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(Livro de Sociologia) AG-S9 Organizacoes e Redes Sociais, O trabalho e a Vida Economica

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Capítulo 18 
Organizações e redes sociais 
Organüzações 
As organizações enquanto burocracias 
O espaço físico das organizações 
Organizações transnacionais 
Organizações económicas 
Para além da burocracia 
Mudança organizacional- o modelo japonês 
A transformação das práticas de gestão 
O estudo das práticas de gestão 
O estudo das redes 
As redes sociais 
As redes e as tecnologias da informação 
Capital social - os laços que unem 
Novos laços sociais? 
Conclusão 
Sumário 
Leituras adicionais 
Ligações à Internet 
·-··-- -······-·--------·-·--··· -·--- .. ·-- ------------·----
Capítu~o 18~ Organizações e redes sociais 
Costuma frequentar os restaurantes McDonald's? 
Em caso afirmativo, da próxima vez que lá for, 
observe como o restaurante se encontra organizado. 
Compare-o com outros restaurantes. A diferença 
mais óbvi.l reside na eficiência de todo o processo, 
pelo menos aparentemente - o leitor entra no 
restaurante cheio de fome, mas fica saciado num 
instante. Em vez de haver um empregado que o 
encaminha para a sua mesa e lhe serve a refeição, vai 
directamente ao balcão e a sua comida é-lhe entregue 
imediatamente. Se escolher comer no restaurante, 
não existem toalhas de mesa e o número de talheres 
é mínimo. Com excepção do tabuleiro, tudo aquilo 
de que necessita para comer, bem como o invólucro 
no qual a comida lhe é entregue, é descartável. No 
final da sua refeição, é o próprio quem coloca no 
lixo as embalagens onde vinha a comida - e não um 
assalariado. Na realidade, a comida e o serviço pres-
tado num McDonald's podem ser facilmente quan-
tificados e calculados. O objectivo da McDonald's 
é «dar mais valor ao seu dinheiro» 1 - o leitor 
pode comprar «refeições de valor», «Big Mac's» 
e «grandes pacotes de batatas fritas». E o serviço 
também é, de acordo com as medições, rápido. O 
fundador da McDonald's, Ray Kroc, tinha como 
objectivo fornecer um hambúrguer e um batido aos 
seus clientes em menos de 50 segundos. 
Se olhar para trás do balcão muito provavelmente 
irá ver que cada empregado trabalha executando 
uma tarefa em particular: um faz as batatas fritas, 
outro vira os hambúrgueres, um terceiro coloca os 
hambúrgueres numa embalagem e adiciona a salada. 
Também irá reparar que grande parte do processo 
está automatizado: os batidos são feitos depois de 
premir um botão, os instrumentos eléctricos para 
fritar funcionam através de temporizadores que 
alertam os funcionários quando a comida se encon-
1 Nota do tmdutor: Expressão no original: «more hang for 
rhc buck». 
tra pronta; até as caixas registadoras têm um botão 
pam cada item que é adquirido, o que significa que 
os funcionários não necessitam de conhecer o preço 
de cada produto. 
Se já visitou um restaurante da McDonald's em 
duas cidades ou países diferentes, reparou que exis-
tem muito poucas dil:c.renças entre eles. A decora- · 
ção interior pode variar ligdram<::nre c a linguagem 
utilizada irá muito provavelmente variar de país 
para país, mas a aparência exterior, os menus, o· 
procedimento para encomendar, os uniformes do · 
pessoal, as mesas, a embalagem c o «serviço com 
um sorriso» são virtualmente idênticos. A «expe-
riência McDonald's» foi concebida de modo a ser 
uniforme e previsível, seja em Lima ou em Londres.·. 
Independentemente do lugar onde está localizado 
o restaurante McDonald's, os visitantes sabem que '-
irão encontrar um serviço rápido e um produto que 
é satisfatório e consistente, em qualquer um 
31 000 restaurantes que existem espalhados por 120 
países no Mundo inteiro. 
O sociólogo americano George Ritzer (1 
1993, 1998) argumenta que o McDonald's é 
metáfora viva das transformações que estão a 
lugar nas sociedades industrializadas. O 
defende que assistimos à «mcdonaldização» 
sociedade. De acordo com Ritzer, a tu~·uuJ,liwu'""'<"·u,· 
é «o processo pelo qual os princípios em que 
tam os restaurantes de comida rápida estão a 
nar um número cada vez maior de sectores da 
dade americana, bem como o resto do 
Ritzer utiliza os quatro princípios orientadores 
restaurantes McDonald's -·eficiência, cálculo, 
midade e controlo através· da automatização -
demonstrar que, com o tempo, a nossa sacie 
está a tornar-se cada vez mais racionalizada. O 
esclarece que não têm nenhum desejo particular 
implicar com a cadeia McDonald's - ela é 
mente o melhor exemplo deste processo. Para 
disso, o auror faz notar que o termo «nKctolltal~W 
--------·-·--·--·------------·-·-··--·-·-·-------.. ·-·--·-.. ····-............................ ·------
zaçúo .. tica mais no ouvido do que as expressões 
«Bun!:cr Kingização»! ou «Starbaquização»·'. 
Ri,m:r, como o sociólogo clássico Max \'V'eber 
ante' dde, n.:ceia os efeitos prejudiciais da racionali-
zado. Como iremos constatar ao longo deste capí-
tulo, \\'d)cr percebeu que a racionalização crescente 
do mundo moderno escava a produzir resultados 
irr~tcionais, pois as burocracias como que ganhavam 
uma \·ida própria e se disseminavam por várias áreas 
da vida social. Da mesma forma, Ritzer defende que 
0 proê..:sso aparentemente racional da mcdonal-
diza~i\o produz uma série de irracionalidades - o 
amor designa este processo por «irracionalidade 
da racionalidade». Tal processo inclui os efeitos 
nocivos para a saúde (decorrentes de uma dieta com 
elevados níveis de calorias, gorduras, colesterol, sal 
· e açúcar) e para o ambiente- uma vez que todas as 
... embalagens são atiradas para o lixo após cada refei-
ção. Mais do que isso, argumenta Ritzer, a mcdonal-
f dização é « desumanizante ». Alinhamo-nos em filas 
·; para pedir um hambúrguer, tal como se estivéssemos 
~ ~: numa cadeia transportadora, enquanto os empre-
~: ·gados, do outro lado do balcão, repetem a mesma 
t". tareEl especializada vezes sem conta, como se fossem 
lf;' robôs numa linha de montagem. A tese de Ritzer 
r; tem sido particularmente influente na sociologia, 
~' mas, tal como veremos mais adiante neste capí-
~~:. tulo, ao mesmo tempo que foi alvo de importantes 
~~;:críticas também contribuiu para que a corporação 
~::.-!'1cDonald's se visse forçada a mudar as suas práticas 
~~~para s~breviver na. ~conomia global. . , . 
~ ....... Extste uma dtferença entre a expenencta dos 
~~';clientes - eloquentemente descrita por Ritzer - e 
~.a experiência dos trabalhadores dos restaurantes 
Í~: McDonald's. Os clientes apenas ~experienciam a 
>,:,.«face pública» dos restaurantes McDonald's e 
iCfonnam a sua opinião acerca da empresa a partir 
,;:dessa experiência. Contudo o pessoal da empresa 
IJ'n ' 
~fJvlcDonald's, nos seus diversos níveis hierárquicos, 
~t -------
'E • .xprcssão no original: «Burgcr Kingization ». 
3 
Expressão no original: «Starbuckization >>. 
----------·-----.. ··--··-·--·- .. 
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 885 
poderá ver as coisas de um modo diferente a partir 
do interior da mesma. Enquanto os clientes vivem a 
experiência de um restaurante cficienre c altamente 
organizado, o pessoal pode estar mais informado 
sobre as ineficiências e os problemas internos que 
resultam de pressões exteriores. Trata-se de uma 
empresa true é, afinal, uma organização capitalista 
multinacional cujo objectivo é a maximização dos 
lucros. Compreender como funcionam as organi-
zações exige que se investigue os seus mecanismos 
internos, as suas práticas de gestão e o seu papel no 
seio da sociedade. E isto requer pesquisas empíricas 
e desenvolvimentos teóricos. 
O esrudo c a teoria das organizações consti-
tuem aspectos muito importantes da sociologia, c 
constituíram uma preocupação central do clássico 
Max Weber - cujas ideias influenciaram Ritzer . 
Consequentemente, Weber serà uma figura central 
ao longo deste capítulo. Iremos examinar o que 
Weber e outros sociólogos disseram sobre as organi-
zações, e investigar se as organizações ainda são rele-
vantes. Trata-se, acrualmentc, de um aspecto perti-
nente, pois afigura-se estarmos a assistir ao rápido 
crescimentode redes sociais menos rígidas base-
adas em tecnologias avançadas, as quais, segundo 
alguns, parecem estar a tomar o lugar de algumas das 
funções das organizações formais anteriores. Assim, 
a segunda parte deste capítulo explora a emergên-
cia de redes sociais glob<lis e o argumento de que 
estamos a assistir ao nascimento da «sociedade em 
rede» ( Castells, 1996). 
Organizações 
Com alguma frequência, há pessoas t1uc se unem 
de modo a poderem alcançar determinados objecti-
vos que não seria possível concretizar caso agissem 
isoladamente. Um dos principais meios de atingir tal 
cooperação é através de uma organização, um grupo 
com mecanismos de filiação públicos que leva a cabo 
determinadas acções colectivas de moiclc a atin-
gir objectivos comuns (Aldrich c Marsden, 1988). 
---· ...... -·-·--------------
· .. 886 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 
Uma organização pode ser um grupo pequeno de 
indivíduos que se conhecem pessoalmente, mas é 
mais provável que seja um grupo amplo c impessoal. 
As universidades, os grupos religiosos e as empresas 
são exemplos de organizações. Tais organizações são 
uma característica central de rodas as sociedades. 
Nas sociedades industriais e pós-industriais 
modernas, as organizações tendem a ser extrema-
mente formais. Uma organização formal é, habi-
tualmente, racionalmente planeada para atingir 
objectivos de acordo com regras explícitas, regula-
mentos e procedimentos. A organização burocrática 
moderna (a discutir mais adiante neste capítulo), 
é um dos exemplos acabados de uma organização 
formal. Tal como Max Weber tinha notado nos anos 
20 do século XX (1979 [1925]), existe uma tendên-
cia antiga de formação de organizações formais na 
Europa e nos Estados Unidos da América. As razões 
para esta tendência residem, em parte, no facto de a 
formalização ser um requisito para o seu reconhe-
cimento legal. Para serem reconhecidas legalmente, 
uma escola, ou universidade, têm de satisfazer deter-
minados critérios, tal como terem procedimentos de 
funcionamento escritos, estejam eles relacionados 
com as políticas de avaliação do pessoal (docente 
e não docente) ou com os procedimentos em caso 
de incêndio. Actualmente, as organizaçõ.es formais 
continuam a ser a forma dominante de organização 
em todo o Mundo. 
A maior parte dos sistemas sociais no mundo 
tradicional desenvolveram-se ao longo do tempo em 
resultado de costumes e de hábitos. Por outro lado, 
as organizações foram concebidas e consolidadas 
com determinados objectivos em vista, e alojadas em 
edifícios e locais específicos com vista à concretiza-
ção desses mesmos objectivos. Os edifícios nos quais 
os hospitais, as escolas e as empresas levam a cabo 
as suas actividades estão geralmente situados em 
locais tipificados. Podemos, portanto, afirmar que 
as organizações têm um efeito regulador: as orga-
nizações influenciam e moldam o comporramemo 
dos indivíduos de determinada forma; e algumas 
dessas organizações representam determinados valo-
res sociais. Por exemplo, e conforme veremos mais 
adiante, Michel Foucault defendeu que as clínicas, 
as escolas, os hospitais e as prisões partilham um 
principio idêntico de organização Hsica, o que nos 
diz bastante sobre as relações de poder na socie-
dade e sobre o modo como o comportamento dos 
«prisioneiros» é limitado. 
As organizações desempenham actualmente um 
papel muito mais importante nas nossas vidas quoti-
dianas do que antigamente. Além de nos ajudarem 
a vir ao Mundo, acompanham o nosso desenvolvi-
mento até morremos. Até mesmo antes de nascer-
mos, as nossas mães, e provavelmente também os 
nossos pais, participam em aulas, exames de gravi-
dez, e por aí adiante, levados a cabo nos hospitais 
e noutras instituições médicas. Hoje em dia, todos 
os recém-nascidos são registados em organizações 
governamentais que reúnem informações sobre nós· 
-desde o nascimento à morte. Actualmente, a maior 
parte das pessoas morre em hospitais - e não em 
casa, como já aconteceu em tempos -e cada morte, à 
semelhança do nascimento, terá de ser formalmente 
registada pelas autoridades locais. 
É fácil verificar por que razão as organizações 
são tão importantes para nós nos dias que correm. 
No mundo pré-moderno, as famílias, os 
mais próximos e os vizinhos proviam a grande maio-
ria das suas necessidades - comida, a instrução das . 
crianças, trabalho e actividades de lazer. Nos tempos 
modernos, a grande maioria da população encontra-
-se muito mais dependente do que alguma vez f~i 
1'!9 passado. Pessoas que nunca conhe~emos e que 
podem viver a muitas centenas de quilómetros 
nós, atendem a muitas das nossas necessidades e 
exigências. Em tais circunstâncias, é necessária uma 
-·-·----· --·-·--·------... -·-----... -.- --· ·-·-·-. ·- ... ·--··- -·------ ................... -- ·--........ ___ , __ _ 
..;r<tnde coordenação das actividades e dos recursos 
f•roporcionados por essas organizações. 
Contudo, a influência tremenda que as organiza-
•;ôcs passaram a exercer nas nossas vidas não pode ser 
·;ista como totalmente positiva. As organizações têm 
i"rt.:quentemente o poder de tirar as coisas das nossas 
m:íos, colocando-as sob o controlo de autoridades c 
,k especialistas sobre os quais temos pouca influên-
cia. Por exemplo, todos nós somos obrigados a E1zer 
.:erras coisas que o Estado nos diz para fazer - pagar 
impostos, obedecer às leis, combater em guerras -
sob a ameaça de sanções. As organizações, enquanto 
fontes de poder social, podem assim subjugar o indi-
víduos e levá-lo a agir de acordo com ditames face 
aos quais podem não ter poder para resistir. 
As organizações enquanto burocracias 
A palavra burocracia foi cunhada por De Gournay, 
cm 1745, que juntou o prefixo bureau -original-
mente em francês e que tanto significa escritório 
como secretária - ao termo cracia, derivado do 
verbo grego para «governar». A burocracia é, por 
conseguinte, o poder dos funcionários. A princípio 
o termo era aplicado apenas . aos funcioná!ios do 
governo, mas o seu uso generalizou-se gradualmente 
para referir as grandes organizações em geral. 
O conceito foi usado desde o seu início de modo 
depreciativo. De Gournay referiu-se ao desenvol-
vimento .. do. puder. dos funcionários como uma 
«doença chamada buromania»: O romancista fran-
cês Honoré de Balzac retratava a burocracia como 
«o poder gigante dos pigmeus». O autor checo Franz 
Kafka deixou-nos uma descrição terrífica de uma 
burocracia impessoal e ininteligível no seu romance 
O Processo, publicado originalmente em 192 S. Este 
cipo de opinião tem persistido até aos nossos dias. 
A burocracia é frequentemente associada à forma-
lidade, à ineficiência e ao desperdício. Contudo, os 
~--················· 
------------·--·------····--.. ···- .. 
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 887 
estudos sociológicos sobre as organizaçôes enlluanto 
burocracias têm sido dominados pela obra de Max 
Weber (ver «Escudos clássicos 18.1 » ). 
Relações formais e informais 
A análise da burocracia realizada por \Xfebcr dá 
primazia às relações f{mnais nas organizações -
as relações entre os indivíduos segundo o que está 
estipulado nas regras da organização. Weber pouco 
disse acerca das ligações informais e das relações 
entre pequenos grupos que podem existir em todas 
as organizações. Nas burocracias, os modos infor-
mais de actuação permitem alcançar uma flexibili-
dade que não poderia ser alcançada de outra forma. 
Num estudo clássico, Peter Blau ( 1963) analisou 
as relações informais num departamento gover-
namental encarregado de investigar possíveis fugas 
ao fisco. Os funcionários que se confrontavam com 
problemas que não sabiam exactamente como resol-
ver deveriam discuti-los com o seu superior hierár-
quico; as normas de procedimento estabeleciam 
que essçs problemas não podiam se discutidos com 
colegas do mesmo escalão. Todavia, a maior parte 
dos funcionáriosera prudente quando se tratava de 
consultar os superiores, pois pensavam que tal pode-
ria sugerir incompetência, e, por conseguinte, levar 
a reduzir as suas hipóteses de promoção. Por isso, os 
funcionários consultavam-se normalmente uns aos 
outros, violando as normas oficiafs. Isto não só os 
ajudava a obter informações correctas, como dimi-
nuía também as ansiedades decorrentes do traba-
lho individual. Desenvolveu-se assim um conjunto 
sólido de lealdades em pequenos grupos de traba-
lhadores do mesmo escalão. Blau concluiu que os 
problemas com que esses funcionários se deparavam 
eram provavelmente enfrentados com maior efidcia 
deste modo. 
888 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 
Max Web.er: a modernidáde enquanto dominação 
burocrática 
A. problemática ela jnvestigação, . ' 
A vida moderna exige alguma organizaçã~ dadc dos asshntos respeitantes à governaÇão. Mas 
formal para que ás actividades possam decorrer só nos tempos modernos é que as burocracias se 
sem percalços. Contudo, J,nUitas pessoas vêem as desenvolveram completamente. 
organiz.aÇões de um modo negativo, pois consi- De àco,rdo com Max .Weber, a expansão da· 
deram que elàs retiram criatividade individual e bm;ocracia .é um fenómeno inevitável das sodedà- · 
cria,ril muitas êlfficuldades·qriándó precisamos do des modç;.p.as;. a autoridade burocrática é a~iéa 
.seu, aq#lio~ Porque ·será assim? Por que razão as forma de lidar. c~~ a~ ·i~pÍic~çÕes. adminls.ti~Çi:· . ~ 
· o~gan1:z;açÇ)es são vista$ ~orno . simt~ltanearnente vas de granci~s sistemas. s~dais. Cof\tudo, W~per . 
r:i<:ê.9$~â.ria.~ e. inúteis? T~!!-t~~~e~á ape~a.s ·de u~ tainbé~ aÇr~dita~a qu,e a burocracia aprese.~t~:. : 
probletrt~.' .d~. pe~cçpÇóes · c;life,i:erttes: eti de algo grandes 4efitiências que têm bastantes ÚripJÍç~:· ... ' 
m#ifo maifé:üi.'aizadõ e 'múlto mais sedo) ções n9- natur!!zá.da. vid~$pçiW, m..ode,rna ... i . . . ·. ; 
· ::.Q s<;>ci6l~go ~e~ãoM~·Web~~.dese~volveu a · :De_ m;ah.eir~ ·a· ~studar as origens e a nã~~i~~~ , ~ 
pri~ii~~ 'i'ri~~tp~et~çaó'~ist~~~tic~· da ·e~~-r~ên~ia da expànsãb 'âis'''t)igiliiiàçôes ·htito'Crátkas, ~r, 
das' otgifíizitÇoes mode~n'âs.·S~giu1do estÇ ~l.itôt, W~ber cons.truiu u.lh. tipo ideal de burocçaÇi~/. : 
as .. org#fit!l~Õ~s . .constiÇ~~ri). forgi?-S de cootdertàr «ÍdeàÍ», hO. sentido qúe aqui ~e confer®~s; ~··i 
ª~ á~t~:\riMdes 49s sere.s ·hiwili.çYs. de ti~ ~o do não ·se refe~e ao quç Ç .mais desejável, mas á. ~( . 
. t6hstartt~:'i{(Fté1hp·o·'"· ~e:.:'n'· .. : .... ·. '=·s"p'': .. : ".·,:, • .,,?~'.r: ·. ,; · ·•· · ;.t . : · ,,,. · ' .. « fo.rm.. a ·.P·. ura >.:>< 4~ .or~ .. Jtii ... ~é.ªo .. Jn~.ÇQçç#, ~ça, .. : .. u.· .. ·.· ri.l .... ·." . ·., . . .. . ... . .. , . . o e .aço_. :weuer reaJ.ÇQU o;:: • . -. ·- -
·ql!e: o· ~Ç~~-~v9lyiniel11:ô d,:i~ organizàçÕ~s àssertta tipo id,eaté-.~a descrição ãbst~acta const~il.Úi{:L .\ 
. ~8 doffi,!~~~·:4~Wótclaç~~; ~g~~)lariclõ à!!l'lPOJ;- ~artir. d~ .~nfatiz~ção de determina~as car;tc.~7rf:s;~:· 
.. J~g~~&~~'L9f&:~f:~~B:P.:t2&~~~2·L~~Y.?tg~i~~Ǫo, :· tl,~~ ·~e.s~.~~ ·rer~· ~e ;rno~o ~ ~~~f soh,re~~~~~:~::,:. i 
fiêÇ~~sita i:l!!·. t~gta.s · éscfiéi§:··pari ·{uriCiõ)la,r-e::·.ae:·-·-·"ru:~~te.rí~~1ç~-'~~~~n.~1?-15·.( Y.er .Q9-p~t~o ;l)~:·W,~h'tF.~ t 
fi~~eirb~ o~q~ ·~· .. ~!:la ~<trt~rilo~i~~; s~ja · ~iroa~e- . (1979 {f.9.f<?]) ~n\.Wl~ro1,1 as $Ggu~nçes c~r~ç:~,ç:#$~t~;:';:,: 
na;'d·'ra:·:.:p'''.'0''r-''i:·m··~:":~w."J::'.·b····:-•;··a·:'··,-t_,.., . .:,.t·.'i>:::·<·::~.,,,. ,:· .•.. _,,'" .. ;;i'.:: ...• ,.:.,:... . c~~.:Ào _t1no 1deal de b. urocracia: . . . .. . ~ , we er e ec ouaenstenc1aue um:a . · __ ... ···:·li":-.•.. , ... ,,.,, .. ".,,. ...... :"'''"., .•. _" ........ :· 
·qp~~:t,~~6{::~~~.c.J~~-:~.4~.:\~{i~~~ç;·~N;f!:~~ :P~g~~- ·~. · ~~~~e.,~~ ;~~.~r~r~~i~. ,de :~~f~t:idade ~Y:\#~~}'~~fi. 1 
... .'P.:~Z~9.~e.s· mti_{~r~~~ '((á denipCl:~éla' que acrêcil.tava . '. A~ t~:FP~p:·que. !!-S:·tru:ef~s ha .or~ªf1Ji}!Ç~9;~~gr·~ 
·tt\r~gt.~q,ç~.:.çó~~~qtiêrt~i~ ·a:61ii;JJã~id~s.óci~i~ ... ~ .... ··-··'<#~f~~~)i~4~~:-ee~o·--«·d~l;.er~~cifi~íais>>~.:Urija·· '•: 
· ..:: · · j. ." • · __ · :ottÇõ.CrãÇiã~ãs~~mêlha:;se a illriãpitâmid.e--ci:>nr:.-
. ·A.·élt~w~~~~'~!·~f~li~"·· . . .. ·. ~~~~{~r~~;~~{-~Í~!~ 
D~e:_ ~~qrd() cbtp,. Web~r, ·. :~ç_4a~ ~s org~i .. ?:açõe~ dqt.dg~ :~ :pase e torn:t. pó~síve~ i c~ptder~9~8 ·: . 
--: .. erri.;gíihd6:~calá:.têri,dêili'}(~t~ !fatt:iteZ'a buro- · ·das .to.i,nada,s de decisão. cOada funCionário de • 
. ··.··i~f~j~i~t·l~ri~df\i·-·~.~~~~~~!Epe~.~tof~.0t!s:' 
Hav~~·.:P.9Í' ~~y,111plo~ ~w·f#ti~ioílalismo burocrá- 2. ú regúlariú:nto esçrito governa a condtita dos ' 
· ·tiEo·.n.~·'Ç}?.Jij~i.ff1p:~i~~.·Fê~p9.ns~v~l·pel~·ge.ne~ali- . · funcionirios' .em -todos os níveis da o~gablza- · 
''" ' ' . • ••• • • •• "• ou ••• •• ~ -- • • • • < • A- ' 
~--··----... -·--··-·--.. ---·~---····---· --····--- ..... ··--·--· 
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 889 
----- -----·-··.-------,-··----·-···' '. ' ....... , .......... , .... - .. 
890 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 
·:'-i!J'HCJ.J.,11;P;.4CLQ:L•1rrió Q~;~it~l::::~ 
;:f.tJrr~fti.é:P:.tJ~§"i!~tit:tq$· ':2f.iti~~s:.êori~úl~" · 
... ,.,...' -,".·,.· :·.rf.iwi(/ri~~a- · 
O grupo foi capaz de desenvolver procedimen-
tos informais que permitiam maiores iniciativa e 
responsabilidade do que as conferidas pelas regras 
formais da organização. 
As re<ies informais tendem a desenvolver-se a 
I 
todos os níveis das organizações. Os laços e as rela-
ções pessoais poderão revelar-se mais importantes 
para a estrutura real do poder do que as situações 
formais no âmbito das quais as decisões são supos-
tamente remadas - mesmo nos cargos de topo das 
organizações. Veja-se, por exemplo, o caso das reuni-
ões entre a administração e os accionistas, durante 
as quais, supostamente, se determinam as políticas 
das empresas. Na prática, e com frequência, são s6 
alguns dos membros da administração quem gere 
a empresa, tomando as suas decisões de um modo 
informal e esperando que os restaures as aprovem. As 
redes informais deste tipo podem também estender-
-se a diferentes organizações. Os administradores de 
diferentes empresas consultam-se frequentemente 
entre si, de um modo informal, e podem pertencer 
aos mesmos clubes ou associações de lazer. 
Para John Meyer e Brian Rowan ( 1977), as r~g_~as 
e os procedimentos formais' das organizações estão, 
habitualmente, muito distantes das práticas real-
mente adoptadas pelos seus membros. Na sua pers- . 
pectiva, as regras formais são geralmente «mitos» 
que as pessoas professam, mas que têm muito pouca 
substância na realidade. Elas servem para legitimar 
- e justificar - o modo como as tarefas são leva-
das a cabo, muito embora este «modo de fazer as 
coisas» possa divergir enormemente do modo como 
as coisas «devem supostamente ser feitas» à luz das 
regras estabelecidas. 
-·~--· ... ~~--.- ~·- .. ·~- ··-··· ........ ~ ... ~- .. ------------------···-
I : ., 
-- ' .. -----
No mundo empresarial e noutras organizações, as redes infor-
mais são criadas pelos indivíduos que se juntam durante as horas 
de trabalho ou fora delas. 
Meyer e Rowan assinalam que os procedimen-
tos formais ·t:êm -geralmente. um carácter cerimo-
nioso ou ritual. As pessoas simulam a adesão a estes 
procedimentos para poderem continuar a fazer o 
seu trabalho, enquanto usam procedimentos mais 
informais. Por exemplo, as regras que governam os 
procedimentos de vigilância num hospital justifi-
cam o modo como as enfermeiras reagem face aos 
pacientes: a enfermeira irá fielmente preencher o 
processo do paciente e pendurá-lo aos pés da cama 
do mesmo; mas a enfermeira também irá confir-
mar qual é o progresso do paciente de acordo com 
outros critérios informais - se a pessoa apresenta 
--------------··-·-······-······' 
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 891 
um bom aspecto e se parece atenta ou desperta. 0 
cumprimento rigoroso do processo clínico pode 
impressionar o paciente e satisfazer os médicos, mas 
nem sempre é essencial para a avaliação do estadodo 
paciente pela enfermeira. 
Saber até que ponto os procedimentos informais 
são úteis ou constituem obstáculos à eficácia das 
organizações não é uma questão simples. Os sistemas 
que se assemelham ao tipo ideal de Weber tendem a 
originar um vasto número de formas não oficiais de 
agir. Isto acontece, em parte, porque a flexibilidade 
inexistente pode ser adquirida através de ajustamen-
tos não oficiais das regras formais. Para aqueles que 
desempenham funções insípidas, os modos infor-
mais de actuar podem ajudar a criar um ambiente de 
trabalho mais agradável. As relações informais entre 
funcionários que ocupam cargos superiores podem 
ser eficazes e contribuir para a organização no seu 
todo. Por outro lado, estes funcionários podem estar 
mais preocupados em subir na carreira, ou proteger 
os seus próprios interesses, do que com o futuro da 
organização. 
As disfunções da burocracia 
Robert Merton, um sociólogo de orientação funcio-
nalista, analisou o tipo ideal de burocracia de Weber 
e concluiu que vários elementos inerentes à mesma 
podiam levar a consequências prejudiciais para o 
funcionamento da própria burocracia (Merton, 
1957). Merton referiu-se-lhes como «disfunções da 
burocracia». 
> > Para mais infórma,'()l'S sobre o ruuciona· 
ismo, ver o C;tpí t ulo I, •:<,() quc~ê a Wct()[o: 
gia?·· e o C:apíwlo .), <s'l(:ori.t~ e pcrspccriv,ts 
cm sociologia,,. 
Em primeiro lugar, Merton sublinhou que os 
burocratas são treinados pafa confiar unicamente 
nas regras e nos procedimentos escritos. Neste 
sentido, não são encorajados a ser flexíveis, a usar as 
·~ 892 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 
suas próprias capacidades de raciocínio nas tomadas 
de decisão ou a procurar soluções criativas; a buro-
cracia trata da gestão de casos de acordo com um 
conjunto de critér.ios objectivos. Merton receava que 
esta rigidez pudesse levar ao ritualismo burocrático, 
siwação em que as n.:gras são protegidas a rodo o 
custo, mesmo em casos cm que outra situação pode-
ria ser mais benéfica para a organização no seu todo. 
Uma segunda preocupação de Merton é a de a 
adesão às regras burocráticas poder eventualmente 
assumir-se como prioridade face aos objectivos 
subjacentes à organização. Dada a grande ênfase 
colocada no procedimento correcto, é possível 
perder de vista o que realmente interessa. Um buro-
crata responsável pelo processamento de apólices de 
seguros pode, por exemplo, recusar compensar um 
segurado por danos legítimos, evocando a ausência 
de um formulário ou o preenchimento incorrecto 
do mesmo. Por outras palavras, o processamento 
correcto do pedido poderá ser assumido como uma 
prioridade perante as necessidades do cliente que 
sofreu uma perda. 
Merton previu, em casos como este, a possibili-
dade da existência de uma tensão entre o público e 
a burocracia. Esta preocupação não era inteiramente 
infundada. A maioria de nós relaciona-se regular-
mente com grandes burocracias - desde o Serviço 
Nacional de Saúde e as autoridades cam<mÍ.rias às 
autoridades fiscais. Debatemo-nos não ra~as vezes 
com situações em que os funcionários públicos e 
os burocratas parecem não estar preocupados com 
as nossas necessidades. Uma das maiores fraquezas 
da burocracia reside na dificuldade que tem em lidar 
com casos que exigem uma consideração e um trata-
mento especiais. 
As organizações enquanto sistemas 
mecanicistas e orgânicos 
Os procedimentos burocráticos podem ser aplica-
dos de modo efectivo a todos os tipos de trabalho? 
Alguns estudiosos sugeriram que a burocracia faz 
sentido para desenvolver tare6ls rotineiras, mas pode 
ser problemática cm contextos em que as exigências 
do trabalho mudem de forma imprevisível. Na sua 
pesquisa sobre a inovação e a mudança nas compa-
nhias de electrónica, Tom Burns e G. M. Sralker 
( 1996) constatar;un que as burocracias eram de 
eficácia limitada em indústrias onde a flexibilidade e 
a inovação são preocupações primordiais. 
Burns e Stalker distinguiram dois tipos de orga-
nizações: mecânicas c orgânicas. As organizações 
mecânicas são sistemas burocráticos em que existe 
uma cadeia hierárquica de comando, com a comu-
nicação a fluir num sentido vertical através de canais 
específicos. Os empregados são responsáveis por uma 
tarefa particular; assim que a tarefl está concluída, a 
responsabilidade passa para o empregado seguinte. 
O trabalho no seio deste sistema é anónimo, com 
as pessoas «no topo» e «na base» a comunicarem 
muito raramente entre si. 
As organizações orgânicas, pelo contrário, 
caracterizam-se por possuírem uma estrutura mais 
flexível na qual os objectivos gerais da organização 
assumem a primazia sobre as responsabilidades defi-
nidas de modo estreito. Os fluxos de comunicação 
e as «directivas» são mais difusas, movendo-se em 
muitas trajectórias e não apenas em trajectórias verti-
cais. Considera-se que todos os que estão envolvidos 
na organização possuem um conhecimento legítimo 
e contributos que podem ser utilizados para a reso-
lução de problemas; as decisões não são um domínio 
exclusivo do «topo». 
De acordo com Burns e Stalker, as organi-
zações orgânicas estão muito melhor equipadas 
para lidar com as exigências em mudança de um 
mercado inovador, como o das telecomunicações, 
o do sfl/Jware .de cort1putadores ou o da biotecno-
logia. A estrutura interna mais fluida traduz-se em 
respostas mais rápidas e mais apropriadas a mudan-
ças no mercado e na criação de soluções mais cria-
tivas e céleres. As organizações mecânicas são mais 
adequadas a formas tradicionais e estáveis de produ-
ções menos susceptíveis às mudanças no mercado. 
' ' ·~ 
Embora tenha sido publicado há mais de 30 anos, 
este estudo é muito relevante para as discussões actu-
ais sobre a mudança organizacional. Burns e Stalker 
anteciparam muitos dos assuntos que tomaram um 
lugar central nos debates recentes sobre a globaliza-
ção, a especializado, a flexibilizacão e a desburocra-
' ' 
tização. 
A burocracia contra a democracia? 
Mesmo em países democráticos, as organizações 
governamentais detêm quantidades enormes de 
informações a nosso respeito, desde os registos de 
nascimento, escolares c profissionais, passando pelos 
registos de rendimento usados no pagamentos de 
impostos, até às informações utilizadas para emitir 
cartas de condução ou cartões de beneficiário da 
segurança social. Uma vez que nem sempre sabemos 
qual é a informação an~1azenada sobre nós, e quais são 
os organismos que a detêm, algumas pessoas temem 
que tais formas de vigilância possam comprometer 
os princípios democráticos. Tais medos perpassam o 
famoso romance de George Orwell intitulado 1984, 
no qual o Estado- designado como «Big Brother» 
- exerce uma vigilância sobre os seus cidadãos de 
molde a suprimir as críticas internas e as diferenças 
de opinião usuais em qualquer democracia. 
Algumas propostas, como a introdução de 
cartões de identidade em alguns países, feitas com o 
intuito de combater o terrorismo global e proteger 
os cidadãos contra o roubo de identidade, têm susci-
tado. as preocupações acima referidas. Tais cartões 
contêm, habitualmente, a fotografia do detentor, os 
seus nome, morada, sexo e data de nascimento, mas 
actualmente também um microchip onde estão regis-
ta~as informações biométricas como as impressões 
digitais, a imagem da íris ou as dimensões faciais. 
Os críticos destes meios de identificação têm expri-
mido preocupações relativamente ao facto de as 
bases de dados nacionais - que contêm informação 
sobre a identidade dos cidadãos -, não serem segu-
ras e constituírem uma ameaça aos direitos indivi-
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 893 
duais à privacidade e à não-discriminação. Aqueles 
que apoiam a emissão destes cartões de identidade 
argumentam que alguns tipos de vigilância podem, 
de facto, proteger alguns princípios democráticos, 
na medida em que permitem uma maior vigilância 
daqueles que pretendem pô-los em causa.Pensar de um modo crítico 
Reflicta sobre alguma das vezes em que teve de 
lidar com o sistema burocrático - por exem-
plo, o serviço nacional de saúde, uma repar-
tição dos serviços de segurança social ou um 
organismo governamental - e f.'lça uma lista 
de todos os aspectos neg,ttivos desse episódio. 
Ficou satisfeito com o modo como os funcio-
nários comunicaram consigo? Considera 
que se tratou de um processo eficiente? De 
seguida, enumere todos os aspectos positi-
vos do mesmo episódio. Acha que o carácter 
relativamente formal e regulamentado das 
burocracias é a única forma possível de lidar 
com um grande número de pessoas? De que 
modo entende que os sistemas burocráticos 
poderiam ser melhorados, de acordo com a 
sua própria experiência? 
Robert Michels ( 1967), um aluno de Weber, 
inventou uma expressão para se referir à perda de 
poder da base para o topo que se tornou famosa 
desde então. Segundo o autor, nas grandes organi-
zações, e de uma forma geral nas sociedades domi-
nadas por organizações, existe uma lei de ferro da 
oligarquia- <.Juerendo c9m «oligarquia» significar 
«governo de poucos». De acordo com Michels, a 
transferência do poder para o topo é simplesmente 
inevitável num mundo cada vez mais burocratizado 
-daí a expressão «lei de ferro». 
Será que Michels tinha razão? É certamente 
correcto dizer que as grandes organizações envol-
~.· 
894 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 
vem a centralização do poder. No entanto, existem 
boas razões para supor que a «lei de ferro da oligar-
quia» não é tão dura nem tão célere quanto Michels 
supunha. As relações entre oligarquia c centraliza-
ção burocrática são mais ambíguas do que Michels 
admitia. 
Em primeiro lugar, é necessário reconhecer que a 
desigualdade de poder não é, como Michels sugere, 
apenas urna característica que advém do tamanho das 
organizações. Em grupos mais pequenos também 
podem existir diferenças de poder muito marcantes. 
Por exemplo, em pequenos negócios, onde as activi-
dades dos funcionários são muito mais visíveis para 
os empregadores, pode existir um controlo mais 
apertado do que em grandes escritórios c organiza-
ções. De facto, as relações de poder tornam-se menos 
rígidas à medida que as organizações aumentam de 
dimensão. Aqueles que se encontram em posições 
intermédias, e na base, podem ter pouca influência 
sobre as decisões tomadas no topo. Mas, por outro 
lado, devido à especialização de funções e às compe-
tências envolvidas na burocracia, os indivíduos que 
se encontram no topo podem perder o controlo 
sobre muitas decisões administrativas realizadas por 
aqueles que ocupam cargos de base. 
·,. ~ -•r•. • 
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ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 895 
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____________ . ____ ., ........ . 
896 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 
Em muitas organizações modernas, o poder 
decisório é também delegado de modo frequente 
c abertamente num sentido descendente, isto é, de 
superiores para subordinados. Em muitas das gran-
des empresas, os administradores estão tão ocupados 
a coordenar diferentes departamentos, a lidar com 
crises ou a analisar orçamentos e quadros estatísticos 
l1Ue têm muito pouco tempo para ter pensamentos 
originais. Os administradores delegam questões 
relativas à definição das políticas da empresa a 
subordinados, cuja função é o desenvolvimento de 
propostas. l'v[uiros líderes de companhias assumem 
muito francamente que, na maior parte das situa-
ções, se limitam a aceitar as conclusões que lhes são 
apresentadas. 
!;rn~tru:a Catbett: Ditectot Malvado de 1-1. R. T Bmos tBgistos das tuas ,; r;;:,. ===========::::.':"l 
chamadas, das cotululhul ; .. ~ ~ contta a nossa ~olítíca 
Walfy, a Bfll~tB!la 
gabB tudo !lobte ti 
da fntetMt e de todos os ~ rnatat m: nossos funcionátio!! 
teus e-msí/!1. T amos tarnbérn i B substituí-1m: ~ot irnitadotBS 
o teu teste ds utina, as tuas ~ mal ~agos. Mas gostávamos 
notas da escola, o tau salá- i quB soubessss quB \ tio, B os tsus contactos g isso é ~ossível ... 
farniliate!l... I .. 
LL~~~==~~~~~~-=-~----~~i~~~~~• 
O espaço físico das organizações 
A maioria das organizações modernas funciona em 
espaços físicos especificamente concebidos para o 
efeito. O edifício onde se aloja uma determinada 
organização tem características próprias relevantes 
para a sua actividade, mas partilha também carac-
terísticas arquitectónicas importantes com os edifí-
cios de outras organizações. A arquitectura de um 
hospital, por exemplo, é em certos aspectos diferente 
da arquitectura de uma empresa ou de uma escola. 
No hospital existem enfermarias separadas, consul-
tórios, salas de espera e gabinetes que dão ao edifí-
cio um aspecto próprio, enquanto uma escola tem 
salas de aula, laboratórios e recintos desporrivos. 
Há, no entanto, uma semelhança genérica: ambos 
terão provavelmente um grande número de corre-
dores com portas de acesso e uma decoração e um 
-----------···------------·---·-··. 
mobiliários estandardizados. Com excepção das 
diferenças no vestuário das pessoas que se movimen-
tam pelos corredores, os edifícios onde as organiza-
ções modernas normalmente se instalam têm uma 
certa semelhança entre si. E são geralmente muito 
semelhantes quer do ponto de vista interior, quer do 
ponto de vista exterior. Não é pouco habitual passar-
mos por um edifício e perguntarmo-nos: «aquilo é 
uma escola?»; e receber como resposta: «não, é um 
hospital». 
As organizações e o controlo do tempo e do 
espaço 
Michel Foucault (1971, 1978) mostrou que a arqui-
tectura de uma organização está directamente impli-
cada na ordenação social e no sistema de autoridade. 
