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APRESENTAÇÃO DA QUEIXA DERMATOLÓGICA As queixas dermatológicas constituem uma grande oportunidade de aproximação e construção de vínculo com o usuário. Por se tratar de um órgão extenso e cujo aspecto está relacionado aos fatores que vão muito além da saúde, como beleza, asseio e outros aspectos sociais, por muitas vezes, as queixas dermatológicas são disparadoras da busca ao serviço de saúde. Nessa direção, vale ressaltar também que muitas doenças dermatológicas possuem gravidade que podem, se não reconhecidas e corretamente abordadas, repercutir gravemente com a vida do usuário, inclusive com desfechos fatais. Dessa maneira, saber realizar um bom diagnóstico dermatológico que permita reconhecer as manifestações sistêmicas com alterações cutâneas ou simplesmente tratar as alterações,exclusivamente cutâneas, oportuniza construção de vínculo e ações de promoção, prevenção e recuperação da saúde, que estão além da queixa, podendo abrir, portanto, caminho para o cuidado integral, cerne da Atenção Básica ou mesmo salvaguardar a vida de pessoas. As queixas dermatológicas na Atenção Primária à Saúde (APS), geralmente vêm mal formuladas, pelo reconhecimento do surgimento de uma lesão, mancha ou nódulo cutâneo, que muitas vezes são nomeadas como “caroço”, “mancha”, “bereba” ou alguma outra nomenclatura popular. Não raramente vem acompanhada de outras queixas como prurido, dor, perda de sensibilidade, etc. Para que o profissional reconheça adequadamente a lesão, é importante entender uma pequena inversão na lógica da consulta do método clínico tradicional. Enquanto em uma consulta tradicional há explanação da anamnese e posteriormente o exame físico, na queixa dermatológica, é recomendado que o exame físico seja realizado logo após a queixa e duração. A caracterização do restante da anamnese deve ocorrer de maneira concomitante ao exame físico ou após sua realização. Se por um lado, tal alteração torna mais dinâmica e resolutiva a consulta dermatológica, é natural pelo próprio hábito do método clínico, surgir hipóteses diagnósticas imediatamente após o exame físico, o que aumenta o risco de definição precipitada de condutas. Para evitar esse risco é fundamental que a formulação das hipóteses siga o rito de identificação das lesões elementares, que em processo, durante o ato da consulta, pode ser direcionado por anamnese detalhada e, consequentemente, chegar-se ao diagnóstico preciso. Importante ressaltar que diversas patologias dermatológicas apresentam forte componente emocional, tais como as dermatites atópicas, seborreicas, alopecia e eflúvio, psoríase, hiperidrose entre outros. Portanto, nesse acolhimento do paciente é importante a Abordagem Centrada na Pessoa ou Método Clínico Centrado na Pessoa, buscando avaliar não somente a doença de pele em si, mas a pessoa que apresenta a doença, como ela experiência a doença, seu contexto de vida individual, familiar e social. EXAME FÍSICO O exame físico dermatológico necessita ser realizado com técnica apropriada. Consideram- se as seguintes questões ambientais adequadas para o diagnóstico correto do padrão da lesão: iluminação; temperatura e, distância do observador. Tais aspectos interferem na observação e, consequentemente, podem levar a uma avaliação incorreta e erro diagnóstico. Dessa forma, o exame da pele deve ser realizado em ambiente iluminado, de preferência com luz natural ou fluorescente (as luzes amarelas podem alterar a coloração da pele). Outra preocupação importante é evitar temperaturas extremas que alterem o aspecto do local da lesão, uma vez que temperaturas altas tendem a ruborizar a pele, enquanto temperaturas baixas tendem a empalidecê-la. O método de avaliação propedêutica da pele consiste em breve síntese, em quatro atos: Tipos de lesao INÍCIO Para fins diagnósticos, as lesões dermatológicas podem ser agrupadas conforme as tipologias, descritas abaixo. É fundamental, ao profissional na Atenção Básica, compreender que as tentativas de categorização podem apresentar limitações de métodos face a real apresentação dos casos. Dessa maneira, é relativamente comum que em uma determinada apresentação clínica, encontremos mais que um tipo de lesão, quer pela própria evolução da doença (p.ex. Varicela, na qual coexistem lesões vesiculares e crostosas), quer pela relação entre a doença, o meio e eventuais tratamentos realizados. Portanto, é imperativo analisar os achados de exame físico e anamnese a fim de obter o diagnóstico correto. Além disso, há controvérsia sobre o diâmetro das lesões, entre 0,5 cm e 1 cm. Portanto, para fins de classificação, quando as medidas estiverem entre 0,5 cm e 1 cm, o médico deve considerar hipóteses diagnósticas possíveis para ambas as medidas, diferenciando-as pelos demais dados de exame físico, anamnese e eventuais exames subsidiários. Confiram os tipos de lesão e suas respectivas apresentações nas telas a seguir. Lesoes de conteudo liquido Leseoes elementares planas pigmentadas Tratam-se de lesoes tambem conhecidas como discromías, resultantes de diminuicao ou aumento de melanina e/ou depósitos de otros pigementos ou subtancias na pele, ou resultantes de interacao entre tais agentes e o ambiente, sobretudo, a luz solar. Lesoes vasculo sanguíneas sao lesoes decorrentes de vasodilatacao, constricao ou extravasamento de sangue na pele, sem que resulte em colecoes liquidas substanciais Lesoes elementares solidas Sao lesoes que surgem a partir de proceso inflamatorio e ou neoplásico podentendo atingir todas as camadas da pele resultando em proceso de expansivo palpavel com crescimento interno ou externo Farmacología basica INÍCIO Compreender o tratamento tópico dermatológico passa pelo entendimento da importância da pele enquanto maior órgão do corpo humano e responsável por diversos aspectos da regulação da homeostase corpórea. A pele é a principal barreira ativa entre o meio ambiente e as estruturas internas do corpo, exercendo papel importante no controle em uma série de processos fisiológicos fundamentais ao corpo. Desde questões relacionadas à homeostase, como trocas de fluidos e a regulação térmica, quanto questões neurossensoriais, como a transmissão de estímulos, a percepção sensorial de temperatura e pressão do ambiente, passando por aspectos fisiológicos sistêmicos, como a formação de vitamina D. A pele é um “cartão de visitas” dos indivíduos e se relaciona com aspectos socioculturais diversos. O rubor de face ao nos envergonhamos ou arrepios numa forte emoção, é pela pele que reconhecemos e expressamos o que somos. É na pele ou na modificação dela que reconhecemos e expressamos os conceitos culturais de beleza, de diferenciação sexual dos indivíduos e até mesmo os da expressão para aglutinação ou diferenciação étnica e social das pessoas por sua textura, odor e cores da pele, dos pelos e dos cabelos. Dessa forma, não é demais reconhecer a pele como algo além de um simples órgão, mas um espelho do corpo, um reflexo visível do ser biológico e social que o indivíduo é. Partindo desse pressuposto e, considerando-se a importância e extensão da pele, é natural que diferentes condições possam acometer, desde segmentos específicos ou a pele como um todo. Por isso, qualquer proposição terapêutica deve considerar a estratégia mais efetiva para determinado indivíduo, naquela determinada condição e situação. Nesse sentido, a primeira pergunta a ser respondida é se há necessidade de um tratamento sistêmico ou o cuidado tópico é suficiente. A opção pelo cuidado sistêmico deve ser feita, via de regra, quando a condição que afeta a pele é igualmente sistêmica ou sua extensão é de tal monta, que o tratamento tópico pode não garantir a melhor resposta. Nessa opção, é necessário considerar se os mecanismos naturais de recuperação e manutenção da pele, como hidratação e oleosidade,estão preservados e se o benefício do cuidado sistêmico é maior que eventuais eventos adversos. Sempre que possível, a opção por cuidados tópicos deve ser considerada, tendo em vista os menores efeitos sistêmicos que normalmente acarretam. Além disso, certos tratamentos tópicos podem interferir na recuperação dos mecanismos naturais da pele, contribuindo para o restabelecimento de integridade e, consequentemente, recuperação do adequado funcionamento. O tratamento tópico depende de diversos fatores, sendo um dos mais importantes a capacidade de penetração na pele. Há tratamentos que pretendem apoiar o papel de barreira, logo, a menor absorção é desejada. Outros, ao contrário, visam potencializar o contato e proximidade sendo, portanto, desejável a máxima absorção. A capacidade de penetração de uma substância é inerente à interação entre a mesma e as características da pele onde será aplicada. Certos produtos, como hormônios e outros ativos biológicos são extremamente capazes de penetrar a pele enquanto outros agentes, como os de origem mineral, permanecem na sua superfície, com efeito apenas local. Didaticamente, podemos separar as substâncias em três níveis quanto à sua capacidade de penetrar a pele: 1. Contactação – produto atinge apenas a camada emulsionada. 2. Permeação – quando o faz até o estrato lúcido. 3. Absorção – quando atravessa, tendo acesso às demais camadas epidérmicas, podendo inclusive atingir a derme e a corrente sanguínea. Ressalta-se que, além da substância, outros fatores influenciam a absorção, como a forma farmacêutica (adesivo transdérmico permite maior tempo de contato, portanto maior possibilidade de absorção), integridade da pele e, a maneira de aplicação (massagear aumenta a circulação local e, consequentemente, a absorção). Todas estas dimensões constituem parte indissociável da escolha terapêutica. Como procedê-la? Veja a seguir! A ESCOLHA DA FORMULAÇÃO ADEQUADA Como em qualquer área da medicina, o tratamento só deve ser instituído a partir de uma hipótese diagnóstica bem estabelecida. Apenas a partir dessa etapa, é possível realizar uma prescrição adequada, compatível com os objetivos terapêuticos desejados. Não existe formulação que seja capaz de responder a todas as condições. Apenas a partir do raciocínio terapêutico advindo de uma hipótese diagnóstica bem fundamentada, é possível traçar os objetivos terapêuticos, e deles, determinar os princípios ativos e formulações potencialmente utilizáveis. Neste contexto, a definição diagnóstica completa, isto é, além da doença em si, seus caracteres adicionais como a idade da pessoa, hábitos, costumes, comorbidades e histórico de saúde são fundamentais para definição dos objetivos e estratégias terapêuticas. A escolha da fórmula farmacêutica deve potencializar os objetivos terapêuticos visando os melhores resultados. Uma fórmula farmacêutica é composta por: • Princípio ativo: substância designada a exercer atividade terapêutica. • Veículo: excipiente em maior quantidade, responsável pela incorporação dos demais componentes, sem efeito específico, mas que pode exercer papel de potencializar um efeito ou uma característica de absorção. • Excipientes: substâncias em sua maioria inertes que, acrescidas em menor quantidade, tem foco na estabilidade da formulação, aparência ou segurança. A escolha da formulação passa pelo reconhecimento do papel de cada princípio ativo, os melhores veículos e excipientes para os fins desejados. A consulta da listagem de medicações dermatológicas (RENAME - Relação Nacional de Medicamentos) pode ser encontrada no link a seguir: https://saude.gov.br/saude-de-a- z/rename As formulações comumente utilizadas na terapêutica tópica podem ser classificadas conforme a forma farmacêutica empregada. Veja a seguir. https://saude.gov.br/saude-de-a-z/rename https://saude.gov.br/saude-de-a-z/rename SOLUÇÕES E SUSPENSÕES Soluções são compostas por dispersante (líquido) e dispersos (sólido, líquido ou gás), estabelecendo uma mistura homogênea. Quando se pretende, por exemplo, descongestionar ou desinflamar um tecido, a escolha por um dispersante volátil retira o calor do tecido, evaporando os dispersos e concentrando o produto residual na pele, exacerbando seus efeitos terapêuticos. Ao contrário, dispersantes oleosos permanecem mais tempo sobre a pele, ampliando os efeitos dessa substância pelo aumento do tempo de contato. As soluções são muito empregadas em fase aguda de dermatoses, na forma de banhos e compressas, como permanganato de potássio ou na forma de pincelações, como as soluções antissépticas - clorexidine (Merthiolate®, p.ex). Utilizações muito próximas das soluções, as suspensões se diferenciam basicamente pelo fato de não haver solubilização completa do disperso no dispersante, havendo precipitação em repouso. Portanto, na prescrição de uma suspensão, deve-se orientar a necessidade imperativa de agitar adequadamente o produto. Um tipo especial de solução são os chamados vernizes, cuja característica particular da presença de uma fase volátil, resulta na constituição de um filme da fase remanescente, proporcionando maior tempo de contato dos ativos com a pele. Seu uso é comum em certos produtos antissépticos e para uso nas unhas. COLAS E COLÓDIOS As colas e colódios são produtos que apresentam, após a evaporação de sua porção volátil, um filme flexível que retém os ativos em contato com a pele por mais tempo. São utilizadas em regiões articulares ou de movimentação da pele, como por exemplo, nas confecções de Botas de Unna para o tratamento de úlceras de estase. PÓS São substâncias compostas por pequenos particulados de natureza inorgânica, cuja função principal é adsorção de água do local de aplicação. Possui, no entanto, um efeito paradoxal quando aplicado em locais exsudativos, pois no contato com líquidos, pode formar uma pasta que exerce exatamente o efeito contrário. Suas aplicações são mais comuns em antipruriginosos, antifúngicos e antissépticos. POMADAS Misturas de óleos, ceras e graxas cuja principal indicação consiste em reduzir perda de água pela pele. Por sua característica físico-química, costuma persistir tempo considerável na pele, sendo, portanto, potente meio de transporte de fármacos de liberação lenta. As hidrofílicas são usadas em substâncias umectantes e são removíveis por água, o que as torna mais apropriadas quando estão em áreas que necessitam de higienização mais frequente, p.ex. Já as graxas ou gordurosas, são pouco laváveis e melhoram a untuosidade, mas não são boas indicações em áreas que necessitam limpeza frequente, pois a retirada mecânica pode agredir a pele pela abrasão. EMULSÕES Trata-se de uma das formas farmacêuticas mais prescritas devido à sua versatilidade, ser cosmeticamente agradável e compatível com incorporação de substâncias lipo e hidrossolúveis. São compostas por uma fase oleosa e outra aquosa, homogeneizadas pela ação de um agente emulsionante que garante a estabilidade do produto. Podem ser líquidas ou pastosas; ácidas, alcalinas ou neutras ou pelo predomínio da proporção de fases aquosa e oleosa. As emulsões óleo em água tem maior efeito refrescante e facilmente laváveis com água, enquanto as água em óleo, com maior percentual de óleo, aumentam a untuosidade por "engraxarem" a pele, e assim, repelirem a água, protegendo- a contra umidade e frio. Vale citar as emulsões trifásicas, com propriedades específicas a partir do mecanismo de dupla emulsão, além das microemulsões, que se diferenciam das emulsões verdadeiras pela espessura do seu particulado de água e óleo, e as emulsões poliméricas, cuja diferença é a existência de um gel em torno das gotículas de óleo. As emulsões em geral oferecem condições favoráveis para a liberação dos princípios ativos, sobretudo, em relação às substânciaslipofílicas. Na sua composição básica, estão as substâncias graxas (que dão corpo e consistência à emulsão), emolientes (reduzem a perda de água pela formação de uma película), os emulgentes ou emulsificantes (que exercem papel fundamental sendo responsáveis pela formação e estabilidade do produto), umectantes (que atuam no corpo da emulsão, impedindo ou retardando a evaporação da água), espessantes (que possuem função estética, impedindo a aproximação das gotículas e, consequentemente, mobilidade e coalescência), água, estabilizantes ou excipientes (cuja função é promover a estabilidade e preservação da fórmula), fragrâncias e corantes. GEÍS E GEL CREME Géis são veículos compostos por uma fase líquida, comumente água e outra sólida, representada por agentes gelificantes. São veículos indicados para pessoas com pele oleosa e acneica, além de possuírem melhor aceitação por ser de fácil aplicação e limpeza, especialmente em locais com uso de fraldas, por exemplo. Outros pontos de destaque são a rápida secagem, possuem, de forma geral, aparência agradável, sendo mais suaves e elásticos. Uma variação desse produto é o gel creme, que se diferencia do gel pela presença de agentes oleosos e emulsificantes, cujo uso está voltado aos produtos cosméticos, protetores solares e hidratantes. ACNE COMPREENDENDO A CONDIÇÃO A acne é uma das dermatoses mais frequentes na prática clínica. É responsável por 14% das consultas dermatológicas no país e acomete cerca de 80% dos adolescentes, persistindo em 53% das mulheres e em 40% dos homens em idade adulta. Sua alta prevalência e comum remissão espontânea por volta dos 20 anos de idade, reforça a cultura de um "estado normal" da adolescência. O atraso no diagnóstico e tratamento da doença pode resultar em grande impacto na qualidade de vida do indivíduo, desencadeando ou agravando problemas emocionais, como depressão e transtornos de ansiedade, especialmente na fase mais comum de sua apresentação, a adolescência. Inicia-se, normalmente, na puberdade e acomete ambos os sexos. Em geral as meninas podem desenvolver a acne 1 ano antes da menarca, sendo, portanto, mais precoce que nos meninos. Mulheres também podem apresentar o que se chama de Acne da Mulher Adulta (nesse caso, podem não ter tido Acne na adolescência). PATOGENIA E MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Diversos fatores levam um indivíduo a desenvolver quadros de acne. No entanto, três fatores são essenciais para o surgimento das lesões: hipersecreção sebácea, queratinização exacerbada do folículo (hiperceratose intrafolicular) e a presença de bactérias no folículo. A hipersecreção sebácea associada à obstrução da unidade pilossebácea, devido à hiperceratose intrafolicular, provoca o acúmulo de material sebáceo nos folículos, criando os chamados comedões (popularmente conhecidos como cravos). A bactéria Propionibacterium acnes, frequentemente encontrada nesses folículos, colabora com o processo inflamatório subsequente à obstrução. Outros fatores também podem ser agravantes da acne, como distúrbios emocionais por atuar no córtex cerebral sobre o sistema neuro-endócrino e, distúrbios hormonais. Em relação aos alimentos, existe um conceito entre leigos de que alimentos gordurosos e chocolate agravariam a acne. No entanto, a influência alimentar na evolução da acne raramente é observada. O quadro clínico é bem variado, caracterizado por comedões, pápulas, pústulas, nódulos e abscessos. Geralmente as lesões se localizam na face, ombros e porção superior do tórax, acompanhadas pelo excesso de oleosidade na pele. De acordo com o número e o tipo de lesões, dividi-se a acne, esquematicamente, em graus: • Acne grau I (comedogênica): caracteriza-se pela presença de comedões. Podem ser fechados (cravos brancos) ou abertos (cravos pretos). • Acne grau II (papulopustulosa): presença de comedões abertos, pápulas, com ou sem eritema e algumas pústulas. Este grau de acne é o mais variável, desde poucas lesões até numerosas, com inflamação intensa. A seborréia está sempre presente. • Acne grau III (nódulo-cística): há comedões abertos, pápulas, pústulas e alguns nódulos furunculóides. Pode ocorrer a formação de pus. • Acne grau IV (conglobata): forma grave de acne no qual, além de pápulas e pústulas, associam-se nódulos purulentos, formam abscessos e fístulas que drenam pus. É mais frequente em homens e em geral acomete a face, pescoço e tórax. • Acne grau V (fulminante): extremamente rara. Ocorre quando, a partir de um quadro de acne grau III ou IV, surgem subitamente febre, leucocitose, artralgia e necrose ou hemorragia de algumas lesões. INVESTIGAÇÃO E DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL A acne vulgar é bastante característica e em geral de fácil diagnóstico. A acne, após o período da adolescência, deve ser distinguida das erupções acneiformes (como a decorrente do uso de corticosteroides injetáveis). A rosácea pode apresentar pápulas foliculares semelhantes à acne, porém, a idade, o eritema e a localização centro-facial, permitem, em geral, distinguir as duas condições. HIPÓTESES DE SOLUÇÃO E APLICAÇÃO À REALIDADE Como conduzir? Orientações, oportunidades de cuidado ampliado, intervenções terapêuticas possíveis e terapêutica disponível no SUS O tratamento da acne deve ser instituído o mais precoce possível. Como discutido previamente, este tratamento deverá ser individualizado, baseado no tipo de acne e impacto psicossocial produzido. Não deve ser negligenciada, uma vez que os tratamentos são eficazes em controlá-la ou mesmo curá-la. Entretanto, o profissional deve estar ciente de que isso pode, em certos casos, levar muito tempo e exigir mudanças relevantes de estilo de vida, bem como constância de propósito por parte do paciente e família. Na acne comedogênica, o tratamento tópico é o mais indicado. Em formas leves, o tratamento pode ser apenas local, com inúmeros produtos existentes no mercado, isolados ou combinados: ácido salicílico, peróxido de benzoíla, retinoides (tretinoína, adapaleno), antibióticos (clindamicina e eritromicina) e associações de retinóides com antibióticos. Cuidados Gerais Toda a orientação para o paciente com acne ou para aqueles que querem apenas prevenir o seu surgimento passam por uma higiene adequada da pele com um sabonete ou produto de limpeza indicado especialmente para pele acneica ou oleosa. Nesse sentido, sabonetes a base de enxofre ou ácido salicílico podem ajudar no controle da oleosidade. A extração manual de comedões abertos (cravos pretos) não é necessária. Há melhora temporária, porém, há risco de infecção pelo manuseio das lesões. Os comedões fechados (cravos brancos) podem ser abertos com ponta de agulha ou de um eletrocoagulador. Medicamentos Tópicos Na acne comedogênica, o tratamento tópico é o mais indicado. Diversos ativos estão disponíveis para o tratamento com ótima tolerabilidade. Destacamos o Peróxido de Benzoíla, presente na RENAME, nas concentrações de 2,5 e 5% em gel. Este medicamento possui ação comedolítica, antibacteriana e bactericida, em especial contra o P. acnes. Pode ser usado nas formas comedogênicas e no tratamento da acne grau II. O paciente deve aplicar o gel na face à noite e remover pela manhã. Deve ser orientado a evitar a exposição solar. Quando, pelo uso diário, ocorrer irritação (vermelhidão, ardor ou descamação intensa) deve-se alternar os dias de uso. Outros medicamentos tópicos utilizados são a tretinoína tópica (0,05%) e o adapaleno (0,1%). Todos os retinóides devem ser aplicados à noite e removidos pela manhã. Quando houver um componente inflamatório importante, a associação com antibióticos tópicos mostra-se benéfica. Dois antibióticos são os mais utilizados, sobretudo na acne grau II: Eritromicina (2 a 4%) e Clindamicina (1 a 2%) Medicamentos por via oral Quando a resposta ao tratamento tópico é insuficiente, otratamento sistêmico é introduzido. A primeira indicação é a tetraciclina (ou oxitetraciclina) na dose de 500mg duas vezes ao dia. No entanto, essa terapia pode ser substituída por antibióticos disponíveis na RENAME como a Doxiciclina (100 mg/dia), Eritromicina (500 mg, duas vezes ao dia) ou Sulfametoxazol-trimetoprima (um comprimido 400/80, duas vezes ao dia). A melhora se dá em geral após 2 meses. Quando houver melhora significativa, devem-se reduzir as doses. A eritromicina deve ser ingerida, preferencialmente, antes das refeições. No entanto, a doxiciclina e o sulfametoxazol-trimetoprima devem ser administrados, preferencialmente, após as refeições. O tratamento com antibiótico oral deve ser feito por, no máximo, três meses, em um ou até três ciclos. O tratamento hormonal, com anticoncepcionais orais, é sempre útil para as mulheres, desde que não existam contraindicações. Quando o antibióticos é incapaz de controlar o quadro, a indicação de isotretinoína oral deve ser considerada. A isotretinoína oral é um derivado do retinol (vitamina A) e atua sobre a glândula sebácea, diminuindo e normalizando a produção de sebo e, a queratinização folicular. Deve ser usada nas formas mais graves de acne (grau III, IV e V) e na acne grau II resistente ao tratamento sistêmico com antibióticos e/ou com tendência à cicatrização hipertrófica. A maioria dos doentes responde ao tratamento com cura definitiva da acne. Alguns efeitos colaterais são comuns e o medicamento é extremamente teratogênico. Um controle laboratorial é necessário trimestralmente para avaliação da função hepática e o paciente deve ser observado para alterações de humor. Por esse motivo, recomenda-se encaminhar estes casos ao dermatologista que conduzirá o caso com maior destreza. O medicamento encontra-se disponível na RENAME, na Lista de Componentes Especializados. Nos casos de acne conglobata ou fulminans, os pacientes devem receber tratamento com antibióticos disponíveis e corticoides orais enquanto aguardam a consulta com o especialista. Geralmente, utiliza-se prednisona, na dose de 20 mg ao dia, reduzida até a melhora do quadro. ENCAMINHAMENTO PARA SERVIÇO ESPECIALIZADO EM DERMATOLOGIA Recomenda-se encaminhar ao serviço especializado em Dermatologia os casos com as seguintes condições: • Casos de acne fulminans ou acne conglobata; ou • Casos de acne leve a moderada, com prejuízo na qualidade de vida e insucesso no tratamento clínico otimizado, realizado por pelo menos 6 meses (antibioticoterapia sistêmica e tratamentos tópicos). ROSÁCEA COMPREENDENDO A CONDIÇÃO A Rosácea é uma doença crônica inflamatória de etiologia desconhecida, caracterizada pelo surgimento de eritema, telangiectasia, pápulas e pústulas, nas áreas centrais da face. É relativamente comum, com incidência que varia de 2 a 10% na literatura mundial. Inicia- se por volta da terceira e quarta décadas de idade e ocorre mais comumente no sexo feminino, embora alguns casos graves sejam descritos no sexo masculino. Apesar de não comprometer o estado geral de saúde dos doentes, representa um problema estético importante, interferindo na socialização e qualidade de vida das pessoas acometidas. PATOGENIA E MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS A Rosácea apresenta grande diversidade de formas clínicas. Por este motivo acredita-se que não haja uma única causa, mas múltiplos mecanismos fisiopatológicos envolvidos. Entre os principais fatores desencadeantes ou agravantes, encontram-se a luz solar, consumo de álcool, bebidas e alimentos quentes e fatores emocionais. Ainda