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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO ESCOLA DE ENFERMAGEM ANNA NERY PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA NÚCLEO DE PESQUISA DE FUNDAMENTOS DO CUIDADO DE ENFERMAGEM – NUCLEARTE ESTILOS DE CUIDAR NA TERAPIA INTENSIVA EM FACE DAS TECNOLOGIAS: UMA CONTRIBUIÇÃO À CLÍNICA DO CUIDADO DE ENFERMAGEM Rafael Celestino da Silva Rio de Janeiro AGOSTO- 2012 RAFAEL CELESTINO DA SILVA ESTILOS DE CUIDAR NA TERAPIA INTENSIVA EM FACE DAS TECNOLOGIAS: UMA CONTRIBUIÇÃO À CLÍNICA DO CUIDADO DE ENFERMAGEM Tese de Doutorado* apresentada ao Programa de Pós-Graduação e Pesquisa da Escola de Enfermagem Anna Nery- Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Enfermagem. Orientadora: Profª. Drª. Márcia de Assunção Ferreira Rio de Janeiro AGOSTO- 2012 *Pesquisa financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico-CNPq através de bolsa doutorado sanduíche na Université de Provence-França (Laboratoire de Psychologie sociale), sob tutoria do Prof.º Dr.º Thémis Apostolidis. SILVA, Rafael Celestino. Estilos de cuidar na terapia intensiva em face das tecnologias: uma contribuição à clínica do cuidado de enfermagem. / Rafael Celestino da Silva. Rio de Janeiro: UFRJ/EEAN, 2012. xiv, 266 f: il; 31 cm. Orientadora: Márcia de Assunção Ferreira. Tese (Doutorado em Enfermagem) – Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ - Escola de Enfermagem Anna Nery – EEAN - Programa de Pós Graduação e Pesquisa em Enfermagem, 2012. Referências Bibliográficas: f. 250-260. 1. Tecnologia biomédica. 2. Unidades de Terapia Intensiva. 3. Enfermagem. 4. Cuidados de Enfermagem. 5. Psicologia social - Tese. I Ferreira, Márcia de Assunção. II Universidade Federal do Rio de Janeiro, Escola de Enfermagem Anna Nery, Programa de Pós-Graduação e Pesquisa em Enfermagem. III Título CDD: 610.73 CDD: ESTILOS DE CUIDAR NA TERAPIA INTENSIVA EM FACE DAS TECNOLOGIAS: UMA CONTRIBUIÇÃO À CLÍNICA DO CUIDADO DE ENFERMAGEM RAFAEL CELESTINO DA SILVA Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação e Pesquisa da Escola de Enfermagem Anna Nery, Universidade Federal do Rio de Janeiro como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Enfermagem. APROVADA POR: _________________________________________ Prof.ª Dr.ª Márcia de Assunção Ferreira – Presidente ________________________________________ Prof.º Dr.º Luiz Fernando Rangel Tura - 1º Examinador ________________________________________ Prof.ª Dr.ª Angela Arruda - 2ª Examinadora ________________________________________ Prof.ª Dr.ª Mara Ambrosina de Oliveira Vargas - 3ª Examinadora ________________________________________ Prof.º Dr.º Marcos Antônio Gomes Brandão - 4º Examinador ________________________________________ Prof.ª Dr.ª Ana Beatriz de Azevedo Queiroz - Suplente ________________________________________ Prof.ª Dr.ª Lolita Dopico da Silva - Suplente Rio de Janeiro AGOSTO- 2012 Terraço do café na Place du Forum (Arles-sul da França)-Van Gogh DEDICATÓRIA “Não sei se viajei nos seus sonhos, se sonhei seus desejos, mas aqui cheguei, guiado pelo amor que vocês me impulsionaram. Porém, se algum dia sentir que a terra cede a meus pés, que minhas conquistas desmoronam, que não há ninguém para me estender a mão, esquecerei a maturidade, passarei pela mocidade, voltarei à infância e chamarei por vós, meu pai, minha mãe!!" Dedico essa tese a vocês!! Agradecimentos............ -Agradeço em primeiro a Deus por esta etapa concluída, de onde recebi força quando sentia-me fraco, e apoio quando pensava em desistir. “Porque dele, por ele e para ele são todas as coisas”! -A minha “quase-esposa” Alanna Fersi, com quem divido uma vida “quase-matrimonial”. Você é o meu aconchego e meu porto-seguro aqui no Rio de Janeiro. “Na alegria e na tristeza” você faz parte dessa tese! Amo muito..... -Prof.ª Márcia de Assunção Ferreira, Querida orientadora e amiga, ainda lembro do nosso primeiro encontro nos corredores do subsolo do Centro de Ciências da saúde, quando conversávamos as primeiras ideias para uma pretensa pesquisa de mestrado. Quase 6 anos se passaram e hoje estou aqui defendendo uma tese de doutorado sob sua orientação. Muitas histórias aconteceram, horas de trabalho, viagens juntos, dificuldades pessoais, provas de concurso e até na França acabei indo parar!!! Assim, não tenho como deixar de agradecer o carinho e a confiança sempre em mim depositada. Você sabe e não canso de ressaltar a admiração que tenho por ti, pois para mim és a titular das titulares, exemplo de competência e ética. Muito idealizei para este momento, construído com muita dedicação e esforço. Enfim ele chegou! Agradeço a você por te me desafiado a atravessar essa estrada e ter me conduzido pelos melhores caminhos!! -Aos meus familiares e amigos, de perto e de longe, que ansiosos e alegres aguardavam a realização deste momento tão especial.....Gostaria de dizer a vocês: “......que ainda há tempo, para trocar o silêncio pelo sorriso, os punhos fechados pelos braços abertos, para dispensar a distância e acolher a cumplicidade, ainda há tempo....porque temos a vida inteira para continuarmos amigos....”!! -Ao Prof.º Dr.º Thémis Apostolidis da Université de Provence, pelo carinho com que me recebeu em Aix-Marseille e pelos ensinamentos teóricos, fundamentais no processo de desenvolvimento da pesquisa. Sua presteza e receptividade foram os ingredientes para o sucesso do estágio sanduíche. Saiba que a este período devo um grande progresso pessoal e profissional. Não esquecerei também os belos encontros franceses, sempre alegres, divertidos e regados a bons vinhos; -Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico-CNPq, pelo financiamento que possibilitou 6 meses de intercâmbio científico e cultural na Europa, de grande importância para meu desenvolvimento acadêmico; -Aos colegas do Laboratoire de Psychologie sociale, em especial Lionel Dany, Séverin Guignard e Anna Liguouri, pelo compartilhamento de experiências e conhecimento diários. Aos colegas brasileiros Renata Aléssio, Filipe Aléssio e Lenira Haddad, que me acolheram e foram verdadeiros amigos durante a estada na França, neste desafio de estar longe de casa; -À chefia do Departamento de Enfermagem Fundamental- DEF/EEAN, na pessoa da Prof.ªLúcia Helena Corrêa Lourenço, que não mediu esforços para a realização de todos os trâmites necessários à efetivação do estágio sanduíche. Muito Obrigado!! Agradeço também ao Corpo deliberativo do DEF pelo incentivo constante à qualificação profissional e acadêmica, fornecendo meios e recursos ao aperfeiçoamento docente; -À diretora da Escola de Enfermagem Anna Nery, Prof.