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Gota Definição e Epidemiologia Definição ● Gota é uma doença crônica de deposição de urato monossódico caracterizada por surtos de artrite e incapacidade. ¹ ● Durando dias a semanas, se não tratadas, as crises são inflamatórias, muitas vezes intensamente dolorosas e debilitantes. ² ● Separados por períodos intercríticos assintomáticos, os surtos podem aumentar em frequência e gravidade ao longo do tempo. ² ● A doença avançada se desenvolve em aproximadamente 15% dos pacientes e é caracterizada por nódulos subcutâneos compostos de urato monossódico (tofos), inflamação articular ininterrupta e potencial erosão e deformidade articular.² Epidemiologia ● É a forma de doença articular inflamatória mais comum da espécie humana. ¹ ● Prevalência de 1 a 5%. ¹ ● Incidência é de 2,9/1.000.¹ ● Tendência ao aumento da prevalência, possivelmente relacionado a diversos fatores: ○ Dietéticos (maior ingestão de proteínas, alimentos ricos em purinas, calorias, bebidas adoçadas, bebida alcoólica e frutose);¹ ○ Aumento da longevidade;¹ ○ Uso de fármacos hiperuricemiantes (como diuréticos e ácido acetilsalicílico);¹ ○ Doença renal crônica e síndrome metabólica. ¹ ● Grande predominância no sexo masculino, em uma proporção de 7:1 a 9:1, que diminui com a idade. ¹ ● Após os 65 anos, a distribuição pode chegar a 3:1.¹ ● A maior incidência ocorre dos 30 aos 60 anos. ¹ ● No sexo feminino a maior incidência situa-se na faixa dos 55 e 70 anos, no período climatérico, uma vez que o estrógeno tem efeito uricosúrico.¹ ● Fatores de risco: ○ Hiperuricemia: fator de risco mais importante para o desenvolvimento de gota.² ○ Síndrome metabólica, doença renal crônica;² ○ Medicamentos (ex.: diuréticos e ciclosporina);² ○ Exposições ambientais:² ■ Alimentos ricos em purina (ex.: carne vermelha e frutos do mar, álcool, especialmente cerveja rica em purinas, e bebidas açucaradas). ○ Genética: 55 loci associados ao risco de gota.² Etiologia e Patogenia ● A formação dos cristais decorre da supersaturação de urato dos tecidos envolvidos. ¹ ● O limite de solubilidade do urato em fluidos corporais no pH de 7,4 e temperatura de 37°C é de 7 mg/dL (definição físico-química de hiperuricemia). ¹ ● Redução do pH e da temperatura diminuem a solubilidade desse soluto: topografia predominantemente apendicular periférica das crises. ¹ ● A elevação dos níveis séricos de urato (NSU) pode advir de uma produção excessiva ou uma redução na excreção renal (principal mecanismo e está presente em algum grau em 90% dos casos).¹ ● A formação do ácido úrico (AU) ocorre a partir da dupla oxidação da purina hipoxantina pela xantina oxidase. ¹ ● A hipoxantina pode ser reaproveitada pela ação da hipoxantina guanina fosforibosiltranferase (a deficiência dessa enzima pode acarretar uma forma grave e precoce de gota).¹ ● O AU uma vez formado não pode ser degradado. ● Setenta por cento de sua eliminação ocorre pela excreção renal e o restante pelo intestino. ¹ ● Ele é totalmente filtrado: 90% dessa carga é reabsorvida no túbulo proximal, por meio de transportadores de ácidos orgânicos (URAT1 é o mais importante). ● A eliminação renal diária é de 300 a 800 mg nas 24 h e o clearance de AU normal é acima de 6 a 7 mL/min. ¹ 2 ● O principal mecanismo para a crise inflamatória é a ativação dos inflamassomas NLRP3, que ocorre via interação cristal-macrófago. ¹ ● Os inflamassomas ativam a caspase 1 que induz a formação da IL-1, que por sua vez ativa o fator de necrose tumoral alfa. ¹ ● Desencadeia-se a produção de mediadores pró-inflamatórios como fatores quimiotáxicos, citocinas inflamatórias, eicosanoides e espécies ativas de oxigênio. ² ● A quimiotaxia promove o aporte de monócitos, mastócitos e neutrófilos. ● O resultado é a congestão vascular, proliferação sinovial e infiltração neutrófila, proliferação fibroblástica e sinovial e dano tecidual. ² ● O cristal sofre também a opsonização por imunoglobulinas e componentes do complemento.