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RELATÓRIO DE ESTÁGIO PÓS DOUTORAL UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ-UFPR PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO PROGRAMA NACIONAL DE COOPERAÇÃO ACADÊMICA NA AMAZÔNIA- PROCAD/AMAZÔNIA PÓS DOUTORANDA: TÂNIA MARA REZENDE MACHADO SUPERVISOR: PROFESSOR DR. PAULO VINÍCIUS BAPTISTA DA SILVA RELATÓRIO GERAL DAS ATIVIDADES REALIZADAS DURANTE O ESTÁGIO PÓS DOUTORAL Curitiba 2021 APRESENTAÇÃO ......................................................................................................................... 8 1 A ESCOLHA DA INSTITUIÇÃO, DO SUPERVISOR E DO OBJETO DE PESQUISA .... 9 2 A CHEGADA: CONHECER CURITIBA E (DES)CONHECER O CAMPUS REBOUÇAS ........................................................................................................................................................ 11 3 PARTICIPAÇÃO NO GRUPO DE PESQUISA DO SUPERVISOR ................................... 12 4 PARTICIPAÇÃO EM BANCAS DE QUALIFICAÇÃO E DEFESA .................................. 13 5 PARTICIPAÇÃO NO XI COPENE ......................................................................................... 14 6 PARTICIPAÇÃO NO GRUPO DE PÓS-DOUTORANDOS DA REGIÃO SUL ............... 17 7 PARTICIPAÇÃO NAS AULAS DO PROFESSOR PAULO VINÍCIUS BAPTISTA DA SILVA ............................................................................................................................................ 19 8 PARTICIPAÇÃO NA ORGANIZAÇÃO DE OFICINA SOBRE A FERRAMENTA START ........................................................................................................................................... 22 9 PARTICIPAÇÃO NO SEMINÁRIO INTEGRADO DE PESQUISA E PÓS- GRADUAÇÃO IFRO, UNIR E ANPUH-RO/AC...................................................................... 23 10 PARTICIPAÇÃO NO NUPECAMP ...................................................................................... 24 11 PARTICIPAÇÕES NA REDE MULHERAÇÕES ............................................................... 25 12 PARTICIPAÇÃO NO PROJETO PRÉ-PÓS DA UFPR ...................................................... 26 13 PARTICIPAÇÃO COMO PARECERISTA EM REVISTAS CIENTÍFICAS ................... 26 14 ESCRITOS DE DOMINGO ................................................................................................... 27 15 CONCLUSÕES........................................................................................................................ 29 REFERÊNCIAS ............................................................................................................................ 30 APÊNDICES E ANEXOS..................................................................................................................................30 AGRADECIMENTOS Agradeço: À Capes pelo financiamento da pesquisa. Sem o pagamento das bolsas e passagens aéreas não teríamos realizado esse estudo; À Universidade Federal do Acre-UFAC representada por sua gestão: Reitora, professora Margarida Aquino, seu vice, professor Josimar Batista, e Pró-Reitoras de Pesquisa e de Graduação respectivamente, professoras Margarida Lima Carvalho e Ednaceli Abreu Damasceno; À Universidade Federal do Pará-UFPA e à Universidade Federal do Paraná- UFPR pela importante iniciativa de adesão ao Procad/Amazônia e a todos os Coordenadores dos PPGE, professores e secretários envolvidos nesse processo; Aos professores Ronaldo Marcos de Lima Araújo – UFPA e ás professoras, Mônica Ribeiro da Silva- UFPR e Ednaceli Abreu Damasceno-UFAC pela condução do Procad/Amazônia; Ao Frederico-Fred e ao Roney pelos apoios institucionais e orientações burocráticas constantes. À Direção do Centro de Educação Letras e Artes, professores Itamar Miranda e Selmo Pontes, à Coordenação do Mestrado em Educação, Professora Lúcia de Fátima Melo e ao Colegiado do PPGE/UFAC pela liberação e apoio dispensado para a realização do Estágio Pós-doutoral; Aos professores que compõem os Programas de Pós Graduação da UFPA, UFAC e UFPR pela iniciativa da elaboração e submissão à Capes do projeto Procad/ Amazônia do qual resulta essa pesquisa; Ao Professor Dr. Paulo Vinícius Baptista da Silva, pesquisador experiente, que aceitou supervisionar essa pesquisa e que, mesmo em meio as suas muitas atribuições acadêmicas e a pandemia da Covid-19, dispensou tempo e atenção a nossa supervisão. Muito obrigada Paulo! Aos colegas que compõem o Grupo de orientandos do Professor Paulo Vinícus pela acolhida e troca de conhecimentos; Às amigas conterrâneas Flavia Rocha e Bianca Albuquerque pelas parcerias e compreensão; Ao Professor Doutor Genylton Odilon pela viabilização dos Projetos Pedagógicos dos Cursos de Licenciatura do Campo da UFPA; Às colegas Kelvy Kadge Oliveira Nogueira, Zuila Guimarães Cova dos Santos, Mariana Silva Souza e Flávia Renata Farias e Ferreira com as quais partilhamos a organização da Oficina: Revisão bibliográfica usando bases e ferramentas digitais com foco no uso da ferramenta StArt da UFSCar e que posteriormente, se constituíram importantes parceiras; Ao professor Salomão Hage por ter nos apresentado a professora Maria Antônia de Souza, líder do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Educação do Campo- NUPECAMP e a todos os membros desse importante grupo que nos acolheu e tem nos oportunizado ricas experiências relativas à educação do campo. À Karen Bortoloti colega do grupo de pós-doutorandos da região Sul que com sua sensibilidade aguçada se dispôs a tomar o primeiro café comigo em Curitiba. Café que teve gosto de acolhida e início de uma amizade; A cada membro de minha família: Pai Vivalde, sujeito chucro que está comigo enquanto legado de amor, mãe, professora rural, forte inspiração para a escolha do objeto desse estudo, meus irmãos e irmãs, Adriel, Daniel, Amélia, Queila e Itamara, esta última, representada na Sharinha por serem uma das mais significativas experiências de amor fraterno. Como é bom ter irmãos e irmãs, principalmente porque de quebra me deram os sobrinhos mais lindos do mundo: Rodrigo, Rose, Lucas, Thiago, Raquel, Adriely, Andreia, Bruno,Sharinha e Beatriz; À tia Maria, “uma mulher que merece viver e sonhar” e aos primos Ciro e Ceila, bem como, suas famílias pelo amor e incentivo; Às amigas de toda vida, Socorro, Tamara, Tavifa, Neivinha e suas respectivas famílias. Às colegas do Centro de Educação Letras e Artes-CELA, Cleyde, Elizabeth, Franciana, Grace, Lurdinha e Murilena, que me apoiaram em minha trajetória acadêmica. Obrigada! Sem vocês essas conquistas não teriam ocorrido; À amiga Viviani Hojas pela troca de ideias durante o esboço do projeto da pesquisa de Pós-Doutoramento; À amiga Adelândia, parceira de Endipe, Anped e risos. Presente que a vida nos devolveu. Às colegas desde a graduação Lenilda Rego Albuquerque de Faria pelas trocas de ideias sobre a vida e pesquisa e Rivanda Nogueira pela leitura atenta de boa parte desse trabalho e das importantes sugestões prestadas; À Brenda, Marli, Ana Paula e Débora pelo acolhimento em Curitiba que tornaram nossos dias bem melhores; Ao meu assessor em informática, mudanças e controle de gastos, Caio, primogênito amado e à Luiza, caçula intensa em tudo que faz, presente da maturidade, bolsa sênior, assessora de fantasias, gastronomias, sonhos e descontrole de gastos. E ao Getúlio, companheiro de boa parte de minha vida e “coautor dessas importantes obras” (Nossos filhos). “Se eu não os amasse tanto assim... talvez perdesse os sonhos dentro de mim.” Obrigada! E a Deus. pela minha criação e por me permitir criar e recriar a História. 8 APRESENTAÇÃO O presente relatório tem o objetivo de apresentar as atividades que desenvolvemos durante o EstágioPós-doutoral realizado junto ao Programa de Pós- graduação em Educação da Universidade Federal do Paraná (PPGE/UFPR), no âmbito do Projeto Educação Básica na Amazônia: pensamento educacional, políticas públicas e formação de professores - Programa Nacional de Cooperação Acadêmica na Amazônia n. 21/2018, regulamentado pelo edital de seleção PPGE/UFPR n. 70/2019. O relatório está organizado em duas partes: a primeira destina-se a descrever o conjunto geral de atividades realizadas no período proposto para o Estágio, tais como: participações em eventos acadêmicos, bancas de qualificação e defesa de mestrado e doutorado, participação no grupo de pesquisa coordenado Professor Dr. Paulo Vinícius Baptista da Silva e nas aulas abertas por ele ministradas, dentre outras que descreveremos no corpo desse relatório. A segunda parte é voltada à apresentação da pesquisa que realizamos como resultado do Projeto de Pesquisa submetido por ocasião da seleção ao Estágio. O Procad/Amazônia corresponde a uma ação para o fortalecimento da pós- graduação na Região Norte, com apoio a projetos de pesquisa conjuntos que construam redes de cooperação acadêmica permitindo a utilização de recursos humanos e de infraestrutura disponíveis nas diferentes instituições participantes, possibilitando a abordagem de novos temas e objetos de pesquisa e a criação de condições para o desenvolvimento da pesquisa na Amazônia brasileira, com vistas a contribuir para a elevação da qualidade dos cursos oferecidos pelas Instituições de Ensino Superior (IES) na região. Além desses objetivos, o Procad/Amazônia visa ainda contribuir para o aprimoramento da formação pós-graduada dos professores que compõem os quadros docentes dos Programas de Pós Graduação da região Norte buscando melhorar as notas desses Programas e diminuir as assimetrias regionais observadas no Sistema Nacional de Pós-Graduação (SNPG), conforme diretrizes do Plano Nacional de Pós-Graduação 2011-2020. 9 1 A ESCOLHA DA INSTITUIÇÃO, DO SUPERVISOR E DO OBJETO DE PESQUISA O Procad/Amazônia a que nos vinculamos envolve três universidades: Universidade Federal do Acre (UFAC), Universidade Federal do Pará (UFPA) e Universidade Federal do Paraná (UFPR). A escolha por fazer Estágio Pós-Doutoral na UFPR envolve elementos de ordem pessoal, acadêmica e política. Do ponto de vista acadêmico, esta é uma universidade com sólida produção acadêmica sobre a Educação do campo e temas correlacionados como: educação ambiental, educação indígena, diversidade e colonialidade/descolonialidade, com importantes pesquisadores sobre os temas citados. Além da produção teórica dos pesquisadores dessa instituição, especialmente dos professores do Programa de Pós Graduação em Educação, ao longo de mais de uma década esta universidade vem contribuído com a formação de quadros profissionais da UFAC por meio de dois Doutorados Interinstitucionais (Dinter) UFAC/UFPR que titulou mais de vinte professores e técnicos da UFAC, inclusive alguns que hoje compõem o quadro de professores do Mestrado em Educação em que trabalhamos e do Mestrado profissional em ensino de Ciências e Matemática. A segunda turma de doutorado oferecida em forma de Dinter entre UFPR/UFAC contou com a coordenação do professor Paulo Vinícius Baptista da Silva pelo período de um ano (2017-2018), profissional que indicamos como supervisor de nosso Estágio por seu compromisso com o fortalecimento da formação de profissionais da educação da região Norte, por seus estudos, pesquisa, orientações e militância sobre/com políticas de educação inclusivas, questões étnico-raciais, decolonização e consequentemente, por seu envolvimento com os esquecidos, excluídos, marginalizados, esfarrapados e negados de um modo geral. Do ponto de vista pessoal, escolher a UFPR foi uma tentativa de retorno. Nasci em Umuarama-PR e aos seis anos migrei com minha família para o Acre, excluídos pela mecanização da agricultura no Sul e iludidos com as terras férteis do Acre. No Acre, até aos treze anos moramos no campo, nas colônias de Sena Madureira, município localizado 144 quilômetros de Rio Branco, capital do Acre. Desse lugar e tempo, carrego com orgulho em meu corpo as marcas do sol e as cicatrizes da enxada, do terçado, da Llata que cortou meu dedo ao buscar água na vertente e do arrame farpado da cerca que feriu minha sobrancelha. 10 Na mente trago a boa lembrança do gosto da sopa da merenda escolar da escola rural em que aprendi a ler, calcular e brincar; o cheiro do maracujá do mato, o barulho da chuva no zinco da cobertura da casa, a cor das águas dos igarapés onde aprendi a nadar e pescar, as vozes dos locutores da Rádio Nacional de Brasília, Edelson Moura e Márcia Ferreira e também os tristes gritos de dor das pessoas doentes que chegavam a nossa casa carregadas em redes penduradas em varas de madeira roliças sobre os ombros de homens. Às vezes a dor e os gritos eram causados por mordidas por cobras ou então eram mulheres em trabalho de parto para serem atendidas por minha mãe. Morávamos em um fim de ramal, espécie de estrada vicinal, início da BR 364. Ali era ponto de acolhimento dos moradores daquela região para uma parada, descanso da caminhada na lama, beber água, tomar um leite, comer uma banana, alimentos que sempre oferecíamos aos que recebíamos, para que seguissem viagem por mais sete quilômetros para pegarem uma atraia(canoa) e atravessarem o rio Yaco e chegar à cidade. Nossa casa era também lugar de trabalhadores rurais trazerem as medidas de áreas de florestas derrubadas para o cultivo de pastos para engordar os bois dos fazendeiros para que minha mãe, professora rural daquela comunidade, fizesse o cálculo matemático da dimensão derrubada e de quanto ganhariam pelo serviço realizado. Ou o quanto estariam devendo ao latifundiário. Com essas anotações, alguns sujeitos iletrados, não só na matemática, vinham também, receitas de remédios, documentos e cartas a serem lidas pela professora e na cabeça daquela gente humilde, uma riqueza de saberes cotidianos para a partilha, tais como: a melhor lua para tocar fogo no roçado, para plantar, para castrar os animais; para definir como poderiam colher a plantação de todos os colonos em forma de mutirão para que nenhum perdesse a produção, para definir o melhor dia para realizar o torneio de futebol, as reuniões religiosas, os casamentos e batizados. As escrevivências citadas hoje formam “pororocas epistemológicas” com a condição de professora universitária. De 2006 a 2010 foi realizado o doutorado em Educação: Currículo pela PUC/SP. Ao término do doutorado foram retomadas as atribuições de ensino, pesquisa, extensão e orientação de trabalhos acadêmicos sempre voltados ao campo do Currículo, Formação de Professores e Ensino de História. O título foi obtido, mas o cotidiano descrito fez querer muito ver, ler e ajudar a conceber projetos currículos de formação inicial de professores do campo no Acre. Fato que fez com que fosse tomado como objeto de pesquisa de Pós-Doutorado “O currículo de 11 formação inicial de professores do campo nas universidades federais da região Norte”. Isso porque, segundo Severino: Para apreender o objeto como sendo significativo para nós, sujeitos, é preciso como que refazer a estrutura desse objeto, seja ele um objeto físico, simbólico ou imaginário. Esse é o modo humano de conhecer (SEVERINO, 2006, p. 71). Assim, reconstrói-se um objeto. Reconstrução aqui entendida não como “um processo de fazer existir o objeto, mas como atividade de se refazer a estrutura do objeto pesquisado” a partir da interseção de nossa história de vida com um objeto científico. A realização desta pesquisa, ao requerer um aprofundamento sobre o referido objeto, nos propicia uma instrumentalização teórica e prática sobre o tema que pode fomentar um movimentopela elaboração de Projetos Curriculares de Formação Inicial de professores dos campos, águas e florestas do Acre no interior da UFAC. Além dessa ação, o Estágio oportunizou conhecer melhor os modos como funcionam as universidades e a pós-graduação no Brasil, especialmente as potencialidades e desafios para seu acontecer na Amazônia. Despertou para importância dos grupos de pesquisa, para a devida articulação entre graduação e pós-graduação e para a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. Do ponto de vista político, a escolha pela UFPR se dá por ser uma referência em termos de qualidade acadêmica na região Sul do país e por ser uma universidade, inclusiva e comprometida com a produção da ciência, mas também da justiça social. 2 A CHEGADA: CONHECER CURITIBA E (DES)CONHECER O CAMPUS REBOUÇAS A chegada em Curitiba, em 02 de setembro de 2020, ainda em processo de recuperação de uma fratura no tornozelo e em meio à pandemia causada pelo Covid 19 foi repleta de desafios e emoções. Conhecer Curitiba, cidade de lindos parques, de maior IDH do Brasil, de clima ameno em oposição a Rio Branco, cidade de onde eu vinha, de clima extremamente quente, foi um sonho. Nos primeiros 22 dias, eu e meus dois filhos, de 11 e 22 anos, ficamos em um Hotel no Centro da Cidade enquanto procurávamos imobiliárias para alugar um apartamento. Decidimos, então, que alugaríamos um apartamento no Bairro de Rebouças, onde está localizada a área de Educação da Universidade Federal do Paraná- UFPR. Trata-se de um prédio histórico, no qual funcionou a primeira Estação 12 Ferroviária de Curitiba. Naquele espaço, almejava vivenciar ricas trocas de experiências acadêmicas. Havia lido o artigo “Irmãos Rebouças no Paraná do século XIX e os intelectuais negros”, escrito por Barbosa, Anjos e Silva (2020) e nosso interesse por conhecer tal Campus era grande. Passados os dias conseguimos alugar um apartamento em uma esquina da Avenida Getúlio Vargas com a Rua 24 de Maio. Tal como desejado, estávamos em Rebouças! Dalí, ouvíamos o barulho do trem e nos deslumbrávamos com um corredor verde de árvores em meio a um emaranhado de edifícios entre os bairros Água Verde e Rebouças e, mais à frente, podíamos avistar as serras. Aquela paisagem nos parecia linda, embora contrastando com as sirenes das ambulâncias que traziam pacientes de Covid para o Hospital Pequeno Príncipe, a fome dos mendigos nas esquinas durante o dia e o frio dos travestis que ocupam as ruas às noites. No dia 23 de setembro, decidi que, como já estávamos instalados, era o momento de conhecer o Campus Rebouças. Contudo, só tive condições de avistá-lo do portão e torcer para que a pandemia acabasse e eu pudesse adentrar àquele espaço, aonde viria a conhecer os professores e alunos do PPGE/UFPR e vivenciar boas experiências. Isso, no entanto, não foi possível! Os meses que sucederam foram de isolamento no apartamento, trabalhando no modo home office. O viver naquele lugar me fez refletir que, às vezes, pode haver descompassos entre a geografia física e a geografia humana de uma grande cidade. E em meio a essas reflexões, enquanto limpava o apartamento, veio-me à mente, de modo desvairado, as ideias para o primeiro escrito de domingo. Nomeei-o “Geopolíticas indentitárias”, e o escrevi à mão, para que este não se perdesse até ser digitalizado. 3 PARTICIPAÇÃO NO GRUPO DE PESQUISA DO SUPERVISOR A participação no Grupo de pesquisa do professor Paulo Vinícius Baptista da Silva consistiu na mais significativa experiência que vivenciamos. Quer pelas temáticas nele tratadas, quer pela diversidade de sujeitos que o compõe. São professores, alunos da graduação, mestrandos, doutorandos e pesquisadores em processo de pós- doutoramento que compartilham suas pesquisas, exercitam o diálogo respeitoso e o crescimento coletivo. No início de minha estadia em Curitiba, os encontros estiveram suspensos por um tempo. Contudo, em março de 2021 voltaram a acontecer e foi uma grata satisfação poder participar daqueles encontros. Aguardávamos com ansiedade as quartas-feiras, 13 dia em que ocorriam as reuniões. Nelas, sob a condução do professor Paulo Vinícius aprendíamos importantes questões relacionadas aos processos de construção de nossas pesquisas, mas aprendíamos também valores como respeito, ética, solidariedade e justiça. Sua tranquilidade ao conduzir as reuniões, sempre acompanhado de um chimarrão ou um vinho, foi inspiradora. Tivemos um exemplo de que a vida acadêmica não precisa ser um peso. Mesmo em meio as suas muitas atribuições, ali estava um exemplo de ser humano leve e acolhedor. A ele minha gratidão sempre! 4 PARTICIPAÇÃO EM BANCAS DE QUALIFICAÇÃO E DEFESA Durante o Estágio Pós-doutoral houve participação em cinco bancas. Sendo quatro bancas de defesas de dissertações de mestrado e uma de qualificação de doutorado. As bancas as quais a participação foi como avaliadora externa envolviam as instituições conveniadas para a realização do Procad/Amazônia. De igual modo, nas Bancas presididas foram convidados professores vinculados à UFPR e UFPA, conforme quadro a seguir: Quadro de Bancas de Mestrado e Doutorado com a participação de Tânia Mara Rezende Machado Autor Tema Banca Nível Progra ma Rozana Teixeira A rememoração da negritude e da branquidade no livro didático, por alunas/os do Ensino Fundamental II no estado do Paraná Paulo Vinícius Baptista da Silva (UFPR); Ana Amélia de Paula Laborne (UFMG); Andrea Maila Voss Kominec (UTFP); Débora Cristina de Araujo (UFES); Tânia Mara Machado (UFAC) Qualificaçã o/ Doutorado PPGE/ UFPR 14 Ildenê Freitas da Silva Mota Currículo prescrito para a Língua Portuguesa: Uma análise a partir das três versões da Base Nacional Comum Curricular. Genylton Odilon Rêgo da Rocha (UFPA); Maria José Aviz do Rosário (UFPA); Eurize Caldas Pessanha (UFMS); Tânia Mara Rezende Machado (UFAC). Defesa/ mestrado PPGE/ UFPA Maria José Nascimento Correia Os conteúdos históricos do ensino fundamental ii na base nacional comum curricular: reflexões sobre a democratização da educação. Tânia Mara Machado (UFAC); Genylton Odilon Rocha (UFPA); Lenilda Rêgo de Faria (UFAC). Defesa/ mestrado PPGE/ UFAC Carlos Eduardo da Silva Currículo de ensino de arte no acre: entre a formação, conformação ou deformação de humanidades. Tânia Mara Machado (UFAC); Renata Andrade (URGS); Elizabeth Miranda de Lima (UFAC); Paulo Vinícius Baptista da silva (UFPR). Defesa/ mestrado PPGE/ UFAC Heleno Szerwinsk de Mendonça Rocha A apropriação do celular por licenciandos da Universidade Federal do Acre: Considerando a cultura escolar e a formação inicial de professores. Tânia Mara Rezende Machado-(UFAC); Rafael Gonçalves (UFAC); Gláucia Brito (UFPR). Defesa/ mestrado PPGE/ UFAC Fonte: Elaborado pela autora com base em dados do Lattes. Disponível em: http://lattes.cnpq.br/9921782830215348 5 PARTICIPAÇÃO NO XI COPENE Durante os dias 9 e 12 de novembro de 2020 participei das atividades remotas do XI Congresso Brasileiro de Pesquisadores/as Negros/as (XI COPENE) na Universidade Federal do Paraná (UFPR). O XI COPENE teve três atores históricos fundamentais para sua implementação e execução: Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN), o Consórcio Nacional dos Núcleos de Estudos Afro-brasileiros, representado pelo Neab/UFPR, como promotores do evento e a Universidade Federal de Paraná (UFPR) na condição de instituição que sediou o evento com seus respectivos núcleos de pesquisas relacionados à temática. Essas instituições têm reconhecida relevância acadêmica no cenário 15 brasileiro e até mesmo no exterior no que tange as questões ligadas à discussão étnico-racial no Brasil. Tivemos a oportunidade de participar desse importante evento assistindo a três conferências: 1- Conferência de abertura com Conceição Evaristo com o título; “Negras escrevivências”; 2- Conferência de Jaqueline de Jesus sobre “interseccionalidades”; 3- Conferência de Rosa Margarida de Carvalho Rocha, sobre “Saberes e fazeres no chão da escola: educação antirracista e formação de professores”. A conferência de Conceição Evaristo sobre “escrevivências” foi muito rica do ponto de vista de nossa formação. A autora, que até então não conhecíamos, trouxe o conceito de “escrevivências” tomando o corpo negro como central. Enfatizou que sem o corpo não há subserviência, não há engenhosidade, não há tática, não há escrevivências, pois estas são feitas de experiência e vivências, e sem esses elementos não há história. O corpo é o espaço de negociação. Recorrendo a Certeau (1998), tratou-se da diferença ente estratégia e tática. A estratégia envolve um tempo apropriado para a organização da ação pretendida. A tática, diferentemente, constitui-se na “arma do fraco”, naquele que não tem todos os aparatos ofensivos para empreender ações emergenciais, aquelas que requerem o agir na hora do “jogo”. Outra importante conferência foi a de Rosa Margarida de Carvalho Rocha, que deixou marcas profundas, dado nosso objeto de estudo ser o currículo. A autora destacou que no tocante ao trato pedagógico com questões étnico-raciais é importante que nos Projetos Políticos Curriculares de formação de professores se defina uma formação que reposicione o papel dos professores para além de fontes de pesquisa. Destacou que é preciso incentivo para que se tornarem educadores, militantes e pesquisadores da temática. Indicou que para que isso ocorra a escola de Educação Básica terá que ser apresentada como espaço formativo para as temáticas étnicas e raciais, não apenas de modo esporádico em componentes curriculares específicos e em dados simbólicos. Em suas palavras, é necessário torná-las parte estruturante dos currículos. Será necessário que as universidades e escolas sejam vistas como instituições formadoras, que tracem protocolos que especifiquem o modo como as questões étnico-raciais serão tratadas e que nesse protocolo se defina as atribuições de 16 cada membro dessas instituições, pois todos podem assumir responsabilidades e tornarem-se partícipes corresponsáveis. Conforme Rosa Margarida um primeiro passo para essas ações, passa pela identificação do racismo institucional e de seus desdobramentos que sejam feitas mudanças antirracistas no currículo para além da inclusão de um ou outro componente curricular. Outra ação importante no enfrentamento ao racismo é o fortalecimento de redes antirracistas no interior da universidade por meio do fomento a políticas institucionais como a abertura de vagas para professores e alunos negros a fim de tornar esse não- lugar em lugar de diferentes raças e etnias. Professores negros tendem a deixar marcados seus lugares de fala, suas opções teóricas e seus projetos de educação e sociedade. Estes, com frequência, aliados aos estudos descolonizadores podem produzir transformações em projetos educacionais racistas e antidemocráticos e forjar projetos pautados no antirracismo e na justiça social. É preciso ainda frisar nos PPC a necessidade do cumprimento da Lei n. 10.639 de 9 de janeiro de 2003 (BRASIL, 2003) não só nos cursos de Licenciatura do Campo, mas em todos. Em linhas gerais, na conferência, a autora: discutiu a importância do reposicionamento dos professores da Educação Básica, de fonte de pesquisa a pesquisadores, apresentou a necessidade de que as escolas parem de trabalhar as temáticas étnicas e raciais de modo esporádico e as torne partes constitutivas dos currículos, apontou que as escolas tracem protocolos especificando o modo como essas questões serão tratadas e que nesse protocolo se definam as atribuições de cada membro da escola, pois todos podem assumir responsabilidades e tornarem-se partícipes. Frisou a necessidade do cumprimento da Lei n. 10.639 não só nos cursos de licenciatura, mas em todos. Citou como exemplo o médico que em sua formação deverá saber das doenças negras, o arquiteto que deverá conceber casas para negros e assim sucessivamente. Por fim apresentou suas obras: 1- Bino: o menino africano da dor do algodão; 2- Educação das relações étnico-raciais: pensando referências para a organização da prática pedagógica; 3- Os Comedores de Palavras; 4- Almanaque pedagógico afro-brasileiro; https://www.amazon.com.br/Bino-menino-africano-dor-algod%C3%A3o/dp/857160651X/ref=sr_1_1?dchild=1&qid=1605101966&refinements=p_27%3ARosa+Margarida+de+Carvalho+Rocha&s=books&sr=1-1 https://www.amazon.com.br/Educa%C3%A7%C3%A3o-das-rela%C3%A7%C3%B5es-%C3%A9tnico-raciais-referencias/dp/8571604207/ref=sr_1_2?dchild=1&qid=1605101966&refinements=p_27%3ARosa+Margarida+de+Carvalho+Rocha&s=books&sr=1-2 https://www.amazon.com.br/Educa%C3%A7%C3%A3o-das-rela%C3%A7%C3%B5es-%C3%A9tnico-raciais-referencias/dp/8571604207/ref=sr_1_2?dchild=1&qid=1605101966&refinements=p_27%3ARosa+Margarida+de+Carvalho+Rocha&s=books&sr=1-2 https://www.amazon.com.br/Comedores-Palavras-Edimilson-Almeida-Pereira/dp/857160262X/ref=sr_1_3?dchild=1&qid=1605101966&refinements=p_27%3ARosa+Margarida+de+Carvalho+Rocha&s=books&sr=1-3 https://www.amazon.com.br/Almanaque-pedag%C3%B3gico-afro-brasileiro-Margarida-Carvalho/dp/8571605580/ref=sr_1_4?dchild=1&qid=1605101966&refinements=p_27%3ARosa+Margarida+de+Carvalho+Rocha&s=books&sr=1-4 17 5- Alfabeto negro: manual do professor; 6- Pedagogia da diferença. Assistir a conferência de Jaqueline de Jesus sobre “interseccionalidades” foi outra importante atividade realizada durante o Copene. Trouxe-nos importantes reflexões sobre os modos como elementos de exclusão social se alinham para potencializar ainda mais a exclusão. 6 PARTICIPAÇÃO NO GRUPO DE PÓS-DOUTORANDOS DA REGIÃO SUL Participamos também do Grupo de pós-doutorandos da região Sul que envolveu Aline Chalus Vernick Carissimi, Anderson Luiz Tedesco, Caio Floriano, Carmen Regina Gonçalves, Célia Ratusniak, Diego Orgel, Edna Liz Prigol, Fabiane da Silva Prestes, Fabiane Lopes de Oliveira, Gilson Luís Voloski, Gislene Miotto, Umberto Costa, José Bonifácio Alves da Silva, Karen Fernanda Bortoloti, Paulo Fioravante Giareta, Renata Maraschin, Simone Albuquerque, Ronaldo Aurélio Gimenes Garcia, Suyan Ferreira e eu, Tânia Mara Rezende Machado. No dia 3 de novembro de 2020, esse grupo de pós-doutorandos da região Sul se reuniu pela plataforma virtual Google Meet e definiu uma pauta de discussões concernentes à categoria que passou a ser discutida nos próximos encontros do Fórum dos Pós-Doutorandos no âmbito da XIII Reunião Científica Regional da ANPEd Sul. Foi discutido que os pesquisadores exercem suas atividades nos programas em diferentes condições (com bolsa, pesquisadores experientes, recém-doutores/as, pesquisadores/as sem vínculo institucionais efetivos ou já vinculados a outras instituições com ou sem bolsa). Naquela reunião foi defendida a importância de se pensar o lugar do pós-doutorado e sua relação com as universidades. Foi também discutida a necessidade do debate a respeito da portaria da CAPES número 86, de 3 de julho de 2013, que regula o exercício do pós-doutorado, no caso dos bolsistas PNPD. Contudo, ainda foi debatida a necessidade de se considerar aquilo que também é estabelecido pelo CNPq, entre outras agências e programas de fomento, acerca do pós-doutorado e analisar o seu papel institucional para a educação. De acordo com os participantes, a caracterização do pós-doutorado no Brasil é uma questão importante que deve considerar a situação de crise na educação do país, com retrocessos no sentido da mercantilização, e a inserção efetiva dos/as jovens doutores/as em seus respectivoscampos de pesquisa. O pós-doutorado poderia ser https://www.amazon.com.br/Alfabeto-negro-Margarida-Carvalho-Rocha/dp/8571605599/ref=sr_1_5?dchild=1&qid=1605101966&refinements=p_27%3ARosa+Margarida+de+Carvalho+Rocha&s=books&sr=1-5 https://www.amazon.com.br/Pedagogia-Diferenca-Margarida-Carvalho-Rocha/dp/8561191082/ref=sr_1_7?dchild=1&qid=1605101966&refinements=p_27%3ARosa+Margarida+de+Carvalho+Rocha&s=books&sr=1-7 18 concebido como um programa para atuação de pesquisadores doutores, estabelecendo parcerias de trabalho no ensino, na pesquisa e na extensão, em instituições educacionais públicas ou privadas que atendam demandas de interesse público. Alguns pós-doutorandos, como foi o nosso caso, sentem esse processo de estágio pós-doutoral como um momento muito solitário (sobretudo em tempo de pandemia). Torna-se imprescindível relatar a trajetória do pós-doutorado em meio à pandemia de Covid-19. Parte dos objetivos de contribuir com o desenvolvimento de pesquisas da área da educação ficou comprometida em função da pandemia, que modificou as condições de vida, trabalho e estudo dos professores-pesquisadores. Algumas das atividades planejadas, durante a realização do estágio pós-doutoral, estão inviabilizadas pelo novo formato que as atividades universitárias passaram a assumir em função da pandemia. Apesar de promover facilidades, o excesso de relações em ambientes virtuais tornou o trabalho quase ininterrupto para os professores-pesquisadores, pois ocorrem conexões simultâneas em espaço e tempo contínuo do trabalho em casa, causando superatarefamento constante. Além disso, é perceptível pelos participantes a experiência de docentes menos habituados/as à cultura digital que se sentem expropriados/as de meus saberes e fazeres, carentes do diálogo presencial que possui outras características. Embora a atuação do pesquisador esteja bastante restrita às plataformas digitais, tal fato não é impedimento para a defesa da área da educação, da universidade que cumpre sua função pública, da produção do conhecimento científico e da democratização das instituições acadêmicas. Para os próximos encontros virtuais, conforme deliberação coletiva seguiu-se discutindo as seguintes questões: normas e tipos de pós-doutorado no Brasil; situação dos estagiários pós-doutorais em programas de pós-graduação em educação; caracterização da pesquisa de pós-doutorado; fomento à pesquisa de pós-doutorado; apoio mútuo entre pesquisadores de pós-doutorado; continuidade do fórum. Com a mudança do trabalho para o ambiente virtual, ressignificaram-se fazeres, mas não desviaremos do objetivo de colaborar com o desenvolvimento educacional por meio da construção e difusão de conhecimentos científicos de modo dialógico, intercultural e transformador. Os participantes constituintes do fórum reforçam o compromisso com a educação pública e opõem-se veementemente ao descrédito às ciências. Nesse Fórum houve fortalecimento como pesquisadora, pois foi oportunizada a compreensão do que é um pós-doutorado e como ele funciona. Colocamos em questão 19 qual a identidade do pós-doutorando e busca-se construir um estudo comparativo do que é o Estágio pós-doutoral no Brasil e em outros países. Os debates produzidos no grupo indicam diferenças substanciais e mostram que o pós-doutorado no Brasil se constitui em uma espécie de exploração de “mão de obra barata” para pesquisadores que não possuem vínculo profissional com instituições de ensino superior. (Declaração de participação-Anexo 1) 7 PARTICIPAÇÃO NAS AULAS DO PROFESSOR PAULO VINÍCIUS BAPTISTA DA SILVA Através da participação nas aulas abertas da disciplina Tópicos Especiais em Diversidade, Diferença e Desigualdade Social, Relações raciais, Movimentos sociais e Estudos Decoloniais ministradas virtualmente pelo professor Paulo Vinícius e convidados, tivemos acesso a uma ementa que contempla aspectos da Sociologia das relações raciais no Brasil. Intelectuais Negros e pesquisa em educação. Colonialidade do ser, do saber e da natureza na Educação, Interculturalidade e Conhecimento e Pedagogias Insubmissas. Foi objeto de estudo na disciplina um conjunto de conceitos e teorias como: Teoria Racial Crítica, pedagogias insubmissas, racismo epistêmico, branquitude, contranarrativas, identidade racial branca e identidade racial negra. Em umas das aulas abertas conhecemos as Políticas Inclusivas da UFPR. Políticas essas dignas de orgulho. Dados trazidos e principalmente a informação de que alunos negros, por ocasião de seus ingressos na universidade podem apresentar desvantagens em termos de conhecimentos, marcaram este momento. Contudo, ao concluírem seus cursos, a formação alcançada os coloca em pé de igualdade cognitiva. Fenômeno educacional o qual Saviani (1980) classifica como uma atividade que supõe uma heterogeneidade real e uma homogeneidade possível; uma desigualdade no ponto de partida e uma igualdade no ponto de chegada (SAVIANI, 1980). Compreendendo o potencial transformador da educação, especialmente para as camadas populares, durante aquela aula aberta, fizemos uso do chat para perguntar se o mesmo ocorreria com a inclusão tecnológica. Ou seja, foi questionado se alunos que ingressavam sem letramento digital, ou sem as habilidades necessárias ao acompanhamento de aulas remotas, no decorrer das aulas iam ganhando autonomia com as tecnologias digitais e apropriando-se do uso das ferramentas digitais e dos conteúdos por elas mediados. 