Prévia do material em texto
NUTRIÇÃO MINERAL DE PLANTAS INTRODUÇÃO PARTE I - A AQUISIÇÃO DE NUTRIENTES Capítulo 1 – Elementos Essenciais Capítulo 2 – Raízes Capítulo 3 – Micorrízas Capítulo 4 – Soluções Nutritivas Capítulo 5 – Absorção de Nutrientes Capítulo 6 – Fixação Biológica de N2 Capítulo 7 – Efeitos Fisiológicos de Substâncias Húmicas Capítulo 8 – Efeitos Fisiológicos do Óxido Nítrico PARTE II - OS MACRONUTRIENTES Capítulo 9 – Nitrogênio Capítulo 10 – Potássio Capítulo 11 – Fósforo Capítulo 12 – Cálcio, Magnésio e Enxofre PARTE III - OS MICRONUTRIENTES Capítulo 13 – Micronutrientes PARTE IV - OS ELEMENTOS BENÉFICOS Capítulo 14 – Silício, Sódio e Cobalto PARTE V - OS ELEMENTOS TÓXICOS Capítulo 15 – Alumínio Capítulo 16 – Metais Pesados 1 CAPÍTULO 1 ELEMENTOS ESSENCIAIS E BENÉFICOS ÀS PLANTAS SUPEIRORES Antonio Roque Dechen (1) ;Gilmar Ribeiro Nachtigall (2) (1) Professor do Departamento de Solos e Nutrição de Plantas – ESALQ/USP – C. Postal 9, 13418-900, Piracicaba, SP. ardechen@esalq.usp.br. (2) Eng. Agrº. Pesquisador da Embrapa Uva e Vinho, C. Postal 130, 95700-000, Bento Gonçalves, RS. gilmar@cnpuv.embrapa.br. SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO............................................................................................................................................. 2 2 CRITÉRIOS DE ESSENCIALIDADE ......................................................................................................... 3 3 REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA............................................................................................................... 7 2 1 INTRODUÇÃO O uso de técnicas de cultivos hidropônicos com soluções de composição química bem definida e a possibilidade de obtenção de compostos químicos de alto grau de pureza foram fatores que contribuíram muito para os avanços nas pesquisas em nutrição mineral de plantas, já que possibilitaram o crescimento normal das plantas e permitiram um controle mais preciso no fornecimento de nutrientes às raízes. Revendo a história da nutrição mineral de plantas, provavelmente Woodward em 1699, realizou os primeiros experimentos em cultivo de plantas em meio líquido sem o uso de substratos sólidos. Em 1804, Saussure realizou uma das primeiras tentativas para analisar os fatores envolvidos no cultivo de plantas em meios nutritivos, estabelecendo a necessidade de fornecer nitrato à solução destes cultivos. No século XIX foram realizadas intensas pesquisas envolvendo soluções nutritivas e o crescimento de plantas. Pesquisadores como Sachs, Boussingault e Knop, realizaram experimentos que ajudaram a determinar que certos elementos eram importantes para o crescimento das plantas. O alemão Justus von Liebig compilou em seus livros e cartas publicadas entre 1840 e 1855, informações da época quanto a importância dos elementos minerais para as plantas, referindo-se que os elementos minerais essenciais para as plantas eram: nitrogênio (N), fósforo (P), potássio (K), cálcio (Ca), magnésio (Mg), enxofre (S), silício (Si), sódio (Na) e ferro (Fe), todos retirados do solo, além dos elementos essenciais carbono (C), hidrogênio (H) e oxigênio (O), retirados da água e do ar. Knop, em 1865, publicou os resultados de seu experimento envolvendo o efeito da composição de uma solução nutritiva sobre o crescimento das plantas, bem como propôs uma fórmula de uma solução nutritiva simples, baseada em relações moleculares, a qual foi o 3 ponto de partida para modificações posteriores por outros autores (Ploeg et al., 1999; Furlani, 2004; Epstein & Bloom, 2005). 2 CRITÉRIOS DE ESSENCIALIDADE Em termos médios, o protoplasma de uma planta contém 85 a 90% de água. O conteúdo de água nas raízes, expresso em peso fresco, varia de 71 a 93%, dos ramos de 48 a 94%, das folhas de 77 a 98% e dos frutos entre 84 e 94%. A presença de elementos químicos nas cinzas de uma planta não é um indicador das necessidades quantitativas e qualitativas dos diferentes elementos químicos para uma planta fotoautotrófica, como demonstraram Arnon & Stout (1939), utilizando cultivos hidropônicos. Estes autores estabeleceram três critérios que devem sem atendidos para que um elemento possa ser considerado como essencial: Critério 1: Um elemento é essencial se a sua deficiência impede que a planta complete o seu ciclo vital. Critério 2: Para que um elemento seja essencial, este não pode ser substituído por outro elemento com propriedades similares. Por exemplo: O sódio (Na) apresenta propriedades semelhantes ao potássio (K), contudo não pode substituir o potássio completamente. Critério 3: O último critério que deve ser cumprido é que o elemento deve participar diretamente no metabolismo da planta e que seu benefício não esteja somente relacionado ao fato de melhorar as características do solo, melhorando o crescimento da microflora ou algum efeito similar. A presença de um elemento em altas concentrações em uma planta não é um indicador seguro de sua essencialidade, já que as plantas apresentam uma capacidade de absorção seletiva limitada, de modo que podem absorver pelas raízes elementos minerais não essenciais e/ou mesmo tóxicos. Assim, mesmo que um elemento possibilite melhorar o crescimento ou 4 um processo fundamental de uma planta, não se considera como essencial se não atender os três critérios da essencialidade. Todos os 17 elementos apresentados na Tabela 1 cumprem estas exigências e devem ser fornecidos às plantas para que estas germinem, cresçam, floresçam e produzam sementes. Tabela 1. Relação dos elementos essenciais às plantas superiores, com as concentrações médias na matéria seca da parte aérea de plantas e os respectivos autores que demonstraram a sua essencialidade e o ano em que ocorreu a descoberta. Elemento Concentração na massa seca Demonstração da Essencialidade Ano Carbono (C) 450 g kg-1 Saussure 1804 Oxigênio (O) 450 g kg-1 Saussure 1804 Hidrogênio (H) 60 g kg-1 Saussure 1804 Nitrogênio (N) 15 g kg-1 Saussure 1804 Potássio (K) 10 g kg-1 Sachs & Knop 1860, 1865 Cálcio (Ca) 5 g kg-1 Sachs & Knop 1860, 1865 Fósforo (P) 2 g kg-1 Ville 1860 Magnésio (Mg) 2 g kg-1 Sachs & Knop 1860, 1865 Enxofre (S) 1 g kg-1 Sachs & Knop 1865 Cloro (Cl) 100 mg kg-1 Broyer et al. 1954 Manganês (Mn) 50 mg kg-1 Mazé, McHargue 1915, 1922 Boro (B) 20 mg kg-1 Warington 1923 Zinco (Zn) 20 mg kg-1 Sommer & Lipman 1926 Ferro (Fe) 10 mg kg-1 Sachs & Knop 1860, 1865 Cobre (Cu) 6 mg kg-1 Lipman & McKinney 1931 Níquel (Ni) 3 mg kg-1 Brown et al. 1987 Molibdênio (Mo) 0,1 mg kg-1 Arnon & Stout 1938 Fonte: Malavolta (1980); Marschner (1995). Alguns elementos são classificados como benéficos para algumas plantas, como o sódio (Na), selênio (Se), silício (Si) e cobalto (Co). Por exemplo, existem algumas espécies de plantas de mangue que acumulam Na, já algumas plantas de deserto como Atriplex vesicaria e Halogeton glomeratus que requerem sódio para o seu desenvolvimento, enquanto para a Amaranthus tricolor (espécie C4) o Na é essencial quando em condições de baixas 5 concentrações de CO2; existem plantas como Astragalus, Stanleya e Lecythis que crescem em solos com altas concentrações de Se, constituindo-se em plantas acumuladoras deste elemento. Tem sido proposto que os silicatos presentes em folhas e inflorescências de gramíneas podem impedir ou diminuir o ataque por animais e insetos. O Co é essencial e necessário para a fixação do nitrogênio (N) por bactérias presentes nos nódulos das raízes de leguminosas, bem como para bactérias de vida livre que fixam N. Desta forma, os elementos requeridos pelas plantas podem ser classificados como essenciais e benéficos, contudo, esta listagem atual pode ser ampliada, já que com o avanço das técnicas analíticas, outros elementos exigidosem quantidades mínimas poderão ser considerados essenciais ou benéficos às plantas. O conteúdo mineral dos tecidos vegetais é variável, dependendo do tipo de planta, das condições climáticas existentes durante o período de crescimento, da composição química do meio e da idade do tecido entre outros. Por exemplo, uma folha madura provavelmente contém uma concentração de nutrientes maior do que uma folha muito jovem. Por outro lado, uma folha madura pode ter uma concentração de nutrientes maior do que uma folha velha, devido ao processo de perda de minerais solúveis em água, ao ser lavado pela água de chuva ou mediante mecanismos de translocação para folhas jovens. Os elementos minerais essenciais são denominados nutrientes minerais e são classificados, conforme as quantidades exigidas pelas plantas em: macronutrientes que constituem aproximadamente o 99,5% da massa seca e em micronutrientes, que constituem cerca do 0,03%. Desta forma, são considerados macronutrientes os nutrientes C, H, O, N, P, K, Ca, Mg e S e como micronutrientes os nutrientes B, Cl, Cu, Fe, Mn, Mo, Ni e Zn. Esta classificação é utilizada sob o ponto de vista da nutrição mineral de plantas e da fertilidade do solo. 6 Segundo Mengel & Kirkby (2001), sob o ponto de vista fisiológico é difícil justificar a classificação dos elementos essenciais às plantas segundo a classificação de macro e micronutrientes, dependente da concentração do nutriente nos tecidos da planta. Segundo estes autores, a classificação dos elementos essenciais às plantas seguindo um critério que leve em consideração os processos bioquímicos e as funções fisiológicas é mais apropriada, e estabeleceram uma classificação dos nutrientes em quatro grupos segundo estas características (Tabela 2). Tabela 2. Classificação dos elementos essenciais às plantas Nutriente Absorção Funções Bioquímica 1° Grupo C, H, O, N, S Na forma de CO2, HCO 3- H2O, O2, NO3 -, NH4 +, N2, SO4 2-,SO2, na forma de íons da solução do solo, de gases e da atmosfera. Maior constituinte de compostos orgânicos. Elementos essenciais de grupos atômicos que são envolvidos em processos enzimáticos. Assimilação por reações de oxidação-redução. 2° Grupo P, B Na forma fosfatos, ácido bórico ou borato, absorvidos da solução do solo. Esterificação com grupos alcoólicos em plantas. Os esteres de fosfato estão envolvidos em reações com transferência de energia. 3° Grupo K, Mg, Ca, Mn, Cl Na forma de íons da solução do solo. Funções não específicas, estabelecendo potencial osmótico. Reações mais específicas nas qual o íon proporciona um melhor arranjo em enzimas protéicas (ativação de enzima). Balanceamento iônico. Controlando a permeabilidade de membrana e o potencial elétrico. 4° Grupo Fe, Cu, Zn, Mo Na forma de íons ou quelatos da solução do solo. Presente predominantemente em formas quelatadas incorporadas em grupos prostéticos. Habilita o transporte de elétron através da mudança de valência. Fonte: Mengel & Kirkby (2001). 7 3 REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA ARNON, D.I.; STOUT, P.R. 1939. The essentiality of certain elements in minute quantity for plants with special reference to copper. Plant Physiology, 14:371-375. EPSTEIN, E.; BLOOM, A.J. 2005. Mineral nutrition of plants: Principles and perspectives. Sinauer, Massachusetts. 400p. FURLANI, A.M.C. 2004. Nutrição mineral. In: Kerbauy, G.B. Fisiologia vegetal. Editora Guanabara Koogan, Rio de Janeiro. pp.40-75. MALAVOLTA, E. 1980. Elementos de nutrição mineral de plantas. Ceres, São Paulo. 254p. MARSCHNER, H. 1995. Mineral nutrition of higher plants. 2th ed. Academic Press, London. 889p. MENGEL, K.; KIRKBY, E.A. 2001. Principles of plant nutrition. 5. ed. Kluwer Academic, Dordrecht. 849p. PLOEG, R.R.; BÖHM, M.; KIRKHAM, M.B. 1999. History of soil science. On the origin of the theory of mineral nutrition of plants and the law of the minimum. Soil Science Society of American Journal, 63:1055-1062. CAPÍTULO 2 O SISTEMA RADICULAR E SUAS INTERAÇÕES COM O AMBIENTE EDÁFICO Everaldo Zonta1; Felipe da Costa Brasil2; Silvia Regina Goi3; Maria Mercedes Teixeira da Rosa4 1 – Prof. Dr. Departamento de Solos – UFRRJ – ezonta@ufrrj.br 2 - Prof. da Universidade Severino Sombra, Vassouras, RJ. 3 - Prof. Dr. Departamento de Silvicultura – UFRRJ 4 - Prof. Dr. Departamento de Botânica – UFRRJ 1. INTRODUÇÃO Durantes muitos anos (até meados do século passado), as raízes foram consideradas como a “metade oculta” dos vegetais (Waisel, et al, 2002), com uma significativa escassez de resultados de pesquisa sobre este tema em todo o mundo. As razões para esta carência de dados são historicamente explicáveis pelas dificuldades metodológicas (Van Noordwijk, 1993), a própria inacessibilidade ao sistema radicular como objeto de experimentação, sua complexidade tridimensional e sua marcada variabilidade espacial e temporal (Van Noordwijk, 1993). Hoje existe consenso da importância desses estudos com observações in situ no campo, para o manejo das lavouras, que quando associado aos fatores edafoclímaticos são fundamentais para a otimização das práticas de adubações e aplicações de pesticidas de solo, além das demais como, tratos culturais, densidade de plantio, irrigação, cultivos intercalares e na arborização urbana. Os estudos das raízes são ainda fundamentais para o entendimento das relações de absorção de água e nutrientes, necessários aos avanços das pesquisas básicas que nortearão os estudos aplicados. Neste capítulo, serão apresentados de forma sucinta os conhecimentos acumulados sobre sistemas radiculares, tanto básicos como práticos, obtidos nas ultimas décadas, de estudos sobre o assunto. 2. Origem e funções das raízes Filogenéticamente, as raízes são órgãos recentes, cujo aparecimento data da fixação dos vegetais na terra, da diferenciação do sistema vascular e novas rotas metabólicas conducentes à síntese de substâncias fenólicas e ligninas (Chriqui et al, 1996). Os ancestrais mais antigos conhecidos de plantas vasculares pertencem ao gênero Rhynia, que existiram durante o período Siluriano e Devoniano (há cerca de 354 a 435 milhões de anos). Eram plantas aquáticas sem sementes, não havendo diferenciação morfológica de suas partes (raiz, caule e folha), constituídas unicamente de um eixo com ramificações dicotômicas, possuindo, no entanto, estômatos e um sistema fotossintético rudimentar. É muito provável que as raízes tenham surgido ao longo da evolução, a partir da parte subterrânea do eixo da Rhynia, ou de uma subespécie um pouco mais evoluída, no final do período Devoniano ou no início do período Carbonífero da Era Paleozóica. Inicialmente, este sistema radicular pouco definido morfologicamente, tinha como função a fixação da planta no seu ambiente e substrato, visto que a absorção de água e nutrientes era primordialmente processada pela parte aérea, já que estas viviam em meio aquoso (Raven et al, 1996). Especificamente, as raízes, como órgãos distintos da parte aérea, evoluíram nas esporófitas, quando da maior ocupação do ambiente terrestre, onde, estruturas semelhantes a raízes penetravam a quase um metro dentro do substrato, aumentando o volume de material mineral sujeito à intemperização, pelo aumento do nível de CO2 gerado pela respiração das plantas e microrganismos em materiais com contacto restrito com a atmosfera. Estruturas mais refinadas envolvidas na absorção de nutrientes de baixa difusão no solo evoluíram a pelo menos 400 milhões de anos atrás, como as micorrizas arbusculares (capitulo 3 deste volume) ou pêlos radiculares. (Raven et al, 1996). Com essa evolução, o sistema radicular, subterrâneo e heterotrófico, passou a desempenhar funções mais complexas, como a fixação das plantas e a absorção e condução de água e nutrientesdo meio externo até o caule. Funções estas, primordiais para o desenvolvimento vegetal e indiscutivelmente necessárias para a sobrevivência de toda e qualquer espécie (Raven & Edwards, 2001). Particularmente, em algumas espécies, além das funções primárias de sustentação e absorção de água e nutrientes, houve evolutivamente, a necessidade das raízes cumprirem outras funções, em parte moduladas pelo ambiente a que estavam submetidas, tais como: a) dreno final no armazenamento de substâncias de reserva, b) propagação e dispersão da espécie, c) nicho ecológico para simbiontes e organismos livres associados à rizosfera, d) produção de metabólitos secundários, e) aeração (oxidação) da rizosfera, e, f) síntese de reguladores de crescimento (Raven et al, 1996). Ainda, em modelos singulares de sistemas radiculares (como em orquídeas) os sistemas radiculares podem ser aéreos e fotossintetizantes (Peres & Kerbauy, 2000). Independentemente das características específicas, o primórdio do sistema radicular em plantas vasculares é o embrião (esporófito jovem), formado por um eixo caulinar (hipocótilo-epicótilo), uma ou duas folhas embrionárias (cotilédones) e por uma raiz embrionária (radícula). Com a germinação da semente, a radícula sofre divisões e alongamentos celulares por um período de tempo e espaço variado e com tendência caótica até o seu desenvolvimento total (Figura 1), e originando raízes laterais de primeira, segunda, terceira e demais ordens. Figura 1. Desenvolvimento de uma eudicotiledônea (sombreiro), mostrando a raiz principal e raízes laterais de primeira e segunda ordem. Desenho de Maria Mercedes Teixeira da Rosa, Depto de Botânica – IB – UFRRJ (2005). 3. Anatomia Radicular A unidade básica e estrutural da anatomia é a célula, que se caracteriza pela presença de parede celular envolvente, que mantém sua forma independente da célula estar viva ou não. Agrupadas, estas estruturas compõem todo o vegetal desde suas raízes até o pólen. A organização particular e especializada de parte destas células determina a anatomia radicular das plantas, conforme mostra Figura 2. Figura 2. Estrutura anatomica da raiz principal de Ravenala madagascariensis, na região de ramificação. Secção transversal. Desenho de Maria Mercedes Teixeira da Rosa, Depto de Botânica – IB – UFRRJ (2005). 3.1. Ápice da raiz O ápice da raiz (Figura 3a) em crescimento é protegida pela coifa que consiste de camadas de células concêntricas que envolvem o meristema apical onde novas células são produzidas. É freqüentemente coberta por uma grossa camada de mucilagem (Figura 3b), usualmente considerada um lubrificante, para ajudar o ápice a atravessar o solo. A mucilagem também protege contra a dessecação, especialmente se contém arabinogalactanas que se associam a partículas do solo e ajudam a garantir a continuidade do filme de água entre o solo e a raiz (Lynch, 1990). A mucilagem também tem a função de proteção contra substâncias tóxicas do solo e funciona como superfície de absorção, afetando a troca iônica, dissolvendo e provavelmente formando quelatos com certos nutrientes. À medida que novas células são produzidas, as células da periferia da ponta da raiz são destacadas (Figura 3b). Quando a raiz para de crescer, o ápice da raiz pode ser protegido por suberização das suas células externas. Essa metacutinização, que é uma modificação das pontas das raízes dormentes por suberização de uma ou mais camadas de células da coifa (Romberger, 1963), não é produzida em espécies anuais, mas é produzida em espécies perenes como as árvores, presumivelmente como uma forma de proteção contra fatores adversos do solo (Brundrett & Kendrick, 1990). Figura 3. a) Ápice da raiz de cebola. No detalhe, células em diferentes fases de divisão. Depto de Botânica – IB – UFRRJ (2005); b) Células da periferia radicular destacadas e mucigel em raiz de plântula de cana-de-açúcar. Silvia Regina Goi – Departamento de Ciências Ambientais – IF - UFRRJ (2005). 3.2. Epiderme A epiderme, chamada por alguns autores de rizoderme, presente na estrutura primária, funciona como interface entre a planta e o solo. A parede celular de células da epiderme podem ser suberizadas, lignificadas ou relativamente não modificadas. Células da epiderme de raízes novas secretam mucilagem. 3.3 Córtex O córtex, região compreendida entra a epiderme e o cilindro central, é freqüentemente composto por células do parênquima. O córtex pode se diferenciar em aerênquima (Figura 2), com espaços intercelulares representados por grandes lacunas. O aerênquima das raízes é considerado como um tecido que serve ao transporte de gases e como reservatório de oxigênio necessário à respiração dos tecidos principalmente em solos alagados. As células do córtex são altamente vacuoladas, seus plastídeos usualmente não possuem clorofila, mas acumulam amido. A camada interna do córtex é diferenciada em endoderme, e uma ou mais nas camadas externas, podem desenvolver uma exoderme. 3.4 Exoderme A camada de células abaixo da epiderme é chamada exoderme. É a camada mais externa do córtex, podendo, apresentar vários estratos celulares, cujas paredes poder ser suberizadas e/ou lignificadas (Raven et al, 1996). 3.5 Endoderme Na região de absorção das raízes, as células da endoderme contêm suberina em uma região que se estende completamente ao redor das células, nas paredes radiais e transversais, formando as estrias de Caspary. Nas raízes que não apresentam crescimento secundário, como nas monocotiledôneas, onde portanto o córtex é retido, verifica-se um depósito adicional de camadas alternadas de suberina e cera internamente às paredes das células endodérmicas, formando-se o chamado espessamento em “U” (Figura 4). Figura 4. Células da endoderme com espessamento em “U” e estria de Caspary de raiz de Heliconia sp em diferentes fases de desenvolvimento. Depto de Botânica – IB – UFRRJ (2005). 3.6 Tecido vascular e Cilindro central O cilindro central compreende os feixes vasculares e uma ou mais camadas de células não vasculares denominadas de periciclo. O xilema freqüentemente forma uma sólida medula com projeções cônicas dispostas radialmente no periciclo. Feixes de floema se alternam com os cones do xilema. Se o xilema não se diferencia no centro da raiz, um cerne, consistindo de parênquima ou esclerênquima aparece (encontrado em muitas monocotiledôneas). 4. Morfologia Radicular A morfologia radicular refere-se às características intrínsecas externas do sistema, sendo fundamental também na identificação e classificação das espécies. Em geral é morfologicamente que se pode visualizar as principais alterações no sistema Estria de Caspary Espessamento em “U” devido a efeitos bióticos e/ou abióticos (McCully, 1999). Essas alterações são devidas às características de elasticidade e plasticidade intrínseca dessa parte do vegetal. A maioria das plantas ramifica suas raízes a partir do eixo principal em eixos laterais de ordens superiores. Essas diferentes ordens de raízes podem variar suas características, com relação à espessura, taxa de crescimento, capacidade de crescimento secundário, duração, estruturas e adaptações. Essas variações por sua vez, vão influenciar a capacidade de obtenção de água, nutrientes, sobrevivência a condições adversas e a possibilidade de servir de habitat para microrganismos da rizosfera. A radícula é a raiz inicial da planta e está geralmente presente no embrião dentro da semente. Ela forma a raiz principal da plântula. Em certas espécies o embrião é tão pequeno e imaturo, como nas micro-sementes de orquídeas, que a radícula não está presente. Em gimnospermas e dicotiledôneas, a raiz principal e suas ramificações constituem o sistema radicular. Nas monocotiledôneas, a primeira raiz comumente tem um curto período devida e o sistema radicular é formado por raízes adventícias (Figura 5) que emergem da parte aérea, freqüentemente em conexão com as gemas axilares (Esaú, 1977). Um esquema da morfologia externa de uma raiz é apresentado na figura 6. Figura 5. Raízes adventícias de Pandanus sp. No detalhe, a presença de espinhos. Fotografia de Lucia Helena Cunha dos Anjos – Depto de Solos – IA – UFRRJ (2003). Figura 6. Morfologia de eixo radicular principal ou de raiz lateral. Modificado de Raven et al (1996), por Orlando Carlos Huertas Tavares – CAPGA-CS – Depto de Solos – IA - UFRRJ (2006). 4.1 Pêlos Radiculares A epiderme pode apresentar projeções que são os pêlos radiculares (Figura 7), podendo ser curtos, longos, raros ou densos. Os pêlos radiculares são estruturas cilíndricas e tubulares derivadas de células epidérmicas da raiz chamadas tricoblastos (Müller & Schmidt, 2004). Figura 7. Pêlos radiculares de Ravenala madagascariensis. A e B) Tecido submetido a diferentes corantes; C) Detalhe do Pêlo (unicelular). Departamento de Botânica – IB – UFRRJ (2005). Os pêlos radiculares são importantes no processo de aquisição de nutrientes, pois aumentam a superfície de absorção radicular. Resultados obtidos por Itoh & Barber (1983) mostram a contribuição dos pêlos radiculares no aumento da superfície da raiz de alface, tomate e Salsola kali L.. A distribuição, densidade e comprimento dos pêlos radiculares, pode variar de acordo com fatores genéticos e ambientais. Experimentos com tomate, canola e espinafre mostraram que a formação do pêlo é fortemente influenciada pelo suprimento de nitrato e fosfato (Foehse & Jungk, 1983). O etileno parece estar envolvido na regulação do desenvolvimento dos pêlos radiculares de Arabidopsis thaliana L. crescida em baixa concentração de fósforo; a inibição do etileno sob deficiência de fósforo resultou em redução do crescimento da raiz, diminuição do número de células formadoras de pêlos radiculares e redução no comprimento dos pêlos (Zhang et al 2003). Essas mudanças morfológicas são sinergísticas à aquisição de fósforo, aumento da capacidade e competitividade da planta quando este elemento é o fator limitante (Bates & Lynch, 2000; Bates & Lynch, 2001). O crescimento dos pêlos radiculares é regulado por vários genes, como RHD2, RHD3, RHD4 e T!P! (Aeschbacher, 1994). Esses genes podem codificar produtos que afetam o crescimento da ponta do pêlo, tal como o fluxo de cálcio. Antes da emergência do pêlo radicular, a maioria dos feixes de microfilamentos nos tricoblastos são orientados longitudinalmente ao eixo da raiz; durante o desenvolvimento do pêlo, eles mantém essa orientação. O primeiro passo é a formação de uma protuberância no tricoblasto. Os microfilamentos ficam nesta protuberância com a mesma orientação das células epidérmicas. As protuberâncias se desenvolvem em pêlos radiculares e inicialmente apresentam diâmetro pequeno e têm feixes finos de microfilamentos no citoplasma, mas que não chegam à ponta do pêlo. No estágio intermediário de crescimento, o vacúolo principal fica encostado na ponta e os microfilamentos podem se estender até a ponta, mas não são tão finos como no início do crescimento. O pêlo totalmente crescido possui um grande vacúolo no centro da célula e o citoplasma localizado perifericamente. Os microfilamentos ficam no citoplasma e se dirigem até a ponta do pêlo, contornando-a (Miller et al 1999). Outras modificações na morfologia de pêlos radiculares tem sido mais intensivamente estudadas em plantas inoculadas com Rhizobium (Ervin & Hubbell, 1985; Cárdenas et al 2000). A especificidade das interações simbióticas entre Rhizobium e as leguminosas hospedeiras é governada por um número de fatores que atuam em vários estágios. Fatores “Nod” são os principais determinantes da especificidade para várias espécies de Rhizobium (Dénairié et al. 1996). Fatores “Nod” são lipo-quitina oligopolissacarídeos que aplicados em raízes de leguminosas podem induzir várias respostas, tais como deformação do pêlo radicular e divisão de células corticais (Walker & Downie, 2000). A estrutura básica de fatores “Nod” permite ao Rhizobium leguminosarum bv. viciae entrar no pêlo radicular e os genes nod nodO ou nodE promoveram o desenvolvimento subseqüente do cordão de infecção em Vicia hirsuta (Walker & Downie, 2000). Em pêlos radiculares, a presença de feixes finos de microfilamentos sub- apicais estão correlacionados com o crescimento da ponta do pêlo. Após a aplicação de fatores “Nod” específicos de Rhizobium, o número de feixes de microfilamentos sub- apicais aumentou em todos os estágios de desenvolvimento do pêlo radicular de Vicia sativa, mostrando de uma maneira quantitativa, como a aplicação de Fatores “Nod” pode mudar a configuração dos microfilamentos do citoesqueleto. As mudanças são muito rápidas para terem sido causadas pela transcrição de um novo gene e para síntese proteica “de novo”. Isso implica em que os fatores “Nod” lipochito-oligossacarídeos (LCO) acionam um sinal de transdução que termina produzindo moléculas que influenciam o citoesqueleto de microfilamentos. Após a percepção da sinalização do LCO, ocorre um influxo de íons de cálcio dentro dos pêlos radiculares de Medicago sativa (Felle et al. 1998). Vários trabalhos tem demonstrado o efeito da inoculação de bactérias diazotróficas endofíticas, não só em gramíneas mas também em outras plantas cultivadas, causando modificações nos pêlos radiculares. Azospirillum pode produzir “in vitro” os fitohormônios AIA, giberelina e citocinina A aplicação de giberelina teve efeito similar à inoculação de Azospirillum lipoferum, aumentando a densidade dos pêlos radiculares (Bashan & Holguin, 1997). Estirpes de Azospirillum brasilense e A. lipoferum aumentaram a formação de pêlos radiculares e produziram um número maior de raízes laterais em trigo, tomate e pimentão (Bashan, 1998). O Azospirillum promoveu um efeito específico na deformação do pêlo radicular de trigo, semelhante ao efeito causado por Rhizobium na deformação de pêlos radiculares de leguminosas (Patriquin et al 1983). Considerando o efeito da presença de bactérias no crescimento dos pêlos radiculares, estas poderiam modificar a expressão dos genes que codificam o crescimento dos pêlos em função da mudanças no nível de fitohormônios (Jain & Patriquin, 1985) ou mesmo em função de mudanças na absorção de nutrientes minerais (Lin et al, 1983). Foram observadas variações na distribuição e tamanho dos pêlos radiculares nas diferentes zonas de raízes de plantas cana-de-açúcar inoculadas com bactérias diazotróficas; pêlos radiculares de tamanho maior foram obtidos com a inoculação da estirpe Mex 77 de Azospirillum lipoferum; a inoculação com a estirpe PAL 5 de Gluconacetobacter diazotrophicus promoveram um aumento da densidade de pêlos radiculares na zona proximal da raiz (Baldani et al., 1999). Em relação à forma do pêlo, foram observados pêlos radiculares bifurcados (em forma de garfo) em plântulas de cana-de-açúcar inoculadas com Burkholderia brasilensis. Pêlos radiculares helicoidais foram observados em plântulas de cana-de- açúcar inoculadas com a estirpe PAL-5 de Acetobacter diazotrophicus (Goi et al 1998). 4.2 Formação de raízes laterais A formação das raízes laterais é um processo multifásico que inclui pelo menos a iniciação, emergência dos primórdios da raiz e ativação dos meristemas das raízes laterais. Estas raízes se originam no periciclo, onde células quiescentes individuais são estimuladas a se diferenciar e proliferar para formar primórdios de raízes laterais (Figura 8). Os primórdios crescem via divisão e expansão celular. A emergência dos primórdios a partir das raízes parentais ocorre primariamente por expansão celular. Imediatamente após a emergência o primórdio fica ativado para formar um sistemameristemático funcional da raiz lateral, que direciona o crescimento deste estágio em diante. Vários trabalhos indicam que a auxina seria necessária para a iniciação e subseqüente crescimento das raízes laterais (Lloret & Pulgarin, 1992; Reed et a, 1998). A aplicação exógena ou aumento da síntese endógena de auxina resulta em aumento significativo do número de raízes laterais (Boerjan et al. 1995). A citocinina juntamente com a auxina teria uma importante atuação na morfogênese da planta, influenciando a formação da raiz e da parte aérea e seu crescimento relativo. Segundo Wightman et al. (1980) as citocininas são formadas na ponta da raiz e interagem com a auxina na regulação da formação das raízes laterais, tendo ação inibitória em relação à emergência das raízes laterais. Resultados recentes mostram que as citocininas (cinetina e trans- zeatina) tiveram efeito inibitório na iniciação da raiz lateral e efeito estimulatório no alongamento da raiz lateral em arroz (Debi et al, 2005). Da mesma forma, em Lotus japonicum a expressão do gene ARR5 (que controla a expressão de citocinina em Arabidopsis) não foi observado nas células em divisão nos primórdios das raízes laterais, mas foi observada alta expressão nas etapas seguintes da formação da raiz lateral (Lohar et al. 2004); estes autores observaram também a expressão do ARR5 nos pêlos radiculares deformados e também nos primórdios de nódulos, em resposta à inoculação com rizobio. Em plântulas de Pinus pinea a formação de raízes laterais estaria controlada por fatores de estímulo localizados na parte aérea (Atzmon et al 1994) Figura 8. Emissão das raízes laterais de Ravenala madagascariensis. a) Corte transversal; b) Corte longitudinal, evidenciando os traqueídeos, que são células relativamente alongadas e com a parede primária e secundária lignificada, com função de condução de solutos e de sustentação; c) Detalhes do xilema primário da raiz lateral e do rompimento das células da endoderme. Depto de Botânica – IB – UFRRJ, 2005. 4.3 Formação de raízes adventícias Comumente, as raízes adventícias se formam a partir do caule, originadas da divisão celular do córtex ou menos freqüentemente, a partir de gemas axilares Traqueídes A B Raiz Lateral Raiz Lateral Endoderme Xilema C escondidas na casca. Geralmente tem origem endógena e surgem próximo aos tecidos vasculares. Em caules novos de eudicotiledôneas e gimnospermas, as raízes adventícias comumente surgem no parênquima interfascicular e em caules velhos, no raio hipotético dos tecidos vasculares, próximo ao câmbio. Portanto a nova raiz aparece próxima ao xilema e floema. Quando as raízes adventícias são formadas em explantes, elas provavelmente se originam no tecido que se localiza na base do explante. Os primórdios das raízes adventícias são iniciados por divisão de células do parênquima, lembrando as divisões que iniciam a formação de raízes laterais a partir do periciclo de raízes jovens. Antes da emergência das raízes adventícias do caule ou raiz, são diferenciados um meristema apical, uma coifa e o começo do cilindro vascular e do córtex. Quando os elementos vasculares se diferenciam, a partir das células do parênquima, localizadas na extremidade proximal do primórdio, estes passam a fornecer uma conexão com os elementos correspondentes do órgão principal. A formação das raízes adventícias tem sido bem estudada em conexão com os reguladores de crescimento. Em explantes, é possível regenerar raízes, através da aplicação de auxinas, o que aumenta o número de raízes adventícias (Esaú, 1977). Durante a formação das raízes adventícias podem ser distinguidos diferentes estágios de desenvolvimento: iniciação, desenvolvimento inicial, crescimento e emergência do primórdio da raiz. A iniciação da raiz adventícia a partir de células diferenciadas de tabaco é determinada pela expressão do gene HRGPnt3, induzido antes da divisão celular dos primórdios. O desenvolvimento de primórdios de raízes adventícias e raízes laterais de Arabidopsis é caracterizado pela expressão do gene LRP1, que em raízes laterais foi mostrado como desligado antes da emergência do primórdio. Em arroz inundado o crescimento de raízes adventícias é induzido pelo etileno. Quando as plantas são submersas, a concentração de etileno aumenta (Métraux & Kende, 1983) e a expressão das ciclinas sugerem que o etileno atua sistematicamente e o primórdio da raiz responde ao etileno no estágio inicial de desenvolvimento (Lorbiecke & Sauter, 1999). Recentemente isolado, o gene que controlaria a iniciação dos primórdios de raiz adventícia em arroz: ARL1 seria um gene responsivo a auxina e etileno. ARL1 estaria envolvido na diferenciação celular mediado pela auxina e promove a divisão inicial nas células do periciclo, adjacentes ao cilindro vascular periférico no caule (Liu et al., 2005). 4.4 Outras raízes especializadas São raízes especializadas, os pneumatóforos, que são raízes aéreas e esponjosas de plantas de mangue, e se constituem em raízes respiratórias, que possuem canais de ar (lenticelas), para troca gasosa com a atmosfera e existe uma via interna para distribuição de O2 dentro da raiz, para suprimento das raízes submersas. Ainda, as raízes adventícias do tipo escora, com espinhos, como as de Pandanus sp, que servem como suporte mecânico à planta, seriam também uma outra especialização (Figura 5). As raízes proteóides ou raízes em cluster (Figura 9) são adaptações encontradas em um número grande de famílias, incluindo Leguminosae, Betulaceae, Myricaceae, Elegnaceae, Casuarinaceae, Proteaceae e Moraceae (Skene, 2000; Neumann & Martinoia, 2002). Figura 9. Raizes proteóides ou raízes em cluster de diferentes espécies. a) Lupinus albus; b) Hakea sp; c) Lupinus sp e d) Imagem obtida por endoscopia de solo. Diâmetro do eixo radicular menor ou igual a 0,2 mm (Fotografia de 18 x 13,5 mm). Fontes: a b Nemoy, 2006; c Schimidt, 2006; d Brasil, 2005. Do ponto de vista ecológico, as raízes em cluster, embora ocorram em várias famílias, pertencem a um número limitado de ecotipos. Muitas espécies que possuem essas raízes são espécies pioneiras e muitas não se associam com micorrízas ou exibem infecção micorrízica reduzida. Essas raízes são consideradas juntamente com as micorrizas e nódulos das leguminosas, as maiores adaptações para a aquisição de nutrientes. Cada raiz em cluster é composta por pequenas raízes de desenvolvimento determinado, que surgem do periciclo, opostas ao pólo do protoxilema, e dão à raiz o A A C B D formato de “escova de lavar mamadeira”. A iniciação está ligada a vários fatores, incluindo deficiência de fosfato. Essas raízes combinam adaptação de ramificação da raiz, alteração da rizosfera, desenvolvimento da raiz e absorção de nutrientes em uma única via. A formação das raízes em cluster parece ser induzida pela diminuição da disponibilização de fósforo e pelo menos em algumas espécies, pela deficiência de ferro (Neumann & Martinoia, 2002). Existem evidências fortes de que ocorram mudanças metabólicas durante o desenvolvimento das raízes proteóides, contribuindo para um aumento no acúmulo de carboxilato no tecido da raiz e finalmente a liberação temporária desses compostos na rizosfera. Durante o estágio de desenvolvimento destas raízes, grandes quantidades de carboxilatos, prótons, fosfatases ácidas e compostos fenólicos são liberados na rizosfera durante um período de 1 a 3 dias. Este padrão de desenvolvimento da raiz em cluster é associado a um aumento na concentração de carboxilatos no tecido da raiz e uma troca na acumulação de malato por citrato, antes da exsudação. A liberação temporária de carboxilatos pelas raízes em cluster é provavelmente mediada por mecanismos de transporte controlado. Em Lupinus albus, estudos com inibidores sugerem o envolvimento de canaisiônicos para exsudação de citrato acoplados com a concomitante liberação de prótons para manter o balanço de cargas (Neumann & Martinoia, 2002). 4.5 Rizosfera e Rizoplano Em termos nutricionais, a interface solo-raiz é bastante importante e os eventos que ocorrem na rizosfera, serão referenciados nos próximos capítulos. O termo rizosfera foi introduzido por Hiltner em 1904, e é a zona de influência das raízes, que vai desde a sua superfície até uma distância de 1 a 3 mm. Entretanto, atualmente, outros autores em trabalhos mais recentes, consideram uma distância de até 5 mm. A sua extensão varia com o tipo de solo, espécie considerada, idade e muitos outros fatores, mas assume-se que esta se estenda a partir da superfície da raiz (rizoplano) até poucos milímetros para dentro do solo, ou possivelmente poucos centímetros, em alguns casos especiais (Lynch, 1990). É neste volume do meio de crescimento do sistema radicular que se processa uma infinidade de eventos físico-quimico-biológicos que podem alterar a morfologia e a dinâmica do sistema radicular e a disponibilidade de nutrientes, ao mesmo tempo, que este espaço pode ser alterado pelo sistema radicular. 5. Fisiologia das Raízes. O sistema radicular como um todo, independente de seu desenvolvimento fásico ou idade, apresenta regiões espacialmente mais ou menos ativas, em relação à capacidade intrínseca de absorver água e nutrientes, de exsudarem moléculas orgânicas, ou de fazer extrusão de prótons. Em relação à absorção de água, nutrientes e outros solutos, faz-se necessário o entendimento da interface solo/planta, das rotas de absorção e das barreira existentes nos tecidos radiculares, que podem acelerar ou reduzir a velocidade do movimento radial, da superfície radicular até o cilindro central. 5.1. Rotas de Absorção O movimento da água, nutrientes e outras substâncias a partir da superfície da raiz - considerando a rizosfera - ao interior das plantas, ocorre em dois espaços distintos denominados de apoplasto e simplasto, até a endoderme (Figura 10). O apoplasto é definido como um "continuum" entre as paredes celulares, espaços intercelulares e os vasos xilemáticos ao longo de todo o corpo da planta desde o córtex da raiz até os traqueídes e elementos de vaso que chegam às folhas. A caracterização do apoplasto remonta ao botânico Ernst Münch, que em 1930, distinguiu a planta em dois compartimentos: o morto, que denominou de apoplasto e o vivo, que denominou simplasto. Münch sugeriu, na época, que a função do apoplasto era exclusivamente o transporte de água e solutos. Hoje sabemos que este compartimento tem funções mais numerosas, e que os nutrientes simplesmente não apenas atravessam o apoplasto, mas podem ser adsorvidos ou fixados na parede celular, por exemplo, com implicações diretas na aquisição de nutrientes, além de poder conferir tolerância de algumas plantas à toxidez por metais (Al, Mn). Este espaço pode ser colonizado por microorganismos, que podem contribuir diretamente para a nutrição da planta (Sattelmacher, 2001). De acordo com a compreensão atual, todos os compartimentos além da plasmalema constituem o apoplasto, incluindo o espaço interfibrilar e intermicelar das paredes celulares, o lumem das células mortas e os espaços intracelulares do xilema (com água e gases), sendo as suas bordas externas formadas pela superfície do rizoplano e da cutícula na parte aérea (Sattelmacher, 2001). Entretanto, pode existir uma interrupção neste contínuo apoplástico, quando considerada a planta toda, esta interrupção é representada pela endoderme, mais especificamente pelas estrias de Caspary, onde uma camada mais ou menos suberizada pode apresentar maior ou menor permeabilidade a água e solutos. Figura 10. Rotas para absorção de água e nutrientes. A partir do córtex até o cilindro central o movimento acontece entre os espaços celulares (rota apoplástica) ou através dos plasmodesmos (rota simplastica) ou aquaporinas (para água). Desenho de Orlando Carlos Huertas Tavares – CAPGA-CS – Depto de Solos – IA - UFRRJ (2006). Atualmente, considera-se a endoderme, com as estrias de Caspary, uma barreira, porém, não totalmente impermeável, ao movimento radial da água e íons nos dois sentidos (Pimentel, 2004). RANATHUNGE et al (2005) usando uma nova técnica de precipitação de sais, estudaram a permeabilidade da parede celular, e, em especial das estrias de Caspary da endoderme, utilizando como modelo de estudo raízes jovens de milho e arroz. Os autores concluíram que em termos de permeabilidade da estria de caspary para íons não representa uma barreira absoluta. Esses autores verificaram que alguns íons podem eventualmente ultrapassar a barreira da endoderme, mas consideram este fenômeno pouco relevante, do ponto de vista da nutrição da planta. A permeabilidade da barreira endodérmica pode variar em função das condições e fases do crescimento radicular. Em particular, observaram os autores, que em arroz pode haver um fluxo apoplástico significativo pelas regiões onde o surgimento das raízes laterais rompe a barreira endodérmica. O simplasto por sua vez é considerado como todo o citoplasma e membranas de todas as células vivas. Muitas vezes faz-se referência ao simplasto como uma unidade devido à existência dos plasmodesmos, observados apenas em células vegetais, e que são interligações entre membranas de células vizinhas, criando pontes citoplasmáticas (Figura 11). Os plasmodesmos, são estruturas tubulares da membrana plasmáticas de 40 a 50 nm de diâmetro que atravessam a parede celular e conectam os citoplasmas das células adjacente (Taiz & Zeiger, 2004), e ocorrem em uma densidade que pode variar de 0,1 a 10,0 por µm2 (cerca de 20.000 por cada parede tangencial, ou 5×108 unidades/cm2). Anatomicamente, apresentam uma estrutura interna complexa, constituída pelo eixo central, desmotúbulo (que é um prolongamento do retículo endoplasmático), cavidade central e proteínas filamentosas, entre outras organelas, sendo que o movimento do íon se faz exclusivamente pela cavidade central. O papel do desmotúbulo, que envolve o eixo central, ainda é incerto quanto ao movimento de solutos e outras substâncias, pois não parece existir espaço entre essas membranas para tal fim. Figura 11. Plasmodesmatas. Microfotografia de microscópio eletrônico de transmissão de nódulo radicular de Mimosa caesolpiniaefolia. Silvia Regina Goi – Departamento de Ciências Ambientais – IF - UFRRJ (2005). 5.2. Absorção de água. Para as plantas terrestres, o solo é o reservatório natural de água, e ela está presente no solo como água gravitacional, capilar e higroscópica. A gravitacional é pouco utilizada, pois é drenada rapidamente através do macroporos. A higroscópica constitui uma fração que está quimicamente ligada às partículas do solo, formando uma película líquida, e não é utilizada pela planta devido a grande tensão de retenção. A fração de água capilar, retida nos microporos, por sua vez é de extrema importância por representar a fonte direta para a planta. Até à superfície das raízes, que representam o acesso para o interior do vegetal, a água se movimenta por difusão ou por fluxo de massa, e a partir daí, flui e penetra pela camada epidérmica. Uma vez na superfície da raiz, a absorção e/ou movimento da água pode ocorrer através de três rotas (simplástica, apoplástica ou transmembranar), até atingir o cilindro central onde ascenderá pela planta para as demais partes do vegetal. Esse deslocamento se dá sempre de zonas hipotônicas (menos concentradas) para zonas hipertônicas (mais concentradas), ou seja, de zonas com elevado potencial hídrico para zonas de baixo potencial hídrico. Um efeito típico, que viabiliza este mecanismo, é a própria absorção ativa de íons (Capítulo 5 deste volume), fazendo com que as raízes acumulem nutrientes, e outros solutos eelementos em concentrações centenas de vezes superiores ao do meio externo. Este transporte torna a solução interna ainda mais hipertônica, diminuindo o potencial hídrico e causando mais entrada de água por osmose. Pela rota apoplástica, da rizoderme até o xilema no cilindro central, passando pela endoderme, onde pode haver dificuldade à sua passagem, mas não impedimento, em função da composição química da endoderme, ao seu desenvolvimento e especificidade (mono e eudicotiledôneas; Pimentel, 1998). Durante este movimento, por um ou outro mecanismo, pode haver absorção de água pelas células corticais. Pela rota simplástica, a absorção preferencial para as células da raiz se dá através dos pêlos radiculares, onde a água se movimenta pelo citoplasma, passando de célula a célula, pelos plasmodesmos até o cilindro central. A rota transcelular (ou simplástica), sendo um movimento célula a célula, atravessa pelo menos duas membranas, via aquaporinas, descobertas na década de 90, que são canais seletivos para água, regulados pelo seu estado de fosforilação, de modo que as células podem regular a sua permeabilidade à água ao acrescentando ou removeno grupos fosfato a resíduos de aminoácidos específicos. Esta modulação da atividade da aquaporina pode então alterar a taxa de movimento da água através da membrana (Taiz & Zeiger, 2004). Espacialmente, considerando um único eixo radicular, a absorção e movimentação da água tende a ocorrer mais rapidamente através das regiões que oferecem menor resistência à sua movimentação. Essas regiões variam de acordo com a espécie, idade e velocidade de desenvolvimento da raiz. Atualmente, sabe-se que a máxima absorção de água ocorre na região de diferenciação celular onde o xilema está bem diferenciado e na qual a suberização e lignificação ainda não reduziram a permeabilidade das paredes celulares, destacando-se em especial as regiões de pêlos radiculares. Nas regiões meristemáticas, a absorção de água é bastante limitada, devido principalmente à grande resistência oferecida pelo protoplasma denso e a falta de elementos de condução nesta região. Quando considerado o sistema radicular como um todo, sob condições normais de hidratação da planta (e do solo), a absorção de água é feita preferencialmente via simplástica. Com a redução da água disponível, ou aumento da transpiração, o mecanismo apoplástico é ativado. Por fim, sob condições de déficit, o transporte trans- membrana é ativado (aquaporinas). Destes mecanismos, o apoplástico, resulta também em maior arraste de solutos da rizosfera, aumentando a zona de depleção (Pimentel, 2004). A velocidade de deslocamento de água pela via apoplástica pode ser cerca de 60 vezes superior à prevista para movimentos citoplasmáticos, e, considera-se que este deva ser o percurso preferencial, nos momentos de demanda elevada. 