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Aula 18 
Aplicação do Exercício Teórico-Prático (ETP2). 
 
AGUIAR, L. As entrevistas iniciais com a criança. In: _____ Gestalt-terapia com crianças: Teoria e Prática. São Paulo: Livro Pleno, 2005, cap 6 e 7 
AGUIAR, L. As entrevistas iniciais com a criança. In: _____ Gestalt-terapia com crianças: Teoria e Prática. São Paulo: Livro Pleno, 2005, cap 6, p. 154-165. 
O objetivo das sessões iniciais com a criança é, antes de tudo, estabelecer 
um vínculo de confiança para criar uma base a partir da qual a relação 
se desenrolará. Sem ele, dificilmente algum tipo de trabalho consegue ser 
feito 
Para que este vínculo se estabeleça: 
 Postura de acolhimento, aceitação e respeito pela criança e 
por sua forma de estar naquele momento, independente do que 
possa acontecer; 
 Acreditar realmente que a criança é um ser de 
potencialidades, que ela tem uma sabedoria organismos que 
guia seus ajustamentos; 
 Que seu comportamento é a expressão de como ela se 
encontra no momento e que só podemos encontrá-la no ponto 
onde está e da forma como está; 
Isso não significa ausência de limites (regras do espaço terapêutico) 
A escolha de entrar e permanecer será sempre da criança; 
 Primeira visita: “aquecimento” – explorar o espaço com o responsável 
pela criança no papel de ajudante, 
 Após esse “passeio” – demonstrar que a criança pode escolher voltar 
a sala com os brinquedos, ou não. A maioria voltará sem problemas, 
por estarem familiarizadas com o local e sentindo apoio do 
responsável no contato inicial com ló ambiente e com a 
psicoterapeuta, percebendo que podem escolher. 
 Percepção precoce desse respeito pela criança é fundamental para o 
estabelecimento de um vínculo de confiança. Não está lá para ser 
forçado a fazer nada, e sim respeitar e prestar atenção naquilo que 
ela precisa e quer fazer. 
 
 
Categorias diagnósticas utilizadas nas sessões iniciais: 
1. Temas das atividades realizadas pela criança 
2. Tema central da sessão: mais investido pela criança (intensidade ou 
repetição) 
3. Padrões temáticos (que se repetem ao longo das primeiras sessões) 
4. Organização da autoimagem: reconhecer a si mesma, presença de um padrão 
5. Padrões de contato com a realidade: organização e uso de mecanismos de 
evitação de contato – deflexão, projeção e introjeção; 
6. Uso de fantasia – possibilidade do “fazer de conta”, dramatizar e “entrar em 
personagens”; 
7. Sequência da sessão – articulação cronológica das atividades realizadas 
durante a sessão; 
8. Habilidade de fazer escolhas: como a criança realiza escolhas em todas as 
situações terapêuticas; 
9. Uso da criatividade, transformação ativa da criança, por meio de brincadeiras, 
fantasia, produções e manipulações; 
10. Uso da curiosidade: busca conhecer o espaço terapêutico e psicoterapêutico 
usando energia da curiosidade; 
11. Responsabilidade por seus atos/sentimentos/necessidades: - autoreportação 
da criança em relação a seus comportamentos e questões; 
12. Disponibilidade (reação da criança) para as intervenções do terapeuta; 
13. Respeito e tolerância aos limites e frustrações; 
14. Tipo de vínculo estabelecido com o terapeuta: dependente; queixoso; 
autossuficiente, desafiador, confrontador, desqualificador; 
15. Emprego da função do contato tátil – como a criança usa o tato e como ela se 
permite tocar as pessoas; 
16. Uso da função de contato auditiva; escuta da criança, da capacidade 
discriminativa; 
17. Uso do contato visual – exploração visual do ambiente, como estabelece 
contato com as pessoas; 
18. Uso da linguagem verbal; 
19. Postura, expressão e gestual – uso expressivo do corpo e do movimento; 
20. Movimento e deslocamento geográfico – uso do espaço físico no espaço 
terapêutico. 
 
