Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

EM886 – Laboratório de Calor e Fluidos II 
1 
 
EXPERIÊNCIA Nº 3 – DETERMINAÇÃO DA VELOCIDADE DE CHAMA 
 
 
1. OBJETIVO 
Medir a velocidade de chama de uma mistura ar-combustível. 
 
2. TEORIA 
2.1 Combustíveis gasosos 
Os combustíveis gasosos tem aumentado sua aplicabilidade na indústria nacional, 
respondendo a demanda por fontes de energia mais limpas e eficientes. A limitação de 
seu crescimento está na disponibilidade e distância dos centros consumidores pela sua 
maior dificuldade de transportes. 
 Gás liquefeito de petróleo (GLP) é importante combustível, tanto de aplicação 
industrial como doméstica. Gás natural (GN) tem sido explorado mais recentemente, 
porém, deve ser transportado por gasodutos, o que dificulta sua maior utilização, dada a 
necessidade de investimento em infraestrutura. Outros gases, tais como os gases 
manufaturados de nafta, são produzidos e distribuídos localmente por rede de 
tubulações, além de gases residuais de refinaria, que tem aproveitamento restrito as 
proximidades desta. 
 
2.1.1 Propriedade de combustíveis gasosos 
Algumas propriedades importantes necessitam ser conhecidas para os combustíveis 
gasosos. A composição química pode ser facilmente determinada através da análise 
laboratorial, em cromatógrafos. O poder calorífico inferior (PCI) é normalmente 
expresso em termos de J/kg ou J/Nm
3 
(normal metro cúbico). Neste último caso, a 
condição normal de temperatura e pressão é utilizada (T = 273 K e P = 101325 Pa). 
(a) Densidade relativa (r): É a densidade do gás relativa ao ar nas mesmas 
condições de temperatura e pressão. 
 (
 
 
)
 
 
 
(b) Índice de Wobbe (WI): É uma relação entre poder calorífico e densidade 
relativa dada por: 
 
 
 
√ 
 
 
A importância do número de Wobbe está ligada a intercambiabilidade de gases para 
uma mesma aplicação ou para um mesmo queimador. A relação entre o poder calorífico 
e a raiz quadrada da densidade relativa está relacionada com a quantidade de energia 
(por volume) que é possível passar por determinado orifício. A vazão volumétrica de 
gás ( ̇ ) que atravessa o orifício do queimador com área transversal efetiva Aef está 
associada à queda de pressão provocada pelo orifício (P), ou seja: 
EM886 – Laboratório de Calor e Fluidos II 
2 
 
 ̇ √
 
 
 
 
O índice de Wobbe é proporcional, com razoável precisão, ao calor transferido por 
um queimador operando com combustível gasoso, a uma determinada pressão. Logo, 
gases com o mesmo WI vão apresentar o mesmo desempenho energético, conferindo a 
mesma taxa de transferência de calor ou potência energética (Chigier, 1981). 
 
(c) Velocidade de chama: É a velocidade de uma frente de chama de uma mistura 
ar/combustível sob determinadas condições. O conhecimento de parâmetros de 
velocidade de chama é útil também para a intercambiabilidade dos gases, no sentido de 
se garantir a estabilidade de combustão em queimadores. Dois fenômenos podem 
ocorrer em queimadores de gás: 
 - O descolamento da chama, quando a velocidade da mistura não queimada é 
maior que a velocidade de chama, e 
 - O retorno de chama, quando a velocidade de chama é maior que a velocidade 
da mistura ar/combustível. 
 Ambos podem trazer consequências desastrosas aos equipamentos e um 
queimador de gás deve ser projetado para determinadas faixas de velocidades de chama 
para se garantir a estabilidade. 
 Diversos métodos existem para a medição de velocidade de chama, porém 
nenhum destes reproduz com exatidão uma situação operacional. A velocidade de 
chama varia com a temperatura da mistura, a relação ar/combustível e com o padrão de 
fluxo, se laminar ou turbulento. As medidas de velocidade de chama em laboratório são 
feitas quase sempre nos regimes laminares, mas a maioria dos equipamentos industriais 
opera com combustão turbulenta. De qualquer maneira, o conhecimento da velocidade 
de chama em laboratório fornece informações sobre a qualidade da combustão de um 
dado combustível ao passar por um queimador. 
O índice de Weaver (S) expressa a velocidade de chama de um gás como uma fração 
da velocidade da chama do hidrogênio no ar. O índice de Weaver é definido como 
(Priestley, 1973): 
 
 
 
 
 
 
 A velocidade de chama de uma mistura estequiométrica de hidrogênio ( ) e ar, a 
25 C e 1 bar é de 2,66 m/s . 
Uma mistura de gases tem seu índice de Weaver calculado da seguinte forma 
(Priestley, 1973): 
 
