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Nana Simons 2º Edição – 2020 Copyright © 2020 Nana Simons Todos os direitos reservados. SOLDADO DE GELO Revisão: Lidiane Mastello Capa: Murilo Guerra Diagramação: April Kroes CAVALHEIRO DAS SOMBRAS Revisão: Lidiane Mastello Capa: Ellen Scofield Diagramação: April Kroes SOLDADO DE GELO - LIVRO 1 Dedicatória Nota da autora Aviso Mini glossário Prólogo Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11 Capítulo 12 Capítulo 13 Capítulo 14 Capítulo 15 Capítulo 16 Capítulo 17 Capítulo 18 Capítulo 19 Capítulo 20 Capítulo 21 Capítulo 22 Capítulo 23 Capítulo 24 Capítulo 25 Capítulo 26 Capítulo 27 Capítulo 28 Capítulo 29 Capítulo 30 Capítulo 31 Capítulo 32 Capítulo 33 Bônus Capítulo 34 Capítulo 35 Capítulo 36 Capítulo 37 Capítulo 38 Epílogo Agradecimentos CAVALHEIRO DAS SOMBRAS - LIVRO 2 Nota da autora Dedicatória Prólogo Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11 Capítulo 12 Capítulo 13 Capítulo 14 Capítulo 15 Capítulo 16 Capítulo 17 Capítulo 18 Capítulo 19 Capítulo 20 Capítulo 21 Capítulo 22 Capítulo 23 Capítulo 24 Capítulo 25 Capítulo 26 Capítulo 27 Capítulo 28 Capítulo 29 Capítulo 30 Capítulo 31 Capítulo 32 Capítulo 33 Capítulo 34 Capítulo 35 Capítulo 36 Capítulo 37 Capítulo 38 Capítulo 39 Capítulo 40 Capítulo 41 Capítulo 42 Capítulo 43 Capítulo 44 Capítulo 45 Epílogo Agradecimentos Para todos que tem uma alma sombria, que meu Demeron quebre seu coração e que Onira te faça ver através dos pesadelos; Nem os piores sonhos devem nos impedir de continuar respirando. Olá, leitora e leitor. Obrigada por dar uma chance a esse livro, mas antes de começar a ler, eu recomendo fortemente que você leia os avisos com muita atenção e sem pular nenhuma palavra. Se decidir seguir em frente, aproveite a leitura e sinta-se livre para deixar sua avaliação, seja 1 ou 5 estrelas, eu gosto de ler todas elas. Se esse livro te causar revolta, indignação, lágrimas e no fim... suspiros com a redenção, então minha missão estará cumprida. Grande beijo, Nana Simons Lucca DeRossi (O Monstro em Mim – Série no Berço da máfia Livro 1) Luigi DeRossi (O Monstro Rendido – Série no Berço da máfia Livro 2) Dante DeRossi (O Monstro em Guerra – Série no Berço da máfia Livro 3) Juan Carlo Herrera (O Governador – Livro único) Aya Maria Herrera (O Governador) Este romance é uma ficção. Porém assuntos e temas abordados existem e foram estudados para a construção do livro. Romance dark;gótico;sombrio: subgênero literário do romantismo, associado a temas polêmicos e aborda temas pesados. Está ligado não apenas ao romance romântico, mas também a fascinação com o irracional, o demoníaco e o grotesco. Neste livro, é equivocado procurar mocinhos perfeitos, românticos e de arrancar suspiros de amor. Neste livro, você encontrará um antagonista. Ele é um anti-herói. O livro contém uma linguagem adulta e apropriada para maiores de 18 anos, contém descrições de sexo. Situações de abusos físicos e psicológicos. Torturas e descrições de rituais. Essas situações não são romantizadas. A autora não apoia nenhuma das práticas descritas. A opinião da autora sobre as religiões citadas não está presente no livro. Leia com a mente aberta. Kambarys – Rede de tráfico de pessoas, usadas como igrejas onde a seita realiza rituais de sacrifício e fazem uso das escravas sexuais. Mestre – Denominação dos homens que compram mulheres, ou ganham o direito de criar os filhos de suas escravas para treiná-los a servir. Quarto Reich – Termo utilizado para descrever um futuro teórico da história alemã - um sucessor do Terceiro Reich. Nas teorias da conspiração, o quarto Reich seria levantado como sucessor de Adolf Hitler na Alemanha nazista. Kings — Chefes do crime de países que se reúnem para tomar decisões a respeito de atividades que operam juntos. Itália, Alemanha, Rússia e México. High wizzard – Na tradução “Sumo-sacerdote” é o título dado aos homens de alta posição dentro das seitas, eles realizam magia negra para o grupo. Frigga – Deusa-Mãe na mitologia nórdica. Esposa de Odin e madrasta de Thor e mãe adotiva de Loki é a deusa da fertilidade, do amor e da união. É também a protetora da família, das mães e das donas-de-casa, e símbolo da doçura. Freya – Freya é a Deusa do amor na mitologia nórdica, mas também está associada ao sexo, luxúria, beleza, feitiçaria, fertilidade, ouro, guerra e morte. Simbologia da LIGA: Pedras preciosas que determinam a hierarquia dentro da organização. Sendo Esmeralda, Cristal, Safira, Rubi e a mais alta, Diamante. “O momento em que você terá que se erguer Acima dos melhores e provar a si mesmo Que seu espírito nunca morre” IMAGINE DRAGONS, WARRIORS TRÊS ANOS ANTES Havia dois tipos de homens que eu gostava de completar minhas missões levando a óbito: Homens que cometiam crimes contra a humanidade; Homens que cometiam crimes contra o meu país. Mudié Abramsen era um homem que eu queria matar, mas ele não se encaixava em nenhuma dessas duas espécies. Eu, na verdade, não sabia como classificá-lo até então. — É pelo bem maior — disse ele, sorrindo como se eu fosse seu amigo. Eu assenti a cada uma de suas palavras, concordando como um robô. Mudié era um dos gerentes do lugar, com quem eu vinha “trabalhando” pelos últimos cinco meses. Permaneci em silêncio após concordar com sua explicação sobre o porquê fazíamos o que fazíamos. Bebendo minha vodka Iordanov russa, enquanto observava a cena a minha frente. A grande sala subterrânea ficava a vários metros abaixo da água, numa ilha paradisíaca em Oslo, Noruega. A fila de meninas nuas ajoelhadas parecia não ter fim, e enquanto cada uma implorava por sua dose da heroína mais pura do Afeganistão, as que recebiam iam sendo distribuídas para os homens bebendo e falando ao redor. — É claro, tudo pelo o bem maior — respondi. — De onde elas vêm? Ele riu e cruzou os braços, orgulhoso em proporcionar aquele tipo de diversão doente para os homens ricos que pagavam pela privacidade de seus jogos de horror. — De todos os lugares do mundo. O chefe gosta de manter a variedade. — Ele parece um homem inteligente — falei. — Estou ansioso para conhecê-lo. — E você vai. Tem se mostrado fiel e muito rentável tanto aqui, quanto nas unidades mundiais da Kambarys. Ele virá hoje e você vai ser apresentado como um dos noviços. — E é só isso? — perguntei, brincando com a bebida no copo. — Passará pelo ritual, é claro. — Ritual? — Style Tieko, meu parceiro em diversas missões, perguntou ao meu lado. Eu quis jogar meu cotovelo em sua costela a fim de avisá-lo para prestar atenção em cada palavra que saía de sua boca, mas os olhos atentos de Mudié estavam em nós a todo o momento. — É claro. Você vai escolher uma dessas meninas e fodê-la enquanto entoa os cantos lituanos Illuminati. Deve tirar sangue delas com qualquer objeto de sua escolha enquanto faz isso, e quando derramar seu sêmen, deve tirar a vida dela. Eu já tinha ouvido sobre os rituais que a Kambarys realizava, por isso, não estava chocado. Não mais. A repulsa passou por mim interiormente apenas por pensar no que cada um daqueles homens fazia, incluindo esse ritual, mas mantive minha feição neutra, sem demonstrar nada. Fui treinado para não reagir, não sentir e não mostrar quando estava em missão. Tieko ficou tenso ao meu lado, mas não expressou nada além disso. Mudié o encarou por mais alguns segundos, como se quisesse ter certeza de nosso sangue frio, e voltou sua atenção às meninas a nossa frente. — Vocês vão escolher uma garota? Talvez duas ou três? — Eu gosto das minhas mulheres cientes quando estou dentro delas. — Tieko murmurou. Mudié o encarou com olhos estreitos. — Nossos irmãos não gostam de julgamentos de noviços. Eu bati no peito de Tieko e ri.Aos olhos de Mudié, deveria parecer uma camaradagem, mas meu parceiro sabia que era um aviso claro para manter a boca fechada e guardar suas opiniões para si mesmo. — O que meu amigo quer dizer — falei a Mudié. — É que o melhor jeito de aplicar a dor é quando nossas vítimas estão sentindo cada gota do sangue tirado de seus corpos. Eu vou escolher uma garota mais tarde. Gosto de observar primeiro. Os olhos de Mudié brilharam de satisfação e um sorriso perverso cruzou seus lábios. Ele me estendeu a mão e deu um tapa nas costas. — Você será um acréscimo valioso para nossa Sociedade. Eu assenti e sorri minimamente antes de ele sair. — Porra, vamos simplesmente parar isso! — disse Tieko, e sua voz demonstrava toda a repulsa pelas cenas a nossa frente. — Cale a boca e foque na missão. — Konstantinova, isso aqui é o inferno na Terra! Você não vai foder a porra de uma menina drogada e matá-la, certo? — A Liga enviará alguém para ajudá-las. Esse não é nosso trabalho. — Você está me fodendo? Quem sabe se essas meninas vão sobreviver até lá. Eu vou meter um tiro na cabeça desse cara e dar o fora daqui levando todas elas comigo. Perdendo a paciência, mas não o controle, o arrastei discretamente para um corredor escuro em direção à saída do salão e ergui minha mão ao seu pescoço, o empurrando contra a parede, então o prendi com meus olhos, sem demonstrar qualquer emoção. — Você acha que é o único que tem uma arma aqui? Esses homens têm dinheiro, muito dinheiro. Há políticos, aristocratas e homens de sangue da realeza aqui dentro. Você acha que querem deixar vazar o que fazem no tempo livre? — Eu não me importo com quem eles sejam. Essas garotas estão chapadas até a última fibra do cérebro e mal podem ficar de pé! — Eu sei, porra. Esse não é o primeiro círculo de tráfico humano que eu entro e não será o último, mas a nossa missão aqui é apenas uma: seguir o chefe e dar um tiro limpo, sem rastros, sem suspeitas, então saímos. Se você sair do foco da missão e der um tiro, será um banho de sangue. Essas garotas vão pagar com suas vidas e as chances de nós sairmos vivos daqui viram nulas. Ele me encarou por longos minutos, então fechou os olhos e assentiu. Quando o soltei, ele deu um suspiro quebrado. — Essa merda é fodida, porra. Tão fodida! — Sim, é. — Dei dois passos para voltar ao salão, mas ele ainda continuava escorado na parede, encarando o chão. — Agente Tieko, concentre-se na missão. — Você tem certeza de que a Liga enviará alguém? — Protocolo 3. — Sim, sim. — Ele suspirou. — Eu sei. Foco na missão. Eu saudei Hitler como cada um aqui dentro, quero justiça sobre essa merda. Fechei o botão do meu terno e dei um pequeno aceno para voltarmos para lá. Eu odiava estar preso àquelas roupas de três peças que impediam meus movimentos. Aquilo era com meu irmão, eu preferia algo mais rústico. Mas, para me infiltrar na rede, precisava parecer como um deles. — A Liga sabe o que acontece aqui, temos que pensar que a ajuda está vindo. Até onde sabemos, nada impede que haja agora mesmo alguma equipe em missão de resgate. Eu dizia a verdade. Os protocolos de segurança impediam que uma equipe ficasse ciente de outras missões, toda a confidencialidade garantia que tivéssemos sucesso sem interferir em qualquer outro trabalho. Por isso, não importava o que acontecia ao nosso redor, nosso objetivo era assassinar o chefe de Oslo, então até que outra cabeça assumisse o lugar, aquelas garotas podiam ser resgatadas. — Certo. — Ele concordou e voltamos para o centro. Eu já tinha estado em lugares fodidos, mas Kambarys era um dos que mais me surpreendeu. Meninas penduradas no teto, jogadas no chão, compartilhamentos macabros entre vários homens, cenas que me faziam querer vomitar. Eu não podia fazer justiça com as próprias mãos. Eram mais de 100 homens contra 2, nós não tínhamos nenhuma chance. O cheiro de medo, desespero e sexo, inflamava meu nariz, me dava dor de cabeça, me fazia querer acelerar as coisas e cumprir a missão para estar logo longe dali. Longe dos gritos de dor daquelas garotas e da felicidade dos homens do diabo de ter prazer no sofrimento delas. As atividades sexuais duraram mais duas horas. Tieko e eu nos mantivemos de pé num canto bebendo e observando tudo como se estivéssemos apreciando, ansiosos para começar nossa vez. Foi quando eu percebi que algo mudou, a energia do lugar se tornou mais pesada e os ânimos dos presentes ficaram mais sombrios. Eles tinham sede de sangue inocente. E foi só olhar para a entrada do salão que percebi o porquê. Kazel Maraba havia acabado de chegar. Um dos chefes das Kambarys mundiais e cabeça do tráfico humano que o FBI, a CIA e nem a NSA conseguiram uma puta foto. Mas, a diferença entre eles e a Liga, é que nós nunca seguíamos as regras e não tínhamos medo de burlar leis para cumprir nossos propósitos. Era o que fazíamos. O que éramos. Recrutados para sermos espiões e assassinos profissionais. No momento em que a missão foi dada para mim, Kazel Maraba deixou de ter uma chance. Os homens estavam praticamente urrando, extasiados com a presença de Kazel. Eu só queria meter uma bala no cérebro dele de uma vez. Passaram vários minutos de assovios, gritos e palmas, até que Mudié veio à frente e levantou as mãos, sinalizando a todos para fazer silêncio. Eu sabia o que vinha a seguir e não havia uma única parte de mim que não se sentia enjoada ao saber que eu tinha que fazer o gesto. Kazel levantou o braço direito e todos seguiram. — Heil, Heil, Heil! — Sua voz ecoou pelas paredes antigas como um cântico, e todos repetimos as três chamadas. — Heil, Heil, Heil! Eu tinha sangue alemão. Nasci na minha amada Frankfurt, e não havia nada que eu odiasse mais do que a mancha que o nazismo deixou em nossa nação. Mas, alguns daqueles homens eram seguidores férreos dos pensamentos de Hitler, o que fazia de mim, ali dentro, um adorador dele também. — Meus irmãos! — Continuou ele. — Hoje celebramos a vida, e para isso celebramos com sangue! Os homens gritaram, erguendo os braços em comemoração. Kazel gargalhou, feliz pela posição em que se encontrava. Para aqueles homens ele era um rei. Eu era um caçador sem compaixão, e para mim ele era apenas a Branca de Neve. Minha mão alcançou a arma no coldre e senti os dedos de Tieko em meu pulso, sinal de que da mesma forma que eu estava atento a ele, ele estava em mim. As palavras de Kazel começaram a soar como borrões, eu começava a perder o foco, tamanha minha fúria. Foi quando ele olhou para trás e estendeu a mão, alcançando de um de seus homens uma figura pequena e delicada, vestida numa túnica branca. A mulher tinha longos cabelos escuros que passavam de sua cintura e manteve os olhos baixos, o queixo quase encostado no peito. Ela era pequena, mas pelas curvas do corpo, percebi que não deveria ser tão jovem como as outras garotas ao redor, e a forma como Kazel a mantinha perto, segurando-a firmemente e não deixando os olhos muito afastados dela, eu sabia que ele devia tê-la há algum tempo. Me perguntei desde quando a pequena mulher frágil estaria sob as algemas de Kazel. — Irmãos, eu trouxe minha mistress para, em celebração dessa data única, dividi-la com vocês. — Os homens os saudaram em êxtase e alguns gritavam sua excitação. A mulher ergueu a cabeça como se as palavras do homem tivessem disparado algum botão dentro dela, e quando pude vê-la me impressionei com a beleza de seu rosto. Não havia surpresas do motivo pelo qual Kazel a mantinha tão perto. O pequeno nariz arrebitado combinava com o queixo fino e os lábios cheios, que tinham, inclusive, um corte no canto superior direito. Mas o que me impressionou foram os olhos. Eles tinham uma cor âmbar, quase amarelo. Mas, as olheiras profundas destacavam quão maltratada ela era, e a falta de brilho nos olhos bonitos deixava claro que não importava quanto tempo esteve com Kazel, foi o suficiente para tirar qualquer esperança daquele olhar. Ela parecia horrorizada, mas ao mesmo tempo, conformada. Como se tivesseaceitado que aquela era sua vida e destino. Eu queria chegar até ela e dizer que aquilo acabaria em breve, que a tortura ia parar, que os braços do monstro não a envolveriam nunca mais. — Mistress, ajoelhe-se e me dê prazer com sua boca. — Ele disse num tom calmo, mas eu conhecia a ameaça por trás de uma voz, e aquela definitivamente era uma. Condicionada através do medo, assustada demais para fazer algo além do que lhe foi ordenado, a mulher de olhos amarelos abaixou a cabeça novamente. — Sim, mestre. Eu não tive forças para assistir. Quando ela se ajoelhou à frente do homem e levou as mãos para a calça dele, olhei para Tieko e dei um aceno simples, deixando-o saber que mesmo que o sinal ainda não tivesse sido dado, eu estava prestes a completar a missão. O sangue fervia em minhas veias, pulsava com a adrenalina e a satisfação de ser aquele que colocaria uma bala na cabeça do filho da puta. Comecei a caminhar para trás devagar e desviei de todos que poderiam me chamar ou causar algum problema que poderia me impedir de chegar até a bolsa onde meu rifle estava esperando. Subi as escadas do corredor sul e fiz meu caminho até o ponto estratégico para completar a missão: assassinar o ditador que controlava a Kambarys de Oslo. Vi a mala preta e ajoelhei, pegando-a e tirando meu precioso, separado apenas para as melhores missões. Aquelas que me dariam mais gosto de realizar. Essa era a minha vida. Isso é o que eu fazia. Um espião alemão destinado a seguir toda e qualquer ordem que A Liga mandasse. Fossem serviços do Governo ou missões de ameaça à humanidade, como a que eu e Tieko estávamos naquele momento. Um sorriso lento se espalhou pelos meus lábios assim que Kazel estava na mira. Um único tiro que faria um buraco fatal em sua cabeça. Mas, quando tomei a segunda respiração de alívio, um barulho apitou no meu ouvido. Eu sabia o que aquilo significava e não havia nenhuma maneira de obedecer ao comando. A base da Liga estava chamando. Eles tinham acesso a uma câmera que eu instalei no grande salão e podiam me ver sair, podiam ver cada movimento que fiz, desde que não havia me escondido nas sombras. Então, se estavam chamando, era um sinal ruim. Fechando os olhos, pedi silenciosamente que as ordens não fossem o que eu temia. — Agente Konstantinova, abortar missão. Repetindo, abortar missão. — O quê? — perguntei em choque, meu temor se confirmando. — Protocolo 1, abortar missão. — Não se atreva, porra! — rosnei, meu dedo quase pressionando o gatilho. “É pelo bem maior.” As palavras rodopiavam em minha mente como um mantra. Um mantra que o fodido filho da puta colocou lá. O bem maior nunca poderia ser a tortura de meninas jovens e inocentes, roubando-as de suas vidas e as colocando numa escuridão de drogas e dor. Kazel Maraba tinha que pagar. Assim como Mudié, assim como todos os que escondiam e habitavam por vontade própria as Kambarys ao redor do mundo. — Agente, suas ações serão tomadas como um ato rebelde e implicará consequências. — Foda-se — sussurrei. — Ele é a missão. Por que diabos devo abortar? — Siga as ordens. Abortar missão. — A transmissão foi encerrada e eu olhei através da minha mira, para o homem que merecia, mais do que ninguém no mundo, a bala que atravessaria sua cabeça. Tieko estava no meio da multidão, olhava ansiosamente na mesma direção que eu, aguardando para ver a queda do monstro. Porra. Porra. Porra. Não deixe suas emoções dominarem seu juízo. A voz do meu pai soou na minha cabeça como se ele estivesse ao meu lado, e como se fossem suas mãos guiando-me a seguir as ordens. Eu me afastei do rifle, tirando o dedo do gatilho e deixando que Kazel continuasse a viver. Olhei horrorizado quando ele continuou se afundando no corpo da pequena mulher a sua frente, passando então a açoitá-la nas costas, rasgando o pano de seu longo vestido de seda branca com cada batida e marcando a pele clara. Provavelmente contabilizando o tempo, Tieko olhou para cima, direto para mim. Eu não podia acreditar naquela porra. Me aproximei de Tieko sem ter coragem de olhar em seus olhos e acenei para a saída do salão. — Vamos. — O quê? — Franziu a testa. — Nós não terminamos. — Ele olhou para seu relógio de pulso discretamente e se aproximou mais de mim. — Você está atrasado. Qual o problema? — Protocolo 1. Missão cancelada. Nós temos que sair. Os olhos concentrados de Tieko arregalaram em choque, engolindo em seco ele olhou ao redor e pela sua expressão, eu sabia que suas emoções estavam prestes a vir à tona. Eu rapidamente o tirei de lá, tremendo, odiando cada minuto que fiz meu caminho para a superfície. Quando emergimos para a costa da ilha, tiramos nossos equipamentos e comecei a caminhar para a areia, em direção ao nosso transporte. Não havia nenhum segurança na praia ou alojado em algum lugar para guardar a Kambarys de Oslo. Jogada inteligente, afinal, para que guardar algo que supostamente não existe? Quem imaginaria que abaixo daquela ilha onde as pessoas iam para se divertir e relaxar, existia um subterrâneo de escravidão sexual? — Eu vou fazer a chamada para informar que a missão foi cumprida. — Certo. Use o telefone à leste da costa. Eu vou para o ponto de encontro. — Certo. — Ele confirmou e começamos a nos separar, depois de alguns passos ele me chamou e virei para encará-lo. — Você acha que podemos perguntar sobre o resgate das garotas? Quando fui responder, um estrondo soou atrás de nós, cortando minhas palavras no ar e nos arremessando vários metros à frente. Uma onda nos cobriu antes de se afastar. Quando abri os olhos, com uma tontura infernal, vários pontos do meu corpo doíam e gotas de sangue pingaram pelos meus olhos. Uma pedra do lado da minha cabeça me mostrava que provavelmente bati com a queda. Com meus ouvidos ainda zumbindo, ergui a cabeça e olhei para a água, a fumaça que subia sem parar e o fogo aumentando não deixavam dúvidas sobre o que havia acabado de acontecer. Apertei o transmissor em meu ouvido, ligando para chamar a base, mas meus olhos estavam fixos na água. Se fechasse os olhos, podia ver as mais de cinquenta meninas inocentes boiando lado a lado, suas camisolas brancas idênticas soltas no mar e os cabelos igualmente compridos nadando em meio àquela imensidão azul. Uma dor como eu não sentia há muito tempo ameaçou crescer no meu peito, fazendo-me esfregar a carne numa tentativa inútil de afastá-la. Mas eu sabia que nada mudaria aquilo. O tempo era fixo e não havia volta para o que havia acabado de acontecer. Eu me segurei, levantando e sabendo que precisava conferir Style, ainda deitado na areia, enquanto meus olhos ainda estavam presos no fogo que a explosão do subterrâneo causou. Mas eu não podia me mover. Não podia tirar meus olhos do assassinato em massa que aconteceu diante de mim naquele paraíso tropical. Eu sabia que tinha acabado de deixar mais uma parte de mim para trás. Com o mar, o céu azul que de repente não parecia mais tão bonito, e com a minha recusa em salvá-las mais cedo. Todas as garotas mortas. Todas que eu deixei para trás. A mulher dos olhos amarelos. Tudo pelas malditas ordens. — Porra, porra, porra. — Soltei um murmúrio quebrado, me arrastando até Style. O virei, batendo em seu rosto e chamando-o sem cansar. Olhei para o mar novamente, sabendo que mesmo a região sendo parada, em breve a fumaça chamaria atenção. Quando voltei meus olhos para Style, não tive tempo de reagir. Seus olhos puxados estavam fixos em mim, frios como eu nunca vi meu parceiro antes, e no segundo seguinte uma seringa foi enfiada em meu pescoço, suas últimas palavras levando embora o último resquício de humanidade que havia em mim. — Sinto muito, Demeron. “O que você quer de mim? Por que não foge de mim? O que está querendo saber? O que você já sabe? Por que não está com medo de mim? Por que você se importa?” BILLIE EILISH, BURY A FRIEND DIAS ATUAIS - BERLIM, ALEMANHA — Style? — Eu o chamei. Minha voz tremia assim como minhas mãos. A paredee o chão estavam frios contra minhas pernas e costas, mas eu precisava ficar segura até meu irmão mais velho decidir o que fazer. — Tudo bem. — Seus olhos calmos desviaram de mim para o lado, para onde ele não queria que eu olhasse. — Eu estou com você, Oni. Sempre. Mas, continue olhando para mim, irmãzinha. Pode fazer isso? Pode olhar para mim não importa o que aconteça? — Tudo bem — sussurrei, minha testa franzida. — Não olhe para o chão, Oni. Não olhe para o lado. Apenas para mim. Suas mãos seguravam meu rosto, certificando-se de que eu faria o que ele pediu e olharia só para ele. — Eu posso me limpar agora? Ele segurou minha mão e tirou a grande peça de metal que meus dedos pequenos mal aguentavam segurar. O peso fez um baque no chão quando ele jogou longe. Eu queria ver, mas fiz o que pediu e continuei olhando para ele. Eu nunca ia deixar de olhar para ele. — Pronto, agora você vai fechar os olhos e se segurar em mim. Nós estaremos fora daqui em um minuto. Tudo bem? — Eu não respondi, começando a ficar assustada com o molhado em minhas mãos e meus pés. Style me chacoalhou — Oni! — Style? — perguntei baixinho, mas ele ouviu. Ele sempre me ouvia. — De quem é todo esse sangue? Acordei ofegante, suando e assustada. Olhando ao redor do quarto, deixei meus olhos se acostumarem a ausência de luz antes de sair da cama, respirando profundamente a cada passo dado. Sempre que esquecia meu calmante acontecia isso. Os malditos pesadelos me pegavam. Memórias ou lembranças de algo que eu nem sabia o que significava. Cambaleando até o banheiro, liguei o chuveiro no máximo e deixei a água refrescar meu corpo, limpando o suor e acalmando meus pensamentos. A luz do banheiro permanecia apagada, só a lâmpada fraca do corredor iluminava meu caminho. Eu preferia assim. O dia poderia ser noite todas as horas. Eu me entendia melhor com a escuridão. Colocando um roupão, constatei que ainda não passava das quatro, então voltei para a cama e coloquei o despertador para tocar a cada dez minutos. Me impedir de dormir, me impediria de sonhar outra vez. — Vou a uma filial da Calvin Klein e não estou sabendo? — Eu perguntei a minha assistente enquanto ela pendurava as fotos no quadro do escritório. — Quase isso. Eu juro que todas as vezes que pus meus olhos nesses homens, eles estavam perto de caras ainda mais gatos. Se meu irmão não fosse um psicopata total, eu sairia com todos. — Ela respondeu, pendurando a última. Eu tinha que concordar com seu comentário ácido sobre Kurton, mas mudei de assunto, não querendo azedar meu humor ao falar dele. — Certo. Então temos o pai — apontei para o mais velho. — E os filhos? — Dois filhos e um sobrinho. — Ok — murmurei. — Conte-me sobre eles. Enquanto Slom me apresentava aos nossos novos clientes, eu tentava guardar o máximo de informação e decorava itens importantes. Como os nomes e coisas significativas que já tivessem feito. Não eram os primeiros magnatas por quem eu era contratada e a primeira coisa que aprendi sobre eles, foi que o ego precisava ser massageado. Não me preocupava em fazer isso, mas da forma como eles geralmente elogiavam meu trabalho, eu gostava de poder dizer algo bom sobre o deles também. Os Konstantinovas eram meus primeiros clientes alemães, e inicialmente, quando a secretária de Stark, o dono da Konstantine Business, me ligou para marcar uma reunião, eu não imaginava o porquê. Eu conhecia alguns dos mais renomados artistas plásticos mundiais e aos poucos, me inseri na lista dos melhores artistas plásticos. Eu amava pintar, mas havia quem dissesse que minhas esculturas eram como poemas. As vezes pareciam mais uma sensação do que um objeto. Por isso eles me queriam. Mesmo que em uma breve pesquisa, descobri que nunca foram até um artista pessoalmente para encomendar um trabalho. Na minha posição, eu estava honrada. — Stark e os filhos, Regnar e Demeron, são de Frankfurt. Siriu, o sobrinho, é de Berlim. — Ah, Berlim... — suspirei sonhadoramente e Slom me imitou. Compartilhávamos a maioria das mesmas paixões. Capitais da arte sendo uma delas. — Stark é um magnata, empresário, e investe pesado em filantropia. Tem três bacharelados, licenciatura... Caramba! — Ela pausou. — Ele tem até doutorado, mas não consegui mais informações sobre o que. É um ex- agente do governo, mas também não sei o que ele fez e tem várias... — Slom. — A cortei — Acelere e vá para os pontos importantes, não vou interrogar o homem. — Sim, certo, me empolguei. Resumindo, ele é bom em tudo o que faz. Costuma comprar arte em leilões, você é de fato, a primeira que ele contrata para um trabalho exclusivo. — Isso é tão incrível. — Dei um pulinho, batendo palmas — Parece que estou na faculdade prestes a apresentar minha conclusão do curso outra vez. Vamos lá, Regnar agora. — Regnar é um dos maiores especialistas em joias do mundo, o conhecimento e o alto QI faz dele um cara constantemente envolvido na mídia. Ele está sempre em entrevistas, programas de empreendedorismo e até mesmo de fofocas. Ele tem carisma, a mídia gosta dele. É o único que achei fotos variadas, inclusive. É também o único com uma aliança no dedo, e pelo que eu saiba, sua esposa não compartilha da mesma simpatia que ele. — O que sabe sobre ela? — Kaladia, bem, eu a encontrei uma vez num evento que fui com Kurt. — Slom sentou-se na beira da mesa. — Hm... deixe-me ver por onde começar. — Slom levantou as duas mãos e começou a levantar dedo por dedo, a cada palavra. — Arrogante, mal humorada, se acha a dona do espaço que está, foi mal educada com cada garçom que a atendeu, e parece meio obsessiva, não tirava os olhos do marido. — E ele? — Parecia um louco apaixonado. E muito educado. Sinceramente, não sei como os dois funcionam juntos. — E Siriu? É um belo nome. — Não é só o nome. Se eu cometesse um crime, não me importaria de ser julgada por ele. Ele é chamado de Senhor X nos tribunais. O consideram um dos juízes mais implacáveis do país. Claro que isso o torna respeitado e temido, eu já tinha ouvido falar muito dele, inclusive já o tinha visto em alguns eventos, mas nunca houve oportunidade ou motivo para nos apresentar. Porém, quero, muito. — Ela me olhou e juntou as mãos, como se implorasse. — Me leve junto. Esse pode ser meu momento de olhar nos olhos dele e conquistá-lo. — Slom. — Repreendi, porém não segurei o riso. — E sobre Demeron? — Sim, sobre ele. — Ela levantou um papel em branco. — Não achei nada. — Como não achou nada? — Fora a foto dele com os outros e aquela de cabeça baixa, boné e óculos escuro, o nome dele aparece associado com o de Stark, mas não consegui nenhuma informação, nem mesmo uma data de nascimento. — Isso é tão esquisito. Ele não tem nem Instagram? Slom bufou. — Não. Deve ter uma deformação no rosto e o pai usou dinheiro para apagá-lo da rede. Vai entender os ricos. Lhe dei um olhar cético. — Você é rica. — Sim — disse ela — Mas tenho Instagram e tento colocar o máximo de mim na rede possível. Sou uma rica fácil de entender. — Deus! Você fala tanta bobagem. — Dei risada, balançando a cabeça. — Não consigo ter uma boa visão dele. — Eu disse, me aproximando para tentar vê-lo melhor. Mas a única foto em que estavam todos juntos parecia mais um retrato da monarquia. Estavam de pé, lado a lado, e a foto foi tirada de longe. — Você não consegue nem uma foto dele sozinho? — Tentei, mas por incrível que pareça só achei essa. É meio estranho. — Talvez ele seja tímido. — É, talvez. Mas acho que você vai descobrir. — Ela deu uma risadinha e me cutucou com a ponta da caneta. Revirando os olhos, apontei para a porta. — Vá trabalhar. Eu tenho uma reunião para me preparar. — Sim, chefa. — Com um sorriso, ela saiu. Eu voltei meu olhar para a foto e a tirei do quadro, observando os quatro homens que pareciam misteriosamente fascinantes e o mais maravilhoso de tudo... eles queriam a mim. Minha arte, meu talento, minha marca em seu hall de entrada. Eu não podia imaginar o porquê. O grande prédioalto e bem localizado parecia ainda mais refinado do que eu tinha ouvido falar. Ao mesmo tempo que tinha um ar de antiguidade, combinando com a arquitetura possuía alguns toques modernos, variando de vidro para colunas bem desenhadas e janelas enormes no arranha-céu. As fotos não faziam jus, também. Precisei tapar o olho com as mãos para conseguir olhar até o alto sem que o sol fizesse-me lacrimejar, e ainda assim, não consegui ver o último andar. Debaixo, parecia invadir o céu. Era majestoso. As três portas giratórias da frente não paravam, enquanto entrava e saía todos os tipos de gente. Homens muito elegantes e mulheres bem- vestidas. Clientes em potencial? Sócios? Funcionários? O taxista buzinou, me fazendo saltar e dar uns passos adiante, saindo de sua frente. Passei as mãos pelo meu vestido vermelho, desamassando da viagem conturbada do carro. É claro que ele não perdeu tempo em pegar um passageiro alguns metros à frente. Céus! Naqueles momentos eu sentia tanta falta do meu motorista. Viagens calmas, às vezes com conversas, outras em silêncio... Alguém que não estava tão apressado em pular de um passageiro para o outro que nem esperava eu colocar o cinto de segurança. Meu telefone tocou e na tela brilhava o nome dele, como se soubesse que estava vagando em meus pensamentos. — Mic, sério, como você faz isso? — perguntei e agradeci com um sorriso quando um rapaz me ajudou a girar a porta para entrar no grande prédio. — Isso o quê? — Tem sempre o timing perfeito. Eu acabei de chegar na Konstantine Business. — Sobreviveu ao táxi? — Meio amassada, mas sim. Estou considerando não sair do ateliê até você voltar. — Estarei aí amanhã. — Deixa de ser bobo, Mic. Você merece essas férias. — Eu preciso estar aí e manter um olho em você, garota. Seu irmão não está mais aqui, mas eu devo uma vida inteira a ele, e agora meu compromisso é com você. Uma pontada de tristeza me tocou ao falar sobre meu irmão, mas me obriguei a guardá-lo de volta naquela caixinha trancada no peito, sabendo que se começasse a remoer aquilo, não focaria no trabalho ou qualquer outra coisa pelo resto do dia. — De qualquer forma, fique e termine seu tempo de férias. Quando estiver de volta vai desejar nunca ter saído daí. — Duvido, garota. No segundo dia eu já estava entediado, caçando insetos pelo ar para não ter que ficar à toa. — Ah, Mic. Se soubesse como eu apreciaria estar no seu lugar... Sua risada me fez sorrir e peguei minha identidade na bolsa, entregando a uma das recepcionistas do largo balcão. — Bom, vá fazer suas coisas. Mas, não se esqueça, uma ligação e eu volto. — Eu sei, mas descarte essa ideia. Aproveite e se divirta. — Tchau, garota. Mic era minha única ligação com meu irmão. Fora ele, só restava a memória de Style. Meus pais morreram quando eu ainda era muito jovem, e Style assumiu a responsabilidade por mim, trabalhando e cuidando das coisas. Foi assim para tudo. Ele pagou meus estudos, minhas roupas, morou comigo mesmo já podendo se mudar e cuidar de si mesmo, apenas para não me deixar sozinha, e quando me formei, ele foi meu principal investidor. Meu irmão dizia que sabia reconhecer talentos, e não tinha a menor dúvida de que tudo o que fez por mim valeria a pena. Eu queria que ele pudesse estar comigo para me ver realizar tudo o que sonhei e compartilhei com ele. Queria poder agradecer por acreditar em mim mesmo quando eu não fui capaz. Peguei meu documento e a carteira de visitante, seguindo as instruções para chegar ao andar que Stark Konstantinova me esperava. Ao entrar no elevador, conferi minha aparência. Naquela manhã meu ateliê estava parado, o telefone mal tocava, então Slom me convenceu a deixá-la me arrumar à sua maneira. Meus longos cabelos pretos e lisos, ela prendeu uma mechinha para cima, deixando um daqueles “franjões”. E minha assistente tinha uma estranha obsessão pelos meus traços orientais, quase surtando de alegria quando a deixei maquiar meus olhos. Quando ela acabou e me deixou ver o resultado, perguntei como conseguiu deixá-los ainda mais puxados. O elevador apitou no andar correto e desci, instintivamente comecei a analisar o lugar. Já vinha fazendo isso desde que o carro havia parado na calçada, mas de dentro, podia ver com mais calma, captando quaisquer referências sobre os gostos dos Konstantinova’s. Mas, assim que virei a esquina, fui empurrada com brutalidade para trás, a parede foi o que me impediu de cair. Com os olhos arregalados, assisti quatro homens tentarem segurar alguém que lutava para se soltar dos braços deles, aos gritos. Os funcionários se afastavam ou saíam do andar, chamando o elevador ou indo pela escada. Eu sabia que deveria seguir o mesmo exemplo, mas apenas fiquei ali, escorada contra a parede como se estivesse me tornando parte dela, e assim, quem quer que fosse aquele a dar trabalho aos seguranças, não me veria. Um deles levantou uma arma de choque e encostou na coluna do cara, um grito agonizante ecoou pelas paredes e pareceu tremer o piso de mármore caro, seu corpo dobrou quando a cabeça ergueu com a dor, mas ele não caiu. Ele finalmente quase se soltou, o choque que deveria tê-lo derrubado, parecia só ter lhe dado mais gás. Eu ofeguei quando ele deu um passo ainda de costas, a poucos centímetros de mim, longe do círculo dos caras, quase fugindo. Como se estivesse se preparando para correr e virou em minha direção. E quando ele levantou a cabeça para mim, minha respiração foi audível. Os quatro homens o segurando não aguentariam muito mais tempo. O homem era forte, feroz, rosnava e os olhos sem foco pareciam enlouquecidos. Ele parecia um animal com raiva que precisava ser contido. Ele usava uma camisa branca que destacou os músculos enormes dos braços, que flexionavam com cada movimento de sua rebeldia, a camisa esticando no corpo poderosamente construído. A roupa não combinava com o lugar, a calça de moletom e os pés descalços não eram o tipo de coisa que alguém vestia em um império, mas naquele homem... pareceu simplesmente certo. Perfeito. O cabelo liso e curto era de um loiro escuro que combinava com o tom levemente dourado de sua pele. Quando seus olhos bateram em mim, quase perdi o ar. Eu não pensei. Eu não me movi. Eu não respirei. Estreitando os olhos para mim, piscou e inclinou a cabeça, como se quisesse me observar melhor. Os dentes eram brancos e perfeitamente retos, e uma covinha apareceu num único lado quando sua boca esticou num rugido raivoso, combinando com a discreta fenda no queixo marcado. Os cílios longos só o fizeram parecer mais lindo. Com sua proximidade, percebi o quão grande realmente era. Parecia um gigante. Alto e largo, me fez sentir pequena, delicada e... protegida. Ele não desviou o olhar. Os olhos azuis escuros não piscaram, e aos poucos ele foi ficando calmo em seus movimentos, menos bruto. Enquanto nos olhávamos, a besta enfurecida me olhou e ficou manso. Ele não pareceu nervoso ou inquieto como eu, nem de longe. Ele parecia seguro. Como se tudo estivesse em seu lugar. De repente, uma enorme mão segurou meu braço e cortou meu contato com o homem a minha frente. — Você está bem? Ele a machucou? Eu fitei o homem que falava comigo e franzi a testa, percebendo como era parecido com aquele que estava em surto. Ele tirou os óculos escuros e imediatamente o reconheci. Siriu Konstantinova, o tal Senhor X. — Nã-não. — Mal ouvi minha voz, mas pelo aceno bruto que ele deu, soube que havia me escutado. Soltando-me, Siriu acenou para uma mulher encostada na parede em frente à minha, que parecia em pânico. — Leve a senhorita Tieko para a sala de reuniões. Estaremos lá em poucos minutos. — Sim, senhor. — A mulher assentiu, hesitando os passos até mim e acenou com a mão, me mostrando o caminho. — Espere. — Eu disse a Siriu. — Mas e ele? Ele não me respondeu. Ao contrário disso, acenou novamente para a mulher, que segurou minha mão e me levou para longe. Os olhos do homem afastaram-se de mim e fitou Siriu, tão logo, se agitou novamente, tentandoalcançá-lo. A secretária me puxou outra vez, e assim que cruzamos o corredor, ouvi um grito agoniado, me soltei dela e voltei atrás, ouvindo-a praguejar enquanto me seguia. Parei escondida e ofeguei ao ver o homem ajoelhado, com dois dos guardas segurando-o e quase torcendo seu braço. A sua frente, Siriu passou a mão em sua cabeça e levantou uma seringa, a enfiando em seu pescoço. Então ajoelhou na frente dele e apoiou sua cabeça quando o enfurecido homem perdia a consciência. — Levem-no de volta — disse Siriu, em seu rosto nenhuma pista do que sentia. Eu quis ir até ele e exigir que chamasse um médico, que me levasse para ver o homem, mas antes que pudesse fazer qualquer outra coisa, a secretária colocou a mão no meu ombro e seguiu meu olhar, engolindo em seco. — Pelo amor de Deus... não o contrarie! Venha comigo e deixe-me fazer meu trabalho! Em transe, a segui pelo longo corredor, revivendo os últimos dez minutos como uma fita rebobinada que nunca passava dos mesmos dez minutos. — Quem... quem é aquele homem? — perguntei com a garganta seca. — Demeron Konstantinova. — Ela abriu uma porta e apontou para dentro. — Aguarde aqui. O senhor Stark vai vê-la em breve. — Por favor, me diga... — Não — disse ela, com os olhos acelerados fitando o corredor. — Não me faça mais perguntas. Eu preciso do meu trabalho... e gosto da minha vida. Deixando-me sozinha, eu agarrei minha bolsa com força contra o peito e fechei os olhos, respirando profundamente repetidas vezes. Respirações superficiais, pois meu coração batia feito um louco. Nunca tinha efetivamente vivido algo tão surreal em toda a minha vida. Nunca vi ninguém surtar na minha frente e ainda pior, agora sabendo que o homem em questão se chamava Demeron. Só podia ser um dos filhos de Stark. Mas, o que pensar de Siriu o dopando e não fazendo nada enquanto homens que seguiam suas ordens tratavam seu primo com tanta brutalidade, dando a ele que nem um animal recebia em circos. Incapaz de continuar ali, em meio àquelas pessoas e revivendo a cena que presenciei, tirei o salto, preparando-me para correr fora dali e abrir a porta. A comoção parecia nunca ter acontecido e a secretária não estava em sua mesa. Abrindo a porta da escada de emergência, saí daquele lugar. Mas, a cada degrau descido, me sentia pior pelo que vi. A cada passo dado para longe, eu via os olhos do homem enlouquecido. O misterioso homem de olhos azuis sobre o qual eu não sabia nada. "Você é um mundo distante Em algum lugar na multidão Em um lugar estrangeiro Você está feliz agora?" ELLEY DUHÉ, HAPPY NOW Saí de casa quando amanheceu, mesmo que estivesse acordada desde antes disso. A mochila nas costas continha roupas para caso eu precisasse sair do ateliê, e fui caminhando. Observar as ruas, pessoas e ambientes me inspirava. Minhas esculturas tinham a variedade que eu admirava, e por isso elas eram tão admiradas também. Era uma distância de mais de uma hora, mas eu precisava desse tempo para pensar. Quando deixei de pensar no pesadelo daquela madrugada, foi para fixar Demeron Konstantinova na minha mente, então, eu estava inquieta. Inquieta, atormentada e amedrontada. Ficava me perguntando se ele estaria numa ala psiquiátrica naquele momento, ou jogado em algum canto e esquecido por sua família. Em meus vinte e cinco anos, nada e ninguém tinha me abalado tanto. Dizer que sonhei com o rosto daquele homem me trouxe vergonha, mas eu lembrava de cada uma de suas expressões sombrias, os gritos e a dor nos olhos, essa era a mais pura verdade. E nos meus sonhos, ele se acalmava com o meu olhar. Olhei ao redor, de repente uma sensação de estar sendo observada começou a me corroer e eu parei de andar. Já estava suada, queria continuar, mas agi pensando na minha segurança e acenei para um táxi que passava, dando o endereço. Sabia que estava paranoica. Desde que recebi a notícia da morte de Style, já havia ficado temerosa com tudo ao meu redor. Meu irmão era quem me protegia, cuidava de mim e deixava claro que eu não tinha motivos para temer. Mas, sem ele e sabendo que nunca o veria outra vez, aquelas sensações aterrorizantes de que algo ruim me aconteceria a qualquer momento ficavam cada vez mais fortes. Sem saber, Demeron só piorou aquilo. Vesti o avental assim que cheguei, abri as janelas para deixar a luz natural entrar e peguei meus pincéis, ligando o som e aumentando o volume no máximo. As paredes à prova de som serviam exatamente para quando eu precisava extravasar e a pintura me proporcionava isso. Ali dentro eu estava protegida, segura e em paz. Mesmo que pacífica fosse a última coisa que eu me sentia. Eu gostava de pintar de vez em quando, por mais que minha paixão fosse criar formas, desenhá-las e defini-las com minhas próprias mãos. Quando eu era pequena, mamãe me deixava brincar onde eu quisesse ir. Me perdi no bairro algumas vezes, e numa delas andei pela floresta tentando achar o caminho de volta durante horas, até Style me encontrar, e quando voltamos para casa, eu esperava ser repreendida por mamãe e papai, mas eles não estavam. Nossa babá, uma garota do colegial da casa ao lado, estava nos esperando. Durante aquelas pequenas explorações, eu descobri que gostava de molhar a areia e construir castelos com pontes como nos desenhos de princesas. Depois Style começou a me dar massas de modelar coloridas, e eu enchia nossa casa com cada coisa que ficava boa para ser exibida. Quando fiz dez anos, ele me deu minha primeira maleta realista de esculturas. Quarenta minutos depois, estava com os braços doloridos de pintar e quando tomei uma distância para observar o quadro, neguei que aquilo havia sido feito pelas minhas mãos. — Que lixo — resmunguei e me deitei no chão, de braços abertos. John Lennon cantava Imagine como a minha trilha sonora e eu me permiti fechar os olhos novamente. Ainda não eram nem dez da manhã e eu estava exausta, porém, ainda assim, me sentia elétrica. Levantei-me, mesmo querendo continuar deitada, desejava cancelar minha agenda do dia e voltar para casa. Pedir uma comida leve e tomar um calmante para finalmente dormir. Mas, a minha vida não me permitia tomar uma folga repentina dessas, principalmente com os clientes que dali a poucas horas começariam a ligar. Tirei o avental e peguei uma garrafa de água quase congelada na copa, tomando até a metade. Fui para o escritório, liguei meu computador e o de Slom também, já sabendo que ela chegaria atrasada e reclamando que o seu demorava anos para ligar. Verifiquei meu e-mail, separando três pessoais e decidindo que deixaria Slom lidar com todo o resto. Pelo menos por hoje, eu disse a mim mesma. Um dos lembretes me chamou atenção e eu nem precisei o ler completamente para me lembrar do que se tratava. Peguei o telefone e disquei o número que já sabia de cor. Demorou alguns toques para atender, o que me fez até imaginar se ele estava decidindo se falava comigo ou não, mas finalmente atendeu, para a minha surpresa. — Olá, Enrico. — Onira, como vai? — Bem... escuta, eu queria saber como andam os processos com a investigação. O delegado suspirou. Já não aguentava mais as minhas ligações diárias e ter que repetir sempre a mesma coisa. — Já falamos sobre isso. — Eu sei, eu sei. Só quero ter logo esses papéis nas minhas mãos e ver por mim mesma. — Você os terá, eu estou fazendo o máximo que posso. — Certo — resmunguei, ríspida. — Me ligue se tiver qualquer novidade. Desliguei batendo o telefone na base e suspirei, me recostando na cadeira. Enrico Aguilar estava me enrolando. Eu era educada, mas não estúpida. Style havia me ensinado a ler as pessoas porque, por alguma razão, meu irmão parecia sempre ter um medo infundado de que eu teria que me virar sozinha em algum momento, o que eu achava ridículo, mas quatro meses antes passei a entender e desejei não ter rido dele todas as vezes que quis me ensinar defesa pessoal, táticas de segurança ou até mesmo linguagem corporal. Aquele momento havia chegado e eu estavalidando com tudo sozinha. Mas, eu aprendi o básico e mesmo se não tivesse, ainda assim conseguiria perceber que Enrico não me entregaria os documentos. Me perguntei diversas vezes porque ele teria entrado em contato comigo se sua intenção não era me ajudar com as investigações da morte do meu irmão, mas ao invés de colaborar, só ficava adiando e dizendo que “estava trabalhando nisso”. Eu recebi uma ligação no meio da noite dizendo que meu irmão havia sofrido um acidente de carro fatal, no qual ele e o motorista do outro carro não resistiram. Eu fiquei devastada. A ideia de dizer adeus a minha única família viva desmoronou como uma montanha em cima de mim. Mas, após o choque passar, percebi que tudo foi muito estranho. Se foi um acidente de carro, por que um policial não foi até a minha porta? Por que não me permitiram reconhecer seu corpo? Por que o caixão ficou fechado o tempo todo? Enrico estava no meio de tudo aquilo porque eles diziam que Style estava na fronteira do México, e o delegado designado para o caso era o senhor Aguilar, que não parecia motivado a me ajudar. E por que eu não recebi nenhum documento relacionado a sua morte? Autópsia, laudos, qualquer coisa? Tudo era suspeito e a cada teoria nova que surgia na minha mente, eu tentava me lembrar de algo que Style me disse, me agarrando à esperança de que os devaneios do meu irmão fariam sentido. Passei as mãos pelo rosto, reconhecendo que podia ser que eu estivesse finalmente ficando louca. Ou a exaustão estava plantando coisas na minha mente. Fui ao banheiro, passei uma água no rosto e voltei ao escritório, encontrando Slom sentada em sua mesa. Mas, isso não foi o que me fez travar no meio do caminho, e sim os três homens que ocupavam minha sala de reuniões. — Mas o que... — Comecei. Slom chegou perto, entregando-me nossas costumeiras pastas e o portfólio variado das minhas obras. — Quando cheguei Stark estava prestes a tocar a campainha, eu