Não há ninguém “certo” ou “errado”, mas percepções diferentes 
de um mesmo fenômeno: a criança. 
 
Quando validamos a forma, estamos validando a experiência da 
criança, sem julgamentos, preconceitos, críticas ou interpretações a 
cerca daquilo que estamos observando. 
 
Aceitamos o que se apresenta, sabendo que não se trata da “verdade 
absoluta”, mas apenas da experiência da criança naquele momento, 
naquele contexto, conosco. No aqui e agora, essa é a mais completa 
e competente expressão do seu ser. 
 
Uso da perspectiva das regularidades do desenvolvimento como 
pano de fundo, levando em consideração todos os elementos 
presentes no desenvolvimento global da criança. 
 
 
CAP 7 O processo psicoterapêutico em Gestalt-terapia com crianças 
 
O processo terapêutico em Gestalt-terapia 
com crianças tem o objetivo de resgatar o 
curso satisfatório do desenvolvimento da 
criança, propiciando oportunidades de 
reencontrar a vivacidade e o contato pleno 
com o mundo por meio da desobstrução de 
seus sentidos, do reconhecimento do seu 
corpo, da identificação, aceitação e expressão 
de seus sentimentos suprimidos da 
possibilidade de realizar escolhas e verbalizar 
suas necessidades, bem como de encontrar 
formas para satisfaze-las, além de aceitar-se 
como é na sua singularidade. 
 
Fio condutor – relação criança  
psicoterapeuta 
 
Metodologia  fenomenológica: com o auxílio 
de técnicas facilitadoras, visa proporcionar 
uma maior awareness (consciência) da 
criança a respeito de si mesma e do mundo, 
expandindo e flexibilizando suas 
possibilidades de contato e, com isso, criando 
outras formas de ser e estar no mundo. 
 
Método fenomenológico 
 
Linguagem descritiva 
 
Possibilita à criança por meio das 
intervenções descritivas do psicoterapeuta, 
construir gradativamente o significado do 
material que traz para a sessão, sem a 
interferência de qualquer “a priori” do 
terapeuta, seja ele de caráter teórico ou 
oriundo de seus próprios valores. 
É preciso lembrar que, assim como é 
importante estar atento ao tipo e à graduação 
da intervenção de acordo com cada criança, é 
fundamental saber respeitar o momento de 
parar. 
 
Três níveis de intervenção: 
 
 Descrição – nível mais básico; 
estabelecer uma comunicação nesse 
nível é a única possibilidade que a 
criança fornece, de início, ao 
psicoterapeuta. Ele descreve seu 
comportamento, faz na medida do 
possível, alguns questionamentos ao 
longo das brincadeiras e solicita que ele 
descreva suas produções; 
 Elaboração – local da grande maioria 
das técnicas gestálticas. Desdobrar, 
desenvolver e aprofundar aquilo que a 
criança traz para o espaço terapêutico; 
 Identificação ou Integração – último 
nível, apropriação por parte da criança, 
dos conteúdos de sua brincadeira e em 
sua produção no espaço terapêutico. 
Identificação com o elemento 
desenhado, com o menino fantoche, 
com a escultura de argila etc. 
(Verbalização de identificação não deve 
ser esperada como critério de progresso 
da psicoterapia) 
 
 
Princípios terapêuticos básicos 
 
A postura fenomenológica 
 A postura fenomenológica na psicoterapia 
envolve uma abertura genuína do terapeuta para 
o que a criança traz, sem preconceitos ou 
julgamentos. O terapeuta não impõe suas 
opiniões ou direciona a criança, permitindo que 
ela se expresse livremente. 
 A brincadeira é a linguagem principal da criança, 
e o terapeuta deve respeitar e valorizar isso. O 
significado da brincadeira será revelado pela 
criança no processo terapêutico, e não é 
necessário que o terapeuta o entenda 
imediatamente. 
 O terapeuta deve suspender o juízo de valores e 
adotar uma postura de completa aceitação, sem 
fazer sugestões ou orientações à brincadeira da 
criança. É um desafio constante para o terapeuta 
manter-se atento à sua própria experiência e 
distingui-la da experiência do cliente. 
 
