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Hemorragia pós-parto ● sangramento excessivo que torna a paciente sintomática (visão turva, vertigem, síncope) e/ou resulta em sinais de hipovolemia (hipotensão, taquicardia ou oligúria) ● maior causa de morte materna no mundo ● alterações fisiológicas verificadas durante a gestação, incluindo aumento de 40% no volume plasmático e de 25% no número de glóbulos vermelhos, ocorrem em antecipação à perda sanguínea do parto ● separação da placenta → hemostasia do sítio placentário se processa por meio de vasoespasmo local e formação de trombos nos vasos uterinos ● contração e a retração do miométrio → comprime grande número de vasos → importante para hemostasia ● primária: quando ocorre nas primeiras 24 horas após o parto ● secundária: quando ocorre entre 24 horas e 12 semanas de pós-parto ● principais causas: atonia uterina (incapacidade do útero de contrair-se adequadamente), lacerações do canal de parto, retenção de fragmentos placentários e, mais raramente, distúrbios de coagulação ● hemorragia pós-parto primária: atonia uterina está presente em cerca de 70% dos casos ● fluxo sanguíneo médio uterino durante o parto: 600 mL/min ○ quando o miométrio é incapaz de contrair-se efetivamente → não há constrição das artérias espiraladas do útero → sangramento profuso pela decídua → choque hipovolêmico rapidamente ● fatores de risco para atonia uterina: 2º período do parto prolongado, parto instrumentado, sobredistensão uterina (macrossomia, gestação múltipla, polidrâmnio), uso de medicações (tocolíticos e anestésicos halogenados) e corioamnionite ● outras complicações obstétricas que podem estar associadas à HPP: ○ lacerações do períneo, da vagina ou do colo uterino, coagulopatia dilucional (placenta prévia) ou de consumo (descolamento prematuro de placenta - DPP, sepse, embolia amniótica), retenção placentária ou acretismo placentária, inversão uterina, rotura uterina, deiscência de cicatriz de histerotomia, laceração de histerotomia com acometimento de vasos uterinos, hemostasia inadequada ● outros fatores de risco: obesidade, alta paridade e parto rápido ● maioria das mulheres com HPP não apresenta fatores de risco ● causas menos frequentes: defeitos congênitos da coagulação, como a doença de von Willebrand ● fatores de risco obstétrico: retenção placentária, dificuldade de progressão durante o segundo período do parto, acretismo placentário, lacerações do canal de parto, partos instrumentados, macrossomia fetal, doenças hipertensivas, indução do parto com ocitocina Diagnóstico ● abordagem terapêutica deve ser imediata e focada na causa da hemorragia ● efeitos da hemorragia na mulher dependerão do volume de sangue prévio à gestação, do aumento desse volume durante a gravidez e do grau de anemia após o parto ● usualmente: puérperas hígidas manifestam os primeiros sinais de choque hipovolêmico somente após perdas volêmicas superiores a 20% ● alterações da pressão arterial poderão ocorrer tardiamente, quando grande quantidade de sangue já houver sido perdida ● estimativa visual: subjetiva e geralmente subestima a quantidade real perdida ● contagem do número de compressas utilizadas em qualquer procedimento cirúrgico é uma medida que auxilia os processos de segurança da paciente ● índice de choque (IC): reflete o estado hemodinâmico da paciente → pode ser útil para prever a necessidade de transfusão maciça ○ IC = FC/ PAS ○ IC > 0,9 → sugere perda sanguínea significativa ○ a medida que o índice se eleva, piora o prognóstico da paciente ● atonia uterina: maior causa de HPP → (1) esvaziar a bexiga + (2) realizar toque vaginal bimanual ○ se achado for: útero amolecido e pouco contraído → sugestivo de atonia como causa ● persistência do sangramento e o útero se encontra bem