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UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ
BACHARELADO EM DIREITO
ANGELO SAMUEL DA SILVA SANTOS
LEI MARIA DA PENHA (LEI Nº 11.340/06): ANÁLISE DA EFETIVIDADE DAS
MEDIDAS PROTETIVAS DE URGÊNCIA NA PREVENÇÃO DE FEMINICÍDIOS NA
BAHIA
SALVADOR
2022.2
ANGELO SAMUEL DA SILVA SANTOS1
LEI MARIA DA PENHA (LEI Nº 11.340/06): ANÁLISE DA EFETIVIDADE DAS
MEDIDAS PROTETIVAS DE URGÊNCIA NA PREVENÇÃO DE FEMINICÍDIOS NA
BAHIA
Trabalho de Conclusão de Curso submetido ao Centro
Universitário Estácio como parte dos requisitos
necessários para a obtenção do Grau de Bacharel em
Direito
Orientador: Cristiane Dupret Filipe Pessoa
SALVADOR
2022.2
1 Graduando(a) em Direito pelo Centro Universitário Estácio da Bahia
RESUMO
A Lei 11.340, de 07 de agosto de 2006, mais conhecida como a Lei Maria da Penha,
cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, nos
termos da Constituição Federal e de acordos internacionais. Reconhecida pela
Organização das Nações Unidas (ONU) como uma das leis mais avançadas no
mundo de enfrentamento à violência contra a mulher, a Lei Maria da Penha prevê
diversos mecanismos inovadores, como medidas protetivas de urgência, que teve
seus pedidos de concessão aumentados em 100% nos últimos cinco anos na Bahia.
Dito isso, o presente trabalho tem como objetivo analisar a efetividade das medidas
protetivas de urgência na prevenção de feminicídios na Bahia entre os anos de 2017
e 2021. Para dar conta dessa investigação, utiliza-se do método dedutivo, por meio
da pesquisa bibliográfica e levantamento de dados para se chegar a uma conclusão
acerca da eficiência desses mecanismos.
Palavras-chave: Lei Maria da Penha. Lei 11.340/06. Medidas protetivas de
urgência. Feminicídio
SUMÁRIO: 1 Introdução; 2 Violência contra a mulher na Bahia; 3 Lei Maria da
Penha (Lei nº 11.340/06); 3.1 Aspectos históricos; 3.2 Características; 3.2
Inovações; 4 Das medidas protetivas de urgência; 5. A efetividade da Lei Maria da
Penha; 6 Conclusão
1 INTRODUÇÃO
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a situação atual de violência
doméstica contro a mulher no mundo como devastadoramente generalizada2, e
acrescenta que ocupa um status endêmico em todos os países e culturas ao atingir
1 em cada 3 mulheres em todo o mundo, o que representa cerca de 641 milhões de
vítimas.
O feminicídio, considerado o ápice atos da violência, também possui dados
alarmantes no Brasil, o estudo mais recente do Fórum Brasileiro de Segurança
Pública sobre feminicídios mostra que, em 2021, uma mulher era assassinada3, em
média, a cada sete horas no país, só pelo seu gênero.
Mas em meio a esse cenário, existe a Lei nº 11.340/06, um importante marco
no enfrentamento à violência doméstica e familiar contra as mulheres na medida em
que propicia a criação de políticas públicas de prevenção, assistência e proteção às
vítimas, grupos reflexivos para homens e, em especial, as medidas protetivas de
urgência, cujo objetivo é coibir e prevenir a violência doméstica e familiar.
Apesar disso, centenas de mulheres são agredidas diariamente no país, e em
muitos casos resultam em morte. Paralelamente, cresceu em 100% o número de
medidas protetivas concedidas na Bahia, segundo apuração do Jornal Correio da
Bahia, em 28 de fevereiro de 2022, dado que foi confirmado, com um certo desvio,
em consulta ao Painel Monitoramento da Política Judiciária Nacional de
Enfrentamento à Violência contra as Mulheres.
Nesse contexto, será analisada a efetividade das medidas protetivas de
urgência previstas na Lei Maria da Penha como mecanismo de prevenção do crime
de feminicídio, buscando assim verificar se há uma correlação entre esses
indicadores. Para alcançar esse objetivo, fez-se necessário desenvolver uma
estrutura de desenvolvimento que contemplasse os dados sobre a violência da
mulher na Bahia; os aspectos históricos, características e inovações da Lei Maria da
Penha; as disposições da medidas protetivas de urgência e, por fim, é feita uma
3 SENADO, TV. Índice de feminicídios no Brasil continua alto, aponta Fórum Brasileiro de Segurança
Pública,12 set. 2022. Disponível em:
<https://www12.senado.leg.br/tv/programas/cidadania-1/2022/09/indice-de-feminicidios-no-brasil-conti
nua-alto-mesmo-apos-16-anos-dia-lei-maria-da-penha>. Acesso em: 25 out. 2022.
2 Devastadoramente generalizada: 1 em cada 3 mulheres em todo o mundo sofre violência -
OPAS/OMS | Organização Pan-Americana da Saúde, 09 marc. 2021. Disponível em:
https://www.paho.org/pt/noticias/9-3-2021-devastadoramente-generalizada-1-em-cada-3-mulheres-em
-todo-mundo-sofre-violencia. Acesso em: 20 out. 2022.
análise da efetividade da lei com base em dados.
2 VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER NA BAHIA
“A vida das mulheres está em risco todos os dias em uma sociedade
estruturalmente machista e que cultiva a ideia da mulher como subserviente”4, é o
que indica os dados da Rede de Observatórios da Segurança em 2021, que
identificou 1.975 ocorrências de feminicídio e violência contra a mulher após a
análise das dinâmicas dos crimes veiculado na imprensa nos estados da Bahia,
Ceará, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo, Maranhão e Piauí.