5.3 Absorção de nutrientes A absorção de nutrientes e o seu movimento radial até o cilindro central acontece da mesma forma que o descrito para a água, exceto para a rota transmembranar. As plantas adquirem numerosos íons e substâncias, mesmo desnecessárias ou tóxicas, do solo, pelas vias apoplásticas e simplásticas. Estes podem se movimentar até o cilindro central, serem assimilados em tecidos próprios ou ainda ficarem retidos nas cargas da superfície radicular (CTC radicular). Isso implica inclusive na possibilidade de dispersão de substâncias potencialmente tóxicas para os seres vivos, sendo, porém esta capacidade das plantas, proveitosa para a “remediação” de solos contaminados (Capitulo 15 neste volume). O deslocamento via simplasto por sua vez é dependente inicialmente de um mecanismo qualquer (bomba, canal ou transportador; Capitulo 6 neste volume), que permita a sua entrada na célula vegetal, ultrapassando a membrana plasmática, o que pode acontecer em qualquer parte da raiz, em células compreendidas entre o espaço físico da superfície radicular e o cilindro central, resguardando a variabilidade relativa para cada elemento e espécie vegetal. Este deslocamento, ao contrário do que se imagina, não é totalmente livre, pois estas superfícies radiculares, em geral, apresentam um quantidade relativa de cargas, que podem reduzir ou aumentar a velocidade de deslocamento do íon neste espaço. Porém, indubitavelmente, a velocidade de movimento neste espaço é sempre maior que pela rota simplastica. Quando o íon de uma forma ou outra cruza a endoderme, também pode regressar ao apoplasto, difundindo-se para dentro de um traqueídeo ou elemento de vaso no xilema, sendo conduzido até o local específico de sua absorção, e, para participar ativamente do metabolismo necessita ser reabsorvido (Taiz & Zeiger, 2004). É ainda possível, que alguns elementos, principalmente os não estruturais como o potássio, possam de uma ou outra forma retornar mais facilmente para os espaços intercelulares (apoplasto), após a reabsorção. Indiscutivelmente, porém, a presença da estria de Caspary permite à planta manter uma concentração iônica mais elevada em seus tecidos do que na solução do solo (Taiz & Zeiger, 2004). 5.4 Zonas e taxas de absorção O termo taxa de absorção de nutrientes, embora usado com conotações variadas na literatura, tende a englobar as contribuições dos processos associados à sua aquisição do solo, que é produto da interação entre as propriedades absortivas do sistema radicular, o seu estágio de desenvolvimento (arquitetura e tamanho), e a concentração do nutriente na solução do solo e na superfície radicular (Jungk, 1991; Williams & Yanai, 1996). A taxa de absorção de um dado nutriente pode ser estimada a partir da área superficial e da cinética de absorção, tal como mostra a equação (Williams & Yanai, 1996): TAn = 2 .π .r L.α. C ................................. ...............Equação 1 onde “TAn” é a taxa de absorção do nutriente, “r” o raio radicular, “L” o comprimento radicular, “α” o poder de absorção radicular (relacionado aos mecanismos de transporte do nutriente a nível de membrana), e “C” a concentração do soluto na superfície radicular, expressos em dimensões e unidades homogêneas. A equação 1 ainda é uma representação parcial do processo de aquisição de nutrientes, na medida que não integra efeitos importantes, tais como exsudação radicular ou variações do pH rizosférico, induzidas pelo próprio processo de absorção (Fernandes & Rossiello, 1995). Entretanto ela tem sido extensivamente usada em modelos de simulação de absorção, ao explicitar os principais fatores envolvidos (Williams & Yanai, 1996). Por outro lado, a qualquer instante, a taxa de absorção representa o produto da intensidade do influxo do nutriente (ou taxa de absorção por unidade de área radicular) pelo tamanho do sistema radicular (a sua área superficial total). Destaca-se ainda, que esses modelos avaliam o sistema radicular como um todo, mas consideram que apenas a superfície radicular é responsável pela absorção. Isso leva a uma superestimativa da atividade absortiva das células epidérmicas. Essa superestimativa acontece também quando se avalia o influxo ou efluxo em plantas de diferentes idades. Neste caso, sabendo-se que as regiões mais novas da raiz tem maior capacidade absortiva, pode-se explicar porque um sistema radicular novo tem maior influxo, pois proporcionalmente, existem mais superfícies aptas à absorção, do que regiões suberizadas. Quando se estuda um eixo unitário do sistema radicular, seja de uma raiz principal ou de uma lateral, pode-se observar a existência de um gradiente ativo entre seu ápice e a sua base, já que apresentam anatomia e fisiologia semelhantes, variando apenas em magnitude e função. Sabendo-se que a atividade radicular pode ser medida pela intensidade do efluxo de prótons, o trabalho de Fan & Neumann (2004) mostra que a acidificação ao longo da zona de alongamento de uma raiz, tende a alcançarum máximo a aproximadamente 4 mm do ápice, quando em condições de controle de deficiência hídrica, como mostrado na figura 12, e, a partir dos 6 mm, o ritmo é desacelerado, tendendo a ficar constante. 0 3 6 9 12 15 0 2 4 6 8 10 Distância do apice radicular (mm) E fl u x o d e H + ( n m o l m -2 s -1 ) 0 0,1 0,2 0,3 T C R R a iz ( h -1 ) Efluxo TCR Figura 12. Variação espacial do efluxo de prótons e da taxa de crescimento relativo da raiz (TCRRaiz) em raízes de milho, sob condições hídricas favoráveis. Modificado de Fan & Neumann (2004). Enquanto as raízes principais têm como principal função a fixação, e as laterais, a absorção, ambas possuem as respectivas zonas de crescimento, alongamento e maturação. Assim podem possuir regiões mais ou menos ativas fisiologicamente, quando da absorção de nutrientes, e este tem sido um tópico de considerável interesse. Taiz & Zeiger (2004) expõem claramente as diferentes linhas, onde alguns autores consideram que os nutrientes sejam absorvidos somente nas regiões apicais dos eixos principais ou de menor calibre, enquanto outros consideram a absorção ao longo de toda a superfície radicular. Isto está, entretanto relacionado com a espécie estudada e com a tecnologia adotada para estudar a absorção, que pode ser mais ou menos sensível a ponto de identificar tais diferenças. Trabalhos clássicos da literatura demonstram diferentes variações na absorção de nutrientes pelas raízes em função da espécie estuda. Por exemplo, na cevada, o ferro é absorvido mais intensamente na região apical, enquanto que no milho, a absorção do mesmo elemento não tem tal diferenciação. Potássio, nitrato e amônio, na maioria das espécies são absorvidos igualmente em toda superfície, mas, em particular no milho, é na zona de alongamento que encontramos as taxas máximas de absorção. Taiz & Zeiger (2004), explicam que uma possível maior absorção nas zonas apicais é resultado da elevada demanda metabólica por nutrientes nestes tecidos. De qualquer maneira porém, a absorção de íons é mais pronunciada na zona de ocorrência de pêlos radiculares, do que nos meristemas de crescimento ou na zona de alongamento. Isto se deve ao fato de que estas células completaram seu alongamento, mas não iniciaram seu crescimento secundário, e têm grande superfície de contato com o solo, aumentando a superfície de absorção (Taiz & Zeiger, 2004). A partir da zona de pelos radiculares, até o local onde surge a primeira raiz lateral, tem-se uma área com absorção reduzida (onde acontece o crescimento secundário, nas eudicotiledôneas). Quando surge a primeira raiz lateral, as regiões fisiológicas acima descritas se repetem, e as mesmas explicações são válidas. Um ponto duvidoso, mas importante, na absorção de água e nutrientes é o local de surgimento das raízes laterais, onde há o rompimento da endoderme (figura 8). Temporariamente, esta região pode ficar sujeita a fluxos intensos para o interior da planta de água, nutrientes, moléculas orgânicas e elementos tóxicos. 5.5 Extrusão de prótons O efluxo ativo de prótons na raíz, por H+-ATPases ligadas a membrana plasmática, na raiz, é de importância fundamental para a planta, participando de seu crescimento através de processos como absorção de nutrientes, geração de turgência celular, acidificação externa para relaxamento da parede celular e desenvolvimento de polaridade em células em crescimento (França et al, 2005). Quando um excesso de cátions é absorvido pelas células radiculares, (Capitulo 6 deste volume), uma quantidade equivalente de carga positiva deve ser deslocada para o espaço extracelular, para evitar excessiva despolarização através da plasmalema, com efeitos lesivos para a funcionalidade da membrana e evitando flutuações acentuadas no pH do citossol (Fernandes e Rossiello, 1995). Este efeito é notório quando acontece a absorção de cátions de alta demanda metabólica como por exemplo NH4 + e K+. Isso ocasiona a acidificação no meio rizosférico, como resultado do efluxo líquido de H+ gerado no processo (França et al, 2005). Na literatura encontram-se referências de estimativas do efluxo liquido expressas por unidade de massa de raiz fresca ou seca, ou ainda por planta inteira (França et al, 2005), porém uma estimativa mais apropriada para o efluxo instantâneo, considerando o sistema radicular como um todo e um volume fixo de solução ou meio, pode ser aproximado pela equação descrita por França et al (2005): E A dU dT H R H+ = ⋅ +1 ................................. ...............Equação 2 onde; UH + é conteúdo total de prótons livres na solução, t o tempo, e AR a área radicular através da qual prótons permeiam à solução segundo a uma certa taxa dT dU H + . Na prática dT dU H + é aproximado por ∆ ∆ UH T + , mas mesmo assim a aplicação da Equação 2 envolve muita incerteza, considerando a variação axial do influxo-efluxo de H+ no ápice radicular, das dificuldades técnicas associadas à determinação da atividade de H+ ao nível da superfície radicular e da quantificação precisa da área radicular (Zonta, 2003). 5.6 Exsudação radicular Os sistemas radiculares acrescentam quantidades significativas de carbono ao solo, em suas mais diversas formas, independente da quantidade estocada nos seus tecidos e disponibilizada após a colheita ou morte da planta. O carbono acrescentado à rizosfera durante o crescimento ativo da raiz raramente excede 1% de peso seco (Nye, 1981) sob condições normais de crescimento. Porém, essas taxas podem ser 2 a 4 vezes maiores sob condições de estresse, onde, dependendo da espécie e condições ambientais, até 40% do carbono fixado pelas plantas pode ser depositado diretamente na rizosfera (Zonta, 2003), o que significaria 5 - 25% do C líquido assimilado pela planta, resultando em uma perda líquida de fotossintatos. Exemplos típicos de exsudações radiculares são os ácidos orgânicos, por estarem diretamente envolvidos na tolerância das plantas ao Al (Zonta, 2003) (Capitulo 16 deste volume). Os ácidos orgânicos têm relação especial com a toxicidade por Al e outros metais e com a nutrição da planta (Jones, 1998; Ryan, 2001), participando como componente chave no sistema operacional da interface solo-raiz (Búcio et al, 2000). Além destes, uma grande quantidade de substâncias são exudadas pelas raízes, entre elas podem ser citados: açúcares, compostos aminados, ácidos orgânicos, ácidos graxos, esteróis, nucleotídeos, flavonas, enzimas e outras substâncias. 6. Dinâmica do desenvolvimento radicular O crescimento das raízes ocorre quando células da região meristemática (coifa) dividem-se, alongam-se e levam a ponta da raiz através do material adjacente. A pressão de turgor nas células que se alongam é direcional, que deve ser suficientes para se sobrepor à resistência da parede celular ou às demais resistências externas do meio. Assim, a pressão de turgor celular e a resistência da parede celular, somadas as resistências do meio à deformação, são fatores importantes para avaliação do crescimento radicular através do solo (Camargo & Alleoni, 1997). Plantas cultivadas, tipicamente possuem raízes que crescem 1 cm ou mais por dia (Russel, 1977), enquanto que raízes de plantas em ecossistemas naturais podem crescer 1 mm ou menos por dia (Brundrett & Kendrick, 1990). 6.1 Rizocrescimento Nos vegetais, a maior parte do desenvolvimento ocorre após a embriogênese através das atividades de seus meristemas, os quais continuam formando órgãos (raízes, ramos, folhas, verticilos florais e frutos) ao longo de todo o ciclo de vida. Essa continua formação de órgãos, parece ser uma adaptação das plantas à vida fixa em substratos, permitindo que seu desenvolvimento seja ajustado às variações de água, luz e nutrientes (plasticidade fenotípica). Dentre os principais grupos de hormônios envolvidos nocrescimento dos vegetais, as auxinas e citocininas parecem estar intimamente associadas à atividade dos meristemas radicular PERES & KERBAUY (2000). Como um todo, o sistema radicular repete-se indiscriminadamente e de forma caótica, existindo um diferencial a nível hierárquico (magnitude do sistema), sempre modulado pelas condições ambientais. 6.2 Economia de carbono e nutrientes nos sistemas radiculares As raízes são órgãos heterotróficos das plantas (com exceção de alguns tipos singulares, fotossintetizantes, como das orquídeas), e por tal motivo, os gastos com carbono no sistema radicular se constituem em limitação primária para o crescimento de plantas cultivadas, comuns em solos com baixa disponibilidade de nutrientes (Nielsen et aI., 1999), como os solos brasileiros, pois o crescimento e a atividade do sistema radicular apresenta um custo metabólico significativo, especialmente, quando a planta está sob estresse edáfico (Lynch, 1995). MOREIRA & SIQUEIRA (2002) citam que até 60% do carbono fotoassimilado pode ser consumido pelo sistema radicular, sendo que metade deste em média é utilizado pela respiração (25% do carbono fotossintetizado), e o restante, utilizado para a formação de tecidos, do mucigel e exudação radicular. Estes fotossintatos são translocados de suas fontes até o sistema radicular através do floema, e seu movimento através dos tecidos se dá via plasmodesmatas, podendo, a qualquer momento, compor novos tecidos, formar o mucigel ou ainda deixar o simplasto e penetrar no apoplasto, podendo ser eventualmente exudados para o solo ou ser trocados por íons. Pimentel (1998), revisando diversos autores, indica que 44% do carbono fixado pela fotossíntese vá para a raíz, com 1/4 desse valor utilizado no crescimento, e o restante na respiração de manutenção. O mesmo autor afirma que para plantas em simbiose com o Rhizobium, pelo menos 12% dos fotossintatos produzidos pela planta são gastos na respiração e crescimento dos nódulos, assim como em plantas micorrizadas, 5 a 10% destes fotossintatos são usados pelo fungo. A quantidade de fotoassimilados na planta é, geralmente, proporcional à área foliar, resguardando as particularidades devidas. Sabe-se que o alongamento de raízes cessa num período de 24 horas, quando 40-50% da parte aérea é removida, tanto em plantas de metabolismo fotossintético C3, como C4 (Richards, 1993). Assim, o desenvolvimento de novas folhas, a partir do momento que assumem o papel de fonte, correlaciona-se positiva e linearmente com o alongamento radicular. Matthew et al (2001), mostraram que a redução no metabolismo e senescência do sistema radicular é diferenciada de acordo com o fitômero de origem da raiz. Raízes mais velhas, que crescem a partir de fitômeros mais distantes da coroa da planta, recebem menor quantidade de fotoassimilados, o que determina a redução na taxa de alongamento e a progressiva diminuição na respiração destas raízes, sinalizando o avançar do processo de senescência e eventual morte. Logo, pode-se conjecturar que a alocação de fotossintetizados é inversamente proporcional à distância das raízes em relação à coroa da planta, ou seja, há maior partição de carbono para as raízes mais próximas da fonte de fotoassimilados (folhas). MATTHEW et al (2001) demonstraram que a maior redução no carboidrato alocado à raiz ocorre em sua ponta, onde se concentra a atividade meristemática. As raízes recém formadas (mais jovens) e portanto, mais próximas à superfície do solo, foram as que receberam a maior parte do carbono direcionado ao sistema radicular. Neste contexto, estabelece-se um aparente paradoxo, em que a planta investe no metabolismo de raízes superficiais, mais sujeitas ao déficit hídrico do solo, enquanto provoca a morte de raízes (velhas) estabelecidas em maiores profundidades do solo, onde há maior disponibilidade de água. Portanto, a seleção de plantas com sistema radicular bem desenvolvido, para profundidade e área radicular, apesar da raiz não ser um órgão colhido na maioria das culturas, permitirá aumentos de produtividade (Pimentel, 1998). 6.3 Arquitetura e topologia radicular Um sistema radicular pode ser definido como um objeto que apresenta auto- semelhança e complexidade infinita, ou seja, têm sempre cópias aproximadas de si mesmo em seu interior. Essa é a própria definição de fractal, e assim é o sistema radicular de toda e qualquer espécie, apresentando aparência consensual e crescimento caótico. A arquitetura radicular nada mais é primordialmente do que a forma determinada geneticamente, de ordenar e organizar no espaço este órgão, de forma a obter sua melhor eficiência de uso, na aquisição de recursos. A topologia de um sistema radicular, por sua vez, está contida no sistema arquitetônico radicular, e permite a quantificação desta organização. A figura 13, mostra a arquitetura radicular de várias espécies (Lynch, 1995), onde a diversidade estrutural dos sistemas radiculares é vista como uma adaptação para o desempenho mais eficiente das funções das raízes. Figura 13. Exemplos de variação da arquitetura radicular. Imagens obtidas a partir de escavação parcial de diversas eudicotiledôneas Européias. Modificado de Lynch (1995), com permissão da American Society of Plant Biologists. Um sistema radicular eficiente é aquele que otimiza a relação entre quantidade de recursos adquiridos e empregados para sua obtenção, e, a arquitetura do sistema radicular é fundamental para a aquisição de recursos no solo (Miller et al., 1999). Sua definição é muito complexa, por envolver vários aspectos, como taxa de crescimento, ramificação, orientação e longevidade dos diferentes tipos de raiz (Bonser et aI., 1996). O desenvolvimento espacial do sistema radicular determina a habilidade da planta em explorar recursos que estão mal distribuídos (Fan et aI., 2003), e a arquitetura do sistema radicular pode alterar o custo dessa exploração em termos de carbono, e, definir a capacidade de competição do sistema radicular (Fan et aI., 2003). Lynch (1995) afirma não existir uma ferramenta quantitativa adequada que caracterize o sistema radicular, já que estes sistemas variam amplamente em função da característica genética e da sua interação com vários fatores físicos, químicos e biológicos no solo, além dos temporais e espaciais. A geometria radicular tem importante papel na dinâmica global do ecossistema pastoril (Jarvis, 1999), através de efeitos sobre a aquisição de nutrientes de baixa mobilidade, como o fósforo; a captura e reciclagem de outros nutrientes em profundidade, como o nitrato, e o estabelecimento de associações com a biota do solo (Mc Cully, 1999; Salcedo, 1999). O estudo desses aspectos, que relacionam a distribuição radicular às suas funções de aquisição de água e nutrientes, demandam a separação das raízes em classes funcionais, e a quantificação da sua contribuição ao sistema total (Rossiello et al., 1995). A resposta da arquitetura radicular à disponibilidade de fósforo parece ser extremamente específica (Bates & Lynch, 2000; Williamson et aI., 2001; López-Bucio et aI., 2002), influenciando o ângulo de crescimento das raízes basais em relação à gravidade (Bonser et aI., 1996). Estudos relativos à arquitetura do sistema radicular são úteis na quantificação da eficiência fisiológica de sistemas radiculares contrastantes, fornecendo ferramentas para a investigação de mecanismos específicos, viabilizando a formação de variedades cultivadas com maior eficiência no uso de fósforo (Nielsen et aI., 1999). 6.4 Características de interesse quantitativo Na tabela 1 são apresentados as principais características radiculares a serem medidas de acordo com suas funções (Adaptadas do trabalho de Atkinson, 2000). Tabela 1. Principais características radiculares mensuradas, unidades e funções. Modificada e adaptada de Atkinson(2000). Característica Unidade Definição Função Comprimento Radicular m ou Km de raízes Somatório do comprimento de todos os eixos radiculares Determina o potencial de absorção de água e nutrientes do solo. Indicador da interação das raízes com os microorganismos do solo. Massa Radicular (fresca ou Seca) g ou Kg de raízes Somatório em massa de todos os eixos radiculares. Estoque total de massa subterrânea alocada. Conteúdo de Reserva. Volume Radicular cm3 ou m3 de raízes. Espaço ocupado pelo sistema radicular. Volume de solo explorado pelas raízes. Área radicular cm2 ou m2 de raízes. Superfície de contato ente as raízes e o solo. Absorção de água e nutrientes do solo. Diâmetro Radicular mm Diâmetro médio dos eixos radiculares. Geralmente assume- se a raiz como um cilindro. Potencial do desenvolvimento de associações com microorganismos; indicação da regulação do stress hídrico; potencial do crescimento radicular; indicador da influencia e respostas das condições físicas e químicas do solo. Os valores da Tabela 1, podem ser expressos por unidade de volume de solo extraído, sendo apresentados como densidade da área radicular (DRA), do comprimento radicular (DRC) e da massa seca radicular total (DMR), expressas em cm2 dm-3, m dm- 3e g dm-3, respectivamente (Van Noordwijk, 1993; Brasil et al., 2005). Durante muitos anos, o tempo gasto nas atividades de quantificação desses parâmetros, e as incertezas quanto aos resultados, constituíram fortes desestímulos ao trabalho com raízes. Outros valores podem ser derivados das características morfológicas das raízes, como por exemplo, a utilização dos valores da área e do comprimento específico, obtido pela razão entre a área ou o comprimento e a massa radicular, respectivamente (cm2 g-1 e m g-1 de raízes) como indicadores da espessura ou do diâmetro radicular, (Oliveira et al., 2000). Os dados de densidade radicular podem ser a ajustados a uma função exponencial decrescente, da forma: DR = a(-bz), onde “a” é o parâmetro de ajuste, “b” é a taxa de decréscimo relativo da DR (m-1) e “z” a profundidade (m) para solos de textura homogênea, ou para diversas outras funções (Nicoullaud et al., 1994), com o objetivo de se estudar a distribuição vertical das raízes em profundidade. O que pode ser feito por classes de diâmetro. Embora em estudos de raízes no campo, a característica de maior enfoque seja a massa radicular (fitomassa de raízes), o comprimento radicular, tem sido a característica mais utilizada como base de cálculo para inúmeras funções de determinação de variações temporais do sistema radicular, sendo considerado como característica padrão para a determinação da densidade (m de raíz m-3 de solo) e do crescimento radicular (Van Noordwijk, 1993, Rossiello et al., 1995). Tal característica é um indicador do potencial de absorção de água e nutrientes, sendo proporcionalmente maior o volume ocupado e explorado do solo, quanto maior for o comprimento radicular total (Atkinson, 2000). Adicionalmente, os estudos sobre o influxo líquido de nutrientes deve levar em conta a influencia do diâmetro radicular e a distancia média entre raízes (França et al., 1999). Outros estudos, ligados à produtividade primária, necessitam de dados sobre as quantidades totais de biomassa e sua partição entre parte aérea e raízes. 6.5 Magnitude dos sistemas radiculares Em parte, a eficiência na captação de recursos das plantas está associada à capacidade de explorar o meio, e via de regra, quanto mais escassos os recursos no meio, maior o investimento em sistema radicular. Segundo TAIZ & ZEIGER (2004), a habilidade das plantas em obter água e nutrientes minerais está relacionada à sua capacidade de desenvolver um extenso sistema radicular. Os autores retornam a Dittmer, que em 1930, examinou o sistema radicular de uma única planta de centeio depois de 16 semanas de crescimento e estimou que a mesma tinha 13 milhões de eixos radiculares primários e secundários, estendendo-se por aproximandamente 500 km (comprimento total) e proporcionando 200 m2 de área radicular superficial, que somados aos 300 m2 de área dos pêlos radiculares do sistema, faziam contato com 500 m2 de solo. TAIZ & ZEIGER (2004), também destacam as raízes das plantas do gênero Prosopis, que podem, em áreas desérticas, estender-se a 50 m de profundidade para alcançar a água subterrânea. Por outro lado, plantas cultivadas anualmente têm raízes que normalmente crescem entre 0,1 e 2,0 m em profundidade e se estendem lateralmente a distâncias de 0,3 a 1,0 m. Plantas perenes, atingem, em média, um comprimento total de 12 a 18 km por árvore. A produção anual de raízes, principalmente em ecossistemas naturais, pode facilmente ultrapassar a de partes aéreas, já que podem crescer continuamente ao logo de todo o ano, sendo que a proliferação das mesmas, no entanto, depende da disponibilidade de água e nutrientes. Em geral, se a rizosfera é pobre em nutrientes ou muito seca, o crescimento radicular é lento, havendo retomada do mesmo quando as condições na rizofera melhoram. Em azevém, Matthew et al. (2001), mostraram que o comprimento do sistema radicular atingiu 2,5 m por fitômero (unidade básica das gramíneas, constituída de de lâmina, bainha, entrenó,nó e gema, ou, simplesmente perfilho) , o que resultou em cerca de 82 km de raízes/m2 de superfície, para uma profundidade de 70 cm. 6.6 Plasticidade radicular A capacidade de adaptação do sistema radicular, através de mudanças morfológicas e fisiológicas às condições do meio ambiente é dada pela plasticidade fenotípica (López-Bucio et aI., 2002), sendo que as plantas que apresentam maior plasticidade são mais competitivas (Fan et aI., 2003). Essas alterações em geral não modificam a arquitetura, de modo a afetar as características básicas do sistema radicular como a fasciculação e a pivotância, dentre outras. A relação entre raiz e parte aérea é determinada pela diferença fisiológica entre esses órgãos. Raízes geralmente se desenvolvem no escuro, portanto, são dependentes de fotoassimilados. As partes aéreas, por sua vez, são dependentes da absorção de água e nutrientes pelas raízes. As atividades da parte aérea, bem como do sistema radicular, são decisivas para definir a massa e o volume de ambos. As relações entre esses órgãos são coordenadas e reguladas por fitohormônios, com destaque para auxinas e citocininas. O balanço entre parte aérea e sistema radicular é dinâmico e sujeito a modificações. A comprovada correlação existente entre parte aérea e sistema radicular, no entanto, não deixa claro o que é causa ou efeito (Moreira, 2004). O efeito de estresses nutricionais sobre a alocação de carbono, geralmente, proporciona aumento do sistema radicular, ou seja, da capacidade de absorção. O P por exemplo, apresenta baixa mobilidade no solo e freqüentemente limita a produtividade (López-Bucio et aI., 2002), e a resposta do sistema radicular é bem específica (Williamson et aI., 2001), e, ocorre através de diversas características do sistema radicular, tal como proliferação de raízes em sítios onde ocorre maior disponibilidade deste elemento (Bonser et aI., 1996). As raízes de Poácea (gramíneas), proliferadas em regiões mais férteis do substrato, são finas e apresentam aumento de diversas características, tais como comprimento específico, número de raízes laterais de primeira e segunda ordem, comprimento do eixo radicular principal e comprimento médio da raiz principal em relação ao comprimento do eixo principal (Larigauderie & Richards, 1994). 6.7 Gravitropismo Gravitropismo é a resposta específica de crescimento em relação à força da gravidade, e faz com que uma planta colocada na horizontal, curve sua parte aérea para cima e seu sistema radicular para baixo. Raízes em geral, apresentam gravitropismopositivo, sendo que as raízes principais são orientadas mais verticalmente que as laterais de primeira ordem, enquanto raízes laterais de segunda ou de ordem superior, podem se desenvolver quase que em todas as direções (Salisbury & Ross, 1992). A resposta à mudança de gravidade pode ser divida em três fases: percepção, tradução e resposta (Taiz & Zeiger, 2004). A percepção ou a detecção inicial da gravidade parece ocorrer na coifa, nos últimos milímetros da raiz. Essa resposta, uma alteração no padrão de crescimento, que conduz à curvatura para baixo, ocorre na zona de alongamento (Evans et al., 1986). A percepção da gravidade é dada pela movimentação de amiloplastos. Esses possuem dois ou mais grânulos de amido e se localizam nas células da coifa da raiz (Taiz & Zeiger, 2004). Conforme o posicionamento da raiz em relação à gravidade, os amiloplastos se sedimentam sobre os retículos endoplasmáticos, localizados na parte basal da célula, proporcionando a liberação de cálcio. O cálcio se liga à uma proteína denominada calmodolina. Quando desprovida de cálcio, a calmodolina é inativa. A cálcio-calmodolina, originária dessa ligação, ativa as bombas de cálcio e a auxina localizadas nas partes basais da membrana celular, proporcionando aumento na concentração de auxina e cálcio. A elevada concentração de auxina inibe o crescimento dessa região da raiz, provocando a curvatura da mesma (Evans et aI., 1986; Figura 14). Figura 14. Sucessão de mudanças do padrão de pH na superfície da raiz principal de milho exposta a um estímulo geotrópico. Regiões de pH alto são representadas pelo vermelho e regiões de pH baixo são representadas por amarelo. O tempo de exposição ao estímulo (posição horizontal do eixo radicular) foi de 20 minutos e 120 minutos. Adaptado a partir de de Mulkey e Evans (1981). Quando a raiz está na posição horizontal, ocorre migração de Ca para a coifa. O acúmulo desse íon na parte basal estimula a movimentação diferencial e basípeta da auxina para a zona de alongamento. Ao longo do estímulo da gravidade, o balanço entre o movimento acrópeto (da base para o ápice) da auxina, como estimulador do 20 min. 120 min. crescimento, e o movimento basípeto do ABA, que inibe o crescimento, é alterado. Como conseqüência, ocorre o crescimento longitudinal e assimétrico entre os lados inferior e superior (Jesko, 1994). Existe ainda outra hipótese, onde o sinal que desencadeia a resposta seria elétrico, ou eletroquímico, e não hormonal (Taiz & Zeiger, 2004). Essa hipótese considera uma corrente elétrica simétrica ao longo do sistema radicular, quando esse está na posição vertical. Quando as raízes são colocadas na horizontal, essa corrente passa a ser assimétrica. Há evidências da participação do fluxo de H+ na formação dessa corrente elétrica. (Evans et aI., 1986; Salisbury & Ross, 1992). O fluxo de H+ estaria refletindo o fluxo de cálcio para a parte basal da coifa, para manutenção do equilíbrio de cargas (Evans et aI., 1986). 6.8 Variabilidade e arranjo espacial e temporal Os estudos sobre o desenvolvimento, a distribuição e a profundidade efetiva das raízes têm permitido aprimorar os conhecimentos sobre essa relação, através da determinação da camada de solo a ser umedecida pela aplicação de água, assim como a profundidade de monitoramento da água no solo. A figura 15 mostra a distribuição espacial das raízes de cana-de-açucar, em condições de campo. 0,0 0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 3,0 3,5 4,0 3,02,01,00,01,02,03,0 Distância do centro da touceira (m) P ro fu n d id a d e ( m ) Raizes-cordão Raizes de sustentação Raizes superficiais Figura 15. Distribuição vertical e horizontal do sistema radicular da cana-de-açucar. O tolete foi plantado aos 25 cm de profundidade, destacando: Raízes superficiais, mais ramificadas responsáveis pela absorção da maior parte da água e dos nutrientes; Raízes de sustentação ou fixadoras, responsáveis pela ancoragem da touceira, e, Raízes-cordão, profundas e importantes no processo de ciclagem de nutrientes e absorção de água nos períodos de veranicos. Adaptado de Orlando Filho (1983) e Smith et al (2005). Neves et al. (2000) analisaram o sistema radicular de três cultivares de acerola em um Latossolo Roxo e verificaram que a profundidade efetiva do sistema radicular das três variedades variou de 0,50 a 0,69m, pois nesta profundidade foram encontrados 80% do sistema radicular das plantas analisadas. Com relação à distribuição horizontal das raízes no perfil do solo, os autores observaram que 80% do sistema radicular concentravam-se a 0,75 metro de distância da planta. Diante disto, recomenda-se que sejam feitas avaliações da distribuição do sistema radicular das plantas, no sentido de se determinar a profundidade efetiva das raízes de absorção de água e nutrientes para locais específicos e, conseqüentemente, os volumes de água disponíveis no perfil do solo para as plantas. Somente, a partir dessas informações, será possível otimizar a freqüência e ou a intermitência da irrigação e as lâminas de água a aplicar em cada irrigação. Avaliando a distribuição e variação temporal de características radiculares de B. humidicula em Planossolo arenoso, Brasil (2001) verificou a importância de três classes de raízes (finas (<0,8mm), médias (1,5-0,8mm) e grossas (2,5-1,6mm) para o comprimento e biomassa radicular em amostras de solo coletadas em camadas paralelas de 10cm de solo até 70cm de profundidade. Estes autores verificaram que as raízes finas contribuíram com a quase totalidade do comprimento total e mais da metade da biomassa acumulada até 70cm de profundidade, concentrando-se principalmente nos primeiros 20cm (Figura 16). Estes resultados revelam que a cuidadosa separação de raízes por classes de diâmetro é essencial para o entendimento da dinâmica de resposta do sistema radicular de B. humidicola às flutuações nas condições ambientais e que a fração raízes finas contribuem significativamente não somente para o comprimento total do sistema radicular como também para a biomassa total do mesmo. 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0 40 80 120 160 200 Comprimento Radicular (m dm -3 ) P ro fu n d id a d e ( m ) Grossa Média Fina Muito Fina Total Figura 16. Variação da densidade do comprimento radicular (Total; m dm-3) de Brachiaria decumbens em função do diâmetro de raízes (Grossa, média, fina e muito fina), em profundidade. Brasil, 2005. 7. Fatores abióticos e bióticos que alteram o desenvolvimento radicular Os fatores abióticos que influenciam a fisiologia das raízes e, por conseqüência, o crescimento e o desenvolvimento das culturas, podem ser classificados, quanto à sua natureza, em químicos (pH, a concentração de elementos tóxicos e nutrientes), físicos e fisico-hídricos (oxigenação, temperatura, umidade, textura, densidade/porosidade). Quase todos estes fatores são interdependentes. A influência da umidade do solo com relação à resistência à penetração das raízes, e pode estar relacionado com fatores bióticos, como exemplos, a influência da temperatura e do pH na atividade microbiana (decompositores, FBN e micorrizas), a oxigenação interagindo com os fatores químicos e biológicos (oxidação, respiração, etc.). De modo geral, o crescimento das plantas é reduzido drasticamente na presença de camadas compactadas; com impedimentos de natureza química (acidez e toxidez por Al+3); e físico-hídrica (alagamento, seca). No entanto algumas diferenças entre espécies são observadas (Taylor, 1981; Materechera et al., 1991). As raízes não podem alterar o diâmetro de seu ápice, para penetrar em poros menores à sua proporção tecidual (diâmetro e área superficial), por isto ao crescer em solos compactados, as plantas necessitam deslocar partículas minerais (areia, argila, etc.), para alongar e expandir seus eixos radiculares. Muitas espéciessofrem limitações de crescimento na presença de horizontes ou camadas compactadas, ocorrendo freqüentemente o encurtamento e aumento do diâmetro dos eixos radiculares, e, além disso, podem ocorrer alterações anatômicas significativas como a relação entre a espessura do córtex e a espessura do cilindro vascular das raízes (Bassoi et al., 1999). No entanto, a simples redução no alongamento dos eixos principais não pode ser considerada como uma diminuição do crescimento radicular, e sim uma alteração na distribuição espacial das raízes, em proporção horizontal, já que em condições de limitação do crescimento radicular em profundidade, ocorre uma intensa proliferação de eixos laterais finos (secundários e de ordens superiores, com diâmetro < 0,8 mm) e pêlos radiculares (diâmetro < 0,1 mm), que contribuem para o aumento significativo da superfície específica radicular superficialmente (Dias Correia, 1986), o que pode ser limitante em regiões com períodos prolongados de seca. Por esta razão, a profundidade em que as camadas compactadas aparecem no solo, determinará a importância agrícola do mesmo. A estrutura é a propriedade física do solo que diz respeito à aglutinação das partículas primárias em partículas secundárias (agregados), delimitadas umas das outras por superfícies de fraqueza ou separadas por descontinuidades, dando origem a agregados de configurações peculiares. Esta propriedade exerce influência direta sobre o crescimento das raízes, reduzindo a sua extensão em função de alterações significativas provocadas pelo stress mecânico no alongamento das diferentes espécies cultivadas. Dexter (1988) define a estrutura do solo como sendo “a heterogeneidade espacial dos diferentes componentes do solo”, e por isto ainda existe uma grande lacuna na pesquisa, sobre métodos de estudos para determinar as interações entre a estrutura do solo e o desenvolvimento do sistema radicular, que precisam ser melhor desenvolvidos. Esta propriedade controla os espaços vazios e, conseqüentemente, a quantidade de água e oxigênio que pode ser armazenada no solo e a velocidade com que são liberados para as raízes das plantas. Desta forma, a porcentagem de espaços vazios no volume do solo e, especialmente, seus aspectos geométricos, como número, tamanho, forma, distribuição, direção, continuidade e conexão são portanto, bastante relevantes e podem alterar o crescimento das raízes. A forma e a orientação dos agregados dentro do solo podem afetar a penetração das raízes, pois esses fatores influenciam o ângulo de contato no qual a coifa encontra a superfície dos mesmos. A chance de penetração é menor quando o ângulo de contato coifa-superfície do agregado é mais agudo. Por outro lado, a falta de ancoragem (apoio) em camadas mais soltas (frouxas) do solo pode impedir a penetração de raízes em camadas mais duras. Por exemplo, se a semente é plantada em solo desagregado e a plântula encontra uma crosta superficial, em vez de emergir poderá ser empurrada para baixo. Da mesma forma acontece com raízes, quando encontram superfícies duras, se a camada acima não oferecer apoio suficiente ela não conseguirá penetrá-la, mesmo que tenha força suficiente para tal (Rezende, 2000). A infiltração e a capacidade de armazenamento de água também estão intimamente relacionadas com a porosidade do solo e as raízes das plantas. A dinâmica destas propriedades, pode sofrer modificações na sua porção superficial com o passar do tempo, através de práticas de manejo como aração, tratos culturais, calagem, adubação, incorporação de matéria orgânica, dentre outras. A distribuição vertical das características radiculares dos vegetais também pode ser alterada em função da variação de textura nos horizontes superficiais e subsuperficiais do solo (Atkinson, 2000). Em solos argilosos as árvores muitas vezes formam raízes “dispersantes” concentradas no horizonte superficial, podendo muitas vezes o sistema radicular estar limitado às zonas de coveamento de plantio (Figura 17). Figura 17. Raízes dispersantes - efeito de coveamento na distribuição radicular da Acerola. A linha pontilhada representa o espaço tridimensional da cova de plantio. Fotografia de Felipe da Costa Brasil (2002). Os solos com textura homogênea (textura média a arenosa), ao longo de toda sua profundidade efetiva, apresentam normalmente uma distribuição radicular que declina conforme uma função exponencial decrescente (Brasil, 2001), o que pode ser alterado por ação de agentes de impedimento, como os já descritos anteriormente, ou em função do manejo do solo. Em solos com variação de textura entre os horizontes (Ex. A-AB-BA-Bt), ou com camadas de adensamento, tal distribuição passa a ser afetada de forma bimodal, ocorrendo zonas de acúmulo radicular após a camada de impedimento. No caso de solos coesos dos tabuleiros costeiros, estes apresentam normalmente uma redução grande da porosidade entre o horizonte superficial e subsuperficial. Cintra (1997), estudando um Podzólico acinzentado fragipan (Segundo a antiga Classificação de Solos), encontrou uma redução de 41% a 34% da biomassa radicular, entre o horizonte Ap e o BA, e, salienta que esta redução, deve em grande parte, resultar da diminuição de macroporos do horizonte compactado. A distribuição horizontal de raízes também pode ser afetada, uma vez que é comum observar agrupamentos de raízes concentrados em rachaduras, gretas ou covas de animais (Figura 18). Figura 18. Fissuras em um solo Mediterrânico (Luvisol) no período de seca na na Região do Alentejo em Portugal; a) na superficie; b) no perfil. Foto de Felipe da Costa Brasil (2004). Agrupamentos ou acúmulos de raízes no espaço ocorrem naturalmente em certas regiões, especialmente em sistemas radiculares que possuem elevado número de ramificações curtas por unidade de comprimento da raiz parental (Bingham & Bengough, 2003). Um exemplo típico é a proliferação do sistema adventício de raízes nas gramíneas, nos primeiros centímetros do solo, onde a concentração de fatores de crescimento é maior que no subsolo. Como propriedade química limitante, a acidez do solo é comum em todas as regiões onde a precipitação é suficientemente elevada para lixiviar quantidades apreciáveis de bases permutáveis das camadas superficiais dos solos. Tão generalizada é a sua ocorrência e tão pronunciada a sua influência sobre os vegetais, que se transformou numa das mais discutidas propriedades do solo. Especificamente a presença de Al+3 a níveis tóxicos para a maioria das plantas cultivadas, é um dos principais fatores que limitam a produção agrícola (Ma et al., 2001) (Figura 19). a b Figura 19. Efeito do conteúdo de Al+3 no desenvolvimento de plântulas de arroz, variedade Caiapó (Zonta, 2003). Particularmente, é na raiz que se verifica o principal sintoma de toxicidade e maior sinal de danos, sendo a inibição do crescimento longitudinal uma das características que pode variar entre espécies tolerantes e sensíveis, em diferentes graus (Kochian, 1995). Este cátion, quando em contato com as raízes, promove rapidamente a paralisação do crescimento radicular, tornando-as atrofiadas em função da morte ou injúria do meristema radicular. Especificamente, a parte distal da zona de transição no ápice das raízes, onde as células estão entrando em fase de alongamento, é o sítio da ação tóxica primária do Al+3 (Sivaguru & Horst, 1998). Ainda, o Al+3, atua fixando fósforo em formas menos disponíveis nas superfícies das raízes, diminuindo a respiração desta, além de interferir na atividade das enzimas de fotofosforilação, reduzindo a absorção, transporte, e a eficiência de uso de água e vários nutrientes essenciais (Ca, Mg, K, P e Fe), entre outros efeitos diretos e indiretos (Nichol & Oliveira, 1995). Em síntese, plantas afetadas por Al também apresentam sintomas de deficiência de nutrientes,tais como P, Ca, Mg, K e Mo, devido à interferência do Al nos processos de absorção, transporte e uso destes nutrientes. Tais deficiências aparentemente ocorrem porque o Al induz a deposição de calose nos canais plasmodesmáticos, inibindo fisicamente o transporte simplástico entre células (Sivaguru et al., 2000). Esse assunto será melhor discutido no capitulo 16 neste volume. A matéria orgânica do solo afeta significativamente sobre diferentes aspectos diretos e indiretos, para o desenvolvimento e a dinâmica do sistema radicular. Funciona como fonte e reserva de nutrientes, e atua sobre os principais processos pedogenéticos, participando na migração ou fixação de alguns elementos (Ca, Fe, Al) e argilas; reduzindo o efeito tóxico de metais (Al, Mn); estabilizando o pH do meio, além de regular o regime térmico e hídrico do solo; melhorando a densidade e a estrutura do solo (SANTOS & CAMARGO, 1999). Não obstante a estes efeitos conhecidos da matéria orgânica do solo, a importância das substâncias húmicas como bioativadoras do crescimento vegetal tem sido relatada por alguns autores. Os resultados demonstram que estas substâncias podem alterar o arranjo tridimensional, com um aumento substancial da superfície específica do sistema radicular, além de atuar sobre a ativação das H+-ATPases e na permeabilidade das membranas (Capitulo 4 neste volume), com isto tornando-o mais eficiente nos processos de absorção de água e nutrientes (Façanha et al., 2002). Outro aspecto a ser abordado na dinâmica do crescimento radicular, que governa as demais propriedades acima discutidas, é a própria natureza mineralógica dos solos. Tomando-se como exemplo solos Cauliniticos (Ki e Kr > 0,75 ) e solos Oxídicos (Kr < 0,75) (Embrapa, 1999), que diferem quanto ao grau de intemperismo, e conseqüentemente apresentam diferenças significativas nas propriedades físicas e químicas dos solos e de suas interações com o crescimento radicular das culturas. Como exemplo de propriedades físico-hídricas, podemos citar as diferenças entre os Argissolos (cauliníticos), que apresentam uma descontinuidade de capilaridade na transição do Horizonte A (mais arenoso) com o Horizonte Bt (argiloso), onde são observadas maior microporosidade no horizonte B do que no A, e o inverso em relação à macroporosidade, tendo influência direta na maior umidade da camada subsuperficial. Comparativamente, a homogeneidade da macro e microporosidade em todos os horizontes dos Latossolos (Oxídicos), facilita a evaporação da água, sua drenagem, e conseqüentemente a distribuição do sistema radicular em profundidade. Embora os Latossolos tenham propriedades físicas mais favoráveis que os Argissolos, devido a seu estágio avançado de intemperismo, inúmeros problemas de natureza química são acentuados, tais como: pH, alumínio, baixo conteúdo de matéria orgânica, baixa CTC, fósforo, etc. (Oliveira, 2001). Tais propriedades conforme já descrito anteriormente, alteram o crescimento radicular, sendo encontrados na literatura inúmeros trabalhos, sobre o manejo e correção dos solos, principalmente através de calagem e adubações de NPK, em solos da região do Cerrado brasileiro, com predomínio de solos Oxídicos. 