os deixei entrar. Vou levar o café em cinco minutos. — Sorrindo, ela piscou. — A reunião deve ter sido ótima ontem, hein? Para voltarem hoje. Quando ela fechou a porta, eu soltei uma respiração pesada e tentando conter minhas emoções, entrei na sala de vidro, deixando a porta aberta. Os três estavam sentados, mas Stark se levantou imediatamente, aproximando-se de mim. A família Konstantinova tinha um império de poder e sucesso a várias gerações, e aquele homem era uma parte fundamental nisso, mas toda a minha admiração por ele estava coberta de decepção. Stark era alto e forte, não parecia que já passava de seus cinquenta anos, e os olhos azuis me deixaram mais tristes ainda, pois eram idênticos aos de Demeron. Um minuto de silêncio tomou a sala antes de ele falar algo, e quando fez, me surpreendeu por ter sido tão direto. — Demeron tem certos... problemas. — Eu percebi — respondi sem nenhuma educação, mas naquele momento, nada mais me importava, a não ser saber se ele estava bem. — O que não entendi, foi porque o trataram daquele jeito. Ele é seu filho! — Fitei Siriu acusadoramente. — Seu primo! — Entendo que a cena toda deve ter sido profundamente perturbadora para você, Onira. Mas essa foi uma exigência de Demeron. — Ser sedado? Exposto e atingido com arma de choque? — O que fosse preciso para impedi-lo de machucar alguém — disse Siriu, o rosto calmo como no dia anterior e a voz tão controlada que parecia estar tratando de um negócio, não um familiar doente. — Eu não acredito nisso. O terceiro deles, Regnar, levantou com graça da cadeira e segurou minha mão, até mesmo invadindo meu espaço pessoal. — Demeron serviu ao exército grande parte de sua vida, e depois de certas missões você acaba ficando meio... lelé da cuca, se é que me entende. — Ele sorriu ironicamente, parecendo se divertir com meu tormento. — Ele tem problemas, como disse meu pai. Consequências mentais de anos servindo ao país. Ele é lúcido e está bem na maior parte do tempo, é claro, leva uma vida completa e normal, tirando as vezes que não quer comer ninguém. Arranquei minha mão da dele, dando um passo atrás. Meus olhos arregalados com a ousadia e desrespeito. Stark revirou os olhos e se aproximou de mim, ignorando o sorriso malicioso do filho. — Às vezes, como ontem, ele tem pesadelos, imagina que ainda está no serviço e pode ficar descontrolado. Aconteceu que estava no loft da empresa bem naquele momento. Ele atacou Ryses, minha secretária, aquela que você conheceu. Estava extremamente agressivo como você viu, então precisamos fazer algo que partiu meu coração, que foi detê-lo. Uma solução temporária. Tudo o que ele dizia fazia sentido, tudo batia, mas por algum motivo eu não conseguia acreditar. Talvez fosse meu instinto paranoica, talvez fossem os anos convivendo com Style e sua obsessão pela minha segurança, ou talvez... a dor nos olhos de Demeron. A indiferença de Siriu. — Onde ele está agora? — Em casa, descansando. — Mandou-me pedir desculpas, lhe trazer flores. — Siriu apontou para a mesa, onde um vaso estava perfeitamente montado. — E me disse para convencê-la a não desistir do trabalho por causa dele. — Eu não desistiria por causa dele, desistiria por causa de vocês. Mas, se é tudo como dizem, vou pensar, e peço a Slom que entre em contato quando me decidir. Stark sorriu e parecia um sorriso verdadeiro. — É tudo o que peço. Que reconsidere. Acho que você é uma das artistas mais talentosas da atualidade. Quero exibir quatro peças exclusivas da minha família, feitas por você, no meu próximo aniversário. Fitei Siriu, depois Regnar, e voltei a Stark. Todos pareciam arrependidos e sinceros. Relaxando meus ombros, me permiti dar um leve sorriso fechado e assentir para o homem que fazia tanta questão da minha arte para algo tão importante como sua família. Respirando profundamente, coloquei a ponta da caneta na tela do tablet e usei o tempo que Slom entrou na sala, servindo-lhes café e conversando brevemente com os três para tomar minha decisão. Lhe dei um olhar de reprovação quando descaradamente se jogava para Siriu, que não hesitou em envolvê-la em sua conversa, e dava risadinhas para as piadas inapropriadas de Regnar. Me perguntei se a criatura se esquecia que tinha uma esposa. Quando ela saiu, fitei Stark. — O que você quer das esculturas? Ignorei minhas paranoias, e a cada momento que voltava a pensar nos gritos, olhava para o vaso no meio da mesa. Isso ajudava a me recompor, mas não mudava que eu continuava definitivamente perturbada. “Não deveria estar aqui porque eu deveria estar morto Posso ver as luzes na minha frente” LIGHTS OF HOME, U2 BASE MILITAR DO BUNDESNACHRICHTENDIENST, BND (Serviço de Inteligência da Alemanha) ALGUMAS SEMANAS ANTES — Eu não deveria estar aqui. — Siriu Konstantinova repetiu pela segunda vez, enquanto observava dois guardas dando tapas no rosto de seu primo mais novo para acordá-lo. Ainda havia um toque de compaixão que o fez querer derrubar aquela porta e salvá-lo do mundo, mas ele sabia que não havia a menor possibilidade de ambos saírem com vida. E, além disso, sabia que Demeron merecia o que estava sendo feito a ele. — Sim, sim — Erike Ditz, o diretor da BND, resmungou. — Você é um homem da lei e tudo mais. Bem, eu também sou. Não, ele não era. O homem comandava a maior agência de espionagem da Alemanha e se recusava a deixar Demeron Konstantinova, um preso acusado de traição, voltar para A Liga, mesmo sabendo que as leis para os desertores do país eram tão rígidas lá quanto no sistema do Governo. — Seu primo se recusa a contar para onde Style Tieko foi, isso não pode ficar impune. A missão dele era clara e além de fracassar, os dois conspiraram para transformar uma missão de alto nível autorizada, em um ataque terrorista. As vidas daquelas meninas inocentes estão nas mãos deles, e seu primo pagará por isso sozinho se não entregar o parceiro. Siriu respirou profundamente e olhou através do vidro, vendo Demeron cuspir a água do afogamento simulado.Ele tinha estado preso entre quatro paredes de concreto sozinho durante quase dois anos, e o diretor finalmente decidiu que era tempo suficiente para tentar quebrá-lo. Já tinham passado para o terceiro dia de tortura e não tiraram uma palavra sequer de sua boca. Siriu sabia que continuaria assim. Ele não era um espião e nunca passou pelo treinamento militar que seus primos haviam passado, mas sabia como funcionava e Demeron aguentaria a tortura até a morte, mas nunca diria nada. Siriu ainda se recusava a acreditar que Demeron tivera algo a ver com isso. Antes de ser um espião, Demeron foi um militar exemplar, apaixonado pelo país. O que o levaria a trair e deserdar sua nação? — Ele nunca vai falar. Erike deu de ombros, sorrindo enquanto observava os guardas colocarem Demeron contra a parede, ligarem a mangueira de gelo líquido e apontarem para ele. A boca de seu primo se abriu num grito silencioso, enquanto os jatos de água batiam em seu corpo nu. — Ele pode não falar, mas vai receber a lei por ele e por Style. — Por que não o usa de outra forma? Os olhos de Erike mudaram para ele com interesse. — Ele pode não dizer onde Style está, mas pode nos levar até ele. — Está sugerindo que eu liberte um dos mais talentosos agentes? Ele vai desaparecer. — Não, ele não vai. Siriu foi para a porta e abriu, ouvindo Erike atrás dele mandando os guardas pararem. Ajoelhando ao lado de Demeron, viu como ele tremia incontrolavelmente, o corpo tendo espasmos da tortura. — Soldado — Siriu chamou, fazendo Demeron, sua carne e sangue, olhá-lo. O rosto mal era reconhecível, os olhos tão distantes que Siriu se perguntou se ele ainda podia ver. — Temos uma missão para você. Demeron reuniu todas as forças que ainda restavam sob seus ossos e a carne fraca em seu corpo, e se inclinou para frente, quase encostando nariz a nariz com seu primo quando rosnou: — Eu não sou mais um soldado. Siriu trancou a mandíbula e ficou de pé, afastando-se dele. Quando estava longe da mira das mangueiras, ordenou: — Liguem novamente. Mais forte dessa vez. Ele assistiu um de seus melhores amigos sofrer e foi atingido por alguns resquícios de água também. Mas, não se importou de molhar o terno àquela altura, quase nada abalava suas sombras. "O mundo desacelera Mas meu coração bate depressa agora Eu sei que essa é a parte Onde o fim começa" THE PUSSYCAT DOLLS, I HATE THIS PART DIAS ATUAIS — Como foi? — Slom perguntou assim que passou pelas portas do ateliê, referindo-se a minha reunião mais cedo com Stark, no prédio da Konstantine. — Normal — murmurei, concentrada na figura ganhando forma a minha frente. A verdade era que eu estava irracionalmente irritada. O tour que um funcionário me deu pelo prédio da Konstantine Business foi incrível, principalmente porque eu era uma boa admiradora de obras de arte, categoria em que aquele prédio se encaixava. Mas, eu tinha que admitir a mim mesma que foi o fato de ter ido a todos os andares e não encontrar Demeron, o que me deixou frustrada. — Stark não sabe o que quer. Ele pediu algo com o brasão de sua família, mas quando pedi maiores detalhes, ele não sabia. Disse que eu tenho orçamento ilimitado para escolher o material, fazer o que eu quiser para criar meu melhor trabalho. — Uau — disse ela, puxando uma cadeira para o outro lado da escultura, sentando-se de frente para mim. — Que generoso. Eu não respondi. A generosidade dele não significava nada para mim. Eu queria criar algo com alma, com paixão, com força, mas após a manhã que passei com Stark, comecei a me perguntar: por que ele havia realmente me chamado para isso, se era nítido que a escultura seria apenas algo para exibir? Eu não podia fazer uma exposição de uma peça só, portanto, ia exibir minha coleção nova, já criada, com quatro peças, e acrescentaria a de Stark como um bônus. Ela seria a estrela da noite. Ele achou que era uma ideia incrível, mas para ser bem sincera, havia uma pontinha de medo em mim que me fazia tremer cada vez que pensava no assunto. — Ele não está sendo, Slom — sussurrei, esculpindo então um anel de fogo, um dos detalhes que compunham a enorme figura. — Eu odeio criar algo só por criar. Meu trabalho nunca foi por dinheiro. Eu não me importo com a generosidade dele, se, no fim, ele vai olhar para a escultura como se sua próxima preocupação fosse encontrar um lugar para deixá-la e seguir em frente. Eu esculpia o que sentia em minhas veias. A vida, meu sangue bombeando, minhas emoções, sentimentos e angústias. Eu gostava de ver as pessoas sendo tocadas e profundamente incomodadas com uma enxurrada de sentimentos em minhas exposições. Elas deveriam pensar, refletir, se encorajar e entristecer. Isso era o que eu sentia enquanto as criava. Uma tristeza profunda, um incômodo constante e era atacada pelos pensamentos mais perturbadores. Na maioria das vezes, minhas lágrimas se misturavam ao material ainda pastoso, porque eu via as figuras antes de estarem construídas, e as sentia antes que pudesse sequer tocá-las. E Stark Konstantinova me desafiava a criar algo oculto, algo que eu não sentia, algo que não existia para mim. — Onira? — Slom perguntou e eu senti uma lágrima deslizar pela minha bochecha. Empurrei o suporte para o lado, derrubando o objeto sem significado no chão, a cera endurecida quebrando em milhões de pedaços aos nossos pés. Slom se levantou, puxando sua cadeira e voltando minutos depois com uma vassoura na mão. Ela não disse nada e nem tentou me tirar dali, mas levantei uma mão, pedindo silenciosamente para me deixar sozinha. Ela fez isso, e o barulho da porta fechando foi reconfortante. Continuei sentada, observando a peça irreconhecível aos meus pés. Mais uma vez pensei sobre Demeron. Me perguntei o que ele diria se eu perguntasse o que estava sentindo. Ele seria como seu pai e resumiria em dinheiro? Ou assim como da primeira vez, ele seria misterioso, intrigante e abalador? Inclinando-me, passei os dedos pelo gel no chão. Olhando o material da peça mais desafiadora da minha carreira e tive vontade de sorrir. Sabendo que apenas pelo que em menos de cinco minutos a presença de Demeron me fez sentir, com palavras em sentimentos, ele me faria criar a coisa mais extraordinária da minha vida. FRANKFURT, ALEMANHA PRESÍDIO SECRETO DE SEGURANÇA MÁXIMA PARA EX ESPIÕES A cela bem protegida do presídio de segurança máxima nos cantos mais esquecidos de Frankfurt era fria, e naquela noite se tornaria congelante para o prisioneiro em questão, que ansiava por sua liberdade em dez dias. As paredes que rodeavam o lugar eram frias e sem uma cor definida. Poderia ser branca, cinza ou até mesmo preta, dependia unicamente de quem a ocupava. E naquele momento, era tão escura quanto um abismo profundo. O homem de pé encapuzado segurou a arma com uma tranquilidade que os anos de treinamento o ensinou a ter. Aprendeu a caçar, rastrear e eliminar, ansiando para seu nível na Liga subir conforme riscava os nomes nas listas. Uma morte, um passo acima. Era a cadeia alimentar fatal, onde para sobreviver, era necessário matar. E nenhum dos integrantes se preocupava com isso. Os olhos do homem deitado na cama se abriram de imediato quando sentiu uma presença em sua cela, e com uma rapidez impressionante, ficou de pé. Não tentou lutar e nem resistiu. Sabia que estava em desvantagem. E no fundo, reconhecia que merecia aquele fim. Mas, de qualquer forma, resolveu tentar. — Quero falar com Stark. — Tarde demais. — O atirador respondeu, se sentindo mais satisfeito do que nunca com o embate. Orgulhoso da posição que estava. — Eu solicito um julgamento na Liga. — Você já teve um. E o resultado é a bala que daqui a poucos segundos estará cravada em seu coração. O prisioneiro ergueu o queixo, sabendo que não adiantava debater e muito menos tentar fugir. Sua hora havia chegado, e assim como deu as costas a seus companheiros, todos dariam as costas para ele também. Não havia ajuda, opções ou adiamento. Eraali e naquele momento. O julgamento final. — Suas últimas palavras? — Que Stark se lembre de mim quando morrer, porque os meus irão me vingar. O atirador inclinou a cabeça, sorrindo. — Passarei seu recado. Puxou o gatilho e o silenciador garantiu que a atenção desnecessária não fosse chamada. Quando o corpo grande desabou no chão, ele se aproximou e deitou o homem na cama novamente. Pegou o ácido que havia guardado no bolso e apagou o Rubi que havia no peito, acima do coração. O homem gemeu, segundos depois os olhos arregalaram em choque, e o ceifador levou os dedos ao pescoço dele, sentindo o pulso ficar mais fraco. Ficou de pé, abrindo a cela, e saiu, fingindo não ver o guarda que vigiava o corredor, assim como o guarda fez vista grossa para ele também. Escondeu a arma por dentro do sobretudo e saiu pelos portões, sorrindo para a noite. Missão cumprida. A Liga dos Diamantes colocou um alvo em suas costas, e independente de ser culpado ou inocente, o coração do homem deveria parar de bater quando a noite caísse. A Liga nunca errava, e como sempre, aquele era apenas mais um nome acrescentado à extensa lista de eliminações. "A mente é um campo de batalha Toda a esperança se foi Pensamentos como um campo minado Eu sou uma bomba prestes a explodir Talvez você deva prestar atenção por onde anda Não se perca O coração é um livro de histórias Uma estrela apagada Alguém está chegando Não olhe agora" FOO FIGHTERS, THE SKY IS A NEIGHBORHOOD Style e eu costumávamos ir à missa antes de ele ir embora, e mesmo que agora eu tentasse manter aquele costume vivo todos os domingos, era difícil sem meu irmão. Ainda que relutante, levantei cedo e fui, já sabendo que quando voltasse para casa não teria cabeça para mais nada. A igreja antiga, decorada de dentro para fora no estilo do século XVIII, era um luxo. Os desenhos que contavam histórias, cada detalhe nas pinturas do teto, nos lustres e até nas velas, fazia com que o chão daquele lugar intocável se tornasse sagrado. Sentei no canto do último banco, o véu na cabeça me dava uma pequena sensação de estar protegida, e ouvi o sermão do padre, inevitavelmente chorei nos coros. Nós nunca interagíamos com as pessoas que frequentavam, meu irmão era paranoico ao nível de desconfiar de tudo e todos, até mesmo das senhoras de bengalas, mas se esforçava para, pelo menos, ser gentil com a maioria delas. — Onira! — O padre chamou quando me viu na fila caminhando lentamente para fora. — Padre. — Acenei e dei-lhe um pequeno sorriso. Ele abriu os braços com um sorriso gentil nos lábios. — Estou feliz que veio. Sentimos sua falta nos últimos domingos. — Sinto muito não ter aparecido. Eu só fiquei pensando em como seria estranho me sentar aqui sem meu irmão. — Eu entendo. — Com um olhar simpático, ele assentiu. — E como foi? Como está indo? — Ele era minha única família, sinto sua falta todos os dias. Mas sei que ele não gostaria que eu deixasse de vir. Padre Terry segurou minhas mãos e deu um aperto consolador. Eu suspirei aliviada por simplesmente ter alguém que se importava. Ele não me conhecia particularmente e muito menos de Style. Só sabia nossos nomes e que vivíamos na cidade, mas fora isso, toda a gentileza e simpatia que nos dirigia era preocupação, afeto puro e cuidado. O homem sorridente e muito bonito queria cuidar de seu rebanho, e eu estava grata por isso. — Ficará mais fácil com o tempo e eu tenho certeza de que ele está olhando por você. — Obrigada, Padre. Eu estou me sentindo um pouco em falta, levando em conta tudo o que o senhor fez por mim e pelo meu irmão. Ele cortou com a mão no ar, me acalmando com simpatia. — Deixe disso. Vocês são parte dessa casa. O Senhor tem planos para você e mesmo que não entendamos Seus caminhos para Style, devemos confiar. Eu só cuido das coisas por aqui enquanto Ele me permite. Faço apenas o que posso. — Está enganado, Padre. Acalmou Style muitas vezes e me confortou várias também. Eu pensei que talvez... O senhor precisa de ajuda por aqui? Eu poderia ajudar com algo além de doações em dinheiro. Tenho um tempo livre consideravelmente bom. Ele sorriu. — Onira, você já faz muito contribuindo com a casa de Deus e principalmente vindo aqui mesmo diante de suas dificuldades e do momento que passou. E eu tenho tudo sob controle. — Certeza? — Olhe para essas senhoras. — Ele acenou com afeto para as velhinhas espalhadas pela igreja. — Elas anseiam pelo voluntariado e as obras que fazem aqui. Ter uma jovem moça ajudando as deixaria inseguras. Eu dei risada, aceitando. Eu sabia que ele estava brincando. Mesmo sério, Padre Terry tinha um bom senso de humor. — Tudo bem, Padre. Mas eu estou à disposição. Sua benção. — Que a graça de Deus lhe acompanhe, minha filha. Saí da igreja com um adeus e mais uma vez pensei em Mic, na facilidade que seria ter nosso motorista de volta. Em alguns momentos ficava tentada a ligar e pedir que voltasse de uma vez, mas me controlava. Não que ele fosse reclamar, afinal, depois de anos no exército, ele dizia ter perdido o dedo calmo, gostava de trabalhar. Isso me fazia pensar em algo que Style havia me dito uma vez. “Manter-se ocupado impede que homens como nós pensemos demais.” Eu nunca tinha entendido o que ele queria dizer com “homens como nós”, mas não perguntei. Conhecia meu irmão e sabia que havia coisas que simplesmente não se questionavam. Meu telefone tocou enquanto eu caminhava pela calçada para casa, e o nome de Slom piscando na tela me trouxe um sorriso. — Não me diga que deixou as luzes acesas e a porta destrancada e precisa que eu volte lá, de novo — falei e ouvi seu riso do outro lado. — Você fala como se eu já tivesse feito isso. — Ah, Slom... quem não te conhece até cai nesse seu papo inocente. — Bem, eu não aprontei no ateliê, mas sei que esse horário você deve estar saindo da sua missa. — Eu estou. — Timing perfeito! — disse ela e na mesma hora um SUV prateado parou ao meu lado. Dei um pulo para trás, mas a porta traseira se abriu e minha amiga saiu, correndo para mim. — Vim te pegar para gente almoçar! — Slom! Porra, você quer me matar do coração? — Acabou de sair da igreja e está com a porra na boca? Revirando os olhos para suas gracinhas, guardei o telefone. — É bom que a comida seja boa. — Deve ser ótima. Vamos. — Cruzou nossos braços e foi saltitando para o carro. — Kurt vai nos levar em um lugar novo que abriu no centro. Ele é o principal investidor e quer saber se perdeu dinheiro. Eu estanquei na mesma hora, pensando em milhões de maneiras de sair daquela situação. Atirando à minha amiga um olhar aturdido, soltei seu braço e dei um passo atrás. — Kurton? — perguntei enfaticamente. Ela só podia estar brincando comigo. — Sim, o que tem? Ah, por favor Oni, já faz tempo. Eu a encarei incrédula, e como se fosse invocado pelo próprio demônio, a porta do outro lado foi aberta e um dos meus maiores desgostos surgiu ali, tirando os óculos escuros que cobriam os olhos pretos. Ele teve a cara de pau de me dar um sorriso. Mas, é claro que ele faria isso, afinal, era Kurt. Acontece que Slom não era apenas minha amiga, assistente e futura sócia. Era também a irmã dele. Pensando bem, eu comecei no mesmo momento a reconsiderar a proposta de sociedade. Não podia acreditar nessa merda. Meu domingo havia começado tão pacífico, e então, aquilo. — Onira. — Ele me cumprimentou de longe. — Você está encantadora. Desviei os olhos dos seus e foquei em minha amiga. Não sei qual foi a luz que atingiu Slom, mas ela de repente pareceu arrependida, como se tivesse se dado conta da besteira que fez. Eu tinha evitado aquele homem com todo o esforço e ela o levou direto para mim. — Acho que não foi uma boa ideia? — ela meio afirmou e meio perguntou, torcendo os dedos. — Eu tenho planos, Slom — falei pausadamente, esperando que ela entendesse quão puta eu estava. — Acabei de me lembrar de algo que precisa da minha atenção. Mas vá em frente e almoce comseu irmão. — Ah, não, Oni. Por favor! — Estou um pouco abalada por ter vindo aqui a primeira vez sem Style. Eu não seria uma boa companhia agora. — Você é sempre boa companhia, Onira. — Kurt disse, recolocando os óculos. Respirando fundo, cerrei os dentes juntos e fitei Slom. — Tire-o de perto de mim. Ela rapidamente acenou e me deu um abraço. Eu não perdi o sorriso divertido que enfeitava o rosto do maior cafajeste da cidade. Kurton Ward. Kurt era um magnata dos negócios e esse fato parecia fazê-lo pensar que ele podia tudo. Ele estava envolvido com um pouco de tudo. Pelos boatos, variando e pisando dentro e fora da lei, mas independente de qual ramo fez dele tão poderoso, o fez também multibilionário, mas além disso, um idiota. Tanto dinheiro, uma personalidade venenosa e um cinismo que eu não entendia como cabia nele. Passar uma semana com ele foi o suficiente para saber que eu não ia aguentar ficar nem mais um dia. A vida dele era resumida ao trabalho, e quando decidia deixar o trabalho de lado, me procurava para fazer sexo. Ele levou minha virgindade enquanto declarava seu amor na beira do mar de sua ilha particular. Quando “terminamos” eu comecei a descobrir mais sobre ele, ouvir boatos sobre seus negócios e a assistir o desfile interminável de mulheres que ele exibia. Eu não podia culpá-las. Ele não era só absolutamente lindo, mas a forma como se movia, como falava... conquistava quem quer que fosse. O cabelo loiro escuro, que beirava ao castanho claro, num corte simples que parecia sempre despenteado, era um charme, mas a primeira coisa que eu notei foram os olhos. Ele tinha os olhos mais escuros e intensos que já vi. E aqueles lábios... um rosto emoldurado com uma mandíbula quadrada e um nariz perfeito. Ele era muito educado também, mas seu maior defeito estava nos lábios: as mentiras que escorriam tão fáceis deles. — Nós nos vemos amanhã, Slom. — Eu a abracei em despedida e acenei para ele secamente com a cabeça. — Adeus, Kurton. — Até logo, Onira — declarou com um sorriso perverso nos lábios. Me negando a perder a cabeça por seus jogos, me afastei e praticamente corri para virar a primeira esquina que vi, querendo urgentemente sair da visão daquele homem. O dia frio era bem-vindo, principalmente sabendo que eu podia chegar em casa e me aconchegar no sofá com uma taça de vinho. Por ser domingo, eu me daria o direito de ignorar qualquer ligação e alertas de e-mail. Passei pelo beco com meus saltos fazendo barulho a cada passo, e franzi a testa ao ver que no fim dele não tinha uma avenida ou rua movimentada. Peguei o próximo beco à direita, acelerando meu caminhar para encontrar uma saída e pegar um táxi. Foi quando ouvi outros passos além dos meus atrás de mim. Meu coração deu um salto e olhei para trás, não vendo nada além da rua vazia. Andei mais rápido, ouvindo um barulho mais alto dessa vez, como algo batendo num metal. Olhei para trás, vendo uma lata de lixo derrubada e alguém já entrando em meu campo de visão. Minha pele esfriou. Não pelo frio, mas de puro terror. Quem disse que os becos não são tão perigosos durante o dia não sabe de nada. Não esperando para ver se era realmente alguém atrás de mim ou só uma coincidência, me atirei na próxima curva que vi à esquerda, e corri. Corri como nunca antes. Meus pés desequilibrando no salto e meu cabelo atrapalhando a visão. Olhei para os dois lados, não vendo nada além de um labirinto sem fim, e comecei a entrar em pânico completo. Seguindo para a curva mais próxima, virei ainda correndo, mas no momento em que entrei no beco, bati em alguém. Mãos enluvadas seguraram meus braços e eu fechei os olhos, soltando um grito que ecoou pelas paredes sem reboco desertas. — Ei! — disse ele, tentando me impedir de acertá-lo com meus tapas. — Me solte, me solte! Deixe-me ir! — Onira, abra os olhos. Ouvindo a voz que tinha me atormentado, obedeci. Meu corpo estava entre acalmar ou tencionar mais ainda. — Você — sussurrei. Como ele estava ali? Como sabia quem eu era? Ele olhou para os lados, como se estivesse evitando meus olhos. Mas, ainda assim, eu não desviei dos dele. As irises azuis intensas que dois dias antes me aterrorizaram de medo por ele, naquele momento pareciam serenas. Podia mesmo ser o mesmo homem? Eu exalei uma respiração pesada e puxei o ar, tentando fazer meu coração parar de bater na garganta, sabendo que tudo estava bem, era ele e... Mas então isso me bateu. — Você está me seguindo? — gritei, tentando empurrá-lo. — É claro que não. — Ele franziu a testa, as sobrancelhas baixando juntas. — Eu estava caminhando e você simplesmente bateu em mim. O que está acontecendo? — Eu não sei — sussurrei. — Eu estava andando e de repente alguém começou a me seguir! Ele deu um passo atrás, colocando distância entre nós. — Sinto muito, não queria assustá-la mais do que já fiz. — Você se lembra... se lembra de mim? — Claro que sim. — Me evitando de novo, se afastou mais, enfiando as mãos nos bolsos. — Você viu o rosto? Saberia reconhecê-lo? — Não, eu não olhei direito. Ouvi passos atrás de mim a cada curva que eu fazia e entrei em pânico, comecei a correr. Ele soltou um suspiro, olhando por cima da minha cabeça. — Vou levá-la até sua casa. — O quê? Eu deveria prestar queixa, fazer algo. — Você não viu o rosto do sujeito, Onira. Não há nada que possa fazer. Os policiais não farão nada, porque não têm como te ajudar nesse caso. — Mas... mas e se... — Esses becos não têm câmeras e você não tem um rosto. Na verdade, não tem certeza se ele te seguiu, certo? — Ele parecia estar fazendo isso. — Tenho certeza de que você acha que parecia, mas pode não ser isso. Eu suspirei, encostando minha cabeça na parede, mas, na verdade, queria deitar meu rosto em seu peito largo, me aproximar o máximo possível da sensação de segurança que ele transparecia. — Tive tanta sorte em encontrá-lo, Demeron. — Segurei sua mão e dei um aperto, tentando sorrir em agradecimento. — Obrigada. Os olhos dele brilharam com as minhas palavras e esperei um sorriso aparecer em seu rosto, mas ele só endureceu mais ainda. — Sim. Você teve muita sorte. — Lugar legal. — Ele disse assim que entrou na minha casa. Se Style pudesse me ver, me trancaria no quarto por uma semana. Levar um estranho para dentro de casa seria considerado altamente proibido para o meu irmão. Eu olhei em sua direção, vendo-o olhar em volta e me admirei de como o grande homem parecia deslocado com suas botas pesadas e jeans dentro do meu apartamento decorado pela maior designer da França, rodeado de obras de artes que fui presenteada. — Obrigada. — Rindo de seu desconforto claro, apontei para o capuz e as luvas. — Você pode tirar isso aqui dentro, você sabe. Ele baixou o capuz para trás, expondo os fios do cabelo dourado, mas continuou com as luvas. Um silêncio estranho se construiu, e eu tirei o casaco, tentando deixá-lo confortável. Eu não podia acreditar que estava sozinha com alguém que tinha problemas mentais que poderiam sair do controle a qualquer momento. Estava me colocando em risco por curiosidade. Porque aquele homem me intrigou desde o primeiro momento, e isso não era algo que eu podia mudar. — Obrigada pelas flores. — Flores? — perguntou, franzindo o cenho. — Sim, Siriu as levou no meu ateliê. Cerrando a mandíbula, ele assentiu. — Claro, as flores. De nada. Indo para a estante das fotos, pegou um retrato da minha primeira viagem fora da Tailândia, em Paris, no museu Rodin. Eu estava ajoelhada na frente da escultura de Rodin, “O Beijo”, e olhava para o casal de pedra com as mãos sob o queixo, uma expressão sonhadora no rosto. — Quantos anos você tinha nessa foto? — Tinha acabado de fazer quatorze. Eu estava infernizando meu irmão há meses para me levar para conhecer o beijo mais famoso da história e de alguma forma ele conseguiu fazer isso. Ele ergueu as sobrancelhas, surpreso. — Você era muito jovem. — A maioria das adolescentes em algum momento sabem que estão apaixonadasmesmo antes de saber o que significa isso. Depois de visitarmos essa escultura, perguntei ao meu irmão quando eu poderia dar o meu beijo da história. Depois de alguns anos percebi que Rodin e Camille acontecem apenas uma vez na vida. Os olhos claros levantaram-se para mim. — Então você desistiu do seu beijo histórico? Eu engoli em seco com sua pergunta, sem saber o que responder. Era tão absolutamente perturbador a forma como ele me afetava, e não era apenas sobre desejo, mas uma força que me atraía para ele, que me fazia querer sentá-lo e amarrá-lo na cadeira até que me contasse cada um de seus segredos. Eu não sabia explicar e, certamente, falando com ele sobre o meu suposto beijo histórico, só tornava tudo mais difícil de lidar. Porque de repente, onde eu sempre vi Rodin e Camille, passei a imaginar, então, Demeron. Essa era apenas uma das curvas que minha atração por ele fazia. — Só acho que mudei meu conceito de histórico. — Você conhece a lenda de Tristão e Isolda? — Não. Não conheço muito sobre mitologia grega. Um quase sorriso surgiu nos lábios e ele assentiu. — Vou te contar essa história algum dia. — Eu posso pesquisar no Google. — Dei de ombros. — Por favor, não faça isso, madchen. — Por que não? Ele se aproximou e lentamente ergueu a mão, tocando levemente minha bochecha. Eu queria ter sentido a pele dos dedos, mas o couro da luva foi a única coisa ali. — Quero que ouça de mim. Mas, não se preocupe, será em breve. — Por que está me olhando assim? — perguntei baixinho. — Tentando entendê-la. — Basta perguntar. Demeron deixou cair a mão e deu dois passos atrás, me lembrando do quão grande era. — Meu pai falou bastante sobre você. O suficiente para que eu pesquisasse seus trabalhos. Nunca fui fã de arte, mas depois que vi o que você pode fazer, fiquei intrigado. — Obrigada. Fico feliz que te introduzi da melhor maneira nesse mundo. Ele abriu e fechou as mãos ao lado do corpo, então me deu as costas e foi até a porta. Eu dei um passo à frente, querendo impedi-lo de sair, mas antes que chegasse a isso, ele a abriu, mas fechou de novo e voltou atrás. — Saia comigo. Levei alguns segundos para raciocinar o que tinha acabado de ouvir. — Isso é um convite ou uma ordem? Ele olhou ao redor. — Não aceitarei um não, então é uma ordem. Tentei segurar o riso, mas foi impossível. Ele era inacreditável. Me desafiava com novos sentimentos a cada palavra, a cada olhar. — Digamos que vou aceitar apenas como gratidão por ter me salvado hoje. Um ar pesado assolou seu rosto, os ombros caíram levemente e ele chegou perto outra vez. Os olhos azuis que me encantavam assemelhavam-se ao Glacial Ártico, mas ainda assim, não desviei. Eu me senti gelada. — Aceite. Mas, por favor, nunca me imagine como seu salvador. Olhando por cima de mim, ele colocou seu capuz novamente e saiu. "Você acredita em vida após o amor?" CHER, BELIEVE — Onde devo deixar as flores, senhorita Tieko? — Eu já disse três vezes que são... — Parei ao fitar as rosas que ele segurava. — Por que são vermelhas? Será que alguém nesse lugar está me ouvindo? — Nó-nós pensamos que as planilhas estavam erradas, senhorita, então corrigimos o erro. — Eu fiz as planilhas, por que eu erraria meu próprio pedido? — Porque estavam listadas rosas negras. — Sim. E isso é exatamente o que eu pedi. Tire as vermelhas da minha frente. Quando me dei conta de que vinha me tornando uma artista a nível mundial, comecei a listar os lugares que seriam metas para expor meus trabalhos. E quando me mudei para a Alemanha, decidi que a principal e maior sala da Gemäldegalerie, em Kulturforun, era um desses sonhos. Mas, lá dentro, enquanto observava os preparativos sendo feitos para minha exposição em dois dias e via que nem tudo era feito como queria, estava quase surtando. — Onde está Munsek? O curador estava eufórico quando me viu, tanto que derrubou café em sua própria blusa, saiu para trocar e não havia voltado. Eu preferia que ele tivesse permanecido sujo ao meu lado naquela manhã caótica. — Espero que esteja ficando como você imaginou. — Eu pausei a conversa com três funcionárias da galeria ao ouvir a voz de Siriu, e lamentei que estivesse entrando logo que eu estava prestes a sair. — É um sonho expor aqui. Eu deveria ter imaginado que Stark conseguiria algo assim tão impossível. Siriu riu, cruzando as mãos nas costas depois de me cumprimentar. — Eu ia perguntar se está animada, mas vejo que sim. — É claro que sim! Depois disso, toda a Alemanha vai conhecer minha arte. O conceito dela e a forma como me inspiro. — Não só a Alemanha, os poucos países que não a conhecem, vão conhecer. — Eu sei. Isso me apavora, mas anima ao mesmo tempo. — Fitei o relógio, dando-lhe um olhar de desculpas. — Espero que não tenha vindo por mim. Estou atrasada para voltar ao ateliê, ou não terminarei as esculturas a tempo. — Não, vim tratar de outros assuntos. Fique tranquila. Te acompanho até a saída. Enquanto me acompanhava para fora, perguntou alguns detalhes sobre a exposição e exibia sempre o sorriso cortês. — Mais uma vez, agradeça a seu tio pela galeria incrível. — Nada é impossível para nós. Mas, meu tio escolheu dentro de escolhas suas, então me conte... Por que você escolheu está entre tantas em Berlim? —perguntou. Eu suspirei, pensando num resumo rápido que não fosse tão sonhador quanto o que dei a Demeron. Siriu não parecia fazer o tipo que ia escutar minhas divagações pacientemente. — Gemäldegalerie é uma das galerias mais antigas de Berlim, se não for a mais antiga. É o berço dos clássicos e, além disso, a Filarmônica fica próxima também. Esse foi um dos primeiros lugares que visitei quando cheguei no país e imediatamente me apaixonei. — Bem... fico feliz que podemos lhe proporcionar o espaço que você queria. Espero que o aproveite bem. — Não tenha dúvidas disso! Estou tão animada que mal posso me conter aqui. Siriu riu. — Então essa é minha deixa para ir e deixá-la livre para trabalhar. Sua alegria é contagiante. Eu fitei o homem muito bonito, enormemente construído e tão contido. — Obrigada, Siriu. — Eu lhe convidaria para um almoço, mas preciso estar na Suprema Corte daqui a duas horas. — Daqui até lá são seis horas de viagem. — Sim. — Ele riu. — Por isso tenho um voo daqui a quinze minutos. — Não se preocupe comigo, vou terminar as coisas por aqui e me conhecendo, sei que ficarei mais do que o planejado. Obrigada por vir Siriu, foi gentil da sua parte. Ele me deu um sorriso avassalador. O homem tinha um encanto natural sobre ele. Era gentil, atencioso e fazia de tudo para me deixar confortável sem se esforçar. Um homem da justiça, da lei e leal à família. Me lembrava da raiva equivocada que tive dele de primeira, mas depois só conseguia admirá-lo, ainda mais quando ele simplesmente colocou em risco se atrasar para algum trabalho importante, apenas para vir checar se estava tudo em ordem comigo e o projeto de seu tio. Me estendendo a mão, ele deu um aperto e se despediu, me observando até eu chegar ao táxi. Eu o observei dar poucos passos e quando percebi, já tinha inconscientemente aberto a boca e o chamado. Ele parou, virando para mim e dando alguns passos de volta. — Sim? — Você pode dizer a Demeron que eu perguntei se ele pode chegar mais cedo no dia? Nós estávamos conversando sobre a exposição, ele vai entender ao que você se refere. Uma sombra passou pelos olhos dele, mas logo um sorriso surgiu novamente e ele se aproximou mais. — Você o tem visto? — Sim, eu estava em apuros e ele apareceu. Foi realmente muita sorte. Siriu assentiu lentamente enquanto me observava. — Tenho certeza de que foi. — Você dará o meu recado a ele? Eu mesma avisaria, mas não trocamos telefone, nem nada do tipo. — É claro. Darei o recado. — Ele virou novamente, mas parou e me olhou. — Cuide-se, Onira. Sorrindo, acenei em despedida e voltei para minhas esculturas. De repente, estava tão animada com meu dia que finalizaros preparativos para a noite seguinte foi fácil. Mas, durante todo o tempo, pensei sobre o que Demeron Konstantinova acharia ao ver meu trabalho pela primeira vez. Meu telefone tocou assim que me acomodei no carro. Vendo um número desconhecido, atendi. O telefone de alguém com clientes ao redor do mundo nunca podia deixar de ser atendido. Eu aprendi isso da pior maneira quando perdi os cumprimentos do embaixador da Tailândia, querendo me parabenizar por levar mais prestígio para a arte do país. — Onira Tieko. — Bom dia, senhorita Tieko. O senhor Stark me pediu para entrar em contato sobre um almoço. Não foi previamente agendado e ele pede desculpas por isso, mas surgiu uma brecha na agenda e ele gostaria que a senhorita considerasse. — É claro. Eu estou a alguns minutos do centro agora, onde posso encontrá-lo? Após passar ao taxista o endereço do restaurante, conferi meus e-mails e mensagens, ajeitei a maquiagem num pequeno espelho de bolso e esperei até chegarmos. Descobri que Siriu já havia pagado e agradeci ao motorista pela viagem. — Boa tarde. Bem-vinda ao Edlom. A senhorita tem uma reserva? — Eu vou encontrar o senhor Stark. Ela assentiu, sorrindo e apontou para o corredor que levava ao salão. — Por aqui. Olhei ao redor, reconhecendo a beleza de um dos melhores restaurantes do país, e agradeci quando chegamos à mesa, mas assim que dei a volta e fiquei de frente para quem me esperava, o sorriso sumiu do meu rosto. — Eu esperava ver seu pai. — Eu disse sem fingir que gostei da surpresa. Regnar se ergueu com um sorriso e acenou para a cadeira a sua frente. — Peço desculpas pela falta de um cumprimento mais caloroso, mas eu aposto minhas únicas duas bolas que minha bruxinha está de olho em nós. Então prefiro que ela não tenha ideias erradas do que viu. — Desculpe? — Minha esposa. — Ele se sentou e levantou a mão, fazendo um gesto para chamar o garçom. — Ela pode ser um tanto quanto obcecada. Mas, tudo bem, eu sou da mesma forma. — Ele me fitou e seu sorriso ficou ainda maior. — Você vai se sentar ou sempre come de pé? Ignorando todos os meus instintos que gritavam para sair dali, me sentei e tentei ficar o mais confortável possível. Também fechei minha boca para evitar perguntar se sua mulher sabia que ele a chamava de bruxa para outras pessoas. — Como eu disse, esperava ver seu pai. Espero que não tenha sido nada grave o que o impediu de vir. — Na verdade, ele não marcou. Fui eu. Estreitando os olhos, inclinei-me para frente. — Estou curiosa sobre o porquê. Ele me abrilhantou com aquele sorriso sarcástico e pediu vinho para o garçom. Eu não queria beber, mas contrariá-lo talvez só levaria a mais tempo na discussão do beber e não beber, e tempo era uma coisa que eu não queria gastar com Regnar Konstatinova. Não em um restaurante. Em público. Não no meio do expediente. Inferno, não em qualquer outro lugar. — Fiquei impressionado com você, Onira. Se é que posso te chamar assim. — Eu prefiro senhorita Tieko. Ele riu. — Você é engraçada, Onira. — Eu falo sério. Ele revirou os olhos e se recostou na cadeira, pegando um aperitivo do prato. — A maioria das japonesas que já conheci foram educadas. — Eu não sou japonesa. Ele riu novamente. Eu obviamente o divertia, mesmo sem ter a intenção. E isso me fazia perceber cada vez mais que Regnar tinha algum sério problema com sua confiança e ego. Ou fosse apenas um desequilíbrio mental. — Isso explica tudo, então. Você sabe que eu consigo diferenciar chinesas de tailandesas, e coreanas de asiáticas? Eu contive um suspiro. Aquela “reunião” não era nada além de perda de tempo, mas, ainda assim, ele era um dos homens que seguravam meu contrato com um dos maiores sobrenomes da Alemanha. — Imagino que seja pelo seu aclamado super-QI-gênio? — Não — respondeu de boca cheia, as sobrancelhas franzidas em concentração no aperitivo. — Na verdade, eu só gostava bastante de olhos puxados antes de Kaladia. Era tão absurdo que eu quis rir, mas tinha a impressão de que para ele, isso seria um sinal de “vá em frente e continue com as gracinhas, está me ganhando”, então me limitei a erguer uma sobrancelha, bebericando minha água. — Se você prestar bem atenção, se torna fácil diferenciar. — Sim. — Ele abriu os braços como se eu tivesse acabado de desvendar um grande mistério. — E você é das Filipinas. — Incrível. — Eu sei. — Ele se gabou, bebendo mais. — Você acertou o continente. Ele parou de rir e jogou a mão no ar, soltando um lamento forçado. Eu esperei o garçom sair antes de fitá-lo atentamente e decidir acabar com seu jogo, seja lá qual fosse. — O que você quer, Regnar? — Eu amo a minha esposa — disse ele após um instante, como se fosse algo que eu deveria saber. — E a chama de bruxa? — Bem — deu de ombros —, ninguém pode nos culpar dos nossos fetiches. — Como mentir para encontrar uma mulher solteira num restaurante no meio de um dia de trabalho e ainda avisar que sua esposa pode estar vendo? — Achei melhor dar o alerta caso você resolvesse tentar algo. Ele disse isso com tanta naturalidade que a risada me pegou desprevenida, tão incrédula quanto eu estava. — Você tem que estar brincando comigo — murmurei, incrédula. O sorriso que o acompanhava, como num passe de mágicas, sumiu de seu rosto, e percebi como num instante ele ficou tão incrivelmente parecido com Demeron. Se inclinando para frente, Regnar largou a taça na mesa e fitou meus olhos como um falcão. — Eu quero saber qual é o preço para que você durma com o meu irmão. — O quê? — Demeron. Quero que o seduza, que fique com ele. — Você está definitivamente brincando. — Eu estou falando sério, na verdade. Pago qualquer valor. Você só precisa fazer meu irmão querer você cegamente. O deixe louco, apaixonado. Tomei toda a água e respirei por alguns segundos antes de responder. — Primeira coisa, eu achava que você era um mau caráter, mas agora não só isso, também penso que tem algum tipo de distúrbio mental. Segunda coisa, nenhum dinheiro no mundo me faria deitar com um homem a não ser que eu realmente quisesse isso. Seu irmão pode ser estranho, sim ele é, mas honestamente, não posso acreditar que você está simplesmente o vendendo. Ele deu de ombros, cruzando as mãos sobre as pernas cruzadas. — Um homem faz o que é preciso fazer para proteger seus interesses. Soltei um riso incrédulo, sem graça alguma. — Qual o seu interesse na vida romântica do seu irmão? Regnar me fitou em silêncio por longos segundos. — Sua resposta é “não”? — É claro que é um grandíssimo não! É uma proposta tão absurda que eu aceitaria um acordo com o diabo ao invés disso. — Então nós acabamos por aqui. Mais do que aliviada de pôr um fim naquele encontro desastroso, me levantei pronta para partir. — Onira? Eu parei por apenas um momento, sabendo que me arrependeria de dar ainda mais atenção a ele, e olhei por cima do ombro. Regnar estava sorrindo e bebericando seu vinho. — Se você fodesse meu irmão, estaria fazendo exatamente isso. Me recuperando do choque de suas últimas palavras, o deixei, saindo do restaurante com toda a pressa possível. Quando já estava do lado de fora, puxei uma profunda respiração e afaguei meu peito. Simplesmente acabara de ouvir o homem que eu começava a desejar e ansiar pela presença, ser comparado ao diabo. — Você foi embora e agora eu tenho loucos querendo leiloar com quem eu durmo. Juízes me observando e atração por caras estranhos — suspirei e arranquei meus sapatos, jogando-os por perto na grama. — Ele usa um capuz, Style. Seu pai, irmão e primo vivem de terno e ele mal corta o cabelo. Mas você sabe o que me apavora? Que eu nem sequer me importo. “Style Tieko - Irmão e amigo leal” Era o que dizia em sua lápide. Eu a havia esculpido em uma noite, perdida entre lágrimas e um desespero que me cegava, com Slom em meu encalço para garantir que se eu surtasse de vez, não estaria sozinha. Aparentemente, era sombrio demais que eu quisesse ser a criadora da placa queidentificava meu irmão como morto. — Padre Terry tem me ajudado a lidar com a sua perda, eu me ofereci para ajudar mais na igreja, mas ele me dispensou. Sabe uma coisa que me deixa feliz? Que nunca te falei sobre Kurton. Você teria o matado, e mesmo que isso me deixasse em paz, Slom ia sofrer. Você podia ter sentido que não voltaria daquela viagem e nunca ter saído de casa. Pelo menos agora eu não estaria aqui sentada conversando com uma pedra. Reparei num pequeno arranhão que não existia na minha última visita e me aproximei para ver melhor, na lateral, reconheci como um desenho das mesmas joias que vinha recebendo no escritório. Um pequeno rubi. Aquela brincadeira de mal gosto estava indo longe demais, e por algum motivo, a primeira pessoa que me veio à cabeça como responsável, foi Kurt. Suspirando, acariciei o nome do meu irmão antes de ficar de pé, reconhecendo que estar ali não tinha sentido. Style estava morto, não havia nada debaixo daquela terra além de carne e ossos que um dia me abraçaram e protegeram, mas estava vazio. — Talvez nós fossemos feitos para terminar assim, irmão. Sempre estivemos sozinhos, afinal de contas. Nenhum vento bateu em meu rosto, nenhum arrepio e nenhum pássaro pousou na lápide dele. Nada. Eu não sentia o meu irmão. "Parado sozinho, meus sentidos se confundem Uma atração fatal me segura por completo Posso escapar desse irresistível aperto?" LEARNING TO FLY, PINK FLOYD Os aplausos acabaram junto com minha terceira taça de champanhe. Tudo estava como imaginei. Fotógrafos com as câmeras afiadas para pegar os melhores ângulos e fazer a melhor fotografia, mas ajustadas para não danificar as esculturas. O curador apresentando cada uma das quatro peças e divagando filosoficamente sobre os conceitos. Uma centena das pessoas mais ricas e do mais alto escalão da sociedade alemã desfilando pela sala enorme e bem decorada, me parabenizando pelas magníficas peças e até fazendo fila para me cumprimentar. Fiz contatos, consegui a atenção de todas as pessoas certas e meu principal cliente, Stark, estava feliz. Ou parecia. Ele disponibilizou um motorista para me buscar, mas ao contrário de todas aquelas pessoas, eu não tive o dia todo para cuidar apenas da aparência, precisei chegar na galeria antes que o sol se pusesse, e nos quarenta minutos que faltavam para abrir as portas, pude me retirar para me arrumar no hotel mais próximo e voltar, garantindo que estaria ali antes de qualquer convidado. Aquele era o meu momento, mas em vez de aproveitá-lo ao máximo, eu só conseguia desviar meus olhos a cada brecha que tivesse para um canto mais afastado, onde Demeron estava... com sua acompanhante. Eu conhecia Naya Pollintzi. Não pessoalmente, é claro, mas ela era uma cantora a nível mundial. Todos a conheciam, fosse por fotos, TV, rádio ou internet. Ela tinha uma beleza que parecia fazer parte da realeza, e se portava da mesma forma. Quando chegaram, ambos me cumprimentaram. O que eu já esperava dela, mas dele... Demeron me parabenizou pela noite como se eu fosse a artista que sua família contratou, e não a pessoa que o recebeu em casa e a quem ele prometeu contar uma lenda antiga. Mas isso abriu meus olhos para ver que eu estava tão desesperada por alguém que me entendesse que vi isso no primeiro homem que apareceu e me “salvou”. Um soldado traumatizado? Sim, claro. Nada que uma super estrela não resolvesse. — Meu sogro está encantado com você. Uma loira alta e esguia falou ao meu lado, até então, eu só a havia visto andando com Siriu ou Regnar, mas ninguém a tinha apresentado para mim. Percebi pela proximidade com os dois, que devia ser Kaladia. — Eu estou feliz que ele gosta. Stark é... — Um homem que nunca foi apreciador de arte. A não ser que tenha sido feito pelas próprias mãos dele. — Ela me interrompeu com um sorriso clássico, acenando com a cabeça para um casal que passou ao nosso