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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO 
ESCOLA DE ENFERMAGEM ANNA NERY 
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA 
NÚCLEO DE PESQUISA DE FUNDAMENTOS DO CUIDADO DE ENFERMAGEM – 
NUCLEARTE 
 
 
ESTILOS DE CUIDAR NA TERAPIA INTENSIVA EM FACE 
DAS TECNOLOGIAS: UMA CONTRIBUIÇÃO À CLÍNICA 
DO CUIDADO DE ENFERMAGEM 
 
 
 Rafael Celestino da Silva 
 
 
Rio de Janeiro 
AGOSTO- 2012 
 
 
 
RAFAEL CELESTINO DA SILVA 
 
 
ESTILOS DE CUIDAR NA TERAPIA INTENSIVA EM FACE DAS 
TECNOLOGIAS: UMA CONTRIBUIÇÃO À CLÍNICA DO CUIDADO 
DE ENFERMAGEM 
 
 
Tese de Doutorado* apresentada ao 
Programa de Pós-Graduação e Pesquisa 
da Escola de Enfermagem Anna Nery- 
Universidade Federal do Rio de Janeiro, 
como parte dos requisitos necessários à 
obtenção do título de Doutor em 
Enfermagem. 
 
 
Orientadora: 
Profª. Drª. Márcia de Assunção Ferreira 
 
 
 
Rio de Janeiro 
AGOSTO- 2012 
*Pesquisa financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico-CNPq 
através de bolsa doutorado sanduíche na Université de Provence-França (Laboratoire de Psychologie 
sociale), sob tutoria do Prof.º Dr.º Thémis Apostolidis. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SILVA, Rafael Celestino. 
 Estilos de cuidar na terapia intensiva em face das tecnologias: 
uma contribuição à clínica do cuidado de enfermagem. / Rafael Celestino da 
Silva. Rio de Janeiro: UFRJ/EEAN, 2012. 
 xiv, 266 f: il; 31 cm. 
 
 Orientadora: Márcia de Assunção Ferreira. 
 Tese (Doutorado em Enfermagem) – Universidade Federal do 
Rio de Janeiro – UFRJ - Escola de Enfermagem Anna Nery – EEAN - 
Programa de Pós Graduação e Pesquisa em Enfermagem, 2012. 
 Referências Bibliográficas: f. 250-260. 
 
 1. Tecnologia biomédica. 2. Unidades de Terapia Intensiva. 3. 
Enfermagem. 4. Cuidados de Enfermagem. 5. Psicologia social - Tese. I 
Ferreira, Márcia de Assunção. II Universidade Federal do Rio de Janeiro, 
Escola de Enfermagem Anna Nery, Programa de Pós-Graduação e 
Pesquisa em Enfermagem. III Título 
 CDD: 610.73 
 
 CDD: 
 
 
ESTILOS DE CUIDAR NA TERAPIA INTENSIVA EM FACE DAS 
TECNOLOGIAS: UMA CONTRIBUIÇÃO À CLÍNICA DO CUIDADO DE 
ENFERMAGEM 
 RAFAEL CELESTINO DA SILVA 
Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação e Pesquisa da 
Escola de Enfermagem Anna Nery, Universidade Federal do Rio de Janeiro como 
parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Enfermagem. 
APROVADA POR: 
_________________________________________ 
Prof.ª Dr.ª Márcia de Assunção Ferreira – Presidente 
________________________________________ 
Prof.º Dr.º Luiz Fernando Rangel Tura - 1º Examinador 
________________________________________ 
Prof.ª Dr.ª Angela Arruda - 2ª Examinadora 
________________________________________ 
Prof.ª Dr.ª Mara Ambrosina de Oliveira Vargas - 3ª Examinadora 
________________________________________ 
Prof.º Dr.º Marcos Antônio Gomes Brandão - 4º Examinador 
________________________________________ 
Prof.ª Dr.ª Ana Beatriz de Azevedo Queiroz - Suplente 
________________________________________ 
Prof.ª Dr.ª Lolita Dopico da Silva - Suplente 
 
Rio de Janeiro 
AGOSTO- 2012 
 
 
 
 Terraço do café na Place du Forum (Arles-sul da França)-Van Gogh 
 
 DEDICATÓRIA 
 
 “Não sei se viajei nos seus sonhos, se sonhei 
 seus desejos, mas aqui cheguei, guiado pelo 
 amor que vocês me impulsionaram. Porém, se 
 algum dia sentir que a terra cede a meus pés, 
 que minhas conquistas desmoronam, que não 
 há ninguém para me estender a mão, esquecerei 
 a maturidade, passarei pela mocidade, voltarei 
 à infância e chamarei por vós, meu pai, minha mãe!!" 
 Dedico essa tese a vocês!! 
 
 
 
 
 Agradecimentos............ 
 
-Agradeço em primeiro a Deus por esta etapa concluída, de onde recebi força quando sentia-me 
fraco, e apoio quando pensava em desistir. “Porque dele, por ele e para ele são todas as 
coisas”! 
-A minha “quase-esposa” Alanna Fersi, com quem divido uma vida “quase-matrimonial”. Você 
é o meu aconchego e meu porto-seguro aqui no Rio de Janeiro. “Na alegria e na tristeza” você 
faz parte dessa tese! Amo muito..... 
-Prof.ª Márcia de Assunção Ferreira, 
Querida orientadora e amiga, ainda lembro do nosso primeiro encontro nos corredores do 
subsolo do Centro de Ciências da saúde, quando conversávamos as primeiras ideias para uma 
pretensa pesquisa de mestrado. Quase 6 anos se passaram e hoje estou aqui defendendo uma 
tese de doutorado sob sua orientação. Muitas histórias aconteceram, horas de trabalho, viagens 
juntos, dificuldades pessoais, provas de concurso e até na França acabei indo parar!!! Assim, 
não tenho como deixar de agradecer o carinho e a confiança sempre em mim depositada. Você 
sabe e não canso de ressaltar a admiração que tenho por ti, pois para mim és a titular das 
titulares, exemplo de competência e ética. 
Muito idealizei para este momento, construído com muita dedicação e esforço. Enfim ele chegou! 
Agradeço a você por te me desafiado a atravessar essa estrada e ter me conduzido pelos 
melhores caminhos!! 
-Aos meus familiares e amigos, de perto e de longe, que ansiosos e alegres aguardavam a 
realização deste momento tão especial.....Gostaria de dizer a vocês: “......que ainda há tempo, 
para trocar o silêncio pelo sorriso, os punhos fechados pelos braços abertos, para dispensar a 
distância e acolher a cumplicidade, ainda há tempo....porque temos a vida inteira para 
continuarmos amigos....”!! 
 
 
-Ao Prof.º Dr.º Thémis Apostolidis da Université de Provence, pelo carinho com que me recebeu 
em Aix-Marseille e pelos ensinamentos teóricos, fundamentais no processo de desenvolvimento 
da pesquisa. Sua presteza e receptividade foram os ingredientes para o sucesso do estágio 
sanduíche. Saiba que a este período devo um grande progresso pessoal e profissional. Não 
esquecerei também os belos encontros franceses, sempre alegres, divertidos e regados a bons 
vinhos; 
-Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico-CNPq, pelo financiamento 
que possibilitou 6 meses de intercâmbio científico e cultural na Europa, de grande importância 
para meu desenvolvimento acadêmico; 
-Aos colegas do Laboratoire de Psychologie sociale, em especial Lionel Dany, Séverin Guignard 
e Anna Liguouri, pelo compartilhamento de experiências e conhecimento diários. Aos colegas 
brasileiros Renata Aléssio, Filipe Aléssio e Lenira Haddad, que me acolheram e foram 
verdadeiros amigos durante a estada na França, neste desafio de estar longe de casa; 
-À chefia do Departamento de Enfermagem Fundamental- DEF/EEAN, na pessoa da Prof.ªLúcia Helena Corrêa Lourenço, que não mediu esforços para a realização de todos os trâmites 
necessários à efetivação do estágio sanduíche. Muito Obrigado!! Agradeço também ao Corpo 
deliberativo do DEF pelo incentivo constante à qualificação profissional e acadêmica, 
fornecendo meios e recursos ao aperfeiçoamento docente; 
-À diretora da Escola de Enfermagem Anna Nery, Prof.ª Neide Aparecida Titonelli Alvim, 
pelo apoio ao intercâmbio científico na França, e nos trâmites acadêmicos envolvidos na sua 
ocorrência; 
-Ao NUCLEARTE, pela possibilidade de realização do estudo alinhado a uma de suas linhas 
de pesquisa; 
-Aos professores do Programa Curricular Interdepartamental VII, Juliana Faria Campos, 
Marta Sauthier, Graciele Oroski e Flávia Pacheco pela parceria e ajuda frente às demandas 
das atividades profissionais vinculadas à disciplina; 
-Às alunas de graduação em enfermagem, Zaira Andressa e Rute Almeida pela ajuda 
primordial no processo de transcrição das entrevistas que integram a pesquisa; 
-Agradeço ainda, em especial e com muito carinho aos meus alunos, fonte de inspiração e 
energia na busca constante por uma Enfermagem- ciência e arte- de vanguarda. 
 
 
 
 
 RESUMO 
 
SILVA, Rafael Celestino. Estilos de cuidar na terapia intensiva em face das 
tecnologias: uma contribuição à clínica do cuidado de enfermagem. Rio de 
Janeiro, 2012. Tese (Doutorado em Enfermagem) - Escola de Enfermagem Anna 
Nery, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2012. Orientadora: Prof.ª Dr.ª Márcia 
de Assunção Ferreira 
 
A problemática do estudo em tela situa-se nos indicativos de existência de duas 
perspectivas/linhas condutoras da ação da enfermeira na terapia intensiva junto ao 
cliente que se utiliza do maquinário, o “cuidado tecnológico” e a “ação tecnológica”, 
as quais trazem implicações diretas na assistência de enfermagem prestada. Neste 
sentido, levanta-se o pressuposto de que a tecnologia (maquinário) inerente aos 
ambientes de terapia intensiva possa estar orientando a formação de estilos de 
cuidar na enfermagem. Objetivou-se identificar as representações sociais de 
enfermeiras que atuam na terapia intensiva sobre as suas práticas de cuidado, face 
à tecnologia; descrever os elementos que integram as práticas de cuidado das 
enfermeiras intensivistas, à luz de suas RS; analisar as práticas de cuidado das 
enfermeiras tendo em vista suas RS sobre tais práticas. Pesquisa de campo, do tipo 
descritivo-explicativa, de abordagem qualitativa e cunho etnográfico, com aplicação 
da Teoria das Representações Sociais. O campo de estudo foi um hospital federal 
localizado no município do Rio de Janeiro, e o lócus foi a Unidade de Terapia 
Intensiva. Os participantes foram 21 enfermeiros, 17 mulheres e 04 homens 
atuantes diretamente na assistência ao cliente internado na UTI. Os dados foram 
coletados através de observação etnográfica e entrevista individual. Os dados 
provenientes das entrevistas foram analisados através do software Alceste, e da 
técnica de análise de conteúdo temático, enquanto aqueles oriundos dos registros 
de observação passaram por análise etnográfica. Evidencia-se que as práticas de 
cuidado no CTI se apresentam como um fenômeno complexo, o qual gera 
representações sociais nas seguintes dimensões: tecnologia, paciente e trabalho. 
Tais dimensões compõem uma rede de significados articulados que abarcam o 
sentido funcional da tecnologia aplicada ao CTI; os afetos produzidos pelo paciente 
no profissional e a imagem do paciente ideal organizada durante a formação; a 
experiência subjetiva do trabalhador. A maneira como tais representações se 
elaboram dá forma a dinâmica da prática dos sujeitos frente o objeto, a qual, 
considerando seus aspectos constituintes, delimita estilos de cuidar. Defende-se, 
portanto, a tese de que a tecnologia orienta a organização de estilos de cuidar das 
enfermeiras na terapia intensiva - cuidado e ação tecnológica, que se constroem e 
se reconstroem no cotidiano da assistência, onde estão o cliente hospitalizado e o 
contexto do trabalho, os quais, por sua vez, influenciam nos sentidos atribuídos por 
tais profissionais às suas práticas, permitindo-os elaborarem e (re)elaborarem os 
seus modos de fazer profissional em face das tecnologias, e constituindo, por fim, 
 
 
uma clínica que responde pela especificidade da terapia intensiva. Estes resultados 
alcançados contribuem para a geração potencial de políticas públicas acerca da 
contratação de pessoal para atuar no CTI, e reforçam a importância do perfil 
profissional congruente ao cenário por ocasião desta contratação, alinhando-se às 
exigências da especialização do conhecimento. Além disso, suscitam intervenções 
voltadas à mudança no modelo de organização da assistência de enfermagem, e a 
formação permanente das enfermeiras intensivistas. Recomenda-se ainda maior 
investimento em ações da Política Nacional de Humanização que valorizem a 
enfermeira como (co)partícipe do processo de saúde. 
Palavras-chave: Enfermagem. Cuidados de enfermagem. Tecnologia biomédica. 
Unidades de Terapia Intensiva. Psicologia social. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 ABSTRACT 
 
SILVA, Rafael Celestino. Different Styles of care in intensive therapy facing the 
technology: a contribution to the clinical in nursing care. Rio de Janeiro, 2012. 
Thesys (Doctorate in Nursing) - Escola de Enfermagem Anna Nery, Universidade 
Federal do Rio de Janeiro, 2012. Advisor: Prof.ª Dr.ª Márcia de Assunção Ferreira. 
 
The issue of the study on a screen is situated in the indicatives of the existence of 
two perspectives/conductive lines of the nurse actions when applying an intensive 
therapy to the patient who uses the machinery, the “technological care” and the 
“technological action”, which bring direct implications to the nursing care provided. In 
this sense, it comes up the presumption that the technology (machinery) inherent to 
the intensive therapy environment may be guiding the formation of care styles in 
nursing. The objective was to identify the social representations (SR) of nurses that 
work with intensive therapy, their care practices, facing the technology; describe the 
elements that integrate the care practices from the intensivists nurses, according to 
their SR; analyze the care practices from the nurses based on their SR about such 
practices. Field research was descriptive-explanatory, with a qualitative and 
ethnographic approach, based on the Social Representations Theory. The field study 
was a federal hospital located in the municipality of Rio de Janeiro, and the locus 
was the Intensive Care Unit. The subjects were 21 nurses, 17 women and 4 men that 
provide directly the care to the patient at the ICU. Data were collected through the 
ethnographic observation and individual interview. The data from the interviews were 
analyzed through the Alceste software, and the technique of thematic content 
analysis, while those from the records of observation passed by ethnographic 
analysis. It is evident that the practices of care in the ICU are presented as a 
complex phenomenon, which generates social representations in the following 
dimensions: technology, patient and work. Such dimensions are composed by a 
network of meanings articulated covering the functional sense of the technology 
applied to the ICU; affections produced by the patient at the professional and image 
of the ideal patient organized during the training; the subjective experience by the 
worker. The way such representations are elaborated shapes the dynamics of the 
practice from the subjects facing the object, which, considering their constituents 
aspects, delimit care styles. It is argued, therefore, the thesis that technology guides 
the organization of carestyles by the nurses at intensive therapy – care and 
technological action that are constructed and reconstructed on an everyday care, 
where the patient is hospitalized and the context of work, which, on the other hand, 
influence the meanings attributed by these professionals to their practices, allowing 
them to develop and (re) develop their ways of training a professional facing the 
technologies, and building, finally, a clinic that is responsible for the specificity of 
intensive therapy. These reached results contribute to a potential generation of public 
policies regarding the hiring of personnel to work at ICU, and reinforce the 
 
 
importance of a professional profile congruent to the scenario due to this hiring and 
aligning itself to the demands in specialization of knowledge. Besides, interventions 
come up focused to the change of the organization format in nursing care, and the 
permanent training for intensivists nurses. It is also recommended a higher 
investment in actions of National Humanization Policy that give the proper value to 
the nurse as (co) participant in the health process. 
Keywords: Nursing. Nursing Care. Biomedical Technology. Intensive Care Units. 
Social Psychology. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 RESUMEN 
 
SILVA, Rafael Celestino. Estilos de cuidar en terapia intensiva frente a las 
tecnologías: una contribución a la clínica del cuidado de enfermería. Rio de 
Janeiro, 2012. Tesis (Doctorado en Enfermería) - Escola de Enfermagem Anna Nery, 
Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2012. Orientadora: Prof.ª Dr.ª Márcia de 
Assunção Ferreira 
 
La problemática del estudio en evidencia se sitúa en los indicativos de existencia de 
dos perspectivas/líneas conductoras de la acción del enfermero en la terapia 
intensiva junto al cliente que se utiliza de la maquinaria: el “cuidado tecnológico” y la 
“acción tecnológica”. Ambas las perspectivas poseen implicaciones directas en la 
asistencia de enfermería prestada. En este sentido, se acrecienta la premisa de que 
la tecnología (maquinaria) inherente a los ambientes de terapia intensiva pueda 
estar orientando la formación de estilos de cuidar en la enfermería. Se objetivó 
identificar las representaciones sociales de enfermeros que actúen en la terapia 
intensiva sobre sus prácticas de cuidado delante de la tecnología; describir los 
elementos que integran las prácticas de cuidado de las enfermeras intensivistas, a la 
luz de sus RS; analizar las prácticas de cuidado de los enfermeros teniendo en 
cuenta sus RS sobre tales prácticas. Se trata de una investigación de campo, del 
tipo descriptivo-explicativa, de abordaje cualitativo y cuño etnográfico, con aplicación 
de la Teoría de las Representaciones Sociales. El campo de estudio fue un hospital 
federal localizado en el municipio de Rio de Janeiro, y el locus fue la Unidad de 
Terapia Intensiva (UTI). Los participantes fueron 21 enfermeros, 17 mujeres y 04 
hombres, que actuaban directamente en la asistencia al cliente ingresado en la UTI. 
Los datos fueron recolectados por medio de observación etnográfica y entrevista 
individual. Los datos provenientes de las entrevistas fueron analizados por el 
software Alceste y por la técnica de análisis de contenido temático, mientras 
aquellos originarios de los registros de observación pasaron por análisis etnográfico. 
Evidenciase que las prácticas de cuidado en el CTI se presentan como un fenómeno 
complejo, el cual genera representaciones sociales en las siguientes dimensiones: 
tecnología, paciente y trabajo. Tales dimensiones componen una red de significados 
articulados que combinan el sentido funcional de la tecnología aplicada al CTI; los 
afectos producidos por el paciente en el profesional y la imagen del paciente ideal 
organizada durante la formación; la experiencia subjetiva del trabajador. El modo 
como tales representaciones se elaboran da la forma a la dinámica de la práctica de 
los sujetos frente al objeto, la cual, considerando sus aspectos constituyentes, 
delimita estilos de cuidar. Se defiende, por lo tanto, la tesis de que la tecnología 
orienta la organización de estilos de cuidar de los enfermeros en la terapia intensiva 
– cuidado y acción tecnológica, que se construyen y se reconstruyen en el cotidiano 
de la asistencia, donde están el cliente hospitalizado y el contexto del trabajo, los 
 
 
cuales, por su parte, influencian en los sentidos atribuidos por tales profesionales a 
sus prácticas, permitiéndolos elaborar y (re)elaborar sus maneras de hacer 
profesional frente a las tecnologías, y constituyendo, por fin, una clínica que 
responde por la especificidad de la terapia intensiva. Estos resultados alcanzados 
contribuyen para la generación potencial de políticas públicas sobre la contratación 
de personal para trabajar en el CTI, y refuerzan la importancia del perfil profesional 
congruente al escenario por ocasión de esta contratación, alineándose a las 
exigencias de la especialización del conocimiento. Además de eso, suscitan 
intervenciones vueltas al cambio en el modelo de organización de la asistencia de 
enfermería, y la formación permanente de los enfermeros intensivistas. Se 
recomienda aún mayor inversión en acciones de la Política Nacional de 
Humanización que valoren el enfermero como (co)partícipe del proceso de salud. 
Palabras clave: Enfermería. Atención de enfermería. Tecnología biomédica. 
Unidades de Terapia Intensiva. Psicología Social. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SUMÁRIO 
 
Págs. 
CAPÍTULO 1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS 15 
1.1 O começo.................................................................................................. 16 
1.2 Tecnologia e práticas de cuidado da enfermagem na terapia 
intensiva......................................................................................................... 
 
18 
1.3 Focalizando as práticas de cuidado da enfermagem na terapia 
intensiva como objeto de representação social........................................ 
 
21 
1.4 Questões norteadoras............................................................................ 27 
1.5 Objetivos.................................................................................................. 
1.6 Relevância e Contribuições do estudo ................................................ 
28 
 29 
 
CAPÍTULO 2 BASES TEÓRICO-CONCEITUAIS 33 
2.1 Sobre a ideia dos estilos de cuidar na enfermagem: uma 
aproximação inicial em vista à clínica do cuidado..................................... 
 
34 
2.1.1 O estilo nos campos do saber............................................................. 34 
2.1.2 Dos estilos de cuidar à clínica do cuidado de enfermagem............. 39 
2.2 A tecnologia no ambiente da terapia intensiva e a emergência de 
estilos de cuidar que conformariam uma clínica....................................... 
 
48 
2.2.1 O ponto de partida: o significado do termo tecnologia em saúde e 
suas relações com a terapia intensiva........................................................ 
 
48 
2.2.2 A chegada: a tecnologia e as dimensões subjetivas e objetivas 
do cuidado de enfermagem – os estilos..................................................... 
 
52 
2.3 A teoria das representações sociais..................................................... 58 
 
CAPÍTULO 3 REFERENCIAL METODOLÓGICO 63 
3.1 Tipo de estudo ........................................................................................ 64 
3.2 Campo de pesquisa................................................................................. 65 
3.3 Participantes da pesquisa...................................................................... 67 
3.4 Produção dos dados...............................................................................67 
3.5 Análise dos dados .................................................................................. 72 
3.6 Aspectos éticos ...................................................................................... 80 
 
CAPÍTULO 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO 
4.1 Dados sociodemográficos...................................................................... 
4.2 Análise textual através software Alceste (parte I)................................ 
4.2.1 O sentido da tecnologia na terapia intensiva e a organização dos 
estilos de cuidar............................................................................................ 
4.2.1.1 Classe 1: Funcionalidades da tecnologia....................................... 
4.2.1.2 Classe 2: Elementos organizativos dos estilos de cuidar............. 
4.2.1.3 Classe 4: Fatores estruturais externos ao cuidado....................... 
4.2.2 Discussão............................................................................................. 
 
CAPÍTULO 5 RESULTADOS E DISCUSSÃO 
5.1 Análise textual através do software Alceste (parte II).......................... 
5.1.1 A condição do cliente e suas repercussões nas práticas de 
cuidar das enfermeiras.................................................................................. 
5.1.1.1 Classe 3: Cotidiano assistencial..................................................... 
82 
83 
86 
 
91 
92 
101 
109 
115 
 
140 
141 
 
141 
142 
 
 
5.1.1.2 Classe 5: Prática de cuidar com a tecnologia................................ 
5.1.1.3 Classe 6: As características do paciente como indicador do 
trabalho no CTI.............................................................................................. 
5.1.2 Discussão.............................................................................................. 
 
5.2 Análise de conteúdo............................................................................... 
5.2.1 Elementos da prática de cuidar das enfermeiras na terapia 
intensiva......................................................................................................... 
5.2.1.1 A enfermeira e o lidar com as tecnologias nas práticas de 
cuidar na terapia intensiva........................................................................... 
5.2.1.2 As formas de assistir ao cliente na terapia intensiva.................... 
5.2.2 A complexidade do trabalho na terapia intensiva............................. 
5.2.2.1 Os sentidos atribuídos pela enfermeira ao trabalho na terapia 
intensiva ........................................................................................................ 
5.2.2.2 Requisitos profissionais para o trabalho no CTI............................ 
5.2.3 Discussão.............................................................................................. 
 
CAPÍTULO 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS 
 
REFERÊNCIAS.............................................................................................. 
150 
 
157 
164 
 
192 
 
194 
 
194 
203 
211 
 
211 
216 
218 
 
234 
 
250 
 
APÊNDICES .................................................................................................. 261 
Roteiro de observação sistemática............................................................. 262 
Roteiro de coleta dos dados sociodemográficos...................................... 263 
Roteiro de entrevista semiestruturada........................................................ 264 
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido........................................... 266 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 LISTA DE ILUSTRAÇÕES 
 
 
QUADROS 
Quad.1: Classif. dos participantes 2º variáveis psicos. e demog....... 
Quad.2: Classes do discurso associadas ao bloco 1.......................... 
Quad.3: Classe 1 Alceste........................................................................ 
Quad.4: Classe 2 Alceste........................................................................ 
Quad.5: Classe 4 Alceste........................................................................ 
Quad.6: Classes do discurso associadas ao bloco 2.......................... 
Quad.7: Classe 3 Alceste........................................................................ 
Quad.8: Classe 5 Alceste........................................................................ 
Quad.9: Classe 6 Alceste........................................................................ 
Quad.10: Análise cruzada 2º a variável turno de trabalho................... 
Quad.11: Análise cruzada 2º a variável tempo de formação............... 
Quad.12: Análise cruzada 2º a variável sexo........................................ 
Quad.13: Unidades de registro: tecnologias no CTI............................ 
Quad.14: Unidades de registro: formas de assistir na TI.................... 
Quad.15: Unidades de registro: trabalho no CTI.................................. 
Quad.16: Unidades de registro: requisitos profissionais.................... 
 
FIGURAS 
Fig. 1: Dendograma da CHD do Alceste................................................ 
Fig. 2: Repartição das uce nas classes Alceste................................... 
Fig. 3: Nº de palavras analisadas por classe Alceste.......................... 
Fig. 4: CHA da classe 1........................................................................... 
Fig. 5: Composição da classe 1 Alceste................................................ 
Fig. 6: CHA da classe 2........................................................................... 
Fig. 7: Composição da classe 2 Alceste............................................... 
Fig. 8: CHA da classe 4........................................................................... 
Fig. 9: Composição da classe 4 Alceste............................................... 
Fig. 10: Esquema explicativo 1 das RS................................................. 
Fig. 11: CHA da classe 3......................................................................... 
Fig. 12: Composição da classe 3 Alceste............................................. 
Fig. 13: CHA da classe 5......................................................................... 
Fig. 14: Composição da classe 5 Alceste............................................. 
Fig. 15: CHA da classe 6......................................................................... 
Fig. 16: Composição da classe 6 Alceste............................................. 
Fig. 17: Esquema explicativo 2 das RS................................................. 
Fig. 18: Esquema explicativo 3 das RS................................................. 
Fig. 19: Esquema explicativo do campo das RS.................................. 
Fig. 20: Modelo explicativo da clínica na TI.......................................... 
 
 
 
 
85 
91 
92 
101 
109 
141 
142 
150 
157 
186 
188 
190 
194 
203 
211 
216 
 
 
89 
90 
90 
95 
100 
104 
108 
112 
115 
139 
145 
149 
152 
156 
160 
164 
183 
233 
241 
245 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 (Torre Eifel- Paris) 
 
CAPÍTULO 1 
Considerações Iniciais
16 
 
1.1 O COMEÇO 
O ponto de partida para a realização deste estudo que ora se apresenta, foi 
a dissertação do Curso de Mestrado em Enfermagem sobre as representações 
sociais da tecnologia no ambiente de terapia intensiva. Na dissertação evidenciou-se 
que a ideia que as enfermeiras atuantes em cenários de terapia intensiva constroem 
sobre a tecnologia lá inserida implica em uma ação (cuidado) marcada pelos 
elementos que expressam este pensamento sobre a tecnologia (SILVA; FERREIRA, 
2009; 2011). 
Deste modo, no estudo supracitado, a análise de conteúdo aplicada aos 
dados empíricos mostrou vários elementos que, articulados,delinearam uma 
tipologia específica de cuidado que ocorre na dependência da utilização da 
tecnologia no cliente, e outra forma diferenciada de cuidar dirigida aos demais 
clientes (SILVA; FERREIRA, 2009; 2011). 
Este cuidado específico foi categorizado na dissertação como “cuidado 
tecnológico”, e caracterizou-se no discurso das enfermeiras por ser diferenciado, 
marcado pela aplicação de um conhecimento especializado, o qual orienta sua 
atenção na busca de dados objetivos e subjetivos oriundos do cliente, bem como 
objetivos provenientes do uso do maquinário. 
Nesta perspectiva, é o tipo de conhecimento empregado pela enfermeira 
para cuidar de tais clientes que diferencia o cuidado daquele que precisa de 
tecnologia para o que não precisa. Assim, a enfermeira demanda um aporte de 
conhecimentos especializados, em quantidade e qualidade, que lhe possibilite não 
somente manusear as aparelhagens, como também interpretar as informações 
emitidas por estas, associando-as ao conjunto de sinais e sintomas que o cliente 
apresenta. 
17 
 
É requerido então que a enfermeira seja capaz de deter um conhecimento 
em relação às máquinas (manuseio/domínio), aos aspectos fisiopatológicos da 
doença em curso, bem como um conhecimento semiológico. Isto possibilitará 
estabelecer as interfaces entre os sinais e sintomas com as informações enviadas 
pela máquina e as manifestações clínicas da doença, aliando-os aos elementos 
fundamentais do cuidado de enfermagem que incluem o toque, a audição, a 
observação. Ao reunir tais habilidades, ela consegue realizar o cuidado 
caracterizado na pesquisa-dissertação pelas enfermeiras como “cuidado 
tecnológico”. 
Este cuidado se dá através da articulação do saber inerente ao maquinário 
(tecnológico) aos saberes próprios dos cuidados de enfermagem, conformando a 
ação de cuidar das enfermeiras intensivistas (SILVA; FERREIRA, 2009; 2011). 
Contudo, uma linha de ação possível destacada pelos entrevistados, que 
também sobressai quando se pensa o cuidado nestes cenários, refere-se a uma 
“supremacia da máquina”, ou seja, ao direcionamento das ações da enfermeira 
pelas informações advindas do aparato tecnológico, deixando-se de observar os 
dados fornecidos pela atenção dirigida ao cliente. 
Sob esta ótica, identifica-se a hierarquização do saber tecnológico sobre o 
agir da enfermeira, sendo esta orientada somente tendo em vista a máquina, na 
crença de que apenas seu manuseio correto e as respostas que ela dá são 
suficientes para cuidar do cliente. Neste caso, não se teria propriamente o ‘cuidado 
tecnológico’ mas uma ‘ação tecnológica’, uma vez que esta mostra ser destituída de 
elementos que constituem os saberes próprios ao cuidado de enfermagem. 
Na ação tecnológica não existe uma interlocução entre o olhar que se volta 
ao cliente e aquele que se dirige para a aparelhagem, o que pode trazer malefícios, 
18 
 
uma vez que a máquina também falha. Além disso, o cuidar instruído estritamente 
pela tecnologia não responde pela totalidade do indivíduo, não sendo, portanto, 
integral (SILVA; FERREIRA, 2009; 2011). 
Logo, é negligenciada a busca por necessidades originadas a partir da 
vivência de sentimentos como medo da morte, susto, estranhamento, as quais 
podem interferir no estado de doença, já que abarcam subjetividades que não são 
captadas pela máquina. Desta maneira, o cliente não consegue comunicar todas as 
suas demandas à enfermeira, e esta, por sua vez, não o atende integralmente, 
resultando numa ação que não se configura como cuidado. 
Considerando os resultados deste estudo, é possível pensar que os 
elementos destacados apontam indícios da existência de estilos de cuidar na terapia 
intensiva, compostos de aspectos característicos. Tais estilos de cuidar, numa noção 
primeira, podem ser entendidos como as diferentes perspectivas de ação adotadas 
pela enfermeira em determinados ambientes de cuidado. 
 Além disso, os dados apresentados levam à reflexão acerca das 
repercussões que as tecnologias exercem no âmbito das práticas de cuidado em 
saúde em geral e no de enfermagem em particular, sobretudo, na terapia intensiva. 
 
1.2 TECNOLOGIA E AS PRÁTICAS DE CUIDADO DA ENFERMAGEM NA 
TERAPIA INTENSIVA 
 Ao refletir então sobre as influências da tecnologia nas práticas de cuidado 
da enfermagem, destaca-se o pensamento de Silva (2006), quando ressalta que o 
uso dos recursos tecnológicos pode colocar o cliente em risco se eles não forem 
corretamente “vigiados”. Assim, reitera-se a importância de que se “assista” e se 
cuide também da máquina, com o propósito final de manter a vida dos clientes. Este 
19 
 
cuidado envolve conhecimentos técnicos e racionais, que possibilitem fundamentar 
as ações perante as tecnologias. 
De acordo com este autor (op. cit.), a Enfermagem, ao acompanhar o 
avanço tecnológico, necessitou aprender a trabalhar com muito mais aparelhos. 
Contudo, a atividade realizada, por exemplo, pelas bombas infusoras, do controle 
preciso do número de gotas e do volume infundido, não dispensa a presença do ser 
humano, capaz de detectar através de sua sensibilidade e perícia técnica que algo 
não está bem com o cliente ou com o maquinário. Portanto, é fundamental que se 
supervisione e se cuide também das máquinas usadas na assistência ao cliente. 
Para Barbosa (1999), muito embora as máquinas se expressem através de 
valores objetivos, os mesmos precisam ser complementados com aqueles referentes 
à subjetividade humana, denotando o papel do profissional no sentido de interpretar 
tais informações. Vargas e Ramos (2008) situam a Unidade de Terapia Intensiva 
(UTI) como um setor em que as atividades de enfermagem estão sucessivamente 
sendo alteradas e suplantadas. O conhecimento que era aceito hoje como válido 
acaba deixado numa segunda instância ou abandonado, ao tempo em que um novo 
conhecimento é validado. 
Referem ainda, que a cada dia é aprimorada a capacidade da equipe em 
observar o paciente. A enfermagem “conectada” aos aparatos tecnológicos tem 
conseguido traduzir o “profundo” do corpo do paciente em informações, que 
conseguem direcionar o cuidado prestado a eles. Para as autoras (op. cit.), para que 
esta tradução não tenha erros, o corpo da enfermeira precisa estar interagindo com 
a máquina, sendo, portanto, fundamental se ter múltiplas aprendizagens. 
Nesta discussão, Sibília (2002) afirma que as ferramentas tecnológicas com 
as quais os profissionais convivem nos ambientes tecnológicos tornaram-se um 
20 
 
segundo doente, precisando serem assistidas, tocadas e cuidadas, de modo a 
assegurar um desempenho adequado. Com isso, passam a exigir novas habilidades, 
destrezas e modos de conceber o cuidado, o ambiente, o cliente, e as relações que 
se estabelecem entre eles. 
Contudo, apesar destes requisitos, não significa dizer que o foco de atenção 
seja somente a máquina, relegando o cliente, sujeito do cuidado, a segundo plano. 
Sobre isso, Silva (2006) nos diz que a utilização de aparatos tecnológicos que 
facilitam a assistência ao cliente crítico e que requerem vários cuidados para garantir 
a fidedignidade dos dados não deve invalidar uma compreensão acerca dos 
cuidados de enfermagem, considerando o uso de tecnologias como uma ação 
humana. 
Conforme relata Oliveira (2002), há expressões de cuidado humano mesmo 
em um setor repleto de tecnologias. O fato de a enfermeira em determinados 
momentos atribuir maior atenção à máquina, não significa necessariamente falta de 
dedicação ao cliente, mas pode refletir uma preocupação com seu bem-estar e 
manutenção de suas funções vitais. Nesta perspectiva, entende-se que a essência 
da enfermagem no âmbito dos cuidados intensivos está centrada no processo de 
tomada de decisões, e este, por conseguinte, deve basear-se nas condições 
fisiológicas e psicológicas do paciente. 
Acredita-se, portanto, que as práticas de cuidar da enfermagem nestes 
cenários, ao tempoem que se apresentam como tecnológicas, na medida em que 
envolvem conhecimento e sua aplicação no domínio das máquinas, abarcam 
elementos do cuidado humano, uma vez que representam toda a expressividade de 
cuidar neste momento de encontro, intermediado pelas máquinas. Estas 
peculiaridades implicam na necessidade de se empreender esforços para manter um 
21 
 
equilíbrio entre tais elementos expressivos do cuidar e os aspectos 
técnicos/instrumentais, principalmente no que se refere a aplicação de tecnologias 
no cuidado. 
 
1.3 FOCALIZANDO AS PRÁTICAS DE CUIDADO DA ENFERMAGEM NA 
TERAPIA INTENSIVA COMO OBJETO DE REPRESENTAÇÃO SOCIAL 
Face o exposto, é possível perceber que as características das práticas de 
cuidado inerentes a ambientes marcados pelas tecnologias avançadas, repercutem-
se de imediato no sujeito que cuida – a enfermeira. Isso em sua tentativa de atender 
às diferentes demandas que se apresentam neste processo numa perspectiva 
holística. Afirma-se deste modo, que os requisitos das práticas de cuidado da 
enfermagem em terapia intensiva, pelos seus atributos, mormente por serem 
intermediadas pelas máquinas, suscitam diálogos nas enfermeiras, internos e 
externos, que acabam por produzir sentidos de ação diferenciados frente ao cliente. 
Então, as enfermeiras elaboram representações sociais sobre suas práticas 
de cuidado na terapia intensiva, que acabam por orientar as ações perante o cliente, 
constituindo-se assim num objeto de conhecimento psicossociológico. Isto porque, 
os modos de agir da enfermeira neste contexto, em vista das características dos 
clientes, é alvo de debates, gerando posicionamentos, reflexões, ideias contrárias, 
enfim, conformando opiniões. 
Estes debates se pautam no fato de ter que cuidar de clientes 
frequentemente em risco de morte, os quais se utilizam de aparelhos que mantêm 
ou ajudam no funcionamento de vários órgãos, e que suscitam saberes para o seu 
correto manuseio e interpretação dos dados produzidos, aliado à necessidade de se 
preservar os aspectos humanos. 
22 
 
Significa dizer, que as diferentes formas que o cuidado do cliente no Centro 
de Terapia Intensiva – CTI - pode assumir, gera uma mobilização de informações 
junto ao grupo das enfermeiras intensivistas, e naquelas que lá irão atuar. Logo, já 
que a representação é elaborada coletivamente a partir das trocas e práticas 
cotidianas de um determinado contexto histórico, ela acaba fornecendo subsídios 
para os julgamentos e atitudes. A representação funciona como pano de fundo das 
atitudes dos indivíduos, dando sentido ao universo vivido (ESPÍNDULA; SANTOS, 
2004). 
À luz desta compreensão, considera-se que as representações sociais sobre 
as práticas de cuidado da enfermagem na terapia intensiva possuem uma dimensão 
do afeto (psi) e outra social, ou seja, elas se amparam nas experiências prévias, 
conhecimentos acumulados, valores, cultura, os quais, a partir das relações sociais, 
onde se processa a troca de informações e ideias tais elementos se transformam e 
contribuem para a organização do pensamento que conduz às perspectivas de ação 
da enfermeira. 
Acrescenta-se ainda que a representação é uma estrutura que medeia a 
relação entre o sujeito-outro, sujeito-objeto, através da ação comunicativa. Assim, a 
representação social está imersa na ação comunicativa, isto é, a ação comunicativa 
a forma, ao mesmo tempo que forma em um mesmo e único processo, os 
participantes da ação comunicativa. O trabalho comunicativo da representação gera 
símbolos que fornecem sentido. Desta forma trabalha colocando algo no lugar de 
algo, promovendo um deslocamento simbólico (JOVCHELOVITCH, 2004). 
Conclui-se que as representações sociais (RS) são uma forma de 
conhecimento prático, que estabelece os nexos entre o pensamento e as ações dos 
sujeitos, ajudando-os a se orientarem no mundo (JODELET, 2001). Os objetos de 
23 
 
RS são socialmente relevantes e fazem parte das discussões e conversas cotidianas 
dos sujeitos sociais (SÁ, 1998). As práticas de cuidado da enfermagem no universo 
da terapia intensiva importam para as enfermeiras, sobretudo para aquelas que 
lidam com elas no cotidiano profissional. Há um imaginário sobre os modos de agir 
da enfermeira frente ao cliente na terapia intensiva, com destaque para a relação 
que esta estabelece com a tecnologia no cuidado. Consideradas complexas, 
desafiadoras, admiradas ou temidas, as práticas de cuidado na terapia intensiva se 
configuram em objeto de RS para o grupo de enfermeiras. 
 
E então a problemática 
Como parte da discussão sobre as práticas de cuidado da enfermagem na 
terapia intensiva, reconhece-se a partir do debate, o forte impacto da incorporação 
de tecnologias no campo da saúde, incidindo nos modos de agir dos indivíduos. 
Acerca destas repercussões, Maftum (2004, p.116) cita que nas últimas cinco 
décadas o acirrado desenvolvimento biotecnológico vem acontecendo numa 
“velocidade avassaladora que mal conseguimos acompanhá-lo e fazermos uma 
reflexão profunda dos significados e da importância das várias consequências 
advindas desse crescente processo de evolução”. 
Como afirma Dias (1996), a escolha e a adoção de tecnologias não é algo 
isolado, tem a ver com a ordem política, econômica e social e, na soleira de um novo 
século, essa escolha e adoção têm indícios de mutação, fazendo brotar uma 
renovação de valores humanos fundamentais. Desta forma, o avanço tecnológico 
produziu mudanças no modo como as pessoas passaram a entender e a agir diante 
das questões relativas ao cuidado em saúde. 
24 
 
Um estudo pioneiro nesta área foi feito por Peixoto (1994) abordando tal 
temática. Esta pesquisadora considera que a partir da difusão de uma ideologia 
revestida por uma noção de eficiência e qualidade, a qual nem sempre é verdadeira, 
as tecnologias acabaram por criar falsas expectativas na sociedade de resolução 
dos problemas de saúde. Tal concepção trouxe implicações de vulto nos 
profissionais e nos usuários dos serviços. 
Peixoto (1994) então, ao investigar o uso da tecnologia no processo 
diagnóstico terapêutico, destacou a perspectiva do cliente que as utiliza, assim como 
a dos profissionais. Um dos pontos positivos apontados refere-se ao fato da 
tecnologia proporcionar precisão, rapidez e segurança. Além disso, os usuários 
indicaram como fator favorável a possibilidade dela “salvar vidas” ou “garantir a vida” 
em determinados momentos. 
Alguns dos clientes reconheceram ainda que as tecnologias possuem uma 
positividade em si, ou seja, seu uso é sempre bom e vantajoso, sendo entendida 
como fundamental no cuidado. Já quanto aos aspectos negativos sobressai o 
distanciamento na relação profissional/cliente, no qual o profissional torna-se um 
sujeito “frio” e o cuidado marcado por ações mecanizadas e repetitivas. 
Segundo a autora (op. cit.), embora estes fatores negativos tenham sido 
mencionados, os resultados denotam uma tendência de valorização da tecnologia 
no cuidado. Isto porque dos 338 aspectos elencados relativos ao seu emprego nos 
procedimentos diagnósticos e terapêuticos, cerca de 64% eram positivos. 
No momento em que se busca uma explicação para tal tendência de 
avaliação positiva, vê-se que ela está amparada no sistema capitalista, que 
internaliza nos indivíduos através da socialização e educação formal o valor da 
25 
 
tecnologia, uma vez que ela gera lucro e produtividade. Assim, este valor é 
estimulado por um “marketing” leigo e profissional. 
Entende-se, portanto, que existe uma vinculação entre os interesses 
capitalistas na saúde e a incorporação tecnológica no processo de produção dos 
serviços. Os avanços tecnológicos fazem parte da dinâmica do setor saúde, sendo 
possível observar a expansão industrial na produção de instrumentos e o 
crescimento da importação de tecnologia para suprir a demanda. Tal questão é 
basicamente de ordem político/econômica que, sepor um lado é sustentada por 
posições ideológicas de atores sociais que detêm o poder no setor, por outro é 
analisada e questionada face às inúmeras contradições que acarreta no plano social 
(PEIXOTO, 1994). 
Na sustentação desta linha de pensamento, verifica-se que, cotidianamente, 
através dos meios de comunicação, evidências de pesquisas demonstram os pontos 
positivos de novas tecnologias, novos meios diagnósticos e de tratamento, com uma 
disseminação precoce dos dados. Esse processo de legitimação da tecnologia 
atinge tanto aqueles que convivem diretamente com elas (os profissionais), quanto 
indiretamente aos consumidores dos serviços. 
Essa difusão dos seus “atributos” termina por produzir, de acordo com 
diversos autores, uma fé cega na ciência e na tecnologia. Como consequência, os 
indivíduos acreditam que a qualidade do tratamento depende da utilização de 
recursos sofisticados, recém-lançados, o que se reflete em ações de cuidado que 
reproduzem essa lógica. 
Na interface destas considerações pautadas na positividade da tecnologia 
com os resultados da pesquisa-dissertação emerge a problemática do estudo em 
tela, situada nos indicativos de existência de duas perspectivas/linhas condutoras da 
26 
 
ação da enfermeira na terapia intensiva junto ao cliente que se utiliza do maquinário: 
o “cuidado tecnológico” e a “ação tecnológica”. Estas linhas trazem implicações 
diretas na assistência de enfermagem prestada, e parecem ter relação com o modo 
pelo qual a enfermeira elabora a ideia sobre as práticas de cuidado, mediada, 
obviamente, pela presença da tecnologia. 
Tomando como referência estas primeiras aproximações com a questão que 
se coloca, levantou-se o pressuposto de que a tecnologia (maquinário) inerente aos 
ambientes de terapia intensiva possa estar orientando a formação de estilos de 
cuidar na enfermagem. Torna-se fundamental investigar, que elementos integram as 
representações sociais das enfermeiras sobre suas práticas de cuidado em face às 
tecnologias no CTI, no intento de melhor conhecer como se conformam 
determinadas ações/estilos de cuidado diante do cliente neste cenário, às quais por 
sua vez impactam na qualidade assistencial. 
Deste modo, parte-se do princípio que estas práticas de cuidado assumem 
uma importância para estes sujeitos, impregnando-se de tal maneira no seu 
cotidiano que terminam por gerar um trânsito de informações acerca do cuidado do 
cliente, da participação da enfermeira e sobre a aplicação de estratégias neste 
cuidado. 
Corrobora-se com as afirmações de Wagner (1998, p.03), quando define o 
termo “representação social” como um conteúdo mental estruturado - isto é, 
cognitivo, avaliativo, afetivo e simbólico - sobre um fenômeno social relevante, que 
toma a forma de imagens e metáforas, e que é conscientemente compartilhado com 
outros membros do grupo social. Portanto, diz o autor (op. cit.), representações 
sociais surgem apenas mediante a objetos ou questões socialmente relevantes, ou 
27 
 
seja, que promovem uma mudança no padrão de comportamento dos indivíduos ou 
grupos. 
Sob esta ótica, reforça-se a compreensão de que os objetos de pesquisa em 
RS são psicossociológicos, guardando relações entre o universo subjetivo e social 
dos sujeitos. Uma das premissas desta teoria é que, na formação das RS, os 
sujeitos processam as informações advindas do universo científico com as que 
circulam nas conversações cotidianas e com os saberes de suas próprias 
experiências sensíveis. Reelaboram o conhecimento que o ajuda a orientar suas 
ações (JODELET, 2001). 
Então, o imaginário que circula no meio profissional acerca da figura da 
enfermeira de terapia intensiva e dos seus modos de atuar, a ideia de complexidade 
que se organiza durante a formação profissional sobre os cuidados intensivos de 
enfermagem, a concepção da tecnologia articulada ao cuidado do cliente, o avanço 
do conhecimento científico próprio deste local são elementos que contribuem para 
gerar a necessidade de se pensar sobre as práticas de cuidar pelas enfermeiras que 
com elas se interrelacionam. Isto, por sua vez, se dá mediado pela esfera cognitiva e 
social. No final, há sua reinterpretação possibilitando conduzir os atos e operações 
de cuidar. 
Baseando-se no exposto, o objeto desta pesquisa se delineia em torno das 
práticas de cuidado em face das tecnologias ao cliente hospitalizado na terapia 
intensiva, tendo em vista as representações sociais das enfermeiras que dele cuida. 
 
1.4 QUESTÕES NORTEADORAS 
Tal objeto será explorado a partir das seguintes questões centrais, 
norteadoras da pesquisa: O que pensam as enfermeiras sobre a sua prática em 
28 
 
face das tecnologias presentes no cenário da terapia intensiva? A partir daí, como 
agem no cuidado aos clientes hospitalizado neste cenário? 
As questões secundárias são: As práticas de cuidado das enfermeiras nos 
ambientes tecnológicos apresentam características que conformariam 
perspectivas/linhas de ação diferenciadas? As representações sociais das 
enfermeiras sobre a sua prática na terapia intensiva implicam em estilos de cuidar, 
característicos de tais ambientes? 
 
1.5 OBJETIVOS 
Tais questões serão respondidas através do atendimento dos seguintes 
objetivos: 
Geral: 
-Identificar as representações sociais de enfermeiras que atuam na terapia 
intensiva sobre as suas práticas de cuidado, face à tecnologia. 
 
Específicos: 
 -Descrever os elementos que integram as práticas de cuidado das 
enfermeiras intensivistas, à luz de suas RS; 
-Analisar as práticas de cuidado das enfermeiras tendo em vista suas RS 
sobre tais práticas; 
 -Caracterizar os estilos de cuidar das enfermeiras da terapia intensiva, 
tomando como referência suas representações e práticas de cuidado de 
enfermagem. 
 
