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U N I D A D E 1 Introdução à Química Farmacêutica Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Conceituar Química Farmacêutica e compreender a sua importância. � Descrever a origem e a descoberta dos fármacos. � Identificar os princípios básicos de planejamento e desenvolvimento de novos fármacos, da modelagem molecular, da latenciação, do reposicionamento de fármacos e da relação estrutura-atividade. Introdução A Química Farmacêutica é uma ciência voltada para o planejamento e o desenvolvimento dos fármacos. Trata-se de uma área interdisciplinar que combina os conhecimentos de Química avançada com diversas outras disciplinas, a fim de aperfeiçoar o processo de desenvolvimento de fármacos. Inicialmente, os fármacos se originaram a partir de produtos de origem natural, como as plantas medicinais, no entanto, com o avanço da ciência, inclusive da Química Orgânica, a origem dos fármacos passou a ser, em sua maior totalidade, atribuída à síntese química. Atualmente, a Química Farmacêutica dispõe de várias estratégias de planejamento e desenvolvimento de fármacos, como a síntese química, a latenciação e a modelagem molecular, além de estratégias como o reposicionamento de fármacos e outras. Neste capítulo, você vai aprender os princípios e as etapas básicas da Química Farmacêutica e as estratégias utilizadas no planejamento e no desenvolvimento de fármacos. Tais conhecimentos servirão como base para o entendimento e a compreensão sobre a Química Farmacêutica e a produção de fármacos na atualidade. Conceitos e etapas principais A Química Farmacêutica é uma ciência que tem como base teórica a Química aplicada à Medicina. Essa área de conhecimento se preocupa em planejar, sintetizar, identificar e desenvolver um agente terapêutico que tenha o efeito biológico desejado quando este for exposto a um organismo vivo. Além disso, a Química Farmacêutica também se detém nos estudos de relação estrutura- -atividade biológica (REA) desses agentes. Para atingir tais objetivos, a Química Farmacêutica faz uso do conhecimento advindo de várias outras ciências, como Química, Farmacologia, Fisiologia, Imunologia, Biologia Molecular, Bioquímica, Toxicologia, Microbiologia, entre outras que, quando combinadas, auxiliam a construção do conheci- mento, formando a disciplina e o alicerce inicial da Química Farmacêutica. De maneira mais simples, podemos dizer que a Química Farmacêutica é uma ciência interdisciplinar. Mas para que você possa entender de forma clara e objetiva a Química Farmacêutica, é de fundamental importância fixar alguns conceitos que serão abordados ao longe deste capítulo. Tais conceitos permitirão uma melhor compreensão sobre o assunto abordado e servem como base para estruturar e formar o conhecimento acerca do assunto. São eles (AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA, 2018): � droga: qualquer substância que, quando administrada a um organismo, produz algum efeito; � fármaco: substância conhecida com características ativas e efeito terapêutico; � medicamento: quando são adicionados componentes ao fármaco para que este seja administrado terapeuticamente; � remédio: substância mineral, animal ou sintética, banho, terapia, ginástica; � forma farmacêutica: forma final de um medicamento, como comprido, capsula ou injetável; � farmacocinética: estudo dos mecanismos de absorção, distribuição, metabolização e excreção de fármacos; Introdução à Química Farmacêutica16 � farmacodinâmica: estudo das intenções entre o fármaco e seus alvos terapêuticos; � droga ideal: droga ou fármaco livre de efeitos tóxicos e altamente seletivo para um determinado alvo terapêutico. Agora que você já conhece tais conceitos, podemos dar continuidade ao nosso estudo sobre a Química Farmacêutica. De forma geral, a Química Farmacêutica está dividida em etapas fundamentais: descoberta, otimização e desenvolvimento de fármacos. Descoberta A primeira etapa, ou a descoberta