contraído → outros fatores devem ser considerados ○ exame minucioso do canal de parto → descartar lacerações ○ hematomas do trato gential → perda sanguínea significativa ○ sintomas mais frequentes: pressão pélvica ou retal e dor ○ retenção de fragmentos placentários ○ dequitação espontânea, inspeção da placenta com aparente integridade dos cotilédones e ausência de cirurgia prévia → diagnóstico de retenção de restos placentários menos provável ○ ISG da cavidade uterina auxilia no diagnóstico → massa ecoica intrauterina ○ coagulopatia: suspeitar quando houver antecedente pessoal ou familiar, ou mesmo em função do quadro clínico ○ situações associadas a coagulopatia incluem: síndrome HELLP, DPP, óbito fetal, sepse e embolia amniótica ○ exames: hemograma com plaquetas, tempo de protrombina, tempo de tromboplastina parcial ativada, fibrinogênio, produtos de degradação da fibrina e tipo sanguíneo ○ teste de formação e dissolução do coágulo em impossibilidade de dosar fibrinogênio ○ hemorragia volumosa → consumo de fatores de coagulação Recorrência e prevenção ● mulheres com episódio prévio de hemorragia pós-parto têm risco de recorrência de cerca de 15% em gravidez subsequente ● ocitocina após o parto: principal ação de prevenção da hemorragia pós-parto, podendo reduzir em mais de 50% dos casos de hemorragia por atonia uterina ● conduta ativa do terceiro período do parto (dequitação) parece reduzir o risco de perda sanguínea materna ● ocitocina após nascimento + clampeamento umbilical oportuno + tração controlada do cordão + massagem uterina + contato pele a pele precoce Conduta ● se o tratamento for postergado, ocorrerá maior sangramento, o que aumentará o risco de coagulopatia dilucional, levando a maior taxa de histerectomia, aumento da morbidade por choque hipovolêmico e aumento da incidência de óbito materno ● massagem uterina bimanual (manobra de Hamilton): 1ª manobra a ser realizada nos casos de atonia uterina enquanto se realiza o uterotônico e aguarda-se o seu efeito ○ bexiga deve ser esvaziada por meio de cateterismo intermitente ou contínuo, já que a repleção vesical pode interferir na contratilidade do segmento inferior mesmo se o fundo uterino mostrar-se contraído ○ uma das mãos fixa a porção posterior do útero, enquanto a outra é posicionada fechada pelo canal vaginal ( anteriormente ao colo uterino) de modo que as 2 parede uterinas sejam comprimidas ● acesso venoso calibroso: administração de líquidos, sangue e medicações ● tratamento medicamentoso: ○ ocitocina: 10 a 40 UI em 1.000 mL de solução salina intravenosa contínua. Esquema sugerido: 5 UI lento (3 minutos) + 20 a 40 UI em 500 mL de SF 0,9% com infusão de 250 mL/h e man utenção de 125 mL/h por 4 horas ○ nos casos de atonia mais importante: avaliar manutenção de ocitocina até 24 horas ( a uma velocidade de 67,5 mL/ h ou 3 UI/ h) → monitorar rigorosamente a paciente pelo risco de intoxicação hídrica ○ metilergometrina: 0,2 mg por via intramuscular (nunca intravenosa) a cada 2 a 4 horas ○ prostaglandina El (misoprostol) ○ ácido tranexâmico: trata-se de droga antifibrinolítica eficaz na prevenção e no tratamento de hemorragias em, várias situações, como cirurgias e traumas → 1 grama (10 mL) por via endovenosa em 10 a 20 minutos, já que a infusão > 1 mL/ minuto pode causar hipotensão ○ infusão de cristaloides: reavaliar o estado hemodinâmico da paciente a cada 250-500 mL de cristaloides infundidos ○ transfusão de hemoderivados: de acordo com a necessidade, a fim de se manter perfusão tecidual adequada e boa troca de oxigênio e prevenir a coagulopatia Hemorragia não responsiva a drogas uterotônicas ● paciente deve ser posicionada adequadamente para exame ginecológico, em sala cirúrgica, sob supervisão de anestesista, para revisão do canal de parto ● reparo de lacerações ○ avaliação da vagina e do colo uterino para reparo de lacerações, se existentes, usando-se de preferência categute simples O ou 2-0, com sutura contínua ou em pontos separados ( em áreas menos distensíveis) ○ após a sutura: colocar tampão vaginal com nitrofurazona ou vaselina ○ anestesia local pode não evitar o desconforto causado pelo exame à paciente, devendo em alguns casosser empregada anestesia geral ou regional ● curagem e/ou curetagem uterina ○ realizar se o sangramento tiver origem na cavidade uterina e qualquer fragmento placentário retido tem de ser removido ○ cavidade uterina deve ser explorada em busca de soluções de continuidade que sugiram rotura uterina ● tamponamento uterino: colocação do tampão (compressa ou gaze) em toda a cavidade uterina ○ considerada perigosa e ineficaz por muitos obstetras ● embolização arterial ○ alternativa segura e efetiva à cirurgia para o controle da hemorragia uterina ○ procedimento não surtir efeito rápido → ligadura de artérias uterinas ● laparotomia ○ de preferência: incisão mediana infraumbilical, para melhor exposição do campo cirúrgico → atonia uterina e os locais de sangramento extrauterino, se presentes, em geral podem facilmente ser identificados ● ligaduras de artérias uterinas ● sutura de B-Lynch ● outras suturas compressivas ● ligaduras das artérias ilíacas internas ● histerectomia: último recurso mas não deve ser postergado nas situações mais graves ● fator VII:a ativado recombinante Hemorragia pós-parto secundária ● pico de incidência entre 1 e 2 semanas após o parto ● patogenia parece estar associada com atonia uterina secundária à presença de fragmentos placentários e/ou infecção, mas a causa exata em geral não é identificada ● quantidade de sangramento geralmente não é tão pronunciada quanto na HPP primária ● terapia inclui o uso de agentes uterotônicos e/ ou antibióticos ● curetagem uterina é, em geral, eficaz, mesmo quando não se identifica conteúdo representativo na cavidade uterina (fragmentos placentários, membranas) ● achados ultrassonográficos de acúmulo de fluido e detritos na cavidade uterina são comuns no útero em regressão e não diferenciam mulheres que necessitam de terapia clínica daquelas que precisam de cirurgia Inversão uterina ● ocorre quando o fundo uterino se move para o interior da cavidade endometrial ● incompleta: fundo se projeta para dentro da cavidade uterina ● completa: fundo invertido ultrapassa o orifício externo do colo uterino ● prolapsada: corpo uterino invertido ultrapassa o introito vaginal ● aguda: até 24 horas após o parto ● subaguda: até 30 dias de período pós-parto ● crônica (+ de 30 dias após o parto) ● se não for adequadamente reconhecida e tratada → hemorragia grave e choque → morte materna ● principais causas: tração excessiva do cordão umbilical e pressão do fundo uterino → ocorre tipicamente no caso de úteros relaxados e implantação fúndica da placenta ● fatores de risco: macrossomia, cordão curto, uso prolongado de ocitocina ou sulfato de magnésio, primiparidade, anomalias uterinas, remoção manual da placenta e acretismo placentário ● diagnóstico: geralmente clínico ○ incompleta: defeito na área do fundo uterino pode ser percebido à palpação abdominal, e o fundo uterino pode ser palpado (pela vagina) no segmento inferior do útero ou visualizado pelo colo dilatado ○ completa: fundo uterino é palpado e/ou visualizado na vagina ou junto ao períneo ○ tanto hemorragia intensa quanto hipotensão grave podem ocorrer ○ USG e RM podem ser usados para confirmar a inversão uterina quando o diagnóstico clínico for duvidoso e a paciente estiver hemodinamicamente estável ● tratamento ○ administração de uterolíticos ○ manobra de Taxe: restituir o útero à sua posição normal → não houver sucesso, cirúrgia