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| ESPECIAL | PSICOLOGIA SOCIAL: CRIATIVIDADE E COLABORAÇÃO ANO XIII No 323 DEPRESSÃO Dificuldade de decifrar as próprias emoções pode ser sinal de fragilidade PALPITE Grau de autoconfiança influi em crenças e escolhas Flexibilidade e tolerância consigo mesmo são fundamentais para lidar com dificuldades e valorizar nossos pontos fortes PSICANÁLISE Fotos de terapia de grupo favorecem simbolização de pacientes somáticos O SUPERPODER DA AUTOCONFIANÇA GLÁUCIA LEAL, editora-chefe glaucialeal@editorasegmento.com.br @glau_f_leal Sim, é possível S eja sincero: se você pudesse escolher um superpoder, desses que os super- heróis ostentam nos filmes de aventuras, qual você escolheria? Voar? Ficar invisível? Ter uma força descomunal? Certo, tudo isso seria ótimo no mundo da fantasia. Mas vamos voltar para a vida concreta. Muitos cientistas acreditam que um dos maiores (senão o maior) trunfos de qualquer reles humano é a autoconfiança. Ser capaz de acreditar em suas próprias potencialidades parece ser um recurso extremamente potente para atingirmos nossos objetivos, lidar com fragilidades e valorizar o que temos de melhor. Isso vale tanto para a vida pessoal quanto profissional e relacionamentos. Não por acaso, vários pesquisadores têm se dedicado a entender melhor os processos psíquicos que concorrem para construirmos nossa autoimagem e manejarmos a linha que separa a sensação de impossibilidade da certeza de que é possível (e merecemos) atingir nossos objetivos. Um dos estudos mais recentes nessa área, desenvolvido na Universidade do Estado de Ohio, dos Estados Unidos e publicado no periódico científico Basic and Applied Social Psychology, confirmou que a imagem que fazemos de nós mesmos, sobretudo em relação a propósitos pessoais, tem total relação com resultados obtidos. “Quanto mais acreditamos que somos capazes, apesar de eventuais dificuldades e falhas, mais chances temos de sucesso”, ressalta o professor de psicologia Patrick Carroll, organizador do estudo. Autoconhecimento, flexibilidade e acolhimento das próprias falhas são fundamentais para aperfeiçoar a habilidade de confiar em si mesmo. Até a postura física é importante na construção da autoconfiança. Cientistas da Universidade Estadual de São Francisco acreditam que a maneira como nos movimentamos afeta não apenas como os outros nos veem, mas também como nós nos percebemos. Vale conferir. Boa leitura. carta da editora 3 4 sumário DEZEMBRO 2019 capa autoconfiança 13 O superpoder da autoconfiança Tudo parece caminhar bem, até que uma avalanche de dúvidas parece cair sobre nossa cabeça, minando nossos melhores propósitos. O que podemos fazer quando isso acontece? 19 Raízes da segurança Flexibilidade e tolerância consigo mesmo parecem ser palavras-chaves quando se trata de suportar as próprias dificuldades e, assim, ironicamente, valorizar competências especial 36 A criatividade é coletiva Mais do que uma expressão individual, a originalidade toma forma em um contexto; grupos não só desempenham papel essencial na criação de ideias e produtos, mas também asseguram sua valorização, disseminação e impacto 41 O poder da colaboração A tendência de julgarmos a criatividade de maneira que reflita nossa identidade no grupo ajuda a explicar o preconceito de gênero e racismo – embora não sirva para justificá-los 46 O jogo da reinvenção Cultivar a ideia de que conhecemos as pessoas que nos rodeiam ajuda a dissipar o temor de desestabilização. As contribuições de um “semelhante”, não raro, são mais bem recebidas do que as ideias de um “estranho” psicologia social Saiba com antecedência qual será o tema da capa da próxima edição www.mentecerebro.com.br Acompanhe a @mentecerebro no Instagram 3 CARTA DA EDITORA 53 LIVRO • LANÇAMENTO Caro Dr. Freud – Gilson Iannini seções 5 06 Imagens que favorecem a simbolização O uso de fotografias em sessões de grupo ajuda na construção de narrativas para além da sensação dolorosa de pacientes psicossomáticos 23 Palpite, dúvida ou certeza? Experimentos revelam como o grau de confiança naquilo que percebemos ou pensamos influi diretamente em nossas opiniões, apostas e decisões 27 A estreita relação entre clima e empatia Por que não paramos as mudanças climáticas? Talvez porque não estejamos suficientemente preocupados com o sofrimento de nossos descendentes 32 Cegos para emoções Pessoas que não conseguem distinguir com clareza o que sentem têm maior probabilidade de desenvolver transtornos depressivos www.mentecerebro.com.br Presidente: Edimilson Cardial Diretoria: Carolina Martinez, Marcio Cardial e Rita Martinez Editora-chefe: Gláucia Leal Colaboradores: Maria Stella Valli e Ricardo Jensen (revisão) Editor de arte: Rafael Dias Produção gráfica: Sidney Luiz dos Santos Escritórios regionais: Brasília – Sonia Brandão (61) 3321-4304/9973-4304 sonia@editorasegmento.com.br Rio de Janeiro – Edson Barbosa (21) 4103-3846 /(21) 988814514 edson. barbosa@editorasegmento.com.br MARKETING/WEB Diretora: Carolina Martinez Gerente de marketing: Mariana Monné ASSINATURAS E CIRCULAÇÃO Supervisora: Cláudia Santos Eventos Assinaturas: Simone Melo Mente e Cérebro é uma publicação mensal da Editora Segmento com conteúdo estrangeiro fornecido por publicações sob licença de Scientific American. 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Queixas como zumbido no ouvido, dores no corpo, formiga- mento são constantes. Para alguns pacientes as sensações aproximam-se da alu- cinação – percepção sensorial que se dá na ausência de um estimulo externo e sobre a qual o sujeito não questiona como fruto de sua produção psíquica. Essa condição que dificulta a construção de uma narrativa afetivamente significada. Ao vivenciarmos uma experiência somos corporalmente afetados por estímulos sensoriais que demandam trabalho ao psiquismo. Ocorre uma passagem da sensação para a imagem psíquica, que, carregada de afeto, constitui o que denominamos representação-coisa. O passo seguinte à sig- nificação afetiva da experiência é poder falar sobre ela, trans- formando-a em representação de palavra. Esses pacientes, porém, muitas vezes não conseguem fa- zer a transição da sensação para a imagem psíquica e o que Sintomas vividos no corpo em formade dor e desconforto (como zumbidos e sensação de formigamento) tendem a afastar o paciente da possibilidade de elaboração; o uso de fotografias em sessões de grupo ajuda na construção de narrativas para além da sensação dolorosa Por Cristiane Curi Abud A AUTORA CRISTIANE CURI ABUD é psicanalista, membro do Departamento de Psicossomática Psicanalítica e do departamento de Psicossomática do Instituto Sedes Sapientiae. É mestre em psicologia clínica e doutora em administração de empresas. Professora afiliada da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), coordena o Programa de Assistência e Estudos de Somatização na instituição. É autora de Dores e odores, distúrbios e destinos do olfato (Via Lettera, 2009), coautora de Psicologia médica: abordagem integral do processo saúde-doença (Artmed, 2012), e organizadora de A subjetividade nos grupos e instituições (Chiado, 2015) e O racismo e o negro no Brasil: questões para a psicanálise (Perspectiva, 2017). psicossomática seria insumo para a experiência estética da vida psíquica apa- rece como algo do qual a pessoa anseia por livrar-se. Cabe aqui uma diferenciação entre esse estado e a psicose. Para o psicanalista francês René Roussillon, na psicose o sujeito toma a atividade representativa por uma atividade perceptiva – que chamamos de alucinação. A pessoa pensa o objeto na sua ausência, representa o objeto, mas sem saber que repre- senta. Ele não completa a simbolização, que é uma atividade de representação que sabe que é uma representação. O