ª Neide Aparecida Titonelli Alvim, pelo apoio ao intercâmbio científico na França, e nos trâmites acadêmicos envolvidos na sua ocorrência; -Ao NUCLEARTE, pela possibilidade de realização do estudo alinhado a uma de suas linhas de pesquisa; -Aos professores do Programa Curricular Interdepartamental VII, Juliana Faria Campos, Marta Sauthier, Graciele Oroski e Flávia Pacheco pela parceria e ajuda frente às demandas das atividades profissionais vinculadas à disciplina; -Às alunas de graduação em enfermagem, Zaira Andressa e Rute Almeida pela ajuda primordial no processo de transcrição das entrevistas que integram a pesquisa; -Agradeço ainda, em especial e com muito carinho aos meus alunos, fonte de inspiração e energia na busca constante por uma Enfermagem- ciência e arte- de vanguarda. RESUMO SILVA, Rafael Celestino. Estilos de cuidar na terapia intensiva em face das tecnologias: uma contribuição à clínica do cuidado de enfermagem. Rio de Janeiro, 2012. Tese (Doutorado em Enfermagem) - Escola de Enfermagem Anna Nery, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2012. Orientadora: Prof.ª Dr.ª Márcia de Assunção Ferreira A problemática do estudo em tela situa-se nos indicativos de existência de duas perspectivas/linhas condutoras da ação da enfermeira na terapia intensiva junto ao cliente que se utiliza do maquinário, o “cuidado tecnológico” e a “ação tecnológica”, as quais trazem implicações diretas na assistência de enfermagem prestada. Neste sentido, levanta-se o pressuposto de que a tecnologia (maquinário) inerente aos ambientes de terapia intensiva possa estar orientando a formação de estilos de cuidar na enfermagem. Objetivou-se identificar as representações sociais de enfermeiras que atuam na terapia intensiva sobre as suas práticas de cuidado, face à tecnologia; descrever os elementos que integram as práticas de cuidado das enfermeiras intensivistas, à luz de suas RS; analisar as práticas de cuidado das enfermeiras tendo em vista suas RS sobre tais práticas. Pesquisa de campo, do tipo descritivo-explicativa, de abordagem qualitativa e cunho etnográfico, com aplicação da Teoria das Representações Sociais. O campo de estudo foi um hospital federal localizado no município do Rio de Janeiro, e o lócus foi a Unidade de Terapia Intensiva. Os participantes foram 21 enfermeiros, 17 mulheres e 04 homens atuantes diretamente na assistência ao cliente internado na UTI. Os dados foram coletados através de observação etnográfica e entrevista individual. Os dados provenientes das entrevistas foram analisados através do software Alceste, e da técnica de análise de conteúdo temático, enquanto aqueles oriundos dos registros de observação passaram por análise etnográfica. Evidencia-se que as práticas de cuidado no CTI se apresentam como um fenômeno complexo, o qual gera representações sociais nas seguintes dimensões: tecnologia, paciente e trabalho. Tais dimensões compõem uma rede de significados articulados que abarcam o sentido funcional da tecnologia aplicada ao CTI; os afetos produzidos pelo paciente no profissional e a imagem do paciente ideal organizada durante a formação; a experiência subjetiva do trabalhador. A maneira como tais representações se elaboram dá forma a dinâmica da prática dos sujeitos frente o objeto, a qual, considerando seus aspectos constituintes, delimita estilos de cuidar. Defende-se, portanto, a tese de que a tecnologia orienta a organização de estilos de cuidar das enfermeiras na terapia intensiva - cuidado e ação tecnológica, que se constroem e se reconstroem no cotidiano da assistência, onde estão o cliente hospitalizado e o contexto do trabalho, os quais, por sua vez, influenciam nos sentidos atribuídos por tais profissionais às suas práticas, permitindo-os elaborarem e (re)elaborarem os seus modos de fazer profissional em face das tecnologias, e constituindo, por fim, uma clínica que responde pela especificidade da terapia intensiva. Estes resultados alcançados contribuem para a geração potencial de políticas públicas acerca da contratação de pessoal para atuar no CTI, e reforçam a importância do perfil profissional congruente ao cenário por ocasião desta contratação, alinhando-se às exigências da especialização do conhecimento. Além disso, suscitam intervenções voltadas à mudança no modelo de organização da assistência de enfermagem, e a formação permanente das enfermeiras intensivistas. Recomenda-se ainda maior investimento em ações da Política Nacional de Humanização que valorizem a enfermeira como (co)partícipe do processo de saúde. Palavras-chave: Enfermagem. Cuidados de enfermagem. Tecnologia biomédica. Unidades de Terapia Intensiva. Psicologia social. ABSTRACT SILVA, Rafael Celestino. Different Styles of care in intensive therapy facing the technology: a contribution to the clinical in nursing care. Rio de Janeiro, 2012. Thesys (Doctorate in Nursing) - Escola de Enfermagem Anna Nery, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2012. Advisor: Prof.ª Dr.ª Márcia de Assunção Ferreira. The issue of the study on a screen is situated in the indicatives of the existence of two perspectives/conductive lines of the nurse actions when applying an intensive therapy to the patient who uses the machinery, the “technological care” and the “technological action”, which bring direct implications to the nursing care provided. In this sense, it comes up the presumption that the technology (machinery) inherent to the intensive therapy environment may be guiding the formation of care styles in nursing. The objective was to identify the social representations (SR) of nurses that work with intensive therapy, their care practices, facing the technology; describe the elements that integrate the care practices from the intensivists nurses, according to their SR; analyze the care practices from the nurses based on their SR about such practices. Field research was descriptive-explanatory, with a qualitative and ethnographic approach, based on the Social Representations Theory. The field study was a federal hospital located in the municipality of Rio de Janeiro, and the locus was the Intensive Care Unit. The subjects were 21 nurses, 17 women and 4 men that provide directly the care to the patient at the ICU. Data were collected through the ethnographic observation and individual interview. The data from the interviews were analyzed through the Alceste software, and the technique of thematic content analysis, while those from the records of observation passed by ethnographic analysis. It is evident that the practices