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Aula 18 Aplicação do Exercício Teórico-Prático (ETP2). AGUIAR, L. As entrevistas iniciais com a criança. In: _____ Gestalt-terapia com crianças: Teoria e Prática. São Paulo: Livro Pleno, 2005, cap 6 e 7 AGUIAR, L. As entrevistas iniciais com a criança. In: _____ Gestalt-terapia com crianças: Teoria e Prática. São Paulo: Livro Pleno, 2005, cap 6, p. 154-165. O objetivo das sessões iniciais com a criança é, antes de tudo, estabelecer um vínculo de confiança para criar uma base a partir da qual a relação se desenrolará. Sem ele, dificilmente algum tipo de trabalho consegue ser feito Para que este vínculo se estabeleça: Postura de acolhimento, aceitação e respeito pela criança e por sua forma de estar naquele momento, independente do que possa acontecer; Acreditar realmente que a criança é um ser de potencialidades, que ela tem uma sabedoria organismos que guia seus ajustamentos; Que seu comportamento é a expressão de como ela se encontra no momento e que só podemos encontrá-la no ponto onde está e da forma como está; Isso não significa ausência de limites (regras do espaço terapêutico) A escolha de entrar e permanecer será sempre da criança; Primeira visita: “aquecimento” – explorar o espaço com o responsável pela criança no papel de ajudante, Após esse “passeio” – demonstrar que a criança pode escolher voltar a sala com os brinquedos, ou não. A maioria voltará sem problemas, por estarem familiarizadas com o local e sentindo apoio do responsável no contato inicial com ló ambiente e com a psicoterapeuta, percebendo que podem escolher. Percepção precoce desse respeito pela criança é fundamental para o estabelecimento de um vínculo de confiança. Não está lá para ser forçado a fazer nada, e sim respeitar e prestar atenção naquilo que ela precisa e quer fazer. Categorias diagnósticas utilizadas nas sessões iniciais: 1. Temas das atividades realizadas pela criança 2. Tema central da sessão: mais investido pela criança (intensidade ou repetição) 3. Padrões temáticos (que se repetem ao longo das primeiras sessões) 4. Organização da autoimagem: reconhecer a si mesma, presença de um padrão 5. Padrões de contato com a realidade: organização e uso de mecanismos de evitação de contato – deflexão, projeção e introjeção; 6. Uso de fantasia – possibilidade do “fazer de conta”, dramatizar e “entrar em personagens”; 7. Sequência da sessão – articulação cronológica das atividades realizadas durante a sessão; 8. Habilidade de fazer escolhas: como a criança realiza escolhas em todas as situações terapêuticas; 9. Uso da criatividade, transformação ativa da criança, por meio de brincadeiras, fantasia, produções e manipulações; 10. Uso da curiosidade: busca conhecer o espaço terapêutico e psicoterapêutico usando energia da curiosidade; 11. Responsabilidade por seus atos/sentimentos/necessidades: - autoreportação da criança em relação a seus comportamentos e questões; 12. Disponibilidade (reação da criança) para as intervenções do terapeuta; 13. Respeito e tolerância aos limites e frustrações; 14. Tipo de vínculo estabelecido com o terapeuta: dependente; queixoso; autossuficiente, desafiador, confrontador, desqualificador; 15. Emprego da função do contato tátil – como a criança usa o tato e como ela se permite tocar as pessoas; 16. Uso da função de contato auditiva; escuta da criança, da capacidade discriminativa; 17. Uso do contato visual – exploração visual do ambiente, como estabelece contato com as pessoas; 18. Uso da linguagem verbal; 19. Postura, expressão e gestual – uso expressivo do corpo e do movimento; 20. Movimento e deslocamento geográfico – uso do espaço físico no espaço terapêutico. Não há ninguém “certo” ou “errado”, mas percepções diferentes de um mesmo fenômeno: a criança. Quando validamos a forma, estamos validando a experiência da criança, sem julgamentos, preconceitos, críticas ou interpretações a cerca daquilo que estamos observando. Aceitamos o que se apresenta, sabendo que não se trata da “verdade absoluta”, mas apenas da experiência da criança naquele momento, naquele contexto, conosco. No aqui e agora, essa é a mais completa e competente expressão do seu ser. Uso da perspectiva das regularidades do desenvolvimento como pano de fundo, levando em consideração todos os