recipientes próprios com desinfetante, imediatamente após o uso. 20. Nunca derrame culturas vivas no esgoto; esse material deverá ser submetido à esterilização antes de ser descartado. 21. Não é permitido fumar dentro do laboratório, o manuseio de microrganismos poderá contaminar o filtro do cigarro que, entrando em contato com a mucosa oral facilitará um processo infeccioso. Por outro lado, Registro ISBN 93.675 13 a fumaça do cigarro embaçará com o tempo os espelhos e lentes dos microscópios, diminuindo seu poder de resolução. 22. Antes de deixar o laboratório faça a antissepsia das mãos lavando-as com álcool iodado, em seguida com água e sabão, secando-as na tolha e passando uma segunda camada de álcool iodado, secando-as desta vez ao ar. Caso não possa usar iodo, pode ser feito o procedimento com o álcool puro. Certifique-se de que as torneiras de gás foram fechadas e se os aparelhos elétricos desligados. Caso seja alérgico ao iodo, poderá ser utilizado apenas o álcool ou clorexidine. 23 . Nunca entre em pânico. Níveis de Biossegurança (NB) Para Microrganismos (Requisitos para trabalho com agentes patogênicos). Os níveis de biossegurança (NB) tem um grau crescente, proporcionalmente à dificuldade de se conseguir um nível de proteção contra um determinado microrganismo. NB1 – Trabalham com microrganismos da classe de risco 1, que normalmente não causam doenças em seres humanos ou em animais manipulados em laboratório. Ex. Bactérias: Bacillus thuringiensis, Fungos: Helminthosporium sp, Tricoderma harzianum, etc. NB2 – Trabalham com microrganismos da classe de risco 2, os quais são capazes de causar doenças em seres humanos e animais de laboratório sem, entretanto, apresentar risco grave. Não são transmissíveis pelo ar e, permitem tratamento efetivo e medidas preventivas. Risco pequeno de contaminação. Ex Vírus: Dengue, Hepatite. Bactérias: Aeromonas sp, Bacillus cereus, Enterobacter cloacae, Escherichia coli. Fungos: Acremonium spp, Aspergillus spp, Cryptococcus neoformans, Candida spp, Sporothrix schenckii, etc. Registro ISBN 93.675 14 NB3 – Trabalham com microrganismos da classe de risco 3, os quais são capazes de causar doenças em seres humanos e animais, representando um risco de disseminação para a população, existindo ainda medidas de tratamento e prevenção. Há necessidade de contenção para impedir a veiculação pelo ar. Ex. Vírus: HIV, HTLV, Febre Amarela. Bactérias: Brucella, Mycobacterium tuberculosis, Yersinia pestis, etc. NB4 – Trabalham com microrganismos da classe de risco 4, os quais são capazes de causar graves ou letais doenças aos seres humanos e animais, com fácil transmissão, não existindo medidas preventivas e de tratamento contra o microrganismo em questão. Ex. Agentes da Febre Hemorrágica, Vírus Ebola, Vírus da Peste Aviária etc. Registro ISBN 93.675 15 MATERIAIS DE USO FREQÜENTE NO LABORATÓRIO DE MICROBILOGIA VIDRARIAS 1. Lâminas - Retângulos de vidro (76 x 26 mm) claros e transparentes, de espessura média (0,2 à 0,5 mm), bordas polidas. Função: suportar o material a ser observado ao microscópio, etc. 2. Lâminas escavadas - Retângulos de vidro com as especificações anteriores contendo uma ou duas depressões na região central. Função: observação em “gota pendente” da capacidade de movimentação de um microrganismo. 3. Lâminas de contagem - retângulos de vidro escavados e milimetrados, permitindo contar o número de microrganismos contidos em um volume determinado de líquido. Tambem existem as câmaras de Neubauer específicas para contagem, já com lamínula milimetrada. 4. Lamínulas - são pequenos quadrados de vidro (18 x 18 mm; 24 x 24 mm; etc.) muito finos e transparentes, destinados a recobrir a preparação contida na lâminanos preparos “a fresco”, a fim de evitar refração do raio emergente da objetiva. São bastante utilizadas nas preparações para observação microscópica de fungos. 5. Tubos de ensaio - são tubos de vidro de 16 x 16 m, 18 x 18 mm, etc., podendo ser maiores ou menores para usos especiais. O vidro deve ser de boa qualidade, Registro ISBN 93.675 16 neutro, transparente e inalterável aos tratamentos pelo calor. Servem ao cultivo de microrganismos em pequeno volume de nutrientes (meio de cultura). 6. Placa de Petri - são placas de vidro ou plástico redondas, com tampa, rasas, as mais usadas medindo 15 mm de altura e 100 mm de diâmetro, destinadas a conter uma camada de meio de cultivo sólido (15 ml). Servem ao isolamento de microrganismos, pois a grande superfície de crescimento que oferece facilita a obtenção de colônias isoladas. 7. Garrafa de Roux - são garrafas destinadas ao cultivo de microrganismos, oferecendo grande superfície para o crescimento devido à sua forma achatada. Geralmente são usadas com meios de cultivo líquidos. A origem do nome deve-se ao criador Pierre Paul Émile Roux. 8. Tubo de Durham - são tubos de ensaio comuns, contendo em seu interior tubos pequenos, cilíndricos, medindo 5 mm x 20 mm, colocados invertidos no meio líquido. Servem para captar o gás formado na fermentação, o qual será notado pelo aparecimento de bolhas em seu interior. São usados nos testes de fermentação necessários à identificação de determinados microrganismos. A origem do nome deve-se ao criador Herbert Durham, inglês, primeira pessoa a reportar o uso. 9. Frascos conta-gotas - de vidro neutro ou plástico, usados para corantes, clarificantes, reagentes químicos, etc. 10. Cubas de vidro - são geralmente retangulares ou circulares, destinadas a conter o material contaminado descartado em aula prática, tais como lâminas, pipetas, etc. 11. Frasco de Erlenmeyer - frasco de vidro de forma semelhante a um cone, usado no preparo de meios de cultura ou para estocar meios de cultura e substâncias químicas. A origem do nome é devida ao alemão criador do mesmo, Richard August Carl Emil Erlenmeyer. 12. Pipetas graduadas - pipetas de vidro ou plástico com volume conhecido mostrado através de marcas pintadas na pipeta. Existem pipetas de esgotamento total (a última marcação não corresponde ao volume total da pipeta, havendo necessidade de retirar totalmente o líquido que fica na ponta da pipeta, abaixo da última marcação) e, pipetas de esgotamento parcial (se esgota o líquido apenas até a Registro ISBN 93.675 17 última marcação, ficando pequeno volume retido na ponta da mesma). São usadas quando se deseja volume líquido conhecido e preciso. 13. Pipetas volumétricas - pipetas de vidro com volume conhecido, mostrado através de uma única marca, pintada na parte superior da mesma. Não apresenta subdivisões. 14. Pipetas Pasteur - são tubos de vidro que a certa altura foram “espichados” à chama do bico de Bunsen em capilar. Servem ao transporte de pequenos volumes líquidos ou para a semeadura. Não apresenta marcações de volume determinado. 15. Alça de Drigalski - feita a partir da pipeta Pasteur por dobras seguidas à chama do bico de Bunsen, temo aspecto de um “rodo” e serve à distribuição de material a ser semeado no meio de cultura sólido em placa de Petri. A origem do nome deve-se ao idealizador, alemão, Wilhelm von Drigalski. 16. Frasco de Kitasato - semelhante ao frasco de Erlenmeyer acrescentando-se um pequeno bico de vidro no gargalo, que serve para acoplar mangueiras de borracha ligadas à bomba de vácuo. São usadas nas técnicas de filtração. A origem do nome deve-se ao criador Shibasaburo Kitasato . 17. Becker - são cilindros de vidro, com volumes variados e destinados a recolher filtrados, ao preparo de meios de cultura, etc. A existência de um “bico” (daí seu nome) na parte superior, facilita o preenchimento de outros frascos com o que estiver contido em seu interior. Embora o nome seja creditado a John J. Becker, existem contradições. Acredita-se que o nome, na verdade tenha origem na palavra “bicarius” do latim medieval que significa copo. 18. Proveta - cilindro de vidro com graduação precisa, com volumes variados. É a vidraria indicada para medir volumes líquidos com precisão. 19. Balões volumétricos - são balões de vidro com volumes determinados por marcas geralmente pintadas no gargalo. Facilitam as rotinas de preparo de meios de cultura e podem estocar líquidos. 20. Funil de separação - são arredondados ou em forma de pêra, possuindo na extremidade inferior uma torneira para regular a saída de líquidos. É bastante usado nas rotinas de extração de micotoxinas onde, se necessita separar líquidos que não se misturam. Registro ISBN 93.675 18 21. Gral e pistilo - geralmente de porcelana, são usados para triturar materiais sólidos para o preparo de reagentes ou lâminas para visualização microscópica de estruturas microbianas. MATERIAL VARIADO 1. Alça de platina - formada pelo cabo de Kolle, que é um cilindro de alumínio recoberto na extremidade com material isolante e pela Alça, um fio de metal resistente ao calor, preso por um pequeno cilindro de metal com orifício central a outra extremidade do cabo de Kolle. Serve para semear na superfície de meios de cultura, etc. A quantidade de material a ser transportado (inóculo) tem grande importância no resultado do cultivo e, deve ser em torno de 2 mg. É usada ainda para recolher fragmentos da colônia ou gotas de suspensão de microrganismos, visando o preparo de lâminas para observação microscópica. Cabo de Kolle Alça 2. Pinça de dissecação - serve para manipular materiais que a mão não deve tocar. 3. Pinça de Mohr - pinça de pressão; usada na extremidade de mangueiras de borracha para fechar totalmente a saída de líquidos. 4. Pinça de Hofmann - pinça de atarraxar; usada também na extremidade de mangueira de borracha, podendo fechar totalmente a saída de líquidos ou, regular esta saída no volume que se deseja. 5. Pinça de madeira - para manipular lâminas à flambagem ou tubos com meios de cultura fundidos, isto é, quentes. 6. Algodão - indispensável em Microbiologia, serve para a proteção do material esterilizado (principalmente tubos de ensaios e frascos), pois funcionam como filtro (se estiver seco). É usado normalmente o algodão hidrófobo. Registro ISBN 93.675 19 7. Banho Maria - são aparelhos elétricos destinados a manter a água numa temperatura constante, necessária a determinadas técnicas. 8. Jarras de anaerobiose - são jarras de vidro ou acrílico usadas nas técnicas de isolamento de bactérias anaeróbias, proporcionando um ambiente livre de oxigênio para o seu desenvolvimento. Registro ISBN 93.675 20 LIMPEZA E PREPARO DO MATERIAL DE USO NO LABORATÓRIO DE MICROBIOLOGIA Deve ser rigorosa a limpeza dos materiais utilizados no trabalho microbiológico. Qualquer matéria estranha por mínima que seja, pode interferir de maneira decisiva no crescimento microbiano e, na visualização de suas estruturas características, falseando os resultados e dificultando as técnicas de identificação. Das soluções detergentes usadas normalmente, a solução sulfocrômica é a mais empregada. Apesar disso, é de difícil remoção pois, a presença de bicromato na superfície do vidro exige imersão em água limpa durante muitas horas para a eliminação completa deste composto químico. Por ser tóxico para as células e suas enzimas, se aconselha a sua substituição por outras soluções mais apropriadas como a de ácido nítrico a 10% ou, a de fosfato trissódico a 5% ou outras soluções comerciais. SOLUÇÃO SULFOCRÔMICA Dicromato de sódio ............................................. 500 g Ácido sulfúrico concentrado ................................1000 ml Água q.s.p. .......................................................... 10 L O dicromato de sódio é dissolvido, a quente, em três litros de água e resfriado. O ácido é adicionado lentamente e resfriado sobre cinco litros de água. As duas soluções são misturadas, adicionando-se a de ácido sobre a de dicromato, aos poucos e agitando. Completa-se o volume e guarda-se em frasco apropiado, devidamente etiquetado. SOLUÇÃO DE ÁCIDO NÍTRICO A 10% Ácido nítrico comercial ........................................ 1 kg Água q.s.p. .......................................................... 10 L Dissolver aos poucos o ácido na água, agitando sempre. Guardar ao abrigo da luz. Registro ISBN 93.675 21 SOLUÇÃO DE FOSFATO TRISSÓDICO A 1% E A 5% Dissolver o fosfato na água quente. A 1% é indicado para pipetas. LÂMINAS E LAMÍNULAS Uma vez retiradas do microscópio, são colocadas numa cuba contendo solução de sabão + desinfetante (nunca deixadas sobre a mesa), pois assim evita-se que as preparações ressequem, dificultando a limpeza posterior. Então são lavadas cuidadosamente e deixadas uma noite em solução detergente; posteriormente escorridas e passadas sob água corrente. As lâminas usadas para exames com objetivas de 100X, por receberem óleo de imersão devem ser primeiramente depositadas sobre papel de filtro para retirada do óleo. TUBOS DE ENSAIO São lavados com água e sabão e passados em água corrente. São deixados escorrer emborcados sobre cestas perfuradas e, finalmente secos em forno Pasteur. Em seguida são preparados para esterilização com buchas de algodão, de modo que, expelido o ar durante o processo de esterilização, só penetre novamente ar filtrado, livre de contaminação. Com as rolhas de algodão, os conjuntos são envoltos em papel manilha de modo que, a dobra superior indique a parte superior dos tubos, onde se amarra com barbante. No caso de tubos já usados (com meio de cultivo e colônias de microrganismos ou com suspensões), para serem reaproveitados, são primeiramente autoclavados a fim de eliminarem todas as formas de vida e então, manipulados sem perigo evitando a contaminação das pias e material de limpeza. O meio é escorrido ainda quente e os tubos fervidos com solução de sabão, passados sob água corrente e deixados uma noite em solução detergente. Novamente são submetidos à ação de água corrente, secos e preparados como visto anteriormente. Registro ISBN 93.675 22 PLACAS DE PETRI Quando novas são bem lavadas com água e sabão, secas e preparadas para a esterilização. Inicialmente a tampa é revestida com um disco de papel de filtro, afim de reter a água de condensação, ajustada à placa é embrulhada em papel manilha e amarrada com barbante; o conjunto de placas é novamente amarrado com barbante e levadas ao forno Pasteur. No caso das placas serem já usadas, estas são autoclavadas, o meio escorrido ainda quente, lavadas com sabão e, deixadas uma noite em solução detergente. Depois, passadas sob água corrente, secas e preparadas conforme visto anteriormente. PIPETAS VOLUMÉTRICAS São lavadas com água corrente, deixadas em solução detergente fraca (para não tirar as marcas), novamente passadas em água corrente e, finalmente lavadas com água destilada. Depois de secas em forno Pasteur, preenche-se a boca da pipeta com uma mecha de algodão (que penetre 0,6 cm), destinada a filtrar o ar assoprado para o interior e, proteger o operador da aspiração de líquidos contaminados. Uma vez usadas, são depositadas em cubas altas, cheias de solução desinfetante e, dentro de 24 horas, lavadas como visto anteriormente. PIPETAS PASTEUR Os tubos de vidro depois de lavados em solução detergente e, passados em água corrente, são partidos em segmentos de 30 a 40 cm (após secos), e as bordas arredondadas à chama do bico de Bunsen. Ambas as extremidades são preenchidas com algodão (aproximadamente 0,5 cm), e o conjunto de tubos embrulhados em papel manilha, amarrados e levados ao forno Pasteur. As pipetas usadas são autoclavadas e descartadas. Registro ISBN 93.675 23 USO DO MICROSCÓPIO Foi no início do século XVII que foram inventados os primeiros microscópios. Um dos primeiros a conseguir observar minúsculas formas de vida, foi Athanasius Kircher, um jesuíta que viveu em Roma. Seu microscópio era bastante rudimentar, formado apenas por uma lente e o aumento máximo conseguido era de 32 vezes. Mesmo assim, observou milhares de seres vivos na água estagnada, no sangue e no pus de pessoas doentes. Um curioso holandês, Mynheer Antony van Leeuwenhock, possuído pela mania de tornar o invisível visível, aprendeu a lapidar e a polir lentes montando apesar de ainda rudimentar, um microscópio muito superi2or comparado com os de sua época. Pode então, observar um pouco melhor o maravilhoso mundo dos micróbios e, de 1665 a 1718 encheu sete volumes com os seus achados. As observações se multiplicaram e o microscópio foi aperfeiçoado sem cessar. Em nossas aulas usaremos o microscópio ótico e, suas partes serão descritas a seguir. Também será de grande necessidade o microscópio estereoscópico ou lupa, usado geralmente para observação de colônias de microrganismos; trabalha com jogo ótico semelhante ao do microscópio ótico. A curiosidade humana aliada a necessidade de sobrevivência, forçou cada vez mais o desenvolvimento de aparelhos sofisticados. Surgiu, então, o microscópio eletrônico, inventado em 1931 pelo físico alemão Ernest Ruska. Pode ser de varredura ou de transmissão. Se baseia na transmissão de elétrons sobre o objetivo a examinar montado em um filme delgado. Controles elétricos e magnéticos permitem a focalização do feixe eletrônico e, a imagem resultante é projetada sobre uma placa fotográfica. Pelo constante bombardeamento de elétrons há o inconveniente de destruição da amostra observada. Mais recentemente foi inventado o microscópio de tunelamento eletrônico (STM), 1981, pelo alemão Gerd Binning e pelo suiço Heinrich Rohrer para observação dos átomos, partículas básicas de todas as coisas. O princípio de funcionamento é semelhante ao de uma agulha de toca-discos em escala infinitamente menor. A extremidade da agulha tem a espessura de apenas um átomo. Ela percorre a superfície Registro ISBN 93.675 24 da amostra sem nunca tocála. Os elétrons acumulados na ponta da agulha saltam para a superfície da amostra gerando uma corrente elétrica que, aparece como um ponto, luminoso na tela do computador acoplado ao microscópio. O movimento de vaivém da agulha vai mapeando as estruturas da amostra. Equipamento Aumento Amostra Microscópio estereoscópico 7 a 150X Colônias de fungos e bactérias, insetos pequenos, algas, etc. Microscópio ótico 50 a 1.200X Bactérias, fungos células animais e vegetais, etc. Microscópio eletrônico de varredura 20 a 100.000X Superfície de órgãos animais e vegetais, circuitos impressos, etc. Microscópio eletrônico de transmissão 1.000 a 500.000X Vírus, moléculas orgânicas grandes, sub estruturas e células, etc. Microscópio de tunelamento 100 milhões de vezes Moléculas, átomo da superfície de metais, etc. Fonte: SUPER INTERESSANTE (1989). PARTES DE UM MICROSCÓPIO ÓTICO Base Elemento que suporta o microscópio, possui forma em “V”, em “U” e modernamente forma retangular ou redonda, onde a fonte luminosa já é incorporada. Braço Parte articulada à base, suporta várias partes mecânicas e o jogo ótico, encontramos aí o parafuso macrométrico e o micrométrico. Por ele deve ser seguro o microscópio caso seja necessário a sua remoção para outro local. Canhão Contém as lentes oculares, podendo ser monocular ou binocular, como os de uso em nossas aulas práticas. Registro ISBN 93.675 25 O binocular suporta na parte superior duas lentes oculares que,dão aumento de 6X ou 10X. São formadas por dois cilindros ocos onde se acoplam dois cilindros com lentes. A base da ocular esquerda é móvel permitindo graduar a distância entre os olhos de cada observador. Para focalizar, desloca-se verticalmente o canhão, que é feito com os parafusos de ajustamento. O macrométrico, permite movimentos rápidos e serve à uma focalização mais grosseira, enquanto o parafuso micrométrico serve ao ajustamento final, tendo por finalidade, poupar o esforço de acomodação visual do observador. Revólver Destina a suportar as objetivas, permitindo a troca rápida entre elas. É constituído essencialmente por duas calotas esféricas concêntricas, adaptadas uma sobre a outra, a primeira é fixa e protege as lentes e a segunda é móvel tendo presas as objetivas, uma de imersão e duas ou três a seco, como por exemplo 4X, 10X e 40X. Está presa à parte inferior do canhão. É uma peça de precisão, pois deve permitir que a objetiva em foco tenha seu eixo coincidente com o feixe luminoso que a intercepta. Platina É destinada a conter a lâmina de vidro preparada. No centro há um orifício para deixar passar os raios luminosos, provenientes do aparelho de iluminação, colocado abaixo dela. Possui um dispositivo chamado “Chariot” que permite deslocar a preparação nos sentidos transversal e longitudinal, mediante dois parafusos. Alguns tipos de “Chariot” possuem graduação com as quais é possível determinar coordenadas de um certo campo, voltando a ele sempre que necessário. Sistema ótico É formado pelo conjunto de lentes e acessórios: • Objetiva: composta por uma ou mais lentes, se destina a dar ao objeto a imagem real. É dela que depende o poder de resolução e a nitidez do material observado. Há vários tipos de objetivas, podendo ser com relação ao tipo de observação, a seco ou de imersão. • Objetiva a seco: entre a preparação e a objetiva existe uma lamínula de vidro e o ar. A focalização é feita sem tocar na lamínula com a objetiva. É comumente utilizada na observação de fungos. Registro ISBN 93.675 26 • Objetiva de imersão: usa-se entre a lâmina e a objetiva um líquido de índice de refração conveniente, que faça os raios luminosos convergirem para a objetiva. É muito usado o óleo de cedro e o índice de refração convencionado é de 1,514. As objetivas de imersão geralmente são as de maior aumento e as indicadas para a observação de esfregaços corados. • Oculares: são formadas por duas lentes, uma interior que concentra a luz, clareando a imagem e, outra exterior, que aumenta a imagem real proveniente da objetiva. Elas se combinam com as objetivas oticamente, de modo que haja um mínimo possível de aberrações. • Condensador: é um sistema formado por uma ou mais lentes, que se destina, principalmente, a refratar os raios refletidos pelo espelho ou pela fonte de luz diretamente, fazendo-os convergir sobre o objeto, num cone de seção larga. Não há propriamente condensação de luz e sim, alargamento da seção do cone luminoso aumentando a iluminação do material observado. Nas preparações observadas com objetivas a seco, o condensador fica disposto à meia altura; nas preparações observadas, com objetivo de imersão, a lente do condensador pode chegar a tocar a lâmina de vidro por sua parte inferior. O condensador é munido de um diafragma-íris, o qual permite obter uma série graduada de cones luminosos. • Espelho: destina-se a enviar ao condensador um feixe luminoso adequado. Não é fixo, podendo girar, possibilitando concentrar seu eixo ótico com o das lentes do aparelho. • Fonte luminosa: normalmente se usa uma fonte de luz visível artificial, embora exista a aplicação de luz ultra-violeta, etc. • Filtros de luz: são imprescindíveis a uma observação microscópica; têm a finalidade, no espectro de luz visível, de absorver determinadas cores, intensificar outras, ou proteger a vista de radiações. OBS. Atualmente muitos microscópios já utilizam o sistema “Tablet” como visor, substituindo as lentes. Registro ISBN 93.675 27 NUTRIÇÃO MICROBIANA Para se estudar um microrganismo, visando sua classificação, há necessidade de tê-lo isolado em meios adequados no laboratório de microbiologia. Para tanto, devemos atender suas exigências mínimas. Um conjunto de fatores é necessário para permitir que in vitro, se consiga um ambiente semelhante ao que se encontrava o microrganismo na natureza, permitindo observação de suas estruturas perfeitas e outros elementos necessários à correta identificação. Entre os fatores necessários ao desenvolvimento microbiano estão alguns como a temperatura, umidade/atividade hídrica, pH e nutrientes. Os nutrientes são as unidades estruturais e fontes de energia para a construção e manutenção da estrutura e organização de um microrganismo. Alguns são considerados elementos essenciais, sem os quais o crescimento e desenvolvimento de caracteres microbianos seriam comprometidos. Dentre esses a Água, o Carbono, o Hidrogênio e o Nitrogênio, são exigidos em altos teores pois, participam da composição de estruturas para o próprio microrganismo e na produção de compostos orgânicos, entre outros. O Fósforo, Enxofre, Sódio, Potássio, Cálcio, Magnésio, etc., são exigidos em teores médios e fazem vários papéis biológicos: produção de ATP (a forma energética para o microrganismo), ácidos nucléicos, fosfolipídios, aminoácidos, vitaminas, sais, mecanismos de permeabilidade, cofatores de enzimas, etc. Outros elementos são exigidos em pequenos teores (chamados de elementos traço), como o Manganês, Zinco, Ferro, Cobre, Molibdênio, Cobalto, Vanádio, Sílica, Cloro, etc., que vão participar de enzimas, vitaminas do complexo B (B12), na fixação de nitrogênio, etc. Os microrganismos se nutrem por absorção, selecionando através de suas membranas ou paredes o que entra ou sai. A forma química em que elementos servem como nutrientes deve ser compatível com esse mecanismo de seleção, caso contrário o microrganismo não conseguirá usar o que a ele for oferecido. Os compostos a base de carbono servem como nutrientes. Existe toda uma variedade de microrganismos que são capazes de retirar o carbono de qualquer fonte e, outros, se mostram “parasitas” e vivem ao redor dos que conseguem degradar compostos carbonados. Algumas bactérias são ditas “onívoras”, utilizam um grande Registro ISBN 93.675 28 número de fontes de carbono e outras são “especializadas”, pois retiram o carbono de uma única fonte, como por exemplo, do metano, do querosene, da borracha, etc. Os fungos também podem comportar-se da mesma forma. Alguns microrganismos retiram o carbono direto do CO2, sendo este usado como a unidade estrutural monocarbonada, onde serão acoplados compostos para a biossíntese de material celular. Os compostos nitrogenados são mais utilizados na forma de nitrato. As bactérias geralmente utilizam o nitrogênio para oxidação e os fungos o assimilam. Um grupo importante de microrganismos fixa o nitrogênio (N2) e oxida a NH3; as Nitrosomonas oxidam a amônia a nitrito (NO2) e os Nitrobacter oxidam o nitrito a nitrato (NO3), que é a forma geralmente absorvida pelas plantas. Os compostos de enxofre são aproveitados, geralmente, quando na forma de sulfatos e tiossulfatos (microrganismos não fotossintéticos). As substâncias orgânicas, além das fontes de carbono e de energia exigidas pelos microrganismos, são denominadas “Fatores de crescimento”. Os aminoácidos são imprescindíveis para a fabricação de proteínas; as bases purinas e pirimidinas são necessárias para os ácidos nucléicos e as vitaminas participam dos radicais prostéticos das enzimas. Desde o descobrimento dos microrganismos uma série de classificações foram sendo necessárias, até mesmo, para facilitar a classificação dos microrganismos. A mais antiga dividia em seres autotróficos, aqueles que necessitavam de compostosinorgânicos para sua nutrição e, heterotróficos, aqueles que exigiam compostos orgânicos. Quanto à fonte de energia temos os fototróficos ou fotossintéticos, que transformam a luz solar em energia de ligação química e os quimiotróficos ou quimiossintéticos, que desencadeiam suas reações de oxi-redução sem depender da luz. O metabolismo microbiano depende de uma série de reações químicas e nestas há passagem de elétrons. Quanto à natureza dos doadores de elétrons exógenos, podemos classificar os microrganismos em litotróficos, quando o doador é matéria inorgânica e organotróficos, quando o doador de elétron for a matéria orgânica. Um outro ponto importante é a classificação de um microrganismo quanto à exigência ou não de oxigênio; neste caso, o microrganismo será dito aeróbio obrigatório ou estrito, quando necessitar de O2 para o seu desenvolvimento; será anaeróbio obrigatório ou Registro ISBN 93.675 29 estrito, quando não puder se desenvolver em ambientes com oxigênio; será anaeróbio facultativo, quando puder se desenvolver tanto em ambientes aeróbios quanto anaeróbios e, será microaerófilo, quando desenvolverem-se numa interfase onde a concentração de oxigênio for mínima. Entende-se por meio de cultura ou meio de cultivo qualquer substância sólida, semi-sólida ou líquida para a manutenção de microrganismos vivos. Na verdade meios de cultura são um conjunto de nutrientes necessários ao microrganismo. A composição desse meio de cultura vai depender da exigência nutricional ou do que se deseja testar com o microrganismo. São formulações normalmente encontradas como “receitas” nos manuais das firmas que os produzem e em livros de microbiologia. Um meio de cultura é sólido ou semi-sólido de acordo com a proporção de agente solidificante, o agar-agar, que entra em sua constituição. O agar-agar é extraído de algas Rhodophyceas (algas vermelhas) de espécies dos gêneros Gelidium, Acanthopeltis, Gracilaria e Euchema. As folhas dessas algas sofrem um tratamento térmico para retirada de impurezas, principalmente ácidos graxos de cadeias longas que, se estiverem presentes podem inibir o crescimento de microrganismos. As fibras são secas e constituem o ágar-ágar em rama, que pode ser usado como tal ou, triturada e usada sob a forma de pó. As fibras são compostas de duas cadeias polissacarídidas: agarose e agaropectina, resíduos de ácidos urônicos e ésteres sulfúricos. É uma substância coloidal, hodrofílica e pertence ao grupo das mucilagens. Seu ponto de fusão é a 100°C e seu ponto de solidificação em torno de 45°C. Sua função é exclusivamente a de solidificar o meio. Uma vez preparado o agar, as fibras do ágar-ágar formam uma verdadeira malha onde vão ficar depositados os constituintes (nutrientes e substâncias químicas) que entram em sua formulação. Um meio de cultura é considerado sólido quando contiver de 1,5 g a 3,0 g de agar-agar por 100 ml de água e, semissólido quando de 0,1 g a 1,1 g deste agente solidificante. Por esse motivo, por conterem agar-agar, os meios sólidos e semissólidos são denominados Agar, como por exemplo, Agar Sabouraud, Agar simples, Agar Czapek-Dox, etc. Os meios de cultura líquidos, não levam agente solidificante em suas formulações e são denominados Caldos, como por exemplo, o Caldo simples, Caldo casoy, Caldo azida-glicose, etc. Registro ISBN 93.675 30 Quanto a composição química, os meios de cultura podem ser classificados em sintéticos e complexos. Um meio de cultura é denominado sintético, quando se conhece a composição química de todos os seus componentes e será complexo, quando não se conhecer a composição química de algum de seus componentes (ex.: meios que contenham extrato de levedura). Os meios de cultura podem ser totalmente preparados no laboratório, seguindo formulações (receitas) ou, preparados a partir de meios de cultura em pó, onde na maioria das vezes só há necessidade de pesar a quantidade necessária para um determinado volume de água destilada, fundir, esterilizar e acertar o pH; todos os seus constituintes já se encontravam misturados nas devidas proporções nestes meios adquiridos das firmas de produtos laboratoriais. Para o preparo dos meios de cultura se utiliza água limpa, recém destilada ou desmineralizada e cuja reação seja o mais próximo possível da neutralidade. Os recipientes destinados à preparação do meio de cultura devem estar limpos, não podendo conter resíduos de outras substâncias. Devem ser suficientemente grandes para que o meio de cultura que se preparará, possa ser agitado com facilidade. Deve- se procurar preparar a quantidade exata a ser usada, evitando assim fundir o material várias vezes, o que altera o valor nutritivo a cada novo aquecimento. Ao meio de cultura já pesado se adiciona a metade da quantidade de água e, se agita suficientemente para conseguir uma suspensão homogênea. Em seguida, incorpora-se a quantidade de água restante, aproveitando para despender e incorporar ao conjunto as partículas de meio que, acaso tenham ficado aderidas às paredes internas do recipiente. Os meios de cultura que contém ágar-ágar devem ser aquecidos até a completa dissolução, medindo o pH em torno de 50°C; nos meios líquidos esta medida pode ser feita à temperatura ambiente. O pH se ajusta no valor indicado para cada meio de cultura. A correção se faz pela adição de ácido clorídrico 1N ou 1/10N ou de hidróxido de sódio. Todos os meios de cultura são acondicionados em vidrarias adequadas e levados à autoclavação. Para evitar a formação de gotas de condensação de água nas tampas das placas de Petri, deve verter-se, após a esterilização, o meio de cultura a uma temperatura em torno de 50°C. As bolhas de ar da superfície, que por ventura possam Registro ISBN 93.675 31 vir a serem formadas, elimina-se facilmente com a chama do bico de Bunsen. Pode-se secar a superfície do meio de cultura em estufa a 30°C ou 40°C por 20 a 30 minutos. Quanto ao uso, os meios de cultura podem ser classificados em Meio básico ou de uso geral, servem ao cultivo de vários microrganismos e podem ser usados como base no preparo de outros meios. Meio de enriquecimento, quanto contém determinados nutrientes que favorecerão o desenvolvimento de um microrganismo, entre vários outros. Meio seletivo, quando adicionam-se substâncias antibióticas que eliminarão os microrganismos indesejáveis, permitindo o crescimento do microrganismo que se deseja. Meio diferencial, o qual permite ao microrganismo produzir estruturas ou reações que podem ser usadas na diferenciação de gêneros e espécies de microrganismos. POSSÍVEIS DEFEITOS NA PREPARAÇÃO DOS MEIOS DE CULTURA Desvios no valor do pH Água não neutra; envase não suficientemente fechado; superaquecimento durante a preparação; meio de cultura dessecado com validade vencida. Turvação e precipitação Água insuficientemente deionizada; os recipientes de preparo não estavam suficientemente limpos; pH incorreto ou desajustado; superaquecimento durante a preparação; substâncias empregadas contêm impurezas. Ponto de solidificação muito elevado Excessiva proporção de meio de cultura dessecado; agar-agar não adequado ou fora de proporção. Pouca estabilidade do gel Proporção pequena de meio de cultivo dessecado; meio incompletamente dissolvido; superaquecimento durante a preparação; agar-agar em pequena proporção ou inadequado. Registro ISBN 93.675 32 Desvio de cor Valor errado de pH; superaquecimento durante a preparação; o recipiente de preparo não estava suficientemente limpo. Meios de cultura contaminados Esterilização insuficiente; contaminação acidental posterior a esterelização. Pouco crescimento de microrganismo Presença de substâncias inibidoras do crescimento; microrganismos já alterados no material investigado; pH incorreto; aditivos defeituosamente dosificados; superaquecimentodurante a preparação. Excessivo crescimento de microrganismos Superaquecimento durante a preparação com conseqüente destruição de substâncias inibidoras; aditivos defeituosamente dosificados; inóculo com excesso de microrganismos. Colônias irregulares Superfície do meio muito úmida; superfície do meio semeada com excesso de material. Crescimento atípico Meio de cultivo errado ou mal preparado; meio de cultivo com prazo de validade vencido; condições de cultivo inadequadas. ALGUMAS SUBSTÂNCIAS USADAS NO PREPARO DE MEIOS DE CULTURA Bilis de boi Bilis natural purificada submetida a um processo de dissecação. Exerce um efeito estimulante do crescimento sobre bactérias do grupo tifus-paratifus-enteritis e, Registro ISBN 93.675 33 inibidor da microbiota Gram positiva. Usada em meios seletivos; concentrações de 10- 12 g/litro. Contém ácidos biliares e água. Caseína Obtida a partir do leite de vaca, se utiliza para fabricação de meios de cultura destinados a testes com microrganismos caseolíticos. Caseína hidrolisada Obtida por hidrólise clorídrica da caseína constituindo um bom substrato nutritivo. Caseína hidrolisada de pâncreas Obtida por hidrólise enzimática a partir da caseína. Serve para a fabricação de meios de cultivo para microrganismos exigentes. Possui insignificantes quantidades de antagonistas de sulfamidas (ácido p-aminobenzóico). As caseínas são fontes de vitaminas e fatores de crescimento. Se encontra nitrogênio, peptonas, cálcio, magnésio, etc. Extrato de carne Prepara-se a partir de carnes desprovidas de tendões e gordura. Antes da extração, se submete a carne a uma ligeira proteólise. É uma base nutritiva de alto valor. Extrato de levedura Obtém-se por extração aquosa de leveduras autolisadas. Além de seu elevado conteúdo de vitaminas, oferece excelentes condições de crescimento a muitos microrganismos. Normalmente é incorporada aos meios de cultivo na quantidade de 3 g/litro. Registro ISBN 93.675 34 Extrato de malte Obtém-se a partir da cevada maltada. Devido ao seu elevado conteúdo em diversos carboidratos, sobretudo maltose, é especialmente adequado à preparação de meios nutritivos destinados ao cultivo de fungos. Gelatina É uma proteína que se utiliza como agente gelificante, sobretudo na demonstração de microrganismos proteolíticos. Se obtém, por hidrólise ácida a partir de matérias primas de origem animal. Devido ser o ponto de fusão da gelatina em torno de 28°C, tais meios só podem ser incubados a temperaturas inferiores. Peptona de carne Obtém-se pela degradação proteolítica da carne, mediante ação da pesquisa ou tripsina. Peptona de caseína Obtida por degradação proteolítica de caseína, mediante tripsina. Adequado ao preparo de meios para o teste do indol. Peptona de cérebro bovino Obtém-se por digestão papaínica de cérebros de bovinos. Peptona de gelatina Obtém-se por hidrólise da gelatina, mediante pancreatina. Peptona de farinha de soja Obtida mediante a digestão, com papaína, da farinha de soja desengordurada. Não é indicada para testes de fermentação devido ao seu elevado conteúdo em carboidratos. As peptonas são fontes de fatores de crescimento, carboidratos e elementos essenciais como nitrogênio, cálcio, magnésio, etc. Registro ISBN 93.675 35 Conservação dos meios de cultura preparados Para períodos de tempo prolongados se recomenda seu armazenamento em temperatura de 12 a15°C. Os meios de cultura com agar não devem ser guardados abaixo de 0°C para não alterar seu gel. Geralmente é possível sua conservação durante um a dois meses à temperatura ambiente. Em qualquer caso, os meios de cultura deverão estar sempre ao abrigo da luz. Para não haver perda de água do meio de cultura para o ambiente, os mesmos poderão ser colocados em sacos plásticos lacrados, impermeáveis, ao ar. No caso de placas de Petri, seus bordos poderão ser lacrados com fita adesiva. Fórmulas de alguns meios de cultura 1. Agar Batata glicosado: batata (infusão de 200 g) glicose ........................................ 20 g agar-agar .................................... 30 g água destilada qsp ..................... 1000 ml pH 5.6 2. Agar Sabouraud glicosado: glicose ........................................ 40 g polipeptona (BBL) ...................... 10 g agar-agar .................................... 30 g água destilada qsp ..................... 1000 ml pH 6.5 3. Agar Simples: água de carne ............................ 1000 ml peptona ...................................... 10 g cloreto de sódio .......................... 5 g Registro ISBN 93.675 36 agar-agar .................................... 20-30 g pH 7.4 a 7.6 4. Caldo Peptonado: peptona ...................................... 10 g cloreto de sódio .......................... 5 g água destilada ............................ 1000 ml pH 7.2 ± 0.2 5. Caldo Simples: água de carne ............................ 1000 ml peptona ...................................... 10 g cloreto de sódio .......................... 5 g pH 7.4 a 7.6 6. Caldo de extrato de carne: extrato de carne ......................... 3-5 g peptona ...................................... 10 g cloreto de sódio .......................... 5 g água destilada ............................ 