 
29 
 
1.6 RELEVÂNCIA E CONTRIBUIÇÕES: 
O “cuidado terapêutico” possui dimensões científicas e tecnológicas, éticas e 
filosóficas, estéticas e interacionais cujo objeto é o ser humano, considerado como 
organismo físico, social, cultural e sensível. Nesse sentido, o que diferencia o 
cuidado de enfermagem de outras formas de cuidar é que ele representa um ato 
com intenção terapêutica que exige competência técnica, compromisso e ética dos 
seus agentes que interagem entre si. 
Conforme cita Leopardi (2001), quando se fala em cuidado, existe uma 
perspectiva terapêutica sobre um sujeito que tem uma natureza física e mental 
sendo, portanto, uma ação com a finalidade de transformar um estado de 
desconforto ou dor em outro de mais conforto e menos dor. 
Tal cuidado sustenta-se basicamente na interação mútua e na relação 
estabelecida entre enfermeira e cliente, sem as quais ele não ocorre. Por outro lado, 
demanda um profissional para desenvolvê-lo baseado em conhecimento técnico-
científico e prático. Deste modo, é fundamental uma concepção de cuidado na qual 
valorize-se o envolvimento entre profissionais e clientela, e que não seja reduzida 
nem ao seu aspecto relacional, nem ao técnico (LEOPARDI; SANTOS; SENA, 
2000). 
No caso dos setores de cuidados intensivos, a assistência de enfermagem 
requer, além desses aspectos, uma capacidade para lidar com situações complexas, 
com velocidade e precisão que geralmente não são necessárias em outras partes do 
hospital. Logo, exige competência para integrar as informações, construir 
julgamentos e estabelecer as prioridades. Isso porque existem particularidades em 
Unidades de Terapia Intensiva (UTI), uma vez que além da utilização de 
30 
 
equipamentos e materiais, os clientes possuem características que lhes são 
inerentes, diferentes dos clientes internados em outras unidades hospitalares. 
Assim, as práticas de cuidado da enfermagem nestes cenários abarcam 
diferentes dimensões relacionadas à presença da tecnologia, ao acompanhamento 
da velocidade de avanço do conhecimento, ao equilíbrio entre o humano e o 
tecnológico,à interpretação dos dados sobre o cliente, as quais impactam sob a 
forma de exigências na atuação profissional da enfermeira. 
O sentido conferido a cada uma de tais dimensões pode influenciar de 
variadas maneiras os sujeitos que prestam os cuidados, refletindo-se nos modos de 
agir profissional. À luz disso, compreende-se as práticas de cuidado da enfermagem 
na terapia intensiva como um fenômeno multifacetado, que determina requisitos à 
atuação profissional no intuito de atender ao cliente integralmente e conforma 
comportamentos diversificados que podem trazer benefícios ou prejuízos à 
assistência que é prestada. 
Desta feita, conhecer o modo como as enfermeiras representam suas 
práticas em face das tecnologias fornece subsídios para entender que elementos 
integram seu pensamento sobre tais práticas, e os nexos que guardam com a forma 
como agem diante do cliente que encontra-se hospitalizado. 
Além disso, possibilita debater sobre a objetividade e a subjetividade 
envolvidas no cuidado da enfermagem no CTI, muitas vezes colocadas em 
oposição. No contexto em destaque, alguns resultados de investigações vêm 
demonstrando implicações da objetividade/subjetividade relacionadas ao uso da 
tecnologia nas práticas de cuidado da enfermagem como é o caso de Oliveira 
(2007); Silva (2008); Cunha e Zagonel (2008); Ramos e Vargas (2008); Silva (2009) 
dentre outros, os quais apontam sejam para a desvalorização da esfera expressiva 
31 
 
do cuidado que é mediado pela presença da tecnologia, sejam para os riscos 
trazidos pelo seu uso inadequado pelos profissionais de saúde, ocasionando danos 
à vida do cliente. 
Então, a caracterização dos estilos de cuidar específicos à terapia intensiva 
proporciona desvelar, a partir dos sujeitos que realizam este cuidado, quais aspectos 
compõem tais estilos, que importância a objetividade/subjetividade assumem para a 
efetivação da assistência, e como isso se traduz em qualidade no âmbito destes 
cenários. Deste modo, será possível pensar acerca do conhecimento especializado, 
da figura da enfermeira-tipo ideal, da gestão do cuidado, da formação profissional 
dentre outros. 
Estas reflexões acerca dos estilos são de grande relevância na atualidade, 
uma vez que um número significativo dos estudos veiculados na literatura brasileira 
nesta área detém-se em abordar a questão da humanização, isto é, a estreita inter-
relação da tecnologia com a ideia de desumanização, dita característica, da 
assistência na terapia intensiva. Sob esta ótica, é deveras interessante propiciar 
meios a uma discussão mais ampla acerca dos processos que conformam os estilos 
de cuidado na terapia intensiva. 
Vale acrescentar que, conforme diz Carvalho (2003, p. 669), “o cuidado se 
estabelece como essência do que seja fundamental na enfermagem”. De acordo 
com Ferreira (1999, p. 03), o cuidado fundamental é aquele que traduz “a verdadeira 
essência da enfermagem”, ou seja, “visa promover a preservação e proteção da 
vida, a promoção do conforto e bem-estar ao ser humano”. Nesta linha é 
experimentado pelo cliente como uma ação técnica e sensível, pois implica em um 
encontro entre pessoas – quem cuida e quem participa do cuidado (FERREIRA, 
32 
 
2002). No caso em tela, este cuidado se dá com o auxílio de aparelhos e máquinas 
que mantêm suporte à vida do cliente. 
Nesta pesquisa investe-se em delimitar as características e peculiaridades 
dos modos como as enfermeiras cuidam dos clientes, contribuindo para um melhor 
delineamento da prática assistencial neste campo de atuação, na interface com os 
cuidados fundamentais. Alinha-se, portanto, aos estudos da Enfermagem 
Fundamental, sobretudo na Linha de Pesquisa que trata acerca dos Cuidados 
Fundamentais e Tecnologias de Enfermagem, trazendo avanços teóricos para o seu 
marco conceitual. 
Espera-se ainda como contribuição demarcar uma clínica do cuidado de 
enfermagem que responda pela especificidade da terapia intensiva, isto é, intenta-se 
a partir dos resultados da pesquisa poder descrever a forma habitual de agir das 
enfermeiras frente ao cliente, na tentativa de aprofundamento do cuidado de 
enfermagem, “pedra de toque” da enfermagem fundamental, e crescimento científico 
nesta área do saber. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 (Gioconda-Louvre) 
CAPÍTULO 2: 
Bases teórico-conceituais
34 
 
2.1 Sobre a ideia dos estilos de cuidar na enfermagem: uma 
aproximação inicial em vista à clínica do cuidado 
 
2.1.1 O estilo nos campos do saber 
Numa retrospectiva histórica, é possível perceber a evolução do significado 
da palavra estilo. Cipiniuk (1997) diz que o termo estilo provém do latim stylus, que 
na Antiguidade Clássica era usado para nomear um mecanismo de redação escrita. 
Na Antiguidade, escrever de uma determinada forma foi aplicado para se referir ao 
modo de falar: a ciência da retórica. A expressão genres ou genera foi utilizada nas 
artes visuais por Plínio e Vitrúrio para classificar os estilos dórico, jônico e coríntio. O 
gênero ainda perdura até a atualidade com o mesmo sentido de classificar classes 
biológicas. 
No século XVI, Vasari usava a palavra maniera para nomear o que hoje em 
dia o senso comum designa como estilo, ou seja, o estilo de um artista, período ou 
de uma nação. O termo genre foi adotado pela cultura francesa no fim do século XVI 
e durante o XVII como equivalente ao estilo, no campo da pintura em particular e 
arte em geral. No século XVIII, Winckelman estabeleceu como o estilo era 
compreendido pela história da arte, o qual significava a expressão de toda uma 
cultura em um determinado período de desenvolvimento (CIPINIUK, 1997). 
O autor (op. cit.) refere ainda, que no século XVIII e em especial no XIX, o 
termo adquiriu uma função heurística, passando a ser visto como um instrumento de 
classificação e valoração dos artefatos artísticos. Desta forma, assinalava as 
manifestações artísticas provenientes de diferentes procedências, bem como 
permitia julgar ou avaliar os padrões de beleza de acordo com sua proximidade com 
35 
 
o estilo clássico. Assim, quanto mais próximo ou derivado das formas clássicas, 
mais belo era o estilo. 
Embora venha sendo incorporado no âmbito das artes para indicar uma 
coerência entre obras de arte que são fruto de uma escola ou grupo de artistas, de 
certo período de tempo ou região geográfica, o conceito de estilo é muito empregado 
para descrever fenômenos e ações em diversas áreas das ciências. A ideia dos 
paradigmas nas ciências pode ser concebida como um estilo de pensamento 
científico, afirma Thomas Kuhn (1991). 
Quando define-se um estilo, na verdade reúne-se elementos para organizar 
ou classificar objetos e ações humanas que estariam distribuídos de forma 
desorganizada pelo mundo fenomenal. Somente é possível falar em objetos 
individuais, quando existe uma classe a qual ele pertenceria, estabelecendo um 
limite conceitual para sua existência enquanto indivíduo. Caso não haja classe para 
incluí-lo, supõe-se sua originalidade e talvez o início de uma nova classe de objetos 
(CIPINIUK, 1997). 
No campo da linguística, Brait (2005) comenta que a noção do estilo gera 
interesse de correntes preocupadas com as particularidades expressivas de 
determinados autores, poetas, artistas em geral, ou nos conjuntos de características 
que delimitam os movimentos artísticos – estilos de época - caso do romantismo, do 
impressionismo, do cubismo etc. Embora não esteja ligado apenas às artes, há uma 
estreita relação entre estilo e individualidade, ou seja, refere-se às idiossincrasias, à 
maneira de se expressar de uma pessoa. Sob a ótica da linguística, os estudos 
sublinham que a ideia de estilo sinaliza para seu entendimento em função do texto e 
de suas formas de organização em relação às possibilidades oferecidaspela língua. 
36 
 
A autora (op. cit) pontua que nesta área há duas vertentes para se pensar o 
estilo, isto é, por um lado está diretamente relacionado às produções individuais ou a 
um conjunto de produções de determinados momentos, vinculados à arte em geral 
ou exclusivamente à personalidade de alguém. Por outro lado, articula-se, de 
maneira mais ousada, com as diferentes instâncias textuais que implicam escolhas, 
no que tange às opções oferecidas pelo sistema linguístico. 
No dicionário de termos literários, Shaw (1982, p. 187-188) aborda estilo 
como “a maneira de traduzir os pensamentos em palavras; modo característico de 
construção e de expressão na linguagem escrita e oral; característica de uma obra 
literária, mais no que respeita a sua forma de expressão do que às suas ideias”. Ela 
cita (op. cit.) que não se pode definir satisfatoriamente estilo, embora diversos 
peritos já o tentaram, tratando-o como “o traje do pensamento”; “a moralidade mais 
elevada do espírito”; “o pensamento em linguagem”; “as palavras próprias nos 
lugares próprios”; “o estilo é o homem”. 
Segundo Shaw (op. cit.), a maioria dos críticos está de acordo em que 
“aquilo que alguém diz”, a “maneira como o diz” são elementos básicos do estilo. 
Pode-se considerar, então, o estilo como sendo a marca (influência) da 
personalidade do escritor na matéria por ele versada. 
No dicionário Enciclopédico das Ciências da Linguagem, Ducrot e Todorov 
(1977, p. 287-288) denominam o estilo como as escolhas que são realizadas em um 
texto a partir dos aspectos disponibilizados pela língua. À luz disso equivale aos 
registros da língua, a seus subcódigos; configura-se numa das explicações para as 
expressões “estilo figurado”, discurso emotivo etc; permite captar as propriedades 
verbais a partir da descrição estilística de um enunciado. 
37 
 
Pacheco (2008) acrescenta que na Arqueologia, a acepção de estilo também 
vem sendo amplamente debatida, em virtude da infinita variabilidade de 
características dos artefatos resgatados nos sítios arqueológicos. Esta autora 
propõe uma discussão ampla amparando-se em diversos teóricos, no sentido de 
mostrar que a descrição física dos objetos é condição essencial para o seu estudo, 
pois somente por meio dela é possível o desenvolvimento de terminologias e 
princípios classificatórios, que possam ser de compreensão e utilização generalizada 
entre os diferentes pesquisadores. No processo de categorização de tais artefatos, 
arqueólogos, antropólogos e os historiadores podem utilizar a referência de estilo. 
Porém, tal concepção é alvo de intensos embates nesta área, seja porque 
existe uma variedade de abordagens não integradas sobre o estilo, que são usadas 
por pesquisadores para análise e interpretação do registro arqueológico, seja no que 
tange às discordâncias sobre os fatores que determinam o estilo (PACHECO, 2008). 
Como parte deste processo, alguns estudiosos demarcam o estilo na linha 
da Arqueologia. Para Roe, por exemplo, (apud Pacheco, 2008, p. 397) estilo 
é um sistema estruturado e intencional de seleção de certas 
dimensões de forma, processo ou princípio, função, significância e 
influência, dentre as possibilidades conhecidas, na criação da 
variabilidade dentro de um corpus comportamental/artefatual. 
 
Hegmon (1998, p.518) contribui dizendo que o estilo pode ser conceituado 
“como um modo de fazer algo [...] e envolve uma escolha feita dentre várias 
alternativas”. Numa revisão de estilo entre os etnoarqueólogos, destaca-se: “Estilo é 
a designação de um evento individual a uma maneira geral de se fazer algo”; “Estilo 
é a variação formal na cultura material que transmite informações sobre a identidade 
pessoal e a social”; “Estilo é uma maneira altamente específica e característica de 
se fazer algo [...] sempre peculiar a específicos tempo e espaço [...]”; “Estilo é a 
parte da variabilidade formal, na cultura material, que pode ser relacionada à 
38 
 
participação dos artefatos nos processos de troca de informação; “O estilo é uma 
manifestação formal e extrínseca do padrão intrínseco [...] a expressão manifesta, 
na categoria comportamental, do padrão cultural que, frequentemente, não é nem 
cognitivamente conhecido, nem mesmo reconhecível por membros de uma 
comunidade cultural, exceto por artistas” (WOBST, 1977; SACKETT, 1977; 
LECHTMAN, 1977; WIESSNER, 1983; HODDER, 1990a APUD DAVID; KRAMER, 
2001, p. 170-171). 
Na saúde, investe-se também nos estudos acerca do estilo, principalmente 
quanto ao estilo de vida dos sujeitos na questão do processo saúde/doença. Desta 
feita, tal estilo de vida está ligado aos hábitos que se constroem ao longo do 
processo de socialização, que, via de regra, têm a ver com o livre arbítrio, no âmbito 
do qual as pessoas exercem certo controle sobre suas opções. A adoção de 
determinados modos de cuidar do corpo, a atividade, o sedentarismo, higiene, tipos 
de alimentos ingeridos e maneiras de se alimentar, respeito aos horários, sono e 
repouso, uso e abuso de bebidas alcoólicas, fumo e outras drogas, formas de 
relacionamento, uso de medidas de segurança para prevenção de acidentes são 
alguns dos exemplos que compõem os estilos de vida das pessoas e que guardam 
importantes nexos com as condições de saúde da população. 
De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (2009), o estilo de 
vida remete a forma como as pessoas vivem e as escolhas que fazem, as quais são 
influenciadas pelo contexto situacional, cultura regional, hábitos familiares e sociais, 
bem como pelo conhecimento acumulado acerca da saúde. Estilo de vida denota, 
então, distinguir os modos pelos quais o sujeito se relaciona consigo próprio, com a 
natureza e com os outros. Logo, a construção de uma vida saudável tem estreita 
relação com os hábitos adotados pelo indivíduo no cotidiano. 
39 
 
2.1.2 Dos estilos de cuidar à clínica do cuidado de enfermagem 
Na enfermagem, a compreensão do estilo se aglutina em torno dos 
diferentes estilos de cuidar adotados pela enfermeira nos setores de cuidado em 
saúde. Cruzalegui (2003), em sua tese de doutorado, buscou investigar quais são e 
como são os estilos de cuidar/cuidados que desenvolvem as enfermeiras e sua 
equipe de enfermagem para o cliente com crise asmática aguda. 
 Tal pesquisadora percebeu inicialmente, com base em observações 
empíricas, que existem diversos estilos de cuidar/cuidados realizados pela 
enfermeira para o cliente com crise asmática. Segundo a autora (op. cit.), há 
enfermeiras que realizam o cuidado seguindo estritamente o protocolo de cuidados 
de enfermagem para clientes com insuficiência respiratória, enquanto existe outro 
grupo de profissionais que além de cumprir o protocolo desenvolvem um cuidado 
personalizado, sustentado pela sensibilidade e empatia, respeitando a pessoa; e um 
terceiro grupo de profissionais que aplica apenas uma parte do protocolo. 
Nesta discussão, afirma (op. cit.) que para cuidar de um cliente em quadro 
emergencial, a enfermeira necessita dominar o conhecimento científico, 
principalmente aquele que se refere ao avanço tecnológico, bem como ter 
habilidades para lidar com os aspectos expressivos do cuidado de enfermagem, os 
quais possibilitam o respeito à dignidade humana e sensibilidade frente ao 
sofrimento do cliente e família. 
Os resultados revelaram que as enfermeiras têm formas concretas e 
maneiras de pensar, sentir e agir no cuidar e nos cuidados cotidianos na Unidade de 
Emergência. Essa situação determina estilos de cuidar e cuidados que realizam as 
enfermeiras, os quais se configuram em um processo dinâmico, de simultaneidade e 
complementaridade. Nos achados da pesquisa referenciada (op. cit.) foram 
40 
 
encontradas cinco vertentes ligadas ao estilo de cuidar e cuidado pela enfermeira e 
equipe para o cliente: conhecendo o cliente; os sinais e sintomas do corpo; o 
cuidado como ação terapêutica clínica; o diálogo como cuidadoe o toque como 
cuidado terapêutico. 
Defende, portanto, a tese de que há um estilo de cuidar e de cuidado que 
fazem as enfermeiras e sua equipe de enfermagem na Unidade de Emergência para 
o cliente com crise asmática aguda, o qual envolve dimensões subjetivas (sensíveis) 
e objetivas (concretas) e que contribui para melhorar a evolução do quadro clínico 
do cliente asmático (CRUZALEGUI, 2003). 
Em outra pesquisa, Moreno (1999) descreveu os estilos de ensinar o 
cuidado de enfermagem ao cliente hospitalizado em situações de maior 
complexidade no Brasil e no Peru. Deste modo, estava de acordo com a ideia de 
que existiam semelhanças e diferenças nos estilos de ensinar-cuidar em 
enfermagem para o cliente hospitalizado em situações de maior complexidade no 
Brasil e Peru, e que o modo como o ensino era desenvolvido nas duas realidades 
concretas, socialmente definidas, determinava profissionais distintos. Partiu-se do 
entendimento de estilo como algo dinâmico, libertador e em constante 
reorganização. 
Evidenciou-se, com base na análise (op. cit.), que os diferentes estilos de 
ensino, através de sua dinâmica, geram diferentes estilos de cuidado do cliente 
hospitalizado com problemas de maior complexidade, os quais, no entender de 
professores e alunos, se configuram como complexo, emergente, situacional e por 
competências no Brasil/Escola de Enfermagem Anna Nery-Programa Curricular 
Interdepartamental (PCI) IX, enquanto no Peru é complexo, especializado e por 
funções. 
41 
 
O cuidado complexo é definido no PCI IX como as ações voltadas aos 
clientes que estão em estado crítico com maior risco de morte, demandando dos 
acadêmicos conhecimentos específicos e manuseio de técnicas sofisticadas. Na 
disciplina de Enfermagem Médico-Cirúrgica Especial (EMCE), no Peru, é 
compreendido como as ações dirigidas ao cliente, do ponto de vista biopsicossocial, 
em casos complexos e críticos (médico-cirúrgicas), de emergência e/ou desastres 
(MORENO, 1999). 
A diferença do ensino no Brasil e Peru reside nos outros dois estilos de 
cuidado, ou seja, no PCI IX eles são emergente/situacional e por competências, 
enquanto na disciplina EMCE o cuidado é especializado e por funções. O cuidado 
por competências abrange além das habilidades psicomotoras, as cognitivas, isto é, 
a capacidade de desenvolver consciência crítica, reflexiva e transformadora, 
considerando as necessidades psicobiológicas, psicossociais e psicoespirituais dos 
clientes e família. Em contrapartida, o cuidar por funções reproduz as rotinas 
instituídas pelos serviços médicos. 
Moreno (op. cit.) conclui que o cuidado por competências no PCI IX 
proporciona ao aluno desempenhar os diferentes papeis envolvidos na prática 
profissional, através da atenção direta, atividades educativas, liderança e de 
pesquisa, manifestadas como habilidades cognitivas, afetivas e psicomotoras. Há 
um foco nas atitudes e valores que permeiam o cotidiano pessoal e profissional. O 
cuidado por funções capacita o aluno para a realização das diferentes funções como 
futuro profissional, através da atenção direta, atividades educativas, de liderança e 
pesquisa, desenvolvendo basicamente atividades e tarefas. 
No bojo desta discussão acerca dos estilos de cuidar, Cabral e Tyrrel (1995) 
declaram que o estilo de cuidar das mães para atender às demandas de seus filhos 
42 
 
e socializá-los, integrando-os ao mundo dos adultos, é resultado de um processo de 
acumulação de informações que são transmitidas de geração em geração. A 
transmissão de conhecimentos varia em razão do contexto social, cultural e dos 
valores presentes numa determinada sociedade num momento histórico específico. 
Então, as enfermeiras precisam aprender a trabalhar com as crenças e práticas dos 
clientes, respeitando as atitudes, os comportamentos, no sentido de rastrear as 
lógicas que permeiam o estilo de cuidar da mãe, no intento de evitar avaliações 
depreciativas ou de menosprezo. 
Percebe-se, desta forma, que o processo de socialização é marcado por 
diferenças, relacionadas às divergências culturais inerentes aos grupos sociais nos 
quais as pessoas estão inseridas. Isto significa dizer, que os grupos sociais 
socializam seus filhos de forma coerente às suas regras de sobrevivência e 
interesses sociais particulares. Afirma-se, então, que o estilo de cuidar emerge como 
um produto da cultura em que a criança interagiu, socializou-se e educou-se. Logo, 
o trabalho da enfermagem que cuida de crianças deve respeitar as diferenças 
culturais existentes dentro dos grupos sociais, e, sobretudo, aliando-se ao estilo de 
cuidar da mãe (CABRAL; TYRREL, 1995). 
Ainda contribuindo ao debate, Silva (2009), ao estudar as representações 
sociais das enfermeiras sobre a tecnologia existente no ambiente da terapia 
intensiva, pôde evidenciar que na dependência do domínio do saber especializado, 
inerente à enfermagem e ao maquinário, as enfermeiras adotam formas particulares 
de agir frente ao cliente portador de aparatos tecnológicos. Sendo assim, as 
enfermeiras se diferenciam em duas categorias de acordo com o tempo de 
experiência profissional, as novatas e veteranas, com características opostas, tais 
como: afastamento/aproximação; medo/segurança; malefícios/benefícios; 
43 
 
desconhecido/familiaridade. Estes elementos, por sua vez, produzem repercussões 
positivas e negativas, e parecem conformar a possibilidade de existência de estilos 
de cuidar também no ambiente da terapia intensiva. 
Com base no exposto, é possível situar a noção dos estilos de cuidar na 
enfermagem. O cuidado de enfermagem configura-se no objeto de trabalho da 
profissão, e pertence a duas dimensões distintas, uma objetiva e outra subjetiva. A 
objetiva relaciona-se à esfera dos saberes especializados, das técnicas e dos 
procedimentos instrumentais. Já a subjetiva, diz Figueiredo, Machado e Porto (1995) 
ampara-se na sensibilidade, criatividade e intuição para cuidar do outro ser. São 
fundamentais ao cuidado a forma, o jeito de cuidar, a sensibilidade, a intuição, o 
‘fazer com’, a cooperação, a disponibilidade, a participação, o amor, a interação, a 
cientificidade, a autenticidade, o envolvimento, o vínculo compartilhado, a presença, 
a empatia, o comprometimento, a compreensão, a confiança mútua, o 
estabelecimento de limites, a valorização das potencialidades, a visão do outro como 
único, o toque delicado, o respeito ao silêncio, a receptividade, a observação, a 
comunicação, o calor humano, o sorriso. 
Ressalta-se também, a sua dimensão ético-política e histórico-filosófica. Na 
dimensão política, releva-se sua importância na promoção da cidadania, ou seja, o 
cuidado de enfermagem deve visar a manutenção ou restauração de um estado 
ótimo de saúde, no intuito do indivíduo exercer o seu direito de cidadão, 
potencializando a sua existência social. Deve buscar a autonomia do sujeito em sua 
vida social, num processo de humanização da vida. Assim, o cuidado de 
enfermagem agrega ações profissionais da natureza própria da profissão, fruto de 
um preparo teórico e filosófico, que se pauta também em outras ciências, e que se 
materializa numa prática multidisciplinar (SOUZA et al, 2005). 
44 
 
Destarte, ao refletir sobre os estilos de cuidar em enfermagem, conforme diz 
Souza et al (2005), ganha força a análise do sentido e significado que é conferido a 
este cuidado, que dimensão do ponto de vista político e social assume, como implica 
na vida dos cidadãos. Logo, o cuidado não se constitui apenas como um ato 
instrumental, mas um processo que possui uma finalidade para a vida humana. 
Nesta ótica, os estilos de cuidar em enfermagem não são neutros, devendo 
ser pensados a partir de um referencial teórico-filosófico, o qual deriva-se de 
reflexões pessoais e coletivas, bem como perpassa a relevância do cuidado no 
contexto sócio-político que se insere. Estes referenciais terminam por orientar as 
escolhasfeitas por quem o executa. 
Tudo isso permite definir estilos de cuidar na pesquisa em tela, como as 
diferentes perspectivas de ação que as enfermeiras adotam para assistir os clientes 
em determinados ambientes de cuidado. O ambiente, de acordo com suas 
peculiaridades, fornece elementos que integram tais estilos, e estes se expressam 
em referência ao sentido que as práticas de cuidado tomam para o sujeito. Portanto, 
os estilos congregam elementos específicos, de acordo com o cenário em que o 
cuidado se processa. 
Apoiando-se numa base sócio-construcionista resultam da forma de pensar 
as práticas de cuidado da enfermagem, materializada nos modos de fazer. 
Envolvem características e marcas que formam um sistema deliberadamente 
estruturado pela enfermeira para cuidar dos clientes. 
Os diferentes estilos de cuidar, com seus atributos distintivos conformam 
uma clínica do cuidado. A ideia de clínica tem origem na área médica, sendo 
entendida como as diferentes formas habituais de atuar, constituídas por aspectos 
particulares, na qual os médicos realizam o diagnóstico e tratamento das doenças 
45 
 
visando o restabelecimento do corpo sadio. Nesta linha argumentativa, posiciona-se 
a favor de uma noção de clínica do cuidado de enfermagem, a qual perpassa o que 
fazem as enfermeiras ou o que precisa ser feito numa determinada área de atuação, 
para alcance do objetivo da enfermagem: o cuidado aos sujeitos. 
Sobre a clínica, poucos autores já trataram desta temática na enfermagem. 
Oliveira (2005), por exemplo, investiu na discussão sobre a clínica de enfermagem, 
mais especificamente na da Enfermagem Psiquiátrica. Segundo a autora (op. cit.), a 
clínica da Enfermagem Psiquiátrica opta por certa indisciplina, sendo fiel à abertura, 
à tolerância, ao diferente e à diversidade característica da psiquiatria. Nessa clínica, 
a doença mental, o tratável, ou seja, o que é possível tratar, não está marcado na 
especificidade da doença, e sim na pessoa que está doente. A doença mental tem 
como base do cuidado, a singularidade da relação pessoa-pessoa. É a busca de 
fazer emergir o sujeito. 
Nesta clínica a atenção não está voltada para o maquinário ou aparelhos 
avançados, pois a maior sofisticação está na atenção que é direcionada a pessoa 
humana, e ao que é possível fazer por ela e com ela, num cuidado crítico e criativo. 
A autora levanta uma discussão acerca do pouco entendimento da clínica da 
enfermagem psiquiátrica para as outras clínicas, uma vez que são constantes as 
avaliações de que não há complexidade na assistência de enfermagem psiquiátrica, 
ou de que o cuidado resume-se a atividades pouco científicas, resolutivas e 
demonstráveis. Isto faz com que a enfermagem psiquiátrica não seja vista com o 
mesmo estatuto das outras especializações na enfermagem (OLIVEIRA, 2005). 
Oliveira (op. cit.) refere ainda, que o termo empatia está diretamente ligado 
ao que considera clínica da Enfermagem Psiquiátrica, uma vez que a partir dele, 
compreende-se todos os outros elementos constitutivos de tal clínica. O sentido do 
46 
 
termo empatia tem estreita relação com o fazer da enfermeira psiquiátrica, devendo 
ser foco de sua atuação. 
Moreira (2008), ao estudar o cuidado de enfermagem prestado a clientes 
com distúrbios psiquiátricos a partir de uma internação involuntária, retomou a 
clínica da enfermagem psiquiátrica descrita por Oliveira (2005), a qual apresenta 
todas as sutilezas e peculiaridades que não se encontra em outras áreas da 
enfermagem. Ela se apoia em quatro pressupostos: escuta qualificada, na qual é 
valorizada a narrativa do sujeito; tempo do paciente para o sintoma; o cuidado só 
existe pós-demanda e o foco é o sujeito e não a doença, uma ação a ser realizada 
com ele, respeitando seus desejos e necessidades; a enfermeira deve ter prontidão 
para cuidar, ou seja, disponibilidade que implica em conhecê-lo e estar ao seu lado, 
construir caminhos possíveis com ele e não para ele (LOYOLA apud OLIVEIRA, 
2005). 
O estudo pôde concluir que o fato do cliente estar internado 
involuntariamente, não implica em definições na Clínica da Enfermagem 
Psiquiátrica, isto é, nas maneiras de cuidar da enfermagem, uma vez que a 
enfermagem entende que a demanda que irá diferenciar essa clínica encontra-se no 
psíquico e nas manifestações dos sintomas, e não no tipo de internação do paciente. 
Sendo assim, não há reação da equipe de enfermagem em relação ao paciente de 
internação involuntária, pois a equipe não reconhece a internação psiquiátrica 
involuntária (IPI) como um evento diferenciado, mas como um somatório de 
manifestações clínicas apresentadas na admissão e no decorrer da internação deste 
indivíduo (MOREIRA, 2008). 
Teixeira (2008) empreendeu esforços para apreender os saberes e práticas 
dos acompanhantes de idosos hospitalizados sobre a prevenção e tratamento das 
47 
 
úlceras por pressão. Tal pesquisadora defendeu a tese de que o desenvolvimento 
de uma tecnologia de processo sustentada no debate teórico de valorização da 
cultura poderia trazer contribuições à clínica do cuidado de enfermagem. 
Tal tecnologia de processo se efetiva em cinco etapas, a saber: inicialmente 
ocorre o encontro da enfermeira com o cliente e seu acompanhante, ou seja, do 
sistema profissional e popular, no qual a enfermeira estabelece a comunicação 
inicial no intuito de proporcionar o conhecimento mútuo e iniciar uma relação de 
confiança. Na segunda fase ocorre a captação dos dados clínicos através do exame 
físico, bem como de dados sócio-econômicos-culturais com base no histórico. A 
partir da terceira etapa, o diálogo com o acompanhante passa a centrar-se na 
temática foco, no caso, a úlcera por pressão, onde o mesmo verbaliza seus saberes 
e práticas, e a partir de então, inicia-se o processo de problematização e de 
compartilhamento dos saberes e práticas entre enfermeira e acompanhante. 
À medida que esta fase progride, o acompanhante elabora um plano de 
cuidados a ser implementado por este durante sua estada no hospital. 
Posteriormente, a enfermeira acompanha a implementação do plano pelo 
acompanhante, mantendo diálogo e reflexão durante a observação, configurando-se 
esta a quarta fase. A última fase se relaciona a observação após a alta do idoso 
através de visita ao domicílio (TEIXEIRA, 2008). 
Evidenciou-se assim, que esta proposta deve fazer parte dos modos de agir 
da enfermeira no cuidado ao idoso hospitalizado, configurando-se como um dos 
elementos que compõem a clínica do cuidado de enfermagem. Nesta perspectiva, 
reforça-se a noção de um cuidado compartilhado, no qual profissional, cliente e 
acompanhante aparecem como sujeitos coletivos, ativos e produtores de 
48 
 
conhecimento, através da valorização da dialogicidade e a reflexão crítica das 
vivências e experiências diárias. 
A clínica do cuidado de enfermagem é, pois, compreendida no estudo-tese 
em tela como composta pelos estilos de cuidado das enfermeiras que, amparados 
em determinados elementos, e a partir de um referencial teórico e filosófico, 
possibilitam o cuidado ao cliente. 
 
2.2 A tecnologia no ambiente da Terapia Intensiva e a emergência de 
estilos de cuidar que conformariam uma clínica 
 
2.2.1 O ponto de partida: o significado do termo tecnologia em saúde e suas 
relações com a terapia intensiva 
A origem do conceito de tecnologia, conforme destaca Schraiber; Mota e 
Novaes (2006), está bem próxima do de técnica. No campo da saúde, a tecnologia 
está comumente associada a equipamentos médicos. Reconhece-se, contudo, a 
necessidade de uma definição mais abrangente, na qual a tecnologia é vista como 
uma ferramenta, incluindo aí as ações de trabalho, que transforma uma determinada 
realidade ou natureza. Neste sentido, envolve além dos equipamentos os 
conhecimentos e ações necessários para operá-los: o saber e seus procedimentos. 
Na contemporaneidade, a tecnologia é percebida comoos recursos 
materiais e imateriais dos atos técnicos e processos de trabalho. Vale ressaltar que, 
em virtude do avanço do saber técnico científico na atualidade, o saber da 
tecnologia também ganha um sentido a mais (SCHRAIBER; MOTA; NOVAES, 
2006). Schraiber et al (1999) consideram a tecnologia, como um saber valorizado 
pelo que possui de conhecimento complexo, além, obviamente, da sua capacidade 
49 
 
de propiciar atos técnicos (transformação das coisas por sua intervenção manual). É 
então “um conhecimento do tipo teoria, uma teoria sobre práticas ou modos de 
praticar” (SCHRAIBER et al, 1999, p. 227) Alguns autores chamam este saber de 
teoria científica das técnicas ou tecnologia. 
Técnica (techné) de acordo com Novaes (1996), é um termo grego que 
significa “ordem de produção”, pressupõe um engendramento, uma criação de 
modos de fazer, “engenho e arte”. Refere-se a um saber-fazer, que é ao mesmo 
tempo um saber e um fazer. Quanto ao fazer, a técnica é tomada na qualidade de 
engenho humano: “faculdade da arte, de criação daquilo que ela própria não o faz (a 
natureza) (...)” (NOVAES, 1996, p.25). O saber está ligado à obra criada (saber 
poiético). 
Com o avanço do saber científico, ocorre uma mudança no sentido da 
palavra técnica, passando agora a uma intervenção manual fundamentada em um 
saber complexo e produzida para o mundo prático, e que ganha um estatuto de 
verdade a partir da ciência moderna. Deste modo, abandona a concepção de técnica 
como uma intervenção que envolve um saber imediato e prático (SCHRAIBER; 
MOTA; NOVAES, 2006). 
O fazer gera produtos, é um trabalho, um ‘ofício’. O produto “é uma obra 
exterior ao agente, ainda que intelectualmente maquinada” (NOVAES, 1996, p.26). A 
partir dos séculos XV e XVI com a valorização do trabalho (ato de produzir produtos) 
e, enquanto parte do desenvolvimento histórico do capitalismo, observam-se 
transformações das relações entre a filosofia e a ciência, o trabalho manual e 
intelectual, a teoria e a técnicas, das quais origina-se um significado de ciência não 
como verdade desinteressada, mas como um conhecimento que é produzido para o 
50 
 
atendimento das coisas necessárias à vida. Isto, por sua vez, impulsiona no século 
XIX a concepção do trabalho como fundamental para a vida econômica e social. 
Neste ínterim, os saberes técnicos são incorporados como conhecimento 
erudito, ao tempo em que a ciência, no século XVIII e XIX separa e rejeita o saber 
prático. O trabalhador manual da indústria é, então, um agente de trabalho sem 
saber (útil) (SCHRAIBER et al, 1999). Segundo Ayres (1995), a ciência apoiou-se 
neste caráter técnico, de noção científico-tecnológica, sendo mais valorizada à 
medida que represente uma razão tecnológica orientando a produção de 
conhecimento. Na segunda metade do século XX, com o rápido surgimento de 
equipamentos, a técnica reveste-se de ciência (conhecimento complexo) e expulsa 
saberes de outro tipo. Assim, a estreita ligação entre ciência e técnica deixa de lado 
os saberes práticos, ou artes (técnicas) que se diferenciam da técnica científica 
moderna. 
Schraiber; Mota e Novaes (2006) mostram que na saúde, tal movimento de 
reorientação e nova qualificação da técnica resulta no trabalho do médico moderno, 
isto é, no âmbito do trabalho manual, a sua interligação com a técnica conduz a uma 
transformação do ofício, agora visto como “arte de curar”. Nesta perspectiva, os 
médicos conferem um novo senso para o uso dos equipamentos, muitos deles 
oriundos e reaproveitados das artes de cura gregas e medievais, enquanto outros 
são criados no século XIX. 
Logo, na segunda metade do século XX verifica-se um movimento grande de 
criação e incorporação de equipamentos e medicamentos, a chamada “tecnologia 
em saúde”, mais especificamente, a ‘tecnologia de curar’. Portanto, a tecnologia em 
saúde se confunde com a da medicina, sobretudo pela possibilidade de intervir, a 
51 
 
qual passa a ser vista como um bem em si mesmo, corporificado na existência de 
medicamentos e equipamentos, referências da noção de tecnologia. 
No Brasil, a partir da década de 1930, em virtude da influência de países 
industrializados, principalmente no que tange ao ensino médico e infra-estrutura, é 
que a tecnologia no setor saúde ganha vulto. Nos anos 1950, ocorre assim a fase de 
industrialização da medicina, culminando na especialização e tecnificação do ato 
médico. Já na década de 1960, predomina o discurso da racionalidade, no intento de 
expandir a assistência curativa no âmbito hospitalar (MAIA, 1984). 
Como resultado deste percurso histórico, na década de 1970 o setor saúde é 
reconhecido como um novo ramo industrial em relação à produção de equipamentos 
e fármacos, gerando a entrada de capital no país, o qual não significou melhoria nas 
condições de saúde da população. 
No âmbito dos cuidados em saúde, o ambiente que mais expressa as 
tecnologias são os setores de terapia intensiva. Tais unidades ganharam evidência a 
partir da década de 1920 no Hospital Johns Hopkins, com a criação das salas de 
recuperação para pacientes de neurocirurgia (WEIL; PLANTA; RACKOW, 1992), 
bem como nos anos 1930 na Alemanha, com a assistência intensiva pós-operatória. 
Na década de 1940 surgiram as salas de recuperação cirúrgica em Rochester, 
Minnesota, Nova Iorque e Nova Orleans (HILBERMAN apud NISHIDE; MALTA; 
AQUINO, 2005). 
Outro ponto que contribuiu para o rápido desenvolvimento das Unidades de 
Terapia Intensiva foi a epidemia de poliomielite nos anos 1950, que gerou a 
necessidade de criação de outros centros de atendimento à doença, em decorrência 
do grande número de casos que chegavam aos hospitais. Isto significou a 
incorporação de modernas técnicas de ventilação mecânica prolongada fora das 
52 
 
salas de cirurgia, impactando na atuação dos profissionais, como é caso da 
enfermeira, que precisou lidar com os equipamentos além dos cuidados manuais 
direcionados aos clientes (ADLER, 1992). 
No fim da década de 1950, surge em Los Angeles a primeira unidade de 
choque, onde há a introdução da monitorização cardiovascular invasiva em 
pacientes críticos e com traumatismo (DAY apud NISHIDE; MALTA; AQUINO, 2005). 
Em 1962, os pacientes vítimas de Infarto Agudo do Miocárdio ganham em Kansas 
City uma unidade de vigilância, sendo o nascedouro das atuais Unidades 
Coronarianas. Nos anos subsequentes, outros clientes foram ganhando unidades 
especiais como: cirúrgicos, com problemas neurológicos, queimaduras etc (WEIL; 
PLANTA; RACKOW, 1992). 
Silva; Silva e Francisco (2006) situam que no Brasil, a implantação das 
Unidades de Terapia Intensiva teve início na década de 1960, e, atualmente, são 
unidades presentes no contexto hospitalar. Com pouco mais de 50 anos de 
existência, essas unidades retratam a evolução técnico-científica dos últimos anos. 
O papel destas unidades, que concentram recursos humanos e materiais 
especializados, é o restabelecimento da saúde/vida, associando tecnologia de ponta 
(equipamentos/materiais), cuidados intensivos de enfermagem e medicina 
“intensivista”. Constitui-se, por fim, em um território com linguagens e ações 
próprias, incompreensível para aqueles que não estão familiarizados com este 
contexto, no qual os profissionais de saúde e tecnologias sofisticam-se a cada dia. 
 
2.2.2 A chegada: a tecnologia e as dimensões subjetivas e objetivas do 
cuidado de enfermagem – os estilos 
53 
 
As tecnologias e sua relação com o cuidado de enfermagem vêm sendo 
discutidas em razão das influências nas formas de agir da enfermeira frente ao 
cliente. Uma de suas características que ajuda a explicar isso é o fato de mediar a 
racionalidade e a subjetividade, o que torna necessário a utilização de ferramentas 
ligadas à razão e à sensibilidade, de maneira a fortalecer e qualificar o cuidado de 
enfermagem. 
Acerca da subjetividade e suas interfaces com a tecnologia, Sandelowski(1998) afirma que a revolução tecnológica no tratamento em saúde impactou no 
modo de abordagem em setores de terapia intensiva, isto é, ao tempo em que as 
enfermeiras passam a ter uma atuação mais aperfeiçoada tecnicamente, há certo 
afastamento do cliente, já que pelos muitos aparelhos usados, o contato entre ela (a 
enfermeira) e o paciente diminui. É fundamental então nortear-se no relacionamento 
com o cliente pelos princípios humanísticos, em vista dessas repercussões trazidas 
à assistência pela tecnologia. 
Este relacionamento humano, segundo Lucena e Crossetti (2004), apoia-se 
na subjetividade, a qual refere-se a singularidade do sujeito. Singularidade significa 
dizer que o ser humano é pessoal, particular, reservado, privado, mas ao mesmo 
tempo interrelaciona-se com outro singular através de encontros, onde ocorre a 
relação intersubjetiva. Logo, toda relação é um encontro de subjetividades (MELO, 
2008). 
A intersubjetividade se manifesta como história relacional vivida, como 
linguagens, intercomunicação, conhecimento, valores, crenças, emoções, desejos, 
temores, perspectivas, projetos. Compreender determinada realidade envolve 
acessar a subjetividade e a objetividade nela imbricada, pois quando se concebe o 
indivíduo como objeto, ele perde sua subjetividade (MANDÚ, 2004). 
54 
 
Diversos trabalhos no âmbito da enfermagem vêm, por sua vez, discutindo 
esta questão ao considerar o uso de tecnologias para cuidar. Isto aponta que tal 
elemento possa fazer parte de um estilo de cuidar das enfermeiras no ambiente da 
terapia intensiva (OLIVEIRA, 2002; NASCIMENTO; TRENTINI, 2004; CUNHA; 
ZAGONEL, 2008). 
 Um exemplo ilustrativo de uma possível linha de ação é trazido por Cunha e 
Zagonel (2008), ao estudarem como se estabelecem as relações interpessoais no 
cuidar em ambiente tecnológico hospitalar. Tais autoras (op. cit.) relatam que o 
distanciamento entre tecnologia e humanização está presente num setor de 
cuidados intensivos à criança desde sua criação e que, a partir desse período, o 
desenvolvimento tecnológico, que propicia a qualidade da assistência à criança 
criticamente enferma, sobrepõe-se à dimensão humana do cuidar. 
Diante disso, defende-se que o encontro entre a enfermeira e o cliente deve 
ser baseado na interação, em respeito a dimensão existencial do ser, valorizando-se 
suas experiências de vida no momento do cuidar. Assim, o cuidado implica diálogo 
entre profissional e sujeito do cuidado, num processo que engloba sentimentos, 
ações e reações, possibilitando o exercício da intersubjetividade humana. Este 
cuidado, realizado de forma calorosa, atenciosa e humana, abarcando tanto as 
percepções técnicas dos profissionais quanto as emoções, pode melhorar o estado 
do cliente (CUNHA; ZAGONEL, 2008). 
Nesse sentido, a “intersubjetividade viva do momento assistencial permite 
escapar a uma objetivação desubjetivadora, exatamente porque ali se efetiva uma 
troca, um espaço relacional, que extrapola o tecnológico. Apoia-se na tecnologia, 
mas não se subordina a ela, subverte-a” (AYRES, 2000, p. 119). 
55 
 
Contudo, apesar da existência desta perspectiva de ação exposta, 
investigações mostram que também há reconhecimento pelos profissionais da 
importância de valorização dos aspectos subjetivos quando o cuidado se dá 
mediado pela tecnologia. Assim, existem profissionais que mantêm relações 
interpessoais durante este cuidado, pois percebem ser necessário não somente a 
realização de atividades técnicas, mas também vincular a ele a presença de 
sentimentos humanos (OLIVEIRA, 2002). 
Isto revela a espessura da esfera subjetiva quando tratada no contexto das 
práticas de cuidado da enfermagem em setores como este, permitindo entender a 
relevância de tal aspecto na compreensão dos estilos de cuidar inerentes à terapia 
intensiva. Com base nisso, pensa-se nas dimensões objetivas, pois, conforme diz 
Ribeiro; Carandina; Fugita (1999, p. 19): 
não adianta ser um humanista e observar o homem que morre por 
falta de tecnologia, nem ser rico em tecnologia para observar os 
homens que vivem e morrem indignamente. É necessário o equilíbrio 
entre o cuidar de maneira humana sem desprezar os benefícios da 
técnica. 
Sobre esta objetividade, no caso de um pós-operatório de cirurgia cardíaca, 
cita Silva (2006), as máquinas que fornecem suporte avançado à vida também 
precisam de assistência e cuidado. Desta feita, a atenção e o cuidado com os 
aparelhos importam às enfermeiras, com o propósito final de manter a vida dos 
clientes. 
Como consequência é fundamental conhecer, dominar e refletir sobre o uso 
de tecnologias no CTI, de maneira que os cuidados prestados ocorram com 
segurança. Esta característica de conhecimento e domínio das máquinas ocupa 
lugar de destaque no campo dos cuidados intensivos de enfermagem, uma vez que 
os aparelhos resultam da ciência, são produtos de um determinado saber 
tecnológico. Logo, no intento de que os equipamentos sejam utilizados pelos 
56 
 
profissionais no cotidiano de sua prática de modo cada vez mais aperfeiçoado, 
objetivando a qualidade do cuidado ao cliente, é primordial atenção a tais 
conhecimentos (MARTINS; NASCIMENTO, 2005). 
Nesta ótica, o preparo dos trabalhadores para entender o funcionamento das 
tecnologias com vistas ao trabalho eficiente é condição para que estas sejam 
percebidas como um recurso da enfermagem. Em virtude do avanço do 
conhecimento e da produção acelerada de inovações tecnológicas, a capacitação e 
atualização profissional para o cuidado é mister, requerendo, portanto, qualificação 
continuada dos trabalhadores em saúde, já que na sua formação esta abordagem 
ainda é bastante superficial (MARTINS; NASCIMENTO, 2005). 
A existência de uma linguagem tecnológica objetivada na amplificação dos 
sinais que emanam do corpo do cliente por meio do maquinário e que se traduzem 
em códigos de manipulação é outra ideia defendida no contexto em tela. Há que 
observar e entender os códigos emitidos pela máquina, para se direcionar o cuidado 
aos clientes sem prejuízos a eles. Para evitar o manuseio equivocado das máquinas, 
se releva a observação rigorosa, a tradução/interpretação correta desta linguagem, 
já que erros podem trazer danos e causar a morte do cliente, sendo fato, pois, 
importante observar a linguagem tecnológica para o cuidado de enfermagem ao 
cliente (SILVA, 2009). 
Contribuindo para este diálogo, Florence e Calil (2005) mencionam que a 
evolução da medicina traz em seu bojo, o crescimento cada vez mais rápido da 
complexidade dos aparelhos eletromédicos (EEM) que, por sua vez, possibilitam o 
aumento da eficácia do tratamento médico hospitalar. Isto pode ser evidenciado pelo 
aparecimento das técnicas cirúrgicas minimamente invasivas, novos equipamentos 
de diagnósticos e procedimentos, avanços farmacológicos e melhor conhecimento 
57 
 
dos mecanismos das doenças, dentre outros. Entretanto, esta maior complexidade 
traz como uma das consequências, o aumento significativo de erros de operação do 
uso da tecnologia. Segundo os autores (op. cit.), uma grande parte das notificações 
de incidentes com tecnologias, como, por exemplo, os desfibriladores, indicam que a 
falha ocorreu por conta de erro de operação do equipamento. 
Tal questão, além de comprometer a vida do cliente traz também 
implicações financeiras, já que é grande o número de ações legais movidas por 
pacientes que sofreram danos, em busca de indenizações. O uso seguro dos EEM 
se relaciona com fatores como infraestrutura hospitalar, treinamento da equipe de 
saúde na utilização de EEM, prestação de serviços técnicos de manutenção, e 
adoção de uma política de segurança no hospital. O gerenciamento dos riscos de 
uso da tecnologia médico-hospitalar, focando os fatores que interferem na 
segurança, como é o caso da atuação de enfermagem torna-se imprescindível. 
Portanto, um sistema de vigilância constante pela enfermeiraou de 
tecnovigilância, a fim de prevenir a ocorrência de erros no manejo da tecnologia e 
minimizar os riscos à população é de grande valia para o cuidado de enfermagem. 
O termo tecnovigilância surge da junção entre as palavras tecnologia e 
vigilância. No caso da tecnologia refere-se aos produtos de uso médico-hospitalar, 
odontológico e laboratorial, enquanto vigilância é utilizada com sentido de 
monitoração destes produtos, na sua fase de pós-comercialização (OLIVEIRA, 
2007). O intuito principal é acompanhar as condições de segurança oferecida pelos 
produtos de uso médico-hospitalar, após estarem disponíveis para consumo, 
identificando rapidamente aqueles que oferecem riscos, e captando informações que 
subsidiem a tomada de decisão para minimizar tais riscos. 
58 
 
Os elementos elencados exprimem os reflexos que a incorporação de 
tecnologia na atenção ao cliente traz ao cuidado de enfermagem, suscitando 
conhecimentos, destrezas, habilidades técnicas, preparo e qualificação por parte da 
enfermeira. Estes aspectos objetivos devem integrar as práticas de cuidado da 
enfermagem, ajudando a conformar os estilos de cuidar das enfermeiras frente ao 
cliente. 
 
