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Capítulo 18
Organizações e redes sociais
Organüzações
As organizações enquanto burocracias
O espaço físico das organizações
Organizações transnacionais
Organizações económicas
Para além da burocracia
Mudança organizacional- o modelo japonês
A transformação das práticas de gestão
O estudo das práticas de gestão
O estudo das redes
As redes sociais
As redes e as tecnologias da informação
Capital social - os laços que unem
Novos laços sociais?
Conclusão
Sumário
Leituras adicionais
Ligações à Internet
·-··-- -······-·--------·-·--··· -·--- .. ·-- ------------·----
Capítu~o 18~ Organizações e redes sociais
Costuma frequentar os restaurantes McDonald's?
Em caso afirmativo, da próxima vez que lá for,
observe como o restaurante se encontra organizado.
Compare-o com outros restaurantes. A diferença
mais óbvi.l reside na eficiência de todo o processo,
pelo menos aparentemente - o leitor entra no
restaurante cheio de fome, mas fica saciado num
instante. Em vez de haver um empregado que o
encaminha para a sua mesa e lhe serve a refeição, vai
directamente ao balcão e a sua comida é-lhe entregue
imediatamente. Se escolher comer no restaurante,
não existem toalhas de mesa e o número de talheres
é mínimo. Com excepção do tabuleiro, tudo aquilo
de que necessita para comer, bem como o invólucro
no qual a comida lhe é entregue, é descartável. No
final da sua refeição, é o próprio quem coloca no
lixo as embalagens onde vinha a comida - e não um
assalariado. Na realidade, a comida e o serviço pres-
tado num McDonald's podem ser facilmente quan-
tificados e calculados. O objectivo da McDonald's
é «dar mais valor ao seu dinheiro» 1 - o leitor
pode comprar «refeições de valor», «Big Mac's»
e «grandes pacotes de batatas fritas». E o serviço
também é, de acordo com as medições, rápido. O
fundador da McDonald's, Ray Kroc, tinha como
objectivo fornecer um hambúrguer e um batido aos
seus clientes em menos de 50 segundos.
Se olhar para trás do balcão muito provavelmente
irá ver que cada empregado trabalha executando
uma tarefa em particular: um faz as batatas fritas,
outro vira os hambúrgueres, um terceiro coloca os
hambúrgueres numa embalagem e adiciona a salada.
Também irá reparar que grande parte do processo
está automatizado: os batidos são feitos depois de
premir um botão, os instrumentos eléctricos para
fritar funcionam através de temporizadores que
alertam os funcionários quando a comida se encon-
1 Nota do tmdutor: Expressão no original: «more hang for
rhc buck».
tra pronta; até as caixas registadoras têm um botão
pam cada item que é adquirido, o que significa que
os funcionários não necessitam de conhecer o preço
de cada produto.
Se já visitou um restaurante da McDonald's em
duas cidades ou países diferentes, reparou que exis-
tem muito poucas dil:c.renças entre eles. A decora- ·
ção interior pode variar ligdram<::nre c a linguagem
utilizada irá muito provavelmente variar de país
para país, mas a aparência exterior, os menus, o·
procedimento para encomendar, os uniformes do ·
pessoal, as mesas, a embalagem c o «serviço com
um sorriso» são virtualmente idênticos. A «expe-
riência McDonald's» foi concebida de modo a ser
uniforme e previsível, seja em Lima ou em Londres.·.
Independentemente do lugar onde está localizado
o restaurante McDonald's, os visitantes sabem que '-
irão encontrar um serviço rápido e um produto que
é satisfatório e consistente, em qualquer um
31 000 restaurantes que existem espalhados por 120
países no Mundo inteiro.
O sociólogo americano George Ritzer (1
1993, 1998) argumenta que o McDonald's é
metáfora viva das transformações que estão a
lugar nas sociedades industrializadas. O
defende que assistimos à «mcdonaldização»
sociedade. De acordo com Ritzer, a tu~·uuJ,liwu'""'<"·u,·
é «o processo pelo qual os princípios em que
tam os restaurantes de comida rápida estão a
nar um número cada vez maior de sectores da
dade americana, bem como o resto do
Ritzer utiliza os quatro princípios orientadores
restaurantes McDonald's -·eficiência, cálculo,
midade e controlo através· da automatização -
demonstrar que, com o tempo, a nossa sacie
está a tornar-se cada vez mais racionalizada. O
esclarece que não têm nenhum desejo particular
implicar com a cadeia McDonald's - ela é
mente o melhor exemplo deste processo. Para
disso, o auror faz notar que o termo «nKctolltal~W
--------·-·--·--·------------·-·-··--·-·-·-------.. ·-·--·-.. ····-............................ ·------
zaçúo .. tica mais no ouvido do que as expressões
«Bun!:cr Kingização»! ou «Starbaquização»·'.
Ri,m:r, como o sociólogo clássico Max \'V'eber
ante' dde, n.:ceia os efeitos prejudiciais da racionali-
zado. Como iremos constatar ao longo deste capí-
tulo, \\'d)cr percebeu que a racionalização crescente
do mundo moderno escava a produzir resultados
irr~tcionais, pois as burocracias como que ganhavam
uma \·ida própria e se disseminavam por várias áreas
da vida social. Da mesma forma, Ritzer defende que
0 proê..:sso aparentemente racional da mcdonal-
diza~i\o produz uma série de irracionalidades - o
amor designa este processo por «irracionalidade
da racionalidade». Tal processo inclui os efeitos
nocivos para a saúde (decorrentes de uma dieta com
elevados níveis de calorias, gorduras, colesterol, sal
· e açúcar) e para o ambiente- uma vez que todas as
... embalagens são atiradas para o lixo após cada refei-
ção. Mais do que isso, argumenta Ritzer, a mcdonal-
f dização é « desumanizante ». Alinhamo-nos em filas
·; para pedir um hambúrguer, tal como se estivéssemos
~ ~: numa cadeia transportadora, enquanto os empre-
~: ·gados, do outro lado do balcão, repetem a mesma
t". tareEl especializada vezes sem conta, como se fossem
lf;' robôs numa linha de montagem. A tese de Ritzer
r; tem sido particularmente influente na sociologia,
~' mas, tal como veremos mais adiante neste capí-
~~:. tulo, ao mesmo tempo que foi alvo de importantes
~~;:críticas também contribuiu para que a corporação
~::.-!'1cDonald's se visse forçada a mudar as suas práticas
~~~para s~breviver na. ~conomia global. . , .
~ ....... Extste uma dtferença entre a expenencta dos
~~';clientes - eloquentemente descrita por Ritzer - e
~.a experiência dos trabalhadores dos restaurantes
Í~: McDonald's. Os clientes apenas ~experienciam a
>,:,.«face pública» dos restaurantes McDonald's e
iCfonnam a sua opinião acerca da empresa a partir
,;:dessa experiência. Contudo o pessoal da empresa
IJ'n '
~fJvlcDonald's, nos seus diversos níveis hierárquicos,
~t -------
'E • .xprcssão no original: «Burgcr Kingization ».
3
Expressão no original: «Starbuckization >>.
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ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 885
poderá ver as coisas de um modo diferente a partir
do interior da mesma. Enquanto os clientes vivem a
experiência de um restaurante cficienre c altamente
organizado, o pessoal pode estar mais informado
sobre as ineficiências e os problemas internos que
resultam de pressões exteriores. Trata-se de uma
empresa true é, afinal, uma organização capitalista
multinacional cujo objectivo é a maximização dos
lucros. Compreender como funcionam as organi-
zações exige que se investigue os seus mecanismos
internos, as suas práticas de gestão e o seu papel no
seio da sociedade. E isto requer pesquisas empíricas
e desenvolvimentos teóricos.
O esrudo c a teoria das organizações consti-
tuem aspectos muito importantes da sociologia, c
constituíram uma preocupação central do clássico
Max Weber - cujas ideias influenciaram Ritzer .
Consequentemente, Weber serà uma figura central
ao longo deste capítulo. Iremos examinar o que
Weber e outros sociólogos disseram sobre as organi-
zações, e investigar se as organizações ainda são rele-
vantes. Trata-se, acrualmentc, de um aspecto perti-
nente, pois afigura-se estarmos a assistir ao rápido
crescimentode redes sociais menos rígidas base-
adas em tecnologias avançadas, as quais, segundo
alguns, parecem estar a tomar o lugar de algumas das
funções das organizações formais anteriores. Assim,
a segunda parte deste capítulo explora a emergên-
cia de redes sociais glob<lis e o argumento de que
estamos a assistir ao nascimento da «sociedade em
rede» ( Castells, 1996).
Organizações
Com alguma frequência, há pessoas t1uc se unem
de modo a poderem alcançar determinados objecti-
vos que não seria possível concretizar caso agissem
isoladamente. Um dos principais meios de atingir tal
cooperação é através de uma organização, um grupo
com mecanismos de filiação públicos que leva a cabo
determinadas acções colectivas de moiclc a atin-
gir objectivos comuns (Aldrich c Marsden, 1988).
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· .. 886 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS
Uma organização pode ser um grupo pequeno de
indivíduos que se conhecem pessoalmente, mas é
mais provável que seja um grupo amplo c impessoal.
As universidades, os grupos religiosos e as empresas
são exemplos de organizações. Tais organizações são
uma característica central de rodas as sociedades.
Nas sociedades industriais e pós-industriais
modernas, as organizações tendem a ser extrema-
mente formais. Uma organização formal é, habi-
tualmente, racionalmente planeada para atingir
objectivos de acordo com regras explícitas, regula-
mentos e procedimentos. A organização burocrática
moderna (a discutir mais adiante neste capítulo),
é um dos exemplos acabados de uma organização
formal. Tal como Max Weber tinha notado nos anos
20 do século XX (1979 [1925]), existe uma tendên-
cia antiga de formação de organizações formais na
Europa e nos Estados Unidos da América. As razões
para esta tendência residem, em parte, no facto de a
formalização ser um requisito para o seu reconhe-
cimento legal. Para serem reconhecidas legalmente,
uma escola, ou universidade, têm de satisfazer deter-
minados critérios, tal como terem procedimentos de
funcionamento escritos, estejam eles relacionados
com as políticas de avaliação do pessoal (docente
e não docente) ou com os procedimentos em caso
de incêndio. Actualmente, as organizaçõ.es formais
continuam a ser a forma dominante de organização
em todo o Mundo.
A maior parte dos sistemas sociais no mundo
tradicional desenvolveram-se ao longo do tempo em
resultado de costumes e de hábitos. Por outro lado,
as organizações foram concebidas e consolidadas
com determinados objectivos em vista, e alojadas em
edifícios e locais específicos com vista à concretiza-
ção desses mesmos objectivos. Os edifícios nos quais
os hospitais, as escolas e as empresas levam a cabo
as suas actividades estão geralmente situados em
locais tipificados. Podemos, portanto, afirmar que
as organizações têm um efeito regulador: as orga-
nizações influenciam e moldam o comporramemo
dos indivíduos de determinada forma; e algumas
dessas organizações representam determinados valo-
res sociais. Por exemplo, e conforme veremos mais
adiante, Michel Foucault defendeu que as clínicas,
as escolas, os hospitais e as prisões partilham um
principio idêntico de organização Hsica, o que nos
diz bastante sobre as relações de poder na socie-
dade e sobre o modo como o comportamento dos
«prisioneiros» é limitado.
As organizações desempenham actualmente um
papel muito mais importante nas nossas vidas quoti-
dianas do que antigamente. Além de nos ajudarem
a vir ao Mundo, acompanham o nosso desenvolvi-
mento até morremos. Até mesmo antes de nascer-
mos, as nossas mães, e provavelmente também os
nossos pais, participam em aulas, exames de gravi-
dez, e por aí adiante, levados a cabo nos hospitais
e noutras instituições médicas. Hoje em dia, todos
os recém-nascidos são registados em organizações
governamentais que reúnem informações sobre nós·
-desde o nascimento à morte. Actualmente, a maior
parte das pessoas morre em hospitais - e não em
casa, como já aconteceu em tempos -e cada morte, à
semelhança do nascimento, terá de ser formalmente
registada pelas autoridades locais.
É fácil verificar por que razão as organizações
são tão importantes para nós nos dias que correm.
No mundo pré-moderno, as famílias, os
mais próximos e os vizinhos proviam a grande maio-
ria das suas necessidades - comida, a instrução das .
crianças, trabalho e actividades de lazer. Nos tempos
modernos, a grande maioria da população encontra-
-se muito mais dependente do que alguma vez f~i
1'!9 passado. Pessoas que nunca conhe~emos e que
podem viver a muitas centenas de quilómetros
nós, atendem a muitas das nossas necessidades e
exigências. Em tais circunstâncias, é necessária uma
-·-·----· --·-·--·------... -·-----... -.- --· ·-·-·-. ·- ... ·--··- -·------ ................... -- ·--........ ___ , __ _
..;r<tnde coordenação das actividades e dos recursos
f•roporcionados por essas organizações.
Contudo, a influência tremenda que as organiza-
•;ôcs passaram a exercer nas nossas vidas não pode ser
·;ista como totalmente positiva. As organizações têm
i"rt.:quentemente o poder de tirar as coisas das nossas
m:íos, colocando-as sob o controlo de autoridades c
,k especialistas sobre os quais temos pouca influên-
cia. Por exemplo, todos nós somos obrigados a E1zer
.:erras coisas que o Estado nos diz para fazer - pagar
impostos, obedecer às leis, combater em guerras -
sob a ameaça de sanções. As organizações, enquanto
fontes de poder social, podem assim subjugar o indi-
víduos e levá-lo a agir de acordo com ditames face
aos quais podem não ter poder para resistir.
As organizações enquanto burocracias
A palavra burocracia foi cunhada por De Gournay,
cm 1745, que juntou o prefixo bureau -original-
mente em francês e que tanto significa escritório
como secretária - ao termo cracia, derivado do
verbo grego para «governar». A burocracia é, por
conseguinte, o poder dos funcionários. A princípio
o termo era aplicado apenas . aos funcioná!ios do
governo, mas o seu uso generalizou-se gradualmente
para referir as grandes organizações em geral.
O conceito foi usado desde o seu início de modo
depreciativo. De Gournay referiu-se ao desenvol-
vimento .. do. puder. dos funcionários como uma
«doença chamada buromania»: O romancista fran-
cês Honoré de Balzac retratava a burocracia como
«o poder gigante dos pigmeus». O autor checo Franz
Kafka deixou-nos uma descrição terrífica de uma
burocracia impessoal e ininteligível no seu romance
O Processo, publicado originalmente em 192 S. Este
cipo de opinião tem persistido até aos nossos dias.
A burocracia é frequentemente associada à forma-
lidade, à ineficiência e ao desperdício. Contudo, os
~--·················
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ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 887
estudos sociológicos sobre as organizaçôes enlluanto
burocracias têm sido dominados pela obra de Max
Weber (ver «Escudos clássicos 18.1 » ).
Relações formais e informais
A análise da burocracia realizada por \Xfebcr dá
primazia às relações f{mnais nas organizações -
as relações entre os indivíduos segundo o que está
estipulado nas regras da organização. Weber pouco
disse acerca das ligações informais e das relações
entre pequenos grupos que podem existir em todas
as organizações. Nas burocracias, os modos infor-
mais de actuação permitem alcançar uma flexibili-
dade que não poderia ser alcançada de outra forma.
Num estudo clássico, Peter Blau ( 1963) analisou
as relações informais num departamento gover-
namental encarregado de investigar possíveis fugas
ao fisco. Os funcionários que se confrontavam com
problemas que não sabiam exactamente como resol-
ver deveriam discuti-los com o seu superior hierár-
quico; as normas de procedimento estabeleciam
que essçs problemas não podiam se discutidos com
colegas do mesmo escalão. Todavia, a maior parte
dos funcionáriosera prudente quando se tratava de
consultar os superiores, pois pensavam que tal pode-
ria sugerir incompetência, e, por conseguinte, levar
a reduzir as suas hipóteses de promoção. Por isso, os
funcionários consultavam-se normalmente uns aos
outros, violando as normas oficiafs. Isto não só os
ajudava a obter informações correctas, como dimi-
nuía também as ansiedades decorrentes do traba-
lho individual. Desenvolveu-se assim um conjunto
sólido de lealdades em pequenos grupos de traba-
lhadores do mesmo escalão. Blau concluiu que os
problemas com que esses funcionários se deparavam
eram provavelmente enfrentados com maior efidcia
deste modo.
888 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS
Max Web.er: a modernidáde enquanto dominação
burocrática
A. problemática ela jnvestigação, . '
A vida moderna exige alguma organizaçã~ dadc dos asshntos respeitantes à governaÇão. Mas
formal para que ás actividades possam decorrer só nos tempos modernos é que as burocracias se
sem percalços. Contudo, J,nUitas pessoas vêem as desenvolveram completamente.
organiz.aÇões de um modo negativo, pois consi- De àco,rdo com Max .Weber, a expansão da·
deram que elàs retiram criatividade individual e bm;ocracia .é um fenómeno inevitável das sodedà- ·
cria,ril muitas êlfficuldades·qriándó precisamos do des modç;.p.as;. a autoridade burocrática é a~iéa
.seu, aq#lio~ Porque ·será assim? Por que razão as forma de lidar. c~~ a~ ·i~pÍic~çÕes. adminls.ti~Çi:· . ~
· o~gan1:z;açÇ)es são vista$ ~orno . simt~ltanearnente vas de granci~s sistemas. s~dais. Cof\tudo, W~per .
r:i<:ê.9$~â.ria.~ e. inúteis? T~!!-t~~~e~á ape~a.s ·de u~ tainbé~ aÇr~dita~a qu,e a burocracia aprese.~t~:. :
probletrt~.' .d~. pe~cçpÇóes · c;life,i:erttes: eti de algo grandes 4efitiências que têm bastantes ÚripJÍç~:· ... '
m#ifo maifé:üi.'aizadõ e 'múlto mais sedo) ções n9- natur!!zá.da. vid~$pçiW, m..ode,rna ... i . . . ·. ;
· ::.Q s<;>ci6l~go ~e~ãoM~·Web~~.dese~volveu a · :De_ m;ah.eir~ ·a· ~studar as origens e a nã~~i~~~ , ~
pri~ii~~ 'i'ri~~tp~et~çaó'~ist~~~tic~· da ·e~~-r~ên~ia da expànsãb 'âis'''t)igiliiiàçôes ·htito'Crátkas, ~r,
das' otgifíizitÇoes mode~n'âs.·S~giu1do estÇ ~l.itôt, W~ber cons.truiu u.lh. tipo ideal de burocçaÇi~/. :
as .. org#fit!l~Õ~s . .constiÇ~~ri). forgi?-S de cootdertàr «ÍdeàÍ», hO. sentido qúe aqui ~e confer®~s; ~··i
ª~ á~t~:\riMdes 49s sere.s ·hiwili.çYs. de ti~ ~o do não ·se refe~e ao quç Ç .mais desejável, mas á. ~( .
. t6hstartt~:'i{(Fté1hp·o·'"· ~e:.:'n'· .. : .... ·. '=·s"p'': .. : ".·,:, • .,,?~'.r: ·. ,; · ·•· · ;.t . : · ,,,. · ' .. « fo.rm.. a ·.P·. ura >.:>< 4~ .or~ .. Jtii ... ~é.ªo .. Jn~.ÇQçç#, ~ça, .. : .. u.· .. ·.· ri.l .... ·." . ·., . . .. . ... . .. , . . o e .aço_. :weuer reaJ.ÇQU o;:: • . -. ·- -
·ql!e: o· ~Ç~~-~v9lyiniel11:ô d,:i~ organizàçÕ~s àssertta tipo id,eaté-.~a descrição ãbst~acta const~il.Úi{:L .\
. ~8 doffi,!~~~·:4~Wótclaç~~; ~g~~)lariclõ à!!l'lPOJ;- ~artir. d~ .~nfatiz~ção de determina~as car;tc.~7rf:s;~:·
.. J~g~~&~~'L9f&:~f:~~B:P.:t2&~~~2·L~~Y.?tg~i~~Ǫo, :· tl,~~ ·~e.s~.~~ ·rer~· ~e ;rno~o ~ ~~~f soh,re~~~~~:~::,:. i
fiêÇ~~sita i:l!!·. t~gta.s · éscfiéi§:··pari ·{uriCiõ)la,r-e::·.ae:·-·-·"ru:~~te.rí~~1ç~-'~~~~n.~1?-15·.( Y.er .Q9-p~t~o ;l)~:·W,~h'tF.~ t
fi~~eirb~ o~q~ ·~· .. ~!:la ~<trt~rilo~i~~; s~ja · ~iroa~e- . (1979 {f.9.f<?]) ~n\.Wl~ro1,1 as $Ggu~nçes c~r~ç:~,ç:#$~t~;:';:,:
na;'d·'ra:·:.:p'''.'0''r-''i:·m··~:":~w."J::'.·b····:-•;··a·:'··,-t_,.., . .:,.t·.'i>:::·<·::~.,,,. ,:· .•.. _,,'" .. ;;i'.:: ...• ,.:.,:... . c~~.:Ào _t1no 1deal de b. urocracia: . . . .. . ~ , we er e ec ouaenstenc1aue um:a . · __ ... ···:·li":-.•.. , ... ,,.,, .. ".,,. ...... :"'''"., .•. _" ........ :·
·qp~~:t,~~6{::~~~.c.J~~-:~.4~.:\~{i~~~ç;·~N;f!:~~ :P~g~~- ·~. · ~~~~e.,~~ ;~~.~r~r~~i~. ,de :~~f~t:idade ~Y:\#~~}'~~fi. 1
... .'P.:~Z~9.~e.s· mti_{~r~~~ '((á denipCl:~éla' que acrêcil.tava . '. A~ t~:FP~p:·que. !!-S:·tru:ef~s ha .or~ªf1Ji}!Ç~9;~~gr·~
·tt\r~gt.~q,ç~.:.çó~~~qtiêrt~i~ ·a:61ii;JJã~id~s.óci~i~ ... ~ .... ··-··'<#~f~~~)i~4~~:-ee~o·--«·d~l;.er~~cifi~íais>>~.:Urija·· '•:
· ..:: · · j. ." • · __ · :ottÇõ.CrãÇiã~ãs~~mêlha:;se a illriãpitâmid.e--ci:>nr:.-
. ·A.·élt~w~~~~'~!·~f~li~"·· . . .. ·. ~~~~{~r~~;~~{-~Í~!~
D~e:_ ~~qrd() cbtp,. Web~r, ·. :~ç_4a~ ~s org~i .. ?:açõe~ dqt.dg~ :~ :pase e torn:t. pó~síve~ i c~ptder~9~8 ·: .
--: .. erri.;gíihd6:~calá:.têri,dêili'}(~t~ !fatt:iteZ'a buro- · ·das .to.i,nada,s de decisão. cOada funCionário de •
. ··.··i~f~j~i~t·l~ri~df\i·-·~.~~~~~~!Epe~.~tof~.0t!s:'
Hav~~·.:P.9Í' ~~y,111plo~ ~w·f#ti~ioílalismo burocrá- 2. ú regúlariú:nto esçrito governa a condtita dos '
· ·tiEo·.n.~·'Ç}?.Jij~i.ff1p:~i~~.·Fê~p9.ns~v~l·pel~·ge.ne~ali- . · funcionirios' .em -todos os níveis da o~gablza- ·
''" ' ' . • ••• • • •• "• ou ••• •• ~ -- • • • • < • A- '
~--··----... -·--··-·--.. ---·~---····---· --····--- ..... ··--·--·
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 889
----- -----·-··.-------,-··----·-···' '. ' ....... , .......... , .... - ..
890 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS
·:'-i!J'HCJ.J.,11;P;.4CLQ:L•1rrió Q~;~it~l::::~
;:f.tJrr~fti.é:P:.tJ~§"i!~tit:tq$· ':2f.iti~~s:.êori~úl~" ·
... ,.,...' -,".·,.· :·.rf.iwi(/ri~~a- ·
O grupo foi capaz de desenvolver procedimen-
tos informais que permitiam maiores iniciativa e
responsabilidade do que as conferidas pelas regras
formais da organização.
As re<ies informais tendem a desenvolver-se a
I
todos os níveis das organizações. Os laços e as rela-
ções pessoais poderão revelar-se mais importantes
para a estrutura real do poder do que as situações
formais no âmbito das quais as decisões são supos-
tamente remadas - mesmo nos cargos de topo das
organizações. Veja-se, por exemplo, o caso das reuni-
ões entre a administração e os accionistas, durante
as quais, supostamente, se determinam as políticas
das empresas. Na prática, e com frequência, são s6
alguns dos membros da administração quem gere
a empresa, tomando as suas decisões de um modo
informal e esperando que os restaures as aprovem. As
redes informais deste tipo podem também estender-
-se a diferentes organizações. Os administradores de
diferentes empresas consultam-se frequentemente
entre si, de um modo informal, e podem pertencer
aos mesmos clubes ou associações de lazer.
Para John Meyer e Brian Rowan ( 1977), as r~g_~as
e os procedimentos formais' das organizações estão,
habitualmente, muito distantes das práticas real-
mente adoptadas pelos seus membros. Na sua pers- .
pectiva, as regras formais são geralmente «mitos»
que as pessoas professam, mas que têm muito pouca
substância na realidade. Elas servem para legitimar
- e justificar - o modo como as tarefas são leva-
das a cabo, muito embora este «modo de fazer as
coisas» possa divergir enormemente do modo como
as coisas «devem supostamente ser feitas» à luz das
regras estabelecidas.
-·~--· ... ~~--.- ~·- .. ·~- ··-··· ........ ~ ... ~- .. ------------------···-
I : .,
-- ' .. -----
No mundo empresarial e noutras organizações, as redes infor-
mais são criadas pelos indivíduos que se juntam durante as horas
de trabalho ou fora delas.
Meyer e Rowan assinalam que os procedimen-
tos formais ·t:êm -geralmente. um carácter cerimo-
nioso ou ritual. As pessoas simulam a adesão a estes
procedimentos para poderem continuar a fazer o
seu trabalho, enquanto usam procedimentos mais
informais. Por exemplo, as regras que governam os
procedimentos de vigilância num hospital justifi-
cam o modo como as enfermeiras reagem face aos
pacientes: a enfermeira irá fielmente preencher o
processo do paciente e pendurá-lo aos pés da cama
do mesmo; mas a enfermeira também irá confir-
mar qual é o progresso do paciente de acordo com
outros critérios informais - se a pessoa apresenta
--------------··-·-······-······'
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 891
um bom aspecto e se parece atenta ou desperta. 0
cumprimento rigoroso do processo clínico pode
impressionar o paciente e satisfazer os médicos, mas
nem sempre é essencial para a avaliação do estadodo
paciente pela enfermeira.
Saber até que ponto os procedimentos informais
são úteis ou constituem obstáculos à eficácia das
organizações não é uma questão simples. Os sistemas
que se assemelham ao tipo ideal de Weber tendem a
originar um vasto número de formas não oficiais de
agir. Isto acontece, em parte, porque a flexibilidade
inexistente pode ser adquirida através de ajustamen-
tos não oficiais das regras formais. Para aqueles que
desempenham funções insípidas, os modos infor-
mais de actuar podem ajudar a criar um ambiente de
trabalho mais agradável. As relações informais entre
funcionários que ocupam cargos superiores podem
ser eficazes e contribuir para a organização no seu
todo. Por outro lado, estes funcionários podem estar
mais preocupados em subir na carreira, ou proteger
os seus próprios interesses, do que com o futuro da
organização.
As disfunções da burocracia
Robert Merton, um sociólogo de orientação funcio-
nalista, analisou o tipo ideal de burocracia de Weber
e concluiu que vários elementos inerentes à mesma
podiam levar a consequências prejudiciais para o
funcionamento da própria burocracia (Merton,
1957). Merton referiu-se-lhes como «disfunções da
burocracia».
> > Para mais infórma,'()l'S sobre o ruuciona·
ismo, ver o C;tpí t ulo I, •:<,() quc~ê a Wct()[o:
gia?·· e o C:apíwlo .), <s'l(:ori.t~ e pcrspccriv,ts
cm sociologia,,.
Em primeiro lugar, Merton sublinhou que os
burocratas são treinados pafa confiar unicamente
nas regras e nos procedimentos escritos. Neste
sentido, não são encorajados a ser flexíveis, a usar as
·~ 892 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS
suas próprias capacidades de raciocínio nas tomadas
de decisão ou a procurar soluções criativas; a buro-
cracia trata da gestão de casos de acordo com um
conjunto de critér.ios objectivos. Merton receava que
esta rigidez pudesse levar ao ritualismo burocrático,
siwação em que as n.:gras são protegidas a rodo o
custo, mesmo em casos cm que outra situação pode-
ria ser mais benéfica para a organização no seu todo.
Uma segunda preocupação de Merton é a de a
adesão às regras burocráticas poder eventualmente
assumir-se como prioridade face aos objectivos
subjacentes à organização. Dada a grande ênfase
colocada no procedimento correcto, é possível
perder de vista o que realmente interessa. Um buro-
crata responsável pelo processamento de apólices de
seguros pode, por exemplo, recusar compensar um
segurado por danos legítimos, evocando a ausência
de um formulário ou o preenchimento incorrecto
do mesmo. Por outras palavras, o processamento
correcto do pedido poderá ser assumido como uma
prioridade perante as necessidades do cliente que
sofreu uma perda.
Merton previu, em casos como este, a possibili-
dade da existência de uma tensão entre o público e
a burocracia. Esta preocupação não era inteiramente
infundada. A maioria de nós relaciona-se regular-
mente com grandes burocracias - desde o Serviço
Nacional de Saúde e as autoridades cam<mÍ.rias às
autoridades fiscais. Debatemo-nos não ra~as vezes
com situações em que os funcionários públicos e
os burocratas parecem não estar preocupados com
as nossas necessidades. Uma das maiores fraquezas
da burocracia reside na dificuldade que tem em lidar
com casos que exigem uma consideração e um trata-
mento especiais.
As organizações enquanto sistemas
mecanicistas e orgânicos
Os procedimentos burocráticos podem ser aplica-
dos de modo efectivo a todos os tipos de trabalho?
Alguns estudiosos sugeriram que a burocracia faz
sentido para desenvolver tare6ls rotineiras, mas pode
ser problemática cm contextos em que as exigências
do trabalho mudem de forma imprevisível. Na sua
pesquisa sobre a inovação e a mudança nas compa-
nhias de electrónica, Tom Burns e G. M. Sralker
( 1996) constatar;un que as burocracias eram de
eficácia limitada em indústrias onde a flexibilidade e
a inovação são preocupações primordiais.
Burns e Stalker distinguiram dois tipos de orga-
nizações: mecânicas c orgânicas. As organizações
mecânicas são sistemas burocráticos em que existe
uma cadeia hierárquica de comando, com a comu-
nicação a fluir num sentido vertical através de canais
específicos. Os empregados são responsáveis por uma
tarefa particular; assim que a tarefl está concluída, a
responsabilidade passa para o empregado seguinte.
O trabalho no seio deste sistema é anónimo, com
as pessoas «no topo» e «na base» a comunicarem
muito raramente entre si.
As organizações orgânicas, pelo contrário,
caracterizam-se por possuírem uma estrutura mais
flexível na qual os objectivos gerais da organização
assumem a primazia sobre as responsabilidades defi-
nidas de modo estreito. Os fluxos de comunicação
e as «directivas» são mais difusas, movendo-se em
muitas trajectórias e não apenas em trajectórias verti-
cais. Considera-se que todos os que estão envolvidos
na organização possuem um conhecimento legítimo
e contributos que podem ser utilizados para a reso-
lução de problemas; as decisões não são um domínio
exclusivo do «topo».
De acordo com Burns e Stalker, as organi-
zações orgânicas estão muito melhor equipadas
para lidar com as exigências em mudança de um
mercado inovador, como o das telecomunicações,
o do sfl/Jware .de cort1putadores ou o da biotecno-
logia. A estrutura interna mais fluida traduz-se em
respostas mais rápidas e mais apropriadas a mudan-
ças no mercado e na criação de soluções mais cria-
tivas e céleres. As organizações mecânicas são mais
adequadas a formas tradicionais e estáveis de produ-
ções menos susceptíveis às mudanças no mercado.
' ' ·~
Embora tenha sido publicado há mais de 30 anos,
este estudo é muito relevante para as discussões actu-
ais sobre a mudança organizacional. Burns e Stalker
anteciparam muitos dos assuntos que tomaram um
lugar central nos debates recentes sobre a globaliza-
ção, a especializado, a flexibilizacão e a desburocra-
' '
tização.
A burocracia contra a democracia?
Mesmo em países democráticos, as organizações
governamentais detêm quantidades enormes de
informações a nosso respeito, desde os registos de
nascimento, escolares c profissionais, passando pelos
registos de rendimento usados no pagamentos de
impostos, até às informações utilizadas para emitir
cartas de condução ou cartões de beneficiário da
segurança social. Uma vez que nem sempre sabemos
qual é a informação an~1azenada sobre nós, e quais são
os organismos que a detêm, algumas pessoas temem
que tais formas de vigilância possam comprometer
os princípios democráticos. Tais medos perpassam o
famoso romance de George Orwell intitulado 1984,
no qual o Estado- designado como «Big Brother»
- exerce uma vigilância sobre os seus cidadãos de
molde a suprimir as críticas internas e as diferenças
de opinião usuais em qualquer democracia.
Algumas propostas, como a introdução de
cartões de identidade em alguns países, feitas com o
intuito de combater o terrorismo global e proteger
os cidadãos contra o roubo de identidade, têm susci-
tado. as preocupações acima referidas. Tais cartões
contêm, habitualmente, a fotografia do detentor, os
seus nome, morada, sexo e data de nascimento, mas
actualmente também um microchip onde estão regis-
ta~as informações biométricas como as impressões
digitais, a imagem da íris ou as dimensões faciais.
Os críticos destes meios de identificação têm expri-
mido preocupações relativamente ao facto de as
bases de dados nacionais - que contêm informação
sobre a identidade dos cidadãos -, não serem segu-
ras e constituírem uma ameaça aos direitos indivi-
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 893
duais à privacidade e à não-discriminação. Aqueles
que apoiam a emissão destes cartões de identidade
argumentam que alguns tipos de vigilância podem,
de facto, proteger alguns princípios democráticos,
na medida em que permitem uma maior vigilância
daqueles que pretendem pô-los em causa.Pensar de um modo crítico
Reflicta sobre alguma das vezes em que teve de
lidar com o sistema burocrático - por exem-
plo, o serviço nacional de saúde, uma repar-
tição dos serviços de segurança social ou um
organismo governamental - e f.'lça uma lista
de todos os aspectos neg,ttivos desse episódio.
Ficou satisfeito com o modo como os funcio-
nários comunicaram consigo? Considera
que se tratou de um processo eficiente? De
seguida, enumere todos os aspectos positi-
vos do mesmo episódio. Acha que o carácter
relativamente formal e regulamentado das
burocracias é a única forma possível de lidar
com um grande número de pessoas? De que
modo entende que os sistemas burocráticos
poderiam ser melhorados, de acordo com a
sua própria experiência?
Robert Michels ( 1967), um aluno de Weber,
inventou uma expressão para se referir à perda de
poder da base para o topo que se tornou famosa
desde então. Segundo o autor, nas grandes organi-
zações, e de uma forma geral nas sociedades domi-
nadas por organizações, existe uma lei de ferro da
oligarquia- <.Juerendo c9m «oligarquia» significar
«governo de poucos». De acordo com Michels, a
transferência do poder para o topo é simplesmente
inevitável num mundo cada vez mais burocratizado
-daí a expressão «lei de ferro».
Será que Michels tinha razão? É certamente
correcto dizer que as grandes organizações envol-
~.·
894 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS
vem a centralização do poder. No entanto, existem
boas razões para supor que a «lei de ferro da oligar-
quia» não é tão dura nem tão célere quanto Michels
supunha. As relações entre oligarquia c centraliza-
ção burocrática são mais ambíguas do que Michels
admitia.
Em primeiro lugar, é necessário reconhecer que a
desigualdade de poder não é, como Michels sugere,
apenas urna característica que advém do tamanho das
organizações. Em grupos mais pequenos também
podem existir diferenças de poder muito marcantes.
Por exemplo, em pequenos negócios, onde as activi-
dades dos funcionários são muito mais visíveis para
os empregadores, pode existir um controlo mais
apertado do que em grandes escritórios c organiza-
ções. De facto, as relações de poder tornam-se menos
rígidas à medida que as organizações aumentam de
dimensão. Aqueles que se encontram em posições
intermédias, e na base, podem ter pouca influência
sobre as decisões tomadas no topo. Mas, por outro
lado, devido à especialização de funções e às compe-
tências envolvidas na burocracia, os indivíduos que
se encontram no topo podem perder o controlo
sobre muitas decisões administrativas realizadas por
aqueles que ocupam cargos de base.
·,. ~ -•r•. •
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ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 895
:;:7>fl.
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____________ . ____ ., ........ .
896 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS
Em muitas organizações modernas, o poder
decisório é também delegado de modo frequente
c abertamente num sentido descendente, isto é, de
superiores para subordinados. Em muitas das gran-
des empresas, os administradores estão tão ocupados
a coordenar diferentes departamentos, a lidar com
crises ou a analisar orçamentos e quadros estatísticos
l1Ue têm muito pouco tempo para ter pensamentos
originais. Os administradores delegam questões
relativas à definição das políticas da empresa a
subordinados, cuja função é o desenvolvimento de
propostas. l'v[uiros líderes de companhias assumem
muito francamente que, na maior parte das situa-
ções, se limitam a aceitar as conclusões que lhes são
apresentadas.
!;rn~tru:a Catbett: Ditectot Malvado de 1-1. R. T Bmos tBgistos das tuas ,; r;;:,. ===========::::.':"l
chamadas, das cotululhul ; .. ~ ~ contta a nossa ~olítíca
Walfy, a Bfll~tB!la
gabB tudo !lobte ti
da fntetMt e de todos os ~ rnatat m: nossos funcionátio!!
teus e-msí/!1. T amos tarnbérn i B substituí-1m: ~ot irnitadotBS
o teu teste ds utina, as tuas ~ mal ~agos. Mas gostávamos
notas da escola, o tau salá- i quB soubessss quB \ tio, B os tsus contactos g isso é ~ossível ...
farniliate!l... I ..
LL~~~==~~~~~~-=-~----~~i~~~~~•
O espaço físico das organizações
A maioria das organizações modernas funciona em
espaços físicos especificamente concebidos para o
efeito. O edifício onde se aloja uma determinada
organização tem características próprias relevantes
para a sua actividade, mas partilha também carac-
terísticas arquitectónicas importantes com os edifí-
cios de outras organizações. A arquitectura de um
hospital, por exemplo, é em certos aspectos diferente
da arquitectura de uma empresa ou de uma escola.
No hospital existem enfermarias separadas, consul-
tórios, salas de espera e gabinetes que dão ao edifí-
cio um aspecto próprio, enquanto uma escola tem
salas de aula, laboratórios e recintos desporrivos.
Há, no entanto, uma semelhança genérica: ambos
terão provavelmente um grande número de corre-
dores com portas de acesso e uma decoração e um
-----------···------------·---·-··.
mobiliários estandardizados. Com excepção das
diferenças no vestuário das pessoas que se movimen-
tam pelos corredores, os edifícios onde as organiza-
ções modernas normalmente se instalam têm uma
certa semelhança entre si. E são geralmente muito
semelhantes quer do ponto de vista interior, quer do
ponto de vista exterior. Não é pouco habitual passar-
mos por um edifício e perguntarmo-nos: «aquilo é
uma escola?»; e receber como resposta: «não, é um
hospital».
As organizações e o controlo do tempo e do
espaço
Michel Foucault (1971, 1978) mostrou que a arqui-
tectura de uma organização está directamente impli-
cada na ordenação social e no sistema de autoridade.
O seu trabalho demonstrou que através do escudo
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(
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 897
.]
