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Autora: Profa. Kátia Cirlene Alves Botelho Colaboradores: Prof. Juliano Rodrigo Guerreiro Profa. Marília Tavares Coutinho da Costa Patrão Tecnologia Químico-Farmacêutica Professora conteudista: Kátia Cirlene Alves Botelho Possui doutorado pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) – Universidade de São Paulo (USP) (2009). Bacharel em Química pelo Instituto de Química da USP (2000) e em Farmácia pela UNIP (2016). Tem experiência na área de Farmácia, com ênfase em fármacos e medicamentos. Desde 2008, leciona no curso de Farmácia e, desde 2009, é professora na UNIP, onde ministra aulas de Química Farmacêutica, Tecnologia Químico-Farmacêutica, Farmacologia e Controle de Qualidade de Fármacos e Medicamentos. Trabalhou no laboratório de Química Farmacêutica da FCF-USP por doze anos, atuando diretamente com ensino, treinamentos e pesquisa com docentes, alunos de graduação e pós-graduação. Já produziu material e exercícios aplicados para o curso de Farmácia na UNIP para as disciplinas de Química Orgânica, Introdução à Farmacologia e Química Farmacêutica. © Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Universidade Paulista. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) B748t Botelho, Kátia Cirlene Alves. Tecnologia Químico-Farmacêutica / Kátia Cirlene Alves Botelho. – São Paulo: Editora Sol, 2021. 120 p., il. Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e Pesquisas da UNIP, Série Didática, ISSN 1517-9230. 1. Planejamento. 2. Indústria. 3. Fármacos. I. Título. CDU 615 U510.60 – 21 Prof. Dr. João Carlos Di Genio Reitor Prof. Fábio Romeu de Carvalho Vice-Reitor de Planejamento, Administração e Finanças Profa. Melânia Dalla Torre Vice-Reitora de Unidades Universitárias Profa. Dra. Marília Ancona-Lopez Vice-Reitora de Pós-Graduação e Pesquisa Profa. Dra. Marília Ancona-Lopez Vice-Reitora de Graduação Unip Interativa – EaD Profa. Elisabete Brihy Prof. Marcello Vannini Prof. Dr. Luiz Felipe Scabar Prof. Ivan Daliberto Frugoli Material Didático – EaD Comissão editorial: Dra. Angélica L. Carlini (UNIP) Dr. Ivan Dias da Motta (CESUMAR) Dra. Kátia Mosorov Alonso (UFMT) Apoio: Profa. Cláudia Regina Baptista – EaD Profa. Deise Alcantara Carreiro – Comissão de Qualificação e Avaliação de Cursos Projeto gráfico: Prof. Alexandre Ponzetto Revisão: Vitor Andrade Aline Ricciardi Sumário Tecnologia Químico-Farmacêutica APRESENTAÇÃO ......................................................................................................................................................7 INTRODUÇÃO ...........................................................................................................................................................7 Unidade I 1 PLANEJAMENTO DE FÁRMACOS ..................................................................................................................9 1.1 Estratégias de planejamento ........................................................................................................... 11 1.2 Modificação molecular ...................................................................................................................... 11 2 PROCESSOS GERAIS ....................................................................................................................................... 12 2.1 Simplificação .......................................................................................................................................... 12 2.2 Associação molecular ......................................................................................................................... 17 2.2.1 Adição molecular .................................................................................................................................... 17 2.2.2 Replicação molecular ............................................................................................................................ 18 2.3 Hibridação molecular.......................................................................................................................... 19 3 PROCESSOS ESPECIAIS ................................................................................................................................. 20 3.1 Fechamento ou abertura de anel ................................................................................................... 20 3.2 Outras transformações no anel ...................................................................................................... 22 3.3 Homologia ............................................................................................................................................... 22 3.4 Vinilogia ................................................................................................................................................... 23 3.5 Introdução de grupo volumoso ...................................................................................................... 23 3.6 Bioisosterismo........................................................................................................................................ 23 3.7 Latenciação ............................................................................................................................................. 30 4 PLANEJAMENTO RACIONAL ........................................................................................................................ 44 4.1 Antimetabólitos .................................................................................................................................... 46 4.2 Agentes alquilantes ............................................................................................................................. 46 4.3 Antídotos ................................................................................................................................................. 47 4.4 Desenvolvimento de fármacos com auxílio de computador .............................................. 48 4.5 Planejamento racional baseado no conhecimento da causa molecular ou alvo biológico (receptor ou proteína) da patologia ....................................................................... 50 4.5.1 Triagem virtual (virtual screening) ................................................................................................... 50 4.5.2 High throughput screening (HTS) .................................................................................................... 50 4.5.3 Modelagem molecular .......................................................................................................................... 51 4.5.4 Ancoramento (docking) ........................................................................................................................ 54 Unidade II 5 SÍNTESE INDUSTRIAL DE FÁRMACOS ...................................................................................................... 64 5.1 Indústria químico-farmacêutica .................................................................................................... 65 5.2 Segurança industrial ........................................................................................................................... 66 5.3 Plantas químicas ................................................................................................................................... 67 5.4 Tipos de processos ................................................................................................................................ 67 5.5 Tratamento de resíduos da indústria químico-farmacêutica e da indústria farmacêutica ....................................................................................................................68 5.6 Produção industrial de fármacos ................................................................................................... 70 5.7 Sínteses de fármacos .......................................................................................................................... 71 5.7.1 Etapa laboratorial ................................................................................................................................... 71 5.7.2 Etapa semi-industrial ............................................................................................................................ 71 5.7.3 Etapa industrial ....................................................................................................................................... 73 6 TIPOS DE SÍNTESE DE FÁRMACOS ............................................................................................................ 74 6.1 Processos endotérmicos .................................................................................................................... 75 6.1.1 Alquilação .................................................................................................................................................. 75 6.1.2 Aminação ................................................................................................................................................... 77 6.1.3 Oxidação ..................................................................................................................................................... 80 6.1.4 Esterificação .............................................................................................................................................. 82 6.2 Processos exotérmicos ....................................................................................................................... 83 6.2.1 Acilação ....................................................................................................................................................... 83 7 SÍNTESES DE FÁRMACOS ENVOLVENDO PROCESSOS DIVERSOS ................................................ 91 8 OPERAÇÕES UNITÁRIAS ............................................................................................................................... 94 8.1 Operações de separação .................................................................................................................... 