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PRIMEIRA PÁGINA -+ DA MESA DO EDITOR 
A crise de confiança 
APRENDI UMA COISA lendo 
a reportagem de capa desta 
edição: o cachorro é uma das 
únicas espécies que nos olham 
nos olhos. Foi a evolução que 
ensinou esse truque a eles. 
Afinal, o Canis familiaris 
especializou-se em agradar 
humanos para ganhar seu 
sustento. Cães são primos dos 
lobos que se diferenciaram 
porque aprenderam a ganhar 
nossa confiança. E, ao longo 
dos milênios, eles entenderam 
que o caminho para a confian-
ça humana é olhar fundo nos 
olhos de uma pessoa. 
Boa sacada dos nossos 
amigos caninos. Afinal, 
confiança é a coisa mais 
valiosa que existe. Duvida? 
Então imagine que você quer 
comprar um carro usado e tem 
duas opções de vendedor: um 
no qual você confia cegamente 
e outro que é um canalha 
notório. Quanto a mais você 
toparia pagar pelo carro do 
dono em quem você confia? 
Esse é um exemplo banal. 
FotoDulla 
O valor da confiança se 
manifesta de formas muito 
mais profundas. O próprio 
dinheiro no seu bolso só vale 
alguma coisa porque você 
confia - você acredita no 
Banco Central que o emitiu, 
e que as outras pessoas vão 
acreditar também quando che-
gar sua hora de passar a nota 
para a frente. Se essa confiança 
sumir, aquela nota de R$ 100 
vira só um pedaço de papel. 
Em grande medida, a 
enorme crise da nossa 
civilização, que é especialmen-
te séria no Brasil, é uma crise 
de confiança. O país ficou 
mais pobre nos últimos anos, 
em parte, porque deixamos 
de acreditar nele. E deixamos 
de acreditar porque perdemos 
a confiança uns nos outros. 
A premissa é que não dá para 
confiar em ninguém - e acaba-
mos entregando poder em 
mãos indignas de confiança. 
Fico imaginando o quanto 
essa crise generalizada se deve 
ao fato de vivermos numa 
sociedade na qual 
ficou raro nos 
olharmos nos olhos. 
De trás dos nossos 
vidros fumê, de 
nossas redes sociais, 
de nossas estratégias 
de marketing, ficou 
difícil encontrar o 
olhar do outro. E, 
como bem sabem os 
cachorros, sem isso, 
nada acontece. 
Denis Russo Burgierman 
DIR ETOR DE REDAÇÃO 
DENIS. BU RG IE RMANOABRI l .CO Jr.I. BR 
EDITORA. Abril 
\'!CTOlt Cl \'rJA ROBERTO avrrA 
J!9C7-!990, (IU6-2f.113) 
Conse!ho Editorial: Vktor Civila Neto (Presidente), 
Thomaz Souto Corrta (Vlce-Pmidentc), 
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セャ、・ ョエ ゥ・@ do Grupo Abril : Wali cr Longo 
DiMtordeOperac6ei: Fábio Pl'lrOS!il Gal lo 
Dlr• torc;.ral d• PubllcldMk:: Rogério Gabriel Comprido 
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Dl11tord• V1ndlls SMraAud!tnda: Oi mas セゥ」エャ ッ@
Olrltor.11 Editorial Abril: A ltnandra Zapparoli 
Dlrl tor Editorial - EstAo de Vida: Strgio G.,,'fmn:m 
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lt•dtilor-chef•: Akundrc | G」ャゥゥセhゥ@ Editurn : lkuao Gau!torâ, Can>I Cawro. 
Karin 11\X'd. Tilj!CI jokon. O.sigMl'll : Brun;a L0N. セエャ@ Prno.1. l nar.11 f'icpk lャ セョイN@
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Vide<>: Tbai1 Zlmnw:r M1rtiM Eoug!i ri<K ' Ana c Q イッセョ@ LN:wianli. Jltlll IYA ..... 
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AUDllN CIA Adaillo. G••Hdol> (PnKH•DS). Char A! .. rida {Clr r•l ôl(.lio Eu,.tl 
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Bu tdl i (Ftmi1iu1). Ci1t•i1 Obrtchl (EltilD de Vida). D1t&@ l.hctdo {A bcil Bif! 
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Pad-. SP. CEP0542i-902, ltl .(11) 10u.200ll. Publil:Kaif Uo , ... lo .. infarna;M 
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SUPEIUHTEltBSANTE cdiç>D n' 3"' (ISSN ojPNQNQQXYセ@ lflll 30. a' lO.t1m.ipul*'G'.IÇM 
illF.dilOr!IAbril 19IOG+I セsNaN@ B m MイャョャュGャャャセイlエュQQQィャセャイB|ヲNAー。ャャィ。N@
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A•. Ükrlóln(lil.h;l'SdrU-.4400, ャGヲエーャセ@ セᅮN@ CEI' Cl2909-900, Sãii P.aole, SP 
11/C. rtPP 
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Prtsldtni. AbrilPar. Gianairlo c ゥ |セエ。@
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dャイエエッイsオー・イゥョエセョエQ@ da Gr!flr.a: Eduardo Cosia 
Dil'ltl)r;ll Corporatiu.a dt RIWln<M Huma.-:daudia Ribeiro 
Dfttota cl1I Rllac;6u (.orporativu: Mrire Fidclis 
oretoraJi.ri:ia:MarianaMacia 
PNskllntt Exlartivo da DGB: Claudi(J Prado 
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CARDÁPIO I -+ AGOSTO OE 2016 
ESSENCIAL 
10 UMA IMAGEM ••• 
Raios na ilha de Kiribati, 
no Havaí, vistos da Estação 
Espacial Internacional 
12 •.• MIL PALAVRAS 
"Se economia fosse 
esporte olímpico, 
estaríamos fora 
dos Jogos." 
SUPERNDVAS 
14 FACETRUQUE 
O governo dos Estados 
Unidos vai te stalkear. 
Capa 
Foto Elke Vogelnng 
NO DIVÃ 
Hospital 
argentino 
faz エ ・イ。 ーゥ。 セ@
astral. セ@
IJ CRIMINALIDADE 
O mundo está cada vez 
mais perigoso - e isso é caro. 
22 TESTE SUPER 
Hambúrguer de micro-
-ondas: range em 90 
segundos. 
24 •ABY TESLA 
O carrinho de bebê 
que anda sozinho e 
funciona online. 
15 DES .. EDIOA 
16 ENQUANTO ISSO 
17 vocl PAGA IESTIE 
POLfTICO l'AllA 
26 PÉROLAS DO STREAMING 
21 vod DECIDE 
NÜMERO 
INCRÍVEL 
So 
MIL PEÇAS 
DE LEGO 
São neces-
sárias para 
reproduzir 
o esqueleto 
de um ti -
ranossauro 
r ex.P. 54 
ORÁCULO 
28 A nova arma do Google 
O sistema de inteligência artificial capaz 
de assumir o controle da sua vida. 
3l Capa 
CACHORRADA 
Amizade ancestral: como os cães 
domesticaram os homens e viraram 
os nossos melhores amigos. 
U Nosso dinheiro é deles 
Como os deputados e senadores gastam 
o dinheiro que, até então, era nosso. 
56 Tro.:a-troca de drogas 
Enquanto o SUS não dá o medicamen· 
to, tem um clube pronto para doar os 
remédios para você. 
&2 A revolta em flashes 
Da praça da Paz Celestial a Baton Rouge: 
fotos icônicas de resistência ao poder. 
MUNDO SUPER66 DE CORPO E MENTE 
Havia provas artlsticas 
nos Jogos Olímpicos? 
72 FLORA EM FESTA 
Segundo cérebro é o queri· 
dinho dos consultórios. 
6J JOGO DURO 
Nas Olimpíadas antigas, 
セ@
68 CÉRURO 80M8ADO 
Atletas reagem mais rápido 
a est ímulos visuais. 
6J •Ã PUM 
68 CICNCIA MALUCA 
69 LISTA 
70 CONEXÕES 
71 MANUAL 
REALIDADE 
ALTERNATIVA 
74 QUESTÃO OE GOSTO 
Quando uma bomba explo-
de no lugar errado, o que 
acontece com São Paulo? 
ÚLTIMA PÁGINA 
71 OS OLHOS DA CARA 
O custo real de 
imprimir dinheiro. 
• VIDEOAULAS 
com professores do curso Poliedro 
• EXERCÍCIOS 
para fix ar o que você assistiu 
• ACESSO AOS GUIAS 
DO ESTUDANTE 
toda a linha impressa disponível 
em formato digital 
INSCREVA- SE E SAIA NA FRENTE 
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o, 
•. 
0Bot1cár10 
Acredite na beleza 
E é basicamente isso que o Brasil está 
fazendo, só que em outra modalidade, 
bem mais relevante que qualquer es-
porte. Somos o Eric Mussambani da 
economia mundial. Ou quase isso. 
Das 183 nações que a agência de no-
tícias Trading Economics monitora, a 
nossa está em 173• lugar no ranking 
de crescimento econômico. Desses 183 
países, só 26 estão em recessão. E entre 
os 26 cujos PIBs encolhem, o Brasil 
consegue ser o 19• pior colocado. Es-
tamos nadando cachorrinho. 
A variação anual do nosso PIB está 
em -5,4 %, o que nos deixa encaixotados 
entre o Sudão do Sul (-5a%) e a Líbia 
(-6%), dois países em guerra civil. Serra 
Leoa, Yemen, Omã e a Guiné Equatorial 
do glorioso Moussambani completam 
essa rabeira da economia mundial, junto 
com a Venezuela, que vive um colapso 
econômico até mais violento que o de 
um país em guerra - em julho, o gover-
no Maduro precisou ocupar uma fábrica 
de papel higiênico falida e religar as 
máquinas para que não faltassem tantos 
rolos nos banheiros de Caracas. 
NA VENEZUELA, A MOEDA LOCAL já 
virou nota de Banco Imobiliário: a in-
flação deles está em 500%, e a previsão 
para 2017 é de sarneyzianos i.600%. 
Por aqui, as subidas de preço tendem 
a deixar de ser problema: passamos de 
10% em 2015, agora estamos em 8%, e 
com nossos dois presidentes, o interi-
no e a afastada, apostando numa baixa 
ainda mais signifi cativa para 2017. Até 
porque manter uma infl ação rampan-
te num cenário de recessão profunda, 
como acontece no país de Maduro, é 
tão difí cil quanto errar pênalti sem 
goleiro. Numa economia em recessão 
(a nossa), o consumo baixa, e quanto 
menos se consome, menos os preços 
sobem. Uma doença serve de remédio 
para a outra. No fim, mesmo se o seu 
pais for governado por uma lontra, só 
a recessão já serve como uma boa ar-
ma contra a inflação - a Venezuela, tão 
hiperinflacionária quanto recessiva, é 
é a excessão que confirma essa regra. 
Isso não signifi ca, porém, que a água 
tenha deixado de bater nas nossas bun-
das, claro. Com o PIB em queda, o go-
verno federal fica mais pobre. Em 2013, a 
EllSil ALEXANDRE VER SIGNAS SI 
O Brasil agora está em QWSセ@ no 
ranking mundial de crescimen-
to, QVYセ@ no de menores juros 
e QWUセ@ no de menos endividados. 
receita com impostos foi de R$1,6 trilhão 
(em valores de hoje, levando em conta 
a inflação). De lá para cá, foi só ladeira 
abaixo. E a previsão é que o Pais feche 
2016 com uma arrecadação de R$ 1,27 
trilhão - 20% aquém do recorde de 2013. 
Se o seu salário cai, o que você faz? 
Tenta gastar menos. Mas não é o que o 
governo tem feito. Os gastos da União 
só aumentaram, como se não houvesse 
crise. E para cobrir o rombo o jeito é 
pegar dinheiro emprestado, em quanti-
dades cada vez mais assombrosas. 
A dívida do governo encerrou o ano 
passado em R$ 2,7 trilhões. Isso repre-
sentou uma alta de 22% em relação a 
2014. E a previsão é que ela feche 2016 
em R$ 3.3 trilhões. Mais 22% de au-
mento - talvez haja um numerólogo 
trabalhando no Tesouro Nacional. 
o PROBLEMA DAS DÍVIDAS é que elas 
teimam em vencer. Neste ano, o governo 
tem que amortizar R$ 613 milhões, além 
de pagar mais R$ 85 bilhões de juros. 
Note que esses R$ 698 já dão mais da 
metade do que o governo arrecada com 
impostos. Pegar 50% da receita tribu-
tária para pagar dív ida não rola, senão 
não sobra para pagar saúde, educação 
nem amenidades como o aumento de 
42% para o Judiciário e o querosene 
dos aviões da FAB que levam senador 
para implantar cabelo Brasil afora (ve-
ja mais gastos "pitorescos" dos nossos 
congressistas na página 44). 
Bom, neste ano, o governo separou 
R$ 108 bilhões do seu caixa para pagar 
as dívidas correntes. Os R$ 590 bilhões 
que faltam vão vir de novas dív idas. 
Tem mais. O governo não faz dívida 
só para cobrir rombos. Tomar dinheiro 
emprestado também é uma ferramenta 
contra a inflação. Quando o governo 
pega emprestado, ele tira reais de cir-
culação. Com menos reais na praça, o 
consumo diminui, o que diminuiu a 
pressão inflacionária. 
Isso mais os rombos cada vez maiores 
nas contas públicas faz o governo pegar 
dinheiro emprestado o tempo todo. Para 
conseguir dinheiro o tempo todo você 
precisa cobrar juros altos. E é por isso 
que os nossos seguem firmes entre os 
mais altos do mundo. 
Enquanto os juros no mundo de-
senvolvido estão próximos de zero, 
os nossos são de 13%, 14%. Daqueles 
183 países que a Trading Economics 
monitora, 168 pagam juros menores 
que os do Brasil. P iores que a gente 
nesse quesito só Haiti, Zâmbia, I rã ... 
Além da Venezuela, sempre ela, e, nesse 
caso, da Argentina. Nosso v izinho de 
baixo, diga-se, é o país mais caloteiro 
do mundo, e que por isso mesmo não 
consegue fazer dívida sem pagar pelo 
menos 30% de juros - caso a sonda Juno 
não revele novidades financeiras sobre 
Júpiter, esses continuarão os maiores 
juros do Sistema Solar. 
Mesmo assim, a dívida dos argentinos 
não machuca tanto o pais deles quanto a 
brasil eira machuca o nosso. A Argentina 
fechou 2015 R$ 110 bilhões no vermelho 
- ou seja, essa foi a diferença entre o que 
o país gastou (incluindo pagamentos de 
dívida) e o que o pais recebeu. Isso dá 
5,4% do PIB argentino. No Brasil, esse 
buraco fi cou em R$ 613 bilhões. É o nú-
mero que os jornais chamam de "défi cit 
nominal". Ele dá 10,4% do nosso PIB. 
Quer dizer: estamos duas vezes piores 
que a Argentina nesse quesito. E no 
ranking mundial de déficits nominais, 
ocupamos um embaraçoso 175• lugar, na 
companhia de feras como Moçambique, 
Eritreia, Egito, Síria e Afeganistão. 
Não tem pódio olímpico capaz de 
maquiar nosso desastre econômico. 
Porque hoje essa é a nossa vida. E a 
periferia do mundo, o nosso clube. O 
AGOSTO 2016 SUPER 13 
-t I CO ISAS E FATOS QU ENTINHOS 
Quer entrar nos EUA? Passa o face 
o CONTROLE DE FRONTEIRAS AMERICANO quer incluir as redes soclals no formulário de 
concessão de vistos. A ideia é que programas de computação procurem "atividades e cone-
xões nefastas" nas páginas de quem quiser entrar nos EUA. Não se sabe se aquela sua foto 
#top vai interferir na seleção (todos os procedimentos de análise são mantidos sob sigilo), 
mas é provável que busquem indícios de terrorismo. A fuçada nas redes sociais ganhou for-
ça depois que, em dezembro, a paquistanesa Tashfeen Malik postou no Facebook mensagens 
de apoio ao Estado IslAmico, logo após executar 14 pessoas na Califórnia. Ela havia postado 
mensagens parecidas antes de ir para os EUA também. 'd'a"zfl',..,,,,,, 
sn. FATOS 
Meu planeta, 
minha vida 
Enceladus, a lua con-
gelada de Saturno, 
é o melhor lugar no 
Sistema Solar para 
encont rar Els. Pelo 
menos é no que 
acreditam cientistas 
da Nasa, que querem 
mandar uma missão 
espacial para Lá. A 
expectativa vem do 
oceano subterrâneo 
escondido debaixo 
de uma crosta de 
gelo. Essa água 
é ejetada para a 
superfície de Ence-
ladus por mais de 
90 gêisers. Sãoesses 
jatos que a Nasa 
quer analisar para 
procurar organismos 
vivos. A esperança é 
que eles carreguem 
matéria orgânica 
do fundo do oceano 
para a superfície 
{pelo menos, é isso 
que acontece aqui 
na Terra). A busca 
será por aminoácidos 
e Lipídeos, estruturas 
essenciais para a 
formação de seres 
vivos. ACL 
lOºc 
A COR QUE NÃO ESTAVA LÁ 
Pesquisadores japoneseS© descobriram como implantar pen-
samentos no seu cérebro - sem que você perceba. Para isso, 
colocaram voluntários em máquinas de ressonância magné-
tica enquanto olhavam para uma tela com um círculo com 
listras verticais. Dentro dele, ficava outro circulo branco. Os 
cientistas deram apenas uma instrução: "Concentrem-se em 
fazer o círculo branco aumentar". E observavam a ressonân-
cia. Os participantes pensavam em mil coisas, mas, quando 
imaginavam a cor vermelha, os cientistas faziam o círculo 
branco crescer - mas não explicavam nada. Esse treinamento 
foi repetido por três dias. Ao final, os pesquisadores mos-
traram uma tela listrada em preto e branco e perguntaram 
qual era a cor das listras. Os pacientes treinados enxergavam 
vermelho, mesmo sem sinal de vermelho na tela. Cinco meses 
depois, os voluntários continuavam vendo a cor. Era uma 
memória falsa. Os pesquisadores querem agora criar novas 
associações cerebrais inconscientes que ajudem pacientes a 
lidar melhor com a depressão. Ana Carolina Leonardi 
é o quanto o planeta vai esquentar se queimarmos 
todas as nossas reservas de combustível fóssil. 
(E o Polo Norte vai aquecer ainda mais: 20 ºC) 
FonHs © l.tornlng to Auociatt Orltnt ation w/tfl Co/or in Eatly Vis.ia/ Ateas lly Associo エ ゥセ@ セ」ッ、エ 、@ /MRI Nt urofttdboc/c, K;ao ru Am;ino t outros 
ャ ャオウエ イセVエウ@ Ot;i'o'lo Sllwlr;a, Z;in llcy e Rodrigo 8;isto1 Dldillf. 
111011 KAR I N HUfCK 
Mihaly Meszaros 
O menor homem 
do mundo 
Meszaros morreu aos 76 
anos e 83 centímetros. Ele 
nasceu em i939, em Buda· 
peste, e trabalhou como 
palhaço na Hungria até 
i970, quando se mudou 
para os EUA. Lá ganhou 
fama: apareceu em filmes, 
atuou como AI fie, o 
ETeimoso e virou amigão 
de Michael Jackson. 
Gigantes 
Giaantes do Norte 
Com pelo menos 4 me· 
tros de altura, os gigantes 
do fictício mundo de 
Westeros, de Game of 
Thrones, viviam além da 
Muralha, bem ao norte 
dos sete reinos. O último 
deles, Wun Wun, morreu 
na batalha por Winterfell 
- e não se tem notícias de 
nenhum outro exemplar, 
pelo menos na série de TV. 
AGOSTO 2016 SU PER 15 
sn. FATOS 
A ONU decidiu que nenhum 
governo pode censurar a 
internet. China e Rússia 
votaram contra. Por que será? 
Inspirada no Butão, a india 
criou o primeiro Ministério 
da Felicidade do mundo, 
que vai organizar eventos 
de ioga, meditação e arte. 
Uma reserva de i,5 bi de m1 
de gás hf!Lio foi encontrada na 
Tanzânia. Isso é ótimo porque 
o gás estava quase em falta.O 
Cientistas descobriram uma bac· 
téria minúscula que vive escon-
dida na saliva humana. Ela pode 
ser responsável por gengivite, 
fibrose cística e aumentar nossa 
resistência a antibióticos.O 
fonte ©Nt!wHigh-Gr;ideHt?tiunC>iS<ove-
セセ@ セョ 」jA」ャゥャセセセセdNャsZセセ ャ [セョゥZNカZNエZゥセ@
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1Ó SUPER AGOSTO 2016 
Centenas de genes começam 
a funcionar quando morremos 
Dentro de você tem uma fábrica que re-
põe material desgastado, abastece proces-
sos químicos, fornece unhas e pensamentos 
ao corpo. É o DNA. Este mês, cientistas da 
Universidade de Washington@ fizeram uma 
descoberta incrível. Eles estavam estudando 
cadáveres de peixes-zebra e camundongos, 
recém-falecidos. A análise que fizeram foi 
química: saíram detectando RNA-mensa-
geiro (RNAm) em cada um dos milhares de 
genes dos corpinhos. RNAm é o indicador 
de que a nossa fábrica genética está funcio-
nando. A análise começou com os bichinhos 
ainda vivos, e depois seguiu por dias. Como 
era de se esperar, à medida que o tempo 
passava, mais silenciosa a máquina ficava. 
