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1. DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO
1.1. Introdução
Histórico: iniciou-se com a era das navegações.
Para definir o DIP, são necessários 3 critérios: critério dos sujeitos (estuda as normas que regulam as relações entre os sujeitos internacionais); critério das matérias reguladas (estuda as normas que regulam matérias que ultrapassam os limites do Estados, ou seja, internacionais); e o critério das fontes (estuda as normas oriundas de fontes jurídicas internacionais).
DIP (Direito das Gentes) é o ramo do direito que estuda as normas jurídicas oriundas de fontes internacionais, que regulam as relações entre sujeitos internacionais em matérias que ultrapassam os limites estatais.
A doutrina entende que os critérios isolados são insuficientes e a definição ideal impõe a abrangência dos 3 critérios.
Existem 2 teorias que buscam o fundamento do DIP. A primeira delas é a escola voluntarista, a qual defende que o fundamento do DIP repousa sobre o consentimento dos Estados, isto é, as normas do DIP vinculam somente em razão da concordância e aceitação dos Estados. 
Ainda no âmbito da escola voluntarista, Francisco Rezek realiza a distinção entre o consentimento criativo e o consentimento perceptivo. Segundo o autor, o consentimento criativo é aquele que cria novas normas, fazendo presentes normas que antes não existiam. Por outro lado, o consentimento perceptivo consiste naquele que reconhece a existência de normas anteriores, as quais decorrem da convivência humana ou são indispensáveis à convivência internacional.
Como exemplo de norma de consentimento perceptivo, cita-se o pacta sunt servanda, uma vez que seria impossível a vida internacional se os sujeitos não cumprissem seus acordos.
Por sua vez, a segunda corrente é a da escola objetivista, a qual sustenta que o DIP vincula independentemente da vontade dos Estados, ou seja, existem normas que vinculam os Estados independentemente de seu consentimento. Um exemplo seriam as normas costumeiras, já que caso surja um novo Estado, este automaticamente será obrigado a respeitar o Direito Internacional Humanitário, a proibição do genocídio, da escravidão e da tortura. 
A tendência do Direito Internacional é seguir a escola objetivista, ao se reconhecer normas que vinculam os Estados independentemente da sua vontade.
· Relação entre o direito internacional e o direito interno
Existem duas correntes: a teoria monista e a teoria dualista.
A teoria dualista entende que o Direito Internacional e o Direito Interno são duas ordens jurídicas absolutamente separadas e independentes. Desta forma, para que uma norma internacional tenha vigência no âmbito interno, imprescindível que passe por um processo de aprovação de norma interna. Nesse sentido, se o Estado aprovar um tratado, enquanto este não se tornar uma lei interna, o Estado somente poderá ser cobrado pelas obrigações previstas em âmbito internacional, e não internamente, já que são ordens diferentes.
A partir desse pensamento, surge a teoria dualista moderada, que defende que embora o Direito Internacional e o Direito Interno sejam ordens jurídicas independentes e separadas, para que um tratado internacional tenha vigência interna basta que passe por um processo simples de incorporação, sendo suficiente que um ato interno diga que o tratado está incorporado.
Mais conceitos: os dualistas se dividem em radicais e moderados. O dualismo radical prega que a internalização dos tratados deve ocorrer por meio de lei; o dualismo moderado considera que a internalização de uma norma internacional pode ocorrer por meio de ato infralegal.
De outro modo, temos a teoria monista, preconizada por Kelsen, a qual sustenta que o Direito Internacional e o Direito Interno consistem em apenas uma ordem jurídica, sem qualquer separação. Assim, se o tratado internacional for aprovado, imediatamente há vinculação interna, tendo em vista que temos apenas uma ordem jurídica para o Direito Internacional e para o Direito Interno.
No âmbito da teoria monista, ainda se têm algumas subdivisões: internacionalista, nacionalista e moderada. Pela teoria monista internacionalista, Direito Internacional e Direito Interno consistem em uma coisa só, mas o Direito Internacional deve prevalecer em caso de conflito. Em outra hipótese, a teoria nacionalista prega que, em caso de conflito entre a esfera internacional e a interna, deve prevalecer o direito nacional (interno). Outrossim, segundo a teoria monista moderada o Direito Internacional e o Direito Interno estão no mesmo grau hierárquico e, em ocorrendo conflito, aplicam-se os critérios da lei posterior e da especialidade.
No Brasil se adotou a teoria dualista moderada. Assim, quando a República Federativa do Brasil celebra um tratado internacional, este deve se submeter a um processo de incorporação para vigorar internamente.
Ademais, os precedentes também discorrem sobre o processo de incorporação, no sentido de que um tratado somente será considerado incorporado ao direito brasileiro após Decreto Presidencial, apontando que antes desse ato o tratado não poderá ser considerado vigente/vinculado no âmbito interno.
Hodiernamente, alguns autores discutem a questão do monismo dialógico. Segundo esses autores, a discussão entre monismo e dualismo é ultrapassada e insuficiente para explicar a complexidade nas relações entre Direito Internacional e Direito Interno. Assim, notadamente em matéria de Direitos Humanos, entendem que deve ser aplicado o monismo dialógico, o qual preconiza que não há prevalência ou separação prévia entre Direito Internacional e Direito Interno, mas se deve buscar sempre a norma mais favorável à proteção da pessoa humana. Nesse sentido, a teoria se inspira no princípio pro homine ao buscar sempre a norma mais favorável ao ser humano na interpretação das normas, independentemente se internacional ou interna.
No plano internacional, não existe autoridade superior nem milícia permanente. Todos os Estados têm voz.
1.2. Fontes
Fontes são os meios dos quais emanam as normas jurídicas. Nesse sentido, na dogmática jurídica possuem o papel de determinar o que é o Direito e afirmar a origem das normas jurídicas. 
Em regra, inexiste hierarquia entre as fontes do DIP. Desse modo, por exemplo, um tratado não está acima ou possui valor maior que um costume, mas estão no mesmo nível hierárquico na ordem internacional.
Contudo, deve-se atentar que há pelo menos 2 situações em que há hierarquia:
a) jus cogens: um tratado não pode violar ou conter conteúdo conflitante com o jus cogens, pois será considerada nula. A norma de jus cogens do Direito Internacional não tem procedimento específico de elaboração, podendo ser de origem convencional ou consuetudinária.
b) Carta das Nações Unidas: 
Artigo 103. No caso de conflito entre as obrigações dos Membros das Nações Unidas, em virtude da presente Carta e as obrigações resultantes de qualquer outro acordo internacional, prevalecerão as obrigações assumidas em virtude da presente Carta.
· Artigo 38 do Estatuto da Corte Internacional de Justiça
Artigo 38
A Corte, cuja função é decidir de acordo com o direito internacional as controvérsias que lhe forem submetidas, aplicará:
a. as convenções internacionais, quer gerais, quer especiais, que estabeleçam regras expressamente reconhecidas pelos Estados litigantes;
b. o costume internacional, como prova de uma prática geral aceita como sendo o direito;
c. os princípios gerais de direito, reconhecidos pelas nações civilizadas;
d. sob ressalva da disposição do Artigo 59, as decisões judiciárias e a doutrina dos juristas mais qualificados das diferentes nações, como meio auxiliar para a determinação das regras de direito.
A presente disposição não prejudicará a faculdade da Corte de decidir uma questão ex aequo et bono, se as partes com isto concordarem.
A doutrina utiliza o rol do art. 38 como um rol de fontes do Direito Internacional como um todo, não apenas da Corte Internacional de Justiça. 
Sobre as convenções internacionais ou tratados internacionais, segundo o art. 38 do Estatuto da CIJ, essesdevem ser aplicados quando expressamente reconhecidas pelos Estado litigantes. 
Quanto ao costume internacional, a alínea 'b' o define e afirma seus 2 elementos: a prática geral ou repetição da prática e a consciência de que essa prática é obrigatória.
Acerca dos princípios gerais de direito, atente-se que se diz DE direito e não DO direito. Princípios gerais DE direito são princípios de direito interno, reconhecidos pelas nações civilizadas, assim tidos como fontes do DIP, por exemplo a coisa jugada, a vedação ao enriquecimento ilícito, o pacta sunt servanda etc. Veja-se que se diz DE direito, relacionando-se com aqueles reconhecidos internamente no âmbito das nações.
Outrossim, na alínea 'd', o art. 38 menciona as decisões judiciárias (jurisprudência) e a doutrina como meios auxiliares para determinação das regras de direito, e não propriamente fontes do direito.
Ademais, a parte final do artigo cita ainda que a Corte poderá decidir uma questão ex aequo et bono (equidade), desde que as partes concordem. 
O art. 38 do Estatuto da CIJ não esgota o rol de fontes do DIP, uma vez que há outras que não estão nele previstas. Tal artigo disciplina os princípios estatutários.
Mas também existem os extraestatutárias. Como exemplos: os atos unilaterais do Estados e as decisões das Organizações Internacionais. 
Cumpre observar que o art. 38 do ECIJ subdivide as fontes estatutárias em principais e auxiliares, aquelas os tratados, costume e princípios gerais de direito, enquanto estas as decisões judiciais e a doutrina.
Quanto ao acordo de vontades, as fontes podem ser convencionais ou não-convencionais. As convencionais são aquelas baseadas no acordo de vontade, notadamente os tratados. Por outro lado, as não-convencionais são todas as demais, as quais não se baseiam em uma convergência de acordo de vontades.
A) Tratados
A principal e mais importante fonte no DIP são os tratados. Tratados são acordos de vontade firmados por determinados sujeitos de direito internacional, em forma escrita e com conteúdo juridicamente vinculante.
B) Costume internacional 
Possui 2 elementos do costume: o material/objetivo, que consiste na prática reiterada; e o psicológico/subjetivo, que é a consciência e a crença de que a prática é obrigatória como norma jurídica (direito). Ao se excluir o elemento subjetivo, temos o uso. 
Ademais, não há de se falar em incorporação do costume, uma vez que este vincula o Estado, tanto no âmbito internacional quanto no âmbito interno.
Ainda, deve-se atentar para a teoria do objetor persistente ou persistant objector, que diz: um Estado pode se opor a um costume internacional desde seu nascimento (do costume), e não será por ele obrigado. A CIJ reconheceu essa teoria e a aplicou no Caso das Pescarias, de 1951. Porém, a doutrina atual não concorda com a teoria do objetor persistente, muito em razão da tendência objetivista. 
C) Princípios gerais de Direito
São as normas, dotadas de maior grau de abstração e generalidade, acolhidas pela generalidade das ordens jurídicas internas.
A própria ordem jurídica internacional possui seus princípios, os quais não devem ser confundidos com os das ordens jurídicas internas. Exemplos: o princípio da igualdade jurídica entre os Estados, o princípio da autodeterminação dos povos e o princípio da não intervenção. 
D) Atos Unilaterais dos Estados
São manifestações inequívocas de vontade dos Estados que geram efeitos jurídicos, independentemente do consentimento da outra parte. Ex.: reconhecimento de Estado, o reconhecimento de Governo, a renúncia e a denúncia.
Quanto à classificação dos atos unilaterais, podemos dizer que são expressos os verbalizados e tácitos são aqueles que decorrem de uma conduta do Estado. Ex.: o reconhecimento de Estado pode ser expresso (ao emitir nota reconhecendo-o como integrante da ordem jurídica internacional) ou tácito (se, por exemplo, lhe enviar representantes diplomáticos).
Ainda, os atos podem ser autonormativos ou heteronormativos. Os autonormativos são aqueles que geram obrigações para o declarante (Ex.: ao reconhecer outro Estado, obriga-se a respeitá-lo como sujeito de direito internacional e não nele intervir). Enquanto os heteronormativos consistem naqueles que geram direitos para outros Estados/terceiros sujeitos.
E) Decisões das organizações internacionais
São manifestações ou atos praticados pelas Organizações Internacionais que produzem efeitos jurídicos externos, ou seja, para fora das Organizações Internacionais. Como exemplos: resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
F) Jus cogens 
Artigo 53 - Tratado em Conflito com uma Norma Imperativa de Direito Internacional Geral (jus cogens).
É nulo um tratado que, no momento de sua conclusão, conflite com uma norma imperativa de Direito Internacional geral. Para os fins da presente Convenção, uma norma imperativa de Direito Internacional geral é uma norma aceita e reconhecida pela comunidade internacional dos Estados como um todo, como norma da qual nenhuma derrogação é permitida e que só pode ser modificada por norma ulterior de Direito Internacional geral da mesma natureza.
Artigo 64 - Superveniência de uma Nova Norma Imperativa de Direito Internacional Geral (jus cogens).
Se sobrevier uma nova norma imperativa de Direito Internacional geral, qualquer tratado existente que estiver em conflito com essa norma torna-se nulo e extingue-se.
Dessa maneira, o jus cogens superveniente anula e extingue um tratado.
Artigo 71 - Consequências da Nulidade de um Tratado em Conflito com uma Norma Imperativa de Direito Internacional Geral.
1. No caso de um tratado nulo em virtude do artigo 53, as partes são obrigadas a:
a) eliminar, na medida do possível, as consequências de qualquer ato praticado com base em uma disposição que esteja em conflito com a norma imperativa de Direito Internacional geral; e
b) adaptar suas relações mútuas à norma imperativa do Direito Internacional geral.
2. Quando um tratado se torne nulo e seja extinto, nos termos do artigo 64, a extinção do tratado:
a) libera as partes de qualquer obrigação de continuar a cumprir o tratado;
b) não prejudica qualquer direito, obrigação ou situação jurídica das partes, criados pela execução do tratado, antes de sua extinção; entretanto, esses direitos, obrigações ou situações só podem ser mantidos posteriormente, na medida em que sua manutenção não entre em conflito com a nova norma imperativa de Direito Internacional geral.
Diante disso, extrai-se o conceito de jus cogens: conjunto de normas internacionais, dotadas de superioridade hierárquica, as quais não podem ser derrogadas, mas somente modificadas por normas da mesma natureza.
Muitos autores relacionam o jus cogens como fonte do DIP. Todavia, outros o definem como uma característica de certas normas, já que não existiria propriamente uma fonte denominada jus cogens de onde sairiam normas de direito internacional. 
Exemplos de normas de jus cogens: Direito Internacional Humanitário ou Direito dos Conflitos Armados, a proibição da escravidão, a proibição do genocídio.
G) Obrigação erga omnes 
São obrigações que vinculam todos os sujeitos internacionais. Contudo, não se confundem com o jus cogens, tendo em vista que, apesar de vincularem a todos, as obrigações erga omnes NÃO são dotadas de superioridade e inderrogabilidade.
O conceito de obrigações erga omnes é muito mais amplo do que as normas de jus cogens, permitindo-se dizer que estas estão incluídas dentro daquelas.
Um exemplo de obrigação erga omnes que não possui a qualidade de jus cogens é o direito de passagem inocente. 
H) Soft law 
São normas jurídicas internacionais caracterizadas por um reduzido teor de imperatividade. Situam-se entre uma recomendação/conselho e uma norma jurídica internacional. As soft laws podem gerar algumas obrigações jurídicas, mas diz que são, de certo modo, mais programáticas.
Como exemplos: as recomendações, as declarações, códigos de conduta etc. São conjuntos de normas que não são irrelevantes, mas também não chegam a ser consideradas como normas jurídicastradicionais.
Há autores que as acolhem dentro do rol de fontes do Direito Internacional Público, enquanto outros pontuam ser características de determinadas normas.
I) Outras fontes: jurisprudência, doutrina e equidade
Jurisprudência é o conjunto de decisões reiteradas de um tribunal, mencionada no art. 38 do Estatuto da CIJ, como fonte auxiliar. 
No âmbito do DIP as decisões das cortes internacionais não possuem caráter vinculante, como ocorre no sistema da commom law. Não obstante, desempenham grande influência tanto de uma corte sobre outra (entre si), quanto sobre os direitos internos, ainda que não sejam vinculantes.
A doutrina é tida como o ensinamento dos juristas mais qualificados. 
A equidade seria o "aparar as arestas da lei" ou a "justiça do caso concreto". 
1.3. Tratados Internacionais
No momento, temos 2 convenções sobre direito dos tratados, a CVDTE/1969 e a Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados entre Estados e Organizações Internacionais ou entre Organizações Internacionais, de 1986. Esta ainda não foi incorporada e sequer entrou em vigor internacional, uma vez que não alcançou a quantidade mínima de ratificações para tanto. Todavia, ainda assim tem sido aplicada em âmbito internacional.
A Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados, concluída em 23 de maio de 1969, foi promulgada com algumas reservas, no Brasil, em 14 de dezembro de 2009 pelo Decreto n° 7.030.
Conceito da CVDTE: um acordo internacional concluído por escrito entre Estados e regido pelo Direito Internacional, quer conste de um instrumento único, quer de dois ou mais instrumentos conexos, qualquer que seja sua denominação específica. (art. 2, 1, a)
A CVDTE restringe indevidamente os sujeitos que podem celebrar tratados aos Estados, pois não somente Estados podem celebrar tratados, mas também as Organizações Internacionais, a Santa Sé, beligerantes, blocos regionais, etc. 
Assim, tem-se o conceito da doutrina: acordo de vontades entre determinados sujeitos internacionais, na forma escrita e com conteúdo juridicamente vinculante.
· Elementos
São 4 os elementos dos tratados internacionais: 1) Acordo de vontades; 2) entre determinados sujeitos internacionais; 3) em forma escrita; e 4) com conteúdo juridicamente vinculante.
O elemento basilar/material do tratado é o acordo de vontades, já que somente existe tratado se houver acordo de vontades.
O segundo elemento são os sujeitos internacionais, que devem ser determinados pelo DIP, ou seja, não são todos os sujeitos internacionais que podem celebrar tratados.
No contexto, para celebrarem tratados, os Estados devem ser representados por pessoas, já que o Estado em si é um ente abstrato, o qual depende de representantes. 
O primeiro aspecto é que uma pessoa pode representar os Estados, para celebrar tratados, se tiver uma carta de plenos poderes. Esta seria um documento, similar a uma procuração, que concede poderes à pessoa e a habilita para representar o Estado na celebração de tratado. Aquela pessoa que detém a carta é chamada de plenipotenciária. 
No entanto, ainda que a pessoa não tenha uma carta de plenos poderes, caso a prática ou as circunstâncias indiquem que está habilitada a celebrar tratados em nome daquele Estado, a pessoa poderá celebrar tratados.
Dessa maneira, as duas hipóteses de pessoa que pode celebrar tratados em nome do Estado são: a que possui a carta de plenos poderes; ou aquela que a prática ou as circunstâncias indiquem que está habilitada a celebrar tratados (art. 7º da CVDTE/1969).
Além disso, deve-se atentar para as pessoas dispensadas da apresentação da carta de plenos poderes, as quais são distribuídas em 3 categorias cujos integrantes possuem uma habilitação funcional. 
a) A primeira é composta por chefes de Estado, chefes de Governo e Ministro das Relações Exteriores. 
b) Na segunda categoria está o chefe de missão diplomática em relação ao Estado em que é acreditado. Dessa maneira, se um embaixador é enviado a determinado Estado, já se presume que ele possui capacidade para celebrar tratados com aquele Estado independentemente de carta de plenos poderes. 
c) A terceira categoria é a dos representantes acreditados perante uma conferência ou Organização Internacional. Então, quando uma pessoa é enviada por um Estado, para uma conferência internacional ou Organização Internacional, está habilitada a celebrar tratado naquela situação independentemente de apresentação de carta de plenos poderes.
Ainda acerca da capacidade das Organizações Internacionais para celebrar tratados, observa-se que é parcial e derivada. Parcial no sentido de não poder celebrar tratados sobre qualquer assunto. Porém, apenas sobre aqueles vinculados a sua finalidade institucional. Derivada no sentido de que a capacidade das Organizações Internacionais, para celebrar tratados, decorre da capacidade dos Estados que a integram. 
Existem outros sujeitos que podem celebrar tratados, como a Santa Sé, órgão de cúpula da Igreja Católica Apostólica Romana, que celebra tratados há vários séculos, razão pela qual não se contesta sua capacidade de celebrar tratados.
Outrossim, temos os beligerantes, tidos como grupos armados que contestam uma ordem política em vigor. Desse modo, por estarem envolvidos em conflito armado, são considerados pelo Direito Internacional como sujeitos de direito internacional, já que devem respeitar as normas do Direito Internacional Humanitário (direito internacional dos conflitos armados). 
Ademais, citam-se os blocos regionais, os quais também podem ser considerados Organizações Internacionais em última análise e podem celebrar tratados, como o Mercosul e a União Europeia. 
As unidades federadas de Estados federais podem celebrar tratados? A resposta depende da ordem constitucional de cada Estado, já que existem tanto aqueles que permitem que suas unidades subnacionais celebrem tratados, quanto aqueles que não as permite, como é o caso do Brasil.
Cumpre notar que estados, municípios e o Distrito Federal podem celebrar contratos internacionais, instituto muito diferente do tratado internacional, já que este é regido pelo Direito Internacional Público.
O terceiro elemento dos contratos é a forma escrita. Nesse sentido, não existe tratado oral a partir do marco da Convenção de Viena. A forma escrita é elemento de existência dos tratados internacionais.
Por fim, o quarto elemento é que o tratado deve conter conteúdo juridicamente vinculante. Por exemplo, existem acordos de vontade, por escrito, que geram efeitos apenas morais, o que não é o caso dos tratados que, por estarem no mundo do direito, geram obrigações e efeitos jurídicos. 
Assim, aquele que descumprir uma obrigação prevista em tratado será responsabilizado internacionalmente pela inadimplência do tratado, considerando os efeitos jurídicos que este gera.
· Terminologia 
a) Convenção, Pacto e Acordo: essas 3 palavras geralmente designam tratados sobre assuntos gerais e podem ser tomadas como sinônimos de tratado, sendo certo que em algumas vezes servem para se referir a tratados de direito humanos, notadamente convenção e pacto.
b) Carta e Constituição: usualmente se referem a tratados constitutivos de Organizações Internacionais, como a Carta das Nações Unidas e a Constituição da OIT.
c) Estatuto: utilizado para tratados que instituem ou criam tribunais internacionais e cortes internacionais, p.e. o Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional ou o Estatuto da Corte Internacional de Justiça.
d) Ajuste, Arranjo e Memorando: referem-se a tratados de menor importância, menor envergadura e mais simples.
e) Protocolo: utilizada para designar tratados que possuem vínculo com outro tratado; são geralmente tratados complementares. Na hipótese do Tratado de Assunção, que é o tratado constitutivo do Mercosul, temos que todos aqueles que vieram depois, complementando-o e regulando outras matérias do bloco, foram chamados de protocolo (Protocolo de Brasília, Protocolo de Ouro Preto, Protocolo de Ushuaia etc). 
f) Concordata: tratado celebrado pela Santa Sé.
g) Convênio: tratados decooperação em matéria técnica, econômica, comercial etc.
h) Modus vivendi: tratados que servem, tão somente, para dizer que as coisas permaneçam como são até que outro tratado seja celebrado. 
i) Pacto de contrahendo: tratado preliminar em que se dispõe que um outro tratado será celebrado. Por exemplo, as partes combinam e pactuam que será celebrado tratado para regular determinada matéria.
Ainda, há 3 figuras que merecem destaque, muitas vezes associadas a tratados, mas que não são tratados: o acordo executivo, o acordo por troca de notas e o acordo de cavalheiros.
j) Acordo executivo (agreement x treaty): é um tratado, mas com a diferença de que sua aprovação e processo de incorporação não passam pelo Poder Legislativo. O acordo executivo provém da tradição do direito anglo-saxão, no qual existem duas palavras para se referir a tratado: agreement e treaty, neste o tratado regular passa pelo Senado norte americano, já o agreement não passa pelo Senado, vez que o Presidente possui o poder para celebrá-lo. 
Por similitude, o acordo executivo seria o tratado que não passa pelo Poder Legislativo.
l) Acordo por troca de notas: na verdade não é um tratado, mas uma forma de celebração de tratado por acordo de troca de notas. Muitas vezes os tratados bilaterais são celebrados apenas com a troca de notas diplomáticas, com o envio e recebimento de notas. 
m) Acordo de cavalheiros (gentlemen's agreement): acordo firmado entre chefes de Estado, o qual gera obrigações apenas no campo moral. Ademais, não é celebrado por sujeitos de direito internacional, mas por estadistas pessoas físicas.
Artigo 1
Âmbito da Presente Convenção 
A presente Convenção aplica-se aos tratados entre Estados.
Artigo 2
Expressões Empregadas 
1. Para os fins da presente Convenção: 
a)“tratado” significa um acordo internacional concluído por escrito entre Estados e regido pelo Direito Internacional, quer conste de um instrumento único, quer de dois ou mais instrumentos conexos, qualquer que seja sua denominação específica;
b)“ratificação”, “aceitação”, “aprovação” e “adesão” significam, conforme o caso, o ato internacional assim denominado pelo qual um Estado estabelece no plano internacional o seu consentimento em obrigar-se por um tratado; 
c)“plenos poderes” significa um documento expedido pela autoridade competente de um Estado e pelo qual são designadas uma ou várias pessoas para representar o Estado na negociação, adoção ou autenticação do texto de um tratado, para manifestar o consentimento do Estado em obrigar-se por um tratado ou para praticar qualquer outro ato relativo a um tratado; 
d)“reserva” significa uma declaração unilateral, qualquer que seja a sua redação ou denominação, feita por um Estado ao assinar, ratificar, aceitar ou aprovar um tratado, ou a ele aderir, com o objetivo de excluir ou modificar o efeito jurídico de certas disposições do tratado em sua aplicação a esse Estado; 
e)“Estado negociador” significa um Estado que participou na elaboração e na adoção do texto do tratado; 
f)“Estado contratante” significa um Estado que consentiu em se obrigar pelo tratado, tenha ou não o tratado entrado em vigor; 
g)“parte” significa um Estado que consentiu em se obrigar pelo tratado e em relação ao qual este esteja em vigor; 
h)“terceiro Estado” significa um Estado que não é parte no tratado; 
i)“organização internacional” significa uma organização intergovernamental. 
2. As disposições do parágrafo 1 relativas às expressões empregadas na presente Convenção não prejudicam o emprego dessas expressões, nem os significados que lhes possam ser dados na legislação interna de qualquer Estado.
· Condições de validade e Classificação
Quanto ao número de partes, os tratados podem ser classificados em bilaterais ou multilaterais. Os bilaterais são aqueles celebrados entre duas partes, enquanto os multilaterais são celebrados por mais de duas partes (três ou mais). 
Outrossim, a doutrina ainda subdivide os tratados multilaterais em mutalizáveis ou não-mutalizáveis. Os primeiros são aqueles em que o descumprimento do tratado por uma das partes não enseja a sua extinção. Por sua vez, os tratados não-mutalizáveis são aqueles em que o descumprimento de uma das partes gera a sua extinção, vez que não funciona se uma parte descumprir o tratado.
Sobre a possibilidade de adesão, os tratados podem ser abertos ou fechados. Abertos são aqueles que permitem a adesão, ou seja, o ingresso de terceiro sujeito que não participou da celebração daquele tratado, contrario sensu, fechados são os que não permitem a adesão.
Acerca da natureza das normas, podem ser tratados-contrato ou tratados-lei. Tratados-contrato são aqueles que geram obrigações recíprocas para as partes e, além disso, as partes possuem vontades divergentes, como é o exemplo de um tratado comercial (um quer vender e outro quer comprar, as vontades são divergentes e há obrigações recíprocas entre eles). Já nos tratados-lei são estabelecidas regras de comportamento para os sujeitos internacionais, nos quais a doutrina entende que as vontades das partes são convergentes, porque todos os sujeitos possuem o mesmo objetivo, isto é, de que a conduta ou comportamento seja adotada por todos os sujeitos. Sobre essa classificação, o STF já decidiu uma vez que a competência da Justiça Federal para julgar causas fundadas em tratados internacionais somente abrange tratados-contrato e não tratados-lei. 
Quanto à duração, temos tratado por tempo determinado ou por tempo indeterminado.
No que tange ao procedimento, podem ser por forma solene ou por forma simplificada. Deve-se atentar que nos procedimentos de forma solene, o consentimento do sujeito internacional é conferido em dois momentos: na assinatura e na ratificação. De outro modo, na forma simplificada basta a assinatura, suficiente para manifestar o consentimento.
Relativamente à execução no tempo, os tratados podem ser estáticos ou dinâmicos. Estáticos são aqueles que embora seus efeitos perdurem no tempo, são instantaneamente produzidos, p.e. um tratado que firma uma fronteira de limite entre dois Estados. Dinâmicos são aqueles que preveem obrigações que se protraem no tempo, como o caso de um tratado comercial, já que de tempo em tempo surgem obrigações que se perduram. 
Quanto à execução no espaço, os tratados podem ser totais ou parciais, aqueles produzem efeitos em todo o território do Estado parte, já estes se restringem a produzir efeitos apenas em parte do território do Estado parte. Ex. de acordo parcial: antiga cláusula colonial, que estabelecia que determinado tratado se aplicaria somente à metrópole e não à colônia, e a cláusula federal, pela qual um Estado Federal pode estabelecer que determinado tratado não se aplica a alguns de seus estados federativos. 
1.3.1. Processo de elaboração dos Tratados
Fases para elaboração dos tratados: negociação, assinatura, ratificação, vigência internacional e formalidades finais (registro e publicidade).
A) Negociação
As partes se reúnem e discutem sobre o tema e as obrigações que devem fazer parte do tratado que será celebrado.
Encerra-se a fase de negociação com dois atos: a adoção do texto e a autenticação do texto. A adoção do texto é o ato em que as partes afirmam que a negociação está concluída e que aquele texto é inalterável, ou seja, o texto final. 
Artigo 9
Adoção do Texto 
1. A adoção do texto do tratado efetua-se pelo consentimento de todos os Estados que participam da sua elaboração, exceto quando se aplica o disposto no parágrafo 2. 
2. A adoção do texto de um tratado numa conferência internacional efetua-se pela maioria de dois terços dos Estados presentes e votantes, salvo se esses Estados, pela mesma maioria, decidirem aplicar uma regra diversa.
O art. 9º da CVDTE/1969 diz que a adoção do texto exige o consenso das partes, ou seja, que consintam integralmente em relação ao texto do tratado, salvo exceção.
A autenticação é apenas um ato protocolar, uma formalidade cartorária que serve para dizer que o texto é original, autêntico e verdadeiro.
Artigo 10 - Autenticaçãodo Texto.
O texto de um tratado é considerado autêntico e definitivo:
a) mediante o processo previsto no texto ou acordado pelos Estados que participam da sua elaboração; ou
b) na ausência de tal processo, pela assinatura, assinatura ad referendum ou rubrica, pelos representantes desses Estados, do texto do tratado ou da Ata Final da Conferência que incorporar o referido texto.
Não significa que as partes que aprovaram o texto já estão se comprometendo de alguma forma, mas apenas se diz que é o texto final da negociação, agora preparado e pronto para que as partes comecem a demonstrar seu consentimento em assumir as obrigações.
B) Assinatura
É o ato pelo qual as partes (sujeitos internacionais) manifestam seu consentimento provisório. Por vezes, no momento da adoção do texto já é feita a assinatura, situação em que as partes demonstram seu consentimento provisório logo após a aprovação do texto. Outras vezes, os atos são consagrados em momentos distintos, primeiro o texto é aprovado e depois fica aberto para a assinatura dos contratantes.
A assinatura, em regra, é apenas o consentimento provisório, o que não significa que a parte já está se comprometendo definitivamente ao contratado, já que isso somente se dará depois, por meio da ratificação. O sujeito habilitado (plenos poderes) diz que está de acordo com o tratado e possui interesse em se obrigar ao tratado, contudo, necessita de alguns trâmites internos (checar se o chefe de Governo e o chefe de Estado concordam).
Note-se, todavia, que o fato de a assinatura ser consentimento provisório não significa que não gera nenhuma consequência jurídica. O PRIMEIRO EFEITO GERADO PELA ASSINATURA É O DA IMPOSSIBILIDADE DE ALTERAÇÃO UNILATERAL DO TEXTO, VEZ QUE DEPOIS QUE É FEITA A ASSINATURA NINGUÉM MAIS PODE ALTERAR O TEXTO, A NÃO SER QUE SE REINICIEM AS NEGOCIAÇÕES. O SEGUNDO EFEITO GERADO É O DO IMPEDIMENTO DE ATOS QUE FRUSTREM O OBJETO E A FINALIDADE DO TRATADO.
Artigo 18 - Obrigação de Não Frustrar o Objeto e Finalidade de um Tratado antes de sua Entrada em Vigor.
Um Estado é obrigado a abster-se da prática de atos que frustrariam o objeto e a finalidade de um tratado, quando:
a) tiver assinado ou trocado instrumentos constitutivos do tratado, sob reserva de ratificação, aceitação ou aprovação, enquanto não tiver manifestado sua intenção de não se tornar parte no tratado; ou
b) tiver expressado seu consentimento em obrigar-se pelo tratado no período que precede a entrada em vigor do tratado e com a condição de esta não ser indevidamente retardada.
C) Ratificação 
Realizada a negociação, as partes assinam o tratado e, após, vem a ratificação. A ratificação é o ato pelo qual os sujeitos internacionais manifestam seu consentimento definitivo em relação ao tratado. 
A ratificação é ato do Poder Executivo. O Congresso realiza uma aprovação no processo de incorporação de tratados, o qual não se confunde com o processo de elaboração dos tratados.
Outra característica da ratificação é que consiste em ato discricionário. A ratificação é um ato de soberania, sujeito a um juízo de conveniência e oportunidade.
A ratificação é ato expresso, não se admitindo a ratificação tácita. 
Por fim, salienta-se que a ratificação é ato irretratável, ou seja, depois que ratificou não pode mais voltar atrás, sendo possível somente as modalidades de saída ou extinção do tratado.
D) Vigência Internacional
Nos tratados bilaterais, após a ratificação o tratado já está pronto para entrar em vigor, a depender da vigência contemporânea ou diferida. 
Em tratados multilaterais, para que o tratado entre em vigor no âmbito internacional, é necessária uma quantidade mínima de ratificações. Portanto, depois que a parte ratifica, não significa que aquele tratado multilateral já entra em vigor em âmbito internacional e vincula aquela parte. Sem prejuízo, pode acontecer também que no momento da ratificação da parte, o tratado já possua a quantidade mínima de ratificações e esteja em vigor internacional.
A vigência pode ser contemporânea ou diferida. Contemporânea é aquela que se inicia imediatamente após o tratado alcançar o número mínimo de ratificações. Por sua vez, a vigência pode ser diferida, a qual possui uma espécie de vacatio legis. 
O art. 25 da CVDTE/1969 dispõe sobre a aplicação provisória dos tratados, ou seja, acerca da possibilidade de sua aplicação antes mesmo de entrarem em vigor no âmbito internacional. O Brasil fez uma reserva com relação a ele - isto posto, o Brasil não admite/não aceita a aplicação provisória de tratados internacionais. 
Nulidade de Tratados
Artigo 46
Disposições do Direito Interno sobre Competência para Concluir Tratados 
1. Um Estado não pode invocar o fato de que seu consentimento em obrigar-se por um tratado foi expresso em violação de uma disposição de seu direito interno sobre competência para concluir tratados, a não ser que essa violação fosse manifesta e dissesse respeito a uma norma de seu direito interno de importância fundamental. 
2. Uma violação é manifesta se for objetivamente evidente para qualquer Estado que proceda, na matéria, de conformidade com a prática normal e de boa fé.
Artigo 47
Restrições Específicas ao Poder de Manifestar o Consentimento de um Estado 
Se o poder conferido a um representante de manifestar o consentimento de um Estado em obrigar-se por um determinado tratado tiver sido objeto de restrição específica, o fato de o representante não respeitar a restrição não pode ser invocado como invalidando o consentimento expresso, a não ser que a restrição tenha sido notificada aos outros Estados negociadores antes da manifestação do consentimento.
Artigo 48
Erro 
1. Um Estado pode invocar erro no tratado como tendo invalidado o seu consentimento em obrigar-se pelo tratado se o erro se referir a um fato ou situação que esse Estado supunha existir no momento em que o tratado foi concluído e que constituía uma base essencial de seu consentimento em obrigar-se pelo tratado.
2. O parágrafo 1 não se aplica se o referido Estado contribui para tal erro pela sua conduta ou se as circunstâncias foram tais que o Estado devia ter-se apercebido da possibilidade de erro. 
3. Um erro relativo à redação do texto de um tratado não prejudicará sua validade; neste caso, aplicar-se-á o artigo 79.
Artigo 49
Dolo 
Se um Estado foi levado a concluir um tratado pela conduta fraudulenta de outro Estado negociador, o Estado pode invocar a fraude como tendo invalidado o seu consentimento em obrigar-se pelo tratado.
Artigo 50
Corrupção de Representante de um Estado 
Se a manifestação do consentimento de um Estado em obrigar-se por um tratado foi obtida por meio da corrupção de seu representante, pela ação direta ou indireta de outro Estado negociador, o Estado pode alegar tal corrupção como tendo invalidado o seu consentimento em obrigar-se pelo tratado.
Artigo 51
Coação de Representante de um Estado 
Não produzirá qualquer efeito jurídico a manifestação do consentimento de um Estado em obrigar-se por um tratado que tenha sido obtida pela coação de seu representante, por meio de atos ou ameaças dirigidas contra ele.
Artigo 52
Coação de um Estado pela Ameaça ou Emprego da Força 
É nulo um tratado cuja conclusão foi obtida pela ameaça ou o emprego da força em violação dos princípios de Direito Internacional incorporados na Carta das Nações Unidas.
E) Formalidades finais 
Hoje não se admitem tratados secretos, vez que a vida diplomática e os tratados devem ser públicos e registrados. 
O registro é o catálogo do tratado em um banco de dados, que pode ser na ONU, na OEA, ou na Organização Internacional em que foi celebrado o tratado. Já a publicidade é a publicação na internet ou nos meios apropriados de determinado tratado.
Artigo 102.
1. Todo tratado e todo acordo internacional, concluídos por qualquer Membro das Nações Unidas depois da entrada em vigor da presente Carta, deverão, dentro do mais breve prazo possível, ser registrados e publicados pelo Secretariado.
2. Nenhuma parte em qualquer tratado ou acordo internacional que não tenha sido registradode conformidade com as disposições do parágrafo 1 deste Artigo poderá invocar tal tratado ou acordo perante qualquer órgão das Nações Unidas.
O art. 102 da Carta da ONU estabelece que o tratado que não foi depositado/registrado na Secretaria Geral das Nações Unidas não poderá ser invocado perante órgãos da Organização. Isso não significa que o tratado deixa de existir, mas não poderá ser invocado perante os órgãos das Nações Unidas.
· Adesão/aceitação
A adesão é o ato pelo qual o sujeito que não participou do processo de elaboração do tratado nele ingressa.
Frise-se que a adesão somente é possível em tratados multilaterais abertos.
· Reservas 
O principal efeito de uma reserva é o de fazer com que o Estado reservante se desonere de cumprir a disposição reservada, sem que isso lhe traga maiores consequências em termos de responsabilidade internacional. Assim, uma disposição reservada passa a ser entendida como não existente em relação ao Estado autor da reserva nas suas relações com as demais partes.
A reserva aceita vincula tão somente o Estado autor e o aceitante no seu relacionamento recíproco.
São definidas no artigo 2, 1, 'd', da CVDTE/1969. 
Artigo 2 - Expressões Empregadas.
1. Para os fins da presente Convenção:
d) “reserva” significa uma declaração unilateral, qualquer que seja a sua redação ou denominação, feita por um Estado ao assinar, ratificar, aceitar ou aprovar um tratado, ou a ele aderir, com o objetivo de excluir ou modificar o efeito jurídico de certas disposições do tratado em sua aplicação a esse Estado;
Podemos extrair duas espécies de reserva, aquelas que excluem determinadas cláusulas (o Estado concorda com todo o texto com exceção de determinados artigos), ou as consideradas interpretativas (o contratante aceita a cláusula desde que signifique coisas determinadas, modificando ou conferindo sentido a determinada cláusula).
A reserva pode ser feita no momento da assinatura (2ª fase do processo de elaboração), da ratificação (consentimento definitivo) ou da adesão (quando o Estado ou a Organização Internacional decide entrar no tratado). Contudo, as reservas realizadas na assinatura devem ser confirmadas no momento da ratificação - ou seja, as reservas do consentimento provisório devem ser confirmadas no consentimento definitivo.
A REGRA É A POSSIBILIDADE DE RESERVAS, PORÉM EXISTEM ALGUNS CASOS EM QUE AS RESERVAS NÃO SÃO POSSÍVEIS: A) QUANDO O TRATADO VEDA; B) QUANDO O TRATADO ADMITE SOMENTE DETERMINADAS RESERVAS; C) INCOMPATÍVEIS COM O OBJETO E A FINALIDADE; D) TRATADOS BILATERAIS.
Artigo 19 - Formulação de Reservas.
Um Estado pode, ao assinar, ratificar, aceitar ou aprovar um tratado, ou a ele aderir, formular uma reserva, a não ser que:
a) a reserva seja proibida pelo tratado;
b) o tratado disponha que só possam ser formuladas determinadas reservas, entre as quais não figure a reserva em questão; ou
c) nos casos não previstos nas alíneas a e b, a reserva seja incompatível com o objeto e a finalidade do tratado.
Um exemplo da alínea 'a' é o Estatuto de Roma, do TPI, o qual diz que não cabem reservas no tratado. 
Quanto à alínea 'c', imagine na Convenção contra o Genocídio, o Estado realize uma reserva com relação ao artigo 1º, que dispõe que os Estados irão proibir, prevenir e combater o genocídio. Excluído o artigo 1º, as demais cláusulas perderiam sentido e o tratado seria esvaziado, hipótese em que a reserva não seria admitida.
Artigo 20
Aceitação de Reservas e Objeções às Reservas 
1. UMA RESERVA EXPRESSAMENTE AUTORIZADA POR UM TRATADO NÃO REQUER QUALQUER ACEITAÇÃO POSTERIOR PELOS OUTROS ESTADOS CONTRATANTES, A NÃO SER QUE O TRATADO ASSIM DISPONHA. 
2. Quando se infere do número limitado dos Estados negociadores, assim como do objeto e da finalidade do tratado, que a aplicação do tratado na íntegra entre todas as partes é condição essencial para o consentimento de cada uma delas em obrigar-se pelo tratado, uma reserva requer a aceitação de todas as partes. 
3. Quando o tratado é um ato constitutivo de uma organização internacional, a reserva exige a aceitação do órgão competente da organização, a não ser que o tratado disponha diversamente. 
4. Nos casos não previstos nos parágrafos precedentes e a menos que o tratado disponha de outra forma: 
a) a aceitação de uma reserva por outro Estado contratante torna o Estado autor da reserva parte no tratado em relação àquele outro Estado, se o tratado está em vigor ou quando entrar em vigor para esses Estados; 
b) a objeção feita a uma reserva por outro Estado contratante não impede que o tratado entre em vigor entre o Estado que formulou a objeção e o Estado autor da reserva, a não ser que uma intenção contrária tenha sido expressamente manifestada pelo Estado que formulou a objeção; 
c)um ato que manifestar o consentimento de um Estado em obrigar-se por um tratado e que contiver uma reserva produzirá efeito logo que pelo menos outro Estado contratante aceitar a reserva. 
5. Para os fins dos parágrafos 2 e 4, e a não ser que o tratado disponha diversamente, uma reserva é tida como aceita por um Estado se este não formulou objeção à reserva quer no decurso do prazo de doze meses que se seguir à data em que recebeu a notificação, quer na data em que manifestou o seu consentimento em obrigar-se pelo tratado, se esta for posterior.
Francisco Rezek diz que, do ponto de vista lógico, não é possível reserva em tratados bilaterais, considerando que exigem um consentimento em relação à integralidade do tratado.
Nos termos do art. 20 da CVDTE/1969, se extraem 3 regras: 
1º) caso o tratado preveja, ou ainda que seja omisso, quando as reservas são admitidas e não há controvérsia sobre sua possibilidade, ninguém precisa aceitá-las.
2º) exige-se aceitação por todas as partes se isso resultar do fato de o tratado ser celebrado por um número restrito ou se tal decorrer do seu objeto e fim. A aceitação pode ser tácita;
3º) as reservas não modificam o tratado no que tange às outras partes nas suas relações entre si: as reservas não possuem nenhum efeito e tudo continua como se não tivessem reservas no tratado entre as partes que não apresentaram reservas;
4º) as reservas modificam o tratado nas relações entre as partes que as formularam e as que aceitaram; nas relações entre aqueles que não formularam reservas, mas aceitaram reservas, o tratado será modificado pelas reservas.
5º) as disposições objeto de reserva não se aplicam à relação entre a parte que a formulou e a que ofereceu objeção sem se opor à entrada em vigor do tratado: a objeção sem se opor ocorre quando o contratante fala que não concorda com a reserva e apresenta objeção, mas não é contra o tratado valer entre as partes se a disposição objeto de reserva for desconsiderada;
6º) o tratado não se aplica entre a parte que formulou as reservas e a parte que ofereceu objeção opondo-se à entrada em vigor do tratado: não se trata da disposição ou da reserva, mas do tratado inteiro, que não se aplica se o contratante dizer que não concorda com a reserva e dizer que não quer mais tratado com a parte que formulou a reserva se esta nela insistir. Na hipótese, somente na situação específica entre essas duas partes é que o tratado não irá vigorar.
Artigo 22
Retirada de Reservas e de Objeções às Reservas 
1. A não ser que o tratado disponha de outra forma, uma reserva pode ser retirada a qualquer momento, sem que o consentimento do Estado que a aceitou seja necessário para sua retirada. 
2. A não ser que o tratado disponha de outra forma, uma objeção a uma reserva pode ser retirada a qualquer momento. 
3. A não ser que o tratado disponha ou fique acordado de outra forma: 
a) a retirada de uma reserva só produzirá efeito em relação a outro Estado contratante quando este Estado receber a correspondente notificação; 
b) a retirada de uma objeção a uma reserva só produzirá efeito quando o Estado que formulou a reserva receber notificação dessa retirada.
· Emendas
Emendas são os atos que alteram, acrescentam ou suprimem partes de um tratado. Nas emendas, de acordo com a sistemática adotadana Convenção de Viena, há um duplo regime jurídico: quando há emenda, aqueles que dela participaram se sujeitam ao tratado com a redação emendada, e aqueles que não participaram da emenda se submetem ao texto original.
· Efeitos
Artigo 34
Regra Geral com Relação a Terceiros Estados
Um tratado não cria obrigações nem direitos para um terceiro Estado sem o seu consentimento.
O principal efeito é a obrigação de cumprir as obrigações nele previstas, em atenção ao pacta sunt servanda, e os Estados devem cumpri-las de boa-fé.
No entanto, há hipóteses em que o tratado produz efeitos em relação a terceiros (pessoas que não o ratificaram). 
São quatro hipóteses:
a) Situações Jurídicas Objetivas: tratados que fixam limites territoriais;
b) Tratado anterior que vincula uma das partes: trata-se de uma situação que ocorre quando um terceiro é afetado por determinado tratado. Exemplo: Cláusula da nação mais favorecida, presente em alguns tratados comerciais. Significa que o Estado A conferirá imediatamente ao Estado B aquela situação mais favorável que conferir a qualquer outro Estado. 
c) Previsão de direitos (art. 36):
Artigo 36 da Convenção de Viena:
Tratados que Criam Direitos para Terceiros Estados
1. Um direito nasce para um terceiro Estado de uma disposição de um tratado se as partes no tratado tiverem a intenção de conferir, por meio dessa disposição, esse direito quer a um terceiro Estado, quer a um grupo de Estados a que pertença, quer a todos os Estados, e o terceiro Estado nisso consentir. Presume-se o seu consentimento até indicação em contrário, a menos que o tratado disponha diversamente.
2. Um Estado que exerce um direito nos termos do parágrafo 1 deve respeitar, para o exercício desse direito, as condições previstas no tratado ou estabelecidas de acordo com o tratado.
Portanto, a convenção admite que, em um tratado, sejam previstos direitos para um terceiro, que deve consentir em titularizar esse direito. O consentimento pode ser tácito.
d) Previsão de deveres (art. 35):
Artigo 35 da Convenção de Viena
Tratados que Criam Obrigações para Terceiros Estados
Uma obrigação nasce para um terceiro Estado de uma disposição de um tratado se as partes no tratado tiverem a intenção de criar a obrigação por meio dessa disposição e o terceiro Estado aceitar expressamente, por escrito, essa obrigação.