95 8.2 Secagem .................................................................................................................................................102 7 APRESENTAÇÃO Caro aluno, esta disciplina é de importância fundamental para que se compreenda como os fármacos são descobertos, produzidos e colocados na prática farmacêutica. Para tanto, serão abordadas neste livro-texto as estratégias de descoberta e desenvolvimento de novos fármacos a partir de produtos naturais, síntese orgânica e de técnicas computacionais. Também estudaremos os conceitos tecnológicos na síntese de fármacos, tanto para os recém-descobertos quanto para os que já estão na terapêutica, as operações unitárias envolvidas, os métodos instrumentais e a segurança industrial, por exemplo, o tratamento dos resíduos originados na síntese desses fármacos. Ao término desta disciplina, você terá conhecimentos sobre processos de modelagem molecular, planejamento racional, extração de fontes naturais, síntese e semissíntese, os quais são empregados na busca de obtenção de novos fármacos. Assim, poderá reconhecer num processo de síntese de fármacos os principais processos unitários, bem como identificar e adequar os equipamentos de produção e controle necessários ao processo de síntese de fármacos em escala laboratorial, piloto (semi-industrial) e industrial. Terá conhecimentos sobre pró-fármacos e processos de latenciação de fármacos na gênese de fármacos, desenvolvendo habilidades para um bom desempenho no trabalho em equipe. Os objetivos desta disciplina são conhecer as principais técnicas de obtenção de compostos líderes e candidatos a fármacos, apresentando as principais etapas envolvidas no desenvolvimento de fármacos; conhecer e conceituar os métodos de síntese e desenvolvimento de novos fármacos ou substâncias bioativas; estudar as principais rotas sintéticas de obtenção de fármacos, bem como as operações de purificação deles. INTRODUÇÃO Esta disciplina terá como foco a descoberta e a síntese de fármacos. Para tanto, serão retomados conceitos importantes de química orgânica, farmacologia e métodos instrumentais de análise. Serão abordados conceitos fundamentais em tecnologia químico-farmacêutica. Inicialmente, estudaremos o planejamento de fármacos, que terá como pontos centrais as estratégias de descoberta e desenvolvimento de candidatos a fármacos, como o planejamento racional e as modificações moleculares. Depois, os pontos principais serão a síntese (do ponto de vista da química orgânica), o gerenciamento de resíduos produzidos nas sínteses e as operações unitárias desenvolvidas para purificação e secagem dos produtos farmacêuticos. 9 TECNOLOGIA QUÍMICO-FARMACÊUTICA Unidade I 1 PLANEJAMENTO DE FÁRMACOS A tecnologia químico-farmacêutica é multidisciplinar, envolve o processo de descoberta, desenvolvimento e produção dessas entidades químicas. Para que se desenvolva um bom candidato a fármaco, são necessários conhecimentos de química, sobretudo a química orgânica, uma vez que mais de 90% dos fármacos são originários da síntese orgânica. A bioquímica nos auxilia a entender as vias metabólicas, a constituição das proteínas e o funcionamento das enzimas. Por sua vez, a farmacologia é essencial para assimilar como o organismo reage aos fármacos e também como o fármaco atuará no organismo. Já a toxicologia traz os efeitos toxicológicos desses agentes. Nesse contexto, ainda é preciso destacar a importância da bioestatística, da biotecnologia e da bioinformática. A introdução de um único fármaco na terapêutica pode levar entre 5 e 15 anos, pois sua descoberta e produção são muito complexas. De maneira geral, o avanço na descoberta de fármacos começa pela extração de princípios ativos vegetais, ao acaso, triagem empírica, planejamento racional e modificações moleculares. Qualquer uma dessas introduções, obrigatoriamente, passa por três etapas fundamentais: • Descoberta: abrange toda a parte teórica, desde a escolha da doença até a seleção de moléculas potencialmente bioativas. • Otimização: melhoramento da estrutura do protótipo, podendo levar a um aumento da potência, seletividade e diminuição da toxicidade; adequação do perfil farmacocinético. • Desenvolvimento: envolve todas as estratégias de síntese, purificação e identificação das estruturas escolhidas, bem como o delineamento dos ensaios pré-clínicos e clínicos, o desenvolvimento farmacotécnico e o registro de patentes e do candidato ou dos candidatos escolhidos. A figura a seguir mostra como são as etapas de descobrimento de um novo fármaco. 10 Unidade I Inativo InativoAtivo Composto protótipo Doença Composto aprovado Obtenção de estrutura química/síntese Bioensaios Composto em estudo Novo planejamento Otimização Figura 1 – Desenvolvimento de fármacos A partir dessa figura, podemos ter uma ideia de como se dá o planejamento de novos compostos bioativos. A primeira etapa é a escolha da patologia que se quer atingir. Por meio de um levantamento bibliográfico profundo, devemos saber tudo sobre essa doença: dados epidemiológicos, fisiopatologia da doença, todos os mecanismos de propagação dela, ensaios biológicos que deverão ser feitos etc. Após essa escolha, faz-se a busca em bibliotecas químicas de estruturas disponíveis que possam satisfazer o alvo que desejamos atingir. A próxima etapa envolverá a síntese, a purificação e a elucidação estrutural desses compostos selecionados. Com os candidatos a fármacos purificados, passamos aos bioensaios, que serão in vitro (exemplo:cultura de células) e in vivo (experimentação animal: ratos, coelhos etc.). Caso os resultados não sejam promissores, volta-se ao estágio inicial; se os compostos forem ativos, eles serão otimizados. O que significa essa otimização? Os candidatos que apresentarem melhor resposta biológica serão selecionados e passarão por estudos de relação estrutura-atividade (REA). Então, os escolhidos passarão pelo desenvolvimento farmacotécnico e serão inseridos nos estudos de fase clínica (I, II, III). Se apresentarem os resultados esperados (segurança, eficácia e toxicidade não relevante), serão aprovados para o estágio IV (farmacovigilância) e, por fim, poderão ser introduzidos na rotina terapêutica. A indústria é a maior pesquisadora de novos compostos bioativos. Para ilustrar, nos últimos trinta anos, 90% dos novos compostos bioativos foram totalmente desenvolvidos por ela, cerca de 9% desses fármacos vieram de universidades e 1% dos laboratórios de pesquisas oficiais, por exemplo, a Fiocruz. Antes desse período, as universidades eram responsáveis por cerca de 50% de todo o processo de introdução de fármacos na terapêutica. A introdução de um novo fármaco na terapêutica tem um gasto médio de 1 bilhão de dólares, e, do ponto de vista industrial, é preciso ter retorno desse investimento. A estratégia adotada é clara: produzir algo inovador e que seja útil ao paciente, desde que gere o retorno financeiro. Embora existam muitos 11 TECNOLOGIA QUÍMICO-FARMACÊUTICA agentes cardiovasculares, fármacos para desordens metabólicas, agentes que atuam no sistema nervoso central, agentes antimicrobianos e anti-inflamatórios, antineoplásicos etc., novos fármacos dessas classes continuam sendo estudados e introduzidos na terapêutica. Contudo, poucos fármacos são introduzidos para as chamadas doenças negligenciadas (DN), como doença de Chagas, leishmaniose, malária, dengue, hanseníase e outras parasitárias (ANDRICOPULO et al., 2013). Essas doenças negligenciadas, de maneira geral, atingem países subdesenvolvidos, causando a morte de 500 mil a 1 milhão de indivíduos anualmente. Um exemplo disso é que no período de 1975 a 2004 foram introduzidos 1.556 novos fármacos, destes, 21 foram para as DN, ou seja, apenas 1,35% (VALVERDE, 2013). Saiba mais Para saber mais sobre as doenças negligenciadas e o panorama de estudos de candidatos a novos fármacos, leia o seguinte artigo: DIAS, L. C.; DESSOY, M. A. Doenças tropicais negligenciadas: uma nova era de desafios e oportunidades. Química Nova, v. 36, n. 10, p. 1552-1556, 2013. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/qn/v36n10/11.pdf. Acesso em: 19 nov. 2020. 1.1 Estratégias de planejamento Até agora vimos como chegar ao planejamento de novos compostos bioativos, mas outras estratégias também são utilizadas pela indústria para que sejam obtidos fármacos mais eficazes. De que forma? Vamos relembrar resumidamente a gênese de fármacos da química farmacêutica: • Extração de produtos naturais: exemplos nesse campo são vastos, podemos citar atropina, paclitaxel, penicilina, carbonato de lítio, vincristina, óleo de fígado de peixe (vitaminas A e E), digoxina, quinina entre tantos outros. • Ao acaso: penicilina, benzodiazepínicos (clordiazepóxido), sildenafila, ácido valproico etc. • Triagem empírica: o exemplo principal é o paracetamol, mas muitos antibióticos foram introduzidos a partir dela, como desipramina e proguanila. • Modificação molecular: estratégia à qual daremos mais atenção a partir de agora. 1.2 Modificação molecular Trata-se de uma das estratégias mais adotadas na descoberta e na introdução de novos fármacos. Alguns autores acreditam que ela é considerada um apêndice natural da química orgânica. A metodologia utilizada envolve uma estrutura química bem caracterizada (protótipo), com atividade 12 Unidade I biológica definida. Com esse protótipo, podem ser construídos análogos, homólogos ou uma série de congêneres, sem, contudo, mudar a parte essencial da estrutura que é responsável pela ação farmacológica. Observação A proporção de fármacos de origem na química orgânica é cerca de 95%. Quando se faz uma modificação na molécula inicial, consegue-se descobrir quais são efetivamente os grupos essenciais para a atividade farmacológica, ou seja, o grupo farmacofórico ou farmacóforo. Além disso, pode-se criar análogos superiores ao protótipo, por exemplo: potência, especificidade, tempo de ação, vias de administração diferenciadas, propriedades farmacotécnicas e diminuição dos custos de produção. Em face do exposto, os objetivos de usar essa estratégia são variados, dependendo apenas do tipo de resposta que se quer obter. Há várias metodologias utilizadas: simplificação, associação molecular, abertura ou fechamento de anel, homólogos, introdução de duplas ligações (vinilogia), introdução, retirada ou substituição de grupos volumosos, bioisosterismo e latenciação. Podemos reunir essas metodologias em dois grupos: processos gerais e processos especiais. Essas estratégias serão abordadas a partir de agora, pois cada uma tem um objetivo específico. 2 PROCESSOS GERAIS Nesse tipo de estratégia, a estrutura química do fármaco é vista como um todo, assim, pode-se modificar uma única parte da molécula, ou de grupamentos específicos dela, ou realizar modificações drásticas em toda a estrutura. 2.1 Simplificação A simplificação molecular normalmente é utilizada em princípios ativos naturais, consistindo na síntese e nos ensaios de análogos cada vez mais simples da estrutura protótipo. Em geral, a extração de princípios ativos vegetais gera compostos químicos muito complexos. Com essa metodologia, eles se tornam mais simples a partir de reações químicas efetuadas, mantendo, no entanto, os grupos essenciais para a atividade farmacológica. A seguir, serão acentuados exemplos de fármacos obtidos através dessa estratégia, bem como o objetivo dessa simplificação molecular. 13 TECNOLOGIA QUÍMICO-FARMACÊUTICA Cocaína Foi isolada em 1860 das folhas de uma planta encontrada no continente sul-americano, a Erythroxylon coca, pelo químico sueco Albert Niemann. Seu uso como anestésico local foi sugerido por Sigmund Freud a Karl Koller, que já havia tentado diversos hipnóticos e analgésicos como anestésico local nos olhos. Freud sugeriu a Koller que tentasse fazer como os índios sul-americanos, que aliviavam o cansaço mastigando folhas de coca. Por meio das informações obtidas, ele descobriu que a coca anestesiava a língua e rapidamente percebeu que seria um anestésico eficaz e não irritante aos olhos. Em 1898 Richard Willstätter determinou a estrutura e a síntese da cocaína. Hoje é conhecida como droga recreativa, porém possui uma importância histórica, pois a partir da elucidação de sua estrutura química, foram feitas simplificações moleculares com o intuito de descobrir seu grupo farmacofórico, ou seja, o que efetivamente da estrutura química seria responsável pela ação anestésica local. Foi assim que surgiram elementos como benzocaína, procaína, tetracaína e lidocaína, os quais podem ser considerados análogos estruturais da cocaína. Trata-se de um ótimo exemplo de como as modificações moleculares de um princípio ativo natural podem levar a agentes terapêuticos úteis. OO OO OO OO OO OO OO OO OO OO CHCH33 CHCH33 HH22NN HH22NN NN NN NN NN HH HH NN OO NN Cocaína Benzocaína Procaína Tetracaína Lidocaína Figura 2 – Anestésicos locais análogos da cocaína obtidos por simplificação molecular Morfina É um alcaloide de isoquinolina morfinana, morfina, sendo o constituinte obtido em maior proporção de exsudato leitoso (látex seco) da Papaver somniferum (ópio da papoula). É considerado o protótipo dos analgésicos opioides sintéticos, com seletividade para o receptor µ. É um composto muito útil, não somente por suas características farmacológicas, mas também por originar milhares de análogos estruturais. Estes, por sua vez, foram sintetizados na busca incessante de derivados damorfina para que pudessem manter a característica de forte potência analgésica, contudo, sem fornecer o principal efeito adverso, a dependência química. 