2.3 A Teoria das Representações Sociais 
 
A teoria das representações sociais (TRS), segundo Arruda (2002), põe em 
prática um conceito que trabalha com o pensamento social em sua dinâmica e 
diversidade. Um dos pressupostos básicos é o de que as pessoas usam formas 
diferentes de conhecer e de se comunicar frente às questões que o mundo nos 
coloca, as quais são móveis e norteadas por objetivos diferentes. Destaca, então, 
duas delas: a consensual e a científica. O universo consensual é marcado pelas 
conversações de cunho informal, enquanto o universo reificado se constroi no 
espaço científico, caracterizado pelo que chama de cânones da linguagem e 
hierarquia interna. 
Ambos universos, com intuitos diferentes, possuem uma funcionalidade para 
a vida humana. Nesta concepção, não há hierarquia nem isolamento entre eles, 
apenas propósitos diversos (ARRUDA, 2002). 
As representações sociais se elaboram no âmbito consensual, onde não 
existem fronteiras, todos podem falar de tudo. Sobre isso, a autora (op. cit.) lembra 
Moscovici, ao referir-se a sua afirmação de que todos poderíamos ser “sábios 
59 
 
amadores”, capazes de opinar sobre diferentes temas. Isto se diferencia dos meios 
científicos, nos quais a especialidade determina quem pode falar o quê. 
A representação social é uma forma de conhecimento das sociedades que 
produzem uma “avalanche” de novidades, gerando a necessidade de processá-las, 
a partir do olhar de quem vê. Isto faz com que não haja tempo para a cristalização 
das tradições. Implica em dizer que a representação social não é uma cópia 
conforme, uma simples fotografia da realidade, mas trata-se de uma versão desta, 
amparada em elementos individuais e sociais. Logo, o sujeito do conhecimento é 
ativo e criativo, não sendo visto como uma tabula rasa que recebe passivamente o 
que o mundo lhe oferece (ARRUDA, 2002). 
Diversos autores vêm propondo uma definição para a representação social, 
de acordo com seu foco de interesse e posição teórica. Segundo Arruda (2004, p. 
335-350), por exemplo, em estudo sobre o meio ambiente: 
as representações sociais constituem uma espécie de fotossíntese 
cognitiva: metabolizam a luz que o mundo joga sobre nós sob a 
forma de novidades que nos iluminam (ou ofuscam) transformando-a 
em energia. Esta se incorpora ao nosso pensar/perceber este 
mundo, e a devolvemos a ele como entendimento, mas também 
como juízos, definições, classificações. Como na planta esta energia 
nos colore, nos singulariza diante dos demais. Como na planta, ela 
significa intensas trocas e mecanismos complexos que, constituindo 
eles mesmo um ciclo, contribuem para o ciclo de renovação da vida 
[...] minha convicção [é] que nesta química reside uma possibilidade 
de descoberta da pedra filosofal para o trabalho de construção de 
novas sensibilidades ao meio ambiente. Ou seja, é nela que residem 
nossas chances de transformar ou, quando menos, de entender as 
dificuldades de transformação do pensamento social. 
 
Jodelet (2001, p. 22) traz uma definição bem aceita entre os pesquisadores: 
“as representações sociais são uma forma de conhecimento socialmente elaborado 
e compartilhado, com um objetivo prático e que contribui para a construção de uma 
realidade comum a um conjunto social”. 
60 
 
A construção do saber, de acordo com Arruda (2002), baseando-se na obra 
seminal de Moscovici, proponente da TRS, ampara-se em dois processos: o primeiro 
é a objetivação, a qual ocorre em três etapas: inicialmente seleciona e 
descontextualiza elementos do que vai representar, retirando o excesso de 
informação, visto que não se consegue lidar com o todo da informação transmitida. 
Este enxugamento se dá baseado nos valores, experiência e informação prévia; em 
seguida aos recortes, os fragmentos são ligados num esquema que se torna o 
núcleo figurativo da representação, apresentando um aspecto imagético, cerne da 
representação. O que era obscuro, desconhecido, algo misterioso foi destrinchado, 
recomposto e por fim, tornado objetivo, palpável e naturalizado (terceira etapa). 
O segundo processo é a ancoragem, que confere sentido ao objeto 
apresentado à nossa compreensão. Assim, recorre-se ao familiar para converter o 
novo, ou seja, “trazê-lo ao território conhecido da nossa bagagem nocional, ancorar 
aí o novo, o desconhecido, retirando-o de suas navegações às cegas pelas águas 
do não-familiar” (ARRUDA, 2002, p. 07). 
Para abarcar os elementos e relações contidos numa representação social, 
é necessário responder a três questões: quem sabe, e a partir de onde sabe? O que 
e como sabe? Sobre o que sabe, e com que efeitos? A partir de tais perguntas, é 
possível então chegar a 3 planos: 1- das condições de produção e circulação das 
representações sociais; 2- os processos e estados das representações sociais; 3- o 
estatuto epistemológico das representações sociais (JODELET, 2001). 
Os processos e estados da representação social implicam no estudo dos 
fenômenos de ordem cognitiva, orientada pelas marcas sociais e as condições da 
sua gênese. Tal estudo se dá amparado no conteúdo dessas representações, a 
partir da linguagem contida em documentos, práticas, falas, imagens etc. Ao estudar 
61 
 
o conteúdo é possível abarcar o campo das representações sociais, enquanto um 
campo estruturado de significações, saberes e informações. Envolve as expressões, 
imagens, ideias e valores presentes no discurso sobre o objeto (JODELET, 2001). 
Tem-se, assim, um tipo de abordagem das representações sociais, a 
dimensional ou processual, por abarcar as dimensões da representação: seu campo 
estruturado, a atitude que carrega e que lhe dá o componente afetivo, o elemento da 
informação que ela contém. É chamada processual, pois preocupa-se com a 
construção da representação, sua gênese, processos de elaboração e maneja os 
aspectos constituintes. 
Quanto às condições de produção da representação, possibilitam explicar o 
sentido que os grupos atribuem ao objeto representado. Parte-se assim do 
entendimento de que toda representação se origina de um “alguém”, que é um 
sujeito social, imerso em condições específicas de seu espaço e tempo, e refere-se 
a um objeto. As condições de produção expressam a cultura, no sentido amplo e 
restrito, a comunicação e linguagem (intragrupo, entre grupos e massas), e a 
inserção econômica, institucional, educacional e ideológica. Desta forma, as 
condições de produção reafirmam a marca social das representações (JODELET, 
2001). 
Já o estatuto epistemológico da representação está ligado a relação desta 
com o real, isto é, a representação se forma na tentativa de atender às 
necessidades, interesses de um determinado grupo, sendo, portanto, um 
conhecimento sociocêntrico.Isto conduz a compreender, que quando se percebe 
certa defasagem entre o objeto e sua representação, revela-se uma marca 
grupal/cultural. 
62 
 
A subtração ou acréscimo de determinados elementos ao objeto 
representado tem a ver com os aspectos normativos e valores de quem representa, 
bem como pelo envolvimento ou imaginário do sujeito. Assim, pensar o estatuto 
epistemológico é observar com mais cuidado como e por que acontecem 
determinadas modificações, o que elas indicam e como elas constituem a 
representação, conferindo-a um sentido de verdade e eficácia simbólica (JODELET, 
2001). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 (Escola de Atenas-Vaticano) 
CAPÍTULO 3: 
Referencial metodológico
64 
 
3.1 Tipo de Estudo 
Trata-se de uma pesquisa de campo, do tipo descritivo-explicativa, de 
abordagem qualitativa e cunho etnográfico, com aplicação da Teoria das 
Representações Sociais (TRS) na sua vertente processual. 
Entendendo que o intuito deste estudo é descrever as representações 
sociais das enfermeiras intensivistas sobre suas práticas de cuidado, bem como 
caracterizar os elementos que influenciam na produção de tais representações, na 
tentativa de explicar determinados estilos de cuidar das enfermeiras, optou-se pelo 
tipo de pesquisa descritivo-explicativa, uma vez que suas características alinham-se 
aos objetivos propostos nesta investigação, possibilitando o alcance dos mesmos. 
Nesta pesquisa são valorizadas as relações que as enfermeiras 
estabelecem com os clientes e demais membros da equipe, as quais são permeadas 
por emoções, subjetividades, intuição e percepção. Isto porque possibilitam 
apreender as representações sociais, já que estas abarcam elaborações dos 
indivíduos tanto a nível individual, envolvendo afeto, como no âmbito social a partir 
das conversações cotidianas. Logo, a natureza da abordagem é qualitativa, pois 
mostra-se como a mais apropriada para compreender a organização das 
representações sociais no grupo selecionado. 
No que se refere à etnografia, aplica-se, pois, no intento de retratar o 
cotidiano prático das enfermeiras intensivistas no cuidado ao cliente criticamente 
enfermo, ou seja, destacar o que dizem, o que fazem e o que pensam que deveriam 
fazer. Neste sentido, são descritos os comportamentos, crenças, valores, elementos 
materiais, permitindo conhecer as linhas de ação predominantes neste ambiente. 
Em se tratando da TRS, parte-se do princípio que, o avanço tecnológico em 
saúde, e, como consequência, a rápida transformação do conhecimento que a ele 
65 
 
acompanha, repercute-se fortemente no agir da enfermeira frente ao cliente na 
terapia intensiva, demandando destrezas e habilidades de cunho objetivo e 
subjetivo. Isto, por sua vez, faz com que as práticas de cuidado da enfermagem ao 
cliente neste cenário, o modo, a forma de cuidar, passe a fazer parte das rodas de 
conversa das enfermeiras, tornando-se assunto importante, em voga. Há, então, 
troca de informações e experiências, compartilhamento de ideias, reflexões sobre 
elas que, em conjunto com valores pessoais, crenças, afeto, conduzem a uma 
elaboração cognitiva que passa a orientar as ações, com vistas a atender seus 
interesses. Defende-se, portanto, que as práticas de cuidado da enfermagem na 
terapia intensiva se conformam como fenômeno de representação social para as 
enfermeiras, justificando a utilização da teoria na pesquisa em tela. 
Nesta direção, optou-se pela abordagem processual da TRS, investindo-se 
em desvelar seu processo de elaboração, que elementos a constituem, como se 
interrelacionam e que influência exercem na sua conformação. Além disso, 
empreende-se esforços para caracterizar o lugar social dessas representações, isto 
é, quem são os sujeitos, de onde vêm, e de onde falam, no intento de apontar as 
condições de produção e melhor entender o estatuto epistemológico. 
Para que estas metas sejam alcançadas, torna-se necessário definir critérios 
e meios coerentes para coleta e obtenção das informações, que possam contribuir 
para o estudo do objeto em discussão. 
 
3.2 Campo de Pesquisa 
O campo de estudo foi um hospital federal localizado no município do Rio de 
Janeiro. O lócus foi a Unidade de Terapia Intensiva da referida instituição. A escolha 
por este local de pesquisa justifica-se porque tal setor apresenta características 
66 
 
semelhantes ao cenário inicial em que foram delineados os construtos na pesquisa-
dissertação, fornecendo condições, em termos qualitativos, para conduzir esta 
investigação. 
O CTI fica situado no segundo andar do edifício central do hospital estudado, 
sendo composto por 10 leitos de terapia intensiva, dos quais dois deles destinam-se 
a clientes portadores de patologias que necessitam de isolamento 
(respiratório/contato). Apresenta um formato no qual o posto de enfermagem fica 
centralizado, tendo 4 leitos à sua direita, 3 à esquerda e 3 numa posição de fundo 
(isolamento), o que lhe confere uma visibilidade de aproximadamente 80% da 
unidade. 
A equipe é composta por enfermeiras, médicos, técnicos de enfermagem, 
fisioterapeutas e funcionários da limpeza, os quais permanecem 24 horas no setor. 
Durante o período diurno esta equipe é complementada por nutricionistas, 
assistentes sociais, psicólogos, fonoaudiólogos e outras especialidades médicas e 
de enfermagem. A equipe de enfermagem se reveza numa escala de trabalho de 12 
por 60 horas, com uma média de 2 a 3 enfermeiros e 5 a 6 técnicos de enfermagem 
por turno. Além disso, durante o dia a equipe é acrescida por duas enfermeiras 
responsáveis pela chefia da unidade. 
Quanto à estrutura física dos leitos, observa-se que estes são compostos 
por uma cama, um monitor multiparamétrico, uma mesa de cabeceira, uma mesa de 
alimentação, duas prateleiras, um ventilador artificial, dispositivos de gazes e 
bombas infusoras de acordo com a demanda. O posto de enfermagem possui uma 
área destinada à realização de atividades administrativas e outra voltada 
especificamente ao preparo de medicamentos. Há ainda uma sala para a reunião 
clínica da equipe e de guarda dos equipamentos. 
67 
 
A dinâmica de trabalho da equipe de enfermagem se inicia quando da 
passagem de plantão pelos profissionais do turno anterior, seguido pela divisão de 
atividades conforme escala por paciente, envolvendo um técnico de enfermagem e 
uma enfermeira. Em média cada enfermeira responde pela assistência direta de 3 
clientes, existindo um funcionário destinado exclusivamente ao preparo das 
medicações. Tal processo demarca o início de organização da assistência diária. 
 
3.3 Participantes da pesquisa 
Os participantes foram 21 enfermeiras, 17 mulheres e 04 homens, sendo 12 
que atuam no período diurno e 9 no noturno na Unidade de Terapia Intensiva da 
instituição escolhida como campo de estudo. 
Fizeram parte da pesquisa os participantes que atenderam aos seguintes 
critérios de inclusão: ser enfermeira com atuação em UTI; estar em atividade no 
setor de estudo durante o período destinado à pesquisa; atuar diretamente na 
assistência ao cliente internado neste setor; aceitar participar da pesquisa. 
 Considerando um universo composto por 24 enfermeiras, 03 participantes 
não atenderam a estes critérios previamente estabelecidos, sendo excluídos da 
pesquisa. Deste modo trabalhou-se com o quantitativo possível de enfermeiras, 
porém, a pré-análise qualitativa dos dados empíricos indicava que os mesmos eram 
suficientes no atendimento aos objetivos inicialmente propostos pela pesquisa. 
 
3.4 Produção dos dados 
Optou-se pela triangulação no processo de produção dos dados. A ideia de 
triangulação ampara-se no princípio de validação dos resultados pela combinação 
de diferentes métodos, visando verificar a exatidão e a estabilidade das 
68 
 
observações. A estratégia de triangulaçãobusca conferir aos procedimentos 
qualitativos não somente a validade, mas também o rigor, a amplitude e a 
profundidade (APOSTOLIDIS, 2006). 
Neste sentido, a triangulação é antes de tudo uma estratégia indutiva de 
pesquisa tendo por objetivo geral construir um saber pertinente e consistente sobre 
o fenômeno, a partir de diferentes operações de cruzamento sob o plano teórico, 
metodológico e de produção de dados (APOSTOLIDIS, 2006). 
Tal triangulação se alinha com o enfoque das representações sociais. Isto 
porque estudar, como sugeria Moscovici, o conhecimento que os indivíduos têm de 
um objeto e a maneira como ele é organizado e utilizado pelos indivíduos e grupos, 
implica em uma perspectiva plurimetodológica. Essa perspectiva ganha força 
principalmente no estudo do conteúdo das representações sociais, pois mostra-se 
apropriada à sua especificidade epistemológica, que se interessa por um conjunto 
de fenômenos complexos e determinados pela interdependência dinâmica de fatores 
psicológicos, relacionais e sociais (APOSTOLIDIS, 2006). 
Então, foram utilizadas duas técnicas para produção dos dados: 
3.4.1- Observação etnográfica 
Realizou-se na primeira fase da produção dos dados, denominada 
exploração de campo, conforme roteiro pré-estabelecido (Apêndice 1). O uso da 
observação nesta etapa objetivou realizar uma primeira aproximação da realidade 
estudada, no sentido de identificar determinados aspectos das práticas de cuidar 
das enfermeiras intensivistas que, posteriormente, num segundo momento, 
pudessem ser aprofundados durante a realização das entrevistas. Utilizou-se como 
referência para orientar tal observação inicial, alguns elementos preliminares 
69 
 
caracterizadores de uma possível linha de ação adotada pela enfermeira diante do 
cuidado ao cliente na terapia intensiva (TI): 
Cuidado tecnológico: enfermeiras que, frente ao cuidado do cliente na TI, 
agem amparando-se nos elementos: objetivos - baseiam-se nos dados provenientes 
do uso do maquinário, bem como da sua interpretação, articulando-os àqueles 
oriundos da avaliação semiológica dos sinais e sintomas do cliente em conjunto com 
os aspectos fisiopatológicos das doenças por ele acometidas; subjetivos - 
consideram os dados de cunho emocional, psíquico, experiencial, expressivos, 
produzidos a partir da relação intersubjetiva com o cliente. Fundamentam-se no 
saber tecnológico e da enfermagem, guiados pela observação acurada. 
Ação tecnológica: enfermeiras que, frente ao cuidado do cliente na TI, 
agem amparadas no seguinte elemento: objetivo - baseiam-se nos dados 
provenientes do manejo e interpretação do maquinário, articulados com o 
conhecimento do mecanismo das doenças. Fundamenta-se no saber tecnológico e 
no saber clínico. 
A observação orientada por tais aspectos se deu na tentativa de iniciar o 
processo de validação dos construtos delineados na pesquisa-dissertação. A 
observação etnográfica foi realizada ainda na segunda fase de produção dos dados, 
objetivando captar mais profundamente a dinâmica das práticas de cuidar destas 
enfermeiras, de tal modo a descrevê-las e analisá-las. 
A escolha pela observação etnográfica justifica-se pelo fato de que, captar o 
que pensam e como agem as enfermeiras em relação às práticas de cuidado frente 
ao cliente na terapia intensiva ganha mais fundamento a partir da imersão do 
pesquisador neste contexto cultural, objetivando conhecer os conteúdos que 
estruturam as representações, as imagens, símbolos, referências, informações. 
70 
 
Logo, a utilização desta técnica permite partilhar da vida cotidiana no 
contexto da terapia intensiva, na tentativa de apreender as normas e valores das 
enfermeiras, as percepções e significados dos seus comportamentos, as lógicas e 
os significados socioculturais de suas práticas. Portanto, possibilita uma riqueza e 
profundidade de dados a partir do próprio contexto e espontaneidade. 
A fase de observação iniciou-se no dia 19/11/2010. Tal estratégia foi 
realizada no decorrer do turno diurno de trabalho das enfermeiras, tendo uma 
duração média de 5 a 6 horas cada período de observação e abarcando tanto a 
parte da manhã quanto da tarde, na tentativa de visualizar a dinâmica das atividades 
no maior intervalo de tempo possível. A chegada no campo acontecia entre 8 e 9 
horas da manhã ou entre 13 e 14 horas da tarde. 
Nos primeiros dias desta etapa de produção de dados buscou-se apreender 
as características iniciais da unidade, obter as primeiras impressões acerca do 
cotidiano assistencial dos profissionais, e através de conversas informais com eles e 
clientes tentou-se alcançar uma aproximação e familiaridade suficiente para iniciar a 
produção efetiva dos dados. Neste contexto, percebeu-se nas semanas iniciais de 
observação que os profissionais sentiam-se incomodados com a presença do 
pesquisador, tido como um “vigia” ou avaliador dos afazeres das enfermeiras, 
sobretudo pelas constantes anotações no diário de campo de forma concomitante 
com o desenrolar dos fatos. 
Optou-se nesta fase preliminar por apenas observar o desenvolvimento das 
atividades, sem uma participação direta do pesquisador, e num segundo momento 
realizou-se a observação participante. Entre o primeiro e o segundo mês entendeu-
se que o pesquisador já era visto como “nativo”, fornecendo condições para o 
aprofundamento dos dados da observação. Assim, as observações eram compostas 
71 
 
pelos seguintes tipos de registros: sobre as situações incluindo o relato dos sujeitos 
que dela participaram de maneira ipsis literis; impressões do pesquisador; respostas 
dos sujeitos aos questionamentos do pesquisador sobre pontos previamente 
identificados; narrativas dos fatos pelo pesquisador. 
 À medida que eram percebidos determinados aspectos caracterizadores de 
estilos de cuidar da prática das enfermeiras, buscava-se detalhar a observação 
orientando-se pelos critérios previamente delineados (cuidado e ação tecnológica). 
Evitou-se ao máximo interferir na dinâmica dos acontecimentos, salvaguardando-se, 
entretanto, a segurança do cliente hospitalizado. Então, manteve-se o olhar atento 
aos comportamentos, atitudes, conteúdo das conversas entre os membros da 
equipe multiprofissional, diálogos com os clientes, expressões não verbais, registros 
escritos dentre outros, buscando descrever o que diziam, o que faziam e o que 
pensavam os enfermeiros no CTI, a partir de respostas às seguintes perguntas: 
Quem? Como? Quando? Aonde? 
As situações comumente retratadas no diário de campo envolviam 
majoritariamente cuidados para o atendimento das necessidades biológicas, cenas 
de admissão e transferência de clientes no setor, realização de procedimentos e 
técnicas por diferentes membros da equipe, reunião clínica da equipe de 
enfermagem, cuidados gerenciais realizados no posto de enfermagem, atuação em 
momentos de intercorrências clínicas. 
Ao final da primeira etapa de observação (entre o terceiro e quarto mês) foi 
possível com base na leitura e análise dos registros nos diários de campo traçar um 
conjunto de características preliminares dos participantes relacionadas ao objeto em 
estudo, de maneira a discutir tais questões identificadas na entrevista em 
profundidade. A observação foi finalizada no mês de maio de 2011, compondo um 
72 
 
quantitativo de aproximadamente 150 horas de observação registradas em diário de 
campo. 
3.4.2- Entrevista individual 
Constituiu-se na segunda etapa de produção dos dados, a qual foi realizada, 
considerando as informações oriundas desta observação prévia das enfermeiras 
pautada nos critérios destacados, com a aplicação de dois instrumentos: o roteiro de 
produção de dados sociodemográficos (Apêndice 2), composto de questões 
objetivas e discursivas, com o propósito de descrever o perfil dos sujeitos 
(caracterização do grupo de pertença); e o roteiro de entrevista semiestruturada 
(Apêndice 3), composto dequestões abertas para a exploração do objeto de estudo, 
considerando a etapa de observação.Tais dados oriundos da entrevista foram 
registrados em fita magnética. 
O uso da entrevista possibilita a observação dos sujeitos em seu território, 
interagindo com estes através de sua própria linguagem e em seus termos. É então 
um diálogo intersubjetivo entre o pesquisador e a enfermeira. Compreende-se que 
as representações sociais são resultantes de um contínuo burburinho e um diálogo 
permanente entre indivíduos, um diálogo que é tanto externo quanto interno, durante 
o qual as representações sociais ecoam ou são complementadas (SPINK, 1995). 
Logo, a entrevista possibilita que o pesquisador acesse este diálogo. 
 
3.5 Análise dos dados 
Aplicou-se a triangulação na análise dos dados, isto é, àqueles provenientes 
das entrevistas foram submetidos a um software para processamento dos dados e a 
análise de conteúdo temático; os oriundos da observação sofreram análise 
etnográfica. 
73 
 
 
3.5.1- Análise etnográfica 
Os dados produzidos pela observação participante passaram por análise 
etnográfica, visando descrever, traduzir, explicar e interpretar a cultura e as relações 
sociais de maneira densa, delineando os sentidos da realidade sociocultural para os 
agentes implicados nela. Tais resultados estão apresentados em conjunto com os 
que foram gerados pelo software Alceste, proporcionando um contraste das 
questões que emergiram no conteúdo das narrativas com o cotidiano prático da 
assistência das enfermeiras. 
 
3.5.2- Uso do software Alceste (Análise Lexical Contextual de um conjunto 
de segmentos de texto) 
Fundamentos teóricos 
O Alceste é um método informatizado para a análise de textos criado por 
Max Reinert em 1986, no marco da investigação sobre o desenvolvimento de 
métodos de análise de dados linguísticos iniciado por Benzecri em 1981 na França, 
e que vem ao encontro das necessidades de cientistas sociais, geralmente 
confrontados com a análise de materiais linguísticos oriundos de perguntas abertas. 
A tese principal de Reinert é a de que todo discurso expressa um sistema de 
mundos lexicais, que organiza uma racionalidade e dá coerência a tudo que o 
locutor enuncia. O termo mundo lexical é uma noção primária que remete a 
conceituação das palavras que constituem uma frase ou um fragmento do discurso 
(ALBA, 2004) 
Reinert (1997) se propõe a observar a noção de mundo lexical a partir da 
análise estatística do uso do vocabulário em um ou mais textos. Ele afirma que o 
74 
 
objetivo do método é pôr em evidência através de um conjunto de textos os mundos 
lexicais usuais evocados pelos enunciadores. É a redundância da sucessão de 
palavras que permite localizar os mundos lexicais frequentes, ou comuns no sentido 
de frequentemente habitado pelo enunciador (ALBA, 2004). 
Os mundos lexicais podem ser então estudados através da análise da 
organização e distribuição das palavras principais coocorrentes dos enunciados 
simples de um texto. A metodologia focaliza a distribuição estatística de sucessões 
de palavras sem tomar em conta a sintaxe e semântica do discurso (análise 
temática), mas unicamente a coocorrência ou presença simultânea de várias 
palavras funcionais (substantivos, adjetivos, verbos) em um mesmo enunciado, 
eliminando palavras suplementares (conjunções, artigos, preposição). 
Esta metodologia parte do pressuposto de que a análise da sucessão de 
palavras principais em um conjunto de enunciados permitirá diferenciar globalmente 
os lugares de enunciação ou mundo lexicais mais significativos do discurso. Alguns 
mundos lexicais são mais enunciados do que outros e para observá-los é necessário 
analisar a frequência de aparição do conjunto de palavras principais associadas 
entre si que compõe o texto. A ideia é que ao utilizar um vocabulário determinado o 
locutor evoca um lugar comum de enunciação, o qual se define por oposição a 
outros lugares, de sorte que um mundo lexical não se define em si mesmo, mas em 
relação aos outros (ALBA, 2004). 
Funcionamento do programa 
Pelas dificuldades para definir com exatidão o que é um enunciado simples, 
o programa utiliza uma heurística estatística que delimita nos enunciados somente 
unidades de contexto elementar (uce), que são segmentos de texto compostos por 
75 
 
sucessões de palavras principais, cujo tamanho é definido pelo utilizador do 
programa (8 a 20 palavras). 
Do mesmo modo que o enunciado é substituído por uce, as palavras do 
texto são substituídas por formas simples: as palavras principais e as 
suplementares, estas últimas que servem a construção sintática da frase (artigos, 
conjunções, preposições etc) serão eliminadas da análise principal. Tal análise 
realizar-se-á a partir de palavras principais (substantivos, adjetivos, advérbios) que 
serão submetidos a uma redução às suas raízes – morfemas lexicais, enriquecendo 
as relações estatísticas implicadas na coocorrência das formas simples e eliminando 
a variabilidade de formas de uma palavra (ALBA, 2004). 
O conjunto de cálculos que realiza o programa se desenvolve em 3 etapas: 
1-Durante a primeira etapa o programa divide o texto em uce, realiza uma 
diferenciação das palavras principais e suplementares para proceder a redução às 
raízes das primeiras, a qual permite calcular a tabela binária com as uce em linha e 
os morfemas lexicais em coluna. Este é o procedimento de base para os demais. 
2-Num segundo momento efetua a classificação das unidades de contexto 
em função da similaridade ou diferenciação do seu vocabulário. Um duplo 
procedimento de classificação permite comprovar a estabilidade das classes: uma 
primeira classificação com a unidade de contexto de determinado tamanho é feita e 
uma segunda com tamanho superior. A classe é estável se esta variação no 
tamanho do vocabulário da uce não modifica a estrutura ou distribuição das classes, 
nem seu conteúdo. 
3-A terceira etapa descreve as classes obtidas com os procedimentos 
estatísticos empregados: seleção do vocabulário específico de cada classe, seleção 
das unidades de contexto representativas de cada classe, cálculo dos segmentos 
76 
 
repetidos por classe, de formas reduzidas e suas terminações, análise fatorial de 
correspondência, classificação hierárquica ascendente de cada classe. 
Organização e tratamento dos dados do software Alceste 
Após o preparo inicial do arquivo contendo as entrevistas, o mesmo foi 
submetido ao software Alceste na versão 2010, gerando um relatório no qual obteve-
se 58% de aproveitamento. 
Optou-se no decorrer do estudo por explorar a análise através da 
Classificação Hierárquica Descendente (CHD) e da Classificação Hierárquica 
Ascendente (CHA). A CHD tem por objetivo a repartição dos enunciados em classes 
marcadas pelo contraste do vocabulário. Deste modo, a partir do cruzamento das 
formas reduzidas e uce, obtém-se classes de uce que tem vocabulário semelhante 
entre si e diferente das uce de outras classes. Para tanto utiliza-se um conjunto de 
procedimentos estatísticos. 
A CHA é um recurso fornecido pelo programa Alceste que permite o estudo 
das relações das formas lexicais no interior de cada classe. Segundo Reinert (1998, 
p. 33) os “laços de vizinhança ou sinônimos” das palavras dentro da classe são 
indicativos do que chama “núcleos”, que auxiliam a entender a dinâmica de 
formação da classe. Quanto mais próximo do eixo estiver o traço de ligação entre as 
palavras, maior é o número de vezes que aparecem juntas. 
Nesta medida, com base na CHD é possível apreender as relações entre as 
classes, de oposição e similaridade, a partir da distribuição do seu vocabulário, 
enquanto no caso da CHA, capta-se a dinâmica das coocorrências no interior de 
cada classe. Então, ambas concorrem para identificar os mundos lexicais implicados 
na organização das representações sociais do objeto em tela, justificando sua 
utilização na análise.77 
 
 Tomando como referência as 6 classes produzidas, a análise organizou-se 
em dois blocos, sendo um contendo as classes 1, 2 e 4 e outro as 3, 5 e 6. Cada 
classe é composta pela análise da temática referencial e dos seus respectivos 
subtemas, ilustrados pelos trechos típicos de entrevista. 
Estes procedimentos de análise permitiram formalizar os dois blocos da 
seguinte maneira: o primeiro intitula-se “O sentido da tecnologia na terapia 
intensiva e a organização dos estilos de cuidar”, do qual fazem parte os 
elementos abaixo, considerando o tema geral da classe: 
Classe 1: Funcionalidades da tecnologia no CTI; 
Classe 2: Elementos organizativos dos estilos de cuidar; 
Classe 4: Fatores estruturais externos à prática de cuidado das enfermeiras 
O segundo foi denominado: “A condição do cliente e suas repercussões 
na prática de cuidar das enfermeiras” envolvendo os aspectos: 
Classe 3: Cotidiano assistencial da enfermeira no CTI; 
Classe 5: Prática de cuidar com a tecnologia; 
Classe 6: As características do paciente como indicador do trabalho no CTI. 
Os resultados provenientes da análise textual realizada pelo emprego do 
Alceste foram interpretados à luz da teoria das representações sociais, bem como 
do levantamento bibliográfico pertinente às temáticas evidenciadas. Após esta 
etapa, a partir das hipóteses empíricas que surgiram neste processo, realizou-se 
uma testagem experimental das variáveis sexo, turno de trabalho e tempo de 
formação profissional, na tentativa de verificar se no material oriundo das entrevistas 
existiam diferenças na produção do discurso em função destas variáveis. Assim, o 
arquivo contendo as entrevistas foi novamente submetido ao Alceste para uma 
análise cruzada (tri-coisée). O conjunto destes dados está apresentado de maneira 
78 
 
comparativa após a discussão do segundo bloco de classes e analisados sob a ótica 
do objeto da pesquisa. 
 
3.5.3 Análise de conteúdo 
A técnica de análise de conteúdo foi aplicada aos dados provenientes das 
entrevistas após a análise textual efetuada a partir do programa Alceste, na tentativa 
de complementá-la. A justificativa para esta escolha pauta-se no argumento de que, 
conforme o resultado obtido pela rodagem do corpus das entrevistas no programa 
Alceste, e tendo por base os fundamentos teóricos que lhe dão sustentação, 58% da 
narrativa dos participantes sobre suas práticas se constroem em torno das 
diferenças no discurso acerca deste objeto. Estas diferenças foram identificadas 
pelo Alceste e polarizadas na organização das classes lexicais. 
Como consequência, isto significa dizer que 42% desta narrativa é composta 
por um conteúdo comum veiculado pelos participantes sobre o objeto representado. 
Nesta direção, através da análise de conteúdo, investe-se em desvelar tais sentidos 
comuns que integram o discurso sobre a prática de cuidar. 
A análise de conteúdo encontra respaldo em diferentes autores, para os 
quais este tipo de análise consiste na aplicação de técnicas pautadas pela 
objetividade, sistematização e utilização de indicadores quantitativos com o intuito 
de fazer sobressair o conteúdo presente nas mensagens, de tal modo a possibilitar 
sua interpretação ou inferência de conhecimentos. Esta técnica situa os significados 
manifestos em estruturas sociológicas, a exemplo das variáveis psicossociais e 
contexto (OLIVEIRA, 2008). 
A unidade utilizada para interpretação das respostas foi o tema, isto é, uma 
asserção sobre determinado assunto, envolvendo seja uma simples sentença 
79 
 
(sujeito e predicado) ou um conjunto delas ou um parágrafo. Na análise de conteúdo 
temático capta-se o aspecto pessoal e social que encontra-se investido nas 
respostas do sujeito acerca do significado de uma palavra ou um conceito, 
abarcando aspectos racionais, ideológicos, afetivos e emocionais (FRANCO, 2005). 
No caso desta investigação, alinha-se com o objetivo de analisar as 
representações sociais em torno do objeto de pesquisa. Em atendimento as etapas 
que integram esta técnica realizou-se os seguintes procedimentos de análise: 
1- Pré-análise 
Constituiu-se numa fase de organização, na qual ocorreu uma aproximação 
inicial com o material a ser analisado, no sentido de preparar um esquema prévio 
para o desenvolvimento das operações. Envolveu as seguintes atividades: 
-Leitura flutuante: estabelecimento de contato com o material, observando as 
mensagens/informações nele contido, levantando impressões, emoções, 
expectativas, representações; 
-Levantamento dos indicadores: identificação dos temas mais importantes, a 
partir da frequência em que eram sendo mencionados. Constituiu-se numa análise 
quantitativa, rastreando-se os depoimentos na busca da ocorrência e coocorrência 
dos temas, no intuito de se dar densidade aos resultados. Utilizou para tanto a 
frequência relativa e absoluta, e a proporção de determinado tema em relação aos 
outros presentes. Considerou-se ainda aspectos particulares de um sujeito ou típicos 
de um grupo que fossem importantes para entender o objeto, independente da 
frequência de ocorrência. 
2- Categorização 
Configurou-se numa operação de classificação dos elementos que faziam 
parte do conjunto, inicialmente por diferenciação e posteriormente houve um 
80 
 
reagrupamento por analogias, de acordo com o critério semântico. Deste modo, o 
tratamento analítico do material foi feito a partir do mapeamento dos conteúdos, à 
luz do que os participantes veicularam. Inicialmente foi feita a descrição do sentido 
atribuído pelos respondentes de uma parte das entrevistas, destacando as nuances 
observadas. Procedeu-se a classificação das divergências e convergências, criando-
se um código para a leitura das demais respostas. Assim, as categorias e 
subcategorias foram sendo definidas de modo a traduzir o conteúdo expresso e 
latente dos discursos dos participantes. 
Deste modo, a confluência das unidades temáticas que integram as 
categorias de análise origina dois eixos temáticos, assim constituídos: 
1º eixo: Elementos da prática de cuidar das enfermeiras na terapia intensiva 
*A enfermeira e o lidar com as tecnologias nas práticas de cuidar na terapia 
intensiva 
*As formas de assistir ao cliente na terapia intensiva 
2º eixo: A complexidade do trabalho na terapia intensiva 
*Os sentidos atribuídos pelas enfermeiras ao trabalho na terapia intensiva 
*Requisitos profissionais para o trabalho no CTI 
Os dados a eles ligados estão dispostos sob a forma de descrições cursivas, 
acompanhadas pelos fragmentos de entrevista mais significativos. A discussão 
sustentada pela TRS e estudos que servem de referência ao debate se estrutura na 
interface com os resultados originados pelo Alceste e observação participante 
 
3.6 Aspectos Éticos 
Em atendimento a resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde/CNS, 
que dispõe sobre as pesquisas envolvendo seres humanos, o projeto foi submetido 
81 
 
ao Comitê de Ética em Pesquisa no hospital lócus do estudo, sendo aprovado sob 
número de protocolo 35/10. 
Além disso, foi solicitado o aceite de participação dos sujeitos, mediante a 
assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Apêndice 4). A 
confidencialidade dos participantes foi garantida através da identificação numérica 
deles, a partir da ordem sequencial em que se organizou a observação participante. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 (Coliseu-Roma) 
 
CAPÍTULO 4: 
 Apresentação dos resultados 
83 
 
 4.1 Dados sociodemográficos 
Em atendimento às condições de produção da representação social, através 
da qual é possível caracterizar os sujeitos quanto à pertença grupal, apresenta-se 
neste momento os dados relativos ao perfil dos entrevistados, composto por 
informações de cunho pessoal e profissional. Ao entender que no processode 
elaboração das representações sociais sobre determinado objeto o lugar social que 
os sujeitos ocupam ou as funções que assumem exercem influências nos conteúdos 
representacionais e sua organização, valorizam-se as variáveis psicossociais e 
demográficas que encontram-se implicadas no grupo estudado. 
Todavia, tais variáveis importam à discussão quando articuladas à narrativa 
em torno do objeto, permitindo compreender as representações sociais a partir do 
contexto que as engendram. É então sob esta perspectiva que optou-se por uma 
apresentação preliminar destes dados sociodemográficos, aprofundando-se o 
debate relacionado a eles na interface com as produções feitas pelos sujeitos sobre 
o fenômeno em tela. 
 A tabela 1 em seguida ilustra a frequência absoluta e porcentual das 
características que constituem os dados pessoais e profissionais. Numa primeira 
análise verifica-se um equilíbrio quantitativo na população estudada quanto a 
aspectos como: horário de trabalho (turno diurno/turno noturno), idade (mais 
jovens/menos jovens), religião (católicos e não católicos) e presença ou não do título 
de especialista. Observa-se ainda no grupo um predomínio das mulheres, mais 
jovens na profissão em relação ao tempo de formação, que escolheram trabalhar no 
setor e tendo no momento majoritariamente dois empregos. 
 
 
84 
 
Tabela 1: Perfil sociodemográfico dos sujeitos investigados 
Variáveis Psicossociais n 
 
% 
 
DADOS PESSOAIS 
Sexo 
Feminino 
Masculino 
 
 
 
 
17 
4 
 
 
 
 
80,95 
19,05 
 
Idade 
Até 35 anos 
Mais de 36 anos 
 
 
11 
10 
 
 
52,39 
47,61 
 
Religião 
Católicos 
Não católicos 
 
DADOS PROFISSIONAIS 
 
12 
9 
 
57,14 
42,86 
 
Tempo de formação 
Até 10 anos 
Mais de 10 anos 
 
Número de empregos 
1 emprego 
2 empregos 
3empregos 
 
Turno de trabalho 
Diurno 
Noturno 
 
Especialização 
Especialistas 
Não especialistas 
 
Escolha do CTI como local de trabalho 
Escolheu 
Não escolheu 
 
13 
8 
 
 
3 
12 
6 
 
12 
9 
 
12 
9 
 
 
14 
7 
 
 
 
61,90 
38,10 
 
 
14,29 
57,14 
28,57 
 
57,14 
42,86 
 
 
57,14 
42,86 
 
 
66,67 
33,33 
 
O quadro 1, por sua vez, retrata as variáveis psicossociais e demográficas 
ligadas a cada participante da pesquisa. 
Em outro estudo que também aplicou-se a teoria das representações sociais 
(SILVA, FERREIRA, 2011), já demonstrou-se, por exemplo, como características de 
formação e qualificação das enfermeiras atuantes em unidades de cuidados 
intensivos, como essas em evidência nesta pesquisa-tese, interferem na 
interpretação dos fenômenos sociais presentes neste cenário, repercutindo-se na 
assistência aos clientes internados. Neste sentido, é que se faz importante conhecer 
85 
 
os conteúdos que integram o discurso das enfermeiras sobre a prática de cuidar no 
CTI na tentativa de desvelar suas representações sociais, tendo como referência 
para balizar esta análise tais variáveis psicossociais e demográficas. 
Enf. 1 Feminino; até 35 anos; mais de 11 anos de formado; 2 empregos, turno diurno; não escolheu 
trabalhar no setor; não especialista; não católico 
Enf. 2 Feminino; mais de 36 anos; mais de 11 anos de formado; 3 empregos; turno diurno; escolheu 
trabalhar no setor; especialista; não católico 
Enf. 3 Masculino; mais de 36 anos; até 10 anos de formado; 3 empregos; turno diurno; não escolheu 
trabalhar no setor; especialista; não católico 
Enf. 4 Feminino; mais de 36 anos; mais de 11 anos de formado; 3 empregos; turno diurno; escolheu 
trabalhar no setor; especialista; católico 
Enf. 5 Feminino; mais de 36 anos; mais de 11 anos de formado; 2 empregos; turno noturno; escolheu 
trabalhar no setor; especialista; católico 
Enf. 6 Feminino; até 35 anos; até 10 anos de formado; 2 empregos; turno diurno; escolheu trabalhar no 
setor; não especialista; não católico 
Enf. 7 Masculino; até 35 anos; até 10 anos de formado; 3 empregos; turno noturno; escolheu trabalhar 
no setor; não especialista; católico 
Enf. 8 Feminino; até 35 anos; até 10 anos de formado; 3 empregos; turno diurno; escolheu trabalhar no 
setor; não especialista; católico 
Enf. 9 Feminino; até 35 anos; até 10 anos de formado; 1 emprego; turno diurno; escolheu trabalhar no 
setor; especialista; católico 
Enf. 10 Feminino; mais de 36 anos; até 10 anos de formado; 2 empregos; turno diurno; escolheu 
trabalhar no setor; especialista; católico 
Enf. 11 Feminino; até 35 anos; até 10 anos de formado; 2 empregos; turno diurno; escolheu trabalhar no 
setor; especialista; não católico 
Enf. 12 Feminino; mais de 36 anos; até 10 anos de formado; 2 empregos; turno noturno; não escolheu 
trabalhar no setor; não especialista; não católico 
Enf. 13 Feminino; mais de 36 anos; mais de 11 anos de formado; 2 empregos; turno diurno; não 
escolheu trabalhar no setor; não especialista; católico 
Enf. 14 Feminino; mais de 36 anos; mais de 11 anos de formado; 1 emprego; turno diurno; escolheu 
trabalhar no setor, especialista; católica 
Enf. 15 Masculino; até 35 anos, até 10 anos de formado; 3 empregos; turno noturno; escolheu trabalhar 
no setor; especialista; não católico 
Enf. 16 Feminino; até 35 anos; até 10 anos de formado; 1 emprego; turno diurno; escolheu trabalhar no 
setor; especialista; católico 
Enf. 17 Feminino; até 35 anos; até 10 anos de formado; 2 empregos; turno noturno; não escolheu 
trabalhar no setor; não especialista; não católico 
Enf. 18 Feminino; até 35 anos; até 10 anos de formado; 2 empregos; turno noturno; não escolheu 
trabalhar no setor; especialista; católico 
Enf. 19 Feminino; mais de 36 anos; mais de 11 anos de formado; 2 empregos; turno noturno; não 
escolheu trabalhar no setor; não especialista; católico 
Enf. 20 Feminino; mais de 36 anos; mais de 11 anos de formado; 2 empregos; turno noturno; 
não escolheu trabalhar no setor; não especialista; não católico 
Enf. 21 Masculino; até 35 anos; até 10 anos de formado; 2 empregos; turno noturno; escolheu trabalhar 
no setor; não especialista; não católico 
Quadro 1: Classificação dos participantes segundo variáveis psicossociais e demográficas 
Destaca-se, por fim, em face do número de participantes e de suas 
características, que nesta pesquisa trabalha-se com um quantitativo limitado de 
investigados, o que conduz a evitar generalizações e relativizar determinadas 
86 
 
afirmações, sobretudo no que tange a análises mais específicas, como é o caso da 
variável gênero, considerando a constituição do grupo. 
 