lado. — O que me faz pensar, Onira... — Ela bebeu um gole do champanhe e curvou o queixo levemente. — Por que você está aqui? — Eu fui contratada, isso significava que a posição de Stark sobre arte deve ter mudado. Ela deu de ombros. — Dificilmente. Mas me diga... eu soube do seu interesse em Demeron. Imagino que deve ser decepcionante vê-lo com Naya, não? Antes que eu pudesse dar uma resposta, um braço enrolou em sua cintura e ela foi puxada para trás, onde Regnar a segurava. — Achei você. — Ele disse a ela antes de abrir um sorriso para mim. — Vejo que já conheceu nossa ilustre artista. — Sim, conheci. De repente, a discrição que Slom havia feito dela me pareceu justa. — Sua esposa estava me dizendo as impressões sobre meu trabalho. — Cutuquei, deixando de fora os detalhes de sua impressão. — Estava querida? E quais foram? — Impressionante. Eu franzi os olhos para sua mentira, que me devolveu um erguer de sobrancelhas e aquele sorriso insuportavelmente branco e perfeito. — Então Regnar, qual foi sua peça favorita? — Não vou negar que esperava algo mais picante. Essas pessoas seriam muito mais fáceis de aguentar se você tivesse pousado nua, Onira. Eu fitei Kaladia em choque, mas ela continuou na mesma posição, como se ele não tivesse dito nada. Depois de me encarar por vários segundos, ela virou nos braços dele e sendo alguns centímetros mais baixa, ergueu a mão, eu não esperava, mas Kaladia deu um tapa discreto no rosto dele, para quem visse de longe, parecia uma brincadeira, como se estivesse dando tapinhas para chamar sua atenção, mas o estalo para mim, que estava tão perto, foi claro. Ele cerrou a mandíbula e olhou para ela com fúria nos olhos, e a mão que segurava sua cintura, subiu para o braço, seus dedos apertaram a ponto de a pele branca dela se tornar vermelha. — Regnar! — Comecei, pronta para dar um jeito de separá-los, mas os dois se viraram para mim como se estivessem só então se dado conta de onde estavam e mudaram completamente. Onde ela havia batido, passou a mão, acariciando. E o braço que ele apertava, massageou com os dedos. Tornaram-se dois amantes apaixonados e meigos em questão de um segundo, quando pouco antes, se agrediam em público. — Não se preocupe conosco, Onira — disse ele, sorrindo novamente. — E sim com sua bela e extravagante exposição. — Pelo que sabemos, era tudo o que você sonhava, não é? — perguntou Kaladia, mas o tom de sarcasmo em sua voz era claro. — Qual o problema de vocês dois? — Onira. — Senti um toque em meu cotovelo, e virei para Siriu. — Stark gostaria de falar com você. Olhando para o casal atrás de mim, Siriu os fitou por alguns segundos, parecendo passar alguma mensagem, e quando foi me levar até seu tio, me desvinculei dele. Kaladia e Regnar já tinham sido o suficiente, e Siriu, por parecer estar ciente de qualquer que fosse o problema dos dois, não era alguém com quem eu queria lidar naquele momento. — Diga ao seu tio que falarei com ele mais tarde, preciso de ar fresco. — Onira! — chamou enquanto eu saía, mas os deixei para trás. Por mais que minha perturbação não se tratasse apenas de Regnar e Kaladia, os dois com suas doses de ironia e acidez me desgastaram e fizeram sentir desconfortável no meu próprio ambiente. Encontrando uma das varandas destrancadas, abri a porta dupla e entrei, encostando quando as fechei e suspirando de olhos fechados. — Você não é a única aliviada de dar um tempo disso tudo. Abri os olhos lentamente, querendo negar, mas sabia que era ela, a mulher gentil que, naquele momento, eu não queria ver o rosto. — Naya — falei como um cumprimento. — Eu só precisava respirar um pouco. Abri as portas novamente, pensando que ao ouvir qualquer coisa do lado de fora seria uma boa desculpa para sair. — Eu te entendo. Se meus fãs soubessem quantas vezes por show eu dou uma escapada, ficariam surpresos. — Ela franziu a testa e riu depois. — Ou horrorizados. Mas, eu não consegui rir, a imagem dela segurando o braço de Demeron, rindo para ele e andando ao seu lado, ainda estava muito clara em minhamente. Fiquei em silêncio, me debruçando na grade alta da varanda, respirando a vista escurecida pela noite que nos cercava. Ouvi um suspiro, então sua mão em meu ombro. Eu fiquei completamente tensa. — Tenho que voltar para dentro, preciso procurar meu noivo. Mas, foi ótimo conhecer você, Onira. Você é muito talentosa. Ela sorriu gentilmente e saiu, deixando-me sozinha com a palavra “noivo” rondando minha cabeça. — Não sou eu. Assustei-me ao ouvir a voz rouca e grossa e não ver ninguém. Franzindo a testa, observei o canto tomado pelas sombras atrás de uma pilastra e pouco depois, vi Demeron sair dali. — O quê? — O noivo. Caso esteja se perguntando. — Eu não estava. — Estava sim, mas depois de esperar estupidamente por ele durante dias e depois vê-lo com outra pessoa o acompanhando, estava percebendo que deixar qualquer pensamento sobre aquele homem de lado era o mais sensato a se fazer. Principalmente quando sua família perturbadora vinha no pacote. Ele encolheu os ombros, e olhou para o céu brevemente, enfiando a mão no bolso para retirar um maço de cigarros. Com passos calculados e os olhos treinados em mim, ele se aproximou, encostando na grade ao meu lado e acendendo um, soltando uma nuvem de fumaça silenciosa que dissipou no ar. — Eu pensei que tivesse ido embora. — Eu disse, me referindo a quando ele sumiu por um tempo do salão. — Não, só não gosto de multidões. Não parecia quando ela estava ao seu lado, pensei amargamente. Totalmente consciente de que aquele incômodo sobre ele estar com outra pessoa era louco e descabido. Ficamos em silêncio por vários minutos. Ele terminou o cigarro, acendeu outro e eu ouvi alguém dizendo meu nome no salão, mas fingi que não escutei e Demeron não me disse nada sobre isso também. — Naya é afilhada do meu pai. Crescemos como irmãos. Olhei para ele com uma rapidez não disfarçada, e sua cabeça baixa não ergueu, mesmo quando a sombra de um curvar de lábios cruzou o belo rosto. Ela era como uma irmã? O alívio e a leveza que senti foram insanos, eu sabia disso, mas ignorei também. — Você fica bem de terno. — Eu falei, mudando de assunto. — Imaginei que você gostaria disso. Ele se vestiu pensando em mim? Em me agradar? Tive que sorrir, porque aquele homem não parava de me surpreender, mas acima disso, colocar-se em algo que claramente o deixava desconfortável apenas para me agradar não era o que eu queria dele. E, além disso, o fazia muito parecido com seus irmãos. Eu gostava das botas surradas, os jeans e as camisas desgastadas. Fazia com que ele parecesse verdadeiro, tão assombrosamente belo e verdadeiro. Seus cabelos estavam penteados, mas pude perceber que não cortou. Eu gostei. Não do penteado, mas que não tivesse se desfeito de outra coisa para mim. Se ele me perguntasse, eu diria que bastava estar lá. Eu não me importava com suas roupas e o cabelo fora de ordem. Eu só o queria. Deus, eu queria aquele homem danificado, triste e tão bonito. — Acha que eu gosto de homens de terno? — perguntei suavemente, sem conseguir tirar os olhos de seu rosto, desejando absorver cada tique, movimento e sutileza de sua expressão. — Você é uma artista. — O que importa? — Artistas gostam de coisas arrumadas. — Alguns artistas gostam de bagunça também. — Me inclinando mais para frente, tentando desesperadamente sentir o cheiro dele, dei-lhe um sorriso. — Você parece ter algumas opiniões formadas sobre mim baseado na minha profissão. Me conte sobre elas. Eu queria desfazer cada um dos clichês que ele pensava saber sobre mim. E em cada coisa que ele não achava combinar, eu queria fazê-lo se encaixar exatamente lá. — Você gosta de falar sobre arte, gosta de pessoas que entendam disso. Gosta de visitar pontos turísticos e ir aos lugares mais venerados das cidades. Mas, isso não é um defeito, é quem você é. Você é culta, intelectual e talentosa. — Ele parou e franziu a testa, seus olhos mudando de mim para a porta que levava ao salão, parecia que estávamos, de repente, lá no meio da multidão, e ele estava observando ao redor. — Isso não é um defeito. Eu precisei de alguns segundos para me recompor de sua análise fria e crua. Me senti vitoriosa também, porque mesmo que Demeron parecesse ler através de mim, ele ainda me via da forma como eu queria que o mundo visse. Ele não sabia sobre os pesadelos, minha culpa, minhas lembranças, minha tristeza constante. Assim como todos ao meu redor, ele não precisava saber das minhas noites sem dormir, do meu refúgio nas minhas esculturas sombrias. Ele pensava que eu era boa demais para ele. Boa demais para suas botas desgastadas, calças surradas e cabelo grande demais. Eu queria ser boa para ele, não boa demais, apenas boa. Mas, não desmenti nenhuma de suas impressões, porque isso significava trazer à tona a verdade. Ele pensava que eu era uma pessoa de luz, isso era bom. Eu não queria que ele soubesse que a escuridão era a única que me confortava. — Demeron, se você se arrependeu de ter vindo... — Comecei, mas ele me parou, tocando meus dedos com as pontas dos seus. — Não. — Sua voz firme e crua, me fez olhá-lo mais atentamente, vi como olhou ao redor de novo, engolindo em seco e se ajeitando, saindo um pouco das sombras e dando um passo mais perto da luz. Ele passou a ponta da língua pelo lábio inferior, me hipnotizando com cada movimento. Ajeitou o colarinho da camisa, fazendo a gravata ficar ligeiramente torta. Eu quis sorrir. Sorrir e dizer a ele que estava tudo bem arrancar aquilo. Será que apertava seu pescoço? O pinicava? O fazia sentir preso? Eu me sentia assim com alguns vestidos também. Ele estava incomodado. Com o público, com o rumo da conversa, com as pessoas em volta de nós. Sem que ele dissesse, percebi que não queria estar ali. Então, tomando uma rápida decisão, bebi o restante da água e numa demonstração de que ele podia tirar a gravata, soltei meu cabelo, arrancando a tiara que Siriu havia me dado mais cedo. — Por hoje, eu cansei de ficar ao redor de todas essas pessoas. — Eu disse, desejando sair o mais rápido possível dali e trazê-lo de volta para perto. Para mim. — Alguém lhe fez algo? — Não, quer dizer... não importa. Ele franziu a testa, os lábios apertaram naquela mania que eu percebi que ele tinha de fazer essa expressão confusa. — Eu pensei que fosse um dos seus lugares favoritos. E era. Eu não sabia como ele sabia disso, mas eu amava estar ali, porém, o desconforto dele era quase palpável. Abrir mão do meu momento glorioso não me faria mal. — Quer saber... por que não vamos a um lugar mais à vontade? Nós escapamos dos convidados e da imprensa sem nenhum problema. Demeron foi rápido e habilidoso em me fazer parecer invisível e no fundo da minha mente, eu sabia da tamanha irresponsabilidade e falta de ética ao abandonar meu evento daquela forma. Por isso, tentando amenizar a culpa, mandei uma mensagem a Slom, pedindo que ficasse de olho em tudo por mim. O caminho de carro da galeria até uma subida escura e deserta de terra foi em silêncio, mas quando descemos do carro e começamos nossa caminhada para dentro de onde quer que estivesse me levando, ele começou a me fazer pequenas perguntas. De onde eu era, minha idade, meus estudos, até que chegou a minha família. Refleti por alguns minutos, pensando em como descrever Style. Meu irmão era meu herói, quando me perguntavam sobre ele, eu sempre queria que a pessoa sentisse como ele era incrível. Meu Style merecia isso. — Ele aconselhava investidores de risco. Eu sempre pensei que era um trabalho perigoso — contei. Um daqueles quase sorrisos que eu adorava cruzou o canto de seu lábio. Estava ansiosa e até mesmo, debatendo entre contar ou não uma piada para tentar arrancar-lhe um sorriso completo de vez. — É verdade, o que poderia ser mais assustador do que investir dinheiro? — Não quis dizer isso, quer dizer, sei que existem coisas piores. Policiais morrem todos os dias nos protegendo, bombeiros também. — Eu entendi o que quis dizer, Onira. — Porque vocême chama de Onira? Por que não Oni? Ele franziu os lábios. — O diminutivo do seu nome em algumas línguas ocidentais significa “pequena irmã”. Me recuso a chamá-la assim. Dei risada, adorando que ele começava a me mostrar uma versão mais descontraída de si mesmo. Que já não olhava mais ao redor como se fosse ser atacado a qualquer momento, que não hesitou em me dizer nada, que parecia seguro. Bem. Feliz. Eu olhei de volta para os quilômetros de árvores que nos cercavam quando finalmente chegamos ao topo, uma pista de concreto pichada de vários desenhos e palavras em alemão. Ele segurou minha mão, arrepiando-me da cabeça aos pés e me levou até a beirada, me puxando para sentar-se ao seu lado. A vista era incrível e meu suspiro alto de apreciação disse tudo. — Eu não gosto de estar em público. Eu não sabia o que responder, mas de qualquer forma, duvidava que pudesse dizer algo que iria ajudar. — Por quê? — Você conhece a história desse lugar? — Sei que não é muito aclamado — respondi suavemente, sabendo que pelas histórias do que se passou ao decorrer dos anos, aquela montanha não era motivo de orgulho para os alemães. — Nós estamos sentados sob a guerra. — O rosto assombroso e pesado não me encarou, ele olhou para a frente, os olhos apertados e as mãos fechadas em punho. — Os escombros de anos e anos da reconstrução de Berlim depois da queda. Wehrtechnische Fakultät foi construída aqui debaixo para treinar jovens nazistas. Soldados criados pelo ódio e intolerância. Esse é o lugar mais alto de Berlim, vemos toda a cidade daqui, mas ainda assim, isso foi chamado de montanha do diabo. Acho que foi merecido. — Você sabe... não é culpa sua o que aconteceu durante aqueles anos, nem de muitas pessoas que ainda vivem aqui. Não marque a si mesmo pelas atrocidades de alguém que nem nasceu aqui. Seu rosto virou para mim com tudo, encarando-me quase que com desespero no olhar. — Não devo me marcar quando isso marca tantas outras pessoas? — É claro que marca. Mas, isso não é culpa sua, Demeron, por Deus e... — Se você tivesse a chance de salvar alguém que sofre nas mãos de quem ainda comete atos em nome dessa ideologia, você faria isso? — Sim — respondi imediatamente. — Quer dizer... eu faria o possível se estivesse ao meu alcance. Ele assentiu lentamente, voltando a olhar para frente. — Se estivesse a apenas alguns passos de salvar uma centena, mas tivesse que quebrar regras para isso, ainda assim faria? — Sim. Eu não entendia o porquê ele levava aquele assunto tão profundamente, como se fosse realmente sua culpa. Segurei seu braço suavemente, sentindo os músculos completamente tensos por baixo da camisa. — É claro que faria. Qualquer pessoa com humanidade o suficiente teria feito. — Ele terminou quase num sussurro, mas eu ouvi, e ainda mais confusa, me movi para a sua frente, hesitando quando me aproximei o bastante para segurar seu rosto e trazer os olhos para mim. Então eu disse a primeira coisa que me veio à mente, que foi, inclusive, a primeira que eu notei no momento em que subimos ali. — Tudo o que eu consigo pensar é que nunca estive tão perto da lua quanto agora. A careta dele aprofundou ainda mais antes que virasse o rosto e o erguesse ligeiramente, olhando para onde eu apontei. Passaram-se vários segundos em silêncio. — Estou rezando silenciosamente para não ter sido insensível agora. — Não — disse ele, virando-se para mim com um sorriso pequeno. — Você acabou de me dar uma perspectiva nova. Vou lembrar disso cada vez que vir aqui. Dei de ombros. — Gosto de pensar que mesmo que seja pequeno, tudo tem algum valor. O sorriso dele se foi; voltando para a expressão gélida e distante. Meu coração apertou em pesar, e eu quis imediatamente dizer algo que trouxesse de volta aqueles minutos em que ele só sentou e relaxou, esquecendo quaisquer que fossem os problemas que o mantinham tão longe. — Eu conversei com muitos homens de terno na galeria. Todos eles sabiam falar muito bem e reconheciam todos os artistas que eu citava. Mas eu só conseguia prestar atenção em você. O único que não disse uma só palavra. Os olhos azuis profundos congelaram em mim. Ele ergueu as mãos, segurou meu rosto e acariciou minha bochecha. Ele aproximou mais o rosto do meu e meus olhos foram fechando, ansiando para sentir seus lábios nos meus. Mas, no segundo seguinte, senti uma pontada no meu pescoço, meus olhos arregalaram e meu corpo impulsionou para trás, sem entender o que estava acontecendo. Abri a boca para gritar, chamar o nome dele. Mas o homem que me encarava já não era o quebrado e frágil que eu conheci. Enquanto eu perdia a consciência, os olhos que me encaravam eram de gelo. "Fico de olho no sorriso da sombra Para ver o que ela tem a dizer Você e eu sabemos Um nó que está girando em torno do meu coração é como Um pouco de luz e uma pitada de escuridão Mas eu vejo o seu brilho Você não entende a minha mente Necessidades obscuras são parte do meu ser Mas a escuridão nos ajuda a brilhar" RED HOT CHILI PEPPERS, DARK NECESSITIES Acordei encolhida no canto de uma cama pequena, num cubículo escuro e um cheiro de produtos de limpeza penetrando meu nariz, provocando espirros um atrás do outro. Empurrando o edredom escuro, aveludado, percebi que estava fraca o suficiente a ponto de quase não aguentar levantar o peso do tecido. Olhei ao redor, a cama pequena, de madeira antiga, dividia o espaço com apenas um armário encostado na parede, de onde vinham os cheiros fortes. Garrafas, potes, sacos. Dei por mim que estava num quarto que deveria pertencer a algum empregado do lugar, ou só um cômodo onde colocavam o que não tinha serventia. Aliviada por não estar nem amarrada e nem sem minhas roupas, levantei, coloquei o salto, sentindo o desconforto de uma noite inteira de pé em cima deles e um desmaio induzido e... Droga. Com aquele pensamento, fiquei em alerta. Sentindo-me estúpida por não pensar nisso logo de cara, assim que acordei. Olhei para todos os lados procurando uma janela ou um relógio que pudesse me dizer que horas eram, pelo menos que período do dia estava. Se ainda era noite, madrugada, talvez. As lembranças de um momento doce que me levou até ali pouco a pouco foram se transformando em choque, terror e raiva. Onde estava Demeron? Seu rosto vazio, assustador, era a última coisa que me vinha na cabeça quando pensava e tentava me recordar do que aconteceu. Lembrava-me de estarmos conversando e quando pensei que o que eu tanto desejava fosse acontecer, fui surpreendida da pior maneira. Com aquela memória, toquei meu pescoço com a ponta dos dedos, onde ainda podia sentir a picada da agulha, e uma dor de cabeça que se iniciava. Onde estava Demeron? Em meio ao devaneio, a porta foi escancarada, batendo na parede e fazendo-me pular com o susto. Uma mulher ruiva, que nunca sequer vi na vida, me fitava com os braços cruzados. Mas, ainda sem conhecê-la, senti que não me era estranha, parecia familiar. Ela franziu as sobrancelhas, estreitando os olhos para mim e olhando de cima abaixo, talvez estranhando até mais do que eu toda a situação. Esperei que dissesse algo, que explicasse, ou qualquer coisa, mas ela apenas me olhava. Um silêncio desconfortável e um olhar nem um pouco gentil. Fosse quem fosse, ela não estava feliz de me ver ali. Com a porta aberta, pude ouvir a música alta vindo de fora. Uma batida provocante, até mesmo sensual. Depois vieram alguns gritos e risadas. Atrás da ruiva a parede era de veludo vermelho, com detalhes pretos e desenhos dourados do chão ao teto. Só de ter aquele raso vislumbre, imaginei do que se tratava o lugar. Tanto pelo cenário, quanto a música, e a forma como ela estava vestida. O cabelo num coque que deixava alguns fios estrategicamente soltos do penteado e uma simples presilha brilhante até demais segurando-o um pouco acima da orelha. O vestido longo atrás e curto na frente também era de um vermelho sangue que combinava com seu batom e com os olhos verdes. Ela eralinda, mesmo que parecesse perigosa demais para lidar. — A bela adormecida resolveu acordar. — A rouquidão de sua voz não parecia forçada, era natural. Elegante. Bonita. E uma completa desconhecida para mim. Franzi a testa, confusa com sua recepção. — Desculpe, mas... eu não sei o que está havendo aqui. Sua língua espreitou para fora e circulou os lábios enquanto me fitava, então ela deu um passo à frente, mas antes que pudesse fazer ou dizer outra coisa, uma sombra se instalou em suas costas, e segurou a mão que ela erguia em minha direção. — Não a toque. — As palavras da sombra foram quase um rosnado, seguidas do riso feminino da ruiva. — Eu não ia machucá-la, sua pele parece macia, eu só queria sentir. Saindo do escuro, a sombra se revelou. Eu sabia que era Demeron pelo resquício da voz por trás dos rosnados, mas vê-lo após o que tinha acontecido o fez parecer ainda maior, ainda mais feroz, e pela primeira vez, admiti para mim mesma que aquele estranho homem poderia, sim, ser mortal. — Isso é tudo, Kirina. Obrigado. Ela o fitou por alguns segundos antes de me encarar, o nariz arrebitado ficando ainda mais erguido conforme me olhava de cima. — Ela não poderá ficar aqui. Não quero ter problemas. — Não terá. — Duvido disso. — Foram suas últimas palavras antes de sair, passando a mão pelo braço dele delicadamente enquanto nos deixava. Eu observei a cena esperando que ele se sentisse incomodado, que a repreendesse, ou, pelo menos, me desse um olhar de desculpas, ainda que não me devesse isso. Mas, a única coisa que recebi foi seu silêncio e o impacto daqueles olhos azuis tão intensos, tão profundos, que me encaravam como se não me conhecesse. Eu queria perguntar de uma vez por que me levou ali? Por que fez o que fez? Por que não se afastou assim que as unhas vermelhas tocaram sua pele? Mas tinha medo das respostas. — Quem é essa mulher? — Uma amiga. — Ela não parece amigável. — As aparências enganam. Sim, eu começava a perceber isso. — Demeron, eu estou tentando não surtar sobre o porquê de ter acordado aqui, sozinha e a música alta lá fora. Tentando ser racional e esperando uma explicação, mas estou começando a ficar assustada e... — Você ia sofrer um atentado essa noite. Depois que eu a levasse de volta a galeria, um motorista seria designado a você, e no caminho, um acidente aconteceria. Ele permanecia como uma estátua em pé na minha frente. Os braços atrás das costas, pela voz, era como se estivesse dando um relatório. Vazio, distante... profissional. — O-o quê? — Você está em perigo. — Começo a acreditar nisso, vendo que você enfiou uma agulha no meu pescoço, me trouxe aqui e não está falando nada que me faça entender o que diabos está acontecendo! — A única forma de conseguir explicar o porquê disso, era a levando para um lugar onde não seríamos incomodados. — Eu não estou ouvindo isso... não faz sentido. — Se eu tivesse dito que estava em perigo, que sofreria um atentado e que eu sabia disso, sairia de lá comigo ou teria corrido a delegacia mais próxima, pensando que simples policiais poderiam te proteger? — Eu teria pedido uma explicação a você, teria lhe ouvido! — Talvez, mas nós não tínhamos tempo para talvez. — Eu nem sequer tenho motivos para sofrer um atentado! Nunca fiz nada a ninguém, estou segura disso! — Você não fez, mas seu irmão sim. O fitei em choque, duvidando do que acabara de ouvir. — Meu irmão? O que Style tem a ver com isso? — Balancei a cabeça, tentando me afastar, mas ele se aproximava mais. — Por que está fazendo isso? Por que está dizendo essas coisas? Ele não me tocava, não estava nem perto de encostar em mim, mas ainda assim, parecia que estava me sufocando. — Meu pai não se aproximou amigavelmente de você, ele quer respostas, e você é a chave para isso. — Não, eu... eu sou apenas a pessoa que fez as esculturas e... — Pare — ordenou num tom de voz duro, quase mordaz. — Seu irmão tirou algo dele, algo com que ele se importava. Era tão absurdo que tive que rir, jogando as mãos em desdém, mesmo diante de sua seriedade. — Style jamais roubaria algo de alguém, ele era incapaz de fazer mal a qualquer um. — Eu não me importo com o que seu irmão fez ou deixou de fazer. Eu conheço meu pai, conheço meu irmão e meu primo. Se você é a única pessoa que pode levá-lo a Style, ele a quer. Dei outro passo atrás, começando a ficar mais assustada a cada palavra que ele dizia. Sua voz, seu olhar, sua postura, tudo emanava perigo, cada palavra parecia uma ameaça velada. — Não há como me levar ao meu irmão, ele está morto! Eu lhe disse isso. — Me aproximei dele, erguendo o rosto para ficar bem perto dele. — Que brincadeira sádica é essa? Demeron desviou o olhar de mim, deu a volta e foi até a cama onde minha bolsa estava, pegando-a, ele me entregou e depois de alguns segundos, insegura de suas intenções, a peguei. — Eu sei que ele está morto. — Sim, eu te disse. Disse como isso dói. — Eu sei que é recente, sei que ainda dói e não se curou, mas o que você vai enfrentar precisará de mim. Stark não é o homem que parece ser. Não é honesto, não é bom. Ele é o meu pai, mas não me orgulho das coisas que ele faz. — Eu não entendo... ele sempre foi tão gentil, dedicado! — As pessoas parecem muitas coisas quando querem parecer. Demeron segurou minhas mãos e depois de um aperto, a subiu pelos meus braços, parando no pescoço, e com os dedos da mão direita passou levemente pelo lugar onde havia espetado a agulha, e mesmo que já não tivesse mais como sentir a picada, parecia que ele sabia o exato lugar. Depois de alguns segundos ali, as subiu para o meu rosto, acariciando minha bochecha com uma delicadeza que eu não esperava. — Me desculpe pela agulha, o desmaio e tê-la deixado acordar aqui sozinha. Eu havia planejado ficar, mas tive que sair para garantir que meu pai e nenhum de seus homens havia nos seguido. A única coisa que passa pela minha cabeça é que ficamos perto de você ter um carro capotado na estrada, ou um falso desaparecimento. Até mesmo alguém invadindo sua casa, a seguindo e assustando. Eu não sou um homem que pensa, sou um homem que age. Algumas vezes essas atitudes podem ser erradas, mas não fiz para machucá-la, estava tentando protegê-la e se você deixar vou continuar fazendo isso. Devo proteger você. — Seu pai é perigoso? Como posso saber que ainda que esteja comigo, me protegendo, ele não fará nada? — Não tenho garantias para te dar, a única coisa que podemos fazer agora é sermos sinceros um com o outro, e eu estou fazendo isso. Ei. — Ele estalou os dedos em frente ao meu rosto, tentando fazer-me focar nele. — Olhe para mim. Preciso de você. Entendeu? Assenti, ainda que fosse difícil pensar que ele precisava de mim para qualquer coisa. — Responda-me uma coisa, Demeron. Pode fazer isso? Ele não respondeu, apenas continuou me olhando. — Desde o começo... desde... desde que apareceu para mim, foi verdade? Até mesmo aquela conversa no topo da montanha do diabo? — É claro. — A resposta imediata deveria ter me feito dar um passo atrás, desconfiar, como meu irmão havia me dito para fazer a vida inteira, mas quando Demeron se sentou na cama e me puxou para o seu lado, eu deixei. — O que faremos? — Ele quer se vingar de Style mesmo que ele esteja morto, então eu pensei que se conseguíssemos provar que seu irmão não é culpado, Stark veria a razão e a deixaria em paz. Assenti, pensando em meu trabalho, meus amigos, e que faria de tudo para ficar em paz. — É claro, eu estou disposta a tudo. Demeron inalou com força, trancando os dentes, e assentiu, segurando meu rosto mais uma vez. — Muito bem, Onira. — Os olhos hipnotizantes não desgrudavam dos meus. — Isso é exatamente o que eu queria ouvir de você. Com o medo se acalmando por ora, e a certeza de que ele cuidaria de mim, o abracei. Praticamente me atirando em seu peito. A dureza dos músculos e sua pele quente me causou um arrepio, e a sensação inevitável de querer descobrir mais. Alguémpigarreou na porta, atrapalhando qualquer pensamento meu, mas foi Demeron quem me surpreendeu com sua reação, praticamente saltou da cama, afastando-se dos meus braços. De um abraço que não chegou a devolver. Da mesma forma como ele havia me recebido com as mãos atrás das costas e os olhos cobertos por uma proteção que escondia qualquer emoção, qualquer piscar vulnerável. Ele encarou o menino que nos fitava da porta, o jovem não podia ter mais de 15 anos. Algumas espinhas pelo rosto, o cabelo loiro, os olhos azuis. Estreitei os olhos, observando-o um pouco mais. Ele tossiu, gaguejando o nome de Demeron duas vezes, passou a mão pela cabeça e olhou para os lados, então olhou para mim de novo, depois para Demeron. Como se estivesse cansado do desastre do menino, Demeron foi mais à frente. — O que foi? — Nó-nós temos que ir. — O salão está limpo? — Sim, está sim. Notei como tremia, e não era pela voz dura de Demeron. Com isso ele parecia estar acostumado. Era com a minha presença. Tentando deixá-lo mais confortável, me aproximei um pouco e estendi a mão. — Olá, eu sou Onira. Ele me fitou por longos segundos, os olhos azuis arregalados, depois fitou Demeron, que nada disse, então virou as costas e saiu correndo. — Eu disse algo errado? — Não. Nós precisamos ir agora. — Quem é ele? — perguntei enquanto saíamos do quarto improvisado. — Ninguém. — Ele é alguém. — Sim, apenas um garoto. Tentei acompanhar seus passos, mas ele andava rápido demais, deixando-me sempre dois ou três passos atrás. Depois de passar pelo grande corredor, ele abriu uma porta dupla, fazendo o estrondo da música bater em meus ouvidos sensíveis. Eu olhei ao redor, tentando ver através da escuridão e das luzes bem posicionadas. Mulheres nuas dançavam em cima de um balcão que se estendia por metros e metros do enorme salão. Uma cama redonda ficava no meio da pista, onde em cima dela, um homem deitado sobre pétalas de rosas segurava uma garrafa, sendo acariciado por muitas mãos, e mulheres em volta dele dançavam com sorrisos no rosto. Alguns dos homens assistiam rindo, jogando dinheiro para cima, observando as belas que dançavam no pole dance, ou as que serviam as bebidas com roupas pequenas que quase não cobriam nada, outros conversavam sem companhias femininas. Sentados em dois ou três, discutindo como se ali fosse um escritório e estivessem no meio de uma reunião, totalmente focados. Vi alguns seguranças, eles tinham os olhos treinados sobre cada lugar da casa. O que me deu um pouco de alívio. Pelo menos eles estavam ali por aquelas mulheres, e eu gostava de pensar que se elas precisarem, eles ajudariam. Nós alcançamos a saída e Demeron me levou até um carro estacionado do outro lado da rua, quando íamos entrar, a porta da boate abriu novamente, e a ruiva saiu. Kirina o nome dela. A perigosa mulher de vermelho. — Vai sair rápido. — Ela disse, fitava Demeron. — Não vim visitar. Ela abriu um sorriso enorme, deslumbrante. — Não vou mentir, pensei que fosse deixá-la comigo. Me agarrei ao braço dele ao ouvir suas palavras. Ele inclinou a cabeça sutilmente para o meu lado, como se me entendesse. Me deixar com ela? Por que ela pensaria isso? — Obrigado pela sua hospitalidade, Kirina. — Você é bem-vindo. Abrindo um leque com estampa de chamas, ela nos deu as costas e entrou, ladeada por dois homens enormes e mal-encarados. — Escolheram uma gerente e tanto para o lugar — comentei assim que tomei meu lugar ao lado do motorista. Demeron segurou o volante e pela primeira vez naquela noite que parecia um pesadelo, me deu o que era sua versão de um sorriso. — Ela é a dona. Percebendo que não diria mais nada, olhei para fora da minha janela, o relógio de uma catedral mostrava quase seis da manhã. Eu não sabia para onde ele estava indo, mas não me preocupei em perguntar. Tudo era um jogo, e eu não fazia ideia de qual lado escolheria para apostar. Style deveria estar se revirando no túmulo. "Então aqui vou eu Até o olho do furacão Acabe comigo" LADY GAGA, JOHN WAYNE — Mais rápido, Oni, mais rápido! Eu estava tentando, mas as pedras nos meus pés e os galhos pareciam estar entrando na pele. Doía tanto! Queria ser corajosa como o meu irmão, correndo e pulando os troncos caídos no meio da floresta. Vendo suas costas, nossas mãos unidas firmemente não se soltavam, sua camisa branca com manchas vermelhas me fez olhar para trás, para a casa que deixávamos no meio da noite. Fitei meus dedos manchados, desacelerando o passo, ficando sem forças para continuar. — Oni, não pare agora! Você não pode parar agora! — Tem ideia de como foi difícil explicar a todos os convidados por que a artista da noite simplesmente desapareceu? — Slom praticamente gritava, andando de um lado para o outro no meio do ateliê. — E como se não fosse o bastante, você aparece aqui como se nada tivesse acontecido não tem nem a decência de explicar o que houve, ou me ligar! “Você não pode contar a ninguém.” As palavras de Demeron ecoaram na minha mente. — Se estava passando mal ou sobrecarregada, eu teria cuidado de tudo, fiz isso de qualquer jeito. Mas, um aviso teria sido bom, sabe?! Eu dei pelo menos três desculpas diferentes sobre seu desaparecimento! Já até imagino o que os jornais e revistas dirão hoje, que fontes se confundem sobre o porquê de a artista ter sumido! Sabia que pensei que tivesse sido sequestrada e morta, porra? “...ficamos perto de você ter um carro capotado na estrada, ou um falso desaparecimento. Até mesmo alguém invadindo sua casa, a seguindo e assustando. Eu não sou um homem que pensa, sou um homem que age...” — Você sequer estava lá para me impedir de ir embora com Siriu! — Ela disse num sopro, falando tão rápido que precisei de alguns segundos extras para as palavras fazerem sentido. — O quê? — Siriu Konstantinova. Eu posso ter acidentalmente dormido com ele. — Slom, como você acidentalmente dorme com alguém? Ela suspirou, esquecendo de seus discursos e se jogando na poltrona, tampando o rosto com as mãos. — Eu sei, droga, eu sei! Mas como poderia resistir? Ele é tão gostoso! — Você não o conhece. — Você não conhece o militar estranho e fica salivando por ele. — Eu não fico salivando! — É claro que fica, só não percebe isso. — Você dormiu com Siriu. — Repeti em voz alta, para mim mesma. — Deus. — Eu sei, droga. — Ela suspirou novamente, fechando os olhos. — Foi tão incrível. — Slom! — Havia uma nota de alerta em minha voz. Eu queria repreendê-la, mas como poderia, se desejava o que ela teve com o outro Konstantinova? Queria alertá-la, dizer o que Demeron me falou, que Siriu era perigoso, aquela família não era o que parecia, mas como, sem revelar o que ele me pediu para deixar guardado entre nós dois? — Ele me amarrou. Arregalei os olhos, saltando da minha cadeira e ajoelhando em frente a ela, agarrando suas mãos nas minhas. — O quê? — sussurrei, já em pânico com a possibilidade da minha amiga sendo machucada de qualquer forma. — Me amarrou, me bateu. — Ela revirou os olhos e se abanou. — Ele faz coisas com aqueles dedos que fazem todos os paus que já passaram pela minha vida parecerem tediosos. Eu expirei em alívio, inevitavelmente rindo de suas descrições. Ela tomou um gole de água, enquanto eu ainda ria sentada no chão, e encheu a boca com o líquido, inflando as bochechas, depois engoliu tudo e deu de ombros. — Minha boca ficou mais cheia que isso. Com um grito, pouco depois estávamos as duas rindo, e as broncas ficaram para depois. Quando fui embora tarde da noite, mesmo sabendo da ameaça pairando em cima da minha cabeça, andei devagar, caminhando pela rua deserta, iluminada pelas janelas das casas e os postes de luz até chegar a minha. Meu salto ecoava pela noite, o vizinho que sempre me observava demais e morava na minha frente, me deu boa-noite, acenando com um sorriso maior que o próprio rosto. Ele nunca era tão aberto quando eu tinha Style, então nunca me preocupei, masa ausência do meu irmão pareceu deixar o rapaz confiante de agir. Eu o achava estranho, mas inofensivo. Fechei meu pequeno portão, conferindo a correspondência antes de entrar. Subi os três degraus. Tirei o cachecol. Abri a bolsa para procurar a chave. — É tarde. Tropecei para trás, tamanho o susto que a voz dele me deu. Demeron estava encostado na cerca da varanda, totalmente coberto pelas sombras, apenas uma parte de seu rosto iluminado. — Deus! Quer me matar?! — Pelo contrário, estou garantindo que fiquei bem viva. Respirei profundamente, encostando na cerca atrás de mim, ficando de frente para ele. — Então... visitas noturnas fazem parte da minha segurança? — Eu não entrei na casa, então pode-se considerar um avanço. Eu não reclamaria se você entrasse. O pensamento involuntário me fez baixar a cabeça, sentindo que minha pele branca tinha atingido um tom de vermelho nas bochechas, e ele não precisava pensar demais para entender o motivo. — Não vou deixá-lo colocar câmeras na minha casa. — Eu jamais pediria isso. — E nem vou andar com seguranças por aí. — Sua escolha. — Também não quero um motorista particular. Diferente das respostas imediatas, nessa questão, ele não respondeu. Depois de alguns segundos em silêncio, ele saiu de onde estava, vindo em minha direção com passos decididos. Parou a um palmo de distância, inclinando a cabeça para o lado enquanto me observava de perto. Dividindo o mesmo ar que eu. — Tem certeza? — Não é negociável — respondi, mas minha voz não era a mesma. — Não negue tão rápido, eu sou bom em discutir termos. Ergui o rosto, decidindo mostrar a ele o tipo de termo que queria realmente discutir, mas assim que o vi na luz, meus olhos arregalaram, tomada pelo espanto. — Demeron! O que aconteceu? — Inconscientemente levei meus dedos a seu lábio machucado e do lado do olho, onde inchava. Na camisa cinza, agora eu via poucos respingos de sangue, e quando ele foi segurar minha mão para impedir de tocá-lo, senti algo molhado em seus dedos, vendo o sangue também ali. — Briga de bar. Passei por ele, pegando a chave na bolsa, com as mãos trêmulas de preocupação, e o levei para dentro. — Você está tão machucado! Fique aqui, eu volto em um segundo. DEMERON Ela saiu da sala, deixando-me sentado no sofá cheio de almofadas. Estava tenso, agitado, cansado. Com a luz acesa, observei a sala e o que conseguia ver do pequeno corredor, conferindo se as câmeras instaladas na noite anterior estavam bem posicionadas o suficiente para ninguém ver. Depois de deixá-la com o sol nascendo a sua porta, não me despedi, apenas esperei que saísse do carro alugado e fechasse a porta. Então esperei meia hora antes de entrar furtivamente, invisível e silencioso. Com todas as luzes apagadas, instalei as câmeras e escutas em lugares estratégicos, coisa que já havia feito centenas de vezes antes. Vasculhei sua casa pela quinta vez desde que havia tomado conhecimento de sua existência, e mais uma vez, não encontrei nada. Decidi ir embora quando terminei o que havia ido fazer, mas por alguma razão não consegui sair. Meu corpo parecia estar fora do meu controle, minutos depois eu estava na porta de seu quarto, com a mão na maçaneta, tentado a abrir. Tentando convencer a mim mesmo que ali dentro poderia estar o que eu buscava, debati comigo mesmo, finalmente colocando distância entre mim e ela, e quando deixei a casa, sabia que era o melhor a ser feito. A coisa certa. Onira Tieko voltou com uma caixa de madeira nas mãos e uma camisa pendurada no ombro. Ela era muito bonita. Eu cresci vendo meu pai desfilar com mulheres bonitas, depois meu irmão e, também meu primo seguiram o exemplo. Até mesmo em minha adolescência, antes de entrar para o serviço, gostava da companhia delas, aproveitava as vantagens de poder estalar os dedos e ser o Deus para quem elas adorariam passar a noite estendendo suas preces. Mas, quando se passa anos longe de coisas bonitas, o feio se torna comum, normal, confiável. E o bonito... não inspira nada de bom. Portando, a beleza de Onira, em conjunto com seus olhares tristes e a preocupação que ela fazia questão de expressar, me dizia apenas uma coisa: Seu irmão a treinou bem. Muito melhor do que eu teria esperado. Eu queria parabenizar Style por sua atuação. Esperei que quando voltasse, ficasse falando o tempo todo, mas ao contrário, ela limpou meu rosto, cuidou dos machucados, levou seu tempo franzindo ora os lábios, ora a testa enquanto mexia em sua caixa de primeiros socorros e fazia o que pensava ser necessário fazer. Só depois de terminar com o rosto, ela falou algo. — Não consigo imaginá-lo num bar, quanto mais brigando. — E eu não te via como uma enfermeira, pelo menos até agora. — Conte-me algo que ninguém sabe sobre você — sussurrou, tirando o pano do meu rosto e levantando as mãos. — Não quero te dar pesadelos. Ela riu, mas era um som triste, no entanto, ainda assim, não consegui desviar meu olhar de sua boca. — Acredite em mim, há coisas piores do que um pesadelo. Levantei um pouco mais a cabeça, fitando-a dentro dos olhos. — Você parece alguém que já viu muita dor. — E você vê o sofrimento sem que eu precise falar com todas as palavras. — Sobre o que são os seus pesadelos, Onira? Ela encolheu os ombros, dedicada a cuidar dos meus ferimentos da mão. — Não sei se são lembranças ou apenas coisas que minha cabeça criou. — Faz diferença? — Não, acho que não. — Não importa se são lembranças ou pesadelos — falei, engolindo em seco. — Dói de qualquer jeito. Perturbada. E eu, também perturbado o bastante para fazê-la cuidar dos ferimentos de uma suposta briga de bar. — Vamos, vou chamar um táxi e levá-lo até a sua casa. — Não. Não é necessário. ONIRA Era necessário. Totalmente. Eu estava confusa sobre em que pé estávamos. Ele me protegendo, eu tentando esconder minha obsessão inexplicável por ele, mas e então? Onde isso nos levava? — Demeron — sussurrei, sem saber como começar a dizer algo que o fizesse entender o meu lado. — Eu sei — respondeu. Ele então se aproximou, e eu hesitei um pouco, lembrando o que aconteceu da última vez que chegou perto demais e que me tocou daquela maneira. — Está tudo bem. Confie em mim. Com nossos olhos presos um no outro, ele segurou meu cabelo e o trouxe para frente, abaixei a cabeça, não aguentando sustentar o peso de seu olhar, e assim, vi quando colocou uma corrente em volta do meu pescoço. Pouco depois, pulei quando senti a ponta de seus dedos ásperos na minha nuca, e o gelado do colar sendo fechado. Levei a mão até lá, sentindo uma pequena pedra afiada como pingente, que imediatamente picou meu dedo, fazendo um pequeno furo como de uma agulha. Demeron viu, segurou minha mão e deu um beijo no furo invisível. — O que é isso? — perguntei, hipnotizada com o minúsculo resíduo do meu sangue em seu lábio inferior. — Isso... é tudo o que eu sou. A resposta enigmática era exatamente ele, tão misteriosa que me respondia tudo e não respondia nada. Minha respiração ficou presa na garganta. Isso era tudo o que ele era, e eu segurava em meu pescoço. Inferno, eu seguraria aquilo com tudo o que eu mesma sou. Ele virou o rosto, como se não quisesse continuar me olhando, mas eu não podia tirar os meus próprios dele. Do homem mais misterioso que já conheci. A criatura mais curiosa e a alma mais escura, até mais do que a minha. Ele era sem igual. Perfeito. E com o azul de seus olhos piscando nos meus, eu deixei que os sentimentos me guiassem, fluíssem livremente. Me levantei ligeiramente e antes que pudesse pensar mais sobre isso, toquei meus lábios nos dele. O mundo explodiu. Num simples toque, com uma tempestade que eu sequer havia percebido começar ganhando mais força do lado de fora e meu sangue impresso em nossos lábios, me engasguei com a emoção de finalmente ter tido coragem de fazer aquilo. Esperei que me parasse, que dissesse que aquilo era apenas um acordo sobre me proteger da vingança de seu pai, masnão, Demeron me agarrou com a força de seus braços poderosos, me envolvendo num aperto de morte e beijando-me como eu nunca fui beijada antes. Sem perceber, fui agarrada pela cintura, e como se não pesasse nada, ele me colocou em seu colo, os dedos grossos e calejados viajando da minha coluna, para os ombros, até meu pescoço, onde sua boca passava, acariciando com língua, dentes, e arfando sobre mim, deixando um rastro de fogo que dizia mais do que qualquer coisa. O beijo. O meu maldito beijo de Rodin e Camille. Apenas que esse era muito melhor, meu sonho de amor adolescente se tornando uma fantasia incomparável. E quem o parou foi eu, quando suas mãos seguravam meu pescoço com um pouco de força. Quando senti onde nossos corpos estavam quase unidos se não fossem pelas roupas. Quando senti o tamanho de seu desejo e do meu também. — Demeron. — Toquei nossas testas, respirando ofegante, enquanto ele estava calmo, respirando tranquilo. Meu coração acelerado, e com minhas mãos em seu peito, senti seu coração batendo normalmente. Mas, nada disso importou, nada foi um sinal. Naquele momento, eu só estava consumida pelo homem que me via como ninguém mais conseguia ver, que não acreditava nos meus sorrisos falsos e não me olhava como se esperasse algo de mim. Fui fundida a ele. Coloquei meu coração na mesa e prometi silenciosamente que nunca o deixaria ir. Com meu corpo, alma e mente. "Seus lábios são uma conversa esse rosto é uma música Se é minha imaginação Me pare se eu estiver errado Você não precisa dizer uma palavra Porque seu corpo fala" THE STRUTS, BODY TALKS — Eu vou garantir que minha assistente entre em contato com vocês. Esse primeiro contato cara a cara é muito importante para que eu sinta o que vocês estão querendo, mas a partir daí Slom vai preencher TODAS as lacunas e esclarecer suas dúvidas. — E quanto a visita ao local? Eu gostaria que você fosse. Eu sorri para a minha mais nova cliente, tentando transmitir a ela segurança e confiança. — Slom vai agendar também, então poderemos dar seguimento. — Ah, Onira, isso é ótimo! Nós acabamos de restaurar a mansão, e como a abriremos para eventos, eu gostaria que cada um dos envolvidos fossem lá para ficar por dentro do projeto completo. — Eu entendo. Ela se levantou com um enorme sorriso no rosto e foi até a lousa, observando mais de perto minhas anotações. — Nossa mansão foi construída há mais de cinquenta anos. — É muita história. — Sim, eu sei. Por isso temos grande pressa com tudo. Meus irmãos e eu não vemos a hora de estar tudo pronto. — Ela tocou o coque bem apertado no alto da cabeça e alisou o vestido tubinho preto que combinava com o salto altíssimo. Sophi Maraba era uma socialite em constante destaque nas mídias e revistas populares da alta sociedade. Eu a havia conhecido em um desfile, onde nós duas éramos convidadas do designer. Ela devia ter a minha idade, talvez dois anos mais velha. Mas, o cabelo loiríssimo e a pele bem cuidada, dava a ela uma aparência de menina jovem. No entanto, havia algo em seus olhos, no comportamento, que me deixava ver que por trás dos sorrisos doces e a fala mansa, ela era uma mulher que não aceitava nada menos do que era exigido. Eu não conhecia seus irmãos, mas se fossem um pouco como ela, eu estava andando numa linha fina nesse trabalho. — Que tipos de eventos serão realizados lá? — perguntei, genuinamente curiosa. — Ah. — Ela jogou a mão em desdém. — Vários tipos. — Vou esperar um convite para um deles — brinquei, a levando até a porta. Ela parou no meio do caminho e me olhou dentro dos olhos, um sorriso ainda presente. — Será uma honra, Onira. Meus irmãos e eu gostamos de proporcionar diversões às pessoas. Só é preciso tomar um pouco de cuidado, porque o prazer pode se tornar perverso. Dei risada, meio sem graça. — Vou me lembrar disso. Nos despedimos e acenei para o segurança que a esperava no hall. — Até breve — disse ela. — Nos vemos. Mas, assim que abriu a porta, minha surpresa foi nítida e nada agradável. — Siriu? — chamei, mas meio que esperando aquilo ser apenas uma visão. — Onira, boa noite. Me aproximei, e nisso vi como ele e Sophi se encaravam. O segurança, tão desconfortável quanto eu, segurou o braço dela, fazendo-a me olhar uma última vez antes de sair em completo silêncio. Siriu olhou para fora por longos minutos antes de fechar a porta e se aproximar de mim. — Quem era a moça? — perguntou despretensiosamente. — Nova cliente. Como vai, Siriu? — Muito bem. E você? Espero que esteja melhor. — Melhor? — Eu soube que passou mal na noite da exposição. — Ah, sim. Estou bem agora. — Chegou em casa com segurança? — Sim. Cheguei. — Sem tempo ou disposição para aquele jogo de gentilezas, decidi ir ao ponto. — Eu preciso finalizar algumas coisas antes de ir para casa. Posso te ajudar em algo? Não podia imaginar o que ele queria ali. Me visitando no começo da noite. Já tinha entregado o trabalho, já fui paga por ele e só me passava uma coisa pela cabeça: veio completar o serviço a mando de Stark. Demeron tinha impedido qualquer coisa que estivesse em seus planos, mas ali, sozinha, eu não tinha defesas contra ele. Por um momento senti estar ficando louca. Style, quando vivo, me deixava paranoica por suas próprias paranoias, e mesmo depois de morto, fiquei pior. E agora tinha Demeron, enchendo minha mente. Olhei para Siriu, tentando ver através do enorme homem bem vestido, elegante. Ele cheirava a dinheiro e imponência. Mas eu só conseguia lembrar das palavras de Slom no dia anterior. Instintivamente, imaginei minha amiga pequena sendo amarrada por ele. — Stark está se sentindo culpado. Balancei a cabeça, livrando-me daqueles pensamentos. — Por quê? — Na realidade, eu também estou. Sentimos que a pressionamos demais, com o curto prazo para a entrega, a quantidade de