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PRIMEIRA PÁGINA -+ DA MESA DO EDITOR
A crise de confiança
APRENDI UMA COISA lendo
a reportagem de capa desta
edição: o cachorro é uma das
únicas espécies que nos olham
nos olhos. Foi a evolução que
ensinou esse truque a eles.
Afinal, o Canis familiaris
especializou-se em agradar
humanos para ganhar seu
sustento. Cães são primos dos
lobos que se diferenciaram
porque aprenderam a ganhar
nossa confiança. E, ao longo
dos milênios, eles entenderam
que o caminho para a confian-
ça humana é olhar fundo nos
olhos de uma pessoa.
Boa sacada dos nossos
amigos caninos. Afinal,
confiança é a coisa mais
valiosa que existe. Duvida?
Então imagine que você quer
comprar um carro usado e tem
duas opções de vendedor: um
no qual você confia cegamente
e outro que é um canalha
notório. Quanto a mais você
toparia pagar pelo carro do
dono em quem você confia?
Esse é um exemplo banal.
FotoDulla
O valor da confiança se
manifesta de formas muito
mais profundas. O próprio
dinheiro no seu bolso só vale
alguma coisa porque você
confia - você acredita no
Banco Central que o emitiu,
e que as outras pessoas vão
acreditar também quando che-
gar sua hora de passar a nota
para a frente. Se essa confiança
sumir, aquela nota de R$ 100
vira só um pedaço de papel.
Em grande medida, a
enorme crise da nossa
civilização, que é especialmen-
te séria no Brasil, é uma crise
de confiança. O país ficou
mais pobre nos últimos anos,
em parte, porque deixamos
de acreditar nele. E deixamos
de acreditar porque perdemos
a confiança uns nos outros.
A premissa é que não dá para
confiar em ninguém - e acaba-
mos entregando poder em
mãos indignas de confiança.
Fico imaginando o quanto
essa crise generalizada se deve
ao fato de vivermos numa
sociedade na qual
ficou raro nos
olharmos nos olhos.
De trás dos nossos
vidros fumê, de
nossas redes sociais,
de nossas estratégias
de marketing, ficou
difícil encontrar o
olhar do outro. E,
como bem sabem os
cachorros, sem isso,
nada acontece.
Denis Russo Burgierman
DIR ETOR DE REDAÇÃO
DENIS. BU RG IE RMANOABRI l .CO Jr.I. BR
EDITORA. Abril
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J!9C7-!990, (IU6-2f.113)
Conse!ho Editorial: Vktor Civila Neto (Presidente),
Thomaz Souto Corrta (Vlce-Pmidentc),
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Olrltor.11 Editorial Abril: A ltnandra Zapparoli
Dlrl tor Editorial - EstAo de Vida: Strgio G.,,'fmn:m
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Vide<>: Tbai1 Zlmnw:r M1rtiM Eoug!i ri<K ' Ana c Q イッセョ@ LN:wianli. Jltlll IYA .....
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Fc111Jai1u1. D11itl1 V1d1 (SAC}. faro FITi lH !Clrru liÇ&o ' 't\llblilo dt Vicia).
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Pad-. SP. CEP0542i-902, ltl .(11) 10u.200ll. Publil:Kaif Uo , ... lo .. infarna;M
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illF.dilOr!IAbril 19IOG+I セsNaN@ B m MイャョャュGャャャセイlエュQQQィャセャイB|ヲNAー。ャャィ。N@
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dャイエエッイsオー・イゥョエセョエQ@ da Gr!flr.a: Eduardo Cosia
Dil'ltl)r;ll Corporatiu.a dt RIWln<M Huma.-:daudia Ribeiro
Dfttota cl1I Rllac;6u (.orporativu: Mrire Fidclis
oretoraJi.ri:ia:MarianaMacia
PNskllntt Exlartivo da DGB: Claudi(J Prado
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CARDÁPIO I -+ AGOSTO OE 2016
ESSENCIAL
10 UMA IMAGEM •••
Raios na ilha de Kiribati,
no Havaí, vistos da Estação
Espacial Internacional
12 •.• MIL PALAVRAS
"Se economia fosse
esporte olímpico,
estaríamos fora
dos Jogos."
SUPERNDVAS
14 FACETRUQUE
O governo dos Estados
Unidos vai te stalkear.
Capa
Foto Elke Vogelnng
NO DIVÃ
Hospital
argentino
faz エ ・イ。 ーゥ。 セ@
astral. セ@
IJ CRIMINALIDADE
O mundo está cada vez
mais perigoso - e isso é caro.
22 TESTE SUPER
Hambúrguer de micro-
-ondas: range em 90
segundos.
24 •ABY TESLA
O carrinho de bebê
que anda sozinho e
funciona online.
15 DES .. EDIOA
16 ENQUANTO ISSO
17 vocl PAGA IESTIE
POLfTICO l'AllA
26 PÉROLAS DO STREAMING
21 vod DECIDE
NÜMERO
INCRÍVEL
So
MIL PEÇAS
DE LEGO
São neces-
sárias para
reproduzir
o esqueleto
de um ti -
ranossauro
r ex.P. 54
ORÁCULO
28 A nova arma do Google
O sistema de inteligência artificial capaz
de assumir o controle da sua vida.
3l Capa
CACHORRADA
Amizade ancestral: como os cães
domesticaram os homens e viraram
os nossos melhores amigos.
U Nosso dinheiro é deles
Como os deputados e senadores gastam
o dinheiro que, até então, era nosso.
56 Tro.:a-troca de drogas
Enquanto o SUS não dá o medicamen·
to, tem um clube pronto para doar os
remédios para você.
&2 A revolta em flashes
Da praça da Paz Celestial a Baton Rouge:
fotos icônicas de resistência ao poder.
MUNDO SUPER66 DE CORPO E MENTE
Havia provas artlsticas
nos Jogos Olímpicos?
72 FLORA EM FESTA
Segundo cérebro é o queri·
dinho dos consultórios.
6J JOGO DURO
Nas Olimpíadas antigas,
セ@
68 CÉRURO 80M8ADO
Atletas reagem mais rápido
a est ímulos visuais.
6J •Ã PUM
68 CICNCIA MALUCA
69 LISTA
70 CONEXÕES
71 MANUAL
REALIDADE
ALTERNATIVA
74 QUESTÃO OE GOSTO
Quando uma bomba explo-
de no lugar errado, o que
acontece com São Paulo?
ÚLTIMA PÁGINA
71 OS OLHOS DA CARA
O custo real de
imprimir dinheiro.
• VIDEOAULAS
com professores do curso Poliedro
• EXERCÍCIOS
para fix ar o que você assistiu
• ACESSO AOS GUIAS
DO ESTUDANTE
toda a linha impressa disponível
em formato digital
INSCREVA- SE E SAIA NA FRENTE
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loja
lilll
o,
•.
0Bot1cár10
Acredite na beleza
E é basicamente isso que o Brasil está
fazendo, só que em outra modalidade,
bem mais relevante que qualquer es-
porte. Somos o Eric Mussambani da
economia mundial. Ou quase isso.
Das 183 nações que a agência de no-
tícias Trading Economics monitora, a
nossa está em 173• lugar no ranking
de crescimento econômico. Desses 183
países, só 26 estão em recessão. E entre
os 26 cujos PIBs encolhem, o Brasil
consegue ser o 19• pior colocado. Es-
tamos nadando cachorrinho.
A variação anual do nosso PIB está
em -5,4 %, o que nos deixa encaixotados
entre o Sudão do Sul (-5a%) e a Líbia
(-6%), dois países em guerra civil. Serra
Leoa, Yemen, Omã e a Guiné Equatorial
do glorioso Moussambani completam
essa rabeira da economia mundial, junto
com a Venezuela, que vive um colapso
econômico até mais violento que o de
um país em guerra - em julho, o gover-
no Maduro precisou ocupar uma fábrica
de papel higiênico falida e religar as
máquinas para que não faltassem tantos
rolos nos banheiros de Caracas.
NA VENEZUELA, A MOEDA LOCAL já
virou nota de Banco Imobiliário: a in-
flação deles está em 500%, e a previsão
para 2017 é de sarneyzianos i.600%.
Por aqui, as subidas de preço tendem
a deixar de ser problema: passamos de
10% em 2015, agora estamos em 8%, e
com nossos dois presidentes, o interi-
no e a afastada, apostando numa baixa
ainda mais signifi cativa para 2017. Até
porque manter uma infl ação rampan-
te num cenário de recessão profunda,
como acontece no país de Maduro, é
tão difí cil quanto errar pênalti sem
goleiro. Numa economia em recessão
(a nossa), o consumo baixa, e quanto
menos se consome, menos os preços
sobem. Uma doença serve de remédio
para a outra. No fim, mesmo se o seu
pais for governado por uma lontra, só
a recessão já serve como uma boa ar-
ma contra a inflação - a Venezuela, tão
hiperinflacionária quanto recessiva, é
é a excessão que confirma essa regra.
Isso não signifi ca, porém, que a água
tenha deixado de bater nas nossas bun-
das, claro. Com o PIB em queda, o go-
verno federal fica mais pobre. Em 2013, a
EllSil ALEXANDRE VER SIGNAS SI
O Brasil agora está em QWSセ@ no
ranking mundial de crescimen-
to, QVYセ@ no de menores juros
e QWUセ@ no de menos endividados.
receita com impostos foi de R$1,6 trilhão
(em valores de hoje, levando em conta
a inflação). De lá para cá, foi só ladeira
abaixo. E a previsão é que o Pais feche
2016 com uma arrecadação de R$ 1,27
trilhão - 20% aquém do recorde de 2013.
Se o seu salário cai, o que você faz?
Tenta gastar menos. Mas não é o que o
governo tem feito. Os gastos da União
só aumentaram, como se não houvesse
crise. E para cobrir o rombo o jeito é
pegar dinheiro emprestado, em quanti-
dades cada vez mais assombrosas.
A dívida do governo encerrou o ano
passado em R$ 2,7 trilhões. Isso repre-
sentou uma alta de 22% em relação a
2014. E a previsão é que ela feche 2016
em R$ 3.3 trilhões. Mais 22% de au-
mento - talvez haja um numerólogo
trabalhando no Tesouro Nacional.
o PROBLEMA DAS DÍVIDAS é que elas
teimam em vencer. Neste ano, o governo
tem que amortizar R$ 613 milhões, além
de pagar mais R$ 85 bilhões de juros.
Note que esses R$ 698 já dão mais da
metade do que o governo arrecada com
impostos. Pegar 50% da receita tribu-
tária para pagar dív ida não rola, senão
não sobra para pagar saúde, educação
nem amenidades como o aumento de
42% para o Judiciário e o querosene
dos aviões da FAB que levam senador
para implantar cabelo Brasil afora (ve-
ja mais gastos "pitorescos" dos nossos
congressistas na página 44).
Bom, neste ano, o governo separou
R$ 108 bilhões do seu caixa para pagar
as dívidas correntes. Os R$ 590 bilhões
que faltam vão vir de novas dív idas.
Tem mais. O governo não faz dívida
só para cobrir rombos. Tomar dinheiro
emprestado também é uma ferramenta
contra a inflação. Quando o governo
pega emprestado, ele tira reais de cir-
culação. Com menos reais na praça, o
consumo diminui, o que diminuiu a
pressão inflacionária.
Isso mais os rombos cada vez maiores
nas contas públicas faz o governo pegar
dinheiro emprestado o tempo todo. Para
conseguir dinheiro o tempo todo você
precisa cobrar juros altos. E é por isso
que os nossos seguem firmes entre os
mais altos do mundo.
Enquanto os juros no mundo de-
senvolvido estão próximos de zero,
os nossos são de 13%, 14%. Daqueles
183 países que a Trading Economics
monitora, 168 pagam juros menores
que os do Brasil. P iores que a gente
nesse quesito só Haiti, Zâmbia, I rã ...
Além da Venezuela, sempre ela, e, nesse
caso, da Argentina. Nosso v izinho de
baixo, diga-se, é o país mais caloteiro
do mundo, e que por isso mesmo não
consegue fazer dívida sem pagar pelo
menos 30% de juros - caso a sonda Juno
não revele novidades financeiras sobre
Júpiter, esses continuarão os maiores
juros do Sistema Solar.
Mesmo assim, a dívida dos argentinos
não machuca tanto o pais deles quanto a
brasil eira machuca o nosso. A Argentina
fechou 2015 R$ 110 bilhões no vermelho
- ou seja, essa foi a diferença entre o que
o país gastou (incluindo pagamentos de
dívida) e o que o pais recebeu. Isso dá
5,4% do PIB argentino. No Brasil, esse
buraco fi cou em R$ 613 bilhões. É o nú-
mero que os jornais chamam de "défi cit
nominal". Ele dá 10,4% do nosso PIB.
Quer dizer: estamos duas vezes piores
que a Argentina nesse quesito. E no
ranking mundial de déficits nominais,
ocupamos um embaraçoso 175• lugar, na
companhia de feras como Moçambique,
Eritreia, Egito, Síria e Afeganistão.
Não tem pódio olímpico capaz de
maquiar nosso desastre econômico.
Porque hoje essa é a nossa vida. E a
periferia do mundo, o nosso clube. O
AGOSTO 2016 SUPER 13
-t I CO ISAS E FATOS QU ENTINHOS
Quer entrar nos EUA? Passa o face
o CONTROLE DE FRONTEIRAS AMERICANO quer incluir as redes soclals no formulário de
concessão de vistos. A ideia é que programas de computação procurem "atividades e cone-
xões nefastas" nas páginas de quem quiser entrar nos EUA. Não se sabe se aquela sua foto
#top vai interferir na seleção (todos os procedimentos de análise são mantidos sob sigilo),
mas é provável que busquem indícios de terrorismo. A fuçada nas redes sociais ganhou for-
ça depois que, em dezembro, a paquistanesa Tashfeen Malik postou no Facebook mensagens
de apoio ao Estado IslAmico, logo após executar 14 pessoas na Califórnia. Ela havia postado
mensagens parecidas antes de ir para os EUA também. 'd'a"zfl',..,,,,,,
sn. FATOS
Meu planeta,
minha vida
Enceladus, a lua con-
gelada de Saturno,
é o melhor lugar no
Sistema Solar para
encont rar Els. Pelo
menos é no que
acreditam cientistas
da Nasa, que querem
mandar uma missão
espacial para Lá. A
expectativa vem do
oceano subterrâneo
escondido debaixo
de uma crosta de
gelo. Essa água
é ejetada para a
superfície de Ence-
ladus por mais de
90 gêisers. Sãoesses
jatos que a Nasa
quer analisar para
procurar organismos
vivos. A esperança é
que eles carreguem
matéria orgânica
do fundo do oceano
para a superfície
{pelo menos, é isso
que acontece aqui
na Terra). A busca
será por aminoácidos
e Lipídeos, estruturas
essenciais para a
formação de seres
vivos. ACL
lOºc
A COR QUE NÃO ESTAVA LÁ
Pesquisadores japoneseS© descobriram como implantar pen-
samentos no seu cérebro - sem que você perceba. Para isso,
colocaram voluntários em máquinas de ressonância magné-
tica enquanto olhavam para uma tela com um círculo com
listras verticais. Dentro dele, ficava outro circulo branco. Os
cientistas deram apenas uma instrução: "Concentrem-se em
fazer o círculo branco aumentar". E observavam a ressonân-
cia. Os participantes pensavam em mil coisas, mas, quando
imaginavam a cor vermelha, os cientistas faziam o círculo
branco crescer - mas não explicavam nada. Esse treinamento
foi repetido por três dias. Ao final, os pesquisadores mos-
traram uma tela listrada em preto e branco e perguntaram
qual era a cor das listras. Os pacientes treinados enxergavam
vermelho, mesmo sem sinal de vermelho na tela. Cinco meses
depois, os voluntários continuavam vendo a cor. Era uma
memória falsa. Os pesquisadores querem agora criar novas
associações cerebrais inconscientes que ajudem pacientes a
lidar melhor com a depressão. Ana Carolina Leonardi
é o quanto o planeta vai esquentar se queimarmos
todas as nossas reservas de combustível fóssil.
(E o Polo Norte vai aquecer ainda mais: 20 ºC)
FonHs © l.tornlng to Auociatt Orltnt ation w/tfl Co/or in Eatly Vis.ia/ Ateas lly Associo エ ゥセ@ セ」ッ、エ 、@ /MRI Nt urofttdboc/c, K;ao ru Am;ino t outros
ャ ャオウエ イセVエウ@ Ot;i'o'lo Sllwlr;a, Z;in llcy e Rodrigo 8;isto1 Dldillf.
111011 KAR I N HUfCK
Mihaly Meszaros
O menor homem
do mundo
Meszaros morreu aos 76
anos e 83 centímetros. Ele
nasceu em i939, em Buda·
peste, e trabalhou como
palhaço na Hungria até
i970, quando se mudou
para os EUA. Lá ganhou
fama: apareceu em filmes,
atuou como AI fie, o
ETeimoso e virou amigão
de Michael Jackson.
Gigantes
Giaantes do Norte
Com pelo menos 4 me·
tros de altura, os gigantes
do fictício mundo de
Westeros, de Game of
Thrones, viviam além da
Muralha, bem ao norte
dos sete reinos. O último
deles, Wun Wun, morreu
na batalha por Winterfell
- e não se tem notícias de
nenhum outro exemplar,
pelo menos na série de TV.
AGOSTO 2016 SU PER 15
sn. FATOS
A ONU decidiu que nenhum
governo pode censurar a
internet. China e Rússia
votaram contra. Por que será?
Inspirada no Butão, a india
criou o primeiro Ministério
da Felicidade do mundo,
que vai organizar eventos
de ioga, meditação e arte.
Uma reserva de i,5 bi de m1
de gás hf!Lio foi encontrada na
Tanzânia. Isso é ótimo porque
o gás estava quase em falta.O
Cientistas descobriram uma bac·
téria minúscula que vive escon-
dida na saliva humana. Ela pode
ser responsável por gengivite,
fibrose cística e aumentar nossa
resistência a antibióticos.O
fonte ©Nt!wHigh-Gr;ideHt?tiunC>iS<ove-
セセ@ セョ 」jA」ャゥャセセセセdNャsZセセ ャ [セョゥZNカZNエZゥセ@
Form;itlon Ol.lrifli lhe Eplblotk·p;ir;i$ltlc Rela·
tlonshlp eetwMn ActinomvcH odontol.vtkus
セョ 、ャエウeー ャ「ャッョ エ L ャ Nim 、 ヲm@
1Ó SUPER AGOSTO 2016
Centenas de genes começam
a funcionar quando morremos
Dentro de você tem uma fábrica que re-
põe material desgastado, abastece proces-
sos químicos, fornece unhas e pensamentos
ao corpo. É o DNA. Este mês, cientistas da
Universidade de Washington@ fizeram uma
descoberta incrível. Eles estavam estudando
cadáveres de peixes-zebra e camundongos,
recém-falecidos. A análise que fizeram foi
química: saíram detectando RNA-mensa-
geiro (RNAm) em cada um dos milhares de
genes dos corpinhos. RNAm é o indicador
de que a nossa fábrica genética está funcio-
nando. A análise começou com os bichinhos
ainda vivos, e depois seguiu por dias. Como
era de se esperar, à medida que o tempo
passava, mais silenciosa a máquina ficava.
O estranho foi o que aconteceu com 515
genes dos camundongos e 548 dos peixes:
eles foram ativados depois da morte. Os
cientistas especulam que eles estivessem se
preparando para uma improvável ressurrei-
ção. São genes que ajudam nos processos de
cicatrização, inflamação, cura, num esforço
final para preparar a fábrica inteira para ro-
dar de novo, se a chave-geral for religada.
Denis Russo Burqierman
Terapia astral. A astrologia não é considerada uma ciência, mas o
Hospital Pivorano de Buenos Aires, na Argentina, começou a levar ases-
trelas a sério. Uma das atividades mais populares na ala da psiquiatria é
a oficina semanal "Conhecendo·me através dos astros". Nela, a astróloga
Claudia Rico parte do mapa astral de cada paciente para discutir, em
grupo, experiências dificeis. Apesar de a ideia parecer pouco científi ca, na
prática, os workshops acabam funcionando como terapia em grupo. J:M
fanl• © ""ter Nobte • Atv: Pl::lzhltkov ャャオQエZNイセゥッ qエ[ゥカゥッ@ Sil..,.!r.i, lslock
1
GUERRA E PAZ
Crises políti cas, censura, terror ismo. armas nucleares:
o mundo se tornou um l ugar menos seguro nos últimos 8
1!