4.2 Análise textual através do software Alceste (parte I) 
O programa Alceste obteve uma classificação do enunciado das enfermeiras 
em função da semelhança e da não semelhança estatística do vocabulário 
(palavras) que o compõe, a fim de colocar em evidência os mundos lexicais. 
Conforme visto, a hipótese geral do programa consiste em considerar as leis de 
distribuição do vocabulário no enunciado de um corpus, como um traço linguístico de 
um trabalho cognitivo de reconstrução de um objeto por um indivíduo. 
Assim, o Alceste procedeu uma divisão do texto em enunciados ou unidades 
de contexto elementar (uce) e explorou a distribuição do vocabulário nestas uce, 
para extrair do corpus as classes lexicais tendo um vocabulário próprio. O perfil de 
cada classe correspondeu ao conjunto de palavras mais significativamente 
presentes nestas. O grau de associação de uma palavra ou uma variável a uma 
classe foi calculado por um Chi² (qui-quadrado) de associação. 
Esta análise permitiu colocar em evidência os diferentes conteúdos do 
discurso das enfermeiras sobre sua prática de cuidar na terapia intensiva. Ela 
possibilitou ainda isolar as temáticas em torno das quais se articula tal discurso, 
identificar o papel de algumas variáveis na sua organização, e as ligações entre as 
classes. 
Diante desta explicação, torna-se pertinente descrever o tratamento dado 
pelo programa ao corpus de 21 entrevistas submetido à análise. No quese refere ao 
cálculo do dicionário, obteve-se 7992 formas distintas ou palavras diferentes, com 
um número de ocorrências de 181408, sendo a média por forma distinta igual a 23. 
87 
 
Além disso, 3623 palavras tiveram frequência igual a 1. Após a redução das 
palavras às suas raízes alcançou-se 1384 palavras analisáveis (que ocorreram 
119016 vezes), com frequência mínima igual ou maior que 4, bem como 38 palavras 
instrumento e 38 palavras com asterisco (variáveis). 
O corpus foi dividido em 3855 uce, das quais 2244 apareceram numa 
mesma classe em duas classificações hierárquicas descendentes, equivalendo a 
58,21% do total e denotando a estabilidade das classes. Desta maneira, de acordo 
com a figura 1, se observa que o corpus sofreu uma primeira divisão em duas 
partes, de um lado aquela que vai originar as classes 3, 6 e 5 e do outro as 1, 2 e 4. 
No prosseguimento do processo de análise, a primeira parte origina a classe 5 e 
sofre uma nova partição para gerar as classes 3 e 6. Logo após, a segunda parte 
inicialmente deriva a classe 1, e novamente se divide para produzir as classes 2 e 4, 
últimas a serem formadas. 
A figura 1 apresenta ainda o perfil das classes através do dendograma da 
classificação hierárquica descendente. Os critérios utilizados para a seleção das 
palavras foram: a) o valor do Chi² de associação da forma lexical à classe (calculado 
a partir do cruzamento da presença/ausência da forma em uma uce, e a associação 
dessa uce à classe lexical); b) porcentagem de cada palavra na classe, calculado 
levando-se em conta a sua frequência na classe em relação ao corpus total; c) força 
de associação (coocorrências) das palavras características de cada classe através 
da classificação hierárquica ascendente; d) vocabulário específico de cada classe. 
As figuras 2 e 3 que se seguem mostram também a importância de cada 
classe na constituição do corpus, bem como o número de palavras que as integram. 
Reitera-se, segundo Kalampalikis (2003), que os mundos lexicais têm um 
sentido e se emprestam à interpretação apenas em um contexto de oposição, num 
88 
 
sistema de relações de antítese. Assim, sua autonomia é proporcional às suas 
ligações, e de maneira complementar às relações de força que a tornam diferentes. 
Baseando-se nisso, o dendograma da classificação hierárquica descendente 
oferecido pelo Alceste conduz dizer numa primeira análise, que de um lado o 
discurso das enfermeiras sobre sua prática de cuidar se constroi amparado pelo seu 
cotidiano do fazer e de assistir o cliente em face das tecnologias neste cenário, 
agregando uma característica mais feminina, e marcado pelo fator da experiência 
profissional, além de ter sido mais veiculado pelas enfermeiras do turno diurno e de 
religião católica. Do outro lado, através das classes 1, 2 e 4 possui um tom mais 
conceitual, crítico-avaliativo articulado ao uso da tecnologia, com um olhar mais 
masculino e jovem dos enfermeiros que trabalham no período noturno e não 
católicos na organização do seu conteúdo. 
A partir desta aproximação inicial, com o intuito de melhor sistematizar a 
apresentação dos resultados será feita a descrição do primeiro bloco de classes 
gerado pelo Alceste, e, após, do segundo. Cada bloco de classes foi intitulado em 
função do sentido a que remetia às temáticas referenciais contidas nas classes. Em 
ambos os casos, optou-se por uma estrutura, na qual a descrição de cada classe é 
precedida por um quadro contendo as palavras características e seus respectivos 
valores de Chi² e porcentagem na classe, variáveis associadas e tema referencial. 
Em seguida é feita a análise descritiva de tais temáticas referenciais e dos seus sub-
temas, ilustrando-os através dos trechos das entrevistas típicas à cada classe (uce). 
Na tentativa de rastrear pensamento e ação no processo de elaboração das 
representações sociais acerca do objeto em tela, a análise será acompanhada pelos 
dados da observação etnográfica, de maneira a fornecer uma fonte comparativa de 
informação. 
89 
 
 
Classe 1 
233 uce 
Classe 2 
224 uce 
Classe 4 
 427 uce 
Classe 3 
406 uce 
Classe 6 
694 uce 
Classe 5 
260 uce 
 Chi² Chi² Chi² Chi² Chi² Chi² 
Tecnologia 
Creio 
Cuidado 
Tecnológico 
Hoje 
Administrativ 
Elemento 
Questões 
Ano 
Favor 
Direto 
Distante 
Utilização 
Instrumento 
Exercício 
Maquinário 
Aliar 
Facilitador 
Execução 
Avanço 
275,7 
172,3 
116,8 
102,9 
100,3 
96,8 
95,3 
83,7 
77,3 
75,0 
75,0 
66,7 
60,6 
60,6 
59,8 
54,1 
51,9 
51,9 
51,3 
51,3 
Cada 
Cuida 
Buscar 
Conhecimento 
Acho 
Busca 
Cuidar 
Adaptar 
Religião 
Perfil 
Manipular 
Maneira 
Modo 
Personalidade 
Envolve 
Querer 
Acordo 
Individualid. 
Emocional 
Dominar 
136,2 
82,1 
78,9 
72,4 
62,7 
51,0 
50,4 
44,9 
41,9 
39,7 
37,7 
36,3 
36,1 
34,8 
33,4 
32,5 
32,3 
31,3 
31,3 
29,5 
Enfermeiro 
Profissionais 
São 
Estrutura 
Acho 
Terap. intensiva 
Assistência 
Grande 
Serviço 
Trabalham 
Hospital 
Interação 
Setor 
Lidar 
Enfermagem 
Médicos 
Diferente 
Geral 
Maioria 
Relacionamento 
157,7 
95,9 
95,6 
70,2 
70,0 
69,1 
64,0 
63,5 
51,6 
48,9 
41,5 
40,3 
40,2 
39,7 
38,6 
36,6 
36,5 
35,7 
33,2 
32,4 
Medicação 
Fazer 
Horário 
Banho 
Curativo 
Hora 
Prescrição 
Farmácia 
Médico 
Dou 
Livro 
Sonda 
Técnico 
Chata 
Dei 
Exame 
Dez 
Junto 
Cima 
Manhã 
201,7 
111,0 
96,9 
89,8 
88,1 
76,9 
74,1 
43,4 
43,0 
39,3 
39,0 
39,0 
36,2 
35,0 
31,7 
31,1 
30,9 
30,6 
29,1 
28,8 
Falar 
Paciente 
Ele 
Aqui 
Acordado 
Sei 
Foi 
Sair 
Estava 
Sedado 
Deu 
Lúcido 
Intubado 
Bem 
Teve 
Fulano 
Agradecer 
Fala 
Ficou 
Gratificant. 
76,3 
67,7 
55,8 
54,2 
53,0 
51,1 
51,0 
49,7 
47,6 
41,2 
40,3 
39,6 
35,4 
35,4 
32,8 
31,9 
31,4 
31,2 
29,7 
27,5 
Monitor 
Pressão 
Alarme 
Dado 
Saturação 
Correlacionar 
Eletrodo 
Mostrando 
Verificar 
Respiratório 
Respirador 
Preciso 
PAM* 
Oxímetro 
Parâmetro 
Apresentando 
Curva 
Vitais 
Sinais 
Monitorização 
414,4 
169,8 
129,4 
112,2 
107,5 
100 
98,5 
92,0 
92,0 
90,9 
87,6 
85,3 
83,7 
83,1 
79,4 
76,9 
76,6 
75,5 
63,6 
54,0 
Variáveis: 
 Sexo masculino, 
menos tempo de 
formado, mais 
jovens, escolheu o 
setor, 3 empregos, 
turno noite, 
especialista, não 
católico 
Variáveis: 
Sexo feminino, mais 
tempo de formado, 
menos jovens, não 
escolheu o setor, 
turno noite, não 
especialista, não 
católico 
Variáveis: 
Sexo masculino, 
menos tempo de 
formado, mais jovem, 
escolheu o setor, turno 
noite, não especialista, 
não católico 
Variáveis: 
Sexo feminino, 
mais tempo de 
formado, menos 
jovens, turno 
diurno, católico, 
não escolheu o 
setor 
Variáveis 
Sexo feminino, 
mais tempo de 
formado, menos 
jovens, turno 
diurno, católica 
escolheu o setor 
 Variáveis 
Sexo feminino, 
menos jovens, 2 
empregos, não 
especialista, turno 
diurno, não escolheu 
o setor 
 
 
Funcionalidades 
da tecnologia no 
CTI 
 
 
Elementos 
organizativos dos 
estilos de cuidar 
9,98% 
 
 
Fatores estruturais 
externos ao cuidado 
19,03% 
 
 
Cotidiano 
assistencial 
18,09% 
As 
características 
do paciente 
como indicador 
do trabalho no 
CTI 
 30,93% 
 
 
Prática de cuidar 
com a tecnologia 
 11,59% 
 10,38% 
 
 
 
 O sentido da tecnologia na TI A condição do cliente e suas 
e a organização dos estilos de cuidar repercussões na prática de cuidar 
 
Figura 1: Dendograma da classificação hierárquica descendente efetuada pelo programa Alceste 
*PAM: pressão arterial média 
 
 
 
 
 
 
90 
 
 
 Figura 2: Repartição das uce nas classes Alceste Figura 3: Número de palavras analisadas por 
 classe Alceste91 
 
4.2.1 O sentido da tecnologia na terapia intensiva e a organização dos 
estilos de cuidar 
Este primeiro bloco que se estrutura ao redor das classes 1, 2 e 4 tem o 
objetivo de trazer a discussão quais funções são atribuídas à tecnologia pelas 
enfermeiras no cuidado ao cliente no ambiente da terapia intensiva, e a partir destes 
usos como organizam sua prática considerando determinados elementos, de 
maneira a sistematizar estilos de cuidar. O quadro sinóptico em seguida fornece um 
panorama geral deste conjunto de classes. 
N° da classe de discurso CLASSE 1 CLASSE 2 CLASSE 4 
 
Tema geral da classe 
Funcionalidades da 
tecnologia no CTI 
Elementos organizativos 
dos estilos de cuidar 
Fatores estruturais externos 
à prática de cuidar das 
enfermeiras 
Porcentagem em relação 
ao discurso total 
10,38% do discurso 9,98% do discurso 18,9% do discurso 
 
 
Variáveis Associadas 
Sexo masculino, menos 
tempo de formado, mais 
jovens, escolheu o setor, 
3 empregos, turno noite, 
especialista, não católico 
Sexo feminino, mais 
tempo de formado, 
menos jovens, não 
escolheu o setor, turno 
noite, não especialista, 
não católico 
Sexo masculino, menos 
tempo de formado, mais 
jovem, escolheu o setor, 
turno noite, não especialista, 
não católico 
 
 
 
 Sub-temas 
Face funcional 
organizativa 
Diferenças dos 
estilos 
Equipe multiprofissional 
Administrativa, distante, 
facilitador, instrumento, 
ano, hoje, utilização 
Cada, cuida, cuidar 
maneira, modo 
individualidade, 
personalidade, 
 
 
Enfermeiro, profissionais, 
interação, médicos, lidar, 
enfermagem, 
relacionamento 
 
Face funcional 
cuidativa 
Elementos pessoais-
profissionais 
Condições de trabalho 
Tecnologia, cuidado, 
tecnológico, avanço, aliar, 
execução, exercício, 
favor, questão 
Buscar, conhecimento, 
busca, perfil, adaptar, 
querer, emocional, 
dominar 
Estrutura, hospital, terapia 
intensiva, assistência, 
serviço, cansaço, 
sobrecarga 
Quadro 2: Classes do discurso associadas ao bloco 1 
 
92 
 
4.2.1.1 Classe 1 
Classe 1 
233 uce 
 Chi² Porc. 
Tecnologia 
Creio 
Cuidado 
Tecnológico 
Hoje 
Administrativo 
Elemento 
Questões 
Ano 
Favor 
Direto 
Distante 
Utilização 
Instrumento 
Exercício 
Maquinário 
Aliar 
Facilitador 
Execução 
Avanço 
275,7 
172,3 
116,8 
102,9 
100,3 
96,8 
95,3 
83,7 
77,3 
75,0 
75,0 
66,7 
60,6 
60,6 
59,8 
54,1 
51,9 
51,9 
51,3 
51,3 
45,7 
88,4 
29,6 
87,5 
40,4 
78,9 
82,3 
59,3 
44,2 
65,2 
65,2 
70,5 
81,8 
100 
88,8 
75,0 
100 
100 
87,5 
87,5 
Variáveis: 
Sexo masculino, menos tempo de 
formado, mais jovens, escolheu o setor, 
3 empregos, turno noite, especialista, 
não católico 
Funcionalidades da tecnologia 
10,38% 
 
 Quadro 3: Classe 1 Alceste 
A classe 1 obteve uma representatividade de 10,38% do material que foi 
classificado para análise, e se expressa pelas palavras de maior significado para sua 
organização, a partir da identificação do valor do qui-quadrado/porcentagem. A 
análise de tais elementos permite afirmar que esta classe, com um traço mais 
conceitual, se relaciona às funcionalidades da aplicação da tecnologia na assistência 
de enfermagem na terapia intensiva. As palavras tecnologia (chi²: 275,74), cuidado 
(chi²: 116,89) e tecnológico (chi²: 102,99) são ilustrativas disso, na medida em que 
indicam que uma das faces funcionais da tecnologia é a cuidativa, mais relacionada 
à pragmática de assistência e cuidado ao paciente através da avaliação, 
identificação, direcionamento e previsão dos acontecimentos. O enfermeiro 15 se 
associa de maneira típica a classe 1 (chi²: 870,13), demonstrando esta visão da 
tecnologia, conforme se observa nos extratos de uce que foram selecionados. 
93 
 
A tecnologia eu vejo como fundamental, uma vez que favorece uma melhor avaliação, te dá maior 
segurança no cuidado e te possibilita questões adiante, muito mais concretas do que quando você 
não tem ela a seu favor. (uce 2210, enf. 15) 
 
E no cuidado de enfermagem a tecnologia, creio que possibilita pelas alterações evidenciadas no 
paciente o melhor direcionamento do cuidado em si (....) acho que tem como está sendo utilizada a 
nosso favor, na medida em que você perceba as alterações e implemente aquele cuidado 
preconizado para o paciente. (uce 2212, enf. 15) 
 
E aí você conseguia vislumbrar paciente com alterações respiratórias, padrão de gases e você fazia 
alterações, a questão da visualização das arritmias no monitor, então assim, no meu tempo eu 
conseguia atrelar a questão da tecnologia com o cuidado. (uce 2267, enf. 15) 
No entanto, o alcance desse tipo de uso da tecnologia dirigido para o 
cuidado implica estar próximo do paciente para observá-lo, tocá-lo, sentir e 
identificar suas reações. As palavras ‘questão’ com chi² de 83,07 e ‘aliar’ com chi² 
51,9 estão presentes nestes excertos, e ao mesmo tempo que remetem a esta ideia 
de proximidade ao cliente também denotam existir uma zona de tensão que envolve 
o debate sobre a utilização da tecnologia, pois parece que esta última, a despeito de 
seu uso tratar-se de uma exigência da atualidade, por si só não é suficiente quando 
é pensada no âmbito da assistência de enfermagem, sendo de igual modo 
necessário o desenvolvimento de uma relação interpessoal. 
E hoje não tem como fugir da questão da tecnologia em terapia intensiva (....) creio que nossa grande 
preocupação é tentar aliar a questão do cuidado aos avanços tecnológicos, aliar no sentido de não 
fugir da nossa essência que é a questão de estar próximo do paciente, tocando, sentindo o que ele 
sente. (uce 2209, enf. 15) 
 
Creio que o cuidado de enfermagem ele não pode ser deixado de lado, no sentido de prevalecer a 
questão da tecnologia em detrimento daquela questão de estar próximo do paciente, cuidando. (uce 
2211, enf. 15) 
 
Acho que ele tem que saber entender as reações humanas que o paciente da terapia intensiva pode 
ter durante esse processo de internação e da dependência do cuidado. (uce 2365, enf. 15) 
A articulação desses aspectos apresentados está associada na classe 1 
pela palavra favor, com chi²: 75,09. Significa dizer que a aplicação da tecnologia no 
cuidado de enfermagem remete ao uso das informações oriundas dela como 
orientadoras das ações profissionais, tomando como referência as respostas 
emitidas pelo cliente e captadas pela enfermeira a partir de uma assistência 
prestada ao seu lado, focada no sujeito. Nesta perspectiva a palavra favor ganha 
94 
 
sentido, uma vez que significa o uso a favor da enfermeira e do cliente, quando se 
busca um equilíbrio entre os elementos que integram o cuidado de enfermagem, 
revelando a existência de um modo de agir na terapia intensiva. 
É a visão do profissional que consegue utilizar a seu favor questões da prática profissional mais 
ligadas àquelas questões dos avanços que a tecnologia no CTI lhe proporciona. A minha 
preocupação enquanto profissional de terapia intensiva é fazer com que a gente hoje consiga 
distribuir melhor essas energias aí nas diversas atividades que desempenhamos na terapia intensiva. 
(uce 2343, enf. 15) 
Por outro lado, a presença das palavras hoje, administrativo e ano, com chi² 
respectivamente de 100,31, 96,81, 77,35 demarcam a outra funcionalidade da 
tecnologia, ou seja, a sua face funcional organizativa do trabalho da enfermeira, 
mais aproximada ao estrutural das atividades. Assim, tais palavras indicam uma 
questão temporal, e sugerem que a evolução científica e tecnológica dos dias atuais 
impactou no setor saúde e repercutiu-se no cotidiano assistencial, isto porque 
implicou em dividir a atenção da enfermeira com atividades administrativas. Em vista 
disso, neste caso então, o emprego de tecnologias se dá na lógica do 
gerenciamentodas respostas do cliente e, como consequência, pode gerar o 
afastamento/distanciamento da enfermeira em relação ao cliente. 
Mas hoje essa tecnologia é dividida na verdade, essa questão da tecnologia no cuidado ela é muito 
mais dividida com as questões administrativas (....) então acaba assim, na minha geração de trabalho 
no CTI, meu cuidado ele era muito mais leito do que propriamente com administração, administração 
ela vem de um curto espaço de tempo, dois anos. (uce 2273/ 2239, enf. 15) 
 
No meu início de trabalho eu não saía praticamente do leito, eu permanecia no leito durante muito 
tempo das minhas doze horas, acredito que as paradas eram apenas para almoço, para alguma 
atividade administrativa. (uce 2264, enf. 15) 
Logo, este possível afastamento para a resolução de atividades de teor 
administrativo faz com que a enfermeira se aproveite das vantagens e facilidades 
resultantes da implementação dos recursos tecnológicos, conferindo a estes uma 
conotação de facilitador do processo de trabalho. A palavra distante (chi²: 66,7) traz 
em si este senso de afastamento. 
95 
 
Creio que existam profissionais que com a tecnologia se afastam mais do cuidado e preferindo 
visualizar as vantagens que a tecnologia dá no sentido de permanecer mais distante e estabelecer 
outras prioridades do que não o cuidado na essência. (uce 2213, enf. 15) 
 
O que acontece ultimamente, é que como o enfermeiro permanece mais distante do leito no seu 
trabalho, deixando a cargo do técnico de enfermagem essa execução, acho que nesse sentido o 
procedimento fica mais descoberto da observação coerente que o enfermeiro tem, embora muitos 
profissionais de repente o fazem por comodidade, por facilidade. (uce 2218, enf. 15) 
À luz destas ideias, a palavra favor neste caso expressa apenas o uso a 
favor da enfermeira, como um instrumento facilitador (chi²: 51,9) que propicia maior 
agilidade no desempenho das suas atividades diárias, mas que parece estar 
desprovida dos elementos mais próprios ao cliente. 
Assim, poucos sabem utilizar a seu favor, acho que ela é utilizada muito mais como um facilitador do 
trabalho, do que basicamente a seu favor, hoje eu vislumbro enfermeiros que usam a tecnologia para 
adiantar o seu trabalho. (uce 2310, enf. 15) 
As partes selecionadas da CHA da classe 1 apontam as duas 
funcionalidades da tecnologia. Na primeira figura, as palavras alterações, avaliação, 
observação e segurança se aproximam de cuidado e tecnologia e se inter-
relacionam com um segundo bloco que contém as palavras exercício e favor, 
trazendo marcada a questão prática-assistencial. Enquanto na segunda, as palavras 
hoje, passado, questão, trabalho e administrativo ilustram o sentido gerencial da 
tecnologia. 
 
 
 
96 
 
 
 Figura 4: Classificação hierárquica ascendente da classe 1 
O enfermeiro 15 dá a impressão de revestir suas ideias por uma reflexão 
mais crítica e abrangente, acerca da relação das enfermeiras com a tecnologia. Ele, 
ao tempo em que faz menção a uma prática mais idealizada, estabelece um paralelo 
com aquela que vem sendo realizada, delimitando a sua fala por uma comparação 
entre o passado e o presente. É provável que sua experiência docente-gerencial 
favoreça esse caráter mais avaliativo dado à classe. 
O tema geral relativo às funções atribuídas à tecnologia identificado na 
classe lexical 1 produzida pelo programa Alceste, pode ser aprofundado com base 
nas nuances encontradas no contexto cultural da terapia intensiva a partir da sua 
atenciosa observação. Esta estratégia dá condições para proceder uma análise 
comportando os conteúdos presentes nos discursos e as características que fazem 
parte das ações habituais das enfermeiras. Levando-se em conta esta linha de 
pensamento, afirma-se que embora se reconheça a utilidade da tecnologia dirigida 
para o cuidado direto no âmbito da assistência de enfermagem, na prática, ela 
aparenta ter importância relativa, pois em diversas situações as informações 
provenientes dos aparatos tecnológicos não eram captadas ou passavam 
despercebidas, indicando a existência de outros focos de atenção da enfermeira. 
Um exemplo registrado com bastante frequência que retrata isso se refere 
ao banho no leito do paciente crítico, onde muitas vezes a monitorização era 
completamente retirada, impossibilitando um acompanhamento mais intensivo. No 
97 
 
decorrer da observação de campo, o comentário do enfermeiro 3 sobre esse tipo de 
ocorrência, no contraponto com o sentido da tecnologia no seu cuidado, coloca em 
evidência a ação pautada no procedimento/tarefa e o excesso de atividades da 
enfermeira impedindo uma supervisão mais próxima da assistência. 
_Ela é primordial, é primordial para o cuidado que presto, principalmente aqui no CTI, se fosse na 
enfermaria acho que não, mas aqui no CTI ela é primordial (....) ela nos fornece informações que 
direcionam o banho, se eu tenho as informações eu sei se o cliente está instável, se vou dar o banho 
ou não (....) se eu implemento o processo de enfermagem em todas as etapas, que é lógico que vai 
mudando diariamente, eu tenho como decidir e ela ajuda (....) não só no banho, mas em 
intercorrências, nas intervenções. (trecho de diário de campo, enf. 3, 02/02/2011, de 08:50 às 14 hs) 
Quando peço para que ele olhe para o leito ao lado, e fale sobre o fato da 
equipe estar realizando os cuidados de higiene sem o auxílio da tecnologia, ele 
continua: 
_Isso é a praga da rotina, a rotina, as pessoas estão muito mais preocupadas com o procedimento 
técnico do que com outras coisas (....) aí depois acontece alguma coisa e a culpa vai recair sobre 
quem? Hoje sou eu e mais uma colega e é muita sobrecarga sobre o profissional de nível superior 
(....) o pessoal faz aquilo há muito tempo (....) eu acho que tem que morrer uma geração dos 
profissionais de enfermagem para as coisas mudarem. (trecho de diário de campo, enf. 3, 
02/02/2011, de 08:50 às 14 hs) 
Essa sobrecarga de que trata o enfermeiro 3 dá indícios de ter relação com 
a participação da enfermeira em um conjunto de atividades de cunho administrativo, 
o qual toma de modo considerável a sua atenção e concentração durante o trabalho, 
e que pode repercutir-se na não detecção de determinados problemas clínicos com 
o cliente. A explicação para isso é que o maior envolvimento com esse tipo de 
demanda conduz automaticamente a um certo grau de distância do cliente e a 
realização de ações pontuais, como ocorre com as enfermeiras 6 e 1 em um dia da 
pesquisa. Elas estiveram no posto de enfermagem até próximo do meio dia, 
manipulando as prescrições médicas e dando encaminhamento à terapêutica 
medicamentosa, além de promover os registros clínicos. Durante esta permanência 
das enfermeiras no posto central, escuta-se um dos técnicos que encontra-se no 
leito 10 chamando: 
98 
 
 _Quem é o enfermeiro que está aqui? Enfermeira (....) [tom de voz alto]. 
Uma pessoa no posto responde: _é a enfermeira 1. Esta rapidamente se pronuncia: 
_é a hiperemia que estava na região sacra? Já vi, parece que é de antes de chegar 
ao CTI. Ela se encaminha ao leito 10, e a técnica de enfermagem executa o teste de 
reatividade da pele, chegando a conclusão de que trata-se de uma hiperemia não 
reativa. Ao final a técnica questiona: _não tem um dersani, um hidratante ou algo 
assim? A enfermeira 1 vai em busca dos produtos solicitados e retorna com dois 
pacotes de gaze embebidos com as soluções. Logo em seguida volta ao posto de 
enfermagem e dá continuidade aos afazeres anteriores. (trecho de diário de campo, 
enf. 1, 19/01/2010 de 08:50 às 14:00 hs) 
Em outro plantão dessas mesmas enfermeiras, acompanha-se a evolução 
clínica do cliente do leito 1 por aproximadamente uma hora, o qual apresentava 
descompensação da frequência cardíaca, com oscilação entre 36 e 45 batimentos 
por minuto. Neste período não se observou movimentação dasenfermeiras com 
vistas às intervenções. A médica então, ao verificar tal anormalidade, solicita o início 
de solução vasoativa, objetivando a estabilização cardíaca. (trecho de diário de 
campo, enf. 1 e 6, 28/01/2011 de 9 às 14:30 hs) 
De outro modo, o ambiente da terapia intensiva, pelas peculiaridades dos 
clientes que lá estão internados, marcados pela criticidade, gravidade clínica e 
instabilidade, oferece ao expectador uma variedade de situações, as quais põem em 
destaque a importância do uso de tecnologias, contribuindo para a compreensão do 
papel e do lugar que ela ocupa no cuidado neste cenário. 
É o que acontece durante o desenvolvimento do banho ao cliente do leito 1, 
quando se constata através da monitorização uma alteração no valor da pressão 
arterial. A enfermeira 4 vai até o leito, manipula o dispositivo de pressão arterial 
99 
 
invasiva, observa a curva de pressão, e resolve por enquanto manter vigilância 
constante. Na continuação do procedimento, o valor sistólico alcança 60 mmHg, se 
traduzindo em uma conduta clínica da equipe, que decidem pelo uso de um 
reexpansor de volume endovenoso. A intercorrência evolui de maneira desfavorável, 
com queda drástica da pressão arterial e diminuição progressiva da frequência 
cardíaca. 
Há um clima de agitação, correria e tensão, e a equipe baseada nos dados 
fornecidos pelas tecnologias e naqueles provenientes da avaliação clínica 
direcionam as decisões. Tal cliente passa a requerer um novo procedimento de 
intubação endotraqueal e restabelecimento da ventilação artificial, porém após a sua 
execução, entra em quadro de parada cardiorespiratória, desencadeando um novo 
ciclo de ações. Os profissionais de enfermagem participam ativamente do 
transcorrer desta cena, através da manipulação das tecnologias e instrumentos, 
observação dos resultados das intervenções e interpretação dos dados clínicos, 
demonstrando a aplicação de conhecimentos científicos de modo a prever as novas 
condutas e produzindo, ao final, um retrato da implementação da tecnologia nas 
práticas de cuidar da enfermagem. (anotação geral do diário de campo, 19/05/2011 
de 10:20 às 15 hs) 
 
100 
 
 
 
 
 
 Avaliar/ Identificar 
 Direcionar / Prever 
 
 
 Proximidade do cliente: 
tocar, sentir, observar 
 entender as reações 
 
Tecnologia no 
cuidado de 
enfermagem na 
TI 
 
 
 
 
 
Facilitador do processo 
de trabalho a partir de 
suas vantagens e 
facilidades 
 
Afastamento do cliente: 
questões institucionais- 
administrativas; e 
pessoais 
 
 
 Uso a favor da enfermeira e 
do cliente 
 
 Uso a favor da 
enfermeira 
 
 
 
 
 
 
Figura 5: Composição da classe 1 Alceste; Fonte: produção do pesquisador 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Modo de agir: equilíbrio 
entre as atividades 
Modo de agir: maior 
atenção às atividades 
administrativas 
 FACE CUIDATIVA FACE GERENCIAL 
101 
 
4.2.1.2 Classe 2 
 
 Quadro 4: Classe 2 Alceste 
Na classe em tela, composta por 9,98% do discurso analisado, sobressai-se 
a noção dos elementos pessoais e profissionais que possibilitam a organização dos 
estilos de cuidar em enfermagem na terapia intensiva. A afirmação acerca da 
existência de diferenças nos estilos ganha substância com base nas palavras cada, 
cuida, maneira, todas com chi²: 136,24, 82,10 e 36,3 respectivamente, expressando 
o entendimento de que existem diferentes estilos de cuidar das enfermeiras no 
ambiente da terapia intensiva, considerando as particularidades inerentes a este 
sujeito. 
Cada um tem suas especificações, mas eu acho que cada um tem um olhar sim, e dentro do CTI 
cada um cuida de uma forma (....) todo mundo visualiza a mesma coisa acredito, mas cada um tem 
um jeito de cuidar. (uce 784, enf. 6) 
 
Têm pessoas, eu acho que de uma forma positiva, uma forma tranquila, ninguém é igual a ninguém, 
mas assim, cada pessoa tem uma forma de pensar, agir, atuar, trabalhar. (uce 1236, enf. 8) 
 
Eu acho que cada um cuida da sua maneira, eu acho que não existe uma unificação, um padrão, até 
porque a sua vida, o teu comprometimento profissional, o grau de satisfação pessoal e profissional 
influencia a sua maneira de cuidar, na sua maneira de lidar com o outro. (uce 149, enf. 2) 
Classe 2 
224 uce 
 Chi² Porc. 
Cada 
Cuida 
Buscar 
Conhecimento 
Acho 
Busca 
Cuidar 
Adaptar 
Religião 
Perfil 
Manipular 
Maneira 
Modo 
Personalidade 
Envolve 
Querer 
Acordo 
Individualidade 
Emocional 
Dominar 
136,2 
82,1 
78,9 
72,4 
62,7 
51,0 
50,4 
44,9 
41,9 
39,7 
37,7 
36,3 
36,1 
34,8 
33,4 
32,5 
32,3 
31,3 
31,3 
29,5 
42,9 
64,0 
65,2 
41,9 
17,2 
69,2 
30,6 
85,7 
46,4 
44,8 
75,0 
26,5 
44,4 
57,1 
47,6 
44,0 
50,0 
58,3 
58,3 
71,4 
Variáveis: 
Sexo feminino, mais tempo de 
formado, menos jovens, não escolheu 
o setor, turno noite, não especialista, 
não católico 
Elementos organizativos dos 
estilos de cuidar 
9,98% 
102 
 
A gente está trabalhando com indivíduos completamente diferentes, entendeu, se nós quisermos que 
seja um atendimento igual, você não vai estar trabalhando com o ser humano. Tem que ser de forma 
diferenciada, porque são pessoas diferentes que prestam o atendimento. (uce 1778, enf. 12) 
As palavras que se apresentam na sequência da classe 2 são buscar (chi²: 
78,90), conhecimento (chi²: 72,45), busca (chi²: 51,08), querer (chi²: 32,5) 
conduzindo ao argumento de que um aspecto que distingue tais estilos de cuidar é a 
capacidade individual de busca e domínio constante do conhecimento. O 
conhecimento se coloca de uma maneira particular na classe, pois se mostra como 
um elemento pessoal-profissional destacado na organização dos estilos de cuidar, 
ou seja, a necessidade de busca do conhecimento para subsidiar as ações em face 
das tecnologias extrapola o perfil profissional para trabalhar na UTI, e se constitui 
como uma obrigatoriedade para enfermeira por si só, independente de outras 
características. 
Acrescenta-se também que o uso do verbo buscar situa o lugar da ação da 
enfermeira, da iniciativa, isto é, sua forma de cuidar tem a ver com essa vontade de 
buscar, de ser um agente ativo e criativo que se inquieta diante das novidades que o 
ambiente lhe proporciona, impulsionando-se em direção ao conhecimento. A 
enfermeira 20 (chi²: 140,27) participa ativamente desta elaboração, fornecendo 
subsídios à classe 2. 
Primeiro você tem que ter vontade de aprender um pouquinho, mas depois que essa vontade passa, 
que você domina, você vira tarefeiro entendeu, aí você tem que buscar mais, mas vai de cada um 
querer buscar mais ou não. (uce 3405, enf. 20) 
 
Acho que quem gosta de terapia intensiva mesmo, se você quiser você consegue agregar muito 
conhecimento, mas acho que vai de cada um querer agregar ou não, vai de cada enfermeiro querer 
buscar, querer crescer, querer saber. (uce 3407, enf. 20) 
 
E às vezes os colegas falam mal um do outro e isso é uma coisa bem normal que a gente encara 
com muita naturalidade, porque o padrão de cuidar de cada um é bem diferenciado, e as vezes a 
gente tem que respeitar o colega que cuida de uma forma diferente da sua, diferente não 
tecnicamente, mas assim, você respeita o conhecimento dele. (uce 230, enf. 3) 
 
Então assim, não é só ter o conhecimento, mas você saber manejar bem tudo isso na assistência ao 
teu cliente, para você realmente poder ter um cuidado de qualidade para ele (....) você tem que saber 
manejar, tem que saber dominar. (uce 3216, enf. 20) 
 
103 
 
Esta configuração que as práticas da enfermagem assumem na terapia 
intensiva, na qual o conhecimento desempenha um papel importante na organização 
dos estilos, é o que direciona a questão do perfil profissional para trabalhar neste 
setor, representada na classe pelaspalavras adaptar (chi²: 44,82) e perfil (chi²: 
39,70). Logo, o que justifica uma linha de ação marcada pela procura incessante do 
saber para o domínio dos instrumentos articulados a este local, é a existência do 
perfil profissional e consequente adaptação da enfermeira à assistência. 
Ele tem a opção de tapar o buraco, de ser mais um para agregar na equipe, e nem sempre essa 
pessoa tem perfil. Muitos se adaptam, mas muitos realmente não têm esse perfil, e aí lá na frente dão 
um problema e você acaba tendo que trocar (....) então eu me adaptei na terapia intensiva, mas eu 
acho que na hora que você faz uma seleção, você tem que fazer uma seleção de acordo com o perfil 
de cada um, porque realmente se não tem perfil não vai se adaptar, não se adapta. (uce 3336/3329, 
enf. 20) 
A variável escolha do CTI como local de trabalho é um ponto interessante 
para análise, pela sua conexão com a classe ora discutida. Isto porque não optar por 
lá atuar pode ter estreitas relações com a existência do perfil profissional, trazendo 
influências na ação. A enfermeira 20, por exemplo, que não havia escolhido o CTI 
voluntariamente tem um relato que traz implícito a importância do gerenciamento 
das competências das enfermeiras intensivistas no processo de admissão, talvez 
pelas dificuldades enfrentadas e também pela sua experiência no desempenho de 
cargos de direção técnica. 
Portanto, a partir da presença dos atributos pessoais/profissionais que 
compõem a figura da enfermeira intensivista é possível o seu ajustamento a este 
ambiente, refletindo-se em um estilo de cuidar orientado pela busca e posterior 
junção de conhecimentos que atendam às demandas integrais do cliente na 
interface com a tecnologia, apreendidas pela sua proximidade a ele. Então, os 
caracteres requeridos à enfermeira que vão propiciar tal articulação do 
conhecimento devem responder por aspectos relativos ao cliente e à máquina, como 
por exemplo, gostar, agilidade, estabilidade, responsabilidade, manejo/interpretação 
104 
 
dentre outras. Ao contrário disso, a ausência de perfil gera a não adaptação da 
enfermeira, a qual passa a não agregar valor à equipe de trabalho, produzindo um 
estilo de cuidar passivo, guiado pela tarefa, com menor utilização do conhecimento, 
e, possivelmente mais distante do cliente. Essas qualidades profissionais são 
visíveis nas uce abaixo: 
Então acho que o clima também, o ambiente do hospital, você tem que gostar disso e eu acho depois 
você ter o comprometimento teu, não só teu, mas de toda uma equipe, para você cuidar bem desse 
doente. (uce 3500, enf. 20) 
 
Então tem que ter estabilidade emocional para trabalhar lá, tem que saber trabalhar em equipe, você 
lida com diversos profissionais e com várias pessoas (....) ter agilidade, agilidade em determinadas 
situações, não é só agilidade, tem que saber manusear as coisas, tem que saber interpretar as 
coisas, tem que saber lidar com as coisas, manipular as coisas . (uce 1435, enf. 9) 
 
Acho que tem que ter respeito e responsabilidade, comprometimento, conhecimento, ser humano, 
humanização, tratar o paciente como ser em todos os aspectos e companheirismo. (uce 2553, enf. 
16) 
 
A força associativa destes elementos da classe 2 pode ser vista na 
classificação hierárquica ascendente, onde o primeiro conjunto de palavras (cada, 
um, tem) retrata as diferenças no cuidar; o segundo, através da coocorrência entre 
busca, buscar e conhecimento traz as marcas de tais diferenças; e o terceiro (ter, 
ser, trabalhar) indica os atributos profissionais, ou seja, o que se deve ter, ou como a 
enfermeira tem que ser para trabalhar na UTI. 
 
Figura 6: Classificação hierárquica ascendente da classe 2 
As diferentes perspectivas de ação que as enfermeiras assumem na 
condução de suas práticas e que revelam a presença dos elementos pessoais-
105 
 
profissionais que levam à composição de estilos de cuidar, se expressam de modo 
bastante claro quando o olhar se concentra sobre o fazer destes profissionais. Desta 
maneira, os dados provenientes da imersão etnográfica no CTI permitem um 
cotejamento com aqueles presentes na classe 2 gerada pelo Alceste, fomentando 
uma discussão mais fundamentada sobre este subtema. A conformação de estilos 
de cuidar enunciados na classe Alceste pode encontrar respaldo nesta 
circunstância, a qual fornece uma imagem que vai ao encontro deste ponto de vista. 
Ao conversarem sobre a dinâmica de cuidado das enfermeiras, um membro 
da equipe de enfermagem descreve: 
_Tem enfermeiro que entra nos cuidados, que gosta de participar do banho, que não precisa a gente 
chamar, que quando a gente vê ele já está lá, principalmente paciente após cirurgia, com curativos 
(....) existem outros que a gente olha assim e a gente já fala: “_aquele ali, nem vamos chamar!” Mas 
assim, após o banho, os cuidados, a maioria das coisas é com a gente mesmo, a gente identifica que 
o paciente está com bradicardia, aí a gente já vai lá e chama, quando tem uma punção profunda a 
gente auxilia (....) tem diferentes tipos de enfermeiros aqui. (trecho de diário de campo, técnicas de 
enfermagem, 19/01/2011 de 08:50 às 14 hs) 
Tal diálogo pode ser complementado pelo relato da enfermeira 4, que 
imprime à sua fala sobre os leitos de isolamento um tom de reclamação, pelo fato de 
ficarem afastados do posto de enfermagem e de uma maior vigilância da equipe 
multiprofissional. Assim, no seu conteúdo diferencia algumas características que 
parecem delimitar os estilos de cuidar, como o comprometimento e o conhecimento. 
Quando expõe sua opinião no que concerne à presença de uma central de 
monitorização de todos os leitos do CTI no posto de enfermagem afirma: 
_Com a central de monitorização ou não os problemas continuariam, pois isso depende do 
comprometimento da equipe. Esses dias vim colher um sangue aqui no leito ao lado [referindo-se a 
um dos leitos de isolamento], e acabei passando neste leito para observar a cliente. Quando vi o 
respirador estava desconectado, a cliente em parada cardíaca e o alarme estava tocando e ninguém 
viu. Tem gente que diz ser intensivista, faz pós-graduação, diz que tem vinte anos de CTI, e? Se 
realmente você não tiver um acompanhamento intensivo de nada adianta. Eu dava aula de 
emergência e CTI, e eu dizia aos meus alunos que a tecnologia é burra, ela precisa de cuidados, de 
manutenção (....) você precisa utilizar os seus conhecimentos, os sinais que o cliente está 
apresentando. (trecho de diário de campo, enf. 4, 12/01/2011 de 08:30 às 14 horas) 
Esta necessidade de comprometimento com a assistência ao cliente no 
cenário em debate, como um atributo profissional, se configura como um argumento 
106 
 
recorrente utilizado por esta enfermeira quando apresenta sua maneira de ver 
alguns aspectos do cuidado de enfermagem. Ela então continua: 
 _Olha, o plantão de sábado foi super pesado, deu oito horas da noite, fui embora e não consegui 
olhar na cara do cliente do leito seis, me senti até mal por isso. A enfermeira 11 me ligou e disse à ela 
que ainda não havia conseguido ir lá no leito, pois passei a maior parte do tempo no leito, sete, oito e 
nove (....) acho que poderíamos fazer mais pelos pacientes (....) mas falta comprometimento, falta 
envolvimento de alguns profissionais, não adianta somente eu e você fazermos pois não vai adiantar. 
(trecho de diário de campo, enf. 4, 17/01/2011 de 08:30 às 14 hs) 
Ao considerar este excerto reitera-se a concepção de que alguns caracteres 
que compõem o perfil podem dar sentido à configuração dos estilos de cuidar na 
terapia intensiva, se refletindo sob a forma de ações ou condutas que anunciam 
através de gestos e comportamentos a presença de tais qualidades, bem como uma 
maior ou menor aproximação do cliente. É o que acontece com os enfermeiros 8 e 3. 
Nas ações da enfermeira 8 aparece de modo repetido características como o 
respeito à subjetividade, interesse pelo outro, envolvimento. 
Esta descrição clínicaassinalada é a história de uma cliente acamada, do 
sexo feminino, vítima de soterramento, lúcida e orientada, com fratura em membro 
inferior direito e lesão com fasciotomia no membro esquerdo. Na cena verifica-se 
que existe uma reunião médica em torno do leito desta cliente, discutindo-se acerca 
da conduta terapêutica a ser implementada. A enfermeira 8 se aproxima da cliente, 
segura a sua mão e começa a acariciá-la, permanecendo ao seu lado enquanto os 
demais membros da equipe continuam conversando. Após alguns minutos a equipe 
médica decide por uma intervenção cirúrgica, e a enfermeira resolve então promover 
cuidados preparatórios de higiene. A cliente sentindo-se acolhida pela enfermeira e 
com tom carinhoso se dirige a ela pelo nome: _será que teria possibilidade de 
escovar os dentes? Durante todo período percebe-se preocupação com a possível 
experiência de dor à manipulação física. A enfermeira 8 com ar de consternação 
vira-se ao pesquisador e diz: 
107 
 
 _Ela [a paciente] foi, abraçou a filha e conseguiu permanecer por seis horas soterrada (....) no 
plantão passado (....) nossa quando cheguei em casa não consegui fazer mais nada, fiquei com 
aquela história na minha cabeça. (trecho de diário de campo, enf. 8,17/01/2011 de 08:30 às 14 hs) 
Já a anotação do enfermeiro 3 parece mostrar um menor envolvimento e a 
valorização de outros assuntos implicados na assistência. No boxe de número 2, 
duas técnicas de enfermagem realizam os cuidados de uma cliente idosa, 
hospitalizada há algum tempo no CTI, encontrando-se sob uso de ventilação artificial 
e com quadro de rebaixamento do nível de consciência. Em determinado instante 
uma das técnicas de enfermagem pergunta: _quem está aqui? [aludindo-se ao 
enfermeiro responsável na escala por este leito]. Alguém então responde: _o 
enfermeiro 3. A técnica se direciona a ele: _enfermeiro 3, ela está vomitando [não 
observa-se movimentação deste enfermeiro em relação à cliente]. Pouco tempo 
depois a técnica de enfermagem solicita a um integrante da equipe que está no 
posto central um cateter nasogástrico e novamente alerta: _gente ela está 
vomitando muito, já saiu até pela traqueostomia! A enfermeira 4 ao passar próximo 
ao leito e percebendo o desenrolar da situação se dirige até lá. Neste momento a 
cliente evolui com queda da oxigenação e pressão arterial, e a enfermeira propõe 
um chamado médico. A técnica de enfermagem em tom de reclamação completa: 
_sabe o que é pior de tudo, é que o enfermeiro 3 está vendo isso tudo e está no 
telefone! Após a passagem de um cateter nasogástrico de maior calibre e a 
administração de medicações sedativas e antieméticas a cliente apresenta melhora 
clínica. (trecho de diário de campo, enf. 3, 02/02/2011 de 08:50 às 14 hs) 
Destaca-se neste trecho ilustrativo do diário de campo que o comportamento 
do enfermeiro 3 não expressa diretamente o seu estilo de cuidar, mas a ausência de 
cuidado em relação ao cliente, situação esta que do ponto de vista ético significa 
negligência. 
 
108 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Com perfil – adaptação 
(Atributos relativos ao 
cliente e máquina) 
 
 
 
Estilo de cuidar orientado 
pela busca e junção de 
conhecimentos: cliente x 
máquina 
 
Proximidade do 
cliente x máquina: 
atendimento das 
demandas 
 
 
 
 
 Conhecimento 
 ( busca/domínio) 
 elemento diferenciador 
 
 
 Perfil profissional 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Sem perfil - não se 
adapta 
 
 
 
 
Estilo de cuidar 
orientado pela tarefa; 
protocolizado 
 
 
Menor aproximação do 
cliente 
 
Figura 7: Composição da classe 2 Alceste; Fonte: produção do pesquisador 
 
 
 
 
 
Estilos de cuidar na 
TI 
AGENTE ATIVO E 
CRIATIVO 
AGENTE PASSIVO 
 
109 
 
4.2.1.3 Classe 4 
 
 Quadro 5: Classe 4 Alceste 
Com um número de 427 uce, o equivalente a 19,03% do total analisado, a 
classe 4 apresenta relevante importância na constituição do corpus de análise e no 
fornecimento de evidências que contribuem à compreensão da questão posta em 
discussão neste estudo. Trata-se assim, da interrelação dos fatores 
externos/estruturais com as práticas próprias da enfermeira na terapia intensiva, e 
suas implicações nos estilos de cuidar. Isto se exemplifica inicialmente nesta classe 
pelo uso das palavras enfermeiro e profissionais, chi²: 157,77 e 95,98, interação e 
lidar, chi²: 40,3 e 39,7, as quais apontam a interface da enfermeira com os outros 
profissionais que integram a equipe de saúde neste campo, como é possível 
observar nas uce selecionadas. 
Em terapia intensiva ela é boa, porque assim, a gente trabalha muito junto, muito em conjunto, a ação 
de um depende da ação do outro, então é uma interação muito boa com a equipe multiprofissional 
interna. (uce 2966, enf. 18) 
 
Classe 4 
 427 uce 
 Chi² Porc. 
Enfermeiro 
Profissionais 
São 
Estrutura 
Acho 
Terapia intensiva 
Assistência 
Grande 
Serviço 
Trabalham 
Hospital 
Interação 
Setor 
Lidar 
Enfermagem 
Médicos 
Diferente 
Geral 
Maioria 
Relacionamento 
157,7 
95,9 
95,6 
70,2 
70,0 
69,1 
64,0 
63,5 
51,6 
48,9 
41,5 
40,3 
40,2 
39,7 
38,6 
36,6 
36,5 
35,7 
33,2 
32,4 
46,3 
61,2 
44,4 
90,4 
29,1 
44,2 
47,0 
53,8 
57,6 
77,2 
52,7 
57,1 
45,3 
46,7 
42,0 
65,3 
42,7 
47,0 
51,0 
78,5 
Variáveis: 
Sexo masculino, menos tempo de 
formado, mais jovem, escolheu o setor, 
turno noite, não especialista, não 
católico 
Fatores estruturais externos à 
prática de cuidar das enfermeiras 
19,03% 
110 
 
A gente tem um pouco de briga com esses profissionais externos, mas os profissionais que ficam 
dentro do CTI, de modo geral o relacionamento é bom (....) com certeza se algum enfermeiro 
escutasse isso ele iria falar, ainda mais se eu conheço a equipe que tem lá (....) eu sou brigona, mas 
não sou tanto, tem gente que é muito pior do que eu. (uce 2756, enf. 17) 
 
Você não tem que ter medo de falar o que você pensa, eu acho que muitas vezes a pessoa se retrai 
um pouco, mas em sua maioria não, a maioria da equipe de enfermagem, eu percebo que eles lidam 
muito bem com os outros profissionais das outras áreas. (uce 2021, enf. 13) 
 
Acho que o que me dificulta é a falta de interação profissional, eu acho que as outras profissões não 
têm a mesma. (uce 1156, enf. 7) 
Os trechos ilustrativos destas uce servem para mostrar que a relação da 
enfermeira com a equipe multiprofissional que compõe a estrutura externa ao CTI do 
hospital é demarcada nos discursos por um aspecto espacial, os de dentro e os de 
fora, da qual emergem possíveis conflitos que podem dificultar o exercício do 
profissional, retraí-lo e impactar nos seus estilos de cuidar. Por sua vez, o uso 
frequente da palavra médico (chi²: 36,6) dá a entender que este profissional ocupa 
posição central no relacionamento da enfermeira com a equipe. 
(...) Existem alguns profissionais que são assim, em contrapartida existem outros profissionais 
médicos que não são assim, eles simplesmente tomam as condutas deles e não repassam para 
gente (uce 1416, enf.9) 
 
Não acho que seja uma constante, nem algo que seja de todos os médicos, você nota aqui que tem 
médicos que tem uma postura boa em relação à enfermagem e aos procedimentos que são feitos. 
(uce 3747, enf. 21) 
 
Eu acredito que seja boa sim, porque a maioria, tanto profissionais fisioterapeutas, os médicos, na 
sua grande maioria são bons médicos, porque às vezes eu achava até que não eram e quando eu fui 
trabalhar em outro lugar eu quase morri. (uce 2749, enf. 17) 
Essa influência de determinantes externos nas práticas assistenciais da 
terapia intensiva se materializa também na existência de outros assuntos, como é o 
caso das condições de trabalho, que ocupa a atenção e concorre para uma 
sobrecarga da enfermeira.Embora não estejam presentes no quadro inicial da 
classe 4, as palavras cansaço e sobrecarga, ambas com porcentagens de 83,33% 
parecem ser um vocabulário típico a esta classe, remetendo a tais condições de 
trabalho. 
Uma coisa também é a sobrecarga de trabalho deles, que eu acho que eles estão sobrecarregados, 
as equipes estão muito sobrecarregadas, e acabam sobrecarregando também a equipe, os 
enfermeiros estão sobrecarregados.(uce 2477, enf. 16) 
 
 
 
111 
 
 
Mas a gente nota também que em alguns momentos o cansaço é forte, e isso acaba sendo nítido 
assim, nessas nossas, não só nas conversas, mas até na figura do profissional enfermeiro, e como 
eu falei, as questões fora da assistência acabam interferindo nesse cansaço. (uce 3769, enf. 21) 
Esta ideia das condições do trabalho é evidenciada no arranjo da classe 4 
pelas palavras estrutura (chi²: 70,23), terapia intensiva (chi²: 69,11), serviço (chi²: 
51,06), hospital (chi²: 41,5), que sinalizam a presença de problemas relacionados à 
estrutura institucional, a exemplo do quantitativo de membros da equipe de 
enfermagem em comparação ao número de leitos no CTI, disponibilidade de 
material, bem como no que tange às questões salariais e à necessidade de outras 
atividades rentáveis, e têm fortes reflexos no nível de desgaste, cansaço e talvez 
motivação das enfermeiras. 
E seja por falta de pessoal, pela estrutura deficiente que está bem aquém do que a gente precisaria, 
e eu acho que em alguns momentos a gente está lidando com uma equipe que está realmente 
desgastada, cansada. (uce 3770, enf. 21) 
 
Hoje a gente tem dez leitos de terapia intensiva geral no hospital, é muito pouco para demanda que 
nós temos, outra coisa também em relação a essa questão estrutural, número de vagas e a questão 
do número de pessoal. (uce 3696, enf. 21) 
 
As questões de problemas que existem no serviço público, sejam pela falta de pessoal, material (uce 
3642, enf. 21) 
 
Como também a questão salarial também vai interferir no meu humor. (uce 2749, enf. 17) 
O grupo dos enfermeiros mais jovens e com menor tempo de formação, 
como ocorre com o enfermeiro 21, possui correlação especial com esta classe. 
Presume-se que tais características os façam rapidamente perceber o impacto que 
as dificuldades estruturais têm sobre a atuação dos membros da equipe de 
enfermagem que estão há mais tempo trabalhando, os levando a produzir então um 
discurso nesta linha de argumentação. 
Os dois cortes executados na CHA desta classe amplificam tais fatores, os 
quais na árvore colocam de um lado a interação com a equipe médica, visto pela 
relação da palavra médicos e relacionamento, que se liga a enfermagem e 
112 
 
profissionais, e de outro lado os aspectos estruturais identificados pelo cruzamento 
entre estrutura, hospital, serviço e assistência. 
 