O seu trabalho demonstrou que através do escudo 
' . ' 
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( 
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 897 
.] 
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A organização física deste espaço onde trabalhavam dactilógrafas nos anos 40 do século XX resulta na disposição destas trabalhado-
ras de molde a mantê-las sob uma vigilância apertada. Nas organizações modernas a vigilância assume novas formas. 
das características físicas das organizações podemos 
observar de outro ângulo os problemas analisados 
por Weber. Os escritórios que Weber discutiu de 
forma abstracta são também esoacos arauitectóni-• ' . 
cos - divisões separadas por corredores. Por vezes, 
os edifícios de grandes firmas estão estruturados 
fisicamente de forma hierc'trquica, de modo a que 
quanto mais elevada for a posição do indivíduo na 
hierarquia da autoridade, mais próximo do topo 
esteja o seu gabinete; a expressão «o último andar» 
_______________________ ....... . 
é por vezes usada para designar aqueles que detêm o 
máximo poder na organização. 
A geografia de uma organizé!Çáo afecta de diver-
sas formas g seu funcionamento, especialmente 
quando assenta em gran~e medida cm relações 
informais. A proximidade física facilita a formação 
de grupos primários, ao passo que a distância física 
pode incrementar a polarização dos grupos - uma 
atitude de contraposição entre «nÓs» c «eles» no 
relacionamento interdepartamental. 
898 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 
A vigilância nas organizações 
A disposição das salas, dos corredores e dos espaços 
abertos dos edifícios de uma organização pode forne-
cer pistas básicas sobre o modo como o seu sistema 
de autoridade funciona. Em algumas organizações, 
há grupos de pessoas que trabalham colectivamente 
em espaços abertos. Dada a natureza monótona e 
repetitiva de determinados tipos de trabalho indus-
triais, como o das linhas de montagem, é necessária 
uma supervisão regular para assegurar o ritmo de 
trabalho. O mesmo se aplica ao trabalho de rotina 
dos operadores de cal! centres, os quais, muitas vezes, 
têm as suas chamadas e tarefas monitorizadas pelos 
supervisores. Foucault enfatizou a forma como a 
visibilidade, ou a sua ausência, nas estruturas arqui-
tectónicas modernas influenciae imprime padrões 
de autoridade. O nível de visibilidade determina 
a facilidade com que os subordinados podem ser 
sujeitos àquilo a que Foucault chama vigilância, ou 
supervisão das actividades no seio das organizações. 
Nas organizações modernas, todos, mesmo aqueles 
que estão em posições de autoridade relativamente 
elevadas, estão sujeitos a vigilância; mas, quanto 
mais baixo for o cargo de um indivíduo, mais o seu 
trabalho tende a ser fiscalizado. 
A vigilância assume várias formas. pma é a 
supervisão directa do trabalho dos subordinados 
por parte dos seus superiores. Tome-se o exemplo de 
uma ·sala de aula. Os alunos sentam-se nas carteiras, 
geralmente dispostas em filas, todos eles à vista do 
professor. Supostamente, as crianças devem estar 
atentas ou então concentradas nos seus deveres. 
Naturalmente, se isto realmente acontece na prática 
depende da capacidade do professor e da di$posi-
ção dos alunos para corresponderem ao que deles se 
espera. 
Um segundo tipo de vigilância é mais subtil, mas 
igualmente importante. Consiste em manter arqui-
«Üs sensores indicam que o cubículo n.0 2 está ocupado 
há mais de 18 minutos. Necessita de ajuda?» 
vos, registos e o historial do indivíduo. Weber assina-
lou a importância dos registos escritos (hoje em diiJ. 
predominantemente informatizados) para as organi-
zações modernas, embora não tenha explorado devi-
damente o modo como eles podem ser usados para 
regular o comportamento. Os ficheiros dos funcio-
nários fornecem todo o seu historial, registam dados 
pessoais e fazem muitas vezes juízos de carácter. 
Estes registos são usados para fiscalizar o compor-
tamento dos funcionários e ponderar hipotéticas 
promoções. Em muitas empresas, os indivíduos em 
cada nível hierárquico apresentam relatórios anuais 
acerca do desempenho daqueles que se encontram 
no nível imediatamente inferior. As classificações 
escolares e os diplomas constituem outros exemplos 
de fomes usadas para avaliar o desempenho de cada 
indivíduo à medida que ele avança na organização. 
Isto aplica-se também ao corpo docente. 
Por último, existe também a autovigilância. 
Neste caso, o pressuposto de que alguém pode estar 
a vigiar as nossas actividades poderá limitar e alte· 
raro comportamento que se tem. Pense no exemplo 
acima referido do operador de call centre. O opera-
''i 
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..... _ .... -.: 
. ! 
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dor não tem nenhuma forma de saber se as suas 
chamadas estão a ser monitorizadas, ou a frequência 
com que os supervisores ouvem as suas chamadas 
telefónicas. Contudo, os operadores podem pressu-
por que estão sob vigilância e manter as suas chama-
das curtas, eficientes c formais, de acordo com as 
directrizes da empresa. 
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 899 
Pensar de um modo crítico 
Reflicta sobre a sua experiência na escola, 
em locais de trabalho e noutros locais públi-
cos. De que modo estão estes locais a ser 
sujeitos a formas de vigilância? ~e tipo de 
vigilância esd a ser introduzida em cada um 
destes locais? ~e razões levarão as pessoas a 
acolher um aumento de vigilância? ~is os 
aspectos positivos decorrentes da vigilância 
crescente? 
~~ Estudos clássicos 18.2 
• 
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900 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 
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ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 901 
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dàs soclediá~s."c:bifníD.'istis de ~s~llà sovi~tico: ' ... ·~,:~ .•. :.~\·,.·,.··: - ~·· .·. ~:.·~··· -·;<. . 
902 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 
As organizações não conseguem operar eficien-
temente se o trabalho dos funcionários for deixado 
ao acaso. Como salientou Weber, nas empresas 
espera-se que as pessoas trabalhem um número regu-
lar de horas por dia. As suas actividades têm de ser 
bem coordenadas no tempo e no espaço, algo que 
só se consegue através tanto da disposição física das 
organizações como da calendarização precisa forne-
cida por horários detalhados. Os horários laborais 
regulam as actividades no tempo e no espaço - nas 
palavras de Foucault, «distribuem eficientemente 
os corpos» pela organização. Os horários são uma 
condição da disciplina organizacional, pois articu-
lam as actividades de um grande número de indiví-
duos. Se uma universidade não tivesse um horário 
rigoroso que gerisse as suas salas de aulas, por exem-
plo, rapidamente entraria em colapso e num caos 
completo. Um horário torna possível o uso intensivo 
do tempo e do espaço: cada horário pode ser preen-
chido por muitas pessoas e muitas actividades. 
Organizações transnacionais 
Pela primeira vez na história, as organizações 
tornaram-se verdadeiramente globais na sua escala. 
As tecnologias da informação e da comunicação 
tornaram as fronteiras nacionais insignificantes, 
uma vez que estas já não conseguem conter activi-
dades-chave no âmbito da economia, da cultura e 
do ambiente. Como consequência, espera-se que 
as organizações internacionais continuem a crescer 
em número e imporÍ:ânci~, tÓrnan'do-se algo previ-
sível e estável num mundo em que os Estados-nação 
deixaram de ser os actores poderosos que eram no 
passado. 
Assim sendo, os sociólogos estudam as organiza-
ções internacionais de modo a perceberem melhor 
como é possível a criação de instituições que atraves-
sam as fronteiras nacionais, e quais serão os seus efei-
tos. Alguns sociólogps chegam mesmo a argumentar 
que as organizações globais irão contribuir para que 
os países se assemelhem uns aos outros (Thomas, 
1987; Scott e Meyer, 1994; McNeely, 1995). 
Porém, as organizações internacionais não são 
novas. As organizações destinadas à regulação do 
comércio entre diferentes países, por exemplo, exis-
tiram ao longo de séculos. Uma dessas organizações 
foi a Liga Hanseática, uma aliança comercial alemã 
entre mercadores e cidades que dominou o comér-
cio no mar do Norte e no mar Báltico desde meados 
do século XIII até meados do século XVII. Mas só 
após a criação da Sociedade das Nações, em 1919, 
mau grado a sua curta duração, é que se formaram 
organizações globais com elaboradas burocracias e 
juntando como membros nações de todo o Mundo. 
As Nações Unidas, organização criada em 1945, é 
porventura o exemplo moderno mais significativo 
de uma organização global. 
Os sociólogos dividem as organizações interna-
cionais em dois tipos: as organizações governamen-
tais internacionais abrangem os governos nacio-
nais, enquanto as organizações internacionais não 
governamentais abrangem as organizações privada,s, 
Iremos abordar separadamente cada um destes tipos. 
Organizações governamentais internacionais 
O primeiro tipo de organização global é a organi-
zação intergovernamental internacional (OGI)S, 
um tipo de organização internacional estabelecida 
através de tratados entre governos com o intuito 
de estabelecer relações regulares entre os países- .... 
-membros. Estas organizaÇões emergiram p~;·~oti­
vos de segurança nacional- tanto a Liga das Nações 
como as Nações Unidas foram criadas depois de 
guerras mundiais extremamente destrutivas -, com 
o fito de regulamentar o comércio - por exemplo, 
a Organização Mundial do Comércio -, por ""'v'"~----~· 
de bem-estar social e direitos humanos, e, crescente-
mente, por razões de conservação ambiental. 
5 No original: international governmental organization 
(IGO). 
----·-·-.. ----····----··-----·-· -----·----·--·--- ............ -· ... ""'"" """"" ................... . 
Actualmente, algumas das organizações gover-
'--
namentais internacionais mais·poderosas foram cria-
das para unificar economias nacionais em blocos de 
comércio poderosos e amplos. Uma das mais avança-
das é a União Europeia (UE), cujas regras têm gover-
nado, desde Maio de 2004, 25 Estados-membros 
europeus. A União Europeia foi formada para criar 
uma única economia europeia na qual os negócios 
pudessem ser conduzidos livremente entre frontei-
ras, em busca de mercados, e para que o trabalho e 
os trabalhadores se pudessem mover livremente em 
busca de empregos. Os Estados-membros da União 
Europeia possuem políticas económicas comuns e, 
desde 2002, 12 deles partilham uma moeda única (o 
euro). Contudo, nem todos os europeus vêem com 
bons olhos este desenvolvimento, argumentando 
que os países-membros irão eventualmente delegar a 
maior parte das suas decisões em matéria de política 
económica na União Europeia. 
As organizações governamentais internacionais 
podem possuir um poder militar considerável, se os 
seus Estados-membros assim o quiserem. Por exem-
plo, a Organização do Tratado do Atlântico Norte 
(OTAN) e as Nações Unidas usaram o poderio mili-
tar dos seus membros contra o Iraque na primeira 
Guerra do Golfo em 1991, e no Kosovo, integrado 
na antiga Jugoslávia, em 1999. Contudo, uma vez 
que cabe às nações, em última instância, controlar o 
uso da sua força militar, existem limites à autoridade 
das organizaç?~~ __ governamentais internacionais 
militares mais poderosas, cuja força deriva da parti-
cipação voluntária dos Estados-membros. ~ndo 
confrontados com violentos conflitos civis como, 
por exemplo, na Bósnia e em países africanos como 
a Somália, o Ruand·a e a região do Darfur, no Sudão, 
os esforços das forças de paz das Nações Unidas 
revelaram-se amplamente ineficientes. 
Na maioria dos casos, as organizações governa-
mentais internacionais tendem a reflectir frequen-
temente as desigualdades de poder no seio dos 
-
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 903 
seus países-membros. Por e-9Cemplo, o Conselho de 
Segurança das Nações Unidas é responsável por 
manter a segurança e a paz internacionais; como 
tal, é a organização mais poderosa no interior das 
Nações Unidas. Os seus cinco membros permanen-
tes incluem a Grã-Bretanha, os Estados Unidos da 
América, a China, a França e a Rússia, o que concede 
a estes países um controlo significativo sobre as 
acções levadas a cabo pelo Conselho de Segurança. 
Os restantes dez países são eleitos pela Assembleia 
Geral das Nações Unidas para mandatos de dois 
anos, o que faz com que tenham menos poder contí-
nuo do que os membros permanentes. 
No início do século XX existiam no mundo 
apenas cerca de 36 organizações governamen-
tais internacionais, muito embora a informação 
disponível à época não seja inteiramente fiáveL 
Em 1981, quando foram adoptados critérios de 
recolha de informação consistentes, existiam 1039 
organizações governamentais internacionais e, em 
2006, existiam cerca de 7350, algumas das quais já 
não estão em actividade (Union of Inrernational 
Organizations, 2007). 
Organizações não-governamentais 
internacionais 
O segundo tipo de organização global é a organiza-
ção não-governamental int&-nacional (ONG). As 
organizações não-governamentais internacionais são 
estabelecidas através de acordos entre os indivíduos 
e as organizações privadas que compõem o conjunto 
dos seus membros. Alguns exemplo~ incluem a 
Associação Internacional de Sociologia, o Conselho 
Internacional das Mulheres e o grupo ambientalista 
Greenpeace. Tal como sucedeu com as organizações 
governamentais internacionais, o número de organi-
zações internacionais não-governamentais cresceu 
exponencialmente nos últimos anos - passaram de 
pouco mais de 200, no começo do século XX, para 
·_, 904 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 
cerca de 15 000 nos anos 90 do século XX (Union of 
International Associations, 1996-1997). Em 2006 
existiam cerca de 51 509 organizações internacio-
nais não-governamentais, muito embora cerca de 
um terço se encontrassem aparentemente inactivas 
(Union ofinternational Organizations, 2006). 
De um modo geral, as organizações internacio-
nais não-governamentais estão interessadas prima-
riamente em promover os interesses globais dos 
seus membros, seja através de influências junto das 
Nações Unidas ou através de outras organizações 
internacionais não-governamentais e de governos 
nacionais. As organizações internacionais não-
-governamentais também promovem a investigação, 
a educação e a difusão de informação por meio de 
conferências internacionais, encontros e jornais 
especializados. As organizações internacionais não-
-governamentais têm tido sucesso em influenciar as 
políticas de nações poderosas. 
Uma das mais proeminentes (e bem sucedidas) 
organizações internacionais não-governamentais 
é a Campanha Internacional para a Eliminação de 
Minas. A campanha, juntamente com a sua funda-
dora, Jody Williams, receberam o Prémio Nobel da 
Paz em 1997 pelo seu sucesso em convencer a maio-
ria dos países do Mundo a assinar um tratado desti-
nado a banir o uso devastador de minas anti~pessoal. 
O comité do Prémio Nobel elogiou a campanha por 
ter conseguido transformar «Uma ideia numa reali~ 
dade exequível», e acrescentou que «este trabalho 
transformou~se num exemplo convincente de uma 
política efectiva para a paz que pode ser absolu~ 
tamente decisiva no esforço internacional para o 
desarmamento» (ICBL, 2011). 
A Campanha Internacional para a Eliminação 
de Minas reúne mais de 1000 outras organizações 
internacionais não~governamentais sediadas em 
60 países. Em conjunto, têm despertado a opinião 
pública para os perigos que representam para os 
civis os mais de 100 milhões de minas anti-pessoal 
- herança mortal de guerras anteriores travadas na 
Europa, na Ásia e em África. Estas minas não são 
como outras armas, pois podem permanecer activas 
durante muitas décadas depois das guerras, aterro-
rizando e encurralando populações inteiras. Por 
exemplo, no Camboja, as terras férteis foram mina-
das, ameaçando de fome os agricultores, os quais não 
estão dispostos a levar a cabo acções que os possam 
d I I ' \ f: '[' \ con enar a e es propnos e as suas amt tas a morte. 
Os esforços da Campanha Internacional para a 
Eliminação de Minas conduziram à assinatura de 
um tratado que baniu o uso, a produção, o arma-
zenamento e a manipulação de minas anti~pessoal. 
O tratado foi assinado por 1 50 países e tornou-se lei 
internacional em Março de 1999. 
Muito embora sejam muito mais numerosas do 
que as organizações governamentais internacio-
nais, e tenham obtido algum sucesso, as organiza-
ções não-governamentais internacionais têm muito 
menos influência, pois o poder legal (incluindo a 
acção executiva) está, em última instância, nas mãos 
dos governos. Por exemplo, no âmbito das acções 
empreendidas para banir o uso de minas anti~pessoal, 
e pese embora o facto de quase todas as grandes 
potências do Mundo terem assinado o tratado, os 
EUA recusaram-se a fazê-lo, invocando preocupa-
ções de segurança na Coreia, assim como a Rússia. 
Contudo, algumas organizações internacionais não 
governamentais, como a Amnistia Internacional e o 
movimento Greenpeace, conseguiram alcançar uma 
influência considerável. 
Organizações económicas 
As sociedades modernas são, na definição de Marx, 
capitalistas. O capitalismo é uma forma de orga-
nização da vida económica que se distingue por 
possuir as características seguintes: posse.Rçivada 
dos meios de produÇâo; lucro como motoreé:onó-
mico; liberalização da concorrência e dos mercados 
na compra e venda de mercadorias, na aquisição de 
matérias-primas baratas e na utilização de trabalho 
mal remunerado; e uma expansão e um investimento 
incansáveis na acumulação de capital. O capitalismo, 
_______ ..., _______ ,.,. ____ 000---n-----··-····-········~··-· .. ·-·--·--·······-······~··-- 0000 M 00 
que começou a expandir-se no começo do século 
XIX com o crescimento da Revolução Industrial, 
é um sistema económico muito mais dinâmico do 
que qualquer outro que o tenha precedido histori-
camente. Muito embora o sistema capitalista tenha 
tido muitos críticos, como Marx, é actualmente a 
forma de organização económica mais difundida em 
todo o Mundo. 
Ao longo deste capítulo, olhámos para o trabalho 
do ponto de vista das ocupações e dos empregados. 
Estudámos os padrões de trabalho e os factores que 
influenciam o desenvolvimento de sindicatos. Agora 
iremos tratar de analisar a natureza das firmas onde 
a mão-de-obra se encontra empregada. (Contudo, 
deve reconhecer-se que muitas pessoas estão actu-
almente empregadas em organizações governamen-
tais, embora não as contemplemos neste capítulo.) 
O que está a acontecer actualmente nas empresas? 
E como é que elas são geridas? 
Empresas e poder empresarial 
Desde a viragem do século XX, as economias capita-
listas modernas têm sido crescentemente influencia-
das pelo advento de grandes empresas. Um inqué-
rito recente, levando a cabo junto das 200 maiores 
empresas do ranking mundial, mostrou que as 
vendas combinadas dessas empresas cresceram, entre 
1983 e 1999, do equivalente a 25 para 27,5% do PIB 
mundial. Durante o mesmo período, os lucros destas 
empresas cresceram 362,4%, enquanto o número de 
pessoas .que .trabalhavam nelas aumentou somente 
14,4% (Anderson e Cavanagh, 2000). 
É verdade que ainda existem na economia britâ-
nica centenas de pequenas e médias empresas. Nessas 
empresas, a imagem do empresário- o chefe que é o 
proprietário e o gerente da empresa -Í'Íão é de todo 
obsoleta. As grandes empresas são algo diferente. 
A ideia de que a maioria das grandes empresas não 
é gerida pelos seus proprietários é aceite desde que 
AdolfBerle e Gardiner Means publicaram, nos anos 
30 do século XX, o seu estudo muito celebrado 
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 905 
The 1\tfodern Corporation anel Private Property 
(Berle e Means, 1997 [1932]). Em teoria, as gran-
des empresas são propriedade dos seus accionistas, 
os quais têm o direito He tomar as decisões mais 
importantes. Porém, Bcrle e Means defenderam 
que, em virtude de a propriedade das acções ser tão 
dispersa, o controlo real passou para as mãos dos 
executivos que gerem as empresas no dia-a-dia. A 
propriedade das empresas está, portanto, separada 
do seu controlo. 
O poder das grandes empresas é imenso, sejam 
elas geridas pelos proprietários ou pelos adminis-
tradores executivos. ~ando uma empresa ou um 
conjunto de empresas dominam uma determinada 
indústria, geralmente cooperam na fixação de preços, 
ao invés de competirem livremente umas com as 
outras. Deste modo, as empresas gigantes de petróleo 
seguem normalmente o preço da gasolina cobrado 
pelas suas concorrentes. ~ando uma determinada 
empresa ocupa uma posição dominante numa dada 
indústria, diz-se que tem uma posição de monopó-
lio. A situação de oligopólio, em que há o predo-
mínio por parte de um pequeno grupo de empresas 
gigantes, é mais comum. Em situações de oligopólio, 
as empresas conseguem determinar mais ou menos 
os termos de aquisição das mercadorias e serviços às 
pequenas empresas que são os seus fornecedores. 
Tipos de capitalismo empresarial 
Existiram três estádios gerais no desenvolvimento 
das grandes empresas, muito embora estes estádios 
se tenham sobreposto uns aos outros e todos conti-
nuem a coexistir actualmente. O primeiro estádio, 
característico do século XIX e do princípio do 
século XX, foi designado por capitalismo familiar. 
· As grandes empresas eram geridas por empresários 
ou por membros da ·mesma família, sendo a sua 
propriedade transmitida posteriormente aos seus 
descendentes. Famosas dinastias empresariais como 
os Sainsbury no Reino Unido e os Rockefeller no 
EUA pertencem a esta categoria. Estes indivíduos 
' 906 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 
e famílias não são apenas detentores de grandes 
empresas, possuindo também interesses económicos 
muito diversos e situando-se no «cume» de impé-
rios económicos. 
A grande maioria das grandes empresas forma-
das por famílias empreendedoras tornou-se entre-
tanto constituída por empresas cujo capital foi 
aberto ao público- isto é, as acções destas empresas 
são comercializadas no mercado livre - e passaram 
a ser controladas administrativamente. Mas existem 
aspectos importantes do capitalismo familiar que 
ainda permanecem, mesmo nas maiores empresas 
do Mundo. Tal é o caso da empresa automobilística 
Ford, cujo chefe executivo é William Claig Ford 
Jr., bisneto de Henry Ford, o fundador original da 
empresa6• O capitalismo familiar continua a ser 
predominante entre as pequenas empresas, como 
as lojas locais geridas pelos seus proprietários ou 
os pequenos negócios de canalização e pinturas. 
Algumas destas empresas cujas lojas permanecem 
nas mãos da mesma família por duas ou três gera-
ções também são dinastias, mas a uma escala menor. 
Contudo, o sector das pequenas empresas é muito 
instável e o falhanço económico é bastante comum 
-a percentagem de empresas detidas por membros 
da mesma família durante longos períodos de tempo 
é residual. 
No sector das grandes empresas o capitalismo 
familiar foi sendo substituído pelo capitalismo de 
gestão. Com o crescimento das grandes empresas, 
os empresários passaram a ter uma influência cada 
vez maior, substituindo assim as grandés famílias 
empresariais. Este resultado tem sido descrito como 
a substituição da família na empresa pela própria 
empresa. A empresa emerge assim como uma acti-
vidade económica mais definida. Num estudo sobre 
as 200 maiores companhias industriais dos EUA, 
Michael Allen (1981) descobriu que, nos casos em 
6 Exewtiue chaimzan. Na Ford, os cargos de presidente c 
CEO (director executivo), exercidos por Ford até 2006, são 
detidos actualmente por um quadro sem relações com a família 
fundadora e accionista. 
que se registava uma diminuição do lucro, as empre-
sas controladas por famílias eram incapazes de proce-
der à substituição do director executivo, ao contrário 
das empresas controladas por um director-geral. 
Não existe nenhuma dúvida em relação à marca 
deixada pelo capitalismo de gestão na sociedade 
moderna. Na sociedade contemporânea, a grande 
empresa influencia tanto os padrões de consumo 
como a experiência de trabalho - é muito difícil 
imaginar quão diferente seria a vida de trabalho 
das pessoas nas sociedades desenvolvidas na ausên-
cia de grandes fábricas e burocracias empresariais. 
Os sociólogos identificaram outra área na qual a 
grande empresa deixou a sua marca nas instituições 
modernas. Por capitalismo do bem-estar entende-
-se a uma prática encetada no final do século XIX 
e que procurou orientar as grandes empresas - ao 
invés do Estado e dos sindicatos - _para a protec-
ção primária contra as incertezas do mercado no 
contexto da vida moderna industrial. As grandes 
empresas começaram então a providenciar alguns 
serviços para os seus empregados, como apoios 
sociais às crianças, inka.-estruturas de lazer, planos 
de partilha dos lucros, férias pagas e seguros de vida 
e de desemprego. Estes programas tinham frequen-
temente um tom paternalista, como sucedia quando 
as grandes empresas promoviam «visitas às casas» 
dos trabalhadores para a sua «educação moral». 
De um ponto de vista menos benevolente, um dos 
grandes objectivos do capitalismo de bem-estar foi 
a coerção, pois os empregadores usavam todo o tipo 
de táctiCas - incluindo a violência :.... para ·impedir a 
sindicalização dos trabalhadores. 
No seu estudo sobre o movimento sindical nos 
EUA, Sanford Jacoby ( 1997) d~fende que a histó-
ria convencional indica, de um modo geral, que o 
capitalismo do bem-estar teve o seu ocaso dürante 
os anos da Grande Depressão nos anos 30 do sééúló 
XX, quando os sindicatos atingiram níveis de influ-
ência sem precedentese a administração de Franklin 
Roosevelt, com o seu programa «New Deal», 
começou a garantir aos trabalhadores muitos dos 
benefícios dados pelas empresas. Contrariamente a 
esta interpretação corrente, Jacoby argumenta que 
o capitalismo do bcm-estar não desapareceu, mas 
adoptou uma posição clandestina durante o apogeu 
do movimento sindical. Nas grandes empresas que 
evitavam a sindicalização, durante os anos 30 e 60 
do século XX - como as companhias americanas 
Kodak, Sears e Thompson -, o capitalismo do bem-
-estar foi modernizado, ocultando os seus aspectos 
mais paternalistas enquanto tornava rotineiros os 
programas de benefícios aos trabalhadores. ~ando 
o movimento sindical começou a perder a sua força, 
ao longo dos anos 1970, estas empresas tornaram-se 
um modelo para as suas congéneres, pois eram capa-
zes agora de se afirmar perante sindicatos enfraque-
cidos, reafirmando desta forma o papel da empresa 
enquanto «domínio industrial»7• 
Apesar da influência esmagadora do capitalismo 
gestionário sobre a economia moderna, para muitos 
estudiosos estão agora a emergir os contornos de 
uma terceira fase na evolução das grandes empre-
sas. Esses estudiosos argumentam que o capitalismo 
de gestão monopolista está actualmente a dar lugar 
ao capitalismo institucional. Entende-se por esta 
designação a emergência de uma rede consolidada 
de lideranças empresariais que se ocupa não apenas 
da tomada de decisões numa ·única empresa, mas 
também do desenvolvimento do poder empresarial 
para além dos seus limites habituais. O capitalismo 
institucional assenta na partilha de acções entre 
várias empresas. Em virtude disto, agregados arti-
culados de-ex~eut:i-v:os--exercem um controlo muito 
para além da paisagem empres~rial. Isto faz com que 
o processo de controlo crescente de cada empresa 
pelos seus gestores seja revertido, pois o peso do 
seu portefólio de acções é anulado pelo dos grandes 
blocos de acções detidos por outras empresas. Uma 
• 
7 Nota do revisor cientifico: no original, ind11strial manor. 
E uma referência ao sistema dominial (agrícola) próprio de 
grande parte da Europa medieval e de Antigo Regime, que 
implicava um enorme controlo do senhor sobre o trabalho, o 
rendimento e os produtores agrícolas. 
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 907 
das principais razões para a expansão do capitalismo 
institucional reside na mudança dos padrões de 
investimento ocorrida nos últimos 30 anos. Em vez 
de investirem directamente num dado negócio atra-
vés da compra de acções, actualmente os indivíduos 
investe~ no mercado monetário, em organizações 
de gestão de bens ou propriedades ou em fundos de 
pensões e seguros controlados por grandes organiza-
ções financeiras, as quais, por sua vez, investem estes 
valores agrupados em grandes empresas. 
As empresas transnacionais 
Com a intensificação da globalização, a maior 
parte das grandes empresas opera actualmente no 
contexto económico internacional. ~ando as 
grandes empresas estabelecem filiais em dois ou 
mais países, são designadas como multinacionais ou 
empresas transnacionais. A designação «transna-
cional » é geralmente preferida de modo a indicar 
que estas empresas operam independentemente das 
fronteiras nacionais. 
As maiores empresas transnacionais são gigan-
tescas; a sua riqueza supera em muito a de vários 
países. Metade das 100 maiores unidades económi-
cas do Mundo são Estados-nação; a outra metade é 
composta por empresas transnacionais. O alcance 
das operações destas empresas é desconcertante. 
As 600 maiores empresas transnacionais acumulam 
mais de um quinto do total da produção industrial e 
agrícola na economia global; cerca de 70 são respon-
sáveis por metade do total global de vendas (Dicken, 
1992). Os lucros das 200 maiores empresas trans-
nacionais subiu dez vezes entre meados dos ano~ 
70 e 90 do século XX, tendo atingindo 9,5 biliões 
de dólares em 2001. Em 2003, estimava-se que o 
conjunto das dez maiores companhias farmacêuti-
cas do Mundo controlava cerca de 53% da quota do 
mercado global. Ao longo dos últimos 20 anos, as 
actividades das empresas transnacionais tornaram-
-se cada vez mais globais: nos anos 50 do século XX 
apenas três das maiores empresas do Mundo tinham 
908 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 
subsidiárias industriais em mais de 20 países; cerca 
de 50 possuem-nas actualmente. Ainda constituem 
uma pequena minoria; a grande maioria das empre-
sas transnacionais tem subsidiárias cm dois ou cinco 
países. 
Em 2000, as empresas norte-americanas domi-
navam a lista das 200 maiores empresas do ~fundo, 
ocupando 82 posições ( 41% do total); as empresas 
japonesas vinham cm segundo lugar com 41 posi-
ções (Andersen c Cavanagh, 2000). Contudo, a 
percentagem de grandes empresas norte-americanas 
na lista das 200 maiores empresas do Mundo dimi-
nuiu significativamente desde os anos 60 do século 
XX- época em que somente cinco empresas japone-
sas ocupavam um lugar nessa lista. Contrariamente 
ao que pensa o senso comum, cerca de três quartos de 
todo o investimento directo estrangeiro é feito entre 
países industrializados. Contudo, o envolvimento 
de empresas transnacionais nos países em desen-
volvimento é expressivo, com o Brasil, o México e 
a Índia a apresentarem os níveis de investimento 
estrangeiro mais elevados. A taxa de crescimento de 
investimento empresarial mais dinâmica tem sido, 
sem dúvida, a registada nos países recentemente 
industrializados da Ásia- como Singapura, Taiwan, 
Hong Kong, Coreia do Sul e Malásia. 
A amplitude que as empresas transnacionais 
alcançaram nas últimas décadas não teria sido possí-
vel sem os avanços registados nos transportes e nas 
comunicações. Actualmente, o transporte aéreo 
permite o movimento de pessoas pelo Mundo a u1:11a 
velocidade que. teria sido inconcebívei há 60 anos. 
O desenvolvimento de grandes embarcações maríti-
mas (navios cargueiros), juntamente com contento-
res que podem ser mudados de uma transportadora 
para outra, tornou possível o transporte sem dificul-
dades de mercadorias volumosas. 
As tecnologias das telecomunicações permitem 
hoje uma comunicação mais ou menos instantânea 
de uma parte do Mundo para outra. Os satélites 
têm sido utilizados nas telecomunicações comer-
ciais desde 1965. Nessa época, o primeiro saté-
lite a ser utilizado conseguia operar 240 conversas 
telefónicas simultaneamente. Os satélites actuais 
permitem realizar ao mesmo tempo, no mínimo, 
12 000 conversas telefónicas. Hoje cm dia as maio-
res empresas transnacionais possuem o seu próprio 
sistema de comunicações baseado no uso de satéli-
tes. A empresa Mitsubishi, por exemplo, possui uma 
rede extensa ao longo da qual são transmitidas c 
recebidas diariamente cinco milhões de palavras na 
sua sede em Tóquio. 
Tipos de empresas transnacionais 
As empresas transnacionais têm vindo a adquirir 
uma importância crescente na economia mundial 
ao longo do século XX. São empresas que possuem 
uma importância fundamental na divisão inter-
nacional do trabalho - a especializáção na produ-
ção de mercadorias para o mercado mundial, a 
qual divide várias regiões em zonas de produção 
industrial ou agrícola, por um lado, ou, por outro, 
em zonas de mão-de-obra muito especializada ou 
pouco especializada (McMichael, 1996). Tal como 
as economias nacionais são cada vez mais concen-
tradas - e dominadas por um· número limitado de 
grandes empresas -, o mesmo sucede com a econo-
mia mundial. No caso do Reino Unido, e de outros 
países que lideram o processo de industrialização, 
as grandes empresas não só dominam o panorama 
nacional como possuem uma presença internacional 
muito significativa. Muitos. secÇQre,c; d;J, .. prPP!.tǪ-º····-· 
mundial (como a agro-indústria) são oligopólios-
a produção é controlada por três ou quatro grandes 
empresas que dominam o mercado. Ao longo das 
últimas duas ou três décadas, os oligopólios interna-
cionais têm-se desenvolvido nas indústrias automo-
bilísticas,electrónica e de microprocessadores, e na ·· 
produção de outras mercadorias comercializadas em 
todo o Mundo. 
H. V. Pcrlmutter (1972) dividiu as empresas 
transnacionais em três tipos. O primeiro consiste 
na empresa transnacional etnocêntrica; neste tipo 
---------••oooooo-oo••-•••ooooooo ••• o ..• ., •• ••·••oo•o""'"""'-"" """""" """"""""" ••·• ••••••••""""'" •••- --·----·---
a política da empresa é delineada c posta em prática 
a partir de uma sede principal no país de origem. 
As empresas e as f.1.bricas que este tipo de empresa 
possui pelo Mundo são, por assim dizer, «exten-
sões culturais» da empresa de origem - as suas 
pdricas estão estandardizadas em todo o mundo. 
Uma segunda categoria é a empresa transnacional 
policêntrica. Neste caso, as empresas subsidiárias 
são geridas pelas empresas locais do respectivo país. 
A sede principal, situada no país ou países de origem, 
estabelece as directrizes gerais segundo as quais as 
empresas locais gerem os seus próprios assuntos. 
Finalmente, existem ainda as empresas tmnsnacio-
nais geocêntricas, que são inteiramente internacio-
nais na sua estrutura de gestão. Os seus sistemas de 
gestão estão integrados numa escala global e os seus 
directores-gerais têm bastante mobilidade, deslo-
cando-se de um país para outro conforme as neces-
sidades. · 
As empresa~ japonesas tendem a ser as mais emo-
cêntricas no conjunto de todas as empresas transna-
cionais, de acordo com a tipologia de Perlmutter. As 
suas operações mundiais são, no geral, estreitamente 
controladas pela empresa-mãe e, em alguns casos, 
envolvem o próprio governo japonês. O Ministério 
de Comércio e Indústria japonês desempenha um 
papel muito mais directo na supervisão da expansão 
estrangeira das empresas baseadas no Japão do que 
os governos do Ocidente em relação às suas. Nas 
últimas duas décadas, o Ministério de Comércio c 
Indústria japonês-elaborou um conjunto de planos 
de desenvolvimento que coordenam a expansão 
de empresas japonesas no estrangeiro. As empre-
sas comerciais gigantes, designadas por sogo shosha, 
constituem um tipo de empresa transnacional espe-
cificamente japonês. Estas empresas são conglome-
rados colossais cuja principal preocupação reside no 
financiamento e no apoio ao comércio, fornecendo 
serviços de informação, de finanças e de organização 
a outras empresas. Cerca de metade das importações 
e exportações japonesas são encaminhadas através 
das dez maiores sogo shosha. Algumas delas, como 
--------------------··--····-. 
--------···--···--·----····-············ .. -
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 909 
a Mitsubishi, também possuem grandes interesses 
próprios na indústria. 
O planeamento à escala global 
A\s grandes empresas tornaram-se as primeiras orga-
nizações com capacidade para efectuar um plane-
amento à escala global. Os anúncios publicitários 
da Pepsi c da Coca-Cola, por exemplo, conseguem 
chegar a milhares de milhõe~ de pessoas em todo 
o Mundo. Um petlueno conjunto de empresas, 
com uma rede global bem consolidada, consegue 
influenciar as actividades comerciais de diversas 
nações. Richard Barnet c John Cavanagh ( 1994) 
defendem que existem na nova economia mundial 
quatro redes de actividade comercial interligada: 
o bazar cultural global, o centro comer'Cial global, 
o local de trabalho global e a rede financeira global. 
O bazar cultural global é o mais recente de todos, mas 
já possui uma escala superior aos restantes. Imagens 
e sonhos são difundidos globalmente sob a forma de 
filmes, programas de televisão, música, vídeos, jogos, 
brinquedos e t-shirts. Por todo o mundo, mesmo nos 
países em desenvolvimento mais pobres, as pessoas 
usam os mesmos aparelhos electrónicos para ver os 
mesmos espectáculos ou ouvir as mesmas músicas. 
O centro comercial global é um «supermercado 
planetário de coisas para comer, beber, vestir e 
desfrutar com um grau de disseminação espantoso». 
É mais exclusivo do que o bazar cultural global 
porque os pobres não têm os recursos necessários 
para poderem participar nele - os pobres apenas 
têm o estatmo de «consumidores de montr:ts» 8• 
Do conjunto dos 5500 milhões de pessoas que 
perfazem a população mundial, 3500 milhões não 
têm dinheiro suficiente, ou crédito, para comprar 
quaisquer bens de consumo. 
A terceira rede global, o local de trabalho global, 
consiste na divisão do trabalho global crescente e 
complexa que nos afecta a todos. Nela se incluem 
s No original: windotv shoppers. 
·-·---·----·-------------
-··s 
91 O ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 
Anúncios publicitários da Pepsi e da Coca-Cola em Tripoli, no Líbano. 
uma enorme variedade de escritórios, fábricas, congéneres dos meados do mesmo século. Muitos 
restaurantes e milhares de outros locais, onde os nomes não mudaram - General Motors, Ford ou 
produtos são produzidos e consumidos, ou onde a IBM, por exemplo -, mas juntaram-se-lhes os de 
informação é trocada. Esta rede está estreitamente outras empresas gigantescas, na sua maioria desco-
relacionada com a rede financeira global, a qual é nhecidas nos anos 50 - como é o caso da Microsoft 
sua fornecedora e financiadora. A rede financeira e da Intel. Todas estas firmas detêm bastante poder e 
global consiste em biliões ~=---~~t:. ~~--i~~~-r~~~~~ .. os-seus executivos de topo co.ntiriü"iim.ãatteeir~g~~oliiecês···---.-·-:; 
armazenados -·em:···comJfüfael.ores e exibidos nos nos edifícios portentosos que dominam os centros 
monitores dos mesmos. Esta rede implica operações d . 'd d N t b ênc
1
·as da e mmtas c1 a es. o entan o, so as apar 
intermináveis de câmbio, transacções de cartões de lh , c,í • c .:es 
seme ança a superr1 c1e, ocorreram transrormaço 
crédito, planos de seguros, além da compra e venda fi d A . d c - 'd 
d 
_ fi . pro un as. ongem . estas transrormaçoes res1 e 
e acçoes nance1ras. d 1 
num processo que temos reencontra o ao ongo 
A transformação das grandes empresas? 
Existem diferenças significativas entre as grandes 
empresas da primeira década do século XX e as suas 
d~s~e livro: a globalização. Durante este período, 
as grandes empresas foram-se envolvendo, cada vez 
mais, numa competição cuja escala também ia cres-
cendo - daí resultot.t a transformação da sua esrru-
tum e da sua própria índole. Um antigo secretário de 
Estado do Trabalho norte-americano, Robert Reich, 
escreveu a este propósito (1991): 
Em última análise, tudo está em transforma-
ção. As empresas-mãe norte-americanas já não 
planeiam nem implementam a produção de um 
grande volume de mercadorias e de serviços; já 
não investem num conjunto de fábricas, labora-
tórios, máquinas, matérias-primas e em quaisquer 
outros bens tangíveis; já não empregam exércitos 
de operários e de encarregados ... Na verdade, a 
empresa-mãe já nem sequer é norte-americana. 
Trata-se, cada vez mais, de uma fachada, atrás da 
qual se agrupa um conjunto de grupos e subgru-
pos descentralizados que contratam, de modo 
contínuo, em rodo o Mundo, outros grupos igual-
mente difusos. 
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 911 
cações e aos computadores. Os Estados-nação conti-
nuam a tentar influenciar o fluxo de informação, de 
recursos e de dinheiro que transpõem as suas fron-
teiras. No entanto, as tecnologias de comunicação 
actuais tornam cada vez mais difícil, se não impos-
sível,- tal influência e ou controlo. O conhecimento 
e as finanças podem ser transferidos para qualquer 
ponto do globo, à velocidade da luz e sob a forma de 
sinais sonoros luminosos e electrónicos. 
De igual modo, os produtos das empresas trans-
nadonais têm um cariz internacional. De que modo 
nos podemos certificar de que algo foi «fabricado 
em Portugal» ou não? Já não existem respostas 
inequívocas. No Capítulo 4, «História da huma-
nidade e globalização», demos como exemplo a 
Barbie, a boneca « 100% norte-americana», em cuja 
embalagem se lê «fabricado na China». Tivemos 
então a oportunidade de verificar que a origem do 
seu corpoe do seu guarda-roupa percorria o globo, 
do Médio Oriente à Ásia, antes de ela ser eventu-
almente adquirida nos EUA, ou, uma vez mais, ser 
embalada e enviada para venda noutro lugar. 