 
 
 
 
 
EM886 – Laboratório de Calor e Fluidos II 
3 
 
Onde, Fi é o coeficiente de velocidade chama para os vários constituintes i do gás. 
 a,b,...i são as frações molares dos constituintes do gás. 
 A é a relação ar/combustível estequiométrica da mistura (em volume) 
 z é a fração molar dos inertes no gás combustível (Ex: CO2 e N2 no gás) 
 Q é a fração molar do oxigênio no gás combustível 
 
A tabela 1 apresenta o coeficiente para alguns gases: 
 
Tabela 1. Coeficiente de velocidade de chama (F) para alguns gases (Priestley, 1973) 
Gás F 
H2 3,38 
CO 0,61 
CH4 1,48 
C2H6 3,01 
C3H8 3,98 
C4H10 5,13 
C2H4 4,54 
C8H6 6,74 
 
2.2 Queimadores 
A função do queimador é o de fazer com que o combustível e o oxidante fiquem em 
contato o tempo suficiente e à temperatura conveniente para ocorrer a reação de 
combustão. Uma vez que a maioria das reações de combustão acontece na fase gasosa, o 
contato eficiente depende de: tempo, temperatura e intensidade turbulenta. 
 Em geral os queimadores não podem ser considerados isolados do forno, pois os 
arredores obviamente vão ter um efeito sobre a quantidade de calor perdida pela chama, 
consequentemente sobre a sua temperatura, sobre o tempo em que os gases da chama 
são mantidos na zona de combustão e sobre a recirculação do gás. 
 Considere as paredes de uma câmara de combustão fechada e fria. Neste caso, a 
chama vai perder calor rapidamente e sua temperatura pode ser tão reduzida que a 
queima cessa antes que se complete. Isto pode acontecer, por exemplo, quando um 
forno é ligado frio. Outro resultado de uma câmara de combustão fria será o 
alongamento da chama por causa das reações químicas mais lentas em temperatura 
reduzida. Do mesmo modo, paredes refratárias quentes vão irradiar o calor de volta para 
a chama, aumentando sua temperatura e a intensidade de combustão, causando uma 
chama menor e mais intensa. De maneira semelhante, se o calor é irradiado para a base 
da chama ele vai reduzir a zona de pré-aquecimento, novamente aumentando a 
intensidade da combustão. 
 Enquanto que o nível de turbulência pode ser induzido pelo queimador, seu 
desenvolvimento pode ser alterado pela proximidade das paredes da câmara. Além de 
EM886 – Laboratório de Calor e Fluidos II 
4 
 
fazer uma boa mistura do combustível e do oxidante , a turbulência tem o efeito de fazer 
com que os gases quentes e os intermediários da combustão retornem para a zona de 
ignição, com a consequente redução no tempo de ignição. 
 A maneira de introdução do ar secundário também pode afetar a forma, 
intensidade e estabilidade da chama. Se o ar secundário for adicionado com elevada 
intensidade turbulenta, isto ocasionará uma chama de menor comprimento e mais 
intensa, tornando a ignição mais estável. Se o ar secundário for adicionado com 
velocidades médias muito elevadas a uma chama que queima devagar, ele pode ter um 
efeito de resfriamento brusco. Portanto, o ar secundário é normalmente adicionado em 
etapas. Do mesmo modo, o ar secundário em excesso pode ter um efeito de esfriamento 
em qualquer chama. Este efeito pode ser reduzido se usarmos ar secundário quente. 
 
2.2.1 Queimadores de gases 
 Os gases podem ser classificados em termos de velocidade da chama e do índice 
de Wobbe para propósitos de projeto do queimador. A Fig. 1 mostra o esquema de um 
queimador mostrando o equilíbrio entre a velocidade de chama e a velocidade da 
mistura ar/gás combustível.Figura 1. Esquema de um queimador mostrando o equilíbrio entre a velocidade de 
chama e a velocidade da mistura ar/gás combustível. 
 