elementos presentes no desenvolvimento global da criança. CAP 7 O processo psicoterapêutico em Gestalt-terapia com crianças O processo terapêutico em Gestalt-terapia com crianças tem o objetivo de resgatar o curso satisfatório do desenvolvimento da criança, propiciando oportunidades de reencontrar a vivacidade e o contato pleno com o mundo por meio da desobstrução de seus sentidos, do reconhecimento do seu corpo, da identificação, aceitação e expressão de seus sentimentos suprimidos da possibilidade de realizar escolhas e verbalizar suas necessidades, bem como de encontrar formas para satisfaze-las, além de aceitar-se como é na sua singularidade. Fio condutor – relação criança psicoterapeuta Metodologia fenomenológica: com o auxílio de técnicas facilitadoras, visa proporcionar uma maior awareness (consciência) da criança a respeito de si mesma e do mundo, expandindo e flexibilizando suas possibilidades de contato e, com isso, criando outras formas de ser e estar no mundo. Método fenomenológico Linguagem descritiva Possibilita à criança por meio das intervenções descritivas do psicoterapeuta, construir gradativamente o significado do material que traz para a sessão, sem a interferência de qualquer “a priori” do terapeuta, seja ele de caráter teórico ou oriundo de seus próprios valores. É preciso lembrar que, assim como é importante estar atento ao tipo e à graduação da intervenção de acordo com cada criança, é fundamental saber respeitar o momento de parar. Três níveis de intervenção: Descrição – nível mais básico; estabelecer uma comunicação nesse nível é a única possibilidade que a criança fornece, de início, ao psicoterapeuta. Ele descreve seu comportamento, faz na medida do possível, alguns questionamentos ao longo das brincadeiras e solicita que ele descreva suas produções; Elaboração – local da grande maioria das técnicas gestálticas. Desdobrar, desenvolver e aprofundar aquilo que a criança traz para o espaço terapêutico; Identificação ou Integração – último nível, apropriação por parte da criança, dos conteúdos de sua brincadeira e em sua produção no espaço terapêutico. Identificação com o elemento desenhado, com o menino fantoche, com a escultura de argila etc. (Verbalização de identificação não deve ser esperada como critério de progresso da psicoterapia) Princípios terapêuticos básicos A postura fenomenológica A postura fenomenológica na psicoterapia envolve uma abertura genuína do terapeuta para o que a criança traz, sem preconceitos ou julgamentos. O terapeuta não impõe suas opiniões ou direciona a criança, permitindo que ela se expresse livremente. A brincadeira é a linguagem principal da criança, e o terapeuta deve respeitar e valorizar isso. O significado da brincadeira será revelado pela criança no processo terapêutico, e não é necessário que o terapeuta o entenda imediatamente. O terapeuta deve suspender o juízo de valores e adotar uma postura de completa aceitação, sem fazer sugestões ou orientações à brincadeira da criança. É um desafio constante para o terapeuta manter-se atento à sua própria experiência e distingui-la da experiência do cliente. O papel da confirmação em psicoterapia A confirmação na psicoterapia difere do elogio, pois não é baseada em juízos de valor. O elogio pode levar a criança a buscar aprovação e reproduzir comportamentos agradáveis ao terapeuta. A confirmação permite à criança ter noção de sua capacidade e potencial. O papel do terapeuta na confirmação é descrever o processo da criança e suas potencialidades.O elogio pode desqualificar a experiência da criança e limitar sua exploração. A confirmação abrange todos os elementos apresentados pela criança, reconhecendo sua totalidade, incluindo sentimentos, resistências e formas de expressão. A relação terapêutica A relação terapêutica é o ponto central do processo terapêutico. O psicoterapeuta deve adotar uma atitude dialógica, com presença genuína na relação. A presença na relação terapêutica é mais importante do que apenas "parecer" estar presente. É necessário ter interesse genuíno por crianças e conhecer seu mundo fora da terapia. O psicoterapeuta deve diferenciar situações terapêuticas das cotidianas. A linguagem utilizada deve ser acessível à faixa etária da criança, sem perder a autenticidade. O psicoterapeuta precisa se