de fármacos, consiste basicamente em pesquisar novos candidatos a fármacos, sendo os dois principais processos: a síntese química e a semissíntese, ou a partir de produtos naturais de origem vegetal, animal ou mineral. Embora a descoberta de fármacos tenha iniciado com os resultados obtidos por intermédio da medicina popular, hoje com a evolução e o desenvolvimento de disciplinas, como a Biologia Molecular, a Farmacologia e até mesmo a Química, também é possível desenvolver fármacos direcionados a um alvo terapêutico específico. Tal processo também é conhecido como modelagem molecular. A etapa de descoberta engloba ainda ensaios biológicos pré-clínicos de triagem in vitro e in vivo de um possível candidato a fármaco. A triagem de um novo candidato pode ser entendida como um processo no qual o composto protótipo descoberto é avaliado frente a uma determinada atividade farma- cológica, podendo ser uma atividade antiviral, antitumoral, antibacteriana, antifúngicas, entre diversas outras. A triagem se caracteriza por ensaios iniciais que fornecem informações farmacológicas a respeito do composto. Muitos protótipos de fármacos têm sua pesquisa e seu desenvolvimento interrompidos nessa etapa, caso apresentem baixa ou nenhuma atividade terapêutica e/ou pronunciada toxicidade. A etapa da descoberta de um novo agente terapêutico é de fundamen- tal importância, haja vista que é o alicerce inicial para a produção de um medicamento. A Figura 1 mostra alguns exemplos de fármacos descobertos a partir da síntese química e de fármacos provenientes de produtos naturais de origem vegetal. 17Introdução à Química Farmacêutica Figura 1. Estruturas químicas de fármacos origi- nários de fontes naturais ou sintéticas. Fonte: Adaptada de molekuul_be/Shutterstock.com. Mor�na Fonte vegetal: Papaver somniferum Uso terapêutico: analgésico Cisplatina Fonte sintética: derivado da platin Uso terapêutico: antitumoral Otimização Depois de descoberto o novo agente terapêutico, inicia-se a fase da otimização, cujo principal objetivo consiste em melhorar, potencializar a ação terapêutica ou ainda reduzir os potenciais efeitos colaterais. Nessa etapa, é possível inserir ou retirar grupamentos químicos existentes na molécula inicial, o que irá fornecer a síntese de um composto que atenda, o mais próximo possível, às expectativas esperadas de uma droga ideal. Di- Introdução à Química Farmacêutica18 versas estratégias podem ser utilizadas para otimizar o desenvolvimento de fármacos, tais como a simplificação molecular, o bioisosterismo e a hibridização molecular. O bioisosterismo se baseia em estratégias de substituição de grupos fun- cionais instáveis ou tóxicos por grupamentos químicos com propriedades químicas semelhantes, mas sem tais inconvenientes. Esses grupamentos quí- micos utilizados como substituintes são chamados de grupamentos isósteros, ou seja, eles têm as mesmas propriedades químicas (número de elétrons) e biológicas que os grupamentos iniciais do fármaco. Por meio da otimização de fármacos por bioisosterismo, é possível desen- volver um protótipo com efeitos terapêuticos melhorados (farmacodinâmica) e estabilidade físico-química (farmacocinética). A epotilona (Figura 2), fármaco anticâncer otimizado a partir da ixabepilona, é um exemplo de otimização por bioisosterismo, no qual a substituição de um grupamento amina por um oxigênio diminuiu a instabilidade metabólica existente na ixabepilona. Figura 2. Estruturas químicas dos fármacos ixabepilona (a) e epotilona (b). S N H OOH HN O O OH (E) S N OOHO O OH O H2N a) b) 19Introdução à Química Farmacêutica A hibridização molecular é outra estratégia clássica de sucesso utilizada pela Química Medicinal na otimização de fármacos. A hibridação molecular pode ser entendida como uma conjugação de estruturas de compostos bio- ativos distintos em uma única molécula, sendo uma alternativa eficaz para arquitetar racionalmente estruturas molecularesde novos compostos protótipos (ARAÚJO et