Por exemplo, quando um tratado prevê um terceiro Estado como depositário. Nesse sentido, o Estado A e Estado B celebram um tratado bilateral indicando Estado C como depositário, que terá o dever de receber os instrumentos de ratificação do tratado.
Para que a previsão de deveres produza efeitos, o terceiro Estado deve consentir por escrito, não apenas expressamente. 
· Interpretação 
No artigo 31, há a regra geral de interpretação de tratados:
Artigo 31
Regra Geral de Interpretação
1. Um tratado deve ser interpretado de boa fé segundo o sentido comum atribuível aos termos do tratado em seu contexto e à luz de seu objetivo e finalidade. 
2. Para os fins de interpretação de um tratado, o contexto compreenderá, além do texto, seu preâmbulo e anexos:
a) qualquer acordo relativo ao tratado e feito entre todas as partes em conexão com a conclusão do tratado;
b) qualquer instrumento estabelecido por uma ou várias partes em conexão com a conclusão do tratado e aceito pelas outras partes como instrumento relativo ao tratado.
3. Serão levados em consideração, juntamente com o contexto:
a) qualquer acordo posterior entre as partes relativo à interpretação do tratado ou à aplicação de suas disposições;
b) qualquer prática seguida posteriormente na aplicação do tratado, pela qual se estabeleça o acordo das partes relativo à sua interpretação;
c) quaisquer regras pertinentes de Direito Internacional aplicáveis às relações entre as partes.
4. Um termo será entendido em sentido especial se estiver estabelecido que essa era a intenção das partes.
No artigo 32, há meios suplementares. Recorre-se a esses meios em três hipóteses: a fim de se confirmar a interpretação resultante da regra geral; quando a interpretação que se alcançou por meio da regra geral for absurda ou desarrazoada; ou, ainda, quando o sentido for obscuro ou ambíguo.
Artigo 32 
Meios Suplementares de Interpretação
Pode-se recorrer a meios suplementares de interpretação, inclusive aos trabalhos preparatórios do tratado e às circunstâncias de sua conclusão, a fim de confirmar o sentido resultante da aplicação do artigo 31 ou de determinar o sentido quando a interpretação, de conformidade com o artigo 31:
a) deixa o sentido ambíguo ou obscuro; ou
b) conduz a um resultado que é manifestamente absurdo ou desarrazoado.
Caso seja necessário confirmar a interpretação resultante da regra geral, ou sendo interpretação que se alcançou por meio da regra geral absurda ou desarrazoada ou, ainda, se o sentido for obscuro ou ambíguo, pode-se recorrer aos trabalhos preparatórios como meios suplementares (discussão, negociação, atas, textos, notas diplomáticas, etc).
· Aplicação de Tratados Sucessivos sobre o Mesmo Assunto
Artigo 30
Aplicação de Tratados Sucessivos sobre o Mesmo Assunto 
1. Sem prejuízo das disposições do artigo 103 da Carta das Nações Unidas, os direitos e obrigações dos Estados partes em tratados sucessivos sobre o mesmo assunto serão determinados de conformidade com os parágrafos seguintes. 
2. Quando um tratado estipular que está subordinado a um tratado anterior ou posterior ou que não deve ser considerado incompatível com esse outro tratado, as disposições deste último prevalecerão. 
3. Quando todas as partes no tratado anterior são igualmente partes no tratado posterior, sem que o tratado anterior tenha cessado de vigorar ou sem que a sua aplicação tenha sido suspensa nos termos do artigo 59, o tratado anterior só se aplica na medida em que as suas disposições sejam compatíveis com as do tratado posterior. 
4. Quando as partes no tratado posterior não incluem todas a partes no tratado anterior: 
a)nas relações entre os Estados partes nos dois tratados, aplica-se o disposto no parágrafo 3; 
b)nas relações entre um Estado parte nos dois tratados e um Estado parte apenas em um desses tratados, o tratado em que os dois Estados são partes rege os seus direitos e obrigações recíprocos.  
5. O parágrafo 4 aplica-se sem prejuízo do artigo 41, ou de qualquer questão relativa à extinção ou suspensão da execução de um tratado nos termos do artigo 60 ou de qualquer questão de responsabilidade que possa surgir para um Estado da conclusão ou da aplicação de um tratado cujas disposições sejam incompatíveis com suas obrigações em relação a outro Estado nos termos de outro tratado. 
 TRF - 3ª REGIÃO - 2018 - TRF - 3ª REGIÃO - Juiz Federal Substituto. 2018
Sobre a aplicação de tratados internacionais com normas contraditórias entre si, devem ser respeitadas certas regras, que são enunciadas pela Convenção de Viena. Aponte, portanto, a afirmação INCORRETA:
A) quando os dois tratados não têm como contratantes os mesmos Estados, estabelecendo-se entre um Estado parte em ambos os tratados e um Estado parte somente no tratado mais recente, aplica-se o mais recente.
B) quando os dois tratados não têm como contratantes os mesmos Estados, estabelecendo-se entre um Estado parte em ambos os tratados e um Estado parte somente no tratado anterior, aplica-se o tratado anterior.
C) entre os Estados parte nos dois tratados só se aplica o anterior no que ele não for compatível com o novo tratado. ALTERNATIVA PARA MARCAR.
D) a violação de um tratado pode sujeitar o Estado a ser responsabilizado em âmbito internacional, sendo que os conflitos porventura existentes são na maioria das vezes resolvidos por meio de interpretação.
· Suspensão 
A suspensão é a paralisação temporária dos efeitos do tratado, podendo voltar depois a produzir efeitos. 
As hipóteses são:
a) Previsão convencional ou vontade das partes (art. 57): ocorre quando o tratado estabelece ou quando as partes se reúnem e decidem suspendê-lo. Posteriormente, podem se reunir novamente para que o tratado volte a produzirefeitos.
Artigo 57
Suspensão da Execução de um Tratado em Virtude de suas Disposições ou pelo Consentimento das Partes
A execução de um tratado em relação a todas as partes ou a uma parte determinada pode ser suspensa:
a) de conformidade com as disposições do tratado; ou
b) a qualquer momento, pelo consentimento de todas as partes, após consulta com os outros Estados contratantes
b) Vontade de algumas partes (art. 58): algumas partes, mas não todas, querem suspender o tratado. Nesse caso, este será suspenso somente em relação àquelas partes.
Artigo 58
Suspensão da Execução de Tratado Multilateral por Acordo apenas entre Algumas da Partes
1. Duas ou mais partes num tratado multilateral podem concluir um acordo para suspender temporariamente, e somente entre si, a execução das disposições de um tratado se:
a) a possibilidade de tal suspensão estiver prevista pelo tratado; ou
b) essa suspensão não for proibida pelo tratado e:
i) não prejudicar o gozo, pelas outras partes, dos seus direitos decorrentes do tratado nem o cumprimento de suas obrigações
ii) não for incompatível com o objeto e a finalidade do tratado.
2. Salvo se, num caso previsto no parágrafo 1 (a), o tratado dispuser diversamente, as partes em questão notificarão às outras partes sua intenção de concluir o acordo e as disposições do tratado cuja execução pretendem suspender.
c) Por conclusão de tratado posterior (art. 59): caso em que um tratado posterior contém uma cláusula estabelecendo a suspensão dos efeitos de um tratado anteriormente celebrado.
Artigo 59
Extinção ou Suspensão da Execução de um Tratado em Virtude da Conclusão de um Tratado Posterior
2. Considera-se apenas suspensa a execução do tratado anterior se se depreender do tratado posterior, ou ficar estabelecido de outra forma, que essa era a intenção das partes.
d) Violação substancial do tratado (art. 60):
Artigo 60
Extinção ou Suspensão da Execução de um Tratado em Consequência de sua Violação
1. Uma violação substancial de um tratado bilateral por uma das partes autoriza a outra parte a invocar a violação como causa de extinção ou suspensão da execução de tratado, no todo ou em parte.
2. Uma violação substancial de um tratado multilateral por uma das partes autoriza:
a) as outras partes, por consentimento unânime, a suspenderem a execução do tratado, no todo ou em parte, ou a extinguirem o tratado, quer:
i) nas relações entre elas e o Estado faltoso;
ii) entre todas as partes;
b) uma parte especialmente prejudicada pela violação a invocá-la como causa para suspender a execução do tratado, no todo ou em parte, nas relações entre ela e o Estado faltoso;
c) qualquer parte que não seja o Estado faltoso a invocar a violação como causa para suspender a execução do tratado, no todo ou em parte, no que lhe diga respeito, se o tratado for de tal natureza que uma violação substancial de suas disposições por parte modifique radicalmente a situação de cada uma das partes quanto ao cumprimento posterior de suas obrigações decorrentes do tratado.
3. Uma violação substancial de um tratado, para os fins deste artigo, consiste:
a) numa rejeição do tratado não sancionada pela presente Convenção; ou
b) na violação de uma disposição essencial para a consecução do objeto ou da finalidade do tratado.
4. Os parágrafos anteriores não prejudicam qualquer disposição do tratado aplicável em caso de violação.
5. Os parágrafos 1 a 3 não se aplicam às disposições sobre a proteção da pessoa humana contidas em tratados de caráter humanitário, especialmente às disposições que proíbem qualquer forma de represália contra pessoas protegidas por tais tratados.
e) Rompimento de Relações Diplomáticas e Consulares: 
Artigo 63
Rompimento de Relações Diplomáticas e Consulares
O rompimento de relações diplomáticas ou consulares entre partes em um tratado não afetará as relações jurídicas estabelecidas entre elas pelo tratado, salvo na medida em que a existência de relações diplomáticas ou consulares for indispensável à aplicação do tratado.
Nesse sentido, ainda que Estados rompam relações diplomáticas ou consulares, o tratado poderá prevalecer. Portanto, não se trata de algo automático, uma vez que a ruptura de relações não estabelece a extinção ou suspensão do tratado. Este será afetado somente se essas relações forem indispensáveis para sua aplicação.
· Entrada em Vigor dos Tratados e Aplicação Provisória 
Artigo 24
Entrada em vigor 
1. Um tratado entra em vigor na forma e na data previstas no tratado ou acordadas pelos Estados negociadores. 
2. Na ausência de tal disposição ou acordo, um tratado entra em vigor tão logo o consentimento em obrigar-se pelo tratado seja manifestado por todos os Estados negociadores.
3. Quando o consentimento de um Estado em obrigar-se por um tratado for manifestado após sua entrada em vigor, o tratado entrará em vigor em relação a esse Estado nessa data, a não ser que o tratado disponha de outra forma. 
4. Aplicam-se desde o momento da adoção do texto de um tratado as disposições relativas à autenticação de seu texto, à manifestação do consentimento dos Estados em obrigarem-se pelo tratado, à maneira ou à data de sua entrada em vigor, às reservas, às funções de depositário e aos outros assuntos que surjam necessariamente antes da entrada em vigor do tratado.
Artigo 25
Aplicação Provisória 
1. Um tratado ou uma parte do tratado aplica-se provisoriamente enquanto não entra em vigor, se: 
a)o próprio tratado assim dispuser; ou
b)os Estados negociadores assim acordarem por outra forma. 
2. A não ser que o tratado disponha ou os Estados negociadores acordem de outra forma, a aplicação provisória de um tratado ou parte de um tratado, em relação a um Estado, termina se esse Estado notificar aos outros Estados, entre os quais o tratado é aplicado provisoriamente, sua intenção de não se tornar parte no tratado.
Quanto à aplicação provisória, o dispositivo não foi ratificado.
· Extinção 
a) Previsão convencional ou vontade das partes (art. 54): um tratado pode estabelecer uma cláusula que prescreva sua duração por tempo determinado ou que, em determinada circunstância, o tratado seja extinto. Pode também as partes convencionar sua extinção.
Artigo 54
Extinção ou Retirada de um Tratado em Virtude de suas Disposições ou por consentimento das Partes
A extinção de um tratado ou a retirada de uma das partes pode ter lugar:
a) de conformidade com as disposições do tratado; ou
b) a qualquer momento, pelo consentimento de todas as partes, após consulta com os outros Estados contratantes.
b) Denúncia ou retirada (art. 56):
A denúncia é o ato pelo qual o contratante manifesta seu interesse de se retirar do tratado. Não necessariamente extinguirá o tratado, posto que o extingue apenas para aquela parte que o denunciou, mas continuará vigorando para as outras partes.
A DENÚNCIA DEVE, EM REGRA, SER ACOMPANHADA DE UM PRÉ-AVISO DE 12 MESES. ADEMAIS, A DENÚNCIA, DENTRO DO PRAZO DE PRÉ-AVISO, É RETRATÁVEL.
Hipóteses em que não se admite denúncia:
· Tratados de vigência estática: são tratados que produzem seus efeitos imediatamente, não sendo possível a denúncia de tais tratados.
· Tratados normativos de elevado valor social e moral: por exemplo, tratados do Direito Internacional Humanitário, como as Convenções de Genebra, que falam sobre regras aplicáveis a conflitos armados. Não são passíveis de denúncia, visto que a parte continuará sujeita àquelas obrigações independentemente de ser parte ou não do tratado. Alguns autores defendem também a impossibilidade de denunciar certos tratados de direitos humanos, pois não se admitiria o retrocesso nesses casos.
· Tratados que não preveem esta possibilidade.
Para Mazzuoli, a denúncia, da mesma forma que a ratificação, depende da aprovação do Congresso Nacional. Já Rezek, entende que, no Brasil, tanto o Presidente da República quanto o Congresso Nacional poderão denunciar um tratado internacional.
c) Por conclusão do tratado posterior (art. 59): tal hipótese ocorre quando um tratado posterior prevê a extinção de outro tratado.
Artigo 59Extinção ou Suspensão da Execução de um Tratado em Virtude da Conclusão de um Tratado Posterior
1. Considerar-se-á extinto um tratado se todas as suas partes concluírem um tratado posterior sobre o mesmo assunto e:
a) resultar do tratado posterior, ou ficar estabelecido por outra forma, que a intenção das partes foi regular o assunto por este tratado; ou
b) as disposições do tratado posterior forem de tal modo incompatíveis com as do anterior, que os dois tratados não possam ser aplicados ao mesmo tempo.
d) Violação substancial do tratado (art. 60): o descumprimento de uma cláusula essencial do tratado pode levar à suspensão ou à extinção, a depender da intensidade dessa violação e do que os demais Estados contratantes decidirem.
e) Impossibilidade superveniente de cumprimento (art. 61): um tratado pode faticamente ou juridicamente tornar-se impossível de ser cumprido.
Artigo 61
Impossibilidade Superveniente de Cumprimento
1. Uma parte pode invocar a impossibilidade de cumprir um tratado como causa para extinguir o tratado ou dele retirar-se, se esta possibilidade resultar da destruição ou do desaparecimento definitivo de um objeto indispensável ao cumprimento do tratado. Se a impossibilidade for temporária, pode ser invocada somente como causa para suspender a execução do tratado.
2. A impossibilidade de cumprimento não pode ser invocada por uma das partes como causa para extinguir um tratado, dele retirar-se, ou suspender a execução do mesmo, se a impossibilidade resultar de uma violação, por essa parte, quer de uma obrigação decorrente do tratado, quer de qualquer outra obrigação internacional em relação a qualquer outra parte no tratado.
f) Mudança fundamental das circunstâncias (art. 62): trata-se de uma consubstanciação da cláusula rebus sic standibus, significando que o contrato valerá enquanto as coisas permanecerem da mesma forma. 
Artigo 62
Mudança Fundamental de Circunstâncias
1. UMA MUDANÇA FUNDAMENTAL DE CIRCUNSTÂNCIAS, OCORRIDA EM RELAÇÃO ÀS EXISTENTES NO MOMENTO DA CONCLUSÃO DE UM TRATADO, E NÃO PREVISTA PELAS PARTES, NÃO PODE SER INVOCADA COMO CAUSA PARA EXTINGUIR UM TRATADO OU DELE RETIRAR-SE, SALVO SE:
A) A EXISTÊNCIA DESSAS CIRCUNSTÂNCIAS TIVER CONSTITUÍDO UMA CONDIÇÃO ESSENCIAL DO CONSENTIMENTO DAS PARTES EM OBRIGAREM-SE PELO TRATADO; E
B) ESSA MUDANÇA TIVER POR EFEITO A MODIFICAÇÃO RADICAL DO ALCANCE DAS OBRIGAÇÕES AINDA PENDENTES DE CUMPRIMENTO EM VIRTUDE DO TRATADO.
2. Uma mudança fundamental de circunstâncias não pode ser invocada pela parte como causa para extinguir um tratado ou dele retirar-se:
a) se o tratado estabelecer limites; ou
b) se a mudança fundamental resultar de violação, pela parte que a invoca, seja de uma obrigação decorrente do tratado, seja de qualquer outra obrigação internacional em relação a qualquer outra parte no tratado.
3. Se, nos termos dos parágrafos anteriores, uma parte pode invocar uma mudança fundamental de circunstâncias como causa para extinguir um tratado ou dele retirar-se, pode também invocá-la como causa para suspender a execução do tratado.
g) superveniência de jus cogens (art. 63): o tratado celebrado em violação ao jus cogens será nulo ou, quando houver superveniência de jus cogens e for incompatível com o tratado, será extinto.
Segundo Celso Mello, há as seguintes formas de se extinguir um tratado: 
1. Execução integral do tratado: quando o estipulado é executado pelas partes contratantes. 
2. Consentimento mútuo: o tratado é resultante do consentimento dos contratantes. O consentimento pode manifestar-se em outro tratado que verse sobre o mesmo objeto do anterior, havendo, em consequência, revogação tácita; ou, ainda, ele pode estar consubstanciado expressamente em uma declaração, em que se afirme a revogação do tratado anterior. 
3. Termo: quando o tratado é concluído por um lapso de tempo determinado, ele termina automaticamente quando seu prazo expira. 
4. Condição resolutória: o tratado pode extinguir-se quando as partes convencionam de modo expresso que o tratado terminará no futuro quando certo fato se realizar (condição afirmativa) ou se determinado fato não se produzir (condição negativa). 
5. Renúncia do beneficiário: quando um tratado estabelece vantagens para uma das partes e obrigações para a outra, ele termina quando o beneficiário renunciar às suas vantagens. 
6. Caducidade: ocorre quando o tratado deixar de ser aplicado por longo espaço de tempo, ou mesmo quando se formar um costume contrário a ele. 
7. Guerra: nos dias de hoje, a guerra faz que terminem os tratados bilaterais entre os beligerantes. Existem, contudo, certos tratados que são mantidos mesmo em caso de guerra: 
a) os tratados que constituíram situações objetivas, por exemplo, que estipularam limites ou cessões territoriais e foram integralmente executados; 
b) aqueles cuja finalidade é serem aplicados durante as guerras; 
c) os tratados multilaterais entre beligerantes e neutros também não são revogados: os seus efeitos são suspensos entre os beligerantes e mantidos em relação aos Estados neutros; com o término da guerra, eles voltam a produzir plenamente os seus efeitos. 
8. Ruptura de relações diplomáticas e consulares: pode acarretar o término do tratado se elas forem imprescindíveis para a sua execução. 
9. Inexecução do tratado: por uma das partes contratantes. 
10. Denúncia unilateral: a regra geral é que os tratados somente podem ser denunciados quando é prevista.
A decisão ab-rogatória superveniente decorre da vontade das partes, uma vez que não existe compromisso internacional imune à perspectiva de extinção pela vontade de todas as partes. Não é demais lembrar que, à falta de disposição expressa, nenhum tratado coletivo se ab-roga por maioria. Além disso, mencione-se que pode ocorrer a ab-rogação por outro que lhe sobrevenha e que reúna todas as partes.
1.3.2. Tratados no Direito Brasileiro
Art. 21. Compete à União:
I - manter relações com Estados estrangeiros e participar de organizações internacionais;
Portanto, quem representa internacionalmente a República Federativa do Brasil é a União.
Art. 84. Compete privativamente ao Presidente da República:
VIII - celebrar tratados, convenções e atos internacionais, sujeitos a referendo do Congresso Nacional;
Art. 49. É da competência exclusiva do Congresso Nacional:
I - resolver definitivamente sobre tratados, acordos ou atos internacionais que acarretem encargos ou compromissos gravosos ao patrimônio nacional;
A diferença utilizada nas palavras entre o art. 84 (tratados, convenções e atos internacionais) e o art. 49 (tratados, acordos ou ato internacionais) confirma a falta de técnica da CF ao utilizar a terminologia de tratados.
· Processo de incorporação: STF, CR 8279 e ADI 1480 - MC
Há duas teorias: a teoria monista e a dualista. No direito brasileiro, adota-se a teoria dualista moderada, na qual o direito internacional e o direito interno são ordens jurídicas separadas e independentes e, para que uma norma internacional tenha vigência no âmbito interno, essa norma deve passar por um processo de incorporação ou de internalização.
O processo de incorporação se inicia logo após a assinatura deste. Como ocorre o processo de incorporação?
1. Exposição de Motivos (MRE): o ministro das relações exteriores, depois da assinatura do tratado, encaminha para o presidente uma exposição de motivos sobre a celebração do tratado.
2. Mensagem (PR): o presidente da república, quando recebe a exposição de motivos, prepara uma mensagem e o encaminha para o Congresso Nacional (CN), solicitando a aprovação do Congresso.
No Brasil, o presidente não pode ratificar um tratado sem anterior aprovação do Congresso. O processo de aprovação, segundo o STF, é um processo complexo, que envolve tanto o Poder Executivo quanto o Poder Legislativo.
3. Decreto Legislativo (CN): no Congresso Nacional, o tratado é votado. Primeiro, na Câmara e depois no Senado. Se o tratado for aprovado, o Congresso edita um Decreto Legislativo. 
4. Ratificação: somente após o Decreto Legislativo, com a aprovação do CN, o presidente ratificao tratado. Mesmo após a aprovação do Congresso, o presidente pode não o aprovar.
Há a possibilidade excepcional de o Estado invocar direito interno seu para inadimplir um tratado, por força dos arts. 27 e 46 do CVDT/1969 (a isso dá-se o nome de ratificação imperfeita).
Artigo 27: Direito Interno e Observância de Tratados. 
Uma parte não pode invocar as disposições de seu direito interno para justificar o inadimplemento de um tratado. 
Esta regra não prejudica o artigo 46.
Artigo 46: Disposições do Direito Interno sobre Competência para Concluir Tratados. 
1. Um Estado não pode invocar o fato de que seu consentimento em obrigar-se por um tratado foi expresso em violação de uma disposição de seu direito interno sobre competência para concluir tratados, a não ser que essa violação fosse manifesta e dissesse respeito a uma norma de seu direito interno de importância fundamental.
5. Decreto (PR): depois da ratificação do tratado, o presidente edita um Decreto. Portanto somente após esse Decreto presidencial, o tratado vinculará o Brasil no âmbito interno.
Resumo das fases:
1. NEGOCIAÇÃO (FASE INTERNACIONAL)
2. ASSINATURA (FASE INTERNACIONAL - OBRIGAÇÃO DE NÃO FRUSTRAR O OBJETO DO TRATADO)
3. REFERENDO DO CONGRESSO NACIONAL - VIA DECRETO LEGISLATIVO (FASE INTERNA - APROVA OU REJEITA O TEXTO COMO UM TODO)
4. RATIFICAÇÃO (PRESIDENTE DA REPÚBLICA - FASE INTERNACIONAL - TROCA DE NOTAS OU DEPOSITÁRIO - IRRETRATÁVEL)
5.PROMULGAÇÃO/PUBLICAÇÃO (DECRETO PRESIDENCIAL - FASE INTERNA - OBRIGA O ESTADO NO PLANO INTERNO).
6. REGISTRO NA SECRETARIA DA ONU.
Essa participação do Congresso é necessária em todos os tratados? A doutrina diverge. São duas correntes:
a) Primeira corrente: quando o constituinte utiliza a expressão redundante "tratados, acordos ou atos internacionais", que acarretam encargos ao patrimônio nacional, teve a intenção de que tudo teria a participação do Congresso.
b) Segunda corrente: defende que não, pois nem tudo deve passar pela aprovação do CN. A intenção do constituinte é que somente quando houver encargos ou compromissos gravosos ao patrimônio nacional deveria ter participação do CN.
Qual entendimento prevalece? Prevalece o entendimento de que somente não há necessidade de aprovação do CN nos seguintes casos: tratados interpretativos, tratados complementares, modus vivendi e pactum de contrahendo. 
O modus vivendi estabelece que as coisas devem permanecer como estão até a celebração de outro tratado. O pactum de contrahendo é um tratado preliminar, um compromisso de futura celebração do tratado.
Os tratados que são celebrados sem a participação do CN são chamados de acordo executivo. 
O CN PODE FAZER RESERVAS AO TRATADO, QUE SÃO VINCULANTES PARA O PODER EXECUTIVO NA RATIFICAÇÃO, MAS NÃO PODEM APRESENTAR EMENDAS AO TRATADO.
Os tratados podem possuir status de emenda (art. 5, §3º). Nos tratados de direitos humanos, pode ocorrer uma fase adicional no processo de incorporação. Trata-se, segundo a doutrina, de uma fase facultativa. Depois do processo de incorporação, os tratados voltem para o congresso e serão submetidos ao rito das emendas, para somente depois, possuírem o status de emenda constitucional.
Flavia Piovesan, por sua vez, defende a teoria da incorporação automática de direitos humanos. Nesse sentido, os tratados não precisariam do decreto presidencial para ter vigência no âmbito interno, portanto, assim que vigorassem no plano internacional, vigorariam também no plano interno. Somente os tratados de direitos humanos possuiriam tal peculiaridade.
Contudo, no STF, não há exceção, pois todos os tratados precisam do decreto presidencial para produzir efeitos internamente, inclusive o tratado dos direitos humanos.
· Hierarquia dos tratados 
A doutrina ainda está baseada na teoria de Kelsen, da pirâmide. Existem teorias modernas que defendem que a ordem jurídica não assume mais a forma de pirâmide, mas a forma de rede ou de nuvem. 
Há três categorias de tratados:
1) Tratados Comuns: regra geral dos tratados. Desse modo, na ordem jurídica, possuem hierarquia de lei ordinária. Assim, quando há conflito entre tratados e leis, resolve-se como conflito de leis no tempo, especialidade e o da lei posterior (que derroga lei anterior).
O STF defende esta tese. 
Exemplo - Convenções de Montreal e Varsóvia X CDC: o conflito ocorreu porque o CDC possui uma disposição que prevê a reparação integral no caso de danos na relação de consumo. Contudo, as Convenções prescrevem a limitação à indenização no caso de danos causados no transporte internacional de pessoas, cargas e bagagens. Sendo assim, como solucionar esse conflito?
Art. 178 da CF/88. A lei disporá sobre a ordenação dos transportes aéreo, aquático e terrestre, devendo, quanto à ordenação do transporte internacional, observar os acordos firmados pela União, atendido o princípio da reciprocidade.  
Parágrafo único. Na ordenação do transporte aquático, a lei estabelecerá as condições em que o transporte de mercadorias na cabotagem e a navegação interior poderão ser feitos por embarcações estrangeiras.
O STF a adotou a seguinte tese: por força do art. 178 da CF, as normas e tratados internacionais limitadoras das transportadoras aéreas de passageiros, especialmente as Convenções de Varsóvia e Montreal têm prevalência em relação ao CDC, porque são posteriores ao CDC e tratam de uma relação de consumo específica.
Com relação à limitação indenizatória por essas convenções - indenização tarifada - somente será aplicada no que diz respeito aos danos materiais. Dessa forma, o consumidor pode pleitear os danos morais com base no CDC, sem prejuízo da aplicação das convenções quanto aos danos materiais.
2) Tratados de Direitos Humanos: os tratados podem ocupar duas posições na pirâmide de Kelsen. Segundo Gilmar Mendes, os tratados de direitos humanos têm garantido, no mínimo, o grau supralegal, isto é, abaixo da CF, mas acima da lei. Contudo, podem ocupar outro lugar, se forem aprovados pelo rito das emendas constitucionais, tendo status constitucional.
3) Tratados de Direito Tributário: o artigo 98 do CTN prescreve que a legislação deve observar os tratados internacionais. Nesse contexto, muitos autores interpretam que tais tratados estariam acima da legislação. Dessa forma, surgiu a teoria do status supralegal dos tratados de Direito Tributário. Essa teoria foi adotada pelo ministro Gilmar. 
Outrossim, no STJ, já há precedentes que adotam a teoria do status supralegal dos tratados de Direito Tributário. Ainda, algumas vezes, o STJ cita a teoria da revogação funcional, a qual defende que uma lei posterior, que seja incompatível com um tratado de direito tributário, não deixa de existir por causa do tratado, mas apenas deixam de produzir os efeitos enquanto o tratado existir, podendo voltar a ter vigência se o tratado deixar de existir.
1.4. Sujeitos do Direito Internacional – Diplomacia
O sujeito de direito internacional é aquele que pode participar da sociedade internacional, titularizando direitos e obrigações. 
Sujeitos internacionais:
A) Estado
Sujeito de direito internacional por excelência.
O Estado é o ente formado por elemento humano (povo), elemento geográfico (território) e elemento político (soberania). A Convenção sobre Direitos e Deveres dos Estados dispõe sobre um quarto elemento: a capacidade de entrar em relações com outros Estados.
Povo não se confunde com Nação, pois este refere-se a um grupo de pessoas unidas por vínculos históricos, religiosos, linguísticos, culturais; é conceito mais cultural, antropológico. É possível que, em um Estado, existam várias nações e que exista uma nação sem Estado. 
A.1) Elemento humano (povo)
Trata-se do conjunto de nacionais de um Estado, vinculadas ao Estado por meio desse vínculo político-jurídico (nacionalidade).
Não se confunde com população (conceito geográfico: conjunto de habitantes daquele Estado, de determinado lugar). Povo é um conceito jurídico.
A.2) Elemento político (soberania)
É uma prerrogativa que os Estados possuem de igualdade jurídica no plano internacional e supremaciano plano interno.
Problema dos Microestados: há alguns Estados que são espécies de Estados satelitários, pois são muito pequenos e com elementos muito exíguos, sempre vinculados a outros. Alegava-se que se esses Estados fossem aceitos, por exemplo, na ONU, é como se a ligação entre o Estado e esses microestados possuíssem dois votos. Contudo, atualmente, todos os microestados têm assento na Assembleia Geral da ONU e são considerados Estados.
· Reconhecimento de estado
O reconhecimento de Estado é o ato pelo qual um Estado reconhece a existência de outro na sociedade internacional, pois reconhece que houve a reunião de povo, Estado e soberania. 
A Convenção de Montevidéu dispõe sobre o reconhecimento de Estado e algumas características: 
a) ato unilateral: não é necessário o consentimento da outra parte;
b) natureza declaratória: um Estado não depende do reconhecimento de outro para existir, logo, o reconhecimento apenas observa algo já existente; não cria, não tem efeito constitutivo; é um fenômeno da realidade fática;
c) ato discricionário: ninguém está obrigado a reconhecer um Estado;
d) ato incondicional: não se pode colocar uma condição para que o Estado seja reconhecido;
e) ato irrevogável: uma vez manifestado o reconhecimento do Estado, não se pode "voltar atrás".
Outrossim, o reconhecimento pode ser tácito (ex.: quando um Estado envia para o outro Estado representação diplomática) ou expresso (quando um Estado reconhece o outro de forma verbal, uma declaração, uma nota reconhecendo o Estado, etc).
· Reconhecimento de governo
O reconhecimento de governo é o ato pelo qual um Estado reconhece um novo governo em outro Estado. Somente ocorre isto nas rupturas institucionais, ou seja, quando ocorre uma revolução, isto é, quando há um golpe de estado. 
As características são: unilateral, declaratório, discricionário, incondicional e irrevogável (art. 6º da Convenção de Montevidéu)
Doutrinas sobre reconhecimento de governo: na prática das relações internacionais, doutrina é uma postura adotada por um ministério das relações exteriores ou por um Estado nas suas relações internacionais.
· Doutrina Tobar (intervencionista): um governo só deve ser reconhecido se ficar demonstrado que conta com a aprovação popular, mesmo que tenha conseguido o poder através de revolução, golpe de estado ou outros meios não legítimos e democráticos. Se contar com aprovação popular, o governo será reconhecido pelos outros Estados.
· Doutrina Estrada (intervenção indevida): o reconhecimento de governo não deveria existir, é uma intromissão indevida nos negócios internos dos Estados. Cada povo e Estado que devem cuidar de seu governo e, por conseguinte, caso ocorra uma ruptura institucional, nenhum governo necessita que outros Estados o reconheçam para qualquer motivo, para qualquer finalidade.
A.3) Elemento geográfico (território) 
Território é o espaço geográfico dentro do qual o Estado exerce sua soberania. À vista disso, o Estado exerce jurisdição geral e exclusiva dentro do território. 
O que faz parte do território?
a) Conceito Amplo: conceito jurídico que abrange, além do solo e subsolo, o espaço aéreo subjacente a esse solo, águas interiores e fronteiriças, como rios e águas que estão no limite e dentro dos territórios.
b) Conceito Estrito: apenas solo e subsolo.
As embaixadas estrangeiras no Brasil têm, devido às Convenções de Viena de 1961 e 1963, algumas inviolabilidades, prerrogativas, mas não significa que se trata de território estrangeiro, pois estamos em território brasileiro.
Quanto a terras indígenas, o STF, no caso Raposa Serra do Sol (Pet 3.388), estabeleceu que não são territórios diferentes, todavia, fazem parte do território brasileiro, são bens da União.
Princípio do uti possidetis: este princípio foi utilizado na discussão entre Espanha e Portugal na divisão do território da América do Sul, no sentido de quem possui, deve continuar possuindo. Dessa forma, os limites antigos devem ser respeitados e mantidos.
· Relação entre estado e território
Há duas teorias: 
a) Teoria do Dominium: entre o Estado e seu território, há uma relação de direito real, uma propriedade, ou seja, o Estado tem direito de propriedade em relação ao território;
b) Teoria do Imperium: o Estado exerce seu poder sobre as pessoas e, por meio destas, exerce o poder sobre o território.
· Aquisição e perda do território
a) Descoberta seguida de ocupação: forma mais antiga de aquisição. Entretanto, aparentemente não há mais territórios para serem descobertos nos dias de hoje.
Durante muito tempo foi a maior forma de aquisição de território, a descoberta da res nullius (terra de ninguém) e da res derelicta (terra abandonada).
Destaca-se que a descoberta deve ser seguida de ocupação para ser reconhecida pelo Direito Internacional. 
O caso Palmas foi um caso julgado pela corte permanente de arbitragem em 1928, em que a Espanha descobriu a ilha de Palmas na época das grandes navegações. Posteriormente, foi vendida aos EUA, que descobriram que estava sob soberania da Holanda. O EUA alegou que possuía um título legítimo sobre a ilha descoberta da Espanha. A Holanda argumentava que possuía um título mais eficaz, a ocupação. Na corte permanente de arbitragem se decidiu que a ocupação é um título mais relevante que a descoberta.
b) Cessão: transferência, a título oneroso ou gratuito, de territórios. 
c) Acessão: acréscimo natural de um território, a exemplo da aluvião, avulsão do Direito Civil.
d) Adjudicação: atribuição de um território por uma Organização Internacional. Exemplo: Israel, área atribuída pela ONU.
e) Conquista (art. 11 da Convenção de Montevidéu): é proibida. A conquista é aquisição de território por meio da força.
· Dever de não intervenção
Está expressamente previsto no art. 2, n.7, da Carta de São Francisco de 1945 (Carta da ONU).
O dever de não intervenção significa que nenhum Estado tem o direito de intervir em negócios domésticos de outros Estados. A respeito deste tema, algumas teorias foram criadas: 
a) Doutrina Monroe: consiste na ideia de "América para os americanos". Significa que o continente americano não pode sofrer intervenções das potências europeias. 
b) Doutrina Drago: criada por um ministro das relações exteriores argentino e significa que nenhum Estado pode sofrer intervenção externa para cobrança de dívidas.
c) Intervenção Humanitária (Responsibility to protect - R2P): a OTAN fez uma intervenção, à revelia da ONU, no Kosovo, nos anos 90, onde estavam ocorrendo genocídios e crimes de guerra. Gerou a discussão sobre essa intervenção, a fim de proteger direitos humanos e evitar graves violações à direitos humanos. A teoria tem dois princípios, o primeiro é que todo Estado tem a responsabilidade primária de proteger os direitos humanos dos seus nacionais. O segundo é que, se o Estado não cumprir essa responsabilidade, surge para a comunidade internacional o dever de intervir para proteger esses direitos.
A.3.1) Imunidade estatal
Trata-se da prerrogativa que os Estados possuem de não serem julgados nem executados pela Justiça de outros Estados. Nesse sentido, há duas modalidades: imunidade de jurisdição (impossibilidade de um Estado ser julgado por outro) e imunidade de execução (impossibilidade de um Estado ter bens constritos, se executado por outro Estado). As modalidades possuem regimes jurídicos diferentes.
A regra da imunidade advém de um antigo direito costumeiro, que está baseado no brocado "par in parem non habet iudicium" (entre iguais, não há julgamento).
· Imunidade de jurisdição e de execução
O STF, em um primeiro momento, concedeu caráter absoluto. Assim, nas jurisprudências mais antigas, não havia a possibilidade de um Estado estrangeiro ser julgado no Brasil. 
No entanto, na Apelação Cível 9696 (1989), o STF decidiu que, em relação aos atos de impérios, os estados estrangeiros não poderiam ser julgados pela justiça brasileira. No entanto, em relação aos atos de gestão, seria possível, a exemplo de reclamações trabalhistas e acidentes automobilísticos.
Portanto, a imunidade de jurisdiçãoé relativa, a depender se os atos são de império ou de gestão.
A imunidade de execução permanece absoluta, não se aplicando a distinção entre atos de império e atos de gestão. Contudo, Celso de Mello e a doutrina de Francisco Rezek defendem que, em relação aos bens do Estado estrangeiro não vinculados às atividades diplomáticas ou consulares, haveria a possibilidade de penhora. No entanto, esse entendimento não foi adotado pelo STF, que decidiu pela imunidade de execução absoluta.
A isenção para consulados prevista na Convenção de Viena não se aplica a imóvel alugado para servir de residência oficial de representante de consulado. Segundo a 1ª Turma do Superior Tribunal de Justiça, a isenção só vale para imóveis dos quais o Estado estrangeiro signatário da convenção seja proprietário. STJ. 1ª Turma. AREsp 1065190/SP, Rel. Min. Gurgel de Faria, julgado em 21/11/2019.
Dizer o Direito: A imunidade de jurisdição de Estado estrangeiro não alcança atos de império ofensivos ao direito internacional da pessoa humana praticados no território brasileiro, tais como aqueles que resultem na morte de civis em período de guerra. Tese fixada pelo STF: “Os atos ilícitos praticados por Estados estrangeiros em violação a direitos humanos não gozam de imunidade de jurisdição”. STF. Plenário. ARE 954858/RJ, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 20/8/2021 (Repercussão Geral – Tema 944) (Info 1026). STJ. 4ª Turma. RO 109-RJ, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 07/06/2022 (Info 740).
O caso concreto foi o seguinte: Em julho de 1943, durante a II Guerra Mundial, o barco pesqueiro Changri-lá afundou após ataque pelo submarino alemão U-199, no mar territorial brasileiro, nas proximidades da Costa de Cabo Frio. Os netos de um dos tripulantes ajuizaram ação de indenização por danos morais e materiais contra a República Federal da Alemanha. 
Onde essa ação foi proposta? Na Justiça Federal de 1ª instância. 
Imunidade de jurisdição é a impossibilidade de que Estados estrangeiros, organizações internacionais e órgãos de Estados estrangeiros sejam julgados por outros Estados contra a sua vontade (PORTELA, Paulo Henrique Gonçalves. Direito internacional público e privado. Salvador: Juspodivm, 2021, p. 207).
No Brasil, a matéria é regida pelo Direito costumeiro, tendo em vista que o país ainda não se vinculou à Convenção das Nações Unidas sobre a Imunidade de Jurisdição dos Estados ou a tratado congênere.
Teorias sobre a imunidade de jurisdição:
a) Teoria da imunidade absoluta (“iguais não podem julgar iguais”): Para esta teoria, o Estado estrangeiro goza de imunidade total e absoluta, somente podendo ser julgado por outro Estado caso renuncie a imunidade. O Estado estrangeiro não poderia ser julgado pelas autoridades de outro Estado contra a sua vontade porque não haveria superioridade de um Estado sobre o outro. 
b) Teoria da imunidade relativa, limitada ou restrita (atos de império e atos de gestão): Com o passar dos anos, as relações entre os Estados, principalmente comerciais, foram se tornando mais frequentes e intensas. Esse fato fez com que a teoria clássica, acima exposta, passasse a ser questionada. Diante disso, foi idealizada a chamada teoria dos atos de império e atos de gestão, que preconiza, em síntese, o seguinte:
	Atos de império
(actajure imperii)
	Atos de gestão
(acta jure gestionis ou jure privatorum)
	Atos que o Estado pratica no exercício de sua soberania.
 
	Atos que o Estado pratica como se fosse um particular. Não têm relação direta com sua soberania.
	Exs: negativa de visto, negativa de asilo político.
	Ex: contrato de luz/água, contrato de compra e venda, contratação de empregados, acidente de veículo.
	Quando o Estado estrangeiro pratica atos de império, ele desfruta de imunidade de jurisdição.
	Quando o Estado estrangeiro pratica atos de gestão, ele NÃO goza de imunidade de jurisdição.
 
Esta é a teoria que prevalece atualmente na jurisprudência. De todo modo, a imunidade executória remanesceu absoluta em todos os atos do Estado soberano em território estrangeiro, à luz da Convenção de Viena sobre as Relações Diplomáticas (Dec. 56.435/1965).
No caso concreto, o Min. Relator Edson Fachin propôs o reconhecimento da derrotabilidade da regra imunizante de jurisdição em relação a atos de império praticados por Estado soberano e que representem “atos ofensivos ao direito internacional da pessoa humana praticados no território brasileiro, tais como aqueles que resultem na morte de civis em período de guerra”.
“A derrotabilidade das normas é fenômeno relacionado à não aplicação, total ou parcial, de certa norma jurídica, apesar de exteriorizados os pressupostos a partir dos quais se deveria aplicá-la em condições ‘normais’.
NUM BREVE RESUMO, A TEORIA DA DERROTABILIDADE NORMATIVA PARTE DA PREMISSA SEGUNDO A QUAL AS NORMAS JURÍDICAS SE BASEIAM EM RACIOCÍNIOS CUJAS JUSTIFICATIVAS PODEM  SER ‘DERROTADAS’ DIANTE DA EXTERIORIZAÇÃO DE CIRCUNSTÂNCIAS ANORMAIS E QUE NÃO FORAM CONSIDERADAS NA FORMULAÇÃO NORMATIVA.
A ‘derrotabilidade” tem a ver com os raciocínios lógicos que, diante da ocorrência de situações não consideradas, superam as conclusões anteriormente obtidas.
Como sintetizado por ANDRÉ RUFINO, afirmar ‘que uma norma jurídica é ‘derrotável’ equivale a dizer que ela está sujeita a exceções (implícitas) que não podem ser exaustivamente identificadas previamente, de forma que não é possível antecipar quais as circunstâncias que serão determinantes e suficientes para sua aplicação” (2009, p. 117). (...)” (BERNARDES, Juliano Taveira; FERREIRA, Olavo Augusto Vianna Alves. Direito Constitucional. Tomo I. 9ª ed. Salvador: Juspodivm, 2019, p. 269-272).
Assim, o Min. Fachin afirmou que, embora, em regra, existe imunidade de jurisdição no caso de atos de império praticados por Estado estrangeiro, existe uma espécie de “exceção”: os atos que impliquem violação a direitos humanos. Desse modo, os atos ilícitos praticados por Estados estrangeiros em violação a direitos humanos não gozam de imunidade de jurisdição.
(Analista TRE/PI 2016 CEBRASPE) A derrotabilidade de uma norma constitucional ocorrerá caso uma norma Jurídica deixe de ser aplicada em determinado caso concreto, permanecendo, contudo, no ordenamento jurídico para regular outras relações jurídicas. (certo).
· Renúncia
Em qualquer caso, há a possibilidade de renúncia. O Estado estrangeiro pode renunciar sua imunidade de jurisdição no caso de atos de império ou pode renunciar sua imunidade de execução.
A renúncia à imunidade de jurisdição não implica renúncia à imunidade de execução, para qual uma nova renúncia é necessária. 
· Aspectos processuais
a) Competência Jurisdicional: se, de um lado, há um Estado ou Organização Internacional e, de outro, um estado, DF, território ou União, a competência originária é do STF.
No entanto, se, de um lado, há um Estado ou Organização Internacional e, de outro, município ou pessoa domiciliada no Brasil, a competência originária é dos juízes federais de 1º grau e, dessa decisão, cabe recurso ordinário com efeito devolutivo direto para o STJ.
b) Procedimento: a primeira coisa é analisar se ação versa sobre ato de império ou ato de gestão. Se for ato de gestão e os pressupostos de admissibilidade estiverem preenchidos, deve dar andamento ao processo. Mas, se for ato de império, segundo o STJ, não deve extinguir imediatamente o processo, deve dar ciência ao Estado estrangeiro para que possa manifestar se renunciará ou não sua imunidade.
O STJ esclarece que este ato não é um ato de citação, pois o juiz brasileiro não poderia sequer citar o estado estrangeiro, é, portanto, apenas uma comunicação para que tenha ciência da demanda e possa manifestar sua renúncia ou não à imunidade de jurisdição.
B) Organizações Internacionais
Organizações internacionais são entes formados pela reunião de estados, baseados em um tratado constitutivo, com órgãos permanentes, com personalidade jurídica de direito internacional, com objetivos específicos. Quase todas as organizações internacionais são formadas por estados, mas é possível, também,que organizações internacionais façam parte de outras organizações internacionais.
As organizações internacionais têm personalidade jurídica de direito internacional secundária ou derivada, porque a personalidade das organizações deriva da personalidade dos Estados. Assim, os estados que têm personalidade de direito internacional se reúnem e dessa reunião surge um ente independente deles, com personalidade jurídica autônoma.
Geralmente, as organizações internacionais têm uma estrutura institucional permanente. Essa estrutura não é padronizada. Contudo, sempre tem um órgão plenário (que pode ser chamado de assembleia, por exemplo) que congrega todos os membros, e um secretariado, que é um órgão administrativo, burocrático.
· Classificação
a) Quanto à abrangência: as organizações internacionais podem ser universais ou regionais. Universais são aquelas organizações que têm a pretensão de abranger todo o globo e as regionais são aquelas que atuam em uma região. Exemplos: a ONU (organização universal) e a OEA (abrangência regional).
b) Quanto aos fins: as organizações podem ter fins gerais ou especiais. A ONU é considerada uma organização com fins gerais e a OIT, por exemplo, tem como fim padronizar e estabelecer limites mínimos nas relações de trabalho. 
c) Quanto à natureza: podem ser intergovernamentais ou supranacionais. Intergovernamentais são aquelas que estão no mesmo grau dos estados, e as supranacionais são aquelas que se colocam acima dos Estados. Hoje nós só temos um exemplo de organização supranacional, que é a União Europeia. 
· Funcionamento 
As organizações internacionais têm membros originários e membros derivados. Os primeiros são aqueles que participaram da sua constituição e os segundos são aqueles que aderiram posteriormente a formação.
As organizações internacionais não têm território como os estados. Assim, normalmente, elas celebram tratados conhecidos por “acordos de sede” com os estados. Nesses tratados, é estabelecido um espaço territorial para que a organização possa estabelecer a sua sede e exercer suas funções.
Os funcionários das organizações internacionais são chamados de pessoal paradiplomático. Muitas vezes, o regime jurídico desses funcionários das organizações internacionais é muito parecido com o dos diplomatas e cônsules, podendo gozar de imunidades, prerrogativas e inviolabilidades.
O pessoal paradiplomático não se confunde com a representação dos Estados. O pessoal paradiplomático são funcionários da organização, mas os estados membros têm a sua representação na organização internacional, que serve para estabelecer, para gerar, criar, a vontade da organização internacional. 
Existem várias formas de financiamento das organizações internacionais, mas a principal delas é a quotização entre os membros. 
Os tratados constitutivos das organizações internacionais, normalmente, preveem também sanções. 