7.1. Micorrização As raízes podem ser ajudadas em suas funções por microrganismos encontrados no solo. Entre essas associações, a mais generalizada interação entre as plantas e microrganismos é a micorriza. Os fungos micorrízicos arbusculares (FMA) estão sendo apresentados em detalhes no capitulo 3 neste volume. Algumas modificações nas raízes, resultantes da interação com fungos ectomicorrízicos são aqui apresentadas. De uma maneira geral, a rede de Hartig é distribuída ao redor das células corticais e a manta de fungos pode envolver a raiz como uma bainha. A infecção não se espalha em tecidos meristemáticos ou dentro dos vasos condutores. A ectomicorriza penetra enzimaticamente e mecanicamente entre as células epidérmicas e entre a lamela média das células corticais. A penetração enzimática é primeiramente hidrolítica via enzimas pectolíticas e pode progredir até a endoderme. O grau de desenvolvimento do fungo no córtex da raiz é aparentemente mediado pela agressividade do fungo e pela resposta do hospedeiro (Marx & Krupa, 1978). Brundrett (2002) sugere que pressões de seleção causaram divergências morfológicas em raízes com diferentes tipos de micorrizas. A espessura e suberização da exoderme são maiores em plantas micorrízicas obrigatórias, enquanto plantas não micorrizadas possuem tendência a ter raízes finas, com mais pêlos radiculares e defesas químicas avançadas. Espécies em associação com ectomicorrizas geralmente possuem raízes laterais curtas e grossas, resultando um sistema radicular distinto. Existem plantas que parecem ter raízes curtas quando em associação com fungos micorrízicos vesículo-arbusculares (VAM), como as angiospermas Acer e Ulmus e a gymnosperma Podocarpus. Arisaema atrorubens com raízes grossas e relativamente sem ramificações e sem pêlos radiculares é considerada altamente dependente de micorrizas (Brundrett & Kendrick, 1988). Contudo, existem exceções, como Geranium robertianum que apresenta raízes altamente ramificadas e é considerada como tendo baixa necessidade de micorrizas. As raízes micorrizadas da espécie arbórea bétula (Betula alleghaniensis) são mais grossas que as raízes da mesma ordem não micorrizadas, dado à manta de hifas na superfície (Brundrett, 2002). O padrão de crescimento das raízes das plantas hospedeiras é freqüentemente alterado pelo desenvolvimento de fungos ectomicorrízicos (ECM) no sistema radicular. Por exemplo, em Pinus a proliferação de raízes curtas é estimulada pela colonização com o fungo, bem como a bifurcação das raízes curtas (Reid, 1990). A colonização com MA mudou a morfologia do sistema radicular de Annona cherimola, aumentando o número total de raízes, o número de raízes laterais de primeira ordem e de segunda ordem (Padilla et al., 2005). Outra importante interação da raiz com microrganismos é a produção de nódulos radiculares em leguminosas (Capitulo 9 neste volume). Esses nódulos são estruturas que se desenvolvem em muitos membros da família Leguminosae em presença do rizóbio apropriado (Sprent & Sprent, 1990) ou Burkholderia (Chen et al 2005) e que suprem a planta de nitrogênio fixado. Pode ocorrer também a formação de nódulos radiculares fixadores de nitrogênio em membros das famílias Rosaceae, Eleagnaceae, Rhamnaceae, Betulaceae, Casuarinaceae, Myricaceae, Coriariaceae e Datiscaceae, em associação com Frankia (Sprent & Sprent, 1990). Fatores ambientais podem afetar o processo de enraizamento de esplantes e cita- se que para E globulus e E. saligna, baixas temperaturas ocasionaram uma demora no enraizamento dos explantes. Neste caso, foram identificadas características preferenciais por espécie, sendo que E. saligna prefere temperaturas mais elevadas e E. globulus, temperaturas mais baixas (Corrêa & Fett-Neto, 2004). 7.2. As raízes e a formação de agregados no solo Apesar de representarem uma pequena fração dos constituintes orgânicos do solo, as raízes exercem também grande influência direta e indireta, na formação e estabilidade dos agregados no ambiente edáfico (Silva & Mielniczuck, 1997). A dinâmica radicular, através da transferência direta dos produtos da fotossíntese para a matriz do solo, tem sido considerada a principal força propulsora na manutenção da qualidade do solo. Tais produtos são representados pelo tecido radicular vivo, exsudatos e diversos constituintes orgânicos derivados das raízes em crescimento, raízes mortas e pelos radiculares, além de microrganismos rizosféricos e seus subprodutos de elevado poder agregante (Mielniczuck, 1999). Estes compostos, ao se associarem com a matéria mineral do solo, formam agregados estáveis em água, onde permanecem menosacessíveis ao ataque de microorganismos decompositores (Haynes & Beare, 1996). As raízes atuam na primeira fase de formação dos agregados, sendo este um resultado de interações de componentes físicos, químicos e biológicos, onde os principais agentes são o clima, as raízes, os microorganismos, a fauna e o próprio tracionamento do solo (Silva & Mielniczuck, 1997). Durante seu crescimento, exercem pressões biofísicas (axial e radial), no seu avanço através do espaço poroso, aproximando as partículas minerais, e conseqüentemente aumentando a densidade do solo nas regiões mais próximas à superfície radicular. Paralelamente a absorção de água pelas raízes ocasiona um secamento das partículas adjacentes, provocando pressões capilares que intensificam a compressão dos grânulos minerais. Como componente bioquímico, o ambiente da rizosfera, rico em energia, estimula a proliferação de microorganismos que liberam substâncias húmicas e polissacarídeos responsáveis pela estabilização dos microagregados formados (partículas < 250 µm), e sua aglutinação em unidades maiores (Figura 20). Ao lado desta atividade, que ocorre enquanto o sistema radicular está em crescimento, a matéria orgânica oriunda da decomposição do tecido radicular após a sua senescência, raízes não decompostas, hifas de fungos e micorrizas também atuam na formação e estabilização, principalmente dos macroagregados (partículas > 250 µm) (Mielniczuck, 1999). Figura 20. Diagrama esquemático de um microagregado. Adaptado de Haynes & Beare (1996) por Orlando Carlos Huertas Tavares – CAPGA-CS – Depto de Solos – IA - UFRRJ (2006). Em conjunto, e analisando a dinâmica radicular, através de seus processos bioquímicos e físico-químicos em interação com a matriz mineral do solo, pode-se admitir que o sistema radicular é o principal componente formador dos micro e macroagregados do solo (Figura 21). Porém, a ação das raízes finas (< 800 µm) e dos pêlos radiculares (1 mm de comprimento por 10 µm de diâmetro) (Dias Correia, 1986), tanto pelo seu arranjo tridimensional (distribuição espacial, vertical e horizontal), que pode contribuir com mais de 90 % da área superficial e do comprimento radicular total (alta superfície específica) (Brasil, 2001), em conjunto com os processos de absorção de água e exudação de substâncias orgânicas, constituem a fração do sistema radicular mais efetiva na gênese e estabilidade dos agregados do solo (Haynes & Beare, 1996; Mielniczuck, 1999). Figura 21. Diagrama esquemático de um macroagregado de solo. Adaptado de Haynes & Beare (1996) por Orlando Carlos Huertas Tavares – CAPGA-CS – Depto de Solos – IA - UFRRJ (2006). Em adição aos componentes de formação dos agregados e a própria morfologia radicular, uma análise comparativa pode ser feita, quando da dinâmica (crescimento e renovação) de um sistema radicular denso, bem desenvolvido e atuante por vários anos no mesmo local, como por exemplo o das gramíneas forrageiras perenes, verificamos que o mesmo distribui uniformemente os efeitos de agregação em toda a matriz do solo, por favorecerem as ligações dos pontos de contato entre partículas minerais e constituintes orgânicos, quando comparado com as culturas anuais, cujo sistema radicular é menos desenvolvido e atua por curtos períodos de tempo no solo (Silva & Mielniczuck, 1997). 10. Literatura citada ATKINSON, D. Root characteristics: Why and what to measure. In: SMIT, A.L.; BENGOUGH, A.G.; ENGELS, C.; VAN NOORDWIJIK, M.; PELLERIN, S.; VAN DE GEIJN, S.C. (Eds) Root methods: a handbook. Springer-Verlag, Berlin Heidelberg, p.305-341. 2000. ATZMON, N., SALOMON, E., REUVENI, O., RIOV, J. Lateral root formation in pine seedlings. I. Sources of stimulating and inhibitory substances. Trees-Structure and function, 86:268-272, 1994. BALDANI, J. I ,., GOI, S. R., , AZEVEDO, M. S. de, REIS, V. M., TEIXEIRA, K. R. S., OLIVARES, F. L., BALDANI,V. L. D, DOBEREINER, J. Fixação biológica de nitrogênio em gramíneas: Avanços e aplicações. In: Soil fertility, soil biology and plant nutrition interrelationships. 1999. BASHAN, Y. & HOLGUIN, G. Azospirillum-plant relationships: environmental and physiological advances 1990 - 1996. Can. J. Microbiol. 43:103-121, 1997. BASHAN, Y. Azospirillum plant growth-promoting strains are nonpathogenic on tomato, pepper, cotton, and wheat. Can. J. Microbiol. 44:168-174, 1998. BASSOI, L.H.; FLORI, J.E.; ALENCAR, C.M.; SILVA, J.A.M.; RAMOS, C.M.C. Distribuição espacial do sistema radicular da pupunheira em solos irrigados no vale do São Francisco. Engenharia Agrícola. Jaboticabal, v.19, nº2, p. 163-176, 1999. BATES T. R.; LYNCH. J. P. Plant growth and phosphorus accumulation of wild type and two root hair mutants of Arabidopsis thaliana Brassicaceae. American Journal of Botany, 877 958-963, 2000. BATES T. R.; LYNCH. J. P. Root hairs confer a competitive advantage under low phosphorus availability. Plant an Soil, Volume 236, Number 2: 243-250. 2001. BINGHAM, I.J. & BENGOUGH, A.G. Morphological plasticity of wheat and barley roots in response to spatial variation in soil strength. Plant and Soil 250: 273– 282, 2003. BOERJAN, W., CERVERA, M. T., DELARUE, M., BECKMAN, T., DEWITE, W., BELLINI, C., CABOCHE, M., ONCKELEN, H. V., MONTAGU, M. V., INZE D. Superroot, a recessive mutation in Arabidopsis, confers auxin overproduction. Plant Cell 7:1405-1419, 1995. BONSER AM, LYNCH J, SNAPP S. Effect of phosphorus deficiency on growth angle of basal roots in Phaseolus vulgaris. New Phytol. 1996;132:281–288. BRASIL, F.C. Estudos de Características Radiculares de uma Pastagens de Brachiaria Humidicola com Auxílio de Análise Digital de Imagens. Tese de Mestrado. UFRRJ. 2001 BRASIL, F.C.Variabilidade espacial e temporal de características morfológicas do sistema radicular de gramíneas forrageiras / Felipe da Costa Brasil. Tese de Doutorado. UFRRJ, Seropédica, 2005.137p. BRUNDRETT, M. C. Coevolution of roots and mycorrhhizas of land plants. New Phytologist 154:275-304, 2002 BRUNDRETT, M. C., KENDRICK, W. B. The mycorrhizal status, root anatomy, and phenology of plants in a sugar maple forest. Canadian Journal of Botany, 66:1153-1173. 1988. BRUNDRETT, M. C., KENDRICK, W. B. The roots and mycorrhizae of herbaceous woodland plants. I. Quantitative aspects of morphology. New Phytologist 114:457-468. 1990. BUCIO, J.L; JACOBO, M.F.N; RODRÍGUEZ, V.R; ESTRELLA, L.H. Organic acid metabolism in plants: from adaptive physiology to transgenic varieties for cultivation in extreme soils. Plant Science 160 : 1–13. 2000. CAMARGO, O.A. & ALLEONI, L.R.F. Compactação do solo e o desenvolvimento de plantas. Piracicaba, Escola Superior "Luiz de Queiroz", 1997. 132p. CÁRDENAS, L., HOLDAWAY-CLARKE, T. L., SÁNCHEZ, F., QUINTO, C., FEIJÓ, J. A., KUNKEL, J. G., HEPLER, P. K. Ion changes in legume root hairs responding to nod factors. Plant Physiology, 123:443-451, 2000. CHEN, W.,DE FARIA, S. M., STRALIOTTO, R., PITARD, R. M., SIMÕES- ARAÚJO, J., CHOU, J.,BARRIOS, E.,PRESCOTT, A., ELLIOTT, G., SPRENT, J. I., YOUNG, P.W., JAMES, E.K. Proof that Burkholderia strains form effective symbioses with legumes: a study of novel mimosa-nodulating strains from south America. Applied and Environmental Microbiology, 7111: 7461-7471, 2005. CHRIQUI, D.; GUIVARCH, A.; DEWITTE, W.; PRINSEN, E. & VANONKELEN, H. Rol genes and root initiation and development. Plant and Soil, 187:47-55, 1996. CINTRA, F.L.D. Disponibilidade de água no solo para porta-enxertos de citros em ecossistemas de tabuleiro costeiro. Piracicaba: ESALQ, 1997. 90p. Tese de Doutorado. CORRÊA, L. Da R. & FETT-NETO, A. G. Effects of temperature on adventitious root development in microcuttings of Eucalyptus saligna Smith and Eucalyptus globules Labill. Journal of Thermal Biology, 29:315-324, 2004. DEBI, B.R., TAKETA, S. MASAHIKO, I. Cytokinin inhibits lateral root initiation but stimulates lateral root elongationin rice Oryza sativa. Journal of Plant Physiology, 162:507-515, 2005. DÉNARIÉ, J., DEBELLÉ, F., PROMÉ, J. C. Rhizobiumlipochitooligosaccharide nodulation factors: signaling molecules mediating recognition and morphogenesis. Annual Review of Biochemistry, 65:503-535, 1996. DEXTER, A.R. Advances in characterization of soil structure. Soil Tillage Res. v.11, p.199-238, 1988. DIAS CORREIA, A.A. Bioquímica nos solos, nas pastagens e forragens. Fundação Calouste Gulbenkian, 1986. 789p. ERVIN, S.E. & HUBBELL, D.H. Root hair deformations associated with fractionated extracts from Rhizobium trifolii. Appl. Environ. Microbiol. 49: 61-68, 1985. ESAU, K. Anatomy of seed plants. John Wiley and Sons, Toronto, 550p., 1977 EVANS, M. L.; MOORE, R. & HASENSTEIN, K.H. How roots respond to gravity. Scient. Amer. 255:100 -107, 1986. FAÇANHA, A.R.; FAÇANHA, A.; OLIVARES, F.L.; GURIDI, F.; SANTOS, G. de A.; VELLOSO, A.C.X.; RUMJANEK, V.M.; BRASIL, F.; SCHRISPEMA, J.; BRAZ-FILHO, R.; OLIVEIRA, M.A. & CANELLAS, L.P. Bioatividade de ácidos húmicos: efeitos sobre o desenvolvimento radicular e sobre a bomba de prótons da membrana plasmática. Pesq. Agropec. Bras., 37: 1301-1310, 2002. FAN, L. & NEUMANN, P. M. The Spatially Variable Inhibition by Water Déficit of Maize Root Growth Correlates with Altered Profiles of Proton Flux and Cell Wall pH. Plant Physiology, August 2004, Vol. 135, pp. 2291–2300. 2004 FAN, MS, ZHU, JM, RICHARDS, C, BROWN, KM, LYNCH, JP. Physiological roles for aerenchyma in phosphorus-stressed roots" Funct. Plant Biol. 30: 493-506. 2003. FELLE, H. H., KONDOROSI, E., KONDOROSI, A., SCHULTZE, M.1 The role of ion fluxes in Nod factor signaling in Medicago sativa. Plant J. 13:341-350. 1998. FERNANDES, M.S.; ROSSIELLO, R.O.P. Mineral nitrogen in plant physiology and plant nutrition. Critical Reviews in Plant Sciences, Boca Raton, v.14, p.111- 148, 1995. FOEHSE, D., JUNGK, A. Influence of phosphate and nitrate supply on root hair formation of rape, spinach and tomato plants. Plant and Soil, 74, 359-368, 1983. FRANÇA, M. G. C.; ROSSIELLO, R. O. P.; RAMOS, F. T.; ZONTA, E. Growth and proton efflux in roots of rice (Oryza Sativa L.) seedlings under natural light conditions. Acta Botânica Brasílica, 2006. GOI, S.R., SILVA, R. A. DA, BALDANI, V.L.D. & BALDANI, J.I. Influência da inoculação de bactérias diazotróficas endofíticas na formação de pêlos radiculares em cana-de-açúcar. Fertbio98. Interrelação Fertilidade, Biologia do Solo e Nutrição de Plantas: Consolidando um Paradigma. Caxambú, 11 a 16 de Outubro de 1998. Resumo 428, p. 432, 1998. HAYNES, R.J.; BEARE, M.H. Aggregation and organic matter storage in meso-thermal humid soils. In: CARTER, M.R.; STUART, B.A., Ed. Structure and organic matter storage in agricultural soils. Boca raton: Lewis Publishers, 1996. P.213- 262. ITOH, S., BARBER, S. A. Phosphorus uptake by six plant species as related to root hairs. Agronomy Journal, 75, 457-461, 1983. JAIN, D. K. & PATRIQUIN, D. G. Characterization of a substance produced by Azospirillum which causes branching of wheat root hairs. Can. J. Microbiol., 31: 206-210, 1985. JARVIS, S.J. Soil-plant-animal interactions and impact on nitrogen and phosphorus cycling and re-cycling in grazed pastures. In: International Symposium: Grassland Ecophysiology and Grazing Ecology. A. de Moraes; C.Nabinger; P.C.de F. Carvalho, S.J. Alves; S.B.C. Lustosa (Eds.). Curitiba: UFPR, p. 215- 234, 1999. JONES, D.L. Organics acids in the rhizosphere – a critical review. Plant and Soil, 205:25-44. 1998. JUNGK, A.O. Dynamics of nutrient movement at the soil-root interface. In: WAISEL, Y.; ESHEL, A.; KAFKAFI, U. (Eds.). Plant roots: the hidden half. New York: Marcel Dekker, 1991. p.455-481. KOCHIAN, L.V. Cellular mechanism of aluminum toxicity and resistance in plants. Annual Review of Plant Physiology and Plant Molecular Biology, v.46, p.237- 260. 1995. Larigauderie, A., Richards, J.H. Root proliferation characteristics of seven perennial arid-land grasses in nutrient-enriched microsites. Oecologia 99:102-111. 1994. LIN, W., OKON, Y. & HARDY, R. W. F. Enhanced mineral uptake by Zea mays and Sorghum bicolor roots inoculated with Azospirillum brasilense. Appl. Environ. Microbiol. 45: 1775-1779, 1983. LIU, H., WANG, S., YU, X, YU, J., HE, X., ZHANG, S., SHOU, H., WU, P. ARL1, a LOB-domain protein required for adventitious root formation in rice. The Plant Journal, 43 1: 47-56, 2005. LLORET, P. G. & PULGARIN, A. Effect of naphthaleneacetic acid on the formation of lateral roots in adventitious root of Allium cepa: number and arrangement of laterals along the parent root. Canadian Journal Botany, 70:1891-1896, 1992. LOHAR, D. P., SCHAFF, J. E., LASKEY, J. G., KIEBER, J.J., BILYEU, K. D., BIRD, D. M. Cytokinins play opposite roles in lateral root formation, and nematode and rhizobial symbioses. The Plant Journal, 38:203-214, 2004. LOPEZ-BUCIO J, HERNANDEZ-ABREU E, SANCHEZ-CALDERON L, NIETO- JACOBO MF, SIMPSON J, HERRERA-ESTRELLA L. Phosphate availability alters architecture and causes changes in hormone sensitivity in the Arabidopsis root system. Plant Physiol. May;129(1):244-56. 2002. LORBIECKE, R., SAUTER, M. Adventitious root growth and cell-cycle induction in deepwater rice. Plant Physiology, 119:21-29, 1999. LYNCH, J. M. The Rhizosphere. John Wiley & Sons. 458 p, 1990. LYNCH, J. Root architecture and plant productivity. Plant Physiology, v.109, p.7-13, 1995. MA, J.F; RYAN, P.R; DELHAIZE, E. Aluminium Tolerance in plants and the complexing role of organic acids. TRENDS in Plant Science. v. 6, n.6, p.1360 – 1385, 2001. MARX, D. H. & KRUPA, S, V. Mycorrhizae, A. Ectomycohrriza. In: Interactions between non-pathogenic soil microorganisms and plants. Ed: Y. R. Dommergues & S. V. Krupa. p. 373-399, 1978. MATERECHERA, S.A.; DEXTER, A.R.; ALTSON, A.M. Penetration of very strong soils buy seedlings roots of different plant especies. Plant and Soil, Dordrecht, v. 135, p.31-41, 1991. MATTHEW et al. (2001). Understanding Shoot and Root Development. XIX International Grassland Congress. p. 19-27, 2001. McCULLY, M. E. Roots in soil: unearthing the complexities of roots and their rhizospheres. Annual Review of Plant Physiology and Plant Molecular Biology. V.50:695-718, 1999. METRAUX, J. P., KENDE, H. The role of ethylene in the growth response of submerged deep water rice. Plant Physiology, 72:441-446, 1983. MIELNICZUCK, J. Importância do estudo de raízes no desenvolvimento de sistemas agrícolas sustentáveis. In: Anais Workshop sobre sistema radicular: Metodologias e Estudo de Casos. M.F. FERNANDES; E.D. TAVARES; M. L. da S. LEAL (Ed.). Embrapa Tabuleiros Costeiros. Aracaju, 1999. p .13-17. MIELNICZUCK, J. Importância do estudo de raízes no desenvolvimento de sistemas agrícolas sustentáveis. In: Anais Workshop sobre sistema radicular: Metodologias e Estudo de Casos. M.F. FERNANDES; E.D. TAVARES; M. L. da S. LEAL (Ed.). Embrapa Tabuleiros Costeiros. Aracaju, 1999. p .13-17. MILLER, D. D., DE RUIJTER, N. C., BISSELING, T., EMONS, A. M. The role of actin in root hair morphogenesis: studies with lipochito-oligosaccharides as a growth stimulator and cytochalasin as an actin perturbing drug. Plant Journal. 17, 2:141-154, 1999. MOREIRA, F.M.S. & SIQUEIRA, J.O. Microbiologia e bioquímica do solo. Lavras, Universidade Federal de Lavras, 2002. 625p. MOREIRA, M.F. de. Desenvolvimento do sistema radicular e da parte aérea do feijoeiro comum em função da distribuição e do teor de fósforo no solo. Tese de Doutorado. ESALQ. 135p. 2004 MULKEY , T.J. & EVANS, M.L. Geotropism in Corn Root: Evidence for its Mediation by Differential Acid Efflux. Science, 212 (2) pag. 70-71. 1981. MULLER, M., SCHMIDT, W. Environmentally induced plasticity of root hair development in Arabidopsis. Plant Physiology, 134:409-419, 2004. NEMOY, P. Introduction into Cluster (Proteoid) Roots. http://www.tau.ac.il / ~ecology / virtau/ 3-philip_nemoy / cluster_roots.htm. Consultado em 02/02/2006 NEUMANN, G. & MARTINOIA, E. Cluster roots – an underground adaptation for survival in extreme environments. Trends in Plant Science, 7, 4:162-1162-167, 2002. NEVES, C. S. V. J.; BORGES, A. V. ; KANAI, H. T.; PRETE, E. C. E.; PIPOLO, V. C. Distribuição do sistema radicular de aceroleira cultivares Dominga, Ligia e Natalia. In XVI CONGRESSO BRASILEIRO DE FRUTICULTURA, CD ROM. Fortaleza, 2000. RESUMOS. NICHOL B.E., OLIVEIRA L.A., Effects of aluminium on the growth and distribution of calcium in roots of an aluminium-sensitive cultivar of barley (Hordeum vulgare), Can. J. Bot. 73:1849–1858. 1995. NIELSEN, K.L; MILLER, C.R; BECK, D; LYNCH, J.P. Fractal geometry of root systems: Field observations of contrasting genotypes of common bean (Phaseolus vulgaris L.) grown under different phosphorus regimes. Plant and Soil 206, 181-190. 1999. NYE, P.H. Changes of pH across the rhizosphere induced by roots. Plant and Soil 61, 7–26. 1981 OLIVEIRA, J.B. Pedologia aplicada. Jaboticabal – SP, FUNEP, 2001. 414 p. OLIVEIRA, M.R.G.; VAN NOORDWIJK, M.; GAZE, S.R.; BROUWER, G.; BONA, S.; MOSCA, G. HAIRIAH, K. Auger sampling, ingrowth cores and pinboard methods. In: SMIT, A.L.; BENGOUGH, A.G.; ENGELS, C.; VAN NOORDWIJIK, M.; PELLERIN, S.; VAN DE GEIJN, S.C. (Eds) Root methods: a handbook. Springer-Verlag, Berlin Heidelberg, p.176-206, 2000. ORLANDO FILHO, J. Nutrição e adubação da cana-de-açúcar. Piracicaba: IAA/Planalsucar, 369 p. 1983. PADILLA, I. M. G., ENCINA, C. L. Changes in root mhorpology accompanyng mycorrhizal alleviation of phosphorus deficiency in micropropagated Annona cherimola Miil. plants. Scientia Horticulturae 106 3: 360-369, 2005. PATRIQUIN, D. G.; DÖBEREINER, J. & JAIN, D. K. Sites and processes of association between diazotrophs and grasses. Can. J. Microbiol., Ottawa, 29: 900-915, 1983. PERES, L. E. P. & KERBAUY, G. B. Controle hormonal do desenvolvimento das raízes. Universa, 8:181-195, 2000 PIMENTEL, C, A relação da planta com a água. Seropédica: EDUR. Editora da Univ. Fed. Rural do Rio de Janeiro. 159p. 1998. PIMENTEL, C, Metabolismo de Carbono na Agricultura Tropical. Seropédica: EDUR. Editora da Univ. Fed. Rural do Rio de Janeiro. 159p. 1998. RANATHUNGE, K., STEUDLE, E., & LAFITTE R. A new precipitation technique provides evidence for the permeability of Casparian bands to ions in young roots of corn Zea mays L. and rice Oryza sativa L.. Plant, Cell and Environment, 28, 1450–1462. 2005. RAVEN, J. A. & EDWARDS, D. Roots: evolutionary origins and biogeochemical significance. Journal of Experimental Botany, 52:381-401, 2001. RAVEN, P.H., EVERT, R.F., & EICHHORN, S.E. Biologia Vegetal. 5ª ed. Editora Guanabara Koogan. 1996. REED, R. C.; BRADY, S. R., MUDAY, G. K. Inhibition OF auxin movement from the shoot into the root inhibits lateral root development in Arabidopsis. Plant Physiology, 1118:1369-1378, 1998. REID, C. P. P. Mycorrhizas. In: The Rhizosphere, Ed: Lynch, J. M. 281-315, 1990. REZENDE, J.O. Solos coesos dos tabuleiros costeiros: Limitações agrícolas e manejo. Série estudos agrícolas, 1, Salvador, 2000. 117p. RICHARDS, J.H. Physiology of plant recovering from defoliation. In: BAKER, M.J. (Ed). Grasslands for our world. Wellington: Sir Publishing, p. 46-54. 1993. 1993 ROMBERGER, J. A. Meristems, growth, and development in woody plants; an analytical review of anatomical, physiological, and morphogenic aspects. U. S. Department of Agriculture, Forest Service Techinal Bulletin n˚ 1293, 1963. ROSSIELLO, R.O.P.; ARAÚJO, A.P.; MANZATTO, C.V.; FERNANDES, M.S. Comparação dos métodos fotoelétrico e da interseção na determinação de área, comprimento e raio médio radicular. Pesquisa Agropecuária Brasileira, Brasília, v.30, p.633-638, 1995. RUSSELL, R. S. Plant Root Systems: Their function and interaction with the soil. McGraw-Hill Book Co. Ltd., London. 1977. RYAN, PR, DELHAIZE, E, JONES, DL. Function and mechanism of organic anion exudation from plant roots. Annu. Rev. Plant Physiolo. Plant Mol. Biol. 52:527-560. 2001. SALCEDO, I. H. ; LEITE, L. ; VASCONCELOS, E. ; SOUZA, F. ; SAMPAIO, E. V. . Produção de raízes finas sob vegetação de caatinga. In: Workshop sobre Sistema Radicular, 1999, Aracaju. Workshop sobre Sistema Radicular: Metodologias e Estudo de Casos. Aracaju-SE : EMBRAPA - Tabuleiros Costeiros, 1999. p. 139- 152 SANTOS, G.A. & CAMARGO, F.A.O. (Eds) Fundamentos da matéria orgânica do solo: ecossistemas tropicais e subtropicais. Porto Alegre, Gênesis, 1999. pp.69-90. SATTELMACHER, B. The apoplast and its significance for plant mineral nutrition. New Phytologist (2001) 149 : 167–192. SCHMIDT, W. Iron homeostasis. http: // www.uni-oldenburg.de / planteco / schmidt / ironhomeo / ironhomeo.html. Consultada em 09/02/2006. SILVA, I.F. da; MIELNICZUCK, J. Ação do sistema radicular de Plantas na formação e estabilização de agregados do solo. Revista Brasileira de Ciência do Solo, v.21, p.113-117, 1997. SIVAGURU M, FUJIWARA T, SAMAJ J, BALUSKA F, YANG Z, OSAWA H Aluminum-induced 1,3-b -D-glucan inhibits cell-to-cell trafficking of molecules through plasmodemata. A new mechanism of aluminum toxicity in plants. Plant Physiol. 124: 991-1005. 2000. SIVAGURU, M; HORST, W.J. The distal part of the transition zone is the most aluminum-sensitive apical root zone of maize. Plant Physiol. 116: 155-163. 1998. SKENE, K. R. Pattern formation in cluster roots: some developmental and evolutionary considerations. Annals of Botany 85: 901-908, 2000. SMITH, D.M., INMAN-BAMBER, N.G. AND THORBURN, P.J. Growth and function of the sugarcane root system. Field Crops Res 92: 169-184. 2005. SPRENT, J. I., SPRENT, P. Nitrogen Fixing Organisms; pure and applied aspects. Chapman and Hall , 256p., 1990. TAIZ, L.; ZEIGER, E. Fisiologia vegetal. 3.ed. Porto Alegre: Artmed Editora, 2004. 719p. TAIZ, L.; ZEIGER, E. Fisiologia Vegetal. Porto Alegre: Artmed, 2004. 719 p. TAYLOR, G.J. Current views of aluminium stress response: the physiological basis of tolerance. Curr. Top. Plant Biochem. Physiol., 10: 57-93, 1991. VAN NOORDWIJK, M. Roots: length, biomass, production and mortality. In: ANDERSON, J. M. AND INGRAM, J. S. I.1993. Tropical Soil Biology and Fertility: a Handbook of methods. CAB International, Wallingford. p. 132- 144, 1993. WAISEL, Y., ESHEL, A., KAFKAFI, U., Eds. Plant roots – the hidden half. Marcel Dekker, Inc., 270 Madison Ave., New York, NY 10016. Hardcover, 1120 p. 2002. WALKER, S. A. & DOWNIE, J. A. 2000. Entry of Rhizobium leguminosarum bv. viciae into root hairs requires minimal nod Factor specififity, but subsequent infection thread growth requires nodO or nodE. Molecular Plant- Microbe Interactions 13(7): 751-762. WIGHTMAN, F.; SCHNEIDER E. A.; THIMANN, K. V. Hormonal factors controlling the initiation and development of lateral roots. II. Effects of exogenous factors on lateral root formation in pea roots. Physiologia Plantarum, 49:304-314, 1980. WILLIAMS, M.; YANAI, R.D. Multi-dimensional sensitivity analysis and ecological implications of a nutrient uptake model. Plant and Soil, Dordrecht, v.180, p.311-324, 1996. ZHANG, Y., LYNCH, J. P., BROWN, K. M. Ethylene and phosphorus availability have interacting yet distinct effects on root hair development. Journal of Experimental Botany, 54, 391:2351-2361, 2003. ZONTA, E. Estudos da tolerância ao alumínio em arroz de sequeiro e seus efeitos sobre a interface solo-planta. Seropédica. Rio de Janeiro. Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Instituto de Agronomia. 139 pag. 2003. 1 CAPÍTULO 3 FUNGOS MICORRÍZICOS ARBUSCULARES: MUITO ALÉM DA NUTRIÇÃO Ricardo L.L. Berbara1; Francisco A. de Souza2; Henrique M.A.C. Fonseca3 1Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Departamento de Solos, Seropédica, Itaguaí, RJ, CEP 23851-970, Brasil. � Berbara@ufrrj.br 2 Embrapa Agrobiologia, BR-23851970,Seropédica, Seropédica, Itaguaí, RJ, Brasil. 3 Centro de Biologia Celular, Departamento de Biologia, Universidade de Aveiro, 3810- 193, Aveiro, Portugal 2 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO ................................................................................................................ 3 2. EVOLUÇÃO E CARACTERIZAÇÃO.......................................................................... 6 3. CARACTERÍSTICAS GENÉTICAS E MORFOLÓGICAS .................................... 16 3.1 ASPECTOS GENÉTICOS......................................................................................................16 3.2 MORFOTIPOS....................................................................................................................18 4. CLASSIFICAÇÃO E NOMENCLATURA ................................................................. 23 6. MICORRIZAS E A DINÂMICA DO CARBONO ..................................................... 30 6.1 GLOMALINA.....................................................................................................................34 7. NUTRIÇÃO MINERAL ................................................................................................ 38 8. MANEJO DE FMA ........................................................................................................ 45 9. CONCLUSÕES............................................................................................................... 47 10. REFERÊNCIAS ........................................................................................................... 49 3 1. INTRODUÇÃO “Plantas não têm raízes, elas têm micorrizas”. Esta sentença foi proferida décadas atrás por J. L. Harley com o intuito de alertar ecologistas e biólogos para o fato de que, em condições naturais, a maioria das espécies de plantas se encontram associadas a determinados fungos de solo numa simbiose mutualística do tipo micorrízico, do grego mico [fungo] e riza [raiz]. Indo além das relações funcionais que se estabelecem entre plantas e estes fungos, van der Heijden & Sanders (2002) enfatizaram que “associações micorrízicas devem sempre serem consideradas quando se busca entender a ecologia e evolução de plantas, suas comunidades e ecossistemas”. Esta consideração está baseada em experimentos que demonstram o papel desta simbiose no resultado da competição e sucessão de plantas bem como na hipótese de que a evolução de plantas terrestres ter sido dependente da presença desta simbiose (van der Heijden et al., 1998a; 1998b; Kiers et al., 2000; Klironomos et al., 2000; Allen et al., 2003; Cairney 2000; Brundrett 2002). Atualmente são reconhecidos seis tipos diferentes de associações micorrízicas, sendo algumas delas muito específicas, encontradas em apenas algumas famílias de plantas terrestres (Arbuscular-, Arbutoide-, Ericoide-, Ecto-, Monotropoide-, e Orquidoide). Para detalhes destes tipos ver Siqueira (1996). Este capítulo irá enfatizar as micorrízas arbusculares, em particular devido ao seu caráter ubíquo, seu papel vital para a sustentabilidade da agricultura em regiões tropicais, e seu potencial biotecnológico, impacto na estrutura de comunidades vegetais e no dreno de carbono atmosférico. O caráter cosmopolita desta simbiose advém de levantamentos que indicam que 80% das famílias de plantas são formadas por espécies que formam micorrízas arbusculares (MA). Ela é encontrada em todas as latitudes, estando presente em quase todos os 4 ecossistemas terrestres (Siqueira & Franco, 1988). A simbiose micorrízica arbuscular é a mais ancestral dentre todos tipos de micorrízas conhecidas. Evidências fósseis indicam que as primeiras plantas terrestres já estavam colonizadas por fungos que apresentavam estruturas miceliais e esporos similares a dos atuais fungos arbusculares (FMA) (Redecker et al., 2000a). Atualmente, a maioria das angiospermas, e muitas gimnospermas, pteridófitas e briófitas formam associação com FMA (Smith & Read 1997). Além disso, é provável que eles sejam os fungos de solo mais abundantes na maioria dos ecossistemas tropicais, principalmente nos sistemas agrícolas, onde eles podem representar quase que 50% da biomassa microbiana (Olsson et al., 1999). Devido a esta ubiqüidade, esta simbiose tem sido considerada a mais importante dentre todas as que envolvem plantas. Esta associação é simbiótica pelo fato dos organismos co-existirem em um mesmo ambiente físico, raiz e solo, e mutualística porque, em geral, ambos os simbiontes se beneficiam da associação. Ela é considerada como sendo mutualista nutricional, onde a planta supre o fungo com energia para crescimento e manutenção via produtos fotossintéticos, enquanto que o fungo provê a planta com nutrientes e água. Neste sentido, esta simbiose amplia a capacidade de absorção de nutrientes por parte do simbionte autotrófico e, conseqüentemente, a sua competitividade inter-específica e produtividade. A sustentabilidade da produção agrícola está ligada aos efeitos benéficos das micorrízas sobre a nutrição de plantas, principalmente com relação à absorção de fósforo, que é um recurso natural não renovável. Várias espécies de plantas respondem positivamente à inoculação com fungos MA, dentre elas café, soja, milho, batata-doce, mandioca, cana-de-açúcar, além de varias essências florestais e frutíferas brasileiras. A contribuição dos fungos MA sobre a nutrição fosfatada de plantas está amplamente aceita e documentada na literatura nacional e internacional. No entanto, os serviços prestados pelo 5 fungo vão muito além da nutrição de plantas individualizadas pois eles também contribuem para a estruturação de comunidades vegetais. O micélio de fungos MA freqüentemente interconecta o sistema radicular de plantas vizinhas da mesma espécie ou de espécies distintas. Neste sentido a maioria das plantas estão interligadas por uma rede de hifas micorrízicas comum, durante alguma fase do seu ciclo de vida (Newman 1988). As consequências desta trama micelial para a competição inter-específica em comunidades vegetais sugere que ela seja elemento importante na definição da sucessão vegetal conforme ainda discutiremos. Como decorrência desta imensa quantidade de hifas produzidas por FMA, existe significante impacto sobre a estruturação e estabilidade de agregados em solos (Jastrow et al., 1998). Esta função é significativa por que a estruturação do solo modifica a capacidade de mobilização de nutrientes, o conteúdo de água, a penetração de raízes e o potencial erosivo dos solos. Fungos MA conferem também incrementos à resistência de plantas frente ao ataque patogênico (Hwang et al., 1992), à tolerância ao estresse hídrico, à eficiência fotossintética (Brown & Bethlenfalvay 1987), ao intemperismo de minerais (van Breemen et al., 2000). Como consequência, existem evidências de que FMA colaboram no aumentos do dreno de carbono da atmosfera, variável importante e pouco estudada frente aos processos de mudança climáticas (Leake et al., 2004). Estas características fazem com que a simbiose micorrízica arbuscular tenha um potencial biotecnológico e ecológico imenso ainda a ser explorado. Neste capítulo buscaremos discutir estas associações em um contexto amplo que ultrapassa seus impactos sobre a nutrição mineral de plantas, uma vez que por mais importante que eles sejam, aspectos relevantes estão por serem desvendados. Considerações básicas são também abordados de forma a possibilitar a leitura por um público mais amplo. 6 2. EVOLUÇÃO E CARACTERIZAÇÃO Fungos MA, sem exceção, são simbiontes obrigatórios: eles dependem da simbiose com plantas compatíveis para sua multiplicação. Além disso, não existem evidências comprovadas que indiquem que estes fungos se reproduzam sexualmente. Até recentemente, sugeria-se que estes fungos vinham se multiplicando clonalmente, de forma puramenteassexuada, por centenas de milhões de anos (Rosendahl et al., 1997; Sanders 2002). No entanto sabe-se que organismos que se multiplicam clonalmente por longos períodos de tempo tendem rapidamente a extinção devido à acumulação de mutações deletérias originadas durante o crescimento somático e a incapacidade de eliminá-las e de gerar variabilidade genética, características fundamentais para a adaptação a mudanças do ambiente. Recentemente, evidências de recombinação em fungos MA têm sido observadas pela análise de seqüências de DNA indicando que estes fungos desenvolveram mecanismos de evolução que ainda necessitam elucidação (ver caracterização molecular). Quanto à origem desta simbiose, sabemos pelo estudo de fosseis, que o surgimento das plantas na superfície terrestre ocorre entre 460-500 Mi de anos (Figura 1). enquanto a divisão Glomeromycota (que contém todos os fungos MA) já era encontrada aos 600 Mi de anos. A simbiose com plantas superiores já está perfeitamente registrada em fosseis do Ordoviciano (Redecker et al., 2000a) (450 milhões de anos). Especula-se portanto que estes fungos foram fundamentais para a conquista de ambientes terrestres pelas plantas (Simon et al., 1993b; Simon 1996) . A presença de AM em plantas primitivas (entendidas como plantas não vasculares), sugere a possibilidade desta associação ter evoluído de ambientes aquáticos uma vez que as primeiras plantas terrestres encontraram um ambiente inóspito para seu desenvolvimento, ressecado e infértil (Pirozynski & Malloch, 1975). Além disso, 7 suas raízes eram desprovidas de pelos radiculares ou ramificações. Eram estruturas similares a rizóides, sem tecidos vasculares, similares aos encontrados em briófitas e hepáticas (Malloch et al., 1980; Raven & Edwards 2001). Assim, como essas plantas poderiam absorver nutrientes (principalmente P) e evoluir de ambientes onde estes elementos eram mobilizados facilmente (aquáticos), sem o auxilio da simbiose? Portanto, apesar da origem da associação ser ainda matéria em debate, não se discute o papel central desta relação mutualistas na ecologia e evolução de espécies vegetais. 8 Figura 1 – Fóssil de fungo micorrízico, indicando suas vesículas, associado simbioticamente à Aglaophyton, Rhynia e Nothia, plantas vasculares. As vesículas provavelmente se desenvolviam em esporângias. (da página: http://www.xs4all.nl/~steurh/engrhyn/eglomit2.html, um excelente local para buscas sobre vegetação fossilizada). Outra hipótese aceita para o surgimento da simbiose micorrízica vem da relação mutualística observada entre fungos e cianobactérias. A endossimbiose formada entre o fungo Geosiphon pyriformis e cianobactérias tem sido apontada como sendo uma das possíveis origens da simbiose micorrízica, principalmente porque este fungo apresenta morfologia, estrutura e função próxima à dos fungos MA inclusive quanto ao fornecimento de fósforo e o papel regulador deste elemento sobre a simbiose. Além disso, a filogenia molecular confirma a relação evolutiva entre estes simbiontes (Schüßler et al., 2001). Infelizmente, não são conhecidas evidenciais fosseis desta relação e os únicos representantes conhecidos desta simbiose foram encontrados em poucas localidades na Europa (Áustria e Alemanha). Atualmente, G. pyriformis é o único fungo conhecido capaz de formar simbiose com cianobactérias. Estas observações portanto permitem expandir o 9 interesse da simbiose micorrízica para além das plantas vasculares e briófitas (Schüßler et al., 1996). A relação micorrízica é expressão de um evento mutuamente benéfico: plantas suprem o fungo com carbono (fixado via processos fotossintéticos pelo simbionte autotrófico), enquanto fungos provêm às plantas de nutrientes (Moreira & Siqueira, 2002). A simbiose é possível graças ao fato do fungo produzir hifas intra e extraradiculares capazes de absorver elementos minerais do solo e transferi-los ao ambiente radicular, onde são absorvidos. No espaço intraradicular, a troca bi-direcional ocorre principalmente em uma estrutura presente no córtex radicular, similar a um haustório excessivamente ramificado, os arbúsculos. Arbúsculos são estruturas formadas pela interação de hifas de fungos MA e a plasmalema de algumas células do cortex. Estas estruturas são consideradas “chave” para o desenvolvimento da simbiose micorrízica e sua formação depende da completa interação genética e funcional entre combinações fungo-planta (Harrison 1999). Após penetrar a parede celular, a hifa se torna extremamente finas, com diâmetro menor que 1 µm que se ramifica profusamente, formando uma matriz de troca com a plasmalema da célula vegetal sem entretanto a ultrapassar. Como conseqüência, aumenta-se massivamente a superfície de contato entre as membranas dos simbiontes permitindo uma eficiente troca de sinais, nutrientes e compostos orgânicos entre a planta e o fungo. Hifas extraradiculares por sua vez, são mais eficientes que raízes na captura de nutrientes por serem estruturas extremamente longas e finas (Figura 2). Em associações arbusculares, hifas podem se estender a vários decímetros da superfície da raiz (comparado aos 1-2 mm de extensão média das radicelas). Por serem finas, com cerca de 2 µm de diâmetro, hifas arbusculares podem explorar volumes do solo inatingíveis por estruturas radiculares (pelos radiculares apresentam valores de 10-20 µm de diâmetro e raízes laterais 10 100-500 µm). Portanto hifas são capazes de absorver os elementos minerais, como uma raiz, mas de maneira mais eficiente (Figura 3). 11 Figura 2 – Fotografia e diagrama de hifas extraradiculares penetrando em raiz de trevo. Note a dimensão da hifa em relação ao pelo radicular. Barra 1mm Quanto aos mecanismos de absorção e mobilização de nutrientes, da mesma forma, FMA são ainda mais eficientes que raízes. Quando adiciona-se 32P em meio contendo fungos micorrízicos percebe-se que todo Pi é em geral absorvido por hifas (Nielsen et al., 2002). O transporte para as raízes entretanto não é total devido ao movimento bi-direcional observado em hifas permitir seu deslocamento para drenos do próprio fungo. Neste estudo, a maior quantidade de Pi transportada à raiz correlacionou-se não com o comprimento da hifa, mas com o seu número total (Bago et al., 2000). 12 Figura 3 – Cultura em placa Petri de Lunularia cruciata (L.) Lindb. em simbiose com o Glomus proliferum Dalpé & Declerck. Vista inferior do talo da hepática mostrando extensa proliferação de hifas e esporos (ver detalhe no canto superior esquerdo). Barras 50 µm. Fotografia Fonseca & Berbara, não publicada. Como FMA dependem do hospedeiro para sua própria existência, não existe dúvida da importância central da simbiose para fungos micorrízicos. A condição de simbionte obrigatório advém do fato de que, ao longo de sua evolução, estes organismos perderam sua capacidade de fixar C passado a depender exclusivamente do hospedeiro autotrófico como fonte de compostos orgânicos (Gadkar et al., 2001). No caso das plantas, entretanto, existe uma faixa grande de resposta à simbiose. Espécies vegetais têm sido classificadas quanto à dependência micorrízica em facultativas, obrigatórias ou não micorrízicas (Smith & Read, 1997). 13 O caráter facultativo pode ser observado em condições de solo com alta disponibilidade de nutrientes, onde plantas não necessitam de FMA. Nestas condições a simbiose é inibida através de mecanismos genéticos controlados pela planta (Lambais & Mehdy, 1998; Lambais, 2000; Lambais et al., 2003). Neste caso o hospedeiro perde C ao micobionte de maneira desnecessária. Como exemplo pode-se mencionar Brachiaria decumbens. Esta espécie é adaptada a solos com baixos níveis de nutrientes disponíveis. B. decumbens tem um sistema radicular bem desenvolvido, contudo não é suficiente o bastante para absorverPi em condições de baixa disponibilidade comuns em solos Brasileiros (Figura 4). Espécies facultativas usualmente se beneficiam da simbiose apenas em situações onde a fertilidade é baixa. Elas em geral apresentam um sistema radicular bem desenvolvido e altas taxas de crescimento, caso típico de gramíneas. Figura 4 – Resposta de uma espécie micorrízica facultativa, a gramínea forrageira Brachiaria decumbens, à inoculação com Glomus clarum CNPAB5 em solo sem adição de fertilizante fosfatado. Vasos da esquerda inoculados e os da direita não inoculados (de Souza, não publicado). Outras espécies vegetais desenvolvem obrigatoriamente AM para poderem completar seu ciclo (Amijee et al., 1993; Peng et al., 1993; Johnson et al., 1997). Plantas micorrízicas obrigatórias não crescem na ausência de fungos MA em níveis normais de 14 disponibilidade de nutrientes. Como exemplo temos a leguminosa arbórea nativa da região amazônica, taxí-dos-campos, (Sclerolobium paniculatum) (Figura 5). Esta característica é encontrada com frequência em espécies nativas de solos de baixa fertilidade natural como em boa parte dos solos brasileiros (Siqueira & Saggin-Junior, 2001). Nestes solos, demonstrou-se que inúmeras espécies vegetais são incapazes de absorver fósforo na ausência da MA, como mandioca e batata-doce (Sieverding, 1991; Paula & Siqueira, 1992). Figura 5 – Resposta de uma espécie micorrízica obrigatória, a leguminosa arbórea taxí- dos-campos (Sclerolobium paniculatum), a inoculação com o fungo Glomus clarum 15 CNPAB5 em diferentes níveis de adubação com fósforo. No painel superior plantas não inoculadas e inferior plantas inoculadas. Esta leguminosa apenas se desenvolve na ausência de fungos MA quando a disponibilidade de P é alta, que não ocorre naturalmente nos solos da região amazónica. (Teles, de Souza e Faria, não publicado). Plantas que não desenvolvem MA apresentam um sistema radicular bem desenvolvido com muitas raízes finas e pelos radiculares. Apesar disso, são plantas ruderais que se desenvolvem, em geral, em solos com altos níveis de nutrientes disponíveis apresentando baixa competitividade em solos pobres em fósforo. A colonização nestas plantas é inibida devido à incompatibilidade genética que impede ao fungo ultrapassar as primeiras camadas radiculares. Hifas chegam a produzir haustórios buscando ultrapassar a epiderme, o que não conseguem (Allen et. al., 1989). Provavelmente existem dificuldades estruturais, ou defesas químicas que impedem a colonização uma vez que o fungo consegue produzir haustórios. Como exemplo pode-se mencionar as famílias Juncaceae, Caryophyllaceae e Brassicaceae. É importante mencionar que a dependência micorrízica de uma planta varia com a espécie de fungo inoculada, para uma mesma planta a resposta pode variar desde levemente negativa até altamente positiva (Sieverding, 1991). Assim, por parte do simbionte autotrófico, existem exceções quanto ao mutualismo da simbiose. Portanto, strictu sensu, micorrízas são associações simbióticas porém nem todas mutualistas. A dinâmica entre mutualismo e parasitismo na simbiose micorrízica, por sinal, tem sido apontada como um dos mecanismos que facilitam a coexistência de plantas e a diversidade florística em ecossistemas naturais (van der Heijden et al., 1998a; van der Heijden et al., 1998b); van der Heijden and Kuyper 2003). Como resultado destes múltiplos níveis de dependência da 16 planta ao fungo micorrízico, a associação acaba por influenciar na modelação da estrutura da paisagem sendo um dos componentes definidores da diversidade de espécies vegetais e da produtividade primária. Inversamente, plantas influenciam na diversidade e abundância da comunidade FMA. Modificações ambientais como na fertilidade, em especial na oferta de N, também alteram a estrutura da comunidade de fungos micorrízicos (e plantas), induzindo a predominância de espécies cujos esporos apresentam pequenas dimensões, como os Glomus, bem como na redução da abundância e riqueza de espécies. Assim, a estrutura da comunidade FMA é um importante indicador da qualidade ambiental bem como de alterações climáticas como as causadas por precipitações ácidas e ricas em óxidos de N (Jeffries & Barea 2001; Corkidi et al., 2002). Voltaremos a estes temas no item 5. 