psiquiatra e psicanalista Christophe Dejours ressalta que o paciente somatizador tende a não representar e nem sim- bolizar. Neste sentido, as parestesias destacadas por Sig- mund Freud ao estudar as neuroses atuais como uma “ten- dência a alucinações” podem ser compreendidas como um movimento do sujeito somatizador em direção a uma tentati- va de simbolização, dado que a alucinação inclui o mecanis- mo psíquico de representação do objeto ausente. Adotamos no trabalho terapêutico realizado no Programa de Assistência e Estudos de Somatização da Unifesp dinâ- micas grupais com objetos mediadores. O caso clínico de uma paciente de 70 anos que frequentou o grupo de fotolin- guagem, formado por mulheres, ajuda na compreensão da técnica (veja quadro abaixo). IMAGEM E PALAVRA Uma sessão de fotolinguagem acontece em dois momentos. Primeira- mente, as fotos são escolhidas (entre várias de um dossiê apresentado ao grupo durante a sessão) com base em uma pergunta enunciada pelo analista. Num segundo momento o terapeuta convida os participantes a partilharem no grupo a fotografia escolhida no momento em que deseja- rem. A proposta é que a exposição seja escutada sem interpretações. Ao final, cada um diz o que percebe de parecido ou de diferente em relação ao que a pessoa viu e destacou na imagem. 8 psicossomática 99 No início do grupo, Joana, disse: “Eu não durmo bem! Cho- ro de dor, sinto umas agulhadas!” Outras pacientes também falam a respeito de suas dores e da dificuldade de controlá- -las. Sugeri então às participantes que respondessem com uma foto à pergunta: O que é controlar? Joana escolheu sua imagem (abaixo) “Esta moça está só, acabou de perder o marido, está com dor.” Notei que a es- colha da foto não tinha, aparentemente, relação com a per- gunta feita, e comentei: “Mas a pergunta era sobre controle. Como será que essas coisas se ligam?” Outra paciente co- mentou: “Ela está no hospital triste, tentou suicídio. Era tanta dor que se descontrolou”. Neste momento em que a paciente associa a imagem es- colhida à pergunta, Joana arregalou os olhos e sorriu, como uma criança que acaba de se reconhecer no espelho: “Deu certo a minha foto, né, doutora?” Havia um humor depressivo no grupo que, muito aderido à dor, resistia entrar na brincadeira. Ao propor outra pergunta psicossomática 10 que não falasse diretamente da dor e fazer uma ligação en- tre a foto escolhida e a pergunta, tentei promover um deslo- camento libidinal da sensação dolorosa para a imagem, que poderia então ser transformada pelo olhar dos outros. O regozijo de Joana deveu-se à transformação de sua alu- cinação/dor no sentimento de ilusão de ter encontrado/cria- do a foto que se tornaria um fenômeno subjetivo, resultado de sua criatividade e seu encontro com a realidade da foto. O grupo cumpriu a função de auxiliá-la nesta composição par- tilhando do prazer da criação. Este movimento no qual Joana expõe no grupo a dificuldade de habitar a área intermediária da criação – ela nunca sabia o que sua foto tinha a ver com a pergunta feita – repetia-se, assim como se repetia o movi- mento do grupo de resgatar a capacidade de simbolização. O humor do grupo mudou. Em outra sessão, pedi às pacientes que se apresentassem às estagiárias usando para isso uma foto. Joana escolheu a foto de uma mulher “enfiando um funil no chão”, segundo suas palavras (veja ao lado). Já en- trando no jogo, outra paciente disse rindo: “O que isso tem a ver com a nossa pergun- ta?” Joana respondeu: “Eu nunca sei o que tem a ver, escolho qualquer foto, aí as meni- nas do grupo me ajudam e dá certo. Ela está enfiando algo no chão”. As outras pacientes comentam que não é no chão, mas sim na garganta do animal. “Na garganta? Nem tinha percebido que era um animal”, diz Joana. E todos começam a rir. Este pequeno trecho da cadeia associativa grupal pode ser compreendido como fruto das alianças inconscientes psicossomática estruturantes do grupo. Uma pacien- te havia revelado um abuso sexual que sofreu e falava muito desse assunto, o que deixava outra paciente visivelmen- te incomodada, a ponto de brigarem e a paciente que foi abusada nunca mais voltar. O grupo não tocou mais no assun- to e estabeleceu inconscientemente o acordo de recusar o episódio e não falar mais do abuso sexual. A foto escolhida por Joana figurava uma situação de abuso onde o animal é alimen- tado de maneira violenta. De certa forma, as pacientes sentem seus corpos serem abusados como nessa foto, onde sua pre- sença não é percebida e seu desejo não é reconhecido. A recusa dos abusos sofridos e a decorrente repressão dos afetos determinam o negativo no grupo, aquilo que fica fora do campo da consciência, compondo o que o psi- canalista René Kaës chamou de pacto denegativo. Joana seguiu denunciando a violência no grupo, como um porta-retrato onde o corpo é tratado com negligência. Suas imagens eram acolhidas pelo grupo que as usava para meta- bolizar as próprias situações de abuso. Suas fotos funcionavam 11 Ao vivenciarmos uma experiência somos corporalmente afetados por estímulos sensoriais que demandam trabalho psíquico; alguns pacientes, no entanto, não conseguem fazer a transição da sensação para a imagem psicossomática como a lucidez da fala delirante de um paciente psicótico, rompendo gradualmente com o pacto do qual éramos todos signatários. Diante do aumento da possibilidade de representar e sim- bolizar a violência, o grupo pôde abrir mão da defesa e re- fazer suas alianças. As participantes decidiram que ali pode- riam dizer sobre o que as estivesse incomodando, a ponto de uma paciente revelar ter sido abusada por seus irmãos e tios durante toda a infância. Quanto a Joana, na última sessão, quando encerrei o gru- po, disse: “Sabe, doutora, eu aprendi que eu não tenho ne- nhuma doença, meu pensamento é que é fraco. Eu vou ao médico por causa de um problema que estou sentindo, mas no caminho eu logo sinto mais dois problemas e então acre- dito mesmo que eu tenho três problemas. Agora eu sei que sou eu que estou pensando isso, e fico num problema só”. Com essas palavras, Joana conta que aprendeu a “pensar o pensamento”, apropriando-se subjetivamente do pensar, num movimento simbólico. Diante do aumento da possibilidade de representar e simbolizara violência, o grupo pôde abrir mão da defesa e refazer suas alianças; as participantes decidiram que ali poderiam dizer sobre o que as estivesse incomodando PARA SABER MAIS A subjetividade nos grupos e instituições, construção, mediação e mudança. Cristiane Curi Abud (org.). Chiado, 2015. Sobre a sinergia entre grupo e o objeto mediador. Vacheret, C.;Gimenez, G.;Abud, C. C. Revista Brasileira de Psicanálise, vol. 47, n.º 3., 2013. Um singular plural, a psicanálise à prova do grupo. René Kaës. Loyola, 1997. O grupo e o inconsciente: o imaginário grupal. Didier Anzieu. Casa do Psicólogo, 1993. 12 psicossomática capa - autoconfiança O superpoder da AUTOCONFIANÇA Tudo parece caminhar bem, até que uma avalanche de dúvidas parece cair sobre nossa cabeça, minando nossos melhores propósitos. O que podemos fazer quando isso acontece? 