al., 2015). Um exemplo clássico de hibridização molecular é o obtido para a síntese do fármaco acetaminossalol (Figura 3), um fármaco anti-inflamatório, anal- gésico e antipirético obtido mediante reação entre o paracetamol (analgésico e antipirético) e o ácido salicílico. Figura 3. Estrutura química do fármaco acetaminossalol. Fonte: Adaptada de Araújo et al. (2015). O O O OHN H Paracetamol Ácido salicílico Acetaminossalol Além de melhoras farmacodinâmicas, é possível também melhorar os aspectos farmacocinéticos, como a solubilidade, a estabilidade química, a resistência à degradação por enzimas endógenas, o aumento do tempo de meia vida, entre outros. Introdução à Química Farmacêutica20 Desenvolvimento A última etapa da Química Farmacêutica se preocupa com o desenvolvimento de um novo fármaco e consiste, basicamente, em estudar as fases clínicas I, II, III e IV (ensaios com humanos), os quais envolvem estudos a acerca da farmacodinâmica, da farmacocinética, da farmacotécnica e da farmacovigi- lância do candidato a fármaco. Nessa etapa, o agente terapêutico é conduzido a experimentos, a fim de serem coletadas as informações sobre: � farmacocinética: como ele é absorvido, distribuído, metabolizado e excretado; � farmacodinâmica: efeitos benéficos e mecanismo de ação; � via de administração: oral ou injetável; � toxicidade: efeitos colaterais e efeitos adversos; � interação medicamentosa: como ele interage com outros fármacos e tratamentos; � eficácia: comparação com medicamentos similares. Depois de coletadas essas informações, o candidato a fármaco pode ser ou não aprovado como medicamento. A aprovação é feita pela Food and Drug Administration (FDA), órgão do governo dos Estados Unidos, cuja função é controlar os alimentos e medicamentos, por meio de diversos testes e pesquisas. A etapa de desenvolvimento é de extrema importância, uma vez que define parâmetros de eficácia e segurança do novo agente terapêutico. Embora seja bastante promissor, é importante salientar que o processo de desenvolvimento de um novo fármaco acarreta elevado custo, demanda tempo e, na maioria das vezes, os estudos são interrompidos em uma ou mais fases de produção. Segundo a FDA, a cada 10 mil compostos estudados, apenas um medicamento é aprovado como fármaco, além disso, o custo em toda a cadeia de produção é estimado em 1 bilhão de euros. Como já comentado anteriormente, o processo de pesquisa pode ser interrompido em qualquer uma das fases da pesquisa, caso o candidato a fármaco não atenda aos requisitos mínimos de eficácia e segurança (KAUR; SHARMA; SHARMA, 2014). 21Introdução à Química Farmacêutica A FDA é um órgão dos EUA que é responsável pelo registro e controle de medica- mentos e alimentos. Cada candidato a fármaco, depois de ser aprovado nas etapas de descoberta, otimização e desenvolvimento, passa a receber um registro, com o nome e o número de lote de produção. A cada novo fármaco introduzido no mercado, a FDA lança uma nota em seu site com todas as informações acerca do composto. Origem e descoberta dos fármacos Em algum momento você já deve ter ouvido alguém, ou até mesmo um parente, indicar algum chá com propriedades medicinais para aliviar a dor, como, por exemplo, um chá para a gripe. Embora essa prática ainda hoje seja utilizada com frequência, esses conhecimentos populares acerca de plantas medicinais não são novos e datam de séculos antes de Cristo. Em meados de 129 a.C., Galeno, considerado hoje o pai da Farmácia, divul- gou o uso de extratos vegetais para a cura de diversas doenças, emprestando o nome às formulações farmacêuticas, denominadas fórmulas galênicas. Por volta de 1550 a.C., os egípcios formularam um guia medicinal, que mais tarde foi chamado de papiro de Ebers. Esse guia continha formulações medicinais e procedimentos cirúrgicos e atualmente é considerado o primeiro registro encontrado de medicamentos. Do período de 1.550 a.C. até meados dos anos 1700 d.C., a origem dos fármacos permaneceu