Quando detalhados os tipos de violência, a Bahia registra um caso de
violência contra a mulher a cada dois dias. Do total de 232 agressões, foram
registrados 50 casos de tentativa de feminicídio/agressão, 66 feminicídios e 29
casos de violência sexual e estupro, lidendo na região Nordeste neste último
quesito.
Observando o ano de 2020, houve uma queda de 31% nos registros totais.
Porém, quando observado os tipos de violência sofridas, não há grande variação
entre os anos de 2020 e 2021, quando se trata de feminicídio; o número caiu de 70
para 66 casos, conforme pode ser mostrado nas tabelas a seguir.
Tabela 1 - Tipos de violências contra a mulher - 20215
5 * O número de tipos de violência é maior que o de casos, pois em um único episódio mais de um
tipo de violência pode ser praticado contra a vítima.
4 RAMOS, Silvia et al. Elas vivem [livro eletrônico]: dados da violência contra a mulher. Rio de Janeiro:
CESeC, 2022, p.5. Disponível em:
http://observatorioseguranca.com.br/wordpress/wp-content/uploads/2022/03/EMBARGO-ATE-5AM-10
03_REDE-DE-OBS-elas-vivem_-2.pdf. Acesso em: 20 out. 2022
http://observatorioseguranca.com.br/wordpress/wp-content/uploads/2022/03/EMBARGO-ATE-5AM-1003_REDE-DE-OBS-elas-vivem_-2.pdf
http://observatorioseguranca.com.br/wordpress/wp-content/uploads/2022/03/EMBARGO-ATE-5AM-1003_REDE-DE-OBS-elas-vivem_-2.pdf
Fonte: Rede de Observatórios da Segurança (2021)
Tabela 2 - Feminicídios e transfeminicídios registrados entre 2020 e 2021(variação
em %)6
Fonte: Rede de Observatórios da Segurança (2021)
Uma segunda pesquisa7, agora com foco na análise da dinâmica temporal dos
feminicídios na Bahia entre os anos de 2017 e 2021, construída a partir da pesquisa
documental dos boletins de ocorrência registrados em unidades da Polícia Civil,
também indicam uma redução no número de vítimas entre 2020 e 2021. Porém, no
7 SANTANA, Jadson; et al. Feminicídios na Bahia: dinâmica e diferenciais entre os padrões de
homicídios de mulheres Salvador. SEI, Governo do Estado e Secretaria do Planejamento, 2022, p. 7
– 9. Disponível em:
https://www.sei.ba.gov.br/images/publicacoes/download/textos_discussao/texto_discussao_31.pdf.
Acesso em: 25 out. 2022
6 Foram somados os casos de feminicídio e transfeminicídio (início do registro em maio de 2020).
https://www.sei.ba.gov.br/images/publicacoes/download/textos_discussao/texto_discussao_31.pdf
ano de 2020, a taxa de vitimização alcançou o seu maior patamar.
8Tabela 3 - Feminicídios, variação e taxa de vitimização (por 100 mil
mulheres) Bahia – 2017-2021
Fonte: Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (2022)
A motivação para concretização do crime também é um aspecto importante
de análise do crime de feminicídio. A pesquisa indica que na Bahia, em 2021, mais
da metade dos casos de feminicídios tinha a arma branca ( facas, machados e
martelos,etc.) como instrumento utilizado; padrão que se manteve em todos os anos
da série histórica.
Tabela 4 – Instrumentos utilizados dos feminicídios – Bahia – 2017-2021
Fonte: Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (2022)
3 LEI MARIA DA PENHA
A Lei Maria da Penha é fruto de grandes conquistas em nível internacional,
mas também o desdobramento de uma triste história de violência doméstica familiar.
Neste capítulo, traremos uma breve narrativa dos fatos que antecederam a criação
da referida em lei, em seguida apresentaremos um resumo comentado com
8 Em 2017, foram identificadas 74 vítimas
destaque dos principais artigos e, por fim, discorremos sobre suas inovações que a
tornaram um marco na construção e reconhecimento dos direitos das mulheres
como direitos humanos no Brasil.
3.1 ASPECTOS HISTÓRICOS
Tudo começou em 1974, ano em que foi aprovada a Lei de Igualdade de
Oportunidade de Crédito9, que garantiu às mulheres o direito de portarem um cartão
de crédito, mais um marco da luta das mulheres por equidade e respeito. Nessa
época, Maria da Penha Maia Fernandes já estava à frente das mulheres do seu
tempo, tinha concluído seu mestrado em Parasitologia em Análises Clínicas na
Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo, quando
conheceu Marco Antonio Heredia Viveros, colombiano, que fazia os seus estudos de
pós-graduação em Economia na mesma instituição10.
Naquele mesmo ano, eles começaram a namorar e em 1976 se casaram após
o nascimento da primeira filha e a finalização do mestrado de Maria da Penha. Tudo
caminhava muito bem até o momento em que Marco conseguiu a cidadania
brasileira e se estabilizou profissional e economicamente. De companheiro
carinhoso, passou a agir com intolerância, exaltava-se com facilidade e tinha
comportamentos explosivos com a esposa e filhas. Assim deu-se início ao ciclo de
violência, caracterizado pelo aumento da tensão, ato de violência, arrependimento e
comportamento carinhoso.
O ciclo findou-se, por iniciativa de Marco, em 1983, quando deu um tiro nas
costas de Maria da Penha enquanto ela dormia. Por sorte, a agressão não lhe
resultou em morte, mas lesões irreversíveis na terceira e quarta vértebras torácicas,
laceração na dura-máter e destruição de um terço da medula à esquerda, a
deixando paraplégica. Quatro meses depois, após Maria passar por duas cirurgias,
internações e tratamentos, e retornar para casa, seu marido a manteve em cárcere
privado durante 15 dias e novamente tentou contra a sua vida ao eletrocutá-la
durante o banho, mais uma vez sem sucesso.