13 capa • autoconfiança 1414 A creditar em si mesmo nem sempre é fácil. Os pla- nos em geral parecem bons: talvez expor uma ideia interessante durante uma reunião, participar de uma importante competição esportiva ou simplesmente abordar o estranho de aparência agradável no café. Mas às vezes simplesmente não temos a confiança necessária para decidir dar o passo decisivo. Então, repentinamente, as dúvi- das nos atormentam: estamos realmente dispostos? Podemos fazer isso? O que acontece se der errado? E, em meio a varia- ções de medo, em vez de aproveitar uma oportunidade, pode- mos deixá-la passar. Ou precisar das palavras encorajadoras dos outros, que muitas vezes parecem confiar em nós mais do que nós mesmos. Mas, afinal, o que realmente significa “confiar em si mes- mo”? Embora os psicólogos estejam lidando com essa questão há décadas, não é tão fácil separar a autoconfiança de outros termos que são frequentemente relacionados. O conceito de autoconfiança geral se refere principalmente à fé em suas pró- prias habilidades como um todo. Quando se trata de habilidades individuais, os cientistas tendem a falar de autoeficácia ou auto- confiança específica. “Uma pessoa pode ser eficiente em mate- mática, mas ter baixo desempenho em comunicação”, explica o psicólogo Qin Zhao, professor da Universidade Western Kentu- cky, nos Estados Unidos, lembrando que a autoeficácia em uma área pode mudar com o tempo. O conceito de autoestima também costuma entrar em jogo 15 quando se trata de autoconfiança. “Mesmo na literatura cientí- fica, os dois termos às vezes são confusos, embora eles real- mente descrevam algo diferente”, diz Qin Zhao. A autoestima não se refere necessariamente a habilidades, é na verdade o respeito que você tem por si mesmo, sua própria apreciação. Em 1990, Jennifer Campbell, então professora da Universidade capa • autoconfiança “Todo mundo de vez em quando duvida de si mesmo, isso não é um problema, pode até ser saudável; mas desconfiar cronicamente das próprias capacidades afeta a saúde mental e, algumas vezes, também seu desempenho”, diz o psicólogo 16 capa • autoconfiança Mas, afinal, o que determina nossas chances de seguir em frente com confiança sem ajuda externa, partir para manipulação sutil ou buscar sempre provar que somos capazes? De verdade, ninguém sabe a resposta exata. Muito provavelmente, como a maioria dos outros comportamentos e características, existe um componente genético que determina nossa capacidade de confiar. Observando crianças pequenas, podemos perceber que algumas simplesmente fazem o que desejam, por conta própria. O ambiente também desempenha um papel importante. O psicólogo Qin Zhao explica que a autoeficácia é determinada, entre outras coisas, pela experiência. Os estudos de Zhao indicam que a dúvida sobre nossas habilidades tende a surgir da comparação com os outros. “Sempre há alguém melhor que nós. Se você comparar suas próprias fraquezas com os pontos fortes de outras pessoas, sempre sentirá dúvida”, observa o especialista. Ele ressalta que pessoas que se comparam, em geral, foram objetos de comparações, feitas por adultos (afetivamente importantes para elas), em relação a outras crianças. As dúvidas, porém, não são ruins por si só – desde que não assumam o controle. “Questionar o próprio desempenho não é um problema, até ajuda a nos aprimorarmos, mas se colocar cronicamente em xeque prejudica a saúde mental e o desempenho. DÚVIDAS SIM, EM PEQUENAS DOSES da Colúmbia Britânica em Vancouver, conseguiu mostrar que a autoestima e a autoconfiança estão frequentemente liga- das. Para isso, ela selecionou para um estudo 92 alunos com alta autoestima e 92 alunos com baixa autoestima. Todos pre- encheram um questionário no qual foram solicitados a decla- rar em que medida determinados adjetivos se aplicavam a eles. Posteriormente, a pesquisadora quis saber dos partici- pantes quão confiantes estavam em suas respostas. Os volun- tários com baixa autoestima mostraram menos confiança em sua própria capacidade de se avaliar. Mas nem sempre é assim. “Também existem pessoas que têm baixa autoestima, mas têm muita certeza de como fun- cionam”, diz o professor de psicologia Richard Petty, da Uni- versidade Estadual de Ohio. Isso pode ser desfavorável, pois muitas vezes a pessoa passa a buscar “provas” de que não é boa o suficiente. Nesse caso, a psicoterapia costuma trazer ótimos resultados. INFLUÊNCIAS EXTERNAS O quanto acreditamos em nós mesmos e em nossas pró- prias habilidades tem um grande impacto em nosso compor- tamento. Por exemplo, pode afetar o quanto estamos dispostos a tomar decisões: aqueles que são atormentados por dúvidas têm mais probabilidade de procurar informações, muitas vezes em fontes pouco confiáveis, e hesitam em se comprometer. Às vezes, nosso comportamento de consumidor também é de- terminado por nossa autoconfiança. Isso foi demonstrado em 2008 por pesquisadores liderados por Leilei Gao, da Universidade Chinesa de Hong Kong. Os cientistas primeiro abalaram a crença dos voluntários em suas próprias habilidades, pedindo que escrevessem um ensaio capa • autoconfiança sobre sua inteligência com a mão não dominante. Os partici- pantes do experimento deveriam decidir o que gostariam de receber como agradecimento pela participação no estudo: uma caneta-tinteiro ou doces. Nesse caso, a maioria escolheu a caneta, em contraste com os participantes do grupo de con- trole, que tiveram permissão para escrever sobre suas próprias habilidades cognitivas com a mão dominante, como de cos- tume. Aparentemente, os voluntários tentaram “arrumar” sua autoimagem com o presente “mais inteligente”! A falta de autoconfiança também pode bloquear oportunida- des. Por exemplo, o Relatório de Educação da OCDE de 2015 sugere que, na escola, as meninas costumam fazer menos matemática do que os meninos porque têm menos confiança em sua capacidade de resolver problemas. Se compararmos apenas os resultados de meninos e meninas que têm um nível de crença igualmente alto em suas habilidades matemáticas, nenhuma diferença pode ser vista nos resultados. Já pesquisadores da Universidade de Witten/Herdecke foram capazes de mostrar que pessoas que têm mais con- fiança em suas próprias habilidades se saem melhor nos exa- mes. Para fazer isso, eles fingiram para os voluntários que as respostas para um próximo teste de conhecimento geral se- riam apresentadas a eles em uma tela por uma fração de se- gundo antes. De fato, apenas palavras completamente insigni- ficantes tremeluziam no monitor. No entanto, na sequência, os participantes se saíram melhor no teste do que integrantes do grupo controle, que tiveram de fazer o teste sem a “prepara- ção especial”. (Leia mais sobre o tema nas págs. seguintes.) capa • autoconfiança 19 Raízes da SEGURANÇA Flexibilidade e tolerância consigo mesmo parecem ser palavras-chaves quando se trata de suportar as próprias dificuldades e, assim, ironicamente,valorizar competências capa - autoconfiança 20 C laro, todo mundo gosta de se sentir capaz, podero- so, seguro. E, por vezes, até exagera no empenho em demonstrar essas características para esconder a própria fragilidade. Há casos em que as pessoas se identificam tanto com a “máscara” de força que passam a transmitir autoconfiança excessiva, o que pode ser igualmen- te prejudicial a longo prazo. “Isso acontece quando as pesso- as pensam que sabem mais do que realmente sabem, o que pode levá-las a tomar decisões que não são do seu interesse, porque não têm informações suficientes”, diz Richard Petty, professor de psicologia da Universidade Estadual de Ohio. Ele alerta para a importância de questionar as próprias convicções e considerar se de fato vale confiar nelas. Aliás, a força com que as pessoas tendem a essa forma de autovalidação não está diretamente relacionada à crença em si mesmo. Os que mais receiam a entrar em contato com suas fragilidades, no entanto, preferem concluir logo que estão certos. Uma pergunta que as pessoas frequentemente se fazem quando esse assunto surge é: como a autoconfiança pode ser fortalecida em um nível saudável? Flexibilidade e tolerância consigo mesmo parecem ser palavras-chaves quando se trata de suportar as próprias dificuldades e, assim, ironicamente, va- lorizar competências. Uma pesquisa conduzida pelo psicólogo Qin Zhao, da Uni- versidade Western Kentucky, em conjunto com dois colegas, capa • autoconfiança Pesquisador sugere