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1 
 
CRIANÇAS E ADOLESCENTES COM TRAUMAS: CASOS 
CLÍNICOS 
 
 
 
2 
 
 
 
NOSSA HISTÓRIA 
 
 
A nossa história inicia com a realização do sonho de um grupo de empre-
sários, em atender à crescente demanda de alunos para cursos de Graduação 
e Pós-Graduação. Com isso foi criado a nossa instituição, como entidade ofere-
cendo serviços educacionais em nível superior. 
A instituição tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de 
conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a partici-
pação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação 
contínua. Além de promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos 
e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber atra-
vés do ensino, de publicação ou outras normas de comunicação. 
A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma 
confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base 
profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições 
modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, 
excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
3 
 
 
 
Sumário 
 
1. INTRODUÇÃO ................................................................................... 4 
2. TRANSTORNO DE ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO ....................... 9 
3. TEPT EM CRIANÇAS E ADOLESCENTES ..................................... 16 
4. COMORBIDADES ENTRE TEPT E OUTROS DIAGNÓSTICOS NA 
INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA ........................................................ 26 
5. FATORES PREDITORES DE TEPT EM CRIANÇAS E 
ADOLESCENTES ............................................................................ 29 
6. TIPOS DE EVENTOS TRAUMÁTICOS ............................................ 34 
7. VIOLÊNCIAS NA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA ............................ 36 
8. TRAUMAS EMOCIONAIS EM CRIANÇAS ...................................... 47 
8.1 Efeitos orgânicos e psíquicos do trauma ............................... 50 
8.2 O peso das vivências ............................................................ 52 
9. TRAUMA: 5 DICAS PARA SUPERAR SITUAÇÕES 
TRAUMÁTICAS ................................................................................ 54 
10. REFERÊNCIAS ............................................................................... 58 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
4 
 
 
1. INTRODUÇÃO 
 
Crianças e adolescentes vivem um período intenso de crescimento, desen-
volvimento emocional e cognitivo e maturação cerebral e corporal, num processo 
dinâmico e complexo de mudanças que são interdependentes e associadas. 
Sempre precisam de condições favoráveis nutricionais, ambientais e contextuais 
para realizar essa transição de maneira saudável até a vida adulta e para a plena 
integração social. Todas essas transformações da infância e da adolescência 
podem ser influenciadas de maneira positiva para o completo alcance das po-
tencialidades vitais, ou de maneira negativa, com distorçoes ocasionadas por 
situaçoes de riscos e traumas, que podem interromper essa trajetória e repercutir 
para o resto de suas vidas. 
 A associaçao de múltiplas situações de risco e traumas constantes que 
ameaçam a integridade corporal e emocional pode contribuir para a frag-
mentação da sequência das etapas de desenvolvimento e de aquisição das ha-
bilidades necessárias ao aprendizado e ao desempenho dos papéis sociais. A 
cada dia, e progressivamente, as causas e os efeitos traumáticos, quando não 
interrompidos ou resolvidos, contribuem para a marginalizaçao escolar e a ex-
clusão social, para mais discriminação e iniquidades e principalmente para out-
ros episódios de violência e abusos com sintomas pós-traumáticos e problemas 
mentais. Ou, ainda mais grave, ocasionam desfechos trágicos, como desastres 
ou conflitos armados entre facçoes rivais e polícia, com balas perdidas e morte 
precoce. 
A taxa de mortalidade por causas externas, na faixa etária de 10 a 19 anos 
de idade, para todo o Brasil, no ano de 2002, foi de 47,6 por 100 mil habitantes, 
com marcante diferença entre os gêneros masculino (79,8/100 mil) e feminino 
(14,9/100 mil habitantes). Para o estado do Rio de Janeiro, essa taxa de morta-
lidade aumenta para 80,4, enquanto para a região Sudeste, que compreende 
ainda os estados de São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo, é de 59,9/100 mil 
habitantes (IBGE,2002). A proteção de crianças e adolescentes contra qualquer 
 
 
 
5 
forma de abuso, abandono, exploração e violência está assegurada pela Con-
venção dos Direitos da Criança da Organização das Nações Unidas e confir-
mada pelo Brasil, país signatário desse documento. Também é uma das cinco 
metas do compromisso firmado em 2002 (Um Mundo para Crianças) que desde 
então tenta ser implementado neste país, apesar das flutuações políticas gov-
ernamentais e da constante falta de recursos públicos disponíveis para as áreas 
de saúde e de educação. 
Desde 1990 existe ainda o Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei 8.069, 
que assegura os direitos de cidadania e de saúde como prioritários para todas 
as crianças e adolescentes até os 18 anos de idade. Pelo menos no papel as 
leis existem e devem ser cumpridas num estado de direito e num país de regime 
democrático. No entanto a desigualdade social, o desemprego, os ciclos intera-
tuantes da pobreza e da violência, o tráfico de drogas e a falta de suporte social 
nas escolas são alguns dos fatores que mais contribuem para os episódios con-
stantes de maustratos, abandono e de situações traumáticas nos bolsoes de mi-
séria urbana e nas ruelas de mais de 200 favelas do Rio de Janeiro. 
As vivências traumáticas são marcantes e têm consequências devastado-
ras para o crescimento e o desenvolvimento emocional de crianças e adolescen-
tes, além do enorme custo social e do impacto na saúde pública do Brasil. Muitos 
dos indicadores sociais e de agravos de saúde nem são divulgados, por motivos 
políticos locais ou governamentais, ou mesmo por não serem documentados ou 
coletados. A mídia impressa, mais populista, se encarrega de noticiar muitos dos 
casos que ocorrem diariamente nos grandes centros urbanos do Brasil, como 
acontece no Rio de Janeiro, na maioria das favelas, em constantes conflitos ar-
mados com a polícia local. 
Os problemas traumáticos, que variam da desnutrição crônica primária a 
infecções e hospitalizações frequentes por doenças comuns dessas faixas 
etárias, e ainda a lesões corporais, abusos sexuais e casos de negligência e do 
abandono familiar, vão tendo um efeito cumulativo, crônico e progressivo e cau-
sando atrasos no desenvolvimento cerebral e cognitivo, transtornos de aprendi-
zado e alfabetização, repetências e exclusão escolar, além do aumento de prob-
lemas mentais como depressão, surtos dissociativos, convulsões, abusos de 
 
 
 
6 
drogas e álcool e transtornos de conduta. Atualmente, o transtorno do estresse 
pós-traumático, classificado como critério diagnóstico pela décima edição da 
Classificação Internacional de Doenças (CID-10), da Organizaçao Mundial da 
Saúde (OMS), e o transtorno depressivo, critério diagnóstico, representam per-
centuais significativos entre os transtornos mentais da infância e da adolescência 
em nosso país. 
O estresse pode ser definido como um conflito grave ou uma ameaça à 
liberdade ou à integridade física, mental, sexual ou social, e é vivenciado quando 
a pessoa perde uma ou mais fontes importantes de valores afetivos humanos, 
como a mãe, o pai ou familiar, ou possessões como a casa, residência ou local 
onde vive, ou outras conexões de afeto e amor que são valiosas e importantes. 
Os fatores de estresse, aos quais é difícil se adaptar, são sempre indesejáveis, 
incontroláveis e súbitos, resultando em reações severas, intensas e negativas 
do comportamentohabitual, que sofre influências do eixo do sistema nervoso 
central (SNC) hipotálamo-hipófise-adrenal, com a liberação de vários hormônios 
e neurotransmissores que vão ativar os mecanismos de adaptação corporal para 
a sobrevivência. Daí os fatores de risco maiores e que causam os danos à saúde, 
com repercussoes imediatas e a longo prazo no comportamento e na qualidade 
de vida das pessoas que viveram esses traumas durante a infância e a ado-
lescência. 
 
 Fatores traumáticos extremos podem ser definidos como os que causam 
danos, injúrias ou lesões corporais e rupturas mentais, ou que ameaçam a pró-
pria vida ou a vida de outras pessoas, levando a morte inesperada. Estão tam-
bém associados às sensaçoes de perda, falta de segurança, maior vulnerabi-
lidade e ao terror noturno. As causas mais frequentes enfrentadas por crianças 
e adolescentes que vivem nas favelas sao a morte ou o testemunho de assassi-
natos ou agressões de entes queridos, separação familiar, castigos, torturas, 
abusos, doença mental ou alcoolismo familiar e violências entre os grupos arma-
dos do tráfico de drogas local. 
Eventos traumáticos constantes e prolongados afetam toda a dinâmica fa-
miliar e comunitária, causando um impacto maior nos mecanismos de adaptação 
e sobrevivência. Mulheres, crianças e adolescentes são sempre um grupo de 
 
 
 
7 
maior risco, por serem mais vulneráveis e dependentes, além de sofrerem por 
vezes em silêncio, sendo obrigados ao isolamento social com absurdas im-
posiçoes culturais e estruturais em relaçao ao gênero e ao grupo etário. Muitas 
vezes adolescentes deixam de ir à escola por tiroteios e disputas locais. Ou 
sao ameaçados e marcados de morte ou têm seus dedos amputados devido a 
castigos que sao impostos pelos donos do poder, que assim fortalecem sua au-
toridade. 
Há circunstâncias de vida que são consideradas adversas ao desenvolvi-
mento infanto-juvenil, como a vitimização provocada por guerras, graves de-
sastres ou catástrofes naturais. Outros acontecimentos igualmente difíceis, que 
fazem parte do cotidiano de milhares de crianças e adolescentes, são: abusos 
físico, psicológico e sexual; negligência; doenças e mortes na família; conflitos e 
a separação dos pais; perda dos cuidadores ou pessoas significativas; sepa-
rações prolongadas da mãe/cuidador; hospitalização da criança ou adolescente; 
ausência do pai; e convivência com pobreza . Dentre estes, o abuso sexual é um 
dos fatos associados a diversos prejuízos e transtornos psiquiátricos. Em espe-
cial, para os adolescentes, acrescentam-se as transformações próprias da pu-
berdade; dificuldades no relacionamento íntimo e familiar; ser vítima das mais 
variadas formas de violências, incluindo violência urbana e tráfico de drogas 
 
As reaçoes pós-traumáticas sao manifestas em diferentes formas e reaçoes que 
variam de acordo com a faixa etária e a fase do desenvolvimento físico, afetivo, 
cognitivo e mental em que se encontra a criança ou o adolescente. As reaçoes 
encontradas com maior freqüência podem ser divididas em quatro grupos: 
 
1. Reações corporais - baixa estatura, atraso do crescimento e do desenvolvi-
mento puberal, inapetência, insônia e dificuldades de dormir devido a pesadelos, 
cefaléias, convulsões e tremores, hiperatividade, problemas gastrointestinais, 
problemas imunológicos e reaçoes alérgicas, problemas de fala e de audição; 
 
2. Reações emocionais - choque com amnésia, medo intenso, dissociações 
 
 
 
8 
afetivas e da realidade, raiva e irritabilidade, culpa, reações de ansiedade, re-
gressões, desespero, apatia, choros frequentes, reações depressivas e terror 
noturno com enurese; 
3. Reações cognitivas - dificuldades de concentraçao, perdas de memória e con-
fusão mental, distorções da realidade e imaginárias (flashbacks), pensamentos 
intrusivos e suicidas, perda da auto-estima, dislexia e problemas de escrita; 
 
4. Reações psicossociais - alienação, passividade, agressividade, isolamento e 
solidão, dificuldades no relacionamento afetivo, abuso de drogas, perdas de ha-
bilidades vocacionais e de interesse comum em atividades escolares. 
 
 O trauma constante destrói o senso da segurança pessoal e a confiança no 
relacionamento com outras pessoas adultas ou familiares, além de contribuir 
para a falta de conexões afetivas e das expectativas para o futuro. Ocorrem rup-
turas e interrupções na progressão das fases de crescimento e desenvolvimento, 
causando um profundo impacto nos mecanismos de adaptação e sobrevivência. 
Crianças e adolescentes que sofreram abusos ou abandono e ficaram trauma-
tizadas podem reagir com condutas de defesa e se tornar mais agressivos, com 
problemas de comportamento, por dificuldades em controlar seus impulsos e 
emoções, o que leva a outras situações anti-sociais ou criminosas, abusos de 
drogas e auto-agressões com mutilações corporais. 
As principais estratégias de prevenção e intervenção envolvem não 
somente a interrupção dos maus-tratos que causam as reações traumáticas, 
mas também o desenvolvimento de uma relação de confiança positiva, saudável 
e que transmita proteção e segurança, devolvendo a autoestima e desen-
volvendo as habilidades (cognitivas, esportivas, culturais e de lazer) e as poten-
cialidades essenciais para o futuro. É importante também a existência de um 
local que sirva de abrigo, apoio comunitário e referência em situações críticas, 
dando orientação sobre cuidados primários e suporte educacional. A expansão 
dos programas de prevençao com materiais educativos e informativos ade-
quados deve fazer parte dos instrumentos de apoio familiar e comunitário e ser 
multiplicada em programas e outros serviços, formando uma rede de proteção 
local mais duradoura e respeitada. Dados e indicadores sociais, de saúde e de 
 
 
 
9 
recuperação educacional devem ser avaliados semestralmente, visando uma 
melhoria dos programas que atendem crianças e adolescentes nos aspectos de 
saúde e assistenciais brasileiros. 
 
2. TRANSTORNO DE ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO 
 
O Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) se caracteriza pela 
presença de sintomas característicos após a exposição a um evento traumático 
do qual a pessoa foi vítima, testemunha ou confrontada, causando-lhe medo in-
tenso, impotência ou terror. Esta definição encontrada no Manual Diagnóstico e 
Estatístico dos Transtornos Mentais - DSM-IV-TR7 , importante referencial para 
a clínica psiquiátrica, detalha que o evento traumático pode envolver morte, fer-
imentos, agressões ou ameaças à integridade física de uma pessoa ou de outros 
indivíduos. O estressor é considerado como ameaçador à vida. 
A descrição exata dos critérios diagnósticos de TEPT pode ser observada 
no quadro. Três grandes critérios são necessários para o diagnóstico de TEPT 
segundo a DSM-IVTR: revivência do evento traumático, que pode ocorrer em 
uma ou mais das seguintes maneiras: lembranças aflitivas, intrusivas e recor-
rentes do evento; sonhos com o evento; espécies de alucinações, ilusões, 
episódios de flashback em que a pessoa age ou sente como se o episódio es-
 
 
 
10 
tivesse ocorrendo novamente. Pode haver reatividade fisiológica e/ ou sofri-
mento psicológico intenso quando exposto a indícios externos ou internos que 
lembrem o evento; esquiva persistente de estímulos associados ao evento e en-
torpecimento da responsividade geral, apresentando três ou mais das seguintes 
características: 
 Esforços para evitar pensamentos, sentimentos e conversas associadas ao 
evento; 
 Esforços no sentido de evitar locais, pessoas, ações e tudo que lembre o 
evento; 
 Incapacidade de lembrar algum aspecto importante do trauma; 
 Pouco interesse em participar de atividades consideradas por ele próprio 
significativas antes da ocorrência do trauma; 
 Sensação de afastamento em relação a outras pessoas; 
 Faixa de afeto restrita; 
 e sentimentos de futuroabreviado, que se caracteriza por não ter esperan-
ças de construir um futuro como casar, ter filhos, ou algo que antes ele 
planejava fazer em sua vida; 
 Sintomas persistentes de excitabilidade aumentada, indicados por duas ou 
mais das seguintes características: hipervigilância; dificuldade de manter o 
sono; 
 Surtos de raiva e irritabilidade; 
 Dificuldades de manter a concentração. 
Para caracterizar a existência do Transtorno de estresse pós-traumático, 
estes sintomas devem causar sofrimento e prejuízo significativo em áreas im-
portantes da vida da pessoa e estar acontecendo há mais de um mês. 
 