Na primeira tentativa de homicídio, Marco declarou à polícia que tudo não
havia passado de uma tentativa de assalto, versão desmentida pela perícia logo
10 Quem é Maria da Penha - Instituto Maria da Penha. Disponível em:
<https://www.institutomariadapenha.org.br/quem-e-maria-da-penha.html>. Acesso em: 25 out. 2022.
9Conquistas do feminismo no Brasil: uma linha do tempo. Nossa Causa, 9 mar. 2020. Disponível em:
<https://nossacausa.com/conquistas-do-feminismo-no-brasil/>. Acesso em: 25 out. 2022
depois, mas cientes da grave situação, a família e os amigos de Maria conseguiram
apoio jurídico e providenciaram a sua saída de casa sem que isso pudesse
configurar abandono de lar; para assim não correr o risco de perder a guarda de
suas filhas. A partir desse momento, deu-se início a luta pela justiça, o primeiro
julgamento de Marco aconteceu somente em 1991, oito anos após o crime, mas
devido a recursos solicitados pela defesa, saiu do fórum em liberdade; o segundo
julgamento foi realizado em 1996, que culminou na condenação do seu ex-marido a
10 anos e 6 meses de prisão, porém, novamente a sentença não foi cumprida sob
alegação de irregularidades processuais por parte dos advogados de defesa.
A partir de 1998, o caso, aparentemente perdido, ganhou dimensão
internacional quando foi denunciado pela Comissão Interamericana de Direitos
Humanos da Organização dos Estados Americanos (CIDH/OEA) e em 2001, o
Estado brasileiro foi responsabilizado por negligência, omissão e tolerância em
relação à violência doméstica praticada contra as mulheres brasileiras. Ainda assim,
o país permaneceu sem adotar medidas legais e ações efetivas, até que em 2002 foi
formado um Consórcio de ONGs Feministas para a elaboração de uma lei de
combate à violência doméstica e familiar contra a mulher.
Após muitos debates com o Legislativo, o Executivo e a sociedade, o Projeto
de Lei n. 4.559/2004 da Câmara dos Deputados chegou ao Senado Federal (Projeto
de Lei de Câmara n. 37/2006) e foi aprovado por unanimidade em ambas as Casas.
Assim, em 7 de agosto de 2006, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva
sancionou a Lei nº 11.340/06, que ficou conhecida como Lei Maria da Penha.
3.2 CARACTERÍSTICAS
A Lei Maria da Penha enquadra-se como uma lei penal extravagante, ou lei
especial. Ela cria mecanismos para prevenir e coibir a violência doméstica e familiar
contra a mulher, em conformidade com a Constituição Federal (art. 226, § 8°) e os
tratados internacionais ratificados pelo Estado brasileiro. Para cobrir todos os
pontos, conta com um total de 46 artigos, ordenados em 7 títulos11.
No Título I, em quatro artigos, é esclarecido para quem a lei é direcionada,
ressaltando ainda a responsabilidade da família, da sociedade e do poder público
11 Resumo da Lei Maria da Penha - Instituto Maria da Penha. Disponível em:
<https://www.institutomariadapenha.org.br/lei-11340/resumo-da-lei-maria-da-penha.html>. Acesso em:
25 out. 2022.
para que todas as mulheres possam ter o exercício pleno dos seus direitos.
Antes da criação da Lei Maria da Penha, o crime de violência doméstica não
existia no ordenamento jurídico brasileiro e era tratado como infração de menor
potencial ofensivo, amparada pela Lei 9.099/95. É no título II, quem vem dividido em
dois capítulos e três artigos, que encontramos a definição para esse crime e as suas
formas (física, psicológica, sexual, patrimonial e moral):
Art. 5º Para os efeitos desta Lei, configura violência doméstica e
familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no
gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou
psicológico e dano moral ou patrimonial: (Vide Lei complementar nº
150, de 2015).
Art. 7º São formas de violência doméstica e familiar contra a mulher,
entre outras:
I - a violência física, entendida como qualquer conduta que ofenda
sua integridade ou saúde corporal;
II - a violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe
cause dano emocional e diminuição da autoestima ou que lhe
prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar
ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões,
mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação,
isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto,
chantagem, violação de sua intimidade, ridicularização, exploração e
limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause
prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação; (Redação dada
pela Lei nº 13.772, de 2018)
III - a violência sexual, entendida como qualquer conduta que a
constranja a presenciar, a manter ou a participar de relação sexual
não desejada, mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da
força; que a induza a comercializar ou a utilizar, de qualquer modo, a
sua sexualidade, que a impeça de usar qualquer método
contraceptivo ou que a force ao matrimônio, à gravidez, ao aborto ou
à prostituição, mediante coação, chantagem, suborno ou
manipulação; ou que limite ou anule o exercício de seus direitos
sexuais e reprodutivos;
IV - a violência patrimonial, entendida como qualquer conduta que
configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus
objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens,
valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a
satisfazer suas necessidades;
V - a violência moral, entendida como qualquer conduta que
configure calúnia, difamação ou injúria12.As definições de violência são um grande avanço do ponto de vista conceitual
e da tentativa de sensibilizar os operadores do direito para o contexto em que a
violência baseada no gênero ocorre, ainda que não exista uma hierarquia entre elas
e nem sempre ocorram na mesma ação. Por exemplo, uma mulher pode ser
humilhada por anos, sofrendo danos à saúde mental, sem que seu agressor nunca
12 BRASIL. Lei nº 11.340 de 7 de agosto de 2006. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm. Acesso em: 23 out. 2022
tenha lhe desferido um tapa13, e então não reconheça a violência que vem sofrendo.