3. CARACTERÍSTICAS GENÉTICAS E MORFOLÓGICAS 3.1 Aspectos genéticos Como já mencionado, FMA só completam seu ciclo de vida quando associados à plantas compatíveis. Esta característica é esperada em simbioses altamente evoluídas. Provavelmente estes fungos seguem um ciclo reprodutivo assexual (Rosendahl & Taylor, 1997) formando esporos grandes, em relação a outros grupos de fungos, variando de 22 a 1050 µm em diâmetro (Perez & Schenck, 1990). Os esporos são multinucleados e podem apresentar centenas a milhares de núcleos. Evidências moleculares indicam que o fungo é haplóide havendo controvérsias sobre o seu caráter homo ou heterocariótico (Hijri & Sanders, 2004; Hijri & Sanders, 2005; Pawlowska & Taylor, 2004). Ambas situações podem ser esperadas se o fungo seguir um ciclo parasexual de recombinação. O ciclo parasexual é caracterizado pela ocorrência de anastomose seguida de troca de núcleos entre fungos geneticamente distintos mas que apresentem compatibilidade 17 vegetativa. Este processo resulta em um micélio contendo núcleos geneticamente distintos (heterocariótico). No entanto, a heterocariose é uma condição instável onde, em geral, núcleos diferentes se fundem formando um núcleo diplóide o qual, para retornar à condição haplóide, devem sofrer perdas cromossomais (Schardl & Craven, 2003). Recentemente, evidências da ocorrência de recombinação parasexual em fungos do gênero Gigaspora foram encontradas (de Souza et al., 2005a). Além disso outros estudos de recombinação já tinham sido relatadas (Pawlowska & Taylor, 2004) indicando que estes fungos apesar de se multiplicarem clonalmente, desenvolveram mecanismos de recombinação que operam durante o crescimento somático. A elucidação destes mecanismos é de fundamental importância para que possamos compreender processos de evolução, especiação e adaptação destes fungos. Recentemente, foi caracterizado o tamanho, a complexidade e a ploidia do genoma de três espécies de fungos MA, Glomus intraradices, Glomus etunicatum e Scutellospora castanea (Hijri & Sanders, 2004; Hijri & Sanders, 2005). Todas as espécies estudadas apresentaram condição haplóide e o tamanho aproximado do genoma foi respectivamente 17, 37, e 795 Mb. A grande diferença entre o tamanho do genoma das espécies de Glomus para a Scutellospora castanea se deve a uma grande quantidade de seqüências repetidas: 58% do genoma em contraste com 1,6% em G. intraradices. O genoma do fungo G. intraradices está sendo seqüenciado, resultados preliminares indicam que o fungo apresenta aproximadamente 30% conteúdo GC e presença de pequenos “introns” entre genes (Shachar-Hill (comunicação pessoal). 18 3.2 Morfotipos O micélio dos fungos micorrízicos é dimórfico e não septado, ou coenocítico (Perez & Schenck, 1990). Septos quando presentes indicam que o micélio esta senescente. Apesar de cerca de 80% das plantas superiores formarem MA, as associações se distinguem morfologicamente em apenas dois tipos: o Paris e o Arum. Estes termos advém do fato do primeiro grupo ter sido reconhecido há cerca de 100 anos, na espécie vegetal Paris quadrifolia enquanto o segundo em Arum maculatum (Dickson 2004). No tipo Arum a hifas crescem intercelularmente, de maneira linear e longitudinal ao longo do espaço cortical formando estruturas finas e muito ramificadas nas células, os arbúsculos (Figura 6). No tipo Paris, hifas mais grossas, enovelam-se intracelularmente, desenvolvendo hifas arbusculares (Figura 7). As estruturas arbusculares são similares para ambos os morfotipos enquanto que, funcionalmente,sugere-se que em hifas enoveladas também possam ocorrer deslocamento de fosfato ao hospedeiro. Ao que parece, estas estruturas são definidas pela planta (Gerdeman, 1965; Bedini et al., 2000; Ahulu et al., 2005; van Aarle et al., 2005) apesar de Cavagnaro et al. (2001) terem observando a mesma espécie vegetal, mas colonizada por 6 diferentes espécies de FMA, formava tanto arbúsculos do tipo Arum como Paris. 19 Figura 6 - Colonização tipo Arum hifas se desenvolvem intercelularmente, de maneira linear e longitudinal ao longo do espaço cortical formando estruturas finas e muito ramificadas nas células, os arbúsculos (Fotografia gentilmente cedida por Dr. Larry R. Peterson, University of Guelph, Canada). Figura 7 - Colonização micorrízica tipo Paris com hifas mais grossas, enovelam-se intracelularmente (Fotografia gentilmente cedida por Dr. Larry R. Peterson, University of Guelph, Canada). 20 Diversos levantamentos têm registrado que espécies anuais e a maioria das perenes apresentam morfotipo Arum, como no extenso levantamento realizado por Santos et al., (2000) com monocotiledoneas da Região Nordeste do Brasil. Sugere-se portanto que este tipo esteja mais presente em espécies vegetais de rápido crescimento pelo fato destas plantas apresentarem taxas de crescimento, e de colonização micorrízicas, mais altas (Brundrett and Kendrick 1990). Assim, FMA seriam capazes de acompanhar o crescimento das raízes com um elevado custo energético para estas. Plantas com taxas de crescimento menor, apresentariam a predominância do morfotipo Paris apesar de Breuninger et al. (2000) terem encontrado em Araucária angustifolia o morfotipo Arum. Existem espécies intermediárias, que apresentam os dois tipos, conforme relatado em Anandenantera peregrina, o angico do cerrado (Gross et al., 2004). O mais provável é que ocorra um continuum nas estruturas fúngicas de Arum para Paris em uma mesma planta (Dickson 2004). Como pouco se conhece dos aspectos funcionais envolvidos em ambos os tipos, sugere-se que em estudos de identificação da colonização, tente-se, para futuras referências, determinar o morfotipo do fungo e não apenas a presença ou ausência da simbiose, ao longo dos estádios sucessionais do hospedeiro (Figura 8). 21 0 2 4 6 8 10 Pioneiros Sucessão inicial Sucessão tardia Grupos de sucessão N úm er o de p la nt as 0% 20% 40% 60% 80% 100 % An ua l Pe re ne Ca du cif óli a Pe rsi ste nt e Proporção de espécies de plantas Arum Paris Intermediário Ausente T ip o de c re sc im en to Tipo: Figura 8 – Diagrama sugerindo a distribuição dos morfotipos de FMA entre tipos de espécies vegetais e sua sucessão, de acordo com Ahulu et al., 2005. 3.3 Hifas extraradiculares O comprimento de hifas extraradiculares é expresso por unidade de massa ou volume do solo ou ainda por unidade de comprimento de raiz colonizada. A extensão e impacto das FMA sobre o volume do solo varia principalmente com as características radiculares e de textura do solo sendo que raízes mais finas tendem a induzir maiores comprimentos de hifa (Figura 7). Por exemplo em raízes de Lolium perene (monocotiledonea com raízes fibrosas e níveis elevados de colonização micorrízica), observou-se 14 metros de hifas (m) de FMA . g solo-1 mas apenas 1 m hifas . m de raiz colonizada-1. Por outro lado, raízes de Trifolium repens (leguminosa – trevo, com raízes bem mais grossas) induziu a produção de 3 m de hifas. g de solo-1 e 46 m hifas. m de raiz colonizada-1 (Tisdall & Oades, 1979). Normalmente, em condições de campo, observa-se 22 maiores valores de hifas em solos sob pastagem bem conduzidas onde a perturbação é mínima e o solo está coberto permanentemente. Figura 9 – Raiz de Trifolium repens colonizada por Gigaspora margarita. Barra 250 µm. (fotografia de Souza, não publicada). Para fungos ectomicorrízicos, devido às dificuldades em distinguir-se suas hifas das de fungos saprofíticos, os resultados obtidos são incertos variando de 30-8000 m hifas . m-1 raiz ou 3 – 600 m. g solo-1. Finlay & Soderstrom (1989) encontraram, a partir de correlações entre micomassa e respiração, valores de 200 m. g solo-1 sob floresta de coníferas o que é um valor médio em relação aos determinados em microcosmos (Leake et al., 2001). De qualquer forma, pelas características do fungo ectomicorrízico que graças a sua exuberante micomassa desloca maiores quantidades de C da planta que FMA, os valores devem ser superiores aos encontrados para FMA. 23 4. CLASSIFICAÇÃO E NOMENCLATURA A taxonomia deste grupo de fungos vem sendo alterada significativamente. Gerdemann & Trappe (1974) propuseram a primeira classificação dos fungos MA. Estes pesquisadores utilizaram parâmetros morfológicos para agrupa-los na ordem Endogonales (Zigomicota), gênero Endogone. Posteriormente, Morton & Benny (1990) utilizaram cladística para analisar parâmetros morfológicos e formular uma nova classificação, onde os fungos MA foram reclassificados em uma nova ordem chamada Glomales, composta por duas sub ordens Glominea e Gigasporineae. Esta ordem excluía o gênero Endogone que forma ectomicorrizas. No entanto, o filo Zigomicota não refletia adequadamente a filogenia dos fungos MA. Em 1998, Cavalier-Smith criou a classe Glomeromicetos para englobar os fungos MA dentro do filo Zigomicota. Morton (1999) lançou uma hipótese na qual os fungos MA teriam uma origem polifilética, contrariando evidências moleculares que indicavam claramente que os fungos MA constituíam um grupo monofilético e que Acaulosporaceae era filogeneticamente próxima à família Gigasporaceae e não a Glomeraceae (Simon et al., 1993a; Simon 1996). Morton e colaboradores, com base na análise filogenética de seqüência de DNA da sub unidade menor do gene ribossomal (SSU rDNA), verificaram que seqüências pertencentes a espécies do gênero Sclerocystes agrupavam junto com espécies de Glomus. Estes autores reclassificaram então todas as espécies descritas como Sclerocystes para o gênero Glomus (Morton et al., 2000). No ano seguinte, Morton & Redecker (2001) propuseram duas novas famílias (Paraglomeraceae e Archaeosporaceae, e seus respectivos gêneros Paraglomus e Archeospora) com base em caracteres morfológicos e moleculares (SSU rDNA). Estas famílias são consideradas linhagens ancestrais dos fungos MA. No 24 mesmo ano, Schwarzott et al. (2001) propuseram, com base na análise filogenética de seqüência do SSU rDNA, a polifilia do gênero Glomus, o gênero com maior número de espécies descritas. Estes autores agruparam as espécies do gênero Glomus em três grupos denominados A, B e C. Espécies no grupo C foram posteriormente reclassificadas para o gênero Diversispora (Walker et al., 2004) Ainda em 2001, Schüβler e colaboradores (2001) propuseram, com base na análise filogenética de seqüência SSU rDNA, a criação do filo Glomeromicota, o qual agrupa todos os fungos MA e o fungo Geosiphon pyriformis (Tabela 1). Esta análise confirma que os fungos MA formam um grupo monofilético e sugere que estes fungos compartilham o mesmo ancestral que os Basidiomicetos e Ascomicetos, e não com Zigomicota que forma um grupamento artificial. Recentemente, a família Pacisporaceae e o gênero Pacispora foram propostos (Oehl & Sieverding, 2004) com base em uma nova descrição da espécies Glomus scinthillans e da descoberta de novas espécies com características morfológicas similares (Walker et al., 2004), com aspectos de Glomoides (vesículas e hifa de sustentação) e com características encontradas em Acaulosporaceae e Scutellospora (paredes internas flexíveis e escudo de germinação ou orbe). Estas evidências morfológicas fortaleceram a criação da ordem Diversisporales que foi criada exclusivamente com base na análise filogenética do SSU rDNA. Ela indica que características ligadas à presençade paredes flexíveis e estrutura de germinação com formação de escudo ou orbe, são homologas entre Pacispora, Acaulosporaceae (Acaulospora e Entrophospora) e Scutellospora. Buscando evidências, de Souza e colaboradores fizeram uma avaliação filogenética do gênero Scutellospora comparando resultados da análise filogenética baseada em seqüências do SSU rDNA com a análise morfológica baseada no padrão de desenvolvimento ontogênico de esporos. A análise indicou que para algumas espécies o padrão morfológico não coincide com o 25 molecular, ou seja, espécies com padrão de paredes similares agruparam separadamente na análise molecular. Este resultado sugere que apesar destas características morfológicas serem úteis para diferenciar espécies os agrupamentos feitos com base nestes critérios podem não ser adequados para reconstruir a filogenia deste grupo (de Souza et al., 2005b). Por outro lado, a análise filogenética baseada em um só gene também deve ser analisada com cuidado, visto que a evolução de genes nem sempre segue o processo de especiação. No caso dos fungos MA a análise de outros genes como beta tubulina (Corradi et al., 2004), fator de elongamento alfa 1 (Helgason et al., 2003), tem comprovado o caráter monofilético dos fungos MA, mas a posição do grupo ainda continua incerta. A análise parcial do Fator de elongamento 1 alfa aponta os Zigomicota como grupo irmã (Helgason et al., 2003). Já Corradi e colaboradores verificaram que pela análise dos genes da Beta tubulina, Glomeromicota se coloca como um grupo próximo ao Chitridiomicota, que engloba linhagens ancestrais dos fungos. Atualmente o projeto AFToL (Assembling the Fungal Tree of Life, Lutzoni et al., 2004) está sequenciando um conjunto de genes cromossomais e mitocondriais de representantes de todos os grupos de fungos conhecidos visando aprimorar a filogenia dos fungos. 26 Tabela 1. Ordens, famílias e gêneros pertencentes à divisão Glomeromycota e distribuição de espécies por gênero. Ordem Família Gêneros Número de espécies descritas * Diversisporales Diversisporaceae Diversispora 3 Gigasporaceae Gigaspora 7 Scutellospora 32 Pacisporaceae Pacispora ** 7 Acaulosporaceae Acaulospora 33 Entrophospora 5 Glomerales Glomeraceae Glomus *** 104 Archaeosporales Archaeosporaceae Archaeospora 3 Geosiphonaceae Geosiphon**** 1 Paraglomerales Paraglomeraceae Paraglomus 2 Total: 4 8 10 197 (*) O número total de espécies inclui sinonímias. (**) Recentemente a família Pacisporaceae e o genero Pacispora foram propostos para acomodar espécies semelhantes à Glomus, bem como novas espécies que partilham germinação e características internas da parede e apresentam aspectos moleculares que as vincula a espécies de Scutellospora e Acaulosporaceae (Oehl & Sieverding, 2004; Walker et al., 2004). Pacispora foi descrita na família Glomeraceae (Oehl & Sieverding, 2004), e reclassificado na ordem Diversisporales, com base em resultados morfológicos, citológicos e moleculares (Walker et al., 2004). (***) O género Glomus é polifilético e foi dividido em Glomus grupos A, B e C (Schwarzott et al., 2001). Glomus grupo C pertence agora ao género Diversispora, ordem Diversisporales. 27 (****) Geosiphon não forma micorriza arbuscular. Esta espécie estabelece simbiose mutualística com cianobactérias, sendo considerada uma possível precursora da simbiose micorrízica. A taxonomia molecular tem sido muito útil para elucidar a filogenia dos fungos MA ao nível de sub-gênero ou níveis superiores. No entanto, pouco tem sido feito para a diferenciação de espécies. Isto se deve principalmente a dificuldades em se multiplicar o fungo em cultura pura. O sistema tradicional de vasos de cultivo não garante a ausência de contaminantes em esporos que podem ser de outros fungos como Ascomicetos (Schüβler, 1999; Fonseca et al., 2001) ou mesmo outros fungos MA. Além disso, várias bactérias são comumente encontradas no citoplasma de fungos MA. Inclusive é reconhecida uma endosimbiose entre bactérias do gênero e espécie nova Candidatus Glomeribacter gisporararum e esporos de diversas espécies da família Gigasporaceae (Bianciotto et al 2003). Outra característica que dificulta a análise de fungos MA ao nível de espécies é o alto grau de polimorfismo entre genes encontrados em um mesmo fungo (esporo). Recentemente esta característica foi utilizada para diferenciar espécies ou até isolados do gênero Gigaspora, parece ser promissora para diferenciar espécies de outros gêneros também (Figura 8, de Souza dados não publicados). 28 Figura 10 – Identificação de espécies de Gigaspora através da diferenciação do polimorfismo inter e intra específico entre cópias do rDNA pela técnica do PCR- DGGE (Denaturing Gradiente Gel Electrophoresis). Dendrograma mostrando a similaridade (Jaccard - UPGMA) entre perfis de bandas de PCR-DGGE de 48 estirpes de Gigaspora e dois perfis divergentes encontrados em esporos das culturas das estirpes Gi. albida CL151 e Gi. margarita UFLA36. A escala indica a similaridade entre os perfis de bandas, e linhas tracejadas indicam separação entre os grupamentos principais, barra nos grupamentos indica faixa de erro. Números indicam o fator cofenético de correlação (Modificado de Souza et al., 2004). 5. Fungos MA como determinantes da diversidade de plantas 29 Estudos conduzidos em condições controladas indicam que a resposta em crescimento da planta inoculada depende da compatibilidade genética e funcional entre a espécie vegetal e a estirpe do fungo utilizada, bem como das condições ambientais vigentes, como tipo de solo, pH e disponibilidade de nutrientes em especial o P. Além destas variáveis, em condições naturais onde mais do que uma espécie de fungo coloniza simultaneamente raízes da planta hospedeira, os benefícios da simbiose micorrízica dependerão da comunidade de fungos presentes e da competição que se estabelece entre eles conforme discutido na Figura 9. Figura 11 - Coexistência hipotética entre duas espécies de plantas, uma com folhas escura (A) e a outra com folhas claras (B). O fungo a favorece o crescimento da planta A que passa a dominar a comunidade vegetal. Assim manejos que favoreçam a manutenção do fungo a promoverão a exclusão da planta B (Modificado de van der Heijden 2001). Fungo a Planta A Planta B Fungo b 30 Um experimento clássico conduzido em microcosmos por Marcel van der Heijden e colaboradores ilustra bem os efeitos deste tipo de interação sobre o desenvolvimento de comunidades de plantas. Para condução do experimento foram isolados quatro espécies de fungos MA e 11 espécies de plantas autóctones de uma pastagem temperada em solo calcáreo na Europa. A manipulação da diversidade de fungos MA resultou em profundas modificações na diversidade da comunidade de plantas enquanto os tratamentos com maior diversidade fúngica resultaram também em maior diversidade de plantas (van der Heijden et al., 1998a). Em síntese, fungos micorrízicos arbusculares causam impactos que vão desde suas relações com plantas (processos de absorção de nutrientes), com comunidades vegetais (influenciando em sua diversidade e abundância) e finalmente, com processos relacionados à estabilidade de ecossistemas, ao participarem de forma ativa e significante na dinâmica do C e agregação do solo, conforme ainda enfatizaremos neste capítulo. Assim, percebida não apenas na perspectiva da planta, mas do solo em suas múltiplas relações, MA são hoje reconhecidos como um componente integral e fundamental na construção e estabilidade de ecossistemas de todo o planeta (van der Heijden et al., 1998a; van der Heijden et al., 1998b; van der Heijden et al., 2003). 6. MICORRIZAS E A DINÂMICA DO CARBONO O ciclo do carbono orgânico do solo é um componente fundamental de ecossistemas terrestres sendo um dos elementosreguladores dos fluxos de gases entre a biosfera e a atmosfera. Os principais elementos definidores da magnitude e rapidez deste ciclo são a relação entre a produtividade primária e a distribuição do carbono entre a parte aérea e as raízes, com os processos de mineralização e imobilização (Brady, 1989). Um dos 31 indicadores utilizados para determinar-se a eficiência deste processo é a biomassa microbiana e sua atividade. O quanto de C é drenado direta ou indiretamente da atmosfera pelas funções microbianas é incerto mas certamente depende de variáveis como o a estrutura da cobertura vegetal, manejo, quantidade e qualidade da matéria orgânica adicionada, clima e fatores edáficos. Não por acaso, as mesmas variáveis que regulam a abundância, riqueza e atividade de FMA (Lovelock & Ewel, 2005). Fungos micorrízicos são um importante componente do ciclo do C no solo devido a sua direta influência sobre: (a) a produtividade primária graças ao seu impacto na absorção de nutrientes e água por plantas; (b) a estabilidade de agregados do solo e; (c) por sua imensa biomassa e produção de Glomalinas (Zhu & Miller, 2003) proteínas de alta estabilidade produzida por hifas de FMA conforme discutido no próximo item. Apesar do impacto evidente, poucos são os estudos, em especial em sistemas tropicais, sobre o papel destes organismos no ciclo do C. Fungos micorrízicos são fontes (graças a sua respiração e a de aumentos na taxa respiração da raiz colonizada) ou, bem mais provável, dreno (devido à sua imensa biomassa, produção de glomalinas e modificações na produtividade primária) de C da atmosfera? Em qual escala e como este balanço pode ser mediado pelo ambiente e manejo? Estudos diversos usando 14C têm demonstrado que fotossintetatos são deslocados da parte aérea às hifas poucas horas após este elemento ter sido marcado (Bucking & Shachar- Hill, 2005). Estes resultados confirmam que FMA são dreno importante de C da planta podendo impor perdas de até 20% do C fixado pelo simbionte autotrófico. Como resposta da planta ao dreno imposto pelo sistema micorrízico, ocorrem aumentos significativos de sua taxa fotossintética ocasionando aumentos no potencial da produtividade primária e dreno de C da atmosfera (Jakobsen et al., 2002). Estima-se que, globalmente, FMA possam 32 ser responsáveis pelo dreno anual de 5 bilhões de toneladas de C aos solos (Bago et al., 2000). As consequências deste fenômeno são ainda desconhecidas, seja nas propriedades do solo, seja em escala global, nas relações referentes às mudanças globais e o papel desta simbiose no sequestro de C da atmosfera. Pode-se especular sobre a necessidade em ampliar-se as linhas de investigação das AM para além de seus aspectos nutricionais. Fungos micorrízicos podem portanto serem considerados canais de drenagem do C da atmosfera para o solo, via planta, por terem acesso direto à fontes de carbono da planta. Esta característica os diferenciam de boa parte dos microorganismos saprófitas que adquirem açúcares (energia) a partir de fontes diversas e espacialmente limitadas. Estes organismos são energizados por uma quantidade e qualidade de fontes orgânicas praticamente ilimitadas, desde que haja plantas metabolicamente ativas sendo colonizadas. Esta vantagem competitiva lhes confere uma significativa parcela da biomassa microbiana presente no solo (Bago et al., 2000; Graham 2000). Entretanto, alguns métodos tradicionais de quantificação da biomassa microbiana baseada na técnica de respiração induzida pelo substrato não conseguem detectar essa imensa contribuição micorrízica por duas razões: Os métodos discriminam contra a detecção da biomassa micelial. Isso porque a técnica da respiração induzida (Anderson & Domsch, 1978) é aplicada à amostras de terra destorroadas e peneiradas. Neste processo hifas micorrízicas são fragmentadas e suas conecções às plantas, ou seja, à sua única fonte de C, destruídas. Como consequência, a “indução” por adição de sacarose ao substrato é indiferente ao fungo uma vez que este é incapaz de mobilizar açucares que não sejam os deslocados por plantas. Desta maneira, como FMA não conseguem mobilizar fontes externas de açucares, sendo dependentes obrigatórios da planta para este fim, o método subestima a contribuição fúngica; 33 Os métodos de fumigação Voroney & Winter (1993), da mesma forma, apenas conseguem detectar a atividade de FMA se as análises forem realizadas após poucas horas da coleta. A insensibilidade destes métodos em detectar a biomassa de hifas de FMA intactas, coloca em dúvida os resultados quantitativos obtidos para biomassa microbiana (Leake et al., 2004) e os cuidados em se considerar este atributo como indicador da fertilidade biológica do solo. Apenas hifas extraradiculares podem contribuir com até 30% da biomassa total do solo em sistemas agropastoris (Hamel et al., 1991; Miller & Kling, 2000; Olsson & Wilhelmsson, 2000). Os valores de biomassa microbiana encontrados na literatura provavelmente estão subestimados. A biomassa de fungos micorrízicos, não deve ser desconsiderada. Apesar de boa parte do C transferido ao fungo retornar à atmosfera via respiração, cerca de 25% deste C pode ser acumulado apenas no micélio extraradicular o qual pode representar 90% da biomassa de hifas do FMA (Olsson et al., 1999). O micélio intraradicular por sua vez, corresponde a 3-20% do peso das raízes (Smith & Read, 1997). Considerando-se a biomassa micelial, desconsiderando-se esporos, vesículas ou células auxiliares, podem ser encontrados valores de biomassa próximos aos do próprio sistema radicular. Extensões superiores a 70 m de hifas por grama de solo já foram registrados em solos sob pastagem. Em solos tropicais estes valores são em geral menores (30-50 m hifas g-1 solo) talvez devido à maior taxa de ciclagem ou acidez (van Aarle et al., 2002; 2003). Considerando-se que mais de 50% do comprimento de hifas no solo advenham de fungos micorrízicos (Rillig et al., 2002), correspondendo a 0,03 – 0,5 mg g-1 em peso seco de hifas extra- radiculares, concluímos que FMA representam uma grande e funcionalmente significativa parcela da biomassa microbiana, podendo, apenas as hifas extraradiculares, chegar a 1 34 tonelada ha-1, considerando-se os 20 cm iniciais do perfil. Ainda mais, se o solo não for perturbado e os agregados mantidos intactos, a meia vida de hifas, ricas em quitina, uma molécula recalcitrante e de difícil decomposição, pode chegar a 25 anos (Rillig et al., 2001). Hifas são, portanto, um importante reservatório de C no solo, ainda não incorporados nos estudos de sua ciclagem. Outro dreno não desprezível, são os próprios esporos. Em condições controladas, em placas de Petri contendo raízes transformadas, pode-se observar mais de 40.000 esporos (ver Figura 3). Portanto, não existe constrangimento, sob o ponto de vista genético (da planta ou do fungo), na produção de imensas quantidades de propágulos fúngicos. Como de 45% a 95% do pool de C em esporos é constituído por lipídeos, pode-se concluir que estas estruturas são potencialmente um importante dreno de C garantido pelos simbiontes autotróficos em algumas situações ainda mais significantes que o encontrado em hifas (Bago 2000). 6.1 Glomalina A contribuição das hifas extraradiculares não se limita à sua biomassa ou à aumentos na capacidade de plantas em mobilizar nutrientes. Estas são características clássicas e fundamentais na simbiose micorrízica. Entretanto, o micélio externo também é responsável pela exsudação (ou incorporação em suas paredes celulares bem como de esporos) de glicoproteinas hidrofóbicas chamadas glomalinas. Estas proteínas muito provavelmente são produzidas por FMA uma vez que em sua ausência, glomalinas não são encontradas (Leake et al.,2004). Elas apresentam alta estabilidade no solo podendo permanecer 42 anos até sua mineralizaçãocompleta, período bem superior aos de hifas, que não ultrapassa 5-7 dias (Rillig et al., 2001; Zhu & Miller, 2003) ou raízes que variam de 10 35 dias até à morte da planta arbórea (Fitter & Moyersoen, 1996). Glomalinas constituem-se em um importante componente do “Corg” do solo podendo atingir 1.45 Mg C.ha-1 em florestas tropicais apenas nos 10 cm do perfil, se estabilizando em geral na fração argila (Lovelock et al., 2004). A função das glomalinas é incerto, entretanto é provável que elas tenham impacto sobre a construção de nichos ao promover a agregação do solo e sua estruturação com a consequente redução dos processos erosivos. Desta forma, apesar de estudos de hifas fúngicas intraradiculares absorverem maior atenção graças a sua maior facilidade e ao interesse nos mecanismos de transferência de nutrientes, são as hifas extraradiculares que atuam diretamente sobre atributos relacionados à qualidade do solo, entendida como expressão de um conjunto de processos que estimulam ganhos de produtividade sem prejuízo das funções nele realizadas, conforme diagrama da Figura 10. Isso porque, como já mencionado, estas estruturas ultrapassam em muito o espaço rizosférico, mobilizam nutrientes para bem além da zona de depleção, produzem uma série de compostos quelantes (uma das quais, glomalinas), células mortas que interagem com outros organismos criando uma “hifosfera” com uma bem característica e particular comunidade microbiana. Bactérias específicas, não encontradas na rizosfera, interagem com glomalinas ampliando o efeito rizosférico criando uma “micorrizosfera”, com propriedades próprias (Vancura et al., 1990; Bomberg et al., 2003). Se, além destas qualidades, considerarmos a influência de hifas extraradiculares nos processos de agregação do solo, a conclusão de que FMA são um fundamental indicador de qualidade de manejo e cobertura do solo, torna-se emblemática. Considera-se a agregação do solo como a forma em que partículas e poros se distribuem no solo. Ela é influenciada pela ação da biota (em especial bactérias e fungos em geral) e atividade de cargas superficiais em um contexto de secagem e humidecimento do 36 solo (Brady, 1989). O papel dos FMA, em particular, não é, via de regra, considerado ou menos ainda, dimensionado. Não sabemos qual sua contribuição neste processo: é secundário ou absolutamente fundamental? Alguns estudos indicam que a importância de FMA é similar ao das raízes enquanto outros apontam que hifas extraradiculares são o elemento mais importante dentre todos os que atuam neste processo com óbvias implicações na capacidade de armazenamento de água (Thomas et al., 1993; Jastrow et al., 1998). Se é assim, quais são os mecanismos que permitem ao FMA esta ação, tanto sobre a agregação quanto sobre sua estabilidade? Provavelmente são dois: um físico, com hifas extraradiculares envolvendo e enovelando partículas minerais e orgânicas do solo e, outro, quelante, graças à ação de glomalinas. Em estudos realizados em um gradiente de textura e classes de solos, comprovou-se que existe forte e positiva correlação entre estabilidade de agregados com a quantidade de glomalinas no solo (Wright & Upadhyaya, 1998). Percebeu-se também que estas proteínas ficam estocadas dentro destes agregados, protegidos então dos processos de mineralização. Desta forma, glomalinas representam uma forma estável de armazenar C no solo (Rillig 2004). Pelo exposto, é clara a necessidade de criar-se condições que apontem para o aumento da produção destes metabólitos. Sabe-se que o manejo (em especial a mecanização), a diversidade da cobertura vegetal além de variáveis físicas e químicas do solo, controlam a produção de glomalinas. Sistemas que estimulem a produção de hifas extraradiculares devem também induzir a síntese destas moléculas apesar de resultados iniciais serem contraditórios (Piotrovsky et al., 2004). Em solos agrícolas, a quantidade de glomalina detectada é baixa em relação aos encontrados sob pastagem ou florestas. Isso porque com o revolvimento e compactação do solo, a rede micelial é destroçada e, com isso, a produção de glomalinas diminui drasticamente (Figura 10). 37 Figura 12 - Diagrama indicando as múltiplas funções desempenhadas pelos FMA, seja sobre funções do solo, seja sobre a comunidade de espécies vegetais (Zhu & Miller 2003). Existe necessidade de ampliar-se os estudos em condições tropicais sobre o impacto destas glicoproteinas sobre o pool do C, agregação e estabilidade, bem como da relação glomalina – FMA, ainda não definida. 38 7. NUTRIÇÃO MINERAL Daremos ênfase na nutrição fosfatada pelo seu maior impacto sobre plantas hospedeiras apesar de estudos com inoculação com FMA também ocasionarem, via de regra, aumentos tanto na taxa de crescimento como nos níveis de Cu, Mg e Zn, não por acaso, todos elementos pouco móveis no solo. Micorrízas arbusculares são reconhecidas por sua habilidade em estimular o crescimento de plantas principalmente através do incremento na absorção de nutrientes em geral, P em especial. Ryan e colaboradores (2003) identificaram níveis elevados de nutrientes em hifas intraradicais. Os níveis de P variaram de 60 170 mM, apesar de valores como 600 mM terem sido detectados. Estes valores correlacionaram-se fortemente com os de K, com cerca de 350 mM, e Mg, com 175 mM. Muito pouco Ca foi detectado. Os níveis de P em arbúsculos ativos variou de 30 50 mM enquanto os níveis de potássio foram de 100 mM. Estes elevados valores são muito superiores aos encontrados em solos ou mesmo em tecidos vegetais, confirmando a capacidade de FMA na absorção e acumulação de elementos minerais. Fósforo é um macronutriente presente no solo em baixas concentrações, normalmente em níveis inferiores a 1 µM de fósforo disponível, e pouco móvel em solos intemperizados, como são os tropicais. São nestas condições que as AM assumem um papel determinante na sobrevivência de diversas espécies vegetais, incapazes de mobilizar este elemento. Não que FMA não absorvam nitrogénio por exemplo. Absorvem e em níveis superiores aos de P (Gamper et al., 2004). Entretanto, a planta não necessita do FMA para sua nutrição nitrogenada pois seu próprio sistema radicular é capaz de absorve-lo, visto que apresenta grande mobilidade no solo. Além disso, P é um nutriente estrutural na constituição de ácidos nucleicos, fosfolipídeos bem como de diversas enzimas (Lehninger 39 et al., 1989). Está envolvido diretamente nos processos de fosforilação e portanto no metabolismo energético, na transdução de sinais e regulação da atividade celular. Sua falta ocasiona significante declínio no conteúdo de ATP (-74%) e ADP (-91%) bem como dos níveis de enzimas (Duff et al., 1989). Portanto, a manutenção da homeostasis celular deste elemento é central para organismos em geral e plantas tropicais desenvolvidas em solos de baixa fertilidade em particular. Como a taxa de absorção e transporte de Pi por raízes é maior que sua taxa de difusão no solo, uma zona de depleção é formada, resultando em uma zona de esgotamento para este elemento ainda no ambiente rizosférico. Desta forma, a planta, em sua evolução, desenvolveu mecanismos de captura deste elemento para além desta zona, através das MA (Figura 11). Os aumentos na taxa de absorção do P propiciados pelas MA podem ser atribuídos a: Aumento do volume de solo explorado pelas hifas extra-radiculares do fungo arbuscular; O pequeno diâmetro da hifa, o que a permite explorar espaços do volume do solo inatingíveis pela raiz; Maiores taxas de influxo por unidade de superfície; A formação de polifosfatos, moléculas orgânicas sintetizadas pelo fungo AM ricas em P, as quais acarretam a diminuição da concentração de P inorgânico no interior das hifas com o concomitante acumulo de P em condições de alta disponibilidade deste elemento,com sua remobilização em condições de estresse permitindo, assim, um fluxo contínuo ao hospedeiro; 40 Produção de enzimas como fosfatases que catalisam a liberação de P dos complexos orgânicos; permitindo sua absorção na forma iónica pelas plantas nas unidades arbusculares (Marschner & Dell, 1994). Figura 13 - Estrutura das hifas intra-radicular, arbúsculos e vesículas, e extra-radicular com hifas ultrapassando a zona de depleção de Pi. Como se pode constatar (gráfico) a taxa de absorção de Pi é maior que a sua taxa de difusão no solo. O aumento da nutrição de P em plantas colonizadas ocasionará então: (a) aumentos no crescimento e atividade fotossintética; (b) aumentos na taxa de transferência de carboidratos para as raízes e (c) aumentos no seu efluxo ao apoplasto, em direção ao dreno imposto pelo fungo micorrízico (Bucking & Shachar-Hill, 2005). Devido ao aumento da absorção de P (e em menor escala Zn), o pH da rizosfera normalmente cai na presença de FMA, o que leva a aumentos da solubilidade de P no solo (Mohammad et al., 2004). 41 Como outros nutrientes, fosfato é absorvido de forma seletiva contra um gradiente de potencial eletroquímico partindo de níveis no solo da ordem de micromolar, para mais de 1000 vezes estes valores no interior da célula. Este processo de absorção é portanto energeticamente dependente dos transportadores de P (simporte) e da ação das H+-ATPases (Figura 12). Recentemente alguns destes transportadores foram identificados. Estudos realizados por Smith et al. (2003 e 2004), demonstram que os transportadores de fosfato envolvidos na sua absorção por raízes, são distintos dos envolvidos pela absorção por raízes colonizadas. Este resultado sugere há regulação genética dos mecanismos de transporte de Pi em sistemas AM e que esta regulação é controlada diretamente pelo fungo pois sabe-se que genes que codificam para estes transportadores, apenas são expressos na presença do fungo simbionte (Karandashov & Bucher, 2005). Figura 14 – Células arbusculares de Lunularia cruciata (L.) Lindb. com diagrama indicando a transferência de fosfato (Pi) e estruturas de carbono através da interface micorrízica. Em circulos fechados H+-ATPases e transportadores secundários já identificados. Circulos abertos indicam modelos hipotéticos de transferência de metabólitos ou Pi (modificado de (Ferrol et al., 2002). Barra 10µm. Fotografia Fonseca & Berbara, não publicada. 42 Como não existe conexão simplástica entre os simbiontes, nutrientes e fosfato devem ser absorvidos via apoplasto (Rausch et al., 2001). É provável que ocorram transferências passivas tanto de Pi como de carboidratos através da plasmalema de ambos os simbiontes, ao apoplasto matricial (que separa as membranas dos simbiontes) e, posteriormente, ativamente absorvidas graças a ação de bombas H+-ATPases. Modelos originais propunham o que seria mais plausível: a existência de transportadores acoplados de carboidratos – fosfato (Schwab et al., 1991; Smith et al., 1994) apesar de Nehls et al. (2001), terem identificado transportadores independentes para P e carboidratos em associações ectomicorrizicas. Estudos com plantas sob limitações fotossintéticas, mostram diminuições nos efeitos benéficos do fungo arbuscular devido, provavelmente, à competição por carboidratos (Son & Smith, 1988). Nesta linha, (Bucking & Shachar-Hill, 2005) um estudo com raízes transformadas e em placas dividas, demonstrou que aumentos na oferta de carboidratos, em especial sacarose, estimulam o transporte de C através da interface micorrízica, em direção ao simbionte fúngico. Neste momento, carboidratos diversos (monosacarideos, di-sacarideos ou poli-sacarídeos), exudados pela raiz, seriam hidrolisadas por invertases presentes no apoplasto, em hexoses, principalmente, estruturas que podem ser absorvidas pelo FMA (Bago et al., 2000). Como a atividade da invertase é pH dependente, deve-se incrementar a ação das H+-ATPases as quais, não por acaso, tem sua expressão genica ativada tanto pela infecção micorrízica como pela concentração de sacarose (Blee & Anderson, 2002), de acordo com o modelo proposto na Figura 12. Provavelmente MA obtêm todo o seu C do ambiente radicular, passivamente deslocado pelas raízes em favor de um gradiente de concentração. Nas raízes, FMA polimerizam os açucares absorvidos, hexoses principalmente, em trealose e glicogênio, estruturas encontrados em fungos em geral (Bago et al., 2003). fungo. Algumas destas 43 formas de lipídeos podem então ser deslocadas das hifas intra para as extraradiculares. O transporte de C de hifas para a planta não tem sido reportada, sendo o transporte de C considerado unidirecional da planta para as hifas. Os Triacilglicerois (TAG) são outra das mais importantes formas em que carbono é armazenado pelo fungo (Pfeffer et al., 2004). Entretanto nas hifas, ocorre um rápido fluxo citoplasmático nos dois sentidos com deslocamento de recursos de regiões fonte para regiões dreno dentro no micélio fúngico. Este fluxo também é responsável pela movimentação de organelas (Bago et al., 2002; Bago et al., 2003). Figura 15 - Modelo de transporte de fosfato indicando sítios de transferência de entre solo- hifa. À esquerda, graças à atividade de ATPases, protons (H+) são bombeados, com gastos de energia (ATP), pela planta. O gradiente de concentração de protons gerado por este mecanismo, cria um potencial eletroquímico através da membrana. Este gradiente facilita a movimentacao de Pi através de transportadores específicos (Pnt1) conforme indicado à direita (modificado de Karandashov & Bucher, 2005). É provável que a absorção de Pi pelo FMA e sua transferência à planta seja estimulada pela transferência de carbono da planta para o fungo (Bucking, 2004). Frente à 44 maior oferta de C, o fungo diminui a síntese de polifosfatases levando a aumentos nos níveis de Pi citoplasmáticos bem como na sua incorporação em fosfolipídeos e Poli P (Viereck et al., 2004). Pi é ativamente absorvido por hifas extra-radiculares e metabolizado em ácidos nucleicos, fosfolipídeos e outras moléculas fosforiladas, bem como condensadas em moléculas de polifosfatos (poliP). Polifosfatos são polímeros ricos em fosfatos e presentes em diversos organismos, como bactérias, fungos, plantas e animais superiores (Bjm- BRASIL). Em fungos micorrízicos arbusculares, os poliP são armazenados em hifas intra e extraradiculares, bem como em esporos, e são centrais no metabolismo do fosfato. Após absorção de Pi por hifas, poliP são sintetizados antes mesmo de serem detectados em vacúolos (Viereck et al., 2004) denotando a importância desta via metabólica no armazenamento de fosfato em estruturas moleculares capazes de concentrar grandes quantidades de Pi. Pode-se especular que a rapidez e a quantidade com que poli P é sintetizado e armazenado tem como objetivo manter seja o dreno de Pi do solo pelo fungo inalterado, seja a transferência de Pi à raiz. Eventualmente estas moléculas são deslocadas ao espaço intra-radicular, hidrolisados em Pi e, finalmente, deslocados ao apoplasto e à células vegetais, devido ao dreno imposto pela planta (Karandashov & Bucher, 2005). A hidrólise do Poli P provavelmente ocorre nas hifas intra-radiculares e não no apoplasto ou menos ainda nas células vegetais uma vez que plantas não absorvem poliP, mas Pi (Ohtomo et al., 2004). Esta hidrólise intracelular induziria a incrementos no Pi do citoplasma fúngico levando ao seu transporte em direção ao apoplasto interfacial. A passagem de fosfato através da plasmalema fúngica seria portanto passiva em favor de um gradiente de concentração. Sua passagem pela matriz micorrízica pode se dar por canais ou transportadores iónicos. Finalmente, o fosfato liberado é transferido às células corticais 45 através de transportadores de fosfato,conforme já discutido. Bucking (2004) sugere que as trocas de C por P estejam efetivamente acopladas conforme a Figura 10. Assim, a absorção de P pelo fungo e sua transferência à planta, estaria diretamente associada à disponibilidade de C ao fungo micorrízico. Da mesma forma que para Pi, FMA absorvem e deslocam à plantas significantes quantidades de Nitrogênio seja na forma de amonia seja na de nitrato. As enzimas de assimilação de N estão presentes tanto em raízes como em estruturas do FMA. Este elemento pode ser acumulado em fungos, o que garante gradientes de concentração entre o espaço extra e intracelular bem como entre células do cortex (Jolicoeur et al., 2002). Os pools gerados pelo acumulo de P na forma de PoliP / Pi e de N, na forma de distintos amino ácidos, NH4 + ou NO3 -, tanto em células corticais como em hifas, produzem gradientes que são percebidos pelos simbiontes provavelmente no espaço arbuscular. Estudos realizados por Jolicoeur et al. 2002, demonstram que os níveis de Pi (e possivelmente outros nutrientes) além de açúcares intracelulares regulam a orientação do fungo em produzir hifas ou cessar seu crescimento. É comum observar o incremento no número de esporos de algumas espécies de FMA conforme avança o desenvolvimento das raízes (Berbara e de Souza, observações pessoais). Estudos de (Declerck et al., 2001) em meio de cultura utilizando raízes transgênicas, confirmam que a produção de esporos segue uma fase lag, log e estacionária, obedecendo uma curva clássica sigmoide, sugerindo que este processo obedece uma dinâmica similar ao do metabolismo primário. 8. MANEJO DE FMA No contexto da nutrição mineral de plantas e otimização das funções de ecossistemas, visando aumentos em sua estabilidade e resiliência, considera-se alguns 46 atributos biológicos como centrais: (a) quantidade e qualidade de raízes (finas, terminais, não-lignificadas e metabolicamente ativas); (b) riqueza e abundância de organismos como FMA; (c) bactérias promotoras de crescimento de plantas (incluindo bactérias fixadoras e solubilizadoras de fosfato) e; (d) minhocas (Hamel et al., 2004; Wardle et al., 2004). Aqui, considera-se estabilidade como a capacidade que um sistema apresenta para manter inalteradas suas propriedades frente a um impacto ambiental ou antrópico, enquanto que, resiliência, como a capacidade de ecossistemas em recuperar suas funções após sofrer uma perturbação ou estresse, sendo uma função do tempo (Lal, 1997). Ambas estas propriedades são decisivamente influenciadas pelas associações micorrízicas. Isso porque FMA e bactérias promotoras de crescimento associadas, relacionam-se à estrutura de comunidades vegetais (ver item 5). Portanto, podem ser manejados juntamente com os tratos culturais. Outros grupos funcionais, como os da meso-macrofauna, da mesma forma são importantes. Entretanto, seu manejo é bem mais complexo ao não se correlacionarem tão rapidamente com variações ambientais ou antrópicas (Schloter et al., 2003). Pelos seus múltiplos impactos, já apontados neste capítulo, estratégias de manejo que incrementem não apenas a diversidade de FMA, mas em especial hifas extraradiculares, devem ser buscadas mesmo porque, a maioria dos agroecossistemas apresenta condições não-ótimas para o funcionamento de FMA. Manejos como mecanização excessiva com alta fertilização do solo, aplicação de pesticidas, rotações de cultura com plantas não hospedeiras (ex. Brassicas), poluentes diversos, inclusive orgânicos com uso excessivo de esterco por exemplo, levam à diminuição da otimização desta simbiose seja pela redução da atividade fúngica, de sua diversidade ou da produção de hifas extraradiculares. Considera-se que as chamadas modernas técnicas de manejo do solo vêm diminuindo sobremaneira não apenas a diversidade, mas a importância de FMA nas 47 funções já discutidas neste capítulo, implicando em quedas na resiliência e estabilidade de agroecossistemas (Jeffries et al., 2003). 9. CONCLUSÕES Os primeiros estudos sobre micorrízas realizados no Brasil por Sacco (1958, 1962), foram descritivos. Avançou-se desde então, de maneira gradual, na formação de pesquisadores que tiveram acertadamente o interesse em estudar o impacto das MA sobre o desenvolvimento de plantas em solos tropicais. Estes trabalhos foram importantes por enfatizar seu caráter fundamental na sobrevivência de inúmeras espécies vegetais, as quais, sem esta simbiose para garantir sua nutrição fosfatada, provavelmente não existiriam. Os novos desafios para a pesquisa nestes ambientes não são menos relevantes. Incorporar este componente fúngico às inúmeras funções realizadas pelo solo, relacionadas à estabilidade e resiliência de ecossistemas é imperativo (Fitter, 2005). Apesar de seus mais de 120 anos de estudos, desde as primeiras descrições e hipóteses formuladas sobre a funcionalidade das associações micorrízicas (Trappe, 2005), suspeitamos que o impacto mais profundo desta simbiose ainda está por ser desvendado. O esforço pela potencialização das AM em campo, bem como pela geração de tecnologias a elas relacionadas, demanda técnicas de estudo que incorporem protocolos de multiplicação de FMA, seja em potes, aero ou hidroponia, ou principalmente cultivos in vitro com o uso de Ri-DNA, raízes transformadas (Berbara & Fonseca, 1996) uma formidável ferramenta ainda pouco explorada no Brasil. Implica considerar este componente em estudos de longa duração que busquem detectar não apenas seu impacto sobre o desenvolvimento de uma planta, mas sobre a magnitude de sua contribuição a eventos globais e estruturação de comunidades vegetais. Com a perspectiva aberta pelas tecnologia moleculares, temos a 48 oportunidade de entender mecanismos de evolução de espécies vegetais e da própria simbiose. Resta aos investigadores em MA ampliarem seu leque de investigação em um esforço multidisciplinar, mesmo porque, sem esta abordagem, não compreenderemos a dimensão completa desta formidável simbiose. 49 10. REFERÊNCIAS Ahulu E.M., Nakata M., Nonaka M. (2005). Arum- and Paris-type arbuscular mycorrhizas in a mixed pine forest on sand dune soil in Niigata Prefecture, central Honshu, Japan. Mycorrhiza. 