20 Nossa pergunta, talvez por ter sido mal formulada, foi respondida em termos muito abrangentes, vinculando a inclusão digital mais à rede e aos instrumentos tecnológicos do que ao domínio de seus usos e aos conhecimentos por eles veiculados mediante tratamento pedagógico. Além de conhecer as políticas de inclusão da UFPR tivemos acesso a um conjunto de obras como: Pedagogías insumisas: movimientos político-pedagógicos y me-morias colectivas de educaciones otras en América Latina organizada por Patricia Medina Melgarejo nos trouxe uma diversidade de temáticas muito potentes do ponto de vista teórico sem sonegar dados empíricos. Dentre os artigos que compõem a obra, das páginas 129 a 163 consta um de autoria de Mônica Castagna Molina e Laís Mourão Sá sob o título: “A educação como lugar de disputa e resistência: registros e reflexões sobre uma experiência de formação de educadores do campo no Brasil”. Esse artigo trouxe contribuições às análises relativas ao Currículo de Formação Inicial de Professores do Campo na Região Norte, objeto específico de nossa pesquisa de Pós-doutoramento. Molina e Mourão (2015) tratam da relação da educação do campo com a luta campesina por terra e trabalho, destacando a experiência de professores do campo no Brasil e sua articulação com o movimento dos sem-terra: El camino de la lucha campesina se encuentra representado por , quienes plantean la ne-cesidad de vincularse con la madre tierra, resignificar el trabajo yhacer comunidad desde otras ciudadanías y otra perspectiva de vida; a partir de una educación por y desde la tierra, las autoras nos enseñan la comprensión de la educación como un espacio de lucha y resistencia para garantizar los derechos de los trabajadores rurales, en la articulación de las reflexiones sobre la trayectoria y ex-periencia de la formación de profesores en Brasil, proyecto articu-lado en los últimos años al Movimiento Sin Tierra reconocido como educación del campo (MOLINA; MOURÃO, 2015, p. 140). O tempo de qualidade reservado para a leitura de outras obras como: “Colonialidade do poder, eurocentrismo e América latina” de Quijano (2010); “Os condenados da terra” de Fanon (2005); “O movimento Negro educador” de Gomes (2018); “Epistemologias do Sul”, organizado por Santos e Menezes (2010) e “Brasil: lugares de negros e brancos na mídia: discursos racistas e práticas de resistência”organizado por Silva e Rosemberg (2008) foram fundamentais para reforçar nossas 21 opções teóricas e o projeto de educação que defendemos desde o mestrado, momento em que produzimos uma dissertação sobre migrantes do centro-sul no Acre. Naquela época, 2002, tínhamos acesso a pouquíssimas referências teóricas sobre colonialidade, identidade e interculturalidade. Mesmo assim, tentamos ressignificar o conceito de “paulistas” no Acre por meio da problematização da necessidade de se reverter a homogeneização dos sujeitos que migraram para o Acre por volta dos anos de 1970, especialmente trabalhadores rurais e que lá constituíram modos de vida que não nos permite tal homogeneização. Mais tarde, em 2013, houve o credenciamento como professora permanente do Mestrado Acadêmico em Letras da UFAC e nele houve oportunidade de dialogar com um conjunto de professores de perspectivas interdisciplinares como: Valda Inês Fontenele Pessoa, Elder Andrade de Paula, Gerson Albuquerque, Francisco Bento da Silva, Maria de Jesus Moraes, Marcello Messina dentre outros mais jovens com os quais igualmente houve a alegria da partilha epistêmica de referências que no Estágio Pós- doutoral volta de maneira mais potente. No Programa referido, houve permanência até o ano de 2018 quando foi solicitado desligamento por questões de saúde que não permitiram mais conciliar a participação em dois programas, uma vez que a partir de 2014, deu-se início à colaboração na criação do Mestrado em Educação da UFAC, sendo este último Programa mais novo que o Mestrado em Letras, carecendo de quadro docente. Optou-se então pelo desligamento do Mestrado em Letras. Contudo, naquele espaço acadêmico, foi obtido o contato com uma literatura de perspectiva insubmissa e descolonizadora. Já no Mestrado em Educação, por meio do trabalho colaborativo, especialmente com as professoras Elizabeth Miranda de Lima e Lenilda Rego Albuquerque de Faria, passa-se a dialogar com um referencial teórico frankfurtiano e marxiano. O acesso às referências teóricas trazidas na disciplina nos fez revisitar duas de nossas produções: Hojas e Machado (2019) e Costa, Machado e Dantas (2020) e perceber o quanto esses estudos ficariam melhor fundamentados se dialogassem com as referências trabalhadas pelo professor Paulo Vinícius. Contudo, o que pensamos e fazemos resultam de nossos tempos, espaços e oportunidades experienciais. Narrar as “escrevivências” se faz importante para a compreensão dos modos como nos constituímos como profissional e com se dá nossa relação com as referências teóricas e epistemológicas trazidas na disciplina ofertada pelo professor Paulo Vinícius Baptista da Silva que com suas muitas qualidades profissionais e humanas nos tem http://lattes.cnpq.br/3182016462906419 http://lattes.cnpq.br/3182016462906419 http://lattes.cnpq.br/3845501264534592 22 permitido refletir que: “O apolínio e o dionisíaco não são duas forças antagônicas, eles se condensam para aceitar o real da vida em todas as suas circunstâncias. Assim, não caberiam perspectivas binárias do tipo ‘isto ou aquilo’. Caberia sim, isto e aquilo” (HOJAS; MACHADO, 2019, p. 645). Ciente de que não cabe ao bem pensar o modo binário de ver o conhecimento, o reencontro com a literatura de perspectiva decolonial foi muito potente durante o Estágio Pós-doutoral; o que não nos parece se tratar de ecletismo teórico, mas de coerência epistemológica com os objetos de estudos a que nos dedicamos em diferentes produções. Como nos dizeres de Thompson: A economia política tem termos para o valor de uso, valor de troca, o valor monetário e a mais-valia, mas não para o valor normativo. Não tem termos para outras áreas da consciência: como ver em termos de valor, preço e lucro os rituais simbólicos de Tirburm ou do mausoléu de Lênin (ou, agora, de Mao?). (...) O que descobrimos (em minha opinião) está num termo que falta: ‘experiência humana’. É esse exatamente, o termo que Althusser e seus seguidores desejam expulsar, sob injúrias, do clube do pensamento, como o nome de ‘empirismo (THOMPSON, 1981, p. 82). Se não é possível ver em termos de valor, preço e lucro os rituais simbólicos de Tirburm ou do mausoléu de Lênin, também não é possível analisar as relações de produção da borracha na Amazônia do século XX e a exploração dos seringueiros sem esses conceitos. Logo, a cada objeto, o seu tratamento teórico-metodológico. 8 PARTICIPAÇÃO NA ORGANIZAÇÃO DE OFICINA SOBRE A FERRAMENTA START Demandado pelo professor Paulo Vinícius Baptista da Silva, ajudamos a organizar uma oficina sobre Revisão bibliográfica usando bases e ferramentas digitais com foco no uso da ferramenta StArt, em parceria com quatro colegas do grupo de pesquisa: Kelvy Kadge Oliveira Nogueira, Zuila Guimarães Cova dos Santos, Mariana Silva Souza e Flavia Renata Farias Ferreira com as quais muito aprendi e agradeço. State of the Art through Systematic Review (StArt) é um gerenciador de revisão sistemática, desenvolvida pelo Laboratório de Pesquisa em Engenharia de Software (LaPES) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que objetiva auxiliar pesquisadores em processos de Revisão Sistemática de Literatura (RSL). 23 O objetivo da oficina consistiu em apresentar aos membros do Grupo de Pesquisa do professor Paulo a experiência do uso da ferramenta StArt como possibilidade para auxiliar na Revisão Sistemática de Literatura. É importante destacar que nossa contribuição na organização da oficina se deu muito mais pelos nossos não saberes sobre o uso da ferramenta que pelo pleno domínio desta. À medida que os desafios que enfrentávamos foram socializados com as colegas mais jovens, de faixa geracional que tende a ter maiores habilidades com as tecnologias digitais, um novo material era incluído no projeto da oficina. Fosse um texto, um tutorial ou um protocolo já preenchido para servir como exemplo. Estratégias que afirmaram o não saber como elemento de busca pelo aprimoramento do saber e não como fonte de castigo e exclusão. A atividade nos oportunizou aprofundar a reflexão sobre a importância da revisão sistemática de literatura para a realização de pesquisas e para a constituição de redes colaborativas de estudos sobre um dado tema. O material relativo a essa oficina consta como apêndice um a esse relatório. 9 PARTICIPAÇÃO NO SEMINÁRIO INTEGRADO DE PESQUISA E PÓS- GRADUAÇÃO IFRO, UNIR E ANPUH-RO/AC No período de 23 a 26 de novembro de 2020 ocorreu de modo virtual o Seminário Integrado de Pesquisa e Pós Graduação IFRO, UNIR e ANPUH-RO/AC. Nele compusemos uma mesa sobre pesquisa, ensino de História. Em nossa fala, discutimos as articulações entre pesquisa e ensino de História no contexto da pandemia da Covid-19. Fundamentamo-nos em um referencial teórico de perspectiva crítica de educação, tomando como foco a análise da natureza e as especificidades da escola, do trabalho pedagógico, do ensino de História e da pesquisa em História, formas realizadas antes e em tempos de pandemia. A princípio avaliamos se tratarem de duas coisas combinadas entre si, além de uma terceira, que não se articula com as duas primeiras. Ou seja, ensino e pesquisa se harmonizam perfeitamente. Contudo, em tempos de pandemia, ambos ficam limitados. Isto porque o contexto de pandemia é impróprio tanto para o ensino de História quanto para as pesquisas nesse campo de estudos. Após a nossa fala, com a intenção de fazer com que chegasse a mais pessoas, sistematizamos em forma de um artigo está que organizado em três seções 24 interdependentes: na primeira seção tratamos do Ensino de História no contexto da pandemia da Covid-19, nela destacamos a forma escolar na modernidade, as especificidades do ato pedagógico e do ensino de História com vistas a identificar as mudanças postas à escola e ao Ensino no contexto da pandemia. Fizemos ainda,uma crítica a plataforma classroom para aulas remotas-ERE e apontamos algumas alternativas para o Ensino de História nesse contexto. Na segunda seção focamos na pesquisa em História no contexto da pandemia. Apontamos a natureza da pesquisa, destacamos suas diferenças em relação ao ensino e indicamos algumas alternativas para realizá-la. Alertamos ainda, para a necessidade de se garantir também, a extensão, mesmo em tempo de pandemia, para que se cumpra de modo mais completo o papel social da universidade. Na terceira seção colocamos em questão o retorno das aulas presenciais ou não, em tempos de pandemia. Defendemos a ideia de que, caso se decida pelo retorno das aulas presenciais, será necessário criar protocolos que garantam segurança a vida dos alunos, professores e funcionários das escolas e universidades. Por fim, propomos que em caso de retorno às aulas, estas se deem mediante a elaboração de um projeto construído de modo participativo, inclusivo e interdisciplinar, lembrando que a vida é maior e mais importante que o ensino e a pesquisa em História. 10 PARTICIPAÇÃO NO NUPECAMP Na ânsia por dialogar com pesquisadores do Campo, mantivemos contato com a professora Maria Antônia de Souza, líder do Núcleo de Pesquisa em Educação do Campo, Movimentos Sociais e Práticas Pedagógicas (NUPECAMP), vinculado ao Programa de Pós-Graduação – Mestrado e Doutorado em Educação – da Universidade Tuiuti do Paraná e fomos acolhidas pelo grupo. O grupo reúne pesquisadores que trabalham com a capacitação de professores das escolas do campo, colabora com secretarias municipais de educação e com a Coordenação da Educação do Campo do estado do Paraná. No dia 20 de fevereiro de 2021, foi desenvolvida uma fala no grupo sobre Educação e Diversidade no Acre. Dialogamos sobre o tema, partindo da constituição territorial do Acre e partilhamos algumas experiências formativas realizadas em municípios do Acre. O diálogo e a partilha de experiências colocaram em questão o ideal de perfeição do que seja um processo educativo. Tratamos de ações descolonizadoras, posto que 25 libertam, apoderam e emancipam os sujeitos envolvidos. Em outras palavras, indicaram o rompimento de uma visão colonialista fortemente arraigada na sociedade acreana haja vista que os colonizadores foram embora, mas não os deixaram. Segundo Quijano (2013), ficaram em seus imaginários as marcas reducionistas de uma episteme colonialista caracterizada por tudo que é memorizado, pobre, feio e longe. O material relativo a essa oficina consta como apêndice quatro e anexo dois em formato de declaração. 11 PARTICIPAÇÕES NA REDE MULHERAÇÕES No mês de fevereiro de 2021 participamos da Rede MulherAções que se constitui em uma rede de formações para mulheres negras afro-indígenas e indígenas do Acre, pensada inicialmente por três mulheres negras pesquisadoras do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas da Universidade Federal do acre-Neabi/UFAC. O objetivo da Rede MulherAções é auxiliar mulheres negras, indígenas e afro- indígenas nos processos de ingresso nos cursos de mestrado e doutorado. Na condição de ex-orientadora de Sulamita Rosa da Silva, uma das mentoras do Projeto, cuja dissertação versou sobre Trajetórias de professoras negras dos cursos de formação de professores da UFAC/Campus Rio Branco, no dia 25 de fevereiro de 2021, como “madrinha” dessa tão relevante ação, realizei uma atividade de formação de modo virtual pelo Meet sobre a elaboração de Memoriais Acadêmicos. A atividade se fez relevante uma vez que na vida acadêmica, dois tipos de documentos autobiográficos são frequentemente solicitados dos alunos e professores: o curriculum vitae e o memorial. Na atividade desenvolvida tratamos do memorial como documento que se constitui em instrumento de registro de trajetórias que se presta a diferentes finalidades. Dentre estas, serve como peça constitutiva dos projetos de pesquisa e de textos de qualificação em cursos de pós-graduação. Momento em que o pesquisador, deve explicitar de modo histórico, analítico e crítico acontecimentos que constituíram sua trajetória acadêmico-profissional e a relação de sua história com a escolha do objeto de estudo. Trouxemos referências teóricas que auxiliam na construção de memoriais e alguns exemplos de como construí-lo. O material relativo a essa oficina consta como apêndice dois deste relatório. 26 12 PARTICIPAÇÃO NO PROJETO PRÉ-PÓS DA UFPR Uma das atividades mais significativas que realizamos durante o Estágio Pós- doutoral foi a participação no Projeto de Extensão da Universidade Federal do Paraná (UFPR) denominado “Pré-Pós”. O projeto tem como objetivo preparar candidatos para realizarem seleções de mestrado e doutorado. Trata-se de uma iniciativa de perspectiva inclusiva e cuidadosamente pensada para um público amplo, e em alguns casos, composto por excluídos (negros, indígenas, pessoas com deficiência e migrantes). Do ponto de vista pedagógico, o curso é pensado de modo que a seu final os candidatos tenham produzido seus projetos de pesquisa e conheçam os meandros da pós-graduação tais como: identidade dos programas a que pretendem se submeter, linhas de pesquisa, etapas de seleção, principais referências teóricas, dentre outros aspectos. Atuar como tutora nesse projeto foi uma oportunidade ímpar de trabalho colaborativo, de ensino e aprendizagem e de crescimento humano. 13 PARTICIPAÇÃO COMO PARECERISTA EM REVISTAS CIENTÍFICAS Uma das exigências avaliativas do estágio Pós-doutoral é a submissão de um artigo científico a periódicos classificados pela Capes com qualis entre A e B. Nesse sentido, paralelamente às atividades desenvolvidas no Estágio visitamos o site de algumas revistas da área de educação e foram realizados cadastros como leitora, autora e avaliadora e em alguns através do cadastro como avaliadora, foram recebidos artigos para serem avaliados. Citamos como exemplo: Revista Espaço do Currículo produzida na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Revista Brasileira de Educação do Campo, da Universidade Federal do Tocantins (UFT), Revista Teias, produzida pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Revista Atos de Pesquisa produzida pela Universidade Regional Blumenau (URB), Revista Das Amazônias, Revista discente de História da Universidade Federal do Acre (UFAC) e Revista Muiraquitã, revista de Letras e Humanidades também da UFAC. Essa experiência proporcionou maior conhecimento a respeito das revistas da área de Humanas, com destaque para a Educação, o que nos qualifica não só como avaliadores, mas principalmente como autores e orientadores que auxiliarão a produção 27 e publicação de nossos orientandos. Condição imprescindível para a manutenção de Programas de Pós Graduação. 14 ESCRITOS DE DOMINGO Uma atividade que não se constitui em encargo acadêmico, mas que consideramos por bem relatar foi algo que chamamos de “escritos de domingo”. Trata - se de um conjunto de pequenos textos insubmissos que denominei de “escritos de domingo”. Feitos nesse dia da semana, nos intervalos entre os estudos e as tarefas domésticas. Tais registros funcionaram como formas de travessias, forjadas para transpor os desafios impostos pelo contexto, para extravasar os sentimentos de impotência, ansiedade, luto, medo, revolta, resistência, solidão, saudade, alegria e tristeza e evitar a loucura, posto que a fronteira entre esta e a sanidade esteve bem tênue. Antes de apresentar os “escritos de domingo” permita-me narrar um fato que guarda relação com eles. Certa feita um amigo enviou-me um e-mail que continha anexo o boneco de um livro de poesias. No corpo da correspondência, solicitava que eu fizesse com que a referida obra chegasse às mãos de meu esposo. O amigo gostaria de ter o parecer de alguém a quem ele julgava sensível e criativo para avaliarsuas obras. Eram escritos produzidos ao longo de mais de duas décadas, e ele entendia que um cantor e compositor teria tais credenciais. Ah! Como fiquei despeitada! Eu não sou compositora nem cantora, mas gosto de uma escrita criativa. Respondi-lhe que atenderia sua solicitação, mas não sem antes ler todas as poesias. Afinal, não estaria ferindo a ética na correspondência, uma vez que o endereço de e-mail para o qual as poesias foram enviadas era meu. Passados alguns dias, o amigo me respondeu pedindo desculpas, afirmando ser uma honra ter-me como sua leitora. Saiu-se bem! Cumpri a solicitação e entreguei a obra ainda inacabada para o avaliador destinatário. Mais alguns dias se passaram, e perguntei-lhe se ele já tinha um parecer sobre as poesias. Com uma naturalidade impar ele me respondeu: “Não sei nem que laudo dar as poesias do “fulano de tal”. São poesias agoniadas demais”. Diverti-me com os dois termos empregados: laudo e agoniadas, pois nenhum deles cabia ao contexto. Poesias normalmente passam por críticas literárias e podem ser classificadas de muitos modos a depender do estilo. Contudo, agoniadas não parecia ser o adjetivo mais apropriado se, de fato, as poesias não explicitassem uma perspectiva de 28 resistência, e se o avaliador que proferira tais expressões não fosse um sujeito muito rico culturalmente, que trazia as marcas de escolas literárias conservadoras. Ri um pouco e fiquei a pensar: como responderia ao meu amigo? Transmitiria-lhe o “laudo” de suas poesias? Diria-lhe que o avaliador as achou agoniadas por demais? Enquanto estudava uma forma de comunicar o veredito, surpeendentemente, o avaliador diz: “Algumas poesias se salvam. Uma delas musicalizei e ficou bem bacana”. Que alívio! Marcamos um almoço em nossa casa, convidamos o amigo apresentamos- lhe a bela poesia musicalizada. Naquela oportunidade, brindamos à alegria da amizade. Poesias guardadas por duas décadas, sujeitas à crítica, no real sentido de uma crítica, e depois, uma delas tornada canção, graças a uma parceria. Recordei-me da música “Carinhoso”, composição de Pixinguinha que, segundo a historiografia musica, teria passado uma década apenas como melodia, sem letra. Só muitos anos depois recebeu letra de distintos autores e hoje podemos cantar: “Meu coração, não sei por quê, bate feliz quando te vê; e os meus olhos ficam sorrindo e pelas ruas vão te seguindo”. Penso que talvez minhas poesias também sejam classificadas como mais que agoniadas, por serem despudoradas, atravessadas, misturadas, sem rimas, fronteiriças demais. Mas, se tiverem destino semelhante às do meu amigo ficarei bem satisfeita, pois terá cumprido duplamente seu papel: de aliviar-me a alma em tempos tão áridos, e de provocar a crítica. Se ninguém gostar, alguém há de fazer um bom “laudo” às minhas escrevivências que está nos entre-lugares da pesquisadora e poetiza humana, demasiadamente humana. Bhabha (2001), e Nietzche (2000, 2008) respectivamente. Se em Nietzche o diálogo teórico é para melhor entender meu Humano- Demasiado Humano, com Bhabha não é diferente uma vez que esse autor destaca que as identidades se constroem não mais nas singularidades – como as de classe, gênero, etc. – mas, nas fronteiras das diferentes realidades; refere-se aos entre-lugares. e podem ser entendidos como um pensamento liminar, construído nas fronteiras, nas bordas, compreendidos como espaço de encontro cultural de múltiplas dimensões e especificidades que podem se incidir. O termo entre-lugar é um conceito do campo dos Estudos Culturais, que tem contribuído para a ampliação de discursos que, às vezes, não cabe em um fazer acadêmico científico convencional. Assim, valendo-me de Santiago (2000), que por sua vez recorre a uma perspectiva foucaultiana , tento expor nos meus escritos de domingo situações fronteiriças de alguém que esteve e está nos entre- 29 lugares de professora universitária envolvida com seu estágio pós doutoral e as demandas cotidianas. Esses escritos constam como apêndice três desse relatório. 15 CONCLUSÕES Realizar o Estágio Pós-Doutoral foi muito importante para a qualificação profissional e crescimento pessoal. Foram vivenciadas experiências potentes do ponto de vista acadêmico. Além do adensamento teórico sobre Concepções de Currículo de Formação Inicial de Professores do Campo na Região Norte, objeto de nossa pesquisa e que será elemento de conclusões mais detalhadas na segunda parte desse relatório. Passamos a conhecer melhor o funcionamento da Pós-Graduação no Brasil e a entender a necessidade de constituição de grupos de pesquisa e do modo como funcionam as redes de pesquisa. Ao voltar para a instituição de origem, a UFAC, têm-se novos propósitos e melhor qualificação para executá-los. Destaca-se, no entanto, que houve um descompasso entre a data de nossa ausência de Rio Branco e a data de afastamento concedido por meio de Portaria. Isso causou algumas implicações como, por exemplo, o fato do aluguel de um apartamento em Curitiba pelo prazo de um ano, posto que a imobiliária não admitia prazo menor. Isso significa que o fim do contrato de aluguel só ocorrerá no final de setembro/2021, mês que de fato me ausentei de Rio Branco em função: 1- Da pandemia pela Covid-19: viajar no auge da pandemia seria arriscado e colocaria até mesmo as instituições parceiras do Procad/Amazônia (UFAC, UFPR, UFPA) em situação delicada. Especialmente porque em julho ainda estávamos sem portaria de afastamento; 2- Da não expedição de portaria em tempo real: a portaria foi expedida somente no final de agosto, com data retroativa a julho de 2020. Não seria recomendável viajar sem portaria; 3- Da não garantia de bolsa do Procad/Amazônia sem que comprovássemos expedição de passagem aérea para Curitiba/UFPR mesmo estando em período de pandemia. Todas essas questões causaram ansiedade e impulsionaram a permanência em Rio Branco até o mês de setembro, cumprindo os encargos docentes designados dentro de um contexto de Pandemia, tais como: Avaliação de candidatos ao processo de seleção de Mestrado em Educação/UFAC, turma de 2020, orientações e defesas de alunos do mestrado em Educação, participação em Bancas de Mestrado da UFAC, da UFPR e 30 UPPA, participação em Assembleias do CELA, participação em reuniões do Colegiado do Mestrado em Educação/UFAC, participação em reuniões do Colegiado do Mestrado em História/UFAC e participação em reuniões do Colegiado do Curso de Pedagogia/UFAC). Nesse sentido só tivemos condições de iniciar as atividades do Estágio Pós Doutoral no final de setembro, o que implicou em redução do prazo para tal atividade. Em vez de doze meses passamos a ter nove. Ainda assim, avaliamos que dentro das condições objetivas que nos foram colocadas aproveitamos cada oportunidade e agradecemos as instituições parceiras na realização do Procad/Amazônia e aos sujeitos envolvidos. Em especial à UFPR e ao professor Paulo Vinícius Baptista da Silva, sujeito incrível! REFERÊNCIAS BARBOSA, Etienne Baldez Louzada; ANJOS, Juarez José Tuchinski; SILVA, Paulo Vinícius Baptista. Irmãos Rebouças no Paraná do século 19 e os intelectuais negros. Acta scientiarum education, v. 42, p. 1-14, 2020. BHABHA, Homi. O Local da Cultura. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2001. BRASIL, lei nº 10.639, de 9 de janeiro 2003. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.639.htm. Acesso em: 4 out. 2020. CERTEAU, Michel de. A Invenção do Cotidiano. Petrópolis: Vozes, 1998. COSTA, Tamara; MACHADO, Tania Mara Rezende; DANTAS, Raquel Rezende. Novas epistemologias, novas práticas pedagógicas a partir de articulações culturais: bem vindos à insurreição! 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Rio de Janeiro: Zahar, 1981. http://lattes.cnpq.br/9921782830215348 32 33 APÊNDICE 34 Apêndice 01 - Oficina: Revisão bibliográfica usando bases e ferramentas digitais: foco no uso da ferramenta StArt da UFSCar Organizadoras da oficina: Kelvy Kadge Oliveira Nogueira, Zuila Guimarães Cova dos Santos,Tânia Mara Rezende Machado, Mariana Silva Souza e Flavia Renata Farias Ferreira Objetivo: Apresentar a experiência do uso da ferramenta StArt como possibilidade para auxiliar na Revisão Sistemática de Literatura. Sobre a StArt - State of the Art through Systematic Review É uma ferramenta que tem como objetivo auxiliar o/a pesquisador/a em seu processo de Revisão Sistemática (RS) e foi desenvolvida pelo Laboratório de Pesquisa em Engenharia de Software da UFSCar. A partir dos processos de uma Revisão Sistemática de Literatura (RSL) a ferramenta StArt possui três etapas: planejamento, execução e sumarização: Na etapa de Planejamento, pretende-se definir um Protocolo que contenha todas as informações e os procedimentos necessários à execução das etapas seguintes. Exemplos de informações e procedimentos necessários são: a pergunta de pesquisa, as palavras-chave, os motores de busca e os critérios de inclusão e exclusão de estudos. Na etapa de Execução, três etapas devem ser realizadas: a Identificação dos Estudos nos buscadores definidos no Protocolo, a Seleção desses estudos, com base nos critérios de inclusão e exclusão, e a Extração dos dados dos estudos selecionados. Na etapa de Sumarização, os dados extraídos dos estudos são analisados e sumarizados visando responder à questão de pesquisa definida no Protocolo. (HERNANDES, 2012, p.2. Tradução Google Tradutor) ● Atividade Pré-Oficina 1. Assistir ao vídeo sobre busca em bancos de dados Vídeo -Prof. Paulo Vinicius sobre Banco de Dados e levantamento em Bases Web Oficina 1 NAPNE 01-10 (1:19:29) https://www.youtube.com/watch?v=6bGtHsSA2LQ&feature=youtu.be 2. Fazer download da StArt no seguinte link: http://lapes.dc.ufscar.br/tools/start_tool PS: Antes de fazer o download é importante verificar qual o sistema do seu computador (23 bits ou 64 bits), pois vocês devem baixar a versão do StArt compatível com seu computador. Para descobrir isso, vá ao seu menu do Windows e https://www.youtube.com/watch?v=6bGtHsSA2LQ&feature=youtu.be http://lapes.dc.ufscar.br/tools/start_tool 35 clique em “Configurações” e na busca procure “Sobre”. Em alguns computadores o caminho é “Meu computador” > “Propriedades”. 2.1 Vídeo Tutorial de instalação do StArt (03:28) https://www.youtube.com/watch?v=9zxtRHC2Jig 2.2 Link para atualização do JAVA Se tiver problemas na instalação do StArt atualizar o JAVA, seguem dois links: https://www.oracle.com/java/technologies/javase-jre8- downloads.html Escolha: Java SE Runtime e na lista, baixe , para seu computador e execute. http://www.java.com/pt_BR/download 2.2.1 Link de vídeo que ajuda com a instalação do Java: https://www.youtube.com/watch?v=Cq7gdAVPl F4 Vídeos e tutoriais sobre a ferramenta StArt e a Revisão Sistemática de Literatura 1. Vídeos sobre Revisão Sistemática e a StArt 1.1 Vídeo - Ferramenta StArt - Profª Drª Sandra Camargo P. F. Fabbri (1:18:07) https://www.youtube.com/watch?v=8kVPpd1Vj4s&t=174s 1.1.1 Slides da apresentação da Profª Drª Sandra Fabri (Anexo) 1.2 Vídeo Valdick Sales Start - Revisão Sistemática de Literatura - Palestra no Zoom - Vídeo 1 (49:51) https://www.youtube.com/watch?v=UOkXmV206xg&t=345s 1.2.1 Vídeo Valdick Sales Start -Revisão Sistemática de Literatura - Palestra no Zoom - Vídeo 2 (40:09) https://www.youtube.com/watch?v=VEkqomg0auY&t=693s 2. Vídeos introdução à ferramenta StArt - StArt Introduction (15:15) https://www.youtube.com/watch?v=zCTKl1TBmx U&t=146s Vídeo com descrições em inglês - StArt - Tool demo for CBSoft 2018 (4:19) https://www.youtube.com/watch?v=OT3h SyBPQQQ 3. Vídeo tutorial - Criando uma nova revisão sistemática (10:47) http://www2.dc.ufscar.br/~lapes/tutorial_start.mp4 https://www.youtube.com/watch?v=9zxtRHC2Jig https://www.oracle.com/java/technologies/javase-jre8-downloads.html https://www.oracle.com/java/technologies/javase-jre8-downloads.html http://www.java.com/pt_BR/download https://www.youtube.com/watch?v=Cq7gdAVPlF4 https://www.youtube.com/watch?v=Cq7gdAVPlF4 https://www.youtube.com/watch?v=8kVPpd1Vj4s&t=174s https://www.youtube.com/watch?v=UOkXmV206xg&t=345s https://www.youtube.com/watch?v=VEkqomg0auY&t=693s https://www.youtube.com/watch?v=zCTKl1TBmxU&t=146s https://www.youtube.com/watch?v=zCTKl1TBmxU&t=146s https://www.youtube.com/watch?v=OT3hSyBPQQQ https://www.youtube.com/watch?v=OT3hSyBPQQQ http://www2.dc.ufscar.br/~lapes/tutorial_start.mp4 36 4. Exemplo de Protocolo (em anexo) 5. StArt Community: A comunidade StArtinclui fórum, anúncios, tutoriais, sugestões entre outras informações. http://amon.dc.ufscar.br/vanilla/ Referências: Revisão Sistemática Literatura MAZZOTTI, Alda Judith Alves. A “revisão da bibliografia” em teses e dissertações: meus tipos inesquecíveis - o retorno. In: BIANCHETTI, Lucidio; MACHADO, Ana Maria Netto. A Bússola do escrever: desafios e estratégias na orientação e escritas de teses e dissertações. Cortez: São Paulo. 2012. p. 42 - 56. OKOLI, C. Guia Para Realizar uma Revisão Sistemática de Literatura. Tradução de David Wesley Amado Duarte. Revisão técnica e introdução de João Mattar. EaD Em Foco, 9 (1), 1-40. 2019. Disponível em: https://eademfoco.cecierj.edu.br/index.php/Revista/article/view/748 Acesso em: 21 nov. 2020 RAMOS, A; FARIA, P. M.; FARIA, A. Revisão Sistemática de Literatura: contributo para a inovação na investigação em Ciências da Educação Revista Diálogo Educacional, vol. 14, n. 41, 2014, pp. 17-36. 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As culturas midiáticas e Ensino de Línguas: LE: estudo a partir da plataforma Duolingo. Revista Eletrônica da Faculdade Invest de Ciências e Tecnologia, v. 2, n. 1, p. 14-14, 2019. Disponível em: http://revista.institutoinvest.edu.br/index.php/revistainvest/article/view/10 Acesso em: 22 out. 2020 http://amon.dc.ufscar.br/vanilla/ https://eademfoco.cecierj.edu.br/index.php/Revista/article/view/748 http://www.scielo.edu.uy/scielo.php?pid=S0717-50002012000100003&script=sci_arttext&tlng=pt https://metodologia.ceie-br.org/wp-content/uploads/2019/04/livro2_cap3.pdf https://metodologia.ceie-br.org/wp-content/uploads/2019/04/livro2_cap3.pdf http://revista.institutoinvest.edu.br/index.php/revistainvest/article/view/10 37 OUTA, Camila Tiemi; SANTANDER, Victor FA. O uso de modelos de processos de negócio e de modelagem organizacional em metodologias ágeis: uma revisão sistemática da literatura. In: WER. 2019. Disponível em: http://www.inf.puc- rio.br/~wer/WERpapers/artigos/artigos_WER19/WER_2019_paper_32. pdf Acesso em: 22 out. 2020. ROCHA, Denys FS et al. Uma revisão sistemática sobre a educação do surdo em ambientes virtuais educacionais. In: Brazilian Symposium on Computers in Education (Simpósio Brasileiro de Informática na Educação-SBIE). 