Como forma de alertar e educar sobre a violência doméstica, a própria lei, que
também é uma política pública, estabelece a criação de campanhas educativas de
prevenção da violência doméstica e familiar contra a mulher voltadas para
sociedade.
Quanto ao Título III, composto de três capítulos e sete artigos, aborda-se a
questão da assistência à mulher em situação de violência doméstica e familiar, com
destaque para as medidas integradas de prevenção, atendimento pela autoridade
policial e assistência social às vítimas.
Dentre os procedimentos aplicados nos crimes que envolvem violência
doméstica estão primeiramente o inquérito policial no qual é realizada a denúncia. O
Art. 10-A garante à vítima “o atendimento policial e pericial especializado,
ininterrupto e prestado por servidores - preferencialmente do sexo feminino -
previamente capacitados”.
O Título IV, por sua vez, possui quatro capítulos e 17 artigos, tratando dos
procedimentos processuais, assistência judiciária, atuação do Ministério Público e,
em quatro seções com dedicação especial às medidas protetivas de urgência, que
estão entre as disposições mais inovadoras da Lei Maria da Penha. Antes da criação
desses instrumentos, era comum que as vítimas, após registrarem a ocorrência,
serem novamente agredidas ou mortas ao retornarem para casa.
Agora, com as medidas protetivas, existe a possibilidade de dar uma resposta
mais ágil para as mulheres, proteger sua integridade física e resguardar os direitos
de seus filhos e dependentes14. O afastamento do lar, domicílio ou local de
convivência com a ofendida, previsto no art. 22, parágrafo II da lei, garante à vítima
o direito de permanecer em sua residência, porque quem sai de casa é o agressor e
não ela.
Na esfera do judiciário, a lei recomenda aos Tribunais de Justiça Estaduais e
14 PASINATO, W. Acesso à justiça e violência doméstica e familiar contra as mulheres: as percepções,
os operadores jurídicos e os limites para a aplicação da Lei Maria da Penha. Revista Direito GV, n.
11(2), p. 409. Disponível em:
https://www.scielo.br/j/rdgv/a/5sWmchMftYHrmcgt674yc7Q/?format=pdf&lang=pt Acesso em: 20
out.2022
13 PASINATO, W. Acesso à justiça e violência doméstica e familiar contra as mulheres: as percepções,
os operadores jurídicos e os limites para a aplicação da Lei Maria da Penha. Revista Direito GV, n.
11(2), p. 420. Disponível em:
https://www.scielo.br/j/rdgv/a/5sWmchMftYHrmcgt674yc7Q/?format=pdf&lang=pt Acesso em: 20
out.2022
https://www.scielo.br/j/rdgv/a/5sWmchMftYHrmcgt674yc7Q/?format=pdf&lang=pt
do Distrito Federal a criarem os Juizados de Violência Doméstica e Familiar para
aplicação exclusiva e integral da Lei Maria da Penha. O Título V e seus quatro
artigos discorrem ainda sobre a destinação de verba orçamentária ao Judiciário para
a criação e manutenção da equipe de atendimento multidisciplinar composta de
profissionais especializados nas áreas psicossocial, jurídica e da saúde.
O Título VI, em um único artigo e parágrafo, prevê uma regra de transição,
segundo a qual as varas criminais têm legitimidade para conhecer e julgar as causas
referentes à violência de gênero enquanto os Juizados de Violência Doméstica e
Familiar contra a Mulher não estiverem estruturados.
Por fim, o Título VII concentra as disposições finais da lei com 13 artigos que
determinam que a instituição dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra
a Mulher pode ser integrada a outros equipamentos em âmbito nacional, estadual e
municipal, tais como casas-abrigo, delegacias, núcleos de defensoria pública,
serviços de saúde, centros de reabilitação para os agressores etc. Dispõe ainda
sobre a inclusão de estatísticas sobre a violência doméstica e familiar contra a
mulher nas bases de dados dos órgãos oficiais do Sistema de Justiça e Segurança,
além de contemplarem uma previsão orçamentária para o cumprimento das medidas
estabelecidas na lei.
3.3 INOVAÇÕES
Desde de que foi sancionada em 2006, a Lei nº 11.340/06 passou por
alterações com objetivo de fortalecer o seu aparato legal. A primeira delas ocorreu
em 2017, por meio da Lei 13.505/1715, que acrescentou alguns dispositivos em
benefício às vitimas, por exemplo, o atendimento preferencial por policiais e peritas
do sexo feminino e proibiu que o agressor tivesse contato da vitíma, bem como dos
seus familiares e testemunhas.
Mas foi a partir de 2019 que ocorreram as inovações mais significativas.
Somente neste ano, de acordo com o levantamento do Elas no Congresso, projeto
que usa dados públicos do Congresso Nacional para monitorar os direitos das
mulheres no poder legislativo, foram criados 7516 projetos de lei com objetivo de
16Punir ou educar? PLs tentam modificar Lei Maria da Penha. Disponível em:
<https://azmina.com.br/reportagens/punir-ou-educar-pls-tentam-modificar-lei-maria-da-penha/>.
Acesso em: 25 out. 2022.
15 BRASIL. Lei nº 11.340 de 8 de novembro de 2017. Acrescenta dispositivos à Lei nº 11.340, de 7 de
agosto de 2006 (Lei Maria da Penha). Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/L13505.htm. Acesso em: 23 out. 2022
alterar a lei, sendo que 27 deles criam novas punições ao agressor ou aumentam as
já previstas.
Desde então, a Lei Maria da Penha recebeu diversas modificações em seu
texto inicial. A seguir, destacamos as principais.