convidados. Foi demais. — Ele caminhava pelo ateliê observando tudo ao redor enquanto falava. — É compreensível que tenha passado mal. Estresse. E aproveitando sua distração, eu sutilmente me aproximava da mesa para alcançar pelo menos um lápis, assim, se tentasse qualquer coisa, eu podia de alguma forma me defender. — Alguns conhecidos meus já morreram de estresse. É uma morte lenta. Imagine como deve ser ruim sofrer uma morte lenta. Ele virou para mim no exato momento em que consegui agarrar uma caneta. A enfiei na cintura da saia, cobrindo com a blusa, e lhe dei um sorriso fechado. — Não gosto nem de imaginar. Sinto muito por eles. — Por meus conhecidos que morreram de estresse? — Sorrindo misteriosamente, ele inclinou a cabeça, sem me encarar. — Estresse mata mais que uma arma. Por isso odeio me estressar. Estranhando suas palavras, senti um arrepio na coluna, levei as mãos ao pescoço, segurando-as para não puxar os cabelos, mas isso atraiu sua atenção. — Bonito colar. Meu coração bateu mais forte, lembrando-me que desde o momento em que Demeron o colocou ali, não o tirei. — Obrigada. — Olhei para a porta, depois para ele novamente. — Siriu... — Stark gostaria de convidá-la para um jantar essa noite. Nossa família vai se reunir, fazemos isso bastante. — Eu agradeço, mas não quero incomodar. — Demeron estará lá. Ergui uma sobrancelha. — E então? — Não me entenda mal, mas percebi que se tornaram próximos. Se estiver se sentindo desconfortável, terá um amigo por perto. Sua definição de próximo não se aplicava a nós, mas ele tinha razão. Quando os conheci, eu estava claramente encantada, se começasse a tratá-los com frieza e indiferença, se tornaria claro que sabia o que estavam tramando, e talvez, isso até respingasse em Demeron. — Certo, eu vou. — Vou esperá-la, não tem por que irmos separados se vamos para o mesmo lugar, não acha? Engoli em seco, pensando nas possíveis consequências de entrar num carro com ele. — Tudo bem. — Não havia para onde correr. Com um sutil sorriso no rosto, Siriu soltou o botão de seu terno e sentou-se confortavelmentenuma das poltronas da sala. Senti seu olhar queimando minhas costas a cada movimento que fiz. O caminho foi silencioso, devemos ter ficado pouco mais de meia hora no carro, o trânsito complicando a chegada ainda mais. Ele não tentou puxar assunto, o que me deixou aliviada. Ainda insegura sobre estar ali, coloquei o endereço que sabia ser o da casa de Stark no momento em que entramos no carro, e observei se seguíamos a rota correta. Siriu não se moveu. Parecia congelado em seu lugar. Ele se mantinha olhando para fora da janela, as pernas cruzadas e as mãos unidas em cima do joelho. Olhei para mim mesma, a saia comprida, meio esvoaçante, e uma camisa bem apertada, simples. Esse era meu vestuário para um dia no ateliê. Sorte a minha ter, pelo menos, um salto guardado por lá, que não usava há muito tempo e chegava até a machucar. Mas até o desconforto era melhor do que aparecer com um chinelo. — Um minuto e estaremos lá. Você conhecerá minha avó, Angelina. Ela será desagradável, mas não é pessoal, o tempo a amargurou. — Obrigada pelo aviso. — Vai conhecer Blair também. — A filha de Regnar e Kaladia? Pela primeira vez ele me fitou, e vi um sorriso irônico que muito se parecia o de Regnar. — Sim, a filha de Kaladia. O carro de repente parou. Siriu desviou a atenção de mim e saiu, segundos depois, veio ao meu lado, abrindo minha porta. — Obrigada. Ele assentiu e me guiou até a entrada da enorme mansão. Por fora era branca, janelas marrons e três andares ostensivos, sendo o segundo, completamente de vidro. Não era uma casa antiga, parecia bem moderna e seguia linhas de designers com os quais eu estava familiarizada. Mesmo sendo uma família tradicional, percebi que Stark não era do tipo que mantinha uma casa de sessenta anos por memórias de infância e sentimentalismo. Ele só se mudava para uma melhor. Me perguntei se ele era assim com tudo. Estávamos no último degrau da pequena escada da varanda quando a porta escura foi aberta e uma linda mulher apareceu. Com certeza não era a avó, e nem podia ser Blair. — Vocês chegaram! — Ela bateu palminhas e sorriu para mim, se aproximando e me cumprimentando com dois beijos na bochecha, mas sem encostar. — Estamos quase na hora do jantar. Ainda dá tempo de tomar uma taça conosco, Onira. Você bebe? Ela falou tantas coisas tão rápido, sorrindo com seu batom rosa e voz alta, que fiquei desnorteada. — Vá devagar, Belle. Deixe a senhorita Tieko entrar pelo menos. — É claro. — Ela enganchou nossos braços e me levou para dentro. Eu queria perguntar quem era ela e porque estava sendo tão sufocantemente íntima. — Eu sou Belle. Estava tão ansiosa para te conhecer! Ouvi a porta ser fechada e Siriu passar por nós, parando a alguns centímetros de distância, seu olhar fixo em mim. — No dia da exposição eu estava em um desfile em Paris. Fiquei decepcionada em perder. Sabe que estive pensando. — Ela me soltou e parou na minha frente, colocando os cabelos para trás dos ombros, revelando um enorme colar de diamantes combinando com os brincos. — Eu gostaria de uma escultura minha, será que conseguiria fazer? — Belle. — A voz veio das escadas, e poucos depois, vi Stark se aproximando de nós. — Não monopolize nossa convidada. O sorriso que se abriu no rosto dela quase apagou o brilho dos diamantes no pescoço. E me chocando, ela praticamente correu para ele, o abraçando e dando-lhe um beijo rápido nos lábios. — Amor... eu só quero que ela saiba como é especial para nós. Os olhos dele se voltaram para mim. — Tenho certeza de que ela sabe disso. Ah, merda. Tentei manter minha surpresa bem escondida. Eu a olhei mais de perto, prestando atenção nos cabelos castanhos claros, quase que um loiro escuro, solto com apenas uma mechinha presa do lado esquerdo. Os olhos castanhos, redondos e expressivos. Ela tinha um lindo sorriso. O sorriso de uma menina. Vendo-a abraçar Stark, eu tinha certeza de quantas coisas as pessoas diziam sobre ela. Não sobre ele, mas ela. A aproveitadora, mercenária, e piorando a cada sílaba. Mas, eu só conseguia notar como aqueles mesmos olhos expressivos o fitavam, com adoração. Ela adorava Stark. A menina feliz, com o namorado que tinha um pouco mais que o dobro da idade dela, mas ela o amava. Se ele ao menos a olhasse da mesma forma... — Onira — disse Stark, após me cumprimentar. — Obrigada pelo convite, senhor Stark. — Apenas Stark. — Vamos lá para cima! A família está reunida. Nós três seguimos em silêncio, enquanto Belle tagarelava sobre coisas que mal prestei atenção, só ouvia sua voz mais que entusiasmada falando e falando. Vi Regnar assim que entrei, ele estava encostado na parede de vidro que vi do lado de fora, e por dentro, eu tinha uma vista extraordinária da paisagem que ia além da propriedade. Ele observava com um copo na mão e a outra no bolso, Kaladia, que estava sentada no sofá ao lado de uma senhora. As duas tinham as mãos dadas e Kaladia assentia enquanto a mulher falava. — Olhem quem veio jantar conosco essa noite! — Belle anunciou com seu entusiasmo inabalável, me levando para perto das duas mulheres. — Kaladia já a conhece, mas Angelina, essa é Onira Tieko. Ela não é linda? Angelina não parecia tão disposta a me dar uma recepção calorosa. Na verdade, ela não fez mais do que virar o rosto em minha direção. — É um prazer conhecê-la, Angelina. Eu arrisquei, a chamando pelo primeiro nome, já que não tinha certeza se respondia por Konstantinova também. Kaladia levantou e segurou a mão dela, a ajudando a se firmar de pé. — Seja bem-vinda, Onira. — Os olhos azuis frios me fizeram lembrar de seu tratamento aquela noite na galeria. O que me fez querer dar o fora dali. E Angelina só continuou me olhando. — Siriu sai de mãos vazias e volta com a rede cheia, como sempre — disse Regnar, lembrando-me do quão inconveniente podia ser. — Aceita uma bebida, senhorita Tieko? — Tenho certeza de que ela veio para jantar — retrucou Kaladia, sua voz tranquila, mas os olhos mandavam um recado claro para ele. — Não para beber com você. — Eu vou buscar Demeron — disse Belle, mas dessa vez ela olhava para os rostos na sala, com incerteza, sua alegria meio vacilante. — Por que não leva todos para a sala de jantar, amor? Heidi avisou que em poucos minutos estaria pronta para servir. Ela beijou sua bochecha e saiu, deixando nós seis num silêncio desconfortável, no qual havia um único alvo para olhar: eu. De repente, me arrependi de não ter aceitado a bebida. Com certeza passar por aquela noite sóbria seria um inferno. Mas, pelo menos, teria Demeron ali para tornar mais fácil. Nós seguimos Stark para uma enorme sala ao lado, com um lustre de cristais que devia custar a minha casa. A noite lá fora começava a chegar, quase perto das sete e meia. Sentamos e taças de vinho à gosto foram servidas. Eu não queria negar algo uma terceira vez, então beberiquei apenas para disfarçar e deixei a taça, tomando um longo gole de água depois. Estar numa casa onde até eu sabia, pelo menos uma parte de quem estava dentro queria me prejudicar, não permitia álcool. Nem uma gota. Pensei em puxar algum assunto, distrai-los até que Belle voltasse, mas a tensão era grande demais. Parecia sufocante. Peguei Siriu olhando seu relógio de pulso, Kaladia quieta, olhando pela parede de vidro, Angelina com os olhos fixos em algum ponto na mesa, e Regnar e Stark trocaram umas palavras meio vazias. Nenhum deles queria estar ali. Era a porra de uma família fodida e Siriu me dizendo que tinham o costume de se juntar para jantar juntos deveria ser uma baboseira maior ainda. Respirei aliviada quando ouvi passos se aproximando, saltos e pés um pouco mais pesados, então segundos depois Belle apareceu, atrás dela, o homem que vinha sendo o meu anseio. Droga, ele estava malditamente bonito. Calça escura e a camisa também, fazendo seus olhos azuis e os cabelos claros ficarem em evidência. Os músculos pareciam ainda maiores. Ou talvez fosse impressão minha depois de tê-los sentido em volta de mim.Mas, então como se fosse um sonho virando pesadelo, ela apareceu atrás dele. Com uma bota que alcançava seu joelho, saltos altíssimos e um vestido minúsculo, Kirina, a ruiva dona do bordel, estava lá. — Ótimo, estou morta de fome. Passou por trás de Kaladia e Angelina, apertando o ombro da mulher antes de puxar uma cadeira ao lado da esposa de Regnar e se sentar. Eu quis alertá-la que deveria procurar um lugar longe da loira para se acomodar, mas só conseguia pensar no porquê de ela estar ali. E se Belle foi buscar Demeron e voltou com ela, o que diabos os dois estavam fazendo juntos por aquela enorme mansão? Belle se sentou ao lado de Stark, e Demeron pegou a cadeira vazia ao meu lado. Eu o fitei, buscando um traço de como deveria agir, tentando entender o que estava acontecendo, mas ele não me olhou. Ele só sentou em silêncio e virou a taça do vinho, que foi reposta por um rapaz parado no canto da sala que segurava a garrafa. Então ele virou a taça novamente. — Agora que estamos todos aqui, pode servir, Heidi — disse Belle, sorrindo para uma mulher mais velha perto da porta. — Sim, senhora. — Não lhe perguntei se era alérgica a algo e se comia de tudo, Onira — falou Siriu, com uma expressão neutra e a voz suave. — Não sou, mas obrigada. Tenho certeza de que tudo estará ótimo. — Se soubesse que viria, teria chamado um chefe e amigo especialista em comida japonesa — disse Regnar, claramente tentando me tirar do sério, ou simplesmente me fazer lembrar de nosso encontro no restaurante. — Antes de comermos, acho que falta uma reapresentação — afirmou Kaladia, sorrindo sem sinceridade para mim. — Onira, essa é minha irmã Kirina. Quase cuspi a água, mas me segurei e encarei as duas, engoli em seco e acenei. — Prazer em conhecê-la, Kirina. Ela sorriu perversamente, mas era diferente de Kaladia. Na verdade, se não fosse pelo fato que a envolvia em algo com Demeron, eu a teria achado engraçada. Era quase como se ela fosse uma personagem safada o tempo todo. — É todo meu, querida. A entrada foi servida e me senti comendo num restaurante cinco estrelas. Elogiei a comida, sorri nos momentos certos e respondia ou comentava algo quando era pedido, seguindo o protocolo daquele tipo de situação. O tempo todo, sentia a presença e o vazio de Demeron, sua indiferença em relação a mim tanto machucava, quanto era compreensível. Talvez, se ele não estivesse com Kirina antes de se sentar ao meu lado, eu entenderia sua falta de contato comigo. Me lembraria que ele estava me protegendo em silêncio e esperaria pacientemente o momento de ficarmos a sós. Mas, os vendo juntos, eu só conseguia pensar que ele me ignorava por causa dela. E esse ciúme incômodo e venenoso era uma cadela no cio. Um talher bateu no prato, e virei para ver Regnar, que estava na cadeira ao meu lado. — Minha esposa e eu temos pensado em nos divorciar. Mas, quero sair dessa situação com as duas bolas grudadas ao corpo, então, por enquanto, manteremos as alianças. Kaladia bateu o copo na mesa com força, e eu franzi a testa ao ver o líquido escuro lá dentro. Ela jantava bebendo whisky? — Não se preocupe, querido. Posso grampeá-las em seus ouvidos. Uma de cada lado. — Faz sentido — concordou Siriu, um toque de humor na voz. — Ainda estaria no corpo. — Não brinquem com o meu coração — disse Kirina. — Vocês sabem que esse seria o meu maior sonho se realizando. Minha irmãzinha finalmente indo cuidar dos negócios da família comigo. — Nem em mil anos minha esposa administraria o seu puteiro — rebateu Regnar. — Pois é, querido. Mas o divórcio faz dela a sua ex-esposa. Então você não teria realmente nenhum direito à palavra. — Que lindo colar — elogiou Angelina, parando qualquer assunto sobre divórcio, chamando a atenção de Siriu e Stark, que conversavam baixo. De repente, todos pararam e suas atenções eram exclusivamente para a peça pendurada no meu pescoço. Franzi a testa. Será que era tão chamativa assim? Com o canto dos olhos, fitei Demeron, mas ele continuava mudo, da mesma forma de como entrou na sala e se sentou. — Obrigada. — Agradeci, tocando levemente a pedra delicada. — Foi um presente? — A senhora insistiu. — Foi sim. — Eu dei a ela. — Ele finalmente disse, depois de alguns segundos se fez silêncio. Eu estava mais do que surpresa. Ele deixou sua taça na mesa e me olhou de volta. — É bonito e único. Como Onira. Tinha que ser dela. — Eu imagino as coisas únicas que andam acontecendo para ela ganhar a sua fatia. Demeron tirou os olhos de mim e girou a cabeça lentamente para seu irmão, cerrando a mandíbula, lhe lançando um olhar nada agradável. Siriu franzia a testa para mim e Regnar tinha um olhar cheio de curiosidade passando entre mim e seu irmão. Senhor Stark continuava neutro, como se estivesse alheio aos meus devaneios que só ele não percebeu. — O jantar estava ótimo, mas deu a minha hora — disse Kirina, então ficou de pé. Aquele sorriso não saía de seu rosto. O que ela achava tão engraçado, afinal? Eu não sabia se ela só queria sair do meio daquele desastre ou tinha mesmo que ir, mas agradeci mentalmente a distração. Porém, isso foi apenas até quando a cadeira ao meu lado arrastou para trás. Eu baixei os olhos para o meu prato, fechando-os, quase implorando que fosse Regnar indo acompanhar a irmã de sua mulher, mas é claro que não. — Eu vou acompanhá-la. Raiva. Tudo dentro de mim virou raiva. A forma como ela sorriu para ele e acenou para todos na mesa, depois saiu quase saltitando com ele atrás, me enervou. Kaladia virou seu whisky de uma vez e disse algo, mas não prestei atenção. Belle tentou puxar assunto com Angelina, mas a mulher a ignorou completamente, simplesmente se levantou e saiu. Stark e Siriu continuavam falando. Regnar foi o próximo, mas antes de sair, ele agachou ao meu lado e colocou a mão na minha perna. Meus olhos voaram para Kaladia, mas ela apenas segurava a taça de vinho que era de sua irmã e a balançava, girando o líquido. Suas sobrancelhas ergueram. Fitei Regnar. — Eu mudei de ideia sobre você, Onira — murmurou. — Não foda com o meu irmão. Ele é um animal. A cadeira a minha frente arrastou para trás e Kaladia apoiou as duas mãos na mesa, então se inclinou o máximo que pôde para mim. — Já está tudo perdido para mim, mas você deveria correr enquanto ainda pode. Não foi apenas por seu alerta que me levantei sem dizer mais nada a qualquer um deles e saí daquele purgatório, ignorando os chamados de Siriu e correndo o mais rápido que pude para fora, foi também por Demeron. Na verdade, foi completamente por causa dele. Maldita Kirina. Já não era complicado o suficiente sem que ela estivesse ali? Saí da casa e desci os degraus da varanda, minhas pernas tremendo, assim como as mãos, eu tremia por inteiro de raiva. Mas não fui muito longe. Num minuto eu tinha meus olhos fixados no grande portão a metros à frente da propriedade, e no próximo, estava grudada à parede da casa com uma parede de músculos me segurando ali. Eu ofeguei com o impacto de sua brutalidade e tentei empurrá-lo, o que era perda de tempo. Eu não sairia dali a menos que ele me deixasse. — Deixe-me ir, H̄mū k̄hxng khuṇ! — Vai precisar me xingar em outra língua, Liebe, eu falo tailandês. — Qual idioma você prefere? A língua das prostitutas? Ele franziu o cenho, a careta aprofundando a cada coisa que eu dizia. — Acha que te trato como uma prostituta? — Seus olhos eram severos, assim como a voz. — Sim, eu acho. Mas não é de se estranhar. Talvez eu não seja o tipo de mulher para você, olhando pra mim e para Kirina, posso ver isso. Suas sobrancelhas ergueram. — Kirina? — Não se coloca quem você dorme e quem você planeja dormir para comer na mesma mesa. — Você não sabe de porra nenhuma — sussurrou. Sua voz era gélida, os olhos distantes. Me irritou mais ainda. Fora da equação. — Foda-se, Demeron! Foda-se! Vão se foder você e sua família louca! Eu não dou a mínima se um carro me atropelar na próxima esquina, se vou levar umtiro quando passar por aquele portão ou o que quer que seja! Simplesmente não me importo. Só fique longe de mim! Ele agarrou meu braço e me puxou de volta, colando-me em seu peito. — Mas eu me importo. E você não tem a porra da permissão para morrer. Então ele me beijou. Novamente. Aquela porra de beijo que fazia minhas pernas ficarem bambas. Mas, era pior dessa vez, porque eu estava sendo corroída pela raiva e esmagada pelo meu orgulho ferido. As imagens dele e Kirina ficavam repassando na minha mente como um replay acionado direto do inferno. E era o próprio diabo que me beijava e fazia isso. Que me deixava doente de pensar em coisas sobre ele. Sobre nós. Eu o empurrei, e sem parar para pensar em minhas ações, deixei minha mão livre para acertá-lo em cheio. Ele não se moveu e eu não me arrependi, mesmo tendo consciência de seu tamanho ser o dobro do meu. O rosto virou levemente, mas quando os olhos furiosos bateram em mim outra vez, ergui o queixo, desafiando-o a devolver. Mas, ele sorriu, um sorriso lento e perverso, que enviou calafrios dos pés até a cabeça e no profundo da minha alma. Minha pele queimava. — É bom saber que não preciso ser delicado, kleine Unze. Ele abaixou atrás de mim e quando levantou, senti suas mãos arrastando em minhas pernas, levando o tecido da saia junto, então me virou, grudando minhas costas em seu peito. Demeron respirava pesadamente, eu não sabia se era raiva, excitação ou adrenalina, talvez os três juntos. Pelo menos aquela mistura era o que eu sentia. Eu sabia o que ia acontecer ali, pois ficou mais claro ainda quando ele me puxou, ainda grudado em mim, beijando, mordendo, cheirando o meu pescoço, e nos guiou até a parte de trás da casa. À minha frente surgiu um labirinto, onde ele rapidamente entrou e depois de dar algumas voltas, chegamos a uma fonte, parecia ser o centro, e bancos de mármore rodeavam a minha escultura fixada no meio de onde a água se derramava. Era a maior que eu tinha feito para eles. — Demeron... — Praticamente gemi entre sussurros e ofegos. Ele não respondeu. Estava concentrado demais me transformando em uma gelatina humana. Então estávamos sentados. Ele rapidamente me puxou para seu colo, posicionando-me diretamente em cima de sua ereção. As mãos agarrando meus cabelos não relaxaram. Ora descendo por minhas costas, ora segurando minha cintura, mas ele não parou de me beijar. Era como se não pudesse se controlar tanto quanto eu não podia também. Esqueci onde estávamos. Esqueci que aquele fogo foi despertado por gritos e tapas. Esqueci completamente que havia pessoas naquele lugar que poderiam ir até nós imediatamente. Eu só podia lembrar dele. De Demeron e nossos corpos em perfeita sincronia. Enquanto segurava seu rosto e o beijava com os olhos apertados, me senti ser levemente erguida, depois suas mãos alcançando a parte mais íntima do meu corpo. Era demais. Tantas sensações. Tanta vontade. Tanto desejo. — Tire — pedi, ofegante, tentando levantar sua camisa, mas sua mão segurou as minhas. — Não. — Demeron, rápido... eu... eu quero. — E você terá. As mãos ásperas seguraram minha cintura com força, levantando meu quadril sem delicadeza e no segundo seguinte, ele bateu dentro de mim. Fui impulsionada para frente. — Quieta, Liebe. — Ele sussurrou no meu ouvido. — Nós não queremos que Stark ouça, não é? Eu choraminguei, perdida nas sensações de seu corpo segurando o meu, envolvendo-me em seu peito. Eu deveria estar gritando e correndo de pavor, mas estava fascinada. Não houve delicadeza. Nenhum cuidado. Mas, ainda assim, eu estava molhada pra caralho e pronta para recebê-lo. O silêncio de repente foi tomado pelos sons de nossos corpos se batendo, os meus gemidos sôfregos e nossas respirações. As mãos não me soltavam, ele me apertava como se eu fosse fugir. Mas, não havia como, nem se eu quisesse. Ele estava tão profundo, que eu sabia que levaria dias para esquecer fisicamente que esteve ali. E isso me fez pensar quanto tempo seria até que me esquecesse dele em minha mente? Ele segurava meus quadris, e me puxava para baixo com força, e a cada batida, eu tinha a sensação de que ia mais fundo. Comecei a pressionar de volta, segurando seus ombros e olhando nos olhos assombrosos, encontrando seus movimentos. Joguei a cabeça para trás quando se tornou demais suportar e ele se tornou mais rápido. Por reflexo, meu corpo se ergueu, tentando me livrar da pressão que começava a se construir, mas ele me puxou de volta e fechou a mão sobre minha boca, sufocando o grito que deixei ao ar. O orgasmo me bateu com força, afogando-me como nunca aconteceu. Eu respirava pesado, meus ouvidos zumbindo, peito arfando, coração acelerado. Tentei recuperar o fôlego quando ele já tinha parado seus movimentos e apenas me segurava, seu pau ainda cravado como uma rocha no meu interior. Mesmo no escuro, os olhos azuis escuros e opacos eram fáceis de ler para mim. Sempre com o rosto severo, nunca sorrindo. Nem mesmo quando dei tão fácil o que nós dois queríamos. Levei meus dedos no meio das sobrancelhas, cutucando o franzido que ele sempre fazia ali. — Por que está me olhando assim? Você sempre me olha estranho. Ele levou alguns segundos para responder. — Eu vou me casar com você. Eu dei risada, revirando os olhos. — Isso não é bem o que se espera ouvir antes mesmo do primeiro encontro. Ele franziu a testa de novo. Era bem daquele jeito que fazia quando estava pensando. — Essa é a quinta vez que nos encontramos. Segurando um sorriso, fiz uma conta mental rápida, notando que ele não contou a primeira vez, quando presenciei seu surto na Konstantine Business. Será que sequer lembrava daquilo? — Poderia ser a décima, mas ainda seria cedo para dizer que quer se casar com alguém. — Pessoas se casam todos os dias em Las Vegas horas depois de terem se conhecido. Dessa vez eu ri. — Pessoas bêbadas. — Álcool nessa casa é o que não falta, se é disso que você precisa. — Demeron... é preciso mais do que álcool para se casar com alguém. — Eu não vou me casar com alguém. Vou me casar com você. O que você sendo alguém precisa para casar comigo? Se isso era uma brincadeira, ele não estava dando sinais. Sua expressão séria e os olhos totalmente focados em mim. Um grito e um “sim” estavam entalados em minha garganta, então, reconheci que estava, sim, perdendo a sanidade. Considerando me casar com alguém por pura atração, por batidas mais rápidas do coração, por uma sensação de segurança. Droga! Pela intensidade que sentia sempre que estávamos perto. Mas, ainda assim, era louco. — Não vou me casar com você. Nunca mais me diga isso. — Então deve parar de me olhar assim. Franzi a testa, ainda acariciando sua barba clara. — Assim como? Como eu te olho? — Como se quisesse me foder outra vez. Inalei bruscamente, sentindo os efeitos de suas palavras irem direto para o ponto do meu corpo em questão. A excitação que tinha apenas dissipado um pouco, voltou com força. Tentei tirar o joelho de onde estava, mas ele foi mais rápido, segurando minha coxa com as duas mãos e a puxando para mais perto, me tirando um pequeno grito quando seu membro pulsou. — Acha que eu quero te foder outra vez? Eu já fiz isso, posso simplesmente ir embora. — Desde a primeira vez que me viu, sim, você queria dar pra mim. Fale o quanto quiser, você não vai embora. Com a boca quase escancarada por sua estupidez, agarrei seus ombros e me movi, descendo e subindo lentamente com nossos corpos ainda grudados, sentindo seus dedos massageando a pele por baixo da saia. — Então está dizendo que vai se casar comigo para me comer? Só vai fazer isso de novo se houver um casamento? — Se eu te foder como quero, você vai virar as costas quando acabar e nunca voltará para mim. Se for minha esposa, posso te prender comigo, então não corro o risco. — Você fez exatamente isso. — Te prendi? Com a garganta apertada, passei os dedos entre os cabelos ralos. — Me fodeu como um animal.— Minha voz era quase um sussurro. Os olhos incrivelmente profundos me encaravam sem piscar. As mãos fortes ainda me seguravam como se não fosse me soltar nunca. Mas ele havia feito exatamente o que eu disse. Me fodeu como um animal. Eu fodidamente gostei disso. E ali no meio do purgatório, completamente vestidos debaixo da minha escultura, eu deixei que ele fizesse outra vez. “Nos seus olhos há um triste azul intenso Eu quero me sentir como nos sentimos naquela noite Bêbados de um sentimento, sozinhos com as estrelas no céu” SELENA GOMEZ, WOLVES Aquele quarto não era dele. Parecia ser de ninguém. Frio, vazio, paredes brancas e móveis claros. Tudo opaco e sem vida. Nenhuma decoração pessoal, nada que me desse uma pista sobre o lugar onde Demeron tinha me levado depois de fazer-me praticamente desmaiar de prazer em seus braços. Fiquei sentada naquela cama por vários minutos, talvez uma hora depois que acordei. Pensando, lembrando, refletindo. Me controlando e condenando. Tomei banho, buscando me sentir um pouco mais humana depois da noite anterior, mas colocar a mesma roupa e enfiar os pés nos mesmos sapatos, só fazia parecer que aquela noite não tinha acabado. Que eu estava lá embaixo novamente gritando com o mais belo homem que já vi, e no minuto seguinte, deixei que ele se afirmasse em mim sem reservas. E enquanto penteava meu cabelo, esmaguei-me mentalmente com o martelo que me condenava, porque pior que ter nos deixado ir longe demais, é que não me arrependi. Saí do quarto, confirmando que estava na casa principal, e como uma admiradora de artes, fiquei boquiaberta com a maravilha que era. A grande escada era como um enorme caracol, levando do terceiro andar até o primeiro. Desci passando a mão pelo corrimão, sem conseguir acreditar nas riquezas de detalhes. As paredes eram repletas de obra de arte, e no teto, em cima da escada, havia apenas vidro, que fazia com que entrasse uma quantidade infinita de luz, iluminando aquela parte da casa como nem mil lâmpadas podiam ter feito. Estava quase no fim, quando ouvi um choro baixo, quase um lamento. Fiquei tensa imediatamente, procurando a fonte, e encontrando ao descer completamente. Um pequeno corpo dobrado, que tremia segurando um urso de pelúcia. Meu coração amoleceu por ela, eu nem precisava ser apresentada para saber que era Blair Konstantinova, a única neta e sobrinha da casa. Olhei ao redor, conferindo se não havia ninguém para chegar até ela, sabia que sua mãe não gostava de mim e queria fazer o máximo para evitá-la, mas como deixar aquela pobre criança ali sozinha? Tentei me aproximar sem fazer barulho para não a assustar, mas em meu próximo passo ela já estava com o rosto vermelho e derramado em lágrimas, me fitando com uma seriedade que não deveria estar naquele jovem rosto. Aliás, jovem era eufemismo. Blair era apenas um bebê. Eu chutaria cinco ou seis anos. Os cabelos incrivelmente longos e loiros, não negando a semelhança com sua mãe, e os olhos eram de um azul profundo, que podia ter vindo tanto de Kaladia, quanto da família de seu marido. Parei onde estava e agachei, ficando no nível dos olhos dela, mesmo tendo uma boa distância entre nós. Ela não foi o tipo criança rica e mal- educada de cara, mas também não foi daquelas que imediatamente me chamou para brincar. — Olá, eu sou Onira. Você deve ser a Blair. Falei calmamente, abafando um sorriso ao ver seu cenho franzido para mim. Ela não estava propositalmente fazendo careta, parecia mais concentrada, me observando. Uma menina carrancuda, de fato, não negava ser filha de Kaladia e sobrinha de Demeron. Mas era a coisa mais linda também. Os pequenos olhos inocentes me avaliaram por longos minutos antes de relaxar um pouco a postura e abraçar seu urso. — Olá, senhora Onira. — Vamos cortar esse senhora, o que acha? Eu ainda sou bem jovem. Não tanto quanto você, mas sou — brinquei. — Sinto muito. Mamãe gosta quando uso minha educação e que seja gentil. A ideia de que Kaladia obrigava uma pequena garotinha a se portar como uma adulta me fez sentir um incômodo que eu sabia não ter direito de sentir, mas eu fiz. Lhe dei um grande sorriso. — Bem, está dando certo. Você é a mais adorável moça e esse urso que tem aí, eu nunca vi nada parecido! Ele tem um nome? O sorriso que ela me deu iluminou a sala. — Ele se chama Harlen. — Uau! É um nome muito bonito. E raro, também, eu nunca ouvi. E com certeza é um urso chique. Blair sorriu passando a manga do vestido pelas lágrimas, levantando do degrau que estava sentada. — É o nome do tio Harlen. Ele morreu cumprindo dever, morreu pela nossa nação. Tio Harlen é o nosso orgulho. Não deixei transparecer a surpresa da descoberta. Slom não sabia, porque se soubesse teria me dito logo que apresentou praticamente a árvore genealógica dos Konstantinova quando fechamos o contrato. E mais um irmão com certeza não fazia parte dos relatos que eu vi, menos ainda Demeron o citou em nossas conversas. Mas eu sabia que não era uma mentira. Blair podia ser pequena, mas a inocência e sinceridade em seus olhos dizia tudo. Enquanto eu pensava, ela chegou ainda mais perto e me estendeu a mão. — Vamos, Onira, vou te mostrar meu quarto de brinquedos. Meu primeiro instinto foi ir com ela e fazer de tudo para que as lágrimas não voltassem àquele lindo rostinho, mas sabia que não era próprio que começasse a andar pela casa que sequer fui convidada pelo dono a passar a noite, a ficar perambulando sem a autorização da mãe de Blair. Segurei sua mão ainda abaixada, e mantive a voz tranquila. — Primeiro me diga por que estava chorando? Se você quiser, me deixou preocupada. O sorriso murchou e seus olhos ficaram baixos. — Harlen está furado. — Como se para comprovar o fato, ela virou o urso e levantou a roupinha, mostrando um buraco onde saía um pouco de espuma. — Ah, mas isso não é problema! Podemos costurá-lo. Um pouco de esperança se mostrou em sua face, mas desvaneceu e ela balançou a cabeça. — Mamãe não quer. Ela diz que coisas quebradas devem ser substituídas. Coisas consertadas ficam velhas, fedorentas e sem valor. Franzi a testa, incomodada que Kaladia tivesse dito algo assim para uma criança —mesmo que fosse sua filha. — Eu fugi, porque mamãe e papai estavam brigando muito no quarto, então vim aqui embaixo esperar que terminassem. — Oh, pequenina — lamentei, acariciando suas mãos. — O que acha de irmos ver se está tudo bem agora? Eu aposto que não estavam brigando, era só uma conversa mais séria. — Não, Onira. — Ela falou quando começamos a subir a escada. — Eles lutam. Mamãe sabe lutar tão bem quanto meu pai. Ela deixou o rosto dele sangrando e ele machucou seu braço. Abismada, tentei não demonstrar meu choque, mas foi impossível. Ela dizia aquilo com uma naturalidade que não era normal. Há que tipos de coisas essa criança estava sendo exposta? Eu não tinha o que dizer, então a acompanhei até o segundo andar, e viramos no lado esquerdo, onde ela disse que ficava o quarto de seus pais. Passamos por várias portas, e mesmo com Blair falando sem parar, eu estava prestando atenção nela e respondendo, mas atenta a qualquer barulho. Se ouvisse um grito sequer, chamaria a polícia e a levaria para o mais distante dentro do jardim que poderíamos ir para que ela não presenciasse nada. — Mamãe? — Blair chamou, abrindo a porta e entrando. Eu fiquei do lado de fora, mas com a porta completamente aberta. Pude ver o enorme quarto e de longe, na cama espaçosa, um corpo jogado em cima. — Você foi ver o vovô? — A voz era rouca, baixa, mas reconheci como de Kaladia. Ela não se moveu. — Procurei por ele, mas não o encontrei. O silêncio tomou conta do cômodo e olhei em volta, a primeira coisa que vi foi uma garrafa de whisky ao lado da cama, em cima do criado-mudo. A janela aberta fazia as cortinas esvoaçarem para dentro, fazendo a luz do sol ficar dançando com a sombra lá dentro. Blair ficou na beirada da cama segurando o urso de cabeça baixa. Pobremenina. Eu quis entrar e sacudir Kaladia, dizer a ela para cuidar de sua filha, para ser sua mãe. — Vou te dar um banho, espere só um pouquinho. — Eu já tomei, mamãe. — Certo. — Veio um sussurro baixo. — Então fique pronta para o ballet. — Tudo bem. Posso ficar com Onira enquanto espero? Como se meu nome fosse um sino do inferno, Kaladia se ergueu, o cenho franzido para Blair. Ela colocou as mãos nas costas para ficar em pé e soltou um pequeno barulho, como se estivesse com dor. Usava um roupão, os cabelos molhados. Mas, mesmo de longe, eu vi dois pingos de sangue no tecido branco. Jesus. Que tipo de merda acontecia ali? Cada hora dentro daquela casa me deixava mais motivada a ir embora e nunca voltar. Seus olhos então ergueram e ela me viu na porta. A postura mudou completamente. Ela ficou reta, nenhuma evidência de fragilidade em sua expressão. Caminhou até estar na minha frente com firmeza. — O que estava fazendo com a minha filha? — A consolando. Garantindo que ela não ficaria sozinha dentro dessa casa enorme e fria. — Ela não precisa do seu consolo, e pode ter certeza de que sabe dar um passeio pela casa inteira. Eu bufei, quase rindo em lamento. — Aposto que sim. Uma criança precisa aprender lugares para se esconder enquanto a mãe e o pai se matam. O rosto dela se contorceu em fúria. — Quem você pensa que é para dar um pio sobre a forma como eu cuido de Blair? — Ninguém. Me odeie, se quiser — sussurrei, apenas para ela ouvir. — Mas não faça sua filha chorar por causa de um urso! Antes que pudesse responder, Demeron apareceu atrás de mim, o rosto sério e silencioso. Sem dizer nada, segurou meu cotovelo firme o suficiente para me guiar e levou-me para longe de Kaladia. — Que diabos você pensa que estava fazendo? — perguntou, ainda levando-me para baixo. — Nada demais. Ele bufou. — Você não para de causar confusões. Que ideia foi essa de ir encrencar com aquela mulher dentro da casa dela? Uma veia pulsou de raiva, e me soltei de seu aperto, fitando-o seriamente. — Temos coisas mais importantes para lidar do que eu e sua cunhada, como por exemplo, eu tomo remédio. — falei, esperando por sua reação. Ele ergueu as sobrancelhas levemente, depois assentiu. — Bom. Sem camisinhas então. — Bom?! Nós nem pensamos em nos proteger ontem. Eu acho melhor fazermos um exame de sangue. Sei que estou bem, mas quero saber de você e assim, prefiro te mostrar o meu também. — Eu não pretendo fazer um exame. Você aceita a minha palavra e eu aceito a sua. Não vou ter ninguém me furando e tirando meu sangue. — Você sequer se preocupou que ontem poderia ter consequências? — Ontem vai ter consequências. — Demeron! — gritei, tentando quebrar de alguma forma a parede imposta entre nós. — Pode me dar uma pista aqui? Eu estou perdida! Ele apenas me encarou por um momento, então seus ombros caíram levemente e segurou meu rosto, beijando-me como uma pena de tão leve. — Bom dia. Venha tomar café. Ele não esperou minha confirmação. Segurando minha mão, levou-me para fora. Circulamos a varanda e no jardim de trás, havia três gazebos. Quase perdi o ar ao ver tamanha beleza. Eram grandes o suficiente para um sofá e uma mesa, com duas cadeiras à frente, flores penduradas pelas quatro colunas e as cortinas presas para deixar a luz do dia entrar. — Demeron — suspirei. — É lindo! — Obrigado. Cortei o cabelo essa semana. Parei no caminho e virei para ele com olhos arregalados. — Acabou de fazer uma piada? Com a sombra de um sorriso no canto do lábio, ele puxou uma cadeira para mim. — Coma. Erguendo as sobrancelhas em seu comando, cruzei o os braços. — Não me dê ordens. Demeron se aproximou, colocando os dois braços em volta de mim, prendendo-me entre a mesa e a cadeira. — Quero que esteja alimentada antes de levá-la para casa. Amoleci um pouco, reconhecendo o cuidado, mas, ao mesmo tempo, a ideia de ir para casa sem ele me deixou estranhamente desanimada. — Venha comer comigo. — Estou bem. Coma um pouco de tudo, se não gostar de algo, apenas deixe aí. Tente terminar a vitamina. Ignorando o toque de comando em sua voz, fitei a mesa servida com várias coisas e decidi que só por aquela vez, ia realmente fazer como ele disse e experimentar um pouco de cada. Mas apenas porque tudo parecia delicioso. — Por que Kaladia me odeia? Seu corpo tencionou, a boca apertada numa linha fina. — Ela não odeia. — Bem, com certeza não gosta de mim. — Ela não gosta de ninguém. — É claro que gosta, todo mundo gosta de alguém, mesmo que poucas pessoas. — Pare de querer humanizar todas as pessoas que conhece. Algumas simplesmente não possuem tais sentimentos como amor, simpatia e merdas do tipo. — É claro que possuem, só perdem com o tempo. — Concordamos em discordar. Cortei mais um pedaço do pão crocante, bebendo um pouco mais da vitamina de frutas frescas. Mas, sentia seu olhar sobre mim o tempo todo, quase me travando. — Você pode pelo menos se sentar? Ou vai ficar só me olhando até que eu termine? — Realmente prefiro ficar e olhar. Frustrada, desviei o olhar. — Não era necessário tanta comida — murmurei. — Preciso aprender o que você gosta. — Para me chantagear? Ele ficou em silêncio por um momento, então se sentou, puxando a cadeira para tão perto quanto podia. Pegou minha mão. — Para quando se casar comigo. Engoli em seco, tentando fugir do calor de seus olhos fixos. — Achei que tínhamos combinado em parar com esse assunto ontem. — Eu não combinei nada. De fato, apenas encontramos algo melhor para fazer ao invés de falar. — Foi apenas uma noite, Demeron — sussurrei, tentando convencer a mim mesma que ele não estava falando sério. Não podia estar. Um meio sorriso atingiu seus lábios, os olhos inexpressivos nem piscavam. — Não seja ingênua, kleine Unze. O que você me deu, é impossível pegar de volta. DEMERON Demeron se acomodou na cadeira dura e desconfortável, colocou os pés para cima, abriu a cerveja e ligou os três monitores conectados. Deixando o teclado próximo para que pudesse trocar os ângulos e ajustar as telas, tomou um gole da cerveja e esperou. Não demorou demais, a porta abriu, mesmo que já tivesse a visto passando pela calçada de sua casa e a varanda, sentiu uma sensação estranha quando visualizou como Onira trancava a porta, tirava o casaco, sapatos, e pendurava a bolsa. Depois, esperou que ela fosse comer, dormir, tomar um banho, mas, para sua surpresa e incômodo, ela apenas ficou ali de pé. Passaram-se vários minutos, preocupação atingindo Demeron, e Onira não se movimentava. Quando estava prestes a se levantar e ligar para ela ou até mesmo correr para sua casa, Onira fechou os olhos e começou a murmurar sozinha, andando pela casa, arrumando coisas que aos olhos de Demeron, já estavam arrumadas. Ele esperou pelo peso na consciência. Sabia que invadir a privacidade dela não era certo, tampouco aceitável. Que conhecendo sua kleine unze, ela ficaria furiosa se soubesse que estava sendo vigiada daquela forma. Mas, sentimentos nunca foram um problema para ele, principalmente se havia qualquer risco de prejudicar a missão. O sexo foi incrível, além do que ele esperava, de fato. Ela era uma boa mulher. Se a conhecesse em outras situações, a desejaria boa sorte e esperaria que encontrasse alguém para se casar e fosse feliz. Ficaria longe dela. A deixaria em paz para colocar nos trilhos a bagunça que era sua vida. Mas havia coisas mais importantes do que bom senso e consciência. Aliás, Demeron sequer conhecia o significado disso. Recostou novamente, sabendo que seria um longo dia, e fez planos para instalar as câmeras em seu ateliê quando fosse visitá-la durante a semana. É claro que via como ela o olhava, como se entregava a ele, ela gostava quando tinham conversas profundas e poéticas. Mas ele não sentia nada além de pressa. Tudo seria mais fácil se ela aceitasse sua proposta de uma vez. Finalizaria sua missão, e pularia para a próxima. Aquele papel de vítima foi, semdúvidas, o que mais estava sendo tedioso para fazer. Durante os últimos cinco anos de sua carreira, quando tudo foi para o inferno, aceitou as missões que ninguém queria aceitar. Ultrapassou fronteiras de países e continentes, desafiou as regras que nem sequer estavam registradas nos livros. Subiu passo a passo da escada, se tornando o braço direito de um mafioso, assim desmantelando o império de cima para baixo quando chegou a hora. Dormiu com a esposa de um político importante, a conquistou até que estivesse completamente apaixonada por ele, e conseguiu os segredos de estado de seu marido. Até mesmo foi um pai de uma família contratada para se infiltrar numa organização no México. Tantas outras missões mundiais que fizeram dele uma lenda no mundo da espionagem, mas nada se comparava a missão mais importante de sua vida. Onira Tieko. E quando ela dissesse sim, é que começava. Ele não via a hora. “Sentei-me na escuridão, com o coração totalmente partido Mas de alguma forma baby, você veio em meio à tudo e me salvou Você é um anjo, diga que nunca me deixará Porque você é a primeira coisa em que sei que posso acreditar Você é santa Você é a margem do rio onde fui batizado Me purificando de todos os demônios que estavam matando a minha liberdade Deixe-me te deitar, me entregar a você Te fazer cantar aleluia Nós vamos estar tocando o céu” FLORIDA GEORGIA LINE, HOLLY — Não julgo. Aqueles irmãos são alguns dos poucos que me convenceriam a fazer uma dupla penetração. — Isso foi o que Slom me disse quando eu mencionei que havia beijado Demeron. Deixei de fora todo o resto, e percebi que estava escondendo mais fatos do que deveria ser saudável. Quando algo está certo, você fica confortável para falar, principalmente se tratando de uma possível relação, mas omitir e mentir já deveria ser um sinal de que algo estava errado. Com certeza eu não ia dizer a minha sócia e melhor amiga que o único homem, até mesmo acima de seu irmão, que havia sido o primeiro que despertou minha atenção, tinha uma família completamente perturbada. Que havíamos transado sem nenhuma proteção ou reservas, como cachorros no cio. E menos ainda que ele mencionou casamento mais de uma vez. O que começava a me fazer suspeitar que estaria falando sério. — Você disse a mesma coisa sobre Bruce Venture. — Não, eu disse que Bruce me faria considerar uma orgia. — Não dá no mesmo? Ela parou de assinar o que quer que estivesse naqueles papéis e me fitou com as sobrancelhas arqueadas. — Realmente quer que eu comece a te explicar as diferenças entre orgia e apenas a dupla penetração? — Esqueça que perguntei. — Ficamos em silêncio por alguns minutos, cada uma em seu canto, até que decidi tentar pescar uma opinião sem ser clara. — Quanto tempo você acha saudável conhecer alguém e manter um relacionamento até começar a cogitar a palavra “casamento"? — perguntei num tom desinteressado. Slom deu de ombros, se revezando entre digitar em seu notebook e mordiscar uma barra de vitamina. — Depende. Eu casaria com Siriu, vulgo senhor X, em uma única foda. Soltei um gemido forçado, revirando os olhos. Se ela soubesse... — Eu nunca imaginei que um homem como ele faria seu tipo. Você sempre caiu mais para o lado dos vagabundos e acomodados. — Era um fetiche, você sabe... como se eu fosse uma sugar mommy. — Ela disse. — Mas, falando sério, tem gente que namora por anos até se casar e o divórcio vem em menos de seis meses. Assim como tem quem se conhece em Las Vegas, casa lá mesmo e passa a vida juntos. O casamento é superestimado. Um pedaço de papel não define amor e convivência. Você pode morar com alguém e cada dia realizar uma fantasia diferente, mas quando se casarem, os dois vão virar o pior pesadelo um do outro. A mulher vai ter um caso com o jardineiro e o cara com a secretária. Mas tudo pode ser um lindo conto de fadas também. Como eu disse, eu não hesitaria em me casar se sentisse como se não pudesse ficar longe de alguém, se não desse certo, quem se importa? Divórcios estão aí para isso. Escutei cada palavra atentamente e fiquei em silêncio, refletindo sobre elas. Observando minha falta de respostas, Slom se endireitou na cadeira, e terminou a barrinha enquanto me analisava. Finalmente após alguns minutos, ela balançou a cabeça. — Merda. — O quê? — Você está pensando em se casar com o Konstantinova pirado. — Não estou, não. E ele não é pirado. Ela bufou. — Ele faz total aquela pinta de soldado traumatizado. Tenho certeza de que viu coisas na guerra que o fizeram ser assim. Acho que ele tem pesadelos de noite e provavelmente não consegue dormir por conta disso. E ele será difícil de confiar, não vai te contar os segredos dele, mas vai querer saber todos os seus. Eu não sabia se ria ou ficava assustada. — E você sabe tudo isso se baseando em...? — Livros que li com Seals, soldado, fuzileiros, o que você quiser levar em conta. — Caramba, Slom, obrigada por me dar um discurso inteiro baseado em ficção. Ela riu e deu de ombros. — A ficção é uma imitação da realidade, minha linda amiga de olho puxado. Apenas isso. Mas, se está considerando casar com o cara, há um jeito de saber se isso é uma furada. Revirei os olhos. — Não que eu esteja cogitando me casar com alguém, mas se estivesse... que jeito seria esse? — Se quer conhecer um homem, faça do jeito infalível. Vá até a casa dele. Eu não queria admitir, mas fiquei tentada. Ir até a casa dele seria a primeira coisa que eu faria se ao menos soubesse onde ficava. Style havia me ensinado que as pessoas que têm algo a esconder, escondem onde pensam que ninguém iria procurar, onde todos achariam óbvio demais. Então, sua casa seria o lugar que ele não se preocuparia em manter aparências. Eu não achava que Demeron queria me prejudicar, estava bem claro para mim que mesmo sua família sendo vingativa o suficiente para tentar me fazer mal por algo que pensavam que meu irmão fez, Demeron só me protegeu. Ele foi contra seu pai, primo e irmão; e estava me mantendo perto de si mesmo, até mesmo me propondo casamento. Mesmo que ele não tivesse dito que essa proposta era por conveniência, eu sabia, de alguma forma sentia que era seu jeito de dizer a seu pai que se tentasse me atingir, seria como atingir o próprio filho. Eu não podia estar mais grata. Não temia pela minha vida, não tinha medo da morte, tinha medo de morrer sem uma boa razão. Por isso, queria viver o bastante para provar a Stark que o que quer que ele pensava que meu irmão fez, não poderia ser ruim o suficiente para me machucar, ou ir além e até mesmo me matar. Se Demeron era bom e tão protetor, certamente sua família não seria tão longe disso. — Eu não sei onde ele mora. — Merda — resmungou, pegando a chave e ficando de pé. — Esse é um sinal claro do que temos que fazer agora. — O quê? — Beber. — Ele me pediu em casamento. Duas vezes. — O quê? — Ela gritou, cuspindo um pouco de bebida. — Não foi bem um pedido, foi mais uma ordem. “Case-se comigo.” Eu esperava algo romântico quando encontrasse o cara da minha vida, mas se encaixa com ele. — Você acha que ele é o cara da sua vida? As palavras emboladas estavam me fazendo rir. Rir tanto que derrubei o copo e nós duas olhamo-nos e fizemos um “ooooh", rindo mais ainda. — Slom, chame o gerente, esse copo pulou da minha mão e acabou de quebrar! — Eu vou chamar o capitão. — Ela gritou, jogando uma almofada nas costas de um homem que estava próximo de nós. — Onde estão os stripers? Nós temos uma noiva aqui! Eu caí para trás no sofá, completamente desinibida. Rindo e gritando com todo o álcool fazendo efeito. No fundo da minha mente, lembrei que não estava nos planos contar sobre o pedido de casamento, ou melhor, a ordem de casamento. Também não deveria estar bebendo tanto se uma de nós ia dirigir para casa. Por todo