é possível citar, na etiologia da rosácea, fatores genéticos, vasculares e anormalidades da unidade pilossebácea. O quadro clínico é caracterizado por eritema, edema, telangiectasias e pápulas, que podem ser acompanhadas de pústulas e nódulos nos casos mais graves. Na fase pré rosácea, há um eritema discreto na face que se se agrava com surtos de rubor. Tem duração variável e pode surgir espontaneamente ou pela ação dos fatores descritos anteriormente: luz solar, álcool, alimentos quentes, vento e frio. De acordo com o desenvolvimento das lesões e as frequência dos surtos pode-se distinguir quatro formas clínicas ou graus: • Rosácea grau I (Eritêmato-telangiectásica): há eritema persistente com ou sem telangiectasias que afetam a área centro facial da face. • Rosácea grau II (Pápulo-pustulosa): além do eritema nas regiões centrais da face, pode-se encontrar pápulas e pústulas nas regiões afetadas. • Rosácea grau III (Infiltrativa-nodular): desenvolvem-se placas eritematosas, edemaciadas e infiltrativas na região mentoniana e nasal. Surgem nódulos, eventualmente inflamatórios e podem aparecer abscessos. • Rosácea grau IV (Fulminante): quadro agudo e raro, de aparecimento súbito, com intensa reação inflamatória, nódulos e abscessos. Também chamada de pioderma facial. INVESTIGAÇÃO E DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL Os quadros mais leves de rosácea tem como diagnóstico diferencial o lúpus eritematoso sistêmico e a reação, referida anteriormente, como rosácea-símile devido ao uso crônico prolongado de corticoides fluorados na face. Os quadros mais graves, sobretudo aqueles com lesões infiltrativas, podem se assemelhar à lesões de tuberculose cutânea. HIPÓTESES DE SOLUÇÃO E APLICAÇÃO À REALIDADE Como conduzir? Orientações, oportunidades de cuidado ampliado, intervenções terapêuticas possíveis e terapêutica disponível no SUS O tratamento da rosácea, assim como o da acne, é de extrema importância e não deve ser minimizado, uma vez que a doença é causa de constrangimento, baixa autoestima, ansiedade e fuga de situações sociais. Soma-se a isso a inexistência de um tratamento curativo, devendo o médico esclarecer ao doente o objetivo do tratamento no controle dos sintomas mais comuns. Medidas gerais Todos os fatores agravantes ou desencadeantes devem ser afastados tais como citados anteriormente: bebidas alcoólicas, exposição solar, vento, frio e ingestão de alimentos quentes. A princípio, não é necessário nenhum regime alimentar. Em doentes com quadros de ansiedade, o tratamento ansiolítico tem resultados determinantes no quadro dermatológico. Fotoprotetores não oleosos sempre devem ser indicados. Deve-se evitar o uso excessivo de sabão e soluções alcoólicas pela ação irritativa. Medicamentos sistêmicos O medicamento de escolha é a tetraciclina na dose de 500 mg, duas vezes ao dia, via oral, por 3 a 6 semanas, até ocorrer melhora significativa, podendo-se reduzir a dose para uma vez ao dia por mais 6 semanas. A tetraciclina pode ser substituída por doxiciclina na dose de 200 mg/dia e, posteriormente, 100 mg/dia. Em formas graves ou resistentes, a isotretinoína é a medicação de escolha na dose diária de 0,5 mg a 1,0 mg/kg/dia. Os cuidados e o tempo de administração são idênticos aos referidos no tratamento da acne vulgar. Em mulheres na menopausa, o uso de estrogênios pode beneficiar a rosácea pela supressão das crises de calor e eritema. Medicamentos tópicos O uso de hidrocortisona creme a 1% em lesões inflamadas pode ser útil, por tempo limitado e estando o doente sob terapia sistêmica. Nunca usar corticoide fluorado ou não fluorado potente, que inicialmente melhoram as lesões, porém, agravam a rosácea, aumentando a reação vascular e as telangiectasias. O metronidazol de 0,75% a 1% em gel ou loção, é o tópico mais efetivo nas formas iniciais e juntamente à terapia sistêmica. ENCAMINHAMENTO PARA SERVIÇO ESPECIALIZADO EM DERMATOLOGIA Recomenda-se encaminhar ao serviço especializado em Dermatologia os casos com as seguintes condições: • Casos de rosácea grau III e IV; • Outros casos de rosácea com prejuízo na qualidade de vida e insucesso no tratamento clínico otimizado, realizado por pelo menos 6 meses (antibioticoterapia sistêmica e tratamentos tópicos); • Avaliaçãode realização de procedimento para melhora do rinofima. PSORÍASE COMPREENDENDO A CONDIÇÃO Doença sistêmica inflamatória, não contagiosa, de curso crônico e até o momento, incurável. Se desenvolve com manifestações predominantemente cutâneas, ungueais e eventualmente articulares. Pode ser uma doença incapacitante, tanto pelas lesões cutâneas, sobretudo, no que se refere à autoestima, quanto pelo acometimento articular, no que se configura a artrite psoriásica. A doença não guarda preferência por nenhum sexo, podendo iniciar-se em qualquer idade, porém, costuma ser mais frequente na terceira e quarta década da vida, com pico de incidência aos 22 – 23 anos (em crianças, a idade média de início é aos 8 anos). Geralmente, quando o início é mais precoce, está associada aos quadros de maior gravidade e repercussão. Sua ocorrência é universal, porém, afro-americanos têm incidência mais baixa e praticamente não existem casos em indígenas. Na América do Sul e Brasil, a incidência é em torno de 1%. No mundo, a incidência estimada é entre 2% e 3%. PATOGENIA E MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Na maioria dos pacientes, a doença é localizada, porém, em alguns casos torna-se generalizada. As lesões são eritemato-escamosas, bem delimitadas, especialmente em regiões de membros (joelhos e cotovelos), couro cabeludo e sacro. As escamas são branco- prateadas, secas e aderidas. Quando estas as escamas esbranquiçadas caem pela raspagem superficial, surge o sinal da vela (semelhantes a raspagem de uma vela). Quando pela continuação da raspagem, após a retirada das escamas, surge uma superfície vermelho brilhante com pontos hemorrágicos, dizemos que o sinal de Auspitz, ou do orvalho sangrento, é positivo. As causas da psoríase não são totalmente conhecidas. É predominantemente uma doença autoimune, no entanto fatores genéticos também estão implicados na etiologia. A incidência da doença sobe para 8% em pacientes com um dos pais com psoríase, e para 40% no caso de ambos terem a doença. O estresse e o sofrimento psíquico são fatores bem estabelecidos nas exacerbações da psoríase, se relacionando com até 40% dos casos em adultos e crianças. Uma vez instalada, novas lesões geralmente são desencadeadas em locais submetidos à traumas cutâneos, agressões por agentes químicos ou outros fatores que possam gerar manifestações inflamatórias. Alguns medicamentos também estão relacionados ao agravamento do quadro como os corticoides sistêmicos, lítio, drogas anti-maláricas e betabloqueadores. As formas clínicas da psoríase têm características peculiares, mas podem ser sobrepostas e estar ou não associadas aos quadros articulares. INVESTIGAÇÃO E DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL O diagnóstico da psoríase é essencialmente clínico. Casos atípicos ou de difícil diagnóstico se beneficiam da biópsia de pele para confirmação diagnóstica. A dispensação de alguns medicamentos de alto custo pode, inclusive, estar atrelada à confirmação histopatológica da doença. Nos casos de Artrite Psoriática, a velocidade de hemossedimentação está aumentada, porém o fator reumatoide e os fatores antinucleares estão ausentes. Diversos são os diagnósticos diferenciais da psoríase, uma vez que suas manifestações clínicas são diversas. Eczemas, infecções fúngicas, lúpus cutâneo, líquen plano, micose fungóide, pitiríase rubra pilar, pitiríase rósea, doença de Bowen, linfomas e sífilis secundária são algumas doenças que podem se manifestar de maneira similar. HIPÓTESES DE SOLUÇÃO E APLICAÇÃO À REALIDADE Como conduzir? Orientações, oportunidades de cuidado ampliado, intervenções terapêuticas possíveis e terapêutica disponível no SUS Após o diagnóstico, o profissional da Unidade Básica de Saúde deve orientar o paciente sobre a doença cutânea, não contagiosa e sem comprometimento sistêmico. Apesar do curso crônico da doença e da inexistência de um medicamento que promova a cura, deve- se ressaltar que os recursos terapêuticos são capazes de controlar a afecção. O paciente precisa estar orientado quanto à possibilidade de evolução para comprometimento articular e estimulado à construção de vínculos com a equipe da unidade para que o apoiem nas dificuldades que surgirão inerentes ao diagnóstico. O tratamento dependerá do tipo de psoríase, da extensão do quadro, do impacto psicossocial da doença e de outros fatores como idade, comorbidades e nível de instrução. Cuidados gerais A melhora da qualidade de vida e da atitude mental do paciente em relação a sua doença é peça fundamental no tratamento da psoríase. Desta forma, a equipe de saúde deve estar atenta e ser capaz de oferecer ao paciente acesso às diversas práticas integrativas e complementares disponíveis, tais como atividades físicas, oficinas, rodas de conversa, entre outros. São tradicionalmente conhecidos os benefícios da exposição solar e sua radiação UV na psoríase. Desse modo, a exposição ao sol, em especial nos primeiros horários da manhã e finais de tarde, sempre que possível, deve ser recomendada e encorajada. Tratamento tópico A maioria dos pacientes com psoríase tem doença limitada (menos de 5% da superfície corporal), e se beneficia da segurança e eficácia dos tratamentos tópicos. Devem ser administrados diretamente sobre as lesões cutâneas, sendo indicados para todos os casos de psoríase. São igualmente úteis enquanto adjuvantes da terapia sistêmica e na manutenção do tratamento após a redução da dose ou sua suspensão. Os medicamentos tópicos mais utilizados na psoríase são os corticoides de média e alta potência, análogos da vitamina D e alcatrão. Os corticoides tópicos são os mais utilizados na prática da Atenção Primária. São empregados como loções, cremes e pomadas. Há uma relação direta entre a potência do corticoide e sua ação anti psoriática. A melhor opção, disponível na RENAME e amplamente utilizada nas consultas dermatológicas é o Clobetasol, 0,05% em creme ou solução capilar. É um corticoide de alta potência e pode ser utilizado na maioria das lesões de psoríase. Pode ser usado com segurança sobre as placas mais espessas e queratinizadas e apresentam ótimos resultados, tanto no clareamento das lesões, quanto no controle do prurido. Outra opção disponível é a dexametasona, corticoide tópico de potência média, com boa indicação para regiões como face, áreas flexurais e genitais, em que não se pode utilizar corticoides de alta potencia pelo risco de atrofia cutânea e telangiectasias. Tratamento sistêmico Para os pacientes com psoríase moderada a grave, além do tratamento tópico, devem-se acrescentar medicamentos sistêmicos. As opções disponíveis são os imunossupressores e imunobiológicos. O médico da Atenção Básica deve reconhecer os casos de psoríase moderada/grave e proceder encaminhamento à atenção especializada (dermatologia e/ou reumatologia), além de prover suporte de assistência farmacêutica e de ações coletivas de mudança de estilo de vida. Incluem-se na lista de medicamentos de componente especializados: metotrexato (MTX), acitretina e ciclosporina. Em caso de falha destes, os medicamentos biológicos estão indicados e disponíveis. O uso desses medicamentos deve ser indicados, preferencialmente, pela atenção especializada. ENCAMINHAMENTO PARA SERVIÇO ESPECIALIZADO EM DERMATOLOGIA Recomenda-se encaminhar ao serviço especializado em Dermatologia os casos com as seguintes condições: • Casos de psoríase moderada/grave. • Casos refratários ao tratamento clínico otimizado. • Caso disponível, o encaminhamento deve ser precedido da biópsia local, e envio ao especialista com a descrição do resultado do anatomopatológico. • Deve estar claro à equipe de saúde que as ações de suporte clínico, ofertas de mudança de estilo de vida e monitoramento pós tratamento e, entre crises, pode e deve, preferencialmente, ser realizado em nível de AtençãoBásica. ALOPECIA COMPREENDENDO A CONDIÇÃO No dia a dia do dermatologista, a queixa de queda de cabelos tem se tornado umas das principais queixas. É comum em homens e mulheres e provoca impactos diferentes na aparência e auto estima de cada paciente. Pode-se, de forma generalizada, adotar o diagnóstico sindrômico de alopecia para esta queixa, no entanto, diversos tipos de alopecia são estudadas, com diferentes causas e, consequentemente, tratamentos. Reconhecer as características, diagnose e terapêutica é essencial para o profissional da Atenção Básica. Abaixo, disponibilizamos um quadro comparando os diferentes tipos de Alopecias: Diagnóstico Alopecia Androgenética Eflúvio Telógeno Alopecia Areata Tinea Capitis Distribuição Geralmente na porção central do couro cabeludo com possível evolução para a região fronto temporal ou vértice. Generalizado. Geralmente localizado, no entanto áreas de alopecia podem ser confluentes. 5 a 10% desenvolvem alopecia total. Qualquer área do couro cabeludo. Evolução Gradual e progressiva. Abrupto, geralmente com um fator desencadeante. Abrupto. Gradual ou abrupto. Aparência do cabelo Afinamento dos fios com áreas de rarefação. Afinamento dos fios sem áreas de rarefação. Áreas de “pelada”. Fios em ponto de exclamação. Inflamação pode estar presente. Presença de placas. Idade Puberdade ou pacientes mais velhos. Qualquer idade, mas pouco comum na infância. Qualquer idade. Primeiro episódio comum antes dos 20 anos. Qualquer idade. Comum na infância. Teste de tração Negativo. Positivo. Positivo. Positivo. Outras características da história clínica História familiar frequentemente positiva. Alguma doença prévia ou estresse. História pessoal ou familiar de outras doenças autoimunes. Contato com animais infectados. INVESTIGAÇÃO E DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL O diagnóstico da alopecia areata é clínico e deve ser distinguida das tineas, que ocorrem no couro cabeludo, mas apresentam fios tonsurados nas áreas de falha. Outro diagnóstico diferencial são as alopecias cicatriciais, nas quais a pele perde o brilho, a cor e a consistência, com desaparecimento dos folículos pilosos. A tricotilomania, sobretudo em crianças, também deve entrar na diagnose diferencial. No caso dos eflúvios, deve-se procurar causas gerais para a queda de cabelos e, solicitar exames complementares, como hemograma, dosagem de ferro sérico, ferritina, cálcio sérico, sorologia para sífilis e investigação da função tireoidiana, podem contribuir para a elucidação etiológica. O diagnóstico de alopecia androgenética, tanto em homens quanto em mulheres, não apresenta maiores dificuldades. Na mulher deve ser distinguida da síndrome SAHA (hiperandrogenismo cutâneo, caracterizado por Seborreia, Acne, Hirsutismo e Alopecia) e a coexistência de distúrbios hormonais como a Síndrome do Ovário Policístico (SOP). No homem, os critérios para o diagnóstico da alopecia androgenética incluem: início do quadro após a puberdade; padrão de afilamento capilar bitemporal, frontal ou do vértex; miniaturização dos fios visível a olho nu; história de alopecia androgenética em familiares de primeiro ou segundo grau. HIPÓTESES DE SOLUÇÃO E APLICAÇÃO À REALIDADE Como conduzir? Orientações, oportunidades de cuidado ampliado, intervenções terapêuticas possíveis e terapêutica disponível no SUS Diversas terapias estão disponíveis para as alopecias. A decisão pelo melhor tratamento passa pela extensão do acometimento, causas e o impacto psicossocial produzido em cada paciente. A equipe deve estar atenta para modular expectativas irreais dos pacientes quanto ao aspecto do couro cabeludo. A aparência do cabelo se tornou, ao longo dos anos, símbolo de beleza, estatus social e saúde. Nos últimos dez anos, surgiram procedimentos capilares e tratamentos agressivos que visam mudar completamente o aspecto do fio: alisamentos, permanentes, tinturas, entre outros, são alguns exemplos. Tais procedimentos devem ser em geral desencorajados pelos médicos da Atenção Básica, pois podem piorar a queda e dificultar o tratamento. Além disso, a rotina cotidiana moderna, altamente estressante, associada aos regimes alimentares desbalanceados, podem contribuir para a queixa de queda capilar. Devemos sempre esclarecer que o tratamento para a queda capilar é gradativo e os resultados, geralmente, ocorrem apenas após alguns meses, uma vez que o fio cresce em média 1cm por mês. Deve-se reforçar que a perda de até cem fios de cabelo por dia está dentro da normalidade, considerando-se o número de cabelos (em torno de cem mil) e a duração média do cabelo (de três a quatro anos). Alopecia areata Quadros localizados, geralmente, são autolimitados e tendem à repilação espontânea em um ano. No entanto, diversas opções terapêuticas estão disponíveis, inclusive na RENAME. O uso de corticoides tópicos nas formas localizadas é a primeira opção. Dexametasona 1 mg/g em creme e propionato de clobetasol 0,5 mg/g em solução capilar são ótimas opções. Em casos resistente ou disseminados, o recurso mais efetivo é a infiltração intralesional com corticoides. A triamcinolona é o fármaco mais amplamente utilizado. Recomenda-se administração de solução 5 mg/ml e um máximo de 3 ml por sessão de tratamento, que deve ser realizado quinzenalmente. Eflúvio anágeno Uma vez excluída a causa, o tratamento se dá pela orientação de uma alimentação rica em proteínas e, se possível, administração de preparações com vitaminas e sais minerais. Eflúvio telógeno Nestes casos, deve-se realizar os tratamentos eletivos para as causas citadas, quando presentes. Observar que algumas deficiências vitamínicas e algumas desordens hormonais são de fácil diagnóstico e tratamento. Alopecia androgenética Nas mulheres, o tratamento de distúrbios associados, como a síndrome dos ovários policísticos, deve ser a primeira estratégia adotada. O uso de antiandrogênicos sistêmicos não tem indicação em pacientes sem alterações hormonais clínicas e laboratoriais. O minoxidil a 5% em solução capilar é o medicamento mais amplamente utilizado nos casos de alopécia androgenética, tanto masculina, como feminina. Deve ser utilizado 1 a 2 vezes ao dia, por tempo indeterminado. A finasterida é um medicamento antiandrogênico, utilizado na hipertrofia prostática. É eficiente na alopecia androgenética masculina. Administrado na dose de 1 mg ao dia, com crescimento de cabelos entre 50 a 60% nos dois primeiros anos de tratamento. Efeitos colaterais como a diminuição da libido ou disfunção de ereção são raros e cessam com a interrupção do tratamento. Ressalta-se que a apresentação de 5 mg, disponível na RENAME, não deve ser utilizada para este fim. ENCAMINHAMENTO PARA SERVIÇO ESPECIALIZADO EM DERMATOLOGIA Recomenda-se encaminhar ao serviço especializado de Dermatologia os casos com as seguintes condições: • Solicitar exames laboratoriais, quando oportuno, e tratar possíveis distúrbios associados, antes de proceder o encaminhamento. • Casos resistentes aos tratamentos propostos. • Impossibilidade de realização de infiltração de corticoides na Unidade Básica de Saúde. • Investigação de alopecias cicatriciais que fujam aos padrões estudados neste capítulo. ONICOMICOSE COMPREENDENDO A CONDIÇÃO A onicomicose é queixa comum e responsável por quase metade das doenças das unhas. Podem estar associadas ao estilo de vida (uso de meias sintéticas, saunas, piscinas), excesso de suor, diabetes e idade (circulação periférica deficiente, imunodepressão fisiológica). É rara na infância. São causadas por fungos que se “alimentam” de queratina, substância que forma o estrato das unhas. Acomete, preferencialmente, os pés,pois o ambiente úmido, escuro e aquecido, encontrado dentro dos calçados, favorece o crescimento fúngico. O crescimento mais lento das unhas dos pés é também um fator dificultador para o tratamento e melhora do aspecto do leito ungueal. O tratamento nem sempre é procurado pelo paciente uma vez que aparenta ser um problema meramente estético. Muitos convivem com a doença por décadas. Entretanto, alterações do leito ungueal, quer infecciosas ou apenas distróficas, podem evoluir e provocar mudanças significativas na qualidade de vida do paciente, gerando dor ou desconforto para atividades básicas do dia a dia. PATOGENIA E MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Onicomicose é a mais frequente das doenças ungueais, sendo responsável por 30% das infecções superficiais e 50% de todas as desordens das unhas. A população idosa é a mais afetada. Os agentes causadores da onicomicose se dividem em três grupos: 1. Dermatófitos. 2. Leveduras. 3. Fungos Filamentosos Não Dermatófitos (FFND). A grande maioria (cerca de 90%) das onicomicoses, que encontra-se em nossa prática clínica ambulatorial são causadas pelo primeiro grupo, os dermatófitos. O contágio, geralmente, ocorre através do contato direto do paciente com piscinas, banheiros públicos e objetos de uso comum, como cortadores de unha, por exemplo. Alguns fatores podem contribuir para a invasão do leito ungueal, tais como: diabetes, corticoterapia prolongada, traumas com alteração da barreira tegumentar, etc. A apresentação clínica da onicomicose causada por uma determinada espécie fúngica é de difícil distinção. Embora alguns sinais clínicos possam sugerir uma espécie específica, a identificação só é possível por meio de exames laboratoriais. No entanto, pode-se classificar as onicomicoses de acordo com o padrão de invasão do leito ungueal. INVESTIGAÇÃO E DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL Há uma tendência em classificar qualquer alteração envolvendo a lâmina ungueal como infecção fúngica. No entanto, diversas doenças podem causar distrofia do leito ungueal e apresenta curso crônico, como a onicomicose. Destacam-se a psoríase ungueal, que geralmente acomete todas as unhas de maneira uniforme, líquen plano, infecções bacterianas, dermatite de contato, tumores ungueais e onicodistrofias traumáticas. Em caso de dúvida diagnóstica, o exame micológico direto é útil e simples, através do qual o fungo é visualizado diretamente em preparado de hidróxido de potássio. A cultura é de difícil obtenção e não é necessária. HIPÓTESES DE SOLUÇÃO E APLICAÇÃO À REALIDADE Como conduzir? Orientações, oportunidades de cuidado ampliado, intervenções terapêuticas possíveis e terapêutica disponível no SUS O tratamento da micose do aparelho ungueal permanece um desafio nos dias de hoje. As baixas taxas de cura associadas à onicomicose são o reflexo da dificuldade que existe no tratamento. Os fármacos tópicos disponíveis não são tão eficazes em resultado da fraca permeação na unha. A estrutura densamente queratinizada que compõe a lâmina ungueal atua como uma barreira à difusão tópica de fármacos, e consequentemente a concentração de fármaco dificilmente atinge o nível terapeuticamente eficaz na lâmina ungueal ventral e leito ungueal. Os fármacos sistêmicos devem ser usados com cuidado tendo em vista os potenciais efeitos adversos e interações medicamentosas. O tratamento convencional consiste na utilização de antifúngicos tópicos ou orais. A retirada da unha além de dolorosa é inútil. A terapia tópica é mais desejável por ser localizada e não ter efeitos colaterais, tampouco interação com outros medicamentos utilizados pelo paciente. No entanto, como referido acima, a difusão no leito ungueal é dificultosa. Devido a esses fatores, o uso dos antifúngicos tópicos está restrito a onicomicoses superficiais, com comprometimento inferior a 50% da lâmina ungueal ou em casos em que o tratamento sistêmico esteja contra-indicado. O tratamento sistêmico é mais eficaz, pois é absorvido e se difunde na placa ungueal através do leito. As principais opções são descritas à seguir: Tratamento tópico Antifúngicos convencionais encontrados nas unidades básicas de saúde podem ser utilizados como profiláticos e em onicomicoses superficiais. No entanto os melhores resultados são encontrados com esmaltes de ciclopirox olamina a 8% e amorolfina a 5%. Além de complementarem a terapia sistêmica, possibilitam a cura da tinha ungueal incipiente após alguns meses de uso. Tratamento sistêmico Disponíveis na RENAME, itraconazol e fluconazol são os mais utilizados. Itraconazol pode ser usado de duas maneiras: 1 cápsula de 100mg após o café da manhã e jantar por 4 a 6 meses ou pulsoterapia, que consiste em administrar 200 mg duas vezes ao dia por uma semana. Suspender por 3 semanas e repetir 4 a 6 vezes. O fluconazol também é efetivo e pode ser utilizado na dose de 150mg/semana por 4 a 6 meses. Outra opção com bons resultados e ótima tolerância é o uso de terbinafina 250mg/dia por 4 meses. Devido ao longo tempo de uso e um certo grau de hepatotoxicidade dessas drogas, recomenda-se realização de exames laboratoriais regulares durante o tratamento. ENCAMINHAMENTO PARA SERVIÇO ESPECIALIZADO EM DERMATOLOGIA Recomenda-se encaminhar ao serviço especializado em Dermatologia os casos com as seguintes condições: • Casos recidivantes e que não respondem às opções terapêuticas sugeridas. • Suspeita de outras doenças ungueais e possível necessidade de realização de biópsia do leito ungueal. ONICOCRIPTOSE COMPREENDENDO A CONDIÇÃO A onicocriptose é resultado da penetração do canto da unha, sobretudo, do hálux, no tecido adjacente com intensa reação inflamatória. É comum em pessoas que possuem a lâmina ungueal convexa. O processo inflamatório desencadeado, geralmente, complica-se pela infecção bacteriana e, em alguns casos, pelo crescimento de um tecido granulomatoso vegetante. Além da convexidade da unha, calçados muito justos e o corte inadequado das unhas favorece o encravamento. A dor é característica e importante, podendo prejuddicar a deambulação. Em casos mais graves, a onicocriptose pode servir como porta de entrada para celulite e erisipela. PATOGENIA E MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Durante o desenvolvimento da onicocriptose é possível notar a evolução do quadro em estágios. Segue descrição das condutas terapêuticas: • Estágio 1: a extremidade do dedo do pé apresenta-se avermelhada com inchaço leve. Geralmente é dolorosa ao toque, porém, não há pus ou drenagem de secreção. • Estágio 2: o dedo torna-se cada vez mais vermelho, inchado e doloroso; é possível encontrar drenagem de pus cor branca ou amarelada. • Estágio 3: há formação do tecido de granulação que aumenta juntamente com a descarga de pus. Há crescimento excessivo de tecido ao redor do dedo afetado e a infecção pode se agravar e apresentar sinais como febre. Cerca de 2% dos recém nascidos podem apresentar um quadro semelhante a onicocriptose, que raramente é doloroso ou evolui para estágios mais avançados. Geralmente há resolução espontânea em um a dois anos. É consequência de uma placa ungueal muito curta que cresce e adentra parcialmente o tecido sub ungueal. INVESTIGAÇÃO E DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL O diagnóstico é claro ao exame físico e raramente são necessários