² ● Passa a ocorrer um processo ativo para bloquear a evolução da inflamação:² ○ Surgimento de macrófagos M1 e M2 que têm atividade anti-inflamatória; ○ Produção de TGF-alfa1 e IL-10;² ○ Regulação exercida pela AMP-activated protein kinase;² ○ Ação bifásica dos neutrófilos (NETosis: formação de uma rede fibrosa com a finalidade de contenção de patógenos ⇀ barreira ao sistema imunoinflamatório.² 3 Figuras extraídas da referência 4 Quadro Clínico ● A evolução natural da gota se realiza em quatro etapas subsequentes4: 1- Hiperuricemia assintomática4 2- Artrite gotosa aguda4 3- Gota intercrítica4 4- Gota tofosa crônica4 ● Hiperuricemia é assintomática por muitos anos na maioria das pessoas: hiperuricemia assintomática é considerada como precursora ou um estágio pré-clínico da gota.¹ ● Fatores desencadeantes para deposição:A ● Indivíduos com ácido úrico persistentemente acima do normal apresentam risco maior de hipertensão arterial, insuficiência renal e doenças cardiovasculares (> 9 ou 10 mg/dL.). ¹ ● A gota articular costuma acometer pacientes masculinos, começando na quarta ou quinta década de vida, na forma de artrites agudas intermitentes, acometendo preferencialmente as articulações dos pés. ¹ ● As primeiras artrites ocorrem na articulação do hálux, levando ao quadro classicamente chamado de podagra (> 50% dos casos).¹ 4 ● Há dor intensa e eritema local, com grande hipersensibilidade ao toque. Pode haver febre, adinamia e calafrios.¹ ● As crises respondem bem a medicações anti-inflamatórias e podem mesmo ter resolução espontânea após alguns dias. ¹ ● Segue-se um período assintomático que pode durar meses. ¹ ● Sem tratamento ⇀ crises tendem a ser mais frequentes e prolongadas ⇀ quadro crônico e progressivo ⇀ sequelas e deformidades. ¹ ● Depósitos de urato (tofos): mais comuns em torno das articulações e nas bursas dos cotovelos (geralmente há insuficiência renal: nefropatia úrica).¹ ● O diagnóstico clínico da gota é fortemente sugerido pela alternância das CAG com períodos assintomáticos. ¹ Figura extraída da referência 3 Figura extraída da referência 4 ● Nefrolitíase por ácido úrico: ○ Acomete 20% dos pacientes com gota;4 5 ○ Os cálculos podem ser de ácido úrico puro (radiotransparentes) ou mistos, com o centro de ácido úrico e a periferia de oxalato de cálcio;4 ○ Os principais fatores que contribuem para a formação de cálculos renais na gota são:4 1) pH urinário ácido (< 5,5);4 2) Aumento da eliminação urinária de ácido úrico (> 800 mg/dia para o homem e > 750 mg/dia para a mulher).4 ● Nefropatia gotosa por urato: ○ Os cristais de urato monossódico podem causar nefropatia pela deposição no parênquima renal sob a forma de tofos, provocando distorção, destruição e fibrose. 4 ○ Ocorre insuficiência renal crônica de lenta progressão. 4 ○ Causa rara de nefropatia crônica.4 Exames complementares e diagnóstico ● Durante as CAG: leucocitose, aumento da velocidade de hemossedimentação e da proteína C-reativa.¹ ● Hiperuricemia: pré-condição para o desenvolvimento da gota, porém tem valor diagnóstico limitado durante as crises.