2014. p. 1263. Disponível em: https://br-ie.org/pub/index.php/sbie/article/view/3074 Acesso em: 15 nov. 2020. Apêndice 02 - Oficina de produção de memoriais acadêmicos http://www.inf.puc-rio.br/~wer/WERpapers/artigos/artigos_WER19/WER_2019_paper_32.pdf http://www.inf.puc-rio.br/~wer/WERpapers/artigos/artigos_WER19/WER_2019_paper_32.pdf http://www.inf.puc-rio.br/~wer/WERpapers/artigos/artigos_WER19/WER_2019_paper_32.pdf https://br-ie.org/pub/index.php/sbie/article/view/3074 38 Apêndice 03 - Escritos de Domingo Geopolíticas identitárias: Entre pudores e empoderamentos Ser de cima, ser do Norte, nem de longe significa estar acima. Antes, homens e mulheres dessa região são tidos como inferiores, feios, pobres, sujos, incivilizados, pouco inteligentes, preguiçosos, imorais e toda sorte de marginalidade e minoração. As epistemologias do Norte do Brasil são vistas pelos sulistas como limitadas, insuficientes e pseudocientíficas. Os modos de vida nortistas são tidos como exagerados e extravagantes. Consideram que nortistas falam muito, com muita gente, sobre tudo e com o uso de uma linguagem inapropriada à comunicação entre gentes civilizadas. A aceitação das pessoas do Norte ou a rejeição destas, às vezes, não se dá por seus modos de vida, mas pelos fenótipos e sobrenomes: se for loira, de olhos e cabelos claros e carregar um sobrenome de origem polonesa, alemã, italiana, pode ser extravagante e falar alto. Quanto às mulheres sulistas, a exemplo das de outras regiões que guardam muito conservadorismo, dão a impressão de serem muito pudoradas e pouco emponderadas. Quando em idade reprodutiva nunca pariram. Seus repertórios linguísticos só contemplam, em instância privada, a palavra parto. Nunca o fato de uma mulher parir uma criança. O Acre, estado de onde venho, é quente. O Inferno Verde, como descrito por Euclides da Cunha. O Paraná, especialmente Curitiba, é gelado em muitos aspectos para além do clima. Os vizinhos são muito gentis. Falam bom dia, abrem o elevador, juntam as moedas que deixamos cair por estar com as mãos carregadas de feira. Mais que isso, é desnecessário. Saber seu nome, como você está, qual o número de seu apartamento ou do que gosta é considerado invasão de privacidade. Os apartamentos são coisas chiques: têm água quente e fria nas torneiras. Isso acelerou bem meu reumatismo e a rinite dos meninos. Não conseguimos controlar o fluxo equilibrado de água quente e fria, e assim, ora nos queimamos, ora passamos frio. O piso tem carpê. Uma desgraça! “Faz a gente espirar prá caramba”. Nos cômodos que não têm carpê, tem uma madeira falsificada, que não se pode baldear nem passar um pano bem molhado. 39 As cortinas têm cor padrão. Não podem ser amarelas ou azuis. Fui advertida a retirá-las por estarem em desacordo com as cores padrão do prédio. Agora o sol adentra meu local de estudos. Ficou melhor ainda. O lixo produzido no apartamento? Ah esse é preciso rememorar bem as aulas de Química. É assim: Tem frasco para depositar todo tipo de lixo; do resto de “ bóia”ao papel higiênico usado. Isso me deu indícios de que o povo sulista, apesar de muito civilizado, também defeca. Os recipientes são identificados da seguinte maneira: orgânico, reciclável, sólido, liquido, gorduras, vidros, vidros quebrados, excrementos animais e assim, segue uma lista de elementos, cuja classificação e acomodação requerem cerca de trinta minutos para que não se incida em multas condominiais por desrespeito à natureza. O uso do elevador? Ah! Esse também é cheio de regras; - Não pode lotar demais! -Não pode apertar em muitos botões! - Não pode demorar segurando o elevador em seu andar! -Não pode transportar trabalhadores! -Não pode molhar! -Não pode sujar; - Não pode, não pode, não pode... Lavar e estender roupas também tem um ritual extenso: Economizar água, lavar entre as 08 e 17 horas, não estender em lugares visíveis e nunca deixar cair uma peça na sacada do vizinho. Para tomar água? Hum.... Tem alguns procedimentos a serem seguidos: Apronte de 13 a 18 reais Ligue para uma distribuidora e peça água informando se vai pagar em dinheiro ou cartão. Se for a dinheiro, informe com que valor pagará, para facilitar o troco. Receba a água na portaria. Entregador não pode subir. Após receber a água, passe álcool no frasco e no suporte em que esta será colocada. Economize até ter dinheiro de novo. Contudo, tome água todos os dias. E vamos que vamos! Isso é só uma questão de ajuste de geopolíticas identitárias. Mignolo ( 2008 ) e Quijano(2005) que nos digam. Curitiba, Domingo 25 de Outubro de 2020. . Quando Quando naquela noite me traístes,e chegastes de madrugada como se nada tivesse acontecido, meu coração comprimiu-se ao perceber que vagavas pela casa, hibridizando pensamentos, tropeçando palavras e desviando o olhar, numa clara denúncia de que tudo estava consumado. Quando na manhã seguinte senti que estavas feliz, que em tua roupa havia batom, que teus cabelos cheiravam a sexo e que em tua carteira, a grana que nunca fora muita, estava ainda menor, concluí que o pagamento das contas de luz, da Unimed e até da mercearia não aguardaria, porque não era como eu, que estava sempre à tua espera. Quando teu trabalho, teu lazer, tua fome, teu paladar, teu sono, teu tesão, teu amor e teus sonhos não estavam mais em interseção aos meus, quis ter ódio. Depois, percebi que tudo que te ocorria, em boa parte, ocorria também comigo. Quando então, a canção se fez silêncio, a noite se fez dia, o sono se fez insônia, o sonho se fez pesadelo, o riso se fez pranto e o sexo se fez dever, quis barbarizar. Depois, entendi que amor e a paixão são como fogão à lenha, requer disposição para lenhar a cada manhã e de acendê-los diuturnamente. Já não tínhamos mais essa disposição! Curitiba, Domingo, 18/04/21. 40 Pai, teu rico e contraditório legado Pai parte de ti foste. Parte de ti ficou Teu legado, rico e contraditório, está em mim todos os dias. Na fisionomia e personalidade de cada filho/a e neto/a Na confiança de que hoje será melhor que ontem, que ainda que o hoje esteja tão cinzento há de "miorá”. Na perseverança em manter as plantações, mesmo em solo tão ruim, pois, "zelano dá”. No cuidado com tuas ferramentas No sabor de cada doce Na escuta do teu Tião Carreiro e Pardinho No fogão à lenha tão fumacento, No tamborete portátil que, com tanto zelo, fizestes para eu sentar enquanto amamentava teus netos No cheiro forte do teu cigarro de palha No teu jeito rude de me acordar Não teu hábito de orar agradecendo a Deus antes das refeições Na tua definição de comunismo. Tu definias assim: “No cumunismo nada é teu! Tua muié não é tua, tuas ferramenta não é tua.” Ah que truncada e linda definição! A ti, meu sábio iletrado, eu perdôo. Aos ditos “cultos” que distorcem o que é o Comunismo, NÃO! Tua filha é quase pós-doutora, pai, e tu estás vivo em mim. Curitiba, Domingo, 22 de Novembro de 2021. Quero minha vida de volta! Nesse tempo de pandemia, não tive Covid, mas tenho sintomas terríveis. São comuns sonolências diurnas e insônias noturnas Durante as insônias, muita fome. Parece que há um liquidificador ligado 24 horas no meu estômago Dores no corpo, ardência nos olhos, dores de cabeça constantes. Meu e-mail e wattsapp viraram obituários e minha mente um poço de medo e insegurança Saudades, saudades, saudades da família, dos amigos e dos alunos O trabalho virtual expropriou-me de muitos dos meus saberes e retirou-me a alegria da partilha e do diálogo presencial Tenho que lidar com muitas perdas e dores Tudo isso me faz muito mal. Meu corpo cansa e minha alma geme. Sinto-me um robô ambulante. Quero minha vida de volta!!! Curitiba, Domingo, 24 de Janeiro de 2021. 41 Traços de machismo Procuro os traços de machismo deixados na memória Eles estão onde nossa consciência não nos permitia ver Pode estar no marido bonzinho, mas não companheiro. Na crítica à maquiagem, dita por ele de puta, e ao colar artesanal classificado como parecido com coisa de mãe de santo, mas que só revelava o ciúme do macho inseguro. Nas grades de cervejas compradas aos domingos e do refrigerante que não chegava porque não agradava ao paladar do “chefe da família”. Então, mulher e enteados que tomassem água! Nas falas que objetificavam a mulher tipo: Quando eu ficar famoso e tiver dinheiro vou te recauchutar toda. Tá com dor de cabeça? Deixa eu te comer que passa! Mulher não entende de futebol! Melhor ficar em casa com as crianças. Por tudo isso, me nego a ter que parecer homem para me afirmar como mulher. Recuso descrições de mulheres fortes que se alinham com: Preferir conversar e estar com os homens; estar na rua em detrimento da casa ou ter que ter pau para bater na mesa se quiser assumir cargos de liderança. Concordo com Boaventura Souza Santos: “Temos o direito de ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza; e temos o direito a ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença que não produza, alimente ou reproduza as desigualdades.”. Curitiba, Domingo, 07 de março de 2021. Unidade dos contrários em um tempo estranho Que tempo estranho é esse em que: Algumas pessoas têm carros que mofam na garagem por não poder sair de casa, enquanto outras se arriscam e saem de bicicleta para entregar alimentos às que ficam em casa As roupas de alguns ficam perdidas, pois engordaram muito com a pandemia, enquanto outros as perdem em alagações A correria do dia a dia virou marasmo khronos, tempo de natureza quantitativa cedeu lugar ao Kairós, tempo qualitativo e oportuno para a reflexão demorada O debate presencial virou live e chat O batom cedeu lugar à máscara O álcool, antes do vinho, reduziu- se ao do gel, e a morte virou números! Nesse tempo, unidade dos contrários cabe bem. Procuro saber de cada amigo, de cada familiar, de cada irmão o que nos une, mesmo pensando de modo contrário? O que pode nos fortalecer? Em que somos unitários? Seu partido, seu time, sua religião, talvez sejam diferentes, mas você é igualzinho a mim. Somos feitos da mesma matéria! No fim da estrada, chegaremos ao mesmo lugar. Então... caminhemos em unidade de contrários. Curitiba, domingo, 14 de Maço de 2021. 42 Em comum união com Jesus Passei 50 anos de minha vida sem cear Pior dia era domingo de ceia. Fugia das igrejas. Como poderia uma mulher não batizada nas águas, amasiada, adúltera cear? Muito tempo depois, quando meu relacionamento já estava bem desgastado, paguei uma advogada para me representar junto a um juiz que reconheceu minha união estável e me divorciou. Que contradição! Deixei por um curto espaço de tempo de ser pecadora (mulher amasiada) para voltar a ser pecadora (mulher divorciada). Um dia, ouvi um sermão proferido por um ministro do evangelho, desses pecadores como todos os humanos, mas sábio e fundamentado na Bíblia, que expunha a condição necessária para se participar da ceia. Eu já havia ouvido coisas parecidas muitas vezes, mas naquele dia, comer o corpo de Cristo e tomar seu sangue me pareceu ser tudo que fiz a vida inteira. Entendi- me em comunhão/comum união com Jesus e comi o pão e bebi o vinho naquela simbologia linda. Daquele dia para frente nada mais me impede de cear todas as vezes que me sinto em comum união com Jesus. Hoje é domingo de ceia na minha vida. Estou em isolamento social por conta do Covid 19, mas no silêncio de minha casa “tomo e bebo do vinho” em memória do sacrifício de Jesus por mim. Curitiba, Domingo, 14 de Março de 2021. O reencontro dos carpinteiros Ontem pus-me a recordar a casa de sala redonda de outrora O velho pai carpinteiro que zanzava pelo terreiro arrastando seu chinelo, juntou-se a outro carpinteiro em 2014 A mãe, criatura das flores, está feliz. Dedica-se agora a outro jardim. Meus filhos, já crescidos, divertem-se com as tecnologias E eu rememoro Cada árvore plantada ou mesmo derrubada para dar lugar a outras O forno e o fogão à lenha fumaçando e exalando cheiro de comida A família chegando para o almoço de domingo Os sucos de fruta fresca As mangas e abacates madurinhos caindo com o vento A chuva forte alagando a grama O amanhecer silencioso O entardecer solitário A noite de lua cheia a clarear tudo ao redor Os latidos dos cachorros e as buzinas na porteira anunciando que chegaram amigos As músicas ao violão do companheiro na varanda Pensei no quanto tudo isso foi reconfigurado Minhas lembrançasquase não reconhecem mais aquele lugar Sinto que é hora de retornar! Colocarei uma rede na varanda, fecharei os olhos e deixarei todas as lembranças voltarem. Depois, se tiver vaga para mais uma carpinteira, não me importarei de juntar- me aos carpinteiros mais experientes para uma bela construção/desconstrução. A caixa de ferramenta 43 continua na despensa. O martelo, o serrote e os pregos, embora enferrujados, se limparmos, funcionam! Enquanto isso, celebro a vida porque ela “é bonita, é bonita e é bonita.” (Gonzaguinha- “ O que é o que é”). Curitiba, Domingo 02 de Maio de 2021, meu aniversário! E agora professora pós-doutora! Como fica sua carreira? Em tempos de um governo epistemicída, que nega a universidade pública, os sujeitos que a constroem e a ciência que nela é produzida, me pergunto: Como fica minha carreira profissional? Como estão as carreiras dos professores da rede federal de educação? Para aonde correm? A que e quem ainda podem recorrer? É impossível desconsiderar o investimento que um professor universitário faz em sua formação e qualificação profissional. Trata-se de no mínimo de 23 anos de vínculo com as instituições formais de ensino. Significa 12 anos de educação básica; quatro anos de ensino superior; e uma média de sete anos de pós-graduação investidos em cursos de mestrado e doutorado. Esse tempo pode ser acrescido de Estágios Pós- Doutorais e cursos de formação continuada. Essa trajetória de formação é em geral realizada simultaneamente às atividades profissionais, aumentando, desse modo, os desafios dos docentes em seus processos de desenvolvimento profissional. Mas é preciso pensar que no decorrer e, especialmente, na conclusão da formação de pós-graduação, o docente dê continuidade a carreira para a qual se qualificou. Permita-me reproduzir um diálogo muito frequente na trajetória profissional de professores universitários: “Oi professora”? Terminastes o doutorado ou o pós-doutorado? Sim terminei os dois! Pretendo desenvolver bons trabalhos tanto no ensino como na pesquisa e na extensão. Quero montar um grupo de estudos e pesquisa potente! Você gostaria de participar? Agradeço, mas não vai dar! Estou tentando formar meu próprio grupo de pesquisa. Temos que ter projetos individuais. Do contrário não há como registrar carga horária em nossos planos de atividade. Olha! Cuide de entrar logo com teu pedido de progressão funcional por titulação. Farei isto! Poderia me dizer em quanto aumentará meu salário? Risos!!! Olha não é muito. Algo em torno do valor da bolsa de estudos de 44 doutorado, na verdade não alterará muito. Não fará diferença. Não te esqueças de ir reunindo documentos comprobatórios de toda atividade que fizeres, pois daqui dois anos, quando fores solicitar progressão, tens que comprovar tudo. Ah! Fique atenta aos editais de PIBIC, PIBID, PIVID, PIBIRD, PET e todos os outros que o MEC lançar, pois, do contrário, não terás progressão, e ainda serás lotada em quatro disciplinas por semestre, o que te exigirá um investimento de energias físicas e psíquicas intenso conduzindo-te a um processo de exaustão e adoecimento. Alimente teu currículo lattes. Tente produzir o quanto puderes. Só tem uma coisa: não adianta solicitar às instâncias administrativas passagens, diárias ou reembolso de valores gastos com inscrições e participações em eventos científicos de tua área. Arque com tudo! Se não fizeres isso nunca serás professora de pós-graduação. Aliás, teu Centro nem terá cursos de pós-graduação aprovados pelo MEC. Outra dica importante: Entre em muitas comissões, colegiados, conselhos. Não tanto pelo valor da participação colegiada, do respeito aos princípios da democracia, autonomia ou coisa do tipo, pois isto está em extinção, mas para computar carga horária! Acompanhe os prazos, faça todos os relatórios e fique atenta às avaliações, pois tudo isso será cobrado. Se não estás gostando das orientações que estou te dando, fique de olho em editais de concursos e comece a pensar na possibilidade de pedir demissão ou de aposentar proporcionalmente. Cancela teu plano de saúde da UNIMED, que, além de não atender as nossas necessidades, é muito caro e vai para a GEAP. Se puderes, faça também, um seguro de vida e um seguro funeral. Mas se não couber em teu orçamento deixa pra lá. Na morte sempre se dá um jeito. Mas por favor, não vá comprar uma corda depois dessa nossa conversa e se enforcar. Perdoem se o final do enredo foi demasiado pessimista. Podemos escrever outro bradando que não queremos pagar a conta pelo desmonte das universidades e da carreira docente e alimentar a utopia necessária para reconstruirmos nossas carreiras em outra direção. Como dizia Paulo Freire em seu poema “Canção Óbvia”, o nosso “tempo de espera não pode ser um tempo de espera vã, mas um tempo de que fazer.” Continuemos fazendo ciência e poesia nos entre-lugares da vida enquanto 45 esperançamos que a conjuntura mude. Apêndice 4- Educação e diversidade no Acre 46 47 ANEXOS 48 Anexo 01- Declaração XIII ANPED SUL 49 Anexo 02- Declaração NUPECAMP UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ-UFPR PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO – PPGE “A FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES DOS CAMPOS, FLORESTAS E ÁGUAS NAS AMAZÔNIAS BRASILEIRA: UMA ANÁLISE DAS CONCEPÇÕES DE CURRÍCULO QUE OS ORIENTAM” Relatório de Estágio Pós-Doutoral apresentado ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Paraná – UFPR. Supervisor: Professor Dr. Paulo Vinícius Baptista da Silva Curitiba 2021 LISTA DE SIGLAS MEC Ministério da Educação SECAD Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade SECADI Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão CGED Coordenação Geral de Educação do Campo SECAD Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade PPC Projetos Pedagógicos Curriculares SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO..................................................................................................... 4 1.1 PROBLEMA DE PESQUISA E AS QUESTÕES DE ESTUDO........................ 5 2 CURRÍCULO DE FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES DO CAMPO: UMA REVISÃO DA LITERATURA PARA NÃO “REINVENTAR A RODA”................................................................................................................... 7 2.1 SITUANDO A PESQUISA.................................................................................. 7 2.2 OS PROCEDIMENTOS DA PESQUISA............................................................ 9 2.3 O CURRÍCULO, O QUE É?................................................................................ 10 2.4 APRESENTAÇÃO DOS ARTIGOS MAPEADOS............................................ 19 2.5 ANÁLISE DE ARTIGOS.................................................................................... 24 2.5.1 EM SÍNTESE..................................................................................................... 27 3 TESES E DISSERTAÇÕES SOBRE EDUCAÇÃO DO CAMPO DEFENDIDAS NOS PROGRAMAS DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO DA REGIÃO NORTE (2014-2020)................................................. 29 3.1 COM QUEM E POR QUEM JUNTAMOS NOSSAS VOZES........................... 29 3.2 OS PPGES DO NORTE E SUAS PRODUÇÕES SOBRE CURRÍCULO DE FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES DO CAMPO..................................... 31 3.3 EM RESPOSTA A QUESTÃO CENTRALDA SEÇÃO: APROXIMAÇÕES CONCLUSIVAS........................................................................................................ 40 4 CONCEPÇÕES DE CURRÍCULO EXPRESAS NOS PROJETOS PEDAGÓGICOS DE FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES DO CAMPO DA/NA REGIÃO NORTE........................................................................ 45 4.1 SITUANDO A TEMÁTICA............................................................................... 45 4.2 PRINCÍPIOS, CONCEITOS E REFERÊNCIAS TEÓRICAS QUE FUNDAMENTAM AS CONCEPÇÕES DE CURRÍCULO NOS PPC................... 49 4.3 OUTROS ELEMENTOS ACRESCIDOS AOS PPC............................................................................................................................. 54 4.4 EM SÍNTESE....................................................................................................... 61 5.CONCLUSÃO........................................................................................................ 65 REFERÊNCIAS........................................................................................................ 72 4 1 INTRODUÇÃO Esta pesquisa tem como objetivo analisar as concepções de Currículo de Formação Inicial de Professores do Campo que orientam os Projetos Pedagógicos dos Cursos de Licenciatura oferecidos por universidades federais da região Norte do Brasil. A considerarmos necessária na medida em que a população brasileira vive uma conjuntura de negação da universidade e da ciência que nela é produzida. Situação que requer daqueles que trabalham, estudam, pesquisam e militam nessa instituição, uma postura crítica e resistente. Nesse sentido, na condição de professora que assume essas atribuições na Universidade Federal do Acre (UFAC) apresentamos nesse relatório o que fazem as universidades públicas federais da região Norte do Brasil em termos de Pesquisas e Construção de Currículos de Formação Inicial de Professores do Campo. Esperamos contribuir para a análise das concepções de currículo de formação inicial de professores do campo expressas em artigos acadêmicos, teses, dissertações e Projetos Pedagógicos Curriculares (PPC). O relatório é parte de nossas produções durante o Estágio Pós-doutoral realizado junto ao Programa de Pós Graduação em Educação da UFPR que se constitui em uma das universidades parceiras na efetivação do Programa Nacional de Cooperação Acadêmica na Amazônia (PROCAD/Amazônia). Programa este que tem por objetivo apoiar projetos conjuntos de ensino e pesquisa de três Universidades Federais: Universidade Federal do Acre (UFAC), Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Universidade Federal do Pará (UFPA) no aprimoramento da formação pós-graduada de seus quadros profissionais, visando à melhoria da qualidade dos Programas de Pós Graduação (PPG) a partir de ações conjuntas entre instituições parceiras de modo a contribuir para a diminuição das assimetrias regionais observadas no Sistema Nacional de Pós-Graduação (SNPG), conforme diretrizes do Plano Nacional de Pós-Graduação (PNPG) 2011-2020. Consideramos importante registrar, especialmente em tempos de cortes de financiamentos para subsidiar pesquisas no campo das ciências humanas, que este estudo contou com financiamento parcial da Capes em forma de bolsas de estudos e passagens áreas, auxílio fundamental para o alcance de sua realização. A pesquisa foi supervisionada pelo professor Paulo Vinícius Baptista da Silva e está vinculada ao Projeto de Internacionalização da UFPR "Relações de Poder, Assimetrias e Direitos Humanos" no CAPES-PRINT que privilegia a análise das múltiplas relações de poder e das assimetrias sociais, tendo ou não a figura do Estado como referência. 5 A pesquisa representa também a continuidade de nossos estudos realizados junto ao Grupo de Estudos e Pesquisas em Trabalho Docente e Desenvolvimento Profissional com sede na UFAC e cadastro no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq/Brasil, coordenado pelas professoras Elizabeth Miranda de Lima e Franciana Carneiro de Castro, ao qual nos vinculamos como pesquisadora. 1.1 PROBLEMAS DE PESQUISA E AS QUESTÕES DE ESTUDO O problema de pesquisa que move esse estudo é: quais as concepções de Currículo de Formação Inicial de Professores do Campo que orientam os Projetos Pedagógicos dos Cursos de Licenciatura oferecidos por universidade federais da região Norte do Brasil? Para nos aproximarmos da resposta a esse problema, elaboramos quatro questões de estudo: - Qual a produção científica sobre “currículo”, “educação do campo” e “formação inicial de professores do campo” expressa em artigos científicos, teses, dissertações e Projetos Político Pedagógicos de cursos de formação inicial de professores do campo produzidos na região Norte do Brasil. - Quantas e quais são as universidades federais da região Norte que oferecem cursos de Formação Inicial de Professores do Campo? - Quais são as principais referências teóricas, conceitos e princípios que fundamentam os PPC? O objetivo geral do estudo consiste em analisar as concepções de educação do campo expressas em artigos, teses, dissertações e Projetos Político Pedagógicos de cursos de formação inicial de professores do campo produzidos na região Norte do Brasil e seu foco se dá em quatro elementos: - O nível da formação (formação inicial); - Os sujeitos atendidos pela formação (professores); - O lócus (Campo e na Região Norte); - As instituições (Universidades Federais da região Norte). Considerando que a realização da pesquisa se deu em um quadro de pandemia da Covid-19, que assolou o mundo em 2020, continuando em 2021, optamos pela pesquisa bibliográfica e documental em que os procedimentos não foram uniformes. As seções receberam tratamentos metodológicos diferenciados e descritos no corpo introdutório de cada uma delas. No geral tentamos nos aproximar de uma pesquisa do tipo Estado da Arte. 6 A coleta de dados foi realizada mediante o uso de fontes advindas de plataformas virtuais. Recorremos ao Banco de Periódicos da Capes para recolher artigos sobre “Currículo” e “Educação do Campo” publicados no período de 2010 a 2020, aos sites de Programas de Pós- graduação em Educação da região Norte para localizar teses e dissertações que discorrem sobre o tema bem como, para acessar os PPC de cursos de Licenciatura em Educação do Campo ou cursos afins para identificação e análise das concepções de currículo neles expressas. Para o alcance do objetivo traçado fizemos os seguintes movimentos: 1) Mapeamento junto ao Portal de Periódicos da Capes de artigos, tomando como descritores de busca “Currículo” e “Educação do Campo”. 2) Mapeamento junto aos sites dos Programas de Pós- graduação em Educação da região Norte de teses e dissertações sobre “educação do campo” e “formação inicial de professores do campo” e 3) Busca também nos sites das universidades lócus do estudo (UFAC, UFAM, UNIR, UFRR, UPPR, UFAP e UFT) de Projetos Pedagógicos Curriculares de Cursos de formação inicial de professores do Campo. Todas as fontes foram mapeadas, descritas e analisadas. O texto está estruturado em três seções. A primeira seção traz uma retomada das teorias que têm servido de aporte para as concepções de currículo, seguida do mapeamento, descrição e análise da produção científica sobre formação inicial de professores do campo expressa em artigos acadêmicos publicados em periódicos da Capes, no período de 2010 a 2020. A segunda seção apresenta e analisa o resultado de um mapeamento de teses e dissertações sobre “Currículo” e “Educação do Campo”, com foco prioritário na Formação Inicial de Professores do Campo, produzidas nos programas de pós-graduação em Educação das Universidades Federais da região Norte do Brasil, defendidas entre 2014 e 2020. A terceira e última seção apresenta o mapeamento dos ProjetosPedagógicos do Curso de Formação Inicial de Professores do Campo oferecidos por universidade Federais da região Norte com vistas a identificar quantas e quais são as universidades que oferecem esse tipo de curso, a fim de análise das concepções de currículo que os orientam. Por fim, trazemos as principais conclusões a que chegamos com o presente estudo, algumas proposições e os apêndices e anexos que consideramos relevantes para a composição desse relatório de pesquisa. 7 2 CURRÍCULO DE FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES DO CAMPO: UMA REVISÃO DA LITERATURA PARA NÃO “REINVENTAR A RODA” O currículo nunca é apenas um conjunto neutro de conhecimentos, que de algum modo aparece nos textos e nas salas de aula de uma nação. Ele é sempre parte de uma tradição seletiva, resultado da seleção de alguém, da visão de algum grupo acerca do que seja conhecimento legítimo. (APLLE, 1999, p. 59) 2.1 SITUANDO A PESQUISA Nessa primeira seção fazemos uma retomada das teorias que tem servido de aporte para as concepções de currículos, seguida do mapeamento, descrição e análise da produção científica sobre formação inicial de professores do campo expressa em artigos acadêmicos publicados em periódicos da Capes, no período de 2010 a 2020. A inclusão da Educação do Campo nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Básica deu-se por meio da Resolução n. 4, de 13 de julho de 2010, e do Decreto Presidencial n. 7.352, de 4 de novembro de 2010, que institucionalizaram o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera) como instrumento de implantação de políticas de Educação do Campo. Essas bases constituem um importante marco legal para o avanço no cenário das políticas públicas educacionais. No entanto, uma década depois, faz- se necessária a realização de pesquisas que analisem o alcance dessas políticas em termos de produção teórica sobre currículos de formação inicial de professores do campo, ação a que nos propomos a debruçar na revisão de literatura apresentada nesta seção. Conforme Mazzotti (2012), a revisão de literatura é fundamental para aqueles que pretendem realizar estudos e produzir novos conhecimentos ou, ainda, ressignificar os já existentes. Além disso, serve para que pesquisadores que desconhecem a existência de outros estudos sobre um mesmo objeto não pensem que estão inaugurando um campo de estudo. Nesse sentido, não nos propomos a “reinventar a roda” dos currículos de formação inicial de professores do campo, mas a contribuir para nela “colocarmos mais um raio, tornando-a mais resistente”. O exame da obra Educação das Relações Étnico-Raciais: o Estado da Arte organizada por Silva, Regis e Miranda (2018) também foi fundamental para a elaboração desse estudo por se tratar de um trabalho que apresenta uma ampla síntese do conhecimento produzido no Brasil sobre Educação das Relações Étnico-Raciais (ERER). Embora tomando como objeto de estudo uma temática diferente da que trabalhamos do ponto de vista metodológico se 8 constituiu em uma importante referência sobre essa modalidade de pesquisa. Admitimos que nossa maturidade intelectual não foi suficiente para o mesmo alcance em termos de qualidade metodológica que os pesquisadores citados mostraram. No entanto, a pesquisa por eles realizada nos inspirou e fortalece o valor científico que pesquisas voltadas às revisões sistemáticas de literatura possuem. Em vista disso, a revisão sistemática de literatura concernente a uma pesquisa está a serviço do problema e do objetivo que a impulsiona. Tendo como objetivo de pesquisa analisar as concepções de currículo de formação inicial de professores do campo expressas em artigos científicos publicados no período de 2010 a 2020, presentes no Portal de Periódicos da Capes, realizamos dois movimentos distintos para a revisão da literatura concernente a esse estudo. No primeiro movimento, tentamos fazer uso da ferramenta State of the Art through Systematic Review (StArt) – um gerenciador de revisão sistemática, desenvolvido pelo Laboratório de Pesquisa em Engenharia de Software (LaPES) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) –, que objetiva auxiliar pesquisadores em processos de Revisão Sistemática de Literatura (RSL) e possui três etapas: planejamento, execução e sumarização: Na etapa de Planejamento, pretende-se definir um Protocolo que contenha todas as informações e os procedimentos necessários à execução das etapas seguintes. Exemplos de informações e procedimentos necessários são: a pergunta de pesquisa, as palavras-chave, os motores de busca e os critérios de inclusão e exclusão de estudos. Na etapa de Execução, três etapas devem ser realizadas: a Identificação dos Estudos nos buscadores definidos no Protocolo, a Seleção desses estudos, com base nos critérios de inclusão e exclusão, e a Extração dos dados dos estudos selecionados. Na etapa de Sumarização, os dados extraídos dos estudos são analisados e sumarizados visando responder à questão de pesquisa definida no Protocolo (HERNANDES et al. 2012, p. 2). O uso dessa ferramenta apresentou-nos alguns desafios, tais como: dificuldades para baixar o programa, por ser incompatível com o sistema operacional do computador utilizado; resistência de compreensão do protocolo de pesquisa, por apresentar muitos termos técnicos, próprios das tecnologias digitais; e problemas na conversão de arquivos para BibTex. Ao se considerar os desafios citados, decidimos fazer um segundo movimento de revisão da literatura percorrendo o caminho que nos pareceu mais compatível com nossas habilidades com as tecnologias digitais e com os objetivos da pesquisa. Até onde percorremos, avaliamos – correndo o risco de estarmos equivocados – que a ferramenta, embora produzida por uma universidade pública brasileira, a UFSCar, consiste em um 9 instrumento de colonização, posto que se exige o domínio de termos técnicos para o preenchimento do protocolo de pesquisa. Nesse caso, o formulário padronizado ajusta-se melhor às áreas médicas e tecnológicas e produz resultados objetivos. Dessa forma, por compreendermos que a produção do conhecimento é constituída por atos intencionais e singulares, realizada por seres históricos, sociais, engajados politicamente e, por isso mesmo, concretos e reais, o percurso de uma investigação e a definição dos caminhos metodológicos estão intimamente vinculados às vivências e às condições materiais de existência que influenciam na escolha metodológica do pesquisador, com as habilidades cognitivas que lhe são possíveis no momento. Assim, seja para definir as ferramentas utilizadas, seja no desenho das etapas de realização da pesquisa – desde o levantamento de dados –, seja no processo de sistematização da produção científica, seja, ainda, na sistematização e na análise dos dados, as escolhas não são aleatórias. Com essas justificativas, optamos por não utilizar a ferramenta StArt e realizamos a revisão da literatura conforme descrito na seção seguinte. No entanto, não descartamos a utilização da ferramenta em pesquisas futuras, em momentos mais oportunos, sobretudo em função do distanciamento social imposto pela pandemia do Covid-19, que não nos possibilitou uma assessoria mais aproximada. Ao mesmo tempo, indicamos a StArt aos pesquisadores que já têm o domínio dessa tecnologia, ou que agreguem as condições para tal, especialmente àqueles com habilidades para o uso das tecnologias e mais afeitos ao khronos, tempo de natureza quantitativa, e menos afeiçoados ao Kairós, tempo qualitativo e oportuno para a reflexão demorada, conforme nos relembra Ponce (2016). 