 O índice de Wobbe é uma medida de energia do gás que passa através de um 
determinado orifício com uma determinada queda de pressão. 
 Os gases combustíveis são frequentemente divididos em três grupos, conforme 
Tab. 2. 
EM886 – Laboratório de Calor e Fluidos II 
5 
 
Tabela 2. Grupos de Índice de Wobbe 
Grupo 
Índice de Wobbe 
(MJ/Nm
3
) 
Velocidade de 
chama 
A/C 
(em volume) 
Exemplo 
1 24,4 - 28,8 Alta (>1 m/s) 3~4 gás de gaseificação 
2 48,2 - 53,2 Baixa (~0,6 m/s) 7~8,5 gás natural 
3 72,6 - 87,6 Baixa (~0,8 m/s) ~25 GLP 
 
 Por causa da grande disponibilidade de gás natural, há uma tendência mundial 
em deslocar a utilização dos gases do grupo 1 para os do grupo 2. Como exemplo, o gás 
de rua distribuído em São Paulo deixou de ser gás de gaseificação de nafta e passou a 
ser gás natural. Devido aos altos índices de Wobbe, a capacidade de um sistema de 
distribuição, em unidades de calor, é aumentada através da mudança de gases do grupo 
1 para o grupo 2. Onde o gás natural não é disponível há tendência de produzir gases 
baseados em metano, extraídos do carvão, da nafta ou do óleo, porém contendo 
monóxido de carbono. 
Além desses gases distribuídos (gás de gaseificação de nafta, gás natural e GLP) , 
existem os gases de baixo poder calorífico (gás de gasogênio) que são produzidos e 
queimados no mesmo local. Estes podem ser produzidos para utilização num processo 
perto do local de produção, ou serem produtos secundários de outros processos como, 
por exemplo, o gás de alto forno ou gás de forno de coque. 
 Os gases de baixo poder calorífico tem uma relação de volume/energia grande 
demais para serem economicamente distribuídos. 
 O gás de gasogênio caiu em desuso na década de 50 e nas últimas décadas 
voltou com um papel maior em alguns países, incluindo o Brasil. 
 O metano tem uma razão ar de combustão/volume combustível cerca de duas 
vezes a do gás de carvão. Assim, o gás vai precisar de uma velocidade maior para 
arrastar seu ar de combustão do que aquela exigida pelo gás de carvão. 
 No caso de GLP a velocidade de chama é semelhante à do metano, mas o poder 
calorífico por volume e a razão ar/combustível por volume serão maiores. 
 O tipo básico do queimador com pré-mistura é representado pelo queimador tipo 
Bunsen (Fig. 2), e este é apropriado somente para uso em pequeno tamanho por causa 
da possibilidade de retorno de chama dentro do tubo em queimadores maiores. 
 
EM886 – Laboratório de Calor e Fluidos II 
6 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 2. Queimador tipo Bunsen 
 
A pressão do gás através de um orifício arrasta o ar para o tubo de mistura. Com a 
pressão do gás encanado (ou GLP na pressão reduzida), apenas 50% do ar de combustão 
é arrastado. O restante precisa ser fornecido como ar secundário. 
 A velocidade da chama de um gás (velocidade de chama é a velocidade com que 
uma frente de chama percorre uma mistura ar/gás, ver esquema da figura 1) tem 
considerável efeito sobre o projeto do queimador. Com um gás de chama de alta 
velocidade é fácil produzir-se uma chama estável, mas o retorno de chama pode ser um 
problema e em alguns queimadores maiores podem levar a detonações perigosas. Em 
geral os gases com chama de alta velocidade vão conter alta porcentagem de hidrogênio, 
por exemplo, gás de rua, de carvão ou de nafta. Gráficos de estabilidade de chama 
(diagrama Fuidge) são discutidos em Priestley (1973) e estão representados na Fig. 3. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 3. Diagrama Fuidge 
EM886 – Laboratório de Calor e Fluidos II 
7 
 
 
 Com o gás cuja chama é de baixa velocidade, o retorno da chama já não é um 
problema sério, mas o escape da chama se torna um problema importante. Um gráfico 
de predição da velocidade de chama é mostrado na Fig. 4. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 4.Diagrama de velocidade de chama adiabática horizontal pré misturada de 
diversos gases, nas condições normais de P e T. 
 
Logo, o conhecimento dos limites de estabilidade e velocidade de chama são muito 
úteis no dimensionamento de sistemas de combustão tais como: queimadores para 
caldeiras e aquecedores; câmaras de combustão para motores; para caldeiras e 
aquecedores; câmaras de combustão para motores e turbinas a gás; fornalhas, etc. 
Uma mistura gás combustível-ar queima segundo uma frente de onda cuja velocidade 
depende do grau de reação da mistura. Em outras palavras, depende da temperatura e 
das concentrações ar-combustível. Normalmente a velocidade da chama é máxima para 
uma mistura levemente enriquecida, maior do que para a estequiométrica. 
O retorno da chama no tubo queimador ocorre quando, em algum lugar da base da 
chama, a velocidade da chama torna-se maior que a velocidade do gás. A onda de 
combustão irá entrar no tubo queimador. O retorno da chama é mais sério quando se usa 
hidrogênio como gás combustível, do que metano ou GLP os quais tem baixas 
velocidades de chama. O escape da chama ocorre quando a velocidade do gás é muito 
maior que a velocidade da chama e, portanto, há o afastamento da chama do bico 
queimador levando ao apagamento da chama. Escape e retorno de chama podem ser 
causados por variações na velocidade da mistura no tubo queimador, ou por variações 
na composição da mistura, o que causa variações na velocidade da chama. 
 