Islândia
Custo da vioU!ncia
USS 242 11i/ ano
Militarizaçilo
• ()()()() 1,3
Conflitos internos
e ()()()O 1,1
Guerr.ls
• ()000 1,1
151!
Rússia
Custo da violência
USS 354 bifano
Mil itarização
•••• 0 3,3
Confl itos internos
•••10 3,3
Guerras
eeef Ol.6
fnd ice de violência - -MUITO M il: .DIO BAIXO - -MUITO ALTO
Custo da violência
US$ 2 tri/ ano
Milit arização
•••003
Conflitos internos
••0001
Guerras
e.- 000 1,1
_,_
セ|T[V{@
セセセ@ .....
... _
.>- 1 .,- ,,. セ@ セMM
セ@ 1.. .. Q Vセ N@ " .. ..: : .
27!
Chile
セ ᄋ@
S1r1a ' ..:!&Ir:'''' M セ@ cu,to d-.;olênda ,_ .... セセ@ :.-.
USSS7,3bi/ano li
Militar ização •••41 0 3,1
,f .i Conflitos internos ••••() 4,1
Custo da
violência
uss 18,5
bi fano
Mili t arização
e V 000 1,7
Conflitos
internos
••l.002,7
Guerras
• 00001
105!
Brasil
Custo da violência
USS 254 bi fano
Mi litarização
••coo2,2
Conflitos internos
•••10 1,1
Guerras
• 00001
2,4'11 M4.JRTES POR TERRORISMO 2006/ 11
2012/16··········
é o aumento da
violência no mun·
da desde 2008.
Causa: terrorismo.
•exceto Turquia
AMIRICA DO NORTE
2006/11
2012/16 - 79
Você paga*
este político:
'Projetos de lei que foram apresen-
tados no plenário no último mês. /
Fontl! mapa Global l'e.lCI! ln.du, lnstitutl!! fOf EconomicS セ ョ、@ Peace
l
l&.. , ' Cu°"ª' eeetJO 3,8
.. 40!
Zâmbia
O PREÇO
DA GUERRA
Conter, preveni r
e lidar com as
consequências
da violência têm
um preço alto.
Custo da violência
USS 2 ,5 bi/ano
Militar ização e CIOOO 1,6
Conflitos internos ••e 00 l,3
Guerras e ciooo1,2
uss 8,2tri
Gasto
milita r
US$742bi
Confli tos
US$4,2tri
Segurança
intern;icional
USS 2,Stri
Perdas
com crimes
e violência
• O deputado federal
Professor Victório Calli
(PSC·MT) quer proibir
a cobrança de a lvará
de funcionamento para
templos reli giosos.
• O deputado federal Rô·
mulo Gouveia (PSD·PB)
defende que comercian-
t es mantenham regist ros
de documento de com-
pradores de cigarros.
1
AGOSTO 2016 SUPER 17
APRESENTADO POR ABRIL RRANOEO CONTENT
N o mundo rodo, grandes marcas têm re-dobrado seus investimentos em branded
content para construção de imagem e pro-
moção de produtos. Diferentemente da pu-
blicidade tradicional, o conteúdo propicia às
marcas uma interação mais orgânica com a
audiência, menos interruptiva e necessaria-
mente baseada em uma relação de confiança.
Não é de se estranhar que Netfiix e HBO,
dois dos mais renomados especiali stas na
produção de conteúdo, apostem em branded
content para promover suas séries. No ano
passado, a HBO buscou a parceria do Abr il
Branded Content - estúdio da Editora Abri l
especializado em produzir e definir estraté-
gias de contei.ido para marcas - na divulga-
ção de O Hipnotizador. Em março deste ano
foi a vez da Netflix noticiar, com a ajuda do
estúdio, aestreia da quarta temporada de
House ofCards.
As ações para ambas as marcas foram di-
vulgadas com grande repercussão nas plata-
formas das marcas VEJA, SUPERINTERES-
SA TE, VEJA SÃO PAULO e HUFFPOST
BRASIL. "Para prender a atenção dos fãs de
um seriado já consagrado, é preciso ir além do
óbvio. Todo conteúdo que agente produz tem
foco na audiência. É conteúdo relevante, útil,
informativo, muitas vezes divertido, pensado
para ser compartilhado. Sempre é possível
conseguir uma pauta interessante e formatá-
-la de um jeito que o público goste'', explica
Thiago Araújo, gerente digital do estúdio.
Matérias na SUPER e na VEJA SÃO PAULO
contaram a história da hipnose; gifs hipnóticos
de HBO. no HUFFPOST. viralizaram e o conteúdo
ficou entre os mais acessados do site
NETFLIX
Pela primeira vez, a revista VEJA participou de uma ação co-
-branded para lançar a nova temporada de House of Card5. E
a estreia da associação da publicação de maior circulação na-
cional com uma o urra marca veio com impacto: uma capa com
o presidente Francis J. Underwood - personagem de Kevin
Spacey na séri e - divulgada nas plataformas digitais do título:
Facebook, 1\vitter e Instagram. O exercício foi imaginar como
seria uma capa da revista se Frank Underwood fosse um per-
sonagem real, em campanha para se reeleger à presidência
dos Estados Unidos, um trabalho conjunto entre a redação
de VEJA e o Estúdio ABC. A repercussão foi impressionan-
te: mais de 1 milhão de pessoas foram alcançadas e mais de
35 000 reagiram à publi cação, 82,7% de maneira positiva. E
o objetivo principal foi alcançado, já que 71% dos leitores que
reagiram entenderam a mensagem; e mais, ajudaram outras
pessoas a entender, aumencando a abrangência do conteúdo
e sua repercussão.
HBO
Às vésperas do lançamento de O Hipnotizador, a HBO colo-
cou o tema central da série na pauta. O Estúdio ABC produ-
ziu quatro peças de nativas abordando a hipnose de acordo
com a linha editoríal de cada marca. Na revista e no site de
SUPERINTERESSANTE, uma reportagem esclareceu as
apli cações atuais da técnica e como sua eficácia foi cienti-
ficamente comprovada. VEJA SÃO PAULO apresentou, na
revista e no site, os tratamentos de saúde baseados em hip-
0 nose disponíveis na capital. Em VEJA.com, uma timelü1e
mostrou como a técnica deixou de ser considerada charl a-
tanice e passou a ser utilizada como recurso no tratamento
de quadros psicossomáticos.
o HUFFPOST BRASIL, uma li sta de gifs hipnóticos
divertiu os visitantes. Compartilhada nas redes sociais dos
veículos e por influenciadores em seus perfis pessoais, a ação
teve grande repercussão e ficou entre os conteúdos mais vi-
sitados durante o periodo em que esteve em destaque.
sn. COISAS
Você é normal?
Uqurh.inumrosru•
C!)Ot".i.1..h,mofalmtc
Gᄋセ M ·--
:!.• -=:;.-
セ ᄋ@ -:t• ·=::::-
:t• .. --
:t\f.. .;=..·=:
:i..• --=-
Zエセ@ Mセ ᆳ
:i..•
:t• セMZZ]MM
:t,o1 ••.••
セM ᄋ@
Livro traz 80 testes de personalidade e inteligência - e compara seu resultado à média das pessoas. Texto Bruno Garattoni
VOCÊ PREFERE ganhar R$ 500 agora, ou o dobro daqui a um
ano? Se eu te contar dez coisas, cinco delas falsas, quantas
mentiras você consegue detectar> A sua memória é melhor
que a de um macaco? Escrito pelo psicólogo Ben Arnbridge,
da Universidade de Liverpool, Psi-Q reúne testes como esses,
que você responde a lápis ou caneta nas próprias páginas do
livro - e depois vira a página para descobrir o que o resultado
A MÃE DE TODAS AS BATALHAS
o QUE É MELH O R: um Estado forte e atuante, que
interfere na economia para tentar ajudá-la? Ou um Es-
tado mínimo, que deixa o mercado resolver e tenta ape-
nas não atrapalhar? É o grande debate econômico nos
últimos cem anos, e surgiu pelas mãos de dois gigantes:
o inglês John Maynard Keynes, defensor do Estado, e o
austríaco Friedrich von Hayek, pró-mercado. Este li vro
conta a trajetória dos dois (antes de virarem adversá-
rios, Keynes era o ídolo de Hayek) e suas li gações com a
história: Keynes levantou o dinheiro para financiar a 1 '
Guerra Mundial, que esmagou a Alemanha (e empo-
breceu a familia de Hayek), desaguando na 2 ' Guerra -
que ele previu e tentou desesperadamente evitar.
2 0 SUPER AGOSTO 2016
revela sobre a sua personalidade, sua inteligência emocional e
analitica (spoiler: no teste de memória, talvez você perca para
o macaco). Uma leitura divertida e profunda também: o livro
explora marcos da psicologia como a Experiência de Milgram,
que foi realizada em 1961 para tentar entender o surgimento
do nazismo - e acabou fazendo uma descoberta aterradora
sobre a mente humana. W::Jl. RS J4,90.
O OUE ELES
FAZEM OUANDO
VOCÊ SAI
o CATO que ataca a gela-
deira, o pássaro vkiado em
TV, o poodle grã-fino que
na verdade é metaleiro - e
o coelho que quer acabar
com todos. Animação leve
e simpática, do mesmo
produtor de Meu Malvado
Favorito (antes do filme, é
exibido um curta-metragem
estrelado pelos minions).
Psts - A Vida Secreta
dos Bichos
Estreia dia 25/8 nos cinemas.
"O cheiro
de carne
decom-
posta era
horrível.
E o médi-
co vivia
cortando
pedaços",
ESCREVE O AMERICANO
Hampton Sides neste
livro sobre a expedição de
conquista do Polo Norte, em
i879. Um relato de arrepiar,
com direito a naufrágio,
fome, mortes e peregrina-
ções a pé sob um frio quase
extraterrestre: - 68 graus.
No Reino do Gelo
R$ 49,90.
Star Wars holográfico
-e em vinil
LP DUPLO com a trilha sonora de O Despertar da Força, mais re-
cente filme da série. Tem a música-tema de Star Wars, tem o tema
Jedi, tem o hino do fi nal feliz e outras 20 faixas compostas pelo
genial John Williams. E tem um encarte com fotos incriveis. Mas
o mais legal são os hologramas: você aponta uma lanterna sobre
o disco enquanto ele está sendo tocado e aparecem duas imagens
em 3D, flutuando no ar, por meio de uma ilusão de óptica.
The Force Awahns Saundtrack - Holographic Vinyl
USS 52 na Amazon
EDl•ll BRUNO GARUTONI
VOCÊ DECIDE
Os projetos mais
interessantes (e
surpreendentes)
do mundo do
crowdfunding
Casaco perfeito
indiegogo.co111
Projeto Flexwa rm
O que é Um casaco que
gera o próprio calor. Seu
forro tem uma bateria
pequena e leve, tipo de
celular, e uma resistência
elétrica flexível, que es-
quenta. O casaco monitora
a temperatura do seu corpo
e do ambiente e se ajusta
sozinho, para que você
não passe calor nem fr io
(também dá para escolher
a temperatura por um app).
A bateria dura 13 horas.
Meta USS 50 mil
Chance de conseguir
•••OO
Fronha de prata
indieqoqo.com
Projeto Silvon
E outros :J LPs cheios de truques ---------!
O que é Uma fronha que
promete eliminar 99% dos
ácaros e bactérias.
O segredo está no tecido,
que contém fios de prata
(ela tem carga elétrica
positiva, que atrai e mata
os micro-organismos).
Não usa bateria e pode
ser lavada na máquina.
Meta USS 20 mil
Chance•••••
De trás para Ouça e depois
a frente coma
Jack White 8reakbot By
Lozaretto Ultra Your Side
Seu lado A toca ao Feito de chocolate
contrário (a agulha com 74% de cacau.
se move do centro A ideia é que você
para a lateral do coma o disco -
disco). Tem duas música eletrônica
músicas secretas francesa ao estilo
escondidas sob o ró- Daft Punk - depois
tulo, um holograma de escutã-lo. Aí
e uma trilha infinita , já era. Por isso, é
que toca sem parar extremamente raro:
{como a última faixa apenas 120 cópias
de Sgt. Pepper's, foram produzidas,
dos Beatles). em2012.
Dando o sangue
(de verdade)
Psrfsct Puss't,
s。セ@ Yes to Lovs
As primeiras 300
cópias do LP de
estreia dessa banda
punk, lançadas em
2014, contêm o
sangue da cantora
Meredith Graves -
que foi misturado à
massa plástica do
disco e pode ser visto
claramente (o vinil é
transparente, desta-
cando o sangue).
Ímã de proteção
kickstarter.com
Projeto Nope 2.0
O que é Um ímã que pode
ser usado para t ampar a
câmera de smartphones,
tablets e laptops. A ideia
é proteger a privacidade
de quem está em frente à
câmera(que pode ser ligada
remotamente por hackers).
Você acha que é paranoia?
O chefão do FBI e o dono
do Facebook tampam.
Meta U$S 964
Chance•••••
AGOSTO 2016 SUPER 2.1
sn. 1 COISAS · -------------------
Hambúrguer de micro-ondas
Eles já vêm prontinhos, com pão, queijo, molho e hambúrguer montados; é só colocar
no micro-ondas por 90 segundos. A coisa mais prática já inventada, e uma das mais in-
dustrializadas também (eles contêm mais de 20 ingredientes, e a carne é uma mistura
de boi, porco e frango). Mas são gost osos? Qual o melhor? Provamos sete.
Veio meio torto, com a
carne um pouco para fora
do pão. Mas seu grande
problema é o hambúrguer,
que não tem absolutamen-
te nenhum gosto. Parece
comida de hospital (se hos-
pital seNisse hambúrguer).
R$ 5.25 l 151 g l 34' kcal
sadi o .co11t .br
Tem algum sabor, em
parte porque vem tempe-
rado com molho barbecue.
O pão é macio, e a carne é
aceitável. O queijo "some"
(é totalment e absorvido
pelo pão) após o aqueci-
mento. Um produto
comível, mas sofrível.
R$ 4,85 l 157 g 1 353 kcal
searo.co11.br
22 SUPE R AGOSTO 2016
Seu modo de preparo é
diferente: você esquenta o
sanduíche num saquinho,
o que deixa o pão (o único
sem gergelim) encharcado.
Não dá para sentir o gosto
do queijo - pois o molho,
com gosto de tomate, -
encobre tudo. E a carne
é a pior: parece de espuma.
R$ S.38 l 145 g 1 324 kcal
perdigao .cot1 .br
COMO TESTAMOS. Preparamos duas unidades de cada sanduíche.
Usamos sempre o mesmo micro-ondas (1.500 W de potência), e
seguimos à risca as instruções de cada fabricante. Observamos
a distribuição e a qualidade dos ingredientes e avaliamos o resul-
tado final, comparando aroma, textura e sabor dos sanduíches.
FoloStudloO: ャャ オセオNZゥャッ mセQ」ッウ、・uュNQQ@
O pão é sequinho, porém
duro, e o queijo é cremo-
so, mas insosso. A carne
tem textura estranha,
um pouco esponjosa,
sabor fraco e artificial.
O sanduiche tem pouco
gosto, e tende a enjoar já
na segunda mordida.
R$ 5,25 l 153 g l 371 kcal
sadia.co11.br
®
Ambos os sanduíches
preparados no teste vieram
tortos e com problemas de
controle de qualidade. Seu
pão, que ficou encharcado
após o preparo, soltou
quase todo o gergelim.
E o queijo simplesmente
não derreteu.
R$ 4.331146 g l 355 kcol
ouroraali11entos .co11.br
Tem menos carne bovina, e
maior proporção de frango
e porco, que os outros.
Mas não parece: é o que
mais tem gosto de carne.
O hambúrguer é o único
bom, com sabor defumado
e textura natural. Lembra
um sanduíchedeverdade.
R$ 4,33 l 143 g l 368 kcal
auroraalimentos. co11.br
Corte a batata
em rodelas bem
finas (dica: use um
descascador de
Legumes, se t iver).
2.
Deixe de molho em
água fr ia por s minutos.
Escorra e seque bem.
3.
Coloque sobre um
papel-toalha e cozinhe
por 7 a 8 minutos,
parando na metade
do tempo para des-
grudar as batatas do
papel. Aproveite :-)
AGOSTO 2016 SUPER 23
sn. COISAS
O Tesla para bebês
Direção robóti ca, control e por apl icativos, al arme de segurança,
ar-condicionado, sistema de entretenimento e conexão à internet.
Um carro elétr ico de última geração. Para recém-nascidos.
t・クエッセイオョッ@ Gorattoni e Fe r nando Badô
ELE SE CHAMA SmartBe, e não precisa ser em-
purrado: conforme você anda (ou corre), detecta
os seus movimentos e vai na frente. O segredo
está no computador de bordo, que se comunica
com o seu smartphone em tempo real. Se preferir,
você pode empurrar o carrinho, mas não precisa
fazer força: o motor elétrico cuida disso (ele é
alimentado por uma bateria que dura 6 h). Pelo
smartphone, você comanda os demais recursos,
como climatizador, balanço, tocador de música,
aquecedor de mamadeira e alarme - que toca se
você se afastar. O carrinho também funciona co-
mo babá eletrônica, transmitindo vídeo da criança
pela internet. Vai custar US$ 3 mil (smartbe.co).
3 modos de uso
(deslocamento
manual , automático
e híbrido)
... _,._ ____ 3 telas
retráteis,
contra Sol,
chuva ou
insetos
UM PROJETO (QUASE) IMPOSSÍVEL
A lmpossible , tem esse nome pois sua produção era considerada
inviável. O problema é que a máquina usa filme inst.illlntâneo
Polaroid, cuja fórmula não existe mais (ela se perdeu na caótica
dissolução d .. Polaroid, empresoa que chegou a ser um império da
fotografia, mas faliu duas vezes, em 2001 e 2008). Um grupo de
dez engenheiros recriou tudo do zero, descobriu como produzir o
filme e agora está lançando a câmera. Custa 300 euros - mais 20
euros cada pacote de filme, com oito chapas (coloridas ou p/b).
24 SUPER AGOSTO 2016
DE 26 A 28 DE AGOSTO
» Palestras sobre + de 100 carreiras
» Milhares de vagas de estágios
» Estandes das melhores faculdades
» Orientação vocacional
» Simulados - Jogos - Debates
Mestre de Cerimônia: Edson Júnior
INSCREVA-SE. É GRÁTIS!
feiraguiadoestudante.com.br
sn. COISAS
Céu artificial
O COELUX ARTIFICIAL SKYLIGHT é
um conjunto de LEDs e filtros com
nanopartículas que reproduz a luz
do Sol e a cor do céu com perfeição:
o resultado é indistinguível de uma
janela de verdade. Ele mede 2,y1,6
m, consome 270 watts (o equiva-
lente a uma televisão de 60") e pode
ser instalado no teto ou em paredes
laterais. Um produto revolucioná-
rio. Pena que é caro: US$ 50 mil.
Espremedor gentil
o SMEG SJF01RDEU (590 eu-
ros) promete fazer sucos mais
nutritivos e gostosos, com
mais sabor da fruta, porque
suas pás giram devagar: 43
rotações por minuto, contra
1700 dos espremedores
comuns. É como espremer à
mão - só que sem fazer força.
A PULSEIRA OUE MEXE COM A CABECA
ELA SE CHAMA Doppel, custa US$ 130
e promete deixar você mais relaxado
ou alerta. Você escolhe o efeito dese-
jado e a pulseira emite uma série de
vibrações bem fraquinhas, quase im-
perceptíveis (50 por minuto no modo
relaxante e 100 no modo energizante).
Depois de alguns minutos, isso come-
ça a alterar o seu estado de espírito.
A eficácia foi comprovada num estu-
do feito pela Universidade de Londres
com 40 voluntários.
