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Prévia do material em texto

| ESPECIAL | 
PSICOLOGIA SOCIAL: CRIATIVIDADE E COLABORAÇÃO
ANO XIII
No 323
DEPRESSÃO
Dificuldade de decifrar 
as próprias emoções 
pode ser sinal de 
fragilidade
PALPITE 
Grau de autoconfiança 
influi em crenças e 
escolhas 
Flexibilidade e tolerância consigo mesmo são fundamentais 
para lidar com dificuldades e valorizar nossos pontos fortes
PSICANÁLISE
Fotos de terapia de 
grupo favorecem 
simbolização de 
pacientes somáticos
O SUPERPODER DA
AUTOCONFIANÇA
GLÁUCIA LEAL, editora-chefe 
glaucialeal@editorasegmento.com.br
@glau_f_leal
Sim, é possível
S 
eja sincero: se você pudesse escolher um superpoder, desses que os super-
heróis ostentam nos filmes de aventuras, qual você escolheria? Voar? Ficar 
invisível? Ter uma força descomunal? Certo, tudo isso seria ótimo no mundo 
da fantasia. Mas vamos voltar para a vida concreta. Muitos cientistas acreditam que 
um dos maiores (senão o maior) trunfos de qualquer reles humano é a autoconfiança. 
Ser capaz de acreditar em suas próprias potencialidades parece ser um recurso 
extremamente potente para atingirmos nossos objetivos, lidar com fragilidades e 
valorizar o que temos de melhor. Isso vale tanto para a vida pessoal quanto profissional 
e relacionamentos. Não por acaso, vários pesquisadores têm se dedicado a entender 
melhor os processos psíquicos que concorrem para construirmos nossa autoimagem 
e manejarmos a linha que separa a sensação de impossibilidade da certeza de que é 
possível (e merecemos) atingir nossos objetivos. 
Um dos estudos mais recentes nessa área, desenvolvido na Universidade do Estado 
de Ohio, dos Estados Unidos e publicado no periódico científico Basic and Applied 
Social Psychology, confirmou que a imagem que fazemos de nós mesmos, sobretudo 
em relação a propósitos pessoais, tem total relação com resultados obtidos. “Quanto 
mais acreditamos que somos capazes, apesar de eventuais dificuldades e falhas, 
mais chances temos de sucesso”, ressalta o professor de psicologia Patrick Carroll, 
organizador do estudo.
Autoconhecimento, flexibilidade e acolhimento das próprias falhas são fundamentais 
para aperfeiçoar a habilidade de confiar em si mesmo. Até a postura física é importante 
na construção da autoconfiança. Cientistas da Universidade Estadual de São Francisco 
acreditam que a maneira como nos movimentamos afeta não apenas como os outros 
nos veem, mas também como nós nos percebemos. Vale conferir. Boa leitura.
carta da editora
3
4
sumário DEZEMBRO 2019
capa
autoconfiança
13 O superpoder da 
autoconfiança
Tudo parece caminhar bem, até que uma 
avalanche de dúvidas parece cair sobre nossa 
cabeça, minando nossos melhores propósitos. O 
que podemos fazer quando isso acontece?
19 Raízes da segurança 
Flexibilidade e tolerância consigo mesmo 
parecem ser palavras-chaves quando se trata 
de suportar as próprias dificuldades e, assim, 
ironicamente, valorizar competências
especial 
36 A criatividade é coletiva
Mais do que uma expressão individual, a 
originalidade toma forma em um contexto; grupos 
não só desempenham papel essencial na criação 
de ideias e produtos, mas também asseguram sua 
valorização, disseminação e impacto
41 O poder da colaboração
A tendência de julgarmos a criatividade de 
maneira que reflita nossa identidade no grupo 
ajuda a explicar o preconceito de gênero e racismo 
– embora não sirva para justificá-los
46 O jogo da reinvenção
Cultivar a ideia de que conhecemos as pessoas 
que nos rodeiam ajuda a dissipar o temor 
de desestabilização. As contribuições de um 
“semelhante”, não raro, são mais bem recebidas 
do que as ideias de um “estranho” 
psicologia social
Saiba com antecedência qual será o tema da capa da próxima edição
www.mentecerebro.com.br
Acompanhe a @mentecerebro 
no Instagram
3 CARTA DA EDITORA
53 LIVRO • LANÇAMENTO 
Caro Dr. Freud – Gilson Iannini
seções
5
06 Imagens que favorecem 
a simbolização 
O uso de fotografias em sessões de grupo 
ajuda na construção de narrativas para 
além da sensação dolorosa de pacientes 
psicossomáticos
23 Palpite, dúvida ou certeza? 
Experimentos revelam como o grau de 
confiança naquilo que percebemos ou 
pensamos influi diretamente em nossas 
opiniões, apostas e decisões
27 A estreita relação entre 
clima e empatia
Por que não paramos as mudanças 
climáticas? Talvez porque não estejamos 
suficientemente preocupados com o 
sofrimento de nossos descendentes
32 Cegos para emoções 
Pessoas que não conseguem distinguir 
com clareza o que sentem têm maior 
probabilidade de desenvolver 
transtornos depressivos 
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Presidente: Edimilson Cardial
Diretoria: Carolina Martinez, 
Marcio Cardial e Rita Martinez 
Editora-chefe: Gláucia Leal
Colaboradores: Maria Stella Valli 
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Edição no 323, dezembro de 2019, 
ISSN 1807156-2.
6
psicossomática
Imagens que 
favorecem a
simbolização
7
N
o trabalho realizado pelo Programa de Assistência 
e Estudos de Somatização da Universidade Fe-
deral de São Paulo (Unifesp), nos deparamos fre-
quentemente com pacientes somatizadores que 
apresentam alteração na capacidade de perceber e interpre-
tar os estímulos que se apresentam aos órgãos dos sentidos. 
Queixas como zumbido no ouvido, dores no corpo, formiga-
mento são constantes.
Para alguns pacientes as sensações aproximam-se da alu-
cinação – percepção sensorial que se dá na ausência de um 
estimulo externo e sobre a qual o sujeito não questiona como 
fruto de sua produção psíquica. Essa condição que dificulta a 
construção de uma narrativa afetivamente significada.
Ao vivenciarmos uma experiência somos corporalmente 
afetados por estímulos sensoriais que demandam trabalho 
ao psiquismo. Ocorre uma passagem da sensação para a 
imagem psíquica, que, carregada de afeto, constitui o que 
denominamos representação-coisa. O passo seguinte à sig-
nificação afetiva da experiência é poder falar sobre ela, trans-
formando-a em representação de palavra. 
Esses pacientes, porém, muitas vezes não conseguem fa-
zer a transição da sensação para a imagem psíquica e o que 
Sintomas vividos no corpo em formade dor e 
desconforto (como zumbidos e sensação de 
formigamento) tendem a afastar o paciente da 
possibilidade de elaboração; o uso de fotografias 
em sessões de grupo ajuda na construção de 
narrativas para além da sensação dolorosa 
Por Cristiane Curi Abud
A AUTORA
CRISTIANE CURI 
ABUD é psicanalista, 
membro do 
Departamento de 
Psicossomática 
Psicanalítica e do 
departamento de 
Psicossomática 
do Instituto Sedes 
Sapientiae. É mestre 
em psicologia 
clínica e doutora 
em administração 
de empresas. 
Professora afiliada da 
Universidade 
Federal de São Paulo 
(Unifesp), coordena 
o Programa de 
Assistência e Estudos 
de Somatização na 
instituição. É autora de 
Dores e odores, distúrbios 
e destinos do olfato (Via 
Lettera, 2009), coautora 
de Psicologia médica: 
abordagem integral do 
processo saúde-doença 
(Artmed, 2012), e 
organizadora de A 
subjetividade nos grupos 
e instituições (Chiado, 
2015) e O racismo e o 
negro no Brasil: questões 
para a psicanálise 
(Perspectiva, 2017).
psicossomática
seria insumo para a experiência estética da vida psíquica apa-
rece como algo do qual a pessoa anseia por livrar-se. Cabe 
aqui uma diferenciação entre esse estado e a psicose. Para 
o psicanalista francês René Roussillon, na psicose o sujeito 
toma a atividade representativa por uma atividade perceptiva 
– que chamamos de alucinação. A pessoa pensa o objeto na 
sua ausência, representa o objeto, mas sem saber que repre-
senta. Ele não completa a simbolização, que é uma atividade 
de representação que sabe que é uma representação. 