Lei nº 13.827/1917: na identificação de risco à vida ou à integridade física ou
psicológica da vítima, ou de seus dependentes, esse acréscimo autorizou a
aplicação de medida protetiva de urgência pela autoridade judicial, delegado de
polícia ou polícia, por meio da inclusão do Art. 12-C, que prevê, entre outras coisas
remeter, no prazo de 48 (quarenta e oito) horas, expediente apartado ao juiz com o
pedido da ofendida, para a concessão de medidas protetivas de urgência”.
Lei nº 13.880/1918: determina que nos casos violência doméstica contra a
mulher, logo após o registro da ocorrência, a autoridade policial deve fazer a
apreensão da arma de fogo sob posse do agressor evitando que ele a utilize para
qualquer finalidade, modificando assim os art. 12 e 18.
Lei nº 13.894/1919: torna competente os Juizados de Violência Doméstica e
Familiar contra a Mulher promover a ação de divórcio, separação, anulação de
casamento ou dissolução de união estável nos casos de violência. Também
determina que sejam prestadas informações às vítimas a respeito dos serviços de
assistência judiciária para ajuizar das ações mencionadas.
Lei nº 13.984/2020: com o acréscimo do art. 22, estabelece como medidas
protetivas de urgência, a frequência do agressor a centro de educação e de
reabilitação, assim como determina o acompanhamento psicossocial por meio de
atendimento individual ou em grupo de apoio.
20 BRASIL. Lei nº 13.984 de 03 de abril de 2020. Altera o art. 22 da Lei nº 11.340, de 7 de agosto de
2006 (Lei Maria da Penha), para estabelecer como medidas protetivas de urgência frequência do
agressor a centro de educação e de reabilitação e acompanhamento psicossocial. Disponível
em:http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2020/lei/L13984.htm. Acesso em: 23 out. 2022
19 BRASIL. Lei nº 13.895 de 29 de outubro de 2019. Altera a Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006
(Lei Maria da Penha), para prever a competência dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar
contra a Mulher para a ação de divórcio,separação, anulação de casamento ou dissolução de união
estável. Disponível em:http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/lei/L13894.htm.
Acesso em: 23 out. 2022
18 BRASIL. Lei nº 13.880 de 08 de maio de 2019. Altera a Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006 (Lei
Maria da Penha), para prever a apreensão de arma de fogo sob posse de agressor em casos de
violência doméstica. Disponível
em:http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/lei/L13880.htm. Acesso em: 23 out. 2022
17 BRASIL. Lei nº 11.827 de 13 de maio de 2019. Altera a Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006 (Lei
Maria da Penha), para autorizar, nas hipóteses que especifica, a aplicação de medida protetiva de
urgência. Disponível em:http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/lei/L13827.htm.
Acesso em: 23 out. 2022
Lei nº 14.310/2221: determina à autoridade judicial, o registro imediato das
medidas protetivas de urgência em um banco de dados do Conselho Nacional de
Justiça com vistas à fiscalização e à efetividade das medidas por parte dos órgãos
interessados.
Lei nº 14.316/2222: destina uma verba de 5% dos recursos do Fundo Nacional
de Segurança Pública (FNSP)23 para combate à violência contra a mulher, seja com
a criação de centros de atendimento integral e multidisciplinar para mulheres,
delegacias especializadas e centros de reabilitação para os agressores.
Verifica-se assim que, ao longo dos seus 16 anos, a Lei Maria da Penha
introduziu mecanismos de proteção às vítimas e seus dependentes, como as
medidas protetivas de urgência, e impôs medidas repressoras e educativa para os
agressores, na tentativa de se tornar eficaz na repreensão da violência doméstica.
4 DAS MEDIDAS PROTETIVAS DE URGÊNCIA
Neste capítulo discorreremos, especificamente, sobre as medidas protetivas
de urgência, que são os pontos focal deste trabalho. Esses mecanismos são
importantes conquistas das mulheres, tanto pela história da sua criação quanto por
incluir valores de direitos humanos nas políticas públicas para o enfrentamento e
combate à violência de gênero.
As medidas protetivas de urgência, que são medidas cautelares penais ou
extrapenais previstas a partir do artigo 282 do Código de Processo Penal, foram
criadas para proteger a mulher em situação de violência doméstica, familiar ou na
relação de afeto. No ordenamento jurídico, são tidas como uma inovação por
conjugar ações de proteção, punição e prevenção, caracterizando uma política
pública de caráter integral de enfrentamento à violência contra a mulher24. Além
24 PASINATO, W. Acesso à justiça e violência doméstica e familiar contra as mulheres: as percepções,
os operadores jurídicos e os limites para a aplicação da Lei Maria da Penha. Revista Direito GV, n.
11(2), p. 523. Disponível em:
23CELEPAR. Sancionada Lei no 14.316/2022, que destina verba do Fundo Nacional de Segurança
Pública para combate à violência contra a mulher. Disponível em:
<https://direito.mppr.mp.br/2022/4/261,0>. Acesso em: 25 out. 2022.
22 BRASIL. Lei nº 14.316 de 29 de março de 2022. Altera as Leis nºs 13.756, de 12 de dezembro de
2018, e 13.675, de 11 de junho de 2018, para destinar recursos do Fundo Nacional de Segurança
Pública (FNSP) para ações de enfrentamento da violência contra a mulher. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2022/lei/L14316.htm. Acesso em: 23 out. 2022
21 BRASIL. Lei nº 14.310 de 08 de março de 2022. Altera a Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006 (Lei
Maria da Penha), para determinar o registro imediato, pela autoridade judicial, das medidas protetivas
de urgência deferidas em favor da mulher em situação de violência doméstica e familiar. Disponível
em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2022/lei/l14310.htm. Acesso em: 23 out. 2022
disso, podem ser concedidas, mantidas ou combinadas com outras quando “direitos
reconhecidos nesta Lei forem ameaçados ou violados25”. Nota ao fato de que a
adoção de providências está condicionada à vontade da vítima; ainda que proceda
com o registro da ocorrência, cabe somente a ela a iniciativa de pedir proteção por
meio de medidas protetivas.