Por fim, os tratados normalmente preveem, também, a possibilidade de uma retirada voluntária, ou seja, se o estado não deseja mais fazer parte de uma organização internacional, ele pode se retirar.
· Imunidades 
As imunidades das organizações internacionais possuem duas características. A primeira característica é que a base da imunidade das organizações internacionais é convencional, o que significa que as imunidades das ORGs não vêm do costume, mas sim dos tratados que eles estabelecem com os estados. 
A segunda característica da imunidade das ORGs é que ela é considerada absoluta. A doutrina chama de absoluta porque em ORGs não há que se falar em distinção entre atos de império e atos de gestão, até porque as ORGs não praticam atos de império. 
B.1) ONU
A ONU sucedeu a antiga Liga das Nações. Depois da Primeira Guerra Mundial, em 1919, foi criada a Liga das Nações ou Sociedade das Nações. O principal objetivo dessa organização internacional foi exatamente evitar uma nova Guerra Mundial. Contudo, a história mostrou que a Liga das Nações ou Sociedade das Nações falhou nesse propósito, porque tivemos a Segunda Guerra Mundial.
Com o aprendizado do fracasso da Liga das Nações, criaram a Organização das Nações Unidas, que teve como tratado constitutivo a Carta de São Francisco.
A Carta de São Francisco ou Carta das Nações Unidas é o tratado constitutivo da Organização das Nações Unidas, que foi criada na Conferência de São Francisco, em 1945. A sede da ONU é em Nova York e há, também, uma sede europeia, que fica em Genebra.
A Carta das Nações Unidas foi elaborada pelos representantes de 50 países presentes à Conferência sobre Organização Internacional, que se reuniu em São Francisco de 25 de abril a 26 de junho de 1945. No dia 26 de junho, último dia da Conferência, foi assinada pelos 50 países a Carta, com a Polônia – também um membro original da ONU – a assinando dois meses depois.
As Nações Unidas, entretanto, começaram a existir oficialmente em 24 de outubro de 1945, após a ratificação da Carta por China, Estados Unidos, França, Reino Unido e a ex-União Soviética, bem como pela maioria dos signatários. 
A Carta da ONU é o documento mais importante da Organização, como registra seu artigo 103: “No caso de conflito entre as obrigações dos membros das Nações Unidas, em virtude da presente Carta e as obrigações resultantes de qualquer outro acordo internacional, prevalecerão as obrigações assumidas em virtude da presente Carta”.[footnoteRef:1] [1: https://brasil.un.org/pt-br/91220-carta-das-nacoes-unidas] 
· Objetivos 
O art. 1º da Carta das Nações Unidas detalha os objetivos da Organização das Nações Unidas.
Artigo 1
Os propósitos das Nações unidas são:
1. Manter a paz e a segurança internacionais e, para esse fim: tomar, coletivamente, medidas efetivas para evitar ameaças à paz e reprimir os atos de agressão ou outra qualquer ruptura da paz e chegar, por meios pacíficos e de conformidade com os princípios da justiça e do direito internacional, a um ajuste ou solução das controvérsias ou situações que possam levar a uma perturbação da paz;
2. Desenvolver relações amistosas entre as nações, baseadas no respeito ao princípio de igualdade de direitos e de autodeterminação dos povos, e tomar outras medidas apropriadas ao fortalecimento da paz universal;
3. Conseguir uma cooperação internacional para resolver os problemas internacionais de caráter econômico, social, cultural ou humanitário, e para promover e estimular o respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo, língua ou religião; e
4. Ser um centro destinado a harmonizar a ação das nações para a consecução desses objetivos comuns.
A ONU objetiva ser um centro harmonizador para conseguir fins comuns. 
· Princípios 
O artigo 2º da Carta das Nações Unidas traz alguns princípios.
Artigo 2
A Organização e seus membros, para a realização dos propósitos mencionados no artigo 1, agirão de acordo com os seguintes Princípios:
1. A Organização é baseada no princípio da igualdade soberana de todos os seus membros.
2. Todos os membros, a fim de assegurarem para todos em geral os direitos e vantagens resultantes de sua qualidade de membros, deverão cumprir de boa-fé as obrigações por eles assumidas de acordo com a presente Carta.
3. Todos os membros deverão resolver suas controvérsias internacionais por meios pacíficos, de modo que não sejam ameaçadas a paz, a segurança e a justiça internacionais.
4. Todos os membros deverão evitar em suas relações internacionais a ameaça ou o uso da força contra a integridade territorial ou a dependência política de qualquer Estado, ou qualquer outra ação incompatível com os Propósitos das Nações Unidas.
5. Todos os membros darão às Nações toda assistência em qualquer ação a que elas recorrerem de acordo com a presente Carta e se absterão de dar auxílio a qual Estado contra o qual as Nações Unidas agirem de modo preventivo ou coercitivo.
6. A Organização fará com que os Estados que não são membros das Nações Unidas ajam de acordo com esses Princípios em tudo quanto for necessário à manutenção da paz e da segurança internacionais.
7. NENHUMDISPOSITIVO DA PRESENTE CARTA AUTORIZARÁ AS NAÇÕES UNIDAS A INTERVIREM EM ASSUNTOS QUE DEPENDAM ESSENCIALMENTE DA JURISDIÇÃO DE QUALQUER ESTADO OU OBRIGARÁ OS MEMBROS A SUBMETEREM TAIS ASSUNTOS A UMA SOLUÇÃO, NOS TERMOS DA PRESENTE CARTA; ESTE PRINCÍPIO, PORÉM, NÃO PREJUDICARÁ A APLICAÇÃO DAS MEDIDAS COERCITIVAS CONSTANTES DO CAPÍTULO VII.
O primeiro princípio é a igualdade dos Estados. Evidentemente essa igualdade é jurídica, não é material, porque é impossível ter como princípio a igualdade material, visto que os estados são muito diferentes. 
As relações entre os estados-membros da ONU devem ser baseadas na boa fé. 
O terceiro princípio é a solução pacífica das controvérsias. 
Durante muito tempo, o uso da força, o conflito armado, a guerra, eram vistos como uma forma de resolver controvérsias. Existia até o conceito de guerra justa, que era a guerra admitida.
Hoje a guerra é proibida no direito internacional. Mas, existem três situações em que o conflito armado não é considerado ilícito pelo direito internacional. A primeira situação é a da legítima defesa, que é uma reação ao ataque armado, e somente é lícita se for proporcional e se durar até a intervenção do Conselho de Segurança da ONU.
A segunda exceção é a ação coercitiva do Conselho de Segurança. Muitas vezes há uma situação de instabilidade em um território ou até um conflito armado (que será ilícito, evidentemente) e o Conselho de Segurança resolve fazer uma intervenção. Essa ação coercitiva da ONU é lícita.
A terceira exceção são os movimentos de libertação nacional, que são lutas contra regimes racistas, arbitrários, totalitários. Dessa forma, se admite que esse conflito seja levado a cabo e ele não é considerado ilícito. 
· Membros
Os membros originais das Nações Unidas foram os estados que participaram da Conferência de São Francisco e assinaram a Carta de São Francisco naquele momento, e os derivados ou secundários são os que ingressaram posteriormente na ONU. 
A Carta da ONU prevê o procedimento de admissão, podendo ser admitidos aqueles estados que são amantes da paz e que estejam dispostos a cumprir as obrigações previstas na Carta.
A Carta da ONU também prevê hipótese de suspensão e de expulsão. O artigo quinto diz que poderá ser suspenso o estado contra o qual for levada uma ação coercitiva do Conselho de Segurança. 
Artigo 5
O membro das Nações Unidas, contra o qual for levada a efeito ação preventiva ou coercitiva por parte do Conselho de Segurança, poderá ser suspenso do exercício dos direitos e privilégios de membro pela Assembleia Geral, mediante recomendação do Conselho de Segurança. O exercício desses direitos e privilégios poderá ser restabelecido pelo Conselho de Segurança.
A expulsão é uma violação persistente dos princípios da Carta. 
Artigo 6
O membro das Nações Unidas que houver violado persistentemente os Princípios contidos na presente Carta, poderá ser expulso da Organização pela Assembleia Geral mediante recomendação do Conselho de Segurança.
· Estrutura da ONU
A ONU é composta por órgãos permanentes e órgãos subsidiários.
Os órgãos subsidiários são a Comissão de Direito Internacional, o Conselho de Direitos Humanos e o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados.
Os órgãos permanentes são os órgãos mencionados na Carta das Nações Unidas, e são: Assembleia Geral, Conselho de Segurança, Conselho Econômico e Social, Conselho de Tutela, Corte Internacional de Justiça, Secretaria Geral. 
a) Assembleia Geral: é o órgão plenário da ONU, que congrega todos os estados membros. 
A Assembleia Geral tem uma reunião ordinária uma vez por ano. A sua competência é para qualquer tema dentro de suas finalidades ou de qualquer órgão da organização. Suas deliberações assumem a forma de resolução. O quórum é de 2/3 em questões importantes.
Nas demais questões que não são consideradas importantes, o quórum é de maioria relativa. Inclusive, até para se decidir se uma questão é importante ou não, o quórum é de maioria relativa.
b) Conselho de Segurança: sua competência é investigar situações que possam consistir em ameaça à manutenção da paz e da segurança internacional. A sua composição é de quinze membros, sendo cinco permanentes (China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia). Os demais membros são eleitos periodicamente, são membros não permanentes.
As deliberações, que também são resoluções no Conselho de Segurança, são adotadas por 9 votos em questões importantes, necessitando do voto afirmativo de todos os membros permanentes. Aqui, deve-se considerar o chamado poder de veto dos membros permanentes, pois se um membro permanente disser não, a questão não seguirá adiante. 
c) Conselho Econômico e Social (ECOSOC): tem como competência fazer estudos e relatórios sobre assuntos internacionais de caráter econômico, social, cultural, educacional e conexos para promover a observância dos direitos humanos.
d) Conselho de Tutela: já deveria ter sido excluído da Carta, porque não tem mais estados sobre tutela. A competência do Conselho de Tutela é administrar Estados recém-independentes ou a caminho da independência.
Por volta dos anos 1940, havia Estados que estavam se tornando independentes. Assim, a ONU designava um Estado, geralmente uma potência Europeia, para ser o tutor daquele Estado. 
e) Corte Internacional de Justiça: é o órgão jurisdicional.
f) Secretaria Geral: tem atribuições administrativas, burocráticas, operacionais da Organização das Nações Unidas. É chefiada pelo Secretário-Geral, que é o mais alto funcionário e principal representante da ONU. 
· Organismos especializados
As organizações internacionais são autônomas e, portanto, não são órgãos da ONU. Elas têm a sua própria personalidade jurídica internacional, mas elas são vinculadas a ONU pelos seus princípios, por haver tratados e pela comunhão de símbolos, princípios e missões. Todas essas organizações vinculadas a ONU formam o chamado Sistema das Nações Unidas. Exemplos: UNESCO, OMS, FAO, UNICEF, OIT, OACI, FMI, BIRD e OMC.
· Principais artigos da Carta da ONU
CAPÍTULO II
DOS MEMBROS
Artigo 3
Os membros originais das Nações Unidas serão os Estados que, tendo participado da Conferência das Nações Unidas sobre a Organização Internacional, realizada em São Francisco, ou, tendo assinado previamente a Declaração das Nações Unidas, de 1 de janeiro de 1942, assinarem a presente Carta, e a ratificarem, de acordo com o artigo 110.
Artigo 4
1. A admissão como membro das Nações Unidas fica aberta a todos os Estados amantes da paz que aceitarem as obrigações contidas na presente Carta e que, a juízo da Organização, estiverem aptos e dispostos a cumprir tais obrigações.
2. A admissão de qualquer desses Estados como membros das Nações Unidas será efetuada por decisão da Assembleia Geral, mediante recomendação do Conselho de Segurança.
CAPÍTULO III
ÓRGÃOS
Artigo 7
1. Ficam estabelecidos como órgãos principais das Nações Unidas: uma Assembleia Geral, um Conselho de Segurança, um Conselho Econômico e Social, um Conselho de Tutela, uma Corte Internacional de Justiça e um Secretariado.
2. Serão estabelecidos, de acordo com a presente Carta, os órgãos subsidiários considerados de necessidade.
Artigo 8
As Nações Unidas não farão restrições quanto à elegibilidade de homens e mulheres destinados a participar em qualquer caráter e em condições de igualdade em seus órgãos principais e subsidiários.
CAPÍTULO IV
ASSEMBLEIA GERAL
COMPOSIÇÃO
Artigo 9
1. A Assembleia Geral será constituída por todos os membros das Nações Unidas.
2. Cada membro não deverá ter mais de cinco representantes na Assembleia Geral.
FUNÇÕES E ATRIBUIÇÕES
Artigo 10
A Assembleia Geral poderá discutir quaisquer questões ou assuntos que estiverem dentro das finalidades da presente Carta ou que se relacionarem com as atribuições e funções de qualquer dos órgãos nela previstos e, com exceção do estipulado no artigo 12, poderá fazer recomendações aos membros das Nações Unidas ou ao Conselho de Segurança ou a este e àqueles, conjuntamente, com referência a qualquer daquelas questões ou assuntos.VOTAÇÃO
Artigo 18
1. Cada membro da Assembleia Geral terá um voto.
2. As decisões da Assembleia Geral, em questões importantes, serão tomadas por maioria de dois terços dos membros presentes e votantes. Essas questões compreenderão: recomendações relativas à manutenção da paz e da segurança internacionais; à eleição dos membros não permanentes do Conselho de Segurança; à eleição dos membros do Conselho Econômico e Social; à eleição dos membros dos Conselho de Tutela, de acordo como parágrafo 1 (c) do artigo 86; à admissão de novos membros das Nações Unidas; à suspensão dos direitos e privilégios de membros; à expulsão dos membros; questões referentes o funcionamento do sistema de tutela e questões orçamentárias.
3. As decisões sobre outras questões, inclusive a determinação de categoria adicionais de assuntos a serem debatidos por uma maioria dos membros presentes e que votem.
Artigo 19
O membro das Nações Unidas que estiver em atraso no pagamento de sua contribuição financeira à Organização não terá voto na Assembleia Geral, se o total de suas contribuições atrasadas igualarem ou excederem a soma das contribuições correspondentes aos dois anos anteriores completos. A Assembleia Geral poderá, entretanto, permitir que o referido membro vote, se ficar provado que a falta de pagamento é devida a condições independentes de sua vontade.
CAPÍTULO V
CONSELHO DE SEGURANÇA
COMPOSIÇÃO
Artigo 23
1. O Conselho de Segurança será composto de quinze membros das Nações Unidas. A República da China, a França, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, e os Estados Unidos da América serão membros permanentes do Conselho de Segurança. A Assembleia Geral elegerá dez outros membros das Nações Unidas para membros não permanentes do Conselho de Segurança, tendo especialmente em vista, em primeiro lugar, a contribuição dos membros das Nações Unidas para a manutenção da paz e da segurança internacionais e para os outros propósitos da Organização e também a distribuição geográfica equitativa.
2. Os membros não permanentes do Conselho de Segurança serão eleitos por um período de dois anos. Na primeira eleição dos membros não permanentes do Conselho de Segurança, que se celebre depois do aumento do número de membros do Conselho de Segurança de onze para quinze, dois dos quatro membros novos serão eleitos por um período de um ano. Nenhum membro que termine seu mandato poderá ser reeleito para o período imediato.
3. Cada membro do Conselho de Segurança terá um representante.
FUNÇÕES E ATRIBUIÇÕES
Artigo 24
1. A fim de assegurar pronta e eficaz ação por parte das Nações Unidas, seus membros conferem ao Conselho de Segurança a principal responsabilidade na manutenção da paz e da segurança internacionais e concordam em que no cumprimento dos deveres impostos por essa responsabilidade o Conselho de Segurança aja em nome deles.
2. No cumprimento desses deveres, o Conselho de Segurança agirá de acordo com os Propósitos e Princípios das Nações Unidas. As atribuições específicas do Conselho de Segurança para o cumprimento desses deveres estão enumeradas nos Capítulos VI, VII, VIII e XII.
3. O Conselho de Segurança submeterá relatórios anuais e, quando necessário, especiais à Assembleia Geral para sua consideração.
Artigo 51
Nada na presente Carta prejudicará o direito inerente de legítima defesa individual ou coletiva no caso de ocorrer um ataque armado contra um membro das Nações Unidas, até que o Conselho de Segurança tenha tomado as medidas necessárias para a manutenção da paz e da segurança internacionais. As medidas tomadas pelos membros no exercício desse direito de legítima defesa serão comunicadas imediatamente ao Conselho de Segurança e não deverão, de modo algum, atingir a autoridade e a responsabilidade que a presente Carta atribui ao Conselho para levar a efeito, em qualquer tempo, a ação que julgar necessária à manutenção ou ao restabelecimento da paz e da segurança internacionais.
CAPÍTULO X
CONSELHO ECONÔMICO E SOCIAL COMPOSIÇÃO
Artigo 61
1. O Conselho Econômico e Social será composto de cinquenta e quatro membros das Nações Unidas eleitos pela Assembleia Geral.
2. De acordo com os dispositivos do parágrafo 3, dezoito membros do Conselho Econômico e Social serão eleitos cada ano para um período de três anos, podendo, ao terminar esse prazo, ser reeleitos para o período seguinte.
3. Na primeira eleição a realizar-se depois de elevado de vinte e sete para cinquenta e quatro o número de membros do Conselho Econômico e Social, além dos membros que forem eleitos para substituir os nove membros, cujo mandato expira no fim desse ano, serão eleitos outros vinte e sete membros. O mandato de nove destes vinte e sete membros suplementares assim eleitos expirará no fim de um ano e o de nove outros no fim de dois anos, de acordo com o que for determinado pela Assembleia Geral.
4. Cada membro do Conselho Econômico e social terá nele um representante.
FUNÇÕES E ATRIBUIÇÕES
Artigo 62
1. O Conselho Econômico e Social fará ou iniciará estudos e relatórios a respeito de assuntos internacionais de caráter econômico, social, cultural, educacional, sanitário e conexos e poderá fazer recomendações a respeito de tais assuntos à Assembleia Geral, aos membros das Nações Unidas e às agências especializadas interessadas.
2. Poderá, igualmente, fazer recomendações destinadas a promover o respeito e a observância dos direitos humanos e das liberdades fundamentais para todos.
3. Poderá preparar projetos de convenções a serem submetidos à Assembleia Geral, sobre assuntos de sua competência.
4. Poderá convocar, de acordo com as regras estipuladas pelas Nações Unidas, conferências internacionais sobre assuntos de sua competência.
CAPÍTULO XIV
CORTE INTERNACIONAL DE JUSTIÇA
Artigo 92
A Corte Internacional de Justiça será o principal órgão judiciário das Nações Unidas. Funcionará de acordo com o Estatuto anexo, que é baseado no Estatuto da Corte Permanente de Justiça Internacional e faz parte integrante da presente Carta.
Artigo 93
1. Todos os membros das Nações Unidas são ipso facto partes do Estatuto da Corte Internacional de Justiça.
2. Um Estado que não for membro das Nações Unidas poderá tornar-se parte no Estatuto da Corte Internacional de Justiça, em condições que serão determinadas, em cada caso, pela Assembleia Geral, mediante recomendação do Conselho de Segurança.
Artigo 94
1. Cada membro das Nações Unidas se compromete a conformar-se com a decisão da Corte Internacional de Justiça em qualquer caso em que for parte.
2. Se uma das partes num caso deixar de cumprir as obrigações que lhe incumbem em virtude de sentença proferida pela Corte, a outra terá direito de recorrer ao Conselho de Segurança que poderá, se julgar necessário, fazer recomendações ou decidir sobre medidas a serem tomadas para o cumprimento da sentença.
Artigo 95
Nada na presente Carta impedirá os membros das Nações Unidas de confiarem a solução de suas divergências a outros tribunais, em virtude de acordos já vigentes ou que possam ser concluídos no futuro.
Artigo 96
1. A Assembleia Geral ou o Conselho de Segurança poderá solicitar parecer consultivo da Corte Internacional de Justiça, sobre qualquer questão de ordem jurídica.
2. Outros órgãos das Nações Unidas e agências especializadas, que forem em qualquer época devidamente autorizados pela Assembleia Geral, poderão também solicitar pareceres consultivos da Corte sobre questões jurídicas surgidas dentro da esfera de suas atividades.
C) Outros sujeitos de Direito Internacional 
· Beligerantes: grupos armados que contestam uma ordem política em vigor. Normalmente, recebem essa denominação quando, pelo menos, ocupam uma parte do território e possuem um certo grau de organização.
· Insurgentes: grupos armados que contestam uma ordem política em vigor com um grau de organização e importância menor que os beligerantes. 
A lógica de se atribuir a personalidade jurídica internacional a beligerantes e insurgentes é que muitos desses grupos praticam crimes internacionais, como ogenocídio, tortura, crimes de guerra, crimes contra a humanidade. Sendo assim, o objetivo de atribuir personalidade jurídica é justamente responsabilizá-los.
· Movimentos de libertação nacional: a partir dos anos 60 do século passado, vários países colonizados na África e na Ásia começaram a buscar sua libertação, constituindo certos grupos armados visando a libertação nacional. Nesse sentido, pelos mesmos motivos dos beligerantes e dos insurgentes, possuem personalidade jurídica internacional.
· Santa Sé e Estado da Cidade do Vaticano;
· Indivíduos e Empresas transnacionais*: não são, tradicionalmente, classificados como sujeitos. No entanto, há uma doutrina moderna que começa a defender que estes também devem ser reconhecidos como sujeitos de personalidade jurídica de direito internacional. 
O primeiro motivo é que tais entes recebem direitos e obrigações diretamente de normas internacionais. O segundo motivo é que os entes já possuem capacidade postulatória em órgãos e tribunais internacionais, participando de alguns foros internacionais. Os indivíduos, por exemplo, podem ser réus no TPI. As empresas transnacionais podem atuar em mecanismos de solução de controvérsias no âmbito do Mercosul e da OMC.
Por que não seriam considerados sujeitos de direito internacional na doutrina tradicional? O principal argumento é que estes não celebram tratados. O segundo é que não possuem, originariamente, capacidade postulatória, visto que são os Estados que concedem e permitem que participem de foros internacionais e sejam titulares de direitos e obrigações previstos em normas internacionais.
1.5. Nacionalidade e Lei de migração 
O que é nacionalidade? Nacionalidade é o vínculo jurídico-político entre um Estado e os seus nacionais.
Nacionalidade não é mesma coisa que cidadania. Existem vários conceitos de cidadania, mas pode-se dizer que cidadania é a aptidão para o exercício dos direitos políticos, para votar e ser votado, entre outros direitos, o que não se confunde com a nacionalidade. É possível ser nacional e não ser cidadão.
Nacionalidade também não se confunde com naturalidade. Naturalidade refere-se ao local de nascimento da pessoa, e é possível que uma pessoa nasça em Montevidéu, por exemplo, mas tenha nacionalidade originária brasileira. 
Nacionalidade é um direito humano previsto na Declaração Universal dos Direitos Humanos (art. 15), no Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (art. 24, §3º) e na Convenção Americana de Direitos Humanos (art. 20).
A declaração, por exemplo, diz que toda pessoa tem direito a uma nacionalidade e que ninguém pode ser arbitrariamente privado de sua nacionalidade.
1.5.1) Espécies de nacionalidade
Existem duas espécies de nacionalidade: a nacionalidade originária, também chamada de atribuída ou primária, e a nacionalidade derivada, também chamada de adquirida ou secundária.
A nacionalidade originária decorre de um fato ligado ao nascimento da pessoa. Os principais critérios de atribuição de nacionalidade originária são o jus soli e o critério do jus sanguinis. Tem-se, ainda, o critério misto, que é uma combinação dos dois primeiros.
A derivada é uma nacionalidade decorrente de um fato diverso do nascimento, e existem várias formas de adquiri-la: por naturalização, casamento, vínculo funcional, transformações territoriais etc. 
Por fim, há um caso interessante: o da nacionalização unilateral, a qual ocorre quando um Estado determina que todos aqueles que estiverem em determinada situação serão considerados seus nacionais a partir de uma data específica. Foi isso que ocorreu no Brasil, na Constituição de 1891.
1.5.2) Hipóteses de nacionalidade brasileira originária
Art. 12. São brasileiros:
I - natos:
a) os nascidos na República Federativa do Brasil, ainda que de pais estrangeiros, desde que estes não estejam a serviço de seu país;
Primeiramente, ao mencionar "nascidos na República Federativa do Brasil", está evidente a adoção do critério do jus soli, como regra, excepcionado pelo jus sanguinis funcional.
República Federativa do Brasil, para a doutrina, significa solo, águas interiores, mar territorial, espaço aéreo e navios e aeronaves de bandeira brasileira em espaços neutros (por exemplo em alto mar). 
Para que um nascido no Brasil não seja brasileiro, é necessário que os dois pais sejam estrangeiros, mas basta que apenas um esteja a serviço de seu país, e esse serviço deve ser público, em geral, não se exigindo que seja um serviço diplomático, por exemplo.
Art. 12. São brasileiros:
I - natos:
b) os nascidos no estrangeiro, de pai brasileiro ou mãe brasileira, desde que qualquer deles esteja a serviço da República Federativa do Brasil;
Na segunda hipótese, refere-se ao critério do jus sanguinis impuro, porque basta que um dos pais seja brasileiro. Seria puro se fosse necessário que ambos os pais fossem brasileiros.
O serviço público, nesse caso, dá-se em sentido amplo, bem como na alínea "a".
Art. 12. São brasileiros:
I - natos:
c) os nascidos no estrangeiro de pai brasileiro ou de mãe brasileira, desde que sejam registrados em repartição brasileira competente ou venham a residir na República Federativa do Brasil e optem, em qualquer tempo, depois de atingida a maioridade, pela nacionalidade brasileira; 
A doutrina diz que a opção de nacionalidade é uma espécie de nacionalidade potestativa, ou seja, é um poder que o titular tem de se tornar brasileiro quando quiser, independentemente de anuência ou sujeição à vontade de ninguém.
Não importa renúncia de outra nacionalidade. 
A opção de nacionalidade é um ato personalíssimo. Somente a pessoa pode ajuizar a ação de opção de nacionalidade, não podendo ser representada ou assistida e, por esse motivo, poderá ser feito somente após a maioridade.
É retroativa ao nascimento. 
O procedimento é de jurisdição voluntária perante a Justiça Federal. 
O Supremo afirmou que a pessoa que vier a residir no Brasil e fizer o registro provisório, entre a residência e a maioridade, será considerada brasileira nata para todos os fins. Entre a maioridade e a opção, há uma condição suspensiva, ou seja, suspende-se sua nacionalidade até a opção e, feita a opção, a nacionalidade retroage até o nascimento. 
No caso de uma pessoa que ajuizou a ação de opção e, enquanto pendente a ação de opção, surge o pedido de extradição. O que ocorre? O Supremo diz que se suspende a extradição e aguarda-se a homologação. Se a opção for homologada, a nacionalidade nata será retroativa, e a pessoa não poderá ser extraditada.
1.5.3) Nacionalidade brasileira derivada
A nacionalidade derivada decorre de um fato posterior ao nascimento.
A Lei de Migração (Lei nº 13.445/2017) classificou a naturalização em quatro espécies.
a) Naturalização Ordinária: os requisitos para aquisição da naturalização ordinária são:
Art. 12 da CF: (...)
II - naturalizados:
a) os que, na forma da lei, adquiram a nacionalidade brasileira, exigidas aos originários de países de língua portuguesa apenas residência por um ano ininterrupto e idoneidade moral;
Art. 65. Será concedida a naturalização ordinária àquele que preencher as seguintes condições:
I - ter capacidade civil, segundo a lei brasileira;
II - ter residência em território nacional, pelo prazo mínimo de 4 (quatro) anos;
III - comunicar-se em língua portuguesa, consideradas as condições do naturalizando; e
IV - não possuir condenação penal ou estiver reabilitado, nos termos da lei.
Art. 66. O prazo de residência fixado no inciso II do caput do art. 65 será reduzido para, no mínimo, 1 (um) ano se o naturalizando preencher quaisquer das seguintes condições:
I - (VETADO);
II - ter filho brasileiro;
III - ter cônjuge ou companheiro brasileiro e não estar dele separado legalmente ou de fato no momento de concessão da naturalização;
IV - (VETADO);
V - haver prestado ou poder prestar serviço relevante ao Brasil; ou
VI - recomendar-se por sua capacidade profissional, científica ou artística.
Parágrafo único. O preenchimento das condições previstas nos incisos V e VI do caput será avaliado na forma disposta em regulamento.A concessão da naturalização ordinária é um ato de soberania, discricionário do Estado, sujeito a seus critérios de conveniência e oportunidade. 
b) Naturalização Extraordinária: 
Art. 12. São brasileiros:
II - naturalizados:
b) os estrangeiros de qualquer nacionalidade, residentes na República Federativa do Brasil há mais de quinze anos ininterruptos e sem condenação penal, desde que requeiram a nacionalidade brasileira. 
Requisitos: a) residência no Brasil por mais de 15 (quinze) anos ininterruptos; e b) ausência de condenação penal.
Nesse caso, tanto a doutrina quanto a jurisprudência reconhecem tratar-se de ato vinculado, porque quando a Constituição fala expressamente "desde que requeiram", deve-se entender que, preenchidos os requisitos, basta a requisição para que seja conferida a naturalidade extraordinária.
c) Naturalização Especial (artigo 68 da Lei de Migração): 
Art. 68. A naturalização especial poderá ser concedida ao estrangeiro que se encontre em uma das seguintes situações:
I - seja cônjuge ou companheiro, há mais de 5 (cinco) anos, de integrante do Serviço Exterior Brasileiro em atividade ou de pessoa a serviço do Estado brasileiro no exterior; ou
II - seja ou tenha sido empregado em missão diplomática ou em repartição consular do Brasil por mais de 10 (dez) anos ininterruptos.
d) Naturalização Provisória (artigo 70 da Lei de Migração): 
Essa hipótese de naturalização é voltada especificamente para criança ou adolescente.
Art. 70. A naturalização provisória poderá ser concedida ao migrante criança ou adolescente que tenha fixado residência em território nacional antes de completar 10 (dez) anos de idade e deverá ser requerida por intermédio de seu representante legal.
Parágrafo único. A naturalização prevista no caput será convertida em definitiva se o naturalizando expressamente assim o requerer no prazo de 2 (dois) anos após atingir a maioridade.
Trata-se de uma naturalização provisória, a qual pode ser convertida em definitiva se o naturalizando expressamente assim o requerer no prazo de 02 (dois) anos após atingir a maioridade.
· Processo de naturalização
Art. 71. O pedido de naturalização será apresentado e processado na forma prevista pelo órgão competente do Poder Executivo, sendo cabível recurso em caso de denegação.
§ 1º No curso do processo de naturalização, o naturalizando poderá requerer a tradução ou a adaptação de seu nome à língua portuguesa.
§ 2º Será mantido cadastro com o nome traduzido ou adaptado associado ao nome anterior.
Art. 72. No prazo de até 1 (um) ano após a concessão da naturalização, deverá o naturalizado comparecer perante a Justiça Eleitoral para o devido cadastramento.
A naturalização produz efeitos após a publicação no Diário Oficial do ato de naturalização. Ou seja, possui efeito ex nunc.
· Condição jurídica do naturalizado
De acordo com a Constituição (art. 12, § 2º), há igualdade entre os brasileiros natos e naturalizados, sendo que eventuais diferenças somente podem ser estabelecidas pela própria Constituição.
Extradição (art. 5º, incisos LI e LII):
Art. 5º [...] LI - nenhum brasileiro será extraditado, salvo o naturalizado, em caso de crime comum, praticado antes da naturalização, ou de comprovado envolvimento em tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, na forma da lei;
LII - não será concedida extradição de estrangeiro por crime político ou de opinião;
A existência de alguns cargos privativos de brasileiro nato (art. 12, § 3º):
§ 3º São privativos de brasileiro nato os cargos:
I - de Presidente e Vice-Presidente da República;
II - de Presidente da Câmara dos Deputados;
III - de Presidente do Senado Federal;
IV - de Ministro do Supremo Tribunal Federal;
V - da carreira diplomática;
VI - de oficial das Forças Armadas.
VII - de Ministro de Estado da Defesa.
Cancelamento de naturalização (art. 12, § 4º):
§ 4º - Será declarada a perda da nacionalidade do brasileiro que:
I - tiver cancelada sua naturalização, por sentença judicial, em virtude de ATIVIDADE NOCIVA AO INTERESSE NACIONAL;
II - adquirir outra nacionalidade, salvo nos casos:
a) de reconhecimento de nacionalidade originária pela lei estrangeira; 
b) de imposição de naturalização, pela norma estrangeira, ao brasileiro residente em estado estrangeiro, como condição para permanência em seu território ou para o exercício de direitos civis; 
A prática de atos nocivos ao interesse nacional pode levar ao cancelamento da naturalização, portanto, somente poderá alcançar o brasileiro naturalizado. 
A Constituição traz duas hipóteses de perda da nacionalidade. A primeira é chamada de perda-sanção, a qual configura uma punição. Refere-se ao cancelamento da naturalização por sentença judicial em virtude de atividade nociva ao interesse nacional. A segunda condiz com a perda-mudança, a qual ocorre quando há a aquisição de outra nacionalidade, salvo as exceções.
As duas hipóteses de perda da nacionalidade são hipóteses taxativas e restritivas, não havendo outras hipóteses de perda da nacionalidade brasileira.
A perda-sanção, segundo a Constituição, se dá por decisão judicial. Isto posto, há uma reserva de jurisdição, logo, o Ministro da Justiça não pode cancelar a naturalização por perda-sanção.
Cumpre ressaltar, assim, que quando uma pessoa adquire uma nova nacionalidade fora das exceções previstas na CF, ela perde a nacionalidade brasileira nata, o que torna possível sua extradição. 
Algumas restrições à propriedade de empresa jornalística e de radiodifusão sonora e de sons e imagens (art. 222):
Art. 222. A propriedade de empresa jornalística e de radiodifusão sonora e de sons e imagens é privativa de brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos, ou de pessoas jurídicas constituídas sob as leis brasileiras e que tenham sede no País.
No caso de perda-sanção somente será possível a reaquisição da nacionalidade mediante uma Ação Rescisória.
Na perda-mudança, a Lei de Migração deixa a definição a cargo de regulamento.
Art. 254. O brasileiro que houver perdido a nacionalidade, em razão do disposto no inciso II do § 4º do art. 12 da Constituição, poderá, se cessada a causa, readquiri-la ou ter revogado o ato que declarou a sua perda.
§ 1º Cessada a causa da perda de nacionalidade, o interessado, por meio de requerimento endereçado ao Ministro da Justiça e Segurança Pública, poderá pleitear a sua reaquisição.
§ 2º A reaquisição da nacionalidade brasileira ficará condicionada à:
I - comprovação de que possuía a nacionalidade brasileira; e
II - comprovação de que a causa que deu razão à perda da nacionalidade brasileira cessou.
§ 3º A cessação da causa da perda da nacionalidade brasileira poderá ser demonstrada por meio de ato do interessado que represente pedido de renúncia da nacionalidade então adquirida.
§ 4º O ato que declarou a perda da nacionalidade poderá ser revogado por decisão do Ministro de Estado da Justiça e Segurança Pública caso seja constatado que estava presente uma das exceções previstas nas alíneas “a” e “b” do inciso II do § 4o do art. 12 da Constituição.
§ 5º A decisão de revogação será fundamentada por meio da comprovação de reconhecimento de nacionalidade originária pela lei estrangeira ou de imposição de naturalização, o que poderá ser realizado por qualquer meio permitido na legislação brasileira.
§ 6º Os efeitos decorrentes da perda da nacionalidade constarão da decisão de revogação.
§ 7º O deferimento do requerimento de reaquisição ou a revogação da perda importará no restabelecimento da nacionalidade originária brasileira.
1.5.4) Estatuto da igualdade
Dispõe o artigo 12, §1º da Constituição:
Art. 12 [...] § 1º Aos portugueses com residência permanente no País, se houver reciprocidade em favor de brasileiros, serão atribuídos os direitos inerentes ao brasileiro, salvo os casos previstos nesta Constituição. 
O §1º trata do chamado Estatuto da Igualdade ou quase nacional. Esse tema é regulado no Tratado de Amizade, Cooperação e Consulta entre a República Federativa do Brasil e a República Portuguesa. Nesse tratado existem algumas regras sobreresidência, sobre cooperação jurídica internacional.
O Estatuto da Igualdade não é automático, sendo necessário o requerimento. 
Artigo 15
O estatuto de igualdade será atribuído mediante decisão do Ministério da Justiça, no Brasil, e do Ministério da Administração Interna, em Portugal, aos brasileiros e portugueses que o requeiram, desde que civilmente capazes e com residência habitual no país em que ele é requerido.
Não implica perda da nacionalidade. 
Não implica direitos reservados aos nacionais natos (art. 13): o português equiparado a brasileiro não pode exercer aqueles direitos reservados pela Constituição aos brasileiros natos, como cargos privativos de brasileiro nato, as limitações na propriedade de Rádio, TV e as demais regras em geral.
Artigo 13
(...)
2. Com a ressalva do disposto no parágrafo 3º do Artigo 17, os brasileiros e portugueses referidos no parágrafo 1º continuarão no exercício de todos os direitos e deveres inerentes às respectivas nacionalidades, salvo aqueles que ofenderem a soberania nacional e a ordem pública do Estado de residência.
É proibido o duplo gozo de direitos políticos (art. 17): Aquele que fizer a opção por exercer, por exemplo, os seus direitos políticos no Brasil, não poderá exercê-los em Portugal e vice-versa.
Artigo 17
1. O gozo de direitos políticos por brasileiros em Portugal e por portugueses no Brasil só será reconhecido aos que tiverem três anos de residência habitual e depende de requerimento à autoridade competente.
2. A igualdade quanto aos direitos políticos não abrange as pessoas que, no Estado da nacionalidade, houverem sido privadas de direitos equivalentes.
3. O gozo de direitos políticos no Estado de residência importa na suspensão do exercício dos mesmos direitos no Estado da nacionalidade.
Extradição (art. 18): o português equiparado a brasileiro no Brasil não poderá ser extraditado por seu território nacional, a não ser para Portugal. O mesmo ocorre com o brasileiro equiparado em Portugal, o qual somente poderá ser extraditado para o Brasil.
Artigo 18
Os brasileiros e portugueses beneficiários do estatuto de igualdade ficam submetidos à lei penal do Estado de residência nas mesmas condições em que os respectivos nacionais e não estão sujeitos à extradição, salvo se requerida pelo Governo do Estado da nacionalidade.
Serviço Militar (art. 19):
Artigo 19
Não poderão prestar serviço militar no Estado de residência os brasileiros e portugueses nas condições do artigo 12. A lei interna de cada Estado regulará, para esse efeito, a situação dos respectivos nacionais.
1.5.5) Condição jurídica do migrante e do visitante
A) Princípios
O artigo 3º conta com muitos incisos, os quais contemplam quatro princípios:
Art. 3 A política migratória brasileira rege-se pelos seguintes princípios e diretrizes:
· Prevalência dos direitos humanos: 
O migrante, com a nova Lei do migrante, passa a ser visto como um sujeito de direitos, com direitos e deveres e não mais como alguém que deve ser evitado ou visto como ameaça.
Em toda a Lei de Migração é possível verificar que o migrante é tratado com observância dos Direitos Humanos, buscando-se sempre o devido processo legal, a ampla defesa, o contraditório, o respeito a sua integridade física e à vida, à liberdade.
I - universalidade, indivisibilidade e interdependência dos direitos humanos;
II - repúdio e prevenção à xenofobia, ao racismo e a quaisquer formas de discriminação;
III - não criminalização da migração;
IV - não discriminação em razão dos critérios ou dos procedimentos pelos quais a pessoa foi admitida em território nacional;
VI - acolhida humanitária;
X - inclusão social, laboral e produtiva do migrante por meio de políticas públicas;
XI - acesso igualitário e livre do migrante a serviços, programas e benefícios sociais, bens públicos, educação, assistência jurídica integral pública, trabalho, moradia, serviço bancário e seguridade social;
XII - promoção e difusão de direitos, liberdades, garantias e obrigações do migrante;
XIII - diálogo social na formulação, na execução e na avaliação de políticas migratórias e promoção da participação cidadã do migrante;
XVII - proteção integral e atenção ao superior interesse da criança e do adolescente migrante;
XVIII - observância ao disposto em tratado;
XIX - proteção ao brasileiro no exterior;
XX - migração e desenvolvimento humano no local de origem, como direitos inalienáveis de todas as pessoas;
XXII - repúdio a práticas de expulsão ou de deportação coletivas.
· Desburocratização
O princípio da desburocratização visa a simplificar os procedimentos.
V - promoção de entrada regular e de regularização documental;
XXI - promoção do reconhecimento acadêmico e do exercício profissional no Brasil, nos termos da lei;
· Cooperação internacional
A Lei de Migração reconhece que muitos problemas brasileiros somente poderão ser resolvidos em cooperação com outros Estados, porque alguns problemas ultrapassam nossas fronteiras, por exemplo, o tráfico de drogas, o tráfico de armas, os problemas ambientais, lavagem de dinheiro, crime organizado, os quais não podem ser resolvidos apenas em nosso território e, daí, surge a necessidade de cooperação com outros países.
XIV - fortalecimento da integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, mediante constituição de espaços de cidadania e de livre circulação de pessoas;
XV - cooperação internacional com Estados de origem, de trânsito e de destino de movimentos migratórios, a fim de garantir efetiva proteção aos direitos humanos do migrante;
XVI - integração e desenvolvimento das regiões de fronteira e articulação de políticas públicas regionais capazes de garantir efetividade aos direitos do residente fronteiriço;
· Soberania nacional
A normatização da nossa política migratória pensa no desenvolvimento do Estado brasileiro e na observância ao disposto em tratados que o Brasil celebra no exercício da soberania, bem como na proteção ao brasileiro no exterior. 
VII - desenvolvimento econômico, turístico, social, cultural, esportivo, científico e tecnológico do Brasil;
VIII - garantia do direito à reunião familiar;
IX - igualdade de tratamento e de oportunidade ao migrante e a seus familiares;
1.5.6) Direitos dos migrantes
Art. 5º, caput, da CF: Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
O STF firmou o entendimento que estrangeiros não residentes também gozam dos direitos fundamentais, sendo reconhecida a legitimidade para impetrar habeas corpus.
Recentemente, o STF entendeu que estrangeiros residentes podem receber o benefício assistencial previsto na LOAS (Lei Orgânica da Assistência Social), de um salário-mínimo para as pessoas em situação de miserabilidade.
Art. 4 Ao migrante é garantida no território nacional, em condição de igualdade com os nacionais, a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, bem como são assegurados:
I - direitos e liberdades civis, sociais, culturais e econômicos;
II - direito à liberdade de circulação em território nacional;
III - direito à reunião familiar do migrante com seu cônjuge ou companheiro e seus filhos, familiares e dependentes;
IV - medidas de proteção a vítimas e testemunhas de crimes e de violações de direitos;
V - direito de transferir recursos decorrentes de sua renda e economias pessoais a outro país, observada a legislação aplicável;
VI - direito de reunião para fins pacíficos;
VII - direito de associação, inclusive sindical, para fins lícitos;
VIII - acesso a serviços públicos de saúde e de assistência social e à previdência social, nos termos da lei, sem discriminação em razão da nacionalidade e da condição migratória;
IX - amplo acesso à justiça e à assistência jurídica integral gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos;
X - direito à educação pública, vedada a discriminaçãoem razão da nacionalidade e da condição migratória;
XI - garantia de cumprimento de obrigações legais e contratuais trabalhistas e de aplicação das normas de proteção ao trabalhador, sem discriminação em razão da nacionalidade e da condição migratória;
XII - isenção das taxas de que trata esta Lei, mediante declaração de hipossuficiência econômica, na forma de regulamento;
XIII - direito de acesso à informação e garantia de confidencialidade quanto aos dados pessoais do migrante, nos termos da Lei no 12.527, de 18 de novembro de 2011;
XIV - direito a abertura de conta bancária;
XV - direito de sair, de permanecer e de reingressar em território nacional, mesmo enquanto pendente pedido de autorização de residência, de prorrogação de estada ou de transformação de visto em autorização de residência; e
XVI - direito do imigrante de ser informado sobre as garantias que lhe são asseguradas para fins de regularização migratória.
§ 1 Os direitos e as garantias previstos nesta Lei serão exercidos em observância ao disposto na Constituição Federal, independentemente da situação migratória, observado o disposto no § 4 deste artigo, e não excluem outros decorrentes de tratado de que o Brasil seja parte.
1.5.7) Situação documental do migrante e residência
A entrada de não-nacionais é, em regra, discricionária (ato de soberania). 
Existe, todavia, uma exceção, que é a situação do refugiado. O Estado é obrigado a receber o não-nacional que solicita refúgio, bem como deve mantê-lo em seu território até que o pedido de refúgio seja apreciado, de modo que se o pedido de refúgio for deferido, a pessoa terá direito de permanecer e se não for deferido, o Estado terá o direito de adotar as medidas cabíveis para sua retirada compulsória.
Sendo o pedido negado, ele será retirado, porém, não poderá ser devolvido ao país onde está sofrendo perseguição. Se for reconhecida sua condição de refugiado, ele permanecerá no Estado brasileiro.
Para que um não-nacional possa postular o ingresso em um estado estrangeiro, excetuado o caso do refugiado, é necessário que ela tenha o título de ingresso, que, em regra, é formado pelo documento de viagem e pelo visto.
Os documentos de viagem aceitos no Brasil estão relacionados no artigo 5º da Lei de Migração. São eles:
Art. 5º - São documentos de viagem:
I - passaporte;
II - LAISSEZ-PASSER;
III - autorização de retorno;
IV - salvo-conduto;
V - carteira de identidade de marítimo;
VI - carteira de matrícula consular;
VII - documento de identidade civil ou documento estrangeiro equivalente, quando admitidos em tratado;
VIII - certificado de membro de tripulação de transporte aéreo; e
IX - outros que vierem a ser reconhecidos pelo Estado brasileiro em regulamento.
§ 1º Os documentos previstos nos incisos I, II, III, IV, V, VI e IX, quando emitidos pelo Estado brasileiro, são de propriedade da União, cabendo a seu titular a posse direta e o uso regular.
§ 2º As condições para a concessão dos documentos de que trata o § 1º serão previstas em regulamento.
O mais importante de todos é o passaporte, o qual tem natureza jurídica de documento policial.
Temos também o laissez-passer, o qual refere-se ao documento de viagem que é conferido normalmente na impossibilidade de se dar um passaporte. É expedido excepcionalmente.
· Vistos e espécies
Art. 12. Ao solicitante que pretenda ingressar ou permanecer em território nacional poderá ser concedido visto:
I - DE VISITA;
II - TEMPORÁRIO;
III - DIPLOMÁTICO;
IV - OFICIAL;
V - DE CORTESIA.
Art. 13. O visto de visita poderá ser concedido ao visitante que venha ao Brasil para estada de curta duração, sem intenção de estabelecer residência, nos seguintes casos:
I - turismo;
II - negócios;
III - trânsito;
IV - atividades artísticas ou desportivas; e
V - outras hipóteses definidas em regulamento.
§ 1º É vedado ao beneficiário de visto de visita exercer atividade remunerada no Brasil.
§ 2º O beneficiário de visto de visita poderá receber pagamento do governo, de empregador brasileiro ou de entidade privada a título de diária, ajuda de custo, cachê, pró-labore ou outras despesas com a viagem, bem como concorrer a prêmios, inclusive em dinheiro, em competições desportivas ou em concursos artísticos ou culturais.
§ 3º O visto de visita não será exigido em caso de escala ou conexão em território nacional, desde que o visitante não deixe a área de trânsito internacional.
Art. 14. O visto temporário poderá ser concedido ao imigrante que venha ao Brasil com o intuito de estabelecer residência por tempo determinado e que se enquadre em pelo menos uma das seguintes hipóteses:
I - o visto temporário tenha como finalidade:
a) pesquisa, ensino ou extensão acadêmica;
b) tratamento de saúde;
c) acolhida humanitária;
d) estudo;
e) trabalho;
f) férias-trabalho;
g) prática de atividade religiosa ou serviço voluntário;
h) realização de investimento ou de atividade com relevância econômica, social, científica, tecnológica ou cultural;
i) reunião familiar;
j) atividades artísticas ou desportivas com contrato por prazo determinado;
II - o imigrante seja beneficiário de tratado em matéria de vistos;
III - outras hipóteses definidas em regulamento.