1000 ml pH 7.4 a 7.6 (usar a 0,5% no preparo de água de carne). Registro ISBN 93.675 37 PRINCÍPIOS DE ESTERILIZAÇÃO EM MICROBIOLOGIA A função básica de um microbiologista em relação a um microrganismo é o de caracterizar a sua presença, isolá-lo, mantê-lo vivo possibilitando desenvolver suas características semelhantes ao que teria na natureza (local ou material onde estava se desenvolvendo), reconhecê-lo para eventualmente utilizá-lo ou eliminá-lo. Nada disso seria possível ou extremamente dificultado se não houvesem técnicas que, nos permitissem ambientes estéreis. Para esse tipo de estudo há necessidade da colônia pura, do microrganismo isolado. Entretanto, temos que ter a certeza de que o microrganismo que se desenvolverá nos meios de cultura a serem utilizados, realmente estava presente na amostra colhida e, não ser apenas um contaminante ambiental. O uso correto das técnicas de esterilização e desinfecção nos darão esta certeza. São necessárias algumas definições para o entendimento dos trabalhos a serem desenvolvidos nos laboratórios de microbiologia. Entende-se por esterilizar, eliminar todas as formas de vida de uma superfície, de um material ou de um ambiente. Geralmente para tanto, utilizam-se processos físicos. Desinfetar, por eliminar todas as formas de microrganismos patogênicos de uma determinada superfície morta. Geralmente feita com substâncias químicas. Como antissepsia, por eliminar microrganismos de uma superfície viva. Geralmente feita com substâncias químicas (antissépticos germistáticos ou germicidas) e, assepsia como o conjunto de técnicas necessárias para não deixar que um microrganismo penetre num local que não o contenha. Dos processos de esterilização o calor é bastante utilizado. A seguir definiremos algumas técnicas que utilizam o calor seco. Desde o início da história o homem aprendeu a admirar o fogo e, observou que os metais aquecidos ao rubro tinham o poder de eliminar uma inflamação quando, cauterizava-se uma ferida. Num laboratório de microbiologia é primordial o bico de Bunsen, local onde serão flambados os metais e vidrarias usadas nas rotinas. A alça de platina e as bocas tubos de ensaio devem ser flambadas a todo instante que se for manipular microrganismos, a fim de eliminar qualquer contaminante aderido a alça ou ao vidro. No caso da alça de Registro ISBN 93.675 38 platina,caso esteja com substâncias oleosas ou líquido com microrganismos em suspensão, aguardamos próximo a chama alguns instantes para secar e primeiro colocamos a ponta da alça na chama redutora (interna), conhecida como chama fria, e depois toda a alça e a base do cabo na chama oxidante, conhecida como chama quente; tal procedimento evitará a formação de aerossóis protegendo de contaminações. A área em torno do bico de Bunsen é considerada estéril devendo, então, todo material ser manipulado o mais próximo possível do mesmo. O Forno Pasteur é um forno retangular de paredes duplas isoladas, utilizado para a esterilização de vidrarias vazias e instrumentos de metal. Na parte inferior existe um sistema de aquecimento elétrico e, internamente prateleiras onde são distribuídos, em colunas com espaço entre umas e outra, os materiais a serem esterilizados. O ar frio penetra pela parte inferior do aparelho, é aquecido e circula entre as pilhas de materiais transmitindo seu calor a essas superfícies e, saindo na parte superior pelas ventoinhas. Também na parte superior observa-se um orifício onde é colocado um termômetro graduado. A temperatura para a esterilização é de 180°C a 200°C por no mínimo uma hora e trinta minutos; este procedimento elimina a forma vegetativa de microrganismos e os esporos bacterianos. Dependendo da quantidade de material a ser esterilizado, o procedimento pode variar (tempo / temperatura). Os processos utilizando o calor úmido geralmente são mais eficazes porque, o esporo bacteriano que é uma estrutura até certo ponto refratária, absorve um pouco da umidade do ambiente tornando-se mais vulnerável aos tratamentos térmicos. A autoclavação pode utilizar o autoclave horizontal ou vertical. O autoclave horizontal pode ter uma caldeira anexa ou ser alimentado por vapor produzido em caldeira externa. Em nosso laboratório o mais usado é o sistema vertical que, consiste de uma caldeira cilíndrica, de cobre, hermeticamente fechada por uma tampa de cobre. No interior, cestas metálicas móveis, apoiadas sobre um suporte metálico que, regula o nível de água. No fundo, em contato com a água existe o sistema de aquecimento elétrico. Na tampa estão adaptados um manômetro, uma válvula de escapamento e uma válvula de segurança. A água aquecida em recipiente fechado, onde o vapor fica retido sob pressão, pode atingir temperaturas muito elevadas sem ferver. Isto diminui a Registro ISBN 93.675 39 possibilidade de se molhar a rolha de algodão das vidrarias, o que poderia levar à contaminação posterior do material esterilizado. Na seqüência da autoclavação, coloca-se água suficiente para que, uma vez o aparelho cheio de vapor ainda sobre água no fundo, pois caso contrário poderia ocorrer superaquecimento com rompimento da resistência aquecedora. Acondiciona-se o material a ser esterilizado, devidamente preparado, de forma que o vapor circule livremente em torno dele. Fecha-se a tampa do aparelho, rosqueando todas borboletas para uma correta junção deixando nesse instante a válvula central aberta. Liga-se o aparelho no botão apropriado. Com a produção de vapor interna há a expulsão do ar seco; no momento em que iniciar a saída contínua de vapor pela válvula de escape indica que o ambiente interno está saturado de vapor. Então, fecha-se a válvula de escape e observa-se o manômetro, o qual indica marca de “0 atm = 100°C”. Com o passar do tempo há o deslocamento da agulha do manômetro; contar o tempo de 15 a 20 minutos, a partir do momento em que o aparelho marca 120°C o que corresponde a 1 atm. Decorrido o tempo necessário, deixar a pressão descer lentamente até zero com a válvula de saída fechada. Abrir a válvula para normalizar a pressão, soltar as borboletas da tampa e utilizar o material esterilizado. Normalmente num laboratório de microbiologia esteriliza-se em autoclave os meios de cultura, dentro de suas respectivas vidrarias. Há necessidade de se proteger as rolhas de algodão com papel manilha, para evitar que se molhem com a água de condensação pois, molhado, o algodão deixa de funcionar como filtro possibilitando a contaminação do material. A pasteurização desenvolvida por Pasteur para eliminar microrganismos que deterioravam alimentos, rapidamente foi transferida ao leite geralmente usando-se a temperatura em torno de 63°C por um tempo de 30 minutos. Este procedimento elimina as formas vegetativas dos microrganismos mas não o seu esporo (forma de resistência bacteriana). Por este problema, o que chamamos em nossos tempos de pasteurização na verdade é uma esterilização com temperaturas ultraelevadas. Dependendo do processo, o leite chega a 140°C em menos de um segundo, ficando por três segundos em uma câmara de armazenamento, sendo resfriado em uma câmara de vácuo, passando a 74°C. Registro ISBN 93.675 40 No processo conhecido como tindalização utiliza-se a temperatura em torno de 80°C por um tempo de 45 minutos, repetindo-se este aquecimento dois ou três dias consecutivos. Verificou-se que desta maneira, por uma “esterilização fracionada” eliminava-se a forma vegetativa pelo calor e, permitia-se as formas esporuladas passarem para a forma vegetativa, sendo destruídas nos aquecimentos seguintes. É indicada para a esterilização de substâncias que não podem ser aquecidas acima de 100°C. Caso não haja possibilidade de outro método, a fervura de materiais em água pelo menos por cinco minutos, elimina as formas vegetativas presentes e, caso existam esporos bacterianos eles podem se soltar dos mesmos ficando na água utilizada. O vapor produzido pela água aquecida pode também ser usado para esterilização, tendo sido a base para o desenvolvimento do autoclave. Para os materiais que não podem ser esterilizados pelo uso do calor, pode-se lançar mão do processo físico de filtração. A filtração consiste em se passar um fluido através de um elemento poroso, afim de remover partículas nele dispersas. Entre as finalidades podemos destacar a de clarificar os meios, separar dois microrganismos de tamanhos diferentes e esterilizar. São indicados na esterilização de soluções protéicas que coagulam pelo calor; de carboidratos que caramelizam pelo calor e, soluções de enzimas e toxinas que se inativam pelo calor. Para este processo podem ser usadas as velas de Chamberland, constituídas de porcelana não vitrificada, tendo a forma cilíndrica e oca no centro. São numeradas de L1 a L11, sendo que L1 e L2 apenas clarificam o meio. As velas de Berkefeld são filtros de terra de infusório (terra de infusório + asbestos + matéria orgânica) e identificados pelas letras V (grosso), N (normal) e W (fino). Mas, atualmente a preferência tem sido por filtros, como os de Seits que são placas filtrantes de amianto prensado, sendo EK clarificantes, e EK1 e EK2 esterilizantes. Os mais modernos são os filtros do sistema Milipore, fabricados de celulose modificada existindo uma grande variação em sua especificação, podendo também ser clarificantes ou esterilizantes. Estes filtros normalmente possuem poros com diâmetros de 0,22 µ e, muitas vezes, utiliza-se pré- filtro de 0,45 µ. Registro ISBN 93.675 41 O algodão uma vez seco, serve de filtro para ar e gases, sendo amplamente utilizado como rolha em vidrarias tipo tubo de ensaio, frasco de Erlenmeyer, etc. Vale ressaltar que nestes casos se usa o algodão hidrófobo, mais difícil de ficar molhado por causa de sua oleosidade natural. O algodão só será filtro se estiver seco; em caso de ter sido molhado formam-se pequenas fendas nas mechas de algodão permitindo que junto com o ar entre o que está em suspensão como bactérias e fungos, entre outros, havendo assim a contaminação. Os processos físicos utilizando as radiações não são usados em sua maioria para a esterilização de meios de cultura mas, geralmente para os ambientes do laboratório de microbiologia. A radiaçãoultravioleta para produzir ação esterilizante sobre o microrganismo, necessita de um comprimento de onda curto. Isso começa a ser notado sobre os microrganismos em torno de 3.300 Å, aumentando rapidamente à medida que diminui o comprimento de onda. Quanto menor o comprimento de onda, maior o seu poder esterilizante. Para a radiação agir sobre o microrganismo há necessidade dela ser absorvida pelo microrganismo. Esta radiação é indicada para esterilização do ar em ambientes e, é utilizada para superfícies inclusive sendo encontrada em aparelhos do tipo fluxo laminar (capela de segurança biológica), onde o ar, além de passar por um filtro, também pode passar pela radiação ultravioleta. Já as radiações ionizantes (raio-X e gama) eliminam o microrganismo pela ionização da água que o constitui e, atuação direta em certas estruturas microbianas como o DNA, determinando um desequilíbrio letal no sistema celular. O raio gama por deixar pouco resíduo de radiação secundária é atualmente utilizado na esterilização de frutas, legumes e verduras para exportação. As ondas eletromagnéticas e a radiação infravermelha produzem calor nas superfícies onde incidem e, este calor é que determina a morte do microrganismo. Em alguns laboratórios já se utiliza o forno de microondas para fundir os meios de culturas e, a lâmpada infravermelha é utilizada em pequenos fornos para esterilização de instrumentos de metais, como por exemplo os utilizados em odontologia. A utilização de processos químicos consiste no tratamento de objetos ou ambientes com substâncias químicas líquidas, gasosas, em pó, etc., de forma a eliminar todas as formas de vida ou, as formas patogênicas de microrganismos. Registro ISBN 93.675 42 Define-se desinfetante como toda a substância química capaz de destruir microrganismos patogênicos. Podemos citar a água oxigenada, halogênios como o cloro e iodo, permanganato de potássio, metais pesados como cobre, formol, óleos essenciais (plantas) e uma série de formulações encontradas no comércio, como por exemplo a creolina, etc. Algumas condições influenciam a ação de um desinfetante: a temperatura, o pH, a natureza do meio e, a resistência própria do microrganismo e grau de contaminação. Para testar o poder germicida de um desinfetante pode-se determinar o seu coeficiente fenólico. É um índice tirado de comparações entre o efeito de diluições do fenol puro e, diluições do desinfetante sobre o microrganismo. Para a desinfecção de ambientes (ar, solo, etc.) pode ser usada a técnica de fumigação que é feita pela liberação de gases, vapores, pulverização, etc. O formol, o tiabendazole e outros compostos, uma vez aquecidos ou aspergidos, emitem vapores ou partículas em suspensão que atuarão sobre os microrganismos no ambiente tratado. O ozônio age por oxidação e é usado atualmente em aparelhos, visando a esterilização da água. O óxido de etileno e óxido de propileno podem ser usados para a esterilização de seringas e agulhas descartáveis; em algumas firmas, utiliza-se a radiação gama. Os agentes físicos e químicos vão agir sobre o microrganismo, em suas estruturas essenciais, como proteínas, material genético, parede celular, etc. Alguns dos efeitos são: Coagulação protéica: calor, luz, formol, ácido fênico, álcool, clorexidina; Oxidação protéica: água oxigenada, iodo, cloro, permanganatos, fogo; Inativação de enzimas: ácidos e bases fortes. Interferência na troca de íons, paralisando o metabolismo: detergentes e corantes. DNA e RNA: vários. Dizemos que uma substância é germistática, quando atua em um determinado ponto do microrganismo, impedindo o seu desenvolvimento, sua multiplicação; e germicida, quando atua diretamente nas estruturas do microrganismo, levando-o à morte. Registro ISBN 93.675 43 NOÇÕES DE CRESCIMENTO MICROBIANO Introdução É preciso diferenciar o que significa crescimento de microrganismos multicelulares e microrganismos unicelulares. Nos organismos multicelulares ou pluricelulares, o crescimento implica no aumento do tamanho do indivíduo. Ou seja, o crescimento é uma conseqüência da multiplicação de células. De certo modo, podemos dizer que é semelhante ao crescimento de vários organismos superiores. Assim, por exemplo nos fungos pluricelulares, as hifas aumentam de tamanho, ramificam-se e dão origem a várias estruturas de reprodução após a multiplicação de suas células. Nos organismos unicelulares, no entanto, a multiplicação do número de células irá conduzir apenas a um aumento da população destas células, já que cada célula é um indivíduo. Assim, o crescimento bacteriano, por exemplo, significa um aumento da população de células de bactérias (cada bactéria = 1 célula). Temos o costume de nos referirmos à morte de indivíduos, quando verificamos que funções fisiológicas cessam. Nos microrganismos unicelulares, algumas atividades biológicas celulares podem apenas ficar suspensas por determinados períodos de tempo, sem que a morte tenha ocorrido. Por exemplo, a formação de esporos (formas de resistência de bactérias) implica na interrupção da reprodução. Porém, é fato que a célula ainda detém a capacidade reprodutiva. Apenas está impedida de fazê-la. Existem métodos de conservação de microrganismos que prevêem o seu congelamento por longos períodos ou a imersão das colônias em óleo mineral estéril. No primeiro caso, todas as propriedades fisiológicas usuais são perdidas, mas o microrganismo manterá a capacidade reprodutiva e, para que tal ocorra, basta que sofra descongelamento brando e semeadura em substrato adequado. No segundo caso, as funções metabólicas são reduzidas a tal ponto de permitir que o microrganismo possa ser mantido por vários anos naquele estado. No entanto, uma vez retirado e semeado novamente em substrato adequado, irá multiplicar-se normalmente. Consideram-se vivos, então, aqueles microrganismos que mantém a capacidade reprodutiva e mortos Registro ISBN 93.675 44 aqueles que perdem a capacidade de reprodução, denominando-se aos primeiros o termo "viável" e aos últimos a denominação "inviáveis". Métodos para determinar o crescimento Existem vários métodos que podem ser empregados para verificarmos se uma cultura microbiana encontra-se em crescimento e mesmo para determinar a taxa deste crescimento. Ente os métodos, pode-se citar : determinação do peso seco do material celular, pesquisa de constituintes elementares, determinação do poder catalítico da substância viva, contagem do número de indivíduos presentes na população (contagem total de células) , turbidimetria e contagem viável de células. Determinação do peso seco Este método consiste na verificação do peso de colônias em intervalos pré determinados para verificar se está ocorrendo aumento do mesmo e conseqüentemente, se está ocorrendo crescimento. Aplica-se mais a microrganismos cultivados em meio de cultivo líquido e principalmente para fungos filamentosos. No entanto pode também ser aplicado a microrganismos unicelulares. Fato importante é que este método somente é possível de ser aplicado em amostragens de crescimento, uma vez que os microrganismos constituintes das colônias submetidas à determinação de seu peso seco morrem. Um exemplo que ilustra bem este tipo de trabalho seria uma bateria composta por 100 frascos de Erlenmeyer com exatamente 200 mL de meio Sabouraud dextrose líquido e que tenham recebido, todos, um inóculo de igual tamanho de Aspergillus niger. Se estes cultivos forem submetidos às mesmas condições, inclusive de temperatura, será fácil entendermos que, sendo também igual o inóculo em todos os frascos, as colônias crescerão a uma mesma velocidade e de igual modo. Desta forma, a cada dia, poderemos escolher aleatoriamente um dos frascos, separar por filtração a colônia do meio líquido e pesá-la várias vezes, intercalandoas pesagens com secagens em uma estufa, até que obtenhamos um peso constante. Quando obtivermos um peso constante, este significará o peso seco daquela colônia (peso do Registro ISBN 93.675 45 material, destituído de água). Se, em conseqüentes escolhas de frascos e determinações do peso seco correspondente a estas colônias, verificarmos um aumento do peso seco, será correto concluir que o microrganismo encontrase em crescimento, pois as massas coloniais estão aumentando. A determinação do peso seco, no entanto, apresenta algumas desvantagens. A primeira delas pode ser justamente a que prevê determinação do crescimento, somente por amostragem de um total de cultivos. Outra desvantagem importante é o fato da limitada sensibilidade dos métodos gravimétricos. Ou seja, as balanças disponíveis em laboratórios não são apropriadas para o registro de valores ínfimos, tais os representados por apenas algumas células de uma pequena população em início de crescimento. Por exemplo, quanto pesaria uma dezena ou centena de bactérias ou ainda algumas estruturas fúngicas?. É preciso lembrar que uma população bacteriana, por maior que seja, pode ter origem e desenvolvimento a partir de uma única célula bacteriana. Assim é preciso partir da premissa de que estamos lidando com populações já com algum estado de adiantamento no número de indivíduos. Outro fator a ser considerado é que um aumento de materiais capsulares ou materiais de reserva, por exemplo, podem implicar no aumento do peso, mas não significam aumento da população, pois não refletem um aumento da substância viva. Pesquisa de constituintes essenciais Considerando que todo microrganismo necessita de fontes de carbono , fontes de nitrogênio , enxofre, fósforo, etc., e, considerando que estes elementos passam a fazer parte, indiretamente, das estruturas celulares, podemos utilizá-los como referência de crescimento ou não. Em linhas gerais, podemos dizer que elementos como C e N , mais requisitados por microrganismos, são melhor utilizados para estas determinações. Através de métodos analíticos, podemos determinar o teor de C em uma dada cultura microbiana. Se, por exemplo, a cada intervalo de 4 horas, o teor de C aumenta, então podemos dizer que está implicada uma multiplicação celular. No entanto, este método também apresenta desvantagens e, a principal delas é a sensibilidade dos métodos de Registro ISBN 93.675 46 análise do teor de várias substâncias. Como determinar estes valores para pequenas populações onde o teor é ainda muito baixo? Poder catalítico da substância viva Este método relaciona-se à medida do aumento nas quantidades de determinadas enzimas ou na medida das taxas de um processo metabólico como respiração ou fermentação. Citemos como exemplo a produção da enzima amilase, que é a enzima que catalisa a hidrólise de moléculas de amido, por determinadas bactérias. Se você, como pesquisador, estiver trabalhando com uma cultura bacteriana que seja produtora desta enzima, será possível verificar aumento populacional, baseado no aumento da concentração desta enzima junto ao substrato. Como nos métodos anteriores, existem desvantagens que estão relacionadas à necessidade de grandes quantidades de células para que se consiga determinar a presença enzimática. Contagem direta do número de indivíduos Utilizando-se câmaras de contagem, semelhantes às câmaras de contagem para ovos de parasitos e às câmaras de contagem de hemácias, pode-se determinar, também o número de bactérias ou de fungos unicelulares em um determinado meio. Neste processo, uma alíquota da cultura ou do material líquido que contenha microrganismos unicelulares é colocada entre a câmara e a lamínula. Esta alíquota é de volume conhecido e a câmara apresenta um quadriculado de dimensões conhecidas. Deste modo, é possível contar o número de células e, no final da contagem realizada mediante focalização em microscópio, será possível calcular o número total de indivíduos por mL da amostra. Uma das desvantagens encontra-se no fato de contarmos tanto os microrganismos viáveis como os inviáveis e também no fato de necessitarmos de uma grande concentração de microrganismos unicelulares para que os mesmos possam ser representados em alíquotas tão pequenas como as utilizadas no método. Registro ISBN 93.675 47 Turbidimetria Quando microrganismos unicelulares encontram-se dispersos em um meio líquido, o mesmo torna-se turvo proporcionalmente ao número de indivíduos. Tal fato pode ser verificado na prática. Quando acabamos de preparar um meio como o caldo simples, verificamos que o mesmo apresenta uma aparência límpida. Se inocularmos uma bactéria compatível com os nutrientes apresentados pelo mesmo, verificaremos que a população irá aumentando e ao mesmo tempo turvando o meio. As partículas representadas pelas bactérias diminuem a passagem da luz. Esta observação pode ser empregada de modo mais preciso com o uso de alguns processos científicos. Pode-se, por exemplo, fazer uso da Escala de McFarland. A escala de McFarland é constituída por uma série de 10 ampolas de vidro, no interior das quais existe H2SO4, H20 destilada e Cloreto de Bário. Cada ampola constituinte da escala apresenta uma concentração diferente de cloreto de bário. Quando a escala encontra-se em repouso na estante, o cloreto de bário encontra-se precipitado nos fundos das ampolas, ficando em suspensão sempre que as ampolas são agitadas manualmente. Quando tal fato ocorre, cada ampola simula a turbidez de uma cultura bacteriana. Deste modo, quando queremos estimar o número de bactérias presentes em uma suspensão, podemos comparar com os tubos da escala e verificarmos com qual grau mais se aproxima. A cada tubo, corresponde um número de microrganismos unicelulares. A escala de McFarland, no entanto, apresenta desvantagens. A primeira diz respeito à acuidade visual de cada um. Sendo assim, as pessoas podem realizar a estimativa do número de células de uma cultura de modo diferente. Mais uma vez, temos um método que considerará tanto as células viáveis quanto as inviáveis. No entanto, trata-se de um processo prático e rápido e , que por isso, conta ainda com vários adeptos. Ainda dentro do uso da turbidimetria, podemos fazer uso do espectrofotômetro. Este aparelho, utilizado para inúmeras outras aplicações, pode ter emprego numa medida mais exata do número de microrganismos. Uma das características funcionais do mesmo é a possibilidade de medir a transmitância e a absorvância. Assim, podemos efetuar estas medidas para uma cultura e fazermos um acompanhamento por períodos regulares. Por exemplo, podemos colocar uma cultura que supomos em Registro ISBN 93.675 48 crescimento na cubeta, ajustarmos o comprimento de onda do aparelho e medimos a transmitância . Se, numa segunda, terceira , quarta leituras , etc., o valor da transmitância estiver diminuindo, podemos supor que a cultura encontra-se em crescimento, uma vez que a transmitância mede a quantidade de feixes luminosos que ultrapassam a cubeta onde se encontra a cultura. O mesmo procedimento pode ser efetuado com a medida de absorbância, sendo que neste caso, o aumento dos valores de absorbância é que definem o crescimento. Em ambos os casos, não será possível determinar se somente as células viáveis estão contribuindo para a turbidez do meio. O método é um pouco trabalhoso e, via de regra, as porções de cultura empregadas nos testes tem que ser descartadas, o que implicaria no uso apenas de amostras ou na feitura de todos os testes em câmaras de fluxo laminar. Um outro sistema de contagem de microrganismos é conhecido como Sistema de Andersen. Trata-se de um amostrador de ar ambiente, sendo um aparelho composto de vários compartimentos nos quais são colocadas placas de Petri contendo o meio de culturaque será empregado no processo. Estes compartimentos possuem filtros posicionados sobre as placas de Petri, com tamanhos diferenciados de poros. Ao ser ligado, o aparelho fará passar o ar ambiente pelos filtros e a primeira placa receberá as partículas (neste caso, microrganismos) de maior tamanho. A segunda placa receberá partículas menores, a terceira menores ainda e assim por diante. Há portanto um gradiente de tamanhos de poros de maior para menor considerando a parte superior do aparelho. O importante é que cada placa permite separar os microrganismos que irão se desenvolver nestas placas com um tamanho variável em milimicrons. Assim, os microrganismos que são coletados na penúltima e última placa, por exemplo, são compatíveis com a deposição nos alvéolos pulmonares. Um último método a ser comentado e de grande valia, apesar de trabalho é o que intitulase contagem viável em placas. Este método baseia-se no fato que somente bactérias viáveis podem formar colônias e, portanto, apresenta a grande vantagem de contar somente os microrganismos unicelulares com capacidade de se multiplicarem. Para tal são necessários os seguintes materiais: uma bateria de nove placas de Petri esterilizadas e vazias, uma bateria de nove tubos de ensaio contendo 20 mL de meio de cultivo apropriado ao microrganismo, uma bateria de nove tubos de Registro ISBN 93.675 49 ensaio contendo 9 mL de solução salina em cada, esterilizados, e pipetas esterilizadas, além de banho Maria, aquecedor, bico de Bunsen, etc. Considerando como exemplo uma cultura de uma bactéria que desejemos saber o número de células constituintes, poderemos proceder da seguinte maneira: Retiramos uma alíquota d 1mL desta cultura e passamos para o primeiro tubo de ensaio contendo salina. Em seguida fazemos homogeneização deste primeiro tubo, retiramos do mesmo uma alíquota de 1mL e transferimos para o segundo tubo contendo salina. Passamos então a retirar nova alíquota de 1mL do segundo tubo contendo salina e passamos para o terceiro tubo, também efetuando-se homogeneização. Este procedimento é repetido até o último tubo, de modo que teremos diluições 10-1, 10-2, 10-3, 10-4 ........10-9. Após toda esta operação de sucessivas diluições, uma alíquota de 1 mL de cada diluição em salina, será transferida para placa de Petri respectiva, anotada quanto à diluição correspondente. Cada tubo de meio de cultivo, que já deverá ter sido fundido, resfriado e mantido a 50º C em banho Maria, será vertido para cada placa de Petri, efetuando-se imediatamente um movimento com a mesma, buscando a melhor homogeneização. Após incubação a 37ºC ou à temperatura que melhor convier (quando tratar-se de culturas com exigências específicas de temperatura) por 24-48 horas, procederemos à contagem do número de colônias bacterianas do meio. Para tal, escolhemos para contagem, as placas que portarem entre 30 e 300 colônias. Como cada colônia é formada a partir do desenvolvimento de uma única célula, uma placa correspondente à diluição 10-8 que tenha 68 colônias por exemplo, será a revelação de que na mesma entraram 68 bactérias viáveis. Para sabermos, então, quantas colônias existem na amostra, bastará multiplicarmos pelo fator de diluição ( 68 x 10 8 bactérias / mL). Matemática do crescimento microbiano unicelular Como o crescimento representa um aumento na quantidade de matéria viva, existe um aumento também do material que se autoduplica, pois quanto mais substância viva vai se formando, maior se torna a quantidade de material com capacidade para crescer e se multiplicar. Torna-se um evento dinâmico. Registro ISBN 93.675 50 As bactérias crescem em progressão geométrica, em períodos curtos de tempo. Algumas bactérias conseguem efetuar esta multiplicação em períodos de 12-15 minutos e para algumas o tempo é maior (20 minutos, por exemplo). O tempo médio é de 15- 20 minutos para que ocorra a completa divisão e é denominado "tempo de geração". Há algumas exceções de bactérias que levam um tempo bem maior, até mesmo de horas. Cada célula cresce individualmente e , após atingir determinado tamanho, divide-se dando origem a duas células que também crescerão até atingirem o momento da divisão. Estas células resultantes da divisão binária são fisiologicamente muito semelhantes e crescem e se dividem em tempos aproximadamente iguais. É por este motivo que as multiplicações celulares ocorrem a intervalos regulares. Naturalmente, para que isto ocorra, há dependência de nutrientes adequados e de outras condições favoráveis. Como o número de células se duplica a cada geração, a população aumenta como potência de 2 (20, 21,22,23,24,25,26, etc.). Assim , teríamos : 1, 2, 4, 8, 16, 32, 64, 128, 256, 512 ....... células. Normalmente uma população bacteriana pode iniciar-se com apenas uma ou com algumas células e, em algumas horas , apresentar milhões delas. Por este motivo, seria difícil representar números tão pequenos e tão grandes em um único gráfico. Assim, emprega-se um gráfico semi-logarítmico, onde o eixo das ordenadas representará o log do número de bactérias, enquanto o eixo das abcissas representará o tempo em minutos, no qual transcorre a multiplicação . Veja gráfico abaixo. Por outro lado, uma cultura bacteriana apresenta limites de crescimento. Em laboratório , no pequeno universo que representa um tubo de ensaio ou outra vidraria provida desta cultura, as condições mudam e a cultura sofre influência. Por exemplo, os nutrientes escasseiam e acumulam-se os elementos tóxicos, produtos do metabolismo das próprias bactérias. Também é preciso considerar que as bactérias que travam um primeiro contato com um determinado meio de cultivo necessitam de uma adaptação inicial. Assim, a curva de crescimento bacteriano é representada por várias fases, representadas abaixo. Registro ISBN 93.675 51 Representação gráfica da curva de crescimento microbiana A curva é representada em gráfico semi-logaritimico. O motivo é que quando imaginamos o número de bactérias oriundo de várias gerações, não é possível colocá- lo no eixo das ordenadas. Como a população dobra rapidamente, o eixo não comporta todos os intervalos destes números. A primeira fase, ou "lag fase"(1) é justamente uma fase de adaptação e compreende o período necessário para que os microrganismos reconheçam os constituintes e as condições do meio. Nesta fase há um aumento da atividade metabólica. Naturalmente é um período variável entre os diferentes tipos de bactérias e também depende das condições que as células se encontravam antes de serem inoculadas em um novo meio ou substrato. A segunda fase é conhecida como "fase logarítmica" ou "fase de crescimento exponencial" ou simplesmente “log fase”(2) . Durante a log fase, o número de novas células aumenta exponencialmente e as células estão em uma condição metabólica conhecida como de crescimento equilibrado. Neste caso, todos os constituintes celulares que nós poderíamos quantificar, como proteínas, o RNA, o DNA ou a biomassa aumentam em uma mesma taxa. Esta fase pode ter a durabilidade de 4 a 10 horas para os microrganismos que crescem mais rápido. Esta fase de crescimento logarítimico tem como conseqüência uma rápida depleção nos nutrientes disponíveis no meio de cultivo e o surgimento de uma série de produtos tóxicos se acumulam. Com tal evento, o crescimento deixará de ser equilibradoe vários Registro ISBN 93.675 52 componentes celulares passam a ser sintetizados em diferentes taxas. Tais fatores promovem a terceira fase, conhecida como “fase estacionária máxima”, quando há uma diminuição da divisão celular e até uma cessação. O número de bactérias que surgem é igual ao número de bactérias que morrem ou que, melhor dizendo, perdem a viabilidade, como reflexo do surgimentode substâncias tóxicas e a diminuição de nutrientes. Nesta fase, em decorrência do crescimento não equilibrado que a precede, as células deixam de ser uniformes em sua composição e frequentemente podem ser menores que na log fase e mais resistentes às alterações ambientais como a radiação, calor e desidratação. A quarta fase é denominada "fase de morte" ou "fase de declínio"(4) e é fruto da escassez de nutrientes e do grande acúmulo de metabólitos tóxicos. A taxa de morte ocorre de modo variável em função do tipo de célula e das condições ambientais. Tais características da curva ocorrem sob certas condições como as de laboratório, onde o meio de cultivo empregado, a temperatura, o pH são controlados. Na natureza, alterações são esperadas e também em várias circunstâncias como a clínica. O comportamento dentro do corpo humano ou animal, por exemplo, de um microrganismo que esteja circulante no sangue, pode variar muito. Primeiramente pelo constante fornecimento do sangue que é renovado e também devido aos mecanismos imunológicos do organismo, além de muitas outras variáveis. Imaginemos uma situação como a de um abscesso em uma pessoa. As bactérias que ali estão, encontram-se praticamente sem acesso a fluidos externos ao mesmo. Elas possuem, então, contato com tecido morto e demais componentes que irão suportar o crescimento rápido apenas durante um tempo. Por isso, podem atingir a fase estacionária da curva de modo mais rápido, pois não terão acesso a nutrientes e substâncias do ambiente externo. O número de gerações de células formadas durante o período de 1 hora é conhecido como “taxa de crescimento”. Podemos ver, em seguida um gráfico representativo da taxa de crescimento de alguns microrganismos diferentes. Registro ISBN 93.675 53 Neste exemplo, o microrganismo A possui maior taxa de crescimento que o microrganismo B que, por sua vez apresenta maior taxa de crescimento que o microrganismo C. O microrganismo D está sem crescimento pois está representado por uma reta paralela ao eixo das abscissas. Crescimento Sincrônico Quando uma população bacteriana inicia-se com uma única célula, as divisões celulares, inicialmente ocorrem a um mesmo tempo, ou seja, há sincronia de tempo. No entanto, com o aumentar da população, por diferenças fisiológicas individuais, esta sincronia deixa de existir e, enquanto algumas células podem estar no estágio de divisão, outras ainda podem estar aumentando de tamanho ou já se dividindo. Para uso em pesquisa, pode ser interessante que toda população de uma cultura esteja em sincronia. Uma forma de promover tal fato é a inibição das divisões celulares pelo rebaixamento da temperatura a um nível inferior ao da temperatura ótima de crescimento. As células crescerão até somente o ponto de divisão, quando serão impedidas pela temperatura baixa. Quando aumentamos novamente a temperatura, toda a população duplica-se novamente em sincronia. Outro artefato, prevê a separação, por filtração, das células da cultura que estão em diferentes estágios de Registro ISBN 93.675 54 tamanho, separando-se por exemplo, aquelas que estão em tamanho pronto para a divisão e aquelas células que são frutos imediatos de divisão. Manutenção de células na fase exponencial Sabemos que o crescimento exponencial pode ser limitado pela escassez de nutrientes e pelo acúmulo de substâncias tóxicas. É possível, no entanto, manter culturas em fase exponencial por tempos prolongados, fazendo-se uso do "quimiostato" . Trata-se de um dispositivo constituído por dois recipientes interligados. Um, geralmente localizado em posição inferior, contém a cultura microbiana e um outro superior contém meio de cultivo novo, ainda não utilizado . O frasco superior supre o inferior com gotas de cultura nova, de modo que existam sempre nutrientes novos . Um sistema de sifão localizado no frasco da cultura (inferior) permite a saída de depósitos, geralmente representados por substâncias tóxicas depositadas e bactérias mortas. Desta forma, a cultura permanece na fase exponencial. Registro ISBN 93.675 55 INFLUÊNCIA DO AMBIENTE QUÍMICO E FÍSICO SOBRE MICRORGANISMOS INFLUÊNCIA DO AMBIENTE QUÍMICO Geralmente uma substância pode funcionar para um microrganismo como germicida, germistático ou nutriente. No primeiro caso, haveria a morte do microrganismo. No segundo caso haveria o impedimento do crescimento microbiano em um substrato que, sem a presença da referida substância, seria um substrato favorável. No terceiro caso, auxiliaria o microrganismo, favorecendo o seu crescimento. Estes temos são gerais para os microrganismos. Especificamente, podemos nos referir a bacteriostáticos, fungistáticos, algistáticos, bactericidas, fungicidas, algicidas. Você já estudou vários métodos que podem ser empregados para avaliar o crescimento microbiano. Portanto, sabe que alguns deles podem ser usados para avaliar se uma determinada substância química age como nutriente, como fator bacteriostático ou bactericida. É preciso, no entanto esclarecer que uma mesma substância poderá funcionar nos três casos. Tal fato dá-se pelas diferenças fisiológicas que determinados microrganismos apresentam em relação a outros. Assim, uma determinada substância poderá funcionar como agente bactericida para um microrganismo A e ser, na mesma concentração, um nutriente para um microrganismo B. Por exemplo, o gás sulfídrico e o monóxido de carbono são tóxicos para a maioria dos organismos aeróbios, já que inibem o metabolismo respiratório. No entanto, nós sabemos que existem bactérias que utilizam H2S ou CO como fontes de energia. Também a concentração da droga empregada pode ter efeitos diferentes. Assim, uma mesma substância, dependendo da concentração empregada pode ter efeitos de nutriente, efeito bacteriostático ou bactericida. Sabemos que os microrganismos utilizam açúcares como fontes de carbono e que a sacarose é um dos açúcares muitas vezes empregados nos meios de cultivo. No entanto, se a sacarose for empregada em concentrações muito elevadas poderá funcionar como agente bacteriostático ou mesmo bactericida. A concentração de sacarose que pode exercer um efeito bacteriostático, no entanto, irá variar de microrganismo para microrganismo. Uma concentração de 10% de sacarose poderá Registro ISBN 93.675 56 exercer um efeito de bacteriostase para um grande número de microrganismos, mas existem aqueles que conseguem permanecer viáveis mesmo a concentrações em torno de 40%. Sempre nos depararemos com microrganismos, quer sejam bactérias ou fungos, que suportam elevados teores de açúcar. O efeito que o açúcar exerce sobre microrganismos, quando adicionado em grandes concentrações, apresenta aplicação na indústria de alimentos, uma vez que pode-se efetuar a conservação de frutas pelo método de cristalização e também na forma de geléias. Substâncias químicas atuantes como bactericidas ou bacteriostáticos Com o decorrer dos séculos, o homem aprendeu a utilizar várias substâncias para o combate de microrganismos, seja na preservação de alimentos, nos casos de quimioterapia , nos casos de desinfeção. Para que uma substância possa ser empregada como um agente terapêutico, no entanto, ela deverá satisfazer a várias condições. Pode-se, porém, afirmar que estas substâncias, ao mesmo tempo em que devem ser tóxicas aos microrganismos devem ser inócuas ou relativamente inócuas ao homem. Várias drogas de efeito antibiótico, hoje empregadas em tratamentos, apresentam este efeito seletivo, ainda que promovam algum efeito colateral. A penicilina é um antibiótico com um bom espectro de ação e essencialmente pouco tóxica para o homem. Como exemplo contrário podemos citar o caso da citrinina. Esta micotoxina, embora tenha efeito antibiótico sobre muitas bactérias,não pode ser usada em tratamentos por ser extremamente tóxica para o homem e para os animais. Também o bicloreto de mercúrio (HgCl2) é poderoso bactericida mas é um veneno para todos os organismos vivos. Geralmente os efeitos promovidos pelas substâncias químicas são de duas categorias: injúria de alguma estrutura física celular ou interferência em prcessos metabólicos essenciais aos microrganismos. Injúria físico-química à estrutura celular Destacam-se as drogas que agem sobre a membrana celular, já que a membrana é responsável pela preservação da integridade da célula. Uma injúria na Registro ISBN 93.675 57 mesma, pode acarretar a saída de constituintes citoplasmáticos importantes, como aminoácidos, nucleotídeos, coenzimas, íons inorgânicos, etc... o que é suficiente para a morte celular. Por outro lado, mesmo em injúrias menores, pode haver o impedimento do transporte de nutrientes para o interior da célula. Existem vários compostos que são capazes de reagir superficialmente com a membrana celular, afetando justamente a composição lipido-proteica da mesma. Entre estes, estão os agentes que contém fenol, os sabões e os detergentes sintéticos que dissolvem estes constituintes da membrana ou se combinam com eles, alterando a superfície. Como estes agentes não apresentam grande especificidade, claro está que muitos deles causam danos também aos tecidos, quando entram em contato com os mesmos. Seu principal uso está, portanto, na desinfecção de superfícies. Passamos a citar, em seguida, alguns exemplos de agentes bactericidas e bacteriostáticos e os seus mecanismos de ação: Agentes que promovem destruição ou alteração da organização estrutural da célula : a) Desnaturando proteínas : álcool Os alcoóis são desnaturantes de proteínas o que lhe confere a atividade antimicrobiana. Como conseguem dissolver lipídeos, podem também atuar em nível de membrana citoplasmática. Podem ser usados de modo eficaz na redução da carga microbiana da pele e na desinfecção de termômetros clínicos. O álcool etílico em concentrações de 70% é eficaz contra formas vegetativas, também conhecidas como não esporuladas. Não podemos confiar no seu poder esterilizante. Ele funcionará somente como antisséptico ou desinfetante. O álcool metílico, além de muito tóxico, possui poder bactericida menor que o do álcool etílico. Álcoois mais pesados como o propílico, amilítico, butílico são mais germicidas que o álcool etílico. Há uma relação direta entre aumento do peso molecular e eficácia. Os alcoóis propílico e isopropílico em concentrações de 40% a 80% são considerados úteis na antissepsia de pele. Registro ISBN 93.675 58 b) Destruindo a parede celular de algumas bactérias : lisozima c) Modificando as funções da membrana celular : fenóis e cresóis , detergentes catiônicos (cloreto de cetilpiridínio), detergentes aniônicos ( sabão, tetradecilsulfato de sódio ) , polimixina B , alguns corantes e metais pesados. O fenol é também conhecido como ácido carbólico ou ácido fênico. As substâncias fenólicas podem ser bactericidas ou bacteriostáticas. Causam dano à membrana celular mas também promovem desnaturação de proteínas celulares. As soluções aquosas de 2 a 5% podem ser utilizadas na desinfecção de material como escarro, urina, fezes e instrumentos ou utensílios contaminados. Os cresóis possuem ação germicida muito superior à dos fenóis. d) Combinando-se com ácidos nucleicos ( corantes básicos como a acriflavina e a violeta de genciana). Agentes que agem interferindo com o mecanismo energético : a) Inativando enzimas (metais pesados e mercuriais como o HgCl2, mertiolato) Os metais pesados (mercúrio, cobre, prata, chumbo, iodo, etc.) são os mais potentes inibidores da atividade enzimática , destacando-se o mercúrio tanto na forma inorgânica (HgCl2) ou orgânica (mertiolato ou paracloromecurobenzoato). O mercúrio e outros metais pesados combinam-se com os grupos SH de muitas enzimas que atuam justamente em processos catalíticos. O iodo é um agente altamente germicida, eficiente contra praticamente todas as bactérias. Também apresenta ação esporicida, mas relativa uma vez que depende de condições ambientais. O iodo para ser preparado tem que ser solubilizado com iodeto de potássio. Consequente a isto, há o uso em várias apresentações variáveis na concentração de iodo e do iodeto de potássio. Também é encontrado como iodóforo, quando misturado a substâncias com poder tênsio-ativas que funcionam como carregadores e solventes do mesmo. O cobre, na forma de sulfato de cobre pode ser usado como controle de algas e fungos. O uso em reservatórios de água abertos, incluindo piscinas é eficiente. Na forma de Registro ISBN 93.675 59 calda bordalesa (uma referência à mistura de Bordeaux é um fungicida para tratamento de doenças em plantas. b)Combinando-se com grupos prostéticos de enzimas (cianeto ) c)Competindo com substratos enzimáticos (monóxido de carbono) Um grupo de inibidores de enzimas, desta feita mais específico é representado pelo cianeto e pelo monóxido de carbono que são capazes de se ligarem com os átomos de ferro das oxidases citocrômicas de organismos aeróbios, inativando-as. O monóxido de carbono é um bom exemplo, pois por apresentar similaridade estrutural com o oxigênio molecular, passa a substituí-lo na combinação com a enzima. O monóxido de carbono é, assim , conhecido como um inibidor competitivo. Já o cianeto é um inibidor não competitivo. d)Impedindo as fosforilações oxidativas (ex: dinitrofenol) Agentes que interferem com a biossíntese e com o crescimento: a) Impedindo a síntese normal de proteínas (substâncias análogas a aminoácidos como o 5-metil triptofano e a p-fluorofenilalanina) b) Impedindo a síntese normal de ácidos nucleicos (substâncias análogas às bases dos ácidos nucleicos como a 6-mercaptopurina e o 5 - bromouracil, Mitomicina C). c)Impedindo a síntese de coenzimas (sulfanilamida) As sulfonamidas são similares, em estrutura, ao ácido p-aminobenzóico, que é um fator de crescimento para muitas bactérias. O ácido p-aminobenzóico é considerado um fator de crescimento por ser um componente das importantes coenzimas do ácido fólico. Muitas bactérias sintetizam o ácido fólico a partir do ácido p-aminobenzóico. As sulfonamidas são tóxicas para estes microrganismos por interferirem na síntese do ácido fólico. d)Impedindo a síntese da parede celular (penicilina) Efeito do pH Antes de tratarmos deste tópico, queremos lembrar que valores de pH inferiores a 7,0 são considerados ácidos e superiores a 7,0 são considerados alcalinos e que o pH é uma função logarítmica. Uma mudança de uma unidade de pH corresponde a 10 Registro ISBN 93.675 60 vezes a concentração de íons de hidrogênio. Desta forma, se analisarmos o suco de limão que corresponde a pH 2,0 e de um outro produto que tenha por exemplo um pH = 9,0 , temos uma diferença de um bilhão de vezes na concentração de hidrogênio. O ambiente interno de todas as células vivas é aproximadamente neutro. A maioria das bactérias é relativamente insensível às concentrações externas de íons H e OH . Existem formas que crescem em valores variáveis de pH entre 6,0 e 9,0 o que corresponde a uma variação na concentração hidrogeniônica muito grande. A explicação para o fato das bactérias apresentarem esta relativa insensibilidade reside no fato das células vivas serem pouco permeáveis aos íons H e OH. Porém, é preciso lembrar que estamos falando em termos gerais. Existem bactérias que apresentam preferência por condições extremamente ácidas ou extremamente alcalinas. No primeiro caso temos as bactérias acidófilas como os tiobacilos que podem crescer mesmo em pH 1,0 . No segundo caso, podemos exemplificar com as bactérias que fazem decomposição da uréia, muitosdos quais necessitam de pH em torno de 8,0. Os fungos tendem a ser mais acidotolerantes que as bactérias. Muitos crescem em valores de pH considerados ótimos como pH=5,0 ou menos. Algumas bactérias são acidófilas obrigatórias, sendo inaptas para se desenvolverem em valores de pH neutros. Estas incluem justamente os tiobacilos (Thiobacillus )e vários gêneros pertencentes às Arqueobactérias , como Sulfolobus e Thermoplasma. O importante é que Sulfolobus e Thiobacillus são capazes de oxidar alguns minerais, produzindo ácido sulfúrico. Existe a sugestão de que bactérias acidófilas obrigatórias, a membrana celular somente é estável na presença de uma alta concentração hidrogeniônica. Quando o pH não é favorável, a morte bacteriana pode ocorrer, mas não como um resultado direto do aumento das concentrações dos íons H ou OH. Na verdade, as moléculas de substâncias ácidas e básicas, não dissociadas , podem penetrar nas células com maior facilidade que os íons. Assim, quando o pH encontra-se baixo, há maior facilidade de penetração de ácidos fracos (como o ácido acético) não dissociados na célula, enquanto ácidos fortes (como o ácido clorídrico) tem efeito relativamente pequeno por penetrarem pouco. A mesma teoria aplica-se às bases. Registro ISBN 93.675 61 Oxigênio Microrganismos possuem comportamentos diferentes em relação ao contato com o oxigênio e em decorrência disso recebem diferentes denominações. Microrganismos aeróbios – muitos microrganismos diferentes que necessitam de O2 livre. Eles utilizam o oxigênio como um aceptor de elétrons na via de transporte de elétrons. Este oxigênio associado à reação é essencial para a célula microbiana, pois ajuda a mesma a criar a energia metabólica necessária. Tais reações produzem H202 e um segundo componente tóxico conhecido como superóxido (02-) que frequentemente é produzido em pequenas concentrações quando a célula usa o oxigênio como aceptor de elétrons. Por este motivo, as bactérias aeróbias necessitam de uma ou mais enzimas como a catalase e a superoxidodismutase para que possam ser protegidas destes efeitos tóxicos. Por