 
 
 
 
 
11 
Critérios diagnósticos para TEPT: DSM-IV-TRT 
 
 
 
 
12 
 
Dados sobre a epidemiologia do TEPT mostram prevalência durante a vida 
de aproximadamente 8% da população adulta dos EUA. Não há informação para 
a população em geral de outros países. Estudos em indivíduos em situação de 
risco produzem achados variáveis, com as taxas mais altas (entre um terço e 
mais da metade daqueles expostos) encontradas em sobreviventes de estupro, 
combatentes militares e cativeiro, e confinamento ou genocídio com motivações 
políticas ou étnicas. O TEPT pode ocorrer em qualquer idade, inclusive na infân-
cia. Os sintomas de TEPT costumam iniciar ao longo dos três primeiros meses 
após o trauma, embora possa haver um lapso de meses ou mesmo anos antes 
do seu aparecimento. 
Estudos apontam maior risco para o TEPT entre pessoas do sexo feminino, 
porém mais estudos são necessários para se entender a relação entre o TEPT 
e o sexo de crianças e adolescentes. Existem evidências de que apenas o evento 
traumático não é suficiente para desencadear TEPT. Muitos fatores de vulnera-
bilidade são importantes e devem ser levados em conta para o desencadea-
mento deste transtorno, como: fatores de risco genético, histórico familiar, ex-
periências da infância, natureza da relação existente entre os pais, tipo de per-
sonalidade, história prévia de traumas e de transtornos comportamentais/emo-
cionais, suporte social (pré e pós-trauma), outros eventos de vida existentes à 
época do trauma e exposição a estressores subseqüentes que reativem os 
sintomas. 
O histórico de depressão entre parentes em primeiro grau também indica 
maior vulnerabilidade para o surgimento do TEPT. Outro preditor da gravidade 
do TEPT refere-se às reações peritraumáticas, que englobam a dissociação, a 
imobilidade tônica e reações de pânico. Alguns autores discutem que os efeitos 
imediatos das reações peritraumáticas podem ser positivos, pois podem proteger 
as pessoas de estados emocionais intensos no momento do trauma, porém, a 
longo prazo, vivenciar tais reações está associado a maior risco de desenvolver 
psicopatologia em geral e em especial, o TEPT. Foi percebido que, também em 
crianças, a dissociação peritraumática é preditor importante para os sintomas de 
TEPT, a partir dos resultados de um estudo desenvolvido com crianças de 8 a 
15 anos que sofreram acidentes de trânsito, na França. 
 
 
 
13 
A dissociação peritraumática refere-se à incapacidade de “integrar na con-
sciência a totalidade daquilo que está a acontecer, isto é, os elementos do ac-
ontecimento podem não ser integrados na memória e na identidade pessoal”. 
Alguns exemplos de dissociação peritraumática: sentido alterado de tempo; sen-
tir-se em “piloto automático”; sensação de estar em “câmera lenta”; sentir-se 
como um espectador do evento; desrealização; despersonalização; e imagem 
corporal alterada. Uma metanálise com 59 estudos demonstrou uma relação sig-
nificativa positiva entre dissociação peritraumática e o transtorno de estresse 
pós-traumático. Isto significa que pessoas que experienciaram dissociação du-
rante o evento ou pouco após o evento tiveram maior probabilidade de apresen-
tar este transtorno posteriormente em suas vidas. 
A imobilidade tônica peritraumática refere-se a sensações de imobilidade 
voluntária, congelamento, paralisia e analgesia que ocorrem quando a pessoa 
está diante da situação traumática. Um estudo avaliou a associação entre as 
reações peritraumáticas e o tratamento farmacológico do TEPT e encontrou que 
estas reações eram mais frequentes entre aqueles com resposta ruim ao trata-
mento. Dentre as reações peritraumáticas, a imobilidade tônica foi considerada 
o mais importante preditor de um resultado ruim a este tipo de tratamento. As 
reações de pânico peritraumáticas referem-se a ataques de pânico que ocorrem 
próximos temporalmente a situações traumáticas. Em estudo realizado com 
adultos nova-iorquinos, após os ataques terroristas de setembro de 2001, foi ob-
servado associação entre a procura por serviços de saúde mental e as reações 
de pânico peritraumáticas. 
Algumas características também foram importantes na busca destes 
serviços como ser mais jovem, sofrer ataques de pânico peritraumáticos, 
apresentar TEPT e depressão. Perry et al apontam uma série de comportamen-
tos dissociativos em crianças. Elas relatam estar “em um lugar diferente”, uma 
sensação de estar em um filme ou apenas flutuando. Segundo os autores, quem 
observa estas crianças diria que ela esta agindo roboticamente, sem reagir a 
estímulos, agindo como se não estivesse lá e olhando para o espaço com um 
olhar vidrado. Os autores discutem que quando mais desamparado o indivíduo 
se sente, mais ele utiliza respostas dissociativas ao evento ameaçador. E que 
as pessoas do sexo feminino utilizam mais este tipo de respostas que as do sexo 
 
 
 
14 
masculino. E que esse comportamento dissociativo diante da ameaça pode ter 
sido adaptativo para crianças e mulheres ao longo da história humana. Os auto-
res relatam que diante de guerras entre grupos/tribos/clãs, os vencedores cos-
tumavam matar os homens e tomar crianças e mulheres. Algumas linhas de pen-
samento tentam compreender a etiologia do TEPT, cada uma delas contribuindo 
parcialmente para o entendimento das causas do transtorno. Apresentam-se al-
gumas delas a seguir. 
O modelo explicativo ancorado na psicanálise se baseia no fato de que a 
experiência originada pelo trauma psíquico rompe os mecanismos de defesa do 
ego e mobiliza uma série de defesas psicológicas como repetição compulsiva, 
negação, dissociação, projeção e identificação com o agressor. Os teóricos 
voltados para a aprendizagem social consideram que os sinais cognitivos, 
afetivos, fisiológicos e ambientais que acompanham um evento traumático pas-
sam a ser estímulos condicionados que desencadeiam respostas condicionadas 
sob a forma de sintomas de TEPT. Ehlers e Clark discutem que o TEPT leva a 
um senso de ameaça recorrente devido às diferenças de interpretações sobre o 
trauma e suas seqüelas, e às diferenças na natureza da memória sobre o evento. 
Segundo os autores, os indivíduos com TEPT não conseguem perceber o evento 
traumático como algo que passou e o interpretam como ameaça presente. 
As interpretações sobre o evento traumático podem ser variadas, podendo 
ser relacionadas a um exagero na probabilidade do evento ocorrer novamente; 
considerar-se como alguém que atrai desastres; e considerar que algo que sen-
tiu ou como se comportou teve influência na ocorrência do evento traumático. 
Estas interpretações podem reforçar os sintomas do TEPT e de certos estados 
emocionais como medo, raiva, vergonha e tristeza. Quanto à questão da na-
tureza da memória do evento traumático, a invocação de lembranças de forma 
intencional é fragmentada, pois o indivíduo pode apresentar dificuldades de lem-
brar os eventos na ordenação correta ou pode se esquecer de detalhes ou partes 
do evento. Além disso, o indivíduo pode ser invadido por lembranças de partes 
do evento, onde ele sente como se o evento estivesse ocorrendo novamente, 
incluindo reações físicas, motoras e emoções experienciadas no momento do 
evento. 
 
 
 
15 
Os autores consideram que esta dificuldade de se lembrarde certas partes 
do evento e esta experiência involuntária de lembranças sobre o mesmo esteja 
relacionada à maneira como o trauma é registrado na memória. As memórias 
traumáticas são processadas/elaboradas de maneira errônea, não se integrando 
adequadamente ao contexto de tempo e lugar das memórias autobiográficas. 
Estudos recentes sobre neurobiologia da resposta ao estresse têm contribuído 
para entender as transformações ocorridas nas pessoas que sofrem traumas 
psicológicos. severos. A maioria destes estudos foi desenvolvida com adultos. 
Estão envolvidos na resposta ao estresse: amígdala e outras regiões do sistema 
límbico, bem como alguns sistemas neuro-químicos: noradrenérgico, seroto-
ninérgico, glutamérgico, gabaérgico, dopaminérgico, opióide, adrenal-pituitário-
hipotalâmico, tireóide-pituitáriohipotalâmico, hormônio do crescimento-pituitário-
hipotalâmico e sistema gonadalpituitário-hipotalâmico. 
Alterações neuro-endócrinas se dariam em conseqüência ao estresse pela 
elevação dos fatores de liberação da corticotrofina (CRF) e pelos baixos níveis 
de cortisol, fruto da hipersensibilidade do eixo adrenal-pituitário-hipotalâmico. 
Dentre os neurotransmissores destacam-se: 
a) noradrenalina: função aumentada pelo estresse, responsável pelos 
ataques de pânico, insônia, sobressaltos exagerados e hipervigilância; 
b) serotonina: mediador de certos comportamentos de evitação; 
c) dopamina: o estresse agudo libera a substância no córtex pré-frontal, facil-
itando ataques de pânico, hipervigilância, sobressaltos exagerados e an-
siedade generalizada; 
d) glutamato e GABA: relacionados ao encadeamento da memória, afetada 
em casos de TEPT. 
Também a neuroanatomia cerebral tem sido implicada na ocorrência de 
TEPT. Várias regiões cerebrais estão implicadas: amígdala, hipocampo, giro cin-
gulado anterior, área de Broca e córtex visual. Crianças e adolescentes maltrat-
ados com TEPT demonstraram menor volume cerebral e intracraniano que con-
troles. Entretanto, não se observou redução de hipocampo, como observado em 
adultos com TEPT. O volume cerebral vem demonstrando estar correlacionado 
 
 
 
16 
robusta e positivamente à idade de aparecimento de TEPT, e negativamente 
com a duração do abuso. 
Fatores genéticos são considerados relevantes na etiologia do TEPT. Ye-
huda et al. (apud Silva) sugerem que estresses podem induzir mudanças na ex-
pressão do gene, sendo possível fator de efeito intergeracional do TEPT, intro-
duzindo uma base genética para as diferenças individuais de reatividade ao es-
tresse. Todavia, muitos fatores complexificam esta relação, dentre eles, a ele-
vada freqüência de comorbidades (tema discutido mais adiante), os diferentes 
tipos de exposição ambiental, a heterogeneidade dos genes e as diferenças 
metodológicas apresentadas pelos estudos sobre o tema, dificultando análises 
mais rigorosas. 
3. TEPT EM CRIANÇAS E ADOLESCENTES 
 
Os critérios do DSM-IV não são suficientemente sensíveis ao TEPT em cri-
anças, especialmente, no que se refere às mais jovens. Eth, reconhecendo a 
precariedade de conhecimentos que ainda hoje persiste na área, realizou um 
esforço de recuperar historicamente o desenvolvimento do transtorno na infância 
e juventude, que serve de base para a presente discussão. O estudo do TEPT 
foi inicialmente reconhecido como um problema de saúde que acometia adultos. 
Apenas posteriormente, as crianças e adolescentes foram também reconhecidos 
como possíveis vítimas. Desde então, busca-se entender as diferenças (e as 
similaridades) observadas nestes diferentes ciclos de vida, especialmente 
 
 
 
17 
devido à distinta forma como crianças processam os estímulos em função de 
seu estágio desenvolvimental e grau de desenvolvimento cerebral, bem como 
pela relevância fundamental dos fatores familiares, bem como genéticos e am-
bientais. 
Com a Segunda Guerra Mundial, o Holocausto e a bomba sobre Hiroshima, 
começaram a ser estudadas as sequelas psiquiátricas de trauma psíquico sobre 
a população. Alguns relatos sobre os efeitos desses traumas em crianças deslo-
cadas pela guerra, órfãs, feridas ou encarceradas começaram a surgir na litera-
tura especializada. Mas, a ampla faixa etária e a diversidade de problemas, ali-
adas às várias orientações metodológicas dos trabalhos falharam em criar um 
quadro clínico consistente. Além disso, a informação coletada era secundária 
(pais ou outros adultos), que poderiam ter negado a gravidade do sofrimento 
emocional da criança. Neste sentido, Anna Freud não encontrou “sinais de 
choque traumático” em crianças nas enfermarias nos locais em guerra. Em 1953, 
foi realizada a primeira investigação rigorosa de trauma na infância, após um 
tornado que atingiu a cidade de Vicksburg, no Mississipi/EUA. 
Uma semana após o desastre, dois psiquiatras infantis entrevistaram cri-
anças, pais e membros da comunidade e aplicaram questionários. Encontraram 
associação significativa entre distúrbios severos e terem estado na zona de im-
pacto do tornado, constatando o surgimento de “jogos de tornado” na brincadeira 
de algumas crianças. Em 1972, outro psiquiatra infantil encontrou observações 
clínicas de medos em crianças que estavam em escola no Reino Unido envolvida 
por avalanche. Neste mesmo ano, após enchente em uma cidade norte-ameri-
cana, outro pesquisador avaliou psiquiatricamente 224 crianças, constatando 
vulnerabilidades nas crianças abaixo de 12 anos após o trauma; um seguimento 
dessas crianças após 17 anos da ocorrência do desastre, quando já eram 
adultas, mostrou TEPT em 7% no grupo que não tinha sintomas logo após a 
enchente; e 32% entre os que desde aquela época já possuíam TEPT. 
Em 1976, 26 crianças foram seqüestradas e mantidas presas em um carro 
por 16 horas, em cidade norte-americana. Comparando este grupo de crianças 
com um grupo controle da mesma cidade e idade, verificou-se que as crianças 
traumatizadas exibiam uma constelação única de sinais e sintomas. Apesar 
 
 
 