§ 1º O visto temporário para pesquisa, ensino ou extensão acadêmica poderá ser concedido ao imigrante com ou sem vínculo empregatício com a instituição de pesquisa ou de ensino brasileira, exigida, na hipótese de vínculo, a comprovação de formação superior compatível ou equivalente reconhecimento científico.
§ 2º O visto temporário para tratamento de saúde poderá ser concedido ao imigrante e a seu acompanhante, desde que o imigrante comprove possuir meios de subsistência suficientes.
§ 3º O visto temporário para acolhida humanitária poderá ser concedido ao apátrida ou ao nacional de qualquer país em situação de grave ou iminente instabilidade institucional, de conflito armado, de calamidade de grande proporção, de desastre ambiental ou de grave violação de direitos humanos ou de direito internacional humanitário, ou em outras hipóteses, na forma de regulamento.
§ 4º O visto temporário para estudo poderá ser concedido ao imigrante que pretenda vir ao Brasil para frequentar curso regular ou realizar estágio ou intercâmbio de estudo ou de pesquisa.
§ 5º Observadas as hipóteses previstas em regulamento, o visto temporário para trabalho poderá ser concedido ao imigrante que venha exercer atividade laboral, com ou sem vínculo empregatício no Brasil, desde que comprove oferta de trabalho formalizada por pessoa jurídica em atividade no País, DISPENSADA ESTA EXIGÊNCIA SE O IMIGRANTE COMPROVAR TITULAÇÃO EM CURSO DE ENSINO SUPERIOR OU EQUIVALENTE.
§ 6º O visto temporário para férias-trabalho poderá ser concedido ao imigrante maior de 16 (dezesseis) anos que seja nacional de país que conceda idêntico benefício ao nacional brasileiro, em termos definidos por comunicação diplomática.
§ 7º Não se exigirá do marítimo que ingressar no Brasil em viagem de longo curso ou em cruzeiros marítimos pela costa brasileira o visto temporário de que trata a alínea “e” do inciso I do caput, bastando a apresentação da carteira internacional de marítimo, nos termos de regulamento.
§ 8º É reconhecida ao imigrante a quem se tenha concedido visto temporário para trabalho a possibilidade de modificação do local de exercício de sua atividade laboral.
§ 9º O visto para realização de investimento poderá ser concedido ao imigrante que aporte recursos em projeto com potencial para geração de empregos ou de renda no País.
Art. 15. Os vistos diplomático, oficial e de cortesia serão concedidos, prorrogados ou dispensados na forma desta Lei e de regulamento.
Parágrafo único. Os vistos diplomático e oficial poderão ser transformados em autorização de residência, o que importará cessação de todas as prerrogativas, privilégios e imunidades decorrentes do respectivo visto.
Art. 16. Os vistos diplomático e oficial poderão ser concedidos a autoridades e funcionários estrangeiros que viajem ao Brasil em missão oficial de caráter transitório ou permanente, representando Estadoestrangeiro ou organismo internacional reconhecido.
§ 1º Não se aplica ao titular dos vistos referidos no caput o disposto na legislação trabalhista brasileira.
§ 2º Os vistos diplomático e oficial poderão ser estendidos aos dependentes das autoridades referidas no caput.
Art. 17. O titular de visto diplomático ou oficial somente poderá ser remunerado por Estado estrangeiro ou organismo internacional, ressalvado o disposto em tratado que contenha cláusula específica sobre o assunto.
Parágrafo único. O dependente de titular de visto diplomático ou oficial poderá exercer atividade remunerada no Brasil, sob o amparo da legislação trabalhista brasileira, desde que seja nacional de país que assegure reciprocidade de tratamento ao nacional brasileiro, por comunicação diplomática.
Art. 18. O empregado particular titular de visto de cortesia somente poderá exercer atividade remunerada para o titular de visto diplomático, oficial ou de cortesia ao qual esteja vinculado, sob o amparo da legislação trabalhista brasileira.
Parágrafo único. O titular de visto diplomático, oficial ou de cortesia será responsável pela saída de seu empregado do território nacional.
O visto não gera direito subjetivo ao ingresso no estado estrangeiro, mas somente a expectativa do direito, de modo que mesmo possuindo o visto, o estrangeiro não poderá exigir o ingresso no Brasil. O visto também é dispensável, sendo que cada Estado, no exercício de sua soberania, poderá dispensar vistos para determinados países e geralmente isso é regulado pelo princípio da reciprocidade.
A concessão do visto é discricionária, sendo que nenhum Estado é obrigado a conceder visto a um não-nacional, não sendo necessário sequer a justificativa.
Art. 10. Não se concederá visto:
I - a quem não preencher os requisitos para o tipo de visto pleiteado;
II - a quem comprovadamente ocultar condição impeditiva de concessão de visto ou de ingresso no País; ou
III - a menor de 18 (dezoito) anos desacompanhado ou sem autorização de viagem por escrito dos responsáveis legais ou de autoridade competente.
Art. 35. A posse ou a propriedade de bem no Brasil não confere o direito de obter visto ou autorização de residência em território nacional, sem prejuízo do disposto sobre visto para realização de investimento.
O estrangeiro pode ser dono de uma ilha no Brasil, por exemplo, e isso não faz com que ele tenha direito à concessão do visto ou à autorização de residência. Continua sendo um ato discricionário, a não ser no caso do visto para realização de investimento, que tem uma relativização da regra. 
· Residência
Art. 30. A residência poderá ser autorizada, mediante registro, ao imigrante, ao residente fronteiriço ou ao visitante que se enquadre em uma das seguintes hipóteses:
I - a residência tenha como finalidade:
a) pesquisa, ensino ou extensão acadêmica;
b) tratamento de saúde;
c) acolhida humanitária;
d) estudo;
e) trabalho;
f) férias-trabalho;
g) prática de atividade religiosa ou serviço voluntário;
h) realização de investimento ou de atividade com relevância econômica, social, científica, tecnológica ou cultural;
i) reunião familiar;
II - a pessoa:
a) seja beneficiária de tratado em matéria de residência e livre circulação;
b) seja detentora de oferta de trabalho;
c) já tenha possuído a nacionalidade brasileira e não deseje ou não reúna os requisitos para readquiri-la;
d) (VETADO);
e) seja beneficiária de refúgio, de asilo ou de proteção ao apátrida;
f) seja menor nacional de outro país ou apátrida, desacompanhado ou abandonado, que se encontre nas fronteiras brasileiras ou em território nacional;
g) tenha sido vítima de tráfico de pessoas, de trabalho escravo ou de violação de direito agravada por sua condição migratória;
h) esteja em liberdade provisória ou em cumprimento de pena no Brasil;
III - outras hipóteses definidas em regulamento.
§ 1º Não se concederá a autorização de residência a pessoa condenada criminalmente no Brasil ou no exterior por sentença transitada em julgado, desde que a conduta esteja tipificada na legislação penal brasileira, ressalvados os casos em que:
I - a conduta caracterize infração de MENOR POTENCIAL OFENSIVO;
II - (VETADO); ou
III - a pessoa se enquadre nas hipóteses previstas nas alíneas “b”, “c” e “i” do inciso I e na alínea “a” do inciso II do caput deste artigo.
§ 2º O disposto no § 1º não obsta progressão de regime de cumprimento de pena, nos termos da Lei no 7.210, de 11 de julho de 1984, ficando a pessoa autorizada a trabalhar quando assim exigido pelo novo regime de cumprimento de pena.
§ 3º Nos procedimentos conducentes ao cancelamento de autorização de residência e no recurso contra a negativa de concessão de autorização de residência devem ser respeitados o contraditório e a ampla defesa.
Art. 31. Os prazos e o procedimento da autorização de residência de que trata o art. 30 serão dispostos em regulamento, observado o disposto nesta Lei.
§ 1º Será facilitada a autorização de residência nas hipóteses das alíneas “a” e “e” do inciso I do art. 30 desta Lei, devendo a deliberação sobre a autorização ocorrer em prazo não superior a 60 (sessenta) dias, a contar de sua solicitação.
§ 2º Nova autorização de residência poderá ser concedida, nos termos do art. 30, mediante requerimento.
§ 3º O requerimento de nova autorização de residência após o vencimento do prazo da autorização anterior implicará aplicação da sanção prevista no inciso II do art. 109.
§ 4º O solicitante de refúgio, de asilo ou de proteção ao apátrida fará jus a autorização provisória de residência até a obtenção de resposta ao seu pedido.
§ 5º Poderá ser concedida autorização de residência independentemente da situação migratória.
Art. 32. PODERÃO SER COBRADAS TAXAS PELA AUTORIZAÇÃO DE RESIDÊNCIA.
Art. 34. Poderá ser negada autorização de residência com fundamento nas hipóteses previstas nos incisos I, II, III, IV e IX do art. 45.
ART. 36. O VISTO DE VISITA OU DE CORTESIA PODERÁ SER TRANSFORMADO EM AUTORIZAÇÃO DE RESIDÊNCIA, MEDIANTE REQUERIMENTO E REGISTRO, desde que satisfeitos os requisitos previstos em regulamento.
1.5.8) Entrada e saída do território nacional
Hipóteses nas quais os migrantes serão barrados no controle migratório.
Art. 45. Poderá ser impedida de ingressar no País, após entrevista individual e mediante ato fundamentado, a pessoa:
I - anteriormente expulsa do País, enquanto os efeitos da expulsão vigorarem;
II - condenada ou respondendo a processo por ato de terrorismo ou por crime de genocídio, crime contra a humanidade, crime de guerra ou crime de agressão, nos termos definidos pelo Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional, de 1998, promulgado pelo Decreto n 4.388, de 25 de setembro de 2002;
III - condenada ou respondendo a processo em outro país por crime doloso passível de extradição segundo a lei brasileira;
IV - que tenha o nome incluído em lista de restrições por ordem judicial ou por compromisso assumido pelo Brasil perante organismo internacional;
V - que apresente documento de viagem que:
a) não seja válido para o Brasil;
b) esteja com o prazo de validade vencido; ou
c) esteja com rasura ou indício de falsificação;
VI - que não apresente documento de viagem ou documento de identidade, quando admitido;
VII - cuja razão da viagem não seja condizente com o visto ou com o motivo alegado para a isenção de visto;
VIII - que tenha, comprovadamente, fraudado documentação ou prestado informação falsa por ocasião da solicitação de visto; ou
IX - que tenha praticado ato contrário aos princípios e objetivos dispostos na Constituição Federal.
Parágrafo único. Ninguém será impedido de ingressar no País por motivo de raça, religião, nacionalidade, pertinência a grupo social ou opinião política.
Percebe-se que por causa do princípio da prevalência dos direitos humanos na nossa política migratória, há a necessidade de uma entrevista individual e fundamentação do ato para o impedimento de ingresso no país.
Existe um decreto que trata do prazo que vigorará os efeitos da expulsão, sendo que se a pessoa estiver dentro doprazo, ela será barrada no controle migratório.
O fato de a pessoa estar simplesmente respondendo um processo a impede de entrar no Brasil, nos casos acima descritos. Ocorre a mesma coisa nos casos de crimes dolosos passíveis de extradição. Ressalta-se, também, que o inciso não inclui crimes culposos.
O inciso IX é uma cláusula residual, na qual muitas situações podem ser inseridas. Em virtude disso, se o controle de migração, no exercício de sua atividade discricionária, entender que o não-nacional não deve entrar, poderá arguir que ele praticou um ato contrário aos princípios e objetivos dispostos na Constituição Federal.
ATENÇÃO!!!! QUANDO UMA PESSOA É IMPEDIDA DE ENTRAR NO TERRITÓRIO NACIONAL, O INSTITUTO APLICADO É REPATRIAÇÃO. 
1.5.9) Condições jurídicas específicas
A) Residente fronteiriço 
Art. 1º, §1º, IV - residente fronteiriço: pessoa nacional de país limítrofe ou apátrida que conserva a sua residência habitual em município fronteiriço de país vizinho;
Existe um trânsito do Brasil para outros países e dos outros países para o Brasil, e o residente fronteiriço é justamente essa pessoa que mantém sua residência habitual no país limítrofe e tem atos da vida civil praticados no Brasil.
Art. 23. A fim de facilitar a sua livre circulação, poderá ser concedida ao residente fronteiriço, mediante requerimento, autorização para a realização de atos da vida civil.	
Parágrafo único. Condições específicas poderão ser estabelecidas em regulamento ou tratado.
B) Apátrida 
Art. 1º, §1º, VI - apátrida: pessoa que não seja considerada como nacional por nenhum Estado, segundo a sua legislação, nos termos da Convenção sobre o Estatuto dos Apátridas, de 1954, promulgada pelo Decreto nº 4.246, de 22 de maio de 2002, ou assim reconhecida pelo Estado brasileiro.
A Lei de Migração criou um processo simplificado de naturalização para facilitar a situação do apátrida, já que a pessoa não tem nenhuma nacionalidade.
Art. 26. Regulamento disporá sobre instituto protetivo especial do apátrida, consolidado em processo simplificado de naturalização.
§ 6 Reconhecida a condição de apátrida, nos termos do inciso VI do § 1 do art. 1, o solicitante será consultado sobre o desejo de adquirir a nacionalidade brasileira.
§ 8 O apátrida reconhecido que não opte pela naturalização imediata terá a autorização de residência outorgada em caráter definitivo.
§ 10. Subsistindo a denegação do reconhecimento da condição de apátrida, é vedada a devolução do indivíduo para país onde sua vida, integridade pessoal ou liberdade estejam em risco.
Primeiramente, o que se faz no procedimento simplificado é determinar se aquela pessoa é realmente apátrida ou não. Se for reconhecido que realmente o é, o solicitante será consultado sobre o seu desejo. Caso ele não opte pela naturalização imediata, ele receberá uma autorização de residência em caráter definitivo.
Se verificar que a pessoa não é apátrida, não haverá nem a autorização de residência nem o processo simplificado de naturalização, porém, a pessoa não poderá ser devolvida ao país onde corra risco. Esse é o princípio do non-refoulement (não-devolução ou não-rechaço). 
C) Asilo 
Art. 27 da Lei 13.445/2017. O asilo político, que constitui ato discricionário do Estado, poderá ser diplomático ou territorial e será outorgado como instrumento de proteção à pessoa.
Asilo político: é a proteção outorgada por um estado a um não nacional que sofre perseguição política de outro estado.
Declaração Universal dos Direitos Humanos
Artigo 14
1.Todo ser humano, vítima de perseguição, tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países. 
2. Esse direito não pode ser invocado em caso de perseguição legitimamente motivada por crimes de direito comum ou por atos contrários aos objetivos e princípios das Nações Unidas.
A ideia base do asilo é a perseguição de natureza política, este é o pressuposto central para a configuração do asilo. E quem qualifica a perseguição como política ou não é o Estado asilante, conforme a previsão de alguns tratados internacionais. 
Outro elemento essencial do conceito de asilo é a sua discricionariedade. Evidentemente, nenhum Estado é obrigado a conceder asilo político. Não geraria uma represália, porque o ato de concessão de asilo político não é um ato ilícito.
· Asilo diplomático e territorial 
Existem dois tipos de asilo político: o diplomático e o territorial.
a) Asilo territorial: é aquele concedido no território do Estado asilante. Então, o perseguido vai até o território do Estado em que ele pretende receber asilo e solicita-o.
b) Asilo diplomático: é aquele que se dá na embaixada do Estado asilante.
O asilo diplomático deve ser sempre considerado como uma fase que antecede o territorial. O asilo diplomático não é definitivo, é provisório, e deve ser substituído pelo territorial. O asilo diplomático significa que aquela pessoa vai ficar protegida na embaixada do Estado asilante até que ele receba um salvo-conduto para o aeroporto internacional mais próximo, e, de lá, para o território do Estado asilaste, de forma que o asilo passa a ser territorial.
O asilo diplomático nasceu como um costume internacional na América Latina, mas hoje existem também tratados sobre o asilo diplomático. 
Caso de Julian Assange: Julian Assange, do Wikileaks, recebeu asilo diplomático do Equador, em Londres. Foi acusado de crimes sexuais e declarou que era uma perseguição política por conta do vazamento de documentos, inclusive nos Estados Unidos. Ele recebeu asilo diplomático na embaixada do Equador, em Londres, e o Reino Unido não reconheceu o asilo em embaixada, ameaçando invadi-la para retirar o sujeito de lá. Declarou que asilo diplomático não existia no Reino Unido, apenas na América Latina. Quando o Reino Unido informou a sua intenção de invadir a embaixada, houve uma reação internacional muito grande, porque as embaixadas são invioláveis. 
· Asilo negado 
Artigo 28 da Lei 13.445/2017. Não se concederá asilo a quem tenha cometido crime de genocídio, crime contra a humanidade, crime de guerra, ou crime de agressão, nos termos do estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional, de 1998, promulgado pelo Decreto nº4.388, de 25 de setembro de 2002.
· Prévia comunicação 
Artigo 29 da Lei 13.445/2017. A saída do asilado do país sem prévia comunicação implica renúncia ao asilo.
Destaca-se que o refugiado também não pode sair sem autorização prévia do país que lhe concedeu refúgio. 
D) Refugiados 
· Convenção de 1951
Em 1951, foi aprovada a primeira grande Convenção sobre refugiados, a qual está em vigor até hoje e é chamada de Carta Magna dos refugiados.
Conceito de refugiado da Convenção de 1951: "A pessoa que, em consequência dos acontecimentos ocorridos antes de 1º de Janeiro de 1951 e temendo ser perseguida por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas, se encontra fora do país de sua nacionalidade e que não pode, ou em virtude desse temor, não quer valer-se da proteção desse país, ou que se não tem nacionalidade e se encontra fora do país no qual tinha sua residência habitual e consequência de tais acontecimentos, não pode ou, devido ao referido temor, não quer voltar a ele (art. 1º, A, 2, da Convenção)."
Tem duas limitações no conceito da Convenção de 1951:
a) Limitação temporal: somente pessoas que, em razão de acontecimentos anteriores a 1º de janeiro de 1951, estivessem fugindo; ou seja, eles acreditavam que era um problema temporário, pontual.
b) Limitação geográfica: a outra limitação, que não está no artigo primeiro, mas está na Convenção, é a limitação geográfica. Apenas poderiam ser pessoas que estivessem fugindo da Europa.
· Protocolo de 1967
Posteriormente, em 1967, um protocolo modificou essa convenção e ajustou esse conceito, ampliando a aplicação da convenção. Depois do protocolo de 1967, refugiado é aquele que preenche três requisitos:
a) A pessoa que sofre perseguição: perseguição é entendida como qualquer ameaça à vida daquela pessoa, ou a sua liberdade.
b) Deve haver um fundado temor de perseguição: no refúgio,a perseguição não precisa ser atual; basta que haja um temor (um receio, subjetiva e objetivamente aferido).
c) E uma extraterritorialidade: quer dizer, a situação daquele que se encontra fora de seu país de origem ou de residência, o que a doutrina chama de alienage.
Refugiada é aquela pessoa que se encontra deslocada do seu local de origem ou de residência em razão de temor de perseguição.
· Diferenças entre asilo e refúgio
Na América Latina, é realizada essa distinção entre asilo e refúgio, mas fora da América Latina, asilo e refúgio são conceitos misturados. 
O refúgio é regido por tratados universais, tal como a convenção de 1951 e o protocolo de 1967. Enquanto o asilo é regido pelo costume internacional e por tratados regionais na América Latina desde 1889. O asilo é algo mais comum na América Latina, e o refúgio é uma questão universal.
O refúgio destina-se a vários tipos de perseguição - pode ser em razão da raça, de origem, de política, opinião política etc.; enquanto o asilo abarca somente perseguição por motivo político.
Refúgio pode ser concedido no caso de fundado temor de perseguição e o asilo exige a atualidade da perseguição. 
No refúgio, o solicitante de refúgio possui direito público subjetivo de ingresso no território nacional (é o único estrangeiro que possui tal direito), o que não ocorre com o solicitante de asilo.
O solicitante de refúgio chega até a parte do controle migratório e expressa sua vontade de solicitar refúgio. Ele recebe e preenche o formulário, seu pedido será apreciado, mas enquanto isso não ocorre, ele tem o direito subjetivo de permanecer no território em que ele solicitou refúgio. O asilado não tem esse direito subjetivo de ingresso em território. 
Não é decisão estatal que torna a pessoa refugiada, o ato estatal apenas reconhece que aquela pessoa é refugiada quando presentes os requisitos, sendo, portanto, um ato vinculado.
Refúgio: ato declaratório e vinculado. Asilo: ato constitutivo e discricionário.
· Princípio do non-refoulement
Artigo 33, parágrafo 1º da convenção de 1951: Nenhum dos Estados Contratantes expulsará ou rechaçara, de maneira alguma, um refugiado para as fronteiras dos territórios em que a sua vida ou a sua liberdade seja ameaçada em virtude da sua raça, da sua religião, da sua nacionalidade, do grupo social a que pertence ou das suas opiniões políticas.
O princípio do non-refoulement, também chamado de princípio da não devolução ou o princípio do não rechaço, diz que o Estado tem a obrigação de não devolver o solicitante de refúgio para o local onde ele sofre a perseguição. E o princípio do non-refoulement é hoje considerado uma norma de jus cogens. Tem previsão em normas internacionais como no art. 22, §8º, da CADH; art.3º da Convenção da ONU contra a Tortura e no art. 7º, §1º da Lei nº9.474/1997.
A Convenção também traz uma exceção ao princípio do non-refoulement: razões sérias para considerar o refugiado perigoso para a segurança do país onde se encontra, ou que, tendo sido objeto de uma condenação definitiva por um crime ou delito particularmente grave, constitua ameaça para a comunidade do dito país (art. 33, §2º).
O princípio do non-refoulement não é absoluto, nenhum princípio é absoluto, e neste dispositivo ocorre uma relativização do princípio do non-refoulement.
· O refugiado no direito brasileiro
O artigo 1º da Lei 9474 define o que é refugiado.
Art. 1º Será reconhecido como refugiado todo indivíduo que:
I - devido a fundados temores de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas encontre-se fora de seu país de nacionalidade e não possa ou não queira acolher-se à proteção de tal país;
II - não tendo nacionalidade e estando fora do país onde antes teve sua residência habitual, não possa ou não queira regressar a ele, em função das circunstâncias descritas no inciso anterior;
III – devido a grave e generalizada violação de direitos humanos é obrigado deixar o seu país de nacionalidade para buscar refúgio em outro país.
No terceiro inciso há uma novidade na lei em relação a Convenção de 51, pois a lei brasileira amplia o conceito de refugiado da Convenção de 51.
Logo, no Brasil, não é necessário que a pessoa sofra perseguição para ser refugiada, pode ser que ela seja reconhecida assim, por ter deixado seu país em razão de grave e generalizada violação de direitos humanos.
· Relação entre refugiado e extradição
Artigo 33.O reconhecimento da condição de refugiado obstará o seguimento de qualquer pedido de extradição baseado nos fatos que fundamentaram a concessão de refúgio.
Artigo 34. A solicitação de refúgio suspenderá, até decisão definitiva, qualquer processo de extradição pendente, em fazer administrativa ou judicial, baseado nos fatos que fundamentaram a concessão de refúgio.
Em síntese, se a pessoa solicitar reconhecimento da condição de refugiado o processo de extradição deve ser suspenso, e se a pessoa obtiver o reconhecimento da condição de refugiado, o processo é extinto.
· A possibilidade de controle judicial
É cabível controle jurisdicional do ato que reconheça a condição de refugiado, pois o ato é vinculado.
E) Medidas de retirada compulsória do migrante 
Antes da Lei de Migração, eram estudadas três medidas: a deportação, a expulsão e a extradição. Hoje, com a nova lei de migração, houve mudanças, pois a extradição saiu dessas medidas e foi para a cooperação jurídica internacional. No lugar da extradição, entrou a repatriação. Hoje, portanto, as três medidas de retirada compulsória do migrante são: repatriação, deportação e expulsão.
Art. 47. A repatriação, a deportação e a expulsão serão feitas para o país de nacionalidade ou de procedência do migrante ou do visitante, ou para outro que o aceite, em observância aos tratados dos quais o Brasil seja parte.
Art. 48. Nos casos de deportação ou expulsão, o chefe da unidade da Polícia Federal poderá representar perante o juízo federal, respeitados, nos procedimentos judiciais, os direitos à ampla defesa e ao devido processo legal.
· Repatriação
Art. 49. A repatriação consiste em medida administrativa de devolução de pessoa em situação de impedimento ao país de procedência ou de nacionalidade.
§ 1º Será feita imediata comunicação do ato fundamentado de repatriação à empresa transportadora e à autoridade consular do país de procedência ou de nacionalidade do migrante ou do visitante, ou a quem o representa.
§ 2º A Defensoria Pública da União será notificada, preferencialmente por via eletrônica, no caso do § 4º deste artigo ou quando a repatriação imediata não seja possível.
§ 3º Condições específicas de repatriação podem ser definidas por regulamento ou tratado, observados os princípios e as garantias previstos nesta Lei.
§ 4º Não será aplicada medida de repatriação à pessoa em situação de refúgio ou de apatridia, de fato ou de direito, ao menor de 18 (dezoito) anos desacompanhado ou separado de sua família, exceto nos casos em que se demonstrar favorável para a garantia de seus direitos ou para a reintegração a sua família de origem, ou a quem necessite de acolhimento humanitário, nem, em qualquer caso, medida de devolução para país ou região que possa apresentar risco à vida, à integridade pessoal ou à liberdade da pessoa.
Art. 61. Não se procederá à repatriação, à deportação ou à expulsão coletivas.
Parágrafo único. Entende-se por repatriação, deportação ou expulsão coletiva aquela que não individualiza a situação migratória irregular de cada pessoa.
Art. 62. Não se procederá à repatriação, à deportação ou à expulsão de nenhum indivíduo quando subsistirem razões para acreditar que a medida poderá colocar em risco a vida ou a integridade pessoal.
· Deportação
Art. 50. A deportação é medida decorrente de procedimento administrativo que consiste na retirada compulsória de pessoa que se encontre em situação migratória irregular em território nacional.
§ 1º A deportação será precedida de notificação pessoal ao deportando, da qual constem, expressamente, as irregularidades verificadas e prazo paraa regularização não inferior a 60 (sessenta) dias, podendo ser prorrogado, por igual período, por despacho fundamentado e mediante compromisso de a pessoa manter atualizadas suas informações domiciliares.
§ 2º A notificação prevista no § 1º não impede a livre circulação em território nacional, devendo o deportando informar seu domicílio e suas atividades.
§ 3º Vencido o prazo do § 1º sem que se regularize a situação migratória, a deportação poderá ser executada.
§ 4º A deportação não exclui eventuais direitos adquiridos em relações contratuais ou decorrentes da lei brasileira.
§ 5º A saída voluntária de pessoa notificada para deixar o País equivale ao cumprimento da notificação de deportação para todos os fins.
§ 6º O prazo previsto no § 1º poderá ser reduzido nos casos que se enquadrem no inciso IX do art. 45.
Art. 51. Os procedimentos conducentes à deportação devem respeitar o contraditório e a ampla defesa e a garantia de recurso com efeito suspensivo.
§ 1º A Defensoria Pública da União deverá ser notificada, preferencialmente por meio eletrônico, para prestação de assistência ao deportando em todos os procedimentos administrativos de deportação.
§ 2º A ausência de manifestação da Defensoria Pública da União, desde que prévia e devidamente notificada, não impedirá a efetivação da medida de deportação.
Art. 52. Em se tratando de apátrida, o procedimento de deportação dependerá de prévia autorização da autoridade competente.
Art. 53. Não se procederá à deportação se a medida configurar extradição não admitida pela legislação brasileira.
A ideia chave na deportação é "situação migratória irregular", ou seja, é a situação documental irregular. Já na repatriação, a ideia chave é o impedimento de ingresso.
Nesse processo administrativo, se a pessoa não tiver advogado, deve haver participação da DPU (art.51,§1º)
Se um Estado estrangeiro tiver interesse em processar ou aplicar uma pena a alguém que está no Brasil, o procedimento é extradição. Nesses casos, o Brasil não pode utilizar nenhuma outra desculpa para poder encaminhar essa pessoa para o estado solicitante, inclusive a deportação. Assim, não se admite extradição dissimulada, ou seja, não seria possível extraditar, mas procura-se alguma falha documental e, como o sujeito está com um documento irregular, encaminha-se essa pessoa para o Estado requerente de extradição. 
Não se pode deportar o indivíduo que solicita refúgio no Brasil, a luz do princípio do non-refoulement.
Não se pode deportar a pessoa para o país onde ela sofre perseguição ou, no caso do Brasil, onde ocorrem graves e generalizada violação de direitos humanos.
· Expulsão
Art. 54. A expulsão consiste em medida administrativa de retirada compulsória de migrante ou visitante do território nacional, conjugada com o impedimento de reingresso por prazo determinado.
§ 1º Poderá dar causa à expulsão a condenação com sentença transitada em julgado relativa à prática de:
I - crime de genocídio, crime contra a humanidade, crime de guerra ou crime de agressão, nos termos definidos pelo Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional, de 1998, promulgado pelo Decreto no 4.388, de 25 de setembro de 2002; ou
II - crime comum doloso passível de pena privativa de liberdade, consideradas a gravidade e as possibilidades de ressocialização em território nacional.
§ 2º Caberá à autoridade competente resolver sobre a expulsão, a duração do impedimento de reingresso e a suspensão ou a revogação dos efeitos da expulsão, observado o disposto nesta Lei.
§ 3º O processamento da expulsão em caso de crime comum não prejudicará a progressão de regime, o cumprimento da pena, a suspensão condicional do processo, a comutação da pena ou a concessão de pena alternativa, de indulto coletivo ou individual, de anistia ou de quaisquer benefícios concedidos em igualdade de condições ao nacional brasileiro.
§ 4º O prazo de vigência da medida de impedimento vinculada aos efeitos da expulsão será proporcional ao prazo total da pena aplicada e nunca será superior ao dobro de seu tempo.
Art. 55. Não se procederá à expulsão quando:
I - a medida configurar extradição inadmitida pela legislação brasileira;
II - o expulsando:
a) tiver filho brasileiro que esteja sob sua guarda ou dependência econômica ou socioafetiva ou tiver pessoa brasileira sob sua tutela;
b) tiver cônjuge ou companheiro residente no Brasil, sem discriminação alguma, reconhecido judicial ou legalmente;
c) tiver ingressado no Brasil até os 12 (doze) anos de idade, residindo desde então no País;
d) for pessoa com mais de 70 (setenta) anos que resida no País há mais de 10 (dez) anos, considerados a gravidade e o fundamento da expulsão; ou
e) (VETADO).
Art. 58. No processo de expulsão serão garantidos o contraditório e a ampla defesa.
§ 1º A Defensoria Pública da União será notificada da instauração de processo de expulsão, se não houver defensor constituído.
§ 2º Caberá pedido de reconsideração da decisão sobre a expulsão no prazo de 10 (dez) dias, a contar da notificação pessoal do expulsando.
Art. 59. Será considerada regular a situação migratória do expulsando cujo processo esteja pendente de decisão, nas condições previstas no art. 55.
Art. 60. A existência de processo de expulsão não impede a saída voluntária do expulsando do País.
Na lei anterior, declarava-se: pode ser expulso aquele que praticar atividade nociva aos interesses nacionais ou ato atentatório à soberania nacional, ou seja, uma cláusula muito genérica que poderia levar a abusos.
Hoje, a definição de expulsão está no art. 54 da Lei de migração e possui prazo determinado.
Antes, no estatuto do estrangeiro não tinha nenhuma menção a prazo para possibilitar o regresso daquele que foi expulso ao território nacional, a pessoa só poderia reingressar se o decreto de expulsão fosse revogado. Era perpétua a penalidade administrativa de expulsão do estrangeiro. 
Resumo: expulsão = medida administrativa de retirada combinada com proibição de regresso por tempo determinado.
Hoje, as hipóteses que dão ensejo à expulsão são claramente definidas, taxativas, para evitar abusos. 
Atualmente, para ser expulso, tem que ter uma condenação com sentença transitada e julgado por:
· crime de genocídio, crime contra humanidade, crime de guerra ou crime de agressão, nos termos definidos pelo Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional, de 1998 ou
· crime comum doloso passível de pena privativa de liberdade, consideradas a gravidade e as possibilidades de ressocialização em território nacional.
O art. 54, §3º, da Lei de migração, foi incorporação da jurisprudência do Supremo, que consolidou a jurisprudência no sentido de que o fato de ter um processo de expulsão em andamento não impede o estrangeiro de ter alguns dos benefícios penais comuns, disponíveis para um preso brasileiro.
Estudo de algumas vedações à expulsão:
a) Quando o expulsando tiver filho brasileiro que esteja sob sua guarda ou dependência econômica ou socioafetiva ou tiver pessoa brasileira sub sua tutela (art. 55, II, a). Já tinha súmula do Supremo neste sentido e a Lei de Migração acolheu essa vedação. Destaca-se que não adianta ter filho brasileiro se não cuidar deste, não o ter sob sua guarda ou dependência.
b) Não se procede também a expulsão coletiva, entendida como aquela que não individualiza a situação migratória irregular de cada pessoa (art. 61 e art. 22, §9º da CADH).
c) Quando subsistirem razões para acreditar que a medida poderá colocar em risco a vida ou a integridade pessoal (art. 62). 
d) Não procede tampouco a expulsão do estrangeiro pretendente do refúgio, por força do princípio do non-refoulement.
1.6. Direito Diplomático e Consular
As relações diplomáticas são diferentes das relações consulares, razão pela qual têm duas convenções diferentes, uma para cada tema (CRVD de 1961 e da CRVC de 1963).
A) Agentes diplomáticos
O que caracteriza e é essencial na atuação dos agentes diplomáticos é a representação em assuntos de Estado, ou seja, o agente diplomático representa o Estado em assuntos públicos. 
NoBrasil, para fazer parte da carreira diplomática é necessário ser brasileiro nato nos termos do art. 12, p. 3, V, CRFB. Além disso, é necessária a aprovação no CACD - Curso de Admissão à Carreira Diplomática.
Em que pese as diferenças, é normal, no país, a confusão entre relações diplomáticas e consulares porque os representantes de ambas as funções fazem parte da mesma carreira, isto é, o concurso é o mesmo e é na prática que se faz a distinção entre quem será diplomata e cônsul.
Vale ressaltar, ainda, que para ser chefe de missão diplomática é necessária aprovação do Senado, conforme art. 52, IV, CRFB.
A) Missão diplomática
Na missão diplomática há três categorias de pessoal:
· Pessoal diplomático: constituído pelo pessoal que tem formação diplomática;
· Pessoal administrativo e técnico: é o pessoal que realiza as atividades administrativas e técnicas e auxilia o pessoal que tem qualidade de diplomata; 
· Pessoal de serviço: a Convenção fala em serviços domésticos, mas é todo tipo de pessoa responsável pelas atividades subalternas da missão.
A.1) Funções da missão diplomática (art. 3º)
A CVRD de 1961 relaciona as funções de uma missão diplomática:
· Representar o Estado acreditante perante o Estado acreditado: o Estado que envia o diplomata é chamado de acreditante, e o Estado que recebe o diplomata é o acreditado. A missão, portanto, representa o Estado que envia o diplomata;
· Proteger no Estado acreditado os interesses do Estado acreditante e de seus nacionais, dentro dos limites permitidos pelo direito internacional; 
· Negociar com o Governo do Estado acreditado; 
· Inteirar-se por todos os meios lícitos das condições existentes e da evolução dos acontecimentos no Estado acreditado e informar a esse respeito o Governo do Estado acreditante;
· Promover relações amistosas e desenvolver as relações econômicas, culturais e científicas entre o Estado acreditante e o Estado acreditado
A.2) Direito de legação
É o direito de enviar e receber representantes diplomáticos. Ele pode ser ativo, referente ao direito de enviar representantes, ou passivo, no que tange a recebê-los. Além disso, o direito de legação é discricionário, isto é, o Estado não é obrigado a estabelecer a missão, há apenas a faculdade de fazê-la.
A.3) Agrément (art. 4º)
O Estado acreditante submete ao Estado acreditado o nome daquela pessoa e a aprovação dessa indicação se chama agrément, que é um ato discricionário. Com efeito, a CVRD fala claramente que o Estado acreditado não é obrigado a informar os motivos da recusa.
A.4) Imunidades e prerrogativas diplomáticas
Os membros da missão (pessoal diplomático, pessoal administrativo e técnico, pessoal de serviço) gozam de imunidade e prerrogativas, que são derrogações do direito local sobre esses indivíduos.
Estas imunidades e prerrogativas têm como fundamento a teoria do interesse da função, isto é, servem para viabilizar o bom exercício da função diplomática.
Discute-se a natureza jurídica do local da missão diplomática, que é a embaixada. A antiga teoria da extraterritorialidade, a qual já foi superada, defende que a embaixada seria território do Estado acreditante dentro do território do Estado acreditado. A teoria que prevalece é que a embaixada de outro Estado em território brasileiro não é território estrangeiro no Brasil, é território nacional, mas que goza de algumas inviolabilidades.
· Agentes diplomáticos
a) Imunidade penal de agentes diplomáticos
O pessoal diplomático goza de amplíssima imunidade penal. Tanto um diplomata estrangeiro no Brasil, quanto um diplomata brasileiro no exterior, não pode ser processado nem condenado pelo Estado acreditado. Essa imunidade abrange todos os atos que ele pratica, não apenas os atos de ofício, mas os atos privados também. Abrange, ainda, todos os atos que a sua família praticar.
Vale ressaltar que a Convenção estipula que essa imunidade só abrange estrangeiros, isto é, não se aplica aos nacionais do Estado acreditado que estejam em seu território.
Exceções:
· Processo no Estado de origem: Esta imunidade penal é só no Estado acreditado, isto é, não abrange o Estado acreditante, o qual, se tiver competência para julgar aquele crime, poderá fazê-lo.
· Renúncia (art. 32): O Estado acreditante pode renunciar à imunidade, mas o próprio diplomata não pode.
· Nacionalidade do Estado acreditado: De acordo com a Convenção, o diplomata tem que ser da nacionalidade do Estado acreditante, mas o familiar dele pode ser da nacionalidade do Estado acreditado, razão pela qual, nesse caso, não terá imunidade penal e poderá haver processo e julgamento.
· Crimes de competência do TPI: Essa exceção não está na CVRD de 1961, mas o Estatuto de Roma do TPI, que adota o princípio da irrelevância da qualidade oficial. Assim, nenhuma das imunidades próprias de Chefe de Estado, Chefe de Governo, diplomata, ou funcionário consular se aplica aos crimes de competência de TPI. Em qualquer caso, se o sujeito cometer crime de genocídio, crime contra a humanidade, crime de agressão ou crime de guerra, não incidirá a imunidade penal.
b) Imunidade cível dos agentes diplomáticos
A imunidade cível dos agentes diplomáticos também é amplíssima, abrangendo todos os atos praticados pelo diplomata e sua família. 
As exceções trazidas pelo art. 31 da Convenção são:
· Imóveis particulares que não o residencial;
· Causas sucessórias;
· Reconvenções e ações referentes a profissões liberais e atividades comerciais.
c) Inviolabilidades dos agentes diplomáticos
Os agentes diplomáticos não podem ser presos, isto é, não podem ser objeto de detenção ou prisão, e essa inviolabilidade alcança todos os atos do diplomata e de sua família. 
A inviolabilidade vai para além da pessoa do diplomata e de seus familiares, abrangendo sua residência, documentos e correspondências.
d) Isenção tributária dos agentes diplomáticos
A isenção tributária alcança todos os atos dos agentes diplomáticos e de sua família, à exceção dos seguintes dispostos no art. 34 da Convenção:
· Imóveis particulares que não o residencial;
· Causas sucessórias a título pessoal;
· Tributos indiretos;
· Tarifas de serviços públicos;
· Rendimentos privados;
· Sobre o capital;
· Referentes a investimentos em empresas.
e) Há liberação de depor como testemunha.
· Pessoal administrativo e técnico (art. 37, p. 2)
As imunidades do pessoal administrativo e técnico limitam-se aos atos de ofício. Por outro lado, assim como no caso dos agentes diplomáticos, as imunidades do pessoal administrativo e técnico estende-se aos seus familiares.
· Pessoal de serviço (art. 3, p. 3º)
As imunidades do pessoal de serviço limitam-se aos atos de ofício e não se estendem aos seus familiares.
OBSERVAÇÃO: os criados particulares, ou seja, os funcionários particulares contratados pelos agentes diplomáticos não têm qualquer grau de imunidade.
À medida em que se desce de categoria do pessoal da missão, vão afunilando as imunidades e prerrogativas. 
B) Direito Consular 
B.1) Funcionários consulares
Os funcionários consulares representam o Estado em assuntos privados, geralmente dando assistência ao imigrante, isto é, ao nacional que está no exterior, e funciona também como uma espécie de cartório. As relações consulares são reguladas pela Convenção de Viena sobre Relações Consulares de 1963.
O art. 2º da CVRC diz que, quando são estabelecidas as relações diplomáticas, presume-se que serão estabelecidas também relações consulares, salvo disposição em contrário. Contudo, a ruptura de relações diplomáticas não implica na extinção das relações consulares.
Enquanto nas relações diplomáticas fala-se em Estado acreditante e Estado acreditado, no caso das relações consulares a terminologia utilizada é Estado de envio e Estado receptor.
Existem dois tipos de funcionários consulares:
· De carreira ou missi: Esses são os funcionários que somente podem ser da nacionalidade do Estado de envio;
· Honorários ou electi: Esses são os funcionários que podem ser de qualquer nacionalidade. Um brasileiro, por exemplo, que morou um tempo na Tailândia, conheceu muitosempresários de lá e a cultura local, ao retornar ao Brasil pode ser chamado para ser cônsul honorário da Tailândia no país.
O documento que substancia a nomeação do chefe do consulado é a carta patente e a aceitação dessa nomeação se dá por meio do exequatur (nas relações diplomáticas, a aceitação do nome do chefe da missão se dá por meio do agrément).
B.2) Funções
· Proteger os interesses do Estado que envia e de seus nacionais: os funcionários consulares terão direito de visitar o nacional do Estado que envia, o qual estiver detido, encarcerado ou preso preventivamente, conversar e corresponder-se com ele, e providenciar sua defesa perante os tribunais. Terão igualmente o direito de visitar qualquer nacional do Estado que envia encarcerado, preso ou detido em sua jurisdição em virtude de execução de uma sentença, todavia, os funcionários consulares deverão abster-se de intervir em favor de um nacional encarcerado, preso ou detido preventivamente, sempre que o interessado a isso se opuser expressamente.
· Fomentar o desenvolvimento das relações entre os Estados;
· Informar-se do Estado receptor;
· Expedir documentos de viagem;
· Prestar ajuda e assistência aos nacionais do Estado de envio;
· Ser notário e oficial de registro civil.
B.3) Imunidades e prerrogativas consulares
As imunidades penal e cível dos agentes consulares são relativas, porque somente abrangem os atos de ofício, isto é, não abrangem os atos privados.
As isenções tributárias são relativas:
ARTIGO 49º
Isenção fiscal
1. Os funcionários e empregados consulares, assim como os membros de suas famílias que com eles vivam, estarão isentos de quaisquer impostos e taxas, pessoais ou reais, nacionais, regionais ou municipais, com exceção dos:
a) impostos indiretos normalmente incluídos no preço das mercadorias ou serviços;
b) impostos e taxas sobre bens imóveis privados situados no território do Estado receptor sem prejuízo das disposições do artigo 32;
c) impostos de sucessão e de transmissão exigíveis pelo Estado receptor, sem prejuízo das disposições do parágrafo b do artigo 51;
d) impostos e taxas sobre rendas particulares, inclusive rendas de capital, que tenham origem no Estado receptor, e impostos sobre capital, correspondentes a investimentos realizados em empresas comerciais ou financeiras situadas no Estado receptor;
e) impostos e taxas percebidos como remuneração de serviços específicos prestados;
f) direitos de registro, taxas judiciárias, hipoteca e selo, sem prejuízo do disposto no artigo 32.
2. Os membros do pessoal de serviço estarão isentos de impostos e taxas sobre salários que recebam como remuneração de seus serviços.
3. Os membros da repartição consular que empregarem pessoas cujos ordenados ou salários não estejam isentos de impostos de renda no Estado receptor deverão respeitar as obrigações que as leis e regulamentos do referido Estado impuserem aos empregadores em matéria de cobrança do imposto de renda.
A inviolabilidade pessoal é relativa, nos termos do art. 41 da CVRC. Assim, enquanto os agentes diplomáticos têm inviolabilidade praticamente absoluta, abrangendo todos os seus atos e de seus familiares, os funcionários consulares têm inviolabilidade somente quanto aos atos de ofício e eles podem ser presos em decorrência de crime grave, desde que haja decisão judicial.
ARTIGO 41º
Inviolabilidade pessoal dos funcionários consulares
1. Os funcionários consulares não poderão ser detidos ou presos preventivamente, exceto em caso de crime grave e em decorrência de decisão de autoridade judiciária competente.
2. Exceto no caso previsto no parágrafo 1 do presente artigo, os funcionários consulares não podem ser presos nem submetidos a qualquer outra forma de limitação de sua liberdade pessoal, senão em decorrência de sentença judiciária definitiva.
3. Quando se instaurar processo penal contra um funcionário consular, este será obrigado a comparecer perante as autoridades competentes. Todavia, as diligências serão conduzidas com as deferências devidas à sua posição oficial e, exceto no caso previsto no parágrafo 1 deste artigo, de maneira a que perturbe o menos possível o exercício das funções consulares. Quando, nas circunstâncias previstas no parágrafo 1 deste artigo, for necessário decretar a prisão preventiva de um funcionário consular, o processo correspondente deverá iniciar-se sem a menor demora.
Os funcionários consulares são liberados de depor como testemunha quanto aos atos de ofício, isto é, não podem ser chamados a testemunhar sobre o que fazem em sua atividade-fim, logo, a liberação para depor como testemunha também é relativa, conforme o art. 44 da CRVC.
1.7. Direito de integração – Direito Comunitário
Integração regional é a aproximação entre Estados que normalmente compartilham alguma afinidade e que decidem oferecer uns aos outros determinadas vantagens. É a aproximação entre Estados baseada, principalmente, na parte econômica, característica que efetivamente define a integração regional, mas que pode ultrapassar esse elemento. Tornou-se mais comum após o período da Guerra Fria.
A doutrina fala em cinco fases da integração regional:
1º - Zona de livre comércio: os Estados formam um bloco regional e econômico que, quando possui natureza de zona de livre comércio, há uma facilidade de circulação de mercadorias dentro dele;
2º - União aduaneira: À medida que se passa de uma fase para outra, intensifica-se a integração. A segunda fase é a união aduaneira e tem como característica a existência de regras comuns para importações de fora do bloco. Por meio da TEC (tarifa externa comum), os Estados adotam políticas padronizadas;
3º - Mercado comum: é a terceira fase e é marcado pela livre circulação de todos os fatores de produção, isto é, não apenas mercadorias, mas trabalhadores, capital e bens circulam livremente dentro do bloco;
4º - União econômica e monetária: começa a haver uma coordenação de políticas macroeconômicas, ou seja, fatores como juros e câmbio começam a ser coordenados de uma forma padronizada dentro do bloco;
5º - União política: passa a haver coordenação de ações no campo político, sendo o grau mais profundo e avançado de integração regional.
1.7.1. Mercosul
Leitura obrigatória
· Tratado de assunção - art. 1º;
· Protocolo de Ouro Preto - arts. 1º ao 16; 20; 34; 36; 37; 41 e 42;
· Protocolo de Olivos: arts. 1º, 3º, 4º, 9º, 10, 17, 18, 23, 39, 54, 55;
· Acordo sobre assistência judiciária gratuita: arts. 3º e 4º;
· Protocolo de medidas cautelares: art. 17;
· Protocolo de Assunção sobre compromisso com a promoção e a proteção dos direitos humanos: art. 3º.
A) Características do MERCOSUL
O Mercosul é um bloco de integração regional, isto é, um bloco econômico. 
O objetivo do Mercosul é o desenvolvimento regional por meio da criação de um espaço econômico comum. Nesse sentido, apesar de se chamar "Mercado comum do Sul", o bloco ainda não está efetivamente na fase de mercado comum.