Ulfil BRUNO GARATTONI
PÉROLAS DO
STREAMING
Tesouros escondidos
nos principais sites
NETFLI X
O Homem
Duplicado
Filme
Adam (Jake Gylle-
nhaal) é professor
e leva uma vida
tranquila. Até
que vê um film e
estranho: um dos
atores é idêntico a
ele e participa de
um ritual sinistro.
Obcecado, Adam
tenta encontrar
o sósia m au. Sus-
ー・ョセ@ complexo
e desafiador,
daqueles que ren-
dem mil teorias.
YOUTUBE
DeepLook
Canal
Você sabia que o
mosquito usa seis
ferrões para picar?
Que a borboleta
azul não tem pig-
menta dessa cor?
Que a areia viaja
pelo mundo - e
cada grão revela
de onde veio? Pro-
duzido pela rede
americana PBS,
o canal usa novas
técnicas e lentes
ultrapotentes
para desvendar o
mundo das coisas
microscópicas.
Cartel Land
Docu1J1entário
De um lado, os
cartéis do tráfico:
Familia e Cava-
leiros Templários.
Do outro, a Au-
todefesa: milícia
armada que reúne
a população das
cidades mexica-
nas na fronteira
com os EUA. Um
documentário de
arrepiar, tão real
(e violento) que
chega a parecer
ficção. Indicado
ao Oscar de 2016.
YOUTUBIE
Harbin- uma
aventura
congelante
Vídeo
Pensou em China,
pensou em mul-
tidões, fábricas,
prédios futuristas.
Harbin é diferen-
te. Fica bem ao
Norte, perto da
Rússia: com quem
partilha o inverno
de -20 graus,
a cultura e a
arquitetura (cujo
destaque é um
incrível festival
de construções
de gelo).
28 SUP!R AGÓSTO 2016
-
, -- .
.. - - -- - -
, ...
·.
<.
... '· ;. ..
ACOSTO 2016 SUPIR 29
ESSA CENA E uma simulação. Mas já
poderia ser real: todas as tecnologias
de inteligência artificial envolvidas ne-
la já existem, e funcionam. Algumas
foram lançadas, outras são protótipos
em estágio avançado, que estão sendo
desenvolvidos pelo Google e por gigan-
tes como Apple, Microsoft, Amazon e
Facebook - que, neste ano, fizeram da
inteligência artificial sua grande aposta.
Eu vim à sede do maior de todos (a
convite do Google, passei trêsdias na cidade
de Mountain View, no mês de maio) para
descobrir o porquê.
G
GATO, CACHORRO E AVIÃO
"Quando eu estava na facul-
dade, nos anos 1990, os com-
putadores não conseguiam
diferenciar um gato de um cachorro",
conta o físico e neurocientista Greg
Corrado. "Distinguiam um gato de um
avião, mas não de um cachorro. É difícil,
ambos são peludos e têm quatro patas",
explica. Algo banal para o cérebro hu-
mano, mas inatingível para as máquinas.
Tanto que dois colegas de faculdade de
Greg fizeram uma aposta. Um disse que
os computadores demorariam pelo me-
nos dez anos para aprender a distinguir
gato e cachorro. O outro disse que se-
ria rápido. Não levou uma década, mas
também não foi rápido: aconteceu nove
anos e seis meses depois. "Hoje, nosso
software consegue olhar uma foto, re-
conhecer os elementos e até escrever a
legenda", diz Greg, criador e diretor do
Google Brain, o centro de inteligência
artificial (IA) do Google. Ele foi funda-
do em 2011 por apenas três pessoas, e
era o que a empresa chama de "projeto
20%" - uma iniciativa paralela, a que
os funcionários podem dedicar 20% do
seu tempo. Hoje o Google Brain reúne
mais de cem cientistas, com a missão
de desenvolver a inteligência usada nos
demais produtos da empresa - que, atu-
almente, tem nada menos do que 1.200
projetos envolvendo IA.
30 SU PER AGOSTO 2016
*1---4_.·. セ NLN@ J_ セ@
.... . - .-'.1· ·-- . ;· ·.:.. . .. : ;
ᄋ MZ \ ᄋ セ@ ,.. ..f • • セ@ セ@ ..
. "
. .. ·. · -.--·· -·.·.·.·.·
Desde fevereiro, o diretor de buscas
do Google é o engenheiro John Gian-
nandrea, especialista em inteligência
artificial. E, desde o ano passado, as
pesquisas no Google são gerenciadas
pelo RankBrain, um robô inteligen-
te que aprende sozinho a interpretar
buscas inéditas, que nunca foram feitas
antes (cerca de 20% das pesquisas feitas
a cada dia). O Google também já usa
inteligência artificial para gerenciar a
distribuição de anúncios online, sua
grande fonte de receita. Em suma: está
apostando tudo nisso.
Não está sozinho. O destaque do
iOS 10, próximo sistema operacional
da Apple, é a nova versão da assistente
Siri, que agora vai conversar com os
aplicativos do iPhone (e assumir muito
do que hoje é feito via apps, de chamar
táxi a pedir pizza). A Apple está seguin-
do a deixa da Amazon, cuja assistente
virtual Alexa se comunica com mais
de cem aplicativos - lê notícias, pede
Uber e faz compras, entre diversas ou-
tras coisas. A Microsoft colocou uma
assistente, a Cortana, no Windows 10, e
está desenvolvendo softwares capazes
de conversar em nível humano - coisa
que o Facebook também persegue. É um
movimento gigantesco, que tem sido
comparado a primeira corrida do ouro
da internet: a onda das "empresas ponto.
com", na década de 1990, que gerou a
rede que temos hoje.
Mas por que justo agora? Talvez você
não saiba, mas a inteligência artificial
não tem um retrospecto muito bom.
Lançado em 1968, o clássico filme 2001
tem como protagonista o computador
HAL, tão inteligente quanto uma pes-
soa. Naquela época otimista (o homem
chegou à Lua um ano depois), isso pa-
recia exequível. Mas não chegou nem
perto. As décadas seguintes foram de
impasses e frustrações, que deram à
inteligência artificial uma fama ruim.
Tanto que hoje os cientistas da área pre-
ferem usar outro termo: machine lear-
ning, ou seja, aprendizado da máquina.
E a novidade está justamente nisso.
Em vez de tentar ensinar o compu-
tador, agora a jogada é fazê-lo apren-
der sozinho, usando as chamadas re-
des neurais artificiais. "No cérebro, os
neurônios se conectam uns aos outros
e trocam informações. No sistema arti-
ficial , é a mesma coisa. Só que no lugar
dos neurônios nós temos uma coleção
de funções matemáticas', explica Greg.
Quando você nasce, os seus neurônios
já estão formados, mas não sabem tra-
balhar juntos. Conforme você cresce e
aprende coisas, eles formam ligações
semipermanentes (são as memórias)
e aprendem a funcionar em conjunto.
decolando. Porque nada na história teve
acesso a tantos dados quanto o Google.
Além de indexar bilhões de páginas da
internet, ele também é alimentado pelos
próprios usuários. Quando você recebe
um email no Gmail ou salva álbuns no
Photos, por exemplo,
Depois de décadas em marcha
lenta, a inteligência artificial
disparou nos últimos anos. Gra-
o Google usa os seus
arquivos para alimen-
tar as redes neurais.
"Mostre 1 milhão
de imagens de árvores
para o computador, e
deixe ele aprender so-
zinho', explica o enge-
nheiro Otavio Good.
Árvores ou qualquer
ças a uma nova tática: em vez
de tentar ensinar as máquinas,
deixá-las aprender sozinhas.
As redes neurais artificiais funcio-
nam de um jeito parecido. Primeiro, o
computador é alimentado com dados:
a foto de um gatinho, por exemplo. Aí,
cada grupo de "neurônios" avalia um
aspecto daquela imagem. No nosso
exemplo, pode ser a cor do objeto, se
a textura é de pelo, se ele tem patas
e olhos, etc. Dentro de cada grupo, os
neurônios "votam", ou seja, cada um dá
seu parecer (se o objeto tem ou não
olhos, pelos, etc.). A rede neural erra
muito, literalmente milhões de vezes.
Mas uma hora, por pura insistência,
acaba acertando. Quando isso acontece,
ela evolui: os neurônios que estavam
certos desde o início ganham mais peso,
e passam a ser copiados pelos demais.
Ou seja, a rede neural aprende.
Dali em diante, toda vez que aparecer
um gato, ela vai identificar no ato. E quan-
do for aprender a analisar outra coisa
(a foto de um cachorro, por exemplo),
não vai sair do zero: deduzirá as seme-
lhanças e diferenças daquilo com o que
aprendeu antes (gato). Como não requer
intervenção humana, esse processo pode
ser executado infinitamente. E repetindo
o processo muitas vezes, com muitas coi-
sas - imagens, palavras, frases, perguntas,
respostas-, e você vai acabar chegando a
um computador hiperinteligente.
Pelo menos essa é a ideia. Ela não é
nova: as redes neurais foram propostas
pela primeira vez em 1946. Mas só ago-
ra, com chips potentes e quantidades as-
tronômicas de dados para treinar, estão
outra coisa - até placas
de rua. Tímido, simpático e intensamente
nerd, Otavio trabalhava fazendo games
de PlayStation e Xbox antes de ir para
o Google. Ele é filho de mãe brasileira,
aprendeu um pouco de português na
infância. E em 2010, para ajudar ami-
gos que iriam visitar o Brasil, criou o
WordLens: um app que traduz, em tem-
po real, o que está escrito em placas,
cardápios, etc. Basta apontar a câmera
do celular, e a tradução aparece no ato.
É bem impressionante. O Google tam-
bém achou, tanto que em 2014 contratou
Otavio e comprou o app dele, que hoje é
parte do Translate e funciona com deze-
nas de idiomas. Nas horas de folga, ele e
a esposa (Zinaida Good, bióloga compu-
tacional da Universidade Stanford) or-
ganizam o que ele chama de festas de
machine learning: recebem amigos, cada
um com o respectivo laptop, e tentam
bolar novos algoritmos de inteligência
artificial. Divertido.
Otavio está há dois anos no Google,
mas ainda parece meio perplexo. "Quan-
do eu fazia games, meu público era tipo
100 mil pessoas. Hoje é uma fração da
humanidade inteira", diz. Quando a
conversa termina, pergunto onde fica
determinado prédio do Google, onde
a próx ima entrevista está marcada.
E Otavio comete uma inconfidência:
"Eu mostro, vou até lá fora. Não tenho
nada para fazer agora", confessa, rindo.
Conforme as máquinas forem se
tornando mais inteligentes e assu-
mindo mais funções, vai sobrar cada -+
AGOSTO 2016 SUPER 31.
vez menos trabalho para as pessoas -
inclusive as que trabalham no Google.
Mas a tecnologia ainda exige muito
suor humano. "Nós transcrevemos,
manualmente, 33 mil horas de grava-
ções", conta a engenheira Françoise
Beufays, responsável pelo reconheci-
mento de voz do Google. Um esforço
monumental, que exigiu uma equipe
de 600 pessoas. A rede neural do Goo-
gle foi alimentada com o áudio e as
transcrições,comparou as duas coisas
e foi aprendendo a reconhecer vozes.
Françoise trabalha com reconhecimen-
to de voz há 25 anos, 11 no Google,
mas não aparenta: baixinha e elétrica,
ela fala excitadamente sobre diversos
assuntos - até as gafes que, no processo
de aprender e se aperfeiçoar sozinhas,
as redes neurais acabam cometendo.
"Os alemães inspiram antes de falar",
diz, ao contar um caso envolvendo as
buscas de voz no Google alemão. Um
belo dia, o software decidiu ignorar isso,
e começou a entender a típica respira-
ção germânica como se ela fosse um
palavrão em inglês (fuck). •Às vezes, o
sistema explode na nossa cara", admite.
No ano passado, a nova-iorqui-
na Jackie Alciné se revoltou ao ver a
classificação dada pelo Google Photos
a uma imagem na qual ela aparece
com uma amiga: "gorilas" (ambas são
negras). Por algum motivo, o software
achou que essa era a resposta correta.
"Nem todo erro é tão doloroso quanto
esse. Mas alguns podem ser", admite o
engenheiro Tom Duerig, responsável
pelo Photos. Loiro, surfista e típico
californiano bicho-grilo, Tom perde a
alegria ao falar sobre o caso. Ele lembra
outro episódio do tipo, em que o Photos
classificou como "baleia" a imagem de
uma pessoa obesa na piscina. O algo-
ritmo não é racista nem gordofóbico:
simplesmente não tinha visto fotos su-
ficientes de pessoas negras ou obesas.
Acabou sendo alterado, manualmente,
para não comparar humanos a animais.
32 SUPER AGOSTO 2016
• MICROCOZINHAS EMAXIMESAS A sede do Google fica em Mountain View, a uma hora de São Francisco. Recebe 30 mil funcio-nários e 3 mil estagiários por dia, que
consomem de 35 a 50 mil refeições em
dezenas de restaurantes e cafeterias e
mais de 150 microcozinhas: áreas self-
service com geladeiras, máquinas de
café e todos os tipos de snack, do mais
saudável e exótico (algas importadas da
Coreia) ao mais trash - que o Google,
propositalmente, coloca em prateleiras
baixas e escondidas.
O com plexo tem dezenas de prédios
agrupados em blocos, lembra um campus
de universidade americana. As constru-
ções são todas diferentes, sem nada em
comum a não ser a altura (no máximo
quatro andares), e os escritórios também
não seguem um padrão. Uns são abertos,
•
outros têm divisórias e até tendas indivi-
duais. Uns têm mesa de pingue-pongue e
parede de escalada, outros não têm muita
frescura. Muitos têm estandes com re-
vistas e jornais (de papel mesmo). Uma
coisa é comum a todos: são silenciosos,
tranquilos e até meio vazios. Suas mesas
são enormes, com o triplo do espaço nor-
mal, e nunca estão lotadas. Isso tem a ver
com o tamanho do complexo (os prédios
têm 290 mil m2 ), mas também com uma
política: muitos dos funcionários podem
trabalhar de casa, e só precisam vir à sede
uma vez por semana. E isso não é um
gesto de generosidade.
Mountain View tem 74 mil habitan-
tes. É pequena, pacata, lembra a cidade
de Marty McFly em De Volta para o Fu-
turo. Mas, por causa do Google, virou
um dos lugares mais caros dos EUA.
Alugar uma casa custa US$ 4.000 por
mês, e isso se você conseguir uma: a
cidade tem déficit de 20 mil residên-
cias. Ou seja, acaba sendo meio inviável
morar lá. A maioria dos funcionários
do Google vive em cidades adjacentes,
como San Jose e São Francisco, e vai de
carro ou ônibus - o que gera conges-
tionamentos monumentais. O Google
quer dobrar o tamanho do seu campus,
mas a prefeitura só deixa se a empresa
também construir 10 mil casas (ao custo
de US$ 6 bilhões). No impasse, a saída
foi liberar o home office.
Outra possível solução são os carros
autônomos, que podem andar quase co-
lados uns aos outros, o que reduziria
muito os congestionamentos. Mas já é
meu segundo dia em Mountain View,
e ainda não vi o carro do Google. É
um protótipo extremamente ousado,
sem volante nem pedais, que transporta
engenheiros pelas ruas da cidade (único
lugar do mundo onde é permitido).
de fazer por meio do GPS do telefone).
"Nós aprendemos os melhores horários
para as coisas, que podem variar con-
forme a pessoa ou a profissão dela, por
exemplo", diz Jacob Bank, gerente do
Google Calendar. "É uma mistura de
inteligência artificial
O Google está liberando seus
algoritmos para que outras
empresas usem e desenvolvam.
É a mesma estratégia do
Android - hoje presente em
80% dos celulares do mundo.
com ciência compor-
tamental", diz. Jacob
ainda não alcançou a
própria meta, aprender
espanhol. "Nós vamos
levar muitos anos até
mudar a relação das
pessoas com suas
agendas", admite.
• EMAILS E DINOSSAUROS "Seria bom não ter que digi-tar tanto", conta o engenhei-ro Bálint Mi klós, que cuida do Gmail. Pensando nisso, ele criou o que talvez seja o mais impressionante
dos inventos de inteligência artificial do
Google: o Smart Reply, um sistema que
lê emails e responde sozinho. Bálint tem
a expressão fechada e séria. Só de olhar,
você jamais adivinharia o que fazia an-
tes do Google - foi vice-campeão nacio-
nal de patinação artística na Romênia,
sua terra natal. Ele só se anima ao falar
sobre a inteligência do programa. "Às
vezes o algoritmo entende até piadas",
conta. A novidade faz parte do lnbox,
aplicativo que é uma espécie de versão
experimental do Gmail, e já pode ser
baixado na loja Google Play. Conforme
você usa o app, ele vê com quem você
mais conversa, os assuntos que comenta
e até o estilo da sua escrita. Depois de
alguns dias, começa a sugerir respostas
curtas para os emails. Sempre apresenta
três opções, para que você escolha a
melhor (também dá para ignorá-las e
escrever você mesmo). Funciona super-
bem. Mas, por enquanto, só em inglês.
A inteligência artificial do app Goo-
gle Agenda, poroutro lado, já funciona
na versão em português. Você define
uma meta, como fazer exercício ou es-
tudar um idioma. Aí o robõ encontra
tempo livre na sua agenda - e vai ajus-
tando isso de acordo com a sua rotina
(ele deduz o que você fez ou deixou
No mundo da tec-
nologia, é uma eterni-
dade. No Computer History Museum, a
cinco minutos da sede do Google, estão
os computadores mais importantes da
história. São marcos tecnológicos in-
críveis, criados por empresas que pare-
ciam imbativeis. Mas foram aniquiladas
ou viraram sombras do que eram. O
Google sabe que não está imune a isso.
Tanto é que seus fundadores, Larry Page
e Sergey Brin, colocaram a réplica da
ossada de um dinossauro, em tamanho
natural, no meio do campus. A mensa-
gem é clara: quem não evolui é extinto.
Por isso o Google, mesmo no auge do
sucesso, decidiu se reinventar.
Tem boas chances de conseguir.
Al ém de investir pesado em inteli-
gência artificial, está distribuindo os
fru tos: liberando boa parte do que de-
senvolve, numa plataforma de código
aberto chamada Tensor Flow (o nome
vem de uma operação matemática re-
alizada pelas redes neurais). A ideia é
que outros pesquisadores e empresas
usem a Tensor Flow em seus próprios
projetos. Se isso acontecer, o Google
dominará esse mercado - como hoje o
Android, que ele também distribui de
graça, domina os smartphones.
No meu último dia em Mountain
View, os carros autônomos fi nalmente
dão as caras. Vejo um, dois, três, quatro
rodando pela cidade. Ninguém dá bola,
eles já fazem parte do cotidiano. Daqui a
um tempo, talvez seja difícil imaginar a
vida sem eles. Como é, hoje, impossível
imaginá-la sem o Google. O
AGOSTO 2016 SU PER 33
R•portaq••
Otavio Cohen
Design
Inoro Ns rão
Foto
fõiióS Arthuzzi
Edi ção
Tiago Jokura
Ele enxerga o mundo pelo nariz, mas aprendeu a nos olhar nos olhos, virou
parte da família e conhece mais sobre nós do que nós mesmos. Entenda como
os primos dos lobos domesticaram o homem e se transformaram em cães.
MEU DON O P A RA de re- pedaço de pão a metros
pente. Uma faixa de pelo de distância para me
ao longo das costas até puxar até lá. Nesses mo-
o cóccix se arrepia. A mentas ferozes, Legolas
boca, que normalmen- me lembra que, apesar de
te esboça algo parecido ter nome, cama,frequen-
com um sorriso, agora tar uma creche, ser ótimo
está fechada, e o nariz com crianças e fazer su-
faz movimentos quase cesso no Instagram, ele
imperceptíveis. Apesar é um cachorro. E que,
de andar sempre ao meu como todo cachorro, é
lado, Legolas me arrasta meio lobo.
em direção a seu alvo. O Quer dizer, mais ou
motivo da transformação menos. Em 2014, cien-
do meu labrador brinca- tistas de Universidade
!hão em um cão de caça de Uppsala, na Suécia,
é um gato do outro lado compararam os genomas
da esquina. Em dois anos de algumas raças de ca-
de convivência, ele sem- charro com os de outros
pre gostou de perseguir caninos, incluindo lobos
gatos na rua, e nunca de de regiões em que teria
maneira amigável. A úni- se iniciado a domestica-
ca outra coisa que surte ção dos cães pelo homem
nele um efeito parecido (Croácia, China e Israel).