exames complementares. O médico deve investigar causas adjacentes à onicocriptose, como onicomicoses ou distrofias ungueais. O uso de medicamentos retinóides orais podem predispor à onicocriptose. HIPÓTESES DE SOLUÇÃO E APLICAÇÃO À REALIDADE Como conduzir? Orientações, oportunidades de cuidado ampliado, intervenções terapêuticas possíveis e terapêutica disponível no SUS O tratamento depende do estágio da condição. No entanto, em qualquer estágio de uma unha encravada, o paciente deve evitar sapatos apertados ou salto alto. Se possível,usar sandálias até melhorar o quadro. Recorrente na Atenção Básica é a procura de trabalhadores com onicocriptose que fazem uso constante e obrigatório de calçados como Equipamento de Proteção Individual (EPI), como botas com bicos metálicos, por vezes mal ajustadas. É nosso papel orientar o paciente e fornecer-lhe relatórios sobre a necessidade de sapatos adequados, afastamento ou readaptação profissional, uma vez que tais calçados podem agravar a condição. Deve-se orientar o paciente sobre o corte das unhas que deve ser feito com extremidades livres, isto é, unhas em ângulo de 90º com as margens. A onicocriptose no estágio 1 deve ser gerenciada de maneira conservadora, usando métodos simples de cuidados gerais, como: mergulhar o pé em água quente/morna e lavar a área afetada com água e sabão ao menos 3 vezes ao dia. Como o processo inflamatório não é muito intenso, é possível separar a lâmina ungueal do leito, colocando entre eles, um pequeno chumaço de algodão, mantido até que a unha cresça alguns milímetros O estágio 2 pode exigir a administração de antibióticos tópicos ou orais. Pomadas antibióticas tópicas combinadas com agentes anestésicos locais ajudam a curar o dedo do pé mais rapidamente e também proporcionam alívio da dor. A remoção cirúrgica da unha encravada pode ser necessária se a condição piorar. A unha encravada no estágio 3 é frequentemente tratada cirurgicamente. A remoção completa da unha não é indicada, uma vez que a recidiva é quase certa. Deve-se realizar cantoplastia e matricectomia, com resultados excelentes e menor índice de recorrência. ENCAMINHAMENTO PARA SERVIÇO ESPECIALIZADO EM DERMATOLOGIA Recomenda-se encaminhar ao serviço especializado em Dermatologia os casos com as seguintes condições: • Onicocriptose estágio 3 - realização de cantoplastia. • Sinais de gravidade mediante infecção ou evolução para celulite/erisipela com necessidade de antibióticos parenterais. DERMATITE ATÓPICA COMPREENDENDO A CONDIÇÃO A dermatite atópica, ou eczema atópico, é uma doença inflamatória da pele, pruriginosa e recorrente, que ocorre predominantemente na infância e é frequentemente associada a manifestações atópicas como asma, rinite e urticária. Caracteriza-se por apresentar curso crônico, com períodos de crise e acalmia. Em aproximadamente 80% dos pacientes, o eczema atópico, manifesta-se no primeiro ano de vida e cerca de 30% tem asma ou rinite alérgica. Os pacientes com DA compartilham as características de xerodermia (pele seca) e limiar diminuído para prurido. O eczema ocorre de maneira cíclica durante a infância, podendo prolongar-se até a fase adulta. Em alguns pacientes, o prurido é constante e incontrolável, sendo um dos fatores responsáveis pela diminuição da qualidade de vida dos pacientes e de seus familiares. Tratar destes pacientes na atenção básica é um desafio, uma vez que a piora pode acontecer de maneira súbita e a demanda por consultas, elevada. Além do tratamento, a equipe deve estar consciente do seu papel na orientação de melhores hábitos para pacientes atópicos. PATOGENIA E MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS A dermatite atópica surge como resultado de uma complexa interação de fatores genéticos e ambientais. Isso inclui defeitos na função de barreira da pele, tornando-a mais suscetível à irritação por detergentes ou outros irritantes de contato, clima, temperatura, entre outros gatilhos. Não há uma causa única conhecida. Existem muitas teorias sobre os mecanismos subjacentes. A investigação atual tem focado nos papéis do sistema imunológico, mutações genéticas estruturais da pele e microbiota da superfície da pele. A idade de início costuma ocorrer entre os dois e seis meses de idade na maioria dos casos. A distribuição das lesões varia de acordo com a idade do paciente. Nos primeiros 18 meses de vida, as áreas mais acometidas são a face (regiões malares) e a superfície de extensão dos membros inferiores e superiores, podendo em alguns casos ser generalizadas. A doença evolui por surtos e costuma melhorar após os dois anos. Se as lesões persistem, mudam de característica e de localização. Após os 18 meses e antes da fase adulta, as lesões localizam-se preferencialmente nas dobras cubitais, poplíteas, lateral do pescoço, punhos e tornozelos. As lesões são eritematosas, descamativas e liquenificadas, mas há fases de agudização com eritema, vesiculação e secreção. O prurido é intenso. A evolução ocorre em surtos e tende a melhorar durante a puberdade. Na idade adulta, as lesões são semelhantes às das crianças maiores. Existe prurido intenso e liquenificação mais acentuada, e a localização preferencial são as áreas flexurais. DA em lactantes O diagnóstico é geralmente confirmado pela presença de prurido nos últimos 12 meses associado a dois ou mais critérios a seguir: • pele ressecada nos últimos 12 meses; • história pessoal de rinite ou asma ou em familiares de primeiro grau para crianças menores de 4 anos; • início dos sintomas antes dos 2 anos de idade; • história de lesões em regiões flexurais; • dermatite na região flexural visível. DA em pre-escolar O diagnóstico é geralmente confirmado pela presença de prurido nos últimos 12 meses associado a dois ou mais critérios a seguir: • pele ressecada nos últimos 12 meses; • história pessoal de rinite ou asma ou em familiares de primeiro grau para crianças menores de 4 anos; • início dos sintomas antes dos 2 anos de idade; • história de lesões em regiões flexurais; • dermatite na região flexural visível. DA em idade escolar O diagnóstico é geralmente confirmado pela presença de prurido nos últimos 12 meses associado a dois ou mais critérios a seguir: • pele ressecada nos últimos 12 meses; • história pessoal de rinite ou asma ou em familiares de primeiro grau para crianças menores de 4 anos; • início dos sintomas antes dos 2 anos de idade; • história de lesões em regiões flexurais; • dermatite na região flexural visível. DA em adultos O diagnóstico é geralmente confirmado pela presença de prurido nos últimos 12 meses associado a dois ou mais critérios a seguir: • pele ressecada nos últimos 12 meses; • história pessoal de rinite ou asma ou em familiares de primeiro grau para crianças menores de 4 anos; • início dos sintomas antes dos 2 anos de idade; • história de lesões em regiões flexurais; • dermatite na região flexural visível. INVESTIGAÇÃO E DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL O diagnóstico de dermatite atópica é essencialmente clínico e baseado na história e exame físico detalhados e atentos. A biópsia cutânea é de pouca utilidade, e realizada eventualmente, apenas se houver dúvida diagnóstica. O diagnóstico diferencial deve ser feito com dermatite seborreica, dermatite das fraldas, dermatite de contato e micoses superficiais. HIPÓTESES DE SOLUÇÃO E APLICAÇÃO À REALIDADE Como conduzir? Orientações, oportunidades de cuidado ampliado, intervenções terapêuticas possíveis e terapêutica disponível no SUS O tratamento da dermatite atópica tem sido um desafio para profissionais de saúde da atenção básica. O médico deve estar pronto para receber no consultório pais extremamente preocupados e inquietos com a condição. Deve-se orientar os familiares sobre o caráter crônico e recorrente da doença e da necessidade de uma mudança de rotina da família, visando afastar comportamentos e contatos com substâncias que possam agravar a condição. A cronicidade, as recidivas, o aspecto de distribuição das lesões conforme a idade e o comprometimento da qualidade de vida do paciente são muito relevantes, seja para o diagnóstico seja para a classificação da gravidade da doença. Vale reforçar que o prurido deve ser fator de grande preocupação para o profissional uma vez que causa distúrbios de sono bem como irritabilidade importante.O objetivo do tratamento deve ser o controle da doença, reconhecendo os fatores agravantes, tais como banhos quentes e demorados, contato com lã e fibras sintéticas, unhas compridas e ambiente seco. O banho deve ser morno e não deve demorar mais de cinco minutos. As roupas devem ser de algodão e permitir uma ventilação adequada e, se possível, devem ser lavadas com sabão neutro. As unhas devem ser cortadas para evitar escoriações, que facilitam a infecção secundária. A moradia deve ser livre de poeira e ácaros, e em locais muito secos recomenda-se usar umidificadores de ar. O quarto do atópico deve ter poucos móveis, e o colchão e travesseiros devem ser revestidos por plástico. A pele do paciente com dermatite atópica é seca devido à alteração existente na formação do manto lipídico, por isso recomenda-se o uso de hidratantes como vaselina líquida, óleo de amêndoas ou cremes para corpo restauradores da barreira cuta ̂nea. Durante as crises, o tratamento tópico com corticosteróides deve ser instituído. O tratamento sistêmico pode ser necessário visando a redução do prurido, relaxamento do paciente e o controle da infecção cuta ̂nea. Tratamento tópico Na fase aguda e subaguda, compressas com soro fisiológico podem ser úteis. Os corticoides tópicos são as medicações efetivas no tratamento, porém não devem ser usados indiscriminadamente. Em lactentes, recomenda-se utilizar somente os corticoides tópicos de baixa pote ̂ncia, como a hidrocortisona 1%, disponível na RENAME. Nos adultos, os corticoides de baixa potência são a opção em locais cuja absorção é maior, como virilha e axilas ou em regiões onde os efeitos colaterais são potencialmente mais sérios, como face e pálpebras. Os efeitos colaterais relacionados ao uso indiscriminado de corticoide são aparecimento de telangectasias, estrias e atrofia. Em lesões liquenificadas, principalmente nos adultos, corticoides mais potentes podem ser utilizados, como a valerato de betametasona ou o propionato de clobetasol. Tratamentos sistêmico Os anti-histamínicos são indicados para controle do prurido. Os que são sedativos são preferíveis à noite e os não sedativos, durante o dia. Hidroxizina, na dose de 1 a 2 mg/kg/dia, para crianças e 25-50mg, duas vezes ao dia para adultos. Dextroclorofeniramina na dose de 2mg, tre ̂s vezes ao dia para adultos, 0,5 a 5mg, tre ̂s vezes ao dia para crianças de dois a seis anos e 1,0mg, tre ̂s vezes ao dia, para crianças de seis a 12 anos. Nos casos em que existem lesões já com infecção secundária, o uso de antibiótico efetivo contra o Staphylococcus aureus é fundamental para melhora do quadro, pois a bactéria age como superantígeno, piorando as lesões de dermatite atópica. ENCAMINHAMENTO PARA SERVIÇO ESPECIALIZADO EM DERMATOLOGIA Recomenda-se encaminhar ao serviço especializado em Dermatologia os casos com as seguintes condições: • Dermatite atópica grave e extensa; • Casos refratários após 1 mês do tratamento disponível para Atenção Básica, após otimização possível dos fatores desencadeadores; • Dermatite atópica recidivante (3 ou mais recidivas em um período de 6 meses) apesar do tratamento clínico otimizado. O PROBLEMA - CASO CLÍNICO 2 Paciente de 25 anos, masculino, solteiro, pedreiro. Veio à consulta devido a dor lombar baixa. Relata tabagismo de 10 anos-maço e consumo de álcool 10 doses/semana. Após descartar os sinais de alarme para dor lombar baixa e exame físico sugestivo de lombalgia inespecífica, observa-se descamação furfurácea brancacenta em couro cabeludo e face, além de exuberantes pápulas nas faces, os quais não foram relatados pelo paciente, anteriormente. Após perguntar sobre a evolução do quadro, o paciente sorrindo responde: “obrigado por perguntar doutor(a), estava com tanta vergonha de falar sobre isso. Fico sempre tentando esconder das pessoas. Meus amigos do trabalho sempre me perturbam com isso. Tem alguma coisa pra melhorar?” DERMATITE SEBORREICA COMPREENDENDO A CONDIÇÃO A dermatite seborreica é uma doença eritêmato-descamativa de caráter crônico- recidivante que acomete cerca de 2% da população. Possui dois picos de incidência: o primeiro, durante os três primeiros meses de vida, e o segundo, a partir da puberdade, atingindo seu ápice entre os 40 e 60 anos de idade. Os indivíduos HIV positivos têm maior prevalência da doença, que apresenta maior intensidade e tendência à refratariedade ao tratamento. PATOGENIA E MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS As glândulas sebáceas são um ambiente favorável para o crescimento do fungo de gênero Malassezia (antigamente conhecido por Pityrosporum ovale). Tal fungo é um saprófita da pele normal e se prolifera em locais de predileção para dermatite seborreica. Reconhece- se que o fungo Malassezia sp., presente na pele de indivíduos suscetíveis, leve a uma irritação não-imunogênica a partir da produção de metabólitos à base de ácidos graxos insaturados deixados na superfície cutânea. A gravidade do quadro pode variar de mínima, com descamação assintomática da pele (caspa) até um envolvimento disseminado. Os pacientes acometidos em geral são previamente hígidos, embora dermatite seborreica tenha sido associada à infecção pelo HIV (chegando a 85% de prevalência na fase AIDS) , doença de Parkinson (associada a aumento da oleosidade da pele, que costuma melhorar com L-dopa), além de outras doenças neurológicas e uso de medicamentos neurolépticos. As primeiras manifestações clínicas de dermatite seborreica devem aparecer logo após a puberdade ou mais tardiamente na vida adulta e seus sintomas podem perdurar por décadas. A doença tende a piorar sob estresse e durante tempo frio e seco. Os sintomas tendem a melhorar durante o verão, provavelmente devido a exposição ao sol. A clínica da doença é caracterizada, em geral, por placas eritematosas, bem delimitadas, com aspecto descamativo e pode assumir as colorações rosa, amarela clara ou eritematosa. As lesões têm predileção pelas áreas de elevada produção de sebo, como o couro cabeludo, face, pavilhões auriculares, região retroauricular e pré-esternal, pálpebras e dobras. A presença de prurido é variável. lactante face esternal couro cabeludo INVESTIGAÇÃO E DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL O diagnóstico é clínico e definido com base na aparência e localização das lesões. Biópsia deve ser utilizada nos raros casos em que se tem dúvida diagnóstica. Nos casos crônicos, pode haver dificuldades para distinguir dermatite seborreica de psoríase, sobretudo no couro cabeludo. Nos pacientes portadores de HIV / AIDS é esperado se identificar um padrão histopatológico de maior gravidade, com presença de paraceratose mais disseminada e queratinócitos necróticos na epiderme. A psoríase é o principal diagnóstico diferencial. Em alguns casos, ambas as condições podem coexistir e o termo “seboríase” é utilizado para aquelas situações de difícil distinção. Geralmente, no entanto, lesões de psoríase são finamente demarcadas e eritematosas e com escamas abundantes e branco-acinzentadas. Na maioria dos casos, as superfícies extensoras, como cotovelos e joelhos são acometidas. Alterações ungueais características, assim como a presença de artrite ou história familiar positiva corroboram o diagnóstico. A rosácea é outra condição que pode, comumente, acometer face e, em alguns casos, coexistir com dermatite seborreica. Diferentemente da dermatite seborreica, a rosácea costuma demonstrar predomínio de telangiectasias e lesões pápulo pustulosas, com envolvimento frequente do nariz, região malar e regiões periorais. Na rosácea não costuma haver escamas. A dermatite de contato alérgica pode ser suspeitada em pacientes com dermatite seborreica que não respondem ao tratamento de escolha, especialmente se prurido for o sintoma predominante. Dermatite de contatoalérgica pode ocorrer de forma concomitante ou ser uma complicação da dermatite seborreica nos pacientes alérgicos aos componentes das medicações tópicas para tratamento da dermatite seborreica ou mesmo produtos convencionais para cuidado de pele e cabelos. Podem ser necessários testes cutâneos alérgicos para se estabelecer o diagnóstico. HIPÓTESES DE SOLUÇÃO E APLICAÇÃO À REALIDADE Como conduzir? Orientações, oportunidades de cuidado ampliado, intervenções terapêuticas possíveis e terapêutica disponível no SUS O manejo da dermatite seborreica objetiva reduzir os sinais mais evidentes da doença e os sintomas associados, como eritema e prurido. Por se tratar de uma doença inflamatória crônica, em resposta a uma provável presença de um fungo (Malassezia sp.) na pele e do seu metabolismo através da utilização dos lipídios da pele, o objetivo do tratamento consiste no controle da inflamação, da proliferação do micro-organismo e da oleosidade. A primeira regra é esclarecer os pacientes sobre o caráter crônico recidivante da doença. Assim, o indivíduo, ciente do curso da doença, demonstra maior confiança e aderência ao tratamento. Cuidados gerais como lavagens mais frequentes da pele e couro cabeludo, interrupção do uso de sprays, pomadas e géis para o cabelo e a descontinuação do uso de chapéus e bonés devem ser sugeridos aos pacientes com dermatite seborreica. Tratamento tópico Os antifúngicos tópicos imidazólicos, como cetoconazol 20 mg/g em xampu, creme ou loção, são bem estabelecidos como terapêutica para a dermatite seborreica do couro cabeludo e face, uma vez que promovem a diminuição da população de Malassezia furfur na pele acometida, além de suas propriedades anti-inflamatórias; Corticosteróides tópicos também são amplamente usados para o tratamento da dermatite seborreica por reduzirem a inflamação, eritema e prurido. Em regime de atenção especializada, em casos específicos, inibidores da calcineurina tópicos (tacrolimus e pimecrolimus) podem ser usados como alternativa aos corticosteróides tópicos devido a suas propriedades anti-inflamatórias e ausência de eventos adversos, diferentemente do observado com corticoides (atrofia da pele e telangiectasia); A hidrocortisona 10mg/g creme, presente na RENAME, é uma ótima opção, sobretudo para a face. Não disponíveis no Sistema Único de Saúde, outros agentes tópicos podem trazer algum benefício e podem, a depender do rol de medicamentos disponíveis na Relação Municipal de Medicamentos ou arranjos locais de gestão terem sua prescrição bem estabelecida. Os principais são o Selênio e o Piritionato de Zinco, geralmente utilizados em forma de xampus. Tratamento sistêmico Medicamentos administrados por via oral também podem ser usados, principalmente em caso de DS extensa e refratária a medicações tópicas. Os antifúngicos usados e suas respectivas doses são: • cetoconazol 200mg/dia por 14 dias • itraconazol 100mg/dia por 21 dias • terbinafina 250mg/dia por 4 semanas ENCAMINHAMENTO PARA SERVIÇO ESPECIALIZADO EM DERMATOLOGIA Os pacientes com dermatite seborreica devem ser diagnosticados, tratados e acompanhados na UBS. Mesmo nos casos refratários ou em pacientes portadores do HIV, o médico de família possui competência suficiente para conduzir os pacientes com dermatite seborreica. Em casos de sobreposição de diagnósticos, o matriciamento com dermatologista pode ser desejável para apoio à tomada de decisão clínica, sendo o motivo do encaminhamento o outro diagnóstico e não a dermatite seborreica isoladamente. O PROBLEMA - CASO CLÍNICO 3 Mulher, 36 anos, casada, empregada doméstica. Refere que suas mãos a incomodam muito porque "estão sempre inchadas e pinicando nos vãos dos dedos, com a pele descamando feito cobreiro”. Ao interrogar por exposições ocupacionais ela relata que: “adora a casa da patroa porque tem água quentinha nas torneiras e a patroa sempre pede para usar a luva para não contaminar as mãos com a sujeira da casa.” Ao exame, observa- se afinamento da pele com hiperemia e fissuras profundas próximas aos sulcos interdigitais. À palpação, as mãos se apresentam quentes e dolorosas ao toque. DERMATITE DE CONTATO COMPREENDENDO A CONDIÇÃO Dermatite de contato irritativa, ou por irritante primário, é uma doença inflamatória e localizada da pele, resultado do contato com diversos agentes físicos ou químicos. Esta dermatite é multifatorial e resulta da interação das propriedades físico-químicas do agente irritante, da susceptibilidade do paciente e de fatores ambientais, não dependendo, portanto, da resposta imune para se desenvolver. É considerada a causa mais frequente de dermatite eczematosa na mão e representa 80% das dermatoses ocupacionais. Na população geral, a prevalência estimada de dermatite eczematosa na mão é de aproximadamente 4%. Mulheres são mais frequentemente afetadas do que os homens. O risco ocupacional é maior naqueles com trabalho em locais úmidos, tais como cozinheiros, profissionais da saúde, profissionais da indústria, profissionais da limpeza ou empregadas domésticas. PATOGENIA E MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Múltiplos mecanismos estão envolvidos na etiologia da dermatite de contato, alguns ainda não compreendidos completamente: rompimento da barreira epidérmica, dano às membranas celulares, efeitos citotóxicos e liberação de citocinas pelos queratinócitos. Fatores predisponentes podem estar relacionados ao doente ou ao ambiente. História pessoal de atopia e fatores genéticos são os principais relacionados ao ambiente. As manifestações clínicas da dermatite de contato irritativa variam de pele moderadamente seca e hiperemiada a uma dermatite eczematosa crônica e mesmo necrose da pele (em caso de queimadura química). Em geral, essas dermatites são divididas entre agudas e crônicas. As dermatites de contato irritativas agudas são decorrentes, na maioria das vezes, da exposição única a um agente químico cáustico. Manifestações clínicas incluem eritema, edema, vesículas, bolhas e descamação. A reação é geralmente limitada ao local do contato com sensação de ardência, parestesia ou dor. As dermatites de contato irritativas crônicas ou cumulativas são resultado da exposição repetida a irritantes moderados ou a baixas concentrações de irritantes fortes. Clinicamente, a dermatite de contato irritativa é caracterizada por eritema, liquenificação, hiperceratose e fissuras. Os locais mais acometidos são dorso das mãos, pontas dos dedos e espaços interdigitais. INVESTIGAÇÃO E DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL O diagnóstico é geralmente baseado na história clínica acurada com relato de exposição ocupacional ou não, de maneira eventual ou crônica a um irritante químico ou físico. Ao exame físico o achado de dermatite localizada deve ser confirmatório do diagnóstico. Em casos extremos, mais graves e refratários ao tratamento clínico, nos quais o diagnóstico é desafiador pode-se realizar biópsia para análise histológica da lesão. Alguns critérios podem ser úteis na investigação tais como: • Atividades diárias, incluindo ocupação e hobbies; • Tipos de substâncias e maquinário no ambiente de trabalho; • Condições do ambiente de trabalho (temperatura, umidade, poeira); • Uso de luvas ou botas impermeáveis; • Trabalho úmido (ou com luvas oclusivas); • Hábitos de lavagem de mãos excessivos; • Uso de desinfetantes para mãos ou cremes de proteção; • Dermatite atópica ou história de outras atopias como a asma, por exemplo. As manifestações clínicas da dermatite de contato irritativa são semelhantes às de outras doenças crônicas eczematosas, como a dermatite atópica ou a dermatite de contato alérgica. Diferenciar a dermatite de contato irritativa da alérgica pode ser desafiador. A história de alergia em região de dobras deve chamar a atenção para dermatite atópica. A dermatite de contato irritativa hiperqueratóticapode ser extremamente difícil de diferenciar da psoríase não-pustulosa palmoplantar. A presença de placas psoriáticas em locais distantes (p.ex. cotovelos e joelhos) e/ou alterações das unhas são pistas para se pensar no correto diagnóstico. O eczema disidrótico é caracterizado por vesículas e bolhas em regiões palmar e plantar estendendo-se para região interdigital, sem envolvimento do dorso das mãos e dos pés. Isso ocorre mais frequentemente em adolescentes e adultos jovens, com exacerbações na primavera e verão e remissão espontânea no outono e inverno. As tinhas da mão ou do pé geralmente são unilaterais (assimétricas). Exame das hifas com KOH pode elucidar o diagnóstico. Escabiose interdigital pode simular uma dermatite de contato irritativa. Porém, na escabiose o prurido é o sintoma predominante, enquanto na dermatite de contato irritativa, o prurido é menos intenso. HIPÓTESES DE SOLUÇÃO E APLICAÇÃO À REALIDADE Como conduzir? Orientações, oportunidades de cuidado ampliado, intervenções terapêuticas possíveis e terapêutica disponível no SUS O manejo da dermatite de contato irritativa visa identificar e interromper o contato com o agente irritativo, tratar a inflamação da pele e recuperar a função de barreira da pele lesada. Por envolver mudanças comportamentais, relacionadas à redução de exposição aos irritantes, bem como uso de EPI, o acionamento da equipe NASF nas UBS pode ser de fundamental importância no tratamento. Ademais, o contato com o empregador por meio de relatório médico ou por via telefônica pode facilitar a adesão à mudança de comportamento proposta. Evitar o contato com os agentes irritantes e a adoção de proteção contra estes agentes é uma medida fundamental no manejo desta dermatite. Para dermatites nas mãos, cuidados gerais incluem: • Minimizar contato com detergentes e agentes para limpeza, polimento ou solventes; • Uso de luvas de plástico com forro de algodão, em caso de trabalho úmido (luvas de plástico são menos irritativas do que as de látex); • Uso de luvas em tempo frio; • Uso de água morna a fria e pequenas quantidades de sabão neutro para lavagem das mãos; • Realizar a secagem das mãos após as lavagens; • Uso de hidratantes ao longo do dia. Além das medidas gerais a dermatite de contato quase sempre exige o uso de medicamentos que auxiliem no controle da inflamação. Os mais utilizados são os corticosteróides. Seu uso por curto período de tempo favorece o controle da afecção pelo grande efeito anti-inflamatório. Na fase aguda da-se preferencia aos corticoides em forma de cremes. No eczema crônico a escolha é de pomadas e unguentos. Nunca se esquecer de que o emprego contínuo e em áreas extensas de corticosteróide tópico pode produzir efeitos nocivos à pele e ao organismo por sua absorção percutânea. Casos graves podem se beneficiar do uso de corticoide via sistêmica. A dose geralmente utilizada corresponde ao equivalente de prednisona a 1mg/kg/dia, com doses decrescentes a partir do controle do quadro clínico. Pode ser necessário utilizar antibióticos na vigência de infecção secundária. Nas dermatites