exemplo, a catalase transforma o peróxido de hidrogênio em água e oxigênio. A seguir verificamos algumas destas reações de proteção. Catalase 2H2O2 2H2O + O2 Peroxidase 2H202 2H2O Superoxidodismutase 202- + 2H+ O2 + H2O2 Microrganismos microaerófilos - crescem em condições em que as concentrações de oxigênio são muito pequenas. Os microaerófilos requerem O2, mas em níveis bem menores que o atmosférico. Acredita-se que suas enzimas não suportem condições fortemente oxidativas, ocorrentes na aerobiose normal, o que promoveria a sua inviabilidade. Microrganismos anaeróbios Há microrganismos que não possuem um metabolismo respiratório e não podem usar o oxigênio como aceptor final de elétrons. Alguns desses microrganismos são denominados anaeróbios, com dois tipos: Anaeróbios facultativos – Estão aptos a usarem o O2 se este estiver presente mas também conseguem crescer na ausência do mesmo. Registro ISBN 93.675 62 Anaeróbios obrigatórios - Não produzem enzimas protetivas como a catalase. Por este motivo são inativados na presença do oxigênio por conta de não possuírem capacidade para detoxicarem alguns produtos do metabolismo do oxigênio. Enquanto os aeróbios produzem as enzimas já mencionadas, para os anaeróbios, faltam todas ou algumas destas enzimas. Eles não conseguem usar o oxigênio como aceptor final de elétrons. Por este motivo, quando vamos trabalhar com estes microrganismos, temos a necessidade de remover o oxigênio do substrato onde irão se desenvolver. Há muitos outros conceitos relacionados ao comportamento frente ao oxigênio ou ao CO2. Assim, existem termos como Anaeróbios moderados. Estes microrganismos toleram uma concentração de O2 variável de 2% a 8% e expostos, podem sobreviver por até 90 minutos. Outro termo diz respeito aos microrganismos capnófilos que são os que necessitam de 5 a 10% de CO2 e que metabolizam este CO2. Com relação à utilização, na verdade todas as bactérias requerem uma pequena concentração de CO2 em torno de 0,03%. Capnófilos – requerem CO2 para o crescimento. Esta categoria é encontrada entre os anaeróbios e aeróbios. Os microrganismos que não possuem um metabolismo respiratório, não podem usar o oxigênio como aceptor final de elétrons. Alguns microrganismos são denominados anaeróbios, mas temos dois tipos dentro desta classificação: anaeróbios aerotolerantes, que podem tolerar oxigênio e que crescem na presença do mesmo, embora não façam uso e os anaeróbios obrigatórios que são mortos pelo oxigênio. Uma das razões pelas quais os anaeróbios são mortos na presença de oxigênio talvez seja a incapacidade dos mesmos detoxicarem alguns dos produtos do metabolismo do oxigênio. Quando o oxigênio é reduzido, sobram produtos tóxicos como H2O2, superóxidos (O2_) e radicais OH. Na verdade, aeróbios apresentam enzimas capazes de decompor estes produtos, enquanto aos anaeróbios faltam todas ou algumas destas enzimas. Existem ainda os microrganismos considerados aeróbios e estes podem ser divididos em : obrigatórios, facultativos e microaerófilos. Os primeiros requerem o O2. Os aeróbios facultativos não requerem o O2, mas podem crescer melhor com O2. Registro ISBN 93.675 63 INFLUÊNCIA DO AMBIENTE FÍSICO Temperatura O intervalo de temperatura dentro da qual os organismos vivos podem crescer, é em geral limitado entre -5ºC a 80ºC. No entanto, para cada microrganismo em particular, este intervalo é bem mais estreito. Além disso, dentro das faixas de crescimento melhores, existe uma temperatura considerada ótima para o crescimento. Ou seja, um microrganismo pode desenvolver-se melhor na faixa de 32º C a 39º C, e apresentar ainda um crescimento melhor a 37ºC. Com relação ao comportamento dos microrganismos frente às temperaturas, podemos classificá-los em mesófilos, psicrófilos e termófilos. Os microrganismos mesófilos são aqueles cuja temperatura ótima de crescimento encontra-se siturada na faixa de 20º C a 45º C. Os microrganismos cujas temperaturas ótimas de crescimento encontram-se abaixo de 20ºC, são denominados psicrófilos. Os termófilos são aqueles cuja temperatura ótima de crescimento está acima de 45ºC. Esta pode ser considerada uma classificação arbitrária, pois existem microrganismos que inteligam estas três faixas. Alguns autores, consideram hoje, um novo termo dentro desta classificação, os "hipertermófilos" . Estes são aqueles que crescem a temperaturas superiores a 80ºC. Como exemplos, podemos citar : Psicrófilos - Flavobacterium sp Mesófilos - Escherichia coli Termófilos - Bacillus stearothermophilus Hipertermófilos - Thermococcus celer , Pyrodictium brockii Estamos nos referindo a temperaturas ótimas de crescimento e não devemos confundir com a faixa total de temperaturas que permitem o crescimento. Assim, existem microrganismos que embora sejam psicrófilos, podem se desenvolver a temperaturas de 30º C. Cada microrganismo tem também uma temperatura considerada mínima e uma temperatura máxima de crescimento. A primeira é a menor temperatura que ainda Registro ISBN 93.675 64 permite o desenvolvimento de um microrganismo enquanto a segunda é a máxima temperatura possível ao crescimento de um microrganismo. Muitos microrganismos, embora não consigam desenvolver-se em temperaturas superiores à sua temperatura máxima de crescimento, podem continuar viáveis. Ou seja, não crescem, mas sobrevivem. Estes são denominados microrganismos termodúricos. Esta é uma característica mais comum das bactérias denominadas esporuladas, como muitos bacilos. Existem, porém, algumas outras espécies, não formadoras de esporos que também encontram-se nesta classificação. Microrganismos submetidos a temperaturas superiores à suatemperatura máxima de crescimento podem sofrer desnaturação irreversível de constituintes essenciais como proteínas, ácidos nucleicos e outros componentes celulares. Uma grande maioria das bactérias possui capacidade de sobrevivência em temperaturas abaixo da sua temperatura mínima de crescimento. Temperaturas limites para o crescimento de organismos vivos GRUPO Temperatura em graus Celsius ANIMAIS Peixes e outros vertebrados aquáticos 38 Insetos 45-50 Crustáceos 49-50 PLANTAS Plantas vasculares 45 Musgos 50 MICRORGANISMOS EUCARIÓTICOS Protozoários 56 Algas 55-60 Fungos 60-62 Registro ISBN 93.675 65 BACTÉRIAS Cianobactérias 70-74 Bactérias fototróficas anoxigênicas 70-73 Bactérias quimiorganotróficas 90 Arqueobactérias Hipertermofílicas metanogênicas 110 Hipertermofílicas sulfo-dependentes 113 A pressão osmótica A parede celular é a estrutura mais externa dos microrganismos, excetuando-se aqueles que possuem, ainda mais externamente , uma cápsula. A parede, no entanto, desempenha um papel importante na proteção do microrganismo, pois confere rigidez. Esta rigidez, por exemplo, permite que em condições em que ocorra diminuição na concentração de íons, o microrganismo possa manter-se viável. Também por este motivo, muitas doenças promovidas por microrganismos podem ser veiculadas pela água. Há no entanto, uma variação de comportamentos microbianos face a soluções com altas concentrações de cloreto de sódio ou de sacarose. Para entendermos, melhor vamos imaginar uma célula microbiana destituída de parede celular. Sabemos que a enzima lisozima é capaz de destruir a parede celular de algumas bactérias. Se colocarmos bactérias que sejam suscetíveis à ação da lisozima em suspensão em água destilada, após o rompimento da parede pela lisozima, restará o protoplasto. Este será rapidamente intumecido e rompido. O protoplasto bacteriano, por exemplo, está estreitamente ligado à parede celular que é rígida, exercendo sobre a mesma uma pressão considerável. Se, ao invés de água destilada, for empregada uma solução de sacarose a 10%, os protoplastos, após rompimento da parede celular, permanecerão intactos. Já, no caso do rompimento, este dá-se devido ao fato da pressão do turgor dentro dos protoplastos não ser contrabalanceada, ocasionando a dilatação do mesmo e o seu rompimento. No interior celular, a concentração de solutos Registro ISBN 93.675 66 é mais elevada que no ambiente externo. Como a membrana celular é semipermeável, tende a dar passagem à água a fim de igualar as pressões internas e externas. É evidente que o meio onde uma célula se encontra pode ser isotônico (equilibrado com relação ao interior celular, o que pode ser conseguido com a sacarose ou com NaCl) , hipotônico ou hipertônico. No meio hipertônico (a concentração de solutos é maior que a do interior celular), a água tende a passar da célula para o meio, havendo como consequência uma retração do protoplasma em relação à parede celular, fenômeno conhecido como plasmólise. A maioria das bactérias, no entanto, são relativamente insensíveis às variações na pressão osmótica. Por exemplo, o Aerobacter aerogenes consegue crescer em meios com concentrações salinas variando de menos de 0,1 % a 12%. Isto, na verdade, somente é possível graças à parede celular. Microrganismos adaptados à vida nas águas dos oceanos (cerca de 3,5% de NaCl) frequentemente não crescem em meios com menos de 1% de NaCl. Estes microrganismos são ditos halofílicos e os exemplos melhores podem ser encontrados no Mar Morto (cerca de 25% de NaCl) .Os microrganismos que requerem altas concentrações de sal são conhecidos como halofílicos ou sacarofílicos se estivermos nos referindo à sacarose. Em termos gerais, sem nos referirmos ao NaCl ou à sacarose, podemos chamá-los de halofílicos. Os halofílicos ou halófilos podem crescer em soluções saturadas como a de uma salmoura. Os microrganismos não halofílicos toleram somente soluções moderadas de NaCl e podem ser destruídos se as concentrações forem altas. Em seguida, podemos verificar as variações nas concentrações de cloreto de sódio de acordo com as diferentes denominações que microrganismos recebem. Categoria Concentração de NaCl Exemplo Halofílico extremo 5% a 36% Halococcus morrhuae Halofílico 2% a 20% Vibrio costicolus Halofílicos marinhos 0,2% a 5% Vibrio parahemolyticus Não halofílicos 0% a 4% Escherichia coli Registro ISBN 93.675 67 Conhecimentos acerca de microrganismos e do efeito da pressão osmótica são aplicados na conservação de carnes, peixes, etc. No entanto, microrganismos halofílicos extremos conseguem crescer mesmo nestes substratos. Pressão hidrostática Como a água é relativamente incompressível, ou seja, de difícil compressão, pressões de poucas atmosferas não apresentam efeitos marcantes sobre células bacterianas. São necessárias pressões hidrostáticas de várias centenas de atmosferas para haver destruição. Os organismos que vivem nas profundezas dos oceanos, habituados a enormes pressões hidrostáticas não conseguem se desenvolver em pressões normais. Umidade Microrganismos crescem somente quando há adequada umidade presente. Eles necessitam apesar de sua autonomia que nutrientes em solução sejam difundidos através de sua membrana. Devido ao tamanho microscópico, basta um filme fino de umidade frequentemente presente em muitas substâncias e superfícies para que ocorra suporte ao crescimento. Por este motivo, manter material livre de umidade por método de desidratação é um dos métodos para evitar crescimento microbiano, prevenindo a de composição de alimentos ou material diverso. Um alimento desidratado como o leite em pó pde conter grande número de bactérias, por exemplo. A falta de umidade mantém estes microrganismos sem reprodução, em estado estático, porém viáveis. Registro ISBN 93.675 68 ISOLAMENTO DE BACTÉRIAS Para os trabalhos visando à identificação de bactérias há a necessidade de ter as colônias isoladas, pois neste caso estaremos utilizando microrganismos geneticamente iguais; mostrarão então, as mesmas características à microscopia, nos testes bioquímicos, ou em qualquer outra rotina necessária a se chegar ao seu gênero e sua espécie. Existem bactérias ditas anaeróbias as quais não podem crescer em contato com o oxigênio. Neste caso teremos de lançar mão de técnicas que permitam a bactéria formar colônia em um ambiente anaeróbio. Uma das técnicas mais antigas é a de Fortner onde usa-se uma placa de agar sangue glicosado separado por um corte na área central; numa das metades do meio de cultura inocula-se uma suspensão de Serratia marcecens, bactéria aeróbia de crescimento rápido e, na outra metade a suspensão do material onde suspeita-se haver bactéria anaeróbia. Imediatamente veda-se a placa com borracha ou parafina, de modo a não permitir a entrada de oxigênio. Com o crescimento rápido da S. marcecens, haverá consumo do oxigênio passando o ambiente a ser propício para o desenvolvimento de colônias da bactéria anaeróbia da suspensão inoculada. Também para os isolamentos podemos atualmente dispor de jarras de anaerobiose. No método de Zeissler, inicialmente preparamos o agar adequado ao crescimento do microrganismo a ser isolado e o mantemos em placa de Petri. Em seguida promovemos a suspensão em água destilada estéril ou, salina estéril em tubo de ensaio da amostra da qual pretende-se isolar a bactéria anaeróbia. Em seguida, com todo o cuidado e próximo à chama do bico de Bunsen, recolheremos uma gota da suspensão e inocularemos na superfície o meio de cultura fazendo o máximo de estrias possíveis, sem cortar o meio de cultura. A placa de Petri inoculada será levada para dentro de uma jarra de vidro, com um sistema de torneirana tampa. O ar da jarra será retirado pela sucção de uma bomba de vácuo e, em seguida preenchida com CO2 através de um cilindro de CO2 comercial, pela reação de ácido muriático e carbonato de cálcio ou, em último caso pela colocação de uma vela acesa dentro da jarra o que Registro ISBN 93.675 69 propicia o consumo de oxigênio, ao se apagar, a liberação de pelo menos 10% de CO2, suficiente para o desenvolvimento desejado. O sistema de Gaspak utiliza a mesma metodologia de Zeissler, entretanto, a placa inoculada será colocada em uma jarra de anaerobiose de acrílico e o sistema de produção de CO2 dar-se-á através de um envelope de alumínio contendo Borohidrato de Sódio, Bicarbonato de Sódio e Ácido Cítrico, colocado dentro da referida jarra, após preenchimento com água destilada de canais próprios neste envelope. A água destilada misturará os três compostos que, catalisados pelo Paladium preso nas cestas teladas da tampa da jarra, capturará todo o oxigênio dentro da jarra, liberando CO2, tornando o ambiente adequado ao desenvolvimento das bactérias anaeróbias. A técnica de Veillon consiste em semear o material suspeito em 10 a 12 tubos de ensaio, com agar glicosado em camada alta (8 a 12 cm de altura). Isto é feito utilizando- se uma pipeta Pasteur fechada estéril, cuja ponta será mergulhada na suspensão do material do qual se quer isolar as bactérias anaeróbias. Com os tubos com agar glicosado fundidos a 100°C e mantidos a 50°C em Banho Maria, um a um serão abertos próximos ao bico de Bunsen, sendo a ponta da pipeta Pasteur introduzida no meio de cultura e após fechado o tubo, será colocado em água fria para solidificar. Desta maneira, fez-se uma espécie de “diluição” do número de bactérias e nos últimos tubos como ficarão menos bactérias que nos primeiros, haverá a possibilidade de desenvolvimento de colônias isoladas. As que desenvolverem-se da metade do meio de cultura para o fundo, estarão num ambiente anaeróbio. Para a manutenção das colônias isoladas de bactérias anaeróbias, serão preparados meios de cultura específicos denominados de Tarozzi; este poderá ser feito com fígado ou batata. Para o isolamento de bactérias aeróbias, não haverá a necessidade de ambientes especiais, pois elas crescem em meios de cultura, tendo a necessidade de contato com o oxigênio para o seu desenvolvimento. Desta maneira, necessitaremos para o isolamento da suspensão do material em água destilada ou salina estéril, onde devem estar as bactérias, do agar adequado em placa de Petri e, pela técnica de esgotamento da alça de platina, retiraremos uma gota de suspensão e com a alça de platina, faremos o máximo possível de estrias na superfície do meio de cultura, sem Registro ISBN 93.675 70 haver cortes no agar. Quanto mais estrias fizermos, mais vamos esgotando a água da ponta da alça de platina e menos bactérias vão ficando, de modo que, nas últimas estrias as bactérias separadas gerarão colônias separadas, o que é a nossa finalidade. Registro ISBN 93.675 71 ESTUDO BACTERIANO “Ser pequeno” Apesar do tamanho minúsculo das bactérias, o que obriga a recorrer a objetivas muito potentes (100x), sua superfície útil é muito maior se comparada com as células animais e vegetais. Dependendo do metabolismo, a célula bacteriana pode fazer em poucas horas o que as outras levariam 25 anos. A grandeza das bactérias varia de milésimo de milímetro (Micron/Micra). Algumas bactérias podem ter um diâmetro entre 35 a 40 µ e vários centímetros de comprimento (sulfobactérias aquáticas), e outras são bem menores, tendo em média 0,3 µ de largura e 0,5 µ de comprimento. Ao iniciar o estudo bacteriano, após o isolamento da colônia em meio de cultura sólido, deveremos observar as características coloniais. Pode ser feito este estudo com o auxílio de uma lupa microscópica, onde observaremos e registraremos a forma da colônia (circular, irregular, radiada, etc.), a elevação da colônia em relação ao meio de cultura (convexa, chata, umbilicada, etc.), as bordas da colônia (inteiras, onduladas, lobadas, denticuladas, etc.), o aspecto da colônia (granular, filamentoso, amorfo, etc.), a superfície da colônia (lisa ou rugosa) e o tamanho medido em milímetros. Outras características como produção de hemólise em agar sangue são importantes, além de outras que virão em resposta a testes bioquímicos, nos quais serão inoculadas as bactérias em estudo. Todas as características deverão ser devidamente anotadas para uso posterior. A partir da colônia bacteriana, faremos lâminas que poderão ser coradas pelo Gram ou outra técnica, com a finalidade de observar e anotar as características e tipos morfológicos das bactérias. São basicamente dois tipos: esferas e bastões. Os Cocos são as bactérias formadas por elementos circulares que, dependendo do plano de divisão, podem dar os seguintes tipos: Diplococos (dois cocos) ; Tétrades (quatro cocos); Sarcina (oito cocos em forma de cubo); Estreptococos (cordões de cocos) e Estafilococos (grumos de cocos lembrando cachos de uva). Registro ISBN 93.675 72 Os bacilos são bactérias em forma de pequenos bastões (bastonetes) com as extremidades arredondadas ou retas. Podem ser alongados ou com divisões freqüentes. Podemos observar uma figura intermediária, denominada de Cocobacilos. Os espirilos são bactérias curvas. Se dividem em Espirilos propriamente ditos que possuem o corpo ondulado, rígido e se movimentam por flagelos; em Espiroquetas que possuem o corpo em espiral flácido e se movimentam por contração de um filamento interno e, os Vibriões que se assemelham a vírgulas, daí seu nome. ESTRUTURA DA CÉLULA PROCARIÓTICA Se fizermos um corte em uma bactéria e observarmos seus constituintes, o primeiro elemento é a parede celular. Esta estrutura mede de 10 a 25 nm e corresponde de 10 a 40% do peso seco total da bactéria. Tem a função principal de proteger o conteúdo interno e dá a forma à bactéria; de certo modo ajuda na regulação de entrada ou saída de substâncias da célula. De acordo com os componentes desta parede celular podemos dividi-la em dois grupos. Num grupo existe uma camada larga de peptídeoglicano entremeado por ácido teicóico e ácido murâmico (mureína). São conhecidas como bactérias Gram positivas. No outro grupo, encontramos uma fina camada de peptídeoglicano, uma zona periplasmática e uma outra camada formada por lipopolissacarídeos, lipídeos e proteínas. Estas são conhecidas como Gram negativas. Tal fato se deve à coloração de Gram. Émile Roux observou que corando as bactérias com cristal violeta, o mesmo iria tingir a camada de peptídeoglicano; com o subseqüente uso de lugol formava-se um composto, a iodopararosanilina fixada nesta camada. Lavando-se o esfregaço com álcool, fase de diferenciação, o mesmo não consegue remover o corante de bactérias com camada larga de peptídeoglicano mas, penetra facilmente nas camadas de lipídeo descorando totalmente as bactérias com fina camada de peptídeoglicano. Usando-se a fucsina (corante vermelho) esta não consegue tingir a camada larga de peptídeoglicano já corada em roxo ou azul mas, cora em vermelho a camada fina de peptídeoglicano que se descorou. Assim, as bactérias Gram positivas são coradas de roxo ou azul e, as bactérias Gram negativas de vermelho. Registro ISBN 93.675 73 Outra estrutura importante para a bactéria é a membrana citoplasmática. Aparece após a parede celular e é responsável pela permeabilidade celular e, por reações metabólicas de produção de energia, matéria orgânica e compostos. Sua composição é lipoprotéica, sendo que as principais proteínas são as estruturais, as permeases, as de ligação, as enzimas ligadas ao citoplasma e as enzimas associadas à síntese de compostos macromoleculares. A membrana citoplasmáticaem certo ponto faz um enovelado que recebe o nome de mesossomo; esta estrutura parece estar relacionada com a divisão celular e com transporte de informações do material genético. A seguir encontramos o citoplasma que é constituído por uma área citoplasmática e por uma área nuclear (a bactéria não tem núcleo separado por membranas!). A primeira é constituída por uma substância gelatinosa hialina onde encontramos nutrientes e matéria amorfa. A segunda é constituída por um filamento circular de ADN e por ribossomos. Algumas bactérias podem apresentar movimento ativo quando em ambiente líquido. A estrutura responsável por esta movimentação é o flagelo. É constituído por uma proteína elástica, a flagelina, fixando-se entre a membrana citoplasmática e a parede celular. Forma-se nesta fase por verdadeiras roldanas de proteína e, confere a bactéria movimento de rotação e ondulação. Baseado nesta estrutura, flagelo, podemos classificar as bactérias em atríquias, quando não possuem flagelo ; monotríquias, quando possuem apenas um flagelo ; anfitríquias, quando possuem um flagelo de cada lado ; lofotríquias,quando possuem tufos de flagelo de um lado ou dos dois lados e peritríquias, quando possuem flagelos por toda a superfície celular. Outro elemento importante é o pili (fimbrias); são pequenas projeções protéicas que circulam a bactéria. Possuem a função de aderência fixando a bactéria à superfície celular. Estudos estão em andamento visando desenvolver as “anti-adesinas”, um tipo de vacina que faria o organismo reagir contra as proteínas do pili, impedindo que as bactérias se fixassem nas células, o que diminuiria problemas como a diarréia infecciosa. Além desta função, o pili em determinadas bactérias (ex.: Escherichia coli) Registro ISBN 93.675 74 pode representar o “fator sexual”: por ele irão passar informações genéticas de uma bactéria “macho” para uma “fêmea” num processo conhecido como conjugação, o qual será visto posteriormente. Inclusões são substâncias colocadas para dentro do citoplasma bacteriano, ficando aí sem forma definida. Podem ser usadas como reserva de nutrientes ou ficar sem função aparente. São encontradas inclusões de gordura, glicogênio, enxofre, ferro e grânulos de volutina (metafosfatos) entre outros. Algumas inclusões protéicas podem servir para o controle biológico pois, uma vez ingeridos pelos insetos transformam-se em toxinas matando-os. Algumas bactérias apresentam cápsula de constituição polissacarídica, de carboidratos, etc. Tem a função de proteção, armazenamento de nutrientes e de substâncias de excreção. Coincidentemente caracterizam microrganismos patogênicos. O glicocálise é uma rede e substâncias pegajosas produzidas por certas bactérias e que, geralmente fixam-na ao esmalte do dente. Nesse material se prendem restos alimentares e outras bactérias; ocorre a fermentação com produção de ácido o que colabora para a perfuração do dente, provocando a cárie dental. O esporo bacteriano é a forma de resistência produzidos nos gêneros Clostridium e Bacillus. É formado geralmente quando a bactéria encontra-se num ambiente com pouco nutriente ou, com alguma substância ou fator que poderia matar a forma vegetativa; algumas bactérias esporulam ao simples contato com o ar. Primeiramente ocorre uma invaginação da membrana citoplasmática, ao mesmo tempo o material genético (ADN) se divide e se condensa em uma das extremidades da célula. A membrana citoplasmática separa este material, ao mesmo tempo que ocorre desidratação com deposição de camadas de dipicolinato de cálcio ao redor do material genético tornando o esporo refringente, resistindo mais ao calor e aos elementos químicos. Se o ambiente voltar às condições normais, o esporo se hidrata, elimina o ácido dipicolinato de cálcio e começa a formação de parede celular, etc., voltando a ser uma bactéria na forma vegetativa idêntica a anterior. Registro ISBN 93.675 75 TÉCNICAS PARA O PREPARO DE LÂMINAS PARA A VISUALIZAÇÃO DE BACTÉRIAS Um dos primeiros passos para a identificação de um microrganismo é a observação de sua forma e, de suas estruturas. Isto só é possível com a ajuda de microscópios. Para facilitar a observação dessas formas e estruturas, evidenciando-as melhor, desenvolveu-se uma série de combinações entre substâncias químicas e corantes. Algumas destas técnicas serão descritas aqui. PREPARO DO ESFREGAÇO a) De uma colônia – Pegar uma lâmina de vidro limpa, com a alça de platina ou pipeta Pasteur, acrescentar uma gota de salina ou água destilada estéril sobre a mesma; flambar a alça de platina e retirar um fragmento da colônia bacteriana a ser visualizada, misturar à gota e espalhar numa pequena área no centro da lâmina. Flambar a alça novamente. Secar o esfregaço no calor, bem acima da chama do bico de Bunsen para não propiciar formação de aerosóis. Uma vez seco, fixar, encostando a parte inferior da lâmina várias vezes na chama oxidante ou, cobrindo o esfregaço com álcool e colocando fogo. Dessa forma, ocorrerá a coagulação das proteínas das estruturas dos microrganismos matando-os e, fazendo com que fiquem aderidos ao vidro não saindo facilmente nas etapas das rotinas de coloração. b) De suspensões de microrganismos - retirar uma gota com auxílio da alça de platina, espalhar sobre a lâmina e proceder como mostrado anteriormente. Registro ISBN 93.675 76 COLORAÇÃO SIMPLES COM FUCSINA 1. Preparar o esfregaço como ensinado anteriormente. 2. Cobrir com fucsina por um período de 30 segundos. 3. Lavar em filete de água corrente. 4. Secar entre papel de filtro (com cuidado para não retirar o esfregaço) ou à chama do bico de Bunsen. 5. Acrescentar óleo de imersão e observar com a objetiva de 100X. Os microrganismos aparecerão corados em vermelho, cor da fucsina que tinge o glicopeptídeo presente na parede celular que envolve toda a bactéria. COLORAÇÃO DE GRAM A maior dificuldade encontrada pelos antigos microbiologistas era, conseguir combinações tintoriais que permitissem destacar as bactérias em meio aos tecidos corados. O Dr. Christian Gram, trabalhando no diagnóstico de doenças respiratórias junto com o Dr. Friedlander, em Berlin, verificou que após corar cortes de pulmão, de animais mortos por pneumonia, com violeta de Genciana e iodo, e posterior tratamento com álcool etílico, os tecidos perdiam facilmente a cor enquanto que, as bactérias neles incluídas permaneciam coradas. Tingindo-se os tecidos posteriormente continuavam destacando as bactérias. Gram aplicou esta técnica a esfregaços e registrou ainda, que certas bactérias também se descoravam pelo álcool e, se coravam pelo corante de fundo. Em 1886, Émile Roux dividiu as espécies bacterianas em Gram (+) e Gram (-) para fins de identificação. É ainda hoje o primeiro passo em qualquer chave de classificação bacteriana. Base da técnica A parede celular das bactérias ditas Gram (+) é espessa e seus elementos constituintes principais são: peptidoglicano, ácido teicóico e ácido murâmico. Com a adição do violeta este tinge a larga camada de peptidoglicano, em seguida se acrescenta lugol, que é uma substância mordente, formando um composto a Registro ISBN 93.675 77 iodopararosanilina. Com o tratamento pelo álcool, este não é suficiente para descorar. Adicionando-se a fucsina, corante de fundo, esta não encontra o que corar, permanecendo a bactéria com a coloração azul ao final da técnica. A parede celular das bactérias ditas Gram (-) é mais fina e seus elementos constituintes principais são lipopolissacarídeos, fosfolipídeos, lipoproteínas e uma fina camada depeptidoglicano. Com a adição do violeta se tinge a fina camada de peptidoglicano, acrescentando-se o lugol fixa-se o violeta conforme dito anteriormente. Com o tratamento pelo álcool, este consegue penetrar muito mais facilmente nesta parede devido a quantidade de lipídeos e, descora totalmente a fina camada de peptidoglicano. Adicionando-se a fucsina esta irá então, corar a referida camada permanecendo a bactéria corada em vermelho ao final da técnica. Técnica (Original do Dr. Christian Gram) 1. Preparar o esfregaço conforme ensinado anteriormente. 2. Cobrir o esfregaço com cristal violeta por 1 minuto (se a suspeita é Dermatophilus congolensis, deixar apenas 30 segundos porque, seus zoosporos se coram muito em roxo, dificultando a identificação). 3. Retirar o excesso de cristal violeta num filete d’água. 4. Acrescentar lugol sobre o esfregaço e aguardar 1 minuto. 5. Inclinar a lâmina e lavá-la por 30 segundos com álcool. 6. Larva em filete d’água. 7. Cobrir o esfregaço com fucsina por 30 segundos. 8. Lavar novamente em filete d’água, secar entre papel de filtro ou à chama do bico de bunsen. 9. Acrescentar óleo de imersão e observar em objetiva de 100X. As bactérias Gram (+) se coram em roxo e as Gram (-) em vermelho. Registro ISBN 93.675 78 A Gram-positividade não é uma propriedade definitiva. Alguns fatores podem alterar o resultado da coloração: • idade da cultura - os resultados só são válidos para culturas de 18 a 24 horas de crescimento; • composição do meio de cultura; • pH do meio de cultura; • integridade da parede celular e membrana citoplasmática; • defeitos na técnica; • ação de substâncias químicas e outras substâncias que podem alterar a reação. TÉCNICA COM NIGROSINA Com a nigrosina não fazemos uma coloração propriamente dita; a sua função é propiciar um fundo escuro na preparação para que, por transparência se observe a forma de microrganismo. É normalmente empregada para bactérias e fungos unicelulares (leveduras). Técnica 1. Em uma lâmina de vidro limpa depositar com a alça de platina flambada, uma gota de água destilada estéril ou salina estéril. Retirar um pequeno fragmento da colônia e misturar no líquido. Caso a amostra seja suspensão de microrganismo basta retirar uma gota e, colocá-la na superfície da lâmina. 2. Flambar a alça de platina, aguardar alguns segundos e retirar uma gota da tinta negra, a nigrosina. 3. Misturar a gota de nigrosina com a gota contendo microrganismos, anteriormente depositada sobre a lâmina, espalhar a mistura sobre a lâmina com alça de platina de modo que se consigam áreas claras e áreas escuras, o esfregaço pode ser feito também usando-se uma lâmina de vidro para espalhar o material. Registro ISBN 93.675 79 4. Secar longe do calor da chama do bico de Bunsen para não rachar a tinta, o que dificultaria a visualização. 5. Acrescentar óleo de imersão e focalizar com objetiva de 100X. São conhecidas uma infinidade de técnicas especiais para a observação de microrganismos e suas estruturas, como por exemplo a coloração de esporos; algumas serão mencionadas em nossas aulas. COLORAÇÃO PARA ESPOROS Os esporos bacterianos são formas de resistência, formados por camadas de dipicolinato de cálcio protegendo o DNA. Nem todos os corantes são capazes de diferenciarem esta estrutura numa bactéria. Existem várias técnicas que podem ser usadas e, uma delas é o método de Wirtz-Conklin. 01 – Fazer o esfregaço corretamente, secar no calor acima da chama e fixá-lo na chama oxidante ou colocando uma gota de álcool sobre o mesmo e ateando fogo. 02 – Corar a quente (manter o fundo da lâmina Próximo ao calor da chama oxidante), durante 3-6 minutos, com solução aquosa de verde de malaquita a 5%. 03 – Lavar em filete de água. 04 – Contracorar de ½ a 1 minuto com solução de safranina (fucsina) a 0,5% 05 – Lavar em filete de água e secar. Esporos se coram em verde; as partes vegetativas se coram em vermelho. Registro ISBN 93.675 80 ESTUDO DOS FUNGOS Para facilitar o estudo dos fungos microscópicos podemos dividir em duas partes: a) fungos pluricelulares (filamentosos); b) fungos unicelulares (leveduras); FUNGOS FILAMENTOSOS Hifa não septada ou cenocítica Hifa sepatada A característica principal deste grupo são os filamentos que o formam. Tais filamentos recebem o nome de Hifa, correspondendo à parte vegetativa do fungo. As hifas fixam o fungo ao substrato, retiram dele nutrientes e delas, geralmente, se desenvolvem estruturas de reprodução e resistência. São formadas por membrana que são constituídas de macromoléculas de quitina e celulose, polissacarídeos, proteínas e lipídeos, e por um citoplasma hialino que na zona apical da hifa é constituído principalmente por vesículas (participam no alongamento da mesma) e mitocôndrias (produtora da energia); na zona sub-apical aparecem os núcleos, retículo endoplasmático, ribossomos, microtúbulos e mitocôndrias e na zona vacuolar principalmente lipídeos. Este citoplasma é livre quando a hifa é cenocítica ou não septada e, dividida quando a hifa é septada. A septação não é rígida e permite o “fluxo” de material no citoplasma. A característica de hifa septada ou cenocítica não é usada Registro ISBN 93.675 81 diretamente na classificação de um gênero ou espécie de fungo, mas, separa grupos de fungos que possuem esta ou aquela característica. Os septos são prolongamentos da membrana e separam os núcleos, cada núcleo contém informações genéticas diferentes. Quando encontramos um núcleo em cada divisão, a hifa é apocítica; quando encontramos dois núcleos é diplocítica. A hifa pode produzir o haustório, prolongamento que pode penetrar na célula visando a retirada de nutrientes. O conjunto de hifas denomina-se micélio. O micélio vegetativo endobiótico é o conjunto de hifas que se desenvolvem dentro do meio de cultura; o micélio vegetativo epibiótico é o conjunto de hifas que se desenvolvem na superfície do meio de cultura; o micélio reprodutivo é formado pelo conjunto de estruturas ligadas à reprodução do fungo. A estrutura responsável pela reprodução do fungo é conhecida como conídio ou esporo. Este conídio tem estruturas semelhantes às da hifa e, quando em contato com ambientes favorável germina em hifa, estas formam micélios e em pouco tempo teremos a colônia do fungo instalada novamente. Alguns fungos podem apresentar Microconídios e Macroconídios, como é o caso dos Dermatófilos mas, somente os macroconídios podem ser característicos para identificação dos gêneros e, em alguns casos das espécies: Trichophyton, Microsporum (M. canis e M. gypseum) e Epidermophyton flocosun. Alguns fungos que produzem conídios pequenos, arredondados necessitam, para sua identificação da observação de todo “órgão” responsável pela produção dos conídeos. É o caso de Aspergillus, do Penicillium, do Mucor, do Rhizopus, etc. CONIDIOGÊNESE A maior parte das amostras identificadas a nível laboratorial são de fungos pertencentes aos Hyphomycetos e, as estruturas principalmente usadas na taxonomia dos gêneros e espécies reportam-se ao ciclo anamorfo (assexuado). As estruturas produtoras do conídio são conhecidas como células conidiogênicas; estas células por sua vez geralmente desenvolvem-se a partir de uma estrutura denominada estípede (conidióforo). Registro ISBN 93.675 82 Podemos distinguir dois modos básicos de geração de conídio: blástico e tálico dos quais derivam variações como no esquema abaixo: CONIDIOGÊNESE BLÁSTICO TÁLICO ENTEROBLÁSTICO HOLOBLÁSTICO HOLOTÁLICO TÁLICO ARTICULADO FIALÍDICO SINCRONIZADO HOLOARTICULADO ANELÍDICO SIMPODIAL ENTEROARTICULADO SARCÍNICOENDÓGENO Na conidiogênese holoblástica a hifa produz uma espécie de brotamento que vai dilatando e expandindo as suas membranas na extremidade desta hifa. Já na conídiogênese enteroblástica ocorre um rompimento da extremidade da hifa pela qual será formado o conídio envolto por novas membranas. Na conidiogênese holoblástica sincronizada os conídios desenvolvem-se ao mesmo tempo e, na simpodial desenvolvem-se um a cada vez em seqüência. Na conidiogênese enteroblástica as células conidiogênicas são bem diferenciadas sendo facilmente distinguidas do resto do micélio. São geralmente produzidos muitos conídios em seqüência sendo os da extremidade maduros. Os dois modos principais de produção de conídios são fialídico e anelídico. A fiálide pode produzir conídios ligados em seqüência ou livres um a um, onde no acropetal o mais jovem é o mais externo e, no basipetal o que está mais próximo da base da fiálide. No modo anelídico (esquema abaixo à direita) , a cada liberação de conídio há formação de novas membranas a nível da zona anelada. Registro ISBN 93.675 83 A conidiogenese tálica ocorre a partir da transformação da própria hifa que pode delimitar uma área, transformando-a em conídio. No modo holotálico a extremidade da hifa dilata-se e converte-se em um único conídio; sua liberação ocorrerá quando maduro destacando-se da hifa que o formou. Na conidiogênese tálicoarticulada os conídios são produzidos geralmente por fragmentação da própria hifa. São quatro os modos observados: Holoarticulado, Enteroarticulado, Endógeno e Sarcínico. No holoarticulado simplesmente a hifa se quebra em vários fragmentos, cada um destes tornando-se um conídio. No enteroarticulado são produzidos dois tipos de célula: uma que gerará o conídio e outra que será rompida para a liberação dos conídios formados. No modo endógeno a hifa forma capas internas que cercam os núcleos formando os conídios individuais; com o rompimento das membranas da hifa, são liberados os conídios. No modo sarcínico, as hifas gradualmente aumentam a sua largura produzindo septos tanto na transversal quanto na horizontal; cada divisão é transformada em conídio. A estrutura de resistência dos fungos é conhecida como clamidoconídio, são elementos circulares, de parede dupla e que contem nutrientes e material genético. São menos resistentes que os esporos bacterianos e, passam a germinar quando o ambiente volta a ser propício ao desenvolvimento do microrganismo. FUNGOS UNICELULARES São conhecidos como leveduras, e à microscopia, apresentam-se como elementos globosos e hialinos sem característica para identificação (exceto Cryptococcus, Paracoccidioides brasiliensis, etc.). As leveduras são formadas por uma parede celular constituída por polissacarídeos (glicano e manama), proteínas e vestígios de quitina; uma membrana citoplasmática constituída por lipídeos, proteínas e polissacarídeos e um citoplasma granuloso, hialino constituído por matéria amorfa, enzimas, ribossomos, núcleo, mitocôndrias, vacúolos e inclusões. Nestes fungos são produzidos elementos semelhantes à hifa: são as pseudohifas (são leveduras seguidas) e também blastosporos. Da mesma forma que os filamentosos, elas podem produzir clamidoconídios. Registro ISBN 93.675 84 Pseudohifa Blastoconídios Clamidoconídio .A reprodução assexuada pode se dar por duas formas distintas: brotamento ou gemulação e fissão ou cissiparidade. (vide apêndice). Colônias As colônias se desenvolvem centrifugamente e, geralmente são circulares. Nos fungos filamentosos podem ter aspecto algodonoso, aveludado, pulverulento, etc.; nos fungos unicelulares o aspecto pode ser cremoso e úmido. A coloração da colônia é variável: verde, negro, amarelo, etc. A produção de pigmento no reverso da colônia é outro detalhe a se observar. Alguns fungos produzem pigmentos que vão tingindo o meio de cultura. Todos esses detalhes são importantes pois são mais elementos para uma maior segurança na identificação e classificação dos fungos. TÉCNICAS PARA A OBSERVAÇÃO DE FUNGOS EXAME DIRETO DE UM FRAGMENTO DA COLÔNIA 1. Sobre uma lâmina limpa colocar uma gota de azul de algodão lático ou uma gota de clarificante (NaOH ou KOH), caso o fungo a ser observado seja escuro como, por exemplo, o Aspergillus niger. 2. Com a alça de platina esterilizada e, com a ponta em ângulo reto, cortar um pequeno fragmento da colônia (trazendo inclusive um pouco do ágar) e colocá-lo sobre o corante ou clarificante. No caso de leveduras não há necessidade de cortar fragmento, visto que as colônias são de aspecto cremoso. Não se deve, no caso de fungos filamentosos, raspar simplesmente a superfície da colônia porque apenas os conídios seriam retirados, não sendo, em muitos casos possível identificar o fungo. 3. Cobrir a preparação com uma lamínula de vidro seca, comprimindo-a levemente com o dedo. Examinar ao microscópio com objetivas de 4X, 10X e 40X. Registro ISBN 93.675 85 TÉCNICA DE CULTIVO DE LÂMINAS Quando há necessidade de se obter preparações onde possamos observar um fungo com todas as suas estruturas, usamos o cultivo em lâmina. A alça de platina arrebenta, mecanicamente, uma série de estruturas dos fungos filamentosos, dificultando assim sua identificação. Não se usa esta técnica para fungos unicelulares, as leveduras. 1. Distribuir cerca de 15 ml de ágar Sabouraud em uma placa de Petri estéril e deixar solidificar. 2. Com a alça de platina estéril ou espátula estéril, cortar o ágar em pequenos blocos de mais ou menos 5 mm de lado. 3. Mantendo a esterilidade, próximo ao bico de Bunsen, colocar um bloco do ágar no centro de uma lâmina. 4. Semear o fungo em toda a superfície do bloco de ágar. 5. Cobrir o bloco de ágar semeado com uma lamínula de vidro, sem apertar. 6. Colocar a preparação dentro de uma placa de Petri e acrescentar pedaços de algodão molhado em água, para impedir que o ágar seque e o fungo pare de crescer. 7. Incubar em temperatura ambiente. O crescimento poderá ser acompanhado ao microscópio, através de exames periódicos. 8. Após o crescimento do fungo, colocar em uma lâmina limpa uma gota do azul de algodão ou do clarificante e, cuidadosamente retirar a lamínula do preparado e colocá-la sobre esta gota. Caso o bloco de ágar se mantenha preso à lamínula terá que ser retirado, com bastante cuidado, para uma vasilha com desinfetante. Com o crescimento preso à lâmina, pode-se fazer uma segunda preparação. Basta retirar o bloco de ágar e pingar uma gota do corante ou clarificante cobrindo, em seguida, com uma lamínula. 9. Observar a preparação em objetivas de 4X, 10X e 40X. Registro ISBN 93.675 86 TÉCNICA COM FITA ADESIVA Indicada para preparos rápidos de colônias desenvolvidas em superfícies como, por exemplo, de alimentos, vegetais, etc. 1. Sobre uma lâmina limpa colocar uma pequena gota de corante ou clarificante, dependendo da necessidade. 2. Cortar um pedaço de fita adesiva transparente maior que o tamanho da lâmina. 3. Imprimir a face gomada da fita sobre a colônia, comprimindo levemente com o dedo. 4. Fixar a fita adesiva sobre a lâmina, de modo a coincidir os elementos presos na parte gomada com a gota do corante ou clarificante. 5. Observar se os bordos da fita ficaram aderidos aos bordos da lâmina e eliminar os excessos de fita das extremidades. 6. Observar com objetivas de 4X, 10X e 40X. TÉCNICA COM VEGETAIS 1. Selecionar o vegetal com suspeita de lesão por fungo. 2. Delimitar a área afetada. 3. Com a lâmina de bisturi ou lâmina de aço, promover cortes seriados ultra- finos no vegetal em questão. 