Hoje é uma união aduaneira, isto é, caracteriza-se pela existência da TEC. A doutrina diz que o Mercosul é uma união aduaneira imperfeita, porque a TEC é cheia de exceções, e a política externa em relação às importações de fora do bloco é bem relativizada.
Ao longo da década de 1980, Brasil e Argentina começaram a fazer negociações referentes à criação de um bloco. Paraguai e Uruguai se aproximaram também e, em 1991, foi assinado o Tratado de Assunção, que é o tratado constitutivo do Mercosul. 
B) Membros
Mercosul tem como membros o Brasil, a Argentina, o Paraguai e o Uruguai, que são os membros originários. A Venezuela entrou depois, mas foi suspensa em 2016 por violação do compromisso democrático no âmbito do bloco, problema que permanece até o presente momento.
O ingresso de um membro no Mercosul requer deliberações com consenso unânime. 
Além disso, a Bolívia está em processo de adesão ao Mercosul, e todos os demais Estados sul-americanos são associados - o que é diferente de ser membro.
C) Fontes (art. 41 do POP)
O art. 41 do Protocolo de Ouro Preto traz o rol das fontes do Mercosul, que são:
· Tratadode Assunção e seus protocolos ou tratados fundacionais (Protocolo de Ouro Preto, Protocolo de Ushuaia, Protocolo de Olivos, Protocolo de Assunção e Protocolo Constitutivo do Parlamento): O POP organizou a estrutura institucional do Mercosul, isto é, ele diz o que é cada um dos órgãos, a competência de cada um deles e sua composição. Além disso, ele atribui expressamente personalidade jurídica de direito internacional ao Mercosul.
O Protocolo de Ushuaia é outro tratado fundacional do Mercosul e cuida do compromisso democrático no âmbito do bloco. 
O Protocolo de Olivos cuida da solução de controvérsias no Mercosul. 
Há também o Protocolo de Assunção, o qual cuida da questão de promoção e proteção dos direitos humanos no âmbito do Mercosul, e, por fim, o Protocolo Constitutivo do Parlamento.
Ademais, há outras normas no bloco como o Protocolo de Las Leñas, sobre cooperação jurídica internacional no âmbito do Mercosul, e o Protocolo das Medidas Cautelares.
· Acordos celebrados no âmbito do bloco e protocolos;
· Decisões do Conselho do Mercado Comum, Resoluções do Grupo de Mercado Comum e Diretrizes da Comissão de Comércio do Mercosul.
Fontes Jurídicas do Mercosul
Artigo 41
As fontes jurídicas do Mercosul são:
I - o Tratado de Assunção, seus protocolos e os instrumentos adicionais ou complementares;
II - os acordos celebrados no âmbito do Tratado de Assunção e seus protocolos;
III - as Decisões do Conselho do Mercado Comum, as Resoluções do Grupo Mercado Comum e as Diretrizes da Comissão do Mercosul, adotadas deste a entrada em vigor do Tratado de Assunção.
Artigo 42
As normas emanadas dos órgãos do Mercosul previstos no Artigo 2 deste Protocolo terão caráter obrigatório e deverão, quando necessário, ser incorporadas aos ordenamentos jurídicos nacionais mediante os procedimentos previstos pela legislação de cada país.
Artigo 2
São órgãos com capacidade decisória, de natureza intergovernamental, o Conselho do Mercado Comum, o Grupo Mercado Comum e a Comissão de Comércio do Mercosul.
D) Estrutura funcional
A estrutura funcional do Mercosul baseada no POP é:
Estrutura do Mercosul
Artigo 1
A estrutura institucional do Mercosul contará com os seguintes órgãos:
I - O Conselho do Mercado comum (CMC);
II - O Grupo Mercado Comum (GMC);
III - A Comissão de Comércio do Mercosul (CCM);
IV - A Comissão Parlamentar Conjunta (CPC);
V - O Foro Consultivo Econômico-Social (FCES);
VI - A Secretaria Administrativa do Mercosul (SAM).
Parágrafo único - Poderão ser criados, nos termos do presente Protocolo, os órgãos auxiliares que se fizerem necessários à consecução dos objetivos do processo de integração.
No organograma do Mercosul, constam outros órgãos criados por protocolos ou tratados específicos, como o Tribunal Administrativo Laboral e grupos de trabalho criados por acordos, mas a estrutura principal, isto é, os principais órgãos do bloco são estes previstos no POP.
O CMC, o GMC e o CCM são órgãos decisórios. O Parlamento do Mercosul é o único que não está no POP porque o protocolo fala em comissão parlamentar conjunta, a qual foi extinta e sucedida pelo Parlasul, criado pelo Protocolo Constitutivo do Parlamento do Mercosul.
· Conselho do mercado comum
Órgão superior responsável pela condução política do bloco (art. 3º POP). As decisões políticas, como, por exemplo, se o bloco se expandirá mais, se fechará ou se desenvolverá etc., são tomadas pelo CMC que é o órgão superior de condução política do Mercosul.
É formado pelos Ministros das Relações Exteriores e Ministros da Economia dos membros do bloco (art. 4º). Além disso, a presidência do CMC é pro tempore (art. 5º), isto é, é alternada pelos Estados que compõem o bloco.
O POP afirma, ainda, que o CMC exerce a titularidade da personalidade jurídica do Mercosul (art. 8º, III). Vale ressaltar também que os atos praticados pelo órgão são chamados de decisões, as quais são vinculantes (art. 9º).
· Grupo mercado comum
Órgão executivo (art. 10) logo abaixo do CMC. Ele é formado por quatro membros titulares e quatro alternos, necessariamente representantes do Ministério das Relações Exteriores, do Ministério da Economia e do Banco Central de cada Estado (art. 11). Os atos praticados pelo órgão são chamados de resoluções, as quais são vinculantes (art. 15).
· Comissão do comércio do Mercosul
O último órgão decisório do Mercosul é a Comissão do Comércio, que é órgão decisório técnico. Sendo assim, o CMC é um órgão político superior, o GMC é o órgão executivo, e a CCM é o órgão técnico. 
Assiste o GMC em suas deliberações (art. 16). É formado por quatro membros titulares e quatro alternos (art. 17). Os atos praticados pelo órgão são chamados de diretrizes, as quais são vinculantes, ou propostas (art. 20).
· Parlamento do Mercosul
Esse órgão sucedeu a Comissão Parlamentar Conjunta, a qual ainda consta do texto do POP, mas foi extinta e substituída pelo Parlasul, criado pelo Protocolo Constitutivo do Parlamento do Mercosul. 
É um órgão de representação dos povos do Mercosul e é autônomo e independente (art. 1º do PCPM). Vale ressaltar que não é um órgão de representação dos Estados, mas sim dos povos.
· Foro consultivo econômico e social
Órgão de representação dos setores econômicos e sociais do bloco (art. 28 do POP), cuja função é consultiva, isto é, dar pareceres, informações, relatórios sobre as questões que são colocadas (art. 29).
· Secretaria administrativa
Órgão de apoio operacional (art. 31). Com efeito, todo organismo internacional tem um órgão plenário e uma secretaria administrativa, que tem competência para resolver questões burocráticas e administrativas. É sediada em Montevidéu e é chefiada por um diretor (art. 33).
E) Solução de controvérsias
Regulamentada no Protocolo de Olivos (2002), o qual revogou o Protocolo de Brasília, que costumava tratar da matéria. 
Sendo assim, se os Estados tiverem alguma discussão acerca da aplicação de um tratado, protocolo ou acordo, deve-se seguir as seguintes etapas:
I. Negociações diretas (15 dias): os países do Mercosul devem, primeiramente, em caso de desacordo, se reunir para conversarem e tentarem resolver. Depois de comunicada a divergência ao Mercosul, os Estados têm 15 dias para realizarem essas negociações diretas.
II. GMC - facultativo (30 dias): Caso os países não cheguem a um acordo no período de 15 dias de negociações diretas, pode-se solicitar apoio ao GMC para que ele ajude as partes a chegarem em um consenso durante 30 dias, mas isso é facultativo.
III. Procedimento arbitral ad hoc (60 dias, prorrogáveis por 30): Caso as negociações diretas restem infrutíferas, as partes podem pedir apoio ao GMC ou recorrerem diretamente das negociações diretas para o procedimento arbitral ad hoc. É constituída uma comissão de arbitragem com 3 membros que dará um laudo arbitral dentro de 60 dias, prorrogáveis por 30 dias.
IV. Recurso de revisão para o Tribunal Permanente de Revisão - 30 dias - possibilidade de acesso direto: Se houver alguma parte insatisfeita em relação ao laudo arbitral realizado pela comissão de arbitragem, a parte poderá apresentar um recurso de revisão ao Tribunal Permanente de Revisão do Mercosul, o qual terá o prazo de 30 dias para decidir o recurso. É possível, ainda, pular das negociações diretas imediatamente para o Tribunal Permanente de Revisão, que, nesse caso, dará uma sentença.
1.8. Conflitos Internacionais; Processos Internacionais; TPI
A) Controvérsias Internacionais e soluções
Antigamente, os Estados tinham apenas uma forma de resolver seus conflitos: por meio da guerra. A guerra era considerada meio legítimo - existia até mesmo o conceito de guerra justa - para resolver as controvérsias internacionais. 
Posteriormente, os Estados começaram a se reunir e negociar; sendo a Conferência da Paz de 1899, em Haia, a primeira conferência sobre o tema, em que os Estados começaram a discutir sobre meios pacíficos para resolução dos conflitos.
Primeiramente, pensou-se no tribunal permanente de arbitragem, depois começou-se a discutir a necessidade de cortes internacionais, e a guerra tornou-seilícita. Hoje, ela é proibida pelo Direito Internacional. No entanto, é importante mencionar que existem três situações em que se relativiza a ilicitude dos conflitos armados:
a) Legítima defesa: quando um Estado é atacado, ele pode reagir proporcionalmente até a intervenção do Conselho de Segurança das Nações Unidas;
b) Ação coercitiva do Conselho de Segurança das Nações Unidas: imagine que um membro das Nações Unidas está com alguma dificuldade, como, por exemplo, falta de controle, insurreições e demais problemas internos. Nesse caso, o Conselho de Segurança das Nações Unidas pode entrar com uma ação coercitiva. Isto é, atuar de forma militar para alcançar a paz;
c) Movimentos de libertação nacional: admite-se, no direito internacional, que pessoas peguem em armas para lutar contra regimes autoritários, genocidas e racistas.
Hoje é considerada um ato ilícito pelo Direito Internacional e, por esse motivo, deve-se buscar sempre meios pacíficos de solução de controvérsias internacionais.
O conceito de controvérsia internacional foi expresso pela primeira vez no Estatuto da Corte Permanente de Justiça Internacional: controvérsia internacional é todo desacordo sobre certo ponto de direito ou de fato ou toda contradição ou oposição de teses jurídicas ou de interesses entre dois Estados.
Os mecanismos de solução de controvérsias internacionais são mencionados em algumas normas internacionais. Por exemplo, no artigo 33, da Carta da ONU, e no artigo 25, da Carta da OEA, onde há um rol exemplificativo de meios de solução de controvérsias internacionais.
Importante lembrar que os Estados que são membros da ONU e da OEA são obrigados a resolver suas controvérsias de forma pacífica.
A guerra é meio não-pacífico de resolução de conflitos. Nos tópicos abaixo, veem-se os modos pacíficos de resolução.
A.1) Meios diplomáticos de solução de controvérsias
São baseados no diálogo:
a) Negociação: solução de controvérsias internacionais que se dá por meio de entendimentos diretos entre as partes. A negociação pode chegar a uma transação em que há concessões recíprocas, uma renúncia, abdicação de direitos de uma parte ou ainda do reconhecimento;
b) Bons ofícios: há a participação de um terceiro imparcial, chamado de prestador de bons ofícios. Um exemplo muito comum de atuação é do Papa. O que caracteriza essa modalidade de solução de controvérsias internacionais é que o terceiro não tem o poder de oferecer soluções, ele apenas aproxima as partes. Ele leva as partes para um lugar neutro e aproxima, incentiva, estimula o diálogo, mas ele não pode sugerir nenhuma solução;
c) Mediação: é o mesmo caso dos bons ofícios. No entanto, o terceiro, o mediador, pode apresentar soluções que não são evidentemente vinculantes para as partes;
d) Conciliação: nesse caso, também há um terceiro que aproxima as partes. Entretanto, o terceiro na conciliação é uma comissão de conciliação. Isto é, não é nem um prestador de bons ofícios, nem um mediador; é um conjunto de pessoas que possuem poder para apresentar uma sugestão que também não é vinculante;
e) Consulta: é a previsão em tratados internacionais de encontros periódicos entre as partes para que elas possam resolver suas pendências. Por exemplo, as partes podem celebrar tratados e colocar uma cláusula que de 5 em 5 anos se encontrarão para aferir a aplicação do tratado e resolver pendências;
f) Inquérito ou fact finding: meio de apuração de determinados fatos. Alguns autores mencionam que o inquérito não é realmente um meio de solução de controvérsias e que apenas serviria para instruir um outro mecanismo de solução de controvérsias. No entanto, a doutrina costuma colocá-lo nesse rol. Quando um Estado é acusado de violar direitos em massa, uma comissão fará uma investigação em bloco e confeccionará um inquérito para investigar e apurar os fatos.
A.2) Meios políticos 
Ocorrem no seio das organizações internacionais. A principal organização internacional hoje é a ONU. 
Na ONU, existem dois órgãos responsáveis, com competência para resolver controvérsias internacionais: Assembleia geral das Nações Unidas e o Conselho de Segurança.
Isso também se dá no âmbito da Organização dos Estados Americanos (OEA), por meio dos seus organismos especializados.
OBSERVAÇÃO: não é qualquer controvérsia que pode ser levada para esses dois órgãos. Somente controvérsias com certo grau de gravidade. 
No Conselho de Segurança, há um grave problema de déficit democrático e, consequentemente, um certo engessamento. Isso porque o Conselho de Segurança tem membros permanentes com poder de veto e há uma heterogeneidade nesses membros permanentes, que geralmente utilizam o poder de veto para proteger seus interesses e de Estados aliados.
Por essa razão, o nome é “político” porque, nesses casos, prepondera a política e não o Direito. 
A.3) Meios jurisdicionais 
As soluções são determinadas com base no Direito. 
Conforme a sociedade internacional se desenvolve torna-se cada vez mais premente a criação de instâncias judiciais internacionais com competência para dirimir os conflitos de interesses porventura existentes entre os Estados, deixando-se de lado o recurso da força armada como meio de solução de controvérsias.
Os meios judiciais de solução de controvérsias internacionais são integrados pelos chamados tribunais internacionais de caráter e jurisdição permanentes, hoje espalhados por todo o mundo. O primeiro tribunal desse tipo foi a Corte de Justiça Centro-Americana, ou Corte de Cartago, criada pelo Tratado de Washington de 1907, firmado entre a Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras e Nicarágua, composta por cinco juízes (um de cada país-membro). Sua vida, entretanto, foi demasiado curta, tendo durado apenas dez anos (de 1908 a 1918). Apesar disso, esse tribunal figura como um marco na história do Direito Internacional, não somente por ter sido o primeiro a ser estabelecido, mas também porque, de acordo com seu regulamento, os particulares podiam entabular causas diretamente contra os seus respectivos governos.
A diferença dos meios judiciais de solução de controvérsias para os meios diplomáticos reside no fato de que, nesses últimos, fica ao arbítrio das partes o aceite ou a recusa da solução eventualmente proposta pelo terceiro, ao passo que nos meios judiciais as partes têm a obrigação de cumprir aquilo que ficou decidido na sentença proferida pelo juiz.
Os tribunais internacionais são constituídos por tratados. Tais instrumentos internacionais são produto da vontade conjugada dos Estados, diferentemente do que ocorre com a elaboração do Regulamento do tribunal, que é produto da vontade (interna) do próprio tribunal já constituído.
Atualmente, dentre os vários tribunais internacionais permanentes em funcionamento, merece destaque a Corte Internacional de Justiça, com sede na Haia, na Holanda.
Tribunais regionais e especializados: Além da CIJ, vários outros tribunais internacionais, regionais e especializados, compõem o cenário do Poder Judiciário no plano internacional. Dentre esses tribunais, podem ser citados, a título de exemplo (pela sua ordem de criação):
a) o Tribunal de Justiça da União Europeia, criado em 1952 pelo tratado CECA, com sede em Luxemburgo;
b) a Corte Europeia de Direitos Humanos, no âmbito do Conselho da Europa, com sede em Estrasburgo (França), criada em 1959;
c) a Corte Interamericana de Direitos Humanos, sediada em San Jose (Costa Rica), criada em 1978;
d) o Tribunal de Justiça da Comunidade Andina, sediado em Quito (Equador), criado pelo Acordo de Cartagena de 1979;
e) o Tribunal Internacional do Direito do Mar, sediado em Hamburgo, instituído pela Convenção de Montego Bay de 1982;
f) a Corte Centro-Americana de Justiça, sediada em Manágua (Nicarágua), criada pelo Protocolo de Tegucigalpa à Carta da Organização dos Estados Centro-Americanos (ODECA) em 1991; e
g) a Corte Africana dos Direitos Humanos e dos Povos, sediada em Arusha (Tanzânia), criada em 2004.97
De todo esse contexto também fazem parte os tribunais penais para ex-Iugoslávia e Ruanda.
Consentimento estatal.De acordo com as regras do Direito Internacional Público, não se pode exigir que os Estados submetam suas controvérsias à jurisdição de uma corte internacional, assim como sujeitá-los ao polo passivo da relação processual internacional, se a isto não tiverem expressamente consentido. Portanto, um tribunal internacional não poderá decidir acerca de uma controvérsia internacional da qual faz parte determinado Estado que não aceitou a sua competência em relação a ele.
Uma vez aceita a competência do tribunal, o Estado se obriga em relação ao fiel cumprimento daquilo que foi estabelecido na sentença, devendo cumpri-la de boa-fé, sob pena de responsabilidade internacional. É certo que os tribunais internacionais não contam com a presença de uma autoridade centralizada, com poder de polícia, capaz de obrigar o Estado a cumprir uma decisão, o que pode reduzir as expectativas de cumprimento do direito das gentes. Mas não obstante essa falta de poder central, não se pode deixar de levar em consideração que o Direito Internacional tem outros meios – nem sempre jurídicos – de conduzir o Estado ao cumprimento do que foi decidido numa instância internacional, a exemplo das medidas políticas e econômicas de represália por parte dos demais Estados-partes da sociedade internacional. A probabilidade de que essas represálias operem é um elemento importante que faz com que os Estados cumpram as suas obrigações internacionais.
Nos meios jurisdicionais, existe uma discussão a respeito da arbitragem, questionando se ela seria um meio jurisdicional. No Direito Internacional, Franscisco Rezek defende que a arbitragem é meio jurisdicional, mesmo que não seja um meio judiciário. Alguns autores chamam a arbitragem de meio semi-jurisdicional.
As características de uma sentença arbitral são:
a) obrigatoriedade: os sujeitos internacionais de forma geral devem cumprir as decisões arbitrais, as sentenças arbitrais, de boa-fé por força do princípio do pacta sunt servanda;
b) as sentenças arbitrais são irrecorríveis. Eventualmente, admite-se um pedido de esclarecimento, uma espécie de embargos de declaração;
c) não executoriedade: essas sentenças arbitrais são não executórias, porque não há como fazer a execução.
A.3.1) Corte Internacional de Justiça – CJI (Corte de Haia)
Tribunal Penal Internacional e Corte Interamericana de Direitos Humanos são estudados em Direitos Humanos. Em Direito Internacional Público, será estudada a Corte Internacional de Justiça.
Antes, havia a Corte Permanente de Justiça Internacional, entretanto, depois da Segunda Guerra, tem-se a Corte Internacional de Justiça. Em seguida, surgiram os tribunais ad doc, exemplo: Nuremberg; ex Iuguslávia; Ruanda; Serra Leoa e outros. 
Surgiram também o Tribunal para o Direito do Mar, diversas cortes regionais de direitos humanos e alguns esquemas decisórios de investimentos e de comércio internacional. 
Em 1998, foi aprovado o Estatuto do Tribunal Penal Internacional. Logo, fala-se que houve um processo de proliferação das cortes internacionais.
Dessa proliferação, alguns problemas apareceram. Um dos problemas refere-se justamente em saber como seria a relação entre essas cortes, bem como entre essas cortes e as cortes nacionais. Primeiro, pensou-se em criar uma espécie de hierarquia, mas percebeu-se que isso não ocorreria e que a solução seria o diálogo transjudicial (as cortes citam umas às outras, fortalecendo a legitimidade da outra e evitando conflitos).
A composição da CIJ é de 15 juízes internacionais, que são eleitos para o mandato de nove anos pela Assembleia Geral e pelo Conselho de Segurança. Não pode haver mais de um juiz com a mesma nacionalidade, e a composição deve observar a pluralidade dos sistemas jurídicos que existem pelo mundo.
A competência da Corte Internacional de Justiça pode ser consultiva ou contenciosa.
1. Por meio da competência consultiva, a CIJ pode dar pareceres, que podem ser solicitados pela Assembleia Geral das Nações Unidas, Órgãos das Nações Unidas ou organizações autorizadas pela Assembleia Geral;
2. Por meio da sua competência contenciosa, a CIJ dirime litígios entre Estados.
Na CIJ, a jurisdição não é compulsória, mas sim facultativa. Isso significa que os Estados somente podem ser julgados pela CIJ se aceitarem sua jurisdição, e eles aceitam tal jurisdição por meio da cláusula facultativa de jurisdição obrigatória. 
As características da sentença da CIJ são:
a) Obrigatoriedade: as partes são obrigadas a cumprir a sentença da CIJ;
b) Irrecorribilidade: é cabível, no máximo um pedido de esclarecimento;
c) Sentença executória: há executoriedade, diferentemente do que ocorre na arbitragem.
A.4) Meios coercitivos ou sanções[footnoteRef:2] [2: Fonte: Curso de Direito Internacional Público / Valerio de Oliveira Mazzuoli] 
São considerados meios pacíficos porque não envolvem um conflito armado, mas são meios um pouco mais fortes para resolver controvérsias internacionais.
Nem sempre os atores da sociedade internacional estão abertos ao diálogo ou dispostos a resolver judicialmente (ou semijudicialmente) suas contendas. Assim, os Estados procuram maneiras de resolução de seus desentendimentos, antes de uma investida militar armada ou outra medida violenta congênere contra o seu adversário. 
Os meios coercitivos de solução de controvérsias internacionais, não obstante a coerção que os caracteriza, são ainda assim considerados pela doutrina (bem assim pelos Estados em litígio) como pertencendo ao campo das soluções pacíficas de controvérsias, pois visam, em última análise, o resguardo da paz internacional. Ainda que tais meios não tenham natureza propriamente pacífica, porque motivados pelo uso da força coercitiva, eles representam, entretanto, uma última opção estatal antes de qualquer ataque armado ou antes do emprego de alguma forma de agressividade.
O Conselho de Segurança da ONU, nos termos do art. 41 da Carta das Nações Unidas, poderá aplicar “as medidas que, sem envolver o emprego de forças armadas, deverão ser tomadas para tornar efetivas suas decisões e poderá convidar os membros das Nações Unidas a aplicarem tais medidas”, que poderão incluir “a interrupção completa ou parcial das relações econômicas, dos meios de comunicação ferroviários, marítimos, aéreos, postais, telegráficos, radiofônicos, ou de outra qualquer espécie, e o rompimento das relações diplomáticas”.
Os meios coercitivos mais comuns utilizados pelos Estados para a satisfação de seus interesses são: a) a retorsão; b) as represálias; c) o embargo; d) a boicotagem; e) o bloqueio pacífico; e f) o rompimento das relações diplomáticas.
· Retorsão
A retorsão é o meio coercitivo mais moderado de solução de controvérsias internacionais. Consiste no processo pelo qual um Estado retribui a outro, com os mesmos meios, na mesma medida e na mesma proporção, os atos pouco amistosos por este praticados em seu detrimento e que lhe acarretaram prejuízos. 
A retorsão serve de resposta imediata (e com a mesma ênfase) ao Estado que, segundo a interpretação do ofendido, trouxe prejuízos ao uso de um direito seu, em decorrência de um ato leviano. Por exemplo: se um Estado nega aos cidadãos de outro, que no seu território se encontram, certos direitos civis, o Estado do qual são nacionais tais pessoas pode, como meio de forçar o outro (ofensor) a modificar sua legislação, tomar as mesmas medidas em relação aos nacionais deste em seu território, restringindo igualmente o gozo de tais direitos.
Como outro exemplo corrente de retorsão, pode-se mencionar a imposição de impostos ou taxas para produtos de determinados Estados acima do estabelecido para outros, em violação ao princípio da igualdade de tratamento. Seria exemplo da possibilidade do emprego da medida o ato estatal que facilita a entrada, em seu território, de produtos provenientes de certo Estado, ao mesmo tempo em que dificulta o ingresso desses mesmos produtos (criando ônus, óbices etc.) quando provenientes de outro. Podem-se mencionar ainda o aumento exagerado dos direitos de trânsito; a interdição de acesso de navios estrangeirosaos portos de um Estado; e a concessão de privilégios ou vantagens a determinados estrangeiros em detrimento de outros etc.
Exemplo claro de retorsão foi o ato dos Estados Unidos, em 1951, de suspender a ajuda americana a qualquer país que não respeitasse os embargos estadunidenses à ex-URSS e a outros países de regime comunista.
Trata-se de meio, em princípio, legítimo de solução de controvérsias, mas que não encontra, na prática internacional contemporânea, aceitação generalizada (exatamente pelo fato referido de poder haver abuso de direito quando de sua operacionalização).
· Represálias
As represálias representam o contra-ataque de um Estado em relação a outro, em virtude de eventual injustiça que este tenha cometido contra aquele ou contra os seus nacionais. Diferencia-se da retorsão por se tratar de medidas mais duras e mais arbitrárias, mesmo fundando-se na injustiça cometida por um Estado a outro. Trata-se, portanto, de contra-ataque relacionado aos casos de violação de direitos, perpetrado ou não por meio do uso da força. 
São, em suma, medidas mais ou menos violentas que, em geral, estão em desacordo com as regras do Direito Internacional Público. Mas nem por isso se pode dizer tratar-se de um delito, pois o que se visa é justamente reagir contra um ato ilícito praticado a um Estado por outro.
São “medidas coercitivas, derrogatórias das regras ordinárias, tomadas por um Estado em decorrência de atos ilícitos cometidos em seu prejuízo por outro Estado e destinadas e impor a este, por meio de um dano, o respeito do direito”. Esse conceito pode ser utilizado para se diferenciar as represálias da retorsão, na medida em que nessa última, o ato de um Estado é dirigido contra o uso de um direito de outro, ao passo que nas represálias é o próprio direito do Estado (ou de seus nacionais) que foi ou está sendo violado. 
As represálias podem estar revestidas da forma de violência moral, mas não se admite qualquer tipo de represália armada ou praticada com o uso da força. Por isso, atualmente, as únicas represálias permitidas são as pacíficas, que devem ser proporcionais ao fato ilícito sofrido, devendo suspender-se no momento em que o dano tiver sido reparado ou no momento em que a responsabilidade internacional do Estado tiver sido reconhecida. 
Elas ocorrem obrigatoriamente de Estado para Estado, não podendo afetar diretamente os indivíduos, muito embora sejam eles, em grande parte das vezes, o fator principal do litígio. Poderão ainda ser positivas (quando um Estado, por meio de força militar, se insurge contra as pessoas ou bens do outro Estado que o prejudicou anteriormente) ou negativas (quando um Estado se nega propositadamente em cumprir obrigação a ele imposta e aceita por meio de tratado firmado entre ambos).
Além das represálias propriamente ditas, têm-se também as figuras do embargo e da boicotagem, que figuram (em tempo de paz) como duas outras de suas modalidades.
· Embargo
O chamado embargo é uma das formas especiais pela qual se reveste a represália. Por meio dele, um Estado, em tempo de paz, sequestra navios e cargas de nacionais de país estrangeiro, ancorados em seus portos ou em trânsito nas suas águas territoriais, a fim de fazer predominar a sua vontade em relação à vontade do Estado embargado. 
· Boicotagem
Trata-se de uma interrupção de relações comerciais com um Estado tido como ofensor dos interesses ou dos nacionais de outro Estado. Por meio do boicote, então, este último Estado ou os seus nacionais empregam medidas de interrupção de relações comerciais, a fim de obrigar o primeiro a modificar sua atitude anteriormente adotada, tida como agressiva ou injusta.
A boicotagem pode ser tomada por ato de particulares (boicotagem privada) ou por ato oficial do governo (boicotagem estatal). Na primeira modalidade, ocorre a interrupção das relações comerciais entre nacionais de um Estado em relação a nacionais de outro, ou o rompimento dessas relações em relação a esse próprio Estado. Na segunda, é o próprio governo do Estado que apoia a medida. 
No âmbito da Organização dos Estados Americanos, a medida não encontra respaldo de licitude, eis que nos termos do art. 20 da Carta da OEA nenhum Estado “poderá aplicar ou estimular medidas coercivas de caráter econômico e político, para forçar a vontade soberana de outro Estado e obter deste vantagens de qualquer natureza”.
· Bloqueio pacífico
O bloqueio pacífico (também chamado de bloqueio comercial) tem lugar quando um Estado, sem declarar guerra ao outro, mas por meio de força armada, impede que este último mantenha relações comerciais com terceiros Estados, interrompendo forçosamente as comunicações comerciais entre estes países e o Estado bloqueado. Consiste basicamente na prática de um Estado em impedir que navios ou embarcações de terceiros Estados trafeguem pelos portos ou pelas costas de um país (em relação ao qual não se declarou guerra), como forma de obrigar este último a proceder de determinada maneira, favorável ao Estado autor do bloqueio. Alguns autores também o incluem como sendo “outra forma de represália”.
Ex.: EUA x Cuba.
· Rompimento das relações diplomáticas
Se os meios coercitivos empregados pelo Estado não surtiram efeitos, ainda lhe resta uma última alternativa antes da efetiva declaração de guerra: o rompimento das relações diplomáticas, consistente na suspensão (normalmente temporária) das relações oficiais dos Estados em conflito. Esta não é propriamente um meio coercitivo de solução de controvérsias, muito embora possa indiretamente produzir o efeito desejado pelo Estado.
Pode ocorrer também a ruptura total das relações diplomáticas por parte do Estado ofendido, que corta definitivamente as relações oficiais de diplomacia com o Estado ofensor. Nesse caso, procede-se à devolução dos passaportes aos seus representantes diplomáticos, assim como à retirada imediata do pessoal da missão instalada no país, normalmente na capital do Estado. Mas isto não implica, em todos os casos, o rompimento das relações econômicas e consulares entre tais Estados.
O rompimento das relações diplomáticas de um país em relação a outro pode ser reatado.
· Sanções coletivas internacionais
A matéria vem disciplinada nos arts. 41 e 42 da Carta da ONU de 1945. Nos termos do primeiro dispositivo o Conselho de Segurança “decidirá sobre as medidas que, sem envolver o emprego de forças armadas, deverão ser tomadas para tornar efetivas suas decisões e poderá convidar os membros das Nações Unidas a aplicarem tais medidas”, que poderão “incluir a interrupção completa ou parcial das relações econômicas, dos meios de comunicação ferroviários, marítimos, aéreos, postais, telegráficos, radiofônicos, ou de outra qualquer espécie, e o rompimento das relações diplomáticas”. 
A Carta, ainda, no seu art. 42, estabelece que “no caso de o Conselho de Segurança considerar que as medidas previstas no art. 41 seriam ou demonstraram que são inadequadas, poderá levar a efeito, por meio de forças aéreas, navais ou terrestres, a ação que julgar necessária para manter ou restabelecer a paz e a segurança internacionais”, podendo tal ação “compreender demonstrações, bloqueios e outras operações, por parte das forças aéreas, navais ou terrestres dos membros das Nações Unidas”.
Como se percebe, as Nações Unidas instituíram um processo coletivo de sanções internacionais visando estabelecer o isolamento completo do Estado agressor a fim de manter ou restabelecer a paz e a segurança internacionais.
1.9. Domínio Público Internacional
São estudados os espaços de interesse de mais de um Estado na comunidade internacional, ainda que esse espaço esteja sujeito a uma determina soberania.
A) Direito do mar
O Direito do Mar é o conjunto de normas que regulam o emprego do mar e das águas interiores pelas atividades humanas. Logo, são estudados não apenas o mar mas também as águas interiores. 
· Águas Interiores
Aquelas situadas no interior da linha de base do mar territorial. Linha de base é a linha de baixa-mar ao longo da costa. 
O Regime Jurídico das águas interioresé a soberania geral e exclusiva, ou seja, é território do Estado para fins jurídicos. 
· Mar Territorial
Faixa adjacente à costa a partir da linha de base. Houve discussão sobre a extensão do Mar Territorial e a convenção delimita que é de no máximo 12 milhas a partir da linha de base.
O Mar Territorial, apesar do nome, não é apenas o mar, mas abrange também o espaço aéreo, leito e subsolo. O Estado Costeiro exerce soberania sobre o espaço aéreo sobre o mar territorial, o leito e o subsolo. Isto é, ninguém pode entrar sem a autorização do Estado.
O que relativiza a soberania do Estado Costeiro no Mar Territorial é o chamado direito de passagem inocente, que é a navegação de uma embarcação estrangeira que não causa ofensa à Ordem Pública ou aos interesses do Estado Costeiro. Essa passagem deve ser contínua e rápida, ou seja, o navio estrangeiro não pode fazer outra coisa que não seja se deslocar pela localidade. Apesar do Estado Costeiro obter soberania sobre o mar territorial, ele é obrigado a tolerar, a permitir a passagem inocente.
Passagem inocente: Há exceções aos direitos do Estado sobre o seu mar territorial, uma vez que a sua soberania sobre ele não é absoluta. A mais relevante delas diz respeito à velha regra costumeira do direito de passagem inocente (regulado pelos arts. 17 a 26 da Convenção de Montego Bay). Por meio da regra da passagem inocente, o Estado costeiro deve aceitar, em tempo de paz, o trânsito inofensivo de navios estrangeiros mercantes (não os navios de guerra) por suas águas territoriais. A passagem inocente é “a navegação no mar territorial, com o objetivo de atravessá-lo, sem penetrar nas águas interiores, nem fazer escala num ancoradouro ou instalação portuária situada fora das águas interiores ou para elas dirigir-se, delas sair, ou fazer escala num desses ancoradouros ou instalações”. Os submarinos (e outros engenhos submersíveis) também têm o direito à passagem, mas devem navegar na superfície e arvorar o seu pavilhão (bandeira). 
Assim, esse direito, nascido do costume, permite aos navios estrangeiros navegar no mar territorial de determinado Estado, seja para atravessá-lo sem entrar nas suas águas interiores, seja para ir até as mesmas ou para alcançar o lado vindo dessas águas. O caráter inofensivo do trânsito do navio estrangeiro conota o dever que tais navios têm de não praticar qualquer ato que possa ferir a soberania, a segurança, a ordem pública e os interesses econômicos e fiscais desse país. Daí ser obrigação imposta também pelo costume ao trânsito de tais embarcações, que a sua passagem seja contínua e breve, destituída de subterfúgios e sem ameaça de eventual prática de ato ilícito, requisitos sem os quais a presunção de inofensividade pode cessar imediatamente.
O direito de passagem inocente não se aplica aos navios de guerra estrangeiros, uma vez que a passagem livre funda-se no interesse comum da navegação comercial e não da navegação bélica. Contudo, também se tem entendido (minoritariamente) que a passagem inocente das embarcações de guerra – que têm imunidade à jurisdição local – não estaria impedida “quando as águas territoriais se encontram delimitadas de tal maneira que a passagem através delas é necessária para o tráfego internacional”. Mas, nesse caso, o Estado local poderá dirigir ordem de retirada imediata caso entenda que as regras de passagem estão sendo violadas para dar lugar à manobras militares ou outras congêneres, que não dizem respeito à passagem propriamente dita. 
No que tange aos navios mercantes, para os quais a passagem inocente é franqueada, o que se entende é que o Estado costeiro deve abster-se de exercer sobre eles sua jurisdição civil, salvo por responsabilidade decorrente diretamente da própria passagem. Também não poderá exercer sua jurisdição penal, uma vez que o trânsito exclui essa faculdade estatal. A regra aqui adotada é a de que ao Estado costeiro “não importa conhecer de ocorrências que dizem respeito apenas ao navio e a sua tripulação, sem repercussão na sua costa”. Assim, a jurisdição penal do Estado costeiro não será exercida a bordo de navio estrangeiro que passe pelo mar territorial, com o fim de deter qualquer pessoa ou de realizar qualquer investigação, com relação à infração criminal cometida a bordo desse navio durante a sua passagem, salvo nos seguintes casos: a) se a infração criminal tiver consequências para o Estado costeiro; b) se a infração criminal for de tal natureza que possa perturbar a paz do país ou a ordem no mar territorial; c) se a assistência das autoridades locais tiver sido solicitada pelo capitão do navio ou pelo representante diplomático ou funcionário consular do Estado de bandeira; ou d) se essas medidas forem necessárias para a repressão do tráfico ilícito de estupefacientes ou de substâncias psicotrópicas (art. 27, § 1º, da Convenção de Montego Bay).
Frise-se que o direito de passagem inocente diz respeito às águas do mar territorial do Estado, e não às extensões de soberania dessa faixa de água, que abrange o solo e o subsolo situados sob ela e o espaço atmosférico respectivo. É princípio correntemente aceito que o direito de passagem inocente não vigora na faixa de espaço atmosférico, mesmo que situada sobre o mar territorial do Estado.
Art. 3º LEI Nº 8.617/1993. É reconhecido aos navios de todas as nacionalidades o direito de passagem inocente no mar territorial brasileiro.
§ 1º A passagem será considerada inocente desde que não seja prejudicial à paz, à boa ordem ou à segurança do Brasil, devendo ser contínua e rápida.
§ 2º A passagem inocente poderá compreender o parar e o fundear, mas apenas na medida em que tais procedimentos constituam incidentes comuns de navegação ou sejam impostos por motivos de força ou por dificuldade grave, ou tenham por fim prestar auxílio a pessoas a navios ou aeronaves em perigo ou em dificuldade grave.
§ 3º Os navios estrangeiros no mar territorial brasileiro estarão sujeitos aos regulamentos estabelecidos pelo Governo brasileiro.
· Zona Contígua
Faixa adjacente ao Mar Territorial que se estende até 12 milhas marítimas. Ela é, na verdade, uma derrogação das regras do alto mar, isso porque o Estado Costeiro não é soberano sobre a zona contígua, mas ele pode praticar algumas medidas de fiscalização.
· Zona Econômica Exclusiva
Essa zona estende-se até 188 milhas marítimas depois do limite exterior do mar territorial. Na Convenção, fala-se que seu tamanho máximo é de 200 milhas marítimas contadas da linha de base. No entanto, a própria Convenção afirma que a zona econômica exclusiva começa do limite exterior do mar territorial e por essa razão mediria até 188 milhas.
O Estado Costeiro tem direito de explorar, aproveitar e gerir os recursos naturais da localidade. No entanto, os Estados Estrangeiros podem sobrevoar, navegar e colocar dutos nessas áreas. O Estado Costeiro faz a gestão dos recursos, mas os estrangeiros podem realizar essas três atividades mencionadas.
· Plataforma Continental
Essa plataforma continental é o prolongamento do território do Estado Costeiro que se estende até a chamada bordo exterior. É o leito e subsolo da área que fica embaixo de águas internacionais. O Estado Costeiro possui direito ao solo e subsolo dessa área, bem como os recursos vivos ou não vivos e naturais que estejam nela.
Em síntese, é o leito ou subsolo das águas submarinas que vai até o bordo exterior da margem continental até uma distância de 200 milhas marinhas da linha de base (se o bordo exterior for mais distante, até 350).
Primeiramente, bordo exterior é uma queda abrupta do prolongamento do território que conduz aos fundos marinhos. O que ocorre na realidade é que não há muita profundidade nessas primeiras 200 milhas marítimas depois da linha de base, no entanto, há um ponto em que há uma queda abrupta, chamada de bordo exterior.
O Estado Costeiro possui exclusividade na exploração e aproveitamento dos recursos naturais presentes na plataforma continental. Além disso, a Convenção passou a prever que as espécies sedentárias que se deslocam em constantecontato físico com o leito pertencem à plataforma continental, portanto, o Estado Costeiro tem exclusividade sobre eles.
Lei 8.617/93
Art. 1º. O mar territorial brasileiro compreende uma faixa de doze milhas marítimas de largura, medidas a partir da linha de baixa-mar do litoral continental e insular, tal como indicada nas cartas náuticas de grande escala, reconhecidas oficialmente no Brasil.
Art. 2º. A soberania do Brasil estende-se ao mar territorial, ao espaço aéreo sobrejacente, bem como ao seu leito e subsolo.
Art. 4º. A zona contígua brasileira compreende uma faixa que se estende das doze às vinte e quatro milhas marítimas, contadas a partir das linhas de base que servem para medir a largura do mar territorial.
Art. 6º. A zona econômica exclusiva brasileira compreende uma faixa que se estende das doze às duzentas milhas marítimas, contadas a partir das linhas de base que servem para medir a largura do mar territorial.
Art. 11. A plataforma continental do Brasil compreende o leito e o subsolo das áreas submarinas que se estendem além do seu mar territorial, em toda a extensão do prolongamento natural de seu território terrestre, até o bordo exterior da margem continental, ou até uma distância de duzentas milhas marítimas das linhas de base, a partir das quais se mede a largura do mar territorial, nos casos em que o bordo exterior da margem continental não atinja essa distância.
· Fundos marinhos
Fundos marinhos são as águas subaquáticas, o leito e o subsolo das águas internacionais, que não pertencem, portanto, a nenhum Estado (arts. 156-191).
Os fundos marinhos também são chamados de área, simplesmente.
Essa região é considerada patrimônio comum da humanidade, cuja exploração deve ser feita em benefício dos povos do mundo em geral. Além disso, não estão sujeitos à soberania de ninguém.
· Estreitos e canais
Estreitos são corredores que facilitam o trânsito entre dois espaços marítimos, interessando à navegação internacional. Os estreitos são acidentes geográficos naturais que ligam espaços marítimos. Um estreito pode ligar o Oceano Atlântico ao Pacífico, ou o Mediterrâneo ao Pacífico, por exemplo. Os estreitos mais famosos são os de Gibraltar e de Bering.
Os canais são a mesma coisa que os estreitos, mas são artificiais. Sendo assim, também são corredores que facilitam o trânsito entre dois espaços marítimos. Há alguns canais famosos, como o Canal de Suez, que fica no Egito, e o Canal do Panamá.
Os canais são construídos pela iniciativa privada ou por um Estado, que depois explora esse espaço.
· Alto-mar
Alto-mar é um conceito residual. São as águas marítimas não incluídas na zona econômica exclusiva, no mar territorial ou nas águas interiores de um Estado, nem nas águas arquipelágicas de um Estado arquipélago (art. 86).
O alto-mar é a área que não está sujeita à soberania de nenhum Estado. Por esse motivo, no alto-mar vigora o princípio da liberdade. Portanto, a navegação no alto-mar e o sobrevoo no espaço aéreo acima dele também são livres. 
Além disso, a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar deixa explícito que os Estados sem litoral também possuem direito a acessar o alto-mar.
Há duas observações finais sobre o direito de navegação marítima:
1) Toda embarcação deve ter uma nacionalidade, que corresponde à bandeira que está autorizada arvorar;
2) A navegação do alto-mar é livre, desde que para fins pacíficos. Alguns autores falam sobre um direito, um poder de polícia, que existiria no alto-mar para poder reprimir tráfico de escravos, pirataria e tráfico de drogas. Assim, para fins pacíficos, a navegação no alto-mar é livre, mas admite-se o exercício de um poder de polícia para reprimir essas infrações.
Em caso de abalroamento ou de qualquer outro incidente de navegação ocorrido a um navio no alto mar que possa acarretar uma responsabilidade penal ou disciplinar para o capitão ou para qualquer outra pessoa ao serviço do navio, os procedimentos penais e disciplinares contra essas pessoas só podem ser iniciados perante as autoridades judiciais ou administrativas do Estado de bandeira ou perante as do Estado do qual essas pessoas sejam nacionais.
B) Direito dos rios internacionais
Rios internacionais são aqueles que atravessam mais de um Estado, isto é, interessam mais de um Estado. Eles podem ser sucessivos ou contíguos.
Os sucessivos são aqueles que atravessam consecutivamente mais de um Estado. Já os contíguos são aqueles que fazem parte dos limites das fronteiras entre Estados.
A Convenção de Barcelona sobre o Regime dos Cursos de Água Navegáveis de Interesse Internacional, de 1921, é bastante importante. Francisco Rezek extrai dessa convenção dois princípios: 1) princípio da liberdade de navegação em rios internacionais; 2) princípio da igualdade no tratamento de terceiros, em que o Estado em que estaria localizado aquela parte do rio internacional não poderia fazer discriminação entre terceiros que quisessem navegá-lo.
C) Direito das zonas polares
Existe o Ártico, que é o Polo Norte, e a Antártida ou Antártica, que é o Polo Sul. O Ártico (Norte) é um grande oceano coberto de gelo permanente em sua maior parte e não há regulamentação específica para essa região. 
No entanto, alguns autores afirmam que os Estados do Norte, como Rússia e Noruega, começaram a defender uma teoria dos setores para poder defender a soberania sobre essas regiões.
Quanto à Antártida ou Antártica, que não é um oceano congelado, mas sim um continente coberto de gelo, existe interesse econômico-científico e há um tratado para cuidar disso - o Tratado da Antártida de 1959. 
Há dois princípios fundamentais desse tratado:
1) A utilização da Antártida deve ser exclusivamente para fins pacíficos para sempre. 
2) A exploração deve ocorrer pensando-se no progresso da humanidade.
Posteriormente, também foi aprovado o Protocolo ao Tratado da Antártida sobre Proteção ao Meio Ambiente, de 1991.
D) Direito do espaço aéreo
A principal norma é a Convenção de Chicago de 1944, que traz regras gerais de aviação civil internacional. Há, também, a Convenção de Varsóvia de 1929 e a Convenção de Montreal de 1999, que tratam sobre responsabilidade por dano ou prejuízos ocorridos no transporte aéreo.
Há, ainda, convenções que abordam o tema de segurança: Convenção de Tóquio de 1963, a Convenção de Haia de 1970 e a Convenção de Montreal de 1971. Elas tratam sobre segurança aérea, sequestro de aeronave, entre outras coisas.
Os princípios adotados pela Convenção de Chicago para regular o espaço aéreo são:
1) Soberania exclusiva e absoluta sobre o espaço aéreo sobrejacente ao território e ao mar territorial dos Estados (art. 1º da CCACI): no espaço aéreo que está acima do território e do mar territorial, há soberania total. Aeronaves de outros Estados não podem sobrevoar sem autorização, visto que isso viola a soberania do Estado. Por essa razão, não há direito de passagem inocente no espaço aéreo, diferentemente do que ocorre no mar territorial. 
Contudo, no espaço aéreo que não está sujeito a nenhuma soberania, há livre navegação no espaço, isto é, podem ocorrer voos, pois, referente a eles, vigora o princípio da liberdade.
2) Nacionalidade das aeronaves: por uma questão de organização e de registro, toda aeronave deve ter somente uma nacionalidade.
A Convenção de Chicago adotou a teoria das “cinco liberdades do ar”. Por meio dessa teoria, o paradigma da soberania aérea (pelo qual nada pode haver acima do Estado que não lhe diga respeito) haveria de substituir-se pelo da liberdade monitorada ou vigiada do ar. Tais liberdades limitam as soberanias compreendidas de per si, para o fim de facilitar o trânsito de pessoas e de coisas ao redor do mundo. São elas:
a) a liberdade de sobrevoo, que compreende a liberdade que têm os aviões de um Estado de sobrevoar sem escalas o território de outro, podendo o Estado mitigar tal liberdade apenas em casos excepcionais, quando estiver em jogo a segurança do seu território (desde que o faça sem discriminação a outras potências soberanas);
b) liberdade de fazer escalas (desde que semcaráter comercial) para reparações técnicas, como para o reabastecimento de combustível ou reparações em caso de defeitos do equipamento;
c) liberdade de embarcar, no território de um Estado, mercadorias, passageiros e malas postais que tenham por destino o Estado da nacionalidade da aeronave;
d) liberdade de desembarcar, no território de um Estado, mercadorias, passageiros e malas postais que tenham sido colocadas a bordo no país a que pertence a aeronave; e
e) liberdade de embarcar passageiros, mercadorias e malas postais que se destinem ao território de qualquer Estado que participe da convenção e o direito de desembarcar passageiros, mercadorias e correspondências originários de qualquer outro Estado-contratante.