14 Unidade I NN NN NN NN NN OO HH HH HH33CC HH33CC HH33CC HH33CC HH33CC RR RR OHOH OHOH OHOH OHOH Morfina Morfinanos Benzomorfanos 4-fenilpiperidinas Figura 3 – Classes química originadas da simplificação molecular da morfina NN NN NN NN OO OO OO HOHO HOHO NN OO HH HOHO HOHO CHCH33 Morfina Levorfanol Pentazocina MetadonaMeperidina Figura 4 – Alguns exemplos de fármacos derivados da morfina 15 TECNOLOGIA QUÍMICO-FARMACÊUTICA Cloroquina É um fármaco com ação antimalárica, antirreumática e ação no lúpus eritematoso sistêmico. Inicialmente, sua introdução na terapêutica foi feita a partir da quinina. Esta substância foi descoberta em meados do século 17 por meio da extração da casca de uma árvore das montanhas peruanas, a cinchona. Porém, sua ação farmacológica só foi confirmada a partir do seu isolamento, em meados de 1820. A busca por antimaláricos eficazes em decorrência da Segunda Guerra levou países como Alemanha, EUA, Espanha e França, além de usarem quinina, a sintetizarem derivados análogos a ela, e foi assim que surgiu a quinacrina (mepacrina). A partir da estratégia de simplificação molecular (quinacrina), foram descobertos a cloroquina e diversos outros análogos com ação antimalárica, como a mefloquina e a halofantrina. NN NN NN NN HH HNHN HNHN NN HH NN NN OO OO NN NN CICI CICI CICI CICI HH HOHO HOHO OHOH FF FF FF FF FFFF FF FF FF CloroquinaQuinina Mefloquina Halofantrina Figura 5 – Derivados antimaláricos a partir da quinina e da quinacrina Indometacina Faz parte dos anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) que inibem a ação da enzima prostaglandina endoperóxido sintase (PGHS), envolvendo os ácidos indol-arilacéticos, descobertos em 1962 por Shen e colaboradores. Por estudos de relação estrutura-atividade, constatou-se que o grupo indólico da indometacina é o responsável pelos efeitos adversos no sistema nervoso central. Para eliminar esse efeito indesejável, a simplificação da indometacina resultou no análogo zomepiraco. 16 Unidade I NN NN OO OO OO OO OO CICI CICI OHOH HOHO Figura 6 – Simplificação molecular da indometacina NN NN NNNN NN NN NN NN NN OO OO OO OO HH NN OO OO OO OO HH HH HOHO HSHS HH OHOH HOHO OHOH OHOH CHCH33 H2N H2N Trp–Pro–Arg–Pro–Gln–Pro–Pro–OH Guanosina Aciclovir Captopril Sequência de aminoácidos do veneno da cobra jararaca (bothrops jararaca) Figura 7 – Outros exemplos de fármacos introduzidos por simplificação molecular Observação A base das buscas de compostos bioativos de origem natural é essencial no desenvolvimento de novos fitoterápicos. 17 TECNOLOGIA QUÍMICO-FARMACÊUTICA 2.2 Associação molecular Esse tipo de estratégia tem como resultado a formação de compostos mais complexos do que seu protótipo. Estudaremos alguns tipos de associação a seguir. 2.2.1 Adição molecular Ao protótipo adiciona-se uma molécula diferente, que serão unidos através de interações químicas fracas, como a ligação de hidrogênio ou a atração eletrostática. A seguir são apresentados alguns fármacos introduzidos na terapêutica em que foi adotada essa estratégia. NN NN OO OO -- OO OHOH HOHO Ácido mandélicoÁcido mandélico MetenaminaMetenamina Mandelato de Mandelato de metenaminametenamina HOHO NN NN NN N +N + NN NN Figura 8 – Obtenção do mandelato de metenamina A metenamina é um fármaco anti-infeccioso do trato urinário, assim como o ácido mandélico. A metenamina é facilmente degradada no pH estomacal, enquanto o ácido mandélico é irritante gástrico por conta da presença do grupamento carboxílico. Com o intuito de prevenir a degradação antecipada do primeiro fármaco e evitar a toxicidade do segundo, foi desenvolvido o mandelato de metenamina. A metenamina será eliminada intacta na urina, e no rim será hidrolisada em formaldeído quando o pH for inferior a 6,5. Há outros exemplos a se considerar. O primeiro deles é a prednazolina (esquema I da figura a seguir), um composto bioativo formado da associação entre prednisolona (um anti-inflamatório esteroidal) e a fenoxazolina (um vasoconstritor utilizado em descongestionantes nasais). O tratamento dos processos inflamatórios respiratórios é mais eficaz quando são administrados os dois fármacos associados do que o tratamento com os fármacos isolados. Temos também o xantifibrato (esquema II), que é a associação do xantinol (um vasodilatador) ao ácido clofíbrico (um antilipêmico). Por fim, destaca-se a barbexaclona (esquema III), um fármaco utilizado nas crises epiléticas; este é uma associação entre o adrenérgico propilexedrina e o barbitúrico fenobarbital. Essa associação é útil terapeuticamente, porque a combinação dos efeitos inibidores do barbitúrico e os efeitos estimulantes da propilexedrina determinam que a eficácia anticonvulsivante do fenobarbital seja potencializada. 18 Unidade I NN NN NHNH NH+2 OO OO OO OO OO OO OO OO HOHO HOHO HOHO HOHO PO3H2 PO3H - Prednidolona Fenoxazolina Prednazolina Esquema I NN NNNN NN NN NNNN NN NN HNHN++ OO OO OO OO OHOH OHOH OHOH OHOH ++ HOOCHOOC O-OC XantifibratoÁcido clofíbricoXantinol Esquema II NHNH NHNH NHNH OO OO OO Esquema III Figura 9 – Obtenção da prednazolina (esquema I); do xantifibrato (esquema II); e da barbeclazona (esquema III) 2.2.2 Replicação molecular Trata-se de uma estratégia de associação na qual dois ou mais fármacos idênticos ligam-se por meio de ligação covalente. Quando dois fármacos são unidos, ela é chamada de duplicação; no caso de três fármacos, tem-se a triplicação; para mais de quatro fármacos, o termo usado é replicação molecular. Destacaremos exemplos dessa estratégia com base na figura a seguir: o fenticloro (2,2’-sulfanodilbis (4-clorofenol)), um agente com propriedades germicidas, antifúngicas e antissépticas, é obtido através da duplicação do p-clorofenol, tendo com ponte entre as duas moléculas o átomo de enxofre (1); o nebivolol, que é um betabloqueador b1- seletivo e vasodilatador prescrito para pacientes asmáticos, com doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) ou diabetes, podendo ser obtido pela duplicação do benzopiranoetanol (2); a simeticona, que é um fármaco utilizado no trato gastrointestinal para impedir a formação de gases (antiflatulento), sendo obtido pela polimerização do polidimetilsiloxano (3); por fim, o dibozano, um bloqueador adrenérgico obtido da duplicação do piperoxano (outro agente bloqueador adrenérgico) (4). 19 TECNOLOGIA QUÍMICO-FARMACÊUTICA OO OO OO OHOH OHOH OHOHOHOH CICI SiSiH3C n SiSi CH3CH3 CH3CH3 OO CH3 + SiO2 CICI SS FF FF OO OO OO NN NN NN HH Simeticona (3) Fenticloro (1) Nebivolol (2) Dibozano (4) Figura 10 – Exemplos de fármacos originados da replicação molecular 2.3 Hibridação molecular Como última estratégia da associação molecular, temos a hibridação, em que dois fármacos diferentes estruturalmente são unidos por ligação covalente. Em geral, esse tipo de planejamento tem os seguintes objetivos: potencializar a ação dos fármacos, diminuir os efeitos adversos ou atuar em vias fisiopatológicas diferentes. Ilustraremos exemplos de fármacos introduzidos por essa via com base na figura a seguir: o anti-inflamatório não esteroidal (AINE) acetaminosalol, um fármaco obtido pela reação entre o paracetamol e o ácido salicílico (1); o benorilato, que também faz parte dos AINEs, obtido pela junção do ácido acetilsalicílico e do paracetamol (2); o fármaco antimicrobiano sultamicilina, que é a associação entre dois outros antimicrobianos, a ampicilina e o sulbactama (3); na terapêutica, temos também estramustina, um agente antineoplásico utilizado para câncer de próstata obtido da reação de um derivado de mostarda nitrogenada (agente antineoplásico), e o estradiol (hormônio sexual e esteroide) (4). 20 Unidade I (1) OO OO OO OOOO OHOH OHOH NHNH Ácido salicílico Paracetamol Acetaminossalol NHNH OHOH HOHO + (2) + OO OO OO OO OO OO OO OO OO NHNH NHNH OHOH HOHO Paracetamol AAS Benorilato (3) OO OO OO OO OO OO OO OO OO OO OO OO OO OO OO NH2 + NH2 OHOH HOHO Ampicilina Sulbactama Sultamicilina SS SSSS SS NHNH NHNH NN NN NN NN (4) + OHOH OHOH HOHO CICICICI CICI Mostarda nitrogenada Estradiol Estramutina OO OO OO NN ClCl ClCl NN Figura 11 – Exemplos de fármacos obtidos por hibridação molecular 3 PROCESSOS ESPECIAIS Nesse tipo de metodologia, as modificações efetuadas no fármaco são feitas em partes específicas, dependendo do objetivo que se quer em relação à produção de novos compostos bioativos. Os objetivos de se utilizar essa metodologia foram definidos por Schueler: quando se deseja aumentar ou diminuir as dimensões e a flexibilidade de um composto ou quando se deseja alterar as propriedades físicas e químicas. Para tanto, pode-se mudar um átomo ou os grupos de átomos específicos por outros. Acentuaremos a seguir as estratégias utilizadas, os exemplos e os objetivos de cada estratégia. 3.1 Fechamento ou abertura de anel A presença de anéis no protótipo, que pudessem ser viáveis de se sintetizar, originou a metodologia de abertura de anel; por outro lado, a presença de grupos que pudessem ser ciclizados promoveu outra estratégia, o fechamento de anel. 21 TECNOLOGIA QUÍMICO-FARMACÊUTICA Com base na figura a seguir, destacaremos exemplos de abertura de anel. O primeiro deles é a fisostigmina, que foi convertida à neostigmina. Trata-se de um fármaco utilizado em pacientes com miastenia gravis, auxiliando no fortalecimento do tônus muscular. A composição da amina quaternária formada pela abertura do anel que está presente na fisostigmina faz com que esse novo fármaco (neostigmina) fique mais polar e não ultrapasse a barreira hematoencefálica, característica observada na fisostigmina (1). A clonidina foi convertida em secoclonidina por abertura do anel imidazolidina, ambos os fármacos têm ação alfa-adrenérgica, atuando como anti-hipertensivos (2). A tiaprida foi convertida em sulpirida mediante fechamento de anel. Enquanto sulpirida é indicada preferencialmente como antipsicótico, a tiaprida tem ação em uma série de distúrbios neurológicos, como discinesia, síndrome de abstinência ao álcool e sintomas negativos de psicoses (3). A efedrina foi convertida em fenmetrazina por fechamento do anel, ambos os fármacos têm propriedades termogênicas, auxiliando na perda de peso corporal (4). (1) OO OO OO OO NNNN N + NN HH HNHN CH3 CH3 CH3 H3C Fisostigmina Neostigmina (2) NN NN NHNH NHNH HNHN HNHN CICI CICI CICI CICI Clonidina Secoclonidina (3) OO OOOO OO NNH3CO2SH3CO2S Tiaprida Sulpirida NHNHNHNH (4) Efedrina Fenmetrazina OO NHNH OHOH NH2 Figura 12 22 Unidade I 3.2 Outras transformações no anel Mudanças na posição de anéis, alargamento ou a contração de anel também fazem parte das modificações moleculares possíveis. Observe os exemplos a seguir: (1) NN NN CO2EtCO2Et H5C6 H5C6 Petidina Etoeptazina (2) NHNH NHNHHNHNHNHN OO Basbitúricos Hidantoínas OOOO OO OOR2R2 R1R1 Figura 13 – Alongamento (1) e contração (2) de anéis 3.3 Homologia Nessa estratégia, utilizamos a síntese de homólogos, que consiste