4. Sobre uma lâmina de vidro colocar uma gota de azul de algodão e, com uma agulha ou alça de platina pegar umou dois fragmentos (os mais finos), colocá-los sobre o corante com lamínula de vidro e observar à microscopia com aumento de 10X e 40X. Registro ISBN 93.675 87 VIROLOGIA Introdução Os vírus constituem uma classe à parte de agentes infecciosos, sendo bastante diferentes dos demais microrganismos. Suas características básicas são: seu tamanho extremamente diminuto, que permite sua passagem por filtros cujos poros reteriam bactérias e seu parasitismo intracelular obrigatório, pois estes não têm capacidade de movimentação nem de metabolismo autônomo, reproduzindo-se por replicação numa célula hospedeira. Embora esta última característica seja dividida com algumas bactérias, a extrema simplicidade da organização e composição viral e seu mecanismo de replicação tornam este aspecto distinto nestes organismos. Por muito tempo, houve grande polêmica em torno do fato dos vírus serem considerados ou não como seres vivos. Em todos os organismos a vida se constitui de um complexo sistema de processos resultantes da atuação das instruções codificadas pelos ácidos nucléicos, o que ocorre todo o tempo nas células vivas. Em contraste a isso, no vírus isto só acontece quando seu ácido nucléico entra em uma célula hospedeira, e promove a síntese de proteínas específicas virais. Assim sendo, o vírus só seria considerado um ser vivo quando estivesse em replicação nas células infectadas, contudo os vírus também estão “vivos” no momento em que causam a infecção. Apesar de, fora da célula, as partículas virais serem metabolicamente inertes, semelhantes a fragmentos de DNA, podendo inclusive apresentar-se, em uma forma cristalizada. Tal discussão só será válida se representar um significativo aprofundamento dos conhecimentos sobre este sistema específico, que talvez venha a ser o limiar entre os organismos vivos e as substâncias inanimadas. Algo porém que não pode ser contestado é a capacidade dos vírus de atuarem como agentes infecciosos patogênicos para insetos, peixes, animais, plantas e outros microrganismos. Registro ISBN 93.675 88 Histórico A primeira doença infecciosa para a qual se desenvolveu um método de prevenção foi uma virose. Em 1796, Jenner vacinou, pela primeira vez, uma criança, com material removido de uma lesão variólica bovina na mão de uma ordenhadeira. E seis semanas mais tarde, inoculou pus de um doente no menino, que não desenvolveu a doença, provando que a vacinação havia conferido proteção. Em 1885, Pasteur desenvolveu uma vacina contra a raiva, doença exaustivamente pesquisada por este, por ser largamente disseminada. Pasteur não pensava no agente da raiva como sendo diferente dos microrganismos com os quais tinha trabalhado anteriormente, e aplicou então sua experiência na resolução deste problema. Por meio de manipulações laboratoriais, obteve atenuação dos vírus de animais raivosos, e inoculava esta material em um animal, produzindo imunidade contra a doença. O fato de ser esta uma doença de natureza viral, só foi estabelecido vários anos depois e o método utilizado por Pasteur proporcionou então a base para produção de vacinas contra outras viroses. O grande salto no estudo dos vírus se deu em 1892, quando Dmitrii Ivanowski descobriu que o agente etiológico do mosaico do tabaco era filtrável, e a enfermidade era reproduzida colocando-se um filtrado obtido de folhas infectadas sobre as folhas sadias. Beijerinck (1898) confirmou este trabalho e no mesmo ano, Loeffler e Frosch filtraram o fluido de vesículas da mucosa bucal de animais com febre aftosa e transmitiu para bovinos sadios. Tais experiências marcaram o início de uma nova fase da Microbiologia, o estudo de agentes infecciosos invisíveis mesmo sobre os mais poderosos microscópios então existentes. Uma das mais importantes contribuições no campo da Virologia foi a descoberta de que o vírus do mosaico do tabaco podia ser cristalizado. Tal descoberta, feita por Wendel Stanley em 1946, reacendeu a polêmica já existente sobre a natureza dos vírus, pois a demonstração de que os cristais “inanimados “ eram capazes de produzir doença em plantas sadias aumentou ainda mais a controvérsia. Outro marco ocorreu em 1951, quando Max Theiler, demonstrou a atenuação do vírus da febre amarela em passagens seriadas em cultivos de tecidos de embriões de Registro ISBN 93.675 89 galinha. Tal experimento abriu campo para o desenvolvimento de técnicas de produção de vacinas. Estrutura De modo geral, os vírus são formados por uma capa protéica, o capsídio, composta de subunidades de proteínas, os capsômeros, responsáveis pela especificidade viral. Esta envolve uma associação de ácido nucleico e proteínas, o núcleo. À junção destas estruturas dá-se o nome de nucleocapsídio. Alguns vírus apresentam ainda uma membrana solta chamada envelope, composta de lipídios ou lipoproteínas, os vírus envelopados são grosseiramente esféricos e altamente pleomórficos, devido à flexibilidade do envelope. De acordo com o eixo de simetria apresentado pelo nucleocapsídio, os vírus podem ser classificados em icosaédricos ou helicoidais. • Icosaédricos - Nestes vírus, o capsídio apresenta-se de forma icosaédrica envolvendo o ácido nucléico, que constitui o cerne. (ex. Picornavírus, Adenovírus). Algumas partículas sem ácido nucleico podem estar presentes em preparações de vírus icosaédricos, são os capsídios vazios, que podem ser separados dos nucleocapsídios por centrifugação. A coloração negativa revela uma configuração externa similar entre os capsídios vazios e os virions, que é o nome dado à partícula completa. A existência de capsídios vazios mostra que o ácido nucléico não é essencial à organização do capsídio, embora este produza mudanças que aumentam a estabilidade do virion. Os vírus icosaédricos podem apresentar ou não envelope, quando o fazem são denominados icosaédricos envelopados ( ex. Herpesvírus ). • Helicoidais - Alguns virions formam longos bastões, cujo ácido nucléico é circundado, por um capsídio cilíndrico de estrutura helicoidal (ex.:Vírus do Mosaico do Tabaco). Estes também podem ou não apresentar envelope, quando o fazem são denominados helicoidais envelopados (Mixovírus). Registro ISBN 93.675 90 Componentes da Partícula Viral • Capsídio - O capsídio compõe a maioria da massa viral, especialmente em pequenos vírus. Nos virions desprovidos de envelope, este protege o ácido nucléico das nucleases nos fluidos biológicos e promove a aderência às células suscetíveis. Os capsídios são formados por uma unidade estrutural básica, os protômeros, que são dobramentos da cadeia polipeptídica. Nos vírus icosaédricos, os protômeros se agregam em número de cinco ou seis para formar o capsômero, que formará então o capsídio. A forma e dimensões do icosaedro depende das características de seus protômeros; o capsídio é unicamente determinando pelas propriedades de sua cadeia polipeptídica e pelos genes virais que a especificam. Na estrutura helicoidal, o arranjo é muito mais simples, os protômeros não são agrupados em capsômeros, e sim ligados uns aos outros para formar uma estrutura semelhante à uma ponte. O diâmetro do capsídio helicoidal é determinado pelas características de seus protômeros, enquanto que seu comprimento é determinado pelo comprimento do ácido nucleico que ele envolve. • Material Genético - Os vírus podem ter sua informação genética armazenada sob a forma de DNA ou RNA, mas nunca os dois são encontrados juntos na mesma partícula viral, o que estabelece uma significativa diferença com todas as formas celulares de vida, que sem exceção, contém os dois tipos de ácidos nucléicos. Um determinado virion pode possuir um dos quatro tipos de ácidos nucléicos: DNA de fita dupla ou simples, e RNA de fita dupla ou simples. A proporção de ácido nucléiconos vírus varia de 1 a 50 %, dependendo do gênero e a quantidade de informação genética varia de 1000 a 100.000 códons, se considerarmos que cada gen é formado por aproximadamente 300 códons, perceberemos que alguns pequenos vírus possuem apenas 3 ou 4 genes, ao passo que os grandes possuem várias centenas, o que contribui para a diversidade das proteínas específicas virais que são sintetizadas na célula infectada. Registro ISBN 93.675 91 •Envelopes - São formados por proteínas e lipídios. Possui glicoproteínas na região externa, que emitem projeções denominadas espículas ou peplômeros. A degradação das espículas por enzimas proteolíticas não afeta a integridade do envelope. As proteínas do envelope, a exemplo do que acontece com as do capsídio, são determinadas por genes virais. Nos vírus envelopados, este é que promove a barreira para as nucleases, e também impede a formação de uma estrutura rígida, levando ao pleomorfismo deste grupo. A presença de lipídios faz com que os vírus envelopados sejam sensíveis à desinfecção ou danos por solventes lipídicos. Obs.: Alguns virions, pertencentes tanto ao grupo dos icosaédricos quanto ao dos helicoidais, apresentam estruturas mais complexas, como por exemplo, duplo capsídio e formatos característicos, como no caso do vírus da raiva que apresenta forma de bala de revólver ou ainda alguns bacteriófagos que possuem simetria helicoidal e icosaédrica no mesmo virião, estes são denominados vírus complexos. •Bacteriófagos - São os vírus que infectam bactérias, amplamente distribuídos na natureza, existindo fagos para quase que a totalidade das bactérias existentes. Estes não são significativamente diferentes dos outros vírus, exceto no que diz respeito a escolha do hospedeiro. Sua importância reside no fato de servirem de modelo a estudos sobre as relações existentes entre parasita e hospedeiro, visto serem parasitas simples e com um hospedeiro unicelular. Com relação à infecciosidade e as relações com o hospedeiro, os bacteriófagos podem ser reconhecidos como lítico ou virulento e lisogênico (temperado) ou avirulento. O primeiro tipo infecta uma célula bacteriana, e a utiliza para produção de novos fagos, que são liberados pela lise celular. No segundo, o DNA viral é transmitido geneticamente para as células da próxima geração. Os fagos temperados podem se tornar virulentos, espontaneamente, em alguma geração subseqüente. Os bacteriófagos se apresentam sob seis tipos morfológicos diferentes: • Um mais complexo com cabeça hexagonal, cauda rígida com bainha contrátil e fibras da cauda. • Semelhante ao primeiro, mas sem bainha contrátil, com cauda flexível, podendo ou não apresentar apêndices terminais. Registro ISBN 93.675 92 • Cabeça hexagonal, com cauda mais curta, sem bainha contrátil, podendo ou não apresentar apêndices. • Hexagonal, com um grande capsômero em cada ápice do hexágono, sem cauda. • Hexágono simples, sem cauda. •Simplesmente um longo filamento flexível, sem as estruturas características dos fagos. Replicação Viral A replicação viral é um processo complexo, constituído de vários atos elementares. Apesar da grande variedade dos vírus e de suas marcantes diferenças, todos são similares nos aspectos básicos da replicação. Os bacteriófagos foram adotados como modelo para esses estudos, especialmente os da série T, cujos componentes são numerados de 1 a 7 e infectam Eschericchia coli. Para que haja replicação, é necessário que existam células suscetíveis ao vírus. Cada vírus pode ser replicado somente em um determinado grupo de células. Células não-suscetíveis são classificadas como células resistentes, nas quais um bloqueio em alguma etapa inicial previne toda a expressão da função viral. E células não- permissivas, onde o bloqueio acontece em alguma etapa final, permitindo que algumas atividades virais sejam expressas. Em ambos os casos, ocorre a ausência de uma determinada função celular, como por exemplo, receptores para aderência viral ou um fator requerido para expressão de genes virais. •Adsorção - Este é o primeiro passo na infecção, representado pela ligação da partícula viral à receptores específicos na célula. A adsorção parece envolver a formação de ligações iônicas entre cargas complementares dos sítios de ligação do virião e dos receptores celulares. No caso dos bacteriófagos, as bactérias do gênero Escherichia coli apresentam receptores localizados nas diferentes camadas da parede celular, os localizados mais profundamente são acessados, presumivelmente, através de orifícios nas camadas mais superficiais. Esta adsorção do bacteriófago pode ser Registro ISBN 93.675 93 abolida por mutações bacterianas que mudem os receptores, alterando a especificidade antigênica das células. •Penetração - Estudos demonstraram que nos bacteriófagos, a penetração é mecânica, mas pode ser facilitada por uma lisozima presente na cauda do fago. Na penetração, as fibras da cauda mantêm o vírus firmemente aderido à parede celular, a bainha da cauda se contrai, impelindo a parte central do tubo existente na cauda do vírus para dentro da célula, e por fim, injetando o DNA. A cabeça e a estrutura caudal permanecem fora da célula. Nos vírus animais, a penetração pode ocorrer por endocitose mediada por receptor, embora não esteja claro se esta é um processo relevante. Nos vírus envelopados ocorre a fusão do envelope viral com a membrana celular, e nos virions nus a partícula completa penetra morfologicamente intacta através da membrana citoplasmática. •Replicação, Acoplamento e Lise - O material viral que penetra na célula é constituído quase que inteiramente por DNA, portador das informações necessárias a síntese de outras partículas virais. Após sua introdução na célula hospedeira, o vírus passa a controlar o metabolismo celular, levando a fabricação de ácidos nucléicos virais e não bacterianos. Passa-se ao processo de acoplamento que consiste de duas etapas principais: a montagem do capsídio e sua associação com o ácido nucléico. Em aproximadamente 25 minutos, 200 novos bacteriófagos são montados e liberados pela súbita ruptura da parede celular, com a reinfecção de novas células, dá-se então continuidade ao ciclo infectante. Esta fase é dividida em três etapas: eclipse, período de aumento e burst. A liberação dos virions se dá de diferentes modos, dependendo do vírus e do tipo celular. Durante a liberação, as células podem apresentar ruptura de vacúolos da superfície e perda de material citoplásmico, sofrendo autólise. Quando o vírus é envelopado, as proteínas do envelope vão diretamente para a membrana celular. Estas proteínas são vírus-específicas e são sintetizadas após a infecção. Em contraste, os lipídios e carboidratos são produzidos por sistemas Registro ISBN 93.675 94 enzimáticos apropriados da célula hospedeira. Sendo assim, os lipídios do envelope são similares àqueles da membrana celular, pois são resultantes do brotamento desta. •Lisogenia - É um processo no qual o ácido nucléico viral não usurpa as funções do processo sintético bacteriano, mas se torna parte integrante do cromossoma desta. Com a reprodução da bactéria, o ácido nucléico viral é transmitido às células-filhas em cada divisão celular. Na lisogenia, o vírus passa a ser, um dos genes bacterianos, sendo denominado prófago. Algumas vezes, contudo, o DNA é removido do cromossoma hospedeiro e entra no ciclo lítico, calcula-se que essa mudança possa ser induzida por certos agentes químicos ou pela exposição às radiações ultravioletas. Métodos para Detecção Viral •Contagem de Partículas Físicas - É feita à microscopia eletrônica, é importante que a amostra contenha virions do mesmo tipo. Adiciona-se um número conhecido de partículas de poliestireno e conta-se as duas partículas aderidas. Esta técnica nãopermite distinguir entre partículas completas ou não completas. •Hemaglutinação - Baseia-se na capacidade de vários vírus de aglutinar hemácias, esta hemaglutinação pode ser causada pelo próprio vírus ou por hemaglutininas produzidas durante a multiplicação. De modo geral, o que ocorre é a ligação da partícula viral ou da hemaglutinina à duas células sanguíneas, simultaneamente, formando uma ponte entre estas. O método padrão para detecção da hemaglutinação é o de deixar uma suspensão de células e vírus descansando em um tubo por várias horas, as células não agregadas vão se depositar no fundo do tubo, formando um sedimento arredondado, as células agregadas, contudo, sedimentam mas se mostram como uma película fina, que apresenta uma margem com bordas denteadas. A proporção de células agregadas pode ser determinada pela leitura da sedimentação em colorímetro fotoelétrico. Anticorpos antivirais podem inibir a hemaglutinação, assim sendo, existe um teste de inibição de hemaglutinação, que serve para mensurar anticorpos para vários vírus. A Registro ISBN 93.675 95 observação da hemaglutinação serviu também para esclarecer o mecanismo de interação de alguns vírus com a superfície celular, estabelecendo que esta interação acontece pela ligação das espículas hemaglutinantes do envelope viral com os receptores celulares. Métodos de Detecção Baseados na infectividade Viral •Método da Placa - Importante para diagnóstico, é o método de detecção fundamental em virologia básica, é simples, apurado e de fácil reprodução. Usa-se cultivos celulares em monocamada, o meio nutriente é substituído por uma solução contendo a amostra viral, que é deixada em contato com as células por uma hora ou mais para permitir a ligação do vírus à estas. A monocamada é coberta por um gel, e as placas se desenvolvem num período que varia de 1 dia a 3 semanas, dependendo do vírus. As placas podem ser detectadas por: efeito citopático, hemadsorção, formação de policariócitos ou imunofluorescência. •Método de Formação de Pocks - Pocks são lesões características formadas quando da inoculação por vírus na membrana corioalantóide de um embrião de galinha. Esta membrana é complexa contendo vários tipos celulares diferentes e vasos sanguíneos, permitindo que a resposta à infecção local seja também complexa, envolvendo tanto proliferação quanto morte celular, acompanhado por edema e hemorragia. Os pocks aparecem entre 36 e 72 horas como áreas opacas, geralmente brancas e hemorrágicas, na membrana. Atualmente, este método é suprimido pelo método da placa. Métodos de Cultivo Animais adultos ou embriões, à princípio, usados nos procedimentos experimentais ou de diagnóstico com vírus animais, atualmente têm sido quase que totalmente substituídos por cultivos celulares. Inúmeros tipos de cultivos de células animais têm encontrado aplicação na virologia. A escolha das espécies e tecidos de origem dependem do tipo viral e dos objetivos do experimento. Registro ISBN 93.675 96 O desenvolvimento de métodos de cultivo de células animais “in vitro” tem contribuido enormemente para o desenvolvimento da virologia, provendo, especialmente, técnicas para estudo e quantificação dos vírus animais comparáveis às usadas para os bacteriófagos. A maior diferença reside no fato de que as células animais são muito menos estáveis que as bactérias, tanto na transferibilidade quanto nas propriedades genéticas. Os cultivos celulares podem ser primários ou secundários. Os cultivos primários são originados de fragmentos de tecidos, dispersos em seus constituintes celulares com auxílio da tripsina, após a remoção desta, é adicionado um meio líquido contendo os íons, aminoácidos, vitaminas e soro animal requeridos para o crescimento celular. Após um período de latência variável, as células aderem e disseminam sobre a superfície do recipiente e inicia divisão mitótica. Dentro de um determinado período de tempo, se observará a total cobertura de superfície com uma camada fina e contínua de células (monocamada). As células do cultivo primário podem ser desagregadas pela tripsina, repetindo o processo anterior, iniciando o cultivo secundário. As células podem ser de natureza fibroblástica, apresentando-se nos cultivos como finas e alongadas, ou epitelial, de aspecto poligonal. .Linhagens de Células Comuns em Virologia : HeLa Humana Carcinoma de cérvix Epitelial Detroit-6 Humana Medula óssea esternal Epitelial Hep-2 Humana Carcinoma de laringe Epitelial BHK Hamster Rim Epitelial NCTC ( 929 ) Camundongo Tec. Conjuntivo Fibroblast MDBK Bovino Rim Epitelial MDCK Canino Rim Epitelial MA104 Macaco Rim Epitelial VERO Macaco Rim Epitelial Registro ISBN 93.675 97 Alterações Celulares produzidas pela Infecção Viral As células podem responder de modos diferentes às infecções virais: 1) elas podem não apresentar mudanças aparentes, 2) presença de efeito citopático e morte celular, 3) hiperplasia seguida de morte, 4) somente hiperplasia. • Efeito citopático - Consiste em alterações morfológicas nas células, geralmente resultando em morte. Podem ocorrer de várias formas, como por exemplo, produção de sincícios, arredondamento e agregação celular, e lise com liberação de restos celulares. •Inclusões Citoplasmáticas - São massas intracelulares de material viral, formados por dois mecanismos: 1) acúmulo de virions ou subunidades virais (proteínas e ácido nucléico) não acopladas, no núcleo (Adenovírus) ; citoplasma (Vírus rábico) ou ambos (Vírus do sarampo). Interferência na Multiplicação Viral A interferência é mediada por uma substância produzida por células infectadas por vírus, o interferon. O interferon pode ser purificado de várias fontes, consistindo de pequenas proteínas estáveis a baixo pH (resistem até pH 2 no frio) e resistentes ao calor. Não são vírus-específicas, mas células-específica, assim um determinado interferon inibe uma multiplicação viral mais efetivamente nas células de espécies na qual esteja sendo produzido. O interferon age tanto na célula na qual é produzido, quanto naquelas que são expostas a ele; a ação antiviral não é relacionada diretamente ao interferon mas as proteínas antivirais que ele induz; tanto a produção do interferon quanto a sua atividade antiviral requer expressão dos genes celulares, uma vez que estão bloqueadas pela inibição da transcrição ou translação; a taxa de produção do interferon depende do balanço entre indução e repressão; existe uma constante produção de interferon na ausência de indutor, o que equilibra o balanço entre indução e repressão. O interferon é produzido por células infectadas por virions completos, tanto infecciosos como inativados. Existe grande diferença entre as quantidades produzidas Registro ISBN 93.675 98 nos diferentes sistemas. Vírus que se multiplicam muito rapidamente e bloqueiam a síntese de proteína hospedeira logo após a infecção tendem a ser maus produtores de interferon. Os bons produtores são geralmente aqueles que se multiplicam vagarosamente e não danificam seriamente a célula. Agentes Inativantes Alguns agentes são relativamente seletivos, ou seja, demonstram uma ação mais pronunciada sobre um componente viral do que o outro. Essa seletividade é importante para aplicações práticas, os agentes são agrupados de acordo com sua ação principal em nucleotrópicos, proteotrópicos, lipotrópicos e universais. •Nucleotrópicos - Luz ultravioleta com comprimento de onda de 260nm; formaldeido; ácido nitroso; hidroxilamina. •Proteotrópicos - Luz ultravioleta com comprimento de onda de 235nm; calor; enzimas proteolíticas; pH ácido; compostos reativos ou contendo sulfidrilas; detergentes e compostos com alta concentração de uréia. •Lipotrópicos - Enzimas lipolíticas e solventes apolares.•Universais - Raio X; agentes alquilantes; ação fotodinâmica. Principais Famílias de Vírus •Adenovírus - Receberam este nome por terem sido isolados inicialmente de cultivos de glândulas adenóides. São vírus respiratórios, icosaédricos, DNA de fita dupla. Suas características de importância são: multiplicam-se no núcleo celular; induzem infecções latentes e são rapidamente ativados; vários adenovírus são, sob circunstâncias experimentais, oncogênicos para animais inferiores, embora sejam comuns ao homem; servem como colaboradores de um grupo de pequenos vírus, os vírus associados aos adenovírus, que só se replicam na presença de adenovírus. São largamente disseminados na natureza, e dos 77 vírus pertencentes à esta família, 31 são Registro ISBN 93.675 99 provenientes de humanos. A infecção se dá de pessoa para pessoa, sendo as secreções oculares e respiratórias, o meio mais comum de transmissão. •Herpesvírus - Dentro deste grupo se destacam, os vírus do herpes simples, herpes zoster, citomegalovírus e o vírus de Epstein-Barr. À semelhança dos adenovírus, são DNA e replicam no núcleo, tendem a produzir vesículas ou pocks, tanto em pacientes quanto em membranas de ovos. São icosaédricos, possuem envelope com projeções curtas. •Poxvírus - São os maiores vírus animais, suas partículas são arredondadas ou ovóides, e tem uma complexa estrutura que consiste de uma massa interna central, o nucleóide, envolto por duas membranas. Contém DNA, proteínas e lipídios. São relativamente resistentes à inativaçao por desinfetantes comuns, calor, desidratação e frio. Neste grupo se destaca o vírus da varíola e os vírus produtores de mixomas e fibromas. •Picornavírus -Pequenos vírus RNA, são os poliovírus, coxsackievírus, ecovírus e rinovírus, similares no modelo epidemiológico e nas características físicas e químicas. São icosaédricos, RNA de fita simples, resistentes a solventes lipídicos. Os poliovírus são os agentes causais da paralisia infantil. •Mixovírus - São vírus heterogêneos em tamanho e forma, mas de modo geral se apresentam esféricos ou ovóides, algumas cepas possuem formas filamentosas, suas partículas são pequenas, RNA. São representados pelo vírus da influenza A que acomete seres humanos, cujas partículas virais têm a superfície inteiramente recoberta por espículas. •Paramixovírus - Ë uma família constituída por vírus relativamente homogêneos no que tange às características químicas, físicas e biológicas. Patogenicamente, no entanto, diferem grandemente: os vírus da parainfluenza e sincicial respiratório produzem doenças respiratórias agudas, o vírus do sarampo causa uma doença Registro ISBN 93.675 100 exantemosa, e o vírus da caxumba causa uma doença sistêmica, onde a parotidite é o aspecto predominante. Os virions apresentam-se esféricos, maiores que os vírus da influenza, RNA e o sítio de multiplicação é no citoplasma celular. •Rhabdovírus - São os vírus da raiva, seu aspecto lembra o de uma bala de revólver, produzem nas células nervosas infectadas, corpos de inclusão citoplasmáticos denominados corpúsculos de Negri. A presença destes junto com a forma característica do vírus facilita o reconhecimento, tornando possível o rápido diagnóstico patológico da infecção. São RNA de fita simples, nucleocapsídio helicoidal, sensíveis aos solventes lipídicos. •Togavírus - Vírus icosaédricos com envelope lipídico, RNA de fita simples, inativáveis por solventes lipídicos. O vírus de destaque nesse grupo é o da febre amarela. •Reovírus - São vírus que infectam ambos os tratos intestinal e respiratório, geralmente sem produção de doença. São icosaédricos, RNA, têm sido isolados de fezes e material respiratório de pessoas sadias, como também de pacientes com quadro clínico de doenças. •Rotavírus - Vírus icosaédrico com trinta e dois capsômeros, presença de duplo capsídio, não envelopado, RNA de fita dupla constituído por onze segmentos. Atinge quase todas as espécies de mamíferos causando diarréias profusas nos indivíduos neonatos. Registro ISBN 93.675 101 ISOLAMENTO DE MICRORGANISMOS Considera-se, em microbiologia, isolamento um conjunto de operações visando separar uma espécie microbiana de outra, a partir de um mesmo material. Quando mencionamos isolamento de microrganismos estamos nos referindo às suas colônias isoladas. Uma vez que um microrganismo, por divisões consecutivas ou germinação, gera uma colônia, todos os elementos desta colônia são geneticamente idênticos à unidade geradora da mesma (UFC = unidade formadora de colônia). Para que não haja interferência de qualquer espécie nos testes aplicados para a identificação de microrganismos, produção de substâncias, etc., há necessidade de utilizar um microrganismo por vez nas rotinas de identificação. Para o êxito das técnicas de isolamento há necessidade de sabermos qual a exigência do microrganismo quanto ao oxigênio. Ele pode ser: • Aeróbio obrigatório ou estrito - só se desenvolve em presença de oxigênio. • Anaeróbio obrigatório ou estrito - só se desenvolve na ausência de oxigênio. • Anaeróbios facultativos - se desenvolve tanto na presença quanto na ausência do oxigênio. • Microaerófilo - desenvolve-se numa interfase entre baixo teor e ausência de oxigênio. ISOLAMENTO DE BACTÉRIAS ANAERÓBIAS São um pouco mais trabalhosas devido ao fato de que teremos de proporcionar ao microrganismo um ambiente livre de oxigênio. Isto é feito, na maioria das vezes, usando-se jarras de anaerobiose. Geralmente são jarras de vidro ou acrílico e a maneira de se fazer anaerobiose internamente a elas é bastante variado . As jarras de vidro geralmente dispõem de uma torneira na parte superior que, acoplada a uma bomba de vácuo permite a retirada do ar; depois através de um “cilindro” de CO2, ou por reações químicas que liberam CO2 ligados por mangueiras de borracha à torneira Registro ISBN 93.675 102 se consegue preenchê-la, tornando o ambiente anaeróbio. A jarra do sistema de Gaspak não possui torneira na parte superior e o ambiente anaeróbio é dado, exclusivamente, por reações químicas, colocando-se um envelope próprio com os reagentes no interior da mesma; na mistura de borohidrato de sódio, bicarbonato de sódio e ácido cítrico em água destilada, catalisado pelo paládio, o O2 é capturado e liberado CO2 no ambiente da jarra. Nas técnicas de Fortner, Zeissler e Gaspak, há necessidade de se fazer estrias, com a suspensão de microrganismos, na superfície do meio de cultura. Isto se deve ao fato da necessidade de se conseguir colônias isoladas. Quanto maior o número de estrias maior a chance de êxito. Com o esgotamento do líquido da ponta da alça de platina, cada vez menos microrganismos vão ficando na superfície até que, nas últimas estrias, se consiga elementos isolados, que vão gerar colônias separadas. O procedimento já é diferente para a técnica de Veillon. Nesta, inoculamos através de uma pipeta Pasteur, com a ponta fechada, a amostra a ser isolada em uma bateria de tubos com ágar glicosado em camada alta (8 a 12 cm), fundido e resfriado a 50°C. Os tubos são incubados e após o desenvolvimento as colônias anaeróbias se disporão no fundo do tubo. Para retirá-la serra-se o vidro e, com uma pipeta Pasteur aspira-se a colônia desejada, passando-a para o meio de Tarozzi. O meio de Tarozzi pode ser feito a base de fígado ou batata. Num tubo colocamos alguns cubos de fígado ou batata cozida e, preparamos um caldo com a água de cozimento cobrindo os cubos por mais ou menos dois centímetros. Acima do líquido coloca-se uma mistura de vaselina e parafina (vaspar) e, por fim a rolha de algodão. Ao ser esterilizado todo o oxigênio sai e, ao resfriamento o vaspar solidifica formando abaixo no meio de cultura um ambiente perfeito ao desenvolvimento de bactérias anaeróbias.ISOLAMENTO DE BACTÉRIAS AERÓBIAS Consegue-se geralmente por esgotamento da alça de platina em meio de cultura sólido. Em alguns laboratórios se substitui a alça de platina pela alça de Drigalski ou mesmo por “cotonetes”. Registro ISBN 93.675 103 Basta estriar uma gota da suspensão da amostra na superfície do meio de cultura indicado, incubar à temperatura necessária e observar o crescimento de colônias isoladas o que acontece, geralmente, nas últimas estrias. A estria deve ser bem superficial, nunca furando o ágar e, utilizando por placa uma gota da amostra a se isolar. Alguns microrganismos como, por exemplo, o Dermatophilus congolensis exigem uma fase anaeróbica e outra aeróbica para o seu isolamento. A técnica de Haalstra é indicada: Primeiramente coloca-se um fragmento da crosta presa no fundo de um tubo de ensaio, com água destilada estéril; após 3 horas o tubo é levado a uma jarra de anaerobiose por 15 minutos. Os zoósporos, forma infectante do microrganismo, ficarão na superfície da água pois são atraídos pelo CO2. Com a alça de platina retiramos uma gota da superfície da água e, semeamos em estrias em ágar infusão de cérebro e coração, incubado a 37°C em ambiente com oxigênio. ISOLAMENTO DE FUNGOS Os fungos, a cada dia, estão despertando a atenção dos pesquisadores, não só por atacarem diretamente as estruturas dos homens, animais e vegetais mas, também, por produzirem substâncias nocivas, micotoxinas, em alimentos. Outro fato importante é a utilização de fungos na produção de substâncias úteis como, por exemplo, o álcool. Para qualquer estudo ou pesquisa há necessidade da amostra do fungo isolada. De raspados de queratina - Triturar, se necessário e, semear com ajuda da alça de platina na superfície do ágar seletivo inclinado e, incubar à temperatura ambiente. De órgãos - Cortar pequenos fragmentos do material, lavar em água destilada ou salina estéril e, semeá-los na superfície do ágar seletivo indicado, em placa de Petri e incubar à temperatura ambiente. Alguns fungos por serem dimórficos (são leveduriformes na forma parasitária e em meios ricos e, filamentosos em Sabouraud em Registro ISBN 93.675 104 temperatura ambiente), necessitam de dois meios de cultura para a confirmação do diagnóstico: o ágar infusão de cérebro e coração e o ágar Sabouraud, com incubações à 37°C e à temperatura ambiente, respectivamente. De terra - Quando se visa o isolamento de fungos do grupo dos Dermatófitos, podemos fazer o seguinte procedimento para o seu isolamento do solo: colher amostra do solo e colocá-la em placa de Petri estéril; se a terra estiver muito seca, acrescentar água destilada estéril. Misturar a esta terra fragmentos de pêlo estéril de cavalo e incubar a temperatura ambiente. Os elementos reprodutivos dos fungos existentes no solo irão germinar e, começará a desenvolver um crescimento de aspecto algodonoso ao redor de cada fragmento de pêlo. Com o tempo poderá aparecer um crescimento pulverulento de cor variando de branco a creme; normalmente, nesta área, encontramos os macroconídeos necessários à identificação dos fungos. Com o tempo, com a baixa de nutrientes, os fungos começam a desenvolver ciclo de reprodução teleomorfa podendo aparecer uma estrutura redonda, visível a olho nu, que é o ascocarpo. De vegetais - Existem variadas técnicas dependendo do fungo a se isolar. Uma das mais simples é a que se coloca uma rodela de papel de filtro úmido, no fundo de uma placa de Petri. Sobre este papel, colocamos grãos, pedaços de capim, etc. Incubamos à temperatura ambiente; as colônias se desenvolverão. No caso de grãos, basta retirar um fragmento da colônia desejada e semeá-la, por exemplo, na superfície de um àgar Sabouraud. No caso do capim, as colônias desenvolvidas entre este e o papel de filtro, devem ser inoculadas em àgar a base de batata e cenoura. De superfícies - De qualquer superfície onde se desenvolvam colônias de fungos como, por exemplo, alimentos, insetos, paredes, etc., para se conseguir o isolamento basta retirar, com alça de platina, um pequeno fragmento e semeá-lo na superfície de um ágar Sabouraud em placa de Petri. A colônia desejada é repicada para agar Sabouraud inclinado. No caso de colônias de fungos unicelulares (leveduras), pode Registro ISBN 93.675 105 haver a necessidade de suspender o material em líquido e, estriá-lo na superfície do ágar. No caso de inseto, se o fungo que se deseja isolar é Entomophthora, pega-se uma placa de Petri com o ágar adequado e, prende-se o inseto na parte interior da tampa; incuba-se a placa invertida por 12 horas à temperatura de 25 à 27°C. O fungo expele os conídios violentamente para cima, em direção ao meio de cultura. Substitui- se a tampa por outra esterilizada e novamente a placa volta para a incubação. Este procedimento diminui a possibilidade de contaminantes. Do ar - Basta abrir uma placa contendo meio de cultura adequado por algum tempo que, os elementos em suspensão no ar se depositarão na superfície, germinando e gerando colônias. Existem aparelhos modernos (pequenos aspiradores) que sugam o ar e os elementos em suspensão ficam presos em um filtro de papel. Tal filtro posteriormente será colocado sobre o agar adequado em placa de Petri para o desenvolvimento de colônias. De líquidos - Se houver crescimento visível retirá-lo e semeá-lo em ágar, depositando o fragmento na superfície. Caso contrário, retirar uma gota com a alça de platina e estriar na superfície do ágar. No caso de água pode ser feita a filtração da mesma e, o filtro que terá retido o microrganismo será colocado sobre o Agar adequado em placa de Petri para o desenvolvimento de colônias. MANUTENÇÃO DE MICRORGANISMOS NO LABORATÓRIO A maioria dos microrganismos tem uma atividade hídrica elevada, necessitando para seu desenvolvimento de água. A dessecação é um dos fatores a ser combatido no laboratório para a manutenção da amostra. Outros elementos importantes são, os níveis de nutrientes e, a produção pelo próprio metabolismo do microrganismo de substâncias tóxicas. Cuidados ainda deverão ser dispensados a infestações por ácaros Registro ISBN 93.675 106 fungívoros, formigas e larvas de moscas que podem destruir as coleções de microrganismos, tão necessárias ao dia-a-dia do microbiologista. Repicagem - É o ato de se transferir um fragmento da colônia de um microrganismo para um meio de cultura recém preparado. Podemos usar para manter uma amostra de microrganismo no laboratório, meios sólidos, semissólidos ou líquidos. Quanto maior a quantidade de água do meio, maior será o espaço de tempo necessário entre os repiques. Para alguns microrganismos se poderá substituir a rolha de algodão por rolhas de borracha, diminuindo a perda de água para o ambiente. O armazenamento de amostras em temperatura de geladeira, também, aumenta esse tempo entre uma repicagem e outra. As formas de manutenção possíveis são: em ágar (geralmente em tubos de ensaio, com ágar em pé ou inclinado); com óleo mineral; sob congelamento profundo; liofilizada; em água destilada e em areia + húmus. No caso dos vírus, em cultivos celulares. Controle de infestações Os ácaros fungívoros dos gêneros Tyrogliphus e Tarsonemus podem, por ingestão, destruir amostras de fungos. Tratamentos possíveis: c) Acrescentar 0,1% de lindane em pó ao meio de cultura. Semear o fungo contaminado nesse meio e, após o crescimento, transferi-lo para outro meio isento de lindane. d) Colocar as culturas contaminadas em uma caixa fechada com uma porção de para-dicloro-benzeno ao lado. Retirar as culturas da caixa após 4 horas e, repetir o procedimento após uma semana. Depois repicar o fungo para novos meios, observando a pureza da cultura. Registro ISBN 93.675 107 e) Colocar algumas gotas (4 a 5) de querosenenos tampões de algodão dos tubos contaminados pelos ácaros. O querosene matará os ácaros pelo contato direto e através de seus vapores. f) Acrescentar 0,2% de neguvon ao meio de cultura. Semear o fungo contaminado neste meio e, após crescimento transferi-lo para outro meio isento de neguvon. As larvas de moscas e formigas podem se alimentar do agar onde, se desenvolvem as colônias do microrganismo, destruindo totalmente o meio. A eliminação desse problema se faz mantendo as placas de Petri com as amostras em locais fechados e com o auxílio de substâncias químicas normalmente encontradas no comércio. É mais comum, a contaminação dos meios plaqueados porque, a mosca colocando as larvas na parte inferior da tampa, estas caminham e ganham facilmente o meio de cultura. Observa-se bastante o aparecimento destas infestações em meios de cultura a base de sangue. Nos tubos de ensaio as rolhas de algodão impedem tal infestação. Registro ISBN 93.675 108 Metabolismo Microbiano O metabolismo engloba todas as atividades químicas efetuadas por uma célula, especialmente as relacionadas com produção de energia para realização de suas atividades celulares e para sua biossíntese. A partir do momento em que os nutrientes passam através da membrana, penetram em um novo meio e são introduzidos no metabolismo celular, a fim de que sejam convertidos em energia útil e componentes estruturais. Uma célula deve produzir energia ininterruptamente para manutenção de seus processos vitais, isto ocorre não apenas com as células humanas, mas com as células de outros organismos, incluindo bactérias e fungos. Essa energia é utilizada na construção de componentes estruturais da célula, como parede celular e membrana plasmática, também é necessária para síntese de enzimas, ácidos nucleícos, polissacarídios e outros constituintes. A energia é indispensável à reparação de danos, bem como para o crescimento e multiplicação celular. Também se faz necessária para manutenção da regulagem de entrada e saída de metabólitos, permitindo o acúmulo de certos nutrientes no interior da célula ou mantendo outros elementos fora dela, para mobilidade celular e no processo de formação de células de resistência. Papel do metabolismo na biossíntese e no crescimento O crescimento microbiano exige a polimerização de subunidades bioquímicas em proteínas, ácidos nucleícos, polissacarídios e lipídios. Estas subunidades precisam estar formadas no meio de crescimento ou serem sintetizadas pelas células em crescimento a partir de metabólitos focais, que são os precursores na biossíntese das subunidades bioquímicas e das coenzimas. O crescimento requer uma fonte de energia metabólica para a síntese das ligações e para manutenção dos gradientes transmembrana de íons e metabólitos. Quando dispõe de um suprimento de subunidades bioquímicas e de uma fonte de energia metabólica, as células sintetizam macromoléculas que reunidas formam as estruturas supramoleculares das células. Ex. ribossomas, parede, flagelos e membrana. Registro ISBN 93.675 109 A velocidade de síntese macromolecular e a atividade das vias metabólicas devem ser reguladas de modo que a biossíntese seja equilibrada. A produção de energia, na maioria dos microrganismos, ocorre através da interação entre os processos de degradação de nutrientes (catabolismo), que liberam energia e fornecem as unidades básicas, e os processos de biossíntese (anabolismo). Quando um organismo, durante o metabolismo, quebra ou separa ligações atômicas, ocorre liberação de energia, que pode ser utilizada numa forma capaz de executar trabalho biológico útil. O acoplamento dessa ligação energética é a reação-chave nos processos biossintéticos. A organização das macromoléculas segue uma seqüência de polimerização das subunidades constituintes que pode ser determinada de duas formas: Proteínas e ácidos nucleícos - síntese dirigida por um molde, onde o DNA atua como molde para sua própria síntese e dos vários tipos de RNA, e o RNA-m atua como molde para a síntese protéica. Carboidratos e lipídios - a seqüência é determinada por especificidade enzimática. Processos Bioquímicos Envolvidos na Produção de Energia para o Crescimento e a Manutenção das Atividades na Célula : Como exposto anteriormente, a produção de energia está diretamente relacionada ao acoplamento de processos de degradação de nutrientes e síntese de constituintes celulares. Estes processos ocorrem em etapas, cada qual catalisada por enzimas específicas, podendo ocorrer liberação ou absorção de energia química no curso destas reações. Se a reação acarreta a liberação de energia é denominada exergônica, se ao contrário, houver necessidade da captação de energia, está é denominada endergônica. Para que a energia liberada por uma reação exergônica não seja desperdiçada, foi desenvolvido o acoplamento energético, processo onde as reações exergônicas fornecem energia para as reações endergônicas. Assim sendo, Registro ISBN 93.675 110 compostos de transferência de energia, ou seja, compostos capazes de transferir grande quantidade de energia de uma reação para outra são utilizados nas vias metabólicas, como “moeda corrente” de troca de energia. Entre estes compostos podemos destacar como sendo de maior importância a molécula de adenosina trifosfato (ATP). Sua composição compreende uma base purínica (adenina), uma molécula de ribose e três grupos fosfato. A ligação do terceiro grupamento fosfato à molécula de ATP requer grande quantidade de energia, a qual é mediada pela energia liberada por reação exergônicas, por outro lado, a quebra desta ligação gera energia livre, que pode ser captada pelas reações endergônicas, o esquema abaixo ilustra este processo: Figura – A molécula de ATP é formada pela adenina (A), pelo açúcar ribose (R) e três grupamentos fosfato, sendo o terceiro ligado através de uma ligação de alto teor de energia. A clivagem do ATP a ADP libera energia química, enquanto a síntese de ATP a partir do ADP requer energia. A produção de moléculas de ATP pelos microrganismos pode envolver três diferentes processos: Fermentação Neste processo ocorre a adição direta de um grupamento fosfato removido de um substrato à uma molécula de ADP produzindo ATP. + A R P P P H2O Registro ISBN 93.675 111 A via glicolítica representa o principal caminho para a formação do ácido pirúvico a partir de carboidratos, e representa um caminho comum com a fermentação até a formação do ácido pirúvico. Serão destacadas as etapas principais desta via : - O início ocorre através da fosforilação da glicose a glicose-6-fosfato, e sua interconversão a frutose-6-fosfato, que é novamente fosforilada originando a frutose- 1,6-difosfato. - A molécula de frutose-1,6-difosfato (hexose) é clivada em duas moléculas de gliceraldeído-3-fosfato (triose), nessa etapa ocorre a redução de duas moléculas da coenzima NAD originando 2NADH + H+, o que permite a adição direta de mais um grupamento fosfato a molécula formando o ácido 1,3-difosfoglicérico. - Esta transformação possibilita a primeira fosforilação em nível de substrato, onde 2 moléculas de ADP são fosforiladas em 2 moléculas de ATP através da adição direta de grupamento fosfato do ácido 1,3-difosfoglicérico resultando em ácido 3- fosfoglicérico. - Numa etapa posterior da glicólise, mais duas moléculas de ATP são formadas pela conversão. - O processo fermentativo produz apenas 2 ATPs por molécula de glicose, sua ocorrência é restrita a ambientes ricos em fontes fermentáveis. Ocorre em anaerobiose, não havendo necessidade de oxigênio durante o processo. No processo fermentativo, ocorre produção final de ácido devido a redução do ácido pirúvico, um precursor ou derivado. A produçãode gás está relacionada a liberação de CO2. Cadeia Respiratória Através da oxidação de compostos químicos, há a liberação de energia para síntese de ATP a partir da fosforilação do ADP por Pi. - Glicólise – Quebra da glicose através de uma série de reações de fosforilação em nível de substrato, produzindo NADH + H+, ácido pirúvico, e 2 moléculas de ATP, que é direcionado para as reações endergônicas do microrganismo, o NAD reduzido é encaminhado para a Cadeia de Fosforilação Oxidativa e o ácido pirúvico para o Ciclo de Krebs. Registro ISBN 93.675 112 - Ciclo de Krebs – Inicia-se com a acetilação da Coenzima A pelo ácido pirúvico, ocorre uma série de reações cíclicas, que gera um elevado número de NADH + H+ e FADH2 para a Cadeia