o caminho do ateliê até a Freude, uma das melhores casas noturnas de Berlim, tentei convencer Slom de que era uma má ideia, mas ela aumentouo volume do som e me ignorou como uma criança fazendo birra. Por fim, eu me perguntei: por que não? Então nós fizemos da nossa missão no minuto em que pisamos dentro da boate, que só sairíamos dali quando não nos lembrássemos quem éramos. — Aceite o pedido. — Ela falou de repente, segurando minhas mãos com uma e na outra, o copo cheio, que derramava um pouco de álcool em nós duas. — O quê? — perguntei num tom agudo demais. — Case-se com ele. Faça isso por nós duas. — Slom, o que você está dizendo? — Eu estou dizendo que, se pelo menos uma de nós tem a chance de ter um Konstantinova na vida, deve agarrar. Eu estou conformada que Siriu só vai continuar aparecendo em minha casa, amarrando-me e fodendo com a minha vida em todos os sentidos. Sua voz chorosa me fez chorar também, então o que eram risos antes, viraram lágrimas. — Ele continua indo te ver? — Me ver não define as visitas dele. Ele aparece, toma o que quer e vai embora. Não se importa que meu irmão é um dos homens mais importantes do país ou que eu venho de uma família nobre e antiga. Só se preocupa com a minha boceta, isso são palavras dele. — Sinto muito, Slom. Mas você deveria ficar feliz. Ele não é o homem que parece ser. Ela balançou a mão no ar e tentou falar, mas o choro a atingiu ainda mais. Então com pés vacilantes, me levantei e a ajudei a ficar de pé, lembrei de pegar nossas bolsas e segui para fora, apoiando minha amiga que se revezava entre rir e chorar. Slom sempre foi uma bêbada difícil, mas pelo menos sempre se lembrava de tudo o que fazia no estado comprometido, diferente de mim, que não tinha os efeitos da ressaca, mas não lembrava de uma só coisa. Nós atravessamos a rua e abri a porta do passageiro, a empurrando para dentro e tentando fechar o cinto. O vento batendo nas minhas pernas e um pouco mais acima, me fazia pensar que talvez eu estivesse mostrando demais para as pessoas passando na avenida e na porta da boate, mas o cinto estava tão difícil de encaixar que eu não podia me concentrar em qualquer outra coisa. Não consegui fechar, mas Slom já tinha pegado no sono, então decidi que iria bem devagar e nenhuma de nós precisava de cinto. Eu estava a passos vacilantes e confusos dando a volta no carro, tentando encontrar a chave certa para ligar o motor, quando bati de frente com um peito grande e duro. Resmunguei algumas palavras, e tentei contorná-lo, mas apenas bati novamente, porém, dessa vez, meu corpo mole voltou para trás, quase caindo, se braços igualmente fortes não me segurassem. — Oh, meu Deus — murmurei comigo mesma. — Serei sequestrada. — Olhei para o vidro da frente, vendo Slom dormindo tranquilamente, e gritei: — Slom! — Mas que porra?! — A voz grossa soou à minha frente, mas eu estava ocupada batendo no capô e chamando minha amiga. — Ei, gata. — Outra voz surgiu, masculina, porém mais fina. — Está tudo bem aí? Esse cara tá te incomodando? — Ela é minha, caia fora. Eu comecei a rir enquanto era levada para outro carro, mas preocupada porque percebi vagamente que Slom estava ficando mais distante. — Não deixe meu anjo vingador te ouvir dizendo isso, seu grande panaca! — Eu disse, batendo no peito do homem. Fui levantada, minha cabeça girou, então estava encostada em algo macio, confortavelmente apoiada. — Está me ouvindo? Se ele te ouvir dizendo isso, vai te matar. De repente eu estava em movimento. — Sim, Kleine unze, é bom que você saiba disso. — Pequena onça... Só ele me chama assim. Espera... é você? — Você quer que seja? — Sim — sussurrei, querendo abrir meus olhos para confirmar se meu anjo estaria ali do meu lado. — Eu sempre quero você por perto. — Bom. — Eu deveria lhe fazer sexo oral agora, despertar todo o seu interesse em mim, assim você não mudaria de ideia. — Mudar de ideia sobre o quê? — A fúria em sua voz me fez rir, mas ao mesmo tempo senti uma lágrima molhando minha bochecha. — Sobre casar comigo — sussurrei. Sentia meus olhos pesados, eles queriam fechar, mas eu precisava mostrar ao meu anjo protetor que estava disposta a fazer o que fosse preciso para mostrar que estava ali e disposta. — Não se preocupe, Onira. Nada no céu ou inferno mudaria minha mente sobre isso. Eu sorri e tentei dizer algo, não sei se consegui, porque ouvindo os zumbidos da minha própria mente, apaguei de vez. — Onira, acorde. Rolando para o lado ao ouvir uma voz penetrando meu sono e uma mão me balançando, fechei os olhos com mais força, determinada a voltar a dormir. — Deixe-me em paz. Ouvi uma risada rouca, e com o sono dispersando, reconheci quem estava comigo. — Sinto muito, querida, não posso fazer isso. Lentamente levantei o braço que cobria meus olhos e o fitei. Meu coração derreteu como fazia todas as vezes, e soltei um suspiro trêmulo. Eu não me cansava de olhá-lo. Estava ainda mais perfeito. Parecia sempre mais bonito. — Você é tão lindo — murmurei, meio mal humorada. — Não faça esse bico. Ele segurou minhas mãos e com uma delicadeza encantadora, beijou a ponta de cada dedo, olhando fixamente em meus olhos. — Você nunca mais vai beber como fez ontem. Só por aquelas palavras eu imaginei que deveria ter sido muito ruim ter que lidar comigo. E mesmo não me lembrando, no meio da bagunça da minha mente, algo me beliscou e eu fiquei tensa. — Eu pedi para... você sabe. — Hesitei, tão envergonhada em dizer as palavras. Beber nunca foi uma grande paixão, e eu nunca tive orgulho do meu estado embriagado. — O quê? — ele perguntou, alisando meu rosto. — Não me faça dizer. Um meio sorriso alcançou seus lábios. — Se pediu para chupar o meu pau? Eu cobri o rosto, gemendo de constrangimento. Tinha certeza de que meu rosto estava vermelho. Sua risada seca me fez olhar para cima. — E eu fiz? — Não, eu não ia correr o risco de você vomitar nele todo. — Eu não ia! — Não se preocupe, Kleine unze. Você terá oportunidades infinitas para isso. Se lembra do que mais fez ontem? — Não, e estou grata por isso. — É uma pena ouvir isso. — O quê? Por quê? Ele levantou e foi até a minha estante, parando lá de costas para mim por alguns minutos. — Demeron? — Me sentei, franzindo a testa por sua falta de resposta. — O que foi? — Eu deveria ter levado em consideração que você estava embriagada. Que nesses momentos tomamos decisões sem estar com a mente clara. Agora vai parecer que estou impondo isso a você. Ele então virou, as duas mãos unidas, segurando algo. Caiu de joelhos novamente a minha frente e me fitou com aqueles olhos gelo seco, tão azuis que me tiravam o ar. — Você me disse sim ontem, me abraçou e disse “sim" repetidas vezes, então eu a deixei dormindo e chamei um amigo da família, fiz o homem trabalhar até que tivesse a peça perfeita para você. Atordoada, vi sua mão abrir e lá dentro pousava um lindo anel todo trabalhado. Era dourado, como uma aliança, mas tinha uma linha separada que era prateada, com uma linha que confirmava feita de pequenas pedrinhas de diamante. Em cima, um pingente idêntico ao do colar que havia me dado antes. Levei as mãos à boca, tentando impedir o grito e as lágrimas. — Demeron... — sussurrei, sem saber o que mais dizer. — Embora eu tenha gostado de seu entusiasmo bêbado em me aceitar como seu marido, eu me sentiria ainda melhor de ter a mesma resposta sóbria. — E-eu... Eu realmente aceitei? Disse “sim" várias e várias vezes? Mesmo me concentrando em tentar puxar as lembranças, não conseguia. Sendo sincera, era o que eu queria ter feito na primeira vez que ele pediu, enquanto me segurava e se mantinha profundamente dentro de mim. — Onira, eu quero proteger você. — Ele se aproximou e beijou meus lábios. — Cuidar de você. — Beijou meu nariz. — Fazer seus sonhos virarem realidade. — Beijou minha testa. — E nada me deixaria mais satisfeito do que fazer isso como seu marido. Então... — Ele pegou minha mão e colocou o anel no dedo certo, e não ficou nem largo, nem apertado. — Você vai se casar comigo? Encaixou perfeitamente. — Sim. — Me vi dizendo,e no segundo seguinte estava em cima dele, beijando sua boca como se nunca a tivesse visto antes. E ele me agarrou de volta, a língua passeando por cada canto dentro da minha boca. As mãos me apertavam, subindo por dentro da minha camiseta até que a puxou, jogando-a longe, me deixando nua em seu colo. Elas passearam pelo meu corpo, pernas, cintura, seios, onde alcançou, como se estivesse marcando cada parte de mim. Separando nossas bocas, Demeron abaixou o rosto e mordeu meu mamilo, chupando-o com força suficiente para me fazer gritar, antes de soltar e arrastar a língua pelo meu pescoço. Ele me empurrou levemente de volta, deitando-me outra vez. Ficou de pé, puxou a camisa para fora, os movimentos fazendo os músculos contraírem sob a pele bronzeada, então voltou sua atenção ao cinto, abrindo o zíper num piscar de olhos. Seus olhos viajavam por todo o meu corpo, e mesmo inquieta por estar sendo observada com toda a luz do dia por seus olhos atentos, não me senti estranha, me senti desejada. O fascínio nos olhos dele me diziam o quanto me queria. Ele ajoelhou na cama, colocando-se entre as minhas pernas e abaixou, beijando minha barriga com beijos molhados, arrepiando cada canto escondido do meu corpo. Desceu aplicando beijos até chegar ao meu osso púbico, rodeando com a língua meu umbigo, e num sopro, se lançou sobre minha boceta faminta. A língua quente e macia foi recebida com meu grito de prazer e os sulcos de sua provocação vazando para fora de mim. Com uma mão ele segurava minha coxa apertado, onde com certeza haveria vários hematomas, e a outra maltratava meus seios, pulando de um para o outro, apertando e rodando meus mamilos rígidos. Eu gemia e soluçava de prazer, ele beijava os lábios da minha boceta como se sua vida dependesse disso, e sugava meu clitóris enquanto me debatia na cama, quase convulsionando com o orgasmo que se aproximava. — Demeron! — gritei, tentando me afastar quando se tornou demais e ele não parava. Me levando a gozar uma e duas vezes. Apenas quando eu já estava sem forças, mole sobre a cama, ele se afastou, mas não ficou longe por muito tempo. Antes que meus músculos pudessem relaxar, ele estava afundando dentro de mim. Seu pau grosso me preenchendo e batendo duro, forte, até meu útero. Ele segurou os dois lados da minha cabeça e me olhou nos olhos enquanto metia em mim. Deslizou dentro e fora numa velocidade que faria qualquer um ofegar, mas estava calmo, controlado. Os olhos azuis selvagens nem sequer piscavam. O aperto em meu cabelo se tornou mais forte, quase insuportável, minha boceta apertou seu pau a ponto de tornar seus movimentos quase impossíveis. E eu gritei, agarrando seu pescoço quando o senti gozar com força dentro de mim. Eu vou casar com esse homem. O calor que se espalhou por meu corpo naquele pensamento me envergonhou, mas ao mesmo tempo me fez apertá-lo ainda mais forte. — Eu não vou a lugar nenhum. — Ele disse, como se pudesse ler meus pensamentos. — Eu sei. Suas mãos acariciavam minhas costelas de cada lado, e ele ainda estava incrivelmente duro lá dentro. Dando um beijo em meu pescoço, ele puxou para fora, então deitou e me puxou para mais perto. — Lembra quando prometi que contaria a lenda de Tristão e Isolda? — Sim. — Tristão era um órfão, não sabia nada sobre sua vida, mas com a ajuda de seu tio Marco, rei da Cornualha, se tornou um cavalheiro de honra e muita força. Ele sentia que tinha uma dívida com seu tio, por tê-lo tirado da pobreza e dos cantos desconhecidos do reino e se tornado um grande homem, então, ele tomou para si a missão de acabar com os inimigos de Marco. E ele consegue, porém, o último, Morholt, o atingiu com sua espada envenenada, então mesmo tendo ganhado a batalha, Tristão ia morrer. Eu ainda não sabia para onde estava indo e por que ele sentia a necessidade de dividir aquela lenda comigo, mas escutei cada palavra. — O barco de Tristão o levou para a beira de um mar distante, se acreditava que as ondas ou os deuses o levaram lá. Ele foi tratado por Isolda. Depois de curado e tendo suas forças de volta, ele venceu o dragão mais feroz daquele reino, o matou e por sua bravura, lhe foi prometida a mão de uma princesa. Apenas lá ele soube que era Isolda. Tristão abriu mão de casar-se com ela e a deu a seu tio. Mas, no caminho de volta para casa, os dois beberam uma porção que era destinada a Marco e Isolda para que na noite de núpcias ambos se apaixonassem, porém, ainda no mar, Tristão e Isolda beberam e consumaram o amor. Ela já o amava, mas ele ficou perdidamente apaixonado depois de beber. — Se ele não queria se casar com ela e nem a amava, por que bebeu se sabia o efeito? — Ela era um pacote que precisava ser entregue, mas o amava. Amou Tristão no momento em que o curou na beira do mar. Ela queria que ele a amasse de volta. Quando chegaram do outro lado do mar, enfrentaram seu tio, apaixonados, mas Isolda se casou com o rei Marco, e ainda assim, manteve o romance com Tristão. Os dois foram amantes durante anos até que Marco descobriu, ficou furioso e baniu Tristão do reino. Mas, Isolda apaixonada, e tendo perdoado sua traição, ainda vai atrás dele e vive na floresta com ele nas condições que uma vida na selva podia dar. Mesmo sabendo que continuava sendo traído pelos dois, Marco ordenou a morte de Tristão, assim Isolda voltaria para ele, porém, quando ela viu Tristão sucumbindo à morte, se deitou sobre ele, o beijou, e morreu também. — Ela morreu por beijá-lo? — Quem sabe? Há quem acredite que morreu de tristeza, outros dizem que o beijo da morte de Tristão sugou a vida dela. — Mas, uma coisa é certa... ele nunca realmente a amou, mas, ainda assim, ela morreu por ele. — É horrível. Ele riu baixinho e apertou minha mão que acariciava seu peito. — Tão trágica quanto Rodin e Camille. — Demeron — sussurrei, sem saber o que mais dizer. — Faça amor comigo. E ele fez. E me falou como estava feliz por eu ter dito “sim". “Querido, eu estou dançando com um estranho...” SAM SMITH, DANCING WITH A STRANGER — É loucura — disse Slom, ainda inconformada. — Eu sei. — Você não o conhece. — Você deve ter esquecido que foi a principal apoiadora da ideia. — Eu estava bêbada! Você não pode me levar a sério, principalmente quando se trata de coisas de vida ou morte, como a porra de um casamento! — Eu teria aceitado de qualquer maneira, só ia adiar por mais algum tempo dando a mim mesma a desculpa de que seria irracional me casar com alguém em tão pouco tempo. — Der! E isso faz todo o sentido. Já parou para pensar que nesse tempo adiando, você poderia descobrir coisas que não gostaria? — Vou descobrir de qualquer forma, é isso que acontece quando você se casa com alguém. Descobre coisas que não sabia no namoro e decide se vale a pena continuar. — Santo Deus. Quanto tempo faz que o conhece? — Ela virou a taça de champanhe, me encarando com toda a preocupação. O que era engraçado, porque Slom era a pessoa mais relaxada e espontânea que eu conhecia. — Menos de um mês. — Certo. Agora fique repetindo na sua cabeça “vou me casar com alguém que conheço a menos de um mês”, quando parar de fazer sentido me avise. Eu dei risada, alcançando sua mão e puxando para o meu colo. — Slom, você tem sido minha melhor amiga há tanto tempo que não sei mais como seria se não tivesse você. Então aprecio que esteja preocupada, mas não há nada que me faça voltar atrás. — Desviei o olhar dela para ver Demeron, que estava um pouco afastado de nós, conversando com um homem que eu não conhecia. O cara parecia animado, gesticulando com as mãos e contando algo. Meu noivo o escutava, acenando com as mãos enfiadas nos bolsos, mas a cada poucos minutos eu sentia seus olhos voltando para mim. — Ele é o meu “agora”. Não sei explicar. A vulnerabilidade dele, o jeito que me olha, que me protege... como ele me segura... Eu nunca tive nada parecido. Quando eu pensava em dizer “não”, só conseguia refletir depois “e se ele for embora, então?”. E isso me fez dizersim. — Você está apaixonada. — Ela disse com um suspiro, quase deixando um sorriso aparecer. — Sim, eu acho que sim. — Então só posso esperar que ele seja o melhor marido na porra do mundo, ou Deus o proteja, porque eu não terei dó. Eu a abracei e dei risada. — Sei disso. Não teve nem do seu irmão. — Nem me fale desse imbecil. Querendo tirar Kurton daquele momento de felicidade, disse a ela que ia no banheiro e a deixei com Belle. As duas tinham se dado bem já que Belle parecia tão sozinha naquela casa. Kaladia estava lá, sentada numa mesa com Angelina e Blair ao lado dela. A menina olhava ao redor com as costas retas e olhos entediados, beliscando um doce ou outro. Sua mãe as vezes se inclinava e conversava com a avó, que aos poucos eu percebia ser a única a fazer isso. Angelina não falava comigo, nem com Belle, Siriu e Demeron. Ela falava com Kaladia e Kirina. Eu fui categórica ao dizer a Demeron que não queria Kirina ali. Duas era ruim, três seria péssimo. Não vi Regnar, o que foi um pouco refrescante. Eu tinha medo de que ele e Kaladia começassem uma cena no meio da minha festa de noivado. Minha festa de noivado não estava sendo discreta como eu pedi a Demeron. Eu sabia que não era culpa dele, afinal, Belle tinha tomado conta de tudo. Ela disse que como “madrasta” de Demeron, agora eu era sua filha e ela queria que eu me sentisse bem-vinda na família. Meu noivo a observava com tanto tédio enquanto ela despejava seu carinho em mim, que fiquei com dó da menina. Mas pior foi como ele a deixou falando sozinha quando ela se denominou a madrasta. Ela tinha a minha idade, eu entendia sua frustração, mas se Stark estava contente, os filhos tinham que aceitar. Demeron escutou quando eu lhe disse isso, mas não concordou e nem discordou, na verdade, foi como se eu não tivesse dito nada. — Isso vai estar nas revistas logo de manhã. — Eu disse a ele assim que chegamos na casa de Stark e vi a quantidade de pessoas lá. — Você se importa? — Não, mas eu sei como você é discreto, então se tudo isso te incomoda... — Não incomoda. — Me assegurou, chamando um fotógrafo para tirar mais uma foto nossa. — Amanhã o mundo inteiro saberá que você é minha. — Ele beijou o canto da minha boca, e o flash bateu bem na hora. — Então não haverá onde se esconder. Eu não tinha motivos para me esconder. Dei risada, achando fofo como ele estava orgulhoso de me ter ao seu lado. DEMERON Ela jogou os braços nos meus ombros e me beijou. — Temos que discutir algumas coisas antes. — Tarde demais para rever os termos, você já disse sim. — Eu sei, mas isso não me impede de estar preparada para o que vem a seguir. Eu não tinha a intenção de amá-la. Não pretendia. Mas, me preocupava com ela, gostava de sua presença. Ela era engraçada, bonita, inteligente, e por algum motivo, queria cuidar de mim. Não que eu precisasse ser cuidado, mas era como se ela gostasse disso. Eu a beijei novamente, impedindo a nós dois de falar. Eu menti para Onira dizendo que ela havia aceitado meu pedido, mas isso era algo que ela faria eventualmente, eu apenas fiz ambos parar de perder tempo. Mas eu não queria mentir ainda mais. Escondi muitas coisas e fugi de várias perguntas, mas o quanto mais distante deixasse aquele casamento, melhor seria para ela quando acabasse. — Você está querendo me distrair. — Está funcionando? — Sim, mas ainda preciso saber se você dorme do lado direito ou esquerdo. Se deixa a toalha molhada em cima da cama, se prefere lavar ou guardar a louça, coisas domésticas assim. — Eu durmo de qualquer lado. Eu não dormia realmente. — Deixo toalhas molhadas em cima da cama e nunca lavei louça na minha vida. Minha disciplina era rigorosa, eu sofri durante anos para aprender a organizar tudo e isso se estendia a minha casa. Mas, Onira precisava de normalidade, de um marido que iria irritá-la com coisas simples, então eu teria que dar isso a ela. — Bem... — Ela riu. — Então me parece que vou precisar te ensinar as disciplinas da casa. Ou terei que conviver com um marido que vai viver me irritando com as coisas mais simples. Exatamente. — Sim, querida. Vou me esforçar. — Demeron! — Uma voz cantada me chamou e eu fiquei tenso ao ouvir Liémen Von Kimitch chamar. Disfarçando, virei para encontrá-lo sorrindo, os olhos brilhando em Onira. — Liémen — cumprimentei de volta com um aceno. — E essa é a nova senhora Konstantinova? — Ele segurou sua mão, dando um beijo. — Eu mesma. — Eu sempre achei que Tailândia e Alemanha eram uma combinação fascinante. Ela sorriu, sendo conquistada pela simpatia exagerada dele. — Até que enfim alguém acertou meu país. — São os seus olhos que diferenciam, mas um tolo nunca saberia. Ela riu. — É um prazer conhecer um amigo de Demeron. Eu me aproximei mais dela, tirando sua mão de Liémen. Ele percebeu, mas é claro que não se afastou. Era tão contraditório que o maior criminoso do país fosse tão bem-vindo em uma casa de militares e juízes, mas isso funcionou por décadas. Nós tínhamos um acordo de ficar longe de seus negócios, porque Stark era seu amigo de longa data. Isso não significava que por muitas vezes, eu me meti quando ele estava prestes a passar dos limites. Ele não era meu amigo, muito pelo contrário, mas minha futura esposa não precisava saber disso. Quanto mais segura ela se sentisse, melhor. — Por que não dançamos? — ele perguntou, estendendo a mão a ela. Não tive tempo de recusar, ela aceitou, me dando um beijo na bochecha antes de ir. Eu a observei de longe, meus olhos treinados em tudo ao mesmo tempo. Sentindo um olhar sobre mim, reconheci Siriu do outro lado da enorme pista formada pelas pessoas dançando. Ele desviou de mim e fitou Onira, depois me olhou novamente. Sua mensagem era clara: eu falhei na missão. Mas eu não hesitei. Nós tínhamos métodos diferentes de fazer as coisas. O meu era eficaz, o dele, por vezes, demorava demais e causava danos desnecessários. Eu não queria e não precisava fazer Onira sofrer mais do que o necessário, então, meu jeito de lidar com a situação não o agradava, mas seria o que alcançaria o objetivo final. Eu não sentia muitas coisas. Mas existia uma pequena lista de pessoas que podiam me fazer reagir. Blair, eu tinha dó da pequena Blair. Um pouco de remorso, talvez. Kaladia, eu tinha raiva. Queria degolá-la e afogá-la em suas garrafas de bebida. Regnar, me fazia sentir a mais crua indiferença. Se eu precisasse escolher matar um inimigo do país e ele, mataria meu irmão sem pensar duas vezes. E Siriu... a minha maior decepção. Onira olhou para mim por cima do ombro de Liémen e sorriu, seus olhos amolecendo e brilhando em minha direção. Ela começava a entrar nessa lista também. Eu sentia um desejo escaldante por ela, mas ao mesmo tempo, acho que não piscaria se precisasse escolher entre sua integridade física e minha missão. Não importa o que isso fazia de mim. Eu era um soldado. Acenei de volta para ela. E cumpriria minha missão, custasse o que custasse. SIRIU — Isso não deveria acontecer. Liémen riu ao lado de Siriu, aceitando mais uma taça do garçom que passou entre os convidados. — O casamento? Seu primo é um homem esperto, vai se divertir enquanto trabalha. — Não. — Siriu afirmou, observando Demeron e Onira dançando. — Isso é pessoal para ele. Sabemos que ele poderia fazer essa mulher falar em menos de cinco minutos. E olhe o tamanho dessa festa. Ele quer que sejam vistos, quer que o mundo saiba que ela está com ele. Eu não sei o porquê, mas vou descobrir. — Siriu. — Liémen suspirou, ficando sério como sempre acontecia quando estava tratando de negócios. — Você o deixou trancafiado por mais de um ano, depois o torturou por meses até que ele aceitasse voltar à ativa novamente. — Não precisa me lembrar disso. — Preciso. Por que como diabos você acha que vai descobrir os planos de um espião que entrou no Kremlin como um soldado russo, colheu informações e nunca foi pego? — Ele é minha família. — Ele te odeia. Eu também odiariase fosse ele. — O traficante riu com vontade dessa vez. — Inferno! Se eu fosse Siriu Konstantinova ia odiar a mim mesmo. Siriu fitou o gangster com seus olhos frios, mas o homem não se abalava, assim como ele. — Você não está atrás de uma cela debaixo do chão onde nem o ar puro entra, porque eu livro você, então veja bem o que você me diz, Von Kimitch. Rindo, Liémen bateu em suas costas. — Vocês Konstantinova, sempre alegrando meu dia. — Eu falo sério. — Mesmo? Você não é o exemplo de moral e honestidade que prega, Senhor X, então não me ameace. Você tem os olhos no governo, mas fora da lei, quem assina sou eu. Era um embate sem vencedor e sem perdedor. Os dois viviam num pé de guerra que nunca teria fim. Siriu devia a Liémen, e Liémen devia a Siriu. Dívidas que nunca poderiam ser pagas. No fim do dia, um precisava do outro para fazer negócios. — Ele sabe? — Liémen perguntou por fim. — É claro que não. Se soubesse, nunca aceitaria a missão. — Cruel de sua parte, não acha? — O sarcasmo na voz de Liémen era nítido, o que fez Siriu franzir a testa, refletindo suas ações. — Não. Estou tentando salvar a vida dele. — Certo, diga o que precisar para conseguir dormir à noite. Sim, Siriu sempre fazia isso, mas nem assim o sono vinha com alguma paz. ONIRA — Hoje eu dou as boas-vindas a uma mulher talentosa, gentil e simpática, recebendo-a em minha família. Essa primeira frase do discurso de Stark no meio do coquetel tanto me amoleceu quanto deixou ansiosa. Apertei a mão de Demeron mais forte e ele percebeu, porque colocou o braço em volta da minha cintura, meio que me cobrindo. — Eu fui indiretamente o cupido na vida desses dois. — As pessoas deram risada, conquistados por sua simpatia. — Onira foi contratada para criar uma coleção de peças raras para a próxima geração da minha família, e acabou se tornando parte dela. Eu respirei profundamente quando seus olhos bateram em mim, olhando-me fixamente. Ele ergueu a taça, e todos o imitaram. — Ao meu filho, e a futura senhora Konstantinova. Toast. — Toast. Eu abracei Demeron, deixando minha boca perto de seu ouvido. — Ele mente tão bem que quase me comoveu. — Não se preocupe, kleine unze. Agora nem ele e nem ninguém tocarão em você. Nem sequer vão olhar em sua direção de forma errada. Você é minha. — Eu realmente não sei o que isso significa. — Significa que nenhum deles está pronto para morrer. Eu sorri e fiquei na ponta dos pés, selando nossos lábios. Aquela era uma promessa que eu estaria feliz em vê-lo cumprir. “...eu cheguei perto demais? Oh, eu quase vi o que está realmente por dentro? Todas as suas inseguranças Toda a roupa suja Nunca me fizeram piscar uma vez Eu te amarei incondicionalmente” KATY PERRY, UNCONDITIONALLY — Hoje é seu aniversário. — Não foi uma pergunta, mas ele confirmou do mesmo jeito. — Sim, faço dezenove. — Feliz aniversário. — Não havia emoção na minha voz, mas ele não esperava isso. Desde que aprendeu a falar e ouvir recebia os mesmos cumprimentos todos os anos. Pelo menos lhe dei carrinhos na infância. — Obrigado — respondeu no mesmo tom. — Eu estive pensando... será que agora posso começar aquela investigação? Um nó apertou meu estômago. — Não. — Mas venho guardando dinheiro para isso e... — Heinrich, quando digo que não, quero dizer exatamente isso. Ele cerrou a mandíbula, contrariado. — Sim, senhor. — Use seu dinheiro como um jovem adulto normal faria. Compre um carro para se exibir, foda prostitutas ou qualquer coisa do tipo. — Não, valeu — resmungou. — Só vou pra casa jogar videogame. — As câmeras na casa da senhorita Ward estão instaladas? — Sim, eu instalei assim que a deixei em casa. — Ela não percebeu nada? — Estava tão bêbada que depois que você saiu com Onira da boate ela dormiu o caminho todo, acho que só acordou na manhã seguinte. — Ótimo. Envie para o meu computador pessoal o link de acesso. — Eu pensei que fosse querer vigilância vinte e quatro horas. — Não, apenas quando Onira estiver lá. Ficamos em silêncio enquanto eu observava os gráficos de estatísticas que Stark havia me pedido. O silêncio entre nós era comum, as vezes esquecemos que o outro estava na sala. Foi assim até que o garoto decidiu que era hora de pegar suas coisas e sair da minha casa. — Senhor, há algo que precisa ver na TV. — Heinrich disse de repente agitado, tirou a TV do “mudo" e aumentou um pouco mais. Era um canal sensacionalista, mostrava a plateia aplaudindo e o apresentador Hans Suevk conversava com um homem. Kurton Ward. Eu o conhecia bem. Mas, o que me chamou a atenção, foi a faixa na parte baixa da tela com as escritas em letra maiúsculas. “O BILIONÁRIO MAIS COBIÇADO DA ALEMANHA KURTON WARD ABRE O JOGO SOBRE SEU CASO COM ONIRA, A ARTISTA E FUTURA SENHORA DE UMA DAS FAMÍLIAS MAIS IMPORTANTES DO PAÍS.” — Demeron? — Temeroso, ele perguntou se deveria mudar de canal, mas eu neguei, impassível, e comecei a assistir. “Então foi um romance longo?” “Hans, você pode dizer que ela quebrou meu coração.” Assassina era o que eu me sentia. Com uma fúria tão grande que quase me cegava! O que diabos aquele imbecil estava fazendo? Quebrei seu coração? Se ele ao menos tivesse um! Eu não podia acreditar no que estava vendo. Desde que terminamos, ele fez o possível para me evitar. Me cumprimentava e fazia piadas maliciosas, mas nunca nem em mil anos eu pensei que ele iria em umas maiores talk shows do país e falaria sobre sua vida pessoal. Sempre foi reservado. As pessoas podiam supor ou saber coisas sobre ele, mas ele nunca confirmava, então agora depois de meu noivado ser capa das maiores revistas, estar entre o top 10 das notícias, ele abriu o bico? Kurton não precisava da força do nome dos Konstantinova, muito menos do meu. E eu lhe conhecia o suficiente para saber que ele não precisava daquele oportunismo barato, então se eu desconfiava o porquê estava fazendo aquilo, meu palpite era: vingança. — Oni, eu juro que não sabia disso — Slom falou, quase em prantos. — Não pensei que soubesse. — Eu não entendo, juro que não entendo o porquê ele está fazendo isso! Ele nunca falou sobre uma namorada, e vocês nunca assumiram! Isso aqui vai virar um inferno muito rápido. “— Eu não tive a sorte de me casar com ela, fui lento demais e Konstantinova pegou o lugar. Desejo sincera felicidade a ela.” Fechei os olhos. Minhas mãos tremiam enquanto tentava responder as mensagens que chegavam no meu celular. A mais insistente era Belle, ela me ligava sem parar, e junto com os veículos de imprensa que tinham meu número pessoal, meu telefone virou uma bagunça. Kurton pediu para mudarem de assunto e começaram a falar sobre seu novo ramo de investimentos. Desliguei a TV, decidindo que se ele dissesse mais alguma coisa, eu não ia querer saber. Meu telefone vibrou em minha mão e atendi no automático, murmurando meu nome. — Não é assim que se cumprimenta um velho amigo. Fiquei sem palavras por um momento, reconhecendo a voz, e meus olhos lacrimejaram. — Mic? — Ei, menina... bom que se lembra de mim. — Onde você se meteu? Pensei que já estava voltando! — Eu estava, mas precisei ficar por mais um tempo. — E não podia nem dar um telefonema? Ou pelo menos atender minhas ligações? Inferno, só uma resposta em alguma das inúmeras mensagens que mandei já estaria de bom tamanho! — Fiquei impossibilitado de entrar em contato. — Mic, você soa como Style. Não sei se ele aprendeu com você ou você com ele. — O moleque. — Mic riu. — Ele aprendeu comigo, é claro. — Por favor, venha para a casa. Eu preciso da família agora. — Eu não posso, menina. Ainda não. — Por quê? — Fui chamado para um trabalho, mas prometo que quando terminar volto. — Que tipo de trabalho? Ele suspirou. — Eu tenho pouco tempo, então chega de falar de mim e me conte que história é essa de Demeron Konstantinova? Frustrada, senti uma carranca formar em meu rosto. — Você só ligou por causa disso. — Epelo menino Ward fazendo bagunça com o seu nome na TV. — Bem, sim, acho que ninguém está muito feliz com meu casamento com Demeron. — Menina, ouça-me com atenção. Você me conhece desde sua adolescência. Alguma vez fiz algo que te machucasse, ou agi para seu mal? — Mic... claro que não! — Então preciso que confie no que vou dizer agora, me escute atentamente. Eu não vou falar como e o motivo, mas preciso que evite esse casamento o máximo de tempo que puder. — O que?! Mic, que pedido é esse? — O de um amigo que quer seu bem. Por favor, Onira, prometa-me vai adiar a data o máximo que puder. — Eu não quero e não vou fazer isso, Mic. Você foi um amigo de Style e um protetor para mim, mas meu irmão se foi, e agora que eu finalmente tenho alguém que se preocupa comigo a ponto de ir contra toda a família, não vou deixá-lo ir por alguém que nem se deu ao trabalho de me responder. Eu passei semanas me perguntando se você estava vivo! Então não, não posso atender seu pedido. — Onira... — E quando nós anunciarmos a data, espero que você esteja aqui. Eu desliguei, profundamente sentida com a conversa. O que Mic me pediu era impossível. Já não bastava Kurton, que agora havia me colocado no meio de um show indesejado. Sabendo o que Demeron deveria estar pensando e sentindo, peguei as chaves do carro, me despedi de Slom sem explicações e sai, meu destino diretamente a Konstantine Business. Quando cheguei, o lugar estava mais agitado do que a última vez que estive ali. Sem contar que o tratamento dado a mim nada a tinha a ver com aqueles dias. Agora eu era a futura senhora Konstantinova... ou pelo menos eu pensava que era. Tudo ia depender de Demeron estar tão possesso com aquela entrevista quanto eu estava. Queria ligar meu celular, chamar Kurton e dizer algumas coisas que fariam um marinheiro sentir vergonha, mas não faria isso, minha prioridade naquele momento era meu noivo. Esperei até que as meninas da recepção terminassem de atender os visitantes, e elas me encaravam inquietas, eu sabia que podia ir até lá e pedir para me informar sobre ele, mas eu odiava quem chegava se impondo no meu trabalho, então estendi a mesma cortesia de educação a elas. — Senhorita Tieko? Eu virei o rosto, vendo o mesmo garoto que estava com Demeron na boate de Kirina e acenei. — Olá. — Senhora, meu nome é Heinrich. — Ele apertou minha mão rapidamente e deu um passo atrás, colocando os braços atrás das costas. — Veio ver o senhor Stark? — Na verdade não, vim ver Demeron. — Entendo, ele está esperando pela senhora? Enquanto ele falava, mais uma vez percebia como era parecido com os Konstantinova, e decidi perguntar a Demeron se tinham parentesco. — Eu não o avisei, mas aconteceu algo realmente chato e eu preciso falar com ele urgente. — Senhorita Tieko, não acho que será possível. Eu ia perguntar o porquê, mas no mesmo momento, vi um homem saindo do elevador e indo para a saída, dois outros caras o ladeavam. Tão rápido quanto ele apareceu, sumiu. — Padre Terry? — murmurei comigo mesma, confusa sobre o porquê de o padre do meu bairro aparecer ali, ainda mais sem sua batina. — Vou levá-la para vê-lo. — Heinrich falou, chamando minha atenção de volta para ele. Mas, eu ainda encarava o lugar onde o padre saiu, me perguntando se era realmente ele. — Acho que vi um conhecido. Heinrich acenou minimamente para um dos seguranças na porta antes de virar para mim. — Deve ter se enganado. A senhorita quer ver Demeron? — Ok, claro. Nós entramos no elevador juntos e ele me levou silenciosamente até o vigésimo quarto andar. Mais quatro acima ficava o de Stark, onde eu tinha visto Demeron pela primeira vez. Quando aqueles olhos azuis gelo me encantaram. — Vou deixá-la na sala de visitas e avisar a Demeron que está aqui. — Não precisa se incomodar, Heinrich, posso ir até ele. O menino desviou o olhar, já saindo. — Na verdade, preciso procurá-lo pelo prédio, mas não é incomodo nenhum, ele estará aqui em alguns minutos. Eu entrei, vendo a sala aberta e me sentei num pequeno sofá. Tinha um quadro enorme que ia quase de parede a parede, com uma vista de Berlim. Reparei que em cada andar tinha um daqueles com uma cidade do país. Eles eram realmente patriotas. Ouvi uma voz familiar se aproximando, e levantei, indo na direção deles, mas parei quando estava quase saindo e do lado de fora vi Siriu se inclinar, dando um beijo em Naya. Eu suspirei pensando em Slom. Minha amiga era durona, mas estava tão encantada por Siriu que eu não sabia como ela ia lidar com isso. Ele claramente não estava sério sobre ela, e eu já estava escondendo coisas demais dela. Não podia deixá-la se iludir, ia contar o que vi, mas a decisão seria dela. Eu bem sabia o que era querer alguém o suficiente para fazer loucuras. Como me casar. Naya olhou para cima e me viu, seus olhos arregalaram e ela corou, sorrindo sem graça. — Droga, eu não te vi aí. Eu sorri, aceitando seu abraço. — Não se preocupe, eu nem vi nada. Ela riu, revirando os olhos. — Viu sim, mas tudo bem, eu não sou tímida. — Então... você e Siriu? Ela me fitou com o canto dos olhos, mordendo a pontinha do polegar. — Nós apenas... jantamos. — Parecia bem íntimo. — Parecia, não é? Ele é tão intenso. Ela levantou os braços, prendendo o cabelo para trás e eu vi uma marquinha fofa no pulso. — É uma tatuagem? Ela virou o braço, apontando para onde eu vi e sorriu. — Sim, fiz a alguns dias. Admirei o pequeno trio de corações em volta de um círculo em seu pulso. Pouco acima, tinha outra, assim como nos dedos da mão. Eram tatuagens delicadas, nada que poluísse a beleza dela. — São lindas. — Obrigada. São dos meus casamentos. Eu dei risada da piada, mas quando ela me deu um sorriso constrangido, percebi que falava sério. — Me desculpe — pedi — Mas... casamentos? Naya riu, dando de ombros. — Sempre me apaixono rápido demais, namoro ou caso. Faço as tatuagens quando a relação acaba. — Não seria mais fácil escrever músicas sobre eles? — Eu quero me lembrar sempre do motivo acabou e o que cada um deles me ensinou. Além disso, adoro tatuagens. — Posso perguntar sobre os três corações? — Claro! — Ela me levou até o sofá, nos sentamos e virou o braço, mostrando-me os traços finos da tinta — Esse foi Aron Cavins, o ator daquela série de vampiros. Terminei quando ele me traiu com duas figurantes da série. Dois corações são delas e um é o meu. Inclusive, ele era meu noivo na sua exposição. Quem em sã consciência traia alguém como Naya? Ela era perfeita. — Ele me parece um idiota. — Ele com certeza era. — Ela riu. — Mas, já superei, assim como todos os outros, então talvez eu seja o problema. — É claro que não! Acho que você só não encontrou o seu alguém ainda. Ela bufou, sorrindo sem se empolgar. — E já sei que Siriu não é esse alguém. — Por quê? O jantar foi ruim? — Foi nosso primeiro encontro e eu encontrei duas mulheres com quem ele saía. — O que? Como isso é possível? — Você não vai acreditar nisso nem em mil anos. Eu fui ao banheiro quando estávamos prestes a ir embora, ele pagou a conta e foi tão incrível a noite toda. Mas, quando fui retocar o batom, as duas estavam lá, sorrindo para mim como se eu fosse a própria lua no céu e me deram um cartão, dizendo que eu era bem-vinda ao clube quando ele terminasse comigo. — Está falando sério? — Sim! — Ela sussurrou com veemência, olhando a porta para garantir que ele não estava vindo. — Ele praticamente tem um clube de ex- namoradas! — suspirando, ela balançou a cabeça. — Eu o conheço há tantos anos e só agora ele me chamou para sair. Meu padrinho ficaria nas nuvens com isso. Dei um aperto em sua mão. — Não tive tantas experiências no setor homens, e já passei por uma que foi e está sendo um problema. Mas Demeron aconteceu e por isso eu sei que você vai encontrar alguém. — Você acha? — É claro. Depois dos idiotas sempre vem alguém para limpar a bagunça. Nós demos risada. — Onira, você tem transformado o Demeron,eu nunca o vi proteger alguém tão ferozmente. Nunca o vi desse jeito, nem mesmo em seu primeiro casamento. — Casamento? — Franzi a testa — Que casamento? Ela arregalou os olhos, gaguejando nas palavras. — E-eu pensei que... Você não sabe? — Não, eu não sei. O clima leve e descontraído foi imediatamente substituído por tensão. — Pelos deuses, sinto muito, Onira. Pensei que ele tivesse contado. — Me contou o que? Ela olhava de um lado para o outro, engoliu em seco e levantou. — Sinto muito mesmo. Eu fui atrás dela, segurando a porta. — Naya, diga-me! Os olhos cheios de lágrimas me encaravam com firmeza. — Eu queria, mas essa história não é minha para que eu conte. Então ela saiu, deixando-me ali parada por vários minutos. Meu coração acelerado, as pernas trêmulas e a garganta seca. Eu queria ir até ele e sacudi-lo, exigir que me dissesse que droga de história era aquela. Por que até então eu não sabia de nada? Mesmo que ele deveria, mas nunca contou, um casamento não era algo que ficava escondido. Siriu voltou para a sala e olhou ao redor. — Onde está Naya? Eu não respondi. Ele me olhou mais de perto e algo em meu rosto deve tê-lo alertado. — Onira... está tudo bem? — Demeron já foi casado? A expressão de Siriu não se alterou, ele só me encarou por vários minutos antes de responder. — Sim. Ele não parecia preocupado, nem tampouco magoado que Naya não havia ficado. Talvez aquela falta de emoções estivesse no sangue deles. Demeron por me enganar, e Siriu por enganar duas mulheres e sabe lá quantas mais, ao mesmo tempo. Eu respirei profundamente, o fitando com seriedade. Olhei para o corredor que levava aos elevadores um segundo, onde Naya o devia estar esperando-o. — Nós não nos conhecemos muito bem, eu sei disso. Mas, Slom está na minha vida a anos, eu sei que essa coisa de dormir casualmente não funciona com ela, então, se você não estiver sério com ela... não machuque a minha amiga. Ele assentiu e olhou para o corredor também, talvez tivesse entendido meus pensamentos sem eu precisar dizer. — Tem razão, Onira. Nós não nos conhecemos. Então ele tirou minha mão da porta e saiu, a fechando. Eu me afastei, e cambaleei até o sofá, enfiando o rosto entre as mãos. Onde foi que me meti? Pouco depois, foi assim que Demeron me encontrou. Ele entrou na sala com tranquilidade, passos calmos. — Onira, o que houve? — Com a testa franzida, chegou perto de mim, esticando a mão para me tocar. Eu fiquei de pé, me afastando. — Você foi casado? Ele respirou profundamente. — Quem te disse? — Você não vai negar? — Quer que eu minta? Sua voz cínica e calma me tirou do sério. Eu estava fervendo. — Como foi que escondeu isso de mim? Planejava nunca me contar? — Vamos conversar. — Proibiu a todos que falassem sobre isso? Porque agora eu estou aqui me perguntando o que mais você tem escondido de mim! — Onira. — Mas o que eu esperava? Me casando com alguém que não conheço! — Você me conhece. — Mesmo? Eu não vejo como. Isso faz parte de um relacionamento normal, você me conta coisas sobre si mesmo e eu devolvo te contando sobre mim. Qual sua cor preferida, melhor viagem que já fez, que já esteve na porra de um casamento! No final eu estava gritando, e ele continuava ali apenas me encarando com as mãos nos bolsos e aqueles olhos que nem piscavam. — Como você me contou sobre Kurton Ward? — Eu não me casei com Kurt. — Então a gravidade dos segredos na nossa relação será julgada por comparações? Eu escondo que fui preso por seis anos e você esconde que foi presa por dois, mas eu estou mais errado porque fiquei mais tempo na cadeia? — Não é isso... — Meu ex casamento não foi exposto para o mundo, com a pessoa se declarando para mim. — Ele não estava se declarando! — Você assistiu até o fim? — Ele deu um passo mais perto, inclinando a cabeça para ficar com o rosto incrivelmente perto do meu, precisei esticar o pescoço para olhar em seus olhos. — Porque eu assisti. Eu vi como ele falou de algo, meu como se lhe pertencesse. Sua mão veio até meu rosto, acariciando levemente. — Se ele falar sobre você novamente, serão as últimas palavras dele. Eu ofeguei. — Demeron! Você não pode controlar as coisas que alguém diz. — Eu posso e eu vou. E se você falar com ele novamente... — Não me ameace! — Não estou ameaçando você, eu estou fazendo uma promessa a ele. Uma que Kurton já está ciente. — Você está sendo irracional. Eu vou me casar com você, não com ele. Quem se importa com o que ele diz na TV? — Eu me importo, porque ele fala como se você fosse um dos carros de luxo em sua garagem que eu peguei emprestado para um passeio. — Você me mostra uma personalidade a cada dia. Foi por isso que seu primeiro casamento terminou? Ele me deu um sorriso de dar arrepios. — Não. Meu casamento terminou porque minha esposa era uma vadia. — Eu espero que você não tenha falado isso dela quando eram casados. — Uma vez. Peguei minha bolsa, dando as costas a ele. — Eu não posso lidar com você agora. — Mas vai. — Ele passou por mim, fechando a porta e ficando na frente dela, impedindo-me de sair. — É a Kirina? — Isso não importa, acabou. — Deixe-me ir. — Você não quer ir, quer que eu implore seu perdão por ter escondido algo que acha que é sério. — Eu não... E você não acha sério? Já dividiu sua vida com alguém, Demeron, isso não é pequeno. — Ouvir seu ex namorado falando que estreou a ilha dele com você também não. Meus olhos arregalaram. — Ele disse isso? DEMERON — Sim. Ele não tinha dito, mas a pesquisa que Drux fez sobre o cara veio a calhar. Ela ia me deixar, eu sabia disso, levariam talvez dias para a convencer a voltar para mim, então eu precisava pegar um atalho. — Eu não vi essa parte — respondeu, e eu vi seus olhos amolecerem enquanto ela engolia em seco. — Onira, eu te quero comigo. Quero me casar com você, então se uma fofoca do que aconteceu anos atrás é o suficiente para nos separar, como vamos dar certo? — Não é uma simples fofoca! — Se está fazendo isso porque a declaração de Ward te fez mudar de ideia, se quer voltar para ele... — Não! — Ela gritou, deixando a bolsa e segurando meu rosto. — Não é nada disso, eu quero me casar com você mais do que tudo! Mas tenho medo de que esteja escondendo mais coisas e... — Eu não me casei na igreja, nem dei a ela uma joia antiga da minha família. — Segurei o colar em seu pescoço, dando o efeito na fala. — E não a apresentei para o mundo. Foi algo de anos atrás, que acabou porque não deveria nem ter começado. Diferente de nós. Ela desviou os olhos de mim, amolecendo a cada palavra minha. Eu segurei seu queixo, trazendo seus olhos para os meus. Ela era bonita. Muito bonita. Era minha, não de Kurton Ward. — Acredite em mim, liebe. Nós vamos construir uma vida juntos. Ela fungou, ainda insegura. — Você tem algum contato com ela? — Ela não é alguém importante na minha vida. — Beijei sua testa — Ela não é você. Eu selei nossos lábios, beijando sua boca enquanto ela me abraçava com força, choramingando baixinho no meu peito. — Nós ainda vamos falar sobre isso. — Como você quiser. — Mas, por agora, eu estou cansada. Então só... só vamos para casa. — Ela disse por fim. E eu concordei, no caminho, enviando uma mensagem a Heinrich para dar o sinal na ordem que eu havia encomendado mais cedo. “Fique no escuro Os segredos que você mantém estão prontos Você está pronto? Sou o que sobrou, sou o que está certo Eu sou o inimigo Sou a mão que vai levá-lo para baixo Fazê-lo ficar de joelhos” FOO FIGHTERS, THE PRETENDER “Meu irmão sofreu um acidente, preciso ficar no hospital com ele hoje” Eu olhava aquela mensagem de Slom a cada poucos minutos enquanto esperava Demeron chegar no restaurante. Existia uma suspeita na minha cabeça sobre o acidente muito conveniente, mas eu estava ignorando tudo dentro de mim que levava a aquilo. Nós completávamos dois meses de noivado. Sua famíliapressionando para escolhermos a data, e ele tão ansioso quanto Belle para isso, mas eu não cedia. Por algum motivo, eu fugia do assunto todas as vezes, muitas vezes se tornavam até desconfortáveis. Além das ofertas que eu recebia dos estilistas e de organizadores de casamentos ao redor do mundo, Belle sempre aparecia com mais alguém para indicar. Certo dia cheguei na mansão, sendo ignorada por Angelina que nem sequer me disse um “oi”, e fui diretamente levada para a sala, onde cinco modelos vestidas de noiva me esperavam, então Belle as fez desfilar, dizendo que um deveria ser meu escolhido. Eu não queria que ela organizasse meu casamento ao seu gosto, nem que escolhesse o meu vestido e nem que fizesse a lista de convidados como tinha sido no noivado. Eu disse isso a Demeron, e depois Belle não interferiu mais. Ela ainda aparecia vez ou outra me dando “conselhos” e “dicas”, mas eu aprendi que jogar para cima de Demeron resolvia o problema. “Demeron vai escolher isso.” “Belle, fale com Demeron.” “O que Demeron achou?” Ela mudava de assunto na mesma hora. Meu noivo tinha esse efeito sobre ela. Ao invés de acelerar mais ainda do que já tínhamos feito, eu o fiz me levar para jantar, ele dormia na minha casa sempre que podia, e nós batizamos cada cômodo da minha casa e da mansão. Descobri que ele não tinha uma casa, apenas um flat que dormia quando não estava na mansão. Ele não ria dos programas de TV que eu achava engraçado e não tinha paciência para acompanhar séries. Ele me comprou presentes, levava flores e me beijava quando eu falava demais. Eu não sabia coisas profundas sobre ele, Demeron não compartilhava inseguranças, medos e sonhos. Ele sabia tudo sobre mim, desde os países que eu já visitei até meu portifólio de esculturas, mas se eu sabia seu nome completo era muito. Ele não falava sobre o trabalho, sobre planos para o futuro e nem sobre seu casamento, que era o que mais me assombrava. Mas, ele me abraçava forte, me beijava