A empresa de grandes dimensões é cada vez 
menos uma «grande empresa» e cada vez mais uma 
«empresa em rede» - uma organização central 
que entretece firmas mais pequenas. A IBM, por 
exemplo, que costuma ser uma das empresas norte-
-americanas mais orgulhosamente auto-suficiente, 
juntou-se, entre os anos 80 e o início dos anos 90, a 
As mulheres e as empresas 
dezenas de empresas sediadas nos EUA e a mais de 
80 empresas sediadas noutros países;·-a -fim-de parti- Até há cerca de três décadas, os estudos organizacio-
lharem o seu planeamento estratégico e a resolução nais não devotavam grande importância à questão do 
de problemas de produção. género. A teoria burocrática de Weber e muitas das 
Algumas destas empresas continuam a ser respostas a este autor que surgiram nos anos subse-
extremamente burocráticas e estão centradas, com quentes e que exerceram alguma influência foram 
_, _____ .Jr:~-q.~tênda,.no-país.-Qnde for~m fundadas. Todavia, escritas por homens e pressupunham um modelo je 
a maior parte destas empresas não está sediada clara- organização que colocava os homens numa posição 
mente em nenhum lugar. As antigas transnacionais central. Contudo, o desenvolvimento dos estudos 
costumavam operar sobretudo a partir das suas sedes feministas nos anos 70 conduziu a análises das rela-
nacionais, dirigindo daí as suas filiais e a produção . .,._. ções de género em todas as institufções principais-da 
das suas fábricas localizadas no estrangeiro. Hoje sociedade, incluindo as organizações e as burocra-
erh dia, com a transformação do espaço e do tempo das. As sociólogas feministas não só sublinharam a 
-discutida no Capítulo 7, «Relações sociais e vida desigualdade entre os papéis de género no contexto 
quotidiana» -, os grupos baseados em diferen- das organizações, como exploraram as formas como 
tes partes do Mundo são capazes de trabalhar com as próprias organizações modernas se desenvolve-
outros grupos distantes, recorrendo às telecomuni- ram de um modo específico moldado pelo género. 
912 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 
As feministas defendem que o surgimento da 
organização moderna e da carreira burocrática se 
articula com uma determinada configuração de 
género. E identificam duas formas principais de 
integração do género na própria estrutura das orga-
nizações modernas. Primeira: as burocracias carac-
terizam-se por urna segregação das ocupações entre 
os géneros. À medida que as mulheres começaram a 
entrar no mercado de trabalho em maior número, 
tenderam a ser segregadas para categorias ocupacio-
nais que eram mal remuneradas e envolviam tarefas 
rotineiras. Estas posições estavam subordinadas às 
ocupações desempenhadas por homens e não forne-
ciam oportunidades de promoção. Ao contrário dos 
homens, as mulheres, usadas corno urna fonte de 
trabalho fiável e barata, não usufruíam das mesmas 
oportunidades de construção de carreira. 
Segunda: a: ideia de urna carreira burocrática era 
concebida, de facto, como urna carreira masculina 
em que as mulheres desempenhavam um papel de 
apoio crucial. As mulheres desempenhavam tarefas 
rotineiras no local de trabalho - como escriturárias, 
secretárias e responsáveis por escritórios - o que 
permitia aos homens avançarem nas suas carreiras. 
Os homens podiam concentrar-se na obtenção de 
promoções ou em gerir boas carteiras de clientes, 
porque o pessoal feminino de apoio tratava de muito 
do trabalho a fazer. Na esfera doméstica, as mulhe-
res também apoiavam a carreira burocrática dos 
homens cuidando da casa, dos filhos e do bem-estar 
quotidiano dos mesmos. A mulher «provia» às 
necessidàdes ·do homem-burocrata; permitindo ·que 
este trabalhasse longas horas, viajasse e se centrasse 
unicamente no seu trabalho, sem se preocupar com 
questões domésticas ou pessoais. 
No entender das primeiras escritoras feministas, 
em virtude destas duas tendências, as organizações 
modernas tinham~se -desenvólvido como coúi:ádas 
dominadas pelos homens nas quais as mulheres eram 
excluídas do poder, viam serem-lhes negadas opor-
tunidades de progressão nas suas carreiras e eram 
vítimas de assédio sexual e de discriminação devido 
«Ü seu relatório é muito bom, Bárbara. Mas, como os 
sexos falam línguas diferentes, eu provavelmente não 
entendi uma só palavra do que li.» 
ao seu género. Embora a maioria das primeiras análi-
ses feministas focasse um conjunto de preocupações 
comuns - pagamento desigual, descriminação e 
manutenção do poder por parte dos homens - não 
foi encontrado um consenso em relação à melhor .. 
abordagem a seguir na luta pela igualdade entre os 
géneros. Dois dos principais. trabalhos feministas 
sobre as mulheres e as organizações exemplificam a 
divisão entre as perspectivas radical e liberal. 
A obra de Rosabeth Moss Kanter Men and 
rVomen ofthe Corporation (1977) constitui uma das 
primeiras e mais importantes análises liberais dos 
contextos burocráticos. Kanter investigou a posição 
das mulheres nas organizações e{) modo.como-v-L·•Uu---~ 
excluídas do acesso ao poder. Esta aurora deu parti- ·· · 
cular atenção à «homossociabilidade masculina» 
- o modo bem sucedido como os homens mantêm 
o poder no interior de um círculo fechado e permi-
tem o acesso apenas àqueles que fazem parte do 
mesmo endogrupo. As mulheres e aos membros de··-
minorias étnicas eram efectivamente negadas opor-
tunidades de avanço na carreira, sendo ainda, umas 
e outros, afastados das redes sociais e das relações 
interpessoais cruciais em matéria de promoções. 
Embora Kanter criticasse estas desigualdades entre 
os géneros nas organizações modernas, não era total-
mente pessimista acerca do futuro. Na sua perspec-
tiva, o problema residia no poder e não no género. 
As mulheres estavam numa situação desprivilegiada 
não por serem mulheres, mas porque não possuíam 
poder suficiente nas organizações. De acordo com 
esta investigadora, quando um maior número de 
mulheres assumisse papéis de poder, as desigualda-
des seriam eliminadas. 
A abordagem feminista radical apresentada 
por Kathy Ferguson na sua obra The Feminist Case 
Against Bureaucracy (1984) constitui uma alter-
nativa à proposta de R. M. Kanter. Ferguson não 
considerava a desigualdade entre os géneros nas 
organizações algo que pudesse ser resolvido apenas 
com o acesso às posições de poder por parte de 
mais mulheres. Na sua perspectiva, as organizações 
modernas estavam fundamentalmente contamina-
das por valores e padrões de dominação masculinos. 
Argumentava ainda que no seio de tais estruturas as 
mulheres seriam sempre relegadas para papéis subor-
dinados. A única solução verdadeira era as mulhe-
res construírem as suas próprias organizações com 
base em princípios muito diferentes dos princípios 
moldados por homens e destinados.a.eles .. As .mulhe- . 
res - pross~guia esta investigadora- têm capacidade 
para organizar de uma forma mais democrática, 
participativa e cooperativa que os homens, os quais 
são propensos a adoptar tácticas autoritárias, proce-
- di.mentoslnfle.xí.'\!ci.s..e...um estilo de gestão insensível. 
~e impacto têm as pro.postas feministas na 
área de estudo, das organizações? Um impacto 
bastante limit.ado - afigura-se ser a resposta. Apesar 
de existir um conjunto extenso de pesquisas em 
torno do género e das ~rganizações, o Handbook of 
Organizational Cttlture and Climate, por exemplo, 
uma obra muito abrangente publicada em 2000 
(Ashkanasy et al.), só oferece um capítulo sobre 
essa temática, reduzindo assim o «género» a uma 
questão muito específica, ao invés de reéonhecer 
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 913 
a sua centralidade no contexto das organizações 
como uma questão crucial para todo o campo dos 
estudos organizacionais. Tal facto sugere que as 
teorias feministas ainda têm de ser integradas nesta 
subdisciplina.Contudo, o interesse renovado pelo 
marxismo e pela teoria crítica revelado pelos estu-
dos críticos da gestão (criticai management studies) 
pode representar novas oportunidades para as inves-
tigadora;; feministas transformarem futuramente o 
estado ahual dos debates em torno do conflito, do 
poder e do género nas organizações (Aalto e Mills, 
2002). 
Para além da burocracia 
Sociólogos como George Ritzer, cuja tese sobre a 
mcdonaldização da sociedade analisámos no início 
deste capítulo, defendem que a burocracia e a racio-
nalização continuam a ser características centrais 
da maior parte das organizações, particularmente 
no «mundo desenvolvido», onde as estruturas 
burocráticas modernas existem há mais tempo. 
No entanto, para outros, apesar de o modelo de 
burocracia definido por Weber - espelhado no de 
Foucault - ter sido no passado uma boa ferramenta 
teórica, tal ferramenta começa a apresentar sinaj 
de esgotamento e pode ter menos capacidade para 
explicar as mudanças em todo o tipo de organiza-
ções. Muitas organizações estão a reformular-se e 
a reestruturar-se de molde a tornarem-se menos 
hierarquizadas - em vez de o serem mais - e o modo 
como se organizam está a tornar-se cada vez mais 
informal e flexível. 
Nos anos 60, Burns e Stalker concluíram que 
as estruturas burocráticas tal como as conhecía-
------·-- .. " ........ . . ................... . ..... ··-·· . ........ ...... ........ . ·--""" .. .. 
914 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 
mos podem dificultar a inovação e a criatividade 
nos sectores tecnológicos de ponta - e poucos 
poderão contestar a importância destas conclu-
sões no contexto da economia electrónica actual. 
Numerosas organizações que possuíam estruturas de 
comando verticais e rígidas estão a torná-las «hori-
zontais», a transformá-las em modelos colaborati-
vos, de modo a serem mais flexíveis e a responderem 
mais prontamente às flutuações do mercado. Nesta 
secção, iremos examinar algumas das principais 
forças sociais que estão na origem dessas transforma-
ções - como a globalização e o desenvolvimento das 
tecnologias de informação -e reflectir sobre o modo 
como as organizações da modernidade tardia estão a 
reinventar-se a si próprias face a circunstâncias em 
mudança. 
·+ 
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 915 
.~:,,' --~ 4-
111111" -------------------- --------···------··-------··------·-···- -
------------·------·---·-··---· I 
·~~ 916 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 
Pensar de um modo critico 
De que forma a experiência empresarial da 
cadeia McDonald's nos permite reflectir 
acerca da influência da globalização nas gran-
des empresas? A imagem em mudança da 
McDonald's invalida a tese de Ritzer sobre 
a «mcdonaldização»? Em que medida o 
conceito de «globalização» proposto por 
Roland Robertson (ver o Capítulo 4) será 
o melhor instrumento para compreender a 
realidade actual dos negócios globais? 
Mudança organizacional -o modelo 
japonês 
Muitas das mudanças que podemos agora observar 
em organizações em todo o Mundo foram intro-
duzidas primeiramente em companhias japonesas 
-como a Nissan e a Panasonic- há algumas déca-
das. Embora a economia japonesa tenha sofrido uma 
recessão nos anos 90, foi fenomenalmente bem suce-
dida no pós-guerra. Este sucesso económico foi atri-
buído frequentemente a características específicas 
das grandes empresas japonesas - que diferem subs-
lhadores subalternos são consultados sobre as 
políticas que estão a ser ponderadas pela direc-
ção e os próprios executivos de topo reúnem-se 
regularmente com estes. 
2. JV!enos especialização - Nas organizações japo-
nesas os funcionários especializam-se muito 
menos do que os seus pares no Ocidente. 
Os jovens trabalhadores que entram para uma 
empresa para uma posição de gestor estagiário 
passarão o seu primeiro ano a aprender como 
operam os vários departamentos da empresa. 
Irão depois rodar por várias posições, quer em 
filiais locais, qt,er n~ sede nacional, de modo a 
adquirirem experiência em muitos sectores de 
actividade da companhia. ~ando os funcioná-
rios atingem o topo da carreira, alguns 30 anos 
após terem começado como estagiários, domi-
nam todas as tarefas importantes. 
3. Segurança laboral - As grandes companhias 
japonesas comprometem-se a proporcionar 
emprego vitalício a quem contratam; garante-
-se um trabalho ao funcionário. O salário e a 
responsabilidade dependem ma~s da antigui-
dade - os anos que o trabalhador esteve na 
empresa - do que de uma luta competitiva por 
uma promoção. 
tancialmente da maioria das organizações empresa- 4. Produção em grupo - Em todos os níveis da 
riais do Ocidente. Conforme teremos oportunidade empresa, as pessoas estão envolvidas em peque-
de verificar, muitas características organizacionais nas «equipas» cooperativas ou grupos de 
assedadas .. às· empresas-japenesas .for:am -adaptadas- e--.. . . . . .. .trabalho. Os g~;up.os, ~ .. J..~A..'-'~-.v~Lulli;;U..ILU.Y..'> •.. k! •. ,.~,_,, __________ _ 
modificadás pelas suas congéneres de outros países duais, são avaliados em termos de desempenho. 
nos últimos anos. Ao contrário das suas congéneres no Ocidente, 
As empresas japonesas divergem de vários modos os organigramas das empresas . · japortesa.s 
das características que Weber associou à burocracia: - mapas do sistema de autoridade ~ mostram 
1. Tomada de decisão de baixo para cima_ A auto- somente grupos e não posições inllividuais. 
ridade ~o s~ú; d~s -g·~and~s ~Ó~panhiàs J~p~ne- .. S. Fusão entre o trabalho e a ;ida privada - N~ .. -
sas não está estruturada como uma pirâmide, descrição weberiana da burocracia há uma divi-
conforme a descrição weberiana, na qual os são clara entre o trabalho do indivíduo dentro 
membros de cada nível prestam contas apenas da organização e as suas actividades fora desse 
aos que se encontram acima. Ao invés, os traba- espaço. Isto acontece, de facto, na maioria das 
empresas do Ocidente, nas quais as relações 
entre as firmas e os seus funcionários são larga-
mente de teor económico. As empresas japo-
nesas, pelo contrário, respondem em muitos 
aspectos às necessidades dos seus funcionários, 
esperando em troca um grau elevado de leal-
dade com a firma. Os trabalhadores recebem 
da mesma forma muitos benefícios materiais 
para além dos seus salários. A companhia de 
electricidade Hitachi, por exemplo, estudada 
por Ronald Dor e ( 1973 ), fornecia alojamento a 
todos os funcionários solteiros e a quase metade 
dos seus trabalhadores casados. A empresa 
proporcionava ainda empréstimos destinados 
à educação dos filhos e a custear as despesas de 
casamentos e funerais. 
Estudos efectuados sobre filiais de empresas 
japonesas localizadas na Grã-Bretanha e nos Estados 
Unidos da América indicam que o processo de 
tomada de decisão «de baixo para cima» funciona 
mesmo fora do Japão. Os trabalhadores parecem 
responder positivamente ao maior nível de envolvi-
mento que estas fábricas permitem (White e Trevor, 
1983). Por conseguinte, parece razoável concluir 
que o modelo japonês contribui com ensinamentos 
relevantes para a avaliação 49 <;:.9 • .QÇ.~*º .4_e_R.t.!I.Q.Çf~S~a 
desenvolvido por Max Weber. As organizações que 
se assemelham ao modelo ideal de Weber são prova-
velmente muito menos eficazes do que parecem em 
teoria, pois não permitem que os funcionários de 
·-········· ~~~.9~s~!)..Y.9J.Y.am un:u~.nt_id9 de autonomia e de 
envolvimento nas suas funções. 
Até há pouco tempo, muitos analistas britânicos 
e norte-americanos encaravam as empresas japone-
sas como um modelo a seguir nas empresas anglo-
-americanas (Hutton, 1995). O abrandamento J.a 
economia nipónica durante os anos 90 conduziu, no 
entanto, ao questionamento deste modelo por parte 
de muitos especialistas. O compromisso e o sentido 
de dever que muitas companhias japonesas tinham 
para com os seus trabalhadores poderão ter encara-
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 917 
jado as atitudes de lealdade, mas foram igualmente 
criticados pela sua inflexibilidade e porconstituírem 
um obstáculo à concorrência. Como verificámos 
anteriormente, durante a maior parte do pós-guerra, 
os funcionários mais importantes das empresas japo-
nesas podiam contar, até ao fim das suas carreiras, 
com um posto de trabalho assegurado, os despe-
dimentos e os cortes por redundância eram raros, 
e':'-finalmente, as ambições em torno da promoção 
eram pouco encorajadas. Os problemas económicos 
que começaram a afectar o Japão a partir do início 
dos anos 90 e que só agora parecem dissipar-se 
levam a que o futuro das empresas nipónicas esteja 
a ser objecto de um confronto entre os tradicionalis-
tas - que procuram preservar o velho sistema - e os 
capitalistas radicais, que apoiam reformas orientadas 
para um modelo mais competitivo e individualista 
(Freedman, 2001). 
A transformação das práticas de gestão 
A maioria das características do «modelo japo-
nês» acima descrito resume-se a questões de gestão. 
Embora seja impossível ignorar certas práticas de 
produção específicas desenvolvidas pelas empresas 
japonesas, uma grande parte da abordagem nipó-
nica está centrada nas relações entre a direcção e 
os trabalhadores e assegura que os funcionários de 
todos os níveis sintam uma ligação pessoal à compa-
nhia. Tanto a ênfase no trabalho de equipa como as 
abordagens assentes na construção do consenso e 
na participação alargada dos trabalhadores contras-
tavam fortemente com as formas tradicionais ~f 
gestão ocidentais, estas últimas mais hierárquicas e 
autoritárias. 
Nos anos 80, muitas organizações ocidentais 
começaram a introduzir novas técnicas de gestão 
de forma a fomentar a produtividade e a compe-
titividade. Dois ramos populares da teoria da 
gestão - a gestão de recursos humanos e a abor-
dagem da cultura empresarial - mostraram que o 
modelo japonês não tinha passado despercebido no 
. .., 918 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 
Ocidente. O primeiro deles, a gestão de recursos 
humanos (GRH), é um estilo de gestão que consi-
dera a força de trabalho de uma empresa vital para 
a sua competitividade económica: se os trabalhado-
res não estiverem completamente dedicados à sua 
empresa e aos seus produtos, esta jamais será líder 
no seu campo. De forma a gerar o entusiasmo e o 
compromisso dos funcionários, a cultura organiza-
cional deve ser reestruturada de molde a que estes 
sintam que fazem um investimento tanto no local de 
trabalho como no processo de trabalho. De acordo 
com a GRH, as questões em torno dos recursos 
humanos não devem ser do domínio exclusivo dos 
«funcionári~s do departamento de pess9al», mas 
antes uma das prioridades principais de todos os 
membros da direcção. 
A GRH assenta no pressuposto de que não exis-
tem conflitos sérios no seio das empresas entre os 
trabalhadores e os seus empregadores, não sendo, 
portanto, necessária a representação dos primeiros 
pelos sindicatos. Em contrapartida, a GRH apre-
senta então as empresas como conjuntos integrados 
cujos conflitos se cingem à rivalidade com as empre-
sas concorrentes. Ao invés de uma gestão que inclua 
a negociação mediada pelos sindicatos, as empresas 
empregam técnicas de gestão de recursos humanos 
com a intenção de individualizar a sua mão-de-obra, 
nomeadamente através de contratos individuais de 
trabalho e da indexação dos salários à produtividade. 
Segundo estudos recentes, ainda que os trabalha-
dores possam aceitar os ditames da GRH, muitos 
revelam ··em ·privado··a .. ·sua· .. opinião··cínica ··acerca 
das assunções de unidade entre as empresas e o seu 
pessoal (Thompson e Findley, 1999). 
A segunda tendência de gestão - a criação de uma 
cultura empresarial ou de empresa própria - estA 
estreitamente relacionada com a GRH. A direcção 
de uma empresa, élé molde· à"prômover a lealdade e o 
orgulho no seu trabalho por parte dos funcionários, 
trabalha com estes na perspectiva de construir uma 
cultura organizacional que envolva rituais, even-
tos e tradições próprias. Estas actividades culturais 
Pensar de um modo crítico 
Reflicta acerca de empresas onde tenha traba-
lhado ou locais de trabalho que conheça. 
~e peso tinham as tecnologias da informa-
ção nesses locais? E como eram utilizadas? 
O controlo/vigilância do pessoal da empresa 
por parte da gestão constituía um problema 
para os seus trabalhadores? Considera que as 
tecnologias da informação constituem uma 
ameaça real aos trabalhadores ou considera 
que os efeitos destas tecnologias na vida labo-
ral são essencialmente benignos? ~e medi-
das devem ser tomadas para contrariar estas 
tendências se for necessário? 
são planeadas de modo a envolver e agregar todos 
os membros da empresa - dos gestores seniores ao 
funcionário mais recente - para que se conheçam 
mutuamente e se desenvolva a solidariedade no· 
grupo. Os piqueniques de empresa, as «sextas-feiras 
informais» (os dias em que os funcionários podem 
vestir-se de um modo mais informal) e os projec-
tos comunitários patrocinados pelas empresas são 
exemplos de técnicas de construção de uma cultura 
empresarial. 
Nos últimos anos, um conjunto de companhias 
ocidentais foi fundado de acordo com os princípios 
. 4e gestãg adm~ de.s~ri~?~: ~m ~~.~-~e se construírem 
segundo o modelo burocrático tradicional, empre-
sas como a norte-americana Saturn9 organizaram-
-se em linha com estas novas orientações de gestão. 
Na Saturn, por exemplo, os funcionários de tod~s 
os níveis· gozam ·da oportunidade de ter pequenas 
experiências em posições de outras áreas, de forma 
9 Nota do revisor científico: Esta marca fundada pela General 
Motors, destinada à produção de veículos baratos, está em 
vias de extinção, na sequência das dificuldades sentidas pela 
empresa-mãe, agudizadas pela crise de 2008 . 
..... _. -·····-·--- ···-···-------·-·-·------·-·------------
a ganharem um sentido mais apurado das operações 
da empresa no seu todo. Os trabalhadores da produ-
ção fabril passam tempo com a equipa de marketing, 
partilhando conhecimentos sobre o modo como 
os veículos são feitos. O pessoal das vendas estagia 
no departamento de manutenção e revisão para se 
tornar mais consciente dos problemas comuns da 
manutenção que podem preocupar possíveis clien-
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 919 
tes. Tanto os membros do sector das vendas como 
os da produção são integrados nas equipas de plane-
amento de produtos de forma a discutir proble-
mas de que a direcção podia não estar consciente 
nos modelos anteriores. Uma cultura empresarial 
centrada num serviço de apoio aos clientes simpá-
tico e competente une os funcionários da empresa e 
aumenta o sentido de orgulho da mesma. 
\. 
., 920 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 
o estudo das práticas de gestão . perspectiva,agestãoéumaactividadeneutralevadaa 
cabo na prossecução dos interesses das organizações 
Actualmente a pesquisa académica em torno da e a compreensão das práticas de gestão é uma tarefa ... 
ge:~_tão, -~ .. d.?~. ~~g9.s.!2.~i.P.I2.4 .. J:!~ig!J._!. n.~ .. §.!J._a_ mª!Q!:i-ª:.__ .... de--senso Gomum ·que. não ·e::dge ·quaisquer--aba rda--
nas escolas multidisciplinares de gestão e de negó- gens teóricas particulares (Knights e Willmott 2007, 
cios. As organizações tendem a ser analisadas neste PP· 7-8). O recurso ao «senso comum» (analisado 
contexto académico enquanto «sistemas» com no Capítulo 2), tende a basear-se ém «explica-
uma série de partes integrantes, como departamen- ções» excessivamente generalistas que frequente-
tos e grupos, No entanto, as abordagens teóricas são mente se revelam deficientes quando confrontadas 
encaradas com alguma-suspeição, pois as práticas de com dados produzidos pór ·pesqUisas empíriCas·: -· 
gestão são concebidas enquanto respostas mais ou É por esta razão que nós, enquanto sociólogos, 
menos racionais às transformações registadas nos necessitamos de teorias que relacionem as organiza-
contextos económicos, políticos e sociais onde as ções e as práticas de gestão com a sociedade (no seu 
organizações estão integradas. De acordo com esta todo) da qual fazem parte.·--- _____________ ,...... 
Têm surgido, desde os anos 80, novas aborda-
gens ao estudo da gestão que revelam duas perspec-
tivas teóricas oriundas das abordagens teoréticas 
desenvolvidas no seio das ciências sociais e da teoria 
social. É por esta razão que os estudos críticos da 
gestáo(ECG) e a Teoria do Actor-Rede (TAR) têm 
provavelmente o maior interesse para os sociólogos 
das organizações. 
Estudos críticos de gestão 
Os estudos críticos de gestão, tal como a designação 
sugere, adoptam uma abordagem crítica aos estudos 
de gestão correntes (Alvesson e Willmott, 2003), 
que adquiriu importância em meados dos anos 90. 
Convencionalmente, os estudos de gestão correntes 
partem do pressuposto de que a gestão das organiza-
ções é positiva e necessária e de que o estudo cientí-
fico das organizações d~verá interessar, em primeiro 
lugar, aos gestores, que aproveitarão os seus resul-
tados para gerir de um modo mais eficaz e provei-
toso. Em suma, a gestão é tida como uma actividade 
relativamente neutra que favorece os trabalhadores, 
os consumidores e a sociedade no seu todo, na qual 
os gestores desempenham uma função socialmente 
útil. Isto traduz-se, na prática, na tra~.~f()rfJ:l~Ǫ-9. d,os 
estudos de gestão num espaço onde são formadas 
pessoas que procuram desenvolver uma carreira em 
gestão das organizações. 
Os estudos críticos da gestão questionam o facto 
---··· _4.~ -~- g~§_t_~~yer .!.lll.!-ª-~.<:.tiyida9._e .reillmente neutra e 
adoptam uma abordagem maís crítica em relação a 
esta temática a partir das ideias propostas por Marx, 
particularmente pela teoria crítica neomarxista 
desenvolvida pela Escola de Frankfurt (ver Capítulo 
3 para mais detalhes sobre a Escola de Frankfurt). 
Além disso, os estudos críticos da gestão também 
empregam as análises de Foucault, bem como 
pontos de vista coligidos pela teoria feminista e pelo 
pós-modernismo na sua pesquisa acerca da gestão e 
das organizações. 
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 921 
Chris Grey e Hugh Willmott (2005) argumen-
tam que os estudos críticos da gestão colocam em 
causa as suposições arraigadas dos estudos de gestão 
em torno da índole «natural», ou «normal», das 
hierarquias das organizações, e a noção segundo a 
qual a avaliação das práticas de gestão deve pautar-se 
pelos objectivos internos das próprias organizações. 
A&invés, estes estudos estimulam uma reflexão mais 
alargada sobre o impacto social das estratégias de 
gestão e o modo como os estudantes de gestão são 
formados no seio dos próprios estudos de gestão. 
Destà forma, os estudos críticos da gestão alertam 
para a dimensão ecológica das organizações - corno 
é que a sua arquitectura afecta e influencia a expe-
riência dos trabalhadores? ~al é o impacto das 
organizações no meio ambiente? Ao trazerem estas 
duas questões para o foro dos estudos de gestão, os 
estudos críticos da gestão promovem entre os estu-
dantes de Gestão uma reflexão constante acerca dos 
seus próprios pressupostos e práticas. Mas é precisa-
mente aí que reside o seu principal obstáculo: como 
transformar os seus argumentos sociais e teóricos 
em medidas práticas que transformem a realidade 
dos negócios e das organizações no contexto das 
economias capitalistas? No fim de contas, os negó-
cios existentes na actualidade incorporam exacta-
mente as pressuposições que os estudos críticos da 
gestão criticam, e empregam estudantes oriundos 
das escolas de Gestão que muitas vezes apoiam. Será 
que eles são receptivos a uma nova geração de gesto-
res formados no marxismo e na teoria crítica e estão 
preparados para custear a sua formação? Caso não 
estejam, significará que os estudos críticos da gestão 
se restringirão àqueles que trabalham nas margens 
do estudo da gestão. 
A teoria do actor-rede 
A teoria do actor-rede (TAR) é uma abordagem 
teórica do estudo das relações entre humanos e não 
humanos oriunda das pesquisas sociológicas acerca 
da ciência natural c da pesquisa científica, que tem 
922 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 
Até que ponto será útil a insistência da teoria do actor-rede em considerar que todos os elementos de uma determinada situação -
como a que ilustramos aqui - podem ser concebidos como actores? 
sido popularizada pelo académico francês Bruno gestão de cultura ao comportamento das vieiras, as 
Latour (1993, 2005). A teoria do actor-rede é digna quais eram, neste sentido, actores independentes. 
de nota - e objecto de controvérsia - pela ~ua insis- Por conseguinte, para compreender todo o processo 
tência na agência ou no envolvimento activo das de cultura de vieiras era necessário perceber as políti-
<<coisas» não-humanas. Por exemplo, num estudo case estratégias de gestão dos aquacult~~~~-~ . .?_!!!.~49--······--···--t 
importante e pioneiro sob_r! .. ~.in9,í.t.s.tria .. de. pesca ... como as -vieirane· cohipor:iàvãm nÓ. ~eu ambiente. 
fràriêesa; M1dierê-;Ji~~- .( 1986) defendeu que as Resumindo, era necessário compreender todos os 
vieiras (um molusco bivalve) eram também, efec- nexos da situação « actoNede >>. 
tivamente, agentes activos do processo de cultura10 No estudo das organizações, à semelhança do 
pelos aquacultores franceses, em vez de serem meras que acabámos de dizer e ao contrário de outras abor-
destinatárias passivas da acção humana. Os aquacul- dagens, a teoria do actor-rede procura fazer regres-
tores tinham assim.de adaptar as suas estratégias de sái ao palco da realidade as «massas ausentes» 
10 Nota do tradutor: «Castanholas» é o nome vulgar 
da espécie marinha Glycymeris glycymeris; alguns itálicos do 
tradutor. 
- máquinas, documentos, objectos, etc. -, de molde 
a que as organizações sejam compreendidas de um 
modo coerente e abrangente. Pense numa empresa, 
-----------------·------·-·--·-·--------····-··----·--·-----···-----
por exemplo: o que é ela exactamente? ~e elemen-
tos a compõem? ATAR proporá entendê-Ia como 
algo mais do que a soma das suas instalações e do 
seu pessoal. Na verdade, uma empresa é constituída 
por edifícios, pessoas, textos, maquinaria e muito 
mais, estando todos estes elementos interligados 
numa rede de actores - daí a teoria do actor-rede. 
Esta teoria tem sido utilizada para estudar múlti-
plos aspectos das organizações: do estudo das orga-
nizações em geral (Czarniawska e Hernes, 2005) à 
consultoria (Legge, 2002) e ao estudo da implemen-
tação empresarial das tecnologias da informação 
(Doorewaard e Van Bijsterveld, 2001). 
O que torna aTAR controversa é a sua insistência 
no facto de todos os elementos acima enumerados 
- pessoas, documentos, máquinas, etc. - serem 
«actores» e nenhum deles ter a primazia sobre 
os outros. Esta teoria advoga, com frequência, o 
conceito de «actantes» a fim de distinguir a sua 
posição da de Weber, que postulá que só os seres 
humanos autoconscientes são capazes de agir social-
mente. De um modo mais convencional, a sociolo-
gia concebe as intenções humanas como algo signifi-
cativamente diferente dos objectos estudados pelas 
ciências naturais. As acções humanas são intencio-
nais, ou «mediadas pelo pe_ns~ment_<>.~.1 ... ~P:ÇJtJ.<J.nto a 
maior parte dos animais age sob instinto e os objec-
tos inanimados- como as máquinas-, seguramente, 
não poderão «agir» do mesmo modo que os seres 
humanos. ATAR rejeita esta linha de divisão básica, 
vendo todos os actores de uma rede como essencial-
. meme··:pãtce1fõ51gllãís' ._ uma posição conhecida 
como «igualdade ontológica». São os resultados de 
uma determinada pesquisa que devem estabelecer 
que actor é mais poderoso ou influente numa dada 
rede. Neste sentido, ninguém poderá partir do pres-
suposto de que o domínio caberá sempre aos acto-
res humanos ou de que são eles quem exerce poder 
sobre os outros. Daí o erro de Durkheim, de acordo 
com esta perspectiva: os factos sociais não podem ser 
explicados por referência exclusiva a outros fenóme-
nos sociais, mas os fenómenos técnicos que também 
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 923 
participam da construçãode redes de actores devem 
ser tidos em conta. 
A TAR poderá parecer estranha aos estudantes 
de sociologia, habituados a lidar só com pessoas. 
São os seres humanos, sem sombra de dúvida, qucn1 
desenha, constrói e usa as máquinas; assim sendo, 
como é qae-estas exercem poder sobre as pessoas? 
As linhas de produção, ou correias de transmissão, 
introduzidas no fabrico de automóveis pela Ford, 
nos alvores do século .XX, constituem um bom 
exemplo desse exercício (ver o Capítulo 20 para 
uma análise dos métodos de produção fordistas). 
É evidente que essas linhas de produção foram conce-
bidas, construídas e utilizadas por pessoas, mas, uma 
vez em actividade (essas simples máquinas) tornam-
-se um actor na rede de actores dentro da fábrica. 
Os trabalhadores que «utilizam» as correias de 
transmissão têm de trabalhar ao ritmo e à velocidade 
da máquina para que o sistema possa funcionar, exer-
cendo-se aqui, de facto, e num sentido real, o poder 
da correia sobre os trabalhadores que a utilizam. 
De igual modo, quando pensamos nos regulamen-
tos e nas políticas empresariais que existem nas orga-
nizações, parece-nos evidente que estes documentos 
também foram elaborados, redigidos e utilizados 
por pessoas; mas esses mesmos documentos, à seme-
lhança das correias de transmissão, tornam-se parte 
da rede de actores através da sua utilização e exer-
cem um determinado controlo sobre as pessoas que 
aceitam reger-se por eles. ATAR contribui para nos 
tornar conscientes do modo como as organizaç~es 
são formadas pela combinação de actores diferentes, 
·para além de existirem paralelos com as propostas 
de Michel Foucaulc sobre o poder que os edifícios 
físicos (como as prisões, as escolas e os hospitais) e 
os discursos (determinadas formas de pensar e de 
falar sobre um assunto) têm para moldar o nosso 
comportamento (ver o Capítulo 3 para um aprofun-
damento das ideias de Foucault). 
Esta teoria sugere, portanto, que uma compreen-
são cabal das práticas de gestão e das organizações 
modernas poderá exigir o contributo especializado 
... '~· ......,_ .. ~ ...... -~ •' 
924 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 
de um conjunto de disciplinas académicas hoje 
em dia distintas, desde a sociologia e a psicologia à 
economia, aos estudos de gestão, arquitectura, ciên-
cias do ambiente e artes. Tal necessidade poderá ser 
justificada pelo facto de os sociólogos, por exem-
plo, não serem formados em engenharia, condição 
necessária para compreender o funcionamento das 
máquinas, ou em literatura, o que lhes permitiria 
analisar os elementos estruturais dos textos. Neste 
sentido, embora a teoria do actor-rede esteja enrai-
zada na teoria social, a sua prática propicia uma 
abordagem interdisciplinar da pesquisa organiza-
cional, tendo ganho algum espaço nos estudos da 
gestão e das organizações. 
Os críticos da teoria do actor-rede não se têm 
mostrado impressionados com o aparato do jargão 
teórico empregue nos estudos que dela resultam, o 
qual parece dar origem a descrições desnecessaria-
mente complexas das organizações e das práticas de 
gestão que não seriam reconhecidas pelas pessoas 
que estão a ser estudadas. Isto poderia valer a pena 
acaso se destinasse à produção de explicações teóri-
cas genuinamente novas; porém, os críticos da teoria 
do actor-rede defendem que a maior parte dos estu-
dos que nela assentam são de natureza mais descri-
tiva do que explicativa. Muitos dos estudos organi-
zacionais baseados nesta abordagem teórica tendem 
a partir, também, de uma perspectiva de gestão que 
desvaloriza, quando não ignora, as questões .socioló-
gicas das desigualdades sociais e o poder - o que leva 
alguns sociólogos a considerar que falta a esta teoria 
uma perspectiva.crítica .. (Whittle-e.Spicer, 2008). . . 
Até agora, o presente capítulo abordou alguns 
aspectos importantes e algumas das teorias mais 
recentes sobre as organizações formais. Tal como 
já verificámos, a importância desta opção reside 
no facto de as org~nizações constituírem uma das 
características ptindpàis da·s sódedades modernàs 
e, por essa mesma razão, terem sido estudadas por 
muitos investigadores. Porém, nos últimos anos, a 
atenção deslocou-se ligeiramente para o estudo das 
redes e do seu papel nas sociedades. O advento das 
tecnologias da informação parece estar a conferir 
às redes sociais relativamente informais e cada vez 
mais flexíveis uma importância acrescida na organi-
zação da sociedade - embora todas as organizações 
formais envolvam claramente a existência de redes 
-, facilitando a criação, à escala global, de redes 
de indivíduos, grupos e organizações mais eficazes 
(Lilley et at 2004). 
O estudo das redes 
As redes sociais 
Diz o velho ditado: «Não importa aquilo que 
sabes, mas quem conheces». Este adágio exprime 
a mais-valia de ter <<boas relações». Os sociólogos 
referem-se a estas relações como redes - todas as 
conexões directas e indirectas que unem um indi-
víduo ou um grupo a outros indivíduos ou grupos. 
As suas redes pessoais incluem assim as pessoas que 
você conhece directamente (os seus amigos, por 
exemplo) e as pessoas que conhece indirectamente 
(os amigos dos seus amigos). As redes pessoais 
incluem, com frequência, pessoas da mesma raça, 
classe social, etnicidade ou outros tipos de origem 
social - embora existam excepções. Um exemplo: 
se se inscrever em linha numa mailing list, tornar-se-
-á parte de uma rede que inclui todas as pessoas da 
lista, as quais poderão ter géneros ou origens étnicas 
e sociais diversas. A sua influência e o seu alcance 
..,. 
I 
.I 
·poderão aumentar significadvamente se·fizer ·parte·· ··- ·--·,_1: · 
de um grupo ou de uma organização -por exemplo, -~L~~; 
todos os antigos alunos de uma determinada univer- ; :~.~.;.~: 
sidade -, pois os grupos e as organizações também ;(;~;: 
podem funcionar em rede. ..:.. ":::~j 
Os grupos sociais são uma fonte importante :~:;j 
de aquisição de redes, mas nem todas as redes são 
grupos sociais. Em muitas delas, a partilha de expec-
tativas e o senso comum de uma identidade, que são 
característicos dos grupos sociais, estão ausentes. Por 
exemplo, em princípio não partilhará um sentido de 
identidade com os subscritores de uma mailing list, 
como não conhecerá os vizinhos da maior parte dos 
seus colegas de trabalho, ainda que todos eles façam 
parte da sua rede social. As redes servem os nossos 
interesses de formas diversas. O sociólogo norte-
-americano Mark Granovetter ( 1973) mostrou que 
pode haver uma força considerável nos laços fmcos, 
nomeadamente entre os grupos socioeconómicos 
mais abastados. Granovetter mostrou que os funcio-
nários superiores e os gestores têm uma maior proba-
bilidade de ficarem a saber de uma nova oportuni-
dade de emprego através das suas relações, sejam elas 
parentes afastados ou conhecimentos remotos. Ess.es 
laços fracos podem revelar-se bastante úteis porque 
tanto os parentes afastados como os conhecidos têm 
tendência para desenvolver conjuntos de ligações 
muito diferentes das dos amigos mais próximos, 
e essa relações sociais serão provavelmente muito 
semelhantes àquelas que estabelecemos. Segundo 
Granovetter, entre os grupos socioeconómicos 
menos afortunados em termos materiais os laços 
fracos não estabelecem necessariamente pontes para 
outras redes e, por isso, não multiplicam as opor-
tunidades (Marsden e Lin, 1982; Wellman et al., 
1988; Knoke, 1990). Após a obtenção de um grau 
académico, ao procurar emprego poderá ter como 
trunfos um bom diploma e um ·ex:celerii:e cüi:'dcülo. 
Mas pode tornar-se mais proveitoso o facto de, no 
seio da organização à qual concorreu, o seu amigo 
de faculdade ter sido colega de escola do funcionário 
que o vai entrevistar. 
.. -·-:Krnãiõriãcl.ãfpessoas aptóveita as suas próprias 
redes pessoais quando procura oportunidades ou 
vantagens, mas neni todas têm acesso a redes que 
detêm muito poder. Alguns sociólogos defendem, 
por exemplo; que as redes de negócios e as redes polí-
ticas femininas são mais frágeisdo que as masculi-
nas, o que determina a redução do poder das mulhe-
res nessas esferas (Brass, 198 5). Muitas das escolas 
secundárias inglesas mais conhecidas com internato 
e que cobram propinas, como Eton e Harrow, só 
aceitam rapazes, negando assim às mulheres o acesso 
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 925 
a relações importantes estabelecidas pelos alunos 
durante os seus anos de escola. Segundo algumas 
pesquisas sociológicas, as redes de contactos profis-
sionais mobilizáveis pelas mulheres quando procu-
ram emprego são constituídas, de um modo geral, 
por menos relações do que as dos homens - o que 
significa que as mulheres conhecem um número 
menor de pessoas em menos cargos (Moore, 1990). 