relembrar ocasiões em que você obteve sucesso ou estava convicto a respeito de alguma decisão; a recordação pode conectá-lo com um estado emocional de segurança 21 capa • autoconfiança Andar pela vida afora tanto com a cabeça erguida demais quanto com uma postura encurvada pode trazer dificuldades. A conclusão é de um estudo que pesquisadores liderados por Erik Peper, da Universidade Estadual de São Francisco, publicaram na revista especializada NeuroRegulation, em 2018. Os cientistas pediram aos participantes para resolverem problemas simples de matemática, sentados na vertical ou pendurados na cadeira. Foi muito mais difícil para os voluntários com uma postura curvada cumprirem a tarefa. Os pesquisadores acreditam que a posição ereta incorpora autoconfiança: “A postura afeta não apenas como os outros nos veem, mas também como nos percebemos”, afirma Peper. O nível adequado de reconhecimento também desempenha um papel importante. O psicólogo Eddie Brummelman, da Universidade de Amsterdã, adverte particularmente sobre elogios em excesso e expressões exageradas como “extraordinário” ou “incrível” em relação a crianças. Isso pode até deprimir a autoconfiança e a autoestima porque, com o tempo, elas estabelecem padrões inatingíveis para si mesmas, tornando-se hipersensíveis à frustração. Há ainda o risco de a supervalorização constante criar a ilusão narcísica de superioridade. “O elogio é muito importante para as crianças, mas tem lugar e hora apropriados”, salienta Ariadne Sartorius. Mais importante que valorizar o resultado obtido pela criança é apreciar seu esforço – e comemorá-lo, sem banalizar a situação. (Por Stefanie Uhrig) POSTURA E ELOGIO NA HORA CERTA 22 capa • autoconfiança em 2019, oferece pistas interessantes nesse sentido. Com a ajuda de um artigo, metade dos voluntários foi inicialmente informada de que havia pouco que pudesse ser alterado em suas habilidades. Os demais leram outra versão do texto, que anunciava as oportunidades de melhorar as habilidades por meio de aprendizado e esforço. Posteriormente, todos preen- cheram um questionário de autoavaliação e concluíram várias pequenas tarefas. Os participantes que haviam aprendido que suas próprias habilidades podiam ser alteradas se mostraram menos pro- pensos a serem perturbados pela dúvida e concluíram melhor as tarefas. “Se alguém acredita que a competência não é uma qualidade fixa, as dúvidas não têm efeito tão negativo no bem- -estar”, afirma Zhao. Richard Petty oferece uma sugestão: re- lembrar ocasiões em que você agiu com confiança, obteve su- cesso ou estava convicto a respeito de alguma decisão. Essa recordação pode conectar a pessoa com um estado emocio- nal de segurança. FILHOS INDEPENDENTES Quando se trata de crianças, pais e outros adultos próximos são importantes para o desenvolvimento de uma dose saudá- vel de autoconfiança desde o início da vida. “Não devemos so- brecarregar constantemente os pequenos ou prestar atenção ao que fazem de errado”, aconselha a doutora em psicologia Ariadne Sartorius, especializada no atendimento de crianças e adolescentes. É melhor discutir em conjunto como será a solu- ção para um problema do que partir direto para a repreensão. “É importante que a criança perceba que tem apoio e pode resolver problemas e tarefas de forma independente.” consciência 23 Experimentos revelam como o grau de confiança naquilo que percebemos ou pensamos influi diretamente em nossas opiniões, apostas e decisões 23 24 É inegável que muitas de nossas ações se passam fora do alcance da consciência: se ajustamos a postura corporal durante uma conversa ou se nos apaixona- mos por determinada pessoa, em geral não temos ideia – pelo menos não exatamente – de por que ou de como fazemos essas escolhas. Para a maioria delas encontramos ex- plicações tão racionais quanto superficiais (“fico mais confortá- vel nessa posição” ou “gosto do meu namorado porque temos muito em comum”, por exemplo). Por trás dessas justificativas, porém, existem mistérios. Um exemplo simples: “Ao acionar um interruptor, você conscientemente viu a lâmpada acender?”. Embora pareça fácil responder à pergunta, mais de um século de pesqui- sas mostrou que o problema-chave por trás dessa pergunta é definir a consciência de tal forma que seja possível medi-la ao mesmo tempo que “captamos” seu caráter subjetivo. Um experimento comum no campo do estudo da cons- ciência se baseia na avaliação do grau de confiança naquilo que percebemos ou pensamos. No teste, um voluntário tem de julgar se uma nuvem de pontos numa tela de computador se move para a esquerda ou para a direita. Ele em seguida relata quão confiante se sente assinalando um número – por exemplo, 1 para indicar puro palpite, 2 para alguma hesitação e 3 para certeza completa. Esse procedimento mostra que, quando o participante tem pouca percepção da direção do movimento dos pontos, sua confiança é baixa, mas, quando “vê” claramente o movimento, sua segurança é alta. Um relatório apresentado pelos pesquisadores Navindra Persaud, da Universidade de Toronto, e Peter McLeod e Alan consciência Cowey, da Universidade de Oxford, introduz uma medida mais objetiva de consciência: o desejo de ganhar dinheiro. Esse método foi adaptado da economia, em que é usado para ava- liar a crença a respeito do resultado provável de um evento. Aqueles que acreditam na informação que têm se mostram dispostos a apostar nela. Isto é, aceitam pagar para ver. Pense no investimento em fundos mútuos. Quanto mais cer- to você estiver de que a alta tecnologia vai render bem no ano seguinte, mais dinheiro alocará para um fundo destinado a esse setor. Persaud e seus colegas usam esse tipo de aposta para revelar a consciência – ou a falta dela. Em seus experimentos, os participantes não declaram confiança na percepção de ma- neira direta. Em vez disso, primeiro tomam uma decisão com base naquilo que perceberam e então apostam uma quantia em seu grau de confiança na própria decisão. Se a escolha se mostra correta, o voluntário ganha o dinheiro; caso contrário, perde. A estratégia ideal é apostar sempre que se sinta segu- ro. As experiências aplicam essa técnica de apostas para três exemplos do processamento não consciente. Um deles foi feito com o paciente G. Y. Devido a um aciden- te de carro que danificouáreas no seu cérebro responsáveis pelo processamento visual, ele tem o que se costuma cha- mar de “visão cega”. Essa condição o deixa com a capacidade não consciente de localizar uma luz ou relatar a direção na 25 A condição chamada “visão cega” permite que a pessoa localize, de forma não consciente, a presença de uma luz ou relate a direção na qual uma barra se move na tela de computador, mesmo sem usar a visão 25 consciência qual uma barra colocada numa tela de computador está se movendo, embora G.Y negue ter a experiência visual – curio- samente, ele insiste que está apenas chutando. O paciente pode indicar a presença ou ausência de uma rede fraca e pequena em 70% de todos os testes, bem mais do que uma chance média (50%). Apesar disso, ele falha em converter esse desempenho superior em dinheiro quando está apostando; coloca quantias altas em menos da metade de suas escolhas corretas. Quando está ciente do estímulo, G. Y. aposta alto – exatamente o que qualquer pessoa faria. Suas escolhas parecem espelhar a percepção consciente que tem do estímulo (isto é, a crença de que ele o viu) em vez de sua detecção real (inconsciente) do estímulo. Isso sugere que as apostas podem servir de meio para medir a consciência. As técnicas usadas por Persaud, McLeod e Cowey depen- dem da capacidade intuitiva de fazer boas escolhas e obter lucros. Em comparação com a tática de forçar participantes a se tornar cientes de sua própria consciência – e, nesse pro- cesso, interferir no próprio fenômeno que se deseja medir –, as apostas representam uma forma mais sutil de avaliar a percepção, mostrando-se uma nova maneira mais lúdica – e reveladora – de estudar processos de tomada de decisão. Desses passos, aparentemente pequenos, surgem possibili- dades para ampliar a compreensão de como a consciência surge da experiência. 