Uma vez recebido o expediente com o pedido da ofendida, como fundamenta
o Conselho Nacional de Justiça26, sobre as disposições gerais das medidas
protetivas de urgência, manifestas no Capítulo II, Seção I da lei, o seguinte rito é
seguido:
● O juiz poderá conceder, no prazo de 48h, medidas protetivas de
urgência (suspensão do porte de armas do agressor, afastamento do
agressor do lar, distanciamento da vítima, dentre outras),
dependendo da situação.
● O juiz do juizado de violência doméstica e familiar contra a mulher
terá competência para apreciar o crime e os casos que envolverem
questões de família (pensão, separação, guarda de filhos etc.).
● O Ministério Público apresentará denúncia ao juiz e poderá propor
penas de três meses a três anos de detenção, cabendo ao juiz a
decisão e a sentença final.
Adentrando no mérito das medidas protetivas de urgência, elas são divididas
entre aquelas que obrigam o agressor e aquelas que protegem a ofendida:
Art. 22. [...] o juiz poderá aplicar, de imediato, ao agressor, em
conjunto ou separadamente, as seguintes medidas protetivas de
urgência, entre outras:
I - suspensão da posse ou restrição do porte de armas, com
comunicação ao órgão competente, nos termos da Lei nº 10.826, de
22 de dezembro de 2003 ;
II - afastamento do lar, domicílio ou local de convivência com a
ofendida;
III - proibição de determinadas condutas, entre as quais:
a) aproximação da ofendida, de seus familiares e das testemunhas,
fixando o limite mínimo de distância entre estes e o agressor;
b) contato com a ofendida, seus familiares e testemunhas por
qualquer meio de comunicação;
c) freqüentação de determinados lugares a fim de preservar a
integridade física e psicológica da ofendida;
IV - restrição ou suspensão de visitas aos dependentes menores,
ouvida a equipe de atendimento multidisciplinar ou serviço similar;
V - prestação de alimentos provisionais ou provisórios.
VI – comparecimento do agressor a programas de recuperação e
reeducação; e (Incluído pela Lei nº 13.984, de 2020)
VII – acompanhamento psicossocial do agressor, por meio de
atendimento individual e/ou em grupo de apoio. (Incluído pela Lei nº
26 BRASIL. Lei nº 11.340 de 7 de agosto de 2006. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm. Acesso em: 23 out. 2022
25 Machado, Marta R. de Assis e Guaranha, Olívia Landi C.Dogmática jurídica encarnada: a disputa
interpretativa em torno das medidas protetivas de urgência e suas consequências para a vida das
mulheres. Revista Direito GV [online]. 2020, v. 16, n. 3. Disponível
em:https://doi.org/10.1590/2317-6172201972. Acesso em 24 out. 2022
https://www.scielo.br/j/rdgv/a/5sWmchMftYHrmcgt674yc7Q/?format=pdf&lang=pt Acesso em: 20
out.2022
13.984, de 2020)
Art. 23. Poderá o juiz, quando necessário, sem prejuízo de outras
medidas:
I - encaminhar a ofendida e seus dependentes a programa oficial ou
comunitário de proteção ou de atendimento;
II - determinar a recondução da ofendida e a de seus dependentes ao
respectivo domicílio, após afastamento do agressor;
III - determinar o afastamento da ofendida do lar, sem prejuízo dos
direitos relativos a bens, guarda dos filhos e alimentos;
IV - determinar a separação de corpos.
V - determinar a matrícula dos dependentes da ofendida em
instituição de educação básica mais próxima do seu domicílio, ou a
transferência deles para essa instituição, independentemente da
existência de vaga. (Incluído pela Lei nº 13.882, de 2019)
No que diz respeito à suspensão da posse ou restrição do porte de armas, o
doutrinador Guilherme de Souza Nucci afirma que tal medida não está relacionada
ao seu uso para a prática da violência doméstica, mas sim para prevenir uma
tragédia maior. Se o marido agride a esposa, causando-lhe lesão corporal,
possuindo arma de fogo, é possível que, no futuro, progrida para o homicídio27.
Já legisladoresdo projeto de Lei 17/2019, que mais tarde se tornou a Lei n.
13.880/19, justificaram o pedido de modificação da Lei Maria da Penha com intuito
de proteger mulheres em situação de violência diante do atual cenário de facilitação
ao acesso às armas no país28:
O Mapa da violência de 2015 constata que a arma de fogo foi o meio
mais usado nos homicídios de mulheres. Mesmo diante desses
dados assustadores, o governo federal segue flexibilizando a
legislação existente para o controle do comércio e da circulação de
armas de fogo [...] O presente projeto tem como objetivo aumentar a
proteção das mulheres em relação ao enorme número de armas de
fogo em circulação em nosso país e assim tentar reduzir os
vergonhosos números de violência contra a mulher. [...] São medidas
que buscam evitar que ainda mais mulheres se tornem vítimas fatais
de violência doméstica.
Entre os anos de 2020 e 2021, o Painel de Monitoramento de Medidas
Protetivas de Urgência, alimentado mensalmente com dados do Conselho Nacional
de Justiça, indica que foram concedidas 1.383 medidas protetivas para suspensão
da posse ou restrição do porte de armas.
Gráfico 1 - Tipos de medidas concedidas 2020-2021
28 BRASIL. Câmara dos Deputados. Projeto de Lei n° 17, de 2019. Altera a Lei n° 11.340, de 7 de
agosto de 2006 – Lei Maria da Penha. Brasília: Câmara dos Deputados, 201p. Disponível em:
https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=1780681&filename=Tramita
cao-PL+17/2019. Acesso em: 23 out. 2022.