Redes de contactos exíguas têm tendência para enca-
minhar as mWheres para postos de trabalho ditos 
femininos, os quais proporcionam normalmente 
salários mais baixos e menores oportunidades de 
progressão (Roas e Reskin, 1992; Drentea, 1998). 
No entanto, à medida que aumenta o número de 
mulheres a desempenhar cargos de topo, as redes daí 
resultantes poderão proporcionar melhores oportu-
nidades de progressão. Uma investigação relativa-
mente recente descobriu que as mulheres tendem 
a ser contratadas, ou promovidas, em contextos de 
trabalho onde já existe uma percentagem elevada de 
mulheres (Cohen, et al., 1998). . 
As redes oferecem algo mais do que vantagens 
económicas. O leitor irá muito provavelmente 
confiar nas suas redes para estabelecer um leque alar-
gado de contactos: desde entrar em contacto com 
o deputado eleito pelo seu distrito, até uma saída 
à noite com alguém que lhe despertou o interesse. 
Da mesma forma, quando visita outro país, é enca-
minhado pelos seus amigos ou pelos seus colegas -
de escola ou de t'rabalho -para os contactos que este 
têm no estrangeiro, que o poderão ajudar a orien-
tar-se nesse ambiente que lhe é estranho. ~ando 
obtém o seu diploma, o grupo dos seus antigos cQ.ie-
gas pode ampliar a extensão da sua rede de apoio 
social. 
As redes e as tecnologias 
da informação 
Conforme verificámos, o estabelecimento de redes 
constitui uma prática humana muito antiga. Mas 
para o sociólogo Manuel Castclls, as redes potencia-
-------------------·-·-.. ····- "" . 
- ·.· 926 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 
das pelo desenvolvimento das tecnologias da infor-
mação- nomeadamente a Internet- são a estrutura 
organizacional que define a nossa era. A flexibili-
dade e a adaptabilidade inerentes às redes confe-
rem-lhes numerosas vantagens sobre os modos de 
organização anteriores. No passado, as burocracias 
racionais e hierárquicas do tipo descrito por Weber 
revelaram-se bem sucedidas no uso dos meios dispo-
níveis para alcançar os objectivos organizacionais 
que se propunham atingir. As redes, ao invés, não 
tinham capacidade para coordenar funções, manter 
o enfoque em determinados objectivos ou cumprir 
determinadas tarefas tão bem quanto as burocra-
cias. Para Castells, toda esta realidade foi profun-
damente transformada pelos grandes avanços regis-
tados na computação e nas tecnologias nas últimas 
décadas do século XX - fenómeno a que este autor 
chama «Galáxia Internet» (2001). O advento da 
Internet traduziu-se na possibilidade de processar 
dados, em simultâneo, quase em qualquer parte do 
Mundo; não é necessário existir proximidade física 
entre os envolvidos. Por consequência, a introdu-
ção de novas tecnologias permitiu que as empre-
sas «refizessem» a sua estrutura organizacional, 
descentralizando-a, reduzindo-a e flexibilizando-a, 
ao ponto de surgirem empresas nas quais se pode 
trabalhar a partir de casa. 
Até então, era relativamente fácil identi~car os 
limites das organizações, pois estas, na sua maio-
ria, estavam localizadas em espaços físicos preci-
sos .-. como .edifícios. de .escritórios, .apartamentos 
ou, tratando-se de hospitais e de universidades, em 
campus. A missão e as funções que as organizações 
procuravam realizar eram igualmente claras. Uma 
das características mais salientes das burocracias 
era, por exemplo, o seu compromisso em torno de 
um conjunto definido de rêsp.onsâbilidades e os 
procedimentos tendentes à sua execução. Weber 
concebia a burocracia como uma entidade autó-
noma cuja intersecção com entidades externas era 
limitada e precisa. 
Já tivemos oportunidade de abordar o modo 
como os limites físicos das organizações se estão a 
esboroar perante a capacidade que as novas tecnolo-
gias de informação têm de transcender fronteiras e 
fusos horários. Ao mesmo tempo, este processo está 
a alterar aquilo que as organizações fazem e o modo 
como o coordenam. Inúmeras organizações já não 
operam como entidades autónomas: um seu número 
crescente descobriu que a sua actividade será mais 
eficiente se estiverem ligadas pela Internet a uma 
rede complexa de relações tecidas com outras orga-
nizações e empresas. Hoje já não é possível traçar 
uma linha nítida que separe uma dada organização 
de outros grupos exteriores. Os limites das organiza-
ções são mais abertos e fluidos do que nunca devido 
à globalização, às tecnologias da informação e a 
novas tendências nos padrões ocupacionais. 
Segundo Castells, em 7he Rise of the Network 
Society ( 1996), a «empresa em rede» é a forma orga-
nizacional mais adequada a uma economia global da 
informação 11 • Com isto, Castells entende ser cada 
vez menos possível para as organizações - sejam 
estas pequenos negócios ou grandes multinacio-
nais - sobreviver sem estarem inseridas numa rede. 
A criação de redes é possível devido ao crescimento 
das tecnologias da informação: organizações de 
todos os pontos do globo podem encontrar-se, 
contactar e coordenar actividades conjuntas através 
de um meio electrónico. Este investigador cita diver-
sos exemplos de redes de organizações e enfatiza o 
facto de elas terem sido criadas em diversos contex-
. tos- cultutats· é íhstitüdorüi.is:Nõ--entánro; segunâo--·--· 
Castells, todas elas representam «diferentes dimen-
sões de um só processo fundamental»: a desintegra-
ção da burocracia racional tradicional. 
Embora existam muitos exemplos de redes 
de organizações, debrucemo-nos sobre um caso 
11 Nota do l't!VÍSOI' cient(/ico: Este título corresponde ao 
primeiro volume da obra traduzida c publicada em Portugal 
com o tÍtulo A Em da biformação: Economia, Sociedade, Cu/tum 
(Lisboa, Fundação Caloustc Gulbenkian, 2007, cd/reimpressão, 
3 vols.). 
-------- ---·----···- ·-·--··- ······ ·- ·-- -···--·---... ·····-----·-·······-· ..... ----· ·------·--------
eloquente. O sociólogo Stewart Clegg estudou 
a empresa revendedora de roupa Benetton. À 
primeira vista, o leitor não se aperceberá do modo 
como a Benetton, com as suas 5000 lojas espalha-
das pelo Mundo, se distingue das restantes marcas 
de roupa globais. Mas, na verdade, a Benetton é um 
exemplo de um tipo específico de organização em 
rede possibilitado pelos avanços nas tecnologias da 
informação. As lojas da Benetton, presentes em todo 
o Mundo, são franchises dirigidos por indivíduos que 
não são empregados directamente pela empresa, mas 
que fazem parte de um grande complexo destinado a 
produzir e a vender os produtos daquela marca. 
Toda a operação se baseia num princípio de 
rede: a sede, em Itália, subcontrata encomendas 
dos seus produtos a diversos fabricantes com base 
na procura gerada na sua vasta cadeia de lojas. 
Os computadores ligam as várias partes da rede de 
molde a que a loja de Moscovo, por exemplo, possa, 
ao toque de um botão da caixa registadora, enviar 
informações de encomenda para a central italiana. 
Enquanto outros retalhistas internacionais de moda 
introduzem, a nível mundial, um conjunto idêntico 
de produtos nas suas lojas, a estrutura da Benetton 
permite-lhe personalizar as encomendas das suas 
lojas de franchise. E, em vez de estabelecer contratos 
regulares com os seus fornecedores; esta ·e1npresa 
pode reagir ao mercado e pedir à sua rede alargada 
de parceiros que forneçam os serviços quando eles 
sãonecessários ( Clegg, 1990). 
Estará o entrosamento das tecnologias de infor-
mação comas·redes-a~fastar-no~ completamente da 
visão pessimista de Weber acerca do futuro da buro-
cracia? Esta perspectiva, porém, merece-nos todas as 
cautelas. Os sistemas burocráticos são mais fluidos, 
internamente, do que Weber sugeriu, e estão a ser 
desafiados por outras formas de organização menos 
hierarquizadas; mas estes sistemas provavelmente 
não vão desaparecer, conforme Ritzer demonstrou 
na sua tese sobre a mcdonaldização da sociedade. 
Num futuro próximo, existe a probabilidade de 
assistirmos a um conflito de tendências em torno 
-
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 927 
da dimensão, da impessoalidade e da hierartJUia nas 
organizações. 
Capital social- os laços que unem 
Uma das razões principais que levam os indivíduos 
a juntarem-se a organizações reside no estabeleci-
mento de relações e no aumento da sua influência 
pessoal. O tempo e a energia investidos numa orga-
nização podem ser compensados com retribuições 
bem-vindas. Os encarregados de educação que 
pertencem a uma associação de pais, por exemplo, 
terão provavelmente mais influência sobre as políti-
cas escolares de uma dada escola do que aqueles que 
não se associayam. Os membros de uma as~ociação 
como esta sabem a quem ligar, o que dizer e como 
exercer pressão sobre os funcionários escolares. 
Os sociólogos designam esses frutos da pertença 
a organizações como capital social, isto é, o conhe-
cimento social e as relações que dão às pessoas a 
possibilidade de atingirem os seus objectivos e 
aumentarem a sua influência. Embora a noção de 
capital social possa remontar à Antiguidade, esta 
expressão tornou-se corrente nos debates acadé-
micos no final dos anos 80. Na Europa, o conceito 
está particularmente associado ao sociólogo francês 
Pierre Bourdieu. Na última década assistiu-se a uma 
explosão do uso desta expressão, deflagrada pelo 
trabalho influente do polit6logo norte-americano 
Robert Pumam (1995 e 2000). 
O capital social inclui redes sociais úteis, um 
sentido de obrigação mútua e de confiança, uma 
concepção das normas que governam o comporta-
mento efectivo e, de um modo geral, outros recursos 
sociais que capacitem os indivíduos para agir com 
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928 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 
7 .; .. ··· 
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~e benefícios poderão ser obtidos por estes membros de uma associação de pais? 
eficácia. Um exemplo: os estudantes universitários 
tornam-se activos no associativismo ou na imprensa 
estudantil, em parte, porque esperam aprender apti-
dões sociais e estabelecer relações que poderão vir a 
ser úteis depois da conclusão dos seus estudos supe-
riores·. Os estudantes universitários poderão, por 
exemplo, encontrar formas de entrar em contacto 
com professores e administradores que irão depois 
apoiá-los quando começarem à procura de um 
emprego ou quando se candidatarem a uma pós-
-graduação. 
As diferenças em termos de capital social adqui-
rido espelham as desigualdades sociais mais amplas 
existentes na sociedade. Em geral, por exeJ;Ilplo, os 
homens detêm mais capital do que as mulheres, os 
brancos mais do que os não-brancos, os ricos mais 
do" que .. o.s .poh.res •. .O..capital. social adquiddo .atra-
vés da frequência do ensino pago constitui uma das 
razões principais que levam alguns pais a escolhê-
-lo para os seus filhos. A frequência deste género de 
escolas poderá proporcionar aos seus alunos, mais 
tarde, o acesso a recursos sociais e políticos valiosos 
e o desenvolvimento de"cóhtaétos nó míirido dós 
negócios que contribuirão para aumentar as suas 
riqueza e influência. Também podemos identifi-
car diferenças em termos de capital social acumu-
lado entre os diversos países. De acordo com o 
Banco Mundial (2001), os países cujos níveis de 
capital social são elevados - isto é, onde os empre-
sários podem desenvolver, com eficácia, «redes de 
confiança» que mantêm as economias saudáveis -, 
tendem a beneficiar de um crescimento da econo-
mia. O crescimento rápido que se verificou nos anos 
80 em muitas economias do Sudeste Asiático ilustra 
este argumento - um crescimento que alguns soció-
logos defenderam ter sido beneficiado pela existên-
cia de redes de negócios sólidas. 
Robert Pucnam levou a cabo um extenso escudo 
sobre o capital social nos EUA, no qual distingue 
dois tipos: o capital social de ligação (bridging social 
capita{), inclusivo e orientado para o que o rodeia, 
e o capital social de adesão (bonding social capital), 
e}(~~~~ivo _e _()r~ent~dopar~.? ~e~JE.~~X!OI:.9 ... c.o~::c..:;;;:;.c _______ . ...., 
une os indivíduos para além das clivagens sociais. 
A capacidade de unir pessoas pode ser ilustrada pelo 
movimento dos direitos civis - que juntou negros e 
brancos na luta pela igualdade racial - e pelas orga-
nizações religiosas que estabelecem ·:pontes entre 
diferentes credos. O segundo reforça identidades· ·· 
exclusivas e grupos homogéneos. Identificamo-lo 
entre as organizações étnicas fraternais, nos círculos 
de leitura femininos organizados no seio da Igreja e 
nos country clubs em voga (Putnam, 2000). 
-
As pessoas que pertencem a organizações das 
quais são membros activos tendem a sentir-se mais 
«ligadas», muito empenhadas e capazes de «fazer 
a diferença». Do ponto de vista da sociedade mais 
abrangente, o capital social - e nomeadamente o de 
ligação- permite aos indivíduos sentirem-se parte da 
comunidade alargada, uma comunidade que procura 
incluir aqueles que são diferentes de nós. A demo-
cracia prospera quando o capital social é robusto. 
Neste sentido, alguns estudos transnacionais suge-
rem que os níveis de participação cívica nos EUA 
- país sobre qual incidiu a investigação de Purnam 
- são dos mais elevados do Mundo (Putnam, 1993 e 
20.00). Paralelamente, outros dados sólidos indicam 
que os laços de participação política e de pertença 
a associações e a outras formas de envolvimento 
cívico que unem os norte-americanos diminuíram 
bastante durante os últimos 30 anos. Será que este 
decréscimo afecta a democracia nos EUA? 
Jogar bowling a sós: um exemplo de capital 
social em declínio? 
Purnam defende que a participação em organiza-
ções dota os norte-americanos do capital social 
que lhes permite cooperar com outros indivíduos, 
ter um sentimento de confianÇa· ~ ~-~ ~eni:id(;· de 
pertencer à sociedade no seu todo. Este género de 
capital social é essencial para haver uma cidadania 
efectiva. No entanto, segundo Putnam, estes laços 
sociais estão a enfraquecer rapidamente na socie-
-~f~ci~-;;~;t~~;;-ericana~--Ü~ ;ihal disso, subtil mas 
significativo, é o declínio verificado nos recintos de 
bowling dos EUA: há um número cada vez maior de 
pessoas a jogar bowlingasós (Putnam, 1995 e 2000). 
Este investigador afirma que os jogadores de bowling 
que formam equipas consomem o triplo da cerveja 
e das pizzas que consomem os/ as jogadores/as soli-
tários/as; o que lhe sugere que os primeiros gastam 
mais tempo a socializar, e, eventualmente, a discu-
tir assuntos cívicos, do que os restantes. O acto de 
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 929 
jogar bowling a sós é, para Putnam ( 2000), um Etc to 
sintomático da perda actual de sentido comunitário: 
O indicador mais bizarro e desconfortante 
do distanciamento social contemporâneo llue 
identifiquei nos EUA é o seguinte: há mais norte-
-americanos a jogar bowling do que nunca, mas a 
organização de campeonatos decresceu acentu-
adamente na última década. Entre 1980 e 1993, 
o ntunero total de jogares de bowling aumentou 
10%, enquanto a prática organizada decresceu 
40%. (Para que não fiquem a pensar que se trata 
de um exemplo inteiramente trivial, devo assina-
lar que em 1993 cerca de 80 milhões de norte-
-americanos jogaram bozvling, pelo menos uma 
vez; número ctNase um terço maior do que o total 
dos que votaram nas eleições para o Congresso 
em 1994 e, aproximadamente, o mesmo número 
denorte-americanos que se dizem frequentadores 
regulares de serviços religiosos ... ) [ ... ] Sem nos 
apercebermos disso à primeira, verificamos qne 
nos fomos separando uns dos outros, e das nossas 
comunidades, no decurso da derradeira terça 
parte do século. 
Purnam assinala que não foi só a prática organi-
zada de bowling que declinou. A filiação em orga-
nizações de todos os tipos diminuíu cerca de 25% 
desde os anos 70. Nos EUA, as associações de pais, 
a F~deração Nacional de Associações Femininas, 
a Liga das Mulheres Eleitoras e a Cruz Vermelha 
passaram, desde os anos 60, por um declínio do 
número de filiados que ronda os 50%. Este soció-
logo refere que em 197 4 um em cada quatro adultos 
oferecia-se como voluntário para associações como 
as citadas; hoje em dia, esse total está próximo de um 
J 
em cada cinco. A par deste declínio da participação 
em organizações, há um número cada vez menor 
de norte-americanos que afirma socializar com os 
seus vizinhos ou considera q~~ a maior"parte das 
pessoas são confiáveis. Tais declínios nos níveis de 
participação cívica, nos laços de vizinhança e nos 
níveis de confiança têm sido acompanhados, de um 
modo geral, pelo declínio da participação na vida 
democrática. Os níveis de participação nas eleições 
930 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 
presidenciais e parlamentares dos EUA diminuíram 
consideravelmente desde o seu máximo registado 
no final dos anos 60 - embora renham aumentado 
novamente durante as eleições extremamente pola-
rizadas de 2004, que opuseram John Kerry a George 
W.Bush. 
Há sem dúvida muitas razões para este declínio. 
Por um lado, as mulheres, outrora activas nas orga-
nizações de voluntários, têm mais probabilidades 
de ter um emprego do que no passado. Por outro 
lado, as pessoas estão cada vez mais desiludidas 
com os governos e como tal menos inclinadas para 
pensar que o seu voto faz diferença. Para além disso, 
as pessoas passam agora mais tempo em trânsito 
nos transportes públicos, o que consome o tempo 
e a vontade que poderiam ser dispendidos nessas 
actividades cívicas. Porém, a principal razão para 
tal declínio da participação cívica é, nas palavras 
de Putnam, muito simples: a televisão. As muitas 
horas que os norte-ameriéanos gastam, sozinhos, 
em frente ao ecrã da televisão substituíram as horas 
de que dispunham para o seu envolvimento social 
n;t comunidade. 
Verifi.car-se-á o mesmo declínio do capital social 
pelo Mundo fora? David Halpern (2000) docu-
mentou a estabilização ou um aumento dos níveis 
de capital social na Suécia, na Holanda e no Japão, 
enquanto na Alemanha e na França estes indicado-
res eram mais ambíguos. Todavia, Halpern conclui 
que o capital social decresceu significativamente, 
ao longo· das últimas décadas, 'ifõ'Rêiriõ.Uiiiâ.õ; na. 
Austrália e nos EUA. Olhando para a Europa e para 
o Mundo, os dados que apontam para um declínio 
do capital social são mais ambíguos do que aqueles 
que se referem aos EUA. 
Analogam~m~.. se .o número de eleitores que 
votam é indicador de um nível baixo de capital social 
- e existem muitas razões que explicam as diferenças 
na participação eleitoral -, então alguns escrutínios 
recentes demonstram que muitos dos países desen-
volvidos não estão a sofrer nada que se compare ao 
declínio registado nos EUA. Por exemplo, nas elei-
ções presidenciais francesas de 2007, foi estabele-
cido um recorde de participação eleitoral, em ambas 
as voltas, de 84%. Na verdade, a Europa Ocidental 
tem desfrutado, desde 1945, da média mais elevada 
de participação eleitoral- contabilizada em 77%-
e a América Latina a mais baixa- de 53% (IDEA, 
2007). O lnternational Institute for Democracy and 
Electoral Assistance assinala que, em termos globais, 
a participação eleitoral aumentou de modo estável e 
gradual, no período entre 1945 e 1990, de 61% nos 
anos 40 para 68% nos anos 80, com um decréscimo 
para 64% a partir dos anos 90. Por isso, este não é o 
retrato simples de um declínio contínuo conforme 
defende Putman. 
Novos laços sociais? 
O estudo de Putman levanta algumas questões 
pertinentes relativamente à participação social e 
à solidariedade, mas não serão as suas conclusões 
excessivamente negativas? Estudos como aqueles 
que este sociólogo levou a cabo podem reflectir, de 
múltiplas formas, as preocupações e as ansiedades 
identificadas no final do século XIX por sociólo-
gos como Ferdinand Tonnies e Émile Durkheim. 
Tonnies, em particular, considerava que a cultura 
industrial e a urbanização tal qual se verificavam na 
Alemanha destruíam os laços sociais duradouros e 
. davam origem a uin agtegãdõ -a e in3rv1düôs'àes1o~--c-·a·-_ --··--
dos com poucas relações reais entre si. E, no entanto, 
a sociedade em modernização desses tempos, que 
tanto preocupava Tonnies, é agora, para Putnam, 
o modelo de uma forte solidariedade social quando 
analisada à luz das mudanças sociais mais recentes. · ... 
Estará Putman a descurar algum aspecto? Alguns 
sociólogos que se debruçaram sobre as novas tecno-
logias de informação e de comunicação (TIC) 
acham que pode muito bem ser esse o caso. 
-------------···---· ··- -·-···-···--- -~··--- ·~-·-- -··------ ·-- --·----~·-- ···-·-------·----
Pensar de um modo crítico 
Com base na pesquisa referida a seguir, que 
razões levam os jovens a utilizar os sítios de 
redes sociais? De que modo interpreta os 
dados desse estudo? Será que ele reforça a tese 
da «perda de laços comunitários», ou sugere 
antes que estão a ser construídas comunida-
des em linha? Poderão algum dia estes rela-
cionamentos virtuais ser tidos como equiva-
lentes às relações de amizade estabelecidas 
face a face? 
O crescimento rápido das novas tecnologias de 
informação é espantoso (tal como verificámos no 
Capítulo 2), e elas estão cada vez mais incorpora-
das nas nossas rotinas diárias, tanto em casa como 
no local de trabalho (Kraut et al., 2006). É esta, 
também, a conclusão de um inquérito organizado 
em 2007 pela MTV Networks/Nickelodeon, diri-
gido a um universo de 18 000 joverts, com idades 
compreendidas entre os oito e os 24 anos, de 16 
países - incluindo a China, o Japão, o Reino Unido, 
os EUA, o Canadá e o Méxko."O-íriqü'éritõ .. àescõ::· 
briu que «os jovens não concebem a "tecnologia" 
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 931 
como uma entidade separada - ela é uma parte orgâ-
nica das suas vidas ... Falar com eles sobre o papel que 
a tecnologia desempenha nas suas vidas seria como 
falar com os jovens dos anos 80 acerca do papel dos 
baloiços dos parques e do telefone na sua vida em 
sociedade- é invisível» (Reuters, 2007). 
As tecnologias da informação também já não 
estão limitadas aos países desenvolvidos e relativa-
mente ricos. O uso de telemóveis, por exemplo, atin-
giu a cifra de 3250 milhões em 2007, o que equivale 
a metade da população mundial, e a procura deste 
equipamento está a crescer exponencialmente na 
China, na Índia e em Áf~ca (~.vww.telecomasia.net, 
2007). Na realidade, o mercado deste equipamento 
onde se verifica um maior crescimento é o africano 
(ver Figura 18.1). A «taxa de penetração» - o 
número de ligações telefónicas comparado com a 
dimensão da população - deste produto em África, 
partindo de uma base reduzida, alcançou 21% no 
início de 2007, com cerca de 200 milhões de liga-
ções. O número de ligações telefónicas através de 
telemóvel cresceu, só no ano de 2007, 38% - um 
aumento anual superior ao verificado no Médio 
Oriente (33%) e na Ásia em torno do Pacífico 
(29%). ~al será o impacto destas tecnologias na 
vida social? 
932 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 
91% 9% 
82 18 
72 28 
49 50 
17 83 
,,, . "'' , .. "' 
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 933 
· vezes maior pára f~zê-lo com o. objectivq de 
nàmoíisc~ algu:~tíi .do • que ~s r.apií;i~gas de,sse 
.. grupo ed.rió;29%db~r~pázes alitw~ú:.ari:J.-ho, 
·em contraste cob:i :os.l~% d~ ràp.àrlgas rn,ais 
vcÍhas que o à·~pna~: . . · 
Como é queos adolescentes comunicam com os seus amigos 
utilizando as redes sociais em linha 
Percentagem de adolescentes utilizadores de redes sociais que: 
Publicam mensagens na página ou no mural de um amigo 84% 
Enviam mensagens privadas a amigos através dos sistemas das redes sociais 
Publicam comentários em blogues de amigos 
82 
76 
Enviam um boletim ou uma mensagem colectiva a todos os seus amigos 61 
33 Dão toques, piscam o olho (wink), oferecem e-props ou kudos aos seus amigos 
Num··estudo·-recente-sobre··a·utilização das tecno-
logias da informação e da comunicação ( telem6-
veis, Internet, correio electr6nico e redes sociais 
em linha), Deborah Chambers (2006) analisou as 
mudanças sociais identificadas por Putnam dos.laços 
familiares·· razoavelmente estáveis e fixos, e relações 
de vizinhança e comunitárias, aos laços mais volun-
tários e fluidos. Para Chambers, estão a ser gerados 
novos padrões de associação e novos laços sociais 
em torno de ideais como a «amizade», alguns dos 
quais são mantidos através das redes possibilitadas 
'; .· 
:·. -,;'. ,-
pelas tecnologias da informação e da comunicação. 
Esta investigadora afirma igualmente que se \Çl'iam 
outras formas de relacionamento social com o apare-
cimento de novas identidades sociais entre grupos 
anteriormente marginalizados- como as «comtmi-
dades homossexuais» - e de espaços seguros para a 
exploração do «eu». 
A criação de comunidades «virtuais» em linha 
e de redes de amizades, por meio da comunicação 
constante com telem6veis, afigura-se bastante dife-
rente das comunidades tradicionais, que assenta-
934 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 
'í--J'orte de África· 
~ Àfriêa ·ocidental 
I :;~:--·~ .J Áfrlq~ C~ntràl.· 
I:::~Ji~:I·Afríça briJrit~l 
.• l.AJ~~~.SL~:§~n: .·· .. 
'.-\~' ;·;~~:)~!' >~ ' ~. ' ', 
O, • . ioo.:. :.100Q l.IO<l . :ZOOOim 
,§00 , • , 1000 miiH 
60% 
o 
: ...... , 
Gráfico 18.1 Crescimento anual do número de ligas:ões telefónicas estabelecidas através de telemóvel, em 2006, por região africana. 
Fonte: Wirclcss Intelligcncc, 2007. 
vam em relações estabelecidas face a face - mas esta 
característica torna-las-á menos eficazes na criação 
de laços sociais .mediados pelo capitalsocialde liga-
ção? Muitos protestos ambientalistas, por exem-
plo, são organizados e levados a cabo recorrendo à 
informação em linha, às mensagens de telemóvel 
e ao correio electrónico. Muitos dos movimentos 
sociais contemporâneos também se envolvem em 
acções directas 'éfu .. vez dé trillütrem o caminho da 
pressão política convencional através das vias habi-
tuais. Sendo assim, poderemos então estar a assistir 
não tanto ao fim da democracia, mas antes ao surgi-
mento de uma nova forma democrática de fazer 
política que assenta agora no princípio da participa-
ção e não tanto no da representação. Caso assim seja, 
. isso poderá explicar -em parfe a fraca pãrtiCipãÇão' 
eleitoral que Putnam considera ser um indicador do 
declínio do capital social. 
A informalidade, a mera rapidez da comunica-
ção e as distâncias geográficas envolvidas nas rela-
~ôes virtuais geraram preocupações e ansiedades nos 
meios académico e governamental, embora a tese do 
,, colapso da comunidade» se afigure um exagero. 
Chambers vê na procura de relações de amizade um 
indicador de uma busca de novos lacos sociais assen-• 
res na igualdade e no respeito mútuos e não o de uma 
desistência da comunidade. 
Parece-nos óbvio que as novas tecnologias da 
informação e da comunicação acarretam, eventu-
almente, novos problemas sociais. Na opinião de 
Chambers, apesar dos aspectos positivos da cria-
ção de redes sociais, estas novas formas de relação 
social poderão não oferecer uma base adequada 
para garantir relações que impliquem a prestação de 
cuidados e a afectividade - a maior parte das quais 
exige um relacionamento físico próximo e compro-
missos duradouros. Existem escolas e encarregados 
de educação que estão igualmente preocupados 
com as redes sociais e os telemóveis no que toca a 
receios sobre abusos de crianças por adultos e às 
possibilidades acrescidas de estas serem molestadas 
- com recurso a mensagens de texto, por exemplo, 
ou filmando e divulgando em linha as agressões. Em 
2007, o MySpace, operador que lidera os serviços 
de redes sociais em linha, admitiu que havia detec-
tado mais de 29 000 agressores. sexuais .entre.os seus 
180 milhões de membros (Media-Guardian, 2007). 
Embora seja um número relativamente reduzido 
quando comparado com o número total de utili-
zadores deste serviço, torna-se óbvio que o meio 
e.l!l .. ~~11.~~2.-~.'E: .. .ml!..c!.~.!!Ç~-~<:_e~~rada e relativamente 
anónimo, coloca agora problemas imponderáveis e 
muito diferentes aos reguladores e às autoridades. 
Os investigadores terão de analisar estas «comu-
nidades de amizade» emergentes com um olhar 
distanciado, o mesmo que distingue a sociologia 
do jornalismo ou de outras formas de comentário 
social; isto se os sociólogos pretenderem explicar as 
razões que levam o bowling- a pedra-de-toque de 
Putnam - a perder terreno para as redes sociais em 
linha enquanto cadinho onde se fundem e tempe-
ram as amizades e as relações. 
-
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 935 
Conclusão 
As organizações e as redes às quais as pessoas perten-
cem exercem uma enorme influência sobre as suas 
vidas. Tal como vimos ao longo deste capítulo, 
os grupos convencionais parecem estar a perder 
influência no nosso quotidiano. Por exemplo, os 
estudantes de hoje parecem muito menos interes-
sados em associar-se a grupos cívicos e organizações 
- ou até mesmo votar - do que os seus pais; um 
declínio de interesse que pode significar um grau de 
comprorry.isso com a comunidade reduzido. Alguns 
sociólogos estão preocupados com o facto de este 
declínio poder traduzir um enfraquecimento da 
sociedade, ou poder vir a ter como consequência a 
instabilidade social. 
Como vimos, a globalização da economia e as 
tecnologias de informação estão a redefinir aquilo 
que é a vida em grupo sob formas que começam 
agora a ser sentidas. Por exemplo, é muito mais 
provável que as gerações mais velhas de trabalhado-
res façam as suas carreiras num pequeno número de 
organizações permanentes e burodáticas; e é muito 
mais provável que as gerações mais novas venham a 
fazer parte de um maior número de organizações em 
rede e «flexíveis». Actualmente, uma parte signi-
ficativa das filiações em grupos realiza-se através da 
Internet ou de outras formas de comunicação que 
estão em desenvolvimento. Será cada vez mais fácil 
para pessoas com gostos semelhantes entrarem em 
comunicação urnas com as outras em todo o planeta, 
criando diversos grupos dispersos pelo mundo 
inteiro cujos membros podem nunca vir a conhecer-
-se pessoalmente. 
. .. ··---·- .. J 
936 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 
De que modo estas mudanças poderão vir a afec-
tar a qualidade das relações sociais? Ao longo de toda 
a história humana, a maior parte dos indivíduos inte-
ragiu exclusivamente com aqueles que lhes estavam 
mais próximos fisicamente. A Revolução Industrial 
-que facilitou a emergência de burocracias extensas 
e impessoais onde os indivíduos se conheciam mal 
uns aos outros, quando se conheciam de todo - alte-
Sumário 
1. Muitas. organizações modernas apresentam, 
de certa forma, uma natureza burocrática. 
À burocr~cia implic~ uma hie~arqliização betn 
definida da autoridade, regras escritas que 
orientam a conduta dos funcionários e a sepa-
ração entre as funções do fl!ncionário no seio 
da otgapl.za~ão e a sua :vida <<no .exterior». Os . 
membros das organizações rião possuem os 
recursos :materiais ,col:n que trabalham .. Max 
We~çr def.e:ncieu que a bun:>cra~ia moderna 
é um rrieio :extre.IÍla.tJ;l.e~te: efi~az'·de ~rganizar . 
um grande nÚln~ro de.pesso~s.e.ássegurar .que 
a~ .d$!c;J~g~s :S~9 .. t9mad3,S. de .. ª-ç<?J:cl() .c,ó111 cri~é~ 
rios comuns .. 
rou a natureza da interacção social. Actualmente, 
a revolução da informaçãoestá a alterar, mais uma 
vez, a natureza da interacção social. Os grupos e as 
organizações do futuro poderão vir a proporcionar 
uma nova percepção da comunicação e da intimi-
dade social ou podem vir a aumentar o isolamento, a 
distância social c os problemas sociais. 
3. Os contextos físicos das organizações í1:1flu~~~- ... 
ciam significativamente as suas característi.., · 
cas sochtis. A arquitectura das Organizações ·:. 
modernas está estreitamente rdaciona:dà · 
com a vigilância enquanto meio de assegurar .· : 
a obediência dos subordinàdos àqueles qúç·. • : 
qÇ!t~m t~_ma p9sição de auto.r.i4_~dé .. A Y..~S.t .. :: .. 
lância consiste na supervisão das activida~e.s ·. · 
dos indivíduos, bem corno na acumulaçãq_ ~~· · 
dados e na manutenção de .ti-cheiros ac~kc:i ·. 
.deles. A auróvigilânéia. diz respeito. ào m949_··:··. 
como os indivíduos limitam o se~ c6mpC>~ta~: 
menta quando partem do pressuposto deq~;~ .... 
P
. odem ~St~r sob ~igiÍândá: .. . . . , .. . . c·'~":'".'•·' 
' -..; 
· 2. · AS. r~des i'ilforrnais í:enderri. a desenvolver-se 4. As organizações rnoder~as des~nv:cilvel:á~-:.·, · · 
··· .. ·~ ·:·ã·.~·ª"ó~~?s.n,í_Veí~rc~tO. ci:entro clãSorga-fflza-::-··-·------~"'se'COm<r1-nsdt:u-içêes--màlclàcl~s-pél0-g~Mr~:·"·· 
.ções como entre elas~ O estüdo. d.~~tas Ügaçõe.s · As riiulhéí:es foram tiadiêionàlrij~i).té sêg~é:::: 
·- irrf.o._Ç-~~i§ ~ -~ª.9.JWPQJ;~~n.~~-:gll~~t:().:<:> .. ~~J:ilqo .. gadas p3:ra:c;enas categoria~ ocup~ciona_is.qqe ... 
das· características formais que Weber ap~o~-- .. ~p~ia~ ~ ~áp~~idadê dos holt1éns-parã .. âvã,"~Ç~.- ~: · 
fundou. n;l,s suas carreiras. Nos últilnos anos, as m:ulhê-
............ -,--............. ____ .... : .... _ ....... - ... -... ________ ·····-· ... _ ........ ~~-s _t~-~- .?.:.~~-~~? .:~ maior ~úwerp p_q*g~s,_ 
~' • "'·•- •. .-.--. ••-.,••·•Oro.o ... ,. .... _ •;••• o•• ....... , -":'"'''\~·-.":" .. 
técnicas e de gestão, mas há quem acredite que, 
uma vez em cargos de topo, terão de adoptar 
um estilo de gestão tradicionalmente mascu-
lino de forma a serem bem sucedidas. 
5. As grandes organizações começaram a reestru-
turar-se nos últimos anos de modo a torna-
rem-se menos burocráticas e mais flexíveis. 
Muitas empresas ocidentais adoptaram aspec-
tos dos sistemas de gestão japoneses: maior 
consulta aos trabalhadores de escalões inferio-
res por parte dos gestores executivos; sálários 
e responsabilidade estabelecidos de acordo 
com a antiguidade; e; finalmente, avaliação do 
desempenho colectivo em vez do individual. 
6. Duas formas importantes de organizações 
globais são: a organização governamental 
internacional ( OGI) e a organização não-
-governamental Í).1tern~cional ( OGNI). 
Ambas adquiriram um . papel i{npo~tante 
e cresceni:~ . ii o rriundo . contemporâne.o. As 
organizaçqes governamentais internaCionais 
- particúlarmente as N~ções pnidas -:- p'o.clem 
vir -~- ~()II}_ªr~s_e. à..C.E2~~-~-9~garij~~-~Q~Ít.~E~~~--- . 
no futui'~. 
7. A econóinia i:riódérrt?- e dorilinada pelas gran-
des çmpte~as. ~ndo ·uma dete'ri:b:I~ada 
enipré~iã p6sstÚ 'ümà· ·in:fiü:~n:cia dominante 
.. · · · ·----.. ·-nu~~~"jrr'ª~s:tJ:i~•~d:#;~e·~que ·está:· numa 
posição de :monopÓlio .. ~al}do um c~rij~to 
de ~mp!:çs.~s pÇ>s.s':!-Lum?-. t.al-infltiênçia, ·1:r~t.~­
·se de uma situação de oligopóli~.As empresas 
gigantes têm um ·impacto profundo na vida 
ga~ pç~s.<>..a~. As empf.esas t~ansnacioi:iais, ou 
multinacionais, . operam .independentemente 
das fróriteir~s nacionai~ e as maiores exercem 
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 937 
·um poder económico tremendo. Metade das 
100 maiores unidades económicas não é cons-
tituída por países, mas por empresas privadas. 
8. O estudo das organizações e das práticas de 
gestão não tem sido suficientemente teori-
zado. Contudo, os estudos críticos da gestão 
e a teoria do actor-rede, com raízes na teoria 
social e nas ciências sociais,. são duas das pers-
pectivas teóricas mais recentes e levaram a 
diferentes formas de pensar acerca da gestão e 
da organização. 
9. As novas tecnologias da informação estão a 
mudar a forma como as organizações operam. 
Muitas tarefas podem agora ser realizadas elec-
tronicamente, um facto que permite às orga-
nizações transcenderem o tempo e o espaço. 
Variadíssimas organizações operam agora em 
grandes redes, em vez de o fazerem em unida-
des auto-suficientes. 
10. Entende-se por· capital social o conheci-
mento e as relações (ou <<contactos») que 
..p_e_qn.J.~~!h .. ~<?S ind~víduo~ cooperar llfiS tom 
os outros com vista ao benefício mútuo e ao 
incremento da sua inflJ.Iência. Alguf!.s ciençis-
tas sociais defendem que o capital soci~l dimi-
nuiu a partir da década de 70 do século XX 
'd d . ( - um processo cons1 era o preocupante por 
revelar uma diminuição da participação cívica. 
Cont~do, os estudiosos das novas tecnologias 
da infórmação argumentam que estas tecnolo-
gias podem estar a contribuir para a ernergên-
dà .Je novas formas de sociabilidade e novas 
relações sociais - as quais devem ser analisadas 
nos seus próprios termos. 
1 
'. 
... 
938 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 
leituras adicionais 
O presente capítulo abrange um conjunto 
diverso·de materiais, mas as referências següin-
tes poderão revelar-se introduÇões úteis a 
alguns d~~ tein~s ~entrais aqui abordados. 
tente ler Manuel Castells nas suas próprias p;Ua-
vras, nomeádamehte no séu livro The !ntefnet 
Galaxy: Riflections on the .Internet, Business 
and Society (Oxford, Oxford University Pre~s, 
2002). 
-"-...;\ .,. . .- .. ·:· ., -•' .. 
00,, ','""": ":-" , •••• .,. ... _~··-", ··..--~··:-"7"'~~-:-~~~7'..__~~~:-::-:-•:---:-400,< ........ ,-... :-..,_~-···~•.: ......... -.-..-~.; .. ':'" ,-o •: -·"~~·• .. • -Y, ·- ooo•O-k .... ,.~·- .,/, ·-~-:·-···.-•"'!'; ___ 00~;~.:.-.:~-:- .. ·~~:·~;7_' __ : •. ~ .. '~:"''' • O 
,,. ; 
.... •' .. . ,..,, ,, . ~ .. . ,. .. ... . 
Ligações à Internet 
Centro para a Sociologi;:t dás Organizações 
(CSO), sediado em Paris, França: 
www.cso.edu/home.asp. .' 
Sistema informativo de recursos em ciências 
sociais sobre organiza,ções - sediado .lla 
Univérsidàde de Amesterdão~ Hplanda: 
www.sociosite,net/ topl.cs/ organization.php 
Comité de Pesquisa eni ÓrganizaçÕes da 
Assqciação InternacioP;!lÍ de Sociológia: 
www.isa-'sociology.org/ r~l i.htm 
,. ' ..... -~~·~·- .. ·~··-~~~-----·-· .. -~··--·---- .. -~·-·····- .,, '. 
-· 
·ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 939 "' 
Electronic Journal ofRadical 
OrganizationalTheory (EJROT), 
sediado na Universidade de Waikato, 
Nova Zelândia: 
www.mngt.waikato.ac.nz/ ejrot/ 
Um sítio electróriico com tudo aquilo . 
que necessita de saber sobre Michel 
Foucault, patrocinado pela Univetsida<{e de 
Tecnologia, em Q!!,çenslin.d, Biisbane: 
www.michel~foucaul~.com/ 
Um portal com recursos sóbre:capital social, 
patroCinado pelas Un.iver.sidades dé Sieiia e 
Roma, Itália: 
www.socialcapitalgatewar.org/ . 