26 Usando como estímulo o desejo de ganhar dinheiro, cientistas encontraram uma forma lúdica de “medir” a percepção e, assim, entender melhor processos envolvidos na tomada de decisão consciência clima 27 A estreita relação entre Por que não paramos as mudanças climáticas? Talvez não estejamos suficientemente preocupados com o sofrimento de nossos descendentes clima e empatia 28 clima H á seis meses, o resultado de uma pesquisa rea- lizada pelo Datafolha, a pedido do Greenpeace Brasil e do Observatório do Clima, mostrou que 85% dos brasileiros reconhecem que o planeta está se aquecendo e 72% afirmam que as atividades humanas contribuem para o fenômeno. A confiabilidade nos tópicos foi mais alta entre pessoas com maior escolaridade. Foram ou- vidas 2.086 pessoas com 16 anos ou mais, em 130 cidades, entre 4 e 5 de julho. Nos Estados Unidos, aproximadamente 70% dos americanos acreditam que o clima está mudando e a maioria reconhece que essa alteração é resultado de nos- sa interferência. Além disso, mais de dois terços pensam que isso prejudicará as gerações futuras. A menos que alteremos drasticamente nosso modo de vida, partes do planeta se tornarão hostis ou inabitá- veis ainda este século – provocando desas- tres ecológicos, epidemiológicos e sociais. E, no entanto, a maioria dos americanos apoiaria políticas de conservação de energia apenas se elas cus- tassem menos de US$ 200 por ano às famílias – um valor muito abaixo do investimento necessá- rio para manter o aquecimento sob taxas catastróficas. No Brasil não há dados sobre a disposição da po- pulação em contribuir para a diminuição dos impactos ambientais. Afinal, o Brasil é o quarto maior produtor de lixo plástico do mundo, atrás apenas de Estados Unidos, China e Índia. O país também é um dos que menos reciclam este tipo de lixo: apenas 1,2% é reciclado, ou seja, 145.043 toneladas. Os dados são do estudo feito pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF, sigla em inglês). O relatório Solucionar a Poluição Plás- tica – Transparência e Responsabilização foi apresentado na Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEA- 4), realizada em Nairóbi, no Quênia, em março de 2019. 29 Jamil Zaki clima Para psicólogo Jamil Zaki, nossa imaginação empática não está naturalmente configurada para se estender ao redor do planeta ou em direção às gerações futuras, o que coloca nossa própria existência em risco “Os dados a respeito de percepção sobre riscos de destrui- ção do planeta e atitudes efetivas para impedir a tragédia são intrigantes”, afirma o pesquisador Jamil Zaki, professor asso- ciado de psicologia na Universidade Stanford, diretor do La- boratório de Neurociências Sociais de Stanford. “Por que hi- potecamos nosso futuro (e o de nossos filhos e netos) em vez de moderar nosso vício em combustíveis fósseis? Sabendo o que sabemos, por que é tão difícil mudar nossos caminhos?”, pergunta-se o autor de The war for kindness: building empathy in a fractures world (Crown, 2019), ainda não lançado no Brasil, em livre tradução, “A guerra pela bondade: construindo a em- patia em um mundo fraturado”). Segundo o psicólogo, uma resposta está na natureza da em- patia, essa capacidade de compartilhar, entender e se importar com as experiências dos outros. “Pessoas profundamente em- páticas tendem a ser ambientalmente responsáveis, mas nos- sos instintos de cuidar são míopes e se dissolvem no espaço e no tempo, tornando mais difícil lidarmos com coisas que ainda não aconteceram”, explica. ANJO TORTO Ele observa que a atividade humana é, mais do que nunca, uma força dominante na forma- ção do ambiente da Terra, mas os sentidos morais da humanidade não acompanharam esse poder de destruição. E res- salta que nossas ações reverbe- ram pelo mundo e pelo tempo, mas não sentimos suficiente- mente o peso das consequên- cias. “A empatia poderia ser um 30 clima apoio emocional contra um mundo em aquecimento, se nosso cuidado produzisse ação coletiva, mas parece que evoluímos para responder ao sofrimento imediato, aqui e agora”, diz. Segundo Zaki, nossa imaginação empática não está natu- ralmente configurada para se estender ao redor do planeta ou em direção às gerações futuras, o que coloca nossa própria existência em risco. Por isso é mais fácil nos mobilizarmos para ajudar vítimas de uma tragédia ambiental que já ocorreu do que evitar o consumo de carne e plástico. Ironicamente, a empatia, “o melhor de nossos anjos”, na opi- nião do pesquisador, e a maneira como ela opera, pode estar prejudicando nossa capacidade de fazer o que é melhor para o mundo. Para o psicólogo, porém, há salvação para esse fun- cionamento psíquico. Zaki acredita que a empatia não é uma característica imutável, e sim um sentimento que podemos fortalecer diariamente. “Felizmente a capacidade de cuidar de si, do outro e do planeta não é um traço fixo de personalidade, mas uma habilidade a ser cultivada”, afirma. Portanto, é possí- vel exercitar e treinar a empatia. As crianças agradecem. 31 clima Pessoas atentas às necessidades coletivas tendem a ser ambientalmente responsáveis, mas nossos instintos de cuidar são míopes e se dissolvem no espaço e no tempo, tornando mais difícil lidarmos com coisas que ainda não aconteceram depressão 32 Cegos para emoções Pessoas que não conseguem distinguir com clareza o que sentem têm maior probabilidade de desenvolver transtornos depressivos 33 depressão H á momentos em que sabemos que há algo de errado: uma tristeza ou aperto no peito, cuja origem não parece óbvia. É como se os sapa- tos estivessem apertando nossos pés, mas não conseguíssemos identificar exatamente em que ponto está o desconforto. Para algumas pessoas essa sensação de não saber o que incomoda (embora o mal-estar esteja presente) é constante. Sensações de frustração, tristeza, raiva e de- cepção misturam-se e, às vezes, confundem-se até com cansaço e ansiedade. Essa confusão costuma indicar uma séria desvantagem.É o que mostra um estudo publicado há alguns meses no periódico científico Emotion. Segundo os autores, uma boa dose de autoconsciência pode, portanto, proteger contra a depres- são, mesmo na juventude. Uma equi- pe liderada pela psicóloga Lisa Starr, da Universidade de Ro- chester, havia submetido cerca de 200 adolescentes a entrevis- tas de diagnóstico e pediu que registrassem humor, estres- se e eventos relacionados quatro vezes por dia du- rante uma semana. Um ano e meio depois, os voluntários relataram sua condição novamente. Aqueles que puderam diferenciar vagamente os sentimentos negativos na pri- meira pesquisa, 18 meses depois, tiveram mais probabilidade de so- frer de sintomas depressivos. VER PARA TRANSFORMAR A relação entre a dificuldade de au- topercepção e rebaixamento do humor se fortaleceu quando eventos estressantes do cotidiano ocor- reram nesse período. “Observamos que os adolescentes que descrevem seus sentimentos negativos com precisão e riqueza de nuances estão significativamente mais prote- gidos da depressão do que os que não conseguem fazer essa distinção”, escrevem os psicólogos em seu artigo, com base no acompanhamento dos jovens. Esses participantes do experimento se mostraram mais aptos a aprender mais com suas experiências e desenvolver estratégias eficazes para lidar com experiências estressantes e sentimentos de frustração e raiva. “É fundamental saber como nos sentimos até para, even- tualmente, transformar