18 
desse relato histórico, o Transtorno de estresse pós-traumático só foi reconhe-
cido como um problema que acomete seres humanos em 1980, com a publi-
cação da DSM-III (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders III): 
Exceto, é claro, que ela existia. Diferente da Aids, TEPT é uma aflição 
que flagela a humanidade desde que nossos ancestrais pré-históricos 
eram atacados por animais predadores, devastados por desastres nat-
urais e se engajavam em guerras tribais. Muitos autores têm se delici-
ado em encontrar descrições literárias características de TEPT em 
vários trabalhos de ficção e não-ficção (p.xvii) 
 
A introdução de TEPT no DSM-III, em 1980, nomeou essa nova desordem 
psiquiátrica. Dois grupos políticos foram fundamentais para o surgimento do 
TEPT no cenário da clínica psiquiátrica: veteranos da segunda guerra mundial e 
movimento de mulheres vítimas de estupro. Inicialmente, a DSM-III definiu 
apenas três grupos de sintomas: revivência do trauma (como recordações intru-
sivas e pesadelos com o evento); baixa responsividade ou reduzido envolvi-
mento com o mundo externo (desinteresse e afeto restrito); e excitabilidade au-
mentada (hiper-reatividade e distúrbios do sono). 
A DSMIII não continha nenhuma referência explícita sobre o TEPT em cri-
anças. Um relevante marco para o estudo do TEPT na infância e adolescência 
foi o lançamento do livro Post-Traumatic Stress Disorder in Children. Boa parte 
dos nove capítulos deste livro, foi apresentada no Simpósio realizado em 1984, 
no encontro anual da Associação Psiquiátrica Americana em Los Angeles, 
Califórnia. Este livro ajudou a fundamentar o tema do impacto psicológico dos 
eventos traumáticos nas vidas das crianças, abordando TEPT em vítimas de 
conflitos armados, jovens infratores, em vítimas de câncer e de abuso físico e 
sexual. Um estudo inédito sobre o tema foi relatado nesta época por Pynoos et 
al. que identificou sintomasdo TEPT em crianças de escola norte-americana que 
tinha sofrido um ataque de um atirador, disparando contra crianças no play-
ground e resultando em duas mortes e treze feridos. 
As crianças com sintomas moderados a severos de TEPT estavam mais 
diretamente expostas ao tiroteio, apresentando reexperienciação do evento e 
dificuldade de responder aos estímulos externos. Outros fatores identificados 
neste grupo foram: aumento de sentimentos de medo e ansiedade após o 
 
 
 
19 
evento; e dificuldade de concentração na escola e distúrbios do sono. Deste 
modo, a avaliação das crianças identificou sintomas do TEPT agudo nas mes-
mas. Apenas em 1987, a DSM-III incluiu dois exemplos específicos sobre cri-
anças entre os critérios diagnósticos de TEPT: os sintomas de revivência do 
trauma que podem ser satisfeitos em crianças pequenas se elas apresentarem 
jogos repetitivos, nos quais temas ou aspectos dos traumas estão expressos; e 
a baixa responsividade e o interesse marcadamente diminuído em atividades 
que pode ser compreendido em crianças, se houver perda de habilidades desen-
volvimentais anteriormente adquiridas. 
Em 1994, foi lançada a DSM-IV, com revisões dos critérios de estresse para 
os eventos traumáticos que estão fora do âmbito da experiência humana habitual 
e devem ser marcadamente aflitivos por envolverem morte real ou ameaçada, 
ou ainda uma grave lesão desenvolvendo medo intenso, desesperança ou hor-
ror. Novos adendos sobre crianças foram introduzidos: o trauma pode se mani-
festar por comportamento desorganizado ou agitado; a revivência dos sintomas 
pode se dar na forma de sonhos ameaçadores, sem conteúdo reconhecido (ter-
ror noturno), ou através de sintomas de agir ou sentir como se o evento estivesse 
acontecendo novamente. As manifestações de TEPT em crianças mais novas 
têm peculiaridades que tornam o diagnóstico ainda mais difícil do que o realizado 
em outras fases da vida. 
Este aspecto polimorfo da clínica do TEPT na infância e adolescência, com 
critérios não muito rígidos como os do DSM-IV, vem sendo ressaltado por vários 
autores. Crianças informam pouco sobre alguns sintomas da DSM-IV para 
TEPT, que exigem necessidade de descrição verbal das experiências e dos es-
tados internos. Scheeringa et al.relatam que 8 dos 18 sintomas normatizados 
pelo DSM-IV para TEPT se situam neste caso. Por essa razão, crianças nos 
primeiros anos de vida costumam apresentar sintomas de: ansiedade generali-
zada (medo de separação, ansiedade com estranhos, medo de monstros e ani-
mais); evitação de situações que podem ter ou não um link óbvio com o trauma 
original; distúrbios de sono; preocupação com certas palavras ou símbolos que 
podem ter ou não uma conexão aparente com o evento traumático. 
 
 
 
20 
Scheeringa, Zeanah e Cohen, em revisão de estudos sobre o TEPT em 
crianças e adolescentes, afirmam que o os critérios diagnósticos da DSM-IV para 
este transtorno não levam em consideração as etapas de desenvolvimento in-
fantil. Os autores discutem que os critérios desta versão da DSM foram desen-
volvidos a partir de estudos com amostras de pessoas acima dos 15 anos de 
idade, e que as notas da DSM-IV relacionadas à manifestação do transtorno em 
crianças não são suficientes para captar a manifestação de estresse pós-trau-
mático neste grupo etário. Os autores sugerem que a quinta versão da DSM 
deve incluir critérios do TEPT específicos para crianças e adolescentes mais no-
vos. 
Grande parte dos estudos epidemiológicos se refere a eventos traumáticos 
específicos que atingem um grande número de crianças e adolescentes ao 
mesmo tempo, como desastres, atentados terroristas. Há poucos estudos volta-
dos para a população geral de crianças e adolescentes. Dyregrov e Yule dis-
cutem que grande parte dos estudos são realizados com adolescentes mais 
velhos e adultos. Estes autores citam prevalência ao longo da vida de 6,3% em 
uma amostra comunitária norte-americana de adolescentes mais velhos. Breslau 
et al. em estudo com amostra de 2181 pessoas entre 18-45 anos de idade, ver-
ificaram a prevalência de exposição a eventos traumáticos de 2% em uma co-
munidade em Detroit, Estados Unidos da América. 
Copeland et al. apontam prevalência de 0,5% para o TEPT (critérios com-
pletos da DSM-IV) em estudo com 1420 crianças, que moram em Carolina do 
Norte nos EUA, em uma amostra de um grande estudo longitudinal. Crianças 
que tiveram maior probabilidade de apresentar os sintomas foram as mais vel-
has, com uma história de exposição anterior a eventos potencialmente traumát-
icos, transtornos de ansiedade e adversidades familiares. Os autores reiteram 
que os critérios da DSM-IV são mais voltados para a idade adulta, e por isso, 
podem não captar bem o sofrimento de grande parte das crianças relacionado 
aos eventos traumáticos. Em uma revisão da literatura realizada por Gabbay et 
al.são apresentados estudos em que a prevalência ao longo da vida para ado-
lescentes e adultos jovens varia de 2% a 9,2%. Nesta revisão, é apontada grande 
variabilidade entre as prevalências de TEPT para crianças e adolescentes de 
populações de alto risco, variando de 3% a 100%. 
 
 
 
21 
Os autores discutem que esta grande variabilidade pode ser explicada pela 
natureza do trauma; diferenças nos estudos como escalas utilizadas e amostra-
gem da população; o lapso de tempo entre a exposição e o desenvolvimento dos 
sintomas. As prevalências relacionadas aos diversos tipos de eventos potencial-
mente traumáticos serão apresentadas mais adiante, nesta tese, ao se discutir 
a relação destes eventos com TEPT. A especificidade do estudo de TEPT na 
infância decorre do fato de que para o processamento dos eventos traumáticos, 
crianças necessitam usar algumas operações mentais que muitas vezes ainda 
não estão desenvolvidas, como estimação da magnitude do perigo; reação emo-
cional, fisiológica; regulação e estimação do tipo e eficácia da intervenção de 
proteção para avaliação do perigo e resposta a este evento. 
A avaliação de estimar e responder ao perigo depende não apenas do 
desenvolvimento neurobiológico da criança, mas também da história de vida e 
do fato de sentir segurança em adultos para ajudar diante de situações de perigo. 
Terr relata a presença de quatro grupos de características mais comuns em cri-
anças com TEPT: 
 Memórias repetitivas do evento ou memórias parciais do evento; 
 Comportamentos repetitivos (reencenações do evento, brincadeiras); 
 Medos específicos relacionados ao evento (medo de coisas e situações rel-
acionadas às experiências traumáticas) e outros medos „banais‟ (medo do 
escuro, de estar sozinho, de animais, por exemplo); 
 Mudanças de atitude relacionadas a pessoas e ao futuro (senso de futuro 
limitado, percepção de extrema vulnerabilidade dos seres humanos, princi-
palmente da própria criança). 
Como relatado anteriormente, a resposta das crianças ao evento traumát-
ico de medo intenso e horror pode se dar através de um comportamento de-
sorganizado ou agitado. Além disso, elas podem apresentar expressão de 
alarme e medo, gritos de socorro, e comportamento ineficaz. O estágio de desen-
volvimento da criança deve ser levado em consideração para o entendimento 
das conseqüências negativas do evento traumático. O estágio do desenvolvi-
mento influencia a avaliação sobre medo, atribuição do significado, significados 
 
 
 
22 
cognitivo e emocional do coping, tolerância das reações, expectativas de re-
cuperação. A seguir, serão descritas características de como as crianças e ado-
lescentes lidam com os eventos traumáticos de acordo com a fase do desenvol-
vimento. 
Crianças mais novas costumam apresentar mais dificuldades de reportar 
sintomas de evitação aos estímulos associados ao trauma, não considerando 
relevante contar ou tendo dificuldades em expressar o sofrimento em palavras. 
Também apresentam menos entorpecimento emocionale mais comportamento 
agressivo, brincadeiras repetitivas sobre o evento, desenhos e re-encenação do 
evento. As crianças de idade pré-escolar costumam manifestar os sintomas at-
ravés de meios não-verbais, que prejudicam o diagnóstico do TEPT, que exige 
a descrição verbal de um estado subjetivo. Os sintomas do transtorno podem se 
manifestar por comportamentos internalizantes, pesadelos e sono agitado, re-
gressão de habilidades adquiridas de acordo com o nível de desenvolvimento e 
comportamento pegajoso/ agarrado da criança. 
A criança mais nova não costuma apresentar o sentimento de reviver o 
passado. O trauma pode ser revivido através da reencenação do evento trau-
mático. Por exemplo, uma criança que passou por um acidente de trânsito, reen-
cenaria o acidente repetitivamente com seus carros de brinquedo. A brincadeira 
relacionada ao evento traumático é compulsiva e repetitiva, e não alivia os 
sintomas de ansiedade da criança. Salmon e Bryant mostram pesquisas que in-
dicam outros problemas que costumam aparecer em crianças com TEPT: baixa 
autoestima, depressão, ansiedade de separação, ansiedade generalizada. Na 
revisão realizada por estes autores, constatou-se que as manifestações do tran-
storno variam conforme a fase de desenvolvimento. 
As crianças pré-escolares apresentam menos sintomas cognitivos, como, 
por exemplo, a reexperienciação dos sintomas e menos comportamento evita-
tivo. Estados relacionados ao transtorno são difíceis de serem executados e 
avaliados em crianças muito pequenas. Scheeringa, Zeanah e Cohen propõem 
critérios alternativos para o TEPT em crianças menores de 6 anos de idade. 
Devido ao fato de crianças em idade pré-escolar nem sempre conseguirem ex-
pressar como se sentiram durante a ocorrência do evento traumático, os autores 
 
 
 
23 
propõem a eliminação do critério A2 (a resposta da pessoa envolveu intenso 
medo, impotência ou horror) da DSM-IV para esta faixa etária. 
A nota da DSM-IV que alerta para o fato das crianças poderem expressar 
comportamento desorganizado ou agitado é considerada insuficiente para os au-
tores citados, não contemplando a variedade de manifestações de crianças 
frente aos eventos traumáticos. Neste estudo de revisão, salienta-se que as cri-
anças manifestam outras reações além de medo, desesperança e comporta-
mento agitado, tais como choro, surpresa, raiva, entorpecimento, quietude, entre 
outras manifestações. Estes autores também propõem mudanças nos critérios 
de que as recordações sobre o evento são aflitivas, recorrentes e intrusivas. Se-
gundo eles, as crianças mais novas nem sempre demonstram aflição ou an-
gústia, mesmo quando apresentam pensamentos intrusivos e preocupação com 
estímulos associados ao trauma. Crianças também podem manifestar seu sofri-
mento com afastamento social. 
Os autores afirmam ainda que crianças pequenas não costumam apresen-
tar os seguintes critérios: incapacidade de recordar algum aspecto importante do 
trauma (critério C3) e sentimento de futuro abreviado (critério C7). Os autores 
sugerem modificar o critério de crises de irritabilidade e surtos de raiva para tem-
peramento extremo de birra, pois consideram ser freqüente o fato de crianças 
pequenas apresentarem crises de irritabilidade e explosões de raiva. As crianças 
em idade escolar também apresentam de forma comportamental sua ansiedade 
relacionada ao evento traumático. O sofrimento da criança pode se expressar 
através de regressões de comportamentos aprendidos; problemas no apego a 
figuras significativas como comportamento pegajoso/agarrado; aumento de 
problemas internalizantes e externalizantes de comportamento; prejuízo na per-
formance acadêmica, dentre outros. 
A reexperienciação do evento através das brincadeiras, nesta idade, é mais 
sofisticada que na idade pré-escolar, pois a criança pode incluir a escrita, desen-
hos e encenação. Além disso, a criança pode envolver temas específicos do 
trauma nestas brincadeiras. Nesta idade, as crianças também costumam exibir, 
além dos sintomas de excitabilidade aumentada, uma série de sintomas físicos 
como dores de cabeça e de barriga. As crianças podem reviver o evento através 
 
 
 