de contato de longa duração, outras drogas imunomoduladoras podem ser utilizadas, como o tacrolimo (tópico) ou a ciclosporina e metotrexato (sistêmicos). ENCAMINHAMENTO PARA SERVIÇO ESPECIALIZADO EM DERMATOLOGIA Recomenda-se encaminhar ao serviço especializado em Dermatologia os casos com as seguintes condições: • Casos graves e refratários; • Se disponível, o encaminhamento pode ser precedido da biópsia local, com envio do resultado ao especialista. PITIRÍASE RÓSEA COMPREENDENDO A CONDIÇÃO Dermatose eritêmato-pápulo-descamativa aguda, de causa desconhecida, benigna e autolimitada. Atinge adolescentes e adultos jovens e não há evidências de que seja contagiosa. A causa da pitiríase rósea é controversa. O fato de se apresentar, como regra, apenas uma vez na vida (tendência à imunidade duradoura), ser sazonal e existirem relatos de epidemia, sugerem agente infeccioso viral. Tem sido associada à reativação de um herpesvírus humano (HHV-7). PATOGENIA E MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS O padrão da pitiríase rósea é típico: geralmente aparece como uma placa ovalada — "medalhão inicial" ou "placa-mãe" — maior do que as lesões subsequentes, que começam a surgir em grande número após uma ou duas semanas. A disseminação ocorre a partir do tronco, seguindo as linhas de clivagem da pele (distribuição "em árvore de Natal"). A erupção preserva a face, palmas e plantas e não produz sintomatologia expressiva. Dura algumas semanas e regride sem deixar sequelas. O prurido, quando presente, é discreto. Pode ser mais intenso quando a dermatose é irritada por medicamentos agressivos como antifúngicos ou antiparasitários. O tempo de evolução é de 4 a 8 semanas, com regressão total. medalhao inicial ou placa mae surgimento de lesoes menores próximos a placa mae. INVESTIGAÇÃO E DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL O histórico de aparecimento progressivo de lesões eritêmato-descamativas após a placa maior praticamente identifica a dermatose. O quadro clínico é típico. Entretanto, há o cuidado de verificar se há gânglios e fenômenos gerais que distinguem a pitiríase rósea de outras situações semelhantes, especialmente a sífilis secundária. Em geral o prurido não é significativo. Raramente há necessidade de realização de biópsia, a não ser quando a erupção é atípica, muito semelhante à psoríase, por exemplo. A sorologia para sífilis é exigência tradicional para distinção entre as dermatoses eritemato-pápulo-descamativas, que se desenvolvem com o padrão da pitiríase rósea. HIPÓTESES DE SOLUÇÃO E APLICAÇÃO À REALIDADE Como conduzir? Orientações, oportunidades de cuidado ampliado, intervenções terapêuticas possíveis e terapêutica disponível no SUS O tratamento não é, em regra, necessário, uma vez que o quadro evolui para a cura em 4 a 8 semanas. Recomenda-se evitar banhos quentes prolongados com excesso de sabonete, pois a pitiríase rósea é, por tradição, considerada uma afecção irritável. Os banhos de sol podem abreviar a duração da erupção. Cremes emolientes e antipruriginosos são recomendados para os casos em que o prurido é queixa significativa. Acima de tudo deve- se tranquilizar o paciente e esclarecê-lo sobre a natureza dessa ocorrência benigna e passageira. Nos casos eczematizados por tratamentos intempestivos, usar cremes de corticóides, anti-histamínicos e, eventualmente, corticoides sistêmicos nos casos mais intensos. A hidrocortisona em creme a 1%, está disponível na RENAME e é uma ótima opção. ENCAMINHAMENTO PARA SERVIÇO ESPECIALIZADO EM DERMATOLOGIA Recomenda-se encaminhar ao serviço especializado em Dermatologia os casos com as seguintes condições: • Encaminhamento para a especialidade não é necessário, uma vez que o quadro é limitado e evolui para cura. Casos arrastados, com mais de 8 semanas de evolução, podem ser encaminhados para diagnóstico diferencial. LÍQUEN PLANO COMPREENDENDO A CONDIÇÃO O líquen plano é uma condição inflamatória crônica que afeta a pele e as mucosas. A maioria dos casos ocorre entre os 30 e 60 anos e estima-se que a incidência no mundo seja de 1%. Cerca da metade das pessoas afetadas tem líquen plano oral, mais comum em mulheres do que em homens. Cerca de 10% têm líquen plano das unhas. PATOGENIA E MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Apesar de não estar totalmente esclarecida, a etiopatogenia do líquen plano está ligada à autoimunidade. Diversos fatores podem contribuir com o surgimento da afecção, entre eles estresse físico e emocional, predisposição genética e lesão de pele prévia (fenômeno de Koebner). Infecções virais sistêmicas, como a hepatite C, têm sido relacionadas ao surgimento de líquen plano, sobretudoem mucosas. A lesão característica é uma pápula poligonal, achatada, de 0,5 a 2mm de diâmetro, de superfície lisa, brilhante e de cor vermelho-violácea. Na superfície da pápula geralmente há estrias ou pontuações, que são melhor visualizadas quando se umedece a lesão. As pápulas podem se dispor em linhas que muitas vezes surgem após escoriações ou traumatismos da pele (fenómeno de Koebner). Pode haver certa simetria na erupção que geralmente tem predileção pelas superfícies flexoras dos punhos, no terço inferior das pernas, região sacral e abdome. As lesões de boca e região genital ocorrem em cerca de um terço dos casos, mas podem ser manifestações isoladas. Em cerca de 10% dos casos ocorre acometimento ungueal, caracterizado por onicoatrofia e onicodistrofia. O curso é crônico, variando de meses a anos com frequente involução espontânea. Além das lesões típicas cutâneas, o líquen plano pode apresentar-se em outros subtipos. Abordaremos de maneira concisa apenas o líquen plano oral e ungueal, que além de mais comuns, podem ser facilmente identificados pelo médico da atenção básica de saúde. No líquen plano oral a boca é frequentemente a única área afetada. Geralmente envolve o interior das bochechas e os lados da língua, mas as gengivas e os lábios também podem estar envolvidos. O líquen plano ungueal afeta uma ou mais unhas, às vezes sem envolver a superfície da pele. Esta afecção afina a unha, que pode ficar estriada. A unha pode escurecer, engrossar ou descolar a extremidade do leito ungueal (onicólise). Às vezes, a cutícula é destruída e forma uma cicatriz (pterígio). INVESTIGAÇÃO E DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL O líquen plano cutâneo deve ser diferenciado da psoríase, dos eczemas e de outros quadros pruriginosos comuns. O quadro ungueal deve ser diferenciado da psoríase e da onicomicose. O líquen plano da mucosa bucal deve ser distinguido da leucoplasia, que geralmente ocorre no lábio inferior e na língua em forma de placas, sem a disposição reticular. Também é necessário diferenciar as lesões mucosas da candidose. Em alguns casos, a biópsia pode ser necessária. HIPÓTESES DE SOLUÇÃO E APLICAÇÃO À REALIDADE Como conduzir? Orientações, oportunidades de cuidado ampliado, intervenções terapêuticas possíveis e terapêutica disponível no SUS O tratamento do líquen plano deve levar em conta a extensão das lesões e o grau de desconforto que o doente experimenta, que pode, em alguns casos, comprometer de tal forma a qualidade de vida que o uso de medicamentos mais potentes se torna necessário. Deve-se investigar, e se possível afastar, possíveis fatores desencadeantes. Nas formas disseminadas os corticoides sistêmicos sãos altamente eficazes e devem ser utilizados nas doses de 30 a 60mg/dia por 4 a 6 semanas. O desmame deve ser realizado em 3 a 6 semanas após o desaparecimento das lesões. Os anti histamínicos também possuem seu papel, sobretudo no alívio do prurido. São opções presentes na RENAME: loratadina, dexclorfeniramina e prometazina. Nos casos recidivantes ao uso dos corticosteróides sistêmicos, ou quando estes estiverem contraindicados, o uso de imunobiológicos pode ser testado. Os mais comuns são acitretina, ciclosporina, azatioprina e metotrexato. Nas formas cutâneas localizadas, prefere-se o tratamento tópico com corticosteróides potentes, como o propionato de clobetasol, também disponível na RENAME. Nas formas orais indica-se cuidados rigorosos de higiene bucal e remoção de restauração metálicas. ENCAMINHAMENTO PARA SERVIÇO ESPECIALIZADO EM DERMATOLOGIA Recomenda-se encaminhar ao serviço especializado em Dermatologia os casos com as seguintes condições: • Necessidade de uso de imunobiológicos; • Casos crônicos e recidivantes à terapia medicamentosa otimizada; • Impossibilidade da realização de biópsia na unidade básica de saúde. URTICÁRIA E ANGIOEDEMA COMPREENDENDO A CONDIÇÃO É uma das dermatoses mais frequentes de procura ao serviço médico podendo atingir cerca de 0,1% da população geral. Uma vez que o quadro se apresente cerca de 50% das pessoas poderão experimentar novos episódios em 1 ano e mais de 20% pode ter episódios da doença por mais de 20 anos. São quadros que interferem de forma substancial a qualidade de vida e a interação social, refletindo nos aspectos emocionais, alterando o sono e o estado mental. Em consequência evidenciamos um impacto na qualidade de vida, com resultando em prejuízo socioeconômicos, seja por conta de uso dos serviços de saúde, compra de medicamentos e por falta ao trabalho e escola. PATOGENIA E MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Sua manifestação pode ser superficial e subcutânea. As lesões são pápulas que podem se unir e formar placas avermelhadas, com ou sem prurido. Os tamanhos são variáveis e aparecem e desaparecem sem deixar sequela. No entanto, uma manifestação mais intensa pode ocorrer causando um inchaço com extremidades pouco definidas, mas é nessa manifestação que ocorre com mais frequência o desencadeamento do edema de glote que está relacionado a uma exposição mais intensa aos alérgicos do que do tipo que somente atinge superficialmente a pele. Conceitua-se assim, respectivamente, a urticária e o angioedema. Tais manifestações não são excludentes, podendo ocorrer juntas ou separadas e o diagnóstico é eminentemente clínico, sendo a anamnese fundamental para identificar o agente causal. A urticária é caracterizada por edema central de tamanho variado, circundado por eritema reflexo, associado a prurido e natureza efêmera, com a pele retornando ao aspecto normal geralmente em período que varia de 1 a 24 horas. Já o angioedema, por sua vez, é definido por edema súbito e acentuado da derme profunda e do tecido subcutâneo, maior frequência do sintoma de dor em relação ao prurido; acomete frequente membranas mucosas e tem resolução em torno de 72 horas, de forma mais lenta em relação às urticárias. As causas e formas clínicas são diversas e distintas. São ditas urticárias agudas quando a manifestação ocorre por até 6 semanas. Passado 6 semanas, mesmo que a manifestação ocorra de forma intermitente, denomina-se crônica. É importante reconhecer se há algum fator provocador ou desencadeador - exercícios ou agentes físicos, ingestão de alimentos, uso de medicamentos, uso de hemoderivados e contrastes, ocorrência de infecções virais e doenças febris, picadas de inseto, estresse, etc. Há situações de em que a urticária pode ser desencadeada por condições associada a outras doenças - tireoidianas, autoimunes, neoplasias malignas, entre outras. Por fim, os antecedentes de história pessoal e familiar de atopia ou urticária prévia, doenças psíquicas ou psicossomáticas, relação com ciclo menstrual, problemas gastrointestinais, uso de medicamentos, uso de tabaco e cannabis, tipo de lazer e trabalho, estresse físico e mental, impacto emocional nas atividades diárias. INVESTIGAÇÃO E DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL O diagnóstico é eminentemente clínico, a partir da história e exame físico. Regra geral, a urticária aguda não necessita de investigação para a instituição de tratamento. No entanto, a urticária crônica, necessita de uma abordagem investigativa e acomete cerca de 30% das pessoas com urticária, sendo mais comum no sexo feminino e em idade adulta. O hemograma permite avaliar a hipótese de neoplasias hematológicas, sinais de doença crônica que cursam com urticária, ou eosinofilia, o que pode remeter a infecções helmínticas intestinais, potencial causa de urticária. A biópsia de pele é um procedimento de absoluta exceção em quadros de urticária e angioedema. Tem um lugar potencial apenas quando da suspeita de vasculite ou em uma das seguintes condições: • Lesões persistentes por mais de 24 horas, mais dolorosas do que pruriginosas, acompanhadas de petéquias ou púrpuras. • VHS elevada de forma sustentada e ou acompanhadade outros sintomas sistêmicos cuja razão pode levar a suspeita de outras condições compatíveis com o quadro. • Sintomas persistentes, mesmo com doses apropriadas de anti-histamínicos. HIPÓTESES DE SOLUÇÃO E APLICAÇÃO À REALIDADE Como conduzir? Orientações, oportunidades de cuidado ampliado, intervenções terapêuticas possíveis e terapêutica disponível no SUS O tratamento da urticária aguda é feito utilizando-se de anti-histamínicos sistêmicos. Os anti-histamínicos de segunda geração são considerados a primeira linha de tratamento e devem ser administrados de forma continuada por 4 a 6 semanas, e não somente quando paciente apresentar lesões, tendo importância na redução de recidivas. Uma opção segura, disponível no SUS e bem tolerada é a Loratadina, outras opções incluem a cetirizina, a desloratadina. Eventualmente, pode ser necessário utilizar de 2 a 4 vezes a dose usual do anti-histamínico de segunda geração para controle dos sintomas, sendo importante o médico acompanhar de maneira próxima essa titulação de dose. Para casos com prurido significativo que prejudique o sono, pode-se associar anti-histamínico de primeira geração (sedativos) antes de dormir, mas esses devem ser evitados em idosos. O tratamento adjuvante pode ser realizado também com cursos breves de corticoide sistêmico em caso de angioedema ou de persistência das lesões a despeito do anti- histamínico, tendo um papel na modulação da resposta imune e redução da chance de recidivas (efeito rebote).Deve-se, no entanto, não se recomenda o uso no primeiro trimestre de gestação, por possíveis riscos ao bebê, como a ocorrência de fenda palatina. Anti-histamínicos de segunda geração • Loratadina: o Adultos: 10 mg uma vez ao dia; o Crianças de 2 a 5 anos: 5 mg uma vez ao dia; o Crianças acima de 6 anos: 10 mg uma vez ao dia; o Gestantes e lactantes: 10 mg uma vez ao dia. • Cetirizina: o Adultos: 10 mg ao dia; o Crianças acima de 6 anos: 5 a 10 mg ao dia; o Crianças de 1 a 5 anos: 2,5 mg ao dia (máximo de 2,5 mg, de 12 em 12 horas); o Crianças de 6 meses a 1 ano: 2,5 mg ao dia; o Gestantes e lactantes: 10 mg uma vez ao dia. • Desloratadina: o Adultos: 5 mg ao dia; o Crianças de 6 a 11 anos: 2,5 mg ao dia; o Crianças de 1 a 5 anos: 1,25 mg ao dia; o Crianças de 6 meses a 1 ano: 1 mg ao dia. Anti-histamínicos de primeira geração • Dexclorfeniramina: o Adultos e maiores de 12 anos: 2 mg antes de dormir; o Crianças 6 a 11 anos: 1 mg antes de dormir; o Crianças 2 a 5 anos: 0,5 mg antes de dormir. • Hidroxizina: o Adultos: 25 mg antes de dormir; o Crianças maiores de 6 anos: 12,5 a 25mg antes de dormir; o Crianças menores de 6 anos: 12,5 mg antes de dormir. Corticoides sistêmicos • Prednisona: o Adultos: 20 a 60 mg uma vez ao dia por 3 a 10 dias, com redução gradual da dose. • Prednisolona: o Crianças: 0,5 a 1 mg/kg/dia (máximo de 60 mg ao dia), por 3 a 7 dias, com redução gradual da dose. Abordagem da anafilaxia Em caso de anafilaxia, que seria o angioedema associado a edema de laringe, edema de glote, broncoespasmo, náuseas, vômitos e hipotensão arterial - que é uma situação potencialmente fatal, medida específicas e rápidas devem ser adotadas. Esta pode ser classificada em leve, moderada e grave, sendo o quadro grave caracterizado por hipóxia, hipotensão, comprometimento do sistema nervoso central ( cianose, satO2 abaixo de 92%, pressão arterial sistêmica abaixo de 90mmHg, confusão colapso, perda de consciência e relaxamento de esfíncteres. São sinais de alerta para anafilaxia a existência de dispneia, náuseas e dor abdominal; O tratamento deve ser de prontidão e a unidade de saúde preparada para reconhecer e tratá-la. Quando notado o comprometimento de via aérea e o risco de anafilaxia, o fármaco de eleição é a adrenalina 1 mg/mL na dose de 0,3 a 0,5 mg, intramuscular, para adultos e, para crianças, 0,01 mg/kg (dose máxima igual a de adultos), de preferência no músculo vasto lateral da coxa. Sintetizamos o fluxo a seguir: • Intervenção imediata o Acesso às vias aéreas. o Administrar epinefrina 1:1000(1 mg/ml), via subcutânea ou intramuscular preferencialmente 0,2 -0,5 mL no adulto e 0,01 mg/kg, máximo de 0,3 mg dose total nas crianças, a cada cinco minutos. o Acesso venoso e oxigenoterapia com fluxo de 6 a 8 L/min. o Iniciar o uso de anti histamínicos. o B2 agonista em nebulização se broncoespasmo refratária a epinefrina pode ser utilizado. o Corticoide sistêmico também pode ser considerado para apoiar a modulação da resposta. Após estabilizado o caso, considerar remoção. Urticária crônica Nas urticárias crônicas, o tratamento deve compreender as orientações gerais dadas e a farmacoterapia. O tratamento deve ser individualizado de acordo com o quadro é característica da pessoa. A identificação da etiologia é central para o controle da doença. O tratamento não medicamentoso da urticária tem como objetivo remover a causa identificada, explicar sobre a doença, reduzir o estresse emocional e o sobreaquecimento do corpo e a ingestão de bebidas alcoólicas. Evitar a hiper utilização de medicamentos, em especial analgésicos e AINH. Os analgésicos agravam a urticária crônica em 30% das pessoas. Exceção é o uso do AAS, que no caso do pacientes que o utilizam doses baixas, com finalidade de prevenção cardiovascular, podem continuar o tratamento. Pessoas com angioedema devem evitar também o uso de IECA. Mesmo já usando IECA há meses o angioedema pode se manifestar. Nesses casos, deve-se optar por outros esquemas anti-hipertensivos. Além disso, o profissional deve estar atento ao controle sintomático, base do tratamento das lesões. O uso dos anti-histamínicos possuem as mesmas considerações feitas acima quando da discussão da urticária aguda e o prazo de uso segue orientações similares, com atenção à resolução dos sintomas e resposta às lesões. ENCAMINHAMENTO PARA SERVIÇO ESPECIALIZADO EM DERMATOLOGIA Recomenda-se encaminhar ao serviço especializado em Dermatologia os casos com as seguintes condições: • Casos de urticária grave persistente, sem respostas às medidas terapêuticas anteriores. • Pacientes com urticária de origem autoimune com indicação de terapia imunossupressora. • Urticárias crônicas (lesões recorrentes por pelo menos 6 semanas) refratárias ao tratamento clínico otimizado, episódios recorrentes de angioedema sem lesões de urticária e cuja identificação etiológica não foi possível, ou a ocorrência de angioedema e/ou urticária associados a sinais de gravidade (obstrução de via aérea, broncoespasmo e hipotensão), após avaliação/estabilização em serviço de urgência/emergência também devem ser encaminhados para avaliação e eventualmente seguimento em serviço de atenção especializada em dermatologia ou alergia imunologia. FARMACODERMIA COMPREENDENDO A CONDIÇÃO As farmacodermias são as reações cutâneo-mucosas induzidas pelo uso de medicamentos. Não são raras e apresentam um amplo espectro de morbidade PATOGENIA E MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Diversos mecanismos tanto imunológicos quanto não imunológicos podem explicar a patogênese das farmacodermias. Entre os aspectos não imunológicos podemos citar: superdosagem, intolerância, distúrbios ecológicos (uso de antibióticos favorecendo a proliferação de leveduras por supressão da flora bacteriana, por exemplo), interação entre fármacos e hiperpigmentação. Entre os mecanismos imunológicos temos reações do tipo I, II, III e IV. São fatores de risco para a farmacodermia infecções virais ativas, sobretudo pelo HIV, idade avançada, uso de anticonvulsivantes, antibióticos, anti-inflamatórios e analgésicos. As formas de farmacodermias são variadas: exantema, erupção cutânea com sintomas sistêmicos, urticária, fotossensibilização, eritemamultiforme, síndrome de Stevens- Johnson, necrólise epidérmica tóxica, erupções bolhosas e vasculites. Destacam-se como as mais frequentes o exantema (correspondendo a 75% das farmacodermias) e a urticária. O prurido geralmente ocorre, mas em determinadas formas clínicas está ausente. Além da história de uso de fármacos e de reação clínica compatível, a relação temporal entre o início do uso e do aparecimento do quadro é importante. A maior parte das reações ocorre entre 4 e 30 dias. INVESTIGAÇÃO E DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL A investigação das farmacodermias exige uma anamnese detalhada quanto ao uso de fármacos, pois frequentemente os pacientes não relatam alguns, considerados como agentes não medicamentosos (por ex. fitoterápicos, laxantes, xaropes para tosse). O diagnóstico final é clínico e demanda a exclusão de outras doenças ou agentes etiológicos. HIPÓTESES DE SOLUÇÃO E APLICAÇÃO À REALIDADE Como conduzir? Orientações, oportunidades de cuidado ampliado, intervenções terapêuticas possíveis e terapêutica disponível no SUS A conduta em casos de farmacodermias é suspender o fármaco suspeito e , na dúvida sobre qual medicamento ocasionou a reação, recomenda-se a suspensão de todos, exceto aqueles que são absolutamente essenciais para a vida do paciente. Na maioria das reações exantemáticas, que são as mais comuns, esta atitude é suficiente como medida terapêutica. O uso de corticoides sistêmicos pode ser proveitoso para abreviar o curso das reações extensas. Prednisona entre 30 a 60 mg/dia em adultos e entre 0,5 a 1 mg/kg/dia. Os anti- histamínicos devem ser empregados apenas como sintomáticos e como auxiliares na diminuição do prurido. ENCAMINHAMENTO PARA SERVIÇO ESPECIALIZADO EM DERMATOLOGIA Recomenda-se encaminhar ao serviço especializado em Dermatologia os casos com as seguintes condições: • Casos graves com sinais como febre alta, adenomegalias, artrite, taquipneia, dispneia, hipotensão e queda do estado geral, devem ser encaminhados para atendimento de urgência. LESÕES MELANOCÍTICAS COMPREENDENDO A CONDIÇÃO Com a maior disponibilidade de informações nos diversos meios de comunicação, sobretudo a internet, é cada vez mais comum que o médico da atenção básica se depare com pacientes preocupados com condições pesquisadas espontaneamente. A queixa de “pintas“ pelo corpo é bem comum e gera expectativas pela possibilidade de uma lesão maligna. Estudar o melanoma juntamente com os nevos melanocíticos, e não com as outras neoplasias de pele, é uma tentativa de facilitar o reconhecimento, pelo médico não especialista, das lesões que requerem rápido encaminhamento para tratamento cirúrgico. Melanócitos normais são encontrados na camada basal da epiderme (a camada externa da pele). Os melanócitos produzem uma proteína chamada melanina, que protege as células da pele absorvendo a radiação ultravioleta (UV). Os melanócitos são encontrados em igual número na pele negra e branca, mas os melanócitos na pele negra produzem muito mais melanina. O crescimento não cancerígeno de melanócitos resulta em nevos melanocíticos ou sardas (efélides) O crescimento neoplásico de melanócitos resulta no melanoma. PATOGENIA E MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Nevo Melanocítico Costumam ser pouco numerosos ao nascimento, aumentar em número na puberdade, por ondas, depois aos 20 e aos 30 anos. São simétricos e sem atrofia. Na maioria dos casos, os nevos melanocíticos são benignos e o risco de malignização está relacionado ao número, forma dos nevos e histórico familiar de melanoma. Os nevos melanocíticos adquiridos são aqueles que se manifestam após o nascimento. Podem crescer lentamente, estacionar ou até involuir, com correlação histológica, predisposição genética e de exposição ambiental. Nevo halo ou vitiligo peri névico ocorre como uma forma de resposta imunológica contra o nevo. Tanto o nevo pigmentado quanto a despigmentação peri névica podem desaparecer completamente. Os nevos melanocíticos atípicos são herdados, apresentam padrão irregular, superfície e bordas irregulares, contornos pouco definidos, cor variando em tonalidades de marrom e róseo, além de diâmetro igual ou maior que 5mm. Pessoas com dez ou mais nevos atípicos têm risco maior de desenvolvimento de melanoma. Efélides Também chamadas de “sardas” são manchas castanhas de 2 a 4mm de diâmetro que surgem dos 6 aos 18 anos de idade, depois de exposição ou queimadura solar. Geralmente apresentam caráter hereditário e são mais comuns em em indivíduos com pele clara. A distribuição é simétrica e atinge sobretudo face, membros superiores, ombros e porção superior do tronco. No verão acentuam-se e melhoram no inverno. Nevos melanóticos Melanoses solares Quadro extremamente frequente, originado pela ação cumulativa da exposição solar na pele, geralmente após os 40 anos de idade. O tipo de pele e o tempo de exposição à luz solar irão determinar a intensidade do quadro. Caracteriza-se por manchas de alguns milímetros até 1,5cm de diâmetro, castanho-claras ou castanho-escuras, localizada no dorso das mãos, no punho, nos antebraços e na face. Melanoma São tumores malignos dos melanócitos associados a mutações genéticas. Mais frequentes em pessoas com pele clara (pessoas ruivas correm um risco cinco vezes maior do que pessoas de cabelos pretos), com mais de 50 nevos e mais que cinco nevos displásicos. Dos melanomas de expansão superficial, 30% a 40% formam-se a partir de nevos preexistentes. Há vários tipos de melanoma: extensivo superficial, lentigo maligno- melanoma, nodular, acral, amelanótico e subungueal. Queimaduras solares na infância em pessoas de pele clara aumentam o risco de desenvolvimento de melanomas.Podem ocorrer em qualquer parte do corpo, não apenas em áreas expostas. O primeiro sinal do melanoma geralmente é uma sarda ou um nevo de aparência incomum. Podem apresentar uma variedade de cores incluindo, marrom, preto, azul, vermelho e ocasionalmente cinza claro. Alguns melanomas não possuem pigmento e são chamados de melanoma amelanótico. Inicialmente o melanoma cresce sem relevo, mas ao longo do tempo pode se tornar espesso e elevado. Dor e prurido são sintomas ocasionais. Muitos pacientes demonstram preocupação excessiva com pintas que coçam ou doem, mas estes sintomas não estão relacionados à malignidade em si. INVESTIGAÇÃO E DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL O diagnóstico das lesões melanocíticas é clínico mas, muitas vezes, o estudo anátomo patológico da lesão se faz necessária. A avaliação das lesões com um dermatoscópio (dermatoscopia) auxilia a identificar casos suspeitos de malignidade e evita biópsias desnecessárias. Alguns métodos, para avaliação clínica das lesões melanocíticas, foram criados no sentido de chamar a atenção para lesões suspeitas de melanoma. O