O psiquiatra e psicanalista Christophe Dejours ressalta que 
o paciente somatizador tende a não representar e nem sim-
bolizar. Neste sentido, as parestesias destacadas por Sig-
mund Freud ao estudar as neuroses atuais como uma “ten-
dência a alucinações” podem ser compreendidas como um 
movimento do sujeito somatizador em direção a uma tentati-
va de simbolização, dado que a alucinação inclui o mecanis-
mo psíquico de representação do objeto ausente. 
Adotamos no trabalho terapêutico realizado no Programa 
de Assistência e Estudos de Somatização da Unifesp dinâ-
micas grupais com objetos mediadores. O caso clínico de 
uma paciente de 70 anos que frequentou o grupo de fotolin-
guagem, formado por mulheres, ajuda na compreensão da 
técnica (veja quadro abaixo). 
IMAGEM E PALAVRA
Uma sessão de fotolinguagem acontece em dois momentos. Primeira-
mente, as fotos são escolhidas (entre várias de um dossiê apresentado 
ao grupo durante a sessão) com base em uma pergunta enunciada pelo 
analista. Num segundo momento o terapeuta convida os participantes a 
partilharem no grupo a fotografia escolhida no momento em que deseja-
rem. A proposta é que a exposição seja escutada sem interpretações. Ao 
final, cada um diz o que percebe de parecido ou de diferente em relação 
ao que a pessoa viu e destacou na imagem. 
8
psicossomática
99
No início do grupo, Joana, disse: “Eu não durmo bem! Cho-
ro de dor, sinto umas agulhadas!” Outras pacientes também 
falam a respeito de suas dores e da dificuldade de controlá-
-las. Sugeri então às participantes que respondessem com 
uma foto à pergunta: O que é controlar?
Joana escolheu sua imagem (abaixo) “Esta moça está só, 
acabou de perder o marido, está com dor.” Notei que a es-
colha da foto não tinha, aparentemente, relação com a per-
gunta feita, e comentei: “Mas a pergunta era sobre controle. 
Como será que essas coisas se ligam?” Outra paciente co-
mentou: “Ela está no hospital triste, tentou suicídio. Era tanta 
dor que se descontrolou”.
Neste momento em que a paciente associa a imagem es-
colhida à pergunta, Joana arregalou os olhos e sorriu, como 
uma criança que acaba de se reconhecer no espelho: “Deu 
certo a minha foto, né, doutora?”
Havia um humor depressivo no grupo que, muito aderido 
à dor, resistia entrar na brincadeira. Ao propor outra pergunta 
psicossomática
10
que não falasse diretamente da dor e fazer uma ligação en-
tre a foto escolhida e a pergunta, tentei promover um deslo-
camento libidinal da sensação dolorosa para a imagem, que 
poderia então ser transformada pelo olhar dos outros. 
O regozijo de Joana deveu-se à transformação de sua alu-
cinação/dor no sentimento de ilusão de ter encontrado/cria-
do a foto que se tornaria um fenômeno subjetivo, resultado 
de sua criatividade e seu encontro com a realidade da foto. O 
grupo cumpriu a função de auxiliá-la nesta composição par-
tilhando do prazer da criação. Este movimento no qual Joana 
expõe no grupo a dificuldade de habitar a área intermediária 
da criação – ela nunca sabia o que sua foto tinha a ver com 
a pergunta feita – repetia-se, assim como se repetia o movi-
mento do grupo de resgatar a capacidade de simbolização. 
O humor do grupo mudou.
Em outra sessão, pedi às pacientes que 
se apresentassem às estagiárias usando 
para isso uma foto. Joana escolheu a foto 
de uma mulher “enfiando um funil no chão”, 
segundo suas palavras (veja ao lado). Já en-
trando no jogo, outra paciente disse rindo: 
“O que isso tem a ver com a nossa pergun-
ta?” Joana respondeu: “Eu nunca sei o que 
tem a ver, escolho qualquer foto, aí as meni-
nas do grupo me ajudam e dá certo. Ela está 
enfiando algo no chão”. As outras pacientes 
comentam que não é no chão, mas sim na 
garganta do animal. “Na garganta? Nem tinha percebido que 
era um animal”, diz Joana. E todos começam a rir. 
Este pequeno trecho da cadeia associativa grupal pode 
ser compreendido como fruto das alianças inconscientes 
psicossomática
estruturantes do grupo. Uma pacien-
te havia revelado um abuso sexual que 
sofreu e falava muito desse assunto, o 
que deixava outra paciente visivelmen-
te incomodada, a ponto de brigarem e 
a paciente que foi abusada nunca mais 
voltar. O grupo não tocou mais no assun-
to e estabeleceu inconscientemente o 
acordo de recusar o episódio e não falar 
mais do abuso sexual.
A foto escolhida por Joana figurava uma 
situação de abuso onde o animal é alimen-
tado de maneira violenta. De certa forma, 
as pacientes sentem seus corpos serem 
abusados como nessa foto, onde sua pre-
sença não é percebida e seu desejo não 
é reconhecido. A recusa dos abusos sofridos e a decorrente 
repressão dos afetos determinam o negativo no grupo, aquilo 
que fica fora do campo da consciência, compondo o que o psi-
canalista René Kaës chamou de pacto denegativo.
Joana seguiu denunciando a violência no grupo, como um 
porta-retrato onde o corpo é tratado com negligência. Suas 
imagens eram acolhidas pelo grupo que as usava para meta-
bolizar as próprias situações de abuso. Suas fotos funcionavam 
11
Ao vivenciarmos uma experiência somos 
corporalmente afetados por estímulos sensoriais 
que demandam trabalho psíquico; alguns 
pacientes, no entanto, não conseguem fazer a 
transição da sensação para a imagem 
psicossomática
como a lucidez da fala delirante de um paciente psicótico, 
rompendo gradualmente com o pacto do qual éramos todos 
signatários.
Diante do aumento da possibilidade de representar e sim-
bolizar a violência, o grupo pôde abrir mão da defesa e re-
fazer suas alianças. As participantes decidiram que ali pode-
riam dizer sobre o que as estivesse incomodando, a ponto de 
uma paciente revelar ter sido abusada por seus irmãos e tios 
durante toda a infância.
Quanto a Joana, na última sessão, quando encerrei o gru-
po, disse: “Sabe, doutora, eu aprendi que eu não tenho ne-
nhuma doença, meu pensamento é que é fraco. Eu vou ao 
médico por causa de um problema que estou sentindo, mas 
no caminho eu logo sinto mais dois problemas e então acre-
dito mesmo que eu tenho três problemas. Agora eu sei que 
sou eu que estou pensando isso, e fico num problema só”. 
Com essas palavras, Joana conta que aprendeu a “pensar 
o pensamento”, apropriando-se subjetivamente do pensar, 
num movimento simbólico.
Diante do aumento da possibilidade de 
representar e simbolizara violência, o grupo pôde 
abrir mão da defesa e refazer suas alianças; as 
participantes decidiram que ali poderiam dizer 
sobre o que as estivesse incomodando
PARA SABER MAIS
A subjetividade nos grupos 
e instituições, construção, 
mediação e mudança. 
Cristiane Curi Abud (org.). 
Chiado, 2015. 
 
Sobre a sinergia entre 
grupo e o objeto mediador. 
Vacheret, C.;Gimenez, 
G.;Abud, C. C. Revista 
Brasileira de Psicanálise, 
vol. 47, n.º 3., 2013. 
 
Um singular plural, 
a psicanálise à 
prova do grupo. 
René Kaës. Loyola, 1997. 
 
O grupo e o inconsciente: 
o imaginário grupal. Didier 
Anzieu. Casa do Psicólogo, 
1993.
12
psicossomática
capa - autoconfiança
O superpoder da 
AUTOCONFIANÇA
Tudo parece caminhar bem, 
até que uma avalanche 
de dúvidas parece cair 
sobre nossa cabeça, 
minando nossos melhores 
propósitos. O que podemos 
fazer quando isso acontece? 