24 
de sonhos amedrontadores sem um conteúdo identificável, como por exemplo, 
sonhos com monstros e de salvamentos de si próprio ou de outro. Também po-
dem apresentar medo de ir dormir ou de ficar sozinho e outros distúrbios do sono. 
O sentimento de futuro abreviado pode se expressar na ideia que a própria 
criança tem de que ela não chegará à idade adulta. É também possível que a 
criança tenha a crença de que pode prever eventos futuros indesejáveis, carac-
terística esta denominada de “presságio catastrófico”. Terr descreve esta carac-
terística como a “formação de presságios” (omen formation) nas crianças, ou 
seja, a crença que as crianças têm de que certos sinais são avisos de que o 
evento traumático está se aproximando e que, se elas estiverem alertas, serão 
capazes de predizer desastres futuros. Scheeringa, Zeanah e Cohen apontam 
que após eventos traumáticos, muitas crianças em idade escolar e adolescentes 
mais jovens dizem que o pior e o mais assustador que aconteceu a eles não foi 
o evento traumático em si, mas as consequências do evento, que exemplificam 
como a retirada de casa de pais abusadores, revelação de abusos, ver os pais 
chorarem após um evento traumático. 
Estes autores propõem que dentre os eventos que levam ao TEPT, devem 
estar incluídos a perda dos pais (inclusive a ida para abrigos e lares substitutos), 
ferimentos ou morte dos pais. Também propõem a eliminação ou alteração do 
critério A2 (resposta de medo, impotência ou horror), pois as crianças costumam 
apresentar uma variedade de sentimentos no momento do evento traumático, 
tais como confusão, tristeza, vergonha, culpa e sensação de estar paralisada. 
Tanto em crianças pré-escolares quanto nas escolares, Scheeringa, Zeanah e 
Cohen indicam que deveria haver a redução da exigência do número de quesitos 
do Critério C (esquiva persistente de estímulos associados com o trauma e en-
torpecimento da reatividade geral) de três para um. Segundo os autores, muitos 
dos sintomas deste grupo são fenômenos internalizados ou de difícil detecção 
para esta faixa etária. 
A identificação de alguns sintomas como limitação do afeto e diminuição do 
interesse em realizar atividades anteriormente habituais costuma ser feita atra-
vés do relato dos pais e professores, devido às dificuldades das crianças em 
relatar reações subjetivas. Deste modo, as crianças de idade pré-escolar avaliam 
 
 
 
25 
o perigo confiando no referencial das figuras parentais ou das pessoas com 
quem formaram vínculo. Assim, respondem às situações que eliciam respostas 
de medo e confiam na ação de proteção propiciada por seus cuidadores. Na 
idade escolar, as crianças melhoram a apreciação de situações de perigo, 
adquirem habilidades de como se manterem seguras, adquirem senso de culpa 
e percebem ineficácia quando há falha em alguma ação protetiva. 
Comparando a idade pré-escolar com a escolar, Vela e Massa referem que 
crianças em idade pré-escolar tendem a apresentar regressão de hábitos 
higiênicos já adquiridos, medos mais generalizados, agressividade e distrai-
bilidade, enquanto que sintomas mais comuns de crianças em idade escolar com 
TEPT são revivências, transtornos do sono, pensamentos repetitivos e medos 
relacionados ao evento traumático. Scheeringa, Zeanah e Cohen, em revisão de 
estudos, apontam que os sintomas de TEPT em crianças não costumam sumir 
espontaneamente, e que podem trazer sofrimento significativo mesmo depois de 
períodos longos de tempo após o evento traumático ter ocorrido. 
Adolescentes seriam mais propensos a exibirem sintomas de TEPT simi-
lares aos de adultos, podendo alcançar critérios da DSM-IV como re-experi-
enciação, evitação, embotamento e hiperexcitação/alerta. Adolescentescom 
TEPT crônico, que têm vivenciado estressores prolongados e repetidos, podem 
também apresentar características dissociativas, incluindo desrealização, des-
personalização, comportamento auto-destrutivo, abuso de substância, raiva in-
termitente ou explosão agressiva. Os adolescentes com este transtorno podem 
apresentar problemas na alimentação, sentimentos de culpa, hipersexualidade, 
abuso de substâncias, dentre outros problemas. O TEPT, nesta faixa etária, 
pode alterar as concepções sobre sua identidade, futuro e segurança. 
Os adolescentes também podem manifestar o sentimento de futuro abrevi-
ado, que pode se caracterizar pela crença de que não irão estabelecer uma car-
reira e não irão formar uma família, dentre outras expectativas comuns entre os 
jovens. A maioria das crianças e adolescentes sobreviverão ao trauma inte-
grando-o em suas experiências e se desenvolvendo normalmente. Para algu-
mas, no entanto, estes eventos irão desencadear a sintomatologia do TEPT, 
 
 
 
26 
prejudicando tanto sua vida pessoal quanto seu desempenho escolar. Uma re-
visão de 25 estudos indica três fatores constantemente encontrados para 
predizer o desenvolvimento de sintomas de TEPT em crianças e adolescentes: 
severidade da experiência traumática; estresse relacionado ao trauma dos pais; 
e proximidade temporal do evento traumático. 
4. COMORBIDADES ENTRE TEPT E OUTROS DIAGNÓSTICOS 
NA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Crianças e adolescentes traumatizados frequentemente exibem sintomas 
de outros transtornos além do TEPT, e crianças com outros transtornos podem 
ter TEPT como diagnóstico comórbido. Esse imbricamento de problemas é um 
dos grandes desafios ao diagnóstico de TEPT. A relativa raridade de “TEPT 
puro” (termo freqüentemente usado que denota uma síndrome não complicada 
pela presença de sintomas de outros transtornos psiquiátricos), comparada à 
presença de mais complexas formas, sugere que o estresse traumático pode 
precipitar um completo grupo de sintomas e condições. Por outro lado, alguns 
sintomas de TEPT podem se manifestar de outras formas em crianças, difi-
cultando o diagnóstico. Destacam-se: 
a) Embotamento e evitação se manifestando como inquietação, hipervigilância, 
pouca concentração e problemas comportamentais; e 
 
 
 
27 
b) Sintomas de ansiedade em crianças muito jovens expressos como hiperati-
vidade, distraibilidade e impulsividade aumentada, que são marcos do transtorno 
de atenção e hiperatividade (TDAH). 
Os transtornos externalizantes (transtornos de conduta e transtorno oposi-
tivo desafiador) são achados comuns de estudos com crianças com TEPT em 
amostras clínicas e populacionais. O TEPT pode resultar da perda de controle 
de impulsos e controle diminuído da raiva e agressão, o que poderia explicar a 
comorbidade. Outros autores citados na revisão consideram que sintomas exter-
nalizantes podem ser uma resposta inicial aos estressores, e que eles poderiam 
ter efeito adormecido na emergência dos sintomas do TEPT. Breslau et al. em 
estudo com jovens adultos norte-americanos, perceberam que a depressão ma-
ior pré-existente duplica o risco de exposição a eventos traumáticos e, conse-
qüentemente, o risco de apresentar TEPT. 
O estudo também indicou um risco de 2,8 vezes maior de apresentarem 
depressão em pessoas expostas a eventos traumáticos e que desenvolveram 
TEPT. Os autores sugerem que o TEPT e a depressão maior em vítimas de 
trauma podem ser influenciados por vulnerabilidades comuns. Em crianças com 
TEPT, a depressão também é comum. Muitos autores sugerem que TEPT ante-
cede e predispõe indivíduos a depressão maior, mais que o inverso. Investiga-
dores têm documentado comorbidade entre TEPT e abuso de substância em 
crianças mais velhas, e entre TEPT e outros transtornos de ansiedade. Um es-
tudo com adolescentes de 12 a 17 anos, nos EUA, encontrou alta comorbidade 
entre TEPT e depressão maior. Este estudo apresentou os resultados de um 
modelo multivariado para TEPT em comorbidade com depressão maior e revelou 
que ser do sexo feminino, ter histórico familiar de uso de drogas, testemunhar 
violência e ataque físico aumentam o risco de apresentar tal comorbidade. 
Trabalho norte-americano realizado com 117 crianças que sofreram 
severos maus-tratos mostrou que aquelas com TEPT apresentavam comor-
bidades com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, outros transtornos 
de ansiedade, transtornos psicóticos breves ou não especificados, transtornos 
de humor e ideação suicida. Algumas pesquisas vêm investigando o papel me-
 
 
 
28 
diador do TEPT entre a exposição à violência e outros problemas de saúde men-
tal. Mazza e Reynolds analisaram a relação entre violência comunitária, TEPT, 
depressão e ideação suicida, com 94 adolescentes de 11 a 15 anos, de uma 
escola norte-americana, e concluíram que o TEPT é um mediador da relação 
entre exposição à violência e depressão, e exposição à violência e ideação sui-
cida. 
Os autores discutem que os sintomas do TEPT como a revivência do 
evento traumático, pensamentos intrusivos sobre o evento e a evitação de as-
pectos que lembrem o trauma tendem a causar sentimentos de solidão e 
desesperança, podendo levar à depressão e à ideação suicida. Schields, 
Nadasen e Pierce buscaram investigar o papel do TEPT como mediador entre a 
violência comunitária e outros desfechos de saúde mental em 247 crianças es-
colares de 8 a 13 anos na Cidade do Cabo, África do Sul. Observaram que TEPT 
tem um papel mediador nos efeitos da violência escolar sobre a depressão, tanto 
para ser vítima de violência quanto para ser testemunha de atos violentos na 
escola. Para violência na comunidade, o TEPT mediou a relação apenas entre 
ser testemunha deste tipo de violência e depressão. 
Ruchkin et al estudaram o papel do TEPT em mediar a relação entre violên-
cia comunitária e psicopatologia em adolescentes escolares do sistema público 
de ensino do nordeste dos Estados Unidos da América. Os sintomas do TEPT 
mediaram a relação entre ser vítima e testemunha de violência comunitária e 
sintomas internalizantes, sendo estes, efeitos similares entre meninos e meni-
nas. Outro achado desta investigação foi que TEPT media parcialmente a ex-
posição à violência comunitária e a prática de violência, em meninos (não em 
meninas). Os autores discutem possíveis razões para esta mediação. Eles apon-
tam estudos que mostram que os sintomas de TEPT podem prejudicar o proces-
samento da informação e, por isso, podem prejudicar o reconhecimento de situ-
ações de risco. 
Outro motivo seria que o TEPT está associado ao aumento de comporta-
mentos de risco como o uso de substâncias. Verificar a existência de comor-
bidades associadas ao TEPT é um aspecto importante na avaliação da saúde 
mental de crianças e adolescentes. Em uma revisão da literatura sobre tema é 
 
 
 
29 
apontada que os estudos indicam que a presença de comorbidades pode acen-
tuar efeitos negativos no desenvolvimento infantil. 
5. FATORES PREDITORES DE TEPT EM CRIANÇAS E ADOLES-
CENTES 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A seguir, serão descritos os principais fatores preditores de TEPT na infância e 
adolescência. 
Proximidade física com o evento traumático. A severidade dos sintomas de 
TEPT está associada ao grau de exposição ao evento traumático, temática de-
talhada mais adiante. O estudo de Pynoos et al. é, até hoje, citado quando se 
aborda este assunto. No estudo, as crianças que estavam no playground que foi 
atingido pelo atirador, apresentaram mais sintomas do transtorno. As reações 
mais freqüentes para as crianças que estavam na escola foram sintomas 
severos de TEPT (48,6%); para os grupos que estavam na escola, fora do play-
ground, foram sintomas moderados (50,0%); e na maioria daqueles que não es-
tava na escola não se detectou TEPT (55,8%). Quatorze meses após o evento, 
crianças queestiveram no playground no momento do ataque continuaram a 
apresentar altos escores de TEPT em relação aos outros grupos. Rojas e Pap-
pagalo apontam como fator de risco para TEPT a exposição repetida pela tele-
visão e mídia sobre um evento traumático, como foi o exemplo da cobertura jor-
nalística sobre o atentado terrorista ao World Trade Center. Mesmo sem a prox-
imidade física do evento, crianças e adolescentes podem apresentar um risco 
 
 
 
30 
maior de desenvolver o transtorno devido à exposição massiva do evento na 
mídia. 
Experiências traumáticas anteriores. Pesquisas mostram que experiências 
traumáticas antes do evento traumático estudado aumentam o risco de desen-
volver TEPT. Em um estudo realizado com 1.803 jovens adultos, foi apontado 
que a maioria dos eventos ocorridos anteriormente ao evento traumático esteve 
significativamente associada ao TEPT. Rojas e Pappagalo, a partir de estudo de 
revisão sobre o tema, discutem que uma história prévia de trauma pode ter um 
efeito “bola de neve” para o desenvolvimento de novos sintomas de TEPT 
quando a vítima é exposta novamente a outros eventos. Estudo longitudinal, ini-
ciado na adolescência e retomado numa segunda fase sete anos após, verificou 
que a exposição prévia a agressões aumenta o risco de TEPT em um contato 
subseqüente com violência interpessoal, entre 1.725 participantes, nos Estados 
Unidos da América. 
Gênero. Ainda não se sabe por que o gênero é um fator de risco para o TEPT, 
mas os estudos mostram que este aspecto é importante no desenvolvimento de 
sintomas deste transtorno. Tolin e Foa, em estudo de metanálise com textos 
publicados em língua inglesa, realizado com pacientes ou sobreviventes de trau-
mas, apontam que meninas e mulheres são mais propensas que homens a 
apresentar TEPT, mesmo elas sendo menos propensas a experienciar eventos 
traumáticos. O estudo mostrou também que as mulheres são mais propensas a 
vivenciar ataque sexual e abuso sexual infantil. Outros eventos como acidentes, 
agressões físicas, testemunhar mortes, guerras ou combates são mais comuns 
entre homens. 
 Há diversas hipóteses que explicam este risco elevado entre mulheres como 
tendência destas a vivenciar eventos potencialmente mais traumáticos (por ex-
emplo, estupros e violência sexual); maior reatividade fisiológica nas mulheres; 
maior exposição a estressores sócio-econômicos como pobreza e discriminação; 
e o fato de que os homens culturalmente aprendem a suprimir mais as cognições 
relacionadas aos sentimentos de medo e desesperança, considerados incoer-
entes com a imagem masculina de força e poder. Imagens de agressividade rel-
 
 
 
31 
acionadas aos homens podem fazer com que a convivência com o evento trau-
mático se torne mais aceitável. As mulheres estão mais relacionadas cultural-
mente à imagem de emoção e passividade, e por isso, podem vivenciar o evento 
traumático de maneira diferenciada. 
Severidade do estressor. Alguns eventos estressores são bastante relaciona-
dos ao TEPT na literatura, como por exemplo, o abuso sexual. Rojas e Pappa-
galo87 discutem que, independente da cultura, o abuso sexual e físico pode con-
tribuir para conseqüências em longo prazo na saúde mental de crianças e ado-
lescentes, como o desenvolvimento de TEPT e outros transtornos psiquiátricos. 
Outros estressores como desastres naturais, seqüestro, guerras, e outras violên-
cias também estão bastante associados. Nesta tese, mais adiante, serão de-
talhados alguns eventos traumáticos importantes na literatura científica e sua 
relação com TEPT. 
Características psicológicas da criança. A avaliação subjetiva de ameaça rel-
acionada ao evento traumático pode estar relacionada a diversos fatores como 
personalidade e temperamento da criança, além de outros fatores como estágio 
do desenvolvimento, experiências prévias de eventos traumáticos, ambiente so-
cial e cultural, dentre outros. 
Proximidade emocional com a vítima do trauma. Inclui ter uma pessoa que-
rida que sofreu um trauma e/ou morreu. Scheeringa et al. em estudo com cri-
anças que passaram por diferentes tipos de trauma, apontam que testemunhar 
ameaças ao cuidador foi um fator preditivo para o TEPT para crianças de todas 
as idades. Van IJzendoorn et al. em metanálise com 4.418 participantes em di-
versos países (dentre eles EUA, Israel, Austrália e Europa), avaliaram se havia 
“traumatização secundária” com filhos de vítimas do holocausto, isto é, os auto-
res buscavam conhecer se os pais transmitiram aos seus filhos sintomas de trau-
matização relacionada ao evento vivenciado no passado. 
Os autores trazem referências de que a traumatização secundária pode ser 
transmitida de formas não-verbais às crianças pelas mães e cuidadores que sof-
reram o evento traumático. Porém, neste estudo, a traumatização secundária só 
 