colocar no lugar da criança e compreender sua realidade fenomenológica. A relação terapêutica inspira confiança, exposição e entrega. As intervenções técnicas são efetivas quando fundamentadas em uma relação terapêutica sólida. A reação do psicoterapeuta ao comportamento da criança tem um impacto terapêutico. A relação terapêutica permite que a criança se posicione de forma diferente e promove mudanças. Aceitação, respeito e permissividade A psicoterapia infantil envolve aceitação, respeito e permissividade. O psicoterapeuta deve aceitar a criança como um todo e criar um ambiente seguro para expressão. A permissividade deve ser equilibrada com limites claros. A capacidade da criança de tomar decisões e fazer escolhas deve ser respeitada. O tempo da criança é importante no processo terapêutico. Lidar com as expectativas dos pais e outros profissionais é necessário. O processo terapêutico pode parecer estagnado, mas continua sendo valioso. A criança precisa aprender a discriminar entre comportamentos socialmente aceitáveis. A vivência dos limites A vivência dos limites é essencial na psicoterapia, proporcionando a experiência da frustração e a sensação de proteção e cuidado. Os limites devem ser estabelecidos com base no critério da integridade, considerando as necessidades da criança no espaço terapêutico. É importante evitar limites injustificados e prejudiciais, que possam transformar a relação terapêutica em uma guerra de vontades. A mobilização pessoal do terapeuta não deve ser usada como justificativa para impor limites inadequados. Aceitar a frustração da criança e oferecer alternativas viáveis para expressar seus sentimentos é fundamental. Recursos lúdicos podem ser utilizados para facilitar a expressão de sentimentos sem comprometer a integridade. Em situações de comportamento agressivo, é necessário estabelecer limites verbais e, em alguns casos, também físicos, visando proteger a sala e o terapeuta. A contenção física deve ser feita de forma tranquila, suave e firme. O reconhecimento dos sentimentos da criança e a oferta de expressão adequada são essenciais para que ela se sinta aceita. A vivência dos limites contribui para o processo terapêutico e pode levar a reconfigurações nos papéis familiares. O espaço terapêutico O espaço terapêutico é o ambiente onde ocorre a psicoterapia e desempenha um papel importante no processo terapêutico. O espaço físico deve ser bem iluminado, com cores alegres e recursos que convidem a criança a compartilhar seu mundo. A relação entre terapeuta e criança é mais importante do que os recursos lúdicos ou o espaço disponível. A capacidade de invenção e criatividade do terapeuta é fundamental para transformar qualquer objeto em algo lúdico. A criança deve ser envolvida em situações diversas, fortalecendo o vínculo e tornando o terapeuta o principal recurso. O espaço terapêutico precisa ser congruente com a visão de homem e a metodologia terapêutica utilizada. Deve ser permissivo, seguro, amplo e com piso resistente. Os recursos lúdicos devem ser acessíveis às crianças, permitindo discernir sua autonomia. A abordagem gestáltica valoriza o compartilhar dos recursos lúdicos, preservando a privacidade através de pastas individuais. Essa forma de apresentação favorece a experiência do compartilhamento e possibilita a vivência de frustração, limites, rivalidades, competição, curiosidade, entre outros aspectos importantes no processo terapêutico. Os recursos lúdicos Os recursos lúdicos utilizados na terapia infantil devem ser escolhidos levando em consideração a segurança e a relevância para a tarefa terapêutica. Recursos de boa qualidade e material atóxico são recomendados para garantir a integridade da criança, do terapeuta e do ambiente. A relevância dos recursos está relacionada ao estímulo que eles podem oferecer para que a criança compartilhe sua experiência, não devendo ser baseada nas necessidades do terapeuta ou em doações aleatórias. É importante que os recursos sejam simples, fáceis de manejar e duráveis, permitindo a criatividade lúdica. Recursos mecânicos e sofisticados não são indicados, pois limitam as possibilidades de uso e diversificação de significados. A falta de certos recursos pode ser uma oportunidade para trabalhar elementos no processo terapêutico, estimulando