O estranho foi o que aconteceu com 515 
genes dos camundongos e 548 dos peixes: 
eles foram ativados depois da morte. Os 
cientistas especulam que eles estivessem se 
preparando para uma improvável ressurrei-
ção. São genes que ajudam nos processos de 
cicatrização, inflamação, cura, num esforço 
final para preparar a fábrica inteira para ro-
dar de novo, se a chave-geral for religada. 
Denis Russo Burqierman 
Terapia astral. A astrologia não é considerada uma ciência, mas o 
Hospital Pivorano de Buenos Aires, na Argentina, começou a levar ases-
trelas a sério. Uma das atividades mais populares na ala da psiquiatria é 
a oficina semanal "Conhecendo·me através dos astros". Nela, a astróloga 
Claudia Rico parte do mapa astral de cada paciente para discutir, em 
grupo, experiências dificeis. Apesar de a ideia parecer pouco científi ca, na 
prática, os workshops acabam funcionando como terapia em grupo. J:M 
fanl• © ""ter Nobte • Atv: Pl::lzhltkov ャャオQエZNイセゥッ qエ[ゥカゥッ@ Sil..,.!r.i, lslock 
1 
GUERRA E PAZ 
Crises políti cas, censura, terror ismo. armas nucleares: 
o mundo se tornou um l ugar menos seguro nos últimos 8 
1! 
Islândia 
Custo da vioU!ncia 
USS 242 11i/ ano 
Militarizaçilo 
• ()()()() 1,3 
Conflitos internos 
e ()()()O 1,1 
Guerr.ls 
• ()000 1,1 
151! 
Rússia 
Custo da violência 
USS 354 bifano 
Mil itarização 
•••• 0 3,3 
Confl itos internos 
•••10 3,3 
Guerras 
eeef Ol.6 
fnd ice de violência - -MUITO M il: .DIO BAIXO - -MUITO ALTO 
Custo da violência 
US$ 2 tri/ ano 
Milit arização 
•••003 
Conflitos internos 
••0001 
Guerras 
e.- 000 1,1 
_,_ 
セ|T[V{@
セセセ@ ..... 
... _ 
.>- 1 .,- ,,. セ@ セMM
セ@ 1.. .. Q Vセ N@ " .. ..: : . 
27! 
Chile 
セ ᄋ@
S1r1a ' ..:!&Ir:'''' M セ@ cu,to d-.;olênda ,_ .... セセ@ :.-. 
USSS7,3bi/ano li 
Militar ização •••41 0 3,1 
,f .i Conflitos internos ••••() 4,1 
Custo da 
violência 
uss 18,5 
bi fano 
Mili t arização 
e V 000 1,7 
Conflitos 
internos 
••l.002,7 
Guerras 
• 00001 
105! 
Brasil 
Custo da violência 
USS 254 bi fano 
Mi litarização 
••coo2,2 
Conflitos internos 
•••10 1,1 
Guerras 
• 00001 
2,4'11 M4.JRTES POR TERRORISMO 2006/ 11 
2012/16·········· 
é o aumento da 
violência no mun· 
da desde 2008. 
Causa: terrorismo. 
•exceto Turquia 
AMIRICA DO NORTE 
2006/11 
2012/16 - 79 
Você paga* 
este político: 
'Projetos de lei que foram apresen-
tados no plenário no último mês. / 
Fontl! mapa Global l'e.lCI! ln.du, lnstitutl!! fOf EconomicS セ ョ、@ Peace 
l
l&.. , ' Cu°"ª' eeetJO 3,8 
.. 40! 
Zâmbia 
O PREÇO 
DA GUERRA 
Conter, preveni r 
e lidar com as 
consequências 
da violência têm 
um preço alto. 
Custo da violência 
USS 2 ,5 bi/ano 
Militar ização e CIOOO 1,6 
Conflitos internos ••e 00 l,3 
Guerras e ciooo1,2 
uss 8,2tri 
Gasto 
milita r 
US$742bi 
Confli tos 
US$4,2tri 
Segurança 
intern;icional 
USS 2,Stri 
Perdas 
com crimes 
e violência 
• O deputado federal 
Professor Victório Calli 
(PSC·MT) quer proibir 
a cobrança de a lvará 
de funcionamento para 
templos reli giosos. 
• O deputado federal Rô· 
mulo Gouveia (PSD·PB) 
defende que comercian-
t es mantenham regist ros 
de documento de com-
pradores de cigarros. 
1 
AGOSTO 2016 SUPER 17 
APRESENTADO POR ABRIL RRANOEO CONTENT 
N o mundo rodo, grandes marcas têm re-dobrado seus investimentos em branded 
content para construção de imagem e pro-
moção de produtos. Diferentemente da pu-
blicidade tradicional, o conteúdo propicia às 
marcas uma interação mais orgânica com a 
audiência, menos interruptiva e necessaria-
mente baseada em uma relação de confiança. 
Não é de se estranhar que Netfiix e HBO, 
dois dos mais renomados especiali stas na 
produção de conteúdo, apostem em branded 
content para promover suas séries. No ano 
passado, a HBO buscou a parceria do Abr il 
Branded Content - estúdio da Editora Abri l 
especializado em produzir e definir estraté-
gias de contei.ido para marcas - na divulga-
ção de O Hipnotizador. Em março deste ano 
foi a vez da Netflix noticiar, com a ajuda do 
estúdio, aestreia da quarta temporada de 
House ofCards. 
As ações para ambas as marcas foram di-
vulgadas com grande repercussão nas plata-
formas das marcas VEJA, SUPERINTERES-
SA TE, VEJA SÃO PAULO e HUFFPOST 
BRASIL. "Para prender a atenção dos fãs de 
um seriado já consagrado, é preciso ir além do 
óbvio. Todo conteúdo que agente produz tem 
foco na audiência. É conteúdo relevante, útil, 
informativo, muitas vezes divertido, pensado 
para ser compartilhado. Sempre é possível 
conseguir uma pauta interessante e formatá-
-la de um jeito que o público goste'', explica 
Thiago Araújo, gerente digital do estúdio. 
Matérias na SUPER e na VEJA SÃO PAULO 
contaram a história da hipnose; gifs hipnóticos 
de HBO. no HUFFPOST. viralizaram e o conteúdo 
ficou entre os mais acessados do site 
NETFLIX 
Pela primeira vez, a revista VEJA participou de uma ação co-
-branded para lançar a nova temporada de House of Card5. E 
a estreia da associação da publicação de maior circulação na-
cional com uma o urra marca veio com impacto: uma capa com 
o presidente Francis J. Underwood - personagem de Kevin 
Spacey na séri e - divulgada nas plataformas digitais do título: 
Facebook, 1\vitter e Instagram. O exercício foi imaginar como 
seria uma capa da revista se Frank Underwood fosse um per-
sonagem real, em campanha para se reeleger à presidência 
dos Estados Unidos, um trabalho conjunto entre a redação 
de VEJA e o Estúdio ABC. A repercussão foi impressionan-
te: mais de 1 milhão de pessoas foram alcançadas e mais de 
35 000 reagiram à publi cação, 82,7% de maneira positiva. E 
o objetivo principal foi alcançado, já que 71% dos leitores que 
reagiram entenderam a mensagem; e mais, ajudaram outras 
pessoas a entender, aumencando a abrangência do conteúdo 
e sua repercussão. 
HBO 
Às vésperas do lançamento de O Hipnotizador, a HBO colo-
cou o tema central da série na pauta. O Estúdio ABC produ-
ziu quatro peças de nativas abordando a hipnose de acordo 
com a linha editoríal de cada marca. Na revista e no site de 
SUPERINTERESSANTE, uma reportagem esclareceu as 
apli cações atuais da técnica e como sua eficácia foi cienti-
ficamente comprovada. VEJA SÃO PAULO apresentou, na 
revista e no site, os tratamentos de saúde baseados em hip-
0 nose disponíveis na capital. Em VEJA.com, uma timelü1e 
mostrou como a técnica deixou de ser considerada charl a-
tanice e passou a ser utilizada como recurso no tratamento 
de quadros psicossomáticos. 
o HUFFPOST BRASIL, uma li sta de gifs hipnóticos 
divertiu os visitantes. Compartilhada nas redes sociais dos 
veículos e por influenciadores em seus perfis pessoais, a ação 
teve grande repercussão e ficou entre os conteúdos mais vi-
sitados durante o periodo em que esteve em destaque. 
sn. COISAS 
Você é normal? 
Uqurh.inumrosru• 
C!)Ot".i.1..h,mofalmtc 
Gᄋセ M ·--
:!.• -=:;.-
セ ᄋ@ -:t• ·=::::-
:t• .. --
:t\f.. .;=..·=: 
:i..• --=-
Zエセ@ Mセ ᆳ
:i..• 
:t• セMZZ]MM
:t,o1 ••.•• 
セM ᄋ@
Livro traz 80 testes de personalidade e inteligência - e compara seu resultado à média das pessoas. Texto Bruno Garattoni 
VOCÊ PREFERE ganhar R$ 500 agora, ou o dobro daqui a um 
ano? Se eu te contar dez coisas, cinco delas falsas, quantas 
mentiras você consegue detectar> A sua memória é melhor 
que a de um macaco? Escrito pelo psicólogo Ben Arnbridge, 
da Universidade de Liverpool, Psi-Q reúne testes como esses, 
que você responde a lápis ou caneta nas próprias páginas do 
livro - e depois vira a página para descobrir o que o resultado 
A MÃE DE TODAS AS BATALHAS 
o QUE É MELH O R: um Estado forte e atuante, que 
interfere na economia para tentar ajudá-la? Ou um Es-
tado mínimo, que deixa o mercado resolver e tenta ape-
nas não atrapalhar? É o grande debate econômico nos 
últimos cem anos, e surgiu pelas mãos de dois gigantes: 
o inglês John Maynard Keynes, defensor do Estado, e o 
austríaco Friedrich von Hayek, pró-mercado. Este li vro 
conta a trajetória dos dois (antes de virarem adversá-
rios, Keynes era o ídolo de Hayek) e suas li gações com a 
história: Keynes levantou o dinheiro para financiar a 1 ' 
Guerra Mundial, que esmagou a Alemanha (e empo-
breceu a familia de Hayek), desaguando na 2 ' Guerra -
que ele previu e tentou desesperadamente evitar. 
2 0 SUPER AGOSTO 2016 
revela sobre a sua personalidade, sua inteligência emocional e 
analitica (spoiler: no teste de memória, talvez você perca para 
o macaco). Uma leitura divertida e profunda também: o livro 
explora marcos da psicologia como a Experiência de Milgram, 
que foi realizada em 1961 para tentar entender o surgimento 
do nazismo - e acabou fazendo uma descoberta aterradora 
sobre a mente humana. W::Jl. RS J4,90. 
O OUE ELES 
FAZEM OUANDO 
VOCÊ SAI 
o CATO que ataca a gela-
deira, o pássaro vkiado em 
TV, o poodle grã-fino que 
na verdade é metaleiro - e 
o coelho que quer acabar 
com todos. Animação leve 
e simpática, do mesmo 
produtor de Meu Malvado 
Favorito (antes do filme, é 
exibido um curta-metragem 
estrelado pelos minions). 
Psts - A Vida Secreta 
dos Bichos 
Estreia dia 25/8 nos cinemas. 
"O cheiro 
de carne 
decom-
posta era 
horrível. 
E o médi-
co vivia 
cortando 
pedaços", 
ESCREVE O AMERICANO 
Hampton Sides neste 
livro sobre a expedição de 
conquista do Polo Norte, em 
i879. Um relato de arrepiar, 
com direito a naufrágio, 
fome, mortes e peregrina-
ções a pé sob um frio quase 
extraterrestre: - 68 graus. 
No Reino do Gelo 
R$ 49,90. 
Star Wars holográfico 
-e em vinil 
LP DUPLO com a trilha sonora de O Despertar da Força, mais re-
cente filme da série. Tem a música-tema de Star Wars, tem o tema 
Jedi, tem o hino do fi nal feliz e outras 20 faixas compostas pelo 
genial John Williams. E tem um encarte com fotos incriveis. Mas 
o mais legal são os hologramas: você aponta uma lanterna sobre 
o disco enquanto ele está sendo tocado e aparecem duas imagens 
em 3D, flutuando no ar, por meio de uma ilusão de óptica. 
The Force Awahns Saundtrack - Holographic Vinyl 
USS 52 na Amazon 
EDl•ll BRUNO GARUTONI 
VOCÊ DECIDE 
Os projetos mais 
interessantes (e 
surpreendentes) 
do mundo do 
crowdfunding 
Casaco perfeito 
indiegogo.co111 
Projeto Flexwa rm 
O que é Um casaco que 
gera o próprio calor. Seu 
forro tem uma bateria 
pequena e leve, tipo de 
celular, e uma resistência 
elétrica flexível, que es-
quenta. O casaco monitora 
a temperatura do seu corpo 
e do ambiente e se ajusta 
sozinho, para que você 
não passe calor nem fr io 
(também dá para escolher 
a temperatura por um app). 
A bateria dura 13 horas. 
Meta USS 50 mil 
Chance de conseguir 
•••OO 
Fronha de prata 
indieqoqo.com 
Projeto Silvon 
E outros :J LPs cheios de truques ---------! 
O que é Uma fronha que 
promete eliminar 99% dos 
ácaros e bactérias. 
O segredo está no tecido, 
que contém fios de prata 
(ela tem carga elétrica 
positiva, que atrai e mata 
os micro-organismos). 
Não usa bateria e pode 
ser lavada na máquina. 
Meta USS 20 mil 
Chance••••• 
De trás para Ouça e depois 
a frente coma 
Jack White 8reakbot By 
Lozaretto Ultra Your Side 
Seu lado A toca ao Feito de chocolate 
contrário (a agulha com 74% de cacau. 
se move do centro A ideia é que você 
para a lateral do coma o disco -
disco). Tem duas música eletrônica 
músicas secretas francesa ao estilo 
escondidas sob o ró- Daft Punk - depois 
tulo, um holograma de escutã-lo. Aí 
e uma trilha infinita , já era. Por isso, é 
que toca sem parar extremamente raro: 
{como a última faixa apenas 120 cópias 
de Sgt. Pepper's, foram produzidas, 
dos Beatles). em2012. 
Dando o sangue 
(de verdade) 
Psrfsct Puss't, 
s。セ@ Yes to Lovs 
As primeiras 300 
cópias do LP de 
estreia dessa banda 
punk, lançadas em 
2014, contêm o 
sangue da cantora 
Meredith Graves -
que foi misturado à 
massa plástica do 
disco e pode ser visto 
claramente (o vinil é 
transparente, desta-
cando o sangue). 
Ímã de proteção 
kickstarter.com 
Projeto Nope 2.0 
O que é Um ímã que pode 
ser usado para t ampar a 
câmera de smartphones, 
tablets e laptops. A ideia 
é proteger a privacidade 
de quem está em frente à 
câmera(que pode ser ligada 
remotamente por hackers). 
Você acha que é paranoia? 
O chefão do FBI e o dono 
do Facebook tampam. 
Meta U$S 964 
Chance••••• 
AGOSTO 2016 SUPER 2.1 
sn. 1 COISAS · -------------------
Hambúrguer de micro-ondas 
Eles já vêm prontinhos, com pão, queijo, molho e hambúrguer montados; é só colocar 
no micro-ondas por 90 segundos. A coisa mais prática já inventada, e uma das mais in-
dustrializadas também (eles contêm mais de 20 ingredientes, e a carne é uma mistura 
de boi, porco e frango). Mas são gost osos? Qual o melhor? Provamos sete. 
Veio meio torto, com a 
carne um pouco para fora 
do pão. Mas seu grande 
problema é o hambúrguer, 
que não tem absolutamen-
te nenhum gosto. Parece 
comida de hospital (se hos-
pital seNisse hambúrguer). 
R$ 5.25 l 151 g l 34' kcal 
sadi o .co11t .br 
Tem algum sabor, em 
parte porque vem tempe-
rado com molho barbecue. 
O pão é macio, e a carne é 
aceitável. O queijo "some" 
(é totalment e absorvido 
pelo pão) após o aqueci-
mento. Um produto 
comível, mas sofrível. 
R$ 4,85 l 157 g 1 353 kcal 
searo.co11.br 
22 SUPE R AGOSTO 2016 
Seu modo de preparo é 
diferente: você esquenta o 
sanduíche num saquinho, 
o que deixa o pão (o único 
sem gergelim) encharcado. 
Não dá para sentir o gosto 
do queijo - pois o molho, 
com gosto de tomate, -
encobre tudo. E a carne 
é a pior: parece de espuma. 
R$ S.38 l 145 g 1 324 kcal 
perdigao .cot1 .br 
COMO TESTAMOS. Preparamos duas unidades de cada sanduíche. 
Usamos sempre o mesmo micro-ondas (1.500 W de potência), e 
seguimos à risca as instruções de cada fabricante. Observamos 
a distribuição e a qualidade dos ingredientes e avaliamos o resul-
tado final, comparando aroma, textura e sabor dos sanduíches. 
FoloStudloO: ャャ オセオNZゥ￧ャッ mセQ」ッウ、・uュNQQ@
O pão é sequinho, porém 
duro, e o queijo é cremo-
so, mas insosso. A carne 
tem textura estranha, 
um pouco esponjosa, 
sabor fraco e artificial. 
O sanduiche tem pouco 
gosto, e tende a enjoar já 
na segunda mordida. 
R$ 5,25 l 153 g l 371 kcal 
sadia.co11.br 
® 
Ambos os sanduíches 
preparados no teste vieram 
tortos e com problemas de 
controle de qualidade. Seu 
pão, que ficou encharcado 
após o preparo, soltou 
quase todo o gergelim. 
E o queijo simplesmente 
não derreteu. 
R$ 4.331146 g l 355 kcol 
ouroraali11entos .co11.br 
Tem menos carne bovina, e 
maior proporção de frango 
e porco, que os outros. 
Mas não parece: é o que 
mais tem gosto de carne. 
O hambúrguer é o único 
bom, com sabor defumado 
e textura natural. Lembra 
um sanduíchedeverdade. 
R$ 4,33 l 143 g l 368 kcal 
auroraalimentos. co11.br 
Corte a batata 
em rodelas bem 
finas (dica: use um 
descascador de 
Legumes, se t iver). 
2. 
Deixe de molho em 
água fr ia por s minutos. 
Escorra e seque bem. 
3. 
Coloque sobre um 
papel-toalha e cozinhe 
por 7 a 8 minutos, 
parando na metade 
do tempo para des-
grudar as batatas do 
papel. Aproveite :-) 
AGOSTO 2016 SUPER 23 
sn. COISAS 
O Tesla para bebês 
Direção robóti ca, control e por apl icativos, al arme de segurança, 
ar-condicionado, sistema de entretenimento e conexão à internet. 
Um carro elétr ico de última geração. Para recém-nascidos. 
t・クエッセイオョッ@ Gorattoni e Fe r nando Badô 
ELE SE CHAMA SmartBe, e não precisa ser em-
purrado: conforme você anda (ou corre), detecta 
os seus movimentos e vai na frente. O segredo 
está no computador de bordo, que se comunica 
com o seu smartphone em tempo real. Se preferir, 
você pode empurrar o carrinho, mas não precisa 
fazer força: o motor elétrico cuida disso (ele é 
alimentado por uma bateria que dura 6 h). Pelo 
smartphone, você comanda os demais recursos, 
como climatizador, balanço, tocador de música, 
aquecedor de mamadeira e alarme - que toca se 
você se afastar. O carrinho também funciona co-
mo babá eletrônica, transmitindo vídeo da criança 
pela internet. Vai custar US$ 3 mil (smartbe.co). 
3 modos de uso 
(deslocamento 
manual , automático 
e híbrido) 
... _,._ ____ 3 telas 
retráteis, 
contra Sol, 
chuva ou 
insetos 
UM PROJETO (QUASE) IMPOSSÍVEL 
A lmpossible , tem esse nome pois sua produção era considerada 
inviável. O problema é que a máquina usa filme inst.illlntâneo 
Polaroid, cuja fórmula não existe mais (ela se perdeu na caótica 
dissolução d .. Polaroid, empresoa que chegou a ser um império da 
fotografia, mas faliu duas vezes, em 2001 e 2008). Um grupo de 
dez engenheiros recriou tudo do zero, descobriu como produzir o 
filme e agora está lançando a câmera. Custa 300 euros - mais 20 
euros cada pacote de filme, com oito chapas (coloridas ou p/b). 
24 SUPER AGOSTO 2016 
DE 26 A 28 DE AGOSTO 
» Palestras sobre + de 100 carreiras 
» Milhares de vagas de estágios 
» Estandes das melhores faculdades 
» Orientação vocacional 
» Simulados - Jogos - Debates 
Mestre de Cerimônia: Edson Júnior 
INSCREVA-SE. É GRÁTIS! 
feiraguiadoestudante.com.br 
sn. COISAS 
Céu artificial 
O COELUX ARTIFICIAL SKYLIGHT é 
um conjunto de LEDs e filtros com 
nanopartículas que reproduz a luz 
do Sol e a cor do céu com perfeição: 
o resultado é indistinguível de uma 
janela de verdade. Ele mede 2,y1,6 
m, consome 270 watts (o equiva-
lente a uma televisão de 60") e pode 
ser instalado no teto ou em paredes 
laterais. Um produto revolucioná-
rio. Pena que é caro: US$ 50 mil. 