de Fosforilação Oxidativa. - Cadeia de Fosforilação Oxidativa – Os elétrons e prótons originados das outras etapas são utilizados na cadeia de transporte de elétrons e na força motriz de prótons para geração de energia livre através da fosforilação do ADP. Fotofosforilação Neste processo a energia luminosa é utilizada para síntese de ATP a partir de ADP. Este tipo de processo de produção de ATP é realizado por cianobactérias, algas e plantas verdes. Para a realização deste processo, foram desenvolvidas estruturas especializadas denominadas tilacóides. Nos demais organismos, os tilacóides estão localizados no interior dos cloroplastos, contudo como os procariontes não apresentam organelas delimitadas por endomembranas, nas cianobactérias sua localização é citoplasmática. Na fotofosforilação, a luz é utilizada para produzir força protomotiva, e através desta promover a síntese do ATP. A absorção da luz é mediada por pigmentos de coloração verde (clorofila - Chl) dispostos na membrana dos tilacóides. Dois sistemas trabalham integrados na geração de ATP e NADPH2, estes são denominados fotossistema I (PS I) e fotossistema II (PS II). A partir da absorção da luz pelas moléculas de clorofila em PS I, estas são excitadas e doam um elétron, que será utilizado para reduzir o NADP a NADPH2. Temporariamente, as moléculas de clorofila de PS I assumem carga positiva. De modo semelhante, a luz também é absorvida pelas moléculas de clorofila de PS II, acarretando a liberação de elétrons deste sistema. Estes elétrons alcançam PS I através de um sistema de transporte de elétrons. Neste sistema, a semelhança do que ocorre na fosforilação oxidativa, participam um doador (Chl PSII) e um receptor de elétrons (Chl PSI) , entretanto ambos são fornecidos pela própria célula. A energia do sistema de transporte de elétrons permite o estabelecimento de uma força protomotiva através da membrana dos tilacóides, e acarreta a síntese de ATP. Registro ISBN 93.675 113 A Chl PS II retira elétrons de moléculas de água, devido ao seu elevado potencial de oxidação, para restabelecer sua carga de elétrons, tornada temporariamente deficitária. A oxidação da água produz oxigênio gasoso, contribuindo para geração do oxigênio na atmosfera terrestre. Enzimas As enzimas e suas atividades são importantes em qualquer organismo vivo, seja ele superior ou microscópico. Da mesma forma que no homem, elas também desempenham papéis cruciais no metabolismo dos microrganismos, mantendo suas características e formas de atuação. Como as bactérias são consideradas o melhor modelo para estudo da fisiologia e metabolismo celular, é importante visualizarmos o papel das enzimas nesses microrganismos. São substâncias presentes nas células, capazes de realizar todas as modificações associadas aos processos vitais. São, a grosso modo, a porção executiva da célula, e danos em suas atividades se refletem em alteração celular ou até mesmo morte. Podem ser definidas como agentes catalisadores orgânicos elaborados por células vivas. Com base no local de ação, são consideradas como: extracelulares ou exoenzimas, funcionam fora da célula executando as ações necessárias a penetração dos nutrientes para o interior desta; intracelulares ou endoenzimas, atuam dentro da célula, sintetizando material celular e realizando reações catabólicas que suprem a necessidade energética desta. As enzimas são proteínas puras ou combinadas com outras moléculas, podendo ser desnaturadas pelo calor, precipitadas por álcool etílico ou sais inorgânicos como NH4SO4, e não atravessam membranas semipermeáveis. Muitas enzimas são combinadas com uma molécula orgânica de baixo peso molecular, denominada coenzima, sendo nesse caso, a porção protéica denominada apoenzima. Quando unidas formam a holoenzima, ou enzima completa, que é sua forma ativa. A atividade enzimática pode ser diminuída ou abolida por alterações do ambiente, como pH, temperatura e concentração do substrato. As características mais Registro ISBN 93.675 114 importantes das enzimas são sua grande eficiência catalítica e seu alto grau de especificidade para o substrato. Regulação da Atividade Enzimática Enzimas como proteínas alostéricas - Atividade de uma enzima catalisadora da etapa inicial de uma via metabólica é inibida pelo produto final dessa via. Esta regulagem não ocorre por competição, e sim pelo fato dessas enzimas serem alostéricas, ou seja, possuírem além do sítio de catálise, um ou mais sítios que se ligam à moléculas efetoras. A ligação de um efetor à um sítio enzimático provoca uma alteração estrutural de modo a aumentar ou diminuir a afinidade do local de catálise pelo substrato. Inibição por retroação (Feedback) -O produto final inibe alostericamente a atividade da primeira enzima da via metabólica Ativação alostérica - Produto final ou um intermediário ativa uma determinada enzima. Registro ISBN 93.675 115 FATORES DE VIRULÊNCIA, TOXINAS BACTERIANAS E TOXINAS DE FUNGOS FATORES DE VIRULÊNCIA Fatores de viruência são enzimas que facilitam a entrada de um microrganismo em uma célula, tecido ou órgão. O poder de invasão de um microrganismo é determinado também pela capacidade dele romper as barreiras mecânicas (por exemplo a pele íntegra) e, as barreiras imunológicas dos homens e dos animais e, as barreiras mecânicas (camada de protopectina) e óleos essenciais dos vegetais. Exemplos de agressinas: Enzima Microrganismo Ação Colagenase Clostridumperfringens Proteolítico Coagulase Staphylococcus Forma parede de fibrina Hialuronidase Pneumococcus Hidrolisam ácido hialurônico dos tecidos Estreptoquinase (Fibrinolisina) Streptococcus Dissolve o plasma coagulado Proteases Neisseria Hidrolisam Imunoglobulinas Hemolisinas e Leucocidinas Vários microrganismos Hemólise e morte das células brancas do sangue. Protopectinase Vários microrganismos Hidrolisam a protopectina que que atacam vegetais recobre os vegetais Toxinas Bacterianas Registro ISBN 93.675 116 As bactérias podem produzir compostos altamente tóxicos para os homens e animais. Normalmente são produzidos a nível da membrana citoplasmática e, caso se acumulem na parede celular de bactérias Gram negativas são denominadas de endotoxinas e, haverá necessidade de ingestão do alimento com as bactérias contaminantes, para que no trato digestivo seja a toxina liberada promovendo o seu efeito. Caso as toxinas produzidas sejam excretadas por bactérias Gram positivas ou Gram negativas serão denominadas de exotoxinas , sendo detectadas no alimento onde a bactéria está desenvolvendo-se. Diferenças entre Exotoxinas e Endotoxinas Exotoxinas Endotoxinas Excretadas por Bactérias Gram positivas Acumulam-se na parede celular de ou Gram negativas bactérias Gram negativas Polipeptídeos Lipopolissacarídeos: Lipídeo A parece ser a parte tóxica Destruídas a temperaturas acima Suportam temperaturas acima de 60ºC de 60ºC Antigênica = AntitoxinaFracamente imunogênica: Anticorpos São convertidas em toxóides Não são convertidas em toxóides Muito tóxica (picogramas matam camun- Pouco tóxica dongos em laboratório) Não produzem febre Produzem febre: liberam interleucina1 Registro ISBN 93.675 117 Exemplos de problemas causados pelas toxinas bacterianas: Exotoxinas Neurotoxinas Clostridium tetani (espasmo da musculatura) Clostridium botulinum (flacidez da musculatura) Enterotoxinas Vibriochoelerae (desidratação aguda grave) Staphylococcusaureus (vômito) Produtoras de Endotoxinas – Escherichia, Salmonella, Shigella, Pasteurella, Brucella, Neisseria, etc. Microrganismo Incubação Efeitos Vômito Diarréia Febre Staphylococcus 1 a 8 horas +++ + - Bacilluscereus 2 a 16 horas +++ ++ - Clostridiumbotulinum 18 a 24 horas + ou - rara - Vibriochoelerae 24 a 72 horas + +++ - Salmonella 8 a 48 horas + ou - ++ + Campylobacterjejuni 2 a 10 dias - +++ + Toxinas dos Fungos = Micotoxinas São metabólitos secundários produzidos por uma grande quantidade de espécies de fungos microscópicos. Estes compostos químicos denominados micotoxinas já foram descritos a 5000 A.C. pelos chineses que usavam o trigo “mofado” com fins obstétricos pelo aumento da contração da musculatura, facilitando o parto. Na União Soviética a plantação de arroz sempre é feita e colhida no período de calor. Em 1913 o período frio chegou adiantado cobrindo de neve parte da produção de arroz que ainda não havia sido colhida. Mesmo sob a neve fungo do gênero Fusarium continuavam desenvolvendo-se e produzindo micotoxinas. Com a chegada do período de calor a Registro ISBN 93.675 118 população voltou ao campo para aproveitar o arroz que havia ficado e, a partir daí os que se alimentaram deste arroz desenvolveram quadros de aleukia tóxica alimentar, ocorrendo muitas mortes. O marco de descoberta das micotoxinas ocorreu em 1961 com o episódio da “doença “x” dos perus” .O Brasil assim como os países africanos exportavam para a Europa farelos de trigo, soja, milho, etc. os quais eram usados na alimentação de perus, faisões, marrecos, etc. na Inglaterra. Em 1961 uma destas partidas causou a morte de “todas” as aves da Inglaterra e, por não encontrarem uma causa aparente momentânea denominaram doença “x” dos perus. Com estudo nos farelos que constituiam as rações isolou-se o fungo Aspergillus flavus o qual produzia uma substância química que, dada a animais de 1 dia, causavam sua morte da mesma maneira como ocorrido com os animais adultos. Foi dado o nome de AFLATOXINA (A=Aspergillus, FLA=flavus, TOXINA) para o primeiro composto reconhecidamente tóxico produzido por fungo. Deste momento em diante os Estados Unidos e outros países Europeus resolveram analisar os alimentos importados. O FDA americano estipulou a taxa máxima de 20ppb (partes por bilhão) de Aflatoxinas para amendoim. No Brasil a partir de 1970 estudos foram iniciados sendo criado o Congresso Brasileiro de Micotoxinas e o Programa Nacional de Micotoxinas com criação de rede de laboratórios para detecção de micotoxinas em alimentos e rações. As micotoxinas já foram detectadas em todos os tipos de alimentos possíveis e, até, em veículos, a base de amido, de antibióticos. No quadro abaixo dispõe alguns alimentos, os gêneros e espécies de fungo incriminados e as potenciais micotoxinas (Downes & Ito, 2001): Registro ISBN 93.675 119 Alimento/ material Gênero e espécie de fungo Toxinas detectadas Trigo, Polvilho, Pão, Aspergillus falvus, A.ochraceus, Aflatoxinas, Patulina, Farinha de milho, A.versicolor, Cladosporium sp, Ochratoxinas, Fusarium moniliforme,Fusarium Esterigmatocistina, proliferatum, Fusarium subgluti Ácido Penicílico, nans, Fusarium graminearum, Fumonisinas, Monilifor- Penicillium citrinum, P.citreoni mina, Deoxinivalenol, grum, P.commune. Zearalenona. Amendoim em grão Aspergillus flavus, A.ochraceus, Aflatoxinas, Ochratoxi- e em casca A.parasiticus, A.versicolor, nas, Patulina, Esterigma- Penicillium aurantiogriseum, tocistina, P.expansun, P.citrinum, Fusarium sp, Rhizopus sp, Chaetomium sp. Maçãs e derivados Penicillium expansum, Patulina Tortas de carne, carnes Aspergillus flavus, Aflatoxinas, cozidas, cacau em pó, Cladosporium sp, Ochratoxinas, Patulina, queijos, Penicillium verrucosum, Ácido penicílico. P.viridicatum, P.roqueforti, P.griseofulvum,P.commune. Salame, Presunto, Aspergillus flavus,A.ochraceus, Aflatoxinas, Patulina, Carnes mofadas, e A.versicolor, Penicillium verru- Ochratoxina, Ácido Peni- queijos cosum, P.viridicatum, P.auran lico, Esterigmatocistina tiogrisium. Pimenta vermelha e Aspergillusflavus, A.ochraceus, Aflatoxinas e Ochratoxi- negra, macarrão, Penicilliumsp nas. Feijões secos, Soja, Aspergillus flavus,A.ochraceus, Aflatoxinas, Ochratoxi- Milho, Sorgo, Cevada, A.versicolor,Alternaria sp, nas, Esterigmatocistina, Cladosporium sp,Penicillium Ácido penicílico, Patu- aurantiogriseum, P.verrucosum, lina, Citrinina, Griseo- Registro ISBN 93.675 120 P.viridicatum,P.commune, fulvina, Alternariol, P.roqueforti, P.griseofulvum, Altenuene, Altertoxina. P.viridicatum. Massas congeladas e Aspergillus flavus, A.versicolor, Aflatoxinas, Patulina, Refrigeradas Penicillium aurantiogriseum, Ochratoxina, Ácido Peni- P.citrinum, P.viridicatum, lico, Esterigmatocistina, Citrinina. Alimentos mofados Penicillium cyclopium, Fusarium Ácido penicílico, T-2 em supermecados oxysporum, F.solani,Aspergillus toxina. Alimentos armazenados Penicillium sp, Aspergillus sp, Aflatoxina, Ácido kojico, em casa refrigerados ou Ochratoxina A, Patulina, não. Ácido penicílico. Algumas condições predisponentes para desenvolvimento do fungo e, produção de micotoxinas Atividade hídrica (aw) – Água disponível no ambiente ou no alimento a qual será usada pelo fungo, estimulando o seu desenvolvimento aumentando as chances de produção de micotoxinas. A umidade relativa do ar acima de 60% ou nos grãos acima de 14% estimula esse desenvolvimento e, será o maior problema e dificuldade desde a produção, industrialização e armazenamento adequado de alimentos. Temperatura – A maioria dos fungos desenvolvem-se bem em temperaturas superiores a 20ºC mas, fungos como o Fusariumsp crescem normalmente em temperaturas menores; neste item o Brasil dispõe de todo o tipo de variação de temperatura em suas regiões, tendo temperaturas ótimas de crescimento para qualquer gênero ou espécie. Quebra do grão – Com a necessidade de maior produção agrícola o homem viu a necessidade de mecanização da colheita, pelo volume de grãos a ser colhido e aplicou Registro ISBN 93.675 121 para isso uma variedade de máquinas, as colheitadeiras mecânicas. Com isso grande parte do grão colhido sofre quebra expondo o seu conteúdo (amido) que é, na verdade, um meio de cultura para o fungo permitindo o seu desenvolvimento. Os grãos íntegros tem uma película de protopectina que dificultam a colonização por microrganismos. Tempo – Período de tempo que o microrganismo dispõe para ficar em contato com o substrato. Níveis de CO2 e O2– Como os fungos são aeróbios, geralmente não se desenvolvem em ambientes sem oxigênio. Composição do substrato – A maioria das micotoxinas tem como base parte da estrutura química do aminoácido triptofano. Nível de inoculo – Quanto mais conídios maiora chance de ter alguma cepa toxicófora. Interações microbianas – O início da degradação de um substrato pode dar-se por ação bacteriana, sendo colonizado após por fungos. Vetores invertebrados – Além de furarem o grão expondo o amido que é nutriente, podem ainda inocular o fungo que por vezes vem aderido ás suas carapaças. Legislação sobre micotoxinas no Brasil (Resolução da Diretoria Colegiada do Ministério da Agricultura) A RDC nº 072011 de fevereiro/março de 2011 refere-se aos limites máximos tolerados de micotoxinas em alimentos. A resolução estabelece os limites máximos para Aflatoxinas (AFB1+AFB2+AFG1+AFG2 e AFM1), Ocratoxina A (OTA), Desoxinivalenol (DON), Fumonisinas (FB1+FB2), Patulina (PAT) e Zearalenona (ZEA) admissíveis em alimentos prontos para oferta ao consumidor e em matérias-primas e, se aplica às Registro ISBN 93.675 122 empresas que importam, produzem, distribuem e comercializam bebidas, alimentos e matérias-primas como: amendoim e seus derivados; café torrado (moído ou em grão) e solúvel; leite e produtos lácteos; nozes e castanhas; suco e polpa de uva; vinho e seus derivados. Susceptibilidade dos animais à aflatoxina: a) Muito suceptíveis (DL50 < 1mg/Kg peso vivo) trutas, marrecos, cobaias, cães, gatos e perus. b) Susceptíveis (DL 50 até 10mg/Kg) porcos, bezerros, pintinhos, frangos, codornas, vacas, faisões, marta, ratos e macacos. c) Pouco susceptíveis: Carneiros e camundongos Estrutura química das micotoxinas A maioria das micotoxinas são derivados de policetidas, ácidos graxos, isoprenóides, etc. Na página seguinte observam-se as formas químicas das Aflatoxinas: Aflatoxinas com fluorescência azul (B de Blue) : Aflatoxina B1 e Aflatoxina B2; (M de Milk) : Aflatoxina M1; Aflatoxinas com fluorescência verde (G de Green): Aflatoxina G1 e Aflatoxina G2. Registro ISBN 93.675 123 Principais gêneros produtores de micotoxinas Sem dúvida os três gêneros mais importantes na produção de micotoxinas são o Aspergillus, o Penicillium e o Fusarium. Uma vez tendo sido identificado a microscopia as suas estruturas, devemos ficar em alerta quanto ao alimento do qual foi isolado pois o mesmo poderá está contaminado com micotoxinas. Para se ter certeza disto deveremos analisar o alimento, devendo ser detectada por cromatografia a toxina bem Registro ISBN 93.675 124 como inocular o fungo em meios de cultura adequados procedendo também a cromatografia de extrato desse material junto com os vários padrões de micotoxinas. Fungo Micotoxinas que produz Aspergillus flavus Aflatoxinas B1 e B2 Aspergillus parasiticus, Aspergillus nomius, Aflatoxinas B1,B2, G1 e G2 Aspergillus ochraceus, A.niger var. niger, Penicilliumv errucosum Ochratoxinas Penicillium expansum, Penicillium sp, Aspergillus sp Patulina Aspergillus flavus Ácido ciclopiazônico Fusarium graminearum, F.culmorum, F.crookwellense Zearalenona, Deoxynivalenol, 3-acetildoxilivalenol, 15-acetildeoxinivalelnol, nivalenol, Tricotecenos. Fusarium moniliforme, F.proliferatum, F.subglutinans Fumonisinas Fusarium proliferatum, F.subglutinans, Moniliformina Alternaria sp Alternariol Claviceps sp Ácido tenazóico e Alcalóides. Registro ISBN 93.675 125 Visto que um fungo tem capacidade de produzir diversas micotoxinas, não é difícil encontrar múltiplas micotoxinas em um alimento contaminado. Esse fato permite que haja interação entre as micotoxinas, gerando efeitos sinérgicos ou aditivos sobre humanos e animais. Micotoxicoses Micotoxicoses são os efeitos que as micotoxinas podem produzir nos diversos órgãos dos homens e dos animais. Podemos compara este efeito a um “Iceberg” pois a ponta que é visível corresponde aos casos de intoxicações agudas que são poucos pois, dificilmente o alimento terá tanta toxina que levará o animal ou o homem a morte súbita. Em animais observa-se hemorragia intensa nesses casos, o que é comum a um grande número de patologias. A parte submersa do “Iceberg” que é maior, corresponde aos casos de intoxicações agudas onde os homens e os animais, diariamente, vão ingerindo pequenas quantidades de micotoxinas que entram no organismo, causam o seu efeito, podendo serem biotransformadas e excretadas, serem depositadas nas estruturas celulares ou, nos casos mais graves formarem “adutos” com o DNA da célula o que pode levar ao câncer. Registro ISBN 93.675 126 Micotoxicoses primárias e secundárias Vegetal ou grão Contaminação por fungo Alimentação Animal Micotoxinas na Carnee derivados Produção de micotoxinas Micotoxinas no Leite e derivados Alimentação do Homem Alimentação do Animal Alimentação do Homem e Animais Micotoxicose primária Micotoxicose secundária Os grupos de micotoxinas tem o seu órgão alvo, como por exemplo as Aflatoxinas que vão atuar a nível hepático principalmente e, a Citrinina e a Ochratoxina que agirão a nível renal. Em sua maioria, as várias micotoxinas são imunossupressoras deixando os homens e animais susceptíveis a infecções que geralmente seriam banais. Alguns efeitos das micotoxinas Diarréia, hemorragia intestinal, necrose e fibrose hepática, proliferação de ductos biliares, câncer hepático (Aflatoxinas), degeneração das células de Langerhans (Ácido ciclopiazônico), tremores, convulsão e paralisia (Tremórgenos, Citreoviridina, Roquefortina, Ergotamina), Leucoencefalomalácea eqüina (Fumonisina), microcistos renais, necrose tubular renal (Ochratoxina A e Citrinina), fotossensibilização secundária à lesão hepática (Esporidesmina), necrose seca das extremidades (Ergotamina), Registro ISBN 93.675 127 supressão da hematopoiese (Ochratoxina A, Tricotecenos e Stachybotriotoxina), redução na produção de complemento e imunoglobulinas (Aflatoxinas), redução das atividades fagocitárias e linfocitárias (Aflatoxinas e Citrinina), efeito imunossupressor sobre o timo, bursa de Fabricius, baço e linfonodos (Aflatoxinas, Ochratoxinas e Tricotecenos), hemorragias (Aflatoxinas, Citrinina e Tricotecenos), degeneração miocárdica (Citrinina e Moniliformina), estrogenismo, infertilidade, estro prolongado, mastopatia, falso cio (Zearalenona), Aborto (Zearalenona e Ergotamina), aumento e necrose das adrenais (Aflatoxinas e Esporidesmina). Rotinas laboratoriais para detecção da micotoxina e isolamento do fungo produtor Amostragem – Deverá ser significativa pois, o fungo poderá estar se desenvolvendo e produzindo micotoxinas em parte do alimento. Desta maneira deverá ser colhido 10% de cada lote do alimento a ser analisado, misturado estas amostras e 3 alíquotas de 1 Kg cada deverão ser retiradas. Uma delas será enviada ao laboratório. Detecção das Micotoxinas – Existem uma infinidade de técnicas para detectar as micotoxinas em alimentos e órgãos. Em todas elas a amostra deverá ser triturada o máximo possível, sendo uma parte será pesada e depositada em uma vidraria onde se acrescentará um produto químico que irá se ligar a micotoxina e extraí-la (por exemplo clorofórmio). Também se acrescentará água para facilitar a micotoxina se soltar do alimento e se ligar no clorofórmio. Esta mistura será agitada por 30 minutos a 1 hora; após este tempo será filtrado e concentrado para 1 ml (extrato). Caso este extrato contenha menos de 3% de gordura e não contenha pigmentos, será usado na cromatografia junto com padrões de micotoxinas. Se tiver mais de3% de gordura ou pigmentos o extrato deverá ser levado a um funil de separação para retirada deste material. Poderemos adicional ao extrato 50 ml de NaCl a 4% + 50 ml de Metanol que facilitarão as gorduras e pigmentos a se soltarem do extrato. Será adicionado 50 ml de hexano que se ligará às gorduras e pigmentos e formará uma fase acima do extrato. Esta fase é retirada e, novamente adicionado mais 50 ml de hexano que vai retirando Registro ISBN 93.675 128 toda a gordura e pigmento. Uma terceira adição de hexano acontece e, após a sua retirada o extrato está livre de pigmentos e gorduras. A esse estrato limpo adiciona-se 50 ml de clorofórmio, agita-se o funil de separação e aguarda-se a separação de fases. O clorofórmio acoplado as micotoxinas fica abaixo do extrato. Abre-se a torneira do funil de separação e o recolhe para um Becker; repete-se mais uma vez esta rotina. Ao final os 100 ml serão concentrados para 1 ml (extrato) e analisado por cromatografia coplanar de sílica gel 60G, cromatografia líquida (HPLC) ou cromatografia gasosa junto com os padrões das micotoxinas. Detecção de Fungos Produtores de Micotoxinas Numa placa de Petri coloca-se uma rodela de papel de filtro ao fundo e, após esterilizado todo o conjunto em Forno Pasteur, adiciona-se água destilada estéril sobre o papel de filtro. Em seguida colocamos parte do alimento ou do material que queremos isolar o fungo. Com a umidade os elementos do fungo multiplicam-se (hifas em micélio, micélio em colônia). Repicamos o fungo isolado para um meio de cultura (Agar Sabouraud, Agar Czapek-dox, etc.); após certificarmos de haver colônia pura, repicamos agora o fungo para Agar –coco preparado com 10% de leite de coco em pH 5,0 e em pH 7,0. Poderá ser observado a colônia desenvolvida sob lâmpada ultra- violeta e, poderá ser visualizado halo florescente ao redor da colônia indicando a produção de micotoxinas. Mas, deve-se recortar o agar junto com a colônia, colocá-lo em um Becker, adicionar 10 mL de clorofórmio, macerar e filtrar. O filtrado deverá ser trabalhado em cromatografia junto com os padrões de micotoxinas para identificação segura. Prevenção e controle Uma vez produzida a micotoxina em um alimento, dificilmente será possível a sua retirada com a possibilidade de aproveitamento do produto. O uso do calor pode diminuir a quantidade de toxinas presentes mas, certamente não as elimina totalmente e quanto mais calor se fizer a um alimento, menor será seu teor nutritivo; as Aflatoxinas por exemplo podem resistir a temperaturas acima de 200ºC. Da mesma maneira Registro ISBN 93.675 129 poderemos utilizar ácidos fortes ou bases fortes para a inativação de micotoxinas mas, ficará inviável a utilização do produto para alimentação. Desta maneira os trabalhos de pesquisa visam impedir o desenvolvimento do fungo em toda cadeia alimentar, através de ambientes com baixa umidade na colheita, beneficiamento, produção e armazenamento de uma alimento. Na produção de aves estão sendo testados adição substâncias tipo aluminatos e silicatos à ração, as quais após ingeridas pelas aves se ligariam às micotoxinas, não sendo absorvidas pelas mucosas das aves e excretadas pelas fezes. No caso de contaminação do milho por aflatoxinas este pode ser tratado com amônia líquida, a qual abrirá a estrutura química da micotoxina tornando-a inócua. Entretanto, após secagem do milho este só poderá servir de alimento para ruminantes pois, se o mesmo for dado a animais de estômago ácido novamente haverá o fechamento da estrutura química de aflatoxina, voltando a ser tóxica. Registro ISBN 93.675 130 GENÉTICA MICROBIANA 1. REVISAO DE CONCEITOS BÁSICOS: ESTRUTURA BÁSICA E METABOLISMO DOS ÁCIDOS NUCLÉICOS a) Estrutura dos ácidos nucléicos Ácidos nucléicos são polímeros lineares de nucleotídeos, unidos por ligações fosfodiéster. Existem dois tipos de ácidos nucléicos: ácido desoxirribonucléico (DNA) e ácido ribonucléico (RNA). Toda informação necessária a vida esta armazenada no material genético de um organismo, o DNA, ou, para muitos vírus, o RNA. As moléculas de DNA têm estrutura em forma de dupla hélice. Cada fita é formada por uma seqüência de desoxirribonucleotídeos. Cada desoxirribonucleotídeo é composto de uma base nitrogenada ligada a uma molécula de açúcar (desoxirribose) e um grupo fosfato. As bases nitrogenadas ligadas à desoxirribose são quatro: adenina (A), citosina (C), guanina (G) e timina (T). Uma ligação fosfodiéster unindo o grupo fosfato de um desoxirribonucleotídeo e o açúcar desoxirribose de outro deoxirribonucleotídeo forma o esqueleto de uma das fitas. A outra fita é formada da mesma maneira, mas com orientação da ligação fosfodiéster contrária, o que impõe a característica de antiparalelismo entre as duas fitas. Além de antiparalelas, as duas fitas de DNA são ditas complementares, ou seja, se existir uma adenina em uma fita, encontraremos um timina na mesma posição na outra fita. Se houver uma guanina, na outra fita haverá uma citosina. São estes os dois únicos tipos de complementação de bases nitrogenadas possíveis no DNA. Como conseqüência o número de adeninas será igual ao número de timinas num organismo. Entre as bases nitrogenadas existem pontes de hidrogênio, duas entre A e T e três entre C e G. Tais pontes juntamente com outras forças, mantêm as duas fitas unidas. Registro ISBN 93.675 131 b) O Dogma Central da Biologia Molecular O dogma central define o paradigma da biologia molecular, em que a informação é perpetuada através da replicação do DNA e é traduzida através de dois processos: a transcrição que converte a informação do DNA em uma forma mais acessível (uma fita de RNA complementar) e através da tradução que converte a informação contida no RNA em proteínas. - Perpetuação da informação genética (Replicação) A replicação é o processo pelo qual uma molécula de DNA se duplica dando origem a duas moléculas idênticas a molécula inicial. A replicação é dita semiconservativa porque a replicação da molécula de DNA resulta em duas moléculas na geração seguinte composta cada uma de uma fita recém- sintetizada e uma fita velha que serviu como molde. A replicação do DNA é bidirecional, pois a partir da origem, a replicação prossegue ao longo da fita de DNA, em ambas as direções (duas forquilhas de replicação deixam a origem em direções opostas), seqüencialmente até o término. O primeiro passo para a replicação do DNA é a abertura das fitas, feita pela enzima helicase. Para manter as fitas desenroladas proteínas chamadas SSB (Single Strand Binding) se ligam nas fitas recém-desenroladas evitando que se associem de novo. Com o desenrolamento das fitas em um ponto, as regiões adjacentes sofrem um “superenrolamento”, o que dificultaria a continuação do processo. As topoisomerases resolvem esse problema fazendo cortes em uma das fitas de DNA, que se desenrola, e religando-as, diminuindo a tensão provocada por esse “superenrolamento”. A síntese de novas fitas é feita pela enzima DNA-polimerase, que necessita de um “primer”, que é um fragmento de RNA sintetizado por uma RNA polimerase chamada Primase. Em bactérias existem três tipos de polimerases: A DNA polimerase I, possui baixa capacidade de polimerização 5’→3’ e é a única que possui atividade exonucleásica 5’→3’em DNA dupla fita. A DNA polimerase II, possui uma capacidade de polimerização baixíssima e o seu papel na célula ainda não foi muito bem elucidado. Registro ISBN 93.675 132 A DNA polimerase III, é a principal responsável pela síntese das fitas de DNA devido a sua alta capacidade de polimerização. Após a síntese do primer de RNA, a DNA polimerase III começa a polimerização no sentido 5’→3’. Além da polimerização, a DNA-polimertase III possui atividade exonucleásica3’→5’. O processo de replicação é dito semidescontínuo uma vez que as fitas de DNA são antiparalelas e o processo de replicação só ocorre no sentido 5’→3’. Assim, tendo em vista apenas uma das fitas de DNA em replicação, a partir da origem (ori), em um lado da fita a replicação ocorrerá de forma contínua, enquanto que no outro lado a replicação ocorrerá de forma descontinua, sendo necessário para isto necessário vários pequenos iniciadores, de onde serão formados pequenos fragmentos de tamanhos diferentes conhecidos como fragmentos de Okazaki. Logo após a síntese das fitas pela DNA-polimerase III, a DNApolimerase I inicia a retirada dos primers de RNA (atividade exonucleásica 5’→3’) e os substitui por nucleotídeos de DNA (desoxinucleotídeos). Após a substituição do primer, o primeiro nucleotídeo do fragmento de Okazaki não está ligado ao último nucleotídeo do fragmento anterior, então uma enzima chamada ligase catalisa essa ligação. Dessa forma, as duas fitas de DNA já estão terminadas e naturalmente se enrolam formando a dupla hélice. A replicação em eucariotos segue o mesmo padrão, a maior diferença está nas polimerases que são cinco (α, δ, ε, β e γ) sendo uma exclusivamente mitocondrial (γ) e as outras quatro nucleares. As polimerases α, δ e ε se correlacionam funcionalmente com as polimerases I, III e II de procariotos respectivamente. - Decodificando o DNA (Trancrição e Tradução): A trancrição é o processo de formação de uma fita de RNA complementar a uma região do DNA. Os RNAs formados durante a transcrição podem ser de três tipos: o mRNA (mensageiro) que é aquele RNA que contém a seqüência que codifica uma proteína; o tRNA (transportador) que carreia os aminoácidos até os ribossomos e possibilita a leitura da informação contida no mRNA durante a tradução e o rRNA (ribossômico) que faz parte da estrutura dos ribossomos. A enzima responsável pela transcrição é a RNA polimerase, que nos procariotos é única, enquanto nos eucariotos elas são três (RNA polimerase I, II e III). Registro ISBN 93.675 133 Para iniciar a trancrição, a RNA polimerase deve reconhecer um local específico onde começará a síntese. Esse local chama-se promotor. O reconhecimento da RNA polimerase aos promotores se dá graças ao fator sigma, que liga-se à RNA polimerase fazendo com que estas tenham maior afinidade com as seqüências promotoras. A RNA polimerase liga-se ao promotor e inicia a síntese da fita de RNA complementar a fita molde até parar em uma região chamada terminador. Em procariotos, que não possuem envoltório nuclear, a transcrição ocorre no mesmo lugar onde ocorre a tradução, dessa forma, tão logo o RNA comece a ser formado, a tradução já se inicia. Por esse motivo diz-se que a transcrição e a tradução nos procariotos é acoplada. Nos eucariotos a transcrição ocorre no núcleo e a tradução ocorre no citoplasma. O RNA recém sintetizado nos eucariotos ainda precisa passar por uma etapa de processamento (retirada dos íntrons, adição de uma cauda de poli Adenina, adição de 7-Metil Guanosina na primeira base do RNA) antes de ser direcionado ao citoplasma onde será traduzido. A tradução converte a informação na forma de trincas de nucleotídeos em aminoácidos, que darão origem a uma proteína. A transcrição ocorre em uma estrutura citoplasmática chamada ribossomo, formada por várias proteínas e rRNA. O ribossomo é dividido em duas subunidades, uma subunidade menor (30S em bactérias e 40S em eucariotos) e uma subunidade maior (50S em bactérias e 60S em eucariotos). Considerando o modelo bacteriano, o início da tradução se dá quando a subunidade 30S liga-se ao códon de iniciação AUG (com raras exceções, a tradução sempre começa no códon AUG, correspondente a uma metionina) e logo em seguida o met-tRNA e a subunidade 50S ligam-se ao complexo 30S-mRNA, tudo isso com o auxílio de fatores de iniciação (IFs). O ribossomo reconhece a trinca correta da metionina, a iniciadora, através do pareamento de uma seqüência do rRNA 16S da subunidade menor com uma seqüência no mRNA que fica próxima ao início da tradução chamada seqüência de Shine-Delgarno. O ribossomo possui dois sítios de entrada da tRNA, o sítio P (peptídeo) e o sítio A (aminoácido). O primeiro tRNA entra no sítio P e o segundo entra no A, algumas enzimas da subunidade 50S do ribossomo fazem a ligação do primeiro aminoácido com o segundo, promovendo a ligação peptídica, dessa forma, no sítio A ficará o segundo Registro ISBN 93.675 134 tRNA com um dipeptídeo. Através de um processo chamado translocação o ribossomo se desloca um códon a frente de forma que o dipeptídeo-tRNA fica na sítio P. A partir daí, esse processo se repete, formando um tripeptídeo no sítio A que é translocado para o sítio P formando assim sucessivamente a proteína. A tradução termina quando o ribossomo encontra um códon de terminação, que não codifica nenhum aminoácido, são eles: UGA, UAG e UAA. A estes códons se liga um fator para terminação da síntese (RF- Releasing Factor). Após a tradução, as proteínas ainda têm que passar por algumas modificações para que possam exercer adequadamente suas funções. 2. COMPARAÇÃO DE GENOMAS E GENES DE ORGANISMOS PROCARIOTOS E EUCARIOTOS a) Características dos genomas de organismos procarióticos Organismos procarióticos possuem um único cromossomo na forma de uma molécula dupla fita circular de DNA. Como são capazes de se autoduplicar, pois possui sua própria origem de replicação, o cromossomo bacteriano é considerado um replicon. O cromossomo de Escherichia coli possui 4,6 x 106 pb, o de Mycoplasma pneumoniae possui, aproximadamente, 0,79 x 106 pb, enquanto Myxococcus xanthus possui um cromossomo de cerca de 9,5 x 106 pb. O cromossomo bacteriano possui um alto nível de empacotamento (se o DNA de E. coli pudesse ser esticado teria cerca de 1000 vezes o seu tamanho) formando a estrutura denominada nucleóide que ocupa cerca de um terço do volume celular total. O nucleóide é funcionalmente relacionado ao núcleo eucariótico não possuindo, entretanto, uma membrana nuclear. Algumas bactérias apresentam além do DNA cromossômico, o DNA plasmidial. Plasmídeos são moléculas de DNA circular, fita dupla, extracromossômico, de replicação independente e não essencial para a sobrevivência da célula sob condições não restritivas. Registro ISBN 93.675 135 b) Características dos genomas de organismos eucarióticos As células eucarióticas são mais complexas que as procarióticas. Possuem membrana nuclear individualizada e vários tipos de organelas. Os eucariontes possuem múltiplos cromossomos lineares envolvidos por uma membrana nuclear. Cada cromossomo tem um centrômero e, durante a divisão celular, apresenta dois braços (que representam, inicialmente, cópias idênticas) saindo do centrômero, os cromatídeos ou cromátides-irmãs. As extremidades dos cromossomos possuem estruturas especiais chamadas telômeros que possuem a função de manter a instabilidade estrutural dos cromossomos, iniciar o pareamento dos cromossomos homólogos e ancorar o cromossomo ao envoltório nuclear. Nos cromossomos dos eucariotos, o DNA encontra-se numa forma ordenada dentro do núcleo celular, agregado a proteínas estruturais, as histonas, e toma a designação de cromatina. Os procariotos não possuem histonas nem núcleo. Genomas eucarióticos possuem uma quantidade de DNA consideravelmente maior que genomas procarióticos. Mesmo as células eucarióticas mais simples, como as de alguns fungos, chegam a ter um conteúdo de DNA dez vezes maior que o de uma célula de E. coli. O fungo unicelular Saccharomyces cerevisae apresenta 12 cromossomos e um genoma de aproximadamente 1,2 x 107 pb, enquanto que o homem (Homo sapiens) apresenta 46 cromossomo e, em torno de 3,2 x 109 pb. Já o milho (Zea mays) apresenta 30 cromossomos e tem em torno 2,3 x 109 pb. c) Paradoxodo valor C Um aspecto evidente em qualquer análise mais abrangente sobre a variação de tamanho entre genomas eucarióticos é o denominado paradoxo do valor C. Valor C refere-se ao conteúdo de DNA do genoma haplóide. O paradoxo do valor C pode ser observado em muitos grupos taxonômicos e descreve uma frequente falta de correlação entre a complexidade biológica dos organismos e os tamanhos dos respectivos genomas. Organismos pertencentes a uma mesma classe, por exemplo, a dos anfíbios podem ter variações de mais de 120 vezes no tamanho dos seus genomas, ao passo que grupos com graus de complexidade anatômica, fisiológica e http://pt.wikipedia.org/wiki/Eukaryota http://pt.wikipedia.org/wiki/Centr%C3%B4mero http://pt.wikipedia.org/wiki/Cromat%C3%ADdeo http://pt.wikipedia.org/wiki/Tel%C3%B3mero http://pt.wikipedia.org/wiki/Eukaryota http://pt.wikipedia.org/wiki/DNA http://pt.wikipedia.org/wiki/N%C3%BAcleo_celular http://pt.wikipedia.org/wiki/Prote%C3%ADna http://pt.wikipedia.org/wiki/Histona http://pt.wikipedia.org/wiki/Cromatina http://pt.wikipedia.org/wiki/Procarionte Registro ISBN 93.675 136 comportamental muito distintas, como nematóides, insetos e mamíferos, podem ter espécies com genomas de tamanhos similares. O paradoxo do valor C resulta, em essência, da presença, nos genomas de algumas espécies eucarióticas, de uma grande quantidade de sequencias não associadas a genes, isso faz com que o tamanho do genoma não reflita diretamente o número de genes nele presente. Essas sequências intergênicas, com representatividade variada nos genomas de diferentes espécies, são constituídas em grande parte por elementos transponíveis e outras classes de DNA repetitivo. d) Estrutura dos genes procarióticos e peculiaridades de sua transcrição e tradução Simplificadamente, um gene, seja ele de procarioto ou eucarioto, pode ser definido, do ponto de vista molecular, como um segmento de DNA que contém a informação necessária para codificar uma proteína ou um produto de RNA (tRNA ou rRNA). Em sua estrutura básica, cada gene é constituído por uma região codificadora, que é a sequencia nucleotídica que codifica o seu produto (de RNA ou proteína) e pelas sequencias reguladoras, que controlam a sua expressão. Em um gene procariótico típico, as sequencias reguladoras que controlam a sua transcrição encontram-se em posições adjacentes a região codificadora. As principais sequências reguladoras da transcrição são o promotor, que é uma sequencia de DNA reconhecida pela RNA polimerase, o operador, que é uma sequencia de DNA reconhecida pelas proteínas repressoras, e o terminador, que determina a dissociação da RNA polimerase da fita molde e o final do processo de transcrição. Muitas vezes, genes estruturais bacterianos que codificam proteínas cujas funções estão relacionadas estão organizados em agrupamentos. É comum encontrar genes que codificam enzimas de uma mesma rota metabólica organizados neste tipo de agrupamento. Estes agrupamentos são chamados de operons. Operon é uma organização estrutural típica de genomas procarióticos, na qual duas ou mais sequencias codificadoras de produtos gênicos estão sob o controle transcricional de um mesmo conjunto de sequencias reguladoras. Em um operon, as sequencias codificadoras são transcritas em um único RNA, chamado de mRNA policistrônico. Registro ISBN 93.675 137 Com este modelo coordenado de transcrição, pode ocorrer a transcrição de todos os genes de um processo metabólico ou não ocorrer a transcrição de nenhum deles. Assim, isso assegura que se uma enzima da via está presente, as outras também estarão. Apesar das sequências que codificam as cadeias polipeptídicas estarem juntas (mRNA policistônico), cada sequência é traduzida de forma independente. Cada uma possui seu próprio sítio de ligação do ribossomo, seu códon de iniciação e terminação, podendo até ocorrer uma diferente taxa de tradução para cada sequência, levando a diferentes níveis de expressão de diferentes genes de uma mesma rota metabólica. A cotranscrição de mais de uma região codificadora, a partir de um mesmo conjunto de sequências reguladoras, representa uma otimização da maquinaria reguladora da célula, que assegura a expressão coordenada (ao mesmo tempo e nos mesmos níveis) dos produtos gênicos de cada operon. Além disso, a organização em operons proporciona uma economia de espaço no DNA, o que é relevante para os genomas relativamente pequenos e compactados de procariotos. Uma peculiaridade da transcrição e tradução em procariotos é que nestes organismos o processo de tradução de um mRNA inicia-se antes que a transcrição do mesmo tenha se encerrado (a transcrição e a tradução ocorrem concomitantemente). e) Estrutura dos genes eucarióticos e peculiaridades de sua transcrição e tradução Em eucariotos, as sequencias reguladoras ou codificadoras de genes, em geral, possuem estruturas mais complexas que as de genes procarióticos, sendo que essa maior complexidade determina refinamentos funcionais que explicam, pelo menos em parte, o maior grau de sofisticação de células e organismos eucarióticos. Genes eucarióticos típicos possuem a região reguladora incluindo o promotor (sítio de ligação da RNA polimerase) e é, em geral, bem mais extensa e contém um número de elementos reguladores (sequencias nucleotídicas reconhecidas por proteínas reguladoras específicas) muito maior do que o observado em genes procarióticos. Outra característica marcante, embora não exclusiva, de genes eucarióticos é a presença de sequencias intervenientes. Essas sequências, Registro ISBN 93.675 138 denominadas íntrons, interrompem a região transcrita do gene e a dividem em vários segmentos, denominados éxons. As sequencias correspondentes aos íntrons estão presentes no DNA genômico, são transcritas em um RNA precursor (pré-RNA), porém removidas durante o processamento do RNA, que dá origem ao RNA maduro. Em genes codificadores de proteínas, os íntrons em geral interrompem a região codificadora. Além disso, também podem ocorrer íntrons que interrompem regiões flanqueadoras (5’-UTR e 3’-UTR), que são transcritas, mas não traduzidas (UTR – untraslated region = região não traduzida). Os processos de transcrição e tradução dos procariotos e eucariotos apresentam diferenças entre si. Nos eucariotos, após a finalização da transcrição, o mRNA será processado gerando o mRNA maduro, que será direcionado ao citoplasma, onde será realizada a tradução. 