é comida. É enxergar um O que descobri ram foi
36 SUPER AGOS TO 2016
.J,
AMIZADE
HISTÓRICA
llmila.C.
Osances·
trais dos
cachorros
seaproxi·
mamde
humanos.
300a.C.
Alexandre,
o Grande,
usa
cachorros
com arma·
duras nas
batalhas.
que os genes dos cachor-
ros são parecidos entre
si, mas não tão similares
aos dos lobos de hoje em
dia a ponto de dizermos
que um evoluiu do outro.
Aliás, os traços genéticos
que comparti lham têm
mais a ver com cruza-
mento entre as espécies
do que com uma descen-
dência direta. Então, de
onde vieram os cachor-
ros? Uma possibilidade
é que tanto cães como
lobos evoluíram a partir
de um ancestral comum
já extinto entre 9 e 34 mil
anos atrás. Cachorros não
são lobos, ao contrário do
que sugerem os gurus do
adestramento na TV.
A ideia mais aceita
hoje é que, cerca de 13
mil anos atrás, a tal es-
pécie canina ancestral
percebeu que andar pró-
xima a lugares por on-
de os homens nômades
passavam era uma boa.
Afina, era comum sobrar
restos de comida nessas
áreas. De cara, evitavam
contato d ireto com hu-
manos, aquela espécie
desconhecida e poten-
cialmente perigosa. Mas
alguns caninos menos
medrosos chegaram um
pouco mais perto, em
busca de restos mais
nobres. Os humanos vi -
ram vantagem. Aqueles
bichos percebiam coisas
que os homens não eram
capazes de notar, como a
presença de predadores e
a proximidade de presas.
Era o início da amizade.
A domesticação de-
morou a acontecer. O
homem de 13 mil anos
atrás não era exatamente
um cara civilizado com
moradia fixa a ponto de
ter um animal domésti-
co. Nos milhares de anos
seguintes, os humanos
foram selecionando os
bichinhos mais dóceis e
descartando os agressi-
vos. Foi a invenção doca-
chorro. Uma seleção ar-
tificial tão eficiente que
foi reproduzida em labo-
ratório. Nos anos 1960, o
geneticista russo Dmitry
Belyaev começou a criar
raposas em cativeiro. Por
40 anos, liberava as mais
simpáticas para cruzar e
gerar raposinhas. Mais
de dez gerações depois,
elas mudaram física e
psicologicamente. Lam-
biam, pediam carinho,
interagiam com huma-
nos, tinham orelhinhas
caídas quando filh otes,
rabo em pé e focinho
mais curto que seus an-
cestrais selvagens. Vira-
ram cachorros.
A história das raposas
é uma evidência de co-
mo a espécie humana é
capaz de moldar outras
espécies. Mas, no caso
dos cachorros, fomos
longe demais. Basta ver
como a obsessão por ra-
ças perfeitas por meio de
cruzamentos de indiví-
duos da mesma família
criou cães como o pug,
que não respira direito
e pode morrer se fizer
muito esforço físico. O
abuso de poder está tam-
bém em pequenos gestos.
Adoramos dar banho e
encher os cachorros de
perfume, tirando-lhes
o cheiro natural: o do-
cumento de identidade
deles. Resumindo, esta-
mos descachorrizando
os cães. Eles têm roupas,
vão à creche, ganham fes-
ta de aniversário - e há _,.
ATIREI
PRIMEIRA
PEDRA. ..
••• QUEM NU N CA
cedeu à carinha de um
cachorro pidão implo-
rando por comida ao
pé da mesa. Cientistas
da Universidade
Lincoln, EUA, notaram
que, diante de duas
pessoas comendo -
uma com os olhos
vendados e a outra
não-, os cachorros
se aproximam da que
está sem a venda. Os
dogs acreditam que
há mais chances se
conseguirem contato
visual. Eles Leem os
gestos humanos tão
bem quanto os sinais
vindos de outros cães.
quem garanta que eles política nacional, a tem- cachorro quase não para tanto por nossas roupas
amam tudo isso. Mas, parada mais recente de de inspirar. O órgão vo- quando estamos longe.
quando atribuímos aos Game ofThrones (incluin- meronasal está em plena Humanos podem de-
cachorros sentimentos do o destino dos lobos atividade o tempo todo, morar até reconhecer
humanos, como inveja, gigantes dos Stark), esta sempre recebendo novas um amigo que mudou
ciúmes ou alegria, nos revista, uma montanha de informações. já reparou a cor do cabelo ou fez
esquecemos de que eles dinheiro - é irrelevante. que é difíci l perceber que uma cirurgia plástica no
funcionam de um modo Para Von Uexküll, só é está vazando gás no fo- rosto. Cães reconhecem
muito diferente do nosso. possível compreender a gão se você estiver na na hora. Não importa se
Não é assim que se trata pulga ao levarmos em cozinha desde o início você usa perfume francês
o melhor amigo. conta o ponto de v ista do vazamento? Seu cére- ou se não toma banho
dela. Essa perspectiva bro é programado para se há três dias. Eles sabem
culiar recebeu o no- acostumar com odores, que você é você porque
de umwelt (algo como mesmo os mais desagra- são capazes de te cheirar
biente", em alemão). dáveis. Cães jamais se por dentro. É por isso que
mwelt do cachorro é acostumam. Cada lufada existem cães treinados
mais complexo do é carregada de novida- para identificar doenças
EI Ili q e o da pulga que se des. Eles sentem cheiros como diabetes, câncer, ou
Ili h. speda nele. E muito de maneira tão específica até esquizofrenia. Mais
111111, erente do seu. que não é de se espantar do que identificar aromas,
Ili m cão não liga para que o odor sirva como eles os interpretam. Se a agnífica vista do par- identificação na socieda- percebem uma quanti-
q em que passeia. Para de canina - cada cão tem dade maior de adrenali-
e1 , importante é cheirar. seu cheiro único. na no seu sangue, sabem
N nhum sentido é tão O biólogo Marc Beko- que você está nervoso. Se
çado num cachorro ff, um dos maiores espe- identificam feromônios,
ência do comportamento quanto o olfato. Ele tem cialistas do mundo em percebem que você está
animal ao propor ver o 220 milhões de células cachorros, desenvolveu excitado. E, se tiverem
mundo pelos olhos de olfativas, 100 mil vezes um teste para ver se seu alguma dúvida, eles con-
uma pulga. Esse parasita mais do que você. Além cão reconhecia o cheiro firmam com o olhar.
não tem uma vida muito de terem mais receptores do próprio xixi diante Para a maior parte das
variada. Ele não enxerga de cheiros, eles têm tipos de várias amostras de espécies animais, olhar
e não liga para barulhos. diferentes de células oi- 1884 urin a de outros animais nos olhos é sinal de ame-De todos os cheiros do fativas. lsso faz com que
Surge o
na neve. jethro passou no aça. Quando um lobo é
mundo, só um importa: não só cheirem melhor: American teste sem difi culdade. O encarado, ou ataca ou
o de ácido butanoico, eles cheiram de um jeito Kennel caso da "neve amarela", desvia o olhar e se afasta,
presente em manteiga, que você nem imagina Club. Hoje, publicado em 2001, ficou porque acha que está em
em alguns queijos e no que é possível. Entre o oAKCreco · famoso porque esclareceu perigo. Até chimpanzés
suor de animais de san- céu da boca e a parede in- nhece 200 que os cães têm muito evitam o contato visual
gue quente. Para a pulga, ferior do focinho, há um
raças, mas
mais facilidade em se longo. Para os dogs, vale estima-se
encontrar um desses ani- aparelhinho muito úti l haver mais identificar pelo olfato do a pena sustentar a mirada
mais é como ganhar na chamado órgão vome- de 700. que pela visão. Coloque o para obter informações
loteria. Elamorde, suga ronasal, uma espécie de seu filhote diante de um sobre os humanos com
um bocadinho de sangue decodificador de odores. 1923 espelho e ele logo per- quem interagem. Esse
e pronto, sua missão na Tudo o que entra pelo na- RinTinTin derá o interesse naquele comportamento raro em
Terra está completa. Se riz é processado e trans- estrela no bichinho peludo fofo, mas outras espécies é prova
a pulga pudesse falar, só formado em informações cinema.Em completamente inodoro. do vínculo milenar entre
diria que há três tipos de no cérebro canino. 1929. foi o Só tem um cheiro que eles nós e eles - milênios de mais votado
coisas no mundo: lugares O aparelho olfativo para Levar conhecem tão bem quan- coevolução resultaram
para esperar surgir no ar tem outra peculiarida- oOscar to o próprio, e é o seu. em cachorros adaptados
o cheiro de ácido buta- de. Quando o cachorro de Melhor Para os cachorros, nós para decifrar nosso olhar.
noico, superfícies com expira, cria uma peque- Ator , mas a somos nosso cheiro. Seu Temos a sensação de que
ácido butanoico e sangue na corrente que empurra Academia tênis é uma extensão do nos entendem. E enten-eliminou-o
(que está cheio de ácido ar de volta para dentro. por não ser seu corpo, e isso expli ca dem mesmo, mas de um
butanoico). O resto - a Em outras palavras, um humano. por que eles se interessam jeito todo particular. セ@
38 SUPER AGOSTO 2016
.·
FARO
Rll
CACHORROS de-
tectam rastros quí-
micos produzidos
pelo corpo. Assim
como farejam
drogas no aero-
porto, eles podem
ser treinados para
detectar odores de
células cancerosas
ou a alta concen-
traÇão de glicose
no sangue, comum
na diabetes. Mu-
danças セッイュッョ。ゥsG G@
e de pressão,
volume de suor,
tudo isso altera
sutilmente nosso
cheiro. E isso não
passa batido por
foci nhos caninos.
elas. Um ursinho especializada em caninos quanto brincar_ Não é à
pelúcia, um graveto e e autora de A Cabeça do toa que escolhemos os
11111111
a bola de pingue-pon- Cachorro_ Adestradores cães como amigos_ Ou
são praticamente a sempre chamam aten- será que foram eles que
IEflEllU sma coisa: estão na ção para o jeito como os nos escolheram?
egoria "mastigáveis"_ comandos devem ser en- Independente dares-
biscoitinho em forma sinados. Um "senta" firme, posta, é evidente que
osso é tão comestível com entonação assertiva, muitas características
nto uma maçã. Tudo jamais será confundido caninas foram surgin-
é grande demais pa- com a palavra "senta" co- do em resposta a tra-
omer, mo rder, sentar loquial no meio de uma ços humanos_ O latido,
ck russell terrier, e publi- ou rolar em cima não faz frase. Comandos verbais por exemplo, tem toda
cou o vídeo na internet. diferença na vida dele. têm mais a ver com o tom a pinta de ser um ins-
Assisti-lo é revelador. A A não ser que essa coi- de voz do que com o sig- trumento desenvolvido
visão dos cachorros é po- sa se mexa: cães adoram nificado das palavras usa- para se comunicar com
voada por pernas, sapatos coisas que se mexem. das_ Ainda mais quando o homem, que é tão ver-
e meias, cheia de pneus Um cachorro pode latir são associados a gestos. bal (lobos não latem)_
de carros, raízes de árvo- incansavelmente para Cachorros também Para compreender seus
res, pés de mesa, cantei- alguém deslizando so- são excelentes em leitu- companheiros bípedes,
ros e jardins_ Para eles, o bre um skate e se calar ra corporal. Identificam os cães aprenderam até
chão é limi te. A imagens no momento em que a a metros de distância se uma habilidade men-
que as câmeras humanas pessoa para_ Aos olhos o outro cão que vem na tal que só existe tão
captam da experiência dele, o gato parado na direção oposta é amigável desenvolvida no pró-
canina, porém, são li mi- esquina se transforma, ou não. Se for, em segun- prio homem. Trata-se
tadas para representar a num passe de mágica, em dos, eles podem engatar da teoria da mente, que
experiência sensorial ca- outro gato quando foge - uma brincadeira. Nos é a capacidade de ima-
nina como um todo. e o gato correndo é bem poucos segundos entre ginar o que passa pela
Que o olfato é impor- mais divertido_ Observar o encontro e a interação cabeça de outra pessoa_
tante para eles, já está mais o comportamento de um física, eles trocam vários Cachorros também têm
que claro. Cheirar o tra- cachorro num passeio dá sinais_ Estender as patas bons palpites de como
seiro de outro cãozinho muitas dicas sobre como para frente e baixar o vamos nos comportar
na rua é o equivalente ao eles sentem o mundo. Se focinho é um dos mais em determinadas situa-
nosso "bom-diá'_ Mas es- um cão late para o nada, é conhecidos: significa ções, mesmo tendo uma
se gesto também mostra sinal de que ele percebeu que ele quer brincar e teoria da mente menos
como eles lidam com o algo que você não notou_ está convidando seu mais refinada que a nossa_
espaço individual. Entre Se não for um cheiro for- 1957 novo amigo. Ao longo da E eles usam e abusam humanos, é cada um no te é grande a chance de brincadeira, eles estabele- desse superpoder_
seu quadrado. Pega mal ser um barulho quase Abordo do cem limites e contam um
encostar em desconheci- imperceptível_ Enquanto Sputnik 2. a para o outro se a mordida
cadela Laika
dos na rua. Já os cães não humanos escutam nu- é o pr imeiro foi muito forte ou se a
têm cerimônia. Põem o ma frequência de até 20 ser vivo patada machucou.
nariz na nossa virilha para kHz, cachorros podem a entrilr Está aí outra peculia-
saber por onde andamos, percebem sons bem mais na órbita ridade dos cachorros em
lambem nossa perna e se agudos, de até 45 Hz. terrestre. r_elação a outros bichos. ANTRDPÓ·
aconchegam para uma so- Além de escutarem 1967 E raro encontrar no rei- L D G D S neca. Tudo o que está ao bem, também são bons no animal espécies que D E QUATRO
alcance do cachorro é dele_ ouvintes. "Já que não fa- Os Beatles brincam na fase adulta.
Mas, se for grande demais lam, eles prestam mais lançam A É que o risco da brinca- PATAS Dayinthr
para caber na boca, eles atenção no ritmo de nos- l.ife. com deira é grande. Rolar na
deixam para lá_ sas frases, no tom de nos- trechos grama pode machucar e LEGOLAS P ERCEBE O
Assim como a pulga, sa voz, na exuberância de ョオュ。ヲイ・セ@ gasta uma energia que cheiro de pão da padaria
cachorro também divi- um ponto de exclamação quê nci a que faria falta mais tarde. entrar pela janela e sabe
de as coisas do mundo e na veemência da caixa humanos Mas a sociabilidade fala que é hora de acordar. não ouvem,
em categorias a partir da alta", escreveu Alexan- mascachor - mais ai to - e nada esti- Eu mudo de posição e
maneira como interage dra Horowitz, psicóloga rossim . mula tanto a sociabilidade fin jo que ainda estou セ@
.tJO SUPER AGOSTO 2016
GRANDE
FAMÍLIA
A Q UELE PA PO de
que o dono do cão
precisa ser o macho
alfa da matilha é
lenda . Para a pesqui-
sadora Alexandra
Horowitz, isso
não se aplica aos
cachorros, que não
caçam em grupo e
socializaram com
humanos. Eles
demonstram
apego (preferência
por uma pessoa) ,
enquanto Lobos não
têm apego nem sen-
tem medo de serem
abandonados.
dormindo, mas ele sabe inacreditáveis poderes A, monitorou o cére-
muito bem que não. Em físicos, faz com que eles de cachorros expostos
segundos, está na porta estejam no topo da !is- D árias amostras olfati-
do quarto, pronto para o ta de bichos adaptados 1111111110 (cheiros de cães des-
passeio da manhã. Ele é para viver perto de nós. E IEI hecidos e conhecidos,
paciente, normalmente Nem os primatas mais Hlllll anos desconhecidos, espera com calma até espertos são tão bons em es mesmos e de seus
eu me vestir, sair doba- entender, por exem pio, se dô os). Na hora em que
nheiro, encher a vasilha apontamos numa direção. s tiam o aroma dos do-
de ração, pegar o rolo Cachorros conseguem, n , uma parte do cérebro
de saquinhos plásticos, principalmente se mos- ada núcleo caudado,
uma porção de petiscos, tramas com o dedo onde para meu cachorro após associado a sensaçõesde
e a guia de couro mas- está a comida ou o brin- 20 dias fora. Ele pensa prazer e às primeiras fases
ti gada. Mas, se enrolo quedo. Mas o superpoder que não vou mais voltar, do amor, intensifi cava a
mais do que o de cos- de prestar atenção nos pois nunca passamos atividade.
tume para sair da cama, mínimos detalhes tem tanto tempo separados. Cachorro costuma
ele começa seu próprio uma contrapartida: eles Fiquei fora tempo o su- gostar de gente. Ao verem
ritual. Primeiro, chora não sabem generalizar. ficiente para que ele já fotografias de humanos,
baixinho. Depois, solta São capazes de perceber não me esperasse mais no reagem como nós, do
um latido fino. Se não as mil hões de nuances horário de sempre. Abro a ponto de vista da ativi-
adiantar, começa a puxar no aroma de uma rai z de porta e vejo Legolas dei- dade cerebral. O córtex
o edredom com a boca. árvore, mas não necessa- tado no sofá com as ore- temporal, que processa
"É hora de levantar, está riamente sabem que estão lhas em pé, arrancado de informações complexas,
um dia particularmente numa floresta. Cheiram um sono profundo. Nos 5 como microexpressões
cheiroso lá fora. Ante- uma árvore de cada vez. minutos seguintes, vejo-o faciais, fica ligado. Essa
ontem foi assim, ontem "Viver sem capacida- correr pela casa, subir e sintonia faz deles exce-
também, e hoje será a de de abstração signifi - descer escadas trazendo lentes animais de serviço
mesma coisa. Não há na- ca encarar cada evento o primeiro brinquedo que (como guias para cegos)
da que você possa fazer e objeto como singular", 2007 viu pelo caminho, rodo- e terapêuticos. Depois do a respeito, humano", eu diz Horowitz. Uma das Nascem piar, pular, cheirar minha atentado de 11 de Setem-
falo, imitando a voz que possibilidades da cons- os pr imei- calça, passar por baixo das bro, mais de 500 cachor-
inventei para ele. ciência humana é pensar ros clones minhas pernas, dobrar- ros foram designados pa-
Jakob von Uexküll sobre o pensamento. Pa- caninos se para que eu coce seu ra consolar e amenizar o
não escreveu sobre o ra um cachorro, pouco do mundo : lugarzinho preferido na trauma de sobreviventes
umwelt de cachorros, só interessa a fil osofia. De sete base da cauda, tudo is- e famili ares das vítimas
sobre o das pulgas deles. acordo com o umweltca-
filhotes de
so ao mesmo tempo. É em Nova York. Eles tam-labrador .