na introdução de um grupo presente na estrutura do fármaco de maneira repetida. Por exemplo, se o grupo for uma metila, teremos a origem de um homólogo linear; se for um cíclico, teremos um homólogo cíclico. R-X → R-CH2-X → R-(CH)n NN NN NN NN NHNHHO2C CO2H (CO2)n O R n = 1, 2, 3, 4, 5, 6, ... R OMe OEt OnPropil OnButil OnPentil Figura 14 23 TECNOLOGIA QUÍMICO-FARMACÊUTICA 3.4 Vinilogia Nesse tipo de modificação, temos a introdução de ligações insaturadas. NN NN HH HH OO OO HOHO HOHO HOHO CH3 HOHO Morfina Nalorfina Figura 15 – Introdução de dupla ligação na estrutura química da morfina, gerando a nalorfina 3.5 Introdução de grupo volumoso Trata-se de estratégia utilizada para a proteção de grupos essenciais à atividade farmacológica ou tornar a estrutura mais rígida. Exemplo clássico desse tipo de planejamento foi a introdução da meticilina, um antimicrobiano análogo à penicilina. NN NHNH NHNH COOHCOOH COOHCOOH RR H3CO H3CO NN SS SS OO OO OO OO Figura 16 3.6 Bioisosterismo É uma estratégia adotada na modificação estrutural de moléculas com atividade biológica. Propriedades físico-químicasPotênciaProtótipo BioisósterosSeletividade Figura 17 24 Unidade I Segundo o conceito de Langmuir, 1919, isosterismo é a substituição de um átomo ou grupo de átomo por outros similares eletrônica e estericamente. Em 1925, Grimm propôs que a adição de um hidreto ao átomo forneceria um grupo com as mesmas propriedades físico-químicas dos que estivessem no grupo seguinte da tabela periódica. Tabela 1 – Teoria do hidreto de Grimm Número de elétrons 6 7 8 9 10 11 C H H N -O- -F Ne Na+ CH -NH- -OH FH NeH -CH2- -NH2 H OH2 FH2 -CH3 NH3 OH3 + CH4 NH4 + Em 1932, Erlenmeyer expandiu os conceitos para isosterismo e estabeleceu que átomos ou grupos de átomos, para serem isósteros, deveriam ter a mesma camada periférica de elétrons, por exemplo: elementos de uma mesma coluna da tabela periódica (-F e –OH) ou anéis equivalentes, conforme tabela a seguir. Tabela 2 Elétrons periféricos 4 5 6 7 8 N+ P+ S+ As+ Sb+ P As Sb S Se Te PH Cl Br I SH PH2 ClH BrH IH SH2 PH3 Atualmente, são considerados isósteros também os grupos que possuem configurações estéricas e eletrônicas semelhantes, a despeito do número de elétrons compreendidos. Exemplos: grupos carboxilato e sulfamidico. Quando ocorre a formação de isósteros e os compostos obtidos têm as mesmas funções biológicas, eles são considerados bioisósteros. A partir de 1970, Burger classificou os bioisósteros em dois grandes grupos: os clássicos e os não clássicos. Bioisósteros clássicos Envolvem todas as modificações entre átomos ou grupos de átomos que atendam os conceitos de Langmuir, Grimm e Erlenmeyer. Essa estratégia é a mais simples modificação estrutural e se baseia nas propriedades eletrônicas e de volume. A figura a seguir acentua alguns exemplos: 25 TECNOLOGIA QUÍMICO-FARMACÊUTICA Monovalentes F, H, OH, NH, CH3, SH, OH, Cl, Br, CF3 Trivalentes CH=, -N=, -P= Equivalência de anéis NN OOSS Benzeno PiridinaTiofeno Furano Bivalentes C=S, -C=O, -C=NH, -C=C- Tetravalentes NR4 +, CR4, PR4 + Figura 18 Bioisósteros não clássicos Nesse tipo de estratégia, ocorre a troca de grupos químicos que sejam interconversíveis. Estes não atendem às regras eletrônicas e estéricas dos bioisósteros clássicos, porém são capazes de produzir atividade biológica semelhante ao protótipo. Dentre a interconversões, podemos citar grupos funcionais, retroisosterismo, anelação e pontos isostéricos (bióforos). Tabela 3 –CO– –COOH– –SO2NH2 –H –CONH– –COOR– –CONH2 –CO2– –SO3H– –PO(OH)NH2 –F –NHCO– –ROCO– –CSNH2 –SO– Tetrazola –SO2NR– –SO2NRH –OH –catecol –CON– –3-hdroxi-isoxazola –CH2OH –benzimidazol –CH(CN)– –2-hdroxicromano –NHCONH2 R–S–R’ =N– –NH–CS–NH2 –C5H4N (R–O–R’) R–N(CN)–R’ R–C(CN)= –NH–C(=CHNO2)–NH2 –C6H5 R–C(CN)(CN)–R’ –C4H4N –halogênio –CF3 –CN –N(CN)2 –C(CN)3 26 Unidade I Diversos são os objetivos de se utilizar o bioisosterismo no planejamento de fármacos. Alguns deles são aumento de potência, eliminação de grupos toxicofóricos, otimização de protótipos e candidatos a fármacos, aumento da seletividade, patente etc. Em 1996, a Iupac (International Union of Pure and Applied Chemistry) estabeleceu que bioisóstero é um composto resultante da substituição de um átomo ou grupo de átomos por outro átomo ou grupo de átomos amplamente semelhantes com o objetivo de se criar um composto que apresente propriedades biológicas semelhantes ao protótipo. Tal substituição pode ser fundamentada tanto pelas propriedades físico-químicas quanto pela espacialidade dosgrupos de átomos (ou átomos) envolvidos na troca. Há grupos isósteros que podem ser utilizados e que mantêm a semelhança com propriedades físico-químicas ou físicas, como o ponto de fusão, conforme figura a seguir. NN NN NN NN NN NN NN NN NN NN NN NN NN NN NN NN NN NN SS SS OO OO Piridina 115-116 ºC 1,2,4-tiadiazol 204-208 ºC 1,3,4-oxadiazole 150 ºC 12,4-tiadiazol 120-121 ºC 1,2,4-oxadiazol 87 ºC 1,2,4-triazina 200 ºC Pirazina 115-118 ºC Pirimidina 123-124 ºC Piridazina 208 ºC Figura 19 – Equivalência de anéis 27 TECNOLOGIA QUÍMICO-FARMACÊUTICA Observação Análogos são produtos obtidos da modificação molecular de um fármaco protótipo. Muitos são os exemplos na terapêutica que utilizaram essa estratégia de modificação molecular. A seguir, estudaremos alguns deles. A cimetidina foi introduzida na terapêutica como o primeiro fármaco antagonista de receptores histaminérgicos H2. A partir dela, vários análogos com propriedades melhoradas foram introduzidos na terapêutica. NN NN NN NN NN NN NN NN + + NN NN NN NN NN NN OOOO H2N H2N H2N H2N H2N SS SS SS SS OO OO OO OO OO - - SS SS SS SS HH NN HH NN HH NN HH NN HH NN HH NN HH NN HH NN HH NN HH NN HH NN HH NN HNHN SS SS HNHN SS Metiamida Cimetidina Ranitidina Tiotidina Famotidina Roxatidina Figura 20 – Análogos obtidos por bioisosterismo de antagonistas H2 Com a obtenção de análogos do propranol por meio do bioisosterismo, pode-se definir que o grupo OH é essencial para a atividade β-bloqueadora, auxiliando, assim, estudos de relação estrutura-atividade (REA). A parte circulada no análogo modificado (figura a seguir) corresponde à perda da ligação de interação com o receptor. 28 Unidade I NN HH NN HH OO XX OHOH OHOH Receptor β1 cardíaco Receptor β1 cardíaco X = S, HC =, ou CH2 Figura 21 – Perda de atividade anti-hipertensiva do propranolol ao se produzir O ácido fólico é uma substância essencial para a síntese de DNA. A partir de sua estrutura, desenvolveu-se o bioisóstero metotrexato, que funciona como antimetabólito, inibindo a síntese de DNA. A construção do análogo, estruturalmente similar ao ácido fólico, foi feita a partir de substituições por grupos R e X. NN NNNN NN NN RR OO OO OO HOHO OHOH X H2N X = -OH R = -H ácido fólico X = -NH2 R = -CH3 metotrexato NHNH Figura 22 – O metotrexato, um antineoplásico, é bioisóstero do ácido fólico A sulfonamida, um fármaco antimicrobiano, foi descoberto em meados da década de 1930, inovando a introdução de novos antimicrobianos. A partir do bioisosterismo, foi possível produzir seus análogos; as modificações em R permitem que ocorram mudanças farmacocinéticas na sulfonamida, e uma delas está relacionada ao tempo de ação desses fármacos. 29 TECNOLOGIA QUÍMICO-FARMACÊUTICA NN NNNN NN NN RR SS SS H2N R=R= OO OO HH Sulfapiridina Sulfatiazol Sulfapirazina Figura 23 – Antimicrobianos análogos à sulfonamida A instabilidade ao pH ácido do suco gástrico impede que a benzilpenicilina seja administrada por via oral. Assim, o anel betalactâmico é rompido em pHs baixos. Para que ele fique protegido da ação ácida, um bioisóstero foi sintetizado, a fenoximetilbenzilpenicilina (penicilina V). NNNN NNNN NNCC OO OO OO H H H H H H OO OO OO NHNH COOHCOOHCOOHCOOHCOOHCOOH RR RR RRSS SS SS - + Figura 24 – Instabilidade ácida das penicilinas NN NN H H H H H H H H COOHCOOH COOHCOOH SS SSNN NNCC CCCH2 CH2 OO OO OO OO OOBenzilpenicilina Fenoximetilbenzilpenicilina Figura 25 – Análogo bioisostérico da benzilpenicilina A introdução de anestésicos locais inicialmente ocorreu através da simplificação molecular da cocaína. Essa estratégia gerou a benzocaína, que possui toxicidade e baixa hidrossolubilidade, e, a partir dela, outros análogos anestésicos foram sintetizados, conforme figura a seguir. A formação de bioisósteros de anestésicos locais gerou uma classificação: os que são derivados de éster e os que são derivados de amida. 30 Unidade I N N O O ONH CH3CH3 CH3CH3 H2NH2N Procaínamida Procaína Figura 26 – Bioisósteros de anestésicos locais 3.7 Latenciação Entre os processos de modificação molecular, a latenciação é um dos mais promissores e foi definida por Harper, em 1958, como a transformação do fármaco em forma inativa de transporte, que, mediante reação enzimática in vivo, libera a porção ativa no local de ação ou próximo dele. Depois, teve seu conceito ampliado, incluindo liberação por meio de reação química. No entanto, em 1957, Albert já havia definido uma das formas obtidas com esse processo, o pró-fármaco. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a formação de pró-fármacos deveria ser estudada e aplicada mais exaustivamente. A entidade avalia que algumas classes terapêuticas já possuem um vasto arsenal terapêutico, por isso não devem ser a prioridade na busca de novos fármacos. A proposta da OMS é aprimorar os fármacos que já estão na terapêutica. Assim, a latenciação seria o caminho, pois nesse tipo de planejamento é possível construir compostos com redução de efeitos adversos, toxicidade etc. Ao adotar essa proposta, seria aberto também um campo de pesquisa para planejamento de fármacos em patologias, área que não tem recebido a atenção necessária. A figura a seguir ilustra esquematicamente o conceito clássico de latenciação. F F F T T T B A R R E I R A R E C E P T O R R E C E P T O R Efeito farmacológico Efeito farmacológico F X Metabolização Hidrólise química ou enzimática Figura 27 – Esquema geral de latenciação 31 TECNOLOGIA QUÍMICO-FARMACÊUTICA As barreiras de um fármaco, já prescrito na terapêutica, podem ter diferentes causas, como demostrado no esquema a seguir. Fármaco Alta toxicidade Falta de adesão ao tratamento Metabolismo pré-sistêmico Duração de ação curta Baixa absorção pelo TGI ou cutâneo Instabilidade Não penetra a BHE Insolubilidade/ Pouca absorção Baixa especificidade Figura 28 Os objetivos de se utilizar a latenciação como estratégia de fármacos são: • Aumento da biodisponibilidade. • Prolongamento da ação. • Diminuição da toxicidade. • Seletividade de ação. • Melhoria das propriedades organolépticas. • Resolução de problemas de formulação. 32 Unidade I Toxidade SeletividadeAção prolongada Formulação Biodisponibilidade L A T E N CIA Ç Ã O Figura 29 Para que um pró-fármaco seja considerado ideal, alguns requisitos devem ser levados em conta: • A ligação entre o fármaco e o transportador geralmente ocorre por ligação covalente. • O pró-fármaco deve ter como característica ser inativo ou com ação muito menor do que o protótipo. • O pró-fármaco deve possuir menor toxicidade do que o fármaco. • A hidrólise do pró-fármaco deve ser feita in vivo. • O transportador tem que ser atóxico. • O pró-fármaco deve ter uma boa biodisponibilidade caso seja administrado oralmente. • A biotransformação do pró-fármaco deve ser rápida o suficiente para manter a janela terapêutica. • O pró-fármaco deve ser sítio-específico. • O fármaco deve possuir grupos reativos. 