Espremedor gentil 
o SMEG SJF01RDEU (590 eu-
ros) promete fazer sucos mais 
nutritivos e gostosos, com 
mais sabor da fruta, porque 
suas pás giram devagar: 43 
rotações por minuto, contra 
1700 dos espremedores 
comuns. É como espremer à 
mão - só que sem fazer força. 
A PULSEIRA OUE MEXE COM A CABECA 
ELA SE CHAMA Doppel, custa US$ 130 
e promete deixar você mais relaxado 
ou alerta. Você escolhe o efeito dese-
jado e a pulseira emite uma série de 
vibrações bem fraquinhas, quase im-
perceptíveis (50 por minuto no modo 
relaxante e 100 no modo energizante). 
Depois de alguns minutos, isso come-
ça a alterar o seu estado de espírito. 
A eficácia foi comprovada num estu-
do feito pela Universidade de Londres 
com 40 voluntários. 
Ulfil BRUNO GARATTONI 
PÉROLAS DO 
STREAMING 
Tesouros escondidos 
nos principais sites 
NETFLI X 
O Homem 
Duplicado 
Filme 
Adam (Jake Gylle-
nhaal) é professor 
e leva uma vida 
tranquila. Até 
que vê um film e 
estranho: um dos 
atores é idêntico a 
ele e participa de 
um ritual sinistro. 
Obcecado, Adam 
tenta encontrar 
o sósia m au. Sus-
ー・ョセ@ complexo 
e desafiador, 
daqueles que ren-
dem mil teorias. 
YOUTUBE 
DeepLook 
Canal 
Você sabia que o 
mosquito usa seis 
ferrões para picar? 
Que a borboleta 
azul não tem pig-
menta dessa cor? 
Que a areia viaja 
pelo mundo - e 
cada grão revela 
de onde veio? Pro-
duzido pela rede 
americana PBS, 
o canal usa novas 
técnicas e lentes 
ultrapotentes 
para desvendar o 
mundo das coisas 
microscópicas. 
Cartel Land 
Docu1J1entário 
De um lado, os 
cartéis do tráfico: 
Familia e Cava-
leiros Templários. 
Do outro, a Au-
todefesa: milícia 
armada que reúne 
a população das 
cidades mexica-
nas na fronteira 
com os EUA. Um 
documentário de 
arrepiar, tão real 
(e violento) que 
chega a parecer 
ficção. Indicado 
ao Oscar de 2016. 
YOUTUBIE 
Harbin- uma 
aventura 
congelante 
Vídeo 
Pensou em China, 
pensou em mul-
tidões, fábricas, 
prédios futuristas. 
Harbin é diferen-
te. Fica bem ao 
Norte, perto da 
Rússia: com quem 
partilha o inverno 
de -20 graus, 
a cultura e a 
arquitetura (cujo 
destaque é um 
incrível festival 
de construções 
de gelo). 
28 SUP!R AGÓSTO 2016 
-
, -- . 
.. - - -- - -
, ... 
·. 
<. 
... '· ;. .. 
ACOSTO 2016 SUPIR 29 
ESSA CENA E uma simulação. Mas já 
poderia ser real: todas as tecnologias 
de inteligência artificial envolvidas ne-
la já existem, e funcionam. Algumas 
foram lançadas, outras são protótipos 
em estágio avançado, que estão sendo 
desenvolvidos pelo Google e por gigan-
tes como Apple, Microsoft, Amazon e 
Facebook - que, neste ano, fizeram da 
inteligência artificial sua grande aposta. 
Eu vim à sede do maior de todos (a 
convite do Google, passei trêsdias na cidade 
de Mountain View, no mês de maio) para 
descobrir o porquê. 
G 
GATO, CACHORRO E AVIÃO 
"Quando eu estava na facul-
dade, nos anos 1990, os com-
putadores não conseguiam 
diferenciar um gato de um cachorro", 
conta o físico e neurocientista Greg 
Corrado. "Distinguiam um gato de um 
avião, mas não de um cachorro. É difícil, 
ambos são peludos e têm quatro patas", 
explica. Algo banal para o cérebro hu-
mano, mas inatingível para as máquinas. 
Tanto que dois colegas de faculdade de 
Greg fizeram uma aposta. Um disse que 
os computadores demorariam pelo me-
nos dez anos para aprender a distinguir 
gato e cachorro. O outro disse que se-
ria rápido. Não levou uma década, mas 
também não foi rápido: aconteceu nove 
anos e seis meses depois. "Hoje, nosso 
software consegue olhar uma foto, re-
conhecer os elementos e até escrever a 
legenda", diz Greg, criador e diretor do 
Google Brain, o centro de inteligência 
artificial (IA) do Google. Ele foi funda-
do em 2011 por apenas três pessoas, e 
era o que a empresa chama de "projeto 
20%" - uma iniciativa paralela, a que 
os funcionários podem dedicar 20% do 
seu tempo. Hoje o Google Brain reúne 
mais de cem cientistas, com a missão 
de desenvolver a inteligência usada nos 
demais produtos da empresa - que, atu-
almente, tem nada menos do que 1.200 
projetos envolvendo IA. 
30 SU PER AGOSTO 2016 
*1---4_.·. セ NLN@ J_ セ@
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ᄋ MZ \ ᄋ セ@ ,.. ..f • • セ@ セ@ .. 
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. .. ·. · -.--·· -·.·.·.·.· 
Desde fevereiro, o diretor de buscas 
do Google é o engenheiro John Gian-
nandrea, especialista em inteligência 
artificial. E, desde o ano passado, as 
pesquisas no Google são gerenciadas 
pelo RankBrain, um robô inteligen-
te que aprende sozinho a interpretar 
buscas inéditas, que nunca foram feitas 
antes (cerca de 20% das pesquisas feitas 
a cada dia). O Google também já usa 
inteligência artificial para gerenciar a 
distribuição de anúncios online, sua 
grande fonte de receita. Em suma: está 
apostando tudo nisso. 
Não está sozinho. O destaque do 
iOS 10, próximo sistema operacional 
da Apple, é a nova versão da assistente 
Siri, que agora vai conversar com os 
aplicativos do iPhone (e assumir muito 
do que hoje é feito via apps, de chamar 
táxi a pedir pizza). A Apple está seguin-
do a deixa da Amazon, cuja assistente 
virtual Alexa se comunica com mais 
de cem aplicativos - lê notícias, pede 
Uber e faz compras, entre diversas ou-
tras coisas. A Microsoft colocou uma 
assistente, a Cortana, no Windows 10, e 
está desenvolvendo softwares capazes 
de conversar em nível humano - coisa 
que o Facebook também persegue. É um 
movimento gigantesco, que tem sido 
comparado a primeira corrida do ouro 
da internet: a onda das "empresas ponto. 
com", na década de 1990, que gerou a 
rede que temos hoje. 
Mas por que justo agora? Talvez você 
não saiba, mas a inteligência artificial 
não tem um retrospecto muito bom. 
Lançado em 1968, o clássico filme 2001 
tem como protagonista o computador 
HAL, tão inteligente quanto uma pes-
soa. Naquela época otimista (o homem 
chegou à Lua um ano depois), isso pa-
recia exequível. Mas não chegou nem 
perto. As décadas seguintes foram de 
impasses e frustrações, que deram à 
inteligência artificial uma fama ruim. 
Tanto que hoje os cientistas da área pre-
ferem usar outro termo: machine lear-
ning, ou seja, aprendizado da máquina. 
E a novidade está justamente nisso. 
Em vez de tentar ensinar o compu-
tador, agora a jogada é fazê-lo apren-
der sozinho, usando as chamadas re-
des neurais artificiais. "No cérebro, os 
neurônios se conectam uns aos outros 
e trocam informações. No sistema arti-
ficial , é a mesma coisa. Só que no lugar 
dos neurônios nós temos uma coleção 
de funções matemáticas', explica Greg. 
Quando você nasce, os seus neurônios 
já estão formados, mas não sabem tra-
balhar juntos. Conforme você cresce e 
aprende coisas, eles formam ligações 
semipermanentes (são as memórias) 
e aprendem a funcionar em conjunto. 
decolando. Porque nada na história teve 
acesso a tantos dados quanto o Google. 
Além de indexar bilhões de páginas da 
internet, ele também é alimentado pelos 
próprios usuários. Quando você recebe 
um email no Gmail ou salva álbuns no 
Photos, por exemplo, 
Depois de décadas em marcha 
lenta, a inteligência artificial 
disparou nos últimos anos. Gra-
o Google usa os seus 
arquivos para alimen-
tar as redes neurais. 
"Mostre 1 milhão 
de imagens de árvores 
para o computador, e 
deixe ele aprender so-
zinho', explica o enge-
nheiro Otavio Good. 
Árvores ou qualquer 
ças a uma nova tática: em vez 
de tentar ensinar as máquinas, 
deixá-las aprender sozinhas. 
As redes neurais artificiais funcio-
nam de um jeito parecido. Primeiro, o 
computador é alimentado com dados: 
a foto de um gatinho, por exemplo. Aí, 
cada grupo de "neurônios" avalia um 
aspecto daquela imagem. No nosso 
exemplo, pode ser a cor do objeto, se 
a textura é de pelo, se ele tem patas 
e olhos, etc. Dentro de cada grupo, os 
neurônios "votam", ou seja, cada um dá 
seu parecer (se o objeto tem ou não 
olhos, pelos, etc.). A rede neural erra 
muito, literalmente milhões de vezes. 
Mas uma hora, por pura insistência, 
acaba acertando. Quando isso acontece, 
ela evolui: os neurônios que estavam 
certos desde o início ganham mais peso, 
e passam a ser copiados pelos demais. 
Ou seja, a rede neural aprende. 
Dali em diante, toda vez que aparecer 
um gato, ela vai identificar no ato. E quan-
do for aprender a analisar outra coisa 
(a foto de um cachorro, por exemplo), 
não vai sair do zero: deduzirá as seme-
lhanças e diferenças daquilo com o que 
aprendeu antes (gato). Como não requer 
intervenção humana, esse processo pode 
ser executado infinitamente. E repetindo 
o processo muitas vezes, com muitas coi-
sas - imagens, palavras, frases, perguntas, 
respostas-, e você vai acabar chegando a 
um computador hiperinteligente. 
Pelo menos essa é a ideia. Ela não é 
nova: as redes neurais foram propostas 
pela primeira vez em 1946. Mas só ago-
ra, com chips potentes e quantidades as-
tronômicas de dados para treinar, estão 
outra coisa - até placas 
de rua. Tímido, simpático e intensamente 
nerd, Otavio trabalhava fazendo games 
de PlayStation e Xbox antes de ir para 
o Google. Ele é filho de mãe brasileira, 
aprendeu um pouco de português na 
infância. E em 2010, para ajudar ami-
gos que iriam visitar o Brasil, criou o 
WordLens: um app que traduz, em tem-
po real, o que está escrito em placas, 
cardápios, etc. Basta apontar a câmera 
do celular, e a tradução aparece no ato. 
É bem impressionante. O Google tam-
bém achou, tanto que em 2014 contratou 
Otavio e comprou o app dele, que hoje é 
parte do Translate e funciona com deze-
nas de idiomas. Nas horas de folga, ele e 
a esposa (Zinaida Good, bióloga compu-
tacional da Universidade Stanford) or-
ganizam o que ele chama de festas de 
machine learning: recebem amigos, cada 
um com o respectivo laptop, e tentam 
bolar novos algoritmos de inteligência 
artificial. Divertido. 
Otavio está há dois anos no Google, 
mas ainda parece meio perplexo. "Quan-
do eu fazia games, meu público era tipo 
100 mil pessoas. Hoje é uma fração da 
humanidade inteira", diz. Quando a 
conversa termina, pergunto onde fica 
determinado prédio do Google, onde 
a próx ima entrevista está marcada. 
E Otavio comete uma inconfidência: 
"Eu mostro, vou até lá fora. Não tenho 
nada para fazer agora", confessa, rindo. 
Conforme as máquinas forem se 
tornando mais inteligentes e assu-
mindo mais funções, vai sobrar cada -+ 
AGOSTO 2016 SUPER 31. 
vez menos trabalho para as pessoas -
inclusive as que trabalham no Google. 
Mas a tecnologia ainda exige muito 
suor humano. "Nós transcrevemos, 
manualmente, 33 mil horas de grava-
ções", conta a engenheira Françoise 
Beufays, responsável pelo reconheci-
mento de voz do Google. Um esforço 
monumental, que exigiu uma equipe 
de 600 pessoas. A rede neural do Goo-
gle foi alimentada com o áudio e as 
transcrições,comparou as duas coisas 
e foi aprendendo a reconhecer vozes. 
Françoise trabalha com reconhecimen-
to de voz há 25 anos, 11 no Google, 
mas não aparenta: baixinha e elétrica, 
ela fala excitadamente sobre diversos 
assuntos - até as gafes que, no processo 
de aprender e se aperfeiçoar sozinhas, 
as redes neurais acabam cometendo. 
"Os alemães inspiram antes de falar", 
diz, ao contar um caso envolvendo as 
buscas de voz no Google alemão. Um 
belo dia, o software decidiu ignorar isso, 
e começou a entender a típica respira-
ção germânica como se ela fosse um 
palavrão em inglês (fuck). •Às vezes, o 
sistema explode na nossa cara", admite. 
No ano passado, a nova-iorqui-
na Jackie Alciné se revoltou ao ver a 
classificação dada pelo Google Photos 
a uma imagem na qual ela aparece 
com uma amiga: "gorilas" (ambas são 
negras). Por algum motivo, o software 
achou que essa era a resposta correta. 
"Nem todo erro é tão doloroso quanto 
esse. Mas alguns podem ser", admite o 
engenheiro Tom Duerig, responsável 
pelo Photos. Loiro, surfista e típico 
californiano bicho-grilo, Tom perde a 
alegria ao falar sobre o caso. Ele lembra 
outro episódio do tipo, em que o Photos 
classificou como "baleia" a imagem de 
uma pessoa obesa na piscina. O algo-
ritmo não é racista nem gordofóbico: 
simplesmente não tinha visto fotos su-
ficientes de pessoas negras ou obesas. 
Acabou sendo alterado, manualmente, 
para não comparar humanos a animais. 
32 SUPER AGOSTO 2016 
• MICROCOZINHAS EMAXIMESAS A sede do Google fica em Mountain View, a uma hora de São Francisco. Recebe 30 mil funcio-nários e 3 mil estagiários por dia, que 
consomem de 35 a 50 mil refeições em 
dezenas de restaurantes e cafeterias e 
mais de 150 microcozinhas: áreas self-
service com geladeiras, máquinas de 
café e todos os tipos de snack, do mais 
saudável e exótico (algas importadas da 
Coreia) ao mais trash - que o Google, 
propositalmente, coloca em prateleiras 
baixas e escondidas. 
O com plexo tem dezenas de prédios 
agrupados em blocos, lembra um campus 
de universidade americana. As constru-
ções são todas diferentes, sem nada em 
comum a não ser a altura (no máximo 
quatro andares), e os escritórios também 
não seguem um padrão. Uns são abertos, 
• 
outros têm divisórias e até tendas indivi-
duais. Uns têm mesa de pingue-pongue e 
parede de escalada, outros não têm muita 
frescura. Muitos têm estandes com re-
vistas e jornais (de papel mesmo). Uma 
coisa é comum a todos: são silenciosos, 
tranquilos e até meio vazios. Suas mesas 
são enormes, com o triplo do espaço nor-
mal, e nunca estão lotadas. Isso tem a ver 
com o tamanho do complexo (os prédios 
têm 290 mil m2 ), mas também com uma 
política: muitos dos funcionários podem 
trabalhar de casa, e só precisam vir à sede 
uma vez por semana. E isso não é um 
gesto de generosidade. 
Mountain View tem 74 mil habitan-
tes. É pequena, pacata, lembra a cidade 
de Marty McFly em De Volta para o Fu-
turo. Mas, por causa do Google, virou 
um dos lugares mais caros dos EUA. 
Alugar uma casa custa US$ 4.000 por 
mês, e isso se você conseguir uma: a 
cidade tem déficit de 20 mil residên-
cias. Ou seja, acaba sendo meio inviável 
morar lá. A maioria dos funcionários 
do Google vive em cidades adjacentes, 
como San Jose e São Francisco, e vai de 
carro ou ônibus - o que gera conges-
tionamentos monumentais. O Google 
quer dobrar o tamanho do seu campus, 
mas a prefeitura só deixa se a empresa 
também construir 10 mil casas (ao custo 
de US$ 6 bilhões). No impasse, a saída 
foi liberar o home office. 
Outra possível solução são os carros 
autônomos, que podem andar quase co-
lados uns aos outros, o que reduziria 
muito os congestionamentos. Mas já é 
meu segundo dia em Mountain View, 
e ainda não vi o carro do Google. É 
um protótipo extremamente ousado, 
sem volante nem pedais, que transporta 
engenheiros pelas ruas da cidade (único 
lugar do mundo onde é permitido). 
de fazer por meio do GPS do telefone). 
"Nós aprendemos os melhores horários 
para as coisas, que podem variar con-
forme a pessoa ou a profissão dela, por 
exemplo", diz Jacob Bank, gerente do 
Google Calendar. "É uma mistura de 
inteligência artificial 
O Google está liberando seus 
algoritmos para que outras 
empresas usem e desenvolvam. 
É a mesma estratégia do 
Android - hoje presente em 
80% dos celulares do mundo. 
com ciência compor-
tamental", diz. Jacob 
ainda não alcançou a 
própria meta, aprender 
espanhol. "Nós vamos 
levar muitos anos até 
mudar a relação das 
pessoas com suas 
agendas", admite. 
• EMAILS E DINOSSAUROS "Seria bom não ter que digi-tar tanto", conta o engenhei-ro Bálint Mi klós, que cuida do Gmail. Pensando nisso, ele criou o que talvez seja o mais impressionante 
dos inventos de inteligência artificial do 
Google: o Smart Reply, um sistema que 
lê emails e responde sozinho. Bálint tem 
a expressão fechada e séria. Só de olhar, 
você jamais adivinharia o que fazia an-
tes do Google - foi vice-campeão nacio-
nal de patinação artística na Romênia, 
sua terra natal. Ele só se anima ao falar 
sobre a inteligência do programa. "Às 
vezes o algoritmo entende até piadas", 
conta. A novidade faz parte do lnbox, 
aplicativo que é uma espécie de versão 
experimental do Gmail, e já pode ser 
baixado na loja Google Play. Conforme 
você usa o app, ele vê com quem você 
mais conversa, os assuntos que comenta 
e até o estilo da sua escrita. Depois de 
alguns dias, começa a sugerir respostas 
curtas para os emails. Sempre apresenta 
três opções, para que você escolha a 
melhor (também dá para ignorá-las e 
escrever você mesmo). Funciona super-
bem. Mas, por enquanto, só em inglês. 
A inteligência artificial do app Goo-
gle Agenda, poroutro lado, já funciona 
na versão em português. Você define 
uma meta, como fazer exercício ou es-
tudar um idioma. Aí o robõ encontra 
tempo livre na sua agenda - e vai ajus-
tando isso de acordo com a sua rotina 
(ele deduz o que você fez ou deixou 
No mundo da tec-
nologia, é uma eterni-
dade. No Computer History Museum, a 
cinco minutos da sede do Google, estão 
os computadores mais importantes da 
história. São marcos tecnológicos in-
críveis, criados por empresas que pare-
ciam imbativeis. Mas foram aniquiladas 
ou viraram sombras do que eram. O 
Google sabe que não está imune a isso. 
Tanto é que seus fundadores, Larry Page 
e Sergey Brin, colocaram a réplica da 
ossada de um dinossauro, em tamanho 
natural, no meio do campus. A mensa-
gem é clara: quem não evolui é extinto. 
Por isso o Google, mesmo no auge do 
sucesso, decidiu se reinventar. 
Tem boas chances de conseguir. 
Al ém de investir pesado em inteli-
gência artificial, está distribuindo os 
fru tos: liberando boa parte do que de-
senvolve, numa plataforma de código 
aberto chamada Tensor Flow (o nome 
vem de uma operação matemática re-
alizada pelas redes neurais). A ideia é 
que outros pesquisadores e empresas 
usem a Tensor Flow em seus próprios 
projetos. Se isso acontecer, o Google 
dominará esse mercado - como hoje o 
Android, que ele também distribui de 
graça, domina os smartphones. 
No meu último dia em Mountain 
View, os carros autônomos fi nalmente 
dão as caras. Vejo um, dois, três, quatro 
rodando pela cidade. Ninguém dá bola, 
eles já fazem parte do cotidiano. Daqui a 
um tempo, talvez seja difícil imaginar a 
vida sem eles. Como é, hoje, impossível 
imaginá-la sem o Google. O 
AGOSTO 2016 SU PER 33 
R•portaq•• 
Otavio Cohen 
Design 
Inoro Ns rão 
Foto 
fõiióS Arthuzzi 
Edi ção 
Tiago Jokura 
Ele enxerga o mundo pelo nariz, mas aprendeu a nos olhar nos olhos, virou 
parte da família e conhece mais sobre nós do que nós mesmos. Entenda como 
os primos dos lobos domesticaram o homem e se transformaram em cães. 