a sensação de desconforto”, explica Lisa Starr. Nesse sentido, a psicoterapia é fundamental não só para o reconhecimento e a nomeação das emoções, mas depressão 34 A psicoterapia é fundamental não só para o reconhecimento e a nomeação das emoções, mas também para que a pessoa desenvolva formas criativas de lidar com elas também para que a pessoa perce- ba sua influência e desenvolva for- mas criativas de li- dar com elas. Um experimento rea- lizado com mais de mil pessoas com mais de 60 anos, por psicólogos da Universidade de Wis- consin, nos Estados Unidos, e publicado em junho de 2019, mostrou que a auto- consciência também é um sinal de aler- ta em adultos. Quanto menos a experiência subjetiva do estresse corresponder aos indicadores objeti- vos, mais comprometido será o bem-estar psicológico e fí- sico a longo prazo. Não se pode deduzir que a experiência indiferenciada de emoções necessariamente motive queixas psicológicas, até porque, quando a pessoa não passa por si- tuações exteriores que a estressam, tende a manter os incô- modos emocionais latentes. No entanto, essa característica é um indicativo de que o equilíbrio emocional pode ser mais facilmente abalado. 35 depressão especial • psicologia social 36 A criatividade é coletiva 37 especial • psicologia social T odos os anos, alguns dos mais destacados atores, diretores e roteiristas ganham o Oscar e os maiores cientistas, o Nobel. Obviamente esses são apenas dois dos inúmeros prêmios que a cada ano são dis- tribuídos para comemorar feitos criativos. Esses eventos, po- rém, reforçam a concepção popular de que a criatividade é um dom exclusivo de poucos – e favorecem a apoteose da individualidade. Daí, muitos concluem que grupos e cidadãos comuns não podem colaborar com ideias originais. Talvez possamos desafiar a suposição comum de que o “dono” de uma ideia é o único componente indispensável do processo criativo. De fato, consideramos que grupos não só desempenham papel essencial na criação de novos pro- dutos, mas também asseguram sua valorização e impacto. Embora essa hipótese possa causar espanto, já recebeu sig- nificativo apoio científico. No ano passado, publicamos, em parceria com a psicóloga Lise Jans, um artigo com revisão Mais do que uma expressão individual, a originalidade toma forma em um contexto; grupos não só desempenham papel essencial na criação de ideias e produtos, mas também asseguram sua valorização, disseminação e impacto. Mesmo as pessoas mais geniais talvez não tivessem se destacado se vivessem em outro momento ou lugar por Alexander Haslam, Inmaculada Adarves-Yorno e Tom Postmes 3838 de grande parte dos dados acumulados sobre concepções modernas de grupos e originalidade. Concluímos que é pro- blemático e inútil separar as grandes mentes criativas das comunidades onde surgem. TEMPO E CULTURA Apesar da crença romântica de que a inovação está associa- da a uma vida dura e isolada, pesquisas científicas sobre cria- ções individuais ainda não produziram previsões precisas do comportamento criativo. Muitos pesquisadores vasculharam a biografia de grandes nomes que colaboraram com o mundo com sua originalidade na tentativa de encontrar experiências e traços de caráter relacionados à genialidade. especial • psicologia social 39 Embora hoje saibamos bastante a respeito de processos ce- rebrais que propiciam o surgimento de boas ideias, pesquisas nessa linha falham porque não consideram o importante papel do contexto social. A natureza e a importância de uma inova- ção dependem da interação entre as ideias de uma pessoa, da época e da cultura em que vive. Se Bruce Springsteen tivesse nascido em 1749 em vez de 1949, seria improvável que ouvís- semos Born to run. Da mesma forma, se o compositor italiano Domenico Cimarosa tivesse nascido em 1949 em vez de 1749, suas 80 óperas, entre elas a obra-prima Il matrimonio segreto, provavelmente não teriam sido criadas. De maneira geral, esses exemplos tratam da influência que os grupos exercem sobre a criatividade. No final da década de 70, os psicólogos Henri Tajfel e John Turner, da Universidade de Bristol, na Inglaterra, desenvolveram o conceito de identidade social, levando em conta que o contexto influencia momentos em que nos percebemos como indivíduos ou membros de um grupo. Assim, por exemplo, um pintor cubista (vamos chamá-lo de Pablo) pode, em alguns momentos, pensar em si com base na identidade pessoal, mas em outras ocasiões, da perspectiva do cubista, considerando a forma como se reconhece socialmente. Em outros lugares, somos definidos ainda de acordo com nacio- nalidade, sexo biológico, religião ou função num grupo. Tajfel e Turner argumentam que, quando uma identidade so- cial em particular é psicologicamente proeminente, de tal for- ma que determina o sentido de quem somos, o grupo – base do reconhecimento – exerce profunda influência sobre nosso comportamento. Além disso, a maneira como julgamos uma ação, independentemente de sermos seus autores, reflete ideias coletivas compartilhadas. O mesmo vale para o com- portamento criativo e a maneira como o avaliam. Por exemplo, especial • psicologia social é provável que Pablo, sendo cubista, se interesse em apreciar representações abstratas dos objetos; também há grandes chances de ele produzir pinturas de acordo com as diretrizes e preferências desse movimento artístico. Identidades sociais favorecem também uma perspectiva co- mum, bem como a capacidade e motivação para nos envolver- mos em influências sociais mútuas. Mas, quando agimos a partir da perspectiva pessoal, tendemos a ser criativos, nos desviando da norma. Em um experimento realizado há alguns anos, pe- dimos a alguns estudantes universitários que trabalhavam em grupo que produzissem cartazes que falassem sobre “razões para frequentar a universidade” e a outros que abordassem a “moda no ambiente acadêmico”. As instruções levaram os alu- nos, de maneira implícita, a criar certas normas grupais. Os que deveriam se concentrar em “razões” tendiam a produzir anún- cios essencialmente com palavras, enquanto aqueles voltados para a moda optavam por trabalhar com imagens. Depois de três horas, pedimos que criassem um folheto sobre a universidade, que poderia ser feito com palavras ou imagens. Dessa vez, alguns se reuniram em grupo, enquanto outrosde- cidiram trabalhar por conta própria. Nosso objetivo era saber se a tarefa criativa seria moldada pelas normas coletivas estabele- cidas na fase anterior. E foi. Observamos que durante o trabalho em equipe os participantes geralmente criavam de acordo com as regras comuns estabelecidas para o projeto, independente- mente de ser com imagens ou palavras. E, mesmo quando pude- ram agir individualmente, tendiam a tomar as diretrizes do grupo a que pertenceram anteriormente como ponto de partida. Os re- sultados desse e de outros estudos semelhantes apoiam a hipó- tese de que a natureza da atividade criativa depende de normas coletivas. (Leia mais sobre o tema nas págs. seguintes.) OS AUTORES S. ALEXANDER HASLAM é doutor em psicologia, professor da Universidade de Queensland, na Austrália. INMACULADA ADARVES-YORNO é psicóloga, professora de estudos sobre liderança da Universidade de Exeter, na Inglaterra. TOM POSTMES é professor de psicologia social da Universidade de Groningen, na Holanda. 