a criança a buscar soluções criativas. Os recursos podem ser divididos em dois blocos: recursos lúdicos estruturados, que possuem uma estrutura prévia com significado consensual, como família de bonecos, bichos, casinha com mobília, utensílios de cozinha, jogos, entre outros; e recursos não estruturados, que permitem à criança expressar sua experiência e atribuir significados próprios, como sucata, giz de cera, tinta guache, papel, massa de modelar, água, entre outros. É importante respeitar a escolha da criança, mesmo que ela persista em usar o mesmo recurso lúdico por várias sessões. O desafio é estimulá-la a experimentar materiais novos e explorar diferentes formas de satisfação das necessidades. A psicoterapia promove a transformação na relação da criança com o mundo, permitindo o desenvolvimento de suas potencialidades e recursos criativos. Recursos técnicos A técnica da Gestalt-terapia e seu uso na terapia com crianças, destaca que a técnica não se limita a atividades específicas, mas envolve o uso de recursos lúdicos para mobilizar e desenvolver o material produzido pela criança. A técnica pode ser aplicada em diferentes aspectos, como desenhos, linguagem verbal, comportamento e relação com o terapeuta. É enfatizado que as técnicas devem estar em consonância com a abordagem fenomenológica e dialógica, e devem ser adaptadas às necessidades e limites de cada criança. O terapeuta deve saber para que está utilizando uma determinada técnica, mas não pode prever os resultados exatos. É ressaltada a importância da familiaridade do terapeuta com as técnicas e recursos lúdicos, bem como a necessidade de utilizá-los de forma criativa e adaptada ao contexto terapêutico. O objetivo terapêutico é facilitar a restauração da capacidade da criança de estabelecer contato com o mundo. O texto também menciona a importância de trabalhar as funções de contato da criança, explorando suas habilidades sensoriais e oferecendo diferentes experiências. Além disso, destaca a necessidade de trabalhar os bloqueios e distorções das funções de contato, bem como os mecanismos de evitação de contato. A resistência ao contato é vista como um ajustamento criativo e deve ser respeitada. CYTRYNOWICZ, M. B. O Mundo da Criança. In: Revista da Associação Brasileira de Deseinsanalyses nº 9. São Paulo, p. 74-89. O Mundo da Criança – Maria Beatriz Cytrynowicz Compreensão do existir da criança é desenvolvida a partir da fenomenologia existencial. Modo especial da relação entre a criança com os outros, na qual ela se mostra e é percebida mais no âmbito do cuidado dos outros do que do seu próprio dizer. A criança é curiosa, o tempo da infância é em primeiro lugar o tempo do já,do que se apresenta agora, do imediato. É o tempo da descoberta. As crianças na infância vivem intensamente e se envolvem totalmente naquilo que se apresenta. 1 – A relação criança e adulto: o adulto quando é constantemente solicitado a cuidar da criança cuida do próprio vir a ser; perceber tanto a falta que lhe diz respeito, como a que se refere a própria criança. Nesse momento, ele pode se dispor, ou não, a responder à solicitação daquele cuidado e realizá-lo, ou não; falta, presente desde o nascimento, seja compreendida como “fragilidade infantil”, como se fosse uma condição que se extinguirá com o crescimento ou que será substituída pela condição de adulto. Esta é uma má interpretação tanto do viver da criança, quanto do viver do adulto. A DEPENDENCIA DA CRIANÇA – traço da relação entre adultos e crianças, e não uma característica isolada da criança. REPRESENTAR – possibilidade de ser com o outro, de compartilhar, em que um torna presente algo para o outro. Isso acontece, por exemplo, quando a criança é representada pelos pais na escolha de uma escola, na procura de um médico ou na decisão de frequentar aula de natação. Representa um certo caminho a seguir ao qual a criança ainda não pode ser da própria criança. Apesar de não depender da vontade, não podemos dizer que a representação é natural, nem obrigatória e geral. Ela é uma possibilidade que depende de cada caso e da compreensão que se tem deste caso. Este é o ‘segredo’ da representação: descobrir quando, como e o que antecipar para, a partir daí, poder bem representar a criança. Assim antecipação e representação se dão em