MEU DON O P A RA de re- pedaço de pão a metros 
pente. Uma faixa de pelo de distância para me 
ao longo das costas até puxar até lá. Nesses mo-
o cóccix se arrepia. A mentas ferozes, Legolas 
boca, que normalmen- me lembra que, apesar de 
te esboça algo parecido ter nome, cama,frequen-
com um sorriso, agora tar uma creche, ser ótimo 
está fechada, e o nariz com crianças e fazer su-
faz movimentos quase cesso no Instagram, ele 
imperceptíveis. Apesar é um cachorro. E que, 
de andar sempre ao meu como todo cachorro, é 
lado, Legolas me arrasta meio lobo. 
em direção a seu alvo. O Quer dizer, mais ou 
motivo da transformação menos. Em 2014, cien-
do meu labrador brinca- tistas de Universidade 
!hão em um cão de caça de Uppsala, na Suécia, 
é um gato do outro lado compararam os genomas 
da esquina. Em dois anos de algumas raças de ca-
de convivência, ele sem- charro com os de outros 
pre gostou de perseguir caninos, incluindo lobos 
gatos na rua, e nunca de de regiões em que teria 
maneira amigável. A úni- se iniciado a domestica-
ca outra coisa que surte ção dos cães pelo homem 
nele um efeito parecido (Croácia, China e Israel). 
é comida. É enxergar um O que descobri ram foi 
36 SUPER AGOS TO 2016 
.J, 
AMIZADE 
HISTÓRICA 
llmila.C. 
Osances· 
trais dos 
cachorros 
seaproxi· 
mamde 
humanos. 
300a.C. 
Alexandre, 
o Grande, 
usa 
cachorros 
com arma· 
duras nas 
batalhas. 
que os genes dos cachor-
ros são parecidos entre 
si, mas não tão similares 
aos dos lobos de hoje em 
dia a ponto de dizermos 
que um evoluiu do outro. 
Aliás, os traços genéticos 
que comparti lham têm 
mais a ver com cruza-
mento entre as espécies 
do que com uma descen-
dência direta. Então, de 
onde vieram os cachor-
ros? Uma possibilidade 
é que tanto cães como 
lobos evoluíram a partir 
de um ancestral comum 
já extinto entre 9 e 34 mil 
anos atrás. Cachorros não 
são lobos, ao contrário do 
que sugerem os gurus do 
adestramento na TV. 
A ideia mais aceita 
hoje é que, cerca de 13 
mil anos atrás, a tal es-
pécie canina ancestral 
percebeu que andar pró-
xima a lugares por on-
de os homens nômades 
passavam era uma boa. 
Afina, era comum sobrar 
restos de comida nessas 
áreas. De cara, evitavam 
contato d ireto com hu-
manos, aquela espécie 
desconhecida e poten-
cialmente perigosa. Mas 
alguns caninos menos 
medrosos chegaram um 
pouco mais perto, em 
busca de restos mais 
nobres. Os humanos vi -
ram vantagem. Aqueles 
bichos percebiam coisas 
que os homens não eram 
capazes de notar, como a 
presença de predadores e 
a proximidade de presas. 
Era o início da amizade. 
A domesticação de-
morou a acontecer. O 
homem de 13 mil anos 
atrás não era exatamente 
um cara civilizado com 
moradia fixa a ponto de 
ter um animal domésti-
co. Nos milhares de anos 
seguintes, os humanos 
foram selecionando os 
bichinhos mais dóceis e 
descartando os agressi-
vos. Foi a invenção doca-
chorro. Uma seleção ar-
tificial tão eficiente que 
foi reproduzida em labo-
ratório. Nos anos 1960, o 
geneticista russo Dmitry 
Belyaev começou a criar 
raposas em cativeiro. Por 
40 anos, liberava as mais 
simpáticas para cruzar e 
gerar raposinhas. Mais 
de dez gerações depois, 
elas mudaram física e 
psicologicamente. Lam-
biam, pediam carinho, 
interagiam com huma-
nos, tinham orelhinhas 
caídas quando filh otes, 
rabo em pé e focinho 
mais curto que seus an-
cestrais selvagens. Vira-
ram cachorros. 
A história das raposas 
é uma evidência de co-
mo a espécie humana é 
capaz de moldar outras 
espécies. Mas, no caso 
dos cachorros, fomos 
longe demais. Basta ver 
como a obsessão por ra-
ças perfeitas por meio de 
cruzamentos de indiví-
duos da mesma família 
criou cães como o pug, 
que não respira direito 
e pode morrer se fizer 
muito esforço físico. O 
abuso de poder está tam-
bém em pequenos gestos. 
Adoramos dar banho e 
encher os cachorros de 
perfume, tirando-lhes 
o cheiro natural: o do-
cumento de identidade 
deles. Resumindo, esta-
mos descachorrizando 
os cães. Eles têm roupas, 
vão à creche, ganham fes-
ta de aniversário - e há _,. 
ATIREI 
PRIMEIRA 
PEDRA. .. 
••• QUEM NU N CA 
cedeu à carinha de um 
cachorro pidão implo-
rando por comida ao 
pé da mesa. Cientistas 
da Universidade 
Lincoln, EUA, notaram 
que, diante de duas 
pessoas comendo -
uma com os olhos 
vendados e a outra 
não-, os cachorros 
se aproximam da que 
está sem a venda. Os 
dogs acreditam que 
há mais chances se 
conseguirem contato 
visual. Eles Leem os 
gestos humanos tão 
bem quanto os sinais 
vindos de outros cães. 
quem garanta que eles política nacional, a tem- cachorro quase não para tanto por nossas roupas 
amam tudo isso. Mas, parada mais recente de de inspirar. O órgão vo- quando estamos longe. 
quando atribuímos aos Game ofThrones (incluin- meronasal está em plena Humanos podem de-
cachorros sentimentos do o destino dos lobos atividade o tempo todo, morar até reconhecer 
humanos, como inveja, gigantes dos Stark), esta sempre recebendo novas um amigo que mudou 
ciúmes ou alegria, nos revista, uma montanha de informações. já reparou a cor do cabelo ou fez 
esquecemos de que eles dinheiro - é irrelevante. que é difíci l perceber que uma cirurgia plástica no 
funcionam de um modo Para Von Uexküll, só é está vazando gás no fo- rosto. Cães reconhecem 
muito diferente do nosso. possível compreender a gão se você estiver na na hora. Não importa se 
Não é assim que se trata pulga ao levarmos em cozinha desde o início você usa perfume francês 
o melhor amigo. conta o ponto de v ista do vazamento? Seu cére- ou se não toma banho 
dela. Essa perspectiva bro é programado para se há três dias. Eles sabem 
culiar recebeu o no- acostumar com odores, que você é você porque 
de umwelt (algo como mesmo os mais desagra- são capazes de te cheirar 
biente", em alemão). dáveis. Cães jamais se por dentro. É por isso que 
mwelt do cachorro é acostumam. Cada lufada existem cães treinados 
mais complexo do é carregada de novida- para identificar doenças 
EI Ili q e o da pulga que se des. Eles sentem cheiros como diabetes, câncer, ou 
Ili h. speda nele. E muito de maneira tão específica até esquizofrenia. Mais 
111111, erente do seu. que não é de se espantar do que identificar aromas, 
Ili m cão não liga para que o odor sirva como eles os interpretam. Se a agnífica vista do par- identificação na socieda- percebem uma quanti-
q em que passeia. Para de canina - cada cão tem dade maior de adrenali-
e1 , importante é cheirar. seu cheiro único. na no seu sangue, sabem 
N nhum sentido é tão O biólogo Marc Beko- que você está nervoso. Se 
çado num cachorro ff, um dos maiores espe- identificam feromônios, 
ência do comportamento quanto o olfato. Ele tem cialistas do mundo em percebem que você está 
animal ao propor ver o 220 milhões de células cachorros, desenvolveu excitado. E, se tiverem 
mundo pelos olhos de olfativas, 100 mil vezes um teste para ver se seu alguma dúvida, eles con-
uma pulga. Esse parasita mais do que você. Além cão reconhecia o cheiro firmam com o olhar. 
não tem uma vida muito de terem mais receptores do próprio xixi diante Para a maior parte das 
variada. Ele não enxerga de cheiros, eles têm tipos de várias amostras de espécies animais, olhar 
e não liga para barulhos. diferentes de células oi- 1884 urin a de outros animais nos olhos é sinal de ame-De todos os cheiros do fativas. lsso faz com que 
Surge o 
na neve. jethro passou no aça. Quando um lobo é 
mundo, só um importa: não só cheirem melhor: American teste sem difi culdade. O encarado, ou ataca ou 
o de ácido butanoico, eles cheiram de um jeito Kennel caso da "neve amarela", desvia o olhar e se afasta, 
presente em manteiga, que você nem imagina Club. Hoje, publicado em 2001, ficou porque acha que está em 
em alguns queijos e no que é possível. Entre o oAKCreco · famoso porque esclareceu perigo. Até chimpanzés 
suor de animais de san- céu da boca e a parede in- nhece 200 que os cães têm muito evitam o contato visual 
gue quente. Para a pulga, ferior do focinho, há um 
raças, mas 
mais facilidade em se longo. Para os dogs, vale estima-se 
encontrar um desses ani- aparelhinho muito úti l haver mais identificar pelo olfato do a pena sustentar a mirada 
mais é como ganhar na chamado órgão vome- de 700. que pela visão. Coloque o para obter informações 
loteria. Elamorde, suga ronasal, uma espécie de seu filhote diante de um sobre os humanos com 
um bocadinho de sangue decodificador de odores. 1923 espelho e ele logo per- quem interagem. Esse 
e pronto, sua missão na Tudo o que entra pelo na- RinTinTin derá o interesse naquele comportamento raro em 
Terra está completa. Se riz é processado e trans- estrela no bichinho peludo fofo, mas outras espécies é prova 
a pulga pudesse falar, só formado em informações cinema.Em completamente inodoro. do vínculo milenar entre 
diria que há três tipos de no cérebro canino. 1929. foi o Só tem um cheiro que eles nós e eles - milênios de mais votado 
coisas no mundo: lugares O aparelho olfativo para Levar conhecem tão bem quan- coevolução resultaram 
para esperar surgir no ar tem outra peculiarida- oOscar to o próprio, e é o seu. em cachorros adaptados 
o cheiro de ácido buta- de. Quando o cachorro de Melhor Para os cachorros, nós para decifrar nosso olhar. 
noico, superfícies com expira, cria uma peque- Ator , mas a somos nosso cheiro. Seu Temos a sensação de que 
ácido butanoico e sangue na corrente que empurra Academia tênis é uma extensão do nos entendem. E enten-eliminou-o 
(que está cheio de ácido ar de volta para dentro. por não ser seu corpo, e isso expli ca dem mesmo, mas de um 
butanoico). O resto - a Em outras palavras, um humano. por que eles se interessam jeito todo particular. セ@
38 SUPER AGOSTO 2016 
.· 
FARO 
Rll 
CACHORROS de-
tectam rastros quí-
micos produzidos 
pelo corpo. Assim 
como farejam 
drogas no aero-
porto, eles podem 
ser treinados para 
detectar odores de 
células cancerosas 
ou a alta concen-
traÇão de glicose 
no sangue, comum 
na diabetes. Mu-
danças セッイュッョ。ゥsG G@
e de pressão, 
volume de suor, 
tudo isso altera 
sutilmente nosso 
cheiro. E isso não 
passa batido por 
foci nhos caninos. 
elas. Um ursinho especializada em caninos quanto brincar_ Não é à 
pelúcia, um graveto e e autora de A Cabeça do toa que escolhemos os 
11111111 
a bola de pingue-pon- Cachorro_ Adestradores cães como amigos_ Ou 
são praticamente a sempre chamam aten- será que foram eles que 
IEflEllU sma coisa: estão na ção para o jeito como os nos escolheram? 
egoria "mastigáveis"_ comandos devem ser en- Independente dares-
biscoitinho em forma sinados. Um "senta" firme, posta, é evidente que 
osso é tão comestível com entonação assertiva, muitas características 
nto uma maçã. Tudo jamais será confundido caninas foram surgin-
é grande demais pa- com a palavra "senta" co- do em resposta a tra-
omer, mo rder, sentar loquial no meio de uma ços humanos_ O latido, 
ck russell terrier, e publi- ou rolar em cima não faz frase. Comandos verbais por exemplo, tem toda 
cou o vídeo na internet. diferença na vida dele. têm mais a ver com o tom a pinta de ser um ins-
Assisti-lo é revelador. A A não ser que essa coi- de voz do que com o sig- trumento desenvolvido 
visão dos cachorros é po- sa se mexa: cães adoram nificado das palavras usa- para se comunicar com 
voada por pernas, sapatos coisas que se mexem. das_ Ainda mais quando o homem, que é tão ver-
e meias, cheia de pneus Um cachorro pode latir são associados a gestos. bal (lobos não latem)_ 
de carros, raízes de árvo- incansavelmente para Cachorros também Para compreender seus 
res, pés de mesa, cantei- alguém deslizando so- são excelentes em leitu- companheiros bípedes, 
ros e jardins_ Para eles, o bre um skate e se calar ra corporal. Identificam os cães aprenderam até 
chão é limi te. A imagens no momento em que a a metros de distância se uma habilidade men-
que as câmeras humanas pessoa para_ Aos olhos o outro cão que vem na tal que só existe tão 
captam da experiência dele, o gato parado na direção oposta é amigável desenvolvida no pró-
canina, porém, são li mi- esquina se transforma, ou não. Se for, em segun- prio homem. Trata-se 
tadas para representar a num passe de mágica, em dos, eles podem engatar da teoria da mente, que 
experiência sensorial ca- outro gato quando foge - uma brincadeira. Nos é a capacidade de ima-
nina como um todo. e o gato correndo é bem poucos segundos entre ginar o que passa pela 
Que o olfato é impor- mais divertido_ Observar o encontro e a interação cabeça de outra pessoa_ 
tante para eles, já está mais o comportamento de um física, eles trocam vários Cachorros também têm 
que claro. Cheirar o tra- cachorro num passeio dá sinais_ Estender as patas bons palpites de como 
seiro de outro cãozinho muitas dicas sobre como para frente e baixar o vamos nos comportar 
na rua é o equivalente ao eles sentem o mundo. Se focinho é um dos mais em determinadas situa-
nosso "bom-diá'_ Mas es- um cão late para o nada, é conhecidos: significa ções, mesmo tendo uma 
se gesto também mostra sinal de que ele percebeu que ele quer brincar e teoria da mente menos 
como eles lidam com o algo que você não notou_ está convidando seu mais refinada que a nossa_ 
espaço individual. Entre Se não for um cheiro for- 1957 novo amigo. Ao longo da E eles usam e abusam humanos, é cada um no te é grande a chance de brincadeira, eles estabele- desse superpoder_ 
seu quadrado. Pega mal ser um barulho quase Abordo do cem limites e contam um 
encostar em desconheci- imperceptível_ Enquanto Sputnik 2. a para o outro se a mordida 
cadela Laika 
dos na rua. Já os cães não humanos escutam nu- é o pr imeiro foi muito forte ou se a 
têm cerimônia. Põem o ma frequência de até 20 ser vivo patada machucou. 
nariz na nossa virilha para kHz, cachorros podem a entrilr Está aí outra peculia-
saber por onde andamos, percebem sons bem mais na órbita ridade dos cachorros em 
lambem nossa perna e se agudos, de até 45 Hz. terrestre. r_elação a outros bichos. ANTRDPÓ· 
aconchegam para uma so- Além de escutarem 1967 E raro encontrar no rei- L D G D S neca. Tudo o que está ao bem, também são bons no animal espécies que D E QUATRO 
alcance do cachorro é dele_ ouvintes. "Já que não fa- Os Beatles brincam na fase adulta. 
Mas, se for grande demais lam, eles prestam mais lançam A É que o risco da brinca- PATAS Dayinthr 
para caber na boca, eles atenção no ritmo de nos- l.ife. com deira é grande. Rolar na 
deixam para lá_ sas frases, no tom de nos- trechos grama pode machucar e LEGOLAS P ERCEBE O 
Assim como a pulga, sa voz, na exuberância de ョオュ。ヲイ・セ@ gasta uma energia que cheiro de pão da padaria 
cachorro também divi- um ponto de exclamação quê nci a que faria falta mais tarde. entrar pela janela e sabe 
de as coisas do mundo e na veemência da caixa humanos Mas a sociabilidade fala que é hora de acordar. não ouvem, 
em categorias a partir da alta", escreveu Alexan- mascachor - mais ai to - e nada esti- Eu mudo de posição e 
maneira como interage dra Horowitz, psicóloga rossim . mula tanto a sociabilidade fin jo que ainda estou セ@
.tJO SUPER AGOSTO 2016 
GRANDE 
FAMÍLIA 
A Q UELE PA PO de 
que o dono do cão 
precisa ser o macho 
alfa da matilha é 
lenda . Para a pesqui-
sadora Alexandra 
Horowitz, isso 
não se aplica aos 
cachorros, que não 
caçam em grupo e 
socializaram com 
humanos. Eles 
demonstram 
apego (preferência 
por uma pessoa) , 
enquanto Lobos não 
têm apego nem sen-
tem medo de serem 
abandonados. 
dormindo, mas ele sabe inacreditáveis poderes A, monitorou o cére-
muito bem que não. Em físicos, faz com que eles de cachorros expostos 
segundos, está na porta estejam no topo da !is- D árias amostras olfati-
do quarto, pronto para o ta de bichos adaptados 1111111110 (cheiros de cães des-
passeio da manhã. Ele é para viver perto de nós. E IEI hecidos e conhecidos, 
paciente, normalmente Nem os primatas mais Hlllll anos desconhecidos, espera com calma até espertos são tão bons em es mesmos e de seus 
eu me vestir, sair doba- entender, por exem pio, se dô os). Na hora em que 
nheiro, encher a vasilha apontamos numa direção. s tiam o aroma dos do-
de ração, pegar o rolo Cachorros conseguem, n , uma parte do cérebro 
de saquinhos plásticos, principalmente se mos- ada núcleo caudado, 
uma porção de petiscos, tramas com o dedo onde para meu cachorro após associado a sensaçõesde 
e a guia de couro mas- está a comida ou o brin- 20 dias fora. Ele pensa prazer e às primeiras fases 
ti gada. Mas, se enrolo quedo. Mas o superpoder que não vou mais voltar, do amor, intensifi cava a 
mais do que o de cos- de prestar atenção nos pois nunca passamos atividade. 
tume para sair da cama, mínimos detalhes tem tanto tempo separados. Cachorro costuma 
ele começa seu próprio uma contrapartida: eles Fiquei fora tempo o su- gostar de gente. Ao verem 
ritual. Primeiro, chora não sabem generalizar. ficiente para que ele já fotografias de humanos, 
baixinho. Depois, solta São capazes de perceber não me esperasse mais no reagem como nós, do 
um latido fino. Se não as mil hões de nuances horário de sempre. Abro a ponto de vista da ativi-
adiantar, começa a puxar no aroma de uma rai z de porta e vejo Legolas dei- dade cerebral. O córtex 
o edredom com a boca. árvore, mas não necessa- tado no sofá com as ore- temporal, que processa 
"É hora de levantar, está riamente sabem que estão lhas em pé, arrancado de informações complexas, 
um dia particularmente numa floresta. Cheiram um sono profundo. Nos 5 como microexpressões 
cheiroso lá fora. Ante- uma árvore de cada vez. minutos seguintes, vejo-o faciais, fica ligado. Essa 
ontem foi assim, ontem "Viver sem capacida- correr pela casa, subir e sintonia faz deles exce-
também, e hoje será a de de abstração signifi - descer escadas trazendo lentes animais de serviço 
mesma coisa. Não há na- ca encarar cada evento o primeiro brinquedo que (como guias para cegos) 
da que você possa fazer e objeto como singular", 2007 viu pelo caminho, rodo- e terapêuticos. Depois do a respeito, humano", eu diz Horowitz. Uma das Nascem piar, pular, cheirar minha atentado de 11 de Setem-
falo, imitando a voz que possibilidades da cons- os pr imei- calça, passar por baixo das bro, mais de 500 cachor-
inventei para ele. ciência humana é pensar ros clones minhas pernas, dobrar- ros foram designados pa-
Jakob von Uexküll sobre o pensamento. Pa- caninos se para que eu coce seu ra consolar e amenizar o 
não escreveu sobre o ra um cachorro, pouco do mundo : lugarzinho preferido na trauma de sobreviventes 
umwelt de cachorros, só interessa a fil osofia. De sete base da cauda, tudo is- e famili ares das vítimas 
sobre o das pulgas deles. acordo com o umweltca-
filhotes de 
so ao mesmo tempo. É em Nova York. Eles tam-labrador . 