27 NUCCI, Guilherme de Souza. Leis Penais e Processuais Penais Comentadas. 5. Ed. São
Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2010, p. 200.
Fonte: Conselho Nacional de Justiça (2022)
É importante relembrar que a suspensão e restrição do porte nessa medida,
se referem à arma de uso legal ou regular. Quando se tratar de arma não registrada,
a situação do agressor se agrava e sua conduta passa a configurar como um dos
crimes da Lei 10.826/2003, prevista nos artigos 12, 14 ou 16.
Ademais, Nucci aprecia as outras medidas direcionadas ao agressor, que o
obriga a não praticar certas condutas e as direcionadas às vítimas e seus
dependentes. São “medidas inéditas, que, em nosso entendimento, são positivas e
mereceriam, inclusive, extensão ao processo penal comum, cuja vítima não fosse
somente a mulher”29.
5. A efetividade da Lei Maria da Penha
Em 2022, a Lei 11.340/06 completou 16 anos, sendo considerada uma marco
para o processo histórico de construção e reconhecimento dos direitos das mulheres
como direitos humanos no país. Porém, existem várias discussões acerca da sua
efetividade, principalmente em relação às medidas protetivas de urgência. Em uma
pesquisa realizada pela socióloga Wânia Pasinato, sobre a violência contra a mulher
e acesso à justiça, que outrora foi mencionada neste trabalho, até 2015 as
Delegacia de Defesa da Mulher e os Juizados não possuíam um bom banco de
dados sobre essas medidas, de forma que não era possível saber quantas são
solicitadas e quantas são deferidas30.
30 PASINATO, W. Acesso à justiça e violência doméstica e familiar contra as mulheres: as percepções,
os operadores jurídicos e os limites para a aplicação da Lei Maria da Penha. Revista Direito GV, n.
11(2), p. 416. Disponível em:
29 NUCCI, Guilherme de Souza. Leis penais e processuais penais comentadas. 8. Ed. Rio de Janeiro :
Forense, 2014.p. 776.
Esse cenário só mudou em 2018, quando o Conselho Nacional de Justiça, por
meio da Resolução nº 254, instituiu a Política Judiciária Nacional de Enfrentamento à
Violência contra as Mulheres. Assim, ficou definindo diretrizes e ações de prevenção
e combate à violência contra as mulheres e recomendado a inclusão, nas bases de
dados oficiais, das estatísticas sobre violência doméstica e familiar contra a
mulher31, em atendimento ao art. 38 da Lei 11.340/06, que diz:
As estatísticas sobre a violência doméstica e familiar contra a mulher
serão incluídas nas bases de dados dos órgãos oficiais do Sistema
de Justiça e Segurança a fim de subsidiar o sistema nacional de
dados e informações relativas às mulheres32.
As informações que alimentam Painel de Monitoramento da Política Judiciária
Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres do CNJ são
encaminhadas pelos tribunais por dois sistemas: justiça em números, que fornece os
dados agregados relativos à violência doméstica abrangendo todas as varas do
tribunal, e o Módulo de Produtividade Mensal que fornece informações mais
detalhadas, mas relativos apenas aos juizados exclusivos de violência doméstica.
De acordo com a série histórica do painel sobre as medidas protetivas, entre
os anos de 2016 e 2021, foram concedidas 1.858.581 (um milhão oitocentos e
cinquenta e oito mil e quinhentos e oitenta e um) de medidas, das quais 36.102
(trinta e seis mil e cento e doze) só na Bahia, por meio do Tribunal de Justiça do
Estado da Bahia (TJBA).
Gráfico 2 - Série histórica medidas protetivas
Fonte: Conselho Nacional de Justiça (2022)
32 BRASIL. Lei nº 11.340 de 7 de agosto de 2006. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm. Acesso em: 23 out. 2022
31 Violência contra a Mulher. Portal CNJ, [s.d.]. Disponível em:
<https://www.cnj.jus.br/programas-e-acoes/violencia-contra-a-mulher/>. Acesso em: 25 out. 2022
https://www.scielo.br/j/rdgv/a/5sWmchMftYHrmcgt674yc7Q/?format=pdf&lang=pt Acesso em: 20
out.2022
Assim, para atingir ao objetivo central deste trabalho, que é “Analisar a
efetividade das medidas protetivas de urgência da Lei Maria da Penha na prevenção
de feminicídios na Bahia nos últimos cinco anos”, fizemos um cruzamento entre o
número de medidas protetivas concedidas no Bahia entre os anos de 2017 e 2021 e
o número de feminicídios, que é considerado o ápice dos atos violentos sofridos pela
vítima de violência doméstica, no mesmo período. Os dados podem ser observados
abaixo:
Gráfico 2 - Relação entre medidas protetivas e feminicídios na Bahia - 2017 - 2021
Fonte: De autoria própria
No primeiro ano da série histórica, 2017, foram concedidas 3.208 medidas
protetivas na Bahia, e o número seguiu crescente nos dois anos seguintes, 2018 e
2019, até que houve uma queda em 2020, provavelmente causada pela pandemia
de COVID-19, já no ano seguinte, 2021, observa-se um crescimento de cerca de
26% em comparação ao ano anterior. Paralelamente, o número de feminicídios
segue crescente no estado nos três primeiros anos analisados, entre 2017 e 2019, e
atingiu o ápice em 2020 com 113 ocorrências, seguido de uma redução para 93
vítimas no último ano.