 
 
Figura 8: Classificação hierárquica ascendente da classe 4 
Estes elementos externos à prática direta de cuidar da enfermagem, mas 
com implicações no seu desenvolvimento, também possuem partes interessantes 
para serem discutidas quando se visualiza essas relações durante o seu desenrolar 
imediato, como feito na observação sistemática, enriquecendo o debate em torno da 
classe 4 do Alceste. No caso da equipe multiprofissional, percebe-se um convívio 
permeado em alguns momentos por contingências e discordâncias que denotam ter 
efeitos no contexto da assistência de enfermagem, sobretudo do que se refere aos 
profissionais médicos. O conjunto de registros selecionados traz um quadro disso. 
No primeiro, antes de fazer o relato sobre os temas que foram levantados 
durante o round (reunião clínica da equipe), a enfermeira 9 se direciona às outras 
enfermeiras e diz: 
113 
 
_Enfermeira 4 eu lembrei de você hoje na hora do round, eles [a equipe médica] estão fazendo tipo 
um roteirinho aonde eles vão checando, exemplo, prevenção de trombose ok, aí chegou a cabeceira 
elevada, o médico falou: “_ah, tem que ver com a enfermagem”. Aí eu disse: “_tem que ver com a 
enfermagem não, a cabeceira elevada qualquer profissional que ver pode fazer, até o próprio 
paciente, a gente já informou a ele”. Aí seguiu, a aspiração. Eu levantei o dedo e falei: “_a aspiração 
também não, não é só a enfermagem que realiza a aspiração (....) se for assim eu também vou andar 
com a prescrição vendo: “_ah você também não prescreveu a liquemine e sabia que não tinha 
heparina”. A enfermeira 4 comenta durante a conversa: “_eu fico me coçando com isso” [faz uma 
expressão corporal de inquietação]. (trecho de diário de campo, enf. 9, 08/04/2011 de 09:20 às 13:40 
hs) 
Na segunda situação a enfermeira 5, ao ver a aglomeração de profissionais 
de enfermagem ao redor do leito 1, questiona sobre a admissão deste cliente. A 
enfermeira 6 em conjunto com outros membros da equipe relatam o ocorrido com 
gestos de descontentamento: 
_O paciente chegou em cadeira de rodas com o maqueiro somente, saturando a 39% e sem oxigênio. 
Eu pedi para a técnica de enfermagem chamar o médico e quando sinalizei para ele no monitor, ele 
disse que era do aparelho. A técnica de enfermagem complementa: _ela colocou o saturímetro no 
dedo dela e estava 98% (....) mas ele é ortopedista. A enfermeira 6 conclui: gente ortopedista não é 
médico. (trechos de diário de campo, enf. 5 e 6, 18/03/2011 de 13 às 17 hs) 
A última cena refere-se à presença no CTI de uma equipe de outro setor 
para a realização do exame de endoscopia digestiva em uma cliente com quadro de 
sangramento, que evoluía com descompensação do padrão hemodinâmico. Após 
preparo e posicionamento da cliente, o médico a recomenda: 
_A partir de agora a senhora pode deixar a saliva escorrer no lençol, não se preocupe que a 
enfermagem troca, eles gostam de trocar a roupa de cama, quanto mais sujo melhor. (anotação geral 
do diário de campo, 25/03/2011 de 12:40 às 17 hs) 
Um fato anterior a este é que a equipe de enfermagem há poucos minutos 
tinha efetuado a troca da roupa de cama desta cliente em virtude do sangramento. 
No contexto em foco, um item concernante à estrutura institucional que provoca 
insatisfação das enfermeiras é a falta de materiais para a provisão de um cuidado 
adequado. A ausência de recursos assistenciais causa desgaste e polêmica, como 
se vê neste trecho do diário de campo acerca da roupa de cama. Uma técnica de 
enfermagem pergunta sobre a quantidade de lençois: _enfermeira 4, quem recebeu 
a roupa hoje, por que já acabou? Pouco tempo depois esta enfermeira faz contato 
telefônico com o serviço de rouparia/lavanderia. Durante a conversa ela argumenta: 
114 
 
_olha só, vocês encaminharam vinte lençois para o setor, mas já acabou, a gente 
não usa só dois lençois no cliente. Após a resposta do funcionário da rouparia, a 
enfermeira 4 novamente explica, algo contrariada: 
_Tem que dar não! Não é que tem que dar, aqui no CTI o paciente é diferenciado, a gente precisa de 
mais lençois! Após o término da ligação ainda continua: _tem que dar! Eu não gosto disso, aqui não é 
enfermaria não! Eu hein! Quando o ministro teve aqui tinha até edredon (....) são 10:40, se 11:00 
horas a roupa não chegar eu vou ligar para a administração. (trecho de diário de campo, enf. 4, 
02/02/2011 de 08:50 às 14 hs) 
Ressalta-se ainda questões como a distribuição dos leitos de terapia 
intensiva, e a redução no quantitativo de pessoal que são constantes objetos de 
preocupação das enfermeiras. Acerca desta alocação de vagas no CTI, a enfermeira 
8, por exemplo, mostra-se inquieta por não saber quem será o paciente a ser 
admitido, e alega que existe a necessidade de que as vagas do CTI sejam reguladas 
por um setor específico do hospital, pois quando isso não acontece as pessoas vêm 
diretamente na unidade, criando um clima de indecisão. Sobre as idas e vindas 
relacionadas à internação afirma: _está tudo certo e aos quarenta e cinco minutos 
do segundo tempo tudo muda (referindo-se às constantes mudanças na distribuiçãodos leitos). A enfermeira 11 também ratifica essa concepção quando diz: 
 _Ele ainda não percebeu que é ele quem tem que ver a vaga (....) mas hoje eu estou uma pessoa 
zen, não vou brigar com ninguém! Em outro momento, ao estar diante de uma situação inadequada 
identificada, expressa o excesso de atividades: _é por isso que eu tenho orgulho de ser da 
enfermagem. A gente identifica as coisas, a gente pode não saber fazer, mas a gente sabe que 
alguma coisa não está certa. E é tudo a gente cara, tudo a enfermagem que tem que resolver, 
ninguém vê nada, não resolve nada! (trechos de diário de campo, enf. 8 e 11, 24/01/2011 de 09:20 às 
14:20; 03/02/2011 de 09 às 14 horas) 
Já a redução do número de funcionários é uma matéria que também faz 
parte das conversas das enfermeiras, como consequência do impacto que acarreta 
na assistência de enfermagem. A enfermeira 5, pensando no clima de incerteza 
relativo à dispensa de membros da equipe, e a mudança na escala de trabalho com 
a vinda de enfermeiras do turno da noite para o dia com o intuito de suprir as 
necessidades de pessoal, exprime o seu receio: 
115 
 
_Conversei com a chefia e eles disseram que muita coisa vai mudar (....) [fica um ar de incertitude] eu 
falei que posso ajudar, dar uma ajuda na rotina, mas dentro do possível. (trecho de diário de campo, 
enf. 5, 14/02/2011 de 11:30 às 16:30 horas) 
 
 
 
 
 
 
Os de dentro x os de fora 
 
 
 
Conflitos profissionais 
 
 
 
Dificultam/Retraem 
Gera insatisfação 
 
 
 
 
 
 
 
 
Sobrecarga profissional 
 
Número de empregos, 
de membros da equipe/ 
salário/material 
 
Desgaste/ 
Cansaço/Falta de 
motivação 
 
 
Figura 9: Composição da classe 4 Alceste; Fonte: produção do pesquisador 
 
4.2.2 DISCUSSÃO 
O debate no campo da saúde, e, em especial, na área da enfermagem sobre 
a aplicação de tecnologias que dizem respeito aos equipamentos e máquinas, ocupa 
na atualidade espaço importante no cenário internacional, discutindo-se, sobretudo, 
os riscos e benefícios oriundos dos usos que se faz de tais tecnologias, bem como 
as relações construídas pelos sujeitos com elas. Na pesquisa em tela, esta 
discussão ganha destaque com foco no cuidado de enfermagem. 
No caso do Brasil, algumas das produções recentes vêm abordando a 
temática. O estudo de Schwonke e colaboradores (2011) traz uma reflexão acerca 
Fatores externos às 
práticas de cuidar 
Relação com a equipe 
multiprofissional/médicos 
Condições de trabalho 
116 
 
do uso da tecnologia no cuidado de enfermagem ao doente crítico em terapia 
intensiva, na defesa de um cuidado com as máquinas. Nesta perspectiva, 
posicionam-se a favor da necessidade de análise da função relacional dos aparelhos 
com a enfermeira, o doente e o ambiente de cuidado, para que se obtenha uma 
maior chance de efeitos terapêuticos positivos. Os autores propõem repensar as 
tecnologias chamadas de duras como um estar com o doente crítico, ou seja, 
significa deixar de lado o entendimento de que ao se cuidar da máquina se esquece 
aquele que de certa forma depende dela. 
Portanto, argumenta-se que a tecnologia dura não é contrária ao contato 
humano, mas considerada um agente e um objeto desse encontro, podendo remeter 
ao senso de humanizar mesmo em um local altamente tecnológico como é o de 
terapia intensiva. É primordial então estabelecer novas relações harmônicas entre o 
cuidado e a tecnologia, nas quais esta última seja percebida como um instrumento 
de visualização do humano (SCHWONKE e colaboradores, 2011). 
Méier e colaboradores na sua publicação de 2010 acrescentam a questão 
ética como balizadora quando abordam sobre a tecnologia. Estes autores (op. cit.), 
ao partirem de um conceito abrangente de tecnologia em enfermagem questionam a 
sua interface com a ética. Define-se na investigação que a tecnologia no âmbito da 
enfermagem ultrapassa a existência de um produto palpável, pois implica em utilizar 
saberes, compreende métodos e processos envolvidos no cuidado, dos quais 
emergem determinados dilemas éticos. 
Dentre os resultados da pesquisa, do que importa para o que ora se 
apresenta, salienta-se o eixo denominado a ética e o uso da tecnologia de 
enfermagem, que engloba pontos como o conhecimento empregado, os benefícios 
da sua aplicação e o acesso à tecnologia, e que ressalta a importância de um 
117 
 
exercício reflexivo e do amparo em princípios éticos que embasam a profissão 
quando da utilização de tecnologias numa concepção ampliada, e na tomada de 
decisões concernantes a ela (MÉIER e colaboradores, 2010). 
Marques e Souza (2009) retomam o diálogo sobre a humanização em 
ambientes intensivos, buscando articulações com a inserção da tecnologia neste 
cenário. Neste ínterim, considera-se a utilidade das tecnologias na preservação do 
estado clínico e manutenção da vida do cliente, favorecendo ações imediatas e 
segurança à equipe. Todavia, acredita-se que ela possa contribuir para o abandono 
do cliente, sendo necessário que haja a sua integração com os pilares da 
humanização, através de elementos como o acolhimento, respeito ético e cultural do 
paciente, satisfação dos profissionais e usuários. 
A abordagem das tecnologias em investigações de outros países também 
possui algumas similaridades. É o que mostra, por exemplo, este estudo divulgado 
em 2009 pelo European Journal of Disability Research. O problema de partida que 
se coloca é que o calor do cuidado é frequentemente posto em oposição à frieza da 
tecnologia, mas seria esta uma oposição significativa? Segundo os pesquisadores 
inúmeros trabalhos concebem a relação entre o homem e as tecnologias como 
sendo puramente racional e instrumental, e nestes, as tecnologias são vistas como 
meios funcionais a serviço de fins humanos (POLS, MOSER, 2009). 
Entretanto, preferem se apoiar em um segundo grupo de dados de 
pesquisas, os quais colocam em evidência a maneira como as tecnologias e seus 
utilizadores se reconfiguram reciprocamente nas suas práticas particulares. Neste 
sentido, com base em documentários e material etnográfico, a partir dos quais foi 
feito o aprofundamento das relações estabelecidas com as tecnologias de cuidado, 
dos valores em jogo, das identidades produzidas na interação, os autores alegam 
118 
 
que a oposição entre a frieza da tecnologia e o calor do cuidado não se sustenta, 
pois existem diferentes conexões entre as pessoas e as tecnologias nos seus 
contextos de uso, as quais permitem criar variados laços afetivos e sociais (POLS, 
MOSER, 2009). 
Já o artigo da Revue Européene de Psychologie Appliqué de 2010 propôs 
uma crítica à noção de aceitação das tecnologias ao analisar o paradigma da 
aceitação. Isto porque humanos e tecnologias estão ligados por relações estreitas, e 
do que se pode falar de simbiose humano-máquina. A avaliação da aceitação das 
tecnologias conduz a considerar que elas não devem ser entendidas como um corpo 
estrangeiro que o homem deve aceitar ou recusar, mas como uma parte de nós 
mesmos, que do ponto de vista metafórico se comporta como uma simbiose. 
Quando o homem e máquinas começam a formar unidades coerentes e 
indissociáveis, esta interface entre o homem, a máquina e a organização pode ser 
apreendida como uma relação simbiótica, marcada por forte dependência, e sendo 
esta a melhor perspectiva para explicá-las (BRANGIER; HAMMES-ADELÉ; 
BASTIEN, 2010). 
O aspecto moral implicado no emprego das tecnologias está presente nas 
ideias de O’Keefe-McCarthy (2009) na revista inglesa Nursing Ethics, segundo a 
qual há a necessidade de um exame moral dentro do contexto tecnologicamente 
mediado da UTI. Por meio de uma análise reflexiva, pontua-se que ao informar e 
direcionar a assistência de enfermagem, a tecnologia muda a dinâmica moral e 
social do binômio enfermeira-paciente, pois quando as enfermeiras aplicam-na para 
interpretar e avaliar os resultados produz-se uma distância que ascoloca em 
posições de poder como autoridade epistêmica constrangendo os pacientes. Desta 
maneira, tenta-se mostrar como a tecnologia modifica a forma de compreensão das 
119 
 
enfermeiras, oferecendo subsídios para a discussão ética da tecnologia e seu 
impacto na prática moral das enfermeiras. 
À conta do exposto pelos estudos que servem de base à interpretação, bem 
como tendo em vista os dados apresentados na interlocução da classe 1 do Alceste 
com a observação sistemática, afirma-se que o discurso das enfermeiras sobre a 
sua prática de cuidar no ambiente da terapia intensiva perpassa as 
tecnologias/maquinários aplicadas às situações de atendimento ao cliente, a partir 
das funções que são atribuídas a elas no contexto da assistência, qual seja quando 
utilizada numa perspectiva pragmática de atenção direta ao cliente, ou ao ocupar um 
papel destinado ao gerenciamento das ações de cuidar. 
Sob esta ótica, ambos os usos feitos destes recursos tecnológicos pelas 
enfermeiras vêm demarcado por uma atribuição de sentido, na qual sobressai uma 
ideia de dualidade envolvendo os pólos aproximação e distanciamento do cliente, 
onde estar próximo incute um sinônimo de ter melhores condições para o respeito às 
suas necessidades físicas e psicossociais no intermédio com os aparelhos, 
enquanto que a distância assume uma conotação negativa de desvalorização dos 
aspectos humanos e manejo operacional das informações fornecidas, tendo esta 
última um tom narrativo de desaprovação no exercício profissional. 
Esta característica extraída na composição da fala das enfermeiras sobre a 
prática que se reporta às tecnologias tem fundamento nas normas e valores próprios 
que integram, desde a sua constituição histórica, a profissão de enfermagem no 
mundo e que foi se configurando ao longo do desenvolvimento e evolução 
profissional elemento fundamental da sua identidade, e que seria, inclusive, um 
aspecto diferenciador da atuação de outros membros da equipe multiprofissional. 
120 
 
Um relato importante que sustenta esta análise é o de Carvalho (1997, p.10), 
importante pensadora da enfermagem brasileira, quando diz: 
os valores ético-profissionais estão integrados no corpus do 
conhecimento da enfermagem. Eles estão nas leis e nos códigos e 
fundamentam os processos éticos, disposições e normas que 
regulam a enfermagem (...). Na vida profissional somos obrigados 
moralmente a considerá-los, respeitá-los, a ponderá-los e a cumprir 
suas determinações. Tal como entendo, os valores da enfermagem 
fundamentam-se em uma ética da “dignidade do homem” e como 
princípios os que constam nos documentos básicos da profissão. 
 
 Ela cita ainda que no código de ética profissional consta o tipo de relação 
que a enfermeira deve manter com o indivíduo, a qual sublinha: “exige-se da 
enfermeira consideração aos cuidados de enfermagem, não só pela promoção do 
conforto físico, emocional, espiritual, mas pelos requisitos adequados a um ambiente 
terapêutico e propício ao respeito dos valores, costumes e crenças individuais” (op. 
cit., p. 10). 
Portanto, o uso da tecnologia, não obstante traga inúmeros benefícios, 
sobretudo no que concerne à objetividade no cuidado prestado pela enfermeira ao 
cliente, apela pelo respeito aos valores profissionais através de uma postura com o 
cliente de resolução das suas necessidades de maneira integral, já que, ao 
contrário, a valorização da dignidade humana seria posta em “cheque”. Isso exprime 
ainda os limites da tecnologia e o fato dela não ser por si. 
Assim, verifica-se que os argumentos em torno dos usos feitos pela 
enfermeira da tecnologia se inscrevem em um território de pertença social e de 
identidade. Tais aspectos têm relevante implicação quanto às representações 
sociais. As concepções de Jovchelovitch (2008) contribuem neste trabalho 
elucidativo. Ao entender a noção de comunidade como um espaço social que se 
define pelos atores, refere que nestas comunidades se elaboram saberes comuns 
que fornecem a seus integrantes referências e servem de baliza para uma 
121 
 
construção de sentido sobre as coisas ao seu redor, a partir das quais estabelecem 
interface entre suas histórias individuais com a vida em comunidade. Estes saberes 
comuns produzem um sentimento de pertencimento, de forma que as histórias 
individuais estão imbricadas por acontecimentos, formas culturais e modos de se 
comportar de toda a comunidade. 
Por bem dizer, se referem ao quem da representação, por meio do qual se 
conhece as condições de produção de um saber. Significa então, que quando fala-
se do quem recupera-se a questão da identidade e o fato de que nos atos de saber 
as pessoas representam a si mesmo e aos outros. Desta maneira, representações 
trazem em si identidade, cultura e história de um grupo de pessoas, são 
impregnados de memórias sociais e pertencimento que atestam a inscrição do 
sujeito no grupo (JOVCHELOVITCH, 2008). 
A existência de formas de agir diversificadas das enfermeiras quando se 
refere ao ambiente de cuidados intensivos tem sido veiculada em produções 
recentes da área da enfermagem. Um dos objetos de preocupação dos profissionais 
deste campo, acerca das diferenças na maneira de cuidar, diz respeito à 
implementação de tecnologias na assistência. Silva e Ferreira (2011) ao 
identificarem as representações sociais das enfermeiras sobre a tecnologia presente 
no CTI, relacionando-as a formas particulares de agir destas no cuidado ao cliente, 
traz evidências destas marcas pessoais do cuidado. 
Nesta pesquisa referenciada (op. cit.) a tecnologia se apresenta como um 
ente desconhecido a enfermeira novata, o qual possui especificidades relativas à 
manipulação e consequente interpretação dos dados que se repercutem na 
necessidade do seu domínio. Assim, sublinha a importância de uma espécie de 
letramento tecnológico para esta enfermeira como um requisito para cuidar. A 
122 
 
justificativa para tal letramento é que para o domínio da tecnologia e o cuidado 
integral ao cliente, a novata precisa aprender os modos de comunicação da 
tecnologia, pois, caso contrário, o cuidado torna-se interditado. Contudo, frente à 
esta demanda de aprender sobre a tecnologia tem aquelas que querem e as que 
não querem investir na aprendizagem. As que aceitam adotam estratégias próprias 
para conhecer, enquanto as que optam pela segunda alternativa se distanciam do 
cliente ou se acomodam, alegando fatores como a escolha do setor, acolhimento 
dos colegas, gosto pelo tipo de trabalho (SILVA; FERREIRA, 2011). 
Ao encontro desta linha de pensamento, as interrogações de Santana e 
Fernandes (2008) sobre o processo de capacitação profissional das enfermeiras de 
UTI de um hospital geral da cidade de Salvador/Bahia acrescentam alguns 
elementos interessantes. Entendendo o CTI como um setor onde as transformações 
advindas da inserção tecnológica são velozes, introduzindo novos sistemas e 
aparelhagens, a enfermeira se depara com a necessidade do processo de 
capacitação, que se conforma como uma prática interna e social. 
Dentre os núcleos de sentido apontados tomando como referência a análise 
de conteúdo realizada, se destaca neste momento: a sofisticação tecnológica como 
um fator, que inserido nas reformulações atuais da saúde e nos paradigmas 
contemporâneos impulsiona a capacitação profissional da enfermeira na busca de 
novos conhecimentos e habilidades técnicas que garantam a qualidade da 
assistência; os aspectos individuais e coletivos da organização interferindo na 
capacitação da enfermeira. 
 Quanto a este último núcleo, percebeu-se nos treinamentos oferecidos pela 
instituição que a participação era baixa das enfermeiras, guardando explicações com 
os aspectos organizacionais e individuais, tais como ausência de horário, falta de 
123 
 
recursos financeiros, dificuldade de conciliação com outras atividades, desmotivação 
pelo tempo de trabalho e falta deinteresse. Desta maneira, conclui-se que a 
capacitação profissional da enfermeira intensivista está permeada de determinantes 
históricos, sociais e também pessoais que impactam na aquisição de saberes frente 
a um contexto de trabalho contraditório e complexo (SANTANA; FERNANDES, 
2008). 
Estas bibliografias sinalizadas ajudam a remarcar como o conhecimento 
termina por se configurar um componente fundamental no contexto assistencial da 
terapia intensiva, sobretudo quando pensado no contraponto com os avanços 
tecnológicos. Esta afirmação é ratificada por uma investigação brasileira conduzida 
sobre o enfoque das representações sociais acerca do trabalho da enfermeira no 
CTI, mediante o rastreamento do núcleo central e periférico (SILVA; CRUZ, 2008). 
Conforme as autoras (op. cit.), a dinâmica que se desenvolve neste local, onde 
incidem aspectos como a interação com a equipe multiprofissional, a proximidade 
com a morte, tensão e conflitos fornece condições para a construção de 
representações sociais. 
Com base nas evocações livres de 90 enfermeiras sobre a questão foco, 
emergiram duas categorias centrais: o trabalho da enfermeira em UTI associado ao 
estresse e responsabilidade, do qual participam elementos como conhecimento, 
compromisso, atenção, exaustivo, cansativo; e trabalho da enfermeira em UTI 
associado à assistência integral e gratificação, onde fazem parte a dedicação, o 
amor, o trabalho em equipe e autonomia. A interpretação proposta pelo trabalho 
indica que a característica de centralidade de ser uma prática estressante e de 
responsabilidade, tem interface com o conhecimento adquirido pelos profissionais 
124 
 
diante das transformações e dos desafios impostos pela atualidade, dando 
sustentação ao significado atrelado à categoria. 
Além disso, o fato de ser cansativo e exaustivo justifica a qualidade de 
estressante. Outro resultado que merece ser pontuado são os conteúdos periféricos, 
os quais se organizam em torno do núcleo central. Assim, a despeito de ser um 
trabalho estressante, de responsabilidade e englobando uma assistência integral, 
faz sobressair os atributos pessoais e profissionais para quem lá vai atuar, tais como 
competência, discernimento e união de um lado, e dinâmico, paciência, esforço de 
outro (SILVA; CRUZ, 2008). 
 Este perfil profissional também encontra respaldo em pesquisas que 
abordam avaliações da assistência de enfermagem na terapia intensiva 
recentemente publicadas em periódicos conceituados na literatura, como é o caso 
da de Balsaneli e colaboradores (2008), Bucchi e Mira (2010), Silva (2011). Há 
confluência na discussão dessas produções científicas quando se pautam na 
complexidade do cuidado intensivo, onde dimensões objetivas e subjetivas 
impactam ativamente, para ressaltar a preocupação com a atuação da enfermeira, já 
que esta precisa assistir de maneira segura, ética e com qualidade. Por conseguinte, 
em virtude das peculiaridades do ambiente de cuidado acentua-se a questão das 
competências e habilidades do profissional, formando o que poderia ser denominado 
de figura tipo da enfermeira intensivista. 
A competência das enfermeiras necessária para o desempenho do trabalho 
no CTI tem assento em pesquisas internacionais, o que reforça a interrogação sobre 
quem pode atuar neste local. As professoras norte-americanas Kendall-Gallagher e 
Blegen (2009) realizaram uma pesquisa cujo objetivo era explorar a relação de 
enfermeiras certificados na equipe e o risco de danos ao paciente. Elas explicam 
125 
 
(op. cit.) que o nível de conhecimento e julgamento desempenha papel importante 
na prevenção dos eventos adversos, e, apesar de ser uma área nova, aconselham 
sobre a associação entre a certificação na especialidade, competência clínica das 
enfermeiras e segurança dos pacientes. 
Embora tenham um discurso cauteloso e recomendem mais investigações, 
demonstram que a proporção de enfermeiras certificadas foi inversamente 
relacionada com a taxa de quedas, e o número de anos de experiência das 
enfermeiras da unidade inversamente relacionado à frequência de infecções do trato 
urinário, indicando que existem ligações entre a competência das enfermeiras e a 
segurança dos pacientes (KENDALL-GALLAGHER; BLEGEN, 2009). 
Em estudo francês de 2006, intitulado práticas avaliativas da formação da 
enfermeira e competências profissionais (ROBERTON, 2006), o desenvolvimento de 
competências pela enfermeira que deem conta das demandas sanitárias da 
população em conformidade com as políticas de saúde ganha relevância. Neste 
sentido, coloca como cerne a avaliação de tais competências, a qual deve ser 
centrada na identificação das situações, dos conhecimentos teóricos associados, 
nas capacidades profissionais desejadas, devendo ser pensada em termos de 
processo e não simplesmente quanto a produto e métodos. Levanta-se, portanto, a 
pergunta sobre o lugar das competências profissionais nos dispositivos atuais de 
formação da enfermeira, denotando também a existência desta preocupação em 
outros países (ROBERTON, 2006). 
Os resultados da classe 2 do Alceste apoiados no debate atual da temática 
permitem ilustrar o entrelaçamento do individual e social implicado na emergência 
deste sub-tema ligado às práticas de cuidar das enfermeiras no CTI. A explicação 
para isso tem o seguinte fundamento: por um lado as informações que circulam no 
126 
 
meio acadêmico/científico/profissional referentes ao campo especializado da terapia 
intensiva vinculam a necessidade de conhecimento aprofundado sobre os domínios 
de atuação profissional nesta área, bem como a busca pela renovação constante 
dele para o atendimento das demandas do moderno. Além disso, reafirmam a 
constituição de uma figura idealizada de enfermeira, a qual porta determinados 
atributos que a qualifica como um tipo adequado ao fornecimento da assistência que 
acontece neste ambiente. 
 Este “social” cria uma espécie de norma que regulamenta e serve de 
referência para as enfermeiras intensivistas, principalmente quando analisadas em 
relação às enfermeiras de outros campos de saber; por outro lado revelam como a 
enfermeira se comporta diante disso, a esfera da singularidade, que posição ela 
assume quando toma em consideração estes elementos socialmente 
compartilhados, sem perder de vista a dimensão da experiência, dos valores e dos 
afetos que este social mobiliza nelas. 
Estes processos envolvidos nas perspectivas desenvolvidas pelas 
enfermeiras para cuidar dos clientes leva a retomar alguns pontos trazidos por 
Jovchelovitch (2008) ao tratar dos contextos do saber e interrelacioná-los com as 
representações sociais. A autora (op. cit.) coloca os saberes partilhados como um 
algo permeado de sentido que já está ali, pronto, algo definido que fornece aos 
participantes deste espaço social (comunidade) normas, regulamentações e padrões 
de comportamento, mas que também se reconstitui no cotidiano. 
Sob esta ideia e apoiando-se em outros teóricos, utiliza-se do exemplo do 
“pensar costumeiro” para fazer alusão ao estranho. Isto porque o estranho tem 
dificuldade de entender regras de comportamento e modelos de pensamento que 
são familiares àqueles que já fazem parte do grupo, e, consequentemente, 
127 
 
comporta-se de maneira “estranha” pela distância que existe em relação ao pensar 
costumeiro desta comunidade, o que atesta o papel dos saberes comuns na 
experiência do pertencimento (JOVCHELOVITCH, 2008). 
Esses pontos de referência comuns podem ser utilizados para tomadas de 
posição diferentes, o que responde pelas representações sociais, refere Doise 
(2001). Doise (op.cit., p.193) continua, “representações sociais são tomadas de 
posição simbólicas organizadas de maneiras diferentes (...) em cada conjunto de 
relações sociais, princípios ou esquemas organizam as tomadas de posição 
simbólicas ligadas a inserções específicas nessas relações”. 
As representaçõessociais ao abarcarem tais posições retratam as atitudes 
perante uma entidade social dada, as quais, por sua vez, apresentam uma 
funcionalidade, qual seja a manutenção do vínculo entre membros do mesmo grupo. 
É em parte neste solo da dimensão da atitude das representações sociais que se 
situa a questão dos estilos de cuidar das enfermeiras na terapia intensiva, pois ao 
tempo que tomam um posicionamento de singularidade, notadamente em termos de 
investimento de cada cuidante na busca de informações e constituição de um perfil 
profissional congruente às características do ambiente e do cliente, organizando 
uma prática de cuidar influenciado por estes aspectos, fortalecem o pertencimento 
ao grupo social dando sentido a ele. Entretanto, uma atitude inversa pode também 
gerar um distanciamento deste “social” do grupo, com menor reconhecimento e 
maior estranhamento pelos seus integrantes, mas que pode estar ancorada em 
outros fatores. 
A postura inquieta e ativa da enfermeira na busca pelo conhecimento 
demonstra como o objeto toca estes profissionais e os impulsiona a um agir/iniciativa 
em vista do reconhecimento do grupo que marca seu estilo de cuidar. 
128 
 
A interação da enfermeira com a equipe multiprofissional conforma-se em 
um assunto que é encontrado na literatura associado com diferentes sub-temas tais 
como a qualidade assistencial, motivação para o trabalho, estresse, sofrimento, 
dentre outros. A recorrência deste tipo de inquietação possivelmente se ampara no 
fato de que as unidades de terapia intensiva, como locais voltados ao tratamento e 
recuperação de clientes com condições clínicas graves e complexas, reúnem no seu 
interior uma variedade de profissionais e especialidades, os quais encontram na 
imagem da enfermeira uma referência neste ambiente, e em torno da qual, 
teoricamente, deveria se produzir um diálogo interdisciplinar. Porém, uma série de 
evidências a nível mundial mostra que esta, por diversas razões históricas e sociais, 
ainda é uma situação delicada no âmbito do fazer profissional da enfermeira. 
Exemplo disso pode ser visualizado quando se observa os sentimentos de 
sofrimento no trabalho das enfermeiras de UTI, apresentado por Martins e Robazzi 
(2009). Estas consideram que a realização de uma atividade laboral com sofrimento 
origina o estresse decorrente do trabalho, sendo que este último, em se tratando do 
CTI, já envolve em si várias condições específicas que o tornam percebido como 
desgastante. Através de entrevista a 8 enfermeiras, duas categorias foram 
construídas: o sofrimento no trabalho das enfermeiras de UTI, e as estratégias 
defensivas utilizadas pelas enfermeiras. 
Nestas, identifica-se o trabalho em equipe como fonte do sentimento de 
ansiedade e com interferência negativa no cuidado, principalmente em termos do 
cumprimento das responsabilidades individuais. Portanto, diante disso, salienta-se a 
importância da promoção do interrelacionamento entre os membros da equipe, como 
um recurso que propicia um melhor compartilhamento de experiências e 
comportamento colaborativo por meio do diálogo (MARTINS; ROBAZZI, 2009). 
129 
 
Tal relacionamento interpessoal também aparece em um inquérito feito com 
235 enfermeiras de Portugal publicado no Brasil em 2011, e que retoma os fatores 
geradores do estresse em enfermeiras de UTI. A coleta dos dados englobou 
instrumentos para apreensão das variáveis sócio-demográficas e relacionadas ao 
trabalho, escala de relações interpessoais e índex para o estresse. Dentre os 
achados relevantes, verificou-se numa associação estatística significativa que 
quanto pior é a relação interpessoal maior é o nível de estresse das enfermeiras, em 
consonância com o que afirmam outros investigadores, devendo este ser foco de 
intervenção (RODRIGUES; FERREIRA, 2011). 
No centro do debate quando se trata da interação enfermeira versus equipe 
estão os profissionais médicos, cujo saber lhes conferem uma estrutura de poder no 
campo da saúde. Os reflexos desta hegemonia vêm sendo colocado à prova pelas 
enfermeiras, todavia, este “jogo de forças” parece trazer implicações de vulto na 
prática assistencial. 
Como parte desta polêmica na França, o caso de dois hospitais foi estudado 
em artigo presente na Revue Française des Affaires Sociales (2005) intitulado “Entre 
médicos e pessoal de enfermagem no hospital público: uma relação social instável”. 
Nele, considera-se as transformações das características sexuais dos profissionais 
médicos e da área de enfermagem, em que constata-se uma feminização da 
medicina e masculinização da enfermagem. O objetivo é então o de compreender 
essa mudança social, ou seja, a divisão sexuada e seus efeitos sobre a construção 
dessa relação social. Desta maneira, analisam-se os efeitos da modificação da 
divisão sexual do trabalho na relação social entre médicos e pessoal de enfermagem 
(PICOT, 2005). 
130 
 
Foi feita a observação de duas unidades de hospitalização e 70 entrevistas 
semi-diretivas com o pessoal do serviço hospitalar. O conjunto de informações 
demonstra um modelo de relação social muito mais complexa, no qual as novas 
modalidades de gênero conferem um caráter de instabilidade. No primeiro cenário 
estudado, com um predomínio de médicos homens, tal instabilidade se traduz por 
um conflito direto entre as duas categorias, resultado de uma ordem sexuada 
tradicional, onde os médicos são os homens e as mulheres as enfermeiras, numa 
configuração fortemente hierarquizada em que existe uma divisão entre concepção e 
execução que separa médicos e enfermeiras. 
 No outro, mais marcado pela presença de médicos do sexo feminino, e que 
acreditava-se na tendência de uma solidariedade de gênero das médicas com as 
enfermeiras em virtude dos valores femininos, evidencia-se um efeito inverso no 
desenvolvimento da solidariedade entre gênero, isto é, as médicas mulheres tentam 
se afirmar enquanto médicas, buscando se diferenciar das enfermeiras e de tudo 
aquilo que possa remeter ao gênero feminino (PICOT, 2005). 
Ainda no que tange ao contexto em que se insere a assistência de 
enfermagem na terapia intensiva, encontra-se em forte ascensão a abordagem de 
problemáticas que se repercutem no produto final que é ofertado ao cliente, 
incluindo fatores organizacionais e estruturais como dimensionamento de pessoal, 
carga de trabalho e disponibilidade de recursos materiais. Quanto ao primeiro item, 
uma revisão recente da literatura mundial concernante à influência do 
dimensionamento da equipe de enfermagem na qualidade do cuidado ao paciente 
crítico (VERSA e colaboradores, 2011) traz dados que subsidiam o conhecimento da 
magnitude deste aspecto. 
131 
 
Através de diferentes pesquisas captadas, as autoras sinalizam as 
implicações da subestimação do quantitativo da equipe de enfermagem. Isto porque 
a redução do número de funcionários contribuiu na produção de condições como: 
alta taxa de extubação e aumento da necessidade de reintubação por extubação 
acidental, com o aumento de complicações como a infecção hospitalar; elevação do 
índice de quedas e das intercorrências oriundas dessas; aumento do risco de 
infecção hospitalar. Logo, dimensionar a equipe de enfermagem levando-se em 
conta as características de gravidade da clientela resulta pensar nos custos, na 
prevenção das ocorrências, na satisfação dos profissionais, e, por fim, na qualidade 
da atenção prestada (VERSA e colaboradores, 2011). 
Este tema da satisfação/insatisfação veio à tona, por exemplo, quando 
Salomé, Espósito e Silva (2008) perguntaram aos profissionais de enfermagem de 
uma UTI como eles se sentem em trabalhar neste setor. A partir de uma análise 
fenomenológica, dentre os objetos elencados como de insatisfação estavam a falta 
de materiais e funcionários, a qual suscita sentimentos de frustração, impotência e 
desvalorização em virtude das repercussões que gera nas ações profissionais.Os sujeitos entrevistados associam tais déficits com os possíveis riscos 
prejudiciais ao cliente, sobrecarga de atividades e aumento do desgaste físico e 
mental, o que, por sua vez, se repercute sobre o modo de lidar com o cliente, 
geralmente demarcado pela correria, falta de tempo e tendo como pano de fundo o 
estresse. Então, entendem como primordial refletir sobre as condições de trabalho 
(SALOMÉ; ESPÓSITO; SILVA, 2008). 
A carga de trabalho dos profissionais da UTI também aparenta ser 
interessante fazer parte dessa análise, já que a sobrecarga e o cansaço advêm 
justamente pelo excesso de atividades frente às circunstâncias inapropriadas. 
132 
 
Algumas investigações vêm se mobilizando nesta direção, na tentativa de mensurar 
a carga de trabalho, com vistas a melhorar/estruturar a distribuição de recursos 
humanos nesta unidade. 
Padilha e colaboradores (2011) retratam esta afirmação, já que estiveram 
interessados em medir a carga de trabalho em uma UTI especializada, verificando 
sua associação com determinadas variáveis. A carga de trabalho medida foi em 
média 66,60%, isto é, os clientes requeriam em média 5,30 horas de trabalho direto 
da enfermagem, entendida como uma carga elevada. Além disso, as variáveis 
demográficas e clínicas não tiveram interferência na mensuração da carga de 
trabalho, indo de encontro ao pressuposto inicial, embora haja limitações por tratar-
se de uma UTI especializada. 
A conclusão que se chega a partir da apreensão dos dados da classe 4 em 
paralelo com o conhecimento atual produzido pelos estudiosos desta área é que ao 
falarem sobre sua prática de cuidar na terapia intensiva as enfermeiras revelam a 
incidência de dois fatores contextuais a saber: um saber/poder médico 
historicamente constituído, que se manifesta, sobretudo, em virtude da aquisição de 
novos conhecimentos e habilidades pela enfermeira, a qual lhe capacita para 
assumir determinadas tomadas de decisão no âmbito do cuidado, e que, nesta 
medida, ao se confrontar com uma figura médica que supostamente estaria numa 
posição hierárquica superior, responsável pela prescrição das atividades é origem 
de desentendimentos e possíveis embates inter-profissionais; uma política 
institucional inserida em um cenário sócio-econômico que exige um maior nível de 
produtividade com o menor número de gastos possíveis, e, neste sentido, as 
enfermeiras se deparam com o escasso número de recursos humanos e materiais. 
133 
 
Esta explicação é corroborada por diferentes autores que ajudam a fomentar 
a interpretação. No que se refere ao fator institucional, aponta-se a interferência de 
um modelo econômico baseado no capitalismo, o qual gerou uma mudança no 
processo de organização do trabalho, caracterizado na atualidade por uma 
expressiva precarização refletida no trabalhador (CAVALCANTE, 2006; SILVA, 
2006; SOUZA, 2009). 
No caso da relação social entre médicos e enfermeiras, Picot (2005) 
compara-a a uma relação do tipo conjugal, na qual nesta ordem social as 
enfermeiras devem se adaptar ao médico, a sua prática de trabalho, hábitos e 
disponibilidade. As cuidantes, como as mulheres na esfera familiar estão em 
disponibilidade permanente. O modelo do chefe de família e provedor de recursos, e 
da mulher guardiã do cuidar está reproduzido, onde existe uma divisão sexuada das 
tarefas, mas sem desfrutar do mesmo reconhecimento e visibilidade social, já que a 
dependência profissional ao monopólio médico caracteriza a construção das 
profissões que se localizam na periferia. 
Este contexto de produção de sentidos tem papel fundamental na escolha de 
uma forma de pensamento em detrimento da outra, conforme nos diz Moscovici 
(2003). Segundo ele (op. cit.) a maneira como as pessoas tratam a informação 
depende do contexto em que esta se inscreve e de todos os aspectos que se 
encontram a ela articulados, fazendo emergir as diferentes causas. Newton, por 
exemplo, ao falar da maçã pensou-a em um contexto que excluía o vento, a 
maturação do fruto etc (MOSCOVICI, 2003). 
Jovchelovitch (2008) o complementa afirmando que o significado e o 
contexto são inseparáveis na representação, isto é, as representações são 
elaboradas em um contexto de relação eu-outro, de característica emocional, social, 
134 
 
cultural e historicamente determinada. Assim, entende-se que os sujeitos constroem 
uma forma de pensar tendo em vista as exigências do ambiente social, bem como 
da sua configuração psicossocial. 
 Nesta direção então, ao se orientar por estes fundamentos teóricos 
abarcados na teoria das representações sociais, reconhece-se que as relações 
profissionais e condições de trabalho vivenciadas pelas enfermeiras estão situadas 
em um campo macro-contextual que se delineia de especificidade, e que é acessado 
por estas profissionais na estruturação de uma lógica que sustenta suas narrativas 
sobre a prática de cuidar própria em face das tecnologias na terapia intensiva. Além 
disso, os estilos de cuidar adotados podem ter como pano de fundo os reflexos da 
sua interferência. 
Ao pensar no objeto em causa nesta pesquisa a partir da articulação 
metodológica efetuada, e em função dos resultados que esta conduziu a identificar, 
afirma-se que as representações sociais das enfermeiras da terapia intensiva acerca 
das suas práticas de cuidar neste cenário se organizam tendo como base a 
atribuição de sentido que conferem à tecnologia e que a coloca em dois blocos 
funcionais, um pragmático e um organizativo, entre os quais figura uma questão 
valorativa e identitária da profissão que serve de referência para os usos que se faz 
desta tecnologia, tendo em vista o grupo social de pertença. 
 À luz destas funcionalidades da tecnologia, ou seja, dos sentidos que a 
enfermeira constroi para ela considerando os valores profissionais, orientam sua 
prática de cuidar diante do cliente. Implica em dizer assim que assumem um 
comportamento frente ao socialmente instituído, acerca da necessidade de domínio 
constante do conhecimento e aquisição dos atributos profissionais que irão sustentar 
a aplicação das tecnologias em tal ambiente, e que o faz dar forma a um estilo 
135 
 
singular de cuidar. Para tanto, entra no lócus contextual, que está retratado no seu 
cotidiano através do contato com outros profissionais e condições de trabalho, que 
contribuem para explicar as escolhas feitas. 
Nesta medida, as relações que se estabelecem entre as classes 1, 2 e 4 
originadas pelo Alceste possibilitam destacar dois estilos de cuidar: um no qual a 
enfermeira é um agente ativo e criativo, marcado pelo maior acesso à face funcional 
cuidativa da tecnologia, através da avaliação/identificação/previsão/direcionamento 
dos acontecimentos, considerando o fato da maior proximidade ao cliente e a 
atenção às suas necessidades físicas e psicossociais (classe 1). Este uso é 
mediado por um conhecimento constantemente renovado pelo profissional, reflexo 
de determinadas qualidades/atributos adquiridos (classe 2). Tal formato assistencial 
reforça os valores profissionais e se inscreve na identidade social do grupo na 
terapia intensiva, fortalecendo o sentimento de pertencimento. 
O outro estilo de cuidar em que o profissional assume uma postura mais 
passiva expressa-se pela maior utilização à face funcional de cunho administrativo 
da tecnologia, por meio da qual gerencia-se o cuidado do cliente à distância 
(valorizando-se as ações administrativas), aproveitando-se dos benefícios advindos 
da implementação dos recursos tecnológicos, os quais facilitam seu processo de 
trabalho (classe 1). Este uso justifica-se por fatores como: ausência de certas 
características que integram o perfil desejado de atuação no setor, e que 
substanciariam um maior domínio do conhecimento, levando-o, como consequência, 
a orientar-se pela tarefa, e fazer apenas aquilo que está programado/protocolizado 
(classe 2); pelo apoio em aspectos estruturaisque dizem respeito ao contexto em 
que se circunscreve o trabalho das enfermeiras, e dos quais ganham evidência as 
relações interprofissionais e condições de trabalho, como argumentos para uma 
136 
 
passividade diante da assistência ao cliente, gerenciando através da tecnologia a 
evolução do cliente (classe 4). 
Este estilo de cuidar, por sua vez, vai de encontro aos elementos que 
reforçam a identidade da profissão, sendo, inclusive, foco de intensos debates ao 
redor da atuação da enfermeira nesta área, bem como se distancia da atitude que se 
espera dela quando analisada sob a ótica do vínculo compartilhado, já que nos 
dados sobressai a noção de um uso não favorável da tecnologia. 
Todavia, defende-se a ideia de que a prática de cuidar das enfermeiras na 
terapia intensiva se constroi e reconstroi no cotidiano de assistir, e, neste sentido, é 
que acredita-se que as enfermeiras elaboram e re-elaboram o uso que fazem da 
tecnologia no seu dia-a-dia, onde incide o individual e o social, que influenciam na 
maior utilização da face cuidativa ou organizativa, permitindo-as circular pelos dois 
pólos em maior ou menor intensidade. 
Este cruzamento entre as classes, na conformação das representações 
sociais do fenômeno em estudo, também está expresso na classificação hierárquica 
descendente, na qual se observa a formação inicial da classe 1 em separado, 
seguida pela subdivisão entre as classes 2 e 4, mais próximas. Ao reportar tal figura 
para análise verifica-se de um lado um relato sobre a tecnologia (classe 1), 
acompanhado do outro pelos fatores que interferem no seu uso (classe 2 e 4), quais 
sejam os pessoais/profissionais (classe 2) e os estruturais/contextuais (classe 4). 
Ao mesmo tempo, quando toma-se em conta as variáveis psicossociais e 
demográficas que se ligam com maior força nesta elaboração em torno do sentido 
da tecnologia nota-se: sexo masculino, mais jovens e com menos tempo de 
formado, turno noturno, não católicos e que escolheram o setor. Este conjunto de 
variáveis permitem fazer um certo número de considerações e hipóteses. Quanto ao 
137 
 
gênero, revela-se nos homens a marca do tecnicismo ao se reportarem a uma 
dimensão avaliativa dos usos da tecnologia, o que levanta o pressuposto, no 
interesse da questão em discussão, da existência de diferenças entre homens e 
mulheres na maneira como incorporam/lidam com as tecnologias no cuidado. 
Este pressuposto pode se fundar em estudos que se baseiam na variável 
gênero para abordar a análise das tecnologias. Nesta ótica, autores realçam 
diferentes correntes que articulam tecnologia e gênero (BEVACQUA; SCHWARTZ; 
MACHADO; VOLPATO; SILVA, 2003). Dentre elas, por exemplo, destaca-se uma 
concepção em que o poder econômico, político e social masculino é visto como de 
grande impacto nos modos como as mulheres têm contato com os conhecimentos 
científicos e tecnológicos, criando um grupo de habilidades femininas que incitam a 
subordinação das mulheres às mudanças tecnológicas. 
Além disso, há uma linha argumentativa que compreende que as mulheres 
têm demandas e valores que se diferenciam das dos homens, e então, utilizam a 
tecnologia de forma particular (BEVACQUA; SCHWARTZ; MACHADO; VOLPATO; 
SILVA, 2003). Os homens estariam, portanto, mais voltados à concepção enquanto 
as mulheres à prática em relação à tecnologia. 
No que tange à dimensão da experiência implicada, ao analisar as 
representações sociais da tecnologia em vista das diferenças do tempo de 
experiência das enfermeiras já demonstrou-se que estas profissionais organizam o 
pensamento por lógicas contrárias (SILVA, 2011). 
Na pesquisa em tela, não obstante as profissionais mais novas possam ter 
maior dificuldade em lidar com questões assistenciais em consequência da menor 
expertise, as mesmas conseguem facilmente contrastar a realidade vivida com 
aquela recentemente aprendida, integrando inclusive à narrativa pontos polêmicos, o 
138 
 
que sustenta o tom mais crítico-reflexivo sobre a prática em face das tecnologias. 
Acrescenta-se também que as enfermeiras com menos tempo de formação 
geralmente buscam uma maior capacitação do que aquelas com mais tempo de 
trabalho, cujo nível de motivação leva a uma tendência de acomodação. 
Conjectura-se ainda que as enfermeiras noturnas teriam um “olhar” mais 
periférico sobre a prática, englobando itens como perfil, estrutura institucional, 
relações profissionais, conhecimento e análise dos modos de usar a tecnologia, 
aspectos que estão no entorno do fazer profissional. As características do trabalho 
deste turno, em que há uma continuidade das atividades iniciadas durante o período 
matutino, com atenção especial às possíveis alterações do quadro clínico, e 
envolvendo uma etapa de repouso, podem estar de permeio à esta forma de 
elaborar o pensamento. 
O esquema explicativo que se segue apresenta sinteticamente o processo 
de organização das representações sociais, revelando, ao mesmo tempo, algumas 
características ou elementos que ajudam a conformar a linha de ação do profissional 
- estilos de cuidar, na interface com os construtos previamente delineados - cuidado 
e ação tecnológica. 
139 
 
 
 
 
 Pragmático 
 
 
 
 
 
atributos 
 
 
 
 
Uso da face funcional 
cuidativa da tecnologia 
 
 
 
 Proximidade do cliente 
Avaliar/ Identificar 
Direcionar / Prever as 
necessidade 
físicas/psicossociais na 
interface com a tecnologia 
 