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A organização física deste espaço onde trabalhavam dactilógrafas nos anos 40 do século XX resulta na disposição destas trabalhado-
ras de molde a mantê-las sob uma vigilância apertada. Nas organizações modernas a vigilância assume novas formas.
das características físicas das organizações podemos
observar de outro ângulo os problemas analisados
por Weber. Os escritórios que Weber discutiu de
forma abstracta são também esoacos arauitectóni-• ' .
cos - divisões separadas por corredores. Por vezes,
os edifícios de grandes firmas estão estruturados
fisicamente de forma hierc'trquica, de modo a que
quanto mais elevada for a posição do indivíduo na
hierarquia da autoridade, mais próximo do topo
esteja o seu gabinete; a expressão «o último andar»
_______________________ ....... .
é por vezes usada para designar aqueles que detêm o
máximo poder na organização.
A geografia de uma organizé!Çáo afecta de diver-
sas formas g seu funcionamento, especialmente
quando assenta em gran~e medida cm relações
informais. A proximidade física facilita a formação
de grupos primários, ao passo que a distância física
pode incrementar a polarização dos grupos - uma
atitude de contraposição entre «nÓs» c «eles» no
relacionamento interdepartamental.
898 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS
A vigilância nas organizações
A disposição das salas, dos corredores e dos espaços
abertos dos edifícios de uma organização pode forne-
cer pistas básicas sobre o modo como o seu sistema
de autoridade funciona. Em algumas organizações,
há grupos de pessoas que trabalham colectivamente
em espaços abertos. Dada a natureza monótona e
repetitiva de determinados tipos de trabalho indus-
triais, como o das linhas de montagem, é necessária
uma supervisão regular para assegurar o ritmo de
trabalho. O mesmo se aplica ao trabalho de rotina
dos operadores de cal! centres, os quais, muitas vezes,
têm as suas chamadas e tarefas monitorizadas pelos
supervisores. Foucault enfatizou a forma como a
visibilidade, ou a sua ausência, nas estruturas arqui-
tectónicas modernas influenciae imprime padrões
de autoridade. O nível de visibilidade determina
a facilidade com que os subordinados podem ser
sujeitos àquilo a que Foucault chama vigilância, ou
supervisão das actividades no seio das organizações.
Nas organizações modernas, todos, mesmo aqueles
que estão em posições de autoridade relativamente
elevadas, estão sujeitos a vigilância; mas, quanto
mais baixo for o cargo de um indivíduo, mais o seu
trabalho tende a ser fiscalizado.
A vigilância assume várias formas. pma é a
supervisão directa do trabalho dos subordinados
por parte dos seus superiores. Tome-se o exemplo de
uma ·sala de aula. Os alunos sentam-se nas carteiras,
geralmente dispostas em filas, todos eles à vista do
professor. Supostamente, as crianças devem estar
atentas ou então concentradas nos seus deveres.
Naturalmente, se isto realmente acontece na prática
depende da capacidade do professor e da di$posi-
ção dos alunos para corresponderem ao que deles se
espera.
Um segundo tipo de vigilância é mais subtil, mas
igualmente importante. Consiste em manter arqui-
«Üs sensores indicam que o cubículo n.0 2 está ocupado
há mais de 18 minutos. Necessita de ajuda?»
vos, registos e o historial do indivíduo. Weber assina-
lou a importância dos registos escritos (hoje em diiJ.
predominantemente informatizados) para as organi-
zações modernas, embora não tenha explorado devi-
damente o modo como eles podem ser usados para
regular o comportamento. Os ficheiros dos funcio-
nários fornecem todo o seu historial, registam dados
pessoais e fazem muitas vezes juízos de carácter.
Estes registos são usados para fiscalizar o compor-
tamento dos funcionários e ponderar hipotéticas
promoções. Em muitas empresas, os indivíduos em
cada nível hierárquico apresentam relatórios anuais
acerca do desempenho daqueles que se encontram
no nível imediatamente inferior. As classificações
escolares e os diplomas constituem outros exemplos
de fomes usadas para avaliar o desempenho de cada
indivíduo à medida que ele avança na organização.
Isto aplica-se também ao corpo docente.
Por último, existe também a autovigilância.
Neste caso, o pressuposto de que alguém pode estar
a vigiar as nossas actividades poderá limitar e alte·
raro comportamento que se tem. Pense no exemplo
acima referido do operador de call centre. O opera-
''i
. '
'
..... _ .... -.:
. !
• !
.,
.!
~
dor não tem nenhuma forma de saber se as suas
chamadas estão a ser monitorizadas, ou a frequência
com que os supervisores ouvem as suas chamadas
telefónicas. Contudo, os operadores podem pressu-
por que estão sob vigilância e manter as suas chama-
das curtas, eficientes c formais, de acordo com as
directrizes da empresa.
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 899
Pensar de um modo crítico
Reflicta sobre a sua experiência na escola,
em locais de trabalho e noutros locais públi-
cos. De que modo estão estes locais a ser
sujeitos a formas de vigilância? ~e tipo de
vigilância esd a ser introduzida em cada um
destes locais? ~e razões levarão as pessoas a
acolher um aumento de vigilância? ~is os
aspectos positivos decorrentes da vigilância
crescente?
~~ Estudos clássicos 18.2
•
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900 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS
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ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 901
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902 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS
As organizações não conseguem operar eficien-
temente se o trabalho dos funcionários for deixado
ao acaso. Como salientou Weber, nas empresas
espera-se que as pessoas trabalhem um número regu-
lar de horas por dia. As suas actividades têm de ser
bem coordenadas no tempo e no espaço, algo que
só se consegue através tanto da disposição física das
organizações como da calendarização precisa forne-
cida por horários detalhados. Os horários laborais
regulam as actividades no tempo e no espaço - nas
palavras de Foucault, «distribuem eficientemente
os corpos» pela organização. Os horários são uma
condição da disciplina organizacional, pois articu-
lam as actividades de um grande número de indiví-
duos. Se uma universidade não tivesse um horário
rigoroso que gerisse as suas salas de aulas, por exem-
plo, rapidamente entraria em colapso e num caos
completo. Um horário torna possível o uso intensivo
do tempo e do espaço: cada horário pode ser preen-
chido por muitas pessoas e muitas actividades.
Organizações transnacionais
Pela primeira vez na história, as organizações
tornaram-se verdadeiramente globais na sua escala.
As tecnologias da informação e da comunicação
tornaram as fronteiras nacionais insignificantes,
uma vez que estas já não conseguem conter activi-
dades-chave no âmbito da economia, da cultura e
do ambiente. Como consequência, espera-se que
as organizações internacionais continuem a crescer
em número e imporÍ:ânci~, tÓrnan'do-se algo previ-
sível e estável num mundo em que os Estados-nação
deixaram de ser os actores poderosos que eram no
passado.
Assim sendo, os sociólogos estudam as organiza-
ções internacionais de modo a perceberem melhor
como é possível a criação de instituições que atraves-
sam as fronteiras nacionais, e quais serão os seus efei-
tos. Alguns sociólogps chegam mesmo a argumentar
que as organizações globais irão contribuir para que
os países se assemelhem uns aos outros (Thomas,
1987; Scott e Meyer, 1994; McNeely, 1995).
Porém, as organizações internacionais não são
novas. As organizações destinadas à regulação do
comércio entre diferentes países, por exemplo, exis-
tiram ao longo de séculos. Uma dessas organizações
foi a Liga Hanseática, uma aliança comercial alemã
entre mercadores e cidades que dominou o comér-
cio no mar do Norte e no mar Báltico desde meados
do século XIII até meados do século XVII. Mas só
após a criação da Sociedade das Nações, em 1919,
mau grado a sua curta duração, é que se formaram
organizações globais com elaboradas burocracias e
juntando como membros nações de todo o Mundo.
As Nações Unidas, organização criada em 1945, é
porventura o exemplo moderno mais significativo
de uma organização global.
Os sociólogos dividem as organizações interna-
cionais em dois tipos: as organizações governamen-
tais internacionais abrangem os governos nacio-
nais, enquanto as organizações internacionais não
governamentais abrangem as organizações privada,s,
Iremos abordar separadamente cada um destes tipos.
Organizações governamentais internacionais
O primeiro tipo de organização global é a organi-
zação intergovernamental internacional (OGI)S,
um tipo de organização internacional estabelecida
através de tratados entre governos com o intuito
de estabelecer relações regulares entre os países- ....
-membros. Estas organizaÇões emergiram p~;·~oti
vos de segurança nacional- tanto a Liga das Nações
como as Nações Unidas foram criadas depois de
guerras mundiais extremamente destrutivas -, com
o fito de regulamentar o comércio - por exemplo,
a Organização Mundial do Comércio -, por ""'v'"~----~·
de bem-estar social e direitos humanos, e, crescente-
mente, por razões de conservação ambiental.
5 No original: international governmental organization
(IGO).
----·-·-.. ----····----··-----·-· -----·----·--·--- ............ -· ... ""'"" """"" ................... .
Actualmente, algumas das organizações gover-
'--
namentais internacionais mais·poderosas foram cria-
das para unificar economias nacionais em blocos de
comércio poderosos e amplos. Uma das mais avança-
das é a União Europeia (UE), cujas regras têm gover-
nado, desde Maio de 2004, 25 Estados-membros
europeus. A União Europeia foi formada para criar
uma única economia europeia na qual os negócios
pudessem ser conduzidos livremente entre frontei-
ras, em busca de mercados, e para que o trabalho e
os trabalhadores se pudessem mover livremente em
busca de empregos. Os Estados-membros da União
Europeia possuem políticas económicas comuns e,
desde 2002, 12 deles partilham uma moeda única (o
euro). Contudo, nem todos os europeus vêem com
bons olhos este desenvolvimento, argumentando
que os países-membros irão eventualmente delegar a
maior parte das suas decisões em matéria de política
económica na União Europeia.
As organizações governamentais internacionais
podem possuir um poder militar considerável, se os
seus Estados-membros assim o quiserem. Por exem-
plo, a Organização do Tratado do Atlântico Norte
(OTAN) e as Nações Unidas usaram o poderio mili-
tar dos seus membros contra o Iraque na primeira
Guerra do Golfo em 1991, e no Kosovo, integrado
na antiga Jugoslávia, em 1999. Contudo, uma vez
que cabe às nações, em última instância, controlar o
uso da sua força militar, existem limites à autoridade
das organizaç?~~ __ governamentais internacionais
militares mais poderosas, cuja força deriva da parti-
cipação voluntária dos Estados-membros. ~ndo
confrontados com violentos conflitos civis como,
por exemplo, na Bósnia e em países africanos como
a Somália, o Ruand·a e a região do Darfur, no Sudão,
os esforços das forças de paz das Nações Unidas
revelaram-se amplamente ineficientes.
Na maioria dos casos, as organizações governa-
mentais internacionais tendem a reflectir frequen-
temente as desigualdades de poder no seio dos
-
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 903
seus países-membros. Por e-9Cemplo, o Conselho de
Segurança das Nações Unidas é responsável por
manter a segurança e a paz internacionais; como
tal, é a organização mais poderosa no interior das
Nações Unidas. Os seus cinco membros permanen-
tes incluem a Grã-Bretanha, os Estados Unidos da
América, a China, a França e a Rússia, o que concede
a estes países um controlo significativo sobre as
acções levadas a cabo pelo Conselho de Segurança.
Os restantes dez países são eleitos pela Assembleia
Geral das Nações Unidas para mandatos de dois
anos, o que faz com que tenham menos poder contí-
nuo do que os membros permanentes.
No início do século XX existiam no mundo
apenas cerca de 36 organizações governamen-
tais internacionais, muito embora a informação
disponível à época não seja inteiramente fiáveL
Em 1981, quando foram adoptados critérios de
recolha de informação consistentes, existiam 1039
organizações governamentais internacionais e, em
2006, existiam cerca de 7350, algumas das quais já
não estão em actividade (Union of Inrernational
Organizations, 2007).
Organizações não-governamentais
internacionais
O segundo tipo de organização global é a organiza-
ção não-governamental int&-nacional (ONG). As
organizações não-governamentais internacionais são
estabelecidas através de acordos entre os indivíduos
e as organizações privadas que compõem o conjunto
dos seus membros. Alguns exemplo~ incluem a
Associação Internacional de Sociologia, o Conselho
Internacional das Mulheres e o grupo ambientalista
Greenpeace. Tal como sucedeu com as organizações
governamentais internacionais, o número de organi-
zações internacionais não-governamentais cresceu
exponencialmente nos últimos anos - passaram de
pouco mais de 200, no começo do século XX, para
·_, 904 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS
cerca de 15 000 nos anos 90 do século XX (Union of
International Associations, 1996-1997). Em 2006
existiam cerca de 51 509 organizações internacio-
nais não-governamentais, muito embora cerca de
um terço se encontrassem aparentemente inactivas
(Union ofinternational Organizations, 2006).
De um modo geral, as organizações internacio-
nais não-governamentais estão interessadas prima-
riamente em promover os interesses globais dos
seus membros, seja através de influências junto das
Nações Unidas ou através de outras organizações
internacionais não-governamentais e de governos
nacionais. As organizações internacionais não-
-governamentais também promovem a investigação,
a educação e a difusão de informação por meio de
conferências internacionais, encontros e jornais
especializados. As organizações internacionais não-
-governamentais têm tido sucesso em influenciar as
políticas de nações poderosas.
Uma das mais proeminentes (e bem sucedidas)
organizações internacionais não-governamentais
é a Campanha Internacional para a Eliminação de
Minas. A campanha, juntamente com a sua funda-
dora, Jody Williams, receberam o Prémio Nobel da
Paz em 1997 pelo seu sucesso em convencer a maio-
ria dos países do Mundo a assinar um tratado desti-
nado a banir o uso devastador de minas anti~pessoal.
O comité do Prémio Nobel elogiou a campanha por
ter conseguido transformar «Uma ideia numa reali~
dade exequível», e acrescentou que «este trabalho
transformou~se num exemplo convincente de uma
política efectiva para a paz que pode ser absolu~
tamente decisiva no esforço internacional para o
desarmamento» (ICBL, 2011).
A Campanha Internacional para a Eliminação
de Minas reúne mais de 1000 outras organizações
internacionais não~governamentais sediadas em
60 países. Em conjunto, têm despertado a opinião
pública para os perigos que representam para os
civis os mais de 100 milhões de minas anti-pessoal
- herança mortal de guerras anteriores travadas na
Europa, na Ásia e em África. Estas minas não são
como outras armas, pois podem permanecer activas
durante muitas décadas depois das guerras, aterro-
rizando e encurralando populações inteiras. Por
exemplo, no Camboja, as terras férteis foram mina-
das, ameaçando de fome os agricultores, os quais não
estão dispostos a levar a cabo acções que os possam
d I I ' \ f: '[' \ con enar a e es propnos e as suas amt tas a morte.
Os esforços da Campanha Internacional para a
Eliminação de Minas conduziram à assinatura de
um tratado que baniu o uso, a produção, o arma-
zenamento e a manipulação de minas anti~pessoal.
O tratado foi assinado por 1 50 países e tornou-se lei
internacional em Março de 1999.
Muito embora sejam muito mais numerosas do
que as organizações governamentais internacio-
nais, e tenham obtido algum sucesso, as organiza-
ções não-governamentais internacionais têm muito
menos influência, pois o poder legal (incluindo a
acção executiva) está, em última instância, nas mãos
dos governos. Por exemplo, no âmbito das acções
empreendidas para banir o uso de minas anti~pessoal,
e pese embora o facto de quase todas as grandes
potências do Mundo terem assinado o tratado, os
EUA recusaram-se a fazê-lo, invocando preocupa-
ções de segurança na Coreia, assim como a Rússia.
Contudo, algumas organizações internacionais não
governamentais, como a Amnistia Internacional e o
movimento Greenpeace, conseguiram alcançar uma
influência considerável.
Organizações económicas
As sociedades modernas são, na definição de Marx,
capitalistas. O capitalismo é uma forma de orga-
nização da vida económica que se distingue por
possuir as características seguintes: posse.Rçivada
dos meios de produÇâo; lucro como motoreé:onó-
mico; liberalização da concorrência e dos mercados
na compra e venda de mercadorias, na aquisição de
matérias-primas baratas e na utilização de trabalho
mal remunerado; e uma expansão e um investimento
incansáveis na acumulação de capital. O capitalismo,
_______ ..., _______ ,.,. ____ 000---n-----··-····-········~··-· .. ·-·--·--·······-······~··-- 0000 M 00
que começou a expandir-se no começo do século
XIX com o crescimento da Revolução Industrial,
é um sistema económico muito mais dinâmico do
que qualquer outro que o tenha precedido histori-
camente. Muito embora o sistema capitalista tenha
tido muitos críticos, como Marx, é actualmente a
forma de organização económica mais difundida em
todo o Mundo.
Ao longo deste capítulo, olhámos para o trabalho
do ponto de vista das ocupações e dos empregados.
Estudámos os padrões de trabalho e os factores que
influenciam o desenvolvimento de sindicatos. Agora
iremos tratar de analisar a natureza das firmas onde
a mão-de-obra se encontra empregada. (Contudo,
deve reconhecer-se que muitas pessoas estão actu-
almente empregadas em organizações governamen-
tais, embora não as contemplemos neste capítulo.)
O que está a acontecer actualmente nas empresas?
E como é que elas são geridas?
Empresas e poder empresarial
Desde a viragem do século XX, as economias capita-
listas modernas têm sido crescentemente influencia-
das pelo advento de grandes empresas. Um inqué-
rito recente, levando a cabo junto das 200 maiores
empresas do ranking mundial, mostrou que as
vendas combinadas dessas empresas cresceram, entre
1983 e 1999, do equivalente a 25 para 27,5% do PIB
mundial. Durante o mesmo período, os lucros destas
empresas cresceram 362,4%, enquanto o número de
pessoas .que .trabalhavam nelas aumentou somente
14,4% (Anderson e Cavanagh, 2000).
É verdade que ainda existem na economia britâ-
nica centenas de pequenas e médias empresas. Nessas
empresas, a imagem do empresário- o chefe que é o
proprietário e o gerente da empresa -Í'Íão é de todo
obsoleta. As grandes empresas são algo diferente.
A ideia de que a maioria das grandes empresas não
é gerida pelos seus proprietários é aceite desde que
AdolfBerle e Gardiner Means publicaram, nos anos
30 do século XX, o seu estudo muito celebrado
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 905
The 1\tfodern Corporation anel Private Property
(Berle e Means, 1997 [1932]). Em teoria, as gran-
des empresas são propriedade dos seus accionistas,
os quais têm o direito He tomar as decisões mais
importantes. Porém, Bcrle e Means defenderam
que, em virtude de a propriedade das acções ser tão
dispersa, o controlo real passou para as mãos dos
executivos que gerem as empresas no dia-a-dia. A
propriedade das empresas está, portanto, separada
do seu controlo.
O poder das grandes empresas é imenso, sejam
elas geridas pelos proprietários ou pelos adminis-
tradores executivos. ~ando uma empresa ou um
conjunto de empresas dominam uma determinada
indústria, geralmente cooperam na fixação de preços,
ao invés de competirem livremente umas com as
outras. Deste modo, as empresas gigantes de petróleo
seguem normalmente o preço da gasolina cobrado
pelas suas concorrentes. ~ando uma determinada
empresa ocupa uma posição dominante numa dada
indústria, diz-se que tem uma posição de monopó-
lio. A situação de oligopólio, em que há o predo-
mínio por parte de um pequeno grupo de empresas
gigantes, é mais comum. Em situações de oligopólio,
as empresas conseguem determinar mais ou menos
os termos de aquisição das mercadorias e serviços às
pequenas empresas que são os seus fornecedores.
Tipos de capitalismo empresarial
Existiram três estádios gerais no desenvolvimento
das grandes empresas, muito embora estes estádios
se tenham sobreposto uns aos outros e todos conti-
nuem a coexistir actualmente. O primeiro estádio,
característico do século XIX e do princípio do
século XX, foi designado por capitalismo familiar.
· As grandes empresas eram geridas por empresários
ou por membros da ·mesma família, sendo a sua
propriedade transmitida posteriormente aos seus
descendentes. Famosas dinastias empresariais como
os Sainsbury no Reino Unido e os Rockefeller no
EUA pertencem a esta categoria. Estes indivíduos
' 906 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS
e famílias não são apenas detentores de grandes
empresas, possuindo também interesses económicos
muito diversos e situando-se no «cume» de impé-
rios económicos.
A grande maioria das grandes empresas forma-
das por famílias empreendedoras tornou-se entre-
tanto constituída por empresas cujo capital foi
aberto ao público- isto é, as acções destas empresas
são comercializadas no mercado livre - e passaram
a ser controladas administrativamente. Mas existem
aspectos importantes do capitalismo familiar que
ainda permanecem, mesmo nas maiores empresas
do Mundo. Tal é o caso da empresa automobilística
Ford, cujo chefe executivo é William Claig Ford
Jr., bisneto de Henry Ford, o fundador original da
empresa6• O capitalismo familiar continua a ser
predominante entre as pequenas empresas, como
as lojas locais geridas pelos seus proprietários ou
os pequenos negócios de canalização e pinturas.
Algumas destas empresas cujas lojas permanecem
nas mãos da mesma família por duas ou três gera-
ções também são dinastias, mas a uma escala menor.
Contudo, o sector das pequenas empresas é muito
instável e o falhanço económico é bastante comum
-a percentagem de empresas detidas por membros
da mesma família durante longos períodos de tempo
é residual.
No sector das grandes empresas o capitalismo
familiar foi sendo substituído pelo capitalismo de
gestão. Com o crescimento das grandes empresas,
os empresários passaram a ter uma influência cada
vez maior, substituindo assim as grandés famílias
empresariais. Este resultado tem sido descrito como
a substituição da família na empresa pela própria
empresa. A empresa emerge assim como uma acti-
vidade económica mais definida. Num estudo sobre
as 200 maiores companhias industriais dos EUA,
Michael Allen (1981) descobriu que, nos casos em
6 Exewtiue chaimzan. Na Ford, os cargos de presidente c
CEO (director executivo), exercidos por Ford até 2006, são
detidos actualmente por um quadro sem relações com a família
fundadora e accionista.
que se registava uma diminuição do lucro, as empre-
sas controladas por famílias eram incapazes de proce-
der à substituição do director executivo, ao contrário
das empresas controladas por um director-geral.
Não existe nenhuma dúvida em relação à marca
deixada pelo capitalismo de gestão na sociedade
moderna. Na sociedade contemporânea, a grande
empresa influencia tanto os padrões de consumo
como a experiência de trabalho - é muito difícil
imaginar quão diferente seria a vida de trabalho
das pessoas nas sociedades desenvolvidas na ausên-
cia de grandes fábricas e burocracias empresariais.
Os sociólogos identificaram outra área na qual a
grande empresa deixou a sua marca nas instituições
modernas. Por capitalismo do bem-estar entende-
-se a uma prática encetada no final do século XIX
e que procurou orientar as grandes empresas - ao
invés do Estado e dos sindicatos - _para a protec-
ção primária contra as incertezas do mercado no
contexto da vida moderna industrial. As grandes
empresas começaram então a providenciar alguns
serviços para os seus empregados, como apoios
sociais às crianças, inka.-estruturas de lazer, planos
de partilha dos lucros, férias pagas e seguros de vida
e de desemprego. Estes programas tinham frequen-
temente um tom paternalista, como sucedia quando
as grandes empresas promoviam «visitas às casas»
dos trabalhadores para a sua «educação moral».
De um ponto de vista menos benevolente, um dos
grandes objectivos do capitalismo de bem-estar foi
a coerção, pois os empregadores usavam todo o tipo
de táctiCas - incluindo a violência :.... para ·impedir a
sindicalização dos trabalhadores.
No seu estudo sobre o movimento sindical nos
EUA, Sanford Jacoby ( 1997) d~fende que a histó-
ria convencional indica, de um modo geral, que o
capitalismo do bem-estar teve o seu ocaso dürante
os anos da Grande Depressão nos anos 30 do sééúló
XX, quando os sindicatos atingiram níveis de influ-
ência sem precedentese a administração de Franklin
Roosevelt, com o seu programa «New Deal»,
começou a garantir aos trabalhadores muitos dos
benefícios dados pelas empresas. Contrariamente a
esta interpretação corrente, Jacoby argumenta que
o capitalismo do bcm-estar não desapareceu, mas
adoptou uma posição clandestina durante o apogeu
do movimento sindical. Nas grandes empresas que
evitavam a sindicalização, durante os anos 30 e 60
do século XX - como as companhias americanas
Kodak, Sears e Thompson -, o capitalismo do bem-
-estar foi modernizado, ocultando os seus aspectos
mais paternalistas enquanto tornava rotineiros os
programas de benefícios aos trabalhadores. ~ando
o movimento sindical começou a perder a sua força,
ao longo dos anos 1970, estas empresas tornaram-se
um modelo para as suas congéneres, pois eram capa-
zes agora de se afirmar perante sindicatos enfraque-
cidos, reafirmando desta forma o papel da empresa
enquanto «domínio industrial»7•
Apesar da influência esmagadora do capitalismo
gestionário sobre a economia moderna, para muitos
estudiosos estão agora a emergir os contornos de
uma terceira fase na evolução das grandes empre-
sas. Esses estudiosos argumentam que o capitalismo
de gestão monopolista está actualmente a dar lugar
ao capitalismo institucional. Entende-se por esta
designação a emergência de uma rede consolidada
de lideranças empresariais que se ocupa não apenas
da tomada de decisões numa ·única empresa, mas
também do desenvolvimento do poder empresarial
para além dos seus limites habituais. O capitalismo
institucional assenta na partilha de acções entre
várias empresas. Em virtude disto, agregados arti-
culados de-ex~eut:i-v:os--exercem um controlo muito
para além da paisagem empres~rial. Isto faz com que
o processo de controlo crescente de cada empresa
pelos seus gestores seja revertido, pois o peso do
seu portefólio de acções é anulado pelo dos grandes
blocos de acções detidos por outras empresas. Uma
•
7 Nota do revisor cientifico: no original, ind11strial manor.
E uma referência ao sistema dominial (agrícola) próprio de
grande parte da Europa medieval e de Antigo Regime, que
implicava um enorme controlo do senhor sobre o trabalho, o
rendimento e os produtores agrícolas.
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 907
das principais razões para a expansão do capitalismo
institucional reside na mudança dos padrões de
investimento ocorrida nos últimos 30 anos. Em vez
de investirem directamente num dado negócio atra-
vés da compra de acções, actualmente os indivíduos
investe~ no mercado monetário, em organizações
de gestão de bens ou propriedades ou em fundos de
pensões e seguros controlados por grandes organiza-
ções financeiras, as quais, por sua vez, investem estes
valores agrupados em grandes empresas.
As empresas transnacionais
Com a intensificação da globalização, a maior
parte das grandes empresas opera actualmente no
contexto económico internacional. ~ando as
grandes empresas estabelecem filiais em dois ou
mais países, são designadas como multinacionais ou
empresas transnacionais. A designação «transna-
cional » é geralmente preferida de modo a indicar
que estas empresas operam independentemente das
fronteiras nacionais.
As maiores empresas transnacionais são gigan-
tescas; a sua riqueza supera em muito a de vários
países. Metade das 100 maiores unidades económi-
cas do Mundo são Estados-nação; a outra metade é
composta por empresas transnacionais. O alcance
das operações destas empresas é desconcertante.
As 600 maiores empresas transnacionais acumulam
mais de um quinto do total da produção industrial e
agrícola na economia global; cerca de 70 são respon-
sáveis por metade do total global de vendas (Dicken,
1992). Os lucros das 200 maiores empresas trans-
nacionais subiu dez vezes entre meados dos ano~
70 e 90 do século XX, tendo atingindo 9,5 biliões
de dólares em 2001. Em 2003, estimava-se que o
conjunto das dez maiores companhias farmacêuti-
cas do Mundo controlava cerca de 53% da quota do
mercado global. Ao longo dos últimos 20 anos, as
actividades das empresas transnacionais tornaram-
-se cada vez mais globais: nos anos 50 do século XX
apenas três das maiores empresas do Mundo tinham
908 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS
subsidiárias industriais em mais de 20 países; cerca
de 50 possuem-nas actualmente. Ainda constituem
uma pequena minoria; a grande maioria das empre-
sas transnacionais tem subsidiárias cm dois ou cinco
países.
Em 2000, as empresas norte-americanas domi-
navam a lista das 200 maiores empresas do ~fundo,
ocupando 82 posições ( 41% do total); as empresas
japonesas vinham cm segundo lugar com 41 posi-
ções (Andersen c Cavanagh, 2000). Contudo, a
percentagem de grandes empresas norte-americanas
na lista das 200 maiores empresas do Mundo dimi-
nuiu significativamente desde os anos 60 do século
XX- época em que somente cinco empresas japone-
sas ocupavam um lugar nessa lista. Contrariamente
ao que pensa o senso comum, cerca de três quartos de
todo o investimento directo estrangeiro é feito entre
países industrializados. Contudo, o envolvimento
de empresas transnacionais nos países em desen-
volvimento é expressivo, com o Brasil, o México e
a Índia a apresentarem os níveis de investimento
estrangeiro mais elevados. A taxa de crescimento de
investimento empresarial mais dinâmica tem sido,
sem dúvida, a registada nos países recentemente
industrializados da Ásia- como Singapura, Taiwan,
Hong Kong, Coreia do Sul e Malásia.
A amplitude que as empresas transnacionais
alcançaram nas últimas décadas não teria sido possí-
vel sem os avanços registados nos transportes e nas
comunicações. Actualmente, o transporte aéreo
permite o movimento de pessoas pelo Mundo a u1:11a
velocidade que. teria sido inconcebívei há 60 anos.
O desenvolvimento de grandes embarcações maríti-
mas (navios cargueiros), juntamente com contento-
res que podem ser mudados de uma transportadora
para outra, tornou possível o transporte sem dificul-
dades de mercadorias volumosas.
As tecnologias das telecomunicações permitem
hoje uma comunicação mais ou menos instantânea
de uma parte do Mundo para outra. Os satélites
têm sido utilizados nas telecomunicações comer-
ciais desde 1965. Nessa época, o primeiro saté-
lite a ser utilizado conseguia operar 240 conversas
telefónicas simultaneamente. Os satélites actuais
permitem realizar ao mesmo tempo, no mínimo,
12 000 conversas telefónicas. Hoje cm dia as maio-
res empresas transnacionais possuem o seu próprio
sistema de comunicações baseado no uso de satéli-
tes. A empresa Mitsubishi, por exemplo, possui uma
rede extensa ao longo da qual são transmitidas c
recebidas diariamente cinco milhões de palavras na
sua sede em Tóquio.
Tipos de empresas transnacionais
As empresas transnacionais têm vindo a adquirir
uma importância crescente na economia mundial
ao longo do século XX. São empresas que possuem
uma importância fundamental na divisão inter-
nacional do trabalho - a especializáção na produ-
ção de mercadorias para o mercado mundial, a
qual divide várias regiões em zonas de produção
industrial ou agrícola, por um lado, ou, por outro,
em zonas de mão-de-obra muito especializada ou
pouco especializada (McMichael, 1996). Tal como
as economias nacionais são cada vez mais concen-
tradas - e dominadas por um· número limitado de
grandes empresas -, o mesmo sucede com a econo-
mia mundial. No caso do Reino Unido, e de outros
países que lideram o processo de industrialização,
as grandes empresas não só dominam o panorama
nacional como possuem uma presença internacional
muito significativa. Muitos. secÇQre,c; d;J, .. prPP!.tǪ-º····-·
mundial (como a agro-indústria) são oligopólios-
a produção é controlada por três ou quatro grandes
empresas que dominam o mercado. Ao longo das
últimas duas ou três décadas, os oligopólios interna-
cionais têm-se desenvolvido nas indústrias automo-
bilísticas,electrónica e de microprocessadores, e na ··
produção de outras mercadorias comercializadas em
todo o Mundo.
H. V. Pcrlmutter (1972) dividiu as empresas
transnacionais em três tipos. O primeiro consiste
na empresa transnacional etnocêntrica; neste tipo
---------••oooooo-oo••-•••ooooooo ••• o ..• ., •• ••·••oo•o""'"""'-"" """""" """"""""" ••·• ••••••••""""'" •••- --·----·---
a política da empresa é delineada c posta em prática
a partir de uma sede principal no país de origem.
As empresas e as f.1.bricas que este tipo de empresa
possui pelo Mundo são, por assim dizer, «exten-
sões culturais» da empresa de origem - as suas
pdricas estão estandardizadas em todo o mundo.
Uma segunda categoria é a empresa transnacional
policêntrica. Neste caso, as empresas subsidiárias
são geridas pelas empresas locais do respectivo país.
A sede principal, situada no país ou países de origem,
estabelece as directrizes gerais segundo as quais as
empresas locais gerem os seus próprios assuntos.
Finalmente, existem ainda as empresas tmnsnacio-
nais geocêntricas, que são inteiramente internacio-
nais na sua estrutura de gestão. Os seus sistemas de
gestão estão integrados numa escala global e os seus
directores-gerais têm bastante mobilidade, deslo-
cando-se de um país para outro conforme as neces-
sidades. ·
As empresa~ japonesas tendem a ser as mais emo-
cêntricas no conjunto de todas as empresas transna-
cionais, de acordo com a tipologia de Perlmutter. As
suas operações mundiais são, no geral, estreitamente
controladas pela empresa-mãe e, em alguns casos,
envolvem o próprio governo japonês. O Ministério
de Comércio e Indústria japonês desempenha um
papel muito mais directo na supervisão da expansão
estrangeira das empresas baseadas no Japão do que
os governos do Ocidente em relação às suas. Nas
últimas duas décadas, o Ministério de Comércio c
Indústria japonês-elaborou um conjunto de planos
de desenvolvimento que coordenam a expansão
de empresas japonesas no estrangeiro. As empre-
sas comerciais gigantes, designadas por sogo shosha,
constituem um tipo de empresa transnacional espe-
cificamente japonês. Estas empresas são conglome-
rados colossais cuja principal preocupação reside no
financiamento e no apoio ao comércio, fornecendo
serviços de informação, de finanças e de organização
a outras empresas. Cerca de metade das importações
e exportações japonesas são encaminhadas através
das dez maiores sogo shosha. Algumas delas, como
--------------------··--····-.
--------···--···--·----····-············ .. -
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 909
a Mitsubishi, também possuem grandes interesses
próprios na indústria.
O planeamento à escala global
A\s grandes empresas tornaram-se as primeiras orga-
nizações com capacidade para efectuar um plane-
amento à escala global. Os anúncios publicitários
da Pepsi c da Coca-Cola, por exemplo, conseguem
chegar a milhares de milhõe~ de pessoas em todo
o Mundo. Um petlueno conjunto de empresas,
com uma rede global bem consolidada, consegue
influenciar as actividades comerciais de diversas
nações. Richard Barnet c John Cavanagh ( 1994)
defendem que existem na nova economia mundial
quatro redes de actividade comercial interligada:
o bazar cultural global, o centro comer'Cial global,
o local de trabalho global e a rede financeira global.
O bazar cultural global é o mais recente de todos, mas
já possui uma escala superior aos restantes. Imagens
e sonhos são difundidos globalmente sob a forma de
filmes, programas de televisão, música, vídeos, jogos,
brinquedos e t-shirts. Por todo o mundo, mesmo nos
países em desenvolvimento mais pobres, as pessoas
usam os mesmos aparelhos electrónicos para ver os
mesmos espectáculos ou ouvir as mesmas músicas.
O centro comercial global é um «supermercado
planetário de coisas para comer, beber, vestir e
desfrutar com um grau de disseminação espantoso».
É mais exclusivo do que o bazar cultural global
porque os pobres não têm os recursos necessários
para poderem participar nele - os pobres apenas
têm o estatmo de «consumidores de montr:ts» 8•
Do conjunto dos 5500 milhões de pessoas que
perfazem a população mundial, 3500 milhões não
têm dinheiro suficiente, ou crédito, para comprar
quaisquer bens de consumo.
A terceira rede global, o local de trabalho global,
consiste na divisão do trabalho global crescente e
complexa que nos afecta a todos. Nela se incluem
s No original: windotv shoppers.
·-·---·----·-------------
-··s
91 O ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS
Anúncios publicitários da Pepsi e da Coca-Cola em Tripoli, no Líbano.
uma enorme variedade de escritórios, fábricas, congéneres dos meados do mesmo século. Muitos
restaurantes e milhares de outros locais, onde os nomes não mudaram - General Motors, Ford ou
produtos são produzidos e consumidos, ou onde a IBM, por exemplo -, mas juntaram-se-lhes os de
informação é trocada. Esta rede está estreitamente outras empresas gigantescas, na sua maioria desco-
relacionada com a rede financeira global, a qual é nhecidas nos anos 50 - como é o caso da Microsoft
sua fornecedora e financiadora. A rede financeira e da Intel. Todas estas firmas detêm bastante poder e
global consiste em biliões ~=---~~t:. ~~--i~~~-r~~~~~ .. os-seus executivos de topo co.ntiriü"iim.ãatteeir~g~~oliiecês···---.-·-:;
armazenados -·em:···comJfüfael.ores e exibidos nos nos edifícios portentosos que dominam os centros
monitores dos mesmos. Esta rede implica operações d . 'd d N t b ênc
1
·as da e mmtas c1 a es. o entan o, so as apar
intermináveis de câmbio, transacções de cartões de lh , c,í • c .:es
seme ança a superr1 c1e, ocorreram transrormaço
crédito, planos de seguros, além da compra e venda fi d A . d c - 'd
d
_ fi . pro un as. ongem . estas transrormaçoes res1 e
e acçoes nance1ras. d 1
num processo que temos reencontra o ao ongo
A transformação das grandes empresas?
Existem diferenças significativas entre as grandes
empresas da primeira década do século XX e as suas
d~s~e livro: a globalização. Durante este período,
as grandes empresas foram-se envolvendo, cada vez
mais, numa competição cuja escala também ia cres-
cendo - daí resultot.t a transformação da sua esrru-
tum e da sua própria índole. Um antigo secretário de
Estado do Trabalho norte-americano, Robert Reich,
escreveu a este propósito (1991):
Em última análise, tudo está em transforma-
ção. As empresas-mãe norte-americanas já não
planeiam nem implementam a produção de um
grande volume de mercadorias e de serviços; já
não investem num conjunto de fábricas, labora-
tórios, máquinas, matérias-primas e em quaisquer
outros bens tangíveis; já não empregam exércitos
de operários e de encarregados ... Na verdade, a
empresa-mãe já nem sequer é norte-americana.
Trata-se, cada vez mais, de uma fachada, atrás da
qual se agrupa um conjunto de grupos e subgru-
pos descentralizados que contratam, de modo
contínuo, em rodo o Mundo, outros grupos igual-
mente difusos.
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 911
cações e aos computadores. Os Estados-nação conti-
nuam a tentar influenciar o fluxo de informação, de
recursos e de dinheiro que transpõem as suas fron-
teiras. No entanto, as tecnologias de comunicação
actuais tornam cada vez mais difícil, se não impos-
sível,- tal influência e ou controlo. O conhecimento
e as finanças podem ser transferidos para qualquer
ponto do globo, à velocidade da luz e sob a forma de
sinais sonoros luminosos e electrónicos.
De igual modo, os produtos das empresas trans-
nadonais têm um cariz internacional. De que modo
nos podemos certificar de que algo foi «fabricado
em Portugal» ou não? Já não existem respostas
inequívocas. No Capítulo 4, «História da huma-
nidade e globalização», demos como exemplo a
Barbie, a boneca « 100% norte-americana», em cuja
embalagem se lê «fabricado na China». Tivemos
então a oportunidade de verificar que a origem do
seu corpoe do seu guarda-roupa percorria o globo,
do Médio Oriente à Ásia, antes de ela ser eventu-
almente adquirida nos EUA, ou, uma vez mais, ser
embalada e enviada para venda noutro lugar.