40 especial • psicologia social 41 especial • psicologia social O poder da COLABORAÇÃO A tendência de julgarmos a criatividade de maneira que reflita nossa identidade no grupo ajuda a explicar o preconceito de gênero e racismo – embora não sirva para justificá-los 42 H á quase 50 anos, o psicólogo Irving Janis, pesqui- sador da Universidade Yale, defendeu a ideia de que o desejo de se adaptar colabora com a toma- da de decisões inconvenientes e a falta de pen- samento crítico, um fenômeno chamado de pensamento co- letivo, que ele considerava a antítese da criatividade. Ou seja: a dinâmica grupal pode, em muitos casos, favorecer escolhas irracionais, o apoio cego a propostas pouco inteligentes. Normas grupais influem em formas de pensar. Por exemplo, pintores cubistas podem usar figuras geométricas abstratas de acordo com os costumes da técnica. Mas nem tudo está per- dido: essa é apenas uma parte do cenário. A obra de nosso artista hipotético provavelmente terá características que a di- ferenciam das demais, como dimensões, cores ou temas não restritos ao estilo. Discussões com amigos, colegas ou pares podem favo- recer novas ideias – desde que se esteja disposto a refletir sobre outros pontos de vista. A psicóloga Vera John-Steiner, da Universidade do Novo México, diz em seu livro Creative collaboration (2000) que pequenos grupos, como os Beatles, Bauhaus ou Bloomsbury, frequentemente produziam músi- cas de vanguarda ao ressaltar as ideias uns dos outros en- quanto procuravam alternativas para resolver problemas ar- tísticos, teóricos e práticos. Solidariedade e coesão são essenciais para favorecer o pro- gresso dos movimentos criativos porque permitem que os pares especial • psicologia social apoiem uma iniciativa compartilhada. Exploramos essa ideia em um estudo. Pedimos a pequenos grupos de universitários que participassem do processo de planejamento (simulado) da construção de uma inovadora creche municipal. Antes, porém, algumas equipes passaram por um procedimento que as es- timulou a um forte senso de identidade social compartilhada, enquanto outras foram incentivadas a pensar em si mesmas individualmente. Depois, as equipes se reuniram outras três vezes, por aproximadamente uma hora e meia, para discutir o empreendimento fictício, que passou por dificuldades de mon- tagem. Os custos trabalhistas aumentaram e havia necessida- de de um estudo de impacto ambiental. Descobriram que a caixa de areia das crianças continha traços de elementos tó- xicos e muitos pais ameaçavam processá-los. As autoridades adiavam a aprovação do edifício. Observamos que aqueles que inicialmente desenvolve- ram uma identidade social compartilhada permaneceram otimistas sobre o projeto e continuaram a apoiá-lo, mesmo nos momentos difíceis. Os que foram persuadidos a pen- sar individualmente perderam o entusiasmo e cada vez mais consideravam abortar o empreendimento. Em outras pala- vras, a identidade social (mas não a pessoal) reforçou o in- teresse e encorajou os participantes a encontrar soluções criativas diante dos desafios. De maneira geral, os resulta- dos indicam que precisamos de senso de identidade social compartilhada para buscar estratégias originais e concluir projetos inovadores – seja na ciência, na tecnologia, nas ar- tes ou na política. Além disso, comprometer-se solidamente com o grupo não nos torna cegos para suas falhas. De fato, o oposto pa- rece acontecer mais frequentemente. Quando as normas 43 especial • psicologia social 44 são prejudiciais, os membros mais empenhados costumam debater e renegociar as regras. Os psicólogos Dominic Packer e Christopher Miners, res- pectivamente pesquisadores das universidades de Queen, em Ontário, e Lehigh, desenvolveram um estudo no qual pediram a alguns alunos que escrevessem uma declaração de abertura O fenômeno do pensamento coletivo costuma ser considerado a antítese da criatividade. Ou seja: a dinâmica grupal pode, em muitos casos, favorecer escolhas irracionais, o apoio cego a propostas pouco inteligentes especial • psicologia social antes de uma reunião de que participariam para discutir o uso de álcool com seus pares, fo- cando o aumento do consumo em festas. Os pesquisadores observaram que, quanto mais se identificavam com o grupo, mais propunham soluções cria- tivas para o problema, possivel- mente porque sentiam maior responsabilidade ou acreditavam ser mais capazes de provo- car transformações. Os dados apontam que a coesão grupal pode ajudar a estimular ideias criativas que levam a mudanças, desde que as pessoas se mostrem abertas à reflexão. (Leia mais sobre o tema nas págs. seguintes.) 45 O psicólogo Irving Janis, pesquisador da Universidade Yale, defendeu a ideia de que o desejo de se adaptar pode colaborar com a tomada de decisões inconvenientes e a falta de pensamento crítico especial • psicologia social 46 O jogo da REINVENÇÃO Cultivar a ideia de que conhecemos as pessoas que nos rodeiam ajuda a dissipar o temor de desestabilização. As contribuições de um “semelhante”, não raro, são mais bem recebidas do que as ideias de um “estranho” especial • psicologia social 47 G rupos desempenham um papel vital na valorização das inovações. Sem tocarem na identidade coleti- va, grandes artistas, escritores e cientistas podem muito bem passar despercebidos. Em vida, Vin- cent van Gogh não conseguiu encontrar quase ninguém para comprar suas pinturas incomuns. Seu trabalho chamou aten- ção somente após sua morte, quando um círculo de artistas, os pós-impressionistas, valorizou sua obra como um indicativo de um estilo distinto que pretendiam imitar. Da mesma forma, em 1961, as teorias de modelos computacionais do então estu- dante de graduação Yoshisuke Ueda foram inicialmente impe- didas de serem publicadas por seu supervisor da Universidade de Kyoto, porque eram vistas como muito vanguardistas. Assim que apreciadores de seu trabalho ingressaram na comunidade científica, porém, suas ideias transformaram o campo emer- gente da teoria do caos. De fato, somos mais propensos a apoiar um projeto criativo ou nos esforçar na sua criação se os envolvidos fazem parte do nosso grupo. A ideia de que conhecemos os que trabalham conosco ajuda a dissipar o temor de desestabilização. As con- tribuições de um “semelhante”, não raro, são antagônicas às ideias de um “estranho”. Costumamos ter preconceito étnico, por exemplo, quando julgamos a criatividade artística e, não raro, críticos preferem o trabalho de artistas de seu próprio país. O prêmio conferido pela Academia de Artes e Ciências Cine- Somos mais propensos a apoiar uma inovação se os envolvidos fazem parte do nosso grupo; conhecer as pessoas que propõem a novidade ajuda a dissipar o temor do desconhecido especial • psicologia social matográficas, oOscar americano, e Academia Britânica de Ci- nema e Televisão, o britânico, é destinado a avaliar a qualidade objetiva de filmes. Mas um estudo inédito feito pelo psicólogo Niklas Steffens e seus colegas da Universidade de Queensland, na Austrália, constatou que desde 1968 artistas dos Estados Unidos receberam o prêmio americano de melhor ator ou atriz 80% das vezes e ganharam o Oscar britânico menos da metade para a mesma categoria. Ao mesmo tempo, os artistas do Reino Unido ganharam quase metade dos prêmios correspondentes em seu país, mas pouco mais de 10% do Oscar americano. Ou seja, o que entendemos por criatividade – e, portanto, Grupos de músicos, como os beatles, assim como de escrito- res e cientistas, podem estimular a criatividade entre seus membros com o incentivo mútuo e comentários positivos 48 especial • psicologia social como medimos e recompensamos autores originais – depende da identidade cultural. Em um estudo de 2008, os psicólogos Kaiping Peng, da Universidade da Califórnia em Berkeley, e Su- sannah Paletz, agora na Universidade de Maryland, investigaram a percepção de mais de 300 estudantes chineses e americanos a respeito do que tornava um produto criativo. Eles testaram dois itens bem diferentes: um livro teórico e uma refeição prepara- da por um amigo. Os cientistas observaram que os voluntários ocidentais perceberam a originalidade de acordo com a ade- quação (se o produto era, de alguma forma, útil), enquanto