Orienta-se pelo saber 
especializado e apoia-se 
nos atributos profissionais 
 
 
 DIMENSÃO DO PENSAMENTO 
 Sentido da tecnologia na TI 
 
 Organizativo 
Valor e identidade profissional 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 CONSTROI 
 COTIDIANO 
 RECONSTROI 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Uso da face funcional 
administrativa da 
tecnologia 
 
Distância do cliente: 
valorizam-se as atividades 
administrativas 
aproveitando-se da 
tecnologia 
 
 
Orienta-se pela tarefa e 
apoia-se nos fatores 
estruturais 
 
 
Figura 10: Esquema explicativo 1 das RS sobre as práticas de cuidado da enf.ª na TI; Fonte: produção do 
pesquisador
Estilo de cuidar: elementos 
do cuidado tecnológico 
Estilo de cuidar: elementos 
da ação tecnológica 
TOMADA DE ATITUDE 
 
ENFERMEIRA 
ATIVA 
Busca do 
conhecimento e 
aquisição dos 
atributos 
profissionais 
APROXIMA DO 
GRUPO 
 Fortalece a identidade social 
 Enfraquece a identidade social 
ENFERMEIRA 
PASSIVA 
Comportamento 
passivo quanto a 
busca do 
conhecimento e 
aquisição dos 
atributos profissionais 
DISTANCIA DO 
GRUPO 
DIMENSÃO DA PRÁTICA 
 
DIMENSÃO DO PENSAMENTO 
 CONTEXTO 
Relações profissionais 
Condições de trabalho 
inadequadas 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 (Vieux Port- Marseille) 
CAPÍTULO 5: 
Apresentação dos resultados
141 
 
5.1 Análise textual através do software Alceste (parte II) 
5.1.1 A condição do cliente e suas repercussões nas práticas de cuidar 
das enfermeiras 
Neste bloco de análise, assim denominado com base nos temas de maior 
relevância, encontram-se as classes 3, 5 e 6. Sua intenção situa-se em pontuar o 
processo de construção do pensamento que as enfermeiras realizam sobre suas 
práticas na terapia intensiva, tendo como referência o estado do cliente. Uma visão 
geral preliminar é exposta no quadro que se segue. 
N° da classe de discurso CLASSE 3 CLASSE 5 CLASSE 6 
Tema geral da classe Cotidiano assistencial da 
enfermeira no CTI 
Prática de cuidar com a 
tecnologia 
As características do 
paciente como indicador 
do trabalho no CTI 
Porcentagemem relação 
ao discurso total 
18,09% do discurso 11,59% do discurso 30,93% do discurso 
 
 
Variáveis Associadas 
Sexo feminino, mais tempo 
de formado, menos jovens, 
turno diurno, católico, não 
escolheu o setor 
Sexo feminino, mais 
tempo de formado, 
menos jovens, turno 
diurno, católica, escolheu 
o setor 
Sexo feminino, menos 
jovens, 2 empregos, não 
especialista, turno diurno, 
não, escolheu o setor 
 
 
 
 Sub-temas 
 
Atividades burocráticas Dados do maquinário Positividade do 
trabalho 
Medicação, fazer, horário, 
prescrição, farmácia, 
médico, livro, manhã 
Alarme, monitor, pressão, 
saturação, pressão 
arterial média, respirador, 
oxímetro, curva 
Gratificante, agradecer, 
bem, voltar, sair, falar 
Atividades 
procedimentais/ 
assistenciais 
 
Avaliação do cliente 
O estado do cliente e a 
ocupação no trabalho 
Banho, curativo, hora, 
sonda, dou, exame, técnico, 
dez 
Verificar, correlacionar, 
dado, perto, clínica, 
mostrando, sinal 
Acordado, sedado, lúcido, 
intubado, paciente, fala, 
ele 
Quadro 6: Classes do discurso associadas ao bloco 2 
 
 
142 
 
5.1.1.1 Classe 3 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 Quadro 7: Classe 3 Alceste 
A classe 3 traduz o cotidiano das enfermeiras da terapia intensiva, 
respondendo por 18,9% do material analisado, com um quantitativo de 406 uce. Tal 
cotidiano está reproduzido nesta classe pelo uso do verbo fazer, bem como pela 
presença nas unidades de contexto elementar do termo ter que. Neste sentido, 
identifica-se que este dia-a-dia é sublinhado pela imperiosa urgência do 
cumprimento de uma série de atribuições relativas ao desempenho do papel de 
enfermeira neste ambiente, formado por questões burocráticas e assistenciais. 
Assim, verifica-se que o uso do verbo fazer (chi²: 111,05) /ter que vem assinalado 
por uma ideia de separação entre suas funções burocráticas e assistenciais. Além 
disso, a palavra burocrática (chi²: 26,5) presente na classificação ascendente e 
ilustrada nas uces é também indicativa desta separação. 
Claro que devia ser todo dia, mas existem milhões de coisas para fazer como você observou muito 
bem, e, então eu tento, em primeiro cuidado, eu quero estar junto, só que tem a burocracia a ser feita. 
(uce 824, enf. 6) 
Classe 3 
 406 uce 
 Chi² Porc. 
Medicação 
Fazer 
Horário 
Banho 
Curativo 
Hora 
Prescrição 
Farmácia 
Médico 
Dou 
Livro 
Sonda 
Técnico 
Chata 
Dei 
Exame 
Dez 
Junto 
Cima 
Manhã 
201,7 
111,0 
96,9 
89,8 
88,1 
76,9 
74,1 
43,4 
43,0 
39,3 
39,0 
39,0 
36,2 
35,0 
31,7 
31,1 
30,9 
30,6 
29,1 
28,8 
73,9 
38,1 
89,2 
54,7 
66,6 
44,4 
81,4 
85,7 
54,1 
74,4 
84,6 
84,6 
44,5 
90,0 
31,7 
46,4 
51,2 
50,0 
29,1 
28,8 
Variáveis: 
Sexo feminino, mais tempo de formado, 
menos jovens, turno diurno, católico, 
não escolheu o setor 
Cotidiano assistencial 
18,09% 
143 
 
 
E porque tinha gente que só queria fazer assistência, não, porque só burocracia é chato, não sei o 
quê, e vai para assistência. (uce 96, enf. 1) 
 
Tem que escrever o que você viu, o que você fez de procedimento, e você fica dividido entre essa 
rotina, essa parte burocrática, tem que agilizar para farmácia, para essa medicação vir logo para o 
paciente. (uce 507, enf. 6) 
 
Até porque é muita coisa, tentando despachar tudo para depois dar seguimento a assistência. (uce 
3222, enf. 19) 
Conforme se observa, a execução de atividades indiretas ao cliente, 
intituladas pelos sujeitos como burocráticas, assume grande relevância nesse 
cotidiano assistencial das enfermeiras de terapia intensiva. Dentre elas está a 
medicação, com destaque na organização desta classe através de palavras como 
medicação (chi²: 201,71), horário (chi²: 96,98), farmácia (chi²: 43,47), prescrição 
(chi²: 74,10), em que é fundamental uma ordenação de ações prévias à 
administração do medicamento ao cliente, que suscitam da enfermeira uma elevada 
atenção e cuidado. 
Existem enfermeiras que não tem o perfil de estar ali naquela parte burocrática, que as coisas as 
vezes não andam, eu preciso dar uma continuidade para o técnico da medicação, para ele fazer a 
medicação. (uce 830, enf. 6) 
 
Você tem um acompanhamento, a prescrição já está aprazada, você só vai tirar, ainda tem as tiras, 
que você tira a medicação para não atrasar o horário, para o técnico administrar a medicação, então 
essa coisa é pesada demais. (uce 1544, enf. 10) 
 
(...) O que é prioridade para o sistema hoje eu tenho que cumprir, porque se eu não faço aquilo de 
perder a manhã quase toda tirando a medicação, a medicação do horário da manhã não vai ser feita 
(uce 755, enf. 5) 
 
Você tem que fazer o medicamento às dez da noite, as vinte e quatro, às duas da manhã, então 
assim, se tem pedido para o banco de sangue você tem que ir lá pegar, se tem gasometria para levar 
ali dentro você faz. (uce 3523, enf. 20) 
De outro lado, das funções que a enfermeira precisa também fazer, estão 
aquelas de cuidado direto ao cliente, as quais passam a ter um cunho procedimental 
na constituição da classe 3, exemplificada pela aplicação de palavras como banho 
(chi²: 89,89), curativo (chi²: 88,12), hora (chi²: 76,94), sonda (chi²: 39,05). 
Vai depender muito da dinâmica do dia (...) eu gostaria sempre de poder, de todos os dias poder 
acompanhar o paciente no banho junto com o técnico, realmente trocar os curativos do paciente e 
visualizá-lo de costas, eu gostaria de fazer isso. (uce 1342, enf. 9) 
144 
 
E porque aí na hora de virar eu já fico lá de vez, já faço todos os curativos que tem que fazer, já 
examino, já saio de lá sabendo o que eu vou fazer, então para você ir lá antes ficar só segurando, ai, 
jogando aguinha. (uce 846, enf. 6) 
 
E quem tem mais curativos, que vai demandar mais algum cuidado, eu normalmente eu peço, eu falo: 
“_você espera que vou entrar no banho do seu fulano”, como até o último plantão que eu dei de 
manhã aconteceu isso. (uce 2802, enf. 17) 
 
Então a gente costuma entrar nos banhos com os técnicos, a gente faz todos os procedimentos 
invasivos, a gente faz o exame clínico, a gente tira as medicações, estamos falando de cuidado. (uce 
3032, enf. 19) 
Outra ocupação que engloba a assistência ao cliente de maneira mais 
genérica e desperta inquietação das enfermeiras durante seus afazeres diários são 
os registros clínicos e a interlocução com a equipe médica, para os quais ela deve 
se dividir em relação àquelas técnicas e procedimentos que tendem a causar um 
efeito mais imediato ao cliente, e que também requer que ela os faça. As palavras 
médico chi²: 43,07, livro chi²: 39,05 e exame chi²: 31,1 mencionam isso. 
Solicitação de exame aonde a gente tem que deixar relato, já são três livros que você tem que estar 
de imediato com eles, aonde vem as prescrições (....) o outro enfermeiro está atuando ou auxiliando o 
próprio técnico dentro do boxe, ou o médico que veio dar uma avaliada. (uce 1539, enf. 10) 
 
E porque eles já terminaram de visitar os pacientes e cada um visita um paciente e vão lá fazer o 
round, e acaba chamando a enfermagem, só que eles não querem saber se está na hora de gente 
entrar para fazer o curativo. (uce 1413, enf. 9) 
 
Me incomoda, a gente chega e perde pelo menos duas horas de plantão lá em cima do posto, com 
tudo acontecendo lá embaixo, você tem que fazer papelzinho, fazer livrozinho. (uce 2995, enf. 18) 
Essa dicotomia que os profissionais instituem durante sua atuação no 
ambiente da terapia intensiva exposta na classe 3 induz a efeitos negativos no 
cuidado prestado, uma vez que provoca a ocorrência de uma desarticulação 
assistencial e a realização de atividades automáticas, ao contrário da perspectiva de 
cuidado integral. 
Vou dar meus banhos, dei três banhos no leito, acabou, não dou mais banho hoje, evolui meus 
pacientes, acabou, não faço mais nada, e assim, isso é uma coisa negativa, muito negativa, e não 
tem porque ser assim, as coisas poderiam ser programadas, e embora a gente dependada 
prescrição médica, a gente deveria estar fazendo as coisas junto. (uce 2529, enf. 16) 
 
(....) Tudo isso vai gerando uma angústia muito grande, esse estar da gente de fazer as coisas, que 
as vezes a gente faz no automático, vou fazer uma medicação ali, foi ali onde está o acesso fiz. (uce 
733, enf. 5) 
145 
 
Ao contrário do que ocorre na classe 4, a variável que congrega as 
enfermeiras menos jovens em relação à idade média do grupo, e com maior tempo 
de formação, foi a que mais incidiu na 3. Conjectura-se que esta maior experiência 
em termos de prática colabore para que as enfermeiras ratifiquem através da fala a 
tendência do fazer da profissão, o qual está traduzido durante seu exercício 
profissional diário. 
A CHA expressa de maneira clara essa classe, na medida em que as 
relações de vizinhança entre as palavras curativo, procedimento, banho, hora, dez, 
horário e manhã, indicam a necessidade de execução dos procedimentos no período 
da manhã, sobretudo os banhos dos clientes e seus curativos; ao tempo em que 
também precisa preparar/reservar/separar (“tirar”) o medicamento, a partir da 
liberação da prescrição pelo médico, para encaminhá-la à farmácia, como sinaliza a 
organização esquemática da árvore classificatória através das palavras tirar, medica 
(medicamento), médico, farmácia e prescrição. 
 
 
Figura 11: Classificação hierárquica ascendente da classe 3 
Considera-se que a classe 3, formada sob o ponto de vista do cotidiano 
assistencial das enfermeiras da terapia intensiva, impregnado de tudo aquilo que 
elas têm para fazer, adquire também sentido pela apropriação em campo que foi 
146 
 
feita de tal cotidiano, onde o desempenho destas profissionais dá a oportunidade de 
detalhar os aspectos inicialmente propostos para análise a partir do software 
Alceste. 
A preocupação da enfermeira com as inúmeras tarefas que precisa dar 
conta é um exemplo a ser salientado. Após o toque do telefone, a enfermeira 8 
reconhece que se trata do funcionário de um setor do hospital responsável pelo 
controle das internações no CTI, solicitando maiores detalhes sobre os pacientes. A 
enfermeira fica profundamente irritada argumentando que eles (a equipe de 
enfermagem) estão cheios de coisas para fazer, e a obrigação deste funcionário é 
vir ao CTI, posicionando-se contra a aquisição de informações pelo telefone. Ela 
continua: 
 _Ninguém faz o serviço da enfermagem (....) olha, se vocês ligassem e perguntassem somente o 
nome dos pacientes por leito, mas vocês querem saber quem admitiu, quando, como, religião, cor 
(....) e isso a gente não consegue dar conta, pois o setor está tumultuado, é médico pedindo coisas. 
Então você me desculpa, mas a gente não tem como atender à isso, às vezes a gente precisa sair do 
posto para ir em busca do prontuário para responder à essas perguntas. Então sinceramente, vocês 
precisam vir até aqui, eu sei que vocês estão tumultuados, mas nós também estamos. (trecho de 
diário de campo, enf. 8, 17/01/2011 de 08:30 às 14 hs) 
Essas “coisas” que a enfermeira tem que fazer são fragmentadas entre 
ações ditas burocráticas e que se voltam diretamente ao cliente. Isso é reafirmado 
na prática em vários momentos, certificando os pólos da assistência de enfermagem 
na terapia intensiva. A enfermeira 8 quando aborda o round, momento de reunião da 
equipe multiprofissional explicita isso. Com um tom de reclamação ela relembra: 
_Olha hoje, passei a maior parte da manhã aqui, sentada, as prescrições demoram a sair, e aí fico 
tirando a medicação. Me perguntaram no round se havia secreção no óstio uretral e eu falei: “_gente, 
não sei, deixa eu perguntar ao pessoal que deu banho nela”. Então a manhã é complicada, a gente 
não consegue ter uma visão do cliente, porque a visão da enfermagem é diferenciada. (trecho de 
diário de campo, enf. 8, 26/01/2011 de 08:40 às 14:30 horas) 
Tal desintegração se repercute na efetuação das ações de modo bastante 
operacional e parcelar, com um senso executivo de mais uma tarefa, porém, sem 
agregar todos os componentes que fazem parte do cuidado ao cliente, e 
pressupondo uma não complementaridade dos saberes. Explora-se este fato em um 
147 
 
procedimento bastante comum no setor que é o banho no leito, visto em particular 
neste determinado dia, em que a enfermeira 6 realizava ações administrativas no 
posto de enfermagem, e, enquanto isso, a técnica de enfermagem iria iniciar os 
cuidados de higiene e conforto no cliente que ambas estavam responsáveis naquele 
plantão. 
Logo que se dá conta da iniciativa da técnica de enfermagem, a enfermeira 
alerta: _olha, quando chegar na perna você me chama! E assim a técnica o faz, 
solicitando a presença da enfermeira, por precisar de auxílio durante a manipulação 
do membro que portava grande lesão. Este tipo de sistemática assistencial se repete 
em outros dias, quando diante de uma cliente com história semelhante, a técnica de 
enfermagem situa a enfermeira 6: _a gente vai começar lá viu, na hora de virar a 
gente chama! E ela faz um gesto de concordância. Na tentativa de participar junto à 
equipe no desenvolvimento da assistência, ofereço-me a promover o banho no leito 
em parceria com a técnica, ela (a enfermeira) rapidamente contrapõe: _não vai 
agora não, é só na hora de virar! (trecho de diário de campo, enf. 6, 19/01/2011 de 
08:50 às 14 hs; 31/01/2011 de 08:40 às 14:30 hs) 
Um aspecto que se destaca é a interferência da terapia medicamentosa na 
orientação das ações profissionais da enfermeira, a qual foi vista com muita 
frequência no contexto das práticas na terapia intensiva. Destarte, à medida que tais 
práticas eram detalhadas e aprofundadas, a suposição de que as enfermeiras 
organizavam sua rotina de cuidados diários circunscritas pela prescrição 
médica/medicamentosa, ocupando grande parte do seu tempo com esse 
gerenciamento parecia confirmar-se. Isto porque aguardavam a recepção das 
prescrições médicas para que pudessem aprazar as medicações, elaborar uma ficha 
contendo os nomes das drogas a serem utilizadas durante as doze horas de 
148 
 
trabalho (incluindo a via de administração, dosagem e horário, de maneira a ser 
encaminhada ao funcionário da equipe responsável pelo preparo e ministração), e 
liberar e entregar tais prescrições ao serviço de farmácia, para que os referidos 
medicamentos chegassem ao setor. (anotação geral do diário de campo, 26/01/2011 
de 08:40 às 14:30 hs; 09/04/2011 de 09:20 às 18 hs) 
Enquanto isso, os técnicos de enfermagem, subdivididos entre os leitos que 
compõem o CTI, começavam os cuidados que estavam centrados no bem estar do 
cliente e atendimento de suas necessidades básicas, e em momentos pontuais 
requeriam o comparecimento da enfermeira para proceder exames, avaliações, 
verificação da integridade da pele, dentre outros. Na grande parte dos registros, o 
término da atividade administrativa relativa à terapia medicamentosa demarcava o 
início da estada da enfermeira ao lado do cliente, prioritariamente para fazer 
curativos deixados pelos técnicos de enfermagem, avaliação semiológica etc. 
Num dia atípico na dinâmica de cuidar do CTI, a enfermeira 6, pelo fato de 
poder estar mais próxima dos clientes surpreende-se: 
 _Nossa, os médicos de maneira extraordinária liberaram as prescrições cedo hoje. (trecho de diário 
de campo, enf. 6, 08/04/2011 de 09:20 às 13:40 hs) 
 Esse exercício do seu ofício diuturnamente declara a importância atribuída à 
terapia medicamentosa no conjunto de atividades a fazer da enfermeira. Este zelo 
com as prescrições continua durante toda a jornada, onde não invariavelmente ela 
encontra-se manipulando-as. A enfermeira 11 demonstra tal sentimento: _gente, eu 
preciso das prescrições! Depois de reuni-las, passa abraçada com as prescrições. 
(trecho de diário de campo, enf. 11, 21/04/2011 de 10 às 15 hs) 
Uma espécie de fenômeno, que poderia ser chamado de “ondas 
assistenciais” caracteriza o CTI,cujos níveis de coisas a fazer aumentam e 
diminuem no decorrer do dia, começando pelo turno da manhã com um alto nível, 
149 
 
quando a enfermeira se ocupa dos afazeres administrativos e procedimentos diretos 
ao cliente, o qual é interrompido por uma fase de estabilização, mas que logo 
reinicia-se com a operacionalização dos registros clínicos, e de técnicas como 
mudança de decúbito, sinais vitais, fornecimento de alimentação. 
 
 
 
 
Indiretas ao cliente 
(burocráticas) 
 
Medicacão: aprazar, 
separar, encaminhar 
Cumprir os horários; 
Registros clínicos 
 
 
 
 Orientam o cotidiano 
 
 
 
COTIDIANO ASSISTENCIAL 
DAS ENFERMEIRAS NA TI 
 
 
 
 
 
Diretas ao cliente 
(assistenciais) 
 
Banho, 
Curativos, 
Sonda, Exame 
 
Cunho 
procedimental 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 12: Composição da classe 3 Alceste; Fonte: produção do pesquisador 
 
 
 
 
 
AFAZERES 
separação 
Desarticulação das ações 
Automatização 
150 
 
5.1.1.2 Classe 5 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 Quadro 8: Classe 5 Alceste 
Construída com 11,59% das unidades de contexto elementar que foram 
agrupadas pelo exame lexical, a classe 5 reflete o caráter da prática das enfermeiras 
no manejo da tecnologia no cuidado, a qual demanda o estabelecimento de nexos 
entre as informações que têm origem no maquinário com aquelas emitidas pelos 
clientes como alicerce para as intervenções. Tal classe oportuniza um paralelo com 
a classe 1, já que ela aborda este mesmo sub-tema, mas em uma linha mais 
conceitual. O uso como meio de comunicação entre o corpo do cliente e o 
profissional pode ser percebido a partir das palavras de maior representatividade 
numérica na classe como é o caso, por exemplo, de monitor, alarme, respirador e 
sinais com os respectivos chi² de 414,04, 129,41, 87,6, e 58,7, que dão uma 
conotação centrada nas sinalizações que são feitas pelos recursos tecnológicos 
incorporados ao cuidado do cliente. 
Classe 5 
 260 uce 
 Chi² Porc. 
Monitor 
Pressão 
Alarme 
Dado 
Saturação 
Eletrodo 
Mostrando 
Verificar 
Respirador 
Preciso 
PAM* 
Oxímetro 
Parâmetro 
Curva 
Vitais 
Respiratório 
Monitorização 
Correlacionar 
Sinais 
Apresentando 
414,4 
169,8 
129,4 
112,2 
107,5 
98,5 
92,0 
92,0 
87,6 
85,3 
83,7 
83,1 
79,4 
76,6 
75,5 
67,9 
66,2 
61,2 
58,7 
54,4 
65,9 
80,5 
84,0 
62,7 
100 
93,3 
100 
100 
67,8 
69,2 
82,3 
92,3 
63,3 
100 
91,6 
90,9 
54,0 
100 
63,6 
76,9 
Variáveis: 
Sexo feminino, menos jovens, 2 
empregos, não especialista, turno 
diurno, não escolheu o setor 
Prática de cuidar com a tecnologia 
11,59% 
151 
 
Tem que ter alguma coisa para te ajudar, então quer dizer que a tecnologia, quando um respirador 
fica alarmando, alarmando, alarmando, vai te dizer, vai te dá o alerta que alguma coisa, se é monitor, 
se é bomba, se é o respirador, então vai alarmar, te dizer alguma coisa. (uce 13, enf. 1) 
 
Então assim, se ele está mostrando algum sinal, é de alarme, de alguma coisa, mas assim, a gente 
está sempre, a gente tenta estar atento a esses sinais. (uce 3017, enf. 19) 
As máquinas disparam um alarme ou dão um sinal sob a forma de um dado 
codificado, seja ele relacionado à saturação do oxigênio/oxímetro, à alteração de 
uma curva respiratória etc. Desta maneira, tomando como referência estes códigos 
amplificados pelas tecnologias há a imediata aproximação da enfermeira, na 
tentativa de buscar contextualizá-los a partir do olhar direcionado ao cliente, 
fazendo-se primordial nesta situação o senso de observação. Este formato 
empreendido ao cuidado na terapia intensiva materializa-se de igual modo na 
palavra monitor, agora acrescentada das palavras dado chi²: 112,21, saturação chi²: 
107,50, curva: 76,6. Além disso, a relação de vizinhança na árvore ascendente do 
termo dado à palavra perto (chi²: 25,93) ratifica este sentido da proximidade. 
E se o dado que vem do monitor é a dessaturação, e ele está alarmando lá essa dessaturação, eu 
vou olhar para o paciente para saber o que está acontecendo, essa dessaturação pode ser o 
oxímetro mal posicionado? Pode. A curva de saturação está boa? (uce 1947, enf. 13) 
 
Não, a distância você já alarma diante de um dado que você está vendo, sem olhar para o paciente 
entendeu. (uce 1884, enf. 13) 
 
(...) Não basta você olhar e ver uma ausência de curva, achar que aquilo é uma assistolia, correr, 
dizer que o paciente está parado, sem antes chegar perto do leito e perceber isso. (uce 1883, enf. 13) 
 
Então você tem que observar o doente (....) porque se você está ali, você vê que o paciente está 
taquicárdico, vamos ver o que está acontecendo, basta não olhar só para o monitor, você olha o 
monitor e chega perto do doente. (uce 2048, enf. 14) 
Ao exprimir a importância da proximidade da enfermeira ao cliente, o acesso 
a um dado reenvia também a necessidade de sua avaliação, à luz do exame clínico 
de enfermagem, bem como do aporte teórico que serve de embasamento científico 
às ações de cuidar. O uso dos verbos verificar (chi²: 92,0) e correlacionar (chi²: 61,2) 
retratam isso. Um exemplo que pode ser citado é a correlação de um dado oriundo 
de uma pressão (chi²: 169,8) elevada. O cumprimento destas etapas dará subsídios 
152 
 
para que o processo de reflexão e questionamento, início da fase interpretativa, se 
efetive no profissional. 
Não adianta você visualizar um dado e não correlacionar com a clínica do doente (....) tem que estar 
perto. (uce 1910, enf. 13) 
 
Uma pressão elevada e eu não vou procurar um sinal no meu exame clínico que justifique aquilo, 
então não adianta ter somente esse dado frio aí. (uce 3563, enf. 21) 
 
Você tem que detectar, você tem que detectar o problema e verificar as causas daquilo ali, mas para 
isso você tem que saber a clínica, e você tem que estar perto do paciente, tem que estar olhando 
para ele e junto dele (uce 1912, enf. 13) 
 
Eu preciso saber o que de repente costuma acontecer nessas situações de acordo com a literatura, e 
ver o que o doente está apresentando e vê o que a máquina está me dizendo, então são coisas que 
se entrelaçam. (uce 1673, enf. 11) 
Essa correlação também é vista na figura de classificação ascendente 
abaixo, onde 2 blocos de palavras se aproximam. Inicialmente as palavras alarme, 
sinal, oxímetro e frequência cardíaca, e em outra, dado, perto, correlacionar e 
máquina, ou seja, é necessário estar perto do paciente para correlacionar um sinal 
de alarme emitido pela máquina, como ocorre com aqueles de oximetria e 
frequência cardíaca. 
 
Figura 13: Classificação hierárquica ascendente da classe 5 
A estruturação da classe 5 favorece a compreensão de que essa junção dos 
dados do cliente com os da máquina constitue a estratégia adequada para uma 
interpretação correta, ou seja, para o alcance de um diagnóstico clínico situacional 
153 
 
apropriado, que, por sua vez, determinará as tomadas de decisão no que concerne 
às intervenções de enfermagem. 
Observando o que a tecnologia está mostrando e tentando resolver, diante do que ela mostra 
tentando resolver o problema, se é uma dessaturação, se é uma hipotensão (...) se é uma arritmia 
cardíaca ou se é um baixo débito urinário, porque está com baixo débito urinário? Se está hidratado, 
se não está. (uce 1906, enf. 13) 
 
O doente está fazendo febre, porque o doente está fazendo febre? O doente está taquicárdico, o 
doente está hipertenso, vamos aumentar a noradrenalina ou diminuir? Isso são coisas que eu preciso 
estar constantemente avaliando, porque eu preciso tomar iniciativa de algumas situações, e essas 
coisas servem para que eu possa intervir. (uce 1634, enf. 11) 
 
A tecnologia ajuda muito, mas você tem que saber interpretar o que a tecnologia está te mostrando. 
(uce 1884, enf. 13) 
As profissionais que trabalham durante o turno diurno tiveram maior 
participação na veiculação destas particularidades que definem o cuidado com a 
tecnologia.Um motivo para isso é a realização de grande quantidade de 
procedimentos e terapêuticas neste período, como exames diagnósticos, 
manipulações e avaliações, os quais muitas vezes geram a ocorrência de eventos 
inesperados que tornam mais ativa a imagem da atuação da enfermeira na 
prestação dos cuidados intensivos com o auxílio das tecnologias. A enfermeira 13 é 
uma destas, que ainda indica utilizar de sua experiência em lidar com as tecnologias 
para conduzir seu pensamento sobre a prática de cuidar. 
Essa forma como está disposta a classe 5 dá contornos a um tipo de 
cuidado com a tecnologia que é ainda mais perceptível quando se avalia as práticas 
rotineiras das enfermeiras. Isso porque no seu dia-a-dia experiencia uma variedade 
de acontecimentos, fatos e episódios, os quais manifestam a dinâmica, bem como a 
organização do cuidado que ela estabelece para dar conta das necessidades do 
cliente captadas por intermédio do arsenal tecnológico empregado. 
Na intercorrência descrita a seguir, alguns distintivos que caracterizam este 
cuidado tecnológico aparecem em destaque. A enfermeira 11 está no posto de 
enfermagem, enquanto no boxe de número 10 duas técnicas de enfermagem 
154 
 
realizam o banho no leito do cliente. A enfermeira volta-se aos técnicos e questiona: 
_o que está acontecendo aí que não para de alarmar? Rapidamente ouve-se uma 
explicação: _é que ele está fazendo esforço, tossindo. A enfermeira 11 após obter 
essa informação permanece no posto. A enfermeira 13 passa próximo a este leito e 
intrigada interroga: _por que está alarmando? A técnica repete: _ele não está bem 
sedado! A enfermeira 13 complementa: _acho que ele está mordendo o tubo, vamos 
colocar uma cânula de Guedel [sai em direção ao armário de materiais]. Ao retornar 
com o dispositivo ela diz: _mas ele está com esforço respiratório. Imediatamente se 
aproxima do cliente, pega o estetoscópio e realiza ausculta respiratória. No fim 
chega ao diagnóstico da situação: mas ele está com sibilos expiratórios, ele tem 
alguma nebulização prescrita? (trechos de diário de campo, enf. 13 e 11, 24/01/2011 
de 09:20 às 14:20 hs) 
Uma experiência semelhante acontece com a enfermeira 18, que ao 
suspeitar de uma deterioração no estado clínico da cliente do leito 5 rapidamente se 
mobiliza. Logo após chegar ao seu lado, constata que não há uma expansão 
torácica adequada, comprovada ao monitor pela redução na saturação do oxigênio 
de modo importante. A enfermeira chama a cliente pelo nome, a qual não responde, 
em seguida olha para o monitor novamente, e ao analisar o quadro apresentado, 
afirma acreditar que alguns daqueles dados não sejam fidedignos. 
 Em vista disso, decide desacoplar o circuito do respirador artificial da cliente 
e iniciar uma ventilação manual através do uso do dispositivo Ambu. Procede na 
sequência a ausculta pulmonar e conclui existirem secreções pulmonares, optando 
então pelo procedimento de aspiração traqueal. O resultado das medidas 
implementadas é visto por meio do retorno aos níveis de normalidade pela doente, 
com estabilização dos valores relativos à respiração e pressóricos. A enfermeira 
155 
 
finaliza sugerindo a suspensão temporária da dieta enteral e realização de 
gasometria arterial para acompanhamento dos gases sanguíneos. (trecho de diário 
de campo, enf. 18, 07/05/2011 de 09:30 às 13:20 hs) 
Assim como na classe 5 do Alceste, promover a interseção do dado 
proveniente do maquinário com o padrão clínico mostrado pelo cliente, apoiada nos 
conhecimentos da enfermeira e no seu raciocínio diagnóstico, constitui-se uma 
estratégia de validação da informação, de modo a verificar a sua coerência, com 
consequente integração ao contexto do cuidado, e posterior condução das ações. 
O comportamento da enfermeira 19 é um exemplo, quando busca verificar a 
fidedignidade de um parâmetro anormal, considerando a clínica do doente. Esta 
profissional nota à distância, através do visor do boxe, que o cliente do leito 5 exibia 
ao monitor pressão arterial equivalente à 191 x 107 mmHg. Sua imediata expressão 
facial denotava uma sensação de estranhamento, pelo movimento de seus olhos. No 
entanto, encaminhou-se de maneira apressada ao leito, centrou sua atenção sobre o 
maquinário, e em seguida virou o corpo na direção do cliente, com um ar de 
desconfiança frente àquele resultado. Minutos depois, opta por repetir a medição da 
pressão arterial, cuja nova aferição indicava 120 x 70 mmHg. Com uma feição mais 
tranquila volta ao posto de enfermagem. (trecho de diário de campo, enf. 19, 
08/04/2011 de 09:20 às 13:40 hs) 
Vale ressaltar que sob a ótica do cuidado tecnológico o sujeito do cuidado é 
fundamental no envio de sinais que possam auxiliar no processo de interpretação. 
Um dos recursos que viabilizam essa apreensão dos dados é a interação, na medida 
em que seja um instrumento de mediação ente a objetividade e subjetividade. A 
enfermeira 9 diante da instabilidade respiratória, retorna várias vezes à unidade do 
156 
 
cliente do leito 9, detectando sua inquietude através da retirada constante da 
máscara de macronebulização. A enfermeira expõe preocupação indagando a ele: 
_Mas por que o senhor retira a máscara? Se o senhor retirar vai sentir mais desconforto, mais falta de 
ar! O elástico te incomoda? O senhor está cansado (....) evite falar muito para não ficar com falta de 
ar! (trecho de diário de campo, enf. 9, 14/02/2011 de 11:30 às 16:30 hs) 
 
 
 
 
 
 
 
 MÁQUINAS 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CUIDADO COM A TECNOLOGIA NO 
AMBIENTE DA TI 
 CLIENTE 
 
 
 
 
 ENFERMEIRA 
 
 
 
 Avaliação clínica 
Exame clínico x suporte teórico 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 Processo Interpretativo 
 REFLEXÃO/ QUESTIONAMENTO 
 
 
 
 
 
Figura 14: Composição da classe 5 Alceste; Fonte: produção do pesquisador 
 
SINAIS OBJETIVOS 
(DADOS CODIFICADOS) 
 
 
Articulação dos dados 
OBSERVAÇÃO DO CLIENTE 
SINAIS OBJETIVOS E 
SUBJETIVOS 
 
 
Diagnóstico clínico 
situacional - 
INTERVENÇÃO 
157 
 
5.1.1.3 Classe 6 
Classe 6 
694 uce 
 Chi² Porc. 
Falar 
Paciente 
Ele 
Aqui 
Acordado 
Sei 
Foi 
Sair 
Estava 
Sedado 
Deus 
Lúcido 
Intubado 
Bem 
Teve 
Fulano 
Agradecer 
Fala 
Ficou 
Gratificante 
76,3 
67,7 
55,8 
54,2 
53,0 
51,1 
51,0 
49,7 
47,6 
41,2 
40,3 
39,6 
35,4 
35,4 
32,8 
31,9 
31,4 
31,2 
29,7 
27,5 
65,8 
41,2 
41,7 
49,6 
88,2 
50,8 
55,8 
70,7 
59,0 
83,8 
68,3 
91,3 
84,6 
49,5 
69,5 
86,3 
100 
59,4 
76,6 
93,3 
Variáveis 
Sexo feminino, mais tempo de formado, 
menos jovens, turno diurno, católica, 
escolheu o setor 
As características do paciente como 
indicador do trabalho no CTI 
30,93% 
 Quadro 9: Classe 6 Alceste 
Aparece como a classe principal desta investigação, visto agrupar 30,93% 
da narrativa das enfermeiras sobre a sua prática de cuidar na terapia intensiva. Esta 
classe lexical remete ao sujeito a que se destina o cuidado de enfermagem neste 
setor, uma vez que o conteúdo que a integra veicula com clareza concepções das 
enfermeiras sobre aspectos relacionados a ele. Assim, tais concepções articulam 
determinadas características dos pacientes para se referir ao trabalho no CTI. Uma 
das características que sobressai no material é a sua condição de comunicação, a 
qual vem revestida de uma conotação tanto de gratificação do trabalho, quanto do 
nível de ocupação. 
No primeiro caso, falar e estar acordado, por exemplo, são indicativos de 
positividade do trabalho, isto é, produz uma ideia de alcance do resultado, de 
melhora clínica. Já quando as enfermeiras a abordam para tratarda ocupação, 
diferenciam o cliente acordado e lúcido, daquele que está sedado e intubado, 
158 
 
trazendo em pauta a maior ou menor demanda de trabalho que cada um deles 
suscita. As palavras falar (chi²: 76,32), paciente (chi²: 67,76), acordado (chi²: 53,08), 
sedado (chi²: 41,2), lúcido (chi²: 39,6) dão suporte para essa afirmação. 
Eu gosto de ver o paciente evoluir e sair daqui bem falando, então essa parte de ver o paciente 
falando e reclamando isso não me incomoda, muito pelo contrário, principalmente se ele chegou 
assim, mais grave, isso me deixa super satisfeita. (uce 2872, enf. 18) 
 
Essa é a questão da evolução que eu já falei tantas vezes, ver o paciente gravíssimo sair daqui bem, 
rindo, falando, isso é super super gratificante para mim, então é isso, não me vejo trabalhando de 
outra forma. (uce 2944, enf. 18) 
 
Eu falo por mim, porque eu não gosto muito de paciente lúcido, porque paciente conversa, fica 
naquela coisa, então eu não sou muito de, adoro, amo conversar, sendo que paciente para mim 
mesmo, depende de mim, eu não estou dizendo que ele não depende, mas paciente que é paciente 
está sedado, comatoso e paciente que não perturba. (uce 51, enf. 1) 
 
É que de repente tem pessoas, como eu já ouvi falar aqui: “_ah, não me coloca com paciente 
acordado, eu prefiro paciente sedado, não me coloca com esse paciente”. (uce 1227, enf. 8) 
Os dados evocam ainda que o senso de obtenção do resultado é 
“atravessado” por uma temporalidade, através dos contrários chegada e saída, que 
reportam ao estado inicial e o modo como estão deixando o setor, a mudança, a 
qual reflete um progressão satisfatória da condição de saúde e justifica todos os 
esforços empreendidos pelas enfermeiras, gerando tal sentimento de gratificação e 
satisfação. As palavras sair (chi²: 49,74), bem (chi²: 35,4) e gratificante (chi²: 27,5) 
propiciam explicitar este sub-tema da classe 6. 
Ele saiu daqui muito bem, saiu do CTI muito bem, cuidei dele muito bem, posso até falar para você 
que quando ele chegou aqui era um paciente moribundo, nós demos uma geral. (uce 277, enf. 3) 
 
Quando sai daquele quadro, depois retorna para te visitar e fala: “_olha aqui como eu estou!” É a 
melhor coisa, a parte mais gratificante que tem. (uce 57, enf. 1) 
 
Para mim assim é muito gratificante, porque muitas vezes eu vejo aquela criança, seja criança seja 
adulto, aquele paciente ali, chegar muito grave e às vezes, muitas vezes eu mesmo achei que não 
teria jeito, hoje em dia eu já não falo mais isso. (uce 2730, enf. 17) 
 
Então assim, para você é muito mais gratificante ver aquele paciente que teve aqui, que fez aquela 
parada difícil de reverter, que você conseguiu reverter, paciente que ficou grave muito tempo se 
recuperando. (uce 2468, enf. 16) 
 
A visão que constroem sobre o nível de trabalho tendo como ponto de 
partida o estado de comunicação do cliente, provavelmente se respalda no tipo de 
demanda e de dificuldades a serem vivenciadas nesta relação de cuidado, como é o 
159 
 
caso daquelas oriundas da interação comunicativa, as quais levam aos profissionais 
no momento de escolha preferirem cuidar de um cliente sedado que não a ocupará 
com esse tipo de atividade, já que não fala e, consequentemente, não relata suas 
necessidades, insatisfações, queixas. Estes trechos de uce fornecem condições, de 
certa maneira, para o reconhecimento dessas contingências que se apresentam no 
cuidado deste cliente. 
Tem uns pacientes que são chatos mesmo. Então quando é chato o pessoal vai mesmo, vai deixar lá, 
vai ficar confinado, o pessoal nem vai aparecer, porque qualquer coisinha é dor, dor, dor, mas as 
vezes nem é dor, é mais atenção mesmo (...) por encher tanto a paciência quando for ver que é 
atenção mesmo, a pessoa não quer nem ficar lá, porque encheu o saco de todo mundo o tempo todo. 
(uce122/123, enf. 1) 
 
Não tinha sensibilidade de nada, foi quando eu perguntei para ele se estava doendo, ele foi e falou 
um palavrão, só que ele não estava falando porque ele estava intubado, aí eu percebi que ele falou 
um palavrão, eu falei: “_ah é, você vai falar isso para mim, você mal acordou e está falando isso para 
mim? Você não merece meu carinho”. (uce 1520, enf. 10) 
À propósito destas considerações, afirma-se que a compreensão feita pelas 
enfermeiras mediada pela capacidade interativa do cliente exerce influências nos 
seus modos de atuar. As palavras falar/fala (chi²: 76,3, e 31,2) permitem captar 
estas consequências, pelo sentido que é investido ao diálogo. No caso da 
perspectiva relacionada à gratificação do trabalho, observa-se que o diálogo se 
concretiza como instrumento para apreensão das necessidades do cliente com 
vistas à obtenção do resultado, implicando na aproximação a ele. Quando a ideia 
está situada na esfera da ocupação, pode representar um maior quantitativo de 
solicitações, causando numa primeira impressão o afastamento da enfermeira. 
E se ele tivesse acordando e verbalizando me falava: “_oh doutor, ou enfermeira, estou com dor no 
peito, meu coração está acelerado”, e isso vai me dar um olhar diferente para aquele paciente, se ele 
conseguisse falar isso para mim. (uce 1520, enf. 5) 
 
E a enfermeira que estava passando o plantão falou assim: “_ai fala baixo para ele não acordar, 
senão ele vai chamar”. Então quer dizer, é aquele paciente que se ele dormir ninguém vai acordar 
para conversar com ele, mas é verdade. (uce 3199, enf. 19) 
A dialética deste exercício cognitivo das enfermeiras de estabelecimento de 
lugar, e que engloba aproximação e afastamento, termina por impactar na 
elaboração que o cliente passa a fazer sobre o setor e equipe, envolvendo inclusive 
160 
 
atitudes que exprimem a criação de vínculo ou não entre ele e a enfermeira, como 
se confirma abaixo, por exemplo, pelo emprego da palavra agradecer (chi²: 31,4), a 
qual coocorre com o verbo voltar. 
É muito legal poder perceber que o paciente voltou para agradecer: “_estou no ambulatório, obrigado, 
eu estou bem, já melhorei, já operei!” Como também outros saem daqui odiando. (uce 740, enf.5) 
 
Você acha que eu recebi aquela criança lá e depois cuidei e depois o pai voltou para agradecer, 
então aquilo foi ótimo para mim, então assim o que prova que é bom e que se pudesse a gente 
cuidaria de todos assim. (uce 3488, enf.20) 
 
E saem com uma má impressão, porque as pessoas ali são frias, e eu chamava e ninguém me dava 
atenção, porque às vezes tem paciente que chama, mas chama menos, e aí acaba criando uma 
impressão ruim. (uce 1791, enf.17) 
 
Então acabava que criava vínculos, esse rapaz mesmo que ficou no leito quatro, o do acidente de 
moto, veio passar o natal com a gente. (uce 1831, enf. 12) 
Tais relações abordadas na classe 6 também estão em evidência na 
classificação ascendente, já que esta liga, por exemplo, sedado, intubado e 
acordado, com fala e gosta, remetendo às escolhas da enfermeira com base nas 
suas preferências. De outro modo, quando ele sai daqui bem, isso é gratificante, e 
ele (o paciente) volta para agradecer. 
 