2.2 OS PROCEDIMENTOS DA PESQUISA Após decidirmos por não usar a ferramenta StArt para a revisão da literatura, definimos um novo processo que teve início com o acesso ao Portal de Periódicos da Capes para mapear artigos sobre “Currículo” e “Educaçãodo Campo”. A plataforma nos indicou 87 artigos sobre o tema, na interseção com: currículo oculto; luta por trabalho e terra; movimentos sociais do campo; identidades; desenvolvimento sustentável; meio ambiente; cidadania; diversidade linguística; formação continuada de professores; educação matemática; etnomatemática; conhecimentos etnobiológicos; ensino dos componentes curriculares da Educação Básica; educação de jovens e adultos; estágios supervisionados; gestão escolar; pedagogia da alternância; classes multisseriadas; e 10 intensificação do trabalho docente. Contudo, considerando o objeto, o foco, o problema e o objetivo da pesquisa, elegemos para análise os seguintes critérios de inclusão: 1. artigos sobre currículos de formação inicial de professores do campo voltadas à região Norte do Brasil; 2. artigos produzidos no intervalo de tempo de 2010-2020; 3. artigos que tratam de movimentos por construções curriculares para o Ensino Superior no campo. Como critérios de exclusão, definimos: 1. artigos que resultem de estudos de natureza prioritariamente quantitativa; 2. artigos não avaliados por pares; 3. artigos com insipiente descrição metodológica. Uma vez aplicados os critérios de inclusão e de exclusão, com base em elementos que envolvem lócus, nível de formação, marco temporal, foco e natureza da pesquisa, chegamos a duas produções, visto que a maioria dos artigos localizados tinha como lócus a escola de Educação Básica e não a de Ensino Superior. Alguns contemplavam o Ensino Superior, mas não a região Norte, enquanto em outras produções ocorria o contrário. Resolvemos, então, aumentar os critérios de inclusão ampliando para pesquisas sobre o mesmo objeto de estudo em todas as regiões do Brasil; que, no entanto, tivessem como foco conceitos e categorias que contribuíssem para responder ao problema de pesquisa levantado, qual seja: saber quais concepções de Currículo orientam a produção científica sobre a formação inicial de professores do campo, expressa em artigos acadêmicos publicados no período de 2010-2020. Concepções expressam-se, principalmente, em teorias e princípios. Assim, decidimos por incluir artigos que, embora não fossem voltados ao Ensino Superior, contemplassem análises sobre teorias, princípios e conceitos que orientam os currículos voltados à Educação do Campo, independentemente do nível da formação pretendida. Realizada essa ampliação dos critérios de inclusão, chegamos aos artigos que apresentaremos na subseção 1.3. Porém, consideramos importante trazer antes, uma retomada das teorias que têm servido de aporte para as concepções de currículos. 2.3 O CURRÍCULO, O QUE É? E a vida? E a vida o que é, diga lá, meu irmão? Ela é a batida de um coração? Ela é uma doce ilusão? Mas e a vida? Ela é maravilha ou é sofrimento? Ela é alegria ou lamento? O que é? O que é meu irmão? 11 Há quem fale que a vida da gente é um nada no mundo, É uma gota, é um tempo que nem dá um segundo, Há quem fale que é um divino mistério profundo, É o sopro do criador numa atitude repleta de amor. Você diz que é luta e prazer, Ele diz que a vida é viver. “O que é o que é”, GONZAGUINHA. Tal como Gonzaguinha que na canção “O que é o que é” toma a vida como objeto de reflexão e conclui que ela pode ser definida de muitos modos a depender dos sujeitos que a conceituam e das relações que com ela estabelecem. Assim, tomamos o currículo e dizemos que sua conceituação depende das teorias e concepções que o fundamentam. Concepções por seu lado, são construídas a partir de princípios devidamente pensados e articulados. Não há uma única definição do que seja currículo uma vez que sua definição depende das bases teóricas usadas para tal fim. O currículo, ao longo de sua constituição como campo de conhecimento, apropriou-se de contribuições teóricas e metodológicas de outras áreas de conhecimento. De acordo com Pacheco e Pereira (2007), essas áreas incluem a Filosofia, Sociologia, a Psicologia e a História. Conforme os autores, esses contribibuições trazem ao campo do currículo um hibridismo epistemológico “[...] originando diversas e contraditórias fronteiras disciplinares que lançam sobre o actual debate muitos desafios e muitas incertezas” (PACHECO; PEREIRA, 2007, p. 199). O fato de se poder compreender o currículo a partir de múltiplos campos e concepções permite a utilização de diversos referenciais teóricos, razão pela qual, “[...] qualquer teorização não representa mais do que um caminho possível de inteligibilização da realidade ligada a processos e práticas de educação e formação” (PACHECO, 2007, p. 205). As teorias e concepções curriculares são ou deveriam ser formuladas como parte das respostas que as sociedades, em determinados tempos históricos dão às demandas postas pela formação dos sujeitos que a compõe. Assim, em cada tempo e contexto histórico são formuladas concepções curriculares que assumem diferentes configurações de acordo com as teorias que lhes fornecem elementos de análise. As teorias tradicionais de educação, por exemplo, formuladas em meados do século XX sob a vertente positivista não tiveram e continuam a não ter preocupações com transformações sociais. Antes defendem a manutenção legitimando as reproduções sociais. Ingenuamente defendem uma concepção de formação humana para a vida harmônica dos homens em uma sociedade supostamente também harmônica. Como se não existisse a sociedade capitalista como elemento de divisão entre os homens em classes distintas em que 12 uma classe detêm os meios de produção e exploram a força de trabalho daquela que não detêm, gerando relações de dominação e opressão. Dentre os princípios que estruturam essa concepção teórica e as formulações curriculares nela inspiradas não estão contempladas as relações entre educação e sociedade. As teorias tradicionais de currículo, herdeiras de perspectivas liberais de educação, não se ocuparam, por exemplo, com as questões ideológicas, de poder e resistência envoltas nas concepções de currículo. Diferentemente das teorias tradicionais de educação as teorias críticas partem do princípio de que as relações entre educação e sociedade precisam ser transformadas para mudar as condições de dominação, opressão, colonização e outras formas de marginalização e exclusão. Ganha destaque na concepção dessas teorias os estudos dos educadores brasileiros Dermeval Saviani e Paulo Freire. Para Dermeval Saviani, formulador da Pedagogia Histórico-Crítica, A tarefa da construção de uma pedagogia inspirada no marxismo implica a apreensão da concepção de fundo [de ordem ontológica, epistemológica e metodológica] que caracteriza o materialismo histórico. Imbuído dessa concepção, trata-se de penetrar no interior dos processos pedagógicos, reconstruindo suas características objetivas e formulando as diretrizes pedagógicas que possibilitarão a reorganização do trabalho educativo sob os aspectos das finalidades e objetivos da educação, das instituições formadoras, dos agentes educativos, dos conteúdos curriculares e dos procedimentos pedagógico-didáticos que movimentarão um novo éthos educativo voltado à construção de uma nova sociedade, uma nova cultura, um novo homem. (SAVIANI, 2012, p. 81) Sendo esta a Pedagogia defendida por Saviani (2012), ela depende de um currículo que esteja em conformidade com ela: Para a pedagogia histórico-crítica, o currículo escolar é uma unidade de conteúdo e forma. Assim, as relações entre a concepção de currículo na obra de Dermeval Saviani e a categoria de liberdade na tradição marxista mostram-se também nas ideias que esse educador defende acerca das formas de se ensinar e se aprender o saber sistematizado. Esse é um ponto, aliás, no qual a pedagogia histórico-crítica tem sido injustamente alvo de muitas acusações, especialmente dos educadores alinhados às “pedagogiasdo aprender a aprender”24, que tendem a considerar que a pedagogia histórico- crítica opta pelas formas tradicionais de ensino em detrimento de forma que valorizam a liberdade do aluno (GAMA; DUARTE, 2017, p. 527). Com essa concepção marxista de Pedagogia e Currículo Saviani acredita na construção de uma educação que esteja a serviço de um projeto democrático de formação dos homens pelo acesso aos conhecimentos críticos e historicamente contextualizados capazes de contribuir para a construção de uma nova sociedade, uma nova cultura e um novo ser humano. 13 Paulo Freire, com a formulação de sua Pedagogia do Oprimido, corroborada por autores como: Caldart (1997, 2004), Arroyo (2017), Molina (2011, 2015), Hage (2014, 2016) e Souza (2018) trazem importantes contribuições para a elaboração de teorias educacionais que alimentam concepções de currículo, especialmente o currículo da educação do campo. Guardada as singularidades conceituais entre as formulações teóricas desses autores, em termos gerais podemos classificá-los como representantes de concepções críticas que assumem perspectivas libertadoras de educação pelo caminho da conscientização e emancipação humana advindas do diálogo entre os homens, dos movimentos sociais, das lutas e resistências que forjam para a transformação do mundo. Freire (1981;1999) em suas obras Pedagogia do Oprimido e a Educação como prática de liberdade respectivamente apresenta conceitos como: Contextualização, dialogicidade e liberdade, que se constituem em princípios imprescindíveis para a concepção de currículos comprometidos com a formação dos oprimidos, aqueles a que Arroyo (2012 e 2019) adverte necessitarem de outras pedagogias posto que são vidas ameaçadas socialmente e que Caldart (1994; 2004 ) acredita construtores de uma Pedagogia e um Currículo do Movimento dos Sem Terra que se faz sob chaves teóricas e metodológicas com intencionalidades próprias a currículos voltados à transformação social ao se considerar que estes podem ser construidos nas escolas, mas também, em outros espaços, como por exemplo os movimentos sociais. Em termos de teorias formuladas por autores da América Latina, para além dos já citados e que trazem potencialidades às análises das concepções de currículos do campo, destacamos as importantes contribuições de Aníbal Quijano, sociólogo humanista que cunhou o conceito de “colonialidade do poder”. Seus estudos têm sido influentes nas formulações de currículos fundamentados em concepções que visam descolonizar o currículo pelo desvelamento da existência de colonialidades do poder e do eurocentrismo que se expressam de diferentes modos nos componentes curriculares. Por exemplo, na História e Literatura que se ensina nas escolas ao se privilegiar elementos eurocêntricos que funcionam como marcadores de identidades geopolíticas. Por que se ensinar, no Brasil, especialmente no Acre, estado localizado na tríplice fronteira com Bolívia e Peru, a Língua Espanhola a partir de obras musicais, literárias e cinematográficas produzidas por autores espanhóis e não bolivianos ou peruanos? Avaliamos ter-se nessa ação uma atitude colonizadora que afirma a identidade dos espanhóis e nega ou silencia a dos peruanos e bolivianos. O pensamento decolonial tem origem nas elaborações teóricas do grupo Modernidade/ Colonialidade (OLIVEIRA, CANDAU, 2010). O grupo é formado de modo heterogêneo e transdisciplinar por pesquisadores em sua maioria da América Latina. Os principais teóricos 14 desse grupo são: [...] o filósofo argentino Enrique Dussel, o sociólogo peruano Aníbal Quijano, o semiólogo e teórico cultural argentino-norte-americano Walter Mignolo, o sociólogo porto-riquenho Ramón Grosfoguel, a linguista norte-americana radicada no Equador Catherine Walsh, o filósofo porto-riquenho Nelson Maldonado Torres, o antropólogo colombiano Arturo Escobar, entre outros. Cabe ressaltar que esse grupo mantém diálogos e atividades acadêmicas conjuntas com o sociólogo norte-americano Immanuel Wallerstein (OLIVEIRA; CANDAU, 2010, p. 17). O pensamento decolonial surge com o objetivo de pensar as sociedades localizadas na periferia, nas margens do ocidente a partir das epistemologias que historicamente foram negadas e silenciadas pelo pensamento europeu. Para Oliveira e Candau (2010, p. 17) “Trata- se, em síntese, de uma construção alternativa à modernidade eurocêntrica, tanto no seu projeto de civilização quanto em suas propostas epistêmicas”. Mignolo (2008, p. 304), afirma que “Descolonial significa pensar a partir da exterioridade e em uma posição epistêmica subalterna vis-à-vis à hegemonia epistêmica que cria, constrói, erege um exterior a fim de assegurar sua interioridade”. O que significa, segundo Mignolo (2008, p. 305), “[...] pensar a partir das línguas e das categorias de pensamento não incluídas nos fundamentos dos pensamentos ocidentais”. A decolonialidade fudamenta-se na compreensão de que “a colonialidade é constitutiva da modernidade, e não derivada” (MIGNOLO, 2008, p. 75). Isso implica dizer que a modernidade e a colonialidade constituem a mesma epistemologia, A colonialidade, herdeira de legados da modernidade, sobrevive no cotidiano dos povos que historicamente foram subalternizados pelo imperialismo europeu. Como nos dizeres de Quijano (2005), os colonizadores foram embora, mas deixaram suas marcas nos povos colonizados, descaracterizando, negando, inferiorizando o conhecimento acumulado por esses povos. Fato que para Mignolo (2008) é necessário desconstruir por meio da desobediência política e epistêmica. Em análise semelhante, Oliveira e Candau (2010, p. 24) advertem que: [...] a decolonialidade implica partir da desumanização e considerar as lutas dos povos historicamente subalternizados pela existência, para a construção de outros modos de viver, de poder e de saber. Portanto, decolonialidade é visibilizar as lutas contra a colonialidade a partir das pessoas, das suas práticas sociais, epistêmicas e políticas. 15 Nesse sentido, a decolonialidade “[...] representa uma estratégia que vai além da transformação da descolonização, ou seja, supõe também construção e criação. Sua meta é a reconstrução radical do ser, do poder e do saber” (OLIVEIRA, CANDAU, 2010, p. 24). Razão pela qual, o decolonialismo indica um “pensamento de fronteira” (WALSH, 2005), que aponte novas formas de conceber o currículo a partir de outros construtos teóricos, que superem a concepção eurocêntrica. Para essa missão a interculturalidade se constitui no conceito central do pensamento decolonial, denotando: Um processo dinâmico e permanente de relação, comunicação e aprendizagem entre culturas em condições de respeito, legitimidade mútua, simetria e igualdade. Um intercâmbio que se constrói entre pessoas, conhecimentos, saberes e práticas culturalmente diferentes, buscando desenvolver um novo sentido entre elas na sua diferença. Um espaço de negociação e de tradução onde as desigualdades sociais, econômicas e políticas, e as relações e os conflitos de poder da sociedade não são mantidos ocultos e sim reconhecidos e confrontados. Uma tarefa social e política que interpela ao conjunto da sociedade, que parte de práticas e ações sociais concretas e conscientes e tenta criar modos de responsabilidade e solidariedade. Uma meta a alcançar (WALSH, 2005, p. 10-11). Oliveira e Candau (2010) analisam que “a interculturalidade concebida nessa perspectiva representa a construção de um novo espaço epistemológico que inclui os conhecimentos subalternizados e os ocidentais, numa relação tensa, crítica e mais igualitária”. Outros construtos teóricos para o campo do currículo adevem das teorias pós-críticas. Estas começam a ser formuladas na década de 1990, mas já constituem aportes teóricos significativos ao campo do currículo. Como o próprio nome expressa, são teoriastambém críticas na medida em que reconhecem desigualdades sociais e buscam transformações. Não estão, pois, conformadas com o modelo de sociedade posto. Ou seja, a sociedade capitalista. Contudo, as transformações da sociedade não necessariamente estão centradas nas questões de classe, mas podem estar nas questões culturais, religiosas, étnicas, raciais, de gênero e geracionais, por exemplo. Para Lopes e Macêdo (2009, p. 5). As apropriações de marcos teóricos pós-estruturais, pós-coloniais e pós- modernos pelo campo do Currículo têm gerado a multiplicação e diversificação de estudos que valorizam o enfoque discursivo, as discussões relativas à identidade e à diferença, a pesquisa da cultura escolar e o cruzamento do discurso pedagógico com diferentes produções culturais para além dos limites da instituição escolar. A afirmação de que o currículo deve ser entendido como uma produção cultural vem possibilitando reconfigurar as discussões anteriormente centralizadas na legitimidade do conhecimento, abalando a compreensão de que o questionamento das formas hegemônicas 16 de controle dos saberes possam ser um meio de construir perspectivas emancipatórias e de questionar o poder instituído. Conforme as autoras citadas, as concepções teóricas classificadas como pós- estruturais, pós-coloniais e pós-modernas contribuem para o desenvolvimento de pesquisas que priorizam o enfoque discursivo, como por exemplo: discussões relacionadas à cultura escolar, à identidade e à diferença, que impulsionaram muitos estudos. Tomaz Tadeu da Silva, em entrevista dada a Gandin, Paraskeva e Hypolito (2002), fez um mapeamento da produção teórica educacional em que analisa temas concernentes à teoria crítica, ao pós-estruturalismo e à teoria pós-crítica. Conforme o autor, nos anos de 1960 e 1970 uma produção intelectual fecunda foi produzida no campo educacional. Em termos específicos da teorização curricular, temos a contribuição de Michael Apple, Michael Young, William Pinar e Henry Giroux, considerados pelo autor como os mais significativos, e destaca, na mesma entrevista, que: Apesar da variedade de influências teóricas existentes já nessa época, a tendência dominante era claramente marxista e a disciplina mestra era a Sociologia. Fazer teoria do currículo nessa época era sinônimo de fazer sociologia do currículo ou, mais precisamente, era sinônimo de fazer sociologia marxista do currículo. Tivemos, depois, já no final dos anos oitenta, começo dos anos noventa, a ‘revolução’ combinada da influência dos Estudos Culturais, do pós- estruturalismo e do pós-modernismo. Dois períodos principais, pois, de renovação, que combinados, deram ao pensamento educacional em geral e ao pensamento curricular, em particular, uma criatividade teórica extraordinária (GANDIN; PARASKEVA; HYPOLITO, 2002, p. 6). É possível perceber no conteúdo da fala de Tomaz Tadeu da Silva que apesar das diversidades de influências teóricas que fundamentam o campo do currículo a partir dos 1980, a contribuição mais expressiva veio da Sociologia, mais precisamente, da sociologia marxista. Outra produção teórica internacional que teve e continua a ter forte influência na produção brasileira sobre currículo é Santomé (1998) com o conceito de currículo integral. O autor fundamenta-se em uma concepção epistemológica transdisciplinar para advogar que o currículo não deve obedecer a linearidades e propõe um currículo globalizado, integrado ou currículo interdisciplinar. O currículo integral busca estabelecer relações entre campos, formas e processos de conhecimento advindos de distintas áreas do conhecimento e experiências de modo a 17 entrelaçarem-se, complementarem-se e reforçarem-se mutuamente, para contribuir de modo mais eficaz e significativo com a construção e reconstrução do conhecimento e dos conceitos. Nos anos de 1990, novas influências teóricas foram incorporadas ao campo do currículo, tais como: Os estudos culturais, o pós-modernismo e o pós-estruturalismo, os quais Tomaz Tadeu da Silva considera terem colaborado para a formulação teórica extraordinária no campo do currículo. No entanto, para o autor citado: “[...] quando o ‘outro’ virou o ‘dentro’, quando o estranho virou familiar, quando a heterodoxia virou ortodoxia, quando a teoria virou catecismo, o movimento, paralelamente, congelou” (GANDIN; PARASKEVA; HYPOLITO 2002, p. 8). A concepção de currículo está relacionada também aos seus níveis de elaboração e materialização a que Gimeno Sacristán (2000) classifica em: Currículos prescritos que se constituem em referências na ordenação do sistema curricular; servem de ponto de partida para a elaboração de materiais e controle do sistema (Diretrizes Curriculares Nacionais – DCNs e a Base nacional Comum Curricular – BNCC); Currículos apresentados aos professores: constituem-se em materiais que objetivam traduzir para os professores o significado e os conteúdos do currículo prescrito (Livros didáticos, propostas das secretarias, orientações didáticas); os Currículos moldados pelos professores: diz-se das importantes traduções que os professores fazem dos currículos prescritos e daqueles que lhes são apresentados, de modo a traduzi-las no planejamento de suas práticas. (planos de ensino; planos de aula, projetos de ensino, sequências didáticas, elaboração de instrumentos de avaliação); Currículos em ação: trata-se das práticas reais dos professores sustentadas por seus esquemas teóricos e práticos que se concretizam em práticas pedagógicas singularizadas (a aula em si); currículos realizados: resultam da prática e se produz em efeitos cognitivos, afetivos, social e moral. Reflete-se nas aprendizagens dos alunos, mas também afeta os professores (os desdobramentos da aula – aquilo que fica em termos de elementos para a formação humana) e os Currículos avaliados que consistem no processo de avaliação das congruências e incongruências no alcance dos propósitos manifestados nos demais níveis do currículo (reuniões, seminários, fóruns de avaliação). Há que se ponderar a respeito das condições de autonomia nas quais os professores participam da concepção, elaboração, execução e avaliação de uma proposta curricular e como essas condições refletem em sua materialização prática. De acordo com Lima (2008) “processos de construção curriculares demasiadamente presos ao cumprimento dos currículos prescritos podem vir a se tornar práticas autoritárias” e propícias a se constituir em ações falhas na medida em que não se fazem democráticas. Isso não significa abrir mão das 18 prescrições. Os currículos prescritos denominados também por Castoriadis (1982) de currículo instituído apresenta-se como projeto formal, oficial, prescrito, normatizado com todas as suas expectativas de materialidades pré-estabelecidas. O currículo instituinte, denominação adotada para designar currículos não oficiais, apresenta-se como projeto informal em andamento, envolto em flexibilidades, imprevisibilidades, imponderabilidades, liberdades e desejos dos sujeitos implicados; é permeado por desordens, indisciplinas, transgressões, reinvenções, criatividades e transformações. É pelo reconhecimento do sentido pedagógico dessa segunda concepção que afirmamos a validade de currículos fundamentados em concepções curriculares que tenham aportes teóricos nas teorias críticas de currículo. Ou seja, naquelas que buscam a transformação de relações sociais excludentes em termos de classe, cultura, gênero, raça, etnia, geração e territorialidade. Contudo, é importante destacar que esses elementos de exclusão não são tomados como objetos de análise por uma mesma teoria. Até porque, cada tempo histórico coloca demandas diferentes ao campo da Educação e do currículo. Conforme análises de Fanon (2008) vivemos: Em uma época em que a dúvida cética tomou conta do mundo, em que, segundo osdizeres de um bando de cínicos, não é mais possível distinguir o senso do contrassenso, torna-se complicado descer a um nível onde as categorias de senso e contrassenso ainda não são utilizadas (FANON, 2008, p. 27). Resgatar o bom-senso na construção de projetos Curriculares parece ser um bom desafio a mover aqueles que lutam por uma educação e um currículo do campo, das águas e florestas amazônicas com vistas à descolonização dos sujeitos que vivem, trabalham e produzem nesse território. Vimos até aqui que a construção de concepções curriculares resulta da definição das teorias, princípios e conceitos que os fundamentam de modo situado. Representam, pois, uma ação de alta responsabilidade social posto que podem afirmar ou negar valores imprescindíveis a uma sociedade justa, democrática e inclusiva. Passamos doravante a apresentar o mapeamento de artigos. 19 2.4 APRESENTAÇÃO DOS ARTIGOS MAPEADOS A partir dos critérios de inclusão e de exclusão adotados para a investigação, chegamos a doze artigos, conforme o quadro apresentado a seguir, cujos trabalhos descrevemos por ano de publicação. Quadro de artigos sobre currículo e educação do campo Ano Autores(as) Título Revista 2020 Hélia Margarida Oliveira, Aldinete Silvino de Lima e Iranete Maria da Silva Lima Diversidade, investigação e emancipação humana como princípios da formação de professores de matemática em cursos de licenciatura em educação do campo. Educação Matemática Pesquisa 2018 Salomão Antônio Mufarrej Hage, Mônica Castagna Molina, Hellen do Socorro de Araújo Silva e Maura Pereira dos Anjos O direito à educação superior e à licenciatura em educação do campo no Pará: riscos e potencialidades de sua institucionalização Acta Scientiarum 2018 Cláudio Eduardo Félix dos Santos e Cléber Eduão Ferreira Currículo e educação no campo: entre as lutas por uma formação humana crítica e as proposições pós-críticas do educar Revista Espaço do Currículo 2018 Alberto Dias Valadão e José Licínio Backes A pedagogia da alternância em Rondônia: um movimento social do campo que luta por outras pedagogias Reflexão e Ação 2018 José Valderi Farias de Souza e Rafael Marques Gonçalves Escolas multisseriadas no contexto da Amazônia Periferia 2017 Nayara Massucatto Mocelin, Maria de Lourdes Bernartt e Edival Sebastião Teixeira Tensionamentos e vicissitudes atuais da pedagogia da alternância no Paraná HOLOS 2017 Ribamar Ribeiro Júnior, Laécio Rocha de Sena e William Bruno Silva Araújo O tempo aldeia: construindo uma nova prática pedagógica Revista Brasileira de Educação do Campo 2016 Heliadora Georgete Pereira da Costa e Roni Mayer Lomba A expansão da educação superior no Amapá: um estudo sobre o Procampo na UNIFAP Estação Científica 2015 Vândiner Ribeiro e Marlucy Alves Paraíso Currículo e MST: conflitos de saberes e estratégias na produção de sujeitos Educação & Realidade 2014 Salomão Antônio Mufarrej Hage Transgressão do paradigma da (multi)seriação como referência para a construção da escola pública do campo Educação & Sociedade 2014 Silvana Aparecida Bretas Uma avaliação da experiência do curso de licenciatura em educação do campo da universidade federal de Sergipe – UFS Revista Tempos e Espaços em Educação 2012 Vândiner Ribeiro e Marlucy Alves Paraíso A produção acadêmica sobre educação do campo no Brasil: currículos e sujeitos demandados Educação 20 Fonte: elaboração própria com base em dados constantes até 30 dez. 2020 no Portal de Periódicos da Capes (2012-2020). O artigo mais recente que localizamos foi publicado em 2020, intitulado “Diversidade, Investigação e Emancipação Humana como princípio da formação de professores de Matemática em cursos de Licenciatura em Educação do Campo”, de autoria de Hélia Margarida Oliveira, Aldinete Silvino de Lima e Iranete Maria da Silva Lima. Ancorado em referências da Educação Matemática Crítica e da Educação do Campo, o estudo supracitado buscou compreender os princípios que norteiam a formação de professores de Matemática dos cursos de Licenciatura em Educação do Campo (LEdoC). Mostrou, ainda, que a diversidade, a investigação e a emancipação humana são princípios que orientam a formação de professores de Matemática nas LEdoC e, principalmente, revelam o interesse dos professores formadores em colocar as especificidades do campo para o centro do processo formativo dos futuros professores de Matemática. Em 2018, foram publicados quatro artigos sobre Currículo e Educação do Campo. O primeiro, publicado pela Acta Scientiarum, recebeu o título “O direito à Educação Superior e à Licenciatura em Educação do Campo no Pará: riscos e potencialidades de sua institucionalização”, sendo assinado por quatro autores: Salomão Antônio Mufarrej Hage, Mônica Castagna Molina, Hellen do Socorro de Araújo Silva e Maura Pereira dos Anjos. Trata-se de um trabalho de natureza bibliográfica, documental e de campo, vinculado à Rede Universitas-BR, que investiga a expansão da Educação Superior do Campo. Fundamentados no Materialismo Histórico-Dialético, os autores do artigo em pauta problematizam desdobramentos da ampliação do acesso das populações do campo à Educação Superior e à Educação Básica. O estudo analisa ainda, riscos e potencialidades emergidos da institucionalização e expansão da Licenciatura em Educação do Campo no Pará, oferecidos pela Universidade Federal do Pará (UFPA), no Campus de Cametá, e pela Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA), no Campus de Marabá. No artigo, o autor e as autoras apontam que, em Cametá, o maior risco vincula-se à dificuldade de materializar a alternância pedagógica sem dissociá-la dos princípios originários da Educação do Campo e, como potencialidade, sobressaiu a afirmação de um currículo interdisciplinar na formação de educadores feita pelo curso de Licenciatura em Educação do Campo. Já, em Marabá, o risco acontece em função de ações desarticuladas na oferta da Educação Básica entre os entes federados, abrangendo o tenso diálogo com a Secretaria Estadual de Educação no tocante à https://rnp-primo.hosted.exlibrisgroup.com/primo_library/libweb/action/search.do?vl(freeText0)=+Silva%2c+Hellen+Do++Socorro+de+Araujo+&vl(1045019533UI0)=creator&vl(1045019534UI1)=all_items&fn=search&tab=default_tab&mode=Basic&vid=CAPES_V1&scp.scps=scope%3a(CAPES)%2cprimo_central_multiple_fe&ct=lateralLinking 21 construção do Ensino Médio. Como potencialidade, é notável a relação entre universidade e movimentos sociais, construída como tática para o fortalecimento da legitimidade social do Curso. O segundo artigo, publicado em 2018, tem como título: “Currículo e educação no campo: entre as lutas por uma formação humana crítica e as proposições pós-críticas do educar”, produzido por Cláudio Eduardo Félix dos Santos, publicado na Revista Espaço do Currículo. Os autores trazem uma retomada histórica dos movimentos pela Educação do Campo na década de 1990, com destaque para o papel dos movimentos sociais, sindicatos rurais, associações, universidades e das organizações não governamentais, na qual intitulam essa passagem como “Movimento por uma Educação do Campo”. Na sequência, analisam as proposições sobre currículo e formação humana em duas fontes: a) os cadernos sobre Educação do Campo (editados pelo respectivo movimento); e b) a “Proposta curricular para as escolas do campo no território do Velho Chico” (elaborada por educadores e instituições governamentais e não governamentais nessa região do semiárido baiano). O objetivo geral do artigo é analisar a relação entre a perspectiva de formação humana crítica reivindicada pelas propostas de Educação do Campo e pelas influências das perspectivas pós-críticas/pós-modernas no plano da teoria pedagógica nas proposições sobre o currículo para as escolas do campo. O terceiro trabalho, produzido em 2018, traz como título: “A Pedagogia da Alternância em Rondônia: um movimento social do campo que luta por outras pedagogias”, escrito por Alberto Dias Valadão e José Licínio Backes, publicado na revista Reflexão e Ação. Esse trabalho dialoga com as referências teóricas dos Estudos Culturais na análise da experiência da implementação da Pedagogia da Alternância em Rondônia, além de apresentar essa proposta educativa como potente na defesa dos sujeitos do campo e de seus direitos a uma educação voltada para os seus interesses e identidades, instituindo outras pedagogias num estado da região Norte. O quarto artigo de 2018 foi publicado pela revista Periferia e recebeu o título: “Escolas multisseriadas no contexto da Amazônia”, de autoria de José Valderi Farias Souza e Rafael Marques Gonçalves. Nesse artigo, os autores, fundamentados nas categorias do Materialismo Histórico-Dialético, discutem o conceito de trabalho em escolas multisseriadas e os processos de intensificação do trabalho do professor no contexto das escolas da floresta amazônica. Os autores apontam que ser professor do Ensino Fundamental em escolas rurais implica ministrar conteúdos de diversas áreas do conhecimento para diversas séries, garantindo o domínio de todos os alunos nas diferentes áreas curriculares. Na Amazônia, https://rnp-primo.hosted.exlibrisgroup.com/primo_library/libweb/action/dlDisplay.do?vid=CAPES_V1&institution=CAPES&docId=TN_doaj_soai_doaj_org_article_b93d84137b5a4fd091442c0ac6aec6f7 https://rnp-primo.hosted.exlibrisgroup.com/primo_library/libweb/action/dlDisplay.do?vid=CAPES_V1&institution=CAPES&docId=TN_doaj_soai_doaj_org_article_b93d84137b5a4fd091442c0ac6aec6f7 https://rnp-primo.hosted.exlibrisgroup.com/primo_library/libweb/action/search.do?vl(freeText0)=Alberto+Dias+Valad%c3%a3o+&vl(1045019533UI0)=creator&vl(1045019534UI1)=all_items&fn=search&tab=default_tab&mode=Basic&vid=CAPES_V1&scp.scps=scope%3a(CAPES)%2cprimo_central_multiple_fe&ct=lateralLinking https://rnp-primo.hosted.exlibrisgroup.com/primo_library/libweb/action/search.do?vl(freeText0)=+Jos%c3%a9+Lic%c3%adnio+Backes&vl(1045019533UI0)=creator&vl(1045019534UI1)=all_items&fn=search&tab=default_tab&mode=Basic&vid=CAPES_V1&scp.scps=scope%3a(CAPES)%2cprimo_central_multiple_fe&ct=lateralLinking https://rnp-primo.hosted.exlibrisgroup.com/primo_library/libweb/action/dlDisplay.do?vid=CAPES_V1&institution=CAPES&docId=TN_gale_ofa565969694 https://rnp-primo.hosted.exlibrisgroup.com/primo_library/libweb/action/dlDisplay.do?vid=CAPES_V1&institution=CAPES&docId=TN_gale_ofa565969694 22 portanto, a singularidade de seus espaços e os desafios que requerem ser superados exigem dos educadores o enfrentamento de uma realidade para as quais, quiçá, nem foram devidamente preparados. Nesse trabalho acadêmico, as questões que inquietam homens e mulheres da floresta projetam-se em outros contextos, que não aqueles estabelecidos pelo currículo transplantado da cidade aos espaços rurais e que, assim, o trabalho docente no campo é imensamente intensificado. No ano de 2017, localizamos dois artigos sobre o tema em discussão. O primeiro denominado “O tempo aldeia: construindo