A empresa de grandes dimensões é cada vez
menos uma «grande empresa» e cada vez mais uma
«empresa em rede» - uma organização central
que entretece firmas mais pequenas. A IBM, por
exemplo, que costuma ser uma das empresas norte-
-americanas mais orgulhosamente auto-suficiente,
juntou-se, entre os anos 80 e o início dos anos 90, a
As mulheres e as empresas
dezenas de empresas sediadas nos EUA e a mais de
80 empresas sediadas noutros países;·-a -fim-de parti- Até há cerca de três décadas, os estudos organizacio-
lharem o seu planeamento estratégico e a resolução nais não devotavam grande importância à questão do
de problemas de produção. género. A teoria burocrática de Weber e muitas das
Algumas destas empresas continuam a ser respostas a este autor que surgiram nos anos subse-
extremamente burocráticas e estão centradas, com quentes e que exerceram alguma influência foram
_, _____ .Jr:~-q.~tênda,.no-país.-Qnde for~m fundadas. Todavia, escritas por homens e pressupunham um modelo je
a maior parte destas empresas não está sediada clara- organização que colocava os homens numa posição
mente em nenhum lugar. As antigas transnacionais central. Contudo, o desenvolvimento dos estudos
costumavam operar sobretudo a partir das suas sedes feministas nos anos 70 conduziu a análises das rela-
nacionais, dirigindo daí as suas filiais e a produção . .,._. ções de género em todas as institufções principais-da
das suas fábricas localizadas no estrangeiro. Hoje sociedade, incluindo as organizações e as burocra-
erh dia, com a transformação do espaço e do tempo das. As sociólogas feministas não só sublinharam a
-discutida no Capítulo 7, «Relações sociais e vida desigualdade entre os papéis de género no contexto
quotidiana» -, os grupos baseados em diferen- das organizações, como exploraram as formas como
tes partes do Mundo são capazes de trabalhar com as próprias organizações modernas se desenvolve-
outros grupos distantes, recorrendo às telecomuni- ram de um modo específico moldado pelo género.
912 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS
As feministas defendem que o surgimento da
organização moderna e da carreira burocrática se
articula com uma determinada configuração de
género. E identificam duas formas principais de
integração do género na própria estrutura das orga-
nizações modernas. Primeira: as burocracias carac-
terizam-se por urna segregação das ocupações entre
os géneros. À medida que as mulheres começaram a
entrar no mercado de trabalho em maior número,
tenderam a ser segregadas para categorias ocupacio-
nais que eram mal remuneradas e envolviam tarefas
rotineiras. Estas posições estavam subordinadas às
ocupações desempenhadas por homens e não forne-
ciam oportunidades de promoção. Ao contrário dos
homens, as mulheres, usadas corno urna fonte de
trabalho fiável e barata, não usufruíam das mesmas
oportunidades de construção de carreira.
Segunda: a: ideia de urna carreira burocrática era
concebida, de facto, como urna carreira masculina
em que as mulheres desempenhavam um papel de
apoio crucial. As mulheres desempenhavam tarefas
rotineiras no local de trabalho - como escriturárias,
secretárias e responsáveis por escritórios - o que
permitia aos homens avançarem nas suas carreiras.
Os homens podiam concentrar-se na obtenção de
promoções ou em gerir boas carteiras de clientes,
porque o pessoal feminino de apoio tratava de muito
do trabalho a fazer. Na esfera doméstica, as mulhe-
res também apoiavam a carreira burocrática dos
homens cuidando da casa, dos filhos e do bem-estar
quotidiano dos mesmos. A mulher «provia» às
necessidàdes ·do homem-burocrata; permitindo ·que
este trabalhasse longas horas, viajasse e se centrasse
unicamente no seu trabalho, sem se preocupar com
questões domésticas ou pessoais.
No entender das primeiras escritoras feministas,
em virtude destas duas tendências, as organizações
modernas tinham~se -desenvólvido como coúi:ádas
dominadas pelos homens nas quais as mulheres eram
excluídas do poder, viam serem-lhes negadas opor-
tunidades de progressão nas suas carreiras e eram
vítimas de assédio sexual e de discriminação devido
«Ü seu relatório é muito bom, Bárbara. Mas, como os
sexos falam línguas diferentes, eu provavelmente não
entendi uma só palavra do que li.»
ao seu género. Embora a maioria das primeiras análi-
ses feministas focasse um conjunto de preocupações
comuns - pagamento desigual, descriminação e
manutenção do poder por parte dos homens - não
foi encontrado um consenso em relação à melhor ..
abordagem a seguir na luta pela igualdade entre os
géneros. Dois dos principais. trabalhos feministas
sobre as mulheres e as organizações exemplificam a
divisão entre as perspectivas radical e liberal.
A obra de Rosabeth Moss Kanter Men and
rVomen ofthe Corporation (1977) constitui uma das
primeiras e mais importantes análises liberais dos
contextos burocráticos. Kanter investigou a posição
das mulheres nas organizações e{) modo.como-v-L·•Uu---~
excluídas do acesso ao poder. Esta aurora deu parti- ·· ·
cular atenção à «homossociabilidade masculina»
- o modo bem sucedido como os homens mantêm
o poder no interior de um círculo fechado e permi-
tem o acesso apenas àqueles que fazem parte do
mesmo endogrupo. As mulheres e aos membros de··-
minorias étnicas eram efectivamente negadas opor-
tunidades de avanço na carreira, sendo ainda, umas
e outros, afastados das redes sociais e das relações
interpessoais cruciais em matéria de promoções.
Embora Kanter criticasse estas desigualdades entre
os géneros nas organizações modernas, não era total-
mente pessimista acerca do futuro. Na sua perspec-
tiva, o problema residia no poder e não no género.
As mulheres estavam numa situação desprivilegiada
não por serem mulheres, mas porque não possuíam
poder suficiente nas organizações. De acordo com
esta investigadora, quando um maior número de
mulheres assumisse papéis de poder, as desigualda-
des seriam eliminadas.
A abordagem feminista radical apresentada
por Kathy Ferguson na sua obra The Feminist Case
Against Bureaucracy (1984) constitui uma alter-
nativa à proposta de R. M. Kanter. Ferguson não
considerava a desigualdade entre os géneros nas
organizações algo que pudesse ser resolvido apenas
com o acesso às posições de poder por parte de
mais mulheres. Na sua perspectiva, as organizações
modernas estavam fundamentalmente contamina-
das por valores e padrões de dominação masculinos.
Argumentava ainda que no seio de tais estruturas as
mulheres seriam sempre relegadas para papéis subor-
dinados. A única solução verdadeira era as mulhe-
res construírem as suas próprias organizações com
base em princípios muito diferentes dos princípios
moldados por homens e destinados.a.eles .. As .mulhe- .
res - pross~guia esta investigadora- têm capacidade
para organizar de uma forma mais democrática,
participativa e cooperativa que os homens, os quais
são propensos a adoptar tácticas autoritárias, proce-
- di.mentoslnfle.xí.'\!ci.s..e...um estilo de gestão insensível.
~e impacto têm as pro.postas feministas na
área de estudo, das organizações? Um impacto
bastante limit.ado - afigura-se ser a resposta. Apesar
de existir um conjunto extenso de pesquisas em
torno do género e das ~rganizações, o Handbook of
Organizational Cttlture and Climate, por exemplo,
uma obra muito abrangente publicada em 2000
(Ashkanasy et al.), só oferece um capítulo sobre
essa temática, reduzindo assim o «género» a uma
questão muito específica, ao invés de reéonhecer
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 913
a sua centralidade no contexto das organizações
como uma questão crucial para todo o campo dos
estudos organizacionais. Tal facto sugere que as
teorias feministas ainda têm de ser integradas nesta
subdisciplina.Contudo, o interesse renovado pelo
marxismo e pela teoria crítica revelado pelos estu-
dos críticos da gestão (criticai management studies)
pode representar novas oportunidades para as inves-
tigadora;; feministas transformarem futuramente o
estado ahual dos debates em torno do conflito, do
poder e do género nas organizações (Aalto e Mills,
2002).
Para além da burocracia
Sociólogos como George Ritzer, cuja tese sobre a
mcdonaldização da sociedade analisámos no início
deste capítulo, defendem que a burocracia e a racio-
nalização continuam a ser características centrais
da maior parte das organizações, particularmente
no «mundo desenvolvido», onde as estruturas
burocráticas modernas existem há mais tempo.
No entanto, para outros, apesar de o modelo de
burocracia definido por Weber - espelhado no de
Foucault - ter sido no passado uma boa ferramenta
teórica, tal ferramenta começa a apresentar sinaj
de esgotamento e pode ter menos capacidade para
explicar as mudanças em todo o tipo de organiza-
ções. Muitas organizações estão a reformular-se e
a reestruturar-se de molde a tornarem-se menos
hierarquizadas - em vez de o serem mais - e o modo
como se organizam está a tornar-se cada vez mais
informal e flexível.
Nos anos 60, Burns e Stalker concluíram que
as estruturas burocráticas tal como as conhecía-
------·-- .. " ........ . . ................... . ..... ··-·· . ........ ...... ........ . ·--""" .. ..
914 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS
mos podem dificultar a inovação e a criatividade
nos sectores tecnológicos de ponta - e poucos
poderão contestar a importância destas conclu-
sões no contexto da economia electrónica actual.
Numerosas organizações que possuíam estruturas de
comando verticais e rígidas estão a torná-las «hori-
zontais», a transformá-las em modelos colaborati-
vos, de modo a serem mais flexíveis e a responderem
mais prontamente às flutuações do mercado. Nesta
secção, iremos examinar algumas das principais
forças sociais que estão na origem dessas transforma-
ções - como a globalização e o desenvolvimento das
tecnologias de informação -e reflectir sobre o modo
como as organizações da modernidade tardia estão a
reinventar-se a si próprias face a circunstâncias em
mudança.
·+
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 915
.~:,,' --~ 4-
111111" -------------------- --------···------··-------··------·-···- -
------------·------·---·-··---· I
·~~ 916 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS
Pensar de um modo critico
De que forma a experiência empresarial da
cadeia McDonald's nos permite reflectir
acerca da influência da globalização nas gran-
des empresas? A imagem em mudança da
McDonald's invalida a tese de Ritzer sobre
a «mcdonaldização»? Em que medida o
conceito de «globalização» proposto por
Roland Robertson (ver o Capítulo 4) será
o melhor instrumento para compreender a
realidade actual dos negócios globais?
Mudança organizacional -o modelo
japonês
Muitas das mudanças que podemos agora observar
em organizações em todo o Mundo foram intro-
duzidas primeiramente em companhias japonesas
-como a Nissan e a Panasonic- há algumas déca-
das. Embora a economia japonesa tenha sofrido uma
recessão nos anos 90, foi fenomenalmente bem suce-
dida no pós-guerra. Este sucesso económico foi atri-
buído frequentemente a características específicas
das grandes empresas japonesas - que diferem subs-
lhadores subalternos são consultados sobre as
políticas que estão a ser ponderadas pela direc-
ção e os próprios executivos de topo reúnem-se
regularmente com estes.
2. JV!enos especialização - Nas organizações japo-
nesas os funcionários especializam-se muito
menos do que os seus pares no Ocidente.
Os jovens trabalhadores que entram para uma
empresa para uma posição de gestor estagiário
passarão o seu primeiro ano a aprender como
operam os vários departamentos da empresa.
Irão depois rodar por várias posições, quer em
filiais locais, qt,er n~ sede nacional, de modo a
adquirirem experiência em muitos sectores de
actividade da companhia. ~ando os funcioná-
rios atingem o topo da carreira, alguns 30 anos
após terem começado como estagiários, domi-
nam todas as tarefas importantes.
3. Segurança laboral - As grandes companhias
japonesas comprometem-se a proporcionar
emprego vitalício a quem contratam; garante-
-se um trabalho ao funcionário. O salário e a
responsabilidade dependem ma~s da antigui-
dade - os anos que o trabalhador esteve na
empresa - do que de uma luta competitiva por
uma promoção.
tancialmente da maioria das organizações empresa- 4. Produção em grupo - Em todos os níveis da
riais do Ocidente. Conforme teremos oportunidade empresa, as pessoas estão envolvidas em peque-
de verificar, muitas características organizacionais nas «equipas» cooperativas ou grupos de
assedadas .. às· empresas-japenesas .for:am -adaptadas- e--.. . . . . .. .trabalho. Os g~;up.os, ~ .. J..~A..'-'~-.v~Lulli;;U..ILU.Y..'> •.. k! •. ,.~,_,, __________ _
modificadás pelas suas congéneres de outros países duais, são avaliados em termos de desempenho.
nos últimos anos. Ao contrário das suas congéneres no Ocidente,
As empresas japonesas divergem de vários modos os organigramas das empresas . · japortesa.s
das características que Weber associou à burocracia: - mapas do sistema de autoridade ~ mostram
1. Tomada de decisão de baixo para cima_ A auto- somente grupos e não posições inllividuais.
ridade ~o s~ú; d~s -g·~and~s ~Ó~panhiàs J~p~ne- .. S. Fusão entre o trabalho e a ;ida privada - N~ .. -
sas não está estruturada como uma pirâmide, descrição weberiana da burocracia há uma divi-
conforme a descrição weberiana, na qual os são clara entre o trabalho do indivíduo dentro
membros de cada nível prestam contas apenas da organização e as suas actividades fora desse
aos que se encontram acima. Ao invés, os traba- espaço. Isto acontece, de facto, na maioria das
empresas do Ocidente, nas quais as relações
entre as firmas e os seus funcionários são larga-
mente de teor económico. As empresas japo-
nesas, pelo contrário, respondem em muitos
aspectos às necessidades dos seus funcionários,
esperando em troca um grau elevado de leal-
dade com a firma. Os trabalhadores recebem
da mesma forma muitos benefícios materiais
para além dos seus salários. A companhia de
electricidade Hitachi, por exemplo, estudada
por Ronald Dor e ( 1973 ), fornecia alojamento a
todos os funcionários solteiros e a quase metade
dos seus trabalhadores casados. A empresa
proporcionava ainda empréstimos destinados
à educação dos filhos e a custear as despesas de
casamentos e funerais.
Estudos efectuados sobre filiais de empresas
japonesas localizadas na Grã-Bretanha e nos Estados
Unidos da América indicam que o processo de
tomada de decisão «de baixo para cima» funciona
mesmo fora do Japão. Os trabalhadores parecem
responder positivamente ao maior nível de envolvi-
mento que estas fábricas permitem (White e Trevor,
1983). Por conseguinte, parece razoável concluir
que o modelo japonês contribui com ensinamentos
relevantes para a avaliação 49 <;:.9 • .QÇ.~*º .4_e_R.t.!I.Q.Çf~S~a
desenvolvido por Max Weber. As organizações que
se assemelham ao modelo ideal de Weber são prova-
velmente muito menos eficazes do que parecem em
teoria, pois não permitem que os funcionários de
·-········· ~~~.9~s~!)..Y.9J.Y.am un:u~.nt_id9 de autonomia e de
envolvimento nas suas funções.
Até há pouco tempo, muitos analistas britânicos
e norte-americanos encaravam as empresas japone-
sas como um modelo a seguir nas empresas anglo-
-americanas (Hutton, 1995). O abrandamento J.a
economia nipónica durante os anos 90 conduziu, no
entanto, ao questionamento deste modelo por parte
de muitos especialistas. O compromisso e o sentido
de dever que muitas companhias japonesas tinham
para com os seus trabalhadores poderão ter encara-
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 917
jado as atitudes de lealdade, mas foram igualmente
criticados pela sua inflexibilidade e porconstituírem
um obstáculo à concorrência. Como verificámos
anteriormente, durante a maior parte do pós-guerra,
os funcionários mais importantes das empresas japo-
nesas podiam contar, até ao fim das suas carreiras,
com um posto de trabalho assegurado, os despe-
dimentos e os cortes por redundância eram raros,
e':'-finalmente, as ambições em torno da promoção
eram pouco encorajadas. Os problemas económicos
que começaram a afectar o Japão a partir do início
dos anos 90 e que só agora parecem dissipar-se
levam a que o futuro das empresas nipónicas esteja
a ser objecto de um confronto entre os tradicionalis-
tas - que procuram preservar o velho sistema - e os
capitalistas radicais, que apoiam reformas orientadas
para um modelo mais competitivo e individualista
(Freedman, 2001).
A transformação das práticas de gestão
A maioria das características do «modelo japo-
nês» acima descrito resume-se a questões de gestão.
Embora seja impossível ignorar certas práticas de
produção específicas desenvolvidas pelas empresas
japonesas, uma grande parte da abordagem nipó-
nica está centrada nas relações entre a direcção e
os trabalhadores e assegura que os funcionários de
todos os níveis sintam uma ligação pessoal à compa-
nhia. Tanto a ênfase no trabalho de equipa como as
abordagens assentes na construção do consenso e
na participação alargada dos trabalhadores contras-
tavam fortemente com as formas tradicionais ~f
gestão ocidentais, estas últimas mais hierárquicas e
autoritárias.
Nos anos 80, muitas organizações ocidentais
começaram a introduzir novas técnicas de gestão
de forma a fomentar a produtividade e a compe-
titividade. Dois ramos populares da teoria da
gestão - a gestão de recursos humanos e a abor-
dagem da cultura empresarial - mostraram que o
modelo japonês não tinha passado despercebido no
. .., 918 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS
Ocidente. O primeiro deles, a gestão de recursos
humanos (GRH), é um estilo de gestão que consi-
dera a força de trabalho de uma empresa vital para
a sua competitividade económica: se os trabalhado-
res não estiverem completamente dedicados à sua
empresa e aos seus produtos, esta jamais será líder
no seu campo. De forma a gerar o entusiasmo e o
compromisso dos funcionários, a cultura organiza-
cional deve ser reestruturada de molde a que estes
sintam que fazem um investimento tanto no local de
trabalho como no processo de trabalho. De acordo
com a GRH, as questões em torno dos recursos
humanos não devem ser do domínio exclusivo dos
«funcionári~s do departamento de pess9al», mas
antes uma das prioridades principais de todos os
membros da direcção.
A GRH assenta no pressuposto de que não exis-
tem conflitos sérios no seio das empresas entre os
trabalhadores e os seus empregadores, não sendo,
portanto, necessária a representação dos primeiros
pelos sindicatos. Em contrapartida, a GRH apre-
senta então as empresas como conjuntos integrados
cujos conflitos se cingem à rivalidade com as empre-
sas concorrentes. Ao invés de uma gestão que inclua
a negociação mediada pelos sindicatos, as empresas
empregam técnicas de gestão de recursos humanos
com a intenção de individualizar a sua mão-de-obra,
nomeadamente através de contratos individuais de
trabalho e da indexação dos salários à produtividade.
Segundo estudos recentes, ainda que os trabalha-
dores possam aceitar os ditames da GRH, muitos
revelam ··em ·privado··a .. ·sua· .. opinião··cínica ··acerca
das assunções de unidade entre as empresas e o seu
pessoal (Thompson e Findley, 1999).
A segunda tendência de gestão - a criação de uma
cultura empresarial ou de empresa própria - estA
estreitamente relacionada com a GRH. A direcção
de uma empresa, élé molde· à"prômover a lealdade e o
orgulho no seu trabalho por parte dos funcionários,
trabalha com estes na perspectiva de construir uma
cultura organizacional que envolva rituais, even-
tos e tradições próprias. Estas actividades culturais
Pensar de um modo crítico
Reflicta acerca de empresas onde tenha traba-
lhado ou locais de trabalho que conheça.
~e peso tinham as tecnologias da informa-
ção nesses locais? E como eram utilizadas?
O controlo/vigilância do pessoal da empresa
por parte da gestão constituía um problema
para os seus trabalhadores? Considera que as
tecnologias da informação constituem uma
ameaça real aos trabalhadores ou considera
que os efeitos destas tecnologias na vida labo-
ral são essencialmente benignos? ~e medi-
das devem ser tomadas para contrariar estas
tendências se for necessário?
são planeadas de modo a envolver e agregar todos
os membros da empresa - dos gestores seniores ao
funcionário mais recente - para que se conheçam
mutuamente e se desenvolva a solidariedade no·
grupo. Os piqueniques de empresa, as «sextas-feiras
informais» (os dias em que os funcionários podem
vestir-se de um modo mais informal) e os projec-
tos comunitários patrocinados pelas empresas são
exemplos de técnicas de construção de uma cultura
empresarial.
Nos últimos anos, um conjunto de companhias
ocidentais foi fundado de acordo com os princípios
. 4e gestãg adm~ de.s~ri~?~: ~m ~~.~-~e se construírem
segundo o modelo burocrático tradicional, empre-
sas como a norte-americana Saturn9 organizaram-
-se em linha com estas novas orientações de gestão.
Na Saturn, por exemplo, os funcionários de tod~s
os níveis· gozam ·da oportunidade de ter pequenas
experiências em posições de outras áreas, de forma
9 Nota do revisor científico: Esta marca fundada pela General
Motors, destinada à produção de veículos baratos, está em
vias de extinção, na sequência das dificuldades sentidas pela
empresa-mãe, agudizadas pela crise de 2008 .
..... _. -·····-·--- ···-···-------·-·-·------·-·------------
a ganharem um sentido mais apurado das operações
da empresa no seu todo. Os trabalhadores da produ-
ção fabril passam tempo com a equipa de marketing,
partilhando conhecimentos sobre o modo como
os veículos são feitos. O pessoal das vendas estagia
no departamento de manutenção e revisão para se
tornar mais consciente dos problemas comuns da
manutenção que podem preocupar possíveis clien-
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 919
tes. Tanto os membros do sector das vendas como
os da produção são integrados nas equipas de plane-
amento de produtos de forma a discutir proble-
mas de que a direcção podia não estar consciente
nos modelos anteriores. Uma cultura empresarial
centrada num serviço de apoio aos clientes simpá-
tico e competente une os funcionários da empresa e
aumenta o sentido de orgulho da mesma.
\.
., 920 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS
o estudo das práticas de gestão . perspectiva,agestãoéumaactividadeneutralevadaa
cabo na prossecução dos interesses das organizações
Actualmente a pesquisa académica em torno da e a compreensão das práticas de gestão é uma tarefa ...
ge:~_tão, -~ .. d.?~. ~~g9.s.!2.~i.P.I2.4 .. J:!~ig!J._!. n.~ .. §.!J._a_ mª!Q!:i-ª:.__ .... de--senso Gomum ·que. não ·e::dge ·quaisquer--aba rda--
nas escolas multidisciplinares de gestão e de negó- gens teóricas particulares (Knights e Willmott 2007,
cios. As organizações tendem a ser analisadas neste PP· 7-8). O recurso ao «senso comum» (analisado
contexto académico enquanto «sistemas» com no Capítulo 2), tende a basear-se ém «explica-
uma série de partes integrantes, como departamen- ções» excessivamente generalistas que frequente-
tos e grupos, No entanto, as abordagens teóricas são mente se revelam deficientes quando confrontadas
encaradas com alguma-suspeição, pois as práticas de com dados produzidos pór ·pesqUisas empíriCas·: -·
gestão são concebidas enquanto respostas mais ou É por esta razão que nós, enquanto sociólogos,
menos racionais às transformações registadas nos necessitamos de teorias que relacionem as organiza-
contextos económicos, políticos e sociais onde as ções e as práticas de gestão com a sociedade (no seu
organizações estão integradas. De acordo com esta todo) da qual fazem parte.·--- _____________ ,......
Têm surgido, desde os anos 80, novas aborda-
gens ao estudo da gestão que revelam duas perspec-
tivas teóricas oriundas das abordagens teoréticas
desenvolvidas no seio das ciências sociais e da teoria
social. É por esta razão que os estudos críticos da
gestáo(ECG) e a Teoria do Actor-Rede (TAR) têm
provavelmente o maior interesse para os sociólogos
das organizações.
Estudos críticos de gestão
Os estudos críticos de gestão, tal como a designação
sugere, adoptam uma abordagem crítica aos estudos
de gestão correntes (Alvesson e Willmott, 2003),
que adquiriu importância em meados dos anos 90.
Convencionalmente, os estudos de gestão correntes
partem do pressuposto de que a gestão das organiza-
ções é positiva e necessária e de que o estudo cientí-
fico das organizações d~verá interessar, em primeiro
lugar, aos gestores, que aproveitarão os seus resul-
tados para gerir de um modo mais eficaz e provei-
toso. Em suma, a gestão é tida como uma actividade
relativamente neutra que favorece os trabalhadores,
os consumidores e a sociedade no seu todo, na qual
os gestores desempenham uma função socialmente
útil. Isto traduz-se, na prática, na tra~.~f()rfJ:l~Ǫ-9. d,os
estudos de gestão num espaço onde são formadas
pessoas que procuram desenvolver uma carreira em
gestão das organizações.
Os estudos críticos da gestão questionam o facto
---··· _4.~ -~- g~§_t_~~yer .!.lll.!-ª-~.<:.tiyida9._e .reillmente neutra e
adoptam uma abordagem maís crítica em relação a
esta temática a partir das ideias propostas por Marx,
particularmente pela teoria crítica neomarxista
desenvolvida pela Escola de Frankfurt (ver Capítulo
3 para mais detalhes sobre a Escola de Frankfurt).
Além disso, os estudos críticos da gestão também
empregam as análises de Foucault, bem como
pontos de vista coligidos pela teoria feminista e pelo
pós-modernismo na sua pesquisa acerca da gestão e
das organizações.
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 921
Chris Grey e Hugh Willmott (2005) argumen-
tam que os estudos críticos da gestão colocam em
causa as suposições arraigadas dos estudos de gestão
em torno da índole «natural», ou «normal», das
hierarquias das organizações, e a noção segundo a
qual a avaliação das práticas de gestão deve pautar-se
pelos objectivos internos das próprias organizações.
A&invés, estes estudos estimulam uma reflexão mais
alargada sobre o impacto social das estratégias de
gestão e o modo como os estudantes de gestão são
formados no seio dos próprios estudos de gestão.
Destà forma, os estudos críticos da gestão alertam
para a dimensão ecológica das organizações - corno
é que a sua arquitectura afecta e influencia a expe-
riência dos trabalhadores? ~al é o impacto das
organizações no meio ambiente? Ao trazerem estas
duas questões para o foro dos estudos de gestão, os
estudos críticos da gestão promovem entre os estu-
dantes de Gestão uma reflexão constante acerca dos
seus próprios pressupostos e práticas. Mas é precisa-
mente aí que reside o seu principal obstáculo: como
transformar os seus argumentos sociais e teóricos
em medidas práticas que transformem a realidade
dos negócios e das organizações no contexto das
economias capitalistas? No fim de contas, os negó-
cios existentes na actualidade incorporam exacta-
mente as pressuposições que os estudos críticos da
gestão criticam, e empregam estudantes oriundos
das escolas de Gestão que muitas vezes apoiam. Será
que eles são receptivos a uma nova geração de gesto-
res formados no marxismo e na teoria crítica e estão
preparados para custear a sua formação? Caso não
estejam, significará que os estudos críticos da gestão
se restringirão àqueles que trabalham nas margens
do estudo da gestão.
A teoria do actor-rede
A teoria do actor-rede (TAR) é uma abordagem
teórica do estudo das relações entre humanos e não
humanos oriunda das pesquisas sociológicas acerca
da ciência natural c da pesquisa científica, que tem
922 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS
Até que ponto será útil a insistência da teoria do actor-rede em considerar que todos os elementos de uma determinada situação -
como a que ilustramos aqui - podem ser concebidos como actores?
sido popularizada pelo académico francês Bruno gestão de cultura ao comportamento das vieiras, as
Latour (1993, 2005). A teoria do actor-rede é digna quais eram, neste sentido, actores independentes.
de nota - e objecto de controvérsia - pela ~ua insis- Por conseguinte, para compreender todo o processo
tência na agência ou no envolvimento activo das de cultura de vieiras era necessário perceber as políti-
<<coisas» não-humanas. Por exemplo, num estudo case estratégias de gestão dos aquacult~~~~-~ . .?_!!!.~49--······--···--t
importante e pioneiro sob_r! .. ~.in9,í.t.s.tria .. de. pesca ... como as -vieirane· cohipor:iàvãm nÓ. ~eu ambiente.
fràriêesa; M1dierê-;Ji~~- .( 1986) defendeu que as Resumindo, era necessário compreender todos os
vieiras (um molusco bivalve) eram também, efec- nexos da situação « actoNede >>.
tivamente, agentes activos do processo de cultura10 No estudo das organizações, à semelhança do
pelos aquacultores franceses, em vez de serem meras que acabámos de dizer e ao contrário de outras abor-
destinatárias passivas da acção humana. Os aquacul- dagens, a teoria do actor-rede procura fazer regres-
tores tinham assim.de adaptar as suas estratégias de sái ao palco da realidade as «massas ausentes»
10 Nota do tradutor: «Castanholas» é o nome vulgar
da espécie marinha Glycymeris glycymeris; alguns itálicos do
tradutor.
- máquinas, documentos, objectos, etc. -, de molde
a que as organizações sejam compreendidas de um
modo coerente e abrangente. Pense numa empresa,
-----------------·------·-·--·-·--------····-··----·--·-----···-----
por exemplo: o que é ela exactamente? ~e elemen-
tos a compõem? ATAR proporá entendê-Ia como
algo mais do que a soma das suas instalações e do
seu pessoal. Na verdade, uma empresa é constituída
por edifícios, pessoas, textos, maquinaria e muito
mais, estando todos estes elementos interligados
numa rede de actores - daí a teoria do actor-rede.
Esta teoria tem sido utilizada para estudar múlti-
plos aspectos das organizações: do estudo das orga-
nizações em geral (Czarniawska e Hernes, 2005) à
consultoria (Legge, 2002) e ao estudo da implemen-
tação empresarial das tecnologias da informação
(Doorewaard e Van Bijsterveld, 2001).
O que torna aTAR controversa é a sua insistência
no facto de todos os elementos acima enumerados
- pessoas, documentos, máquinas, etc. - serem
«actores» e nenhum deles ter a primazia sobre
os outros. Esta teoria advoga, com frequência, o
conceito de «actantes» a fim de distinguir a sua
posição da de Weber, que postulá que só os seres
humanos autoconscientes são capazes de agir social-
mente. De um modo mais convencional, a sociolo-
gia concebe as intenções humanas como algo signifi-
cativamente diferente dos objectos estudados pelas
ciências naturais. As acções humanas são intencio-
nais, ou «mediadas pelo pe_ns~ment_<>.~.1 ... ~P:ÇJtJ.<J.nto a
maior parte dos animais age sob instinto e os objec-
tos inanimados- como as máquinas-, seguramente,
não poderão «agir» do mesmo modo que os seres
humanos. ATAR rejeita esta linha de divisão básica,
vendo todos os actores de uma rede como essencial-
. meme··:pãtce1fõ51gllãís' ._ uma posição conhecida
como «igualdade ontológica». São os resultados de
uma determinada pesquisa que devem estabelecer
que actor é mais poderoso ou influente numa dada
rede. Neste sentido, ninguém poderá partir do pres-
suposto de que o domínio caberá sempre aos acto-
res humanos ou de que são eles quem exerce poder
sobre os outros. Daí o erro de Durkheim, de acordo
com esta perspectiva: os factos sociais não podem ser
explicados por referência exclusiva a outros fenóme-
nos sociais, mas os fenómenos técnicos que também
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 923
participam da construçãode redes de actores devem
ser tidos em conta.
A TAR poderá parecer estranha aos estudantes
de sociologia, habituados a lidar só com pessoas.
São os seres humanos, sem sombra de dúvida, qucn1
desenha, constrói e usa as máquinas; assim sendo,
como é qae-estas exercem poder sobre as pessoas?
As linhas de produção, ou correias de transmissão,
introduzidas no fabrico de automóveis pela Ford,
nos alvores do século .XX, constituem um bom
exemplo desse exercício (ver o Capítulo 20 para
uma análise dos métodos de produção fordistas).
É evidente que essas linhas de produção foram conce-
bidas, construídas e utilizadas por pessoas, mas, uma
vez em actividade (essas simples máquinas) tornam-
-se um actor na rede de actores dentro da fábrica.
Os trabalhadores que «utilizam» as correias de
transmissão têm de trabalhar ao ritmo e à velocidade
da máquina para que o sistema possa funcionar, exer-
cendo-se aqui, de facto, e num sentido real, o poder
da correia sobre os trabalhadores que a utilizam.
De igual modo, quando pensamos nos regulamen-
tos e nas políticas empresariais que existem nas orga-
nizações, parece-nos evidente que estes documentos
também foram elaborados, redigidos e utilizados
por pessoas; mas esses mesmos documentos, à seme-
lhança das correias de transmissão, tornam-se parte
da rede de actores através da sua utilização e exer-
cem um determinado controlo sobre as pessoas que
aceitam reger-se por eles. ATAR contribui para nos
tornar conscientes do modo como as organizaç~es
são formadas pela combinação de actores diferentes,
·para além de existirem paralelos com as propostas
de Michel Foucaulc sobre o poder que os edifícios
físicos (como as prisões, as escolas e os hospitais) e
os discursos (determinadas formas de pensar e de
falar sobre um assunto) têm para moldar o nosso
comportamento (ver o Capítulo 3 para um aprofun-
damento das ideias de Foucault).
Esta teoria sugere, portanto, que uma compreen-
são cabal das práticas de gestão e das organizações
modernas poderá exigir o contributo especializado
... '~· ......,_ .. ~ ...... -~ •'
924 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS
de um conjunto de disciplinas académicas hoje
em dia distintas, desde a sociologia e a psicologia à
economia, aos estudos de gestão, arquitectura, ciên-
cias do ambiente e artes. Tal necessidade poderá ser
justificada pelo facto de os sociólogos, por exem-
plo, não serem formados em engenharia, condição
necessária para compreender o funcionamento das
máquinas, ou em literatura, o que lhes permitiria
analisar os elementos estruturais dos textos. Neste
sentido, embora a teoria do actor-rede esteja enrai-
zada na teoria social, a sua prática propicia uma
abordagem interdisciplinar da pesquisa organiza-
cional, tendo ganho algum espaço nos estudos da
gestão e das organizações.
Os críticos da teoria do actor-rede não se têm
mostrado impressionados com o aparato do jargão
teórico empregue nos estudos que dela resultam, o
qual parece dar origem a descrições desnecessaria-
mente complexas das organizações e das práticas de
gestão que não seriam reconhecidas pelas pessoas
que estão a ser estudadas. Isto poderia valer a pena
acaso se destinasse à produção de explicações teóri-
cas genuinamente novas; porém, os críticos da teoria
do actor-rede defendem que a maior parte dos estu-
dos que nela assentam são de natureza mais descri-
tiva do que explicativa. Muitos dos estudos organi-
zacionais baseados nesta abordagem teórica tendem
a partir, também, de uma perspectiva de gestão que
desvaloriza, quando não ignora, as questões .socioló-
gicas das desigualdades sociais e o poder - o que leva
alguns sociólogos a considerar que falta a esta teoria
uma perspectiva.crítica .. (Whittle-e.Spicer, 2008). . .
Até agora, o presente capítulo abordou alguns
aspectos importantes e algumas das teorias mais
recentes sobre as organizações formais. Tal como
já verificámos, a importância desta opção reside
no facto de as org~nizações constituírem uma das
características ptindpàis da·s sódedades modernàs
e, por essa mesma razão, terem sido estudadas por
muitos investigadores. Porém, nos últimos anos, a
atenção deslocou-se ligeiramente para o estudo das
redes e do seu papel nas sociedades. O advento das
tecnologias da informação parece estar a conferir
às redes sociais relativamente informais e cada vez
mais flexíveis uma importância acrescida na organi-
zação da sociedade - embora todas as organizações
formais envolvam claramente a existência de redes
-, facilitando a criação, à escala global, de redes
de indivíduos, grupos e organizações mais eficazes
(Lilley et at 2004).
O estudo das redes
As redes sociais
Diz o velho ditado: «Não importa aquilo que
sabes, mas quem conheces». Este adágio exprime
a mais-valia de ter <<boas relações». Os sociólogos
referem-se a estas relações como redes - todas as
conexões directas e indirectas que unem um indi-
víduo ou um grupo a outros indivíduos ou grupos.
As suas redes pessoais incluem assim as pessoas que
você conhece directamente (os seus amigos, por
exemplo) e as pessoas que conhece indirectamente
(os amigos dos seus amigos). As redes pessoais
incluem, com frequência, pessoas da mesma raça,
classe social, etnicidade ou outros tipos de origem
social - embora existam excepções. Um exemplo:
se se inscrever em linha numa mailing list, tornar-se-
-á parte de uma rede que inclui todas as pessoas da
lista, as quais poderão ter géneros ou origens étnicas
e sociais diversas. A sua influência e o seu alcance
..,.
I
.I
·poderão aumentar significadvamente se·fizer ·parte·· ··- ·--·,_1: ·
de um grupo ou de uma organização -por exemplo, -~L~~;
todos os antigos alunos de uma determinada univer- ; :~.~.;.~:
sidade -, pois os grupos e as organizações também ;(;~;:
podem funcionar em rede. ..:.. ":::~j
Os grupos sociais são uma fonte importante :~:;j
de aquisição de redes, mas nem todas as redes são
grupos sociais. Em muitas delas, a partilha de expec-
tativas e o senso comum de uma identidade, que são
característicos dos grupos sociais, estão ausentes. Por
exemplo, em princípio não partilhará um sentido de
identidade com os subscritores de uma mailing list,
como não conhecerá os vizinhos da maior parte dos
seus colegas de trabalho, ainda que todos eles façam
parte da sua rede social. As redes servem os nossos
interesses de formas diversas. O sociólogo norte-
-americano Mark Granovetter ( 1973) mostrou que
pode haver uma força considerável nos laços fmcos,
nomeadamente entre os grupos socioeconómicos
mais abastados. Granovetter mostrou que os funcio-
nários superiores e os gestores têm uma maior proba-
bilidade de ficarem a saber de uma nova oportuni-
dade de emprego através das suas relações, sejam elas
parentes afastados ou conhecimentos remotos. Ess.es
laços fracos podem revelar-se bastante úteis porque
tanto os parentes afastados como os conhecidos têm
tendência para desenvolver conjuntos de ligações
muito diferentes das dos amigos mais próximos,
e essa relações sociais serão provavelmente muito
semelhantes àquelas que estabelecemos. Segundo
Granovetter, entre os grupos socioeconómicos
menos afortunados em termos materiais os laços
fracos não estabelecem necessariamente pontes para
outras redes e, por isso, não multiplicam as opor-
tunidades (Marsden e Lin, 1982; Wellman et al.,
1988; Knoke, 1990). Após a obtenção de um grau
académico, ao procurar emprego poderá ter como
trunfos um bom diploma e um ·ex:celerii:e cüi:'dcülo.
Mas pode tornar-se mais proveitoso o facto de, no
seio da organização à qual concorreu, o seu amigo
de faculdade ter sido colega de escola do funcionário
que o vai entrevistar.
.. -·-:Krnãiõriãcl.ãfpessoas aptóveita as suas próprias
redes pessoais quando procura oportunidades ou
vantagens, mas neni todas têm acesso a redes que
detêm muito poder. Alguns sociólogos defendem,
por exemplo; que as redes de negócios e as redes polí-
ticas femininas são mais frágeisdo que as masculi-
nas, o que determina a redução do poder das mulhe-
res nessas esferas (Brass, 198 5). Muitas das escolas
secundárias inglesas mais conhecidas com internato
e que cobram propinas, como Eton e Harrow, só
aceitam rapazes, negando assim às mulheres o acesso
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 925
a relações importantes estabelecidas pelos alunos
durante os seus anos de escola. Segundo algumas
pesquisas sociológicas, as redes de contactos profis-
sionais mobilizáveis pelas mulheres quando procu-
ram emprego são constituídas, de um modo geral,
por menos relações do que as dos homens - o que
significa que as mulheres conhecem um número
menor de pessoas em menos cargos (Moore, 1990).
Redes de contactos exíguas têm tendência para enca-
minhar as mWheres para postos de trabalho ditos
femininos, os quais proporcionam normalmente
salários mais baixos e menores oportunidades de
progressão (Roas e Reskin, 1992; Drentea, 1998).