diferentes modos do cuidar: Cuidado autoritário – impõe regras que devem ser seguidas e, extremamente exigente, não olha as condições próprias de cada criança, desconsiderando as suas necessidades e negando as suas possibilidades. Cuidado indiferente – também desconsidera necessidades, mas, ao contrário do autoritário, omite posições. Cuidado exibicionista – encontra na criança oportunidade para se avaliar, para angariar reconhecimento e aprovações gerais. Cuidado que mima – atrofia possibilidades próprias da criança e dificulta o seu crescimento, poupando sofrimentos. Cuidado que estimula – de quem está sempre na frente provocando descobertas. Cuidado paciente – de quem sabe esperar pelas oportunidades e pelo possível. Diante de alguns modos, muitas vezes, as crianças se tornam inconformadas, apáticas, teimosas, medrosas ou revoltadas. Neste último caso, parece não aceitar o cuidado do adulto e chega até a mostrar que necessita de algo diferente (Ex: “Quero morar em outra casa!”) Ter cuidado, cuidar de alguém, não é somente poupar-lhe experiencias desagradáveis ou fazer que siga um determinado caminho. Esses são somente dois sentidos que o cuidar pode assumir. Ambos têm em comum a falta de paciência, a pressa ou o receio, e não percebem as necessidades, solicitações e possibilidades existenciais das crianças. Com a presença de alguém mais velho, que já viveu e ‘já sabe’, a criança descobre a confiança. Mas não podemos esquecer também que o adulto cuida da criança do modo como pode. É no cuidado com ela, que ele vai descobrir as possibilidades e limitações do próprio cuidado. Assim, no envolvimento entre criança e adulto, tanto criança como adulto encontram oportunidade de desenvolvimento. Neste sentido, cuidar da abertura para as possibilidades futuras de uma criança, implica em cuidar da abertura para as próprias possibilidades futuras. O MUNDO DO BRINCAR E DA FANTASIA Brincar é atuar – brincando, interagimos com o mundo, com os outros e com as coisas ao redor. Neste momento, fazemos algo, realizamos, criamos e construímos. Falar é expressar – falando expressamos aquilo que compreendemos de nós e do mundo. Isto é, mostramos expressamente, diretamente, comunicamos. Atuar e expressar, assim, são duas coisas totalmente diferentes e que não se opõem, mas se completam. Brincar não é jogar – jogar implica em regras fixas que devem ser seguidas. Brincar significa fazer ligações, ligar. Neste sentido é descobrir relações, é enredar, fazer enredo ou fazer história. Brincar, como a fantasia, é um modo de atuação em que a realidade ganha maior proximidade. A fantasia aproxima e familiariza a realidade e ampara a criança. WERLANG, B. G. Entrevista Lúdica. In: CUNHA, J. A. e colaboradores. Psicodiagnóstico V. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 5. ed., 2000, p. 96-104. É na situação do brinquedo que a criança procura se relacionar com o real, experimentando-o ao seu modo, procurando construir e recriar essa realidade. Não só realizar seus desejos, como dominar a realidade – processo de projeção (perigos internos sobre o mundo externo) Brinquedo como um meio de comunicação, ponte entre o mundo interno e o externo Para Klein (1980), o brincar é a linguagem típica da criança, equiparando a linguagem lúdica infantil à associação livre e aos sonhos dos adultos. Aberastury evidenciou, assim, o valor diagnóstico da entrevista lúdica, falando, pela primeira vez, no nosso meio mais próximo, sobre a hora de jogo diagnóstica. A hora do jogo diagnóstica, fundamentada num referencial teórico psicodinâmico, é um recurso técnico que o psicólogo utiliza dentro do processo psicodiagnóstico, que tem começo, desenvolvimento e fim em si mesmo, operando como unidade para o conhecimento inicial da criança, devendo interpretá-la como tal, e cujos dados serão ou não confirmados com a testagem. Entretanto, a primeira hora de jogo terapêutica é apenas um elo dentro de um contexto maior, onde irão surgir novos aspectos e modificações estruturais em função da intervenção ativa do terapeuta. As instruções específicas para uma entrevista lúdica consistem em oferecer à criança a oportunidade de brincar, como deseje, com todo o material lúdico disponível na sala, esclarecendo sobre o espaço onde poderá brincar, sobre o tempo disponível, sobre os