¹ ● O diagnóstico definitivo de gota é dado pelo exame a fresco do líquido sinovial.¹ ○ Cristais típicos em forma de bastonete ou agulha, com forte birrefringência negativa.¹ ● Radiografia simples: ○ Pouco valor diagnóstico nas primeiras crises.4 ○ Crise aguda (monoartrite): aumento do tecido mole;4 ○ Gota Tofosa Crônica: ■ Erosões em saca-bocado;4 ■ Erosões com margens escleróticas e bordas proeminentes (sinal de Martel);4 ■ Preservação do espaço articular;4 ■ Ausência de osteopenia justarticular.4 ● Ultrassonografia do esqueleto: ○ Sinal do duplo contorno (linha hiperecoica detectada na superfície da cartilagem examinada): 6 específico de depósito de cristais com até 95% de precisão4. ● Tomografia computadorizada de dupla energia: ○ Detecta depósitos incipientes de cristais e diferencia os cristais de urato dos cristais de cálcio.4 Figura extraída da referência 4 Ob�.: Sempre solicitar no paciente com hiperuricemia e artropatia:1 – Pesquisa de cristais de urato monossódico em exame commicroscópico óptico sob luz polarizada. 4 2 – Gram e cultura do material (para afastar possibilidade de artrite piogênica).4 3 – RX da articulação acometida.4 ● Pacientes hiperuricêmicos assintomáticos + antecedentes de nefrolitíase: solicitar radiografias simples de abdome e ultrassonografia abdominal.4 ● Se paciente hiperuricêmico + exposição ao chumbo → dosagem desse metal na urina após a infusão de EDTA (comprovar a presença de gota secundária ao Saturnismo).4 ● Diagnóstico presuntivo: ○ Monoartrite em topografia compatívelA + ○ Hiperuricemia (ausente em 25% dos casos)A + ○ Resposta dramática ao tratamentoA 7 Critérios ACR para o diagnóstico de crise gotosa aguda Tabela retirada da aula - fonte: ACR Diagnósticos diferenciais ● Infecção dos tecidos moles ou musculoesquelética (por exemplo, celulite, bursite séptica, artrite séptica ou osteomielite):² ○ Febre e leucocitose podem ser relatadas tanto na crise de gota grave quanto na infecção.² ○ Gota e infecção podem coexistir.² ○ Amostragem de líquido sinovial ou outro tecido envolvido para contagem de células e coloração de bactérias Gram-positivas e cultura deve ser realizada para excluir totalmente a infecção.² ○ A presença de edema ósseo de alto grau na ressonância magnética, por exemplo, é altamente sugestiva de osteomielite em pessoas com gota.² ● Outras formas de artrite por cristais (artrite aguda por cristais de pirofosfato de cálcio ou periartrite por cristais de fosfato de cálcio básico):² ○ Os padrões de envolvimento articular podem ajudar a diferenciar a artrite por cristais da gota. ² ○ Condrocalcinose em exames de imagem também é sugestiva de deposição de pirofosfato de cálcio.² ○ Cristais de pirofosfato de cálcio e urato monossódico estão presentes e detectáveis por microscopia do líquido sinovial.² ● Artrite psoriática ○ A artrite psoriática se apresenta como uma monoartrite ou oligoartrite. ○ Apresenta envolvimento dos dedos.² 8 ● Artrite reumatóide: ○ Nódulos reumatóides (podem ser confundidos com tofos subcutâneos).² ● Osteoartrite: ○ Ocasionalmente, a osteoartrite simula a gota tofácea.² Tabela extraída da referência 3 9 Tratamento ● Crise aguda de gota (CAG): ○ Identificar os primeiros sinais e sintomas;¹ ○ Não interromper a medicação uricorredutora, caso esteja utilizando-a; ○ Sem tratamento prévio: tratamento da hiperuricemia só deve ser instituído após o controle adequado da artrite aguda e após a introdução de doses profiláticas de colchicina (alterações bruscas dos níveis de ácido úrico sérico podem na verdade agravar a artrite).