of care in the ICU are presented as a complex phenomenon, which generates social representations in the following dimensions: technology, patient and work. Such dimensions are composed by a network of meanings articulated covering the functional sense of the technology applied to the ICU; affections produced by the patient at the professional and image of the ideal patient organized during the training; the subjective experience by the worker. The way such representations are elaborated shapes the dynamics of the practice from the subjects facing the object, which, considering their constituents aspects, delimit care styles. It is argued, therefore, the thesis that technology guides the organization of carestyles by the nurses at intensive therapy – care and technological action that are constructed and reconstructed on an everyday care, where the patient is hospitalized and the context of work, which, on the other hand, influence the meanings attributed by these professionals to their practices, allowing them to develop and (re) develop their ways of training a professional facing the technologies, and building, finally, a clinic that is responsible for the specificity of intensive therapy. These reached results contribute to a potential generation of public policies regarding the hiring of personnel to work at ICU, and reinforce the importance of a professional profile congruent to the scenario due to this hiring and aligning itself to the demands in specialization of knowledge. Besides, interventions come up focused to the change of the organization format in nursing care, and the permanent training for intensivists nurses. It is also recommended a higher investment in actions of National Humanization Policy that give the proper value to the nurse as (co) participant in the health process. Keywords: Nursing. Nursing Care. Biomedical Technology. Intensive Care Units. Social Psychology. RESUMEN SILVA, Rafael Celestino. Estilos de cuidar en terapia intensiva frente a las tecnologías: una contribución a la clínica del cuidado de enfermería. Rio de Janeiro, 2012. Tesis (Doctorado en Enfermería) - Escola de Enfermagem Anna Nery, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2012. Orientadora: Prof.ª Dr.ª Márcia de Assunção Ferreira La problemática del estudio en evidencia se sitúa en los indicativos de existencia de dos perspectivas/líneas conductoras de la acción del enfermero en la terapia intensiva junto al cliente que se utiliza de la maquinaria: el “cuidado tecnológico” y la “acción tecnológica”. Ambas las perspectivas poseen implicaciones directas en la asistencia de enfermería prestada. En este sentido, se acrecienta la premisa de que la tecnología (maquinaria) inherente a los ambientes de terapia intensiva pueda estar orientando la formación de estilos de cuidar en la enfermería. Se objetivó identificar las representaciones sociales de enfermeros que actúen en la terapia intensiva sobre sus prácticas de cuidado delante de la tecnología; describir los elementos que integran las prácticas de cuidado de las enfermeras intensivistas, a la luz de sus RS; analizar las prácticas de cuidado de los enfermeros teniendo en cuenta sus RS sobre tales prácticas. Se trata de una investigación de campo, del tipo descriptivo-explicativa, de abordaje cualitativo y cuño etnográfico, con aplicación de la Teoría de las Representaciones Sociales. El campo de estudio fue un hospital federal localizado en el municipio de Rio de Janeiro, y el locus fue la Unidad de Terapia Intensiva (UTI). Los participantes fueron 21 enfermeros, 17 mujeres y 04 hombres, que actuaban directamente en la asistencia al cliente ingresado en la UTI. Los datos fueron recolectados por medio de observación etnográfica y entrevista individual. Los datos provenientes de las entrevistas fueron analizados por el software Alceste y por la técnica de análisis de contenido temático, mientras aquellos originarios de los registros de observación pasaron por análisis etnográfico. Evidenciase que las prácticas de cuidado en el CTI se presentan como un fenómeno complejo, el cual genera representaciones sociales en las siguientes dimensiones: tecnología, paciente y trabajo. Tales dimensiones componen una red de significados articulados que combinan el sentido funcional de la tecnología aplicada al CTI; los afectos producidos por el paciente en el profesional y la imagen del paciente ideal organizada durante la formación; la experiencia subjetiva del trabajador. El modo como tales representaciones se elaboran da la forma a la dinámica de la práctica de los sujetos frente al objeto, la cual, considerando sus aspectos constituyentes, delimita estilos de cuidar. Se defiende, por lo tanto, la tesis de que la tecnología orienta la organización de estilos de cuidar de los enfermeros en la terapia intensiva – cuidado y acción tecnológica, que se construyen y se reconstruyen en el cotidiano de la asistencia, donde están el cliente hospitalizado y el contexto del trabajo, los cuales, por su parte, influencian en los sentidos atribuidos por tales profesionales a sus prácticas, permitiéndolos elaborar y (re)elaborar sus maneras de hacer profesional frente a las tecnologías, y constituyendo, por fin, una clínica que responde por la especificidad de la terapia intensiva. Estos resultados alcanzados contribuyen para la generación potencial de políticas públicas sobre la contratación de personal para trabajar en el CTI, y refuerzan la importancia del perfil profesional congruente al escenario por ocasión de esta contratación, alineándose a las exigencias de la especialización del conocimiento. Además de eso, suscitan intervenciones vueltas al cambio en el modelo de organización de la asistencia de enfermería, y la formación permanente de los enfermeros intensivistas. Se recomienda aún mayor inversión en acciones de la Política Nacional de Humanización que valoren el enfermero como (co)partícipe del proceso de salud. Palabras clave: Enfermería. Atención de enfermería. Tecnología biomédica. Unidades de Terapia Intensiva. Psicología Social. SUMÁRIO Págs. CAPÍTULO 1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS 15 1.1 O começo.................................................................................................. 16 1.2 Tecnologia e práticas de cuidado da enfermagem na terapia intensiva......................................................................................................... 18 1.3 Focalizando as práticas de cuidado da enfermagem na terapia intensiva como objeto de representação social........................................ 