uma nova prática pedagógica”, publicado pela Revista Brasileira de Educação do Campo, com autoria de Ribamar Ribeiro Júnior, Laécio Rocha de Sena e William Bruno Silva Araújo. O estudo, embora não seja voltado à formação inicial de professores do campo, procura dialogar com o pensamento decolonial na educação a partir da experiência do Curso Técnico em Agroecologia do Campus Rural de Marabá, do Instituto Federal do Pará. No referido curso, o itinerário formativo é constituído por dois tempos: o Tempo Escola e o Tempo Aldeia, caracterizado como “alternância pedagógica”. Essa lógica parte do estudo da realidade “concreta”, possibilitando aos estudantes a articulação dos conhecimentos tradicionais e os técnico-científicos relacionados a dimensões políticas, históricas e naturais. O Tempo Aldeia mostrou-se central na perspectiva de se pensar e repensar “outras” formas de educação, além daquelas da modernidade. O segundo artigo sobre o tema, publicado em 2017, deu-se na revista HOLOS e recebeu como título “Tensionamentos e vicissitudes atuais da pedagogia da alternância no Paraná”, de autoria de Nayara Massucatto Mocelin, Maria de Lourdes Bernartt e Edival Sebastião Teixeira. No artigo aborda-se a análise da experiência da Pedagogia da Alternância no Paraná. As autoras constroem uma importante retrospectiva histórica da Pedagogia da Alternância com a retomada dessa alternativa pedagógica na Itália, apresentando os princípios que a fundamentam e seu uso como parte das políticas educacionais do estado do Paraná. A nosso ver, as autoras não apontam elementos suficientes para a identificação da linha ou da concepção teórica, nem mesmo para inferências a respeito. Localizamos em 2016 o artigo “A expansão da educação superior no Amapá: um estudo sobre o Procampo na UNIFAP”, escrito por Heliadora Georgete Pereira da Costa e Roni Mayer Lomba. O texto, respaldado em uma concepção crítica de educação, apresenta reflexões sobre a formação inicial dos educadores do campo no estado do Amapá a partir da implantação do curso de Licenciatura em Educação do Campo, na Universidade https://rnp-primo.hosted.exlibrisgroup.com/primo_library/libweb/action/search.do?vl(freeText0)=Ribamar+Ribeiro+Junior+&vl(1045019533UI0)=creator&vl(1045019534UI1)=all_items&fn=search&tab=default_tab&mode=Basic&vid=CAPES_V1&scp.scps=scope%3a(CAPES)%2cprimo_central_multiple_fe&ct=lateralLinking https://rnp-primo.hosted.exlibrisgroup.com/primo_library/libweb/action/search.do?vl(freeText0)=+Laecio+Rocha+de+Sena+&vl(1045019533UI0)=creator&vl(1045019534UI1)=all_items&fn=search&tab=default_tab&mode=Basic&vid=CAPES_V1&scp.scps=scope%3a(CAPES)%2cprimo_central_multiple_fe&ct=lateralLinking https://rnp-primo.hosted.exlibrisgroup.com/primo_library/libweb/action/search.do?vl(freeText0)=+Laecio+Rocha+de+Sena+&vl(1045019533UI0)=creator&vl(1045019534UI1)=all_items&fn=search&tab=default_tab&mode=Basic&vid=CAPES_V1&scp.scps=scope%3a(CAPES)%2cprimo_central_multiple_fe&ct=lateralLinking https://rnp-primo.hosted.exlibrisgroup.com/primo_library/libweb/action/search.do?vl(freeText0)=+William+Bruno+Silva+Araujo&vl(1045019533UI0)=creator&vl(1045019534UI1)=all_items&fn=search&tab=default_tab&mode=Basic&vid=CAPES_V1&scp.scps=scope%3a(CAPES)%2cprimo_central_multiple_fe&ct=lateralLinking https://rnp-primo.hosted.exlibrisgroup.com/primo_library/libweb/action/dlDisplay.do?vid=CAPES_V1&institution=CAPES&docId=TN_proquest1988384376 https://rnp-primo.hosted.exlibrisgroup.com/primo_library/libweb/action/dlDisplay.do?vid=CAPES_V1&institution=CAPES&docId=TN_proquest1988384376 https://rnp-primo.hosted.exlibrisgroup.com/primo_library/libweb/action/dlDisplay.do?vid=CAPES_V1&institution=CAPES&docId=TN_doaj_soai_doaj_org_article_526d2d5404184b49b02d0e8393b60c09 https://rnp-primo.hosted.exlibrisgroup.com/primo_library/libweb/action/dlDisplay.do?vid=CAPES_V1&institution=CAPES&docId=TN_doaj_soai_doaj_org_article_526d2d5404184b49b02d0e8393b60c09 https://rnp-primo.hosted.exlibrisgroup.com/primo_library/libweb/action/search.do?vl(freeText0)=Heliadora+Georgete+Pereira+Da+Costa+&vl(1045019533UI0)=creator&vl(1045019534UI1)=all_items&fn=search&tab=default_tab&mode=Basic&vid=CAPES_V1&scp.scps=scope%3a(CAPES)%2cprimo_central_multiple_fe&ct=lateralLinking https://rnp-primo.hosted.exlibrisgroup.com/primo_library/libweb/action/search.do?vl(freeText0)=Heliadora+Georgete+Pereira+Da+Costa+&vl(1045019533UI0)=creator&vl(1045019534UI1)=all_items&fn=search&tab=default_tab&mode=Basic&vid=CAPES_V1&scp.scps=scope%3a(CAPES)%2cprimo_central_multiple_fe&ct=lateralLinking https://rnp-primo.hosted.exlibrisgroup.com/primo_library/libweb/action/search.do?vl(freeText0)=+Roni+Mayer+Lomba&vl(1045019533UI0)=creator&vl(1045019534UI1)=all_items&fn=search&tab=default_tab&mode=Basic&vid=CAPES_V1&scp.scps=scope%3a(CAPES)%2cprimo_central_multiple_fe&ct=lateralLinking23 Federal do Amapá (Unifap). Os resultados dessa pesquisa demonstram a importância dos cursos – ofertados aos docentes que trabalham nas escolas do campo daquele estado – terem uma organização curricular que adote avaliação, espaço e tempo específicos, alicerçando-se na metodologia da Alternância Pedagógica, respeitando as particularidades da Educação do Campo. “Em 2015, localizamos um artigo de autoria de Vândiner Ribeiro e Marlucy Alves Paraíso, publicado pela revista Educação Real, intitulado: Currículo e MST: conflitos de saberes e estratégias na produção de sujeitos”. Essa produção foca nos conflitos em torno dos saberes disponibilizados nos currículos de duas escolas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e nas estratégias inscritas para a produção de sujeitos. Ela se fundamenta no campo do currículo na vertente pós-crítica, incorporando ferramentas conceituais dos Estudos Culturais e nos escritos de Michel Foucault. Argumenta-se que, apesar de as relações de poder-saber – forjadas no currículo das escolas investigadas – serem marcadas pela presença majoritária dos conhecimentos autorizados, há um esforço de ensinar saberes que colaborem para disponibilizar algumas posições de sujeito que são de importância estratégica para a produção do sujeito Sem Terra. Em 2014, localizamos dois trabalhos sobre o tema. Um deles, de autoria de Salomão Antônio Mufarrej Hage, publicado pela revista Educação & Sociedade, com o título: “Transgressão do paradigma da (multi)seriação como referência para a construção da escola pública do campo”. Esse artigo, com fundamentação no Materialismo Histórico-Dialético, serve como espaço de socialização dos resultados dos estudos realizados pelo Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação do Campo na Amazônia (Geperuaz) sobre a realidade das escolas rurais com turmas multisseriadas. Considera-se o paradoxo entre o abandono e a precarização, caracterizando as condições de existência dessas escolas, e as ações criativas realizadas pelos professores e estudantes no cotidiano escolar, que desafiam as condições adversas, apontando referências para a transgressão do paradigma seriado urbano de ensino atualmente hegemônico nessas escolas. Outro estudo produzido em 2014 sobre o tema, escrito por Silvana Aparecida Bretas, sob o título: “Uma avaliação da experiência do curso de Licenciatura em Educação do Campo da Universidade Federal de Sergipe – UFS”, avalia o trabalho pedagógico no curso de Licenciatura em Educação do Campo da Universidade Federal de Sergipe, efetivado mediante um currículo organizado em dois tempos diferentes, porém indissociáveis, definidos como tempo acadêmico (TA) e tempo comunidade (TC). Os resultados demonstram que o trabalho 24 pedagógico desenvolvido procura integrar a cultura vivida pelos grupos sociais do campo aos conhecimentos científicos dos componentes curriculares do curso. Localizamos em 2012 um único artigo com a mesma temática, intitulado: “A produção acadêmica sobre Educação do Campo no Brasil: currículos e sujeitos demandados”, também escritos por Vândiner Ribeiro e Marlucy Alves Paraíso. Fundamentados em uma vertente pós- crítica, os autores do estudo colocam em questão a valorização da cultura do campo e a introdução de conhecimentos considerados especificamente campesinos nos currículos escolares. Esse posicionamento levanta polêmicas sobre a dicotomia campo-cidade e sobre a necessidade ou não de currículos diferenciados para esse público. O artigo discute, ainda, o que os estudos sobre Educação do Campo no Brasil dizem sobre as questões curriculares; que críticas fazem aos currículos existentes; que demandas relativas ao currículo fazem; e que tipo de formação demanda que seja dada às pessoas que vivem no campo. Entretanto, nos anos de 2010 e 2011, não localizamos nenhum artigo sobre o tema em discussão. 2.5 ANÁLISES DOS ARTIGOS A presente pesquisa mostrou que os artigos se fundamentam prioritariamente no Materialismo Histórico-Dialético, mas também nos Estudos Culturais, nos Estudos da Matemática Crítica e nos Estudos da Educação do Campo e no Pensamento Decolonial. Essa constatação nos leva a analisar que a predominância do Materialismo Histórico-Dialético, como concepção teórica que orienta os artigos, efetiva-se em razão dessa concepção contemplar os Princípios das Diretrizes da Educação do Campo, quais sejam: (I) a efetiva participação da comunidade e dos movimentos sociais do campo na formulação de projetos políticos pedagógicos; (II) a garantia de uma educação que se faça na relação com o trabalho dos sujeitos do campo com vistas à transformação destes, do lugar e das relações nele estabelecidas; e (III) a seleção de conteúdos que considerem a aprendizagem escolar e a aprendizagem no âmbito familiar/comunitário. Além da aproximação dos princípios da Educação do Campo com as concepções de currículo que fundamentam os artigos analisados, as filiações teóricas entre autores e coautores tendem a constituir parcerias estabelecidas entre orientandos e orientadores. Nesse caso, alguns orientadores, por terem realizado suas formações em Programas de Pós- Graduação de considerável tradição no Materialismo Histórico-Dialético, em uma ou mais décadas, tempo em que as teorias pós-críticas ainda não estavam tão firmadas no Brasil, 25 influenciam a escolha teórico-metodológica de seus orientandos, com desdobramento nas produções subsequentes à defesa de suas dissertações e teses. Localizamos estudos fundamentados em concepções descolonizadoras de currículo e educação do campo, contudo, são poucos e questões relacionadas aos direitos humanos; às diversidades étnico-raciais; de gênero, sexual, religiosa, de faixa geracional; à educação especial; e ao direito educacional de adolescentes e jovens (em cumprimento de medidas socioeducativas) não são devidamente privilegiadas, o que indica a necessidade de descolonizar a produção científica, de modo a ampliar as concepções de currículo, tornando- as abertas à construção de novos arranjos conceituais que gerem convivência, permuta e simbiose de olhares e perspectivas de construção teórico-epistemológicas que se importem com as muitas vidas ameaçadas como as destacadas por Arroyo (2019). Os dados empíricos registrados nos artigos analisados apontam que os sujeitos que fazem a educação do/no campo reconhecem que existe uma concepção de educação homogeneizadora forçando-os cotidianamente em suas práticas pedagógicas para que não prossigam em direções contra hegemônicas. No entanto, esses sujeitos percebem que há questões de ordem diversas a serem forjadas para a mudança dessa realidade: envolvimento em suas próprias formações, engajamento político e o fortalecimento da categoria docente via participação sindical, questões de natureza mais particular. Contudo, enxergam também dimensões mais amplas que escapam de suas atribuições, por exemplo, o adequado financiamento da Educação do Campo. A Alternância Pedagógica e o Ensino Multimercado representam duas propostas pedagógicas que apontam importantes resultados e validade para a Educação do Campo. A primeira, por valorizar os conhecimentos dos povos, a cultura, os saberes, a relação com a terra e o trabalho dos sujeitos do campo; a segunda, por considerar as diferenças de idade, nível de conhecimento e envolvimento com as realidades que os circundam como elementos de aprendizagem e não de segregação e exclusão. A Pedagogia da Alternância foi avaliada por todos os estudos que a tinham como categoria de análise como uma proposta pedagógica muito positiva, visto que, mediante a organização de coletivos populares, ela tem forjado o rompimento com a histórica discriminação dos sujeitos do campo e contribuído para a construção de uma educação voltada para os seus interesses. Trata-se, portanto, de um princípio pedagógico pensado para a Educaçãodo/no Campo, conforme preconiza Caldart (2004, p. 149, grifos da autora): “No: o povo tem direito a ser educado no lugar onde vive; Do: o povo tem direito a uma educação 26 pensada desde o seu lugar e com a sua participação, vinculada à sua cultura e às suas necessidades humanas e sociais.” Em relação à diversidade, quase todos os estudos analisados mostraram que, embora o respeito à diversidade seja um dos princípios originários da Educação do Campo, a organização do trabalho pedagógico que nela se faz não considera as especificidades culturais, territoriais e pedagógicas. Existe um paradoxo entre desafios enfrentados pelos sujeitos que fazem a Educação do Campo, tais como o abandono e a precarização e suas capacidades cotidianas de criar e recriar práticas pedagógicas emancipadoras por meio de mecanismos de resistência realizadas pelos professores e estudantes no cotidiano escolar. Esses mecanismos desafiam as condições adversas vivenciadas pelo sujeito, sobretudo no que diz respeito à adoção de referências para a transgressão do paradigma seriado urbano de ensino atualmente hegemônico nessas escolas. Em que pese o aumento da produção teórica sobre a Educação do Campo e a regulamentação mediante a aprovação de legislações específicas há uma década, constituindo um avanço no cenário das políticas públicas, a produção científica sobre currículo do/no campo mostra problemas a serem enfrentados. Estes estão relacionados aos desafios na materialização dos princípios originários da Educação do Campo, quer nos currículos da Educação Básica, quer nos currículos de formação inicial de professores. Em termos quantitativos, observamos que os autores que mais publicaram no período pesquisado sobre o tema Currículo e Educação do Campo foram: Vândiner Ribeiro e Marlucy Alves Paraíso, com dois artigos em coautoria; e Salomão Antônio Mufarrej Hage, com um artigo individual e outro em coautoria com Mônica Castagna Molina, Hellen do Socorro de Araújo Silva e Maura Pereira dos Anjos. Consideramos importante destacar que alguns periódicos, ao informar o nome dos autores somente com os sobrenomes e as iniciais dos nomes, obscura a identificação dos autores e de seus gêneros. Essa questão dificulta o momento da escrita do relatório de pesquisa, e, para superar esse desafio, tivemos que empreender pesquisas paralelas para identificar o gênero dos autores e empregar a concordância devida no corpo do texto. Para além de uma questão gramatical, avaliamos que o mecanismo de trazer apenas o sobrenome e as iniciais do nome dos autores não contribui para o conhecimento de quem os constrói e da produção destes, uma vez que dificulta análises mais pormenorizadas e a formação de redes de conhecimento fica prejudicada. Observamos, também, com certa incidência, a não atualização do currículo Lattes dos pesquisadores recém-graduados em nível de Mestrado e Doutorado; ou, ainda, daqueles 27 profissionais que não compõem o quadro de docentes de Programas de Pós-Graduação. Pareceu-nos ser essa uma preocupação/obrigação apenas dos professores desses programas que, talvez, muito mais pressionados pelas avaliações da Capes do que pela importância de registro e disseminação do conhecimento científico, tentam manter seus currículos atualizados. 2.5.1 EM SÍNTESE Em resposta ao problema que desencadeou a realização desta pesquisa que questiona as concepções de currículo que orientam a produção acadêmica sobre Educação do Campo presente em artigos científicos publicados no período de 2010 a 2020, a pesquisa mostrou que os artigos mapeados e analisados se fundamentam prioritariamente no Materialismo Histórico-Dialético e, em menor proporção, nos Estudos Culturais, nos Estudos da Matemática Crítica e nos Estudos da Educação do Campo e no Pensamento Decolonial, que, de modo amplo, podem ser agrupados nas vertentes críticas e pós-críticas de educação. Observamos evidências de um movimento de inclusão de novas concepções curriculares ao demonstrar que as “fronteiras” teóricas são dinâmicas, tornando-se espaço de convivência, permuta, simbiose, construção de novos arranjos conceituais. Por exemplo, a utilização de discursos críticos e pós-críticos, estruturais e pós-estruturais, pós-estruturais e pós-modernos, pós-estruturais e pós-coloniais, concomitantemente, como forma de apontar elementos que subsidiam análises de múltiplas temáticas, de grande relevância, que expressam o potencial que a educação pode oferecer socialmente e a impossibilidade de homogeneização dos projetos pedagógicos de Educação do Campo. Alguns artigos não anunciam de modo explícito as concepções de currículo de Educação do Campo usado, nem apontam elementos suficientes para inferências. Nesses casos, optamos por não os classificar dentro de uma ou outra concepção teórica. O estudo mostrou que, em tempos de negacionismo das universidades públicas federais no Brasil e do conhecimento científico que nelas se produz, essas instituições realizam uma produção científica significativa se considerarmos o tratamento e as condições que são dadas/negadas àqueles que as constituem. Mesmo com os cortes de investimentos financeiros e atacadas por representantes dos poderes legislativo e executivo, as instituições públicas de Ensino Superior e os sujeitos que as compõem produzem bastante. Contudo, o estudo mostrou que ainda há muito a ser feito pela Educação no Campo. 28 A pesquisa aponta alternativas pedagógicas, experiências, princípios, concepções e referências teóricas sobre Educação do Campo que podem contribuir para a concepção de Projetos Pedagógicos para a Educação no Campo, Águas e Florestas da Região Norte do Brasil. Este território é composto por estados heterogêneos que requerem projetos específicos, como é o caso do estado do Acre, que ainda não possui um Curso de Pedagogia do Campo, e é o local de fala, pesquisa, trabalho e onde milita a autora. 3 TESES E DISSERTAÇÕES SOBRE EDUCAÇÃO DO CAMPO DEFENDIDAS NOS PROGRAMAS DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO DA REGIÃO NORTE (2014-2020) 3.1 COM QUEM E POR QUEM JUNTAMOS NOSSAS VOZES Não devo julgar-me, como profissional, “habitante” de um mundo estranho; mundo de técnicos e especialistas salvadores dos demais, donos da verdade, proprietários do saber, que devem ser doados aos “ignorantes e incapazes”. Habitantes de um gueto, de onde saio messianicamente para salvar os “perdidos”, que estão fora. Se procedo assim, não me comprometo verdadeiramente como profissional nem como homem. Simplesmente me alieno. Paulo Freire Na seção anterior abordamos as principais teorias de currículo e apresentamos o mapeamento, descrição e análise da produção científica relativa ao currículo e educação do campo expressa em artigos acadêmicos publicados em periódicos da Capes. Nessa seção longe de nos colocarmos messianicamente como salvadores de perdidos, mas tentando marcar o compromisso profissional como professora e pesquisadora, damos continuidade ao que fizemos na seção anterior, só que desta feita tentando responder qual a produção científica sobre “currículo”, “educação do campo” e “formação inicial de professores do campo” expressa em teses e dissertações? As análises se voltam a outras fontes, quais sejam: Teses e dissertações sobre currículo, educação do campo e formação de professores do campo produzidos nos programas de pós-graduação em Educação das Universidades Federais da região Norte do Brasil, 29 defendidas entre 2014 e 2020. O objetivo é penetrar nestas teses e dissertações para identificar e analisar as concepções de Currículo de Formação Inicial de Professores do Campo que orientam esses estudos. Tomar essa ação como propósito se dá em um momento político em que o currículo assumecentralidade nas políticas educacionais, mas que ainda são poucos os estudos sobre currículos de formação inicial de professores do/no campo, na terra, nas águas e nas florestas da região Norte do Brasil, na chamada Amazônia Brasileira – território que se constitui de modo bastante heterogêneo e controverso. Na mesma conjuntura, vivemos dias de negação das universidades públicas brasileiras e da ciência que nela é produzida. Corroborando a análise desse contexto, Lopes (2019) constrói importantes reflexões sobre os modos como são articuladas as demandas educativas (im)possibilitadas pelo antagonismo ao “Marxismo Cultural” durante a campanha, eleição e governo de Bolsonaro. A autora citada destaca o fato de as universidades públicas serem apresentadas à sociedade como lugar de “balbúrdia”, “sexualização” (lugar de nudez) e práticas de ilicitudes (drogas e malversação de fundos públicos). Além disso, ela aponta a necessidade de investimento em pesquisas que desconstruam cadeias antagônicas que vêm significando a universidade e a educação públicas no âmbito de uma guerra cultural. Nessa direção, a pesquisa justifica-se por aprofundar as discussões acerca da produção científica sobre currículos de formação inicial de professores do/no campo, na terra, nas águas e nas florestas produzidas no interior de universidades públicas da região Norte do Brasil, com vistas a suscitar a formulação de novas políticas e práticas curriculares que expressem as demandas culturais dos sujeitos que compõem esse território em suas múltiplas, heterogêneas e híbridas identidades. Desejamos “juntar nossas vozes” a uma semântica educacional transformadora, tal como expressa por Paulo Freire (2005). O objetivo dessa seção consiste em analisar as concepções de currículo de formação inicial de professores do campo presentes nas teses e nas dissertações produzidas nos programas de pós-graduação em Educação (PPGEs) das universidades federais da região Norte do Brasil, defendidas entre 2014 e 2020. O recorte temporal que teve início em 2014 foi delimitado em razão de ser o ano em que alguns dos programas de pós-graduação em Educação da região Norte tiveram as primeiras dissertações defendidas. Quanto ao término em 2020 ocorre por ser o ano em que concluímos esse estudo. Para a reunião das produções científicas, recorremos ao Banco de Teses e Dissertações dos programas que se constituem corpus do estudo: Universidade Federal do 30 Acre (UFAC), Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), Universidade Federal do Pará (UFPA), Universidade Federal de Roraima (UFRR), Universidade Federal do Tocantins (UFT), Universidade de Rondônia (UNIR). Optamos por recorrer ao site dos respectivos programas de pós-graduação e não ao Catálogo de Teses e Dissertações da Capes por identificarmos que nem todos os trabalhos defendidos encontram-se cadastrados junto ao catálogo, especialmente, aqueles defendidos em 2020, último ano do recorte temporal. Além do não cadastramento de alguns trabalhos junto à Capes, percebemos que o momento de busca das teses e das dissertações nos sites dos PPGEs consistem, também, em uma boa oportunidade de conhecer outros aspectos para além de suas produções e, de certo modo, de colher indícios a respeito não só do que se produz, mas também de questões relacionadas à produção. Assim, elementos como: tempo de criação dos programas, projeto curricular dos cursos oferecidos, linhas de pesquisa que os constituem e quadro de docentes, embora não seja foco específico do estudo, sinalizam aspectos importantes para a análise da produção mapeada e apontam indícios para a definição de novos focos de estudos e pesquisas na continuidade de nossa trajetória profissional ao término do estágio pós-doutoral. Vale registrar que, mediante o referido processo de busca, identificamos que os PPGEs das universidades do Amapá e de Roraima não possuem registros de teses e dissertações sobre o Currículo e Educação do Campo e, principalmente, sobre Currículos de Formação Inicial de Professores. Uma possível razão para a ausência dessas produções científicas é o fato de serem instituições cuja criação de cursos de pós-graduação em Educação é recente. Contudo, tantas outras temáticas já foram contempladas nos referidos PPGEs, o que demonstra que não é o tempo decorrido de criação de um programa que determina as temáticas priorizadas, mas, sim, as escolhas feitas e as posições políticas defendidas. Ou seja, a definição de temáticas e objetos de pesquisas estão envoltos em relações de poder, posto que a produção de teses e dissertações resulta do modo como os projetos curriculares dos cursos de pós-graduação foram concebidos e estão organizados. Isso não significa que esses programas não estejam fortemente comprometidos com causas sociais extremamente relevantes como aquelas voltadas, por exemplo, às questões ambientais e às diversidades de gênero, sexo, raça, etnia, geração e cultura. 3.2 OS PPGES DO NORTE E SUAS PRODUÇÕES SOBRE CURRÍCULO DE FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES DO CAMPO 31 Das sete universidades escolhidas inicialmente como lócus para o presente estudo, apenas os PPGEs do Amazonas e do Pará oferecem cursos de mestrado e doutorado. Os demais são programas novos, com menos de dez anos, que oferecem tão somente cursos de mestrado. Em consulta feita junto ao Banco de Dissertações dos Programas de Pós-Graduação em Educação da UNIFAP e da UFRR, no período delimitado para esse estudo, localizamos um volume considerável de dissertações registradas, sendo que dessas nenhuma se volta à Educação do Campo ou à formação do professor que nele atua. Conforme mencionamos, consideramos que isso se deve, em parte, ao fato de serem programas relativamente novos. Apresentamos a seguir um quadro síntese das teses e das dissertações localizadas nas outras instituições de ensino que integraram o estudo para posterior descrição e análise. Teses e dissertações sobre currículo e Educação do Campo dos PPGEs de universidades da região Norte Ano Tipo Instituição Título Autor Orientador/a 2018 Dissertação UFAC Organização do trabalho pedagógico no cotidiano de classes multisseriadas do município de Rio Branco-Acre Fernanda Helena Basso Alves Elizabeth Miranda de Lima 2019 Dissertação UFAC Professores do campo na Amazônia- Acreana: atuação profissional e papel social Elverenice Vieira da Silva Tânia Mara Rezende Machado 2018 Dissertação UFAM Trabalho e Educação do Campo no contexto amazônico: um estudo em uma comunidade camponesa do Médio Rio Solimões Iraci Carvalho Uchôa Arminda Rachel Botelho Mourão 2018 Dissertação UFAM Os significados construídos pelas crianças da educação infantil ribeirinha de Manaus Ana Paula Lima Carvalho de Oliveira Iolete Ribeiro da Silva 2017 Tese UFAM Políticas de Formação inicial de Professores do Campo em Parintins: Contextos e Contradições Simone Souza Silva Arminda Rachel Botelho Mourão 2019 Tese UFPA Alternância pedagógica na formação do educador: contribuições da licenciatura em educação do campo a partir da Unifesspa Maria Celeste Gomes de Farias Salomão Antônio Mufarrej Hage 2017 Tese UFPA Educação do Campo no Amazonas: história e diálogos com as territorialidades das águas, das terras e das florestas Maria Eliane de Oliveira Vasconcelos Salomão Antônio Mufarrej Hage 2017 Tese UFPA Política de formação de educadores do campo e a construção da contra- hegemonia via epistemologia da práxis: análise da experiência da LEDOC- UFPA-Cametá Hellen do Socorro de Araújo Silva Salomão Antônio Mufarrej Hage 2017 Tese UFPA Questões epistêmico-historiográficas sobre a Educação do Campo no Brasil Natamias Lopes de Lima Paulo Sérgio de Almeida Corrêa 2016 Dissertação UFPARepresentações sociais de egressos do curso de licenciatura em Educação do Antenor Carlos Pantoja Ivany Pinto Nascimento http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/mariaeliane.pdf http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/mariaeliane.pdf http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/mariaeliane.pdf http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/mariaeliane.pdf http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/hellen.pdf http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/hellen.pdf http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/hellen.pdf http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/hellen.pdf http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/hellen.pdf http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/natamias.pdf http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/natamias.pdf http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/antenor.pdf http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/antenor.pdf 32 Ano Tipo Instituição Título Autor Orientador/a Campo da UFPA: formação e atuação no contexto social do campo Trindade 2016 Dissertação UNIR As tecnologias digitais na formação de professores indígenas do curso de licenciatura em educação básica intercultural da Fundação Universidade Federal de Rondônia. Vanderléia Barbosa da Silva José Lucas Pedreira Bueno 2020 Dissertação UFT Formação dos primeiros graduandos do Curso de Licenciatura em Educação do Campo - UFT Arraias/TO: um estudo do currículo prescrito e vivenciado Joélia dos Santos Rodrigues Aparecida de Jesus Soares Pereira Fonte: elaboração própria Na análise descritiva das teses e das dissertações, priorizamos os seguintes elementos: apresentação dos programas de pós-graduação em Educação, temáticas privilegiadas, autoria, orientadores, objetivos dos estudos, abordagem teórico-metodológica e resultados. O Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Acre (PPGE/UFAC) foi criado em 2014. Trata-se de um programa novo que ainda não oferece curso de doutorado; razão pela qual mapeamos apenas as dissertações sobre o tema objeto desse estudo nele defendidas. No banco de dissertações do referido programa, localizamos duas dissertações sobre Educação no Campo. No entanto, não especificamente sobre o Currículo de Formação Inicial de Professores do/no Campo. A primeira, intitulada: “Organização do trabalho pedagógico no cotidiano de classes multisseriadas do município de Rio Branco-Acre”, foi produzida por Fernanda Helena Basso Alves, defendida em 2018 e orientada pela professora Elizabeth Miranda de Lima. Teve como objetivo geral compreender como o professor da primeira etapa do Ensino Fundamental das classes multisseriadas organiza o trabalho pedagógico, indagando em que medida essa organização contribui para uma educação humanizadora, emancipatória ou crítica. A abordagem teórico-metodológica usada em sua construção está ancorada no materialismo histórico-dialético, privilegiando as categorias totalidade, práxis, contradição e mediação. As conclusões da pesquisa apontam que a organização do trabalho pedagógico nas classes multisseriadas adota a lógica da seriação, numa perspectiva urbanocêntrica. A escola lócus do estudo está vinculada ao sistema oficial de educação e orienta-se por um modelo hegemônico, alinhado aos interesses capitalistas, distante das diretrizes da Educação do Campo e das abordagens críticas e emancipatórias. A segunda dissertação defendida no PPGE/UFAC ocorreu em 2019; foi produzida por Elverenice Vieira da Silva e orientada pela professora Tânia Mara Rezende Machado, tem http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/antenor.pdf http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/antenor.pdf 33 como título: “Professores do campo na Amazônia-Acreana: atuação profissional e papel social”. Nela buscou-se analisar a importância do papel social do professor do campo na Amazônia-Acreana, atentando para os aspectos de sua formação e atuação profissional, construídos a partir do trabalho que o professor desenvolve nas unidades escolares localizadas em áreas de assentamentos rurais. A pesquisa de campo envolveu oito sujeitos, em duas escolas, na região do Vale do Juruá, nas cidades de Cruzeiro do Sul e Mâncio Lima. A partir da territorialização das escolas e dos sujeitos da pesquisa, a autora constituiu as representações conceituais e históricas que denominou de Amazônia-Acreana. As seções estão organizadas com vistas a demonstrar a relação entre a produção teórica da Educação do Campo, a territorialização que a Amazônia- Acreana apresenta em termos de especificidades para compreender em que contextos se desenvolve a educação em áreas de assentamentos rurais e as condições de desenvolvimento do trabalho pedagógico dos professores, passando pelas interfaces que compõem o ato de ser professor na região. Ao longo da pesquisa, a autora buscou encontrar elementos de uma escola do campo, com traços de uma educação popular. Contudo, não foi possível identificar a participação das comunidades a partir de saberes tradicionais, processos de construção de uma coletividade ou mesmo de outros elementos culturais do campo que fizessem parte do cotidiano escolar. Os dados empíricos demonstram um trabalho docente semelhante ao que se desenvolve nas áreas urbanas. O Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) foi criado há mais de uma década e já está consolidado. Nele localizamos duas dissertações e uma tese. É importante esclarecer que, no repositório de dissertações e teses desse programa, somente constam as pesquisas realizadas até o ano de 2018. No tocante às dissertações, o primeiro estudo localizado é de autoria de Iraci Carvalho Uchôa, intitulado: “Trabalho e Educação do Campo no contexto amazônico: um estudo em uma comunidade camponesa do Médio Rio Solimões”. O estudo foi orientado pela professora Arminda Rachel Botelho Mourão e defendido em 2018. O objetivo geral da pesquisa consistiu em analisar a relação trabalho e educação do campo em uma comunidade do Médio Rio Solimões, cujos objetivos específicos constam: 1) estudar os referenciais teóricos que sustentam as categorias trabalho e educação do campo; 2) identificar a organização social do trabalho e educação do campo, bem como seus aspectos singulares no campo de Alvarães; e, 3) avaliar a materialidade do trabalho como princípio educativo a partir dos elementos que constituem a dinâmica e as contradições da sociedade. 