13
capa • autoconfiança 
1414
A
creditar em si mesmo nem sempre é fácil. Os pla-
nos em geral parecem bons: talvez expor uma ideia 
interessante durante uma reunião, participar de uma 
importante competição esportiva ou simplesmente 
abordar o estranho de aparência agradável no café. Mas às 
vezes simplesmente não temos a confiança necessária para 
decidir dar o passo decisivo. Então, repentinamente, as dúvi-
das nos atormentam: estamos realmente dispostos? Podemos 
fazer isso? O que acontece se der errado? E, em meio a varia-
ções de medo, em vez de aproveitar uma oportunidade, pode-
mos deixá-la passar. Ou precisar das palavras encorajadoras 
dos outros, que muitas vezes parecem confiar em nós mais do 
que nós mesmos.
Mas, afinal, o que realmente significa “confiar em si mes-
mo”? Embora os psicólogos estejam lidando com essa questão 
há décadas, não é tão fácil separar a autoconfiança de outros 
termos que são frequentemente relacionados. O conceito de 
autoconfiança geral se refere principalmente à fé em suas pró-
prias habilidades como um todo. Quando se trata de habilidades 
individuais, os cientistas tendem a falar de autoeficácia ou auto-
confiança específica. “Uma pessoa pode ser eficiente em mate-
mática, mas ter baixo desempenho em comunicação”, explica o 
psicólogo Qin Zhao, professor da Universidade Western Kentu-
cky, nos Estados Unidos, lembrando que a autoeficácia em uma 
área pode mudar com o tempo. 
O conceito de autoestima também costuma entrar em jogo 
15
quando se trata de autoconfiança. “Mesmo na literatura cientí-
fica, os dois termos às vezes são confusos, embora eles real-
mente descrevam algo diferente”, diz Qin Zhao. A autoestima 
não se refere necessariamente a habilidades, é na verdade o 
respeito que você tem por si mesmo, sua própria apreciação. 
Em 1990, Jennifer Campbell, então professora da Universidade 
capa • autoconfiança 
“Todo mundo de vez em quando duvida de si 
mesmo, isso não é um problema, pode até ser 
saudável; mas desconfiar cronicamente das próprias 
capacidades afeta a saúde mental e, algumas vezes, 
também seu desempenho”, diz o psicólogo 
16
capa • autoconfiança 
Mas, afinal, o que determina nossas chances de seguir em frente 
com confiança sem ajuda externa, partir para manipulação sutil ou 
buscar sempre provar que somos capazes? De verdade, ninguém 
sabe a resposta exata. Muito provavelmente, como a maioria dos 
outros comportamentos e características, existe um componente 
genético que determina nossa capacidade de confiar. Observando 
crianças pequenas, podemos perceber que algumas simplesmente 
fazem o que desejam, por conta própria. 
O ambiente também desempenha um papel importante. O 
psicólogo Qin Zhao explica que a autoeficácia é determinada, 
entre outras coisas, pela experiência. Os estudos de Zhao 
indicam que a dúvida sobre nossas habilidades tende a surgir da 
comparação com os outros. “Sempre há alguém melhor que nós. 
Se você comparar suas próprias fraquezas com os pontos fortes de 
outras pessoas, sempre sentirá dúvida”, observa o especialista. Ele 
ressalta que pessoas que se comparam, em geral, foram objetos de 
comparações, feitas por adultos (afetivamente importantes para 
elas), em relação a outras crianças. As dúvidas, porém, não são 
ruins por si só – desde que não assumam o controle. “Questionar 
o próprio desempenho não é um problema, até ajuda a nos 
aprimorarmos, mas se colocar cronicamente em xeque prejudica 
a saúde mental e o desempenho. 
DÚVIDAS SIM, EM 
PEQUENAS DOSES 
da Colúmbia Britânica em Vancouver, conseguiu mostrar que 
a autoestima e a autoconfiança estão frequentemente liga-
das. Para isso, ela selecionou para um estudo 92 alunos com 
alta autoestima e 92 alunos com baixa autoestima. Todos pre-
encheram um questionário no qual foram solicitados a decla-
rar em que medida determinados adjetivos se aplicavam a 
eles.  Posteriormente, a pesquisadora quis saber dos partici-
pantes quão confiantes estavam em suas respostas. Os volun-
tários com baixa autoestima mostraram menos confiança em 
sua própria capacidade de se avaliar.
Mas nem sempre é assim. “Também existem pessoas que 
têm baixa autoestima, mas têm muita certeza de como fun-
cionam”, diz o professor de psicologia Richard Petty, da Uni-
versidade Estadual de Ohio. Isso pode ser desfavorável, pois 
muitas vezes a pessoa passa a buscar “provas” de que não é 
boa o suficiente. Nesse caso, a psicoterapia costuma trazer 
ótimos resultados. 
INFLUÊNCIAS EXTERNAS
O quanto acreditamos em nós mesmos e em nossas pró-
prias habilidades tem um grande impacto em nosso compor-
tamento. Por exemplo, pode afetar o quanto estamos dispostos 
a tomar decisões: aqueles que são atormentados por dúvidas 
têm mais probabilidade de procurar informações, muitas vezes 
em fontes pouco confiáveis, e hesitam em se comprometer. Às 
vezes, nosso comportamento de consumidor também é de-
terminado por nossa autoconfiança. 
Isso foi demonstrado em 2008 por pesquisadores liderados 
por Leilei Gao, da Universidade Chinesa de Hong Kong.  Os 
cientistas primeiro abalaram a crença dos voluntários em suas 
próprias habilidades, pedindo que escrevessem um ensaio 
capa • autoconfiança 
sobre sua inteligência com a mão não dominante. Os partici-
pantes do experimento deveriam decidir o que gostariam de 
receber como agradecimento pela participação no estudo: 
uma caneta-tinteiro ou doces. Nesse caso, a maioria escolheu 
a caneta, em contraste com os participantes do grupo de con-
trole, que tiveram permissão para escrever sobre suas próprias 
habilidades cognitivas com a mão dominante, como de cos-
tume.  Aparentemente, os voluntários tentaram “arrumar” sua 
autoimagem com o presente “mais inteligente”!
A falta de autoconfiança também pode bloquear oportunida-
des. Por exemplo, o Relatório de Educação da OCDE de 2015 
sugere  que, na escola, as meninas costumam fazer menos 
matemática do que os meninos porque têm menos confiança 
em sua capacidade de resolver problemas. Se compararmos 
apenas os resultados de meninos e meninas que têm um nível 
de crença igualmente alto em suas habilidades matemáticas, 
nenhuma diferença pode ser vista nos resultados.
Já pesquisadores da Universidade de Witten/Herdecke 
foram capazes de mostrar que pessoas que têm mais con-
fiança em suas próprias habilidades se saem melhor nos exa-
mes. Para fazer isso, eles fingiram para os voluntários que as 
respostas para um próximo teste de conhecimento geral se-
riam apresentadas a eles em uma tela por uma fração de se-
gundo antes. De fato, apenas palavras completamente insigni-
ficantes tremeluziam no monitor. No entanto, na sequência, os 
participantes se saíram melhor no teste do que integrantes do 
grupo controle, que tiveram de fazer o teste sem a “prepara-
ção especial”. (Leia mais sobre o tema nas págs. seguintes.)
capa • autoconfiança 
19
Raízes da 
SEGURANÇA
Flexibilidade e tolerância 
consigo mesmo parecem ser 
palavras-chaves quando se 
trata de suportar as próprias 
dificuldades e, assim, 
ironicamente,valorizar 
competências
capa - autoconfiança
20
C
laro, todo mundo gosta de se sentir capaz, podero-
so, seguro. E, por vezes, até exagera no empenho 
em demonstrar essas características para esconder 
a própria fragilidade. Há casos em que as pessoas 
se identificam tanto com a “máscara” de força que passam a 
transmitir autoconfiança excessiva, o que pode ser igualmen-
te prejudicial a longo prazo. “Isso acontece quando as pesso-
as pensam que sabem mais do que realmente sabem, o que 
pode levá-las a tomar decisões que não são do seu interesse, 
porque não têm informações suficientes”, diz Richard Petty, 
professor de psicologia da Universidade Estadual de Ohio. Ele 
alerta para a importância de questionar as próprias convicções 
e considerar se de fato vale confiar nelas. Aliás, a força com 
que as pessoas tendem a essa forma de autovalidação não 
está diretamente relacionada à crença em si mesmo. Os que 
mais receiam a entrar em contato com suas fragilidades, no 
entanto, preferem concluir logo que estão certos. 
Uma pergunta que as pessoas frequentemente se fazem 
quando esse assunto surge é: como a autoconfiança pode ser 
fortalecida em um nível saudável?  Flexibilidade e tolerância 
consigo mesmo parecem ser palavras-chaves quando se trata 
de suportar as próprias dificuldades e, assim, ironicamente, va-
lorizar competências.