¹ ○ Repouso relativo, evitando toda e qualquer sobrecarga que aumente a dor na região acometida.¹ ○ Compressas com gelo;¹ ○ Anti-inflamatório não hormonal (AINH), colchicina ou corticosteroide (oral, intramuscular ou intra-articular), isoladamente ou em certas combinações (AINH + colchicina ou corticosteroide + colchicina).¹ ○ Na prática: AINH em dose plena, associado ou não com colchicina em dose baixa (0,5 a 1,0 mg/dia).¹ ○ Para pacientes com contraindicação para o uso de AINH: colchicina em dose baixa (1,0 mg inicialmente, seguido por mais 0,5 mg uma hora depois), nas primeiras 12 horas da CAG.¹ ○ Após as primeiras 36 horas o seu emprego não está indicado.¹ ○ Se contraindicação para o uso de AINH ou colchicina, ou quando essas medicações não foram eficazes: o uso da prednisolona 35 mg/dia por 5 dias.¹ ● Profilaxia de novas crises 1- Administração profilática diária de 0,5 mg a 1,5 mg ao dia de colchicina.¹ 2- Regime de emagrecimento, sob supervisão médica, no caso de pacientes obesos.¹ 3- Eliminação de possíveis fatores predisponentes, como álcool, medicamentos hiperuricemiantes, alimentação rica em purinas etc.¹ 4- Instituição do tratamento contra a hiperuricemia.¹ ● Controle da hiperuricemia ○ É recomendado que o nível sérico de urato (NSU) permaneça abaixo de 6 mg/dL.¹ ○ Nos pacientes com tofos, o alvo terapêutico é abaixo de 5 mg/dL.¹ ○ O uso de medicações uricorredutoras (MUR) está fortemente indicado para pacientes que apresentem: ¹ 10 ■ 1 ou mais tofos, dano articular radiográfico (visto por qualquer método de imagem) atribuível à gota (forma crônica da doença);¹ ■ 2 ou mais CAG por ano;¹ ■ Considerar em pacientes com mais de 1 CAG no passado, porém, atualmente, com menos de 2 CAG por ano, na presença de doença renal moderada a grave (estágio ≥ 3), NSU muito elevados (> 9 mg/dL) ou passado de urolitíase.¹ ○ O início das MUR pode estar associado com o desencadeamento de novas CAG: iniciar em doses baixas, de preferência associadas com o uso de fármacos anti-inflamatórios profiláticos.¹ ○ Ajustar as doses a cada 2 a 4 semanas, até se alcançar o alvo-terapêutico estabelecido para o paciente.¹ ○ Alopurinol: inibidor competitivo da enzima xantina oxidase (iXO), prevenindo, assim, a síntese de urato a partir da hipoxantina e da xantina.¹ ■ 3 a 5% dos que iniciam esta medicação podem apresentar reações adversas (erupção cutânea, febre medicamentosa, náusea, vômito e alterações em exames laboratoriais como leucopenia, trombocitopenia e anormalidades da função hepática).¹ ■ Síndrome de hipersensibilidade ao alopurinol (SHA): exantema eritematoso, febre, hepatite, eosinofilia e insuficiência renal aguda. ■ SHA é rara, com uma incidência estimada de 0,1% a 0,4%, e potencialmente fatal, com uma taxa de mortalidade de até 20%.¹ ■ Iniciar o alopurinol com doses não superiores a 100 mg/dia, aumentando-se as mesmas, progressivamente, a cada 2 a 4 semanas, até alcançar-se a uricemia alvo.¹ ■ Em pacientes com a função renal reduzida, a dose inicial deve ser corrigida para 1,5 mg de alopurinol por mL/min de TFG.¹ ■ A dose de alopurinol necessária para atingir-se a uricemia-alvo geralmente é superior a 300 mg/dia, porém a dose máxima diária não deve exceder os 800-900 mg.¹ ○ Benzbromarona: potente uricosúrico capaz de bloquear de forma efetiva a reabsorção de ácido úrico mediada pela URAT1.¹ ■ Podem ser usados como monoterapia ou em combinação com um inibidor da xantina oxidase.