15: 129-136. Allen E.B., Allen M.E., Egerton-Warburton L., Corkidi L., Gomez-Pompa A. (2003). Impacts of early- and late-seral mycorrhizae during restoration in seasonal tropical forest, Mexico. Ecological Applications 13: 1701-1717. Amijee F., Stribley D.P., Lane P.W. (1993). The susceptibility of roots to infection by an arbuscular mycorrhizal fungus in relation to age and phosphorus supply. New Phytologist. 125: 581-586. Anderson I.C., Domsch K.H. (1978). A physiological method for the quantitative measurement of microbial biomass in soils. Soil Biological Biochemistry. 10: 215-221. Bago B. (2000). Putative sites for nutrient uptake in arbuscular mycorrhizal fungi. Plant and Soil. 226: 263-274. Bago B., Pfeffer P.E., Abubaker J., Jun J., Allen J.W., Brouillette J., Douds D.D., Lammers P.J., Shachar-Hill Y. (2003). Carbon export from arbuscular mycorrhizal roots involves the translocation of carbohydrate as well as lipid. Plant Physiology. 131: 1496-1507. 50 Bago B., Pfeffer P.E., Shachar H.Y. (2000). Carbon metabolism and transport in arbuscular mycorrhizas. Plant Physiology. 124: 949-957. Bago B., Pfeffer P.E., Zipfel W., Lammers P., Shachar-Hill Y. (2002) Tracking metabolism and imaging transport in arbuscular mycorrhizal fungi. Metabolism and transport in AM fungi. Plant and Soil. 244: 189-197. Berbara, R.L.L. Potencialidad de los estudios com hongos micorrízicos arbusculares en sistemas radiculares transgênicos. In: A. Alarcon & R. Ferrera-Cerrato (Eds). Ecologia, Fisiologia y Biotecnologia de la Micorriza Arbuscular. Escuela de Pósgrados, Mexico. 2000. p. 46-54. Berbara, R.L.L.;Fonseca, H.M.A.C. Colonizacao e esporulacao de fungos micorrízicos arbusculares in vitro. In: J.O. Siqueira (Ed.) Avancos em fundamentos e aplicacao de micorrízas. Lavras, 1996. p. 39-65. Bedini S., Maremmani A., Giovannetti M. (2000). Paris-type mycorrhizas in Smilax aspera L. growing in a Mediterranean sclerophyllous wood. Mycorrhiza. 10: 9-13. Bianciotto V., Lumini E., Bonfante P., Vandamme P. (2003). 'Candidatus Glomeribacter gigasporarum' gen. nov., sp nov., an endosymbiont of arbuscular mycorrhizal fungi. International Journal of Systematic and Evolutionary Microbiology. 53: 121-124. 51 Blee K.A., Anderson A.J. (2002). Transcripts for genes encoding soluble acid invertase and sucrose synthase accumulate in root tip and cortical cells containing mycorrhizal arbuscules. Plant Molecular Biology. 50: 197-211. Bomberg M., Jurgens G., Saano A., Sen R., Timonen S. (2003). Nested PCR detection of archaea in defined compartments of pine mycorrhizospheres developed in boreal forest humus microcosms. Fems Microbiology Ecology. 43: 163-171. Brady N.C. (1989). Natureza e Propriedade dos Solos. 7.ed. Rio de Janeiro, Freitas Bastos. Breuninger M., Einig W., Magel E., Cardoso E., Hampp R. (2000). Mycorrhiza of Brazil pine (Araucaria angustifolia [Bert. O. Ktze.]). Plant Biology. 2: 4-10. Brown M.S., Bethlenfalvay G.J. (1987). Glycine-Glomus-Rhizobium symbiosis. VI. Photosynthesis in nodulated, mycorrhizal, or N- and P-fertilized soybean plants. Plant Physiology. 85: 120-123. Brundrett M. (2004). Diversity and classification of mycorrhizal associations. Biological Reviews. 79: 473-495. Brundrett M., Kendrick B. (1990). The roots and mycorrhizas of herbaceous woodland plants. I. Quantitative aspects of morphology. New Phytologist. 114: 457-468. Brundrett M.C. (2002). Coevolution of roots and mycorrhizas of land plants. New Phytologist. 154: 275-304. 52 Bucking H. (2004) Phosphate absorption and efflux of three ectomycorrhizal fungi as affected by external phosphate, cation and carbohydrate concentrations. Mycological Research 108: 599-609. Bucking H., Shachar-Hill Y. (2005). Phosphate uptake, transport and transfer by the arbuscular mycorrhizal fungus Glomus intraradices is stimulated by increased carbohydrate availability. New Phytologist. 165: 899-912. Cairney J.W.G. (2000). Evolution of mycorrhiza systems. Naturwissenschaften. 87: 467- 475. Cavagnaro T.R., Gao L.L., Smith F.A., Smith S.E. (2001). Morphology of arbuscular mycorrhizas is influenced by fungal identity. New Phytologist. 151: 469-475. Cavalier-Smith T. (1998). A revised six-kingdom system of life. Biological Review. 73: 203-266. Corkidi L., Rowland D.L., Johnson N.C., Allen E.B. (2002). Nitrogen fertilization alters the functioning of arbuscular mycorrhizas at two semiarid grasslands. Plant and Soil. 240: 299- 310. Corradi N., Kuhn G., Sanders I.R. (2004). Monophyly of beta-tubulin and H+-ATPase gene variants in Glomus intraradices: consequences for molecular evolutionary studies of AM fungal genes. Fungal Genetics and Biology. 41: 262-273. 53 De Souza F.A., Dalpé Y., Providencia I. de la, Sesalon-Delmas N., Declerck S. (2005b) Life history strategies in Gigasporaceae: insight from root organ culture. In: Declerck, Strullu and Fortin. (Org.). In Vitro Culture of Mycorrhizas. Springer-Verlag, Berlin Heidelberg, v. 4: 73-91. De Souza F.A., Declerck S., Smit E., Koqalchuck G.A. (2005a) Morphological, ontogenetic and molecular characterization of Scutellospora reticulata, Glomeromycota. Mycological Research, 109: 697-706. De Souza F.A., Kowalchuk G.A., Leeflang P., van Veen J.A., Smit E. (2004). PCR- denaturing gradient gel electrophoresis profiling of the inter- and intraspecies 18S rRNA gene sequence heterogeneity is an accurate and sensitive method to assess species diversity of arbuscular mycorrhizal fungi of the genus Gigaspora. Applied Environment Microbiology. 70: 1413-1424. Declerck S., D'Or D., Cranenbrouck S., Le Boulenge E. (2001). Modelling the sporulation dynamics of arbuscular mycorrhizal fungi in monoxenic culture. Mycorrhiza. 11: 225-230. Dickson S. (2004). The Arum-Paris continuum of mycorrhizal symbioses. New Phytologist. 163: 187-200. Duff S.M.G., Moorhead C.G.B., Lefebvre D.D., Plaxton W.C., (1989). Phosphate starvation inducible ‘bypasses’ of adenylate and phosphate dependent glycolytic enzymes in Brassica nigra suspension cells. Plant Physiol. 90, 1275-1278. 54 Ferrol N., Barea J.M., Azcon-Aguilar C. (2002). Mechanisms of nutrient transport across interfaces in arbuscular mycorrhizas. Plant and Soil. 244: 231-237. Finlay R.D., Soderstrom B. (1989). Mycorrhizal mycelia and their role in soil and plant communities. In: Ecology of Arable Land-Perspectives and Challanges, vol. 1. Kluwer Academic Publishers, London pp. 139–148. Fitter A.H. (2005). Darkness visible: reflections on underground ecology. Journal of Ecology. 93: 231-243. Fitter A.H., Moyersoen B. (1996). Evolutionary Trends in Root-Microbe Symbioses. Philosophical Transactions of the Royal Society of London - Series B: Biological Sciences. 351: 1367-1375. Fonseca, H. M. A. C., Berbara, R. L. L., and Daft, M. J.(2001). Shoot delta N-15 and delta C-13 values of non-host Brassica rapa change when exposed to +/- Glomus etunicatum inoculum and three levels of phosphorus and nitrogen. Mycorrhiza 11: 151-158. Gadkar V., David S.R., Kunik T., Kapulnik Y. (2001). Arbuscular mycorrhizal fungal colonization. Factors involved in host recognition. Plant Physiology. 127: 1493-1499. Gamper H., Peter M., Jansa J., Luscher A., Hartwig U.A., Leuchtmann A. (2004). Arbuscular mycorrhizal fungi benefit from 7 years of free air CO2 enrichment in well- fertilized grass and legume monocultures. Global Change Biology. 10: 189-199. 55 Gerdeman J.W. (1965). Vesicular arbuscular mycorrhizas formed on maize and tulip tree by Endogone fasciculata. Mycologia 57: 562-575. Gerdemann J.W., Trappe J.M. (1974). The Endogonaceae in the Pacific Northwest. Mycologia Memoir. 5: 1-76. Graham J.H. (2000). Assessing costs of arbuscular mycorrhizal symbiosis in agroecosystems. In: Current advances in mycorrhizae research. Podila G.K., Douds D.D., eds. APS Press, St. Paul, USA. pp. 127-140. Gross E., Cordeiro L., Caetano F.H. (2004). Nodulation and mycorrhizal infection in Anadenanthera peregrina var. falcata on autoclaved and non-autoclaved cerrado soil. Revista Brasileira de Ciencia do Solo. 28: 95-101. Hamel C., Barrantes-Cartin U., Furlan V., Smith D.L. (1991). Endomycorrhizal fungi in nitrogen transfer from soybean to maize. Plant and Soil. 138: 33-40. Hamel C., Landry C., Elmi A., Liu A., Spedding T. (2004) Nutrient dynamics: Utilizing biotic-abiotic interactions for improved management of agricultural soils. In: New Dimensions in Agroecology (D. Clements and A. Shresstha, eds). FPP, The Haworth Press, New York, pp. 209-248. Harrison M.J. (1999). Biotrophic interfaces and nutrient transport in plant fungal symbioses. Journal of Experimental Botany. 50: 1013-1022. 56 Helgason T., Watson I.J., Young J.P.W. (2003). Phylogeny of the Glomerales and diversisporales (Fungi: Glomeromycota) from actin and elongation factor 1-alpha sequences. Fems Microbiology Letters. 229: 127-132. Hijri M., Sanders I.R. (2004). The arbuscular mycorrhizal fungus Glomus intraradices is haploid and has a small genome size in the lower limit of eukaryotes. Fungal Genetics and Biology. 41: 253-261. Hijri M., Sanders I.R. (2005). Low gene copy number shows that arbuscular mycorrhizal fungi inherit genetically different nuclei. Nature. 433: 160-163. Hwang S.F., Chang K.F., Chakravarty P. (1992). Effects of vesicular-arbuscular mycorrhizal fungi on the development of Verticillium andFusarium wilts of alfalfa. Plant Disease. 76: 239-243. Imhof S. (1999). Anatomy and mycotrophy of the achlorophyllous Afrothismia winkleri. New Phytologist. 144: 533-540. Jakobsen I., Smith S.E., Smith F.A. (2002). Function and diversity of arbuscular mycorrhizae in carbon and mineral nutrition. In: Mycorrhizal Ecology (eds van der Heijden, M.G.A. & Sanders, I.), Ecological Studies, Vol. 157. Springer-Verlag, Berlin, pp. 75–92. 57 Jastrow J.D., Miller R.M., Lussenhop J. (1998). Contributions of interacting biological mechanisms to soil aggregate stabilization in restored prairie. Soil Biology & Biochemistry. 30: 905-916. Jeffries P., Barea J.M. (2001). Arbuscular mycorrhiza: a key component of sustainable plant-soil ecosystems. In: Hock B (ed) The Mycota. Vol IX: fungal associations, Springer, Berlin Heidelberg New York, pp 95-113. Jeffries P., Gianinazzi S., Perotto S., Turnau K., Barea J.M. (2003). The contribution of arbuscular mycorrhizal fungi in sustainable maintenance of plant health and soil fertility. Biology and Fertility of Soils. 37: 1-16. Johnson N.C., Graham J.H., Smith F.A. (1997). Functioning of mycorrhizal associations along the mutualism-parasitism continuum. New Phytologist. 135: 575-586. Johnson N.C., Tilman D., Wedin D. (1992). Plant and soil controls on mycorrhizal fungal communities. Ecology. 73: 2034-2042. Jolicoeur M., Bouchard-Marchanc E., Becard G., Perrier M. (2002). Regulation of mycorrhizal symbiosis: development of a structured nutritional dual model. Ecological Modelling. 158: 121-142. Karandashov V., Bucher M. (2005). Symbiotic phosphate transport in arbuscular mycorrhizas. Trends in Plant Science. 10: 22-29. 58 Kiers E.T., Lovelock C.E., Krueger E.L., Herre E.A. (2000). Differential effects of tropical arbuscular mycorrhizal fungal inocula on root colonization and tree seedling growth: implications for tropical forest diversity. Ecology Letters 3: 106-113. Klironomos J.N., McCune J., Hart M., Neville J. (2000). The influence of arbuscular mycorrhizae on the relationship between plant diversity and productivity. Ecology Letters 3: 137-141. Lal R. (1997). Degradation and resilience of soils Philosophical Transactions. Biological Sciences. 352: 997-1010. Lambais M.R. & Mehdy M.C.(1998). Spatial distribution of chitinases and beta-1,3- glucanase transcripts in bean arbuscular mycorrhizal roots under low and high soil phosphate conditions. New Phytologist 140: 33-42. Lambais M.R. (2000) Regulation of plant defense-related genes in arbuscular mycorrhizae. In: Podila GK, Douds DD Jr, eds. Current advances in mycorrhizae research. St. Paul, MN, USA: APS Press, 45–59. Lambais M.R., Rios-Ruiz W.F., Andrade R.M. (2003). Antioxidant responses in bean (Phaseolus vulgaris) roots colonized by arbuscular mycorrhizal fungi. New Phytologist. 160: 421-428. 59 Leake J.R., Donnelly D.P., Saunders E.M., Boddy L., Read D.J. (2001). Rates and quantities of carbon flux to ectomycorrhizal mycelium following C-14 pulse labeling of Pinus sylvestris seedlings: effects of litter patches and interaction with a wood-decomposer fungus. Tree Physiology. 21: 71-82. Leake J.R., Johnson D., Donnelly D.P., Muckle G.E., Boddy L., Read D.J. (2004) Networks of power and influence: the role of mycorrhizal mycelium in controlling plant communities and agroecosystem functioning. Canadian Journal of Botany-Revue Canadienne De Botanique. 82: 1016-1045. Lehninger A.L., Nelson D.L., Cox M.M. (1995). Princípios de bioquímica. Tradução de W.R. Loodi, e A.A. Simões. São Paulo: Sarvier. 839 p. Tradução de: Principles of biochemistry Lovelock C.E., Ewel J.J. (2005). Links between tree species, symbiotic fungal diversity and ecosystem functioning in simplified tropical ecosystems. New Phytologist. 167: 219-228. Lovelock C.E., Wright S.F., Nichols K.A. (2004). Using glomalin as an indicator for arbuscular mycorrhizal hyphal growth: an example from a tropical rain forest soil. Soil Biology & Biochemistry. 36: 1009-1012. Lutzoni F, Kauff F, Cox CJ, McLaughlin D, Celio G,Dentinger B, Padamsee M, Hibbett D, James TY, Baloch E, Grube M, Reeb V, Hofstetter V, Schoch C, ArnoldAE, Miadlikowska J, Spatafora J, Johnson D,Hambleton S, Crockett M, Shoemaker R, Sung G-H,Lücking R, 60 Lumbsch T, O'Donnell K, Binder M, Diederich P, Ertz D, Gueidan C, Hall B, Hansen K, Harris RC, Hosaka K, Lim Y-W, Matheny B, Nishida N, Pfister D, Rogers J, Rossman A, Schmitt I, Sipman H, Stone J, Sugiyama J, Yahr R, Vilgalys R (2004). Assembling the fungal tree of life: classification and the evolution of their their subcellular traits? Amerian Journal of Botany: 91: 1446–1480. Malloch D.W., Pirozynski K.A., Raven P.H. (1980). Ecological and evolutionary significance of mycorrhizal symbiosis in vascular plants (a review). Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America. 77: 2113-2118. Marschner H., Dell B. (1994). Nutrient-uptake in mycorrhizal symbiosis. Plant and Soil. 159: 89-102. Miller R.M., Kling M. (2000). The importance of integration and scale in the arbuscular mycorrhizal symbiosis. Plant and Soil. 226: 295-309. Mohammad A., Mitra B., Khan A.G. (2004). Effects of sheared-root inoculurn of Glomus intraradices on wheat grown at different phosphorus levels in the field. Agriculture Ecosystems & Environment. 103: 245-249. Moreira F.M.S., Siqueira J.O. (2002). Microbiologia e Bioquimica do Solo. 1. ed. Lavras: Editora UFLA. v. 1: 625 p 61 Morton J.B. (1999). Evolution of endophytism in arbuscular mycorrhizal fungi of Glomales. In: Microbial Endophytes. Bacon, C. W. and White, J. H. Eds., Marcel Dekker, Inc., New York. pp. 121-140. Morton J.B., Benny G.L. (1990). Revised classification of arbuscular mycorrhizal fungi (Zygomycetes): a new order, Glomales, two new suborders, Glomineae and Gigasporineae, and two new families, Acaulosporaceae and Gigasporaceae, with an emendation of Glomaceae. Mycotaxon. 37: 471-491. Morton J.B., Redecker D. (2001). Two new families of Glomales, Archaeosporaceae and Paraglomaceae, with two new genera Archaeospora and Paraglomus, based on concordant molecular and morphological characters. Mycologia 93: 181-195. Nehls U., Mikolajewski S., Magel E., Hampp R. (2001). Carbohydrate metabolism in ectomycorrhizas: gene expression, monosaccharide transport and metabolic control. New Phytologist. 150: 533-541. Newman E.I. (1988). Mycorrhizal links between plants: their functioning and ecological significance. Advances in Ecological Research. 18: 243-270. Nielsen J.S., Joner E.J., Declerck S., Olsson S., Jakobsen I. (2002). Phospho-imaging as a tool for visualization and noninvasive measurement of P transport dynamics in arbuscular mycorrhizas. New Phytologist. 154: 809-819. 62 Oehl F., Sieverding E. (2004). Pacispora, a new vesicular arbuscular mycorrhizal fungal genus in the glomeromycetes. Journal of Applied Botany and Food Quality - Angewandte Botanik. 78: 72-82. Ohtomo R., Sekiguchi Y., Mimura T., Saito M., Ezawa T. (2004). Quantification of polyphosphate: different sensitivities to short-chain polyphosphate using enzymatic and colorimetric methods as revealed by ion chromatography. Analytical Biochemistry. 328: 139-146. Olsson P.A., Thingstrup I., Jakobsen I., Baath F. (1999). Estimation of the biomass of arbuscular mycorrhizal fungi in a linseed field. Soil Biology & Biochemistry. 31: 1879- 1887. Olsson P.A., Wilhelmsson P. (2000). The growth of external AM fungal mycelium in sand dunes and in experimental systems. Plant and Soil. 226: 161-169. Paula M.A., Siqueira J.O., Dobereiner J. (1993). Ocorrência de fungos micorrízicos vesiculo-arbusculares e de bactérias diazotróficas na cultura da batata-doce. Revista Brasileira deCiência do Solo, Campinas. 17:319-419. Pawlowska T.E., Taylor J.W. (2004). Organization of genetic variation in individuals of arbuscular mycorrhizal fungi. Nature. 427: 733-737. 63 Peng S., Eissenstat D.M., Graham J.H., Williams K., Hodge N.C. (1993). Growth depression in mycorrhizal citrus at high-phosphorus supply. Plant Physiology. 101: 1063- 1071. Perez Y., Schenck N.C. (1990). Manual for the identification of VA mycorrhizal fungi. 3.ed. Gainesville: Synergistic Publications. Pfeffer P.E., Douds D.D., Bucking H., Schwartz D.P., Shachar-Hill Y. (2004). The fungus does not transfer carbon to or between roots in an arbuscular mycorrhizal symbiosis. New Phytologist. 163: 617-627. Pirozynski K.A., Malloch D.W. (1975). The origin of land plants; a matter of mycotrophism. Biosystems 6: 153 164. Prasad R., Pham H.G., Kumari R., Singh A, Vikas Y., Sachdev M., Garg, A.P., Peskan T, Hehl S., Sherameti I., Oelmuller R., Varma A. (2005) Sebacinaceae: Endosymbiotic fungi and their interaction with no-transformed and transformed roots. In: Declerck, Strullu and Fortin. (Org.). In Vitro Culture of Mycorrhizas. Springer-Verlag, Berlin Heidelberg, Soil Biology, v. 4: 291-312. Rausch C., Daram P., Brunner S., Jansa J., Laloi M., Leggewie G., Amrhein N., Bucher M. (2001). A phosphate transporter expressed in arbuscule-containing cells in potato. Nature. 414: 462-466. 64 Raven J.A., Edwards D. (2001). Roots: evolutionary origins and biogeochemical significance. Journal of Experimental Botany. 52: 381-401. Redecker D., Kodner R., Graham L.E. (2000a) Glomalean fungi from the Ordovician. Science. 289:1920-1921 Redecker D., Morton J.B., Bruns T.D. (2000a). Ancestral lineages of arbuscular mycorrhizal fungi (Glomales). Molecular Phylogenetics and Evolution. 14: 276-284. Redecker D., Morton J.B., Bruns T.D. (2000b). Molecular phylogeny of the arbuscular mycorrhizal fungi Glomus sinuosum and Sclerocystis coremioides. Mycologia. 92: 282- 285. Rillig M.C. (2004). Arbuscular mycorrhizae, glomalin, and soil aggregation. Canadian Journal of Soil Science. 84: 355-363. Rillig M.C., Wright S.F., Eviner V.T. (2002). The role of arbuscular mycorrhizal fungi and glomalin in soil aggregation: comparing effects of five plant species. Plant and Soil. 238: 325-333. Rillig M.C., Wright S.F., Nichols K.A., Schmidt W.F., Torn M.S. (2001). Large contribution of arbuscular mycorrhizal fungi to soil carbon pools in tropical forest soils. Plant and Soil. 233: 167-177. 65 Rosendahl S., Taylor J.W. (1997). Development of multiple genetic markers for studies of genetic variation in arbuscular mycorrhizal fungi using AFLP(TM). Molecular Ecology. 6: 821-829. Ryan M.H., McCully M.E., Huang C.X. (2003). Location and quantification of phosphorus and other elements in fully hydrated, soil-grown arbuscular mycorrhizas: a cryo-analytical scanning electron microscopy study. New Phytologist. 160: 429-441. Sacco J.C. (1958). Observações sobre Sesbania punicea (Cav) Benth, Boletim Técnico do Instituto Agronomico do Sul. 17:13-21. Sacco J.C. (1962). Ocorrência de micorriza em algumas invasoras. Boletim do Instituto de Ecologia e Experimentação agrícolas. 23:41-45. Sanders I.R. (2002). Ecology and evolution of multigenomic arbuscular mycorrhizal fungi. American Naturalist. 160: S128-S141. Santos B.A., Silva G.A., Maia L.C., Alves M.V. (2000). Mycorrhizae in Monocotyledonae of Northeast Brazil: subclasses Alismatidae, Arecidae and Zingiberidae. Mycorrhiza. 10: 151-153. Schardl C.L., Craven K.D. (2003). Interspecific hybridization in plant-associated fungi and oomycetes: a review. Molecular Ecology. 12: 2861-2873. 66 Schloter M., Dilly O., Munch J.C. (2003). Indicators for evaluating soil quality. Agriculture Ecosystems & Environment. 98: 255-262. Schüßler A. (1999). Glomales SSU rRNA gene diversity. New Phytologist. 144: 205-207. Schüßler A., Bonfante P., Schnepf E., Mollenhauer D., Kluge M. (1996). Characterization of the geosiphon pyriforme symbiosome by affinity techniques - confocal laser scanning microscopy (clsm) and electron microscopy. Protoplasma. 190: 53-67. Schüßler A., Schwarzott D., Walker C. (2001). A new fungal phylum, the Glomeromycota: phylogeny and evolution. Mycological Research. 105: 1413-1421. Schwab S.M., Menge J.A., Tinker P.B. (1991). Regulation of nutrient transfer between host and fungus in vesicular-arbuscular mycorrhizas. New Phytologist. 117: 387-398. Schwarzott D., Walker C., Schüßler A. (2001). Glomus, the largest genus of the arbuscular mycorrhizal fungi (Glomales), is nonmonophyletic. Molecular Phylogenetics and Evolution. 21: 190-197. Sieverding E. (1991). Vesicular-arbuscular mycorrhizae management in tropical agrosystem. Technical Cooperation. Eschborn, GTZ, Federal Republic of Germany. Simon L, Bousquet J, Levesque RC, Lalonde M (1993a) origin and diversification of endomycorrhizal fungi and coincidence with vascular land plants. Nature. 363: 67-69. 67 Simon L. (1996). Phylogeny of the glomales - deciphering the past to understand the present. New Phytologist. 133: 95-101. Simon L., Bousquet J., Levesque R.C., Lalonde M. (1993b). Origin and diversification of endomycorrhizal fungi and coincidence with vascular land plants. Nature. 363: 67-69. Siqueira J.O. (1996). Avanços em Fundamentos e Aplicação de Micorrízas. Lavras. Universidade Federal de Lavras. 290p Siqueira J.O., Franco A.A. (1988). Biotecnologia do Solo - Fundamentos e Perspectivas. Lavras: ABEAS. v. 1. 234 p. Siqueira J.O., Saggin-Junior O.J. (2001). Dependency on arbuscular mycorrhizal fungi and responsiveness of some Brazilian native woody species. Mycorrhiza. 11: 245-255. Smith S.E., Gianinazzipearson V., Koide R., Cairney J.W. (1994). Nutrient Transport in Mycorrhizas - Structure, Physiology and Consequences for Efficiency of the Symbiosis. Plant and Soil. 159: 103-113. Smith S.E., Read D.J. (1997). Mycorrhizal symbiosis. Academic Press, San Diego, US, 605 pp. 68 Smith S.E., Smith F.A, Jakobsen I. (2004). Functional diversity in arbuscular mycorrhizal (AM) symbioses: the contribution of the mycorrhizal P uptake pathway is not correlated with mycorrhizal responses in growth or total P uptake. New Phytologist. 162: 511-524. Smith S.E., Smith F.A., Jakobsen I. (2003). Mycorrhizal fungi can dominate phosphate supply to plants irrespective of growth responses. Plant Physiology. 133: 16-20. Son C.L., Smith S.E. (1988). Mycorrhizal growth responses: interactions between photon irradiance and phosphorus nutrition. New Phytologist. 108: 305-314. Thomas R.S., Franson R.L., Bethlenfalvay G.J. (1993). Separation of vesicular-arbuscular mycorrhizal fungus and root effects on soil aggregation. Soil Science Society of America Journal. 57: 77-81. Tisdall J.M., Oades J.M. (1979). Stabilization of soil aggregates by the root systems of ryegrass. Australian Journal of Soil Research. 17: 429-441. Trappe J.M. (2005) A.B. Frank and mycorrhizae: the challenge to evolutionary and ecologic theory. Mycorrhiza. 15: 277-281. van Aarle I.M., Cavagnaro T.R., Smith S.E., Smith F.A., Dickson S. (2005). Metabolic activity of Glomus intraradices in Arum- and Paris-type arbuscular mycorrhizal colonization. New Phytologist 166: 611-618. 69 van Aarle I.M., Olsson P.A., Soderstrom B. (2002). Arbuscular mycorrhizal fungi respond to the substrate pH of their extraradical mycelium by altered growth and root colonization. New Phytologist. 155: 173-182. van Aarle I.M., Soderstrom B., Olsson P.A. (2003). Growth and interactions of arbuscular mycorrhizal fungi in soils from limestone and acid rock habitats. Soil Biology & Biochemistry. 35: 1557-1564. van Breemen N., Lundstrom U.S., Jongmans A.G., van Breemen N.,Lundstrom U.S., van Breemen N., Bain D.C. (2000). Do plants drive podzolization via rock-eating mycorrhizal fungi? Geoderma. 94: 163-171. van der Heijden E.W., Kuyper T.W. (2003). Ecological strategies of ectomycorrhizal fungi of Salix repens: root manipulation versus root replacement. Oikos. 103: 668-680. van der Heijden M.G.A, Sanders I.R. (2002) Mycorrhizal ecology: Synthesis and perspectives. North american temperate deciduous forest resonses to changing precipitation regimes. 157: 441-456. van der Heijden M.G.A., Boller T., Wiemken A., Sanders I.R. (1998a) Different arbuscular mycorrhizal fungal species are potential determinants of plant community structure. Ecology 79: 2082-2091. 70 van der Heijden M.G.A., Klironomos JN, Ursic M., Moutoglis P., Streitwolf E.R., Boller T., Wiemken A., Sanders I.R., (1998b). Mycorrhizal fungal diversity determines plant biodiversity, ecosystem variability and productivity. Nature. 396: 69-72. van der Heijden M.G.A., Wiemken A., Sanders I.R. (2003). Different arbuscular mycorrhizal fungi alter coexistence and resource distribution between co-occurring plant. New Phytologist. 157: 569-578. Vancura V., Orozco M.O., Grauova O., Prikryl Z. (1990). Properties of bacteria in the hyphosphere of a vesicular-arbuscular mycorrhizal fungus. Agriculture, Ecosystems and Environment. 29: 421-427. Viereck N., Hansen P.E., Jakobsen I. (2004). Phosphate pool dynamics in the arbuscular mycorrhizal fungus Glomus intraradices studied by in vivo P-31 NMR spectroscopy. New Phytologist. 162: 783-794. Voroney R.P. & Winter J.P. 193. Soil microbial biomass C and N. In Soil sampling and methods of analysis. Ed. M.R. Carter. Lewis Publishers, Boca Raton, Fla. pp. 227-286. Walker C., Blaszkowski J., Schwarzott D., Schüßler A. (2004). Gerdemannia gen. nov., a genus separated from Glomus, and Gerdemanniaceae fam. nov., a new family in the Glomeromycota. Mycological Research. 108: 707-718. 71 Wardle D.A., Bardgett R.D., Klironomos J.N., Setala H., van der Putten W.H., Wall D.H. (2004). Ecological linkages between aboveground and belowground biota. Science. 304: 1629-1633. Wright S.F., Upadhyaya A. (1998). A survey of soils for aggregate stability and glomalin, a glycoprotein produced by hyphae of arbuscular mycorrhizal fungi. Plant and Soil. 198: 97- 107. Zhu Y.G., Miller R.M. (2003). Carbon cycling by arbuscular mycorrhizal fungi in soil- plant systems. Trends in Plant Science. 8: 407-409. 1 CAPÍTULO 4 SOLUÇÕES NUTRITIVAS: FORMULAÇÃO E APLICAÇÕES Nilton Nélio Cometti 1, Pedro Roberto Furlani2, Hugo Alberto Ruiz3 & Elpídio Inácio Fernandes Filho3 1Escola Agrotécnica Federal de Colatina - ES, CP 256 – Colatina - ES, CEP 29709-910, www.eafcol.gov.br, 2Pesquisador Científico Voluntário, Bolsista do CNPq – Instituto Agronômico, CP 28, CEP 13.001.970 – Campinas - SP: pfurlani@iac.gov.br , 3 Professores do Departamento de Solos da Universidade Federal de Viçosa, CEP 36570-000, Viçosa (MG). E- mails: hruiz@ufv.br; espidio@ufv.br 2 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO 3 2. COMPOSIÇÃO DAS SOLUÇÕES NUTRITIVAS 3 2.1. Composição da solução nutritiva 8 2.2. Sais utilizados nas soluções 9 2.3. Exemplo de formulação de solução nutritiva para a cultura da alface 10 2.4. Concentração da solução nutritiva 12 3. MANEJO DA SOLUÇÃO 16 3.1. Reposição da solução 16 3.2. Preparo e utilização de soluções estoque 18 3.3. pH da solução nutritiva 21 4. ESPECIAÇÃO IÔNICA DA SOLUÇÃO NUTRITIVA 24 4.1. Força iônica 25 4.2. pH 26 4.3. Quelatos 28 5. ESTUDOS DE CINÉTICA DE ABSORÇÃO DE NUTRIENTES 33 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 40 3 1. INTRODUÇÃO Uma solução nutritiva pode ser definida como um sistema homogêneo onde os nutrientes necessários à planta estão dispersos, geralmente na forma iônica e em proporções adequadas. Além dos nutrientes, pressupõe-se que a solução nutritiva contenha O2 e esteja na temperatura ideal para a absorção dos nutrientes. Entretanto, uma solução nutritiva não é composta inteiramente de elementos em suas formas minerais, puras e simples, onde uma simples análise dos elementos seja suficiente para desvendar os “segredos” de suas fórmulas “mágicas”. A partir do instante em que a solução nutritiva é colocada em contato com as raízes, transforma-se em uma verdadeira “sopa” nutritiva, contendo vários compostos orgânicos provenientes da atividade microbiana, dos exsudatos das raízes e da decomposição de fragmentos de raízes. Além desses, há resíduos do meio de cultivo das mudas, fragmentos do sistema hidropônico e do sistema hidráulico. Em qualquer sistema de cultivo sem solo, duas variáveis são preponderantes sobre a produtividade: a ambiência, determinada pelo tipo de proteção das plantas, especialmente a cobertura com filmes plásticos transparentes e telas de sombreamento; e a solução nutritiva, que pode estar livre ou dispersa em um substrato. Em condições normais, todos os nutrientes podem ser absorvidos da solução nutritiva pela raiz em quantidades suficientes ao requerimento da planta. Além dos nutrientes, O2 e água são absorvidos diretamente da solução, enquanto o C é retirado normalmente da atmosfera. Tanto em pesquisas de nutrição mineral de plantas, quanto na produção de alimentos em sistemas hidropônicos, a solução nutritiva tem o caráter de ser o objeto e a ferramenta de trabalho e estudo. 2. COMPOSIÇÃO DAS SOLUÇÕES NUTRITIVAS A composição da solução nutritiva tem sido estudada há muitos anos, com relatos de soluções datando de 1865, como a solução de Knopp (Resh, 2002). Entretanto, somente a partir 4 de 1933 houve preocupação com a elaboração de uma solução contendo micronutrientes, em 1938, Hoagland & Arnon apresentaram uma solução nutritiva completa e balanceada para tomateiro, baseada na composição de plantas cultivadas em vasos com solução nutritiva (Hoagland & Arnon, 1950). Em 1957, essa solução sofreu uma pequena adaptação na relação NO3 -:NH4 + para o valor de 7:1, por Johnson e colaboradores, para manter o pH mais próximo de cinco. A partir da solução de Hoagland & Arnon, muitas outras foram desenvolvidas, mas a tradicional solução “Hoagland” permanece como a mais utilizada, por atender adequadamente às necessidades das culturas. Admite-se que não exista uma solução nutritiva ideal para todas as culturas. Desta forma, a composição da solução nutritiva varia com uma série de fatores: a espécie de planta cultivada (a exigência nutricional é geneticamente controlada), o estádio fenológico da planta, a época do ano (duração do período de luz), fatores ambientais (temperatura, umidade e luminosidade) e a parte da planta colhida e, eventualmente, comercializada. Além disso, aspectos intrínsecos à solução alteram sua composição, tais como pH, força iônica, temperatura e presença de moléculas orgânicas, em especial os agentes quelantes. Diversas soluções nutritivas têm sido propostas, havendo diferenças marcantes em relação às concentrações dos macronutrientes, enquanto que para os micronutrientes, as diferenças são bem menores (Quadro 1). É comum encontrar nos artigos científicos a “solução nutritiva modificada de Hoagland”, isto é, fórmulas derivadas da solução nutritiva proposta por Hoagland & Arnon. Essa solução tem sido a mais usada na pesquisa em nutrição mineral de plantas e constitui a base para a formulação de inúmeras soluções nutritivas comerciais. As faixas de concentrações dos nutrientes utilizadas nas soluções são muito amplas, variando em até 10 vezes, como no caso do S (Quadro 1). 5 Quadro 1. Faixas de concentração encontradas nas soluções nutritivas e solução de Hoagland & Arnon (1950) modificada. Nutriente Massa atômica Faixas de concentração 1 Hoagland & Arnon ----mg L-1----- --------mmol L-1------ mg L-1 mmol L-1 N-NO3 - 14,0 70 - 250 5,00 - 17,86196 14,00 N-NH4 + 14,0 0 - 33 0,00 - 2,36 14 1,00 P 31,0 15 - 80 0,48 - 2,58 31 1,00 K 39,1 150 - 400 3,84 - 10,23 234 5,98 Ca 40,0 70 - 200 1,75 - 5,00 160 4,00 Mg 24,3 15 - 80 0,62 - 3,29 48 1,98 S 32,0 20 - 200 0,63 - 6,25 64 2,00 ------µmol L-1------ µmol L-1 B 10,8 0,1 - 0,6 9,26 - 55,56 0,5 46,30 Cu 63,5 0,05 - 0,3 0,79 - 4,72 0,02 0,31 Fé 55,8 0,8 - 6 14,34 - 107,53 1 17,92 Mn 54,9 0,5 - 2 9,11 - 36,43 0,5 9,11 Mo 95,9 0,01 - 0,15 0,52 - 1,56 0,01 0,10 Zn 65,4 0,05 - 0,5 1,53 - 7,65 0,05 0,76 Cl 35,5 1 - 188 28,17 - 5.295,77 1 Adaptado de Barry (1996) e Resh (2002). Para formular uma solução nutritiva, é importante entender o modo e a velocidade com que os nutrientes são absorvidos pelas plantas. Há vários sistemas de monitoramento da concentração dos íons na solução nutritiva, incluindo aqueles totalmente automatizados, compostos de sensores (eletrodos específicos para íons) e computadores para registrar o teor do nutriente e a necessidade de reposição. Entretanto, esse monitoramento pode ser interessante, mas não é fundamental para a manutenção da solução adequada ao cultivo hidropônico. 6 É muito comum verificar a rápida depleção de um nutriente na solução, enquanto outros se acumulam, devido às diferentes taxas de absorção. A velocidade de absorção de N, P e K é maior do que dos outros nutrientes, o que pode levar ao rápido esgotamento desses nutrientes e acúmulo de outros, especialmente S e Ca (Figura 1). O mesmo pode ocorrer com micronutrientes, considerando que o Mn tem alta taxa de absorção em comparação ao B. Assim, os nutrientes podem ser separados em três grandes grupos, considerando a velocidade de absorção (Quadro 2). O conhecimento da velocidade com que um íon é absorvido pode explicar porquê, na análise de uma solução nutritiva, um nutriente pode estar praticamente ausente, enquanto outros ainda estão em concentrações adequadas para a cultura, mesmo que as plantas tenham um crescimento exuberante. Então, a depleção do nutriente na solução nutritiva, ao invés de indicar sua deficiência, pode indicar que as plantas estão saudáveis, e que estão absorvendo os nutrientes rapidamente. Por exemplo, se a concentração de P for mantida constante na solução circulante (0,5 mmol L-1), sua concentração no tecido poderá atingir a 1% da massa seca, valor três vezes maior do que o ótimo para a maioria das plantas, o que pode induzir deficiências de Fe e Zn (Chaney & Coulomb, 1982). Sendo assim, ao longo do ciclo de um cultivo hidropônico sem renovação da solução, os resultados de análises devem apresentar concentrações estáveis dos nutrientes de absorção lenta (Figura 1 e Quadro 2), enquanto para os nutrientes de absorção rápida, as concentrações normalmente são baixas, mesmo com o ajuste diário da concentração da solução. 7 Quadro 2. Taxa de absorção aproximada dos nutrientes por plantas crescidas em solução nutritiva (adaptado de Bugbee, 1995). Grupo Taxa de absorção Nutriente 1 Absorção rápida N-NO3 N-NH4 P K Mn 2 Absorção intermediária Mg S Fe Zn Cu Mo 3 Absorção lenta Ca B Tempo (horas) 0 20 40 60 80 100 120 0 20 40 60 80 % d o I n ic ia l (% ) 0 20 40 60 80 100 S Ca Mg P N K Mn B Fe Figura 1. Variação temporal da concentração relativa de nutrientes da solução nutritiva em NFT (técnica do nutriente em filme) em cultivo de alface (Adaptado de Furlani, 2003 – dados não publicados). 8 A concentração total dos nutrientes na solução pode ser estimada medindo-se a condutividade elétrica (CE) da solução. Devido à taxa diferencial de absorção dos nutrientes, a CE da solução indica, na maior parte, o Ca, Mg e S remanescentes, enquanto os micronutrientes contribuem com menos de 0,1 % da CE da solução. No Sistema Internacional de Unidades, a CE é expressa em S m-1 (siemen por metro), sendo mais comum sua utilização na faixa de mS m-1, muito empregada comercialmente, e que equivale à unidade mMho cm-1 usada no passado. 2.1. Composição da solução nutritiva Em seu trabalho pioneiro, Hoagland & Arnon (1950) formularam uma solução nutritiva a partir da composição elementar média de plantas de tomate, mas seus cálculos foram baseados em plantas cultivadas em recipientes com 18 L de solução, com troca semanal de solução. Com o advento das novas técnicas de cultivo hidropônico e novas formas de reposição da solução nutritiva, surgiram algumas questões: o que ocorre quando se cultiva uma planta diferente, ou quando o volume de solução por planta for diferente, ou quando a forma e a freqüência de reposição da solução nutritiva forem distintas? Portanto, dois fatores devem ser considerados para a formulação de uma solução nutritiva: a composição da solução, determinada pela relação entre as concentrações dos nutrientes no tecido da planta cultivada; e a concentração da solução, determinada pela razão de transpiração para o crescimento da planta, pelo volume de solução por planta, pelo grau de agitação da solução e pela velocidade de reposição da solução. A composição da solução deve ser determinada a partir da concentração desejada de cada nutriente dentro da planta. O ponto de partida é a análise química de toda a planta, já que as diferentes partes contêm concentrações diferentes de nutrientes. As quantidades acumuladas de cada nutriente, e suas proporções relativas, servem de referência para a definição da concentração relativa de cada nutriente na solução nutritiva. Outro meio é utilizar referências bibliográficas, com interpretação de análise de plantas contendo as concentrações adequadas de nutrientes para o crescimento e desenvolvimento ótimos das plantas. Quando se procede à 9 análise das exigências nutricionais de plantas visando ao cultivo em solução nutritiva, deve-se enfocar as relações existentes entre os nutrientes, pois essa é uma indicação da relação de extração do meio de crescimento. Além das diferenças nos teores de nutrientes nas folhas em função de sua posição, cultivares e épocas de amostragem, também ocorrem diferenças nas relações entre os teores foliares de nutrientes para as diversas espécies, o que deve ser levado em consideração quando se utiliza uma única solução para a nutrição de diversas espécies vegetais. Quando isso ocorre para espécies que possuem relação de extração diferente, há grande possibilidade de desequilíbrio nutricional ao longo do desenvolvimento das plantas, principalmente aquelas com ciclo mais longo e quando a solução nutritiva não é renovada integralmente. Essas relações devem ser consideradas também para a reposição de nutrientes durante o crescimento das plantas. Em trabalhos de pesquisa, é comum a renovação total da solução após uma semana de cultivo em vasos, a fim de evitar desequilíbrios nas relações entre os nutrientes. 2.2. Sais utilizados nas soluções Para a escolha de um sal para uma determinada solução deve-se considerar, primeiramente, a finalidade da solução. Em trabalhos de pesquisa, utilizam-se normalmente sais puros para análise, a fim de evitar contaminações com outros nutrientes que possam distorcer os resultados. Entretanto, em cultivos hidropônicos com fins comerciais, o volume de solução utilizado geralmente é grande, e neste caso o uso de sais comerciais é preferível pelo seu menor custo. Esses sais são comumente utilizados em fertirrigação devido à sua alta solubilidade e ausência de resíduos que possam obstruir os emissores. Se o objeto de estudo forem os micronutrientes, os cuidados devem ser maiores, inclusive com a purificação de sais. No fornecimento de macronutrientes, é preferível utilizar sais que não contenham Na e Cl, que podem acumular-se na solução, aumentando a salinidade e reduzindo a absorção de alguns nutrientes. O Cl pode reduzir a absorção de NO3 -, e o Na pode interferir na absorção de Ca e K (Marschner, 1995). 10 2.3. Exemplode formulação de solução nutritiva para a cultura da alface Como exemplo de um método prático de cálculo de uma solução nutritiva, deve-se inicialmente definir a relação de concentração entre os nutrientes para a cultura em questão (dados do Quadro 3, para a cultura da alface), para preparar a base da solução, assumindo uma quantidade inicial de 100 g de K por m3 de solução (Quadro 6). Quadro 3. Relação entre nutrientes, e quantidade de nutriente para preparar a solução básica para a cultura da alface K N P Ca Mg S Relação entre nutrientes 1,00 0,62 0,09 0,31 0,08 0,03 Relação × 100 100 62 9 31 8 3 Quantidade (g m-3) 100 62 9 31 8 3 Em seguida, definem-se os sais que serão utilizados para os macronutrientes. Geralmente utilizam-se os seguintes sais: - nitrato de cálcio (Ca 19 %, N-NO3 4,5 %, N-NH4 1,0 %); - nitrato de potássio (K 36,5 %, N-NO3 13 %); - MAP purificado (N-NH4 11 %, P 26 %); deve ser utilizado quando o pH da solução for ligeiramente neutro ou alcalino, devido à presença do amônio que acidifica a solução; - MKP (K 29 %, P 23 %); deve ser utilizado quando o pH da solução for ácido; - sulfato de magnésio (Mg 10 %, S 13%). a) Cálculo do Ca: nitrato de cálcio = 31/0,19 = 163,2 g m-3 (o valor 31 indica a quantidade de Ca do Quadro 3; o valor 0,19 indica 19 % de Ca no nitrato de cálcio; iniciou-se pelo nitrato de cálcio por ser a única fonte de cálcio. b) Cálculo do K: nitrato de potássio = 100/0,36 = 278 g m-3 c) Cálculo do P: de MAP = 9/0,26 = 23 g m-3 d) Cálculo do Mg: sulfato de magnésio = 8/0,10 = 80 g m-3 11 e) Cálculo do N: N contido nos sais acima = 163,2×0,145 + 278×0,13 + 23×0,11 = 62,3 g m-3 f) Caso o N resultante da soma das quantidades dos sais não seja suficiente, pode-se completá-lo com nitrato de cálcio e nitrato de potássio. g) A composição da solução nutritiva básica para atender a proporção entre os nutrientes será (em g m-3): 163,2 g de nitrato de cálcio, 278 g de nitrato de potássio, 23 g de MAP e 80 g de sulfato de magnésio; esta deverá ser corrigida para a condutividade elétrica desejada, 1,5 mS cm-1, por exemplo. h) Para a estimativa da condutividade elétrica, multiplica-se a CE de uma solução em g L-1 (Quadro 4) pela quantidade do sal. Para a solução nutritiva básica, a CE estimada será: 163,2×1,18 + 278×1,28 + 23×0,95 + 80×0,88 = 641 µS cm-1 ou 0,64 mS cm-1. i) Para se obter a CE da solução nutritiva desejada (CE = 1,5 mS cm-1), deve-se multiplicar os valores de concentração de sais calculados no item g pelo fator de correção da CE (fce = 1,50 / 0,64 = 2,3), obtendo-se as concentrações finais dos sais (Quadro 4). Quadro 4. Solução nutritiva final para a cultura do alface, corrigida para a condutividade elétrica desejada. Sal utilizado Solução básica Solução desejada g m-3 g m-3 Nitrato de cálcio 163 375 Nitrato de potássio 278 639 MAP 23 53 Sulfato de magnésio 80 184 CE (mS cm-1) 0,64 1,5 Para o cálculo da solução de micronutrientes, não há necessidade de correção da CE. Podem-se utilizar as concentrações consideradas adequadas e preparar uma solução estoque, 10 vezes mais concentrada, chamada de “solução de micronutrientes 10×” (Quadro 5). Portanto, a 12 solução nutritiva com CE de 1,50 mS cm-1 terá, em g m-3: 375 g de nitrato de cálcio, 639 g de nitrato de potássio, 53 g de MAP, 184 g de sulfato de magnésio e 100 mL da solução de micronutrientes 10×. Quadro 5. Cálculo de uma solução de micronutrientes 10× para alface Micronutriente Sal utilizado (% do micronutriente) 1 Concentração adequada 2 Quantidade do sal Solução 10× mg L-1 mg L-1 g L-1 B Ácido bórico (17) 0,3 1,76 17,6 Cu Sulfato de cobre (25) 0,02 0,08 0,8 Fé Fe-EDDHA (6) 2,0 34,00 340,0 Mn Sulfato de manganês (25) 0,4 1,60 16,0 Mo Molibdato de sódio (39) 0,06 0,15 1,5 Zn Sulfato de zinco (21) 0,06 0,29 2,9 2 Furlani et al. (1999) 2.4. Concentração da solução nutritiva A definição da concentração dos nutrientes na solução nutritiva a ser fornecida às plantas é o segundo passo para sua formulação. A concentração adequada, independentemente da relação entre os nutrientes, vai depender primariamente da taxa transpiratória da planta. Segundo Bugbee (1995), uma boa estimativa da água transpirada em relação ao crescimento de plantas em hidroponia está em torno de 300 a 400 L de água transpirada por kg de massa seca acumulada. A taxa de transpiração depende principalmente da umidade do ar, ventilação, concentração de CO2, temperatura e luminosidade. Em condições de clima tropical, a alta transpiração contribui ainda mais para a redução do volume e da concentração da solução nutritiva. A absorção dos nutrientes, por outro lado, é determinada pela taxa de crescimento da planta. Por isso, é muito comum encontrar um desequilíbrio entre a quantidade de água e de nutrientes que a planta 13 absorve da solução, ocorrendo aumento da CE da solução ao longo do dia, quando não há reposição da água. As primeiras soluções nutritivas propostas na literatura científica eram muito concentradas, por serem formuladas para sistemas hidropônicos estáticos, geralmente em vasos com oxigenação. Com o advento dos sistemas circulantes, com constante agitação e renovação da solução fluindo em velocidade pelas raízes, foi possível reduzir consideravelmente sua concentração. Enquanto as primeiras soluções utilizavam CE de 2,5 a 3,0 mS cm-1, atualmente é comum a utilização de CE em torno de 1,0 a 1,5 mS cm-1 (Cometti, 2003). Um exemplo consiste na determinação da concentração de um nutriente na solução nutritiva a partir do balanço de massas. Assumindo-se a concentração de K no tecido em torno de 40 g kg-1 de massa seca e uma transpiração de 300 L kg-1 de massa seca, deveria haver 40 g de K em 300 L de água, ou 133 mg K L-1. Se a taxa de transpiração for maior, 400 L kg-1, a solução deveria ser mais diluída, ou seja, 40 g por 400 L, ou 100 mg K L-1. Em uma solução nutritiva, o principal componente do potencial da água é o osmótico, conseqüência da quantidade de sais dissolvidos na solução. Quanto maior a quantidade de sais na solução, tanto maior será a restrição à absorção de água pelas raízes, e, portanto, de nutrientes. Se a concentração de sais for muito alta, os vegetais poderão perder água para o meio, ocorrendo injúrias (plasmólise das células) que, dependendo da intensidade, podem causar morte de raízes e da planta. O efeito salino de cada sal é variável, sendo geralmente utilizado o nitrato de sódio como referência (Quadro 6). Na prática, em soluções nutritivas, a salinidade pode se tornar um problema apenas quando a circulação da solução é interrompida por longos períodos em momentos de alta transpiração, podendo ocorrer acúmulo de sais na superfície das raízes. 14 Quadro 6. Solubilidade de alguns sais utilizados em hidroponia (adaptado de Boodley, 1996 e Resh, 2002). Sal Solubilidade Índice salino 1 Água fria (0,5 oC) Água quente (100 oC) g L-1 g L-1 Ácido bórico 19,5 389 Cloreto de potássio 277 561 116 Fosfato diamônio 426 1063 34 Fosfato monoamônio 224 1730 30 Nitrato de amônio 1183 8711 105 Nitrato de cálcio 1212 6598 53 Nitrato de potássio 134 2471 74 Nitrato de sódio 100 Sulfato de amônio 704 1033 69 Sulfato de cálcio Insolúvel 8 Sulfato de magnésio 2 700 906 2 Sulfato de manganês 516 696 Sulfato de potássio 67 239 46 1 Índice de salinidade relativo ao nitrato de sódio = 100. 