O papel da confirmação em psicoterapia 
 A confirmação na psicoterapia difere do elogio, 
pois não é baseada em juízos de valor. O elogio 
pode levar a criança a buscar aprovação e 
reproduzir comportamentos agradáveis ao 
terapeuta. 
 A confirmação permite à criança ter noção de 
sua capacidade e potencial. 
 O papel do terapeuta na confirmação é 
descrever o processo da criança e suas 
potencialidades.O elogio pode desqualificar a 
experiência da criança e limitar sua exploração. 
 A confirmação abrange todos os elementos 
apresentados pela criança, reconhecendo sua 
totalidade, incluindo sentimentos, resistências e 
formas de expressão. 
 
A relação terapêutica 
 A relação terapêutica é o ponto central do 
processo terapêutico. O psicoterapeuta deve 
adotar uma atitude dialógica, com presença 
genuína na relação. A presença na relação 
terapêutica é mais importante do que apenas 
"parecer" estar presente. 
 É necessário ter interesse genuíno por crianças 
e conhecer seu mundo fora da terapia. 
 O psicoterapeuta deve diferenciar situações 
terapêuticas das cotidianas. 
 A linguagem utilizada deve ser acessível à faixa 
etária da criança, sem perder a autenticidade. O 
psicoterapeuta precisa se colocar no lugar da 
criança e compreender sua realidade 
fenomenológica. A relação terapêutica inspira 
confiança, exposição e entrega. 
 As intervenções técnicas são efetivas quando 
fundamentadas em uma relação terapêutica 
sólida. A reação do psicoterapeuta ao 
comportamento da criança tem um impacto 
terapêutico. 
 A relação terapêutica permite que a criança se 
posicione de forma diferente e promove 
mudanças. 
 
Aceitação, respeito e permissividade 
 A psicoterapia infantil envolve aceitação, 
respeito e permissividade. O psicoterapeuta 
deve aceitar a criança como um todo e criar um 
ambiente seguro para expressão. A 
permissividade deve ser equilibrada com limites 
claros. A capacidade da criança de tomar 
decisões e fazer escolhas deve ser respeitada. 
O tempo da criança é importante no processo 
terapêutico. Lidar com as expectativas dos pais 
e outros profissionais é necessário. O processo 
terapêutico pode parecer estagnado, mas 
continua sendo valioso. A criança precisa 
aprender a discriminar entre comportamentos 
socialmente aceitáveis. 
A vivência dos limites 
 A vivência dos limites é essencial na 
psicoterapia, proporcionando a experiência da 
frustração e a sensação de proteção e cuidado. 
Os limites devem ser estabelecidos com base no 
critério da integridade, considerando as 
necessidades da criança no espaço terapêutico. 
É importante evitar limites injustificados e 
prejudiciais, que possam transformar a relação 
terapêutica em uma guerra de vontades. 
 A mobilização pessoal do terapeuta não deve 
ser usada como justificativa para impor limites 
inadequados. Aceitar a frustração da criança e 
oferecer alternativas viáveis para expressar 
seus sentimentos é fundamental. Recursos 
lúdicos podem ser utilizados para facilitar a 
expressão de sentimentos sem comprometer a 
integridade. Em situações de comportamento 
agressivo, é necessário estabelecer limites 
verbais e, em alguns casos, também físicos, 
visando proteger a sala e o terapeuta. A 
contenção física deve ser feita de forma 
tranquila, suave e firme. O reconhecimento dos 
sentimentos da criança e a oferta de expressão 
adequada são essenciais para que ela se sinta 
aceita. 
 A vivência dos limites contribui para o processo 
terapêutico e pode levar a reconfigurações nos 
papéis familiares. 
 