 
 
32 
ocorreu em amostras clínicas que sofriam de sintomas de estresse pós-traumát-
icos relacionados a outros eventos, que não o holocausto. Estudo realizado com 
8.236 crianças e adolescentes estudantes de escolas públicas de Nova Iorque, 
que tinham familiares que eram profissionais na área de primeiros socorros (téc-
nicos de emergências médicas, oficiais da polícia e bombeiros), buscou identi-
ficar sintomas de TEPT devido à traumatização secundária nas crianças. 
Os participantes tinham entre 8-21 anos e foram avaliados seis meses após o 
ataque terrorista ao World Trade Center. Como resultado deste estudo, crianças 
e adolescentes que tinham técnicos de emergências médicas na família 
apresentaram nível mais elevado de TEPT provável (18,9%). A prevalência de 
TEPT entre crianças cujos familiares eram oficiais de polícia (10,6%) foi similar 
a de crianças que não tinham profissionais de primeiro socorros nas famílias 
(10,1%), enquanto que a prevalência de crianças relacionadas aos bombeiros 
foi a menor de todas (5,6%). Os autores discutem que os resultados podem estar 
relacionados a características sócio-demográficas da profissão e das famílias 
dos técnicos de emergência médica, como status psicológico da função, treina-
mento, apoio do grupo de trabalho, práticas de recrutamento, dentre outras. 
Reações dos pais ao evento traumático. As reações dos pais ao evento trau-
mático estão relacionadas ao risco de desenvolvimento de TEPT para as cri-
anças e os adolescentes. Os pais podem apoiar, acalmar os filhos ou podem ser 
distantes, ansiosos e ausentes com os mesmos. Os pais ou cuidadores, que 
ficam impactados com o evento traumático, têm sua capacidade diminuída de 
fornecer um ambiente consistente, previsível e de apoio à criança. Isso pode 
levar a uma perda de confiança da criança e a um risco aumentado de TEPT. 
Dyregrov e Yule apontam que pais que evitam comentar o evento traumático e 
suas conseqüências limitam a discussão sobre o tema, podendo prejudicar a 
elaboração do evento pela criança. Os filhos, por sua vez, ao perceberem que 
deixam os pais tristes ao tocar no assunto, evitam falar sobre o tema. Este con-
texto pode criar um ambiente de silêncio, favorecendo aos pais a subestimação 
do sofrimento das crianças, retardando por conseqüência, a procura por trata-
mento para a criança ou adolescente. 
 
 
 
33 
Problemas psiquiátricos da criança anteriores ao trauma. Rojas e Pappagalo 
indicam que há associação entre história psiquiátrica prévia e TEPT em crianças, 
jovens e adultos. Quarantini et al. em revisão de literatura, abordam que os tran-
stornos afetivos prévios aumentam a possibilidade de desenvolver TEPT na pop-
ulação em geral, e que, por outro lado, o fato de possuir sintomas de TEPT eleva 
os riscos de desenvolver transtornos afetivos. 
Problemas de saúde mental de mães e outros cuidadores. A história de prob-
lemas de saúde mental nas mães e familiares também está relacionada ao 
desenvolvimento de TEPT. Birmes et al. percebeu em uma pesquisa com cri-
anças após um desastre industrial queocorreu na França, que os sintomas de 
TEPT nas mães estavam significativamente associados aos sintomas de TEPT 
nas crianças, pois 58,3% das crianças com sintomas elevados de TEPT tinham 
mães que também apresentavam elevados sintomas de TEPT. Outras carac-
terísticas associadas ao transtorno foram viver em famílias de três ou mais cri-
anças e ser menina. 
Problemas de coesão familiar. Birmes et al. apontam que alta coesão familiar 
foi mais relatada por crianças sem sintomas ou com sintomas leves deste tran-
storno. Está associada a sentimentos de apoio emocional e de fortes laços emo-
cionais, que podem servir como um efeito protetor para a criança. Wickrama e 
Kaspar95 perceberam entre adolescentes expostos a um tsunami que melhor 
relação entre mãe e filho correspondeu a baixos níveis de depressão e sintomas 
de TEPT nos adolescentes. 
Falta de apoio social. Clapp e Beck indicam que a literatura científica aponta 
uma associação inversa entre sintomas do transtorno de estresse pós-traumát-
ico e apoio social. De acordo com estes autores, as hipóteses indicam que o 
apoio social ajuda aos indivíduos a lidarem com o evento traumático, diminuindo 
o potencial de desenvolvimento de sintomas relacionados ao evento traumático. 
Estes autores realizaram pesquisa com 458 sobreviventes de acidentes com 
veículos e perceberam que a severidade do TEPT estava associada a atitudes 
e expectativas negativas relacionadas ao uso dos recursos sociais quando 
necessários que, por sua vez, estava relacionado aos baixos níveis de apoio 
social. 
 
 
 
34 
6. TIPOS DE EVENTOS TRAUMÁTICOS 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Os diversos estudos focam o TEPT associado a tipos específicos de even-
tos traumáticos. A seguir, descrevem-se alguns tipos de eventos traumáticos 
mais comumente citados na literatura deste transtorno. Guerra ou combates mil-
itares, prisioneiro de guerra, tortura, ser refugiado ou estar em campo de con-
centração. Em crianças, por exemplo, encontram-se estudos sobre os conflitos 
na Faixa de Gaza. Thabet e Vostanis encontraram 40% de crianças de 7 a 12 
anos com sintomas de TEPT seis meses após um conflito militar na Faixa de 
Gaza. Após um ano da primeira coleta, a prevalência de TEPT entre as mesmas 
crianças era de 10%. Existem também estudos com filhos de militares e as 
possíveis conseqüências à saúde mental da família do combatente, onde 
sintomas de TEPT podem acometer crianças devido à vitimização do pai. 
 
Ataques terroristas. Os ataques terroristas ocorridos nos Estados Unidos 
(EUA) em 11 de setembro de 2001 renderam uma série de estudos. Em um de-
les, com escolares, percebeu-se que as crianças cujos familiares pertenciam às 
equipes de emergência tiveram alta prevalência de TEPT provável (18,9%). 
Além disso, estudos sobre outros ataques terroristas também são freqüentes. 
Scrimin et al. avaliaram sintomas de TEPT e estímulos associados ao trauma 
(trauma reminders) em 58 crianças que foram expostas direta ou indiretamente 
a um ataque terrorista a uma escola em Beslan, Rússia. Os resultados mostram 
 
 
 
35 
que a proximidade física e o grau de exposição ao evento estão associados com 
os sintomas de transtorno de estresse pós-traumático. 
 
Desastres naturais ou causados pelo homem, como furacões, terremotos, 
tsunamis, incêndios, enchentes e desabamentos. Os estudos encontrados 
são internacionais e englobam uma série de desastres relacionados à realidade 
destes países. Um trabalho sobre as conseqüências na saúde mental de cri-
anças expostas ao tsunami ocorrido na Tailândia, em 2004, apontou 13% de 
sintomas de TEPT em crianças desalojadas e 11% em crianças não desalojadas 
seis meses após o evento. Evans e Oehler-Stinnett118 apontaram o transtorno 
em 41% das crianças que foram expostas a um tornado nos EUA. A avaliação 
do TEPT com 215 crianças e adolescentes sobreviventes a dois terremotos na 
Turquia detectou uma taxa de TEPT provável de 21,9%, sendo maior nas meni-
nas (21,9%) que nos meninos (14,1%) quatro anos depois destes eventos. O 
TEPT atingiu 19,3% entre as crianças de 8 a 13 anos e 23,9% entre os adoles-
centes de 14 a 18 anos. 
 
Acidentes automobilísticos e outros meios de transporte. Um estudo hospi-
talar realizado no Reino Unido avaliou a presença de TEPT em crianças e ado-
lescentes de 5 a 18 anos após acidentes de trânsito. Cerca de um terço das 
crianças preencheu os critérios diagnósticos para o transtorno de estresse pós-
traumático. E a presença deste transtorno não foi relacionada ao tipo de aci-
dente, gravidade das lesões e idade da criança. O TEPT esteve associado ao 
sexo da criança (meninas com maior risco de desenvolver o transtorno, às ex-
periências anteriores de eventos traumáticos e à avaliação subjetiva de ameaça 
à vida da criança. Outra pesquisa mais recente, desenvolvida em outro hospital 
do Reino Unido com 86 crianças entre 5-16 anos, encontrou prevalência do 
TEPT de 15% após três meses e de 18% após seis meses após acidente de 
trânsito. Neste estudo, 58% das crianças que apresentaram TEPT após três 
meses continuaram apresentando o transtorno na avaliação de seis meses de-
pois do evento. 
Doenças graves que trazem risco à vida. Uma revisão de vinte estudos sobre 
o TEPT, a maioria norte-americanos (exceção de um artigo do Japão e outro da 
Suíça), com crianças sobreviventes de câncer, encontrou prevalência de 
 
 
 
36 
sintomas de TEPT de 2 a 20% para as crianças e de 10 a 30% para os pais das 
crianças. A avaliação subjetiva da ameaça à vida e as crenças sobre a doença 
foram preditores mais importantes que a condição médica da criança. 
 
Violências. Inclui eventos como: abuso sexual; seqüestro ou ser tomado como 
refém; sofrer tortura; assalto; ataque físico; violência na família; violência na es-
cola e na comunidade de forma geral. Nesta área há grande foco nos estudos 
sobre abuso sexual, principalmente com adultos. Na área da infância, Wolfe, 
Gentile e Wolfe conduziram um estudo com 71 crianças canadenses de 5 a 16 
anos, com histórico de abuso sexual. A partir de dados fornecidos pelas mães, 
estas crianças foram classificadas com altos níveis de TEPT, bem como prob-
lemas internalizantes e externalizantes. Danielson et al. realizam estudo com 
adolescentes norte-americanos que sofreram abuso sexual e apontam que o 
transtorno de estresse pós-traumático, a depressão, o comportamento delin-
qüente e abuso de substâncias são consequências possíveis à saúde mental 
dos jovens que sofrem este tipo de abuso. Neste estudo, percebeu-se que os 
adolescentes com TEPT apresentaram depressão e comportamento delinqüente 
mais comumente do que aqueles sem história de TEPT. 
O estudo clássico de Pynoos et al. sobre o ataque de um atirador a uma escola 
americana com 159 crianças, identificou que 38,4% das crianças apresentaram 
sintomas moderados ou severos do TEPT; 22% apresentaram sintomas leves e 
39,6% não apresentaram sintomas do transtorno. Pela relevância e enfoque de 
estudo do tema da violência familiar e comunitária relacionada ao surgimento de 
TEPT na tese, apresenta-se, a seguir, este tópico de forma mais detalhada. 
 
7. VIOLÊNCIAS NA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA 
 
Na atualidade, a violência é um grave problema de saúde pública, sendo a 
principal causa de morte de crianças e adolescentes brasileiros a partir dos 5 
anos de idade, o que levou à intensificação de esforços dos estudiosos no sen-
tido de conhecer melhor este problema. As definições para violência contra a 
criança e o adolescente variam de acordo com as visões culturais e históricas 
 
 
 
37 
sobre a criança e seus cuidados, com os direitos e o cumprimento de regras 
sociais relacionados a ela e aos modelos explicativos usados para a violência. 
 
 
 
 
 
 
 
 
Classicamente, a violência contra a criança e o adolescente é dividida nos se-
guintes tipos: 
(1) a física (uso da força física de forma intencional,não-acidental, com o objetivo 
de ferir, danificar ou destruir, deixando ou não marcas evidentes); 
(2) a sexual (ato ou jogo sexual, relação hetero ou homossexual cujo agressor 
está em estágio de desenvolvimento psicossexual mais adiantado que a criança 
ou adolescente. Objetiva estimulá-la sexualmente ou utilizá-la para obter satis-
fação sexual, através da imposição pela violência física, ameaças ou indução de 
sua vontade. Pode variar desde atos em que não há contato sexual aos atos 
com contato sexual, sem ou com penetração; inclui a prostituição e a porno-
grafia); 
(3) a psicológica (forma de rejeição, depreciação, discriminação, desrespeito, 
cobrança ou punição exageradas e punição da criança ou adolescente para 
atender às necessidades psíquicas do adulto); 
(4) a negligência (ato de omissão do responsável pela criança/adolescente em 
prover as necessidades básicas para o seu desenvolvimento); 
 
 
 
38 
(5) a Síndrome de Munchausen por procuração (situação na qual a criança é 
trazida para cuidados médicos devido a sintomas e/ou sinais inventados ou 
provocados pelos seus responsáveis). 
Essas formas de violência podem alcançar a criança nos seus diversos âm-
bitos de convivência, ou seja, no seu seio familiar, escolar, na vida comunitária 
e na sociedade em geral. A principal característica da violência, tanto familiar 
quanto comunitária, refere-se à cronicidade dos eventos, que os distinguem de 
outros tipos de eventos relacionados ao TEPT e que geralmente são pontuais, 
recaindo na temática TEPT complexo, já abordada anteriormente. A violência 
familiar é aquela que ocorre entre os membros da família, normalmente dentro 
de casa, mas não se restringe somente a este espaça. Baseia-se, também, no 
uso e, muitas vezes no abuso, desde a primeira infância, de atitudes emocionais 
negativas. Não raramente as relações são permeadas pela violência, pela falta 
de atenção e pela ausência de contatos afetivos verdadeiros. 
A violência familiar é um problema social de grave dimensão, atingindo 
principalmente mulheres, crianças, idosos e pessoas com deficiência. E pode se 
caracterizar por maustratos psicológicos, físicos, sexuais, econômicos, podendo 
causar prejuízos à saúde. A violência constitui-se como uma forma de comuni-
cação na família. E “ocorre nas relações hierárquicas e intergeracionais” (p.29), 
atingindo mais crianças do que adolescentes. Isto ocorre devido à maior fra-
gilidade deste grupo etário. As práticas educativas ainda incorporam castigos 
físicos, naturalizando a violência na família. Desta forma, a violência é cultural-
mente aceita na socialização e educação das crianças, ocorrendo em todas as 
classes sociais, apesar de já sofrer repúdio de parte da sociedade. 
Em pesquisa realizada com escolares da rede pública de ensino de São 
Gonçalo-RJ, notou-se que: 
 42,5% das crianças sofriam violência (por exemplo: empurrar, dar tapas ou 
bofetadas) cujo agressor era o pai ou responsável masculino pela criança; 
 63,1% sofrem agressão verbal do pai; 
 