No entanto, à medida que aumenta o número de
mulheres a desempenhar cargos de topo, as redes daí
resultantes poderão proporcionar melhores oportu-
nidades de progressão. Uma investigação relativa-
mente recente descobriu que as mulheres tendem
a ser contratadas, ou promovidas, em contextos de
trabalho onde já existe uma percentagem elevada de
mulheres (Cohen, et al., 1998). .
As redes oferecem algo mais do que vantagens
económicas. O leitor irá muito provavelmente
confiar nas suas redes para estabelecer um leque alar-
gado de contactos: desde entrar em contacto com
o deputado eleito pelo seu distrito, até uma saída
à noite com alguém que lhe despertou o interesse.
Da mesma forma, quando visita outro país, é enca-
minhado pelos seus amigos ou pelos seus colegas -
de escola ou de t'rabalho -para os contactos que este
têm no estrangeiro, que o poderão ajudar a orien-
tar-se nesse ambiente que lhe é estranho. ~ando
obtém o seu diploma, o grupo dos seus antigos cQ.ie-
gas pode ampliar a extensão da sua rede de apoio
social.
As redes e as tecnologias
da informação
Conforme verificámos, o estabelecimento de redes
constitui uma prática humana muito antiga. Mas
para o sociólogo Manuel Castclls, as redes potencia-
-------------------·-·-.. ····- "" .
- ·.· 926 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS
das pelo desenvolvimento das tecnologias da infor-
mação- nomeadamente a Internet- são a estrutura
organizacional que define a nossa era. A flexibili-
dade e a adaptabilidade inerentes às redes confe-
rem-lhes numerosas vantagens sobre os modos de
organização anteriores. No passado, as burocracias
racionais e hierárquicas do tipo descrito por Weber
revelaram-se bem sucedidas no uso dos meios dispo-
níveis para alcançar os objectivos organizacionais
que se propunham atingir. As redes, ao invés, não
tinham capacidade para coordenar funções, manter
o enfoque em determinados objectivos ou cumprir
determinadas tarefas tão bem quanto as burocra-
cias. Para Castells, toda esta realidade foi profun-
damente transformada pelos grandes avanços regis-
tados na computação e nas tecnologias nas últimas
décadas do século XX - fenómeno a que este autor
chama «Galáxia Internet» (2001). O advento da
Internet traduziu-se na possibilidade de processar
dados, em simultâneo, quase em qualquer parte do
Mundo; não é necessário existir proximidade física
entre os envolvidos. Por consequência, a introdu-
ção de novas tecnologias permitiu que as empre-
sas «refizessem» a sua estrutura organizacional,
descentralizando-a, reduzindo-a e flexibilizando-a,
ao ponto de surgirem empresas nas quais se pode
trabalhar a partir de casa.
Até então, era relativamente fácil identi~car os
limites das organizações, pois estas, na sua maio-
ria, estavam localizadas em espaços físicos preci-
sos .-. como .edifícios. de .escritórios, .apartamentos
ou, tratando-se de hospitais e de universidades, em
campus. A missão e as funções que as organizações
procuravam realizar eram igualmente claras. Uma
das características mais salientes das burocracias
era, por exemplo, o seu compromisso em torno de
um conjunto definido de rêsp.onsâbilidades e os
procedimentos tendentes à sua execução. Weber
concebia a burocracia como uma entidade autó-
noma cuja intersecção com entidades externas era
limitada e precisa.
Já tivemos oportunidade de abordar o modo
como os limites físicos das organizações se estão a
esboroar perante a capacidade que as novas tecnolo-
gias de informação têm de transcender fronteiras e
fusos horários. Ao mesmo tempo, este processo está
a alterar aquilo que as organizações fazem e o modo
como o coordenam. Inúmeras organizações já não
operam como entidades autónomas: um seu número
crescente descobriu que a sua actividade será mais
eficiente se estiverem ligadas pela Internet a uma
rede complexa de relações tecidas com outras orga-
nizações e empresas. Hoje já não é possível traçar
uma linha nítida que separe uma dada organização
de outros grupos exteriores. Os limites das organiza-
ções são mais abertos e fluidos do que nunca devido
à globalização, às tecnologias da informação e a
novas tendências nos padrões ocupacionais.
Segundo Castells, em 7he Rise of the Network
Society ( 1996), a «empresa em rede» é a forma orga-
nizacional mais adequada a uma economia global da
informação 11 • Com isto, Castells entende ser cada
vez menos possível para as organizações - sejam
estas pequenos negócios ou grandes multinacio-
nais - sobreviver sem estarem inseridas numa rede.
A criação de redes é possível devido ao crescimento
das tecnologias da informação: organizações de
todos os pontos do globo podem encontrar-se,
contactar e coordenar actividades conjuntas através
de um meio electrónico. Este investigador cita diver-
sos exemplos de redes de organizações e enfatiza o
facto de elas terem sido criadas em diversos contex-
. tos- cultutats· é íhstitüdorüi.is:Nõ--entánro; segunâo--·--·
Castells, todas elas representam «diferentes dimen-
sões de um só processo fundamental»: a desintegra-
ção da burocracia racional tradicional.
Embora existam muitos exemplos de redes
de organizações, debrucemo-nos sobre um caso
11 Nota do l't!VÍSOI' cient(/ico: Este título corresponde ao
primeiro volume da obra traduzida c publicada em Portugal
com o tÍtulo A Em da biformação: Economia, Sociedade, Cu/tum
(Lisboa, Fundação Caloustc Gulbenkian, 2007, cd/reimpressão,
3 vols.).
-------- ---·----···- ·-·--··- ······ ·- ·-- -···--·---... ·····-----·-·······-· ..... ----· ·------·--------
eloquente. O sociólogo Stewart Clegg estudou
a empresa revendedora de roupa Benetton. À
primeira vista, o leitor não se aperceberá do modo
como a Benetton, com as suas 5000 lojas espalha-
das pelo Mundo, se distingue das restantes marcas
de roupa globais. Mas, na verdade, a Benetton é um
exemplo de um tipo específico de organização em
rede possibilitado pelos avanços nas tecnologias da
informação. As lojas da Benetton, presentes em todo
o Mundo, são franchises dirigidos por indivíduos que
não são empregados directamente pela empresa, mas
que fazem parte de um grande complexo destinado a
produzir e a vender os produtos daquela marca.
Toda a operação se baseia num princípio de
rede: a sede, em Itália, subcontrata encomendas
dos seus produtos a diversos fabricantes com base
na procura gerada na sua vasta cadeia de lojas.
Os computadores ligam as várias partes da rede de
molde a que a loja de Moscovo, por exemplo, possa,
ao toque de um botão da caixa registadora, enviar
informações de encomenda para a central italiana.
Enquanto outros retalhistas internacionais de moda
introduzem, a nível mundial, um conjunto idêntico
de produtos nas suas lojas, a estrutura da Benetton
permite-lhe personalizar as encomendas das suas
lojas de franchise. E, em vez de estabelecer contratos
regulares com os seus fornecedores; esta ·e1npresa
pode reagir ao mercado e pedir à sua rede alargada
de parceiros que forneçam os serviços quando eles
sãonecessários ( Clegg, 1990).
Estará o entrosamento das tecnologias de infor-
mação comas·redes-a~fastar-no~ completamente da
visão pessimista de Weber acerca do futuro da buro-
cracia? Esta perspectiva, porém, merece-nos todas as
cautelas. Os sistemas burocráticos são mais fluidos,
internamente, do que Weber sugeriu, e estão a ser
desafiados por outras formas de organização menos
hierarquizadas; mas estes sistemas provavelmente
não vão desaparecer, conforme Ritzer demonstrou
na sua tese sobre a mcdonaldização da sociedade.
Num futuro próximo, existe a probabilidade de
assistirmos a um conflito de tendências em torno
-
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 927
da dimensão, da impessoalidade e da hierartJUia nas
organizações.
Capital social- os laços que unem
Uma das razões principais que levam os indivíduos
a juntarem-se a organizações reside no estabeleci-
mento de relações e no aumento da sua influência
pessoal. O tempo e a energia investidos numa orga-
nização podem ser compensados com retribuições
bem-vindas. Os encarregados de educação que
pertencem a uma associação de pais, por exemplo,
terão provavelmente mais influência sobre as políti-
cas escolares de uma dada escola do que aqueles que
não se associayam. Os membros de uma as~ociação
como esta sabem a quem ligar, o que dizer e como
exercer pressão sobre os funcionários escolares.
Os sociólogos designam esses frutos da pertença
a organizações como capital social, isto é, o conhe-
cimento social e as relações que dão às pessoas a
possibilidade de atingirem os seus objectivos e
aumentarem a sua influência. Embora a noção de
capital social possa remontar à Antiguidade, esta
expressão tornou-se corrente nos debates acadé-
micos no final dos anos 80. Na Europa, o conceito
está particularmente associado ao sociólogo francês
Pierre Bourdieu. Na última década assistiu-se a uma
explosão do uso desta expressão, deflagrada pelo
trabalho influente do polit6logo norte-americano
Robert Pumam (1995 e 2000).
O capital social inclui redes sociais úteis, um
sentido de obrigação mútua e de confiança, uma
concepção das normas que governam o comporta-
mento efectivo e, de um modo geral, outros recursos
sociais que capacitem os indivíduos para agir com
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928 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS
7 .; .. ···
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~e benefícios poderão ser obtidos por estes membros de uma associação de pais?
eficácia. Um exemplo: os estudantes universitários
tornam-se activos no associativismo ou na imprensa
estudantil, em parte, porque esperam aprender apti-
dões sociais e estabelecer relações que poderão vir a
ser úteis depois da conclusão dos seus estudos supe-
riores·. Os estudantes universitários poderão, por
exemplo, encontrar formas de entrar em contacto
com professores e administradores que irão depois
apoiá-los quando começarem à procura de um
emprego ou quando se candidatarem a uma pós-
-graduação.
As diferenças em termos de capital social adqui-
rido espelham as desigualdades sociais mais amplas
existentes na sociedade. Em geral, por exeJ;Ilplo, os
homens detêm mais capital do que as mulheres, os
brancos mais do que os não-brancos, os ricos mais
do" que .. o.s .poh.res •. .O..capital. social adquiddo .atra-
vés da frequência do ensino pago constitui uma das
razões principais que levam alguns pais a escolhê-
-lo para os seus filhos. A frequência deste género de
escolas poderá proporcionar aos seus alunos, mais
tarde, o acesso a recursos sociais e políticos valiosos
e o desenvolvimento de"cóhtaétos nó míirido dós
negócios que contribuirão para aumentar as suas
riqueza e influência. Também podemos identifi-
car diferenças em termos de capital social acumu-
lado entre os diversos países. De acordo com o
Banco Mundial (2001), os países cujos níveis de
capital social são elevados - isto é, onde os empre-
sários podem desenvolver, com eficácia, «redes de
confiança» que mantêm as economias saudáveis -,
tendem a beneficiar de um crescimento da econo-
mia. O crescimento rápido que se verificou nos anos
80 em muitas economias do Sudeste Asiático ilustra
este argumento - um crescimento que alguns soció-
logos defenderam ter sido beneficiado pela existên-
cia de redes de negócios sólidas.
Robert Pucnam levou a cabo um extenso escudo
sobre o capital social nos EUA, no qual distingue
dois tipos: o capital social de ligação (bridging social
capita{), inclusivo e orientado para o que o rodeia,
e o capital social de adesão (bonding social capital),
e}(~~~~ivo _e _()r~ent~dopar~.? ~e~JE.~~X!OI:.9 ... c.o~::c..:;;;:;.c _______ . ....,
une os indivíduos para além das clivagens sociais.
A capacidade de unir pessoas pode ser ilustrada pelo
movimento dos direitos civis - que juntou negros e
brancos na luta pela igualdade racial - e pelas orga-
nizações religiosas que estabelecem ·:pontes entre
diferentes credos. O segundo reforça identidades· ··
exclusivas e grupos homogéneos. Identificamo-lo
entre as organizações étnicas fraternais, nos círculos
de leitura femininos organizados no seio da Igreja e
nos country clubs em voga (Putnam, 2000).
-
As pessoas que pertencem a organizações das
quais são membros activos tendem a sentir-se mais
«ligadas», muito empenhadas e capazes de «fazer
a diferença». Do ponto de vista da sociedade mais
abrangente, o capital social - e nomeadamente o de
ligação- permite aos indivíduos sentirem-se parte da
comunidade alargada, uma comunidade que procura
incluir aqueles que são diferentes de nós. A demo-
cracia prospera quando o capital social é robusto.
Neste sentido, alguns estudos transnacionais suge-
rem que os níveis de participação cívica nos EUA
- país sobre qual incidiu a investigação de Purnam
- são dos mais elevados do Mundo (Putnam, 1993 e
20.00). Paralelamente, outros dados sólidos indicam
que os laços de participação política e de pertença
a associações e a outras formas de envolvimento
cívico que unem os norte-americanos diminuíram
bastante durante os últimos 30 anos. Será que este
decréscimo afecta a democracia nos EUA?
Jogar bowling a sós: um exemplo de capital
social em declínio?
Purnam defende que a participação em organiza-
ções dota os norte-americanos do capital social
que lhes permite cooperar com outros indivíduos,
ter um sentimento de confianÇa· ~ ~-~ ~eni:id(;· de
pertencer à sociedade no seu todo. Este género de
capital social é essencial para haver uma cidadania
efectiva. No entanto, segundo Putnam, estes laços
sociais estão a enfraquecer rapidamente na socie-
-~f~ci~-;;~;t~~;;-ericana~--Ü~ ;ihal disso, subtil mas
significativo, é o declínio verificado nos recintos de
bowling dos EUA: há um número cada vez maior de
pessoas a jogar bowlingasós (Putnam, 1995 e 2000).
Este investigador afirma que os jogadores de bowling
que formam equipas consomem o triplo da cerveja
e das pizzas que consomem os/ as jogadores/as soli-
tários/as; o que lhe sugere que os primeiros gastam
mais tempo a socializar, e, eventualmente, a discu-
tir assuntos cívicos, do que os restantes. O acto de
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 929
jogar bowling a sós é, para Putnam ( 2000), um Etc to
sintomático da perda actual de sentido comunitário:
O indicador mais bizarro e desconfortante
do distanciamento social contemporâneo llue
identifiquei nos EUA é o seguinte: há mais norte-
-americanos a jogar bowling do que nunca, mas a
organização de campeonatos decresceu acentu-
adamente na última década. Entre 1980 e 1993,
o ntunero total de jogares de bowling aumentou
10%, enquanto a prática organizada decresceu
40%. (Para que não fiquem a pensar que se trata
de um exemplo inteiramente trivial, devo assina-
lar que em 1993 cerca de 80 milhões de norte-
-americanos jogaram bozvling, pelo menos uma
vez; número ctNase um terço maior do que o total
dos que votaram nas eleições para o Congresso
em 1994 e, aproximadamente, o mesmo número
denorte-americanos que se dizem frequentadores
regulares de serviços religiosos ... ) [ ... ] Sem nos
apercebermos disso à primeira, verificamos qne
nos fomos separando uns dos outros, e das nossas
comunidades, no decurso da derradeira terça
parte do século.
Purnam assinala que não foi só a prática organi-
zada de bowling que declinou. A filiação em orga-
nizações de todos os tipos diminuíu cerca de 25%
desde os anos 70. Nos EUA, as associações de pais,
a F~deração Nacional de Associações Femininas,
a Liga das Mulheres Eleitoras e a Cruz Vermelha
passaram, desde os anos 60, por um declínio do
número de filiados que ronda os 50%. Este soció-
logo refere que em 197 4 um em cada quatro adultos
oferecia-se como voluntário para associações como
as citadas; hoje em dia, esse total está próximo de um
J
em cada cinco. A par deste declínio da participação
em organizações, há um número cada vez menor
de norte-americanos que afirma socializar com os
seus vizinhos ou considera q~~ a maior"parte das
pessoas são confiáveis. Tais declínios nos níveis de
participação cívica, nos laços de vizinhança e nos
níveis de confiança têm sido acompanhados, de um
modo geral, pelo declínio da participação na vida
democrática. Os níveis de participação nas eleições
930 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS
presidenciais e parlamentares dos EUA diminuíram
consideravelmente desde o seu máximo registado
no final dos anos 60 - embora renham aumentado
novamente durante as eleições extremamente pola-
rizadas de 2004, que opuseram John Kerry a George
W.Bush.
Há sem dúvida muitas razões para este declínio.
Por um lado, as mulheres, outrora activas nas orga-
nizações de voluntários, têm mais probabilidades
de ter um emprego do que no passado. Por outro
lado, as pessoas estão cada vez mais desiludidas
com os governos e como tal menos inclinadas para
pensar que o seu voto faz diferença. Para além disso,
as pessoas passam agora mais tempo em trânsito
nos transportes públicos, o que consome o tempo
e a vontade que poderiam ser dispendidos nessas
actividades cívicas. Porém, a principal razão para
tal declínio da participação cívica é, nas palavras
de Putnam, muito simples: a televisão. As muitas
horas que os norte-ameriéanos gastam, sozinhos,
em frente ao ecrã da televisão substituíram as horas
de que dispunham para o seu envolvimento social
n;t comunidade.
Verifi.car-se-á o mesmo declínio do capital social
pelo Mundo fora? David Halpern (2000) docu-
mentou a estabilização ou um aumento dos níveis
de capital social na Suécia, na Holanda e no Japão,
enquanto na Alemanha e na França estes indicado-
res eram mais ambíguos. Todavia, Halpern conclui
que o capital social decresceu significativamente,
ao longo· das últimas décadas, 'ifõ'Rêiriõ.Uiiiâ.õ; na.
Austrália e nos EUA. Olhando para a Europa e para
o Mundo, os dados que apontam para um declínio
do capital social são mais ambíguos do que aqueles
que se referem aos EUA.
Analogam~m~.. se .o número de eleitores que
votam é indicador de um nível baixo de capital social
- e existem muitas razões que explicam as diferenças
na participação eleitoral -, então alguns escrutínios
recentes demonstram que muitos dos países desen-
volvidos não estão a sofrer nada que se compare ao
declínio registado nos EUA. Por exemplo, nas elei-
ções presidenciais francesas de 2007, foi estabele-
cido um recorde de participação eleitoral, em ambas
as voltas, de 84%. Na verdade, a Europa Ocidental
tem desfrutado, desde 1945, da média mais elevada
de participação eleitoral- contabilizada em 77%-
e a América Latina a mais baixa- de 53% (IDEA,
2007). O lnternational Institute for Democracy and
Electoral Assistance assinala que, em termos globais,
a participação eleitoral aumentou de modo estável e
gradual, no período entre 1945 e 1990, de 61% nos
anos 40 para 68% nos anos 80, com um decréscimo
para 64% a partir dos anos 90. Por isso, este não é o
retrato simples de um declínio contínuo conforme
defende Putman.
Novos laços sociais?
O estudo de Putman levanta algumas questões
pertinentes relativamente à participação social e
à solidariedade, mas não serão as suas conclusões
excessivamente negativas? Estudos como aqueles
que este sociólogo levou a cabo podem reflectir, de
múltiplas formas, as preocupações e as ansiedades
identificadas no final do século XIX por sociólo-
gos como Ferdinand Tonnies e Émile Durkheim.
Tonnies, em particular, considerava que a cultura
industrial e a urbanização tal qual se verificavam na
Alemanha destruíam os laços sociais duradouros e
. davam origem a uin agtegãdõ -a e in3rv1düôs'àes1o~--c-·a·-_ --··--
dos com poucas relações reais entre si. E, no entanto,
a sociedade em modernização desses tempos, que
tanto preocupava Tonnies, é agora, para Putnam,
o modelo de uma forte solidariedade social quando
analisada à luz das mudanças sociais mais recentes. · ...
Estará Putman a descurar algum aspecto? Alguns
sociólogos que se debruçaram sobre as novas tecno-
logias de informação e de comunicação (TIC)
acham que pode muito bem ser esse o caso.
-------------···---· ··- -·-···-···--- -~··--- ·~-·-- -··------ ·-- --·----~·-- ···-·-------·----
Pensar de um modo crítico
Com base na pesquisa referida a seguir, que
razões levam os jovens a utilizar os sítios de
redes sociais? De que modo interpreta os
dados desse estudo? Será que ele reforça a tese
da «perda de laços comunitários», ou sugere
antes que estão a ser construídas comunida-
des em linha? Poderão algum dia estes rela-
cionamentos virtuais ser tidos como equiva-
lentes às relações de amizade estabelecidas
face a face?
O crescimento rápido das novas tecnologias de
informação é espantoso (tal como verificámos no
Capítulo 2), e elas estão cada vez mais incorpora-
das nas nossas rotinas diárias, tanto em casa como
no local de trabalho (Kraut et al., 2006). É esta,
também, a conclusão de um inquérito organizado
em 2007 pela MTV Networks/Nickelodeon, diri-
gido a um universo de 18 000 joverts, com idades
compreendidas entre os oito e os 24 anos, de 16
países - incluindo a China, o Japão, o Reino Unido,
os EUA, o Canadá e o Méxko."O-íriqü'éritõ .. àescõ::·
briu que «os jovens não concebem a "tecnologia"
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 931
como uma entidade separada - ela é uma parte orgâ-
nica das suas vidas ... Falar com eles sobre o papel que
a tecnologia desempenha nas suas vidas seria como
falar com os jovens dos anos 80 acerca do papel dos
baloiços dos parques e do telefone na sua vida em
sociedade- é invisível» (Reuters, 2007).
As tecnologias da informação também já não
estão limitadas aos países desenvolvidos e relativa-
mente ricos. O uso de telemóveis, por exemplo, atin-
giu a cifra de 3250 milhões em 2007, o que equivale
a metade da população mundial, e a procura deste
equipamento está a crescer exponencialmente na
China, na Índia e em Áf~ca (~.vww.telecomasia.net,
2007). Na realidade, o mercado deste equipamento
onde se verifica um maior crescimento é o africano
(ver Figura 18.1). A «taxa de penetração» - o
número de ligações telefónicas comparado com a
dimensão da população - deste produto em África,
partindo de uma base reduzida, alcançou 21% no
início de 2007, com cerca de 200 milhões de liga-
ções. O número de ligações telefónicas através de
telemóvel cresceu, só no ano de 2007, 38% - um
aumento anual superior ao verificado no Médio
Oriente (33%) e na Ásia em torno do Pacífico
(29%). ~al será o impacto destas tecnologias na
vida social?
932 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS
91% 9%
82 18
72 28
49 50
17 83
,,, . "'' , .. "'
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 933
· vezes maior pára f~zê-lo com o. objectivq de
nàmoíisc~ algu:~tíi .do • que ~s r.apií;i~gas de,sse
.. grupo ed.rió;29%db~r~pázes alitw~ú:.ari:J.-ho,
·em contraste cob:i :os.l~% d~ ràp.àrlgas rn,ais
vcÍhas que o à·~pna~: . . ·
Como é queos adolescentes comunicam com os seus amigos
utilizando as redes sociais em linha
Percentagem de adolescentes utilizadores de redes sociais que:
Publicam mensagens na página ou no mural de um amigo 84%
Enviam mensagens privadas a amigos através dos sistemas das redes sociais
Publicam comentários em blogues de amigos
82
76
Enviam um boletim ou uma mensagem colectiva a todos os seus amigos 61
33 Dão toques, piscam o olho (wink), oferecem e-props ou kudos aos seus amigos
Num··estudo·-recente-sobre··a·utilização das tecno-
logias da informação e da comunicação ( telem6-
veis, Internet, correio electr6nico e redes sociais
em linha), Deborah Chambers (2006) analisou as
mudanças sociais identificadas por Putnam dos.laços
familiares·· razoavelmente estáveis e fixos, e relações
de vizinhança e comunitárias, aos laços mais volun-
tários e fluidos. Para Chambers, estão a ser gerados
novos padrões de associação e novos laços sociais
em torno de ideais como a «amizade», alguns dos
quais são mantidos através das redes possibilitadas
'; .·
:·. -,;'. ,-
pelas tecnologias da informação e da comunicação.
Esta investigadora afirma igualmente que se \Çl'iam
outras formas de relacionamento social com o apare-
cimento de novas identidades sociais entre grupos
anteriormente marginalizados- como as «comtmi-
dades homossexuais» - e de espaços seguros para a
exploração do «eu».
A criação de comunidades «virtuais» em linha
e de redes de amizades, por meio da comunicação
constante com telem6veis, afigura-se bastante dife-
rente das comunidades tradicionais, que assenta-
934 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS
'í--J'orte de África·
~ Àfriêa ·ocidental
I :;~:--·~ .J Áfrlq~ C~ntràl.·
I:::~Ji~:I·Afríça briJrit~l
.• l.AJ~~~.SL~:§~n: .·· ..
'.-\~' ;·;~~:)~!' >~ ' ~. ' ',
O, • . ioo.:. :.100Q l.IO<l . :ZOOOim
,§00 , • , 1000 miiH
60%
o
: ...... ,
Gráfico 18.1 Crescimento anual do número de ligas:ões telefónicas estabelecidas através de telemóvel, em 2006, por região africana.
Fonte: Wirclcss Intelligcncc, 2007.
vam em relações estabelecidas face a face - mas esta
característica torna-las-á menos eficazes na criação
de laços sociais .mediados pelo capitalsocialde liga-
ção? Muitos protestos ambientalistas, por exem-
plo, são organizados e levados a cabo recorrendo à
informação em linha, às mensagens de telemóvel
e ao correio electrónico. Muitos dos movimentos
sociais contemporâneos também se envolvem em
acções directas 'éfu .. vez dé trillütrem o caminho da
pressão política convencional através das vias habi-
tuais. Sendo assim, poderemos então estar a assistir
não tanto ao fim da democracia, mas antes ao surgi-
mento de uma nova forma democrática de fazer
política que assenta agora no princípio da participa-
ção e não tanto no da representação. Caso assim seja,
. isso poderá explicar -em parfe a fraca pãrtiCipãÇão'
eleitoral que Putnam considera ser um indicador do
declínio do capital social.
A informalidade, a mera rapidez da comunica-
ção e as distâncias geográficas envolvidas nas rela-
~ôes virtuais geraram preocupações e ansiedades nos
meios académico e governamental, embora a tese do
,, colapso da comunidade» se afigure um exagero.
Chambers vê na procura de relações de amizade um
indicador de uma busca de novos lacos sociais assen-•
res na igualdade e no respeito mútuos e não o de uma
desistência da comunidade.
Parece-nos óbvio que as novas tecnologias da
informação e da comunicação acarretam, eventu-
almente, novos problemas sociais. Na opinião de
Chambers, apesar dos aspectos positivos da cria-
ção de redes sociais, estas novas formas de relação
social poderão não oferecer uma base adequada
para garantir relações que impliquem a prestação de
cuidados e a afectividade - a maior parte das quais
exige um relacionamento físico próximo e compro-
missos duradouros. Existem escolas e encarregados
de educação que estão igualmente preocupados
com as redes sociais e os telemóveis no que toca a
receios sobre abusos de crianças por adultos e às
possibilidades acrescidas de estas serem molestadas
- com recurso a mensagens de texto, por exemplo,
ou filmando e divulgando em linha as agressões. Em
2007, o MySpace, operador que lidera os serviços
de redes sociais em linha, admitiu que havia detec-
tado mais de 29 000 agressores. sexuais .entre.os seus
180 milhões de membros (Media-Guardian, 2007).
Embora seja um número relativamente reduzido
quando comparado com o número total de utili-
zadores deste serviço, torna-se óbvio que o meio
e.l!l .. ~~11.~~2.-~.'E: .. .ml!..c!.~.!!Ç~-~<:_e~~rada e relativamente
anónimo, coloca agora problemas imponderáveis e
muito diferentes aos reguladores e às autoridades.
Os investigadores terão de analisar estas «comu-
nidades de amizade» emergentes com um olhar
distanciado, o mesmo que distingue a sociologia
do jornalismo ou de outras formas de comentário
social; isto se os sociólogos pretenderem explicar as
razões que levam o bowling- a pedra-de-toque de
Putnam - a perder terreno para as redes sociais em
linha enquanto cadinho onde se fundem e tempe-
ram as amizades e as relações.
-
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 935
Conclusão
As organizações e as redes às quais as pessoas perten-
cem exercem uma enorme influência sobre as suas
vidas. Tal como vimos ao longo deste capítulo,
os grupos convencionais parecem estar a perder
influência no nosso quotidiano. Por exemplo, os
estudantes de hoje parecem muito menos interes-
sados em associar-se a grupos cívicos e organizações
- ou até mesmo votar - do que os seus pais; um
declínio de interesse que pode significar um grau de
comprorry.isso com a comunidade reduzido. Alguns
sociólogos estão preocupados com o facto de este
declínio poder traduzir um enfraquecimento da
sociedade, ou poder vir a ter como consequência a
instabilidade social.
Como vimos, a globalização da economia e as
tecnologias de informação estão a redefinir aquilo
que é a vida em grupo sob formas que começam
agora a ser sentidas. Por exemplo, é muito mais
provável que as gerações mais velhas de trabalhado-
res façam as suas carreiras num pequeno número de
organizações permanentes e burodáticas; e é muito
mais provável que as gerações mais novas venham a
fazer parte de um maior número de organizações em
rede e «flexíveis». Actualmente, uma parte signi-
ficativa das filiações em grupos realiza-se através da
Internet ou de outras formas de comunicação que
estão em desenvolvimento. Será cada vez mais fácil
para pessoas com gostos semelhantes entrarem em
comunicação urnas com as outras em todo o planeta,
criando diversos grupos dispersos pelo mundo
inteiro cujos membros podem nunca vir a conhecer-
-se pessoalmente.
. .. ··---·- .. J
936 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS
De que modo estas mudanças poderão vir a afec-
tar a qualidade das relações sociais? Ao longo de toda
a história humana, a maior parte dos indivíduos inte-
ragiu exclusivamente com aqueles que lhes estavam
mais próximos fisicamente. A Revolução Industrial
-que facilitou a emergência de burocracias extensas
e impessoais onde os indivíduos se conheciam mal
uns aos outros, quando se conheciam de todo - alte-
Sumário
1. Muitas. organizações modernas apresentam,
de certa forma, uma natureza burocrática.
À burocr~cia implic~ uma hie~arqliização betn
definida da autoridade, regras escritas que
orientam a conduta dos funcionários e a sepa-
ração entre as funções do fl!ncionário no seio
da otgapl.za~ão e a sua :vida <<no .exterior». Os .
membros das organizações rião possuem os
recursos :materiais ,col:n que trabalham .. Max
We~çr def.e:ncieu que a bun:>cra~ia moderna
é um rrieio :extre.IÍla.tJ;l.e~te: efi~az'·de ~rganizar .
um grande nÚln~ro de.pesso~s.e.ássegurar .que
a~ .d$!c;J~g~s :S~9 .. t9mad3,S. de .. ª-ç<?J:cl() .c,ó111 cri~é~
rios comuns ..
rou a natureza da interacção social. Actualmente,
a revolução da informaçãoestá a alterar, mais uma
vez, a natureza da interacção social. Os grupos e as
organizações do futuro poderão vir a proporcionar
uma nova percepção da comunicação e da intimi-
dade social ou podem vir a aumentar o isolamento, a
distância social c os problemas sociais.
3. Os contextos físicos das organizações í1:1flu~~~- ...
ciam significativamente as suas característi.., ·
cas sochtis. A arquitectura das Organizações ·:.
modernas está estreitamente rdaciona:dà ·
com a vigilância enquanto meio de assegurar .· :
a obediência dos subordinàdos àqueles qúç·. • :
qÇ!t~m t~_ma p9sição de auto.r.i4_~dé .. A Y..~S.t .. :: ..
lância consiste na supervisão das activida~e.s ·. ·
dos indivíduos, bem corno na acumulaçãq_ ~~· ·
dados e na manutenção de .ti-cheiros ac~kc:i ·.
.deles. A auróvigilânéia. diz respeito. ào m949_··:··.
como os indivíduos limitam o se~ c6mpC>~ta~:
menta quando partem do pressuposto deq~;~ ....
P
. odem ~St~r sob ~igiÍândá: .. . . . , .. . . c·'~":'".'•·'
' -..;
· 2. · AS. r~des i'ilforrnais í:enderri. a desenvolver-se 4. As organizações rnoder~as des~nv:cilvel:á~-:.·, · ·
··· .. ·~ ·:·ã·.~·ª"ó~~?s.n,í_Veí~rc~tO. ci:entro clãSorga-fflza-::-··-·------~"'se'COm<r1-nsdt:u-içêes--màlclàcl~s-pél0-g~Mr~:·"··
.ções como entre elas~ O estüdo. d.~~tas Ügaçõe.s · As riiulhéí:es foram tiadiêionàlrij~i).té sêg~é::::
·- irrf.o._Ç-~~i§ ~ -~ª.9.JWPQJ;~~n.~~-:gll~~t:().:<:> .. ~~J:ilqo .. gadas p3:ra:c;enas categoria~ ocup~ciona_is.qqe ...
das· características formais que Weber ap~o~-- .. ~p~ia~ ~ ~áp~~idadê dos holt1éns-parã .. âvã,"~Ç~.- ~: ·
fundou. n;l,s suas carreiras. Nos últilnos anos, as m:ulhê-
............ -,--............. ____ .... : .... _ ....... - ... -... ________ ·····-· ... _ ........ ~~-s _t~-~- .?.:.~~-~~? .:~ maior ~úwerp p_q*g~s,_
~' • "'·•- •. .-.--. ••-.,••·•Oro.o ... ,. .... _ •;••• o•• ....... , -":'"'''\~·-.":" ..
técnicas e de gestão, mas há quem acredite que,
uma vez em cargos de topo, terão de adoptar
um estilo de gestão tradicionalmente mascu-
lino de forma a serem bem sucedidas.
5. As grandes organizações começaram a reestru-
turar-se nos últimos anos de modo a torna-
rem-se menos burocráticas e mais flexíveis.
Muitas empresas ocidentais adoptaram aspec-
tos dos sistemas de gestão japoneses: maior
consulta aos trabalhadores de escalões inferio-
res por parte dos gestores executivos; sálários
e responsabilidade estabelecidos de acordo
com a antiguidade; e; finalmente, avaliação do
desempenho colectivo em vez do individual.
6. Duas formas importantes de organizações
globais são: a organização governamental
internacional ( OGI) e a organização não-
-governamental Í).1tern~cional ( OGNI).
Ambas adquiriram um . papel i{npo~tante
e cresceni:~ . ii o rriundo . contemporâne.o. As
organizaçqes governamentais internaCionais
- particúlarmente as N~ções pnidas -:- p'o.clem
vir -~- ~()II}_ªr~s_e. à..C.E2~~-~-9~garij~~-~Q~Ít.~E~~~--- .
no futui'~.
7. A econóinia i:riódérrt?- e dorilinada pelas gran-
des çmpte~as. ~ndo ·uma dete'ri:b:I~ada
enipré~iã p6sstÚ 'ümà· ·in:fiü:~n:cia dominante
.. · · · ·----.. ·-nu~~~"jrr'ª~s:tJ:i~•~d:#;~e·~que ·está:· numa
posição de :monopÓlio .. ~al}do um c~rij~to
de ~mp!:çs.~s pÇ>s.s':!-Lum?-. t.al-infltiênçia, ·1:r~t.~
·se de uma situação de oligopóli~.As empresas
gigantes têm um ·impacto profundo na vida
ga~ pç~s.<>..a~. As empf.esas t~ansnacioi:iais, ou
multinacionais, . operam .independentemente
das fróriteir~s nacionai~ e as maiores exercem
ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 937
·um poder económico tremendo. Metade das
100 maiores unidades económicas não é cons-
tituída por países, mas por empresas privadas.
8. O estudo das organizações e das práticas de
gestão não tem sido suficientemente teori-
zado. Contudo, os estudos críticos da gestão
e a teoria do actor-rede, com raízes na teoria
social e nas ciências sociais,. são duas das pers-
pectivas teóricas mais recentes e levaram a
diferentes formas de pensar acerca da gestão e
da organização.
9. As novas tecnologias da informação estão a
mudar a forma como as organizações operam.
Muitas tarefas podem agora ser realizadas elec-
tronicamente, um facto que permite às orga-
nizações transcenderem o tempo e o espaço.
Variadíssimas organizações operam agora em
grandes redes, em vez de o fazerem em unida-
des auto-suficientes.
10. Entende-se por· capital social o conheci-
mento e as relações (ou <<contactos») que
..p_e_qn.J.~~!h .. ~<?S ind~víduo~ cooperar llfiS tom
os outros com vista ao benefício mútuo e ao
incremento da sua inflJ.Iência. Alguf!.s ciençis-
tas sociais defendem que o capital soci~l dimi-
nuiu a partir da década de 70 do século XX
'd d . ( - um processo cons1 era o preocupante por
revelar uma diminuição da participação cívica.
Cont~do, os estudiosos das novas tecnologias
da infórmação argumentam que estas tecnolo-
gias podem estar a contribuir para a ernergên-
dà .Je novas formas de sociabilidade e novas
relações sociais - as quais devem ser analisadas
nos seus próprios termos.
1
'.
...
938 ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS
leituras adicionais
O presente capítulo abrange um conjunto
diverso·de materiais, mas as referências següin-
tes poderão revelar-se introduÇões úteis a
alguns d~~ tein~s ~entrais aqui abordados.
tente ler Manuel Castells nas suas próprias p;Ua-
vras, nomeádamehte no séu livro The !ntefnet
Galaxy: Riflections on the .Internet, Business
and Society (Oxford, Oxford University Pre~s,
2002).
-"-...;\ .,. . .- .. ·:· ., -•' ..
00,, ','""": ":-" , •••• .,. ... _~··-", ··..--~··:-"7"'~~-:-~~~7'..__~~~:-::-:-•:---:-400,< ........ ,-... :-..,_~-···~•.: ......... -.-..-~.; .. ':'" ,-o •: -·"~~·• .. • -Y, ·- ooo•O-k .... ,.~·- .,/, ·-~-:·-···.-•"'!'; ___ 00~;~.:.-.:~-:- .. ·~~:·~;7_' __ : •. ~ .. '~:"''' • O
,,. ;
.... •' .. . ,..,, ,, . ~ .. . ,. .. ... .
Ligações à Internet
Centro para a Sociologi;:t dás Organizações
(CSO), sediado em Paris, França:
www.cso.edu/home.asp. .'
Sistema informativo de recursos em ciências
sociais sobre organiza,ções - sediado .lla
Univérsidàde de Amesterdão~ Hplanda:
www.sociosite,net/ topl.cs/ organization.php
Comité de Pesquisa eni ÓrganizaçÕes da
Assqciação InternacioP;!lÍ de Sociológia:
www.isa-'sociology.org/ r~l i.htm
,. ' ..... -~~·~·- .. ·~··-~~~-----·-· .. -~··--·---- .. -~·-·····- .,, '.
-·
·ORGANIZAÇÕES E REDES SOCIAIS 939 "'
Electronic Journal ofRadical
OrganizationalTheory (EJROT),
sediado na Universidade de Waikato,
Nova Zelândia:
www.mngt.waikato.ac.nz/ ejrot/
Um sítio electróriico com tudo aquilo .
que necessita de saber sobre Michel
Foucault, patrocinado pela Univetsida<{e de
Tecnologia, em Q!!,çenslin.d, Biisbane:
www.michel~foucaul~.com/
Um portal com recursos sóbre:capital social,
patroCinado pelas Un.iver.sidades dé Sieiia e
Roma, Itália:
www.socialcapitalgatewar.org/ .
··-------·-------
·---·---··-.... >o •
Capitulo 20
O trabalho e a vida económica
O que é o trabalho?
A transformação da organização social do trabalho
O taylorismo e o fordismo
A globalização e o pós-fordismo
O trabalho em mudança
O declínio dos sindicatos?
O género e a .« feminização do trabalho»
As mudanças na divisão doméstica do trabalho
A automatização e o debate sobre as competências
O fim do «emprego para toda a vida» e o advento
do trabalhador polivalente
A precarização do trabalho, o desemprego
e o significado social do trabalho
O significado social do trabalho
O aumento da precarização do trabalho
O desemprego
· Ccfíí"Ciüsão·: .. à<cc(irrosã'o -do carácter» ?