21 1.4 Questões norteadoras............................................................................ 27 1.5 Objetivos.................................................................................................. 1.6 Relevância e Contribuições do estudo ................................................ 28 29 CAPÍTULO 2 BASES TEÓRICO-CONCEITUAIS 33 2.1 Sobre a ideia dos estilos de cuidar na enfermagem: uma aproximação inicial em vista à clínica do cuidado..................................... 34 2.1.1 O estilo nos campos do saber............................................................. 34 2.1.2 Dos estilos de cuidar à clínica do cuidado de enfermagem............. 39 2.2 A tecnologia no ambiente da terapia intensiva e a emergência de estilos de cuidar que conformariam uma clínica....................................... 48 2.2.1 O ponto de partida: o significado do termo tecnologia em saúde e suas relações com a terapia intensiva........................................................ 48 2.2.2 A chegada: a tecnologia e as dimensões subjetivas e objetivas do cuidado de enfermagem – os estilos..................................................... 52 2.3 A teoria das representações sociais..................................................... 58 CAPÍTULO 3 REFERENCIAL METODOLÓGICO 63 3.1 Tipo de estudo ........................................................................................ 64 3.2 Campo de pesquisa................................................................................. 65 3.3 Participantes da pesquisa...................................................................... 67 3.4 Produção dos dados...............................................................................67 3.5 Análise dos dados .................................................................................. 72 3.6 Aspectos éticos ...................................................................................... 80 CAPÍTULO 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO 4.1 Dados sociodemográficos...................................................................... 4.2 Análise textual através software Alceste (parte I)................................ 4.2.1 O sentido da tecnologia na terapia intensiva e a organização dos estilos de cuidar............................................................................................ 4.2.1.1 Classe 1: Funcionalidades da tecnologia....................................... 4.2.1.2 Classe 2: Elementos organizativos dos estilos de cuidar............. 4.2.1.3 Classe 4: Fatores estruturais externos ao cuidado....................... 4.2.2 Discussão............................................................................................. CAPÍTULO 5 RESULTADOS E DISCUSSÃO 5.1 Análise textual através do software Alceste (parte II).......................... 5.1.1 A condição do cliente e suas repercussões nas práticas de cuidar das enfermeiras.................................................................................. 5.1.1.1 Classe 3: Cotidiano assistencial..................................................... 82 83 86 91 92 101 109 115 140 141 141 142 5.1.1.2 Classe 5: Prática de cuidar com a tecnologia................................ 5.1.1.3 Classe 6: As características do paciente como indicador do trabalho no CTI.............................................................................................. 5.1.2 Discussão.............................................................................................. 5.2 Análise de conteúdo............................................................................... 5.2.1 Elementos da prática de cuidar das enfermeiras na terapia intensiva......................................................................................................... 5.2.1.1 A enfermeira e o lidar com as tecnologias nas práticas de cuidar na terapia intensiva........................................................................... 5.2.1.2 As formas de assistir ao cliente na terapia intensiva.................... 5.2.2 A complexidade do trabalho na terapia intensiva............................. 5.2.2.1 Os sentidos atribuídos pela enfermeira ao trabalho na terapia intensiva ........................................................................................................ 5.2.2.2 Requisitos profissionais para o trabalho no CTI............................ 5.2.3 Discussão.............................................................................................. CAPÍTULO 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS.............................................................................................. 150 157 164 192 194 194 203 211 211 216 218 234 250 APÊNDICES .................................................................................................. 261 Roteiro de observação sistemática............................................................. 262 Roteiro de coleta dos dados sociodemográficos...................................... 263 Roteiro de entrevista semiestruturada........................................................ 264 Termo de Consentimento Livre e Esclarecido........................................... 266 LISTA DE ILUSTRAÇÕES QUADROS Quad.1: Classif. dos participantes 2º variáveis psicos. e demog....... Quad.2: Classes do discurso associadas ao bloco 1.......................... Quad.3: Classe 1 Alceste........................................................................ Quad.4: Classe 2 Alceste........................................................................ Quad.5: Classe 4 Alceste........................................................................ Quad.6: Classes do discurso associadas ao bloco 2.......................... Quad.7: Classe 3 Alceste........................................................................ Quad.8: Classe 5 Alceste........................................................................ Quad.9: Classe 6 Alceste........................................................................ Quad.10: Análise cruzada 2º a variável turno de trabalho................... Quad.11: Análise cruzada 2º a variável tempo de formação............... Quad.12: Análise cruzada 2º a variável sexo........................................ Quad.13: Unidades de registro: tecnologias no CTI............................ Quad.14: Unidades de registro: formas de assistir na TI.................... Quad.15: Unidades de registro: trabalho no CTI.................................. Quad.16: Unidades de registro: requisitos profissionais.................... FIGURAS Fig. 1: Dendograma da CHD do Alceste................................................ Fig. 2: Repartição das uce nas classes Alceste................................... Fig. 3: Nº de palavras analisadas por classe Alceste.......................... Fig. 4: CHA da classe 1........................................................................... Fig. 5: Composição da classe 1 Alceste................................................ Fig. 6: CHA da classe 2........................................................................... Fig. 7: Composição da classe 2 Alceste............................................... Fig. 8: CHA da classe 4........................................................................... Fig. 9: Composição da classe 4 Alceste............................................... Fig. 10: Esquema explicativo 1 das RS................................................. Fig. 11: CHA da classe 3......................................................................... Fig. 12: Composição da classe 3 Alceste............................................. Fig. 13: CHA da classe 5......................................................................... Fig. 14: Composição da classe 5 Alceste............................................. Fig. 15: CHA da classe 6......................................................................... Fig. 16: Composição da classe 6 Alceste............................................. Fig. 17: Esquema explicativo 2 das RS................................................. Fig. 18: Esquema explicativo 3 das RS................................................. Fig. 19: Esquema explicativo do campo das RS.................................. Fig. 20: Modelo explicativo da clínica na TI.......................................... 85 91 92 101 109 141 142 150 157 186 188 190 194 203 211 216 89 90 90 95 100 104 108 112 115 139 145 149 152 156 160 164 183 233 241 245 (Torre Eifel- Paris) CAPÍTULO 1 Considerações Iniciais 16 1.1 O COMEÇO O ponto de partida para a realização deste estudo que ora se apresenta, foi a dissertação do Curso de Mestrado em Enfermagem sobre as representações sociais da tecnologia no ambiente de terapia intensiva. Na dissertação evidenciou-se que a ideia que as enfermeiras atuantes em cenários de terapia intensiva constroem sobre a tecnologia lá inserida implica em uma ação (cuidado) marcada pelos elementos que expressam este pensamento sobre a tecnologia (SILVA; FERREIRA, 2009; 2011). Deste modo, no estudo supracitado, a análise de conteúdo aplicada aos dados empíricos mostrou vários elementos que, articulados,delinearam uma tipologia específica de cuidado que ocorre na dependência da utilização da tecnologia no cliente, e outra forma diferenciada de cuidar dirigida aos demais clientes (SILVA; FERREIRA, 2009; 2011). Este cuidado específico foi categorizado na dissertação como “cuidado tecnológico”, e caracterizou-se no discurso das enfermeiras por ser diferenciado, marcado pela aplicação de um conhecimento especializado, o qual orienta sua atenção na busca de dados objetivos e subjetivos oriundos do cliente, bem como objetivos provenientes do uso do maquinário. Nesta perspectiva, é o tipo de conhecimento empregado pela enfermeira para cuidar de tais clientes que diferencia o cuidado daquele que precisa de tecnologia para o que não precisa. Assim, a enfermeira demanda um aporte de conhecimentos especializados, em quantidade e qualidade, que lhe possibilite não somente manusear as aparelhagens, como também interpretar as informações emitidas por estas, associando-as ao conjunto de sinais e sintomas que o cliente apresenta. 17 É requerido então que a enfermeira seja capaz de deter um conhecimento em relação às máquinas (manuseio/domínio), aos aspectos fisiopatológicos da doença em curso, bem como um conhecimento semiológico. Isto possibilitará estabelecer as interfaces entre os sinais e sintomas com as informações enviadas pela máquina e as manifestações clínicas da doença, aliando-os aos elementos fundamentais do cuidado de enfermagem que incluem o toque, a audição, a observação. Ao reunir tais habilidades, ela consegue realizar o cuidado caracterizado na pesquisa-dissertação pelas enfermeiras como “cuidado tecnológico”. Este cuidado se dá através da articulação do saber inerente ao maquinário (tecnológico) aos saberes próprios dos cuidados de enfermagem, conformando a ação de cuidar das enfermeiras intensivistas (SILVA; FERREIRA, 2009; 2011). Contudo, uma linha de ação possível destacada pelos entrevistados, que também sobressai quando se pensa o cuidado nestes cenários, refere-se a uma “supremacia da máquina”, ou seja, ao direcionamento das ações da enfermeira pelas informações advindas do aparato tecnológico, deixando-se de observar os dados fornecidos pela atenção dirigida ao cliente. Sob esta ótica, identifica-se a hierarquização do saber tecnológico sobre o agir da enfermeira, sendo esta orientada somente tendo em vista a máquina, na crença de que apenas seu manuseio correto e as respostas que ela dá são suficientes para cuidar do cliente. Neste caso, não se teria propriamente o ‘cuidado tecnológico’ mas uma ‘ação tecnológica’, uma vez que esta mostra ser destituída de elementos que constituem os saberes próprios ao cuidado de enfermagem. Na ação tecnológica não existe uma interlocução entre o olhar que se volta ao cliente e aquele que se dirige para a aparelhagem, o que pode trazer malefícios, 18 uma vez que a máquina também falha. Além disso, o cuidar instruído estritamente pela tecnologia não responde pela totalidade do indivíduo, não sendo, portanto, integral (SILVA; FERREIRA, 2009; 2011). Logo, é negligenciada a busca por necessidades originadas a partir da vivência de sentimentos como medo da morte, susto, estranhamento, as quais podem interferir no estado de doença, já que abarcam subjetividades que não são captadas pela máquina. Desta maneira, o cliente não consegue comunicar todas as suas demandas à enfermeira, e esta, por sua vez, não o atende integralmente, resultando numa ação que não se configura como cuidado. Considerando os resultados deste estudo, é possível pensar que os elementos destacados apontam indícios da existência de estilos de cuidar na terapia intensiva, compostos de aspectos característicos. Tais estilos de cuidar, numa noção primeira, podem ser entendidos como as diferentes perspectivas de ação adotadas pela enfermeira em determinados ambientes de cuidado. Além disso, os dados apresentados levam à reflexão acerca das repercussões que as tecnologias exercem no âmbito das práticas de cuidado em saúde em geral e no de enfermagem em particular, sobretudo, na terapia intensiva. 