··-------·-------
·---·---··-.... >o • 
Capitulo 20 
O trabalho e a vida económica 
O que é o trabalho? 
A transformação da organização social do trabalho 
O taylorismo e o fordismo 
A globalização e o pós-fordismo 
O trabalho em mudança 
O declínio dos sindicatos? 
O género e a .« feminização do trabalho» 
As mudanças na divisão doméstica do trabalho 
A automatização e o debate sobre as competências 
O fim do «emprego para toda a vida» e o advento 
do trabalhador polivalente 
A precarização do trabalho, o desemprego 
e o significado social do trabalho 
O significado social do trabalho 
O aumento da precarização do trabalho 
O desemprego 
· Ccfíí"Ciüsão·: .. à<cc(irrosã'o -do carácter» ? 
Sumário 
Leituras adicionais 
Ligações à Internet 
Trabalhar num contexto fabril como o que·figura na imagem é hoje uma experiência muito menos frequente para os trabalhadores 
nos países desenvolvidos. · :~ ' 
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Capítu~o 20~ O trabaUt~o e a vida económhca 
Jockey executou o seu primeiro cogumelo de 
bronze cinco minutos depoisdas seis de uma manhã 
de Janeiro de 1885. O capataz ensinava-o: «Agora, 
monta bem a barriga do cogumelo no torno, coloca 
os pés firmes no chão c arranca-a na direcção 
deles». Jockey arrancou-a. A máquina disparou, 
fazendo um ruído, e uma válvula de bronze em 
forma de cogumelo destinada a um motor movido 
a vapor caiu para uma caixa. «~·mtos cogume-
los tenho de fazer?», perguntou inocentemente o 
rapaz. «~antas estrelas há no céu?», perguntou o 
capataz, saindo depois. 
Jockey tinha então 15 anos de idade. O emprego 
representava uma promoção para quem servia chá e 
distribuía recados numa fábrica em Salford, perto de 
Manchester. Jockey não conheceu outro emprego 
durante 61 anos. Ao fim dos primeiros anos, aderiu 
ao sindicato. ~ando tinha 25 anos de idade, as 
placas do soalho sob os seus pés cederam. ~ando 
o marceneiro veio consertá-las,Jockey desculpou-se: 
«Tenho de forçar na direcção dos pés, percebe? Isto 
desgasta-se». «Não precisas de te justificar», disse 
o marceneiro. «Não foi o meu soalho que se estra-
gou!». As placas partiram-se novamente em 1907 
e, depois, em 1916. Em 1918,Jockey tirou três dias 
de folga. «Gripe espanhola», desculpou-se; «Não 
conseguia manter a cabeça erguida!». Em 1935, 
tirou mais tr~s. dias quando a sua mulher faleceu. 
Durante os 61 anos em que trabalhou para a compa-
nhia, faltou cinco dias ao trabalho. 
Com 76 anos de idade, pouco depois do fim da 
Segunda Guerra Mundial e uma semana depois de 
ter concluído a sua milionésima válvula, o desgas-
tado soalho desabou novamente. «Era mesmo do 
que eu estava à espera!», afirmou. Largou o torno 
e dirigiu-se ao capataz, um homem suficientemente 
jovem para ser seu neto. «Termino no fim-de-
-semana, George», disse entre o ruído das máquinas. 
Os homens compraram-lhe uma poltrona quando , 
saiu: «E quando o assento estiver gasto», afirma-
ram, «enviamos o marceneiro para colocar uma. 
placas por dentro!». Sexta-feira, ao final da tarde, o· 
capataz apresentou-o a um novo aprendiz: «Podes. 
ensiná-lo?», perguntou. Jockey sorriu e disse para 
o rapaz: «Senta-te aqui. Não é complicado. Aperta 
bem a barriga contra o torno, assenta os pés no chão 
e arranca-a na direcção deles». 
Desde que Robert Roberts ( 1971) descreveu a. 
vida de trabalho de J ockey, na sua:. análise ........ ,,,.,_n ., 
de histórias de vida num bairro pobre de 
durante o primeiro quartel do século XX, o 
lho sofreu mudanças enormes. Para a maioria 
pessoas nos países desenvolvidos, a vida de 
de Jockey é irreconhecivelmente diferente da 
Este capítulo analisa a transformação do 
nas sociedades modernas e observa a estrutura 
economias modernas. Em seguida, serão 
nadas algumas das tendências recentes no 
do trabalho. Em primeiro lugar, contudo, 
mos concentrar-nos no que se entende pelo 
«trabalho». 
O que é o trabalho? 
Podemos definir o trabalho, remunerado ou 
como a realização de tarefas que envolvem o dispên-
dio de esforço mental e físico, com o objectivo 
produzir bens e serviços para satisfazer ur;;,_ç~,,u,, .......... , 
humanas. Uma ocupação ou emprego é um 
lho efectuado em troca de um pagamento ou 
regular. O trabalho é, em todas as culturas, a 
da economia. O sistema económico consiste em · 
instituições que tratam da produção e distribuição 
de bens e serviços. 
,Peüõsar de um modo crítico 
l\:nsando nas suas próprias escolhas, que tipo 
lk trabalho remunerado exerce ou que tipo 
,ic carreira pretende seguir? O que o alicia 
nesse tipo de trabalho? Por t}Ue razão? Será 
,l •;ua escolha influenciada pelo estatuto social 
<<Ssociado ao trabalho e à carreira, ou pela 
satisf~1ção intrínseca que retira do próprio 
crabalho? 
Consideramos muitas vezes como trabalho 
apenas aquele que é remunerado, como a própria 
noção de estar« sem trabalho» implica. No entanto, 
esre é um ponto de vista muito simplista. O trabalho 
não remunerado (como o trabalho doméstico ou 
a reparação do próprio carro) faz parte da vida de 
muitas pessoas e representa um enorme contributo 
para a continuidade das sociedades. 
O trabalho voluntário para obras de caridade ou 
outras organizações constitui outra forma de traba-
lho que desempenha um papel social relevante. Este 
·.· · tipo de trabalho cobre amiúde domínios negligen-
ciados pelas entidades públicas e privadas que forne-
cem bens e serviços, aumentando assim a qualidade 
de vida dos indivíduos. 
. Muitos tipos de trabalho não se inserem nas 
~.:..-.--~~tt~~orias ortodoxas do trabalho remunerado. Por 
.: exemplo, mui~; ·d~-~~;·b~lho realizado na economia 
informal não é registado directamente nas estatís-
::··· ricas oficiais de emprego. Por economia informal 
emendem-se as transacções realizadas tora da esfera 
do emprego regular, que implicam, por vezes, a troca 
de dinheiro por serviços prestados, mas que também 
implicam frequentemente a troca directa de bens ou 
serviços. A pessoa que vem a nossa casa consertar 
,. uma ruptura na canalização, por exemplo, pode ser 
paga em dinheiro sem haver recibo ou factura dera-
__________________ ,., ............. . 
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1007 
lhada do trabalho efectuado. As pessoas trocam bens 
«baratas» - quer dizer, roubados - com amigos 
ou sócios em troca de outros fàvores. A economia 
informal inclui não apenas transacções «ocultas» 
de dinheiro, como muitas formas de auto-aprovi-
sionamento que as pessoas efectuam em casa c fora 
dela. As actividades efectuadas pelos próprios, as 
ferramentas c os aparelhos domésticos, por exemplo, 
proporcionam serviços c bens que de outra forma 
teriam de ser pagos ( Gershuny e Miles, 1983 ). 
Se observarmos a experiência do trabalho numa 
perspectiva globtd, h<1 efectivamente grandes dife-
renças entre o mundo desenvolvido e os países em 
desenvolvimento. Uma das diferenças mais signi-
ficativas reside na persistência da agricultura como 
principal fonte de emprego na maioria dos países 
em desenvolvimento, contrastando com a pequena 
percentagem da população dos países industria-
lizados que trabalha no sector agrícola. De facto, 
como iremos observar mais adiante neste capítulo, 
a designação «países industrializados» tem vindo 
rapidamente a ser abandonada com o crescimento 
do emprego no sector dos serviços nessas socieda-
des. A experiência do trabalho remunerado é obvia-
mente muito diferente nos contextos rurais dos 
países em desenvolvimento c nos meios empresariais 
do mundo desenvolvido. De igual modo, enquanto 
nos países desenvolvidos há muito que o horário 
laboral, a saúde, a segurança c os direitos dos traba-
lhadores são protegidos por um conjunto de leis do 
trabalho, nos países em desenvolvimento operam, 
em contextos menos regulamentados «fábricas 
clandestinas» onde os trabalhadores (entre os quais 
muitas crianças) trabalham muitas horas em troca 
de muito pouco dinheiro (Louie, 2001). Esta divi-
são global do trabalho traduz-se na venda da maioria 
desses bens, com custos de produção tão reduzidos, 
aos trabalhadores relativamente prósperos dos países 
industrializados. 
1008 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 
Os padrões de emprego são também bastante 
diferentes em todo o Mundo. Na maioria dos países 
desenvolvidos, a economia informal (por vezes 
designada como «mercado negro» ou «econo-
mia paralela») é relativamente pouco expressiva 
quando comparada com o trabalho regulamentado, 
ainda que muitos dos trabalhadores migrantes 
ganhem a sua vida dessa forma. No entanto, este 
padrão inverte-se nos países em desenvolvimento 
onde a economia informal floresce assente em mão-
-de-obra barata na flexibilidade imposta aos traba-
lhadores. Em muitos países em desenvolvimento, a 
experiência de trabalho da maioria dos indivíduos 
ocorre no sector informal, frequentemente consi-
derado a norma (ver «Sociedade global 20.1 » ). 
Ainda que a sobrevivência de muitos dependa do 
trabalho informal, a despesa pública é afectada pela 
perda de receitas fiscais,o que, como alguns defen-
dem, entrava o desenvolvimento económico. Em 
suma, não é apenas a experiência do trabalho que 
é potencialmente diferente nas diversas regiões do 
globo; é também diferente o próprio significado do 
trabalho para os indivíduos. 
Exercer um trabalho remunerado é importante 
por todas as razões já apresentadas, particular-
mente no mundo desenvolvido. Todavia, a categoria 
<<trabalho» é muito mais abrangente, incluindo 0 · · 
trabalho exercido na economia informal. Em geral, 
o trabalho doméstico - tradicionalmente exercido, 
sobretudo, pelas mulheres - não é remunerado, 
apesar de ser amiúde um trabalho muito duro e 
extenuante. Vale a pena analisar mais aprofunda-
damente o trabalho doméstico através dos estudos ·· 
clássicos de Ann Oakley dedicados a esta temática· ·, 
(ver «Estudos clássicos 20.1 » ). 
Pensar de um modo crítico 
~e memória guarda da divisão sexual do 
trabalho doméstico que conheceu na infân-
cia? No que toca à execução de tarefàs domés-
ticas, que memórias possui dos seus pais, tias, 
tios e avós? As coisas mudaram muito com 
a nova geração? ~ais dos seguintes aspec-
tos sofreram mais transformações: as tare-
fas domésticas, os cuidados com as crianças, 
o exercício de um trabalho remunerado, o 
acompanhamento de familiares doentes, etc.? 
~e aspectos se têm revelado mais resistentes 
à mudança e qual a razão para isso? 
"--~-· _·. -·. --~--·--· .. ··-----------.. -·-----· ......... , ........ -···--·---· '""'"''' ......................... ·-· ·······--.................................................... -....... _______ , __ _ 
-'·sôól~dàtü~-;:'~-lqbtn 2o.1·À-de··"êri·e~ência da· Ni ·eria ·aa ecõnolrmúnformal ~ · -- · .::::~'1· 
. ~iifJj~:~j~l\~l~itãi~;;ni&reàtr(,. ··•··· · .. 
9 
· ~~ - ·~" •• :.L~:c_· : .... .::;:;.~-- ·?i • · 
,neg.ro · . · ,~:~ 
. · ·-~: .. :\ , <· ·:; ·. · : · ·. · • · · que ocorre na economia informal.ou no mercado:: :~J 
. , .. E~,~~~~;q~~-~Ii-~ia~d;,l-:l:~:igêria--r-epr~ente ... ···-negró~~ :É· ~a ·economi:i·mfo-rmã:Í::qu~·:g~á"~rl~tf:r~i~i~ 
. 52. H2Rm~~~_g~~-Ê.~l~g!~f:9Ê! 2:.5ÍIL~·-~::~9rn,a. ~~ .4~s. . do~·.nigc:tiw9s.:gafihP. ª .sua.;:v.id.a :Çomo :v~nd~.d~";~)~~ . · 
ma~Q.r~se,c~.ti.~miasaeMri!:a.Noentahto,estevalor res de rua, condutores de pequenos· autocarros,: ::.t 
não in;.ch.1i'gr~n4e part~.dá ac~ividade económica, cambistas ou corn.erciantçs. ' 
.... . :: ... '':·-~·--'•:;·:.t .. .-·~·~····· .. ;, ..... ...... , . . .. ····"'~ .. ~ 
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1009 
"' 
1010 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 
.· Aj~:~t§p~Çt_ht'ii,de Anr.a Oakl~y sobre o 1rab~_lhQ, 
.. , ·-:~ :,_~;~:> :) · · .... _._ .. · · , . -~~n:f~~jÇ(): ~ o .pap~l·d~ dona.,de-casa · 
.· .. :.,·;.-,~;. :·:<:-,:<·::!'.:·. ' ': :··.:'.'·~~~,!~· .. /::::.~:~{.~:~_:>·' ··: ..... ~. . . ' ' . 
. ·1:~i~~~:t~i,c~ d~!J!~~~~~~~~~;;.,' ··· 
. :T~davia~_pr~s~upostos tão arraigadós 
mxP.te ·abatados pela seguddp. vag~AP 
veio de~afiar esse. alheC+ffientc( 
.. , .. :\:.à .vida NR ~~~,··.'! "\~:-:~.,.~. 
i . . 
{.uma esfera 4a cqW,p.·.~t~IJ,ciª-.· d~. g#!Ih~r.;?. bnn . 
;~:'bakley analisa·estas qti.e~tõe.s. ~íngo!~:H~t~~ sqbre 
;t~ 'o trabalho· do m:é~tiç~ p\d:>licad()s. ·~rrllfj7~: ·. Th:e 
;L~ .~(ldnlogy offlousew~rkii Hous~wife. ·. . 
~;~· ~' • ' v" ' • ' '• 
.~r;·: 
-::.·, > 
·,:A expliçaÇiio.~~~Q~k.IE;ly · 
> • • ' ' •• • ·.·.·' ' • 
. ·. ' 
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1011 
· dc:;~~nv:olvimentO.. A ca)1ali.zação da el~ctricidade e 
do g~s' tornou os fogõ~.s a carvão e a Lerth~ obso-
le~of e às. actividades ~arrio o habituàl ~~chài .da 
l~Ahi~·o ·tr~~poit~ d~ çarvão e alimp~ià~~~stitit~ 
· do fdgã9 fotaq1 em gráhde medida çlimiriadas.- , 
.· -0fodavla;'ú?lciey s~pli~ha-que o ie~pô médio 
aÇ!s;peJQ..d.l .. uo. p.elas ,:in,~~,:es :.~o tt~q~q .. :~(>ril~~~ . ·; 
I . • . . . ,•' ' '·· ' 
1012 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 
recompensas que as mulheres retiram do curripri-
inenfO de padrõç:s -de ordem ~ liD:lpç::z;~, padrões 
essb qU:e sentem co.m.ç} .. seJoss~m reghtsirhpostas 
· por otÚ:rq·s.: Ao contrário d~s homens que ·e;x:eicem 
uma profiss.áo, ~s mulhe#s.nãci póder~tàbaridànar 
· o •seu. <~lóbli de trabalhq » rió finàl:do tJ.ia .. 
. As fófmas de tràbálliô.remtineradà e.n~ô remu-
n~rià~· ~~~t~o estréitá~çiite .F~ladohad~.s~-· ,cofl.lo 
demo listrá.· ·.a impwt'â.r'lçia dó .'tnib?lhq · ;d.qmés-
. ti2o ·piti-a):~~on~mi~.~obJ.:Ainda•·qJl~~~g\ímas 
. . mtilli~J:Ç{ .~littevistadàs· ·.afifinissêtn~' ~s~J-:~~·a:~ ·sti~~ ~ . 
: ,, .. >~ :. ' '.';: :::-~:.·.,:; ''~; ,,, ' .. ~ .. , ··;····' •.. ,.' ' ·: ··, · .. · .. · :~~~ 
cação da divisão sexual do trabalho 
Os críticos defe.Q.diarn que a sua tese u_.-..~;••h ...... ~\..',l.i:j.Y,Q,.~,: 
diferenças importantes entre as famíliàS 
trabalhadora e as de classé rriédia, em -reta~c;ao 
tomada.de decisão e à partilha de recursos.' 
respeita à articulação entre trabalho LI_~•.Jl1Ul.l.l,-.!-j 
e trabalho doméstico, mudanças sociais . . 
têm também levado a colocar ~m questão''·. 
tivamente as mulheres trab~a.dàtas 
<. ' ; • ' ' ~ 1 ' , 
um ma.tº.l'.: ~~fardo .duplo>> -·r I rn~n"l''.i'i:<i 'hl'l;m 
-~erem 'de combi1.1ar o i:ral:>C!lho. reinrullet·aç 
9 . dô~éstko: .. ·Ge~sh$-y ~{1~9-Z), ·. 
ciefendç q~~ tivir~m lrlgar : . · · · · ·. 
ç~~ que a~é. certo pont6 se ....... ~-,!-~· .. ,.,~·~:.··.~~· 
. : J,íliri.o :t1a :di$~ibT#çao ~~9 ·- . . . 
:O.H~4-a,l,t.:.:i~ij! .. c~.~p.:~~;J~~~.~~t_ç~1'A;~s~~~,}~fi:iÇi~-~; · rtniiÚ:>s·laté~. í>áta:~sté.au}o:r (>· ... , .. ,....,.,... .• .,.. 
:.SB·fu'B~~~~~~'?li?:.1f:,ª~'i!~~i!í~!~~,:ii~~~t~*~i;t:i·i;~.~iM~· , :_·. 'i:·t~~·:rlo~-~-~~~e~~ :·~~~ :: · ... :. 
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-·-·-·----···--·--·- 1 
1 
________________ ......... 
; S(.' refere às relações de género n~ esfera domés-
tica, Oakley foi porventura de1llasiadq pessimista 
_ quanto às previs?es de mu4ança. 
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1013 
Maís recentemente, Crompton et al. (2005) 
revelaram que o processo de igualizaçij.p tem 
sido «travado» pelo aumentp da competição 
resultante das dinâmicas económicas globàis, 
, ; importância CJctual · que pressionam as empresas a exigir maior empe-
nho dos seus (sobretudo homens) trabalhadores. 
/ ·O trabalh.o de Anh Oakley exerceu gráride influ- · 
As atitudes face à divisão do trabalho. doméstico 
', .. ·.ê1.1cia nos anós 70 e .so ...... d.·o sé.cu ... lo.• XX ... • N. es.:Se perí-. · estavam a tornar-se menos tradicionais, .mas em 
{ ·o do, os estudos fetnÍt1i~tis intrbdlli~am a àhor4~- · · · · 
gem sociológ . .Ú::~ d~ .. tJi~~~8,~r#.~~g~~~;p e (~ília; . alguns paJses - iricl~indo no Reino Unido - as 
·. · . . · · prdtic.as reais nos. lares na realidade reas. sumiram 
Pese embqra aleêtitniq~Çlei/.a,~ ct~tit.a~·m.~k r~·celi~· 
.tes, a re.levânçiª·d.a~.~s~àS.1~~~a~ .. $~thi-.~~~e.;·~n~~ ~~p~drão mais tradici~nal. . .. . . 
F·' · .. · ... · ;·~···."· :. J':d·.-··.:: :·.·a', .. ·. :.:.· .• ·h' · · · :.· . · · Ha claramente mais pesqmsa. Ç!Jmparatiya .. 
· outros, os p:t:~pqps, es~u .. o~ ... e Ge,r~ .. :unY· e.· de . : ... , ... : .- .. . . . , · .. ·· . . . . . . .. . .... ·. · ... ;· ~ 
S 11. nh · .; · . ':. ·• .... : . . · d. · · ~·d·· ·~ .. :-·" aJazer sobre o Impacto da mudança ec.onóm~fa ,'· u Ivan reco. eGeram:que,, ap,~sa,r _;1s .t;n~ an,- . · . , . . . ··~ . :; .. " . . . · .· · .... , .. ·. 
·'··· ·· · · •. · : ·. · · · ' · ·. s .: ; ~~ 1'-'· ' .. · · · . .. • ... ·• · . .·. · · globá.l na divJsao famUiar do trabalho doméstic. o. :;.· cas soctais em curso• ·a mwneres contmuam na .·.::.. . · · · .· . : . · '· · . 
f~~ ~enerali~ade, .\!. Ç~f· fu~~ ;~iré~~ ·,d,6~.é.ª:t~~~~- a: s~4 . p?r~m, po q~e t~~aà COll1pt;eensãQ das soÇi~dade~ . 
:::;;c<trgo d~ que os hõin~P:~,'Çof.f~,hq~~4o~,~~~ede. . · ·~A~::~~~.liDça.,~qçiaL 9 .tr~balho de An11 Oafl~y 
;.l:': Oakley de quÇ,' rÚ~s .. ~p~i,é4~á6rfri·6~~t~.~s,. p,çrsi.~·~ ··. . d~se.!J-volyido n·osan~s 79 aler~PU. os s~ci.~~?~Qs . 
[' , tem atitudes e.p~e,$$pP,p~t~~pt9{u~\4@\e,~te~11fa,i::· · .. ·p~r.~ ;a pfcessidade d~ .analisar ~ão ~P!.~fu~~~~a.:.. , 
.;,·::zados acerca .ao·:giief:ciP.,StitU:t·ó ~au:g~ p~ópnà>~· ·. il)eil,t;c· as ..relações na e~fera dóm~stica·quwtp;.é\5 : 
W:a~s· ~tilli~t,;~~~i~~lá~~~~$.~ifi&"à~:· ·.·;: · · ,~;-' .. ·~.:··· : ·, ,; .: < · ;~I~çÔ,:f!s ~á: esfe.~~:aó~ ~ab~~ ·~~*~~Ú~~·:·: .: .. · ~ · .: ·. · .. · ·. 
.:'-'--· ... ; ... ~' ' .. ~ . . ; .· ... 
As implicações do envolvimento crescente 
das mulheres no mercado de trabalho na divisão 
dos encargos domésticos constituem uma ques-
tão fundamental para os sociólogos. Se a carga de 
···:;.; 
··, .. •, 
~-'---·-·trabalho domésdeo .. não· diminuiu, mas as mulheres 
mais distintivas do sistema económico das socieda-
des modernas. O trabalho divide-se em numerosas 
ocupações diferentes, em que as pessoas se especia-
lizam. Nas sociedades tradicionais, o trabalho não 
agrícola baseava-se em ofícios, cujo domínio perfeito 
era adquirido depois de um longo período de apren-
dizagem. O trabalhador executava normalmente 
rodas as fases do processo de produção, do princí-
pio ao fim. Por exemplo, ao f~bricar uma charrua, 
um ferreiro teria de forjar ferro, modelá-lo e final-
mente montar a charrua. Com o desenvolvimento 
da produção industrial moderna, muitos dos oHcios 
tradicionais desapareceram, sendo substituídos por 
especialistas que operam no âmbito de processos 
de produção mais amplos, tal como aconteceu com 
·~. 
totalmente dedicadas às tarefas domésticas são cada 
vez em menor número, então a gestão deste tipo de 
trabalho nos agregados familiares tem de ser organi-
zada de modo muito diferente na actualidade. 
A transformação da organização 
social do trabalho 
A existência de uma divisão do trabalho extrema-
mente complexa consritui uma das características 
--------~--······· -·· •"' ~· 
1014 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 
Jockey, cuja história de vida discutimos no início 
deste capítulo. Jockey dedicou a sua vida profissional 
à execução de uma tarefa altamente especializada, da 
mesma forma que aos seus colegas na fábrica coube a 
execução de outras tarefas especializadas. 
A sociedade moderna também tem assistido a 
uma mutação na localização do trabalho. Antes da 
industrialização, a maior parte do trabalho tinha 
lugar em casa, sendo realizado de forma colec-
tiva por todos os membros do agregado familiar. 
Os avanços na tecnologia industrial, como a maqui-
naria que opera a electricidade e a carvão, contri-
buíram para a separação entre o trabalho e a casa. 
As fábricas pertencentes a empresários tornaram-
-se pontos fulcrais do desenvolvimento industrial: 
a maquinaria e o equipamento concentravam-se na 
sua esfera, e a produção em massa de bens começou 
a eclipsar o artesanato de pequena escala produzido 
em casa. As pessoas, como Jockey, que procuravam 
empregos nas fábricas eram treinadas para dese111pe-
nhar uma tarefa específica, recebendo um salário por 
esse trabalho. O desempenho dos empregados era 
supervisionado por directores, que se preocupavam 
com a implementação de técnicas para melhorar a 
produtividade e a disciplina do trabalhador. 
O contraste entre a divisão do trabalho nas 
sociedades tradicionais e nas modernas é verdadei-
ramente extraordinário. Mesmo nas maiores socie-
dades tradicionais, não havia normalmente mais do 
que 20 ou 30 ofícios principais, juntamente com 
escassas ocupações especializadas, como as de nego-
ciante, soldàdo oÚ padre. Num sisÍ:emà industrial 
moderno, existem milhares de ocupações distintas. 
O recenseamento britânico inclui cerca de 20 000 
ocupações diferentes na economia do Reino Unido. 
Nas comunidades tradicionais, a maioria da popula-
ção trabalhava na agricultura, era economicamente 
auto-suficiente e produzia os seus próprios alimentos 
e vestuário, entre outros bens essenciais. Pelo contrá-
rio, uma das principais características das sociedades 
modernas é a enorme expansão da interdependên-
cia econ6mica. Todos dependemos de muitos traba-
lhadores -e, hoje em dia, esta dependência alarga-se 
a todo o Mundo - para a obtenção dos produtos e 
serviços de que necessitamos no quotidiano. Salvas 
algumas excepções, a grande maioria das pessoas nas 
sociedades modernas não produz os alimentos que· 
ingere, as habitações onde vive ou os bens materiais 
que consome. 
Os primeiros sociólogos escreveram extensiva-
mente sobre as consequências p<;>tenciais da divisão 
do trabalho - para cada trabalhador e para a socie-
dade no seu todo. Karl Marx foi um dos primeiros . 
autores a reflectir sobre o desenvolvimento da indús-
tria moderna e a consequent.e limitação do trabalho • · 
de grande parte dos indivíduos a tarefas monótonas 
e desinteressantes. De acordo com Marx, a divisão 
do trabalho aliena os seres humanos do seu traba-
lho. Para Marx, a alienação eram os sentimentos de 
indiferença ou hostilidade não apenas em relação ao 
trabalho, mas também face ao panorama geral da 
produção industrial num contexto capitalista. Marx · 
sublinhava que, nas sociedades tradicionais, o traba- . 
lho era amiúde extenuante - os camponeses tinham . 
por vezes de trabalhar de sol a sol. No çntanto, possu-
íam um real controlo sobre o seu trabalho, que reque-
ria muito conhecimento e destreza. Pelo contrário, 
possuindo pouco controlo sobre o seu trabalho, 
grande parte dos trabalhadores da indústria contri-
bui apenas parcialmente para a criação do produto 
global e não exerce qualquer influência sobre como 
c a quem esse produto é eventualmente vendido. 
Os marxistas defenderiam que'. P.ara trabal~~.d?.~es · 
como Jockey, o trabalho seria alienante, uma tarefa 
que precisavam de realizar em troca de um salário, 
mas que era intrinsecamente insatisfatória. 
Durkheim tinha uma perspectiva mais opd-
mista sobre a divisão do trabalho, apesar de também 
reconhecer os seus efeitos potencialmente nocivos ... 
De acordo com Durkheim, a especialização de 
papéis iria fortalecer a solidariedade social no 
âmbito das comunidades. Em vez de viverem em 
unidades isoladas e auto-suficientes, as pessoas 
estariam ligadas entre si por laços de dependência 
-----·--···········- .. ··-···· ...... -···' ' .... ' 
1nú cu a. A solidariedade seria reforçada através de 
n:i.ldonamcntos multidireccionais de produção e 
consumo. Durkheim viu este arranjo como sendo 
alc.uncntc funcional, apesar de também estar cons-
dcmc do facto de a solidariedade social poder ser 
perturbada se a mudança ocorresse demasiado 
depressa. Chamou anomia a esse sentido que resul-
taria da falta de normas. 
O taylorismo e o fordismo 
Há cerca de dois séculos, Adam Smith, um dos 
fundadores da economia moderna, identificava 
várias vantagens da divisão do trabalho para o 
aumento da produtividade. A sua obra mais famosa, 
A Riqueza das Nações (1776)2, abre com uma descri-
ção da divisão do trabalho numa fábrica de alfinetes. 
Uma pessoa que trabalhasse sozinha podia talvez 
fazer 20 alfinetes por dia. Ao dividir a tarefa numa 
série de operações simples, dez trabalhadores, efec-
tuando trabalhos especializados em colaboração uns 
com os outros, podiam produzir 48 000 alfinetes 
por dia. Por outras palavras, o índice de produção 
por trabalhador aumenta de 20 para 4800 alfinetes, 
produzindo .ca,d..ª- QP-er~~Q~ especializado 240 vezes 
mais do que se trabalhasse sozinho. 
Um século mais tarde, estas ideias alcança-
ram a sua expressão mais desenvolvida na obra 
de Frederick Winslow Taylor (1865-1915), um 
:onsultor de gestão americano. A «gestão demí-
lica», como Taylor lhe chamou, implicava o estudo 
pormenorizado dos processos industriais, de modo 
a dividi-los em operações simples que podiam 
, ~Publicada na série de «Textos Clássicos», da Fundação 
C.alousrc Gulbenkian. 
·---------------------···-·-·-··"• 
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1015 
ser cronometradas e organizadas com exactidão. 
O taylorismo, tal como foi designadaa gestão cientí-
fica,não era meramente um estudo académico. Mais 
precisamente, tratava-se de um sistema concebido 
para maximizar a produção industrial e cujo impacto 
se alargou não apenas à organização da produção 
e da tecnologia industrial, mas também às relações 
laborais. Em particular, os estudos de Taylor sobre o 
tempo óptimo de realização implicavam a perda de 
controlo do trabalhador sobre o processo de produ-
ção, conhecimento esse que passava para as mãos 
dos gestores, minando assim as bases que permitiam 
aos artesãos manter a autonomia em relação aos seus 
patrões (Braverrnan, 1974). Neste sentido, o taylo-
rismo tem sido largamente associado à desqualifica-
ção e à degradação do trabalho. 
Os princípios do taylorismo foram apropria-
dos pelo industrial Henry Ford ( 1863-1947). 
Ford projectou a sua primeira fábrica de carros em 
Highland Park, no Michigan, em 1908, para fabri-
car apenas um produto - o Ford Modelo T- envol-
vendo a introdução de ferramentas especializadas e 
de maquinaria criada para operações rápidas, preci-
sas c simples. Uma das inovações mais significativas 
de Ford foi a introdução da linha de montagem 
móvel alegadamente inspirada nos matadouros de 
Chicago, onde os animais eram esquartejados numa 
linha móvel. Cada trabalhador da linha de monta-
gem de Ford tinha uma tarefa específica, corno a de 
encaixar as maçanetas das portas do lado esquerdo, 
à medida que a estrutura do carro passava ao longo 
da linha. Até 1929, quando terminou o fabrico 
do lvlodelo T, tinham sido fabricados mais de 15 
milhões de carros. 
Ford foi um dos primeiros a reconhecer que 
a produção em massa requer grandes mercados, 
concluindo que se a produção padronizada - corno 
a produção de automóveis - implicava uma escala 
cada vez maior, então deveria também ter de ser 
assegurada a existência de consumidores capazes de 
adquirir os bens produzidos. Em 1914, Ford deu 
um passo sem precedentes, aumentando unilate-
1016 O TRABALHO EA VIDA ECONÓMICA 
ralmente os salários na sua fábrica em Darborn, no 
1'vfichigan, para cinco dólares por oito horas diúrias 
- um salário muito generoso que proporcionava um 
estilo de vida à classe operária <.JUe permitia a posse 
de um automóvel. Como sublinha David Harvcy: 
«A proposta de cinco dólares por oito horas diárias 
destinava-se em parte a assegurar a obediência do 
trabalhador à disciplina de trabalho exigida pelo 
sistema altamente produtivo da linha de montagem 
móveL Por coincidência, essa proposta foi criada 
com o intuito de proporcionar aos operários o rendi-
mento suficiente para consumirem os bens produ-
zidos em massa que as empresas estavam prestes a 
escoar em quantidades cada vez maiores» (1989, 
p. 126). Ford também recorreu aos serviços de um 
pequeno exército de trabalhadores sociais que foram 
enviados às casas dos trabalhadores para os educar 
nos hábitos de consumo adequados. 
O fordismo é o nome usado para designar o 
sistema de produção em série associado à criação de 
mercados de massa. Em determinados contextos, o 
termo adquire um significado mais específico, refe-
rindo-se ao período histórico de desenvolvimento 
do capitalismo após a Segunda Guerra Mundial, 
caracterizado pela produção em massa associada 
à estabilidade nas relações laborais e a um elevado 
grau de sindicalização. Durante o fordismo, as enti-
dades empregadoras estabeleciam compromissos 
a longo prazo com os trabalhadores e os salários 
estavam estreitamente associados ao crescimento da 
produtividade. Como tal, os acordos colectivos de 
trabalho- acordos formais negociad~s entre empre-
sas e sindicatos onde eram estabelecidas condições, 
como salários, direitos de antiguidade, regalias, etc. 
- encerravam um círculo virtuoso que assegurava o 
consentimento do trabalhador a regimes de automa-
tização do trabalho e uma suficiente procura pelos 
bens produzidos em massa. Em geral, considera-se 
que a falência deste sistema remonta aos anos 70, 
tendo resultado em maiores flexibilidade c insegu-
rança nas condições de trabalho. 
As razões para o desmantelamento do fordismo 
são complens e motivaram intensos debates. 
À medida que as empresas adoptavam os métodos 
de produção fordistas, o sistema confrontava-se 
com determinadas limitações. A dada altura, pare-
cia que o tordismo representava o futuro provável da 
produção industrial em gérál. Mas isso acabou por 
não acontecer. O sistema só pode ser desenvolvido 
em indústrias, como a automóvel, que fabriquem 
produtos estandardizados para grandes mercados; o 
estabelecimento de linhas de produção mecanizadas 
é muito dispendioso. De facto, uma vez instalado um 
sistema fordista, este é bastante rígido; para se alterar 
um produto, por exemplo, é necessário um investi-
mento novo e substancial. A produção fordista é rela-
tivamente fácil de copiar, caso haja fundos suficien-
tes para se montar a fábrica. Mas, nos países onde a 
mão-de-obra é cara, as empresas têm dificuldade em 
competir com as das regiões onde os salários são mais 
baixos. Este foi um dos factores do sucesso da indús-
tria automóvel japonesa (embora, actualmente, os 
níveis salariais japoneses já não sejam baixos) e, mais 
recentemente, da Coreia do Sul. 
Todavia, as dificuldades associadas ao fordismo 
e ao taylorismo vão para além da necessidade de 
equipamento caro. O fordismo e o taylorismo são 
aquilo a que alguns sociólogos do trabalho chamam 
sistemas de pequena responsabilidade. Os traba-
lhos são estabelecidos pela administração e são ajus-
tados ao funcionamento das máquinas. Aqueles que 
desempenham o trabalho são atentamente super-
visionados e é-lhes conferida pouca autonomia de··· 
acção. Por forma a manter a disciplina e padrões 
de produção de elevada qualidade, os empregados 
são constantemente controlados através de diversos 
sistemas de vigilância. 
Esta superVlsao constante tende, no entanto, 
,1 pwduzir o resultado contrário: o compromisso 
c.:urn o rrabalho e a moral dos rrabalhadores ficam 
frequentemente debilitados, na medida em que eles 
1wuco têm a dizer sobre o seu trabalho e a forma 
..;,,.,\;) de é desempenhado. Onde existem muitos 
Dosms de trabalho com pequena autonomia, vcri-
Íi.c.:a-sc um nível elevado de insatisfação e de absen-
tismo dos trabalhadores, e o conflito industrial é 
habicual. 
Em contraste, num sistema de grande respon-
sabilidade, permite-se aos trabalhadores controlar o 
ritmo e mesmo o teor do trabalho segundo regras 
·gerais. Estes sistemas encontram-se, geralmente, nos 
níveis mais elevados das organizações industriais. 
Como iremos observar, nas últimas décadas os siste-
mas de grande responsabilidade difundiram-se em 
muitos locais de trabalho, transformando bastante 
a forma como pensamos a organização e a execução 
do trabalho. 
A globalização e o pós-fordismo 
Nas últimas décadas, têm sido introduzidas práti-
cas flexíveis num determinado número de esferas, 
incluindo o desenvolvimento de produtos, técnicas 
de produção, estilo de gestão, ambiente de traba-
lho, envolvimento dos empregados e marketing. 
Os grupos de produção, as equipas de resolução de 
problemas, a multitarefa e o mtzrketing de nichos 
são apenas algtu:u.a..ulé!s .. estratégias adoptadas por 
empresas que procuram reestruturar-se para tirar 
proveito das oportunidades proporcionadas pela 
economia global. Alguns comentadores têm suge-
rido que, no seu conjunto, estas mudanças repre-
sentam, uma ruptura radica! com os ptindpios 
do fordismo; afirmam que estamos agora num 
período que pode ser melhor compreendido como 
pós-fordismo. Popularizado por Michael Piore e 
Charles Sabel na obra The Second Industrial Divide 
(1984), o pós-fordismo descreve uma nova era de 
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1017 
produção económica capitalista na qual a flexibili-
dade e a inovação são maximizadas por forma a ir de 
encontro às solicitacõcs do mercado em matéria de 
' 
produtos diversos e padronizados.A ideia do pós-fordismo é, contudo, problem<Í.-
tica. O termo refere-se a um conjunto de mudan-
ças simultâneas que ocorrem não só no domínio do 
trabalho e da vida económica, mas também na socie-
dade no seu todo. Para alguns auwres a tendência 
para o pós-fordismo pode ser encontrada em esferas 
tão diversas como os partidos políticos, os progra-
mas de segurança social, as escolhas do consumidor 
e os estilos de vida. Apesar de os observadores da 
sociedade contemporânea apontarem frequente-
mente para muitas das mesmas mudanças, não existe 
consenso sobre o significado preciso do pós-fordismo 
e se esta é, de facto, a melhor forma de compreender 
os fenómenos de que somos testemunhas. 
Apesar da confusão em torno do termo pós-
-fordismo, têm emergido nas décadas mais recentes 
diversas tendências distintas no mundo do trabalho 
que parecem representar uma ruptura clara com 
práticas fordistas mais antigas. Essas tendências 
incluem a descentralização do trabalho em equipas 
não hierarquizadas, a ideia de produção flexível e de 
personalização em massa, a disseminação da produ-
ção global, bem como a introdução de uma estrutura 
ocupacional mais aberra. Antes de expormos algu-
mas críticas à tese do pós-fordismo, iremos conside-
rar alguns exemplos das três primeiras tendências. 
A produção em grupo 
A produção em grupo -grupos de trabalho ao invés 
de linhas de montagem- tem sido, por vezes, imple-
mentada conjuntamente com a automatização como 
forma de reorganização do trabalho. O objectivo 
principal é aumentar a motivação do trabalhador, 
permitindo que grupos de trabalhadores colaborem 
no processo de produção ao invés de exigir que cada 
um passe o dia inteiro a realizar uma tarefa única c 
1018 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 
repetitiva, como atarraxar parafusos na maçaneta da 
porta de um carro. 
Um exemplo de produção em grupo são os círcu-
los de qualidade, constituídos por grupos de cinco 
a 20 trabalhadores que se encontram regularmente 
para estudar e rcsoh'er problemas de produção. Os 
trabalhadores que pertencem aos círculos de quali-
dade recebem uma formação suplementar que lhes 
permite dar um contributo técnico para a discussão 
de assuntos de produção. Os círculos de qualidade 
tiveram a sua origem nos Estados Unidos, foram 
adoptados por empresas japonesas, e re-populari-
zados nas economias ocidentais nos anos 80. Eles 
representam uma brecha nos princípios do taylo-
rismo, na medida em que reconhecem que os traba-
lhadores possuem capacidade para contribuir para a 
definição das tarefas que realizam e do método pelo 
qual são realizadas. 
Os efeitos positivos da produção em grupo nos 
trabalhadores podem incluir a aquisição de novas 
competências, o aumento da autonomia, a redu-
ção da supervisão da gestão e um orgulho crescente 
nos bens que produzem e nos serviços que prestam. 
No entanto, os estudos têm identificado diversas 
consequências negativas da produção em equipa. 
Ainda que a autoridade directa da gestão seja menos 
evidente numa dinâmica de equipa, existem outras 
formas de monitorização, como a supervisão exer-
cida por outros trabalhadores da equipa: Na sua 
experiência de trabalho numa linha de montagem 
da fábrica de automóveis japonesa Subaru-Isuzu 
instalada no Indiana, nos Est~dos Unidos, a soció-
loga americana Laurie Graham confrontou-se com 
uma pressão implacável dos seus colegas no sentido 
de uma maior produtividade. 