2 Temperatura em água fria = 20 oC e água quente = 40 oC. O potencial osmótico (Ψo) pode ser calculado pela equação de Van’t Hoff, que relaciona o potencial osmótico à concentração de soluto na solução: - V nsRT o =Ψ em que Ψo é o potencial osmótico em pascals, V o volume do solvente em litros, ns o número de mols de soluto, R a constante dos gases (0,00832 MPa K-1 mol-1 a 273 oK), e T a temperatura em oK. Medições diretas, entretanto,têm mostrado que esta relação é aproximadamente correta para 15 soluções diluídas que não se dissociam. Para eletrólitos que se dissociam em solução, no entanto, há um grande desvio do valor teórico. Assim, a pressão osmótica de uma solução molar de NaCl é aproximadamente 4,32 MPa, em vez do valor teórico de 2,27 MPa. Assumindo-se que haja a completa dissociação do NaCl, o potencial osmótico seria 4,54 MPa, e a discrepância pode ser atribuída, principalmente, às forças de Van der Waals operando entre os íons. Em soluções nutritivas, que trabalham na faixa milimolar, o efeito da concentração sobre a força iônica é menor, permitindo uma aproximação maior entre os valores calculado e real do potencial osmótico. Um potencial osmótico entre -0,05 e -0,1 MPa tem sido considerado adequado para o cultivo hidropônico. Considerando-se uma solução nutritiva que contenha uma concentração de íons totais em torno de 20 mmol L-1 e temperatura de 27 oC, o potencial osmótico seria: MPa 0,0499 1 300 * 0,00832 * 0,02 - ==Ψo Devido à dificuldade de medição direta da pressão osmótica da solução e de seu cálculo, pois seria necessário conhecer a concentração de cada íon, pode-se utilizar a medida de CE, que apresenta uma boa correlação com a quantidade total de sólidos solúveis da solução ou com a sua força iônica estimada (Figura 2). Há uma relação significativa entre a CE e a concentração total de íons da solução, que pode ser determinada pelas seguintes equações: CE (mS cm-1) = [total de íons (mmol L-1)] × 0,0698; ou total de íons (mmol L-1) = [CE (mS cm-1)] × 14,33; ou total de íons (mg L-1) = [CE (mS cm-1)] × 655 Estas equações permitem que se utilize apenas a molaridade total da solução, sem que sejam necessárias as concentrações individuais dos nutrientes na solução. A relação entre CE e a concentração de íons deve ser determinada para cada sal em solução, visto que há grande variação entre a CE de cada espécie iônica (Quadro 4). Quando se utilizam estas relações para estimar a concentração total dos íons a partir da CE, deve-se considerar que seu valor pode ser diferente para cada solução nutritiva, dependendo da relação entre os nutrientes. Finalmente, a 16 soma das CE estimadas de cada sal dissolvido pode ser utilizada como a CE estimada da solução nutritiva, com uma boa aproximação do valor medido por meio de condutivímetro. A CE da solução também varia com sua temperatura. A cada cinco graus de aumento de temperatura, há um aumento da CE em torno de 11,0 %. Sendo assim, uma solução com CE de 1 mS cm-1 a 25 oC deverá apresentar, aproximadamente, uma CE de 1,11 mS cm-1 a 30 oC. Concentração Total de Íons e Força Iônica (mmol L -1 ) 0 5 10 15 20 25 C E ( m S c m -1 ) 0,0 0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 CE = [Total de Íons] * 0,0698 r 2 = 0,99 CE = FI*0,0853 r 2 = 0,99 Força Iônica Concentração de Íons Figura 2. Relação entre condutividade elétrica (CE) da solução nutritiva e a concentração total de íons e força iônica (FI) estimada; força iônica simulada com o programa GEOCHEM 3.0 (Parker et al., 1995). Fonte: Cometti (2003). 3. MANEJO DA SOLUÇÃO 3.1. Reposição da solução Durante o crescimento das plantas em solução nutritiva, há absorção de água e nutrientes em proporções diferentes, com diferentes quantidades acumuladas no tecido vegetal. Os nutrientes, por sua vez, são absorvidos da solução nutritiva com velocidade diferenciada (Figura 1). Assim, o manejo da solução nutritiva deve contemplar essas diferenças a fim de se alcançar o 17 fim do ciclo de cultivo com o menor desbalanceamento iônico possível, constituindo um desafio a adequada reposição dos nutrientes e da água. Dentre os métodos disponíveis de reposição da solução nutritiva, podem-se listar: a) Renovação de toda a solução: em vasos, é comum a troca de toda a solução ao final de uma semana de cultivo, utilizando-se 2 a 3 L de solução para plantas como soja, arroz, e feijão. Para determinar o momento da troca da solução, Ruiz (1977) propôs utilizar o K como nutriente indicador. Em cultivos comerciais, o volume total de solução costuma ser grande, tornando alto o custo com desperdício de solução, além de riscos de contaminação do meio ambiente. b) Reposição da solução absorvida: esse método utiliza a solução básica para repor a água absorvida por transpiração. Em condições de baixa umidade relativa do ar, alta velocidade do vento e alta temperatura, há uma perda de água por transpiração desproporcionalmente maior do que a absorção de nutrientes, provocando a concentração da solução nutritiva remanescente. Caso seja feita a reposição da solução na mesma concentração inicial, haverá um aumento da concentração de sais na solução, aumentando consideravelmente sua CE. A forma de solucionar o problema é monitorar a CE da solução e adicionar água pura para reduzi-la, quando necessário, ou efetuar a reposição com uma solução mais diluída do que a original. c) Reposição de nutrientes e água separadamente com análise química da solução. Depois de efetuada a análise química da solução nutritiva, pode-se adicionar água para atingir o nível inicial e adicionar os nutrientes por meio de soluções-estoque concentradas de cada sal. O custo de monitoramento da solução por esse método pode ser impeditivo, além de demandar um certo tempo para a análise e de não traduzir exatamente a necessidade de reposição dos íons, Apesar do ajuste da concentração dos nutrientes, a solução tem restrições para uso indefinido, pois há exsudação de ácidos orgânicos, descamação e quebra de raízes liberando fragmentos, crescimento de algas, bactérias e fungos, e contaminação por microrganismos patogênicos, resíduos de substratos, poeira e metais pesados contaminantes . Todos esses elementos exigiriam um tratamento de alto custo da solução para que esta pudesse ser reutilizada com segurança. A 18 vida útil de uma solução com acompanhamento semanal por análise química pode chegar a três meses, segundo Resh (2002). d) Reposição de água e nutrientes separadamente, com uso de sensores de concentração dos íons. Além do custo elevado dos eletrodos específicos para os íons, sua vida útil é reduzida e necessitam de calibrações freqüentes. A esse método, aplicam-se as considerações anteriores sobre a vida útil da solução. e) Reposição de água e nutrientes separadamente, por meio do monitoramento da CE da solução. Este é o método mais utilizado atualmente na hidroponia comercial, além de aplicar-se às pesquisas em nutrição de plantas, pois é de baixo custo e permite um acompanhamento da concentração total de sais da solução. A reposição de água pode ser efetuada instantaneamente por meio de válvula de nível com bóia ou diariamente, de forma manual. A medida da CE permite monitorar a absorção de nutrientes pois, apesar de não fornecer a concentração de cada íon, a CE dá uma idéia da concentração total dos íons em solução (Figura 2). A reposição dos íons é feita com soluções-estoque concentradas, repondo-se apenas um volume de solução- estoque suficiente para elevar a CE para o valor inicial. O descarte da solução nutritiva é efetuado apenas ao final de um ciclo de cultivo, reduzindo bastante os custos com nutrientes e análises químicas da solução. A vida útil da solução, em condições de cultivo hidropônico de hortaliças folhosas, no Brasil, tem sido em torno de trinta dias em sistemas NFT, ou técnica do filme nutriente, onde a solução nutritiva é conduzida por toda a parte inferior do tanque inclinado onde as plantas são crescidas. 3.2. Preparo e utilização de soluções estoque Para facilitar o manejo da reposição de nutrientes, é conveniente preparar soluções- estoque concentradas, contendo todos os nutrientes na mesma proporção da solução nutritiva. Para determinar a concentração máxima da solução estoque, é necessário utilizar a solubilidade dos sais como o limite(Quadro 6). Além disso, pode haver incompatibilidade entre sais que não permita que os mesmos sejam colocados na mesma solução concentrada, destacando-se a 19 incompatibilidade entre nitrato de cálcio e os sais contendo P e S por formarem precipitados de baixa solubilidade (Quadro 7). Portanto, preparam-se duas soluções, intituladas “A” e “B”, onde o nitrato de cálcio é colocado em apenas uma delas. Considerando que o nitrato de potássio tenha compatibilidade com todos os outros sais, e que seja utilizado em maior quantidade, pode ser dividido entre as soluções A e B, e servir como determinante para a concentração final das soluções. 20 Quadro 7. Compatibilidade entre diferentes fertilizantes (C – compatível; I – incompatível; R – compatibilidade reduzida). C C C C C C C C C C C C C C Uréia C C C C C C C C C C C C C Nitrato de amônio C C C C C C C C C C C I Sulfato de amônio C I C I C I I I I C C Nitrato de cálcio C R C R C R C C C C Nitrato de potássio C R C R C R C C C Cloreto de potássio C R C R C R C C Sulfato de potássio R I C C C I C Fosfato diamônio (DAP) R I C C C I Fosfato monoamônio (MAP) C C C C C Sulfato de magnésio R I C C Ácido fosfórico C C C Ácido sulfúrico I C Ácido nítrico C Sulfato de ferro, zinco, cobre e manganês Quelato de ferro, zinco, cobre e manganês Utilizando como exemplo de cálculo a solução formulada para a cultura do alface, considerando que o nitrato de potássio possui solubilidade de 134 g L-1 (Quadro 6), serão necessários 4,77 L para solubilizar os 639 g para a solução nutritiva (Quadro 8); este valor pode ser arredondado para 5 L. Assim, o nitrato de potássio será utilizado como base para as soluções estoque por ser o sal com maior quantidade de água necessária para solubilização. Como será utilizado nitrato de potássio em ambas as soluções A e B, pode-se então dobrar as quantidades dos outros sais e recalcular as quantidades para preparar 10 L de cada solução estoque. 21 Quadro 8. Volume mínimo necessário para solubilizar os sais da solução nutritiva para a cultura do alface Sal Solubilidade Solução desejada Volume mínimo g L-1 g m-3 L Nitrato de cálcio 1212 375 0,14 Nitrato de potássio 134 639 4,77 MAP 224 53 0,24 Sulfato de magnésio 700 184 0,26 3.3. pH da solução nutritiva Altas concentrações de H+ na solução nutritiva podem desestabilizar as membranas celulares, provocando perda de íons e morte das células da raiz. As plantas podem suportar perfeitamente pH entre 4,5 e 7,5 sem grandes efeitos fisiológicos. Entretanto, efeitos indiretos, tais como a redução na disponibilidade de nutrientes, podem comprometer seriamente o crescimento das plantas, pois as mudanças de pH podem favorecer a formação de espécies iônicas que não são prontamente transportadas para o interior das células, comprometendo a absorção do nutriente. Além disso, dependendo do pH da solução, há formação de complexos insolúveis. Em pH acima de 6,5 há redução na disponibilidade de Mn, Cu, Zn, B, P e, especialmente, Fe, enquanto há uma pequena redução na disponibilidade de P, K, Ca e Mg em pH abaixo de 5,0. Portanto, em uma cultura hidropônica é recomendado um pH entre 5,5 e 5,8, condição que permite a máxima disponibilidade dos nutrientes em geral (Bugbee, 1995). Em solução nutritiva, Inoue et al. (2000) observaram redução no crescimento da parte aérea e do sistema radicular de alface quando o pH foi reduzido abaixo de 4,2. As variações de pH que ocorrem na solução nutritiva são reflexos da absorção diferenciada de cátions e ânions. Por exemplo, quando o N é suprido na forma nítrica, a absorção de ânions é maior que cátions, ocorrendo elevação do pH. A absorção de um mol de NO3 - é feita 22 em cotransporte com dois mols de H+, enquanto na absorção de um mol de NH4 + pode ocorrer o bombeamento de um mol de H+ para o exterior da célula. Assim, enquanto a absorção de NO3 - aumenta o pH, a absorção de NH4 + o reduz. Em plantas supridas com NH4 + e NO3 -, o pH da solução pode voltar a subir assim que o NH4 + tenha sido absorvido e que a absorção de NO3 - torne-se maior do que a de NH4 + (Figura 3). Devido ao abaixamento do pH com a absorção do NH4 +, recomenda-se o suprimento apenas parcial do N na forma amoniacal, tornando a solução mais tamponada. Em geral, o poder de tamponamento das soluções nutritivas utilizadas em hidroponia é muito pequeno. A utilização de água deionizada, muito comum em pesquisa, reduz ainda mais o poder de tamponamento da solução. Apesar do poder do fosfato (H2PO4 - ↔ HPO4 2-) de tamponar a solução, sua concentração necessária para estabilizar o pH em uma solução nutritiva o tornaria tóxico para as plantas. Além disso, a rápida absorção do P retira toda sua capacidade de tamponamento, que se encontra a partir de 5,5, e alcança o máximo no pH 7,2. Portanto, é mais conveniente manter a solução nutritiva equilibrada em cátions e ânions para atender a demanda da planta, do que tentar manter o pH numa faixa estreita de valores por meio do uso de ácidos (sulfúrico, fosfórico, nítrico ou clorídico) e bases (hidróxido de sódio, potássio ou amônio) fortes para reduzir ou elevar o pH do meio de crescimento, respectivamente. 23 N-NH 4 + N u tr ie n te s n a S o lu ç ã o N u tr it iv a ( m g L -1 ) 0 5 10 15 20 25 N-NO 3 - 0 50 100 150 200 pH Dias Após a Semeadura 17 24 31 38 45 3 4 5 6 Figura 3. Variação de NO3 -, NH4 + e pH da solução nutritiva em cultivo hidropônico (NFT) de alface. A solução foi renovada totalmente a cada sete dias (linhas verticais pontilhadas) e ajustada diariamente pela condutividade elétrica e pH com solução de hidróxido de sódio (Furlani, 1998). A utilização de doses pequenas e contínuas de N-NH4 + de uma solução de sulfato de amônio pode manter o pH em 5,5 (± 0,5) durante todo o ciclo da cultura, sem que haja necessidade de lançar mão de ácidos fortes para baixar o pH da solução e sem comprometimento da produtividade da cultura (Martins et al., 2002). Entretanto, esses estudos têm sido realizados em sistemas automatizados, onde o computador interpreta o pH e libera uma solução contendo amônio através do controle por uma válvula solenóide. Em experimentos conduzidos em vasos com solução nutritiva, é possível manter o pH estável utilizando-se uma concentração de 1 mmol 24 L-1 de MES (ácido 2 (N-morfolino) ethanosulfônico) sem qualquer prejuízo para as plantas (Bugbee & Salisbury, 1985). 4. ESPECIAÇÃO IÔNICA DA SOLUÇÃO NUTRITIVA A especiação iônica para compreender as respostas das plantas à presença de certos íons nas soluções, principalmente em cultivos hidropônicos, tem sido crescente, e cada vez mais útil. Apenas a concentração total de um elemento tal como se obtém a partir de análises laboratoriais, ou aquela que se acredita ter sido adicionada, não corresponde, muitas vezes, aos efeitos observados no aumento ou na redução do crescimento vegetal. Da mesma forma, os efeitos tóxicos de metais pesados têm se mostrado mais coerentemente correlacionados com a atividade de espécies iônicas do que com a concentração total do elemento. Na especiação de soluções contendo Al, Sr, Fe, Ca, P e outros elementos, observa-se o forte efeito do pH na formação de vários complexos e precipitados, acarretando sua baixa disponibilidade para a planta mesmo sob altas concentrações, e assim pouco ou nenhum efeito pode ser observado em resposta ao aumento de sua concentração na solução nutritiva. Segundo Bernhard et al. (1986), “espécie química” refere-se a uma forma molecular (configuração) de átomos de um elemento ou aglomerado de átomos de diferentes elementos. O termo “especiação química”, por sua vez, tem sido utilizado para descrever a análise das espécies predominantes numa amostra, a abundância dessas espécies ou distribuição numérica, a reatividade de dadas espéciese a transformação de uma espécie em outra. Como as formas do metal complexado são de difícil ou impossível determinação por métodos de análises laboratoriais, o uso de expressões termodinâmicas em modelos computacionais mostra-se uma alternativa mais viável, simples e segura para a obtenção desse conhecimento. Programas de computador tais como REDEQL, GEOCHEM-PC, MINTEQ, CHEAQS e outros, podem indicar as espécies químicas em uma solução nutritiva a partir das concentrações analíticas conhecidas 25 dos elementos adicionados, apontando os pares iônicos, complexos e formas livres dos íons (Parker et al., 1995). Na especiação iônica de uma solução nutritiva, três variáveis determinam a disponibilidade de um dado íon: a força iônica da solução, que atua sobre a atividade iônica individual; o pH, que propicia a presença das várias espécies iônicas; e a presença de agentes quelantes, que promovem o seqüestro de alguns íons em maior ou menor escala. 4.1. Força iônica Geralmente, quando a força iônica aumenta, íons de cargas opostas interagem de tal forma que sua atividade iônica diminui, e então, o número de íons “ativos” diminui. Pesquisadores na área de solos, aparentemente, foram os primeiros a desenvolver o conceito de que as respostas das plantas se correlacionam melhor com a atividade do que com a concentração analítica de íons inorgânicos (Adams, 1971). O Quadro 9 mostra que a atividade iônica é mais próxima da concentração analítica tanto quanto mais diluída for a solução. Em solos, essa situação é agravada devido às mudanças observadas nas reações de troca iônica. Em estudos com solução nutritiva, entretanto, não faz diferença em se utilizar atividade ou concentração iônica, pois a maioria das soluções nutritivas utilizadas possui força iônica na faixa de 5 a 20 mmol L-1, onde as comparações podem ser realizadas razoavelmente utilizando-se tanto atividade quanto concentração iônica. Cuidado adicional deve ser tomado quando se trabalha com o íon Al3+, que tem a atividade fortemente reduzida pelo aumento da força iônica da solução. 26 Quadro 9. Efeito da força iônica nos coeficientes de atividades individuais Íon ri x 10 -8 1 Força iônica (mmol L-1) 1 5 10 50 100 coeficiente de atividade de íons univalentes 2 K+, OH-, Cl-, NO3 - 3 0,964 0,925 0,899 0,805 0,755 Na+, HCO3 -, H2PO4 - 4 0,964 0,927 0,901 0,815 0,770 H+ 9 0,967 0,933 0,914 0,860 0,830 coeficiente de atividade de íons bivalentes SO4 2-, HPO4 2- 4 0,867 0,740 0,660 0,445 0,335 Ca2+, Fe2+ 6 0,870 0,749 0,675 0,485 0,405 Mg2+ 8 0,872 0,755 0,690 0,520 0,450 coeficiente de atividade de íons trivalentes PO4 3- 4 0,725 0,505 0,395 0,160 0,095 Al3+, Fe3+ 9 0,738 0,540 0,445 0,245 0,180 1 ri = raio da atmosfera iônica. 2 Coeficiente de atividade: razão entre a atividade e a concentração analítica do íon. 4.2. pH Alguns trabalhos mostram que a absorção por plantas, de ânions que exibem um comportamento de ácido ou base fraca, depende do pH e do seu efeito na especiação. Para alguns ânions, o efeito pode ser observado como um aumento do cotransporte do ânion com prótons (Marschner, 1995). O potencial transmembrana negativo nas células torna o processo de entrada na célula de qualquer ânion um transporte ativo, onde qualquer redução da carga aniônica reduz o potencial da barreira energética de entrada do íon na célula. Alguns exemplos incluem a maior absorção de H2PO4 - em relação ao HPO4 2- (Hendrix, 1967) e maior absorção de H3BO3 0 do que B(OH)4 - (Oertli & Grgurevic, 1975). Outro exemplo é o aumento da toxidez de N amoniacal às raízes de algodão com o aumento do pH (Bennett & Adams, 1970). A maioria das soluções 27 nutritivas são pouco tamponadas, e o pH varia bastante, não se mantendo dentro de uma faixa ideal. Diferentemente do solo, a faixa de pH ideal deve situar-se entre 5,0 e 6,0, pois valores de pH diferentes destes ocasionam alteração nas formas livres e complexadas dos nutrientes. Com relação aos macronutrientes, apenas as formas disponíveis de Ca e de P são negativamente afetadas por aumentos no pH da solução nutritiva. A partir do pH 6,0 ocorre redução na disponibilidade de Ca2+ e HPO4 - Furlani et al. (1999). Em pesquisas com Al e metais pesados, é importante observar o efeito do pH na disponibilidade do metal livre, pois o Al e o Sr têm sua disponibilidade reduzida em pH mais elevado ou formam precipitados. É importante observar que o efeito do pH é variável com a força iônica da solução, bem como a concentração dos elementos. A simulação de uma solução de Hoagland com 40 µmol de cloreto de alumínio mostra que a concentração é preponderante sobre a disponibilidade e a formação de precipitados de Al (Figura4). Assim, o Al em solução nutritiva só ocasiona restrições ao crescimento vegetal quando em soluções altamente diluídas ou em altas concentrações de Al (Pintro et al., 1999). 28 100% da Solução de Hoagland 0 20 40 60 80 100 0 2 4 6 8 10 25 % da Solução de Hoagland pH 3,8 4,0 4,2 4,4 4,6 C o m p o s to f o rm a d o p e lo m e ta l (% ) 0 20 40 60 80 100 F o rç a I ô n ic a ( m m o l. L -1 ) 0 2 4 6 8 10 Al 3+ - livre Al-OH - sólido Força Iônica Al - EDTA Figura 4. Efeito da concentração da solução nutritiva de Hoagland na disponibilidade de Al (adição de 40 µmol L-1 de AlCl3) e na formação de quelato de EDTA e hidróxido precipitado em função do pH; simulação com o programa GEOCHEM-PC (Parker et al., 1995). 4.3. Quelatos A presença de agentes quelantes é também determinante no resultado da especiação iônica da solução. Um bom exemplo disso é o Fe, normalmente quelatado nas formas de FeDTPA (dietileno triamino penta acetato de ferro), FeEDTA (etileno diamino tetra acetato de ferro), FeEDDHA (etileno diamino di-orto hidroxi fenil acetato de ferro) e FeEDDHMA (etileno diamino di-orto hidroxi para metil fenil acetato de ferro). 29 Para o Fe (Figura 7) e demais cátions micronutrientes (Quadro 10), as alterações nas formas livres e complexadas são dependentes do pH e do quelato de Fe utilizado. Considerando a faixa normal de pH das soluções nutritivas (5,5 a 6,5), o quelato FeEDDHA é mais estável que o FeDTPA e este mais estável que o FeEDTA. Aumentos eventuais de pH na solução podem comprometer a disponibilidade de Fe, acarretando sua deficiência. Desta maneira, é comum ocorrer carência de Fe em pH acima de 7, quando se utiliza o EDTA como quelante. pH 4,5 5,0 5,5 6,0 6,5 7,0 7,5 8,0 C o m p o s to d e F e rr o F o rm a d o ( % ) 0 20 40 60 80 100 Fe-EDTA Fe-EDDHA Fe-DTPA Fe-OH (com EDTA) Fe-OH (com EDDHA) Fe-OH (com DTPA) Figura 5. Formação de compostos de ferro em função do quelato de ferro usado e do pH da solução nutritiva simulado com o programa GEOCHEM-PC (Parker et al., 1995). A adição de quelatos de Fe à solução também leva à quelação de Cu, Zn e Mn. O quelato entra em solução dissociando-se conforme sua constante de estabilidade, liberando o agente quelante que poderá se ligar aos outros íons. A adição do quelato FeEDDHA como fonte de Fe (2,5 mg L-1) à solução nutritiva (Quadro 10) promoverá, em parte, a quelação apenas do Cu, enquanto outros agentes quelantes como o DTPA e EDTA também formam complexos com Zn e Mn. No caso do Zn, tanto o DTPA quanto o EDTA possuem capacidade semelhante e crescente de quelação a partir do pH 5,5. No caso do Mn, o EDTA tem capacidade de quelação superior ao DTPA, porém com importância significativa apenas em pH superior a 7,0. Essas relações na 30 solução se refletem na absorção dos micronutrientes pelas plantas. Os dados da Quadro 15 indicam que as formas livres de Mn e de Zn são determinantes na absorção pelas plantas. No caso de plantas de alface, as concentrações de Mn e de Zn são maiores em plantas crescidas com solução nutritiva contendo FeEDDHAdo quem em plantas crescidas em solução nutritiva contendo FeEDTA. Na primeira solução, as quantidades de Mn e de Zn livres ocorrem em maiores proporções do que em solução com EDTA (Quadro 10). Em crisântemo (Quadro 11), o EDDHA e o DTPA proporcionam semelhantes concentrações livres de Mn, porém a concentração de Zn é maior na solução com EDDHA (Quadro 10), refletindo em maior acúmulo de Zn nas folhas (Quadro 11). Esses experimentos validam as simulações das especiações iônicas realizadas com programas computacionais. 31 Quadro 10. Formação de compostos de Cu, Mn e Zn em função do quelato de Fe e do pH da solução nutritiva. Quelatos Formas pH da solução nutritiva 4,5 5,0 5,5 6,0 6,5 7,0 7,5 8,0 Composto formado (%) FeEDTA Cu2+ 6,3 0,7 0,1 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 Mn2+ 92,7 92,5 91,3 82,1 67,0 18,5 4,3 3,4 Zn2+ 83,1 54,5 13,1 1,8 0,6 0,1 0,0 0,0 Cu EDTA 92,8 99,2 99,9 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 Mn EDTA 0,0 0,2 1,5 11,4 27,2 79,7 92,6 96,1 Zn EDTA 6,2 38,1 84,9 97,9 99,2 99,9 100,0 100,0 FeEDDHA Cu2+ 28,1 22,1 13,5 6,5 6,6 1,4 0,1 0,0 Mn2+ 92,6 92,6 92,6 92,6 92,0 91,4 89,8 75,1 Zn2+ 88,6 88,1 86,6 82,9 81,2 77,8 63,8 37,9 Zn OH 0,0 0,1 0,4 1,1 3,4 10,4 27,3 53,6 Cu EDDHA 67,7 74,4 84,0 91,3 88,8 95,9 98,3 98,8 Mn EDDHA 0,1 0,1 0,1 0,1 0,0 0,1 1,1 13,6 Zn EDDHA 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,1 0,8 FeDTPA Cu2+ 2,9 0,6 0,1 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 Mn2+ 92,7 92,7 92,6 92,0 89,9 68,3 9,1 0,4 Zn2+ 79,5 62,0 33,9 11,1 5,7 0,5 0,0 0,0 Cu DTPA 96,7 99,3 99,9 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 Mn DTPA 0,0 0,0 0,1 0,8 2,3 25,3 90,0 99,5 Zn DTPA 10,4 29,6 60,9 86,6 93,0 99,4 100,0 100,0 32 Em uma hidroponia comercial, observou-se em certa ocasião que a adição acidental de grande quantidade de sulfato de zinco. Apenas a não adição do sal de Zn com a adição de maior quantidade de Fe-EDTA foi suficiente para recuperar as plantas com sintomas de toxidez de Zn. Quando foi utilizado Fe-EDDHA, qualquer excesso de Zn causava sintomas característicos de redução abrupta no crescimento radicular, com grave deficiência de Fe. A partir do uso de Fe- EDTA, esses sintomas desapareceram, mesmo quando a análise da solução nutritiva mostrava uma concentração de Zn potencialmente fitotóxica. Tanto o tipo de quelato de Fe utilizado, quanto as concentrações de P e S (que formam complexos com Zn) podem explicar porquê pode- se encontrar altas concentrações de Zn na solução nutritiva, acima de 0,5 mg L-1 (10 vezes acima do recomendado na solução de Hoagland), sem que haja sintomas visuais de toxidez de Zn. Muito há que ser pesquisado para uma perfeita compreensão dessas relações. Quadro 11. Teores de Mn e Zn em folhas de alface e de crisântemo cultivadas em solução nutritiva com diferentes quelatos de ferro. Quelato de Ferro Teor de Mn Teor de Zn mg kg-1 Folhas de alface 1 FeEDDHA 125,2 a 69,0 a FeEDTA 80,9 b 38,4 b Folhas de crisântemo 2 FeEDDHA 219,6 a 104,6 a FeDTPA 230,6 a 45,8 b (1) Furlani (dados não publicados); (2) De Kreij & Paternotte (1999). Para cada espécie vegetal, médias seguidas por letras iguais em cada coluna não diferem estatisticamente pelo teste de Tukey a 5%. 33 5. CINÉTICA DE ABSORÇÃO DE NUTRIENTES As soluções nutritivas têm larga aplicação em estudos de cinética de absorção de nutrientes em plantas. A absorção de íons presentes em soluções de concentrações relativamente baixas, pelos vegetais, segue, geralmente, a cinética de Michaelis-Menten (Epstein, 1975), cujo modelo matemático é representado pela equação: CK CV I m max + = (1) em que I é o influxo ou velocidade de absorção do íon (µmol g-1 h-1) numa solução de concentração C (µmol L-1). As constantes Vmax (µmol g -1 h-1) e Km (µmol L -1) representam a velocidade máxima de absorção e a concentração em que a velocidade de absorção corresponde à metade da Vmax, respectivamente. Para facilitar o cálculo das constantes foram propostas diversas transformações, que permitem obter formas lineares da equação de Michaelis-Menten. Assim, Lineweaver & Burk (1934) relacionaram os valores inversos de I e C por meio da equação: maxmax m V 1 C 1 V K I 1 += (2) e Hofstee (1952) estimou I em relação a I/C: maxm VC I KI +−= (3) Uma representação não-linear foi proposta por Claassen & Barber (1974). Eles caracterizaram a absorção pela velocidade de diminuição da quantidade, Q (µmol), do nutriente na solução. Esse valor depende da concentração, C (µmol L-1), e do volume da solução, v (L), no tempo t (h): ttt vCQ = (4) A representação gráfica de Q, em relação ao tempo t, denota a diminuição da quantidade do íon em solução com o tempo, em conseqüência da absorção pela planta. O influxo, em 34 qualquer ponto da curva, será o valor correspondente a –dQ/dt dividido pela massa radicular. Pode-se também usar o comprimento ou a superfície das raízes. Claassen & Barber (1974) ajustaram Q vs t a uma série de funções cúbicas ou parabólicas e estimaram as constantes de Michaelis-Menten. Essas constantes podem, também, ser determinadas graficamente. Neste caso, a declividade da porção de maior comprimento dentro da curva, aproximadamente linear, permitirá o cálculo de Vmax e a tangente, na parte mais curva da representação, com valor equivalente à metade da declividade anteriormente determinada, indicará o Km. Para minimizar as imprecisões devidas a uma estimativa exclusivamente gráfica, Ruiz (1985) propôs uma aproximação matemática para o cálculo das constantes Vmax e Km. Os dados que serão utilizados para exemplificar o método resultaram de um ensaio de absorção de fósforo, conduzido em câmara de crescimento, usando soja como planta-teste. Nesse ensaio usou-se uma concentração inicial de fósforo igual a 32,29 µmol L-1, estimando-se a absorção do nutriente pela diminuição da atividade de 32P na solução, amostrada a cada meia hora. Essa atividade foi corrigida para o tempo de contagem, devido à meia vida, relativamente curta, do 32P. O volume de solução para cada tempo, vt, foi calculado levando em conta o volume inicial, vi (0,801 L), o volume após 24 horas, vf (0,410 L), o volume amostrado, va (0,026 L) e uma taxa de transpiração uniforme, uma vez que a iluminação e a temperatura foram mantidas no mesmo nível por 24 horas. O valor do va resulta de uma amostragem inicial (tempo zero) de 0,002 L, acrescido de amostragens de 0,001 L cada meia hora, até totalizar 12 horas de ensaio. Assim, va foi estimado a cada meia hora, no intervalo de 0 a 12 horas, usando a equação: t002,0 24 vvv 002,0vv afiit + −− −−= (5) A concentração para cada tempo, Ct, foi calculada pela equação: 0 t 0 t 0t v v a a CC = (6) 35 em que a é a atividade do 32P corrigida, v o volume estimado (equação 5) e os subíndices 0 e t os tempos zero e t, respectivamente. Com os valores de vt e Ct calculou-se a quantidade do nutriente em solução por meio da equação 4. No Quadro 12 apresentam-se os dados de uma repetição desse ensaio, que foram utilizados para exemplificar o cálculo das constantes de Michaelis-Menten. A seqüência do ajuste gráfico e matemático foi a seguinte: a) Os valores de Q = f(t) foram representados graficamente (Figura 8); b) Na região inicial da curva, onde são observadas as maiores declividades, escolheu-se, em seqüência ininterrupta, os pontos que melhor se ajustaram a uma reta (intervalo de 1 a 3,5 horas, no exemplo), determinando-se uma equação de regressão linear: tbaQ 11 += (7) em que a1 e b1 são os valores da intercepção e da declividade, respectivamente; c) Calculou-se Vmax pela equação: M b V 1max −= (8) em que M é a massa da matéria seca das raízes (0,9348 g, no exemplo); 36 Quadro 12. Tempo de exaustão, atividade de 32P, volume e concentração da solução e quantidade de fósforo absorvida por plantas de soja em ensaiopara determinar as constantes de Michaelis-Menten (Fonte: Ruiz, 1985) Tempo Atividade Volume Concentração Quantidade h cpm L µmol L-1 µmol 0 4.998,8 0,7990 32,29 25,80 0,5 4.452,6 0,7904 28,45 22,49 1,0 3.490,5 0,7818 22,06 17,25 1,5 3.128,8 0,7732 19,56 15,12 2,0 2.447,4 0,7646 15,13 11,57 2,5 1.747,9 0,7560 10,68 8,08 3,0 1.526,6 0,7474 9,22 6,89 3,5 870,6 0,7388 5,20 3,84 4,0 462,2 0,7302 2,73 1,99 4,5 346,2 0,7216 2,02 1,46 5,0 162,5 0,7130 0,94 0,67 5,5 127,2 0,7044 0,72 0,51 6,0 106,8 0,6958 0,60 0,42 6,5 83,4 0,6872 0,46 0,32 7,0 81,0 0,6786 0,44 0,30 7,5 74,1 0,6700 0,40 0,27 8,0 56,8 0,6614 0,30 0,20 8,5 69,5 0,6528 0,37 0,24 37 Figura 6. Diminuição da quantidade de fósforo (Q) com o tempo de exaustão (t) e equações de regressão usadas para o cálculo das constantes de Michaelis-Menten. d) Na região curva da parte inferior do gráfico (intervalo 3,5 a 6,5 horas, no exemplo), determinou-se a equação de regressão com melhor ajuste aos pontos experimentais, que exigisse somente 1 grau de liberdade para o modelo. Para os dados analisados, a melhor aproximação correspondeu a uma equação exponencial: 2b 2taQ = (9) em que a2 e b2 são o coeficiente e o expoente, respectivamente. O critério de menor soma do quadrado dos desvios (Nelson & Anderson, 1977) foi usado para escolher os pontos da reta e da curva. Considerando que a exaustão é um fenômeno contínuo usou-se, como critério, a coincidência do último ponto da reta com o primeiro ponto da curva; 38 e) Km foi calculada por uma relação semelhante à equação 4: m m m v Q K = (10) em que Qm é a quantidade de íons para a qual a velocidade de absorção equivale à metade da Vmax e vm é o volume de solução correspondente. Qm é o ponto da curva da região inferior do gráfico em que sua tangente iguala-se à metade da declividade da reta usada no cálculo de Vmax. Matematicamente: ( ) ( )2b211 tadt d tba dt d 2 1 =+ (11) ( )1b m221 2tbab 2 1 −= (12) em que tm é o tempo em que Q iguala-se a Qm. Reordenando: ( )1b1 22 1 m 2 ba2 b t − = (13) Calculando tm estimou-se vm, Qm e Km pelas equações 5, 9 e 10, respectivamente. Os valores numéricos obtidos com os dados apresentados no Quadro 16 foram os seguintes: Equação da reta: Q = 22,70 – 5,4417 t R2 = 0,987*** Equação da curva: Q = 592,85 t -4,0791 R2 = 0,980*** Vmax = 5,821 µmol g -1 h-1 tm = 3,81 h vm = 0,733 L Qm = 2,531 µmol Km = 3,453 µmol L -1 O método gráfico-matemático envolve um volume apreciável de cálculos matemáticos para alocação dos pontos experimentais, o que o torna um processo demorado. Para superar essa 39 dificuldade Ruiz & Fernandes Filho (1992) desenvolveram o programa CINÉTICA, inicialmente em DOS, que executa de forma rápida e confiável os cálculos necessários. Uma nova versão desse programa, em ambiente Windows foi desenvolvido por esses autores, e pode ser obtido a partir do link ftp://ftp.solos.ufv.br/cinetica . É interessante observar, que embora esse método tenha sido desenvolvido para sistemas estáticos (vasos), Cometti (2003) empregou com sucesso o programa CINÉTICA a sistemas de hidroponia NFT, para estudar a cinética de absorção de NH4 + e NO3 - por alface. 40 6. LITERATURA CITADA ADAMS, F. Ionic concentrations and activities in soil solutions. Soil Sci. Soc. Am. Proc., 35:420-426, 1971. BENNETT, A.C. & ADAMS, F. Concentration of NH3 (aq) required for incipient NH3 toxicity to seedlings. Soil Sci. Soc. Am. Proc., 34:259-263, 1970. BERNHARD, M.; BRINCKMAN, F.E. & IRGOLIC, K.J. Why “speciation”? In: BERNHARD, M.; BRINCKMAN, F.E. & SADLER, P.J., eds. The importance of chemical “speciation” in environmental processes. New York, Springer-Verlag, 1986. p.7-14. BOODLEY, J.W. The commercial greenhouse. 2.ed. Albany, Delmar Publishers. 1996. 612p. BUGBEE, B. & SALISBURY, F.B. An evaluation of MES (2 (N-morpholino) ethanesulfonic acid) and amberlite IR 50 as pH buffers for nutrient solution studies. J. Plant Nutr, 8: 567-583, 1985. BUGBEE, B. Nutrient management in recirculating hydroponic culture. In: Annual Conference on Hydroponics, 16., 1995. Tucson. Proceedings... Hydroponic Society of America, Tucson, Arizona, USA. p. 15-30. CHANEY, R. & COULOMB, B. Effect of phosphate on regulation of Fe-stress in soybean and peanut. J. Plant Nutr., 5: 467-487, 1982. CLAASSEN, N. & BARBER, S.A. A method for characterizing the relation between nutrient concentration and flux into roots of intact plants. Plant Physiol., 54:564-568, 1974. 41 COMETTI, N.N. Nutrição mineral da alface (Lactuca sativa L.) em cultura hidropônica - sistema NFT. Seropédica, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, 2003. 106p. (Tese de Doutorado). De KREIJ, C. & PATERNOTTE, S.J. Root discoloration, growth and micro element uptake of chrysanthemum in aeroponics as affected by iron chelates and pythium. Acta Hortic., 481:159- 164, 1999. EPSTEIN, E. Nutrição mineral das plantas: princípios e perspectivas. São Paulo, Ed. da Universidade de São Paulo, 1975. 433p. FURLANI, P.R.; BOLONHEZI, D.; SILVEIRA, L.C. & FAQUIN, V. Cultivo hidropônico de plantas. Campinas, Instituto Agronômico, 1999. 52 p. (Boletim técnico, 180). HENDRIX, J.E. The effect of pH on the uptake and accumulation of phosphate and sulfate ions by bean plants. Am. J. Bot., 54: 560-564, 1967. HOAGLAND, D.R. & ARNON, D.L. The water culture methods for growing plants without soil. Berkeley, California Agriculture Experiment Station, 1950. 32 p. (Bulletin 347). INOUE, Y.; YAMAOKA, K.; KIMURA, K.; SAWAI, K. & ARAI, T. Effects of low pH on the induction of root hair formation in young lettuce (Lactuca sativa L. cv. Grand Rapids) seedlings. J. Plant Research, Tokyo, 113: 39-44, 2000. 42 LINEWEAVER, H. & BURK, D. The determination of enzyme dissociation constants. J. Am. Chem. Soc., 56:658-666, 1934. MARSCHNER, H. Mineral nutrition of higher plants. 2 ed. New York, Academic Press, 1995. 889p. MARTINS, L.R.; COMETTI, N.N.; MATIAS, G.C.S.; MACHADO, P.P.C.; ZONTA, E.; FERNANDES, M.S. 2002. Efeito de amônio e nitrato usado num sistema computadorizado de controle de pH sobre o crescimento da alface em sistema hidropônico NFT. In: FERTBIO2002. Anais... Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. CD-Rom. NELSON, R.A. & ANDERSON, R.L. Partitioning of soil testcrop response probability. In: PECK, T.R. ed. Soil testing: correlating and interpreting the analytical results. Madison, ASA, CSSA, SSSA, 1977. p.19-38. (ASA Special Publication, 39) OERTLI, J.J. & GRGUREVIC. Effect of pH on the absorption of boron by excised barley roots. Agron. J., 67: 278-280, 1975. PARKER, D.R.; NORVELL, W.A. & CHANEY, R.L. GEOCHEM-PC: a chemical speciation program for IBM and compatible person computers. In: LOEPPERT, R.H.; SCHWAB, A.P. & GOLDBERG, S., eds. Chemical equilibrium and reaction models. Madison, Soil Sci. Soc. Am., 1995. p.253-269. PINTRO, J.; INOUE, T. & TESCARO, M.D. Influence of the ionic strength of nutrient solutions and tropical acid soil solutions on aluminum activity. J. Plant Nutr., 22(8): 1211-1221, 1999. 43 RESH, H.M. Hydroponic food production. 6.ed. Woodbridge Press, Califórnia, 2002. 567p. RUIZ, H.A. & FERNANDES FILHO, E.I. CINETICA: software para estimar as constantes Vmax e Km da equação de Michaelis-Menten. In:REUNIÃO BRASILEIRA DE FERTILIDADE DO SOLO E NUTRIÇÃO DE PLANTAS, 20., Piracicaba, 1992. Anais. Piracicaba, Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, 1992. p.124-125. RUIZ, H.A. Estimativa dos parâmetros cinéticos Km e Vmax por uma aproximação gráfico- matemática. R. Ceres, 32:79-84, 1985. RUIZ, H.A. Relações molares de macronutrientes em tecidos vegetais como base para a formulação de soluções nutritivas.Revista Ceres, 44(255): 533-546, 1977. 1 CAPÍTULO 5 ABSORÇÃO DE NUTRIENTES Manlio S. Fernandes1 e Sonia R. Souza2 1 Departamento de Solos, UFRRJ 2 Departamento de Química, UFRRJ SUMÁRIO 1 TRANSPORTE ATRAVÉS DA PAREDE CELULAR E DA MEMBRANA PLASMÁTICA. 2 2 MEMBRANA PLASMÁTICA E A ABSORÇÃO ÍONS. ........................................................ 13 3 ENERGÉTICA DO PROCESSO DE ABSORÇÃO ................................................................. 21 4 CONTROLE DE pH NAS CÉLULAS ...................................................................................... 36 5 CINÉTICA DE ABSORÇÃO DE IONS ................................................................................... 39 6 INTERAÇÕES IÔNICAS.......................................................................................................... 44 7 TRANSLOCAÇÃO DE NUTRIENTES ................................................................................... 46 8 REFERENCIAS......................................................................................................................... 50 2 1 TRANSPORTE ATRAVÉS DA PAREDE CELULAR E DA MEMBRANA PLASMÁTICA. As células vegetais são separadas do meio externo por membranas. Genericamente falando, as membranas permitiram o desenvolvimento da vida, pois criaram compartimentos separando o ambiente externo do ambiente interno, ao mesmo tempo em que possibilitam trocas entre estes ambientes. As membranas permitem assim que as células possam ter composição diferente daquela do meio que as circundam, ao mesmo tempo em que podem retirar do meio o material de que necessitam para o seu metabolismo e sua organização estrutural. As células vegetais têm uma parede celular externa, rígida, composta na sua maior parte de material inerte, e que mantém a sua forma mesmo após a morte da célula. Internamente, existe uma membrana, composta principalmente de material lipoprotéico, e conhecida como plasmalema ou membrana plasmática (Figura 1). Como pode ser visto na figura 1 a membrana plasmática é um delgado filme de fosfolipídios e proteínas, pressionado contra a parede celular. Na verdade, pode-se dizer que a parede celular "contém" a membrana plasmática e o citoplasma. Isto porque, o interior da célula é um meio hipertônico em relação à solução do solo. Deste modo, a célula vegetal se em contacto livre com a solução do solo tenderia a expandir explosivamente. Neste sentido, a célula vegetal é contida pela parede rija que a circunda. A parede celular é formada principalmente por uma rede de microfibrilas de celulose interligadas por feixes de glicanas (Figura 2). Este conjunto está embebido em uma matriz de hemicelulose e substâncias pécticas. A celulose que forma as microfibrilas da parede celular é um polissacarídio, que ocorre em longos polímeros de unidades de D-glicose, que estão unidas por ligações ß 1-4, este arranjo espacial confere à celulose a conformação de longas fibras paralelas de 100 a 200 Å de largura. A unidade estrutural de repetição da celulose é a celobiose formada pela união de duas moléculas de glicose. A cadeia glicana da celulose pode ter de 200 a mais de 25.000 resíduos de glicoses. As moléculas longas e rígidas da celulose combinam-se em orientação paralela, para formar as microfibrilas. Cada microfibrila pode ter aproximadamente 35 cadeias de celulose (Raven et al., 2001). Em fungos, as microfibrilas da parede celular podem ser formadas principalmente por quitina (polímeros de N-acetilglicosaminas). O diâmetro das microfibrilas está entre 5 e 10 nm. A parede celular tem aproximadamente 100 nm de espessura, podendo conter de 5 a 10 camadas de microfibrilas (Figuras 1 e 2). 3 Figura 1. Célula vegetal destacando a parede celular e membrana plasmática. Deslocamento de íons pelos macro e microporos, e através dos transportadores da membrana até o citossol. Célula A Célula B 4 A hemicelulose é um heteropolissacarídeo composto de hexoses (glicose) pentoses (arabinose, xilose) e ácidos urônicos (ácido glicurônico). Na hemicelulose de gramíneas a cadeia principal é composta de xilanas (ß 1-4-glicose-glicose) e a cadeia lateral de ácido metil-glucurônico, enquanto as leguminosas apresentam xilanas não ramificadas. As substâncias pécticas podem ser denominadas de homopolissacarídeos, quando formadas por ácido 1,4 D galacturônico, ou heteropolissacarídeos, quando em sua constituição pode haver ácido galacturônico, D-galactose, L-arabinose e L-ramnose. As substâncias pécticas são Figura 2. Estrutura dos blocos de construção das substâncias pécticas (ácido α-D- poligalacturônico) depositadas nas microfibrilas de celulose da parede celular. 5 particularmente importantes para a nutrição mineral das plantas. Elas são formadas por polímeros do ácido 1,4 D-galacturônico, geralmente esterificado com grupos metila. Estas substâncias têm peso molecular variando entre 25.000 a 360.000. Os feixes de microfibrilas com seus depósitos de poligalacturatos estão representados na figura 2. Nessa mesma figura podem ser observados os resíduos de cargas negativas sobre as microfibrilas. Na tabela 1, está a composição da parede celular de alguns tecidos vegetais: Tabela 1. Composição da parede celular de alguns tecidos vegetais. Composição da parede celular (% de massa seca) Tecido Vegetal Celulose Hemicelulose Pectatos Proteínas Lipídios Milho (coleóptilo) 35 30 13 - 21 Trigo (folhas) 30 11 22 - - Aveia (caule) 26 40 20 13 1 As proteínas na parede celular podem ser estruturais (como a extensina) ou enzimáticas (oxidases, fosfatases, ATPases, estearases e outras). Essas proteínas podem ser excretadas para o meio externo. Em geral essas proteínas são consideradas "incrustações" na matriz da parede celular. Proteínas estruturais como a extensina são ricas em prolina e hidroxiprolina. Considera-se que a maior flexibilidade dos caules das plantas aquáticas deve-se principalmente a conversão de prolina em hidroxiprolina nos ambientes aquáticos, devido a menor pressão de oxigênio. Esta organização da parede celular permite a formação no seu interior de microporos e macroporos. Estes poros têm em torno de 3 a 5 nm de diâmetro, e em torno de 100 a 200 nm de comprimento (Figura 2) Diversas substâncias que estão incrustadas ou apenas sobrepostas às microfibrilas de celulose têm grande importância para a nutrição das plantas. Proteínas, particularmente as que têm atividade enzimática podem estar depositadas sobre a superfície dessas microfibrilas. Também podem ocorrer deposições de açúcares e de lipídeos. Entretanto, são as deposições de ácidos poligalacturônicos e seus ésteres (as substâncias pécticas), que afetam intensamente a circulação de íons dentro e através da parede celular (Figura 2). As pectinas podem dar origem a pectatos como os de cálcio, que afetam grandemente a rigidez das membranas. As microfibrilas de celulose, nas plantas superiores, não formam uma parede contínua, mas são constituídas de cadeias de polisacarídeos de tamanho variável, que se fixam através de ligações 6 não-covalentes com a matriz que as envolve, e pela coesão desenvolvida pelas forças físicas resultantes de seu enovelamento. Por sua natureza, as microfibrilas de celulose não têm praticamente qualquer expansibilidade, e por essa razão, os movimentos de expansão celular ocorrem através do rompimento das ligações não-covalentes entre as microfibrilas e a matriz. Nessa situação, as microfibrilas e matriz podem deslizar umas sobre as outras, permitindo assim que a célula se expanda cedendo às pressões de turgor. Embora ainda não se conheçam em todos os detalhes do exato mecanismo através do qual as paredes celulares expandem, permitindo o crescimento celular, é certo que este fenômeno envolve a acidificaçãodo espaço livre, e portando a ação das bombas iônicas de extrusão de H+. A acidificação do espaço livre ativa a ação de um grupo de enzimas que atua neste processo; as expansinas. Aparentemente, a ação das expansinas se dá através do rompimento das ligações não- covalentes que ligam as microfibrilas de celulose à matriz de hemicelulose e pectinas. Ou seja, as expansinas rompem as pontes de hidrogênio que unem os feixes de microfilbrilas. Este rompimento de ligações não-covalentes permite então o deslizamento dos feixes de microfibrilas. Diversas outras enzimas são também ativadas quando da acidificação do espaço livre. Entre elas destacamos as endoglicanases que cortam as “glicanas” da matriz em segmentos menores, o que contribui para diminuir a resistência da parede celular. Dentro da parede celular temos os micro e macroporos formados pela organizaçâo das microfibrilas de celulose, hemicelulose e lignina, com incrustações, depósitos de ácidos orgânicos, proteínas estruturais e outros compostos que ajudam a formar a estrutura da parede celular (Figuras 1 e 2). Estes macro e microporos conectam-se com os espaços intercelulares e formam um continuum. A este conjunto formado pelos espaços intercelulares e poros da parede celular chamamos de “espaço livre”. Na verdade, este espaço está dividido em dois: um espaço em que água e íons circulam livremente, e um outro, em que íons de um sinal circulam livremente, enquanto que íons de outro sinal têm a sua circulação restrita. Assim por exemplo, Cl- e SO4 = poderiam circular livremente neste espaço, enquanto que K+ tem a sua circulação limitada. Isto dá origem ao conceito de " espaço livre aparente ". A figura 1 mostra o conjunto formado pelo espaço intercelular e poros na parede celular, formando o “o espaço livre aparente”. Na figura 1, o espaço intercelular e o poro com água (H2O) 7 formam “o espaço livre de água”. Água e solutos podem circular no espaço livre (com restrições devido à carga). Solutos podem entrar e sair dos poros, dependendo dos gradientes de concentração, e pode ocorrer troca com o meio externo (solução do solo). Não apenas íons podem circular no espaço livre, mas também moléculas como açúcares, aminoácidos e outras. Consideramos estar na endoderme o limite interno do espaço livre porque nem a água nem os solutos podem atravessar os seus espaços intercelulares, uma vez que, eles estão cimentados com suberina que recobre as células e as une como o cimento une uma parede de tijolos, embora essa limitação não seja absoluta, principalmente nas áreas de crescimento da raiz. Íons e água podem circular “dentro” da parede celular, através de seu sistema de poros, mas não conseguem atravessar a membrana interna (plasmalema), que com a sua natureza lipo-protéica, é impermeável a íons e água. Assim podemos estabelecer os limites do espaço livre das raízes como sendo o espaço entre a epiderme, a endoderme e a plasmalema das células do córtex radicular (Ver capítulo 2, neste volume). Qualquer espécie iônica, o K+ por exemplo, pode difundir livremente da solução do solo para o interior das raízes, circulando pelo espaço livre, seja no espaço intercelular ou nos poros dentro da parede celular. Veja o exemplo do macroporo na célula B da figura 1. A maior ou menor circulação desse íon no espaço livre vai depender da concentração relativa do íon nos diversos compartimentos (macro e microporos-espaço intercelular) e da eventual interferência de forças de adsorção. Eventualmente o íon pode ser perdido para o espaço externo. Por esta razão não se pode considerar que os íons que circulam no espaço livre radicular tenham sido realmente “absorvidos”. Embora eles estejam dentro da raiz, podem ser facilmente perdidos para o meio externo por simples difusão. Só são considerados realmente absorvidos os íons que atravessam a membrana plasmática e passam para o espaço interno da célula. A passagem de um íon do espaço externo (espaço livre) para o espaço interno da célula só ocorre através de sítios específicos na superfície da plasmalema. Se um íon não encontra o seu sítio específico de absorção, pode circular por macro e microporos, voltar para o espaço intercelular, ou sair do espaço livre. Uma vez que tenha atravessado a plasmalema, entretanto não pode mais voltar livremente ao espaço externo. Foi absorvido! (Figura 1). O continuum formado pelo conjunto dos espaços intercelulares e poros da parede celular que resulta numa via de deslocamento de íons é também chamado de apoplasma, e essa via de deslocamento é a via apoplástica (Figura 3). 