33 TECNOLOGIA QUÍMICO-FARMACÊUTICA Dependendo do objetivo que se deseja com a latenciação, podemos escolher os grupos funcionais. Alguns têm como característica aumentar a hidrossolubidade, a exemplo dos carboxilatos (-COO-) e dos grupos fosfato (-PO4-3); outros, no entanto, aumentar a lipossolubilidade, como os ésteres de cadeia longa. A seguir, alguns grupos com reatividade que podem ser utilizados na formação de pró-fármacos por meio da latenciação. OO OO OO NN NNNHNH OO OO OO OO OO OO PP PP PP NHNH OO OO OO SS SS O O O O O O OR1 R1 R1 R2 R2 O O O O O O OR NR OR OH OH OH OH OH OH OR R R2 R1 R NHR R R2 -COOH -OH -SH -NH -C=O -PO(OH)2 Carbonatos Ésteres Éteres Fosfatos Amidas Carbanatos Bases de Mannich Oxinas Iminas Figura 30 – Grupos funcionais de interesse na formação de pró-fármacosDevemos ponderar as diferenças entre um pró-fármaco e os análogos formados através das modificações moleculares. Observe essas diferenças a seguir. 34 Unidade I Protótipo Análogo Pró-fármaco HO OH H N HO HO OH H N HO OH O O O O H N Epinefrina Isoprenalina Dipivefrina Transportador Não Sim Síntese Difícil Mais fácil Objetivo Melhorar afinidade pelo receptor Melhorar propriedades biofarmacêuticas Figura 31 Lembrete Na formação de pró-fármacos clássicos, são utilizados transportadores, que devem ter as seguintes características: ser atóxicos, isentos de atividade biológica e com grupos funcionais que permitam a reação com o fármaco. O planejamento pode ser dividido em três passos básicos: • Identificação do problema associado ao fármaco. • Identificação das propriedades físico-químicas a serem alteradas. • Escolha do transportador adequado e da ligação a ser cindida no compartimento biológico desejado. Em 1984, Wermuth classificou as formas latentes em pró-fármacos clássicos, bioprecursores e fármacos dirigidos. Pró-fármacos clássicos compreendem a área da pesquisa de fármacos, que é voltada, especialmente, para a otimização das propriedades farmacocinéticas correspondentes. Em geral, o termo pró-fármaco implica ligação covalente entre o grupo ativo e o transportador, mas alguns autores também o usam para caracterizar algumas formas de sais de princípios ativos. 35 TECNOLOGIA QUÍMICO-FARMACÊUTICA CI NH NH O- Na+ CI CI CIOH O O NaOH(sol) Diclofenaco Diclofenaco sódico Figura 32 – Exemplo de forma salina como pró-fármaco Os pró-fármacos clássicos são planejados, sobretudo, para superar problemas farmacêuticos ou farmacocinéticos associados ao fármaco protótipo, que iriam, de outro modo, limitar seu emprego clínico. A eficácia de um fármaco pode ser limitada por suas propriedades físico-químicas, por exemplo, baixa permeabilidade na membrana plasmática. Pela ligação com um transportador adequado, pode-se superar a barreira limitante ao fármaco de origem. Uma vez ultrapassada a barreira, o pró-fármaco é revertido ao protótipo por sistemas enzimáticos ou não. A formação do pró-fármaco, portanto, confere propriedade química transitória, que altera ou elimina propriedades indesejáveis no fármaco. O enfoque do pró-fármaco como um modo de se otimizar a distribuição do fármaco passou por significativa expansão nas duas últimas décadas e mais de cinquenta compostos farmacologicamente ativos são clinicamente usados sob essa forma. Eles podem ser subdivididos em duplos ou triplos, ou em cascata, e pró-fármacos recíprocos. Essas denominações dizem respeito à necessidade de mais de um passo metabólico para a liberação do fármaco. Quando o transportador é ligado à ponte conectada com o fármaco, conhecida como grupo espaçante, o termo duplo é utilizado. O grupo espaçante permitiria maior acesso das ligações às enzimas, quando fosse o caso, facilitando a liberação do fármaco de sua forma de transporte. Pró-fármacos triplos ou em cascata são aqueles que, além de ligações por meio de espaçante, apresentam liberação por vias químicas e enzimáticas. O N O O O N O O O O OH OH + + O O S S NH NH NH 2 NH2 Bacampicilina Hidrólise enzimática Ampicilina Segunda etapa Primeira etapa Figura 33 – Exemplo de pró-fármaco duplo Pró-fármaco recíproco é o termo aplicado à forma latente, que consiste em dois fármacos, em geral, de ação sinérgica, ligados um ao outro (um fármaco é transportador do outro e vice-versa). Tal conceito não é recente, mas, não raro, confunde-se com hibridação molecular, que é o processo de associação 36 Unidade I molecular que implica ação per se, sem necessidade de liberação do fármaco de sua forma de transporte. A sulfassalazina é exemplo que atesta a formação de pró-fármaco recíproco, em 1942, anteriormente à introdução do conceito da própria latenciação. Entre os exemplos mais recentes, podem-se citar as cefalosporinas de ação mista, conhecidas como DAC (dual action cephalosporins), cujo propósito é ampliar seu espectro de ação. Albrecht, Beskid e Chan (1990) sintetizaram a série de DAC, em que se associam, mediante ligação na posição 3’ da cefalosporina, quinolonas, melhorando a atividade, a solubilidade, a estabilidade e a farmacocinética do β-lactâmico matriz. Resultam, dessa forma, antibióticos de ação complementar, uma vez que as quinolonas atuam em cepas resistentes a β-lactâmicos, enquanto as cefalosporinas são eficazes contra estreptococos. Ademais, os mecanismos de ação são diferentes, as primeiras atuando na DNA-girase e as últimas, na transpeptidase (bacterianas). Com base no mesmo princípio, pró-fármacos recíprocos de β-lactâmicos não clássicos, mais propriamente das carbapenemas, com fluorquinolonas têm sido alvo de estudos. NN NN NNNN OHOH OHOHHH22NN NHNH22NHSONHSO22NHSONHSO22 COOHCOOH COOHCOOH SulfapiridinaSulfapiridina SulfassalazinaSulfassalazina ++ Ácido 5-aminossalicílico (5-ASA)Ácido 5-aminossalicílico (5-ASA) H N H N NN NN SS SS NN O O F F O O OO O O O H H OH OH CO2H CO2H + Ciprofloxacino Ativação mediada pela b-lactamase b-lactamase Pró-fármaco cefalosporina-ciprofloxacina HO NNNN NN NHNH NHNH Figura 34 – Exemplos de pró-fármacos recíprocos Bioprecursor é um tipo de pró-fármaco cuja reversão ao composto ativo se dá por meio de reações enzimáticas, em geral, não hidrolíticas. Sistemas de oxidorredução são usados pelo organismo para liberar o fármaco. Nesses casos, não se utilizam transportadores. Em geral, usa-se o metabolismo para conversão do pró-fármaco em metabólito ativo. É o caso do aciclovir. Para que ele exerça ação antiviral, sua estrutura deve sofrer fosforilação, e isso ocorre in vivo, formando o metabólito ativo. 37 TECNOLOGIA QUÍMICO-FARMACÊUTICA O OH OH Aciclovir (inativo in vitro) Metabólito ativo (ativo in vitro) Adição de fosfato in vivo OPO3 H2NH2N O N N N N NN HNHN NN NN Figura 35 A lovastatina é mais um exemplo de bioprecursor. Sua ação antilipidêmica por interação com a HMG-CoA redutase só ocorre após sua bioconversão, deixando o grupo ácido livre. O Lovastatina Metabólito ativo O O O O HO HO OH COOH OO Figura 36 – Aciclovir e lovastatina: exemplos de bioprecursores Saiba mais Para se aprofundar no assunto, leia o artigo indicado a seguir: AVER, G. M.; KREUTZ, O. C.; SUYENAGA, E. S. Métodos de obtenção de fármacos sob a óptica da química medicinal. Revista Conhecimento Online, Novo Hamburgo, a. 7, v. 2015. Disponível em: https://periodicos.feevale.br/ seer/index.php/revistaconhecimentoonline/article/view/150. Acesso em: 19 nov. 2020. 38 Unidade I Pró-fármacos mistos Trata-se de moléculas biologicamente inertes, as quais exigem várias etapas para sua conversão à forma ativa, aumentando a liberação do fármaco em um sítio ou órgão específico. Podem possuir características tanto de pró-fármacos clássicos quanto de bioprecursores, pois precisam que o transportador sofra bioativação, liberando o metabólito ativo. Essa modificação molecular é conhecida como CDS (chemical delivery system). Inicialmente, essa estratégia foi utilizada para liberação específica no cérebro. Nesse caso, o transportador é bioativado logo após a passagem pela barreira hematoencefálica (BHE); essa bioativação converte a estrutura química numa forma iônica que permanece mais tempo no cérebro; por fim, ocorre uma nova bioativação, que libera o fármaco livre para sua ação farmacológica. F-T+ F-T+F-TF-T F F T+ T+ + + Oxidação Oxidação Difusão passiva Conversão metabólica Conversão metabólica Eliminação lenta Eliminação Administração Figura 37 – Sistema CDS no SNC Um exemplo desse planejamento é a zidovudina, um antirretroviral que foi ligado ao transportador 1,4-diidrotrigonelina (AZT-Q), permitindo a passagem pela BHE. Esse transportador sofre oxidação para um composto chamado trigonelina (Q+). Assim, por conta de sua carga positiva, ele se acumula no tecido cerebrale a seguir ocorre a hidrólise, que vai permitir a liberação do fármaco. 39 TECNOLOGIA QUÍMICO-FARMACÊUTICA O O O O O O O O O O O OH + HO N 1 N1 N1 N1 CH3 CH3 [O] Hidrólise CH3 CH3Q+ + + AZT AZT-Q CNS BHE AZT-Q AZT-Q+ H3C H3C H3C H3C O O O O O O O O NN NN NN NN NN NN NN NN NHNH NHNH NHNH NHNH Figura 38 – Liberação da azidovudina pelo sistema CDS Fármacos dirigidos São formas latentes em que o transportador apresenta alta especificidade, por si só, ou por conter um grupo diretor da ação ao nível celular. Anticorpos, imunoglobulinas e ácidos nucleicos podem ser empregados como transportadores, normalmente ligados a matrizes poliméricas, e são muito utilizados quando se deseja alta seletividade e aumento da potência do fármaco. Nesse caso, é necessário usar transportadores poliméricos ou peptídicos capazes de direcionar o fármaco para o local de ação. O processo ADEPT (antibody-directed enzyme prodrug therapy) é uma variante de grande especificidade de ação, o qual engloba a concepção de fármaco dirigido. Por esse planejamento, inicialmente, se administra um conjugado anticorpo monoclonal-enzima não existente no organismo, e, em seguida, administra-se o pró-fármaco, cuja ligação ao transportador é cindida especificamente pela enzima componente do conjugado. Modelos mais avançados desse processo são o GDEPT (gene directed enzyme prodrug therapy), o VDEPT (virus directed enzyme prodrug therapy) entre outros. 40 Unidade I 1º Passo 2º Passo Conjugado anticorpo-enzima Substrato da enzima Antígeno específico Pró-fármaco Fármaco livre Célula tumoral Morte celular Figura 39 – Sistema ADEPT Observação Embora a técnica de pró-fármacos utilizando o sistema ADEPT seja promissora, o alto custo, a imunogenicidade e a dificuldade de purificação dos anticorpos monoclonais são fatores que dificultam os estudos em todas as células tumorais. Várias são as enzimas disponíveis comercialmente que podem ser utilizadas para esse tipo de planejamento, e uma delas é a β-lactamase. A figura a seguir ilustra um exemplo de pró-fármaco (ADEPT) usando essa enzima. O O O O NH NH SS NN HOOC COOH Agente alquilante ativo Agente alquilante inativo β-lactamase-OH N N CI CI CI CI NH2 Figura 40 – ADEPT com β-lactamase liberando agente alquilante 41 TECNOLOGIA QUÍMICO-FARMACÊUTICA Lembrete Várias modificações moleculares podem ser feitas em um mesmo fármaco. Por exemplo, pode-se ter bioisosterismo e vinilogia na mesma estratégia, cujo objetivo principal é sempre a melhoria nas propriedades farmacológicas do fármaco modificado. Agora que já tivemos uma visão geral da produção de pró-fármacos, veremos alguns exemplos com objetivo específico. Pró-fármacos que melhoram a permeabilidade nas membranas No exemplo a seguir, temos o caso do timolol, um anti-hipertensivo que possui LogP= -0,04, o que lhe confere alta hidrossolubidade, dificultando a passagem pelas membranas. Assim, com a introdução do grupamento t-butílico, a lipofilicidade aumenta, permitindo a permeação. Isso pode ser explicado quando lembramos que a introdução de cadeias carbônicas sem a presença de heteroátomos aumenta a lipossolubilidade dos compostos. NNNN OO OO O O N N NH NH HO Timolol Butiril timolol N N S S Figura 41 – Pró-fármaco do timolol Pró-fármacos que mascaram a toxicidade e os efeitos adversos A hidroxila fenólica do ácido salicílico (um analgésico) é responsável pela formação de úlceras gástricas, seu mascaramento reduz esse efeito. 