 
Figura 15: Classificação hierárquica ascendente da classe 6 
Alguns destes elementos constitutivos da classe 6 tiveram importante 
inscrição nos registros de campo relativos às práticas de cuidar das enfermeiras, 
161 
 
estabelecendo coerência entre pensamento e ação acerca do objeto em estudo. A 
construção ancorada no resultado ou na mudança tem forma na transcrição deste 
acontecimento que abrange a participação do cliente. Durante um dia de 
observação, chegou ao setor um cliente que havia ficado internado no CTI por longo 
tempo, e este aparentava excelente estado geral. A enfermeira 4, assim que o vê, 
corre em direção a ele, posiciona-se a minha frente e reforça: _anota isso. Isso que 
é gratificante no CTI, a gente ver o paciente bem! Ela continua, olhando para o 
cliente e sorrindo: _você se lembra do leito onde ficou? O cliente aponta em direção 
ao leito 6. Era possível depreender um sentimentode alegria pela expressão facial 
da enfermeira 4. Mais tarde, ao relembrar o encontro diz: _fiquei tão feliz de ver o L. 
(trecho de diário de campo, enf. 4, 17/01/2011 de 08:30 às 14 hs) 
Essa premência na mudança do cliente é uma característica que se 
manifesta no cotidiano das enfermeiras, principalmente no que tange aos cuidados 
de higiene e conforto, onde a modificação na aparência torna-se fundamental, pois 
funciona como um indicador em direção à recuperação clínica e chegada ao produto 
do trabalho esperado. A admissão de um paciente no CTI é bastante elucidativa 
deste desejo dos profissionais, nesta em especial, onde após o posicionamento da 
cliente no leito é feita uma espécie de “limpeza” nela, retirando todos os dispositivos 
que estavam em uso prévio e sucedendo-se uma sequência de procedimentos como 
cuidados estéticos, realização de swabs, troca de fralda, instalação da monitorização 
etc. Após algum tempo, a enfermeira 8 que está no posto de enfermagem pergunta 
aos profissionais que ainda permanecem no leito: _vocês estão precisando de 
alguma coisa? O que vocês ainda estão fazendo lá? A técnica de enfermagem logo 
se pronuncia: _passando creme! Ao me aproximar do leito visualizo uma feição 
completamente diferente daquela que chegou e sinto um odor agradável. O 
162 
 
profissional finaliza: _isso é que é trato! (trecho de diário de campo, enf. 8, 
25/02/2011 de 12 às 16:30 hs) 
A recusa a priori do cliente a partir da sua fala também tem assento na 
prática, trazendo à discussão outro aspecto interessante que é a condição física e 
psicológica da enfermeira. Ao analisar o panorama de uma cliente que apresentava 
baixa auto-estima a enfermeira 4 discorre: 
_A gente tem que conversar, está ali do lado, tentar entender (....) a gente tem uma participação 
nisso, é óbvio, mas olha sexta-feira, o plantão foi o caos, um inferno, tinha procedimento da vascular 
no leito 7, traqueostomia ali (aponta para outro leito), e eu praticamente não tive tempo de ir no leito 
dela. Teve uma hora que eu disse: “_não, agora a gente tem que ir aqui!” Mas a gente tem que ver 
também como a gente está naquele dia, porque se eu não estiver bem eu peço logo:,”_ah, não quero 
ficar hoje com ninguém que converse ou interaja, me dá algum intubado!” [fazendo referência à 
escala de trabalho diário] Mas se eu estiver bem fico com paciente que interage. (trecho de diário de 
campo, enf. 4, 24/01/2011 de 09:20 às 14:20 hs) 
Esta proposição na qual o cliente é ajuizado em virtude do maior número de 
chamamentos e pedidos pode ser confirmada nesta conversa entre as enfermeiras 1 
e 6. Na cena, são por volta das 13 horas e uma parte da equipe de enfermagem 
deixou o setor para o almoço. Ainda na unidade, tais enfermeiras estão realizando 
registros nos prontuários, até que um dos clientes solicita a ida de uma delas ao 
leito. Imediatamente, elas cochicham, numa atitude de concordância entre si: gente, 
por que não transfere logo (....) é chatice! A enfermeira 1 acrescenta: _mas o leito 
não sei se está disponível, não tem maqueiro. A enfermeira 6 continua: _ah, liga 
para neurocirurgia! Pouco tempo depois verificou-se que o cliente solicitava que 
esvaziasse o patinho. (trechos de diário de campo, enf. 1 e 6, 19/01/2011 de 08;50 
às 14 hs) 
Ainda sobre os obstáculos e barreiras que podem vir à tona na relação com 
um paciente acordado em condições de interação, o relato da enfermeira 9 ratifica 
os resultados da classe Alceste, e facilita o seu melhor esclarecimento. Após 
retornar do cuidado de um cliente, ela diz em tom de insatisfação: 
163 
 
 _Eu fico agoniada quando eu fico com esse menino, eu não gosto de ficar com ele não, ele não se 
comunica, não interage, a gente fala e ele não faz nada (....) com algumas pessoas ele interage, mas 
com a gente ele não fala nada! (trecho de diário de campo, enf. 9, 25/02/2011 de 12 às 16:30 hs) 
Tal registro serve para conhecer o porquê em algumas circunstâncias existe 
a escolha pelo paciente sedado, já que o problema experimentado neste caso pela 
enfermeira seria minimizado. Do mesmo modo, no tocante às preferências do 
cliente, identifica-se que quando ele está impossibilitado de se comunicar há a 
oportunidade para que a equipe de enfermagem tenha determinadas formas de agir 
sem maiores preocupações com uma rejeição do cliente, como a que se desenvolve 
em seguida, levando em consideração a advertência da enfermeira 4: 
 _Nossa, aquela hora estava uma confusão, essas duas aqui cantando lá no leito 10 [alusão às duas 
técnicas de enfermagem que estavam dando banho no cliente], aqui estava cheio de gente, essa aqui 
conversando. Essas duas cantando música evangélica para o paciente. A médica estava aqui 
comentando, que você cantando música evangélica, e se o paciente não gostasse, gostasse de 
macumba? A técnica retruca: _e eu com isso! Se ele não tivesse gostando ele tinha falado. A 
enfermeira 4 então contra-argumenta: _mas como ele ia falar, ele não podia falar [referindo-se ao 
estado do cliente]. A técnica mostra uma expressão não verbal de não preocupação com a 
preferência do cliente e a enfermeira 4 sinaliza: _mas você sabe que não pode ser assim! (trecho de 
diário de campo, enf. 4,02/02/2011 de 08:50 às 14 hs) 
164 
 
 
 
 
 
 
 
 
Gratificação do trabalho 
 
Ideia de resultado 
 
Mudança/Melhora/Saída 
Gera satisfação 
 
 
 
 
 
 
Influência positiva na 
concepção do cliente 
 
 
 
 
CONDIÇÃO DE COMUNICAÇÃO 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Ocupação no trabalho 
 
Ideia de maior/menor 
demanda 
 
Número de solicitações 
Opta pelo sedado 
 
 
 
 
 
 
Influência negativa na 
concepção do cliente 
Figura 16: Composição da classe 6 Alceste; Fonte: produção do pesquisador 
 
 5.1.2 DISCUSSÃO 
A assistência de enfermagem na terapia intensiva no que se refere ao seu 
modo de organização é uma das problemáticas que desperta a curiosidade dos 
interessados em aprofundar a dinâmica estabelecida no dia-a-dia pelas enfermeiras 
para cuidar dos clientes gravemente doentes. Neste sentido, um olhar mais 
Sujeitos do cuidado 
na TI 
Estilo de cuidar: diálogo 
como instrumento – 
aproximação 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Estilo de cuidar: diálogo 
como demanda - 
afastamento 
 
165 
 
detalhado sobre os processos de trabalho destas profissionais prende a atenção de 
uma parte da literatura especializada. Este interesse já vem expresso há alguns 
anos como revelam os estudos do início da última década. 
Em 2002, por exemplo, perguntou-se aos trabalhadores de enfermagem de 
um hospital escola, não-enfermeiros, sobre como eles percebem o trabalho na UTI, 
utilizando como enfoque a teoria das representações sociais. Os conteúdos que 
abordavam a organização do trabalho da enfermagem na UTI evidenciavam que os 
modelos adotados estavam baseados nos fundamentos da administração científica 
clássica (Taylor, Fayol e Ford) e da burocracia, de modo que favoreciam que as 
atividades tivessem uma característica de trabalho parcial, pautado em normas e 
regras, e centralizado em um ponto de comando. Assim, a investigação sublinha o 
predomínio da lógica do parcelamento das atividades, muito embora reconheça as 
contribuições que a sistematização do cuidar de maneira efetiva poderia trazer 
(SHIMIZU; CIAMPONE, 2002). 
O advento da Política Nacional de Humanização em 2004, e, por 
conseguinte, dos seus princípios, impulsiona um novo conjunto de produções 
preocupadas, sobretudo, com a ideia de clínica ampliada. Em 2011 duas pesquisas 
que consideram esta proposição ao pensar sobre o processo de trabalho das 
enfermeiras ganharam espaço em periódicos nacionais. Numa delas cujo objetivo é 
refletir sobre a assistência de enfermagem na UTI tendo em vista a clínica ampliada, 
alguns aspectos que importam para o debateem curso são pontuados. 
 Dentre as razões tomadas para sustentar a defesa em torno da clínica está 
o fato de que existe uma preocupação exacerbada dos profissionais com prescrição 
médica, banho no leito e exames, em detrimento de um maior fortalecimento do 
diálogo, determinando o que se denomina de inversão dos valores, e que encontra 
166 
 
eco em um modelo hegemônico. Sob esta ótica é que se colocam a favor de uma 
posição na qual supera-se uma clínica em pedaços, fragmentada, indo em direção à 
noção de interdisciplinaridade, em que se respeita o caráter subjetivo e social dentro 
da complexidade de cada sujeito. Então, o conceito de integralidade, que vê o 
cliente na sua plenitude e no qual a autonomia tem papel central, exerce função 
primordial para o alcance da mudança na estruturação da prática assistencial 
(CAMPOS; MELO, 2011). 
Esta linha de compreensão voltada à integralidade do cuidado na prática 
inter-profissional na terapia intensiva foi foco do segundo estudo, cuja intenção era 
analisar a atuação profissional à luz de tal premissa. A justificativa para isso é que, 
no geral, as ações no hospital se caracterizam por estarem decompostas em 
variados atos diagnósticos e terapêuticos desarticulados, implementados por 
diversas pessoas. Utilizando um estudo de caso, e abrangendo observações da 
prática e entrevistas a 10 sujeitos chegou-se a dois eixos temáticos: o cuidado 
individual instrumental frente às instabilidades clínicas, e o cuidado coletivo 
fragmentado por funções (PIROLO; FERRAZ; GOMES, 2011). 
O primeiro eixo aponta para um cuidado que se fundamenta em um sentido 
biomédico e fragmentado, no qual valoriza-se os métodos de tratamento. Assim, o 
cuidado individual tem como foco a detecção de alterações no quadro clínico a partir 
dos sinais e sintomas de modo a intervir visando a cura, e denota a ausência de 
ações de cuidado voltadas a atender às necessidades coletivas de saúde. No 
segundo eixo que ressalta o plano coletivo aparece uma organização de trabalho 
funcionalista, baseada na tarefa, em que as ações são descontínuas, fundadas em 
protocolos e centradas no profissional. 
167 
 
Deste modo, volta-se ao entendimento da doença e assume um formato 
racional que tem assento na teoria geral da administração (marcada pelo trabalho 
parcelar, o tempo é controlado, dividido por funções, e no qual há uma ruptura entre 
concepção e execução). Ambas categorias, por sua vez, divergem da diretriz da 
integralidade do cuidado, através da qual preconiza-se uma 
articulação/interdependência das ações e a complementaridade dos saberes 
(PIROLO; FERRAZ; GOMES, 2011). 
O estudo clássico desenvolvido por Guimelli em 1994 na França com 
enfermeiras aplicando a teoria das representações sociais, e reeditado 
recentemente (2011) no livro Pratiques sociales et representations traz contribuições 
interessantes para entender como estes profissionais representam sua própria 
função, e, por consequência, dá indícios que propiciam desvelar os motivos que 
explicam a dinâmica do seu processo de trabalho. Guimelli estava preocupado com 
a mudança de estado das representações sociais, sua transformação a partir da 
evolução das práticas. Assim, acreditava-se à época que o cuidado de enfermagem 
comportava dois campos distintos: um campo tradicional, inerente à prescrição 
médica, no qual a enfermeira executa atos prescritos pelo médico; um campo 
relativo ao papel próprio, no qual ela tem real autonomia e aplica seu próprio saber. 
Este campo próprio tem como foco a pessoa cuidada, tomada globalmente com 
características físicas, psicológicas, sociais e culturais, e se conforma, segundo o 
autor, como uma prática nova (ABRIC, 2011). 
A execução de tarefas relativas ao papel próprio varia na prática em termos 
de intensidade, o que permitiu o estudo de dois grupos, um onde os sujeitos são 
estimulados regularmente a exercer o papel próprio, e então de implementar as 
práticas novas; e outro onde os sujeitos exercem a sua função de maneira mais 
168 
 
tradicional centrada nas prescrições médicas. Partindo do pressuposto de que o 
acesso às práticas novas é um determinante na transformação das representações 
sociais, e tendo como enquadramento teórico o conceito de cognição prescritiva, 
realizou-se três manipulações empíricas de maneira a explicitar como esse processo 
ocorre. 
Em um dos estudos realizado com 40 enfermeiras diplomadas em Marseille, 
após caracterizar os grupos que exerciam o papel próprio ou não através de um 
questionário de intensidade, foi procedida uma análise de similitude com base em 
um instrumento de 20 itens. A análise confirmou a hipótese inicial de mudança na 
estrutura das representações sociais quando os sujeitos acessam as práticas novas. 
Então, nos indivíduos marcados pelas práticas tradicionais o papel prescrito ocupa 
lugar importante na representação e integra algumas prescrições do papel próprio. 
Ao passo que no momento que as práticas novas se tornam mais frequentes, as 
prescrições relativas ao papel próprio se destacam no campo representacional. 
Essas informações ajudam no fornecimento de pistas sobre os nexos que se 
constroem pelas enfermeiras para justificar o arranjo conferido às práticas de cuidar 
(ABRIC, 2011). 
As evidências fornecidas tanto pela classe 3 gerada pelo Alceste quanto 
pela observação de campo, bem como àquelas presentes neste arcabouço 
conceitual conduzem a dizer que as enfermeiras, ao pensarem sobre sua prática de 
cuidar circunscritas pelo cenário onde ela se desenvolve, se reportam ao seu 
cotidiano de assistir o cliente, revelando, deste modo, a estrutura de um modelo 
assistencial que serve de mola propulsora para a realização das suas ações diárias. 
Este modelo, conforme atestam os dados, é delimitado na prática pelas 
seguintes características: o cuidado é dividido/separado por tarefas a serem 
169 
 
executadas, entre as quais existe uma supremacia da terapêutica prescrita pelo 
médico, e, a partir desta, as outras atividades a serem feitas são ordenadas, 
principalmente às de atenção direta ao cliente, que possuem um cunho 
procedimental. Este compilado de atribuições causa grande preocupação no 
profissional, já que precisa dar conta de todos estes afazeres durante seu dia de 
trabalho. 
Nota-se assim um processo de ritualização deste aspecto nas práticas de 
cuidar na terapia intensiva. Isto é deveras interessante, pois segundo cita 
Jovchelovitch (2008) os rituais são ricos depósitos de sentido simbólico que indicam 
sistemas representacionais colocados em ação, ou seja, a disposição que dão às 
suas práticas e formas de agir são centrais para compreender as relações de 
produção, gestos e não-ditos, que, por sua vez, possibilitam manter ou produzir os 
saberes sociais. Jovchelovitch (op. cit.) continua afirmando que apreender o sentido 
do comportamento ritualizado, através das rotinas e repetições implementadas, 
permite captar o valor simbólico e afetivo investidos, que são bases do porquê da 
representação social, mapeando a lógica que orienta a perspectiva adotada . 
Ao remeter estes pressupostos teóricos à elucidação do objeto, percebe-se 
que esta maneira do fazer profissional está alicerçada em um paradigma de 
racionalidade que trouxe grandes influências no modelo de saúde que dele derivou, 
fortemente marcado por uma fragmentação e com abordagem centrada nos órgãos 
do corpo, entendidos como sistemas isolados. Então, constitui-se como reflexo de 
um modelo biomédico no qual a saúde é vista como ausência de doença, e que 
ainda repercute-se nos profissionais de saúde, mormente nas enfermeiras na sua 
dinâmica de trabalho (SILVA, 2009). 
170 
 
Vale destacar, que as condições sociais onde os saberes se desenvolvem 
são fundamentais no processo de formação do conhecimento, circunscrevendo a 
experiência cotidiana. A produção das representações sociais está intimamente 
ligada aestes contextos organizacionais, onde incidem complexos sistemas 
administrativos, divisão de trabalho, hierarquia, acesso a poder. 
No estudo das representações sociais sobre a prática tem efeito um ritual de 
cuidar que ganha sentido a partir do momento que a enfermeira se inscreve em um 
referencial biomédico de assistência, o qual circunda um ambiente atravessado pela 
carga da doença e de predomínio dos instrumentais terapêuticos, exercendo “força” 
sobre os profissionais na elaboração que fazem sobre a prática. 
As pessoas incorporam e lidam com as tecnologias na sua vida diária de 
variadas maneiras em função da utilidade que elas assumem nos diversos campos. 
Esse traço confere um polimorfismo a tal fenômeno, que o classifica como uma 
questão complexa na sociedade atual geradora de um debate público de grandes 
dimensões. Alguns teóricos já ressaltaram essa influência das tecnologias na vida 
das pessoas, a exemplo de Heidegger, Feinberg, enfatizando, principalmente, a sua 
capacidade de controle sobre o ser humano no plano político, econômico, cultural, 
social, ambiental, determinando no final o estilo de viver desses indivíduos. 
 Lahlou (2005), ao examinar o papel da tecnologia na reificação, avalia que 
estas tecnologias formalizam o processo de reprodução dos objetos em nome da 
ciência, sendo tomadas pela indústria e produzindo um fenômeno de reificação em 
massa que faz parte de um sistema industrial globalizado. Assim, os consumidores, 
cidadãos, agem diante destes objetos dentro de um contexto de forças políticas e 
econômicas, no qual os vários interesses serão mobilizados para conduzir a forma 
como irão lidar com eles. 
171 
 
Estas indagações em torno da maneira como as pessoas tratam a tecnologia 
vem estimulando reflexões que giram ao redor das concepções que estão atreladas 
a elas, em busca de uma compreensão mais abrangente que responda por todas as 
dimensões do cuidado em saúde. Nesta corrente se encontram diferentes iniciativas 
(KOERICH e colaboradores, 2006; AQUINO e colaboradores, 2010) que revisitam a 
literatura pertinente à temática no intento de mostrar que na assistência à saúde 
existe a necessidade de que os profissionais estejam imbricados com tecnologias de 
cuidado que superem os equipamentos e saberes tecnológicos estruturados e 
alcancem os processos de intervenção, as tecnologias do encontro e das 
subjetividades, o próprio saber da profissão que é mediado pela experiência. 
Isso atesta, ao mesmo tempo, a “espessura” social que as tecnologias 
apresentam, dentro da qual os sujeitos se implicam continuamente, e, a este 
processo, onde se inserem os elementos articulados às práticas grupais, o produto 
da conversação e o acesso aos meios de comunicação se misturam afetos, 
opiniões, sentimentos, valores e costumes que possibilitam explicar os modos como 
as pessoas se relacionam com as tecnologias no seu cotidiano (SILVA, 2009). 
Na saúde, e, em particular, em ambiente de cuidados intensivos, a prática de 
cuidar com a tecnologia parece se revestir de um significado particular. Neste lugar, 
considerando o seu domínio a partir da correta interpretação da linguagem emitida 
pelas máquinas, tal aparelhagem é vista como uma aliada para o desenvolvimento 
das ações de cuidar, que atua em benefício do cliente e do próprio profissional. 
Desta forma, fornecem um olhar tecnológico através da amplificação dos sinais do 
corpo do cliente, que alertam os sentidos destes agentes cuidantes para a 
necessidade de tomada de decisão, o que termina por deixá-los mais seguros e 
confiantes durante a sua jornada de trabalho. Este uso teoricamente imprime uma 
172 
 
maior velocidade às atividades, sobretudo na identificação das alterações clínicas e 
aplicação das intervenções. 
Apesar de geralmente serem destacados pelas suas qualidades positivas, os 
equipamentos existentes nas UTI são origem de angústia e desconforto de uma 
parcela dos profissionais. Isto porque, em muitas situações não encontram-se em 
condições apropriadas ao uso, em virtude da sua deterioração com o tempo. O risco 
de pane de funcionamento, incidentes, anomalias, causa uma visão negativa destes 
recursos, já que ocasionam uma intensificação do trabalho e reorganização da sua 
dinâmica. Como consequência os profissionais vivem em um estado de alerta 
permanente, na tentativa de evitar a ocorrência de prejuízos à saúde do cliente 
(MARTINS; NASCIMENTO, 2005; MARTINS; ROBAZZI, 2009). 
Em outros locais do hospital, a incorporação das tecnologias e o modo como 
isso se acontece também se enche de particularidades. Nos setores de clínica de 
internação, a introdução de tecnologias informatizadas recaiu sobre trabalho 
cotidiano da enfermeira e da sua subjetividade (FONSECA; SANTOS, 2007). Na 
tentativa de verificar a interferência destas tecnologias no cuidado e de como o 
profissional a vivencia é que se desenvolveu o estudo das autoras com sete 
enfermeiras por meio de entrevistas e observação. A convivência da enfermeira com 
este tipo de tecnologia remete aos seguintes aspectos: difícil, complicado, aumenta 
a quantidade de serviço, afasta da enfermaria, falta de destreza, mais lento. Com 
base no agrupamento que foi feito dos dados concluem que existe um desinteresse 
pelo trabalho mediado pela tecnologia informatizada, rechaçando-a, já que é 
esvaziada de significado para o seu trabalho (FONSECA; SANTOS, 2007). 
Essa necessidade de entender a relação do homem com as tecnologias no 
contexto de trabalho ainda impulsionou Silva, Alvim e Figueiredo (2008) a 
173 
 
investigarem a incorporação de tecnologias denominadas leves em setores de 
internação pelas enfermeiras no hospital. Neste sentido, mostram que no seu dia-a-
dia a prática de cuidar com as tecnologias leves ocorrem por meio das tecnologias 
de relação, como o acolhimento e a interação/comunicação, as quais, em vista do 
ambiente onde o cliente se encontra e a situação de fragilidade quanto à saúde, vão 
lhe possibilitar um cuidado mais eficiente e autêntico, na medida em que fornecerá 
subsídios para a construção do vínculo entre os partícipes da ação de cuidar. 
A ideia veiculada pelas enfermeiras na classe 5 de que no CTI a sua prática 
se materializa pela inserção das tecnologias (aparelhos) no cuidar, reforça a 
premissa de um saber técnico-prático – cuidado tecnológico, que se efetiva ao 
articular os alertas oferecidos pelo maquinário com aqueles enviados pelo cliente 
como base para um processo interpretativo, e que culmina com o diagnóstico e 
intervenção de enfermagem frente à situação problema captada. Esta perspectiva 
parece estar envolvida de forte cunho simbólico na construção das representações 
sociais. 
A função simbólica das representações é onde estão situadas as razões e 
as lógicas, através das quais o sujeito confere uma racionalidade específica ao seu 
sistema de conhecimento. Por meio de símbolos que dão sentido, incute-se na 
representação uma complexa rede de significados que vão se repercutir na 
mediação das pessoas com o objeto, abarcando os desejos e afetos nesse processo 
de conhecer (JOVCHELOVITCH, 2008). 
 O que num primeiro momento pode parecer irracional/irreal ao observador 
faz total sentido para os agentes implicados no conhecimento, os quais o produzem 
dentro de uma realidade psicológica. Desta maneira, o simbólico, na ótica das 
representações, apresenta o subjetivo e o intersubjetivo, expressando o lugar dos 
174 
 
desejos investidos, a dinâmica das interações que orientam os motivos e intenções 
imbricados nos processos representacionais (JOVCHELOVITCH, 2008). 
Acrescenta-se ao debate o fato de que a prática de cuidar com a tecnologia 
se realiza em um cliente potencialmente recuperável, portador de uma condição 
clínica em estado de criticidade que o fez ser internado em um setor que dispõe de 
recursos terapêuticos de “última geração” e equipe dotada de saberes 
especializados,que em conjunto cumpram a missão de serem capazes de promover 
cuidados intensivos avançados voltados ao restabelecimento de melhores níveis de 
saúde. Ao tempo que os profissionais devem responder a estes objetivos que 
demarcam o ambiente de atuação, se situam também em relação aos princípios que 
norteiam a profissão, e que, no caso da enfermagem, estão calcados em 
pressupostos básicos de respeito à vida, à dignidade humana, alcance de ótimo 
estado de saúde, os quais se encontram retratados nas posturas assistenciais. 
Entende-se, por fim, que este saber técnico - cuidado tecnológico simboliza 
um elemento importante articulado às práticas neste local, na medida em que 
exprime por intermédio das ações realizadas pela enfermeira, que associa a estas a 
importância do uso de tecnologias, o seu desejo de estar em consonância com as 
características de especificidade do ambiente, bem como as que se pautam no 
exercício profissional. 
Assim, empreende os seus esforços na decodificação das informações 
tornadas visíveis pela aparelhagem e na tradução das necessidades identificadas 
pelo olhar direcionado ao cliente, que, em última instância, darão subsídios para as 
intervenções, possibilitando conduzir à melhora ou recuperação em comparação ao 
problema de saúde inicial. É então neste agir compartilhado que o cuidado 
tecnológico tem espaço no CTI, oportunizando aos sujeitos construírem esta 
175 
 
realidade na qual encontram-se imersos. Quando este desejo se realiza, os 
profissionais se investem de sensações de orgulho e de sentimentos positivos em 
torno da sua prática. 
A percepção da enfermeira acerca do seu exercício profissional na terapia 
intensiva se constitui alvo de grupos de pesquisa voltados à gerência dos serviços, 
com o objetivo de melhor entender como ela enfrenta/vivencia o seu trabalho diário 
visando futuras intervenções. Neste ínterim, temáticas que frequentemente são 
vinculadas ao desempenho da assistência neste local são a 
satisfação/gratificação/motivação. 
A qualidade de ser um trabalho gratificante é atribuída em razão de que 
nesse espaço a enfermeira é dotada de um nível de autonomia para aplicar os 
conhecimentos provenientes da sua formação teórico-prática no atendimento direto 
ao cliente, o que propicia através de tal assistência observar sua melhora, e, 
consequentemente, o resultado do trabalho, sendo assim fonte de gratificação e 
prazer, e produzindo uma satisfação interior (CRUZ; SILVA, 2008). 
Salomé, Espósito e Silva (2008) corroboram que há um sentimento de 
satisfação quando se avalia o sentido de ser um profissional de terapia intensiva. 
Nos excertos que ilustram o trabalho destes autores, verifica-se que isso se deve ao 
fato de que para as enfermeiras essa prática de cuidar se apresenta como algo 
diferente, na medida em que adquirem novos conhecimentos a cada dia que as dão 
condições de evoluir enquanto profissionais, e, ao mesmo tempo, por lhes 
proporcionar visualizar a qualidade do cuidado prestado através da alta do cliente do 
setor, fazendo-a experimentar a sensação de valorização e satisfação. 
Os fatores motivacionais também já começaram a ser estudados por 
enfermeiras. Num destes estudos divulgado no ano de 2006, 53 funcionários da 
176 
 
equipe de enfermagem de uma UTI foram interrogados sobre os aspectos ligados à 
motivação. 
Algumas contradições são indicadas, pois embora 45% da equipe esteja 
desmotivada em trabalhar na unidade, 100% se diz satisfeita no trabalho e 75% não 
tem interesse em trocar de setor. Entre o que motiva, isto é, o que desperta uma 
disposição positiva para realizar uma atividade, está principalmente a característica 
de ser um trabalho desafiador e que promove uma realização profissional, além da 
existência de uma imensa responsabilidade por conta das condições dos clientes 
(MILANA; BUCARIA; CARTA; CONTRIN, 2006). 
No caso internacional, encontra-se na França o exemplo de uma pesquisa 
que trata a satisfação profissional como um dos motivos explicativos para que 
muitas enfermeiras estejam abandonando a profissão. Parte-se então da hipótese 
de que a satisfação depende da importância do papel próprio (reconhecimento das 
competências específicas) na representação profissional da sua função, mormente 
quanto ao valor da autonomia. Embasando-se em estudos já desenvolvidos, 
Lheureux (2010) afirma que quanto mais eles têm a possibilidade de aplicar com 
autonomia suas competências próprias mais eles são satisfeitos. 
O resultado da abordagem a 120 enfermeiras confirma a hipótese inicial, ou 
seja, quanto mais a representação está em torno dos elementos relativos à questão 
humana das doenças (possibilidade de implementá-los com autonomia em relação 
aos atos médicos) mais elas são satisfeitas, revelando as enfermeiras como pessoas 
(valores) e enquanto profissionais (papel próprio) (LHEUREUX, 2010). 
Continuando esta reflexão sobre o trabalho no CTI, observa-se com 
regularidade que uma das justificativas utilizadas pelo profissional para explicar a 
sua escolha por atuar neste setor está relacionada ao tipo de assistência que é 
177 
 
prestada e a especificidade da clientela hospitalizada. Esta inerência do cliente 
atendido na terapia intensiva, geralmente em graves condições clínicas e na qual a 
capacidade de comunicação está prejudicada, é abordada pelo profissional para se 
referir às características peculiares do trabalho no CTI. Todavia, este ponto tornou-
se foco de críticas da comunidade científica ao analisar o comportamento assumido 
pela enfermeira quanto à comunicação com o cliente considerando o seu nível de 
consciência. 
Uma ilustração bem clara disso é dada por Shimada e Silva (2003) em 
investigação que buscou identificar e avaliar a preferência de auxiliares de 
enfermagem de uma UTI ao prestar cuidados integrais aos pacientes com e sem 
condições de verbalização. Isto porque as experiências práticas forneciam indícios 
de que a equipe de enfermagem preferia trabalhar com pacientes inconscientes, 
intubados e traqueostomizados, ou seja, que não falam e não se queixam 
verbalmente. Além disso, havia uma maior distância dos pacientes que 
verbalizavam, comumente definidos como queixosos. Assim, foi feita a exploração 
desta questão com 15 auxiliares de uma UTI pública de São Paulo. 
Dentre os resultados, 8 preferiam os inconscientes, 4 os que verbalizam e 3 
foram indiferentes a seu estado de comunicação. Os motivos elencados para a 
opção pelo inconsciente foram: o que verbaliza chama a toda hora e impede o 
cumprimento de outras tarefas rotineiras pela equipe; não ter tempo para atender às 
outras necessidades de comunicação; o inconsciente tem suas demandas 
emocionais silenciadas pela sedação/coma; o inconsciente requer uma maior 
observação pelo seu quadro clínico. Para aqueles que escolheram o paciente 
consciente predominou o fato de precisarem de um maior apoio psicológico, e 
através da sua presença como profissional poderiam favorecer sua recuperação, 
178 
 
reduzindo o tempo de internação. Concluiu-se que a preferência pelos clientes 
inconscientes se pauta numa tentativa de se proteger do desgaste emocional que os 
que estão conscientes suscitam (SHIMADA; SILVA, 2003). 
Esta predisposição ao cliente sedado pela via da não comunicação é vista 
em linhas de pesquisa no sentido contrário de mostrar que a comunicação com o 
paciente sedado também é possível, e vislumbrando compreender de que maneira 
esse processo se daria. Foi o que fizeram Zim, Silva e Telles (2003) através de 
entrevista a 10 enfermeiras de um hospital escola com base na pergunta norteadora: 
como interagir com pacientes sedados aparentemente incapazes de se expressar? 
 A vivência das enfermeiras em torno do fenômeno o coloca em duas 
perspectivas: uma na qual a comunicação depende do grau de sedação do cliente 
(dependente), ou de que se tratam de coisas diferentes (independente); outra emque a comunicação depende da capacidade de percepção pelo cliente, sem relação 
com a sedação. Contudo, ambas convergem ao sinalizarem para a existência de 
comunicação com o sedado, apesar de a definirem como algo difícil pela falta de 
tempo, de reflexão, de estrutura da unidade e pela dúvida na compreensão pelo 
cliente da mensagem recebida. Ressalta-se a premência de maior aprofundamento 
das enfermeiras sobre o significado da comunicação, no intento de ampliar sua 
capacidade de percebê-la dentro do contexto do CTI (ZIM; SILVA; TELLES, 2003). 
Ainda quanto ao processo de comunicação no cuidado, remarca-se as ideias 
de Waquet (2004) ao discutir a fala como instrumento/ferramenta de trabalho, 
principalmente o seu papel na construção dos conhecimentos, no contraponto com 
objetos como o livro e o computador. Segundo o autor (op. cit.) a fala é um 
instrumento de primeira ordem na comunicação do saber, e que em um mundo onde 
as tecnologias da inteligência reverberam é fundamental recuperar o espaço da fala, 
179 
 
de natureza viva e animada neste conjunto, através da qual na produção de 
conhecimentos põe em evidência as trocas intelectuais, a relação com o outro, e se 
aproxima de uma ecologia cognitiva mais humanista. 
Ao reportar os dados analisados na classe 6 à discussão que a embasa 
reconhece-se que o trabalho da enfermeira no CTI incita nesta a vivência de 
sentimentos, a partir das propriedades apresentadas pelos clientes. Neste sentido, a 
condição de comunicação do cliente produz dupla significação. De um lado, 
representa o resultado da melhora do seu estado de saúde, a qual pode ser 
percebida pela capacidade de verbalização, o que cria um forte sentimento de 
gratificação, especialmente quando comparado ao padrão apresentado na 
internação, uma vez que a possibilidade de saída (alta) do cliente do setor em bom 
nível de saúde justifica todos os esforços empreendidos pelo profissional em favor 
da vida. 
Por outro lado, ao referir-se particularmente à questão interativa, diferencia 
os clientes que são aptos à comunicação daqueles que se encontram sedados, 
comatosos, e este elemento termina por tocar a prática com sentimentos opostos, 
gostar/não gostar, já que desloca a compreensão para a carga de trabalho/demanda 
associada à cada tipologia de cliente em termos de cuidado de enfermagem. Tais 
sentimentos expressam-se nas preferências relatadas pelas enfermeiras. 
Destarte, no fenômeno da prática de cuidar na terapia intensiva acentuam-se 
os afetos que tocam as enfermeiras, que pulsam no seu cotidiano de assistir e que 
se mostram quando falam desta prática, principalmente sobre o paciente. Vê-se 
então a dimensão afetiva das representações sociais, como abordada por Arruda 
(2009). De acordo com ela (op. cit.) os afetos contribuem à elaboração das 
representações sociais, pois o objeto provoca de tal maneira que os sujeitos 
180 
 
implicados nele se veem impelidos a falar, a participar deste circuito de 
conversação, sentindo-se incluído a partir do uso de uma linguagem que permite 
estabelecer a comunicação. Através da conversação mediada pelo objeto fortalece-
se os laços de pertença grupal, assim como os da identidade, visto que o ser ouvido 
causa o reconhecimento do grupo. A representação social tem uma função também 
de familiaridade com o grupo, e a dimensão afetiva é a base para esse processo, 
tendo como referência a memória, experiência dentre outros. 
É importante citar ainda as considerações de Farias e Rouquete (2003, p. 
436) que, partindo-se de autores como Rouquete, Rateau, Moliner comentam sobre 
a dimensão afetiva: 
a dimensão afetiva é importante à medida que influencia, às vezes 
organiza ou determina cognições ou comportamentos avaliativos. A 
partir do momento em que os indivíduos produzem uma avaliação do 
objeto de representação, ou de alguns de seus aspectos, pode-se 
dizer que a dimensão afetiva é ativada, dentro de um raciocínio do 
tipo, isto me agrada ou isto não me agrada. 
 
À luz do exposto acredita-se que o objeto prática de cuidar na terapia 
intensiva impulsiona, causa uma “pulsão” nas enfermeiras que com ele se 
interrelacionam, que as levam a falar acerca deste nos espaços grupais. Este objeto 
as enche de sentimentos de gratificação e satisfação, produtos do trabalho 
desenvolvido, os quais constituem a fagulha desencadeadora de uma coleção de 
ideias articuladas a ele e que reforçam a sensação de pertencimento. Nesta 
construção, ao colocarem o paciente no centro desta prática, novamente acessam a 
esteira dos afetos, dentro da qual realizam um juízo avaliativo do cliente baseado na 
sua capacidade de comunicação que irá orientar suas escolhas e as ações 
resultantes dessas. 
A intercessão entre as classes 3, 5 e 6 ilustradas pelas observações práticas 
fornecem indicativos sobre os contornos através dos quais as representações 
181 
 
sociais vão se formando. Este delineamento aponta que a dimensão afetiva 
encerrada neste objeto direciona a falar sobre o cliente, que passa a ter uma 
posição de centralidade nesta representação tendo em vista os afetos que evocam 
sua condição de comunicação. Tal característica do cliente pressupõe então dois 
aspectos a saber: a positividade e o nível de ocupação do trabalho. 
Assim, se o entendimento se assenta sobre a melhora clínica do paciente 
objetivada na sua fala e na implícita ideia de restabelecimento físico que ela carrega, 
a enfermeira experimenta um sentimento de gratificação no trabalho (classe 6), já 
que se configura como o fruto de uma prática de cuidar implementada com o auxílio 
da tecnologia (cuidado tecnológico), com o objetivo de atender às especificidades do 
ambiente onde ela se processa ao tempo que aos princípios básicos da profissão 
(classe 5). Logo, quando alcança sua meta torna-se uma prática positiva que 
gratifica a enfermeira, lhe traz satisfação, simbolizada por um cuidado tecnológico 
que dá sentido e coerência ao seu fazer profissional. 
Numa outra codificação, se esta natureza do cliente reenvia a um julgamento 
avaliativo deste mediado pelos afetos, distingue-se duas tipologias de paciente: 
acordado/lúcido/orientado versus sedado/comatoso/intubado, as quais anunciam 
uma maior ou menor ocupação dos profissionais, balizada pela demanda interativa 
que eles suscitam (classe 6). 
 Deste modo, a influência de um modelo assistencial que se estrutura por 
funções e no qual as intervenções têm como foco a doença, leva a categorizar o 
cliente em função do quantitativo de solicitações e possíveis dificuldades a serem 
enfrentadas pela enfermeira durante o trabalho. Então, o cliente em que a fala está 
preservada remete a um suposto de maior ocupação/sobrecarga, o que pode 
inviabilizar a realização das várias atividades burocráticas e assistenciais que ela 
182 
 
tem para fazer, justificando uma maior distância ou a escolha pelo paciente sob 
sedação, em uso do tubo endotraqueal, bem como a execução de ações 
fragmentadas e automáticas que materializam um ritual de cuidado (classe 3). 
Destaca-se neste contexto que a demanda interativa assume uma 
conotação negativa, pois a metodologia de obtenção dos dados sobre o cliente 
(histórico) se situa em um modelo de anamnese que tem como essência a interação 
clínica. Até porque em grande parte se considera que as tecnologias aplicadas irão 
portar todas as informações de que ele precisa. A consequência é que uma 
interação mais aprofundada distoa deste princípio, aludindo à sobrecarga da 
enfermeira, muito embora se saiba que este aspecto possa ter um efeito contrário, 
ou seja, o cliente possa se tornar colaborativo. 
Esta interface da enfermeira com o cliente não está presa ao indivíduo, 
enraizada numa elaboração individualizada, mas se dá no cotidiano, onde ocorre o 
contato com os outros e a partir do qual ela é reelaborada. As dimensões das 
representações ancoradas no cliente estão retratadas no esquemaexplicativo 2, o 
qual fornece ainda subsídios para o delineamento dos estilos de cuidar balizados 
pela noção de cuidado e ação tecnológica. 
 
183 
 
 
 
 
 
 
 Positividade do trabalho 
 
 Fala como expressão da 
 melhora clínica/ restabelecimento 
 físico 
 
 
 Gera gratificação e satisfação 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 Nível de ocupação no trabalho 
 
 
 Fala mediando o juízo 
 avaliativo da enfermeira 
 
 
 Acordado Sedado 
 Lúcido/Orient. Comatoso/Intub. 
 Não gosta Gosta 
 (maior ocupação pela (menor ocupação pela 
 demanda interativa) demanda interativa) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 CONSTROI 
 COTIDIANO 
 RECONSTROI 
 
Figura 17: Esquema explicativo 2 das RS sobre as práticas de cuidado da enf.ª na TI; Fonte: produção do pesquisador 
Estilo de cuidar: elementos 
do cuidado tecnológico 
Prática objetiva/subjetiva: 
Utiliza a tecnologia como um recurso auxiliar 
que potencializa a recuperação do cliente, 
valorizando sua fala como instrumento de 
apreensão das necessidades 
SENTIMENTOS VINCULADOS 
AO CLIENTE 
(Condição de comunicação) 
Processo de cuidar com a 
tecnologia: 
-Articula dados da 
máquina/cliente 
(objetivos/subjetivos); 
-Avaliação clínica (exame 
clínico/suporte teórico); 
-Interpretação (reflexão); 
-Diagnóstico e Intervenção 
Modelo assistencial: 
-Estruturado por 
funções/tarefas; 
-Foco na doença; 
Supremacia da terapêutica 
médica; 
-Atenção ao cliente de cunho 
procedimental; 
Prática objetiva: 
Escolhe o sedado/intubado para cuidar, 
distanciando-se do acordado pela sua demanda 
interativa. Executa-se ações burocráticas e 
assistenciais de maneira fragmentada e 
automatizada- cunho procedimental 
Estilo de cuidar: elementos 
da ação tecnológica 
Referencial: 
características do 
ambiente e princípios 
da profissão 
Referencial: 
paradigma 
biomédico e de 
racionalidade 
DIMENSÃO AFETIVA DAS RS 
DIMENSÃO SIMBÓLICA DAS RS 
184 
 
As variáveis psicossociais e profissionais que aparecem com maior 
relevância nesta construção de sentido são sexo feminino, enfermeiras menos 
jovens/mais tempo de formado, turno diurno, católicos. Estas variáveis se aglutinam 
ao redor de um discurso demarcado pela praticidade do cotidiano, pelo fazer do dia-
a-dia, de onde surgem sentimentos que distinguem o seu trabalho. No bojo desta 
prática estão ainda o paciente, as tecnologias usadas no seu cuidado e as suas 
variadas atividades. 
Constata-se, portanto, que ao passo que o primeiro grupo de classes se 
ancora socialmente de maneira mais predominante nos homens, enfermeiros mais 
jovens e que atuam à noite, orientada por uma concepção crítica/intelectualizada da 
tecnologia e dos estilos de cuidar que se organizam em torno dela, as classes 
reunidas nesse eixo tem um tom mais feminino e experiente, articulando-se por uma 
característica executiva do seu trabalho. 
Esse campo psicossocial direciona a seguinte análise: a enfermagem 
enquanto profissão apresenta um progresso histórico que a localiza como feminina e 
que evoluiu dentro de um panorama de profundas disparidades, como é o caso da 
divisão social/sexual do trabalho. Embora o movimento da atualidade demonstre um 
maior influxo de homens, as mulheres identificam a categoria, e, nesta ótica, o fator 
gênero constitui-se de grande importância na sua trajetória. 
Considera-se assim, que neste percurso evolutivo quando comparada às 
ocupações ditas masculinas, mais valorizadas e titulares de um saber científico e 
intelectualizado a enfermagem foi relegada ao plano das atividades manuais, à 
execução de ordenações médicas, desprovidas de um cunho científico, vista como 
invisível, uma extensão do lar onde a mulher cuida dos demais conferindo-os 
carinho e atenção. Conjectura-se com base no exposto, que este delineamento da 
185 
 
historicidade das enfermeiras se liga à conformação de uma narrativa 
eminentemente prática e cheia de componentes emotivos. 
Uma segunda reflexão a fazer é que ao se pensar nos níveis de 
desenvolvimento profissional, que diferencia as enfermeiras chamadas novatas 
daquelas com maior experiência, entende-se que o conhecimento guarda relações 
com a experiência, isto é, a enfermeira com maior experiência desenvolve, testa e 
refina as suas proposições e princípios baseada em situações práticas, 
apresentando grande consciência intuitiva. Os saberes práticos, instrumentos que a 
enfermeira lança mão no exercício diário da profissão, são a base para as decisões 
daquelas definidas como experientes, o que justifica uma linha argumentativa 
sustentada por sua prática observada na pesquisa. 
Por fim o turno de trabalho diurno, com todas as contingências de um setor 
de terapia intensiva, envolvido durante o dia pela agitação, presença da família, 
realização de procedimentos, interação multiprofissional, que servem de eixo 
norteador para uma fala mais centralizada sobre a prática, onde estão o paciente, as 
tarefas de cuidado a executar, o uso dos instrumentos auxiliares ao cuidado. 
Em função destas 03 hipóteses, envolvendo sexo, horário de trabalho e 
tempo de formação profissional, realizou-se uma segunda rodagem do material 
textual através de três novas testagens do corpus de investigação no programa 
Alceste. Assim, em cada caso verificava-se se existiam diferenças na produção do 
discurso em razão das variáveis psicossociais e profissionais selecionadas, quais 
sejam: turno diurno/noturno, mais tempo de formado/menos tempo de formado; sexo 
masculino/sexo feminino. Os resultados relativos ao horário de trabalho podem ser 
visualizados no quadro 11: 
 
186 
 
Classe 1 
Turno Diurno 
Classe 2 
Turno Noturno 
 Chi² Porc. Chi² Porc. 
Eu 
Esta 
Pessoas 
Mesmo 
Humanização 
Isso 
Acham 
Parâmetro 
Agir 
Porque 
Aqui 
Digo 
Dou 
Apenas 
Existe 
Gerencial 
Característica 
Sei 
Disse 
Falo 
Defeito 
Precisa 
Assistencialista 
Deve 
Sou 
31 
31 
27 
26 
22 
21 
20 
19 
18 
18 
16 
15 
14 
14 
14 
14 
14 
14 
13 
13 
13 
13 
13 
12 
12 
49 
53 
54 
58 
87 
51 
75 
81 
79 
51 
54 
74 
86 
89 
61 
93 
73 
54 
93 
65 
100 
61 
100 
66 
59 
Terapia intensiva 
Cuidado 
Assim 
Grande 
Demanda 
Você 
Ambiente 
Formação 
Talvez 
Noite 
Postura 
Gerar 
Tarefa 
Questões 
Consegue 
Interação 
Assistência 
Normalmente 
Profissional 
Dependendo 
Hoje 
Geral 
Nível 
Papel 
Ano 
69 
44 
32 
32 
32 
28 
27 
26 
24 
23 
22 
21 
21 
20 
20 
20 
19 
19 
19 
18 
17 
16 
16 
16 
15 
81 
68 
61 
81 
94 
60 
87 
97 
75 
83 
90 
100 
89 
86 
69 
84 
69 
94 
69 
88 
71 
72 
90 
81 
75 
 Quadro 10: Análise cruzada segundo a variável turno de trabalho 
Neste sentido, percebe-se que os profissionais atuantes durante o dia 
produzem um discurso em primeira pessoa, utilizando verbos como digo, dou, sou, 
estou, falo, para se situar em tal discurso e também os seus colegas, remetendo-se 
ao seu cotidiano e tendo como pano de fundo o paciente. 
(...) O meu estilo de cuidar, primeiro com amor, eu chego até o paciente lá do leito dois, ontem fiquei 
feliz da vida que eu cheguei lá, sempre que chego lá, que vou no CTI trocar de roupa, e dou uma 
olhada nos pacientes. (uce 2081, enf. 14) 
 
Sou aquela pessoa de home care mesmo, independente se vou demorar uma, duas,três horas, eu 
fico lá, sou aquela pessoa que vê cada detalhe. Vejo se tem que limpar orelha, não só aquela coisa 
superficial e pronto, tem que ver e acabou pronto, não, gosto de fazer xuxinha, gosto de cortar e lixar 
a unha, eu cuido da pessoa como se fosse alguém da minha família. (uce 28, enf.1) 
 
Eu estou olhando para o monitor e ele está taquicárdico, ele está taquicárdico e eu não faço nada, 
“_ele está febril? Ele não está?” Eu tenho que ver o porquê dele estar taquicárdico. (uce 1911, enf 13) 
 
Por outro lado, as enfermeiras noturnas falam sobre o contexto da terapia 
intensiva, remetem-se a este ambiente de cuidados de maneira genérica, 
preocupando-se com a formação, a postura e o desempenho adequado do papel 
pelos profissionais que lá atuam. As palavras formação, profissional, assistência e 
terapia intensiva são exemplos disso. 
187 
 
(...) A minha preocupação maior é essa, em termos da formação profissional, da maneira como este 
profissional que trabalha na terapia intensiva está sendo formado, “_será que ele está sendo formado 
distante do leito?” (uce 2339, enf 15) 
 
(...) e não a quantidade, mas assim, a verdadeira assistência, e o índice de segurança técnica com 
relação à quantidade de enfermeiros dentro do CTI com dez leitos, de um cuidado ideal a gente 
nunca vai ter eu acredito, até que a gente possa ter. (uce 3519, enf 20) 
 
(...) que perceba as modificações e que atue perante essas modificações, sempre objetivando o 
melhor para o paciente. Acho que se ele conseguir agregar essas qualidades, esses fatores ou 
elementos em um profissional só, você teria uma terapia intensiva acho que melhor desempenhada, 
de repente até com reconhecimento profissional melhor. (uce 2403, enf 15) 
Portanto, aqueles que prestam assistência durante o dia centram-se no 
paciente, fazendo referência, ao mesmo tempo, aos seus colegas de trabalho 
através do uso da palavra pessoas, e abarcando assim as diversas dimensões do 
cuidado - a gerência, a assistência, os procedimentos, a tecnologia, o aspecto 
humano. 
Mas paciente nenhum chama por chamar, às vezes ele está sentindo dor, sentindo alguma coisa ou 
não está sentindo nada, ele quer a presença de uma pessoa ali, não custa nada você ir ali, dar uma 
certa atenção ao paciente. (uce 2105, enf 14) 
 
Eu me surpreendi com o, é verdade, eu me surpreendi que as pessoas aqui se preocupam se vai 
está, se o paciente está sujo, os técnicos se preocupam se o paciente está sujo, se preocupam com 
as coisas. (uce 790, enf. 6) 
 
O que eu acho, particularmente eu não me encaixo nisso, não me incluo nisso, mas que tem pessoas 
assim, as pessoas se tornam muito automáticas, acham que tudo é parte tecnológica. (uce 41, enf 1) 
 
Mas tem que haver essa parte de humanização, é isso que falta nas pessoas, em muitas pessoas a 
humanização (...) por isso que eu digo, tem que haver tecnologia sim, me relaciono bem, eu não 
tenho assim resistência com a tecnologia. (uce 2097, enf 14) 
 
Enquanto no primeiro grupo identifica-se o uso de uma linguagem que indica 
proximidade, neste segundo o termo você apresenta um tom de distância, referindo-
se ao processo de cuidar e ao comprometimento profissional para efetivá-lo. 
Demanda de você uma assistência direta, que tem um comprometimento maior, porque se você não 
tem, isso vai gerar no serviço um transtorno, seja porque a taxa de infecção hospitalar vai aumentar, 
a taxa de mortalidade vai aumentar. (uce 682, enf 5) 
 
Elas vão favorecer esse processo de você conseguir cuidar desse paciente de uma maneira que você 
consiga entender a situação daquele paciente e oferecer para ele, dentro daquilo que está disponível 
no CTI, um algo que vai melhorar. (uce 3532, enf 21) 
 
E continuo afirmando que para mim o que é palpável é muito mais fácil do que o que não é, agora 
essa questão do subjetivo na terapia intensiva, isso sempre vai ser elemento de discussão, sempre 
vai ter barreiras que não vão favorecer o processo. (uce 2326, enf 15) 
 
 
188 
 
Classe 1 
Menos tempo de formado 
Classe 2 
Mais tempo de formado 
 Khi² Porc. Khi² Porc. 
Questão 
Pessoa 
Cara 
Verdade 
Maneira 
Relação 
Situações 
Existem 
Era 
Falei 
Enfermeiro 
Gosto 
Interação 
Postura 
Elemento 
Paciente 
Enfim 
Sinto 
Dentro 
Podem 
Informação 
Normalmente 
São 
Creio 
Próximo 
39 
34 
27 
26 
25 
24 
23 
21 
19 
19 
19 
17 
17 
16 
16 
16 
15 
15 
15 
14 
14 
14 
13 
13 
13 
80 
69 
86 
82 
76 
78 
84 
84 
79 
75 
70 
77 
88 
90 
97 
65 
79 
92 
74 
88 
88 
94 
69 
93 
87 
Doente 
Mas 
Você 
Tudo 
Meu 
Cuidado 
Acho 
Olha 
Não 
Acaba 
Talvez 
Papel 
Depois 
Aquele 
Bomba 
Vê 
Faz 
Vou 
Família 
Prontuário 
Capacitação 
Farmácia 
Prioridade 
Cada 
Ajudar 
73 
33 
28 
27 
26 
25 
24 
24 
19 
19 
19 
18 
18 
16 
16 
15 
15 
15 
15 
14 
14 
13 
13 
12 
12 
63 
45 
45 
53 
52 
49 
44 
60 
41 
52 
57 
67 
59 
48 
81 
52 
51 
49 
60 
100 
100 
73 
79 
51 
60 
 Quadro 11: Análise cruzada segundo a variável tempo de formação profissional 
O comparativo baseado na variável tempo de formação profissional destaca 
de um lado os menos experientes e do outro aqueles com maior experiência na 
profissão. As enfermeiras que integram este primeiro grupo utilizam com frequência 
a palavra questão, conferindo-lhe uma perspectiva reflexiva. Então, a empregam 
para retratar a discussão em torno das maneiras de atuar da enfermeira, dando um 
tom analítico à interface entre proximidade e distância, as informações objetivas e 
subjetivas, ambas intermediadas pela interação com o cliente. As palavras maneira, 
interação, elemento, próximo, enfermeiro também vão ao encontro desta afirmação. 
Além disso, as palavras emprego, objetiva, proximidade e tecnológica com 
porcentagem de 100% são características deste grupo, ratificando esta 
argumentação. 
Eu acho particularmente que a gente pode viver perfeitamente com as questões objetivas e as 
subjetivas dentro da terapia intensiva, vou fazer isso como faço dentro ou fora dela. Agora é fato que 
as pessoas lidam com isso de maneiras diferentes é, tem enfermeiro que vai estar muito mais 
próximo e tem enfermeiro que não vai está. (uce 2327, enf 15) 
 
As pessoas que são mais extrovertidas tendem a cuidar dos pacientes de maneira mais leve no 
sentido da interação, costumam ter uma interação de uma maneira mais a nível de brincadeira, a 
nível de ponderação. (uce 1013, enf 7) 
 
189 
 
Então assim, creio que o subjetivo eu vou avaliar de qualquer maneira, sendo com tecnologia ou sem 
tecnologia, os elementos que serão observados não vão diferenciar, dependendo da área de atuação. 
E é verdade, quem trabalha no CTI, trabalha muito a questão técnica, você executa atividades de alta 
complexidade, você consegue agir com maior destreza em situações que requerem habilidade, agora 
falar no CTI não é convencional. (uce 2315, enf 15) 
 
Acrescenta-se ainda que tais profissionais denotam analisar os fatores que 
se associam ou interferem nas maneiras de agir, como por exemplo, a carga de 
trabalho e o cansaço. 
(...) quem tem uma rotina de trabalho, de atividades muito grande no período diurno prejudicam o 
trabalho noturno, assim como o enfermeiro, como pessoas que tem uma acumulação de trabalho no 
período diurno sofrem uma relação mais distante com os pacientes por cansaço. (uce 115, enf 7) 
 