34 As bases teóricas advêm do materialismo histórico, orientadas pelas três leis: Unidade e Luta dos Contrários, Transformação da Quantidade e Qualidade e a Negação da Negação. As categorias empíricas do estudo foram: Trabalho, Agricultura Familiar Camponesa, Movimento Social e Educação do Campo. As conclusões que a pesquisadora chegou foram que a Educação do Campo, mesmo sendo estabelecida pelas políticas públicas, há falta de interesse político em implementá-la na comunidade. A educação oferecida aos sujeitos, pouco dialoga com a sua realidade, o que reflete em suas formações, pois não compreendem o processo e nem o porquê do ensino – que é urbanizado –, de modo que migram para a cidade, em busca de trabalho e educação. A despeito de reconhecerem a educação urbanocêntrica – a qual não valoriza os processos produtivos, as culturas e os saberes construídos –, os sujeitos reivindicam novas concepções de educação pautadas em suas realidades. Ação que confere sentido ao trabalho e, portanto, à materialização da Educação do Campo na comunidade enquanto política pública. O segundo trabalho, intitulado Os significados construídos pelas crianças da Educação Infantil ribeirinha de Manaus, de autoria de Ana Paula Lima Carvalho de Oliveira e orientado por Iolete Ribeiro da Silva, também foi defendido em 2018. Ele teve como objetivo compreender os significados construídos pelas crianças pequenas nos processos educativos que caracterizam suas experiênciasna educação infantil de uma escola pública municipal ribeirinha de Manaus. O lócus da pesquisa foi a escola localizada na Comunidade Nova Esperança, Igarapé do Tiú, Rio Tarumã Açú, na zona rural ribeirinha de Manaus. A base teórica do estudo foi a Teoria Histórico-Cultural de Vigotski, para quem, o conhecimento ocorre numa relação dialética entre o sujeito mediada por signos e instrumentos. A pesquisa apontou como resultado que o universo infantil na escola e as relações sociais que envolvem as crianças pequenas na área ribeirinha da região amazônica podem ser considerados amostra para se constituir em tema para novas investigações científicas. Quanto à produção de teses, localizamos apenas uma na UFAM, e é de autoria de Simone Souza Silva que foi orientada por Arminda Rachel Botelho Mourão. A tese recebeu como título: “Políticas de formação inicial de professores do campo em Parintins: contextos e contradições” e foi defendida em 2017. O objeto de investigação do estudo foi as Políticas de Formação Inicial de Professores do Campo, e o problema que a conduziu consistiu em saber se as políticas de formação de professores atendem às singularidades da educação do campo no contexto sociopolítico, econômico, cultural e territorial do município de Parintins. 35 A base teórica que orienta o estudo advém do materialismo histórico-dialético. Como resultados identificou-se que as políticas de formação de professores oferecidas por meio de programas, quando institucionalizadas, não viabilizam uma política global de formação docente que contemple as singularidades das escolas do campo, uma vez que há profundas contradições entre o discurso das políticas e sua concreta implementação, ao desconsiderar e inviabilizar o protagonismo dos professores e as necessidades demandadas em seus contextos. Admite-se que a resolução de tal problemática é complexa e não se limita apenas ao papel do professor, posto que envolve questões de ordens diversas, como: financiamento adequado para esta finalidade, e organização e fortalecimento da categoria dos professores. Estes, enquanto protagonistas no enfrentamento da luta por uma formação global de professores, necessitam de um projeto pautado em bases sólidas e articuladas às singularidades das escolas do campo como uma das possibilidades de contribuir para uma educação fortalecida seja no campo, seja na cidade. O levantamento realizado junto ao site do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Pará (UFPA) indicou-nos quatro produções científicas, sendo três teses e uma dissertação. O título de uma das teses é “Política de formação de educadores do campo e a construção da contra hegemonia via epistemologia da práxis: análise da experiência da LEDOC-UFPA-Cametá”. Ela foi defendida em 2017 por Hellen do Socorro de Araújo Silva e orientada pelo professor Salomão Antônio Mufarrej Hage. O estudo trata da política de formação dos educadores do campo, a partir da experiência formativa do Curso de Licenciatura em Educação do Campo (LEDOC) da Universidade Federal do Pará (UFPA), Campus do Tocantins em Cametá-PA. O objetivo geral dessa pesquisa consistiu em analisar como a política de formação dos educadores do campo assegura os princípios da Educação do Campo através de referenciais contra hegemônicos no Curso de Licenciatura em Educação do Campo na UFPA, Campus do Tocantins em Cametá. A metodologia escolhida para o estudo respaldou-se no materialismo histórico-dialético na perspectiva de se compreender a formação dos sujeitos coletivos do campo e seus atos de resistência na busca por uma formação diferenciada que atenda suas realidades e heterogeneidade como povos do campo, das águas e das florestas. Em termos de resultados, observou-se que o Curso de Licenciatura em Educação do Campo, enquanto política de formação de educadores em processo de consolidação, mediante tensões e contradições pela aprovação do Projeto Pedagógico, vincula-se aos princípios originários da Educação do Campo, tais como: formação por área de conhecimento, http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/hellen.pdf http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/hellen.pdf http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/hellen.pdf 36 resistência e afirmação da identidade docente, prática interdisciplinar, alternância pedagógica e transformação da escola do campo. Elementos que, em seu cerne, apontam uma formação contra hegemônica na educação superior referenciada pela epistemologia da práxis. O segundo trabalho, também orientado pelo professor Salomão Hage, foi defendido por Maria Celeste Gomes de Farias e leva como título: “Alternância pedagógica na formação do educador: contribuições da licenciatura em Educação do Campo a partir da UNIFESSPA”. O estudo teve como objetivo identificar e analisar as contribuições da Alternância Pedagógica desenvolvida no Curso de Licenciatura em Educação do Campo, na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA), para a formação dos educadores, no que tange ao alcance dos princípios da Educação do Campo. A tese é organizada em quatro capítulos. O primeiro apresenta a concepção hegemônica de formação e contra hegemônica na perspectiva do Movimento de Educação do Campo e o desenvolvimento da Licenciatura em Educação do Campo no Brasil. No segundo capítulo, são expostos os princípios teóricos e metodológicos da Pedagogia da Alternância e a Alternância Pedagógica na formação do educador do campo. O terceiro capítulo destina-se à apresentação do contexto histórico social da região do Sudeste do Pará, onde está situada a UNIFESSPA, e da organização da Alternância Pedagógica no Curso LPEC. No quarto capítulo, é feita a análise dos dados estruturados nos quatro Eixos Temáticos, tomando como base o olhar dos sujeitos do processo formativo, com ênfase nas contribuições da Alternância Pedagógica na formação do educador do campo. Seus resultados apontam diversas contribuições da alternância em relação ao alcance dos princípios da Educação do Campo como práticas educativas que incidem na realidade das escolas e das comunidades onde estão inseridas. Isso ocorre ao se valorizar os conhecimentos dos povos, a cultura, os saberes e a alternância como elemento para uma formação cujo princípio é a relação com a terra e o trabalho dos sujeitos do campo. Apontam, ainda, para uma formação humana e política do educador, bem como para a produção de conhecimentos socialmente comprometidos com a classe trabalhadora do campo. Embora não trate especificamente de currículos de formação de professores do campo, pinçamos a terceira tese para leitura e análise por que, em seu título “Educação do Campo no Amazonas: história e diálogos com as territorialidades das águas, das terras e das florestas”, aponta para conteúdo e reflexões sobre as diversidades territoriais amazônicas, o que amplia as análises. O entendimento é de que o campo se expande e interlaça com as terras, as águas e as florestas produzindo modos de vida. http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/TESEMARIAFARIAS.pdf http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/TESEMARIAFARIAS.pdf http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/mariaeliane.pdf http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/mariaeliane.pdf 37 O estudo foi produzido em 2017 por Maria Eliane de Oliveira Vasconcelos e orientado pelo professor Salomão Hage. Na tese, sua autora analisa a construção da História da Educação do Campo no Amazonas a partir das experiências de participação de sujeitos coletivos do campo em diálogo com a diversidade sociocultural dos povos do campo e com as territorialidades das águas, das terras e das florestas, no período de 1980 a 2015. A investigação foi pautada em uma abordagem qualitativa fundamentada na perspectiva histórico-dialógica, com o uso de fontes documentais e orais, e da metodologia de história oral. Como resultado, a autora defendea tese de que a História da Educação do Campo no Amazonas dialoga com as territorialidades das águas, das terras e das florestas, e com a diversidade do mundo do trabalho, articulada ao protagonismo de sujeitos coletivos do campo que vem aprofundando o debate sobre a Educação do Campo. As teses analisadas indicam que os estudos foram desenvolvidos a partir da abordagem qualitativa, de forma crítica, dentro da perspectiva do materialismo histórico- dialético. A quarta e última tese que selecionamos foi produzida em 2017. Embora também não trate, especificamente, sobre o tema objeto desse estudo, ela traz importantes contribuições por constituir-se em um estado da arte sobre as abordagens de pesquisa e epistemologias que permearam a pesquisa em Educação do Campo no Brasil. O estudo recebeu o título: “Questões epistêmico-historiográficas sobre a Educação do Campo no Brasil”, e foi defendido por Natamias Lopes de Lima e orientado pelo professor Paulo Sérgio de Almeida Corrêa. O objetivo do estudo foi analisar a abordagem de pesquisa e epistemologias adotadas com supremacia em estudos sobre a Educação do Campo, que resultaram em teses de doutorado produzidas em programas de pós-graduação em Educação, no período de 2006 a 2014, presentes no Banco de Teses da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e no Banco Digital Brasileiro de Teses e Dissertações (BDTD). Esse estudo, bastante amplo, abrangeu trabalhos produzidos por programas de outras regiões brasileiras, não apenas da região Norte, como o que realizamos. No entanto, tendo ele já percorrido um caminho, cujo marco temporal findou no ano de 2014, consideramos iniciar o nosso estudo a partir desse ano. A principal fundamentação teórica para o estudo de Lima (2017) adveio de Sánchez- Gamboa. O autor conclui que não obstante a Educação do Campo ainda não ser reconhecida como área de conhecimento pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), na prática científica, constitui-se em campo de pesquisa com enfoques http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/natamias.pdf 38 em diferentes temáticas, objetos de estudo, tempos históricos, espaços geográficos, críticas. Tudo firmado em diferentes métodos que implicam fundamentações epistemológicas plurais, reveladoras de concepções, ideologias, leituras, cosmovisões diferentes, materializadas em produções de diferentes naturezas e categorias que demonstram ser este um campo complexo e não homogêneo em termos de teorias nas quais se fundamentam. A única dissertação mapeada sobre o objeto específico desse estudo foi defendida em 2016, sob o título: “Representações sociais de egressos do curso de licenciatura em Educação do Campo da UFPA: formação e atuação no contexto social do campo”. Ela foi produzida por Antenor Carlos Pantoja Trindade e orientada pela professora Ivany Pinto Nascimento. O estudo traz as representações sociais de egressos do Curso de Licenciatura em Educação do Campo relativas às suas formações como professores no curso e sua relação com a atuação docente nesse contexto social. As referências teóricas do estudo advieram das representações sociais de Serge Moscovici (1978), Jodelet (2001) e as discussões sobre as licenciaturas em Educação do Campo enquanto proposta de transformação social de Molina e Sá (2014) e contra hegemônica de Gramsci (1978). Os sujeitos pesquisados foram oito egressos da turma de Licenciatura em Educação do Campo da Universidade Federal do Pará (UFPA), do Campus de Abaetetuba, com o lócus de pesquisa na mesma Universidade. Os resultados apontam que os egressos reconhecem a importância do curso na região, visto que propicia uma formação para além das expectativas esperadas, isto é, uma formação crítica e política, com a valorização da cultura local e a preparação para atuar nas escolas do campo e na comunidade. Na Universidade Federal de Rondônia (UNIR), o Programa de Pós-Graduação em Educação é relativamente novo. Nele não localizamos nenhum trabalho especificamente sobre Currículo e Educação do Campo. Entretanto, decidimos incorporar a esse estudo uma dissertação defendida, em 2016, por Vanderléia Barbosa da Silva e orientada por José Lucas Pedreira Bueno, intitulada “As tecnologias digitais na formação de professores indígenas do curso de licenciatura em educação básica intercultural da Fundação Universidade Federal de Rondônia”, por ser a única que mais se aproxima de nosso objeto. O estudo discute as mudanças sociais trazidas pela expansão e ampliação das tecnologias digitais que reconfiguram as relações culturais na atualidade. Diante dessas perspectivas, a questão norteadora que mobilizou o estudo foi: em que medida as tecnologias digitais estão sendo aplicadas à formação no Ensino Superior dos professores indígenas. Os resultados do estudo mostram que as tecnologias digitais têm sido utilizadas no processo de formação dos acadêmicos, indígenas ou não, principalmente com aplicação de http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/antenor.pdf http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/antenor.pdf 39 atividades práticas. Os entrevistados relatam que as tecnologias digitais são importantes para a formação docente e que a universidade se caracteriza como o principal espaço de inclusão digital para os acadêmicos indígenas. Seus depoimentos dão conta que, durante a formação no ensino superior, adquiriram habilidades para a utilização das tecnologias digitais, como: aprendendo a manuseá-las e utilizá-las para a formação; a divulgação da cultura, suas lutas e reivindicações; e produção de materiais didáticos. A pesquisa demostra que a formação do professor indígena tem passado por várias conquistas, mas que ainda há muitos aspectos que precisam ser repensados, melhorados e investigados, a fim de utilizar as tecnologias digitais na educação escolar indígena. O Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Tocantins (UFT) foi criado em 2012 como esforço em alavancar a pesquisa na região Norte do Brasil. Nele localizamos dez trabalhos sobre Educação do Campo. Contudo, apenas um está diretamente ligado ao currículo de formação inicial de professores do campo, trata-se da dissertação de Aparecida de Jesus Soares Pereira intitulada “Formação dos primeiros graduandos do Curso de Licenciatura em Educação do Campo – UFT Arraias/TO: um estudo do currículo prescrito e vivenciado”. Orientado pela professora Aparecida de Jesus Soares Pereira e defendido em 2020, o estudo teve como fonte a proposta curricular do Curso de Licenciatura em Educação do Campo Códigos e Linguagens – Artes Visuais e Música, tendo como referência o processo de formação dos primeiros graduandos que vivenciaram tal proposta. O objetivo consistiu em analisar os desafios enfrentados por docentes e discentes durante o processo de formação. O trabalho é fundamentado majoritariamente em teóricos específicos do campo do currículo e, em menor proporção, em teóricos da Educação do Campo; o que nos pareceu um problema, visto que cabem especificidades aos currículos do campo. O estudo dá conta da necessidade de se proceder ajustes ao projeto curricular do curso. 3.3 EM RESPOSTA A QUESTÃO CENTRAL DA SEÇÃO Em resposta a questão central que suscitou essa seção, temos a responder que a produção científica dos programas de pós-graduação em Educação das universidades federais da região Norte sobre Currículos de Formação Inicial de Professores do Campo aponta, conforme classificação de Silva (2004), que as teses e as dissertações, defendidas no período de 2014 a 2020, estão fundamentadas em teorias curriculares, notadamente críticas e pós- críticas. Conforme o autor, as teorias críticas desconfiam do status quo, responsabilizando-o pelas desigualdades e injustiças sociais. Nesse sentido, pretendem ser transformadoras da 40 realidade; para isso, focamnaquilo que o currículo faz (dimensão política) e não em como fazer o currículo (dimensão técnica). A educação escolar é interpretável como possível palco de crítica e resistência contra-hegemônica. As teorias críticas supõem uma tentativa de compreensão do mundo e de transformação da realidade. Tratar, por exemplo, de conscientização no sentido que Paulo Freire (1981; 2005) analisa, significa uma educação como um ato de conhecimento e um processo de ação transformadora sobre a realidade. Em vista disso, a ação educativa é essencialmente uma ação transformadora, comprometida com os oprimidos, de modo que o papel de um currículo de formação inicial de professores do campo precisa assumir um papel estratégico em territórios repletos de conflitos e injustiças. Dentre as teorias críticas, há predominância de estudos pautados no materialismo histórico-dialético – dos doze trabalhos analisados, nove estão fundamentados nessa abordagem teórico-metodológica. Nessa perspectiva, observamos que os estudos produzidos a partir das teorizações críticas de base marxista contemplaram questões de desigualdades – tomada como fenômeno vinculado à injustiça. Os autores das teses e das dissertações têm a preocupação de compreender a educação e o currículo de formação inicial de professores do campo em uma perspectiva de transformação dos sujeitos e dos espaços do campo. A atenção à questão da desigualdade/dominação foi mantida no conjunto das teorias pós-críticas, pautadas em vertentes teóricas, tais como a pedagogia feminista, pós-colonialista e o multiculturalismo. O Programa de Pós-Graduação em Educação da UFPA é o que computa o maior número de teses e dissertações sobre a Educação do Campo. Contudo, ainda são poucas se considerarmos o quantitativo geral de trabalhos nele produzidos. Essa constatação já era salientada por Lima (2017) que em sua pesquisa de doutorado detectou que no banco de teses e dissertações desse programa não são muitos os trabalhos registrados sobre a temática em pauta. No tocante às orientações, poucos são os professores de programas de pós-graduação que orientam estudos sobre o referido Campo. A pesquisa mostrou que o professor que mais orienta sobre a temática é Salomão Antônio Mufarrej Hage da UFPA, com três orientações no marco temporal definido para este estudo (2014-2020), coincidindo, também, com o nome de maior produção de artigos sobre o tema conforme levantamento feito no mesmo período junto ao Portal de Periódicos da Capes. Em termos de temáticas privilegiadas, o estudo mostrou se tratar de uma multiplicidade de temáticas de grande relevância, pois expressa o potencial que a educação 41 pode oferecer socialmente e a impossibilidade de homogeneização da educação que se faz nas escolas do campo na Amazônia brasileira. Em alguns estados, como é o caso do Pará e do Acre, as águas, as florestas e os campos coexistem. Nesses espaços os sujeitos indígenas, extratores, pescadores, agricultores, vaqueiros e peões das fazendas são chamados a conviver e a constituir culturas e modos de vida que se interpenetram e clamam por projetos pedagógicos contra hegemônicos. Esse vasto território, segundo Albuquerque (2016), não pode ser homogeneizado e precisa ser pensado no plural haja vista que, tanto na Amazônia Brasileira quanto na Amazônia Transnacional, temos significativas diferenças. Encontramos também teses e dissertações que extrapolaram o campo do Currículo e da Educação do Campo, porque não tratam especificamente de currículos de formação de professores do campo, águas e florestas, nem de licenciaturas voltadas a tal formação. Retratam, sim, experiências educativas relacionadas às casas familiares rurais e à casa escola da pesca, ao custo aluno para a qualidade da Educação do Campo, à educação indígena e aquisição linguística, às escolas itinerantes, ao processo de nucleação das escolas do Campo, o uso do tempo livre pela juventude ribeirinha e do campo, aos conflitos culturais e pedagógicos entre estudar no campo e na cidade e o papel da educação ambiental como componente curricular em escolas situadas em reservas extrativistas. Já as temáticas abordadas nas teses e nas dissertações – escolhidas para análise especificamente para este estudo – tratam da organização do trabalho pedagógico em classes multisseriadas, da relevância da Pedagogia da Alternância como proposta formativa, da atuação profissional e do papel social dos professores do Campo na Amazônia, das contradições da docência no campo, das Representações Sociais de egressos do curso de Licenciatura em Educação do Campo, de questões epistêmico-historiográficas sobre a Educação do Campo no Brasil, da Educação do Campo em diálogos com as territorialidades das águas, das terras e das florestas, das políticas de formação de educadores do campo e da construção da contra hegemonia via epistemologia da práxis. Analisamos que, nos trabalhos mapeados, há um paradoxo que talvez possa ser passível de compreensão a partir da categoria da contradição, qual seja: as discussões teóricas presentes, nas teses e nas dissertações, sobre a formação inicial de professores do campo enfatizam a necessidade de Projetos Curriculares que contemplem o estudo da natureza e as especificidades da educação no campo em contextos sociopolítico, econômico, cultural, territorial e pedagógico. Assim, nas investigações que tomam como objeto de estudo Projetos Pedagógicos, voltados à Educação do Campo, observamos que, enquanto propostas ideadas, estas se encontram conectadas aos princípios da Educação do Campo, tais como: formação http://www2.ufac.br/ppge/banco-de-dissertacoes/dissertacoes-2019/DissertaoElvereniceVieiradaSilva.pdf http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/natamias.pdf http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/natamias.pdf http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/mariaeliane.pdf http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/mariaeliane.pdf http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/hellen.pdf http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/hellen.pdf 42 por área de conhecimento, a prática interdisciplinar, resistência/afirmação da identidade docente, alternância pedagógica e a transformação da escola do campo. Princípios estes que, em sua essência, apontam uma formação contra-hegemônica na educação superior referenciada pela epistemologia da práxis. Por outro lado, os dados empíricos dessas teses e dissertações evidenciam que essas especificidades não se materializam, pois revelam práticas curriculares hegemônicas, alinhadas aos interesses capitalistas, distantes das diretrizes da Educação do Campo e das abordagens críticas. Além disso, os estudos fundamentados em concepções descolonizadoras de currículo e educação do campo não ocupam espaço devido nas produções acadêmicas no formato de teses e dissertações, o que indica urgência das universidades brasileiras primarem pela análise do modo como essas questões são tratadas socialmente e no currículo escolar com vistas a uma educação para a ciência, mas também para a justiça social e para a luta pela igualdade. Os dados demonstram um trabalho docente análogo ao que se desenvolve nas áreas urbanas. A autonomia dos professores e a suas práxis se restringem à esfera das ações cotidianas, inviabilizando o protagonismo docente em face das demandas dos contextos em que exercem a docência. Situação que confirma a posição de Gimeno Sacristán (2007) ao afirmar que o texto de um currículo é a expressão de uma intenção, e que os êxitos das ações são a realidade que não pode ser prevista, a não ser em termos bastante amplos: “Esse texto é uma espécie de partitura que representa a música, mas não é a música. Deve ser traduzida na prática por executantes e com os instrumentos apropriados: a música depende disso” (GIMENO SACRISTÁN, 2007, p. 119). Consideramos que, por melhor que sejam as concepções de currículo de formaçãoinicial de professores do campo que os elaboradores de projetos idealizem e codifiquem, a conjuntura educacional brasileira, fortemente influenciada pelas políticas de tecnificação e mercadorização da educação, produz práticas formativas homogeneizadoras pautadas em currículos, saberes, materiais didáticos e procedimentos de ensino homogeneizados, restringindo as autonomias docentes, uma vez que só lhes são dadas condição de reprodução de um único modelo de trabalho. Contudo, mesmo diante dessa realidade, algumas especificidades são forjadas e modificam a realidade da organização didático-pedagógica dos professores, como é o caso da multissérie e da alternância pedagógica, elementos que tratam das especificidades dessa Educação do Campo. Os estudos apontam o reconhecimento, por parte dos sujeitos que fazem a educação no campo, de que existe uma concepção de educação homogeneizadora coagindo-os cotidianamente em suas práticas pedagógicas para que não avancem em direções contra 43 hegemônicas. Todavia, esses sujeitos percebem que há questões de ordens diversas a serem forjadas rumo à mudança dessa realidade, tais como: envolvimento em suas autoformações, engajamento político e o fortalecimento da categoria docente via participação sindical, questões essas de natureza particular. Porém, enxergam também dimensões mais amplas que escapam de seus domínios, por exemplo, o adequado financiamento da Educação do Campo. A Alternância Pedagógica e o Ensino Multimercado representam propostas pedagógicas que apontam importantes resultados e validade para a Educação do Campo. A primeira representa porque valoriza os conhecimentos dos povos, a cultura, os saberes, a relação com a terra e o trabalho dos sujeitos do campo; e o segundo, porque toma as diferenças de idade, nível de conhecimento e envolvimento com as realidades que os circundam como elementos de aprendizagem e não de segregação e exclusão. Temáticas voltadas às questões étnico-raciais, de gênero e sexualidade não foram objetos específicos das teses ou das dissertações mapeadas, demonstrando que os estudos fundamentados em concepções descolonizadoras de currículo e educação do campo não ocupam o espaço devido nas produções acadêmicas no formato de teses e dissertações. Isso indica a necessidade urgente de as universidades brasileiras primarem pela análise do modo como essas questões são tratadas socialmente e no currículo escolar, com vistas a uma educação para a ciência, a justiça social e a luta pela igualdade. Embora a Educação do Campo não seja reconhecida como área de conhecimento pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em termos de produção científica, o campo do currículo, de um modo geral, tem ganhado centralidade nas políticas educacionais, especialmente a partir das reformas da educação brasileira dos anos de 1990 e empreendidas no estado. Com as reformas, foram colocados novos objetos em estudo e enfoques teórico-metodológicos, firmados em epistemologias plurais que revelam concepções, ideologias, leituras, cosmovisões diferentes, materializadas em produções de diferentes naturezas e categorias. O que demonstra ser este um campo complexo e não homogêneo em termos de teorias e concepções, nas quais se fundamentam e precisam alcançar os Currículos de Formação Inicial de Professores do Campo. Em termos quantitativos, o estudo mostrou que ainda há muito a ser feito pelas universidades públicas federais da região Norte pela educação no campo. Duas das universidades do Norte (UFRR, UNIFAP) não possuem nenhuma dissertação em Educação sobre o tema, e as outras quatro universidades que compõem a região, juntas produziram doze trabalhos, sendo sete dissertações e cinco teses: (UFAC – 2 dissertações, UFAM – 2 44 dissertações e 1 tese, UFPA – 4 teses e 1 dissertação, UNIR – 01 dissertação, UFT – 1 dissertação). O estudo mostrou ainda que, em tempos de negacionismo das universidades públicas federais do Brasil e do conhecimento científico que nelas se produz as universidades que serviram de lócus para o estudo, mesmo com os cortes de investimentos financeiros e atacadas por representantes do poder, como o presidente da república e alguns de seus assessores, essas instituições continuam – em meio a muitos desafios – realizando uma produção científica significativa sobre currículos de formação inicial de professores, se considerarmos o reduzido investimento que vem sendo dado à pós-graduação no Brasil, em especial, na região Norte. 45 4. CONCEPÇÕES DE CURRÍCULO EXPRESAS NOS PROJETOS PEDAGÓGICOS DE FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES DO CAMPO DA/NA REGIÃO NORTE Os currículos são a expressão do equilíbrio de interesses e forças que gravitam sobre o sistema educativo num dado momento, enquanto que através deles se realizam os fins da educação no ensino escolarizado. [...] O currículo, em seu conteúdo e nas formas através das quais se nos apresenta e se apresenta aos professores e alunos, é uma opção historicamente configurada, que se sedimentou dentro de uma determinada trama cultural, política, social e escolar; está carregado, portanto, de valores e pressupostos que é preciso decifrar (GIMENO SACRISTÁN, 2000, p. 17). 4.1 SITUANDO A TEMÁTICA Essa seção tem como objetivo apresentar o mapeamento dos Projetos Pedagógicos do Curso de Formação Inicial de Professores do Campo oferecidos por universidade Federais da região Norte do Brasil, com vistas a decifrar e analisar que concepções de currículo os orientam. Isto pelo fato de que: A proposta pedagógica tem papel fundamental a desempenhar na formação e profissionalização de professores que, por sua vez, vão formar homens e mulheres através de propostas curriculares. A qualidade da formação, contudo, vai depender das concepções ontológicas e epistemológicas que sustentam essas propostas curriculares, a partir das quais se formulam diferentes concepções de homem, de trabalho e de sociedade (KUENZER 2011, p. 678). A criação de cursos de Licenciatura em Educação do Campo fazem parte de Políticas educacionais amplas do Ministério da Educação (MEC), iniciadas em 2003, pela antiga Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD), atualmente Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI), através da Coordenação Geral de Educação do Campo (CGED). A aprovação das Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo em 2002 e a realização, a partir de 2004, de 25 Seminários Estaduais de Educação do Campo, foram importantes ações da SECAD/MEC no fortalecimento da educação do campo no Brasil. Essas ações fomentaram a criação do Programa Saberes da Terra, com o propósito de garantir a educação dos jovens e adultos do campo através da rede pública de ensino, com uma organização curricular que respeita as especificidades do campo; e ao mesmo tempo a construção de um Plano Nacional de Formação dos Profissionais da Educação do Campo. Santos, Molina e Azevedo de Jesus (2010) organizadoras da obra: “Memória e história do Pronera: contribuições para a educação do campo no Brasil” levantam importantes 46 questionamentos sobre as bases sobre as quais a formação dos professores do campo estão firmadas: Formação para qual escola? Para qual projeto de educação? Perguntas que também fazemos, acrescidas de outra que se constitui na problemática central desse estudo: quais são as concepções de currículo de formação inicial de professores do campo expressas nos Projetos Pedagógicos oferecidos por universidades federais da região Norte do Brasil? O estudo se justifica em razão do avanço dos movimentos sociais no campo empreendidos principalmente nas últimas duas décadas, aliado a um movimento mais amplo de consideração da educação como direito, que tem provocado alterações no cenário nacional e suscitadopropostas e políticas públicas no contexto do reconhecimento e da aceitação das especificidades e diversidades no campesinato brasileiro, como um direito a ser considerado na educação do campo. Contudo, as políticas educacionias voltadas à educação do campo ainda não alcançam todos os estados e regiões do Brasil com efetividade e continuidade. No estado do Acre, por exemplo, ainda não se tem um curso superior voltado à formação inicial de professores do campo com amplo alcance. O que se tem é um curso de Licenciatura Cultural Indígena com funcionamento apenas no Campus de Cruzeiro do Sul, mas que não atende a diversidade dos povos daquele território. Embora, muitas iniciativas tenham ocorrido nessa direção. Em 2008, o Acre sediou o I Encontro de Educação do Campo e da Floresta da Região Norte em Rio Branco (AC). Ano a ano, novos esforços são empreendidos, portarias de nomeações são expedidas e, no entanto, como já dito, não se tem ainda um Projeto de formação incial de professores do campo que contemple a diversidade dos povos das florestas, águas e campos da região. Na mesma direção de análise dos descompassos regionais entre as conquistas sociais relacionadas à educação do campo, observamos que a produção acadêmica da região Norte sobre o tema é menor que de outras regiões. Dos trinta trabalhos levantados por Souza (2018), poucos foram realizados por autores do Norte ou em Programas de Pós-Graduação de Universidades Amazônicas. Razão pela qual, esse estudo tem o objetivo analisar as concepções de currículo de Formação Inicial de Professores do Campo expressas nos Projetos Pedagógicos de universidades federais da região Norte do Brasil. Concepções curriculares podem ser expressas em diferentes elementos que constituem um projeto curricular, para os propósitos definidos neste estudo analisamos as concepções de currículo identificadas prioritariamente: nas principais referências teóricas que serviram de base para a definição da concepção de currículo que orientam a elaboração dos Projetos Pedagógicos Curriculares (PPC) bem como, os conceitos e princípios que os estruturam. 