Mas Alexandra Horowitz nino, só interessa o aqui o melhor momento de bém são os únicos bichos 
tem alguns palpites de e o agora. Isso explica 2013 nossas vidas. que bocejam quando nos como é um dia na vida por que não é uma boa si milhões Comprovado: ter um veem bocejando. Sinal 
do cachorro. "Nós somos ideia dar a bronca no de dogs cachorro amigável por claro de empatia. 
a primeira fonte de co- cãozinho que destruiu vivem perto faz despencar o Graças a essa cumpli-
nhecimento sobre o dia: a almofada enquanto vo- em lares nível de cortisol (hormô- cidade milenar, temos 
organizamos o dia doca- cê estava fora. Na mente brasi leiros, nio do estresse) no corpo. hoje ao nosso lado cães 
charro em paralelo com o dele, aquilo aconteceu há contra 33,9 Ao mesmo tempo, sobe de companhia, de guarda, milhões de 
nosso, fornecendo dicas tanto tempo que não há crianças até a concentração de ocito- de serviço; cachorros que 
e cercando-o de rituais", conexão possível entre o 14anos. cina, um hormônio que arrancam aplausos em 
escreve a pesquisadora. ato e a punição. Aquela desperta a sensação de competições ou risadas 
Se eu me movimento de carinha de culpado en- 2016 apego e amor, o mesmo no YouTube. Quanto mais 
manhã na cama, está na gana. Ele só está assus- Morr e, com liberado nas mulheres a ciência se dedica ades- .. 
cara que já acordei. Lo- tado com sua reação e 30 anos, a durante o parto. Do lado vendar os segredos dos i 
セ@
go, está liberado implorar não faz ideia do motivo. australlan de cá, é amor verdadeiro nossos melhores amigos, o 
pelo passeio. A bronca só vai estra- kelpie correndo na veia. Do lado mais claro fica quem é セ@
A teoria da mente ru- gar o momento preferido Maggie - de lá, rola algo bem pare- quem na amizade milenar セ@cão mais li dimentar que os cachor- do cachorro: o encontro longevoda cido. Em 2015, o pessoal entre o Homo sapiens e o "i 
ros têm, ali ada aos seus com seu humano. históri a. da Universidade Emory, Canis famíliaris. 0 : 
42 SU PE R AGOSTO 2016 
llHA 
EllllE 
(EISSI) 
A CONIXÃ O entre 
cães e gente sugere 
que a domesticação 
não tenha sido 
produto exclusivo 
da ação humana. 
"Talvez os cães 
tenham mostrado 
como queriam ser 
domesticados. Isso 
acabou levando nos-
sos antepassados a 
desenvolver relações 
mais complexas com 
outras espécies", 
sugere o neurocien-
tista e antropólogo 
Greg Downey, da 
Universidade Mac-
quarie, na Austrália. 
TRANSPARÊNCIA 
Todo parlamentar tem direito a uma verba mensal durante seu mandato - o dinheiro sai do bolso dele para vo ltar por reembolso. Cada 
Como ler 
este gráfico 
セセセセエセイセセセᄎ。ャセ イ セセョエ。@
parlamentar em cada 
categori a. O tamanho 
indica o valor, e as cores 
mostram a despesa. 
R$10.000 
R$ 50.000 
R$150.000 
R$ 300.000 
• Orça-
mento 
RS 20 a45 mil 
é o valor que cada parla-
mentar tem para gastar 
por mês. O tet o varia con-
forme o Estado de origem 
dele: quanto mais longe de 
Brasília, maior o custo de 
passagens aéreas - e maior 
o orçamento. Em 2015, nin-
guém ult rapassou o Li mite. 
Mas será que seu dinheiro 
está sendo bem gasto? 
As categorias 
SENA DO 
O Despesas de escritório 
O Materiais de escritó rio 
CÃ MARA 
Combustíveis e lubrifi cantes 
O Contratação de consultorias 
Divulgação do parlamentar 
Transporte, hotel. comida 
O Consultorias e trabalhos técnicos 
O Divulgação do parlamentar 
O Passagens aéreas 
O Aluguel de carros 
e gasolina 
O Passagens aéreas e outras 
Segurança privada 
@ 
l indbergh Farias 
(PT-RJ) 
RS 242,7 MIL 
Lidera os gastos com 
passagens aéreas: 
torrou R$ 40 mil a 
mais do que o segundo 
maior viajante. 
Senadores 
® 
O Manutenção de escritório 
O Telefonia 
Outros' 
Aéci o Neves 
(PSDB -MG) 
R$213, 8MIL 
Seu escritó rio é o 
mais caro: foram R$ 
14 mil com condo-
mínio e aluguel. 
Em compensação, 
economizou com 
セz セセセセ ゥ イ ・ セ ・ セァセ ウ N@
Cota Parlamentar de R$ 21.045,20 (DF) 
a R$ 44.176,60 (AM). 
fッエッウ dャカ オ ャァセ@
centavo precisa ser declarado no Portal da Transparência. A SUPER analisou todas as despesas dos nossos senadores e deputados em 2015. 
!nf!!Jlráfica 
Carol Castro, Flávio Pessoa, Har co Túli o Pires e Pd111ela Corbonori 
Torra-
torra A ponta do 
® iceberg 
Vinícius A cota é só uma 
Gurgel parte do borderô 
(PR-AP) anual dos nossos 
R$ 229,15 M IL 
セアオ・ュ@ mais polít icos. 
gasta com ;ilu-
guel. Manteve R$33.JS3 
6escritóri os SALÃ.11:10 M ENSAL 
<1omesmo 
tempo- 4 só 
em Macapá. Câmar a• (47%doguto 
anual). RS 242,5 MILHÕES 
Salários dos 
® deputados 
André Moura HS 5D7,4 MILHÕES 
(PSC-SE) Salários dos funcio-
R$ 2.45,8 MI L nârios do gabinete 
Apostou mais 
HS 4,3 MILHÕES • eg;, セゥセセセセᆰjcZセ@ Castos com saúde 
Gastou 66% da 
HS 9,8 MILHÕES cota com redes 
sociais, $râfica Auxilio-moradia 
e cl1pping. 1$1&411Lll EI 
© 
Átila lins Senado• (PSD-AM) 
RS 33' MI L HS 38,3 MILHÕES 750Jodas 
、 ・ウヲオセ]セ@ セZZZ@
Salários dos 
senadores 
viajar de 。カゥセッN@ HS 3,9 MILHÕES A distância 
justifica o Outros gastos 
gasto? ゥセセセセセセセZエセセャ@ carros 
@ HS96B MIL Auxilio-moradia 
Conceição 
HS 312,9 MILHÕES Sampaio 
(PP-AM) Salários do gabinete 
RS 51 MI L RS 3.4MILHÕES Gastou seis 
vezes menos Castos com saúde 
ー。イ。 ゥ イ 、セm。ᄋ@ I USl,HILll ES naus ao DF. 
TOTAL 
Deputados 
Câmara + Senado 
Cota Parlamentar 
1$1,12311 
de R$ 30.788,66 
(DF)a RS 
4S.612,S3 (RR) Equivale a : 
46% do corte no 
Ministério da Saúde 
eml016. 
1/4 da verba do 
Pronatec em 201S. 
' Ac:umulitdo l"m 1.015 
AGOSTO 2016 SUPER 45 
Senadores 
Despesas de Materiais de =Consultorias Divu lgaç,ão 
escritório ' escritório 
1.000 
N" DE 
PARLA-
MENTARES 
ATENDIDOS 
PELAS 
EMPRE SAS 
100 
Vivo11$ 281.0!59 
• 
10 • 
1 
• • 
• 
••• ••• 
. . 
. . 
. . 
.Quem 
·recebeu; 
essa 
:botada 
,As companhias aéreas 
.são as campeãs, segui-
das pelas エ・セヲ￴ ョ ゥ 」。ウN@
Mas algumas empresas 
'pequenas se'destacam 
,por receber yalores 
altos de um bu poucos 
,parlamentar;es. 
Jefferson 
Coronel 
: 11$ 210.000 
' O publici tá-
rio prest ou 
serviços 
apenas a 
Omar Azi:r: 
(PSD·AM). 
Faturou 
55%dacota · 
anual do 
' p<trfamentar. j 
• 
Gr6Jica E 
Editora 
Paranaíba 
R$ 216.780 
Transporte, : Passagens 
hotel, aéreas 
gasolina e outras 
e comida 
. 
Petrobras 
R$172 .9H 
Latam 
. R$1 .868 .011 
Deputados 
Segurança 
privada 
Revistas 
e jornais 
• 
Grupo 
· Citei Service Estado 
RS 300 .67.4 ; RS 18.250 
! 」Z[Zセウ オZᄋ@
: lubrifi cantes 
Cascol 
RS1 .117.081 : 
t ! ! 
Consultorias 
e t rabalhos 
técnicos 
-' , _ ; ·-; 
Como ler 
este gráfico 
Os círculos mostram quanto as emprt"sas rt" cebe-
ram por ano em cada categoria. Quanto maior a 
circunferência deles, maior o montante. 
R$10.000 R$100.000 
EMPRESAS• QUE MAIS RECEBERAM DO SENADO 
( EX:CETO COMPANHIAS AltR!.AS E TELEFÔNICAS) 
LM TURISMO (},GtNC/A DE V/AfJEN!i) 358,3 
CITEL SERVICE {SEGURANÇA VIRTUA() 300 ,6 
ORÃFICA E EDITORA PARANAÍBA 216,7 
JE FFERSON CORONEL (PuBLICIDADf;) 210 
VUP TURISMO Hagセncja@ DE VIMENS) 200 
"Em R$mil 
46 SUPER AGOSTO 2016 
'o QUE FE RNANDO CO LLOR ( PTC-AL) dest inou à segurança 
elet rônica. O valor equivale a lf4 do que os outros sena-
dores gast aram com esse serviço. E esse dinheiro todo 
parou nas mãos de uma só empresa: a Citel Service. 
Foto1 Pedro ヲセBAᅦゥャ OaァャAョ」Aゥャ@ Senado: AntõnioCruz/Agl!nclil bイセゥャ@
Div ulgai; ão 
: Nascimento = 
; Comunica-
çào 
R$ 788 .299 
Cal •• U .tel.UI 
Comida Hotéis = Aluguel de Al uguel Aluguel 
fora do DF aeronaves de barcos de carros 
セ@
Sen.c 
Rt 33!i.727 
Foram 
9.730 
refeições 
lá - uma 
média de 
R$34,5 por 
a lmoço. 
C1ntr1l r Park R11t1u-rante R8911.000 
Localiza 
• Curitiba: AS 625.099 Palace Hqtel 
foi o hotel que mais 
recebeu de 1,1m 
único deputado. 
Nelson MeUrer 
(PP-PR) dei)t:ou R$ 
62.720 por lá - o 
セZ ゥ [ᆰセAセァセイセ ゥ セセゥセセ M
• 
• Marlon Santos 
Gamboa 
R$10.500 
- ·---
R$10.000.000 
111\lPRl!SAS" QUE MAIS RECEBERAM DA CÂM ARA 
( EXCETO C IAS AEREA S E TELEFO NIA ) 
CORREIOS (SERVIÇO POSTA(} 3.991 
CASCOL COMBUSTIVE1S (POSTOS DE COMBUSTÍVEfS) 1.149,, 
OS CONSULTOR!" EMPRESARIAL 962,8 
N"SCIMENTO COMUN ICAÇÃO (tDMUNICAÇÃD) 788.2 
CLOUO TECHNOLOGY 879 ,3 
Manu-
tenção de 
escritório 
Net 
RS 277.142 
Cursos ou Passa$.ens 
palestras de ônibus 
ou barco 
Somente 
3 
deputados 
investiram 
em cursos 
セイZAセセ、セ A ]@
Baldy 
(PTN-GO), 
Beto 
Rosado 
(PP-RN) 
eAl ex 
Canziani 
(PTB-PR). 
C.anziani 
destinou 
R$5,3mll 
para pales-
t rassobre 
ァ・ウエセッ N@ Os 
outros dois 
fizeram 
cursos 
demedi;:i 
t raining 
por R$ 7,5 
mil cada. 
Empresa 
Gontijo 
AS 12 .036 
António 
Augusto 
Passos 
RS 7 .6 H 
Eduardo Cunha 
(PMDB-RJ) 
AS 124.8,7,119 
Usou mais o telefone do que 
= Segurança 
privada 
Staff 
R$122.000 
セセセAセセセセ Z 、ウ」ゥコセセセセ N ᄎ セ ・Z・セ]セエ・ ャ@
AS '9 MI L DA COTA 
de Cunha - foi quem mais 
gastou com a empresa. 
Tá>Ci, pedá- Serviços Telefonia 
$io e esta- postais 
·c1onamento 
• 10 
• 
AGOSTO 2016 SUPER 47 
• Luxo, 
farra e 
fastos 
inusitados 
i: o Congresso quem aprova os reembolsos dos 513 depu-
tados e 81 senadores em exercício. É tanta gente que fica 
fácil imaginar quantos gastos curiosos passam desperce-
bidos. E nossos políticos não ajudam: cadastram despe-
sas em categorias erradas, deixam espaços incompletos. 
A preocupação é não estourar o orçamento. 
Edison lobão 
(PMDB-HA) 
Theresa de Mari a Vilas 
Boas Santos alugou um 
ESCRITÓRIO EM SÃO LU IS para 
o senador. Ela é mãe de 
Ruy Vilas Boas, advogado 
da família Lobão. 
UFG! 
Roberto Góes 
(PDT- AP) 
Assinou 10 meses de 
TV a cabo da Sky, 
com os principais 
canais de filmes em 
HD - e ainda incluiu 
o canal Combat e, de 
luta liv re. Haja pipoca! 
CUSTO: R$ 3 .243 
48 SUPER AGOSTO 2016 
CARRO 
( O M El H O R 
1NVEST 1 ME N TO 
Telmár i o Mota 
(PDT-RR) 
Locou carro de 
Fredne Carvalho 
da Rocha ao longo 
de nove meses. Em 
2016, ela ganhou um 
cargo no gabinete 
dele. 
CUSTO: R$ 39.288 
Vicentinho Al ves 
(PMDB-MA) 
Nilton Barbosa 
Santos recebeu do 
senador RS 52 mil 
com fretamento de 
aviões. Curiosamen-
te, Nilton doou RS 99 
mil para a campanha 
do deputado Vicen-
tinho Júnior, filh o do 
senador Vicentinho. 
CUSTO: R$ 152 MI L 
"Ele 
mora 
em um 
hotel" 
Asses.sorio de 
Rogério Peninha 
Mendonça 
(PMDB-SC) 
Essa é a justificativa 
dada para o maior gas-
to com alimentação 
entre os deputados: 
um ticket médio de 
R$ 125 por dia útil. 
Como, na Câmara, a 
semana de t rabalho 
dura apenas três d ias 
- a diária do VR sobe 
para R$ 219. 
VIVA LAS 
VEGAS! 
Afo nso Motta 
(PDT- RS) 
Passou uma semana 
em Las Vegas, no luxu-
oso hotel Belagglo - as 
diárias variam de US$ 
250 a US$ 700, em 
suites de 45 a 180 mi. 
CUSTO: R$ 7.087,01 
O deputado .H' negou 
a comentar o estadia. 
• Tudo 
que vai, 
volta? 
Gast os e produtividade 
nem sempre são grandezas 
proporcionais. Há parla-
ment ares que economizam 
e participam ativamente 
no Congresso. Quando o 
invest imento tem utilidade 
públi ca, ainda que custe caro, 
o retorno pode ultrapassar os 
limites dos gabinetes. 
Como ler este gráfico 
O セャセセセセセセセセセウZゥセ。セセセイ。ュ@
em 1015. As cores indicam 
os tipos de despesa. 
e セセ セセイイ[セ イセセ セjゥセセイ¬・@
produtili ridade, que varia de 
O (ruim) a 2 (muito bom), 
e a posição no ranking. 
e セ@ [セ[ャセセセ@ ゥ イ セセ@ セヲ@ セ ←セゥセセャゥエゥ」ッ@
discursos, proposições e 
projetos de lei. 
O Despesas de escritório 
O Materiais de escritório 
O Consultorias 
Divulgação do parlamentar 
Transporte, hotel, comida 
e gasolina 
O Passagens aéreas e outras 
Segurança privada 
CO NGRESSO 
Combustíveis e lubrifi cantes 
O Consultorias e trabalhos técnicos 
O Divulgação do parlamentar 
O Passagens aéreas 
O Aluguel de carros 
O Manutenção de escritório 
O Telefonia 
Outros' 
fotos Pedro f イオゥ￧セAaァ↑ョ」ャ[ゥ@ Seniido; Dlvulpçlo 
1 
Senadores 
mais gastões 
Vanessa Grazziotin 
PCdoB-AM 
João Capiberibe 
PSB·AP 
Romerojucá 
PMDB·RR 
Sérgio Petecão 
PSD·AC 
Davi Alcolumbre 
DEM·AP 
Senadores 
0,8 I 55 
José Pimentel 
PT·CE 
Telmário Mota 
PDT·RR 
Randolfe Rodrigues 
REDE-AP 
ElmanoFérrer 
PTB·PI 
1 g 
Fernando Collor 
PTC·Al 
mais produtivos 
. 
" m 
セ@ :; 
m 
セ@< • セ@セ@
セ@
セ@
< セ@ セ@% 
a < セ@ セ@o 
セ@ l セ@ セ@セ@ < セ@
Deputados 
mais gastões 
Jhonatan de Jesus 
PRB-RR 
Shéridan 
PSDB-RR 
Nilton Capixaba 
PTB·RO 
0 ,14 I 478 
Vinicius Gurgel 
PR-AP 
Wilson Filho 
PTB·PB 
Jorge Côrte Real 
PTB-PE 
Cleber Verde 
PRB-MA 
Domingos Neto 
PSD-CE 
Remídio Manai 
PR·RR 
Deputados 
mais produtivos 
セ@
• . 
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セ@ セ@
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セ@ セ@ セ@o o o 
セ@ セ@
セ@ セ@
E 
agora? 
A história 
nioacaba 
aqui. Nossos 
part.amenhres 
continuarão 
a gastar suas 
cotas durante 
os mandatos 
.. e despesas 
estranhas de· 
vem continu,ar 
a aparecer. 
MHvocê 
pode ajudar a 
fiscalizá-los. 
Basta ficar de 
olho nos gastos 
públicos. 
Como 
fiscalizar: 
o 
Entre em: 
camara. 
gov . br/ 
cota-par-
lamentar/. 
Por lá, é 
possível 
ver as 
despesas 
mensais de 
cada depu· 
tado e ain· 
da conferir 
as notas 
fiscais. 
Pel o site: 
www25. sena· 
do. leg. br/ 
web/trans-
parencia/ 
sen/. Só não 
dá parater 
acesso 
às notas 
fiscais, 
apenas um 
dete lhamente 
com preen-
chimento 
opcional. 
AGOSTO 2016 SUPER 49 
P E C A 
com Lego. 
- MÃ E, PAl, POSSO TER UM 
CACHORRO? 
- NÃO. vocJi É NOVO DEMAI S. 
A resposta doeu como pisar des-
calço num bloquinho de montar. 
O menino magricela de 5 anos 
ficou tão frustrado que pôs sua 
cidade abaixo. Ninguém registrou 
o ataque de fúria, mas não sobrou 
edifício em pé. Nem o pavimen-
to de paralelepípedos restou pa-
ra contar história. Não ficou peça 
sobre peça. Todos os tijolinhos de 
plástico do brinquedo favorito fo-
ram rearranjados para dar forma 
ao cãozinho que ele não podiater 
em carne e osso. O bicho ficou 
meio estranho, reto demais e com 
um formato de caixa - por isso, era 
chamado de Boxer. Foi assim que, 
partindo de um sonho destruído 
no Natal de 1978, o pequeno ame-
ricano Nathan Sawaya começou a 
construir sua carreira como escul-
tor de Lego. 
Ninguém imaginava que Bo-
xer seria a primeira de milhares 
de esculturas e muito menos que 
elas viajariam o mundo chegando 
a valer mais que US$ 20 mil. "É 
confuso. Quando as pessoas me 
perguntam o que faço da vida, digo 
52 SUPER AGOSTO 2016 
que sou artista. Se perguntam com 
o que trabalho, digo q ue é com 
plástico. Só se insistirem muito, 
d igo que é com Lego. É uma mí-
dia que sofre muito preconceito", 
expli ca o autor da exposição The 
Art of the Brick, que desembarca 
no Brasil este mês. 
Nascido em 1973, Nathan cres-
ceu em Veneta, O regon, 2 .500 
habitantes. Os Sawaya moravam 
tão afastados que o vizinho mais 
próximo estava a mais de 1 km. No 
meio do nada, ele só podia contar 
com a irmã mais nova, Stephanie, 
para brincar. Os dois passavam os 
longos dias de verão promovendo 
uma guerra sangrenta entTe Barbies 
e bonequinhos de - adivinhe - Le-
go. "M inha cidade era um complexo 
militar altamente organizado. Mas 
as Barbies eram muito maiores e 
sempre venciam", lamenta. Em 
tempos de trégua, criatividade.era 
lei no lar dos Sawaya: "Em toda a 
parte, havia coisas para desenhar, 
pintar e esculpir. Eu fazia quadri-
nhos, truques de mágica e montava 
blocos o tempo todo." 
Não surpreende que, aos 10 
anos, quisesse ser um cara criativo 
quando crescesse: "Claro que não 
queria passar fome, então pensei 
em ser arquiteto. Fazia sentido, 
eu já tinha construido cidades 
inteiras." Animado, foi conversar 
com um arquiteto amigo dos pais, 
mas teve os sonhos destruídos de 
novo. "Ele ficava me perguntando 
por que diabos eu queria ser ar-
quiteto. Desanimei e desisti." Daí, 
pulou para o jornalis-
mo, profissão do avô e 
da mãe. Para entender 
Vida dupla 
Ele formou-se em 1998 e adotou 
terno e gravata como uniforme para 
trabalhar na Winstown & Straw, em 
Nova York. "O prédio é um bloco 
cinza de cimento. O tipo de constru-
ção que acaba com o día de qualquer 
um", lembra. Tinha emprego está-
vel, salário bom, mas uma angústia 
enterrada no peito. "Chegando em 
casa depois de um dia estressante, 
em vez de ir ao bar ou à academia, 
sentia a necessidade de criar." En-
tão, desenhava, pintava e esculpia. 