3. CONTROLE DO METABOLISMO MICROBIANO As bactérias usam a maior parte de sua energia para sintetizar substâncias necessárias ao crescimento. Estas substâncias incluem as proteínas estruturais, que formam os componentes celulares, e as enzimas, que controlam tanto a produção de energia quanto de síntese. Durante a evolução, todos os organismos, tanto Procariotos quanto Eucariotos, desenvolveram mecanismos para realizar ou não as reações de acordo com as suas necessidades. A energia e as substâncias são muito preciosas para serem desperdiçadas. Também, a célula possui uma quantidade limitada de espaço para a estocagem de substâncias nas quantidades necessárias e paralisam o processo antes que os excessos desnecessários sejam produzidos. Os mecanismos que controlam o metabolismo tanto regulam a atividade quanto a síntese enzimática, ligando ou desligando ou desligando os genes que codificam enzimas específicas. O controle da expressão enzimática pode ocorrer em diferentes níveis: transcricional, traducional e pós-traducionais. O controle da expressão da maioria dos genes regulados, em bactérias, é feito em nível de transcrição por proteínas especiais denominadas de proteínas regulatórias. Registro ISBN 93.675 139 A taxa em que cada etapa da síntese de proteínas ocorre depende, parcialmente, do controle genético interno e, parcialmente, do ambiente químico externo.As enzimas podem ser divididas em duas grandes classes quanto a sua forma de expressão: as enzimas constitutivas: são sintetizadas continuamente, e não são influenciadas por mudanças ambientais. Os genes que produzem estas enzimas estão sempre ativos, não são regulados e são chamados genes constitutivos. Já as enzimas induzidas são aquelas cuja expressão varia de acordo com as condições da célula. Nesse caso, os genes que codificam essas enzimas são chamados genes regulados, e incluem todos aqueles que são sensíveis a mudanças ambientais. Como exemplos de mecanismos da regulação genica em procariotos podemos citar a regulação da transcrição do operon lac e do operon trp. - Operon lactose (lac) A fonte de carbono e energia utilizada pelas bactérias para seu crescimento é proveniente de açúcares que são catabolizados pela via glicolítica. E. coli normalmente utiliza glicose, mas pode, também utilizar outros açúcares como a lactose. Quando a fonte de nutriente é lactose, a célula precisa desdobrar esse dissacarídeo em glicose (assimilável) e galactose, sendo que essa hidrólise é feita pela enzima β-galactosidase. O operon lac, que é necessário para o metabolismo da lactose, apresenta os genes estruturais Z, Y e A, que codificam, respectivamente, as enzimas: -galactose, que cliva a molécula de lactose gerando glicose e galactose; galactose permease, que transporta a lactose para dentro da célula; e a transacetilase, cujo papel in vivo ainda é incerto. Logo após a região promotora (seqüência de DNA onde a RNA polimerase se liga) encontra-se uma região de 25 a 30 nucleotídeos que é chamada de operador. É nesta região que a proteína repressora (LacI - que tem alta afinidade por essa região operadora), se liga para impedir que ocorra a transcrição dos genes estruturais. O repressor LacI, que é codificado pelo gene lacI, gene constitutivo, se encontra numa região adjacente ao operon lac, mas ocorre como uma unidade transcricional independente do operon lac, possuindo promotor e terminador próprios. Na ausência do substrato lactose, os genes do operon lac são reprimidos pela ligação do repressor LacI na região operadora deste operon. Entretanto, quando a Registro ISBN 93.675 140 lactose está presente no meio, o operon lac é ativado, uma vez que a molécula indutora (lactose) se liga a um sítio específico da molécula repressora, causando uma mudança conformacional, resultando na sua dissociação do operador. Após a dissociação do repressor, os genes do operon lac são expressos e a concentração da -galactosidase aumenta mais de 1000 vezes. - Operon triptofano (trp) O operon trp codifica cinco enzimas que são necessárias para a biossíntese do aminoácido triptofano. Em condições normais, ou seja, no trato gastrointestinal das diversas espécies animais, a bactéria E. coli não precisa realizar a síntese de seus próprios aminoácidos, obtendo-os diretamente do meio que se encontra. Assim, os genes estruturais codificados pelo operon trp somente são expressos quando o triptofano não está disponível à célula em seu meio ambiente, uma vez que a síntese do triptofano adicional seria desnecessária. O promotor e o operador do operon trp estão arranjados de tal maneira que a ocupação do operador pelo repressor do trp bloqueia o acesso da RNA polimerase ao promotor, impedindo, portanto, a expressão das enzimas do operon trp. O gene que codifica esse repressor (trpR), localiza-se distante desse operon trp. Normalmente, na ausência do triptofano no meio, o operon trp está ligado. Isso ocorre porque a proteína repressora trpR não tem afinidade pela região operadora deste operon. Para se ligar a região operadora, o repressor TrpR necessita associar-se a um co-repressor, que é o próprio triptofano. A ligação do triptofano altera a conformação do repressor de forma que ele consegue se ligar a região operadora do operon. Assim, na presença de triptofano, esse se liga ao repressor e o complexo triptofano/repressor liga-se à região operadora, impedindo a transcrição. Sem o triptofano, o repressor do triptofano é incapaz de se ligar ao operador, e a transcrição ocorre normalmente. Assim, a repressão da transcrição do triptofano é um mecanismo simples, que ativa e desativa a produção das enzimas da via biossintética do triprofano de acordo com a disponibilidade de triptofano no meio. Registro ISBN 93.675 141 4. VARIABILIDADE GENÉTICA EM MICRORGANISMOS Alterações genotípicas são importantes para gerar variabilidade e contribuir, assim, para o processo de evolução dos microrganismos. Em face de uma mudança brusca no meio ambiente, as bactérias e outros microrganismos possuem um conjunto de mecanismos geradores de alterações genéticas que conduzem a variantes, fornecendo-lhes assim a possibilidade de contornar situações que ponham em risco a sua sobrevivência. Os principais mecanismos de alteração genética em microrganismos são: (1) Mutações (espontâneas ou induzidas por agentes mutagênicos); (2) Rearranjo dos genes existentes (Recombinação genética). a) Mutação gênica Todos os seres vivos sofrem mutações como resultado de funções celulares normais ou interações com o ambiente. Essas mutações são denominadas espontâneas, e sua frequência de ocorrência é característica para cada espécie, constituindo o chamado nível basal. A ocorrência de mutações pode aumentar pelo tratamento com determinados compostos. Esses compostos são denominados agentes mutagênicos e as modificações que eles causam, mutações induzidas. Muitos agentes mutagênicos atuam diretamente no DNA, devido a sua capacidade de atuar como base nitrogenada ou de incorporar-se a cadeia polinucleotídica. O efeito de um agente mutagênico é mensurado pelo grau em que ele aumenta a frequência de mutação acima do nível basal. Qualquer base nitrogenada do DNA pode ser mutada. Uma mutação pontual envolve modificação em um único par de base (substituição) ou em poucos pares de bases (adição/inserção ou deleção). A mutação pontual pode ser o resultado do mau funcionamento do sistema celular que replica ou repara o DNA, inserindo uma base incorreta na cadeia polinucleotídica, que está sendo sintetizada, ou de uma interferência química sobre uma das bases do DNA. Registro ISBN 93.675 142 b) Recombinação genética Enquanto a mutação gênica é a fonte primária da variação genética, pois através dela é que são formados genes "novos", a recombinação é um mecanismo que reorganiza os genes já existentes nos cromossomos. A recombinação genética é o processo pelo qual os elementos genéticos contidos em dois genomas distintos são reunidos em uma unidade. Por meio desse mecanismo, novas combinações de genes podem surgir, mesmo não ocorrendo mutações. O mecanismo primário de recombinação genética é a reprodução sexuada, que se realiza em duas fases consecutivas: gametogênese (formação de gametas) e fecundação (união do gameta masculino com feminino). Durante a gametogênese , a célula germinativa diplóide sofre meiose, produzindo quatro gametas - células haplóides que contêm um cromossomo de cada par de homólogos. Os cromossomos segregam-se independentemente, o que possibilita grande número de combinações entre os cromossomos , dando origem a várias tipos de gametas. O número de tipos diferentes de gametas produzidos por um indivíduo diplóide é dado por 2n, onde n = lote haplóide de cromossomos. Durante a reprodução sexuada ocorre o evento de crossing-over, e é nessa etapa que ocorrerá a recombinação entre seqüências homólogas, que aumenta a variabilidade genotípica uma vez que estabelece novas combinações entre os genes e aumenta o número de tipos diferentes de gametas. Os gametas podem ser formados por fecundação cruzada: união entre gametas de indivíduos diferentes, mas da mesma espécie e autofecundação: união entregametas masculinos e femininos produzidos pelo mesmo indivíduo. Populações de indivíduos que apresentam fecundação cruzada têm maiores possibilidades de aumentar a variabilidade genética sem adição de genes novos (por mutação, por exemplo) do que populações de indivíduos com autofecundação. A variabilidade genética é importante pra a sobrevivência da espécie. Nesse sentido, até bissexuados desenvolveram, ao longo de sua evolução, vários mecanismos que dificultam a autofecundação e favoreça a fecundação cruzada, possibilitando desse modo, aumento na variabilidade. Através da recombinação Registro ISBN 93.675 143 genética uma população pode aumentar sua variabilidade genética sem adição de genes novos, produzindo por mutação ou por imigração de indivíduos de outras populações. Os procariotos, contrariamente a maioria dos eucariotos, não apresentam qualquer tipo de reprodução sexuada. Entretanto, possuem mecanismos de troca genética que, embora consideravelmente diferentes daqueles envolvidos na reprodução sexuada de eucariotos, permitem tanto a transferência de genes quanto sua recombinação. Os mecanismos de transferência genética, já descritos em bactérias são transformação, conjugação e transdução. - Transformação Transformação genética é um processo pelo qual o DNA na forma livre é incorporado por uma célula receptora, que pode passar a apresentar alterações genéticas. Foi demonstrado que vários procariotos são naturamente transformáveis, incluindo espécies tanto gram-positivas quanto gram-negativas de Bacteria e algumas espécies de Archaea. Entretanto, mesmo nos gêneros transformáveis, apenas algumas linhagens ou espécies são, de fato, transformáveis. Uma vez que o DNA de procariotos apresenta-se nas células como uma única grande molécula, quando a célula sofre lise branda, o DNA é extravasado. Em virtude de seu enorme comprimento (1700 µm, em Bacillus subtilis), a molécula de DNA é facilmente rompida. Mesmo após uma extração cuidadosa, o cromossomo de B. subtilis, contendo 4,2 Mb, é convertido a fragmentos de aproximadamente 15 Kb. Como um gene corresponde, em média, a 1000 nucleotídeos, cada um dos fragmentos purificados desse DNA contém, aproximadamente, 15 genes. Uma única célula normalmente incorpora apenas um ou poucos fragmentos de DNA, de maneira que apenas uma pequena proporção dos genes de uma célula é transferida a outra, em um único evento de transformação. Quando uma célula é capaz de captar uma molécula de DNA e ser transformada, está é referida como competente. Apenas certas linhagens são competentes; ao que parece, essa capacidade é determinada geneticamente. A competência é regulada na maioria das bactérias naturalmente transformáveis, sendo que proteínas especiais Registro ISBN 93.675 144 desempenham papéis na capitação e no processamento do DNA. Essas proteínas específicas de competência podem incluir uma proteína de ligação ao DNA, associada à membrana (uma autolisina de parede celular), além de várias nucleases. Em Bacillus, cerca de 20% das células tornam-se competentes e permanecem nesse estado por várias horas. Entretanto, em Streptococcus, 100% das células tornam-se competentes, mas apenas por alguns poucos minutos, durante o ciclo celular. As bactérias exibem diferenças em relação a forma do DNA captado, embora, em ambos os casos, apenas moléculas de DNA de fita simples penetrem no citoplasma. Em Haemophilus, um organismo gram-negativo, somente moléculas de DNA fita dupla são captados pela célula, embora apenas segmentos de fita simples sejam incorporados ao genoma, por meio da recombinação. Em bactérias gram- negativas, há evidências indicando que o DNA de fita dupla é degradado a forma de fita simples no espaço periplasmático, sendo somente uma fita simples transportada ao citoplasma. Contrariamente, em espécies gram-positivas como Streptococcus e Bacillus, o DNA é captado na forma de fita simples, enquanto a fita complementar é simultaneamente degradada durante o processo. Entretanto, em ambos os casos, a molécula de DNA de fita dupla ligam-se as células. Durante a transformação, as células competentes ligam-se ao DNA de maneira reversível; essa ligação, em seguida, torna-se irreversível. Células competentes exibem a capacidade de se ligar a uma quantidade muito maior de DNA que as células não competentes – cerca de 1000 vezes mais. Os tamanhos dos fragmentos transformantes são muito inferiores ao tamanho do genoma como um todo, sendo esse DNA ainda degradado durante o processo de captação. Em Streptococcus pneumoniae, cada célula é capaz de se ligar a apenas cerca de 10 moléculas de DNA de fita dupla, com 15 a 20 Kb cada. No entanto, à medida que vão sendo captadas, essas moléculas são convertidas a fragmentos de fita simples, com aproximadamente 8 Kb. O DNA transformante liga-se a superfície da célula por meio de uma proteína de ligação ao DNA. Em seguida, ou fragmento de dupla fita é captado, ou uma nuclease passa a degradar uma das fitas, enquanto a fita restante é captada. Após a captação, o DNA associa-se a uma proteína específica de competência, que permanece ligada, provavelmente protegendo o DNA da degradação por um nuclease, até que este atinja Registro ISBN 93.675 145 o cromossomo, quando a proteína RecA passa a participar do processo. O DNA é então integrado ao genoma da célula receptora por meio de processos de recombinação. Durante a replicação desse DNA heteroduplex, são formadas uma molécula de DNA parental e uma molécula de DNA recombinante. Ao ocorrer a segregação, durante a divisão celular, a molécula de DNA recombinante estará presente na célula transformada, que passa a ser geneticamente alterada se compara a célula parental. Toda essa discussão é pertinente apenas para os casos que envolvem pequenos fragmentos de DNA linear. Apenas algumas bactérias realizam eventos de transformação natural com alta eficiência. Dentre estas temos os gêneros facilmente transformáveis: Acinetobacter, Azotobacter, Bacillus, Streptococcus, Haemophilus, Neisseria e Thermus. Muitos procariotos são pouco transformáveis, ou não transformáveis, em condições naturais. A determinação das condições para induzir a competência nessas bactérias envolve uma série de estudos empíricos, que requerem a introdução de variações no meio de cultura, temperatura e outros fatores. Entretanto, para que moléculas de DNA fossem transferidas para células, em experimentos de engenharia genética, foi necessário o desenvolvimento de técnicas que tornassem E. coli, um organismo gram-negativo, competente. Foi observado que, quando células de E. coli eram tratadas com altas concentrações de íons cálcio e posteriormente incubadas em baixas temperaturas, estas se tornavam transformáveis, embora com baixa eficiência. As células tratadas dessa maneira são capazes de captar DNA, na forma fita dupla, permitindo, assim, a introdução de plasmídeos nessas células, de modo relativamente eficiente. Embora o efeito exercido pelos íons cálcio nesse tipo de tratamento seja desconhecido, esse procedimento também se mostra eficiente com bactérias gram-positivas. Entretanto, tal tipo de técnica de indução artificial da competência vem sendo substituída por uma nova metodologia, denominada eletroporação. A eletroporação é uma técnica em que as células são submetidas a um pulso elétrico, que promove a formação de pequenos poros em suas membranas. Quando moléculas de DNA encontram-se presentes no ambiente extracelular durante a aplicação do pulso, podem entrar nas células, através dos poros formados. A eletroporação requer uma fonte elétrica sofisticada, uma vez que os pulsos devem ser Registro ISBN 93.675 146 cuidadosamente controlados, apresentando uma duração de milissegundos. Essa técnica vem sendo utilizada para a introdução de DNA em uma variedade de célulasprocarióticas, tanto de Archaea quanto de Bacteria, assim como em células eucarióticas. Além disso, a eletroporação permite a transferência direta de plasmídeos de uma célula para outra, caso as estejam presentes durante o processo. - Conjugação A conjugação bacteriana é um processo de transferência de genes que envolve o contato entre duas células. A conjugação é um processo codificado por plasmídeos. Um plasmídeo conjugativo utiliza esse mecanismo para transferir uma cópia de seu DNA a um novo hospedeiro. A conjugação foi descoberta devido ao fator F de Escherichia coliser capaz de mobilizar o cromossomo da célula hospedeira. Embora o mecanismo de transferência conjugativa possa apresentar diferenças, dependendo do plasmídeo envolvido, a maioria dos plasmídeos de Bacteria gram-negativas parece empregar mecanismos similares ao descritos para o plasmídeo F. A conjugação envolve uma célula doadora, que contém um tipo particular de plasmídeo conjugativo, e uma célula receptora, que não possui tal elemento. No caso de E. coli, célula que possuem um plasmídeo F não integrado são denominadas F+ e células desprovidas de um plasmídeo F são denominadas F-, atuando como receptoras. Os genes que controlam a conjugação estão contidos na região tra do plasmídeo F. Muitos genes da região tra estão envolvidos na formação do par de acasalamentos, enquanto a maioria dos demais genes participa da síntese de uma estrutura de superfície, denominada pilus sexual. Somente as células doadoras apresentam esses pili, o que explica porque os bacteriófagos de RNA que se aderem a essas estruturas são denominadas macho-específicos. Diferentes plasmídeos conjugativos podem apresentar regiões tra ligeiramente distintas, sendo os pili também diferentes. O plasmídeo F e outros plasmídeos relacionados codificam os pili F. Os pili permitem que ocorra pareamento específico entre uma célula doadora e uma receptora. Ao que parece, todos os eventos de conjugação em Bacteria gram- negativas requerem pareamento intercelular, realizado pelos pili. Essas estruturas estabelecem o contato específico por meio de um receptor localizado na célula Registro ISBN 93.675 147 receptora, seguido de sua retração, aproximando as duas células. O contato entre as células doadoras e receptoras é estabilizado, provavelmente em decorrência da fusão das membranas externas, permitindo que o DNA seja transferido da célula doadora para a receptora. Evidências sugerem que uma das fitas do DNA é derivada da célula doadora, enquanto a fita complementar é sintetizada pela célula receptora durante o processo de transferência. Alguns genes da região tra estão envolvidos na replicação e transferência de DNA. O conjunto de eventos é disparado pelo contato das duas células. Nesse momento, uma das fitas do DNA plasmidial circular parental é cortada, sendo então transferida.. À medida que a transferência está sendo processada, a síntese de DNA pelo mecanismo de círculo rolante repõe a fita transferida, na célula doadora. Uma fita complementar de DNA é também sintetizada pela célula receptora. Assim, ao final do processo, tanto a célula doadora quanto a receptora apresentarão um plasmídeo completo, ou seja, no processo de conjugação entre uma E. coli F+ (doadora) e uma F- (receptora), como resultado teremos duas bactérias F+. Geralmente, as células que contêm um plasmídeo conjugativo são fracas receptoras de plasmídeos iguais ou muito semelhantes. Tal fato ocorre porque a célula tem a capacidade de bloquear a entrada de um plasmídeo similiar e não por haver qualquer tipo de incompatibilidade na replicação. Dessa maneira, podemos concluir que a presença de um plasmídeo F pode promover três alterações distintas nas propriedades celulares: (1) capacidade de sintetizar o pilus F, (2) mobilização do DNA, que será transferido para outra célula, e (3) alteração dos receptores de superfície, de forma a tornar a célula incapaz de se comportar como receptora, em uma conjugação. O processo de transferência de DNA plasmidial é muito eficiente, e, em condições adequadas, virtualmente todas as células receptoras que entram em contato com as doadoras adquirem um plasmídeo. Quando os genes plasmidiais podem ser expressos na célula receptora, esta passa a ser uma célula doadora, podendo transferir seus plasmídeos a outras células receptoras. Dessa maneira os plasmídeos conjugativos têm a capacidade de se disseminar nas populações, comportando-se como um agente infeccioso. A natureza infecciosa desse fenômeno é de grande Registro ISBN 93.675 148 importância ecológica, uma vez que a introdução de um pequeno número de células portadoras de plasmídeos, contendo genes que conferem adaptação seletiva em uma população apropriada de células receptoras, converterá toda a população em células portadoras de plasmídeo, em um curto período de tempo. A ampla ocorrência do fenótipo de resistência a drogas, devido à presença dos plasmídeos conjugativos trouxe sérios problemas no tratamento de doenças infecciosas. Porém, os plasmídeos podem ser perdidos pelas células, por um processo de cura. Tal evento pode ocorrer espontaneamente em populações naturais, quando não existem pressões seletivas que propiciem a manutenção dos plasmídeos. Por exemplo, plasmídeos que conferem resistência aos antibióticos podem ser perdidos, sem afetar a viabilidade celular, se o ambiente onde as células se encontram for desprovido de antibióticos. Embora na discussão sobre a conjugação tenha se restringido quase exclusivamente as células de Escherichiacoli, muitas outras Bacteria gram-negativas possuem plasmídeos conjugativos. De fato, plasmídeos conjugativos do grupo de incompatibilidade IncP podem ser mantidos em praticamente todas as espécies gram- negativas, havendo assim a possibilidade de transferência de DNA entre diferentes espécies e gêneros. Plasmídeos conjugativos são também encontrados em Bacteria gram-positivas (por exemplo, Streptococcus, Enterococcus e Staphylococcus). Via de regra, nas outras bactérias gram-negativas o mecanismo de conjugação é muito similar ao descrito para o plasmídeo F, enquanto em células gram-positivas a conjugação pode ser bastante diferente. - Transdução Na transdução, o DNA é transferido de uma célula para outra por meio da ação de vírus. A transferência de genes de uma célula hospedeira para um vírus pode ocorrer de duas maneiras. Na primeira, transdução generalizada, o DNA da célula hospedeira é derivado de, virtualmente, qualquer região do genoma. Esse DNA substitui o genoma viral na partícula viral madura. A segunda maneira, transdução especializada, ocorre apenas quando há a participação de alguns vírus temperados; o DNA de uma região específica do cromossomo da célula hospedeira integra-se ao genoma viral – geralmente substituindo alguns dos genes virais. A partícula viral Registro ISBN 93.675 149 transdutora, tanto na transdução generalizada quanto especializada, em geral é defectiva como vírus, uma vez que genes bacterianos foram introduzidos, substituindo alguns dos genes virais necessários à partícula. Na transdução generalizada, se os genes da célula doadora não realizarem recombinação homóloga com o cromossomo da célula receptora, serão perdidos. Estes não têm a capacidade de se replicar de maneira independente e também não correspondem a uma porção do genoma viral. Na transdução especializada, podem também haver um evento de recombinação homóloga. No entanto, pelo fato de o DNA da célula bacteriana doadora encontrar-se integrado ao genoma de um fago temperado, dois possíveis processos podem ocorrer: (1) o DNA pode ser integrado ao cromossomo da célula hospedeira durante a lisogenização ou (2) o DNA pode ser replicado na célula receptora, como parte de uma infecção lítica. A transdução ocorre em uma variedade de procariotos incluindo algumasespécies de Bacteria: Desulfovibrio, Escherichia, Pseudomonas, Rhodococcus, Rhodobacter, Salmonella, Staphylococcus e Xanthobacter, assim como em Archaea: Methanothermobacterthermoautotrophicus. Nem todos os fagos têm capacidade de transduzir, assim como nem todas as bactérias sofrem tal processo. Em contrapartida, esse fenômeno é distribuído de maneira suficiente na natureza, provavelmente desempenhando um importante papel nos processos naturais de transferência de genes. - Transdução generalizada Na transdução generalizada, virtualmente qualquer segmento do genoma pode ser transferido de uma célula doadora para uma receptora. A transdução generalizada foi descoberta e extensivamente estudada na bactéria Salmonellaentérica, com o fago P22; esta também foi analisada em Escherichiacoli com o fago P1. Quando a população de bactérias sensíveis é infectada pelo fago, os eventos de um ciclo lítico podem ser iniciados. Durante a infecção lítica, as enzimas responsáveis pelo empacotamento do DNA viral no bacteriófago podem, acidentalmente, empacotar o DNA da célula hospedeira. A partícula resultante é denominada partícula transdutora. No momento em que a célula sofre lise, essas partículas são liberadas juntamente com Registro ISBN 93.675 150 as partículas virais normais, de maneira que o lisado celular corresponde a uma mistura de vírions normais e partículas transdutoras. Uma vez que as partículas transdutoras são incapazes de iniciar uma infecção viral normal (estas não apresentam DNA viral), estas são referidas como defectivas. Quando esse lisado é utilizado na infecção de uma população de células receptoras, a maioria das células é infectada pelos vírus normais. Entretanto, uma pequena parcela da população recebe as partículas transdutoras, que injetam o DNA recebido da bactéria hospedeira prévia. Embora esse DNA não seja capaz de se replicar, pode sofrer recombinação gênica com o DNA da nova célula hospedeira. Como apenas uma pequena fração das partículas do lisado é do tipo transdutora defectiva, cada uma contendo um pequeno fragmento de DNA da célula doadora, a probabilidade de uma partícula transdutora conter um gene em particular é muito baixa. - Transdução especializada A transdução generalizada permite a transferência de DNA de uma bactéria para outra, com baixa freqüência. Em contrapartida, a transdução especializada permite uma transferência extremamente eficiente, possibilitando também que uma pequena região do cromossomo bacteriano seja replicada, independentemente do restante da molécula. O exemplo que utilizaremos para discutir a transdução especializada corresponde ao primeiro exemplo descrito, envolvendo a transdução de genes de galactose pelo fago temperado lambda, que infecta as células de Escherichiacoli. Quando uma célula se encontra em estado de lisogenia com o fago lambda, o genoma viral integra-se ao DNA da célula hospedeira, em um sítio específico. A região onde o fago lambda se integra situa-se imediatamente adjacente ao conjunto de genes da célula hospedeira que controlam as enzimas envolvidas na utilização de galactose. A partir de sua integração, a replicação do DNA viral passa a ser controlada pela célula hospedeira. Havendo a indução (por exemplo, pela radiação ultravioleta), o DNA viral se separa do DNA da célula hospedeira por um processo inverso a integração. De maneira geral, quando uma célula em estado de lisogenia é induzida, o DNA do fago lambda é excisado como uma unidade. Por outro lado, em determinadas condições raras, o genoma do fago é excisado de maneira incorreta. Alguns dos genes bacteriano Registro ISBN 93.675 151 adjacentes (por exemplo, o operon galactose) são excisados juntamente com o DNA fágico. Simultaneamente, alguns genes do vírus permanecem integrados ao genoma bacteriano. Um tipo de partícula viral alterada, lamda dgal ou λdgal (dgal significa “defectivo, galactose”), é defectiva, já que alguns dos genes do vírus foram perdidos e esse fago não é mais capaz de originar fagos maduros. Quando uma cultura bacteriana galactose negativa é infectada em grande escala com esse tipo de lisado e os transdutores Gal+ são selecionados. Observe que, nesses casos, a bactéria se torna diplóide para a região Gal. Tal fato terá significância na realização de testes de complementação em bactérias. Quando um duplo lisógeno desse tipo é induzido, é produzido um lisado com quantidades equivalentes de lambda e de λdgal. Esse lisado pode transduzir células com grande eficiência, embora apenas um grupo restrito de gene Gal. Para que um fago seja viável, há um limite máximo de DNA viral que pode ser substituído por DNA da célula hospedeira, pois é necessário haver uma quantidade suficiente de DNA do fago, garantindo assim a informação necessária à produção das proteínas do capsídeo e de proteínas necessárias a lise e a lisogenização. Registro ISBN 93.675 152 PRINCÍPIOS DE CARACTERIZAÇÃO E IDENTIFICAÇÃO DE MICRORGANISMOS A Sistemática estuda a diversidade e o relacionamento entre os organismos, com o intuito de caracterizá-los e ordená-los. A Taxonomia é a arte de classificação biológica. Entende-se como Classificação, ao arranjo ordenado das unidades em grupos; como Nomenclatura, a denominação das unidades definidas pela classificação e, como Identificação, a aplicação prática de classificação e nomenclatura. As funções básicas da taxonomia são as de identificar e descrever unidades (espécies) e, arranjar e catalogar estas espécies. SISTEMÁTICA BACTERIANA Sistemática Morfologia Fisiologia Bioquímica Genética Ecologia Biologia molecular Anotar propriedades Taxonomia Caracterização (+) verificar correspondência (-)Identificação no manual de Bergey’s Nova descrição Nomenclatura Classificação Sistemática Morfologia Fisiologia Bioquímica Genética Ecologia Biologia molecular Anotar propriedades Taxonomia Caracterização (+) verificar correspondência (-)Identificação no manual de Bergey’s Nova descrição Nomenclatura Classificação Registro ISBN 93.675 153 O Código Internacional de Nomenclatura de Bactérias é formado por 7 considerações gerais, 9 princípios, 65 regras, 10 apêndices e estatutos de entidades bacteriológicas. Segundo o apêndice no 9, para bactérias se usa o sistema binomial de nomenclatura: ortografia latina. Dois nomes escritos em latim, sendo que o nome da espécie não pode ser mudado. Ex.: Bacillus coli - Bacterium coli - Escherichia coli. As categorias taxonômicas e tipos podem ser observados abaixo: Categoria Sufixo latino Divisão, Classe e Sub-classe Não fixado Ordem e Sub-ordem -ales e –ineae Família e Sub-família -aceae e –oideae Tribo e Sub-tribo -eae e –inae Gênero e Sub-gênero Não fixado Espécie e Sub-espécie Não fixado O manual de Bergey’s, que teve sua primeira edição em 1923, descreve as características de todos os gêneros e espécies bacterianas conhecidas. Atualmente foi dividido em quatro volumes: Volume 1, 1984, com os gêneros de bactérias Gram negativas de importância médica e industrial; Volume 2, 1986, com os gêneros de bactérias Gram positivas e outras com Actinomycetos; Volume 3, 1987, com as Archaeobactérias, Cyanobactérias e demais Gram negativas e, Volume 4, 1987, com os Actinomycetos. A Espécie, definida como grupo de linhagens que mostram alto grau de similaridade fenotípica, é a unidade básica em sistemática. Linhagens são populações de células geneticamente idênticas. Há necessidade sempre de comparação com a Linhagem tipo, que é o exemplo permanente do que significa a espécie em todas as suas características. Abaixo da espécie teremos subdivisões, conforme o apêndice 10 do Código Internacional. Registro ISBN 93.675 154 BIOVAR - propriedades bioquímicas e biológicas; QUENOVAR - produção decompostos químicos; FORMA ESPECIALIS - tipo de hospedeiro; PATOVAR - reações patogênicas em um ou mais hospedeiros; FAGOVAR - suscetíveis a bacteriófagos; SEROVAR - sorologia, características antigênicas; ESTADO - variantes coloniais. O estudo do relacionamento entre as bactérias pode se dar por técnicas analíticas convencionais, como a microscopia e a bioquímica ou, não convencionais, como a nível genético (comparação de ácidos nucléicos “in vitro” - % de moles de G+C e mapas cromossômicos) e, a nível epigenético (homologia de componentes celulares específicos ou, comparação de mecanismos regulatórios). MÉTODOS EM TAXONOMIA Aproximação clássica - Estuda as características fenotípicas, comparando-as com a linhagem tipo. É casual e, se dá valores diferentes para os diferentes testes. É o melhor método para microrganismos que tenham características marcantes (cápsula, mobilidade por deslizamento, etc.). Taxonomia numérica ou adansoniana - Usa-se os mesmos testes da aproximação clássica mas, com o mesmo valor para os testes. Seleciona-se a linhagem de acordo com a linhagem tipo; seleciona-se os testes; faz-se a codificação e arranjo dos resultados em formato adequado para análise por computador; faz-se a análise computacional das relações entre linhagens e agrupamentos das linhagens relacionadas e, apresentação e interpretação dos resultados. O número ótimo de testes é de 100 a 200. Taxonomia molecular ou genética - Visa estabelecer o grau de semelhança de diferentes microrganismos. Utilizada como suplemento das caracterizações fenotípicas. Registro ISBN 93.675 155 Se dá pela análise da composição das bases (% de G+C) e, pela hibridização do DNA (DNA/DNA e DNA/RNA). CLASSIFICAÇÃO DE FUNGOS A reprodução teleomorfa (sexuada) é usada no agrupamento dos fungos em classes. Eles fazem ciclo de reprodução sexuada quando o meio de cultura é pobre em nutrientes. De acordo com as estruturas produzidas nas fases desses ciclos são agrupados na mesma classe, aqueles com características comuns. Existem chaves de classificação de fungos que são seguidas normalmente para a classificação, apesar de que estas chaves não são uniformemente aceitas entre os micologistas. Nestas chaves todos os detalhes são importantes: elementos estruturais teleomorfos (sexuados) e anamorfos (assexuados) dos fungos; modo de vida: se saprófita, parasita ou predador, etc. São exemplos de chaves de classificação de fungos a Divisão Eumicota de Ainsworth (1973); a dos Chytridiomycetes de Sparrow (1973); a dos gêneros de Mucoraceae de Zycha, Siepmann e Liennemann (1969), entre outros. Como exemplo, detalhamos a Divisão Eumicota, uma tradução e adaptação da chave de Ainsworth (1973): 1. Zoosporos presentes; fase perfeita geralmente oospórica ................................ ........................................................................................ MASTIGOMYCOTINA 1. Zoosporos ausentes ......................................................................................... 2 2. Fase perfeita presente .................................................................................. 3 2. Fase perfeita ausente ................................................. DEUTEROMYCOTINA 3. Zigosporos presentes ............................................................ ZYGOMYCOTINA 3. Zigosporos ausentes ........................................................................................ 4 4. Fase perfeita com ascosporos ........................................... ASCOMYCOTINA 4. Fase perfeita com basidiosporos ..................................BASIDIOMYCOTINA Registro ISBN 93.675 156 CLASSIFICAÇÃO DOS VÍRUS (alguns elementos importantes) A classificação de um vírus basea-se em uma grande quantidade de características: morfologia, genoma, propriedades físico-químicas, proteínas, propriedades antigênicas e biológicas para se chegar ao vírus em ordem, famílias, gêneros e espécies. ALGUNS TESTES BIOQUÍMICOS USADOS NA CLASSIFICAÇÃO DE BACTÉRIAS E FUNGOS 1. Utilização de Compostos Nitrogenados Redução e assimilação de nitratos Semear o microrganismo em caldo nitratado e incubar em temperatura adequada. Os testes devem ser repetidos a intervalos de tempo para que sejam evidenciados os passos do processo. Determinação de nitrito Colocar uma gota de caldo nitratado em uma lâmina de vidro; acrescentar uma gota da solução do reativo Griess-Ilosway A e, uma gota do reativo Griess-Ilosway B. Leitura: Resultado positivo - cor vermelha ou rósea. Resultado negativo - incolor. Determinação de amônia Colocar em uma lâmina, uma gota do caldo nitratado e, acrescentar uma gota do reativo de Nessler. Leitura: Resultado positivo - precipitado de amarelo e marrom. Resultado negativo - incolor. Registro ISBN 93.675 157 Determinação de nitrato (caso os dois anteriores derem negativos) Método 1 - Colocar em uma lâmina uma gota do caldo nitratado; acrescentar sobre ela uma gota de ácido sulfúrico e alguns cristais de difenilamina. Leitura: Resultado positivo - cor azul. Resultado negativo - incolor. Método 2 - Colocar em uma lâmina de vidro, uma gota de caldo nitratado; acrescentar uma gota do reativo A e B de Griess-Ilosway e um pouco de pó de zinco. Leitura: Resultado positivo - cor vermelha ou rósea. Resultado negativo - incolor. De pose dos resultados podemos interpretá-los. Assim, ficaremos sabendo se o microrganismo testado utiliza o nitrogênio diretamente do nitrato ou, se necessita reduzir a nitrito ou amônia ou ainda se não utiliza deste meio. Hidrólise da uréia A uréia é um produto de excreção animal e, está presente em grande quantidade na natureza. A existência de microrganismos no solo capazes de hidrolisá-la é muito importante para que, o ciclo do nitrogênio seja realizado. Muitos microrganismos produzem uma enzima denominada urease, capaz de hidrolisar a uréia. Pela ação desta enzima a uréia é, primeiramente, transformada em carbonato de amônia e, em seguida, em amônea, gás carbônico e água. Semear o microrganismo no meio de Christensen. Incubar por tempo e temperatura adequados. A hidrólise da uréia será evidenciada quando o meio mudar sua cor de amarelo para vermelho. Isto se deve ao vermelho de fenol, um indicador de pH, presente no meio e que, tem uma faixa de viragem entre o pH 6,8 e 8,4 mudando de amarelo (ácido) para vermelho (alcalino). Registro ISBN 93.675 158 Leitura: Resultado positivo - meio de Christensen vermelho. Resultado negativo - meio de Christensen amarelo. Hidrólise da gelatina A gelatina é uma proteína obtida pela hidrólise parcial do colágeno. Ela se funde a temperaturas superiores a 23°C. Algumas bactérias e fungos produzem uma enzima extracelular, a gelatinase, que é capaz de desdobrar a molécula de gelatina. Inocular o microrganismo em gelatina nutriente, distribuída em tubos de ensaio com camada alta. A temperatura de incubação dependerá da finalidade do teste. Deverá ser abaixo de 23°C se deseja observar o tipo de fusão e, poderá ser acima desta temperatura se o objetivo for determinar apenas, se o germe hidrolisa ou não. Leitura: Resultado positivo - gelatina se liquefaz. Resultado negativo - gelatina permanece sólida. Obs.: Antes da leitura, colocar os tubos em água gelada ou na geladeira para se ter certeza que a temperatura ambiente não influenciou o resultado. Hidrólise da caseína A caseína é uma fosforoproteína encontrada no leite. Alguns microrganismos produtores da enzima caseinase são, capazes de hidrolisá-la, causando prejuízos enquanto outros, são empregados em certos processos de produção de alimentos. Semear o microrganismo na superfície do ágar a base de leite desnatado e, incubar em temperatura adequada. Leitura: Aevidenciação da caseinase é feita virando a placa contra a luz, para observar halo de transparência ao redor da colônia. Resultado positivo - halo transparente ao redor da colônia. Resultado negativo - não formação de halo. Registro ISBN 93.675 159 2. Utilização de Compostos Carbonados Hidrólise do amido O amido é constituído da reunião de dois polissacarídeos: amilose e amilopectina. Muitos microrganismos produzem amilases, enzimas capazes de hidrolisar a molécula do amido e que têm grande interesse industrial. Existem quatro tipos de amilases: alfa-amilase, beta-amilase, amiloglicosidase e dextrinase. Com exceção da beta-amilase, estas enzimas são produzidas por vários microganismos, particularmente membros dos gêneros Aspergillus e Bacillus. As quantidades de enzima produzida e as propriedades físicas e químicas variam com as diferentes amostras de uma espécie. Assim, é possível produzir preparações enzimáticas com vários graus de cada tipo de atividade amilolítica: sacarificante, liquefante ou dextrinizante. O meio a ser utilizado será o ágar amido e o caldo amido. O meio sólido é distribuído em placa de Petri e o meio líquido em tubos de ensaio. O microrganismo é semeado no centro da placa e, um pedaço da colônia é colocado no tubo com o meio líquido. A incubação feita em temperatura adequada. Após o crescimento do microrganismo faz-se a determinação da atividade amilolítica. 1. Em meio sólido - Cobrir a superfície da placa de Petri com uma solução de iodo-iodetada. O aparecimento de uma coloração azul evidencia a presença de amido. Se o germe produz amilase esta, sendo extracelular vai se difundir pelo ágar hidrolisando o amido. Com o acréscimo do iodo, haverá formação de uma zona clara ao redor da colônia, evidenciando a destruição do amido. Se o germe não hidrolisa o amido, todo o meio ficará azul. 2. Em meio líquido - Dividir a cultura em três tubos e fazer os testes seguintes: Registro ISBN 93.675 160 a) Hidrólise do amido - Acrescentar gotas da solução de iodo do maio. Uma coloração azul indica que não houve hidrólise; cor vermelha mostra que houve hidrólise parcial e incolor hidrólise total. b) Presença de açúcar redutor - Este teste tem por finalidade demonstrar a produção, durante o processo de hidrólise, de açucares redutores como a glicose. Para este teste é utilizado o reativo de Fehling, que consiste de uma solução de sulfato de cobre em meio alcalino e em presença de tartarato duplo de sódio e potássio. O método consiste em acrescentar o reativo ao cultivo em meio líquido e aquecer. Haverá precipitado de óxido cuproso de coloração vermelho tijolo, se estiver presente o açúcar redutor. Na sua ausência, o reativo permanecerá inalterado com sua cor azul. c) Produção de ácido - Acrescentar ao tubo com a cultura gotas de uma solução alcoólica de 1,6% de azul de bromotimol. Uma coloração amarela indica um pH abaixo de 6 e, uma cor variando do verde ao azul, pH acima de 6. O abaixamento do pH indica que à hidrólise do amido, seguiu-se uma fermentação de seus produtos. Hidrólise de lipídeos A hidrólise dos lipídeos é feita pelas enzimas denominadas lípases, as quais podem ser intracelulares ou extracelulares. Os produtos da hidrólise dos lipídeos são o glicerol e ácidos graxos. Como os lipídeos naturais têm composição química variável e estão sujeitos à ação de microrganismos na natureza, certos ésteres de glicerol, principalmente a tributirina, são usados como substratos padrões. Sendo insolúveis em água, é necessário fazer uma emulsão do lipídeo. Várias substâncias podem ser usadas como emulsificantes, as mais empregadas são o ágar-ágar, gomas arábicas e de acácia e o taurocolato. Registro ISBN 93.675 161 Preparo da emulsão: Tributirina (1 ml), ágar-ágar (0,5 g), água destilada (100 ml). Misturar, esterilizar a 120°C, resfriar a 50°C e agitar violentamente. Preparação do meio: Juntar em um balão, peptona (5 g), extrato de carne (3 g), água destilada (900 ml). Fundir, esterilizar o meio a 120°C, resfriar a 50°C e acrescentar 100 ml de emulsão. Agitar bem e distribuir em placas de Petri. A semeadura do microrganismo é feita no centro da placa e a incubação é em temperatura ambiente. Leitura: Após o crescimento, examinar a placa contra a luz. A formação de um halo claro ao redor da colônia indica que houve produção de lípase. Hidrólise da celulose A celulose é o mais abundante dos polissacarídeos. Consiste de unidades de D- glicose em ligações beta-glicosídicas, normalmente formando cadeias ramificadas. Ela é atacada por vários microrganismos capazes de fazer enzimas adaptativas extracelulares. Estes microrganismos são largamente distribuídos no solo, lagos e rios. Alguns têm um papel importante no processo dos herbívoros e de alguns insetos, com os térmitas. A decomposição da celulose geralmente se processa em duas etapas: a enzima celulase transforma a celulose no dissacarídeo celobiose a qual é, em seguida atacada pela celobiase, formando glicose. Algumas vezes estas enzimas são produzidas em etapas sucessivas por dois ou mais microrganismos de “habitat” comensal. Tenta-se, hoje, utilizar estas enzimas na produção industrial de glicose a partir da celulose. O meio de cultura empregado é o Omelianski que é isento de fontes de carbono. Após a semeadura do microrganismo, introduzir no meio uma tira de papel de filtro. Este papel (celulose), será a única fonte de carbono disponível ao microrganismo. Leitura: Resultado positivo - a tira de papel se dissolveu. Resultado negativo - a tira de papel não se dissolveu. Registro ISBN 93.675 162 Fermentação de carboidratos O meio de cultura básico deve ser isento de substâncias fermentecívieis e, a ele, adiciona-se um indicador de pH como o indicador de Andrade. Este meio é distribuído em tubos contendo um pequeno tubo invertido no interior (tubo de Durhan) e, autoclavado a 120°C por 15 minutos. Após, preparar uma solução a 20% de cada uma das substâncias (carboidratos ou poliálcool), esterilizar por filtração ou tindalização. Acrescentar cada uma das substâncias ao meio básico (em tubos separados), de tal maneira que se obtenha uma concentração final de 1%. Estas substâncias não podem ser colocadas no meio básico antes da autoclavação porque são sensíveis ao calor. Inocular o microrganismo em cada um dos tubos. A incubação é feita a 37°C por 24/48 horas. Leitura: A fermentação pode se dar com formação de ácido, de gás ou de ambos. O gás é verificado pelo aparecimento de bolha dentro do tubo de Durhan. A formação de ácido é mostrada pela viragem do indicador. No caso de ser usado o indicador de Andrade, o meio torna-se-á vermelho devido à neutralização do NaOH (que descora a fucsina ácida do indicador) pelos ácidos produzidos. Não havendo a fermentação em 48 h, há necessidade de selar o tubo com rolha de borracha ou parafina fundida e colocada no tampão de algodão, para evitar a penetração de oxigênio do ar. Após esta medida, os tubos são novamente incubados. Não havendo fermentação nestas condições, o germe é considerado não fermentador. OUTROS TESTES Catalase Alguns microrganismos possuem a capacidade de produção da enzima catalase. Esta enzima é necessária quando no metabolismo microbiano é formado, ao invés de água, peróxido de hidrogênio. Isto geralmente ocorre quando o microrganismo utiliza proteínas do grupo das flavinas. A catalase atua sobre a água oxigenada, liberando água e oxigênio. O acúmulo de água oxigenada pode matar o microrganismo, oxidando suas proteínas. Registro ISBN 93.675 163 Semear o microrganismo em meio de cultura isento de sangue. Após o desenvolvimento da colônia, cobri-la com água oxigenada. Leitura: Resultado positivo - haverá desprendimento de bolhas. Resultado negativo - não haverá desprendimentode bolhas. Teste VM-VP Este teste auxilia na diferenciação de Enterobacteriaceae. A partir da fermentação da glicose no caldo APGF, o microrganismo produz ácido ou acetoína. Teste do Vermelho de Metila (VM) Semear o microrganismo no caldo APGF. Incubar por tempo e temperatura adequadas. Acrescentar gotas do reativo Vermelho de Metila. Leitura: Vermelho - Escherichia coli, Citrobacter e outros. Amarelo - Enterobacter aerogenes, Enterobacter cloacae e outros. Teste de Voges-Proskauer (VP) Semear o microrganismo no caldo APGF. Incubar por tempo e temperatura adequados. Acrescentar 3 ml de alfa-naftol e 1 ml de KOH 40% ao meio. Leitura: Vermelho (+) - Enterobacter aerogenes, Enterobacter cloacae e outros. Incolor (-) - Escherichia coli, Citrobacter e outros. Teste com o meio SIM Com o meio SIM podemos fazer os testes para produção de H2S, liberação de Indol e para motilidade. Semear o microrganismo no centro do meio de cultura fazendo uma picada profunda. Após desenvolvimento do microrganismo proceder a leitura. H2S: Resultado positivo - haverá o aparecimento de pigmentação negra na colônia desenvolvida. Registro ISBN 93.675 164 Resultado negativo - incolor. Indol: Acrescentar a superfície do meio de cultura 5 gotas do reativo de Kovac. Resultado positivo - haverá a formação de um anel vermelho. Resultado negativo - incolor. Motilidade: Resultado positivo - da área de desenvolvimento central da picada no meio, se desenvolverão ramificações lembrando uma raiz. Resultado negativo - só haverá desenvolvimento do microrganismo dentro da área da picada central no meio de cultura. Registro ISBN 93.675 165 ECOLOGIA MICROBIANA Ecologia microbiana é um ramo da microbiologia que estuda os microrganismos e sua interação com o ambiente biótico e abiótico. Estuda as inter-relações dos microrganismos uns com outros, e com outros organismos como plantas e animais e as relações destes com o meio ambiente abiótico. Alguns conceitos ecológicos quanto ao nível de organização dos microrganismos devem ser ressaltados: Indivíduos: é o representante de uma espécie, no caso dos procariotos, é representado por uma célula. População: é um grupo de indivíduos de uma mesma espécie que ocupam uma determinada área (mesma constituição genética, usam os mesmos substratos e ocupam o mesmo nicho ecológico). Comunidade: conjunto de populações que ocupam um mesmo habitat e interagem entre si. Por exemplo: comunidade da rizosfera, do rumem, etc. Ecossistema: é formado pelas interações das comunidades entre si (microbianas ou não) e destas com o ambiente físico. É o conjunto de comunidades e dos fatores abióticos de um determinado ambiente. 