com paixão e me protegia até da minha sombra. Eu sabia tudo o que precisava saber do homem que eu ia me casar. Me acostumei com o fato de ser tão reservado e sabia que com o tempo se abriria para mim. – Senhora, posso servir mais uma taça de vinho? – O garçom perguntou, atraindo minha atenção. – Não, obrigada. Só me traga a conta. – Já tinha tomado duas, era o suficiente. Eu avisei a ele que estaria esperando as 19h. Eram 20h40 e ele não chegou. Paguei e sai de cabeça erguida, como se tivesse realmente ido apenas para tomar vinho em um dos restaurantes mais caros de Berlim e ir embora pouco depois. Havia dois diabinhos em meus ombros. O do direito, dizia que eu era uma completa idiota. O do esquerdo, dizia que ele tinha algo mais interessante para fazer do que comemorar uma data que deveria ser importante para nós dois. Onde estava o anjinho para me convencer a conversar civilizadamente e não erguer a mão para o meu futuro marido? Ou mudar de ideia sobre jogar o anel caríssimo que ele me deu em seu belo rosto? Ninguém me parou quando entrei na Konstantine Business com meus saltos fazendo um estrondo no chão de tanta raiva. Talvez meu rosto dissesse tudo. Eu não carregava uma expressão sorridente como eles estavam acostumados a ver, e nem cumprimentei todos, e agradeci que ninguém me interrompeu. Fiz meu caminho até o quinto andar, que era onde ele costumava ficar e entrei em sua sala. Passando pela assistente, Katya e deixando-a falar sozinha. A porta estava fechada, mas eu entrei. Meu noivo e três homens estavam debruçados sobre uma mesa, com uma cartolina esticada e escrevendo algo nela. Eu não me importava. – É nosso aniversário hoje. Ao menos se lembrou disso? Ele me encarou por segundos que pareceram horas. – Terminaremos mais tarde – disse, ainda me olhando com a expressão séria. Os homens saíram, acenando para mim, mas eu não tirei os olhos dele. O último saiu sem fechar a porta e eu fui até lá e a bati com força, fazendo um quadro na parede balançar. Ele ergueu uma sobrancelha clara. – Responda a minha pergunta. – Não. – Não o que? Não vai responder ou não se lembrou? – Não me lembrei. – Você é inacreditável. – Balancei a cabeça, agarrando meus cabelos. – Sabe como eu me produzi hoje, me arrumei para você, para essa noite! – Você está sempre arrumada, Onira. Sempre está bonita. – Era uma data especial! Nós ficamos noivos há dois meses. – É uma data. Amanhã completamos dois meses e um dia. Continuamos noivos, você ainda é minha. – Demeron. – Lambi os lábios, tentando encontrar paciência e uma forma de explicar como aquele tipo de coisa era importante para mim. – Não comemoro datas, Onira. Isso não faz sentido. O fitei, incrédula. – Faz sentido para mim! Faz sentido para qualquer relacionamento. – Não temos um relacionamento normal. – Ah não? E o que temos então? Cerrando a mandíbula, ele ergueu o queixo e me deu as costas e voltou a mexer em seus papéis na mesa. – Largue a bolsa, Onira. Deite-se no sofá e descanse. Essa crise passará com um pouco de sono. Eu pirei. – Crise? – gritei, sem acreditar em como ele era... urgh! Ele me olhou novamente, colocando as mãos na cintura. – Tudo bem, desculpe-me. Estamos bem agora? – Não, nós não estamos bem. Eu quero matar você. Me fez ficar esperando num restaurante cheio, onde só casais vão e fiquei sozinha por mais de uma hora! Você deveria ter ido ao meu encontro, jantaríamos juntos e, então iríamos para casa depois, mas você estragou tudo! – Me aproximei dele, batendo meus punhos em seu peito, louca de raiva que ele não reagia. – Com sua insensibilidade, sua falta de palavras e seu desprezo! POR QUE QUER SE CASAR COMIGO, DEMERON? POR QUÊ? Ele segurou meus pulsos em uma mão e minha nuca com a outra, puxando-me para a frente e tomando minha boca num beijo agressivo, que ardeu meus lábios. Eu mordi sua língua e ele rosnou, me empurrando para trás até que bati na mesa, e no segundo seguinte estava em cima dela, meu vestido sendo levantado e eu já não sabia se batia ou o abraçava. Mas, então ele estava lá, me preenchendo e mordendo meu pescoço, beijando minha boca como se eu fosse sumir. As mãos grandes e ásperas puxavam meu cabelo, agarravam minhas coxas e me puxava para mais perto, para meter mais forte, mais rápido, fazendo a mesa raspar no chão e os objetos caírem de cima dela. Eu arranhei seu pescoço, soluçando em meio aos beijos. Ele não acalmou, me fodeu como na primeira vez e só parou quando eu estava gemendo seu nome e gritando, e senti seu líquido correr dentro de mim. Fiquei ali por longos minutos, acalmando minha respiração, agarrada nele enquanto meus sentimentos iam da raiva ao desejo, da vontade de mandá-lo sumir, mas do desespero de estar longe dele. De ficar sozinha outra vez. Eu sabia que a solidão não era um problema. Os pesadelos, e a vida solitária sempre foram fáceis de lidar, mas minha obsessão por Demeron chegava a tal ponto que não importava o que acontecesse, eu não sabia se podia me separar dele. Eu queria deixá-lo ir. – Sinto muito ter feito você esperar. Fiquei trabalhando em algo e não vi a hora passar. – Katya é sua assistente, use-a para o que ela é paga para fazer. Te lembrar e te ajudar. Seus braços ainda estavam em volta de mim. – Sair com minha futura esposa não deveria ser algo que alguém precisa me lembrar, não farei isso de novo. Eu me afastei um pouco e olhei nos olhos dele. – Compromissos, datas, palavras... são importantes para mim. Eu nunca tive isso, Demeron. Estou sozinha. Se você acha que querer comemorar a data que você se tornou a pessoa com quem vou dividir o resto da vida é algo sem importância... então isso é um problema para mim. – Não será. Eu prometo que vou ser melhor. Nós nos arrumamos em silêncio e depois o ajudei a pegar as coisas que tínhamos derrubado. – Você está bem? – Minha cabeça dói. Ele me deu um pequeno sorriso fechado. – É claro que dói. Ainda quer jantar? Sorrindo, mas ainda magoada, assenti. – Sim, quero. – Entãovamos. – Ele abriu a porta e me estendeu a mão. Eu aceitei, deixando-o me puxar para perto. – Você está realmente linda. Eu sorri de verdade dessa vez, o acompanhando para fora. Ele beijou minha bochecha enquanto andávamos e Katya franziu a testa, inclinando a cabeça para ele, mas disfarçou e sorriu para mim. De repente, um barulho alto veio do outro lado do andar, e Demeron segurou minha mão mais apertado, correndo até lá. Ouvi gritos e algo que parecia um tapa, e fiquei um pouco aliviada por Katya ser praticamente a outra única pessoa no andar com a gente. Quando nós entramos na sala aberta que dava o final do corredor, eu vi Kaladia pegando sua bolsa e dando um tapa na mão de Regnar quando ele tentou puxá-la. Mas, ele não desistiu e a puxou de novo, a empurrando na parede e ia falar algo, mas ela nos viu e parou de lutar. – Está tudo bem? – perguntei quando Regnar a soltou e sorriu para mim. – Cunhada! É claro, tudo ótimo. Apenas conversando. Eu fitei Kaladia, que tentava disfarçadamente arrumar o cabelo. – Você está bem? – Como meu marido disse. – Vamos – disse Demeron, apertando minha mão para voltarmos e esperar o elevador. – Irmão, espere! – Ele nos seguiu e entrou no elevador conosco. – Minha kleine hexe e eu vamos jantar. Por que não vão conosco? – Temos planos. – Demeron respondeu e eu agradeci. Kaladia me odiava, e eu começava a não me importar mais em tentar fazê-la mudar de ideia sobre mim. E por mais que Regnar fosse engraçado, e junto com Siriu e Belle, os únicos que tentassem me fazer sentir confortável, sua esposa parecia querer arrancar meus olhos sempre que ele falava comigo. Era um casal que eu não entendia e nem queria entender. – Que isso, vamos! – Ele bateu nas costas de Demeron, rindo e abraçando Kaladia pela cintura. – Seria ótimo tê-los com a gente, não é, querida? – É claro. – Os olhos azuis dela eram tão frios quando me encarou que eu queria descer no próximo andar. – Nós já somos irmãos, mas elas duas serão como irmãs quando vocês subirem no altar. É bom que se acostumem uma com a outra. Ele não ia parar, então ia fazer um inferno na minha vida a próxima vez que fôssemos na mansão. – Talvez possamos tomar um drink enquanto eles esperam a comida. – Eu disse a Demeron, pousando minha mão em seu peito. – Fantástico! – Regnar respondeu, beijando sua esposa como se nós não estivéssemos ali. Quando chegamos a garagem, combinamos de ir em carros separados e nos encontrar lá. Os dois já tinham a mesa reservada, e Regnar insistiu que o garçom não se importaria de proporcionar uma maior. Quando eu perguntei como ele tinha tanta certeza, ele riu, e até Kaladia deixou um rápido sorriso escapar, disfarçando depois. A mesa era numa das salas privadas do restaurante e o maitre nos acompanhou até lá, entregando o cardápio e trocando rápidas palavras com os três. – Como está a encantadora Angelina? – Perguntou a Kaladia. Para a minha surpresa, ela sorriu. – Ótima. Anda reclamando que eu não a trouxe mais aqui. – Ora, essa! Diga a ela que vamos enviar um convite especial e o Chef vai aguardá-la para servir a primeira refeição! Kaladia riu, e eu observei como seu rosto se transformou de uma mulher séria e fechada, para uma jovem bonita, estonteante. Não havia nenhum brilho em seus olhos, mas o sorriso me deixou ver como era além de uma beleza clássica. Regnar parecia ser descontrolado por ela, mas eu conseguia entender de onde vinha aquele sentimento. – Obrigada, avisarei a ela. Nós ficamos em silêncio depois disso, eles lendo o cardápio e nós dois, decidindo que bebida tomar. – Algo rápido. – Demeron disse, colocando meu cabelo para trás com as costas da mão. – O que você me indica? – perguntei com um sorriso. – Kaladia pode te dar as melhores dicas sobre isso – disse Regnar, antes que Demeron pudesse me responder. Eu olhei para ela, que continuava lendo como se não tivesse lhe escutado. – Não é, querida? – Jägermeister puro é ótimo. – Viu, ela entende. Aquele era um dos licores mais fortes mesmo para beber misturado com algo, eu nem queria imaginar puro. – Já me decidi. – Ela disse por fim, pegando a taça de água. – Vou querer o mesmo que você. Regnar levantou a mão, chamando o garçom que estava no canto, um pouco distante para nos dar privacidade e pediu para nós quatro. Um silêncio desconfortável se instalou enquanto esperávamos e depois éramos servidos. Eles com os pratos, e para nós, os drinks e aperitivos. – Já decidiram onde vão morar? – Regnar perguntou. – Ainda não – respondi, vendo que Demeron não se incomodaria em fazer isso. – Amo a minha casa, e Demeron já se acostumou a ela, então talvez ficaremos lá por um tempo. – E você, irmão? O que acha dessa ideia? – O que ela quiser será ótimo. – Claro que sim. – Regnar sorriu, puxando a cadeira de Kaladia mais perto da dele. – Assim que os papéis do nosso divórcio saírem terá mais espaço livre na mansão, talvez queiram se mudar para lá. – Ela disse, o que fez Regnar sorrir mais ainda. – Então vão realmente se divorciar? Eu não queria parecer intrometida ou curiosa, mas eles eram o casal mais incomum que eu já tinha visto e, além disso, falavam da separação com tanta naturalidade, como se fosse uma piada. – Vamos. Kaladia gosta da ideia de ficar se divorciando e se casando de novo. Demeron ficou tenso ao meu lado, deixou o copo na mesa e arrastou a cadeira para trás. – Devemos ir. Obrigado pela bebida. – Por que tão cedo? – Regnar perguntou, o sorriso no rosto agora sumindo, e ele ficou de pé também, olhando Demeron nos olhos. – Sente- se, irmão. Vamos terminar o jantar. – Regnar, já chega. – Kaladia pediu entre os dentes cerrados, puxando-o pelo braço para se sentar novamente. – O que foi, querida? Eu só quero terminar de jantar com minha família. Percebendo como Demeron estava desconfortável, fiquei de pé, sorrindo para o casal. – Nós temos outro compromisso. Sinto muito, precisamos ir. Regnar sorriu novamente, assentindo, como se os últimos tensos minutos não tivessem acontecido. – É claro, mas antes de ir, Onira, eu queria agradecer. Franzi a testa, sentindo a mão de Demeron apertar meus dedos. – Pelo o que? – Quando almoçamos juntos e eu pedi que fizesse meu irmão feliz. Eu engoli em seco, sentindo Demeron entrando em ebulição de tanta raiva. – Ele me faz feliz também. Nós viramos as costas e demos dois passos, então ele deu o golpe final. – Pelo menos agora tenho certeza de que ele não quer minha Kaladia de volta. Tudo aconteceu num único segundo. Nós estávamos saindo, e no próximo, ouvi o grito de Kaladia e eu estava encostada na parede mais próxima. Demeron estava voando em Regnar, não sei como ele foi tão rápido, mas havia uma faca de repente em sua mão e ela estava pressionando a garganta de seu irmão. Eu estava anestesiada, em choque, enquanto observava os lábios de Demeron se movendo no rosto dele, Regnar sob a mesa, e tentando segurar o braço do irmão longe, para que a faca não seguisse o curso que Demeron apontava. Um fio de sangue escorreu do corte e ao ver isso, o rosto de Kaladia se transformou. Regnar soltou o braço de Demeron e a faca aprofundou mais, diante dos meus olhos, Demeron começou a rasgar a pele. Então Kaladia estava em cima dele. Eu não sei como ela fez aquilo, de onde tirou força, mas deu um soco, seguido de um chute calculado em Demeron, que o fez cambalear, ele avançou para ela, erguendo os braços em frente ao rosto e ela continuou parada, o fitando. Não havia medo em seu olhar. Os pés separados e as mãos em punho ao lado do corpo. Mas, antes que a alcançasse, Regnar entrou na frente dela, apontando uma arma para ele. – Acabou. – Fale por si mesmo. Então ele pegou minha bolsa do chão, segurou meu braço e me levou para fora. As pessoas no salão aberto, fora da sala VIP estavam olhando naquela direção e os garçons do lado de fora pareciam temerosos sobre entrar ou não. Demeron não parou, eu me sentia em transe sendo arrastada para o carro, colocadano banco passageiro e indo através do trânsito. Não falei nenhuma palavra e ele não quebrou o silêncio. Dirigia calmamente, como se nada tivesse acontecido. Mas, para mim aconteceu, e foi tudo muito real. O sangue de Regnar, o ódio em seus olhos, a revelação sobre Kaladia. Eu estava tão curiosa para saber aquilo, mas agora que tinha a resposta, desejava que Naya nunca tivesse me contado. A ex-mulher do meu noivo estava bem debaixo do meu nariz. E ela era casada com o irmão dele. "Sua presença ainda permanece aqui E isso não vai me deixar em paz Essas feridas parecem não querer cicatrizar Essa dor é muito real Há simplesmente tantas coisas que o tempo não pode apagar..." EVANESCENCE, MY IMMORTAL Eu sabia que ela estava em choque. Qualquer civil ficaria, qualquer pessoa normal. Foram muitas coisas para processar, e ela não estava falando, o que era incomum para Onira. O sucesso da minha missão estava por um fio, foi demais para ela e agora, eu teria que ser cuidadoso e meticuloso para lidar com as consequências. Ela era emotiva, emocional demais... humana demais. Regnar, já havia me fodido muitas vezes, mas agora, sabendo o que estava em jogo, foi a pior. Eu o teria matado ali mesmo. Se não fosse Kaladia eu teria rasgado sua garganta até assistir a vida escapar dele. Estacionei o carro em frente à sua casa, onde ela visualizava nós dois e pretendia que fosse nosso lar. Desci e abri a porta para ela, a puxando para fora e a levando para dentro. Acendi a luz, ficando de pé um pouco distante, observando enquanto ela olhava ao redor e parecia finalmente voltar a si. Fui até a cozinha, pegando um copo d’água e a entreguei. Ela tomou longos goles, deixou o copo na mesa de centro e a bolsa no sofá. Então ela me encarou. – Eu quero que você saia. E Demeron... não volte. Contive um suspiro, sabendo o que precisava fazer. E seria malditamente desconfortável. O sentimento ao dizer aquilo foi pesado, me fez ter ânsia saber que ele poderia sair pela porta e nunca mais voltar. Mas, como eu podia continuar com alguém que mentia, aliás, escondia coisas como aquela? – Onira... liebe, ouça-me. Ele se aproximou, tentando segurar meu rosto. – Outra vez? Eu não posso. Eu fui contra meus instintos, minha única família, meus amigos, tudo por você. Porque não consigo voltar para casa e não pensar em você, nem mesmo começar uma escultura e não imaginar o que você pensaria dela. Então... eu vejo você atacando o seu irmão. Eu solucei, incapaz de conter as lágrimas. – Eu descubro que foi casado com a sua cunhada! – É passado. – É por isso que ela me trata dessa forma? Vocês ainda sentem algo um pelo outro? – Ela está morta para mim, não há ninguém além de você, Onira. Eu lhe disse isso. – Sim, você disse. Você realmente disse. Mas eu não sabia que precisaria viver com ela diante dos meus olhos. Ou pensar que você pode matar seu irmão sem hesitar, ou que vocês andam com armas e apontam um para o outro como se fosse normal. – Nós somos soldados, é claro que temos armas. – Você tem uma aí agora? Ele hesitou. – Sim, mas se não preciso dela, não a pego. Você não está em perigo. – Demeron – falei calmamente. – Você cortou a garganta do seu irmão. Seu próprio sangue. – Entendo que esteja com medo, mas o que você está pensando... se está com medo de mim... – Não estou. Por algum motivo, ainda acho que não vai me machucar. – E está certa, então qual é o problema? – Se fez isso com Regnar, só consigo pensar em dois motivos. Ou você não tem um coração, empatia... ou o fato de ele estar com Kaladia mexe com você o suficiente para que queira matá-lo. Então isso me leva a pensar que você a ama. – Eu não me casaria com você se amasse alguém. – Quem é o homem com quem eu vou me casar, Demeron? Para quem eu disse sim? – Eu não sei como te dizer, kleine unze, mas nós vamos descobrir. – Segurando meu rosto, ele beijou-me delicadamente, sem pressa, sem fogo, só um beijo terno. – Mas, não desista de mim, Onira, não me deixe. Passei meus dedos entre os cabelos macios, sentindo minhas próprias lágrimas nos lábios. – Essa é a última vez que você mente para mim. Juro, Demeron, se houver mais alguma coisa, diga agora. – Eu não vou mais mentir. É uma promessa. – Tudo bem – sussurrei. Ele me beijou, e eu aproveitei o abraço, o segurando firme antes de me afastar. – Vamos nos deitar um pouco. – Não. Ele franziu a testa. – O que foi? Você está bem? – Estou bem. Mas eu vou me deitar e você vai sair. Ele ficou tenso, tentando me alcançar outra vez, mas me afastei. – Não. Eu preciso de tempo. Tempo para saber se acredito em você, se posso viver sabendo que a qualquer momento vão jogar uma bomba em cima de mim. Ele lambeu os lábios, cerrando a mandíbula e estreitando os olhos. – O que você precisa que eu faça? Me diga o que quer para esquecer isso e voltarmos ao normal. Eu balancei a cabeça, deixando um pequeno sorriso triste escapar e fui até a porta, a abrindo. Ele não entendia. – Tchau, Demeron. – Onira. – A voz firme, controlada, continuava a mesma, mas havia algo em seus olhos, algo que nem quando o confrontei pela primeira vez eu vi. Abri mais a porta, e esperei por vários minutos até que ele visse que estava falando sério. Mas, quando ele saiu, eu a fechei rapidamente e fiquei ali encarando o nada. Estava sozinha outra vez. “Durante toda a minha vida procurei algo Algo que nunca chega, nunca leva a nada, nada me satisfaz mas estou chegando perto da recompensa na ponta da corda Me deixa com a sensação de vazio A sensação ganha vida quando vejo seu fantasma” FOO FIGHTERS, ALL MY LIFE — Style. — O chamei baixinho, cutucando sua bochecha. — Irmãozinho? — Hum. — Ele resmungou, ainda dormindo, e tirou minha mão. Mas eu podia ouvir as vozes ficando mais altas, seria diferente dessa vez. Mamãe ia trazer seus amigos outra vez. — Style, por favor. — Não, Oni. Vá dormir. Coloquei o dedo na boca, sugando e me sentei no chão. As vozes aumentavam e diminuíam, papai estava lá também, ele estava tão sério como sempre e mamãe parecia muito diferente. — Eu vou perguntar a mamãe se está tudo bem ir lá fora — falei, mas acho que Style não me ouviu. Ele tinha voltado tarde de onde quer que papai o tinha levado de novo. Levantei e saí do quarto dele, andei bem devagar pelo corredor, não queria que mamãe ficasse zangada pensando que estava espiando. As vozes foram ficando mais próximas, mais altas. Eu segurei meu urso com mais força, sugando o dedo mais forte. Eu sabia contar até quatro, então tinham quatro homens com mamãe e papai. Mas tinham mais um e mais um lá também. Eu não sabia quantos tinham então. Quatro e mais... dois. — Ele está na idade certa, Susha! — Não vou separar os dois, não posso! — Ela ainda não está pronta, levará dois anos até que chegue lá. — Eles foram criados para isso. Nasceram para... Meu ouvido foi tampado dos dois lados, assim como minha boca, e logo estava sendo puxada para trás. Deixei meu urso cair e tentei me soltar, mas então estava em meu quarto e Style segurando meus braços, me balançando. Os olhos dele estavam arregalados, muito abertos, ele suava. — Nunca faça isso! Entendeu? Nunca chegue perto deles! — Eu te chamei, tentei te avisar, mas... — Oni! — Ele me apertou com mais força. — Me prometa; não importa as vozes, nunca deixe que vejam você! Ela tinha pesadelos. Observei pela tela do meu notebook, deitado, com a janela aberta e a brisa entrando no forno que era o cubículo que separei para dormir. Aquele era o meu flat, e por isso ela nunca foi convidada a conhecer minha “casa”. Eu a ouvia chorar e resmungar quando dormia ao seu lado, e a acordava, mas naquele momento não estava lá para fazer isso. Todas as noites ela tinha aqueles sonhos que a faziam choramingar e se debater, suar e acordar atordoada. Quando perguntei sobre o que eram, ela dizia que não se lembrava. Eu desconhecia a sensação. Nãome lembrava de um único sonho quando era criança, e continuava não os tendo. Mesmo com anos de guerra, de missões que poderiam ser perturbadoras, eles nunca vinham. Nem as lembranças das noites perdido, com fome e ferido no meio do Iraque, Irã ou Paquistão, me faziam sonhar. Sonhos eram uma fantasia de emoções, vontades e desejos. Eu não tinha emoções o suficiente para ser digno de ter pelo menos um pesadelo. Eu estava a poucos metros dela, exatamente na casa da frente. A observava pela câmera instalada no quarto. Drux era o vizinho dela. Aquele que ela me dizia que era estranho. Quando eu perguntei se ele a incomodava, ela disse que não, mas quando falava no telefone com Slom Ward, ela dizia que tinha medo de estar tomando banho e ele aparecer. Eu disse a Drux que não me importava se ele era da Liga, eu ia matá-lo se a ouvisse falando sobre ele outra vez. A casa era minha desde quando eu aceitei a missão, mas nós a transformamos num espaço que eu, ele e Heinrich dividíamos. Há duas semanas eu a acompanhava pela tela do notebook. Eu a assisti sair de casa e voltar, a seguia para o trabalho e a assistia enquanto estava no ateliê. Construir suas esculturas parecia acalmá-la, e com os dias, começou a me acalmar também. Eu ficava curioso para saber o que ela estava criando. Até um pouco ansioso. Nossos trabalhos eram diferentes. Ela brincava com massa de modelar e eu modelava situações, brincando com vidas. Com a vida dela. Eu sabia tudo sobre ela. Já que ela não ficava mais me esperando aparecer em sua casa com a minha chave e se sentia à vontade para fazer o que quisesse lá dentro. A vi descolorir os pelos da perna, mas só a metade, ela tirava os de baixo. Cortar o cabelo sozinha e dançar enquanto limpava a casa. Aprendi que ela sempre ia borrar a unha das mãos quando fosse pintar a dos pés, ficaria xingando e ia acabar passando o resto da noite no sofá, vendo aquelas séries sem nexo até dormir. Às vezes ela segurava o celular e começava a chorar. Uma noite eu entrei para descobrir o que era. Fiquei surpreso ao ver uma foto nossa, ela encostada em mim e eu de olhos fechados. Meu primeiro impulso foi apagar, mas mudei de ideia. Percebi então que Onira tinha criado sentimentos profundos por mim, então não entendia o porquê não me aceitava de volta. Naya não se perdoava por ter contado a ela, e eu não fiz questão de tentar consolá-la em sua culpa. Onira se mexeu novamente, esfregando as mãos na cama e a balançando a cabeça de um lado para o outro. Eu poderia ir até lá, e acordá-la, tirá-la de sua angústia, mas ela tinha escolhido aquilo. Escolheu me afastar. Ainda não estava na hora de voltar. Ela precisava entender que para ela, eu era necessário, assim como eu precisava dela. — Slom, não comece com isso. — É verdade! Você só precisa fazer sexo novamente e vai ver que ele nem era tão bom assim. — Ele era. E como. Ela revirou os olhos, bufando. — Que seja. Encontraremos melhores. Mordi o lábio, meio sem graça. — Realmente terminou com ele? Ela deu de ombros, jogando os cabelos para trás. — Não terminei porque nunca começamos algo. Mas deixei claro que eu não estava disposta a fazer sexo sem compromisso por um tempo longo demais e arriscar pegar uma DST de seu clube de namoradas. Eu suspirei, minha consciência ainda pesava um pouco, e aquela raiva ainda surgia quando lembrava a reação de Slom quando contei sobre Siriu e Naya, e as mulheres que ela disse ter visto no restaurante. Disse a Slom que não sabia o que era, ou se estavam sérios, mas ela me cortou na hora, dizendo que ele havia ido na casa dela pouco depois das duas da manhã. Então nós sabíamos que ele simplesmente deixou Naya e foi para minha amiga. Eu não queria lidar com um noivo que escondia coisas e ela não queria alguém que não tinha respeito por ela em sua vida. Por isso nós éramos melhores amigas, não existia drama entre nós. Eu falei e ela ouviu, no fim, tomou a decisão por si mesma, mas não havia nenhum resquício de mágoa por eu ter “acabado” com sua “relação” com Siriu. — E Demeron, não te ligou mais? — Terça de manhã. Dois dias atrás. Eu estava arrumando a bolsa para sair de casa e depois de duas semanas sem ouvir sua voz, resolvi atender. Interiormente, eu tentei me convencer de que era uma atitude madura da minha parte, mas sabia que a única razão era por não aguentar mais de saudade. — O que ele disse? — Conversamos pouco. — Dei de ombros. — Ele me chamou para tomar café, disse que queria me ver. — E você foi? — Não. — Tive vontade de sorrir, lembrando que depois da recusa, ele disse que poderíamos almoçar então, e quando neguei novamente, ele ainda tentou me convencer a jantar. Ele tinha um charme sobre sua casca dura, as palavras limitadas e o jeito como falava comigo. Slom me encarou por alguns minutos com o cenho franzido. — Isso é algum tipo de castigo? Está dando um gelo nele e vai voltar daqui algumas semanas? — Eu não sei, Slom. Ele foi casado com a cunhada, ela me odeia e ele atacou o irmão. Não consigo parar de pensar na possibilidade de que ele a ama e estava comigo apenas para tentar esquecê-la. Eu sabia que inicialmente ele queria ficar perto para me proteger de sua família, mas, ainda assim, sempre houve algo entre nós. Uma química e um desejo avassalador. Quando ele dormia comigo, era real. Cada minuto que passamos juntos. Desde os sorrisos escondidos que eu conseguia raramente tirar dele, até das vezes que ele tampava minha boca porque eu estava falando sem parar. — Sinto falta dele todos os dias. — Talvez essa distância seja boa. — Ela me abraçou, apertando minhas bochechas depois. — Você perdeu seu irmão e de repente estava sozinha. Faz sentido que tenha se apegado a ele tão rápido. Me lembro que com Kurt foi a mesma coisa. — Não foi, Slom, nem de longe. Não sofri separada de Kurton, nem lamentei como as coisas terminaram. O que eu sinto com Demeron... é, não dá para explicar. — Se realmente for, vocês vão se entender. — Recebi um convite de Naya Pollintzi para a festa de Natal dela. Ela é afilhada de Stark, então é provável que todos eles estarão lá. — Isso é bom, nós vamos. Kurton vai para a Europa assistir ao desfile de Natal de uma angel da Victoria’s Secret que ele está saindo e me chamou, mas sinceramente... entre ficar de vela com meu irmão e sua namorada temporária, e dar um apoio moral a minha melhor amiga, você sabe o que eu prefiro. — Como Kurton está? Ela revirou os olhos. — Tem várias enfermeiras dispostas a cuidar dele, não estou preocupada. Eu estava aliviada que seu irmão teve alta depois de dois dias em observação para garantir que os ferimentos eram realmente superficiais. Slom disse que ele tinha hematomas em quase todo o corpo, mas eram só marcas. O mais grave foi o rosto, o olho ainda estava um pouco roxo e ele ainda reclamava de dores. — Siriu vai estar lá. Na festa. — Melhor ainda. Assim ele pode ver como eu sou gostosa de longe. Então eu vou encontrar um cara pra me exibir na frente dele e beber o champanhe caro de sua família. Eu dei risada, a abraçando de volta. — E qual seu conselho sobre o que eu faço, já que Demeron estará lá? — Deixe que ele veja a linda noiva que está a um fio de perder. — Como? — É Natal, Oni. Ele tem que fazer algo realmente grandioso se quiser provar que é digno de você. Voltando a encarar a tela do meu computador, terminei de responder um e-mail de Sophi e sem conter o impulso, peguei meu celular, olhando nossa foto juntos. Se reatar com Demeron dependesse de algo grande e romântico de sua parte, definitivamente nosso fim estava mais próximo do que nunca. “É um jeito muito cruel de viver Como se não houvesse sentido nenhum ter esperança” ZAYN FT TAYLOR SWIFT, I DON’T WANNA LIVE FOREVER — Não tenho certeza se essa foi uma boa ideia — disse Slom no pé do meu ouvido enquanto caminhávamos direto para Stark. Eu a fitei com uma advertência clara nos olhos. — Por que é que você tem a maldita mania deme encorajar a fazer as coisas e depois volta atrás, sua tirana? — Posso pensar na resposta para isso? — respondeu com um sorrisinho. Revirando os olhos, eu forcei um sorriso para Stark, que também vinha até nós. — De qualquer jeito, se você não tem, imagina eu. — Onira. — Ele cumprimentou, me abraçando rapidamente, e depois beijou a mão de Slom. — Senhorita. — É um prazer vê-lo de novo, senhor Stark. Ele a fitou de cima abaixo e deu um sorriso mais do que encantador. — Absoluto prazer, querida. — Olá, senhor Stark. — Interferi, parando os olhares que ele jogava para ela. — Já disse para parar com o “senhor”. Nós somos família. — Stark, já não somos mais. Ele jogou a mão em desdém. — Isso é uma crise, logo vai passar. Aquela palavra de novo. Crise. Qual o problema dos homens daquela família em admitir quando estavam errados, mas ao invés disso, chamavam de “crise”, como se fosse uma tribulação conjunta ou algo assim? — Nós terminamos, isso não é uma crise. Ele me encarou por um momento, soltando minha mão. — Acredite em mim, sei o que estou dizendo. É uma crise. — Onde posso conseguir champanhe? — Slom perguntou, minha amiga provavelmente sentia que eu estava a um passo de gritar com Stark. Ele mal tinha feito alguma coisa, mas o fato de dizer aquilo como se o motivo da nossa separação fosse tão banal e eu ia, com certeza, voltar para seu filho, me irritava além da razão. — Nenhum garçom ainda a serviu? Vou corrigir isso. — Seria ótimo, Stark — falou, toda cheia de graça. — Não é uma festa de Natal decente se eu não saio tropeçando. Eu queria dar-lhe uma cotovelada. Ela estava realmente flertando com meu ex sogro e tio do cara com quem ela estava dormindo? E onde estava Belle, afinal, que ainda não tinha me interceptado para falar de seus inúmeros planos? Coitadinha. Se Stark pelo menos a olhasse como estava olhando para minha amiga, eu aposto que sua namorada seria mais relaxada. — Querida, você é das minhas. — Onde está Naya? — interrompi antes que fosse mais longe. — Estava acompanhando uma amiga até o motorista lá fora, a garota está grávida e veio de Viena. Fiquei encarregado de receber os convidados enquanto isso. — Bem, obrigada, então. Nós vamos pegar algo para beber e esperá-la. Ele me deu um aceno e passou para o lado, deixando-nos ir. Quando estávamos longe o suficiente e já com nossas taças, eu dei um pequeno belisco em Slom. — Não se atreva a trepar com ele. — Por quê? Ele é gostoso! — Slom, pelo amor de Deus, se minha melhor amiga criar laços com esses homens, como é que vou sair do meio disso? Ela segurou meu rosto e virou para onde Stark estava. — Observe esse homem. Ele deve estar na casa dos cinquenta. Vê o terno bem preenchido? — Slom... — Oni, se Siriu é tão grande e Demeron faz tão bem como você diz, imagine como é isso na versão experiente! Olhe aqueles olhos, o cabelo grisalho, o sorriso perfeito. Cacete, tem gente que paga uma fortuna para ter aquela mandíbula. Eu a olhei com meus olhos implorando. — Por favor, não durma com ele. Eu estou aqui em consideração a Naya e espero que essa seja a última vez que vou vê-la. Ela suspirou, deixando os ombros caírem e fez um beicinho. — Nem uma vezinha? — Não. E ele tem a Belle, ela é insistente, mas um doce. Não posso compactuar com isso. — Sortuda. Toda mulher deveria transar com um coroa antes de morrer. Eles sim sabem apreciar uma mulher. Eu estava prestes a responder quando fui interrompida. — Onira! — Virei para encontrar Naya quase saltitando até nós. Ela me abraçou, depois fez o mesmo com Slom. — Estou tão feliz que veio! — Obrigada pelo convite. Eu não perderia. — Eu não fui convidada, mas tem tanta comida aqui que você provavelmente nem se importará com uma penetra. — Slom disse e deu de ombros. Naya bateu palmas, soltando uma gargalhada. — Inferno! Eu estaria num trono de nuvens se todos os penetras quisessem só comida de graça. Não se preocupe com isso. A família e amigos da Onira são sempre bem-vindos. — Naya, essa é minha melhor amiga, Slom Ward. — Bom te conhecer... Ward? De onde já ouvi esse nome? — Provavelmente meu irmão. — Kurton? Kurton Ward? — Exatamente, e... Caramba! — exclamou Slom, cutucando nós duas. — É aquele ator? Naya riu. — Rob? Sim. Eu chamei alguns amigos da indústria, mas por conta da agenda poucos conseguiram vir. — Você está brincando? Ele concorreu ao último Oscar! — Ele é ótimo. Slom enfiou um canapé na boca e terminou seu champanhe, pegando a minha taça cheia depois. — Eu preciso rodar por aí, quer dizer, é como se eu estivesse em Hollywood. Nós demos risada, acompanhando seus passos até ela virar a esquina. A verdade é que nem eu e nem Naya sabíamos o que dizer. Eu a fitei com um pequeno sorriso, elogiei a festa e trocamos palavras simpáticas, mas tinha aquele incômodo, aquele elefante na sala que nem eu e nem ela poderia ignorar mais. — Olha, Naya... — Eu não tinha certeza se você viria depois de... você sabe. — Ela fez uma cara tão arrependida, tão triste. — Realmente sinto muito, Onira. — Não tem motivo. — Eu contei algo que não era da minha conta e por causa disso, acabei com seu casamento. Destruí o amor de duas pessoas que gosto. Um, eu conheço a vida toda, e a outra, quase não tive a chance porque falei demais. — Nada disso. Mesmo se tivéssemos ido adiante, no momento em que eu descobrisse que ele escondeu um casamento e que ainda foi... foi com ela — suspirei. — Teria acabado. Economizamos tempo, dinheiro, convites e lágrimas. Ela fitou as próprias mãos. — Realmente acabou? — Sim. Eu vi coisas que realmente não queria ter visto. A imagem dele rasgando a garganta de Regnar me veio à mente e me arrepiei, a cena toda se repetindo em minha cabeça. — Espero que mesmo depois disso, você saiba que pode contar comigo. Mesmo meio que traindo um familiar, sinto que fiz bem em dizer a você. Então... pode acreditar em mim. Dei um aperto em suas mãos. Ela realmente tinha aberto meus olhos de uma forma que nunca ia entender. — Eu não o vi por dois anos, sabe? E agora que ele voltou sinto que estraguei tudo. — Por dois anos? — Sim... ele estava numa viagem ou algo assim, você sabe como é, missões do governo. Ele só tinha contato com Siriu. Não, eu não sabia. Nosso “relacionamento” nunca teve muitas revelações da parte dele. — Só com Siriu? — Sim. Ele sempre nos trazia as mensagens de Demeron, dizia que era arriscado ligar, então alguns meses atrás ele voltou e eu fiquei aliviada. Mas... só o afastei. — Não se preocupe, Naya. Vocês são família, tudo se ajeita. — É, acho que sim. — Ela riu e revirou os olhos. — Estou sendo dramática, é só uma crise. Eu franzi a testa ao ouvi-la dizer aquela mesma merda. Drama. Crise. — Preciso receber alguns convidados, será que... — Eu vou ficar aqui e esperar por Slom. — Deixe-me levar você até uma mesa. Tem uma amiga que está sozinha esperando o marido e assim vocês podem fazer companhia uma a outra. — É claro, só preciso encontrar Slom antes. — Eu a aviso, não se preocupe. — Ainda não vi Belle por aqui. Naya revirou os olhos e apertou os lábios enquanto andávamos. — Não se acostume com as namoradas dele. Stark é um namoradeiro. A próxima vez que nos virmos, ele estará com outra. Ela segurou minha mão e fomos até a área do restaurante aberto, várias mesas estavam postas perto, uma decoração natalina enfeitando todo o lugar. Estava lindo. Eu não lembrava da última vez que tinha comemorado o Natal. Mandei algumas mensagens para pessoas próximas durante o trajeto até a festa, mas esse era o máximo que fiz. Style e eu jantávamos como qualquer outro dia e assistíamos algum canal de esporte ou filmes. Nunca sequer dissemos “feliz Natal” um ao outro, porque realmente não sabíamos o porquê disso. O trajeto até a mesa revelou vários rostos da TV, artistas de vários cenários e eu fiquei espantada de como Naya conhecia tanta gente. Não era uma surpresa, eu tinha mexido em seu Instagrame os mais de cem milhões de seguidores já diziam tudo: ela era grande. Eu não era uma grande fã do estilo pop, mas já tinha ouvido suas músicas por vários lugares. Era apenas estranho estar dentro disso. De todos esses rostos, o que eu mais ansiava e temia ver, não tive nem um vislumbre. — Aqui está ela. — Ela disse e colocou a mão no ombro de uma loira que estava sentada de costas para nós. Ela virou e sorriu para Naya, depois me olhou. — Ei, chica. Você demorou. Naya riu. — Onira, conheça a minha amiga Aya Maria Herrera, Aya, essa é Onira Tieko. Ela ficou de pé e me cumprimentou com um sorriso discreto, olhos avaliadores. Era tão bonita que fiquei impressionada. Uma loira alta, parecia bem jovem, olhos claros e um sorriso deslumbrante. Seu marido com certeza tinha sorte. — Olá. — Ela falou em inglês, e eu respondi da mesma forma. — Prazer em conhecê-la, Aya. — Aya é do México. Incrível, não é? Quando a conheci não consegui parar de fazer todas as perguntas possíveis! — disse Naya, rindo. — Pelo pouco que conheço sei que é uma cultura bem diferente, mas a minha também é, então sei bem o que você passa. — Você é de onde? — Tailândia. Aya bufou, sentando novamente e me apontando uma cadeira. — Então junte-se ao clube. Nós somos como um circo para eles. Naya estreitou os olhos para sua amiga e se inclinou para mim, fingindo que ia dividir um segredo. — Aya pode ser um pouco... desmedida. Fique à vontade para mandá-la ir passear. Eu fitei a loira, não imaginando em alguém tão elegante sendo “desmedida”. Pelo contrário, ela parecia se encaixar perfeitamente. — Vou manter isso em mente. Quando ela nos deixou, Aya acenou sua taça para mim e bebeu, olhando ao redor. — Então. — Comecei. — Eu fui abandonada pela minha amiga, e você, pelo marido? — Eu acredito que Siriu tem algum desejo secreto por Juan. Todas as vezes que o vê, quer levá-lo para longe. Dei risada, aceitando uma salada que o garçom ofereceu a nós. — Vocês vieram a passeio mesmo? — Gosto de pensar que somos amigos, mas não nego que as relações entre meu marido e a Alemanha são boas para a campanha dele. — Oh, vocês são políticos? — Ele está concorrendo a presidência do México. — Encolheu os ombros. — É cansativo, mas é o que ele quer, então nós estamos atrás. — Uau... estou conversando com uma possível primeira-dama. Ela se inclinou para mim. — Parece incrível, não é? Mas, acredite... só de pensar que nunca mais poderei nadar nua, acaba com todo a euforia. Mas, fale sobre você, é a noiva, não é? — Hm... a ex noiva? Sim, sou eu. — Eu soube que vocês terminaram. Minha filha ficou feliz. A encarei sem entender e ela sorriu, o batom vermelho manchando a taça com seu sorriso. — Maria é apaixonada por Demeron desde que o viu alguns anos atrás. Disse que ia se casar com ele. — Uma menina com expectativas altas. — Uma criança inteligente, que aprende com a mamãe que o que ela quer, ela pode ter. Eu franzi a testa. — Estamos mesmo falando sobre uma criança pegar um adulto? — Não, estamos falando sobre ser capaz de pegar o que você quer e agarrar isso, independentemente de qualquer outra coisa. — É fácil falar, você é a esposa do futuro presidente. — O que importa? Eu fodia com ele enquanto era o Governador do Estado e sua esposa o esperava em casa. Eu precisei de um momento para perceber que não era uma piada e que ela falava sem arrependimento ou vergonha nenhuma. — Você foi a... — Amante? A outra? Sim, eu fui. E hoje eu sou a esposa, a mãe da filha dele. — Isso não te incomoda? — Incomoda os outros com certeza, mas eu o amo, ele me ama e nós estamos felizes. — Ela virou para mim na cadeira, encarando-me de frente. — Você sabe... eu tenho uma amiga que sempre me perguntava como eu conseguia encarar a vida com tanta transparência, porque eu fazia parecer tão fácil. E o que eu disse a ela é o que vou te dizer agora. A vida é fácil, as pessoas é que complicam. — Eu não concordo com isso. — É claro que não concorda. Você vê, eu tenho um grande problema com ética e moral, geralmente passo por cima delas. Não levei nem uma semana para perdoar Juan e voltar para ele quando nos separamos certa vez. Ele tinha feito uma burrada fenomenal. Mas, eu coloquei na balança, eu o amo, eu provavelmente irei perdoá-lo, então... por que nos fazer esperar se daqui sete dias ou sete meses eu vou deixar que volte para mim? — Orgulho? Respeito? Tempo para pensar? — argumentei. — Você gosta do tempo que gasta pensando em Demeron Konstantinova? Gosta de, sei lá, chorar por ele ou preferiria estar em seus braços? A resposta era óbvia, mas não verbalizei. — As pessoas complicam, como eu disse. Pegue o que você quer, diga o que você pensa, só... lide com as consequências depois. Quer dizer, eu estou aqui agora, mas posso morrer no avião para casa, então por que porra eu estou aqui sentada bebendo champanhe há duas horas se podia estar fodendo meu marido em algum lugar da festa? Eu não sabia o que dizer. — O principal concorrente de Juan nas eleições tem algum ponto fraco, eu vou descobrir qual é e vou usar para que meu bebê ganhe. Juan lidera as pesquisas, mas eu prefiro me certificar de que saia exatamente como deve sair. — Isso é trapaça. Seus olhos eram cínicos e frios quando me encarou e abriu um sorriso. — Isso é a vida. O mundo é trapaceiro. Jogue ou você está fora. — Ficamos em silêncio por um momento e ela aproveitou para pedir algo mais forte a um garçom. — Kaladia tem as chaves da minha casa. Fora duas amigas que tenho em meu país, ela é a única mulher em quem confio. Mas, eu sou a única em quem ela confia, então acredite em mim quando digo que ela não quer o seu noivo de volta. Eu estava embasbacada, mas de qualquer forma, não tive tempo de formular uma resposta, pois ela ficou de pé e ao ver algumas pessoas se aproximarem, eu segui o movimento. — Querido. — Ela cantou e abraçou um homem loiro, alto e incrivelmente bonito que vinha ao seu lado. — Você demorou. — Dando um tapinha no braço de Siriu. — Não se atreva mais a olhar na direção do meu marido essa noite. Ele ergueu as mãos. — É todo seu. — Então ele me fitou e deu um aceno. — Onira, soube que estava aqui. Fico feliz que veio. — Olá, Siriu. — Amor, essa é Onira Tieko, uma amiga de Naya. E Onira, esse é meu marido, Juan Carlo Herrera. Ele segurou minha mão e deu um aperto, tinha um sorriso simpático no rosto. Político. — Senhorita Tieko, como vai? — Muito bem, senhor. Aya me falou sobre as eleições, desejo boa sorte. Ele a fitou com os olhos brilhando de adoração. — Enquanto ela e nossa filha estiverem comigo, já sou sortudo. E é claro, há o fator de ser melhor que meus concorrentes. Ali estava. Com essa fala eu podia entender como eles funcionavam como casal. — Onde está Maria? — perguntou Aya. — Brincando com Blair. Esmeralda está com elas. — Se vocês me dão licença, eu preciso estar em outro lugar — disse Siriu. — Siriu — chamei. — Uma palavra, por favor? Ele assentiu, apontando para fora. Me despedi de Aya e de Juan, sendo seguida pelo sorriso dela. Não era nem ruim e nem bom, ela tinha uma presença marcante que eu não conseguia explicar. Nós fomos para o lado de fora, no jardim, que parecia estar ainda mais lotado. — Você precisa de algo? — Ele perguntou, chamando minha atenção. — Não, está tudo bem. — Hesitei, lambi os lábios e respirei profundamente. — É sobre ele. — O que é que tem ele? — Ele... está bem? Com o rosto tão inexpressivo como sempre, Siriu deu de ombros. Fora isso, não parecia se mover. Fazia mínimos movimentos. Me fitava com um rosto sério. — Ele nunca está bem. — Eu quero dizer vivo. — Até onde eu sei, sim. Eu queria perguntar outras coisas, queria falar com ele, tentar entender o que fazer a seguir. Ele pareceu entender meu dilema e suspirou. — Você o viu surtando aquele dia na empresa. Não sei se ficou excitada com a ideia de consertar um homem quebrado, foder um louco ou o quê. Não julgo, tenho minhas própriasfantasias. Mas, você o abandonou, não pode vir me perguntar como ele está. Fale com ele, responda as ligações dele. Boquiaberta, me segurei para não desferir um tapa em seu rosto duro. — Eu não fiquei excitada, você está louco? Por que é que eu estou sendo bombardeada por escolher não perdoar não só uma, mas várias coisas que ele fez? — Se não quer perdoar, por que está interessada nele? — Eu não... — Você frequenta as festas da família de Kurton Ward? — Não, mas... — Esse é meu ponto. Boa noite, Onira. Ele acenou mais uma vez e me deu as costas, saindo. Ignorou todos os olhares femininos que recebeu e sumiu de vista. Eu sabia, então, que Demeron não estava ali e nem ia aparecer. Voltei para dentro, procurando Slom. Íamos ficar até meia-noite e ir embora. De tudo o que aconteceu naquela noite, eu sabia que algumas palavras ficariam na minha mente por um longo tempo: as de Aya Herrera. Eu não sabia se tinha adorado ou odiado aquela mulher. “Às vezes me pergunto, enquanto você dorme Será que você está sonhando comigo? Às vezes, quando olho nos seus olhos Eu finjo que você é meu todo o maldito tempo É normal que você esteja na minha cabeça?” TAYLOR SWIFT, DELICATE Quase não atendi meu telefone quando tocou um pouco depois das 2 horas da manhã. Era Natal e as pessoas estavam aproveitando a data festiva que nunca fez sentido para mim, assim como todas as outras, mas sabendo que poderia ser sobre o trabalho tirei o telefone do bolso e fechei a porta novamente, decidindo saber do que se tratava para retomar meu caminho e sair de casa. — Demeron. — Ei cara, é o Bruce. Ligando para avisar que a mulher acabou de sair. Siriu chamou um táxi para ela. A ideia do meu primo tendo qualquer contato ou proximidade com Onira fez minhas entranhas apertarem e uma sensação de sufoco na garganta. Eu sabia que várias coisas poderiam acontecer dentro do tal táxi. — Ela estava sozinha? — Não, a loira do ateliê foi junto. — Você as seguiu? — Sim, ela deixou a amiga em casa e voltou ao carro, acho que está indo para a casa. — Certo. Desliguei e peguei mais algumas balas na gaveta do armário. Fiquei observando por uma fresta na cortina da janela o momento em que ela chegaria. Não demorou mais que 10 minutos e um táxi parou, ela entrou rapidamente e fechou a porta. Esperei o carro cruzar a esquina e sumir, e depressa voltei ao quarto que ocupava, abrindo o notebook para iniciar as câmeras da casa da frente. Ela andava pela casa conferindo se as janelas estavam fechadas e a porta do fundo também, e estavam, pois eu mesmo as fechei mais cedo. Satisfeita, ela foi para o corredor e enquanto andava, reparei na roupa que vestia. Não fui a festa de Naya para deixar Onira mais livre, dar a ela uma sensação de que eu não seria um incomodo, que havia desistido, mas é claro que não era verdade. Mas, ao ver o vestido, quis me dar um tiro por não ter ido. Imaginava a quantidade de homens ricos, e até famosos que teriam mexido com ela. Senti minha ereção crescer com o balançar dos quadris e as mãos delicadas jogando o cabelo para trás. O vestido vermelho agarrava em cada curva de seu corpo pequeno, indo até abaixo dos joelhos com uma fenda que chegava perto do quadril dos dois lados, e aquele salto preto altíssimo me fez ter fantasias que não tive desde a adolescência. Sem contar o decote que fazia seus seios ficarem incrivelmente tentadores e mais deliciosos do que já eram. Hesitei antes de fechar a câmera do banheiro quando ela entrou, mas fiz, tinha pelo menos um pouco de ciência que observá-la nos banhos sem seu consentimento seria algo que a faria sentir-se humilhada. Esperei não pacientemente até que ela saísse enrolada em uma toalha. Com os cabelos presos no alto e sem nenhuma maquiagem, pude ver as olheiras debaixo dos olhos, olheiras que eu coloquei ali. Apertei as mãos em punho, estranhando a vontade de ir até lá e tirar aquele olhar derrotado de seus olhos. Ela saiu do quarto vestindo no uma mini bermuda agarrada ao corpo e uma camiseta mais larga, que olhando melhor percebi ser minha. Um sorriso que eu