No inicio, com massinha e argil a. 
Depois, explorando materiais como 
tampas de garrafa, botões e balas de 
goma - chegou a fazer um coração 
humano com as balinhas. Até que 
se lembrou de uns bloquinhos lar-
gados no armário ... 
A primeira escultura da fase 
madura de Nathan foi uma maçã. 
Depois, vieram um telefone, um 
criado-mudo, um lápis, um caderno 
e, enfim, quase todos os objetos da 
casa. "No começo, era só para mím, 
mas amigos me incentivaram a abrir 
um site", conta. Ao expor sua cole-
ção online, a caixa de email lotou de 
elogios - e de pedidos." As pessoas 
queriam reproduzir seus objetos 
favoritos com blocos coloridos: a 
ponte do Brooklyn, um barco, um 
coração, e coisas bizarras, como 
uma ambulância com orelhas de 
coelho. Eu nem perguntava, mon-
tava de tudo." 
Como um super-herói, Nathan 
mantinha uma vida dupla: de dia, 
era um advogado engravatado e _. 
HAIMllTOI 
HUM 
AITllTA (DO) 
PÚITICO 
D 
MATHANMIXA 
umhugman 
(hamem-abra-
çol duocm 
nas ruas das 
ddadesem 
q,.expõe.A 
lcloia6quaas 
peças fiquem 
para sempre 
na cidade. 
e -Nathan .......... 
um'-'em 
raspndo 
opoltoem 
memorandos, 
guanlanapos 
e notas fiscais. 
Os esboças 
viraram sua 
oblamalsfa-
mosa· Yellow. 
e 
AÜ AMADA • 
MAA de10 
mil peças, o 
artista evi-
tava esculpir 
mulheres, 
commedode 
panicerwlgar 
ou ofender 
alguolm. 
a função, fo i trabalhar 
no jornal da escola e 
iniciou a graduação na 
Universidade de Nova 
York (NYU) . Mas, ao 
longo do curso, tro-
cou o jornalismo pelo 
Direito - opção nada 
criativa, mas que lhe 
garantiria o sustento. 
"Levou muito tempo e con-
versa para a Lego entender 
que o que faço é bom para 
eles, é propaganda." 
Foto1 Dlv ulgaçlo 
a 
80MIL 
HÇAS 
formam um 
esqueleto da 
T-Rexernu-
manhorul. 
Omomonto 
favorito de 
Nathannas 
expo5lç6es 
'-ª surpresa das 
atançasao 
encarar o 
dlno. 
54 SUPEll AGOSTO 2016 Foto • 4. Dlttulg1ç:io 5. Jim B1nn1tt 
entediado; mas à noite, em casa, 
era o artista que transformava um 
brinquedo de criança no que as 
pessoas quisessem. Quando o site 
saiu do ar de tão acessado, teve que 
decidir entre a carreira nas leis e a 
arte. Foram semanas angustiantes 
e depressivas até pedir demissão. 
Vivendo de Lego 
Relembrando as origens do seu 
trabalho artístico, Nathan aceitava 
qualquer pedido, recusando só os 
mais excêntricos, como uma urna 
para as cinzas de um chihuahua, um 
ar-condicionado que funcionasse 
e uma mulher em tamanho real, 
pelada e com uma cabeça de gato. 
'Também já me pediram um caixão 
para uma criança, mas eu disse não." 
Aos poucos, foi se estabelecendo. 
Até a Lego dificultar a brincadeira, 
impedindo-o de usar a marca. "Le-
vou muito tempo e conversa para 
eles entenderem que o que faço é 
bom para eles, é propaganda. Sorte 
que eu sou advogado", lembra. Hoje, 
as partes mantêm boas relações (até 
porque Nathan paga pelas peças), 
e a companhia compreendeu que 
proibir as esculturas não fazia sen-
tido. Seria como se um fabricante 
de tintas proibisse pinturas, uma 
vez que, para Nathan, os bloqui-
nhos são tinta, argila, grafite ... 
matéria-prima, enfim. 
Aos poucos, começou a tentar 
expor em galerias de Nova York. 
Só que ninguém entendia quando 
ele explicava o que era arte com 
Lego. "Perguntavam 'tipo o quê? 
Carrinhos e naves?"' Se no mundo 
da arte Nathan era incompreendido, 
suas peças vendiam como água. A 
fama crescia junto com a magni-
tude das encomendas: em 2007, a 
Coca-Cola pediu um trem de 10 m 
de comprimento para uma campa-
nha de doação de brinquedos no 
Natal. "Eu precisava do dinheiro, 
então aceitei antes de explicarem 
que iria trabalhar com tampinhas de 
garrafa." Foi o caos: como ainda não 
tinha estúdio, precisou trabalhar no 
celeiro de um tio, no interior do país, 
por dois meses congelantes. 
A grana de roubadas como essa 
serviu para montar o primeiro estú-
dio, em Nova York, que abriga mais 
de 1,5 milhão de peças separadas por 
cor - no segundo estúdio, aberto 
anos depois em Hollywood, há 4 
milhões de peças. Com 。エ・ャゥ セ@ ins-
talado, Nathan começou a atender 
celebridades, como os apresentado-
res de TV Conan O'Brien e David 
Letterman, e até órgãos governa-
mentais. Para o Museu Nacional 
da Marinha, fez uma réplica da fa-
mosa foto de soldados levantando 
a bandeira dos EUA em lwo Jima, 
na Segunda Guerra Mundial. 
Quando Nathan virou pop, as 
galerias mais sofisticadas pararam 
de tirar sarro e passaram a expor seu 
trabalho. No começo, expunha junto 
com outros artistas. Mas a reação do 
público era espetacular. As pessoas 
ficavam vários minutos em frente 
a cada escultura, boquiabertas. A 
maioria nem era frequentadora de 
museus e galerias. "Minha arte é 
acessível, porque usa uma mídia 
familiar. Ninguém tem tinta óleo, 
cerâmica ou mármore em casa, mas 
muita gente tem Lego. E todo mun-
do pode criar com ele." Essa ligação 
entre os visitantes e a simplicidade 
da obra passou a mover o artista, 
que só usa peças comuns, iguais 
às que se compra em lojas: uma 
maneira de estimular as pessoas a 
criar como ele. 
Carreira solo 
A estreia só com obras próprias ro-
lou em abril de 2007, com o vento 
soprando forte e frio em Lancaster, 
Pensilvânia. "Achei que seria minha 
única exposição. Chamei amigos e 
familia como se fosse meu casamen-
to." Mas, horas antes da abertura, 
o diretor do museu ligou e, meio 
acanhado, disse que adiantaria a 
abertura, porque a fila dobrava a es-
quina e sumia de vista - e estava frio 
demais. Não era exagero: em seis 
semanas, a mostra recebeu 35 mil 
milhões de 
peças são 
a matéria-
prima de 
Nathan, 
estocadasnos estúdios 
deNYeLA. 
pessoas, o equivalente ao número 
de visitantes do museu em um ano. 
Suas exibições começaram a 
ser produzidas em série, e não de-
morou para pintar um convite em 
Hollywood. Dessa vez, a galeria 
queria esculturas inéditas e Nathan 
começou a lidar com a expectativa 
dos outros sobre o seu trabalho, 
algo que nunca havia sentido. "No 
meu estúdio, sozinho, cercado por 
milhões de pecinhas, senti muito 
medo. Achava que tinha chegado ao 
ápice aos 30, e que minha arte seria 
só uma moda passageira." 
Aos 43 anos e após 74 exposições 
solo em 13 países, ele está com tudo 
encaixado na vida - os conhecimen-
tos de advogado ajudam muito para 
negociar e não ser passado para trás 
no mundo da arte. Doze anos após 
deixar o Direito, Nathan já ganha 
mais por mês com suas esculturas. 
"Ser artista é bem melhor do que ser 
advogado. Desculpa, mas é. Posso 
usar jeans o dia todo, sair com mi-
nha cachorrinha e ser meu próprio 
chefe. Se quero folga ou férias, meu 
chefe sempre diz sim", brinca. O 
AGOSTO 2016 SU PER 55 
L I 
sociais,? 
pessoas se -:: 
organizam ? 
e distri-
"" buem re- . __. 
médios de--
alto custo 
pelo Brasil 
todo. E 
espalham a_ 
esperança 
de vencer 
o câncer 
(e outras 
doenças--
raras) com 
tratamen-
tos pro-
missores --
ainda não 
ofertados 
ou autori-
zados pelo 
governo . 
Reportagem Gabriela Garcia 
............... 
Foto Studio Oz 
Ilustração Pedro Hamdon 
OesigJL!!s!.yra Fernandes'-
Edição Carol Castro セ@
AGOSTO 2016 SUPER 57 
ALEX 111 , 57, APOSENTADO 
DO EXÉRCITO, esconde 
seis cartelas do medica-
mento Nexavar na caixa 
de correspondência. Ca-
da pacote do remédio, 
ainda não distribuído 
pelo SUS, custa mais de 
R$ 7 mil e serve para 
tratar tumores no fíga-
do. Como a doença se 
estabilizou, o ex-militar 
procura, na surdina, com 
a orientação da médica 
que o tratou, novos pa-
cientes para repassar as 
sobras dos remédios. 
E logo alerta: "quando 
precisar conversar, é 
melhor não falar disso 
58 SUPER AGOST O 2016 
ao telefone. Tenho me-
do que esteja grampeado." 
Ivan Veloso esteve do 
outro lado. Precisava de 
remédios para tratar um 
câncer de próstata. Só 
que cada frasco custa-
va R$ 4 mil. A cada mês, 
ele teria de desembolsar 
R$ 20 mil - quatro vezes 
mais do que a renda do 
empresário. "Soube [das 
doações de remédios] pe-
lo chefe da minha irmã, 
que trabalha em Belo Ho-
rizonte, mas tive receio. É 
uma zona perigosa", con-
ta. A ajuda apareceu mais 
cedo do que imaginava: 
uma senhora que acabara 
de perder o marido para 
o mesmo câncer de Ivan 
enviou a ele, pelo correio, 
duas caixas do remédio. 
Parece um mercado 
obscuro, ilícito, mas não 
é. Até porque nem é mer-
cado. O ex-militar e a se-
nhora viúva fazem parte 
de uma espécie de clube 
virtual de doação de re-
médios. Não pagaram ou 
cobraram nenhum cen-
tavo pelos medicamen-
tos. Venceram batalhas 
de meses na Justiça para 
receber os remédios gra-
tuitamente. E, quando o 
tratamento acabou, com 
finais felizes ou não, colo-
caram as sobras à dispo-
sição de outros pacientes. 
Encurtaram o caminho 
dessas pessoas: em vez 
de esperar por meses no 
Tribunal para começar 
o tratamento, tiveram a 
sorte de encontrar doa-
dores. "Solicitei o medi-
camento ao grupo e, por 
coincidência divina, ha-
via essa senhora doando 
o que restou do marido 
falecido", se emociona 
Ivan. 
O tal grupo é uma 
das páginas de doações 
de medicamentos do Fa-
cebook. Vera Buonomo 
criou a comunidade "É 
dando que se recebe" em 
2011, quando uma amiga 
próxima descobriu que o 
único tratamento possí-
vel para um câncer de rim 
recém-descoberto seria 
o Sutent (da substância 
sunitib). Só tinha um 
problema: a caixa com 
28 comprimidos custava 
R$ 24 mil. Vera não tinha 
dinheiro para custear o 
tratamento e a amiga não 
tinha tempo para esperar 
uma decisão judicial para 
ganhar os remédios. Ve-
ra apelou para as redes 
sociais: criou a página 
e pediu ajuda de outros 
usuários. 
A amiga faleceu me-
nos de um ano depois. 
Mas o burburinho e a 
popularidade da página 
fizeram Vera continuar. 
"Eu sou apenas uma in-
terface para esses encon-
tros. Em alguns casos me 
pedem sigilo e eu, então, 
coloco as pessoas em 
contato sem publicar na 
página". Só exige deles 
duas regras: é proibida a 
venda (ainda que alguns 
tentem cobrar) e os pa-
cientes devem apresentar 
receita médica. Quem 
recebeu remédios volta 
lá para retribuir a ajuda 
- qualquer ajuda, seja com 
novos remédios ou com a 
divulgação da página. Ou 
com auxílio jurídico gra-
tuito para quem também 
precisa recorrer à Justiça 
para conseguir remédios 
caros. Assim, a rede fun- セNイNZ Z ZZNᄋセセZZZZZZ@
ciona bem, numa イ・エイッ。M ZGセBG ᄋ@ · •.·.:: 
limentação sem fim. p セ@
No caminho da lei 
Adalberto Enedino, o 
Dadá, recebeu apoio de 
um desses advogados. 
Diagnosticado com cân-
cer nos rins e no pulmão, 
em fevereiro, precisava do 
mesmo remédio que Alex, 
o ex-militar, esconde hoje 
na caixa de correio. Não 
encontrou doadores, só 
uma família disposta a 
dar um bom desconto no 
medicamento - em vez de 
R$ 7 mil, a caixa custaria 
de R$ 1 mil a R$ 2,5 mil . 
Fez uma vaquinha com 24 
amigos para começar logo 
ºNome fict íci o 
o tratamento. Ainda as- documentação até uma uma ação contra o Esta- últimos anos. No primei-
sim ficaria pesado contar unidade de remédios do e torcer pelo ganho de ro semestre de 2012, 426 
sempre com ajuda para de alto custo. Como era causa. pessoas conseguiram ob-
bancar toda a despesa. A esperado, não conseguiu Dadá percorreu todos ter os medicamentos via 
saída, então, foi recorrer remédio nenhum. Pediu a esses processos. Ele e ou- ação judicial. Já na segun-
à Justiça. cópia do protocolo dope- tros milhares de pessoas. da metade de 2014, esse 
Com a ajuda da so- dido e encaminhou tudo Entre janeiro de 2012 e número aumentou em 
brinha e o auxílio do ad- ーセ@ o advogado. dezembro de 2014, 2.862 mais de 60%, atingindo 
vogado, Dadá descobriu E a partir daí que co- pacientes de câncer no 705 casos. 
como percorrer esse ca- meça todo o processo Brasil (3,5% do total des- Mas até o medica-
minha. A jornada come- jurídico. A primeira ten- ses enfermos) recorreram menta chegar às mãos 
çou com uma visita a um tativa pode ser por meio à Justiça. A chance de te- do paciente demora um 
posto de saúde. Antes de do envio de uma carta e rem seus pedidos atendi- tempo - em média, quatro 
qualquer coisa, é preciso um requerimento para a dos é grande. "Há um en- meses. Dadá só conseguiu 
ter o Cartão Nacional de Secretaria de Saúde. Até tend.imento consolidado a primeira audiência em 
Saúde. Carregou junto então dá para fazer tudo de que o paciente ganha junho, três meses após 
seus documentos, um sem a ajuda de um ad- sempre que tiver a receita entrar com a ação. Foi 
laudo que justificava a vogado. Só tem um pro- médica. A maior parte das tarde demais. Uma se-
necessidade do uso da blema: geralmente esse vezes que o Estado perde mana antes da audiência, 
medicação e uma receita pedido não funciona. O em primeira instãncia, ele Dadá faleceu. Deixou co-
médica. E levou toda a jeito, então, é entrar com não recorre porque há um mo herança duas caixas 
entendimento consolida- fechadas do remédio, que 
do da jurisprudência (do foram doadas para outros 
direito de acesso à vida r. dois pacientes - um mi-
explica Daniel Wang, pro- neiro e um gaúcho. 
fessor de saúde e direitos 
humanos da Universidade Rombo da esperança 
de Londres. Não à toa, os A brecha na lei cai bem 
casos de vitória dos pa- para os pacientes. Mas 
cientes só cresceram nos não para o governo. A -+ 
AGOSTO 2016 SUPER 59 
ÓO SUPER AGOSTO 2016 
bomba acaba estouran-
do mais à frente: no pla-
nejamento das ações de 
saúde. De acordo com 
dados do Ministério da 
Saúde, o impacto dos 
gastos com a judiciali-
zação cresce em escala 
geométrica. Em 2015, a 
pasta desembolsou sete 
vezes mais grana para pa-
gar esses tratamentos do 
que em 2010. Foram R$ 
990 milhões, em quase 4 
mil ações (em alguns ca-
sos, os remédios já sãodistribuídos pelo SUS, 
mas, por falta de estoque, 
os pacientes acionam a 
Justiça). Ou seja, cada um 
desses pacientes custou 
R$ 250 mil ao Estado. 
É que comprar esses 
remédios toda vez que 
um novo paciente pede 
sai muito caro. Segun-
do um levantamento 
feito em 2013, os pre-
ços podem ser até três 
vezes mais caros quando 
comprados em pequena 
escala. E é assim que os 
grandes laboratórios lu-
cram. A Roche, fabricante 
do Trastuzumabe, medi-
camento para câncer de 
mama, fo i acusada pelo 
Ministério Público Fe-
deral de cobrar valores 
abusivos das secretarias 
estaduais de saúde quan-
do o pedido era feito via 
Justiça. Uma caixa do re-
médio custava até 300% 
a mais nesses casos. 
E nem é só isso: labo-
ratórios se aproveitam 
para vender todo o seu 
repertório de produtos, 
mesmo se ele não fun-
cionar tão bem assim. 
"O médico receita o que 
está convencido de ser o 
melhor. E, lamentavel-
mente, muitas vezes o 
que ele acha é o que as 
empresas farmacêuticas 
acham, e o que o marke-
ting delas acha", diz Rei-
naldo Guimarães, médi-
co e vice-presidente da 
Associação Brasileira de 
Química Fina e Biotec-
nologia. Ainda que a lei 
exija que os casos de judi-
ciali zação valham apenas 
para drogas com custo-
-eficiência comprovada, 
ela é sistematicamente 
ignorada - e, segundo 
Guimarães, não apenas 
os quimioterápicos en-
tram na roda: pacientes 
vencem ações até para re-
ceber fraldas geriátricas. 
A confusão toda é 
originada no próprio 
governo. Quem cuida da 
aprovação de novos me-
dicamentos é a Comissão 
Nacional de Incorporação 
de Tecnologias no SUS 
(Conitec). Inspirada no 
sistema britânico, a co-
missão precisa definir 
uma lista de remédios 
oferecidos gratuitamente 
pelo governo. Só que no 
exterior as coisas funcio-
nam melhor. O órgão de lá 
avalia a relação custo-be-
nefício dos medicamentos 
pela demanda do sistema 
público e pela indústria 
farmacêutica. E não per-
mite que remédios muito 
caros e pouco eficientes 
sejam distribuídos a tor-
to e a direito. O cenário 
aqui é bem diferente: o 
Ministério da Saúde mal 
sabe quais quimioterápi-
cos são mais pedídos em 
vias judiciais. E esses 
dados deveriam ajudar a 
pautar as avaliações sobre 
incorporação de novos re-
médios - assim, o governo 
poderia comprá-los em 
larga escala, com preços 
bem menores. 
Isso sem contar a len-
tidão e falta de critérios 
da Conitec. Um estudo 
da Interfarma mostra 
que, recentemente, cin-
co solicitações de novas 
drogas foram negadas 
pela comissão - e quatro 
delas já foram aprovadas 
nos Estados Unidos e em 
vários países da Europa, 
Ásia e América Latina 
para tratamento de cân-
cer de cólon, pulmão e 
rim. Para se ter ideia, o 
Trastuzumabe, aprova-
do em 1998 nos Estados 
Unidos, chegou ao SUS 
apenas em 2012. "E ain-
da com indicação restri-
ta, aprovado apenas para 
tratamento coadjuvante, 
depois da cirurgia. Não 
está disponível nem para 
as pacientes com a do-
ença metástica", explica 
Contraindicação: pressa 
Desde 2012, a Conitec recebeu 295 pedidos para incorporação de 
novos remédios ao SUS - e negou a maior ia deles. 
Feli pe Ades, oncologista 
do Hospital Albert Eins-
tein. O Nexavar, de Da-
dá e Alex, não foi sequer 
analisado pela Conitec - o 
mais surpreendente é que 
oncologistas do mun-
do todo o veem como o 
futuro do tratamento do 
câncer, por atacar apenas 
as células cancerígenas e 
preservar as saudáveis. 
Jogo da vida 
É da falta de esperança 
com o SUS e do deses-
pero dos pacientes que 
nascem os clubes de tro-
cas de medicamentos. E, 
graças a eles, Ivan Veloso 
colheu boas notícias nos 
exames: 60% de redução 
dos lifonodos metásti-
cos e do PSA, substância 
que indica a presença do 
FORAM IN CORPO-
RADO S. METADll 
DELES SÃO VELHOS: 
Tanto "não" estimula 
as ações na Justiça 
RS 1 BI 
foi o valor gasto pelo 
Ministério da Saúde 
em 2015. com os pro-
cessos. E sete vezes 
mais do que a quan-
tia gasta em 2010. 
câncer de próstata. Mas, 
até nas derrotas, o gru-
po ganha força. Parentes 
enlutados encontram nas 
doações um pouco de 
consolo. Ester delVec-
chio, por exemplo, doou 
caixas de Temodal, um 
remédio para câncer no 
cérebro, após a morte do 
sogro. Nunca maís deixou 
de colaborar: agora orga-
niza as trocas. "Às vezes 
recebo quatro caixas em 
um dia só e preciso decidir 
para quem doar. É como 
decidir quem vai viver. 