42 Unidade I OH O O COOHCOOH Ácido salicílico Ácido acetilsalicílico Figura 42 – Conversão do ácido salicílico para diminuição da toxicidade O diclofenaco é um AINE que diminui a produção da prostaglandina por meio da ação inibitória da COX-1, porém causa irritação da mucosa gástrica pelo contato direto do grupo ácido. Seu pró-fármaco promove a inibição da ativação das células pró-inflamatórias. CI CI NHNH O OH Diclofenaco Pró-fármaco O O N H CI CI Figura 43 – Obtenção do pró-fármaco do diclofenaco Pró-fármacos que promovem a estabilidade ácida Exemplo desse planejamento é a proteção do anel β-lactâmico da hidrólise em pHs baixos. A carbenicilina possui baixa biodisponibilidade, baixa lipofilicidade e, como resultado, uma baixa absorção por via oral. Seus pró-fármacos melhoram essas propriedades. OR O O O OH NH R = R = Carbenicilina Carfecilina Carindacilina O S NN Figura 44 – Pró-fármacos de carbenicilina 43 TECNOLOGIA QUÍMICO-FARMACÊUTICA Pró-fármacos para prolongamento de ação Em algumas patologias, são necessárias diversas doses de medicamento ao longo do dia, o que pode levar à falta de adesão ao tratamento pelos pacientes. Com esse tipo de latenciação, temos a liberação prolongada do medicamento, encurtando as doses administradas. Assim, os seguintes efeitos ocorrerão: a melhor adesão ao tratamento e a liberação de doses menores, levando à diminuição dos efeitos adversos. O HO O Fosamprenavir Amprenavir OO O O O O OS S NH2 NH2 N N H N H N O O PO HO OH NN NN NN OR CF3 O O R = R = Enantato Decanoato Transportador lipofílico em veículos oleoso para administração IM SS Figura 45 – Exemplos de pró-fármacos de liberação prolongada Melhoria nas propriedades físico-químicas O antimicrobiano sulfatiazol tem baixa biodisponibilidade na luz intestinal e efeito sistêmico indesejado, seus pró-fármacos com características mais polares o mantêm na luz intestinal e diminui os efeitos adversos. A hidrólise do succinilsulfatiazol e do ftalilsulfatiazol será feita mediante esterases entéricas, liberando o fármaco no local de ação. Assim, haverá aumento da biodisponibilidade e redução dos efeitos adversos. 44 Unidade I R = R = O O O O O O S NH S N OH Succinil Ftalil H2N Figura 46 – Latenciação do sulfatiazol A prednisona é um fármaco anti-inflamatório esteroidal com baixa hidrossolubilidade. O uso da latenciação com a esterificação permitiu a formação de um pró-fármaco, a prednisolona, mais hidrossolúvel. H H O HOHO HO HO O O OH O O P ONa ONa O + + Fosfato de prednisolonaPrednisolona Figura 47 – Latenciação da prednisolona 4 PLANEJAMENTO RACIONAL Embora todas as modificações vistas anteriormente sejam um tipo de planejamento racional, esse termo vem sendo empregado para mostrar como os fármacos podem ser introduzidos na terapêutica. Para tal, usa-se a bioinformática. Por definição, planejamento racional é um processo para desenvolver novos candidatos bioativos por meio do conhecimento detalhado da estrutura química do alvo a ser utilizado, ou seja, para desenvolver esse tipo de planejamento, é importante conhecer a interação entre a estrutura do ligante e do sítio receptor (enzima, canal iônico, proteína etc.). Segundo Korolkovas (1988), os requisitos para ter esse tipo de planejamento são: • Local e mecanismo de ação dos fármacos em nível molecular e submolecular. • Relações qualitativas e quantitativas entre estrutura química e atividade biológica. 45 TECNOLOGIA QUÍMICO-FARMACÊUTICA • Receptores de fármacos e topografia de receptores. • Modo de interação fármaco-receptor. • Efeitos farmacológicos de grupos químicos específicos. • Parâmetros físico-químicos relacionados com a atividade dos fármacos: hidrofóbicos, estéricos e eletrônicos (empíricos e semiempíricos). • Diferenças citológicas, bioquímicas e outras, entre mamíferos e parasitos, quando são cogitados novos quimioterápicos. A figura a seguir ilustra resumidamente como o planejamento racional funciona. Planejamento racional de fármacos Estudo dos mecanismos dos processos da doença Identificação dos locais que controlam o progresso da doença Avaliação biológica (farmacológica) Ensaio clínico Planejamento de novas moléculas Relação estrutura-atividade Fatores fisiológicos importantes Fatores genéticos Epidemiologia Fatores de risco Figura 48 Focando isso, temos na terapêuticaexemplos de fármacos com ação específica que foram desenvolvidos a partir do conhecimento profundo tanto da patologia quanto do alvo molecular ao qual ela está envolvida. Estudaremos alguns desses fármacos a seguir. Inibidor enzimático Nessa classe, temos o desenvolvimento da α-metildopa, que atua como agente anti-hipertensivo, cuja indicação principal é para o uso em gestantes e eclampsia. Esse fármaco promove a estimulação dos receptores alfa2-adrenérgicos, gerando vasodilatação arterial e diminuição da resistência periférica. 46 Unidade I OH OH NH2 O O HO HO HO HO HO HO H2N H2N DOPA α-metildopa Dopamina Figura 49 4.1 Antimetabólitos Os antimetabólitos são fármacos que possuem semelhança estrutural com as substâncias endógenas, por isso conseguem substituí-las nos processos fisiológicos. Há vários modelos dessa classe, por exemplo, a fluoruracila (um fármaco antineoplásico), um derivado pirimidínico que substitui a base uracila, impedindo o processamento do RNA. As sulfas inibem a cascata de síntese de DNA bacteriano por se incorporarem no lugar do ácido p-aminobenzoico (PABA). O O O O O S OH H2NH2N NH2 Uracila Fluoruracila SulfanilamidaÁcido p-aminobenzoico O O H F HNHNHNHN NHNHNHNH Figura 50 4.2 Agentes alquilantes São fármacos desenvolvidos inicialmente como antineoplásicos. Eles atuam alquilando, por meio de ligação covalente, certos grupos da macromolécula. A ação antineoplásica desses agentes é não seletiva, pois eles atuam em todas as fases do ciclo celular, impedindo o pareamento das fitas de DNA. São utilizados em câncer de pulmão, câncer de mama, mieloma, leucemias etc. 47 TECNOLOGIA QUÍMICO-FARMACÊUTICA GCI GCI N N NN N O NH G = guanina Mecloretamina ADN Ligação cruzada intrafita Ligação cruzada interfita Ligação cruzada inter-hélices N Figura 51 4.3 Antídotos Trata-se de fármacos utilizados para neutralizar os efeitos de um agente toxificante, podendo também reativar algum complexo enzimático. É o caso do uso do fármaco pralidoxima, que reverte envenenamento por organofosforados por reativação da enzima acetilcolinesterase. Serina Serina Serina NN NN PP PP XX OR'OR' RORO ROROOROR OHOH OO OHOH O ou SO ou S O ou SO ou S NN NN OHOH OO PP O ou SO ou S OROR OR'OR' AChE ativa Organofosforado Pralidoxima Pralidoxima fosforilada AChE inibida AChE ativa + + Figura 52 – Reativação da acetilcolinesterase por ação da pralidoxima 48 Unidade I 4.4 Desenvolvimento de fármacos com auxílio de computador As estratégias mais modernas de planejamento de fármacos são conhecidas como CADD (computer aided drug design), que significa “desenho de fármacos auxiliados por computador”. Trata-se de ferramenta útil nos estudos de relação entre estrutura química e atividade biológica para reconhecimento do grupo farmacofórico, das propriedades físico-químicas e da interação com o receptor alvo. Lembrete Chamamos de macromolécula os receptores biológicos, enquanto os fármacos são considerados micromoléculas. Quando a estrutura do receptor é conhecida, o planejamento é direto. Baseado na estrutura da macromolécula, determinada por cristalografia de raios X, estabelece-se a melhor complementaridade geométrica e eletrônica entre o ligante e seu receptor. Por outro lado, a estrutura do ligante, seus substituintes e sua conformação podem ser modificados, assim como é possível simular as condições mais favoráveis para a interação. Esse planejamento direto é limitado pelo pouco conhecimento que se tem das estruturas tridimensionais de sítios receptores. É conhecido como SBDD (structure-based drug design). Quando não se tem cristalografado ou não se conhece o sítio de ligação do receptor, a abordagem é feita por meio de um planejamento indireto, chamado de LBDD (ligand-based drug design). Nesse caso, compara-se um conjunto de ligantes seletivos para um receptor determinado visando revelar a informação molecular que os compostos tenham em comum; na realidade, seria uma das estratégias de se determinar o grupo farmacofórico. Existem diversas técnicas capazes de promover a otimização de diferentes ligantes, o que leva à obtenção de um novo líder. Entre essas diferentes metodologias, o planejamento assistido por computador, por exemplo, inclui a identificação de farmacóforos e a otimização da atividade de um composto bioativo por cálculo da relação estrutura-atividade de uma série estruturalmente relacionada. Além disso, outros métodos compreendem a identificação estrutural da interação fármaco-receptor utilizando ressonância magnética nuclear e técnica de raios X. 49 TECNOLOGIA QUÍMICO-FARMACÊUTICA Planejamento racional de fármacos auxiliado por computador Planejamento baseado Planejamento baseado na estrutura do receptorna estrutura do receptor Planejamento baseado na estrutura do ligante fármaco Modelagem baseada no Modelagem baseada no farmacóforofarmacóforo Relação quantitativa entre estrutura química e atividade biológica Identificação do sítio de ligação Ancoramento e pontos de interação Triagem virtual Otimização de compostos líderes Novo fármaco Seleção de compostosSeleção de compostos Figura 53 – Etapas de planejamento envolvendo CADD A análise das estratégias responsáveis pela descoberta de novos fármacos permite distinguir essencialmente os seguintes tipos: • Estratégia baseada na modificação e no aperfeiçoamento de moléculas ativas já existentes. • Busca sistemática (screening) de compostos escolhidos arbitrariamente em ensaios biológicos previamente selecionados. Encaixam-se nessa classificação desde a busca ao caso de novos fármacos até técnicas como high throughput screening. 50 Unidade I • Exploração do efeito biológico de produtos naturais ou reações adversas de fármacos presentes na terapêutica, resultando em nova informação a ser utilizada. 4.5 Planejamento racional baseado no conhecimento da causa molecular ou alvo biológico (receptor ou proteína) da patologia 4.5.1 Triagem virtual (virtual screening) São crescentes as pressões de mercado sobre a indústria farmacêutica para o lançamento de novos compostos. Considerando-se o tempo estimado de 14 anos desde a descoberta de um composto líder até a aprovação de um fármaco, bem como os enormes gastos em cada etapa de planejamento de um composto, fica claro o interesse da indústria em diminuir o cronograma de lançamento de um composto líder e a preocupação em melhorar a qualidade dos candidatos a fármacos que chegam à fase clínica de desenvolvimento. Nesse contexto, a triagem virtual (TV) vem sendo cada vez mais utilizada pelas indústrias no planejamento racional de novos fármacos por ser uma técnica confiável e barata na identificação de novos líderes. Em adição, essa metodologia está sendo vista como complementar aos ensaios de triagens experimentais HTS (high throughput screening – triagem de alto desempenho). O preparo de uma quimioteca é o primeiro passo para o desenvolvimento da metodologia. Para isso, filtros são utilizados para selecionar as características físico-químicas de interesse da série a ser estudada. A regra dos cinco de Lipinski pode ser útil para esse propósito. Filtros adicionais podem ser aplicados para a remoção de substâncias com baixa estabilidade química ou toxicidade. É importante ressaltar que, em caso de moléculas com carbono quiral, os isômeros (+) e (-) devem ser considerados para se avaliar qual deles é o mais importante para a atividade. O passo seguinte é a preparação do alvo. Programas computacionais podem ser úteis na identificação de problemas na estrutura cristalográfica da proteína. A realização do ancoramento (docking) de todas as moléculas da quimioteca com o sítio ativo do alvo proteico é a etapa seguinte. Todos os resultados provenientes dessa última etapa são analisados, e as moléculas com as características promissoras para a atividade de interesse são selecionadas para ensaios biológicos in vitro. 