1.2 TECNOLOGIA E AS PRÁTICAS DE CUIDADO DA ENFERMAGEM NA TERAPIA INTENSIVA Ao refletir então sobre as influências da tecnologia nas práticas de cuidado da enfermagem, destaca-se o pensamento de Silva (2006), quando ressalta que o uso dos recursos tecnológicos pode colocar o cliente em risco se eles não forem corretamente “vigiados”. Assim, reitera-se a importância de que se “assista” e se cuide também da máquina, com o propósito final de manter a vida dos clientes. Este 19 cuidado envolve conhecimentos técnicos e racionais, que possibilitem fundamentar as ações perante as tecnologias. De acordo com este autor (op. cit.), a Enfermagem, ao acompanhar o avanço tecnológico, necessitou aprender a trabalhar com muito mais aparelhos. Contudo, a atividade realizada, por exemplo, pelas bombas infusoras, do controle preciso do número de gotas e do volume infundido, não dispensa a presença do ser humano, capaz de detectar através de sua sensibilidade e perícia técnica que algo não está bem com o cliente ou com o maquinário. Portanto, é fundamental que se supervisione e se cuide também das máquinas usadas na assistência ao cliente. Para Barbosa (1999), muito embora as máquinas se expressem através de valores objetivos, os mesmos precisam ser complementados com aqueles referentes à subjetividade humana, denotando o papel do profissional no sentido de interpretar tais informações. Vargas e Ramos (2008) situam a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) como um setor em que as atividades de enfermagem estão sucessivamente sendo alteradas e suplantadas. O conhecimento que era aceito hoje como válido acaba deixado numa segunda instância ou abandonado, ao tempo em que um novo conhecimento é validado. Referem ainda, que a cada dia é aprimorada a capacidade da equipe em observar o paciente. A enfermagem “conectada” aos aparatos tecnológicos tem conseguido traduzir o “profundo” do corpo do paciente em informações, que conseguem direcionar o cuidado prestado a eles. Para as autoras (op. cit.), para que esta tradução não tenha erros, o corpo da enfermeira precisa estar interagindo com a máquina, sendo, portanto, fundamental se ter múltiplas aprendizagens. Nesta discussão, Sibília (2002) afirma que as ferramentas tecnológicas com as quais os profissionais convivem nos ambientes tecnológicos tornaram-se um 20 segundo doente, precisando serem assistidas, tocadas e cuidadas, de modo a assegurar um desempenho adequado. Com isso, passam a exigir novas habilidades, destrezas e modos de conceber o cuidado, o ambiente, o cliente, e as relações que se estabelecem entre eles. Contudo, apesar destes requisitos, não significa dizer que o foco de atenção seja somente a máquina, relegando o cliente, sujeito do cuidado, a segundo plano. Sobre isso, Silva (2006) nos diz que a utilização de aparatos tecnológicos que facilitam a assistência ao cliente crítico e que requerem vários cuidados para garantir a fidedignidade dos dados não deve invalidar uma compreensão acerca dos cuidados de enfermagem, considerando o uso de tecnologias como uma ação humana. Conforme relata Oliveira (2002), há expressões de cuidado humano mesmo em um setor repleto de tecnologias. O fato de a enfermeira em determinados momentos atribuir maior atenção à máquina, não significa necessariamente falta de dedicação ao cliente, mas pode refletir uma preocupação com seu bem-estar e manutenção de suas funções vitais. Nesta perspectiva, entende-se que a essência da enfermagem no âmbito dos cuidados intensivos está centrada no processo de tomada de decisões, e este, por conseguinte, deve basear-se nas condições fisiológicas e psicológicas do paciente. Acredita-se, portanto, que as práticas de cuidar da enfermagem nestes cenários, ao tempoem que se apresentam como tecnológicas, na medida em que envolvem conhecimento e sua aplicação no domínio das máquinas, abarcam elementos do cuidado humano, uma vez que representam toda a expressividade de cuidar neste momento de encontro, intermediado pelas máquinas. Estas peculiaridades implicam na necessidade de se empreender esforços para manter um 21 equilíbrio entre tais elementos expressivos do cuidar e os aspectos técnicos/instrumentais, principalmente no que se refere a aplicação de tecnologias no cuidado. 1.3 FOCALIZANDO AS PRÁTICAS DE CUIDADO DA ENFERMAGEM NA TERAPIA INTENSIVA COMO OBJETO DE REPRESENTAÇÃO SOCIAL Face o exposto, é possível perceber que as características das práticas de cuidado inerentes a ambientes marcados pelas tecnologias avançadas, repercutem- se de imediato no sujeito que cuida – a enfermeira. Isso em sua tentativa de atender às diferentes demandas que se apresentam neste processo numa perspectiva holística. Afirma-se deste modo, que os requisitos das práticas de cuidado da enfermagem em terapia intensiva, pelos seus atributos, mormente por serem intermediadas pelas máquinas, suscitam diálogos nas enfermeiras, internos e externos, que acabam por produzir sentidos de ação diferenciados frente ao cliente. Então, as enfermeiras elaboram representações sociais sobre suas práticas de cuidado na terapia intensiva, que acabam por orientar as ações perante o cliente, constituindo-se assim num objeto de conhecimento psicossociológico. Isto porque, os modos de agir da enfermeira neste contexto, em vista das características dos clientes, é alvo de debates, gerando posicionamentos, reflexões, ideias contrárias, enfim, conformando opiniões. Estes debates se pautam no fato de ter que cuidar de clientes frequentemente em risco de morte, os quais se utilizam de aparelhos que mantêm ou ajudam no funcionamento de vários órgãos, e que suscitam saberes para o seu correto manuseio e interpretação dos dados produzidos, aliado à necessidade de se preservar os aspectos humanos. 