basicamente oriunda de conhecimentos advindos de plantas medicinais associados à religião e a bruxarias para o tratamento de enfermidades. Em 1786 d.C., um grande avanço na medicina foi alcançado com a des- coberta da vacina contra a varíola por Edward Jenner. A partir de então, estabeleceram-se várias práticas preventivas por meio da vacinação para prevenir diversas doenças. O primeiro fármaco descoberto surgiu em meados de 1829 e teve como ponto de partida o isolamento do composto salicina, presente nas cascas da planta salgueiro, pelo farmacêutico H. Leroux. Mais tarde, descobriu-se que a salicina, quando ingerida e absorvida pelo organismo humano, é convertida no ácido salicílico. A partir de então, surgiu o primeiro fármaco sintético, o ácido salicílico, o qual foi sintetizado pela primeira vez pelo alemão Kolbe, sendo este utilizado no tratamento de diversas doenças por um bom período de tempo. Introdução à Química Farmacêutica22 Embora seja bastante eficaz, o ácido salicílico apresentava pronunciados efeitos colaterais, que incluíam a elevada irritação estomacal. Esse inconve- niente impulsionou a descoberta do ácido acetilsalicílico (AAS), por Felix Hoffmann, um farmacêutico alemão que trabalhava na Bayer. Hoffman tinha como objetivo tentar ajudar seu pai, que sofria de reumatismo e reclamava de dores estomacais oriundas do uso constante do ácido salicílico. O AAS é considerado um derivado semissintético do ácido salicílico e pode ser obtido pela reação de acetilação entre o ácido salicílico e o anidrido acético, como pode ser visto na Figura 4. A introdução do AAS como fármaco por Hoffmann é considerado o marco inicial do desenvolvimento de fármacos. A partir da modificação inserida na estrutura do ácido salicílico, foi possível sintetizar um derivado com o mesmo potencial terapêutico que o ácido salicílico, mas com mínimos efeitos colaterais. Com o surgimento do AAS, a indústria farmacêutica passou a direcionar suas pesquisas não apenas na busca por produtos naturais, como também na síntese de fármacos. Figura 4. Síntese do AAS. O O O O O O O O OH OH OH OH + H3C CH3 H2SO4 CH3 + H3C Ácido acéticoÁcido acetilsalicílicoAnidrido acéticoÁcido salicílico A partir da descoberta do AAS, diversos outros pesquisadores começaram a desenvolver suas pesquisas na tentativa de isolar, identificar e sintetizar compostos a partir de produtos naturais. Embora a busca por tais compostos tenha se mostrado promissora, ainda era preciso conhecer mais sobre como esses compostos interagem com o organismo humano. Com isso, surgiram perguntas do tipo: � O quanto devo tomar de tal medicamento? � Quais são os efeitos colaterais existentes? � Lactantes e crianças também podem usar? 23Introdução à Química Farmacêutica Para tentar responder essas e outras perguntas e ainda registrar tais res- postas, em 1906, foi promulgada, no EUA, a lei que cria a FDA, existente até os dias de hoje. A FDA tem como princípio garantir a eficácia e a segurança dos medicamentos oferecidos à população, de forma a minimizar os potenciais riscos existentes. Com o surgimento da FDA, passou-se a estabelecer critérios e usar a notificação de medicamentos, o que foi um grande avanço na área farmacêutica. Apoiadas pela FDA, as pesquisas e as buscas por novos compostos tera- pêuticos continuaram em ritmo crescente. Essas pesquisas ganharam força com o desenvolvimento de ciências, como a Biologia Molecular, a Fisiologia, a Anatomia e a Química. O avanço no conhecimento acerca dessas disciplinas permitiu planejar e executar estratégias mais promissoras no que se refere à busca por agentes terapêuticos. Um bom exemplo de avanço é a introdução do modelo chave-fechadura de ação dos fármacos, proposto por Emil Fischer em 1902. O modelo de Fischer serviu como ponto inicial para o entendimento de mecanismos de ação dos fármacos. A partir de então, diversos outrosmedicamentos foram introduzidos no mercado farmacêutico, porém, esses compostos passaram a ser