principal deles, está descrito à seguir. O “ABCD” do melanoma se refere a um acrônimo desenvolvido para ajudar tanto médicos quanto a população a identificar características de uma lesão cutânea que pode sugerir um melanoma. Embora seja um método extremamente útil, vale dizer que nem todas as lesões com essas características são malignas, tampouco todos os melanomas apresentarão todas elas. O acrônimo é: • A: assimetria • B: bordas irregulares e mal definidas • C: coloração heterogênea • D: diâmetro maior que 6mm • E: evolução, mudança de tamanho e/ou coloração HIPÓTESES DE SOLUÇÃO E APLICAÇÃO À REALIDADE Como conduzir? Orientações, oportunidades de cuidado ampliado, intervenções terapêuticas possíveis e terapêutica disponível no SUS Neste módulo, fornecemos elementos para que omédico e sua equipe na atenção básica em saúde suspeitem imediatamente de lesões possivelmente neoplásicas. Tratando-se de lesões melanocíticas, a preocupação deve ser a de não atrasar o diagnóstico e tratamento cirúrgico do melanoma. Trata-se de uma doença agressiva e potencialmente fatal e que, em alguns casos, permanecem anos sem diagnóstico. Evitar a exposição excessiva ao sol e proteger a pele dos efeitos da radiação UV são as melhores estratégias para prevenir o melanoma e outros tipos de tumores cutâneos. Devemos orientar os pacientes quanto ao uso de protetores solares e roupas longas que protejam área expostas da pele, evitando também a exposição nos horários de maior incidência de radiação UV (10 às 16h). O autoexame da pele é uma orientação válida e o médico da atenção básica pode simplificar o método ABCDE, ensinando seus pacientes a reconhecer características básicas das lesões potencialmente neoplásicas. O tratamento é cirúrgico e, após o diagnóstico, é feita a excisão ampla no local do melanoma primário. As margens de segurança, bem como a extensão da cirurgia, depende da espessura do melanoma e de seu local. Os nevos melanocíticos, na ausência de suspeita de malignidade, podem ser acompanhados e observados quanto a evolução, sobretudo em tamanho e mudanças de cor. Deve-se evitar a excisão por fins meramente estéticos, pensando em possíveis cicatrizes desnecessárias e inestéticas. ENCAMINHAMENTO PARA SERVIÇO ESPECIALIZADO EM DERMATOLOGIA Recomenda-se encaminhar ao serviço especializado em Dermatologia os casos com as seguintes condições: • Lesão melanocítica suspeita, com alterações do método ABCDE. Se disponível, enviar o paciente com resultado de anatomopatológico. • Diagnóstico prévio de melanoma e surgimento de novas lesões névicas. CARCINOMAS CUTÂNEOS E LESÕES PRÉ-CARCINOMATOSAS COMPREENDENDO A CONDIÇÃO É o câncer de pele não melanoma (CPNM) é o câncer com maior incidência no mundo. Representa cerca de 30% dos casos de câncer registrados no país e, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 2 milhões de casos novos são diagnosticados por ano ao redor do mundo. Embora seja o câncer de maior incidência, o CPNM é o de menor mortalidade se tratado adequadamente. Representa cerca de 95% dos cânceres de pele. É mais comum em pessoas com mais de 40 anos, sendo relativamente raro em crianças e negros, com exceção daqueles já portadores de doenças cutâneas anteriores. Pessoas de pele clara, sensível à ação dos raios solares, ou com doenças cutâneas prévias são as principais vítimas. Duas linhagens são as mais frequentes, o carcinoma basocelular (CBC) e o carcinoma epidermóide ou espinocelular (CEC). O CBC é responsável por aproximadamente 70% dos diagnósticos e é menos agressivo. O CEC representa 25% dos casos. Os tumores de pele estão relacionados a alguns fatores de risco, principalmente, à exposição aos raios ultravioletas do sol. Pessoas que trabalham sob exposição direta ao sol são mais vulneráveis ao câncer de pele não-melanoma. Fatores de risco como pele clara, olhos e cabelos claros, propensão a queimaduras e a presença de fotodano, têm sido associados a maior risco para desenvolvimento dos CPNM. Como fizemos no módulo das lesões melanocíticas, estudaremos ainda lesões consideradas precursoras do CPNM, lesões estas que em geral compartilham dos mesmos fatores de risco e devem ser diferenciadas das lesões potencialmente malignas pelo médico da atenção primária. PATOGENIA E MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Ceratose Actínica A ceratose actínica é uma lesão frequente que surge em áreas expostas à luz solar, geralmente em pessoas idosas ou adultos de meia idade de pele clara. As lesões são maculopapulosas cobertas por escamas secas, de cor amarelada ou castanha, em geral com cerca de 1cm de diâmetro que podem confluir formando placas. Predileção por áreas expostas como a face, pavilhões auriculares, pescoço, dorso das mãos e antebraço. Também é muito comum no couro cabeludo de indivíduos calvos. Esta lesão tem curso crônico. O surgimento de halo eritematoso e infiltração da base pode indicar transformação carcinomatosa. Corno Cutâneo É uma projeção endurecida de queratina compacta, de caráter crônico, que é assim chamado pela semelhança com um chifre de um animal. O corno cutâneo surge de lesões pré existentes na pele que, em cerca de 50% dos casos, podem ser malignas. É comum o surgimento a partir de ceratoses actínicas, ceratoses seborreicas, verrugas virais e carcinoma espinocelular. São mais comuns em pacientes idosos, com pico de incidência por volta dos 65 anos. Afetam mais frequentemente pacientes de pele clara. Corno cutâneo Ceratoacantoma Esta lesão assemelha-se clinicamente, e até histologicamente, ao carcinoma espinocelular, mas diferencia-se pelo crescimento mais rápido e pelo caráter benigno, uma vez que geralmente regride espontaneamente. É raro e afeta, via de regra, pessoas acima dos 50 anos. Caracteriza-se por uma tumoração redonda, com 1 a 2cm de diâmetro, com uma cratera central onde encontramos massa córnea. Localiza-se preferencialmente em áreas descobertas como face, antebraços, dorso das mãos e pescoço. Há uma fase inicial de 4 a 8 semanas com crescimento rápido seguido de um período estacionário com involução espontânea por volta de 6 meses. Ceratoacantoma Carcinoma Basocelular É o mais benigno e mais comum dos tumores malignos de pele. É geralmente visto em pacientes idosos, que apresentam histórico de exposição solar crônica ao longo da vida, ou em trabalhadores rurais. Porém, cada vez mais temos visto casos de CBC em pacientes abaixo de 50 anos. Tem maior prevalência na face e no tórax e o subtipo nodular é o mais prevalente. Metástases de CBC são extremamente raras e os casos em que essas foram descritas são exceções. No entanto são tumores que podem causar grande morbidade em relação a invasão tecidual local, podendo atingir até cartilagem e ossos. Como é um tipo de tumor característico de áreas fotoexpostas como cabeça e pescoço, pode levar à desfiguração e perda de função quando não tratado. Os fatores de risco para desenvolvimento do carcinoma basocelular são: fototipos baixo (pele claras), história de exposição solar crônica, idade acima de 60 anos, sexo masculino, história prévia de câncer de pele não melanoma e presença de ceratoses actínicas. A lesão de carcinoma basocelular pode apresentar-se de várias formas clínicas mas, na grande maioria dos casos, apresenta-se como uma pápula perolada, com telangiectasias, ulceração e sangramento. Podemos classificar o CBC em subtipos, com características clínicas e histopatológicas peculiares. Nem sempre a diferenciação é clara, e o médico não especialista não deve ser preocupar com tais divisões. O intuito é despertar a equipe da atenção básica para o máximo de casos possível. São eles: Carcinoma Espinocelular O Carcinoma Espinocelular (CEC) é o segundo tumor mais frequente dos cânceres cutâneos, com aproximadamente 20% dos casos. Possui capacidade de invasão local e metástase, acomete todas as raças, é mais frequente no sexo masculino e após os 60 anos de idade. O tumor associa-se com exposição solar e também com a imunossupressão. Pode relacionar-se igualmente com algumas síndromes genéticas, como albinismo e xeroderma. As localizações mais comuns são lábio inferior, orelha, face e dorso das mãos. Clinicamente caracteriza-se por área queratótica infiltrada e dura ou nódulo que gradualmente cresce e ulcera. Na evolução pode tornar-se vegetante. Algumas características conferem ao Carcinoma Espinocelular maior risco, com chances maiores de recorrência e metástase. Incluem: diâmetro igual ou superior a 2 cm; localização na orelha, contorno do lábio, centro da face, mãos, pés, e região genital; pacientes idosos ou com imunossupressão.INVESTIGAÇÃO E DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL Apesar do diagnóstico clínico, a suspeita de lesões neoplásicas deve ser sempre confirmada histopatologicamente. O carcinoma basocelular e espinocelular, fazem diagnóstico diferencial entre si, bem como com inúmera patologias neoplásicas ou pré neoplásicas como ceratoacantoma, ceratoses seborreicas ulceradas, melanoma amelanótico, entre outros. A ceratose actínica deve ser diferenciada da ceratose seborreica, que também apresenta superfície rugosa, de cor amarelada ou castanha e ocorre, além da face, no tronco. O diagnóstico do corno cutâneo e do ceratoacantoma também é clínico. O último deve ser diferenciado do carcinoma espinocelular, carcinoma basocelular e verrugas vulgares. HIPÓTESES DE SOLUÇÃO E APLICAÇÃO À REALIDADE Como conduzir? Orientações, oportunidades de cuidado ampliado, intervenções terapêuticas possíveis e terapêutica disponível no SUS A equipe de saúde deve estar preparada para reconhecer e rapidamente acolher pacientes com lesões suspeitas de neoplasia. Apesar da baixa agressividade de algumas delas, o crescimento das lesões e a morosidade no diagnóstico podem impactar a qualidade de vida do paciente acometido, muitas vezes sendo necessário, pela demora no diagnóstico, realizar grandes incisões, que geram cicatrizes e deformidades desnecessárias. Pacientes com a pele muito clara e com histórico de exposição solar crônica ao longo da vida, devem ser acompanhados de perto e rapidamente referenciados caso haja suspeita. A maneira mais importante de prevenir o CPNM é evitando queimaduras solares, especialmente na infância e no início da vida. Os pacientes, sobretudo os de pele clara ou com histórico familiar de CPNM, devem proteger a pele da exposição solar, seja usando roupas de mangas longas. seja usando protetores solares de alto fator de proteção. O médico deve desestimular aqueles que praticam o hábito de bronzeamento artificial. Na ceratose actínica, a crioterapia por nitrogênio líquido é bem indicada com ótimos resultados. As lesões mais infiltradas podem ser curetadas e cauterizadas, devendo o médico enviar amostras do material para exame histopatológico. O creme de 5-fluoracil pode ser indicados em lesões disseminadas ou em pacientes sem condições cirúrgicas. Deve ser manejado com cuidado pelas reações inflamatórias que produz. O corno cutâneo deve ser excisado e geralmente realiza-se exame histopatológico da base a fim de identificar possíveis lesões neoplásicas na base. Apesar da regressão espontânea, a exérese do ceratoacantoma encurta o curso da afecção, fornecendo melhor resultado cosmético e possibilitando a diferenciação do carcinoma espinocelular através do exame histopatológico. Quanto ao CBC e CEC, a escolha do procedimento terapêutico depende da localização, tamanho e profundidade do tumor. Devemos, sempre que possível, realizar biópsia prévia, tanto para confirmação diagnóstica quanto para programação do tratamento. A biópsia pode ser realizada através de punch cirúrgico para obtenção de amostra de parte da lesão. Após confirmação diagnóstica, o tratamento de eleição é a ressecção cirúrgica completa do tumor com margens de segurança, o que deve ser feito em um centro de referência. ENCAMINHAMENTO PARA SERVIÇO ESPECIALIZADO EM DERMATOLOGIA Recomenda-se encaminhar ao serviço especializado em Dermatologia os casos com as seguintes condições: • Na suspeita de CBC ou CEC, o paciente deve ser prontamente referenciado. Se houver possibilidade realizar biópsia e enviar o laudo com o paciente, mas este procedimento não deve atrasar o encaminhamento. • Tratamento cirúrgico das demais lesões. • Dúvida diagnóstica e casos recidivantes. RETOMADA DO CASO CLÍNICO As característica clínicas das lesões neste caso são típicas e permitiram ao médico da unidade o pronto diagnóstico das lesões. Se houver condições, as duas lesões podem ser retiradas na própria unidade e enviadas para exame anatomopatológico a fim de confirmar os diagnósticos. Caso contrário, podem ser referenciadas para o dermatologista que irá proceder a excisão. Este paciente em particular, com a pele clara (fototipo II) e histórico prévio de exposição solar crônica, tem alto risco para o desenvolvimento de carcinomas cutâneos. As orientações quanto aos cuidados na exposição e uso de filtros solares, devem ser incentivadas e reforçadas. Orientar o paciente que, apesar de se tratar de uma lesão neoplásica, o CBC tem cura e metástases são raras. VITILIGO COMPREENDENDO A CONDIÇÃO O vitiligo é uma dermatose caracterizada pela despigmentação da pele. Atinge de 0,5% a 4% da população em diversos países do mundo, e independe de sexo ou idade para desenvolver-se. Embora seja considerado por alguns como uma alteração meramente estética, o vitiligo pode gerar nos pacientes consequências psíquicas e sociais importantes, A equipe de saúde deve estar atenta e oferecer suporte a estes pacientes tendo em mente que a maneira como reagem à doença é, muitas vezes, muito heterogênea. PATOGENIA E MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Vários fatores têm sido relacionados à etiopatogenia da doença. O fator genético é o primeiro, uma vez que aproximadamente 20% dos pacientes com vitiligo têm pelo menos um parente de primeiro grau com a doença.O segundo fator é a auto-imunidade, devido à associação positiva com algumas doenças como tireoidites, diabetes mellitus e alopecia areata. Fatores ambientais também exercem um papel nem sempre bem estabelecido: 10 a 76% dos pacientes com vitiligo atribuem a doença a algum fator precipitante. É provável que o estresse atue como fator precipitante da doença em indivíduos geneticamente predispostos. Clinicamente caracteriza-se por manchas inicialmente hipocrômicas geralmente nas áreas fotoexpostas como a face, dorso das mãos, áreas maleolares, axilas, pescoço e região genital. Há tendência à distribuição simétrica e é raro nas palmas e plantas. Os pelos podem ser eventualmente acometidos (leucotriquia), incluindo sobrancelhas, cílios e pelos pubianos. O prurido ou inflamação raramente está presente. O curso da doença é normalmente imprevisível, e não há nenhum critério clínico ou laboratorial que possa orientar o prognóstico. Sua evolução natural é normalmente de progressão lenta, mas pode exacerbar rapidamente. A repigmentação espontânea se inicia com ilhotas pontuadas nas saídas dos folículos no interior das machas ou de modo centrípeto a partir das bordas. INVESTIGAÇÃO E DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL O diagnóstico do vitiligo é essencialmente clínico. A luz de Wood fornece grande auxílio, uma vez que ressalta uma fluorescência branco-azulada na pele lesada. Trata-se de um artifício bastante importante que permite o diagnóstico de lesões pouco visíveis e o acompanhamento terapêutico do paciente. As alterações tireoidianas devem ser investigadas pelo médico da atenção básica de saúde. Diversos estudos têm mostrado maior prevalência de tais alterações em pacientes portadores de vitiligo. A biópsia é pouco utilizada para diagnóstico da doença uma vez que as ainda não há concordância no que se refere à presença ou não de melanócitos na pele lesional. Alguns estudos têm mostrado que os melanócitos podem estar presentes na pele lesada. O diagnóstico diferencial deve ser feito com o nevo acrômico, despigmentações de contato por derivados da hidroquinona (usados na indústria da borracha), pitiríase alba, hipocromia residual da pitiríase versicolor, psoríase e hanseníase. HIPÓTESES DE SOLUÇÃO E APLICAÇÃO À REALIDADE Como conduzir? Orientações, oportunidades de cuidado ampliado, intervenções terapêuticas possíveis e terapêutica disponível no SUS O tratamento do vitiligo ainda é um grande desafio, uma vez que há muitas teorias que tentam explicar a doença e muitas ainda a serem propostas. Um aspecto dessa patologiaque não pode ser esquecido é o psicossocial. Mais de 50% dos pacientes com vitiligo dizem sofrer algum tipo de discriminação social. Desta forma o paciente com vitiligo não deve ser encarado como possuidor de uma doença orgânica apenas, mas como um doente que vive em uma sociedade na qual a aparência tem grande apelo, até profissional. O tratamento do vitiligo é insatisfatório e lento. A repigmentação é geralmente mais bem sucedido no rosto e no tronco; mãos, pés e áreas com cabelos brancos respondem mal. Em comparação com as lesões de longa data, as novas têm maior probabilidade de responder à terapia médica. A primeira conduta deve ser a exclusão de doenças eventualmente associadas. Deve-se orientar o uso frequente de protetor solar visto que as lesões de vitiligo se queimam facilmente quando expostas ao sol. Além dos tratamentos tópicos e sistêmicos, que serão debatidos a seguir, outras opções como a PUVA (uso de radiação ultravioleta associado a medicamento psoralenico), estão disponíveis em alguns municípios ou serviços associados a instituições de ensino. Tratamento tópico Lesões localizadas podem responder ao uso de corticoide tópico de média potência (betametasona ou similar) usado diariamente em creme ou loção. A repigmentação inicia- se em três meses e pode ter sucesso em cerca de 50% dos doentes. é o tratamento eletivo em crianças. O uso de imunomoduladores, como o tacrolimo, tem resultados favoráveis, sobretudo para lesões localizadas na face. São considerados a segunda opção, após o uso de corticoides. Derivados da hidroquinona em alta concentração podem ser usados para realizar a despigmentação definitiva das áreas não afetadas em paciente com vitiligo universal, com acometimento superior a 50% da superfície corporal. Esse tratamento deve ser feito pelo especialista pelo risco de efeitos adversos. Como a droga destrói os melanócitos, a despigmentação é definitiva, o que deve ser bem compreendido pelo doente antes do encaminhamento. Tratamento sistêmico O uso de corticoides sistêmicos tem papel relevante na fase inicial da doença em adultos. A utilização de prednisona, com redução progressiva e uso máximo em seis meses, parece evitar a progressão da doença em sua fase de disseminação. Outra opção é o uso de medicamentos psoralenicos, como o metoxsalen, São medicamentos que ajudam a aumentar a absorção do ultravioleta e estimulam a atividade dos melanócitos. Devem ser utilizados com cuidado e somente em pacientes bem orientados. ENCAMINHAMENTO PARA SERVIÇO ESPECIALIZADO EM DERMATOLOGIA Recomenda-se encaminhar ao serviço especializado em Dermatologia os casos com as seguintes condições: • Avaliação para PUVA, em municípios que disponibilizam o serviço; • Casos com indicação de despigmentação definitiva. MELASMA COMPREENDENDO A CONDIÇÃO Melasma, ou cloasma, é uma melanodermia que ocorre na face, quase sempre em mulheres. Tem início geralmente após os 25 anos, após gravidez ou terapia hormonal. Contudo, mulheres jovens que nunca ficaram grávidas ou fizeram uso de medicações contraceptivas podem desenvolver a afecção. Não há padrão quanto à intensidade da pigmentação. Pode ocorrer de forma discreta, entretanto alguns casos mais acentuados geram repercussões estéticas importantes e risco ao desenvolvimento de problemas psicológicos relacionados a autoimagem. PATOGENIA E MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Apesar de não estar totalmente estabelecida, muitos fatores parecem contribuir com a etiologia do melasma. Sabe-se que paciente com pele castanha à parda manifestam essa melanodermia mais frequentemente. A gravidez é outro fator importante. Sabe-se que durante este período há um estímulo da melanogênese, percebido pelo aumento da pigmentação na aréola mamária e o aparecimento da linha nigra, que vai do púbis ao umbigo. Cerca de 20% das mulheres que tomam anticoncepcionais apresentam melasma, que também é comum em mulheres em terapia de reposição hormonal na menopausa. Todos estes fatores contribuem para o surgimento do melasma. Entretanto, o fator desencadeante mais importante no melasma é a exposição solar. A radiação ultravioleta aumenta a atividade dos melanócitos, provocando a pigmentação. Por isso, geralmente se agrava no verão e melhora no inverno e as recidivas são muito frequentes após nova exposição solar. As manchas são caracteristicamente castanhas, localizadas nas regiões malares, podendo atingir a região frontal, labial superior e masseteriana. INVESTIGAÇÃO E DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL O diagnóstico é eminentemente clínico e, em geral, não é difícil. A história clínica é muito característica, bem como o aspecto da lesão, sendo, portanto, desnecessários outros exames. Fazem parte do diagnóstico diferencial outras melanodermias com a pigmentação induzida por drogas e a hipercromia pós inflamatória. A pigmentação induzida por drogas geralmente é mais difusa e atinge áreas maiores como as regiões frontal, malar, retroauricular e pescoço. A hipercromia pós-inflamatória é uma pigmentação temporária em topografia de alguma lesão prévia (queimadura, por exemplo) ou distúrbio inflamatório da pele (dermatites, processos infecciosos ou cicatriciais). É observado principalmente em tipos de pele mais escura. HIPÓTESES DE SOLUÇÃO E APLICAÇÃO À REALIDADE Como conduzir? Orientações, oportunidades de cuidado ampliado, intervenções terapêuticas possíveis e terapêutica disponível no SUS Pacientes com melasma devem ser escutados com especial carinho pela equipe da atenção básica de saúde que deve, em um primeiro momento, compreender o impacto da condição na vida daquela pessoa. Os resultados levam tempo e as medidas podem não ser totalmente bem-sucedidas. Infelizmente, mesmo naqueles que alcançam bons resultados, a pigmentação pode reaparecer. principalmente após a exposição ao sol. Do ponto de vista terapêutico, a principal ação consiste no incentivo à fotoproteção. Cuidados gerais, como evitar a exposição solar, em especial nos momentos de maior presença de radiação UV (entre 10h e 16h), concomitante à prescrição de uso constante de fotoprotetor com FPS 30 ou superior, mesmo em ambientes com iluminação artificial, fazem muita diferença na evolução do melasma. Considerando o impacto psicológico, deve-se incentivar o uso de bases corretoras cosméticas para disfarçar as manchas, o que pode, isoladamente, aumentar a autoestima da paciente. O tratamento tópico pode ser feito com inibidores da melanogênese, como os derivados fenólicos, com destaque para a Hidroquinona e o Arbutin. Associação de retinóides, como a tretinoína e o ácido azeláico, também auxiliam mas devem ser usados com cuidado devido à fotossensibilidade. ENCAMINHAMENTO PARA SERVIÇO ESPECIALIZADO EM DERMATOLOGIA Devido a ausência de medicamentos despigmentantes na RENAME e as peculiaridades na manipulação dos mesmos, os casos que necessitarem de tratamento deverão ser encaminhados ao serviço de dermatologia. CELULITE E ERISIPELA COMPREENDENDO A CONDIÇÃO Celulite e erisipela estão entre as piodermites mais comuns atendidas pelo médico de família - estima-se que sua incidência seja em torno de 200 casos para cada 100.000 pacientes/ano. Elas se desenvolvem devido à entrada de bactérias através da barreira cutânea, o que é facilitado pela presença de rupturas na integridade da epiderme (ex: traumas, úlceras, intertrigo), condições inflamatórias, edema/estase venosa, obesidade, doenças imunossupressoras (ex: diabetes mellitus, HIV) ou infecções cutâneas pré existentes. Ambas atingem mais frequentemente membros inferiores de adultos acima dos 40 anos, mas podem ocorrer em qualquer local do corpo e em qualquer faixa etária, não havendo diferenças significativas entre os sexos. Dentre os pacientes com erisipela, 16% devem apresentar um ou mais episódios de recorrência, enquanto 45% dos pacientescom celulite podem desenvolver recorrência do quadro em até 3 anos após o primeiro episódio - geralmente associado à persistência de fatores de risco. São condições com diagnósticos diferenciais potencialmente graves que, se não percebidas e tratadas adequadamente, podem evoluir com sérias complicações. PATOGENIA E MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Celulite é o processo infeccioso que atinge a derme profunda e o tecido subcutâneo, enquanto a erisipela é um tipo de celulite superficial, atingindo a derme superficial e a parte superior do tecido subcutâneo, com grande envolvimento de vasos linfáticos da derme. Ambas são causadas por bactérias piogênicas, sobretudo pelo S. pyogenes e, em menor proporção, pelo Staphylococcus aureus. Estas bactérias são as principais responsáveis pela maior parte das infecções secundárias em lesões preexistentes da pele. Ocasionalmente, outras bactérias podem estar envolvidas, como o Haemophilus influenzae (principalmente em celulites do segmento cefálico em crianças abaixo de 2 anos), Estreptococos do grupo B (colonizadores da região anogenital), Streptococcus pneumoniae, Neisseria meningitidis e Vibrio vulnificus. A infecção provocada por estas bactérias, menos comuns, podem ser indício de imunossupressão. Clinicamente, manifestam-se com sinais locais de inflamação: eritema, edema, calor e dor. A celulite é caracterizada por uma inflamação difusa, infiltrativa, de evolução insidiosa, crescente e supurativa da pele, com área de lesão não elevada e mal delimitada, enquanto a erisipela manifesta-se como placa eritematosa e edemaciada de limites bem definidos, geralmente de instalação rápida, com crescimento centrífugo, sendo comum observar comprometimento linfático. Em alguns casos, a erisipela pode se estender mais profundamente para o tecido subcutâneo e resultar em celulite. Geralmente as manifestações são unilaterais. Os membros inferiores são os locais mais acometidos (70 a 80%), seguidos da face (5-20%) e de membros superiores. Ambas podem cursar com sinais e sintomas sistêmicos, como febre, leucocitose e estado geral comprometido. Em cerca de 5% dos casos, mais graves, podem ocorrer bolhas, petéquias e/ou necrose. A infecção ainda pode se disseminar através dos vasos linfáticos causando linfangite e linfadenite supurativa. Deve-se sempre estar atento à “porta de entrada” da infecção, que nem sempre é próxima à lesão (ex: fissuras interdigitais da tinha dos pés associadas à celulite acima do tornozelo). As mais comuns são: tinea interdigital, ferimentos por trauma, picadas de insetos, feridas cirúrgicas, queimaduras e locais de aplicação de drogas injetáveis. INVESTIGAÇÃO E DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL O diagnóstico é