não esperava dividiu meu rosto e a ideia de que ela precisava de alguma parte de mim para dormir me fez sentir como a porra do dono do mundo. Ela ligou a TV da sala colocando naquele programa que gostava de assistir que não fazia nenhum sentido para mim e deixou o controle na mesa, seguiu para cozinha e fez um chá. O tempo todo olhava para o nada, parecia triste e solitária. Com o peito apertado, procurei a chave de sua casa. Uma cópia que fiz quando ela pediu de volta aquela que tinha me entregado e fiquei de pé quando ela tomou dois comprimidos com chá, sentou no sofá eu sabia que em questão de segundos estaria dormindo. Enquanto aguardava fazer efeito, fiquei observando seu rosto, cada traço, a expressão de tristeza que não ia embora, e cada vez que ela olhava para porta, depois para o celular e por fim, para o relógio. Eu sabia que estava se perguntando se mesmo que tivesse me mandado embora eu não iria aparecer, afinal, era Natal e um homem que ama alguém provavelmente faz de tudo para estar por perto. Esperei por 20 minutos enquanto ela lutava com o sono e apenas quando sua cabeça tombou no encosto do sofá com a xícara encostada em seu peito e uma manta cobrindo as pernas, eu me movi. Esperei para ver se havia mesmo dormido e fechei as câmeras, decidindo num impulso que iria até lá. Não sei o que me moveu, o que me fez tomar essa atitude, mas quando dei por mim já estava entrando na casa e fechando a porta no maior silêncio que consegui. Ela não moveu um músculo, derrubada pelo calmante. Fui até o sofá lentamente, tirei a xícara e coloquei em cima de um de seus livros na mesinha de centro. Novamente, movido por um arroubo que não sabia entender, sentei-me ao seu lado e passei meus braços ao redor dela. Respirei profundamente. A puxei para mim. Soltei o ar. Sua cabeça pousou em meu peito. Suspirei. Encostei meu queixo no couro cabeludo e respirei seu cheiro. Ela respirava com calma e seu corpo se movia junto ao meu pela minha própria respiração com suas costas firmes em meu peito. Segurei as mãos dela e puxei os dedos para meus lábios, beijando a ponta de cada. Desliguei a televisão com o controle e fomos engolidos pelo escuro. Tinha uma visão clara para o relógio, mas internamente torci para que ela dormisse um pouco mais. Assim por algumas horas poderia ficar ali sem que ela nunca soubesse e aquilo nunca interferisse na história que já estava fadada a tragicamente acontecer. A envolvi com mais força, senti sua respiração leve em meu braço e não sai dali. Não até que amanheceu e quando eu fui embora, ela ainda dormia. “Lágrimas pesadas, um desfile de chuva do inferno Eu sei que parte seu coração quando eu choro de novo” ARIANA GRANDE, HOSTIN Eu fechei a porta do ateliê e tranquei, ansiando chegar logo em casa. Aquele sapato era tão desconfortável e ter ficado o dia todo nele só tornou pior. A segunda semana do ano não estava mais tranquila que a primeira, então Slom e eu estávamos nos desdobrando para dar conta de tudo. Até entrevistamos algumas pessoas, mas tanto eu quanto ela não tínhamos sentido que qualquer uma das garotas era certa. No dia seguinte entrevistaríamos mais quatro e eu esperava que desse certo. Não me lembrava da última vez que tive férias, e ter mais uma pessoa para ajudar com tudo e poder sumir por algumas semanas era o que eu mais estava precisando. O Natal foi ruim, mas a virada de ano conseguiu superar. Não houve nenhum convite para festa interessante o suficiente que me fizesse sair de casa. Slom viajou com seu irmão e Maya era a principal atração de um show da virada fora do país. Eu assisti pela TV e quando bateu meia-noite, estava terminando minha segunda taça de vinho sentada no sofá e enrolada num cobertor quente. A neve caía do lado de fora e até pensei em colocar um casaco e botas e ir observar mais de perto, ver se meus vizinhos estavam por ali, mas o pensamentofoi rapidamente embora e dormi logo que terminei a taça. Saindo um pouco mais tarde do que o comum, decidi de última hora ir visitar Style. O táxi já me esperava lá fora, e fui rapidamente para dentro. Já havia começado uma temporada fria, o inverno se aproximava. O caminho foi rápido até Marzahn. O cemitério estava coberto de neve, os portões fechados, mas eu conhecia o rapaz que trabalhava ali e não foi difícil que me deixasse entrar. A lápide de Style estava como sempre. É claro que nada tinha mudado. Eu era a única a ir ali. Deixei uma flor solitária em cima e toquei a pedra gelada, passando os dedos pela gravura de seu nome. Fiquei sentada por algum tempo, não sabia quanto. Pensando em nada realmente. Foi a primeira vez que estive ali e não derramei nenhuma lágrima. — Imaginei que a encontraria aqui. Assustada, reconheci a voz e virei para ver Mic alguns passos atrás de mim. Com alívio me inundando, fui até ele com passos rápidos e joguei os braços ao redor do homem que conhecia há tantos anos. — Mic... — suspirei. — Não acredito que realmente está aqui. — Você ainda traz flores. Dei de ombros quando finalmente me afastei. — Acho que me acostumei. É a única coisa que me resta fazer. — Ah, eu não sei, menina. Te conhecendo, pensei que faria uma escultura dele ou algo assim. Soltei uma risada baixa. Aquele era Mic, sempre me fazendo rir, me deixando à vontade. — Seria extremamente mórbido. Imagina só o rosto de Style em argila, imóvel para sempre. Ele torceu o nariz. — Não dá nem para pensar. Continue com as flores. — É. Ei, de todos os lugares de cidade, fomos nos reencontrar no túmulo do meu irmão. — Eu não tinha muita escolha. Franzi a testa. — Como assim, quer dizer... você estava me esperando? — Eu a segui do ateliê. Minhas sobrancelhas subiram em surpresa. — Por que você faria isso? — Era o único jeito de conseguir falar com você em particular. Estou na cidade há alguns dias e acredite em mim, tentei de outras maneiras. — Bem, você não foi em casa e não foi ao ateliê. Também não me ligou. — Justamente porque queria falar apenas com você. Ergui as mãos, o parando. — Mic, isso não faz sentido. Se era por causa de Slom, ela não vive comigo e... — Slom Ward não tem nada a ver com isso. — Certo. Então você vai me explicar por que anda me seguindo? — Demeron Konstantinova está vigiando você. Há câmeras e escutas na sua casa, trabalho e celular. Fiquei muda por um momento e encarei o homem que me conhecia desde a adolescência. Era o melhor amigo do meu irmão, e após sua morte, havia se tornado meio que meu protetor. Era um homem grande, alto e forte. Estava na meia idade, mas nem de longe aparentava. A pele escura e os cabelos mais escuros ainda faziam seus olhos castanhos terem um brilho incomum. Eram olhos que sempre conseguiam me consolar. Me trazia segurança. Mas ali, eu não sentia isso. Não me sentia consolada e nem segura. — Eu não entendo — sussurrei. — Ele observa você. Está em cada cômodo da sua casa e do seu trabalho. Escuta todas as suas ligações. Eu não conseguiria falar com você sem que ele soubesse. — Não é possível. Isso... isso tem uma explicação. — Onira. — Ele me contou! — Revirei minha mente buscando em nossas conversas sobre aquilo, sobre ele falando de sua família, que queria me proteger, que ia cuidar de mim. — Ele... ele fez... — Ele instalou câmeras em cada canto de sua casa, ele a assiste e escuta sem que você saiba. Eu quero ir até ele agora e arrebentar sua cara. — Mic falava com calma, mas sua voz era séria como nunca vi antes. — Ele estava tentando me proteger, ia cuidar de mim. A família dele... — Quer se vingar por algo que Style fez? Eu o fitei receosa, desconfiada. — Como sabe disso? — Essa história não é nova. Nas rodas de assuntos que ninguém se atreve a questionar, eles dizem que seu irmão receberia a vingança vivo ou morto. Que tirou algo deles. — Então você sabe que Demeron está fazendo isso para ver se estou bem e... — Onira. Pare. Meus olhos lacrimejaram, a ficha não caía. — Não quero saber, Mic, por favor. Não posso aguentar mais nada. — Ele se aproximou de você para usá-la. Está tão envolvido nisso quanto o resto da família. Ele enfiou a mão no bolso e tirou um papel amassado, uma fotografia. Eu a peguei com dedos trêmulos e abri, temendo o que veria ali. A imagem era antiga, um preto e branco desgastado, e nela, havia alguns homens. Uns de pé e outros um pouco abaixados na frente. Usavam uniformes do exército, as cores de serviço da Alemanha. Eu busquei em cada rosto, sabia que Demeron estaria ali, só não entendia o porquê Mic queria que eu visse. Demeron foi do exército, eu sabia disso. Então, quando estava prestes a lhe perguntar, passei os olhos pela imagem novamente e ali estava. Ao lado de Demeron, com os braços sobre os ombros dele, estava Style. Precisei olhar por um momento, certificando-me de que o rosto era o mesmo. Era ele. Meu irmão. Fitei Mic, que me encarava sem piscar. — Isso não é possível. Style não era do exército, não trabalhava para o governo. Ele era investidor de risco. — Seu irmão deixou muitos segredos no túmulo, esse era um deles. — Por que ele fez isso? Por que nunca me contou? — Tinha suas razões, eu nunca questionei. Não pretendia te contar, mas precisava que você visse por si mesma. Que entendesse que Demeron é tão parte disso quanto seu pai e irmão. Se querem se vingar dele, usariam você. — Ele morreu em serviço? — perguntei baixinho, passando o dedo pela imagem velha. O sorriso do meu irmão era grande, parecia feliz. — Sim, menina. E essa é a parte que eu quero chegar. Demeron Konstantinova estava com ele. — O quê? Mas então... — Ele já te conhecia. Ele sabia quem você era desde sempre. De repente tudo voltou para mim. Stark me procurando, a reunião... O jantar na mansão e a visita que me fizeram no ateliê. — Nada foi por acaso. — Se queriam se vingar de Style, o que melhor do que atingir alguém que sabem que ele ama? — Mic pressionou. Alguém que sabem que ele ama. Sabiam, porque Demeron sabia. Sabiam, porque Demeron contou. — Desculpe ter chegado aqui tarde. — Ele falava, segurando meus braços. — Sei que ele já fez estragos, mas eu estou aqui agora. Vou cuidar de você. Terminaremos isso tão rápido que não vai nem perceber e logo estará longe daquela família. Tudo bem? Eu assenti lentamente, era como se estivesse em câmera lenta, nada fazia sentido. Não sentia minhas mãos, minhas pernas e menos ainda meu coração. — O que você precisa que eu faça? “Se eu correr, não será suficiente Você continua na minha cabeça, presa para sempre Então pode fazer o que quiser, sim Amo suas mentiras, vou engolir tudo Mas não negue o animal Que ganha vida quando estou dentro de você Você não pode negar a besta que vive dentro de você” MAROON 5 – ANIMALS Bati à porta e esperei. Depois de tocar a campainha pela segunda vez, conferi se era realmente aquele endereço, confirmando que sim. Não era um lugar ruim, mas vendo como sua família vivia, eu estava surpresa. Demeron morava em um bairro duvidoso, numa área onde o luxo e conforto de Berlim não era visto. O “apartamento” ficava num prédio de três andares, lado a lado com outros e uma mercearia em frente. Durante todo o caminho do escritório de Siriu até o endereço, pensei nas palavras de Mic. Seria possível que aquele homem realmente queria me machucar? Por que faria tudo isso? Por que criaria uma fantasia apenas para me enganar e no fim, me prejudicar? Casamento, todos os passeios, as conversas... ele mentiu sobre tudo. Sabia que sua família queria algo contra o meu irmão e por conhecê-lo, contou que eu existia, quem eu era. Então ele entrou na minha vida, se tornou uma parte dela e me fez precisar dele. Meu primeiro instinto foi jogar os punhos fechados em seu peito e gritar com ele, exigir que me explicasse tudo. Mas, pensava em Mic, em Style. Inevitavelmente, um pensamento me vinha à cabeça...e se Demeron teve algo a ver com a morte de meu irmão? Os dois serviram juntos e ele nunca disse nada, se fez de interessado e curioso quando contei sobre Style, eu me lembrava bem. Mas, aquilo era tudo parte de uma cena, um teatro. Até ali, eu tinha andado ao redor dele seguindo as linhas que traçava. O jogo era dele e nenhuma peça se movia sem sua autorização. Mas aquilo havia mudado. “— O que você precisa que eu faça?” “— Finja. Finja e me ajude a descobrir o que eles querem com você. Depois eu me vingo.” “— Não — respondi entre dentes.” “— Onira, sei que é difícil, mas eles terão uma vingança.” “— Tiraram meu irmão de mim e me fizeram de idiota todo esse tempo. Eu ia me casar com ele. Terão a vingança, mas ela não será só sua.” A porta foi aberta na terceira vez que bati. E lá estava ele. Se fosse possível ter ficado mais bonito, ele conseguiu. O cabelo estava um pouco maior, a barba tinha sido aparada, mas continuava um pouquinho grande... e os olhos, parecia que o mar inteiro se escondia ali. Me encarava com a mesma profundidade de sempre, bem sério, silencioso. Não estava surpreso que eu iria ali. Sabendo das câmeras, Mic me deu instruções para não deixá- lo desconfiar, então eu precisei continuar fingindo que estava sozinha quando, na verdade, ele assistia cada movimento meu, e mais cedo, antes de sair, falei com Slom no telefone, dizendo a ela que ia vê-lo. — Demeron — cumprimentei, olhando pela porta aberta o pouco que conseguia ver lá de dentro. — Onira, não estava te esperando. — Pensei em fazer uma surpresa. Ele me observou um pouco e abriu a porta por completo. — Entre. Eu fiz e me surpreendi ao ver uma cama e um pequeno criado-mudo, do lado, dois pares de botas, uma um pouco mais desgastada que a outra. Um cabide pendurado numa arara segurava um único terno. Tinha uma porta com a madeira lascada no canto, que imaginei ser o banheiro. — Desculpe, isso não é muito. — Devido a fortuna da sua família, pensei que você morasse num flat no centro de Berlim com vista para a Ponte. Ele encostou na parede, ficando distante de mim, mas seus olhos não me deixavam. — O dinheiro é superestimado. — Quem tem muito sempre diz isso. Seja sutil. Sua boca contraiu ligeiramente no canto. — Acho que dizem. — Então... — Abri os braços, olhando ao redor. — É aqui que você vive. — Na maior parte do tempo. — E onde come? — Fora. — Fora. — Repeti. — Entendi. Ele suspirou, cruzando os braços. — Até ontem você estava ignorando cada uma das minhas ligações e mensagens, então sei que não veio aqui para conhecer minha casa. Fitei profundamente seus olhos na esperança de ver algo lá, mas não tinha. Nem arrependimento por ter mentido, nem felicidade por ver sua noiva voltar, nem alívio por talvez ter outra chance. Eu precisava fazer isso. Era a única chance de ter as respostas sobre o passado e acabar com as dúvidas do futuro. — Onde nós íamos morar? Aqui? — Não. Eu comprei uma casa no Valle, perto das montanhas na Costa. — Viveu lá antes? — Não, Onira. Eu a comprei para você. Ignorando as batidas desenfreadas do meu coração, tentei não demonstrar nenhuma reação. — Me leve até lá. — Agora? — As sobrancelhas ergueram em surpresa. Abri a porta e o fitei por cima do ombro. — Já tem compromisso? — Sem esperar sua resposta, saí do apartamento e desci os dois lotes de escadas, acenando para um táxi na rua. Não importava o quanto meu coração ia doer, mas eu ia entrar com ou sem ele. O destino sendo sua casa de ficção ou a minha própria. Mas, pouco depois do táxi parar ele estava ali, sentou-se ao meu lado com um espaço de distância e falou o endereço. Eu conhecia a área, não era muito residencial, mas um dos lugares mais bonitos de Berlim. E caros. Eu esperava que ele não fosse escolher uma mansão, pois mesmo se aquela farsa tivesse ido para frente, eu ia querer me mudar. Uma casa espaçosa o suficiente e confortável para a família era tudo o que eu queria. — Quando chegarmos lá, não se sinta obrigada a nada — falou depois de um tempo. — Eu não vou — respondi e olhei para fora, onde mantive minha atenção até chegar. Quando chegamos no fim da estrada, Demeron pagou o motorista antes que eu pudesse e saiu, abrindo minha porta enquanto eu fechava o casaco e ajeitava meu cachecol. Ignorei sua mão estendida e afastei também cada vez que tentou me ajudar a seguir o caminho de pedras em meio a grama molhada. Mesmo com a dificuldade em caminhar com o salto, tocá-lo seria um caminho sem volta. O cheiro de verde, floresta e natureza pairava no ar. Era delicioso. Eu sempre fui uma pessoa que ama cidades, metrópoles, mas aquele lugar se revelava a cada passo que eu dava. — Ali está ela. Ele apontou e eu olhei para frente, parando de andar quando vi uma casa térrea, com o telhado escuro e uma chaminé. Contrastava com as pedras brancas das paredes de fora, e o chão da varanda que se estendia a alguns metros à frente era um tom mais claro. Meu queixo caiu. Não era nada como imaginei. — São três quartos, mas o terreno é nosso, então se você quisesse aumentar estaria tudo bem. Cozinha aberta com a ilha separando da sala, não está decorada, mas eu pensei que você ia gostar de fazer isso depois do casamento. Voltei a andar, o acompanhando. Ele foi direto para a escadinha da varanda, tirando um molho de chaves do bolso. — Espera! — falei, meio atônita. — Não quero entrar. Ele assentiu lentamente e voltou para perto, dando a volta na casa. Tinham árvores, arbustos e pedras ao redor de praticamente toda a casa, mas quando chegamos atrás dela, eu realmente perdi o ar. Depois de metros de grama baixa estendidas sob o céu, havia uma inclinação. Eu me aproximei, ignorando que Demeron ainda estava parado no mesmo lugar. E lá embaixo, o mar batia sobre as pedras que desciam sobre essa inclinação. Era um pulo de doze ou quinze metros direto para o mar aberto. Santo Deus. Ele comprou uma casa numa montanha oceânica para mim. O vento batia em meus cabelos, trazendo-os para o rosto e eu deixei, mal podia me mover. — Eu a imaginei criando suas esculturas ali, com essa vista. Só com sua voz percebi como estava perto. Ele apontou para trás, na casa, e fui mais uma vez baqueada pela parede inteira de vidro. Estava um pouco aberta e lá tinha um espaço vazio, apenas uma cadeira de balanço que dançava com o vento. Mantive meus olhos abertos, sabendo que se os fechasse, veria o mesmo que ele. Eu não podia. Aquilo não era mais uma fantasia. A fantasia do homem louco que me perseguia, vigiava, que podia ter matado o meu irmão e que poderia querer me matar também. — Algumas épocas frias do ano são piores em casas altas, então lá dentro tem duas lareiras grandes. Quando comprei, pensei que eram espaçosas o suficiente para nos deitarmos na frente e dormir aquecidos. Ele falava com tanta calma que me acalmava. Com tanto controle, que colocava meus ânimos nos eixos. Olhava dentro dos meus olhos tão profundamente enquanto contava suas mentiras, que era fácil acreditar. Antes era. Mas eu sabia. Sabia que estava diante de alguém que nunca foi o que dizia ser. Alguém que eu amava, e não conhecia. Tentando soar convincente, acalmei minha voz e olhei para ele. Eu o fitei por um minuto em silêncio, pensando que as próximas palavras que sairiam da minha boca mudariam tudo. — Uma chance, Demeron. A última. Isso é tudo o que você tem. “Baby, serei seu predador essa noite Te caçarei, te comerei viva Como animais Talvez você pense que pode se esconder Mas consigo sentir seu cheiro de longe Como animais” MAROON 5 – ANIMALS — O que vai fazer com ela? — Heinritch perguntou, fingindo arrumar algo nas caixas da sala que eu usava na empresa de Stark. — Ela quem? — Senhorita Onira. Continuei observando e riscando rotas do mapa da cidade, e ignorei sua pergunta. Ele não tinha o porquê estar ali, mas o garoto era insistente, gostava de ficar perto, achava que podia aprender mais. Jovem e estúpidodemais. Ele continuou parado na minha frente, mudando-se em seus pés enquanto esperava minha resposta, sabia como funcionava. Se eu ainda não o tinha mandado sair, era porque não estava incomodado a esse ponto. — O que acha que vou fazer com ela? — perguntei sem desviar os olhos do mapa. — Machucá-la. Ainda me lembro de tia Kala... — Quantas vezes já mandei parar de chamá-la assim? — O cortei, grosso. Desconfortável, limpou a garganta, mas não desistiu. — Onira é inocente, sei que é boa. — Está preocupado com ela? — É claro que sim! — Pois deveria mesmo. Ela está entrando num mundo perigoso. — Por que, pelo menos, não para de a iludir? Ele plantou as mãos na mesa, sua voz estava um pouco alterada, agitado. Eu diria até... nervoso. — Primeiro, isso não cabe a você, nada disso. E segundo, eu não a estou iludindo. Nunca disse que a amo, nunca prometi coisas que sei que nunca vou cumprir. Ela sairá disso como todas as outras. — A enviando presentes? Ele ia saindo, mas o chamei de volta, intrigado com aquela história. — Que presente? Do que está falando? — Ela ficou realmente tocada quando foi até a porta e pegou a encomenda. Viu uma joia dentro e quase chorou. Entendo o porquê de tudo isso, mas mexer com os sentimentos assim não se faz. Ser repreendido por um adolescente era quase engraçado. Eu o criei, mas ele nunca teve liberdade de falar o que quisesse comigo. Sempre deixei os limites imaculadamente claros. O assisti saindo com pesadas fortes e batendo a porta. Não me justifiquei e não disse a ele que não tinha enviado nada. Mas, pouco depois de ele sair, eu peguei minhas chaves e segui o mesmo caminho, disposto a descobrir de que porra ele estava falando. — Ei. — Ela disse assim que me viu. — Oi. — Olá. — Não estava te esperando. Estava surpresa, claramente não me esperava. Eu costumava aparecer em sua casa de supetão, mas nunca no trabalho. Não havia nada para eu fazer lá. Ela estava sentada em frente a uma grande janela naquela sala enorme, usava um vestido longo e branco, e sua pele mais clara ainda era tocada pelo sol fraco do dia frio. Os pés estavam descalços e os cabelos presos em uma bagunça que ela costumava fazer quando ficava distraída. Uma coisa que sempre achei curiosa sobre ela, era o cabelo escuro. O contraste que existia na pele branca, o cabelo escuro e os olhos escuros, mas brilhantes. Eu podia ser vazio, mas não era cego. Via sua beleza, era gritante. Puxei uma cadeira para perto e me sentei. Sabia que deveria me aproximar e dar-lhe um beijo, cumprimentar de forma carinhosa, mas estava me sentindo instável demais para isso. Um sentimento estranho começava a surgir. Uma fúria repentina que me fazia querer agarrar seu pescoço e forçá- la a dizer quem seria estúpido o suficiente para enviar presentes a minha dita noiva. A maldita caixa estava em cima de uma estante cheia de esculturas pequenas, quadros e outras coisas. Ela gostava disso, de enfeites. Erguendo as mãos, mostrou que estavam cheias do material que usava na forma reta e fina que começava a criar. — Por que não me encontra em minha casa mais tarde? Mal vou conseguir falar com você trabalhando nisso. — Não me importo, faça o que tem que fazer. Te levo para sua casa mais tarde. — Você não tem que trabalhar? — Não. Hoje eu só quero me sentar aqui e observar a minha noiva. Ela desviou o olhar, voltando a mexer em sua coisa. — Slom voltará daqui a pouco. — Eu não acho que ela vá me expulsar. — Não iria, mas ainda assim, não tem necessidade de ficar aqui até anoitecer. Preciso adiantar essa coleção, então vou ficar até tarde. Incapaz de resistir a provocá-la, me levantei e abaixei atrás dela, sentindo seu corpo endurecer quando encostei minha boca em seu ouvido. — Estou começando a pensar que está me chutando para receber alguém. — Nã-não seja ridículo! — Levantou e se afastou, limpando as mãos num pano. — Não tenho nada a esconder de você. Aproximando-me novamente, estranhei como estava tensa, geralmente ela se derretia em meus braços. Jogava-se em mim. Mas ali parecia correr o mais longe que podia. — Tenho saudade, Onira. Venha aqui. — Meu tom de voz era firme e decidido quando estendi minha mão esperando que aceitasse, mas ela não se moveu. Deu um passo à frente, seu lábio inferior deu uma tremida leve, que por pouco não perdi. Mas, então balançou a cabeça levemente, olhando para o chão como se estivesse em outro mundo e deu a volta em mim. — Sinto muito, Demeron. Que bom que veio até aqui, mas realmente não posso me distrair agora. — Você está diferente. Isso é pelo que aconteceu? Eu já falei que ela... — Não! — Interrompeu-me, erguendo a mão. — Não fale sobre ela para mim. Nem fale sobre isso. Ciúme. Uma emoção irracional e desnecessária, eu não sabia o porquê Onira a sentia, mas ela não conseguia nem disfarçar. Ignorando seus protestos, fui de vez para perto e a puxei para mim, segurando seu queixo e erguendo seus olhos para os meus. Os dela tinham lágrimas não derramadas, e isso me incomodou um pouco. Seria tão mais fácil se ela se desligasse! — Kleine unze, não chore. — Eu não vou — sussurrou. Abaixei até tocar os lábios dela e fiquei ali por alguns segundos, senti seu suspiro fraco em minha boca e a invadi, beijando-a como não fazia à dias. A segurei com força contra mim. Uma coisa não era mentira: eu senti saudade. Saudade do beijo, do corpo e do toque dela. Várias foram as vezes que precisei ir para o centro de treinamento para me impedir de invadir sua casa no meio da madrugada e fazê-la me aceitar de volta. Eu podia. Com um toque ela já estava entregue. Mas, sempre encontrava outra forma de conter o desejo por, pelo menos, algumas horas. Separei nossos lábios e passei os dedos por seus cabelos que desprenderam do laço. — Agora por que você não senta esse lindo traseiro e volta a fazer suas coisas? — Tentei sorrir. Ela me encarou por um momento antes de desviar a atenção e ir para onde estava. Mas, antes que pudesse chegar lá, eu a parei. — Não me diga que minha noiva tem um admirador secreto? — Calculei nossa posição e o que dizer a seguir. Eu a tinha levado para próximo da estante intencionalmente, e ali, a apenas dois passos da pequena caixa preta, eu a peguei e olhei para Onira. Seus olhos arregalaram levemente e correu, tirando a caixa da minha mão. Foi como se ela tivesse girado a minha chave. Uma chave que eu não sabia que tinha. Que porra ela estava escondendo? A encarei por longos minutos, nenhum de nós dizendo nada. Eu esperei, e quando ela abriu a boca, não deixei que falasse. — Devolva. — Isso é meu, é particular. Em passos pesados, peguei de volta. — Sob o meu cadáver você vai receber presentinhos e eu vou assistir quieto — rosnei. — Como se você se importasse. Devolva! Ela bateu a mão no meu braço, tentando alcançar. — Explique! — Demeron! — gritou, quase arrancando os cabelos. — Explique. Agora. Recebendo apenas seu silêncio, abri a maldita caixa e quando vi o que tinha dentro, por um momento fiquei paralisado, mal pude esconder minha reação. Respirei várias vezes ainda olhando o objeto lá dentro, antes de finalmente erguer o olhar para ela. — O que é isso? — perguntei, fazendo-me de desentendido. — Eu não sei. Joguei de volta na prateleira e segurei seu rosto, travando seus olhos nos meus. — Que porra é essa? — Eu não sei! — gritou, tentando me empurrar. — Não é grande coisa! Começaram a chegar há algum tempo e venho recebendo desde então. — Desde quando? — Demeron. — Ela rosnou, me batendo pra valer. — Me solta! Era isso. Era ele. Estava finalmente acontecendo. Depois de dois anos infernais eu estava perto, perto demais. — Me desculpe — pedi, segurando os dois lados do rosto dela e a beijando repetidas vezes. Também sentia um alívio, uma coisa estranha. Porque ela não estava recebendo presentes de alguém. Não podia e nem conseguia explicar que porra estava sentindo. Só precisava ficar longe. Tinha que ir para longe dela naquele exatomomento. Enquanto a beijava, mesmo em meio aos seus protestos, disfarçadamente peguei o objeto de volta e deixei a caixa. — Vamos para casa. Ela me bateu mais forte, estava surtando. — Você não pode fazer isso, seu imbecil, idiota! Saia agora daqui! Eu sorri quando acertou um tapa forte em meu rosto, segurando seus braços, a encostei na parede e a beijei novamente. Quando ela tinha se acalmado, a deixei ofegante e ainda me olhando com fúria nos olhos. — Nós nos vemos mais tarde, pequena oncinha. Dei-lhe as costas, saindo debaixo de seus gritos. — Apareça só se quiser morrer, desgraçado! Tranquei o ateliê ao deixá-la sozinha e parei no primeiro telefone público que encontrei. Discando os números que sabia de cor, esperei ser atendido. — Identidade, por favor. Lembrando-me do sotaque com o qual registrei minha voz, respondi: — Shangai. Moto. Zero. Zero. Dois. Alfa. Quatro. — Agente Konstantinova, confirme sua localização. — Berlim, Alemanha. Ao sul do centro. — O que precisa, agente? Olhei o pequeno diamante em minha mão e fechei os olhos, batendo a cabeça na parede da cabine. — Preciso que confirme para mim se o agente Style Tieko era um rubi. Deveria saber que seu amor era um jogo Agora eu não consigo tirar você do meu cérebro Eu tive uma overdose CHARLIE PUTH - WE DON'T TALK ANYMORE Mais cedo eu lhe chamei de desgraçado e mandei voltar apenas se quisesse morrer, perdi o controle e não me orgulhava disso. Por um momento pensei ter visto algo de verdade nele. Aquela fúria, a forma como me olhava e como me questionava ansiosamente olhando nos olhos nunca aconteceu antes. Mas, então pensei nas câmeras na minha casa, em tudo que Mic tinha me contado e sabia que ele era um mestre em mentir e manipular. Se eu permitisse me faria de idiota mais uma vez e não ia parar. Mas ali estava ele. Tocou minha campainha como se não tivesse a chave, como se nunca tivesse invadido quando bem lhe dava vontade, como se não me observasse a qualquer momento que quisesse. Ainda estava fingindo, ainda estava jogando comigo. — Posso entrar? — Depende. — De quê? — Vai me empurrar contra a parede e me forçar a falar sobre coisas que não quero? — Provavelmente vou te empurrar contra a parede, mas não estou afim de falar. Aquele humor ácido era algo que eu irritantemente gostava nele. Nunca o ouvi rir e duvidava que fosse ver algum dia, mas ele estava sempre fazendo piadas irônicas e destilando seu sarcasmo seco. — Você vai entrar com uma condição. Erguendo as sobrancelhas, cruzou os braços, fazendo os músculos contraírem contra o tecido da blusa fina e encostou no batente da porta. — Não pensei que gostasse de fazer joguinhos, Onira. — Você não me conhece totalmente. — Conheço melhor do que você pensa. Claro que sim. Me conhecia antes mesmo de eu saber quem ele era. — Talvez, mas eu não o conheço, então por hoje, só vai entrar se concordar em responder honestamente todas as minhas perguntas. — Feito. — Ele nem hesitou em responder, o que me irritou. — Qualquer coisa que eu quiser saber. — Qualquer coisa — concordou novamente. — E não vamos fazer sexo. Precisei segurar o sorriso que tentava escapar ao ver seu desagrado. — Por que o cinto de castidade agora? Já te virei do avesso, que diferença vai fazer? — É pegar ou largar. — Pego. Deixe-me entrar. Abri mais espaço e depois tranquei, fechando a cortina das janelas. Me perguntei se estando ali, tinha alguém nos vendo ou ouvindo pelas tais câmeras. Sabia que ia ficar traumatizada para sempre com isso e nunca mais me sentiria segura para ter privacidade. — Quer uma bebida? — Te acompanho no que você for beber. Preparei um chá para mim e servi uma bebida para ele. Uma das poucas coisas que sabia a seu respeito era que odiava chá. Não demorei, querendo evitar que fosse atrás de mim e me pressionasse na cozinha mesmo. Voltei para a sala, encontrando Demeron sentado na beira do sofá, cotovelos apoiados no joelho e o rosto inexpressivo observava cada passo meu. Coloquei o copo na mesinha a sua frente, evitando o contato de nossas mãos ao lhe entregar a bebida, e sentei do outro lado da sala, na poltrona mais confortável. — Você já me dopou, já me sequestrou, já mentiu várias vezes, mas eu ainda estou aqui. — Estava de coração, era verdade. Mesmo que quisesse descobrir o que ele pretendia, nada me impedia de tentar entendê-lo. — Sequestro é uma palavra muito forte. — Alivia se eu disser que me levou desacordada para um lugar que eu não conhecia sem a minha permissão e consciência? Ele hesitou, erguendo uma sobrancelha clara. — Sequestro é melhor. — Sendo assim, tenho o direito de conhecer o cara que vou passar o resto da vida. Seus olhos faiscaram, mas ele apenas assentiu. Reunindo a coragem que me convenci a tarde toda que tinha, deixei a caneca na mesinha e cruzei os braços, dando-me uma sensação de segurança. Não funcionou. — Você disse que sua ex mulher era uma vadia e agora sei quem ela era. — Engraçado sua primeira pergunta ser sobre algo que nos separou uma vez. O que é isso, um jeito criativo de terminar de novo? — Você a chamou de vadia porque ela traiu você com seu irmão? — Ignorei sua pergunta e lancei essa de cara, sem filtros e sem pensar demais. Ele não respondeu de imediato. Ficou me encarando por um tempo, não sei se estava pensando nos prós e contras de me dizer a verdade ou se considerava quanto tempo levaria até criar uma mentira convincente. Eu estava prestes a pressionar por uma resposta quando ele recostou no sofá e jogou uma perna por cima da outra parecendo ficar confortável, e respondeu: — Sim. — Sua família sabe? — Sim. Franzi a testa incapaz de não demonstrar meu incômodo ou qualquer reação. — E mesmo assim todos a acolheram? — Próxima pergunta. — Termine de me responder essa. — Isso, minha querida noiva, não tenho como responder com sinceridade porque não cabe a mim. Você teria que ir a Stark, depois Angelina, e por fim a Siriu, e perguntar. — Me fale sobre a sua família. Ele suspirou. Não parecia irritado, nem tenso e nem frustrado, como sempre, a menos que ele deixasse, eu não o podia ler. — Por que quer saber essas coisas? Por que não pergunta coisas comuns como quantas namoradas já tive, se fui de alguma fraternidade ou sei lá, se pretendo ter filhos? Por que está cavando coisas profundas? — Sua família é uma parte de você. Me caso com você e automaticamente os aceito na minha vida. — Tentei parecer o mais neutra possível, mas ele me conhecia e até eu mesma sabia que demonstrava minha tensão da cabeça aos pés. — Minha família é o que você já viu e o que você já conhece. Não temos amor, não temos união e convivemos porque temos o mesmo sobrenome e nos conhecemos a vida toda. Para ser sincero, nem sei porque moramos juntos naquela mansão, talvez porque fica mais fácil fingir quando é necessário mostrar em público. Lembrando-me da cena com Regnar no restaurante, precisei respirar fundo na próxima pergunta. — Você já matou alguém? — Fui do exército grande parte da vida. Já matei incontáveis pessoas. — Alguma que você estivesse ciente de estar matando? — Sim. Fui para a guerra sabendo que mataria. Próxima pergunta. Ele era tão inteligente que me irritava. Fugia da pergunta depois de dar uma resposta que não era exatamente o que perguntei. Será que sabia que eu desconfiava e me perguntava dia e noite se tinha algo a ver com a morte de Style? — Com o que são os seus pesadelos? O fitei surpresa e sem respostas diante do questionamento. Era tão cru e honesto que percebi por sua testa franzida que talvez nem ele tivesse se dado conta de como soou sincero e... interessado. — Eu não sei, na maioria das vezes. — Decidi responder. — Sempre vejo meu irmão e meus pais, mas nunca sei sobre o que é. Acordo e nunca faz sentido, mas é sempre a mesma coisa, a mesma casa e os mesmos rostos. Só muda a situação sobre o que estamos falando. Às vezes é tão estranho que se alguémperguntar se foi realmente um sonho ou se havia sequer uma pequena chance de ser uma lembrança, eu não saberia dizer. Minha resposta foi tão honesta quanto sua pergunta, mas percebi que ele se arrependeu de ter deixado as palavras saírem. Afinal, sempre nos manteve num território neutro, sem conversas profundas ou até sentimentais, mas por algum motivo parecia queria saber. — Eu precisava descobrir o que atormentava seu sono, o que te faz chorar de olhos fechados e derramar lágrimas no silêncio. As palavras baixas e pronunciadas devagar me tiraram o ar. Definitivamente estava me dando algo que nunca deu. — É melhor você ir agora. — Ouvi minha voz, mas não estava ali, não sentia minhas mãos. Estavam geladas, duas pedras. Permaneci no mesmo lugar, sabendo que faria uma besteira enorme se levantasse. — Também acho. — Ele disse de repente, levantando-se e me encarando por alguns minutos. Tinha a testa franzida, os lábios numa linha fina e as mãos abriam e fechavam num punho. Comecei a ficar trêmula. Ele não saía, só ficava ali parado com os olhos frios cravados em mim. Só o tinha visto assim uma vez: quando o conheci. Durante aquele surto que vi os olhos azuis mais bonitos que já havia encarado na vida. — Demeron — chamei, minha voz entrecortada e baixa. Talvez algo em meu rosto o tenha feito perceber que estava me assustando, pois saiu num segundo. Estava ali e de repente, já não estava mais. Como se tivesse evaporado. Enquanto tomava fôlego para levantar e ir tomar um banho, tive uma conversa comigo mesma, tentando ignorar a vozinha que dizia que ele nunca esteve ali. Era só o que faltava, estava começando a perder a pouca sanidade que me restava. Um barulho alto me despertou. Afasto um pouco as cobertas e estreito os olhos após esfregá-los, estavam um pouco embaçados, mas não vi nada no quarto. Com a névoa do sono dispersando, os eventos de mais cedo daquela noite voltaram com tudo e fitei o relógio ao lado da cama, marcava quase quatro da manhã. Não fui acordada como sempre, pelos pesadelos rotineiros, mas sim por algum gato que provavelmente fazia festa lá fora. Preparei-me para deitar novamente quando ouvi o mesmo barulho outra vez. Com o coração acelerado, me perguntei se Demeron entraria ali para me assustar, se deveria ligar para alguém, afinal, já o vi fora de si e daquela vez tinham pessoas para segurá-lo, o que faria se estivesse sozinha com ele? Desliguei o abajur da tomada e o segurei firme, daria na cabeça de quem quer que fosse. A porta do quarto estava aberta, coisa que eu não me lembrava de ter deixado. Engolindo a saliva seca, entrei na sala com os olhos atentos, mesmo que apenas a luz da rua iluminasse bem pouco o cômodo. Será que estava ouvindo coisas? Nesse pensamento, uma sombra surgiu na minha frente e minha boca abriu num grito silencioso, apavorada, levantei o abajur para atirar na cabeça do invasor, mas sua mão segurou meu pulso, impedindo-me, e quando “Socorro” estava subindo pela garganta, ouvi a voz inconfundível que pensei jamais poder ouvir outra vez. — Desculpe aparecer assim. Eu estremeci, um calafrio pesado passou pela espinha e me fez ficar gélida, imóvel. Ele acendeu o abajur da sala, tirando o que estava na minha mão e o colocando no sofá. Quando fomos banhados pela luz, pude ver o rosto que só via por fotos. Meu irmão. Style. Era exatamente o mesmo, o rosto duro, mas com uma delicadeza que sempre separou para dirigir a mim. Notei uma cicatriz em sua mandíbula, que descia pelo pescoço, mas fora isso, estava igual. Igual a quando pensei que o tivesse perdido. Meu primeiro pensamento foi que Demeron saberia que ele estava ali e viria para terminar seu serviço, então olhei ao redor, incapaz de pronunciar as palavras. — Já cuidei das câmeras. — Demeron... — sussurrei, nem sabia o que estava dizendo, mas Style parecia prever cada coisa que eu diria a seguir. — Konstantinova está muito distraído no momento. Não acredito que o desgraçado chegou tão perto de você. Juro que vou matá-lo por isso! Sem palavras, espremi os olhos fechados na esperança de que, quando abrisse, não veria nada a minha frente, só assim poderia explicar aquela alucinação. Finalmente enlouqueci. — Eu estou aqui, irmãzinha. Cambaleei ao sentir sua mão no meu rosto, tentando me tranquilizar. Me tranquilizar? Ele estava realmente ali? — C-como isso é possível? Eu enterrei você, eu... eu chorei no seu caixão, os policiais vieram aqui, você morreu! — Oni, tenho muito a explicar, mas me falta tempo. Você precisa fazer uma mala, agora, rápido! — Style... — falei, sem acreditar. Era ele. Meu irmão declarado morto, estava vivo na minha frente. Ele foi até a janela e olhou para fora, me fitando por cima do ombro. — Sei que temos que conversar, mas prometo que farei isso quando estivermos longe daqui. Foi um erro ter deixado você e vou me arrepender disso para sempre. — Você está vivo. A constatação não me fez feliz. Pelo contrário, me deixou furiosa. Ele não parecia estar sofrendo, mal cuidado ou doente, estava muito bem. Mais forte do que quando o havia visto há mais de dois anos atrás. Não estava morto, apenas me abandonou. — Você não viu os sinais? Os rubis? Eu enviei um a cada dia da data do meu aniversário. Todos os dias 18! Me dando conta de suas palavras, a raiva que começava a brotar em meu peito explodiu para fora. Ele estava me cobrando por não desvendar sua brincadeira doentia?! — É claro que eu percebi que era a mesma droga de rubi da sua droga de tatuagem esquisita, mas o que eu podia fazer? Esse pensamento ficou na minha cabeça por um segundo e eu deixei pra lá! — Deixou pra lá? — Style! — gritei. — O que você queria que eu fizesse? Já estava lidando com muitas teorias da conspiração para sequer cogitar que meu irmão oficialmente morto estava me mandando! Eu... eu... Deus! Você tem noção de como foi? Eu chorei por você, eu sofri por você! Ele soltou um suspiro sofrido e veio para mim, me puxando em seus braços. — Eu sei, irmãzinha. Eu sei. Sinto muito, Oni. Sinto tanto. Me afastei, colocando uma distância entre nós. Naquele momento, eu não sabia se ele realmente sentia. — Onde você estava? Mic sabia disso? — Pedi para que ele voltasse e falasse com você. O sentimento de traição queimou em mim, entendendo que mais uma vez, fui enganada por confiar em alguém. Demeron. Mic. Agora Style... Será que todas as pessoas em volta de mim escondiam segredos e participavam de um jogo da qual eu era uma espécie de café com leite? Era a única idiota a quem não foi dada peças para jogar? — Saia da minha casa. — Repeti a mesma frase que disse a Demeron semanas antes e falava tão sério quanto. Style passou as mãos pelos cabelos, estava nervoso e inquieto, mas eu não me importava minimamente. Só queria que ele sumisse da minha frente e levasse embora Mic, Demeron e toda aquela família de psicopatas e me deixasse em paz. — Tudo o que está acontecendo comigo é culpa sua. Você aparece aqui como se pudesse brincar com a minha vida e não tivesse consequências... — Não temos tempo, Onira! — gritou como nunca tinha feito antes. — Porra, não temos tempo! Vá agora! E como se os portões do inferno fossem abertos, a porta da minha casa foi escancarada com violência, homens vestidos de preto, sem cobrir o rosto, entraram. Só tive tempo de olhar para Style e ver seus lábios gritarem um “corra” desesperado, mas no primeiro passo que dei, um dos homens me segurou, tentei me soltar, me debatia, gritava, mas tudo foi tão rápido... A última coisa que vi antes de outro vir em minha direção e me dar um soco no rosto, foi uma arma sendo apontada para o meu irmão, e junto com meu grito, o som dela sendo disparada. "Me afogando em você Estou caindo para sempre Tenho que me libertar Estou afundando" EVANESCENCE, GOING UNDER Encarei meu antigo parceiro sem piscar. Regnar queria amarrá-lo para que não fugisse, e Siriu queria deixá-lo morrer com o tiro que lhe foi dado. Stark tambémera a favor de deixar que se afogasse no próprio sangue. Mas eu precisava de respostas e homens mortos não falavam. O observei de perto, em silêncio, enquanto a sala da mansão de Stark virava um centro de comando da Liga. Aquela casa era o lugar mais seguro que tínhamos para tratar assuntos daquele nível e não queríamos, por enquanto, que ninguém soubesse que Tieko estava vivo. Stark havia levado Angelina e Blair para longe assim que ligamos, avisando que chegaríamos em poucos minutos. Eu sabia que ainda ia vê-lo. Podia demorar o tempo que fosse, mas o desgraçado ainda apareceria na minha frente. Eu só não esperava que acontecesse como foi. Quando fui chamado por Mic, um ex agente da Liga, e ele me levou para fora de Berlim dizendo ter algo a me mostrar, eu percebi o que estava acontecendo. Ele havia treinado Style, e se tornara seu fiel escudeiro fora dos muros. Eu descobri que ele tentava mandar um sinal de vida para Onira e ele voltou para buscá-la. Tarde demais. Estava a meia hora da casa de Onira quando Drux me ligou, avisando que houve um disparo na casa dela. Eu nunca poderia esquecer o que senti, tampouco explicar. Não tinha com o que comparar. Nunca me permiti sentir, nunca me permiti explorar emoções, mas o que aquela simples frase de Drux fez comigo... Ele estava maior, a expressão mais sombria. De nós dois, ele sempre foi descontraído, até mesmo os olhos esticados ajudavam a fazê-lo parecer o traidor que era. Liémen Von Kimitch estava ao meu lado com seu cigarro que parecia nunca apagar e um copo cheio. Eu não sabia como ele soube, mas pouco depois de chegarmos com Tieko, ele apareceu. Não tirou os olhos do homem nem enquanto Tieko continuava desacordado. Regnar, de braços cruzados, observava tudo de longe e nas vezes que peguei seus olhos sobre mim, piscou e sorriu. Siriu resolveu aparecer como agente da lei, dizendo que levaria Tieko sob custódia do Governo. Eu conhecia aquela história, sabia onde ele pretendia levá-lo e não me importava, contando que tivesse minhas respostas antes. — Tire a camisa dele. — Ouvi a voz de Kaladia, só então lembrando-me que estava ali. — Vá com calma, querida — disse Regnar, sem sair do lugar. — Nosso convidado ainda está meio desorientado. Ignorando-o, ela levantou do sofá e largou sua garrafa na mesa, usando a faca que tinha na mão quando cortava algo que comia, para segurar a camiseta de Tieko e cortar, depois rasgou o restante. Ele nem se moveu. Não tirava seus olhos de mim, mesmo que eu ainda não tivesse lhe dito uma palavra. — Sabe que a levaram por sua causa. — Finalmente falei, e como se estivesse apenas esperando por isso, se levantou e quase voou em cima de mim. — Está se sentindo poderoso? Comeu a minha irmã, me fez voltar, e agora? — Estavam caçando você e quando apareceu na casa dela, eles a levaram. — Deduzi calmamente, sem nenhuma dúvida do que dizia. — Yakuza — Regnar falou de repente, chamando nossa atenção. Kaladia apontou para as costas de Tieko e os braços completamente cobertos, e só então eu também olhei. — Eu sabia que tinha algo, traidor. Ele sorriu sem humor quando a fitou. — Olha quem fala. — O que aconteceu com o dedo, Tieko? — Liémen perguntou. — Desobedeceu ao chefe? Style não tentou esconder ou disfarçar. A ponta de seu dedo mindinho tinha sido cortada, e no nosso mundo, todos nós sabíamos o que significava. As tatuagens eram um rito de entrada na máfia japonesa, a mais perigosa do mundo, e o corte no dedo um castigo por ter quebrado alguma regra. Durante anos eu quis saber o porquê ele havia feito aquilo. Por que matou dezenas de mulheres inocentes se estávamos a um passo de acabar com tudo? Por que traiu a Liga? Por que me traiu? E a resposta estava a minha frente. — Foi um teste? — perguntei. Ele ergueu o queixo. — Te devo uma resposta, mas não direi nada além disso. Para provar minha lealdade ao clã deles, eu precisava trair a Alemanha, o país que servia. As palavras mal saíram de sua boca quando fechei a distância entre nós e desferi um soco em seu rosto, abrindo um corte no lábio e depois outro que começou a inchar o olho imediatamente. — Dezenas de inocentes, seu filho da puta! Ele se endireitou e me encarou de frente, recebendo mais um murro, sem devolver. É claro que sabia que merecia isso. O único motivo para eu não atirar no peito a bala que os homens de Kazel tinham errado, era porque ele sabia o que estava acontecendo. — Eu nunca teria voltado se você tivesse ficado longe dela! — rugiu. — Minha irmãzinha, desgraçado! — A única coisa que podia fazê-lo sair do buraco que se enfiou. — Então a culpa não é apenas minha que ela está lá agora. Você se lembra, Demeron? Lembra do que eles fazem com elas? É claro que eu me lembrava. Nunca saía da minha cabeça. Os gritos, as imagens, o cheiro. Se fechasse os olhos estaria lá outra vez. — Hora de ir, Tieko — disse Siriu, aproximando-se como um predador pronto para destruir a presa. Ele finalmente conseguiu. Tornou minha vida um inferno para poder colocar as mãos sobre Style. Mas, Onira nunca deveria ter sido atingida, e quando me dei conta de que ele era a única chance de encontrá-la, percebi que não podia deixá-lo nas mãos de Siriu antes de saber. Me coloquei a frente dele e meu primo parou, estreitando levemente os olhos azuis gélidos. — Saia. — Vou pegá-la de volta, então você pode tê-lo. Tirando as mãos do bolso, ele rapidamente enfiou a mão no terno e tirou sua arma. — Saia da minha frente. Apontava para mim sem nenhum traço de hesitação, se eu não saísse, ele atiraria. Siriu não se importava. Fazia o impossível se tornar possível se fosse ajudá-lo a conquistar seus objetivos. A fachada de honesto servidor do Governo o servia bem, ele sabia fingir, mas os nomes que cresciam a cada dia em sua lista não mentiam. Era tão perigoso quanto cada um de nós naquela sala. De repente, palmas foram ouvidas e como se fosse ensaiado, todos nós tiramos nossas armas e as destravamos, cada um apontando em uma direção. Mas só uma única pessoa adentrou, e com um sorriso no rosto, tirou os óculos escuros. — É bom ver que nossa família continua tão unida. Pela primeira vez na vida me peguei sem reação, assim como todos na sala. Minha boca aberta refletia o choque de todos os outros. Estava estarrecido. Não podia ser... — Harlen? — Kaladia sussurrou, em choque. Ela mais do que ninguém tinha motivos para temer aquela volta. — Querida cunhada... sua maldita. — O sorriso sarcástico não escondia o olhar de ódio que dirigia a ela. — C-como... o que... — Imagino que seja demais, dois mortos voltando à vida num único dia, mas ao saber que nosso traidor, Tieko, estava de volta, pensei... por que não deixar minha amada família saber que estou vivo também? Eu não podia acreditar nisso. Era realmente Harlen na minha frente. Vivo. Como se não houvesse passado nenhum dia sequer desde que enterramos um corpo e colocamos seu nome na lápide. Desde que eu estava preso e soube que meu pai deu a ordem para eliminá-lo. — Por que voltou? — Ela perguntou, engolindo em seco. Eu conhecia Kaladia como a palma da minha mão. Ela estava nervosa, preocupada. Quase em pânico. Harlen olhou para cada um de nós, demorando um pouco em mim antes de voltar-se para ela. — Soube que meu irmãozinho perdeu sua amada da vez. Aliás — Deu risada —, noiva? Pensei que um casamento de fachada seria o suficiente para você. Ignorei sua provocação e ficava cada vez mais impaciente. — Como soube? — Liémen perguntou de longe. — Você, mais do que todos nós aqui, conhece o submundo, fantasmas falam mais do que os vivos. — Então devemos acreditar que voltou com as mais puras intenções do seu coração? — Regnar soltou a pergunta. Os dois nunca se deram bem, combinando o que Kaladia fez só juntou ao pacote. — Não. — Ele ergueu a mão, como se enfatizando a palavra. — Não deve nem por um minuto acreditar nisso. Pense apenas que eu tenho tantos interesses dentro daquela igreja quanto vocês. — Encarou Kaladia novamente.