regulamentados e registrados pela FDA. Outra descoberta marcante que não devemos deixar de mencionar aqui foi a da penicilina, por Alexander Fleming, em 1928. A descoberta da penicilina ocorreu por acaso. Fleming desenvolvia pesquisas com bactérias causadoras de infecção e o seu objetivo era identificar possíveis alvos terapêuticos no combate desses microrganismos. Antes de sair de férias, Fleming aciden- talmente esqueceu uma de suas placas de cultura de Staphylococcus aureus aberta. Quando retornou de férias, percebeu que ela estava contaminada com um certo tipo de mofo (fungo) e ainda notou que, nas regiões onde o fungo se alojou, não havia mais colônias de Staphylococcus aureus. O cientista resolveu então estudar o fungo para entender como esse microrganismo era capaz de inibir as colônias de bactérias. Mais tarde, Fleming descobriu que se tratava do fungo pertencente ao gênero Penicillium e que este produzia uma substância com ação bacteriostática. Com base no gênero do fungo, surgiu então o analgésico penicilina. Os achados de Fleming contribuíram para a inserção de outras fontes na busca por moléculas com potencial terapêutico, mas não apenas as advindas de produtos vegetais e sintéticos. Na sequência, diversos outros fármacos foram descobertos e introduzidos no mercado, como a indometacina, o propranolol, o aciclovir, o captopril, o imatinibe, entre outros. Introdução à Química Farmacêutica24 A Figura 5 mostra uma linha do tempo relativa à descoberta de vários fármacos. Note que o surgimento dos fármacos está diretamente ligado à evolução de outras ciências, como já mencionado anteriormente. Um bom exemplo é a descoberta do imatinibe, um fármaco antitumoral (antileucêmico), cujo desenvolvimento e planejamento foi feito com base no conhecimento molecular da leucemia. Ainda hoje, a ciência e o desenvolvimento de fármacos caminham juntos na evolução e na busca por novos agentes terapêuticos. Figura 5. Linha do tempo da origem dos fármacos. Papiro de Ebers Formulações Galenas Criação da FDA AAS Indometacina Penicilina Aciclovir Propanolol 1906 1964 19811962 192618891550 a.C.129 a.C. Imatinibe Captopril 20001977 A diversidade de fármacos na atualidade Como já mencionado, a fonte inicial da origem dos fármacos foi a partir de produtos naturais, principalmente de produtos de origem vegetal. Por décadas, os produtos de origem vegetal (plantas medicinais) permaneceram como a fonte de primeira escolha na busca de candidatos a fármacos. Contudo, a partir do descobrimento e da síntese do AAS pela Bayer, em meados de 1889, a síntese química de fármacos vem ganhando espaço na indústria farmacêutica e hoje supera, em quantidades, o número de fármacos circulantes no mercado farmacêutico. Isso se deve, em partes, aos avanços no 25Introdução à Química Farmacêutica conhecimento das ciências de Química Orgânica e Biologia Molecular, uma vez que juntas elas permitiram a síntese de compostos em alvos moleculares. Ao longo do tempo, os avanços em Química Orgânica permitiram a síntese simplificada de diversos tipos de moléculas, que, em sua totalidade, são ins- pirados em produtos naturais ou planejados para atingir um alvo específico. O gráfico apresentado na Figura 6 ilustra o arsenal terapêutico da origem de fármacos disponíveis na atualidade. Perceba que os fármacos de origem sintética (S) lideram o ranking produtivo, representando aproximadamente 39%. Em segundo lugar, ocupando 27%, estão os fármacos naturais modifi- cados (ND), também chamados de fármacos semissintéticos. Na sequência, temos os sintéticos inspirados em produtos naturais e modificados (S/NM) representando 12%, os puramente sintéticos com 5% (S*), os sintéticos não inspirados em produtos naturais com 11% (S*/NM) e os puramente naturais representando 6% (N) (CRAGG; NEWMAN, 2015). Figura 6. Percentual das fontes de origem de fármacos na atualidade. Fonte: Adaptada de Cragg e Newman (2005). S/NM 12% S 39% ND 27% N 6% S*/NM 11% S* 5% Introdução à Química