O espaço terapêutico 
 O espaço terapêutico é o ambiente onde ocorre 
a psicoterapia e desempenha um papel 
importante no processo terapêutico. O espaço 
físico deve ser bem iluminado, com cores 
alegres e recursos que convidem a criança a 
compartilhar seu mundo. A relação entre 
terapeuta e criança é mais importante do que os 
recursos lúdicos ou o espaço disponível. 
 A capacidade de invenção e criatividade do 
terapeuta é fundamental para transformar 
qualquer objeto em algo lúdico. A criança deve 
ser envolvida em situações diversas, 
fortalecendo o vínculo e tornando o terapeuta o 
principal recurso. O espaço terapêutico precisa 
ser congruente com a visão de homem e a 
metodologia terapêutica utilizada. Deve ser 
permissivo, seguro, amplo e com piso resistente. 
 Os recursos lúdicos devem ser acessíveis às 
crianças, permitindo discernir sua autonomia. A 
abordagem gestáltica valoriza o compartilhar 
dos recursos lúdicos, preservando a privacidade 
através de pastas individuais. Essa forma de 
apresentação favorece a experiência do 
compartilhamento e possibilita a vivência de 
frustração, limites, rivalidades, competição, 
curiosidade, entre outros aspectos importantes 
no processo terapêutico. 
 
Os recursos lúdicos 
 Os recursos lúdicos utilizados na terapia infantil 
devem ser escolhidos levando em consideração 
a segurança e a relevância para a tarefa 
terapêutica. Recursos de boa qualidade e 
material atóxico são recomendados para 
garantir a integridade da criança, do terapeuta e 
do ambiente. A relevância dos recursos está 
relacionada ao estímulo que eles podem 
oferecer para que a criança compartilhe sua 
experiência, não devendo ser baseada nas 
necessidades do terapeuta ou em doações 
aleatórias. É importante que os recursos sejam 
simples, fáceis de manejar e duráveis, 
permitindo a criatividade lúdica. Recursos 
mecânicos e sofisticados não são indicados, 
pois limitam as possibilidades de uso e 
diversificação de significados. 
 A falta de certos recursos pode ser uma 
oportunidade para trabalhar elementos no 
processo terapêutico, estimulando a criança a 
buscar soluções criativas. Os recursos podem 
ser divididos em dois blocos: recursos lúdicos 
estruturados, que possuem uma estrutura prévia 
com significado consensual, como família de 
bonecos, bichos, casinha com mobília, utensílios 
de cozinha, jogos, entre outros; e recursos não 
estruturados, que permitem à criança expressar 
sua experiência e atribuir significados próprios, 
como sucata, giz de cera, tinta guache, papel, 
massa de modelar, água, entre outros. 
 É importante respeitar a escolha da criança, 
mesmo que ela persista em usar o mesmo 
recurso lúdico por várias sessões. O desafio é 
estimulá-la a experimentar materiais novos e 
explorar diferentes formas de satisfação das 
necessidades. A psicoterapia promove a 
transformação na relação da criança com o 
mundo, permitindo o desenvolvimento de suas 
potencialidades e recursos criativos. 
 
Recursos técnicos 
 A técnica da Gestalt-terapia e seu uso na terapia 
com crianças, destaca que a técnica não se 
limita a atividades específicas, mas envolve o 
uso de recursos lúdicos para mobilizar e 
desenvolver o material produzido pela criança. 
 A técnica pode ser aplicada em diferentes 
aspectos, como desenhos, linguagem verbal, 
comportamento e relação com o terapeuta. 
 É enfatizado que as técnicas devem estar em 
consonância com a abordagem fenomenológica 
e dialógica, e devem ser adaptadas às 
necessidades e limites de cada criança. 
 O terapeuta deve saber para que está utilizando 
uma determinada técnica, mas não pode prever 
os resultados exatos. É ressaltada a importância 
da familiaridade do terapeuta com as técnicas e 
recursos lúdicos, bem como a necessidade de 
utilizá-los de forma criativa e adaptada ao 
contexto terapêutico. 
 O objetivo terapêutico é facilitar a restauração da 
capacidade da criança de estabelecer contato 
com o mundo. O texto também menciona a 
importância de trabalhar as funções de contato 
da criança, explorando suas habilidades 
sensoriais e oferecendo diferentes experiências. 
Além disso, destaca a necessidade de trabalhar 
os bloqueios e distorções das funções de 
contato, bem como os mecanismos de evitação 
de contato. A resistência ao contato é vista como 
um ajustamento criativo e deve ser respeitada. 
 