Mas Alexandra Horowitz nino, só interessa o aqui o melhor momento de bém são os únicos bichos
tem alguns palpites de e o agora. Isso explica 2013 nossas vidas. que bocejam quando nos como é um dia na vida por que não é uma boa si milhões Comprovado: ter um veem bocejando. Sinal
do cachorro. "Nós somos ideia dar a bronca no de dogs cachorro amigável por claro de empatia.
a primeira fonte de co- cãozinho que destruiu vivem perto faz despencar o Graças a essa cumpli-
nhecimento sobre o dia: a almofada enquanto vo- em lares nível de cortisol (hormô- cidade milenar, temos
organizamos o dia doca- cê estava fora. Na mente brasi leiros, nio do estresse) no corpo. hoje ao nosso lado cães
charro em paralelo com o dele, aquilo aconteceu há contra 33,9 Ao mesmo tempo, sobe de companhia, de guarda, milhões de
nosso, fornecendo dicas tanto tempo que não há crianças até a concentração de ocito- de serviço; cachorros que
e cercando-o de rituais", conexão possível entre o 14anos. cina, um hormônio que arrancam aplausos em
escreve a pesquisadora. ato e a punição. Aquela desperta a sensação de competições ou risadas
Se eu me movimento de carinha de culpado en- 2016 apego e amor, o mesmo no YouTube. Quanto mais
manhã na cama, está na gana. Ele só está assus- Morr e, com liberado nas mulheres a ciência se dedica ades- ..
cara que já acordei. Lo- tado com sua reação e 30 anos, a durante o parto. Do lado vendar os segredos dos i
セ@
go, está liberado implorar não faz ideia do motivo. australlan de cá, é amor verdadeiro nossos melhores amigos, o
pelo passeio. A bronca só vai estra- kelpie correndo na veia. Do lado mais claro fica quem é セ@
A teoria da mente ru- gar o momento preferido Maggie - de lá, rola algo bem pare- quem na amizade milenar セ@cão mais li dimentar que os cachor- do cachorro: o encontro longevoda cido. Em 2015, o pessoal entre o Homo sapiens e o "i
ros têm, ali ada aos seus com seu humano. históri a. da Universidade Emory, Canis famíliaris. 0 :
42 SU PE R AGOSTO 2016
llHA
EllllE
(EISSI)
A CONIXÃ O entre
cães e gente sugere
que a domesticação
não tenha sido
produto exclusivo
da ação humana.
"Talvez os cães
tenham mostrado
como queriam ser
domesticados. Isso
acabou levando nos-
sos antepassados a
desenvolver relações
mais complexas com
outras espécies",
sugere o neurocien-
tista e antropólogo
Greg Downey, da
Universidade Mac-
quarie, na Austrália.
TRANSPARÊNCIA
Todo parlamentar tem direito a uma verba mensal durante seu mandato - o dinheiro sai do bolso dele para vo ltar por reembolso. Cada
Como ler
este gráfico
セセセセエセイセセセᄎ。ャセ イ セセョエ。@
parlamentar em cada
categori a. O tamanho
indica o valor, e as cores
mostram a despesa.
R$10.000
R$ 50.000
R$150.000
R$ 300.000
• Orça-
mento
RS 20 a45 mil
é o valor que cada parla-
mentar tem para gastar
por mês. O tet o varia con-
forme o Estado de origem
dele: quanto mais longe de
Brasília, maior o custo de
passagens aéreas - e maior
o orçamento. Em 2015, nin-
guém ult rapassou o Li mite.
Mas será que seu dinheiro
está sendo bem gasto?
As categorias
SENA DO
O Despesas de escritório
O Materiais de escritó rio
CÃ MARA
Combustíveis e lubrifi cantes
O Contratação de consultorias
Divulgação do parlamentar
Transporte, hotel. comida
O Consultorias e trabalhos técnicos
O Divulgação do parlamentar
O Passagens aéreas
O Aluguel de carros
e gasolina
O Passagens aéreas e outras
Segurança privada
@
l indbergh Farias
(PT-RJ)
RS 242,7 MIL
Lidera os gastos com
passagens aéreas:
torrou R$ 40 mil a
mais do que o segundo
maior viajante.
Senadores
®
O Manutenção de escritório
O Telefonia
Outros'
Aéci o Neves
(PSDB -MG)
R$213, 8MIL
Seu escritó rio é o
mais caro: foram R$
14 mil com condo-
mínio e aluguel.
Em compensação,
economizou com
セz セセセセ ゥ イ ・ セ ・ セァセ ウ N@
Cota Parlamentar de R$ 21.045,20 (DF)
a R$ 44.176,60 (AM).
fッエッウ dャカ オ ャァセ@
centavo precisa ser declarado no Portal da Transparência. A SUPER analisou todas as despesas dos nossos senadores e deputados em 2015.
!nf!!Jlráfica
Carol Castro, Flávio Pessoa, Har co Túli o Pires e Pd111ela Corbonori
Torra-
torra A ponta do
® iceberg
Vinícius A cota é só uma
Gurgel parte do borderô
(PR-AP) anual dos nossos
R$ 229,15 M IL
セアオ・ュ@ mais polít icos.
gasta com ;ilu-
guel. Manteve R$33.JS3
6escritóri os SALÃ.11:10 M ENSAL
<1omesmo
tempo- 4 só
em Macapá. Câmar a• (47%doguto
anual). RS 242,5 MILHÕES
Salários dos
® deputados
André Moura HS 5D7,4 MILHÕES
(PSC-SE) Salários dos funcio-
R$ 2.45,8 MI L nârios do gabinete
Apostou mais
HS 4,3 MILHÕES • eg;, セゥセセセセᆰjcZセ@ Castos com saúde
Gastou 66% da
HS 9,8 MILHÕES cota com redes
sociais, $râfica Auxilio-moradia
e cl1pping. 1$1&411Lll EI
©
Átila lins Senado• (PSD-AM)
RS 33' MI L HS 38,3 MILHÕES 750Jodas
、 ・ウヲオセ]セ@ セZZZ@
Salários dos
senadores
viajar de 。カゥセッN@ HS 3,9 MILHÕES A distância
justifica o Outros gastos
gasto? ゥセセセセセセセZエセセャ@ carros
@ HS96B MIL Auxilio-moradia
Conceição
HS 312,9 MILHÕES Sampaio
(PP-AM) Salários do gabinete
RS 51 MI L RS 3.4MILHÕES Gastou seis
vezes menos Castos com saúde
ー。イ。 ゥ イ 、セm。ᄋ@ I USl,HILll ES naus ao DF.
TOTAL
Deputados
Câmara + Senado
Cota Parlamentar
1$1,12311
de R$ 30.788,66
(DF)a RS
4S.612,S3 (RR) Equivale a :
46% do corte no
Ministério da Saúde
eml016.
1/4 da verba do
Pronatec em 201S.
' Ac:umulitdo l"m 1.015
AGOSTO 2016 SUPER 45
Senadores
Despesas de Materiais de =Consultorias Divu lgaç,ão
escritório ' escritório
1.000
N" DE
PARLA-
MENTARES
ATENDIDOS
PELAS
EMPRE SAS
100
Vivo11$ 281.0!59
•
10 •
1
• •
•
••• •••
. .
. .
. .
.Quem
·recebeu;
essa
:botada
,As companhias aéreas
.são as campeãs, segui-
das pelas エ・セヲ ョ ゥ 」。ウN@
Mas algumas empresas
'pequenas se'destacam
,por receber yalores
altos de um bu poucos
,parlamentar;es.
Jefferson
Coronel
: 11$ 210.000
' O publici tá-
rio prest ou
serviços
apenas a
Omar Azi:r:
(PSD·AM).
Faturou
55%dacota ·
anual do
' p<trfamentar. j
•
Gr6Jica E
Editora
Paranaíba
R$ 216.780
Transporte, : Passagens
hotel, aéreas
gasolina e outras
e comida
.
Petrobras
R$172 .9H
Latam
. R$1 .868 .011
Deputados
Segurança
privada
Revistas
e jornais
•
Grupo
· Citei Service Estado
RS 300 .67.4 ; RS 18.250
! 」Z[Zセウ オZᄋ@
: lubrifi cantes
Cascol
RS1 .117.081 :
t ! !
Consultorias
e t rabalhos
técnicos
-' , _ ; ·-;
Como ler
este gráfico
Os círculos mostram quanto as emprt"sas rt" cebe-
ram por ano em cada categoria. Quanto maior a
circunferência deles, maior o montante.
R$10.000 R$100.000
EMPRESAS• QUE MAIS RECEBERAM DO SENADO
( EX:CETO COMPANHIAS AltR!.AS E TELEFÔNICAS)
LM TURISMO (},GtNC/A DE V/AfJEN!i) 358,3
CITEL SERVICE {SEGURANÇA VIRTUA() 300 ,6
ORÃFICA E EDITORA PARANAÍBA 216,7
JE FFERSON CORONEL (PuBLICIDADf;) 210
VUP TURISMO Hagセncja@ DE VIMENS) 200
"Em R$mil
46 SUPER AGOSTO 2016
'o QUE FE RNANDO CO LLOR ( PTC-AL) dest inou à segurança
elet rônica. O valor equivale a lf4 do que os outros sena-
dores gast aram com esse serviço. E esse dinheiro todo
parou nas mãos de uma só empresa: a Citel Service.
Foto1 Pedro ヲセBAᅦゥャ OaァャAョ」Aゥャ@ Senado: AntõnioCruz/Agl!nclil bイセゥャ@
Div ulgai; ão
: Nascimento =
; Comunica-
çào
R$ 788 .299
Cal •• U .tel.UI
Comida Hotéis = Aluguel de Al uguel Aluguel
fora do DF aeronaves de barcos de carros
セ@
Sen.c
Rt 33!i.727
Foram
9.730
refeições
lá - uma
média de
R$34,5 por
a lmoço.
C1ntr1l r Park R11t1u-rante R8911.000
Localiza
• Curitiba: AS 625.099 Palace Hqtel
foi o hotel que mais
recebeu de 1,1m
único deputado.
Nelson MeUrer
(PP-PR) dei)t:ou R$
62.720 por lá - o
セZ ゥ [ᆰセAセァセイセ ゥ セセゥセセ M
•
• Marlon Santos
Gamboa
R$10.500
- ·---
R$10.000.000
111\lPRl!SAS" QUE MAIS RECEBERAM DA CÂM ARA
( EXCETO C IAS AEREA S E TELEFO NIA )
CORREIOS (SERVIÇO POSTA(} 3.991
CASCOL COMBUSTIVE1S (POSTOS DE COMBUSTÍVEfS) 1.149,,
OS CONSULTOR!" EMPRESARIAL 962,8
N"SCIMENTO COMUN ICAÇÃO (tDMUNICAÇÃD) 788.2
CLOUO TECHNOLOGY 879 ,3
Manu-
tenção de
escritório
Net
RS 277.142
Cursos ou Passa$.ens
palestras de ônibus
ou barco
Somente
3
deputados
investiram
em cursos
セイZAセセ、セ A ]@
Baldy
(PTN-GO),
Beto
Rosado
(PP-RN)
eAl ex
Canziani
(PTB-PR).
C.anziani
destinou
R$5,3mll
para pales-
t rassobre
ァ・ウエセッ N@ Os
outros dois
fizeram
cursos
demedi;:i
t raining
por R$ 7,5
mil cada.
Empresa
Gontijo
AS 12 .036
António
Augusto
Passos
RS 7 .6 H
Eduardo Cunha
(PMDB-RJ)
AS 124.8,7,119
Usou mais o telefone do que
= Segurança
privada
Staff
R$122.000
セセセAセセセセ Z 、ウ」ゥコセセセセ N ᄎ セ ・Z・セ]セエ・ ャ@
AS '9 MI L DA COTA
de Cunha - foi quem mais
gastou com a empresa.
Tá>Ci, pedá- Serviços Telefonia
$io e esta- postais
·c1onamento
• 10
•
AGOSTO 2016 SUPER 47
• Luxo,
farra e
fastos
inusitados
i: o Congresso quem aprova os reembolsos dos 513 depu-
tados e 81 senadores em exercício. É tanta gente que fica
fácil imaginar quantos gastos curiosos passam desperce-
bidos. E nossos políticos não ajudam: cadastram despe-
sas em categorias erradas, deixam espaços incompletos.
A preocupação é não estourar o orçamento.
Edison lobão
(PMDB-HA)
Theresa de Mari a Vilas
Boas Santos alugou um
ESCRITÓRIO EM SÃO LU IS para
o senador. Ela é mãe de
Ruy Vilas Boas, advogado
da família Lobão.
UFG!
Roberto Góes
(PDT- AP)
Assinou 10 meses de
TV a cabo da Sky,
com os principais
canais de filmes em
HD - e ainda incluiu
o canal Combat e, de
luta liv re. Haja pipoca!
CUSTO: R$ 3 .243
48 SUPER AGOSTO 2016
CARRO
( O M El H O R
1NVEST 1 ME N TO
Telmár i o Mota
(PDT-RR)
Locou carro de
Fredne Carvalho
da Rocha ao longo
de nove meses. Em
2016, ela ganhou um
cargo no gabinete
dele.
CUSTO: R$ 39.288
Vicentinho Al ves
(PMDB-MA)
Nilton Barbosa
Santos recebeu do
senador RS 52 mil
com fretamento de
aviões. Curiosamen-
te, Nilton doou RS 99
mil para a campanha
do deputado Vicen-
tinho Júnior, filh o do
senador Vicentinho.
CUSTO: R$ 152 MI L
"Ele
mora
em um
hotel"
Asses.sorio de
Rogério Peninha
Mendonça
(PMDB-SC)
Essa é a justificativa
dada para o maior gas-
to com alimentação
entre os deputados:
um ticket médio de
R$ 125 por dia útil.
Como, na Câmara, a
semana de t rabalho
dura apenas três d ias
- a diária do VR sobe
para R$ 219.
VIVA LAS
VEGAS!
Afo nso Motta
(PDT- RS)
Passou uma semana
em Las Vegas, no luxu-
oso hotel Belagglo - as
diárias variam de US$
250 a US$ 700, em
suites de 45 a 180 mi.
CUSTO: R$ 7.087,01
O deputado .H' negou
a comentar o estadia.
• Tudo
que vai,
volta?
Gast os e produtividade
nem sempre são grandezas
proporcionais. Há parla-
ment ares que economizam
e participam ativamente
no Congresso. Quando o
invest imento tem utilidade
públi ca, ainda que custe caro,
o retorno pode ultrapassar os
limites dos gabinetes.
Como ler este gráfico
O セャセセセセセセセセセウZゥセ。セセセイ。ュ@
em 1015. As cores indicam
os tipos de despesa.
e セセ セセイイ[セ イセセ セjゥセセイ¬・@
produtili ridade, que varia de
O (ruim) a 2 (muito bom),
e a posição no ranking.
e セ@ [セ[ャセセセ@ ゥ イ セセ@ セヲ@ セ ←セゥセセャゥエゥ」ッ@
discursos, proposições e
projetos de lei.
O Despesas de escritório
O Materiais de escritório
O Consultorias
Divulgação do parlamentar
Transporte, hotel, comida
e gasolina
O Passagens aéreas e outras
Segurança privada
CO NGRESSO
Combustíveis e lubrifi cantes
O Consultorias e trabalhos técnicos
O Divulgação do parlamentar
O Passagens aéreas
O Aluguel de carros
O Manutenção de escritório
O Telefonia
Outros'
fotos Pedro f イオゥセAaァ↑ョ」ャ[ゥ@ Seniido; Dlvulpçlo
1
Senadores
mais gastões
Vanessa Grazziotin
PCdoB-AM
João Capiberibe
PSB·AP
Romerojucá
PMDB·RR
Sérgio Petecão
PSD·AC
Davi Alcolumbre
DEM·AP
Senadores
0,8 I 55
José Pimentel
PT·CE
Telmário Mota
PDT·RR
Randolfe Rodrigues
REDE-AP
ElmanoFérrer
PTB·PI
1 g
Fernando Collor
PTC·Al
mais produtivos
.
" m
セ@ :;
m
セ@< • セ@セ@
セ@
セ@
< セ@ セ@%
a < セ@ セ@o
セ@ l セ@ セ@セ@ < セ@
Deputados
mais gastões
Jhonatan de Jesus
PRB-RR
Shéridan
PSDB-RR
Nilton Capixaba
PTB·RO
0 ,14 I 478
Vinicius Gurgel
PR-AP
Wilson Filho
PTB·PB
Jorge Côrte Real
PTB-PE
Cleber Verde
PRB-MA
Domingos Neto
PSD-CE
Remídio Manai
PR·RR
Deputados
mais produtivos
セ@
• .
セ@ " "
セ@
o
セ@ セ@
< o
< セ@ セ@
セ@ セ@ セ@o o o
セ@ セ@
セ@ セ@
E
agora?
A história
nioacaba
aqui. Nossos
part.amenhres
continuarão
a gastar suas
cotas durante
os mandatos
.. e despesas
estranhas de·
vem continu,ar
a aparecer.
MHvocê
pode ajudar a
fiscalizá-los.
Basta ficar de
olho nos gastos
públicos.
Como
fiscalizar:
o
Entre em:
camara.
gov . br/
cota-par-
lamentar/.
Por lá, é
possível
ver as
despesas
mensais de
cada depu·
tado e ain·
da conferir
as notas
fiscais.
Pel o site:
www25. sena·
do. leg. br/
web/trans-
parencia/
sen/. Só não
dá parater
acesso
às notas
fiscais,
apenas um
dete lhamente
com preen-
chimento
opcional.
AGOSTO 2016 SUPER 49
P E C A
com Lego.
- MÃ E, PAl, POSSO TER UM
CACHORRO?
- NÃO. vocJi É NOVO DEMAI S.
A resposta doeu como pisar des-
calço num bloquinho de montar.
O menino magricela de 5 anos
ficou tão frustrado que pôs sua
cidade abaixo. Ninguém registrou
o ataque de fúria, mas não sobrou
edifício em pé. Nem o pavimen-
to de paralelepípedos restou pa-
ra contar história. Não ficou peça
sobre peça. Todos os tijolinhos de
plástico do brinquedo favorito fo-
ram rearranjados para dar forma
ao cãozinho que ele não podiater
em carne e osso. O bicho ficou
meio estranho, reto demais e com
um formato de caixa - por isso, era
chamado de Boxer. Foi assim que,
partindo de um sonho destruído
no Natal de 1978, o pequeno ame-
ricano Nathan Sawaya começou a
construir sua carreira como escul-
tor de Lego.
Ninguém imaginava que Bo-
xer seria a primeira de milhares
de esculturas e muito menos que
elas viajariam o mundo chegando
a valer mais que US$ 20 mil. "É
confuso. Quando as pessoas me
perguntam o que faço da vida, digo
52 SUPER AGOSTO 2016
que sou artista. Se perguntam com
o que trabalho, digo q ue é com
plástico. Só se insistirem muito,
d igo que é com Lego. É uma mí-
dia que sofre muito preconceito",
expli ca o autor da exposição The
Art of the Brick, que desembarca
no Brasil este mês.
Nascido em 1973, Nathan cres-
ceu em Veneta, O regon, 2 .500
habitantes. Os Sawaya moravam
tão afastados que o vizinho mais
próximo estava a mais de 1 km. No
meio do nada, ele só podia contar
com a irmã mais nova, Stephanie,
para brincar. Os dois passavam os
longos dias de verão promovendo
uma guerra sangrenta entTe Barbies
e bonequinhos de - adivinhe - Le-
go. "M inha cidade era um complexo
militar altamente organizado. Mas
as Barbies eram muito maiores e
sempre venciam", lamenta. Em
tempos de trégua, criatividade.era
lei no lar dos Sawaya: "Em toda a
parte, havia coisas para desenhar,
pintar e esculpir. Eu fazia quadri-
nhos, truques de mágica e montava
blocos o tempo todo."
Não surpreende que, aos 10
anos, quisesse ser um cara criativo
quando crescesse: "Claro que não
queria passar fome, então pensei
em ser arquiteto. Fazia sentido,
eu já tinha construido cidades
inteiras." Animado, foi conversar
com um arquiteto amigo dos pais,
mas teve os sonhos destruídos de
novo. "Ele ficava me perguntando
por que diabos eu queria ser ar-
quiteto. Desanimei e desisti." Daí,
pulou para o jornalis-
mo, profissão do avô e
da mãe. Para entender
Vida dupla
Ele formou-se em 1998 e adotou
terno e gravata como uniforme para
trabalhar na Winstown & Straw, em
Nova York. "O prédio é um bloco
cinza de cimento. O tipo de constru-
ção que acaba com o día de qualquer
um", lembra. Tinha emprego está-
vel, salário bom, mas uma angústia
enterrada no peito. "Chegando em
casa depois de um dia estressante,
em vez de ir ao bar ou à academia,
sentia a necessidade de criar." En-
tão, desenhava, pintava e esculpia.
No inicio, com massinha e argil a.
Depois, explorando materiais como
tampas de garrafa, botões e balas de
goma - chegou a fazer um coração
humano com as balinhas. Até que
se lembrou de uns bloquinhos lar-
gados no armário ...