22 Significa dizer, que as diferentes formas que o cuidado do cliente no Centro de Terapia Intensiva – CTI - pode assumir, gera uma mobilização de informações junto ao grupo das enfermeiras intensivistas, e naquelas que lá irão atuar. Logo, já que a representação é elaborada coletivamente a partir das trocas e práticas cotidianas de um determinado contexto histórico, ela acaba fornecendo subsídios para os julgamentos e atitudes. A representação funciona como pano de fundo das atitudes dos indivíduos, dando sentido ao universo vivido (ESPÍNDULA; SANTOS, 2004). À luz desta compreensão, considera-se que as representações sociais sobre as práticas de cuidado da enfermagem na terapia intensiva possuem uma dimensão do afeto (psi) e outra social, ou seja, elas se amparam nas experiências prévias, conhecimentos acumulados, valores, cultura, os quais, a partir das relações sociais, onde se processa a troca de informações e ideias tais elementos se transformam e contribuem para a organização do pensamento que conduz às perspectivas de ação da enfermeira. Acrescenta-se ainda que a representação é uma estrutura que medeia a relação entre o sujeito-outro, sujeito-objeto, através da ação comunicativa. Assim, a representação social está imersa na ação comunicativa, isto é, a ação comunicativa a forma, ao mesmo tempo que forma em um mesmo e único processo, os participantes da ação comunicativa. O trabalho comunicativo da representação gera símbolos que fornecem sentido. Desta forma trabalha colocando algo no lugar de algo, promovendo um deslocamento simbólico (JOVCHELOVITCH, 2004). Conclui-se que as representações sociais (RS) são uma forma de conhecimento prático, que estabelece os nexos entre o pensamento e as ações dos sujeitos, ajudando-os a se orientarem no mundo (JODELET, 2001). Os objetos de 23 RS são socialmente relevantes e fazem parte das discussões e conversas cotidianas dos sujeitos sociais (SÁ, 1998). As práticas de cuidado da enfermagem no universo da terapia intensiva importam para as enfermeiras, sobretudo para aquelas que lidam com elas no cotidiano profissional. Há um imaginário sobre os modos de agir da enfermeira frente ao cliente na terapia intensiva, com destaque para a relação que esta estabelece com a tecnologia no cuidado. Consideradas complexas, desafiadoras, admiradas ou temidas, as práticas de cuidado na terapia intensiva se configuram em objeto de RS para o grupo de enfermeiras. E então a problemática Como parte da discussão sobre as práticas de cuidado da enfermagem na terapia intensiva, reconhece-se a partir do debate, o forte impacto da incorporação de tecnologias no campo da saúde, incidindo nos modos de agir dos indivíduos. Acerca destas repercussões, Maftum (2004, p.116) cita que nas últimas cinco décadas o acirrado desenvolvimento biotecnológico vem acontecendo numa “velocidade avassaladora que mal conseguimos acompanhá-lo e fazermos uma reflexão profunda dos significados e da importância das várias consequências advindas desse crescente processo de evolução”. Como afirma Dias (1996), a escolha e a adoção de tecnologias não é algo isolado, tem a ver com a ordem política, econômica e social e, na soleira de um novo século, essa escolha e adoção têm indícios de mutação, fazendo brotar uma renovação de valores humanos fundamentais. Desta forma, o avanço tecnológico produziu mudanças no modo como as pessoas passaram a entender e a agir diante das questões relativas ao cuidado em saúde. 24 Um estudo pioneiro nesta área foi feito por Peixoto (1994) abordando tal temática. Esta pesquisadora considera que a partir da difusão de uma ideologia revestida por uma noção de eficiência e qualidade, a qual nem sempre é verdadeira, as tecnologias acabaram por criar falsas expectativas na sociedade de resolução dos problemas de saúde. Tal concepção trouxe implicações de vulto nos profissionais e nos usuários dos serviços. Peixoto (1994) então, ao investigar o uso da tecnologia no processo diagnóstico terapêutico, destacou a perspectiva do cliente que as utiliza, assim como a dos profissionais. Um dos pontos positivos apontados refere-se ao fato da tecnologia proporcionar precisão, rapidez e segurança. Além disso, os usuários indicaram como fator favorável a possibilidade dela “salvar vidas” ou “garantir a vida” em determinados momentos. Alguns dos clientes reconheceram ainda que as tecnologias possuem uma positividade em si, ou seja, seu uso é sempre bom e vantajoso, sendo entendida como fundamental no cuidado. Já quanto aos aspectos negativos sobressai o distanciamento na relação profissional/cliente, no qual o profissional torna-se um sujeito “frio” e o cuidado marcado por ações mecanizadas e repetitivas. Segundo a autora (op. cit.), embora estes fatores negativos tenham sido mencionados, os resultados denotam uma tendência de valorização da tecnologia no cuidado. Isto porque dos 338 aspectos elencados relativos ao seu emprego nos procedimentos diagnósticos e terapêuticos, cerca de 64% eram positivos. No momento em que se busca uma explicação para tal tendência de avaliação positiva, vê-se que ela está amparada no sistema capitalista, que internaliza nos indivíduos através da socialização e educação formal o valor da 25 tecnologia, uma vez que ela gera lucro e produtividade. Assim, este valor é estimulado por um “marketing” leigo e profissional. Entende-se, portanto, que existe uma vinculação entre os interesses capitalistas na saúde e a incorporação tecnológica no processo de produção dos serviços. Os avanços tecnológicos fazem parte da dinâmica do setor saúde, sendo possível observar a expansão industrial na produção de instrumentos e o crescimento da importação de tecnologia para suprir a demanda. Tal questão é basicamente de ordem político/econômica que, sepor um lado é sustentada por posições ideológicas de atores sociais que detêm o poder no setor, por outro é analisada e questionada face às inúmeras contradições que acarreta no plano social (PEIXOTO, 1994). Na sustentação desta linha de pensamento, verifica-se que, cotidianamente, através dos meios de comunicação, evidências de pesquisas demonstram os pontos positivos de novas tecnologias, novos meios diagnósticos e de tratamento, com uma disseminação precoce dos dados. Esse processo de legitimação da tecnologia atinge tanto aqueles que convivem diretamente com elas (os profissionais), quanto indiretamente aos consumidores dos serviços. Essa difusão dos seus “atributos” termina por produzir, de acordo com diversos autores, uma fé cega na ciência e na tecnologia. Como consequência, os indivíduos acreditam que a qualidade do tratamento depende da utilização de recursos sofisticados, recém-lançados, o que se reflete em ações de cuidado que reproduzem essa lógica. Na interface destas considerações pautadas na positividade da tecnologia com os resultados da pesquisa-dissertação emerge a problemática do estudo em tela, situada nos indicativos de existência de duas perspectivas/linhas condutoras da 26 ação da enfermeira na terapia intensiva junto ao cliente que se utiliza do maquinário: o “cuidado tecnológico” e a “ação tecnológica”. Estas linhas trazem implicações diretas na assistência de enfermagem prestada, e parecem ter relação com o modo pelo qual a enfermeira elabora a ideia sobre as práticas de