Tais liberdades são concedidas por meio de acordos bilaterais. 
As duas primeiras liberdades são chamadas técnicas, é dizer, dizem respeito ao voo em si, não ao embarque ou desembarque de mercadorias ou passageiros. As três últimas são as liberdades comerciais, que dependem de acordos (convenções de tráfego) entre os diversos países, fazendo com que fiquem rigorosamente disciplinadas as regras relativas à capacidade, trânsito das aeronaves que operam em linhas regulares e tarifas, podendo também disciplinar questões relativas ao número de passageiros e questões congêneres.
· Direito do espaço extra-atmosférico
Referente ao espaço extra-atmosférico, a principal norma internacional é o Tratado sobre Princípios Reguladores das Atividades dos Estados na Exploração e Uso do Espaço Cósmico, Inclusive a Lua e Demais Corpos Celestes, de 1967.
Há outros instrumentos que falam, por exemplo, sobre lançamento de objetos no exterior, registro de foguetes e outros. 
É necessário saber os 5 princípios adotados pelo Tratado sobre Princípios Reguladores das Atividades dos Estados na Exploração e Uso do Espaço Cósmico, Inclusive a Lua e Demais Corpos Celestes:
1) O espaço extra-atmosférico (os corpos celestes, o espaço sideral, a lua, estrelas e afins) devem ser utilizados apenas para fins pacíficos. Assim, não se admite falar em militarização desses espaços;
2) Livre acesso. 
3) Insuscetível de apropriação. Não é porque os Estados Unidos enviaram um foguete à lua e colocaram sua bandeira que ela se tornou propriedade do país. Pelo mesmo motivo, ninguém pode vender terrenos em Marte ou na lua, tendo em vista esse tratado;
4) A investigação e exploração devem reverter para o proveito geral de todos os povos. A investigação científica e a exploração devem ser sempre pensadas como benefícios para todos os povos;
5) Livre acesso às informações recolhidas.
OBSERVAÇÃO: Esse tratado foi aprovado em 1967, na época do auge da corrida espacial da Guerra Fria. Nesse período de exploração, decidiu-se firmar esse tratado com tais princípios. 
1.10. Responsabilidade Internacional[footnoteRef:3] [3: Curso de direito internacional público / Valerio de Oliveira Mazzuoli. – 14. ed. – Rio de Janeiro: Forense, 2021.] 
As normas internacionais detêm generalidade e abstração, emanam de uma autoridade conjunta, composta por atores internacionais juridicamente coordenados e em pé de igualdade, e ainda contêm variados meios de resposta ao descumprimento de seus comandos. Essa resposta que o Direito Internacional dá aos Estados que infringem as suas regras é representada fundamentalmente pelo instituto da responsabilidade internacional.
O conceito de responsabilidade no contexto internacional é muito mais coletivo que individual. Quando um agente ou funcionário do Estado erra e comete violação de direito de outrem, ou quando um tribunal interno deixa de aplicar um tratado vigente, negando eventual direito a um estrangeiro protegido por esse tratado, é o Estado para o qual o agente trabalha que, em princípio, responde pelo dano na órbita internacional (ainda que os indivíduos que o compõem nada tenham a ver com o ilícito cometido). A responsabilidade individual (agora mais nítida com a criação do Tribunal Penal Internacional) é, por sua vez, subsidiária das jurisdições estatais e tem um relevo por enquanto menor no plano externo.
O instituto da responsabilidade internacional tem, ainda, uma existência que pode ser chamada de precária. Isto pelo fato de a sociedade internacional ser descentralizada, em que falta poder central vinculante e mecanismos mais eficazes de coação estatal (ex. mecanismos de execução automática de sentenças internacionais etc.). 
Sua a fonte, basicamente, é extraída do direito costumeiro. No entanto, em 2001, a Comissão de Direito Internacional da ONU aprovou um projeto de tratado sobre responsabilidade internacional conhecido como "Artigos de Responsabilidade dos Estados por Atos Ilícitos Internacionais" (Draft Articles on Responsibility of States for Internationally Wrongful Acts).
Esse projeto, o qual ainda não é um tratado, pois sequer fora aprovado, limita-se à responsabilidade dos Estados por atos ilícitos e não expressa a responsabilidade de outros sujeitos internacionais ou sobre atos lícitos. Contudo, esse projeto é muito utilizado pela doutrina para falar sobre responsabilidade internacional, além de haver uma recomendação da Assembleia Geral da ONU para observá-lo.
· Conceito de responsabilidade internacional
Assim como os atos ilícitos praticados pelos cidadãos, no âmbito do Direito interno dos Estados, merecem uma devida reprimenda, a prática de um ato ilícito internacional, entendido este como todo ato violador de uma norma de DIP, por parte de um Estado em relação aos direitos de outro, gera igualmente a responsabilização do causador do dano, em relação àquele Estado contra o qual o ato ilícito foi cometido. Portanto, “todo ato internacionalmente ilícito de um Estado acarreta sua responsabilidade internacional” (art. 1º), devendo-se impor ao Estado que viola ou abala esta estabilidade um ônus jurídico com o qual deverá arcar.
A responsabilidade internacional do Estado é o instituto jurídico que visa responsabilizar determinado Estado pela prática de um ato atentatório (ilícito) ao Direito Internacional perpetrado contra os direitos ou a dignidade de outro Estado, prevendo certa reparação a este último pelos prejuízos e gravames que injustamente sofreu. Este conceito leva em conta apenas os Estados nas suas relações entre si. É evidente que nas relações do Estado com as pessoas sujeitas à sua jurisdição o instituto da responsabilidade internacional também opera, notadamente no que diz respeito às violações estatais de direitos humanos.
Os Estados têm limites de atuação no plano internacional, não podendo agir de forma leviana, a seu alvedrio e a seu talante, prejudicando terceiros e trazendo desequilíbrio para as relações pacíficas entre os Estados.
O conceito de responsabilidade internacional também é extensível às organizações internacionais intergovernamentais, que podem reclamar direitos, mas também serem demandadas por eventual violação de normas internacionais que acarretem prejuízos a terceiros. 
· Características da responsabilidade internacional
O princípio fundamental da responsabilidade internacional traduz-se numa ideia de justiça, segundo a qual os Estados estão vinculados ao cumprimento daquilo que assumiram no cenário internacional, devendo observar seus compromissos de boa-fé e sem qualquer prejuízo aos outros sujeitos do direito das gentes. Portanto, o Estado é internacionalmente responsável por toda ação ou omissão que lhe seja imputável de acordo com as regras do Direito Internacional Público, e das quais resulte violação de direito alheio ou violação abstrata de uma norma jurídica internacional por ele anteriormente aceita.
A responsabilidade internacional praticamente desconhece a responsabilidade penal, como a imposição de penas, castigos ou outras formas de repressão criminal congêneres. A responsabilidade penal, no Direito Internacional, só tem lugar excepcionalmente, como nos casos de genocídio, dos crimes de guerra e dos crimes contra a humanidade, o que já caracteriza a responsabilidade pessoal do indivíduo (notadamente perante o Tribunal Penal Internacional).· Proteção diplomática
Outra característica da responsabilidade internacional é que ela opera sempre de Estado para Estado, mesmo que o ato ilícito tenha sido praticado por um indivíduo ou ainda quando a vítima seja um particular seu. Isso significa que a pessoa (vítima da violação) não demanda diretamente o Estado, apenas dirigindo uma reclamação ao Estado de sua nacionalidade para que este a proteja internacionalmente. Quando o Estado de nacionalidade oferece proteção, ele endossa a reclamação da vítima e toma como sua a queixa alegada. 
Será esse endosso o instrumento que irá outorgar a chamada proteção diplomática de um Estado a um particular. O Estado, quando endossa a queixa do particular, passa a tratar com o outro Estado de igual para igual, a fim de ressarcir o particular do dano sofrido (daí o entendimento de que, mesmo nesse caso em que o objeto da reclamação é constituído pelo indivíduo e pelo seu patrimônio, a responsabilidade internacional opera-se de Estado para Estado). O Estado se substitui ao particular, tornando-se dominus litis e assumindo os encargos daí resultantes.
São condições para a concessão do endosso, desde o momento da ocorrência da lesão até a decisão final:
a) ser a vítima (pessoa física ou jurídica) nacional do Estado reclamante ou pessoa sob sua proteção. Frise-se ser necessário que a vítima seja nacional do Estado reclamante desde o momento da ocorrência da lesão (e até a decisão final); por esse motivo, a naturalização de uma pessoa com a exclusiva finalidade de ser protegida diplomaticamente não autoriza a concessão do endosso por parte do Estado (eis que, nesse caso, o indivíduo não mantém com a nova soberania um vínculo efetivo ou genuíno capaz de autorizar o endosso).
Em caso de polipatria, qualquer dos Estados patriais pode protegê-la contra um terceiro Estado, sendo apenas impossível o endosso caso a reclamação seja contra um dos Estados de que também é nacional o indivíduo;
b) ter a vítima esgotado os recursos internos (administrativos ou judiciais) disponíveis para proteger seus direitos violados (desde que, é claro, essas vias internas existam e que haja a possibilidade concreta de serem elas previamente esgotadas, e desde que também não haja evidente denegação de justiça); e
c) ter a vítima agido corretamente e sem culpa, ou seja, não ter ela contribuído, com seu próprio comportamento, à criação do dano (instituição conhecida como teoria das mãos limpas). 
ATENÇÃO: quando se tem um ato ilícito cometido por particular, será o seu Estado respectivo (e não o próprio particular) que sofrerá a responsabilização internacional (a menos que este ato, como se falou no parágrafo anterior, não configure a violação de um tipo penal internacional, caso em que tal responsabilidade será pessoal).
Destaque-se que a proteção diplomática deve ser requerida ao Estado de origem (de nacionalidade) do indivíduo e não ao seu Estado de residência. 
ATENÇÃO: somente em situações excepcionais pode um Estado proteger diplomaticamente indivíduos de outras nacionalidades que apenas residem em território nacional, notadamente quando se verificar que a falta de proteção do Estado a um estrangeiro residente é capaz de acarretar danos irreparáveis a um direito humano seu. 
A teoria da responsabilidade internacional tem sido também aplicada às organizações internacionais. Estas podem, inclusive, utilizar-se da proteção diplomática em relação aos seus funcionários (proteção funcional). Assim, tem-se a proteção diplomática para os casos relativos ao endosso do Estado na salvaguarda dos direitos dos seus nacionais, e a proteção funcional para aqueles atinentes à proteção que as organizações internacionais dão àqueles funcionários que se encontram a seu serviço. A proteção funcional baseia-se na ideia de que os agentes que servem a determinada organização internacional não devem precisar de outra proteção que não aquela da organização para a qual trabalha. Tais agentes não devem depender da proteção do seu Estado patrial nesses casos, sendo essencial que a sua proteção advenha da própria organização a que está servindo naquele momento.
· Elementos constitutivos da responsabilidade
São três os elementos que compõem o instituto da responsabilidade internacional do Estado: a) a existência de um ato ilícito internacional; b) a presença da imputabilidade; e c) a existência de um prejuízo ou um dano a outro Estado.
a) O ato internacionalmente ilícito: consubstancia-se na violação ou lesão de uma norma de Direito Internacional, compreendendo tanto o fato positivo (comissivo) como o fato negativo (omissivo). 
Tal violação pode ser relativa a um tratado, um costume internacional ou a qualquer outra fonte do direito das gentes. 
Por vezes, tem-se admitido que eventos lícitos, mas que causem riscos iminentes e excepcionais, como testes nucleares, também possam acarretar a responsabilidade internacional do Estado. Trata-se da responsabilidade internacional por atos não proibidos a priori
Ressalta-se também que a violação praticada por um Estado em relação ao direito de outro pode derivar também de uma ofensa moral (positiva ou negativa), tendo-se como exemplo o insulto aos símbolos nacionais de um país.
b) A imputabilidade ou nexo causal: é o vínculo jurídico que se forma entre o Estado (ou organização internacional) que transgrediu a norma internacional e o Estado (ou organização internacional) que sofreu a lesão decorrente de tal violação. 
c) O prejuízo ou dano. Por fim, tem-se a existência de um prejuízo ou um dano a outro Estado (ou organização internacional). Tal prejuízo (resultado antijurídico do fato) pode ser material ou imaterial (moral), e pode ter decorrido de um ato ilícito cometido por um Estado (ou organização internacional) ou por um particular em nome do Estado. Somente o sujeito de direito das gentes vitimado por algum dano pode reclamar do outro faltoso a sua reparação, principalmente no que diz respeito ao cumprimento de eventual tratado celebrado entre ambos, não podendo demandar terceiros que do instrumento internacional não participam.
Não obstante a doutrina internacionalista ainda exigir o elemento dano como necessário à caracterização da responsabilidade internacional, deve-se aqui observar que o draft da ONU sobre responsabilidade dos Estados por atos internacionalmente ilícitos excluiu a necessidade de sua ocorrência para que se constitua a responsabilidade. 
· Formas de responsabilidade internacional
Espécies: a) responsabilidade direta (principal) e indireta (subsidiária); b) responsabilidade por comissão e por omissão; e c) responsabilidade convencional e delituosa.
A responsabilidade do Estado será direta (ou principal) quando o ato ilícito (positivo ou negativo) for praticado pelo próprio governo estatal, por órgão governamental, por funcionários do seu governo ou por uma coletividade pública do Estado que age em nome dele. 
Também se enquadram nessa categoria os atos praticados por particulares, quando a prática do ato decorre da atitude do Estado em relação a este particular, ou seja, quando a atividade do particular possa ser imputada ao Estado. Nesse caso, o Estado será responsável se não empregar a necessária diligência para prevenir tais atos, dentre os quais podem ser citados os atentados contra chefes de Estado, os atos de pirataria, o tráfico de escravos, os insultos à bandeira ou outros símbolos nacionais do país etc.
Será indireta (ou subsidiária) a responsabilidade quando o ilícito for cometido por simples particulares ou por um grupo ou coletividade que o Estado representa na esfera internacional, a exemplo dos ilícitos cometidos por uma comunidade sob tutela estatal (um território sob mandato etc.) ou ainda por um Estado protegido, em que figura como responsável o governo que o administra ou o Estado que o protege. 
Em princípio, não será possível responsabilizar o Estado em virtude de atos de particulares não investidos em funções estatais, a menos que o Estado tenha agido com culpa na fiscalização de tais atos; nessa hipótese, a responsabilidade estatalé decorrência da falta de cuidado e atenção do Estado, que não advertiu ou não puniu os seus particulares pelos atos praticados, caso em que passa ele a ser internacionalmente responsável por tais atos.
A responsabilidade será por comissão quando o ilícito internacional for decorrente de uma ação positiva do Estado ou de seus agentes, e por omissão quando o Estado (ou seus agentes) se omitir ou deixar de praticar um ato requerido pelo DIP, em relação ao qual ele tinha o dever jurídico de praticar.
Por fim, a responsabilidade do Estado será convencional quando resultar do descumprimento ou da violação de um tratado internacional de que é parte este mesmo Estado, ou ainda em relação ao qual o mesmo está juridicamente obrigado. Será delituosa a responsabilidade, por sua vez, quando o ato ilícito praticado pelo Estado se der em violação de uma norma proveniente do direito costumeiro internacional.
· Natureza jurídica da responsabilidade internacional
Há duas grandes teorias acerca da natureza jurídica da responsabilidade internacional do Estado: a corrente subjetivista (teoria da culpa) e a objetivista (teoria do risco).
A doutrina subjetivista, ou teoria da culpa, defendida por Hugo Grotius, apregoa que a responsabilidade internacional deve derivar de um ato culposo (stricto sensu) do Estado ou doloso, em termos de vontade de praticar o ato ou evento danoso. 
A doutrina objetivista, ou teoria do risco, por sua vez, pretende demonstrar a existência da responsabilidade do Estado no simples fato de ter ele violado uma norma internacional que deveria respeitar, não se preocupando em saber quais foram os motivos ou os fatos que o levaram a atuar delituosamente. Esta teoria tem sido utilizada em casos que tratam da exploração cósmica e de energia nuclear, bem como os relativos à proteção internacional do meio ambiente e dos direitos humanos. 
A jurisprudência internacional, contudo, ainda continua se utilizando em larga escala da teoria subjetivista (ou teoria da culpa), que protege mais o Estado do que a teoria objetivista ou do risco. Esta última tem sido ainda aplicada em pequena escala na jurisprudência internacional, ainda que já se tenha começado a perceber certo aumento de decisões a seu favor.
Uma terceira corrente (chamada de teoria mista), defendida por Triepel e Strupp, apregoa que a culpa só pode ser utilizada nos ilícitos internacionais que o Estado pratica por omissão. Nesse caso, estaria presente a negligência do Estado, o que daria margem à sua responsabilização internacional. Já em relação ao risco, para esta teoria mista este somente seria aplicado nos delitos praticados por atos positivos do Estado (praticados por comissão). Esta doutrina, entretanto, não teve maior consagração na teoria da responsabilidade internacional.
· Órgãos internos e responsabilidade internacional
O Estado “é responsável pelos danos causados aos estrangeiros por todas as ações ou omissões contrárias às suas obrigações internacionais, qualquer que seja a autoridade do Estado de onde elas provêm: constituinte, legislativa, governamental ou judiciária”. Assim, os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, quando da prática de atos atentatórios ao Direito Internacional, também geram para o Estado respectivo a responsabilidade internacional, na medida em que são Poderes que atuam em nome do Estado e com sua autorização.
Todos os atos ilícitos internacionais praticados pelo Executivo diretamente ou pelos seus funcionários e agentes, tanto no âmbito interno como no âmbito internacional, são geradores de responsabilidade. São exemplos de tais práticas, levadas a efeito diretamente pelo Executivo, a conclusão de contratos ou concessões, prisões ilegais ou arbitrárias, a concessão de anistia contrária às regras do Direito Internacional, a violação de tratados, o descumprimento de laudos arbitrais e decisões judiciárias internacionais, a violação da fronteira de outro Estado em tempo de paz, as injustiças cometidas contra estrangeiros etc.
O Estado responde pelo ilícito internacional, mesmo no caso de o funcionário ser incompetente para a prática do ato, pois a qualidade oficial do funcionário (que agiu na qualidade de órgão estatal) vincula sempre o Estado (que não deixa de estar ligado ao seu agente), salvo se sua incompetência era tão flagrante que deveria tê-la percebido o estrangeiro lesado. 
O governo do Estado encontra-se também comprometido para com o Direito Internacional quando causa um dano (ele próprio ou por meio de seus agentes) a estrangeiro em seu território. A doutrina, em geral, parece ser uniforme no sentido de que a responsabilidade do Estado por atos de seus agentes (em regra, os praticados por policiais militares no Brasil) só ocorre quando o Estado em causa não toma as medidas necessárias para a punição dos culpados, devendo o mesmo princípio ser aplicado ao pessoal das forças armadas.
O Poder Legislativo viola o Direito Internacional quando:
a) edita leis contrárias ao conteúdo de tratados internacionais anteriormente aprovados (por ele mesmo) e já em vigor internacional, burlando aquilo que o Estado pactuou internacionalmente.
b) revoga certa lei necessária à correta aplicação de um tratado, deixando o instrumento inoperável por ausência de base legislativa. 
c) deixa de aprovar determinada legislação necessária ao cumprimento do tratado ratificado e em vigor. 
d) deixa de revogar legislação contrária ao conteúdo de um tratado em vigor no Estado.
Poder Judiciário, por sua vez, também pratica ilícito internacional, afetando o Estado em matéria de responsabilidade internacional. Ocorre, por exemplo, quando a justiça de um país julga em desacordo com tratado internacional ratificado pelo Estado e em vigor internacional, ou mesmo quando não julga com base em tratado internacional que deveria conhecer, denegando o direito da parte que o invoca com base em convenções internacionais.
O não cumprimento de sentença proferida por tribunal com jurisdição internacional pelo judiciário estatal também é causa de responsabilidade internacional do Estado. Todo Estado que aceita a competência contenciosa de um tribunal internacional está obrigado a dar cumprimento à decisão que, porventura, vier a ser proferida. 
Não são estranhos ao Direito Internacional determinados atos praticados por indivíduos (na sua condição de particular) capazes de lhes ser diretamente imputáveis, tais como a pirataria, o tráfico de entorpecentes e drogas afins, o tráfico de escravos, e, ainda, em tempo de guerra, o transporte de produtos contrabandeados e a violação do bloqueio. Tais atos não acarretam necessariamente a responsabilidade internacional do Estado. Há, contudo, certos atos praticados por particulares, capazes de onerar o Estado respectivo de responsabilidade internacional. Nesse caso, a responsabilidade estatal não decorre propriamente do ato de um indivíduo, que vínculo nenhum mantinha com o Estado e que não atuou em nome deste, mas de uma conduta negativa do Estado relativamente às obrigações que lhe impõem o Direito Internacional. 
Não acarretam a responsabilidade internacional do Estado as lesões aos direitos de estrangeiros praticadas por particulares. Nesse caso, a solução é responsabilizar o autor do ato nas esferas civil e criminal. Se não se puder, com um mínimo de razoabilidade, atribuir ao Estado respectivo negligência ou cumplicidade na prática do ato manifestado pelo seu súdito, aquele fica desonerado de responder internacionalmente pelo ato do particular.
A doutrina tem apontado que alguns Estados, por meio de sua legislação interna, têm pretendido exigir dos estrangeiros que queiram fazer negócios dentro de seu território, que renunciem ao direito de solicitar proteção diplomática a seus países de origem. Tais disposições normativas baseiam-se na chamada doutrina Calvo, segundo a qual os Estados estrangeiros devem recusar proteção aos seus nacionais insatisfeitos com o ocorrido no território do Estado onde se encontram, uma vez que as cortes locais são as únicas competentes para a análise das demandas contraos atos da administração local. 
As cláusulas Calvo impostas a tais estrangeiros não privam, em absoluto, os Estados dos quais estes são nacionais, de protegê-los pela via diplomática, fazendo suas as queixas e reclamações daqueles contra o Estado ofensor. Isto porque o direito de proteção diplomática pertence ao Estado e não ao reclamante.
· Excludentes da responsabilidade
Não são todos os ilícitos internacionais que acarretam a responsabilidade internacional do Estado, existindo determinadas circunstâncias capazes de excluí-la, liberando o Estado de sua obrigação de reparar os danos. Tais circunstâncias são causas de justificação. 
Destaque-se que, segundo o projeto de convenção da ONU, as normas imperativas de Direito Internacional geral (jus cogens) não comportam excludentes de ilicitude (art. 26); ou seja, um Estado que viola o jus cogens internacional não terá meios de se livrar da responsabilidade internacional decorrente de sua violação. 
a) Consentimento do Estado. O consentimento válido dado por um Estado à realização de determinado ato por outro Estado exclui a ilicitude daquele ato em relação a este último Estado se o ato permanecer dentro dos limites do que foi consentido (art. 20). Ademais, não pode o ato praticado extrapolar os limites do consentimento estatal, caso em que tudo aquilo que fugir ao consentimento exarado será ilícito, merecendo a reprimenda internacional. 
Atenção: indaga-se se o silêncio do Estado lesado valeria também como consentimento válido capaz de desonerar Estado faltoso de responder pelo ilícito internacional. Trata-se do que se nomina prescrição liberatória em direito das gentes, consistente no silêncio do Estado lesado relativamente ao dano sofrido, após um largo período de tempo (dormientibus non succurrit jus). Nesse caso, o silêncio do lesado extinguiria a responsabilidade do infrator pela aceitação da situação de fato que, em outras circunstâncias, seria passível de responsabilização internacional. Não obstante alguns autores ainda negarem este modo de extinção da responsabilidade estatal, o certo é que foi aceito na sessão da Haia, de 31 de julho de 1925.
b) Legítima defesa. A ilicitude de um ato resta excluída se o mesmo resulta de legítima defesa, em conformidade com a Carta das Nações Unidas.
c) Contramedidas. As contramedidas (outrora chamadas de represálias) são, em verdade, atos ilícitos, mas que se justificam por serem a única forma de revidar outros atos igualmente ilícitos perpetrados por um Estado agressor. 
As contramedidas são excludentes de ilicitude cuja finalidade é fazer com que o Estado que descumpriu uma obrigação internacional possa resolver o problema em causa. Porém, tais contramedidas (da mesma forma que a legítima defesa) só podem ser admitidas quando: a) tiverem por fundamento um ataque prévio do outro Estado, contrário aos direitos do ofendido; e b) forem proporcionais ao ataque. A essas duas condições pode ainda ser acrescentada outra: a de o Estado ofendido não ter encontrado outro meio lícito para combater a ilegalidade sofrida, restando somente o uso da contramedida. 
d) Força maior. A ilicitude de um ato estatal contrário a uma obrigação internacional não será causa de responsabilização do Estado caso o ato ilícito praticado tenha sido consequência de um evento externo irresistível ou imprevisto, fora do controle do Estado. Não haverá excludente de responsabilidade, contudo, se a situação irresistível ou imprevista for devida, por si só ou em combinação com outros fatores, à conduta do Estado que a invoca, ou caso tenha o Estado assumido o risco da ocorrência da situação. 
e) Perigo extremo: será excluída a ilicitude de um ato estatal em desacordo com uma obrigação internacional se o autor do ato em questão não dispõe de nenhum outro modo razoável, em uma situação de perigo extremo, de salvar a vida do autor ou vidas de outras pessoas confiadas aos seus cuidados.
f) Estado de necessidade: no estado de necessidade, ao contrário do que sucede com a legítima defesa ou com as contramedidas, não se trata de uma agressão voltada a um ato anteriormente injusto, mas de um ato estatal egoísta dirigido contra um ou mais Estados inocentes. Nesse caso, pode-se dizer que a responsabilidade do Estado pode diminuir, ou até mesmo desaparecer, uma vez comprovada que a conduta do lesado contribuiu ou foi o próprio fato gerador do dano, sem a qual este não teria ocorrido da forma que ocorreu ou não teria acontecido.
g) Renúncia do indivíduo lesado. Trata-se da chamada doutrina Calvo, exposta pelo então Ministro das Relações Exteriores da Argentina, Carlos Calvo, em 1868, segundo a qual um particular pode renunciar à proteção pela via diplomática, por meio de contrato prévio com um governo estrangeiro. Tal doutrina pode ser sintetizada numa cláusula inserta nos contratos celebrados pelo Estado com concessionários estrangeiros, por meio da qual estes últimos se comprometem em não recorrer à proteção diplomática dos seus países de origem, caso surjam ali questões sobre a execução ou inexecução desses mesmos contratos. Sob esse aspecto, os nacionais e estrangeiros deveriam ser tratados de forma igualitária, sendo que, para esses últimos, sequer a intervenção diplomática poderia ter efeitos. 
Críticas: a proteção diplomática não é direito disponível do particular, mas do seu Estado de origem. Contudo, a cláusula Calvo conseguiu galgar, tanto na prática como na jurisprudência internacional, um êxito cada vez mais crescente.
A nulidade da cláusula Calvo poderá, contudo, ser invocada se implicar prejuízo do direito à proteção diplomática do Estado aos seus cidadãos no exterior, uma vez que a proteção diplomática, à luz do Direito Internacional Público, é um direito – e, ao menos, um dever moral – do Estado e não do indivíduo.
· Meios de reparação pela violação de uma obrigação internacional
Pela regra geral, a responsabilidade internacional do Estado se exprime pela reparação, conhecida como instituto predominante da responsabilidade civil. A exceção a esta regra diz respeito à responsabilidade que surge para o Estado em virtude da prática de ilícito internacional.
A expressão reparação é genérica, dentro da qual se encontram todas as formas que um Estado tem para cumprir uma obrigação que lhe cabe de acordo com o Direito Internacional, ou mesmo livrar-se de responsabilidade que este último também lhe impôs. 
O delineamento geral da reparação foi estabelecido pela CPJI no caso Fábrica de Chorzow, no sentido de que “é um princípio de Direito Internacional, ou seja, uma concepção geral do direito, que toda a violação de um compromisso comporta a obrigação de reparar de uma forma adequada”,sendo que a forma de reparação deveria “tanto quanto possível apagar todas as consequências do fato ilícito e restabelecer o estado que teria provavelmente existido se o referido ato não tivesse sido cometido”.
A reparação pode revestir-se de diversas formas: (a) a restituição in natura, (b) a indenização (compensação) e (c) a satisfação, individualmente ou em combinação.
Tem-se ainda a satisfação pelo dano causado, normalmente de cunho moral (art. 37, §§ 1º a 3º); trata-se de um componente da reparação lato sensu que tem lugar quando o ato ilícito praticado ofender a dignidade do Estado ou de seus funcionários. As formas de satisfação são basicamente três, normalmente cumulativas: (1) pode consistir num pedido de desculpas, (2) na punição dos funcionários culpados, ou ainda (3) num reconhecimento formal (até mesmo por via judicial) do caráter ilícito do fato.
Por fim, destaque-se que a garantia de não repetição, segundo a qual o Estado lesado tem o direito, se for o caso, de obter do Estado que cometeu um fato internacionalmente ilícito, a garantia de não repetição do fato.
2. DIREITO INTERNACIONAL PRIVADO
O objeto de estudo do Direito Internacional Privado são as normas jurídicas que cuidam de relações jurídicas internacionais com conexão internacional. Logo, toda vez que se está diante de um caso em que há um elemento de estraneidade, ou seja, um elemento deconexão, um elemento estrangeiro, é preciso ficar atento às normas do direito internacional privado.
A) Conceito de normas indiretas
Normas indiretas, indicativas ou de conexão são normas que não resolvem o mérito de um litígio, apenas dizem qual o direito aplicável para resolvê-lo.
Nesse sentido, quando um juiz está diante de um caso com conexão internacional, antes de julgá-lo, o juiz deve (i) identificar qual o direito aplicável e (ii) depois aplicar esse direito. 
Essas normas indiretas possuem duas partes:
a) Objeto de conexão: matéria de que trata a norma indireta;
b) Elementos de conexão: critério utilizado pela norma para dizer qual o direito aplicável.
No caso de uma norma jurídica estipular como formas alternativas de regência de atos entre vivos a lei do lugar de celebração do ato, a do lugar que regula a substância do ato e a lei nacional dos contraentes (se for comum), aplicar-se-á o elemento de conexão que indicar a norma mais favorável à validade formal do ato.
Art. 7º A lei do país em que domiciliada a pessoa determina as regras sobre o começo e o fim da personalidade, o nome, a capacidade e os direitos de família.
EXEMPLO: O art. 7º da LINDB determina: aplica-se a lei do domicílio para regular questões relacionadas à personalidade, nome e direito de família. Logo, nessa regra, o objeto de conexão é: personalidade, nome, capacidade e direitos de família. O elemento de conexão é o domicílio, porque o domicílio é o critério utilizado pela norma para dizer qual o direito aplicável. Portanto, para esse objeto de conexão, aplica-se esse elemento de conexão.
Rol dos elementos de conexão: 
a) Nacionalidade ou lex patriae; 
b) Domicílio ou lex domicili: hoje é o principal elemento de conexão;
c) Lex rei sitae: a lei de onde está situado o objeto, o bem;
d) Lex loci actum/locus legit actum/lex loci contractus: lei do local onde foi celebrado o contrato, o ato;
e) Lex loci executionis/lex loci solutions: a lei da execução, do cumprimento do contrato;
f) Lex loci delicti comissi: a lei do local onde foi praticado o ato ilícito;
g) Lex damni: a lei do local onde ocorreu o dano;
h) Lex voluntatis: a lei escolhida pela autonomia das partes;
i) Lex fori: a lei de onde está sendo processada a demanda.
· Qualificação
Qualificação é a delimitação do objeto de conexão, a definição da matéria tratada. O objeto de conexão pode ser: personalidade, nome, capacidade, casamento, nulidades do casamento, bens móveis, bens imóveis, sucessão, herdeiros, capacidade para suceder, responsabilidade civil, contratual, extracontratual etc.
Existem teorias que tentam apontar qual direito deve ser utilizado para qualificar, ou seja, para delimitar o objeto de conexão:
a) Lex fori: A lei de onde está sendo processada a demanda. Por exemplo, se o processo está sendo julgado no Brasil, deve ser usada a lei brasileira para fazer a qualificação. Com essa qualificação, alcança-se a norma indireta.
b) Lex causi: Deve ser aplicada, para a qualificação, o mesmo direito que será aplicado para resolver a demanda. Há, entretanto, um problema de lógica nessa teoria, porque só se saberá a norma indireta aplicável à demanda e o direito aplicável depois de realizada a qualificação. Essa teoria resta, portanto, superada atualmente.
c) Conceitos Universais: Não se deve utilizar nenhum direito em específico. Devem ser utilizados conceitos universais.
No direito brasileiro, a teoria escolhida, em regra, para fazer a qualificação, é a lex fori, a lei de onde está sendo processada a demanda, independentemente do direito que será utilizado "no final". Dessa forma, deve-se recorrer ao direito brasileiro para realizar a qualificação se o operador do direito está no Brasil.
Exceções:
Art. 8º da LINB. Para qualificar os bens e regular as relações a eles concernentes, aplicar-se-á a lei do país em que estiverem situados.
§ 1º Aplicar-se-á a lei do país em que for domiciliado o proprietário, quanto aos bens moveis que ele trouxer ou se destinarem a transporte para outros lugares. 
§ 2º O penhor regula-se pela lei do domicílio que tiver a pessoa, em cuja posse se encontre a coisa apenhada.
Art. 9º da LINDB. Para qualificar e reger as obrigações, aplicar-se-á a lei do país em que se constituírem.
§ 1º Destinando-se a obrigação a ser executada no Brasil e dependendo de forma essencial, será esta observada, admitidas as peculiaridades da lei estrangeira quanto aos requisitos extrínsecos do ato.
§ 2º A obrigação resultante do contrato reputa-se constituída no lugar em que residir o proponente.
Em relação aos bens e às obrigações, não se aplica a lex fori para qualificação, mas sim a lei do local onde eles estiverem situados, para a qualificação de bens; e a lei de onde elas foram constituídas, para obrigações.
Para saber onde essas obrigações foram constituídas, o parágrafo 2º indica que, se a obrigação for resultante de um contrato, considera-se que ela foi constituída no local em que residir o proponente.
O Código Civil determina que se considera celebrado o contrato no local em que foi realizada a oferta (onde não necessariamente será o domicílio do proponente), enquanto a Lei de Introdução afirma que é onde residir o proponente. Sendo assim, haveria uma antinomia. Entretanto, a regra do art. 9º, §2º, aplica-se a contratos internacionais, contratos com elementos de estraneidade, de conexão, de transnacionalidade; e o Código Civil apenas se aplica a contratos nacionais.
Por fim, no caso das obrigações que são executadas no Brasil e dependem de forma essencial, será observada a lei brasileira, e serão admitidas as peculiaridades quanto aos requisitos extrínsecos da lei estrangeira.
Estatuto da pessoa natural: Quando uma questão diante do juiz, com o elemento de estraneidade, de transnacionalidade, cuida do estatuto pessoal da pessoa natural, a norma indireta utilizada é a lei do país em que domiciliada a pessoa, isto é, a lei do domicílio.
Já para o Estatuto da pessoa jurídica, existem duas teorias principais: 
a) Incorporação: afirma que o direito aplicável a uma questão relacionada ao estatuto pessoal da pessoa jurídica deve ser a lei do local onde a pessoa jurídica foi constituída.
b) Sede social: é a lei do local onde está estabelecida a sede social, o principal estabelecimento da pessoa jurídica.
Art. 11 da LINDB. As organizações destinadas a fins de interesse coletivo, como as sociedades e as fundações, obedecem à lei do Estado em que se constituírem.
Logo, a Lei de Introdução adotou a Teoria da incorporação, e, portanto, a lei aplicável ao estatuto social das pessoas jurídicas é a lei do Estado onde foram constituídas.
B) Preceitos básicos de direito internacional privado
B.1) Ordem pública
Ordem Pública, no Direito Internacional Privado, possui um sentido específico, podendo ser conceituada como o conjunto de valores e normas jurídicas fundamentais de uma determinada ordem jurídica.
Art. 17, LINDB: As leis, atos e sentenças de outro país, bem como quaisquer declarações de vontade, não terão eficácia no Brasil, quando ofenderem a soberania nacional, a ordem pública e os bons costumes.
Características da Ordem Pública:
a) Corretivo, porque serve para corrigir, filtrar a aplicação do direito estrangeiro e dos atos de origem estrangeira; 
b) Relativo, porque varia no tempo e no espaço; 
c) Aberto, pois como é difícil definir abstratamente o que integra ordem pública, esse conceito precisa ser concretizado, ou seja, apenas no caso concreto será possível verificar se determinada norma ou valor faz parte da nossa ordem pública ou não.
B.2) Fraude à lei
Fraude à Lei pode ser considerada como a modificação artificial de um elemento de conexão. 
Art. 6º. Não se aplicará como direito estrangeiro o direito de um Estado Parte quando artificiosamente se tenham burlado os princípios fundamentais da lei de outro Estado Parte. Ficará a juízo das autoridades competentes do Estado receptor determinar a intenção fraudulenta das partes interessadas (CONVENÇÃO INTERAMERICANA).
A consequência da Fraude à Lei é que a manobra será desconsiderada e nãoproduzirá efeito algum, cabendo à autoridade responsável pela análise do caso verificar a existência ou não da intenção fraudulenta.
B.3) Reenvio, retorno, remissão ou renvoi
Reenvio é a indicação de uma norma indireta por um direito que já foi apontado como o aplicável para aquela relação jurídica.
Ex.: Um juiz, diante de uma causa transnacional com conexão internacional, deve verificar primeiro a competência e, na sequência, qual o direito aplicável, sendo que, para tanto, ele dirige-se a sua Lex Fori e busca uma norma indireta. Suponha que um juiz do Estado "A" vá ao DIPRI do Estado "A", e esse direito aponta como aplicável o direito do Estado "B". No entanto, de igual modo, ao verificar o direito do Estado "B", percebe-se que ele manda aplicar o direito do Estado "A" ou o direito do Estado "C". Isso é o reenvio, ou seja, a norma indicada indica outra norma.
· Reenvio de primeiro grau: quando o reenvio envolve o direito de dois países.
· Reenvio de segundo grau: quando o reenvio envolve o direito de três países.
O direito brasileiro, por sua vez, proíbe o reenvio no artigo 16 da LINDB:
Art. 16. Quando, nos termos dos artigos precedentes, se houver de aplicar a lei estrangeira, ter-se-á em vista a disposição desta, sem considerar-se qualquer remissão por ela feita a outra lei.
B.4) Questão prévia
Questão prévia é aquela que antecede a questão principal. No Direito Civil e Penal, pode-se dizer que questões prévias são as preliminares e as prejudiciais. No Direito Internacional Privado, quando se aplica uma norma indireta a uma determinada relação jurídica, é possível que haja uma questão anterior a ser resolvida.
EXEMPLO: Caso de sucessão em que há a questão principal, que consiste em definir o direito aplicável àquela sucessão, e uma questão prévia, que consiste na capacidade de suceder dos herdeiros.
A Convenção Interamericana diz não ser necessária a aplicação da mesma norma indireta da questão principal à questão prévia:
Art. 8º. As questões prévias, preliminares ou incidentes que surjam em decorrência de uma questão principal não devem necessariamente ser resolvidas de acordo com a lei que regula esta última (CONVENÇÃO INTERAMERICANA).
A doutrina ensina que, quando não houver nenhuma regra específica, aplicar-se-á para a questão prévia a mesma norma da questão principal. Entretanto, em havendo norma específica, esta será aplicada.
Segundo a Lei Brasileira, no caso do exemplo supramencionado, para a sucessão, aplica-se a Lei do domicílio do de cujos e, para a capacidade de suceder, aplica-se a Lei do domicílio do sucessor. Caso não houvesse essa regra específica para a capacidade de suceder, ser-lhe-ia aplicado o mesmo direito aplicável à sucessão.
B.5) Direito adquirido
O Direito Adquirido possui grande importância no Direito Internacional Privado, pois diz respeito à mobilidade que as pessoas têm e às relações jurídicas que as acompanham. O Direito Adquirido encontra-se incorporado ao patrimônio jurídico daquela pessoa.
Sua importância está relacionada à necessidade de continuidade e segurança jurídica.
Art. 7º. As situações jurídicas validamente constituídas em um Estado Parte, de acordo com todas as leis com as quais tenham conexão no momento de sua constituição, serão reconhecidas nos demais Estados Partes, desde que não sejam contrárias aos princípios da sua ordem pública (CONVENÇÃO INTERAMERICANA).
Portanto, a regra é que os Estados devem respeitar os direitos adquiridos, desde que eles não afrontem sua ordem pública.
C) Processo Internacional
Convenção Interamericana de DIPRI:
Art. 2º. Os juízes e as autoridades dos Estados Partes ficarão obrigados a aplicar o direito estrangeiro tal como o fariam os juízes do Estado cujo direito seja aplicável, sem prejuízo de que as partes possam alegar e provar a existência e o conteúdo da lei estrangeira invocada.
Existem dois tipos de competência dos juízes brasileiros para processar e julgar causas transnacionais:
a) concorrente: tanto o juiz brasileiro quanto o juiz estrangeiro podem julgar aquela demanda
b) exclusiva: somente juízes brasileiros poderão apreciar. Entretanto, caso seja apreciada por um juiz estrangeiro, a decisão não terá nenhuma validade jurídica no Brasil, inclusive violará nossa ordem pública.
Quando a norma indireta aponta o direito estrangeiro como aplicável, o juiz é obrigado a aplicar esse direito? Havia corrente doutrinária afirmando que o juiz brasileiro não era obrigado a aplicá-lo. No entanto, pela Convenção Interamericana e pela doutrina majoritária, o juiz é obrigado a aplicar o direito estrangeiro quando a norma indireta assim o determinar, posto que são normas cogentes. Ademais, ele deve aplicar o direito estrangeiro como se fosse o juiz do Estado a que pertence o direito que está sendo aplicado.
A aplicação da lei estrangeira é de ofício, ou seja, o juiz não depende da provocação da parte para aplicar o direito estrangeiro, porém, se o juiz verificar a necessidade de se aplicar um direito estrangeiro que ele não conheça, ele poderá determinar que a parte faça prova de sua existência.
O juiz pode fazer controle de constitucionalidade, se houver previsão no direito estrangeiro, utilizando a constituição estrangeira como parâmetro. 
A lei estrangeira é equiparada à lei federal para fim de RE (RE 93131, Relator(a): Min. MOREIRA ALVES, Segunda Turma, julgado em 17/12/1981). Sendo assim, cabe RE quando houver violação em última instância de Lei Estrangeira.
Art. 13. LINDB. A prova dos fatos ocorridos em país estrangeiro rege-se pela lei que nele vigorar, quanto ao ônus e aos meios de produzir-se, não admitindo os tribunais brasileiros provas que a lei brasileira desconheça.
· Caução (cautio iudicatum solvi)
Ao verificar que uma ação foi ajuizada por estrangeiro ou por pessoa não domiciliada no Brasil, faz-se necessária a aplicação do artigo 83 do CPC:
Art. 83. O autor, brasileiro ou estrangeiro, que residir fora do Brasil ou deixar de residir no país ao longo da tramitação de processo prestará caução suficiente ao pagamento das custas e dos honorários de advogado da parte contrária nas ações que propuser, se não tiver no Brasil bens imóveis que lhes assegurem o pagamento.
Para garantir que a parte, caso condenada ou sucumbente, não fuja da aplicação do direito brasileiro, a Lei exige que seja feita uma caução para o pagamento das custas e honorários de sucumbência, caso ela não possua imóveis no Brasil que garantam seu pagamento.
Há, todavia, algumas hipóteses em que a caução será dispensada:
§ 1º Não se exigirá a caução de que trata o caput:
I - quando houver dispensa prevista em acordo ou tratado internacional de que o Brasil faz parte;
II - na execução fundada em título extrajudicial e no cumprimento de sentença;
III - na reconvenção.
§ 2º Verificando-se no trâmite do processo que se desfalcou a garantia, poderá o interessado exigir reforço da caução, justificando seu pedido com a indicação da depreciação do bem dado em garantia e a importância do reforço que pretende obter.
Exemplos de convenções que trazem a dispensa da caução: Convenção de Haia sobre o Sequestro Internacional de Crianças e Convenção da Haia sobre Prestação Internacional de Alimentos.
· Litispendência internacional
Art. 24 do CPC. A ação proposta perante tribunal estrangeiro não induz litispendência e não obsta a que a autoridade judiciária brasileira conheça da mesma causa e das que lhe são conexas, ressalvadas as disposições em contrário de tratados internacionais e acordos bilaterais em vigor no Brasil.
Parágrafo único. A pendência de causa perante a jurisdição brasileira não impede a homologação de sentença judicial estrangeira quando exigida para produzir efeitos no Brasil.
C.1) Homologação de decisão estrangeira 
Para que uma decisão estrangeira produza efeitos no Brasil, em razão do princípio da soberania e da territorialidade da jurisdição, é necessário que ela passe por um procedimento de confirmação, de homologação.
Segundo o art. 105, I, "i", da CF, a competência é do STJ.
Qual a competência para o cumprimento deuma decisão estrangeira? O cumprimento será dos juízes federais, segundo o 109, X, da CF, independentemente da matéria. Já houve questão alegando que os juízes federais somente cumprirão as sentenças homologadas se a matéria for de Direito Público, mas não há essa distinção.
· Objeto
É passível de homologação a decisão judicial definitiva, bem como a decisão não judicial que, pela lei brasileira, teria natureza jurisdicional.
A regra é: se a decisão estrangeira é uma decisão judicial (emanada pelo Poder judiciário) e definitiva (isto é, não há mais possibilidade de recursos contra ela), ela precisa ser homologada para produzir efeitos no Brasil, e o objeto da homologação de decisão estrangeira será, por excelência, a decisão judicial estrangeira definitiva.
Contudo, também podem ser homologadas as decisões não judiciais que, pela lei brasileira, tenham natureza jurisdicional. Essa é uma jurisprudência antiga do STF, com o exemplo dos prefeitos do Japão que possuem competência para realizar um divórcio. 
Deve ser homologada também a decisão arbitral estrangeira (art. 960, § 3º).
SÃO EXCEÇÕES À REGRA DE NECESSIDADE DE HOMOLOGAÇÃO:
1) SENTENÇAS ESTRANGEIRAS DE DIVÓRCIO CONSENSUAL (ART. 961, § 5º);
2) TÍTULOS EXECUTIVOS EXTRAJUDICIAIS ORIUNDOS DE PAÍS ESTRANGEIRO (ART. 961, § 2º);
3) SENTENÇAS DE TRIBUNAIS INTERNACIONAIS.
O Brasil já foi condenado diversas vezes pela CIDH e não houve necessidade de homologação da sentença da CIDH para produzir efeitos no Brasil, pois a necessidade de homologação refere-se a uma decisão estrangeira e não a uma decisão internacional, ou seja, oriundas de Tribunais Internacionais, que dispensam a homologação.
É possível a homologação pelo STJ de sentença eclesiástica de anulação de matrimônio, confirmada pelo órgão de controle superior da Santa Sé. STJ. Corte Especial. SEC 11.962-EX, Rel. Min. Felix Fischer, julgado em 4/11/2015 (Info 574).
· Requisitos (art. 963 do CPC)
Art. 963. Constituem requisitos indispensáveis à homologação da decisão:
I - ser proferida por autoridade competente;
II - ser precedida de citação regular, ainda que verificada a revelia;
III - ser eficaz no país em que foi proferida;
IV - não ofender a coisa julgada brasileira;
V - estar acompanhada de tradução oficial, salvo disposição que a dispense prevista em tratado;
VI - não conter manifesta ofensa à ordem pública.
Parágrafo único. Para a concessão do exequatur às cartas rogatórias, observar-se-ão os pressupostos previstos no caput deste artigo e no art. 962, § 2º .
A citação é suprida pelo comparecimento à audiência no juízo estrangeiro (SEC 2259-EX). Dessa forma, ao se verificar que não houve citação, mas que o réu compareceu à audiência, considera-se que houve citação, portanto, não se deixa de homologar a sentença estrangeira por tal motivo.