A primeira escultura da fase
madura de Nathan foi uma maçã.
Depois, vieram um telefone, um
criado-mudo, um lápis, um caderno
e, enfim, quase todos os objetos da
casa. "No começo, era só para mím,
mas amigos me incentivaram a abrir
um site", conta. Ao expor sua cole-
ção online, a caixa de email lotou de
elogios - e de pedidos." As pessoas
queriam reproduzir seus objetos
favoritos com blocos coloridos: a
ponte do Brooklyn, um barco, um
coração, e coisas bizarras, como
uma ambulância com orelhas de
coelho. Eu nem perguntava, mon-
tava de tudo."
Como um super-herói, Nathan
mantinha uma vida dupla: de dia,
era um advogado engravatado e _.
HAIMllTOI
HUM
AITllTA (DO)
PÚITICO
D
MATHANMIXA
umhugman
(hamem-abra-
çol duocm
nas ruas das
ddadesem
q,.expõe.A
lcloia6quaas
peças fiquem
para sempre
na cidade.
e -Nathan ..........
um'-'em
raspndo
opoltoem
memorandos,
guanlanapos
e notas fiscais.
Os esboças
viraram sua
oblamalsfa-
mosa· Yellow.
e
AÜ AMADA •
MAA de10
mil peças, o
artista evi-
tava esculpir
mulheres,
commedode
panicerwlgar
ou ofender
alguolm.
a função, fo i trabalhar
no jornal da escola e
iniciou a graduação na
Universidade de Nova
York (NYU) . Mas, ao
longo do curso, tro-
cou o jornalismo pelo
Direito - opção nada
criativa, mas que lhe
garantiria o sustento.
"Levou muito tempo e con-
versa para a Lego entender
que o que faço é bom para
eles, é propaganda."
Foto1 Dlv ulgaçlo
a
80MIL
HÇAS
formam um
esqueleto da
T-Rexernu-
manhorul.
Omomonto
favorito de
Nathannas
expo5lç6es
'-ª surpresa das
atançasao
encarar o
dlno.
54 SUPEll AGOSTO 2016 Foto • 4. Dlttulg1ç:io 5. Jim B1nn1tt
entediado; mas à noite, em casa,
era o artista que transformava um
brinquedo de criança no que as
pessoas quisessem. Quando o site
saiu do ar de tão acessado, teve que
decidir entre a carreira nas leis e a
arte. Foram semanas angustiantes
e depressivas até pedir demissão.
Vivendo de Lego
Relembrando as origens do seu
trabalho artístico, Nathan aceitava
qualquer pedido, recusando só os
mais excêntricos, como uma urna
para as cinzas de um chihuahua, um
ar-condicionado que funcionasse
e uma mulher em tamanho real,
pelada e com uma cabeça de gato.
'Também já me pediram um caixão
para uma criança, mas eu disse não."
Aos poucos, foi se estabelecendo.
Até a Lego dificultar a brincadeira,
impedindo-o de usar a marca. "Le-
vou muito tempo e conversa para
eles entenderem que o que faço é
bom para eles, é propaganda. Sorte
que eu sou advogado", lembra. Hoje,
as partes mantêm boas relações (até
porque Nathan paga pelas peças),
e a companhia compreendeu que
proibir as esculturas não fazia sen-
tido. Seria como se um fabricante
de tintas proibisse pinturas, uma
vez que, para Nathan, os bloqui-
nhos são tinta, argila, grafite ...
matéria-prima, enfim.
Aos poucos, começou a tentar
expor em galerias de Nova York.
Só que ninguém entendia quando
ele explicava o que era arte com
Lego. "Perguntavam 'tipo o quê?
Carrinhos e naves?"' Se no mundo
da arte Nathan era incompreendido,
suas peças vendiam como água. A
fama crescia junto com a magni-
tude das encomendas: em 2007, a
Coca-Cola pediu um trem de 10 m
de comprimento para uma campa-
nha de doação de brinquedos no
Natal. "Eu precisava do dinheiro,
então aceitei antes de explicarem
que iria trabalhar com tampinhas de
garrafa." Foi o caos: como ainda não
tinha estúdio, precisou trabalhar no
celeiro de um tio, no interior do país,
por dois meses congelantes.
A grana de roubadas como essa
serviu para montar o primeiro estú-
dio, em Nova York, que abriga mais
de 1,5 milhão de peças separadas por
cor - no segundo estúdio, aberto
anos depois em Hollywood, há 4
milhões de peças. Com 。エ・ャゥ セ@ ins-
talado, Nathan começou a atender
celebridades, como os apresentado-
res de TV Conan O'Brien e David
Letterman, e até órgãos governa-
mentais. Para o Museu Nacional
da Marinha, fez uma réplica da fa-
mosa foto de soldados levantando
a bandeira dos EUA em lwo Jima,
na Segunda Guerra Mundial.
Quando Nathan virou pop, as
galerias mais sofisticadas pararam
de tirar sarro e passaram a expor seu
trabalho. No começo, expunha junto
com outros artistas. Mas a reação do
público era espetacular. As pessoas
ficavam vários minutos em frente
a cada escultura, boquiabertas. A
maioria nem era frequentadora de
museus e galerias. "Minha arte é
acessível, porque usa uma mídia
familiar. Ninguém tem tinta óleo,
cerâmica ou mármore em casa, mas
muita gente tem Lego. E todo mun-
do pode criar com ele." Essa ligação
entre os visitantes e a simplicidade
da obra passou a mover o artista,
que só usa peças comuns, iguais
às que se compra em lojas: uma
maneira de estimular as pessoas a
criar como ele.
Carreira solo
A estreia só com obras próprias ro-
lou em abril de 2007, com o vento
soprando forte e frio em Lancaster,
Pensilvânia. "Achei que seria minha
única exposição. Chamei amigos e
familia como se fosse meu casamen-
to." Mas, horas antes da abertura,
o diretor do museu ligou e, meio
acanhado, disse que adiantaria a
abertura, porque a fila dobrava a es-
quina e sumia de vista - e estava frio
demais. Não era exagero: em seis
semanas, a mostra recebeu 35 mil
milhões de
peças são
a matéria-
prima de
Nathan,
estocadasnos estúdios
deNYeLA.
pessoas, o equivalente ao número
de visitantes do museu em um ano.
Suas exibições começaram a
ser produzidas em série, e não de-
morou para pintar um convite em
Hollywood. Dessa vez, a galeria
queria esculturas inéditas e Nathan
começou a lidar com a expectativa
dos outros sobre o seu trabalho,
algo que nunca havia sentido. "No
meu estúdio, sozinho, cercado por
milhões de pecinhas, senti muito
medo. Achava que tinha chegado ao
ápice aos 30, e que minha arte seria
só uma moda passageira."
Aos 43 anos e após 74 exposições
solo em 13 países, ele está com tudo
encaixado na vida - os conhecimen-
tos de advogado ajudam muito para
negociar e não ser passado para trás
no mundo da arte. Doze anos após
deixar o Direito, Nathan já ganha
mais por mês com suas esculturas.
"Ser artista é bem melhor do que ser
advogado. Desculpa, mas é. Posso
usar jeans o dia todo, sair com mi-
nha cachorrinha e ser meu próprio
chefe. Se quero folga ou férias, meu
chefe sempre diz sim", brinca. O
AGOSTO 2016 SU PER 55
L I
sociais,?
pessoas se -::
organizam ?
e distri-
"" buem re- . __.
médios de--
alto custo
pelo Brasil
todo. E
espalham a_
esperança
de vencer
o câncer
(e outras
doenças--
raras) com
tratamen-
tos pro-
missores --
ainda não
ofertados
ou autori-
zados pelo
governo .
Reportagem Gabriela Garcia
...............
Foto Studio Oz
Ilustração Pedro Hamdon
OesigJL!!s!.yra Fernandes'-
Edição Carol Castro セ@
AGOSTO 2016 SUPER 57
ALEX 111 , 57, APOSENTADO
DO EXÉRCITO, esconde
seis cartelas do medica-
mento Nexavar na caixa
de correspondência. Ca-
da pacote do remédio,
ainda não distribuído
pelo SUS, custa mais de
R$ 7 mil e serve para
tratar tumores no fíga-
do. Como a doença se
estabilizou, o ex-militar
procura, na surdina, com
a orientação da médica
que o tratou, novos pa-
cientes para repassar as
sobras dos remédios.
E logo alerta: "quando
precisar conversar, é
melhor não falar disso
58 SUPER AGOST O 2016
ao telefone. Tenho me-
do que esteja grampeado."
Ivan Veloso esteve do
outro lado. Precisava de
remédios para tratar um
câncer de próstata. Só
que cada frasco custa-
va R$ 4 mil. A cada mês,
ele teria de desembolsar
R$ 20 mil - quatro vezes
mais do que a renda do
empresário. "Soube [das
doações de remédios] pe-
lo chefe da minha irmã,
que trabalha em Belo Ho-
rizonte, mas tive receio. É
uma zona perigosa", con-
ta. A ajuda apareceu mais
cedo do que imaginava:
uma senhora que acabara
de perder o marido para
o mesmo câncer de Ivan
enviou a ele, pelo correio,
duas caixas do remédio.
Parece um mercado
obscuro, ilícito, mas não
é. Até porque nem é mer-
cado. O ex-militar e a se-
nhora viúva fazem parte
de uma espécie de clube
virtual de doação de re-
médios. Não pagaram ou
cobraram nenhum cen-
tavo pelos medicamen-
tos. Venceram batalhas
de meses na Justiça para
receber os remédios gra-
tuitamente. E, quando o
tratamento acabou, com
finais felizes ou não, colo-
caram as sobras à dispo-
sição de outros pacientes.
Encurtaram o caminho
dessas pessoas: em vez
de esperar por meses no
Tribunal para começar
o tratamento, tiveram a
sorte de encontrar doa-
dores. "Solicitei o medi-
camento ao grupo e, por
coincidência divina, ha-
via essa senhora doando
o que restou do marido
falecido", se emociona
Ivan.
O tal grupo é uma
das páginas de doações
de medicamentos do Fa-
cebook. Vera Buonomo
criou a comunidade "É
dando que se recebe" em
2011, quando uma amiga
próxima descobriu que o
único tratamento possí-
vel para um câncer de rim
recém-descoberto seria
o Sutent (da substância
sunitib). Só tinha um
problema: a caixa com
28 comprimidos custava
R$ 24 mil. Vera não tinha
dinheiro para custear o
tratamento e a amiga não
tinha tempo para esperar
uma decisão judicial para
ganhar os remédios. Ve-
ra apelou para as redes
sociais: criou a página
e pediu ajuda de outros
usuários.
A amiga faleceu me-
nos de um ano depois.
Mas o burburinho e a
popularidade da página
fizeram Vera continuar.
"Eu sou apenas uma in-
terface para esses encon-
tros. Em alguns casos me
pedem sigilo e eu, então,
coloco as pessoas em
contato sem publicar na
página". Só exige deles
duas regras: é proibida a
venda (ainda que alguns
tentem cobrar) e os pa-
cientes devem apresentar
receita médica. Quem
recebeu remédios volta
lá para retribuir a ajuda
- qualquer ajuda, seja com
novos remédios ou com a
divulgação da página. Ou
com auxílio jurídico gra-
tuito para quem também
precisa recorrer à Justiça
para conseguir remédios
caros. Assim, a rede fun- セNイNZ Z ZZNᄋセセZZZZZZ@
ciona bem, numa イ・エイッ。M ZGセBG ᄋ@ · •.·.::
limentação sem fim. p セ@
No caminho da lei
Adalberto Enedino, o
Dadá, recebeu apoio de
um desses advogados.
Diagnosticado com cân-
cer nos rins e no pulmão,
em fevereiro, precisava do
mesmo remédio que Alex,
o ex-militar, esconde hoje
na caixa de correio. Não
encontrou doadores, só
uma família disposta a
dar um bom desconto no
medicamento - em vez de
R$ 7 mil, a caixa custaria
de R$ 1 mil a R$ 2,5 mil .
Fez uma vaquinha com 24
amigos para começar logo
ºNome fict íci o
o tratamento. Ainda as- documentação até uma uma ação contra o Esta- últimos anos. No primei-
sim ficaria pesado contar unidade de remédios do e torcer pelo ganho de ro semestre de 2012, 426
sempre com ajuda para de alto custo. Como era causa. pessoas conseguiram ob-
bancar toda a despesa. A esperado, não conseguiu Dadá percorreu todos ter os medicamentos via
saída, então, foi recorrer remédio nenhum. Pediu a esses processos. Ele e ou- ação judicial. Já na segun-
à Justiça. cópia do protocolo dope- tros milhares de pessoas. da metade de 2014, esse
Com a ajuda da so- dido e encaminhou tudo Entre janeiro de 2012 e número aumentou em
brinha e o auxílio do ad- ーセ@ o advogado. dezembro de 2014, 2.862 mais de 60%, atingindo
vogado, Dadá descobriu E a partir daí que co- pacientes de câncer no 705 casos.
como percorrer esse ca- meça todo o processo Brasil (3,5% do total des- Mas até o medica-
minha. A jornada come- jurídico. A primeira ten- ses enfermos) recorreram menta chegar às mãos
çou com uma visita a um tativa pode ser por meio à Justiça. A chance de te- do paciente demora um
posto de saúde. Antes de do envio de uma carta e rem seus pedidos atendi- tempo - em média, quatro
qualquer coisa, é preciso um requerimento para a dos é grande. "Há um en- meses. Dadá só conseguiu
ter o Cartão Nacional de Secretaria de Saúde. Até tend.imento consolidado a primeira audiência em
Saúde. Carregou junto então dá para fazer tudo de que o paciente ganha junho, três meses após
seus documentos, um sem a ajuda de um ad- sempre que tiver a receita entrar com a ação. Foi
laudo que justificava a vogado. Só tem um pro- médica. A maior parte das tarde demais. Uma se-
necessidade do uso da blema: geralmente esse vezes que o Estado perde mana antes da audiência,
medicação e uma receita pedido não funciona. O em primeira instãncia, ele Dadá faleceu. Deixou co-
médica. E levou toda a jeito, então, é entrar com não recorre porque há um mo herança duas caixas
entendimento consolida- fechadas do remédio, que
do da jurisprudência (do foram doadas para outros
direito de acesso à vida r. dois pacientes - um mi-
explica Daniel Wang, pro- neiro e um gaúcho.
fessor de saúde e direitos
humanos da Universidade Rombo da esperança
de Londres. Não à toa, os A brecha na lei cai bem
casos de vitória dos pa- para os pacientes. Mas
cientes só cresceram nos não para o governo. A -+
AGOSTO 2016 SUPER 59
ÓO SUPER AGOSTO 2016
bomba acaba estouran-
do mais à frente: no pla-
nejamento das ações de
saúde. De acordo com
dados do Ministério da
Saúde, o impacto dos
gastos com a judiciali-
zação cresce em escala
geométrica. Em 2015, a
pasta desembolsou sete
vezes mais grana para pa-
gar esses tratamentos do
que em 2010. Foram R$
990 milhões, em quase 4
mil ações (em alguns ca-
sos, os remédios já sãodistribuídos pelo SUS,
mas, por falta de estoque,
os pacientes acionam a
Justiça). Ou seja, cada um
desses pacientes custou
R$ 250 mil ao Estado.
É que comprar esses
remédios toda vez que
um novo paciente pede
sai muito caro. Segun-
do um levantamento
feito em 2013, os pre-
ços podem ser até três
vezes mais caros quando
comprados em pequena
escala. E é assim que os
grandes laboratórios lu-
cram. A Roche, fabricante
do Trastuzumabe, medi-
camento para câncer de
mama, fo i acusada pelo
Ministério Público Fe-
deral de cobrar valores
abusivos das secretarias
estaduais de saúde quan-
do o pedido era feito via
Justiça. Uma caixa do re-
médio custava até 300%
a mais nesses casos.
E nem é só isso: labo-
ratórios se aproveitam
para vender todo o seu
repertório de produtos,
mesmo se ele não fun-
cionar tão bem assim.
"O médico receita o que
está convencido de ser o
melhor. E, lamentavel-
mente, muitas vezes o
que ele acha é o que as
empresas farmacêuticas
acham, e o que o marke-
ting delas acha", diz Rei-
naldo Guimarães, médi-
co e vice-presidente da
Associação Brasileira de
Química Fina e Biotec-
nologia. Ainda que a lei
exija que os casos de judi-
ciali zação valham apenas
para drogas com custo-
-eficiência comprovada,
ela é sistematicamente
ignorada - e, segundo
Guimarães, não apenas
os quimioterápicos en-
tram na roda: pacientes
vencem ações até para re-
ceber fraldas geriátricas.
A confusão toda é
originada no próprio
governo. Quem cuida da
aprovação de novos me-
dicamentos é a Comissão
Nacional de Incorporação
de Tecnologias no SUS
(Conitec). Inspirada no
sistema britânico, a co-
missão precisa definir
uma lista de remédios
oferecidos gratuitamente
pelo governo. Só que no
exterior as coisas funcio-
nam melhor. O órgão de lá
avalia a relação custo-be-
nefício dos medicamentos
pela demanda do sistema
público e pela indústria
farmacêutica. E não per-
mite que remédios muito
caros e pouco eficientes
sejam distribuídos a tor-
to e a direito. O cenário
aqui é bem diferente: o
Ministério da Saúde mal
sabe quais quimioterápi-
cos são mais pedídos em
vias judiciais. E esses
dados deveriam ajudar a
pautar as avaliações sobre
incorporação de novos re-
médios - assim, o governo
poderia comprá-los em
larga escala, com preços
bem menores.
Isso sem contar a len-
tidão e falta de critérios
da Conitec. Um estudo
da Interfarma mostra
que, recentemente, cin-
co solicitações de novas
drogas foram negadas
pela comissão - e quatro
delas já foram aprovadas
nos Estados Unidos e em
vários países da Europa,
Ásia e América Latina
para tratamento de cân-
cer de cólon, pulmão e
rim. Para se ter ideia, o
Trastuzumabe, aprova-
do em 1998 nos Estados
Unidos, chegou ao SUS
apenas em 2012. "E ain-
da com indicação restri-
ta, aprovado apenas para
tratamento coadjuvante,
depois da cirurgia. Não
está disponível nem para
as pacientes com a do-
ença metástica", explica
Contraindicação: pressa
Desde 2012, a Conitec recebeu 295 pedidos para incorporação de
novos remédios ao SUS - e negou a maior ia deles.
Feli pe Ades, oncologista
do Hospital Albert Eins-
tein. O Nexavar, de Da-
dá e Alex, não foi sequer
analisado pela Conitec - o
mais surpreendente é que
oncologistas do mun-
do todo o veem como o
futuro do tratamento do
câncer, por atacar apenas
as células cancerígenas e
preservar as saudáveis.
Jogo da vida
É da falta de esperança
com o SUS e do deses-
pero dos pacientes que
nascem os clubes de tro-
cas de medicamentos. E,
graças a eles, Ivan Veloso
colheu boas notícias nos
exames: 60% de redução
dos lifonodos metásti-
cos e do PSA, substância
que indica a presença do
FORAM IN CORPO-
RADO S. METADll
DELES SÃO VELHOS:
Tanto "não" estimula
as ações na Justiça
RS 1 BI
foi o valor gasto pelo
Ministério da Saúde
em 2015. com os pro-
cessos. E sete vezes
mais do que a quan-
tia gasta em 2010.
câncer de próstata. Mas,
até nas derrotas, o gru-
po ganha força. Parentes
enlutados encontram nas
doações um pouco de
consolo. Ester delVec-
chio, por exemplo, doou
caixas de Temodal, um
remédio para câncer no
cérebro, após a morte do
sogro. Nunca maís deixou
de colaborar: agora orga-
niza as trocas. "Às vezes
recebo quatro caixas em
um dia só e preciso decidir
para quem doar. É como
decidir quem vai viver.
Faço um papel de Estado
que não é meu", conta.
Eles não são de fato o Es-
tado - e até caminham um
pouco pela ilegalidade, já
que as sobras dos remé-
dios pagos pelo governo
deveriam ser devolvidas.