papeis dela e do psicólogo, bem como sobre os objetivos dessa atividade, que possibilitará conhecê-la mais e, assim, poder posteriormente ajudá-la. O material lúdico deve ser apresentado sem uma ordem aparente, em caixas e/ou armários, sempre com as tampas ou portas abertas, devendo ser adequado para atender crianças de diferentes idades, sexo e interesses. A postura do psicólogo deve ser, em todos os casos, a de estimular a interação, conduzindo a situação de maneira tal que possa deixar transparecer a compreensão do momento, respeitando e acolhendo a criança, de forma que esta se sinta segura e aceita. Analisar e interpretar uma hora do jogo diagnóstica não é uma tarefa fácil. Kornblit (1978) saliente que uma análise detalhada da hora do jogo permite: a) A conceitualização do conflito atual do paciente; b) Coloca em evidência seus principais mecanismos de defesa e ansiedades; c) Avalia o tipo de rapport que pode estabelecer a criança com um possível terapeuta e o tipo de ansiedade que contratransferencialmente pode despertar nele; d) Poe de manifesto a fantasia de doença e cura. NÃO EXISTE UM PADRÃO PARA ANALIZAR Guia de 8 indicadores para estabelecer critérios mais sistematizados e coerentes para orientar análise com fins diagnósticos e prognósticos, em especial, para classificação do nível de funcionamento da personalidade, sempre dentro de um entendimento dinâmico, estrutural e econômico. São eles: Escolha de brinquedos e jogos – relacionado com o momento evolutivo emocional e intelectual em que a criança se encontra. Os brinquedos e jogos devem ser analisados do ponto de vista evolutivo, registrando cada uma das manifestações de conduta lúdica, classificando-as conforme as idades correspondentes dentro de algum dos referenciais da psicologia do desenvolvimento, e de acordo com a cronologia de cada fase evolutiva correspondente do referencial psicanalítico, com as fases de evolução da libido (oral, anal, fálica e genital); Modalidadedo brinquedo – baseada nas formas de manifestação simbólica de seu ego e de seus traços de funcionamento psíquico. Entre as principais modalidades, temos a plasticidade, a rigidez, a estereotipia e a perseverança. Motricidade – o manejo adequado das possibilidades motoras, que possibilitará à criança o domínio dos objetos do mundo externo no campo social, escolar e emocional, satisfazendo suas principais necessidades com autonomia, enquanto dificuldades nesse âmbito provocarão certamente limitações e frustrações Personificação – é a capacidade da criança para assumir e desempenhar papéis no brinquedo. As crianças transformam seus brinquedos ou a si mesmas em personagens imaginários ou não de acordo com a faixa etária, expressando afetos, tipos de relações e conflitos, sempre em sintonia com a realidade de seu mundo interno; Possibilidade de compreender a existência ou não do equilíbrio entre Superego, o Id e a realidade, verificando também a capacidade de fantasia na definição de determinados papeis, que com o auxilio da mágica lúdica, possibilitara, pelo menos por um período limitado, a satisfação dos desejos mais grandiosos que seu eu consciente, em outras circunstancia, não permitiria; Criatividade – é um processo mental de manipulação do ambiente do qual resultam novas ideias, formas e relações. Capacidade simbólica – O jogo é uma forma de expressão da capacidade simbólica, e a vida de fantasia se torna mais observável à medida que a criança se torna apta para o jogo simbólico. O simbolismo habilita a criança a transferir interesses, fantasias, ansiedades, culpa, tendencias destrutivas para outros objetos e/ou pessoas, revelando preocupações e ansiedades, aspirações e desejos, na tentativa de obter, através da ação lúdica, o domínio do mundo externo, e, como indicador avaliativo, possibilita compreender também a capacidade expressiva da criança e a qualidade do conflito; Tolerância a frustração e adequação a realidade – são indicadores que tem relação com a aceitação ou não das instruções e enquadramento da hora do jogo, assim como da aceitação dos limites, do próprio papel e do papel do outro, da separação dos pais, do tempo de início e fim, do resultado dos jogos, etc. Tudo isso está intimamente relacionado com as possibilidades egóicas e com o princípio de prazer e realidade.