¹ ■ Deve ser iniciada em dose baixa, 25 a 50 mg/dia.¹ ■ As doses devem ser escalonadas de forma progressiva, a cada duas a quatro semanas, de acordo com a necessidade (obtenção da uricemia-alvo), até a dose de 200 mg/dia.¹ 11 ■ Ingestão hídrica diária adequada (≥ 30 mL/kg).¹ ■ Evitar em pacientes hepatopatas, que fazem uso de outras medicações hepatotóxicas ou que ingerem bebidas alcoólicas em quantidade excessiva.¹ ■ Outros representantes: probenecida, sulfinpirazona.¹ ○ Febuxostat: potente inibidor não purínico da xantina oxidase. ■ É usado como terapia de segunda linha para redução de urato, na dose de 40 a 120 mg por dia (a dose máxima aprovada nos EUA é de 80 mg por dia).A ○ Pegloticase: uricase recombinante peguilada administrada como uma infusão intravenosa ou quinzenal. A ■ A pegloticase metaboliza o urato em alantoína solúvel, levando a concentrações plasmáticas indetectáveis de urato nos respondedores.A ■ Reservada para gota refratária com grande quantidade de tofo.A ■ 8 mg, IV, a cada 2 semanas.A ■ Desenvolvimento de anticorpos neutralizantes.A Tabela extraída da aula - fonte: ACR 12 Tabela extraída da referência 3 13 Outras artropatias induzidas por cristais Doença por deposição de pirofosfato de cálcio ● A doença de deposição de pirofosfato de cálcio (CPPD) é a artrite causada por cristais de pirofosfato de cálcio (CPP).¹ ● A doença por deposição de pirofosfato de cálcio (DPFC) constitui um espectro clínico, incluindo artrite inflamatória aguda, também denominada pseudogota; artropatia inflamatória crônica degenerativa e a calcificação radiográfica da cartilagem hialina ou fibrocartilagem, chamada condrocalcinose.¹ ● Epidemiologia ○ Idade: Rara abaixo de 60 anos, média de 72 anos.¹ ○ Sexo: ■ Artrite aguda é mais comum em homens.¹ ■ Osteoartrite com DPFC é mais comum em mulheres.¹ ○ Prevalencia: ■ 4-7% (idosos).¹ ○ Distribuição geográfica: Global.¹ ○ Genética (formafamiliar): ■ CCAL2 (mutação do gene ANKH no cromossomo 5p).¹ ■ CCAL1 (mutação do gene ANKH no cromossomo 8q).¹ ■ TNFRSF11B (mutação no gene da osteoprotegerina).¹ ● Etiologia e Patogenia ○ Não totalmente elucidadas.¹ ○ Causas associadas: ■ Idiopáticos.¹ ■ Trauma articular, cirurgia ou dano articular prévio.¹ ■ Condrocalcinose familiar (associada a polimorfismos do gene ANKH).¹ ■ Hemocromatose.¹ ■ Hiperparatireoidismo, hipomagnesemia (e síndrome de Gitelman, uma de suas causas) e hipofosfatasia: condrocalcinose e à forma aguda (pseudogota).¹ ■ Gota, raquitismo hipofosfatêmico ligado ao X e hipercalcemia hipocalciúrica familiar (associação menos comuns).¹ ○ Condrócitos: formam vesículas pericelulares que servem como sítio para a formação de cristais e produzem pirofosfato inorgânico (PI) extracelular.¹ 14 ○ O ATP extracelular é metabolizado a PI por enzimas como a ectonucleotídeo pirofosfatase I; ○ Fosfatase alcalina e outras pirofosfatases degradam o PI. ○ Fatores de crescimento, citocinas e alguns agentes farmacológicos modulam níveis de PI na cartilagem.¹ Figura extraída da referência 5 ○ Primeiro passo essencial no processo da doença: formação de cristais CPP na matriz pericelular da cartilagem e isso raramente ocorre em outros tecidos.¹ ○ A formação de cristais pode causar lesão tecidual por diversas vias: ■ Ativação de componentes do inflamassoma NRLP3 ou NALP3 → recrutamento de neutrófilos → produção de NETs.