4.5.2 High throughput screening(HTS) É uma técnica rápida para a determinação da atividade biológica de muitas substâncias químicas. É realizada em placas com centenas de poços acoplados a leitores de emissão de fluorescência, com o objetivo de identificar protótipos biologicamente ativos contra alvos definidos. Essa técnica tem sido de grande valia no planejamento de fármacos, pois permite a triagem de centenas de compostos provenientes, por exemplo, de quimiotecas. Ela também pode ser usada paralelamente à química combinatória para a identificação de candidatos a novos fármacos. Esse ensaio biológico automatizado, rápido e preciso vem sendo muito utilizado em indústrias farmacêuticas e biotecnológicas de todo o mundo. O avanço da automatização e da miniaturização, que exerceu grande influência no desenvolvimento dessa técnica, permitiu diminuição significativa no tempo e nas quantidades necessárias para essas análises. 51 TECNOLOGIA QUÍMICO-FARMACÊUTICA Embora esse método seja prático e eficiente, permitindo a avaliação in vitro de milhares de substâncias por experimento, é uma técnica altamente cara e complexa, seus custos podem chegar a 75 mil dólares em cada experimento. Algumas desvantagens também devem ser consideradas, como a escassez ou ausência de informações fornecidas sobre o mecanismo de ação dos compostos. Outra desvantagem é a ocorrência de resultados falso-positivos, que se devem à presença de moléculas que possam atuar como antioxidantes, reagir quimicamente com o alvo ou formar agregados promíscuos que não sejam responsáveis, especificamente, por inibir o alvo. Embora várias estratégias venham sendo empregadas para monitorar e controlar a qualidade desse ensaio, a incidência de falso-positivos ainda é frequente. A utilização de métodos para tentar predizer e remover compostos com características físicas ou químicas que poderiam levar a resultados falso-positivos tem sido aplicadas. O uso de outras técnicas paralelas ao HTS, por exemplo, a triagem virtual, pode auxiliar a diminuir a incidência de falsos-positivos. Figura 54 – Equipamento utilizado em HTS 4.5.3 Modelagem molecular Segundo a Iupac (SANT’ANNA, 2002), é a investigação das estruturas e das propriedades moleculares pelo uso de química computacional e técnicas de visualização gráfica, visando fornecer uma representação tridimensional, sob um dado conjunto de circunstâncias. Na década de 1980, o desenvolvimento de recursos computacionais e os avanços em química teórica viabilizaram o crescimento dessa técnica. Atualmente, a modelagem molecular é uma ferramenta muito utilizada na química farmacêutica e em outras áreas de pesquisa. Essa técnica é de grande valia nos estudos de propriedades físico-químicas, estéricas e eletrônicas de estruturas moleculares. Também pode ser aplicada ao planejamento racional de fármacos, pois: 52 Unidade I • Permite a visualização tridimensional de ligantes a seus sitos de ligação, sejam estes receptores, canais iônicos, proteínas transportadoras, enzimas, entre outros, auxiliando na compreensão desses complexos. • Permite a realização de análises entre estrutura química e atividade biológica de fármacos. • Verifica a possibilidade e a importância da substituição de grupos funcionais para a obtenção de condições mais favoráveis na interação fármaco-receptor. • Auxilia na descoberta de grupos farmacóforos, ou seja, os átomos responsáveis pela obtenção das respostas biológicas. • Pode ser aplicada para auxiliar na sobreposição e na comparação de modelos moleculares geométricos e eletrônicos. • Possibilita predizer mecanismos moleculares envolvidos na ação de fármacos, entre outras análises e simulações. Existem dois métodos para realizar a aplicação da modelagem molecular: o método direto e o indireto. O primeiro é utilizado quando a estrutura tridimensional do alvo biológico é conhecida. Quando não se dispõe dessa estrutura, usa-se o método indireto, para buscar parâmetros eletrônicos e estéricos que possam viabilizar melhor compreensão sobre as relações estrutura-atividade biológica. Dentro da modelagem, existem vários campos de trabalho, e um deles consiste em utilizar métodos a fim de tentar racionalizar a produção de compostos bioativos. Várias metodologias estão sendo desenvolvidas, como o ancoramento (docking) e a relação quantitativa entre estrutura química e atividade – quantitative structure-activity relationship (QSAR). Tais abordagens permitem dirigir a síntese orgânica, economizando recursos financeiros e obtendo melhores respostas nos testes de atividade biológica. Quando se trata de estudos de modelagem molecular, a visualização gráfica é fundamental. A possibilidade de se enxergar os fármacos no campo tridimensional permite o melhor entendimento do que ocorre com suas propriedades estruturais. Diversos programas de uso livre estão disponíveis e nos dão a dimensão da tridimensionalidade molecular. Há muitas formas de visualização tanto das estruturas químicas quanto das macromoléculas. Essas últimas podem ser representadas por fitas, bastão, cartoon e space-filling. 53 TECNOLOGIA QUÍMICO-FARMACÊUTICA Figura 55 – Visualização tridimensional de estruturas químicas em quatro formatos diferentes Figura 56 – Visualização tridimensional do sítio de ligação da principal protease do COVID-19 Outro tipo de visualização possível são os mapas de potencial eletrostático. Nesses mapas, temos a representação gráfica da densidade eletrônica sobre cada grupo ou átomo presente na estrutura química: a coloração azul indica carga positiva e a coloração vermelha, carga negativa. Esse tipo de estudo 54 Unidade I é importante para avaliar a reatividade dos candidatos a fármacos. Além de predizer a possibilidade eletrônica do tipo de interação que possa ter com o receptor, ele nos dá a informação de reatividade desses grupos, facilitando os processos de síntese. Figura 57 – Propriedades eletrônicas e de polaridade da cloroquina calculadas por modelagem molecular 4.5.4 Ancoramento (docking) Essa metodologia consiste na predição do modo de ligação de um ligante na região de ligação de um alvo molecular e na quantificação da afinidade entre ambos. O processo de reconhecimento molecular é dinâmico e muito difícil, envolvendo grande número de interações moleculares entre o complexo (ligante e biomacromolécula receptora) e o solvente. DGbind Figura 58 – Etapas de ancoramento do fármaco ao sítio de ligação do alvo Nessa abordagem, utilizam-se estruturas 3D de alvos proteicos elucidados por técnicas experimentais, como a difração de raios-X em cristais e ressonância magnética nuclear, que são depositados em banco de dados como, por exemplo, o Protein Databank (PDB). Essa ferramenta também tem o potencial de planejar teoricamente novas moléculas que satisfaçam às propriedades eletrônicas e estruturais para um perfeito encaixe no sítio receptor. A maioria dos 55 TECNOLOGIA QUÍMICO-FARMACÊUTICA programas de modelagem molecular é capaz de desenhar a estrutura molecular e realizar os cálculos de otimização geométrica e estudos de análise conformacional. A primeira etapa em estudos de modelagem molecular consiste em desenhar a estrutura da molécula. Em seguida, a molécula é otimizada com o objetivo de encontrar parâmetros geométricos, tais como comprimentos e ângulos de ligação que estejam próximos aos valores determinados experimentalmente. Com isso, pode-se avaliar a qualidade do programa de modelagem molecular selecionado para efetuar os cálculos, considerando que ele deve ser capaz de representar corretamente a estrutura molecular sem que os parâmetros estruturais da referida molécula tenham sido usados para elaborá-lo. Assim, um programa de modelagem molecular deve ser capaz de adotar o princípio da transferibilidade, ou seja, reconhecer e transferir os parâmetros embutidos no programa para uma nova molécula que apresente as mesmas características estruturais e eletrônicas das moléculas usadas para confeccionar o programa(mesmo tipo de átomos, funções químicas, hibridização molecular etc.). O estudo de análise conformacional permite determinar as conformações de mínimo de energia (confôrmeros). Esses confôrmeros indicam como os grupamentos funcionais estão orientados, portanto, destacam aspectos relevantes de como a molécula pode interagir com um receptor específico, considerando que a conformação mais estável deve estar em maior número durante o processo de interação com o receptor. Entretanto, deve-se ressaltar que não existe uma relação entre a conformação mais estável e a conformação bioativa, pois a primeira pode sofrer mudanças em sua conformação original no momento em que se aproxima do sítio receptor. Esse estudo conformacional é realizado ponderando-se as rotações livres entre dois átomos consecutivos que, por sua vez, determinam um ângulo diedro, assinalando como devem estar orientados os grupamentos adjacentes a esses dois átomos. A metodologia de ancoramento receptor-ligante tem atraído o interesse de universidades, indústrias farmacêuticas e empresas biotecnológicas de todo o mundo, pois pode auxiliar tanto na descoberta de novas substâncias ativas, por meio de técnicas conhecidas como triagem virtual, quanto para o refinamento e otimização de compostos protótipos previamente identificados. Serão ilustrados a seguir alguns exemplos de ancoramento. Figura 59 – Candidato a fármaco antimalárico ancorado à protease da falcipaína 56 Unidade I NN OO OO OO OO OO OO OO OO OO OO OO OO OO HH HH HH HH HH HH HH RR RR RR RR RR Thr48 Asp30 Asp29 Asp25 Gly27 Hah201 Hah204 ile50 ile84 Gly49 Gly27 Aka28 Thr48 Asp25 ValB2Leu23 RR RR RR NN NN NN NNNHNH NHNH++ NHNH HH NN NHNH HH HH HH HH HH HH OO - - Figura 60 – Estudos de toxicidade do saquinavir (antirretroviral) com ancoramento na HIV protease Figura 61 – Ancoramento: visualização dos tipos de interação F-R entre o sildenafila e a fosfodiesterase (PDE) Apesar de a bioinformática ser um forte aliado na descoberta de novos compostos bioativos e poder reduzir o tempo dessa procura, todos os candidatos passarão obrigatoriamente pela parte experimental. Esses estudos significam uma triagem que servirá para selecionar os melhores candidatos, diminuindo o tempo de busca. Antes da modelagem molecular, todos os compostos eram sintetizados e ensaiados biologicamente, hoje só serão sintetizados os que produzirem as melhores perspectivas. 