8 A absorção de um íon (passagem para o interior da célula) pode ocorrer em uma das células da endoderme através de sua superfície exposta (não revestida de material suberificado). Neste caso, o íon atravessa uma única célula, e chega ao parênquima vascular. A absorção pode também ocorrer em uma das células corticais, ou numa célula da epiderme. Nestes dois últimos casos o íon absorvido tem que ser deslocado, de uma célula a outra até chegar finalmente ao parênquima vascular. O caminho a ser percorrido, de célula a célula, é tornado possível graças a uma intensa rede de comunicação célula a célula, os plasmodesmas (Figura 3 e capítulo 2). O plasmodesma é um prolongamento do material celular que passa através de poros na parede celular. É formado por um desmotúbulo, e tem uma espécie de “revestimento citoplasmático”. O desmotúbulo é o prolongamento do retículo endoplasmático de duas células adjacentes. A maior parte do transporte célula a célula, entretanto, pode ser feito através do revestimento citoplasmático. Os plasmodesmas ocorrem em uma densidade que pode ir de 0,1 a 10,0 por µm2 (cerca de 20.000 por cada parede tangencial, ou 5 X 108 /cm2) (Ver capítulo 2 neste volume). Estes “canais” ligam as células desde a epiderme até a endoderme formando um continuum. A este conjunto chamamos de simplasma. Os íons que se deslocam de célula a célula através do simplasma estão seguindo a via simplástica (Figura 3). Seguir a via simplástica é uma maneira de contornar as limitações e/ou restrições ao deslocamento que os íons enfrentam, nos diversos compartimentos do espaço livre aparente. Algumas espécies iônicas, de absorção muito rápida são quase que totalmente absorvidas nas células epidérmicas ou nas primeiras camadas de células corticais, o que significa que praticamente só alcançam a área vascular das plantas por deslocamento através do simplasma. O íon fosfato (H2PO4 -) é uma dessas espécies. Outros íons como o K+ deslocam-se facilmente por via apoplástica. Na figura 3 esse movimento do íon H2PO4 - pode ser visto desde a célula epidérmica (1ª à esquerda) até as células do parênquima vascular. 9 O deslocamento por via simplásmica resulta em um significativo aumento das possibilidades de partição ao longo da via de transporte. No caso do fósforo, quando ocorre deficiência desse nutriente há uma partição desequilibrada de matéria seca entre raiz e parte aérea. Como o íon fosfato tem que percorrer a longa via simplásmica, sob deficiência, a demanda metabólica ao longo da via de transporte retira o fósforo da rota de deslocamento e o incorpora ao metabolismo das células da raiz. Disso resulta o fato de que sob deficiência de P, as raízes crescem proporcionalmente mais do que a parte aérea (Tabela 2). Figura 3. Deslocamento de íons, desde a solução externa até o xilema; por via apoplástica (K+), ou simplástica (H2PO4 -). 10 Tabela 2 Massa seca das Folhas e das raízes de plantas de hortelã aos 64 dias após o transplantio (DAT) em cultivo hidropônico com diferentes doses de N e P (Souza et al., no prelo) Teor (mg/L) -------Massa Seca (g/5 plantas) ------- Tratamento N-NO3 - P Raízes Folhas T1 120 16 30,5 b 122,9 a T2 60 16 29,5 b 81,2 b T3 120 4 37,7 a 73,8 cT4 60 4 37,8 a 65,8 d Letras minúsculas iguais na mesma coluna não diferem significativamente (Fisher LSD 5%). O espaço livre aparente é subdividido em dois: o espaço livre de água, e espaço livre de Donnan. O espaço livre de água é aquele em que água e solutos circulam livremente, enquanto que o espaço livre de Donnan, é aquele onde existem limitações para circulação de ions. Para entender a origem e extensão deste espaço (de Donnan), voltamos a nossa discussão a respeito da deposição de ácidos galacturônicos sobre a superfície das microfibrilas de celulose. Pela figura 2 vemos que os ácidos galacturônicos são ácidos orgânicos de cadeia longa. O pK dos grupos carboxílicos desses ácidos está em torno de 3,5. Isto significa, que nas condições normais de equilíbrio entre a solução do solo e o apoplasto, estes ácidos estarão dissociados (o pH da solução do solo, em solos normais está entre 5,0 e 7,0 ). Quando o espaço intercelular e os macro e microporos das células entram em contacto com a solução do solo, ocorre um arraste e eventual substituição dos prótons do ácido. Pode então ocorrer uma troca de cátions (H+ por K+ por exemplo), com os resíduos de carga negativa formando uma superfície de carga negativa fixa. Essas cargas fixas formam uma superfície de troca de cátions. Esta superfície, capaz de trocar cátions é a origem da capacidade de troca de cátions das raízes, ou CTCR (Figura 4). Nos microporos, se estas cargas estiverem muito próximas, e sua densidade for grande, forma-se uma barreira para a livre difusão dos íons. Os íons Cl- , NO3 - e H2PO4 - por exemplo teriam grande redução de sua velocidade de difusão sob essas condições. Por outro lado, os cátions seriam atraídos por essas superfícies carregadas. A intensidade dessa atração depende da densidade das cargas elétricas fixas, e da valência do íon. Assim por exemplo, em uma superfície de pequena densidade de carga um íon monovalente como o K+ seria atraído com muito maior facilidade do que um íon trivalente como o Al+++ (Figura 4A e 4B). Por outro lado em uma superfície de alta densidade de carga, cátions de maior valência como o Ca++, seriam atraídos com maior intensidade, e teriam maior atividade do que os íons monovalentes (Figura 4D). Deste modo, teremos como uma 11 regra geral: poros com baixa densidade de carga atraem preferencialmente íons monovalentes, em detrimento dos íons di e trivalentes, enquanto que, poros com alta densidade de carga atraem preferencialmente íons di e trivalentes, em detrimento dos íons monovalentes (Figura 4). Íons trivalentes como o Al+++, têm uma interação tão grande com superfícies de alta densidade de cargas, que praticamente entram em “colapso” sobre essas superfícies, formando ligações quase covalentes (Figura 4C). Neste caso, dificilmente são substituídos nas superfícies de troca e reduzem a CTCR da planta (ver capítulo 15 neste volume). Em geral, as monocotiledôneas têm uma menor densidade de carga do que as eudicotiledôneas. Plantas como o milho, arroz e brachiaria, têm uma densidade de carga (expressa em CTCR) em torno de 10 a 20 meq/100 g de raízes secas, enquanto que soja e feijão têm suas CTCR em torno de 40 a 80 meq/100 g de raízes secas. Esta variação da CTCR nos permite fazer algumas considerações sobre a capacidade de diferentes plantas de extrair nutrientes do solo. Embora a CTCR seja um dentre os inúmeros fatores que afetam o processo de aquisição de nutrientes pelas plantas, se colocarmos sob as mesmas condições ambientais duas raízes com diferentes CTCR e do mesmo tamanho, podemos esperar que as plantas de menor CTCR sejam mais eficientes na absorção de K+, enquanto que as plantas de maior CTCR absorverão Ca++ e Mg++ mais eficientemente, se todos os outros fatores forem mantidos constantes. Glass et al. (1992) observaram que a absorção de cátions monovalentes (K+ e Na+) diminui, e a absorção de cátions divalentes (Ca++ e Mg++) aumenta, à medida que a CTCR das plantas aumenta. Este fenômeno é importante no desenvolvimento de espécies de plantas calcícolas ou calcífugas. 12 Figura 4. Superfícies de cargas nos macro e microporos da parede celular 13 2 MEMBRANA PLASMÁTICA E A ABSORÇÃO ÍONS. A membrana celular (plasmalema ou membrana plasmática) formada por uma dupla camada de fosfolipídios e incrustada de proteínas apresenta o seu interior hidrofóbico, portanto impermeável à água e a espécies iônicas (Figura 5). A absorção de íons através das membranas ocorre necessariamente através de sítios específicos, de origem protéica (proteínas integrais da membrana), que permitem a passagem dos íons do meio externo para o interior das células. Essas proteínas integrais de membrana formam os três sistemas que atuam no transporte de íons: as bombas iônicas, os transportadores de íons e os canais iônicos (Figura 6). Figura 5. Diagrama representativo de um segmento de membrana biológica: dupla camada de fosfolipídios e proteínas. 14 � As bombas iônicas atuam no transporte unidirecional de íons (uniporte), e estão acoplados a sistemas geradores de energia (ex. H+-ATPases). A velocidade de transporte das bombas iônicas é de 100 íons/segundo. � Os transportadores de íons (carreadores) podem ser unidirecionais (uniporte); podem atuar na troca de uma espécie iônica por outra (antiporte), ou no transporte simultâneo de íons (simporte). Sofrem mudanças conformacionais durante o transporte. A velocidade de transporte variar de 300 a 1000 íons/segundo. � Os canais iônicos são de alta velocidade. Transportam apenas a favor de gradientes de potencial eletroquímico. A velocidade de transporte dos canais iônicos pode variar de 106 a 108 íons/segundo. Figura 6. Sistemas de transporte através da membrana plasmática. 15 A seguir é feita uma descrição detalhada dos sistemas de transporte. a) Bombas iônicas As bombas iônicas atuam no transporte ativo de íons, com o uso direto de energia metabólica. Geralmente são sistemas que incluem ATPases ou Pirofosfatases. Estes transportadores usam a energia gerada pela hidrólise de ligações de alta energia (ATP ou PPi), sofrem mudanças conformacionais, e voltam ao estado inicial após transportar o íon. Entre as bombas iônicas, sem dúvida a mais estudada é a bomba iônica de extrusão de prótons. A extrusão de prótons, conhecida como "transporte ativo primário" é um mecanismo gerador de eletrogenicidade, e portando atua sobre as diferenças de potencial que compõem, junto com as atividades da espécie iônica, o potencial eletroquímico que determina as características do transporte ativo ou passivo. Foram identificadas bombas de prótons que atuam tanto na membrana plasmática como na membrana do vacúolo (tonoplasto). Na plasmalema, a bomba de extrusão de prótons atua, tornando o interior da célula mais negativo e criando um gradiente de prótons entre o exterior e o interior da célula (gradiente protoniônico). No tonoplasto, foram identificadas bombas de prótons que atuam no sentido citoplasma → vacúolo, que são as H+-ATPases e as H+-PPases. No caso de transporte através do tonoplasto, um gradiente protoniônico é criado de dentro para fora (vacúolo → citoplasma) (figura 7). Figura 7. Sistemas de transporte de íons na célula: (1) P-H+-ATPase; (2) Transportador de nitrato (simporte com 2H+); (3) Canal iônico; (4) V-H+-ATPase; (5) P-H+-PPase; (6) Transportador de nitrato (simporte com 1H+) 16 A P-H+-ATPase é uma glicoproteina de aproximadamente 100 kDa com 10 hélices transmembrana (Figura 8), que hidrolisa ATP para gerar um movimento vetorial de H+ em direção ao apoplasto, criando gradientes de pH e potencial elétrico na membrana, o que viabiliza o transporte de íons e moléculas para dentro ou fora da célula através de sistemas de transporte ativo secundário. Citosol ApoplastoH+ H+ H+ H+ H+ H+ H+ H+ ATP ADP + Pi Ação da FC COO - H+3N FC 14-3-3 Figura 8. Forma estendida da P-H+-ATPase destacando as 10 hélices transmembrana, domínio de hidrólise do ATP e ação da fusicocina (FC) na extremidade auto-inibitória C-terminal, ativando irreversivelmente a enzima (Adaptado de Azevedo, L., tese de mestrado, UFRRJ, 2006). As P-H+-ATPase são fortemente inibidas por ortovanadato (HVO4 2-), um íon análogo ao fosfato (HPO4 2-) que compete com o fosfato do ATP pelo sítio de fosforilação de um resíduo de aspartato na enzima. Isso ocorre porque o ortovanadato é muito parecido com a estrutura do fosfato no momento da hidrólise. Estas proteínas são reguladas pela concentração de substrato, temperatura, pH, e íons entre outros, e podem ser reversivelmente ativadas ou desativadas por diversos sinais exógenos como hormônios, luz, ataque de pragas e/ou patógenos, dentre outras. A regulação das P-H+-ATPase é mediada por um domínio auto-inibitório localizado na extremidade C-terminal da cadeia 17 polipeptídica (face citossólica), que atua na regulação da atividade hidrolítica desta proteína. Esta regulação pode também ser resultado da ação de quinases ou fosfatases que podem adicionar ou remover grupos fosfato nos resíduos de serina ou treonina presente no domínio auto-inibitório da enzima (Figura 8). A fosforilação destes resíduos e a ligação da proteína regulatória 14-3-3, resulta na ativação da enzima. Este complexo H+-P-ATPase-14-3-3 pode ser observado em plantas tratadas com fusicosina, uma toxina produzida pelo fungo Fusicoccum amygdali. A fusicosina liga-se ao complexo H+-P-ATPase-14-3-3 e o estabiliza, ativando dessa forma irreversivelmente a enzima. (Figuras 8 e 9). FUSICOCCINA m e q K + L -1 µ e q H + L -1 0 50 100 150 200 250 300 CONTROLE 0.0 0.2 0.4 0.6 0.8 K+ H+ 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20 22 24 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20 22 24 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20 22 24 VANADATO TEMPO (HORAS) A H+-ATPase vacuolar ou V-H+-ATPase é uma enzima que acidifica compartimentos intracelulares e está localizada não apenas no tonoplasto, mas também no retículo endoplasmático (RE), provacúolos, membrana plasmática, e outras membranas da via secretória. Essas enzimas diferem tanto estrutural quanto funcionalmente das P-H+-ATPases de plasmalema (Figuras 8 e 10). A V-ATPase é estruturalmente mais relacionada as F-ATPases (ou F1Fo ATP-sintase) que normalmente funciona na síntese de ATP em mitocôndrias, cloroplastos e bactérias. A V-ATPase usa a energia liberada durante a hidrólise do ATP para bombear prótons para o interior do lúmem vacuolar, portanto criando um gradiente de potencial eletroquímico, e a força Figura 9. Efeito do vanadato (inibidor) e da fusicocina (estimulante) na atividade das H+- ATPase nas raízes de arroz. (A) Controle, (B) Com vanadato há uma completa inibição da extrusão de H+ e consequentemente não há queda na concentração externa de K+ (influxo de K+); (C) Ao contrário, a fusicocina aumenta a extrusão de H+ e a absorção de K+ (Bucher et al., no prelo). A B C 18 próton motriz para uma variedade de eventos de transporte de íons e metabólitos. Dessa forma, a H+-V-ATPase gera um gradiente de pH através do tonoplasto explicando o fato do pH vacuolar ser tipicamente de 3 a 6 enquanto o pH do citosol se encontra por volta de 7,5. A V-ATPase é composta de dois domínios estruturais. O domínio periférico (V1) é um complexo de 640 kDa responsável pela hidrólise de ATP e contém oito diferentes subunidades (A- H) de massa molecular entre 13 e 70 kDa com a estequiometria A3B3CDEFG2H1-2. O domínio integral (Vo) é um complexo de 260 kDa responsável pela translocação de prótons e é composto de cinco subunidades (a, b, c, c’, c’’) com massa molecular entre 17 e 100 kDa na estequiometria abc’c’’c4 (Kawasaki-Nishi, et al., 2003). A subunidade “a” forma dois hemi-canais em comunicação com os lados citoplasmáticos e o lúmem vacuolar e é provavelmente o local por onde os prótons passam. A B B B A A G C E H a c c’ c’’ d F D ATP ADP+Pi H + Figura 10: Modelo rotacional de funcionamento das V-H+-ATPase. (Azevedo, L., tese de mestrado, UFRRJ, 2006, adaptado de Kawasaki-Nishi, et al., 2003). Muitos estudos sobre a função fisiológica dessas proteínas tem sido possíveis graças à existência de inibidores específicos das V-ATPAses como a bafilomicina A1. Este antibiótico inibe a atividade da V-ATPases de diferentes organismos em concentrações na faixa do nanomolar. A ação da bafilomicina A1 se dá pela ligação desse inibidor ao setor Vo impedindo o fluxo de prótons através do canal de prótons da enzima. As V-H+-ATPase são também inibidas pela presença de NO3 - no citossol. Esta característica é importante no metabolismo de N nas plantas. 19 Outro tipo de bomba de prótons, a H+-PPase trabalha paralelamente às V-ATPases para gerar um gradiente de prótons através do tonoplasto. A H+-PPase é composta de um único polipeptídio com massa molecular em torno de 80 kDa com tamanho aparente em gel de poliacrilamida de 67 a 73 kDa. A H+-PPase é a única bomba de prótons que utiliza um substrato de baixo custo energético, o pirofosfato (PPi), sendo este, produto gerado por vários processos biosintéticos de macromoléculas, como proteína, DNA, RNA, celulose entre outras. É comumente aceito que o requerimento diferenciado de energia entre as V- H+-ATPases e as H+-PPases pode prover uma plasticidade energética necessária para manutenção da homeostase celular numa ampla faixa de condições metabólicas. Por exemplo, tem sido argumentado que H+- PPase é a bomba predominante em tecidos jovens que contém um elevado conteúdo de pirofosfato oriundo das altas atividades biossintéticas desses tecidos. Além disso, a atividade das V-PPase nas células em crescimento ajuda a conservar o ATP, que é moeda corrente de energia na célula. A síntese de H+-PPase vacuolar em determinadas plantas pode ser induzida por carência de Pi, anoxia ou frio. Portanto, propõe-se que esta enzima deva funcionar como um sistema para garantir a manutenção das funções essenciais da célula sob condições em que a produção de energia metabólica (ATP) é reduzida pela inibição do processo respiratório. A geração de um gradiente protoniônico, no caso da plasmalema, é fundamental para o transporte simultâneo (simporte) de um íon e de um próton como no caso do transporte de nitrato (NO3 - / 2H +) ou para o transporte de nitrato do vacúolo para citoplasma (NO3 -/ H+) (Figura 7). Gradientes protoniônicos são também essenciais para o transporte (simporte) de açúcares e de aminoácidos em plantas. Os transportadores de íons (carreadores) podem transportar íons através da plasmalema a favor de um gradiente de potencial eletroquímico (transporte passivo) sem troca por outra espécie iônica de mesma carga (uniporte) ou permitir a troca de uma espécie iônica de um sinal, por outra de mesmo sinal (antiporte). O transporte de Na+ para fora da célula através da plasmalema em troca de um H+, é um exemplo de transporte do tipo antiporte. O transporte de K+ (de fora para dentro) é um exemplo de transporte unidirecional (uniporte) (Figura 11). Os transportadores podem também fazer o transporte ativo de íons (contra um gradiente de potencial eletroquímico) em sistemas de cotransporte (simporte) em que o íon, a ser transportado (cátion ou anion) entra na célula contra o seu gradiente de potencial eletroquímico. A energia para esse processo é obtida com a entrada simultânea de outro íon, este sim, entrando a favor do seu gradiente de potencial eletroquímico. 20 A atividade das H+-P-ATPases gera um gradiente de prótons∆µH+ entre o exterior e o interior da célula. Este acúmulo de H+ no exterior da célula cria um potencial, com tendência dos H+ a voltar ao interior eletronegativo da célula. Isso gera na verdade, uma força próton motriz ∆p (Figura 11). A força próton-motriz está relacionada ao potencial da membrana Ψ e a diferença de pH (∆pH) entre os meios interno (citosol) e externo (espaço livre): ∆p = ∆Ψ - 2,303 RT/F. ∆pH (R= constante dos gases; T=Temperatura absoluta; F= Constante de Faraday) A 25ºC, teremos: ∆p= ∆Ψ - 59 ∆pH Por exemplo: com o potencial de membrana em -110mV e a diferença entre o pH externo e o pH interno (∆pH) de 2,0; teremos: ∆p=-228mV É esta força próton-motriz (∆p) que energiza o transporte de outros íons, que por seu gradiente de potencial eletroquímico tem que ser absorvidos ativamente, nas que não dispõem de um sistema ativo primário (tipo bomba iônica) para transporte. 21 3 ENERGÉTICA DO PROCESSO DE ABSORÇÃO Os nutrientes estão em concentrações muito pequenas no solo e para que esses nutrientes possam ser retirados deste ambiente rarefeito, a estratégia desenvolvida pelas plantas foi a de criar uma grande superfície radicular, para permitir contacto com o maior volume possível da solução do solo. Por outro lado, as plantas também desenvolveram uma grande superfície foliar na parte aérea para permitir a captação mais eficiente da energia solar, que chega a superfície das folhas em pequena densidade sob a forma de quanta de luz. A imagem usada fica assim justificada; uma grande superfície de captação de nutrientes em contacto com o solo, e uma grande superfície de captação de energia, aberta para o céu. Entre as duas, um eficiente sistema de transporte (Figura 12). Figura 11. Geração de gradiente de prótons (∆µH +) através da plasmalema. 22 Na tabela 1 do capítulo 1, neste volume, estão as concentrações dos nutrientes nas plantas. Em condições normais, as concentrações de nutrientes nas plantas podem exceder em muito as concentrações no solo. Experiências feitas com cenoura, por exemplo, mostram que os tecidos podem acumular K+ em concentrações 10.000 vezes maiores do que a concentração na solução em que estão imersas. Mesmo que as concentrações normais nos tecidos vegetais não sejam assim tão elevadas, o fato é que as plantas, e em particular as raízes das plantas têm em geral uma concentração de nutrientes muito maior do que a solução do solo. A despeito desta grande diferença de concentração, as plantas retiram do solo os nutrientes de que necessitam. Se os íons encontrados entre a solução do solo e o interior das raízes fossem distribuídos naturalmente, de acordo com os princípios da fisico-química, deveria haver um deslocamento dos íons do local de maior concentração para o de menor concentração. No caso, como a concentração de íons na planta (raízes) é maior do que na solução do solo, deveria haver uma perda de íons pela raiz e um conseqüente enriquecimento da solução do solo em nutrientes. Entretanto, o que a experiência nos mostra é que ocorre exatamente o contrário: mesmo que a concentração de íons em uma solução externa seja 1000 vezes menor do que o das raízes, ainda assim as plantas retiram este nutriente deste meio rarefeito e aumentam a concentração do íon em seus tecidos. Em outras Figura 12. As plantas superiores apresentam duas grandes superfícies que são como uma imagem especular uma da outra, e ligadas por um sistema de vasos condutores (xilema e floema) para comunicação entre elas. 23 palavras, os íons podem se deslocar de um ambiente para outro (do solo para as raízes) contra gradientes de concentração. Agora vamos nos deter um pouco na questão; que forças seriam capazes de vencer a barreira formada pelos gradientes de concentração durante o processo de absorção de nutrientes pelas plantas? Inicialmente vamos considerar que a entrada de nutrientes na célula pode ser passiva. Por “passivo” queremos dizer: “energia metabólica não está sendo usada diretamente no transportador”, o que não significa como já vimos que este transporte esteja sendo feito sem gasto de energia. Todo e qualquer processo metabólico usa energia. A questão é onde e quando! No caso do transporte passivo, a energia metabólica (no caso, energia obtida através da hidrólise de ATP) está sendo usada em outro processo, que usa essa energia para gerar gradientes de potencial através das membranas. São então esses gradientes as forças que ajudam transportar os íons de fora para dentro das células. Em outras palavras, no transporte passivo ocorre um uso indireto da energia metabólica, tornada disponível pela hidrólise do ATP. No caso do transporte ativo, que é feito contra um gradiente de potencial eletroquímico, energia pode ser usada diretamente pelo transportador, como é o caso das bombas iônicas, ou indiretamente, através da geração de gradientes de prótons. O gradiente de prótons permite um co- transporte em que o H+ é transportado a favor de seu gradiente (passivamente), enquanto que o elemento co-transportado (anions, açúcares, aminoácidos) o é contra seu gradiente (ativamente). Este tipo de deslocamento de solutos, de um local em que estão em menor concentração, para outro em que estão em maior concentração, em desacordo aparente com as leis da física, é conhecido como "deslocamento contra um gradiente de concentração". Vejamos, na tabela 3, o deslocamento de um soluto de um compartimento cuja concentração é 0,01 mM, para outros compartimentos de maior concentração, e a energia necessária para este trabalho. Tabela 3. Deslocamento de um glicose de um compartimento cuja concentração é 0,01 mM, para outros compartimentos de maior concentração, e a energia necessária para o processo (Adaptado Nelson e Cox, 2004) Concentração de Glicose (mM) externa interna Razão de concentração Variação de Energia Livre (∆G) (Kcal / mol) 0,01 0,1 1:10 1,34 0,01 1,0 1:100 2,68 0,01 10,0 1:1000 4,02 24 Como pode ser observado na tabela 3, temos um soluto (glicose), sendo transportado de um compartimento em que a concentração é de 0,01 mM para outros compartimentos em que as concentrações são 10, 100 ou 1000 vezes maiores. Para que isso ocorra, é necessário que alguma força atue empurrando o soluto contra um gradiente de concentração. Para um soluto neutro, como a glicose, por exemplo, é possível calcular qual a força necessária para este trabalho, através da equação de Nernst: Onde: Ci = concentração interna e Ce= concentração externa. No nosso exemplo : ∆G = RT ln 0,1 0,01 Nesta equação, ∆∆∆∆G é a variação da energia livre no sistema (formado pelos dois compartimentos), R é a constante dos gases, e T a temperatura absoluta. ln é o logaritmo natural, no caso, da razão entre as concentrações interna e externa do íon. Pelo que podemos ver na última coluna da tabela 2, a energia necessária para "empurrar" um mol de glicose contra um gradiente de concentração duplica à medida que a concentração interna aumenta de 10 para 100 e de 100 para 1000 vezes. Estes dados indicam que também a absorção de íons pelas plantas a partir de baixas concentrações como as que ocorrem na solução do solo, exigem energia, sendo feita contra um gradiente de concentração. É necessário observar, entretanto, que no exemplo acima se trata de uma molécula neutra (glicose). Os nutrientes, entretanto, existem nas soluções externas às raízes como espécies iônicas, têm carga. Neste caso, a equação tem que ser modificada para incluir a carga. A equação de Nernst pode então ser modificada:∆∆∆∆G = RT ln C2 + ZF∆∆∆∆ΨΨΨΨ (2) C1 Onde: Z é a carga do íon, F a constante de Faraday (96,493 Coulomb/Eqg) e ∆Ψ a diferença de potencial elétrico através da membrana por onde o transporte está sendo mediado. Para que possamos entender melhor as aplicações deste conceito é preciso antes examinar o conceito de "potencial através da membrana", sua origem e suas funções. ∆∆∆∆G = RT ln Ci Ce (1) 25 Quando uma célula vegetal em equilíbrio com a solução externa é examinada com um microeletrodo (do tipo Ling- Gerard ), observa-se que entre o interior da célula e a solução externa, geralmente existe uma diferença de potencial em torno de - 100mV (interior negativo). Estes microeletrodos têm em geral pontas de 10 µ de diâmetro quando são usados em algas gigantes, e de 1µ de diâmetro para células animais e vegetais. Os microeletrodos são feitos de vidro, e têm alta impedância. Internamente o eletrodo é imerso no citoplasma ou no vacúolo e externamente na solução que banha a célula. Os trabalhos clássicos nesta área foram feitos com algas unicelulares (algas gigante) (figura 12). A existência deste potencial, em condições de equilíbrio de fluxos, indica que as plantas tendem a manter um excesso de carga negativa no seu interior (em relação à solução externa). Estas cargas têm origem nos resíduos de carga negativa resultantes da dissociação de ácidos orgânicos, com posterior extrusão dos prótons. Estes ácidos podem ser de grande peso molecular ou não, o que pode lhes dar características de superfícies de cargas fixas. O pH citoplasmático está em torno da neutralidade, os ácido orgânicos tem um pK em torno de 3,5, assim sob condições normais de metabolismo estes ácidos estão dissociados. Para que ocorra Figura 12. Correntes elétricas podem ser formadas entre o interior da célula e o meio externo 26 um desequilíbrio em favor das cargas negativas, é necessário que as plantas eliminem o excesso de H+, ficando na célula os resíduos negativos (Figura 11). As plantas desenvolveram um eficiente sistema de eliminação de prótons, através das bombas iônicas de extrusão de prótons. A bomba iônica de extrusão de prótons é o mecanismo central no processo de nutrição mineral das plantas. Este mecanismo gera direta ou indiretamente a energia que permite a entrada de espécies iônicas nas células, mesmo contra um gradiente de concentração (ou como veremos adiante, contra um gradiente de potencial eletroquímico). A bomba de prótons é na verdade um transportador de íons, específico para prótons que funciona usando energia metabólica (ATP). O transportador, estimulado pela presença de H+ no meio interno, usa a energia gerada pela hidrólise do ATP para mudar de estado energético, liga-se ao H+, e o bombeia para o meio externo, independentemente de troca por outro cation (do meio externo). É, portanto, um sistema de transporte unidirecional chamado uniporte. (Figura 6) Uma transferência unidirecional de cargas positivas gera eletronegatividade (pois não ocorre transporte simultâneo de outro cátion de fora para dentro, de modo a que a diferença de carga positiva pudesse ser compensada) (interior negativo). Deste modo quando um microeletrodo for inserido na célula, surge uma corrente. Este potencial que é gerado entre o interior e o exterior da célula, através da plasmalema, é denominado potencial de membrana (ψ ). Origem dos potenciais de membrana (desenvolvimento de cargas negativas no interior das células): O potencial químico de um íon J é: µµµµ-j = µµµµ*j + RT Ln aj + VjP + zj FE O termo VjP indica o efeito da pressão no potencial químico. Nas raízes, este termo é negligível.(considerando-se µµµµ-j) R = constante dos gases T = temperatura absoluta aj = atividade química do íon j z = valência do íon F = Constante de Faraday E = potencial elétrico em volts 27 Consideremos as atividades do íon j dentro e fora da célula: em condições de equilíbrio : µµµµ- j o = µµµµ-ji logo : Ei - Eo = RT ln ajo zj F aji Por essa equação, verificamos que, em condições de equilíbrio, o potencial gerado através da membrana depende da atividade química do íon nos dois compartimentos. A bomba de prótons desloca este equilíbrio em favor do compatimento externo, gerando eletronegatividade, e criando um gradiente protoniônico. Potencial através da membrana. A difusão de um íon (C+) com um coeficiente de permeabilidade diferente do co-ion gera um potencial (potencial de difusão). Quando existe um íon fixo (por exemplo, os ácidos orgânicos no citoplasma, ou as proteínas estruturais) a direção do potencial é dada pela carga do íon fixo. µµµµ- jo = µµµµ*jo + RT Ln ajo + zj FEo µµµµ- j i = µµµµ*ji + RT Ln aji + zj FEi Interior da célula Exterior 28 Onde: X-, é o íon fixo. Quando um íon difunde livremente (e passivamente), sem ser afetado por outros ions ou por interações com a membrana: Ej = Em Onde, Ej é o potencial do íon (potencial de Nernst) e o segundo termo, Em, é o potencial da membrana. Quando Ej difere de Em, isso significa que forças outras que não a difusão estão agindo sobre os íons. Podemos agora voltar à equação de Nernst, adequada para a inclusão da carga dos solutos: ∆G = RT ln Ce + ZF ∆Ψ Ci Ce= concentração externa de íons. Ci= concentração interna de íons. A partir desta equação podemos calcular qual o potencial de membrana a partir do qual uma espécie iônica pode ser transportada para o interior da célula, a favor do gradiente de potencial eletroquímico. Vejamos o potencial de membrana para a absorção de K. Em primeiro lugar, é necessário conhecer as concentrações externa e interna da espécie iônica. No caso, teremos uma concentração A-i C+ C+X- A-o C+ Interior da célula Exterior 29 externa (na solução) de 1 mM. A concentração interna (na célula) é de 89mM (Lüttge e Higinbothan, 1979) Arranjando a equação teremos: Ek+ = RT ln [K]e ZF [K] i Onde : (ZC+ =+1); (RT =25,3) ZF Ek+ = 25,3 ln 1 89 Ek+ = -114 mV No exemplo citado (Lüttge & Higinbotham, 1979), o potencial da membrana medido com eletrodo foi de -109 mV. A pergunta então é: dadas às concentrações de K+ (Ke/Ki), e o potencial de membrana (Ψ), a tendência do íon K será de entrar ou de sair da célula? A força potencial para entrada (ou saída) de um íon será: EDK= Em - Ek ou seja: EDK= (-109) - (-114) = 5 mV (D=drive) Com este resultado (+5) não haverá tendência de deslocamento de K+ para o interior da célula. Neste caso, o gradiente de potencial eletroquímico é desfavorável ao transporte (passivo) de K+. Para que o íon possa ser transportado será necessário usar energia adicional, capaz de realizar o trabalho de transporte do íon. A partir deste exemplo de Lüttge & Higinbotham (1979), fizemos uma modificação nesse sistema de modo a permitir que se desenvolva um gradiente de potencial eletroquímico favorável à absorção passiva de K+. Um parâmetro que pode ser modificado facilmente é a concentração externa de K (na prática agronômica isso é feito via aplicação de fertilizantes). Neste caso, por exemplo, vamos duplicar a concentração externa de K. Teremos: 30 [K]e = 2mM [K]i = 89 mM EK + = 25,3 ln 2 89 EK += - 96 mV logo, EK D = -109 – (-96) = - 14 mV (Em) (EK) Com este resultado negativo, o íon K+, nessa nova situação, será absorvido passivamente. Uma outra possibilidade seria estimular a atividade da bomba iônica de extrusão de H+, por exemplo, com a aplicação de Fusicocina, como pode ser visto na figura 9. Neste caso, e todos os outros fatores sendo mantidos constantes, o potencial da membrana (∆Ψ) torna-se ainda mais negativo. Vamos supor, por exemplo, que como resultado do estímulo à atividade das H+-ATPases, devido à aplicação da Fusicocina, o potencial da membrana caia para – 150 mV. Neste caso, e mantendo-se as mesmas concentrações iniciais interna (89 mM) e externa (1 mM), teremos o seguinte resultado: EDK += -150 – (-114) = -36 mV Também neste caso, o K+ pode ser absorvido, passivamente, graças ao gradiente de potencial eletroquímico favorável, criado pela ação eletrogênica da bomba iônica de extrusão de H+. Resumindo teremos: � Transporte ativo: é feito contra um gradiente de potencial eletroquímico � Transporte passivo: é feito a favor de um gradiente de potencial eletroquímico Quando transportadores do tipo “simporte”, aceitam o íon a ser transportado ativamente em um sítio, e o H+ em outro sítio, a força próton-motriz (∆p) arrasta as duas espécies iônicas para o interior da célula. Como pode ser visto na figura 7, o NO3 - por exemplo, praticamente nunca teria condições de entrar passivamente em uma célula da raiz. Seu transporte teria que ser “ativo”. Neste 31 caso, a energia para o transporte “contra um gradiente de potencial eletroquímico”, é fornecida pela força próton motriz (∆p). Em qualquer dessas formas de transporte, o transportador sofre mudanças de conformação. A velocidade de transporte desse sistema está em torno de 103 íons por segundo. Os canais iônicos, formados por proteínas, com uma fração apolar embebida no interior da plasmalema, e com o lúmen formado com sítios eletricamente carregados são mecanismos de transporte de grande velocidade (106 a 108 moléculas por segundo), reduzindo a energia necessária para o transporte através da membrana. Os canais iônicos atuam sempre a favor do gradiente de potencial eletroquímico, e pela sua velocidade são retificadores de corrente. Quando abertos, os canais iônicos formam poros seletivos que transportam íons sem que ocorram mudanças de conformação na proteína (Zimmermann & Sentenac, 1999). Canais iônicos ajudam a controlar o potencial das membranas, e participam da transdução de informações em plantas. Alguns canais iônicos são de maior seletividade, enquanto que outros podem transportar diversas espécies iônicas, como por exemplo os canais não seletivos de cátions. Certos canais iônicos só são ativados a partir de um dado potencial de membrana, ou seja têm um controle ou (portal) umbral a partir do qual estão abertos. Abaixo deste potencial de membrana o canal iônico estará fechado. Por exemplo, o canal iônico pode abrir a potenciais de membrana mais negativo que - 200mV, e fechar com potenciais mais positivos que -100mV. Os canais iônicos mais estudados são os de K. Canais transportadores de K existem em plantas e em animais, e podem ser de diversos tipos. Os mais conhecidos são os da família “shaker”. São formados por uma cadeia polipeptídica com 6 segmentos que atravessam a membrana (S1 a S6), estando as extremidade N-terminal e C-terminal, ambas no interior da célula (Figura 13). O domínio P localizado entre os segmentos S5 e S6 forma o poro aquoso, quando quatro cadeias polipeptídicas se arranjam espacialmente na membrana, formando a estrutura tetramérica do canal. O segmento S4 é o elemento sensor do potencial elétrico, ele é caracterizado pela presença de aminoácidos com carga positiva. O arranjo espacial de quatro cadeias polipeptídicas (estrutura tetramérica) com seus respectivos seguimentos que atravessam a membrana (S1 a S6) formam o poro do canal de K+, por onde esse íon atravessa a membrana (Figuras 13 e 14). Em canais de K do tipo KAT1, aminoácidos com carga positiva foram identificados como parte do sistema de sensores de voltagem (Zimmermann e Sentenac, 1999). 32 Figura 13. Representação esquemática dos domínios transmembrana dos canais de K+.(Adaptado de Zimmermann e Sentenac, 1999). Figura 14. Arranjo espacial em estrutura tetramérica dos domínios transmenbrana dos canais de potássio (vista superior) (Modificado a partir de Zimmermann e Sentenac, 1999) 33 Alguns canais iônicos estão localizados prioritariamente em órgãos específicos da planta. Canais codificados pelos genes AKT1 são expressos preferencialmente em células da epiderme e córtex da raiz (É possível que este canal também participe do transporte de alta afinidade de K). (Figura 3). Há também os canais que aceleram a saída de íons, da célula. No caso do K por exemplo, o gene skor (Stellar K+ outward-rectifying channel) codifica para um canal iônico (SKOR) que acelera a saída de K da célula. Estes canais estão situados preferencialmente nas células do periciclo e do parênquima vascular. São eles os responsáveis pela liberação no espaço livre estelar, do K+ que vai ser deslocado para o xilema (Figura 3). Os canais iônicos são extremamente importantes no controle de Ca++ no citoplasma, e no transporte de NO3 - para o vacúolo. No caso do nitrato, o rápido transporte para fora do citoplasma explica as quedas de atividade das enzimas de redução (NR) quando o suprimento externo de nitrato é reduzido, mesmo quando o teor total de nitrato na planta ainda é elevado. Canais para transporte de anions também foram localizados na raiz, e são importantes para o efluxo de nutrientes para o apoplasto, na área do parênquima estelar (Roberts, 2006). Também de grande significação para a nutrição de plantas são os canais iônicos para efluxo de ácidos orgânicos. Na plasmalema das células da raiz, existem canais deste tipo, que são ativados pela presença no meio externo de íons potencialmente tóxicos como o Al+++(Ver Cap. 15 neste Volume). Existem outros canais especializados na exsudação de ácidos orgânicos que são ativados quando há deficiência de Fósforo (P) no meio externo. Este tipo de canal aniônico é particularmente ativo nas raízes proteóides de algumas espécies vegetais. A importância dos transportadores de íons para as plantas pode ser avaliada pelo fato de que um grande número de genes ou de famílias de genes codifica para a síntese das proteínas envolvidas. No primeiro organismo cujo patrimônio genético foi completamente decodificado (Haemophilus influenzae), de um total de 1743 genes, nada menos que 12,2 % codificam para os transportadores ou para as proteínas que formam o complexo transportador. Ao que tudo indica esta percentagem deve ser regra geral para todos os organismos. Em H+ATPases vacuolares foi observado que existem famílias multigênicas codificando para as subunidades das H+-ATPases, que funcionariam em complemento aos genes básicos que codificam para o transportador e que mantém o sistema em funcionamento. Isto significa que podem surgir genes codificando para sistemas transportadores em resposta a estímulos ambientais, o que é extremamente interessante do ponto de vista da nutrição mineral de plantas. 34 Como já mencionamos, é interessante observar a existência de bombas iônicas como a de Ca++ (de dentro para fora através da plasmalema) e do antiporte Ca++/ H+ no tonoplasto atuando como um eficiente sistema para a homeostase do Ca++ nas células. Por outro lado a existência de bombas iônicas de protons tanto para fora através da plasmalema como para o vacúolo através do tonoplasto (inclusive com as PPiases) permite um eficiente controle do pH citoplasmático. Os sistema de bombas que usam energia das PPiases também são importantes nas situações de estressepor baixa pressão de oxigênio. Também já foi confirmada a existência no tonoplasto de um antiporte Na+/ H+. Este transportador seria de grande importância no desenvolvimento da tolerância ao estresse salino. A hidrólise de ATP aumenta, em plantas halófitas, com o tratamento (aplicação) de sal. Isto pode indicar o aparecimento de novas subunidades (polipeptídeos) dos transportadores. Na figura 15, temos os principais sistemas de transporte conhecidos, tanto através da membrana plasmática como do tonoplasto. Figura 15. Sistemas de transporte localizados na membrana plasmática e tonoplasto. 35 A figura 15 mostra que o K+ e o Ca++ podem ser deslocados para o interior das células, através da plasmalema, via canais iônicos. O K+ também pode ser transportado ativamente via simporte (H+/K+). NH4+ e H+ são transportados via uniporte por transportadores de íons na plasmalema. Ainda na plasmalema foi observado um antiporte, com a troca de Na+ por H+. Na plasmalema ocorre o cotransporte de Cl-/ 2H+; de 2H+/ NO3 -, H+(2-4)/H2PO - 4 e 3H +/SO-4. Açúcares e aminoácidos também são transportados via simporte (cotransporte) com um próton. Duas bombas iônicas de grande importância para o metabolismo celular operam na plasmalema: a bomba de prótons (transporte ativo primário), e a bomba de Ca++. No tonoplasto, três canais iônicos operam no tranporte de K+, Ca++, e NO3-. Este último, provavelmente também é capaz de transportar Cl- e malato. Um mecanismo antiporte H+/Na+ funciona no tonoplasto, transportando H+ para fora do vacúolo, e Na++ do citosol para o vacúolo. Também ocorre no tonoplasto um antiporte Ca++/ 2H+ transportando Ca++do citoplasma para o vacúolo. Nitrato sai do vacúolo via simporte (NO3 -/ H+) enquanto que o sistema de cotransporte para o malato exige dois prótons (malato-/ 2H+). A formação de um gradiente protoniônco no vacúolo, em relação ao citosol, é garantido por duas bombas iônicas: uma H+-ATPase, e uma H+-PPase. Este esquema via bombas iônicas, uniportes, simportes e antiportes, mostra algumas características importantes dos sistemas de transporte, e de sua influência no metabolismo celular. Em primeiro lugar, há que ressaltar a eficiente bomba iônica de extrusão de prótons (5 a 20 pmoles/cm2/seg) de caráter eletrogênico, e que funciona como sistema primário de transporte, permitindo a criação de potenciais que possam ser favoráveis ao transporte unidirecional (uniporte) de cátions. Este mesmo mecanismo acaba por gerar grandientes de prótons (de fora para dentro) que permitirão o cotransporte de anions. Inversamente, no tonoplasto, as duas bombas de protons retiram H+ do citosol, acumulando-o do vacúolo. Isso permite o controle do pH citoplasmático e também a geração de um gradiente próton-iônico de dentro para fora, em relação ao vacúolo. Este último gradiente, permitirá a saída de NO3 - e de malato do vacúolo (Figura 15). Este esquema de transportes mostra ainda claramente os mecanismos de exclusão de Ca++ e de Na+ do citoplasma. No caso do Ca++, ele tanto pode ser eliminado da célula via bomba iônica, quando transportado rapidamente para o vacúolo via canal iônico. No caso do Na+, o íon pode ser trocado por um proton de fora da célula, via plasmalema, ou trocado por um proton do vacúolo, via tonoplasto. De qualquer maneira estes mecanismos evitam o acúmulo de Ca++ no citoplasma, mantendo sua atividade citoplasmática em torno de 10-6 M. Também evitam o acúmulo de Na+,que poderia perturbar o funcionamento de sistemas enzimáticos em que K+ tem um papel essencial. 36 É interessante observar que o gradiente próton-iônico vacúolo/citoplasma é garantido por duas bombas iônicas (uma das quais H+-PPiase), e ocorre mesmo sob condições de stress de oxigênio (baixas pressões de O2). Com isto, a planta tem o potencial de retirar NO3- do vacúolo, e usá-lo no metabolismo de N, o que viabiliza o vacúolo como compartimento de reserva de N nas plantas. 