¹ ■ Produção de metaloproteinases de matriz e prostaglandinas (condrócitos e sinoviócitos) → alterações mecânicas na cartilagem → dano articular. ¹ ■ TGF-beta → formação de osteófitos de pirofosfato por condrócitos hipertróficos → osteoartrite.A ● Quadro Clínico: ○ Doença por DPFC assintomática: presença de condrocalcinose radiográfica, mas sem manifestações clínicas.¹ ○ Artrite aguda por DPFC (pseudogota): ■ Crise aguda ou subaguda de artrite de uma ou mais articulações periféricas.¹ ■ Causa mais comum de monoartrite aguda nos idosos.¹ ■ Pode se sobrepor a um quadro de artropatia crônica sintomática.¹ 15 ■ Qualquer articulação pode ser acometida (mais comuns: joelho, punho, ombro, tornozelo e cotovelo);¹ ■ Poliartrite é rara;¹ ■ Ataques rápidos, dor importante, edema e rigidez, máximos após 6 a 24 horas do início.¹ ■ Eritema na pele adjacente, febre;¹ ■ Nos idosos: queda do estado geral ou quadro confusional leve. ¹ ■ Espontâneos ou estar associados a algumas situações clínicas: Figura extraída da referência 1 ■ Podem durar mais tempo do que a crise de gota (de 1-3 semanas até alguns meses). ¹ ■ Primeiro ataque em membro superior: mais típico de DPFC do que gota.¹ ■ Raramente ocorre formação de tofos.1 ○ Artrite inflamatória crônica por DPFC (pseudoartrite reumatoide): ■ 5% dos casos;1 ■ Não erosiva;¹ ■ Identificação de cristais de PFC;¹ ■ Dor, rigidez matinal, limitação, fadiga e sinovite;¹ ■ Simétrica ou quase simétrica;1 ■ Membros superiores e inferiores (punhos, metacarpofalangianas (MCF), cotovelos e joelhos).¹ ■ Febre, leucocitose e confusão mental aguda (mais raro).¹ ○ Osteoartrite (OA) com DPFC (pseudo-OA): ■ Mais comum – 50% dos pacientes .¹ ■ Alterações degenerativas semelhantes a OA.¹ ■ Hipertrofia óssea articular, crepitações, dor e limitação funcional. ¹ ■ Episódios de sinovite aguda podem se sobrepor (~50% dos casos). ■ Mais comum: joelhos, punhos, MCF, quadris, ombros, cotovelos e coluna.¹ ■ Diferenças para a OA;¹ 16 - Padrão de acometimento de locais pouco usuais para OA (punhos, cotovelos, tornozelos);¹ - Acometimento preferencial do compartimento medial no joelho; ¹ - Não ocorrência de histórico de trauma ou sobrecarga ocupacional/não ocupacional; ¹ - Componente inflamatório mais proeminente;¹ - Sobreposição de ataques agudos.¹ ○ Outras classes: ■ Degeneração articular grave (pseudoartropatia neuropática);¹ ■ Envolvimento de coluna vertebral: - Dor, rigidez e anquilose: mais comuns na forma familiar de DPFC.¹ - Síndromes compressivas da medula, estenose de canal crônica ou radiculopatia por compressão. ¹ - Síndrome do dente coroado: deposição de cristais de PFC ou hidroxiapatita na articulação atlantoaxial (dor aguda ou recorrente, rigidez cervical, febre e aumento de provas inflamatórias).¹ ■ DPFC em sítios de trauma ou cirurgia recente: pode levar a síndromes compressivas, como a síndrome do túnel do carpo.¹ Figura extraída da referência 3 17 ● Critérios diagnósticos Figura extraída da aula ● Exames complementares: ○ Análise do líquido sinovial ao microscópio com luz polarizada: ■ Cristais de PFC: azuis quando paralelos ao eixo do polarizador e amarelos quando perpendiculares; pequenos e com birrefringência fraca.¹ ■ Cristais intracelulares (fagocitados) ou extracelulares.¹ ■ Cristais de monourato de sódio – sobreposição com gota.¹ ○ Biópsia sinovial: visualização dos cristais no tecido sinovial.¹ ○ Exames laboratoriais: ■ Hemograma, provas inflamatórias, ácido úrico e fator reumatoide (diagnóstico diferencial).¹ ■ Cálcio, fósforo, magnésio, fosfatase alcalina, ferritina, ferro e saturação da transferrina (após o diagnóstico → investigar doença endócrino-metabólica subjacente).