57 TECNOLOGIA QUÍMICO-FARMACÊUTICA Observação Embora a modelagem molecular seja uma ferramenta muito útil para visualização gráfica dos fármacos e biorreceptores, deve-se ressaltar que todas essas visualizações só são possíveis graças aos cálculos de química quântica e física quântica. Exemplo de aplicação Das estratégias de planejamento verificadas até aqui, uma se destaca pela versatilidade tanto do ponto de vista do planejamento quanto do ponto de vista experimental, não necessitando de muitos recursos; de qual estratégia se trata? Resumo Vimos todos os aspectos fundamentais de introdução de fármacos na terapêutica do ponto de vista de planejamento e desenvolvimento de compostos bioativos. Para planejar novos compostos bioativos, a primeira etapa que deve ser feita é a escolha da patologia, conhecendo bem todos os conceitos fisiopatológicos e bioquímicos, assim, será possível determinar qual será o alvo biológico a ser atingido. Uma vez conhecido o alvo, devemos entender quais são os componentes essenciais do sítio de ligação, isso é importante para desenvolver candidatos que possam interagir com esse sítio. Além do entendimento acerca do alvo biológico, precisamos ter estruturas químicas que possam se ligar a eles, e essa busca ocorre em quimiotecas, que são bancos de dados de estrutura química desenvolvidos por químicos orgânicos; trata-se da etapa da descoberta. Após a seleção de estruturas que tenham certa similaridade estrutural, a etapa seguinte é a síntese desses candidatos, passando pela purificação e caracterização estrutural. Em seguida, serão realizados os estudos pré-clínicos, isto é, os ensaios in vitro e in vivo. A segunda etapa é a otimização. Nesse momento, será possível otimizar rotas sintéticas para o desenvolvimento farmacotécnico (que vai indicar qual a melhor forma farmacêutica a ser produzida). 58 Unidade I A última etapa dessa busca de novos candidatos é o desenvolvimento, isto é, deixa-se de produzir em escala laboratorial e passa-se a produzir em escala industrial, permitindo os ensaios clínicos, o registro de patentes e a posterior comercialização. Quando um fármaco já está na terapêutica, podemos utilizar outras estratégias de planejamento, entre elas, as modificações moleculares. As modificações moleculares são divididas em dois grandes grupos: os processos gerais e os processos especiais. Nos processos gerais, estudamos as estratégias. Primeiro, destacou-se a associação molecular, a qual é separada em três grupos: a adição molecular, que é feita a partir da interação eletrostática de dois fármacos diferentes; a replicação molecular, quando se tem, através de ligação covalente, a junção de dois ou mais fármacos iguais; e a hibridação molecular, quando dois fármacos distintos se unem covalentemente. Nesse processo ainda temos a simplificação molecular, estratégia na qual fármacos de estrutura complexa (em geral, de extração de princípios ativos vegetais) são convertidos em fármacos com estrutura mais simples, facilitando sua síntese. Nos processos especiais, vimos a abertura/fechamento de anéis, a vinilogia, a homologia, e as alterações no anel, que visam facilitar a interação com o receptor. Nesse contexto, destaca-se o bioisosterismo, que permite a troca de átomos ou grupos de átomos com a finalidade de alterar propriedades físico-químicas e farmacológicas. A última estratégia estudada foi a latenciação, quando ocorre a formação de pró-fármacos. A latenciação possui diversos objetivos, por exemplo, prolongamento de ação, aumento da biodisponibilidade, melhoria nas propriedades físico-químicas, aumento de seletividade etc. Por fim, foi acentuado o planejamento racional, que é auxiliado pelo uso de técnicas computacionais como a triagem virtual, o HTS e o ancoramento. Esse tipo de estratégia permite simulações de síntese, interação fármaco-receptor e estudos de propriedades físico-químicas. É um método que visa à diminuição no tempo de introdução do fármaco na terapêutica, mas sem dispensar nenhum ensaio experimental. 59 TECNOLOGIA QUÍMICO-FARMACÊUTICA Exercícios Questão 1. A partir do final do século XVII, as propriedades anestésicas da cocaína (benzoilmetilecgonina) fizeram com que essa substância fosse utilizada topicamente em pequenos procedimentos cirúrgicos e odontológicos. Devido ao fato de a cocaína apresentar efeito estimulante sobre o sistema nervoso central, observou-se a necessidade de se sintetizar novos compostos, baseados na sua estrutura química, mas que não apresentassem efeito central nas doses necessárias para promover anestesia. As estruturas químicas da cocaína e de diferentes anestésicos locais estão indicadas a seguir. O O O O O O O O O O O CH3 CH3 N N H2N H2NCocaína Benzocaína Procaína TeracaínaLidocaína N N H N N H Figura 62 – Estrutura química da cocaína e dos anestésicos locais Em relação ao exposto, analise as afirmativas a seguir. I – A cocaína é um éster do ácido benzoico que também apresenta um grupamento básico, do tipo amina terciária, em sua estrutura. Essa estrutura básica está presente em todos os anestésicos locais apresentados na figura, à exceção da benzocaína. II – Os anestésicos locais apresentam o mesmo grupo farmacofórico da cocaína em relação ao bloqueio dos canais de sódio. III – A lidocaína é o único anestésico do tipo amida presente na figura. IV – Os anestésicos locais são sintetizados, nos laboratórios farmacêuticos, a partir da molécula da cocaína. É correto apenas o que se afirmaem: 60 Unidade I A) I e II. B) III e IV. C) I e III. D) II e IV. E) II e III. Resposta correta: alternativa E. Análise das afirmativas I – Afirmativa incorreta. Justificativa: pela análise das estruturas moleculares representadas no enunciado da questão, podemos concluir que todas as moléculas são ésteres do ácido benzoico, com exceção da lidocaína. A estrutura básica dos ésteres do ácido benzoico está indicada a seguir. O O R Figura 63 – Estrutura básica dos ésteres do ácido benzoico Em relação ao grupamento amina, presente na outra extremidade da molécula, ele pode ser encontrado na cocaína, na procaína, na lidocaína e na tetracaína, mas não na benzocaína. A seguir, pode ser observada a estrutura de uma amina terciária. N R" R R' Figura 64 – Estrutura básica de uma amina terciária II – Afirmativa correta. Justificativa: o grupo farmacofórico é o conjunto de características de um ou mais grupos funcionais de uma molécula que são necessários para que se observe o efeito farmacológico desejado. A análise da estrutura química da cocaína permitiu identificar os grupos farmacofóricos responsáveis pelo bloqueio de canais de sódio presentes nos nervos nociceptivos, o que resulta em anestesia. Todos os anestésicos 61 TECNOLOGIA QUÍMICO-FARMACÊUTICA locais apresentam esses grupos farmacofóricos e, portanto, também são capazes de bloquear os canais de sódio. III – Afirmativa correta. Justificativa: os anestésicos locais são divididos, de acordo com sua estrutura química, em ésteres do ácido benzoico e em amidas. A estrutura básica dessas duas categorias de anestésicos está ilustrada a seguir. OO OO HH NN OO NN NN RR11 RR11 RR2 RR3 RR3 RR2 Figura 65 – Estrutura básica dos anestésicos do tipo éster (parte superior) e do tipo amida (parte inferior) Após a análise da figura anterior, conclui-se que o único anestésico do tipo amida presente na figura do enunciado da questão é a lidocaína. IV – Afirmativa incorreta. Justificativa: podemos dizer que os anestésicos locais são simplificações da molécula da cocaína, pois sua análise permitiu entender quais são as características (grupos farmacofóricos) necessárias para que ocorra a anestesia local. No entanto, a cocaína não é utilizada na síntese desses medicamentos e ocorre a partir do ácido para aminobenzoico, cuja estrutura está representada a seguir. COOH NH2 Figura 66 62 Unidade I Questão 2. A latenciação é um processo de modificação molecular que resulta em fármacos que são administrados na forma inativa. Essas moléculas, denominadas pró-fármacos, precisam, dentro do organismo, ser convertidas à forma ativa. Elas apresentam uma ou mais das características a seguir, quando comparadas ao fármaco original: maior biodisponibilidade, ação prolongada, melhor perfil de segurança, ação mais seletiva, melhoria das propriedades organolépticas etc. Em relação aos pró-fármacos, assinale a alternativa incorreta. A) Os pró-fármacos podem ser obtidos a partir da adição de um radical químico, denominado transportador, ao fármaco original. A retirada do transportador, etapa essencial para que ocorra o efeito farmacológico, é mediada por reações enzimáticas. B) Nos pró-fármacos, o transportador geralmente está ligado à molécula do fármaco por ligações iônicas, pois elas são mais facilmente revertidas do que as ligações covalentes. C) O pró-fármaco recíproco é uma molécula formada a partir da ligação de dois fármacos distintos. Essa estratégia pode ser utilizada quando se pretende ampliar o espectro de ação de um antibiótico, como, por exemplo, quando se associa uma cefalosporina a uma quinolona. D) Se determinado pró-fármaco é convertido à sua forma ativa por uma reação de fosforilação, podemos considerá-lo um bioprecursor. Nesse caso, o transportador geralmente não é adicionado à molécula original do fármaco. E) Nos fármacos dirigidos, o transportador pode ser um anticorpo ou uma molécula de ácido nucleico que apresenta alta afinidade pelo alvo da ação do fármaco. Resposta correta: alternativa B. Análise das alternativas A) Alternativa correta. Justificativa: os pró-fármacos clássicos são aqueles produzidos para otimizar as propriedades farmacocinéticas da molécula. São obtidos a partir da adição de um radical químico, denominado transportador, à molécula do fármaco original. A partir dessa estratégia, o fármaco pode, por exemplo, tornar-se mais lipossolúvel, o que aumentaria sua permeabilidade através da membrana plasmática. Uma vez ultrapassada essa barreira, o pró-fármaco é revertido ao protótipo, o que se dá, geralmente, por processos enzimáticos. B) Alternativa incorreta. Justificativa: embora alguns autores considerem os sais dos princípios ativos (por exemplo, o diclofenaco sódico) como pró-fármacos – o que não é um consenso –, em geral, ocorre ligação covalente 63 TECNOLOGIA QUÍMICO-FARMACÊUTICA entre o grupo ativo e o transportador. Essa ligação covalente, mais estável, é desfeita, na maioria das vezes, por reações de hidrólise mediadas por enzimas. C) Alternativa correta. Justificativa: exemplos de pró-fármacos recíprocos são obtidos a partir da ligação entre uma cefalosporina (um exemplo de antibiótico beta-lactâmico, que inibe a transpeptidase) e uma quinolona (um antibiótico inibidor da DNA girase). Dentro do organismo, as duas formas são liberadas, o que resulta em ampliação do espectro de ação: as quinolonas atuam em cepas resistentes a β-lactâmicos, e as cefalosporinas são eficazes contra estreptococos. D) Alternativa correta. Justificativa: bioprecursor é um tipo de pró-fármaco em que a reversão ao composto ativo se dá por meio de reações enzimáticas não hidrolíticas, que envolve, geralmente, o sistema enzimático de oxidorredução. Nesses casos, não existe um radical transportador ligado à molécula do fármaco original. Um exemplo é o aciclovir: para que ele exerça ação antiviral, sua estrutura deve sofrer fosforilação, o que ocorre in vivo. E) Alternativa correta. Justificativa: exemplos de fármacos dirigidos são aqueles produzidos pelo processo ADEPT (antibody directed enzyme prodrug therapy), que envolve a adição de um conjugado anticorpo monoclonal-enzima ao fármaco. O anticorpo monoclonal é responsável por direcionar fármaco ao sítio de ação. A enzima, por sua vez, libera o fármaco do anticorpo assim que o sítio de ação é atingido. Modelos mais avançados desse processo são o GDEPT (gene directed enzyme prodrug therapy) e VDEPT (virus directed enzyme prodrug therapy), entre outros.