Faço um papel de Estado 
que não é meu", conta. 
Eles não são de fato o Es-
tado - e até caminham um 
pouco pela ilegalidade, já 
que as sobras dos remé-
dios pagos pelo governo 
deveriam ser devolvidas. 
Mas esses doadores 
clandestinos não estão 
sozinhos. Profissionais 
de saúde também ten-
tam compensar as faltas 
do governo. A médica de 
Alex o orientou a guardar 
as caixas que sobraram . 
É ela quem indica a ele 
pacientes para receber 
as doações. O Banco de 
Remédios, um site on-
line, presta um serviço 
parecido: organiza e dis-
tribui as doações entre 
os pacientes. Nesse caso, 
há um preço: R$ 20 por 
mês para ter o cadastro. 
Quase nada perto dos re-
médios de R$ 10 mil ou 
R$ 20 mil. Ou do deses-
pero à espera da Justiça e 
dos medicamentos, que 
pelo SUS dificilmente 
chegarão. 0 
AGOSTO 2016 SUPER 6.t 
NANTES, 
FRANCA 
Manifestante rebate 
bomba de gás lacrimo-
gênlo nos protestos 
PEOUIM, 
CHINA 
Na imagem-sím-
bolo do Massacre 
da Paz Celestial, 
homem para uma 
fila de tanques. 
Não se sabe se ele 
foi executado. 
ISTAMBUL, 
TUROUIA 
Imagens dos 
protestos contra 
o golpe mi li tar 
na Turquia fazem 
lembrar os chi-
neses de 27 anos 
atrás. 
17/1/2012 
PINHEIRINHO, 
BRASIL 
A foto mostra a 
precariedade da 
resistência dos 
ocupantes de um 
terreno desapro-
priado no interior 
de São Paulo. 
Armados com o 
que tinham, eles 
esperaram a PM. 
6/5/1968 
PARIS, 
FRANCA 
Com uma tampa 
de Li xeira no Lugar 
de escudo, estu-
dante francês faz 
lembrar um guer-
reiro olímpico ou 
um super-herói 
deHQ. 
o 
SAIGON, 
VIETNÃ 
A resistência às vezes 
é simbólica. Como 
aconteceu no caso 
do monge Thich Duc, 
que ateou fogo ao 
próprio corpo para 
não se submeter 
BATON 
ROUGE. EUA 
Desarmada, mulher 
protesta contra a 
desproporção da 
força empregada 
contra negros nos 
EUA. A imagem, 
simbólica, sublinhou 
o absurdo. 
AGOSTO 2016 SUPER 65 
66 IUPIA AGOSTO 2016 
lDIUI TIA GO JD KU RA 
Na Antiguidade os homens competiam 
nus. E se rolasse uma ereção? Era 
vergonhoso? Dava desclassificação? 
Luis Felipe Rio de Janeiro RJ 
VERCONHA NENHUMA. Os atletas gregos não fi cavam exatamente li -
vres, leves e soltos. Usavam uma corda amarrada no pênis para evitar 
uma eventual empolgação. De qualquer maneira, a ereção não seria 
alarmante. Demonstrar tamanha disposição só reforçaria o ideal de 
beleza de um corpo jovem, forte e viril. Numa época em que as mulhe-
res sequer podiam assistir às competições, inclusive, era comum que 
homens demonst rassem atração física entre si na sociedade gregae . 
• Oráculo dos sete mares: cidades que 
não têm costa marí-
tima podem sediar 
Olimpíadas? 
Nat6lia Negretti, 
l'foqi Mirim . SP 
Sim, até MogiO. 
Por que as Olimpíadas 
acontecem com 
intervalo de quatro anos? 
Diana Soares Magalhães . 
J anuário MG 
PARA RESPEITAR as origens dos 
Jogos da Grécia Ant iga, que 
ocorriam a cada quatro anos em 
OLímpiaO. Não à toa, o periodo 
de quatro anos entre as compe-
tições foi bat izado de Olimpíada . 
Desde i896, na prim eira edição 
da Era Moderna, em Atenas, o 
NÚMERO INCRÍVEL intervalo de t empo é mantido 
]]]]]] セMM NNL⦅ ⦅ ᄋM。ウ@ únicas interrupções ocorre-
327 
CIDADES BRASILEIRA S 
fi zeram parte do 
revezamento da tocha 
olímpica, conduzida 
por 12 mil pessoas. 
OUTRO DADO 
RELEVANTE SEM 
NENHUMA LIGA ÃO 
327 
l O NÚMERO da 
plataforma em que 
a nave Millen nium 
Fatcon pousa ao ser 
capturada pela Estrela 
da Morte em Star 
Wars: Episódio IVO . 
fo o o ím i co que no Brasil 
foi portado por um conterrâneo 
seu, o januare nse Chico da Onça. 
Aliás, pobres onças. 
Qual o recorde olímpico mais 
duradouro atualmente? 
Alexander Spisseaux. São Paulo . SP 
NOS ÚLTIMOS 41 ANOS, nenhum atleta 
oli mpico superou os 8,90 m de distância 
que Bob Beamon, dos EUA, saltou na 
Cidade do México (1968)0 . O voo foi tão 
longo que foi apurado com fita métrica -
o aparelho de medição ótica não deu con-
ta. Fora dos Jogos, a marca foi quebrada 
em 1991: Mike Powell saltou s cm a mais. 
A@flartag@fl" Agfnci;'I Frontera. ャャオA エ イセゥッ ェッャッ@ mッョセゥャャG。 N@ Fontu© sporU·reh!rence.com.@ laf4.org. 
Quais foram as maiores gafes olímpicas? 
Gabriela Cristina Viana Belo Horizonte MG 
ouRo E PRATA para as Coreias. Na abertura de Seul 1988, Coreia 
do Sul, os organizadores soltaram pombas brancas, que simbo-
li zam a paz. Os pássaros pousaram na base da pira olímpica e 
foram queimadaso . Em Londres 2012, o telão do estádio exibiu a 
seleção feminina de futebol da Coreia do Norte cantando o hino 
ao Lado da bandeira dos vizinhos do Sul, inimigos históri cos. 
Outras marcas ol ímpicas imbatíveis 
eeeM ARREMESSO 188ME290M 
A SOVlhlCA N. DE PESO FLORENCE Griffit h 
Olizarenko cor- HÁ )6 ANOS ninguém Joyner é a atleta 
reu em 1:53.43 joga a bola de 4 kg olímpica mais Ligeira 
(1980) - façanha alémdos22,41mde há 28 anos. Correu 
inigualável em Hona Slupianek, da 100 m em 10,62s e 
Olimpíadas. Alemanha Oriental. 200 m em 21,345. 
<1J Ni,gel Spivey, セ エ ッイ@ de The AllC'.jtnt Otympks. © Camitt Olimpk:o bイ N[ゥ sゥセイッ@ (COB) e (omiti-Olímpico lntem<idon,;il (COI). 
AGOSTO 2016 SUPER 67 @ oll'fll?lc.orge Dldondr{o Houo/s5. ® !Noo4cJttpeda. (i) COI. © Assod;IÇJ<> ャ ョエ・イセ、ッッNゥN@ d;is f ・、・イセ@ d1 Atletlsmo (IAAF). 
ORÁCULO 
OUE ATLETAS PARTICIPARAM 
DE MAIS JOGOS OLÍMPICOS? 
Marcelo Trivelato. São Paulo. SP 
BOA, TRIVELA. Ninguém levou mais a sério que "o 
importante é competir" do que o canadense lan Miltar, 
69 anoso . Desde sua primeira aparição no hipismo, em 
1972, o "Capitão Canadá" já esteve em dez edições. Em 
40 anos de Olimpíadas, só não esteve em Moscou (1980) 
por causa de um boicote liderado pelos EUA, que protes-
tavam contra a invasão soviética no Afeganistão. Apesar 
do extenso curr ículo, Milla r levou só uma medalha de 
prata, em Pequim (2008). Para o Rio 2016, infelizmente, 
o vovô caiu do cavalo: Dixson, seu animal, passará por 
ci rurgias nos sinos faciais e está fora de combate. Em 
segundo lugar, com nove presenças, estão Hubert Rau-
daschl (iatista da Áustria) e Afanasijs Kuzmins {atirador 
da Letônia), ambos com duas medalhas. O austríaco já 
baixou as velas, mas o letão pode empatar o recorde se 
for convidado para dar seus disparos pela décima vez. 
Por que existem modalidades olímpicas pratica-
das apenas por mulheres? 
Mareio Dias. Ava ré. SP 
ICUALDADE DE CÊ NERO não é prioridade olímpica. Na 
ginástica rítmica e no nado sincronizado, apenas as 
competições femininas atingiram os pré-requisitos do 
COI para figurar no calendárioO. Para que um esporte 
se torne olímpico deve, antes de tudo, ser praticado em 
escala global - no mínimo 70 países (ou 50 para catego-
rias femininas) e quatro continentes - e pertencer a um 
órgão esportivo que regulamente a modalidade. Esses 
são os obstáculos da ginást ica rítmica masculina, que 
está fo ra da Federação Internacional de Ginástica - o Ja-
pão é um dos raros países com expressividade de atletas 
homens. Já o nado sincronizado só foi ter sua primeira 
versão mista no Campeonato Mundial de Natação de 
2015. Por ser coisa recente, moderninha, a prova fi cará 
fora dos Jogos do Rio. 
PERGUNTE AO ORÁCULO 
Escreva para 
oroculof}(] bril .com.br 
mencionando sua cidade e Estado. 
O salto com vara surgiu 
porque usavam bastões para 
pular fossos e muros? 
Nassim Nacif Filho La es SC 
VIAJOU, VARÃO - embora varas fos-
sem usadas na Europa medieval para 
cruzar cana is. A origem do esporte 
é discutivel: os celtas usavam varas 
para salto em distância e os gregos, 
para montar animais. O registro mais 
antigo de salto com vara é de 829 
a.e. nos Jogos Tailteann, na Irlanda, 
anterior às Oli mpíadas antigas•. Me 
despeço com um salve para a varoa 
Fabiana Murer, candidata ao ouro 
no Rio e fã da SUPER. 
Já aconteceu de 
um atleta com-
petir em moda-
lidades muito 
diferentes? 
Guilherme Vieira 
Soracaba, SP 
OPA, CAMPEÃO . 
Inclusive alguns 
deles já foram 
medalhistas tanto 
em Olimpíadas de 
Verão quanto nas 
de lnvernoO. Foi o 
caso do americano 
Edward Eagan, ouro 
no boxe em 1920 
e no bobsleigh em 
i 932. Em 1996, a 
canadense Clara 
Hughes levou dois 
bronzes no ciclismo. 
Não contente, partiu 
para a patinação de 
velocidade em 2002. 
Na nova modalida-
de, conquistou um 
ouro, uma prata e 
mais dois bronzes. 
llurtrxio , Calo Comei. FnntH (i) COI.@ fセ・イ。￧ ̄ッ@ ャョエ・イセゥッョNwN@ de Nat.ição (FINA)' Fl!dl!raçjo lntl!fnadon;tl. OI! GinMtka (FIG). 
@ Fedl!façlo h ulln411 d!! At ll!l !smo (FPA) 1 artigo Ttdtoologkol Progtt.u and tht Olymptc Gamu, M Sfamus wセイQN`@ Pfrxar, A ll tgra ' Oaro , dl aセ、ッ@
セ コ セQセZセ[ZウセセゥAイセセ`オセセセセ ZョZZ Z セ セセ`ォセZセイセセA エ セセJセセZヲLセセP セ ZZAAQZセZLセセセZ エセ Z@68 SUPER AGOSTO 2016 
ô 
Atletas 
pensam . mais 
rápido 
308 ESPORTISTAS tive-
ramo cérebro monitorado 
diante de imagens em 
movimento• . Os pro-
fissionais reagem mais 
rápido a situações com 
muito estímulo visual, co-
mo estar no meio de uma 
multidão. Nessas horas, 
são mais ágeis para avaliar 
riscos e evitar colisões. 
De onde vem o termo "gol 
olímpico" para tentos mar-
cados direto do escanteio? 
Henrique Cleves 
Fsira ds Santana. BA 
P O R SER TÃO RAR O que só de 
quat ro em quatro anos? Nada 
disso. A origem é um Argentina 
X Uruguai, em Buenos Aires, 
no dia 2 de outubro de 1924. 
O a rgentino Cesárco Onzari 
acertou o gol em um chute de 
escanteio. A seleção uruguaia 
venceu os Jogos em Paris naquele 
mesmo ano e é apelidada até hoje 
de "celeste olímpica". Pela vitória 
de 2 x 1, os argentinos batizaram 
o gol de Onzari de "olímpico"O. 
Cientistas Exame identifi-
preveem quantas ca seu potencial 
medalhas o Bra- como atleta 
sil vai ganhar UM TESTE DE SALI VA 
PESQUISA DORES pode detectar t rês 
descobriram que possíveis combi-
o PIB e o poder de nações do gene 
compra dos países ACTN3&. Aí, você 
que disputam as consegue prever se 
Olimpíadas e o vai se dar bem em 
desempenho histórico três atributos impor-
ajudam a prever o tantes para se dar 
próximo resultado do bem em esportes es-
quadro de medalhas'". pecfficos: resistência 
Ser o anfit rião (corrida e natação), 
também faz bem. força (levantamento 
Pela estimativa, o Bra- de peso) ou m ix de 
sil deve subir 25 vezes resistência e fo rça 
ao pódio no Rio. (futebol e ciclismo). 
Patrocínio: 
Algum atleta já foi direto 
das Olimpíadas para o 
Olimpo - morreu 
competindo? 
Verônica Tavares 
Colombo PR 
SIM. o PORTUCUÊS Francisco Láza-
ro foi o primeiro a entrar na lista 
em Estocolmo (1912). Ele sofreu 
uma insolação tão forte na ma-
ratona que não resistiu. Um caso 
mais recente foi o do georgiano 
Nadar Kumaritashvili nos Jogos de 
Inverno de Vancouver (2010). Ele 
escorregou da pista a 143 km/h 
durante um treino de luge (t ípo de 
trenó veloz) e colidiu fatalmente 
com um posteO. 
NISSAN 
S;iwao K;ito 
GIN ÁSTICA A ll T ÍSTICA 
12 medalhas 8 • 3 • , 
Fonte COI (Comitf, Olimpico ャョ エ セゥッョセ ャ I N@
li Bradesco • VIVO 
Por que os atletas mordem suas 
MEDALHAS 
NO PÓDIO? 
Nicole Duarte Belford Roxo RJ 
É COI SA RECENTE. Os competidores na Grécia An-
tiga eram premiados com uma coroa de folhas de 
oliveira e outros prêmios, como vasos ornamentais 
com azeite de oliva - artigo de luxo à época. O gesto 
de morder começou fora das competições. Era usado 
em moedas na Idade Média e servia para verificar se 
elas eram mesmo de ouro maciço - como ele é mais 
maleável do que outros metais usados para cunhar, 
ficava com a marca dos dentes. Inspirado nisso, um 
engraçadinho trouxe o costume aos Jogos Olímpi-
cos modernos, como se verificasse se a medalha era 
genuínaO. Com o tempo, o gesto virou sinônimo de 
vitória, semelhante a erguer uma taça. 
Por que o futsal ainda não 
é um esporte olímpico? 
Artur Tintí. Natal. RN 
TINHA TUDO PARASER. Cumpre 
os requisitos do COI, mas bate 
na t rave por questões políticas 
e comerciaisO. A teoria conspi-
ratória é de que a modalidade 
está no meio de um cabo de 
guerra (esse, sim, já esteve em 
cinco Olimpíadas) entre COI 
e Fifa. O Comitê só aceitaria o 
futsal nos Jogos se o futebol de 
campo pudesse ter atletas de 
todas as idades - atualmente, 
só três jogadores de cada time 
podem ter acima de 23 anos, 
uma maneira de não fazer 
sombra à Copa do Mundo. Mas 
há uma esperança aos boleiros 
de salão: a bola vai rolar nos 
Jogos Olímpicos da Juventude 
2018, em Buenos Aires. 
COMO É 
QUE É? 
CONEXÕES Logos "Palavra" em grego. 
Do Logos 
aos Jogos 
or Tia o Jokura 
A partir do séculos a.e., com 
o filósofo Heráclito, passou a 
designar também racionalidade. 
Vem daí "logia", aplicado a á reas 
do conhecimento, como tecnolo-
gia, biologia etc. O Evangelho de 
joão, da Bíblia, escrito em grego, 
começa assim: " No principio era 
o verbo" (logos), referindo-se a ... 
Por que as corridas 
no atletismo são 
sempre em sentido 
anti-horário? 
Crisóstomo Soares 
Rodri ues São Luís MA 
TRADIÇÃO DA HORA, 
essa. Fazer curvas sempre 
à esquerda não é herança 
comunista, mas das corri-
das de cavalo dos EUA no 
século 20. No atletismo, 
é uma exigência da 
Associação Internacional 
das Federações At léticas 
(IAAF na sigla em inglês)&. 
Mas não foi sempre 
assim: nas primeiras 
quatro Olimpíadas da 
Era Moderna, de 1896 
a 1908, as corridas de 
pista seguiam o sentido 
dos ponteiros. 
1PÉXH xwp[ç va qnáoa 
(tréchei chorís na ftásei) 
Correndo 
sem 
chegar 
EM GREGO. significa 
estar ocupado de ma is. 
Expressão adequada para 
o país que legou ao mun-
do uma corrida milenar 
de 42 km: a maratona. 
Jesus Viveu pouco mais de 
30 anos num mundo sem 
internet e redes sociais. Morreu 
faz dois mil anos e até hoje 
ninguém tem mais seguidores 
que ele. Há quem garanta que 
esse fenômeno pop mi lenar te-
ri a sido previsto séculos antes, 
na lndia, em textos siilgrados 
escritos em ... 
70 SUPER AGOSTO 2016 
Fontn © Anthony Th. 8ijkerk, wuedno ge-;M セ@ sッ」セ。、エ@ ャョエ・イセャセ、・@ HistOl"ladotH Olímpicos t aョ、イ←cセ イ 。イッ L@ ィセエッイゥNャ、ッイ@ e tducador flsico d;a UFPR. 
@ cッョヲエ、・イ。￧セ@ Br;ulleir;a de Ath!tismo • C8At e R<lflning Through セ@ Agn, dt Edw;1rd S. セ。イセ N `@ The lnttmotiooo/Otympic CommittH and rht Olympk 
Snttm, dt )e;1n·Loup c ィ セ ー ー・ャN・エL@ Conftder;içiko Brasileirii dt Futtbol dt S;à.\o, fエA、ゥ_イセセ@ P.iulist<1 de Futsal t Fifa. 
MANUAL Como conquistar 
セ@
セ@ uma medalha olímpica 
ESCOLHA A MODALIDADE 
Procure esportes de atletas longe-
vos, com alta performance depois 
dos 30 anos. Os medalhistas mais 
velhos da história conquistaram 
o ouro aos 64 em ti ro esportivo 
{Oscar Swahn) e tiro com arco 
{Galen Spencer). Hiroshi Hoketsu 
competiu no adestramento 
{h ipismo), com 71 anos. 
TROQUE DE NACIONALIDADE 
Então pesquise sobre países 
em que seja fácil se naturalizar 
e que não tenham muitos com-
petidores em sua modalidade. 
Investindo US$ 100 mil, você 
compra cidadani;a em Dominica NNN⦅セMᆳ
e pode tentar representar o país 
nos Jogos - uma vez no páreo, 
tudo pode acontecer. 
Sânscrito Idioma oficial do 
hinduísmo. O texto sagrado 
Bhavishya Purono menciona 
um "filho de Deus", "nascido 
de uma virgem" - lembrou 
alguém? Também do sânscrito 
vem o termo dyaus pita (pai 
do céu), cuja fonética e etimo-
logia inspiraram o nome de 
outra famosa divindade ... 
Zeus O todo-poderoso 
da mitologia grega, pai 
dos deuses e dos homens. 
Segundo a tradição, residia 
no topo do Monte Olimpo, 
junto com os outros 
deuses do panteão. Em 
sua homenagem e para 
seu ent retenimento foram 
criados os ... 
DE CARONA E NO GRITO 
Se você é sedentário convicto, 
não muito pesado e gosta de 
maAtfar Aes e1:1tres Liderar, 
remo é o atalho para a glória. A 
categoria "oito com" tem a figura 
do t imoneiro, que dita o ritmo de 
oito remadores. Nada mais justo 
que receber uma medalha junto 
com quem cansa o braço. 
Há medalhas leiloadas. Iniciando 
em RS 100 tem medalhas que os 
atletas recebem por participação 
e até réplicas das medalhas dos 
vencedores. Agora, para pendurar 
no pescoço uma legítima de Mu-
nique 1972, só desembolsando, no 
mínimo, uns R$ 50 mil no eBay. 