Ademais, a citação é suprida pela citação por edital se a parte estava em local desconhecido (SEC 11850-EX). 
Outrossim, a citação não é suprida pela citação por correio se a parte residia no Brasil (exige-se carta rogatória) (SEC 8396-EX). Houve caso em que um brasileiro era réu e estava em outro país, e resolveram enviar-lhe uma carta, mas o STJ não permitiu, pois seria necessária a expedição de uma carta rogatória, pois a citação por correio não preenche os requisitos da citação.
Ainda, a citação não é exigida nos procedimentos arbitrais (SEC 8.847/EX), pois estes possuem regras específicas.
Súmula nº 420, do STF: Não se homologa sentença proferida no estrangeiro sem prova do trânsito em julgado. 
O STJ decidiu ainda que “o trânsito em julgado das decisões estrangeiras pode ser comprovado por qualquer meio hábil a demonstrar a definitividade da decisão homologada”. 
O ART. 963, III, DO CPC/2015, NÃO MAIS EXIGE QUE A DECISÃO JUDICIAL QUE SE PRETENDE HOMOLOGAR TENHA TRANSITADO EM JULGADO, MAS APENAS QUE ELA SEJA EFICAZ EM SEU PAÍS DE ORIGEM, tendo sido tacitamente revogado o art. 216-D, III, do RISTJ. (Info 626) 
Com esse entendimento, fica superada a Súmula 420 do STF.
CPC, Art. 964. Não será homologada a decisão estrangeira na hipótese de competência exclusiva da autoridade judiciária brasileira.
Há um precedente afirmando que é possível homologar uma decisão estrangeira que verse sobre um imóvel situado no Brasil, desde que seja um acordo entre as partes, pois isso não violaria a ordem pública. (STJ, SEC 878/PT).
A parcialidade do julgador arbitral viola ordem pública nacional (STJ, SEC 9.412-EX).
· Procedimento
A homologação de decisão estrangeira tem natureza de ação, de processo contencioso. Dessa forma, tudo se inicia com a propositura da ação (art. 960 do CPC e 216-C do RISTJ). Sendo assim, há a petição inicial com os requisitos do direito processual civil.
A ausência de jurisdição brasileira conduz necessariamente à falta de interesse processual na homologação de provimento estrangeiro (SEC 8.542-EX, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, por unanimidade, julgado em 29/11/2017, DJe 15/3/2018). Nesse sentido, o STJ afirmou que, se alguém pede para homologar uma decisão estrangeira, é necessário verificar também se há algum vínculo com o Brasil naquela causa. Se não houver nenhuma relação com o Brasil, não haverá interesse do autor na homologação da decisão estrangeira.
Cabe tutela de urgência, pois é uma ação como qualquer outra, (art. 961, § 3º, do CPC e art. 216-G do RISTJ). 
Há também a previsão de contestação em 15 dias (art. 216-H). Assim, se houver contestação, o presidente determina a distribuição para um relator, e o julgamento será feito pela Corte Especial (art. 216-K). Contudo, caso não haja contestação, o presidente pode homologar a decisão estrangeira, sem distribuir para o relator e sem o julgamento na Corte Especial.
Há a previsão de réplica e tréplica em 5 dias (art. 216-J). Cabe decisão monocrática pelo relator se houver jurisprudência pacífica no STJ (art. 216-K, parágrafo único). Ainda, há previsão de remessa ao MP (art. 216-L).
Cabe desistência, mas não renúncia (SEC 8.542-EX, 15/03/2018). 
Como na homologação de decisão estrangeira o sistema adotado é o da delibação, o STJ, ao apreciar e julgar a homologação de decisão estrangeira, não entra no mérito da demanda, mas apenas verifica a presença dos requisitos formais ou se houve violação à ordem pública, de modo que somente analisa os requisitos. Portanto, o STJ não verifica se a decisão foi justa ou injusta.
Por essa razão a parte não pode renunciar o direito material, porque o STJ não tem poderes sobre o direito material, apenas analisando se a decisão produzirá efeitos no Brasil ou não. 
Ademais, cabe agravo das decisões do Presidente ou do relator (art. 216-M). Portanto, se o presidente, antes de distribuir a ação de homologação para o relator, proferir uma decisão, cabe agravo. Se o relator proferir uma decisão monocrática ou qualquer decisão que a parte esteja insatisfeita, cabe agravo.
Cabe homologação parcial da sentença estrangeira (art. 961, § 2º, do CPC e art. 216-A, § 2º, do RISTJ). Significa que, se o STJ perceber que há uma parte da decisão que viola a ordem pública, mas há outra parte que está adequada, é possível homologar esta parte. Outro exemplo: se houver uma parte que viola a competência exclusiva dos juízes brasileiros e outra parte que não, pode haver homologação parcial.
Outro ponto que está relacionado ao sistema delibatório da homologação de sentença estrangeira é que o indeferimento faz apenas coisa julgada formal, ou seja, não afeta o mérito (EDcl na SEC 8.585/EX).
A decisão homologada estrangeira possui natureza de título executivo judicial (art. 515, VIII, do CPC).
O cumprimento da decisão estrangeira (art. 965 do CPC e art. 216-N do RISTJ) será do juiz federal no local onde a decisão deverá ser cumprida.
A propositura de ação no Brasil não impede a homologação da sentença estrangeira proferida em processo idêntico. No entanto, homologada a sentença estrangeira, a lide nacional deve ser extinta (STJ, SEC 9880/EX). 
Referente às decisões relativas à guarda e alimentos de natureza rebus sic stantibus, ainda que seja precária ou que exista uma decisãoestrangeira homologada, prevalecem as decisões da Justiça Brasileira. Isso ocorre porque as decisões podem se modificar com o tempo, ou seja, os alimentos podem aumentar, diminuir, ser extintos, revistos, depois de cancelados podem voltar a ser determinados, pois tudo depende do alimentando e das possibilidades do alimentante. À vista disso, o STJ determina que prevalecem as decisões da Justiça Brasileira, ainda que sejam precárias e cautelares.
C.2) Rogatórias e Auxílio Direto
As cartas rogatórias e auxílio direto são dois mecanismos da cooperação jurídica internacional.
· Cartas rogatórias
As cartas rogatórias podem ser ativas ou passivas. As ativas são expedidas pelos juízes brasileiros. As cartas rogatórias passivas são aquelas que recebemos do exterior. 
A competência para expedir o exequatur nas cartas rogatórias passivas é do STJ (art. 105, I, i). A competência para executar e cumprir as cartas rogatórias é dos juízes federais brasileiros (art. 109, X, CF).
O STJ afirma que tem competência para expedir carta rogatória “autoridade estrangeira competente de acordo com a legislação local, mesmo que não integrada ao Judiciário”. 
Qual o objeto? O NCPC trouxe um artigo arrolando as matérias que poderiam ser objeto de cartas rogatórias. O Presidente da República vetou o artigo, porque considerou que poderia ser interpretado que aquelas diligências somente poderiam ser cumpridas por meio de carta rogatória, o que esvaziaria o auxílio direito. Portanto, vetou-se o artigo com a finalidade de possibilitar que fossem cumpridas tanto por carta rogatória quanto por auxílio direto.
Contudo, a doutrina prescreve que podem ser objeto de cartas rogatórias:
(a) atos ordinatórios ou de mero trâmite (quando é preciso fazer uma intimação, uma comunicação, uma solicitação de informação do direito estrangeiro, ou seja, qualquer diligência simples, como uma comunicação processual);
(b) atos instrutórios (produção de prova como, por exemplo, um juiz estrangeiro que necessita que uma diligência seja feita no Brasil ou que uma testemunha seja ouvida no Brasil);
(c) atos executórios (o juiz estrangeiro precisa que determinado bem seja penhorado, por exemplo).
O art. 962, § 1º, do NCPC traz uma previsão que decisões interlocutórias concessivas de medida de urgência podem ser objeto de cartas rogatórias. Portanto, não é necessária uma ação de homologação de decisão estrangeira.
No Mercosul, o Protocolo de Las Leñas para cooperação jurídica internacional em matéria civil, trabalhista, administrativa e comercial, no art. 19, determina que "poderá haver pedido de homologação de sentença estrangeira por meio de cartas rogatórias". Contudo, esse pedido parece estranho porque ou faz-se um pedido de homologação ou faz-se uma carta rogatória, o que depende do ato. Se for uma decisão judicial definitiva, será por homologação. Se for algum ato ordinatório, executório ou instrutório, será por carta rogatória.
Nesse sentido, o STF fez interpretação do art. 19 esclarecendo que o Protocolo de Las Leñas quer dizer é que possível, no âmbito do Mercosul, a homologação de sentença estrangeira por iniciativa oficial do juiz. Portanto, o juiz pode mandar uma carta rogatória para outro país a fim de que homologue uma decisão e para que esta produza efeitos. Outro efeito do art. 19 é que o contraditório fica diferido, sendo assim, a sentença estrangeira será homologada e, somente depois, haverá o contraditório no momento da execução.
Por fim, não cabe carta rogatória para remessa de menor (STJ, AgRg na CR 2874/CR), conforme Convenção da Haia, que cuida sobre os aspectos civis do sequestro internacional de menores. 
Não cabe exequatur de uma carta rogatória que viole a competência exclusiva dos juízes brasileiros:
CPC: Art. 964. Não será homologada a decisão estrangeira na hipótese de competência exclusiva da autoridade judiciária brasileira.
Parágrafo único. O dispositivo também se aplica à concessão do exequatur à carta rogatória. 
No procedimento da carta rogatória não são necessários todos os documentos da causa (STF, HC 97511), portanto, não há necessidade de juntar cópia integral do processo estrangeiro para que a carta rogatória receba o exequatur, bastando que tenha os documentos suficientes para a compreensão da causa.
A previsão de impugnação é de 15 dias. Sendo assim, quando chega uma carta rogatória no STJ, abre-se prazo para o interessado, que terá 15 dias para responder. Observa-se que a resposta é uma impugnação e não uma contestação como ocorre na homologação de decisão estrangeira.
O sistema da delibação é chamado também de sistema da contenciosidade limitada, justamente porque o objeto de discussão pelo requerido é limitado, uma vez que o requerido apenas pode discutir sobre a autenticidade dos documentos, inteligência da decisão e requisitos regimentais (art. 216-Q, § 2º).
Cabe tutela de urgência na carta rogatória (art. 216-Q, §1º).
Se houver impugnação, o Presidente pode encaminhar para a Corte Especial (art. 216-T). Dessa forma, a carta rogatória vai para o presidente do STJ, que abre prazo para impugnação. Se houver impugnação, o presidente pode encaminhar para a Corte Especial. Sendo assim, a carta rogatória será distribuída para o relator, e o julgamento da carta rogatória será pela Corte Especial do STJ.
Há uma diferença em relação à homologação de decisão judicial estrangeira e a carta rogatória. De modo que, na homologação de decisão judicial estrangeira, se houver contestação, o presidente DEVE encaminhar para a Corte Especial. Na carta rogatória, se houver impugnação, o presidente PODE encaminhar para a Corte Especial.
Cabe agravo das decisões do presidente ou do relator, como no caso da homologação de decisão judicial estrangeira (art. 216-U).
Ademais, se houver exequatur, haverá a remessa ao juiz federal para cumprir a carta rogatória (art. 216-V). Das decisões do juiz federal, cabe embargos para o presidente do STJ (art. 216-V, § 1º). Portanto, se o requerido ou até mesmo o interessado estiverem inconformados com alguma decisão do juiz federal na execução da carta rogatória, podem entrar com embargos para o STJ.
Das decisões do Presidente, cabe agravo para a Corte Especial (art. 216-W)
· Auxílio direto
Ocorre diretamente entre as autoridades centrais, sem necessidade de um juízo de delibação por uma autoridade judicial específica, exceto nos casos em que há reserva de jurisdição.
Sendo assim, tanto na homologação de decisão estrangeira quanto nas cartas rogatórias, para que a solicitação de cooperação jurídica internacional seja atendida, é necessário que passe pelo STJ, que faz seu juízo de delibação e depois manda para o juiz federal cumprir. No auxílio direto é diferente. 
Tem-se um exemplo referente à Convenção da Haia sobre prestação internacional de alimentos. Imagine que há uma criança, na Argentina, que entende que tem direito a alimentos a serem pagos por uma pessoa domiciliada no Brasil. O menor, credor de alimentos, pode ajuizar uma ação na Argentina, que pode resultar em uma condenação da pessoa domiciliada no Brasil a pagar alimentos. Em seguida, a criança poderá ajuizar uma ação de homologação de decisão estrangeira no STJ para que a decisão da justiça argentina possa ser executada no Brasil.
No entanto, também o credor pode utilizar o auxílio direto. Procura a autoridade central da Argentina e revela que tem direitos a alimentos de uma pessoa que está domiciliada no Brasil. A autoridade central da Argentina entra em contato com a autoridade central do Brasil, que perguntará se o sujeito já possui uma sentença, mas a resposta será negativa. Portanto, essa autoridade entrará com uma ação na justiça brasileira, representando os interesses do menor argentino a fim de buscar uma sentença condenatória.
Código de Processo Civil:
Art. 28. Cabe auxílio direto quando a medida não decorrer diretamente de decisão de autoridade jurisdicional estrangeira a ser submetida a juízo de delibação no Brasil.
O art. 30 estabelece o objeto do auxílio direto:
Art. 30. Além dos casos previstos em tratados deque o Brasil faz parte, o auxílio direto terá os seguintes objetos:
I - obtenção e prestação de informações sobre o ordenamento jurídico e sobre processos administrativos ou jurisdicionais findos ou em curso;
II - colheita de provas, salvo se a medida for adotada em processo, em curso no estrangeiro, de competência exclusiva de autoridade judiciária brasileira;
III - qualquer outra medida judicial ou extrajudicial não proibida pela lei brasileira.
No Brasil, a principal autoridade central é o Ministério da Justiça, previsto expressamente no art. 26, § 4º, do CPC. Além do MJ, há o MPF que, em alguns tratados em matéria penal, é indicado como autoridade central.
Há também a Secretaria de Direitos Humanos (SDH), que é a autoridade central em matéria de sequestro internacional de crianças.
Art. 32. No caso de auxílio direto para a prática de atos que, segundo a lei brasileira, não necessitem de prestação jurisdicional, a autoridade central adotará as providências necessárias para seu cumprimento.
Art. 33. Recebido o pedido de auxílio direto passivo, a autoridade central o encaminhará à Advocacia-Geral da União, que requererá em juízo a medida solicitada.
Parágrafo único. O Ministério Público requererá em juízo a medida solicitada quando for autoridade central.
No caso do MJ e da SDH, que são órgãos da União e que, portanto, não têm personalidade jurídica, quem irá a Juízo é a União, representada judicialmente pela AGU.
Art. 34. Compete ao juízo federal do lugar em que deva ser executada a medida apreciar pedido de auxílio direto passivo que demande prestação de atividade jurisdicional.
Ademais, ressalta-se que, quando é submetida a Juízo, o juiz tem ampla cognição sobre o pedido.
· Auxílio direto x carta rogatória
No auxílio direto, há uma comunicação direta entre autoridades centrais, sem juízo de delibação de órgão judicial específico, ao passo que, na carta rogatória, a comunicação não ocorre diretamente entre as autoridades centrais. A carta rogatória passiva vai para o STJ, que faz o juízo de delibação e depois esclarece se a carta rogatória pode ser cumprida ou não.
No auxílio direto, há ampla cognição sobre o pedido, não apenas delibação. Nas cartas rogatórias, o Poder Judiciário, ao fazer a análise, esta será necessariamente delibatória, isto é, apenas sobre os requisitos, não sobre o mérito da causa.
D) Extradição e outras modalidades de cooperação em matéria penal
Atualmente, a extradição está bem regulamentada pela Lei de Migração (Lei nº 13.445/2017).
Extraído do dispositivo 81 da Lei de Migração, a extradição é conceituada como a medida de cooperação internacional entre o Estado brasileiro e outro Estado pela qual se concede ou solicita a entrega de pessoa sobre quem recaia condenação criminal definitiva ou para fins de instrução de processo penal em curso.
A extradição possui natureza jurídica de "medida de cooperação internacional em matéria penal", conceito este, também extraído do artigo transcrito acima (81).
D.1) Classificações dos pedidos de extradição
· QUANTO À SOLICITAÇÃO DA EXTRADIÇÃO (ATIVA OU PASSIVA)
No tocante ao pedido de extradição, verifica-se que poderá haver a "solicitação" ou a "entrega" da pessoa a ser extraditada: um pedido ativo e outro passivo.
Haverá a extradição ativa, quando o Estado brasileiro realizar/encaminhar tal pedido a outro Estado. Por outro lado, ocorrerá a extradição passiva quando a referida solicitação for recebida pelo Brasil, emanada de outro Estado.
· Extradição instrutória ou executória
O pedido será instrutório quando destinado à instrução de Processo Penal em curso, isto é, ainda não há uma sentença penal condenatória prolatada naquele processo. 
O pedido será executório quando já tiver sido condenado, portanto, recaindo sobre ele uma condenação criminal.
D.2) Fundamento da extradição
Via de regra, o pedido de extradição poderá se fundamentar em um Tratado pré-existente ou em promessa de reciprocidade entre o Estado solicitante e o Estado responsável pela efetiva extradição.
D.3) Vedações à extradição
As vedações previstas na Lei de Migração estão insculpidas em seu art. 82, conforme elencado abaixo:
a) Brasileiro nato (art. 5º, inciso LI, da CF/88; e art. 82, inciso I, da LM): a vedação à extradição de brasileiro nato é absoluta e está expressa em nossa Constituição, reproduzida também na Lei de Migração.
b) Brasileiro naturalizado (art. 5º, inciso LI, da CF/88; e art. 82, § 5º, da LM): no caso do brasileiro naturalizado, há uma flexibilização à regra da não extradição. O naturalizado poderá ser extraditado, caso tenha praticado crime comum antes da naturalização ou, a qualquer tempo, caso tenha se envolvido em crime de tráfico ilícito de entorpecentes, na forma da lei;
c) Dupla nacionalidade (STF, HC-QO 83.113): no que tange à pessoa com dupla nacionalidade, o STF já decidiu que, havendo a nacionalidade originária (brasileiro nato), é irrelevante a existência de outra nacionalidade; a vedação da extradição permanecerá;
d) Opção e Extradição (AC 70 QO):  quando o extraditando informa que apresentou a opção de nacionalidade, exercendo seu direito potestativo (exemplo do estrangeiro, filho de pai ou mãe brasileira, que passa a residir no Brasil e opta pela nacionalidade brasileira), essa homologação gerará como efeito a nacionalidade brasileira originária. Diante disso, o STF suspenderá o processo de extradição, até que o pedido formulado seja julgado (opção pela nacionalidade); logo, será negado a extradição, caso deferido a homologação;
e) Hipótese prevista no art. 82, § 3º, da LM: casos em que ocorra a perda da naturalização brasileira ou aquisição de outra nacionalidade pelo brasileiro nato, levar-se-á em conta se, no momento do fato gerador da extradição (prática de algum crime, por exemplo), o sujeito era brasileiro nato. Caso positivo, este não será extraditado;
ATENÇÃO: O sistema de extradição adotado no Brasil é o Sistema Belga, ou seja, um sistema de delibação. Esse sistema tem como característica a ausência de análise do mérito. O STF não apreciará o conteúdo da condenação ou do processo penal estrangeiro.
O que se verifica é se os requisitos legais (geralmente formais) estão presentes para fins de deferimento do pedido de extradição. Por outro lado, esse sistema de delibação belga é derrogado no caso de envolvimento no tráfico de entorpecentes.
Diante disso, tratando-se do tráfico de entorpecentes praticado pelo brasileiro naturalizado, o STF verifica a existência dos mínimos indícios de prova, em outras palavras, deve haver algum suporte para tomada dessa decisão (a CF/88 utiliza a palavra "comprovado" envolvimento no tráfico de drogas). Portanto, nesse caso (brasileiro naturalizado x tráfico de drogas), haverá uma derrogação ao Sistema Belga de delibação.
f) Dupla tipicidade (art. 82, inciso II, da LM): também conhecida por dupla incriminação ou Princípio da Identidade, significa que o STF somente deferirá o pedido de extradição se ficar comprovado que aquele crime gerador do pedido de extradição, também for considerado crime no Brasil.
OBSERVAÇÃO: De acordo com o STF, não há a necessidade de coincidência na denominação do crime (nomen iuris), bastando que a conduta/tipo seja o mesmo.
g) Competência da Justiça brasileira (art. 82, inciso III, da LM): a Lei de Migração indica que a extradição não deverá ser deferida quando o julgamento do crime que a originou for de competência da justiça brasileira. Contudo, o STF há tempos tem abrandado essa vedação, indicando que se o julgamento for de competência da justiça brasileira, mas o processo ainda não tenha se iniciado, será concedido a extradição.
Logo, a contrario sensu, se iniciado o processo atinente àquele crime, a extradição será vedada.
h) Pena de prisão inferior a 2 (dois) anos no Brasil (art. 82, inciso IV, da LM): se verificado que a pena aplicável ao crime que motivou a extradição tiver no Brasil uma pena inferior a 2 (dois) anos, a extradição não será concedida;
i) Bis in idem (art. 82, inciso V, da LM): se o sujeito já foi processado ou condenado pelo mesmocrime, não se concederá a extradição;
j) Prescrição (art. 82, inciso VI, da LM): não será concedida a extradição, caso o crime em debate já esteja prescrito, segundo a lei de um ou de ambos os Estados;
OBSERVAÇÃO: (Ext 1.270/DF, julgamento em 12/12/2017): Tratando-se de extradição com base em crimes permanentes (ex.: desaparecimento forçado de pessoas, tal como ocorrido no Brasil na década de 70; ocultação de cadáver, etc), enquanto não localizado a pessoa, o crime continuará produzindo seus efeitos e não se consumou; não se iniciando o prazo prescricional. Nessa hipótese, o STF poderá deferir a extradição.
OBSERVAÇÃO: (STF, Ext 1.362): Há jurisprudência alienígena consolidada, remontando desde os julgamentos dos casos de Nuremberg e, por sua vez, aplicável na Corte Interamericana de Direitos Humanos, que os Crimes contra a Humanidade são imprescritíveis. Os crimes contra a humanidade podem ser conceituados como "um ataque generalizado ou sistemático, contra uma população civil, por meio de alguns atos" (ex.: tortura, execução extrajudicial, sequestro, apartheid, desaparecimento forçado, etc).
Essa imprescritibilidade também é aplicada pelo Estatuto de Roma da TPI (Tribunal Penal Internacional). No entanto, no julgamento do pedido de Extradição nº 1.362 (Argentina x Salvador Siciliano), no ano de 2016, o STF concluiu que, como o Brasil não é signatário da referida Convenção sobre a imprescritibilidade dos crimes contra a humanidade, os crimes imputados a Salvador já estavam prescritos (segundo nossa legislação) e, portanto, foi negado a extradição do argentino.
h) Crime político ou de opinião (art. 82, inciso VII, da LM): de acordo com esse dispositivo, não se concederá extradição se verificado que o pedido se funda em crime político; não em crime comum;
Art. 82. Não se concederá a extradição quando:
VII - o fato constituir crime político ou de opinião;
§ 1 A previsão constante do inciso VII do  caput  não impedirá a extradição quando o fato constituir, principalmente, infração à lei penal comum ou quando o crime comum, conexo ao delito político, constituir o fato principal.
§ 2  Caberá à autoridade judiciária competente a apreciação do caráter da infração.
§ 4  O Supremo Tribunal Federal poderá deixar de considerar crime político o atentado contra chefe de Estado ou quaisquer autoridades, bem como crime contra a humanidade, crime de guerra, crime de genocídio e terrorismo.
ATENÇÃO: De acordo com o art. 82, § 2º, da Lei de Migração, caberá à autoridade judiciária competente (no caso, o STF), a apreciação do caráter da infração (se crime político ou não); não cabendo essa atribuição ao Estado requerente.
ATENÇÃO: O § 4º, do art. 82, da LM, é evidente no sentido de que o atentado contra o(s) Chefe(s) de Estado(s) ou quaisquer autoridades, além dos crimes contra a humanidade, crimes de guerra ou crime genocídio, não serão considerados crimes políticos e, à vista disso, não impedirão a extradição.
i) Juízo ou Tribunal de Exceção (art. 82, inciso VIII, da LM): não se concederá a extradição se a pessoa a ser extraditada estiver sujeita a um juízo ou tribunal de exceção no Estado requerente;
h) Refúgio (art. 82, inciso IX e arts. 33 e 34, ambos da Lei nº 9.474/97): quando a pessoa (refugiado) requer o reconhecimento da condição de refugiado, o processo extradicional é suspenso. Desse modo, caso reconhecida esta condição, o processo de extradição será extinto e, consequentemente, a extradição será negada.
j) Asilo Político (art. 82, inciso IX): caso o Brasil conceda asilo político ao estrangeiro e o seu país de origem requeira sua extradição, esse último pedido será negado.
D.4) Hipóteses que não configuram vedação à extradição
Há hipóteses que não vedam a extradição. São elas:
a) Ser casado com brasileiro ou ter filho brasileiro (Súmula 421, do STF):  não obsta a extradição o fato de o sujeito ser casado(a) com brasileira(o) ou ter filho brasileiro. Importante frisar que essa premissa não será válida na hipótese de expulsão do estrangeiro;
b) Ter domicílio em território brasileiro;
c) Não criar embaraço à Justiça do Estado requerente.
D.5) Condições para concessão (art. 92)
O pedido de extradição não poderá ser feito por qualquer Estado, exigindo-se que, no caso concreto, tenha ocorrido as seguintes condições :
a) Ter sido o crime cometido no território do Estado requerente ou serem aplicáveis ao extraditando as leis penais desse Estado; e
b) Estar o extraditando respondendo a processo investigatório ou a processo penal ou ter sido condenado pelas autoridades judiciárias do Estado requerente a pena privativa de liberdade.
OBSERVAÇÃO: Deve haver uma investigação em curso para deferimento da extradição.
Para que haja a extradição da pessoa, o STF exige que tenha ocorrido a prisão anterior do extraditando, bem como, de acordo com o art. 84 da Lei de Migração, essa prisão poderá ser cautelar (anterior ao pedido).
Art. 84. Em caso de urgência, o Estado interessado na extradição poderá, previamente ou conjuntamente com a formalização do pedido extradicional, requerer, por via diplomática ou por meio de autoridade central do Poder Executivo, prisão cautelar com o objetivo de assegurar a executoriedade da medida de extradição que, após exame da presença dos pressupostos formais de admissibilidade exigidos nesta Lei ou em tratado, deverá representar à autoridade judicial competente, ouvido previamente o Ministério Público Federal.
Conforme redação do art. 208 do RISTF:
Art. 208. Não terá andamento o pedido de extradição sem que o extraditando seja preso e colocado à disposição do Tribunal.
IMPORTANTE RESSALTAR QUE ESSA PRISÃO É PROCEDIMENTAL, NÃO SE EXIGINDO A PRESENÇA DOS REQUISITOS APLICÁVEIS À PRISÃO PREVENTIVA.
ATENÇÃO: No julgamento do Pedido de Extradição nº 1.196, o Supremo Tribunal Federal decidiu que como requisito de procedibilidade da extradição, essa prisão é constitucional.
Art. 86. O Supremo Tribunal Federal, ouvido o Ministério Público, poderá autorizar prisão albergue ou domiciliar ou determinar que o extraditando responda ao processo de extradição em liberdade, com retenção do documento de viagem ou outras medidas cautelares necessárias, até o julgamento da extradição ou a entrega do extraditando, se pertinente, considerando a situação administrativa migratória, os antecedentes do extraditando e as circunstâncias do caso.
D.6) Entrega voluntária
A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal se posicionava no sentido da inaplicabilidade da entrega voluntária, ou seja, ainda que o extraditando não relutasse acerca desse pedido (extradição), era imprescindível a existência de um processo prévio. Contudo, a Lei de Migração também alterou essa (im)possibilidade, conforme se extrai do art. 87 da referida Lei:
Art. 87. O extraditando poderá entregar-se voluntariamente ao Estado requerente, desde que o declare expressamente, esteja assistido por advogado e seja advertido de que tem direito ao processo judicial de extradição e à proteção que tal direito encerra, caso em que o pedido será decidido pelo Supremo Tribunal Federal.
OBSERVAÇÃO: Ainda que a pessoa seja expressamente favorável ao pedido de extradição (entrega voluntária), é imprescindível que esteja assistido por advogado (público ou privado), além de advertido sobre a possibilidade de transcurso do respectivo processo extradicional para tanto, com as devidas garantias legais.
D.7) Procedimento da extradição
a) Fase administrativa: A Extradição se inicia pelas vias administrativas, podendo essa solicitação ser formulada pelas autoridades diplomáticas ou, quando previsto em tratado, diretamente pelo Ministério da Justiça (MJ). Dessa forma, recebido o pedido, este é encaminhado ao MJ, que o encaminha ao Supremo Tribunal Federal.
ATENÇÃO: O pedido de extradição poderá ser arquivado de plano pelo Ministério da Justiça (prerrogativa do Ministro da Justiça), caso verifique a ausência dos pressupostos formais da extradição (vide art. 89, parágrafo único, da LM). Por outro lado, preenchido os pressupostos formais, o MJ encaminha o pedidoao STF.
b) Fase judicial: o Relator designará uma data para interrogatório do extraditando. Posteriormente, o extraditando terá o prazo de 10 (dez) dias para defesa, podendo alegar tão somente: (i) identidade da pessoa reclamada, (ii) defeito de forma de documento apresentado ou (iii) ilegalidade da extradição.
OBSERVAÇÃO: O extraditando estará limitado às teses acima, tendo em vista o Sistema Belga/Sistema delibatório (contenciosidade limitada), a qual o STF está submetido.
ATENÇÃO: Caso o Supremo Tribunal Federal negue a extradição, não se admitirá novo pedido baseado no mesmo fato.
c) Fase de execução da extradição: O Poder Judiciário é o responsável pelo julgamento da extradição. Entretanto, compete ao Poder Executivo autorizar a entrega do Extraditando.
Insta salientar que, de acordo com a jurisprudência do STF (vide Rcl 11.243), a decisão deferitória da extradição não vincula o Poder Executivo, cabendo a ele a decisão final. Por outro lado, se denegatória, o Poder Executivo estará vinculado, ficando impossibilitado de extraditar a pessoa.
O Estado estrangeiro terá o prazo de 60 (sessenta) dias para tomar as medidas que entender cabíveis.
É cabível o ajuizamento de ação rescisória em face de acórdão proferido pelo STF em processo de extradição, pois este possui cunho predominantemente administrativo, não havendo que se falar na hipótese de julgamento de natureza penal. Verificada a ocorrência de empate em julgamento de processo de extradição, é necessário o seu adiamento para que a decisão seja tomada somente depois do voto de desempate, visto que a aplicação de solução mais favorável ao réu se restringe aos casos expressamente previstos na legislação. STF. Plenário. AR 2921/DF, Rel. Min. Alexandre de Moraes, julgado em 30/04/2023 (Info 1089).
Art. 95. Quando o extraditando estiver sendo processado ou tiver sido condenado, no Brasil, por crime punível com pena privativa de liberdade, a extradição será executada somente depois da conclusão do processo ou do cumprimento da pena, ressalvadas as hipóteses de liberação antecipada pelo Poder Judiciário e de determinação da transferência da pessoa condenada.
§ 1 A entrega do extraditando será igualmente adiada se a efetivação da medida puser em risco sua vida em virtude de enfermidade grave comprovada por laudo médico oficial.
§ 2 Quando o extraditando estiver sendo processado ou tiver sido condenado, no Brasil, por infração de menor potencial ofensivo, a entrega poderá ser imediatamente efetivada.
D.8) Compromissos do estado requerente (art. 96)
Não bastasse todos os requisitos formais explanados acima, a fim de se garantir um processo extradicional de acordo com a legislação aplicável, o Estado requerente deverá assumir os compromissos abaixo, sem os quais, a pessoa não poderá ser extraditada pelo Brasil:
Art. 96. Não será efetivada a entrega do extraditando sem que o Estado requerente assuma o compromisso de:
I - não submeter o extraditando a prisão ou processo por fato anterior ao pedido de extradição;
II - computar o tempo da prisão que, no Brasil, foi imposta por força da extradição;
III - comutar a pena corporal, perpétua ou de morte em pena privativa de liberdade, respeitado o limite máximo de cumprimento de 30 (trinta) anos;
IV - não entregar o extraditando, sem consentimento do Brasil, a outro Estado que o reclame;
V - não considerar qualquer motivo político para agravar a pena; e
VI - não submeter o extraditando a tortura ou a outros tratamentos ou penas cruéis, desumanos ou degradantes.
 OBSERVAÇÕES:
1) No caso do inciso I, o Estado requerente deverá formular o pedido de extensão da extradição;
2) Na hipótese do inciso II, o Estado deverá se comprometer em realizar uma detração (diminuição da pena);
3) No inciso III, o compromisso diz respeito à comutação da pena (substituição);
4) No tocante ao inciso IV, diz respeito à re-extradição;
5) O inciso VI, por sua vez, trata de uma condição relacionada à proteção dos direitos humanos, o que é exigido de todos os Estados.
· Código de Processo Penal
Art. 787.  As sentenças estrangeiras deverão ser previamente homologadas pelo Supremo Tribunal Federal para que produzam os efeitos do art. 7 do Código Penal.
Art. 788.  A sentença penal estrangeira será homologada, quando a aplicação da lei brasileira produzir na espécie as mesmas conseqüências e concorrem os seguintes requisitos:
I - estar revestida das formalidades externas necessárias, segundo a legislação do país de origem;
II - haver sido proferida por juiz competente, mediante citação regular, segundo a mesma legislação;
III - ter passado em julgado;
IV - estar devidamente autenticada por cônsul brasileiro;
V - estar acompanhada de tradução, feita por tradutor público.
Art. 789.  O procurador-geral da República, sempre que tiver conhecimento da existência de sentença penal estrangeira, emanada de Estado que tenha com o Brasil tratado de extradição e que haja imposto medida de segurança pessoal ou pena acessória que deva ser cumprida no Brasil, pedirá ao Ministro da Justiça providências para obtenção de elementos que o habilitem a requerer a homologação da sentença.
§ 1  A homologação de sentença emanada de autoridade judiciária de Estado, que não tiver tratado de extradição com o Brasil, dependerá de requisição do Ministro da Justiça.
§ 2  Distribuído o requerimento de homologação, o relator mandará citar o interessado para deduzir embargos, dentro de dez dias, se residir no Distrito Federal, de trinta dias, no caso contrário.
§ 3  Se nesse prazo o interessado não deduzir os embargos, ser-lhe-á pelo relator nomeado defensor, o qual dentro de dez dias produzirá a defesa.
§ 4  Os embargos somente poderão fundar-se em dúvida sobre a autenticidade do documento, sobre a inteligência da sentença, ou sobre a falta de qualquer dos requisitos enumerados nos arts. 781 e 788.
§ 5  Contestados os embargos dentro de dez dias, pelo procurador-geral, irá o processo ao relator e ao revisor, observando-se no seu julgamento o Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal.
§ 6  Homologada a sentença, a respectiva carta será remetida ao presidente do Tribunal de Apelação do Distrito Federal, do Estado, ou do Território.
§ 7  Recebida a carta de sentença, o presidente do Tribunal de Apelação a remeterá ao juiz do lugar de residência do condenado, para a aplicação da medida de segurança ou da pena acessória, observadas as disposições do Título II, Capítulo III, eTítulo V do Livro IV deste Código.
Art. 790.  O interessado na execução de sentença penal estrangeira, para a reparação do dano, restituição e outros efeitos civis, poderá requerer ao Supremo Tribunal Federal a sua homologação, observando-se o que a respeito prescreve o Código de Processo Civil.
· Transferência de execução da pena:
Essa modalidade está prevista no caput do art. 100 da Lei de Migração, in verbis:
Art. 100. Nas hipóteses em que couber solicitação de extradição executória, a autoridade competente poderá solicitar ou autorizar a transferência de execução da pena, desde que observado o princípio do non bis in idem.
Verificam-se os seguintes requisitos da transferência de execução da pena, a qual será aplicada apenas quando couber: i) a solicitação de extradição executória, ou seja, casos em que cabíveis a extradição e, ii) desde que haja respeito ao princípio do non bis in idem. Esses dois requisitos são tidos como fundamentais, porém, há outros elencados no parágrafo único do art. 100 da LM:
Lei nº 13.445/2017.
Art. 100. (...) Parágrafo único. Sem prejuízo do disposto no Decreto-Lei no 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), a transferência de execução da pena será possível quando preenchidos os seguintes requisitos:
I - o condenado em território estrangeiro for nacional ou tiver residência habitual ou vínculo pessoal no Brasil;
II - a sentença tiver transitado em julgado;
III - a duração da condenação a cumprir ou que restar para cumprir for de, pelo menos, 1 (um) ano, na data de apresentação do pedido ao Estado da condenação;
IV - o fato que originou a condenação constituirinfração penal perante a lei de ambas as partes; e
V - houver tratado ou promessa de reciprocidade.
Quanto ao inciso II, é necessário que a sentença tenha transitado em julgado, visto que o instituto se refere à execução da pena. Sobre o inciso III, veja-se que é um critério temporal, considerando que se faltar menos de 1 ano para o cumprimento da pena, ela deverá ser cumprida no país estrangeiro. No que tange o inciso IV, observa-se que diz respeito à "dupla tipicidade", "dupla incriminação" ou "princípio da identidade". 
Art. 101. O pedido de transferência de execução da pena de Estado estrangeiro será requerido por via diplomática ou por via de autoridades centrais.
§ 1 O pedido será recebido pelo órgão competente do Poder Executivo e, após exame da presença dos pressupostos formais de admissibilidade exigidos nesta Lei ou em tratado, encaminhado ao Superior Tribunal de Justiça para decisão quanto à homologação.
§ 2 Não preenchidos os pressupostos referidos no § 1, o pedido será arquivado mediante decisão fundamentada, sem prejuízo da possibilidade de renovação do pedido, devidamente instruído, uma vez superado o óbice apontado.
O art. 9º, do Código Penal brasileiro enuncia que a homologação da sentença penal somente poderá ser realizada em 2 hipóteses, a primeira para possibilitar os efeitos civis da condenação (reparação do dano), e a segunda para permitir a aplicação de medida de segurança. Portanto, até a Lei de Migração (2017), não se admitia a homologação de sentença penal estrangeira de forma genérica, mas apenas nesses casos mencionados que se encontram previstos no CP.
Atualmente, para possibilitar a transferência da execução da pena para o Brasil, ou seja, para que o sistema brasileiro execute uma condenação penal do exterior, admiti-se o encaminhamento ao STJ para garantir essa transferência de execução de pena, nos termos do já mencionado art. 101, § 1º, da Lei de Migração, que expressamente prevê essa possibilidade. Nota-se que se ampliaram as possibilidades de execução de sentença penal estrangeira, antes restritas às hipóteses do CP.
Art. 102. A forma do pedido de transferência de execução da pena e seu processamento serão definidos em regulamento.
Parágrafo único. Nos casos previstos nesta Seção, a execução penal será de competência da Justiça Federal.
O regulamento mencionado no caput do art. 102 já existe, refere-se ao Decreto* nº 9.199/2017 (mencionado de modo genérico como regulamento pelo professor). Ademais, veja que a competência para o processamento da transferência de execução da pena cabe à Justiça Federal, o que eleva o tema para candidatos de concursos da magistratura federal e do MPF.
· Transferência de pessoa condenada:
A transferência da pessoa condenada é um instituto/modalidade de cooperação jurídica internacional de finalidade humanitária. Nesse sentido, tem por objetivo garantir ao condenado a possibilidade de cumprimento da pena próximo aos seus familiares ou de seu ambiente social (meio com proximidade e familiaridade), colaborando, assim, com a reinserção ou recuperação do indivíduo perante a sociedade.
Diferente da transferência de execução de pena, em que a transferência ocorre apenas, para o brasileiro/residente no Brasil, condenado no exterior para cumprimento de pena no Brasil, no instituto da transferência de pessoa condenada, a realocação pode acontecer tanto do exterior para o Brasil quanto do Brasil para o exterior.
Nesse sentido, vejamos o texto expresso no art. 103 e parágrafos, da Lei de Migração:
Lei nº 13.455/2017.
Art. 103. A transferência de pessoa condenada poderá ser concedida quando o pedido se fundamentar em tratado ou houver promessa de reciprocidade.
§ 1 O condenado no território nacional poderá ser transferido para seu país de nacionalidade ou país em que tiver residência habitual ou vínculo pessoal, desde que expresse interesse nesse sentido, a fim de cumprir pena a ele imposta pelo Estado brasileiro por sentença transitada em julgado.
§ 2 A transferência de pessoa condenada no Brasil pode ser concedida juntamente com a aplicação de medida de impedimento de reingresso em território nacional, na forma de regulamento.
Desse modo, tendo em vista se tratar de um instituto de natureza humanitária, é relevante a vontade do condenado, "a fim de cumprir pena a ele imposta pelo Estado brasileiro por sentença transitada em julgado".
Quanto aos requisitos para transferência da pessoa condenada, observa-se o art. 104, da Lei de Migração:
Art. 104. A transferência de pessoa condenada será possível quando preenchidos os seguintes requisitos:
I - o condenado no território de uma das partes for nacional ou tiver residência habitual ou vínculo pessoal no território da outra parte que justifique a transferência;
II - a sentença tiver transitado em julgado;
III - a duração da condenação a cumprir ou que restar para cumprir for de, pelo menos, 1 (um) ano, na data de apresentação do pedido ao Estado da condenação;
IV - o fato que originou a condenação constituir infração penal perante a lei de ambos os Estados;
V - houver manifestação de vontade do condenado ou, quando for o caso, de seu representante; e
VI - houver concordância de ambos os Estados.
Art. 105. A forma do pedido de transferência de pessoa condenada e seu processamento serão definidos em regulamento.
§ 1 Nos casos previstos nesta Seção, a execução penal será de competência da Justiça Federal.
§ 2 Não se procederá à transferência quando inadmitida a extradição.
3. DIREITOS HUMANOS
Do ponto de vista material, os direitos humanos são aqueles indispensáveis para uma vida digna. Se todos os seres humanos têm dignidade, para que essa dignidade seja realizada, é necessário que eles gozem de certos direitos, denominados direitos humanos.
Do ponto de vista formal, os direitos humanos são aqueles previstos em normas internacionais.
Combinando-se os dois conceitos, ter-se-á um conceito mais completo de direitos humanos, segundo o qual direitos humanos são aqueles indispensáveis a uma vida digna e previstos em normas internacionais.
André de Carvalho Ramos enfatiza que “[...] os direitos humanos são aqueles que pertencem ou devem pertencer a todos os homens e que não podem ser deles privados, em virtude de seu regime indisponível e erga omnes.” (RAMOS, 2016, p. 39b).
NÃO SE CONFUNDEM COM OS DIREITOS DO HOMEM (TERMINOLOGIA DO DIREITO NATURAL), NEM COM OS DIREITOS FUNDAMENTAIS (TERMINOLOGIA DOS CONSTITUCIONALISTAS REFERENTE AOS DIREITOS PREVISTOS NAS CONSTITUIÇÕES).
De onde vêm os direitos humanos? Por que eles existem e devem ser respeitados? Em uma fundamentação filosófica dos direitos humanos, recorre-se, com muita frequência, a Kant. Quando se pensa em uma fundamentação religiosa, recorre-se bastante ao cristianismo que, desde a sua origem no judaísmo, apresenta a ideia de que o homem é imagem e semelhança de Deus e que não há diferença entre os homens; todos iguais perante Deus.
Quando se fala em fundamentação jurídica dos direitos humanos, inicialmente, surgem os autores do direito natural. De acordo com a fundamentação jusnaturalista, os seres humanos possuem direitos inatos que não precisam de reconhecimento estatal ou de qualquer outro ente. Tais direitos nasceriam com o homem e decorreriam de uma razão divina ou de uma razão humana.
A) Características dos direitos humanos
a) Universalidade. Significa que todos os seres humanos são titulares de direitos humanos.
Hannah Arendt formula que todos têm direito a ter direitos.
Há um debate interessante entre o universalismo e o relativismo. Para os universalistas, os direitos humanos constituem um mínimo ético que deve ser respeitado em todas as áreas do mundo. À vista disso, não importa a cultura local, a história e as características, pois os direitos humanos devem ser respeitados da mesma forma em todos os lugares do mundo. Para os relativistas, a concepção dos direitos humanos e o seu rol variam de acordo com as características culturais e locais de cada região; logo, não se pode impor um determinado rol de direitos humanos em todosos lugares do mundo porque os povos são diferentes.
Há uma proposta intermediária de Boaventura de Sousa Santos, denominada "multiculturalismo" (ou cosmopolitismo), segundo a qual todos os povos têm algo a ensinar e a aprender sobre direitos humanos. Desse modo, na verdade, os direitos humanos devem ser vistos como uma INTEGRAÇÃO entre as diferentes visões dos diferentes povos, que devem estar dispostos a aprender uns com os outros. Assim, não existe uma concepção absoluta dos direitos humanos, mas sim uma visão parcial de cada povo, que deve ser complementada pelo outro.
b) Essencialidade. Trata-se da indispensabilidade dos direitos humanos para uma vida digna.
c) Historicidade. Os direitos humanos são construídos com o tempo; eles não são um dado da natureza.
d) Superioridade. Os autores costumam dizer que as normas que preveem direitos humanos são caracterizadas por superioridade em relação às outras. Portanto, deve prevalecer uma lógica de proteção dos direitos humanos em relação à ótica do Estado.
e) Indisponibilidade/Irrenunciabilidade. Significa que os direitos humanos não podem ser renunciados pelo seu titular e a lógica disso é a seguinte: se uma pessoa pudesse abrir mão de direitos humanos, em verdade ela não estaria afrontando somente ela, mas afrontando toda a civilização, uma vez que, toda a humanidade tem o seu direito violado quando uma pessoa tem os seus direitos humanos desrespeitados.
f) Inalienabilidade. Significa que os direitos humanos não podem ser cedidos a título oneroso ou a título particular.
g) Inexauribilidade ou abertura. Significa que os direitos humanos são inesgotáveis; sempre podem surgir novos direitos humanos. Essa é uma característica que decorre também da historicidade dos direitos humanos. Os direitos humanos não são, de acordo com a concepção que prevalece hoje, como um pacote que é dado pela natureza, pelo contrário, são construídos e conquistados historicamente. Por exemplo, os direitos humanos relacionados à proteção do patrimônio genético somente podem ser discutidos atualmente, porque antes não fazia sentido a sua discussão.
h) Imprescritibilidade. 
i) Indivisibilidade. Significa que os direitos humanos são interdependentes e conectados uns aos outros. 
Os direitos civis e políticos são conectados e interdependentes em relação aos direitos econômicos, culturais e sociais, uma vez que, por exemplo, a pessoa não consegue exercer o seu direito de voto se estiver com fome ou não tiver onde morar. É preciso combinar sempre os direitos civis e políticos com os direitos econômicos, sociais e culturais.
Dentro dessa característica, é interessante falar em "interseccionalidade": conceito novo que diz respeito à SOBREPOSIÇÃO DE CRITÉRIOS DISCRIMINATÓRIOS que resultam em situações mais complexas. Por exemplo, as mulheres são grupos vulneráveis, em diversos lugares do mundo e no Brasil também, estando mais expostas à discriminação e à violência do que os homens; também se sabe que negros, no Brasil, estão mais expostos a certos tipos de discriminação e violência do que brancos. Quando esses dois critérios discriminatórios são combinados (mulher negra), há a potencialização da violação dos seus direitos, discriminação e da sua vulnerabilidade. Desse modo, a interseccionalidade diz respeito à interação desses critérios discriminatórios
Por fim, os autores sustentam que os direitos humanos são caracterizados pela vedação do retrocesso, o chamado EFEITO CLIQUET, o qual significa que, alcançado determinado grau de proteção dos direitos humanos, não pode haver retrocesso e diminuição dessa proteção; deve-se sempre incrementar a proteção dos direitos humanos.
Qualquer norma internacional ou interna que tenha como objetivo diminuir a proteção de direitos humanos será inválida por causa da característica da vedação ao retrocesso.