Uma pesquisa conduzida pelo psicólogo Qin Zhao, da Uni-
versidade Western Kentucky, em conjunto com dois colegas, 
capa • autoconfiança
Pesquisador sugere relembrar ocasiões em que 
você obteve sucesso ou estava convicto a respeito 
de alguma decisão; a recordação pode conectá-lo 
com um estado emocional de segurança
21
capa • autoconfiança
Andar pela vida afora tanto com a cabeça erguida demais 
quanto com uma postura encurvada pode trazer dificuldades. A 
conclusão é de um estudo que pesquisadores liderados por Erik 
Peper, da Universidade Estadual de São Francisco, publicaram 
na revista especializada NeuroRegulation, em 2018. Os 
cientistas pediram aos participantes para resolverem problemas 
simples de matemática, sentados na vertical ou pendurados 
na cadeira. Foi muito mais difícil para os voluntários com 
uma postura curvada cumprirem a tarefa. Os pesquisadores 
acreditam que a posição ereta incorpora autoconfiança: “A 
postura afeta não apenas como os outros nos veem, mas 
também como nos percebemos”, afirma Peper.
O nível adequado de reconhecimento também desempenha 
um papel importante. O psicólogo Eddie Brummelman, 
da Universidade de Amsterdã, adverte particularmente 
sobre elogios em excesso e expressões exageradas como 
“extraordinário” ou “incrível” em relação a crianças. Isso 
pode até deprimir a autoconfiança e a autoestima porque, 
com o tempo, elas estabelecem padrões inatingíveis para si 
mesmas, tornando-se hipersensíveis à frustração. Há ainda o 
risco de a supervalorização constante criar a ilusão narcísica 
de superioridade. “O elogio é muito importante para as 
crianças, mas tem lugar e hora apropriados”, salienta Ariadne 
Sartorius. Mais importante que valorizar o resultado obtido 
pela criança é apreciar seu esforço – e comemorá-lo, sem 
banalizar a situação. (Por Stefanie Uhrig)
POSTURA E ELOGIO 
NA HORA CERTA
22
capa • autoconfiança
em 2019, oferece pistas interessantes nesse sentido.  Com a 
ajuda de um artigo, metade dos voluntários foi inicialmente 
informada de que havia pouco que pudesse ser alterado em 
suas habilidades. Os demais leram outra versão do texto, que 
anunciava as oportunidades de melhorar as habilidades por 
meio de aprendizado e esforço. Posteriormente, todos preen-
cheram um questionário de autoavaliação e concluíram várias 
pequenas tarefas.
Os participantes que haviam aprendido que suas próprias 
habilidades podiam ser alteradas se mostraram menos pro-
pensos a serem perturbados pela dúvida e concluíram melhor 
as tarefas. “Se alguém acredita que a competência não é uma 
qualidade fixa, as dúvidas não têm efeito tão negativo no bem-
-estar”, afirma Zhao. Richard Petty oferece uma sugestão: re-
lembrar ocasiões em que você agiu com confiança, obteve su-
cesso ou estava convicto a respeito de alguma decisão. Essa 
recordação pode conectar a pessoa com um estado emocio-
nal de segurança. 
FILHOS INDEPENDENTES
Quando se trata de crianças, pais e outros adultos próximos 
são importantes para o desenvolvimento de uma dose saudá-
vel de autoconfiança desde o início da vida. “Não devemos so-
brecarregar constantemente os pequenos ou prestar atenção 
ao que fazem de errado”, aconselha a doutora em psicologia 
Ariadne Sartorius, especializada no atendimento de crianças e 
adolescentes. É melhor discutir em conjunto como será a solu-
ção para um problema do que partir direto para a repreensão. 
“É importante que a criança perceba que tem apoio e pode 
resolver problemas e tarefas de forma independente.”
consciência 
23
Experimentos revelam como o grau de confiança
naquilo que percebemos ou pensamos influi diretamente 
em nossas opiniões, apostas e decisões
23
24
É 
inegável que muitas de nossas ações se passam fora 
do alcance da consciência: se ajustamos a postura 
corporal durante uma conversa ou se nos apaixona-
mos por determinada pessoa, em geral não temos 
ideia – pelo menos não exatamente – de por que ou de como 
fazemos essas escolhas. Para a maioria delas encontramos ex-
plicações tão racionais quanto superficiais (“fico mais confortá-
vel nessa posição” ou “gosto do meu namorado porque temos 
muito em comum”, por exemplo). Por trás dessas justificativas, 
porém, existem mistérios. 
Um exemplo simples: “Ao acionar um interruptor, você 
conscientemente viu a lâmpada acender?”. Embora pareça 
fácil responder à pergunta, mais de um século de pesqui-
sas mostrou que o problema-chave por trás dessa pergunta 
é definir a consciência de tal forma que seja possível medi-la 
ao mesmo tempo que “captamos” seu caráter subjetivo. 
Um experimento comum no campo do estudo da cons-
ciência se baseia na avaliação do grau de confiança naquilo 
que percebemos ou pensamos. No teste, um voluntário tem 
de julgar se uma nuvem de pontos numa tela de computador 
se move para a esquerda ou para a direita. Ele em seguida 
relata quão confiante se sente assinalando um número – por 
exemplo, 1 para indicar puro palpite, 2 para alguma hesitação 
e 3 para certeza completa. Esse procedimento mostra que, 
quando o participante tem pouca percepção da direção do 
movimento dos pontos, sua confiança é baixa, mas, quando 
“vê” claramente o movimento, sua segurança é alta. 
Um relatório apresentado pelos pesquisadores Navindra 
Persaud, da Universidade de Toronto, e Peter McLeod e Alan 
consciência
Cowey, da Universidade de Oxford, introduz uma medida mais 
objetiva de consciência: o desejo de ganhar dinheiro. Esse 
método foi adaptado da economia, em que é usado para ava-
liar a crença a respeito do resultado provável de um evento. 
Aqueles que acreditam na informação que têm se mostram 
dispostos a apostar nela. Isto é, aceitam pagar para ver. 
Pense no investimento em fundos mútuos. Quanto mais cer-
to você estiver de que a alta tecnologia vai render bem no ano 
seguinte, mais dinheiro alocará para um fundo destinado a esse 
setor. Persaud e seus colegas usam esse tipo de aposta para 
revelar a consciência – ou a falta dela. Em seus experimentos, 
os participantes não declaram confiança na percepção de ma-
neira direta. Em vez disso, primeiro tomam uma decisão com 
base naquilo que perceberam e então apostam uma quantia 
em seu grau de confiança na própria decisão. Se a escolha se 
mostra correta, o voluntário ganha o dinheiro; caso contrário, 
perde. A estratégia ideal é apostar sempre que se sinta segu-
ro. As experiências aplicam essa técnica de apostas para três 
exemplos do processamento não consciente. 
Um deles foi feito com o paciente G. Y. Devido a um aciden-
te de carro que danificouáreas no seu cérebro responsáveis 
pelo processamento visual, ele tem o que se costuma cha-
mar de “visão cega”. Essa condição o deixa com a capacidade 
não consciente de localizar uma luz ou relatar a direção na 
25
A condição chamada “visão cega” permite que 
a pessoa localize, de forma não consciente, 
a presença de uma luz ou relate a direção na 
qual uma barra se move na tela de computador, 
mesmo sem usar a visão
25
consciência
qual uma barra colocada numa tela de computador está se 
movendo, embora G.Y negue ter a experiência visual – curio-
samente, ele insiste que está apenas chutando. 
O paciente pode indicar a presença ou ausência de uma 
rede fraca e pequena em 70% de todos os testes, bem mais 
do que uma chance média (50%). Apesar disso, ele falha em 
converter esse desempenho superior em dinheiro quando 
está apostando; coloca quantias altas em menos da metade 
de suas escolhas corretas. Quando está ciente do estímulo, G. 
Y. aposta alto – exatamente o que qualquer pessoa faria. Suas 
escolhas parecem espelhar a percepção consciente que tem 
do estímulo (isto é, a crença de que ele o viu) em vez de sua 
detecção real (inconsciente) do estímulo. Isso sugere que as 
apostas podem servir de meio para medir a consciência. 