Sumário
Leituras adicionais
Ligações à Internet
Trabalhar num contexto fabril como o que·figura na imagem é hoje uma experiência muito menos frequente para os trabalhadores
nos países desenvolvidos. · :~ '
' I'
I
i
' -
Capítu~o 20~ O trabaUt~o e a vida económhca
Jockey executou o seu primeiro cogumelo de
bronze cinco minutos depoisdas seis de uma manhã
de Janeiro de 1885. O capataz ensinava-o: «Agora,
monta bem a barriga do cogumelo no torno, coloca
os pés firmes no chão c arranca-a na direcção
deles». Jockey arrancou-a. A máquina disparou,
fazendo um ruído, e uma válvula de bronze em
forma de cogumelo destinada a um motor movido
a vapor caiu para uma caixa. «~·mtos cogume-
los tenho de fazer?», perguntou inocentemente o
rapaz. «~antas estrelas há no céu?», perguntou o
capataz, saindo depois.
Jockey tinha então 15 anos de idade. O emprego
representava uma promoção para quem servia chá e
distribuía recados numa fábrica em Salford, perto de
Manchester. Jockey não conheceu outro emprego
durante 61 anos. Ao fim dos primeiros anos, aderiu
ao sindicato. ~ando tinha 25 anos de idade, as
placas do soalho sob os seus pés cederam. ~ando
o marceneiro veio consertá-las,Jockey desculpou-se:
«Tenho de forçar na direcção dos pés, percebe? Isto
desgasta-se». «Não precisas de te justificar», disse
o marceneiro. «Não foi o meu soalho que se estra-
gou!». As placas partiram-se novamente em 1907
e, depois, em 1916. Em 1918,Jockey tirou três dias
de folga. «Gripe espanhola», desculpou-se; «Não
conseguia manter a cabeça erguida!». Em 1935,
tirou mais tr~s. dias quando a sua mulher faleceu.
Durante os 61 anos em que trabalhou para a compa-
nhia, faltou cinco dias ao trabalho.
Com 76 anos de idade, pouco depois do fim da
Segunda Guerra Mundial e uma semana depois de
ter concluído a sua milionésima válvula, o desgas-
tado soalho desabou novamente. «Era mesmo do
que eu estava à espera!», afirmou. Largou o torno
e dirigiu-se ao capataz, um homem suficientemente
jovem para ser seu neto. «Termino no fim-de-
-semana, George», disse entre o ruído das máquinas.
Os homens compraram-lhe uma poltrona quando ,
saiu: «E quando o assento estiver gasto», afirma-
ram, «enviamos o marceneiro para colocar uma.
placas por dentro!». Sexta-feira, ao final da tarde, o·
capataz apresentou-o a um novo aprendiz: «Podes.
ensiná-lo?», perguntou. Jockey sorriu e disse para
o rapaz: «Senta-te aqui. Não é complicado. Aperta
bem a barriga contra o torno, assenta os pés no chão
e arranca-a na direcção deles».
Desde que Robert Roberts ( 1971) descreveu a.
vida de trabalho de J ockey, na sua:. análise ........ ,,,.,_n .,
de histórias de vida num bairro pobre de
durante o primeiro quartel do século XX, o
lho sofreu mudanças enormes. Para a maioria
pessoas nos países desenvolvidos, a vida de
de Jockey é irreconhecivelmente diferente da
Este capítulo analisa a transformação do
nas sociedades modernas e observa a estrutura
economias modernas. Em seguida, serão
nadas algumas das tendências recentes no
do trabalho. Em primeiro lugar, contudo,
mos concentrar-nos no que se entende pelo
«trabalho».
O que é o trabalho?
Podemos definir o trabalho, remunerado ou
como a realização de tarefas que envolvem o dispên-
dio de esforço mental e físico, com o objectivo
produzir bens e serviços para satisfazer ur;;,_ç~,,u,, .......... ,
humanas. Uma ocupação ou emprego é um
lho efectuado em troca de um pagamento ou
regular. O trabalho é, em todas as culturas, a
da economia. O sistema económico consiste em ·
instituições que tratam da produção e distribuição
de bens e serviços.
,Peüõsar de um modo crítico
l\:nsando nas suas próprias escolhas, que tipo
lk trabalho remunerado exerce ou que tipo
,ic carreira pretende seguir? O que o alicia
nesse tipo de trabalho? Por t}Ue razão? Será
,l •;ua escolha influenciada pelo estatuto social
<<Ssociado ao trabalho e à carreira, ou pela
satisf~1ção intrínseca que retira do próprio
crabalho?
Consideramos muitas vezes como trabalho
apenas aquele que é remunerado, como a própria
noção de estar« sem trabalho» implica. No entanto,
esre é um ponto de vista muito simplista. O trabalho
não remunerado (como o trabalho doméstico ou
a reparação do próprio carro) faz parte da vida de
muitas pessoas e representa um enorme contributo
para a continuidade das sociedades.
O trabalho voluntário para obras de caridade ou
outras organizações constitui outra forma de traba-
lho que desempenha um papel social relevante. Este
·.· · tipo de trabalho cobre amiúde domínios negligen-
ciados pelas entidades públicas e privadas que forne-
cem bens e serviços, aumentando assim a qualidade
de vida dos indivíduos.
. Muitos tipos de trabalho não se inserem nas
~.:..-.--~~tt~~orias ortodoxas do trabalho remunerado. Por
.: exemplo, mui~; ·d~-~~;·b~lho realizado na economia
informal não é registado directamente nas estatís-
::··· ricas oficiais de emprego. Por economia informal
emendem-se as transacções realizadas tora da esfera
do emprego regular, que implicam, por vezes, a troca
de dinheiro por serviços prestados, mas que também
implicam frequentemente a troca directa de bens ou
serviços. A pessoa que vem a nossa casa consertar
,. uma ruptura na canalização, por exemplo, pode ser
paga em dinheiro sem haver recibo ou factura dera-
__________________ ,., ............. .
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1007
lhada do trabalho efectuado. As pessoas trocam bens
«baratas» - quer dizer, roubados - com amigos
ou sócios em troca de outros fàvores. A economia
informal inclui não apenas transacções «ocultas»
de dinheiro, como muitas formas de auto-aprovi-
sionamento que as pessoas efectuam em casa c fora
dela. As actividades efectuadas pelos próprios, as
ferramentas c os aparelhos domésticos, por exemplo,
proporcionam serviços c bens que de outra forma
teriam de ser pagos ( Gershuny e Miles, 1983 ).
Se observarmos a experiência do trabalho numa
perspectiva globtd, h<1 efectivamente grandes dife-
renças entre o mundo desenvolvido e os países em
desenvolvimento. Uma das diferenças mais signi-
ficativas reside na persistência da agricultura como
principal fonte de emprego na maioria dos países
em desenvolvimento, contrastando com a pequena
percentagem da população dos países industria-
lizados que trabalha no sector agrícola. De facto,
como iremos observar mais adiante neste capítulo,
a designação «países industrializados» tem vindo
rapidamente a ser abandonada com o crescimento
do emprego no sector dos serviços nessas socieda-
des. A experiência do trabalho remunerado é obvia-
mente muito diferente nos contextos rurais dos
países em desenvolvimento c nos meios empresariais
do mundo desenvolvido. De igual modo, enquanto
nos países desenvolvidos há muito que o horário
laboral, a saúde, a segurança c os direitos dos traba-
lhadores são protegidos por um conjunto de leis do
trabalho, nos países em desenvolvimento operam,
em contextos menos regulamentados «fábricas
clandestinas» onde os trabalhadores (entre os quais
muitas crianças) trabalham muitas horas em troca
de muito pouco dinheiro (Louie, 2001). Esta divi-
são global do trabalho traduz-se na venda da maioria
desses bens, com custos de produção tão reduzidos,
aos trabalhadores relativamente prósperos dos países
industrializados.
1008 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA
Os padrões de emprego são também bastante
diferentes em todo o Mundo. Na maioria dos países
desenvolvidos, a economia informal (por vezes
designada como «mercado negro» ou «econo-
mia paralela») é relativamente pouco expressiva
quando comparada com o trabalho regulamentado,
ainda que muitos dos trabalhadores migrantes
ganhem a sua vida dessa forma. No entanto, este
padrão inverte-se nos países em desenvolvimento
onde a economia informal floresce assente em mão-
-de-obra barata na flexibilidade imposta aos traba-
lhadores. Em muitos países em desenvolvimento, a
experiência de trabalho da maioria dos indivíduos
ocorre no sector informal, frequentemente consi-
derado a norma (ver «Sociedade global 20.1 » ).
Ainda que a sobrevivência de muitos dependa do
trabalho informal, a despesa pública é afectada pela
perda de receitas fiscais,o que, como alguns defen-
dem, entrava o desenvolvimento económico. Em
suma, não é apenas a experiência do trabalho que
é potencialmente diferente nas diversas regiões do
globo; é também diferente o próprio significado do
trabalho para os indivíduos.
Exercer um trabalho remunerado é importante
por todas as razões já apresentadas, particular-
mente no mundo desenvolvido. Todavia, a categoria
<<trabalho» é muito mais abrangente, incluindo 0 · ·
trabalho exercido na economia informal. Em geral,
o trabalho doméstico - tradicionalmente exercido,
sobretudo, pelas mulheres - não é remunerado,
apesar de ser amiúde um trabalho muito duro e
extenuante. Vale a pena analisar mais aprofunda-
damente o trabalho doméstico através dos estudos ··
clássicos de Ann Oakley dedicados a esta temática· ·,
(ver «Estudos clássicos 20.1 » ).
Pensar de um modo crítico
~e memória guarda da divisão sexual do
trabalho doméstico que conheceu na infân-
cia? No que toca à execução de tarefàs domés-
ticas, que memórias possui dos seus pais, tias,
tios e avós? As coisas mudaram muito com
a nova geração? ~ais dos seguintes aspec-
tos sofreram mais transformações: as tare-
fas domésticas, os cuidados com as crianças,
o exercício de um trabalho remunerado, o
acompanhamento de familiares doentes, etc.?
~e aspectos se têm revelado mais resistentes
à mudança e qual a razão para isso?
"--~-· _·. -·. --~--·--· .. ··-----------.. -·-----· ......... , ........ -···--·---· '""'"''' ......................... ·-· ·······--.................................................... -....... _______ , __ _
-'·sôól~dàtü~-;:'~-lqbtn 2o.1·À-de··"êri·e~ência da· Ni ·eria ·aa ecõnolrmúnformal ~ · -- · .::::~'1·
. ~iifJj~:~j~l\~l~itãi~;;ni&reàtr(,. ··•··· · ..
9
· ~~ - ·~" •• :.L~:c_· : .... .::;:;.~-- ·?i • ·
,neg.ro · . · ,~:~
. · ·-~: .. :\ , <· ·:; ·. · : · ·. · • · · que ocorre na economia informal.ou no mercado:: :~J
. , .. E~,~~~~;q~~-~Ii-~ia~d;,l-:l:~:igêria--r-epr~ente ... ···-negró~~ :É· ~a ·economi:i·mfo-rmã:Í::qu~·:g~á"~rl~tf:r~i~i~
. 52. H2Rm~~~_g~~-Ê.~l~g!~f:9Ê! 2:.5ÍIL~·-~::~9rn,a. ~~ .4~s. . do~·.nigc:tiw9s.:gafihP. ª .sua.;:v.id.a :Çomo :v~nd~.d~";~)~~ . ·
ma~Q.r~se,c~.ti.~miasaeMri!:a.Noentahto,estevalor res de rua, condutores de pequenos· autocarros,: ::.t
não in;.ch.1i'gr~n4e part~.dá ac~ividade económica, cambistas ou corn.erciantçs. '
.... . :: ... '':·-~·--'•:;·:.t .. .-·~·~····· .. ;, ..... ...... , . . .. ····"'~ .. ~
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1009
"'
1010 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA
.· Aj~:~t§p~Çt_ht'ii,de Anr.a Oakl~y sobre o 1rab~_lhQ,
.. , ·-:~ :,_~;~:> :) · · .... _._ .. · · , . -~~n:f~~jÇ(): ~ o .pap~l·d~ dona.,de-casa ·
.· .. :.,·;.-,~;. :·:<:-,:<·::!'.:·. ' ': :··.:'.'·~~~,!~· .. /::::.~:~{.~:~_:>·' ··: ..... ~. . . ' ' .
. ·1:~i~~~:t~i,c~ d~!J!~~~~~~~~~;;.,' ···
. :T~davia~_pr~s~upostos tão arraigadós
mxP.te ·abatados pela seguddp. vag~AP
veio de~afiar esse. alheC+ffientc(
.. , .. :\:.à .vida NR ~~~,··.'! "\~:-:~.,.~.
i . .
{.uma esfera 4a cqW,p.·.~t~IJ,ciª-.· d~. g#!Ih~r.;?. bnn .
;~:'bakley analisa·estas qti.e~tõe.s. ~íngo!~:H~t~~ sqbre
;t~ 'o trabalho· do m:é~tiç~ p\d:>licad()s. ·~rrllfj7~: ·. Th:e
;L~ .~(ldnlogy offlousew~rkii Hous~wife. ·. .
~;~· ~' • ' v" ' • ' '•
.~r;·:
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·,:A expliçaÇiio.~~~Q~k.IE;ly ·
> • • ' ' •• • ·.·.·' ' •
. ·. '
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1011
· dc:;~~nv:olvimentO.. A ca)1ali.zação da el~ctricidade e
do g~s' tornou os fogõ~.s a carvão e a Lerth~ obso-
le~of e às. actividades ~arrio o habituàl ~~chài .da
l~Ahi~·o ·tr~~poit~ d~ çarvão e alimp~ià~~~stitit~
· do fdgã9 fotaq1 em gráhde medida çlimiriadas.- ,
.· -0fodavla;'ú?lciey s~pli~ha-que o ie~pô médio
aÇ!s;peJQ..d.l .. uo. p.elas ,:in,~~,:es :.~o tt~q~q .. :~(>ril~~~ . ·;
I . • . . . ,•' ' '·· '
1012 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA
recompensas que as mulheres retiram do curripri-
inenfO de padrõç:s -de ordem ~ liD:lpç::z;~, padrões
essb qU:e sentem co.m.ç} .. seJoss~m reghtsirhpostas
· por otÚ:rq·s.: Ao contrário d~s homens que ·e;x:eicem
uma profiss.áo, ~s mulhe#s.nãci póder~tàbaridànar
· o •seu. <~lóbli de trabalhq » rió finàl:do tJ.ia ..
. As fófmas de tràbálliô.remtineradà e.n~ô remu-
n~rià~· ~~~t~o estréitá~çiite .F~ladohad~.s~-· ,cofl.lo
demo listrá.· ·.a impwt'â.r'lçia dó .'tnib?lhq · ;d.qmés-
. ti2o ·piti-a):~~on~mi~.~obJ.:Ainda•·qJl~~~g\ímas
. . mtilli~J:Ç{ .~littevistadàs· ·.afifinissêtn~' ~s~J-:~~·a:~ ·sti~~ ~ .
: ,, .. >~ :. ' '.';: :::-~:.·.,:; ''~; ,,, ' .. ~ .. , ··;····' •.. ,.' ' ·: ··, · .. · .. · :~~~
cação da divisão sexual do trabalho
Os críticos defe.Q.diarn que a sua tese u_.-..~;••h ...... ~\..',l.i:j.Y,Q,.~,:
diferenças importantes entre as famíliàS
trabalhadora e as de classé rriédia, em -reta~c;ao
tomada.de decisão e à partilha de recursos.'
respeita à articulação entre trabalho LI_~•.Jl1Ul.l.l,-.!-j
e trabalho doméstico, mudanças sociais . .
têm também levado a colocar ~m questão''·.
tivamente as mulheres trab~a.dàtas
<. ' ; • ' ' ~ 1 ' ,
um ma.tº.l'.: ~~fardo .duplo>> -·r I rn~n"l''.i'i:<i 'hl'l;m
-~erem 'de combi1.1ar o i:ral:>C!lho. reinrullet·aç
9 . dô~éstko: .. ·Ge~sh$-y ~{1~9-Z), ·.
ciefendç q~~ tivir~m lrlgar : . · · · · ·.
ç~~ que a~é. certo pont6 se ....... ~-,!-~· .. ,.,~·~:.··.~~·
. : J,íliri.o :t1a :di$~ibT#çao ~~9 ·- . . .
:O.H~4-a,l,t.:.:i~ij! .. c~.~p.:~~;J~~~.~~t_ç~1'A;~s~~~,}~fi:iÇi~-~; · rtniiÚ:>s·laté~. í>áta:~sté.au}o:r (>· ... , .. ,....,.,... .• .,..
:.SB·fu'B~~~~~~'?li?:.1f:,ª~'i!~~i!í~!~~,:ii~~~t~*~i;t:i·i;~.~iM~· , :_·. 'i:·t~~·:rlo~-~-~~~e~~ :·~~~ :: · ... :.
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1
________________ .........
; S(.' refere às relações de género n~ esfera domés-
tica, Oakley foi porventura de1llasiadq pessimista
_ quanto às previs?es de mu4ança.
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1013
Maís recentemente, Crompton et al. (2005)
revelaram que o processo de igualizaçij.p tem
sido «travado» pelo aumentp da competição
resultante das dinâmicas económicas globàis,
, ; importância CJctual · que pressionam as empresas a exigir maior empe-
nho dos seus (sobretudo homens) trabalhadores.
/ ·O trabalh.o de Anh Oakley exerceu gráride influ- ·
As atitudes face à divisão do trabalho. doméstico
', .. ·.ê1.1cia nos anós 70 e .so ...... d.·o sé.cu ... lo.• XX ... • N. es.:Se perí-. · estavam a tornar-se menos tradicionais, .mas em
{ ·o do, os estudos fetnÍt1i~tis intrbdlli~am a àhor4~- · · · ·
gem sociológ . .Ú::~ d~ .. tJi~~~8,~r#.~~g~~~;p e (~ília; . alguns paJses - iricl~indo no Reino Unido - as
·. · . . · · prdtic.as reais nos. lares na realidade reas. sumiram
Pese embqra aleêtitniq~Çlei/.a,~ ct~tit.a~·m.~k r~·celi~·
.tes, a re.levânçiª·d.a~.~s~àS.1~~~a~ .. $~thi-.~~~e.;·~n~~ ~~p~drão mais tradici~nal. . .. . .
F·' · .. · ... · ;·~···."· :. J':d·.-··.:: :·.·a', .. ·. :.:.· .• ·h' · · · :.· . · · Ha claramente mais pesqmsa. Ç!Jmparatiya ..
· outros, os p:t:~pqps, es~u .. o~ ... e Ge,r~ .. :unY· e.· de . : ... , ... : .- .. . . . , · .. ·· . . . . . . .. . .... ·. · ... ;· ~
S 11. nh · .; · . ':. ·• .... : . . · d. · · ~·d·· ·~ .. :-·" aJazer sobre o Impacto da mudança ec.onóm~fa ,'· u Ivan reco. eGeram:que,, ap,~sa,r _;1s .t;n~ an,- . · . , . . . ··~ . :; .. " . . . · .· · .... , .. ·.
·'··· ·· · · •. · : ·. · · · ' · ·. s .: ; ~~ 1'-'· ' .. · · · . .. • ... ·• · . .·. · · globá.l na divJsao famUiar do trabalho doméstic. o. :;.· cas soctais em curso• ·a mwneres contmuam na .·.::.. . · · · .· . : . · '· · .
f~~ ~enerali~ade, .\!. Ç~f· fu~~ ;~iré~~ ·,d,6~.é.ª:t~~~~- a: s~4 . p?r~m, po q~e t~~aà COll1pt;eensãQ das soÇi~dade~ .
:::;;c<trgo d~ que os hõin~P:~,'Çof.f~,hq~~4o~,~~~ede. . · ·~A~::~~~.liDça.,~qçiaL 9 .tr~balho de An11 Oafl~y
;.l:': Oakley de quÇ,' rÚ~s .. ~p~i,é4~á6rfri·6~~t~.~s,. p,çrsi.~·~ ··. . d~se.!J-volyido n·osan~s 79 aler~PU. os s~ci.~~?~Qs .
[' , tem atitudes e.p~e,$$pP,p~t~~pt9{u~\4@\e,~te~11fa,i::· · .. ·p~r.~ ;a pfcessidade d~ .analisar ~ão ~P!.~fu~~~~a.:.. ,
.;,·::zados acerca .ao·:giief:ciP.,StitU:t·ó ~au:g~ p~ópnà>~· ·. il)eil,t;c· as ..relações na e~fera dóm~stica·quwtp;.é\5 :
W:a~s· ~tilli~t,;~~~i~~lá~~~~$.~ifi&"à~:· ·.·;: · · ,~;-' .. ·~.:··· : ·, ,; .: < · ;~I~çÔ,:f!s ~á: esfe.~~:aó~ ~ab~~ ·~~*~~Ú~~·:·: .: .. · ~ · .: ·. · .. · ·.
.:'-'--· ... ; ... ~' ' .. ~ . . ; .· ...
As implicações do envolvimento crescente
das mulheres no mercado de trabalho na divisão
dos encargos domésticos constituem uma ques-
tão fundamental para os sociólogos. Se a carga de
···:;.;
··, .. •,
~-'---·-·trabalho domésdeo .. não· diminuiu, mas as mulheres
mais distintivas do sistema económico das socieda-
des modernas. O trabalho divide-se em numerosas
ocupações diferentes, em que as pessoas se especia-
lizam. Nas sociedades tradicionais, o trabalho não
agrícola baseava-se em ofícios, cujo domínio perfeito
era adquirido depois de um longo período de apren-
dizagem. O trabalhador executava normalmente
rodas as fases do processo de produção, do princí-
pio ao fim. Por exemplo, ao f~bricar uma charrua,
um ferreiro teria de forjar ferro, modelá-lo e final-
mente montar a charrua. Com o desenvolvimento
da produção industrial moderna, muitos dos oHcios
tradicionais desapareceram, sendo substituídos por
especialistas que operam no âmbito de processos
de produção mais amplos, tal como aconteceu com
·~.
totalmente dedicadas às tarefas domésticas são cada
vez em menor número, então a gestão deste tipo de
trabalho nos agregados familiares tem de ser organi-
zada de modo muito diferente na actualidade.
A transformação da organização
social do trabalho
A existência de uma divisão do trabalho extrema-
mente complexa consritui uma das características
--------~--······· -·· •"' ~·
1014 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA
Jockey, cuja história de vida discutimos no início
deste capítulo. Jockey dedicou a sua vida profissional
à execução de uma tarefa altamente especializada, da
mesma forma que aos seus colegas na fábrica coube a
execução de outras tarefas especializadas.
A sociedade moderna também tem assistido a
uma mutação na localização do trabalho. Antes da
industrialização, a maior parte do trabalho tinha
lugar em casa, sendo realizado de forma colec-
tiva por todos os membros do agregado familiar.
Os avanços na tecnologia industrial, como a maqui-
naria que opera a electricidade e a carvão, contri-
buíram para a separação entre o trabalho e a casa.
As fábricas pertencentes a empresários tornaram-
-se pontos fulcrais do desenvolvimento industrial:
a maquinaria e o equipamento concentravam-se na
sua esfera, e a produção em massa de bens começou
a eclipsar o artesanato de pequena escala produzido
em casa. As pessoas, como Jockey, que procuravam
empregos nas fábricas eram treinadas para dese111pe-
nhar uma tarefa específica, recebendo um salário por
esse trabalho. O desempenho dos empregados era
supervisionado por directores, que se preocupavam
com a implementação de técnicas para melhorar a
produtividade e a disciplina do trabalhador.
O contraste entre a divisão do trabalho nas
sociedades tradicionais e nas modernas é verdadei-
ramente extraordinário. Mesmo nas maiores socie-
dades tradicionais, não havia normalmente mais do
que 20 ou 30 ofícios principais, juntamente com
escassas ocupações especializadas, como as de nego-
ciante, soldàdo oÚ padre. Num sisÍ:emà industrial
moderno, existem milhares de ocupações distintas.
O recenseamento britânico inclui cerca de 20 000
ocupações diferentes na economia do Reino Unido.
Nas comunidades tradicionais, a maioria da popula-
ção trabalhava na agricultura, era economicamente
auto-suficiente e produzia os seus próprios alimentos
e vestuário, entre outros bens essenciais. Pelo contrá-
rio, uma das principais características das sociedades
modernas é a enorme expansão da interdependên-
cia econ6mica. Todos dependemos de muitos traba-
lhadores -e, hoje em dia, esta dependência alarga-se
a todo o Mundo - para a obtenção dos produtos e
serviços de que necessitamos no quotidiano. Salvas
algumas excepções, a grande maioria das pessoas nas
sociedades modernas não produz os alimentos que·
ingere, as habitações onde vive ou os bens materiais
que consome.
Os primeiros sociólogos escreveram extensiva-
mente sobre as consequências p<;>tenciais da divisão
do trabalho - para cada trabalhador e para a socie-
dade no seu todo. Karl Marx foi um dos primeiros .
autores a reflectir sobre o desenvolvimento da indús-
tria moderna e a consequent.e limitação do trabalho • ·
de grande parte dos indivíduos a tarefas monótonas
e desinteressantes. De acordo com Marx, a divisão
do trabalho aliena os seres humanos do seu traba-
lho. Para Marx, a alienação eram os sentimentos de
indiferença ou hostilidade não apenas em relação ao
trabalho, mas também face ao panorama geral da
produção industrial num contexto capitalista. Marx ·
sublinhava que, nas sociedades tradicionais, o traba- .
lho era amiúde extenuante - os camponeses tinham .
por vezes de trabalhar de sol a sol. No çntanto, possu-
íam um real controlo sobre o seu trabalho, que reque-
ria muito conhecimento e destreza. Pelo contrário,
possuindo pouco controlo sobre o seu trabalho,
grande parte dos trabalhadores da indústria contri-
bui apenas parcialmente para a criação do produto
global e não exerce qualquer influência sobre como
c a quem esse produto é eventualmente vendido.
Os marxistas defenderiam que'. P.ara trabal~~.d?.~es ·
como Jockey, o trabalho seria alienante, uma tarefa
que precisavam de realizar em troca de um salário,
mas que era intrinsecamente insatisfatória.
Durkheim tinha uma perspectiva mais opd-
mista sobre a divisão do trabalho, apesar de também
reconhecer os seus efeitos potencialmente nocivos ...
De acordo com Durkheim, a especialização de
papéis iria fortalecer a solidariedade social no
âmbito das comunidades. Em vez de viverem em
unidades isoladas e auto-suficientes, as pessoas
estariam ligadas entre si por laços de dependência
-----·--···········- .. ··-···· ...... -···' ' .... '
1nú cu a. A solidariedade seria reforçada através de
n:i.ldonamcntos multidireccionais de produção e
consumo. Durkheim viu este arranjo como sendo
alc.uncntc funcional, apesar de também estar cons-
dcmc do facto de a solidariedade social poder ser
perturbada se a mudança ocorresse demasiado
depressa. Chamou anomia a esse sentido que resul-
taria da falta de normas.
O taylorismo e o fordismo
Há cerca de dois séculos, Adam Smith, um dos
fundadores da economia moderna, identificava
várias vantagens da divisão do trabalho para o
aumento da produtividade. A sua obra mais famosa,
A Riqueza das Nações (1776)2, abre com uma descri-
ção da divisão do trabalho numa fábrica de alfinetes.
Uma pessoa que trabalhasse sozinha podia talvez
fazer 20 alfinetes por dia. Ao dividir a tarefa numa
série de operações simples, dez trabalhadores, efec-
tuando trabalhos especializados em colaboração uns
com os outros, podiam produzir 48 000 alfinetes
por dia. Por outras palavras, o índice de produção
por trabalhador aumenta de 20 para 4800 alfinetes,
produzindo .ca,d..ª- QP-er~~Q~ especializado 240 vezes
mais do que se trabalhasse sozinho.
Um século mais tarde, estas ideias alcança-
ram a sua expressão mais desenvolvida na obra
de Frederick Winslow Taylor (1865-1915), um
:onsultor de gestão americano. A «gestão demí-
lica», como Taylor lhe chamou, implicava o estudo
pormenorizado dos processos industriais, de modo
a dividi-los em operações simples que podiam
, ~Publicada na série de «Textos Clássicos», da Fundação
C.alousrc Gulbenkian.
·---------------------···-·-·-··"•
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1015
ser cronometradas e organizadas com exactidão.
O taylorismo, tal como foi designadaa gestão cientí-
fica,não era meramente um estudo académico. Mais
precisamente, tratava-se de um sistema concebido
para maximizar a produção industrial e cujo impacto
se alargou não apenas à organização da produção
e da tecnologia industrial, mas também às relações
laborais. Em particular, os estudos de Taylor sobre o
tempo óptimo de realização implicavam a perda de
controlo do trabalhador sobre o processo de produ-
ção, conhecimento esse que passava para as mãos
dos gestores, minando assim as bases que permitiam
aos artesãos manter a autonomia em relação aos seus
patrões (Braverrnan, 1974). Neste sentido, o taylo-
rismo tem sido largamente associado à desqualifica-
ção e à degradação do trabalho.
Os princípios do taylorismo foram apropria-
dos pelo industrial Henry Ford ( 1863-1947).
Ford projectou a sua primeira fábrica de carros em
Highland Park, no Michigan, em 1908, para fabri-
car apenas um produto - o Ford Modelo T- envol-
vendo a introdução de ferramentas especializadas e
de maquinaria criada para operações rápidas, preci-
sas c simples. Uma das inovações mais significativas
de Ford foi a introdução da linha de montagem
móvel alegadamente inspirada nos matadouros de
Chicago, onde os animais eram esquartejados numa
linha móvel. Cada trabalhador da linha de monta-
gem de Ford tinha uma tarefa específica, corno a de
encaixar as maçanetas das portas do lado esquerdo,
à medida que a estrutura do carro passava ao longo
da linha. Até 1929, quando terminou o fabrico
do lvlodelo T, tinham sido fabricados mais de 15
milhões de carros.
Ford foi um dos primeiros a reconhecer que
a produção em massa requer grandes mercados,
concluindo que se a produção padronizada - corno
a produção de automóveis - implicava uma escala
cada vez maior, então deveria também ter de ser
assegurada a existência de consumidores capazes de
adquirir os bens produzidos. Em 1914, Ford deu
um passo sem precedentes, aumentando unilate-
1016 O TRABALHO EA VIDA ECONÓMICA
ralmente os salários na sua fábrica em Darborn, no
1'vfichigan, para cinco dólares por oito horas diúrias
- um salário muito generoso que proporcionava um
estilo de vida à classe operária <.JUe permitia a posse
de um automóvel. Como sublinha David Harvcy:
«A proposta de cinco dólares por oito horas diárias
destinava-se em parte a assegurar a obediência do
trabalhador à disciplina de trabalho exigida pelo
sistema altamente produtivo da linha de montagem
móveL Por coincidência, essa proposta foi criada
com o intuito de proporcionar aos operários o rendi-
mento suficiente para consumirem os bens produ-
zidos em massa que as empresas estavam prestes a
escoar em quantidades cada vez maiores» (1989,
p. 126). Ford também recorreu aos serviços de um
pequeno exército de trabalhadores sociais que foram
enviados às casas dos trabalhadores para os educar
nos hábitos de consumo adequados.
O fordismo é o nome usado para designar o
sistema de produção em série associado à criação de
mercados de massa. Em determinados contextos, o
termo adquire um significado mais específico, refe-
rindo-se ao período histórico de desenvolvimento
do capitalismo após a Segunda Guerra Mundial,
caracterizado pela produção em massa associada
à estabilidade nas relações laborais e a um elevado
grau de sindicalização. Durante o fordismo, as enti-
dades empregadoras estabeleciam compromissos
a longo prazo com os trabalhadores e os salários
estavam estreitamente associados ao crescimento da
produtividade. Como tal, os acordos colectivos de
trabalho- acordos formais negociad~s entre empre-
sas e sindicatos onde eram estabelecidas condições,
como salários, direitos de antiguidade, regalias, etc.
- encerravam um círculo virtuoso que assegurava o
consentimento do trabalhador a regimes de automa-
tização do trabalho e uma suficiente procura pelos
bens produzidos em massa. Em geral, considera-se
que a falência deste sistema remonta aos anos 70,
tendo resultado em maiores flexibilidade c insegu-
rança nas condições de trabalho.
As razões para o desmantelamento do fordismo
são complens e motivaram intensos debates.
À medida que as empresas adoptavam os métodos
de produção fordistas, o sistema confrontava-se
com determinadas limitações. A dada altura, pare-
cia que o tordismo representava o futuro provável da
produção industrial em gérál. Mas isso acabou por
não acontecer. O sistema só pode ser desenvolvido
em indústrias, como a automóvel, que fabriquem
produtos estandardizados para grandes mercados; o
estabelecimento de linhas de produção mecanizadas
é muito dispendioso. De facto, uma vez instalado um
sistema fordista, este é bastante rígido; para se alterar
um produto, por exemplo, é necessário um investi-
mento novo e substancial. A produção fordista é rela-
tivamente fácil de copiar, caso haja fundos suficien-
tes para se montar a fábrica. Mas, nos países onde a
mão-de-obra é cara, as empresas têm dificuldade em
competir com as das regiões onde os salários são mais
baixos. Este foi um dos factores do sucesso da indús-
tria automóvel japonesa (embora, actualmente, os
níveis salariais japoneses já não sejam baixos) e, mais
recentemente, da Coreia do Sul.
Todavia, as dificuldades associadas ao fordismo
e ao taylorismo vão para além da necessidade de
equipamento caro. O fordismo e o taylorismo são
aquilo a que alguns sociólogos do trabalho chamam
sistemas de pequena responsabilidade. Os traba-
lhos são estabelecidos pela administração e são ajus-
tados ao funcionamento das máquinas. Aqueles que
desempenham o trabalho são atentamente super-
visionados e é-lhes conferida pouca autonomia de···
acção. Por forma a manter a disciplina e padrões
de produção de elevada qualidade, os empregados
são constantemente controlados através de diversos
sistemas de vigilância.
Esta superVlsao constante tende, no entanto,
,1 pwduzir o resultado contrário: o compromisso
c.:urn o rrabalho e a moral dos rrabalhadores ficam
frequentemente debilitados, na medida em que eles
1wuco têm a dizer sobre o seu trabalho e a forma
..;,,.,\;) de é desempenhado. Onde existem muitos
Dosms de trabalho com pequena autonomia, vcri-
Íi.c.:a-sc um nível elevado de insatisfação e de absen-
tismo dos trabalhadores, e o conflito industrial é
habicual.
Em contraste, num sistema de grande respon-
sabilidade, permite-se aos trabalhadores controlar o
ritmo e mesmo o teor do trabalho segundo regras
·gerais. Estes sistemas encontram-se, geralmente, nos
níveis mais elevados das organizações industriais.
Como iremos observar, nas últimas décadas os siste-
mas de grande responsabilidade difundiram-se em
muitos locais de trabalho, transformando bastante
a forma como pensamos a organização e a execução
do trabalho.
A globalização e o pós-fordismo
Nas últimas décadas, têm sido introduzidas práti-
cas flexíveis num determinado número de esferas,
incluindo o desenvolvimento de produtos, técnicas
de produção, estilo de gestão, ambiente de traba-
lho, envolvimento dos empregados e marketing.
Os grupos de produção, as equipas de resolução de
problemas, a multitarefa e o mtzrketing de nichos
são apenas algtu:u.a..ulé!s .. estratégias adoptadas por
empresas que procuram reestruturar-se para tirar
proveito das oportunidades proporcionadas pela
economia global. Alguns comentadores têm suge-
rido que, no seu conjunto, estas mudanças repre-
sentam, uma ruptura radica! com os ptindpios
do fordismo; afirmam que estamos agora num
período que pode ser melhor compreendido como
pós-fordismo. Popularizado por Michael Piore e
Charles Sabel na obra The Second Industrial Divide
(1984), o pós-fordismo descreve uma nova era de
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1017
produção económica capitalista na qual a flexibili-
dade e a inovação são maximizadas por forma a ir de
encontro às solicitacõcs do mercado em matéria de
'
produtos diversos e padronizados.A ideia do pós-fordismo é, contudo, problem<Í.-
tica. O termo refere-se a um conjunto de mudan-
ças simultâneas que ocorrem não só no domínio do
trabalho e da vida económica, mas também na socie-
dade no seu todo. Para alguns auwres a tendência
para o pós-fordismo pode ser encontrada em esferas
tão diversas como os partidos políticos, os progra-
mas de segurança social, as escolhas do consumidor
e os estilos de vida. Apesar de os observadores da
sociedade contemporânea apontarem frequente-
mente para muitas das mesmas mudanças, não existe
consenso sobre o significado preciso do pós-fordismo
e se esta é, de facto, a melhor forma de compreender
os fenómenos de que somos testemunhas.
Apesar da confusão em torno do termo pós-
-fordismo, têm emergido nas décadas mais recentes
diversas tendências distintas no mundo do trabalho
que parecem representar uma ruptura clara com
práticas fordistas mais antigas. Essas tendências
incluem a descentralização do trabalho em equipas
não hierarquizadas, a ideia de produção flexível e de
personalização em massa, a disseminação da produ-
ção global, bem como a introdução de uma estrutura
ocupacional mais aberra. Antes de expormos algu-
mas críticas à tese do pós-fordismo, iremos conside-
rar alguns exemplos das três primeiras tendências.
A produção em grupo
A produção em grupo -grupos de trabalho ao invés
de linhas de montagem- tem sido, por vezes, imple-
mentada conjuntamente com a automatização como
forma de reorganização do trabalho. O objectivo
principal é aumentar a motivação do trabalhador,
permitindo que grupos de trabalhadores colaborem
no processo de produção ao invés de exigir que cada
um passe o dia inteiro a realizar uma tarefa única c
1018 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA
repetitiva, como atarraxar parafusos na maçaneta da
porta de um carro.
Um exemplo de produção em grupo são os círcu-
los de qualidade, constituídos por grupos de cinco
a 20 trabalhadores que se encontram regularmente
para estudar e rcsoh'er problemas de produção. Os
trabalhadores que pertencem aos círculos de quali-
dade recebem uma formação suplementar que lhes
permite dar um contributo técnico para a discussão
de assuntos de produção. Os círculos de qualidade
tiveram a sua origem nos Estados Unidos, foram
adoptados por empresas japonesas, e re-populari-
zados nas economias ocidentais nos anos 80. Eles
representam uma brecha nos princípios do taylo-
rismo, na medida em que reconhecem que os traba-
lhadores possuem capacidade para contribuir para a
definição das tarefas que realizam e do método pelo
qual são realizadas.
Os efeitos positivos da produção em grupo nos
trabalhadores podem incluir a aquisição de novas
competências, o aumento da autonomia, a redu-
ção da supervisão da gestão e um orgulho crescente
nos bens que produzem e nos serviços que prestam.
No entanto, os estudos têm identificado diversas
consequências negativas da produção em equipa.
Ainda que a autoridade directa da gestão seja menos
evidente numa dinâmica de equipa, existem outras
formas de monitorização, como a supervisão exer-
cida por outros trabalhadores da equipa: Na sua
experiência de trabalho numa linha de montagem
da fábrica de automóveis japonesa Subaru-Isuzu
instalada no Indiana, nos Est~dos Unidos, a soció-
loga americana Laurie Graham confrontou-se com
uma pressão implacável dos seus colegas no sentido
de uma maior produtividade.