Considerando que as medidas protetivas são mecanismos criados pela lei
para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar, que por sua vez consiste em
qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe resulte, entre outras
consequência, a morte, neste primeiro momento não podemos confirmar a
efetividade da lei com base, unicamente, nessa correlação. Isso porque, foram
identificadas diversas variáveis que influenciam nos números dessa série histórica,
como o advento da pandemia de COVID-19, que promoveu o crescimento de
tensões no ambiente familiar e o aumento do tempo de convivência com o agressor,
o que pode ter refletido no aumento dos casos de feminicídios e redução das
solicitações de medidas protetivas em 2020; o fato não mencionado anteriormente
que é a expectativa de queda no número de homicídios no Brasil33 durante o último
ano, estimada pelo Núcleo de Estudos da Violência (NEV-USP) e o dado de que
cerca de 98%34 das mulheres vítimas de feminicídios no Brasil não possuírem
medidas protetivas quando foram mortas por seus agressores.
3 CONCLUSÃO
Novamente, faz-se necessário destacar que a Lei Maria da Penha é uma
marco no no enfrentamento à violência doméstica e familiar contra as mulheres por
propiciar a criação de políticas públicas de prevenção, assistência e proteção às
vítimas e seus dependentes, além de estabelecer a criação de Juizados de Violência
Doméstica e Familiar contraa Mulher e, em especial, instituir as medidas protetivas
de urgência em prol das vítimas e contra os seus agressores.
Como visto no capítulo um do presente trabalho, “a vida das mulheres está
em risco todos os dias em uma sociedade estruturalmente machista e que cultiva a
ideia da mulher como subserviente”, o trecho retirado da pesquisa sobre feminicídios
da Rede de Observatórios da Segurança em 2021 é corroborado com dados sobre
os diversos tipos de violência sofridas pelas mulheres, que vão desde agressões
verbais até feminicídios. Além disso, trouxemos dados específicos sobre feminicídios
na Bahia entre os anos de 2017 e 2021, que positivamente tiveram uma redução de
17% no último ano.
Já no capítulo dois, fizemos um resumo dos fatos que sucederam a criação da
34 CERQUEIRA, Carolina; POLCRI, Maysa. Medidas protetivas concedidas na Bahia aumentam 100%
em cinco anos. Jornal Correio da Bahia, Bahia, p. 1-1, 28 fev. 2022. Disponível em:
https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/medidas-protetivas-concedidas-na-bahia-aumentam-10
0-em-cinco-anos/. Acesso em: 20 out. 2022.
33SANTANA, Jadson; et al. Feminicídios na Bahia: dinâmica e diferenciais entre os padrões de
homicídios de mulheres Salvador. SEI, Governo do Estado e Secretaria do Planejamento, 2022, p.
8-9. Disponível em:
https://www.sei.ba.gov.br/images/publicacoes/download/textos_discussao/texto_discussao_31.pdf.
Acesso em: 25 out. 2022
Lei Maria da Penha, com uma narrativa da história de vida de infortúnios e vitórias
da mulher que deu nome à lei. Em seguida, trouxemos de forma resumida os 7
títulos que compõem a lei, com destaque dos principais artigos e, por fim,
discorremos sobre as inovações que a tornaram um marco na construção e
reconhecimento dos direitos das mulheres como direitos humanos no Brasil.
O terceiro artigo foi dedicado exclusivamente à exploração das medidas
protetivas de urgência, na tentativa de compreender o que, quais os seus tipos e em
quais circunstâncias são concedidas. Nota-se que medidas como a "suspensão da
posse ou restrição do porte de armas” e o “afastamento do agressor do lar” ,
dedicadas ao agressor, visam conter a violência no ambiente doméstico e prevenir
uma tragédia maior.
Por fim, no quarto capítulo fizemos um cruzamento entre o número de
medidas protetivas concedidas no Bahia entre os anos de 2017 e 2021 e o número
de feminicídios para avaliar a efetividade da lei na prevenção de crimes. Por todo o
exposto, conclui-se que esse paralelismo de dados, inicialmente, não é suficiente
para afirmar que o aumento da concessão de medidas protetivas reduziu o número
dos homicídios domésticos, uma vez que, essa relação só foi identificada no ano de
2021, e ainda assim tive influência de vários fatores, como a pandemia de
COVID-19, o elevado percentual de vítimas de feminicídios no Brasil sem pedidos de
medida protetiva e expectativa de queda no número de homicídios no país. Ainda
assim, podemos afirmar que a Lei Maria da Penha foi eficaz e inovadora ao definir e
tipificar a violência doméstica e familiar contra a mulher e reconhecer os direitos das
mulheres como direitos humanos no Brasil.
REFERÊNCIAS
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BRASIL. Lei nº 11.340 de 8 de novembro de 2017. Acrescenta dispositivos à Lei nº
11.340, de 7 de agosto de 2006. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/L13505.htm. Acesso em:
23 out. 2022
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de 2006, para autorizar, nas hipóteses que especifica, a aplicação de medida
protetiva de urgência. Disponível
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em: 23 out. 2022
BRASIL. Lei nº 13.880 de 08 de maio de 2019. Altera a Lei nº 11.340, de 7 de agosto
de 2006, para prever a apreensão de arma de fogo sob posse de agressor em casos
de violência doméstica. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/lei/L13880.htm. Acesso em:
23 out. 2022
BRASIL. Lei nº 13.895 de 29 de outubro de 2019. Altera a Lei nº 11.340, de 7 de
agosto de 2006, para prever a competência dos Juizados de Violência Doméstica e
Familiar contra a Mulher para a ação de divórcio, separação, anulação de
casamento ou dissolução de união estável. Disponível
em:http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/lei/L13894.htm. Acesso
em: 23 out. 2022
BRASIL. Lei nº 13.984 de 03 de abril de 2020. Altera o art. 22 da Lei nº 11.340, de 7
de agosto de 2006, para estabelecer como medidas protetivas de urgência
frequência do agressor a centro de educação e de reabilitação e acompanhamento
psicossocial. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2020/lei/L13984.htm. Acesso em:
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