4 CONTROLE DE PH NAS CÉLULAS Para que as atividades enzimáticas ocorram a um nível ótimo para o metabolismo, o pH citoplasmático deve ser mantido um pouco acima da neutralidade (7,3). Como se pode antever do estudo dos mecanismos de absorção de nutrientes, este pH ótimo pode facilmente ser mudado. Extrusão de H+, entrada de H+ nas células, ou bombeamento de H+ para o interior do vacúolo podem afetar o pH celular. Além desses mecanismos, a constante produção de ácidos orgânicos também contribui para essas mudanças no pH celular. Pequenas variações de pH (entre 0.2 e 0.3 unidades de pH) podem ser controladas pela capacidade tampão do citoplasma. Esta capacidade gira em torno de 20 mmol de H+ por litro por unidade de pH. A eficiência deste mecanismo também é de curta duração (6 a 8 minutos). Quando as variações do pH citoplasmático vão além desta capacidade de tamponamento natural da célula, um segundo mecanismo de controle é acionado. Neste caso, o metabolismo celular cria ou destrói ácidos orgânicos para controlar as variações do pH celular. Em casos de aumentos de pH, ácidos orgânicos são gerados, a partir de precursores neutros, com o consumo de CO2 e OH -. Nos casos de queda de pH, ácidos orgânicos são descarboxilados, com a liberação de CO2 e OH -. O ácido orgânico formado é o malato, e sua descarboxilação dá origem ao piruvato. Esquematicamente, este mecanismo pode ser assim descrito: 37 Este mecanismo é chamado de "sintonia fina". Quando as variações de pH celular são superiores a capacidade de controle deste mecanismo bioquímico de sintonia fina, entram em ação os sistemas fisico-químico de controle, fazendo a extrusão de prótons através da plasmalema, ou bombeando prótons para o vacúolo através do tonoplasto. A extrusão de prótons, além dos importantes efeitos que tem sobre o metabolismo celular, afeta o espaço livre (macro e micro poros e o espaço intercelular) aumentando a extensibilidade plástica da parede celular por ativação de enzimas hidrolíticas de polissacarídeos, o que permite o deslizamento das microfibrilas e a expansão celular. Os efeitos da extrusão de prótons podem também se extender além deste espaço livre celular, afetando o pH do rizocilindro e mesmo da rizosfera como um todo. Na figura 16, temos um exemplo de como a absorção de K+, via canal iônico ou via simporte afeta o pH da solução externa. A figura 16 mostra a variação de pH observado no meio de cultivo (K2SO4 + CaSO4), em função da absorção de K + por plantas de arroz. A rápida queda do conteúdo de K+ (Figura 16 A e B) corresponde à faixa de absorção via canal iônico. A contrapartida é a extrusão de H+, com queda de pH. Na extremidade oposta (Figura 16 A e C), quando a percentagem de K+ se aproxima de zero, afeta o simporte H+/K+, com predomínio dessa fase o pH sobe. 38 Sob condições normais de metabolismo, a absorção de cátions e de ânions resulta em influxo líquido de um excesso de carga negativa. Experiências feitas com 62 espécies, mostraram que a soma de K+, Na++, Mg++, e Ca++ na parte aérea dessas plantas produz um total de 2,5 meq/g de carga. A absorção de NO3 -, SO4 -- , H2PO4 - e Cl- por outro lado, produz um total de 3,6 meq/g de carga. Nestas condições, há um desequilíbrio em favor de cargas negativas, o que pode resultar, em médio prazo, na necessidade de que a planta faça a extrusão de cargas negativas (ou absorção de H+). Figura 16. A absorção de K+ estimula a extrusão de H+ e resulta em queda do pH da solução externa (A e B). Em concentração muito baixa de K+, um sistema de co-transporte (simporte) elva o pH da solução externa (A e C). 39 É preciso observar, entretanto, que o NO3 -é responsável por cerca de 50% do total de anions absorvidos pelas plantas. Assim, se o suprimento de N às plantas for feito via fixação de N2, ou através de N-NH4 +, estaequação (balanço entre cátions e anions) é alterada, e a planta passa a absorver um excesso de carga positiva. Neste caso, mantendo-se esta tendência por períodos longos de tempo, deve ocorrer uma extrusão ativa de prótons, para reequilibrar as cargas no interior do citoplasma, e controlar o pH celular. 5 CINÉTICA DE ABSORÇÃO DE IONS O grupo que estudava nutrição de plantas em Davis (Rains e Epstein, 1967; Rains, 1976), fez um experimento que consistiu em colocar raízes, envoltas em gaze, em bechers contendo soluções de K+, de concentração crescente. Por exemplo, concentrações de K+ de 0,002 mM a 0,2 mM, a intervalos constantes. As raízes ficaram em contato com a solução por um certo período de tempo (20 minutos a 1 hora). Ao fim deste período um grama de raízes foi pesado e o seu conteúdo em K+ determinado (na esses autores usaram Rb+, que tem um isótopo de vida mais longa para substituir o K, e mediram a radiação emitida pelas raízes). Os trabalhos iniciais de Epstein e seu grupo em Davis mostraram que a absorção de K mostrava cinética de saturação (figura 17). Figura 17. Gráfico da velocidade de absorção (V em µmoles/g/h) em função da concentração do íon (M) 40 Relacionando-se o desaparecimento do K+ à sua absorção pelas raízes das plantas, e conhecendo-se o peso das raízes, teremos então a absorção de certa quantidade de íons, por unidade de peso de raízes, por tempo. Por exemplo, teremos 10 umoles de K sendo absorvidos por grama de raízes por hora. Ou seja, umoles K/ g/ hora = velocidade de absorção. Logicamente, quando a concentração é mínima (próxima de zero) a velocidade de absorção do ion é muito baixa, quase zero. À medida que aumenta a concentração do íon na solução aumenta a velocidade de absorção. Entretanto, este fenômeno não é linear na faixa de concentração que estamos considerando. Ou seja, vamos chegar a certa concentração do íon na solução a partir da qual os aumentos na velocidade de absorção serão negligíveis, mesmo que a concentração do íon continue a crescer. O resultado desta experiência pode ser colocado em um gráfico, em que no eixo dos X teremos as concentrações de K (mM), e no eixo dos Y as velocidades de absorção (µmol./g/hr) (Figuras 17 e 18). Imagine-se agora uma roleta de estádio de futebol, com pessoas chegando para entrar antes do jogo. Quando apenas uma pessoa está do lado de fora, a velocidade de entrada das pessoas é mínima. À medida que aumenta o número de pessoas a velocidade de entrada também aumenta, até que uma velocidade máxima é alcançada. A partir desse ponto, mesmo que aumente o número de pessoas do lado de fora, a velocidade não aumenta mais. Seria correto dizer que a partir desse ponto os aumentos de velocidade de entrada são negligíveis. Os limites de velocidade de entrada das pessoas no estádio são fixadas pelo tempo necessário para que a roleta gire permitindo a passagem de uma pessoa do lado de fora para o lado de dentro, ficando livre para que a próxima pessoa seja transportada. Em linguagem de cinética de absorção, dizemos que há uma limitação de velocidade, neste caso devido à razão de turnover. O influxo de pessoas no estádio vai depender não apenas da velocidade de entrada de cada roleta, mas também do número total de roletas que estão sendo efetivamente usadas em dado momento (Vmáx). Ou, em linguagem de cinética de absorção, a velocidade de absorção de íons em um dado momento será: v= Vmáx x θθθθ em que θ (fator intensidade) é a fração do total de sítios de transporte sendo efetivamente utilizados em um dado momento (N° de roletas disponíveis). 41 Quando verificamos a curva resultante do gráfico da velocidade versus concentração temos uma hipérbole quadrada (Figuras 17 e 18). Pode-se observar nesta curva, que inicialmente, quando a concentração aumenta, a velocidade de absorção aumenta quase linearmente. A seguir, a inclinação da curva começa a diminuir, e deixa de existir proporcionalidade entre os aumentos de concentração e velocidade de absorção. A partir de concentrações maiores, a curva começa a se aproximar assintoticamente de um ponto a que chamaremos velocidade máxima (máx). Vmáx. é linguagem emprestada da cinética enzimática, em Nutrição de Plantas, podemos usar Influxo máximo, Imáx. Fica claro por este gráfico, que de nada adianta aumentar as concentrações de K+ além de 0,2mM. Diz-se que, neste ponto, houve saturação. Ou seja, a absorção de K+ mostra cinética de saturação. Neste gráfico, chamamos de Vmáx, à máxima velocidade que o sistema atinge, a uma dada concentração. Agora podemos a partir do eixo dos Y (da velocidade) em direção à curva, determinar a concentração do nutriente (K) na qual, a absorção atinge a metade da velocidade máxima. Este ponto é o Km aparente. Por Km aparente, entendemos a concentração do substrato na qual o processo de absorção atinge a metade da sua velocidade máxima (Vmáx/2). Figura 18. Diferentes isotermas são formadas (são mostradas aqui apenas como I e II), à medida que a concentração K+ aumenta na solução externa. 42 Vmáx é o máximo de transporte possível, quanto todos os sítios dos transportadores estão carregados é o fator capacidade. Chamaremos de teta (ø) à fração do transportador que está sendo efetivamente utilizado a uma determinada concentração do substrato. É também chamado de fator intensidade. v= Vmáx. ø [M] ø = _____ e assim teremos a: [M] = concentração do ion a ser absorvido. Km + [M] Vmáx [M] v = __________ Km + [M] Esta última equação descreve a hipérbole obtida na figura 18. Em nutrição de plantas, o Km aparente é uma medida da afinidade do sistema transportador (na raiz) pelo íon a ser transportado. Neste caso, quanto menor o Km, maior a afinidade do sistema pelo íon. Inversamente, quanto maior o Km, menor a afinidade do sistema pelo íon a ser transportado. Outros modelos de representação gráfica deste sistema podem ser usados. Aqui usaremos apenas uma outra possibilidade; o modelo Lineweaver-Burk. Este modelo usa um gráfico duplo invertido, assim, no eixo das ordenadas (Y) teremos 1/V e no eixo X teremos 1/[M]. O resultado é que a hipérbole do caso anterior é transformada em uma reta. Este tipo de gráfico tem uma grande vantagem sobre o anterior, a Vmáx é obtida com exatidão, isto porque a intercessão da reta com o eixo Y é 1/Vmáx. (Figura 19) 43 A faixa de concentração que estamos usando neste caso (0 a 0,2 mM) está dentro dos limites do mecanismo de alta afinidade para absorção de K, mecanismo I (Epstein & Bloom, 2005). Quando as concentrações externas de K vão muito além desse limite, surge uma segunda isoterma, que foi chamada por Epstein de mecanismo II. Na verdade, esta segunda isoterma é uma soma de várias isotermas que surgem nas faixas de alta concentração de K (Figura 18). Em uma primeira aproximação, podemos considerar que no caso do K, a primeira isoterma corresponde à faixa do transporte ativo do íon (K+/H+) (Mecanismo I), enquanto que as isotermas das faixas de maior concentração refletem a absorção via canais iônicos (uniporte) (Mecanismo II). A figura 16, baseada em trabalho de V. Pimentel (resultados não publicados) exemplifica esses casos. A faixa do mecanismo I, da figura 18, é também denominada de “Sistema de transporte de alta afinidade” (HATS em língua inglesa). A faixa do mecanismo II representa o “Sistema de transporte de baixa afinidade” (LATS em língua inglesa). Para o NO3 -, o NH4 + e o K+, a grosso modo, as concentrações de 1mM do íon em solução externa pode ser usada como limite entre os dois mecanismos. Figura 19.Gráfico duplo invertido de Lineweaver-Burk, indicando os inversos de velocidade x concentração, o que transforma a hipérbole quadrada em reta 44 6 INTERAÇÕES IÔNICAS Embora o transporte de íons seja específico isto é; cada espécie iônica é transportada através de um sítio particular, seja ele um tipo qualquer de transportador (ATP-ase específica, canal iônico, ou um sistema acoplado de transporte, cotransporte), existem situações em que dois ou mais íons por sua semelhança em termos de raio iônico e carga podem ser transportados pelo mesmo sistema. O caso mais óbvio, pelo seu largo uso em pesquisa científica, é o dos íons K+ e Rb+. Os sistemas transportadores de K+ não conseguem distinguir entre o íon K+ e o íon Rb+ . Como não existem isótopos estáveis de K+, o fato do transportador de K+ também transportar Rb+, permite o uso de um isótopo de Rb+ como traçador para K+. Outros casos existem em que este tipo de interação é evidente. O íon SeO4 = e o íon SO4 = são outros exemplos de interação deste tipo. Interações deste tipo são chamadas de interações competitivas. Nas interações competitivas o íon competidor compete de modo reversível com o íon nativo (no caso acima, Rb+ é o íon competidor, e K+ o íon nativo) pelo mesmo lugar no transportador. Neste caso, não ocorrem mudanças no total de sítios disponíveis, mas sim na fração do total de sítios que ficam disponíveis para o íon nativo. Como o total de sítios transportadores não muda, se representarmos graficamente este processo de interação, usando o gráfico de Lineweaver-Burk, teremos então a figura 21. Figura 21. Efeito de um íon competidor (linhas pontilhadas) sobre a absorção do íon nativo 45 A intensidade deste tipo de competição depende: a) da concentração do íon nativo b) da concentração do íon competidor c) das afinidades relativas dos íons nativos e competidor em relação ao sistema transportador. Um outro parâmetro foi introduzido no estudo da cinética de absorção, o Cmin. Que representa a concentração do íon na solução externa a partir da qual não se observa mais influxo líquido desse íon. Todos estes parâmetros (Vmáx, Km, e Cmin) são geneticamente determinados e refletem as pressões relativas a que as planta foi submetida ao longo do processo de evolução. Na Tabela 4, temos a variação dos parâmetros cinéticos na absorção de NH4 + para duas variedades de arroz: uma variedade tradicional (Bico Ganga) e uma variedade melhorada (Agulha). Observa-se que com o aumento das concentrações de N-NH4 + na solução nutritiva a Vmáx para a variedade Agulha aumenta, enquanto que para a variedade Bico Ganga diminui. Os valores de Cmin para a variedade Bico Ganga são menores do que para a Agulha, indicando que ainda há influxo de NH4 + na variedade tradicional mesmo em menores concentrações externas. Os maiores valores de Vmáx associados aos valores baixos de Cmin, apresentado pela variedade Bico Ganga tanto aos 25 quanto aos 50 dias, quando cultivadas com 20 mg de N-NH4 + .L-1 sugerem maior capacidade de absorção de N em condições de menor disponibilidade desse nutriente, sendo um indicativo de adaptabilidade à ambientes com baixa fertilidade natural. Os métodos de estudo da cinética de absorção foram modificados por Claassen e Barber (1974). Ao invés de vários recipientes com concentrações diferentes do nutriente, um só vaso é usado, e a depleção de nutriente é medida a intervalos regulares de tempo. A curva de depleção é então usada para determinar os parâmetros cinéticos. Baseado neste conceito, um método gráfico- matemático foi desenvolvido por Ruiz (1985), e um software usado para estimativas das constantes Vmáx e Km (Ruiz e Fernandes Filho, 1992). Um CD com uma versão deste software desenvolvido para ambiente Windows, e as instruções sobre como usá-lo, estão no anexo I deste volume. 46 Tabela 4. Parâmetros Vmáx, Km e Cmin em plantas de arroz (variedades Agulha e Bico Ganga) aos 25 e 50 dias, submetidas a quatro níveis de N-NH4 + em solução nutritiva (Baptista, Fernandes e Souza, 2001) Vmáx (µmol L-1.h-1) Km (mmol L-1) Cmin (mmol L-1) N-NH4 + (mgL-1) Agulha Bico Ganga Agulha Bico Ganga Agulha Bico Ganga ________________________________25 dias______________________________ 20 16,27b 22,10a 0,513b 0,577a 0,252a 0,222b 40 28,50ns 29,50ns 1,061a 0,867b 0,868a 0,828b 60 34,20a 32,90ab 2,796ns 2,691ns 1,377b 1,537a 80 54,60a 44,29b 3,514b 4,510a 2,049b 2,134a ________________________________50 dias______________________________ 20 20,31b 41,70a 0,836a 0,518b 0,389a 0,119b 40 32,40b 35,50a 2,044a 1,645b 1,606a 0,708b 60 100,60a 52,20b 3,450a 2,938b 1,208b 1,374a 80 134,81a 11,60b 3,517ns 3,582ns 1,873b 2,880a Médias seguidas de letras iguais na mesma linha, para cada parâmetro não diferem significativamente pelo teste de Tukey 5% 7 TRANSLOCAÇÃO DE NUTRIENTES Os nutrientes, após deslocamento por via simplástica ou apoplástica alcançam as células do parênquima vascular, e um processo inverso tem lugar, com o efluxo dos nutrientes para o espaço livre da área estelar. Esses nutrientes e a água seguem então via xilema para a parte aérea das plantas onde são novamente depositados no espaço livre das células. Para participar do metabolismo celular, esses nutrientes precisam atravessar novamente a barreira da plasmalema (Figura 23) A saída de cátions e ânions das células do parênquima estelar para o apoplasma e consequentemente o xilema requer o funcionamento de canais iônicos tanto para cátions como já foi mostrado para K+, como para ânions. Canais de efluxo de anions podem ser ativados por hiperpolarização das plasmalema. É possível, entretanto, que canais para cátions e anions atuem simultaneamente (Roberts, 2006). Temos agora uma visão de conjunto do sistema de aquisição de nutrientes pelas plantas via sistema radicular: os nutrientes são absorvidos via plasmalema das células da epiderme, córtex ou pêlos radiculares, que do ponto de vista do conjunto (trans-root) podem ser classificadas como 47 células periféricas (Roberts, 2006), internamente, estão as células estelares que atuam na liberação dos nutrientes para o apoplasma estelar e vasos do xilema (Roberts, 2006). Como pode ser visto no esquema da figura 22, nutrientes como o H2PO4 - e K+ são absorvidos por células da epiderme e córtex, respectivamente, via canais iônicos e transportadores. Circulando via plasmodesmas esses íons ultrapassam a barreira da endoderme e alcançam as células do parênquima estelar. Nas células do parênquima estelar esses nutrientes são passíveis de efluxo, e podem deslocar-se para o apoplasma, seguindo para o xilema acompanhando o fluxo de água. Via xilema os nutrientes alcançam a parte aérea das plantas, ou outras partes (incluindo raízes em crescimento) que podem funcionar como drenos (Fernandes e Souza, 2004). Na parte aérea, os nutrientes encontram-se num espaço que seria o equivalente ao espaço livre das raízes. Novamente precisam deslocar-se através de macro e micro poros, vencer as barreiras dos espaços de Donnan, e alcançar a plasmalema das células, onde podem ser transportados para o citossol. Os nutrientes assim absorvidos podem entrar no metabolismo celular, ou ser deslocados por via simplástica em direção aos vasos condutores. Em alguns casos, conexões podem ser estabelecidas com as células companheiras, mas o mais provável, é que esses nutrientes, juntamente com produtos do metabolismo celular sofram efluxo para o apoplasma, e depois voltem a ser absorvidos, via transportadores, através da plasmalema das células companheiras. A partir daí, alguns nutrientes podem se deslocar diretamente via floema na direção dos drenos. Outros nutrientes, entretanto, apenas após sofrerem transformações (assimilação) são deslocados no floema (Figura 22). O deslocamento de íons pode ser feito como pares iônicos.Por exemplo, o NO3 - e o K+ deslocam-se juntos no xilema. No sentido inverso, nutrientes podem também ser translocados via floema (Fernandes e Souza, 2004). Entretanto, nem todos os nutrientes conseguem se deslocar no floema em forma iônica. O NO3 - por exemplo, não se desloca no floema. O N é geralmente movimentado no floema como aminoácidos ou amidas. O K+ por outro lado, desloca-se no floema, e como acontece no transporte no xilema, e geralmente o faz em companhia de um anion, neste caso de ácidos orgânicos (R-COO-). O resultado dessa mobilidade é o fenômeno da “recirculação do K+” entre raiz-parte aérea-raíz. O cálcio, o enxofre e o ferro que também são transportados para a parte aérea, via xilema, ao contrario do K+, não circulam no floema. O cálcio e o ferro são particularmente pouco móveis na planta. Uma vez localizados em um tecido vegetal, não são mais remobilizados para outra parte da planta. É conhecido um tipo de clorose chamada “clorose de topo” característica de deficiência de ferro. Isto ocorre porque o ferro não se desloca das folhas mais velhas para as mais novas. Como 48 resultado, são as folhas mais novas que apresentam clorose. No caso de elementos de grande mobilidade como o nitrogênio, sua deficiência gera clorose das folhas mais velhas, que perdem o nutriente em uma relação fonte-dreno (Fernandes e Souza, 2004). Em todo esse processo ao longo da via de absorção, translocação e efluxo há uma demanda de energia, principalmente via ativação das ATPases, para a absorção de nutrientes, seja nas células da epiderme, do córtex da raiz, ou nas células de folhas, bainhas e caule. O processo como um todo resulta, portanto em um custo energético, principalmente para a geração de gradiente de potencial entre compartimentos da célula, e o apoplasma. Após o deslocamento no floema, sempre no sentido fonte dreno, os nutrientes podem seguir por via simplástica, para as células dos frutos ou sementes, ou para células em crescimento nas raízes. Como pode ser visto na figura 22, ocorre então uma última etapa de efluxo (para o apoplasma) e nova absorção, desta vez para as células do destino final. 49 Figura 22. Esquema da circulação dos nutrientes desde sua absorção por células epidérmicas ou corticais; circulação no xilema e no floema, e redistribuição entre células da parte aérea e da raiz (Modificado a partir de Sondergaard et al., 2004). 50 8 REFERENCIAS AZEVEDO, L. Absorção e remobilização de NO3 - em arroz (Oryza sativa L.): Atividade das bombas de prótons e a dinâmica do processo. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Seropédica, RJ, 2006. 94 p. BARBER, S.A. Soil nutrient bioavailability: a mechanistic approach. New York: John Wiley, 1984. 398 BUCHER, C.A.; SOUZA, R.S.; FERNANDES, M.S. Effects of Fusicoccin and Vanadate on Proton Extrusion and Potassium Uptake by Rice. J. Plant Nutrit. 28:00-00, 2006. CLAASSEN, N. & BARBER, S.A.A. Method for characterizing the relation between nutrient concentration and flux into roots of intact plants. Plant Physiology, 54:564-568. 1974. EPSTEIN, E.; BLOOM, A. J. Mineral Nutrition of Plants: Principles and Perspectives, Second Edition, Sinauer Associates, Inc. Publishers, Sunderland, Massachusetts, USA 2005, 400 p. RAINS, D.W. Light enhanced potassium absorption by corn leaf tissue. Science, 156: 1382-1383, 1967. RAINS, D.W.; EPSTEIN, E. Sodium absorptioun by barley roots: role of the dual mechanism of alkali transport. Plant Physiology, 42:314-318, 1967. FERNANDES, M.; SOUZA, S.R. Transporte no Floema. In: Kerbauy, G.B.,ed. Fisiolologia Vegetal. 1.ed. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 2004. p.179-197. GLASS, A.D.M.;SHAFF, J.E.; KOCHIAN, L.V. Studies of nitrate uptake in barley. IV Electrophysiology. Plant Physiology. 99:456-463, 1992. KAWASAKI-NISHI, S.; NISHI, T.; FORGAC, M. Proton translocation driven by ATP hydrolysis in V-ATPase. FEBS Letter, Boston, MA, USA,545:73-83, 2003. 51 LÜTTGE, U. & HIGINBOTHAN, N. Transport in plants. Spring-Verlag, New York, 1979, 468 p. NELSON, D.L.; COX, M. Lehninger Principles of Biochemistry, Worth Publishers, Inc. Fourth Edition: 2004 RAO, P.K. & RAINS, D.W. Nitrate absorption by barley. 1. Kinetics and energetics. Plant Physiol., 57:55-8, 1976. RAVEN, P.H.; EVERT, R.F.; EICHHORN, S.E. Biologia Vegetal, 6.ed. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan 2001. 906 p. ROBERTS, S. Plasma membrane anion channels in higher plant and their putative functions in roots. New Phytol., 169:647-666, 2006. RUIZ, H.A; FERNANDES FILHO, E.I. Cinética: software para estimar as constantes Vmáx e Km da equação de Michaelis-Menten. In: Reunião Brasileira de Fertilidade do Solo e Nutrição de Plantas. Piracicaba. Anais, Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, 1992. p.124-125. SOUZA, M.A.A. Variação nas condições de cultivo hidropônico de plantas de hortelã (Mentha piperita) visando ao aumento da produção de óleos essenciais. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Seropédica, RJ, 2006. 104 p. SONDERGAARD, T.E.; SCHULZ, A.; PALMGREN, M. Energization of transport processes in plant. Roles of the plasma membrane H+-ATPase. Plant Physiol. 136:2475-2482, 2004. VON WIRÉN, N.; GAZZARRINI, S.; GOJON, A.; FROMMER, W.B. The molecular physiology of ammonium uptake and retrieval. Plant Biol., 3:254-261, 2000. ZIMMERMANN,S.; SENTENAC, H. Plant ion channels: from molecular structures to physiological functions. Cell Biol., 2:477-482, 1999. CAPÍTULO 6 FIXAÇÃO BIOLÓGICA DE NITROGÊNIO SIMBIÓTICA E ASSOCIATIVA Veronica Massena Reis1,3, André Luiz de Martinez de Oliveira1, Vera Lucia Divan Baldani1, Fábio Lopes Olivares2 & José Ivo Baldani1. 1Embrapa Agrobiologia, Rodovia 465, km 7, CP 74505, CEP 23851-970, Seropédica, Rio de Janeiro, Brasil. 2Centro de Biociências e Biotecnologia, Universidade Estadual do Norte Fluminense, Campo dos Goytacazes, RJ, Brazil. Autor para correspondência: veronica@cnpab.embrapa.br SUMÁRIO 1 Introdução.......................................................................................................... 2 2 Mecanismos de fixação biológica de nitrogênio ............................................... 5 3 Quem são os organismos responsáveis por esta fixação biológica de nitrogênio? ........................................................................................................................ 7 4 Onde ocorre o processo de fixação biológica de nitrogênio.............................. 9 4.1 Formação do nódulo .......................................................................................... 9 4.2 Interações associativas..................................................................................... 11 4.3 Associações com bactérias diazotróficas endofíticas ...................................... 12 4.4 Vida livre ......................................................................................................... 14 5 Fixação Biológica de Nitrogênio e o ambiente ............................................... 15 6 Absorção de nitrogênio fixado pelas plantas................................................... 17 7 Quantificação da FBN ..................................................................................... 22 7.1 Métodos para estimar a contribuição da FBN ................................................. 24 7.1.1 Redução de acetileno ...................................................................... 24 7.1.2 Balanço de N .................................................................................. 25 7.1.3 Técnicas isotópicas – 15N ............................................................... 26 8 Potencial de uso agrícola e otimização da FBN .............................................. 28 9 Perspectivas Futuras ........................................................................................29 10 Referencias bibliográfica................................................................................. 32 1 INTRODUÇÃO Um dos mais importantes processos conhecido na natureza e realizado apenas por microrganismos procariotos é o da fixação biológica de nitrogênio (FBN). A primeira publicação sobre a capacidade das bactérias fixarem nitrogênio atmosférico e este ser absorvido pelas plantas foi descrita em 1888. A incorporação de nitrogênio via FBN aos diferentes ecossistemas de nosso planeta é bastante elevada, representando uma economia substancial de energia fóssil, normalmente empregada na produção de fertilizantes nitrogenados necessários para atender a demanda da agricultura mundial. Para se ter uma idéia, a contribuição da fixação biológica de nitrogênio para o total de N introduzido em sistemas agrícolas no mundo, é estimada em 65 %. A disponibilidade de nitrogênio para os vegetais em sistemas naturais ocorre principalmente pela mineralização da matéria orgânica do solo (ciclagem de nutrientes), haja vista o pequeno conteúdo deste nutriente nos minerais do solo. Apesar disto, a grande maioria do nitrogênio do solo está presente em frações cuja mineralização é bastante lenta (húmus e argilosilicatos), sendo mineralizado (disponibilizado para absorção pelas raízes) apenas 2 % a 3 % do N total presente no solo a cada ano. Esta fração mineralizável está ainda sujeita à perdas por lixiviação, volatilização e desnitrificação, além da imobilização e adsorção pelas partículas do solo. A primeira bactéria fixadora de nitrogênio atmosférico, também conhecida como diazotrófica, foi descrita em 1893. Desde o começo, esta descoberta gerou um grande impacto e vasta literatura no tema, sendo até hoje os rizóbios as mais estudadas. Atualmente o uso de técnicas moleculares tem possibilitado a reclassificação e o conhecimento da grande diversidade existente neste grupo de bactérias. Estes são reconhecidos pela capacidade de formar nódulos, principalmente na família das leguminosas. Hoje se sabe que estes nódulos podem ser formados por outros gêneros, tais como Herbaspirillum, Ralstonia, Orthrobactum, etc., deixando de ser exclusividade de um pequeno grupo de microrganismos. Os nódulos não são exclusividade das raízes, mas também podem ocorrer nos caules de plantas que sofrem períodos de alagamento. Ainda que as maiores contribuições da fixação biológica de nitrogênio tenham sido detectadas em oceanos e plantas leguminosas, algumas plantas da família Poacea (antiga família Gramineae) têm mostrado um potencial bastante significativo de fixação biológica de nitrogênio. No caso específico da cultura de cana-de-açúcar cultivada no Brasil, esses ganhos são bastante expressivos, podendo gerar uma economia potencial de cerca de 200 milhões de reais por ano se considerarmos que o processo de fixação biológica de nitrogênio contribui com cerca de 65 % do N acumulado pela cultura. Ainda que possamos considerar esses ganhos apenas razoáveis quando comparados ao das leguminosas, a fixação biológica de nitrogênio tem um papel fundamental a exercer também no ambiente, principalmente pela redução dos níveis de nitrato acumulado nos lagos e rios, devido à lixiviação do nitrogênio aplicado na forma de fertilizantes. A seguir, apresentamos a tabela contendo os gêneros de microrganismos fixadores de nitrogênio conhecidos atualmente. Esta tabela tem como base a atual classificação dos microrganismos baseada na evolução e foi proposta e aceita a partir dos anos 70. A molécula usada para diferenciar os grupos, é a subunidade 16 S (S de Svedberg – unidade de sedimentação de moléculas) do ácido ribonuclêico ribossomal (ARN). Como esta molécula possui em torno de 1500 pares de bases e seu arranjo espacial permite a sua divisão em regiões chamadas de hipervariáveis e sua variação na composição dos pares de bases é usada na formação dos três super-reinos: Archae (archae = antigo – bactérias ancestrais), Eubactéria (Eubactéria – bactéria verdadeira) e Eucaria (organismos que possuem membrana nuclear) (maiores detalhes Sapp, 2005) Tabela 1: Grupo e gênero de microrganismos fixadores de nitrogênio conhecidos atualmente. Esta classificação está baseada na organização dos grupos de microrganismos levando em consideração a evolução destes usando a variabilidade genética presente na composição de pares de bases da subunidade 16 S do ácido ribonuclêico (ARN) ribossomal (16 S rRNA). Grupo Gênero Grupo Gênero Alfa Azospirillum Gamma cont. Scytonema Gluconacetobacter Symploca Mesorhizobium Synechococcus (Cyanothece) Rhodobacter Synechocystis (marine) Rhodospirillum Tolypothrix Rhizobium Trichodesmium Sinorhizobium Xenococcus Beijerinckia Delta Desulfobacter Methylocella Desulfomicrobium Methylosinus Desulfovibrio Methylocystis Desulfotomaculum Bradyrhizobium Desulfonema Methylocystis Firmicutes Frankia Xanthobacter Paenibacillus Methanosarcina Clostridium Beta Alcaligenes Acetobacterium Burkholderia Desulfosporosinus Herbaspirillum Spirochaetes Spirochaeta Azoarcus Treponema Thiobacillus Spirochaeta Epsilon Arcobacter Treponema Gamma Anabaena Spirochaeta Azotobacter Spirochaeta Chlorogloeopsis Treponema Calothrix Archae Methanobrevibacter Cyanothece Methanococcus Dermacarpa Methanothermobacter Fischerella Methanosarcina Gloeothece Methanothermobacter Lyngbya Methanopyrus Myxosarcina Methanococcus Nostoc Methanocaldococcus Oscillatoria Heliobacteria Heliobacterium Phormidium Cyanobacteria Grupo das Cyanothece Plectonema Grupo das Gloeocapsa Pseudanabaena Gloeothece Adaptado de Zehr,J.P.; Jenkins,B.D.; Short,S.M.; Steward,G.F (2003). 2 MECANISMOS DE FIXAÇÃO BIOLÓGICA DE NITROGÊNIO Todos os microrganismos fixadores de nitrogênio são procariotos e esta habilidade está distribuída entre os super-reinos Archaea e Eubacteria. Todos eles possuem o complexo nitrogenase, que hidrolisa 16 adenosinas tri-fosfato (ATP) e 8 elétrons por molécula de nitrogênio fixado, sendo um dos processos metabólicos mais caros para a célula. Estudos têm mostrado que a quantidade de N fixado no planeta gira em torno de 2 x 1013 g por ano. A nitrogenase, é um complexo enzimático redox-ativo que hidrolisa ATPs para efetuar a redução do N molecular (N2). É formado por duas subunidades, um heterotetrâmero, a dinitrogenase α2β2, e um homodímero, a dinitrogenase redutase γ2. A subunidade α contem um sítio ativo para a redução do nitrogênio, composto de molibdênio, ferro e enxofre – MoFe7S9 chamado de FeMo- cofator. Alguns microrganismos contêm nitrogenases ditas alternativas, onde o Mo é trocado pelo Vanádio (V) ou Ferro (Fe) e os genes que codificam estas nitrogenases são denominados de Vnf e Anf respectivamente, no lugar do Nif. Até o momento, poucas bactérias diazotróficas descritos possuem estas nitrogenases alternativas, mas todas possuem a nitrogenase de Molibdênio. As alternativas só são expressas na falta de Mo, sendo que a de vanádio expressa preferencialmente à de ferro. Nesta mesma ordem está a eficiência de redução do nitrogênio (Loveless, T.M., Saah, J.R., & Bishop, P.E. 1999;. Miller & Eady, 1988). A estequiometria da reação de redução do N2 até NH3 é apresentada na equação 1. Equação 1 – N2 + 8 H + + 8e- + 16 ATP = 2 NH3 + H2 + 16 ADP + 16 Pi Por ser uma enzima redutora, o oxigênio reprime a expressão da nitrogenase ou inativa quando já sintetizada e em funcionamento. No caso dos microrganismos diazotróficos aeróbicos, que precisam de oxigênio para crescer, alguns mecanismos de proteção podem atuar quando o processo de fixação biológica de nitrogênio está ativo. Além disso, por ser um processo fisiológico que requer uma grande quantidade de energia, a sua regulação é controlada em diversos momentos, através da ação modular de genes reguladores.A disponibilidade energética da célula, idade fisiológica, concentração de oxigênio, presença de alguns aminoácidos essenciais, disponibilidade de oxigênio e nitrogênio em excesso (principalmente o amônio) são alguns dos fatores que inibem a atividade da nitrogenase. A tabela 2 apresenta alguns mecanismos de proteção contra concentrações elevadas de oxigênio (O2) presentes em microrganismos diazotróficos. Geralmente a fixação biológica de nitrogênio é ativa em baixas pressões de O2 (<0.1 % v/v). Tabela 2. Mecanismos de proteção contra o oxigênio Mecanismo Forma de ação Organismo Aerotaxia Busca por baixas pressões de oxigênio Azospirillum Proteção Respiração Azotobacter, Derxia Hemoglobina que combina eficientemente com O2 nódulos de rizóbio, casuarina-Frankia Simbiose Algumas proteínas protegem exposição ao O2 – proteção conformacional Azotobacter Separação espacial Heterocistos - não fazem fotossíntese e não envolve O2 Cianobacteria Vesículas na simbiose de Frankia Frankia Colônia, diferencia em filamentos fotossintéticos e filamentos fixadores de nitrogênio Scenedesmium - microrganismo marinho Separação no tempo Fotossíntese durante o dia e FBN à noite. Cianobacteria Mudança de metabolismo Facultativos só fixam em anaerobiose Klebsiellaspp., Clostridium spp. Física Barreira de células contra o O2 Nódulos Produção de polissacarídeos extracelulares Derxia, Beijerinckia Relação superfície/volume celular Azotobacter 3 QUEM SÃO OS ORGANISMOS RESPONSÁVEIS POR ESTA FIXAÇÃO BIOLÓGICA DE NITROGÊNIO? Sabe-se hoje que muitos gêneros e espécies capazes de realizar a FBN estão distribuídos no ambiente e associados às plantas. Estas associações podem variar em especificidade, estrutura, localização, e microrganismo responsável. Temos as bactérias denominadas simbióticas que são capazes de formar nódulos, e pertencem principalmente ao grupo do rizóbio e do gênero Frankia. Temos também bactérias que colonizam os tecidos internos das plantas e são denominadas de bactérias diazotróficas endofíticas. Um terceiro grupo forma associações superficiais aos tecidos radiculares, sobrevivem bem no solo e não são caracterizadas como espécie-específicas, sendo denominadas de associativas. O que todos estes organismos tem em comum é a presença da nitrogenase. Além deste grupo de bactérias heterotróficas, temos as cianobactérias de vida livre, cianobactérias simbióticas, bactérias que vivem no trato digestivo de animais, líquens e bactérias minerotróficas do grupo Archae. A maioria das bactérias diazotróficas está posicionada na subdivisão alfa de Proteobacteria, sendo este o subgrupo mais estudado. Dentro deste grupo estão também posicionados as bactérias simbióticas do gênero Azorhizobium, Bradyrhizobium, Rhizobium e Sinorhizobium, além de organismos fototróficos e metanotróficos, tornando esta subdivisão bastante variável. Já a subdivisão Beta e Gamma de Proteobacteria possuem uma minoria das bactérias diazotróficas descritas. A subdivisão Delta de Proteobacteria possui, em sua maioria, bactérias anaeróbicas obrigatórias redutoras de enxofre, incluindo espécies de Desulfovibrio e Desulfobacter. A descoberta de organismos fixadores de N2 em Archaebacteria foi uma surpresa, o que trouxe à luz a hipótese mais plausível de ter havido um ancestral diazotrófico comum a todos os microrganismos atuais, do que ter ocorrido uma transferência lateral dos genes estruturais da enzima nitrogenase, ou uma evolução independente, e que a separação entre eucariotos e procariotos ocorreu posteriormente a diferenciação de Archaebacteria e Bacteria. Neste grupo, estão inseridas bactérias halófitas, termófitas dependentes de enxofre (como doador ou receptor de elétrons), entre outras, mas nenhum gênero foi descrito com associado a plantas. Existe ainda a simbiose das cianobactérias com diatomáceas, fungos e bactérias. Na simbiose entre Azolla e Anabaena/Nostoc o simbionte está localizado na cavidade foliar de vegetal e a troca de N2 fixado por fotoassimilados é realizada através de pêlos de transferência. Esta simbiose tem importância agrícola principalmente na cultura do arroz inundado. No caso das cianobactérias, ocorre a especialização de um órgão onde ocorre a FBN, o heterocisto. Estas simbioses ocorrem em sistemas aquáticos marinhos ou de água doce, e desempenham um papel fundamental no ciclo de nitrogênio. A simbiose de fungos e cianobactérias formam os liquens que são os pioneiros na pedogênese e na colonização de ambientes inóspitos. Actinomicetos do gênero Frankia formam nódulos radiculares em oito famílias de plantas pertencentes a sete ordens. Estimativas de FBN em espécies destes gêneros se situam entre 40 a 300 kg de N ha-1 ano-1 (Arora, A.& Singh,P.K., 2003). Na Tabela 3 são apresentados alguns tipos de relações simbióticas entre bactérias diazotróficas e organismos vegetais. Tabela 3: Lista de microrganismos fixadores de nitrogênio atmosférico Microrganismo Planta Hospedeira Localização Isolado ??? Grupo Gênero Grupo de Plantas Tecido Dentro ou fora da célula vegetal Bacteria (alfa- Proteobacteria) Rhizobium Bradyrhizobium Azorhizobium Leguminosas e Parasponia Nódulos (induzidos) Dentro Sim Actinomicetos Frankia Betulaceae e 8 familias de árvores Nódulos (induzidos) Dentro Sim Nostoc Bryophytes (Antheros etc.) Cavidade da folha Fora Sim Nostoc (Anabaena?) Pteridophyte (Azolla) Cavidade da folha Fora Não Nostoc Cycadophyta (Cycas, Macrozamia etc.) Raiz coralóide Fora Sim Cianobacteria Nostoc Angiosperm (Gunnera) Tecido da glande Dentro Sim 4 ONDE OCORRE O PROCESSO DE FIXAÇÃO BIOLÓGICA DE NITROGÊNIO 4.1 Formação do nódulo Vários genes específicos controlam os diferentes aspectos do processo de nodulação. Uma estirpe de Rhizobium pode infectar somente algumas espécies de legumes, é o que chamamos de especificidade hospedeira. Por exemplo: Rhizobium leguminosarum biovar viciae, nodula ervilha e R. leguminosarum biovar trifolii. nodula trevo. Existem casos em que a estirpe nodula a planta, mas se não for o seu hospedeiro correto ela não fixa o nitrogênio, sendo chamado de nódulo inefetivo. A efetividade do processo de nodulação é governada por diferentes genes. Os genes nod agem diretamente nos vários estágios de nodulação. No estágio inicial ocorre a liberação de uma variedade de compostos químicos das células radiculares para o solo, influenciando a multiplicação da bactéria no seu estágio de vida livre. Estes compostos são responsáveis pelo reconhecimento do hospedeiro pela bactéria, permitindo a adesão à superfície dos pêlos radiculares. Estas substâncias químicas são chamadas de flavonóides e isoflavonóides e induzem a formação do nódulo. Na etapa seguinte, a bactéria secreta os fatores nod que estimulam a curvatura dos pelos radiculares e a invasão da raiz, que inclui a formação de um cordão de infecção. Este cordão é formado pelas células das raízes em resposta a infecção. A bactéria continua a se multiplicar e a secretar fatores nod, que estimulam a divisão das células radiculares. Após uma semana, o pequeno nódulo é visível e cada nódulo representa um pacote de milhões de células vivas de Rhizobium, que nesta fase são denominados de bacteróides. Estes bacteróides são envolvidos por membrana de origem vegetal conhecidas como membrana peribacteroidal. Existem outras maneiras de formação do nódulo, onde o rizóbio invade a planta por feridas e não há a formação do cordão de infecção. Este é o caso da nodulação de Parasponia (Família Ulmaceae; ordem Urticales). É o único gênero de plantas não leguminosas que possui nódulos do simbionte Bradyrhizobium/Rhizobium. No caso do amendoim e do Estilosantes, o sítio de infecção é a região de emergência da raiz lateral. Também não corre a formação docordão de infecção. Quanto ao tipo de nódulos, podemos ter o clássico nódulo formado na soja, feijão, etc chamado de nódulo de crescimento determinado (circulares). Neste caso, uma Nódulos de crescimento determinado em Dalbergia nigra. Foto: Sergio Miana de Faria (Embrapa Agrobiologia) vez formado ele fixa enquanto a simbiose estiver ativa, facilmente notada pela coloração avermelhada da atividade da leghemoglobina. Uma vez que a simbiose for interrompida, por vários motivos, este nódulo senesce e se despende da planta hospedeira. O outro tipo de formação de nódulos é chamado de indeterminado. Neste caso o nódulo não para de crescer, isto é, o centro responsável pela FBN muda conforme um novo tecido organizado para este fim é formado. São comumente encontrados em espécies arbóreas como os nódulos de Leucena. 4.2 Interações associativas Entre as bactérias que fixam nitrogênio e não formam nódulos, as mais estudadas são as do gênero Azospirillum, principalmente A. brasilense e A. lipoferum. Este gênero está dividido hoje em sete espécies, sendo que estas duas espécies são mais freqüentemente encontradas colonizando a maioria das plantas de regiões tropicais e temperadas, chegando a ser isoladas de gramíneas crescidas em locais gelados como o Nódulos de crescimento indeterminado em simbiose com Acácia podalfriaefolia. . Foto: Dr. Sergio Miana de Faria Embrapa Agrobiologia). Ártico. As espécies citadas acima e A. amazonense tem sido encontradas em associação com plantas monocotiledôneas incluindo milho, arroz, cana-de-açúcar, sorgo e gramíneas forrageiras como Digitaria, Brachiaria além de plantas eudicotiledôneas como palmeiras e fruteiras. Apesar da sua ampla ocorrência, o isolamento da espécie A. amazonense tem se restringido a plantas crescidas em algumas regiões do Brasil, exceto por sua detecção em amostras de plantas de cana-de-açúcar cultivadas no Havaí e Tailândia. As outras quatro espécies possuem poucos relatos de sua presença, sendo que A. halopraeferens foi isolado de uma espécie de grama (Leptochloa fusca L.) crescida em solos salinos no Paquistão, A. doebereinerae (espécie cujo nome homenageia a cientista Johanna Döbereiner) foi isolada de plantas de outra espécie de gramínea forrageira do gênero Miscanthus plantada na Alemanha, e A. irakense foi descrito utilizando amostras do solo da rizosfera e de raízes de plantas de arroz cultivadas no Iraque. Já a espécie A. largimobile é uma reclassificação de Conglomeromonas largomobilis, mas não foi evidenciada a capacidade de fixar nitrogênio. Da mesma forma, outros gêneros e espécies são descritos em associação com diversas plantas e em diversos ecossistemas, mostrando a grande diversidade de organismos diazotróficos no planeta. 4.3 Associações com bactérias diazotróficas endofíticas Algumas bactérias são capazes de colonizar os tecidos internos das plantas e se perpetuarem nestes tecidos sem causar nenhum sintoma de patogenicidade, promovendo o crescimento da planta hospedeira. Estas associações internas são denominadas de endofíticas. Algumas espécies de bactérias diazotróficas foram caracterizadas como endófitas tais como Gluconacetobacter diazotrophicus, Herbaspirillum seropedicae, Herbaspiririllum rubrisubalbicans, Azoarcus spp., entre outras. Independente das controvérsias, existe um consenso razoável quanto a definição prática do termo endófito. De acordo com Kloepper et al. (1997), bactérias endofíticas são aquelas que podem ser isoladas de tecidos vegetais superficialmente desinfestados ou extraídas de dentro da planta, e que não causam danos visíveis ou induzem sintomas na planta. Fica claro portanto, que bactérias com capacidade para estabelecer-se endofiticamente em tecidos vegetais, devem ser enquadradas em algumas regras: • A bactéria deve ser capaz de invadir e proliferar nos tecidos da planta hospedeira, desenvolvendo mecanismos para ultrapassar as barreiras físicas e químicas desenvolvidas pela planta (mecanismos constitutivos e induzíveis), estabelecendo vias de infecção e colonização, bem como os sítios de estabelecimento; • A bactéria não deve induzir uma resposta drástica da planta à infecção (resposta hipersensível), caracterizada pela morte rápida e necrose das células ao redor do ponto de infecção, impedindo a colonização dos tecidos (H. seropedicae causa HR em sorgo) • A bactéria deve possuir um padrão de colonização modelado pela planta hospedeira, uma vez que a multiplicação massiva e/ou hiperativação de genes de virulência, pode colapsar os tecidos, induzindo sintomas na planta e consequentemente estabelecendo uma interação patogênica; • No caso de interações mais evoluídas, a bactéria deve seguir o ciclo de vida da planta hospedeira, desenvolvendo mecanismos para colonizar sementes ou estruturas de propagação vegetativa. Vamos dar como exemplo a descrição do endófito mais conhecido atualmente e que recentemente foi reclassificado como Gluconacetobacter diazotrophicus (antiga Acetobacter diazotrophicus) (Yamada et al., 1997, 1998). Esta espécie foi isolada inicialmente de raízes, colmos e folhas de cana-de-açúcar por Cavalcante & Döbereiner, (1989), e posteriormente outros relatos mostraram a sua existência em canaviais plantados na Argentina, no Uruguai, no México, Cuba, Estados Unidos, Índia, Canadá e Austrália. Esta bactéria também está associada a outras plantas tais como a batata-doce, e capim elefante (Pennisetum purpureum), café, abacaxi, entre outras. Por não possuir a enzima nitrato redutase, a atividade do complexo nitrogenase não será inibida pela presença de nitrato no meio externo à célula da bactéria. É considerada uma bactéria endofítica pois possui baixa sobrevivência no solo. A via principal de transmissão é o tolete de cana-de-açúcar, muito embora o palhiço da própria cultura não deva ser descartado como uma fonte alternativa de inóculo quando incorporado ao solo, esporos de fungos micorrízicos arbusculares ou através da contaminação ocorrida no momento da sucção da seiva do floema por cochonilhas que vivem dentro da bainha foliar da plantas de cana-de-açúcar e que possuem esta bactéria dentro da linfa. Devido a estas características fisiológicas e a importância da cana-de-açúcar na economia brasileira, o seu genoma está sendo seqüenciado além dos estudos relacionados a caracterização de proteínas presentes nos diversos estágios de seu metabolismo (Baldani, J.I.; Reis, V.M.; Baldani,V.L.D.; Dobereiner, J.; 2002). 4.4 Vida livre As bactérias capazes de sobreviver no solo, e que também colonizam as plantas desde que o ambiente esteja proprício para a sua multiplicação celular são chamadas de bactérias de vida livre. Este grupo é representado por bactérias aeróbicas, anaeróbicas e facultativas. Esses organismos podem viver harmoniosamente em associação com as plantas, utilizando para sua nutrição os exudatos das raízes das plantas. Mas como fazem para manter a sua população? Por serem quimiorganotróficas, utilizam compostos orgânicos como principal fonte de carbono e energia. Este grupo é representado pela maioria das bactérias fixadoras como Azospirillum, Beijerinkia, Derxia, Azotobacter entre outras. Outros, denominados de fotoautotróficas, utilizam a luz como fonte de energia e CO2 como fonte de carbono. Neste grupo está a espécie Rodospirillum rubrum, as cianobactérias como Nostoc, entre outras. Também temos os fotoheterotróficos, que utilizam compostos orgânicos como a principal fonte de carbono e a luz como fonte de energia. Neste grupo estão as bactérias verdes sulfurosas Chlorobium. As quimiolitotróficas utilizam compostos inorgânicos reduzidos como fonte de energia e CO2 como fonte de carbono e tem como principal representante Thiobacillus ferroxidans. 5 FIXAÇÃO BIOLÓGICA DE NITROGÊNIO E O AMBIENTE Independente