B) Classificação dos Direitos Humanos
· Quanto à prestação
Quanto à prestação, ou seja, aquilo devido ao titular dos direitos humanos, há dois tipos de direitos: direitos civis e políticos e os direitos econômicos, sociais e culturais.
Os direitos civis e políticos têm como prestação um não fazer do Estado, ou seja, uma abstenção do Estado. Busca-se, com os direitos civis e políticos, que o Estado respeite uma determinada esfera de liberdade do indivíduo.
Eles impõem ao estado, e aos seus destinatários de forma geral, um dever de abstenção ou obrigação de não fazer.
Já os direitos econômicos, sociais e culturais têm como prestação uma obrigação de fazer do Estado. Trata-se de algo que o Estado deve prestar aos titulares dos direitos. EXEMPLO: Direito à educação, pois o Estado deve criar meios e possibilitar o acesso à educação das pessoas; direito à saúde, pois o Estado deve providenciar o acesso à saúde aos cidadãos; e sistema de seguridade social apropriado.
· Quanto à função
Quanto à função, os direitos humanos podem ser: direitos de defesa, direitos à prestação e direitos a procedimentos e organizações.
Os direitos de defesa têm como função proteger os cidadãos da interferência do Estado. São direitos muito parecidos com os direitos civis e políticos.
Os direitos à prestação são aqueles que têm por função impor ao Estado uma prestação material ou jurídica. Eles parecem muito com os direitos econômicos, sociais e culturais.
Os direitos a procedimentos e organizações têm como função impor ao Estado a criação de determinadas estruturas de procedimentos e de organizações para viabilizar o exercício dos demais direitos.
· Quanto à geração dos direitos
Alguns afirmam que essa teoria surgiu quando o jurista Karel Vazak, em uma palestra, comparou os direitos humanos ao lema da Revolução Francesa: igualdade, liberdade e fraternidade.
De acordo com a teoria das gerações, os primeiros direitos humanos a surgirem foram os direitos de liberdade (1ª geração de direitos humanos), no século XVIII, com as revoluções liberais, que se colocaram contra os estados absolutistas, a exemplo das revoluções francesa, americana e inglesa.
Essas revoluções tiveram como objetivo reduzir os poderes do Estado e obter o reconhecimento de direitos civis e políticos, que têm por objeto uma abstenção do Estado.
Portanto, nesse primeiro momento, os primeiros direitos a serem conquistados foram os de liberdade. Os direitos de liberdade, conforme dito, são basicamente os direitos civis e políticos, que têm como objeto uma abstenção do Estado e como titulares os indivíduos.
No século XIX, no ápice da Revolução Industrial, começam a surgir preocupações com a duração da jornada de trabalho, trabalho infantil e também adquirem notoriedade certas ideias socialistas. Assim, começa-se a luta pelos direitos de igualdade. Os direitos de igualdade são, basicamente, os direitos econômicos, sociais e culturais, que têm como objeto fazer do Estado. 
Os principais marcos dessa segunda geração são as constituições do México de 1917 e de Weimar de 1919.
Depois de um tempo, evolui-se para uma terceira geração de direitos, os direitos de fraternidade ou de solidariedade. Esses possuem como titular toda a humanidade. O principal exemplo de direito de fraternidade, que já foi apresentado pelo Supremo Tribunal Federal no RE nº 134297, é o direito ao meio ambiente. Este não pode ser garantido a um indivíduo ou à coletividade, pois, quando o meio ambiente sofre alguma degradação, alcança-se toda a humanidade. 
Alguns autores identificam o surgimento de novas gerações de direitos. Fala-se, atualmente, em uma quarta geração de direitos. Para Paulo Bonavides, os direitos de quarta geração são os da globalização, como por exemplo, o direito à democracia, ao pluralismo. Para outros autores, os direitos de quarta geração são aqueles relacionados à bioética, como por exemplo, a proteção do patrimônio genético e direito contra manipulação genética.
Paulo Bonavides também fala sobre o direito à paz como direito de quinta geração.
No entanto, essa teoria das gerações de direitos sofre muitas críticas: 
a) A teoria das gerações dá a ideia de que uma geração substituirá a outra, o que não é verdade. Há, apenas,o aumento do catálogo de direito humanos.
b) A teoria das gerações dá a entender que, por exemplo, os direitos de igualdade somente surgem quando já esgotado o surgimento de todos os direitos de liberdade. Existem direitos de primeira geração que surgiram depois de certos direitos econômicos, sociais e culturais, como por exemplo, o direito de voto da mulher (direito político) que somente surgiu depois de muitas garantias dos trabalhadores. Logo, não há essa sucessividade que a teoria das gerações dá a entender.
c) Os direitos humanos são indivisíveis e interdependentes, e a teoria das gerações dá a entender que existem gerações estanques de direitos. 
Por isso, há autores que preferem utilizar a expressão "dimensões de direitos", que seria capaz de contornar essas críticas e, ainda, manter, as virtudes que a teoria das gerações de direitos possui.
· Quanto à finalidade
Quanto à finalidade, os direitos humanos podem ser: direitos propriamente ditos e garantias.
As garantias são os meios, principalmente processuais, utilizados para viabilizar, efetivar e proteger os direitos.
C) Titulares dos direitos humanos
Os titulares dos direitos humanos são, basicamente, indivíduos. Os direitos humanos constituem-se em uma invenção para proteger os indivíduos.
A grande maioria dos direitos humanos têm como finalidade proteger os indivíduos.
No entanto, é possível perceber uma evolução da proteção internacional dos direitos humanos e a possibilidade de os direitos humanos protegerem pessoas jurídicas. Portanto, as pessoas jurídicas também são titulares de direitos humanos.
A Corte Interamericana de Direitos Humanos, em seu parecer consultivo OC 22/2016, afirmou que, em regra, as pessoas jurídicas não são titulares dos direitos humanos previstos na Convenção Americana de Direitos Humanos; apenas, excepcionalmente, as pessoas jurídicas podem ser titulares desses direitos, como ocorre com o sindicato.
Existe, também, a possibilidade de que algumas coletividades sejam consideradas titulares de direitos humanos. EXEMPLO: O princípio da autodeterminação, que aparece nos Pactos de Nova York, é titularizado pelos povos, e não pelos indivíduos. Esse princípio consiste no direito que os povos têm de se governar e dizer os seus destinos.
Existem várias normas internacionais que falam sobre direitos dos povos indígenas. Logo, povos indígenas têm direito a sua terra, por exemplo.
D) Destinatários das normas de direitos humanos
Se, historicamente, são os indivíduos os titulares tradicionais dos direitos humanos, uma vez que esses foram criados para proteger os indivíduos, os Estados são, por excelência, os destinatários das normas de direitos humanos.
No entanto, outros sujeitos também podem ser considerados, hoje, como destinatários dos direitos humanos. Sendo assim, as organizações internacionais são também destinatárias das normas de direitos humanos.
Existem debates, muito interessantes, sobre as missões de paz da ONU, pois há relatos de que integrantes das missões de paz da ONU praticam violência, estupro de pessoas, tortura etc. Discute-se, portanto, a responsabilidade da ONU a respeito dessas violações de direitos humanos. É evidente que isso não exclui a responsabilidade dos agentes, que não podem responder perante o direito local porque são protegidos por imunidade, mas podem responder perante os seus estados de nacionalidade.
Fala-se também em vinculação aos direitos humanos das empresas internacionais. Assim, as empresas internacionais são destinatárias de direitos humanos, especialmente quando abrem suas filiais em países subdesenvolvidos e ali praticam severas violações aos direitos humanos.
Os agrupamentos não governamentais, como movimentos de libertação nacional, também devem respeitar os direitos humanos, logo, também são destinatários das normas de direitos humanos. O direito internacional até permite que alguns grupos, submetidos a regimes autoritários, peguem em armas para lutar pela liberdade, mas isso não significa que esses grupos poderão violar os direitos humanos, como por exemplo, atacar civis.
Hoje, fala-se que os indivíduos devem respeitar os direitos humanos dos outros.
E) Dimensões dos direitos humanos
Há uma dimensão subjetiva, clássica dos direitos humanos, que diz respeito, exatamente, à eficácia dos direitos humanos na relação entre sujeito e Estado (eficácia vertical).
Existe também, atualmente, uma dimensão objetiva dos direitos humanos, que significa que os direitos humanos representam os valores fundamentais de uma sociedade e, ao representá-los, os direitos humanos imperam também nas relações entre particulares. Essa dimensão objetiva é chamada de eficácia horizontal (third-party effect of human rights ou drittwirkung).
O Supremo Tribunal Federal já reconheceu em algumas oportunidades que particulares também estão vinculados aos direitos humanos.
EXEMPLO: Em Brasília, havia sempre partida de futebol, na qual um determinado jogador era extremamente indisciplinado e agressivo. Determinado dia, ao chegar ao local da partida, avistou um aviso informando que ele havia sido expulso dos jogos de futebol. Na partida seguinte, volta ao local munido de uma liminar que determina a sua reintegração ao futebol, pois havia sido excluído sem respeito ao contraditório, devido processo legal etc. (Eficácia horizontal dos direitos humanos).
F) Interpretação dos direitos humanos
Para interpretar o direito internacional dos direitos humanos, recorre-se tanto a métodos e princípios de interpretação próprios do direito (métodos tradicionais) quanto às regras da Convenção de Viena sobre direito dos tratados (1969). Há, entretanto, algumas peculiaridades:
a) interpretação pro homine: o intérprete, diante de duas normas ou interpretações conflitantes, deve aplicar aquela mais protetiva dos direitos humanos.
b) interpretação autônoma, bastante falada por André de Carvalho Ramos: não se deve utilizar institutos e critérios nacionais para interpretar tratados internacionais de direitos humanos. Não se pode partir de uma concepção estatal para interpretar tratados internacionais de direitos humanos.
c) interpretação evolutiva, progressiva ou dinâmica: os tratados internacionais de direitos humanos são instrumentos vivos, ou seja, são dinâmicos e mudam com o tempo. Após a adoção de tratado internacional de direitos humanos, é como se ele ganhasse vida, por assim dizer, podendo mudar com o tempo. Logo, a sua interpretação pode mudar. Se, em um determinado momento, não se extraiu um direito de um tratado de direitos humanos, isso não impede que, posteriormente, ele possa ser interpretado como dando fundamento de acesso desse mesmo direito humano.
d) princípio da efetividade ou effet utile: os direitos humanos devem ser interpretados de maneira que se confira a maior efetividade possível a esses direitos.
De acordo com o entendimento do STF, o magistrado, no exercício de sua atividade interpretativa, especialmente no âmbito dos tratados internacionais de direitos humanos, deve observar um princípio hermenêutico básico consistente em atribuir primazia à norma que se revele mais favorável à pessoa humana, em ordem a dispensar-lhe a mais ampla proteção jurídica.
"Não custa relembrar que, em matéria de direitos humanos, a interpretação jurídica há de considerar, necessariamente, as regras e cláusulas do direito interno e do direito internacional, cujas prescrições tutelares revelam-se – na interconexão normativa que se estabelece entre tais ordens jurídicas – elementos de proteção vocacionados a reforçar a imperatividade do direito constitucionalmente garantido.
Em suma: os magistrados e tribunais, no exercício de sua atividade interpretativa, especialmente no âmbito dos tratados internacionais de direitos humanos, devem observar um princípio hermenêutico básico (tal como aquele proclamado no art. 29 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos) consistente em atribuir primazia à norma que se revele mais favorável à pessoa humana, em ordem a dispensar-lhe a mais ampla proteção jurídica.
O Poder Judiciário, nesseprocesso hermenêutico que prestigia o critério da norma mais favorável (que tanto pode ser aquela prevista no tratado internacional como a que se acha positivada no próprio direito interno do Estado), deverá extrair a máxima eficácia das declarações internacionais e das proclamações constitucionais de direitos, de modo a viabilizar o acesso dos indivíduos e dos grupos sociais, notadamente os mais vulneráveis, a sistemas institucionalizados de proteção aos direitos fundamentais da pessoa humana, sob pena de a liberdade, a tolerância e o respeito à alteridade humana tornarem-se palavras vãs. (HC 93.280/SC, rel. min. Celso de Mello)."
G) O DIDH e as três vertentes da proteção da pessoa humana
O direito internacional dos direitos humanos tem como objeto aqueles direitos dos seres humanos em situações normais.
O direito internacional humanitário protege a pessoa humana em situações de conflitos armados. Portanto, o direito internacional humanitário derroga o direito internacional dos direitos humanos, em situação de conflitos armados.
O direito internacional dos refugiados protege a pessoa humana em situação de deslocamento. Desse modo, há regras específicas para a proteção de pessoas que estão fora do seu local de residência habitual, de nascimento ou de nacionalidade.
Essas são as três vertentes que foram mencionados na Conferência de Viena em 1993.
Importante frisar que, apesar de essas três vertentes serem abordadas, historicamente, como três vertentes estanques, elas possuem interações muito grandes e devem ser sempre estudadas de forma combinada. Por exemplo, uma interligação muito interessante entre o direito internacional dos direitos humanos e o direito internacional humanitário é o artigo 3º comum das Convenções de Genebra, que fala sobre os direitos humanos mínimos que devem ser respeitados em situações de conflitos armados.
H) Direitos Humanos e a Constituição Federal
Há duas características que merecem destaque:
a) Rol extenso.
b) nova topografia dos direitos e garantias fundamentais.
Nas constituições anteriores, a parte dos direitos e garantias fundamentais aparecia depois da parte da organização do estado. Na Constituição de 1988, houve a simbólica transferência dos direitos e garantias fundamentais para momento anterior à parte da organização do estado, para indicar essa mudança de ótica de prioridade da nossa Constituição.
PRINCÍPIO DA DIGNIDADE HUMANA
Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: (...)
III - a dignidade da pessoa humana;
As duas fases do desenvolvimento da ideia da dignidade da pessoa humana são:
a) Dignidade humana como valor (pensamento cristão e kantiano):
A dignidade da pessoa humana nasceu, inicialmente, como um valor que vem basicamente do pensamento cristão, pois é no cristianismo que se desenvolve a ideia de que todos, diante de Deus, são iguais.
A partir do desenvolvimento dessa ideia, começou-se a criar um valor na sociedade no sentido de que os seres humanos têm dignidade. Os seres humanos são diferentes dos animais e são diferentes, também, das coisas, possuindo algo intrínseco que os torna especiais.
No pensamento kantiano, também se desenvolve a ideia de que o homem não tem preço, mas sim valor; as coisas têm preço. Também é desenvolvida a ideia de que o homem não pode ser um instrumento para que se obtenha alguma coisa, mas sempre um fim em si mesmo, pois ele tem um valor.
Portanto, basicamente, a partir dessas duas condições (pensamento cristão e a filosofia kantiana) começa-se a consolidar esse valor da dignidade humana.
b) Dignidade humana como norma jurídica (sobreprincípio):
O valor da dignidade humana, com o tempo, passou a ser juridicizado, ou seja, transformado também em uma norma jurídica. Algo que era do campo da teologia e do campo da moral e da filosofia, passa a ter, também, uma abordagem no campo jurídico.
Portanto, hoje, no direito internacional e no Direito Constitucional, há a previsão expressa ou implícita da dignidade humana, ou seja, o reconhecimento de que todos os seres humanos são dotados de dignidade.
O que significa a dignidade da pessoa humana ?
Alguns autores consideram a dignidade humana não como princípio, mas como sobreprincípio, ou seja, um superprincípio do qual emanam todas as normas jurídicas. Esse sobreprincípio teria como conteúdo jurídico dois elementos principais:
a) Não ser exposta a tratamentos ofensivos, degradantes e discriminatórios.
b) Receber condições mínimas de sobrevivência.
1.2 PRINCÍPIO DA PREVALÊNCIA DOS DIREITOS HUMANOS
Em seu artigo 4º, a Constituição fala sobre o princípio da prevalência dos direitos humanos:
Art. 4º A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios: (...)
II - prevalência dos direitos humanos;
O que significa ser regido pelo princípio da prevalência dos Direitos Humanos nas relações internacionais?
· Participação no processo legislativo internacional.
Significa, inicialmente, que o Brasil deve participar das organizações internacionais e dos órgãos internacionais que cuidam dos direitos humanos e também integrar-se no processo de internacionalização da proteção dos direitos humanos.
· Integração das normas de DIDH no âmbito interno.
O Brasil deve incorporar as normas do direito internacional de proteção dos direitos humanos. Cumpre informar que, após a Constituição de 1988, vários tratados internacionais foram aprovados e, posteriormente, incorporados ao ordenamento brasileiro, justamente em razão do princípio da prevalência dos direitos humanos.
· Posição contrária aos Estados violadores.
Por fim, o Brasil deve manter uma posição contrária aos Estados violadores. Isso significa que o Brasil deve se manifestar, internacionalmente, repudiando e condenando as violações dos direitos humanos.
1.4 INCORPORAÇÃO DOS TIDH 
Art. 5º, § 1º, CF/88: As normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata.
A afirmação do dispositivo tem alguma implicação no processo de incorporação dos tratados de direitos humanos? O sistema brasileiro, em relação ao direito internacional, é dualista moderado. Isto é, o direito internacional e o direito interno são independentes um do outro, mas o nosso sistema é moderado, uma vez que, para que uma norma internacional tenha vigência no âmbito interno, não é necessário que seja aprovada uma lei interna com o mesmo conteúdo do tratado internacional (o que acontece no dualismo extremado). Basta que essa norma internacional passe por um processo de incorporação (procedimento mais simplificado) que, no Brasil, termina com o decreto do Presidente da República.
Quando a constituição fala que os direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata significa que o direito internacional será aplicado, imediatamente, no ordenamento interno, independentemente da incorporação?
A autora Flávia Piovesan, por exemplo, afirma que a própria constituição diz que os tratados internacionais sobre direitos humanos fazem parte do rol de direitos e garantias fundamentais (art. 5º, §2º, CF/88). À vista disso, se os tratados dos quais o Brasil é parte integram o rol dos direitos fundamentais e os direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata, talvez não seja necessário esse processo de incorporação em relação aos tratados de direitos humanos.
De acordo com a teoria de Flávia Piovesan, assim que o tratado entrasse em vigor no âmbito internacional, ele também entraria no âmbito interno.
Essa teoria não é aceita pelo STF (CR nº 8279), o qual afirma que todos os tratados internacionais devem passar pelo processo de incorporação.
Desse modo, para o STF, a expressão "aplicação imediata" do art. 5º, §1º, CF/88 significa, apenas, a desnecessidade de intermediação legislativa para que os direitos e garantias fundamentais sejam aplicados.
Já o art. 5º, §3º, CF/88 incluiu uma novidade no processo de incorporação:
Art. 5º, § 3º, CF/88: Os tratados e convençõesinternacionais sobre direitos humanos que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais.  (Incluído pela Emenda Constitucional nº 45, de 2004)
1.5 ABERTURA PARA OS DIREITOS HUMANOS INTERNACIONAIS
O art. 5º, §2º, CF/88 trata da abertura da constituição brasileira para o direito internacional:
Art. 5º, § 2º, CF/88: Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte.
1.6 HIERARQUIA DOS TRATADOS DE DIREITOS HUMANOS
Falar-se-á sobre a hierarquia dos tratados internacionais de direitos humanos. Existem quatro correntes que falam sobre a hierarquia dos tratados internacionais no direito brasileiro:
a) Supraconstitucionalidade (Celso Albuquerque Mello).
A primeira corrente é a supraconstitucionalidade, defendida por Celso Albuquerque Mello. Em verdade, ele defende a supraconstitucionalidade de todos os tratados internacionais.
b) Constitucionalidade (Cançado Trindade e Flávia Piovesan).
A segunda corrente defende a constitucionalidade de todos os tratados de direitos humanos. Defendem essa corrente Cançado Trindade e Flávia Piovesan. Eles dizem que a cláusula de abertura do art. 5º, §2º, CF/1988 indica, sem dúvida alguma, que os tratados de direitos humanos possuem hierarquia constitucional.
c) Supralegalidade.
A terceira corrente é a da supralegalidade. Os tratados internacionais de direitos humanos têm um lugar específico na ordem jurídica, ou seja, estão acima da lei, mas abaixo da Constituição.
d) Legislação ordinária.
A quarta corrente é a da lei ordinária. Os tratados de direitos humanos são como tratado comuns que ficam na hierarquia da legislação ordinária.
1.6.1 HIERARQUIA DOS TRATADOS INTERNACIONAIS DE DIREITOS HUMANOS NO STF
Essa questão chegou ao STF para discutir a questão do depositário fiel: a constituição prevê a possibilidade da prisão do depositário infiel e do devedor de alimentos, e a legislação infraconstitucional regulamentou a possibilidade da prisão do depositário infiel. A convenção americana, por outro lado, não prevê a prisão do depositário infiel, mas apenas do devedor de alimentos.
O STF, nessa ocasião, adotou a tese da supralegalidade dos tratados internacionais de direitos humanos.
A pirâmide de Kelsen é utilizada para representar que a ordem jurídica tem como topo a Constituição; no corpo intermediário, tem-se a lei; e, por fim, há os atos administrativos. O Supremo Tribunal Federal modificou essa pirâmide, ao acrescentar os tratados internacionais de direitos humanos entre a Constituição e a lei. Nesse sentido, a nossa legislação que for incompatível com os tratados internacionais de direitos humanos padecerão de vício de inconvencionalidade.
desde a EC nº 45 de 2004, se os tratados de direitos humanos forem aprovados de acordo com o rito do art. 5º. §3º, CF/1988, eles possuem hierarquia constitucional.
Portanto, os tratados internacionais de direitos humanos podem ocupar duas posições na ordem jurídica brasileira: nível supralegal ou nível constitucional.
1.7 INCIDENTE DE DESLOCAMENTO DE COMPETÊNCIA - Art. 109, V-A e §5º, CF/1988.
Aqueles graves crimes contra os direitos humanos, podem ser, a pedido do Procurador-Geral da República perante o STJ, transferidos para a Justiça Federal.
O STJ já teve que decidir alguns IDCs (o primeiro foi o da missionária Dorothy) e já assentou algumas alguns entendimentos interessantes:
· Norma de eficácia plena.
O artigo 109, §5º, CF/88, é norma de eficácia plena, ou seja, não depende de nenhuma regulamentação para ser aplicado.
· Requisitos:
a) grave violação dos direitos humanos;
b) previsão em tratados internacionais. Porque o objetivo do incidente de deslocamento de competência é prevenir a responsabilidade internacional do Brasil.
c) demonstração de incapacidade das autoridades locais para processar aquela demanda.
Trata-se de excepcionalidade porque envolve o princípio do juiz natural e a autonomia do estado-membro.
· Proporcionalidade e razoabilidade.
Como já afirmado pelo STJ, a análise é feita com base nos princípios da proporcionalidade e da razoabilidade (IDC's 1 e 3).
· Legitimidade.
A legitimidade é do PGR.
· Competência.
A competência é do STJ.
· Amicus Curie.
Cabe amicus curiae no processo de incidente de deslocamento de competência.
1.8 CONSELHO DE DIREITOS HUMANOS
Para terminar a aula sobre Constituição e direitos humanos, falar-se-á sobre o conselho de direitos humanos.
Há muito tempo, os órgãos internacionais de direitos humanos têm encorajado os estados a criarem instituições nacionais de direitos humanos, que seriam órgãos públicos, independentes do governo, com composição plural e com finalidade de promover e proteger os direitos humanos.
· Princípios de Paris sobre instituições nacionais de direitos humanos (1991).
Em 1991, houve um encontro em Paris, em que foram criados os princípios de Paris sobre instituições nacionais de direitos humanos.
O Brasil tinha uma comissão de direitos da pessoa humana, em 1964, aprovada pelo Presidente João Goulart, um pouco antes do Golpe de 1964, todavia essa comissão não atendia aos princípios de Paris.
· Lei nº 12.986 de 2014.
Em 2014, foi aprovada a Lei 12.986, que transformou aquela comissão no conselho de direitos humanos. Desse modo, hoje há uma instituição nacional de Direitos Humanos, regulada por essa lei. Trata-se de órgão com composição plúrima, independente do governo e com a atribuição de promover e proteger os direitos humanos.
Nossa instituição de direitos humanos ainda não foi credenciada, mas está em processo de credenciamento. Existe um comitê internacional de instituições nacionais dos direitos humanos que credencia as instituições nacionais de direitos humanos, e o Brasil está em processo de credenciamento nesse comitê internacional.
Aula4 - Sistema Global Geral
1. SISTEMA GLOBAL DE PROTEÇÃO DE DIREITOS HUMANOS
Há o sistema global geral e o sistema global especial de proteção de direitos humanos. 
Houve um tempo em que a proteção dos direitos humanos ficava a cargo dos Estados. A proteção dos direitos dos cidadãos nacionais e das pessoas que estavam sob a jurisdição do Estado era um assunto doméstico, e outros Estados não poderiam se envolver.
O direito internacional apenas regulava questões de relações entre os Estados, tais como território, uso da força e solução de controvérsias internacionais. Portanto, o direito internacional não regulava nada sobre direitos das pessoas que estavam sob jurisdição dos Estados.
A internacionalização da proteção dos direitos humanos começou a ganhar força depois da segunda guerra mundial, porque começou-se a pensar que, se houvesse o sistema internacional de proteção dos direitos humanos, aquelas tragédias, especialmente o holocausto, não teriam ocorrido.
Antes da construção do sistema global e da internacionalização da proteção dos direitos humanos, houve alguns precedentes que começaram, aos poucos, a apontar para a internacionalização da proteção dos direitos humanos, ou seja, indicar que os direitos humanos não deveriam ser objeto apenas do direito interno, mas que o direito internacional deveria preocupar-se também com a proteção das pessoas sob jurisdição dos Estados.
O primeiro precedente foi o direito internacional humanitário, que é o direito dos conflitos armados.
O direito internacional humanitário regula tanto a atuação dos combatentes (limita a atuação dos combatentes) quanto a assistência às vítimas nos conflitos armados. Desse modo, quando o direito internacional começa a adotar normas que falam sobre a proteção das vítimas nos conflitos armados, é um indicativo de que ele deve preocupar-se com a proteção dessas pessoas.
No final do século XIX, começam a ser adotadas normas de direito internacional humanitário, já apontando para a proteção das pessoas pelo direito internacional.
Em 1919, depois da 1º Guerra Mundial, é criada a Ligadas Nações, que possuía uma preocupação referente a como os Estados deveriam tratar seus nacionais. Ademais, foi criada a Organização Internacional do Trabalho, a qual tem como finalidade criar padrões mínimos de proteção aos trabalhadores.
No entanto, a construção do sistema propriamente dito ocorreu depois da Segunda Guerra Mundial, sobretudo com a Carta das Nações Unidas, famosa carta de São Francisco, a qual é o tratado constitutivo da Organização das Nações Unidas (ONU). Portanto, com a Carta das Nações Unidas deu-se o primeiro passo para a construção de um sistema global de proteção dos direitos humanos.
Na mencionada carta, há vários dispositivos referentes ao princípio do respeito aos direitos humanos e das liberdades fundamentais, todavia ela não chegou a definir o que são direitos humanos e nem elaborou um rol de direitos humanos.
Justamente essa lacuna da carta foi o que levou à aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos e à construção do sistema global de proteção dos direitos humanos. Ao verificar-se que havia uma organização internacional, que congregava praticamente todos os estados do mundo, e que tinha como princípio a proteção dos Direitos Humanos, mas que não se sabia ainda o que eram tais direitos, precisou-se aprovar um tratado com a previsão destes, que era, exatamente, a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
O sistema global tem, atualmente, a seguinte estrutura:
a) Sistema global geral, também denominado de Carta Internacional dos Direitos Humanos ou International Bill of Human Rights, formado pelos três instrumentos: Declaração Universal dos Direitos Humanos (que prevê os direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais); Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos; e Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais.
Cumpre observar que os pactos são denominados Pactos de Nova York.
b) Sistema global especial, que cuida de pessoas com maior grau de vulnerabilidade.
A Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada em 1948, possui três características principais:
a) Universalidade. Diz respeito ao seu aspecto subjetivo, porque pretende atingir todos os seres humanos.
b) Amplitude: cuida tanto de direitos civis e políticos quanto de direitos econômicos, sociais e culturais. Logo, a declaração abrange tanto os direitos de primeira quanto de segunda geração.
c) Concepção contemporânea dos direitos. Trata-se da concepção da indivisibilidade e interdependência dos direitos humanos. A concepção clássica refere-se àquela em que os direitos são separados, ou seja, existem os direitos civis e políticos de um lado e os direitos econômicos, sociais e culturais de outro. 
No entanto, a declaração, evidentemente, tem alguns pontos fracos:
O primeiro ponto fraco é que não consagra a autodeterminação dos povos.
O segundo ponto fraco é que não trata do direito ao meio ambiente. Trata-se de crítica injusta porque, apenas na década de 1970, com a Conferência de Estocolmo, passou-se a considerar o meio ambiente.
O terceiro ponto fraco é que não contém mecanismos de monitoramento. Isto é, a Declaração Universal dos Direitos Humanos apenas enuncia os direitos.
A forma da Declaração Universal dos Direitos Humanos é de resolução da Assembleia Geral da ONU. Isso significa que a Declaração Universal dos Direitos Humanos não é um Tratado, e isso tem uma consequência muito relevante porque surgiram muitas discussões sobre a força normativa da DUDH. Quanto a esta, existem quatro teorias principais que tentam explicar sua força jurídica:
A primeira diz o seguinte: a Carta das Nações Unidas fala sobre direitos humanos, mas não os define. Portanto, a DUDH interpreta a Carta e diz quais são os direitos humanos. Para essa primeira teoria, a DUDH é vinculante, porquanto trata-se de interpretação autêntica da Carta das Nações Unidas que, por sua vez, é um tratado. 
A segunda teoria diz que a DUDH tornou-se verdadeiro costume internacional. Portanto, com o tempo, várias constituições e vários outros tratados passaram a fazer referência à declaração. Esta teve uma força persuasiva muito grande sobre os Estados.
Para a terceira corrente (jus cogens), a DUDH é vinculante e constitui-se em documento que está acima de todas as outras normas.
O jus cogens é o conjunto de normas internacionais que têm como característica a sua superioridade hierárquica e a sua inderrogabilidade, somente podendo ser modificada por normas da mesma natureza.
Por fim, há autores segundo os quais a DUDH tem força de soft law, ou seja, é uma norma jurídica com a força imperativa reduzida.
No Brasil, André de Carvalho Ramos e Flávia Piovesan sustentam que a DUDH é vinculante porque se trata de interpretação autêntica da Carta das Nações Unidas e costume internacional. Já Valério Mazzuoli fala que a DUDH é jus cogens.
Eugênio Aragão fala que a DUDH possui uma parte considerada jus cogens e outra considerada soft law, pois algumas de suas normas, em alguns lugares do mundo, nada dizem.
Em 1966, em Nova Iorque, foram aprovados dois pactos: o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (os dois Pactos de Nova York, de 1966).
O Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos teve como objetivo codificar aqueles direitos da DUDH. O objetivo era dar uma dimensão técnico-jurídica àqueles direitos, ou seja, dar força jurídica aos direitos previstos na DUDH.
O pacto veio com um rol direito civis e políticos mais amplo do que o da DUDH. Desse modo, o pacto acrescentou a proibição da prisão civil, o direito ao nome e outros.
O monitoramento no âmbito do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos ficou assim: um comitê de direitos humanos com dezoito membros, eleito para mandato de quatro anos, com competência para examinar relatórios e petições estatais, sendo que estas vieram em uma cláusula facultativa, de modo que somente assinar o pacto não significa que os Estados estão reconhecendo a competência do comitê para apreciar essas petições estatais, ou seja, há necessidade de uma declaração específica dos Estados reconhecendo a competência do comitê para examinar tais petições.
O Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais foi aprovado também em 1966, na mesma ocasião, com o objetivo de dar força jurídica vinculante à DUDH, e também possui um rol mais amplo de direitos que aqueles previstos na DUDH.
Há algo interessante: o próprio pacto tem uma previsão específica de que as suas normas têm caráter programático, ou seja, a sua proteção é progressiva. O pacto parte da premissa de que a implementação dos direitos econômicos, sociais e culturais depende de tempo e dinheiro e que o Estado deve progredir na aplicação do pacto; o que não é permitido é o retrocesso dos direitos humanos.
Esse pacto não criou, imediatamente, o Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (este foi criado posteriormente), mas ele previa competência de um órgão técnico para examinar relatórios e, aqui, diferentemente do Pacto dos Direitos Civis e Políticos, ele não prevê petições particulares ou estatais.
Em 2008, foi aprovado o protocolo facultativo ao Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, com a previsão dos meios de monitoramento, inclusive petições particulares, petições estatais e investigações.
Aula5 - Sistema Global Especial
A construção do sistema global especial se dá no contexto de um fenômeno que Bobbio denomina "multiplicação dos direitos". Na segunda metade do século XX, vivenciou-se uma expansão de direitos, de novos titulares de direitos e, além da proteção do homem genérico, começou-se a falar em direitos para proteção do homem específico, isto é, passou-se a considerar a especificidade de certas minorias e grupos vulneráveis.
Dentro da multiplicação, há o fenômeno da especialização dos direitos, ou seja, são reconhecidos direitos do homem genérico e de sujeitos específicos, como os grupos de vulneráveis e minorias.
A construção de sistema especial está diretamente ligadaao princípio da igualdade. Segundo Flávia Piovesan, há três vertentes do princípio da igualdade:
a) igualdade formal: igualdade no sentido de que todos são iguais perante a lei, reconhecida desde a Revolução Francesa. As evoluções liberais do século XVIII exigem a igualdade do ponto de vista formal, o que representou, inicialmente, um significativo avanço, todavia, posteriormente, constatou-se que somente a igualdade formal não era suficiente para que todos os homens fossem, de fato, iguais. 
b) igualdade material para a justiça social e distributiva: é necessário tratar os desiguais desigualmente na medida da sua desigualdade. Considera-se as desigualdades e as peculiaridades de cada grupo para se efetivar a igualdade.
c) igualdade material para reconhecimento de identidades: são observadas as identidades dos seres humanos e há uma adaptação de direitos a essas identidades. Por isso que no sistema global especial há tratados sobre direitos das crianças, das mulheres, das pessoas com deficiência, dos trabalhadores migrantes etc.
No sistema global especial surgem esses tratados com foco em determinados grupos que possuem uma vulnerabilidade maior na sociedade.
Em muitos desses tratados, há a previsão de ações afirmativas, denominadas discriminações positivas. Segundo André de Carvalho Ramos, a igualdade tem duas dimensões: a primeira veda a discriminação negativa (discrimination against), que ocorre quando a discriminação é utilizada para violentar e diminuir direitos. Já a segunda dimensão da igualdade impõe uma discriminação positiva (discrimination between), que significa o reconhecimento da desigualdade entre as pessoas e a criação de medidas e políticas para compensar essa desigualdade; logo, a medida trata o grupo de uma forma desigual com o objetivo de proporcionar igualdade com relação aos demais.
1.2. CONVENÇÃO INTERNACIONAL PARA PREVENÇÃO E REPRESSÃO AO GENOCÍDIO (1948)
A convenção foi adotada no calor do fim da Segunda Guerra Mundial. Com o conhecimento público do genocídio do povo judeu, a sociedade internacional chegou à conclusão de que havia a necessidade de se adotar uma convenção para tipificar como crime internacional o genocídio.
Esse foi o primeiro tratado de direitos humanos no âmbito da ONU. Os Pactos de Nova York somente foram aprovados depois, em 1966.
Nessa convenção, o genocídio é tipificado como um crime internacional. Cumpre informar que já havia uma tipificação no direito internacional pelo costume, mas a sociedade internacional entendeu por bem proceder a tipificação em um tratado internacional.
Tendo em vista que a proteção internacional dos direitos humanos estava ainda engatinhando, nesse tratado não houve previsão de nenhum mecanismo de monitoramento. Não há previsão de petição particular, petição estatal, investigação, relatório ou comitê para investigar denúncias de prática de genocídio.
1.3. CONVENÇÃO INTERNACIONAL SOBRE A ELIMINAÇÃO DE TODAS AS FORMAS DE DISCRIMINAÇÃO RACIAL (1965)
Essa convenção impõe aos Estados o dever de criar medidas políticas, legislativas, administrativas e judiciais para prevenir e reprimir a discriminação racial.
Prevê os seguintes mecanismos de monitoramento:
· relatórios, por meio dos quais os Estados devem comunicar as medidas que adotaram para o cumprimento da convenção;
· petições estatais, por meio das quais um Estado pode comunicar a um órgão técnico acerca da violação do tratado em outro estado;
· petições particulares (cláusula facultativa).
A interseccionalidade (ou teoria interseccional) corresponde à sobreposição ou intersecção de identidades sociais e sistemas relacionados de opressão, dominação ou discriminação. Assim, as diversas formas de opressão na sociedade não agem de maneira independente umas das outras, mas, de maneira a se relacionarem, criando um sistema de dominação que reflete o "cruzamento" de múltiplas formas de discriminação (ex. sexismo, racismo, classismo).
A transversalização implica o "ajustamento" das instituições, a fim de se promover um senso de responsabilidade, através da identificação de condições organizacionais e políticas sob as quais possam ser alcançados e mantidos ganhos econômicos e políticos para segmentos sujeitos a interseccionalidade (ex. mulheres, negras e pobres). O termo foi utilizado nos casos Fazenda Brasil Verde e Trabalhadores da Fábrica de Fogos.
Isso se faz necessário também em virtude do risco de “evaporação”, ou banalização, que correm as políticas de transversalização no interior das burocracias, sobretudo quando instâncias e mecanismos apropriados de responsabilização e monitoramento não são devidamente “instalados“ nessas estruturas. De fato, recomenda-se que parte desses mecanismos seja direcionada à facilitação do empoderamento das mulheres, não apenas para “reforçar sua capacidade de participação” na tomada das decisões, mas também para monitorar o que se passa no interior das instituições.
Nesse ponto, deve ser ressaltada a importância do “caminho de mão dupla” (twin-track approach) na implementação da estratégia de mainstreaming (órgãos centrais). Em outras palavras, não basta tranversalizar o enfoque, do gênero, por ex., em todas as esferas de ação, é preciso também desenvolver projetos e programas específicos para os grupos estigmatizados, particularmente aqueles que promovam o seu empoderamento, como, por ex., ações afirmativas. Apesar da importância da temática, o termo não foi utilizado em nenhuma das condenações do Brasil na Corte Interamericana.
A partir dos dois conceitos, podemos estabelecer o conceito de racismo estrutural no Brasil, reconhecido expressamente pela Corte Interamericana de Direitos Humanos por meio da abordagem da discriminação estrutural histórica e da intersecção dos diversos fatores de discriminação.
A discriminação estrutural histórica foi abordada no caso Fazenda Brasil Verde, no qual a Corte reconheceu a responsabilidade do Estado brasileiro por perpetuar a situação estrutural história de exclusão que potencializa a situação de vulnerabilidade dos trabalhadores submetidos a uma situação de servidão por dívida e submissão a trabalhos forçados.
O critério da condição econômica (v.g. pobreza extrema) foi tido como fator para aferir a existência ou não de uma situação discriminatória, ou seja, o perfil dos trabalhadores escolhidos pela fazenda era justamente o de pessoas pobres e negras, fator crucial de vulnerabilidade, a fim de submetê-los a um regime servil de trabalho, que se denomina discriminação estrutural.
Já a intersecção de fatores de discriminação foi estabelecida no caso Fábrica de Fogos, no qual foi reconhecida a existência de padrões de discriminação estrutural e intersecional para determinar a responsabilidade do Estado brasileiro. Segundo a Corte, as vítimas “se encontravam em situação de pobreza estrutural e eram, em amplíssima maioria, mulheres e meninas afrodescendentes, quatro delas estavam grávidas e não dispunham de nenhuma alternativa econômica senão aceitar um trabalho perigoso em condições de exploração”.
A intersecção de fatores de discriminação nesse caso aumentou as desvantagens comparativas das supostas vítimas, que compartilham fatores específicos de discriminação capazes de atingir as pessoas em situação de pobreza, as mulheres e os afrodescendentes, os quais enfrentam uma forma específica de discriminação por conta da confluência de todos esses fatores e, em alguns casos, por estarem grávidas, por serem meninas, ou por serem meninas e estarem grávidas.
1.4. CONVENÇÃO INTERNACIONAL PARA ELIMINAÇÃO DE TODAS AS FORMAS DE DISCRIMINAÇÃO CONTRA A MULHER (1979)
Trata-se do tratado que mais recebeu reservas dentre os tratados de direitos humanos celebrados sob os auspícios da ONU, principalmente por conta do mundo árabe, que possui uma concepção diferente acerca dos direitos da mulher.
Nessa convenção há a previsão dos seguintes mecanismos de monitoramento:
· relatórios estatais;
· petições particulares (Protocolo Facultativo de 1999);
· investigações (Protocolo Facultativo de 1999).
1.6. CONVENÇÃO INTERNACIONALSOBRE OS DIREITOS DA CRIANÇA (1989)
Trata-se de tratado de direitos humanos da ONU com o maior número de ratificações.
Prevê os seguintes mecanismos de monitoramento:
· relatórios;
· petições particulares (Protocolo Facultativo de 2011);
· petições estatais (Protocolo Facultativo de 2011);
· investigações (Protocolo Facultativo de 2011).
1.7. CONVENÇÃO INTERNACIONAL SOBRE A PROTEÇÃO DOS DIREITOS DE TODOS OS TRABALHADORES MIGRANTES E DOS MEMBROS DE SUAS FAMÍLIAS (1990)
Essa convenção ainda não está em vigor no Brasil.
Nessa convenção, há a previsão dos seguintes mecanismos de monitoramento:
· relatórios estatais;
· partições particulares (cláusula facultativa);
· petições estatais (cláusula facultativa).
Essa convenção está enfrentando dificuldades porque os países que normalmente enviam migrantes são seus entusiastas; entretanto os que recebem migrantes são mais reticentes.
1.8. CONVENÇÃO INTERNACIONAL SOBRE DIREITOS DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA (2006)
A convenção e o protocolo dos direitos da pessoa com deficiência têm status de emenda constitucional porque foram aprovados de acordo com o rito do artigo 5º, §3º da Constituição de 1988. Isso causou impacto o Código Civil e a legislação assistencial, especificamente no que se refere ao benefício de prestação continuada para pessoas com deficiência.
Com relação aos mecanismos de monitoramento, tem-se:
· relatórios estatais;
· petições particulares (protocolo facultativo);
· investigações (protocolo facultativo).
Redija um texto dissertativo a respeito da implementação do direito à igualdade no âmbito do sistema especial de proteção dos direitos humanos. Em seu texto, aborde, necessariamente, os seguintes aspectos:
1 - processo de especificação do sujeito de direito na proteção dos direitos humanos;
2 - ações afirmativas como instrumento de inclusão social;
3 - previsão da adoção de ações afirmativas no sistema especial de proteção dos direitos humanos.
O processo de universalização dos direitos humanos permitiu a formação de um sistema internacional de proteção desses direitos, que aliado ao nacional tem por finalidade a efetivação e promoção dos direitos da pessoa humana.
A partir da Declaração Universal de 1948, inicia-se o desenvolvimento da proteção dos direitos fundamentais, por meio de adoção de inúmeros tratados.
Inicialmente essa fase de proteção era marcada pela generalidade, no entanto tornou-se insuficiente esse tratamento genérico, geral e abstrato ao indivíduo.
Portanto, houve a necessidade de proteção das peculiaridades e particularidades de indivíduos e grupos de pessoas que demandam proteção específica, ou seja, a necessidade de conferir a determinados grupos uma proteção especial e particularizada, em face de sua própria vulnerabilidade. Isso significa que a diferença não mais seria utilizada para a aniquilação de direitos, mas, ao revés, para sua promoção.
Assim, como forma de garantia do direito a igualdade surge a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial em 1965, bem como o processo de evolução da proteção, em relação ao direito à igualdade o combate a discriminação é medida emergencial.
No entanto, as medidas repressivas da discriminação são insuficientes, assim, é fundamental conjugar a vertente repressiva punitiva com a vertente promocional com políticas compensatórias que acelerem a igualdade. 
Dessa forma, surgem as ações afirmativas, instrumento de inclusão social, para aliviar e remediar as condições resultantes de um passado de discriminação, objetivando atingir a igualdade material e substantiva. 
No âmbito do sistema especial de proteção dos direitos humanos existe a previsão da adoção de ações afirmativas, na Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial prevê, no artigo 1º, parágrafo 4º, a possibilidade de "discriminação positiva" (a chamada "ação afirmativa") mediante a adoção de medidas especiais de proteção ou incentivo a grupos ou indivíduos, visando a promover sua ascensão na sociedade até um nível de equiparação com os demais. 
Ainda, na Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher também contempla a possibilidade jurídica de uso das ações afirmativas, pela qual os Estados podem adotam medidas especiais temporárias, visando a acelerar o processo de igualização de status entre homens e mulheres. 
Em relação a dimensão racial, informa-se que o documento oficial brasileiro apresentado à Conferência das Nações Unidas contra o Racismo, em Durban, na África do Sul (31 de agosto a 7 de setembro de 2001), defendeu, do mesmo modo, a adoção de medidas afirmativas para a população afrodescendente nas áreas de educação e trabalho. 
Por fim, no âmbito nacional, a Constituição da República de 1988 estabelece importantes dispositivos que demarcam a busca da igualdade material, que transcende a igualdade formal. Assim, destaca-se o artigo 7º, inciso XX, que trata da proteção do mercado de trabalho da mulher mediante incentivos específicos, bem como o artigo 37, inciso VII, que determina que a lei reservará percentual de cargos e empregos públicos para as pessoas portadoras de deficiência. Adite-se ainda a Lei n. 9.100/95, que obriga sejam reservados às mulheres ao menos 20% dos cargos para as candidaturas às eleições municipais. Acrescente-se também o Programa Nacional de Direitos Humanos, que faz expressa alusão às políticas compensatórias, prevendo como meta o desenvolvimento de ações afirmativas em favor de grupos socialmente vulneráveis. Ademais, o Programa de Ações Afirmativas na Administração Pública Federal e a adoção de cotas para afrodescendentes em universidades, dentre outras políticas afirmativas.
Aula6 - Mecanismo de Monitoramento - Parte1
1. MECANISMO DE MONITORAMENTO DOS DIREITOS HUMANOS NO SISTEMA GLOBAL
os tratados que preveem direitos humanos não passariam de meras declarações retóricas de proclamação desses direitos - com pouca efetividade prática - se não viessem acompanhados de mecanismos de fiscalização das violações a tais direitos.
Assim, quando se fala de mecanismos de monitoramento, está se falando dos meios previstos, em tratados ou não, para fiscalizar e monitorar o respeito aos direitos humanos.
Tem-se, dessa forma, dois tipos de mecanismos de monitoramento:
· Mecanismos convencionais;
· Mecanismos extraconvencionais.
Os mecanismos convencionais são aqueles previstos nos tratados de direitos humanos, ou seja, nas convenções internacionais. Assim, quando foram estudadas, por exemplo, as convenções do sistema global especial, foi falado que, na Convenção da Criança, há os relatórios; em outra convenção, há petições particulares e petições estatais. Todos os citados mecanismos são convencionais porque previstos nas convenções. O Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos também os tem, bem como o Pacto Internacional dos Direitos Sociais e Culturais.
Os mecanismos extraconvencionais não estão previstos em convenções internacionais, mas decorrem da Carta das Nações Unidas e são regulados em resoluções das Nações Unidas. 
1.1. MECANISMOS CONVENCIONAIS
Há três tipos de mecanismos convencionais.
I) Não contenciosos (não judiciais): se baseiam na cooperação dos Estados. Os dois principais mecanismos não contenciosos são os relatórios estatais e as investigações.
II) Quase contenciosos (quase judiciais): conduzidos por órgãos técnicos e baseados em relatórios emitidos por esses órgãos. Os principais mecanismos quase contenciosos são as petições estatais e as petições particulares.
III) Contencioso (judicial): baseado na atividade jurisdicional. No sistema global, o órgão judicial que conduz o mecanismo judicial/contencioso é a Corte Internacional de Justiça.
1.1.1. MECANISMO CONVENCIONAL NÃO CONTENCIOSO
1.1.1.1. RELATÓRIO
Por meio dos relatórios, os Estados informam medidas para efetivar os direitos humanos. Isto é, periodicamente, os Estados informam a um órgão, normalmente um comitê, as medidas legislativas, administrativas e judiciais que foram adotadas para efetivar os direitos previstos na convenção.

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