1. INTERAÇÕES DENTRO DE UMA MESMA POPULAÇÃO MICROBIANA Em condições naturais, um microrganismo raramente existe isoladamente. Normalmente ele se multiplica e forma grupos de indivíduos, denominado de população. Tipicamente, em condições naturais, numerosas populações de diferentes características coexistem. As populações microbianas que vivem em determinado local, chamado habitat, interagem uma com as outras e formam a comunidade microbiana. A comunidade microbiana está estruturada para que cada população contribua para a sua manutenção. Tanto a interação positiva como a negativa ocorre entre indivíduos dentro de uma mesma população e entre as diversas populações microbianas de uma comunidade. Estas interações permitem que as populações alcancem tamanhos ótimos Registro ISBN 93.675 166 para os recursos disponíveis dentro do habitat. A interação como um todo entre as populações mantém o equilíbrio ecológico de uma comunidade. Pode ocorrer interação positiva e negativa mesmo em uma simples população. Tais interações foram originalmente observadas em plantas e animais, estão inter- relacionadas e são dependentes da densidade populacional. Geralmente, as interações positivas (cooperação) predominam a baixas densidades populacionais e as negativas (competição) a altas densidades populacionais. Como um resultado, há uma densidade populacional ótima para a máxima taxa de crescimento. As taxas de crescimento abaixo da ótima densidade são fortemente afetadas pelas interações positivas; taxas de crescimento acima da ótima densidade populacional são fortemente influenciadas pelas interações negativas. a) Interações positivas ou cooperação A importância da cooperação dentro de uma mesma população é evidenciada por um período lag extenso ou uma completa ausência de crescimento quando um inóculo muito pequeno é usado nos procedimentos rotineiros de transferência de cultura. Isto é verdade principalmente para microrganismos de crescimento lento e é um dos maiores obstáculos para todos os procedimentos de isolamento que requerem o crescimento de uma célula microbiana para produzir colônia. Há pouca dúvida de que as populações de densidade mediana são geralmente os que resultam em sucessos, comparados com organismos individuais na colonização de habitat natural. Um exemplo típico é sobre “a dose infecciosa mínima” de centenas de microrganismos para causar doença, onde raramente um único microrganismo é capaz de se defender sozinho. Como o mecanismo que confere a semi-permeabilidade da membrana do microrganismo não é perfeito, tende a deixar escapar intermediários metabólitos, de baixo peso molecular, que são essenciais para a biossíntese e crescimento numa população. Quando os microrganismos estão em uma maior densidade de células uma significante concentração extracelular desses metabólitos é estabelecida, o que contra- reage a perdas posteriores e facilita a reabsorção. Para uma simples célula ou uma baixa densidade de células, entretanto, as perdas podem exceder as taxas de recuperação e impedir o crescimento, reforçando a importância da cooperação dentro Registro ISBN 93.675 167 da população. Um inóculo substancial, isto é, uma população suficientemente grande, é capaz de ajustar a um meio de cultura com potencial para crescimento inicial desfavorável, enquanto uma simples célula ou uma pequena população não é capaz de fazê-lo. Interações cooperativas dentro das populações podem ser particularmente importantes quando a população esta utilizando substratos insolúveis tais como lignina e celulose. A produção de enzimas extracelulares por membros individuais de uma população torna tal substrato disponível para todos os membros da população. Em baixas densidades populacionais, os produtos solúveis liberados pelas enzimas podem ser rapidamente perdidos pela diluição, enquanto em população com densidades maiores, os produtos solúveis resultantes podem ser utilizados com alta eficiência. Como um exemplo, a mixobactéria alimenta-se predominantemente de substratos insolúveis, e elas usam suas exoenzimas de maneira comunitária para solubilizar esse substrato. O crescimento dependente da densidade da Myxococcus xanthus em caseína insolúvel tem sido demonstrado. Nenhum crescimento ocorreu em caseína à densidade celular menor que 103/mL, e a taxa de crescimento aumentou com o aumento da densidade celular. Isto não é observado se a caseína pré-hidrolizada é utilizada. Em adição a utilização cooperativa dos substratos, ácidos orgânicos produzidos por indivíduos dentro de uma população pode também solubilizar elementos inorgânicos (por exemplo, fosfatos) em certos habitats, tais como solos e superfícies de rochas, tornando os elementos essenciais disponíveis para todos os membros da população. A cooperação em uma população pode também funcionar como um mecanismo de proteção contra fatores ambientais hostis. É comum observar em laboratório que em dada concentração, um inibidor metabólico tem um efeito menor sobre uma suspensão celular do que sobre a mesma diluída.Populações microbianas dentro de biofilmes são mais resistentes a agentes antimicrobianos do que células em suspensão dos mesmos organismos.Em ambientes naturais, em exposição à UV, alta densidade populacional provavelmente protege alguns membros da exposição direta, permitindo um crescimento contínuo da população. Registro ISBN 93.675 168 Mudança genética é outra interação cooperativa que ocorre da população. A resistência a antibióticos e metais pesados, bem como a habilidade de utilizar um substrato orgânico não comum, são freqüentemente transmitida geneticamente a outros membros da população. Esse fenômeno permite que informações adaptativas surgidas em um microrganismo possam ser disseminadas através da população. Mudança genética é importante na prevenção de super-especialização dentro da população. Muitos métodos de trocas genéticas têm evoluído para permitir este esforço cooperativo. Estes mecanismos incluem a transformação, transdução e conjugação. Embora esses eventos genéticos ocorram somente entre dois membros da população, eles normalmente requerem alta densidade populacional. Populações bacterianas, por exemplo, geralmente requerem densidades maiores que 105 células/mL para a troca genética de conjugação; em baixos níveis de densidade populacional, a probabilidade de sucesso na mudança genética é muito baixa e o processo geralmente não é significante. Algumas vezes, entretanto, a formação de agregados em população com baixa densidade pode facilitar a troca genética. Células receptoras de Enterococcus faecalis produzem substâncias sinalizadoras que induzem as células doadoras a produzirem aglutininas que levam a aproximação entre células, formando agregados com células receptoras. b) Interações negativas ou competição Em seu ambiente natural, as bactérias sofrem a influência da competição pelos recursos oriundos do meio em que vivem. Como em uma população, todos os membros tendem a usar o mesmo substrato e ocupar o mesmo nicho ecológico, se um indivíduo dentro da população metaboliza uma molécula-substrato, essa molécula não vai estar disponível para os outros membros da população. Em habitat natural com baixa concentração de substrato disponível, o aumento na densidade populacional causa um aumento na competição pelos recursos disponíveis. A competição dentro da população de microrganismos predadores ocorre pela disponibilidade da presa; entre os microrganismos parasíticos ocorre pela disponibilidade de célula hospedeira. Além da procura de fontes de nutrientes, a competição inclui interações negativas, como aquelas que resultam do acúmulo de substancias tóxicas produzidas Registro ISBN 93.675 169 por membros da população. Dentro de uma população com alta densidade, produtos metabólicos podem acumular a níveis inibitórios. A presença de intermediários metabólicos tal como os ácidos graxos de baixo peso molecular e H2S, como ocorre em determinadas condições, constitui um mecanismo de “feedback” negativo. Esse acúmulo pode limitar efetivamente o crescimento de algumas populações microbianas mesmo que se tenha substrato disponível. Como exemplo desse tipo de interação competitiva, o excesso de H2S acumulado pode limitar a redução de sulfato; acúmulo de ácido lático e outros ácidos graxos podem afetar a atividade do Lactobacillus; e o acúmulo de etanol pode afetar o processo de fermentação de Saccharomyces. Com o intuito de obter uma maior vantagem adaptativa em relação às outras espécies, tem se observado a produção de colicinas. As colicinas são compostos proteináceos produzidos por Escherichia coli e outros membros da família Enterobacteriaceae, sendo ativas, principalmente, contra bactérias mais relacionadas. Já foram descritos, trinta e quatro tipos de colicinas, das quais vinte e uma têm sido bem estudadas. Esses estudos mostram uma diversidade de proteínas com características intrigantes: são produzidas sob condições de estresse como a ausência de nutrientes; somente uma fração das bactérias colicinogênicas é induzida a produzir a proteína; e as bactérias colicinogênicas são protegidas contra as colicinas que produzem por proteínas de imunidade expressas constitutivamente. 2. INTERAÇÃO ENTRE POPULACÕES MICROBIANAS Quando duas populações diferentes interagem, uma ou ambas podem se beneficiar da interação, ou uma ou ambas podem ser negativamente afetadas. As categorias usadas para descrever essas interações representam uma classificação de sistema conceitual(Tabela 1). Possíveis interações entre as populações microbianas podem ser reconhecidas como interações negativas (competição e amensalismo); positivas (comensalismo, sinergismo, mutualismo) ou interações que são positivas para uma e negativa para outra população (parasitismo e predação). Em comunidades simples, uma ou mais das interações citadas podem ser observadas e estudadas. Dentro de uma complexa comunidade biológica natural todas essas interações provavelmente ocorrem entre diferentes populações. As interações negativas entre as Registro ISBN 93.675 170 populações agem como mecanismo de “feedback” que limita a densidade da população. Enquanto que as interações positivas permitem aos microrganismos usar recursos disponíveis mais eficientemente e ocupar habitat que de outro modo seria inabitável. Relações mutualísticas entre populações microbianas criam essencialmente novos organismos capazes de ocupar nichos que não poderiam ser ocupados pelos organismos sozinhos. Interações positivas entre populações microbianas são baseadas em combinações físicas e capacidades metabólicas que aumentam as taxas de crescimento e sobrevivência. As interações negativas que limitam a densidade populacional representam um mecanismo de auto-regulação que a longo prazo beneficia as espécies por evitar uma superpopulação, destruição do habitat, e conseqüentemente, a sua extinção. Interações entre populações microbianas são esforços dirigidos na evolução da estrutura da comunidade. Tabela 1. Tipos de interações entre populações microbianas Interação Efeito da Interação População A População B Neutralismo 0 0 Comensalismo 0 + Sinergismo + + Mutualismo + + Amensalismo - + ou 0 Predação + - Parasitismo + - Competição - - + = efeito positivo - = efeito negativo 0 = sem efeito Registro ISBN 93.675 171 a) Neutralismo Neutralismo é a ausência de interação entre duas populações microbianas. O neutralismo não ocorre entre populações que apresentam funções semelhantes dentro da comunidade. Está presente entre populações com capacidade metabólica extremamente diferente do que com capacidade similar. É difícil demonstrar o neutralismo, isto é, nenhuma interação entre os microrganismos de duas populações. Assim, quando descritos são porque as interações que ocorrem é de mínima importância. Pode ocorrer entre duas populações de baixa densidade, onde uma população não sente a presença da outra. O neutralismo ocorre em habitat marinho e oligotrófico (baixa concentração de nutrientes) e habitat de lagos onde haja densidade populacional extremamente baixa. Em sedimentos e solos, pode ocorrer quando a população microbiana ocupa locais separados (microhabitat) nos solos e partículas de sedimentos. Somente a separação física, entretanto, não assegura uma relação de neutralismo. Por exemplo, um microrganismo patogênico pode invadir a raiz da planta, resultando na morte dessa planta e a destruição de habitat de outras populações de microrganismos que moram nas folhas das plantas. Embora não tenha contato direto entre duas populações, a destruição das folhas pelo patógeno da raiz elimina a relação de neutralismo. O neutralismo ocorre também entre duas populações bem diferentes. Na atmosfera, onde a densidade populacional é baixa e todos os microrganismos são considerados alóctones (nãoindígenas), nessas condições é a relação mais comum. As condições ambientais que não permitem crescimento microbiano ativo favorecem o neutralismo. Por exemplo, microrganismos congelados, tais como produtos alimentícios congelados, águas de lago congelado, são tipicamente uma relação de neutralismo. As condições ambientais que favorecem o crescimento da população microbiana diminuem a relação de neutralismo. Os microrganismos em repouso ou com baixa taxa metabólica não força os microrganismos as relações competitivas pelos recursos disponíveis com outros microrganismos na comunidade. Produção de esporos, cistos e corpos de repouso durante o período de estresse ambiental, tal como excessivo calor ou seca, permite que as populações microbianas entrem na relação de neutralismo. Registro ISBN 93.675 172 b) Comensalismo O comensalismo ocorre quando uma população se beneficia enquanto a outra permanece inalterada ou não é afetada. Há inúmeras bases físicas e químicas para a relação de comensalismo: Quando a população de aeróbios utiliza oxigênio e há a criação de um ambiente com menores tensões de oxigênio, cria um habitat favorável ao crescimento de anaeróbios facultativos. Não competem pelo mesmo substrato.Quando a produção de fatores de crescimento é base para muitas relações comensais: alguns microrganismos excretam vitaminas, que podem ser utilizadas por outras populações microbianas. Flavobacterium brevis excreta cisteína, que pode ser usado em habitat aquático por Legionella pneumophila.A transformação de compostos insolúveis a solúveis e a conversão de compostos solúveis a compostos gasosos pode também ser a base para uma relação comensal. O comensalismo entre populações é a conversão de moléculas orgânicas por uma população em substratos entre outras populações. Alguns fungos, por exemplo, produzem enzimas extracelulares que convertem compostos poliméricos complexos, tal como a celulose em compostos simples, tal como glicose. Esse composto simples pode ser usado por outras populações microbianas que não possuem essa enzima e utilizam a molécula orgânica complexa. O fato de muitas bactérias nutricionalmente fastidiosas ocorrerem no solo sugere que seu crescimento e sua sobrevivência podem depender da síntese e excreção de vitaminas e aminoácidos por espécies menos fastidiosas. Uma das bases para relação comensal é o co-metabolismo onde um organismo transforma um substrato a outro sem utilizá-lo como nutriente ou fonte de energia. Este substrato poderá ser utilizado por outra população, viabilizando o crescimento de organismos em ambientes onde não haveria substratos disponíveis. Um exemplo ocorre quando Mycobacterium vaccae metaboliza ciclohexano transformando em ciclo hexanol enquanto cresce em propano. As populações bacterianas são beneficiadas porque elas não conseguem metabolizar o ciclo hexano, mas conseguem metabolizar o ciclo hexanol. Registro ISBN 93.675 173 c)Sinergismo (protocooperaçao) O sinergismo é uma interação entre duas populações na qual ambos se beneficiam. Às vezes essa relação é tão frouxa que uma das populações pode facilmente ser substituída por outra. Sinergismo permite que as populações microbianas participem do processo de síntese ou degradação de um composto que nenhuma delas sozinhas seria capaz de completar. O termo sintrofismo é aplicado a interação de duas ou mais populações que suprem um ao outro a necessidade nutricional. Um exemplo é a relação entre Cellulomas e Azotobacter, onde a Cellulomonas degrada a celulose liberando glicose que é usada por Azotobacter e Azotobacter fixa nitrogênio gasoso (N2), transformando-o em amônio (NH4+), uma forma utilizável por Cellulomonas Outros exemplos típicos são as interações que ocorrem em biodigestores e no rúmen. Outro exemplo clássico é a relação de sintrofismo entre Enterococcus faecalis e Escherichia coli. Os dois microrganismos separados não conseguem converter a arginina em putrescina. Porém, E. faecalis é capaz de transformar arginina em ornitina, que pode ser utilizado por E. coli para produzir putrescina. Uma vez que a putrecina é produzida E. coli e E. faecalis podem utiliza-la. d)Mutualismo Mutualismo é uma associação interativa entre membros de duas populações, produzindo uma condição na qual dois organismos vivem juntos, em grande proximidade física, visando ao benefício mútuo. É bastante específica e permite que os organismos existam em condições onde não poderiam ocupar sozinhos. Porém não fica excluída a possibilidade da população existir separadamente em outros habitats. Um exemplo de mutualismo são os liquens, formados pela associação mutualística entre fungos e algas. Os fungos mais comuns nessas associações são os ascomicetos, e as algas mais freqüentemente encontradas são Trebouxia, Pseudotrebouxia, Trentepohlia e Nostoc. Alguns liquens resultam da associação entre fungos e cianobactérias. A associação permite que os liquens habitem locais onde nem algas nem fungos poderiam viver separadamente. Nesta relação simbiótica a alga é responsável pela produção de alimento orgânico e realização da fotossíntese. O fungo produz ácido que desagrega as rochas e, através de suas hifas, absorve água e sais http://www.criptogamas.ib.ufu.br/node/427 http://www.criptogamas.ib.ufu.br/node/428 http://www.criptogamas.ib.ufu.br/node/429 Registro ISBN 93.675 174 minerais do solo, fornecendo-os à alga, garantindo a proteção e um ambiente adequado para o desenvolvimento da alga. Os liquens associados a cianobactérias podem até aproveitar o nitrogênio atmosférico (N2) como fonte de nitrogênio.Os liquens são amplamente distribuídos e podem ocorrer em ambientes inóspitos, como desertos e regiões polares. São considerados colonizadores primários, pois executam papel primordial nas sucessões ecológicas, uma vez que propiciam a chegada de outros organismos no ambiente, ao degradar rochas, auxiliar na formação do solo e ocupar o ambiente como seres pioneiros. Por não possuírem mecanismos de excreção são particularmente sensíveis a compostos tóxicos, podendo ser utilizados como importantes indicadores ambientais, sendo utilizados como indicadores de: componentes tóxicos do ar poluído, particularmente de dióxido de enxofre; mapeamento de metais pesados e outros poluentes ao redor de pólos industriais; instrumentos para monitorar a contaminação por substâncias radioativas. As micorrizas (mico = fungo; rizo = raiz) são associações mutualísticas de fungos do solo com as raízes de plantas. As hifas do fungo envolvem as raízes das plantas ou então chegam a penetrar em suas células. O fungo aumenta a superfície de absorção de água e sais minerais das raízes, além de converter certos sais minerais em formas que são mais facilmente absorvidas pelas plantas. Em troca, a planta fornece carbono orgânico ao fungo. Em geral, as plantas não crescem tão bem — e, às vezes, até morrem - se forem privadas da associação com o fungo, principalmente em solos pobres em sais minerais. Há vários tipos de associações micorrízicas, entre elas as principais são as micorrizas arbusculares e as ectomicorrizas. Acredita-se hoje que as micorrizas são regra e não mais exceção. Cerca de 90% das plantas agronômicas (soja, tomate) são colonizadas por algum fungo micorrízico, principalmente arbuscular, já em espécies florestais há o predomínio das ectomicorrizas. A fixação biológica de nitrogênio (FBN) é o processo pelo qual este elemento químico é captado da atmosfera, onde se caracteriza pela sua forma molecular relativamente inerte (N2) e é convertido em compostos nitrogenados (como amônio ou nitrato) usados em diversos processos químico-biológicos do solo, especialmente importantes para a nutrição de plantas. http://pt.wikipedia.org/wiki/FBN http://pt.wikipedia.org/wiki/Am%C3%B4nio http://pt.wikipedia.org/wiki/Nitrato http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Nutri%C3%A7%C3%A3o_de_plantas&action=edit&redlink=1Registro ISBN 93.675 175 A associação de bactérias diazotróficas, principalmente do gênero Rhizobium, com raízes de plantas da família das leguminosas (Fabaceae) é um exemplo de interação mutualística. As bactérias utilizam parte dos fotoassimilados da planta hospedeira para gerar a energia necessária para promover o processo de fixação biológica de nitrogênio. Por outro lado, a planta beneficia-se do nitrogênio fixado pela bactéria para síntese de suas proteínas. A inoculação de bactérias diazotróficas em sementes de leguminosas é uma tecnologia capaz de reduzir consideravelmente a adubação mineral nitrogenada e em alguns casos substituí-la, pois o N fixado pode alcançar em média 1500 kg/ha, resultando em expressiva redução do custo de produção da cultura. Essa tecnologia deve-se principalmente aos estudos da pesquisadora Dra. Johanna Döbereiner (1924- 2000) (Embrapa Agroecologia). Outro exemplo de mutualismo é a relação entre cupins (térmites) e protozoários. Os protozoários vivem no trato digestivo dos cupins; digerem a celulose ingerida pelos cupins originando hidratos de carbono, dos quais se alimentam, e produzindo acetato que é oxidado pelos cupins. O alimento dos insetos é pobre em aminoácidos e vitaminas; e estes conseguem obter estes nutrientes dos protozoários, já os protozoários recebem alimento dos cupins e um local seguro para viver. Como os cupins são incapazes de digerir celulose (não têm celulase), dependem da relação simbiótica para sobreviver (relação obrigatória). e) Amensalismo (antagonismo) Interação em que um organismo produz compostos que inibem o desenvolvimento do outro. Ocorre quando a produção de substâncias tóxicas por uma população microbiana afetará a outra negativamente. A produção de antibióticos por microrganismos é um exemplo clássico de antagonismo microbiano. Actinomicetes, espécies de Bacillus e fungos produzem antibióticos como metabólitos secundários, que inibem grupos específicos de organismos. Alguns exemplos são as penicilinas e cefalosporinas que são ativas contra bactérias Gram-positivas; estreptomicinas que são ativas contra bactérias Gram- positivas e Gram-negativas e as cicloheximidas que são ativas contra células http://pt.wikipedia.org/wiki/Bact%C3%A9ria_diazotr%C3%B3fica http://pt.wikipedia.org/wiki/Leguminosas http://pt.wikipedia.org/wiki/Fabaceae http://pt.wikipedia.org/wiki/Fotoassimilados http://pt.wikipedia.org/wiki/Aduba%C3%A7%C3%A3o http://pt.wikipedia.org/wiki/Johanna_D%C3%B6bereiner Registro ISBN 93.675 176 eucariotas. Entretanto, existem muitas outras formas de antagonismo. Por exemplo, alguns fungos produzem cianeto em concentrações que são tóxicas para outros microrganismos, e algumas algas produzem ácidos graxos antibacterianos. O metano, o sulfeto e compostos voláteis que contêm enxofre, produzidos por alguns microrganismos do solo, podem inibir outras espécies. As mixobactérias e os estreptomicetos são conhecidos pela capacidade de secretar poderosas enzimas líticas, as quais degradam a parede celular ou outras camadas protetoras de superfície de outras bactérias. O material celular degradado, bem como as substâncias internas liberadas pela lise do organismo, pode servir como nutrientes para as mixobactérias, os estreptomicetos e outros microrganismos. f) Predação A predação é uma associação em que um organismo, o predador, alimenta-se e digere outro organismo, a presa. É uma relação de curta duração e normalmente o predador é maior que a presa. Por exemplo, alguns protozoários alimentam-se de bactérias e esporos fúngicos. Outro exemplo de predação é o fungo sendo utilizado como alimento por ácaros. g) Parasitismo O parasitismo é uma interação em que um organismo vive sobre ou dentro de outro organismo. O parasita é dependente do hospedeiro e vive em contato físico íntimo e em associação metabólica com o hospedeiro. O parasita alimenta-se de células, tecidos ou fluidos do hospedeiro e este é geralmente prejudicado no processo, embora não necessariamente morto. Todos os principais grupos de plantas, animais e microrganismos são susceptíveis ao ataque de parasitas microbianos. Exemplos de parasitismo de microrganismos incluem bacteriófagos, que replicam somente no interior de células bacterianas, e fungos quitrídios que parasitam algas bem como outros fungos e plantas. Por muitos anos os microbiologistas não acreditaram que algumas bactérias alimentavam-se de outras bactérias, e a descoberta da bactéria Bdellovibrio, por Heinz Stolp e Mortimer Starr, em 1963, causou grande surpresa. Bdellovibrio parasita Registro ISBN 93.675 177 bactérias Gram-positivas (Pseudomonas phaseolicola, Pseudomonas fluorescens, Escherichia coli, Spirillum serpens). A célula do Bdellovibrio liga-se à superfície da célula hospedeira, fazendo um orifício através do qual entra na célula. A célula hospedeira perde a sua mobilidade e a sua atividade metabólica e o conteúdo celular é progressivamente degradado de forma a providenciar nutrientes ao parasita. Após 1 a 3 horas, a célula de Bdellovibrio transforma-se numa espiral e divide-se em 6 a25 células filhas que se libertam para o meio ambiente. Os bdelovídrios são difundidos no solo e nas águas de esgoto e podem afetar outras bactérias nesses ambientes. h) Competição Na competição, ambas as populações são afetadas negativamente em relação ao crescimento e sobrevivência. Ocorre quando microrganismos tentam usar o mesmo recurso (local físico, nutriente, etc). Se um deles dominar, crescerá mais que o outro (princípio da exclusão competitiva). Um exemplo são protozoários ciliados que têm nichos ecológicos semelhantes. Outro exemplo é a competição por amônia por microrganismos heterotróficos e bactérias que oxidam amônia. Os heterotróficos utilizam a amônia para fazer aminoácidos e proteínas, e as últimas necessitam da amônia primariamente como fonte de energia. Se a amônia existe em quantidades limitantes, haverá a diminuição da taxa de crescimento das duas populações. Em outro exemplo de competição, estirpes de Rhizobium competem uns com os outros para estabelecer a simbiose com a planta leguminosa. Registro ISBN 93.675 178 TRANSFORMAÇÕES BIOGEOQUÍMICAS NA BIOSFERA A biosfera compreende as regiões do nosso planeta que permitem a existência de vida. Estas áreas compreendem as águas dos diversos sítios como rios, oceanos e lagos, o próprio solo até uma determinada profundidade e a atmosfera, até uma determinada altura. Os microrganismos são tão abundantes que correspondem a 50% de toda a biomassa do planeta. Eles são também ubíquos (estão presentes em toda a parte), habitando os mais diferentes ambientes na natureza e ocupando diversos nichos. Virtualmente, qualquer ambiente pode suportar o crescimento microbiano. Ambientes considerados inóspitos para organismos superiores são conhecidamente habitados por microrganismos (ex. fontes termais, sedimentos congelados na Antártida, etc). Na biosfera ocorrem várias transformações importantes para a manutenção da vida. Poderemos verificar, por exemplo, que o oxigênio, que é um gás que corresponde a cerca de 20% da atmosfera, pode ter sido produzido a partir da água, pelo processo de fotossíntese das plantas, o que faz dos organismos vivos os mais poderosos agentes transformadores da matéria. Entre os organismos vivos com capacidade para realizar transformações, os microrganismos, obrigatoriamente, tornam-se objeto de nosso estudo. Estimou-se que cerca de 90% do CO2 existente na atmosfera deve-se à atividade de bactérias e de fungos, assim como o nitrogênio molecular. Sabemos que muito do CO2 hoje existente, no entanto, deve-se à atividades ligadas à indústria pós revolução industrial e às queimadas. Mas, mesmo assim, a participação microbiana é enorme. Os microrganismos apresentam grande participaçãonos processos de mineralização de compostos orgânicos. Por exemplo, as plantas podem assimilar vários elementos constituintes da chamada matéria viva, desde que na forma mineral. Ao fazerem esta assimilação, fazem a conversão destes elementos em constituintes orgânicos de seus tecidos. Numa situação posterior, estes mesmos elementos poderão servir aos animais. Neste caso, estes elementos, ainda que em parte, permanecerão em combinação orgânica e na forma reduzida. Para que não venham a faltar, estes mesmos elementos são novamente convertidos à forma inorgânica. Nesta etapa, é Registro ISBN 93.675 179 importantíssima a participação microbiana. Há, portanto, a passagem da forma mineralizada para a forma orgânica constituinte de tecidos e vice-versa. Cabe, agora, analisarmos o porque da grande eficiência dos microrganismos na transformação da matéria. Um primeiro fator diz respeito à ubiqüidade ou onipresença dos microrganismos. Como os microrganismos estão presentes em praticamente toda parte, em toda parte eles podem realizar transformações. Esta presença é o resultado de sua disseminação pelo vento e pelas águas, de maneira rápida. Desta forma, as áreas como as coleções de água, o próprio solo e as camadas mais baixas da atmosfera, conforme já mencionamos, apresentam um verdadeiro turbilhão de microrganismos. Acredita-se que uma extensão de solo que corresponda a pouco menos que meio are (1 are= 100m2) com uma profundidade de apenas 15 cm possa ter cerca de até duas toneladas de bactérias e fungos. Quando pegamos um simples punhado de terra em nossas mãos, estamos pegando uma grande variedade de fungos, bactérias e outros microrganismos, que representam um mundo à parte e, nesse pequeno mundo as condições variam em momentos diferentes. Se, como exemplo, cai ao solo um fio de cabelo, prontamente existem fungos que fazem uso da queratina desse fio. No entanto, ao findar o montante de queratina, haverá uma diminuição da população destes fungos. Neste "momento", subprodutos do metabolismo destes fungos poderão favorecer o desenvolvimento de outros microrganismos. Por sua vez, os fungos queratinofílicos certamente não serão os únicos presentes e as condições variarão com relação a outros fatores. Muitos microrganismos promovem uma alteração de pH , tornando o microambiente alcalino ou ácido e, com isso favorecendo ou prejudicando o crescimento de outros microrganismos. Ao consumirem oxigênio, muitos microrganismos podem promover a formação de uma pequena área com ausência de oxigênio, favorecendo o desenvolvimento de bactérias anaeróbias fermentativas. A alta taxa de relação superfície/volume que os microrganismos apresentam é outro fator a ser considerado. Os microrganimos, principalmente unicelulares, possuem, comparativamente aos organismos superiores, uma maior superfície útil para a realização de trocas com o meio ambiente. Toda a superfície externa bacteriana realiza a assimilação das substâncias necessárias ao seu desenvolvimento, assim Registro ISBN 93.675 180 como esta mesma superfície, em toda a sua extensão, é utilizada na eliminação de produtos do metabolismo que devem ser excretados. Por outro lado, os microrganismos apresentam uma alta taxa de reprodução. Conforme você já estudou no capítulo relativo a crescimento microbiano, as bactérias multiplicam-se exponencialmente, a partir de sua adaptação ao substrato e o seu tempo de geração é curto. Assim, podemos raciocinar que a multiplicação é muito mais rápida. Se os microrganismos multiplicam-se rapidamente, também rapidamente podem estar em número suficiente para utilizar um substrato e modificá-lo. Outro fator responsável pela eficácia dos microrganismos como transformadores da matéria é a potencialidade metabólica dos microrganismos ou a força catalítica dos microrganismos. As taxas respiratórias de algumas bactérias aeróbias são consideradas centenas de vezes superiores que a do homem ou de animais, se computadas as atividades respiratórias de igual peso de tecido humano com igual peso de células bacterianas. Outro fator diz respeito à versatilidade metabólica dos microrganismos. Praticamente não existem substâncias orgânicas que não possam sofrer ação e transformação microbianas. Isto não equivale a dizer que qualquer microrganismo é capaz de degradar qualquer substância, mas sim, que o conjunto de microrganismos existentes degrada qualquer substância orgânica presente no solo. Pseudomonas fluorescens, como exemplo, embora seja uma das bactérias mais versáteis que existem capazes de degradar cerca de 200 compostos orgânicos diferentes, não degrada todos os compostos orgânicos existentes na natureza. De qualquer forma, este número que parece grande, não representa muito no universo de compostos orgânicos existentes. A maioria dos microrganismos é incapaz de fazer uso de um número de compostos assim. No entanto, não faltam microrganismos com atividades específicas sobre determinados materiais. Por exemplo, entre as bactérias com capacidade de fazer uso da celulose, pode-se citar as mixobactérias do grupo Cytophaga. Os ciclos da matéria Matéria e energia são conceitos fundamentais, ligados à vida no planeta. A energia solar flui unidirecionalmente ao longo do ecossistema, sendo absorvida e Registro ISBN 93.675 181 transformada em matéria orgânica pelos fotoautotróficos (produtores primários). Energeticamente, a Terra é um sistema aberto, pois a luz solar é sempre renovada. O planeta recebe energia constante do sol que precisa re-irradiar de volta para o espaço a fim de manter uma temperatura controlada. A energia flui para a terra e retorna para fora novamente. Materialmente a Terra é um sistema quase fechado; muito pouca matéria entra ou sai; as transformações sobre ou dentro dela precisam vir de combinações de matéria já existente. A matéria precisa fluir em ciclos. Logo, a matéria orgânica, precisa ser reciclada e nesse processo participam os seres vivos. Em qualquer ciclo existe a retirada do elemento ou substância de sua fonte, utilização por seres vivos e devolução para a sua fonte. Os elementos necessários à vida - carbono, oxigênio, nitrogênio, enxofre, fósforo etc. - passam por ciclos biogeoquímicos que mantêm sua pureza e a capacidade de serem aproveitados pelos seres vivos. A passagem de elementos da forma mineralizada para a forma geralmente reduzida encontrada na matéria viva e a sua passagem novamente para a forma viva, representada pelos ciclos da matéria, pode ocorrer de modo que determinados elementos, ao passarem por esta ciclagem não sofrem modificação no seu estado de valência. Um pequeno exemplo é o que ocorre com o " P " . O fósforo, ao se absorvido por organismos vivos, encontra-se na forma de "fosfato" . Esta será a mesma forma em que será incorporado aos compostos orgânicos, o que dá-se pela esterificação do mesmo. Quando células que possuem estes íons "fosfato" morrem, o fósforo é novamente liberado, por hidrólise, como íon "fosfato". Verificamos, então, que o elemento não sofreu nenhuma alteração no seu estado de valência. Por outro lado, quando analisamos muitos outros ciclos, como o do enxofre, por exemplo, verificamos que os elementos, ao passarem da matéria viva para a não viva e vice-versa, sofrem constantes alterações em seu estado de valência. Assim, denominamos os ciclos como o do fósforo de ciclos simples e ciclos como o do enxofre, de ciclos complexos. Todos os elementos possuem reservatórios bióticos – vivos ou não vivos (matéria orgânica) e abióticos. Os ciclos muitas vezes são classificados de acordo com a origem do reservatório abiótico e podem ser: (a) ciclos gasosos – reservatório atmosfera ou hidrosfera; e (b) ciclos sedimentares – reservatório crosta terrestre. Registro ISBN 93.675 182 Ciclos do Carbono O carbono é o elemento básicoe fundamental na constituição das moléculas orgânicas e conseqüentemente da construção da vida. Os principais reservatórios de carbono na natureza, na ordem de quantidade de carbono estocado, são as rochas sedimentares – na forma de carbonatos; os oceanos – CO2, CH4 dissolvido na água; a matéria orgânica – presente na biota; os combustíveis fósseis (petróleo, gás e carvão) e a atmosfera – como as formas gasosas CO2, CH4. O carbono encontrado nas rochas sedimentares e nos combustíveis fósseis são formas de carbono não biodisponíveis, ou de lenta redisponibilização para a biota, logo eles não são fazem parte do ciclo biológico de transformação do carbono. O ciclo biológico do carbono envolve, basicamente, a transformação de inorgânico em orgânico e vice-versa. Nesse sentido o CO2 atmosférico é o reservatório mais biodisponível, e de mais rápido uso. Processo de transformação de carbono inorgânico em orgânico é realizado pelos organismos autotróficos. Nesse processo de autotrofismo ocorre a fixação do CO2 atmosférico, quimicamente o CO2 é reduzido e transformado em moléculas orgânicas. Os organismos que realizam esta etapa são também conhecidos como produtores primários e podem ser: Fototróficos – utilizam energia da luz (ATP) no processo de redução do CO2. Esse é o principal mecanismo de transformação de carbono inorgânico em orgânico, conhecido também como fotossíntese. Os principais seres vivos que participam nessa etapa são as plantas, algas, cianobactérias e outras bactérias fotossintetizantes. Sendo que os organismos mais importantes nessa etapa nos ambientes terrestres são as plantas e nos ambientes aquáticos são os microrganismos fotossintetizantes. Quimioautotróficos – utilizam energia da oxidação de compostos químicos no processo de redução do CO2. Somente procarioto são capazes de fixar CO2 atmosférico por esse mecanismo. O carbono orgânico é então transferido pela cadeia trófica dos consumidores primários para os secundários e assim sucessivamente. Nos diferentes organismos participantes da cadeia trófica, parte do carbono orgânico é oxidado para obtenção de Registro ISBN 93.675 183 energia e é transformado na forma inorgânica de CO2que é liberado, voltando ao seu reservatórioatmosférico, e parte é assimilado como fonte de carbono. Os diferentes organismos podem utilizar diferentes mecanismos para gerar energia utilizando o carbono orgânico, como a respiração aeróbica, anaeróbica ou pela fermentação. O carbono orgânico presente nos organismos vivos é disponibilizado para o ambiente como dejetos (excrementos) ou então por ocasião da sua morte. Essa matéria orgânica é então degradada e decomposta pelos microrganismos (fungos e bactérias). Durante essa etapa de degradação os microrganismos decompositores também podem assimilar parte do carbono orgânico como fonte de carbono ou então carbono orgânico é totalmente oxidado (obtenção de energia) e também liberado na forma inorgânica de CO2 pelos microrganismos decompositores. Com isso fechando o ciclo. A degradação (respiração/fermentação dos microrganismos decompositores) é a maior fonte de liberação de CO2 para atmosfera. Alguns compostos orgânicos são altamente recalcitrantes e de difícil degradação. São carboidratos complexos como a celulose, lignina, hemicelulose, etc. A degradação desses compostos só ocorre em aerobiose e os microrganismos, principalmente os fungos, exercem um papel fundamental por serem os únicos metabolicamente capazes de realizar essa degradação. Na ausência de oxigênio ocorre a degradação incompleta desses compostos e como produtos dessa degradação incompleta temos a formação de: húmus e combustíveis fósseis (petróleo, carvão, gás natural). Em ambientes anóxicos ocorre um processo do ciclo do carbono chamado de metanogênese. Nesse processo alguns procariotos do reino Archaea (arqueobactérias) utilizam o CO2 como aceptor final de elétrons. Eles “respiram” CO2, reduzindo o CO2 a gás metano CH4. Esse gás é extremamente perigoso ao ambiente por se tratar de um importante gás causador de efeito estufa. Esse processo de metanogênese ocorre em ambientes como o rúmem, e ambientes aquáticos anóxicos (mais comum em ambientes de água doce) ou nos sedimentos desse ambientes. Nos ambientes aquáticos a liberação de metano para a atmosfera é minimizado pela ação de outras bactérias denominadas metanotróficas (afinidade por metano). Quando esse gás atinge as regiões óxicas do ambiente aquático ele é rapidamente Registro ISBN 93.675 184 utilizado como fonte de energia pelos metanotróficos antes de atingir a superfície, com isso o metano é oxidado a CO2 e então esse é liberado a atmosfera. O ciclo do carbono sempre esteve em total equilíbrio, ou seja, a taxa de emissão de gás carbônico fixado da atmosfera igualava com a taxa de carbono liberado para a atmosfera, de modo que não havia excesso. A partir da Revolução Industrial e conseqüentemente da queima de combustíveis fosseis, esse equilíbrio acabou. O aumento crescente das queimadas nas florestas, contribui grandemente para esse desequilíbrio, pois além de liberar mais gás carbônico (CO2 e CO) para a atmosfera, elimina os organismos capazes de remover esse gás em excesso na atmosfera. O aumento dos gases CO2 e CO e de outros poluentes permitem a passagem de luz até a superfície terrestre, mas aprisiona o calor emanado por essa superfície (bloqueio da dissipação do calor). Esses gases funcionam como um isolante térmico alterando a temperatura média do planeta levando ao aquecimento global e conseqüentemente o derretimento das geleiras e o aumento do nível dos oceanos. Seqüestro inorgânico de carbono Conforme já relatado, nos oceanos o carbonato combina-se com íons cálcio dissolvido e sob condições de leve alcalinidade sofre precipitação como carbonato de cálcio. O carbonato de cálcio é também depositado nas carapaças de moluscos, de protozoários e corais. A origem das rochas calcárias, na superfície dos continentes, tem o mesmo processo de formação. Como as rochas calcárias não representam fontes de carbono diretamente disponíveis aos organismos fotossintéticos, sua formação promove depleção no abastecimento de carbono para a vida. Microrganismos que, pelo seu metabolismo, produzam