As técnicas usadas por Persaud, McLeod e Cowey depen-
dem da capacidade intuitiva de fazer boas escolhas e obter 
lucros. Em comparação com a tática de forçar participantes 
a se tornar cientes de sua própria consciência – e, nesse pro-
cesso, interferir no próprio fenômeno que se deseja medir 
–, as apostas representam uma forma mais sutil de avaliar a 
percepção, mostrando-se uma nova maneira mais lúdica – 
e reveladora – de estudar processos de tomada de decisão. 
Desses passos, aparentemente pequenos, surgem possibili-
dades para ampliar a compreensão de como a consciência 
surge da experiência. 
26
Usando como estímulo o desejo de ganhar 
dinheiro, cientistas encontraram uma forma lúdica 
de “medir” a percepção e, assim, entender melhor 
processos envolvidos na tomada de decisão
consciência
clima
27
A estreita 
relação entre 
Por que não paramos as mudanças climáticas?
Talvez não estejamos suficientemente preocupados 
com o sofrimento de nossos descendentes
clima e empatia
28
clima
H
á seis meses, o resultado de uma pesquisa rea-
lizada pelo Datafolha, a pedido do Greenpeace 
Brasil e do Observatório do Clima, mostrou que 
85% dos brasileiros reconhecem que o planeta 
está se aquecendo e 72% afirmam que as atividades humanas 
contribuem para o fenômeno. A confiabilidade nos tópicos foi 
mais alta entre pessoas com maior escolaridade. Foram ou-
vidas 2.086 pessoas com 16 anos ou mais, em 130 cidades, 
entre 4 e 5 de julho. Nos Estados Unidos, aproximadamente 
70% dos americanos acreditam que o clima está mudando e 
a maioria reconhece que essa alteração é resultado de nos-
sa interferência. Além disso, mais de dois terços pensam que 
isso prejudicará as gerações futuras.  A menos que 
alteremos drasticamente nosso modo de vida, 
partes do planeta se tornarão hostis ou inabitá-
veis  ainda este século – provocando desas-
tres ecológicos, epidemiológicos e sociais. E, 
no entanto, a maioria dos americanos 
apoiaria políticas de conservação 
de energia apenas se elas cus-
tassem  menos de US$ 200 por 
ano às famílias – um valor muito 
abaixo do investimento necessá-
rio para manter o aquecimento 
sob taxas catastróficas. 
No Brasil não há dados 
sobre a disposição da po-
pulação em contribuir para 
a diminuição dos impactos 
ambientais. Afinal, o Brasil é o quarto maior produtor de lixo 
plástico do mundo, atrás apenas de Estados Unidos, China e 
Índia. O país também é um dos que menos reciclam este tipo 
de lixo: apenas 1,2% é reciclado, ou seja, 145.043 toneladas. Os 
dados são do estudo feito pelo Fundo Mundial para a Natureza 
(WWF, sigla em inglês). O relatório Solucionar a Poluição Plás-
tica – Transparência e Responsabilização foi apresentado na 
Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEA-
4), realizada em Nairóbi, no Quênia, em março de 2019.
29
Jamil Zaki
clima
Para psicólogo Jamil Zaki, nossa imaginação empática não está naturalmente 
configurada para se estender ao redor do planeta ou em direção às gerações futuras, o que coloca 
nossa própria existência em risco
“Os dados a respeito de percepção sobre riscos de destrui-
ção do planeta e atitudes efetivas para impedir a tragédia são 
intrigantes”, afirma o pesquisador Jamil Zaki, professor asso-
ciado de psicologia na Universidade Stanford, diretor do La-
boratório de Neurociências Sociais de Stanford.  “Por que hi-
potecamos nosso futuro (e o de nossos filhos e netos) em vez 
de moderar nosso vício em combustíveis fósseis? Sabendo o 
que sabemos, por que é tão difícil mudar nossos caminhos?”, 
pergunta-se o autor de The war for kindness: building empathy 
in a fractures world (Crown, 2019), ainda não lançado no Brasil, 
em livre tradução, “A guerra pela bondade: construindo a em-
patia em um mundo fraturado”).
Segundo o psicólogo, uma resposta está na natureza da em-
patia, essa capacidade de compartilhar, entender e se importar 
com as experiências dos outros. “Pessoas profundamente em-
páticas tendem a ser ambientalmente responsáveis, mas nos-
sos instintos de cuidar são míopes e se dissolvem no espaço e 
no tempo, tornando mais difícil lidarmos com coisas que ainda 
não aconteceram”, explica.
ANJO TORTO
Ele observa que a atividade humana é, mais do 
que nunca, uma força dominante na forma-
ção do ambiente da Terra, mas os sentidos 
morais da humanidade não acompanharam 
esse poder de destruição.  E res-
salta que nossas ações reverbe-
ram pelo mundo e pelo tempo, 
mas não sentimos suficiente-
mente o peso das consequên-
cias.  “A empatia poderia ser um 
30
clima
apoio emocional contra um mundo em aquecimento, se nosso 
cuidado produzisse ação coletiva, mas parece que evoluímos 
para responder ao sofrimento imediato, aqui e agora”, diz. 
Segundo Zaki, nossa imaginação empática não está natu-
ralmente configurada para se estender ao redor do planeta ou 
em direção às gerações futuras, o que coloca nossa própria 
existência em risco. Por isso é mais fácil nos mobilizarmos para 
ajudar vítimas de uma tragédia ambiental que já ocorreu do 
que evitar o consumo de carne e plástico. 
Ironicamente, a empatia, “o melhor de nossos anjos”, na opi-
nião do pesquisador, e a maneira como ela opera, pode estar 
prejudicando nossa capacidade de fazer o que é melhor para 
o mundo. Para o psicólogo, porém, há salvação para esse fun-
cionamento psíquico. Zaki acredita que a empatia não é uma 
característica imutável, e sim um sentimento que podemos 
fortalecer diariamente. “Felizmente a capacidade de cuidar de 
si, do outro e do planeta não é um traço fixo de personalidade, 
mas uma habilidade a ser cultivada”, afirma. Portanto, é possí-
vel exercitar e treinar a empatia. As crianças agradecem. 
31
clima
Pessoas atentas às necessidades coletivas tendem 
a ser ambientalmente responsáveis, mas nossos 
instintos de cuidar são míopes e se dissolvem no 
espaço e no tempo, tornando mais difícil lidarmos 
com coisas que ainda não aconteceram
depressão
32
Cegos para 
emoções
Pessoas que não conseguem distinguir com 
clareza o que sentem têm maior probabilidade 
de desenvolver transtornos depressivos 
33
depressão
H
á momentos em que sabemos que há algo de 
errado: uma tristeza ou aperto no peito, cuja 
origem não parece óbvia. É como se os sapa-
tos estivessem apertando nossos pés, mas não 
conseguíssemos identificar exatamente em que ponto está 
o desconforto. Para algumas pessoas essa sensação de não 
saber o que incomoda (embora o mal-estar esteja presente) 
é constante. Sensações de frustração, tristeza, raiva e de-
cepção misturam-se e, às vezes, confundem-se até com 
cansaço e ansiedade. Essa confusão costuma indicar uma 
séria desvantagem.É o que mostra um estudo publicado há 
alguns meses no periódico científico Emotion. 
Segundo os autores, uma boa dose de autoconsciência 
pode, portanto, proteger contra a depres-
são, mesmo na juventude. Uma equi-
pe liderada pela psicóloga Lisa 
Starr, da Universidade de Ro-
chester, havia submetido cerca 
de 200 adolescentes a entrevis-
tas de diagnóstico e pediu que 
registrassem humor, estres-
se e eventos relacionados 
quatro vezes por dia du-
rante uma semana. Um 
ano e meio depois, os 
voluntários relataram sua 
condição novamente. Aqueles que 
puderam diferenciar vagamente 
os sentimentos negativos na pri-
meira pesquisa, 18 meses depois, 
tiveram mais probabilidade de so-
frer de sintomas depressivos. 
VER PARA TRANSFORMAR
A relação entre a dificuldade de au-
topercepção e rebaixamento do humor se 
fortaleceu quando eventos estressantes do cotidiano ocor-
reram nesse período. “Observamos que os adolescentes 
que descrevem seus sentimentos negativos com precisão 
e riqueza de nuances estão significativamente mais prote-
gidos da depressão do que os que não conseguem fazer 
essa distinção”, escrevem os psicólogos em seu artigo, com 
base no acompanhamento dos jovens.  Esses participantes 
do experimento se mostraram mais aptos a aprender mais 
com suas experiências e desenvolver estratégias eficazes 
para lidar com experiências estressantes e sentimentos de 
frustração e raiva. 