Uma colega de Graham confidenciou-lhe que,
uma vez passado o entusiasmo inicial com o conceito
de equipa, constatou que a supervisão dos pares
consistia apenas numa nova tentativa por parte da
direcção para que as pessoas trabalhassem «até
caiu>. Graham (1995) também observou que a
Subaru-Isuzu utilizava o conceito de produção cm
grupo como forma de resistir aos sindicatos, com o
argumento de que direcção e trabalhadores forma-
vam uma «equipa», pelo que as duas partes não
deveriam entrar em conflito. Por outras palavras,
o bom «jogador de equipa» não reivindica. Na
fábrica da Subaru-Isuzu em que Graham trabalhou,
as reivindicações por aumentos de salário ou redu-
ção de responsabilidades eram consideradas próprias
de um trabalhador pouco cooperante. Apesar de os
processos de produção em equipa proporcionarem
aos trabalhadores a oportunidade de trabalhar de
uma forma menos monótona, estudos como o de
Graham levaram os sociólogos a concluir que os
sistemas de controlo e poder persistem no local de
trabalho.
Flexibilização da produção e personalização
em massa
Uma das mudanças globais mais importantes ocor-
ridas nas últimas décadas no contexto dos processos
de produção foi a introdução do design assistido
por computador e a produção flexível. Apesar de o
taylorismo e o fotdismo terem obtido sucesso na
produção em série (de bens totalmente pàdroni-
zados) para mercados de massas, não conseguiam
produzir pequenas encomendas de mercadorias e,
deste modo, atender aos pedidos específicos efec-
tuados por clientes individuais. As limitações dos
sistemas taylorista e fordista no que se refere à capa-
cidade de personalizar os seus produtos reflectem-
-se na famosa observação sarcástica de Henry Ford
a propósito do primeiro automóvel produzido em
série: «As pessoas podem ter o lvfodelo Tem qual-
quer cor, desde que seja em preto». O design assis-
,.
·~·
':
cido por computador, juntamente com Oturos tipos
Jc tecnologia informática, alterou de forma radical
,·sca situação. Stanley Davis refere-se à emergência da
•< personalização em massa», pois as novas tecnolo-
gias vieram permitir a produção em larga escala
de artigos concebidos para determinados clientes.
Numa linha de montagem, podiam ser produzidas
)000 camisas por dia. Hoje, é possível personalizar
cada uma dessas camisas com a mesma rapidez e
sem custos maiores do que os da produção de 5000
exemplares idênticos (Davis, 1988).
Embora a produção flexível tenha vindo benef-I-
ciar os consumidores e a economia em geral, o seu
deito junto dos trabalhadores tem estado longe de
ser totalmente positivo. Ainda que os trabalhadores
adquiram novas competências e exerçam actividades
menos monótonas, a produção flexível pode impli-
car um conjunto inteiramente novo de pressões,
resultantes da necessidade de coordenar de forma
meticulosa processos de produção complexos e
conseguir resultados com rapidez. De acordo com
os exemplos documentados por Laurie Graham no
estudo que realizou sobre a fábrica da Subaru-Isuzu,
os trabalhadores tinham de aguardar até ao último
minuto nas etapas decisivas do processo produtivo,
sendo portanto forçados a trabalhar m~is horas e
mais intensivamente para manter o programa de
produção, sem qualquer compensação adicional.
Tecnologias como a Internet podem ser utiliza-
das para solicitar informação sobre cada consumidor
e, deste modo, .fab.ricar .. os.produtos precisamente de
acordo com as suas especificações. De acordo com
os seus defensores entusiásticos, a personalização
em massa constitui uma nova Revolução Industrial,
representando um desenvolvimento tão importante
l}Uanto a introdução das técnicas de produção em
série no século XX. No entanto, os que se declaram
cépticos quanto a este sistema de produção contra-
põem que a personalização em massa, tal como hoje
se pratica, apenas cria a ilusão de escolha, uma vez
que, na realidade, as opções ao dispor dos clientes
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1019
na Internet não são maiores do que as oferecidas por
um típico catálogo de venda por correio (Collins,
2000).
A Dell Computer é um dos fabriettntes que mais
tem vindo a apostar na personalização em massa.
Os consumidores que queiram comprar um compu-
tador ao f~tbricante devem fazê-lo online no site da
Dell, pois a companhia não tem lojas. Os clientes
podem escolher a combinação precisa de caracte-
rísticas que desejam. Uma vez feita a encomenda,
o computador é montadode acordo com as espe-
cificações do cliente e enviado num espaço de dias.
Com efeito, a Dcll inverteu as .Formas tradicionais
de negócio: as empresas produziam os artigos e só
posteriormente se preocupavam com a sua venda.
Actualmente, empresas convertidas à personali-
zação em massa, como a Dell, vendem primeiro e
produzem depois. Esta mudança tem um grande
impacto na indústria. A necessidade de manter arti-
gos em armazém- o que tem um custo considerável
para os fabricantes - foi drasticamente reduzida.
Por outro lado, uma componente cada vez maior da
produção é efectuada por terceiros. Deste modo, a
rápida transferência de informação entre fabricantes
e fornecedores- também facilitada pela Internet- é
essencial para a implementação eficaz da personali-
zação em massa.
Produção global
As mudanças na produção industrial não incluem
apenas o modo de fabrico dos produtos, mas
também o local da sua produção, tal como verificá-
mos com o exemplo da boneca Barbie apresentado
no Capítulo 4. Durante grande parte do século
XX, as mais importantes organizações empresariais
eram companhias de produção em grande escala
que controlavam tanto o fabrico dos seus artigos
como a sua venda. Dois casos exemplares deste
procedimento são as grandes companhias de <ll~to
móveis norte-americanas Ford e General Motors,
l.l
1l
1020 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA
que empregam dezenas de milhares de trabalhado-
res, fabricam integralmente os seus produtos - dos
componentes individuais aos próprios automóveis
- e vendem-nos nas suas próprias lojas. A organi-
zação destes processos de produção sob a alçada do
fabricante implica burocracias de grande enverga-
dura, frequentemente controladas por uma única
companhia.
Porém, durante os últimos 20 ou 30 anos, outra
forma de produção tem vindo a assumir relevo: a
produção controlada pelos grandes retalhistas. Nesta
forma de produção, retalhistas como a Wal-Mart
- a segunda maior empresa do Mundo em 2000 -
adquirem produtos a fabricantes que, por sua vez,
recorrem a fábricas de propriedade alheia.
Os sociólogos americanos Edna Bonacich e
Richard Appelbaum (2000) mostram que, na
produção de vestuário, a maioria dos fabricantes
não emprega actualmente nenhum operário têxtil.
Pelo contrário, dependem de milhares de fábricas
que não são propriedade sua em todo o Mundo para
a execução do vestuário que será vendido em lojas
da especialidade e outro tipo de estabelecimentos.
Deste modo, não recai sobre os fabricantes a respon-
sabilidade pelas condições de produção do vestuário
que vendem. Dois terços do vestuário vendido nos
Estados Unidos é produzido em fábricas fora do país,
onde a remuneração dos trabalhadores representa
uma fracção de um salário americano (na ·China, é
afortunado o trabalhador que aufere 40 dólares -
pouco menos de 30 euros -por mês). Bonacich e
Appelbaum entendem ··que esta comp·eti'ç'ão · téslilta
numa «corrida global para atingir o ponto mais
baixo» em que os retalhistas c os fabricantes estão
dispostos a deslocar-se a qualquer lugar do globo
para conseguirem o salário mais baixo possível. Com
efeito, grande parte do vestuário que hoje adquirimos
foi provavelmente próduzido em fábricas dandesti~
nas por trabalhadores jovens- muitas vezes raparigas
adolescentes - que ganham quantias irrisórias para
fabricarem vestuário ou sapatos de desporto vendi-
dos por dezenas ou mesmo centenas de euros.
Críticas ao pós-fordismo
Embora reconheçam a ocorrência de transformações
no mundo do trabalho, alguns analistas rejeitam o
rótulo de «pós-fordismo». Uma crítica comum é ade
que os analistas pós-fordistas empolam a real dimen-
são do abandono das práticas fordistas. Assistimos
não a uma transformação em grande escala, como
nos querem fazer acreditar os defensores do pós-
-fordismo, mas à integração de algumas novas abor-
dagens em técnicas fordistas tradicionais. Este argu-
mento tem sido adoptado por aqueles que alegam
estarmos a passar na actualidade por um período de
«neofordismo», isto é, por transformações das técni-
cas fordistas tradicionais (Wood, 1989).
Tem sido sugerido que a ideia de uma transição
linear suave de um período dominado por técnicas··
fordistas para um dominado por técnicas pós-fordis- ·
tas exagera a verdadeira natureza do trabalho em
ambos. Anna Pollert (1988) sustenta que as técni-
cas fordistas nunca estiveram tão arreigadas quanto
alguns de nós acreditam. É também um exagero, .
segundo Pollert, afirmar que a era da produção em
massa tenha sido substituída pela da flexibilidade
total. A autora sublinha que as técnicas de produção
em massa são ainda dominantes em muitas indús-
trias, especialmente naquelas que têm como alvo
mercados de consumidores. De acordo com Pollert,
a produção económica tem-se caracterizado sempre ·.
pelo emprego de uma diversidade de técnicas e não .
por uma única abordagem padronizada.
O trabalho em mudança
A estrutura ocupacional dos países industrializa-
dos tem passado por alterações profundas desde o
início do século XX, quando o mercado de traba-
lho era dominado pelo trabalho manual de colari- ·
nho azul, tendência que, posteriormente, viria a
sofrer uma inversão no sentido do crescimento do
trabalho de colarinho branco no sector dos serviços.
No (~tdro 20.1 expõe-se o declínio gradual do
rraba[ho manual e a emergência do sector dos servi-
..:osnoReino Unido, em 198l.Em 1900,maisdetrês
'
t.lua.rtos da população empregada no Reino Unido
•:xccutava trabalho manual (colarinho azul). Cerca
de 28 por cento destes eram trabalhadores especia-
lizados, 35 por cento semi-especializados e 1 O por
cento sem especialização. O número de trabalha-
dores de colarinho branco e «profissionais» 3 era
rdativamente reduzido. A meio do século, os traba-
lhadores manuais perfaziam menos de dois terços
da população com trabalho remunerado, tendo o
trabalho não manual aumentado na mesma propor-
cão. Entre 1981 e 2006, o trabalho manual na indús-,
cria manufactureira decresceu de 31 para apenas 17
por cento (entre os homens) e de 18 para 6 por cento
(entre as mulheres).
Existe uma grande discussão em torno das causas
destas mudanças. Parece haver várias razões para elas.
Uma delas foi a introdução sistemática de máquinas
que substituem o trabalho humano, culminando
com a generalização da tecnologia da informação na
indústria nos últimos anos. Outra, o aumento das
indústrias fabris fora do Ocidente, especialmente no
Extremo Oriente. As velhas indt1strias nas socieda-
des ocidentais passaram por gr:~n._d..~~.~~f~~-~.~.S. .. ~l!l
virtude da sua incapacidade para competir com os
produtores mais eficientes do Extremo Oriente, cuja
mão-de-obra é mais barata.
.. A globalização da produção económica, junta-
mente com a disseminação das tecnologias de infor-
mação, tem vindo a alterar a natureza do trabalho
3 Nota do revisor cient(fico: Do inglês «profcssionals». Este
termo designa aqueles que têm uma formação especializada, que
exige, cm particular, níveis elevados de preparação académica .
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1021
da maioria das populações. Tal como é discutido
no Capítulo 11 «Estratificação e classe social»,
a proporção de indivíduos que exerce uma activi-
dade de colarinho azul tem sofrido um decréscimo
progressivo nos países industrializados. O declínio
na adesão aos sindicatos representa uma das conse-
quências mais significativas desse decréscimo.
O declínio dos sindicatos?
Na maior parte dos países, existem organizações
sindicais - ainda que os níveis de sindicalização e a
extensão do seu poder variem substancialmente -
sendo o direito dos trabalhadores à greve na prosse-
cução de objectivos económicos legalmente reconhe-
cido pelos governos. Porque se tornaram os sindica-
tos uma característica fundamental das sociedades
modernas? Porque razão o conflito entre os sindica-
tos e o patronato parece ser uma possibilidade mais
oumenos presente nos contextos industriais?
No princípio do desenvolvimento da indústria
moderna, na maioria dos países, os trabalhadores
não tinham direitos políticos e tinham muito pouca
influência sobre as suas condições de trabalho.
Os sindicatos surgiram, em primeiro lugar, como
meio de correcção do desequilíbrio de poder entre
trabalhadores e entidade patronal. Os trabalhado-
res tinham pouco poder individualmente, mas a sua
influência aumentava de forma considerável atra-
vés da sua organização colectiva. Um patrão pode
dispensar o trabalho de um só trabalhador, mas não
o trabalho de todos ou da maioria dos trabalhadores
de uma fábrica ou instalação industrial. A princí-
pio, os sindicatos eram essencialmente organizações
«defensivas», que proporcionavam os meios pelos
quais os trabalhadores se podiam ópor ao poder
esmagador exercido pelos patrões sobre as suas vidas.
Actualmente, os trabalhadores têm direito ao voto e
há formas estabelecidas de negociação com a enti-
dade patronal que contemplam a reivindicação de
regalias económicas e o direito à greve. Todavia, a
influência do sindicato consiste essencialmente num
>n
1022 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA
poder de veto, quer ao nível local da fábrica, quer
a nível nacional. Por outras palavras, com os recur-
sos que têm à sua disposição - incluindo o direito
à greve - os ~indicatos podem apenas bloquear as
políticas ou as iniciativas do patronato, mas não
ajudar a formulá-las de início. Há excepções a este
facto, por exemplo quando sindicatos e empregado-
res negoceiam contratos periódicos sobre condições
de trabalho.
O período posterior à Segunda Guerra Mundial
assistiu a uma inversão drástica da posição dos sindi-
catos nas sociedades fortemente industrializadas.
Entre 1950 e 1980 assistiu-se a um crescimento cons-
tante da densidade sindical na maioria dos países
desenvolvidos. A densidade sindical é um indica-
dor estatístico que representa a percentagem de
membros efectivos dos sindicatos no conjunto dos
membros potenciais. No final dos anos 70 e início
dos anos 80, mais de 50% da força de trabalho britâ-
nica era sindicalizada. Há diversas razões que expli-
cam a elevada densidade sindical em vários países do
Ocidente. Por um lado, grandes partidos políticos
apoiados pela classe trabalhadora criaram condi-
ções favoráveis à organização sindical. Por outro,
a coordenação das negociações entre companhias
e sindicatos não se efectuava de forma descentrali-
zada a nível sectorial ou local, mas a nível nacional.
Por último, em lugar do Estado, eram os sin4icatos
que administravam o subsídio de desemprego, asse-
gurando que os trabalhadores que perdiam os seus
empregos não abandonavam .o movimento sindical.
Os países que apenas contavam com alguns destes
factores apresentavam taxas de densidade sindical
inferiores: entre dois quintos a dois terços da popu-
lação empregada.
Desde o seu pico nos anos 70, os sindicatos têm
vindo a sofrer um declínio ·h os pàíses fortemente
industrializados. São diversas as explicações avan-
çadas no que toca às dificuldades com que se deba-
tem os sindicatos desde 1980, sendo porventura a
mais comum o declínio da antiga indústria trans-
formadora e a emergência do sector dos serviços.
A indústria transformadora constitui, por tradição,
uma fortaleza do trabalhismo, enquanto o sector dos
serviços é mais resistente à sindicalização.
No entanto, este argumento tem sido alvo de . ',1
crítica. De acordo com o sociólogo Bruce Western · .,
(1997), tal explicação não permite compreender que ·j
os anos 70 tenham, em geral, constituído um perí- '?'
-'I
odo favorável aos sindicatos - com a excepção dos · ~~
Estados Unidos - e, simultaneamente, um período .· 't:
de mudança estrutural com o declínio da produção
industrial e o crescimento do sector dos serviços. De
igual modo, uma parte significativa do aumento do
emprego neste sector ocorreu nos serviços sociais
- o típico emprego sindicalizado do sector público.
Neste sentido, Western defende que o declínio da
sindicalização no contexto da indústria transforma-
dora pode ser mais significativo do que o declínio
noutros sectores.
Há várias explicações para o declínio da densi-
dade sindical no sector industrial. Em primeiro
lugar, a recessão da actividade e<:;onómica mundial
associada a níveis de desemprego elevados, particu-
larmente durante os anos 80, enfraqueceu a. posi~
ção de negociação do sindicalismo. Em segundo
lugar, a intensificação da competição internacional,
sobretudo oriunda dos países do Extremo Oriente,
contribuiu também para enfraquecer o poder de
negociação dos sindicatos. Em terceiro lugar, a .
subida ao poder de governos de direita - como a
dos Conservadores britânicos em 1979 - em diver- <
sos .p.aíses.implicotJ .um fon~ .. éltª-qJ.!~. ªºª -~in9lç_~t9.Lj
durante os anos 80. Os sindicatos perderam diversas ·.:j
batalhas importantes, como a greve que se saldou . _i
pela aniquilação da União Nacional de Mineiros no ··"i
Reino Unido, entre 1984 e 1~-85. Nos últimos 25..._::'j
anos, os sectores em que as condições de trabalho e .
I
os salários são protegidos pelos sindicatos têm vindo·, ·i
a perder peso em diversos sectores importantes da '
indústria.
O declínio na sindicalização e na influência dos
sindicatos é um fenómeno generalizado nos países
industrializados, e não pode ser inteiramente expli-
c.do pela pressão política exercida por governos
d<.: direita contra os sindicatos. Estes enfraquecem
habitualmente em períodos de desemprego elevado,
rai como aconteceu no Reino Unido nos anos 80 e
90, :;e bem que a adesão sindical entre os trabalha-
dores bricànicos tenha continuado a decrescer, de
29% em 2005 para 28,4% em 2006 (ONS, 2007).
As tendências para uma maior flexibilidade na
produção tendem a diminuir a força do sindica-
lismo, que floresce mais amplamente quando muitos
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1023
trabalhadores estão concentrados em grandes unida-
des industriais. Ainda assim, os sindicatos têm traba-
lhado arduamente para estabilizar a sua posição e
permanecer como força significativa na maioria
dos países do Ocidente. Tendo em linha de conta as
escassas oportunidades de poder dos trabalhadores
relativamente ao poder do patronato, é improvável
que a força colectiva representada pelos sindicatos
venha a desaparecer.
tl
r
+f
h
1024 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA
Pensar de um modo crítico
Por que razão as greves são menos frequen-
tes nos grupos ocupacionais de «colarinho
branco» do que entre os trabalhadores indus-
triais de «colarinho azul»? Nas economias
«pós-industriais» do Ocidente, dominadas
pelo .trabalho ··de--escritório ··e pelo· emprego···
nos serviços, as greves estarão destinadas a
pertencer ao passado? ~ais as implicações
de tal transformação do trabalho na teoria
marxista da revolução de classes? Sem o aüxí-
lio dos trabalhadores nas economias desen-
volvidas, seria ·possível·aos trabalhadores nas
economias em vias de industrialização dos
países em desenvolvimento concretizarem a
previsão de Marx?
'•_,
O género e a «feminização do trabalho»
\
'
I
l
\
!
I
i
!
Assistimos a um decréscimo do número de operários l
1 industriais no mundo desenvolvido em comparação )
1
.
com o século passado. A maior parte dos novos
... ernpr<:go..~ t~.rn. su~gi9:9.. ~m J;;s.çJ:ÜÓdQs .e ... centros .. de.. .. --·-l
serviços - como os supermercados, os centros de "\
atendimento e os aeroportos -, sendo muitos desses
postos de trabalho ocupados por mulheres. Esta
« feminfzação da força de trabafho» não só repre-
senta uma mudança histórica crucial ~os padrões do
emprego, alterando a própria experiência do traba-
lho remunerado, como também implica transforma-
ções nas relações de género em todos os domínios da
sociedade - incluindo a educação e a esfera domés-
tica. Por esta razão, esta «feminizacáo do trabalho»
'
exige uma atenção especialaqui.
Ao longo da história, homens e mulheres têm
contribuído para a produção e a reprodução do
mundo social em que estão inseridos, tanto no quoti-
diano como ao longo de grandes períodos de t~mpo.
Porém, a natureza desta parceria e a distribuição de
responsabilidades no seu âmbito transformaram-se
ao longo do tempo. Até há pouco tempo, nos países
ocidentais o trabalho remunerado era uma caracte-
rística predominante dos homens. Nas últimas déca-
das esta situação alterou-se radicalmente. Há cada
vez mais mulheres a entrar no mercado de trabalho,
um fenómeno que tem sido designado como « femi-
nização do trabalho» (Caraway, 2007).
Na maior parte das regiões do Mundo, as mulhe-
res representam hoje pelo menos metade da força
de trabalho (ver Figuras 20.1 e 20.2), ainda que
os tipos de emprego sejam bastante diferenciados
entre os sexos. Por exemplo, nas regiões desenvol-
vidas e na União Europeia, na Europa Central e de
Leste, na Comunidade dos Estados Independentes,
na América Latina, no Médio O~~e!?:~~ .~ n() ~()rt~
de África, as mulheres estão predominantemente
empregadas no sector dos serviços. Por sua vez, na
África Subsariana, onde mais de 60% da força de
trabalho é feminina, as mulheres trabalham sobre-
tudo na agrieulti:l-ra-;-De-acordo com um relat6rio da
Organiz~ção Internacional do Trabalho (2007), o
mesmo sucede no Leste e no Sul da Ásia, no Médio
Oriente e no Norte de África, onde as mulheres
representam uma parcela maior do que os homens
no que toca aos empregos na agricultura. Em geral, a
esmagadora maioria dos trabalhadores está hoje nos
serviços e na agricultura, enquanto menos de um
quarto trabalha na indústria transformadora. Em
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA ·1 025
2005, verificou-se pela primeira vez que a percen-
tagem mais elevada da força de trabalho no seu
conJ'unro se concentrava nos servicos, e não na aari-
' v
cultura ou na indústria (Figura 20.1). É provável que
esta tendência para o emprego no sector dos serviços
perdure.
Por outro lado, a natureza do emprego das
mulheres é diferente da dos homens. Relatórios sobre
o Reino Unido sugerem que três em cada quatro
mulheres no mercado de trabalho exerce um traba-
lho a tempo parcial e mal remunerado: empregadas
de escritório, empregadas de limpeza, empregadas
de mesa e caixas. Este padrão observa-se em várias
economias desenvolvidas (Women and Equality
Unit, 2004). Nas próximas secções, iremos analisar
as origens e as implicações deste fenómeno -uma das
transformações mais importantes da actualidade.
As mulheres e o local de trabalho: uma visão
histórica
Para a grande maioria da população nas sociedades
pré-industriais (e para grande parte das populações
nos países em desenvolvimento), as actividades
produtivas e as actividades domésticas não estavam
separadas. A produção era levada a cabo em casa
ou perto dela e todos os membros de uma família
trabalhavam a terra ou ocupavam-se em trabalhos
artesanais. Muitas vezes as mulheres tinham uma
grande influência dentro do lar em consequência da
sua importância nos processos económicos, mesmo
sendo excluídas do mundo masculino da política e
da guerra. As mulheres dos artesãos e as dos agricul-
tores geriam, frequentemente, as contas destas acti-
vidades. Também era vulgar as viúvas possuírem e
dirigirem os negócios.
1026 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA
50,0,-------------------------------------------------------------------~
35,0
% --~ Mulheres na agricultura -{ti- Mulheres na indústria ~~ Mulheres nos serviços
30,0 -+- Homens na agricultura -11- Homens na indústria -Jk- Homens nos serviços
25,0
IIII 11 .. III • • 11 IIII III III III
20,0
15,0
1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006
Figura 20.1 Percentagem de homens c mulheres nos diferentes sectores de actividade sobre o total de empregados, 1996-2006.
Fonte:© Organização Internacional do Trabalho (OIT), 2007.
100%~--------~----------------------------------------,---------~
90o/ot---------~~~~~~~~~~~~~::~~~~::~~--ra~~~
80%+-----------------~~
70%
60%
50%
40%
30%
20%
10%
0%
Economias Europa Leste
desenvolvidas Central e . . ... ~.!liªt!9..9. . · · .... e.União ____ ··· ...... d.ã-Cêst;; ·
Europeia (palses não
pertencentes
à UE) e CEI
Sudoeste
. ... Aê.i.Miç.9. E!
Pacifico
Sul
d.aAsi!! ..
América Médio
..... kª!LQ!I..!'I. Oriente e
Caralbas ·. · .... N~rte-éià--·····
África
Figura 20.2 Força de trabalho segundo o género c a região, 1996 e 2006.
Fonte: OIT, 2007.
O desenvolvimento da indústria moderna veio
modificar muitas destas situações, com a separação
entre a casa e o local de trabalho. O factor principal
da mudança residiu provavelmente na passagem da
produção para as fábricas mecanizadas. O trabalho
era realizado ao ritmo das máquinas por indivíduos
contratados especialmente para executar as tarefas
em questão. Assim, os donos das fábricas começa-
r:u11 a contratar preferencialmente trabalhadores
; nclividuais e não famílias.
Com o tempo e o progresso da industrialização,
;;scabeleceu~se uma divisão crescente entre casa c
local de trabalho. A_ ideia de esferas separadas -
t-'Ltblica c privada - cnraizou~se nas atitudes popu~
lares. Em virtude do seu emprego fora de casa, os
homens passavam mais tempo no domínio público,
envolvendo~se mais em assuntos locais, políticos e
económicos. As mulheres vieram a ser associadas
aos valores «domésticos», sendo responsáveis por
mrefas como o cuidado das crianças, a manuten~
ção da casa e a preparação da comida para a famí~
lia. A ideia de que «o lugar da mulher é em casa»
teve um sentido diferente para mulheres de estratos
sociais diferentes. Mulheres com posses usufruíam
dos serviços de criadas, amas e empregadas domés~
ricas. As dificuldades maiores eram suportadas pelas
mulheres mais pobres, que, para além de realizarem
as tarefas domésticas, tinham de trabalhar na indús~
tria para complementar o rendimento do marido.
As taxas de emprego da mulher fora do lar, em
todas as classes, eram bastante baixas mesmo já depois
de bem entrado o século XX. Ainda em 1910, na
Grã~Bretanha, mais de um terço das mulheres com
emprego eram criadas ou empregadas domésticas.
A força de trabalho feminino consistia--essencial-
mente em jovens mulheres solteiras, cujos salários,
quando trabalhavam em fábricas ou escritórios,
eram enviados directamente para os pais. Ao casa~
rem retiravam~se da for~a de trabalho, dedicando~se
····· · apenas·às·obriga:ções-f.a:m·iliares; · ·
O crescimento da participação das mulheres
na actividade económica
Ao longo do último século, a parttctpação das
mulheres no trabalho remunerado tem vindo a
conhecer um aumento mais ou menos contínuo.
Uma das maiores causas residiu na falta de mão~de~
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1027
anteriormente consideradas exclusivas dos homens.
Ao regressarem da guerra, os homens ocuparam de
novo esses empregos, mas o padrão pré~estabelecido
tinha sido quebrado. Nos anos que se seguiram à
Segunda Guerra Mundial, a divisão do trabalho com
base no género mudou drasticamente. Entre 1971 e
2006, a taxa de emprego no Reino Unido- ou seja, a
percentagem da população activa empregada - cres~
ceu de 58 para 70% entre as mulheres. Pelo cormá~
rio, a taxa de emprego entre os homens sofreu um
decréscimo de 92 para 79% o no mesmo período.
Deste modo, a distância entre as taxas de emprego
dos homens e das mulheres atenuou~se significati-
vamente, de 35%, em 1971, para 9%, em 2006 (ver
Figura 20.3). É provável que continue a observar-
~se esta atenuação da diferença entre os géneros rios
próximos anos, ainda que parte considerável do
crescimento da actividade económica das mulheres
se deva ao aumento do trabalho a tempo parcial.
Existem várias razões para o enfraquecimento da
desigualdade entre homens e mulheres nas taxas
de actividade económica em décadas recentes. Em
primeirolugar, houve mudanças no âmbito e na
natureza das tarefas tradicionalmente associadas às
mulheres e à «esfera doméstica». Como a taxa de
natalidade tem decrescido e a média das idades das
mães com filhos aumentou, muitas mulheres procu-
ram trabalho remunerado quando jovens, regres-
sando ao trabalho após o nascimento dos filhos.
A diminuição da família teve como consequência
a redução do tempo que outrora muitas mulheres
dedicavam à casa e aos filhos. A mecanização de
muitas tarefas domésticas também ajudou a reduzir
o volume de tempo necessário à manutenção da casa.
Máquinas de lavar louça automáticas, aspiradores e
máquinas de lavar roupa tornaram menos pesada a
carga do trabalho doméstico. É também evidente
que a desigualdade na divisão do trabalho domés-
tico entre homens e mulheres tem vindo a decrescer,
-obra durante a Primeira Guerra Mundial. Durante apesar de ainda recair sobre as mulheres a execução
os anos da guerra, as mulheres realizaram funções da maior parte das tarefas domésticas.
I
'·
1028 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA
Reino Unido
Percentagens
100
Homens
80 ~ .....----..... ........... -_.,.. ____ ------ ... ....-- .... -----------.. .. -----
60
~
40
20
o
1971
Total
.. .... ~
-~
-
Mulheres
1976 1981
____ ... ... ____ ...
__..,...
1986 1991 1996 2001 2006
Figura 20.3 Taxas de emprego segundo o género, Reino Unido, 1971-2006.
Fonte: HMSO Social Trends, 37,2007.
A entrada de um número crescente de mulheres
no mercado de trabalho prende-se também com
razões financeiras. O modelo nuclear da família
tradicional - composto por um homem ganha-
-pão, uma mulher dona-de-casa e crianças depen-
dentes - representa hoje apenas um quarto das
famílias na Grã-Bretanha. As pressões económicas
sobre os agregados familiares, incluindo o cresci-
mento do desemprego masculino, implic;aram um
aumento da procura de trabalho remunerado por
parte das mulheres. Muitos lares descobrem que é
nec;~~sári.q .ter .. dois .rendimentos para .sustentar--o .
estilo de vida desejável. Outras mudanças na estru-
tura dos agregados, incluindo o elevado número de
solteiros sem filhos, bem como o crescimento de
lares de mães solteiras, implicaram que as mulhe-
res fora das famílias tradicionais, quer por opção,
quer por necessidade; esteJànftaínbém a·ehti:ar no
mercado de trabalho. Adicionalmente, esforços
recentes para reformar as políticas de segurança
social, tanto na Grã-Bretanha como nos Estados
Unidos, visam apoiar a entrada no mercado de
trabalho das mulheres- incluindo as mães sós e as·
mulheres casadas com crianças pequenas.
Finalmente, importa notar que muitas ... u, .... _-
res escolheram entrar no mercado de trabalho pelo
seu desejo de concretização pessoal, em resposta
impulso para a igualdade propulsionado pelo movi- '
mento das mulheres dos anos 60 e 70. Tendo obtido·
igualdade legal em relação aos homens, muitas
mulheres aproveitaram oportunidades para concre~.
tizarem esses direitos nas suas próprias vidas. Como.
já se observou, o trabalho é central na sociedade
contemporânea; ·e o ·emprego·é;·quase
pré-requisito para uma vida independente. Nas úld: ..
mas décadas, as mulheres deram passos largos .
atingir a paridade com os homens: A sua acti~idade ·
económica crescente tem sido central neste processo
(Crompton, 1997).
Género e desigualdades no trabalho
Apesar de possuírem igualdade formal em relação
aos homens, as mulheres são ainda alvo de uma série
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1029
As ocupações dominadas pelas mulheres tendem a ser as pior remuneradas.
de desigualdades no mercado de trabalho. Nesta
secção, analisaremos três das principais desigualda-
des que as mulheres enfrentam no trabalho: a segre-
gação ocupacional, a concentração em empregos a
-----eempo·par:0iale-a-ài-spa-r-idad~ de--remunerações.
A segregação ocupacional
As mulheres que e;.;:ercem umà' profissão têm-se
concentrado tradicionalmente em ocupações roti-
-------·--rieii:as e mal pagas. Muitos destes empregos caracteri-
zam-se por uma forte segregação com base no género,
ou seja, são comummente vistos como «trabalhos
de mulheres». Os trabalhos de secretariado e os
que envolvam cuidados a terceiros (como a enfer-
magem, o trabalho social e a educação infantil) são
esmagadoramente detidos por mulheres e, na gene-
ralidade, considerados ocupações «femininas».
A segregação ocupacional com base no género
refere-se ao facto de homens e mulheres estarem
concentrados em diferentes tipos de trabalho, com
base na ideia de que há «empregos para homens» e
«empregos para mulheres».
A segregação ocupacional possui componen-
tes verticais e horizontais. A segregação vertical diz
respeito à tendência para as mulheres se concentra-
rem em postos de trabalho com pouca autoridade e
espaço para ascender, enquanto os homens ocupam
posições mais poderosas e influentes. A segregação
horizontal diz respeito à tendência para homens e
' j;
1030 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA
mulheres ocuparem diferentes categorias de traba-
lhos. Por exemplo, as mulheres predominam larga-
mente em posições domésticas e administrativas
de rotina, enquanto os homens se concentram em
posições manuais qualificadas e semiqualificadas.
A segregação horizontal pode ser pronunciada.
Em 1991, mais de 50% do emprego das mulhe-
res (comparado com 17% dos homens) no Reino
Unido recaía sobre quatro categorias ocupacio-
nais: administrativa, secretariado, serviços pessoais
e «outras categorias elementares» ( Crompton,
1997). Em 1998, 26% das mulheres exerciam
trabalhos rotineiros de colarinho branco, contra
apenas 8% dos homens, enquanto 17% dos homens
exerciam trabalhos manuais qualificados, contra
2% das mulheres (HMSO, 1999).
Pensar de um modo crítico
Considera que existem algumas barrei-
ras «naturais» à entrada das mulheres nas
ocupações onde os homens predominam?
Haverá outras razões para o predomínio
dos homens em ocupações - canalizadores,
mecânicos de automóveis, agentes da polícia,
etc. - com remunerações superiores? Em seu
entender, o que acontecerá a esse predomí-
nio dos homens e aos seus honorários se as
mulheres começarem a exercer esse tipo de
profissões? ~e conclusões retira das suas
respostas acerca das razões subjacentes à divi-
são ocupacional com base no género?
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1031
Que rendimentos auferem? . . . .
' ' '
Média de rendimentos/hora dqs trabalhadores a tempo inteiro, Reino Unido, 2006
OcupaÇão .
Mecânicos de automóveis
Educadores de infância
Assistentes sociais e emprega~as domésticas
Canalizadores
Secretariado em consultórios médicos
Enfermeiros
f, por hora
9,27
7,64
7,61
11,51
9,78
13,44
. '
'
Agentes da polícia 15,91
··J""~:~n~(~~l~"Gf~~~~~Íí~·~~l;~,6: ~nq#iJ\~ .. $I~~~,~~~~M~b~:~ot:·•
<• ,·, :,.~".;~/ •:~.·:;. ,;,:.:,~.:~· ,,_,,, 0 w
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0
.. ~.' ',,l. 0 "-'- ,,, ''''"••~••• ,.,, '''''"", 0 ;' ,;·,:::'"'!: 0 : .-':: •H<"
Alterações na organização do trabalho, assim
como estereótipos do papel dos dois sexos, têm
contribuído para a segregação ocupacional. As modi~
ficações no prestígio e nas tarefas dos «empregados
de escritório» são um bom exemplo disso. Em 1850,
no Reino Unido, 99% dos empregados de escritório
eram homens. Muitas vezes, ser empregado de escri-
tório significava ter uma posiç~o ... À~ .r.e..~pml~-ªl?JJ.i~
dade, que requeria conhecimentos de contabilidade
e, por vezes, envolvia funções de gerência. Mesmo
um empregado de escritório de um nível mais baixo
possuía um certo estatuto social.
. -- ... 0-século .. XJLtro.uxe_a . .mekanização do traba-
lho de escritório (começando com a introdução
da máquina de escrever no final do século XIX) e
com ela o decréscimo dos conhecimentos e capaci~
dades exigidas a um «empregado-de escritório»,
bem como a despromoção social- juntamente com
.. OUtra actividade relacionada: a de «Secretário» -
tornando-senuma ocupação com pouco estatuto
social e baixa remuneração. As mulheres vieram
ocupar estes empregos cuja remuneração e cujo pres-
tígio tinham entrado em declínio. Em 1998, quase
90% dos empregados de escritório e 98% dos secre~
tários no Reino Unido eram mulheres. A percen~
tagem de pessoas a exercer cargos de secretariado
decresceu, contudo, nas últimas duas décadas. Os
computadores substituíram as máquinas de escú~~
ver, e hoje muitos gestores fazem grande parte da
redacção de cartas e outras tarefas directamente no
computador.
O emprego a tempo parcial e a «desigualdade
salarial»
Embora um número crescente de mulheres
trabalhe actualmente a tempo inteiro fora de casa,
uma grande percentagem de mulheres concentra~
~se no emprego a tempo parcial. Nas últimas déca-
das, as oportunidades de trabalho a tempo parcial
crescer-am enormemente, em. parte como resultado
das reformas do mercado de trabalho para encera~
jar políticas de emprego flexíveis, em parte devido à
expansão do sector de serviços ( Crompton, 1997).
Os empregos a tempo parcial oferecem mais
flexibilidade aos trabalhadores do que o trabalho
a tempo inteiro. Por esta razão, as mulheres que
11!
-~1··' ' ,,
'
J
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i
1032 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA
procuram equilibrar as obrigações da família e do·
trabalho têm frequentemente preferência por estes
empregos. Em muitos casos, esse equilíbrio é alcan-
çado, e as mulheres, que de outra forma poderiam
renunciar ao emprego, tornam-se então economi-
camente activas. No entanto, o trabalho a tempo
parcial tem desvantagens, como a baixa remunera-
ção, a precarização do trabalho e as oportunidades
limitadas de carreira. O trabalho a tempo parcial
atrai muitas mulheres. Pode atribuir-se ao emprego
a tempo parcial a grande parte do crescimento da
actividade económica das mulheres no período do
pós-guerra.
Alguns estudiosos defendem que há diferentes
«tipos» de mulheres: as mulheres comprometidas
com o trabalho, e as mulheres não comprometidas
com o trabalho, que não questionam a divisão sexual
do trabalho tradicional (Hakim, I996). De acordo
com esta abordagem, muitas mulheres escolhem
de bom grado trabalhar a tempo parcial, por forma
a cumprir as obrigações domésticas tradicionais.
Existe, no entanto; um factor importante que lhes
deixa pouc~ oportunidade de escolha. Os homens,
de um modo geral, não assumem a responsabilidade
principal na educação dos filhos. As mulheres com
essa responsabilidade - entre outras obrigações
domésticas - e que mesmo assim têm a intenção, ou
a necessidade, de trabalhar em empregos remunera-
dos, consideram inevitavelmente que o trabalho a
tempo parcial é a opção mais viável.
O salário médio das mulheres empregadas na
Grã ~Btêta:n:lia:;··oerrCêomo·em: ·cjüãlquer·o-utro·lugãr; -·
é consideravelmente inferior ao dos homens, apesar
de a diferença se ter atenuado de alguma forma nos
últimos 30 anos. Em I970, as mulheres com empre-
gos a tempo inteiro ganhavam 63 pence por cada
libra auferida p_el?s. _h?~ens a. trab_alhar a tempo
inteiro. Em I999, esse número tinha aumentado
para 84 pence. Entre as mulheres a trabalhar a tempo
parcial, a disparidade reduzit~-se de 5 I pence para 58
no mesmo período de t~rn.po. Esta tendência ge~al
para a extinção da «desigualdade salarial» é correc:
tameme observada como um passo significativo nó .
movimento para a igualdade entre os dois sexos.
Diversos processos estão a afectar tais tendên.:
cias. É significativo que, face ao passado, um númer~
maior de mulheres ocupe actualmente posições:
profissionais com remunerações mais elevadas ....