¹ ○ Exames de imagem: ■ Radiografia: - Calcificação da cartilagem articular – condrocalcinose. - Se radiografias das articulações acometidas normais ➝ solicitar anteroposterior de cada joelho e da sínfise púbica e posteroanterior de cada punho (radiodensidades pontuais ou lineares nas cartilagens hialina ou fibrocartilagem, em bursas, tendões, ligamentos, sinóvia e cápsula articular).¹ 18 - Alterações degenerativas (cistos subcondrais, osteófitos e microfraturas de osso e cartilagem).¹ - Fraturas por estresse ou osteonecrose.¹ - Osteófitos em gancho na segunda e terceira MCF (mais comum na forma associada à hemocromatose).¹ - Redução do espaço articular radiocarpal.¹ - Degeneração do espaço articular patelofemoral.¹ - Cistos subcondrais nas pequenas articulações da coluna e articulações sacroilíacas, calcificação de discos intervertebrais e fenômeno do vácuo nas articulações sacroilíacas.¹ ■ Tomografia computadorizada: ● Síndrome do dente coroado – massas de cristal na articulação atlantoaxial, no ligamento transverso do atlas ou no ligamento flavo. ■ Tomografia computadorizada de dupla energia: diferenciar o depósito de pirofosfato de cálcio, principalmente nos joelhos, do menisco não calcificado e do osso subcondral.¹ ■ Ultrassonografia: - Semelhante do sinal do duplo contorno, porém com aspecto mais fino. ¹ - Imagens hiperecoicas, com sombra acústica e contorno amorfo e depósitos hiperecoicos nodulares.¹ ● Diagnósticos diferenciais: Gota, artrite séptica, sepse, artrite reumatoide, osteoartrose, espondiloartrites, meningite (síndrome do dente coroado); discite, massas intraespinhais (condrossarcoma).¹ 19 ● Tratamento: ○ Artrite aguda: ■ 1 ou 2 articulações: infiltração de glicocorticoide (GC) intra-articular, após aspiração do líquido sinovial.¹ ■ Caso não seja possível: curso breve (5-7 dias) de anti-inflamatório não esteroidal (AINE), GC sistêmico ou colchicina. ¹ ■ Gelo e imobilização com órtese por 48 a 72 horas.¹ ■ 2 ou mais articulações: AINE, colchicina (1,5 mg/dia no primeiro dia, seguido de 1 mg/dia até a remissão) ou GC até 0,5 mg/kg por curtos períodos.¹ ■ Profilaxia de ataques agudos: se três ou mais ataques agudos/ano → colchicina (0,5-1 mg/dia).¹ ○ Artropatia crônica (pseudo-AR): ■ Inicialmente: AINE na menor dose necessária para controle dos sintomas.¹ ■ Sem resposta → colchicina (1 mg/dia ou dose menor, se não tolerada), hidroxicloroquina 400 mg/dia.¹ ■ Sem resposta→ Prednisona em dose máxima de 10 mg/dia.¹ ■ Metotrexato (segunda linha) → casos refratários.¹ ■ Inibidores da interleucina-1b beta (IL-1 beta): pouca evidencia.¹ ○ Osteoartrite com DPFC (pseudo-OA): ■ Mesmas medidas farmacológicas e não farmacológicas recomendadas para OA primária.¹ 20 Doenças por cristais de fosfato básico de cálcio ● Cristais de fosfato básico de cálcio (CFBC) incluem hidroxiapatita, fosfato octacalcium,fosfato tricálcio e magnésio, sendo que o mais abundante deles é a hidroxiapatita carbonatada. ¹ ● Estudos científicos mostram que os CFBC são patogênicos para a osteoartrite (OA), peritendinites de ombros, cálculos renais e a condrocalcinose.¹ ● Esses cristais estão presentes no líquido sinovial acima de 60% em pacientes com OA e na cartilagem em 100% das articulações afetadas ao fazer a artroplastia articular. ¹ ● O principal local de deposição dos cristais de apatita é o tendão do músculo supraespinhoso, componente do manguito rotador da articulação do ombro.¹ ● Mulheres mais acometidas.¹ ● 4º década de vida.