 
 
39 
 e que 25,5% das crianças sofriam violência severa deste pai, caracterizada 
por atos como esmurrar, chutar, bater ou tentar bater com objetos, espan-
car, dentre outros. 
Foram mais elevados os índices de violência materna contra a criança, 
dentre eles estão: agressão verbal (81,4%), violência (76,5%) e violência severa 
(58,2%). Nesta pesquisa, foi encontrada também predominância de agressão 
verbal praticada entre os pais (acima de 80%) e de violências físicas dos pais 
sobre as mães (41,2% contra 36% das mães sobre os pais). 
Em outra pesquisa realizada na rede escolar pública e privada do município 
de São Gonçalo, com 1600 adolescentes, 27,7% deles informaram sofrer violên-
cia física severa da mãe e 16,7% do pai128 . Analisando as figuras paterna e 
materna como agressores, percebem-se maiores percentuais de violência física 
da mãe contra a criança, do que do pai contra a criança, nestes, e em outros 
estudos nacionais. Isto pode ser explicado pelo fato dela estar mais tempo próx-
ima dos filhos e de, culturalmente, dedicar-se mais à sua educação. Um estudo 
realizado na Finlândia com adolescentes escolares encontrou 72% de violência 
dos pais contra os filhos e 8% de violência severa. Os autores pontuam que a 
violência, não severa, é mais perpetrada pelas mulheres daquele país do que 
pelos homens, e que a violência severa é cometida, principalmente, pelos re-
sponsáveis do sexo masculino. 
No México, estudo realizado com 936 estudantes de 12 a 16 anos de idade, 
encontrou que mais da metade dos adolescentes sofreu violência familiar. Cerca 
de 58% dos meninos sofreram a violência física cometida pelo pai, e 54,7% das 
meninas relataram este mesmo tipo de violência. Em relação à violência comet-
ida pela mãe, 61,6% dos meninos e 65,9% das meninas relataram sofrer este 
tipo de violência. A violência sexual foi apontada por 11,3% dos adolescentes. 
Schenker e Cavalcanti relatam algumas características das famílias com 
dinâmica de violência, tais como: problemas na comunicação entre seus mem-
bros; isolamento social e fechamento dentro do núcleo familiar; e silêncio com-
partilhado da vítima e do agressor (“pacto de silêncio”). 
 
 
 
40 
Estas autoras descrevem ainda sobre o ciclo de reprodução da violência, 
que pode atravessar muitas gerações. Diversas formas de violência coexistem 
no lar. Por exemplo, a violência física contra a criança e o adolescente, a que 
ocorre entre o casal e que a atinge o idoso. Outro aspecto a ser ressaltado é que 
os papéis sociais de “agressor” e “vítima” não são estáticos, podendo se inter-
cambiar entre os membros da família. Por exemplo, a mãe pode ser agredida 
pelo marido, mas ao mesmo tempo agredir os filhos ou ser conivente com a 
violência contra os filhos. A família tem um papel importantíssimo na construção 
social da realidade para seus membros. 
A violência no contexto familiar pode interferir na visão dos membros sobre 
esta realidade social, levando também a problemas com a auto-estima. Margolin 
e Gordis15 pontuam que as crianças, cujos pais abusam física, emocional ou 
sexualmente, deixam de ser fontes de proteção, podendo fazer com que estas 
crianças aprendam a confiar apenas nelas mesmas, ou se aproximarem dos 
cuidadores de acordo com o humor que eles estejam apresentando, ou ainda 
tentar desenvolver outras fontes de apoio social. Desta maneira, diversas podem 
ser as conseqüências à saúde mental de crianças expostas à violência familiar. 
Revisões de literatura apontam problemas de comportamento externalizantes e 
internalizantes, problemas de relacionamento, prejuízos cognitivos e o tran-
storno de estresse pós-traumático associados à violência que ocorre na família, 
seja a criança como testemunha de violência entre os pais, seja a própria criança 
como vítima de violência perpretada por familiares. 
Estudos internacionais e nacionais apontam o TEPT como uma das 
possíveis conseqüências da violência contra crianças de todas as faixas etárias 
no âmbito familiar. Margolin e Vickerman70 discutem aspectos importantes para 
os estudos sobre violência familiar e este transtorno. As crianças e adolescentes 
que sofrem violência na família podem não acreditar no lar como um local se-
guro, e apresentarem apego desorganizado porque os pais são fonte de se-
gurança e de perigo ao mesmo tempo. Além disso, as lembranças dos incidentes 
podem estar mais presentes, pois o local em que geralmente ocorre a violência 
é a própria casa destas crianças. Os autores também pontuam que como todos 
os outros eventos traumáticos, somente uma parte das crianças que, são expos-
tas a este tipo de violência irá desenvolver TEPT. 
 
 
 
41 
Levendosky et al. realizou estudo com crianças de idade pré-escolar, nos 
EUA, e percebeu que as crianças que foram testemunhas de violência doméstica 
ou viviam em famílias com este tipo de violência,mesmo sem testemunhar 
diretamente tais atos sofriam de sintomas do TEPT. Porém, poucas delas 
atingiam os critérios diagnósticos do TEPT, segundo a DSM-IV. Um estudo foi 
desenvolvido com crianças de idade escolar e suas mães que estavam em lares 
emergenciais para vítimas de violência doméstica. Participaram deste estudo 30 
crianças de idade de 6 a 12 anos e suas mães, avaliando-se a presença de 
sintomas de TEPT e problemas de comportamento. Neste estudo, a exposição 
à violência familiar foi associada aos sintomas de TEPT em crianças, mas os 
problemas de comportamento não se associaram à presença de violência. 
O impacto da violência na infância pode levar a conseqüências até mesmo 
para a vida adulta. Em uma pesquisa com 1924 universitários em Taiwan foi 
avaliado se na infância houve violência entre os pais; maus-tratos contra os filhos 
e ambas as formas de violência conjuntamente. Procurou-se investigar se a 
vivência deste tipo de violência na infância tem relação com TEPT e problemas 
de comportamento atuais. Como resultado do estudo, percebeu-se que as pes-
soas que sofreram maus tratos e testemunharam violência entre os pais, quando 
crianças, apresentam mais sintomas traumáticos e problemas de comporta-
mento do que aquelas que experienciaram apenas um tipo de violência ou 
nenhuma violência. 
Estudo realizado nos EUA com 1196 adultos vítimas de violência na infân-
cia (duas décadas atrás), verificou que tanto crianças que sofreram abuso físico 
e sexual quanto aquelas que sofreram negligência apresentaram um risco maior 
para TEPT na vida adulta. A violência comunitária é a mais comum violação aos 
direitos da criança, por negarlhes a liberdade, a dignidade, o respeito e a opor-
tunidade de crescer e se desenvolver em condições saudáveis. Está relacionada 
à violência urbana e social, sendo comprovadamente mais presente nas locali-
dades de menor poder aquisitivo onde faltam recursos institucionais protetores 
da saúde, educação, habitação e segurança públicas. 
A violência comunitária caracteriza-se pelo fato de ser praticada entre 
indivíduos sem laços de parentesco, conhecidos ou desconhecidos. 
 
 
 
42 
Exercida por pessoas em atos de violência gratuitos, estupros, violên-
cia sexual e as cometidas em instituições públicas ou privadas, tais 
como: escolas, serviços de saúde, comunidades e condomínios, dentre 
outros (p. 29)126 . 
 
 
Manifesta-se através de atos agressivos nos locais em que as famílias 
residem, colocando a criança e todos os familiares em risco e cerceados do 
direito de ir e vir a qualquer hora do dia ou da noite, seja através de roubos, 
assaltos, furtos, assassinatos e tráfico de drogas. Além dos efeitos concretos da 
convivência em áreas de elevado risco, o medo originado pelo descontrole e 
insegurança tomam lugar de destaque na sociedade, sendo tão limitador quanto 
os reais eventos ocorridos. Pode ocorrer sob três distintas formas: vitimização 
pessoal, testemunhar e ouvir sobre a violência. Quanto maior for a proximidade 
física da pessoa ao evento traumático, são esperados maiores efeitos oriundos 
da exposição. 
Crianças e adolescentes expostos à violência na comunidade têm, muitas 
vezes, seus direitos básicos violados, como o acesso à escola e aos cuidados 
necessários para o seu desenvolvimento. Sofrem pela ameaça, exposição e 
testemunho de situações que as deixam vulneráveis emocionalmente e, mais 
ainda, aprendem que situações de violência fazem parte de sua vida, banali-
zando-as e podendo repeti-las em suas relações atuais e futuras. Nesse con-
texto de exclusão e sendo alvo de ações violentas, a saúde fica comprometida 
física e mentalmente. O ambiente vivido na comunidade sinaliza às pessoas que 
nela residem o seu lugar no mundo e os limites dos „possíveis sociais‟ que po-
dem almejar. Por ser um local onde se vive, pode interferir na capacidade futura 
de inserção no mundo. 
Revisão de estudos sobre o tema mostra que pesquisadores que investi-
gam a temática da violência urbana vivenciada por jovens, têm encontrado que 
mais de 70% deles já testemunharam essa forma de violência no lugar em que 
vivem138. Violência comunitária não tem sido definida clara ou consisten-
temente, havendo distinção das definições entre estudos, dificultando com-
parações. No presente estudo, está definida como a violência vivenciada ou 
testemunhada pela criança no ambiente comunitário incluindo ruas, escola e out-
ros ambientes proximais em que transita. Inclui situações como ser 
 
 
 
43 
vítima/testemunha de ações de tráfico de drogas, uso de armas, ver pessoas 
mortas, tiroteios, assassinatos, roubos, dentre outros. 
Assis et al apresentam revisão sobre o fenômeno no país, indicando 
prevalências de violência comunitária contra crianças e adolescentes, variando 
de 13,5% a 67,4%, com estudos desenvolvidos nas seguintes cidades brasileiras 
como São Gonçalo (RJ), Manaus (AM), Porto Alegre (RS), Rio de Janeiro (RJ) e 
Brasília (DF). As crianças e adolescentes que vivem em comunidades violentas 
podem se sentir continuamente em risco de vitimização, pois podem ser aco-
metidos por roubos, brigas, tiroteios e atividades de gangues. A violência co-
munitária atinge a todos, mesmo que indiretamente, pois as pessoas são 
testemunhas ou ouvem falar sobre os eventos violentos. 
Crianças que vivem em comunidades violentas costumam apresentar múlti-
plas formas de exposição a atos violentos ao longo de suas vidas e, desta 
maneira, elas podem perder a confiança nas instituições sociais que deveriam 
protegê-las e apoiálas. Schields, Nadasen e Pierce, em estudo com 247 crianças 
da Cidade do Cabo, na África do Sul, encontraram alta exposição à violência 
comunitária. As crianças relataram terem testemunhado mais freqüentemente às 
seguintes formas de violência comunitária: ver alguém apanhar (92,4%); ver al-
guém ser chutado, empurrado (91,1%); ver alguém ser morto (40,2%). E os tipos 
de vitimização por violência na vizinhança mais comuns foram: ser chutado ou 
empurrado (88,0%); apanhar (65,9%); e entrar em brigas (51,8%). 
As crianças mais velhas foram mais expostas à violência, bem como os 
meninos relataram apresentarem maior probabilidade de serem vítimas ou 
testemunhas de atos violentos na comunidade. Vários estudos apontam que a 
exposição à violência comunitária aumenta com a idade, isto é, em geral, ado-
lescentes foram mais expostos à violência na localidade do que crianças em 
idade escolar. Isso pode levar a piores prejuízos a saúde mental dos adolescen-
tes pelo efeito cumulativo da exposição à violência, ou fazer com que eles desen-
volvam formas de lidar com esta violência, ou que simplesmente se tornem des-
senssibilizados à violência. As crianças, quanto mais jovens, podem também 
aprender a “se desligarem” da realidade difícil em que vivem. Stein et al. em 
revisão de literatura com 43 artigos publicados em língua inglesa revelam que 
 
 
 
44 
os estudos apontam altas taxas de violência comunitária em crianças mais vel-
has, mas que estes achados são inconsistentes devido a muitos artigos não 
apontarem diferenças significativas quanto à idade. 
Diversos autores apontam maior exposição à violência na comunidade em 
crianças e adolescentes do sexo masculino. Stein et al resume que os estudos 
indicam maior vitimização das crianças de sexo masculino, com exceção de 
eventos relacionados à violência sexual. Alguns estudos refletem que não se 
encontram diferenças de sexo na exposição à violência comunitária. Foster et al. 
encontraram níveis similares de exposição à violência comunitária entre meninos 
e meninas nos EUA, mas os tipos de violência dos quais eles foram testemunhas 
ou vítimas variaram de forma significativa entre os sexos, por exemplo: 15% das 
meninas relataram ser vítima de ataque sexual contra 5% dos meninos; 19% das 
meninas relataram ter testemunhado uma tentativa de suicídio, enquanto apenas 
6% dosmeninos tiveram esta experiência. 
Breslau et al. em pesquisa com jovens adultos sobre exposição à violência 
na comunidade, aponta que as mulheres relataram mais exposição a estupros e 
outras violências sexuais, enquanto que os homens relataram mais serem víti-
mas de assaltos, serem ameaçados com armas, e serem espancados. A ex-
posição à violência nos diversos espaços da comunidade pode gerar diversas 
conseqüências à saúde mental de crianças e adolescentes. Estudos apontam 
maior associação da violência comunitária ao comportamento agressivo e TEPT. 
Um trabalho de metanálise sobre as conseqüências à saúde mental da ex-
posição à violência comunitária envolvendo 116 estudos e 39.667 crianças e ad-
olescentes, encontrou associação mais forte entre violência comunitária e TEPT, 
seguido de problemas externalizantes. 
Neste estudo, não houve diferenças quanto ao tipo de exposição à violên-
cia comunitária (ser vítima, testemunha ou ouvir sobre o evento) e o desfecho 
TEPT. Os autores discutem que ouvir e testemunhar a violência pode contribuir 
para sentimentos de insegurança difusos, que levam a crer que ninguém está 
seguro na comunidade. Estes sentimentos podem ser tão prejudiciais quanto a 
vitimização direta. Outra pesquisa desenvolvida com adolescentes norte-ameri-
canos também não encontrou diferenças na relação entre ser vítima ou 
 
 
 