A probabilidade de as mulheres jovens com boas·'
qualificações conseguirem um emprego bem remu-~. ·
nerado é hoje idêntica à dos homens. Na escola, as
raparigas têm persistentemente melhores resultados ·
do que os rapazes, e em muitas áreas do ensino
rior as mulheres estão hoje em maior número
os homens. A melhoria das qualificações "'u.'·''""''-1u~
nais das mulheres parece contribuir
para que sejam cada vez mais aquelas que
por profissões com uma longa carreira, permitind~ ·•
promoção a lugares de topo. Porém, este prc>gr~~sso
no topo da estrutura ocupacional vai de par
o enorme incremento do número de mulheres
empregos a tempo parcial mal pagos na esfera
expansão rápida dos serviços.
A segregação ocupacional em função do
é um dos factores principais da persistência de
disparidade de salários entre homens e ..... .~.~. .....
As mulheres estão sobrerrepresentadas nos
res com empregos mais mal pagos: mais de 45%
mulheres ganha menos de IOO libras por""'"'·"'"'!
enquanto pouco mais de 20% dos homens
tal rendimento. Apesar de algumas conquistas,
mulheres continuam também subrepresentadas
topo da distribuição do rendimento. Enquanto I
âàs~liómenKgaiihaiifrriais .. âe-sou-noras por .
só 2% das mulheres aufere esse rendimento semanál
(R;1ke, 2000).
A introdução de um salário mínimo ua~ .•. ul.l<li>.
em 1999 (êm 2007, o sàlário mínimo erade5,3S
li~ra~ .Por hora para. tra~alhad9~e~ COf!l iqad~ ."' ......... _ .. _,
rior a 22 anos), também contribuiu para diminuir a
disparidade de salários entre homens e mulheres, já . ·
que muitas mulheres se concentram em ocupações-
coino as de cabeleireira ou empregada de mesa- que
durante muito tempo foram pagas abaixo do salário
111ínimo nacional. Estimou-se que, com a introdu-
cão do salário mínimo, perto de dois milhões de
~essoas tenham recebido um aumento do salário de
aproximadamente 30%. O aumento regular do salá-
rio mínimo tem beneficiado sobretudo as mulheres
em empregos de baixa remuneração. Contudo, os
bendkios do salário mínimo não negam o facto de
uma larga percentagem de mulheres trabalhar ainda
em empregos em que, no máximo, pouco mais rece-
bem do que esse salário mínimo. Muitos homens e
mulheres ainda trabalham (ilegalmente) em troca de
um rendimento inferior ao salário mínimo - orde-
nados com os quais é extremamente difícil viver,
sobretudo com filhos a cargo.
A percentagem substancial de mulheres a viver
na pobreza no Reino Unido é reveladora dessa situ-
ação precária. Isto é especialmente verdade para as
mulheres que são chefes de família. Nos últimos
anos, a percentagem de mulheres entre os pobres
cresceu de forma gradual. A pobreza é especial-
mente grave para as mulheres com crianças peque-
. nas que necessitam de cuidados constantes. Trata-se
de um ciclo vicioso: uma mulher que consiga obter
um trabalho com uma remuneração razoável pode
ficar financeiramente enfraquecida por ter de pagar
a quem cuide das crianças; contudo, _s_e __ J;Qm~Ç.ª-.r
a trabalhar a tempo parcial, os seus rendimentos
diminuirão. As perspectivas de carreira, quaisquer
que fossem, desaparecem. Para além disso, também
perde outros subsídios económicàs- como o direito
---·-à-pen-são ~--a-qye-os-trabalhadores a tempo inteiro
.. têm direito.
Tendo em conta o tempo de vida de uma mulher,
a disparidade de salários produz diferenças gritantes
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1033
ao nível da totalidade dos rendimentos. Um estudo
levado a cabo no Reino Unido nos anos 90 (Rake,
2000) revelou que uma mulher com qualificações
médias, por exemplo, terá uma «perda feminina»
superior a 240 000 libras durante toda a sua vida.
A perda feminina diz respeito à diferença de rendi-
mentos durante uma vida inteira entre homens e
mulheres, com ou sem filhos, que possuem idênti-
cas qualificações. Rake demonstrou que o montante
auferido por uma mulher durante toda a sua vida
varia de acordo com as suas qualificações. Por exem-
plo, pode esperar-se que uma mulher sem filhos e
sem nenhumas qualificações ganhe 518 000 libras
durante toda a sua vida. Se possuir um curso supe-
rior, pode esperar-se que ganhe mais do dobro
daquele montante. A sua «perda feminina» será
relativamente baixa e não irá sofrer da «desigual-
dade de mãe», ou seja, da disparidadede rendi-
mento entre uma mulher sem filhos e uma mulher
com filhos. Em 2006, os dados divulgados pelo
Instituto Nacional de Estatística do Reino Unido
(UK Office for National Statistics) revelavam que
a diferença salarial entre os géneros permanecia,
situando-se nos 17,2%. Tal significa que, em média,
uma mulher com um trabalho a tempo inteiro perde
cerca de 300 000 libras durante toda a sua vida.
A Comissão para Igualdade de Oportunidades
(2007) sublinha que essa perda de rendimentos
equivale a:
11 19 amortizações no empréstimo da casa (depó-
sitos);
• Pagar 21 vezes a dívida de um estudante;
• 29 anos a cuidar de uma criança;
11 15 automóveis novos;
• 525 férias adicionais;
• 10 SOO saídas nocturnas - incluindo jantar e
beber - com amigos.
Estar do lado errado desta disparidade salarial
tem sérias consequências na qualidade de vida dos
1034 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA
indivíduos, bem como nas suas oportunidades a
longo prazo.
As mudanças na divisão doméstica do
trabalho
ricas sobretudo no final da tarde e durante várias
horas aos fins-de-semana, ao contrário das donas de
casa a tempo inteiro.
No entanto, há provas de que mesmo este padr~.o ..
pode estar a mudar. Os homens estão a contribuir
mais para o trabalho doméstico do que no passado,
embora os investigadores que analisaram o fenó~
meno afirmem que é um processo de «adaptação
retardada» (Gershuny, 1994). Isto significa que a
renegociação das tarefas domésticas entre homens e
mulheres ocorre mais lentamente do que a entrada ..
das mulheres no mercado de trabalho. O estudo .
observou que a divisão do trabalho nos lares varia
em função de factores como a classe e o tempo que<
a mulher despende na profissão. Casais de
ses sociais elevadas tendem a ter uma divisão do
Um dos resultados da entrada maciça de mulheres
no mercado de trabalho reside no facto de certos
padrões familiares tradicionais estarem a ser renego-
ciados. O modelo do «homem ganha-pão» tornou-
-se mais a excepção do que a regra, e o aumento da
independência económica das mulheres significa
que elas estão em melhor posição para abandonar
os papéis de género no lar se escolherem fazê-lo.
~er em termos de trabalho doméstico, quer na
tomada de decisões financeiras, os papéis domésti-
cos tradicionais das mulheres estão a sofrer mudan-
ças significativas. Parece que assistimos a uma
passagem para relações mais igualitárias em muitos trabalho mais igualitária, tal como acontece nos.·
lares, apesar de as mulheres continuarem a assumir agregados onde a mulher trabalha a tempo inteiro;
a principal responsabilidade pela maior parte do No geral, os homens assumem uma maior responsa:..
trabalho doméstico. As pequenas reparações no lar, bilidade em relação à casa, mas o fardo ainda não é·
tarefas frequentemente executadas pelos. homens, partilhado de forma igu~litária.
parecem ser a excepção. Os inquéritos demonstram Um inquérito conduzido por Warde e·
que as mulheres continuam a despender, em média, Heatherington ( 1993), em Manchester, revelou que·
aproximadamente··três-horas··por··dia ·com··0 ··traba;; ...... a---divisão do-trabalho domésdce··er-a
lho doméstico (exceptuando compras e cuidados ria entre casais jovens do que entre os mais velhós. :
às crianças), o que contrasta com o tempo despen- Os autores concluíram que os estereótipos de géner~ ..
dido pelos homens: cerca de 1.40 hora (Office for se vão dissolvendo ao longo do tempo. Ós.}ov~·ns
. Natio-D.fll Statistics, 2003c). cujos pais procuravam partilhar-ãs tarefas domésti-
As mulheres casadas que exercem uma activi- cas teriam maior probabilidade de implementar tais ·
dade profissióriãl.êxeéüúúrí inenos tarefas domésti- prádéas ·mis suás próprias vidas. ·
cas do que as demais, ainda que sejam quase sempre Vogler e Pahl (1994) examinaram um aspecto·
as responsáveis principais pela manutenção da casa. diferente da divisão doméstica do trabalho - o
O padrão das suas actividades é, evidentemente, dos sistemas de «gestão» financeira nos lares. O ...
bastante diferente. Elas dedicam-se às tarefas domés- seu estudo procurava compreender se o acesso das ·
O TRABALHO E AVIDA ECONÓMICA 1035
r~----------------------,
1 noonesbury
G. B. TRUDEAU
Doonesbury © G. B. Trudeau. Rei~presso sob a~.~:torização do Universal Press Syndicate. Todos os direit<2s reservados.
«Jeffrey olhou para mim, um olhar cheio de emoção ... »
~< :'Ma..m§J grlt.9.'\!.~t~ grgulhosamente ».
- Rick?
- Aqui, Joanie ...
Tap! Tap!
- O que é isto? A trabalhar num domingo?
--- ··· ·- ···- ·· -··---~0-Jeffrey.disseuma coisa espantosa ontem à noite. Eu quero registá-la no diário.
~ Tap!Tap!
-~e diário?
- Estou a preparar um diário para o suplemento dominical sobre a nova paternidade.
O meu editor acha que desperta actualmente muito interesse a geração de pais mais empenhados. Eie pediu-me
para registar as minhas experiências.
Tap!Tap!
-UH-HUH.
Tap! Tap!
-Escuta, podes tomar conta do Jeffrey hoje? Eu tenho um encontro.
- Desculpa, querida. Já estou em cima da hora.
I
.I
.. I
' .,
't
'
1036 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA
mulheres ao dinheiro e ao controlo sobre as decisões
de gastos se tornou mais igualitário com o aumento
do emprego feminino. Através de entrevistas a casais,
em seis comunidades britânicas distintas, descobri-
ram que a distribuição dos recursos financeiros é,
no conjunto, feita de forma mais justa do que no
passado, permanecendo, ainda assim, relacionada
com questões de classe. Entre os casais com rendi-
mentos elevados, as finanças «conjuntas» tendem
a ser geridas por ambos, existindo um maior grau
de igualdade no acesso ao dinheiro e na tomada de
decisões sobre as despesas. ~anto mais a mulher
contribui financeiramente para o lar, maior é o seu
controlo sobre as decisões financeiras.
Em famílias com baixos rendimentos, as mulhe-
res são muitas vezes responsáveis pela gestão diária
das finanças do agregado, mas não lhes cabem neces-
sariamente as decisões estratégicas sobre a gestão
do orçamento e das despesas. Nestes casos, Vogler
e Pahl sublinharam a tendência para as mulheres
salvaguardarem o acesso dos seus maridos ao dispên-
dio de dinheiro, enquanto elas próprias se privam
do mesmo direito. Por outras palavras, parece haver
uma distinção entre o controlo diário das mulheres
sobre as finanças e o seu acesso ao dinheiro.
A automatização e o debate sobre as
competências
mudança para sistemas mais complexos influencia
a natureza do trabalho e as instituições onde ele é
desempenhado.
O conceito de automatização, ou de máquinas
programáveis, foi introduzido em meados do século
XIX, quando o americano Christopher Spencer
inventou o autómato, um torno mecânico progra-
mável que fazia parafusos, porcas e carretas. Por
enquanto, a automatização tem afectado relativa-
mente poucas indústrias, mas o seu impacto será
sem dúvida maior com os avanços na concepção de
robôs industriais. Um robô consiste num disposi-
tivo automático capaz de desempenhar as funções
usualmente realizadas por trabalhadores. O termo
«robô» tem origem no termo checo robota, ou · ·
servo, popularizado há cerca de 50 anos pelo drama-
turgo Karel Capek.
A maioria dos robôs utilizados na indústria em
todo o Mundo encontra-se no sector automóvel, se
bem que as indústrias de electrónica -leitores de CD ·
e DVD, iPods, telemóveis, etc. -recorram também
muito a este tipo de dispositivo. Por ora, a utilidade ·
dos robôs na produção é relativamente limitada, uma
vez que a sua capacidade para reconhecer objectos -·
diferentes e manipular formas estranhas ainda se
encontra num nível muito rudimentar. Todavia, nos
próximos anos, a redução dos custos da produção
automatizada conduzirá à sua rápida disseminação.
A relação entre tecnologia e trabalho tem sido, desde A disseminação da automatização provocou um aceso
há muito, alvo do interesse dos sociólogos. Como é debate entre sociólogos eperitos das relações indus-
quea-teGflologia-afeeta·a·nossa-experiência·de·traha:=··----tr-iais--sobre-o·impacto-da nova . . _
lho? À medida que a industrialização progride, a lhadores, nas suas qualificações e no seu compromisso
tecnologia tem assumido um papel cada vez maior com o trabalho. Na influente obra Alienation _ q_n:_cf. -·-
no local de trabalho, desde ·a automatizaÇão da Freedom (1964), Robert Blauner examinou a experi-
fábrica à informatização do trabalho de escritório. ência dos trabalhadores em quatro indústrias distin-
A actual revolução nas tecnologias de informa- tas com níveis variados de tecnologia. Aplicand~ a~ ..
ção atraiu um irii:ei.-esse renóvãdó 'por esta questão. ideias de Durkheim e Marx, Blauner operacionalizou
A tecnologia pode conduzir a maiores eficiência e o conceito de alienação e mediu a amplitude com que
produtividade. Mas até que ponto afecta a forma os trabalhadores em cada sector industrial a sentiam
como se trabalha? Para os sociólogos, uma das enquanto perda de controlo e de sentido, isolamento
principais questões consiste em saber como é que a e alheamento. Blauner concluiu que os trabalhado-
res das linhas de montagem são os mais alienados,
111as que os níveis de alienação se atenuavam nos
locais de trabalho em que havia automatização. Por
outras palavras, Blauner argumentava que a intro-
dução da automatização nas fábricas era responsável
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1037
pela inversão da tendência para a alienação crescente
do trabalhador. A automatização auxiliava a inte-
grar a força de trabalho e dava aos trabalhadores um
sentido de controlo sobre o seu trabalho, sentido
ausente noutras formas de tecnologia.
. 1038 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA
;;.'
O sociólogo americano Richard Sennett (1998)
estudou os trabalhadores numa padaria adquirida
por um grande conglomerado de produtos alimen~
tares onde foram introduzidas máquinas tecnolo~
gicamente sofisticadas. A cozedura assistida por
computador alterou radicalmente a forma de fazer
o pão. Os trabalhadores da padaria deixaram..de. ter.
qualquer contacto físico com os materiais e com
os pães: já não utilizavam as mãos para misturar
os ingredientes e amassar, e o nariz e os olhos para
avaliar o ponto de cozedura. Com efeito, todo o
-- · piõéessõ· era contrõlãâoernonitorizado através de
um ecrã de computador. A temperatura dos fornos e
o tempo de cozedura eram controlados por compu-
tador, o que não assegurava resultados fiáveis, pois as
máquinas tanto podiam produzir pão de excelente
.. qualidade como queimá~lo. Os trabalhadores desta
padaria (seria incorrecto considerá-los padeiros) não
eram contratados por saberem cozer pão, mas pela
sua competência na utilização dos computadores.
Ironicamente, esses trabalhadores utilizavam muito
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1039
~ .. ,.,., ... .., ... ~ .. , .... ,.; .. . : .. ·::· . " . '
'.: ,'
.. ,., .. · :"'
pouco a sua perícia em informática. O processo
de produção pouco mais envolvia do que premir
botões num computador. Com efeito, quando a
certo ponto as máquinas computorizadas paravam,
todo o processo de produção era interrompido,
pois nenhum dos trabalhadores «qualificados» da
. .padaria tinha sido treinado ou possuía conhecimen-
tos para solucionar o problema. Os trabalhadores
que Sennett observou pretendiam auxiliar e fazer
com que tudo voltasse novamente a funcionar, mas
a automatização tinha reduzido a sua autonomia.
A introdução de tecnologia computorizada no local
de trabalho tem conduzido não só a um aumento
generalizado de todas as qualificações dos traba-
lhadores, mas também a uma separação na força de
trabalho entre, por um lado, um pequeno grupo de
profissionais altamente qualificados com elevada
escolaridade e autonomia no trabalho e, por outro,
um vasto grupo de trabalhadores em escritórios ou
serviços e operários industriais sem autonomia no
trabalho.
h.
1040 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA
Pensar de um modo crítico
Nos países em desenvolvimento, os trabalha-
dores em centros de atendimento - tal como
· .. -~m Novã Deli (Índia),-nãfõi"bgrafia da página
1040 - são sobretudo jovens solteiros relati-
vamente bem remunerados. Em seu entender,
estarão num processo de qualificação ou de
desqualificação? Até q~e ponto a sua avalia-
_çiq -~~an em conta o contexto social em que as
tecnologias de informação são introduzidas?
No que toca aos centros de atendimento, que
diferenças identifica entre os países em desen-
volvimento e os países desenvolvidos?
O TRABALHO E AVIDA ECONÓMICA 1041
...
";"~:c~:Y•oo.-,,._.., .... ~.,.-::~:- .. ~··.~·· --v,
É, todavia, muito difícil resolver· o debate em
torno das qualificações. A conceptualização e a
avaliação das qualificações são problemáticas. Como
defendem as investigadoras feministas, as «quali-
ficações» são uma construção social (Steinberg,
1990). Deste modo, o que convencionalmente se
entende por trabalho «qualificado» tende a reflectir
o estatuto social de quem o executa, e não a dificul-
dade da tarefa num sentido objectivo. A história das
ocupações está repleta de exemplos em que a tarefa
idêntica é atribuído um nível de qualificação dife-
rente (e até mesmo uma nova designação) quando
as mulheres entram em cena (Reskin e Roos, 1990).
., 1042 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA
O mesmo aconteceu, obviamente, com outros traba-
lhadores com um estatuto baixo, como as minorias
raciais. Mesmo sem haver preconceitos de raça e
de género, as actividades sã9 multidimensionais no
que se refere às qualificações que exigem: a mesma
actividade pode ser desqualificada numa dimensão
e, simultaneamente, requalificada noutra (Block,
1990). Deste modo, as opiniões sobre a desqualifica~
ção do trabalho que resulta da automatização depen-
dem da componente da qualificação sob escrutínio.
Na sua análise sobre o debate em torno das qualifi-
cações, Spenner (1983) sublinha que, por um lado,
os estudos que abordam a qualificação no sentido
da complexidade substantiva de tarefas tendem a
corroborar a tese da «requalificação» e, por outro,
as pesquisas que averiguam a qualificação em termos
de autonomia e/ou controlo exercido pelo trabalha-
dor tendem a revelar que o trabalho tem, de facto,
sido «desqualificado» em virtude da automatização
(Zuboff, 1988; Valias e Beck, 1996).
A economia do conhecimento
geralmente por esta expressão uma economia na
qual as ideias, a informação e as formas de conhe-
cimento sustentam a inovação e o crescimento
económico. Uma economia do conhecimento é
aquela em que grande parte da força de trabalho está
envolvida não na produção material ou na distri-
buição de bens materiais, mas nos seus concepção,
desenvolvimento, tecnologia, marketing, vendas e
serviços. Podem designar-se estes empregados como
trabalhadores do conhecimento. A economia do
conhecimento é dominada pelo fluxo constante de
informação e de opiniões, bem como pelo poderoso
potencial da ciência e da tecnologia. Como obser-
vou Charles Leadbeater:
Muitos de nós [trabalhadores do conheci-
mento] fazemos dinheiro do ar: não produzimos
nada que possa ser pesado, tocado ou facilmente
medido. A nossa produção não é armazenada em
portos, armazéns ou colocada em carruagens de
comboio. Muitos de nós ganhamos a vida forne-
cendo serviços, avaliações, informações e análises,
seja num centro de atendimento, no escritório de
um advogado, num departamento governamental
ou num laboratório científico. Todos estamos no
negócio do ar rarefeito (1999, vii).
Até que ponto a economia do conhecimento se
encontra difundida no início do século XXI? Um ·
estudo de 1999 realizado pela Organização para
a Cooperação e o Desenvolvimento Económico
(OCDE) tentou avaliar a extensão da economia do
Alguns observadores sugerem que assistimos hoje conhecimento entre as nações mais desenvolvidas,
à . t_r.~n~i!.~~-_p_ar~ __ l!_~ __ I!:?..Y..~.E~P_?..A~. ~()~-~~<!~4~_qt~~-. . .. ~~.r.~Y-~~-.Qg __ .m~g!ç~Q __ çl'!, _p,Ç,r.ç~p.tag~m .. _d.R ·-!".! .. l:!,\,!,!:!.!;.!~l:!-.
já não se alicerça fundamentalmente na indústria. total dos negócios de cada país que podem ser atri-
Alegam que estamos a entrar numa fase de desen- buídos a indústrias baseadas no conhecimento. Por
volvimento que vai além da era industrial. Tem sido indústrias baseadas no conhecimento entende-se em
utilizada uma variedade de termos para caracteri- sentido lato a alta tecnologia, a educação e a forma-
zar esta nova ordem social, como os de sociedade Ção, a pesquisa-~ o desenvolvimento, bem como o
pós-industrial, era .da informação e nova eco no- sector -financeiro e de investimentos. As indústrias· :
mia. Todavia, a designação mais utilizada tem sido baseadas no conhecimento detinham mais de metade
economia do conhecimento. da produção dos negócios em meados dos anos 90 no
É difícil formular uma definição precisa para total dos países-membros da OCDE. A Alemanha
economia do conhecimento; porém, entende-se Ocidental detinha a percentagem elevada de 58,6%,
cendo os Estados Unidos, o Japão, a Grã-Bretanha,
::t Suécia e a França contribuído com valores acima
de 50%.
Em 2006, The \Vork Foundation produziu um
relatório para a UE com dados respeitantes a 2005.
()s autores observaram que mais de 40% dos traba-
lhadores na União Europeia encontravam-se em
indústrias baseadas no conhecimento, registando-
-se as percentagens mais elevadas na Suécia, na
Dinamarca, no Reino Unido e na Finlândia (ver
~1.dro 20.2). A educação e os serviços de saúde
constituíam o maior grupo, a que se seguiam os
serviços recreativos e culturais. No seu conjunto,
estes sectores empregavarp. quase 20% dos traba-
lhadores na União Europeia. Os sectores privados,
incluindo os serviços financeiros, empresariais e de
comunicação, representavam 15%.
Os investimentos na economia do conheci-
mento - sob a forma de educação pública, gastos
em desenvolvimento de software e em investiga-
ção e desenvolvimento - representam actualmente
uma parte significativa dos orçamentos de muitos
países. Reconhece-se que a economia do conheci-
mento permanece um fenómeno difícil de analisar,
s,:
6~l~iii~f~bi .. ~~;.~i:+';::;:.i~.·-~ .. :.;:~:~j~.:·· . ·.
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1043
tanto no plano quantitativo como no qualitativo.
É mais fácil medir o valor das coisas físicas do que
ideias, pesquisa e conhecimento «sem peso». É, no
entanto, inegável o facto de a criação e a aplicação do
conhecimento assumirem crescentemente um papel
central na vida económica moderna.
A polívalência
Uma dos argumentos dos comentadores pós-fm-dis-
tas é o de que novas formas de trabalho permitem
que os empregados incrementem a amplitude das
suas competências mediante o envolvimento em
tarefas variadas, em vez de desempenharem vezes sem
conta uma tarefa específica. A produção em grupo e
o trabalho de equipa são vistos como promotores
de uma força de trabalho «polivalente», capaz de
levar a cabo um conjunto alargado de tarefas, o que,
por sua vez, conduz ao aumento da produtividade
e da qualidade dos bens e serviços. Os empregados
com capacidade para contribuir para o seu trabalho
de múltiplas maneiras serão mais bem sucedidos na
resolução de problemas e na formulação de aborda-
gens criativas.
R ···-···•---r;-.·:a·_,,:::!::·:··.·:·· · ' · ·· · ·6 · · emo ·!.::l.fll· e-.-.. ,., .• ~-.... . : ..... , . . . 5 ·
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Fome: Brinklcy and Lee, 2007 © The Work Foundation.
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.. '31,7
26,6
26,0
1044 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA
A transição para a «polivalência» tem implica-
cões no processo de contratacão. Se outrora a base
' '
para as decisões em matéria de contratação residia
na educação e nas qualificações, muitos empregado-
res procuram agora indivíduos que sejam flexíveis
e que possam adquirir novas competências rapida-
mente. Desta forma, o conhecimento especializado
de determinada aplicação informática poderá não
ser tão valioso quanto a capacidade demonstrada
para entender prontamente o que está em questão.
As especializações constituem frequentemente mais-
-valias; porém, se os trabalhadores demonstrarem
dificuldade na aplicação de competências específicas
de forma criativa em novos contextos, a sua presença
corre o risco de não ser encarada como benéfica num
local de trabalho flexível e inovador.
Um estudo da Fundação Joseph Rowntree inti-
tulado The Future ofWork (Meadows, 1996) inves-
tigou os tipos de qualificações hoje procurados pelos
empregadores. Os autores do estudo concluíram
que, tanto nos sectores ocupacionais qualificados
como nos não qualificados, as «qualificações pesso-
ais» são cada vez mais valorizadas. A capacidade
quer para colaborar e trabalhar de forma indepen-
dente, quer para tomar a iniciativa e adoptar aborda-
gens criativas perante desafios estão entre as melho-
res competências que um indivíduo pode levar para
um emprego. Num mercado onde as necessidades
individuais dos consumidores são gradualmente
satisfeitas, é essencial que os empregados, numa
gama de cenários que vai do sector dos serviços à
consultaria financeira, sejam capazes de se socorrer .
das «competências pessoais» no local de trabalho.
De acordo com os autores do estudo, esta «desva-
lorização» de qualificações técnicas pode revelar-se
particularmente difícil para os trabalhadores que
desde há muito têm trabalhado em actividades repe- .
titivas e rotineiras, onde as «qualificações pessoais»
não tinham lugar.
A formação no emprego
A «polivalência» encontra-se mnmamente asso-
ciada à ideia de formação e informação do empre•
gado. Em lugar de empregar especialistas de uma .
área específica, muitas empresas prefeririam ... v •.• c .... -.
tar trabalhadores não especializados capazes e
competência para desenvolverem novas '-"'~'"'-''u"u'-"
no emprego. À medida que se alteram as ,V~J''-'C'"""V'""
da tecnologia e do mercado, as empresas voltam
formar os seus próprios empregados em função
suas necessidades, em lugar de recrutarem .... v,,,LL .• ..,.
tores externos com elevadas remunerações ou de
substituírem os empregados existentes por
O investimento num núcleo de empregados que
podem tornar trabalhadores valiosos para toda
vida é visto como uma forma estratégica de acampa~
nhar os tempos em rápida mudança.
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1045
~~~11$--.d~·-5f~:>nsttJ:ti~q·.;. ,J.~_;d:'~t.~~)P,t.94,l1~· . tipp,s.:dé t:ral]~hp qu;e ~ão ~<f~tilmeiw~ex~cu.láveis· :
...... ;.:;.~.-........ , ·, tês' ·, d~5.#0Hi~os'' ~t~á~~~ ~~à··~ .fió :til!' i:~l~fop.~ (o~ é1trá,y~~-il(Xig~~' '.··.
:Çõ,eú~rli fios)>~- se~_pÇrd,a.4~ qüalid~qp/~ aq~d~s .. '
qúe ·p: h~~, ·sa,Ó;· Por eá~rnp~ó,os pilotos·e:B·S. 'táxis~
fie' fdffuà ·'afg@j~' uhl. t~~ ·-~~ffi~e$ ,'?h 'ámedéahÇ>S não são afict~dQS p.eÚ
'. :_.·_:a.'_:_;~_s_._ •• ~_.sa .• _._.,· .. l·:_.:s··~.·-•. ~·t_._·._.e-.l .. ::-~-.m~:_.:::·-·l·::ril·.·_:_·_·o·.o.·::'·::.·c·_~_-.·.: ___ ·a:.·_-._._:_~-.-.c_ .. _-.-.·.·_·:·.~ .... ·.\).·.·.·._.oj_· .. __ ._·.~._.-_··:·-·._.d·.·_•·-·a~: .. · ... , ~~$lô_cí~.liz~Ç~tidip):b4~~ã9; ap cóntrári9 daque\~~- •' u.e:Q:ª'1~,Ç.1L.9ÇJ),q·:sqt;:,~;e:·iq:·*-.<'h•'•·"' u u ;:" . · .-··· .· .. -~,fios ~e.rviçqs 4e;-çll.gi~:4i'?i.Ç~q? _na;· :
pr<)a~I.窺:'~F~.J;r.a.s .~êo,fiS,Ieq'lie.ijtÇi~LS,, :paroc armente · · · ' · nó·s ;s'éi:-vtçpsçl~ f.àCÍi9lôgià)·.
H~~~MÍ';~~i.,W%?:~+§~:.:;; .. · .. , ·r:·.:··;:. ·r··· . ., . }'lo :ensitl.o~upetiór,~ D:~ iriV~s-
.· na pr,ogr~i#à.§~b'
··~M·q:J~ti~";
1046 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA
.. . - ......... ~ ..
«''Podavi~~ . . ~ÍV9 éact~ ªS etnpfeSª,S 9w~;:.~ L~"''~·'"''~~~·
y;~;:çtet;cr~:vç, ...... ~~+ '"('"'~' :-' __ ~." · é~"s!-<·~·~:;.'c'.-"I'àiáin~~f{ çã9<pªra . ó
gi·qp.:'!.lP~í'!:Ç:ap; ·P~Lrç:(Jt;: .• l·.···~~~~~~~;···· ·~i~~~:~~~!~
·· ~l'ri~ç;~':SC a p~tqer , .. e_:ssa··o<JSl<;:au -~~·\.·L~""'!"; .. }{~H-!l'.':~n.,
· ; Gh.U}i, ~iiÇldióJÇ s·e· i *º9nt:t!lJ.11 q~ ,u ..... I,..,Cl.J,''"~~
.· · ~g~~is~a8i,ª~ ,T. s·! t:>t~jr~tis!Q.<U(!_Çn.m~
Pensar de um modo crítico
Blinder observa que a Revolução Industrial
não implicou o fim da agricultura - «comi-
miamos a comer»-, mas que a transformou.
De igual modo, a Revolução da Informação
não implicou o fim da indústria - continu-
amos a utilizar máquinas - que, no entanto,
requerem hoje um número muito inferior de
trabalhadores. ~ais as consequências para
as sociedades desenvolvidas da deslocaliza-
ção em larga escala do trabalho no sector dos
serviços? ~e tipos de trabalho remunerado
exercerão os trabalhadores para ganhar a vida
nestas sociedades?
Algumas empresas organizam a formação no
local de trabalho recorrendo ao método da partilha
do trabalho. Esta técnica permite que a formação de
competências e a assistência aos trabalhadores mais
novos na empresa ocorram em simultâneo com a
execução do trabalho. Um especialista em tecnolo-
gias da informação poderia trabalhar em conjunto,
durante várias semanas, com um gerente da compa-
nhia de modo a que cada um deles.adquir.isse.algu~ ..
mas das competências do outro. O tipo de formação
é eficiente em termos de custos, já que não reduz
significativamente as horas de trabalho e permite
que todos os empregados envolvidos possam alargar
-·--··· ··a sua bas~-de.c0mpetências.. . . . ;,_ .
· A formação no local de trabalho pode ser uma
importante forma de os trabalhadores desenvolve-
rem as suas competências e perspectivas de carreira.
No entanto, é importante notar que as oportuni-
dades de formação não estão disponíveis de modo
~-······ ·· igúal para todos os trabalhadores. Os estudos reali-
zados pelo Economic and Social Research Council
britânico sobre jovens nascidos entre 1958 e 1970
revelaram que a probabilidade de os empregados
com qualificações receberem formação no local de
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1047
trabalho era superior à dos empregados desprovidos
de qualificações. Tais estudos sugerem que existe
um investimento mais sistemático naqueles que têm
mais qualificações, enquanto o pessoal desqualifi-
cado tem menos oportunidades. A formação tem
também impacto ao nível dos salários. No grupo de
jovens nascidos em 1970, a formação no emprego
aumenta, em média, em 12% os ordenados dos
trabalhadores.
O trabalho em casa
O trabalho em casa permite aos empregados execu-
tar algumas ou todas as suas responsabilidades em
casa, frequentemente através da Internet. Em traba-
lhos que não requerem um contacto regular com
os clientes ou parceiros, como o trabalho de design
gráfico feito por computador ou o de copy-writing
para publicidade, os empregados consideram que
trabalhar a partir de casa lhes permite equilibrar as
responsabilidades fora da esfera do trabalho com as
exigências laborais e aumenta a sua produtividade.
Se a tecnologia transforma continuamente a nossa
forma de trabalhar, não há dúvida de que o fenó-
meno dos «trabalhadores em rede» continuará a
crescer nos próximos anos.
Apesar de o trabalho realizado em casa ser hoje
mais aceite, não é necessariamente a opção prefe-
rida por todos os empregadores. É bem mais difícil
supervisionar o trabalho de um empregado quando
este não está no local de trabalho. Por esta razão, há
novos tipos de controlo sobre aqueles que trabalham
em casa por forma a garantir que eles não abusam da
sua «liberdade». Por exemplo, os trabalhadores têm
de contactar regularmente com o local de trabalho
i
i
i
I
\
li
i!
1048 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA
ou enviar relatórios com maior frequência do que os
outros empregados.
Apesar de existir um grande entusiasmo acerca do
potencial da «casa como local de trabalho», alguns
investigadores advertem quanto à probabilidade de
surgir uma polarização significativa entre trabalha-
dores que ·realizam em casa projectos inovadores
e criativos, e um grande número de trabalhadores
desqualificados, que executam trabalhos de rotina,
como a dactilografia ou a inserção de dados. Caso
tal cisão viesse a ter lugar, as mulheres iriam prova-
velmente concentrar-se nas categorias mais desqua-
lificadas dos trabalhadores em casa (Phizacklea e
Wolkowitz, 1995).
O fim do «emprego para toda a vida» e
o advento do trabalhador polivalente
À luz do impacto da economia global e da
procura de uma força de trabalho «flexível»,
alguns sociólogos e economistas defendem que, no
futuro, cada vez mais indivíduos se tornarão no que
desigl1af?. .. c?~.?- -~~~E-~!~~~~E~~ .P5~~~v.aJ<:~~.<:~.~. ~s~~s .
terão um «portefólio de especializações» - uma
série de especializações e credenciais diferentes -
que utilizarão para mudar de emprego ao longo das
suas vidas de trabalhadores. S.Q uma percentagem
relativamente pequena continuará a ter «carreiras»
contínuas no sentida actual. De acordo com estes
autores, a ideia de um «emprego para toda a vida»
está ultrapassada.
Alguns vêem esta mudança para o «trabalhador
polivalente» de uma forma positiva: os trabalhado-
res não ficarão presos ao mesmo emprego durante
anos a fio e poderão planear as suas vidas de trabalho
de um modo criativo (Handy, 1994). Outros defen-
dem que a «flexibilidade» significa, na prática, que
as organizações podem contratar e despedir segundo
a sua vontade, enfraquecendo qualquer sentimento
de estabilidade laboral: A entidade patronal só terá
um compromisso com os trabalhadores a curto
prazo e poderá minimizar o pagamento de benefí-
cios extra ou de direitos de pensão.
Um recente estudo de Silicon Valley, na:
Califórnia, defende que o sucesso económico de· .
uma área já está definido nos portefólios de especia- ·
lização da sua força de trabalho. A taxa de falência ·
das empresas em Silicon Valley é muito alta: cerca
de 300 novas empresas surgem todos os anos, ma~·
um número equivalente também fracassa. A
de trabalho, que tem uma elevada percentagem
trabalhadores especializados e técnicos, aprende·
a ajustar-se a este facto. Assim sendo, afirmam os.
autores, os indivíduos especializados e com talento
migram rapidamente de uma firma para outra;
tornando-se cada vez mais adaptáveis. Os ·
listas técnicos tornam-se consultores, os consulto-'
res tornam-se gestores, os empregados
capitalistas que arriscam - funcionando esta
também de modo inverso (Bahrami e Evans, 199
Há uma tendência crescente entre os jovens,
sobretudo os consultores e especialistas na ·
das tecnologias de informação, para o trabalho d.~
portefólio. De acordo com algumas estimativas,
·Reino·Unido os-jovens licenciados podem
expectativa trabalhar, durante a sua vida activa, em
11 empregos diferentes, utilizando três qualificaç?es
de base distintas. No entanto, esta situação é
a excepção e não a regra. As estatísticas do emprego ·
não confirmam o elevado grau de rotatividade d~s.
funcionários, que foi previsto tendo em linhâ'
conta uma ampla mudança no sentido do
de portefólio.
Estudos levados a cabo nos anos 90 revelaram
os trabalhadores a tempo inteiro na Grã-Bretanha e
nos Estados Unidos - que possuem o mercado de
Erabalho mais desregulado dos países industriali-
za.dos - passavam tanto tempo em cada emprego
como na década anterior (The Economist, 21 de
Maio de 1995). Asrazões parecem residir no facto
Ll.:: os gestores reconhecerem que um alto grau de
rotatividade entre os trabalhadores é dispendioso
e negativo para a sua moral, preferindo manter os
seus próprios empregados a ir buscar novos, mesmo
que isso signifique pagar acima do valor de mercado.
No seu livro Built to Last (1994), James Collins e
Jerry Porras analisaram 18 empresas americanas
cujas acções têm excedido continuamente a cota-
ção média do mercado accionista desde 1926. Os
autores descobriram que estas empresas, em vez de
contratarem e despedirem trabalhadores segundo a
sua vontade, seguiram políticas muito protectoras
em relação ao seu pessoal. Durante o período da
pesquisa, apenas duas dessas empresas, comparadas
com 13 das empresas com menos sucesso incluídas
no estudo, contrataram um director executivo vindo
do exterior.
Estes dados não contrariaram as ideias dos que
falam da emergência do trabalhador polivalente.
A diminuição da dimensão organizacional das
empresas é. uma realidade, atirando para o mercado
de trabalho ~mitos milhares de traba1haaoiis .. qiiê. ·
podiam pensar que tinham um emprego para toda
a vida. Para encontrarem um novo emprego, podem
ser forçados a desenvolver e diversificar as suas
capacidades. Muitos, especialmente os mais velhos,
'i>odem .. ii"üncã" rriãiS cons'eguir' e~contrar empre-
gos comparáveis aos que tinham antes, ou, talvez
mesmo, qualquer trabalho remunerado.
.... ~:\_precarização do trabalho,
o desemprego e o significado
social do trabalho
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1049
também produzir uma ambivalência profunda por
parte daqueles que se sentem enclausurados num
mundo em constante mudança. Tal como obser-
vámos neste capítulo, as transformações profundas
que ocorrem actualmente no mercado de trabalho
enquadram-se na transição de uma economia assente
na indústria transformadora para uma economia
baseada nos serviços. A difusão das tecnologias de
informação está também a provocar transformações
na estrutura das organizações, no tipo de gestão
utilizado e na forma como as tarefas são distribuídas
e executadas. A mudança brusca pode ser perttlr-
badora. Os trabalhadores, em diversos tipos de
ocupações, vivem hoje a precarização do trabalho,
um sentimento de receio a respeito da estabilidade
futura da sua posição e do seu papel no local de
trabalho.
O fenómeno da precarização do trabalho tornou-
-se um dos principais tópicos de debate no âmbito
da sociologia do trabalho em décadas recentes.
Muitos comentadores e fontes mediáticas sugerem
que a precarização do trabalho tem crescido conti-
nuamente nos últimos 30 anos, atingindo hoje um
peso sem precedentes nos países industrializados.