47 Do ponto de vista teórico, as principais referências vêm de Apple (1999) para quem os currículos são espaços de poder e resistência, Sacristán (2000) em suas definições de currículo como cruzamento de práticas diversas ao fazer a defesa de uma educação e consequentemente um currículo que esteja a serviço dos oprimidos Freire (2011) e Quijano (2005) ao destacar a necessidade de descolonização de saberes e Arroyo (2017) ao defender uma pedagogia e um currículo que considerem os saberes advindos dos movimentos sociais. Trata-se de uma pesquisa documental definida por Marconi e Lakatos (2003) como aquela que tem como característica o fato das fontes de coleta de dados se restringirem “a documentos, escritos ou não, constituindo o que se denomina de fontes primárias”. Assim, os PPC das distintas universidades que serviram com lócus da pesquisa constituíram-se em fonte primária da coleta de dados para a realização deste trabalho, pois consistem em documentos oficiais que definem o currículo a ser seguido nas instituições que realizam a formação de professores do campo. Nesse aspecto, os PPC foram fontes de informações diretas para este estudo, considerando que “os dados estão lá”, restando apenas “fazer sua triagem, criticá-los, isto é, julgar sua qualidade em função das necessidades da pesquisa, codificá-los ou categorizá-los” (LAVILLE; DIONNE, 1999, p. 167). A metodologia utilizada para o estudo compreende três fases que consistem em: 1. Mapeamento dos PPC da região Norte, 2. Descrição e análise destes e 3. Produção de relatório de pesquisa. Para alcançar esse propósito, considerando a necessidade de isolamento social causado pela pandemia da Covid-19, acessamos alguns Projetos Curriculares dos Cursos objeto deste estudo por meio dos sites das universidades federais da região Norte. A escolha por essa região se faz por ser nosso lócus de vida e atuação profissional e por entendermos ser necessário dar maior visibilidade às diversidades sociais da população amazônica e à produção científica que é feita nessa parte do Brasil, historicamente tratada de modo inferiorizado e homogeneizado. Para a realização do estudo foram mapeados sete Projetos Pedagógicos Currículares- PPC de formação inicial de professores do campo oferecidos por sete universidades federais da região Norte do Brasil: Universidade Federal do Acre (UFAC), Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), Universidade Federal do Pará (UFPA), Universidade Federal de Roraima (UFRR), Universidade Federal do Tocantins (UFT), Universidade de Rondônia (UNIR). Três dos projetos citados são de Licenciatura Indígena: PPC do Acre, do Amapá e do Amazonas. Embora haja especificidades e legislações próprias que orientam a elaboração 48 desses currículos, optamos por incluí-los por entendermos que os professores indígenas fazem parte dos povos dos campos, águas e florestas. Na busca virtual encontramos o Projeto Pedagógico de quatro cursos: Licenciatura em Educação do Campo com habilitação em Ciências da Natureza e Ciências Humanas de Rondônia (Campus de Rolim de Moura), Curso de Licenciatura Intercultural Indígena do Amapá, Licenciatura em Educação do Campo de Tocantins (Campus de Arraias) e Curso de Licenciatura do Campo de Roraima. Não localizamos, nos sites das universidades do Acre, Amazonas e Pará, projetos pedagógicos voltados à formação de professores do campo. Esse fato nos impulsionou a escrevermos um e-mail às Pró- Reitorias de Graduação dessas universidades nos apresentando e expondo a proposta de pesquisa. Nesse e-mail, solicitávamos que, caso aquela universidade oferecesse curso da natureza dos que estávamos buscando, que nos enviassem. Não recebemos respostas aos e-mails enviados. Recorremos então, a uma escrita para professores dessas instituições com os quais mantemos relações acadêmicas. Desta feita, com algum retardo fomos atendidos, restou apenas conseguirmos o PPC da UFAM. Justamente a universidade que conforme site institucional oferece dezoito cursos de formação de professores indígenas em diferentes áreas do conhecimento e cidades do Amazonas: FE07 Formação de Professores Indígenas - Humanas e Sociais - Borba FE08 Formação de Professores Indígenas - Letras e Artes - Borba FE09 Formação de Professores Indígenas - Exatas e Biológicas - Borba FE10 Formação de Professores Indígenas - Humanas e Sociais - Maués FE11 Formação de Professores Indígenas - Letras e Artes - Maués FE12 Formação de Professores Indígenas - Exatas e Biológicas - Maués FE13 Formação de Professores Indígenas - Humanas e Sociais - M. Solimões FE14 Formação de Professores Indígenas - Letras e Artes - M. Solimões FE15 Formação de Professores Indígenas - Exatas e Biológicas - M. Solimões FE16 Formação de Professores Indígenas - Letras e Artes - Alto Rio Negro FE17 Formação de Professores Indígenas - Letras e Artes - Alto Solimões FE18 Formação de Professores Indígenas - Exatas e Biológicas - Alto Rio Negro FE19 Formação de Professores Indígenas - Humanas e Sociais - Alto Rio Negro FE20 Formação de Professores Indígenas - Exatas e Biológicas - Alto Solimões FE21 Formação de Professores Indígenas - Humanas e Sociais - Alto Solimões FE22 Formação de Professores Indígenas - Humanas e Sociais - Lábrea 49 FE23 Formação de Professores Indígenas - Exatas e Biológicas - Lábrea FE24 Formação de Professores Indígenas - Letras e Artes - Lábrea FE25 Formação de Professores Indígenas - Humanas e Sociais - Manicoré Com os PPC mapeados, passamos à organização, descrição e análise dos dados. Contudo, considerando a abrangência e heterogeneidade dos Projetos, seja do ponto de vista do conteúdo, seja da forma como estão estruturados, não definimos uma forma padrãopara apresentá-los e analisá-los, mas definimos como eixo articulador três elementos centrais: Princípios, conceitos e referências teóricas que fundamentam a concepção de currículo neles expressos. 4.2 PRINCÍPIOS, CONCEITOS E REFERÊNCIAS TEÓRICAS QUE FUNDAMENTAM AS CONCEPÇÕES DE CURRÍCULO NOS PPC Os princípios, conceitos e referências teóricas que compõem as concepções de currículo que orientam os PPC dos Cursos de Licenciatura no Campo na região Norte podem ser expressos no quadro a seguir. Quadro V- Princípios, conceitos e referências teóricas que compõem a concepção de currículo que orientam os PPC dos Cursos de Licenciatura no Campo na região Norte. UNIVERSIDADE/CURSO/ANO TEÓRICO/S CONCEITO/S Acre Licenciatura Cultural Indígena 2017 FOUREZ (2001), LUCK (1995) e POMBO (1994). Interdisciplinaridade Interculturalidade Amapá Licenciatura Intercultural Indígena 2019 D’AMBRÓSIO (1994) Transdisciplinaridade Interculturalidade Decolonialidade Amazonas Formação de Professores Indígenas Não identificamos Não identificamos porque os PPC não foram localizados Rondônia Licenciatura em Educação do Campo com habilitação em ciências da natureza e ciências humanas e sociais 2015 ENGELS (1985) E FRIGOTTO (2010) Trabalho Pedagogia da Alternância Roraima Licenciatura em Educação do Campo 2011 FREIRE (2005) GABRIEL (2011) Educação como prática de liberdade Grupos de Referência Tocantins Licenciatura em Educação do Campo 2016 SANTOMÉ (1998) Currículo integrado Pará Educação do Campo 2019 FREIRE (1987, 1993) Contextualização Dialogicidade, Movimentos sociais Alternância Fonte: elaboração própria O PPC de Licenciatura indígena do Acre orienta-se por um conjunto amplo de 50 princípios tais como: Bilinguismo, interculturalidade, autonomia, democracia, cidadania, sustentabilidade, territorialidade, inclusão, reconhecimento de notório saber dos indígenas, fortalecimento de alteridades e calendário flexível. Principios estes somente possíveis de serem alcançados de modo interdiciplinar. Nesse sentido, a predominância teórica advém de autores como: Fourez (2001), Luck (1995) e Pombo (1994) que tratam do conceito de interdisciplinaridade ao valerem-se de diferentes disciplinas científicas de modo articulado e delas retirarem o necessário para construir uma proposta curricular que responda as demandas sociais em contexto. Luck (1995, p. 59) citado no referido PPC argumenta que: [...] a interdisciplinaridade representa a possibilidade de promover a superação da dissociação das experiências escolares entre si, como também delas com a realidade social. Ela emerge da compreensão de que o ensino não é tão-somente um problema pedagógico e sim um problema epistemológico. Trata-se de uma perspectiva epistemológica que toma o currículo como resultado de intercâmbios mútuos realizados pela integração recíproca entre componentes curriculares capazes de romper a estrutura de cada disciplina e alcançar uma axiomática comum. Tomando os três autores citados como principais referências, o PPC orienta-se por uma perspectiva inter e transdisciplinar de currículo que se organiza em eixos que ampliam a noção daquilo que pode ser considerado currículo: O eixo Escola Indígena e seus Sujeitos comporta em seu interior os fundamentos teórico-práticos da formação do educador. Essa dimensão fundamenta o respeito à ampliação da noção de currículo para além das práticas acadêmicas, incorporando a ideia de que a vida cotidiana tem seus próprios currículos, expressos nos processos sociais de aprendizagem que permeiam todo o nosso estar no mundo, que nos constituem e que, necessariamente, precisam ser considerados e processados de forma solidária (PPC Licenciatura Indígena/ UFAC, 2115, p.32). A cosmologia indígena não separa as áreas ou disciplinas do saber, portanto todo o curso é perpassado pelos temas cosmológicos tais como xamanismo, ritual e mitologia. Conforme Silva (2013, p. 88): No seio deste projeto encontra-se, a indicação conceitual de que o curso propõe uma educação intercultural, diferenciada e bilíngue que tende a respeitar as peculiaridades de cada etnia e promover a integração entre os diferentes grupos, índios e não índios. Expressa ainda que, ao longo do curso, o indígena seja formado para trabalhar na educação escolar de sua aldeia, onde poderá incentivar a manutenção da língua materna e terá maiores condições para respeitar os processos próprios de aprendizagem. 51 O PPC do curso de Licenciaturas Interculturais Indígenas do Amapá tal como o PPC do Curso de Licenciatura Indígena do Acre privilegia princípios como diversidade, interculturalidade, interdisciplinaridade, transdisciplinaridade, dialogicidade e alternânica. Entretanto, referendado em autores diferentes daqueles que serviram de fundamentação ao PPC do Acre. Para este, as referências são Santomé (1995, 1998), Giroux (1995) e Silva (1999, 2003) para tratar do currículo intercultural e D’Ambrósio (1994) para tratar da interdisciplinaridade e sua relação com a alternância pedagógica. Para os demais conceitos e princípios não há explicitação clara de quais sejam as referências teóricas que os fundamentam. A alternância, dialogicidade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade são os principais eixos do currículo do Amapá ao considerar as vivências dos professores indígenas no grupo, as atividades culturais dos acadêrmicos de modo integralizadas com as atividades das áreas do conhecimento que compoem o PPC. Trata-se de um currículo pautado em uma concepção transdisciplinar como expresso na Carta da Transdisciplinaridade, particularmente o seu Artigo 8º.: Uma educação autêntica não pode privilegiar a abstração no conhecimento. Ela deve ensinar a contextualizar, concretizar e globalizar. A educação transdisciplinar revaloriza o papel da intuição, do imaginário, da sensibilidade e do corpo na transmissão dos conhecimentos (D’AMBRÓSIO, 1994: p.32). O referencial teórico que fundamenta o PPC do Amapá aliado a concepção de uma Linha de Pesquisa denominada “Linhas de pesquisa: 1. Línguas Indígenas; 2. Cultura, Sociedade e Decolonialidade; 3. Povos Indígenas e os processos educacionais” apontam para estreitas aproximações com concepções descolonizadoras de currículo. Ainda sobre o Curso de Licenciatura Intercultural Indígena do Amapá, consideramos importante destacar aqui que em nossas buscas virtuais para a localização dos PPC chamou- nos a atenção o site deste Curso, pois o mesmo pode se constituir em uma referência de zelo com a organização acadêmica de um curso e empenho em de dar visibilidade às ações nele desenvolvidas. O site contempla dentre outros links, aqueles nos quais é possível localizar o Projeto Pedagógico Curricular (PPC) do Curso, um Banco de Trabalhos de Conclusão de Curso nele defendidos, o quadro de professores que constitui o curso, o Núcleo Docente Estruturante-NDE e o Colegiado. Nos PPC da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), conforme site dessa universidade a interculturalidade e a sustentabilidade é o foco, no entanto, não conseguimos 52 acessar os PPC, nem obtivemos êxito em nossa solicitação via e-mail enviado a essa instituição de ensino para realizarmos uma análise acurada das concepções de currículo neles expressas. O PPC de Roraima apresenta pouca fundamentação teórica. Nele são citados de modo breve os autores Freire (2005) em sua obra “Educação como prática de liberdade” e Frazão (2011) para tratar do conceito de grupos de referência, entendidos como aqueles grupos a que as pessoas pertencem desde a mais tenra idade e por isso estruturam a suas formas de ser, pensar e agir. A autora explica que as pessoas, ao se encontrarem diante de uma situação- problema acionam um dos referentes dos grupos referência a que estão afiliados e tomam decisõesfundadas nessas referências. De fato, não é preciso muito esforço para recuperarmos em nossas lembranças memórias de situações em que lançamos mão de alguma experiência advinda de nossas trajetorias familiares, religiosas e profissionais para tentarmos fundamentar nossas ações. O homem da escola e o mesmo homem da assembleia, da praça, da igreja, do sindicato, da cooperativa, da roça, do rio e da floresta. Identificamos no PPC de Roraima aproximação teórica entre Freire (2005) e Frazão (2011) na viabilização da Pedagogia da Alternância, na qual os estudos teóricos são realizados com intuito de promover a leitura da realidade e a ação dos alunos em suas comunidades os quais retornarão à academia para novas reflexões. O PPC do Tocantis tem sua maior fundamentação em Santomé (1998), que trata do currículo integral e que defende que o currículo não obedece a linearidades, porque se fundamenta em uma concepção epistemológica transdisciplinar. Seus conceptores fazem críticas ao currículo disciplinar e propõem um currículo globalizado, integrado ou curriculo interdisciplinar. O currículo integral coincide com o desejo de buscar “modos de estabelecer relações entre campos, formas e processos de conhecimento normalmente considerados incomunicáveis (SANTOMÉ, 1998)”. Nessa concepção de currículo: [...] as diferentes áreas do conhecimento e experiência entrelaçam-se, complementam-se e reforçar-se mutuamente, para contribuir de modo mais eficaz e significativo com a construção e reconstrução do conhecimento e dos conceitos, habilidades, atitudes, valores, hábitos que uma sociedade estabelece democraticamente ao considerá-los necessários para uma vida mais digna, ativa, autônoma, solidária e democrática (SANTOMÉ, 1998, p. 125). Os elaboradores do PPC recorrem também a Adoino (1998), Burham (1998), Macedo (2002) e Martins (2000) para reforçar a defesa de um currículo multirreferenciado. A 53 multirreferencialidade consiste em um daqueles conceitos polêmicos no campo do currículo. Aqueles que o defendem partem do princípio que a construção do conhecimento se dá de modo complexo posto envolver elementos não excludentes, mas complementares. Assim, na formação do professor que atua no campo as dimensões que compõem o cotidiano das pessoas que lá vivem é constituido de conhecimentos que não estão hierarquicamente de modo inferior aos conhecimentos científicos. Antes, integram-se na apreensão, explicação e transformação da realidade. Coerente com essa concepção de currículo, observamos uma tentativa de explicitação de intencionalidades formativas que se expressam na descrição de atividades que constituem cada núcleo ou eixo formativo. O PPC do Pará explicita compromisso com o comprometimento de princípios freireanos tais como: Dialogicidade do Ato Educativo, que considera o diálogo como a base da relação pedagógica com implicações na multidimensionalidade dos alunos como sujeitos ativos em seus aspectos sociais, culturais, cognitivos e afetivos. Conforme análises de Hage; Farias; Araújo (2016, p. 146): Para que se possa afirmar essa dialogicidade é importante que os cursos construam uma matriz curricular que dê conta da articulação de saberes de diferentes Tradições: do Trabalho, da Ciência e Tecnologia e da Cultura, fortalecendo a Interdisciplinaridade e a Transdisciplinaridade no trato com os componentes curriculares, ao afirmar uma perspectiva Relacional entre as várias áreas de conhecimento, entre os conhecimentos científicos/escolares e os saberes do trabalho e da produção cultural dos sujeitos do campo; provocando com tudo isso, mudanças substantivas na forma hegemônica de produzir e socializar os conhecimentos científicos. Além da dialogicidade, outro princípio orientador do PPC do Pará é a transversalidade no trato com a inclusão de processos culturais indenitários e acolhida da diversidade em seus múltiplos aspectos: econômico, político, social, cultural, de gênero, geracional e étnico e ainda, a contextualização a partir do trabalho com temas geradores, eixos temáticos e atividades curriculares do processo e flexibilidade do calendário acadêmico. Há também, no PPC do Pará uma preocupação com a viabilização de princípios voltados ao respeito à ética e à diversidade étnica, cultural e biológica; o pluralismo de ideias e de pensamento; o ensino público e gratuito; a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão; a flexibilidade de métodos, critérios e procedimentos acadêmicos; a excelência acadêmica; a defesa dos direitos humanos e, a preservação do meio ambiente. No entanto, o conceito de descolonização, se quer configura no PPC uma única vez. 4.3 ANÁLISE DE OUTROS ELEMENTOS ACRESCIDOS AOS PPC 54 Os princípios, conceitos e referências teóricas destacadas na subseção anterior são fundamentais para a identificação e análise das concepções de currículo que orientam os PPC em estudo. No entanto, além deles, outros elementos que os constituem são igualmente significativos para esse propósito uma vez que envolvem princípios e conceitos advindos tanto da cultura material como da cultura não material. Por cultura material, referimo-nos a produção de bens de produção e por cultura não material referimo-nos a teorias, valores e princípios. Conforme análise de Severino (2002) a educação se constitui em prática produtiva, política e simbolizadora. Ou seja, na mesma proporção que pela educação se prepara homens e mulheres para o trabalho, os intrumentaliza para as ações políticas, que por sua vez carregam valores expressos mediante simbologias. Por exemplo: o produtor familiar que planta arroz orgânico o faz enquanto prática produtiva resultante de conhecimentos da tradição familiar e da ciência agronômica. Contudo, ao optar por formas cooperativas e isentas de agrotóxicos está assumindo posições políticas e simbolizadoras comprometidas com princípios solidários, suntentáveis e emancipadores. Souza nos lembra de que: Para além das relações com a terra, os povos do campo trabalham nas águas e florestas e participam de um conjunto de práticas socioculturais singulares. O que há em comum entre os povos do campo, das florestas e das águas é toda uma vida de trabalho e de resistência. Resistência como criação de condições socioeconômicas, culturais e políticas para garantir a vida, o trabalho, a educação, dignidade e a coletividade. (2018, p. 28-29). No tocante a instrumentalização teórica dos professores do campo para trabalharem com essas múltiplas e singulares práticas culturais, localizamos nos PPC mapeados significativas referências teóricas sobre os conceitos de trabalho e poucas referências sobre os conceitos de etnia, raça e negros, parecendo-nos que a dimensão produtiva da vida ganha maior espaço no currículo dos cursos que as dimensões políticas e simbólicas. Se o trabalho é um dos conceitos muito presentes nos PPC, gênero, etnia, raça, negritude e processos geracionais, quase não configuram nos PPC e quando aparecem são em trechos muito pontuais que não se articulam com os demais elementos que os constituem. No PPC do Acre, por exemplo, esses conceitos configuram na definição dos procedimentos de seleção para ingresso no curso ao prever que “o processo de seleção em conformidade com os princípios deste PPC considerará, sobretudo, o critério da diversidade de gênero, étnica, linguística e geográfica.” (PPC Licenciatura Indígena/ UFAC, 2115, p. 27) e na ementa da disciplina Políticas de Educação Escolar Indígena no Brasil e no Acre que contempla dentre outras questões: 55 [...] Ações afirmativas de políticas públicas no campo educacional, diversidades étnico-racial, de gênero, sexual, religiosa, de faixa geracional e direitos educacionais de adolescentes e jovens em cumprimento de medidas socioeducativas. (PPC Licenciatura Indígena/ UFAC, 2015, p. 53). No PPC do Amapá, as questõesétnicas raciais são contempladas na ementa de três componentes curriculares em cumprimento as leis Lei n°. 10.639, de 9 de janeiro de 2003 e Lei n°. 11.645, de 10 de março de 2008. O PPC, quais sejam: “Povos Indígenas e Etnologia”; “Territórios, Territorialidades e Terras Indígenas”. Além desses três componetes, o PPC traz outros conteúdos que abordam a história e cultura africana, afro-brasileira e indígena na área de formação em Ciências Humanas e discute as relações históricas construídas ao longo do processo colonizador nas Américas e no Brasil. Fora os dois componentes citados, raça e etnia são conceitos ausentes no conjunto do PPC. No caso dos PPC de Rondônia e Roraima, esses conceitos são como nos dizeres de Thompson (1981) termos quase ausentes. Fato que indica que os elaboradores destes PPC desconsideraram as leis n°. 10.639, de 9 de janeiro de 2003 e Lei n°.11.645, de 10 de março de 2008 que estabelecem a obrigatoriedade dessas temáticas na formulação dos Currículos. Fato bastante negativo para a formação de professores na Amazônia, pois o campo nessa região é permeado por uma diversidade étnico racial grande e, no entanto, são minimizadas no currículo. Aspectos importantes dos PPC dizem respeito à dimensão pedagógica e a elaboração de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Em cinco dos PPC mapeados, a dimensão pedagógica da formação dos professores foi concebida para além de uma pespectiva minimalista. O conjunto das disciplinas que as compõem envolve muito mais que o exigido pela Resolução CNE/CP 1, de 18 de fevereiro de 2002, legislação em vigor a epoca em que foram elaborados os respectivos PPC. Essa constatação demostra uma compreensão do lugar do pedagógico na formação de professores. O TCC por sua vez, é previsto em todos os PPC como atividade curricular obrigatória a ser desenvolvida nos intervalos entre os períodos letivos de componentes curriculares em instituições de ensino público: municipais e estaduais, escolas comunitárias e em instituições não formais de ensino localizadas no campo. Constam também, atividades complementares que se constituem em atividades curriculares e extracurriculares a serem desenvolvidas na dinâmica do Tempo-Universidade e Tempo-Comunidade. Essas atividades de capacitação acadêmica foram pensadas para se constituirem a partir de: monitorias, participação em projetos de extensão, participação em 56 palestras, seminários, mesas redondas, congressos, conferências, iniciação científica, trabalhos publicados e outras atividades de cunho acadêmico-científico-culturais que se articulem com as propostas dos cursos. Os desenhos curriculares analisados buscam articular prática-teoria-prática vivenciados no próprio ambiente social e cultural de origem dos estudantes em regime de alternância entre Tempo/Universidade e Tempo/Comunidade. Desenho esse que expressa uma concepção de currículo que integra dimensões da vida e do trabalho dos futuros professores à dimensão pedagógica. Contudo, alguns PPC trazem um conjunto amplo de competências a serem adquiridas que a princípio parecem expressar certa subserviência a uma concepção tecnicista de currículo. Evidenciamos ainda, a preocupação com as questões de inclusões que podem ser observadas no PPC de Roraima , na organização de disciplinas como “Fundamentos da Educação Inclusiva e da Diferença” e “Narrativas Autobiográficas Identidade e Cultura” com oferecimento no terceiro perido do curso. Alguns PPC anunciam principios e conceitos contraditórios com os elementos que os constituem e ainda, hibidizam referenciais teóricos em uma tentativa de equilibrar interesses uma vez que: [...] os currículos são a expressão do equilíbrio de interesses e forças que gravitam sobre o sistema educativo num dado momento, enquanto que através deles se realizam os fins da educação no ensino escolarizado. [...] O currículo, em seu conteúdo e nas formas através das quais se nos apresenta e se apresenta aos professores e alunos, é uma opção historicamente configurada, que se sedimentou dentro de uma determinada trama cultural, política, social e escolar; está carregado, portanto, de valores e pressupostos que é preciso decifrar (GIMENO SACRISTÁN, 2000, p. 17). Os PPC foram elaborados a partir de Diretrizes Curriculares Nacionais que prescrevem e exigem o alcance de competências. Nesse sentido, fazê-las configurar nos PPC junto com princípios de uma educação transformadora, mais que subserviência às “políticas educacionais mercadológicas” (FREITAS, 2012) daqueles que os conceberam, trata-se de uma tática de resistência em que se atende ao prescrito para se garantir a aprovação legal desses PPC, mas insere-se também e de modo mais aprofundado, concepções contra hegemônicas de currículo articuladas a estudiosos como Caldart (2004), que compreende a Educação do Campo como “maior” do que a escola uma vez que Educação do Campo se produz no movimento social e este, por sua vez, é educativo. Os autores dos PPC 57 compreendem que definir uma proposta curricular não significa estabelecer modos uniformes de pensar e de agir homogêneos. Outro elemento que observamos ao examinarmos os PPC foi um esforço em apresentar a relação entre a graduação e a pós-graduação na organização curricular dos cursos, especialmente, no PPC da Universidade Federal do Pará em que nele se anuncia um conjunto de ações a serem desenvolvidas de modo articulado com a produção dos grupos de pesquisa dos professores da Pós-Graduação em Educação daquela universidade, inclusive, com a nomeação de Grupos e de professores que os lideram. Situação que nos impulsionou a fazer a busca desses grupos de pesquisa no Diretório do CNPq. Localizamos apenas o registro de um dos grupos citados o que contradiz a articulação entre graduação e pós-graduação, pois os professores que lideram os grupos citados no PPC não compõem o quadro de professores que ministram aula no curso ou participaram da elaboração do referido PPC. Esse fato faz parecer que talvez possa ocorrer uma fragmentação do trabalho pedagógico e suscita reflexões sobre a necessidade de maior articulação entre as políticas de graduação e pós-graduação. Essas informações podem ainda trazer indícios do esforço por construir redes de conhecimento. Embora, talvez possa apontar uma fragmentação entre os que conceberam o PPC do curso e aqueles que o executam. Sabemos que desenhos curriculares trazem as marcas de seus arquitetos. Mais um aspecto observado nos PPC é o fato de enfatizarem sobremaneira as questões regionais, causando uma aparente endogenia. No entanto, pomos em questão, se de fato seria este um caso de endogenia? Refletimos a respeito dos modos como são forjadas as formações de pesquisadores do Norte do Brasil. Formações estas muitas vezes resultantes de Mestrados e Doutorados Institucionais, que oportunizam a qualificação de mestres e doutores da região, contudo tendem a imprimir uma formação de perspectiva homogênea em termos de referências teóricas e de objetos de estudo. Sendo estes mais voltados às questões regionais. Sobre os riscos que uma educação de perspectiva regionalista pode trazer, reforçamos com base em Gimeno Sacristám (1999) que: Uma atitude regionalista, em educação, pode ser uma primeira base nutriente, se o sistema aberto de cada cultura for rico. Limitar-se a ele não é recomendável em caso algum, mas seria suicida quando nesse lócus da grande rede não exista potencialidade para enriquecer-se e poder acessar as linhas que amplie o nosso horizonte. Seria insensato deixar de reconhecer possibilidades de ampliação na rede de comunicações por professar culto à pequena pátria cultural. (GIMENO SACRISTÁN, 1999, p. 183). 58 Analisamos o que se tem na formulação dos PPC são concepções de currículo para a formação inicial de professores do campo de perspectiva descolonizadora na medida emque não restringe à socialização de saberes locais sem a articulação com saberes provenientes da grande rede, tampouco desconsideram ou deixam de enxergar as potencialidades formativas de currículos que tomem como ponto de partida os saberes provenientes das realidades dos sujeitos em formação com vistas a adentrar outras pátrias e universos. Em relação ao reconhecimento de que a formação do professor do campo não pode se limitar as demandas socio-culturais locais, tampouco pode ser pautada por uma perpectiva urbanocêntrica, local e regional encontramos fundamentação em Gimeno Sacristán (1999) e Freire (1997) Conforme Sacristán (1999), lógico é que os sujeitos se aproximem da grande rede, partindo de seu sistema cultural, com base na zona em que estão situados; de outra forma, dificilmente, poderiam compreender o significado da grande rede. Ainda com base nas percepções deste autor, analisamos que: [...] uma proposta formativa meramente regionalista para a formação de professores do campo pode e deve ser uma primeira base nutriente. Contudo, limitar-se a ele não é recomendável em caso algum. Mas seria suicida quando no lócus da grande rede não exista potencialidade para enriquecer-se e poder acessar as linhas que amplie os horizontes dos professores do campo, do mesmo modo que seria insensato deixar de reconhecer possibilidades de ampliação na rede de comunicações por professar culto à pequena pátria cultural. (SACRISTÁN, 1999, p. 183). Na mesma linha de análise Freire (1997) alerta que: Quanto mais se pulverize a totalidade de uma área em ‘comunidades locais’, nos trabalhos de ‘desenvolvimento de comunidade’, sem que estas comunidades sejam estudadas como totalidades em si, que são parcialidades de outra totalidade (área, região, etc.) que por sua vez, é parcialidade de uma totalidade maior (o país, como parcialidade da totalidade continental), tanto mais se intensifica a alienação. E, quanto mais alienados, mais fácil dividi- los e mantê-los divididos. (FREIRE, 1997, p. 139). Hage (2014) e Santos (2014) trazem argumentos que nos permitem exergar o quanto a educação do campo tem sido historicamente marginalizada na construção de políticas públicas, sendo inúmeras vezes tratada como política compensatória. As demandas e especificidades dos sujeitos do campo não são prioridades das políticas educacionais governamentais e nem nas produções acadêmicas. Neste cenário de exclusão, os autores citados destacam que a educação para os povos do campo vem sendo trabalhada a partir de discursos, identidades, perfis e currículos essencialmente marcados por conotações urbanas e, 59 geralmente, deslocado das necessidades da realidade. A análise e o encaminhamento adequado das demandas educacionais das comunidades do campo passam necessariamente pela reflexão e compreeensão dos seus modos de vida, dos seus valores específicos no diálogo com esses mesmos elementos de contextos outros que não os seus. O levantamento e análise de pesquisas expressas em artigos científicos produzidos por Hage (2014), Souza e Marques (2018) e em dissertação produzida por Silva (2019) evidenciaram que os princípios que orientam a Educação no Campo tais como: alternância pedagógica, ensino multisseriado, diversidade, formação para a transformação do campo mediante a busca pela autonomia dos sujeitos que lá residem não estão sendo alcançadas na prática. Fato que não passou despercebido em alguns PPC, como por exemplo, o do Pará em que o currículo de formação de professores do campo da UFPA contempla esses princípios aliados a uma educação voltada para a sustentabilidade sócio-econômica e cultural das comunidades para as quais foi concebido, sem, contudo, negligenciar a intereção com outras realidades mais amplas. Há, portanto, uma concepção curricular crítica subjacente ao PPC do Curso com vistas a uma formação integral dos professores em direção à transformação local e social visto que, “a educação do Campo não está reduzida às relações que ocorrem na escola, mas sua discussão, muitas vezes adentra à escola por meio da organização curricular” (SOUZA, 2018, p. XX). Há pontanto, que se evitar a construção de projetos formativos que se deem distanciados da prática social. Freire, ao tratar do alcance social das ações do professor como sujeito transformador, inclusive ao elaborar currículos e pô-los em ação, destaca: [...] tudo o que se puder fazer com competência, lealdade, clareza, persistência, somando forças para enfraquecer as forças do desamor, do egoísmo, da malvadez, é importante. Neste sentido, é tão válida e necessária a presença atuante de um líder sindical numa fábrica, explicando na madrugada, em frente aos portões da empresa, as razões da greve em processo, quanto indispensável é a prática docente de uma professora que, numa escola da periferia, fala a seus alunos sobre o direito de defender a sua identidade cultural (FREIRE, 2006, p. 70). De acordo com Machado (2012) um projeto curricular cumprirá com significativo papel de formar profissionais capazes de transformar a realidade do campo se fundamentar em referenciais teóricos críticos que enxerguem e destaquem “o potencial humano por mudanças sociais a partir da unidade entre o pedagógico e o histórico, do respeito às subjetividades e experiências dos sujeitos e à aproximação do ensino com a pesquisa e sua articulação com as práticas sociais por meio da extensão”. Concepção que de certo modo orienta os PPC 60 analisados. Os cursos estão organizados a partir dos paradigmas da Pedagogia da Alternância que tem como objetivo relacionar o processo de ensino/aprendizagem com as experiências indenitárias e sociais dos alunos. Os núcleos comuns e os específicos são previstos para ocorrerem de uma forma intercalada entre os Tempos- Espaço Universidade e o Tempo- Espaço Comunidade, sendo que cada etapa inicia com atividades do núcleo comum, realizando-se em seguida as atividades do núcleo especifico e concluindo-se a etapa novamente com atividades do núcleo comum. Em relação às atividades de pesquisa, espera-se que seja construída em cada Tempo- Espaço Comunidade e estimule as atividades de estudo próprias de cada núcleo a cada Tempo-Espaço Universidade. Na culminância das atividades, espera-se que o conjunto de estudos produzido a partir dos dados da pesquisa construída ao longo do curso em cada Tempo-Espaço Comunidade, se constitua em um diagnóstico sociocultural, ambiental e econômico que estimule durante estas etapas debates e reflexões que gerem como Trabalho de Conclusão de Curso projetos de ação voltados a educação do campo na região. Em alguns PPC é possível identificar que seus elaboradores tiveram o cuidado de descrever detalhadamente como será ofertada cada uma das dimensões, eixos ou núcleos formativos. Em outros, há falta de melhor apresentação de protocolos pormenorizados sobre as finalidades formativas e formas de operacionalização dos componentes curriculares que compõem os eixos ou núcleos formativos. O que não significaria burocratizar o currículo ou torná-lo demasiado prescritivo. Constitui sim, em entender que a explicitação de intencionalidades formativas via codificação escrita confere maior alcance operacional posto que estaria registrado e aberto a críticas uma vez que: A reprodução da escola precisa de textos, versões objetivadas da cultura; e sabemos que quem os escreve faz a história. Reproduz-se melhor e expande- se mais a cultura codificada, e isso ocorre por meio daqueles que a codificam (GIMENO SACRISTÁN, 1999, p. 157). Que pese a qualidade organizacional, teórica, técnica, legal e política explicitadas nos PPC, identificamos alguns paradoxos em suas codificações escritas que pomos em questão. Um deles diz respeito à manutenção do conceito de educação rural em alguns PPC para cursos voltados à formação de professores do campo.Diferença substancial existe entre essas duas perspectivas. Educação rural remete a formações a serviço do latifúndio e de seus interesses. Educação do campo visa atender aos anseios dos trabalhadores do campo de modo sustentável. Outro paradoxo diz respeito à inclusão nos PPC de referências teóricas filiadas a 61 concepções acríticas de educação que não discutem o modelo de sociedade capitalista que se tem e ao mesmo tempo anunciam princípios e objetivos formativos para professores do campo com vistas à transformação das relações sociais. Intento este permeado de um otimismo ingênuio impossível de se realizar uma vez que se não mudam as estruturas sociais de igual modo, não se transforma a educação e a formação que por ela se dá. Tampouco sem educação se muda a sociedade. Um dos principais desafios da educação do campo está em construir uma matriz formativa “cujo fundamento seja a superação da forma capitalista de organização do trabalho, na perspectiva da associação livre dos trabalhadores, na solidariedade e na justa distribuição social da riqueza gerada coletivamente pelos homens” destaca Molina (2019, p. 201) em suas análises. Consideramos que a metodologia de elaboração de PPC e os sujeitos envolidos também são elementos indiciarios de concepçoes de currículo, rastreamos esses elementos e observamos uma representatividade grande de instituições e sujeitos o que avaliamos como um ponto positivo, resualtante de uma concepção dialógica de currículo uma vez que se deu de modo democratico. Sabemos que quem escreve um currículo deixa suas marcas. Nesse sentido, destacamos que em termos de sujeitos partícipes da elaboração dos Projetos Pedagógicos Currículares dos cursos de Licenciatura em Educação do Campo todos anunciam tratar-se de um trabalho realizado por professores que compõem as instâncias colegiadas das instituições e estiveram vinculados e coletivos populares, representantes da sociedade civil, além de entidades e instituições governamentais e não governamentais. 