Uma colega de Graham confidenciou-lhe que, 
uma vez passado o entusiasmo inicial com o conceito 
de equipa, constatou que a supervisão dos pares 
consistia apenas numa nova tentativa por parte da 
direcção para que as pessoas trabalhassem «até 
caiu>. Graham (1995) também observou que a 
Subaru-Isuzu utilizava o conceito de produção cm 
grupo como forma de resistir aos sindicatos, com o 
argumento de que direcção e trabalhadores forma-
vam uma «equipa», pelo que as duas partes não 
deveriam entrar em conflito. Por outras palavras, 
o bom «jogador de equipa» não reivindica. Na 
fábrica da Subaru-Isuzu em que Graham trabalhou, 
as reivindicações por aumentos de salário ou redu-
ção de responsabilidades eram consideradas próprias 
de um trabalhador pouco cooperante. Apesar de os 
processos de produção em equipa proporcionarem 
aos trabalhadores a oportunidade de trabalhar de 
uma forma menos monótona, estudos como o de 
Graham levaram os sociólogos a concluir que os 
sistemas de controlo e poder persistem no local de 
trabalho. 
Flexibilização da produção e personalização 
em massa 
Uma das mudanças globais mais importantes ocor-
ridas nas últimas décadas no contexto dos processos 
de produção foi a introdução do design assistido 
por computador e a produção flexível. Apesar de o 
taylorismo e o fotdismo terem obtido sucesso na 
produção em série (de bens totalmente pàdroni-
zados) para mercados de massas, não conseguiam 
produzir pequenas encomendas de mercadorias e, 
deste modo, atender aos pedidos específicos efec-
tuados por clientes individuais. As limitações dos 
sistemas taylorista e fordista no que se refere à capa-
cidade de personalizar os seus produtos reflectem-
-se na famosa observação sarcástica de Henry Ford 
a propósito do primeiro automóvel produzido em 
série: «As pessoas podem ter o lvfodelo Tem qual-
quer cor, desde que seja em preto». O design assis-
,. 
·~· 
': 
cido por computador, juntamente com Oturos tipos 
Jc tecnologia informática, alterou de forma radical 
,·sca situação. Stanley Davis refere-se à emergência da 
•< personalização em massa», pois as novas tecnolo-
gias vieram permitir a produção em larga escala 
de artigos concebidos para determinados clientes. 
Numa linha de montagem, podiam ser produzidas 
)000 camisas por dia. Hoje, é possível personalizar 
cada uma dessas camisas com a mesma rapidez e 
sem custos maiores do que os da produção de 5000 
exemplares idênticos (Davis, 1988). 
Embora a produção flexível tenha vindo benef-I-
ciar os consumidores e a economia em geral, o seu 
deito junto dos trabalhadores tem estado longe de 
ser totalmente positivo. Ainda que os trabalhadores 
adquiram novas competências e exerçam actividades 
menos monótonas, a produção flexível pode impli-
car um conjunto inteiramente novo de pressões, 
resultantes da necessidade de coordenar de forma 
meticulosa processos de produção complexos e 
conseguir resultados com rapidez. De acordo com 
os exemplos documentados por Laurie Graham no 
estudo que realizou sobre a fábrica da Subaru-Isuzu, 
os trabalhadores tinham de aguardar até ao último 
minuto nas etapas decisivas do processo produtivo, 
sendo portanto forçados a trabalhar m~is horas e 
mais intensivamente para manter o programa de 
produção, sem qualquer compensação adicional. 
Tecnologias como a Internet podem ser utiliza-
das para solicitar informação sobre cada consumidor 
e, deste modo, .fab.ricar .. os.produtos precisamente de 
acordo com as suas especificações. De acordo com 
os seus defensores entusiásticos, a personalização 
em massa constitui uma nova Revolução Industrial, 
representando um desenvolvimento tão importante 
l}Uanto a introdução das técnicas de produção em 
série no século XX. No entanto, os que se declaram 
cépticos quanto a este sistema de produção contra-
põem que a personalização em massa, tal como hoje 
se pratica, apenas cria a ilusão de escolha, uma vez 
que, na realidade, as opções ao dispor dos clientes 
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1019 
na Internet não são maiores do que as oferecidas por 
um típico catálogo de venda por correio (Collins, 
2000). 
A Dell Computer é um dos fabriettntes que mais 
tem vindo a apostar na personalização em massa. 
Os consumidores que queiram comprar um compu-
tador ao f~tbricante devem fazê-lo online no site da 
Dell, pois a companhia não tem lojas. Os clientes 
podem escolher a combinação precisa de caracte-
rísticas que desejam. Uma vez feita a encomenda, 
o computador é montadode acordo com as espe-
cificações do cliente e enviado num espaço de dias. 
Com efeito, a Dcll inverteu as .Formas tradicionais 
de negócio: as empresas produziam os artigos e só 
posteriormente se preocupavam com a sua venda. 
Actualmente, empresas convertidas à personali-
zação em massa, como a Dell, vendem primeiro e 
produzem depois. Esta mudança tem um grande 
impacto na indústria. A necessidade de manter arti-
gos em armazém- o que tem um custo considerável 
para os fabricantes - foi drasticamente reduzida. 
Por outro lado, uma componente cada vez maior da 
produção é efectuada por terceiros. Deste modo, a 
rápida transferência de informação entre fabricantes 
e fornecedores- também facilitada pela Internet- é 
essencial para a implementação eficaz da personali-
zação em massa. 
Produção global 
As mudanças na produção industrial não incluem 
apenas o modo de fabrico dos produtos, mas 
também o local da sua produção, tal como verificá-
mos com o exemplo da boneca Barbie apresentado 
no Capítulo 4. Durante grande parte do século 
XX, as mais importantes organizações empresariais 
eram companhias de produção em grande escala 
que controlavam tanto o fabrico dos seus artigos 
como a sua venda. Dois casos exemplares deste 
procedimento são as grandes companhias de <ll~to­
móveis norte-americanas Ford e General Motors, 
l.l 
1l 
1020 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 
que empregam dezenas de milhares de trabalhado-
res, fabricam integralmente os seus produtos - dos 
componentes individuais aos próprios automóveis 
- e vendem-nos nas suas próprias lojas. A organi-
zação destes processos de produção sob a alçada do 
fabricante implica burocracias de grande enverga-
dura, frequentemente controladas por uma única 
companhia. 
Porém, durante os últimos 20 ou 30 anos, outra 
forma de produção tem vindo a assumir relevo: a 
produção controlada pelos grandes retalhistas. Nesta 
forma de produção, retalhistas como a Wal-Mart 
- a segunda maior empresa do Mundo em 2000 -
adquirem produtos a fabricantes que, por sua vez, 
recorrem a fábricas de propriedade alheia. 
Os sociólogos americanos Edna Bonacich e 
Richard Appelbaum (2000) mostram que, na 
produção de vestuário, a maioria dos fabricantes 
não emprega actualmente nenhum operário têxtil. 
Pelo contrário, dependem de milhares de fábricas 
que não são propriedade sua em todo o Mundo para 
a execução do vestuário que será vendido em lojas 
da especialidade e outro tipo de estabelecimentos. 
Deste modo, não recai sobre os fabricantes a respon-
sabilidade pelas condições de produção do vestuário 
que vendem. Dois terços do vestuário vendido nos 
Estados Unidos é produzido em fábricas fora do país, 
onde a remuneração dos trabalhadores representa 
uma fracção de um salário americano (na ·China, é 
afortunado o trabalhador que aufere 40 dólares -
pouco menos de 30 euros -por mês). Bonacich e 
Appelbaum entendem ··que esta comp·eti'ç'ão · téslilta 
numa «corrida global para atingir o ponto mais 
baixo» em que os retalhistas c os fabricantes estão 
dispostos a deslocar-se a qualquer lugar do globo 
para conseguirem o salário mais baixo possível. Com 
efeito, grande parte do vestuário que hoje adquirimos 
foi provavelmente próduzido em fábricas dandesti~ 
nas por trabalhadores jovens- muitas vezes raparigas 
adolescentes - que ganham quantias irrisórias para 
fabricarem vestuário ou sapatos de desporto vendi-
dos por dezenas ou mesmo centenas de euros. 
Críticas ao pós-fordismo 
Embora reconheçam a ocorrência de transformações 
no mundo do trabalho, alguns analistas rejeitam o 
rótulo de «pós-fordismo». Uma crítica comum é ade 
que os analistas pós-fordistas empolam a real dimen-
são do abandono das práticas fordistas. Assistimos 
não a uma transformação em grande escala, como 
nos querem fazer acreditar os defensores do pós-
-fordismo, mas à integração de algumas novas abor-
dagens em técnicas fordistas tradicionais. Este argu-
mento tem sido adoptado por aqueles que alegam 
estarmos a passar na actualidade por um período de 
«neofordismo», isto é, por transformações das técni-
cas fordistas tradicionais (Wood, 1989). 
Tem sido sugerido que a ideia de uma transição 
linear suave de um período dominado por técnicas·· 
fordistas para um dominado por técnicas pós-fordis- · 
tas exagera a verdadeira natureza do trabalho em 
ambos. Anna Pollert (1988) sustenta que as técni-
cas fordistas nunca estiveram tão arreigadas quanto 
alguns de nós acreditam. É também um exagero, . 
segundo Pollert, afirmar que a era da produção em 
massa tenha sido substituída pela da flexibilidade 
total. A autora sublinha que as técnicas de produção 
em massa são ainda dominantes em muitas indús-
trias, especialmente naquelas que têm como alvo 
mercados de consumidores. De acordo com Pollert, 
a produção económica tem-se caracterizado sempre ·. 
pelo emprego de uma diversidade de técnicas e não . 
por uma única abordagem padronizada. 
O trabalho em mudança 
A estrutura ocupacional dos países industrializa-
dos tem passado por alterações profundas desde o 
início do século XX, quando o mercado de traba-
lho era dominado pelo trabalho manual de colari- · 
nho azul, tendência que, posteriormente, viria a 
sofrer uma inversão no sentido do crescimento do 
trabalho de colarinho branco no sector dos serviços. 
No (~tdro 20.1 expõe-se o declínio gradual do 
rraba[ho manual e a emergência do sector dos servi-
..:osnoReino Unido, em 198l.Em 1900,maisdetrês 
' 
t.lua.rtos da população empregada no Reino Unido 
•:xccutava trabalho manual (colarinho azul). Cerca 
de 28 por cento destes eram trabalhadores especia-
lizados, 35 por cento semi-especializados e 1 O por 
cento sem especialização. O número de trabalha-
dores de colarinho branco e «profissionais» 3 era 
rdativamente reduzido. A meio do século, os traba-
lhadores manuais perfaziam menos de dois terços 
da população com trabalho remunerado, tendo o 
trabalho não manual aumentado na mesma propor-
cão. Entre 1981 e 2006, o trabalho manual na indús-, 
cria manufactureira decresceu de 31 para apenas 17 
por cento (entre os homens) e de 18 para 6 por cento 
(entre as mulheres). 
Existe uma grande discussão em torno das causas 
destas mudanças. Parece haver várias razões para elas. 
Uma delas foi a introdução sistemática de máquinas 
que substituem o trabalho humano, culminando 
com a generalização da tecnologia da informação na 
indústria nos últimos anos. Outra, o aumento das 
indústrias fabris fora do Ocidente, especialmente no 
Extremo Oriente. As velhas indt1strias nas socieda-
des ocidentais passaram por gr:~n._d..~~.~~f~~-~.~.S. .. ~l!l 
virtude da sua incapacidade para competir com os 
produtores mais eficientes do Extremo Oriente, cuja 
mão-de-obra é mais barata. 
.. A globalização da produção económica, junta-
mente com a disseminação das tecnologias de infor-
mação, tem vindo a alterar a natureza do trabalho 
3 Nota do revisor cient(fico: Do inglês «profcssionals». Este 
termo designa aqueles que têm uma formação especializada, que 
exige, cm particular, níveis elevados de preparação académica . 
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1021 
da maioria das populações. Tal como é discutido 
no Capítulo 11 «Estratificação e classe social», 
a proporção de indivíduos que exerce uma activi-
dade de colarinho azul tem sofrido um decréscimo 
progressivo nos países industrializados. O declínio 
na adesão aos sindicatos representa uma das conse-
quências mais significativas desse decréscimo. 
O declínio dos sindicatos? 
Na maior parte dos países, existem organizações 
sindicais - ainda que os níveis de sindicalização e a 
extensão do seu poder variem substancialmente -
sendo o direito dos trabalhadores à greve na prosse-
cução de objectivos económicos legalmente reconhe-
cido pelos governos. Porque se tornaram os sindica-
tos uma característica fundamental das sociedades 
modernas? Porque razão o conflito entre os sindica-
tos e o patronato parece ser uma possibilidade mais 
oumenos presente nos contextos industriais? 
No princípio do desenvolvimento da indústria 
moderna, na maioria dos países, os trabalhadores 
não tinham direitos políticos e tinham muito pouca 
influência sobre as suas condições de trabalho. 
Os sindicatos surgiram, em primeiro lugar, como 
meio de correcção do desequilíbrio de poder entre 
trabalhadores e entidade patronal. Os trabalhado-
res tinham pouco poder individualmente, mas a sua 
influência aumentava de forma considerável atra-
vés da sua organização colectiva. Um patrão pode 
dispensar o trabalho de um só trabalhador, mas não 
o trabalho de todos ou da maioria dos trabalhadores 
de uma fábrica ou instalação industrial. A princí-
pio, os sindicatos eram essencialmente organizações 
«defensivas», que proporcionavam os meios pelos 
quais os trabalhadores se podiam ópor ao poder 
esmagador exercido pelos patrões sobre as suas vidas. 
Actualmente, os trabalhadores têm direito ao voto e 
há formas estabelecidas de negociação com a enti-
dade patronal que contemplam a reivindicação de 
regalias económicas e o direito à greve. Todavia, a 
influência do sindicato consiste essencialmente num 
>n 
1022 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 
poder de veto, quer ao nível local da fábrica, quer 
a nível nacional. Por outras palavras, com os recur-
sos que têm à sua disposição - incluindo o direito 
à greve - os ~indicatos podem apenas bloquear as 
políticas ou as iniciativas do patronato, mas não 
ajudar a formulá-las de início. Há excepções a este 
facto, por exemplo quando sindicatos e empregado-
res negoceiam contratos periódicos sobre condições 
de trabalho. 
O período posterior à Segunda Guerra Mundial 
assistiu a uma inversão drástica da posição dos sindi-
catos nas sociedades fortemente industrializadas. 
Entre 1950 e 1980 assistiu-se a um crescimento cons-
tante da densidade sindical na maioria dos países 
desenvolvidos. A densidade sindical é um indica-
dor estatístico que representa a percentagem de 
membros efectivos dos sindicatos no conjunto dos 
membros potenciais. No final dos anos 70 e início 
dos anos 80, mais de 50% da força de trabalho britâ-
nica era sindicalizada. Há diversas razões que expli-
cam a elevada densidade sindical em vários países do 
Ocidente. Por um lado, grandes partidos políticos 
apoiados pela classe trabalhadora criaram condi-
ções favoráveis à organização sindical. Por outro, 
a coordenação das negociações entre companhias 
e sindicatos não se efectuava de forma descentrali-
zada a nível sectorial ou local, mas a nível nacional. 
Por último, em lugar do Estado, eram os sin4icatos 
que administravam o subsídio de desemprego, asse-
gurando que os trabalhadores que perdiam os seus 
empregos não abandonavam .o movimento sindical. 
Os países que apenas contavam com alguns destes 
factores apresentavam taxas de densidade sindical 
inferiores: entre dois quintos a dois terços da popu-
lação empregada. 
Desde o seu pico nos anos 70, os sindicatos têm 
vindo a sofrer um declínio ·h os pàíses fortemente 
industrializados. São diversas as explicações avan-
çadas no que toca às dificuldades com que se deba-
tem os sindicatos desde 1980, sendo porventura a 
mais comum o declínio da antiga indústria trans-
formadora e a emergência do sector dos serviços. 
A indústria transformadora constitui, por tradição, 
uma fortaleza do trabalhismo, enquanto o sector dos 
serviços é mais resistente à sindicalização. 
No entanto, este argumento tem sido alvo de . ',1 
crítica. De acordo com o sociólogo Bruce Western · ., 
(1997), tal explicação não permite compreender que ·j 
os anos 70 tenham, em geral, constituído um perí- '?' 
-'I 
odo favorável aos sindicatos - com a excepção dos · ~~ 
Estados Unidos - e, simultaneamente, um período .· 't: 
de mudança estrutural com o declínio da produção 
industrial e o crescimento do sector dos serviços. De 
igual modo, uma parte significativa do aumento do 
emprego neste sector ocorreu nos serviços sociais 
- o típico emprego sindicalizado do sector público. 
Neste sentido, Western defende que o declínio da 
sindicalização no contexto da indústria transforma-
dora pode ser mais significativo do que o declínio 
noutros sectores. 
Há várias explicações para o declínio da densi-
dade sindical no sector industrial. Em primeiro 
lugar, a recessão da actividade e<:;onómica mundial 
associada a níveis de desemprego elevados, particu-
larmente durante os anos 80, enfraqueceu a. posi~ 
ção de negociação do sindicalismo. Em segundo 
lugar, a intensificação da competição internacional, 
sobretudo oriunda dos países do Extremo Oriente, 
contribuiu também para enfraquecer o poder de 
negociação dos sindicatos. Em terceiro lugar, a . 
subida ao poder de governos de direita - como a 
dos Conservadores britânicos em 1979 - em diver- < 
sos .p.aíses.implicotJ .um fon~ .. éltª-qJ.!~. ªºª -~in9lç_~t9.Lj 
durante os anos 80. Os sindicatos perderam diversas ·.:j 
batalhas importantes, como a greve que se saldou . _i 
pela aniquilação da União Nacional de Mineiros no ··"i 
Reino Unido, entre 1984 e 1~-85. Nos últimos 25..._::'j 
anos, os sectores em que as condições de trabalho e . 
I 
os salários são protegidos pelos sindicatos têm vindo·, ·i 
a perder peso em diversos sectores importantes da ' 
indústria. 
O declínio na sindicalização e na influência dos 
sindicatos é um fenómeno generalizado nos países 
industrializados, e não pode ser inteiramente expli-
c.do pela pressão política exercida por governos 
d<.: direita contra os sindicatos. Estes enfraquecem 
habitualmente em períodos de desemprego elevado, 
rai como aconteceu no Reino Unido nos anos 80 e 
90, :;e bem que a adesão sindical entre os trabalha-
dores bricànicos tenha continuado a decrescer, de 
29% em 2005 para 28,4% em 2006 (ONS, 2007). 
As tendências para uma maior flexibilidade na 
produção tendem a diminuir a força do sindica-
lismo, que floresce mais amplamente quando muitos 
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1023 
trabalhadores estão concentrados em grandes unida-
des industriais. Ainda assim, os sindicatos têm traba-
lhado arduamente para estabilizar a sua posição e 
permanecer como força significativa na maioria 
dos países do Ocidente. Tendo em linha de conta as 
escassas oportunidades de poder dos trabalhadores 
relativamente ao poder do patronato, é improvável 
que a força colectiva representada pelos sindicatos 
venha a desaparecer. 
tl 
r 
+f 
h 
1024 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 
Pensar de um modo crítico 
Por que razão as greves são menos frequen-
tes nos grupos ocupacionais de «colarinho 
branco» do que entre os trabalhadores indus-
triais de «colarinho azul»? Nas economias 
«pós-industriais» do Ocidente, dominadas 
pelo .trabalho ··de--escritório ··e pelo· emprego··· 
nos serviços, as greves estarão destinadas a 
pertencer ao passado? ~ais as implicações 
de tal transformação do trabalho na teoria 
marxista da revolução de classes? Sem o aüxí-
lio dos trabalhadores nas economias desen-
volvidas, seria ·possível·aos trabalhadores nas 
economias em vias de industrialização dos 
países em desenvolvimento concretizarem a 
previsão de Marx? 
'•_, 
O género e a «feminização do trabalho» 
\ 
' 
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Assistimos a um decréscimo do número de operários l 
1 industriais no mundo desenvolvido em comparação )
1
. 
com o século passado. A maior parte dos novos 
... ernpr<:go..~ t~.rn. su~gi9:9.. ~m J;;s.çJ:ÜÓdQs .e ... centros .. de.. .. --·-l 
serviços - como os supermercados, os centros de "\ 
atendimento e os aeroportos -, sendo muitos desses 
postos de trabalho ocupados por mulheres. Esta 
« feminfzação da força de trabafho» não só repre-
senta uma mudança histórica crucial ~os padrões do 
emprego, alterando a própria experiência do traba-
lho remunerado, como também implica transforma-
ções nas relações de género em todos os domínios da 
sociedade - incluindo a educação e a esfera domés-
tica. Por esta razão, esta «feminizacáo do trabalho» 
' 
exige uma atenção especialaqui. 
Ao longo da história, homens e mulheres têm 
contribuído para a produção e a reprodução do 
mundo social em que estão inseridos, tanto no quoti-
diano como ao longo de grandes períodos de t~mpo. 
Porém, a natureza desta parceria e a distribuição de 
responsabilidades no seu âmbito transformaram-se 
ao longo do tempo. Até há pouco tempo, nos países 
ocidentais o trabalho remunerado era uma caracte-
rística predominante dos homens. Nas últimas déca-
das esta situação alterou-se radicalmente. Há cada 
vez mais mulheres a entrar no mercado de trabalho, 
um fenómeno que tem sido designado como « femi-
nização do trabalho» (Caraway, 2007). 
Na maior parte das regiões do Mundo, as mulhe-
res representam hoje pelo menos metade da força 
de trabalho (ver Figuras 20.1 e 20.2), ainda que 
os tipos de emprego sejam bastante diferenciados 
entre os sexos. Por exemplo, nas regiões desenvol-
vidas e na União Europeia, na Europa Central e de 
Leste, na Comunidade dos Estados Independentes, 
na América Latina, no Médio O~~e!?:~~ .~ n() ~()rt~ 
de África, as mulheres estão predominantemente 
empregadas no sector dos serviços. Por sua vez, na 
África Subsariana, onde mais de 60% da força de 
trabalho é feminina, as mulheres trabalham sobre-
tudo na agrieulti:l-ra-;-De-acordo com um relat6rio da 
Organiz~ção Internacional do Trabalho (2007), o 
mesmo sucede no Leste e no Sul da Ásia, no Médio 
Oriente e no Norte de África, onde as mulheres 
representam uma parcela maior do que os homens 
no que toca aos empregos na agricultura. Em geral, a 
esmagadora maioria dos trabalhadores está hoje nos 
serviços e na agricultura, enquanto menos de um 
quarto trabalha na indústria transformadora. Em 
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA ·1 025 
2005, verificou-se pela primeira vez que a percen-
tagem mais elevada da força de trabalho no seu 
conJ'unro se concentrava nos servicos, e não na aari-
' v 
cultura ou na indústria (Figura 20.1). É provável que 
esta tendência para o emprego no sector dos serviços 
perdure. 
Por outro lado, a natureza do emprego das 
mulheres é diferente da dos homens. Relatórios sobre 
o Reino Unido sugerem que três em cada quatro 
mulheres no mercado de trabalho exerce um traba-
lho a tempo parcial e mal remunerado: empregadas 
de escritório, empregadas de limpeza, empregadas 
de mesa e caixas. Este padrão observa-se em várias 
economias desenvolvidas (Women and Equality 
Unit, 2004). Nas próximas secções, iremos analisar 
as origens e as implicações deste fenómeno -uma das 
transformações mais importantes da actualidade. 
As mulheres e o local de trabalho: uma visão 
histórica 
Para a grande maioria da população nas sociedades 
pré-industriais (e para grande parte das populações 
nos países em desenvolvimento), as actividades 
produtivas e as actividades domésticas não estavam 
separadas. A produção era levada a cabo em casa 
ou perto dela e todos os membros de uma família 
trabalhavam a terra ou ocupavam-se em trabalhos 
artesanais. Muitas vezes as mulheres tinham uma 
grande influência dentro do lar em consequência da 
sua importância nos processos económicos, mesmo 
sendo excluídas do mundo masculino da política e 
da guerra. As mulheres dos artesãos e as dos agricul-
tores geriam, frequentemente, as contas destas acti-
vidades. Também era vulgar as viúvas possuírem e 
dirigirem os negócios. 
1026 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 
50,0,-------------------------------------------------------------------~ 
35,0 
% --~ Mulheres na agricultura -{ti- Mulheres na indústria ~~ Mulheres nos serviços 
30,0 -+- Homens na agricultura -11- Homens na indústria -Jk- Homens nos serviços 
25,0 
IIII 11 .. III • • 11 IIII III III III 
20,0 
15,0 
1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 
Figura 20.1 Percentagem de homens c mulheres nos diferentes sectores de actividade sobre o total de empregados, 1996-2006. 
Fonte:© Organização Internacional do Trabalho (OIT), 2007. 
100%~--------~----------------------------------------,---------~ 
90o/ot---------~~~~~~~~~~~~~::~~~~::~~--ra~~~ 
80%+-----------------~~ 
70% 
60% 
50% 
40% 
30% 
20% 
10% 
0% 
Economias Europa Leste 
desenvolvidas Central e . . ... ~.!liªt!9..9. . · · .... e.União ____ ··· ...... d.ã-Cêst;; · 
Europeia (palses não 
pertencentes 
à UE) e CEI 
Sudoeste 
. ... Aê.i.Miç.9. E! 
Pacifico 
Sul 
d.aAsi!! .. 
América Médio 
..... kª!LQ!I..!'I. Oriente e 
Caralbas ·. · .... N~rte-éià--····· 
África 
Figura 20.2 Força de trabalho segundo o género c a região, 1996 e 2006. 
Fonte: OIT, 2007. 
O desenvolvimento da indústria moderna veio 
modificar muitas destas situações, com a separação 
entre a casa e o local de trabalho. O factor principal 
da mudança residiu provavelmente na passagem da 
produção para as fábricas mecanizadas. O trabalho 
era realizado ao ritmo das máquinas por indivíduos 
contratados especialmente para executar as tarefas 
em questão. Assim, os donos das fábricas começa-
r:u11 a contratar preferencialmente trabalhadores 
; nclividuais e não famílias. 
Com o tempo e o progresso da industrialização, 
;;scabeleceu~se uma divisão crescente entre casa c 
local de trabalho. A_ ideia de esferas separadas -
t-'Ltblica c privada - cnraizou~se nas atitudes popu~ 
lares. Em virtude do seu emprego fora de casa, os 
homens passavam mais tempo no domínio público, 
envolvendo~se mais em assuntos locais, políticos e 
económicos. As mulheres vieram a ser associadas 
aos valores «domésticos», sendo responsáveis por 
mrefas como o cuidado das crianças, a manuten~ 
ção da casa e a preparação da comida para a famí~ 
lia. A ideia de que «o lugar da mulher é em casa» 
teve um sentido diferente para mulheres de estratos 
sociais diferentes. Mulheres com posses usufruíam 
dos serviços de criadas, amas e empregadas domés~ 
ricas. As dificuldades maiores eram suportadas pelas 
mulheres mais pobres, que, para além de realizarem 
as tarefas domésticas, tinham de trabalhar na indús~ 
tria para complementar o rendimento do marido. 
As taxas de emprego da mulher fora do lar, em 
todas as classes, eram bastante baixas mesmo já depois 
de bem entrado o século XX. Ainda em 1910, na 
Grã~Bretanha, mais de um terço das mulheres com 
emprego eram criadas ou empregadas domésticas. 
A força de trabalho feminino consistia--essencial-
mente em jovens mulheres solteiras, cujos salários, 
quando trabalhavam em fábricas ou escritórios, 
eram enviados directamente para os pais. Ao casa~ 
rem retiravam~se da for~a de trabalho, dedicando~se 
····· · apenas·às·obriga:ções-f.a:m·iliares; · · 
O crescimento da participação das mulheres 
na actividade económica 
Ao longo do último século, a parttctpação das 
mulheres no trabalho remunerado tem vindo a 
conhecer um aumento mais ou menos contínuo. 
Uma das maiores causas residiu na falta de mão~de~ 
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1027 
anteriormente consideradas exclusivas dos homens. 
Ao regressarem da guerra, os homens ocuparam de 
novo esses empregos, mas o padrão pré~estabelecido 
tinha sido quebrado. Nos anos que se seguiram à 
Segunda Guerra Mundial, a divisão do trabalho com 
base no género mudou drasticamente. Entre 1971 e 
2006, a taxa de emprego no Reino Unido- ou seja, a 
percentagem da população activa empregada - cres~ 
ceu de 58 para 70% entre as mulheres. Pelo cormá~ 
rio, a taxa de emprego entre os homens sofreu um 
decréscimo de 92 para 79% o no mesmo período. 
Deste modo, a distância entre as taxas de emprego 
dos homens e das mulheres atenuou~se significati-
vamente, de 35%, em 1971, para 9%, em 2006 (ver 
Figura 20.3). É provável que continue a observar-
~se esta atenuação da diferença entre os géneros rios 
próximos anos, ainda que parte considerável do 
crescimento da actividade económica das mulheres 
se deva ao aumento do trabalho a tempo parcial. 
Existem várias razões para o enfraquecimento da 
desigualdade entre homens e mulheres nas taxas 
de actividade económica em décadas recentes. Em 
primeirolugar, houve mudanças no âmbito e na 
natureza das tarefas tradicionalmente associadas às 
mulheres e à «esfera doméstica». Como a taxa de 
natalidade tem decrescido e a média das idades das 
mães com filhos aumentou, muitas mulheres procu-
ram trabalho remunerado quando jovens, regres-
sando ao trabalho após o nascimento dos filhos. 
A diminuição da família teve como consequência 
a redução do tempo que outrora muitas mulheres 
dedicavam à casa e aos filhos. A mecanização de 
muitas tarefas domésticas também ajudou a reduzir 
o volume de tempo necessário à manutenção da casa. 
Máquinas de lavar louça automáticas, aspiradores e 
máquinas de lavar roupa tornaram menos pesada a 
carga do trabalho doméstico. É também evidente 
que a desigualdade na divisão do trabalho domés-
tico entre homens e mulheres tem vindo a decrescer, 
-obra durante a Primeira Guerra Mundial. Durante apesar de ainda recair sobre as mulheres a execução 
os anos da guerra, as mulheres realizaram funções da maior parte das tarefas domésticas. 
I 
'· 
1028 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 
Reino Unido 
Percentagens 
100 
Homens 
80 ~ .....----..... ........... -_.,.. ____ ------ ... ....-- .... -----------.. .. -----
60 
~ 
40 
20 
o 
1971 
Total 
.. .... ~ 
-~ 
-
Mulheres 
1976 1981 
____ ... ... ____ ... 
__..,... 
1986 1991 1996 2001 2006 
Figura 20.3 Taxas de emprego segundo o género, Reino Unido, 1971-2006. 
Fonte: HMSO Social Trends, 37,2007. 
A entrada de um número crescente de mulheres 
no mercado de trabalho prende-se também com 
razões financeiras. O modelo nuclear da família 
tradicional - composto por um homem ganha-
-pão, uma mulher dona-de-casa e crianças depen-
dentes - representa hoje apenas um quarto das 
famílias na Grã-Bretanha. As pressões económicas 
sobre os agregados familiares, incluindo o cresci-
mento do desemprego masculino, implic;aram um 
aumento da procura de trabalho remunerado por 
parte das mulheres. Muitos lares descobrem que é 
nec;~~sári.q .ter .. dois .rendimentos para .sustentar--o . 
estilo de vida desejável. Outras mudanças na estru-
tura dos agregados, incluindo o elevado número de 
solteiros sem filhos, bem como o crescimento de 
lares de mães solteiras, implicaram que as mulhe-
res fora das famílias tradicionais, quer por opção, 
quer por necessidade; esteJànftaínbém a·ehti:ar no 
mercado de trabalho. Adicionalmente, esforços 
recentes para reformar as políticas de segurança 
social, tanto na Grã-Bretanha como nos Estados 
Unidos, visam apoiar a entrada no mercado de 
trabalho das mulheres- incluindo as mães sós e as· 
mulheres casadas com crianças pequenas. 
Finalmente, importa notar que muitas ... u, .... _-
res escolheram entrar no mercado de trabalho pelo 
seu desejo de concretização pessoal, em resposta 
impulso para a igualdade propulsionado pelo movi- ' 
mento das mulheres dos anos 60 e 70. Tendo obtido· 
igualdade legal em relação aos homens, muitas 
mulheres aproveitaram oportunidades para concre~. 
tizarem esses direitos nas suas próprias vidas. Como. 
já se observou, o trabalho é central na sociedade 
contemporânea; ·e o ·emprego·é;·quase 
pré-requisito para uma vida independente. Nas úld: .. 
mas décadas, as mulheres deram passos largos . 
atingir a paridade com os homens: A sua acti~idade · 
económica crescente tem sido central neste processo 
(Crompton, 1997). 
Género e desigualdades no trabalho 
Apesar de possuírem igualdade formal em relação 
aos homens, as mulheres são ainda alvo de uma série 
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1029 
As ocupações dominadas pelas mulheres tendem a ser as pior remuneradas. 
de desigualdades no mercado de trabalho. Nesta 
secção, analisaremos três das principais desigualda-
des que as mulheres enfrentam no trabalho: a segre-
gação ocupacional, a concentração em empregos a 
-----eempo·par:0iale-a-ài-spa-r-idad~ de--remunerações. 
A segregação ocupacional 
As mulheres que e;.;:ercem umà' profissão têm-se 
concentrado tradicionalmente em ocupações roti-
-------·--rieii:as e mal pagas. Muitos destes empregos caracteri-
zam-se por uma forte segregação com base no género, 
ou seja, são comummente vistos como «trabalhos 
de mulheres». Os trabalhos de secretariado e os 
que envolvam cuidados a terceiros (como a enfer-
magem, o trabalho social e a educação infantil) são 
esmagadoramente detidos por mulheres e, na gene-
ralidade, considerados ocupações «femininas». 
A segregação ocupacional com base no género 
refere-se ao facto de homens e mulheres estarem 
concentrados em diferentes tipos de trabalho, com 
base na ideia de que há «empregos para homens» e 
«empregos para mulheres». 
A segregação ocupacional possui componen-
tes verticais e horizontais. A segregação vertical diz 
respeito à tendência para as mulheres se concentra-
rem em postos de trabalho com pouca autoridade e 
espaço para ascender, enquanto os homens ocupam 
posições mais poderosas e influentes. A segregação 
horizontal diz respeito à tendência para homens e 
' j; 
1030 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 
mulheres ocuparem diferentes categorias de traba-
lhos. Por exemplo, as mulheres predominam larga-
mente em posições domésticas e administrativas 
de rotina, enquanto os homens se concentram em 
posições manuais qualificadas e semiqualificadas. 
A segregação horizontal pode ser pronunciada. 
Em 1991, mais de 50% do emprego das mulhe-
res (comparado com 17% dos homens) no Reino 
Unido recaía sobre quatro categorias ocupacio-
nais: administrativa, secretariado, serviços pessoais 
e «outras categorias elementares» ( Crompton, 
1997). Em 1998, 26% das mulheres exerciam 
trabalhos rotineiros de colarinho branco, contra 
apenas 8% dos homens, enquanto 17% dos homens 
exerciam trabalhos manuais qualificados, contra 
2% das mulheres (HMSO, 1999). 
Pensar de um modo crítico 
Considera que existem algumas barrei-
ras «naturais» à entrada das mulheres nas 
ocupações onde os homens predominam? 
Haverá outras razões para o predomínio 
dos homens em ocupações - canalizadores, 
mecânicos de automóveis, agentes da polícia, 
etc. - com remunerações superiores? Em seu 
entender, o que acontecerá a esse predomí-
nio dos homens e aos seus honorários se as 
mulheres começarem a exercer esse tipo de 
profissões? ~e conclusões retira das suas 
respostas acerca das razões subjacentes à divi-
são ocupacional com base no género? 
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1031 
Que rendimentos auferem? . . . . 
' ' ' 
Média de rendimentos/hora dqs trabalhadores a tempo inteiro, Reino Unido, 2006 
OcupaÇão . 
Mecânicos de automóveis 
Educadores de infância 
Assistentes sociais e emprega~as domésticas 
Canalizadores 
Secretariado em consultórios médicos 
Enfermeiros 
f, por hora 
9,27 
7,64 
7,61 
11,51 
9,78 
13,44 
. ' 
' 
Agentes da polícia 15,91 
··J""~:~n~(~~l~"Gf~~~~~Íí~·~~l;~,6: ~nq#iJ\~ .. $I~~~,~~~~M~b~:~ot:·• 
<• ,·, :,.~".;~/ •:~.·:;. ,;,:.:,~.:~· ,,_,,, 0 w
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:.:~,~~,.~_,.;::},
0 
.. ~.' ',,l. 0 "-'- ,,, ''''"••~••• ,.,, '''''"", 0 ;' ,;·,:::'"'!: 0 : .-':: •H<" 
Alterações na organização do trabalho, assim 
como estereótipos do papel dos dois sexos, têm 
contribuído para a segregação ocupacional. As modi~ 
ficações no prestígio e nas tarefas dos «empregados 
de escritório» são um bom exemplo disso. Em 1850, 
no Reino Unido, 99% dos empregados de escritório 
eram homens. Muitas vezes, ser empregado de escri-
tório significava ter uma posiç~o ... À~ .r.e..~pml~-ªl?JJ.i~ 
dade, que requeria conhecimentos de contabilidade 
e, por vezes, envolvia funções de gerência. Mesmo 
um empregado de escritório de um nível mais baixo 
possuía um certo estatuto social. 
. -- ... 0-século .. XJLtro.uxe_a . .mekanização do traba-
lho de escritório (começando com a introdução 
da máquina de escrever no final do século XIX) e 
com ela o decréscimo dos conhecimentos e capaci~ 
dades exigidas a um «empregado-de escritório», 
bem como a despromoção social- juntamente com 
.. OUtra actividade relacionada: a de «Secretário» -
tornando-senuma ocupação com pouco estatuto 
social e baixa remuneração. As mulheres vieram 
ocupar estes empregos cuja remuneração e cujo pres-
tígio tinham entrado em declínio. Em 1998, quase 
90% dos empregados de escritório e 98% dos secre~ 
tários no Reino Unido eram mulheres. A percen~ 
tagem de pessoas a exercer cargos de secretariado 
decresceu, contudo, nas últimas duas décadas. Os 
computadores substituíram as máquinas de escú~~ 
ver, e hoje muitos gestores fazem grande parte da 
redacção de cartas e outras tarefas directamente no 
computador. 
O emprego a tempo parcial e a «desigualdade 
salarial» 
Embora um número crescente de mulheres 
trabalhe actualmente a tempo inteiro fora de casa, 
uma grande percentagem de mulheres concentra~ 
~se no emprego a tempo parcial. Nas últimas déca-
das, as oportunidades de trabalho a tempo parcial 
crescer-am enormemente, em. parte como resultado 
das reformas do mercado de trabalho para encera~ 
jar políticas de emprego flexíveis, em parte devido à 
expansão do sector de serviços ( Crompton, 1997). 
Os empregos a tempo parcial oferecem mais 
flexibilidade aos trabalhadores do que o trabalho 
a tempo inteiro. Por esta razão, as mulheres que 
11! 
-~1··' ' ,, 
' 
J 
; ; 
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' 
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-:· 
' ;: 
i' 
i 
1032 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 
procuram equilibrar as obrigações da família e do· 
trabalho têm frequentemente preferência por estes 
empregos. Em muitos casos, esse equilíbrio é alcan-
çado, e as mulheres, que de outra forma poderiam 
renunciar ao emprego, tornam-se então economi-
camente activas. No entanto, o trabalho a tempo 
parcial tem desvantagens, como a baixa remunera-
ção, a precarização do trabalho e as oportunidades 
limitadas de carreira. O trabalho a tempo parcial 
atrai muitas mulheres. Pode atribuir-se ao emprego 
a tempo parcial a grande parte do crescimento da 
actividade económica das mulheres no período do 
pós-guerra. 
Alguns estudiosos defendem que há diferentes 
«tipos» de mulheres: as mulheres comprometidas 
com o trabalho, e as mulheres não comprometidas 
com o trabalho, que não questionam a divisão sexual 
do trabalho tradicional (Hakim, I996). De acordo 
com esta abordagem, muitas mulheres escolhem 
de bom grado trabalhar a tempo parcial, por forma 
a cumprir as obrigações domésticas tradicionais. 
Existe, no entanto; um factor importante que lhes 
deixa pouc~ oportunidade de escolha. Os homens, 
de um modo geral, não assumem a responsabilidade 
principal na educação dos filhos. As mulheres com 
essa responsabilidade - entre outras obrigações 
domésticas - e que mesmo assim têm a intenção, ou 
a necessidade, de trabalhar em empregos remunera-
dos, consideram inevitavelmente que o trabalho a 
tempo parcial é a opção mais viável. 
O salário médio das mulheres empregadas na 
Grã ~Btêta:n:lia:;··oerrCêomo·em: ·cjüãlquer·o-utro·lugãr; -· 
é consideravelmente inferior ao dos homens, apesar 
de a diferença se ter atenuado de alguma forma nos 
últimos 30 anos. Em I970, as mulheres com empre-
gos a tempo inteiro ganhavam 63 pence por cada 
libra auferida p_el?s. _h?~ens a. trab_alhar a tempo 
inteiro. Em I999, esse número tinha aumentado 
para 84 pence. Entre as mulheres a trabalhar a tempo 
parcial, a disparidade reduzit~-se de 5 I pence para 58 
no mesmo período de t~rn.po. Esta tendência ge~al 
para a extinção da «desigualdade salarial» é correc: 
tameme observada como um passo significativo nó . 
movimento para a igualdade entre os dois sexos. 