clínico, baseado no aspecto da lesão e na história clínica. Achados laboratoriais são inespecíficos e podem incluir leucocitose e aumento de marcadores inflamatórios (Ex: VHS, PCR) não devendo entrar na rotina diagnóstica ou no seguimento. Hemoculturas são positivas em menos de 10% dos casos de celulite. Radiografias, geralmente não devem ser utilizadas, mas podem ser úteis para o diagnóstico de exclusão na suspeita de abscessos e osteomielite. Os principais diagnósticos diferenciais são a trombose venosa profunda, dermatite de estase e a dermatite de contato nas fases iniciais. Na TVP, geralmente o edema envolve o membro todo e os sinais de Homans e da Bandeira comumente são positivos. No caso da dermatite de estase há história de insuficiência venosa crônica e outros sintomas associados tais como prurido, descamação, hiperpigmentação e até ulceração. Na dermatite de contato, as lesões são restritas ao sítio de contato, sendo o prurido um sintoma diferencial importante. HIPÓTESES DE SOLUÇÃO E APLICAÇÃO À REALIDADE Como conduzir? Orientações, oportunidades de cuidado ampliado, intervenções terapêuticas possíveis e terapêutica disponível no SUS Tanto na celulite quanto na erisipela, os cuidados envolvem repouso relativo, com a elevação da área afetada, que facilita a drenagem do edema e das substâncias inflamatórias pela gravidade. A hidratação da pele pode evitar o ressecamento e a formação de novas lesões. A porta de entrada, caso identificada, deve ser tratada para diminuir a chance de recidivas, assim como o controle de condições tidas como fatores de risco: diabetes, obesidade, insuficiência venosa, linfedema – também é fundamental. O tratamento com antibióticos deve ser instituído o mais breve possível. Por vezes, faz-se necessária abordagem cirúrgica, removendo e drenando grandes áreas necróticas e com pus. Antibioticoterapia A maioria dos pacientes com quadros não complicados apresentam boa resposta à antibioticoterapia oral. Tipicamente, a melhora dos sintomas se dá dentro de 24 a 48 horas do início da antibioticoterapia, podendo demorar até 72h em casos mais graves. Na persistência de eritema e/ou sintomas sistêmicos depois desse período, deve-se considerar patógenos resistentes, má aderência ou diagnósticos alternativos. Alguns casos irão demandar terapia parenteral e devem ser referenciados para nível terciário de atendimento. São eles: • Localização facial • Sinais de gravidade locais (bolhas, púrpura, necrose, hipoestesia) • Sinais de toxicidade sistêmica (ex: febre > 38 graus, hipotensão ou taquicardia sustentada) • Progressão rápida do eritema • Progressão do quadro clínico mesmo após 48h do início da antibioticoterapia oral • Intolerância à terapia oral • Lesão próxima a um dispositivo médico (ex: articulação protética ou enxerto vascular) • Comorbidades significativas (ex: imunossupressão, cirrose, insuficiência cardíaca ou renal) No tratamento da celulite a seleção antimicrobiana se baseia na presença ou ausência de secreção purulenta. Para celulite não purulenta, utiliza-se terapia empírica contra estreptococos do grupo A e S. aureus sensíveis à meticilina. No caso de celulite purulenta, deve-se incluir cobertura para S. aureus resistentes à meticilina (MRSA). Pacientes com erisipela devem ter a antibioticoterapia empírica direcionada a infecção por Estreptococos beta hemolíticos. Em geral, 5 dias é um tempo apropriado para pacientes com infecções não complicadas que apresentaram boa resposta à terapia, podendo ser estendido até 14 dias para casos mais graves, com melhora mais lenta ou em casos de imunossupressão. Portanto, o ideal é individualizar de acordo com o caso e a evolução do paciente, sendo fundamental uma reavaliação clínica após 24 a 48h do início da antibioticoterapia. Seguem as opções de antibioticoterapia ambulatorial para celulite/erisipela na APS: Celulite não purulenta • Cefalexina 500 mg 6/6 horas • Clindamicina 300-450mg a cada 6-8 horas • Amoxicilina 500mg 8/8 horas Celulite purulenta • Sulfametoxazol-trimetoprima 800/160 mg 12/12 horas • Doxiciclina 100mg 12/12 horas • Clindamicina 300-450mg a cada 6-8 horas Erisipela Penicilina G procaína (IM) • Adultos: 400.000UI IM 2x/dia • Crianças: 25U a 50.000U/kg/dia Penicilina benzatina (IM) • Adultos: 1.200.000 UI • Crianças < 27Kg: 50.000U/kg (máximo = 900.000UI) Eritromicina (para pacientes alérgicos à penicilina) • Adultos: 250mg a 500mg 6/6h • Crianças: 30mg a 50mg/kg/dia Cefalexina (útil nos casos em que não se consegue distinguir bem entre erisipela e celulite) • Adultos: 500mg 6/6h • Crianças: 25mg a 50mg/kg/dia Casos Recorrentes Geralmente a recorrência das infecções ocorre no mesmo local, estando associada à permanência de fatores de risco e/ou da porta de entrada – por isso o primeiro passo na vigência de recorrência é identificar tais fatores e manejá-los. Em se persistindo a recorrência de três ou mais episódios de infecção por ano, mesmo após manejo dos fatores de risco, a antibioticoterapia profilática está indicada por tempo indeterminado – ou até que se resolvam os fatores de risco.Seguem as opções: • Penicilina G Benzatina IM a cada 2 a 4 semanas (geralmente 21 dias) - 1,2 milhões UI para pacientes > 27Kg ou 600.000 UI se ≤ 27Kg • Penicilina V 200-500mg VO 2x ao dia • Eritromicina 250mg VO 2x ao dia (para pacientes alérgicos à penicilina) ENCAMINHAMENTO PARA SERVIÇO ESPECIALIZADO EM DERMATOLOGIA Recomenda-se encaminhar ao serviço especializado em Dermatologia os casos com as seguintes condições: • Casos que necessitem de antibioticoterapia IV (vide indicações citadas anteriormente) devem ser referenciados para nível terciário de atendimento. FURÚNCULO COMPREENDENDO A CONDIÇÃO O furúnculo é uma infecção bacteriana do folículo piloso e do tecido subcutâneo proximal. Causado pelo agente Staphylococcus aureus, acomete crianças e adultos jovens, sendo mais prevalente no sexo masculino. É mais frequente em face, pescoço, axilas, coxas e nádegas, áreas pilosas sujeitas à sudorese intensa e fricção. É uma doença muito comum e universal. Alguns fatores predisponentes estão ligados ao desenvolvimento de furúnculos: história familiar, obesidade, imunossupressão e higiene precária. O diagnóstico é clínico e, geralmente, exames complementares são desnecessários. PATOGENIA E MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS O furúnculo geralmente tem início a partir de uma foliculite superficial, mas pode iniciar já como um nódulo situado profundamente. Este nódulo é eritematoso, pustuloso, quente e doloroso que acaba por flutuar e romper-se eliminando conteúdo necrótico (carnegão) e purulento. A concomitância de vários furúnculos em múltiplas localizações denomina-se furunculose, e pode ser decorrente de complicações de dermatoses secundariamente infectadas, como a pediculose e escabiose. A ocorre ̂ncia de vários furúnculos na mesma localização denomina-se antraz. INVESTIGAÇÃO E DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL O diagnóstico baseia-se na história clínica e exame dermatológico. Exames complementares como bacterioscopia e cultura são desnecessários. Os principais diagnósticos diferenciais são: hidradenite supurativa, infecção cronica com períodos de remissão e exacerbações geralmente em axilas e região inguino-crural; Miíase, no entanto o nódulo causado pela penetração da larva é menos inflamatório e tem na parte central um orifício por onde a larva sai após atingir a maturidade. HIPÓTESES DE SOLUÇÃO E APLICAÇÃO À REALIDADE Como conduzir? Orientações, oportunidades de cuidado ampliado, intervenções terapêuticas possíveis e terapêutica disponível no SUS Recorre ̂ncias de furúnculo podem ocorrer por meses ou anos tornando-se problema de difícil resolução clínica. Como medidas de controle é importante lavar as mãos e o rosto do paciente com sabonetes antissépticos e secar bem todas as regiões do corpo após o banho. Deve-se evitar roupas apertadas e óleos corporais, a fim de evitar o "entupimento" do folículo piloso. Vestes e objetos de uso pessoal devem ser mantidos separados e limpos, se possível com trocas de roupas diárias. Orientar o paciente para que não faça a drenagem da lesão sem orientação médica. O tratamento em casos leves consiste em calor local com drenagem expontânea da lesão. Casos não resolvidos espontaneamente devem ser submetidos a incisão e drenagem, gerlmaente acompanhado de antibióticos sistemicos, que aceleram a regressão da infecção em pacientes saudáveis e são essenciais para pacientes com risco de desenvolvimento de bacteremia (pacientes com com celulite associada, múltiplas lesões, múltiplas comorbidades ou imunodeprimidos). A antibioticoterapia siste ̂mica deve ser prescrita por cerca de 5-7 dias. O tipo do antibiótico e a forma de administração (oral ou venosa) vai depender da gravidade do quadro e da resiste ̂ncia da cepa de S. aureus da comunidade do paciente. O tratamento empírico oral pode ser feito com cefalexina 500mg quatro vezes ao dia ou sulfametoxazol + trimetropina 800mg/160mg a cada 12 horas. Uma parte importante do tratamento, para casos recidivantes, é a descolonização de mucosas, que deve ser feita com mupirocina, três vezes ao dia, por sete dias, em nariz, axilas, sulcos interdigitais e região perianal. Este detalhe pode fazer grande diferença no surgimento de novas lesões. ENCAMINHAMENTO PARA SERVIÇO ESPECIALIZADO EM DERMATOLOGIA Recomenda-se encaminhar ao serviço especializado em Dermatologia os casos com as seguintes condições: • Casos que demandem uso de antibióticos parenterais ou com sinais de septicemia devem ser encaminhados ao serviço terciário de saúde. IMPETIGO COMPREENDENDO A CONDIÇÃO O impetigo é uma infecção bacteriana superficial da pele, de alta transmissibilidade, extremamente comum na infância. Podemos didaticamente classifica-lo em primário (por invasão direta da pele previamente sadia) ou secundário (como consequência de uma ruptura da barreira epidérmica, por exemplo, em abrasões, picadas de inseto, fissuras de eczemas, etc. – nesses casos, é comum o uso do termo “impetiginização”). A falta de higiene, costuma ser fator predisponente O agente etiológico principal é S.aureus; estreptococos beta-hemolíticos, mais raramente, podem causar o quadro também, isoladamente ou em associação a S.aureus. Apesar de uma simples infecção de pele, se não tratado, pode complicar, ocasionando celulite, linfangite e bacteremia, principalmente quando causado por S. aureus. PATOGENIA E MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Há duas formas de impetigo, uma com bolhas (impetigo bolhoso) e outra com vesículas e crostas (impetigo não bolhoso). No impetigo bolhoso vesículas e bolhas desenvolvem-se em pele normal, sem eritema ao redor. As lesões localizam-se no tronco, face, mãos, áreas intertriginosas, tornozelo ou dorso dos pés, coxas e nádegas. O conteúdo seroso ou sero-pustulento resseca-se, resultando em crosta amarelada que é característica do impetigo. Geralmente ocorre uma colonização inicial da mucosa nasal e, a partir desta, há contaminação da pele, com surgimento das lesões cutâneas. Quando não tratada tem tendência à disseminação. A lesão inicial muitas vezes é referida como se fosse uma bolha de queimadura de cigarro. Já no impetigo não bolhoso, as lesões cutâneas geralmente se iniciam após a colonização da pele, favorecidas por solução de continuidade em locais de picadas de insetos ou outros trauma. Localizam-se preferencialmente na face, braços, pernas e nádegas. É comum a presença de lesões satélites que ocorrem por autoinoculação. As lesões do impetigo duram dias ou semanas. Quando não tratadas podem envolver a derme o que constitui o ectima, com ulceração extensa e crosta hemorrágica. INVESTIGAÇÃO E DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL O diagnóstico do impetigo é clínico e epidemiológico, considerando as condições precárias de higiene em determinada região. Em casos especiais, pode ser feito exame bacterioscópico e culturas para identificação do agente causal, mas o exame não é necessário para início do tratamento. Diagnósticos diferenciais incluem queimaduras, varicela e herpes simples. Glomerulonefrite pós-estreptocócica é uma complicação grave que pode suceder um quadro de impetigo, geralmente causada por cepas do S. pyogenes, decorrentes da deposição de imunocomplexos no glomerulo renal e inflamação do mesmo, com perda da barreira física. Como manifestação, o paciente apresentará hematúria e proteinúria. A síndrome nefrítica, quando presente, ocorre de 3 a 6 semanas após a infecção da pele. HIPÓTESES DE SOLUÇÃO E APLICAÇÃO À REALIDADE Como conduzir? Orientações, oportunidades de cuidado ampliado, intervenções terapêuticas possíveis e terapêutica disponível no SUS O médico da atenção básica deve estar preparado para o tratamento desta doença tão comum, sobretudo em crianças. Os hábitos de higiene pessoal, em especial a lavagem das mãos, são essenciais paraa diminuição dos casos. Os locais com aglomeração de crianças, sobretudo escolas e creches, devem ser contactados no sentido de promover orientações e boas práticas de higiene para a população assistida. Os casos devem ser tratados imediatamente, evitando-se disseminação e cicatrizes. Deve- se proceder a remoção e limpeza das crostas, duas a tre ̂s vezes ao dia, das com água e sabão, permanganato de potássio 1:40.000, ou água boricada a 2%. Em seguida, aplica-se pomada de antibióticos como mupirocina. Casos de impetigo com lesões numerosas ou com presença de bolhas, além dos casos de ectima necessitam de antibioticoterapia sistêmica, com cobertura contra S.aureus e estreptococos. A Cefalexina, 250-500mg, 6/6 horas por 7 dias, deve ser a primeira escolha; em casos de hipersensibilidade ou resistência, pode-se usar Eritromicina, 250mg, 6/6 horas por 7 dias. A dose pediátrica, preconizada pelo ministério da saúde, de eritromicina é 40 mg/kg/dia, dividida de seis em seis horas; cefalexina 30 a 50mg/kg/dia dividida em quatro tomadas. ENCAMINHAMENTO PARA SERVIÇO ESPECIALIZADO EM DERMATOLOGIA Recomenda-se encaminhar ao serviço especializado em Dermatologia os casos com as seguintes condições: • Casos resistentes, com recidivas frequentes, devem ser encaminhados ao serviço de dermatologia. • Na suspeita de glomerulonefrite pós-estreptocócica, encaminhar com urgência ao serviço de Nefrologia. MICOSES SUPERFICIAIS COMPREENDENDO A CONDIÇÃO Compreendem as afecções causadas por fungos e que estão limitadas às camadas mais superficiais (queratinizadas) da pele ou na sua superfície, e podem atingir pele e mucosas. São queixas extremamente comuns em países tropicais como o Brasil, podem apresentar alto índice de recidivas. Tornaram-se um importante problema de saúde pública, principalmente por causarem infecções invasivas em pacientes imunodeprimidos. Iremos dividir as micoses superficiais, apenas para fins didáticos, em três grupos que serão descritos à seguir. O primeiro grupo constitui as dermatofitoses, afecções de pele provocadas por parasitas que se utilizam da queratina da pele para sobreviver, e que em conjunto denominados dermatófitos. No segundo grupo, no qual inclui-se a pitiríase versicolor, encontram-se fungos sem poder queratolítico, que vivem sobre a pele, utilizando como fonte de manutenção restos epiteliais ou produtos de excreção, não sendo considerados, portanto, parasitas, mas sim organismos comensais. Um terceiro grupo abrange infecções que podem atingir tanto a pele quanto seus anexos e mucosas. São as infecções provocadas pelo gênero Candida. PATOGENIA E MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Dermatofitoses São causadas por dermatófitos, fungos dos gêneros Microsporum, Trichophyton e Epidermophyton. A transmissão pode ser por contato direto ou indireto através de materiais contaminados. Segundo a Organização Mundial da Saúde, os dermatófitos afetam cerca de 25% da população mundial. Estima-se que 30 a 70% dos adultos sejam portadores assintomáticos desses patógenos e que a incidência dessa doença aumenta com a idade. A pele lesada facilita a infecção e a umidade é importante para a colonização. As lesões decorrem da presença do próprio fungo ou de reação de sensibilidade ao agente ou seus produtos (dermatofítides). Os imunossuprimidos tendem a desenvolver dermatofitoses extensas e recidivantes. O quadro clínico varia de acordo com a região ou o anexo afetado e compreendem a tinha do couro cabeludo, da barba, do corpo, do pé, da mão crural e das unhas. Tinea do couro cabeludo (tinea capitis) Comum em crianças, rara no adulto. É adquirida pelo contato com indivíduos infectados, animais doentes ou portadores (geralmente cães e gatos) ou com a terra. O tipo mais comum de tinea do couro cabeludo é a tinea tonsurante, assim chamada porque causa placas de tonsura, única ou múltiplas, no couro cabeludo, com cotos pilosos formando áreas de alopecia. Costuma progredir de modo brando e crônico, mas pode se apresentar de forma aguda, quando recebe o nome de querion, placa inflamada, úmida, dolorosa, com pontos de pus. O outro tipo de tinea do couro cabeludo é a tinea favosa, forma considerada grave pelo risco de cicatrizes e perda definitiva dos cabelos. É causada pelo fungo Trichophyton schoenleinii, que ataca diretamente o folículo piloso. É típica de zonas rurais ou pequenas comunidades do interior do país e pode estar relacionada à desnutrição. Tinea da barba (tinea barbae) A tinea da barba, um pouco mais rara em nosso meio, surge como lesões eritematosas e descamativas, geralmente anulares com crescimento centrífugo. Algumas lesões podem apresentar pústulas e sinais idênticos à foliculite. Tinea do corpo (tinea corporis) A tinea do corpo apresenta-se sob aspectos morfológicos bastante diversos. A mais comum é a forma anular, que se inicia por lesão eritemato papulosa que cresce centrifugamente, com cura central à medida que há progressão pela periferia. As lesões podem ser múltiplas e não raro ocorre confluência. Geralmente o prurido se faz presente. Tinea do pé e da mão (tinea pedis e tinea manus) A tinea dos pés é muito frequente e a das mãos pouco comum. Apresentam descamação e maceração da pele nos espaços interdigitais, onde geralmente ocorrem prurido e formação de fissuras. Alguns casos evoluem com descamação crônica, geralmente associado à onicomicose, ou a formação de pequenas bolhas e possível associação com infecção bacteriana. Tinea crural (tinea cruris) Também chamada de tinea inguinal, é afecção comum no homem e relativamente rara na mulher. O acometimento é geralmente bilateral e nas formas mais extensas há disseminação para o períneo, glúteo e parede abdominal. As lesões são eritematosas e as bordas são nítidas. Em razão do prurido, as lesões podem se tornar escurecidas ou até mesmo liquenificadas. Onicomicose Por ser uma queixa extremamente comum, será abordada em um capítulo à parte (Afecções das unhas). Pitiríase Versicolor Trata-se de uma afecção fúngica provocada pelo Malassezia furfur. Tem ocorrência universal e maior prevalência em regiões de clima quente e úmido. É mais comum nos adultos, sendo menos frequente em crianças e idosos. Alguns fatores predispõem a afecção tais como hiperhidrose, malnutrição e imunodepressão. Comumente chamado pela população de “pano branco”. Caracteriza-se por manchas hipocrômicas, eritematosas ou acastanhadas, com descamação fina (furfurácea) que aparecem mais freqüentemente no pescoço, tórax e raízes dos membros superiores. A descamação fica mais evidente ao se passar a unha na lesão (sinal da unha) ou realizar estiramento da pele lesional (sinal de Zileri). As máculas são múltiplas, de formatos variáveis, podendo confluir e atingir grandes áreas da superfície corporal. Geralmente tornam-se mais evidentes após exposição solar. Candidose O termo candidose é normalmente utilizado para designar a infecção cutânea causada pelas leveduras do gênero Candida. A mais frequente é a Candida albicans, uma levedura de ocorrência universal que habita a superfície da pele, mucosa oral, intestino e mucosa vaginal de maneira saprófita. Algumas condições facilitam a proliferação das leveduras do gênero Candida tais como: gravidez, diabetes mellitus, uso prolongado de antibióticos sistêmicos, corticoides, imunossupressão, umidade e maceração cutânea, hipovitaminoses e outras endocrinopatias. INVESTIGAÇÃO E DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL O diagnóstico das micoses superficiais também é clínico e os investigações complementares raramente são necessárias. O exame mais comum é a visualização direta do fungo através de raspado superficial da pele em solução de KOH 10%. Quando solicitar o exame, o médico deve orientar o paciente a suspender o tratamento oral e não fazer uso de pomadasantifúngicas no local por 24 horas. A lâmpada de wood, também é útil para diferenciar infecções fúngicas de discromias. Algumas dermatofitoses podem apresentar à luz de wood uma coloração azulada. Na pitiríase versicolor fica mais fácil avaliar a extensão das lesões. Outros exames laboratoriais podem ser úteis para avaliar, por exemplo, imunossupressão em pacientes com quadros fúngicos disseminados recorrentes. Pela riqueza de apresentações as infecções fúngicas são diagnósticos diferenciais de várias patologias inflamatórias e infecciosas. A tinea do couro cabeludo tem como diagnósticos diferenciais dermatite seborréica, psoríase, alopecia areata (pelada), impetigo e foliculite. Miíase Furunculóide: provocada por larvas de moscas e caracterizada por lesões nodulares com abertura central, por onde drena secreção serosa e onde pode ser visto o movimento da larva. A tinha do corpo pode ser confundida com psoríase, granuloma anular, eritema anular centrífugo e sífilis secundária. Na pitiríase versicolor, o principal diagnóstico diferencial é a Pitiríase rósea de Gilbert: erupção em placas eritematosas com descamação central, com prurido ausente ou discreto. As lesões predominam no tronco posterior em distribuição em “árvore de natal”. Geralmente, poupa a face e as regiões palmo-plantares. Precedendo em alguns dias o rash, ocorre lesão única - “medalhão” - em geral maior e que desaparece espontaneamente. Pitiríase Rósea de Gilbert Candidíase mucocutânea tem como diagnóstico diferencial dermatite seborréica, tinea cruris e eritrasma. A esofagite da candidíase, com quadros clínicos semelhantes, causada por outros agentes, como citomegalovírus ou herpes simples. HIPÓTESES DE SOLUÇÃO E APLICAÇÃO À REALIDADE Como conduzir? Orientações, oportunidades de cuidado ampliado, intervenções terapêuticas possíveis e terapêutica disponível no SUS As micoses superficiais devem ser diagnosticadas e tratadas em tempo de se evitar complicações. O médico e a equipe de saúde precisam estar atentos no sentido de identificar as micoses mais comuns da pele, bem como estabelecer nexos com outras doenças em casos mais graves e recorrentes. Hábitos higiênicos são importantes na prevenção das micoses. Devemos orientar o paciente a usar somente o próprio material ao ir à manicure, secar-se sempre muito bem após o banho, principalmente nas dobras, como as axilas, as virilhas e os dedos dos pés. Evitar o contato prolongado com água e sabão, evitar andar descalço em locais que sempre estão úmidos, como vestiários, saunas e lava-pés de piscinas. Não ficar com roupas molhadas por muito tempo, não compartilhar toalhas, roupas, escovas de cabelo e bonés, pois esses objetos podem conter fungos. Não usar calçados fechados por longos períodos e optar pelos mais largos e ventilados. Evitar roupas muito quentes e justas e aquelas feitas em tecidos sintéticos, pois não absorvem o suor, prejudicando a transpiração da pele. Tratamento das dermatofitoses Tinea do couro cabeludo É necessário o tratamento sistêmico. A droga de escolha é a griseofulvina, na dose de 15mg/kg/dia, em duas tomadas, após as refeições por 6 a 12 semanas O fluconazol, bem tolerado porém menos efetivo, também pode ser utilizado. Usar como terapia complementar antifúngicos tópicos como o cetoconazol em creme a 2%. No quérion utilizar compressas de permanganato de potássio 1:40.000 e griseofulvina oral. Tinea do corpo, da barba e inguinal Nas formas localizadas utilizar apenas medicamentos tópicos como o cetoconazol ou miconazol, disponíveis na Rename. Em casos mais extensos ou inflamatórios associar o tratamento antifúngico sistêmico. Pode ser feito com itraconazol 100mg/dia ou fluconazol 150mg por semanas, ambos por 2 a 4 semanas. O uso da terbinafina 250 mg/dia por 4 semanas também apresenta bons resultados. Tinea do pé e da mão Nas formas não inflamatórias, utilizar medicamentos tópicos já citados por 6 a 8 semanas. Quando há infecção secundária, banhos ou compressas de permanganato de potássio podem ser úteis além da administração de antibiótico (tetraciclina ou macrolídeo). Se necessário associar terapia sistêmica. Tratamento da pitiríase versicolor Para evitar as recidivas, deve-se tratar a pele e o couro cabeludo simultaneamente. Sulfeto de Selênio sob a forma de xampu por 30 dias é uma boa opção, devendo-se enxaguar após 5 minutos e aplicar o mesmo sobre a pele. O uso de antimicóticos tópicos, como o cetoconazol creme 2 a 3 vezes ao dia, associado ao uso de antifúngico oral, promove a cura em 90 a 95% dos casos. A opção de uso sistêmico é Cetoconazol 200mg/dia, por 10 dias nos adultos, e 15 mg/kg/dia por 10 dias nas crianças. Outras opções são o Fluconazol 150mg/semana por 4 semanas e o Itraconazol 100 mg duas vezes ao dia por 5 dias. Após o tratamento, é comum notar-se hipopigmentação residual, que pode resistir por meses até a recuperação dos melanócitos lesados. A repigmentação pode ser estimulada or exposição solar em pequenos períodos em horários adequados. Tratamento da candidose A nistatina em solução oral está indicada na candidose oral e esofágica. Não é absorvida e é eliminada inalterada. Topicamente é usada em de 3 a 5 vezes ao dia, 5 mL da solução de 100 mil Ui por mL. Em crianças pode ser prescrita na dose de 1 a 2 mL, 4 vezes ao dia. Na candidose vaginal, recomenda-se isoconazol (nitrato), uso tópico, sob a forma de creme vaginal, durante 7 dias; como 2ª alternativa, tioconazol, miconazol ou nistatina. O uso de fluconazol 25mg em dose única também está recomendado. Na candidose balanoprepucial e intertriginosa, recomenda-se o uso de itraconazol 200 mg por dia, por 5 dias. O uso de cetoconazol 200mg por 10 dias é menos efetivo e menos tolerado do que o itraconazol. ENCAMINHAMENTO PARA SERVIÇO ESPECIALIZADO EM DERMATOLOGIA Recomenda-se encaminhar ao serviço especializado em Dermatologia os casos com as seguintes condições: • Casos recidivantes ou muito extensos com pouca resposta aos tratamentos propostos; • Encaminhamento aos serviços especializados para tratamento de doenças imunossupressoras, por exemplo. DERMATOSES VIRAIS COMPREENDENDO A CONDIÇÃO Neste módulo iremos estudar as dermatoses causadas por vírus mais comuns. As infecções virais podem ser exclusivas da pele, como as verrugas e o molusco contagioso, ou manifestações cutâneas de infecção sistêmica, como o herpes zoster. São