Mas esses doadores
clandestinos não estão
sozinhos. Profissionais
de saúde também ten-
tam compensar as faltas
do governo. A médica de
Alex o orientou a guardar
as caixas que sobraram .
É ela quem indica a ele
pacientes para receber
as doações. O Banco de
Remédios, um site on-
line, presta um serviço
parecido: organiza e dis-
tribui as doações entre
os pacientes. Nesse caso,
há um preço: R$ 20 por
mês para ter o cadastro.
Quase nada perto dos re-
médios de R$ 10 mil ou
R$ 20 mil. Ou do deses-
pero à espera da Justiça e
dos medicamentos, que
pelo SUS dificilmente
chegarão. 0
AGOSTO 2016 SUPER 6.t
NANTES,
FRANCA
Manifestante rebate
bomba de gás lacrimo-
gênlo nos protestos
PEOUIM,
CHINA
Na imagem-sím-
bolo do Massacre
da Paz Celestial,
homem para uma
fila de tanques.
Não se sabe se ele
foi executado.
ISTAMBUL,
TUROUIA
Imagens dos
protestos contra
o golpe mi li tar
na Turquia fazem
lembrar os chi-
neses de 27 anos
atrás.
17/1/2012
PINHEIRINHO,
BRASIL
A foto mostra a
precariedade da
resistência dos
ocupantes de um
terreno desapro-
priado no interior
de São Paulo.
Armados com o
que tinham, eles
esperaram a PM.
6/5/1968
PARIS,
FRANCA
Com uma tampa
de Li xeira no Lugar
de escudo, estu-
dante francês faz
lembrar um guer-
reiro olímpico ou
um super-herói
deHQ.
o
SAIGON,
VIETNÃ
A resistência às vezes
é simbólica. Como
aconteceu no caso
do monge Thich Duc,
que ateou fogo ao
próprio corpo para
não se submeter
BATON
ROUGE. EUA
Desarmada, mulher
protesta contra a
desproporção da
força empregada
contra negros nos
EUA. A imagem,
simbólica, sublinhou
o absurdo.
AGOSTO 2016 SUPER 65
66 IUPIA AGOSTO 2016
lDIUI TIA GO JD KU RA
Na Antiguidade os homens competiam
nus. E se rolasse uma ereção? Era
vergonhoso? Dava desclassificação?
Luis Felipe Rio de Janeiro RJ
VERCONHA NENHUMA. Os atletas gregos não fi cavam exatamente li -
vres, leves e soltos. Usavam uma corda amarrada no pênis para evitar
uma eventual empolgação. De qualquer maneira, a ereção não seria
alarmante. Demonstrar tamanha disposição só reforçaria o ideal de
beleza de um corpo jovem, forte e viril. Numa época em que as mulhe-
res sequer podiam assistir às competições, inclusive, era comum que
homens demonst rassem atração física entre si na sociedade gregae .
• Oráculo dos sete mares: cidades que
não têm costa marí-
tima podem sediar
Olimpíadas?
Nat6lia Negretti,
l'foqi Mirim . SP
Sim, até MogiO.
Por que as Olimpíadas
acontecem com
intervalo de quatro anos?
Diana Soares Magalhães .
J anuário MG
PARA RESPEITAR as origens dos
Jogos da Grécia Ant iga, que
ocorriam a cada quatro anos em
OLímpiaO. Não à toa, o periodo
de quatro anos entre as compe-
tições foi bat izado de Olimpíada .
Desde i896, na prim eira edição
da Era Moderna, em Atenas, o
NÚMERO INCRÍVEL intervalo de t empo é mantido
]]]]]] セMM NNL⦅ ⦅ ᄋM。ウ@ únicas interrupções ocorre-
327
CIDADES BRASILEIRA S
fi zeram parte do
revezamento da tocha
olímpica, conduzida
por 12 mil pessoas.
OUTRO DADO
RELEVANTE SEM
NENHUMA LIGA ÃO
327
l O NÚMERO da
plataforma em que
a nave Millen nium
Fatcon pousa ao ser
capturada pela Estrela
da Morte em Star
Wars: Episódio IVO .
fo o o ím i co que no Brasil
foi portado por um conterrâneo
seu, o januare nse Chico da Onça.
Aliás, pobres onças.
Qual o recorde olímpico mais
duradouro atualmente?
Alexander Spisseaux. São Paulo . SP
NOS ÚLTIMOS 41 ANOS, nenhum atleta
oli mpico superou os 8,90 m de distância
que Bob Beamon, dos EUA, saltou na
Cidade do México (1968)0 . O voo foi tão
longo que foi apurado com fita métrica -
o aparelho de medição ótica não deu con-
ta. Fora dos Jogos, a marca foi quebrada
em 1991: Mike Powell saltou s cm a mais.
A@flartag@fl" Agfnci;'I Frontera. ャャオA エ イセゥッ ェッャッ@ mッョセゥャャG。 N@ Fontu© sporU·reh!rence.com.@ laf4.org.
Quais foram as maiores gafes olímpicas?
Gabriela Cristina Viana Belo Horizonte MG
ouRo E PRATA para as Coreias. Na abertura de Seul 1988, Coreia
do Sul, os organizadores soltaram pombas brancas, que simbo-
li zam a paz. Os pássaros pousaram na base da pira olímpica e
foram queimadaso . Em Londres 2012, o telão do estádio exibiu a
seleção feminina de futebol da Coreia do Norte cantando o hino
ao Lado da bandeira dos vizinhos do Sul, inimigos históri cos.
Outras marcas ol ímpicas imbatíveis
eeeM ARREMESSO 188ME290M
A SOVlhlCA N. DE PESO FLORENCE Griffit h
Olizarenko cor- HÁ )6 ANOS ninguém Joyner é a atleta
reu em 1:53.43 joga a bola de 4 kg olímpica mais Ligeira
(1980) - façanha alémdos22,41mde há 28 anos. Correu
inigualável em Hona Slupianek, da 100 m em 10,62s e
Olimpíadas. Alemanha Oriental. 200 m em 21,345.
<1J Ni,gel Spivey, セ エ ッイ@ de The AllC'.jtnt Otympks. © Camitt Olimpk:o bイ N[ゥ sゥセイッ@ (COB) e (omiti-Olímpico lntem<idon,;il (COI).
AGOSTO 2016 SUPER 67 @ oll'fll?lc.orge Dldondr{o Houo/s5. ® !Noo4cJttpeda. (i) COI. © Assod;IÇJ<> ャ ョエ・イセ、ッッNゥN@ d;is f ・、・イセ@ d1 Atletlsmo (IAAF).
ORÁCULO
OUE ATLETAS PARTICIPARAM
DE MAIS JOGOS OLÍMPICOS?
Marcelo Trivelato. São Paulo. SP
BOA, TRIVELA. Ninguém levou mais a sério que "o
importante é competir" do que o canadense lan Miltar,
69 anoso . Desde sua primeira aparição no hipismo, em
1972, o "Capitão Canadá" já esteve em dez edições. Em
40 anos de Olimpíadas, só não esteve em Moscou (1980)
por causa de um boicote liderado pelos EUA, que protes-
tavam contra a invasão soviética no Afeganistão. Apesar
do extenso curr ículo, Milla r levou só uma medalha de
prata, em Pequim (2008). Para o Rio 2016, infelizmente,
o vovô caiu do cavalo: Dixson, seu animal, passará por
ci rurgias nos sinos faciais e está fora de combate. Em
segundo lugar, com nove presenças, estão Hubert Rau-
daschl (iatista da Áustria) e Afanasijs Kuzmins {atirador
da Letônia), ambos com duas medalhas. O austríaco já
baixou as velas, mas o letão pode empatar o recorde se
for convidado para dar seus disparos pela décima vez.
Por que existem modalidades olímpicas pratica-
das apenas por mulheres?
Mareio Dias. Ava ré. SP
ICUALDADE DE CÊ NERO não é prioridade olímpica. Na
ginástica rítmica e no nado sincronizado, apenas as
competições femininas atingiram os pré-requisitos do
COI para figurar no calendárioO. Para que um esporte
se torne olímpico deve, antes de tudo, ser praticado em
escala global - no mínimo 70 países (ou 50 para catego-
rias femininas) e quatro continentes - e pertencer a um
órgão esportivo que regulamente a modalidade. Esses
são os obstáculos da ginást ica rítmica masculina, que
está fo ra da Federação Internacional de Ginástica - o Ja-
pão é um dos raros países com expressividade de atletas
homens. Já o nado sincronizado só foi ter sua primeira
versão mista no Campeonato Mundial de Natação de
2015. Por ser coisa recente, moderninha, a prova fi cará
fora dos Jogos do Rio.
PERGUNTE AO ORÁCULO
Escreva para
oroculof}(] bril .com.br
mencionando sua cidade e Estado.
O salto com vara surgiu
porque usavam bastões para
pular fossos e muros?
Nassim Nacif Filho La es SC
VIAJOU, VARÃO - embora varas fos-
sem usadas na Europa medieval para
cruzar cana is. A origem do esporte
é discutivel: os celtas usavam varas
para salto em distância e os gregos,
para montar animais. O registro mais
antigo de salto com vara é de 829
a.e. nos Jogos Tailteann, na Irlanda,
anterior às Oli mpíadas antigas•. Me
despeço com um salve para a varoa
Fabiana Murer, candidata ao ouro
no Rio e fã da SUPER.
Já aconteceu de
um atleta com-
petir em moda-
lidades muito
diferentes?
Guilherme Vieira
Soracaba, SP
OPA, CAMPEÃO .
Inclusive alguns
deles já foram
medalhistas tanto
em Olimpíadas de
Verão quanto nas
de lnvernoO. Foi o
caso do americano
Edward Eagan, ouro
no boxe em 1920
e no bobsleigh em
i 932. Em 1996, a
canadense Clara
Hughes levou dois
bronzes no ciclismo.
Não contente, partiu
para a patinação de
velocidade em 2002.
Na nova modalida-
de, conquistou um
ouro, uma prata e
mais dois bronzes.
llurtrxio , Calo Comei. FnntH (i) COI.@ fセ・イ。 ̄ッ@ ャョエ・イセゥッョNwN@ de Nat.ição (FINA)' Fl!dl!raçjo lntl!fnadon;tl. OI! GinMtka (FIG).
@ Fedl!façlo h ulln411 d!! At ll!l !smo (FPA) 1 artigo Ttdtoologkol Progtt.u and tht Olymptc Gamu, M Sfamus wセイQN`@ Pfrxar, A ll tgra ' Oaro , dl aセ、ッ@
セ コ セQセZセ[ZウセセゥAイセセ`オセセセセ ZョZZ Z セ セセ`ォセZセイセセA エ セセJセセZヲLセセP セ ZZAAQZセZLセセセZ エセ Z@68 SUPER AGOSTO 2016
ô
Atletas
pensam . mais
rápido
308 ESPORTISTAS tive-
ramo cérebro monitorado
diante de imagens em
movimento• . Os pro-
fissionais reagem mais
rápido a situações com
muito estímulo visual, co-
mo estar no meio de uma
multidão. Nessas horas,
são mais ágeis para avaliar
riscos e evitar colisões.
De onde vem o termo "gol
olímpico" para tentos mar-
cados direto do escanteio?
Henrique Cleves
Fsira ds Santana. BA
P O R SER TÃO RAR O que só de
quat ro em quatro anos? Nada
disso. A origem é um Argentina
X Uruguai, em Buenos Aires,
no dia 2 de outubro de 1924.
O a rgentino Cesárco Onzari
acertou o gol em um chute de
escanteio. A seleção uruguaia
venceu os Jogos em Paris naquele
mesmo ano e é apelidada até hoje
de "celeste olímpica". Pela vitória
de 2 x 1, os argentinos batizaram
o gol de Onzari de "olímpico"O.
Cientistas Exame identifi-
preveem quantas ca seu potencial
medalhas o Bra- como atleta
sil vai ganhar UM TESTE DE SALI VA
PESQUISA DORES pode detectar t rês
descobriram que possíveis combi-
o PIB e o poder de nações do gene
compra dos países ACTN3&. Aí, você
que disputam as consegue prever se
Olimpíadas e o vai se dar bem em
desempenho histórico três atributos impor-
ajudam a prever o tantes para se dar
próximo resultado do bem em esportes es-
quadro de medalhas'". pecfficos: resistência
Ser o anfit rião (corrida e natação),
também faz bem. força (levantamento
Pela estimativa, o Bra- de peso) ou m ix de
sil deve subir 25 vezes resistência e fo rça
ao pódio no Rio. (futebol e ciclismo).
Patrocínio:
Algum atleta já foi direto
das Olimpíadas para o
Olimpo - morreu
competindo?
Verônica Tavares
Colombo PR
SIM. o PORTUCUÊS Francisco Láza-
ro foi o primeiro a entrar na lista
em Estocolmo (1912). Ele sofreu
uma insolação tão forte na ma-
ratona que não resistiu. Um caso
mais recente foi o do georgiano
Nadar Kumaritashvili nos Jogos de
Inverno de Vancouver (2010). Ele
escorregou da pista a 143 km/h
durante um treino de luge (t ípo de
trenó veloz) e colidiu fatalmente
com um posteO.
NISSAN
S;iwao K;ito
GIN ÁSTICA A ll T ÍSTICA
12 medalhas 8 • 3 • ,
Fonte COI (Comitf, Olimpico ャョ エ セゥッョセ ャ I N@
li Bradesco • VIVO
Por que os atletas mordem suas
MEDALHAS
NO PÓDIO?
Nicole Duarte Belford Roxo RJ
É COI SA RECENTE. Os competidores na Grécia An-
tiga eram premiados com uma coroa de folhas de
oliveira e outros prêmios, como vasos ornamentais
com azeite de oliva - artigo de luxo à época. O gesto
de morder começou fora das competições. Era usado
em moedas na Idade Média e servia para verificar se
elas eram mesmo de ouro maciço - como ele é mais
maleável do que outros metais usados para cunhar,
ficava com a marca dos dentes. Inspirado nisso, um
engraçadinho trouxe o costume aos Jogos Olímpi-
cos modernos, como se verificasse se a medalha era
genuínaO. Com o tempo, o gesto virou sinônimo de
vitória, semelhante a erguer uma taça.
Por que o futsal ainda não
é um esporte olímpico?
Artur Tintí. Natal. RN
TINHA TUDO PARASER. Cumpre
os requisitos do COI, mas bate
na t rave por questões políticas
e comerciaisO. A teoria conspi-
ratória é de que a modalidade
está no meio de um cabo de
guerra (esse, sim, já esteve em
cinco Olimpíadas) entre COI
e Fifa. O Comitê só aceitaria o
futsal nos Jogos se o futebol de
campo pudesse ter atletas de
todas as idades - atualmente,
só três jogadores de cada time
podem ter acima de 23 anos,
uma maneira de não fazer
sombra à Copa do Mundo. Mas
há uma esperança aos boleiros
de salão: a bola vai rolar nos
Jogos Olímpicos da Juventude
2018, em Buenos Aires.
COMO É
QUE É?
CONEXÕES Logos "Palavra" em grego.
Do Logos
aos Jogos
or Tia o Jokura
A partir do séculos a.e., com
o filósofo Heráclito, passou a
designar também racionalidade.
Vem daí "logia", aplicado a á reas
do conhecimento, como tecnolo-
gia, biologia etc. O Evangelho de
joão, da Bíblia, escrito em grego,
começa assim: " No principio era
o verbo" (logos), referindo-se a ...
Por que as corridas
no atletismo são
sempre em sentido
anti-horário?
Crisóstomo Soares
Rodri ues São Luís MA
TRADIÇÃO DA HORA,
essa. Fazer curvas sempre
à esquerda não é herança
comunista, mas das corri-
das de cavalo dos EUA no
século 20. No atletismo,
é uma exigência da
Associação Internacional
das Federações At léticas
(IAAF na sigla em inglês)&.
Mas não foi sempre
assim: nas primeiras
quatro Olimpíadas da
Era Moderna, de 1896
a 1908, as corridas de
pista seguiam o sentido
dos ponteiros.
1PÉXH xwp[ç va qnáoa
(tréchei chorís na ftásei)
Correndo
sem
chegar
EM GREGO. significa
estar ocupado de ma is.
Expressão adequada para
o país que legou ao mun-
do uma corrida milenar
de 42 km: a maratona.
Jesus Viveu pouco mais de
30 anos num mundo sem
internet e redes sociais. Morreu
faz dois mil anos e até hoje
ninguém tem mais seguidores
que ele. Há quem garanta que
esse fenômeno pop mi lenar te-
ri a sido previsto séculos antes,
na lndia, em textos siilgrados
escritos em ...
70 SUPER AGOSTO 2016
Fontn © Anthony Th. 8ijkerk, wuedno ge-;M セ@ sッ」セ。、エ@ ャョエ・イセャセ、・@ HistOl"ladotH Olímpicos t aョ、イ←cセ イ 。イッ L@ ィセエッイゥNャ、ッイ@ e tducador flsico d;a UFPR.
@ cッョヲエ、・イ。セ@ Br;ulleir;a de Ath!tismo • C8At e R<lflning Through セ@ Agn, dt Edw;1rd S. セ。イセ N `@ The lnttmotiooo/Otympic CommittH and rht Olympk
Snttm, dt )e;1n·Loup c ィ セ ー ー・ャN・エL@ Conftder;içiko Brasileirii dt Futtbol dt S;à.\o, fエA、ゥ_イセセ@ P.iulist<1 de Futsal t Fifa.
MANUAL Como conquistar
セ@
セ@ uma medalha olímpica
ESCOLHA A MODALIDADE
Procure esportes de atletas longe-
vos, com alta performance depois
dos 30 anos. Os medalhistas mais
velhos da história conquistaram
o ouro aos 64 em ti ro esportivo
{Oscar Swahn) e tiro com arco
{Galen Spencer). Hiroshi Hoketsu
competiu no adestramento
{h ipismo), com 71 anos.
TROQUE DE NACIONALIDADE
Então pesquise sobre países
em que seja fácil se naturalizar
e que não tenham muitos com-
petidores em sua modalidade.
Investindo US$ 100 mil, você
compra cidadani;a em Dominica NNN⦅セMᆳ
e pode tentar representar o país
nos Jogos - uma vez no páreo,
tudo pode acontecer.
Sânscrito Idioma oficial do
hinduísmo. O texto sagrado
Bhavishya Purono menciona
um "filho de Deus", "nascido
de uma virgem" - lembrou
alguém? Também do sânscrito
vem o termo dyaus pita (pai
do céu), cuja fonética e etimo-
logia inspiraram o nome de
outra famosa divindade ...
Zeus O todo-poderoso
da mitologia grega, pai
dos deuses e dos homens.
Segundo a tradição, residia
no topo do Monte Olimpo,
junto com os outros
deuses do panteão. Em
sua homenagem e para
seu ent retenimento foram
criados os ...
DE CARONA E NO GRITO
Se você é sedentário convicto,
não muito pesado e gosta de
maAtfar Aes e1:1tres Liderar,
remo é o atalho para a glória. A
categoria "oito com" tem a figura
do t imoneiro, que dita o ritmo de
oito remadores. Nada mais justo
que receber uma medalha junto
com quem cansa o braço.
Há medalhas leiloadas. Iniciando
em RS 100 tem medalhas que os
atletas recebem por participação
e até réplicas das medalhas dos
vencedores. Agora, para pendurar
no pescoço uma legítima de Mu-
nique 1972, só desembolsando, no
mínimo, uns R$ 50 mil no eBay.
Jogos Olímpicos
Inaugurados em 776 a.e.,
em Olímpia, na Grécia - até
hoje é onde se acende o fogo
olím pico, símbolo das Olim-
píadas. Na origem dos Jogos,
além dos duelos esportivos,
havia competições artísti-
cas, incluindo poesia: a arte
de jogar com o logos.
AGOSTO 2016 SUPER 7J..
MUNDO SUPER 1 -+ NOSSA REOE SOC IAL
O REI NA BARRIGA
Flora
em festa.