 
CYTRYNOWICZ, M. B. O Mundo da Criança. In: Revista da Associação Brasileira de Deseinsanalyses nº 9. São Paulo, p. 74-89. 
 
 
O Mundo da Criança – Maria Beatriz Cytrynowicz 
 
Compreensão do existir da criança é desenvolvida a partir da fenomenologia existencial. 
 
Modo especial da relação entre a criança com os outros, na qual ela se mostra e é percebida mais no âmbito do cuidado dos outros do que 
do seu próprio dizer. 
A criança é curiosa, o tempo da infância é em primeiro lugar o tempo do já,do que se apresenta agora, do imediato. É o tempo da descoberta. 
As crianças na infância vivem intensamente e se envolvem totalmente naquilo que se apresenta. 
 
1 – A relação criança e adulto: 
 o adulto quando é constantemente solicitado a cuidar da criança cuida do próprio vir a ser; 
 perceber tanto a falta que lhe diz respeito, como a que se refere a própria criança. Nesse momento, ele pode se dispor, ou não, a 
responder à solicitação daquele cuidado e realizá-lo, ou não; 
 falta, presente desde o nascimento, seja compreendida como “fragilidade infantil”, como se fosse uma condição que se extinguirá com 
o crescimento ou que será substituída pela condição de adulto. Esta é uma má interpretação tanto do viver da criança, quanto do viver 
do adulto. 
 
 
A DEPENDENCIA DA CRIANÇA – traço da relação entre adultos e crianças, e não uma característica isolada da criança. 
 
REPRESENTAR – possibilidade de ser com o outro, de compartilhar, em que um torna presente algo para o outro. Isso acontece, por exemplo, 
quando a criança é representada pelos pais na escolha de uma escola, na procura de um médico ou na decisão de frequentar aula de natação. 
Representa um certo caminho a seguir ao qual a criança ainda não pode ser da própria criança. 
 
Apesar de não depender da vontade, não podemos dizer que a representação é natural, nem obrigatória e geral. Ela é uma possibilidade que 
depende de cada caso e da compreensão que se tem deste caso. 
Este é o ‘segredo’ da representação: descobrir quando, como e o que antecipar para, a partir daí, poder bem representar a criança. 
Assim antecipação e representação se dão em diferentes modos do cuidar: 
 Cuidado autoritário – impõe regras que devem ser seguidas e, extremamente exigente, não olha as condições próprias de cada 
criança, desconsiderando as suas necessidades e negando as suas possibilidades. 
 Cuidado indiferente – também desconsidera necessidades, mas, ao contrário do autoritário, omite posições. 
 Cuidado exibicionista – encontra na criança oportunidade para se avaliar, para angariar reconhecimento e aprovações gerais. 
 Cuidado que mima – atrofia possibilidades próprias da criança e dificulta o seu crescimento, poupando sofrimentos. 
 Cuidado que estimula – de quem está sempre na frente provocando descobertas. 
 Cuidado paciente – de quem sabe esperar pelas oportunidades e pelo possível. 
Diante de alguns modos, muitas vezes, as crianças se tornam inconformadas, apáticas, teimosas, medrosas ou revoltadas. Neste último caso, 
parece não aceitar o cuidado do adulto e chega até a mostrar que necessita de algo diferente (Ex: “Quero morar em outra casa!”) 
Ter cuidado, cuidar de alguém, não é somente poupar-lhe experiencias desagradáveis ou fazer que siga um determinado caminho. Esses são 
somente dois sentidos que o cuidar pode assumir. Ambos têm em comum a falta de paciência, a pressa ou o receio, e não percebem as 
necessidades, solicitações e possibilidades existenciais das crianças. 
 
