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REBECCA ALVES LAGO FORMAÇÃO EM PSICOFARMACOLOGIA - T3 São Luís/MA 2022 REBECCA ALVES LAGO Caso Clínico: Hellen Raquel São Luís/MA 2022 1. Introdução A psicofarmacologia surge a partir da necessidade de uma intervenção farmacológica aos transtornos psiquiátricos. Tal movimento desenvolveu as primeiras formas no final dos anos 1940. (GORESTEIN, SCAVONE, 1999, p.65) As intervenções medicamentosas para além da concessão de suspensão de sintomas graves e atenuação física e psíquica do sofrimento, permitiram que pessoas antes marginalizadas e encarceradas, pudessem vislumbrar uma possibilidade de viver em comunidade, sem a necessidade constante de internação e isolamento. (KIPERT et al., 2019, p. 7) Mesmo com as discussões que propõem a assistência em Saúde Mental que considere o sujeito para além do adoecimento, é necessário considerar os atravessamentos existentes provocados pela sintomatologia do sofrimento psíquico, e em uma proposta de Clínica do Sujeito como sugere Gramsci, necessita se atentar à integralidade do assistido, fornecendo à ele a qualidade de vida que pode ser possibilitada a partir da intervenção medicamentosa. (CAMPOS, 1996/1997) É através dos avanços na psicofarmacologia que intervenções em transtornos psíquicos como a depressão se tornaram viáveis e uma possibilidade de melhora e remissão de sintomas surge. Graças às pesquisas em nessa área, as classes de antidepressivos ofertadas atualmente possuem tecnologia apurada que atuam diretamente naquelas áreas que têm correlação com os quadros de Transtornos Depressivos, sem afetar receptores cerebrais que não possuem relação com esse tipo de adoecimento, como histamina e acetilcolina. (MORENO, MORENO, SOARES, 1999, p.24) 2. Definição de área Os atendimentos realizados com a paciente aconteceram em Ambulatório para adultos presente no Hospital de Referência Estadual em Saúde Mental, no Complexo há disponibilidade de atendimento médico especializado - psiquiátrico e neurológico, acompanhamento psicológico e intervenções junto à Terapia Ocupacional. O acompanhamento se deu a partir da busca espontânea da paciente. 3. Contextualização do Caso Clínico a. Dados Gerais Nome fictício: Hellen Raquel Sexo: Feminino Idade: 38 anos Escolaridade: Ensino Médio Completo Estado civil: Casada Profissão: Cuidadora de idosos Quantidade de atendimentos: 8 atendimentos Quantidade de faltas: 2 faltas Diagnóstico Psiquiátrico: Hipótese Diagnóstica F. 32.2 - Transtorno Depressivo Maior Grave Medicação: Em uso de Risperidona 1mg à noite, Clonazepam 15g à noite e Sertralina 100mg pela manhã b. Queixa principal: Refere quadro de insônia, anedonia, medo constante, humor entristecido e labilidade emocional. c. HDA: H.R.M, 38 anos, casada, mãe de 3 filhos. Terceira de prole de 5. Cresceu em contexto sócio-econômico vulnerabilizado. Tornou-se órfã de mãe na adolescência e assumiu responsabilidades de cuidado da casa e irmãos mais novos. Iniciou sua vida laboral muito cedo. Vivenciou contextos de violência física, psicológica e sexual quando em sua infância e adolescência. Casou-se com 19 anos e desse relacionamento gestou 3 filhos; relacionamento afetivo este de contexto abusivo, passando novamente por vivências de violência física, psicológica e patrimonial provocada pelo parceiro íntimo. Aos 30 anos, separou-se do então cônjuge e os filhos permaneceram com a família paterna, a paciente tendo contato com estes apenas aos fins de semana. Refere que mora com seu atual esposo, trabalhava anteriormente como cuidadora de idosos, mas desde o agravamento de seu quadro deixou suas atividades laborais. Queixa-se de sensação de perturbação mental, redução da necessidade de sono, humor triste, choro fácil e descontextualizado, não sente vontade de realizar tarefas cotidianas e/ou prazer em atividades antes significativas, sentimento de inutilidade, tem tido comportamento de isolar-se socialmente nos últimos meses. Relata também sensibilidade sensorial - especialmente, visual e auditiva. Conta que há 10 anos convive com sintomas supracitados, em ondas de maior e menor intensidade, em temporadas de conciliação com vida cotidiana e outras de grande prejuízo e interferência. Há presença de histórico familiar de adoecimento psíquico: tios paternos e avó materna. Sem referência a comportamentos autolesivos e/ou de autoextermínio em família. No ano de 2020, refere ter tido “crise mais forte” (sic), onde buscou atendimento em Serviço de Pronto Atendimento e após alta e encaminhamento, manteve o seguimento do tratamento por pouco tempo, ao sentir-se melhor abandonou as terapêuticas. Nega pensamentos de morte e/ou tentativas de autoextermínio neste período. Há 3 meses, apresentou nova crise, desta vez com a presença de sintomas psicóticos - vivência alucinatórias audiovisuais e táteis - e comportamento suicida com tentativa de autoextermínio por intoxicação medicamentosa. Iniciou acompanhamento psiquiátrico ambulatorial em fevereiro de 2022, com prescrição de Escitalopram 10mg. Em consulta de retorno, referiu manutenção de quadro de insônia e escutar vozes de comando que pediam para