Com 500 milhões de neurônios, o sistema digestivo controla muito do que
fazemos e pensamos. Depois que a matéria de capa Seu segundo cérebro
Qulj16) foi às bancas, o tema também tomou conta da nossa caixa postal.
o QUE TANTO expli camos no consultó-
rio enfim vem ganhando espaço!
odra atriciasu im a
LEIAM E vocÊs vão entender por que
nós nutricionistas falamos tanto de
probióticos, saladas cruas e alimentos
de verdade! Intestino: seu segundo
cérebro!! !
Gabriela Junqueira
FICO MUITO FELIZ com a divulgação
cada vez maior de informações sobre
este tema. Baixa imunidade, depressão,
ansiedade, fadiga, insônia podem estar
relacionados a um desequilí brio da mi-
crobiota intestinal. A prevenção de do-
enças começa com a sua saúde
intestinal!
odanuzaferreironut
QUEM ESTUDA sobre nootrópicos sabe
dessa informação ... Muito interessante
mesmo.:-}
Saullo Zanello
EU ATÉ FARIA uma correção: intestino
ê o primeiro cérebro! A nossa flo ra in-
testinal modula a absorção de nutrien-
tes, é responsável pela imunidade, hu·
mor, depressão ... Por isso, na nutrição
funcional, é nossa primeira abordagem.
oanorosanutri
MINHA POPULAÇÃO intestinal está em
festa. Sou entusiasta dos "poderes da
microbiota intestinal". Só fiquei tensa
pois, há 6 anos, quando conheci meu
marido, fu i a responsável pelo diagnós-
tico de H. pylori que ele t ratou com an-
tibióticos. Se livrou da dor no estôma-
go, mas ganhou muito peso! E agora?
Conto pra e le ou não que H. pylori aju-
da a controlar a fome?!
Renato Giudice de Oliveira Lewis
EMBATE -+ NOPOST "GOVERNO OECIOE PERMITIR QUE JOGUEM VENENO EM CIMA OE NOSSAS CABECAS' http://abr.ai / veneno
Um a polêmica,
duas opiniões.
72 SUPER AGOSTO 2016
QUANDO ERA CRIANÇA, caminhões jogavam
fumaça de veneno nas ruas toda semana e
nunca aconteceu nada. Não sei por que tanto
alarde. Se fizesse mal, o governo também teria
prejuízo e ninguém quer isso.
Thais Fontes
ASSIM COM A DESCULPA da zika e
dengue vão continuar intoxicando a
população como já fazem com a
enorme quantidade de agrotóxicos da
produção de commodities brasileira.
Mareio Frapiccini Ferreiro
Foto tッュセウ@ Arthuzzi
3
leitores
solidários
Comentári os
sobre Procu -
rando Dory
é um filme so-
bre deficiência
intelectual -
e isso é ótimo
htt p://abr.ai/
!2Q.u.
o
Problema de
memória é
algo sério, mas
tem gente que
trata a pessoa
como imbeci l,
irresponsável.
Hslsna
Morelli.
e
O filme mostra
como a família
pode criar
estratégias para
lidar com pessoas
com deficiência
neurológica, e
como a inclusão
e a compreensão
do paciente sobre
a própria doença
são importantes.
Nathaly
Andrade
e
Aceitação e amor
às pessoas com
dificu ldades!
Amei o filme!
E o curta que
vem antes fala
sobre resili ência.
Programâo! Rita
Barbosa
Domínio do idioma Sabem o que eu achei da matéria dos
emojis' *:-?pensando,*:) feliz, *:D sorrisão, *;) piscando
Vanessa de Andr ade sobre A vida secreta dos emojis (jul/16)
AGROFLORESTA
''História bem
co11tada,
atrac11tc e
com o bô1111s
de falar do
Osvaldinho,
uma das
pessoas mais
」ウセ」ゥ。ゥウ@ 1111c
co11ltcci."
Davana Andrade
da Agenda Gotsch,
sobre A revolução da
floresta(jul/16).
Oplaiza carlis compartilhou em seu
lnstagram uma foto do Livro Cii ncia
Maluca. Ela contou que foi atraída pela
forma leve e divertida que a autora
escreveu sobre as pesquisas.
Desde o dia em quemeu professor levou algumas edições
da SUPER para a escola, a revista me fascina por me divertir
e me ensinar. Em 2014, antes de embarcar para um intercâmbio na
Inglaterra, corri para a banca do aeroporto garantir a últ ima SUPER
que leria no ano. Mesmo Longe da revista, o site continuou sendo
minha página inicial do computador. Quando voltei, retomei logo
a assinatura da versão impressa.
Vi nícius Oalla Corte
FALE COM A GENTE! r・、セゥッ Z@ ウ オセイャ エゥ エッイ ` 。「イゥ ャN」ッ ュ N 「イャ@ ÀY. d;as Nações Unid;as, 7221, 2oa .lndM, セッ@ P.lulo-SP,
CEP 05425-902 . .lbslnaturas: assinl!'abril.com ! o8oo 775 1818 ou 11 3347-2121. Suvlço de Atendimento ao Cliente:
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der como o dinheiro público foi
gasto para as Olim píadas.
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FOI MAL
• Não esquecemos que a
Guiana Francesa faz divisa com
o Brasil e Suriname, apesar de
não est ar no mapa (Salário
anual, jul}16) • A quantidade
de pessoas no quadro "Países
que mais visitam o Brasil"
não é em milhões, mas em
número absoluto. {Destino: de
ninguém, jun/16)· A equipe
Cloud 9 não venceu o campeo-
nato mundial em 2014 - e sim
um desafio global, com times
da América do Norte, Europa e
América latina. (O lado som-
brio dos eSports, jul/16).
AGOSTO 2016 SUPEA 73
REALIDADE ALTERNATIVA 1 -+ 11.364 CARACTERES OE LIT ERATU RA
74 SUPER AGOSTO 20 16
Questão de gosto
Um conta de E11iliano Urbim Ilustração Arthur Duarte
[1]
COMO NAS ÚLTIMAS NOI TES, eu
desço do metrô, passo pela fila do
raio-x igual a todo mundo, sou liberado
e em seguida desço a Rua Augusta em
direção ao centro. Vou caminhando
devagar, alternando a atenção entre
pedestres, trânsito e comércio. Sigo por
duas quadras até a frente do Espaço
Oficial de Cinema. Val está vendendo
liv ros na calçada e me vê aproximar.
"De novo por aqui>"
"É meu caminho."
Enquanto ela atende outro cliente,
dou uma passada de olhos sobre os
livros. As Veias Abertas da América
Latina, manifestos de Hakim Bei, Era dos
Extremos ... os suspeitos de sempre. Pego
um que não conheço: Teoria dos Objetos
Inexistentes, de um tal Alexius Meinung.
"Esse não está à venda."
Ainda estou com o livro na mão
quando sinto um burburinho no ar.
Nas TVs dos bares ao redor, surge a
cena repetida desde a madrugada: a
implosão da estátua do Borba Gato.
Quando me dou conta, estou assistin-
do novamente ao vídeo: o bonecão
bandeirante com eterno olhar de tédio
se desfazendo de baixo para cima,
como se mergulhasse no ácido. Uma
nuvem bege tapa tudo. Quando ela se
desfaz, no lugar do monumento há
uma pilha de pedras e estranhas barras
de metal - trilhos de bonde usados na
obra, como todos já sabem a esse
ponto. O bar vibra como se fosse um
gol. E a polícia de choque chega
batendo e atirando.
Em meio ao tumulto, Vai já trans-
formou sua banca em mala, que arrasta
com dificuldade calçada abaixo.
Alcanço-a e ajudo a levar a carga, ao
mesmo tempo protegendo a garota da
mira dos policiais. Quando dobramos a
esquin a da Antônio Carlos, sinto
marteladas nas costas, nas coxas, na
nuca. Balas de borracha.
"Dá pra ir, cara?" - ela pergunta.
"Dá."
[2]
Quando eu era pivete, dizia que esse
prédio era o "castelinho da Frei
Caneca". Acho que foi alguma coisa do
governo italiano, há anos está abando-
nado. Descansamos no pátio da frente,
atrás do muro, um bom esconderijo.
Ou não. Val entende meu olhar tenso.
"Calma, eles ficaram lá pela Augusta.
Olha essas feridas sangrando ... Quando
achei que a gente tava fudido você
acelerou, foi me puxando. Valeu por
ficar na frente dos tiros, cara. Como é
seu nome mesmo?"
"Lucas. Ou o que restou dele."
Piada mais velha que andar pra
frente, mas ela não conhece e ri tossin-
do, mostra os dentes muito brancos.
Depois, passa a mão nos cabelos negros
e lisos e adota uma expressão séria no
rosto pálido. Comenta que a cidade está
cada vez pior: ambulantes agredidos,
mendigos com chips de localização,
raio-x em tudo que é canto, rodas de
conversa desfeitas a cassetete. Eu dou
corda, quero agradar, tento dizer as
coisas certas. Ela se entusiasma, levanta
a voz, lembra do bar: o pessoal sabia que
ia tomar porrada, mas comemorou
mesmo assim. Aproveito o embalo e
digo que faço arquitetura, que a
implosão é um manifesto estético, que o
terrorismo estético destrói o que não
deveria ser construído, que a feiura do
monumento dá lugar à beleza do vazio,
sei lá, empilho um monte de coisas que
li na internet durante o dia. Vai está com
os olhos brilhando.
"Você entendeu tudo, Lucas."
'Tudo o quê?"
"Quero te apresentar um pessoal." セ@
AGOSTO 2016 SUPER 75
REALIDAD E ALTERNATIVA
(3]
Ainda dolorido com os ferimentos da
semana passada, pulo um muro e
encontro Vai no lugar marcado, a mão
gigante do Memorial da América
Latina. Em silêncio ela me guia pela
praça de concreto até uma pracinha
que eu nunca reparei que estava aqui
dentro. Espalhados pelos bancos e
brinquedos, manos e minas represen-
tantes de várias tribos urbanas:
ciclistas, skatistas, grafiteiros, hipsters,
hippies, punks, galera do hip-hop ...
Vai me apresenta em cada rodinha,
fala da confusão da Augusta, dos tiros
que eu tomei por ela. A pedidos, eu
tiro a camisa, mostTO os curativos e os
machucados, conquisto aprovação e
até admiração. Ela tem muita moral
no grupo, suficiente para trazer um
intruso para essa sociedade secreta.
Mas o clima não é de desconfiança, é
de festa. Além dos entorpecentes
previsíveis, circulam várias cópias de
Teoria dos Objetos Inexistentes, deve ser
uma Btblia do movimento. Todos se
dão tapinhas nas costas, se abraçam
como se fosse Natal. Após alguns dias
de tensão, estão todos excitados, muito
orgulhosos do que fizeram: são os caras
por trás da implosão do Borba Gato.
Como alvo inicial, foi perfeito: ninguém
gostava daquela estátua. Vou pescando
palavras de ordem: acabar com os
ultrajes urbanísticos, com as obscenida-
des arquitetônicas, com os estupros da
paisagem. Cada um fala uma coisa, mas
o resumo é que, de implosão em
implosão, eles vão ganhar apoio,
crescer, se multiplicar, sair das sombras,
derrubar a ditadura tecnocrata da
Cidade-Estado de São Paulo, espalhar
uma onda demolidora por tudo o que já
foi o Brasil... Tipo de papo que em qual-
quer outra noite eu responderia com
ceticismo. Mas estou aqui com a Vai e,
quando vejo o entusiasmo dela, quase
acredito na causa. Posso estar confun-
dindo as coisas.
O encontro segue animado até que
surge do nada um cara de tapa-olho
com olhar inquisidor - se é que isso é
possível. Como se fosse combinado,
todos se calam para que ele fale.
"Quem é o amigo, Vai?"
"Esse é o Lucas. Ou o que restou dele."
76 SU PER AGOSTO 2016
Todos riem. Sério que ninguém
conhece essa piada' Vai faz toda a
apresentação de novo, diz que eu
estudo arquitetura, sustenta que eu
posso ajudar a causa, assim como
outros calouros que estão aqui nesta
noite. Mas o sujeito do tapa-olho
definitivamente não vai com a minha
cara. Quando ela termina de falar, ele
dá um sorrisinho condescendente.
Aplica um teste oral: quer que eu
sugira o próximo alvo. Babaca.
"Ponte do Jaguaré."
O caolho arregala o olho. Acho que
entendeu onde eu quero chegar. Peço
licença, tiro o computador da mochila
e mostro do que estou falando. Os dois
horrendos viadutos da Ponte do
Jaguaré, dos anos noventa, escondem
outra construção, a elegante ponte
original, dos anos quarenta. Usando os
mesmos explosivos inteligentes que
eles usaram no Borba Gato, dá para
esfarelar as duas partes da ponte nova
e revelar a antiga. Derrubar o feio,
descobrir obelo etc. É melhor ainda do
que só demolir. Eu acho. E eles
também acham' Até o tapa-olho acha:
ele vem e dá um aperto de mão teatral.
Os caras entram em chamas, todos
abrem seus computadores e blocos de
notas, estão fazendo cálculos, crono-
gramas. Agora eu que estou orgulhoso,
mesmo a ideia não sendo 100% minha.
Mas isso a Vai não precisa saber.
(4)
Daqui do alto da passarela dá para ver
por cima do muro que cerca o
Condomínio Ibirapuera. É cada
mansão que a gente não imagina, e lá
no meião uns prédios mais altos que o
obelisco da avenida, que deve ter uns
70 metros de altura. Como dizem no
grupo, é imperativo que isso volte a
ser um parque público. Mas será que
botar tudo abaixo é o melhor jeito de
chegar lá? Não é possível um outro
caminho, sem demolições, explosões,
implosões? Mas a Vai não marcou
encontro aqui para falar de bombas.
Espero. Sei que meu foco deveria estar
na operação da ponte, mas desde que
começou a rolar esse lance entre a
gente ... Ela não gosta de pôr rótulos
nos relacionamentos. Lá vem ela.
"Eu queria te mostrar uma coisa,
Lucas. Mas você não pode falar pra
ninguém que eu te mostrei. A gente
nem deveria estar aqui."
"Mostrar o quê?"
"É uma surpresa. Uma surpresa
muito boa. Que já está chegando."
Ela fala fazendo longas pausas entre
uma frase e outra. Pausas propositais,
não está pensando no que vai dizer. Já
sabe o que vai dizer e está deixando o
tempo passar. Ela quer que eu adivinhe.
"Você está grávida'"
"MAS DE ONDE voei': TIROU ISSO?"
"Sei lá, eu .. ."
"Começou."
Sinto um tremor sob meus pés,
como eu imagino que seja um terre-
moto. Parece que o mundo virou um
vagão de metrô desgovernado, é difícil
ficar em pé. Agora eu nem consigo
ouvir o que a Vai está dizendo, porque
até barulho de metrô eu estou ouvin-
do. De onde vem esse tremor, esse
ruído? Ela aponta para o outro lado.
Meio desequilibrado, eu me viro.
Caralho.
Implodiram o Obelisco do
Ibirapuera.
[5]
Eu não sabia, mas todo o esquema na
Ponte do Jaguaré já havia sido cancela-
do quando o grupo percebeu que os
agentes da cidade-estado estavam de
olho no local. A partir daí, eles
adotaram um plano B: para evitar
vazamentos, uma equipe armou em
segredo a destruição do obelisco. Isso
tudo a Vai me contou quase pedindo
desculpas. Eu disse que rudo bem. Eu
tinha que dizer, porque para eles foi
um sucesso estrondoso, muito maior
do que o Borba Gato.
Do nada, todos estão adotando o
discurso da destruição criativa.
Pipocam nomes de organizações
coirmãs em outras cidades: Brigada
AntiConcreto, Falange lmplosiva,
Tudo que é Sólido Desmancha no Ar.
A gente mal consegue mapear o que é
real, o que é piada e o que é bloco de
Carnaval. Cada um tem seus próprios
critérios sobre o que é bonito ou não.
Se para uns feiura são construções
neoclássicas em cidades jovens, para
outros são espigões espelhados ou
edifícios-garagem. Em Porto Alegre,
destruíram o muro que separa o centro
do Lago Guaíba; no Rio, protegeram o
Cristo Redentor, mas os ativistas
queriam mesmo era derreter o bronze
das estátuas de celebridades.
Enquanto isso, o grupo de São
Paulo, onde tudo começou, planeja a
sua nova ação. É algo grande, enorme,
maior do que qualquer coisa que eles já
fizeram. Vão precisar da Vai, de mim,
de todo mundo em quem eles confiam.
Afinal, não é simples implodir de uma
vez só um viaduto com três quilôme-
tros e meio de extensão.
[6]
Uma ferida aberta no coração da
metrópole. Uma cicatriz no tecido
urbano. Uma ofensa da Engenharia
contra a Sociologia. O inconcebível
tornado irreversível. O troféu mais
cobiçado da patrulha estética. O
Elevado Costa e Sil va. O Minhocão.
São duas da manhã e eu estou diante
da porção central do viaduto, na
Avenida Angélica. Desde a meia-noi-
te integrantes do grupo disfarçados
com uniformes oficiais controlaram
os acessos, evacuaram a área e não
deixaram ninguém entrar . Ficaram só
os responsáveis pelas instalações dos
explosivos inteligentes e dos detona-
dores Wi-Fi. Vejo pelo binóculo Vai
coordenar sua equipe, finalizar os
últimos detalhes para a implosão da
v ia expressa.
Mas isso nunca vai acontecer. Eu
não vou deixar.
Pelo rádio, ouço toda a operação ir
pelos ares. Dessa vez, as forças da
cidade-estado estão no local certo e
na hora certa. Enquanto um batalhão
vem da Consolação, outro vem pelo
acesso do Largo Padre Péricles, com
vários destacamentos penetrando
pelos acessos secundários. Um a um,
os membros do grupo vão sendo
dominados. Um bom plano, que tem
inclusive um capricho pessoal.
Chamo Vai pelo rádio.
"Lucas' Você está na vigilância' O
que está acontecendo?"
"Acabou, Vai. A polícia pegou
todos. Mas ainda não chegou aí. Você
ーッセ・@ se salvar;" "
Comovoce ...
"Vai, me ouve. Não sou arquiteto,
sou policial, infiltrado, desde o começo.
Mas nunca falei de você nos relatórios.
Você não existe pra eles. Foge agora."
Sinto um tremor sob meus pés.
Uma nuvem bege tapa tudo.
[7]
A perícia esclareceu: foi um acidente.
Um dos explosivos inteligentes era
burro, e explodiu justo a parte do
Minhocão onde Vai estava. Eu devia
ter feito diferente, ter contado quem
eu era) Devia ter prendido ela' Ela ia
me odiar pra sempre, mas não mais
do que eu me odeio.
Vingou a lenda de que Vai se matou
pela causa. Ela e outros que explodiram
junto viraram mártires. O local virou
uma espécie de sanruário, e todos
ganharam memoriais pela cidade. São
pilhas de destroços estilizadas, como se
fossem restos de cenário de um filme
de desastre. Novos monumentos. Para o
meu gosto, são horríveis. O
Emiliano Urb im é jornalista, roteirista e escritor
- estã na recém-lançada coletánea de contos He-
róis Urbanos (Rocco). Nascido em Porto Alegre,
mora no Rio e morre de saudades de São Paulo.
AGOSTO 2016 SUPER 77
PETRONAS
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AUXILIA NO COMBATE
AO AQUECIMENTO
EXCESSIVO DO MOTOR
PETRONAS Syntium com tecnologia ºCoolTech'" foi desenvolvido para proteger
o motor contra o aquecimento excessivo e obter máxima performance.
Poucas pessoas sabem. mas mesmo dttigtt em condições normais pode gerar um aquecimento excessivo do motor. Esse aquecimento pode
causar sérios danos aos componentes essenciais do motor. PETRONAS Synt1um com tecnologia ·coo\Tech™ foi desenvolvido para auxiliar na
redução desse aquecimento excessivo. agindo diretamente na fonte do problema. Feito para resistir a altas temperatu ras. ele protege o motor
do seu carro para que tenha máximo desempenho e você uma viagem mais tranquila.
Para saber mais. acesse o site da PETRONAS· www.pli-petronH.com/br/petronas-syntlum
PETRONAS. PRESENTE NO MUNDO. NO BRASIL. NA SUA VIDA.
por Matt F.
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