Diversos processos estão a afectar tais tendên.: 
cias. É significativo que, face ao passado, um númer~ 
maior de mulheres ocupe actualmente posições: 
profissionais com remunerações mais elevadas .... 
A probabilidade de as mulheres jovens com boas·' 
qualificações conseguirem um emprego bem remu-~. · 
nerado é hoje idêntica à dos homens. Na escola, as 
raparigas têm persistentemente melhores resultados · 
do que os rapazes, e em muitas áreas do ensino 
rior as mulheres estão hoje em maior número 
os homens. A melhoria das qualificações "'u.'·''""''-1u~ 
nais das mulheres parece contribuir 
para que sejam cada vez mais aquelas que 
por profissões com uma longa carreira, permitind~ ·• 
promoção a lugares de topo. Porém, este prc>gr~~sso 
no topo da estrutura ocupacional vai de par 
o enorme incremento do número de mulheres 
empregos a tempo parcial mal pagos na esfera 
expansão rápida dos serviços. 
A segregação ocupacional em função do 
é um dos factores principais da persistência de 
disparidade de salários entre homens e ..... .~.~. ..... 
As mulheres estão sobrerrepresentadas nos 
res com empregos mais mal pagos: mais de 45% 
mulheres ganha menos de IOO libras por""'"'·"'"'! 
enquanto pouco mais de 20% dos homens 
tal rendimento. Apesar de algumas conquistas, 
mulheres continuam também subrepresentadas 
topo da distribuição do rendimento. Enquanto I 
âàs~liómenKgaiihaiifrriais .. âe-sou-noras por . 
só 2% das mulheres aufere esse rendimento semanál 
(R;1ke, 2000). 
A introdução de um salário mínimo ua~ .•. ul.l<li>. 
em 1999 (êm 2007, o sàlário mínimo erade5,3S 
li~ra~ .Por hora para. tra~alhad9~e~ COf!l iqad~ ."' ......... _ .. _, 
rior a 22 anos), também contribuiu para diminuir a 
disparidade de salários entre homens e mulheres, já . · 
que muitas mulheres se concentram em ocupações-
coino as de cabeleireira ou empregada de mesa- que 
durante muito tempo foram pagas abaixo do salário 
111ínimo nacional. Estimou-se que, com a introdu-
cão do salário mínimo, perto de dois milhões de 
~essoas tenham recebido um aumento do salário de 
aproximadamente 30%. O aumento regular do salá-
rio mínimo tem beneficiado sobretudo as mulheres 
em empregos de baixa remuneração. Contudo, os 
bendkios do salário mínimo não negam o facto de 
uma larga percentagem de mulheres trabalhar ainda 
em empregos em que, no máximo, pouco mais rece-
bem do que esse salário mínimo. Muitos homens e 
mulheres ainda trabalham (ilegalmente) em troca de 
um rendimento inferior ao salário mínimo - orde-
nados com os quais é extremamente difícil viver, 
sobretudo com filhos a cargo. 
A percentagem substancial de mulheres a viver 
na pobreza no Reino Unido é reveladora dessa situ-
ação precária. Isto é especialmente verdade para as 
mulheres que são chefes de família. Nos últimos 
anos, a percentagem de mulheres entre os pobres 
cresceu de forma gradual. A pobreza é especial-
mente grave para as mulheres com crianças peque-
. nas que necessitam de cuidados constantes. Trata-se 
de um ciclo vicioso: uma mulher que consiga obter 
um trabalho com uma remuneração razoável pode 
ficar financeiramente enfraquecida por ter de pagar 
a quem cuide das crianças; contudo, _s_e __ J;Qm~Ç.ª-.r 
a trabalhar a tempo parcial, os seus rendimentos 
diminuirão. As perspectivas de carreira, quaisquer 
que fossem, desaparecem. Para além disso, também 
perde outros subsídios económicàs- como o direito 
---·-à-pen-são ~--a-qye-os-trabalhadores a tempo inteiro 
.. têm direito. 
Tendo em conta o tempo de vida de uma mulher, 
a disparidade de salários produz diferenças gritantes 
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1033 
ao nível da totalidade dos rendimentos. Um estudo 
levado a cabo no Reino Unido nos anos 90 (Rake, 
2000) revelou que uma mulher com qualificações 
médias, por exemplo, terá uma «perda feminina» 
superior a 240 000 libras durante toda a sua vida. 
A perda feminina diz respeito à diferença de rendi-
mentos durante uma vida inteira entre homens e 
mulheres, com ou sem filhos, que possuem idênti-
cas qualificações. Rake demonstrou que o montante 
auferido por uma mulher durante toda a sua vida 
varia de acordo com as suas qualificações. Por exem-
plo, pode esperar-se que uma mulher sem filhos e 
sem nenhumas qualificações ganhe 518 000 libras 
durante toda a sua vida. Se possuir um curso supe-
rior, pode esperar-se que ganhe mais do dobro 
daquele montante. A sua «perda feminina» será 
relativamente baixa e não irá sofrer da «desigual-
dade de mãe», ou seja, da disparidadede rendi-
mento entre uma mulher sem filhos e uma mulher 
com filhos. Em 2006, os dados divulgados pelo 
Instituto Nacional de Estatística do Reino Unido 
(UK Office for National Statistics) revelavam que 
a diferença salarial entre os géneros permanecia, 
situando-se nos 17,2%. Tal significa que, em média, 
uma mulher com um trabalho a tempo inteiro perde 
cerca de 300 000 libras durante toda a sua vida. 
A Comissão para Igualdade de Oportunidades 
(2007) sublinha que essa perda de rendimentos 
equivale a: 
11 19 amortizações no empréstimo da casa (depó-
sitos); 
• Pagar 21 vezes a dívida de um estudante; 
• 29 anos a cuidar de uma criança; 
11 15 automóveis novos; 
• 525 férias adicionais; 
• 10 SOO saídas nocturnas - incluindo jantar e 
beber - com amigos. 
Estar do lado errado desta disparidade salarial 
tem sérias consequências na qualidade de vida dos 
1034 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 
indivíduos, bem como nas suas oportunidades a 
longo prazo. 
As mudanças na divisão doméstica do 
trabalho 
ricas sobretudo no final da tarde e durante várias 
horas aos fins-de-semana, ao contrário das donas de 
casa a tempo inteiro. 
No entanto, há provas de que mesmo este padr~.o .. 
pode estar a mudar. Os homens estão a contribuir 
mais para o trabalho doméstico do que no passado, 
embora os investigadores que analisaram o fenó~ 
meno afirmem que é um processo de «adaptação 
retardada» (Gershuny, 1994). Isto significa que a 
renegociação das tarefas domésticas entre homens e 
mulheres ocorre mais lentamente do que a entrada .. 
das mulheres no mercado de trabalho. O estudo . 
observou que a divisão do trabalho nos lares varia 
em função de factores como a classe e o tempo que< 
a mulher despende na profissão. Casais de 
ses sociais elevadas tendem a ter uma divisão do 
Um dos resultados da entrada maciça de mulheres 
no mercado de trabalho reside no facto de certos 
padrões familiares tradicionais estarem a ser renego-
ciados. O modelo do «homem ganha-pão» tornou-
-se mais a excepção do que a regra, e o aumento da 
independência económica das mulheres significa 
que elas estão em melhor posição para abandonar 
os papéis de género no lar se escolherem fazê-lo. 
~er em termos de trabalho doméstico, quer na 
tomada de decisões financeiras, os papéis domésti-
cos tradicionais das mulheres estão a sofrer mudan-
ças significativas. Parece que assistimos a uma 
passagem para relações mais igualitárias em muitos trabalho mais igualitária, tal como acontece nos.· 
lares, apesar de as mulheres continuarem a assumir agregados onde a mulher trabalha a tempo inteiro; 
a principal responsabilidade pela maior parte do No geral, os homens assumem uma maior responsa:.. 
trabalho doméstico. As pequenas reparações no lar, bilidade em relação à casa, mas o fardo ainda não é· 
tarefas frequentemente executadas pelos. homens, partilhado de forma igu~litária. 
parecem ser a excepção. Os inquéritos demonstram Um inquérito conduzido por Warde e· 
que as mulheres continuam a despender, em média, Heatherington ( 1993), em Manchester, revelou que· 
aproximadamente··três-horas··por··dia ·com··0 ··traba;; ...... a---divisão do-trabalho domésdce··er-a 
lho doméstico (exceptuando compras e cuidados ria entre casais jovens do que entre os mais velhós. : 
às crianças), o que contrasta com o tempo despen- Os autores concluíram que os estereótipos de géner~ .. 
dido pelos homens: cerca de 1.40 hora (Office for se vão dissolvendo ao longo do tempo. Ós.}ov~·ns 
. Natio-D.fll Statistics, 2003c). cujos pais procuravam partilhar-ãs tarefas domésti-
As mulheres casadas que exercem uma activi- cas teriam maior probabilidade de implementar tais · 
dade profissióriãl.êxeéüúúrí inenos tarefas domésti- prádéas ·mis suás próprias vidas. · 
cas do que as demais, ainda que sejam quase sempre Vogler e Pahl (1994) examinaram um aspecto· 
as responsáveis principais pela manutenção da casa. diferente da divisão doméstica do trabalho - o 
O padrão das suas actividades é, evidentemente, dos sistemas de «gestão» financeira nos lares. O ... 
bastante diferente. Elas dedicam-se às tarefas domés- seu estudo procurava compreender se o acesso das · 
O TRABALHO E AVIDA ECONÓMICA 1035 
r~----------------------, 
1 noonesbury 
G. B. TRUDEAU 
Doonesbury © G. B. Trudeau. Rei~presso sob a~.~:torização do Universal Press Syndicate. Todos os direit<2s reservados. 
«Jeffrey olhou para mim, um olhar cheio de emoção ... » 
~< :'Ma..m§J grlt.9.'\!.~t~ grgulhosamente ». 
- Rick? 
- Aqui, Joanie ... 
Tap! Tap! 
- O que é isto? A trabalhar num domingo? 
--- ··· ·- ···- ·· -··---~0-Jeffrey.disseuma coisa espantosa ontem à noite. Eu quero registá-la no diário. 
~ Tap!Tap! 
-~e diário? 
- Estou a preparar um diário para o suplemento dominical sobre a nova paternidade. 
O meu editor acha que desperta actualmente muito interesse a geração de pais mais empenhados. Eie pediu-me 
para registar as minhas experiências. 
Tap!Tap! 
-UH-HUH. 
Tap! Tap! 
-Escuta, podes tomar conta do Jeffrey hoje? Eu tenho um encontro. 
- Desculpa, querida. Já estou em cima da hora. 
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1036 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 
mulheres ao dinheiro e ao controlo sobre as decisões 
de gastos se tornou mais igualitário com o aumento 
do emprego feminino. Através de entrevistas a casais, 
em seis comunidades britânicas distintas, descobri-
ram que a distribuição dos recursos financeiros é, 
no conjunto, feita de forma mais justa do que no 
passado, permanecendo, ainda assim, relacionada 
com questões de classe. Entre os casais com rendi-
mentos elevados, as finanças «conjuntas» tendem 
a ser geridas por ambos, existindo um maior grau 
de igualdade no acesso ao dinheiro e na tomada de 
decisões sobre as despesas. ~anto mais a mulher 
contribui financeiramente para o lar, maior é o seu 
controlo sobre as decisões financeiras. 
Em famílias com baixos rendimentos, as mulhe-
res são muitas vezes responsáveis pela gestão diária 
das finanças do agregado, mas não lhes cabem neces-
sariamente as decisões estratégicas sobre a gestão 
do orçamento e das despesas. Nestes casos, Vogler 
e Pahl sublinharam a tendência para as mulheres 
salvaguardarem o acesso dos seus maridos ao dispên-
dio de dinheiro, enquanto elas próprias se privam 
do mesmo direito. Por outras palavras, parece haver 
uma distinção entre o controlo diário das mulheres 
sobre as finanças e o seu acesso ao dinheiro. 
A automatização e o debate sobre as 
competências 
mudança para sistemas mais complexos influencia 
a natureza do trabalho e as instituições onde ele é 
desempenhado. 
O conceito de automatização, ou de máquinas 
programáveis, foi introduzido em meados do século 
XIX, quando o americano Christopher Spencer 
inventou o autómato, um torno mecânico progra-
mável que fazia parafusos, porcas e carretas. Por 
enquanto, a automatização tem afectado relativa-
mente poucas indústrias, mas o seu impacto será 
sem dúvida maior com os avanços na concepção de 
robôs industriais. Um robô consiste num disposi-
tivo automático capaz de desempenhar as funções 
usualmente realizadas por trabalhadores. O termo 
«robô» tem origem no termo checo robota, ou · · 
servo, popularizado há cerca de 50 anos pelo drama-
turgo Karel Capek. 
A maioria dos robôs utilizados na indústria em 
todo o Mundo encontra-se no sector automóvel, se 
bem que as indústrias de electrónica -leitores de CD · 
e DVD, iPods, telemóveis, etc. -recorram também 
muito a este tipo de dispositivo. Por ora, a utilidade · 
dos robôs na produção é relativamente limitada, uma 
vez que a sua capacidade para reconhecer objectos -· 
diferentes e manipular formas estranhas ainda se 
encontra num nível muito rudimentar. Todavia, nos 
próximos anos, a redução dos custos da produção 
automatizada conduzirá à sua rápida disseminação. 
A relação entre tecnologia e trabalho tem sido, desde A disseminação da automatização provocou um aceso 
há muito, alvo do interesse dos sociólogos. Como é debate entre sociólogos eperitos das relações indus-
quea-teGflologia-afeeta·a·nossa-experiência·de·traha:=··----tr-iais--sobre-o·impacto-da nova . . _ 
lho? À medida que a industrialização progride, a lhadores, nas suas qualificações e no seu compromisso 
tecnologia tem assumido um papel cada vez maior com o trabalho. Na influente obra Alienation _ q_n:_cf. -·-
no local de trabalho, desde ·a automatizaÇão da Freedom (1964), Robert Blauner examinou a experi-
fábrica à informatização do trabalho de escritório. ência dos trabalhadores em quatro indústrias distin-
A actual revolução nas tecnologias de informa- tas com níveis variados de tecnologia. Aplicand~ a~ .. 
ção atraiu um irii:ei.-esse renóvãdó 'por esta questão. ideias de Durkheim e Marx, Blauner operacionalizou 
A tecnologia pode conduzir a maiores eficiência e o conceito de alienação e mediu a amplitude com que 
produtividade. Mas até que ponto afecta a forma os trabalhadores em cada sector industrial a sentiam 
como se trabalha? Para os sociólogos, uma das enquanto perda de controlo e de sentido, isolamento 
principais questões consiste em saber como é que a e alheamento. Blauner concluiu que os trabalhado-
res das linhas de montagem são os mais alienados, 
111as que os níveis de alienação se atenuavam nos 
locais de trabalho em que havia automatização. Por 
outras palavras, Blauner argumentava que a intro-
dução da automatização nas fábricas era responsável 
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1037 
pela inversão da tendência para a alienação crescente 
do trabalhador. A automatização auxiliava a inte-
grar a força de trabalho e dava aos trabalhadores um 
sentido de controlo sobre o seu trabalho, sentido 
ausente noutras formas de tecnologia. 
. 1038 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 
;;.' 
O sociólogo americano Richard Sennett (1998) 
estudou os trabalhadores numa padaria adquirida 
por um grande conglomerado de produtos alimen~ 
tares onde foram introduzidas máquinas tecnolo~ 
gicamente sofisticadas. A cozedura assistida por 
computador alterou radicalmente a forma de fazer 
o pão. Os trabalhadores da padaria deixaram..de. ter. 
qualquer contacto físico com os materiais e com 
os pães: já não utilizavam as mãos para misturar 
os ingredientes e amassar, e o nariz e os olhos para 
avaliar o ponto de cozedura. Com efeito, todo o 
-- · piõéessõ· era contrõlãâoernonitorizado através de 
um ecrã de computador. A temperatura dos fornos e 
o tempo de cozedura eram controlados por compu-
tador, o que não assegurava resultados fiáveis, pois as 
máquinas tanto podiam produzir pão de excelente 
.. qualidade como queimá~lo. Os trabalhadores desta 
padaria (seria incorrecto considerá-los padeiros) não 
eram contratados por saberem cozer pão, mas pela 
sua competência na utilização dos computadores. 
Ironicamente, esses trabalhadores utilizavam muito 
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1039 
~ .. ,.,., ... .., ... ~ .. , .... ,.; .. . : .. ·::· . " . ' 
'.: ,' 
.. ,., .. · :"' 
pouco a sua perícia em informática. O processo 
de produção pouco mais envolvia do que premir 
botões num computador. Com efeito, quando a 
certo ponto as máquinas computorizadas paravam, 
todo o processo de produção era interrompido, 
pois nenhum dos trabalhadores «qualificados» da 
. .padaria tinha sido treinado ou possuía conhecimen-
tos para solucionar o problema. Os trabalhadores 
que Sennett observou pretendiam auxiliar e fazer 
com que tudo voltasse novamente a funcionar, mas 
a automatização tinha reduzido a sua autonomia. 
A introdução de tecnologia computorizada no local 
de trabalho tem conduzido não só a um aumento 
generalizado de todas as qualificações dos traba-
lhadores, mas também a uma separação na força de 
trabalho entre, por um lado, um pequeno grupo de 
profissionais altamente qualificados com elevada 
escolaridade e autonomia no trabalho e, por outro, 
um vasto grupo de trabalhadores em escritórios ou 
serviços e operários industriais sem autonomia no 
trabalho. 
h. 
1040 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 
Pensar de um modo crítico 
Nos países em desenvolvimento, os trabalha-
dores em centros de atendimento - tal como 
· .. -~m Novã Deli (Índia),-nãfõi"bgrafia da página 
1040 - são sobretudo jovens solteiros relati-
vamente bem remunerados. Em seu entender, 
estarão num processo de qualificação ou de 
desqualificação? Até q~e ponto a sua avalia-
_çiq -~~an em conta o contexto social em que as 
tecnologias de informação são introduzidas? 
No que toca aos centros de atendimento, que 
diferenças identifica entre os países em desen-
volvimento e os países desenvolvidos? 
O TRABALHO E AVIDA ECONÓMICA 1041 
... 
";"~:c~:Y•oo.-,,._.., .... ~.,.-::~:- .. ~··.~·· --v, 
É, todavia, muito difícil resolver· o debate em 
torno das qualificações. A conceptualização e a 
avaliação das qualificações são problemáticas. Como 
defendem as investigadoras feministas, as «quali-
ficações» são uma construção social (Steinberg, 
1990). Deste modo, o que convencionalmente se 
entende por trabalho «qualificado» tende a reflectir 
o estatuto social de quem o executa, e não a dificul-
dade da tarefa num sentido objectivo. A história das 
ocupações está repleta de exemplos em que a tarefa 
idêntica é atribuído um nível de qualificação dife-
rente (e até mesmo uma nova designação) quando 
as mulheres entram em cena (Reskin e Roos, 1990). 
., 1042 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 
O mesmo aconteceu, obviamente, com outros traba-
lhadores com um estatuto baixo, como as minorias 
raciais. Mesmo sem haver preconceitos de raça e 
de género, as actividades sã9 multidimensionais no 
que se refere às qualificações que exigem: a mesma 
actividade pode ser desqualificada numa dimensão 
e, simultaneamente, requalificada noutra (Block, 
1990). Deste modo, as opiniões sobre a desqualifica~ 
ção do trabalho que resulta da automatização depen-
dem da componente da qualificação sob escrutínio. 
Na sua análise sobre o debate em torno das qualifi-
cações, Spenner (1983) sublinha que, por um lado, 
os estudos que abordam a qualificação no sentido 
da complexidade substantiva de tarefas tendem a 
corroborar a tese da «requalificação» e, por outro, 
as pesquisas que averiguam a qualificação em termos 
de autonomia e/ou controlo exercido pelo trabalha-
dor tendem a revelar que o trabalho tem, de facto, 
sido «desqualificado» em virtude da automatização 
(Zuboff, 1988; Valias e Beck, 1996). 
A economia do conhecimento 
geralmente por esta expressão uma economia na 
qual as ideias, a informação e as formas de conhe-
cimento sustentam a inovação e o crescimento 
económico. Uma economia do conhecimento é 
aquela em que grande parte da força de trabalho está 
envolvida não na produção material ou na distri-
buição de bens materiais, mas nos seus concepção, 
desenvolvimento, tecnologia, marketing, vendas e 
serviços. Podem designar-se estes empregados como 
trabalhadores do conhecimento. A economia do 
conhecimento é dominada pelo fluxo constante de 
informação e de opiniões, bem como pelo poderoso 
potencial da ciência e da tecnologia. Como obser-
vou Charles Leadbeater: 
Muitos de nós [trabalhadores do conheci-
mento] fazemos dinheiro do ar: não produzimos 
nada que possa ser pesado, tocado ou facilmente 
medido. A nossa produção não é armazenada em 
portos, armazéns ou colocada em carruagens de 
comboio. Muitos de nós ganhamos a vida forne-
cendo serviços, avaliações, informações e análises, 
seja num centro de atendimento, no escritório de 
um advogado, num departamento governamental 
ou num laboratório científico. Todos estamos no 
negócio do ar rarefeito (1999, vii). 
Até que ponto a economia do conhecimento se 
encontra difundida no início do século XXI? Um · 
estudo de 1999 realizado pela Organização para 
a Cooperação e o Desenvolvimento Económico 
(OCDE) tentou avaliar a extensão da economia do 
Alguns observadores sugerem que assistimos hoje conhecimento entre as nações mais desenvolvidas, 
à . t_r.~n~i!.~~-_p_ar~ __ l!_~ __ I!:?..Y..~.E~P_?..A~. ~()~-~~<!~4~_qt~~-. . .. ~~.r.~Y-~~-.Qg __ .m~g!ç~Q __ çl'!, _p,Ç,r.ç~p.tag~m .. _d.R ·-!".! .. l:!,\,!,!:!.!;.!~l:!-.­
já não se alicerça fundamentalmente na indústria. total dos negócios de cada país que podem ser atri-
Alegam que estamos a entrar numa fase de desen- buídos a indústrias baseadas no conhecimento. Por 
volvimento que vai além da era industrial. Tem sido indústrias baseadas no conhecimento entende-se em 
utilizada uma variedade de termos para caracteri- sentido lato a alta tecnologia, a educação e a forma-
zar esta nova ordem social, como os de sociedade Ção, a pesquisa-~ o desenvolvimento, bem como o 
pós-industrial, era .da informação e nova eco no- sector -financeiro e de investimentos. As indústrias· : 
mia. Todavia, a designação mais utilizada tem sido baseadas no conhecimento detinham mais de metade 
economia do conhecimento. da produção dos negócios em meados dos anos 90 no 
É difícil formular uma definição precisa para total dos países-membros da OCDE. A Alemanha 
economia do conhecimento; porém, entende-se Ocidental detinha a percentagem elevada de 58,6%, 
cendo os Estados Unidos, o Japão, a Grã-Bretanha, 
::t Suécia e a França contribuído com valores acima 
de 50%. 
Em 2006, The \Vork Foundation produziu um 
relatório para a UE com dados respeitantes a 2005. 
()s autores observaram que mais de 40% dos traba-
lhadores na União Europeia encontravam-se em 
indústrias baseadas no conhecimento, registando-
-se as percentagens mais elevadas na Suécia, na 
Dinamarca, no Reino Unido e na Finlândia (ver 
~1.dro 20.2). A educação e os serviços de saúde 
constituíam o maior grupo, a que se seguiam os 
serviços recreativos e culturais. No seu conjunto, 
estes sectores empregavarp. quase 20% dos traba-
lhadores na União Europeia. Os sectores privados, 
incluindo os serviços financeiros, empresariais e de 
comunicação, representavam 15%. 
Os investimentos na economia do conheci-
mento - sob a forma de educação pública, gastos 
em desenvolvimento de software e em investiga-
ção e desenvolvimento - representam actualmente 
uma parte significativa dos orçamentos de muitos 
países. Reconhece-se que a economia do conheci-
mento permanece um fenómeno difícil de analisar, 
s,: 
6~l~iii~f~bi .. ~~;.~i:+';::;:.i~.·-~ .. :.;:~:~j~.:·· . ·. 
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1043 
tanto no plano quantitativo como no qualitativo. 
É mais fácil medir o valor das coisas físicas do que 
ideias, pesquisa e conhecimento «sem peso». É, no 
entanto, inegável o facto de a criação e a aplicação do 
conhecimento assumirem crescentemente um papel 
central na vida económica moderna. 
A polívalência 
Uma dos argumentos dos comentadores pós-fm-dis-
tas é o de que novas formas de trabalho permitem 
que os empregados incrementem a amplitude das 
suas competências mediante o envolvimento em 
tarefas variadas, em vez de desempenharem vezes sem 
conta uma tarefa específica. A produção em grupo e 
o trabalho de equipa são vistos como promotores 
de uma força de trabalho «polivalente», capaz de 
levar a cabo um conjunto alargado de tarefas, o que, 
por sua vez, conduz ao aumento da produtividade 
e da qualidade dos bens e serviços. Os empregados 
com capacidade para contribuir para o seu trabalho 
de múltiplas maneiras serão mais bem sucedidos na 
resolução de problemas e na formulação de aborda-
gens criativas. 
R ···-···•---r;-.·:a·_,,:::!::·:··.·:·· · ' · ·· · ·6 · · emo ·!.::l.fll· e-.-.. ,., .• ~-.... . : ..... , . . . 5 · 
~i~~~Jri7~ry;~rc·-·:~;:_:.: ; .. · ::···_.),~~~:-~::_::;·~:·s-··~'-·.:_· . _ . 
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Bélgt~~-•. : ·. '- ···.'.·..... .: .. ·.··-~!?. 
Alemanha ... · · tõ 4 
•, .. ,, <' n 'O 0 > "•' 0 , ,, 0 r 0 • ~·'··•:•,' 
Fr~n,ça · . 6,3 · 
Irl~da <$,0. . .. 
Áustria ""' ~-'--·•··•'·: ...... :§~-~-~·.--.::·:.:.: ... ·: 
. 'i~ái'i~'. : . L::. : 7'/i .. 
Esparili,~ · .. ,: : 4,7 
Gréda. \:. :· ,- . .• .. · · · · ·· 2,1 
P;ortt~~ ·: . .: ... ' ·: . : . ?~? ·. 
Fome: Brinklcy and Lee, 2007 © The Work Foundation. 
41,9 
·: ,.?.ª,3 
. _, .. , ,-,., ?..~A 
.... 36;3 
33;~ 
.·.~~,;o· 
. ~9,8 
. i1,Ó; 
24,5 
22,7 
. 448 
. '.' . ' ~,.. '" 
Ai~s··· 
. ... 4?~~ ... 
39,9 
37:5 
. 37;'2;.' . 
.. '31,7 
26,6 
26,0 
1044 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 
A transição para a «polivalência» tem implica-
cões no processo de contratacão. Se outrora a base 
' ' 
para as decisões em matéria de contratação residia 
na educação e nas qualificações, muitos empregado-
res procuram agora indivíduos que sejam flexíveis 
e que possam adquirir novas competências rapida-
mente. Desta forma, o conhecimento especializado 
de determinada aplicação informática poderá não 
ser tão valioso quanto a capacidade demonstrada 
para entender prontamente o que está em questão. 
As especializações constituem frequentemente mais-
-valias; porém, se os trabalhadores demonstrarem 
dificuldade na aplicação de competências específicas 
de forma criativa em novos contextos, a sua presença 
corre o risco de não ser encarada como benéfica num 
local de trabalho flexível e inovador. 
Um estudo da Fundação Joseph Rowntree inti-
tulado The Future ofWork (Meadows, 1996) inves-
tigou os tipos de qualificações hoje procurados pelos 
empregadores. Os autores do estudo concluíram 
que, tanto nos sectores ocupacionais qualificados 
como nos não qualificados, as «qualificações pesso-
ais» são cada vez mais valorizadas. A capacidade 
quer para colaborar e trabalhar de forma indepen-
dente, quer para tomar a iniciativa e adoptar aborda-
gens criativas perante desafios estão entre as melho-
res competências que um indivíduo pode levar para 
um emprego. Num mercado onde as necessidades 
individuais dos consumidores são gradualmente 
satisfeitas, é essencial que os empregados, numa 
gama de cenários que vai do sector dos serviços à 
consultaria financeira, sejam capazes de se socorrer . 
das «competências pessoais» no local de trabalho. 
De acordo com os autores do estudo, esta «desva-
lorização» de qualificações técnicas pode revelar-se 
particularmente difícil para os trabalhadores que 
desde há muito têm trabalhado em actividades repe- . 
titivas e rotineiras, onde as «qualificações pessoais» 
não tinham lugar. 
A formação no emprego 
A «polivalência» encontra-se mnmamente asso-
ciada à ideia de formação e informação do empre• 
gado. Em lugar de empregar especialistas de uma . 
área específica, muitas empresas prefeririam ... v •.• c .... -. 
tar trabalhadores não especializados capazes e 
competência para desenvolverem novas '-"'~'"'-''u"u'-" 
no emprego. À medida que se alteram as ,V~J''-'C'"""V'"" 
da tecnologia e do mercado, as empresas voltam 
formar os seus próprios empregados em função 
suas necessidades, em lugar de recrutarem .... v,,,LL .• ..,. 
tores externos com elevadas remunerações ou de 
substituírem os empregados existentes por 
O investimento num núcleo de empregados que 
podem tornar trabalhadores valiosos para toda 
vida é visto como uma forma estratégica de acampa~ 
nhar os tempos em rápida mudança. 
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1045 
~~~11$--.d~·-5f~:>nsttJ:ti~q·.;. ,J.~_;d:'~t.~~)P,t.94,l1~· . tipp,s.:dé t:ral]~hp qu;e ~ão ~<f~tilmeiw~ex~cu.láveis· : 
...... ;.:;.~.-........ , ·, tês' ·, d~5.#0Hi~os'' ~t~á~~~ ~~à··~ .fió :til!' i:~l~fop.~ (o~ é1trá,y~~-il(Xig~~' '.··. 
:Çõ,eú~rli fios)>~- se~_pÇrd,a.4~ qüalid~qp/~ aq~d~s .. ' 
qúe ·p: h~~, ·sa,Ó;· Por eá~rnp~ó,os pilotos·e:B·S. 'táxis~ 
fie' fdffuà ·'afg@j~' uhl. t~~ ·-~~ffi~e$ ,'?h 'ámedéahÇ>S não são afict~dQS p.eÚ 
'. :_.·_:a.'_:_;~_s_._ •• ~_.sa .• _._.,· .. l·:_.:s··~.·-•. ~·t_._·._.e-.l .. ::-~-.m~:_.:::·-·l·::ril·.·_:_·_·o·.o.·::'·::.·c·_~_-.·.: ___ ·a:.·_-._._:_~-.-.c_ .. _-.-.·.·_·:·.~ .... ·.\).·.·.·._.oj_· .. __ ._·.~._.-_··:·-·._.d·.·_•·-·a~: .. · ... , ~~$lô_cí~.liz~Ç~tidip):b4~~ã9; ap cóntrári9 daque\~~- •' u.e:Q:ª'1~,Ç.1L.9ÇJ),q·:sqt;:,~;e:·iq:·*-.<'h•'•·"' u u ;:" . · .-··· .· .. -~,fios ~e.rviçqs 4e;-çll.gi~:4i'?i.Ç~q? _na;· : 
pr<)a~I.窺:'~F~.J;r.a.s .~êo,fiS,Ieq'lie.ijtÇi~LS,, :paroc armente · · · ' · nó·s ;s'éi:-vtçpsçl~ f.àCÍi9lôgià)·. 
H~~~MÍ';~~i.,W%?:~+§~:.:;; .. · .. , ·r:·.:··;:. ·r··· . ., . }'lo :ensitl.o~upetiór,~ D:~ iriV~s-
.· na pr,ogr~i#à.§~b' 
··~M·q:J~ti~"; 
1046 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 
.. . - ......... ~ .. 
«''Podavi~~ . . ~ÍV9 éact~ ªS etnpfeSª,S 9w~;:.~ L~"''~·'"''~~~· 
y;~;:çtet;cr~:vç, ...... ~~+ '"('"'~' :-' __ ~." · é~"s!-<·~·~:;.'c'.-"I'àiáin~~f{ çã9<pªra . ó 
gi·qp.:'!.lP~í'!:Ç:ap; ·P~Lrç:(Jt;: .• l·.···~~~~~~~;···· ·~i~~~:~~~!~ 
·· ~l'ri~ç;~':SC a p~tqer , .. e_:ssa··o<JSl<;:au -~~·\.·L~""'!"; .. }{~H-!l'.':~n., 
· ; Gh.U}i, ~iiÇldióJÇ s·e· i *º9nt:t!lJ.11 q~ ,u ..... I,..,Cl.J,''"~~ 
.· · ~g~~is~a8i,ª~ ,T. s·! t:>t~jr~tis!Q.<U(!_Çn.m~ 
Pensar de um modo crítico 
Blinder observa que a Revolução Industrial 
não implicou o fim da agricultura - «comi-
miamos a comer»-, mas que a transformou. 
De igual modo, a Revolução da Informação 
não implicou o fim da indústria - continu-
amos a utilizar máquinas - que, no entanto, 
requerem hoje um número muito inferior de 
trabalhadores. ~ais as consequências para 
as sociedades desenvolvidas da deslocaliza-
ção em larga escala do trabalho no sector dos 
serviços? ~e tipos de trabalho remunerado 
exercerão os trabalhadores para ganhar a vida 
nestas sociedades? 
Algumas empresas organizam a formação no 
local de trabalho recorrendo ao método da partilha 
do trabalho. Esta técnica permite que a formação de 
competências e a assistência aos trabalhadores mais 
novos na empresa ocorram em simultâneo com a 
execução do trabalho. Um especialista em tecnolo-
gias da informação poderia trabalhar em conjunto, 
durante várias semanas, com um gerente da compa-
nhia de modo a que cada um deles.adquir.isse.algu~ .. 
mas das competências do outro. O tipo de formação 
é eficiente em termos de custos, já que não reduz 
significativamente as horas de trabalho e permite 
que todos os empregados envolvidos possam alargar 
-·--··· ··a sua bas~-de.c0mpetências.. . . . ;,_ . 
· A formação no local de trabalho pode ser uma 
importante forma de os trabalhadores desenvolve-
rem as suas competências e perspectivas de carreira. 
No entanto, é importante notar que as oportuni-
dades de formação não estão disponíveis de modo 
~-······ ·· igúal para todos os trabalhadores. Os estudos reali-
zados pelo Economic and Social Research Council 
britânico sobre jovens nascidos entre 1958 e 1970 
revelaram que a probabilidade de os empregados 
com qualificações receberem formação no local de 
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1047 
trabalho era superior à dos empregados desprovidos 
de qualificações. Tais estudos sugerem que existe 
um investimento mais sistemático naqueles que têm 
mais qualificações, enquanto o pessoal desqualifi-
cado tem menos oportunidades. A formação tem 
também impacto ao nível dos salários. No grupo de 
jovens nascidos em 1970, a formação no emprego 
aumenta, em média, em 12% os ordenados dos 
trabalhadores. 
O trabalho em casa 
O trabalho em casa permite aos empregados execu-
tar algumas ou todas as suas responsabilidades em 
casa, frequentemente através da Internet. Em traba-
lhos que não requerem um contacto regular com 
os clientes ou parceiros, como o trabalho de design 
gráfico feito por computador ou o de copy-writing 
para publicidade, os empregados consideram que 
trabalhar a partir de casa lhes permite equilibrar as 
responsabilidades fora da esfera do trabalho com as 
exigências laborais e aumenta a sua produtividade. 
Se a tecnologia transforma continuamente a nossa 
forma de trabalhar, não há dúvida de que o fenó-
meno dos «trabalhadores em rede» continuará a 
crescer nos próximos anos. 
Apesar de o trabalho realizado em casa ser hoje 
mais aceite, não é necessariamente a opção prefe-
rida por todos os empregadores. É bem mais difícil 
supervisionar o trabalho de um empregado quando 
este não está no local de trabalho. Por esta razão, há 
novos tipos de controlo sobre aqueles que trabalham 
em casa por forma a garantir que eles não abusam da 
sua «liberdade». Por exemplo, os trabalhadores têm 
de contactar regularmente com o local de trabalho 
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1048 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 
ou enviar relatórios com maior frequência do que os 
outros empregados. 
Apesar de existir um grande entusiasmo acerca do 
potencial da «casa como local de trabalho», alguns 
investigadores advertem quanto à probabilidade de 
surgir uma polarização significativa entre trabalha-
dores que ·realizam em casa projectos inovadores 
e criativos, e um grande número de trabalhadores 
desqualificados, que executam trabalhos de rotina, 
como a dactilografia ou a inserção de dados. Caso 
tal cisão viesse a ter lugar, as mulheres iriam prova-
velmente concentrar-se nas categorias mais desqua-
lificadas dos trabalhadores em casa (Phizacklea e 
Wolkowitz, 1995). 
O fim do «emprego para toda a vida» e 
o advento do trabalhador polivalente 
À luz do impacto da economia global e da 
procura de uma força de trabalho «flexível», 
alguns sociólogos e economistas defendem que, no 
futuro, cada vez mais indivíduos se tornarão no que 
desigl1af?. .. c?~.?- -~~~E-~!~~~~E~~ .P5~~~v.aJ<:~~.<:~.~. ~s~~s . 
terão um «portefólio de especializações» - uma 
série de especializações e credenciais diferentes -
que utilizarão para mudar de emprego ao longo das 
suas vidas de trabalhadores. S.Q uma percentagem 
relativamente pequena continuará a ter «carreiras» 
contínuas no sentida actual. De acordo com estes 
autores, a ideia de um «emprego para toda a vida» 
está ultrapassada. 
Alguns vêem esta mudança para o «trabalhador 
polivalente» de uma forma positiva: os trabalhado-
res não ficarão presos ao mesmo emprego durante 
anos a fio e poderão planear as suas vidas de trabalho 
de um modo criativo (Handy, 1994). Outros defen-
dem que a «flexibilidade» significa, na prática, que 
as organizações podem contratar e despedir segundo 
a sua vontade, enfraquecendo qualquer sentimento 
de estabilidade laboral: A entidade patronal só terá 
um compromisso com os trabalhadores a curto 
prazo e poderá minimizar o pagamento de benefí-
cios extra ou de direitos de pensão. 
Um recente estudo de Silicon Valley, na: 
Califórnia, defende que o sucesso económico de· . 
uma área já está definido nos portefólios de especia- · 
lização da sua força de trabalho. A taxa de falência · 
das empresas em Silicon Valley é muito alta: cerca 
de 300 novas empresas surgem todos os anos, ma~· 
um número equivalente também fracassa. A 
de trabalho, que tem uma elevada percentagem 
trabalhadores especializados e técnicos, aprende· 
a ajustar-se a este facto. Assim sendo, afirmam os. 
autores, os indivíduos especializados e com talento 
migram rapidamente de uma firma para outra; 
tornando-se cada vez mais adaptáveis. Os · 
listas técnicos tornam-se consultores, os consulto-' 
res tornam-se gestores, os empregados 
capitalistas que arriscam - funcionando esta 
também de modo inverso (Bahrami e Evans, 199 
Há uma tendência crescente entre os jovens, 
sobretudo os consultores e especialistas na · 
das tecnologias de informação, para o trabalho d.~ 
portefólio. De acordo com algumas estimativas, 
·Reino·Unido os-jovens licenciados podem 
expectativa trabalhar, durante a sua vida activa, em 
11 empregos diferentes, utilizando três qualificaç?es 
de base distintas. No entanto, esta situação é 
a excepção e não a regra. As estatísticas do emprego · 
não confirmam o elevado grau de rotatividade d~s. 
funcionários, que foi previsto tendo em linhâ' 
conta uma ampla mudança no sentido do 
de portefólio. 
Estudos levados a cabo nos anos 90 revelaram 
os trabalhadores a tempo inteiro na Grã-Bretanha e 
nos Estados Unidos - que possuem o mercado de 
Erabalho mais desregulado dos países industriali-
za.dos - passavam tanto tempo em cada emprego 
como na década anterior (The Economist, 21 de 
Maio de 1995). Asrazões parecem residir no facto 
Ll.:: os gestores reconhecerem que um alto grau de 
rotatividade entre os trabalhadores é dispendioso 
e negativo para a sua moral, preferindo manter os 
seus próprios empregados a ir buscar novos, mesmo 
que isso signifique pagar acima do valor de mercado. 
No seu livro Built to Last (1994), James Collins e 
Jerry Porras analisaram 18 empresas americanas 
cujas acções têm excedido continuamente a cota-
ção média do mercado accionista desde 1926. Os 
autores descobriram que estas empresas, em vez de 
contratarem e despedirem trabalhadores segundo a 
sua vontade, seguiram políticas muito protectoras 
em relação ao seu pessoal. Durante o período da 
pesquisa, apenas duas dessas empresas, comparadas 
com 13 das empresas com menos sucesso incluídas 
no estudo, contrataram um director executivo vindo 
do exterior. 