3. SISTEMA EXPERIMENTAL 
O equipamento usado é a Unidade da Estabilidade de chama Hilton. Consiste de um 
bloco queimador para misturar ar-combustível, o qual é adaptável a vários tubos 
EM886 – Laboratório de Calor e Fluidos II 
8 
 
queimadores. O ar e o gás são medidos por rotâmetros. Assim a estabilidade da chama 
pode ser comparada para vários queimadores. 
Para a medida direta da velocidade da chama os tubos queimadores podem ser 
substituídos por um tubo longo transparente com telas anti-chama próximas da 
extremidade livre do tubo. Se o tubo estiver cheio, com uma mistura de composição 
conhecida, a ignição pode ser dada, e uma onda de combustão caminha em direção ao 
bloco queimador podendo ser medido o tempo de percurso da mesma. A fotografia do 
sistema experimental é mostrada na Fig. 5 e esquemas da montagem são mostrados nas 
Figs. 6 e 7. 
 
Figura 5. Fotografia do sistema experimental 
 
EM886 – Laboratório de Calor e Fluidos II 
9 
 
Figura 6. Esquemas da montagem 
 
Figura 7. Esquema do painel de controle e dos bicos queimadores. 
 
 
EM886 – Laboratório de Calor e Fluidos II 
10 
 
4. PROCEDIMENTO 
Dois operadores são necessários para este experimento. 
1. Ligar o ventilador. 
2. Abrir a válvula de gás junto ao redutor. 
3. Abrir o gás até atingir no rotâmetro uma marca entre 0,8 e 1,5 conjuntamente com 
o ar, que deve ficar numa marca entre 10 e 15 e acender o gás na saída do queimador. 
4. Ajuste o controle de ar e gás até atingir a vazão ar/combustível desejada (Note que 
há um certo tempo de resposta na chama quando se atua nos controles. Esperar pelo 
menos 5 segundos após cada ajuste dos controles). 
5. Quando a chama estiver estável por 10 segundos na razão ar/combustível desejada, 
fechar a válvula de da entrada de ar e combustível no tubo de vidro. O outro operador 
deve aguardar a chama se apagar e dar a ignição. Ele deve anotar o tempo que a chama 
levará para ir de um ponto de referência a outro. 
6. Medir o diâmetro do bico queimador para calcular sua área transversal interna 
(área de saída da mistura de gás). 
OBS.: Deve-se iniciar com uma mistura A/C tal que o cone azul esteja bem definido. 
Em seguida, outras relações A/C deverão ser escolhidas em torno deste valor. 
 
5. APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS 
1. Plotar a velocidade de chama em função da razão ar/combustível (A/C). 
2. Comparar os resultados experimentais obtidos para a velocidade de chama na 
condição estequiométricacom o valor teórico obtido através da equação fornecida para 
S (utilize dados da Tab. 1 considerando o GLP como uma mistura com volumes iguais 
de propano e butano). 
3. Traçar o diagrama Fuidge, i.e., as curvas de mudança de luminosa para não 
luminosa (amarela para azul), tendo como ordenadas as razões A/C e como abscissa a 
relação ( ̇c.PCI)/área tubo. 
As curvas de calibração dos rotâmetros estão na Fig. 8. 
EM886 – Laboratório de Calor e Fluidos II 
11 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 8. Curvas de calibração dos rotâmetros 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
Borman, G. L.; Ragland, K. W., Combustion Engineering, McGraw-Hill, 1998. 
Beer; J. M.; Chigier, N. A., Combustion Aerodynamics, Fuel and energy science series, Krieger 
Pub., 1972. 
Chigier, N., Energy, combustion and Environment, McGraw-Hill series, 1981. 
Francis, W., Fuels and Fuel Technology, Pergamon Press, Vol. 1 e 2, 1970. 
Glassman, I.; Yetter, R. A., Combustion, Elsevier, 4
th
 Ed., 2008. 
Lewis; B.; Von Elbe, G., Combustion Flames and Exposions of gases, Academic Press, 1961. 
Liberman, M. A., Introduction to Physics and Chemistry of Combustion: Explosion, Flame, 
Detonation, Springer, 2008. 
Priestley, J., Industrial Gas Heating (Design & Application), Ernest Benn Limited, 1973.

Mais conteúdos dessa disciplina