¹ ● Doenças associadas: IRC, Trajeto de infiltração, ES/DMTC→calcinose, Hiperparatireoidismo.¹ ● Quadro Clínico: ○ Maioria assintomático; ○ 2,7% da população → ombro: 34% com sintomas.¹ ○ Inflamação articular e periarticular aguda, tendinite crônica, artropatias rapidamente destrutivas, lesões OA símiles.¹ ○ Compressões de raízes nervosas, bursite e dor óssea provocada pela erosão óssea.¹ ○ Calcificações periarticulares são característicos.¹ ● Apresentações: ○ Periartrite Calcífica Aguda ■ Ocorre quando os cristais de apatita do tendão supraespinhoso são liberados subitamente no tecido ao seu redor.¹ ■ Instalação de um quadro agudo de dor e inflamação no ombro, com edema, eritema e sinais de bursite subacromial. ¹ ■ Absorção na bursa →resolução do quadro após dias ou semanas. ■ É mais comum na faixa etária entre 30-40 anos e predomina em mulheres. ¹ ■ O diagnóstico é clinicorradiológico: calcificação no tendão supraespinhoso, próxima a sua inserção na tuberosidade umeral, + quadro clínico é característico. ¹ 21 ■ Punção da bursa: cristais de apatita (confirmados pela microscopia eletrônica de difração).¹ ○ Tendinite Calcífica Crônica: ■ Importante causa de dor crônica no ombro e de episódios recorrentes de bursite. ¹ ○ Sinovite aguda.¹ ○ Ombro de “Milwaukee”: artropatia destrutiva de indivíduos idosos, que também acomete o ombro → pouca dor, mas progridem para destruição quase completa do ombro, necessitando de cirurgia reparadora.¹ ● Exames complementares: ○ CFBC: detectados por microscopia eletrônica.¹ ○ Radiografia e análise do líquido sinovial.¹ ○ Exame do aspirado articular com coloração vermelha S de alazarina: identifica os cristais agrupados.¹ ● Diagnósticos Diferenciais: ○ Pseudogota, gota e a artrite séptica.¹ ● Tratamento: ○ Os depósitos de apatita periarticulares podem ser reabsorvidos espontaneamente com resolução de ataques.¹ ○ Aspiração das articulações, anti-inflamatórios não esteroidais (AINE), colchicina oral e injeção intra ou periarticular com corticosteroides.¹ ○ Ultrassonografia pulsada: algumas doenças de calcificação. ○ Artroplastia com substituição da articulação: pode ser necessária para pacientes com artropatia destrutiva grave em grandes articulações.¹ Artropatia por oxalato de cálcio ● Típica da síndrome urêmica crônica (renais crônicos).4 ● Joelhos e mãos mais afetados.4 ● Pode haver: ○ Episódios de sinovite semelhantes à pseudogota.4 ○ Episódios de poliartrite simétrica de pequenas articulações.4 ● Sinais radiológicos da condrocalcinose.4 ● Cristais: Birrefrigência positiva, bipiramidal.4 ● Oxalose→ insuf vascular, gangrena, MCP dilatada, neuropatia periférica.4 ● A reposição de vitamina C frequentemente está implicada → essa vitamina é metabolizada em oxalato (não é adequadamente depurado em pacientes urêmicos).4 Depósito de glicocorticóide ● Primeiras 8 horas após a aplicação.A 22 ● Hexacetonide de triancinolona.A ● Transitório.A ● Cristais irregulares e pleomórficos com negativa e positiva birrefrigência.A Referências [1] PINHEIRO , Geraldo da Rocha Castelar; FULLER , Ricardo; BERND, Roberto. Gota. In: SHINJO, Samuel Katsuyuki. Livro da Sociedade Brasileira de Reumatologia. Barueri: Manole, 2021. cap. 63, p. 398-404. [2] Dalbeth N, Merriman TR, Stamp LK. Gout. Lancet. 2016 Oct 22;388(10055):2039-2052.. [3] MIKULS, Ted R. Gout. N Engl J Med , [s. l.], v. 387, p. 1877-1887, 2022. [4] Medcurso de Reumatologia, 2019 - vol 4., cap. 3. [5] Rosenthal AK, Ryan LM. Calcium Pyrophosphate Deposition Disease. N Engl J Med. 2016 Jun 30;374(26):2575-84. 23