— E quando voltarmos, teremos uma conversinha. — Eu não podia quebrar o protocolo! — esbravejou, quase desesperada. Harlen se aproximou dela em passos rápidos, fazendo-a vacilar para trás. Mas Regnar ficou em sua frente antes que chegasse mais perto. Notei que instintivamente, também dei um passo à frente. — Por isso me deixou ir para aquela armadilha? Cunhada... você era minha preferida entre todas que meu irmãozinho usou. Te apoiei quando trepou com o outro por vingança. Mas, ao invés de devolver a cortesia contando que colocaram um preço na minha cabeça, você me traiu. — Era para eu ter te matado! Eu fui encarregada de matá-lo, mas fingi falhar. Atirei de raspão e quebrei meu próprio pé quando cheguei em casa para fingir que lutamos. A Liga me considerou fora de circuito, porém, você era um risco e precisavam te eliminar rapidamente. — Um risco? — Bufou uma risada. — Então recrutaram outro. — Sim. Harlen fitou o acusado. — Style. — Eu mesmo. — Mas, você falhou, assim como ela. Me deixou naquela cela sangrando como um porco. — Você me conhece. Um tiro não faz meu estilo. Se eu te quisesse morto, teria matado. — Já chega! — gritei, exaltando-me pela primeira vez. — Saiam daqui para cuidar de seus assuntos pendentes. Escolheu um péssimo momento para voltar, Harlen. Ele deu de ombros, acendendo seu infame cigarro com o isqueiro de Liémen. — Blair vai gostar. Eu tranquei as emoções que exigiam ser liberadas. Sabia que se ousasse me envolver no lado emocional da coisa, tudo iria para o inferno. Style aparecendo, Onira sendo levada por uma seita satânica, Harlen — meu irmão que acreditávamos estar morto, aparecendo vivo —. Uma parte de mim queria ir abraçá-lo e dizer “graças a Deus”, mas a outra, exigia foco, exigia que eu fosse automático, que me centrasse no que importava: recuperar Onira. — Antes de solicitar os agentes da Liga que conhecem a missão das Kambarys, preciso saber quem de vocês está disposto a acabar com essa merda agora comigo. Antes que qualquer um pudesse responder, Siriu enfiou as mãos nos bolsos e foi à frente. — Nenhum agente será liberado. — Ele olhou ao redor, para cada um, e parou em mim. — Agentes... suas ações serão tomadas como um ato rebelde e implicará consequências. Ao ouvi-lo, viajei de volta para anos atrás, no meio daquele oceano, quando estava prestes a encerrar o inferno daquelas mulheres, prestes a eliminar o líder. “Agente Konstantinova, abortar missão. Suas ações serão tomadas como um ato rebelde e implicará consequências. Siga as ordens.” — Foi você — declarei. Em sua postura inabalável, ele me fitava sem piscar. — Se eu deixá-lo entrar lá agora, vai desmantelar toda a operação. — Siriu — rosnei. —, não faça isso. De novo, não. — Anos de pesquisa, milhares de vidas inocentes por apenas uma? Não posso deixar. — Não é apenas uma vida, é ela. É Onira. — Poderia ser Angelina, Kaladia e até mesmo Blair. A Liga investiu demais para destruir uma organização que levou anos e mais agentes do que contávamos perder. — Ela é minha! — Isso não é da minha conta. Suas palavras não me surpreenderam, mas mexeu em algo dentro de mim que não tinha tocado nem durante o tempo que ele me aprisionou e torturou. — Se não me der a autorização e apoio de campo para entrar... vou fazer por minha conta. Sem se abalar com minha ameaça, ele encolheu minimamente os ombros. — É por sua conta e risco. Todos na sala podiam ouvir a conversa, mas eu não me importava. Se Siriu não tivesse morrido para mim quando me apresentou o inferno, tinha deitado na cova que cavou para si mesmo naquele exato momento. — Obrigado... irmão. — Demeron. — Ele chamou quando comecei a me afastar, decidido a lidar com a situação eu mesmo. Parei e olhei por cima do ombro. — Lembre-se que toda ação tem uma consequência. A ameaça clara em sua voz dizia tudo. Foda-se! Eu não me importava. — Alguma chance de que ela esteja grávida? — Tieko perguntou, despertando em mim um pensamento que ainda não tinha aparecido. — É claro que sim. Ele chegou tão perto que eu podia sentir a raiva saindo dele. — Então as chances de que ela possa estar bem longe acabam de subir para infinitas. Ao ouvir suas palavras, me lembrei de todos os rituais que havíamos assistido durante os meses dentro das Kambarys, e num ato impensado, tirei minhas duas armas do coldre e apontei para meus irmãos. Para minha família. —O que está fazendo? — perguntou ao meu lado. Estávamos de costas para uma linha reta direto para a porta de saída. — Salvando sua irmã. Saia, Tieko. — Demeron, não faça isso. — Siriu alertou. Sua única preocupação era que eu levasse Style e tirasse dele o brinquedo que vinha caçando incessantemente. Naquele momento, tornei verdade a mentira que eles me condenaram por anos. Me tornei um traidor. Com as armas erguidas e prontas para puxar o gatilho, passei os olhos por cada um. O rosto chocado de Kaladia, a inexpressão de Liémen, o sorriso de Regnar e a surpresa de Harlen. Por fim, a fúria de Siriu. Eu o obedeci daquela vez e me arrependi a cada dia desde então. Não cometeria o mesmo erro de novo. Não com ela. Fomos de costas até a porta e Style a abriu. Saímos e entramos no primeiro carro que encontrei, fazendo uma ligação rápida nos fios para ligar o motor. As portas destravaram e dei partida, mas a porta traseira abriu e Harlen estava lá, sentado, com uma expressão serena. — O que está fazendo? — perguntei, olhando pelo retrovisor. Ele acendeu um cigarro. — Indo pegar essa tal de Onira... quem é ela, afinal? “Quem vai te acompanhar pelo lado sombrio da manhã? Quem vai te embalar quando o sol não te deixar dormir? Eu levarei comigo As polaroides e as memórias Mas você sabe que eu vou deixar para trás o pior de nós dois” SELENA GOMEZ, IT AIN’T ME Eu queria abrir os olhos e ver Demeron. Queria que aquilo fosse mais uma vez, uma tentativa distorcida de me proteger, mas de alguma forma, eu sabia que não era isso. Eu não veria Kirina, nem Heinritch, ou meu noivo apareceria para me explicar o porquê me apagou e levou-me para algum lugar. Então, quando abri os olhos, esperava Stark, Siriu ou Regnar. Sabia que um deles finalmente havia me pegado. Talvez os três juntos. Demeron me avisou que sua família queria me prejudicar, que fariam isso como retaliação e vingança por algo que Style lhes fez, mas eu não ouvi. Talvez Demeron finalmente fosse mostrar sua verdadeira face e revelaria que estava junto com sua família naquele plano também. Só que não era isso. Eu ofeguei quando a luz que vinha de uma pequena janela no alto da parede iluminou o espaço ao redor de mim e fez meus olhos piscarem, sensíveis. Alonguei meu braço, sentindo uma dor forte no que estava caído no chão, e uma pior ainda ao ver que o outro estava erguido acima da minha cabeça, preso numa algema e tão esticado que se eu ficasse sentada por mais tempo, ele quebraria. A dor era quase insuportável em todo o meu corpo. E ao olhar mais de perto meu braço livre, vi manchas de picadas arroxeadas por alguns lugares. Imediatamente lágrimas vieram aos meus olhos. Flashes de momentos que eu não sabia se eram reais ou tinham sido fruto da minha imaginação passaram pela minha cabeça. Eu me batendo e tentando escapar, depois acordando grogue e sendo apagada novamente, não tendo tempo de entender quem estava perto de mim, quem me transportava e até onde estava. Estaria ali por apenas um dia ou teriam me deixado desacordada para confundir completamente a minha noção de tempo? Lembrei de Style aparecendo e que foi onde tudo desmoronou. Senti uma amargura tão grande pelo meu irmão, meu próprio sangue, que chegou a doer fisicamente, mas também me lembrei de não saber o que tinha acontecido após ter sido levada. Ele teria sido atingido? O barulho do tiro sendo disparado ainda ecoava na minha mente e juntou-se aos meus pesadelos, que eram muito mais profundos do que os que eu já tinha antes. Eram mais dolorosos e parecia que eu nunca poderiaacordar. Estiquei as pernas lentamente, franzindo a testa ao ver a roupa com a qual estava vestida. Em frente aos meus olhos piscavam alguns fracos pontinhos escuros e me perguntei o que estavam aplicando em mim. A roupa era leve e transparente, e reparei que todo o meu corpo estava visível através do tecido, minha pele nua por debaixo fez o pânico começar a se alastrar. — Você acordou! A voz alegre despertou minha atenção e só então percebi que não estava sozinha. A minha frente havia uma mulher sentada na mesma posição, tinha os braços amarrados a sua frente e as pernas esticadas, porém, no seu rosto havia um sorriso que eu não compreendi. Longos cabelos castanhos claros escorriam para baixo e algumas mechas cobriam um pouco um lado de seu rosto. Tinha a cabeça meio caída para trás, escorada. Ela usava a mesma túnica branca que eu, mas numa verificação rápida percebi que enquanto a minha estava branca, a dela estava um pouco suja, de terra, talvez, e perto das pernas algo que fez meu coração bater ainda mais acelerado... havia salpicos de sangue. Eu nem precisei pensar demais para saber o que tinha acontecido. — Onde... — Comecei a falar, mas minha garganta arranhou tão forte que parei, tocando meu pescoço. — Nós... — Doía demais! — Estamos? Ela me observava atentamente. Depois de ouvir minha voz, inclinou-se para frente, arregalando os olhos em minha direção. Me peguei surpresa e ao mesmo tempo, um pouco fascinada com a cor de sua íris. Era de um âmbar tão claro que parecia amarelo, nunca vi nada igual. Tinha um rosto simétrico, que mesmo um pouco sujo eu podia ver. Parecia uma boneca. — Numa Kambarys — respondeu tranquilamente. — Não sei muito. Logo o mestre voltará. Meu cenho franziu ao ouvi-la. Mestre? O que ela estava dizendo e o que diabos era uma Kambarys? — Ouça... — falei baixinho, me esforçando para ignorar a dor que causava. — Você conhece Demeron? Siriu ou Regnar? Talvez Stark? — Esses são os seus Mestres? — Não! Eu não tenho... Mestres. Alguns homens me trouxeram para cá, não sei onde estou. Ela sorriu e se aproximou um pouco mais. — Estamos na Kambarys. Está tudo bem, acho que você foi criada diferente de mim. O meu Mestre permite que eu saia de sua casa e venha servir os irmãos, mas acho que o seu te deixou sozinha por muito tempo. — Servir? — sussurrei. Ah, não. Aquilo parecia cada vez pior e muito mais aterrorizante do que eu podia esperar. Por que ela estava sorrindo? Além de tudo, falava comigo como se estivesse acostumada àquela situação. Como se já tivesse passado pela mesma coisa antes. Quando me disse “você acordou”, estava aliviada, mas não surpresa. Não estava desesperada para sair dali e nem entendia o meu próprio desespero. — Sim. Às vezes pode ser difícil, mas no final do dia nós sabemos que tivemos a honra de servi-los. Eu sempre agradeço ao Senhor. Como eles te chamam? — Onira — sussurrei novamente, sem saber o que mais dizer diante de seu discurso insanamente apaixonado. — Meu nome é Onira. O sorriso que iluminou seu rosto quase me fez não perceber o barulho de correntes fora do cubículo onde estávamos. Eu a fitei desesperada, esperando que me dissesse o que aconteceria a seguir. — Eu sou Freya. Então a porta abriu, e com o vislumbre de um corredor ali, assisti dois homens entrarem, um deles esticou a mão para... Freya, e ela aceitou sem hesitar, me dando um olhar sereno enquanto o homem tirava a corda de seus pulsos. O segundo, que havia me dado um soco em minha casa que me fez desmaiar, veio em minha direção como se nunca tivesse me visto e tirou meu braço da algema. Tentei me afastar, mas ele desferiu um tapa no meu rosto, fazendo-me ficar zonza. Vi Freya olhando os pulsos que, sem as cordas, tinham sangue, e depois de me olhar uma última vez, tirou a roupa e saiu, acompanhando o homem. Ela não lutava, não chorava, não gritava... estava em paz com o que aconteceria. Nua, machucada, presa e sangrando... como isso era possível? — Por favor — sussurrei para aquele que me levou ali. — Trata-se de dinheiro? Eu tenho, dou tudo a vocês! Um sorriso torto e desalinhado surgiu no rosto dele. — Escuta aqui, japinha. Viu como a outra saiu sem problemas? Siga o exemplo e não será machucada por nós. — Acha que não vi o sangue na roupa dela?! — Quando eu digo nós... quero dizer os servos, não os irmãos. Não espere misericórdia deles, pois nunca terá. — Eu imploro! — Tentei me safar quando me levantou, mas ele parecia não me ouvir mais. Levou-me para fora e quando me vi no corredor, ele começou a andar, arrastando-me ao seu lado. Ao longo do longo corredor havia outras portas, onde eu tinha certeza de que havia mais como eu e Freya. A verdade sobre o que era aquele lugar começava a cair como uma bomba em cima de mim. Via sobre aqueles lugares nos noticiários, ouvia histórias, mas quando poderia imaginar que iria parar ali? A gente nunca espera que certas coisas nos aconteçam, a menos que estejamos na situação. E como num filme de terror, o assisti abrir uma porta dupla e o inferno se revelar diante de mim. A primeira coisa que vi foram lenços pendurados no teto, todos eram vermelhos, e o chão de pedra sob meus pés enquanto caminhei pelo enorme salão cheio de pessoas, tinha algumas partes secas e outras molhadas. Me obriguei a não olhar, a não querer saber no que estava pisando. Mas era pior aquilo do que a visão... as visões diante de mim? Havia mulheres... meninas... apanhando, sendo divididas, nuas, algumas ajoelhadas de cabeça baixa aos pés de homens que conversavam. Gritos, gemidos, barulhos inconfundíveis de sexo enchiam meus ouvidos. E o cheiro no ar era repugnante, me fez querer vomitar. As lágrimas me escapavam sem controle, eu já nem as sentia. Travei no lugar quando vi uma baixinha, de no máximo quinze anos, de mãos dadas com um velho que segurava uma taça de champanhe e sorria. Acompanhei os dois e quando ele a jogou numa enorme cama redonda onde havia outras pessoas, parei de olhar. Uma criança... Uma. Criança! Lembrei de Freya, revivendo em minha mente suas palavras. “...mas no final do dia nós sabemos que tivemos a honra de servi-los.” — Onira! — Uma voz alegre cantou, e olhei na direção para ver um homem alto, muito bem aparentado, se aproximar me olhando fixamente. — Não sabe quanto tempo esperamos por você... “Eu sempre agradeço ao Senhor.” — O que é isso? — sussurrei, tão fraca que se não fosse o homem me segurando, eu teria desabado. O homem a minha frente, que segurava seu charuto, sorriu um sorriso tão demoníaco que eu sabia... simplesmente sabia que tudo tinha acabado ali. — Você pagará a dívida de seu irmão. E vai pagar do melhor jeito... com sangue. “Me dê um sinal Abandone suas mentiras Deite-se ao meu lado Não escute quando eu gritar Enterre suas dúvidas e adormeça Descubra que eu fui apenas um sonho ruim” APPARAT, GOODBYE Meu tormento não tinha fim. De joelhos e com as mãos amarradas nas costas, assisti durante horas sem poder desviar os olhos. O mesmo homem que me esmurrou na minha sala e depois me arrastou de dentro do cubículo quando acordei ali, estava bem atrás de mim, e cada vez que eu abaixava a cabeça ou fechava os olhos, ele me batia com um chicote. Não era nem de perto tão sofrido quanto as dezenas de meninas espalhadas por aquele salão infernal, mas minhas costas pegavam fogo, eu sentia partes do tecido rasgado daquela roupa transparente esfregando na pele sensível e as lágrimas não paravam de cair, silenciosas. Não podia pedir, não podia implorar e nem fazer barulho. Uma mordaça foi enfiada em minha boca, e o tecido era tão rústico, que o menor movimento machucava meus lábios e gengivas além da dor. — Olhe. — Ele disse, puxando meu cabelo com uma força que me fez vacilar nos joelhos, levando-me a olhar para o lado. Havia uma mulher deitada na mesa, eu nem sabia se era realmente uma mulher já adulta, afinal, tinha visto tantas meninas lá dentro que não podia mais dizer. Seus braços estavam amarradosum ao outro, presos em uma das pernas da mesa e os pés levantados eram fixados por uma espécie de ferro que os prendiam com uma corda. O cabelo era tão longo que espalhava por todos os lados, assim como a de todas elas. Todas tinham enormes cabelos. Estava nua e a única coisa que a cobria eram mãos que passavam por todo o seu corpo. Eu contei treze homens que repetiam algo, uma frase, e juntos parecia como se estivessem cantando aquilo. Pela roupa, eu sabia que eram homens da igreja, vestidos com batinas pretas, que tinham as faixas pintadas de vermelho. Eles não tiravam os olhos da mulher na mesa. Eu quis vomitar enquanto suas orações se tornavam mais altas, mais claras, vibraram em minha mente. A não ser os gritos e gemidos sôfregos, não ouvi a voz de nenhuma delas. Nenhuma falava nada a não ser pelos ocasionais: sim, Mestre. Mestre. Aquela palavra maldita estava sendo fixada na minha mente a cada vez que era proferida, e começava a despertar em mim um ódio tão grande, que não sabia quanto tempo mais poderia ficar calada, parada e obediente. O homem que disse que eu tinha uma dívida de sangue parecia ser algum tipo de líder para eles. Eu estudei, lia jornais, ouvia histórias, e sabia... tinha certeza, que estavam cultuando algo ali. Eles se cumprimentavam com a saudação nazista de Hitler e adoravam um “Príncipe”. Mas, na parede onde havia uma espécie de púlpito, tinha uma cruz quebrada. E em cima dela, uma estrela de cinco pontas em volta de um círculo, um pentagrama invertido. O “Príncipe” deles não era Deus. Eu podia sentir. No começo, duvidei que fosse realmente uma igreja, mas o lugar era tão caracterizado, tão decorado, que começava a me sentir dentro de uma. Nem de longe havia a paz e conforto, isso não existia lá dentro, mas era igual. Havia os homens vestidos com roupas da igreja, cânticos nas outras línguas. Apenas as cores diferentes, tudo era escuro, vermelho e preto, sempre. Escuridão e sangue. E no centro de tudo, havia uma única pessoa. Aquele homem era o único vestido, era quem dava as ordens, quem começava a cantar cânticos em idiomas que eu não reconhecia. E os outros o seguiam fielmente. Brutalizavam meninas e mulheres e cantavam rezando para o diabo. Kazel... era esse seu nome. O nome do meu inferno pessoal. Do inferno de cada uma ali dentro. — Príncipe das trevas! Nós te apresentamos essa oferenda, realizamos a missa negra em teu nome! — Ele gritou, começando novamente a cantar. — Heil. — Os homens responderam. — Irmãos, recebam a hóstia consagrada. O homem abaixou na minha frente e tirou a mordaça sem delicadeza alguma, pude ver pontinhas de sangue por ela e imediatamente minha boca começou a queimar. — O que é... isso? — Minha voz era fraca, ridícula. Ele olhou em volta, depois me encarou no fundo dos olhos. — Não é isso. Somos nós. E nós somos o quarto Reich. — Comam, irmãos! — Kazel gritou, rindo — Comam e bebam e cantem comigo! O Príncipe está aqui nessa noite, vamos celebrar ao príncipe das trevas! De repente, a mesma porta pela qual eu havia saído antes — que pareciam horas sem fim — abriu novamente, e um desfile de meninas começou. Todas elas engatinhando, e em cima de suas costas, havia o pão, a hóstia que era servida na igreja católica. — O arcebispo de Roma e nosso sumo sacerdote a consagrou para nós. Arcebispo de Roma? Sumo sacerdote? — O que é um sumo-sacerdote? — perguntei, mesmo correndo o risco de apanhar novamente. — Aquele que faz magia negra para nós. — O homem respondeu, sorrindo. — Quem é você? — sussurrei, sentindo dor em cada parte do corpo. Ele passou as mãos com uma estranha delicadeza em meu rosto, o sorriso não saía da boca. — Eu sou Mudié. E Onira... é finalmente um prazer conhecê-la. — Finalmente? — Ah, sim... nós caçamos o seu irmão por anos, mas então pensamos... trazê-lo para sofrer e morrer rapidamente ou pegar a única coisa com que ele se importa e deixá-lo saber que ela vai sofrer no lugar dele até o fim da vida? Solucei, deixando a cabeça cair em derrota. O que mais podia fazer? Meus joelhos estavam esfolados do chão, mãos presas atrás das costas, minha boca inchada, minhas costas ardendo como se sanguessugas rastejassem por cima. — Venha cá, honre o nosso Príncipe. — Saia de perto de mim. — Minha tentativa de resistir foi ridícula e ele riu. — Não vou comer nada de vocês. O sorriso dele cresceu mais ainda, os olhos escuros tinham algo tão ruim... tão maligno, que era capaz de me deixar pior do que já estava. De supetão, alguém segurou minha cabeça dos dois lados para trás, e ele enfiou um pedaço do pão no fundo da minha garganta, fechou minha boca e ficou me olhando, esperando que se dissolvesse. Como se não fosse o bastante, ele inclinou-se e passou a língua pelo meu rosto, levando uma das lágrimas que escorria. — O sofrimento é sempre o melhor sabor. É salgado, mas depois de um tempo posso sentir o doce. — Ele sussurrava perto do meu rosto, tão perto que eu sentia sua respiração soprar em mim — É o que vai acontecer a você, por agora, sofrerá, mas quando entender nossa causa, vai se alegrar a servir a nós. — A homens que cultuam o diabo e um dos maiores assassinos da história? Como qualquer fanático, ele não gostou de ouvir aquilo, bateu em meu rosto, segurando-me mais uma vez para falar. — Nunca... jamais desrespeite o Príncipe. — Você é um completo idiota, sua ideologia é burra e o que vocês fazem aqui dentro deveria ser pago com pena de morte! — Seguimos os passos do Führer. Você vê... as pessoas acham que ele era cristão, alguns juram que era evangélico. Mas ele sempre seguiu a uma única crença: ele mesmo. Kazel — apontou para o louco que continuava cantando no púlpito. — Revive essa chama em nós. Nós vamos de país em país, a cada cidade e recrutamos pelo menos um, e ele recruta mais um, que recruta outro. Vamos dominar o mundo. Sem essa de servir ao seu deus e entidades. O príncipe das trevas sempre seguiu a uma única coisa, que eram suas vontades. Nós passamos por cima do que for preciso para conseguirmos o que queremos, nosso pai apenas nos ajuda nisso, então nós precisamos de vocês... para agradecer a ele. O discurso era tão absurdo que eu não sabia o que dizer. Como era possível que algumas pessoas, como Kazel e Mudié, e todos aqueles homens, não enxergassem o que estavam fazendo? Não... na verdade eles sabiam muito bem, mas não achavam errado! — Elas estão sofrendo, todas elas. Não sei se sairei daqui, se vou morrer daqui a um dia ou um ano, mas desejo com todas as forças que vocês paguem por isso. Ele sorriu e ficou de pé. — Se o Príncipe desejar assim. Que seja. Agora tire a roupa. — Nunca. Com uma sobrancelha erguida, ele voltou a me tocar, tentando levantar- me para tirar a túnica. Lutei com ele o quanto pude, e quando estava quase perdendo as forças, meu mundo parou de novo. — Não toque nela. — A voz era mais rígida, mais firme, porém, não irreconhecível. Fechei meus olhos, tinha medo de ver. De olhar na direção e confirmar que era exatamente quem eu estava pensando, mas não podia ser. Tinha que ser minha cabeça pregando peças em mim. Minha imaginação perdendo-se, já criando caminhos para seguir e tentar manter um pouco do que restava de nós. Queria que minhas mãos estivessem soltas, então poderia bater na cabeça. Tirar a voz dali. — Padre. — Mudié repreendeu. — Já disse para não interromper nossas iniciações. Padre. Nenhuma palavra explicaria o que senti ao ouvir aquilo e constatar que não era fruto da minha imaginação, ele estava realmente ali e quando ergui meus olhos, pude ver por mim mesma. Padre Terry. Em carne e osso. — Mudié... estou dizendo para que não toque nessa mulher. Ele gargalhou e abriu os braços, soltando-me. — Será que nosso santo padre finalmente resolveu usar o pau que tem? As risadas altas subiram como se aquilo fosse uma piada que compartilhavam há muito tempo. O padre ignorou e finalmente se aproximou de mim. — Padre Terry — sussurrei toda a minha mágoa, ódio e decepçãoexposta. Eu o olhei, vendo exatamente aquele homem em quem confiava e acreditava tanto. Ele balançou a cabeça negativamente. Ou... Será que uma foi ilusão? — A levarei de volta até a alcova. — Ele segurou meu braço com firmeza, mas não machucava. Eu não queria acreditar que aquilo estava acontecendo, que o homem para quem me confessei, orei e chorei buscando consolo, fazia parte de algum tipo de seita. Que tinha parte em tanta brutalidade, sofrimento e dor. Eu nunca desconfiaria. Nem eu e nem a velhinhas da igreja que confiavam cegamente nele. — Espere! — Kazel falou em meio ao silêncio gritante. Padre Terry parou, e dando-me um rápido olhar, falou tão baixo que tive dúvidas se realmente disse algo. — Siga meus movimentos. Ele voltou seu olhar para Kazel. — Sim? Kazel acenou para Mudié com um sorriso, e voltou seu olhar para nós. — Não vamos de fato tocar nela até termos certeza se está grávida. Aquela história de gravidez estava me assustando em um nível fora do normal. Eu tentava não associar minha conversa breve com Freya a tudo o que diziam, mas era difícil. Ter certeza de que está grávida? Me vinha à mente ela dizendo que foi “criada” para isso. Mas, a possibilidade e o pensamento era tão condenável que não podia aceitar sequer a teoria. Subitamente, padre Terry foi empurrado para longe, seus olhos arregalados vieram para mim e tentou se soltar, mas havia três homens o segurando firmemente. Ele olhou para longe de mim e soltou um “não” estridente. Seguindo sua linha de visão, comecei a andar para trás ao ver do que se tratava, mas um outro homem me segurou por trás, impedindo-me. Mudié pegou o enorme ferro que seguravam e o alisou de cima a baixo. Meu coração disparou, comecei a balançar a cabeça descontroladamente, sabia o que era aquilo. Sabia que pela forma como me olhava, o que estava prestes a fazer. Os homens riram do meu protesto e aquele que me segurava tornou seu aperto mais firme. Eu podia ouvir os gritos de Padre Terry, mas não conseguia entender o que ele estava dizendo. Apenas a imagem de Mudié vindo em minha direção, caminhando com passos tão lentos que pareciam calculadamente feitos para me aterrorizar ainda mais, me fazia esquecer de todo o resto. Que aquilo era culpa do meu irmão, que ele não estava morto, que voltou apenas porque o meu noivo também o queria morto, e que meu padre era um louco, fanático, parte de uma seita. A única coisa que ecoava em minha mente junto a seus passos, era a promessa de Mudié, de que eu sofreria lá dentro para sempre. Ele parou a um passo de mim e inclinou a cabeça para o lado, parecia se divertir. Tinha certeza de que estava se divertindo. — Por que está chorando? Nós ainda nem fizemos nada. — Por favor... por favor... por favor! Não faça isso! Não sei o que meu irmão fez, mas não faça isso comigo! — Deixe-a! — Padre Terry gritou. — Kazel, pare isso agora. Pare isso agora! — Não se preocupe, padre. Não vou desgraçar o templo das nossas oferendas até saber se há um possível sacrifício aí dentro. Mas, ela precisa ser marcada, precisa saber aonde pertence agora. Eu não tinha mais voz para gritar. As risadas altas e escandalosas dos homens que assistiam, e os olhares neutros das meninas ao redor já nem me eram vistos mais. Mudié acariciou meu rosto devagar, fazendo-me encarar seus olhos, e segurou meu pescoço firmemente e sem nem precisar colocar muita força me fez ajoelhar. — Irmão. — Ele chamou, apontando para um outro homem nu a nossa frente, que veio como se soubesse exatamente o que fazer. Parou ao meu lado, com seu membro duro a poucos centímetros do meu rosto, eu fechei os olhos chorando baixinho, sem forças. Ele segurou meu cabelo e empurrou minha cabeça até o queixo tocar meu peito. Eles começaram a cantar outra vez enquanto Kazel falava naquele idioma estranho, tudo estava tão distorcido, sem nexo. Em seguida eu senti algo gelado, como se pedras de gelo afiadas estivessem sendo esfregadas na minha pele, ouvi um barulho lancinante, o típico barulho de algo queimando, então veio o cheiro. Num segundo eu estava vomitando, sentindo um odor podre e as fincadas que começaram a ficar mais fortes, e o que era um comichão gelado... explodiu. Meu grito horripilante causou vários outros e eu não sabia se elas gritavam por estar sendo machucada ou pelo reflexo do meu próprio sofrimento. Do nosso sofrimento. Minha nuca estava em chamas. Pegando fogo. Uma dor tão forte, tão profunda, que fiquei mole, quase desmaiando. Os gritos de fundo, as canções, os barulhos... tudo combinava para que a dor enraizada tão profundamente em mim fosse a única coisa que eu pudesse sentir. Não havia mais esperança, nem alegria de memórias felizes, nem visões para me livrar do desespero de estar ali, onde a qualquer hora a polícia, meu irmão ou Demeron entrariam para me salvar. O cheiro foi ficando mais forte, impregnando em meu nariz, embrulhando meu estômago mais ainda. O chão foi se aproximando rapidamente do meu rosto, percebi que ia caindo e me desliguei. “Se eu te dissesse que isso só iria machucar Se eu te avisasse que o fogo iria queimar Você andaria nele? Você deixaria eu ir primeiro? Você me deixaria te guiar mesmo quando for cego No escuro, no meio da noite, no silêncio, quando não há ninguém ao seu lado Você se levantaria e viria me encontrar no céu? Quando a tristeza deixa você quebrado em sua cama Vou te abraçar nas profundezas do seu desespero E é tudo em nome do amor” MARTIN GARRIX FT. BEBE REXHA, IN THE NAME OF LOVE — O que fizeram em mim? — sussurrei a pergunta para Freya. Ela tinha trocado de roupa, estava limpa, com os cabelos molhados. Tinha alguns machucados no rosto e algumas marcas nos braços. Não parecia incomodada por fora. Querendo que olhasse e me dissesse o que havia sido marcado na minha pele, virei-me, soltando um gemido excruciante de dor e ela correu para o meu lado, me segurando. — Fique parada! Se você se mover, a dor dispara em todos os cantos do seu corpo, a dor recente aflora a dor antiga. Precisa ficar parada até que aprenda a lidar com os ferimentos, com o que está sentindo. Então fique quieta até parar de doer. Venha cá, fique bem assim para que eu possa ver. Ao meu lado, ela tirou os cabelos do caminho. — Vou amarrá-los no alto da cabeça, assim não vai ficar encostando na marca — falou. Marca? O que ela chamava de marca eu chamava de terrorismo, de tortura, de brutalidade, de falta de humanidade. Era uma queimadura de ferro, como se eu fosse uma escrava, como se fosse um animal, eles não tinham o direito e ainda assim faziam o que queriam com a vida delas. Com a minha vida. — Você tem isso? — É claro. Todas nós recebemos quando somos reconhecidas por um Mestre. É a primeira coisa que ele faz, nos marcar para que saibamos que somos deles. Mas a sua marca é diferente da nossa. Ela tocou um pouco abaixo da pele maltratada e eu me sobressaltei com um grito. — Perdão! Desculpe-me. Desculpe, Onira. — O arrependimento em sua voz era forte, como se tivesse acabado de cometer um crime. — Tudo bem — sussurrei. — Você reconhece a... marca? — Não. Nunca vi antes. — Eles vão fazer pior não vão? Farão de novo e de novo, e pior, até que não sobre nada de mim. Só um zumbi. — O que é um zumbi? — perguntou, assustada. Suspirei, derramando mais lágrimas. Ela não sabia o que era um zumbi, não sabia nada do que eu falava, não me entendia. Eu queria perguntar mais sobre sua história, queria saber se tudo o que eu estava pensando era verdade, se quando ela disse que foi criada pelo mestre quis dizer literalmente. Mas, seu jeito, seu modo de agir, de falar e sua concordância absoluta com tudo que aconteceu ali dentro, na verdade, o modo como todas elas já esperavam por isso... me fazia ter certeza agora, que não foram sequestradas na adolescência e colocadas lá dentro. Aquele comportamento estava enraizado tão profundamente em seus corpos, seus olhos e em suas mentes, que quando ela dizia “criada”, significava apenasuma coisa: ela nasceu ali. Com quantas outras isso tinha acontecido? — Respondendo o que me perguntou... — Ela falou depois de um tempo. — Eles vão voltar, sempre voltam. — Para... para fazer... — A imagem da menina deitada na mesa me veio à cabeça. — Uma pessoa virá para dizer ao Mestre se você está com uma criança. Se não estiver, vai começar a servir ao príncipe das trevas como nós fazemos. Voltei meus olhos arregalados para ela, mas Freya continuou em sua tarefa de rasgar a barra do vestido para poder amarrar meu cabelo. Mesmo tão machucada, estava cuidando de mim. Nem me conhecia, mas cuidava de mim, em meio àquela podridão de pessoas, Freya era boa. — E se estiver? — Seu primeiro bebê é sempre sacrificado para agradecer ao príncipe pela vida e por tudo o que nos dá. — O... primeiro? — Sim, nós estamos aqui para gerar frutos. Depois do primeiro, sempre teremos mais. A naturalidade em sua voz era bizarra. — E onde estão esses bebês? — O Mestre os vende. Há homens que pagam realmente caro para ter bebês. Mas, alguns ficam e são criados por pessoas de dentro, é o que meu Mestre diz, mas não entendo muito. Ele não fala comigo dessas coisas, apenas ouço aqui e ali. Então aquilo não era realmente algo sobre crenças? Era como uma fábrica? Minha cabeça estava dando voltas infinitas. Uma rede de tráfico humano, de sexo. Kazel ganhava dinheiro forçando jovens a terem filhos para vendê-los? Estava ficando rico as custas de tanto sofrimento? Para quem? Pedófilos? Cafetões? Casais que queriam ter filhos do modo mais fácil, e por isso, compravam daquela forma terrível? Por que Style estava envolvido com aqueles monstros? — Por que o primeiro é sacrificado? Ela colocou as mãos nos joelhos e olhou para a porta, fitando-me com calma e atenção. — É uma prova de nossa devoção a ele e gratidão por tudo o que faz por nós. Tudo o que nos proporciona. Ela sorriu para mim, apertando minha mão. Parecia que queria me deixar confortável. — O-o quê? — sussurrei. — Desde que nasci, tenho servido ao meu Mestre. Ele me criou e ele cuida de mim. Deve haver um motivo para você ter vindo tão tarde, já é adulta, posso ver isso, mas o Mestre sabe o que faz. — Você... você está aqui desde que nasceu? — Sirvo ao Mestre em seus desejos e necessidades. É a minha vida. — Aquela mulher lá fora... isso já lhe aconteceu? — perguntei, morrendo de medo do que receberia como resposta. — Já tiraram algum bebê de você? Ela franziu a testa, inclinando a cabeça e me fitando com curiosidade. Seus olhos amarelos não tinham nenhum brilho, eram opacos e sem vida. — Tiraram de mim? Não há o que tirar de mim, eles são do Príncipe. Fui arrastada de volta para fora um tempo depois, de volta para aquele salão. Usava uma roupa nova, limpa e sem rasgos, mas não tinha tomado banho e nem comido nada. Era mais de um dia sem comida e tinha ganhado apenas um pouco de água. Em dois dias já existia em mim uma vontade de desistir sem tamanho, de implorar pela morte apenas por saber o que me aguardava, mas a velha Onira, aquela que lutou para sair da pobreza com o irmão e chegar ao topo não deixava. Ainda existia um pouquinho da voz dela gritando dentro de mim “Não desista”. Mas, eu queria, queria parar de lutar. Meus pulsos já estavam inchados da corda que os mantinha unidos, era um aperto forte e seguro, que não importou quantas vezes tentei afrouxar, foi em vão. Me perguntava o que aconteceria agora que a médica já esteve ali, uma mulher. Ela me olhava nos olhos e conversava com os homens como se os conhecesse bem, sabia tudo o que acontecia lá dentro e simplesmente não se importava. Ela entrou, me fez urinar ali mesmo, na frente de Freya, Mudié e outro homem, depois esperou, e quando saiu o resultado, me deu um sorriso que não pude interpretar. E o pior era que eu não sabia se estava ou não. É claro que existia a chance, mas nunca pensei em uma criança tão cedo, na verdade, nem sabia se queria uma. Na perspectiva de que poderia tê-la e ela ser tirada de mim por um culto religioso falso, que servia apenas como fundo para um traficante de pessoas... isso me aterrorizava além do que eu já estava. O que Demeron pensaria? O pensamento sonhador no meio daquela selva foi inesperado, mas a imagem dele com uma pequena criança, mesmo que fosse a realidade mais distante, me acalentou. Quando isso vai terminar? — Assista, Onira, assista o que vai lhe acontecer. — Tremi ao ouvir a voz de Kazel, e Mudié segurou meu rosto na direção que o homem segurava a garota. Ele batia nela por trás incessantemente, seus cabelos longos e cacheados balançavam com os movimentos, suas mãos escorregavam e ela ia para cair, mas se segurava no último minuto. Estava mole, com os olhos turvos, assim como todas as outras. Todas drogadas. Freya era a única que estava constantemente sóbria, nada lhe era aplicado, e ela não apanhava sem estar no salão. Mesmo quando não obedecia em nossa cela ou demorava a cumprir uma ordem. Mas, fora ela, e por enquanto, eu, e todas as meninas, vivíamos sob o efeito de algo. Mudié colou seus lábios no meu ouvido, enquanto me fazia assistir a garota sendo machucada pelo homem gordo e velho. — Por mais que nós adoraríamos que tivesse um bebê para fazer muito dinheiro com ele, felizmente você não está grávida — sussurrou. — O que significa que sua boceta é nossa, até que alguém coloque uma criança aí dentro. Isso te deixa feliz? — Acariciou meu pescoço. — Nunca saber quem é o pai do seu bastardinho perdido pelo mundo? Mas não se preocupe. Se for uma menina, vou me esforçar para que Kazel me deixe ficar com ela. Ao passo de que a revolta me possuía pelo significado de suas palavras, não tive tempo de reagir, pois uma faca brilhou na mão do velho e sem que ninguém fizesse nada para pará-lo, ele passou a faca pelo pescoço da menina. Um grito horripilante me escapou, rasgando a garganta e minhas entranhas, o medo absoluto me corroía. Eu assisti horrorizada quando ele sorriu na minha direção e começou a vir diretamente para mim. Era isso? Meu destino estava selado? — Não — implorei a Mudié, mais uma vez. — Por favor, não... Me forcei para trás, mas ele me segurava firme, sem chances de escapar. Quando o homem esticou a mão para meu rosto, fechei os olhos, desejando morrer. Não tinha para onde ir... Mas ele nunca chegou a me tocar. Senti um impacto em minha perna e olhei para baixo, vendo-o caído, gritando, segurando a perna. Desnorteada com o que havia acontecido e pela comoção que se causou, olhei em volta, buscando o que viria a seguir, mas então, meu mundo inteiro parou. Minha respiração travou. Quase não sentia meu corpo. Com o cabelo preto e as mãos nos bolsos da calça de um terno, Demeron vinha em minha direção. Eu não sabia se era uma miragem, se já havia morrido e era minha alma tendo uma ilusão de esperança, se simplesmente estava vendo coisas. Minha miragem parou a poucos passos de mim e virou para o palco. Com uma reverência, portando-se como eu nunca o vi fazer antes, ele levantou a mão. — Heil! — Meus olhos encheram de lágrimas ao vê-lo fazendo aquilo. Não. Não podia ser... — Sinto muito, irmãos, mas eu a quero para mim. — Franzi o cenho, ele tinha um sotaque estranho, arrastado e um pouco travado. Mas era ele, era ele! — Ivanik Valuev. — Kazel aplaudiu lentamente, então desceu do púlpito. — Depois de tanto tempo... é realmente você? Encolhendo os ombros, ele... Demeron... tirou um maço de cigarros do bolso e chamou uma menina que estava perto, ela imediatamente o acendeu para ele. — Estava um pouco ocupado. — Para nós? Ocupado para seus irmãos? — Ocupado para qualquer um que não estivesse na cadeia comigo. — Ele riu. Realmente riu, e olhou ao redor como se contasse uma piada, atraindo outros risos pela sala. — Não me diga que estava preso... — Depois de Oslo tudo desandou. — Eu entendo, meu irmão — disse Kazel, jogou um braço pelos ombros de Demeron e apontou para mim. — Mas você não pode chegar aqui depois de dois anose exigir minha melhor mercadoria. — Pelo contrário, acho que mereço esse presente! — Demeron riu e abriu os braços, como se pedisse o apoio dos homens. Ele parou e abraçou Kazel de volta. — Ouça... deixe-me passar algum tempo com a menina lá dentro, depois vamos colocar o assunto em dia. Kazel sorriu de volta e bateu nas costas dele, dando-lhe um tapa fraco no rosto. — Não. Você sempre teve essa história de ir para um lugar privado, mas isso acabou. Quero vê-la, então faça na minha frente. Quando terminar, eu vou foder o rabo dela lubrificado com a sua porra. Meu sangue gelou. O coração desnorteado, não sabia se parava ou acelerava a ponto de um ataque cardíaco. Demeron o observou em silêncio, fumou o cigarro calmamente para só então responder. — Não poderei acatar seu pedido. Tudo aconteceu muito rápido. Freya estava ajoelhada ao lado de Kazel, de cabeça baixa e de repente um tiro soou e ela estava gritando, tentando estancar o sangue que saía da perna ferida. Kazel apontou a arma para mais uma menina e atirou no peito, depois em outra e atirou na garganta. — Você sabe que gosto do número quatro — falou para Demeron e apontou a arma diretamente para mim. — A próxima bala será na cabeça dela. Comecei a tremer sem controle, sabia que Kazel não estava blefando. Se aprendi algo o observando, foi que sua crueldade não tinha limites. As duas meninas mortas na minha frente, e Freya agonizando de dor eram outras provas disso. Contrário ao meu desespero, Demeron riu. Ele realmente estava rindo? — Não posso ter minhas preferências? — Seu sexo privado com essas garotas todas às vezes sempre se escondendo nos quartos, me faz pensar que, ou você não tem um pau, ou não está fazendo nada. Então eu me pergunto, Ivanik, você está me enganando? Ou será que é a porra de um viado? Sem se perturbar, Demeron prendeu o cigarro entre os lábios e olhando para Kazel, começou a desfazer seu cinto. Abismada, boquiaberta, o fitei enquanto ele abaixava o zíper e depois a calça, apenas o suficiente para colocar seu membro de fora. Minhas lágrimas voltaram com força. Minha respiração vacilou ao ver que não existia uma centelha de emoções em seus olhos, só um sorriso irônico, como se estivesse entediado com tudo. — Acha que eu sou uma bichinha? Kazel deu de ombros, a arma ainda em minha direção. — É sempre bom deixar claro o que o Reich acha de homens que marcham para trás. — Ele me fitou e acenou com a arma. — Pegue no pau dele. — Kazel... — Demeron falou, parecendo um pouco tenso agora. — Você não a queria? Vai ter. A repulsa me veio com força no pedido. De Kazel, de sua perversão, de saber que se eu não fizesse isso ele continuaria atirando nas meninas e depois em mim... Repulsa por Demeron estar ali. De terno, com um sotaque, um nome russo, fumando um cigarro e rindo com aqueles homens, de fazer parte daquilo. De saber que foi para quartos com aquelas meninas! Oh, meu Deus... Não era apenas padre Terry, Mic e Style... Demeron também havia acabado comigo. Todos eles juntos contribuíram para que minha luta, minha vontade de voltar para casa fosse embora. Me sentia fraca por não aguentar dois dias o que aquelas meninas aguentaram a vida inteira, mas ter o homem que eu amava estuprando mulheres e matando crianças... isso me matou. — Anda, pegue. — Kazel pausadamente mandou. Alguém cortou a corda que segurava meus pulsos, e as lágrimas da dor lacerante começaram a descer, já nem sentia mais meus dedos, estavam congelados do aperto sem fim. — Pegue. Agora! Soltei um soluço, incapaz de fazer o que ele pedia. Demeron estava ao meu lado, apenas a um levantar da minha mão de distância, mas meus músculos não entendiam isso. Não obedeciam! — Não posso — sussurrei para mim mesma, mordendo o lábio inferior em agonia. — Não consigo. Ouvi passos pesados se aproximando, e meu cabelo sendo puxado, depois, um tapa forte me atingiu. Os olhos demoníacos de Kazel estavam estreitos, a arma passando pela minha mandíbula. — Quando eu mandá-la fazer algo, você fará, puta! Transe com essa vadia agora ou eu farei isso, e apenas pelo seu desrespeito, vou matá-la depois. Então vou caçar a sua família, matar os homens e vender as mulheres, entendeu, Ivanik? Eu não queria que ele me tocasse, não ali, não com todas aquelas pessoas vendo, não sabendo o que ele fazia. Mas, não adiantava desejar algo naquele lugar, as esperanças eram as primeiras coisas que morriam ali dentro. Pela primeira vez, quando olhei nos olhos de Demeron, ele devolveu o olhar. E não havia nada. Como uma tola, ainda me obriguei a sentir que me ajudaria, a esperar que de algum modo impossível me tiraria dali. Fui atingida novamente, o gosto metálico do sangue invadindo minha boca. Isso foi o suficiente para ele afastar Kazel, empurrando-o. No momento que fez isso, os barulhos de armas sendo destravadas foram quase ensurdecedores. Todas apontavam na direção dele. Percebi naquele minuto que por ter tocado o líder, todos iam matá-lo. Mas ele riu novamente. — Eu já te disse que gosto eu mesmo de machucá-las, mas você a deixou sangrando. Só que Kazel não estava mais achando engraçado, ele apontou para outra menina e atirou sem hesitar. O homem que a segurava se afastou com um pulo, quase correndo da sala. Sabendo que ele não pararia, que ia matá-las até chegar a mim, forcei meus músculos a reagirem e fiquei na frente de Demeron, ergui a mão direita e olhando-o nos olhos, fechei meus dedos em seu pênis. Sua expressão não alterou, ele desviou preguiçosamente os olhos para cima da minha cabeça, onde Kazel estava, e tragou o cigarro, soltando a fumaça naquela direção. As armas ainda apontadas para nós. — Solte. — Não me olhou, mas eu sabia que falava comigo. Obedeci imediatamente. — Traga-me uma venda. Tive dúvidas se estava falando comigo, e ele viu isso em meus olhos. — Ela não precisa fechar os olhos, deve se acostumar com o que verá e fará aqui. — Isso não é sobre ela, irmão, é sobre mim. — Senti de repente seu toque discreto em minha cintura e me condenei por sentir uma rajada de calor, conforto. — Você querer interferir nos meus desejos, isso não me agrada. Demorou um pouco, mas o ouvi responder. — Pode trazer a venda. E sentem-se, pois o espetáculo vai começar. O espetáculo... Seria um show de horrores que durante o tempo que eu vivesse, ia me lembrar. Ter minha intimidade exposta, explorada, desejada por pessoas tão repulsivas... Isso jamais iria embora. A vergonha, o medo, a forma como eu sempre me sentiria humilhada estariam gravados na minha mente. — Olhe para mim. — A voz firme ordenou, relutante, obedeci. Os olhos azuis gélidos que eu amava, aquele rosto perfeito que antes, havia dito tantas vezes que ia me proteger, e estava prestes a me destruir. — Não tire a venda. Lentamente, ele deslizou a faixa cobrindo meus olhos. O pânico começou a crescer, mas segurei-me para não reagir. Kazel estava perto. Ele, sua arma e sua violência que já me fizera sangrar e faria novamente. Então, o que eu não esperava aconteceu. — Posso? — O sotaque havia sumido, era apenas ele dessa vez. Um alívio pesaroso me invadiu quando assenti. O que eu podia dizer? “Não”? E morrermos ali, no meio daquela bagunça nojenta? Morrer ao lado do homem que eu infelizmente amava? Me consolei com o fato de que seria a última vez. Me imaginei num mundo onde estávamos só nós dois, e que quando ele me inclinou sob a cama, ficando atrás de mim, os barulhos eram da rua, ou que estávamos em uma festa e loucos de paixão, resolvemos nos esconder num dos quartos vazios e fazer amor. Que quando suas mãos subiram por minhas pernas, levando o tecido transparente para cima até me desnudar da cintura para baixo, os arrepios que correram pelo meu corpo foram de excitação. Seu corpo caiu sob o meu, os lados o terno caindo aberto dos lados do meu corpo, cobriram-me como uma cortina, senti seu hálito em meu pescoço, sua mão acariciando-me, e mordi o lábio com força, rompendo a pele, ao perceber que sim, pouco importava