45 
testemunha do evento e os sintomas de TEPT. Fowler et al. em revisão de liter-
atura, aponta que jovens que sofrem violência comunitária sofrem aumento da 
excitabilidade nos momentos de repouso e diminuição da excitabilidade durante 
a exposição à violência. 
Este aumento da excitabilidade pode estar relacionado ao aumento da 
probabilidade dos jovens em apresentar sintomas do TEPT. Em pesquisa com 
adolescentes escolares, principalmente latinos e afro-americanos que moram 
nos EUA, verificou-se que 15% deles apresentavam critérios diagnósticos para 
o TEPT associados à violência comunitária. Segundo os autores, os adolescen-
tes com TEPT reportaram altos níveis de exposição à violência comunitária, no-
tando-se que quanto maior a exposição à violência comunitária, maiores os 
escores de TEPT. Outra consideração importante do estudo foi que fatores como 
a proximidade com a vítima e a proximidade física com o evento, estão relacio-
nados ao transtorno140 . Pesquisa com estudantes afro-americanos de 7 a 18 
anos encontrou alta prevalência de TEPT (27,1%) entre os jovens que sofreram 
violência na comunidade. Neste estudo, ser vitimizado ou testemunhar violência 
comunitária associou-se aos sintomas de TEPT. 
Os grupos que apresentaram maior gravidade dos sintomas foram meninas 
e jovens que não vivem com o responsável masculino em casa. Uma carac-
terística importante na exposição à violência comunitária é a maneira com que 
os pais lidam com essas adversidades. A maneira de cuidar dos pais pode afetar 
negativamente os filhos, pois os primeiros podem apresentar sentimentos de 
desesperança, insegurança e medo.A exposição à violência familiar ou comuni-
tária pode desestimular os pais a facilitarem a aquisição de autonomia pela cri-
ança; ou ainda propiciar o comportamento de superproteção para com seus fil-
hos. Conforme descrito nesta tese, os estudos afirmam que há maior risco para 
as meninas de apresentarem TEPT quando expostas a eventos traumáticos. 
Foster et al. em estudo com 146 crianças e adolescentes de 11 a 16 anos, 
encontraram que as meninas apresentaram mais sintomas de transtorno de es-
tresse pós-traumático, depressão e ansiedade quando comparadas aos meninos 
após vivência de violência comunitária. Breslau et al (1998), em estudo em uma 
comunidade com adultos de 18 a 45 anos, percebeu que o risco condicional de 
 
 
 
46 
apresentar TEPT após a exposição de um evento traumático é 9,2%, sendo ma-
ior nas mulheres (13,0%) que nos homens (6,2%). Na metanálise citada anteri-
ormente, a idade não influenciou na relação entre TEPT e violência comunitária, 
apenas afetou a relação da violência com problemas internalizantes e externali-
zantes. As crianças mais novas apresentaram mais sintomas internalizantes e 
menos externalizantes diante deste tipo de violência quando comparadas aos 
adolescentes. 
Os autores discutem que as crianças podem ser menos hábeis para ex-
pressar seus sentimentos sobre violência (quando comparadas aos adolescen-
tes) e por isso menos capazes de desenvolver estratégias para lidar e procurar 
suporte junto aos adultos. Eles discutem também que os pais das crianças po-
dem falhar em ajudar as crianças por considerarem que os filhos, por serem mais 
novos, não estão sendo afetados pela violência da comunidade. Dentro da 
violência comunitária, destaca-se o tema da violência que ocorre na escola. Em 
pesquisa realizada no sul do Brasil com estudantes de colégios públicos, notou-
se que 99,7% dos adolescentes investigados foram expostos a alguma forma de 
violência naquele espaço de socialização, sendo que 70,9% foram vítimas, 
98,4% testemunhas e 99,2% conheceram alguma vítima de violência . Assis, 
Pesce e Avanci avaliaram que um em cada cinco adolescentes escolares da 
rede pública e privada de São Gonçalo/RJ, foi humilhado na escola, e um em 
cada quatro adolescentes teve objetos pessoais furtados na instituição de en-
sino. Os adolescentes relataram também que tiveram objetos danificados pro-
positalmente (13,9%), e que tiveram dinheiro ou outros objetos roubados no es-
paço escolar (2,5%). 
Ristum aponta que a violência escolar pode se expressar de diversas for-
mas, como: violência entre os pares; violência do aluno contra o professor e out-
ros funcionários; violência da escola e do professor contra o aluno; do aluno con-
tra o patrimônio da escola; e do sistema de ensino contra a escola e o professor. 
Pouco se sabe como estas variadas formas de violência podem atingir a saúde 
mental das crianças e adolescentes. Mathews et al. investigaram a associação 
entre violência comunitária e funcionamento escolar, e encontraram efeito mod-
erador dos sintomas do TEPT nesta relação. Os autores explicam que os 
 
 
 
47 
sintomas de estresse pós-traumático podem contribuir para a diminuição da con-
centração e dificultar o processo de aprendizagem. Também discutem que a ten-
tativa de evitar fatos que lembrem a violência sofrida na comunidade pode 
causar medo de ir à escola, evitar o próprio espaço escolar e resultar em ab-
senteísmo. 
O estudo contou com uma amostra de 47 crianças afro-americanas de 
baixa renda e os resultados mostraram que a exposição à violência comunitária 
foi inversamente relacionada à performance acadêmica da criança. Como se 
pôde perceber ao longo do capítulo, as conseqüências da exposição à violência 
familiar e comunitária para crianças e adolescentes são variadas e incluem 
prejuízos à saúde física, dificuldades de relacionamento, prejuízo acadêmico e 
problemas psicopatológicos, justificando a investigação realizada para a 
presente tese. 
8. TRAUMAS EMOCIONAIS EM CRIANÇAS 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Há necessidade de estudos, pesquisas, conduta e intervenção psicológica 
e psiquiátrica para as crianças e adolescentes expostos a eventos traumáticos. 
Crianças e adolescentes têm alto risco de desenvolver diferentes problemas 
comportamentais, psicológicos e neurobiológicos como consequência das vivên-
cias traumáticas ou experiências de vida estressantes. Existem trabalhos con-
troversos que constatam que, em algumas pessoas, as experiências traumáticas 
podem não produzir efeitos psiquiátricos desastrosos e até mesmo alguns efei-
tos positivos. Cada vez mais se analisam as variedades de eventos traumáticos 
 
 
 
48 
precoces ou em tenra idade e sua verdadeira importância no desenvolvimento 
de quadros psiquiátricos conhecidos, como o Transtorno de Estresse Pós-Trau-
mático, os Transtornos de Ansiedade, Transtornos Depressivos, Transtornos 
Comportamentaise outros, ou mesmo nos sintomas de luto traumático em cri-
anças. Ainda faltam estudos bem desenhados e cientificamente expressivos 
para análise dos sintomas e quadro clínico de transtornos emocionais conse-
quentes ao estresse experimentado por crianças e adolescentes em tenra idade. 
O interesse sobre o impacto de eventos traumáticos em crianças e adoles-
centes se reacende diante dos periódicos desastres naturais (tufões, furacões, 
terremotos, tsunamis) e dos “cataclismos” criados pelo ser humano, como são 
os atos de violência, guerras, violência urbana, violência doméstica e outras ma-
nifestações de efeitos fortemente traumáticos. A pergunta que se faz é se exis-
tem, e quais seriam, os fatores protetores individuais contra esses traumas, de 
tal forma que algumas pessoas parecem menos vulneráveis que outras em rela-
ção às vivencias estressantes. Em outras palavras, quais seriam as característi-
cas pessoais responsáveis pela alta capacidade de resiliência de alguns. O que 
se observa na clínica diária é que algumas crianças e adolescentes, vítimas de 
traumas vivenciais, se adaptam e se recuperam de maneira surpreendente, ape-
sar da experiência sofrível pela qual passaram. 
Constata-se através da revisão de pesquisas sobre o tema, existir uma 
grande variedade de respostas emocionais aos eventos traumáticos que acome-
tem crianças e adolescentes e, assim, fica cada vez mais difícil atribuir respon-
sabilidade patogênica exclusiva às vivências emocionais precoces. Uma ocasião 
– como exemplo irônico sobre a importância das fragilidades pessoais em rela-
ção àquilo que a vida coloca diante de cada um – lembro um paciente criado em 
orfanato e que vivia com sintomas extremamente histéricos, dissociativos e con-
versivos, não apenas sofrendo ele próprio, como também fazendo sofrer quem 
dele se acercava afetivamente. A tudo ele atribuía o fato de ter vivido em orfa-
nato. Aliás, tratava-se de uma excelente instituição que formava seus internos 
profissionais técnicos bastante capacitados e com vaga garantida no mercado 
de trabalho. 
Um dia, diante de tantas afirmativas de que “era assim e era assado” por 
ter sido criado em orfanato e como se aproximava a data da reunião tri anual de 
 
 
 
49 
sua turma de formandos na instituição, disse-lhe que levasse vários cartões 
meus para distribuir entre seus pares; se ele estava assim tão problemático por 
ter vivido naquele orfanato, então, certamente, todos seus colegas de classe de-
veriam estar passando pelos mesmos problemas e precisando, igualmente, de 
meus préstimos profissionais. Ele não levou meus cartões. Discute-se a existên-
cia de uma personalidade mais imune às vivências traumáticas ou, por outro 
lado, se o apoio social e familiar seria o fator decisivo para essas crianças se 
recuperarem, impedindo assim uma consequência mais patológica de eventuais 
traumas. 
As pesquisas que investigam alterações hormonais causadas pelo estresse 
em tenra idade, bem como as consequências de tais alterações no desenvolvi-
mento emocional futuro, sugerem que as consequências psico-orgânicas das vi-
vências parecem depender muito mais da personalidade sobre a qual agem es-
sas vivências do que das próprias vivências em si. Isso corresponderia a dizer 
que as reações dependem muito mais do agente “agredido” do que do agente 
“agressor”. Entre as variáveis potenciais que determinam as consequências dos 
traumas vividos por crianças e adolescentes em longo e médio prazo, devemos 
considerar fortemente as eventuais psicopatologias e predisposições preexisten-
tes nessas pessoas. 
Além das variáveis individuais de vulnerabilidades ao trauma, as conse-
quências de vivências traumáticas sobre o psiquismo das crianças e adolescen-
tes podem ter também um componente cultural e mesmo étnico. Uma pesquisa 
com este propósito, por exemplo, envolveu uma mostra de 349 adolescentes de 
nove escolas dos EUA e verificou que 76% delas relataram terem sido testemu-
nhas ou terem sido vítimas de pelo menos um evento violento nos últimos três 
meses. Dessas exposições à violência o que mais se associou foi o Transtorno 
de Estresse Pós-Traumático e a Depressão (Ozer). A outra pesquisa, de Seedat, 
verificou que mais de 80% de uma mostra de 2.041 adolescentes quenianos re-
latou exposição à violência, como vítimas ou testemunhas, mas somente 5% 
dessa mostra desenvolveu sintomas plenos de Transtorno de Estresse Pós-
Traumático e 8% desenvolveu sintomas apenas parciais desse mesmo quadro. 
Talvez a diferença entre uma criança americana e uma queniana quanto 
as dificuldades para a vida cotidiana imunize as mais sofridas contra os efeitos 
 
 
 
50 
de certos eventos, ou seja, maiores dificuldades de vida poderiam fazer com que 
alguns eventos fossem traumáticos para uma criança americana e nem tão trau-
mático para uma queniana. Se isso fosse verdade, então as dificuldades prag-
máticas da vida, as vivências mais penosas e as frustrações, até certo ponto, 
contribuiriam para melhorar a adaptação futura da pessoa. 
 
8.1 Efeitos orgânicos e psíquicos do trauma 
 
 O perfil afetivo da pessoa que reage à vivência traumática é fundamental 
para a valorização da experiência vivida, a ponto dos eventos serem mais trau-
máticos para uns que para outros. Tem ainda o “fator depressão”, ou seja, o fato 
das pessoas mais depressivas terem muito mais dificuldade adaptativa diante 
dos estressores da vida. Na prática, a tonalidade afetiva responsável pela “valo-
rização” do trauma seria representada pela pessoa que lamenta copiosamente 
as experiências vividas, dizendo sofrer “até hoje” as consequências “malditas” 
de tudo que aconteceu de terrível. Outra pessoa, entretanto, vivendo experiên-
cias muito parecidas, regozija-se por “tudo isso já ter passado” e sente-se muito 
bem por “ter superado essas vivências“. 
Juntando isso ao fato do Transtorno de Estresse Pós-Traumático ser 
acompanhado de taxas elevadíssimas de Depressão (comorbidade), surge a 
clássica pergunta: a Depressão e o Transtorno de Estresse Pós-Traumático se-
riam síndromes distintas ou, ao contrário, seriam aspectos diferentes de um 
mesmo fenômeno emocional? Se assim fosse, então o Transtorno de Estresse 
Pós-Traumático seria apenas um outro tipo de manifestação clínica da depres-
são. Para entender os efeitos orgânicos do estresse, deve-se entender que a 
base de liberação hormonal está situada no cérebro (hipotálamo>hipófise), por-
tanto, as questões cerebrais influem diretamente no funcionamento endócrino 
de todo organismo. Assim como as atividades mentais e emocionais não devem 
ser emancipadas da atividade cerebral. Portanto, a influência hormonal do es-
tresse atinge mesmo as glândulas situadas fora do cérebro através de um eixo 
que liga o Hipotálamo, a Hipófise e as Suprarrenais (eixo hipotálamo-hipófise-
suprarrenal). 
 