Com a presença de alguém mais velho, que já viveu e ‘já sabe’, a criança descobre a confiança. 
Mas não podemos esquecer também que o adulto cuida da criança do modo como pode. É no cuidado com ela, que ele vai descobrir as 
possibilidades e limitações do próprio cuidado. 
Assim, no envolvimento entre criança e adulto, tanto criança como adulto encontram oportunidade de desenvolvimento. Neste sentido, cuidar 
da abertura para as possibilidades futuras de uma criança, implica em cuidar da abertura para as próprias possibilidades futuras. 
 
O MUNDO DO BRINCAR E DA FANTASIA 
 
Brincar é atuar – brincando, interagimos com o mundo, com os outros e com as coisas ao redor. Neste momento, fazemos algo, realizamos, 
criamos e construímos. 
Falar é expressar – falando expressamos aquilo que compreendemos de nós e do mundo. Isto é, mostramos expressamente, diretamente, 
comunicamos. 
Atuar e expressar, assim, são duas coisas totalmente diferentes e que não se opõem, mas se completam. 
 
Brincar não é jogar – jogar implica em regras fixas que devem ser seguidas. 
Brincar significa fazer ligações, ligar. Neste sentido é descobrir relações, é enredar, fazer enredo ou fazer história. 
Brincar, como a fantasia, é um modo de atuação em que a realidade ganha maior proximidade. 
 
A fantasia aproxima e familiariza a realidade e ampara a criança. 
 
 
 
WERLANG, B. G. Entrevista Lúdica. In: CUNHA, J. A. e colaboradores. Psicodiagnóstico V. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 5. ed., 2000, p. 96-104. 
 
É na situação do brinquedo que a criança procura se relacionar com o real, experimentando-o ao seu modo, procurando construir e recriar essa 
realidade. Não só realizar seus desejos, como dominar a realidade – processo de projeção (perigos internos sobre o mundo externo) 
Brinquedo como um meio de comunicação, ponte entre o mundo interno e o externo 
 
Para Klein (1980), o brincar é a linguagem típica da criança, equiparando a linguagem lúdica infantil à associação livre e aos sonhos dos 
adultos. 
 
Aberastury evidenciou, assim, o valor diagnóstico da entrevista lúdica, falando, pela primeira vez, no nosso meio mais próximo, sobre a 
hora de jogo diagnóstica. 
 
A hora do jogo diagnóstica, fundamentada num referencial teórico psicodinâmico, é um recurso técnico que o psicólogo utiliza dentro do 
processo psicodiagnóstico, que tem começo, desenvolvimento e fim em si mesmo, operando como unidade para o conhecimento inicial da 
criança, devendo interpretá-la como tal, e cujos dados serão ou não confirmados com a testagem. Entretanto, a primeira hora de jogo 
terapêutica é apenas um elo dentro de um contexto maior, onde irão surgir novos aspectos e modificações estruturais em função da 
intervenção ativa do terapeuta. 
 
As instruções específicas para uma entrevista lúdica consistem em oferecer à criança a oportunidade de brincar, como deseje, com todo o 
material lúdico disponível na sala, esclarecendo sobre o espaço onde poderá brincar, sobre o tempo disponível, sobre os papeis dela e do 
psicólogo, bem como sobre os objetivos dessa atividade, que possibilitará conhecê-la mais e, assim, poder posteriormente ajudá-la. 
 
O material lúdico deve ser apresentado sem uma ordem aparente, em caixas e/ou armários, sempre com as tampas ou portas abertas, 
devendo ser adequado para atender crianças de diferentes idades, sexo e interesses. 
 
A postura do psicólogo deve ser, em todos os casos, a de estimular a interação, conduzindo a situação de maneira tal que possa deixar 
transparecer a compreensão do momento, respeitando e acolhendo a criança, de forma que esta se sinta segura e aceita. 
 