extremamente comuns em nossa prática diária na atenção básica de saúde, e familiarizar os profissionais da equipe com estas infecções nos dá a possibilidade de instituir tratamentos rápidos e eficientes, evitando complicações. https://moodle2.unasus.unifesp.br/mod/h5pactivity/view.php?id=328 As infecções virais continuam se apresentando como desafios cada vez maiores para diversas áreas da medicina, por serem dotadas de várias peculiaridades. A principal é a capacidade de muitos vírus de permanecer em latência por longos períodos de tempo, sofrendo reativaçaões periódicas, gerando doença clínica ou subclínica. PATOGENIA E MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Herpes Simples O herpes simples vírus é associado a lesões de mucosas e pele, ao redor da cavidade oral (herpes orolabial) e da genitália (herpes anogenital). Há dois tipos de vírus: o tipo 1 (HSV-1), responsável por infecções na face e tronco, e o tipo 2 (HSV-2), relacionadas às infecções na genitália, de transmissão geralmente sexual. Entretanto, ambos os vírus podem infectar qualquer área da pele ou das mucosas. As manifestações clínicas são distintas e relacionadas sobretudo ao estado imunológico do hospedeiro. A transmissão da infecção ocorre por contato pessoal, em que as partículas virais infectam a mucosa ou a pele por soluções de continuidade. A lesão elementar é vesícula sobre base eritematosa, geralmente agrupadas em cacho. A primo-infecção herpética é,em geral, sub- clínica e passa despercebida; o indivíduo torna-se portador do vírus sem apresentar sintomas. Pelo HSV-1, ocorre em 80 a 90% das crianças com menos de dez anos de idade e cerca de 90% dos adultos tem sorologia positiva para HSV-1. Em pequena porcentagem de indivíduos, a infecção é grave e prolongada, perdurando por algumas semanas. Após a infecção primária, o vírus pode ficar em estado de late ̂ncia em ga ̂nglios de nervos cranianos ou da medula. Quando reativado por várias causas, o vírus migra através de nervo periférico, retorna à pele ou mucosa e produz a erupção do herpes simples recidivante. O vírus pode ser transmitido na ausência de lesões clínicas ou pelo portador sem sinais de infecção, o que explica a possibilidade de contágio de herpes genital por contato sexual com parceiro clinicamente sadio. Algumas apresentações são mais comuns e estão expostas à seguir: Gengivoestomatite herpética primária Mais comum em crianças. Pode variar de quadro discreto, com algumas lesões vesico erosivas e subfebris, até quadros mais graves com erupção vesiculosa com febre alta, adenopatia e queda do estado geral. Pequenas ulcerações e edema na gengiva são comuns e tornam a alimentação dificultosa. Herpes recidivante De observação mais comum em adultos, surgem lesões em qualquer área da pele ou mucosa, onde ocorreu a inoculação primária. O aparecimento das lesões é, em geral, precedido de horas ou dias de discreto ardor ou prurido local; surgem em seguida vesículas agrupadas sobre base eritematosa, que se tornam pústulas e se ulceram. A localização mais frequ ̈ente é nos lábios, geralmente desencadeada por traumas, exposição ao sol, tensão emocional e infecções respiratórias. Herpes recidivante labial Herpes genital A primoinfecção em adultos surge cinco a dez dias após o contato, em geral pelo HSV-2. Vesículas agrupadas dolorosas aparecem no pe ̂nis, vulva ou ânus, sendo o quadro acompanhado de cefaléia, febre e linfadenopatia. O herpes recidivante genital é frequ ̈ente e perdura de 5 a 10 dias. Herpes genital Herpes simples neonatal Ocorre quando a parturiente apresenta herpes genital com contaminação do neonato durante o parto. São vesículas e bolhas que se erosam e são recobertas por crostas, sendo na maioria dos casos causadas pelo HSV-2. O herpes simples neonatal é grave e muitas vezes fatal. Dos sobreviventes, 50% te ̂m sequelas neurológicas ou oculares. Herpes simples em imunodeprimidos O herpes simples em late ̂ncia surge freqüentemente pela imunodepressão, leucemias, mieloma, transplantes e doenças crônicas. É uma das complicações mais frequ ̈entes na AIDS, podendo com maior frequ ̈e ̂ncia causar encefalite. Em todos os paciente imunodeprimidos que apresentam úlceras genitais e/ou anais deve-se pensar na possibilidade de herpes. Herpes Zoster O vírus da varicela, em geral, infecta o indivíduo na infância causando o quadro de varicela. Também chamada de catapora, esta infecção aguda é geralmente benigna e limitada, com sintomas sistêmicos moderados e a formação de pequenas crostas disseminadas. Após essa fase de disseminação hematogênica em que atinge a pele, o vírus caminha pelos nervos periféricos até os gânglios nervosos, onde poderá permanecer em latência por toda a vida. Diversas causas podem causar uma reativação do vírus que, caminhando pelo nervo periférico, atinge a pele e causa a característica erupção do herpes zóster. O quadro clínico é quase sempre o mesmo, o doente refere dor nevrálgica antecedendo as lesões cutâneas, que geralmente são vesículas sobre uma base eritematosa, unilateral e seguindo o trajeto de um nervo. Surgem de modo gradual e levam 2 a 4 dias para atingir a forma final. A infecção é mais comum em adultos e idosos, mas pode ser encontrada em pessoas mais jovens. A infecção é mais comum e grave em indivíduos com doenças sistêmicas, particularmente com imunossupressão. As lesões cutâneas cicatrizam em tempo médio de duas semanas e podem deixar cicatrizes. A neuralgia pós herpética é a complicação mais grave e frequente do herpes zóster. Se ocorrer falha e atraso no tratamento pode ser intensa e perdurar por meses ou anos. É igualmente mais frequente e grave nos idosos. Herpes Zoster Molusco contagioso É uma doença viral, frequente na infância, principalmente, em crianças atópicas, que atinge exclusivamente a pele e, excepicionalmente, as mucosas. Nos adultos geralmente é transmitido sexualmente. As lesões são mais abundantes e maiores em pacientes imunodeprimidos. A localização facial em adultos sugere a possibilidade de infecção pelo HIV. Clinicamente as lesões consistem de pápulas, lisas, brilhantes, de cor rósea ou da pele normal, apresentando depressão central característica (pápula umbilicada). Localizam-se de prefere ̂ncia nas axilas, face lateral do tronco, regiões genitais, perianal e face. Molusco contagioso Verrugas vulgares As verrugas são a expressão de processos proliferativos epiteliais na pele e mucosas cuja origem está relacionada com os diversos tipos de HPV. De ocorrência similar em homens e mulheres, podem ocorrer em qualquer idade, apesar de serem mais comuns em crianças e adolescentes. Seu surgimento está relacionado a um contágio, normalmente por inoculação (não raramente autoinoculação). São comuns os relatos de lesão após exposição em piscinas, recintos esportivos, praias e outros locais e o tempo de incubação é variável, girando em torno de três meses. As verrugas, de acordo com o estado imunitário e hábitos pessoais, podem involuir espontaneamente ou aumentar em tamanho e número. Vamos classificá- las em quatro subtipos a fim de facilitar a identificação. Verrugas vulgares Tratam-se das verrugas mais comuns. Em geral, é uma pápula ou nódulo, de consistência firme, áspera, hiperqueratótica, com superfície dura. Podem existir pontos escuros ou pretos, resultado de trombose de alças capilares. São mais comuns no dorso das mãos e dedos, mas podem ocorrer em qualquer área da pele, em especial áreas expostas para coçadura e consequente autoinoculação. Verruga vulgar Verrugas plantares É o popular olho de peixe. Ocorrem pela infecção do HPV em região plantar, e em decorrência da pressão do corpo, são menos salientes que as verrugas vulgares. Caracteriza-se por uma área central irregular circundada por um anel hiperqueratótico (por isso seu nome popular mais conhecido). Pode ser muito dolorosa, em especial à deambulação, devido à penetração dérmica resultante da constante pressão das pisadas. A verruga plantar profunda é denominada mirmécia. Podem ocorrer de forma mais superficial, com aspecto em mosaico, cuja repercussão clínica são lesões menos dolorosas. Verruga plantar Verrugas planas Muito mais comuns em crianças e adolescentes e por isso comumente também denominada verruga plana juvenil. Caracterizam-se por pápulas planas de 1 a 5 mm de diâmetro, pouco salientes e coloração que tende ao amarelo. Podem ser muito numerosas (de dezenas até mais de cem), com localização preferencial em face e dorso das mãos e antebraços. Verrugas planas Verrugas genitais (condilomas acuminados) Apesar de não necessariamente ser de transmissão sexual, deve sempre, a princípio, ser encarada como uma Infecção Sexualmente Transmissível. Sendo assim, sempre que diagnosticada deve ser feita uma investigação de comportamento de risco e exposição. No caso de ocorrência em menores e vulneráveis, sempre aventar hipótese de abuso sexual. Sua apresentação clínica é de uma ou mais pápulas vegetantes, róseas, não corneificadas; sua ocorrência pode acontecer em toda região genital, incluindo a mucosa da glande, a vulva, o ânus e a vagina. O aspecto vegetante pode ser tão exuberante que a lesão pode assemelhar-se à uma couve-flor. Condiloma anal HIPÓTESES DE SOLUÇÃOE APLICAÇÃO À REALIDADE Como conduzir? Orientações, oportunidades de cuidado ampliado, intervenções terapêuticas possíveis e terapêutica disponível no SUS Tanto médicos quanto equipes da atenção primária têm papel importante no rápido reconhecimento das dermatoses provocadas por vírus. O rápido diagnóstico, o início do tratamento precoce e o bom acolhimento do usuário no serviço de saúde causam impacto significativo na evolução destas doenças. A neuralgia pós herpética, por exemplo, é uma complicação comum e extremamente desgastante, que geralmente pode ser evitada se rapidamente reconhecida. Os casos mais graves devem ser encaminhados ao especialista, mas é vital que o tratamento se inicie prontamente na unidade básica de saúde. Molusco contagioso Informar quanto à etiologia e à natureza benigna da doença. Orientar para evitar traumas, coçaduras e o contato pele a pele, principalmente entre crianças. Crianças normais e saudáveis são muito propensas a ter molusco. Na maioria dos casos, ter o vírus não significa que haja algo de errado com o sistema imunológico. O tratamento pode ser feito através de curetagem em crianças maiores. Evitar gerar traumas com procedimentos em crianças menores, uma vez que a doença é autolimitada. Um tratamento simples e econômico é a utilização de hidróxido de potássio a 10% nas lesões diariamente. Deve-se suspender a aplicação quando surgir a irritação. Herpes simples Para todas as formas de herpes simples utiliza-se aciclovir, na dose de 200mg, 5 vezes ao dia, por 5 dias, podendo ser estendida nas primo-infecções. Em imunocomprometidos, a dose pode ser duplicada. Em pessoas com recorre ̂ncias frequ ̈entes (mais de 4 episódios por ano), a profilaxia pode ser indicada, geralmente com aciclovir, 200mg, 3 vezes ao dia, por 6 a 12 meses. Na fase aguda do herpes labial, evitar alimentos quentes, salgados, doces e ácidos. Em casos muito dolorosos, utilizar xilocaina 2% pomada cinco minutos antes das refeições. Herpes zoster O tratamento eletivo é feito com aciclovir, na dose de 800 mg via oral, cinco vezes por dia (dose diária total de 4 g), pode sete dias. O aciclovir está disponível na Rename. Analgésicos são indicados de acordo com a intensidade da dor. As formas graves devem ser tratadas com aciclovir intravenoso em ambiente hospitalar. Para a neuralgia pós herpética, temos medicamentos igualmente disponíveis na Rename. Os mais utilizados são a Carbamazepina 100 a 200mg, duas vezes ao dia e a Amitriptilina 25mg, 1 a 3 cp à noite. Verrugas vulgares Não há medicação por via oral para as verrugas vulgares. O tratamento tópico é o mais utilizado. O médico poderá prescrever, em uso diário, solução de ácido salicílico 16%, associado a compressas com água morna com lixamento da lesão. Quando disponível, a eletrocoagulação com uso de eletrocautério, bem como o uso de nitrogênio líquido podem ser muito efetivos sendo, no entanto, em geral, procedimentos de atenção especializada em dermatologia realizado em ambulatório de dermatologia. A excisão cirúrgica simples nunca deve ser realizada pelo risco de disseminação do vírus na incisão. Nunca é demais, no entanto, lembrar que uma boa parte das verrugas involuem espontaneamente. Tal fato corrobora falas e crendices de cura por “simpatias” ou por “crenças”. Sendo assim, uma alternativa é o seguimento clínico, eventualmente com suporte psicológico, garantindo assim a manutenção do vínculo e a responsabilidade para com o cuidado. Para as verrugas plantares, o uso do ácido salicílico é útil mas em concentrações maiores, de 25 a 40%. Ao contrário das verrugas vulgares, a eletrocoagulação com curetagem deve ser desestimulada pelo risco de cicatriz dolorosa perene, tal como a cirurgia excisional. Condilomas acuminados Por tratar-se de uma IST, mais que em outras situações, a construção do vínculo com o paciente portador de condiloma é fundamental para a efetividade do tratamento. É central identificar o comportamento de risco que levou à lesão e apoiar, de forma isenta de julgamentos, hábitos e práticas mais seguras e compatíveis com o estilo de vida da pessoa. Nesse sentido, o profissional deve individualizar o tratamento, considerando as características das lesões, os recursos disponíveis na unidade, os efeitos adversos possíveis e toleráveis pela pessoa, bem como a experiência do profissional na execução dos procedimentos e prescrição dos medicamentos. Igualmente nessa direção, o profissional deve ofertar os métodos disponíveis de prevenção, em especial a vacinação. O tratamento em Atenção Básica consiste além das medidas de prevenção e cuidados gerais já abordados, da prescrição pertinente do tratamento ambulatorial. Nesse sentido, a prescrição de imiquimode 50mg/g creme e a podofilotoxina são os tratamentos disponíveis via RENAME. A vantagem do imiquimode sobre a podofilotoxina é que apresenta menos efeitos locais porém necessita maior tempo de tratamento (quatro meses contra quatro semanas). Lembrar que o tratamento não destrói o vírus, logo novas lesões podem surgir. Para as verrugas externas genitais/anais, as aplicações devem ser realizadas em dias alternados (três vezes por semana). O tratamento deve ser mantido até que as verrugas desaparecem, limitado a duração máxima de 16 semanas por episódio de surgimento das verrugas. Na própria unidade de saúde, pode ser feita também a aplicação de Ácido tricloroacético (ATA) 80% a 90% em solução, com o intuito de destruir os condilomas. Deve ser feita a aplicação de uma quantidade pequena com um aplicador de algodão, adequado ao tamanho das lesões, fugindo das áreas normais de mucosa e permitindo que a lesão seque. Haverá um branqueamento da lesão após a aplicação. Deve ser repetida a cada 15 dias. ENCAMINHAMENTO PARA SERVIÇO ESPECIALIZADO EM DERMATOLOGIA Recomenda-se encaminhar ao serviço especializado em Dermatologia os casos com as seguintes condições: • Encaminhamento para o tratamento de verrugas vulgares ou genitais devem ser realizados em consonância com a estrutura da unidade básica de saúde em realizar pequenos procedimentos. • Acometimento do nervo trigêmeos nos casos de herpes zoster devem ser encaminhados para o serviço de oftalmologia pelo risco de lesão de córnea. • Casos graves de herpes zoster devem ser encaminhados ao serviço hospitalar para tratamento com aciclovir intravenoso. • Neuralgias pós herpéticas intensas e incapacitantes podem ser encaminhados ao ambulatório de dor, se disponível. ZOODERMATOSES COMPREENDENDO A CONDIÇÃO Neste módulo iremos estudar afecções cutâneas causadas por animais, principalmente artrópodes e helmintos. A maior parte destas doenças são facilmente transmitidas em nosso meio, consequência de nossos hábitos de vida e condições sócio econômicas da nossa população. Muitas pessoas vivendo na mesma habitação, falta de saneamento básico, baixo poder aquisitivo e falta de higiene pessoal são alguns dos fatores de risco. As mais importantes são a escabiose, as pediculoses, as miíases e a larva migrans. PATOGENIA E MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Escabiose A escabiose ou sarna humana, é uma afecção causada por um ácaro, o Sarcoptes scabiei, de contágio inter humano direto ou raramente através de roupas. O principal sintoma é o prurido, em geral intenso durante a noite. Objetivamente, além do prurido, três elementos sugerem o diagnóstico: o túnel, a distribuição das lesões e as lesões secundárias. O túnel escabiótico é a lesão típica da escabioses, consiste em uma pequena saliência linear ou em forma de S de 5 a 8 mm, onde se encontra a fêmea do ácaro. A distribuição é característica, afetando principalmente os espaços interdigitais das mãos, axilas, nádegas, mamas, pênis, face e pés. As lesões secundárias geralmente decorrem da escoriação e infecções secundárias como impetigo e foliculite. O contato com pessoasda mesma habitação ou próximas com prurido sobretudo noturno sugere a infecção. Pediculose Compreendem basicamente a pediculose do couro cabeludo e pubiana, sendo a de corpo infecção rara. A pediculose do couro cabeludo é causada pelo piolho Pediculus humanus capitis, e a pubiana pelo Pthirus pubis, também chamado de "chato". O diagnóstico da pediculose se dá pela queixa de prurido intenso no couro cabeludo ou áreas pilosas, localização das lêndeas (ovos) do parasita aderidas ao pelo ou localização dos parasitas em movimento pelo couro cabeludo, púbis, bigodes, axilas ou cílios. Pode haver infecção secundária ao processo de prurido. Larva Migrans Também conhecido como bicho geográfico, é causada pela penetração, na pele, de larvas do gênero Ancylostoma. As larvas são encontradas em lugares úmidos, quentes e arenosos, como praias e caixas de areia. O seu caráter migratório origina trajetos lineares serpiginosos, geralmente com uma pápula em uma das extremidades, local onde se encontra a larva. Geralmente são pruriginosas e podem ser únicas ou múltiplas, localizadas preferencialmente em extremidades ou nádegas. Miíases São processos causados por larvas de moscas. Há duas formas de miíase: a miíase furunculóide ou primária, também conhecida em nosso meio como berne, no qual a larva da mosca invade o tecido sadio e nele se desenvolve. Na secundária, a mosca coloca seus ovos em ulcerações da pele ou mucosas e as larvas se desenvolvem nos produtos da necrose tecidual. Na miíase furunculóide a penetração da larva geralmente passa despercebida. O nódulo furunculóide apresenta na parte central um orifício, que deixa sair, pela leve expressão uma secreção serosa. Atingida a maturidade, a larva move-se ativamente no interior do nódulo, dilata a abertura e sai. O berne é muito comum em certas áreas e atinge qualquer região do corpo, inclusive o couro cabeludo. Nas miíases secundárias (cavitárias ou de feridas abertas) também conhecidas como "bicheiras" a proliferação das larvas se dá em ulcerações cutâneas. O aspecto clínico é característico, com as larvas em grande quantidade movimentando-se dentro da ulceração. INVESTIGAÇÃO E DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL O diagnóstico da escabiose baseia-se nos critérios clínicos já apresentados. Os túneis podem ser raspados com lâmina de bisturi e examinados ao microscópio, visualizando o parasita ou seus ovos. Mas isso é raramente necessário colhendo-se uma boa história e reconhecendo o padrão das lesões. Não há exames disponíveis para os casos de pediculoses, larva migrans e miíases. O diagnóstico dessas doenças é clínico e dificilmente são confundidas com outras patologias. HIPÓTESES DE SOLUÇÃO E APLICAÇÃO À REALIDADE Como conduzir? Orientações, oportunidades de cuidado ampliado, intervenções terapêuticas possíveis e terapêutica disponível no SUS Escabiose Como medidas gerais é recomendável o uso de sabonetes neutros e brandos a fim de não provocar irritação das lesões. A roupa de uso pessoal, de cama e de banho devem ser lavadas com água quente. O medicamento de escolha é a ivermectina utilizada na dose única de 200 μg/kg, ou obedecendo a escala de peso corporal a seguir: (a dose pode ser repetida em uma semana): • 15 a 24kg - 1/ 2 comprimido; • 25 a 35kg - 1 comprimido; • 36 a 50 kg - 1 1/2 comprimidos; • 51 a 65kg - 2 comprimidos; • 65 a 79 kg - 2 1/2 comprimidos; • 80 kg ou mais, 3 comprimidos Os medicamentos tópicos devem ser utilizados em todo o corpo, mesmo em áreas sem prurido. O medicamento mais utilizado é a permetrina em loção a 5%. Deve-se aplicá-la em todo o corpo, exceto face e pescoço, removendo após 8 a 12 horas com banho. Todos os contatos domiciliares devem ser tratados ao mesmo tempo. Pediculoses Devem-se notificar casos suspeitos de pediculose do couro cabeludo em escolas e creches, em razão da facilidade de transmissão entre as crianças. Não há necessidade de afastar as crianças da escola, tampouco realizar tratamento profilático de contatos e familiares. O medicamento mais utilizado na pediculose é a permetrina a 1%, com índices de cura superiores a 90%, seja em xampus ou seja em loção. Com o xampu, o couro cabeludo deve ser lavado por duas noites, deixando a espuma por 15 a 20 minutos. A loção deve ser deixada no couro cabeludo por 10 minutos e reaplicada após uma semana. A ivermectina, nas mesmas doses da escabiose, pode ser utilizada, sobretudo nos casos resistentes às medicações usuais. Larva migrans Quando a extensão das lesões é pequena e localizada, utiliza-se a pomada de tiabendazol, 10 a 15%, quatro vezes ao dia, durante duas semanas. Em casos com apresentações mais extensas, é necessário o tratamento sistêmico. O tratamento mais utilizado é o albendazol 400 mg via oral por três dias. Miíases O tratamento da miíase furunculóide é feito de forma simples: a larva é asfixiada para facilitar sua remoção, ocluindo-se totalmente o orifício fistuloso com esparadrapo, por exemplo. Após a morte da larva, proceder a remoção com pinças sem dentes, junto com leve espremedura do nódulo. Em casos nos quais é impossível ocluir a lesão, alarga-se o orifício com pequena incisão. Para as miíases secundárias, o tratamento consiste em matar as larvas com éter, removê- las com pinças e fazer o curativo com pomadas fibrinolíticas e/ou antibióticas (colagenase com cloranfenicol por exemplo), mantendo-se cuidados com higiene e curativos para evitar deposições de novos ovos. ENCAMINHAMENTO PARA SERVIÇO ESPECIALIZADO EM DERMATOLOGIA Todas as patologias estudadas neste módulo são passíveis de tratamento na unidade básica de saúde. Apenas casos extremos e de difícil tratamento devem ser encaminhados ao dermatologista. HANSENÍASE COMPREENDENDO A CONDIÇÃO A Hanseníase é uma doença infecto-contagiosa, de evolução crônica, que se manifesta sobretudo, por meio de sinais e sintomas dermatoneurológicos (lesões na pele e nos nervos periféricos, especialmente, nos olhos, mãos e pés). O acometimento neurológico tem um grande potencial em provocar incapacidades físicas que podem, inclusive, evoluir para deformidades. Tais deformidades acarretam diminuição da capacidade de trabalho, limitação da vida social e problemas psicológicos. São responsáveis, também, pelo estigma e preconceito contra a doença. PATOGENIA E MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS O contágio ocorre, sobretudo, de indivíduo para indivíduo. Os bacilos do Mycobacterium leprae são eliminados, geralmente, pelas vias aéreas superiores e locais de pele erosadas. O contato próximo e prolongado de uma pessoa suscetível (com maior probabilidade de adoecer) com um doente com hanseníase, que não está sendo tratado, é a forma mais comum de transmissão. Acredita-se que a maioria da população possua defesa natural (imunidade) contra o M. leprae. Portanto, a maior parte das pessoas que entrarem em contato com o bacilo não irão adoecer. Fatores genéticos estão envolvidos na susceptibilidade ao M. leprae. As pessoas mais suscetíveis à doença irão desenvolver sinais da doença, que podem ocorrer após um longo período de incubação, de 2 a 10 anos. A hanseníase pode atingir pessoas de todas as idades, de ambos os sexos, no entanto, raramente ocorre em crianças. Observa-se que crianças, menores de 15 anos, adoecem quando há maior endemicidade da doença. Na maioria das regiões do mundo, há incidência maior nos homens do que em mulheres. Além das condições individuais, outros fatores relacionados às condições socioeconômicas desfavoráveis, promovem forte influência no risco de adoecer. Os principais sintomas que levam à suspeita de Hanseníase são: • Áreas da pele, ou manchas esbranquiçadas (hipocrômicas), acastanhadas ou avermelhadas, com alterações de sensibilidade ao calor e/ou dolorosa, e/ou ao tato. • Formigamentos, choques e câimbras nos braços e pernas, que evoluem para dormência– a pessoa se queima ou se machuca sem perceber. • Pápulas, tubérculos e nódulos (caroços), normalmente sem sintomas. • Diminuição ou queda de pelos, localizada ou difusa, especialmente nas sobrancelhas (madarose). • Pele infiltrada (avermelhada), com diminuição ou ausência de suor no local. • Dor, choque e/ou espessamento de nervos periféricos. • Diminuição e/ou perda de sensibilidade nas áreas dos nervos afetados, sobretudo nos olhos, mãos e pés. • Diminuição e/ou perda de força nos músculos inervados pelos nervos afetados, especialmente nos membros superiores e inferiores e, por vezes, pálpebras. • Aparecimento súbito de manchas dormentes com dor nos nervos dos cotovelos (ulnares), joelhos (fibulares comuns) e tornozelos (tibiais posteriores). Para facilitar o tratamento, a Organização Mundial da Saúde classifica os casos de Hanseníase em paucibacilares (PB), que são aqueles com até cinco lesões de pele e baciloscopia de raspado intradérmico negativo, e multibacilares (MB), que possuem seis ou mais lesões de pele ou baciloscopia de raspado intradérmico positiva. Entretanto, alguns pacientes não apresentam lesões facilmente visíveis na pele, e podem ter lesões apenas nos nervos, ou as lesões podem se tornar visíveis somente após iniciado o tratamento. Desta forma, para melhor compreensão, e a fim de facilitar o diagnóstico, utilizamos a classificação de Madri, que divide as formas de hanseníase didaticamente em: hanseníase indeterminada (PB), tuberculóide (PB), dimorfa (MB) e virchowiana (MB). Hanseniase indeterminada (PB) Hanseniase tuberculoide (PB) Hanseniase dimorfa (MB) Estados reacionais INVESTIGAÇÃO E DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL Nenhum exame laboratorial é suficiente para diagnosticar ou classificar a hanseníase. O diagnóstico deve ser baseado na história de evolução da lesão, epidemiologia e exame físico (nervos periféricos espessados e/ou lesões de pele ou áreas de pele com alterações de sensibilidade térmica e/ou dolorosa e/ou tátil). Em alguns casos, os exames complementares, sobretudo a baciloscopia e a biópsia, pode auxiliar no diagnóstico. No entanto, os achados clínicos devem ser valorizados