“É fundamental saber como nos sentimos até para, even-
tualmente, transformar a sensação de desconforto”, explica 
Lisa Starr. Nesse sentido, a psicoterapia é fundamental não 
só para o reconhecimento e a nomeação das emoções, mas 
depressão
34
A psicoterapia é fundamental não só para o 
reconhecimento e a nomeação das emoções, mas 
também para que a pessoa desenvolva formas 
criativas de lidar com elas 
também para que 
a pessoa perce-
ba sua influência 
e desenvolva for-
mas criativas de li-
dar com elas. 
Um experimento rea-
lizado com mais de mil 
pessoas com mais de 60 
anos, por psicólogos da 
Universidade de Wis-
consin, nos Estados 
Unidos, e publicado em 
junho de 2019, mostrou que a auto-
consciência também é um sinal de aler-
ta em adultos. Quanto menos a experiência 
subjetiva do estresse corresponder aos indicadores objeti-
vos, mais comprometido será o bem-estar psicológico e fí-
sico a longo prazo. Não se pode deduzir que a experiência 
indiferenciada de emoções necessariamente motive queixas 
psicológicas, até porque, quando a pessoa não passa por si-
tuações exteriores que a estressam, tende a manter os incô-
modos emocionais latentes. No entanto, essa característica 
é um indicativo de que o equilíbrio emocional pode ser mais 
facilmente abalado. 
35
depressão
especial • psicologia social 
36
A criatividade 
é coletiva 
37
especial • psicologia social
T
odos os anos, alguns dos mais destacados atores, 
diretores e roteiristas ganham o Oscar e os maiores 
cientistas, o Nobel. Obviamente esses são apenas 
dois dos inúmeros prêmios que a cada ano são dis-
tribuídos para comemorar feitos criativos. Esses eventos, po-
rém, reforçam a concepção popular de que a criatividade é 
um dom exclusivo de poucos – e favorecem a apoteose da 
individualidade. Daí, muitos concluem que grupos e cidadãos 
comuns não podem colaborar com ideias originais. 
Talvez possamos desafiar a suposição comum de que o 
“dono” de uma ideia é o único componente indispensável 
do processo criativo. De fato, consideramos que grupos não 
só desempenham papel essencial na criação de novos pro-
dutos, mas também asseguram sua valorização e impacto. 
Embora essa hipótese possa causar espanto, já recebeu sig-
nificativo apoio científico. No ano passado, publicamos, em 
parceria com a psicóloga Lise Jans, um artigo com revisão 
Mais do que uma expressão individual, a 
originalidade toma forma em um contexto; 
grupos não só desempenham papel essencial 
na criação de ideias e produtos, mas também 
asseguram sua valorização, disseminação e 
impacto. Mesmo as pessoas mais geniais talvez 
não tivessem se destacado se vivessem
em outro momento ou lugar
por Alexander Haslam, Inmaculada
Adarves-Yorno e Tom Postmes
3838
de grande parte dos dados acumulados sobre concepções 
modernas de grupos e originalidade. Concluímos que é pro-
blemático e inútil separar as grandes mentes criativas das 
comunidades onde surgem. 
TEMPO E CULTURA 
Apesar da crença romântica de que a inovação está associa-
da a uma vida dura e isolada, pesquisas científicas sobre cria-
ções individuais ainda não produziram previsões precisas do 
comportamento criativo. Muitos pesquisadores vasculharam a 
biografia de grandes nomes que colaboraram com o mundo 
com sua originalidade na tentativa de encontrar experiências e 
traços de caráter relacionados à genialidade. 
especial • psicologia social
39
Embora hoje saibamos bastante a respeito de processos ce-
rebrais que propiciam o surgimento de boas ideias, pesquisas 
nessa linha falham porque não consideram o importante papel 
do contexto social. A natureza e a importância de uma inova-
ção dependem da interação entre as ideias de uma pessoa, da 
época e da cultura em que vive. Se Bruce Springsteen tivesse 
nascido em 1749 em vez de 1949, seria improvável que ouvís-
semos Born to run. Da mesma forma, se o compositor italiano 
Domenico Cimarosa tivesse nascido em 1949 em vez de 1749, 
suas 80 óperas, entre elas a obra-prima Il matrimonio segreto, 
provavelmente não teriam sido criadas.
De maneira geral, esses exemplos tratam da influência que 
os grupos exercem sobre a criatividade. No final da década de 
70, os psicólogos Henri Tajfel e John Turner, da Universidade de 
Bristol, na Inglaterra, desenvolveram o conceito de identidade 
social, levando em conta que o contexto influencia momentos 
em que nos percebemos como indivíduos ou membros de um 
grupo. Assim, por exemplo, um pintor cubista (vamos chamá-lo 
de Pablo) pode, em alguns momentos, pensar em si com base na 
identidade pessoal, mas em outras ocasiões, da perspectiva do 
cubista, considerando a forma como se reconhece socialmente. 
Em outros lugares, somos definidos ainda de acordo com nacio-
nalidade, sexo biológico, religião ou função num grupo. 
Tajfel e Turner argumentam que, quando uma identidade so-
cial em particular é psicologicamente proeminente, de tal for-
ma que determina o sentido de quem somos, o grupo – base 
do reconhecimento – exerce profunda influência sobre nosso 
comportamento. Além disso, a maneira como julgamos uma 
ação, independentemente de sermos seus autores, reflete 
ideias coletivas compartilhadas. O mesmo vale para o com-
portamento criativo e a maneira como o avaliam. Por exemplo, 
especial • psicologia social
é provável que Pablo, sendo cubista, se interesse em apreciar 
representações abstratas dos objetos; também há grandes 
chances de ele produzir pinturas de acordo com as diretrizes e 
preferências desse movimento artístico. 
Identidades sociais favorecem também uma perspectiva co-
mum, bem como a capacidade e motivação para nos envolver-
mos em influências sociais mútuas. Mas, quando agimos a partir 
da perspectiva pessoal, tendemos a ser criativos, nos desviando 
da norma. Em um experimento realizado há alguns anos, pe-
dimos a alguns estudantes universitários que trabalhavam em 
grupo que produzissem cartazes que falassem sobre “razões 
para frequentar a universidade” e a outros que abordassem a 
“moda no ambiente acadêmico”. As instruções levaram os alu-
nos, de maneira implícita, a criar certas normas grupais. Os que 
deveriam se concentrar em “razões” tendiam a produzir anún-
cios essencialmente com palavras, enquanto aqueles voltados 
para a moda optavam por trabalhar com imagens. 
Depois de três horas, pedimos que criassem um folheto sobre 
a universidade, que poderia ser feito com palavras ou imagens. 
Dessa vez, alguns se reuniram em grupo, enquanto outrosde-
cidiram trabalhar por conta própria. Nosso objetivo era saber se 
a tarefa criativa seria moldada pelas normas coletivas estabele-
cidas na fase anterior. E foi. Observamos que durante o trabalho 
em equipe os participantes geralmente criavam de acordo com 
as regras comuns estabelecidas para o projeto, independente-
mente de ser com imagens ou palavras. E, mesmo quando pude-
ram agir individualmente, tendiam a tomar as diretrizes do grupo 
a que pertenceram anteriormente como ponto de partida. Os re-
sultados desse e de outros estudos semelhantes apoiam a hipó-
tese de que a natureza da atividade criativa depende de normas 
coletivas. (Leia mais sobre o tema nas págs. seguintes.)
OS AUTORES 
S. ALEXANDER 
HASLAM é doutor em 
psicologia, professor 
da Universidade 
de Queensland, 
na Austrália. 
INMACULADA 
ADARVES-YORNO é 
psicóloga, professora 
de estudos sobre 
liderança da 
Universidade de Exeter, 
na Inglaterra. TOM 
POSTMES é professor 
de psicologia social 
da Universidade de 
Groningen, 
na Holanda.
40
especial • psicologia social
41
especial • psicologia social 
O poder da 
COLABORAÇÃO
A tendência de julgarmos a criatividade de 
maneira que reflita nossa identidade no grupo 
ajuda a explicar o preconceito de gênero e 
racismo – embora não sirva para justificá-los
42
H
á quase 50 anos, o psicólogo Irving Janis, pesqui-
sador da Universidade Yale, defendeu a ideia de 
que o desejo de se adaptar colabora com a toma-
da de decisões inconvenientes e a falta de pen-
samento crítico, um fenômeno chamado de pensamento co-
letivo, que ele considerava a antítese da criatividade. Ou seja: 
a dinâmica grupal pode, em muitos casos, favorecer escolhas 
irracionais, o apoio cego a propostas pouco inteligentes. 