Jogos Olímpicos 
Inaugurados em 776 a.e., 
em Olímpia, na Grécia - até 
hoje é onde se acende o fogo 
olím pico, símbolo das Olim-
píadas. Na origem dos Jogos, 
além dos duelos esportivos, 
havia competições artísti-
cas, incluindo poesia: a arte 
de jogar com o logos. 
AGOSTO 2016 SUPER 7J.. 
MUNDO SUPER 1 -+ NOSSA REOE SOC IAL 
O REI NA BARRIGA 
Flora 
em festa. 
Com 500 milhões de neurônios, o sistema digestivo controla muito do que 
fazemos e pensamos. Depois que a matéria de capa Seu segundo cérebro 
Qulj16) foi às bancas, o tema também tomou conta da nossa caixa postal. 
o QUE TANTO expli camos no consultó-
rio enfim vem ganhando espaço! 
odra atriciasu im a 
LEIAM E vocÊs vão entender por que 
nós nutricionistas falamos tanto de 
probióticos, saladas cruas e alimentos 
de verdade! Intestino: seu segundo 
cérebro!! ! 
Gabriela Junqueira 
FICO MUITO FELIZ com a divulgação 
cada vez maior de informações sobre 
este tema. Baixa imunidade, depressão, 
ansiedade, fadiga, insônia podem estar 
relacionados a um desequilí brio da mi-
crobiota intestinal. A prevenção de do-
enças começa com a sua saúde 
intestinal! 
odanuzaferreironut 
QUEM ESTUDA sobre nootrópicos sabe 
dessa informação ... Muito interessante 
mesmo.:-} 
Saullo Zanello 
EU ATÉ FARIA uma correção: intestino 
ê o primeiro cérebro! A nossa flo ra in-
testinal modula a absorção de nutrien-
tes, é responsável pela imunidade, hu· 
mor, depressão ... Por isso, na nutrição 
funcional, é nossa primeira abordagem. 
oanorosanutri 
MINHA POPULAÇÃO intestinal está em 
festa. Sou entusiasta dos "poderes da 
microbiota intestinal". Só fiquei tensa 
pois, há 6 anos, quando conheci meu 
marido, fu i a responsável pelo diagnós-
tico de H. pylori que ele t ratou com an-
tibióticos. Se livrou da dor no estôma-
go, mas ganhou muito peso! E agora? 
Conto pra e le ou não que H. pylori aju-
da a controlar a fome?! 
Renato Giudice de Oliveira Lewis 
EMBATE -+ NOPOST "GOVERNO OECIOE PERMITIR QUE JOGUEM VENENO EM CIMA OE NOSSAS CABECAS' http://abr.ai / veneno 
Um a polêmica, 
duas opiniões. 
72 SUPER AGOSTO 2016 
QUANDO ERA CRIANÇA, caminhões jogavam 
fumaça de veneno nas ruas toda semana e 
nunca aconteceu nada. Não sei por que tanto 
alarde. Se fizesse mal, o governo também teria 
prejuízo e ninguém quer isso. 
Thais Fontes 
ASSIM COM A DESCULPA da zika e 
dengue vão continuar intoxicando a 
população como já fazem com a 
enorme quantidade de agrotóxicos da 
produção de commodities brasileira. 
Mareio Frapiccini Ferreiro 
Foto tッュセウ@ Arthuzzi 
3 
leitores 
solidários 
Comentári os 
sobre Procu -
rando Dory 
é um filme so-
bre deficiência 
intelectual -
e isso é ótimo 
htt p://abr.ai/ 
!2Q.u. 
o 
Problema de 
memória é 
algo sério, mas 
tem gente que 
trata a pessoa 
como imbeci l, 
irresponsável. 
Hslsna 
Morelli. 
e 
O filme mostra 
como a família 
pode criar 
estratégias para 
lidar com pessoas 
com deficiência 
neurológica, e 
como a inclusão 
e a compreensão 
do paciente sobre 
a própria doença 
são importantes. 
Nathaly 
Andrade 
e 
Aceitação e amor 
às pessoas com 
dificu ldades! 
Amei o filme! 
E o curta que 
vem antes fala 
sobre resili ência. 
Programâo! Rita 
Barbosa 
Domínio do idioma Sabem o que eu achei da matéria dos 
emojis' *:-?pensando,*:) feliz, *:D sorrisão, *;) piscando 
Vanessa de Andr ade sobre A vida secreta dos emojis (jul/16) 
AGROFLORESTA 
''História bem 
co11tada, 
atrac11tc e 
com o bô1111s 
de falar do 
Osvaldinho, 
uma das 
pessoas mais 
」ウセ」ゥ。ゥウ@ 1111c 
co11ltcci." 
Davana Andrade 
da Agenda Gotsch, 
sobre A revolução da 
floresta(jul/16). 
Oplaiza carlis compartilhou em seu 
lnstagram uma foto do Livro Cii ncia 
Maluca. Ela contou que foi atraída pela 
forma leve e divertida que a autora 
escreveu sobre as pesquisas. 
Desde o dia em quemeu professor levou algumas edições 
da SUPER para a escola, a revista me fascina por me divertir 
e me ensinar. Em 2014, antes de embarcar para um intercâmbio na 
Inglaterra, corri para a banca do aeroporto garantir a últ ima SUPER 
que leria no ano. Mesmo Longe da revista, o site continuou sendo 
minha página inicial do computador. Quando voltei, retomei logo 
a assinatura da versão impressa. 
Vi nícius Oalla Corte 
FALE COM A GENTE! r・、セゥッ Z@ ウ オセイャ エゥ エッイ ` 。「イゥ ャN」ッ ュ N 「イャ@ ÀY. d;as Nações Unid;as, 7221, 2oa .lndM, セッ@ P.lulo-SP, 
CEP 05425-902 . .lbslnaturas: assinl!'abril.com ! o8oo 775 1818 ou 11 3347-2121. Suvlço de Atendimento ao Cliente: 
abr/Jsac.com 1o8oo7751112 ou 11 5087-2112. Publi cidad•: publiabrl/.com.br l 11 3037-2528 / 3037-4740 J 3037-348s. 
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a partir de 9 de agosto. 
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v 1 a E a 
2 minutos para entender 
Desenhamos para você enten-
der como o dinheiro público foi 
gasto para as Olim píadas. 
http: l labr. ailolimpiadario 
FOI MAL 
• Não esquecemos que a 
Guiana Francesa faz divisa com 
o Brasil e Suriname, apesar de 
não est ar no mapa (Salário 
anual, jul}16) • A quantidade 
de pessoas no quadro "Países 
que mais visitam o Brasil" 
não é em milhões, mas em 
número absoluto. {Destino: de 
ninguém, jun/16)· A equipe 
Cloud 9 não venceu o campeo-
nato mundial em 2014 - e sim 
um desafio global, com times 
da América do Norte, Europa e 
América latina. (O lado som-
brio dos eSports, jul/16). 
AGOSTO 2016 SUPEA 73 
REALIDADE ALTERNATIVA 1 -+ 11.364 CARACTERES OE LIT ERATU RA 
74 SUPER AGOSTO 20 16 
Questão de gosto 
Um conta de E11iliano Urbim Ilustração Arthur Duarte 
[1] 
COMO NAS ÚLTIMAS NOI TES, eu 
desço do metrô, passo pela fila do 
raio-x igual a todo mundo, sou liberado 
e em seguida desço a Rua Augusta em 
direção ao centro. Vou caminhando 
devagar, alternando a atenção entre 
pedestres, trânsito e comércio. Sigo por 
duas quadras até a frente do Espaço 
Oficial de Cinema. Val está vendendo 
liv ros na calçada e me vê aproximar. 
"De novo por aqui>" 
"É meu caminho." 
Enquanto ela atende outro cliente, 
dou uma passada de olhos sobre os 
livros. As Veias Abertas da América 
Latina, manifestos de Hakim Bei, Era dos 
Extremos ... os suspeitos de sempre. Pego 
um que não conheço: Teoria dos Objetos 
Inexistentes, de um tal Alexius Meinung. 
"Esse não está à venda." 
Ainda estou com o livro na mão 
quando sinto um burburinho no ar. 
Nas TVs dos bares ao redor, surge a 
cena repetida desde a madrugada: a 
implosão da estátua do Borba Gato. 
Quando me dou conta, estou assistin-
do novamente ao vídeo: o bonecão 
bandeirante com eterno olhar de tédio 
se desfazendo de baixo para cima, 
como se mergulhasse no ácido. Uma 
nuvem bege tapa tudo. Quando ela se 
desfaz, no lugar do monumento há 
uma pilha de pedras e estranhas barras 
de metal - trilhos de bonde usados na 
obra, como todos já sabem a esse 
ponto. O bar vibra como se fosse um 
gol. E a polícia de choque chega 
batendo e atirando. 
Em meio ao tumulto, Vai já trans-
formou sua banca em mala, que arrasta 
com dificuldade calçada abaixo. 
Alcanço-a e ajudo a levar a carga, ao 
mesmo tempo protegendo a garota da 
mira dos policiais. Quando dobramos a 
esquin a da Antônio Carlos, sinto 
marteladas nas costas, nas coxas, na 
nuca. Balas de borracha. 
"Dá pra ir, cara?" - ela pergunta. 
"Dá." 
[2] 
Quando eu era pivete, dizia que esse 
prédio era o "castelinho da Frei 
Caneca". Acho que foi alguma coisa do 
governo italiano, há anos está abando-
nado. Descansamos no pátio da frente, 
atrás do muro, um bom esconderijo. 
Ou não. Val entende meu olhar tenso. 
"Calma, eles ficaram lá pela Augusta. 
Olha essas feridas sangrando ... Quando 
achei que a gente tava fudido você 
acelerou, foi me puxando. Valeu por 
ficar na frente dos tiros, cara. Como é 
seu nome mesmo?" 
"Lucas. Ou o que restou dele." 
Piada mais velha que andar pra 
frente, mas ela não conhece e ri tossin-
do, mostra os dentes muito brancos. 
Depois, passa a mão nos cabelos negros 
e lisos e adota uma expressão séria no 
rosto pálido. Comenta que a cidade está 
cada vez pior: ambulantes agredidos, 
mendigos com chips de localização, 
raio-x em tudo que é canto, rodas de 
conversa desfeitas a cassetete. Eu dou 
corda, quero agradar, tento dizer as 
coisas certas. Ela se entusiasma, levanta 
a voz, lembra do bar: o pessoal sabia que 
ia tomar porrada, mas comemorou 
mesmo assim. Aproveito o embalo e 
digo que faço arquitetura, que a 
implosão é um manifesto estético, que o 
terrorismo estético destrói o que não 
deveria ser construído, que a feiura do 
monumento dá lugar à beleza do vazio, 
sei lá, empilho um monte de coisas que 
li na internet durante o dia. Vai está com 
os olhos brilhando. 
"Você entendeu tudo, Lucas." 
'Tudo o quê?" 
"Quero te apresentar um pessoal." セ@
AGOSTO 2016 SUPER 75 
REALIDAD E ALTERNATIVA 
(3] 
Ainda dolorido com os ferimentos da 
semana passada, pulo um muro e 
encontro Vai no lugar marcado, a mão 
gigante do Memorial da América 
Latina. Em silêncio ela me guia pela 
praça de concreto até uma pracinha 
que eu nunca reparei que estava aqui 
dentro. Espalhados pelos bancos e 
brinquedos, manos e minas represen-
tantes de várias tribos urbanas: 
ciclistas, skatistas, grafiteiros, hipsters, 
hippies, punks, galera do hip-hop ... 
Vai me apresenta em cada rodinha, 
fala da confusão da Augusta, dos tiros 
que eu tomei por ela. A pedidos, eu 
tiro a camisa, mostTO os curativos e os 
machucados, conquisto aprovação e 
até admiração. Ela tem muita moral 
no grupo, suficiente para trazer um 
intruso para essa sociedade secreta. 
Mas o clima não é de desconfiança, é 
de festa. Além dos entorpecentes 
previsíveis, circulam várias cópias de 
Teoria dos Objetos Inexistentes, deve ser 
uma Btblia do movimento. Todos se 
dão tapinhas nas costas, se abraçam 
como se fosse Natal. Após alguns dias 
de tensão, estão todos excitados, muito 
orgulhosos do que fizeram: são os caras 
por trás da implosão do Borba Gato. 
Como alvo inicial, foi perfeito: ninguém 
gostava daquela estátua. Vou pescando 
palavras de ordem: acabar com os 
ultrajes urbanísticos, com as obscenida-
des arquitetônicas, com os estupros da 
paisagem. Cada um fala uma coisa, mas 
o resumo é que, de implosão em 
implosão, eles vão ganhar apoio, 
crescer, se multiplicar, sair das sombras, 
derrubar a ditadura tecnocrata da 
Cidade-Estado de São Paulo, espalhar 
uma onda demolidora por tudo o que já 
foi o Brasil... Tipo de papo que em qual-
quer outra noite eu responderia com 
ceticismo. Mas estou aqui com a Vai e, 
quando vejo o entusiasmo dela, quase 
acredito na causa. Posso estar confun-
dindo as coisas. 
O encontro segue animado até que 
surge do nada um cara de tapa-olho 
com olhar inquisidor - se é que isso é 
possível. Como se fosse combinado, 
todos se calam para que ele fale. 
"Quem é o amigo, Vai?" 
"Esse é o Lucas. Ou o que restou dele." 
76 SU PER AGOSTO 2016 
Todos riem. Sério que ninguém 
conhece essa piada' Vai faz toda a 
apresentação de novo, diz que eu 
estudo arquitetura, sustenta que eu 
posso ajudar a causa, assim como 
outros calouros que estão aqui nesta 
noite. Mas o sujeito do tapa-olho 
definitivamente não vai com a minha 
cara. Quando ela termina de falar, ele 
dá um sorrisinho condescendente. 
Aplica um teste oral: quer que eu 
sugira o próximo alvo. Babaca. 
"Ponte do Jaguaré." 
O caolho arregala o olho. Acho que 
entendeu onde eu quero chegar. Peço 
licença, tiro o computador da mochila 
e mostro do que estou falando. Os dois 
horrendos viadutos da Ponte do 
Jaguaré, dos anos noventa, escondem 
outra construção, a elegante ponte 
original, dos anos quarenta. Usando os 
mesmos explosivos inteligentes que 
eles usaram no Borba Gato, dá para 
esfarelar as duas partes da ponte nova 
e revelar a antiga. Derrubar o feio, 
descobrir obelo etc. É melhor ainda do 
que só demolir. Eu acho. E eles 
também acham' Até o tapa-olho acha: 
ele vem e dá um aperto de mão teatral. 
Os caras entram em chamas, todos 
abrem seus computadores e blocos de 
notas, estão fazendo cálculos, crono-
gramas. Agora eu que estou orgulhoso, 
mesmo a ideia não sendo 100% minha. 
Mas isso a Vai não precisa saber. 
(4) 
Daqui do alto da passarela dá para ver 
por cima do muro que cerca o 
Condomínio Ibirapuera. É cada 
mansão que a gente não imagina, e lá 
no meião uns prédios mais altos que o 
obelisco da avenida, que deve ter uns 
70 metros de altura. Como dizem no 
grupo, é imperativo que isso volte a 
ser um parque público. Mas será que 
botar tudo abaixo é o melhor jeito de 
chegar lá? Não é possível um outro 
caminho, sem demolições, explosões, 
implosões? Mas a Vai não marcou 
encontro aqui para falar de bombas. 
Espero. Sei que meu foco deveria estar 
na operação da ponte, mas desde que 
começou a rolar esse lance entre a 
gente ... Ela não gosta de pôr rótulos 
nos relacionamentos. Lá vem ela. 
"Eu queria te mostrar uma coisa, 
Lucas. Mas você não pode falar pra 
ninguém que eu te mostrei. A gente 
nem deveria estar aqui." 
"Mostrar o quê?" 
"É uma surpresa. Uma surpresa 
muito boa. Que já está chegando." 
Ela fala fazendo longas pausas entre 
uma frase e outra. Pausas propositais, 
não está pensando no que vai dizer. Já 
sabe o que vai dizer e está deixando o 
tempo passar. Ela quer que eu adivinhe. 
"Você está grávida'" 
"MAS DE ONDE voei': TIROU ISSO?" 
"Sei lá, eu .. ." 
"Começou." 
Sinto um tremor sob meus pés, 
como eu imagino que seja um terre-
moto. Parece que o mundo virou um 
vagão de metrô desgovernado, é difícil 
ficar em pé. Agora eu nem consigo 
ouvir o que a Vai está dizendo, porque 
até barulho de metrô eu estou ouvin-
do. De onde vem esse tremor, esse 
ruído? Ela aponta para o outro lado. 
Meio desequilibrado, eu me viro. 
Caralho. 
Implodiram o Obelisco do 
Ibirapuera. 
[5] 
Eu não sabia, mas todo o esquema na 
Ponte do Jaguaré já havia sido cancela-
do quando o grupo percebeu que os 
agentes da cidade-estado estavam de 
olho no local. A partir daí, eles 
adotaram um plano B: para evitar 
vazamentos, uma equipe armou em 
segredo a destruição do obelisco. Isso 
tudo a Vai me contou quase pedindo 
desculpas. Eu disse que rudo bem. Eu 
tinha que dizer, porque para eles foi 
um sucesso estrondoso, muito maior 
do que o Borba Gato. 
Do nada, todos estão adotando o 
discurso da destruição criativa. 
Pipocam nomes de organizações 
coirmãs em outras cidades: Brigada 
AntiConcreto, Falange lmplosiva, 
Tudo que é Sólido Desmancha no Ar. 
A gente mal consegue mapear o que é 
real, o que é piada e o que é bloco de 
Carnaval. Cada um tem seus próprios 
critérios sobre o que é bonito ou não. 
Se para uns feiura são construções 
neoclássicas em cidades jovens, para 
outros são espigões espelhados ou 
edifícios-garagem. Em Porto Alegre, 
destruíram o muro que separa o centro 
do Lago Guaíba; no Rio, protegeram o 
Cristo Redentor, mas os ativistas 
queriam mesmo era derreter o bronze 
das estátuas de celebridades. 
Enquanto isso, o grupo de São 
Paulo, onde tudo começou, planeja a 
sua nova ação. É algo grande, enorme, 
maior do que qualquer coisa que eles já 
fizeram. Vão precisar da Vai, de mim, 
de todo mundo em quem eles confiam. 
Afinal, não é simples implodir de uma 
vez só um viaduto com três quilôme-
tros e meio de extensão. 
[6] 
Uma ferida aberta no coração da 
metrópole. Uma cicatriz no tecido 
urbano. Uma ofensa da Engenharia 
contra a Sociologia. O inconcebível 
tornado irreversível. O troféu mais 
cobiçado da patrulha estética. O 
Elevado Costa e Sil va. O Minhocão. 
São duas da manhã e eu estou diante 
da porção central do viaduto, na 
Avenida Angélica. Desde a meia-noi-
te integrantes do grupo disfarçados 
com uniformes oficiais controlaram 
os acessos, evacuaram a área e não 
deixaram ninguém entrar . Ficaram só 
os responsáveis pelas instalações dos 
explosivos inteligentes e dos detona-
dores Wi-Fi. Vejo pelo binóculo Vai 
coordenar sua equipe, finalizar os 
últimos detalhes para a implosão da 
v ia expressa. 
Mas isso nunca vai acontecer. Eu 
não vou deixar. 
Pelo rádio, ouço toda a operação ir 
pelos ares. Dessa vez, as forças da 
cidade-estado estão no local certo e 
na hora certa. Enquanto um batalhão 
vem da Consolação, outro vem pelo 
acesso do Largo Padre Péricles, com 
vários destacamentos penetrando 
pelos acessos secundários. Um a um, 
os membros do grupo vão sendo 
dominados. Um bom plano, que tem 
inclusive um capricho pessoal. 
Chamo Vai pelo rádio. 
"Lucas' Você está na vigilância' O 
que está acontecendo?" 
"Acabou, Vai. A polícia pegou 
todos. Mas ainda não chegou aí. Você 
ーッセ・@ se salvar;" " 
Comovoce ... 
"Vai, me ouve. Não sou arquiteto, 
sou policial, infiltrado, desde o começo. 
Mas nunca falei de você nos relatórios. 
Você não existe pra eles. Foge agora." 
Sinto um tremor sob meus pés. 
Uma nuvem bege tapa tudo. 
[7] 
A perícia esclareceu: foi um acidente. 
Um dos explosivos inteligentes era 
burro, e explodiu justo a parte do 
Minhocão onde Vai estava. Eu devia 
ter feito diferente, ter contado quem 
eu era) Devia ter prendido ela' Ela ia 
me odiar pra sempre, mas não mais 
do que eu me odeio. 
Vingou a lenda de que Vai se matou 
pela causa. Ela e outros que explodiram 
junto viraram mártires. O local virou 
uma espécie de sanruário, e todos 
ganharam memoriais pela cidade. São 
pilhas de destroços estilizadas, como se 
fossem restos de cenário de um filme 
de desastre. Novos monumentos. Para o 
meu gosto, são horríveis. O 
Emiliano Urb im é jornalista, roteirista e escritor 
- estã na recém-lançada coletánea de contos He-
róis Urbanos (Rocco). Nascido em Porto Alegre, 
mora no Rio e morre de saudades de São Paulo. 
AGOSTO 2016 SUPER 77 
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