e, casos haja dúvida no diagnóstico, caracterize o caso como “suspeito”. Explique cuidadosamente ao paciente sobre os sinais e sintomas mais comuns da doença. Exames subsidiários mais úteis na hanseníase: Intradermorreação (Mitsuda) Injeta-se na derme o antígeno lepromina. O surgimento de pápula igual ou maior que 5 mm indica positividade. Esse teste ajuda na classificação da hanseníase, porém não faz o diagnóstico. Por estar diretamente relacionado ao grau de imunidade celular, é positivo nos casos tuberculóides, negativo nos virchowianos e, graus variados de positividade nos dimorfos. Baciloscopia A baciloscopia avalia o número de bacilos presentes na amostra, bem como a viabilidade dos mesmos. É feito pelo método de Ziehl-Neelsen em raspado dérmico de lesão, lóbulos das orelhas e cotovelos. É, portanto, positiva nos multibacilares e frequentemente negativa nos paucibacilares. Anátomo-patológico O exame histopatológico é realizado pelas colorações de hematoxilina-eosina e Faraco-Fite, que evidencia bacilos álcool-ácido-resistentes. Cada tipo de hanseníase, geralmente apresenta características específicas ao exame, que também é útil no estudo das reações hansênicas, podendo demonstrar maior ou menor grau de agressão neural. Outros métodos têm uso mais reservado, como imunohistoquímica, pesquisa sorológica de anticorpos anti-Mycobacterium leprae e identificação molecular (PCR) do bacilo. Tais métodos podem auxiliar no controle do tratamento, diagnóstico de formas específicas da hanseníase e são utilizados muitas vezes para fins acadêmicos. Como diagnósticos diferenciais podem-se listar, entre outros, pitiríase versicolor, infecções fúngicas, sífilis, hipocromia residual pós-inflamatória, dermatite seborreica, líquen plano, lúpus eritematoso, sarcoidose e eritema anular. Além da hanseníase, o espessamento de nervos periféricos é encontrado em algumas neuropatias. A perda motora e/ou sensorial, semelhante à hanseníase, ocorre em algumas intoxicações, uso de drogas e em doenças sistêmicas como o diabetes mellitus, amiloidose e esclerodermia. HIPÓTESES DE SOLUÇÃO E APLICAÇÃO À REALIDADE Como conduzir? Orientações, oportunidades de cuidado ampliado, intervenções terapêuticas possíveis e terapêutica disponível no SUS A hanseníase é uma doença de fácil diagnóstico e plenamente curável. Quando diagnosticada e tratada tardiamente, pode trazer graves consequências físicas e emocionais para os portadores. A equipe de saúde deve demonstrar interesse no problema do paciente. Um primeiro contato cordial e a desmistificação da doença são essenciais. Devemos enfatizar a gratuidade do tratamento pelo SUS, e alertar sobre a importância da adesão para evitar a resistência e falência do tratamento. Orientar o paciente que todos os focos da doença devem ser eliminados e que o bacilo também pode estar presente em seus familiares (com ou sem sintomas), e que, por isso, todos devem ser examinados e acompanhados por pelo menos 5 anos. É extremamente importante manter a unidade básica de saúde de portas abertas para estes pacientes, mesmo que realizam o tratamento em um serviço referência em Hanseníase. Tratamento medicamentoso O tratamento da hanseníase é realizado através da associação de medicamentos (poliquimioterapia – PQT) conhecidos como Rifampicina, Dapsona e Clofazimina. Deve-se iniciar o tratamento já na primeira consulta, após a definição do diagnóstico, se não houver contraindicações formais (alergia à sulfa ou à rifampicina). O paciente PB receberá uma dose mensal supervisionada de 600 mg de Rifampicina, e tomará 100 mg de Dapsona diariamente (em casa). O tempo de tratamento é de 6 meses (6 cartelas). Caso a Dapsona precise ser suspensa, deverá ser substituída pela Clofazimina 50 mg por dia, e o paciente a tomará também 300 mg uma vez por mês na dose supervisionada. O paciente MB receberá uma dose mensal supervisionada de 600 mg de Rifampicina, 100 mg de Dapsona e de 300 mg de Clofazimina. Em casa, o paciente tomará 100 mg de Dapsona e 50 mg de Clofazimina diariamente. O tempo de tratamento é de 12 meses (12 cartelas). Caso a Dapsona precise ser suspensa, deverá ser substituída pela Ofloxacina 400 mg (na dose supervisionada e diariamente) ou pela Minociclina 100 mg (na dose supervisionada e diariamente). Caso haja náuseas, administre metoclopramida uma hora antes de tomar o medicamento. As medicações diárias deverão ser tomadas 2 horas após o almoço para evitar intolerância gástrica e eventual abandono do tratamento por esse motivo. Se ainda assim houver dor epigástrica, introduzir omeprazol, ranitidina ou cimetidina pela manhã. Efeitos adversos aos medicamentos são infrequentes, sendo os principais: anemia hemolítica, hepatite, meta-hemoglobinemia, agranulocitose, síndrome pseudogripal, síndrome da dapsona, eritrodermia, dermatite esfoliativa e plaquetopenia. A Dapsona é a droga do esquema que requer maior atenção dos profissionais de saúde. Reações alérgicas como avermelhamento da pele, coceira e descamação, principalmente na face e antebraços, podem ocorrer. Nesses casos, interrompa a medicação e envie para a referência. O encerramento da Poliquimioterapia (alta por cura) deve ser estabelecido segundo os critérios de regularidade ao tratamento: número de doses e tempo de tratamento, de acordo com cada esquema mencionado anteriormente, sempre com avaliação neurológica simplificada, avaliação do grau de incapacidade física e orientação para os cuidados pós- alta. Deverá ser orientado para retorno imediato à unidade de saúde, em caso de aparecimento de novas lesões de pele e/ou de dores nos trajetos dos nervos periféricose/ ou piora da função sensitiva e/ou motora Tratamento das reações hansênicas Para a reação do tipo 1, deve ser iniciada a prednisona 1 mg/kg/dia via oral (pela manhã, no café da manhã) ou dexametasona 0,15 mg/kg/dia em casos de doentes hipertensos ou cardiopatas. Para a neuralgia, associar antidepressivo tricíclico em dose baixa (amitriptilina 25 mg por dia), associado a clorpromazina 5 gotas (5 mg) duas vezes ao dia, ou a carbamazepina 200 a 400mg por dia. Não devemos tratar a nevralgia com prednisona nem com talidomida. A dose de amitriptilina pode chegar a 75 mg por dia e a de clorpromazina até 50 mg por dia, em aumentos graduais. Na reação do tipo 2, iniciar talidomida 100 a 400mg/dia via oral (de preferência à noite, pela possibilidade de sonolência), de acordo com a gravidade do caso. Como alternativa, para mulheres em idade fértil ou em pacientes com contraindicações a talidomida, pode-se utilizar a pentoxifilina 400 mg três vezes ao dia, ou antinflamatórios não hormonais. Pela complexidade desse segmento, pacientes com reação do tipo 1 ou 2 devem ser preferencialmente encaminhados para a referência municipal, regional ou estadual. A prescrição de medicamentos como a talidomida, requer receituários de prescrição especial, geralmente disponíveis apenas nestes serviços. O retorno do doente é realizado no serviço de referência a cada 28 dias. Nessas consultas o paciente toma a dose supervisionada na unidade de saúde e recebe a cartela com os medicamentos das doses a serem autoadministradas em domicílio. O cartão de agendamento deve ser usado para registro da data de retorno à unidade de saúde e para o controle da adesão ao tratamento. O doente que não comparecer à dose supervisionada deve ser visitado no domicílio no máximo em até 30 dias, buscando-se continuar o tratamento e evitar o abandono. A equipe da atenção básica deve estar vigilante quanto aos doentes em tratamento em seu território. Deve estar em contato com o serviço de referência e auxiliar na busca ativa de pacientes que abandonaram o tratamento. ENCAMINHAMENTO PARA SERVIÇO ESPECIALIZADO EM DERMATOLOGIA Recomenda-se encaminhar ao serviço especializado em Dermatologia os casos com as seguintes condições: • O médico da Atenção Básica deve encaminhar o paciente na primeira suspeita, evitando-se atrasar a consulta com exames e investigações que, como vistos neste capítulo, não são necessários ao diagnóstico. Lembrando que um grande número de municípios conta com referências municipal, regional ou estadual especializada em hanseníase onde, inclusive, são dispensados os medicamentos da poliquimioterapia. • Reações hansênicas do tipo 1 e 2 devem ser manejadas pela referência, porém, o médico da Atenção Primária deve estar preparado para reconhecer as reações e fornecer os primeiros tratamentos. • Neuralgia recidivante. • Deformidades e lesões neurológicas incapacitantes com possível necessidade de intervenção cirúrgica. AFECÇÕES DERMATOLÓGICAS NO IDOSO COMPREENDENDO A CONDIÇÃO As alterações encontradas na pele do idoso decorrem basicamente da interação da constituição genética, de fatores ambientais, da repercussão cutânea do envelhecimento de outros órgãos e de efeitos de doenças cutâneas e sistêmicas. Algumas alterações são mais comuns e decorrem da senescência natural da pele tais como atrofia, xerose e pregueamento da pele. Os pelos tornam-se brancos e em geral diminuem de volume. As unhas tornam-se frágeis e estriadas. Há uma diminuição progressiva das secreções sebáceas e sudorípara, bem como do conteúdo de água na derme. Outras alterações são provocadas pela chamada senescência actínica, que corresponde às alterações cutâneas relacionadas com a exposição solar crônica. Neste módulo iremos estudar três afecções frequentes nessa faixa etária: o prurido senil, a púrpura senil e o penfigóide bolhoso. PATOGENIA E MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Prurido senil Prurido é a sensação que leva ao ato de coçar. É comum entre idosos e pode produzir grande desconforto. Não se deve desprezar essa queixa, pois ela pode estar associada a uma causa geral. O prurido do idoso é importante, mesmo que pareça não haver nenhuma alteração da pele. Na velhice, a coceira costuma ter várias causas, sendo a causa mais comum a pele seca, conhecida como xerodermia ou xerose. Quase todos os idosos têm pele seca, pois a idade provoca redução da lubrificação da pele. Além disso, o uso de sabonete e os banhos quentes e demorados piora o ressecamento da pele. Outras causas de coceira no idoso seriam doenças metabólicas, diabetes, e uso de vários medicamentos. São, portanto, as principais dermatoses que causam prurido no idoso: pele seca, reações medicamentosas, eczemas, escabiose, linfomas e doenças metabólicas. É importante fazer a ligação entre doenças sistêmicas e prurido, lembrando também das hepatopatias (com ou sem colestase - prurido colestático), nefropatias (prurido urêmico), anemias, doenças da tireóide, diabetes mellitus (DM), síndrome carcinóide, síndrome da imunodeficiência adquirida (aids), leucemias, linfomas, farmacodermias e outras condições mais raras. Lembrar que o prurido causado por fármacos não costuma responder aos anti- histamínicos. O ideal seria limitar a administração de medicamentos ao mínimo necessário e suspender ou substituir a droga suspeita sempre que possível, para observar a relação entre causa e efeito. Os bloqueadores dos canais de cálcio e a hidroclorotiazida causam erupções cutâneas pruriginosas em idosos. O prurido neuropático é raro e pode ser generalizado (principalmente em doentes com diabetes mellitus) ou localizado (especialmente na região genital). Púrpura senil Quadro extremamente comum. Caracteriza-se por equimoses ou hematomas principalmente no dorso das mãos, nos punhos e nos antebraços. A causa é a diminuição do suporte conjuntivo próximo aos vasos associada a fotolesão de áreas expostas. Aparecem geralmente após pequenos traumas, às vezes mínimos. A equimose é inicialmente vermelho escura, tornando-se após verde-amarelada e castanho-arroxeada, desaparecendo em uma ou duas semanas. Penfigóide bolhoso Doença bolhosa autoimune subepidérmica que acomete indivíduos idosos, sobretudo acima de 60 anos. Não há predileção por cor de pele ou sexo. Caracteriza-se por bolhas grandes e tensas, de conteúdo claro ou hemorrágico, que aparecem sobre pele normal ou eritematosa, intensamente pruriginosa. As lesões têm predileção pelas áreas flexurais, mas pode ocorrer em qualquer parte do corpo. Os lábios raramente são acometidos. A prognose do penfigóide bolhoso mostra uma mortalidade de 17% após três meses de evolução e 31% após seis meses de evolução. INVESTIGAÇÃO E DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL Antes de classificar o prurido no idoso como essencial, o médico deve investigar possíveis causas desencadeantes e descartar outras patologias que cursam com prurido. Processos alérgicos e doenças infecciosas são os principais diagnósticos diferenciais e já foram abordados em outros capítulos. Nos casos da púrpura senil, o diagnóstico é geralmente simples, mas a recorrência e o pouco resultado às ações preventivas pode levantar a suspeita de outros tipos de púrpuras. Feita a suspeita clínica de penfigóide bolhoso, é necessária a confirmação laboratorial via exame histopatológico. A diagnose diferencial se faz com epidermólise bolhosa adquirida e dermatite herpetiforme. HIPÓTESES DE SOLUÇÃO E APLICAÇÃO À REALIDADE Como conduzir? Orientações, oportunidades de cuidado ampliado, intervenções terapêuticas possíveis e terapêutica disponível no SUS O envelhecimento compreende um processo de alterações funcionais e estruturais em nosso organismo e, consequentemente, na pele. Comumente, os pacientes idosos apresentam múltiplas morbidades crônicas que interagem entre si, promovendo novos sintomas,frequentemente na pele. Uma meta a ser perseguida pelos profissionais de saúde é promover o envelhecimento saudável com manutenção da independência e autonomia. Isso pode ser alcançado por meio de ações que abrangem mudanças no estilo de vida e promoção da saúde. O elemento fundamental da pele do idoso, é a diminuição do manto lipídico e o menor conteúdo de água, o que determina a secura do tegumento. São medidas gerais usar a quantidade mínima de sabões e detergentes, limitando-se somente ao necessário para a limpeza. Dar preferência aos sabonetes neutros ou para pele seca. Usar cremes lubrificantes após o banho, de preferência associados à substâncias graxas, como o óleo de amêndoas. Prurido senil O uso de corticoides tópicos é útil mas deve ser limitado a curtos períodos nos locais de eczema e liquenificação. São efeitos adversos a atrofia da pele e o favorecimento das infecções bacterianas e fúngicas. O doente deve ser alertado, inclusive, para a dependência e rebote. Corticoides de baixa potência, como a hidrocortisona, são bem indicados. Os corticoides orais devem ser usados somente nos casos graves com todos os cuidados. Nos casos de prurido por eczema, anti-histamínicos podem ser administrados como a Loratadina 10 mg, uma vez ao dia, ou fexofenadina 180mg, à noite. Aqueles com efeito sedativo podem ser necessários em doentes ansiosos ou agitados. Contudo deve-se estar atento para o risco de quedas. Os antagonistas dos receptores de serotonina, como paroxetina e sertralina, podem ter efeito antipruriginoso, nos casos de prurigo nodular, prurido colestático e prurido paraneoplásico. Púrpura senil O tratamento da púrpura senil é profilático, com uso de cremes hidratantes, principalmente cremes a base de ureia (5 a 10%). O uso de fotoprotetores também é importante, visando reduzir o fotodano. Investigar o uso de cremes a base de ácido salicílico que costuma ser predisponente ou agravante. Penfigóide bolhoso O tratamento se dá com uso de prednisona 1 mg/kg/dia até o controle das lesões e redução gradual da dose. Outros medicamentos podem ser utilizados, no âmbito da atenção secundária, como dapsona, metotrexato, azatioprina e ciclosporina. Corticoides tópicos podem ser utilizados para controle do prurido. ENCAMINHAMENTO PARA SERVIÇO ESPECIALIZADO EM DERMATOLOGIA Recomenda-se encaminhar ao serviço especializado em Dermatologia os casos com as seguintes condições: • Realização de biópsia nos casos de penfigóide bolhoso quando não disponível na unidade básica de saúde. • Pouca resposta ao tratamento com prednisona nos casos de penfigóide bolhoso, com indicação de uso de imunobiológicos. • Casos de prurido senil extremamente intensos com pouca resposta aos tratamentos propostos HEMANGIOMAS – TUMORES E MALFORMAÇÕES VASCULARES COMPREENDENDO A CONDIÇÃO Hemangioma é denominação dada às alterações vasculares planas ou volumosas, ou devidas a malformações de vasos. Costumam ser proliferações congênitas observadas ao nascimento ou de aparecimento tardio. Têm progressão benigna, pode regredir e, quando vista ao nascimento pode estar associada a síndromes. As proliferações angiomatosas mais comuns são os hemangiomas infantis, os nevos rubis, as manchas "vinho do porto" e o granuloma piogênico. É rara a transformação maligna do hemangioma. PATOGENIA E MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Hemangioma da infância Aparece ao nascimento ou surge até o primeiro ano de vida, sendo o tumor mais comum da infância, ocorrendo em 10 a 12% das crianças com um ano de idade e atingindo até 30% daquelas com peso muito baixo ao nascimento (menos que 1.000 g). Ocorre mais em crianças do sexo feminino, em uma razão que varia de 3:1 até 7:1. É mais comum na face e no couro cabeludo, mas pode surgir em qualquer região do corpo, inclusive em órgãos internos. Em geral não é percebido ao nascimento, mas torna-se aparente por volta do primeiro mês de vida. Em alguns casos, no entanto, pode ser detectado ao nascimento uma lesão precursora, como uma mancha anêmica, eritematosa e/ou equimótica, pequeno agrupamento de pápulas vermelho- vivo, ou ainda, telangiectasias circundadas ou não por um halo anêmico. Hemangiomas mais profundos (subcutâneos) podem se tornar aparentes mais tardiamente, alguns meses após o nascimento. Podemos dividi-los conforme seu aspecto clínico em superficiais, profundos ou combinados. Os superficiais (capilares), mais comuns, são bem delimitados às porções mais superficiais da pele, de cor vermelho-vivo, nodulares ou em placa, e se assemelham a um morango. Já os hemangiomas profundos (cavernosos) tratam-se de lesões nodulares, sem alteração da coloração da pele ou com alterações mínimas percebidas como uma equimose ou por vezes pela existência de pequenas alterações vasculares visíveis na superfície (telangiectasias). Acometem a derme profunda e o subcutâneo. As lesões combinadas podem apresentar ambas as apresentações. De evolução normalmente benigna, tem seu crescimento ocorrendo durante principalmente o primeiro ano de vida (pico entre 6 e 10 meses), tendendo a desaparecer antes da puberdade. As complicações são raras, mas quando presentes podem se apresentar principalmente como ulcerações ou por efeito local quando atinge algum órgão ou região específicas. O diagnóstico é iminentemente clínico. Eventualmente, pode ser necessária a realização de exames adicionais para afastar malformações vasculares e neoplasias, sendo nesse caso a primeira escolha o ultrassom com doppler. Especial atenção deve ser dada em acometimento de regiões específicas como região cervical e principalmente região lombar/sacral, pelo risco de comprometimento de coluna como espinha bífida, por exemplo. Em casos muito específicos pode ser necessária a complementação com ressonância nuclear magnética, em especial quando há suspeita de acometimento de órgãos e o ultrassom foi insuficiente, mas em geral, é uma investigação em nível de atenção especializada. Entretanto, no caso de crianças com hemangioma diagnosticado antes dos 3 meses e, principalmente quando da existência de múltiplos hemangiomas (mais de três) é fundamental que o caso seja encaminhado à atenção especializada para seguimento devido ao risco de hemangiomatose neonatal disseminada, condição que inspira cuidados específicos e que pode, se negligenciada, até colocar em risco a vida da criança. A realização de biópsia também não é necessária de rotina, tendo seu lugar nos casos em que há incerteza diagnóstica para afastar a possibilidade de um tumor maligno. Nesse caso, a imuno-histoquímica é desejável pois os hemangiomas possuem marcadores específicos. Granuloma Piogênico Tumor que sangra facilmente. Pode ser doloroso e costuma aparecer junto à dobra da unha, especialmente depois de manipulação, unha encravada ou uso de calçado apertado. É tratado com aplicação de ácido tricloroacético a 70% e, se necessário, cauterização e cirurgia da unha encravada. Mancha vinho do porto Malformação vascular que se observa ao nascimento e não costuma regredir com o tempo. Costuma ser unilateral e atingir um só segmento. Localiza-se principalmente na face e pescoço. Quando ocorre em território de nervo trigêmeo, deve ser descartada a síndrome de Sturge-Weber, síndrome caracterizada pela coexistência de convulsões e múltiplas malformações no sistema nervoso. Superficial Profundo ] Combinado Angioma rubi Granuloma piogenico Mancha binho do porto INVESTIGAÇÃO E DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL O diagnóstico dos hemangiomas superficiais na infância, em geral, não exige diagnósticos diferenciais, a não ser em algumas situações bastante específicas, como no caso de suspeita de outros tumores e malformações vasculares. Por outro lado, quando há diagnóstico de hemangiomas profundos, é necessário que se exclua a possibilidadede outras condições mais graves, em especial tumores de partes moles, como o fibrossarcoma, o rabdomiossarcoma, o dermatofibrossarcoma protuberante, os gliomas nasais, os lipoblastomas e os neurofibromas. No caso de granuloma piogênico, devem ser considerados o melanoma amelanótico e o carcinoma espinocelular. No caso dos angiomas rubis devem ser pensadas outras malformações vasculares e sarcoma de kaposi. HIPÓTESES DE SOLUÇÃO E APLICAÇÃO À REALIDADE Como conduzir? Orientações, oportunidades de cuidado ampliado, intervenções terapêuticas possíveis e terapêutica disponível no SUS A conduta é em geral de observação do caso, sem que seja necessária qualquer medida. Apenas cerca de 10 a 20% dos hemangiomas necessitam de tratamento. O tratamento deve levar em consideração a idade do paciente, o tamanho, o número e a localização das lesões, seu estágio evolutivo e a presença de outros sintomas associados ou ulcerações, e deve ser conduzido em nível de atenção especializada. A mãe deve ser tranquilizada e a equipe investir na construção de vínculo efetivo. O caso deve ser acompanhado de próximo, em especial no primeiro ano de vida. Construa uma ponte com a atenção especializada para matriciamento se julgar necessário. Lembre-se que as respostas aos tratamentos existentes nem sempre são satisfatórias (corticoterapia tópica, tacrolimus, beta-bloqueador em gel creme) e, portanto, não devem ser feitas de rotina. Crianças com hemangiomas em face ou em regiões de exposição maior devem ser acompanhadas quanto aos impactos estéticos e seus efeitos no desenvolvimento social. Em nível de atenção especializada, quando necessário, os hemangiomas são tratados com eletrocoagulação, crioterapia, laser ou até cirurgia. ENCAMINHAMENTO PARA SERVIÇO ESPECIALIZADO EM DERMATOLOGIA Na suspeita de hemangiomatose neonatal disseminada (3 ou mais hemangiomas diagnosticados), ou complicações relacionadas a presença de outros sintomas associados que necessitem a instituição de terapêutica específica, como por exemplo quando há comprometimento da visão, obstrução das vias aéreas, conduto auditivo ou do reto, além daqueles que provocam ICC e hemorragias, bem como no caso de ulcerações importantes ou que se infectam, bem como aquelas que após a involução, permanecem resultados esteticamente comprometedores. Devem ser considerados outros especialistas após diagnóstico de complicadores, como oftalmologistas, cardiologistas, cirurgiões pediátricos e cirurgiões plásticos, além de membros da equipe multiprofissional como de reabilitação, saúde mental e saúde bucal. DOENÇAS BOLHOSAS HEREDITÁRIAS COMPREENDENDO A CONDIÇÃO As epidermólises bolhosas hereditárias (EBH) compreendem um conjunto de doenças, todas hereditárias, com diferentes modos de transmissão genética. Nesse grupo há uma fragilidade cutânea que, aos mínimos traumas, predispõe o paciente à formação de bolhas na pele. A maioria dos casos é decorrente de alterações nas proteínas aderentes da região dermoepidérmica. PATOGENIA E MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Existem mais de 20 variantes clínicas e, dentre elas, as mais comuns são: simples (generalizadas de Koebner, Dowling-Meara, Weber-Cockayne), juncionais (variante de Herlitz, não Herlitz e forma rara com atresia de piloro) e distróficas ou dermolíticas (formas dominantes e recessivas). Como o tema é raro, não especificaremos cada tipo aqui, sendo necessário encaminhamento para o dermatologista em casos como estes. O diagnóstico é baseado em uma história e exames físicos compatíveis e realização de biópsia com análise histopatológica da lâmina, conduzida pelo especialista. Epidermolise bolhosa HIPÓTESES DE SOLUÇÃO E APLICAÇÃO À REALIDADE Como conduzir? Orientações, oportunidades de cuidado ampliado, intervenções terapêuticas possíveis e terapêutica disponível no SUS Não há terapia específica para as epidermólises bolhosas. A gestão ideal do paciente diagnosticado com essa condição requer uma abordagem multidisciplinar, e gira em torno da proteção dos tecidos suscetíveis a traumatismo, uso de sofisticados cuidados curativos, suporte nutricional agressivo e intervenções médicas ou cirúrgicas precoces para corrigir as complicações extracutâneas, sempre que possível. O mais importante, hoje, é prevenir a formação de bolhas, controlando o máximo possível a exposição a variáveis nutricionais, ambientais, emocionais e outras potencialmente geradoras de lesão ou de aumento de fragilidade da pele. Não se pode esquecer de instruir e orientar o paciente quanto a roupas e calçados, que devem ocasionar o menor atrito possível com a pele. O uso de hidratantes, filtro solar e outros produtos protetores da pele devem ser encorajados. Além disso, na presença de lesões, é fundamental saber que uma alternativa é esvaziar as bolhas com agulha estéril, para diminuir a dor e acelerar a cicatrização, e fazer curativos acolchoados, como joelheiras, meias e luvas, a fim de não aderirem à pele. Essa escolha deve ser singularizada a depender da tolerância do paciente às bolhas, ocorrência de novas bolhas pelo uso dos curativos e capacidade de cuidado dos pacientes e suas famílias. Quando as bolhas estiverem infectadas recomenda-se o uso de antibiótico sistêmico e tópico. Devido às alterações dentárias e oftalmológicas é necessário, sempre, consultas periódicas com dentista e oftalmologista, lembrando que o tratamento é multidisciplinar. A terapia gênica, ainda sendo estudada, é a perspectiva de futuro para estes pacientes. ENCAMINHAMENTO PARA SERVIÇO ESPECIALIZADO EM DERMATOLOGIA Todos os casos de EBH devem ser, na medida do possível, encaminhados a serviço especializado de dermatologia e de genética para seguimento e confirmação diagnóstica, bem como para os demais profissionais relacionados com seu quadro clínico.