Analisar e interpretar uma hora do jogo diagnóstica não é uma tarefa fácil. Kornblit (1978) saliente que uma análise detalhada da hora do jogo 
permite: 
a) A conceitualização do conflito atual do paciente; 
b) Coloca em evidência seus principais mecanismos de defesa e ansiedades; 
c) Avalia o tipo de rapport que pode estabelecer a criança com um possível terapeuta e o tipo de ansiedade que contratransferencialmente 
pode despertar nele; 
d) Poe de manifesto a fantasia de doença e cura. 
 
 
NÃO EXISTE UM PADRÃO PARA ANALIZAR 
 
Guia de 8 indicadores para estabelecer critérios mais sistematizados e coerentes para orientar análise com fins diagnósticos e prognósticos, 
em especial, para classificação do nível de funcionamento da personalidade, sempre dentro de um entendimento dinâmico, estrutural e 
econômico. São eles: 
 
 Escolha de brinquedos e jogos – 
relacionado com o momento evolutivo 
emocional e intelectual em que a criança se 
encontra. Os brinquedos e jogos devem ser 
analisados do ponto de vista evolutivo, 
registrando cada uma das manifestações de 
conduta lúdica, classificando-as conforme as 
idades correspondentes dentro de algum dos 
referenciais da psicologia do 
desenvolvimento, e de acordo com a 
cronologia de cada fase evolutiva 
correspondente do referencial psicanalítico, 
com as fases de evolução da libido (oral, 
anal, fálica e genital); 
 Modalidadedo brinquedo – baseada nas 
formas de manifestação simbólica de seu ego 
e de seus traços de funcionamento psíquico. 
Entre as principais modalidades, temos a 
plasticidade, a rigidez, a estereotipia e a 
perseverança. 
 Motricidade – o manejo adequado das 
possibilidades motoras, que possibilitará à 
criança o domínio dos objetos do mundo 
externo no campo social, escolar e 
emocional, satisfazendo suas principais 
necessidades com autonomia, enquanto 
dificuldades nesse âmbito provocarão 
certamente limitações e frustrações 
 Personificação – é a capacidade da criança 
para assumir e desempenhar papéis no 
brinquedo. As crianças transformam seus 
brinquedos ou a si mesmas em personagens 
imaginários ou não de acordo com a faixa 
etária, expressando afetos, tipos de relações 
e conflitos, sempre em sintonia com a 
realidade de seu mundo interno; 
Possibilidade de compreender a existência 
ou não do equilíbrio entre Superego, o Id e a 
realidade, verificando também a capacidade 
de fantasia na definição de determinados 
papeis, que com o auxilio da mágica lúdica, 
possibilitara, pelo menos por um período 
limitado, a satisfação dos desejos mais 
grandiosos que seu eu consciente, em outras 
circunstancia, não permitiria; 
 Criatividade – é um processo mental de 
manipulação do ambiente do qual resultam 
novas ideias, formas e relações. Capacidade 
simbólica – O jogo é uma forma de 
expressão da capacidade simbólica, e a vida 
de fantasia se torna mais observável à 
medida que a criança se torna apta para o 
jogo simbólico. O simbolismo habilita a 
criança a transferir interesses, fantasias, 
ansiedades, culpa, tendencias destrutivas 
para outros objetos e/ou pessoas, revelando 
preocupações e ansiedades, aspirações e 
desejos, na tentativa de obter, através da 
ação lúdica, o domínio do mundo externo, e, 
como indicador avaliativo, possibilita 
compreender também a capacidade 
expressiva da criança e a qualidade do 
conflito; 
 Tolerância a frustração e adequação a 
realidade – são indicadores que tem relação 
com a aceitação ou não das instruções e 
enquadramento da hora do jogo, assim como 
da aceitação dos limites, do próprio papel e 
do papel do outro, da separação dos pais, do 
tempo de início e fim, do resultado dos jogos, 
etc. Tudo isso está intimamente relacionado 
com as possibilidades egóicas e com o 
princípio de prazer e realidade.

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