Estes dados não contrariaram as ideias dos que 
falam da emergência do trabalhador polivalente. 
A diminuição da dimensão organizacional das 
empresas é. uma realidade, atirando para o mercado 
de trabalho ~mitos milhares de traba1haaoiis .. qiiê. · 
podiam pensar que tinham um emprego para toda 
a vida. Para encontrarem um novo emprego, podem 
ser forçados a desenvolver e diversificar as suas 
capacidades. Muitos, especialmente os mais velhos, 
'i>odem .. ii"üncã" rriãiS cons'eguir' e~contrar empre-
gos comparáveis aos que tinham antes, ou, talvez 
mesmo, qualquer trabalho remunerado. 
.... ~:\_precarização do trabalho, 
o desemprego e o significado 
social do trabalho 
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1049 
também produzir uma ambivalência profunda por 
parte daqueles que se sentem enclausurados num 
mundo em constante mudança. Tal como obser-
vámos neste capítulo, as transformações profundas 
que ocorrem actualmente no mercado de trabalho 
enquadram-se na transição de uma economia assente 
na indústria transformadora para uma economia 
baseada nos serviços. A difusão das tecnologias de 
informação está também a provocar transformações 
na estrutura das organizações, no tipo de gestão 
utilizado e na forma como as tarefas são distribuídas 
e executadas. A mudança brusca pode ser perttlr-
badora. Os trabalhadores, em diversos tipos de 
ocupações, vivem hoje a precarização do trabalho, 
um sentimento de receio a respeito da estabilidade 
futura da sua posição e do seu papel no local de 
trabalho. 
O fenómeno da precarização do trabalho tornou-
-se um dos principais tópicos de debate no âmbito 
da sociologia do trabalho em décadas recentes. 
Muitos comentadores e fontes mediáticas sugerem 
que a precarização do trabalho tem crescido conti-
nuamente nos últimos 30 anos, atingindo hoje um 
peso sem precedentes nos países industrializados. 
Argumentam que os jovens já não podem contar 
com uma carreira segura e um único patrão, devido à 
·crescente globalização da economia, que incrementa 
·as fusões de empresas e o «corte» no número de 
empregados. O esforço no sentido da eficiência e do 
lucro faz com que os indivíduos com poucas qualifi-
cações- ou as qualificações ~<erradas» -sejam rele-
gados para empregos precários e marginais, vulne-
ráveis às mudanças nos mercados globais. Apesar 
dos benefícios trazidos pela flexibilidade no local de 
trabalho, vivemos hoje numa cultura de «contrata-
ção e despedimento», onde a ideia de um «emprego 
para toda a vida» já não tem lugar. 
O significado social do trabalho 
Apesar de estas novas formas de trabalho apresen- Para a maioria dos indivíduos o trabalho é, de todas 
tarem, para muitos, grandes oportunidades, podem as actividades, a que ocupa a maior parte das suas 
·I 
1050 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 
vidas. Associamos, frequentemente, a noção de 
trabalho a um esforço monótono ~ um conjunto de 
tarefas que pretendemos minimizar e a que quere~ 
mos escapar, se possível. Mas o trabalho é mais 
do que fadiga, ou as pessoas não se sentiriam tão 
perdidas e desorientadas quando ficam desempre~ 
gadas. Como se sentiria se pensasse que nunca mais 
encontraria um emprego? Nas sociedades modernas 
ter um emprego é importante para manter a auto~> 
~estima. Mesmo quando as condições de trabalh0 'i 
são relativamente desagradáveis e as tarefas a · 
zar monótonas, o trabalho tende a ser um '-'"'·'u'-.llLu 
estruturante na constituição psicológica das ... ~ú·úv"·'" 
e no ciclo das suas actividades diárias. Há 
' características do trabalho que são relevantes a 
respeito: 
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1051 
1052 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 
~>t?'9$Silbi.l::i4ªA:ies·. de trába- · 
>4.~',r:;í;.:.r~a».~~:t:'l~m ~.,~-p.!-;;;"'"'1Lii'O!ó:té ,~~-n1-~n~· 
Pensar de um modo crítico 
~e importância atribui ao trabalho remune-
rado na sua vida? Gorz (1985) considera que 
o declínio da importância do trabalho tem 
o potencial de abrir novos «caminhos para 
o paraíso». Os indivíduos dispõem de mais 
tempo para desenvolver actividades criativas 
e desfrutar das suas relações com outros, à 
medida que diminui o tempo que despe~dem 
na economia formal. Será que uma sociedade 
tão utópica poderá emergir no contexto das 
ecgngm!ª$. __ qpi~ªli.~.t.ª.s .. LE.m .... qu~;: ... s.~n.tido ... a .... 
perspectiva «socialista pós-industrial» de 
Gorz se diferencia dos programas socialistas 
e comunistas tradicionais de mudança social? 
1. Dinhei~o -'O· saládõ"é a pdncipal fonte de rendi-
mento de que a maioria das pessoas depende 
para fazer face às suas necessidades. Sem esse 
rendimento, as ansiedades relativamente à 
gestão do quotidiano tendem a aumentar. 
2. Nível de actividade - O trabalho 
frequentemente uma base para a aquisição e 
exercício de competências e capacidades. nL ..... ~ ...... 
quando o trabalho é rotineiro, ele prouv,, ..... ,,H ... 
um ambiente estruturado no qual as energias 
uma pessoa podem ser absorvidas. Sem ele, 
oportunidades para exercitar tais '-VlU(J\;;LI;;UI..Jl4ó 
e capacidades poderão ser reduzidas. 
3. Variedade - O trabalho possibilita o 
a contextos que contrastam com os ....... u ...... 
tes domésticos. Na esfera do trabalho, 
quando as tarefas são relativamente 
<>~ !P.citvf4l1.o.~ P9cl~m ªPI~_ç!ªI--"'!!"'~~~--'1~=..::1=~ 
coisa diferente das suas actividades domés 
4. Estrutura temporal - Para os indivíduos 
um emprego fixo, o dia encontra-se habitu; 
almentc organizado .de acordo com o ritmo 
de trabalho. Embora este possa ser, por vezes, 
opressivo, dá um sentido ~s actividades dilri'as.: 
Aqueles que estão desempregados têm frequert:.. 
temente como maior problema o aborreci-
mento e desenvolvem um sentido de apatia em. · 
relação ao tempo. 
5. Contactos sociais - O ambiente de trabalho 
possibilita frequentemente a criação de laços de 
amizade e a oportunidade de partilhar activida-
des com os outros. Fora do local de trabalho, o 
círculo de possíveis amizades e conhecimentos 
rcLtuzir-sc-á provavelmente. 
6. Identidade pessoal - O trabalho é habitual-
mente valorizado pelo sentido de identidade 
social estável que oferece. Para os homens, em 
particular, a auto-estima está frequentemente 
ligada à contribuição económica que dão para 
as despesas domésticas. 
Face aos itens que constam desta lista, não é difí-
cil perceber por que é que estar sem trabalho pode 
minar a confiança dos indivíduos no seu valor social. 
O aumento da precarização do trabalho 
Em 1999, a Fundação Joseph Rowntree publicou 
os resultados de um Inquérito sobre a Precarização 
e Intensificação do Trabalho (JIWIS), tendo por 
. . base entrevistas em profundidade a 340 britânicos, 
desde operários a administradores. O estudo visava 
avaliar a extensão da precarização do trabalho, bem 
como o seu impacto no local de trabalho e nas famí-
lias e comunidades. Os autores .do .estudo_.ob.s.ern-
ram que a precarização do trabalho tem registado 
um aumento na Grã-Bretanha a partir de 1966, com 
o período de crescimento mais intensivo a ocorrer 
entre os trabalhadores manuais no final dos anos 70 
··--e. nos anos.80, _________ .: ___ ... _ ..... _ _". 
Apesar de uma retoma económicaglobal 
iniciada em meados dos anos 80, a precarização do 
trabalho continuou, no entanto, a crescer. O estudo 
concluiu que a precarização do trabalho está agora 
no seu auge, registando o valor mais elevado desde 
--_--"ti Segunda Guerra Mundial (Burchell et al., 1999 ). 
O inquérito também examinou as categorias 
de trabalhadores que, ao longo dos anos, têm sido 
. . submetidos aos níveis mais elevados e aos mais 
baixos de precarização. Os autores descobriram 
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1053 
que, em meados da década de 90, o aumento mais 
elevado na precarização do trabalho ocorreu entre 
os trabalhadores não manuais. Entre 1986 e 1999, 
os «profissionais» deixaram de ser o grupo ocupa-
cional mais seguro para se tornarem o menos seguro, 
enquanto os trabalhadores manuais registaram, de 
alguma forma, níveis mais baixos de precarização do 
trabalho. Uma das principais razões desta precariza-
ção parecia ser uma falta de confiança na adminis-
tração. ~ando questionados quanto ao interesse 
da administração pelos interesses dos empregados, 
44% dos inq~üridos afirmaram que era «pouco» ou 
«nenhum» (Burchell et al., 1999). 
Muitos investigadores concordam em que a 
precarização do trabalho não é um fenómeno novo. 
O desacordo prende-se com a avaliação da sua evolu-
ção nos últimos anos e, sobretudo, com a identifica-
ção dos segmentos da população trabalhadora que 
são confrontados com a precarização do trabalho 
de forma mais acentuada. Alguns críticos defendem 
que estudos como o projecto sobre a precarização e 
a intensificação do trabalho (JIWIS) que acabámos 
de mencionar não passam de uma resposta pouco 
fiável à percepção da precarização entre as classes 
médias. 
A «classe média insegura»: haverá um 
empolamento da questão da precarização 
do trabalho? 
No final dos anos 70 e nos anos 80, a 
Grã-Bretanha viveu uma recessão económica que 
atingiu particularmente as indústrias transformado-
ras tradicionais. Neste período, perderam-se cerca 
de um milhão de postos de trabalho nos sectores 
metalúrgico, da construção naval e do minério do 
carvão. Os «profissionais» e os gestores só enfren-
taram pela primeira vez em larga escala a precariza-
ção do trabalho nos anos 80 e 90. As privatizações e 
os despedimentos afectaram o sector financeiro e da 
banca. A expansão da era da informação acarretou a 
perda do emprego de muitos funcionários públicos, 
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1054 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 
Com o encerramento da siderurgia Ravenscraig, em 1992, as velhas ideias sobre «Um emprego para toda a vida» acabaram por se ' 
revelar um mito para os trabalhadores desta fábrica na Esc6cia. Actualmente, procede-se ao seu desmantelamento e à renovação 
urbana do espaço. 
quando os sistemas foram emagrecidos através da 
utilização dos computadores. 
Enquanto os operários se habituaram, de alguma 
forma, a viver com a ameaça da perda do emprego, os 
trabalhadores de colarinho branco estavam menos 
preparados ·para·a:s· mudanças introduzidas ·nas suas 
ocupações. Esta ansiedade entre os profissionais 
especializados levo~ alguns a falar de uma «classe 
média insegura». O termo foi utilizado para descre-
ver os trabalhadores de colarinho bi:a~co cuja fé na 
estabilidade dos seus empregos os levara a assumir 
compromissos fin.ànceiros signif1cativos,como hipo- · 
tecas consideráveis, educação privada para os filhos 
ou actividades de lazer de custos elevados. Como 
nunca tinham pensado em perder o emprego, o 
súbito espectro do desemprego levou-os a viver uma 
ansiedade e uma instabilidade enormes. A precariza-
ção do trabalho continuou a ser um tópico central 
nos círculos mediáticos e «profissionais», apesar de· 
alguns acreditarem que a reacção tinha sido exage· 
rada quando comparada com a precarização mais 
... crónica ·vivida pelas-classes trabalhadoras; ....... ··· --.. ------·-' 
Os efeitos nocivos da precarização do trabalho. 
O inquérito job- Í~security and U'ôrk Intensification 
(Burchell et al, 1999) observou que, para muitos 
trabalhadores, a precarização do trabalho consis'tc: 'eiii' ' 
muito mais do que o medo do desemprego. Engloba 
também ansiedades quanto às transformações do 
próprio trabalho e quanto aos efeitos dessas transfor· 
mações na saúde dos empregados e na sua vida pessoal. 
O estudo revelou que, à medida que as estrutu-
ras organizacionais se desburocratizam e que ganha 
rçrreno a tomada de decisão no local de trabalho, 
cambém se exige dos trabalhadores uma maior 
responsabilização no trabalho. Mas, ao mesmo 
ccmpo que as exigências sobre os trabalhadores 
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1055 
aumentam, muitos vêem diminuir as suas oportu-
nidades de promoção. Esta combinação conduz ao 
sentimento, entre os trabalhadores, de que estão a 
«perder o controlo» sobre aspectos importantes do 
seu emprego, como o ritmo de trabalho e a confiança 
na progressão da carreira. 
', ' ' ,.,.:.· ú·,::: 
ij.ª'n:CJ.~ oJI ·~r~~:~ih~r·pa.~~ ·,vN~.r~. . 
:-~~~ ~ >,-:· <- '. • : ·~ ., ' : • • ~' • .._,· •• ,· ... ' -. ',· ' ' ·: '·.' 
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· :r~t:~·;d~ âP.o .de'J996, .. qu<j.ndo .ún~~p4cat~J11 
~R:x::~~g~-.:~{~~frl't~l}~q~::~l~·~~:~~~,,~:~"-·-··· {f:~~iS~~5} . . . 1~ a& . ·~· : 
1056 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 
Para o sociólogo Paul du Gay, a burocracia é 
importante porque propicia a responsabilidade e 
a ética num cenário caracterizado pelo incremento 
de práticas empresariais e trabalho flexível (ver 
Capítulo 18, «Organizações e redes sociais»). 
Um segundo aspecto nocivo da precarização 
do trabalho diz respeito à vida pessoal dos traba-
lhadores. O estudo de Burchell et al. observou uma 
forte correlação entre a precarização do trabalho e 
a fragilidade da saúde. Esta ligação é fundamentada 
por dados do British Household Panel Survey, o qual 
revela que a saúde física e mental dos indivíduos 
se deteriora com episódios de precarização laboral 
prolongada. Em vez de se adaptarem às condições 
precárias, os trabalhadores permanecem ansiosos e 
em stress constante. Esta pressão do trabalho parece 
contagiar o ambiente doméstico: os trabalhadores 
submetidos a situações de grande precariedade a 
nível laboral também tendem a viver sob tensão em 
casa (Burchell et al., 1999). 
O desemprego 
As taxas de desemprego têm flutuado considera-
velmente no decurso deste século. Nas economias 
desenvolvidas, o desemprego atingiu o seu auge 
durante o período da Grande Depressão no início 
dos anos 30. Em alguns países, a força de trabalho 
desempregada rondou os 20%. O pensamento do 
economista John Maynard Keynes (I883-I946) 
influenciou fortemente a política na Europa e nos 
Estados Unidbs· dutafite···o· .. p·erfodo do·J;-ôs::guetta. 
Keynes acreditava que o desemprego provinha da 
falta de poder de compra necessário à aquisição de 
bens, o queconduziriaàfalrade estímulo da produção 
e, por sua vez, à redução da procura de mão-de-obra. 
Os governos podem intervir para aumentar o nível 
da procura n~~1a ec~n~~ia,. Í~~ando à criaçã~ de 
novos postos de trabalho. Muitos passaram a acre-
ditar que a gestão da vida económica pelo Estado 
significava que os índices elevados de desemprego 
pertenciam ao passado. O compromisso com o 
pleno emprego tornou-se parte da política governa- · 
mental praticamente em rodas as sociedades desen~ · 
volvidas. Até aos anos 70, estas políticas pareciam' 
ter sucesso, e o crescimento económico foi mais OlJ. 
menos contÍnuo. 
Durante os anos 70 e 80, o controlo dos ... ~ ....... , 
de desemprego revelou-se mais difícil, e o keynesia~. 
nismo foi, em grande parte, abandonado como 
de regulação da actividade económica. Por exen1:: 
pio, durante cerca de um quarto de século, a ... 
da Segunda Guerra Mundial, a taxa dena Grã-Bretanha foi inferior a 2%. Aumentou 
I2% no início dos anos 80, depois baixou, 
a subir no fim dessa década. Na segunda metade 
anos 90, o desemprego diminuiu mais uma vez 
Grã-Bretanha, e em 200S representava menos de S · 
Ao longo da história, as taxas de 
permaneceram globalmente elevadas. Em 
rondavam os 6,3%, representando cerca de 
milhões de pessoas. No entanto, também não 
mos esquecer que parte considerável do 
informal, sobretudo nos países desenvolvidos, 
consta das estatísticas oficiais. Deste modo, é 
vel que grande parte dos indivíduos « 
desempregados exerçam, de alguma forma, 
actividade laboral. Os jovens com idades 
didas entre os IS e os 24 anos representam 44% 
população desempregada, persistindo uma dttj~re11c 
com base no género: apenas 48,9% das mulheres 
idades superiores a IS anos está empregada, 
entre os homens a percentagem homóloga se 
pará 74%; .. ks tãxas~ de desemptegõ ... u ........... .. 
consideravelmente de região para região, ... ..,..,, ........ -
o valor médio de 3,6% no Leste Asiático, de 9,~9(> · · 
África Subsariana e de 12,2% (o valor mais elevado) 
Médio Oriente e no Norte de África (Euro 
2007). Estas estatísticas regionais também V\..l.u•• .. •+ 
situações económicas nacionais muito diferentes. 
região sul da África, por exemplo, as taxas de 
prego variam entre os 80% no Zimbabué e os 50% na· 
Zâmbia, os 21% em Moçambique e apenas os 
na Namíbia ( CIA, 2007). 
Análise do desemprego 
Contudo, não é fácil interpretar as estatísticas 
oficiais de desemprego (ver Figura 20.4). Também 
não !: fácil definir o desemprego. Significa «estar 
sem trabalho». Mas aqui «trabalho» significa 
<<trabalho remunerado» e «ter uma ocupação reco-
nhecida». As pessoas devidamente registadas como 
desempregados podem dedicar-se a muitas formas 
de actividade produtiva, como pintar a casa ou tratar 
do jardim. Muitas pessoas têm empregos remunera-
dos a tempo parcial ou só têm empregos pagos espo-
radicamente; os reformados não são contabilizados 
como «desempregados». 
Muitas estatísticas oficiais são calculadas de 
acordo com a definição de desemprego utilizada pela 
Organização Internacional do Trabalho (OIT). O 
registo do desemprego efectuado pela Organização 
Internacional do Trabalho inclui os indivíduos que 
não têm emprego, que estão disponíveis para iniciar 
uma actividade no prazo de duas semanas e que 
procuraram um emprego no mês anterior. Muitos 
economistas pensam que a esta taxa de desemprego 
padrão se deviam acrescentar dois outros tipos de 
desempregados: por um lado, os «trabalhadores 
desmotivados», que gostariam de ter um emprego 
' mas que, tendo perdido a esperança de o ·conseguir; 
desistiram de procurá-lo; por outro, os «trabalha-
dores involuntários a tempo parcial», que preten-
dem um emprego a tempo inteiro, mas não conse-
... guem encontrá-lo. · · 
--· ···· · As estatístieas--glebais · dó:. desemprego são 
L •. • também problemáticas devido ao facto de englo-
,;. .. barem dois «tipos» distintos de desemprego. Um 
deles, o desemprego ocasional, por vezes desig-
nado como «desemprego temporário», refere-se à 
. . entrada e saída habitual, por um curto período, de 
".-....... indivíduos no mercado de trabalho, por razões como 
::L a mudança de emprego, a procura de uma ocupação 
após a licenciatura ou um período de saúde débil. 
r;· .. Em contrapartida, entende-se por desemprego 
estrutural a falta de emprego resultante de mudan-
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1057 
ças estruturais na economia, e não de circunstâncias 
que afectem os indivíduos. O declínio da indústria 
pesada nos anos 70 e 80, por exemplo, contribuiu 
para um elevado nível de desemprego estrutural em 
muitas economias industrializadas. 
Tendências do desemprego 
Na Grã-Bretanha, as variações na distribuição do 
desemprego, tal como este é definido pelo governo, 
encontram-se bem documentadas. O desemprego 
é mais elevado entre os homens do que entre as 
mulheres. Tal como se observa na Figura 20.5, no 
final de 2006, 975 000 homens e 702 000 mulheres 
encontravam-se no desemprego. A probabilidade de 
os homens desempregados terem trabalhado ante-
riormente era duas vezes superior à das mulheres. 
A probabilidade de as mulheres registadas no desem-
prego terem ficado em casa a cuidar das crianças ou 
do lar era dez vezes superior à dos homens. 
O desemprego é, em média, mais elevado entre 
as minorias étnicas do que entre a população branca. 
As minorias étnicas têm também taxas de desem-
prego de longa duração mais elevadas do que o 
resto da população. Todavia, estas tendências gerais 
ocultam uma parte significativa da diversidade nas 
taxas de desemprego entre as minorias étnicas (ver 
Figura 20.6). O desemprego entre a população 
branca permaneceu abaixo dos 5% em 2004. Entre 
a população de origem indiana, a taxa foi apenas 
um pouco superior, rondando os 7% - um dos 
factores que leva alguns a sugerir que a população 
britânica de origem indiana já quase alcançou a 
paridade socioeconómica com a população branca. 
No seu conjunto, os restantes grupos étnicos minori-
rcí.rios apresentavam taxas de desemprego duas a três 
vezes superiores às da população masculina branca. 
Situando-se nos 20%, a taxa de desemprego entre as 
mulheres paquistanesas era a mais elevada no Reino 
Unido em 2004, sendo cinco vezes superior à das 
mulheres britânicas ou irlandesas brancas. No que 
toca à população masculina, os negros das Caraíbas 
1058 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 
População com idade superior à idade escolar 
. I 
. •1."!' .. ""·'!'!:·:=··""· "!"Í!"!~~~~~--:Empreglj.clos??=:.'!'!: ·""' .. :'!'!~ :'!'!. -.~'!'!""!"!"!""""'"111! ... '!'!·.;:'l'l!.l 
Sim·· ·Não 
I 
Atempo iritéiro 
J 
l .. 
Deseja tr~bfllhar? · ~!=!i=!!~i:!!!!!!!~•· 
J· 
Não : .· ,: . ·Sim' 
... ··. . , :·,·a:;;.:_:; :·:·.i:· .· : ...... , 
f:rE3t~od~ U11,1 hqr,~r)9 !J:1fl.iS al~gadó? . ' ,.,~, . 
...... 
;·'.:,[.~;)~.':·:· ......... ·~r~cura·e;p~~~o~ . 
Sim · 
Figura 20.4 Uma taxonomia dos estados possíveis de emprego, desemprego e não-emprego. 
Fonte: Sinclair, 1987,2. 
ou de África, os indivíduos naturais do Bangladeche 
ou de grupos étnicos mistos apresentavam as taxas 
mais elevadas de desemprego, entre 13 e 14%. Estes 
valores eram quase três vezes superiores aos 5% de 
desempre~ad?S. .. ~ntre_ '?.~ ho~~fi:S bri_~~~i~o_s e irla11~ 
deses brancos. 
Os jovens são particularmente afectados pelo 
desemprego, sobretudo nos grupos étnicos minori-
tários. No Reino Unido, mais de 40%. dos homens . 
' . 
naturais do Bangladeche com idades inferiores a 
25 anos encontràvam-sé no desemprego em 2001 e 
2002. Nos outros grupos étnicos minoritários, a taxa 
de desemprego dos homens jovens variava entre os 
25 e os 30%, contrastando com a taxa de 12% entre 
os homens brancos com a mesma idade. 
Há uma percentagem substancial de jovens 
faz parte dos desempregados de longa duração, 
cialmente os que pertencem a grupos 
Mais de metade dos adolescentes masculinos 
pregados inclui os que não têm emprego há 
·-meses ·aumãiS':·o âe·sempregado'âe longã·-:1=:--"'="= 
pode usufruir de cursos de formação, de a;,"'·"~"····· 
cia na procura de emprego e de o 
emprego subsidiado. 
A dasse social e as taxas de desemprego estão'. 
correlacionadas. De acordo com o estudo do ESRC· 
efectuado junto dos jovens nascidos em .. i97o, 
aqueles cujos pais provinham das classes socia:is . 
ou II tinham as taxas de desemprego mais baixas, 
enquanto aqueles cujos pais provinham da rJasse·--"1k~ 
social V ou eram filhos de mães solteiras, ou apre-
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1059 
Reino Unido 
Milhões 
4.---------------------------------~ 
Total 
, ... 
3f--------------,,L'-----~,-------~~--------------~ 
,' \ ,~', 
I I \ 
\ I ', 
I \ 
2f------------L--~------~'--~----~'~,--------~ 
... 
' '-- ... -... " 
0+----.----.----.----.----.----.---~ 
1971 1976 1981 1986 1991 1996 2001 2006 
Figura 20.5 Desemprego segundo o género, Reino Unido, 1971-2006. 
Fonte: HMSO Social Trentls37, 2007, 42. 
Percentagens 
Brancos de origem britânica .iiiliil'a 
Brancos de origem irlandesa .illiiiliifi'"E::EII 
Outros brancos 
Origem mista ~· a•lillilli.lliliiiiiiiiiiii.F;;a 
Indianos 
Paquistaneses 
Bangladechianos 
Outros asiáticos L~. ·~··alllli··-'·liii8~~fm3 
I I 
Negros das Caralbas liJIIIilliliii.lililiiiiiiiiF=f~EE~:EEEE~ 
I 
Negros africanos jilllllll·llili·lliiilii·ll·ifiliiSSl 
Chineses lil•llilllii$1111!iF2'ã:il:i!Bll 
mi Homens I 
11 Mulheres 
I 
... __ .. ~~~~ .. ~:~~~~~-~~.~-nicas .• ~~ .~. ~~~~t-------l-------J _______ j 
o 5 10 15 20 
Figura 20.6 Taxas de desemprego segundo o grupo étnico e o género, 2004. 
Fonte: Officc for Nacional Statistics, 2004a. 
sentavam as taxas de desemprego mais elevadas, 
incluindo uma elevada percentagem de indivíduos 
que nunca trabalharem. 
As taxas de desemprego estão igualmente asso-
ciadas às qualificações educacionais. Inquéritos 
efectuados no Reino Unido revelaram que quanto 
mais elevado é o nível de qualificação, mais baixa é 
a taxa de desemprego. Na Primavera de 2003, a taxa 
de desemprego entre os indivíduos sem qualifica-
ções era três vezes maior do que a existente entre os 
1060 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 
indivíduos com elevadas qualificações educacionais 
(Regional Trends, 38, 2003). 
A experiência do de_semprego 
A experiência do desemprego pode ser muito pertur-
badora para quem se habituou a ter empregos segu-
ros. A consequência mais imediata é, obviamente, a 
perda de rendimentos. Os efeitos desta perda variam 
de país para país em consequência das diferenças 
nos subsídios de desemprego. Nos países onde há 
direito à assistência médica pública e a outros bene-
fícios sociais, os desempregados podem enfrentar 
dificuldades financeiras agudas, mas continuam a 
ter o apoio do Estado. Os desempregados enfrentam 
maiores dificuldades económicas em alguns países 
ocidentais, como os Estados Unidos, onde os apoios 
ao desemprego são atribuídos por períodos de 
tempo mais reduzidos e a assistência médica pública 
não é universal. 
Os estudos sobre os efeitos emocionais do desem-
prego assinalaram que os desempregados passam 
frequentemente por uma série de fases de adaptação 
ao novo estatuto. Embora a experiência seja indi-
vidual, os indivíduos recentemente desemprega-
dos vivem muitas vezes um sentimento de choque, 
seguido de um optimismo face a novas oportunida-
des. ~ando essas expectativas não são rçtribuídas, 
como sucede frequentemente, os indivíduos podem 
cair em períodos de depressão e profundo pessi-
mismo -sobre--si-próprios ·e--as-suas perspectivas -de 
emprego. Se o período de desemprego se prolonga, o 
processo de adaptação é eventualmente completado, 
com os indivíduos a resignarem-se às realidades da 
sua situação (Ashton, 1986). 
A solidez das comunidades e dos vínculos sociais 
também pode ser peri:urb~dà por níveis de desem-
prego elevado. Num estudo sociológico clássico 
dos anos 30, Marie Jahoda e os seus colegas anali-
saram o caso de Marienthal, uma pequena cidade 
austríaca que conheceu o desemprego em massa 
após o encerramento de uma fábrica local (Jahoda . 
et al., 1972 [1933]). Os investigadores observaram· 
a forma como a experiência de um longo período de. 
desemprego acabou por minar diversas estruturas e . 
redes na comunidade. As pessoas revelavam menor:• 
participação nos assuntos cívicos, menor vida social · 
e visitavam menos a biblioteca municipal. 
É importante sublinhar que a experiência do .· 
desemprego também varia em função da . 
social. Para os indivíduos posicionados no 
nível da escala de rendimentos, as consequências 
desemprego são sobretudo sentidas a nível 
ceiro. Sugeriu-se que entre os indivíduos da 
média o desemprego era perturbador 
no que respeita ao seu estatuto social e não ao 
financeiro. Um professor universitário de 45 
que se encontre no desemprego pode ter 
os bens necessários para viver 
durante as fases iniciais do desemprego, mas vv"''"'LC" 
questionar-se sobre o significado do 
para o futuro da sua carreira e sobre o seu valor 
profissional. 
Pensar de um modo crítico 
Se já alguma vez esteve desempregado, como 
é que se sentiu? Considera que o género inter-
fere na experiência do desemprego? ~ais os 
efeitos sociais e psicológicos do desemprego 
para os papéis tradicionais de «ganha-pão» 
(h<?~.~_ns). ~--· «~ona~de~~~~~» ... C... ___________ ~_? ____ .t 
Como as mulheres estão hoje, também, muito . 
mais presentes no mercado de trabalho, será 
o desemprego um problema social potencial-
mente mais perturbador do que no passado? 
Conclusão: 
a «corrosão do carácter»? 
Em 1970, num escudo sobre trabalhadores 
colarinho azul em Boston, Sennett traçou o perfil · · 
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1061 
de Enríco, um mugrante italiano que passou os destino está largamente entregue ao destino dos seus 
seus anos de trabalho como porteiro num edifício contactos. De forma similar, Jeanette sente que o 
de escritórios na baixa dessa cidade. Embora não seu vínculo ao emprego é ténue. Jeanette gere uma 
gostasse das precárias condições de trabalho e do equipa de contabilistas geograficamente dispersos: 
salário baixo, o emprego proporcionava a Enrico alguns trabalham em casa, outros no escritório, 
11111 sentido de respeito por si próprio e uma forma e outros ainda a milhares de milhas de distância, 
«honesra» de cuidar da sua mulher e dos filhos. noutro ramo da empresa. Na gestão desta equipa 
Durante 15 anos, Enrico limpou lavabos e esfregou «flexível», não pode contar exclusivamente com as 
0 chão dia após dia até conseguir pagar uma casa interacções face a face e no conhecimento pessoal 
num subúrbio da cidade. Apesar de não ser atrac- do trabalho de um indivíduo. Em vez disso, Jeanette 
tivo, o seu trabalho era seguro, protegido por um gere à distância, recorrendo ao correio electrónico e 
sindicato, e Enrico e a mulher podiam planear o seu ao telefone. 
futuro e o dos filhos com confiança. Enrico soube Devido às suas deslocações constantes por 
com bastante antecedência quando se iria reformar todo o país, as boas amizades de Rico e Jeanette 
e quanto dinheiro teria à sua disposição. Tal como têm desaparecido; os novos vizinhos e comunida-
Sennett sublinhou, o trabalho de Enrico «tinha des nada sabem sobre o seu passado, de onde vêm 
um propósito único e durável: servir a sua família». ou que pessoas são. Como escreve Sennett (1998), 
Embora estivesse orgulhoso do seu trabalho árduo e «a natureza efémera da amizade e da comunidade 
honesto, Enrico não queria o mesmo futuro para os local constituem o pano de fundo da principal preo-
filhos. Era importante criar condições para que eles cupação de Rico, a sua família». Em casa, Rico e 
pudessem ascender. Jeanette descobrem que as suas vidas profissionais 
Como Sennett descobriu 15 anos mais tarde, interferem na sua capacidade para cumprir os seus 
num encontro ocasional com Rico, filho de Enrico, objectivos enquanto pais. As horas de trabalho são 
as crianças ascenderam efectivamente. Rico concluiu muitas e o casal preocupa-se com o facto de poder 
a sua licenciatura em Engenharia antes de ir para negligenciar os seus filhos. Mas mais problemático 
uma escola de Gestão émNova Iorqi'fe-:Noo·t4·a:rro-s··· ·· do que fazer malabarismos com o tempo e os horá-
que se seguiram à sua licenciatura, Rico construiu rios é, contudo, o facto de poderem estar a dar um 
uma carreira altamente lucrativa e ascendeu aos 5% mau exemplo. Enquanto tentam ensinar aos seus 
do topo da escala salarial. Rico e a mulher, Jeanette, filhos o valor do trabalho árduo, do compromisso 
mudaram-se pe~p:menos quatro vezes no decurso do e dos objectivos a longo prazo, temem que as suas 
---seú.cãsamenro para progrea1rem ·nas suas respecti- próprias vidas contem uma história diferente. Rico 
vas c~rrdras. Rico e Jeanette, enfrentando riscos e e Jeanette são exemplos da forma de trabalho fl.exí-
mamendo-se abertos à mudança, adaptaram-se aos vele de curto prazo que tem vindo a ser privilegiada 
tempos turbulentos e enriqueceram. Apesar do seu nas sociedades contemporâneas. As suas trajectórias 
sucesso, esta história não é totalmente feliz. Rico profissionais caracterizam-se pela mudança cons-
e .. a.mulher preocupam-se por estarem em risco de tante, pelos compromissos temporários e os inves-
«perder o controlo das suas vidas». Como consul- timentos de curto prazo nas tarefas que executam. 
tor, Rico sente falta de controlo sobre o seu tempo Perante o ritmo veloz que caracteriza a sociedade 
e o seu trabalho: os contratos são vagos e mudam actual, o casal conclui que «as qualidades do bom 
constantemente; não tem um papel fixo e o seu trabalho não são as qualidades do bom carácter». 
1062 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 
Para Sennett, as experiências de Rico e da sua 
mulher Jeannette ilustram algumas das consequên-
cias do trabalho de horário flexível na vida pessoal 
e no carácter dos trabalhadores. No seu livro 
A Corrosão do Carácter (1999), Sennett considera 
que a ênfase crescente no comportamento e em 
métodos de trabalho flexíveis pode produzir bons 
resultados, mas conduz também, inevitavelmente, à 
confusão e à corrosão. Isto acontece na medida em 
que as expectativas hoje colocadas sobre os trabalha-
dores contradizem directamente muitas das carac-
terísticas intrínsecas de um carácter forte: lealdade, 
cumprimento de objectivos a longo termo, compro-
misso, confiança e intenção. Sennett sugere que este 
tipo de tensões são inevitáveis na nova era da flexibi-
lidade. Em lugar do empenho numa carreira para a 
vida, exige-se agora aos trabalhadores poli valência no 
trabalho em equipa, entrando e saindo dela, deslo~ 
cando-se de tarefa em tarefa. A lealdade torna-se .. 
uma obrigação, em vez de um valor. ~ando a vidà 
se transforma numa sucessão de empregos distintos . 
(isolados), em vez de uma carreira coerente, desva-
necem-se os objectivos a longo prazo, os laços sociais · 
não se desenvolvem e a confiança torna-se efémera."·. 
As pessoas já não conseguem avaliar que riscos 
a pena correr, e as antigas «regras» para as 
ções, os despedimentos e as recompensas parecem 
não se aplicar. Sennett observa que o desafio cen 
para os adultos na era actual consiste em saber 
conduzir uma vida com objectivos a longo 
numa sociedade que enfatiza o curto prazo. 
·""~'-~"""· ... ~·,"! .. :·'é·a·r~iÚzaçã~ 4~ rã~~i~s,~u~·:e~~~~~ 2. V ma, · car.act(!rí~Hca espeCífica . . . 
.est·ot(;O .físfto. e fueht~i,. .tbrn·. b fl~· de econÓmico .das sÓciedades moderna~ 
· ·· ~'~êH1Ç<>s ·pa:i:ã ~··§i~iJr~~~óJ~s .. : · · ·• ·ri·b a~g~nvülViffiéiitõ Jlti'm~ dfV:isãC>· · · 
~~~~s~·.~g~~~q.~:p·.w~ >:Ji~· tn!!itó{•iip(J.s·#~ ih,§.~ip;ü~çq .cqmpJex~~ç. . 
· · · ~61itô b '1iab~; · ···'·são.do trabalho 
.Y.V,l\.UUd.L.I.U'' >1JL1Ci:l hãQ_SáO ... 
· ··. ~~ijl~et~dós; P~k·9·úiro l~do,' graitd~ parte 
·.•· ;· .. áo;::~~b'illrõ·::nos ~páJ~~~~-eril-~d<is~iiv'GlV.irriiúitó ,:· .... · 
eíí.êôhtri:.se· ·ná · e2ono"friia iriformàl. Uma rrios .todos dependentes uns dos ol.ií:i:bs 
. ~ç~p·a~~o é um tra.balho efectuado .em t'ro~a mantermos as nossas vidas . 
. . . ; Ae-i;i~ .. sal,á.t;io..:~gu}.:ij::"_Q"trab~i:Lé ~hàse .. do ....... -·,·-·-~·- ..... , ......................... _ ........... . 
. sistema écon6mico em todas as culturas. 
' ~ • • ' ' ' " . •' ' ' " •• '·· _. • l ',' ' '. ' ' : • ' • ., • ' • • ' ' . .-.-. '• .~, "''""' ····~-~·,.·'"-·••«=··· -~ ~ ...... ~~ '"''" ,,.,, • .,, ~ ••• ,! 
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1063 
flexibilidade e a inovação são max1m1za~ 
das para corresponder às necessidades do 
mercado em produtos dive~;sifi.cados e padro~ 
nizadós. 
3. A produção indU:striil tornou~se mais 
eficiente com a introdução do taylorisÍno, 
ou gestão cíerttífi.cà - a divisão, na teoria e 
na prática, de todos os prqcessos industriais 
em tarefas simples qu~ poâenf ser ctortóme~ 
rradas e organizadas. O fordismo est~nde os 6. Há quem fale em «morte da carreira>:;. e na 
prin~ípios da gest~o científic<l: àpr~duçã,o d~ chegada do trabalhador «polivalente» - o 
massª.àssodada aos mercados de mass~. o tra~alhador que tem. um portefólio com 
fordi11mo .e o t3:ylodsin~ podein ser eric~Ü:ados . espeçializações diferent~s e que será capaz 
como stste111as de pequéna·'respcmsa.bilid,ade · d~ m~dar prontarilen~e de çmprego para 
que rnaxhriiz'am ·a ·:PJenação' do ·t'fahalhà~ empr~go. Estç:s .. ~r~l?élltii!d,Çí~~~ ~~t$teri1, de 
dor f~~ê. ·á9:1r~b4J.qp. 'lJ'rh ~~lSt~fua 4~::grªl)de fac~o, ·P:aS pà~a )l1UlÇàS. pe~.~óaS, a «flex;ibi,li~ 
respo##~gicl~de peirnit~ gq,ç os tr~b~ha.~o·~. ~ade» está. mai~ as$ôd~<!~;:~· :éhÍp~.~gÓ~· cQni 
. .res .. çQrt~rqJÇ.w~o úu,fit\il?.de .tráb~6 e .até ··. r~rritt,nera.~ões ,b~a.s. .. ~.ff~llhP?~~ã,s ·p:~isp~é-
rriesmo à sua hàttireza. tivas de 'carreira. . ;: . ' .. ·:·'" / . ·r : : . .• . . 
4. · As &g.;ii~~~õeS s~\i,iq~~.jtiht>J!\~n\ê Çori\p • 7. · O <[es,mpregotéil\ S!ci~ ~P~i~J<rti~ "'"~'' · 
recón~~,c~M~~fo 4o direi~d-~:g~éve~ sãóa.~pec~ rentÇ! no munci<> ·irid~~t~~~àiiz~dü~· s~n.,:1~ 0 
::~d:·~c~~!c~~~x$!~~6~~:~;~~q: • f~~d:4iZ~~n~~~lf?i~it. 
· -·- .. ·· ·· ·q6s:p~~e·s.,::~~~t:4~~.~~'iol~4#<#it:d:'~(S)§ ·-sinâi~â" · · · · '· ,tt~.~~#ip.regÇ> . ~~ :fi,j'Lig~f:xç%~§.~:é::~tç~~~fite :: 
t9's' ·.s~·~w!~;rriJ?#f? · ,~f~~~ii~~õ.~~:~4~~~~i~a~,. . ·~ç~;á?tÉ~ánt~r;á:J~?~sg~~lt::·~-····· ~,,~;\J.~ :,~:~~?~ª-~. : 
· cO"iií' if ôl>jê~fi:ivó: de lifÕ"pdrtióiiar.··àõ~~ttàbà.: · · · 4~·pr6pria identiâaâe·:pêssôãt:~;,~~~-:f: ·i·:~:~i):~(:.·; .· 
mdJól~t: .. '::~;::.~:~;· ..... é .. .,:~~:-~~···.'.~···'-~:r;·:· ... ,_ .. B·:.::::r;<:;:':·": ·' :.: :-:,/; · ··J .:·~·... :: • /: ··::):·~ ,'.;:·:~;:~fnJ. · ... ··· ···~r~~~ ~~1/:.::. : . 
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