Olha, vejo as pessoas muito cansadas, muito desgastadas com o trabalho exercido na terapia 
intensiva, como eu tive uma parada em alguns anos, eu passei a exercer uma atividade 
administrativa, passei a ocupar um outro lado. (uce 2359, enf 15) 
 
As enfermeiras experientes, por sua vez, adotam uma narrativa pragmática, 
pautando-se na defesa em prol do cuidado, aproximando-se do fazer e da prática da 
profissão. A prioridade do cuidado direto ao invés do papel administrativo é 
ressaltado por eles. 
Eu acho que a própria autonomia preocupa um pouco, entendeu. A autonomia não docuidado, a 
autonomia para quando você delega, porque infelizmente tem colegas que querem só delegar, não 
querem fazer, e quando você se afasta do cuidado, se afasta da prática, você é visto como aquele 
enfermeiro que só está no papel. (uce 3368, enf 20) 
 
Mas não é prioridade entendeu, não estabelece a prioridade naquele momento. Então acaba ficando 
difícil, acho que isso é uma coisa que me preocupa sim, enfermeiro só do papel, enfermeiro que se 
afasta do cuidado, enfermeiro que só quer ter o título, mas assim, a titulação (...). (uce 3375, enf 20) 
 
Este cuidado está imerso de afazeres que fazem parte do seu cotidiano e 
prática de assistir. Nesta medida, abarca uma série de atividades, as quais estão 
retratadas nos excertos que tratam da família, farmácia, sangue, bomba, prontuário, 
cateter, pedido etc. 
Só vem a numeração, então eu acho isso errado, porque tinha que estar com identificação, com 
matrícula, com tudo. Então assim, eu me preocupo a ficar mais atenta do que a gente já tem que ter 
realmente, e aquela, vou botar um sangue, vejo o nome do paciente, o boxe, por mais que você já 
conheça, mas a gente sabe que realmente tem que fazer isso. (uce 3127, enf 19) 
 
Eu preciso trocar o respirador, preciso pegar o monitor de transporte para colocar, preciso trocar 
aquela bomba, enfim, algumas coisas a gente acaba resolvendo, mais ou menos resolvido, mas 
assim, de dia é mais fácil pelos serviços que são auxiliares que vão ajudar a gente. Tem a chefia na 
casa, tem a diarista que está aí, profissionais de apoio que vão ajudar na resolução desse problema e 
a gente tenta ajudar dessa forma. (uce 626, enf 5) 
 
190 
 
Ver o que a família também sente para gente poder ajudar também, esse é o momento que a gente 
senta para poder escrever porque tem que registrar tudo, esse é o momento que a gente senta para 
poder estar escrevendo, para poder receber farmácia. (uce 434, enf 4) 
Por fim, revestem os depoimentos sobre sua prática voltada ao doente pelo 
cunho da experiência, indicando os modos adequados de atuar frente a ele. 
Você não vai gerar mais, não é dispositivo não, mas você não vai gerar mais sofrimento para o 
doente ou mais complicação para o doente além daquelas todas que ele está ali entendeu, mas você 
vai tentar também prevenir aquelas outras que podem surgir. (uce 3505, enf 20) 
 
Você, aquilo te sinalizou, você chamou, porquê você também não trabalha, eu não quero fazer o 
papel do médico, eu quero fazer o meu papel de enfermeiro. Eu quero saber a hora que eu tenho que 
levantar a cabeceira, “_não, vamos elevar as pernas, vamos fazer os meus cuidados”, o que eu 
posso fazer para melhorar hemodinamicamente, não é a medicação, mas é de repente também de 
sinalizar. (uce 3049, enf 19) 
 
 
Classe 1 
Sexo masculino 
Classe 2 
Sexo feminino 
 Chi² Porc. Chi² Porc. 
Assistência 
Maneira 
Terapia intensiva 
Atividade 
Enfermeiro 
Creio 
Verdade 
Elemento 
Utilização 
Próximo 
Postura 
Tarefa 
Grande 
Questões 
Situações 
Óbvio 
Sua 
Vão 
Processo 
Administrativo 
Nível 
Uma 
Distante 
Cara 
Diferente 
108 
107 
106 
96 
83 
78 
75 
67 
65 
62 
61 
61 
59 
58 
54 
50 
48 
44 
42 
40 
38 
37 
37 
36 
36 
50 
49 
49 
68 
39 
90 
52 
83 
100 
70 
71 
70 
51 
66 
51 
86 
41 
47 
63 
73 
68 
27 
72 
47 
42 
Porque 
Não 
Mas 
Sei 
Mesmo 
Doente 
Esta 
Estou 
Só 
Mim 
Entendeu 
Ali 
Vez 
Vou 
Hora 
Tudo 
Isso 
Junto 
Posso 
Pouco 
Até 
Banho 
Ficar 
Jeito 
Olhar 
77 
49 
39 
39 
36 
30 
27 
25 
22 
22 
22 
21 
20 
18 
17 
17 
15 
14 
14 
14 
13 
13 
13 
13 
11 
87 
81 
84 
91 
90 
91 
83 
90 
87 
92 
88 
87 
84 
87 
89 
88 
82 
95 
91 
87 
85 
90 
88 
94 
90 
Quadro 12: Análise cruzada segundo a variável sexo 
Quanto à variável sexo, verifica-se nos homens uma linguagem mais 
elaborada, que dá uma conotação de impessoalidade e indica reflexão/análise, 
como são o caso de termos como elemento, processo, questão, postura, que podem 
ser vistos nos trechos abaixo. 
 (...) se tornar um mero executor de tarefas que já estão lá enraizadas no seu subconsciente, eu acho 
que isso que é a grande preocupação, deveria ser a grande preocupação do profissional da terapia 
intensiva, não se distanciar do elemento pensante do processo. (uce 2284, enf 15) 
 
Um ou outro com capacidade reflexiva, crítico reflexiva, vamos dizer assim. (uce 2311, enf 15) 
 
191 
 
Dessa reflexão emergem as questões que se articulam a assistência na 
terapia intensiva, mormente àquelas voltadas a formação profissional e sobrecarga 
de trabalho, a proximidade e distância ao leito do cliente, bem marcadas nas 
palavras terapia intensiva, assistência, próximo e distante. 
 (...) dos elementos que te preocupam, para um cuidado mais individualizado, muito mais 
especializado vamos dizer assim. A minha preocupação maior é essa, em termos da formação 
profissional, da maneira como este profissional que trabalha na terapia intensiva está sendo formado, 
será que ele está sendo formado distante do leito. (uce 2339, enf 15) 
 
Então, uma boa parte da minha preocupação em relação a enfermagem, é essa questão da 
acumulação de trabalho e aí você prejudica a assistência. E uma outra coisa que me preocupa 
bastante é a questão do reconhecimento como profissionais, não só o reconhecimento, digamos na 
terapia intensiva o que me preocupa é isso, a sobrecarga de trabalho, mas na profissão como um 
todo. (uce 116, enf 7) 
 
Você tem uma carga de trabalho, uma jornada de trabalho muito grande, como também 
preocupações de quem a enfermagem, você é representada pela enfermagem, uma pessoa sempre 
vai representar sua classe, então se você escutar uma notícia do jornal. (uce 1119, enf 7) 
 
Surgem ainda nos homens algumas concepções ligadas ao uso de tecnologia 
no cuidado. 
Então, o uso da tecnologia na enfermagem, para mim, é uma utilização das aparelhagens, dos 
instrumentos, dos dispositivos que foram desenvolvidos no decorrer do tempo, com a evolução dos 
processos como um todo e, que esses equipamentos (...). (uce 987, enf 7) 
 
 (...) Em relação à tecnologia, o que é uma coisa assim, me exige em algumas situações, a questão 
do uso das tecnologias fora da unidade hospitalar influenciam também no uso da tecnologia a nível 
hospitalar. (uce 1015, enf 7) 
 
 O gênero feminino vem demarcado na organização de sua classe pelo uso 
de termos que ajudam a constituir um discurso explicativo sobre sua prática, 
revelando as contingências do cotidiano. Expressões que aludem a negação, 
contradição, explicação (não, mas, porque), assim como aquelas de sentido 
demonstrativo (ali, esta, isso, vez, hora) conferem o cunho descritivo desta prática. 
 (...) porque, por exemplo, se tem alguma coisa, a gente discute com o médico, quando ele faz uma 
prescrição, não é porque ele prescreveu que eu vou fazer, mas se eu tenho dúvida em relação aquilo, 
eu vou lá perguntar: “_é isso mesmo que está aqui?” (uce 2185, enf 14) 
 
Eu quero que sempre tudo chegue a mim, não admito que faça alguma coisa sem, não, não aceito 
assim, sem falar comigo, sem, não pedir, mas sim tem que me comunicar: “_estamos pensando em 
fazer isso, acho melhor aquilo”, a gente juntos. (uce 818, enf 6) 
 
E quando tiver algum problema a gente sentar e discutir, mas eu tenho muita dificuldade, porque eu 
fico sabe, às vezes eu fico irritada, mal humorada ai eu vou lá e tento fazer, ou então eu chego para 
pessoa falo: “_olha só, de quem é esse doente aqui?”. (uce 3386, enf 20) 
192 
 
 
O uso da palavra entendeu pelos entrevistados demonstra esta tentativa de 
reafirmar a explicação dos aspectos da prática. 
Só que existem algumas especificações que jogavam só para o ministério da saúde, eu tenho que 
avaliar, eu tenho que não sei o quê, varias coisas que recaem para quem é do ministério, entendeu, 
e isso acabou cada dia mais. (uce 827, enf 6) 
 
Tem alguns que reclamam até, que falam da gente justamente isso: “_ah eu tive lá no CTI, mas nãosei nem quem é a enfermeira!”, entendeu, porque não, mas eu, eu escuto muito bem, eu escuto muito 
bem, eu ganho presentinho, então eu acho que (..). (uce 962, enf 6) 
 
No caso da aplicação de tecnologias, se apoiam na sua prática diária de 
cuidar em face delas, trazendo as características de como se processa este seu 
fazer. 
Mas muitas vezes aquele paciente está estável, é lógico que durante o banho ele pode ter alguma 
instabilidade hemodinâmica, mas muitas vezes o paciente está estável, quando ele está instável, 
realmente, eu não desligo, assim nem desconecto, mas vou dando o banho, mas se descolar vai 
ficar, vai ficar se o paciente não estiver grave. (uce 2575, enf 17) 
 
Então em relação a algumas coisas, existe a tecnologia, mas assim, às vezes está quebrada, aí 
então o monitor não fica, aí o pessoal tem, o pessoal, eu me incluo até também, é de as vezes tirar o 
monitor e observar o cliente, eu não gosto. (uce 771, enf 6) 
 
 
 
 5.2 A análise do conteúdo 
Conforme destacada na metodologia, esta técnica de análise foi aplicada 
aos dados na tentativa de complementar o conteúdo presente nas 6 classes 
originadas pelo programa Alceste. Sendo assim, terá um cunho abrangente e utiliza 
como referência tais resultados prévios. 
A análise se amparou nos seguintes indicadores: 
Unidades de registro temático: unidades compostas por temas, a partir das 
quais foi feito o registro (marcação) de todo o corpus das entrevistas; 
Unidades de significação ou temas: núcleos de sentido, ao redor dos quais 
se aglutinam um conjunto de unidades de registro temático. Na sua organização, 
foram consideradas todas as expressões sobre o tema; 
193 
 
Análise categorial: análise das unidades de significação com base na sua 
quantificação e na dimensão em que apareciam na interface com o objeto da 
pesquisa. 
Estes indicadores possibilitaram a construção dos quadros em seguida, que 
buscam retratar o processo de categorização. Os quadros estão organizados a partir 
de 03 colunas. A primeira diz respeito às unidades de significação, compostas por 
suas respectivas unidades de registro temático. O somatório em número absoluto 
das ocorrências destas unidades de registro temático dá origem a segunda coluna. 
A terceira coluna equivale, por fim, à sua frequência porcentual em relação ao 
quantitativo de entrevistados (21). 
Quanto às variáveis psicossociais e demográficas, foram inicialmente 
consideradas àquelas que mais se destacaram na emergência de cada tema, as 
quais, num segundo momento foram relacionadas ao conjunto de temas que 
integram as unidades categoriais, compondo assim o que denominou-se de 
variáveis associadas, cuja discussão é aprofundada no decorrer da descrição de tais 
resultados. 
As convergências temáticas das categorias conduziram a estruturação de 
dois eixos orientadores da análise, sendo o primeiro denominado: “Os elementos da 
prática de cuidar das enfermeiras na terapia intensiva (TI)” e o segundo: “A 
complexidade do trabalho na terapia intensiva”, em torno dos quais dar-se-á a 
apresentação dos dados oriundos do emprego desta técnica. 
 
 
 
 
194 
 
5.2.1 Elementos da prática de cuidar das enfermeiras na terapia intensiva 
5.2.1.1 A enfermeira e o lidar com tecnologias nas práticas de cuidar na 
terapia intensiva 
Temas/ Unidades de significação Nº UR % UR 
Efeitos da tecnologia 
Positividade da tecnologia: 18 ocorrências 
Negatividade da tecnologia: 09 ocorrências 
Coocorrência- positividade/negatividade: 07 
 20 95% 
Tipos de enfermeiras em relação ao uso da tecnologia 
Grupo das que utilizam em conformidade com as enfermeiras intensivistas: 14 
ocorrências 
Grupo das que utilizam de maneira inadequada: 10 ocorrências 
Coocorrência- uso adequado/uso inadequado: 05 
 19 90% 
Cotidiano prático de cuidar com a tecnologia 
Subutilização da tecnologia: 09 ocorrências 
Substituição da tecnologia: 11 ocorrências 
Naturalização da tecnologia: 05 ocorrências 
Coocorrência- Subutiliza/ Naturaliza: 03 
 Subutiliza/Substitui: 02 
 Substitui/Naturaliza: 02 
 17 80% 
Interação com o cliente no CTI em face das tecnologias 
Prioridade das rotinas administrativas: 08 ocorrências 
Valorização dos doentes mais graves/dados objetivos: 09 ocorrências 
Articulação objetivo/subjetivo: 06 ocorrências 
Não envolvimento: 02 ocorrências 
Coocorrências: Rotinas/Mais graves: 03 
 Mais graves/Envolvimento: 02 
 Mais graves/Articulação: 02 
 Rotina/Articulação: 01 
 18 85% 
A enfermeira e o lidar com as tecnologias nas práticas de cuidar na terapia intensiva 
Variáveis psicossociais e demográficas associadas: 
Sexo, idade, tempo de formação profissional, especialização, escolha para trabalho no setor, 
turno de trabalho 
Quadro 13: Unidades de registro temático associadas às tecnologias no CTI 
A análise de conteúdo aplicada aos dados empíricos aponta que a utilização 
de recursos tecnológicos na assistência de enfermagem na terapia intensiva 
perpassa de um lado pelos efeitos positivos e do outro pelos negativos. A 
positividade do uso da tecnologia obteve 18 ocorrências no corpus de análise, as 
quais estiveram relacionadas, sobretudo, ao impacto direto que a incorporação de tal 
instrumental traz às ações profissionais. Dentre estes efeitos benéficos está o 
fornecimento de informações mais qualificadas a enfermeira, que possibilitarão 
orientar suas condutas diante do cliente, sub-tema recorrente em 10 das 18 
unidades de registro temático, como se observa nestes fragmentos de entrevistas. 
195 
 
Acho que influencia no aspecto de você ter um olhar até mais direcionado durante a sua avaliação do 
teu paciente. A gente começa a avaliar esse paciente e olha logo para o monitor, e a gente já tem um 
retrato mais ou menos de como está esse paciente. (Enf. 8) 
 
Vai dizer o modo como eu tenho que agir, o que eu tenho que fazer, se ela está me mostrando que 
uma coisa não é normal e pelo meu conhecimento eu vejo que não é normal, eu vou agir de 
determinada maneira para resolver o problema ou minimizar o problema ou chamar alguém que 
possa resolver. (Enf. 9) 
 
Ela subsidia, ela dá informações para que nós possamos traçar nossas condutas (...) A tecnologia, 
ela contribui com informações que vão subsidiar nossas decisões e condutas. (Enf. 18) 
 
Um dos processos que concorre para a elaboração da representação social 
de um fenômeno é a objetivação, que corresponde a uma operação do imaginário, 
através da qual o indivíduo concretiza e estrutura os conhecimentos relacionados ao 
objeto da representação. Para tanto, lança mão de imagens no intuito de dar 
concretude à noções abstratas. Os fragmentos acima que tratam das tecnologias, 
trazem exemplos de objetivações ao referi-las como um retrato ou dispositivo 
tradutor do corpo do cliente, que mostra algo sobre ele ao profissional. Essas 
imagens indicam que a tecnologia é semelhante a uma máquina fotográfica, que 
materializa a doença, tornando visível o invisível. 
Destaca-se ainda com 6 ocorrências, que o acesso a estes dados clínicos de 
maneira rápida acelera a detecção de problemas junto ao cliente, e, 
consequentemente, fornece condições para que a implementação de intervenções 
seja otimizada. Além disso, abre espaço para outras frentes de atuação da 
enfermeira. 
 Um monitor digital e um aparelho de pressão são exemplos que você pode poupar o teu tempo, e 
aquele tempo que você estaria se deslocando para pegar um aparelho de pressão, verificar uma 
pressão, você tem um monitor ali, multiparamétrico, que te dá esse resultado de maneira muito mais 
imediata, você pode estar gastando esse tempo com outra coisa, com uma assistência, uma atenção 
maior, uma conversa com o paciente. (Enf. 2) 
 
Me dá dados mais precisos desse meu cuidar. Se eu estou na beira do leito de um paciente e 
começa a fazer uma taquiarritmia,o monitor, a primeira coisa que vou fazer é tentar ver o que está 
acontecendo, é uma ‘monitorite’, ou o eletrodo que desposicionou? (...) Acelera a minha assistência, 
faz com que as coisas, os problemas que eu vejo seja no monitor ou seja no ventilador, que eu faça 
ou tente buscar soluções mais rápidas. (Enf. 5) 
 
196 
 
Este conjunto de repercussões resultantes da inserção de tecnologias no 
campo assistencial tende a gerar a melhoria/aprimoramento do cuidado prestado, 
conferindo-lhe, por fim, uma maior qualidade. 
Para o bem, você pode ter maiores dados, e você aprimorar melhor, fazer melhor o seu planejamento 
e assim você cuidar melhor do paciente. (Enf. 6) 
 
Sim, positivamente, porque se me oferece coisas que eu possa estar oferecendo, ofertando a esse 
paciente em relação ao próprio cuidado, melhorar a qualidade do cuidado, tanto que quando se criou 
os centros de terapia intensiva foi realmente para se ter uma melhora no cuidado. (Enf. 17) 
 
Entretanto, situado em um polo oposto em relação a este primeiro estaria a 
influência negativa produzida pela tecnologia, mencionada por 9 enfermeiras, das 
quais no relato de 7 delas este aspecto coocorreu com a influência positiva. A 
avaliação negativa se dá calcada principalmente pelo fato de causar uma 
dependência das informações enviadas pelo maquinário no profissional, fazendo 
com que este gradativamente se distancie do cliente e priorize apenas os dados 
objetivos codificados pelos aparelhos. 
A questão da influência que a gente vê em relação aos maquinários assim, a criar uma dependência 
por parte de alguns enfermeiros para estar realizando o cuidado, então, o cara, ele fica limitado 
muitas vezes ao cuidado do doente, observando ali, por exemplo, só o que está no monitor, ou só o 
que está no respirador, e falta em alguns momentos o enfermeiro chegar à beira do leito, auscultar o 
paciente, tocar o paciente, ver o que está acontecendo com ele (...) elas não podem limitar a nossa 
atividade, elas não podem se transformar aí, como eu diria, em uma muleta. (Enf. 21) 
 
Acho que acaba que as pessoas se acostumam com o padrão tecnológico e não sabem sobreviver 
sem ele. É a mesma coisa: “_você se vê hoje sem internet, você consegue se vê no meio do mato 
aonde não tem sinal, nem de fogo, você se imagina sem internet?”. Então, está se colocando muito 
isso em primeiro lugar. O oxímetro não funciona: “_ah, está quebrado! Vamos fazer uma perfusão, 
vamos avaliar uma gasometria, vamos ver se esse paciente tem cianose (...)”. (Enf. 12) 
 
 
O depoente 21 exemplifica mais uma vez a objetivação quando compara a 
tecnologia a uma muleta, cujo significado estrito remete a um objeto formado por um 
encosto côncavo, em que os aleijados apoiam as axilas para se moverem. Neste 
sentido, a muleta exprime simbolicamente o auxílio para uma pessoa deficiente, 
permitindo complementar o que está faltando a ela. No caso da enfermeira, a 
tecnologia é o apoio que utiliza para suprir sua ausência no leito na integração dos 
197 
 
dados sobre o cliente, minimizando insuficiências que podem estar relacionadas ao 
conhecimento, perfil, iniciativa, comprometimento. 
No que tange às variáveis psicossociais e demográficas, o discurso positivo 
sobre as tecnologias é eminentemente feminino, enquanto a coocorrência dos 
efeitos positivos e negativos é mais marcada nas enfermeiras mais jovens e com 
menos tempo de formação. 
Esta coocorrência mostra o caráter ambivalente das tecnologias ao 
congregar simultaneamente dois aspectos opostos quando pensada no âmbito das 
práticas pelas enfermeiras. A tecnologia enquanto componente dessa prática é, por 
assim dizer, intensamente carregada do ponto de vista emocional, pois ao ser 
abordada pelos profissionais nos seus diferentes campos de atuação, em especial 
na TI, frequentemente é foco de discussões, levando-os a atribuir avaliações 
positivas e negativas do seu emprego, que guiam os comportamentos perante a 
elas. 
 Em vista desta primeira apreensão que se faz dos dados, evidencia-se que 
a partir do modo como o profissional integra os aparatos tecnológicos na sua prática 
cotidiana, estes podem influenciar de forma positiva ou negativa no contexto do 
cuidado. Destarte, conduz a pensar sobre as enfermeiras e a maneira como lidam 
com as tecnologias. 
Nesta perspectiva, ao reportar-se a análise verifica-se a emergência desta 
temática no material, que vem expressa sob a ideia de uso adequado/inadequado 
das tecnologias em relação ao grupo de enfermeiras que faz parte da terapia 
intensiva, e sendo composta por 19 unidades de registro temático. Assim, aparece 
em destaque dois elementos que ilustram tal interface das enfermeiras com a 
tecnologia. Primeiro existe o grupo daquelas que a utilizam em conformidade com as 
198 
 
demais colegas desta área, dando-lhe a importância apropriada, com 14 
ocorrências. 
Acho que meus colegas são muito bons nessa parte também, eles usam da mesma forma que eu 
uso, da mesma forma que eu vejo eles veem também, com certeza, é impossível não ver. (Enf. 3) 
 
Eu acredito que eles tenham a mesma visão porque quem já trabalha em terapia intensiva já tem 
essa visão. (Enf. 4) 
 
Eu acho que ela tem um espaço importante em todos nós, eu acho que ninguém consegue visualizar 
um CTI sem essas informações mais pormenorizadas (...) Por exemplo, uma vez eu estava 
trabalhando em um CTI(...) aí eu vi uma médica falar assim: “_ah, esse paciente está com pressão 
arterial média, mas eu quero que você veja a pressão no manual”, e as reações que os enfermeiros 
da época tiveram, eu era acadêmica, mas assim, aquilo me chamou a atenção de uma forma, o que 
eles falavam era: “_eu estou no CTI!”(...) A reação foi assim unânime de todas os enfermeiros que 
estavam lá, auxiliares e técnicos, de assim, “_isso é um absurdo!”. (Enf. 18) 
 
A outra parcela é representada por dois contrários, de um lado as 
enfermeiras que descartam ou “abrem mão” da aplicação deste tipo de suporte, e do 
outro as que direcionam seu planejamento baseando-se prioritariamente pelos 
indicativos dados por essas tecnologias, totalizando 10 ocorrências. 
Ela se baseia única e exclusivamente na tecnologia, esquecendo do que a clínica esteja mostrando. 
Ela parte do princípio que se não está mostrando aquilo, o que o paciente fala não tem valor (...) Tem 
pessoas que acham que a tecnologia não serve, não é aquilo e ponto final. Não gostam da 
tecnologia, não aceitam muito bem a tecnologia. Tem aquelas pessoas que equilibram e tem aquelas 
que são extremamente voltadas para tecnologia. (Enf. 2) 
 
Eu acho que tem algumas pessoas que tem uma aversão a essa tecnologia, não gostam de lidar com 
isso, e tem umas que realmente não sabem (...) você tem gente lá que tem dificuldade em lidar com 
essas coisas, de lidar com equipamentos novos, que às vezes você tem pessoas que veem a 
tecnologia como um afastamento do profissional. Normalmente, as pessoas têm esse conceito de 
achar que as máquinas vão substituir as pessoas. (Enf. 7) 
 
Eu acho que a maioria das pessoas já se acostumou com a tecnologia, é difícil falar isso, mas assim, 
eu acho que as pessoas se tornam mais frias, eu vejo isso, às vezes, eu já escutei muitas vezes 
assim, muito, não foram poucas: “_paciente falando tem que sair do CTI, porque no CTI só é para 
ficar sedado!”(...) O CTI é mais do que isso, o paciente pode estar ali falando, mas ele pode estar 
sinalizando muitas outras coisas, acho que no geral as pessoas ficam mais acomodadas também, 
acreditando muito no que a máquina está ali dizendo. (Enf. 19) 
 
Acerca deste último grupo de enfermeiras, um detalhe que chama a atenção 
é que tal classificação da prática de lidar com a tecnologia é demarcada pelo tom da 
experiência, já que é feita principalmente pelos enfermeiras menos jovens, com mais 
tempo de formado e que são especialistas. 
Portanto, este modo como o uso das tecnologias se processa diariamente 
releva-se para os investigados, atingindo80% do corpus analisado. Então, quando 
199 
 
discutido sob esta ótica, algumas nuances da sua rotina de cuidados vêm à tona, 
retratando com clareza como ocorre esta implementação. É o que acontece durante 
a realização de determinadas técnicas pela enfermeira, como no caso do banho no 
leito, onde a profissional prefere substituir a tecnologia pelo seu olhar avaliativo, 
dando aos aparelhos neste momento um papel secundário. 
Acho que isso é até um pouco de falha nossa, e acho que a gente tem que chamar atenção e 
conversar com a equipe técnica, que a equipe técnica tem hábito de tirar essa monitorização, então 
cabe a nós enfermeiros também chamar e tentar orientar quanto à importância disso, porque acho 
que principalmente durante o banho, que a gente tem assim uma grande chance do paciente 
descompensar, do paciente apresentar qualquer alteração, e a gente fica ali só com as observações 
do paciente, do que o paciente estiver apresentando clinicamente, de sinais, e a gente acaba 
perdendo esses parâmetros que a tecnologia nos oferece. (Enf. 8) 
 
Creio que assim, o ideal seria você manter o paciente com a monitorização, ainda que mínima, para 
te oferecer dados enquanto você está fazendo ali a mobilização do seu paciente, que podem 
realmente ocorrer intercorrências e que podem passar sem ser percebida. Obviamente que a 
proximidade vai minimizar isso, você está vendo, você está olhando se o paciente vai alterar um 
padrão respiratório, se o paciente tem uma cianose que não tinha antes, se o paciente diminui ou 
rebaixa o nível de consciência, se ele interage menos com você. (Enf. 21) 
 
Um dos argumentos referido repetidamente para este tipo de conduta é o de 
que tais tecnologias incorporadas ao cliente, sobretudo aquelas com foco na 
monitorização hemodinâmica, por vezes atrapalham ou dificultam o desempenho do 
profissional, além de não funcionarem adequadamente. Logo, na tentativa de facilitar 
a execução das ações, opta-se pela retirada temporária destes recursos. 
Na verdade existem vários tipos de profissionais e maneiras como eles atuam (...) mas eu digo a 
coisa física da monitorização, os fios, por atrapalhar às vezes, não o que ela está me informando (...), 
mas a parte física dela mesma, os fios e tal, por atrapalhar a manipulação, às vezes alguns 
profissionais acabam por retirar. (Enf. 9) 
 
Acho que o ser humano se condiciona com muita facilidade, então, você vai pelo mais prático. É mais 
prático você retirar toda monitorização na hora do banho para facilitar o banho, você acaba às vezes 
arriscando, alguma alteração ou dano possa ocorrer na hora desse banho pela facilidade. Vai ficar 
mais prático, acelerar meu processo de banho, não vou ter fio nenhum atrapalhando e eu vou dar o 
banho mais rápido. É uma questão de condicionamento também. Muitas vezes a gente se condiciona 
a ter a informação ali na tela e não observa, não dá importância. (Enf. 2) 
 
Identifica-se também que a falta de capacitação técnico-científica de uma 
parcela da equipe no manejo dos equipamentos e na interpretação dos sinais 
oriundos destes, interfere no uso correto destas tecnologias, podendo trazer 
prejuízos à recuperação do cliente. 
200 
 
Eu acredito que outra coisa que influencia na utilização das tecnologias é que nem todos os 
profissionais que trabalham na terapia intensiva estão preparados e treinados a lidar com os tipos de 
equipamentos que nós temos hoje, então, às vezes, você tem alguns funcionários que têm um pouco 
mais de tempo de serviço, que não se atualizaram. (Enf. 7) 
 
Com relação às informações, que às vezes eles [os aparelhos] nos fornecem e às vezes as pessoas 
não dão atenção, eu acredito assim, que não seja nem porque às vezes a pessoa não dê atenção, é 
lógico que tem algumas especificidades que o monitor, que nem sempre o enfermeiro, que ele não 
tem uma certa, não fez um curso para você ler realmente todos os parâmetros que a monitorização 
cardíaca pode, as arritmias, ele não vai saber ler. (Enf. 17) 
 
Outro ponto interessante é que a convivência habitual com casos clínicos 
que requerem tecnologias para cuidar torna estes aparatos naturalizados à 
assistência de enfermagem, e, neste sentido, por lidarem frequentemente com esta 
modalidade de informação os profissionais acostumam com ela, o que é um risco, 
pois caso isso ocorra há a possibilidade de subestimarem tais dados, aumentando 
as chances de gerar uma intercorrência ou complicação clínica. Um exemplo típico 
disso acontece com os cuidados com os alarmes ligados às máquinas. 
Dentro do CTI às vezes as pessoas se acomodam em ter, essa tecnologia traz dois pontos: tem a 
praticidade, a otimização, mas por outro lado as pessoas também acabam se acomodando, porque 
tem tudo ali muito fácil, e acabam se acostumando com aquelas informações, com aqueles sons e 
com aqueles alarmes. Acho que às vezes a gente tem que parar um pouco e ficar se cobrando 
mesmo de estar atento, observar mesmo, porque a gente se pega às vezes muito tempo, que às 
vezes a gente está fazendo uma coisa e outra nem sequer olha para o monitor. (Enf. 8) 
 
A outra questão em relação, a questão da banalização dos alarmes, dificilmente o paciente que é 
admitido, ele é admitido também em relação à máquina, porque se tem lá, a máquina está 
programada com os parâmetros e você não define os parâmetros adequados para o diagnóstico 
daquele paciente (...) as pessoas não, não setam os alarmes, não ajustam os alarmes de acordo com 
a patologia, e o quê que acontece? Os monitores alarmam por qualquer motivo e para qualquer 
paciente, e as pessoas banalizam os alarmes. (Enf. 16) 
 
 
Uma das funções das representações sociais é realizar a apropriação 
daquilo que é novo ou desconhecido, permitindo ao sujeito familiarizar-se com tal 
objeto estranho, de modo a conseguir lidar com ele. As enfermeiras 8 e 16 levam a 
entender, nestes recortes de entrevistas, que a tecnologia transformou-se numa 
prótese do cliente, ou seja, uma peça artificial que faz parte do seu corpo, 
substituindo a função de determinados órgãos. Então, neste caso, a tecnologia já se 
tornou algo visto como naturalizado pela enfermeira, que não lhe causa 
estranhamento pois já foi naturalmente incorporado ao cliente, fazendo com que não 
201 
 
preste atenção nas informações por ela enviadas. A representação perdeu assim 
sua função, já que duram enquanto circulam e são úteis, deixando de ser eficaz e 
proporcionando riscos à saúde do cliente. 
O entendimento deste tema que abarca os tipos de atuação da enfermeira 
frente à tecnologia no seu cotidiano prático pode ser complementado por um 
aspecto que se destaca no conteúdo que é a interação com o cliente, através da 
qual é possível captar informações objetivando atender às suas necessidades 
integrais. Sobre isso, observa-se três características relevantes. 
 Uma delas pauta-se na justificativa de que no CTI, pelas peculiaridades de 
ser um setor voltado a clientes criticamente enfermos, portadores de condições 
complexas, a prioridade é dada aos doentes mais graves e aos dados objetivos a ele 
relacionados, desvalorizando-se, portanto, as situações que envolvem uma 
interação mais aprofundada. Este sub-tema com 09 ocorrências esteve mais 
presente nos depoimentos das enfermeiras mais jovens e com menos tempo de 
formadas, o que leva a conjecturar que tal concepção possa vir se organizando já 
durante sua formação acadêmica. 
Algumas pessoas fazem isso naturalmente, ou seja, elas realmente não se preocupam porque 
esqueceram ou porque acham que ali no CTI não é lugar de ter paciente acordado, que tenha essas 
outras necessidades, e acabam não dando atenção a essa parte. (Enf. 9) 
 
(...) Tem enfermeiro que vai estar muito mais próximo, e tem enfermeiro que não vai estar, eu tenho 
enfermeiro que na hora, quando vai fazer uma escala, vai pedir para não ser escalado com paciente 
que esteja lúcido e orientado (...) agora acho que a questão objetiva, a questão palpável é importanteno CTI, isso é o diferencial no CTI e vai continuar sendo para sempre, o subjetivo no CTI sempre vai 
ser tratado, como algo, não digo em segundo plano, mas algo secundário, secundário a aquilo que é 
o elemento principal, que é o cuidado tecnológico, cuidado direcionado a evidências claras concretas, 
e disso a gente não tem como fugir, até porque a nossa formação em terapia intensiva é muito 
voltada para isso, é muito voltada para questão da evidência. (Enf. 15) 
Sublinha-se que neste cenário muitas são as demandas administrativas que 
recaem sobre a enfermeira. Então, como ela tem diversas rotinas burocráticas a 
cumprir passa a interagir com o cliente de forma pontual ou superficial, já que a 
execução de tais atividades ocupa um lugar diferenciado numa escala de 
202 
 
importância quando comparada à interação com o cliente. As enfermeiras que 
trabalham durante o turno diurno se aglutinam em torno desta ideia, retratada em 08 
unidades de registro temático, como constam nestes trechos de entrevista. 
Quando o plantão realmente fica esse caos, esse caos de agitação, muitos procedimentos 
acontecendo ao mesmo tempo, uma rotina atropela a outra, quando você acaba de fazer uma rotina 
aí, já vem, o próximo horário já está em cima, para você dar continuidade ao serviço, aí realmente me 
incomoda não conseguir ver nem o rosto desse paciente (...) eu acho que sobra até pouco tempo 
para ir nos leitos, infelizmente, mas não deveria ser assim (...). (Enf. 4) 
 
Esse que está mais acordado é o menos observado, porque, porque a gente gosta de pacientes 
mais, mais sedados, mais graves, de uma forma geral, e quando a gente vai nesse paciente, a gente 
acaba pescando apenas o que ele tem a informar, é, em relação de imediato ali ao que a gente está 
vendo (...) a gente acaba não conversando além, sobre a família, sobre alguma coisa que pode trazer 
dados também para o nosso diagnóstico (...) porque a gente tem, prioriza os outros, e aí como ele 
está bem clinicamente eu acabo priorizando, indo para outras coisas a fazer, volto para burocracia 
que eu tenho quinhentos milhões de coisas para fazer, não dá para ficar ali à beira do leito, ouvindo 
todas as histórias que ele tem para contar (...) a hemodinâmica dele, é isso que está me importando 
nesse momento, então ele acaba sendo um, o paciente que é examinado, mas que não é aquele a 
menina dos olhos. (Enf. 6) 
 
O paciente aqui é objetivado pela enfermeira 6 como “menina dos olhos”. 
Esta expressão faz alusão à pupila, que é um termo oriundo do latim pupilla-
menininha, e é uma parte do olho como um orifício responsável pela passagem da 
luz do meio exterior, até os órgãos sensoriais da retina, de grande importância para 
a visão. A analogia do paciente crítico a menina dos olhos lhe dá um cunho de 
preciosidade na terapia intensiva, como da pupila para a visão, merecendo assim 
uma atenção especial das enfermeiras. 
Entretanto, embora citados com menor frequência (33%), há profissionais 
que, mesmo diante da avaliação de gravidade deste cliente, buscam acessar dados 
de uma dimensão mais objetiva, ao tempo que quando possível utilizam estratégias 
para alcançar outro conjunto de dados que se aproximam da esfera subjetiva, 
apoiando-se neste caso na interação. 
Eu acho que aqui tem pessoas que se preocupam com esse aspecto subjetivo sim. Tem pessoas que 
se envolvem com o paciente, mas lidam com isso de uma forma muito mais descontraída. (Enf. 8) 
 
Você tem realmente aquele enfermeiro que vai trabalhar com os dados sendo reunidos e um 
colaborando com o outro, para você oferecer uma assistência melhor e você vai ter enfermeiros que 
vão se dedicar de repente mais ao tipo de dado que é oferecido (Enf. 21) 
 
203 
 
5.2.1.2 As formas de assistir ao cliente na terapia intensiva 
Temas/ Unidades de significação Nº UR % UR 
Elementos caracterizadores dos estilos de cuidar 
Atividades de maior cunho burocrático x assistencial: 13 ocorrências 
Comprometimento com a assistência: 10 ocorrências 
Envolvimento com o cliente: 06 ocorrências 
Coocorrência- Burocrático/comprometimento: 05 
 Burocrático/envolvimento: 01 
 Envolvimento/comprometimento: 02 
 21 100% 
Fatores ligados aos estilos de cuidar 
Aspectos inerentes ao indivíduo: 11 ocorrências 
Experiências profissionais: 11 ocorrências 
Formação profissional: 06 ocorrências 
Valores da profissão: 01 ocorrência 
Coocorrência- Experiências pessoais/profissionais: 06 
 Formação/experiências profissionais: 01 
 Formação/experiências pessoais: 01 
 Valores/experiências pessoais:01 
 20 95% 
Convivência com os estilos de cuidar 
Busca adaptar-se: 11 ocorrências 
Age independente do colega: 07 ocorrências 
Tenta influenciar o colega: 01 ocorrência 
 19 90% 
As formas de assistir ao cliente na terapia intensiva 
Variáveis psicossociais e demográficas associadas: 
Sexo, idade, tempo de formação profissional, especialização, escolha para trabalho no 
setor 
Quadro 14: Unidades de registro temático associadas às formas de assistir na terapia intensiva 
Tomando por referência estes resultados preliminares, em articulação com a 
busca dos temas organizadores das categorias empíricas, constata-se a veiculação 
de outros elementos, além desta interface entre a enfermeira e a tecnologia, que 
denotam contribuir para a configuração dos estilos de cuidar, e que estão 
reproduzidos no cotidiano da assistência neste ambiente. Percebe-se, deste modo, 
que ao produzirem um discurso sobre sua prática, as enfermeiras investigadas 
diferenciam duas linhas de ação em relação às atividades de cuidado ao cliente, 
sendo uma definida como burocrática e a outra assistencial, às quais remetem a 
uma compreensão de proximidade ou distância do cliente. 
 O cunho burocrático estaria mais voltado para as tarefas gerenciais e 
administrativas, enquanto o assistencial centra-se no atendimento direto ao cliente. 
Esta dialética burocrático versus assistencial está presente em 13 unidades de 
204 
 
registro temático, como, por exemplo, nestes excertos de entrevista ilustrados 
abaixo. 
A gente tem muitos enfermeiros que são assistencialistas, que gostam do cuidado, que gostam de 
estar à beira do leito, de cuidar do doente realmente. Pessoas que chegam, que se aproximam dos 
doentes, que cuidam de verdade do paciente na sua totalidade, que tem um cuidado especial ao 
fazer um curativo, mas eu tenho muitos enfermeiros que são mais burocratas, que eu percebo que 
não têm ainda o comprometimento que eu gostaria que tivessem, com o cuidado de enfermagem (...) 
Um é mais gerente e o outro é mais assistencialista, ele presta assistência ao paciente, o outro 
presta, mas mais indiretamente, e quando vai ao paciente, é aquela coisa de naquele momento ele 
faz o que tem que fazer e terminada aquela tarefa, ele se distancia e só vai chegar de novo em um 
caso extremo quando muito solicitado, entendeu? (...) tem enfermeiros que o monitor está tocando, o 
paciente está mostrando que está dessaturando e ele é incapaz de ir lá e aspirar o paciente. (Enf. 13) 
 
Eu acho que há diferença, tem gente que fica mais na beira do leito, tem uns que ficam mais fora, 
mas também estão atentos a outras coisas importantes também, porque senão não chega a 
medicação, agilizando exame, tem gente que fica mais, gosta mais dali da beira do leito, e às vezes 
não tanto dessa parte burocrática. (Enf. 19) 
 
Mesmo quando se referem às enfermeiras assistenciais, as narrativas 
sinalizam as diferenças entre elas em níveis de participação, demonstrando a 
existência de um cuidado mais pontual. Além disso, o relato do sujeito 9 parece ser 
interessante neste contexto, na medida em que distingue as várias características 
das enfermeiras no seu dia-a-dia de trabalho. 
Tem enfermeiros e os enfermeiros. Tem aqueles enfermeiros que são mais burocráticos, que vão e 
sentamna cadeira, ficam, só querem saber de prontuário, de livro, controle de psicotrópico aquela 
coisa toda. Em termos de assistência não querem nem saber do paciente. Aí inventam que estão no 
telefone, fazem isso, fazem aquilo. Tem outros que gostam mais da assistência, mas mesmo assim, 
na assistência tem diferença, tem uns que acham que só tem o banho e acabou, aquela coisa bem 
ponto e acabou, pronto já tem que dar o conforto e tal. Tem outros não, que são aquela coisa bem 
minuciosa. (Enf. 1) 
 
Acho que tem enfermeiro que cuida, mas fica muito na parte de papel, burocracia (...) existem outros 
que se envolvem mais com os pacientes, são mais realmente assistencialistas, em termos, gostam de 
colocar a mão na massa, gostam de pegar no paciente, acompanhar o paciente, dar banho e junto 
com os técnicos fazem os curativos, enfim. Existem também profissionais que são assistencialistas, 
mas não colocam a mão na massa (...) mas eles gostam, eles ficam mais relacionados ao paciente 
mas não chegam perto do paciente, não é que não chegam perto do paciente, chegam perto no 
momento que devem chegar, se acontecer alguma intercorrência. (Enf. 9) 
Esses dados ao tempo em que possibilitam o debate em torno dos estilos de 
cuidar suscitam uma reflexão acerca da dimensão ética do cuidado, sobretudo no 
que se refere à responsabilidade profissional na assistência ao cliente de maior 
complexidade, já que ao assumir uma linha de ação de maior teor burocrático, 
205 
 
delega a atenção direta a outros membros da equipe de enfermagem de menor 
qualificação. 
Esse processo de cuidar, no qual as atividades de cunho burocrático 
ocupam um espaço privilegiado do tempo da enfermeira, dificultam a percepção com 
maior clareza da utilização do seu conhecimento clínico e conduzem a realização de 
ações protocolizadas, desprovidas de uma maior crítica. Isto é visto quando o 
conhecimento desta enfermeira é articulado à imagem de um catálogo, algo que 
está inventariado, ou seja, registrado e enumerado de forma ordenada como um 
fluxograma para a solução de um problema clínico. 
Por mais que você tenha pessoal, não tem como você ser exclusivamente assistencial. Existe a parte 
burocrática e a parte administrava a ser feita. Então, você acaba abrindo mão ou deixa algum lado 
descoberto, ou não dá muita qualidade em algum desses dois lados para tentar dividir o tempo (...) 
Você acaba tendo ou não a facilidade de poder dar a devida atenção a parte clínica do paciente, de 
estar com ele, conversar, avaliar e examinar. (Enf. 2) 
 
As atividades de uma maneira geral viraram um simples procedimento, e a utilização do 
conhecimento, ele vira quando algum padrão é alterado, então, quando você muda um decúbito do 
paciente, você tem uma alteração do padrão respiratório, ou se tem algum outro tipo de alteração, ou 
alguma queixa, aí você vai buscar o seu catálogo de informações, o seu catálogo de informações, e 
vê quais são as situações, sempre dentro daquele bendito fluxograma imaginário que nós temos. 
(Enf. 7) 
 
Os enfermeiros atuam de uma forma igualitária como se tivesse tratando de outro cliente também, e 
só seguindo ali aqueles protocolos, aqueles cuidados e esquecem de juntar dados, de utilizar até os 
dados que são fornecidos, tanto na observação como no exame, enfim, e implementar nisso em 
cuidados, transformar nos cuidados, numa prescrição. (Enf. 19) 
Os depoimentos delineiam também uma qualidade do profissional, que se 
repercute no comportamento que este assume frente às atividades a serem 
desempenhadas. Assim, em 10 destes depoimentos ressaltam-se os profissionais 
comprometidos e os não comprometidos, isto é, ganha evidência a postura tomada 
pela enfermeira diante das situações clínicas que se apresentam na prática. Tal 
postura aponta, ao mesmo tempo, a importância que é atribuída por ela aos 
componentes que integram a assistência de enfermagem, bem como o seu nível de 
implicação com os acontecimentos que se sucedem neste cenário. Os trechos 
206 
 
selecionados exprimem as implicações dos sujeitos perante o cuidado do cliente na 
terapia intensiva. 
Você vê que a pessoa fica dali de cima, faz tudo ali de cima, não entra nos leitos. Assim como você 
tem outras enfermeiras que são extremamente dedicadas, que se tiver que passar o dia inteiro 
assistindo o paciente, ali do lado do paciente (...) tem enfermeiros, equipe no geral, que tem 
comprometimento, tem responsabilidade, se responsabilizam pelo serviço. (Enf. 16) 
 
O paciente visivelmente, porque ele estava com o abdome cheio de líquido, que não deixava o 
pulmão dele expandir e ele respirar melhor. Então, imediatamente eu detectei, disseram: “_como 
você fez isso?” Olhar para o doente entendeu (...) às vezes tem enfermeiro que trabalha em dois, três 
lugares, tem pessoas, infelizmente isso são em todas as profissões, que estão ali para ganhar 
dinheiro (...) vem também a questão da responsabilidade profissional, então tem enfermeiro 
realmente que vê as coisas e ele finge que não vê, para ele é mais cômodo. (Enf. 14) 
 
Acho que o maior exemplo aqui em termo de comprometimento dentro da terapia intensiva é a 
questão da aspiração em vias aéreas, que é um momento que todas as pessoas, não existe uma 
obrigatoriedade profissional, é função de fulano, a aspiração é um momento de necessidade do 
paciente que pode surgir em qualquer situação (...) quando você vê uma pessoa próxima, e não faz 
essa aspiração porque não é função ou porque o paciente não é o da escala. (Enf. 7) 
 
Esta questão do comprometimento e engajamento com a assistência se 
mostra mais forte nas mulheres, com idade e tempo de formação elevadas e que 
escolheram atuar no setor, podendo ser visualizada na maneira de execução dos 
procedimentos e técnicas durante as ações profissionais, como ratifica esta 
enfermeira quando comenta sobre os tipos de cuidar. 
(...) Os meus curativos têm que ser ali certinhos, bonitinhos, eu não gosto de coisas assim, então às 
vezes você vê uma falta de capricho, às vezes eu pego um paciente, uma falta de capricho na 
execução dos curativos ou na higiene oral inadequada, na fixação do tubo, isso me incomoda muito 
(...) no geral, todo mundo assim, mantém aquela rotina de fazer, a diferença está nos detalhes, nas 
coisas pequenas. (Enf. 19) 
 
Com um número de 06 ocorrências no corpus, o envolvimento com o cliente 
citado pelas mulheres desponta como outro indicativo da perspectiva de ação 
adotada pelo profissional. Isto quer dizer que para eles, importam além das 
informações clínicas pautadas no processo saúde-doença, a vivência do cliente 
situada no seu contexto de vida acerca do adoecimento. Neste sentido, valoriza-se o 
diálogo com ele e família, com vistas à apreensão de demandas que requeiram 
intervenções, aproximando-se, por fim, da ideia de cuidado integral. 
Acho que existem diferenças na forma de trabalhar, tem pessoas que são mais secas, estabelecem 
uma relação mais profissional com o paciente, vou lá, vou avaliar meu paciente, vou fazer o que 
tenho que fazer, sai dali, pronto e acabou, e se tiver que voltar para fazer uma coisa vão voltar e tudo. 
207 
 
Mas tem pessoas que não tem esse perfil, que de repente tem pessoas, como eu já ouvi falar aqui: 
“_ah, não me coloca com paciente acordado, eu prefiro paciente sedado”, “_ah, não me coloca com 
esse paciente, porque esse paciente solicita”. Tem também pessoas, que acho que às vezes que não 
valorizam alguns sentimentos do paciente, não dão importância a alguns sentimentos ou banalizam 
alguns sentimentos, se o paciente está depressivo, é queixoso, é choroso, às vezes não dão tanta 
importância a isso. (Enf. 8) 
 
Então tem aquele outro enfermeiro que fica lá e que pede para fazer, que às vezes até avalia o 
doente, mas não se envolve com o doente, na problemática toda do doente para tentar resolver a 
vida do doente. E tem gente que se aproxima e se envolve (...) porque tem gente que acho que sabe 
se envolver na terapia intensiva, aí se envolve

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