 
 
51 
A secreção da maioria dos hormônios pela hipófise obedece ao estímulo 
de pré-hormônios elaborados nos núcleos cerebrais paraventriculares, e estes 
núcleos são controlados por, pelo menos, dois tipos de estímulos: o estresse e 
o relógio biológico, responsável por todo ritmo do organismo (sono-vigília, ciclos 
hormonais das mulheres). Assim, uma das áreas mais pesquisadas quando se 
trata dos efeitos físicos das emoções, é no chamado eixo hipotálamo-hipófise-
suprarrenal, ou seja, um sistema que começa no cérebro, na região do hipotá-
lamo, fortemente influenciado pelas emoções, segue pela gandula hipófise, lo-
calizada no assoalho do hipotálamo e suas repercussões sobre a glândula su-
prarrenal, situadas, como diz o nome, sobre os rins. Há uma enorme variedade 
de patologias e estados funcionais orgânicos alterados, em praticamente todos 
órgãos e sistemas resultantes das anomalias deste eixo hipotálamo-hipófise-su-
prarrenal. 
Pelo lado emocional, o maior volume de pesquisas sobre o impacto psico-
lógico dos traumas em crianças e adolescentesse concentra, em geral, no abu-
sos, maus tratos e violência doméstica. Em graus muito variáveis de adaptação 
e superação as crianças que sofreram abuso e maus-tratos correm maior risco 
de desenvolverem os seguintes quadros, de acordo com os seguintes trabalhos: 
 Transtornos  Autor 
 Transtorno de Estresse Pós-Traumático  Bal 
 Comportamentos Autoprejudiciais  Yates 
 Alexitimia (dificuldade externar emoções)  Honkalampi 
 Transtornos do Humor  Duran 
 Transtorno por abuso de drogas  Singer 
 Problemas de Comportamento Sexual  Letourneau 
 Dissociação Psicológica  Collin-Vezina 
 Somatizações  Maaranen 
 
Alguns grupos de populações pesquisados, como por exemplo, os adoles-
centes de rua (Stewart) e os infratores juvenis (Abram, Brosky), parecem possuir 
antecedentes particularmente elevados de experiências traumáticas precoces, 
tais como abuso físico ou sexual e crime violento. Eles ainda mostraram taxas 
 
 
 
52 
mais altas de Transtorno de Estresse Pós-Traumático. Também foi sugerida 
uma ligação entre exposição a experiências traumáticas precoces, transtornos 
psicológicos e comportamento antissocial (Dixon). Devemos ter muito cuidado 
com essas tendências em se atribuir ao sociopata uma causalidade social. Mas 
não existem, entretanto, pesquisas que investiguem a exposição à vivências 
traumáticas em pessoas adultas e completamente normais, tanto do ponto de 
vista psicológico, quanto sócio-ocupacional. Na vida cotidiana todos conhecem 
pessoas que, a despeito de terem suportado vivências bastante traumáticas, são 
normais do ponto de vista psicológico e emocional. 
Pesquisas assim procuram verificar a força das características constitucio-
nais da pessoa em relação à qualidade e quantidade da resposta emocional. 
Explica-se ainda, que as experiências traumáticas precoces também passarão a 
fazer parte integrante e importante da personalidade em desenvolvimento, por-
tanto, contribuirão significativamente para a constituição da pessoa. Isso quer 
dizer que o termo “constitucional” não se refere exclusivamente ao que é gené-
tico, mas à interação entre o potencial genético e a influência ambiental precoce, 
desde que o fator em consideração tenha presença definitiva. Brincando didati-
camente com essa tese, se tomarmos o ditado segundo o qual “cachorro mor-
dido de cobra tem medo de linguiça”, o medo de linguiça seria uma característica 
constitucional no cachorro. 
8.2 O peso das vivências 
 
Em crianças e adolescentes pode-se encontrar, quando houver, consequências 
emocionais do tipo Transtorno de Estresse Pós-Traumático, Depressão e qua-
dros Fóbico-Ansiosos. Em adolescentes, além desses transtornos emocionais, 
observamos importantes alterações comportamentais, tais como isolamento so-
cial, rebeldia, constrangimento social e ideação suicida. Adultos com passado 
de abuso sexual podem ter alterações da sexualidade, quadros ansiosos (não 
raramente o TOC) e depressivos como eventuais consequências psiquiátricas. 
Entretanto, deve ser relevante o fato de que nem todas as crianças e adolescen-
tes submetidos a experiências traumáticas desenvolvem consequências patoló-
gicas. Maior ênfase deve ser dado às variáveis pessoais e culturais que influem 
nas respostas às experiências traumáticas. As variáveis pessoais dizem respeito 
 
 
 
53 
à constituição da própria personalidade e a ocorrência de transtornos emocionais 
prévios e/ou predisposições a eles. 
Também tem-se pesquisado bastante em relação às alterações orgânicas 
(notadamente hormonais) ocasionadas pelas vivências traumáticas e estresse. 
Além das eventuais alterações endócrinas, também tem-se relacionado às ex-
periências traumáticas e ao estresse algumas alterações funcionais e/ou anatô-
micas do Sistema Nervoso Central. A ideia de atribuir à pessoa uma importância 
maior na sensibilidade emocional às vivências traumáticas e naquilo que essas 
vivências poderiam causar por si só, desperta reflexões importantes sobre o 
peso real dos fatores ambientais supostamente capazes de justificar transtornos 
emocionais e de conduta em crianças, adolescentes e adultos. É evidente que a 
história vivencial tenha a mais relevante importância na essência da pessoa 
aqui-e-agora, entretanto, não é apenas isso que deve ser buscado entre os fa-
tores relacionados aos problemas psíquicos atuais. 
Assim, não se pode atribuir às eventuais experiências traumáticas sofridas 
precocemente a justificativa absoluta e exclusiva para a conduta dos sociopatas, 
por exemplo. Nem tampouco que as crianças hiperativas o são por carência afe-
tiva ou coisa assim. A busca de causas vivenciais relacionadas ao autismo in-
fantil também tem sido completamente estéril. Tudo isso parece muito mais atre-
lado ao DNA do que ao destino. É claro que existem experiências fortemente 
traumáticas e capazes de mobilizar emocionalmente grande número de pessoas, 
como é o caso de catástrofes naturais (tsunamis, terremotos…) e situações so-
fríveis produzidas pelo próprio ser humano, como as guerras, terrorismo, violên-
cia urbana de grandes proporções. Essas experiências, sem dúvida, podem pro-
duzir sequelas emocionais significativas em grande número de crianças, adoles-
centes e adultos. Mesmo assim, essas consequências não aparecerão em 100% 
das pessoas. 
Experiências traumáticas particularmente vividas, como perdas pessoais, 
separações conjugais, e coisas assim, deverão ser mais bem pesquisados, uma 
vez que as variáveis são muitas, assim como são muitas as maneiras das pes-
soas reagirem a elas. Inclusive, parece que em determinadas circunstâncias as 
 
 
 
54 
crianças reagem melhor que os adultos. Também não se tem certeza, fisiologi-
camente, se alguns sintomas emocionais de crianças e adolescentes que sur-
gem em resposta ao estresse poderiam ser considerados reações “normais” a 
eventos cotidianos aos quais qualquer pessoa estaria sujeita na vida moderna. 
9. TRAUMA: 5 DICAS PARA SUPERAR SITUAÇÕES TRAUMÁTI-
CAS 
 
O trauma se manifesta de várias maneiras diferentes. Cada pessoa lida e reage 
de forma diversa. Por isso, ao sermos confrontados com ele, pode ser bastante 
difícil lidar com as emoções. E para cada indivíduo há uma abordagem especí-
fica para superar o trauma. A palavra trauma pode se referir a várias coisas di-
ferentes e ele pode ocorrer por várias razões, incluindo: 
 trauma físico; 
 assédio físico, mental e sexual; 
 situações embaraçosas; 
 abandono; 
 relacionamentos abusivos; 
 assaltos (incluindo assalto armado e sequestro); 
 abuso e violência sexual; 
https://www.vittude.com/blog/fala-psico/assedio-moral-como-lidar/
https://www.vittude.com/blog/relacionamento-abusivo/
https://www.vittude.com/blog/fala-psico/violencia-domestica-perfil-psicologico-do-agressor/
 
 
 
55 
 intimidação, como violência doméstica ou ser vítima de um pai alcoólatra, 
por exemplo; 
 ser testemunha de eventos violentos (principalmente na infância); 
 situações de risco de vida; 
 presenciar desastres (naturais ou não como terremotos, furacões, incên-
dios, desmoronamentos, a queda de um avião etc); 
 exposição a longo prazo a situações altamente insalubres, como pobreza 
extrema; 
 abuso verbal; 
 violência extrema, como guerra ou ataques terroristas; 
 acidentes (incluindo acidentes de carro ou acidentes de trabalho). 
Sinais de trauma psicológico 
As razões para sofrer um trauma podem variar amplamente, e igualmente, os 
sintomas após tal evento também variam de pessoa para pessoa. Tal como 
acontece com a maioria das condições de saúde mental, a experiência é dife-
rente para todos, e o trauma pode se manifestar de várias maneiras distintas. Se 
você tiver experimentado um evento traumático e estiver passando por algum 
dos sintomas listados a seguir, talvez seja hora de falar com um psicólogo. 
1. Pesadelos 
Não é incomum que o trauma nos faça reviver o evento em nossos sonhos en-
quantoestamos dormindo. Nesse momento o seu cérebro tenta processar o 
evento, a fim de ajudar o sistema nervoso a se recuperar do choque. A falta de 
sono costuma ser muito comum depois de uma experiência traumática e, para 
muitas pessoas, são os pesadelos que causam a insônia. 
2. Flashbacks 
Assim como os pesadelos, muitas pessoas traumatizadas também sofrem com 
flashbacks do evento. Os flashbacks costumam ser desencadeados por situa-
ções ou locais que lembram o que aconteceu, e muitas vezes fazem com que 
as emoções vivenciadas durante o acontecimento voltem a ocorrer. 
https://www.vittude.com/blog/fala-psico/as-lembrancas-da-infancia-e-o-que-representam-em-nossa-vida-adulta/
https://www.vittude.com/blog/agressao-verbal/
https://www.vittude.com/blog/estresse-pos-traumatico-como-lidar-com-o-transtorno-depois-do-trauma/
https://www.vittude.com/blog/fala-psico/o-psicologo-e-diferente-de-um-bom-amigo/
https://www.vittude.com/blog/sonhos-significados-psicologia/
https://www.vittude.com/blog/insonia-quando-procurar-tratamento/
https://www.vittude.com/blog/conheca-as-emocoes/
 
 
 
56 
3. Ansiedade 
Aqueles que sofreram um evento traumático muitas vezes desencadeiam um 
transtorno de ansiedade, especialmente quando passam por situações que a fa-
çam lembrar o que aconteceu. Por exemplo, aqueles que sofrerão um acidente 
de carro podem sentir ansiedade ou pânico ao tentar entrar novamente em um 
carro após o ocorrido. 
4. Tristeza ou culpa 
Se a sua experiência traumática envolveu outras pessoas que acabaram feridas 
ou mortas, não é incomum experimentar a culpa. É comum, inclusive relembrar 
os eventos e começar a imaginar coisas que poderiam ter sido feitas para evitar 
o fato ou salvar o outro. Além disso, muitas pessoas se sentem mais deprimi-
das depois de um evento traumático. 
5. Sentindo-se entorpecido 
Enquanto muitas pessoas experimentam um alto número de emoções diferentes 
após um acontecimento traumático, um sentimento geral de “torpor” geralmente 
indica que você não está lidando bem com a situação. 
Além de não ter emoções negativas, você também pode não ter emoções posi-
tivas, como se os sentimentos tivessem se desligado completamente. Isso pode 
vir tanto do corpo quanto da mente, em um esforço para se proteger de emoções 
que podem ser esmagadoras. 
Estes são apenas alguns sintomas comuns de quem está traumatizado por al-
guma situação. Como dito antes, cada pessoa reage de forma diferente, e por 
isso o mais importante é praticar o autoconhecimento e, ao perceber que algo 
pode está errado, buscar ajuda para colocar a vida nos eixos. 
Como superar o trauma 
Se você sentir que está passando por um trauma depois de um acontecimento 
particularmente difícil, isso não significa que se sentirá assim pelo resto da vida. 
https://www.vittude.com/blog/ansiosa-dicas-para-reduzir-ansiedade/
https://www.vittude.com/blog/ataque-de-panico/
https://www.vittude.com/blog/fala-psico/sentimento-de-culpa-como-lidar/
https://www.vittude.com/blog/13-sintomas-de-depressao/
https://www.vittude.com/blog/13-sintomas-de-depressao/
https://www.vittude.com/blog/autoconhecimento-sucesso-pessoal/
 
 
 
57 
Há várias atitudes que podem lhe ajudar a superar o trauma e retomar sua rotina 
sem todos esses sentimentos perturbadores. Confira algumas: 
1. Aprenda a respirar 
Voltar ao normal após um evento traumático pode parecer impossível. Mas você 
sabia que tirar alguns minutos para praticar meditação ou exercícios respirató-
rios pode ajudá-lo a dormir, fazer desaparecer os flashbacks e superar a ansie-
dade, que às vezes pode ser incapacitante? Então, quando sentir o trauma pe-
sando a vida, tente respirar profundamente. Isso irá ajudá-lo muito! 
2. Pratique exercícios físicos 
O exercício físico é uma forma de ajudar o corpo a liberar endorfina. Além disso, 
ele proporciona uma distração do mundo ao seu redor e uma liberação física 
para as emoções que você pode estar experimentando. 
Inscrever-se na academia, participar de uma aula de boxe ou começar a correr 
são ótimas maneiras de melhorar sua saúde mental. Inclusive, apenas 30 minu-
tos de exercício três vezes por semana já é o suficiente para diminuir os sintomas 
de ansiedade e depressão. 
3. Crie uma rotina saudável 
Um evento traumático – principalmente aqueles que lhe fazem ficar um período 
no hospital ou lhe tenham afastado do trabalho – afetam profundamente a sua 
rotina. E podem até mesmo fazer você perder a noção do tempo. 
Nesse sentido, é muito fácil sucumbir à depressão e à estagnação. A vida parece 
perder o sentido e ficamos sem energia para buscar nossos objetivos. Voltar à 
rotina, mesmo que isso signifique apenas sair da cama todos os dias na mesma 
hora ou ainda fazer as refeições no mesmo horário, pode fazer uma grande di-
ferença para o seu bem-estar e ajudá-lo a se recuperar do trauma. 
https://www.vittude.com/blog/atitudes-para-aumentar-autoestima/
https://www.vittude.com/blog/meditacao-guiada/
https://www.vittude.com/blog/saude-mental/
https://www.vittude.com/blog/depressao/
https://www.vittude.com/blog/praticas-essenciais-para-seu-bem-estar/
 
 
 
58 
4. Cultive hobbies 
Uma distração pode ser um grande aliado para superar o trauma. Busque ativi-
dades relaxantes como pintura, jardinagem, dança, marcenaria, aprender a tocar 
um instrumento etc. Tudo isso pode ajudar a distraí-lo e evitar que você fique 
constantemente repensando ou ainda revivendo sentimentos relacionados ao 
trauma. 
5. Faça terapia para superar o trauma 
A terapia pode ser uma ótima ferramenta para superar o trauma. Como exemplo, 
a terapia cognitivo-comportamental é excelente para ajudá-lo a lidar com um pro-
blema ou acontecimento específico. O seu psicólogo irá auxiliar no processo por 
meio de uma série de sessões particulares e também através de tarefas que ele 
irá orientá-lo a praticar em casa. 
Estas são algumas dicas que podem lhe ajudar a amenizar e a lidar com situa-
ções traumáticas. O mais importante é ter pensamento positivo e saber que é 
possível superar o sofrimento e, até mesmo, transformá-lo em algo edificante. 
10. REFERÊNCIAS 
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tológico: uma revisão da literatura. Ciênc Biol Saúde Ponta Grossa. 2003 set./ 
dez;9(3/4):29-35. 
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CAVALCANTI AL. Manifestações físicas do abuso infantil: aspectos de inter-
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https://www.vittude.com/blog/fala-psico/devemos-continuar-fugindo-de-sentimentos-que-nao-gostamos-de-ter/
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https://www.vittude.com/blog/terapia-cognitivo-comportamental/
 
 
 
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