Farmacêutica26 Princípios básicos de planejamento e desenvolvimento de novos fármacos O planejamento e o desenvolvimento de fármacos compreende uma das etapas principais da Química Farmacêutica, ciência que tem como princípios básicos a descoberta, a otimização e o desenvolvimento de novos agentes terapêuticos. O planejamento de um novo agente terapêutico, também chamado de protótipo de fármaco, engloba, em toda a sua extensão, os princípios básicos da Química Farmacêutica. No planejamento, estão inseridas as etapas de descoberta e otimização, que, dependendo de seu sucesso, poderão seguir para a etapa de desenvolvimento de fármacos. É importante ressaltar que o planejamento e o desenvolvimento de fárma- cos, ou estratégia P&D de pesquisa, é um processo longo e oneroso e acarreta elevados custos para a indústria farmacêutica. A Química Farmacêutica dispõe, atualmente, de diversas estratégias para o planejamento de fármacos, das quais podemos citar: síntese de análogos isômeros ativos de produtos naturais ou biológicos, simplificação molecular, latenciação, modificação de sistemas anelares e modelagem molecular (KOROLKOVAS; BURCKHALTER, 1988). A seguir, você irá conhecer um pouco mais sobre cada estratégia utilizada pela Química Farmacêutica no desenvolvimento e no planejamento de fármacos. Síntese de análogos e isômeros A síntese de análogos e isômeros se baseia em sintetizar (produzir) um com- posto inspirado em um produto natural. A síntese de análogos também é co- nhecida como semissíntese de produtos naturais, uma vez que busca conservar o esqueleto molecular central do produto de partida e inserir neste pequenas modificações estruturais em diversas porções da molécula. Dessa forma, é possível produzir análogos ao composto original inserido nos grupamentos ativos, chamados de farmacóforos, ou retirar grupamentos que promovem a toxicidade do composto de partida. A Figura 7 mostra a síntese do etoposídeo, um fármaco com atividade anticâncer análogo estrutural da podofilotoxina. A podofilotoxina é um composto natural tóxico encontrado na planta Podophyllum peltatum L. Por intermédio da estratégia de síntese de análogos estruturais, obteve-se o etoposídeo, um derivado livre dos efeitos tóxicos da podofilotoxina. Note que as estruturas químicas das moléculas são bastante semelhantes, contudo, a inserção de uma cadeia de glicose (circulado na figura) foi a responsável pela eliminação dos efeitos tóxicos no etoposídeo. 27Introdução à Química Farmacêutica Figura 7. Estrutura química do etoposídeo, fármaco análogo a podofilotoxina. 6 4 Podo�lotoxina Etoposídeo A síntese de isômeros, diferentemente da síntese de análogos estruturais, busca a síntese de um composto com estrutura exatamente igual ao produto de partida, mas com isomeria diferente. Um exemplo bastante ilustrativo é a talidomida. A talidomida, ilustrada na Figura 8, apresenta dois isômeros óticos: talido- mida (R) e talidomida (S), sendo apenas a isômera talidomida (R) responsável pelos efeitos terapêuticos analgésicos e sedativos da talidomida, enquanto o isômero (S) é teratogênico, ou seja, provoca mutações fes em gestantes. A partir desses conhecimentos, surgiu a síntese de isômeros ativos ou desprovidos de toxicidade de diversos produtos naturais. Figura 8. Estrutura química dos isômeros R e S da talidomida. Fonte: Adaptada de Barbosa (2018). O NH O O O N (S) — Talidomida Teratogênico (R) — Talidomida Sedativo e hipnótico O NH O O O N Introdução à Química Farmacêutica28 Simplificação molecular A simplificação molecular, como o próprio nome sugere, tem como objetivo simplificar a estrutura molecular de um determinado protótipo de fármaco. Essa estratégia visa ao desenvolvimento de uma estrutura química mais simples, quando comparada com o protótipo de partida. Semelhante a outrasestratégias, a simplificação molecular tem como propósito potencializar o efeito terapêutico e diminuir os efeitos tóxicos, bem como melhorar os aspectos referentes à