ácidos como o carbônico e, ainda, aqueles que nos processos de nitrificação, oxidação do enxofre, etc. formam ácido, favorecem a solubilização dos depósitos calcários. Seqüestro orgânico de carbono O húmus é um bom exemplo de seqüestro orgânico de carbono, já que representa a resistência de certos constituintes orgânicos vegetais à decomposição. Estas partes resistentes tendem a acumularem-se na natureza, sendo importantes, como sabemos, para a fertilidade do solo. Um segundo exemplo, pode ser dado pelo Registro ISBN 93.675 185 acúmulo de óleos e gás metano nas profundezas do solo. Acredita-se na participação microbiana no mecanismo de formação. Ciclo do nitrogênio O nitrogênio é um importante elemento para os seres vivos. Ela participa principalmente na composição das proteínas e ácidos nucléicos. No ambiente, este elemento pode ser encontrado sob vários estados de oxidação: nitrogênio orgânico, íons amônio (NH4+), gás nitrogênio (N2), óxido nitroso (N2O), íons nitrato (NO3-), óxido nítrico (NO2), e nitrito (NO2-). Sendo que as formas mais encontradas na natureza são nitrogênio orgânico, NH4+, o NO3-e N2. As rochas e sedimentos são os maiores reservatórios de nitrogênio, mas estão não estão biodisponíveis logo não influenciam o ciclo. A atmosfera é um grande reservatório de nitrogênio (forma gasosa) na forma biodisponível, porém o gás N2 é também a forma mais estável do nitrogênio devido a tripla ligação entre os átomos. O gasto energético para a quebra da ligação tripla no processo de fixação do N2 na matéria orgânica é enorme e somente poucos microrganismos são capazesde tal transformação. Normalmente os organismos assimilam as formas mais biodisponíveis do nitrogênio: o nitrato (NO3) e amônia (NH3). O ciclo biogeoquímico do nitrogênio é altamente dependente dos microrganismos. Os microrganismos participam de todas as etapas e existem processos realizados exclusivamente pelos microrganismos, como a fixação biológica no nitrogênio, denitrificação e a nitrificação. A fixação do nitrogênio atmosférico pode ocorrer quimicamente na atmosfera através de: descargas elétricas, industrialmente por processos físico-químicos na produção de fertilizante e durante uma combustão artificial a altas temperaturas. Porém a forma mais extensa e eficiente de fixação de nitrogênio é a de origem biológica correspondendo a 85% de toda a fixação existente. Esse processo é parte do metabolismo assimilativo das bactérias que possuem essa capacidade, elas utilizam o gás nitrogênio como fonte nutricional de nitrogênio. A fixação biológica de nitrogênio pode ser realizada somente por bactérias chamadas diazotróficas, que são as que possuam o complexo enzimático da nitrogenase, enzima responsável pelas reações de redução do gás nitrogênio a amônia. Registro ISBN 93.675 186 Tanto bactérias de vida livre (ex. Azototbacter, Beijerinckia, cianobactérias etc) quanto bactérias que participam de associações simbióticas possuem esse complexo e podem então realizar a fixação biológica de nitrogênio. Devido a estabilidade da tripla ligação do N2 (N ≡ N) é necessária muita energia para a quebra das ligações e para as reações de redução até a formação de amônia. As nitrogenases são altamente sensíveis a exposição ao oxigênio, e são inativadas quando entrão em contato com ele. Porém essa reação ocorre tanto em ambientes óxicos e em anóxicos, logo as bactérias precisam criar estratégias de proteção desse complexo enzimático do contato com o oxigênio. Entre essas estratégias temosa estratégia da proteção respiratória, ocorrendo a remoção do O2 pela rápida respiração; os microrganismos podem produzir uma cápsula, que impede a difusão do O2, podem compartimentalizar o complexo enzimático (nitrogenase) em células especializadas que possuem uma parede celular densa que impede a difusão do O2 (especialização celular que ocorre em cianobactérias chamada heterocistos) e ainda podem produzir proteínas que se ligam ao O2 impedindo que ele entre em contato com o complexo nitrogenase. A fixação simbiótica do nitrogênio atmosférico é a forma mais importante de fixação desse elemento. Ocorre uma relação de simbiose entre os gêneros Rhizobium, Bradyrhizobium e Azorhizobium e plantas leguminosas. Ocorre uma interação específica entre a raiz da planta e essas bactérias permitindo então a penetração das bactérias nas células da raiz e posterior multiplicação dessas bactérias dentro destas células. Essa multiplicação resulta na formação de um nódulo na raiz e dentro desses nódulos ocorre a fixação do nitrogênio. Em condições normais nem a planta nem a bactéria fixariam o nitrogênio sozinho, somente a simbiose permite a fixação. A bactéria dentro dos nódulos é completamente dependente da planta quanto ao fornecimento de fontes de energia, energia essa necessária para a reação de fixação. Além disso, dentro dos nódulos enzima está protegida da exposição ao oxigênio devido a sua espessa parede que diminui a difusão do oxigênio para seu interior e a produção da proteína chamada leghemoglobina que é uma proteína que se liga ao oxigênio. Em troca a bactéria fornece a amônia para a planta. Grande parte do nitrogênio encontrado no ambiente provém da matéria orgânica, liberada através de produtos de excreção ou por caso de morte dos organismos. Esta Registro ISBN 93.675 187 matéria orgânica nitrogenada existe sob a forma de compostos orgânicos complexos, tais como proteínas, aminoácidos, ácidos nucléicos e nucleotídeos. Na amonificação, as formas orgânicas complexas do nitrogênio são degradadas pela ação de exoenzimas em moléculas mais simples (ex. proteínas degradadas em aminoácidos) pelos decompositores. Estes microrganismos utilizam as proteínas e os aminoácidos como fonte para suas próprias proteínas e liberam o excesso de nitrogênio sob a forma de amônia. Esta amônia pode então ser rapidamente assimilada pelas plantas e microrganismos no ambiente, adsorvida a matéria orgânica do solo, processo chamado de imobilização ou assimilação, que é a utilização de compostos inorgânicos (amônia e nitrato) para incorporação na matéria orgânica.Nos sedimentos, normalmente ambientes anóxicos, a amônia é estável, estando indisponível para a biota. Em condições óxicas pode ocorrer nitrificação. A nitrificaçãoé o processo de oxidação da amônia a nitrito e do nitrito a nitrato. É um processo totalmente aeróbico no qual a amônia e o nitrito são oxidados sendo utilizados como fontes de energia, esses compostos são doadores de elétrons para a formação de ATP. Ocorre em duas etapas separadas, realizadas por duas diferentes populações de microrganismos quimioautotróficos: as bactérias oxidadoras de amônia do gênero Nitrosomonas, oxidam a amônia a nitrito e as bactérias oxidadoras do nitrito do gênero Nitrobacter oxidam o nitrito a nitrato. O nitrato produzido na etapa de nitrificação e liberado para o ambiente pode então ser assimilado pelas plantas ou por microrganismos através da redução assimilativa do nitrato. Neste processo os organismos precisam ter duas enzimas, a nitrato redutase e a nitrito redutase, que irão reduzir o NO3- a NO2- e o NO2- a NH3+, e esta será incorporada nos componentes celulares. Por ser altamente solúvel, esse composto é facilmente lixiviado nos ambiente terrestres. O nitrato lixiviado pode cair em corpos d’água causando graves distúrbios ambientais, por exemplo: o aumento da produção primária já que as algas e cianobactérias assimilam o nitrato em excesso e proliferam de maneira exacerbada (eutrofização). A contaminação por nitrato em fontes de água potável também é um problema importante devido a sua toxicidade, podendo causar metahemoglobinemia, na qual o nitrato se liga a hemoglobina diminuindo a Registro ISBN 93.675 188 capacidade desta de transportar oxigênio. Em condições anóxicas o nitrato pode ser convertido a N2 através da denitrificação. A denitrificação é a conseqüência de um processo metabólico de redução dissimilativa do nitrato; é a utilização do nitrato como aceptor final de elétrons em condições anóxicas, ou seja, o microrganismo “respira” nitrato. Neste processo as bactérias reduzem o nitrato a formas gasosas do nitrogênio (óxido nítrico, nitroso e gás nitrogênio). É um processo muito prejudicial e nocivo a agricultura, pois diminui a biodisponibilidade de nitrogênio no ambiente, com a perda de uma forma facilmente assimilável (nitrato) na forma de gás. Essa transformação pode ser realizada por um grande número de bactéria, amaioria são bactérias anaeróbias facultativas e principalmente bactérias do gênero Pseudomonas. A única forma de redisponibilização desse nitrogênio gasoso para a biota é através da fixação do nitrogênio atmosférico. Uma etapa recentemente descoberta do ciclo biogeoquímico do nitrogênio é a oxidação anaeróbica da amônia, conhecido como ANAMOX. É um processo realizado somente por bactérias quimioautotróficas que utilizam a amônia como doador de elétrons (oxidam o composto, fonte de energia) e como aceptor de elétrons utilizam nitrato (reduzem o nitrato, “respiram” nitrato) liberando nessa reação gás nitrogênio (N2) e água. É um processo altamente exergônico pouco compreendido que contraria a idéia da amônia ser estável em ambiente anóxicos. Tem sido amplamente utilizado e estimulado nas estações de tratamento de esgoto, pois permite a total mineralização e remoção do nitrogênio em ambientes anóxicos (transforma o nitrato e a amônia em N2). O homem pode alterarsignificativamente o equilíbrio do ciclo biogeoquímico do nitrogênio no ambiente através da queima de combustíveis fósseis e utilização de fertilizantes. Na queima de combustíveis fósseis ocorre a liberação de óxido nitroso na atmosfera, este gás é importante em causar efeito estufa e conseqüentemente o aquecimento global. Na adição de fertilizantes contendo nitrato este pode ser lixiviado causando a eutrofização e deterioração dos corpos d’água. Ciclo do Fósforo A importância do elemento fósforo aos seres vivos se deve ao fato deste ser constituinte dos ácidos nucléicos (RNA e DNA), moléculas de ATP e coenzimas. A Registro ISBN 93.675 189 principal fonte de fósforo na Terra são as rochas, porém o fósforo encontrado nelas não é biodisponível e a sua disponibilização para os seres vivos é muito lenta. Devido a essa baixa disponibilidade, o fósforo é considerado um elemento/ nutriente limitante da produção primária (limitante no ambiente para o crescimento das plantas e das bactérias). O ciclo do fósforo é simples, pois não existem formas gasosas do fósforo e poucos são os estados de oxidação deste elemento. As transformações no ciclo envolvem modificações entre as formas solúveis e insolúveis, orgânicas e inorgânicas; sendo que as formas mais facilmente absorvidas pelos produtores primários (plantas e bactérias) são os íons fosfatos solúveis. Processos erosivos sobre as rochas liberam muito lentamente o fósforo na forma de fosfatos. Alguns microrganismos, principalmente os fungos e as bactérias do gênero Thiobacillus, podem auxiliar e acelerar essa liberação, pois eles produzem ácidos que solubilizam mai rapidamente o fósforo dos minerais. Esse fosfato inorgânico e solúvel é assimilado pelos produtores primários sendo incorporado à matéria orgânica e distribuído pela cadeia trófica. A matéria orgânica contendo fósforo – quando da deposição de dejetos e da morte dos organismos – é degradada pelos microrganismos decompositores e o fósforo é liberado na forma de fosfatos solúveis. Parte desse fosfato solúvel é novamente assimilada pelos produtores primários, parte é incorporada aos minerais, se tornando novamente não disponível, e parte desse fosfato solúvel é carreado para ambientes aquáticos devido sua alta mobilidade nos ambientes terrestres. Quando lixiviado esse fosfato é de difícil retorno para o ambiente terrestre, podendo se depositar nos sedimentos profundos. Nesse contexto as aves aquáticas são muito importantes no retorno do fósforo do ambiente aquático para terrestre, elas se alimentam de peixes (que são ricos em fósforo) e excretam seus dejetos (também ricos em fósforo) na terra. O homem interfere no equilíbrio do ciclo do fósforo de duas maneiras: (a) Na retirada de fósforo das rochas para produção de fertilizante contendo fósforo. Essa retirada feita pelo homem é cinco vezes mais rápida do que a solubilização que corre normalmente na natureza pelo intemperismo. (b) Uso dos fertilizantes contendo fósforo e nitrogênio. A aplicação destes fertilizantes leva a lixiviação destes elementos que são Registro ISBN 93.675 190 muito solúveis e móveis no solo. Nos ambientes aquáticos, como esses elementos são limitantes, o fertilizante causa eutrofização, ou seja, o aumento da produção primária (aumento da biomassa) conseqüentemente o aumento da taxa de decomposição que consome todo o oxigênio disponível deixando o ambiente anaeróbico e modificando todo o ecossistema. Ciclo do Enxofre O enxofre é um elemento importante para os seres vivos, pois é um nutriente constituinte de alguns aminoácidos, alguns microrganismos usam como fonte de energia e como aceptor final de elétrons na respiração anaeróbica. O ciclo global é bem complexo devido ao grande número de estados de oxidação que este elemento pode assumir. A transformação entre estes estados de oxidação ocorrem tanto biologicamente quanto fisicamente, sendo as formas sulfato, sulfeto, enxofre elementar e enxofre orgânico as biologicamente convertidas. A maioria do enxofre na Terra está nas rochas sob a forma combinada de sulfetos minerais como a pirita (FeS2) e a gipsita (CaSO4) cuja liberação para assimilação pelos seres vivos é muito lenta não sendo muito biodisponível. Os oceanos são a maior fonte de sulfato da Terra, sulfato este que é a forma do enxofre assimilada pelas plantas e microrganismos. O sulfato é absorvido pelos seres vivos e incorporado a matéria orgânica através do processo chamado de redução assimilativa do sulfato. Esse enxofre orgânico é então distribuído aos seres vivos através da cadeia trófica. Durante a decomposição, a matéria orgânica contendo enxofre primeiramente tem o enxofre removido em um processo de dessulfurização com a liberação de sulfeto (H2S). O cheiro desagradável da putrefação deve-se em parte, à presença de sulfeto e de outros produtos orgânicos sulfurados em compostos em decomposição. O sulfato nos ambientes anóxicos também pode ser utilizado como aceptor final de elétrons durante a obtenção de energia na respiração anaeróbica (o microrganismo “respira” sulfato). Nesse processo de redução dissimilativa, as bactérias redutoras de sulfato convertem (reduzem) o sulfato a sulfeto que é liberado no ambiente. A atividade destas bactérias pode ser notada, por exemplo, na lama existente no fundo de lagoas, Registro ISBN 93.675 191 riachos e pântanos. Existem alguns sinais que denunciam que este processo está ocorrendo: a cor bem escura, negra do fundo de lagoas, produzida pelo acúmulo de sulfeto de ferro ou mesmo nas praias e o odor desagradável do sulfeto. O sulfeto é a forma mais reduzida do enxofre por isso ela é usada como fonte de energia (fonte de elétrons) por bactérias quimioautotróficas. Essas bactérias oxidam o sulfeto a enxofre elementar e/ou sulfato. Algumas dessas bactérias oxidam parcialmente o sulfeto a enxofre elementar e acumulam esse enxofre em grânulos intracitoplasmáticos como uma reserva energética. Na ausência de fonte de sulfeto no ambiente elas oxidam totalmente o enxofre elementar a sulfato. Eses processos podem ocorrer por ação de sulfo-bactérias incolores (em aerobiose) ou pelas sulfo-bactérias verdes e púpuras (em anaerobiose).Tais oxidações resultam na produção de íons H, o que resulta em acidificação dos solos. O homem interfere no equilíbrio do ciclo do enxofre através da queima de combustíveis fósseis. Essa queima produz uma quantidade significativa de gás dióxido de enxofre que é tóxico e no ambiente pode se combinar com a umidade do ar (vapor d’água) gerando ácido sulfúrico e provocar chuvas ácidas. Registro ISBN 93.675 192 MICRORGANISMOS E MUDANÇAS CLIMÁTICAS Alterações climáticas e desequilíbrios ambientais A atmosfera é constituída por gases que permitem a passagem da radiação solar, e absorvem grande parte do calor emitido pela superfície aquecida da Terra. Esta propriedade, conhecida como efeito estufa, é benéfica ao Planeta, pois mantém o planeta aquecido e permite a existência de uma grande variedade de seres vivos. Sem o efeito estufa, a temperatura da Terra seria 20 a 30 ° C menor, sendo muito menos adequada à vida dos seres vivos hoje presentes. Porém, o aumento da concentração de gases de efeito estufa tem aumentado ao longo do tempo, devido a fatores naturais e atividades antropogênicas como a combustão de carvão, petróleo e outros combustíveis fósseis, decomposição de matéria vegetal e queima de biomassa. E, o aumento da concentração destes gases, tem levado ao aumento da temperatura em todo o mundo (Aquecimento global), culminando com fenômenos de mudança climática. O aquecimento global tem provocado inúmeros desastres ambientais, cujas consequências são diversas e complexas e podem causar danos irreversíveis aos seres humanos. Uma das consequências do aquecimento globalé o degelo. As regiões mais afetadas são o Ártico, a Antártida, a Groelândia e várias cordilheiras. Esse fenômeno altera a temperatura dos oceanos, causando um desequilíbrio ambiental e atingindo principalmente as espécies marinhas. Outras consequências do aquecimento global são a desertificação, mudanças nos sistemas de chuvas, aumento da seca em alguns lugares, escassez de recursos hídricos, chuvas intensas em alguns lugares, tempestades, furacões, inundações, mudanças nos ecossistemas, biodiversidade reduzida, perde de áreas férteis para agricultura, além da disseminação de doenças como malária, esquistossomose e febre amarela. Portanto, o aquecimento global tem um efeito muito adverso na vida de todas as espécies do planeta. E é necessário que sejam tomadas medidas para mitigar o processo de mudança climática, como reduzir as emissões de gases de efeito estufa, garantindo uma relação sustentável entre o homem e a natureza. https://brasilescola.uol.com.br/geografia/a-era-degelo.htm Registro ISBN 93.675 193 Efeitos das mudanças climáticas nas populações microbianas As mudanças climáticas têm efeito direto e indireto sobre a composição da comunidade microbiana aquáticas e terrestre e suas atividades. Alguns efeitos das mudanças climáticas nos microrganismos podem listados: morte ou favorecimento de determinadas populações microbianas, o que leva a mudança na diversidade e composição microbiana, alteração da atividade metabólica, e redução ou aumento de biomassa. Todas estas alterações terão efeito negativo ou positivo na fisiologia da comunidade microbiana e irão afetar os ciclos biogeoquímicos e consequentemente, a emissão de gases de efeito estufa. Os principais efeitos diretos da mudança climática nos microrganismos do solo provavelmente serão causados por mudanças na temperatura e no teor de umidade. Estes fatores podem afetar processos como o fluxo de gases de efeito estufa de duas maneiras: modificando a fisiologia das populações microbianas e / ou alterando a estrutura da comunidade microbiana. Por exemplo, em temperaturas mais altas, a maioria dos microrganismos se multiplica mais rapidamente e utiliza substratos a taxas mais rápidas. Portanto, haverá mudanças na taxa de processos como a respiração; no entanto, o mecanismo de controle permanece o mesmo. No segundo cenário, na qual a mudança climática facilita uma mudança na estrutura da comunidade microbiana, as taxas de processos e o mecanismo de controle podem mudar, porque a nova comunidade microbiana poderá apresentar diferentes habilidades fisiológicas. Em casos extrema, isso pode resultar na perda de um processo específico causada, por exemplo, pela perda de grupo funcional, como denitrificadores ou metanogênicos) e / ou o destaque de um processo anteriormente insignificante causado por, por exemplo, uma mudança na composição da comunidade para uma com maiores capacidades fisiológicas na decomposição de carbono orgânico). Papel dos microrganismos nas mudanças climáticas Desde as primeiras moléculas de oxigênio produzidas por cianobactérias marinhas há ~ 3,5 bilhões de anos (principais responsáveis pela oxigenação de nosso Planeta), os processos microbianos têm sido os principais impulsionadores e Registro ISBN 93.675 194 responsáveis pelas mudanças climáticas. Os microrganismos desempenharam um papel crucial na determinação das concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera, incluindo dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O) durante grande parte História da Terra. No tópico “TRANSFORMAÇÕES BIOGEOQUÍMICAS NA BIOSFERA” foi elucidado o papel dos microrganismos na ciclagem de nutrientes em nosso Planeta e, consequentemente o seu papel na emissão de gases de efeito estufa. Neste tópico focaremos principalmente o papel dos microrganismos na emissão dos gases CO2, CH4 e N2O e seu papel na mitigação da emissão destes gases. O potencial de mitigação das mudanças climáticas pela redução de emissão de gases de efeito estufa através do gerenciamento de processos microbianos é uma perspectiva promissora para o futuro, uma vez que os microrganismos desempenham um papel fundamental na determinação das concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera. Dióxido de carbono. No ciclo global do carbono, os fluxos naturais de CO2 entre os oceanos e ecossistemas terrestres e a atmosfera são mais expressivos que emissões de CO2 pela queima de combustíveis fósseis. Níveis de CO2 na atmosfera depende em grande parte do equilíbrio entre os processos de fotossíntese e respiração. Nos oceanos, a fotossíntese é realizada principalmente por fitoplânctons, e a respiração autotrófica e heterotrófica retorna o carbono absorvido durante a fotossíntese para o pool de carbono inorgânico dissolvido neste ambiente. Em ecossistemas terrestres, a captação de CO2 da atmosfera é dominada por plantas superiores, mas também há a participação de microrganismos fotoautotróficos. Além disso, há grande contribuição direta dos microrganismos na utilização do carbono através dos processos de decomposição e respiração heterotrófica, bem como indiretamente, através de seu papel como simbiontes ou patógenos de plantas. Juntos, os solos e oceanos constituem um sumidouro líquido de ~ 3 bilhões de toneladas de carbono a cada ano, absorvendo efetivamente cerca de 40% das emissões de CO2 provenientes da queima de combustíveis fósseis. Os solos florestais Registro ISBN 93.675 195 são considerados especialmente eficazes no armazenamento de carbono, em parte devido a uma alta abundância de fungos no solo em relação às bactérias, que favorece o seqüestro de carbono. Porém, mudanças no uso da terra e práticas podem aumentar as taxas de decomposição da matéria orgânica e, consequentemente, aumentar a emissão de CO2 para a atmosfera. Um exemplo, é o desmatamento, que pode levar a liberação de 1 a 2 bilhões de toneladas de carbono para a atmosfera a cada ano. Outro exemplo é a aração profunda ou drenagem em solos ricos em carbono, que aumentam o acesso dos microrganismos a compostos orgânicos e oxigênio e, consequentemente aumentam a taxa de decomposição e respiração e, consequentemente, maior emissão de CO2. Solos cultivados sob sistemas de plantio direto ou cultivo mínimo tendem a apresentar menor taxa de decomposição e respiração microbiana, maior abundância de fungos, e por isso, tem sido considerada práticas promissoras para aumentar o sequestro de carbono no solo. No entanto, o plantio direto ou cultivo mínimo, em alguns casos, pode aumentar as emissões de N2O no solo (devido ao aumento das taxas de desnitrificação devido às condições anaeróbicas em solos compactados). Uma vez que o N2O também é um gás de efeito estufa, é importante que esta liberação seja monitorada para que seja avaliada o impacto desta liberação versus os benefícios do aumento do armazenamento do carbono no solo Metano. Emissões naturais CH4 (~ 250 milhões de toneladas de CH4 por ano) ocorrem devido ao processo de metanogênese, realizado por um grupo de arqueias anaeróbicas em zonas úmidas, oceanos, compartimento ruminal de animais ruminantes e intestino de térmites. Porém, atividades humanas principalmente no cultivo de arroz, extração de combustíveis fósseis e pecuária, são responsáveis pela emissão de 320 milhões de toneladas de CH4 por ano. Excetuando-se algumas emissões a partir da extração de combustíveis fósseis, são liberações predominantemente dirigidas por arqueias. Por outro lado, a oxidação biológica de CH4 por metanotróficas é responsável por ~ 5% do coletor global de CH4 atmosférico (~ 30 milhões de toneladas por Registro ISBN 93.675 196 ano). Contudo, metanotróficos também são responsáveis pela oxidação de até 90% do CH4 produzido no solo, evitando que ele seja liberado para a atmosfera. A conversão de terrasaráveis ou pastagens em florestas resulta em uma redução substancial do fluxo de CH4, e é evidente que tanto o tipo quanto a abundância de metanotróficas são importantes para prever o fluxo de CH4. No cultivo de arroz, por exemplo, as metanotróficas desempenham um papel crucial na oxidação de parte do CH4 produzido, diminuindo sua liberação para a atmosdera. Assim, otimizações no manejo da freqüência e duração de inundação podem reduzir as emissões CH4 pelo aumento da disponibilidade do oxigênio em solos. Há também a possibilidade do uso efetivo de inibidores da metanogênese, como fertilizantes com sulfato de amônio em sistemas manejados, que favorecem o crescimento de bactérias redutoras de sulfato em detrimento às metanogênicas. Em animais ruminantes, a otimização da qualidade da alimentação e inibição das comunidades de metanogênicas no rúmen pelo uso de antibióticos, vacinas e aceptores de elétrons alternativos são estratégias que podem ser utilizadas para redução das emissões de CH4 no rúmen. Óxido nitroso. Similarmente às emissões de CO2 e CH4, as emissões globais de N2O têm origem majoritariamente microbiana. As fontes naturais e antropogênicas de emissões N2O ocorrem predominantemente nos solos, principalmente como resultado de nitrificação e desnitrificação. Para cada tonelada de nitrogênio reativo depositada na superfície da Terra, natural ou deliberadamente, 10–50 kg são emitidos na forma de N2O. A maioria do N2O produzido é resultado de um processo prévio que é a nitrificação, em que alguns gêneros de bactérias oxidam amônia (NH3) a nitrito (NO2-) e de outros gêneros que oxidam o NO2- a nitrato (NO3-). Já a desnitrificação é um processo de várias etapas em que cada etapa é mediada por um grupo específico de microrganismos que possuem as enzimas necessárias para catalisar cada passo em particular. A produção de N2O é resultado de desnitrificação incompleta. Um estudo recente forneceu evidências diretas de um forte vínculo entre comunidades bacterianas desnitrificantes e a taxa das emissões de N2O dos solos. Registro ISBN 93.675 197 Estratégias para diminuir a emissão de N2O incluem a redução da quantidade de fertilizantes aplicado e a aplicação em um momento apropriado (quando a demanda da colheita por nitrogênio é alta e as taxas de perda de lixiviação são baixos), uso de fertilizantes de liberação lenta, além de evitar o uso de formas de nitrogênio mais susceptíveis à perda por desnitrificação ou por lixiviação (como nitrato em solos úmidos). Similarmente, melhor drenagem do solo e melhores práticas de manejo para limitar condições anaeróbicas dos solos (por exemplo, compactação do solo e umidade excessiva) podem reduzir desnitrificação e, portanto, emissões de N2O. Finalmente, para a mitigação dos fluxos de N2O a partir da agricultura, a uso de inibidores de nitrificação em fertilizantes para limitar a produção do nitrato e subsequente perdas por lixiviação ou desnitrificação são estratégias bem estabelecidas. Registro ISBN 93.675 198 CONCEITO DE SAÚDE ÚNICA (“ONE HEALTH”) O termo Saúde Única refere-se à integração indissociável entre a saúde humana, a saúde animal, e o ambiente bem como a adoção de políticas públicas interdisciplinares e integrativas de promoção à saúde. A Saúde Única representa uma visão integrada, que considera a indissociabilidade entre saúde humana, saúde animal e saúde ambiental. O conceito foi proposto por organizações internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Organização Mundial da Saúde Animal/Organização Internacional de Epizootias (OIE) e a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), reconhecendo que existe um vínculo muito estreito entre o ambiente, as doenças em animais e a saúde humana. Histórico Ao longo da história houve uma discussão limitada sobre os fundamentos teóricos de Saúde Única, porém alguns cientistas se destacam como estudiosos que procuraram atrair a atenção para a questão da necessidade de uma melhor integração entre as áreas, como o médico Dr.Rudolf Virchow (1821-1902). Este patologista alemão propôs discussões sobre o conceito de “Medicina Única” (One Medicine) e já afirmava no século XIX que não deveria haver divisórias entre a medicina veterinária e humana, sendo inclusive o responsável pela criação do termo “zoonose”. Com o advento das I e II Guerras Mundiais, o século XX experimentou no pós- guerra uma “Revolução Epidemiológica” que culminou em 1946 com o estabelecimento da seção de saúde veterinária na OMS. Nesse momento foi cunhado o conceito de Saúde Pública Veterinária (OMS,1946): “A saúde pública veterinária compreende todos os esforços da comunidade que influenciam e são influenciados pela arte e ciência médica veterinária aplicados à prevenção da doença, proteção da vida e promoção do bem-estar e eficiência do ser humano”. Uma significativa contribuição ao estudo deste tema foi dada pelo médico veterinário norte-americano Calvin W. Schwabe (1927- 2006), através da sua obra “Medicina Veterinária e Saúde Humana” que reforça a importância da junção entre saúde humana, animal e ambiente. No livro, ele adota a Registro ISBN 93.675 199 expressão “One Medicine”, que mais tarde passa a ser conhecida como “One Health” (Saúde Única), que passa a ser adotado em 2007, como um conceito inovador que compreende a “Interdependência entre as saúdes humana, animal e ambiental”. O guarda-chuva da Saúde Única Uma forma interessante de entendermos o conceito de Saúde Única na sua prática é através da ilustração de um grande “guarda-chuva” no qual vários campos científicos se distribuem dentro dele (Fig 1). Estão presentes as grandes áreas: Biologia, Medicina Humana, Medicina Veterinária, Ecologia, Saúde Pública, Saúde Ambiental e Economia da Saúde. Figura 1. O guarda-chuva “One Health” desenvolvido pelas redes “One Health Sweden” e 'One Health Initiative' para ilustrar o conceito “One Health”. Disponível em: www.onehealthinitiative.com Registro ISBN 93.675 200 A Saúde Única e o Contexto Pandêmico A institucionalização deste conceito por grandes agências internacionais como Organização Mundial da Saúde (OMS) e Organização Internacional de Epizootias (OIE) e Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que possuem objetivos como o controle de doenças; propostas da ocupação dos ecossistemas; redução das mudanças climáticas; e, influenciar o presente/futuro da produção e disponibilidade de alimentos seguros para humanidade, fortalece a bandeira da “Saúde Única” no mundo. Entretanto mais que uma defesa ideológica ou filosófica, à medida que o mundo de hoje se torna cada vez mais conectado, a necessidade da sua aplicabilidade também só aumenta. Nunca estivemos tão interconectados devido à facilidade de deslocamento nacional e internacional, o que favorece a dispersão de agentes causadores de enfermidades de modo rápido e eficaz. Ao longo da redação deste capítulo, o mundo está imerso em um cenário imprevisível e que seria considerado improvável pelos maiores especialistas. A pandemia do COVID-19 (2020) promoveu uma redução drástica nos deslocamentos internacionais, a estagnação dos setores da economia mundial baseada no consumo de bens supérfluos, e aponta para profundas modificações nos hábitos, relacionamentos pessoais e profissionais, processo de ensino-aprendizagem, entre tantos aspectos impactados por este momento ímpar da história contemporânea. Entretanto, fazendo uma análise rápida sobre as grandes pandemias que tem marcado a história da humanidade desde o final da Idade Média até a atualidade - peste negra, tifo epidêmico, cólera, varíola e gripe espanhola - entendemos seu papel catalisador de transformações significativasnos mais diversos campos da sociedade, impulsionando o desenvolvimento científico com o objetivo de combatê-las e garantir a sobrevivência humana. Eixos Temáticos Abordados Dentro do Conceito Saúde Única Alterações Climáticas /Desequilíbrios Ambientais A maioria das doenças emergentes nos últimos 30 ou 40 anos resultou da invasão em áreas selvagens e mudanças na demografia. Outro aspecto importante é o Registro ISBN 93.675 201 impacto das alterações ambientais causadas pelo aquecimento global sobre a disseminação de enfermidades, tanto para humanos, quanto para os animais. Ademais, a poluição do ar (um dos principais contribuintes para a mudança climática) foi considerada pela OMS como o maior risco ambiental para a saúde, onde estima-se que as mudanças climáticas causem 250 mil mortes adicionais. por ano. devido à desnutrição, malária, diarreia e estresse por calor. Estas alterações climáticas estão relacionadas ao aumento da incidência de desastres naturais como inundações, tempestades, enchentes e secas, que provocam mais danos à saúde pública e risco de redução da produção agrícola. As mudanças climáticas também representam impacto na estrutura das comunidades microbianas, acarretamento morte ou favorecimento de determinadas populações microbianas, o que leva a mudança na diversidade e composição microbiana, alteração da atividade metabólica, e redução ou aumento de biomassa. Estas alterações terão efeito negativo ou positivo na fisiologia microbiana e irão afetar os ciclos biogeoquímicos e consequentemente, a emissão de gases de efeito estufa. Globalização/Expansão Populacional À medida que o mundo de hoje se torna cada vez mais conectado, aumenta a necessidade da compreensão e aplicação do conceito de Saúde Única. Nunca estivemos tão interconectados devido à facilidade de deslocamento nacional e internacional, o que favorece a dispersão de enfermidades de modo extremamente eficaz. Por isso não somente para proteger pessoas e animais de diversas doenças, a aplicação de medidas considerando este conceito de saúde única, serve para impedir rupturas econômicas e que podem acompanhar esses surtos de doenças. Paralelo a isso, o crescimento e a expansão populacional para novas áreas geográficas resultam por vezes, em estreitamento do contato próximo entre pessoas e animais domésticos, como também com espécies selvagens que tem seu ambiente invadido. fornecendo mais oportunidades para que doenças, antes restritas aos animais, sejam transmitidas para também os seres humanos. Considerando este crescimento em grande escala, estima-se que a população humana deverá atingir cerca de 9 bilhões em 2050. Registro ISBN 93.675 202 Doenças Emergentes/Reemergentes A interação entre o Homem, os animais e o ambiente na emergência ou reemergência de enfermidades de natureza infecciosa/parasitária é uma das vertentes mais estudadas dentro do conceito de Saúde Única. Inúmeras doenças estão relacionadas ao desequilíbrio nesta interação. A OMS considera que pelo menos 60% das doenças humanas infecciosas é de natureza zoonótica, ou seja, que podem ser naturalmente transmitidas entre humanos e animais e que muitas destas doenças tem origem na interface ecossistema-animal-humano. Além deste aspecto direto na transmissão, as modificações na relação do homem com diferentes nichos ecológicos, gera desequilíbrios que fatalmente podem culminar no aparecimento de doenças. Ademais, as enfermidades em animais da cadeia produtiva provocam perdas de 20% na produção global, ocasionando danos econômicos significativos e consequentemente interferindo em muitas questões sociais. Resistência Antimicrobiana E dados científicos registrados através do relatório do economista britânico Jim O´Neill revelam que a partir de 2050, 10 milhões de pessoas morrerão anualmente no mundo inteiro devido a infecções bacterianas não tratáveis, causadas por bactérias multirresistentes (conhecidas como “superbactérias”). Neste cenário, a rápida interação gênica entre as microbiotas intra e interespecíficas, a mobilidade humana global, a aproximação homem/animal e a complexidade da vida nos ecossistemas, deve ser considerada como agente catalizador de todo este processo. O uso indiscriminado de antimicrobianos tanto nas medicinas humana e veterinária quanto na agricultura, está totalmente associado ao fenômeno da resistência antimicrobiana, e é reconhecido como um problema global emergente, que afeta a saúde humana e animal e impõe encargos sociais, econômicos e prejuízos ambientais. A compreensão da estreita cooperação entre saúde humana, animal e ambiental constrói uma linha de pensamento que considera os efeitos cumulativos nestes três pilares e suas inter-relações em ambientes socioecológicos distintos, bem como as consequências benéficas e maléficas que nos serão apresentadas ao longo do tempo. Registro ISBN 93.675 203 BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA ALVES, S.B. et alii. Controle microbiano de insentos. São Paulo: Editora Manole Ltda, 1986. ANDRADE, C.M. Meios e Soluções Comumente Empregados em Laboratórios. 1ª ed, Editora Universidade Rural, 353 p., 2000. CRUZ, L.C.H. Micotoxinas, Perspectiva Latinoamericana. 1.ª ed, Editora Universidade Rural, 261 p., 1996. DRIGALSKI, W. VON; LOT, F. O homem contra os micróbios. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1959. HIRSH, D. C. & ZEE, Y.C. Microbiologia Veterinária. 1ª ed, Editora Guanabara Koogan S.A., GALLI, F. et alii. Manual de fitopatologia.Vol. I: Princípios e conceitos.2. ed. São Paulo: Ed. Agronômica Ceres Ltda, 1980. 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MANUAL DIFCO - MEDIOS DE CULTIVO DESHIDRATADOS Y REACTIVOS PARA MICROBIOLOGIA. 10. ed. USA: Difco Laboratories. Anual. PROCEDIMENTOS PARA A MANIPULAÇÃO DE MICRORGANISMOS PATOGÊNICOS E/OU RECOMBINANTES NA FIOCRUZ. Comissão Técnica de Biossegurança da Fiocruz. Rio de Janeiro. Registro ISBN 93.675 205 APÊNDICE Partes de Um Microscópio Registro ISBN 93.675 206 Morfologia Bacteriana Tipos morfológicos: Cocos Bacilos Cocos de acordo com o plano de divisão: Diplococos: Tétrades: Sarcina: Estreptococos: Estafilococos: Bacilos: Cocobacilos: Vibrião: Espirilo: Espiroqueta: Registro ISBN 93.675 207 Parede Celular Bactérias Gram Positivas Bactérias Gram Negativas c e ..............................................b d .............................................. a a a = Peptidoglicano; b = Ac. Teicóico; c = Ac. Murâmico; d = Espaço periplásmico e = Proteínas + Lipopolissacarídeos + Fosfolipídeos. Membrana Citoplasmática a b c d b g e b b f a = Fosfolipídeos; b = Proteínas estruturais; c = Permeases; d = Proteínas de ligação; e = Enzimas ligadas à síntese de macro- moléculas; f = Enzimas ligadas ao citoplasma; g = Porina. Registro ISBN 93.675 208 Formação do Esporo Bacteriano = Estrutura de Resistência Bacteriana Bactéria Divisão do DNA Invaginação da Endósporo Membrana Citoplasmática, englobando o DNA, comdesidratação e deposição de camadas de dipicolinato e cálcio. Denominação da localização do esporo bacteriano Central Central Subterminal Clostrídeo Plectrídeos Redondo Oval Morfologia da Colônia Bacteriana As colônias bacterianas são geralmente de aspecto cremoso úmido (colônias lisas) ou, opacas (colônias rugosas). Também podem ser observadas colônias de aspecto cerebriforme, com consistência de cera, etc. As colorações variam sendo que a maioria mantêm-se na cor branca, creme ou amarela; algumas podem apresentar coloração vermelha e outras apresentarem colônias incolores. As formas são bastante variadas tanto na delimitação de sua borda, quanto no seu relevo podendo a colônia ser côncava, convexa, chata, etc. Todas as observações possíveis são importantes pois, estes dados aliados a outros ajudarão na correta classificação de uma bactéria. Registro ISBN 93.675 209 Colônia Lisa Colônia irregular Colônia Chata Registro ISBN 93.675 210 Morfologia dos Fungos H I FA: Lipídeo Mitocôndria, RER, Núcleo... Vacúolos ZONA VACUOLAR ZONA SUB-APICAL ZONA APICAL SENTIDO DO CRESCIMENTO DO FUNGO MICÉLIO: VEGETATIVO ENDOBIÓTICO (a) EPIBIÓTICO (b) REPRODUTIVO (c) Esquema de meio de cultura com colônia de fungo filamentoso Registro ISBN 93.675 211 Colônias de Fungo Filamentoso: Aspecto aveludado, algodonoso e pulverulento. Colônia cerebriforme Colônia algodonosa (fungo filamentoso) e Colônia cremosa (fungo unicelular) Registro ISBN 93.675 212 Visualização de Hifas ao microscópio (400x). Hifas septadas e conídios (Curvularia spp) Hifas septadas, estípede, vesícula, fiálide e conídios (Aspergillus spp) Registro ISBN 93.675 213 Estípede, vesícula, métulas, fiálides e conídios (Aspergillus spp ) Hifas septadas, estípede, ramos, fiálides e conídios (Penicillium spp) Conidióforo, vesícula, métulas, fiálides e conídios (Aspergillus niger) Registro ISBN 93.675 214 Hifa cenocítica, esporangióforo, columela, esporângio. (Mucor spp) Esporodóquio com conídios de Fusarium spp. Ascocarpos: reprodução teleomorfa de fungo filamentoso da classe dos Ascomycetes. Registro ISBN 93.675 215 Sporothrix schenckii, forma filamentosa. Fungo dimórfico. Hifas finas septadas, estípedes e conídios esféricos ou ovóides. Registro ISBN 93.675 216 Hifa sepatada e conídios: a = Fusarium sp; b = Curvularia sp; c = Helminthosporium sp; d = Conídio de Pestalozzia sp; e = Hifa sepatada e conídio de Nigrospora sp; f = Hifa sepatada e conídios de Alternaria sp; g = Clamidoconídios intercalados e terminais; h = Macroconídios de Microsporum canis e Microsporum gypseum; i = macroconídio deTrichophyton sp; j = Artroconídios ectotrix e k = Artroconídios endotrix. Registro ISBN 93.675 217 Aspergillus = Monosseriado: Hifa septada, Estípede, Vesícula, Fiálides e Conídios; Bisseriado: Hifa septada, Estípede, Vesícula, Métulas, Fiálides e Conídios; Penicillium= Hifa septada, Estípede, Ramos, Métulas, Fiálides e Conídios; Registro ISBN 93.675 218 a = Rizóide, Esporangióforos, Esporângios, Esporangiosporos (Rhizopus sp); b = Hifa cenocítica, Esporangióforos, Columelas redondas, Esporângios, Esporangiosporos, (Mucor sp); c = Hifa cenocítica, Esporangióforos, Columelas em cálices, Esporângios, Esporangiosporos, (Abisidia sp); d = Ascocarpo tipo Cleistotécio; e = Ascocarpo tipo Peritécio; f = Ascocarpo tipo Apotécio. Registro ISBN 93.675 219 a = Leveduras capsuladas (Cryptococcus sp); b = Leveduras com brotamentos múltiplos (Paracoccidioides brasiliensis); c = Pseudohifa; d = Blastoconídios; e = Clamidoconídios; Estrutura de uma levedura em aumento de 42.000x: f = Membrana citoplasmática; g = Parede celular; h = Grânulos; i = Ribossomos; j = Mitocôndria; k = Núcleo. Registro ISBN 93.675 220 Reprodução nos Fungos Normalmente os fungos reproduzem-se por duas formas: anamorfa e teleomorfa. A reprodução anamorfa ocorre geralmente em meios de cultura ricos em nutrientes e, o teleomorfo em meios de cultura probres em nutrientes. A maioria das estruturas observadas no desenvolvimento das colônias dos fungos nos meios de cultura são produtos da reprodução anamorfa; as unidades formadoras de colônias neste ciclo são chamados de conídios e, em muitos casos são importante para se chegar ao gênero ou espécie de fungos, bem como o conjunto de estruturas que o geraram. Os elementos produzidos nos ciclos teleomorfos são usados para se chegar as classes dos fungos. As unidades geradoras de colônias recebem neste ciclo denominação de esporos. De acordo com a seqüência de estruturas produzidas, comparando-se com os esquemas das diversas classes de fungo, chega-se a classificação. Ciclo anamorfo em fungos unicelulares (leveduras) Brotamento ou gemulação Fissão Registro ISBN 93.675 221 Registro ISBN 93.675 222 Registro ISBN 93.675 223 Testes bioquímicos para identificação de gêneros e espécies de microrganismos 01 – Redução e assimilação de Nitrato: ? Nitrato Nitrito Hidroxilamina Amônia NO3 NO2 NH2OH NH3 A: Produção de Nitrito Inocular o microrganismo em caldo nitratado; aguardar tempo normal de crescimento. Leitura: Lâmina + 1 gota do CN + 1 gota de Griess-Ilosway A + 1 gota de Griess- Ilosway B Positivo = Cor de Rosa a Vermelho Negativo = Incolor B: Determinação de Amônia Leitura: Lâmina + gota do CN + 1 gota de Nessler Positivo = Amarelo a marrom. Negativo = Incolor C: Determinação do Nitrato Leitura: a) Lâmina + 1 gota de CN + 1 gota de Ac. Sulfúrico + cristais de Difenilamina Positivo = Azul Negativo= Incolor b) Lâmina + 1 gota de CN + 1 gota de Griess Ilosway A + 1 gota Griess-Ilosway B +Pó de zinco. Positivo = Rosa a Vermelho Negativo = Incolor Registro ISBN 93.675 224 Para a interpretação do resultado com Caldo Nitratado, primeiro se faz o teste para ver se houve redução de NO3 para NO2 e depois de NO2 para NH3 . O microrganismo sempre irá assimilar o “N” na forma mais reduzida. Então no exemplo onde um microrganismo