4.4 EM SÍNTESE Ao longo da realização dessa pesquisa consideramos que as concepções de currículo podem estar expressas de diferentes modos e em diferentes elementos constitutivos dos Projetos Pedagógicos analisados. Em alguns casos, não se reserva um espaço nos PPC para a descrição fundamentada da concepção de currículo que os orientam, o que impôs a necessidade de identificarmos indícios deixados no registro e descrição de elementos como: referèncias teóricas, conceitos e princípios expressos nesses documentos. Em outros casos, as concepções de currículo estão mimetizadas na forma como os componentes curriculares são pensados e organizados. Fato que nos remeteu a análise desses elementos. Inferimos que houve um esforço por parte daqueles que elaboram os PPC para deixá-los em consonância com as Diretrizes Curriculares da educação do Campo que prevê a formação 62 integral do ser humano na qualificação profissional e na organização comunitária, valorizando conceitos como trabalho, natureza, cultura, interculturalidade, interdisciplinaridade, transdisciplinaridade, currículo integral, pedagogia da alternância e pedagogia do movimento. As concepçóes de currículo expressas nos PPC analisados se vinculam às concepções críticas de curículo advindas principalmente de referências teóricas marxistas, freireanas e decolonizadoras. Os autores mais citados são Marx (1985), Santomé (1995), Freire (1987; 2011), Caldart (2000; 2004), Molina ( 2011) e Arroyo (2000; 2017) embora, Marx, muito citado no PPC de Rondônia não consta na lista de referências. Contraditoriamente, Freire não configura como referência teórica nos PPC do Acre e no de Rondônia. A pesquisa mostrou que alguns PPC expressam de modo insatisfatório as referências teóricas nas quais se fundamentam o que dificultou a identificação das concepções curriculares que os orienta. Em contrapartida, em todos os PPC analisados consta um quantitativo relativamente bom de referências legais. O que transparece uma preocupação maior com a prescrição legal do que com a fundamentação teórica. Embora de algum modo todo ato legal espelha uma concepção teórica. Chama a atenção à polifonia teórica dos PPC na medida em que autores de perspectivas teóricas muito distintas configuram como referências em um mesmo PPC. Tentamos compreender esse fato a partir da reflexão sobre a metodologia colaborativa adotada para a elaboração do PPC representando as percepções e vozes de muitos sujeitos e instituições possivelmente com pontos de vistas dissensos. Se por um lado essa diversidade teórica e de sujeitos faz do projeto um instrumento de participação democrática, do outro, produz certa cacofonia. Consideramos que por melhor que sejam as concepções de currículo de formação inicial de professores do campo que os elaboradores de Projetos Pedagógicos elaborem e codifiquem em um texto curricular a conjuntura educacional brasileira, fortemente influenciada pelas políticas de tecnificação e mercantilização da educação tendem a produzir práticas formativas pautadas em currículos, saberes, materiais didáticos e procedimentos de ensino homogeneizados, restringindo as autonomias docentes e impondo-lhes a reprodução de um modelo de trabalho padronizado. Contudo, mesmo diante dessa realidade, alguns professores lutam pela garantia de algumas especificidades na organização didático- pedagógico como: ensino multisseriado, a alternância pedagógica e a atenção às diversidades. Essa situação ocorre conforme metáfora de Gimeno Sacristán (2007), porque o texto de um currículo é a expressão de uma intenção. O alcance das ações depende da realidade que não pode ser prevista, a não ser em termos bastante amplos. O texto de um Projeto 63 Pedagógico Curricular seria como uma espécie de partitura que representa a música, mas não é a música. Para tornar-se ação: “deve ser traduzida na prática por executantes e com os instrumentos apropriados: a música depende disso” (GIMENO SACRISTÁN, 2007, p. 119). Outro aspecto que a pesquisa nos permite observar é o modo minimalista como as temáticas étnico-raciais confiram nos Projetos Curriculares de Formação Inicial de Professores do Campo analisados. Sobre esse fato é importante que aqueles que concebem currículos concebam os cursos de licenciatura como espaço formativo para as temáticas étnicas e raciais não de modo pontual em um ou outro componente curricular específico, mas para tomá-los como temas estruturantes dos currículos. Será necessário que as universidades sejam vistas como instituições formadoras, que tracem protocolos especificando o modo como as questões étnicas e raciais serão tratadas e que nesses protocolos se defina as atribuições de cada membro dessas instituições, pois todos podem assumir responsabilidades e tornarem-se partícipes corresponsáveis. Ações assim delineadas passam pela identificação do racismo institucional e de seus desdobramentos para fazer mudanças antirracistas no currículo escolar para além da inclusão de um ou outro componente curricular. Essa concepção pode se expressar na seguinte utopia: Apliem-se o caráter institucional do currículo garantindo princípios como democracia, diversidade e justição social e sucumba-se o racismo institucional! Outra ação importante no enfrentamento ao racismo é o fortalecimento de redes antirracistas no interior das universidades por meio do fomento a políticas institucionais como a abertura de vagas para professores e alunos negros a fim de tornar esse não lugar em lugar de diferentes raças e etnias. Professores negros tendem a deixar marcados seus lugares de falas, suas opções teóricas e seus projetos de educação e sociedade. Estes, com frequência, aliados aos estudos descolonizadores, podem produzir transformações em projetos educacionais racistas e antidemocráticos e forjar projetos pautados no antiracismo ena justiça social. É preciso ainda frisar nos PPC a necessidade do cumprimento da lei 10.639 não só nos cursos de Licenciatura do Campo, mas em todos. A elaboração de Projetos Curriculares para a formação Inicial de Professores do Campo de perspectiva inclusiva não só de raça, mas de toda natureza, não é apenas uma questão pedagógica, mas antes de tudo política, que envolve a análise crítica de elementos históricos, sociais, econômicos e políticos inerentes à prática pedagógica. Não cabem ingenuidades de se pensar que o fato de os Projetos Pedagógicos Curriculares analisados estarem codificados por escrito possa garantir, por si só, suas operacionalizações práticas. No entanto, evidencia em que concepções de Formação Inicial de 64 Professores do Campo se fundamentam e o que aspiram aqueles que os codificaram. Isto, no entanto, não exime que professores alunos e coletivos populares de um modo geral, de modo colaborativo e reflexivo os remodelem, exercitando assim, suas autonomias ao afirmarem um currículo que se volte à formação de professores do campo com marcas indenitárias próprias. Coletar, mapear, descrever e analisar PPC representou uma importante oportunidade de ampliação das reflexões sobre as concepções de currículo de Formação Inicial de Professores do Campo na região Norte do Brasil, em sociedades amazônicas em que o patrimônio cultural se faz em trânsitos orais, escritos e visuais, requerendo sujeitos que se comprometam com uma formação de professores do campo comprometida com a ciência, mas também com a democracia, a diversidade e a justiça social. Esperamos que esse estudo possa subsidiar a formulação de Políticas e Práticas Curriculares voltadas à construção de Currículos de formação inicial de professores do campo em estados que ainda não assumiram esse compromisso social e possam trazer reflexões a aqueles que já possuem, inclusive trazendo elementos para o repensar dos PPC que foram objetos desse estudo. Sugerimos que esse exercício seja feito mediante a análise de que vivemos um tempo em que a democracia está fragilizada e ameaçada. Contudo, a utopia pode estar no rememorar todos os dias que o Brasil é herdeiro de uma capacidade organizativa construída ao longo de anos de luta que se constitui em um patrimônio fantástico que não pode ser perdido, mas ampliado pela elaboração teórica, política e prática de resistência radical. Seguimos, reafirmamos com Apple (1989) os currículos como espaço de poder e resistência, que resultam do cruzamento de práticas diversas Sacristán (2000), que estejam a serviço dos oprimidos Freire (2011) e da descolonização de saberes Quijano (2005), mediante uma pedagogia e um currículo que considerem os saberes advindos dos movimentos sociais ao serem concebidos, executados e avaliados por Arroyo (2017). 65 5 CONCLUSÃO Descrever os principais elementos conclusivos dessa pesquisa implicou refazer seu caminho de construção. Nesse refazer, percebemos que embora tenhamos tratado de um único objeto, qual seja: as concepções de currículo de formação inicial de professores do campo na região Norte do Brasil, o fato de envolver fontes distintas como: artigos, teses, dissertações e projetos pedagógicos curriculares, nos encaminha a apresentar resultados concernentes a busca realizada em cada tipo de fonte consultada. Assim, apresentamos os resultados conforme a fonte e ordem em que o estudo foi realizado. Em relação aos artigos, alguns não explicitam claramente que concepções de currículo de Educação do Campo os fundamentam. Contudo, a maioria recorre ao Materialismo Histórico-Dialético e, em menor proporção, aos Estudos Culturais, aos Estudos da Matemática Crítica e nos Estudos da Educação do Campo e ao Pensamento Decolonial. Concepções estas, que de modo amplo, podem ser agrupadas nas vertentes críticas e pós- críticas de educação. Identificamos um movimento de incorporação de novas concepções curriculares o que demostra que as fronteiras epistemológicas são dinâmicas que envolvem novos arranjos conceituais. Por exemplo, a utilização de conceitos como classe, hegemonia, contra hegemonia, trabalho, relações de produção e interdisciplinaridade, multiculturalismo, interculturalismo, pedagogia da alternância, ensino multisseriado e currículo integrado. Esse hibridismo indica a impossibilidade de homogeneização dos projetos pedagógicos de Educação do campo, águas e florestas na Amazônia. Em relação às conclusões relativas à produção científica dos programas de pós- graduação em Educação das universidades federais da região Norte sobre Currículos de Formação Inicial de Professores do Campo expressas em teses e dissertações neles defendidas, identificamos que tal como os artigos, estas produções também estão fundamentadas em teorias curriculares, notadamente críticas e pós-críticas. Dentre as teorias críticas, há predominância de estudos pautados no materialismo histórico-dialético fundamentados em concepções marxistas. Os autores das teses e das dissertações têm a preocupação de compreender a educação e o currículo de formação inicial de professores em uma perspectiva de transformação das desigualdades sociais mediadas dialeticamente pala educação. A atenção à questão da desigualdade/dominação/subordinação foi mantida em poucos trabalhos de perspectiva pós-críticas, pautados em concepções teóricas, tais como o pós- 66 colonialismo e o multiculturalismo, o que traz indícios para novas pesquisas sobre o tema a fim de se identificar as razões que respondem por tal fato. O Programa de Pós-Graduação em Educação da UFPA é o que registra a maior quantidade de teses e dissertações sobre a Educação do Campo. Contudo, ainda são poucas se considerarmos o quantitativo geral de trabalhos nele produzidos. Em relação às orientações, poucos professores de programas de pós-graduação privilegiam a orientação de estudos sobre o referido Campo. A pesquisa apontou que o professor com maior número de orientações sobre a temática é Salomão Antônio Mufarrej Hage da UFPA, com três orientações no marco temporal definido para este estudo (2014- 2020), coincidindo, também, com o nome de maior produção de artigos sobre o tema conforme levantamento feito no mesmo período junto ao Portal de Periódicos da Capes. Em termos de temáticas privilegiadas, o estudo mostrou que uma multiplicidade de temáticas de grande relevância, pois expressa o potencial que a educação pode oferecer socialmente e a impossibilidade de homogeneização dos currículos de formação inicial de professores amazônidas. Identificamos também teses e dissertações que ultrapassaram o campo do Currículo e da Educação do Campo, porque não tratam especificamente de currículos de formação de professores do campo, águas e florestas, nem de licenciaturas voltadas a tal formação. Enfocam, experiências educativas relacionadas às casas familiares rurais e à casa escola da pesca, ao custo aluno para a qualidade da Educação do Campo, à educação indígena e aquisição linguística, às escolas itinerantes, ao processo de nucleação das escolas do Campo, o uso do tempo livre pela juventude ribeirinha e do campo, aos conflitos culturais e pedagógicos entre estudar no campo e na cidade e o papel da educação ambiental como componente curricular em escolas situadas em reservas extrativistas. As temáticas abordadas nas teses e nas dissertações especificamente tratadas nesse estudo enfocam a organização do trabalho pedagógico em classes multisseriadas, da relevância da Pedagogia da Alternância como proposta formativa, da atuação profissional e do papel social dos professores do Campo na Amazônia, das contradições da docência no campo, das Representações Sociais de egressos do curso de Licenciatura em Educação do Campo, de questões epistêmico-historiográficas sobre a Educação do Campo no Brasil, da Educação do Campo em diálogos com as territorialidadesdas águas, das terras e das florestas, das políticas de formação de educadores do campo e da construção da contra hegemonia via epistemologia da práxis. http://www2.ufac.br/ppge/banco-de-dissertacoes/dissertacoes-2019/DissertaoElvereniceVieiradaSilva.pdf http://www2.ufac.br/ppge/banco-de-dissertacoes/dissertacoes-2019/DissertaoElvereniceVieiradaSilva.pdf http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/natamias.pdf http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/mariaeliane.pdf http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/mariaeliane.pdf http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/hellen.pdf http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/hellen.pdf http://ppged.propesp.ufpa.br/arquivos2/File/hellen.pdf 67 Em termos quantitativos, o estudo mostrou que os PPGE da região Norte ainda fazem pouco pela educação no campo. Duas das universidades do Norte (UFRR, UNIFAP) não possuem nenhuma dissertação em Educação sobre o tema, e as outras quatro universidades que compõem a região, juntas produziram doze trabalhos, sendo sete dissertações e cinco teses: (UFAC – 2 dissertações, UFAM – 2 dissertações e 1 tese, UFPA – 4 teses e 1 dissertação, UNIR – 1 dissertação, UFT – 1 dissertação). Contudo, é importante destacar que tratam-se de Programas relativamente novos. Alguns com menos de uma década. Muitos de seus quadros realizaram seus mestrados e doutorados em universidades de outras regiões do Brasil. Inclusive alguns tiveram como objeto de seus estudos a educação do campo, águas e florestas, como foi o caso de Adriana Ramos e Francisca Adma de Oliveira, ambas egressas do PPGE da UFPR. Em relação às conclusões relativas às concepções de currículo de formação inicial de professores do campo, águas e florestas que fundamentam os Projetos Pedagógicos Curriculares oferecidos pelas universidades federais da região Norte, observamos que as concepções de currículo expressas nos PPC analisados se vinculam às concepções críticas de currículo, advindas principalmente de referências teóricas marxistas, freireanas e decolonizadoras. Os autores mais referenciados são Marx (1985), Santomé (1995), Freire (1987, 2011), Caldart (2000; 2004), Molina (2011) e Arroyo (2000; 2017). A pesquisa mostrou que alguns PPC não expresam de modo satisfatório as referências teóricas nas quais estão fundamentados o que dificultou a identificação das concepções curriculares que os orientam. Em contrapartida, todos os PPC analisados apresentam um quantitativo relativamente amplo de referências legais. O que revela uma preocupação maior com o cumprimento de prescrições legais do que com a fundamentação teórica. Em alguns PPC há uma polifonia teórica ao envolver autores de perspectivas teóricas muito distintas. Tentamos compreender esse fato a partir da reflexão sobre a metodologia colaborativa adotada para a elaboração desses PPC. Ao tentarem trazer percepções e vozes de muitos sujeitos e instituições, possivelmente com pontos de vistas dissonantes. Se por um lado a diversidade pode fazer dos PPC um instrumento de participação democrática, por outro, pode produzir certa cacofonia. Consideramos que por melhor que sejam as concepções de currículo de formação inicial de professores do campo que os elaboradores de Projetos Pedagógicos tenham elaborado e codificado em forma textos curriculares a conjuntura educacional brasileira, fortemente influenciada pelas políticas de gerencialismo, tecnificação e mercadorização da educação tendem reproduzir parcialmente propostas pautadas em currículos, saberes, 68 materiais didáticos e procedimentos de ensino homogeneizados, restringindo as autonomias daqueles que concebem os PPC impondo-lhes certa reprodução das políticas oficiais de educação, mediante prescrições trazidas pelas Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação de professores. Contudo, consideramos a concepção de PPC uma ação de extrema relevância sócio-política por oportunizar a definição e explicitação do tipo de sociedade e de educação que se quer em dado contexto. Outro aspecto que a pesquisa nos permitiu observar é o modo minimalista como as temáticas étnico-raciais confiram nos PPC, tratando-as de modo pontual em um ou outro componente curricular específico. Considerando que esses são ou deveriam ser temas estruturantes dos currículos, indicamos que as universidades se coloquem de modo mais intenso como instituições formadoras comprometidas com a correção de injustiças e desigualdades sociais praticadas com negros e indígenas. Que tracem protocolos especificando o modo como às questões étnicas e raciais serão tratadas e que neles sejam definas as atribuições de cada membro dessas instituições, pois todos podem assumir responsabilidades e tornarem-se partícipes desse processo libertador. Ações dessa natureza passam pela identificação do racismo institucional e de seus desdobramentos para fazer mudanças antirracistas no currículo escolar para além da inclusão de um ou outro componente curricular. Essa concepção asseguraria princípios como democracia, diversidade e justição social e sucumbiria o racismo institucional. Ação também necessária no enfrentamento ao racismo é o fortalecimento de redes antirracistas no interior das universidades por meio do fomento a políticas institucionais como a abertura de vagas para professores e alunos negros a fim de tornar esse não lugar em lugar de diferentes raças e etnias. Professores negros tendem a deixar marcados seus lugares de falas, suas opções teóricas e seus projetos de educação e sociedade. Estes, com frequência, aliados aos estudos descolonizadores, podem produzir transformações em projetos educacionais racistas e antidemocráticos e forjar projetos pautados no antiracismo e na justiça social. É preciso ainda frisar nos PPC a necessidade do cumprimento da lei n. 10.639 não só nos cursos de Licenciatura do Campo, mas em todos. A construção de Projetos Curriculares para a formação Inicial de Professores do campo, águas e florestas de perspectiva inclusiva não só de raça, mas de etnia, gênero, sexualidade e geração, não é apenas uma questão pedagógica, mas antes de tudo política que envolve a análise crítica de elementos históricos, sociais, econômicos e políticos inerentes à prática pedagógica. 69 Não cabem ingenuidades de se pensar que apenas a elaboração de Projetos Pedagógicos Curriculares garanta suas operacionalizações práticas. Entretanto, oportunizam a identificação e análise das concepções de Formação Inicial de Professores do Campo que os fundamentam. O que aspiram aqueles que os codificaram. Isto, no entanto, não exime que professores alunos e coletivos populares de um modo geral, de modo colaborativo e reflexivo os remodelem, exercitando assim, suas autonomias ao afirmarem um currículo que se volte à formação de professores do campo, águas e florestas com marcas indentitárias próprias. Realizar esse estudo representou uma importante oportunidade de ampliação das reflexões sobre as concepções de currículo de Formação Inicial de Professores do Campo na região Norte do Brasil, em sociedades amazônicas em que o patrimônio cultural se faz em trânsitos orais, escritos e visuais, requerendo sujeitos que se comprometam com uma formação de professores comprometida com a ciência, mas também com a democracia, a diversidade e a justiça social. Esperamos que esse estudo possa subsidiar a formulação de Políticas e Práticas Curriculares voltadas à construção de Currículos de formação inicial de professores do campo, águas e florestas em estados que ainda não assumiram esse compromisso social e possam trazer reflexões a aqueles que já possuem, inclusive trazendo elementos para o repensar dos PPC que foram objetos desse estudo. Esperamos que essas ações sejam realizadas mediante a análise da conjuntura histórica atual em que a democracia está fragilizada e ameaçada. Contudo, é importante destacar que o Brasil é herdeirode uma capacidade organizativa construída ao longo de anos de luta que se constitui em um patrimônio fantástico que não pode ser perdido, mas ampliado pela elaboração teórica, política e prática de resistência radical em todos os campos de ações humanas. Em termos de posição pessoal nos colocamos a favor das concepções críticas de currículo para a formação inicial de professores dos campos, águas e florestas das Amazônias Brasileiras. Admitimos o diálogo teórico com autores de perspectivas críticas por entendermos que estas foram elaboradas por teóricos que não se sentiram/sentem satisfeitos com o modo como a sociedade capitalista está organizada. E ao sentirem-se insatisfeitos, indignaram-se, contrapuseram-se às teorias conservadoras e conceberam teorias críticas por que buscam a transformação. Entendemos ao tomar Marx com seus conceitos de classe, burguesia e proletariado, Saviani com os conceitos de dominantes e dominados e Freire com os conceitos de opressores e oprimidos e a este último, permitir que amplie o convite para o debate epistemológico a teóricos vinculados aos Estudos Culturais e os Estudos Decoloniais estamos dispostos a 70 argumentar contra teóricos que se coloquem como “guardiões de fronteiras epistemológicas” e afirmamos juntamente com Apple (1989) os currículos como espaço de poder e resistência, que resultam do cruzamento de práticas diversas (SACRISTÁN, 2000), que estejam a serviço dos oprimidos (FREIRE, 2011) e da descolonização de saberes (QUIJANO, 2005), mediante uma pedagogia e um currículo que considerem além dos conhecimentos científicos os conhecimentos construídos nas ações dos sujeitos que militam nos movimentos sociais (ARROYO, 2017). Escolha teórica a que Grosfoguel (2010) classifica como resultado do pensamento crítico de fronteira. O pensamento crítico de fronteira representa respostas epistémicas dos subalternos ao projeto eurocêntrico da modernidade, não pela rejeição de um absolutismo fundamentalista, mas pela redefinição e ampliação da concepção dos elementos de emancipação que a modernidade produziu, considerando outras cosmologias e epistemologias construídas a partir e com os proletários, dominados, oprimidos e subalternizados não só por suas condições de classe, mas também de gênero, raça, etnia, faixa geracional, naturalidade, origem familiar, relação com a transcendência, estado de saúde, estado civil e outros elementos que podem colocar as pessoas em condição de subalternidade e traspassar a modernidade eurocentrada. Entendemos que uma concepção crítica de currículo está relacionada ao modelo de sociedade em que este é formulado e materializado. Assim, em uma sociedade capitalista que se organiza por valores neoliberais, as questões de classe precisam ocupar importante espaço no debate, o que indica a validade do Materialismo Histórico-Dialético como referencial teórico necessário para a formulação de currículos. Contudo, questões de gênero, raça, etnia, faixa geracional, naturalidade, origem familiar, relação com a transcendência, estado de saúde, estado civil e outros elementos, normalmente atribuídos aos estudos culturais, aos estudos Decoloniais e em alguns casos, às teorias pós-críticas, igualmente não podem ser consideradas epifenômenos sob o argumento de que se esses elementos forem incorporados ao debate, as questões de classe perderão a relevância epistemológica e não mais motivarão a busca por transformação social, pela revolução pois os propósitos da luta seriam dispersados. Admitimos que esse seja um risco, contudo, acreditamos também, ser possível evitar análises organizadas em “círculos concêntricos” do tipo que coloca as questões de classe no centro e as demais questões na periferia e nas margens, tratando-as de modo subalternizado e colonizado. Na nossa compreensão não cabe o pensamento em círculos concêntricos, mas sim, o pensamento crítico de fronteira. O estudo mostrou o que fazem as universidades federais da região Norte do Brasil no tocante aos currículos de formação inicial de professores dos campos, águas e florestas dessa 71 região. Em tempos de negacionismo das universidades públicas e do conhecimento científico que nelas se produz, é importante destacarmos que essas instituições realizam uma produção científica significativa se considerarmos o tratamento e as condições que são dadas/negadas àqueles que as constituem. Evidenciamos que se os PPGE dessas instituições ainda não fazem muito é porque são Programas novos que estão buscando suas consolidações. Alguns deles se quer passaram por um primeiro processo de avaliação pela Capes e lutam por seu fortalecimento por meio de múltiplas ações, como por exemplo, a realização do Procad/Amazônia a que se vincula essa pesquisa. A pesquisa aponta alternativas pedagógicas, experiências, princípios, concepções e referências teóricas que podem contribuir para a concepção de Projetos Pedagógicos para a Educação no Campo, Águas e Florestas da Região Norte do Brasil. Este território é composto por estados heterogêneos que requerem projetos específicos, como é o caso do estado do Acre, que ainda não possui um Curso de Pedagogia do Campo, e é o local de fala, pesquisa, trabalho e onde milita a autora. O estudo mostrou ainda que, em tempos de negacionismo das universidades públicas federais do Brasil e do conhecimento científico que nelas se produz as universidades que serviram de lócus para o estudo, mesmo com os cortes de investimentos financeiros e atacadas por representantes do poder, como o presidente da república e alguns de seus assessores, essas instituições continuam – em meio a muitos desafios – realizando uma produção científica sobre currículos de formação inicial de professores significativa, se considerarmos o reduzido investimento que vem sendo dado à pós-graduação no Brasil, em especial, na região Norte. 72 REFERÊNCIAS ALBUQUERQUE, Gerson Rodrigues de. Uwakürü: dicionário analítico. Rio Branco: Nepan Editora, 2016. ALVES, Edileia de Carvalho Souza. “(...) Tem que partir daqui, é da gente”: a construção de uma escola “Outra” no quilombo Campinho da Independência. Dissertação. Programa de Pó-graduação em Educação. 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APRESENTAÇÃO 1 A ESCOLHA DA INSTITUIÇÃO, DO SUPERVISOR E DO OBJETO DE PESQUISA 2 A CHEGADA: CONHECER CURITIBA E (DES)CONHECER O CAMPUS REBOUÇAS 3 PARTICIPAÇÃO NO GRUPO DE PESQUISA DO SUPERVISOR 4 PARTICIPAÇÃO EM BANCAS DE QUALIFICAÇÃO E DEFESA 5 PARTICIPAÇÃO NO XI COPENE 6 PARTICIPAÇÃO NO GRUPO DE PÓS-DOUTORANDOS DA REGIÃO SUL 7 PARTICIPAÇÃO NAS AULAS DO PROFESSOR PAULO VINÍCIUS BAPTISTA DA SILVA 8 PARTICIPAÇÃO NA ORGANIZAÇÃO DE OFICINA SOBRE A FERRAMENTA START 9 PARTICIPAÇÃO NO SEMINÁRIO INTEGRADO DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO IFRO, UNIR E ANPUH-RO/AC 10 PARTICIPAÇÃO NO NUPECAMP 11 PARTICIPAÇÕES NA REDE MULHERAÇÕES 12 PARTICIPAÇÃO NO PROJETO PRÉ-PÓS DA UFPR 13 PARTICIPAÇÃO COMO PARECERISTA EM REVISTAS CIENTÍFICAS 14 ESCRITOS DE DOMINGO 15 CONCLUSÕES REFERÊNCIASBARBOSA, Etienne Baldez Louzada; ANJOS, Juarez José Tuchinski; SILVA, Paulo Vinícius Baptista. Irmãos Rebouças no Paraná do século 19 e os intelectuais negros. Acta scientiarum education, v. 42, p. 1-14, 2020. 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StArt Community: Referências: Revisão Sistemática Literatura Ferramenta StArt Pesquisas que utilizaram a StArt na Revisão Sistemática de Literatura 1 INTRODUÇÃO 1.1 PROBLEMAS DE PESQUISA E AS QUESTÕES DE ESTUDO 2 CURRÍCULO DE FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES DO CAMPO: UMA REVISÃO DA LITERATURA PARA NÃO “REINVENTAR A RODA” 2.1 SITUANDO A PESQUISA 2.2 OS PROCEDIMENTOS DA PESQUISA 2.3 O CURRÍCULO, O QUE É? 2.4 APRESENTAÇÃO DOS ARTIGOS MAPEADOS 2.5 ANÁLISES DOS ARTIGOS 2.5.1 EM SÍNTESE 3 TESES E DISSERTAÇÕES SOBRE EDUCAÇÃO DO CAMPO DEFENDIDAS NOS PROGRAMAS DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO DA REGIÃO NORTE (2014-2020) 3.1 COM QUEM E POR QUEM JUNTAMOS NOSSAS VOZES 3.2 OS PPGES DO NORTE E SUAS PRODUÇÕES SOBRE CURRÍCULO DE FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES DO CAMPO 3.3 EM RESPOSTA A QUESTÃO CENTRAL DA SEÇÃO 5 CONCLUSÃO REFERÊNCIAS ALBUQUERQUE, Gerson Rodrigues de. Uwakürü: dicionário analítico. Rio Branco: Nepan Editora, 2016. MARCONI, Marina de Andrade; LAKATOS, Eva Maria. Fundamentos de metodologia científica. 5. Ed. São Paulo: Atlas, 2003. SILVA, Elverenice Vieira Da. Professores do campo na Amazônia-Acreana: atuação profissional e papel social. Dissertação. Programa de Pós-graduação em Educação. Universidade Federal do Acre, 2019.