fase farmacêutica do protótipo. Para que você entenda de forma mais clara a simplificação molecular, vamos tomar como exemplo a síntese da mefloquina (Figura 9). Figura 9. Simplificação molecular da síntese da mefloquina. Fonte: Adaptada de Barreiro (2002). N N H HO CF3 CF3 N N HO MeO Simpli�cação molecular 7 Quinina 8 Me�oquina A mefloquina é um fármaco antimalárico derivado da quinina por simpli- ficação molecular. Ao observar a Figura 9, note que houve uma substituição do anel rubânico da quinina pelo anel piperidínico além de inserções dos substituintes trifluormetila nos carbonos 2 e 8. Essas modificações promoveram uma maior atividade farmacológica e reduziram os parâmetros de toxicidade existentes na estrutura química do quinina. 29Introdução à Química Farmacêutica Latenciação A latenciação é uma estratégia de planejamento de fármacos que se baseia na ideia de pró-fármaco. O pró-fármaco é uma substância inativa que, ao ser metabolizada in vivo, converte-se para um composto ativo por meio de reações enzimáticas. A latenciação de fármacos é bastante útil quando há compostos que, depois de absorvidos, são facilmente degradados (compostos instáveis). De maneira mais didática, podemos dizer que a latenciação é um processo de proteção do fármaco. É importante que você compreenda que a latenciação pode ser obtida tanto com reações químicas (p. ex., reações de proteção de grupos farmacofóricos) como por processos farmacêuticos (encapsulação, nanopartículas e sistemas de liberação controlada). Em resumo, a latenciação busca manter as atividades terapêuticas de um determinado fármaco, alterando apenas os seus parâmetros farmacocinéticos. O processo de latenciação se baseia nas estratégias de produção de pró-fármacos. Pró-fármacos são os compostos inicialmente inativos, que, depois de serem metabolizados no organismo humano, transformam-se em metabolitos ativos, sendo estes responsáveis pelo mecanismo de ação do fármaco. O desenvolvimento de um fármaco com base na laten- ciação é bastante útil do ponto de vista farmacocinético e farmacodinâmico. Para saber mais sobre a latenciação, não deixe de ler o artigo disponibilizado no link a seguir. https://goo.gl/Z39mFo Introdução à Química Farmacêutica30 https://goo.gl/Z39mFo Modelagem molecular e a relação estrutura-atividade A modelagem molecular representa, atualmente, a estratégia mais sofisticada para o planejamento de fármacos. Tal estratégia surgiu com o desenvolvimento de ciências, como a Biologia Molecular e Patologia. A partir dos conhecimen- tos advindos dessas ciências, foi possível conhecer dados moleculares das doenças em estudo. Esses dados facilitaram o conhecimento da REA entre os fármaco-receptores. O conhecimento acerca da ligação do fármaco a um alvo específico permite estabelecer níveis de afinidade entre os fármacos e o seu local de ação ou seu receptor. Com isso, surgiram os fármacos planejados por modelagem molecular, ou seja, os fármacos planejados para se ligarem especificamente a um receptor. O estudo de docking é considerado como a mais importante técnica da mo- delagem molecular no desenvolvimento de fármacos e faz uso de programas computacionais que, com diversos cálculos matemáticos, conseguem prever possíveis afinidades e sítios de ligação entre o fármaco e o seu receptor. Reposicionamento de fármacos A estratégia de descoberta e otimização e o desenvolvimento de novos fár- macos, além de ser um processo bastante trabalhoso e demorado, também é bastante caro e pode demorar, em média, de 12 a 15 anos. O reposicionamento de fármacos surgiu como uma estratégia de recolo- cação, ou uso de um fármaco já registrado para outra ação terapêutica que não usa a ação original. Trata-se de uma prática que visa a reduzir os custos com a pesquisa e a descoberta e ganhar tempo, uma vez que o fármaco já está registrado e aprovado pela FDA. Um exemplo clássico de reposicionamento de fármacos é o obtido para o fármaco citrato de sildenafila (Viagra®), o qual foi planejado, inicialmente, para a atividade anti-hipertensiva, porém, com o passar do tempo, descobriu- -se que esse medicamento poderia lançar uma nova luz sobre o tratamento de disfunções eréteis. Assim, o citrato de sildenafila foi reposicionado e hoje é amplamente utilizado no tratamento da disfunção erétil. 