Normas grupais influem em formas de pensar. Por exemplo, 
pintores cubistas podem usar figuras geométricas abstratas de 
acordo com os costumes da técnica. Mas nem tudo está per-
dido: essa é apenas uma parte do cenário. A obra de nosso 
artista hipotético provavelmente terá características que a di-
ferenciam das demais, como dimensões, cores ou temas não 
restritos ao estilo.
Discussões com amigos, colegas ou pares podem favo-
recer novas ideias – desde que se esteja disposto a refletir 
sobre outros pontos de vista. A psicóloga Vera John-Steiner, 
da Universidade do Novo México, diz em seu livro Creative 
collaboration (2000) que pequenos grupos, como os Beatles, 
Bauhaus ou Bloomsbury, frequentemente produziam músi-
cas de vanguarda ao ressaltar as ideias uns dos outros en-
quanto procuravam alternativas para resolver problemas ar-
tísticos, teóricos e práticos.
Solidariedade e coesão são essenciais para favorecer o pro-
gresso dos movimentos criativos porque permitem que os pares 
especial • psicologia social
apoiem uma iniciativa compartilhada. Exploramos essa ideia 
em um estudo. Pedimos a pequenos grupos de universitários 
que participassem do processo de planejamento (simulado) da 
construção de uma inovadora creche municipal. Antes, porém, 
algumas equipes passaram por um procedimento que as es-
timulou a um forte senso de identidade social compartilhada, 
enquanto outras foram incentivadas a pensar em si mesmas 
individualmente. Depois, as equipes se reuniram outras três 
vezes, por aproximadamente uma hora e meia, para discutir o 
empreendimento fictício, que passou por dificuldades de mon-
tagem. Os custos trabalhistas aumentaram e havia necessida-
de de um estudo de impacto ambiental. Descobriram que a 
caixa de areia das crianças continha traços de elementos tó-
xicos e muitos pais ameaçavam processá-los. As autoridades 
adiavam a aprovação do edifício. 
Observamos que aqueles que inicialmente desenvolve-
ram uma identidade social compartilhada permaneceram 
otimistas sobre o projeto e continuaram a apoiá-lo, mesmo 
nos momentos difíceis. Os que foram persuadidos a pen-
sar individualmente perderam o entusiasmo e cada vez mais 
consideravam abortar o empreendimento. Em outras pala-
vras, a identidade social (mas não a pessoal) reforçou o in-
teresse e encorajou os participantes a encontrar soluções 
criativas diante dos desafios. De maneira geral, os resulta-
dos indicam que precisamos de senso de identidade social 
compartilhada para buscar estratégias originais e concluir 
projetos inovadores – seja na ciência, na tecnologia, nas ar-
tes ou na política. 
Além disso, comprometer-se solidamente com o grupo 
não nos torna cegos para suas falhas. De fato, o oposto pa-
rece acontecer mais frequentemente. Quando as normas 
43
especial • psicologia social
44
são prejudiciais, os membros mais empenhados costumam 
debater e renegociar as regras. 
Os psicólogos Dominic Packer e Christopher Miners, res-
pectivamente pesquisadores das universidades de Queen, em 
Ontário, e Lehigh, desenvolveram um estudo no qual pediram 
a alguns alunos que escrevessem uma declaração de abertura 
O fenômeno do pensamento coletivo costuma ser 
considerado a antítese da criatividade. Ou seja: a 
dinâmica grupal pode, em muitos casos, favorecer 
escolhas irracionais, o apoio cego a propostas 
pouco inteligentes
especial • psicologia social
antes de uma reunião de que 
participariam para discutir o uso 
de álcool com seus pares, fo-
cando o aumento do consumo 
em festas. Os pesquisadores 
observaram que, quanto mais 
se identificavam com o grupo, 
mais propunham soluções cria-
tivas para o problema, possivel-
mente porque sentiam maior 
responsabilidade ou acreditavam ser mais capazes de provo-
car transformações. Os dados apontam que a coesão grupal 
pode ajudar a estimular ideias criativas que levam a mudanças, 
desde que as pessoas se mostrem abertas à reflexão. (Leia 
mais sobre o tema nas págs. seguintes.)
45
O psicólogo Irving 
Janis, pesquisador 
da Universidade Yale, 
defendeu a ideia de que 
o desejo de se adaptar 
pode colaborar com 
a tomada de decisões 
inconvenientes e a falta 
de pensamento crítico
especial • psicologia social
46
O jogo da 
REINVENÇÃO 
Cultivar a ideia de que conhecemos as pessoas que nos 
rodeiam ajuda a dissipar o temor de desestabilização. 
As contribuições de um “semelhante”, não raro, são mais 
bem recebidas do que as ideias de um “estranho”
especial • psicologia social 
47
G
rupos desempenham um papel vital na valorização 
das inovações. Sem tocarem na identidade coleti-
va, grandes artistas, escritores e cientistas podem 
muito bem passar despercebidos. Em vida, Vin-
cent van Gogh não conseguiu encontrar quase ninguém para 
comprar suas pinturas incomuns. Seu trabalho chamou aten-
ção somente após sua morte, quando um círculo de artistas, 
os pós-impressionistas, valorizou sua obra como um indicativo 
de um estilo distinto que pretendiam imitar. Da mesma forma, 
em 1961, as teorias de modelos computacionais do então estu-
dante de graduação Yoshisuke Ueda foram inicialmente impe-
didas de serem publicadas por seu supervisor da Universidade 
de Kyoto, porque eram vistas como muito vanguardistas. Assim 
que apreciadores de seu trabalho ingressaram na comunidade 
científica, porém, suas ideias transformaram o campo emer-
gente da teoria do caos. 
De fato, somos mais propensos a apoiar um projeto criativo 
ou nos esforçar na sua criação se os envolvidos fazem parte 
do nosso grupo. A ideia de que conhecemos os que trabalham 
conosco ajuda a dissipar o temor de desestabilização. As con-
tribuições de um “semelhante”, não raro, são antagônicas às 
ideias de um “estranho”. Costumamos ter preconceito étnico, 
por exemplo, quando julgamos a criatividade artística e, não 
raro, críticos preferem o trabalho de artistas de seu próprio país. 
O prêmio conferido pela Academia de Artes e Ciências Cine-
Somos mais propensos a apoiar uma inovação 
se os envolvidos fazem parte do nosso grupo; 
conhecer as pessoas que propõem a novidade 
ajuda a dissipar o temor do desconhecido
especial • psicologia social
matográficas, oOscar americano, e Academia Britânica de Ci-
nema e Televisão, o britânico, é destinado a avaliar a qualidade 
objetiva de filmes. Mas um estudo inédito feito pelo psicólogo 
Niklas Steffens e seus colegas da Universidade de Queensland, 
na Austrália, constatou que desde 1968 artistas dos Estados 
Unidos receberam o prêmio americano de melhor ator ou atriz 
80% das vezes e ganharam o Oscar britânico menos da metade 
para a mesma categoria. Ao mesmo tempo, os artistas do Reino 
Unido ganharam quase metade dos prêmios correspondentes 
em seu país, mas pouco mais de 10% do Oscar americano. 
Ou seja, o que entendemos por criatividade – e, portanto, 
Grupos de músicos, como os beatles, assim como de escrito-
res e cientistas, podem estimular a criatividade entre seus membros com o incentivo mútuo e 
comentários positivos 
48
especial • psicologia social
como medimos e recompensamos autores originais – depende 
da identidade cultural. Em um estudo de 2008, os psicólogos 
Kaiping Peng, da Universidade da Califórnia em Berkeley, e Su-
sannah Paletz, agora na Universidade de Maryland, investigaram 
a percepção de mais de 300 estudantes chineses e americanos 
a respeito do que tornava um produto criativo. Eles testaram dois 
itens bem diferentes: um livro teórico e uma refeição prepara-
da por um amigo. Os cientistas observaram que os voluntários 
ocidentais perceberam a originalidade de acordo com a ade-
quação (se o produto era, de alguma forma, útil), enquanto os 
orientais tomaram como base o desejo pessoal. Os americanos 
encararam a criatividade como uma questão de gosto, enquan-
to os chineses como algo relacionado ao apetite.