que ela tirasse a própria vida. Recebe nova prescrição com seguimento no ISRS, adição de antipsicótico - Risperidona 1mg e benzodiazepínico - Clonazepam gotas - 15. Em consulta psiquiátrica mais recente, paciente mantém queixa quanto desânimo, anedonia, medo de sair de casa, insônia e ideação suicida. Médico de referência faz substituição de Escitalopram por Sertralina 100mg. Paciente inicia atendimentos com Psicologia apenas após terceira consulta psiquiátrica após encaminhamento de médico de referência. d. Atendimentos Paciente vem inicialmente desacompanhada. Relatando histórico de adoecimento há aproximadamente 10 anos, com momentos de melhora discreta seguida de piora dos sintomas. Atualmente mora com esposo, em relacionamento de 5 anos. Passa a maior parte de seu dia sozinha, em seu quarto, não possui rotina cotidiana. Refere baixa autoestima, não sente vontade de interagir com familiares e/ou amigos, sente-se incompreendida e solitária, medo ao sair de casa e exposição a contextos de multidão. Há presença de culpa pela condição de saúde e relato de prejuízos na qualidade do sono. Já buscou outros profissionais de Saúde anteriormente, mas sempre que observava uma melhora em seu cotidiano, abandonava as condutas terapêuticas e o acompanhamento especializado. Durante os atendimentos realizados foram desenvolvidas escutas individualizadas e em conjunto com paciente e familiares - esposo e filha mais nova. Os encontros se organizaram em desenvolvimento de estratégias de enfrentamento aos momentos de maior ansiedade e medo, mapeamento vivencial, compreensão de sentimentos e comportamentos a partir de uma perspectiva contextual, proposta de técnicas de respiração e mindfulness. Trabalhado temáticas quanto relacionamentos, autoestima, perspectiva de futuro, autovalidação e autoacolhimento, postura de abertura a novos contextos, importância de estabelecimento de rotina, realização de atividade física - quando possível, adesão ao tratamento e exploração de sentido quanto vivências atuais. Com os familiares foram realizados momentos de escuta e psicoeducação, sobre características do quadro psicopatológico e sobre o manejo de crises. Ao longo dos atendimentos, foi observado uma maior abertura às atividades em família e estreitamento dos vínculos afetivos com a rede de apoio disponível. Após a regulação do sono, via estabelecimento de rotina noturna e ajuste das medicações, paciente referiu melhora no humor e redução do comportamento reativo. Apresenta dificuldades em considerar o processo vivido e o tempo necessário para a realização de algumas metas pessoais, mas demonstra disponibilidade à perspectiva de autoacolhimento quando incentivada. 4. Conclusão O sujeito é constituído por aspectos biopsicossociais e espirituais, e é a partir desta perspectiva que compreendemos também o que seria Saúde.A intervenção em Saúde Mental só encontra efetividade e eficácia quando considera a integralidade do atendido, para além de seu sofrimento psíquico e os sintomas manifestados, percebendo o contexto sócio-familiar e econômico em que este está inserido, bem como, as possíveis comorbidades - clínicas e psíquicas - associadas e histórico de saúde familiar. Esse olhar integralizado só se faz possível na constituição de uma assistência e cuidado multiprofissional e da construção de uma intervenção singular e de múltiplas terapêuticas. Desta forma, se faz necessário o trabalho combinado entre psicoterapia e psicofarmacologia, sinalizando os limites e possibilidades de cada uma destas intervenções. Para o estabelecimento de vínculo terapêutico e avanço do processo psicoterápico é necessário que o assistido tenha mínima capacidade psicológica e física para estar presente e em condições de assimilação do trabalho. Em contrapartida, o tratamento medicamentoso não atua em cenários de compreensão de comportamento e contexto, estabelecimento de vínculos e até mesmo quanto à adesão aos fármacos, em exemplo simplista. A ação combinada das perspectivas do acolhimento psicoterápico e atuação medicamentosa, permite que o sujeito assistido tenha disponibilidade e apresente as condições necessárias e suficientes para considerar, inclusive, quanto o seu próprio plano de tratamento e expressar sua perspectiva sobre. 5. Referências GORENSTEIN, Clarice; SCAVONE, Cristóforo. Avanços em psicofarmacologia-mecanismos de ação de psicofármacos hoje. Revista Brasileira de Psiquiatria, v. 21, n. 1, p. 64-73, 1999. MORENO, Ricardo Alberto; MORENO, Doris Hupfeld; SOARES, Márcia Britto de Macedo. Psicofarmacologia de antidepressivos. Brazilian Journal of Psychiatry, v. 21, p. 24-40, 1999. CARDOSO, Lucilene; GALERA, Sueli Aparecida Frari. Adesão ao tratamento psicofarmacológico. Acta Paulista de Enfermagem, v. 19, p. 343-348, 2006. AZEVEDO, Camila Bianca Figueiredo; FAGUNDES, Joseny Alves; PINHEIRO, Ângela Fernanda Santiago. Psicoterapia e psicofarmacologia: a percepção de psicólogos. Fractal: Revista de Psicologia, v. 30, p. 281-290, 2018. KIPERT, Elizabeth Dias da Costa Dumer et al. PSICOTERAPIA E PSICOFARMACOLOGIA: O TRATAMENTO COMBINADO SOB A ÓPTICA CIENTIFICA DA PSICOLOGIA E DA PSIQUIATRIA. 2019.