31Introdução à Química Farmacêutica 1. A Química Farmacêutica é uma ciência interdisciplinar que, para atingir seus objetivos, utiliza estratégias e etapas definidas na busca por novos agentes terapêuticos. As três etapas fundamentais da Química Farmacêutica são: a) descoberta, otimização e desenvolvimento de fármacos. b) descoberta, inovação e desenvolvimentos de fármacos. c) otimização, modelagem molecular e desenvolvimento de fármacos. d) otimização, latinização e desenvolvimento de fármacos. e) desenvolvimento, planejamento e otimização. 2. O etoposídeo, fármaco derivado semissintético da podofilotoxina, é amplamente utilizado no tratamento de diversos tipos de câncer. O motivo principal da modificação molecular da podofilotoxina foi: a) aumentar a solubilidade e prever melhores perfis de biodisponibilidade. b) manter os efeitos terapêuticos e diminuir os efeitos tóxicos da podofilotoxina. c) melhorar o perfil farmacodinâmico da podofilotoxina, prevendo maior afinidade por seu receptor. d) aperfeiçoar o perfil organoléptico e de estabilidade in vivo. e) promover a latenciação para o desenvolvimento de pró-fármacos. 3. Selecione a alternativa que descreve as características de um pró-fármaco. a) Um pró-fármaco é uma substância ativa que, depois de ser administrada no organismo, transforma-se em uma substância inativa, eliminando os efeitos tóxicos. b) O pró-fármaco se refere a uma substância ativa que, depois de ser metabolizada, é degradada, exercendo o seu mecanismo de ação por meio de sua degradação. c) O pró-fármaco é uma substância inativa que, depois de ser administrada, é metabolizada em um composto ativo, o qual é responsável por sua ação. d) Pró-fármaco é um termo utilizado para descrever a recolocação de fármacos. e) Os pró-fármacos são protótipos de fármacos, os quais podem ser otimizados para melhorar a sua solubilidade. 4. Selecione a alternativa que se descreve o reposicionamento farmacêutico. a) Insere no mercado farmacêutico fármacos com registro e patentes já disponíveis pela FDA, mas voltados para um atividade terapêutica diferente da que foi planejada inicialmente. b) Insere um novo medicamento no mercado farmacêutico, visando a ampliar seus aspectos de solubilidade, bem como seus perfis farmacocinéticos e farmacodinâmicos. Introdução à Química Farmacêutica32 c) A estratégia principal da Química Farmacêutica voltada ao desenvolvimento de medicamentos se preocupa em otimizar um composto candidato a fármaco. d) Refere-se a um termo amplamente utilizado para estudos de fase clínica e pré-clínica quando o candidato a fármaco não é aprovado pela FDA. e) Insere um novo agente terapêutico para uma patologia com um tratamento já existente. 5. São características da modelagem molecular e da síntese de análogos, respectivamente: a) planejamento de fármacos baseado em sua REA e planejamento de fármacos pela latenciação. b) planejamento de fármacos usando técnicas de Química Analítica e planejamento de fármacos a partir da simplificação molecular. c) desenvolvimento de fármacos usando unicamente a Biologia Molecular e planejamento de fármacos a partir de Química Orgânica. d) planejamento de fármacos a partir de dados de sua REA por docking e a partir da semissíntese orgânica. e) planejamento de fármaco com base no conceito de pró-fármaco e planejamento de fármaco a partir de estudos dedocking. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Conceitos e definições de medicamen- tos. [2018]. Disponível em: <http://portal.anvisa.gov.br/medicamentos/conceitos-e- definicoes>. Acesso em: 17 set. 2018. ARAÚJO, C. R. M. et al. 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