Argumentam que os jovens já não podem contar
com uma carreira segura e um único patrão, devido à
·crescente globalização da economia, que incrementa
·as fusões de empresas e o «corte» no número de
empregados. O esforço no sentido da eficiência e do
lucro faz com que os indivíduos com poucas qualifi-
cações- ou as qualificações ~<erradas» -sejam rele-
gados para empregos precários e marginais, vulne-
ráveis às mudanças nos mercados globais. Apesar
dos benefícios trazidos pela flexibilidade no local de
trabalho, vivemos hoje numa cultura de «contrata-
ção e despedimento», onde a ideia de um «emprego
para toda a vida» já não tem lugar.
O significado social do trabalho
Apesar de estas novas formas de trabalho apresen- Para a maioria dos indivíduos o trabalho é, de todas
tarem, para muitos, grandes oportunidades, podem as actividades, a que ocupa a maior parte das suas
·I
1050 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA
vidas. Associamos, frequentemente, a noção de
trabalho a um esforço monótono ~ um conjunto de
tarefas que pretendemos minimizar e a que quere~
mos escapar, se possível. Mas o trabalho é mais
do que fadiga, ou as pessoas não se sentiriam tão
perdidas e desorientadas quando ficam desempre~
gadas. Como se sentiria se pensasse que nunca mais
encontraria um emprego? Nas sociedades modernas
ter um emprego é importante para manter a auto~>
~estima. Mesmo quando as condições de trabalh0 'i
são relativamente desagradáveis e as tarefas a ·
zar monótonas, o trabalho tende a ser um '-'"'·'u'-.llLu
estruturante na constituição psicológica das ... ~ú·úv"·'"
e no ciclo das suas actividades diárias. Há
' características do trabalho que são relevantes a
respeito:
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1051
1052 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA
~>t?'9$Silbi.l::i4ªA:ies·. de trába- ·
>4.~',r:;í;.:.r~a».~~:t:'l~m ~.,~-p.!-;;;"'"'1Lii'O!ó:té ,~~-n1-~n~·
Pensar de um modo crítico
~e importância atribui ao trabalho remune-
rado na sua vida? Gorz (1985) considera que
o declínio da importância do trabalho tem
o potencial de abrir novos «caminhos para
o paraíso». Os indivíduos dispõem de mais
tempo para desenvolver actividades criativas
e desfrutar das suas relações com outros, à
medida que diminui o tempo que despe~dem
na economia formal. Será que uma sociedade
tão utópica poderá emergir no contexto das
ecgngm!ª$. __ qpi~ªli.~.t.ª.s .. LE.m .... qu~;: ... s.~n.tido ... a ....
perspectiva «socialista pós-industrial» de
Gorz se diferencia dos programas socialistas
e comunistas tradicionais de mudança social?
1. Dinhei~o -'O· saládõ"é a pdncipal fonte de rendi-
mento de que a maioria das pessoas depende
para fazer face às suas necessidades. Sem esse
rendimento, as ansiedades relativamente à
gestão do quotidiano tendem a aumentar.
2. Nível de actividade - O trabalho
frequentemente uma base para a aquisição e
exercício de competências e capacidades. nL ..... ~ ......
quando o trabalho é rotineiro, ele prouv,, ..... ,,H ...
um ambiente estruturado no qual as energias
uma pessoa podem ser absorvidas. Sem ele,
oportunidades para exercitar tais '-VlU(J\;;LI;;UI..Jl4ó
e capacidades poderão ser reduzidas.
3. Variedade - O trabalho possibilita o
a contextos que contrastam com os ....... u ......
tes domésticos. Na esfera do trabalho,
quando as tarefas são relativamente
<>~ !P.citvf4l1.o.~ P9cl~m ªPI~_ç!ªI--"'!!"'~~~--'1~=..::1=~
coisa diferente das suas actividades domés
4. Estrutura temporal - Para os indivíduos
um emprego fixo, o dia encontra-se habitu;
almentc organizado .de acordo com o ritmo
de trabalho. Embora este possa ser, por vezes,
opressivo, dá um sentido ~s actividades dilri'as.:
Aqueles que estão desempregados têm frequert:..
temente como maior problema o aborreci-
mento e desenvolvem um sentido de apatia em. ·
relação ao tempo.
5. Contactos sociais - O ambiente de trabalho
possibilita frequentemente a criação de laços de
amizade e a oportunidade de partilhar activida-
des com os outros. Fora do local de trabalho, o
círculo de possíveis amizades e conhecimentos
rcLtuzir-sc-á provavelmente.
6. Identidade pessoal - O trabalho é habitual-
mente valorizado pelo sentido de identidade
social estável que oferece. Para os homens, em
particular, a auto-estima está frequentemente
ligada à contribuição económica que dão para
as despesas domésticas.
Face aos itens que constam desta lista, não é difí-
cil perceber por que é que estar sem trabalho pode
minar a confiança dos indivíduos no seu valor social.
O aumento da precarização do trabalho
Em 1999, a Fundação Joseph Rowntree publicou
os resultados de um Inquérito sobre a Precarização
e Intensificação do Trabalho (JIWIS), tendo por
. . base entrevistas em profundidade a 340 britânicos,
desde operários a administradores. O estudo visava
avaliar a extensão da precarização do trabalho, bem
como o seu impacto no local de trabalho e nas famí-
lias e comunidades. Os autores .do .estudo_.ob.s.ern-
ram que a precarização do trabalho tem registado
um aumento na Grã-Bretanha a partir de 1966, com
o período de crescimento mais intensivo a ocorrer
entre os trabalhadores manuais no final dos anos 70
··--e. nos anos.80, _________ .: ___ ... _ ..... _ _".
Apesar de uma retoma económicaglobal
iniciada em meados dos anos 80, a precarização do
trabalho continuou, no entanto, a crescer. O estudo
concluiu que a precarização do trabalho está agora
no seu auge, registando o valor mais elevado desde
--_--"ti Segunda Guerra Mundial (Burchell et al., 1999 ).
O inquérito também examinou as categorias
de trabalhadores que, ao longo dos anos, têm sido
. . submetidos aos níveis mais elevados e aos mais
baixos de precarização. Os autores descobriram
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1053
que, em meados da década de 90, o aumento mais
elevado na precarização do trabalho ocorreu entre
os trabalhadores não manuais. Entre 1986 e 1999,
os «profissionais» deixaram de ser o grupo ocupa-
cional mais seguro para se tornarem o menos seguro,
enquanto os trabalhadores manuais registaram, de
alguma forma, níveis mais baixos de precarização do
trabalho. Uma das principais razões desta precariza-
ção parecia ser uma falta de confiança na adminis-
tração. ~ando questionados quanto ao interesse
da administração pelos interesses dos empregados,
44% dos inq~üridos afirmaram que era «pouco» ou
«nenhum» (Burchell et al., 1999).
Muitos investigadores concordam em que a
precarização do trabalho não é um fenómeno novo.
O desacordo prende-se com a avaliação da sua evolu-
ção nos últimos anos e, sobretudo, com a identifica-
ção dos segmentos da população trabalhadora que
são confrontados com a precarização do trabalho
de forma mais acentuada. Alguns críticos defendem
que estudos como o projecto sobre a precarização e
a intensificação do trabalho (JIWIS) que acabámos
de mencionar não passam de uma resposta pouco
fiável à percepção da precarização entre as classes
médias.
A «classe média insegura»: haverá um
empolamento da questão da precarização
do trabalho?
No final dos anos 70 e nos anos 80, a
Grã-Bretanha viveu uma recessão económica que
atingiu particularmente as indústrias transformado-
ras tradicionais. Neste período, perderam-se cerca
de um milhão de postos de trabalho nos sectores
metalúrgico, da construção naval e do minério do
carvão. Os «profissionais» e os gestores só enfren-
taram pela primeira vez em larga escala a precariza-
ção do trabalho nos anos 80 e 90. As privatizações e
os despedimentos afectaram o sector financeiro e da
banca. A expansão da era da informação acarretou a
perda do emprego de muitos funcionários públicos,
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1054 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA
Com o encerramento da siderurgia Ravenscraig, em 1992, as velhas ideias sobre «Um emprego para toda a vida» acabaram por se '
revelar um mito para os trabalhadores desta fábrica na Esc6cia. Actualmente, procede-se ao seu desmantelamento e à renovação
urbana do espaço.
quando os sistemas foram emagrecidos através da
utilização dos computadores.
Enquanto os operários se habituaram, de alguma
forma, a viver com a ameaça da perda do emprego, os
trabalhadores de colarinho branco estavam menos
preparados ·para·a:s· mudanças introduzidas ·nas suas
ocupações. Esta ansiedade entre os profissionais
especializados levo~ alguns a falar de uma «classe
média insegura». O termo foi utilizado para descre-
ver os trabalhadores de colarinho bi:a~co cuja fé na
estabilidade dos seus empregos os levara a assumir
compromissos fin.ànceiros signif1cativos,como hipo- ·
tecas consideráveis, educação privada para os filhos
ou actividades de lazer de custos elevados. Como
nunca tinham pensado em perder o emprego, o
súbito espectro do desemprego levou-os a viver uma
ansiedade e uma instabilidade enormes. A precariza-
ção do trabalho continuou a ser um tópico central
nos círculos mediáticos e «profissionais», apesar de·
alguns acreditarem que a reacção tinha sido exage·
rada quando comparada com a precarização mais
... crónica ·vivida pelas-classes trabalhadoras; ....... ··· --.. ------·-'
Os efeitos nocivos da precarização do trabalho.
O inquérito job- Í~security and U'ôrk Intensification
(Burchell et al, 1999) observou que, para muitos
trabalhadores, a precarização do trabalho consis'tc: 'eiii' '
muito mais do que o medo do desemprego. Engloba
também ansiedades quanto às transformações do
próprio trabalho e quanto aos efeitos dessas transfor·
mações na saúde dos empregados e na sua vida pessoal.
O estudo revelou que, à medida que as estrutu-
ras organizacionais se desburocratizam e que ganha
rçrreno a tomada de decisão no local de trabalho,
cambém se exige dos trabalhadores uma maior
responsabilização no trabalho. Mas, ao mesmo
ccmpo que as exigências sobre os trabalhadores
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1055
aumentam, muitos vêem diminuir as suas oportu-
nidades de promoção. Esta combinação conduz ao
sentimento, entre os trabalhadores, de que estão a
«perder o controlo» sobre aspectos importantes do
seu emprego, como o ritmo de trabalho e a confiança
na progressão da carreira.
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ij.ª'n:CJ.~ oJI ·~r~~:~ih~r·pa.~~ ·,vN~.r~. .
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~R:x::~~g~-.:~{~~frl't~l}~q~::~l~·~~:~~~,,~:~"-·-··· {f:~~iS~~5} . . . 1~ a& . ·~· :
1056 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA
Para o sociólogo Paul du Gay, a burocracia é
importante porque propicia a responsabilidade e
a ética num cenário caracterizado pelo incremento
de práticas empresariais e trabalho flexível (ver
Capítulo 18, «Organizações e redes sociais»).
Um segundo aspecto nocivo da precarização
do trabalho diz respeito à vida pessoal dos traba-
lhadores. O estudo de Burchell et al. observou uma
forte correlação entre a precarização do trabalho e
a fragilidade da saúde. Esta ligação é fundamentada
por dados do British Household Panel Survey, o qual
revela que a saúde física e mental dos indivíduos
se deteriora com episódios de precarização laboral
prolongada. Em vez de se adaptarem às condições
precárias, os trabalhadores permanecem ansiosos e
em stress constante. Esta pressão do trabalho parece
contagiar o ambiente doméstico: os trabalhadores
submetidos a situações de grande precariedade a
nível laboral também tendem a viver sob tensão em
casa (Burchell et al., 1999).
O desemprego
As taxas de desemprego têm flutuado considera-
velmente no decurso deste século. Nas economias
desenvolvidas, o desemprego atingiu o seu auge
durante o período da Grande Depressão no início
dos anos 30. Em alguns países, a força de trabalho
desempregada rondou os 20%. O pensamento do
economista John Maynard Keynes (I883-I946)
influenciou fortemente a política na Europa e nos
Estados Unidbs· dutafite···o· .. p·erfodo do·J;-ôs::guetta.
Keynes acreditava que o desemprego provinha da
falta de poder de compra necessário à aquisição de
bens, o queconduziriaàfalrade estímulo da produção
e, por sua vez, à redução da procura de mão-de-obra.
Os governos podem intervir para aumentar o nível
da procura n~~1a ec~n~~ia,. Í~~ando à criaçã~ de
novos postos de trabalho. Muitos passaram a acre-
ditar que a gestão da vida económica pelo Estado
significava que os índices elevados de desemprego
pertenciam ao passado. O compromisso com o
pleno emprego tornou-se parte da política governa- ·
mental praticamente em rodas as sociedades desen~ ·
volvidas. Até aos anos 70, estas políticas pareciam'
ter sucesso, e o crescimento económico foi mais OlJ.
menos contÍnuo.
Durante os anos 70 e 80, o controlo dos ... ~ ....... ,
de desemprego revelou-se mais difícil, e o keynesia~.
nismo foi, em grande parte, abandonado como
de regulação da actividade económica. Por exen1::
pio, durante cerca de um quarto de século, a ...
da Segunda Guerra Mundial, a taxa dena Grã-Bretanha foi inferior a 2%. Aumentou
I2% no início dos anos 80, depois baixou,
a subir no fim dessa década. Na segunda metade
anos 90, o desemprego diminuiu mais uma vez
Grã-Bretanha, e em 200S representava menos de S ·
Ao longo da história, as taxas de
permaneceram globalmente elevadas. Em
rondavam os 6,3%, representando cerca de
milhões de pessoas. No entanto, também não
mos esquecer que parte considerável do
informal, sobretudo nos países desenvolvidos,
consta das estatísticas oficiais. Deste modo, é
vel que grande parte dos indivíduos «
desempregados exerçam, de alguma forma,
actividade laboral. Os jovens com idades
didas entre os IS e os 24 anos representam 44%
população desempregada, persistindo uma dttj~re11c
com base no género: apenas 48,9% das mulheres
idades superiores a IS anos está empregada,
entre os homens a percentagem homóloga se
pará 74%; .. ks tãxas~ de desemptegõ ... u ........... ..
consideravelmente de região para região, ... ..,..,, ........ -
o valor médio de 3,6% no Leste Asiático, de 9,~9(> · ·
África Subsariana e de 12,2% (o valor mais elevado)
Médio Oriente e no Norte de África (Euro
2007). Estas estatísticas regionais também V\..l.u•• .. •+
situações económicas nacionais muito diferentes.
região sul da África, por exemplo, as taxas de
prego variam entre os 80% no Zimbabué e os 50% na·
Zâmbia, os 21% em Moçambique e apenas os
na Namíbia ( CIA, 2007).
Análise do desemprego
Contudo, não é fácil interpretar as estatísticas
oficiais de desemprego (ver Figura 20.4). Também
não !: fácil definir o desemprego. Significa «estar
sem trabalho». Mas aqui «trabalho» significa
<<trabalho remunerado» e «ter uma ocupação reco-
nhecida». As pessoas devidamente registadas como
desempregados podem dedicar-se a muitas formas
de actividade produtiva, como pintar a casa ou tratar
do jardim. Muitas pessoas têm empregos remunera-
dos a tempo parcial ou só têm empregos pagos espo-
radicamente; os reformados não são contabilizados
como «desempregados».
Muitas estatísticas oficiais são calculadas de
acordo com a definição de desemprego utilizada pela
Organização Internacional do Trabalho (OIT). O
registo do desemprego efectuado pela Organização
Internacional do Trabalho inclui os indivíduos que
não têm emprego, que estão disponíveis para iniciar
uma actividade no prazo de duas semanas e que
procuraram um emprego no mês anterior. Muitos
economistas pensam que a esta taxa de desemprego
padrão se deviam acrescentar dois outros tipos de
desempregados: por um lado, os «trabalhadores
desmotivados», que gostariam de ter um emprego
' mas que, tendo perdido a esperança de o ·conseguir;
desistiram de procurá-lo; por outro, os «trabalha-
dores involuntários a tempo parcial», que preten-
dem um emprego a tempo inteiro, mas não conse-
... guem encontrá-lo. · ·
--· ···· · As estatístieas--glebais · dó:. desemprego são
L •. • também problemáticas devido ao facto de englo-
,;. .. barem dois «tipos» distintos de desemprego. Um
deles, o desemprego ocasional, por vezes desig-
nado como «desemprego temporário», refere-se à
. . entrada e saída habitual, por um curto período, de
".-....... indivíduos no mercado de trabalho, por razões como
::L a mudança de emprego, a procura de uma ocupação
após a licenciatura ou um período de saúde débil.
r;· .. Em contrapartida, entende-se por desemprego
estrutural a falta de emprego resultante de mudan-
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1057
ças estruturais na economia, e não de circunstâncias
que afectem os indivíduos. O declínio da indústria
pesada nos anos 70 e 80, por exemplo, contribuiu
para um elevado nível de desemprego estrutural em
muitas economias industrializadas.
Tendências do desemprego
Na Grã-Bretanha, as variações na distribuição do
desemprego, tal como este é definido pelo governo,
encontram-se bem documentadas. O desemprego
é mais elevado entre os homens do que entre as
mulheres. Tal como se observa na Figura 20.5, no
final de 2006, 975 000 homens e 702 000 mulheres
encontravam-se no desemprego. A probabilidade de
os homens desempregados terem trabalhado ante-
riormente era duas vezes superior à das mulheres.
A probabilidade de as mulheres registadas no desem-
prego terem ficado em casa a cuidar das crianças ou
do lar era dez vezes superior à dos homens.
O desemprego é, em média, mais elevado entre
as minorias étnicas do que entre a população branca.
As minorias étnicas têm também taxas de desem-
prego de longa duração mais elevadas do que o
resto da população. Todavia, estas tendências gerais
ocultam uma parte significativa da diversidade nas
taxas de desemprego entre as minorias étnicas (ver
Figura 20.6). O desemprego entre a população
branca permaneceu abaixo dos 5% em 2004. Entre
a população de origem indiana, a taxa foi apenas
um pouco superior, rondando os 7% - um dos
factores que leva alguns a sugerir que a população
britânica de origem indiana já quase alcançou a
paridade socioeconómica com a população branca.
No seu conjunto, os restantes grupos étnicos minori-
rcí.rios apresentavam taxas de desemprego duas a três
vezes superiores às da população masculina branca.
Situando-se nos 20%, a taxa de desemprego entre as
mulheres paquistanesas era a mais elevada no Reino
Unido em 2004, sendo cinco vezes superior à das
mulheres britânicas ou irlandesas brancas. No que
toca à população masculina, os negros das Caraíbas
1058 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA
População com idade superior à idade escolar
. I
. •1."!' .. ""·'!'!:·:=··""· "!"Í!"!~~~~~--:Empreglj.clos??=:.'!'!: ·""' .. :'!'!~ :'!'!. -.~'!'!""!"!"!""""'"111! ... '!'!·.;:'l'l!.l
Sim·· ·Não
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Atempo iritéiro
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Deseja tr~bfllhar? · ~!=!i=!!~i:!!!!!!!~•·
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Não : .· ,: . ·Sim'
... ··. . , :·,·a:;;.:_:; :·:·.i:· .· : ...... ,
f:rE3t~od~ U11,1 hqr,~r)9 !J:1fl.iS al~gadó? . ' ,.,~, .
......
;·'.:,[.~;)~.':·:· ......... ·~r~cura·e;p~~~o~ .
Sim ·
Figura 20.4 Uma taxonomia dos estados possíveis de emprego, desemprego e não-emprego.
Fonte: Sinclair, 1987,2.
ou de África, os indivíduos naturais do Bangladeche
ou de grupos étnicos mistos apresentavam as taxas
mais elevadas de desemprego, entre 13 e 14%. Estes
valores eram quase três vezes superiores aos 5% de
desempre~ad?S. .. ~ntre_ '?.~ ho~~fi:S bri_~~~i~o_s e irla11~
deses brancos.
Os jovens são particularmente afectados pelo
desemprego, sobretudo nos grupos étnicos minori-
tários. No Reino Unido, mais de 40%. dos homens .
' .
naturais do Bangladeche com idades inferiores a
25 anos encontràvam-sé no desemprego em 2001 e
2002. Nos outros grupos étnicos minoritários, a taxa
de desemprego dos homens jovens variava entre os
25 e os 30%, contrastando com a taxa de 12% entre
os homens brancos com a mesma idade.
Há uma percentagem substancial de jovens
faz parte dos desempregados de longa duração,
cialmente os que pertencem a grupos
Mais de metade dos adolescentes masculinos
pregados inclui os que não têm emprego há
·-meses ·aumãiS':·o âe·sempregado'âe longã·-:1=:--"'="=
pode usufruir de cursos de formação, de a;,"'·"~"·····
cia na procura de emprego e de o
emprego subsidiado.
A dasse social e as taxas de desemprego estão'.
correlacionadas. De acordo com o estudo do ESRC·
efectuado junto dos jovens nascidos em .. i97o,
aqueles cujos pais provinham das classes socia:is .
ou II tinham as taxas de desemprego mais baixas,
enquanto aqueles cujos pais provinham da rJasse·--"1k~
social V ou eram filhos de mães solteiras, ou apre-
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1059
Reino Unido
Milhões
4.---------------------------------~
Total
, ...
3f--------------,,L'-----~,-------~~--------------~
,' \ ,~',
I I \
\ I ',
I \
2f------------L--~------~'--~----~'~,--------~
...
' '-- ... -... "
0+----.----.----.----.----.----.---~
1971 1976 1981 1986 1991 1996 2001 2006
Figura 20.5 Desemprego segundo o género, Reino Unido, 1971-2006.
Fonte: HMSO Social Trentls37, 2007, 42.
Percentagens
Brancos de origem britânica .iiiliil'a
Brancos de origem irlandesa .illiiiliifi'"E::EII
Outros brancos
Origem mista ~· a•lillilli.lliliiiiiiiiiiii.F;;a
Indianos
Paquistaneses
Bangladechianos
Outros asiáticos L~. ·~··alllli··-'·liii8~~fm3
I I
Negros das Caralbas liJIIIilliliii.lililiiiiiiiiF=f~EE~:EEEE~
I
Negros africanos jilllllll·llili·lliiilii·ll·ifiliiSSl
Chineses lil•llilllii$1111!iF2'ã:il:i!Bll
mi Homens I
11 Mulheres
I
... __ .. ~~~~ .. ~:~~~~~-~~.~-nicas .• ~~ .~. ~~~~t-------l-------J _______ j
o 5 10 15 20
Figura 20.6 Taxas de desemprego segundo o grupo étnico e o género, 2004.
Fonte: Officc for Nacional Statistics, 2004a.
sentavam as taxas de desemprego mais elevadas,
incluindo uma elevada percentagem de indivíduos
que nunca trabalharem.
As taxas de desemprego estão igualmente asso-
ciadas às qualificações educacionais. Inquéritos
efectuados no Reino Unido revelaram que quanto
mais elevado é o nível de qualificação, mais baixa é
a taxa de desemprego. Na Primavera de 2003, a taxa
de desemprego entre os indivíduos sem qualifica-
ções era três vezes maior do que a existente entre os
1060 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA
indivíduos com elevadas qualificações educacionais
(Regional Trends, 38, 2003).
A experiência do de_semprego
A experiência do desemprego pode ser muito pertur-
badora para quem se habituou a ter empregos segu-
ros. A consequência mais imediata é, obviamente, a
perda de rendimentos. Os efeitos desta perda variam
de país para país em consequência das diferenças
nos subsídios de desemprego. Nos países onde há
direito à assistência médica pública e a outros bene-
fícios sociais, os desempregados podem enfrentar
dificuldades financeiras agudas, mas continuam a
ter o apoio do Estado. Os desempregados enfrentam
maiores dificuldades económicas em alguns países
ocidentais, como os Estados Unidos, onde os apoios
ao desemprego são atribuídos por períodos de
tempo mais reduzidos e a assistência médica pública
não é universal.
Os estudos sobre os efeitos emocionais do desem-
prego assinalaram que os desempregados passam
frequentemente por uma série de fases de adaptação
ao novo estatuto. Embora a experiência seja indi-
vidual, os indivíduos recentemente desemprega-
dos vivem muitas vezes um sentimento de choque,
seguido de um optimismo face a novas oportunida-
des. ~ando essas expectativas não são rçtribuídas,
como sucede frequentemente, os indivíduos podem
cair em períodos de depressão e profundo pessi-
mismo -sobre--si-próprios ·e--as-suas perspectivas -de
emprego. Se o período de desemprego se prolonga, o
processo de adaptação é eventualmente completado,
com os indivíduos a resignarem-se às realidades da
sua situação (Ashton, 1986).
A solidez das comunidades e dos vínculos sociais
também pode ser peri:urb~dà por níveis de desem-
prego elevado. Num estudo sociológico clássico
dos anos 30, Marie Jahoda e os seus colegas anali-
saram o caso de Marienthal, uma pequena cidade
austríaca que conheceu o desemprego em massa
após o encerramento de uma fábrica local (Jahoda .
et al., 1972 [1933]). Os investigadores observaram·
a forma como a experiência de um longo período de.
desemprego acabou por minar diversas estruturas e .
redes na comunidade. As pessoas revelavam menor:•
participação nos assuntos cívicos, menor vida social ·
e visitavam menos a biblioteca municipal.
É importante sublinhar que a experiência do .·
desemprego também varia em função da .
social. Para os indivíduos posicionados no
nível da escala de rendimentos, as consequências
desemprego são sobretudo sentidas a nível
ceiro. Sugeriu-se que entre os indivíduos da
média o desemprego era perturbador
no que respeita ao seu estatuto social e não ao
financeiro. Um professor universitário de 45
que se encontre no desemprego pode ter
os bens necessários para viver
durante as fases iniciais do desemprego, mas vv"''"'LC"
questionar-se sobre o significado do
para o futuro da sua carreira e sobre o seu valor
profissional.
Pensar de um modo crítico
Se já alguma vez esteve desempregado, como
é que se sentiu? Considera que o género inter-
fere na experiência do desemprego? ~ais os
efeitos sociais e psicológicos do desemprego
para os papéis tradicionais de «ganha-pão»
(h<?~.~_ns). ~--· «~ona~de~~~~~» ... C... ___________ ~_? ____ .t
Como as mulheres estão hoje, também, muito .
mais presentes no mercado de trabalho, será
o desemprego um problema social potencial-
mente mais perturbador do que no passado?
Conclusão:
a «corrosão do carácter»?
Em 1970, num escudo sobre trabalhadores
colarinho azul em Boston, Sennett traçou o perfil · ·
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1061
de Enríco, um mugrante italiano que passou os destino está largamente entregue ao destino dos seus
seus anos de trabalho como porteiro num edifício contactos. De forma similar, Jeanette sente que o
de escritórios na baixa dessa cidade. Embora não seu vínculo ao emprego é ténue. Jeanette gere uma
gostasse das precárias condições de trabalho e do equipa de contabilistas geograficamente dispersos:
salário baixo, o emprego proporcionava a Enrico alguns trabalham em casa, outros no escritório,
11111 sentido de respeito por si próprio e uma forma e outros ainda a milhares de milhas de distância,
«honesra» de cuidar da sua mulher e dos filhos. noutro ramo da empresa. Na gestão desta equipa
Durante 15 anos, Enrico limpou lavabos e esfregou «flexível», não pode contar exclusivamente com as
0 chão dia após dia até conseguir pagar uma casa interacções face a face e no conhecimento pessoal
num subúrbio da cidade. Apesar de não ser atrac- do trabalho de um indivíduo. Em vez disso, Jeanette
tivo, o seu trabalho era seguro, protegido por um gere à distância, recorrendo ao correio electrónico e
sindicato, e Enrico e a mulher podiam planear o seu ao telefone.
futuro e o dos filhos com confiança. Enrico soube Devido às suas deslocações constantes por
com bastante antecedência quando se iria reformar todo o país, as boas amizades de Rico e Jeanette
e quanto dinheiro teria à sua disposição. Tal como têm desaparecido; os novos vizinhos e comunida-
Sennett sublinhou, o trabalho de Enrico «tinha des nada sabem sobre o seu passado, de onde vêm
um propósito único e durável: servir a sua família». ou que pessoas são. Como escreve Sennett (1998),
Embora estivesse orgulhoso do seu trabalho árduo e «a natureza efémera da amizade e da comunidade
honesto, Enrico não queria o mesmo futuro para os local constituem o pano de fundo da principal preo-
filhos. Era importante criar condições para que eles cupação de Rico, a sua família». Em casa, Rico e
pudessem ascender. Jeanette descobrem que as suas vidas profissionais
Como Sennett descobriu 15 anos mais tarde, interferem na sua capacidade para cumprir os seus
num encontro ocasional com Rico, filho de Enrico, objectivos enquanto pais. As horas de trabalho são
as crianças ascenderam efectivamente. Rico concluiu muitas e o casal preocupa-se com o facto de poder
a sua licenciatura em Engenharia antes de ir para negligenciar os seus filhos. Mas mais problemático
uma escola de Gestão émNova Iorqi'fe-:Noo·t4·a:rro-s··· ·· do que fazer malabarismos com o tempo e os horá-
que se seguiram à sua licenciatura, Rico construiu rios é, contudo, o facto de poderem estar a dar um
uma carreira altamente lucrativa e ascendeu aos 5% mau exemplo. Enquanto tentam ensinar aos seus
do topo da escala salarial. Rico e a mulher, Jeanette, filhos o valor do trabalho árduo, do compromisso
mudaram-se pe~p:menos quatro vezes no decurso do e dos objectivos a longo prazo, temem que as suas
---seú.cãsamenro para progrea1rem ·nas suas respecti- próprias vidas contem uma história diferente. Rico
vas c~rrdras. Rico e Jeanette, enfrentando riscos e e Jeanette são exemplos da forma de trabalho fl.exí-
mamendo-se abertos à mudança, adaptaram-se aos vele de curto prazo que tem vindo a ser privilegiada
tempos turbulentos e enriqueceram. Apesar do seu nas sociedades contemporâneas. As suas trajectórias
sucesso, esta história não é totalmente feliz. Rico profissionais caracterizam-se pela mudança cons-
e .. a.mulher preocupam-se por estarem em risco de tante, pelos compromissos temporários e os inves-
«perder o controlo das suas vidas». Como consul- timentos de curto prazo nas tarefas que executam.
tor, Rico sente falta de controlo sobre o seu tempo Perante o ritmo veloz que caracteriza a sociedade
e o seu trabalho: os contratos são vagos e mudam actual, o casal conclui que «as qualidades do bom
constantemente; não tem um papel fixo e o seu trabalho não são as qualidades do bom carácter».
1062 O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA
Para Sennett, as experiências de Rico e da sua
mulher Jeannette ilustram algumas das consequên-
cias do trabalho de horário flexível na vida pessoal
e no carácter dos trabalhadores. No seu livro
A Corrosão do Carácter (1999), Sennett considera
que a ênfase crescente no comportamento e em
métodos de trabalho flexíveis pode produzir bons
resultados, mas conduz também, inevitavelmente, à
confusão e à corrosão. Isto acontece na medida em
que as expectativas hoje colocadas sobre os trabalha-
dores contradizem directamente muitas das carac-
terísticas intrínsecas de um carácter forte: lealdade,
cumprimento de objectivos a longo termo, compro-
misso, confiança e intenção. Sennett sugere que este
tipo de tensões são inevitáveis na nova era da flexibi-
lidade. Em lugar do empenho numa carreira para a
vida, exige-se agora aos trabalhadores poli valência no
trabalho em equipa, entrando e saindo dela, deslo~
cando-se de tarefa em tarefa. A lealdade torna-se ..
uma obrigação, em vez de um valor. ~ando a vidà
se transforma numa sucessão de empregos distintos .
(isolados), em vez de uma carreira coerente, desva-
necem-se os objectivos a longo prazo, os laços sociais ·
não se desenvolvem e a confiança torna-se efémera."·.
As pessoas já não conseguem avaliar que riscos
a pena correr, e as antigas «regras» para as
ções, os despedimentos e as recompensas parecem
não se aplicar. Sennett observa que o desafio cen
para os adultos na era actual consiste em saber
conduzir uma vida com objectivos a longo
numa sociedade que enfatiza o curto prazo.
·""~'-~"""· ... ~·,"! .. :·'é·a·r~iÚzaçã~ 4~ rã~~i~s,~u~·:e~~~~~ 2. V ma, · car.act(!rí~Hca espeCífica . . .
.est·ot(;O .físfto. e fueht~i,. .tbrn·. b fl~· de econÓmico .das sÓciedades moderna~
· ·· ~'~êH1Ç<>s ·pa:i:ã ~··§i~iJr~~~óJ~s .. : · · ·• ·ri·b a~g~nvülViffiéiitõ Jlti'm~ dfV:isãC>· · ·
~~~~s~·.~g~~~q.~:p·.w~ >:Ji~· tn!!itó{•iip(J.s·#~ ih,§.~ip;ü~çq .cqmpJex~~ç. .
· · · ~61itô b '1iab~; · ···'·são.do trabalho
.Y.V,l\.UUd.L.I.U'' >1JL1Ci:l hãQ_SáO ...
· ··. ~~ijl~et~dós; P~k·9·úiro l~do,' graitd~ parte
·.•· ;· .. áo;::~~b'illrõ·::nos ~páJ~~~~-eril-~d<is~iiv'GlV.irriiúitó ,:· .... ·
eíí.êôhtri:.se· ·ná · e2ono"friia iriformàl. Uma rrios .todos dependentes uns dos ol.ií:i:bs
. ~ç~p·a~~o é um tra.balho efectuado .em t'ro~a mantermos as nossas vidas .
. . . ; Ae-i;i~ .. sal,á.t;io..:~gu}.:ij::"_Q"trab~i:Lé ~hàse .. do ....... -·,·-·-~·- ..... , ......................... _ ........... .
. sistema écon6mico em todas as culturas.
' ~ • • ' ' ' " . •' ' ' " •• '·· _. • l ',' ' '. ' ' : • ' • ., • ' • • ' ' . .-.-. '• .~, "''""' ····~-~·,.·'"-·••«=··· -~ ~ ...... ~~ '"''" ,,.,, • .,, ~ ••• ,!
O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA 1063
flexibilidade e a inovação são max1m1za~
das para corresponder às necessidades do
mercado em produtos dive~;sifi.cados e padro~
nizadós.
3. A produção indU:striil tornou~se mais
eficiente com a introdução do taylorisÍno,
ou gestão cíerttífi.cà - a divisão, na teoria e
na prática, de todos os prqcessos industriais
em tarefas simples qu~ poâenf ser ctortóme~
rradas e organizadas. O fordismo est~nde os 6. Há quem fale em «morte da carreira>:;. e na
prin~ípios da gest~o científic<l: àpr~duçã,o d~ chegada do trabalhador «polivalente» - o
massª.àssodada aos mercados de mass~. o tra~alhador que tem. um portefólio com
fordi11mo .e o t3:ylodsin~ podein ser eric~Ü:ados . espeçializações diferent~s e que será capaz
como stste111as de pequéna·'respcmsa.bilid,ade · d~ m~dar prontarilen~e de çmprego para
que rnaxhriiz'am ·a ·:PJenação' do ·t'fahalhà~ empr~go. Estç:s .. ~r~l?élltii!d,Çí~~~ ~~t$teri1, de
dor f~~ê. ·á9:1r~b4J.qp. 'lJ'rh ~~lSt~fua 4~::grªl)de fac~o, ·P:aS pà~a )l1UlÇàS. pe~.~óaS, a «flex;ibi,li~
respo##~gicl~de peirnit~ gq,ç os tr~b~ha.~o·~. ~ade» está. mai~ as$ôd~<!~;:~· :éhÍp~.~gÓ~· cQni
. .res .. çQrt~rqJÇ.w~o úu,fit\il?.de .tráb~6 e .até ··. r~rritt,nera.~ões ,b~a.s. .. ~.ff~llhP?~~ã,s ·p:~isp~é-
rriesmo à sua hàttireza. tivas de 'carreira. . ;: . ' .. ·:·'" / . ·r : : . .• . .
4. · As &g.;ii~~~õeS s~\i,iq~~.jtiht>J!\~n\ê Çori\p • 7. · O <[es,mpregotéil\ S!ci~ ~P~i~J<rti~ "'"~'' ·
recón~~,c~M~~fo 4o direi~d-~:g~éve~ sãóa.~pec~ rentÇ! no munci<> ·irid~~t~~~àiiz~dü~· s~n.,:1~ 0
::~d:·~c~~!c~~~x$!~~6~~:~;~~q: • f~~d:4iZ~~n~~~lf?i~it.
· -·- .. ·· ·· ·q6s:p~~e·s.,::~~~t:4~~.~~'iol~4#<#it:d:'~(S)§ ·-sinâi~â" · · · · '· ,tt~.~~#ip.regÇ> . ~~ :fi,j'Lig~f:xç%~§.~:é::~tç~~~fite ::
t9's' ·.s~·~w!~;rriJ?#f? · ,~f~~~ii~~õ.~~:~4~~~~i~a~,. . ·~ç~;á?tÉ~ánt~r;á:J~?~sg~~lt::·~-····· ~,,~;\J.~ :,~:~~?~ª-~. :
· cO"iií' if ôl>jê~fi:ivó: de lifÕ"pdrtióiiar.··àõ~~ttàbà.: · · · 4~·pr6pria identiâaâe·:pêssôãt:~;,~~~-:f: ·i·:~:~i):~(:.·; .·
mdJól~t: .. '::~;::.~:~;· ..... é .. .,:~~:-~~···.'.~···'-~:r;·:· ... ,_ .. B·:.::::r;<:;:':·": ·' :.: :-:,/; · ··J .:·~·... :: • /: ··::):·~ ,'.;:·:~;:~fnJ. · ... ··· ···~r~~~ ~~1/:.::. : .
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. reS'.sin'éliêâis'~àêsêrop"··eíjhân5:il.tm -nàfidft''ifin'0' r~·. · -','J.~. ···:-: . .' :··~:.:. ·. -.: ·,p .. ':U ''{D~t~?:>XY't;.;,-r::,~~-! · : . ··.····" .. ~ .......... "··· "''~.,".'""'.·r- r.-··· .r: · · uesemprego··· or'precanzafãcf 0 · ... '· ......... fru)tie:'ii~ifé'~rill.l ·::att~::-:::111·~;;::: :..::~~:-;;,;·.~·\:: .. _: · ·.'..:· ... :.-:: :_:: ...... ,.: .... · ·. : .. ··: ·. _: ~-·:·!:.:;-~:":.:~-~:·:~ ..... ~:":.:~ ... :: ~: .. ..
· · ·:. ::·":''1"-'.i·f.'::"':" -;::z ''"· ,. ~i''; :.P~:;;~~~~~·ttH~ · -~~-~~~. . . ·: .e;ptende~se ~a· ,apreensao:·H_ue ,. o â1lor· ·
... · ... ~~~J;9fiªi~.:t};:;,:·;-::··~ ':(:;),·. ~ ·,:1~!~·:":,:: ··.:.· :"':: ·~./ · · · . . : .. :."t-r·~·.··:· .. :::·. ':,:·:f·~.'T"";'··<.'sl:::{;':~ ·'!;·: ..
,. ,. ~-. ... ~ .. x.;:::-~:'t:;;pr.t'''?~-:,.·.-:~- .. ~~n--·,d.t·-'·,~ ~ ..... ,. , ,, .,. . sep.~e perante a~--~:.urura,.sa~.v:agq.." ... ~ .seu·
s. :&otli~~~~~~~gr-.;1~'':15.. .:i':r8iâiit~t[êrii · : .. ·. · ·-~úsillt6 :i ·aa:s-tia·:tmrçãó·':fia:f i.:,_,_ ~.:·,·\~iHa-
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, ·'zad~sf'@).:*êtmo~t<'*!l~s+f&l:dismh>~·;é;ii"Ufz d · Ç.:tii:bora· ::ãl · ' · "·~r .. :âereâite'ffi. ::::.·· ue···i::es'slF • · , ··· · ~
~t~~~i',$~}~~1-~~~~t~~~,~;~i.l~~ .. #~I~~~:~:~~~~~~~~~~-~~i~ç~ ·.
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