os orientais tomaram como base o desejo pessoal. Os americanos encararam a criatividade como uma questão de gosto, enquan- to os chineses como algo relacionado ao apetite. A tendência de julgarmos a criatividade de maneira a refletir nossa identidade social ajuda a explicar também o preconcei- to de gênero e racismo – embora não sirva para justificá-los. Em um estudo desenvolvido pelo psicólogo Thomas Morton e seus colegas da Universidade de Exeter, na Inglaterra, rela- taram que cientistas homens encaravam melhor e como mais originais as teorias que apontavam superioridade do gênero masculino em relação ao feminino do que pesquisas que de- fendiam o oposto. O padrão se inverte no caso de cientistas mulheres. Curiosamente, ambos os grupos também acredita- vam que estudos sobre criatividade que apoiavam suas pró- prias preferências com base na identidade mereciam mais fi- nanciamento de pesquisa. O senso de identidade social compartilhada nos motiva a permanecer em um projeto até concluí- lo, mesmo quando surgem dificuldades 49 especial • psicologia social Autorretrato de Vincent van Gogh: mesmo os mais criativos precisam de incentivadores; a arte do pintor holandês so teve reconhecimento depois de seu suicídio, em 1890, quando passou a inspirar pós-impressionistas 50 especial • psicologia social Por sua vez, criadores de sucesso sabem bem quem é seu público e orientam seus produtos ou suas respostas a uma questão para as necessidades percebidas e valoriza- das por determinado grupo. Aliás, estão bem familiarizados também com os lugares dos quais não querem fazer parte com seu trabalho. O QUE CRIAM Como membros de um grupo, nosso comportamento criati- vo e o modo como avaliamos as inovações dos outros refletem 51 UM DE NÓS, UM DELES Nossa percepção de criatividade depende de o cria- dor ser “um de nós” ou “um deles”. Em um estudo, pedimos a 50 voluntários do Reino Unido que avalias- sem sugestões sobre o futuro formato de um progra- ma de televisão que dissemos ter sido retirado de um site britânico. Dissemos para outros 50 participantes que as mesmas ideias vieram de um portal holandês. Na segunda parte do experimento, pedimos a 125 es- tudantes britânicos que avaliassem obras de arte que atribuímos a universitários de seu país ou a holande- ses. Em ambos os casos, embora o conteúdo fosse o mesmo, aqueles que acreditavam que seus conter- râneos (ou seja, os membros do grupo) tinham sido os autores julgavam seu trabalho significativamente mais criativo do que os voluntários que pensavam se tratar de uma produção holandesa. especial • psicologia social nosso desejo de estender os valores do lugar a que pertence- mos e desafiar as ideias daqueles que estão do lado de fora. Pessoas inovadoras devem conhecer as normas das quais se afastam. Eventualmente, também precisam de um público dis- posto a abraçar as novas formas de enxergar ou de se compor- tar diante de propostas pelo seu trabalho. Para terem sucesso, portanto, esforços criativos devem transformar comunidades. O público recém-conquistado conduz a mudanças culturais iniciadas por ideias originais. No entanto, o senso comum tende a valorizar pensamentos que se aproximam de uma citação que Picasso fez certa vez: “Os discípulos que se danem. Bastam os mestres. Aqueles que criam”. Porém, curadores de uma grande exposição na Gale- ria Nacional de Londres observaram que muito de seu próprio trabalho se deve aos primeiros moldes de pintura que rejei- tou. Além disso, sem admiradores, sua obra teria tido pouca influência na sociedade. Suas criações não tratam, portanto, de um trabalho feito por conta própria para criar tudo de maneira inédita. Mas sim, como afirma o pintor galês Osi Rhys Osmond em uma crítica da exposição, de um exercício colaborativo de “reinventar o familiar”. É claro que devemos estudar e comemorar a originalidade individual. No entanto, a psicologia da criatividade mostra que, além de estarem envolvidos com o processo criativo, os grupos procuram estender seus limites, o que cria a base de influência. “I did it my way” (Fiz do meu jeito) pode ser um hino atraente para grandes autores, como Frank Sinatra, porém, para alcan- çar o sucesso é preciso contar com promotores, produtores e um público que aprove o trabalho. (Por S. Alexander Haslam, Inmaculada Adarves-Yorno e Tom Postmes.) PARA SABER MAIS The collective origins of valued originality: a social identity approach to creativity. S. Alexander Haslam, Inmaculada Adarves-Yorno, Tom Postmes e Lise Jans, em Personality and Social Psychology Review, vol. 17, no 4, págs. 384-401; novembro de 2013. Your creative brain at work. Evangelia G. Chrysikou, em Scientific American Mind; julho/ agosto de 2012. At the first sign of trouble or through thick and thin? When nonconformity is and is not disengagement from a group. Dominic J. Packer e Christopher T. H. Miners, em Journal of Experimental Social Psychology, vol. 48, no 1, págs. 316-322; janeiro de 2012. The bias against creativity: why people desire but reject creative ideas. Jennifer S. Mueller, Shimul Melwani and Jack A. Goncalo, em Psychological Science, vol. 23, no 1, págs. 13-17; janeiro de 2012. 52 especial • psicologia social livro | lançamento Cartas para Freud Palavras escritas em 1935 são revisitadas; vários olhares instigam a discussão atual e tão necessária sobre homossexualidade e outras formas de identidade sexual A homossexualidade certamente não é uma vantagem, tampouco é algo de que se envergonhar, não é nenhum vício, nenhuma degra-dação, não pode ser classificada como doença”, escreve Sigmund Freud, em 9 de abril de 1935. Era a resposta à carta de uma mãe norte-ameri- cana, muito preocupada com a sexualidade de seu filho. Passado quase um século, o texto se tornou um poderoso instrumento de luta contra o precon- ceito e a tentativa de normatizar a vivência da sexualidade. Não por acaso, a carta circula em redes sociais brasileiras, mostrando a triste atualidade da discussão sobre algo que, em tempos mais generosos, teria sua importân- cia como documento histórico. 53 Caro Dr. Freud: Respostas do século XXI a uma carta sobre homossexualidade. Gilson Iannini (org.). Autêntica, 2019. 208 págs. Impresso R$ 39,00 (em média). E-book R$ 21,00 (em média). livro | lançamento 54 Oito décadas e meia depois de Freud acalmar o coração daquela mulher aflita,no livro Caro Dr. Freud: Respostas do século XXI a uma carta sobre homossexualidade, lançado pela Autêntica, o tema é revisitado e traz uma provocação. O organizador, o filósofo e psicanalista Gilson Iannini, convoca mães e filhos de pessoas LGBT, ativistas, psicanalistas, especialistas em lite- ratura, sociologia, filosofia, direito e gêneros a se questionar: e se a carta de Freud fosse endereçada a você? O resultado são textos que expressam a diver- sidade de perspectivas teóricas, políticas, literárias e sexuais dos missivistas. As cartas (algumas bastante pessoais, outras ficcionais e algumas mais téc- nicas) apresentam angústias, falam de batalhas, conquistas e da necessidade de continuarmos a trilhar um caminho que requer não apenas informação e formação, também exige amplificação de horizontes. E um tanto de humil- dade. Afinal, como escreve Fernando Pessoa, citado por Iannini, “todos os homens são exceção a uma regra que não existe”. Oito décadas e meia depois de o criador da psicanálise acalmar a mãe aflita com a orientação sexual de seu filho, filósofo brasileiro lança uma provocação: “E se as palavras de Freud fossem endereçadas a você?” Imagens quefavorecem asimbolização O superpoder da AUTOCONFIANÇA Raízes da SEGURANÇA Palpite, dúvida ou certeza? A estreita relação entre s clima e empatia Cegos para emoções A criatividade é coletiva O poder da COLABORAÇÃO O jogo daREINVENÇÃO