A tendência de julgarmos a criatividade de maneira a refletir 
nossa identidade social ajuda a explicar também o preconcei-
to de gênero e racismo – embora não sirva para justificá-los. 
Em um estudo desenvolvido pelo psicólogo Thomas Morton 
e seus colegas da Universidade de Exeter, na Inglaterra, rela-
taram que cientistas homens encaravam melhor e como mais 
originais as teorias que apontavam superioridade do gênero 
masculino em relação ao feminino do que pesquisas que de-
fendiam o oposto. O padrão se inverte no caso de cientistas 
mulheres. Curiosamente, ambos os grupos também acredita-
vam que estudos sobre criatividade que apoiavam suas pró-
prias preferências com base na identidade mereciam mais fi-
nanciamento de pesquisa. 
O senso de identidade social compartilhada nos 
motiva a permanecer em um projeto até concluí-
lo, mesmo quando surgem dificuldades 
49
especial • psicologia social
Autorretrato de Vincent van Gogh: mesmo os mais criativos precisam 
de incentivadores; a arte do pintor holandês so teve reconhecimento depois de seu suicídio, 
em 1890, quando passou a inspirar pós-impressionistas
50
especial • psicologia social
Por sua vez, criadores de sucesso sabem bem quem é 
seu público e orientam seus produtos ou suas respostas a 
uma questão para as necessidades percebidas e valoriza-
das por determinado grupo. Aliás, estão bem familiarizados 
também com os lugares dos quais não querem fazer parte 
com seu trabalho. 
O QUE CRIAM
Como membros de um grupo, nosso comportamento criati-
vo e o modo como avaliamos as inovações dos outros refletem 
51
UM DE NÓS, UM DELES
Nossa percepção de criatividade depende de o cria-
dor ser “um de nós” ou “um deles”. Em um estudo, 
pedimos a 50 voluntários do Reino Unido que avalias-
sem sugestões sobre o futuro formato de um progra-
ma de televisão que dissemos ter sido retirado de um 
site britânico. Dissemos para outros 50 participantes 
que as mesmas ideias vieram de um portal holandês. 
Na segunda parte do experimento, pedimos a 125 es-
tudantes britânicos que avaliassem obras de arte que 
atribuímos a universitários de seu país ou a holande-
ses. Em ambos os casos, embora o conteúdo fosse o 
mesmo, aqueles que acreditavam que seus conter-
râneos (ou seja, os membros do grupo) tinham sido 
os autores julgavam seu trabalho significativamente 
mais criativo do que os voluntários que pensavam se 
tratar de uma produção holandesa. 
especial • psicologia social
nosso desejo de estender os valores do lugar a que pertence-
mos e desafiar as ideias daqueles que estão do lado de fora. 
Pessoas inovadoras devem conhecer as normas das quais se 
afastam. Eventualmente, também precisam de um público dis-
posto a abraçar as novas formas de enxergar ou de se compor-
tar diante de propostas pelo seu trabalho. Para terem sucesso, 
portanto, esforços criativos devem transformar comunidades. 
O público recém-conquistado conduz a mudanças culturais 
iniciadas por ideias originais. 
No entanto, o senso comum tende a valorizar pensamentos 
que se aproximam de uma citação que Picasso fez certa vez: 
“Os discípulos que se danem. Bastam os mestres. Aqueles que 
criam”. Porém, curadores de uma grande exposição na Gale-
ria Nacional de Londres observaram que muito de seu próprio 
trabalho se deve aos primeiros moldes de pintura que rejei-
tou. Além disso, sem admiradores, sua obra teria tido pouca 
influência na sociedade. Suas criações não tratam, portanto, de 
um trabalho feito por conta própria para criar tudo de maneira 
inédita. Mas sim, como afirma o pintor galês Osi Rhys Osmond 
em uma crítica da exposição, de um exercício colaborativo de 
“reinventar o familiar”. 
É claro que devemos estudar e comemorar a originalidade 
individual. No entanto, a psicologia da criatividade mostra que, 
além de estarem envolvidos com o processo criativo, os grupos 
procuram estender seus limites, o que cria a base de influência. 
“I did it my way” (Fiz do meu jeito) pode ser um hino atraente 
para grandes autores, como Frank Sinatra, porém, para alcan-
çar o sucesso é preciso contar com promotores, produtores e 
um público que aprove o trabalho. (Por S. Alexander Haslam, 
Inmaculada Adarves-Yorno e Tom Postmes.)
PARA SABER MAIS 
 
The collective origins 
of valued originality: a 
social identity approach 
to creativity. S. Alexander 
Haslam, Inmaculada 
Adarves-Yorno, Tom 
Postmes e Lise Jans, em 
Personality and Social 
Psychology Review, vol. 
17, no 4, págs. 384-401; 
novembro de 2013. 
 
Your creative brain 
at work. Evangelia G. 
Chrysikou, em Scientific 
American Mind; julho/
agosto de 2012. 
 
At the first sign of 
trouble or through 
thick and thin? When 
nonconformity is and 
is not disengagement 
from a group. Dominic 
J. Packer e Christopher 
T. H. Miners, em Journal 
of Experimental Social 
Psychology, vol. 48, no 1, 
págs. 316-322; janeiro 
de 2012. 
 
The bias against 
creativity: why people 
desire but reject creative 
ideas. Jennifer S. 
Mueller, Shimul Melwani 
and Jack A. Goncalo, em 
Psychological Science, vol. 
23, no 1, págs. 13-17; 
janeiro de 2012.
52
especial • psicologia social
livro | lançamento
Cartas para Freud
Palavras escritas em 1935 são revisitadas; 
vários olhares instigam a discussão atual e tão 
necessária sobre homossexualidade e outras 
formas de identidade sexual
A homossexualidade certamente não é uma vantagem, tampouco é algo de que se envergonhar, não é nenhum vício, nenhuma degra-dação, não pode ser classificada como doença”, escreve Sigmund 
Freud, em 9 de abril de 1935. Era a resposta à carta de uma mãe norte-ameri-
cana, muito preocupada com a sexualidade de seu filho. Passado quase um 
século, o texto se tornou um poderoso instrumento de luta contra o precon-
ceito e a tentativa de normatizar a vivência da sexualidade. Não por acaso, 
a carta circula em redes sociais brasileiras, mostrando a triste atualidade da 
discussão sobre algo que, em tempos mais generosos, teria sua importân-
cia como documento histórico. 
53
Caro Dr. Freud: Respostas do 
século XXI a uma carta sobre 
homossexualidade. Gilson 
Iannini (org.). Autêntica, 2019. 208 
págs. Impresso R$ 39,00 (em média). 
E-book R$ 21,00 (em média).
livro | lançamento
54
Oito décadas e meia depois de Freud acalmar o coração daquela mulher 
aflita,no livro Caro Dr. Freud: Respostas do século XXI a uma carta sobre 
homossexualidade, lançado pela Autêntica, o tema é revisitado e traz uma 
provocação. O organizador, o filósofo e psicanalista Gilson Iannini, convoca 
mães e filhos de pessoas LGBT, ativistas, psicanalistas, especialistas em lite-
ratura, sociologia, filosofia, direito e gêneros a se questionar: e se a carta de 
Freud fosse endereçada a você? O resultado são textos que expressam a diver-
sidade de perspectivas teóricas, políticas, literárias e sexuais dos missivistas. 
As cartas (algumas bastante pessoais, outras ficcionais e algumas mais téc-
nicas) apresentam angústias, falam de batalhas, conquistas e da necessidade 
de continuarmos a trilhar um caminho que requer não apenas informação e 
formação, também exige amplificação de horizontes. E um tanto de humil-
dade. Afinal, como escreve Fernando Pessoa, citado por Iannini, “todos os 
homens são exceção a uma regra que não existe”.
Oito décadas e meia depois de o criador da psicanálise 
acalmar a mãe aflita com a orientação sexual de seu filho, 
filósofo brasileiro lança uma provocação: “E se as palavras 
de Freud fossem endereçadas a você?” 
	Imagens quefavorecem asimbolização
	O superpoder da AUTOCONFIANÇA
	Raízes da SEGURANÇA
	Palpite, dúvida ou certeza?
	A estreita relação entre s clima e empatia
	Cegos para emoções
	A criatividade é coletiva
	O poder da COLABORAÇÃO
	O jogo daREINVENÇÃO

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