cuidado, mediada, obviamente, pela presença da tecnologia. Tomando como referência estas primeiras aproximações com a questão que se coloca, levantou-se o pressuposto de que a tecnologia (maquinário) inerente aos ambientes de terapia intensiva possa estar orientando a formação de estilos de cuidar na enfermagem. Torna-se fundamental investigar, que elementos integram as representações sociais das enfermeiras sobre suas práticas de cuidado em face às tecnologias no CTI, no intento de melhor conhecer como se conformam determinadas ações/estilos de cuidado diante do cliente neste cenário, às quais por sua vez impactam na qualidade assistencial. Deste modo, parte-se do princípio que estas práticas de cuidado assumem uma importância para estes sujeitos, impregnando-se de tal maneira no seu cotidiano que terminam por gerar um trânsito de informações acerca do cuidado do cliente, da participação da enfermeira e sobre a aplicação de estratégias neste cuidado. Corrobora-se com as afirmações de Wagner (1998, p.03), quando define o termo “representação social” como um conteúdo mental estruturado - isto é, cognitivo, avaliativo, afetivo e simbólico - sobre um fenômeno social relevante, que toma a forma de imagens e metáforas, e que é conscientemente compartilhado com outros membros do grupo social. Portanto, diz o autor (op. cit.), representações sociais surgem apenas mediante a objetos ou questões socialmente relevantes, ou 27 seja, que promovem uma mudança no padrão de comportamento dos indivíduos ou grupos. Sob esta ótica, reforça-se a compreensão de que os objetos de pesquisa em RS são psicossociológicos, guardando relações entre o universo subjetivo e social dos sujeitos. Uma das premissas desta teoria é que, na formação das RS, os sujeitos processam as informações advindas do universo científico com as que circulam nas conversações cotidianas e com os saberes de suas próprias experiências sensíveis. Reelaboram o conhecimento que o ajuda a orientar suas ações (JODELET, 2001). Então, o imaginário que circula no meio profissional acerca da figura da enfermeira de terapia intensiva e dos seus modos de atuar, a ideia de complexidade que se organiza durante a formação profissional sobre os cuidados intensivos de enfermagem, a concepção da tecnologia articulada ao cuidado do cliente, o avanço do conhecimento científico próprio deste local são elementos que contribuem para gerar a necessidade de se pensar sobre as práticas de cuidar pelas enfermeiras que com elas se interrelacionam. Isto, por sua vez, se dá mediado pela esfera cognitiva e social. No final, há sua reinterpretação possibilitando conduzir os atos e operações de cuidar. Baseando-se no exposto, o objeto desta pesquisa se delineia em torno das práticas de cuidado em face das tecnologias ao cliente hospitalizado na terapia intensiva, tendo em vista as representações sociais das enfermeiras que dele cuida. 1.4 QUESTÕES NORTEADORAS Tal objeto será explorado a partir das seguintes questões centrais, norteadoras da pesquisa: O que pensam as enfermeiras sobre a sua prática em 28 face das tecnologias presentes no cenário da terapia intensiva? A partir daí, como agem no cuidado aos clientes hospitalizado neste cenário? As questões secundárias são: As práticas de cuidado das enfermeiras nos ambientes tecnológicos apresentam características que conformariam perspectivas/linhas de ação diferenciadas? As representações sociais das enfermeiras sobre a sua prática na terapia intensiva implicam em estilos de cuidar, característicos de tais ambientes? 1.5 OBJETIVOS Tais questões serão respondidas através do atendimento dos seguintes objetivos: Geral: -Identificar as representações sociais de enfermeiras que atuam na terapia intensiva sobre as suas práticas de cuidado, face à tecnologia. Específicos: -Descrever os elementos que integram as práticas de cuidado das enfermeiras intensivistas, à luz de suas RS; -Analisar as práticas de cuidado das enfermeiras tendo em vista suas RS sobre tais práticas; -Caracterizar os estilos de cuidar das enfermeiras da terapia intensiva, tomando como referência suas representações e práticas de cuidado de enfermagem. 29 1.6 RELEVÂNCIA E CONTRIBUIÇÕES: O “cuidado terapêutico” possui dimensões científicas e tecnológicas, éticas e filosóficas, estéticas e interacionais cujo objeto é o ser humano, considerado como organismo físico, social, cultural e sensível. Nesse sentido, o que diferencia o cuidado de enfermagem de outras formas de cuidar é que ele representa um ato com intenção terapêutica que exige competência técnica, compromisso e ética dos seus agentes que interagem entre si. Conforme cita Leopardi (2001), quando se fala em cuidado, existe uma perspectiva terapêutica sobre um sujeito que tem uma natureza física e mental sendo, portanto, uma ação com a finalidade de transformar um estado de desconforto ou dor em outro de mais conforto e menos dor. Tal cuidado sustenta-se basicamente na interação mútua e na relação estabelecida entre enfermeira e cliente, sem as quais ele não ocorre. Por outro lado, demanda um profissional para desenvolvê-lo baseado em conhecimento técnico- científico e prático. Deste modo, é fundamental uma concepção de cuidado na qual valorize-se o envolvimento entre profissionais e clientela, e que não seja reduzida nem ao seu aspecto relacional, nem ao técnico (LEOPARDI; SANTOS; SENA, 2000). No caso dos setores de cuidados intensivos, a assistência de enfermagem requer, além desses aspectos, uma capacidade para lidar com situações complexas, com velocidade e precisão que geralmente não são necessárias em outras partes do hospital. Logo, exige competência para integrar as informações, construir julgamentos e estabelecer as prioridades. Isso porque existem particularidades em Unidades de Terapia Intensiva (UTI), uma vez que além da utilização de 30 equipamentos e materiais, os clientes possuem características que lhes são inerentes, diferentes dos clientes internados em outras unidades hospitalares. Assim, as práticas de cuidado da enfermagem nestes cenários abarcam diferentes dimensões relacionadas à presença da tecnologia, ao acompanhamento da velocidade de avanço do conhecimento, ao equilíbrio entre o humano e o tecnológico,à interpretação dos dados sobre o cliente, as quais impactam sob a forma de exigências na atuação profissional da enfermeira. O sentido conferido a cada uma de tais dimensões pode influenciar de variadas maneiras os sujeitos que prestam os cuidados, refletindo-se nos modos de agir profissional. À luz disso, compreende-se as práticas de cuidado da enfermagem na terapia intensiva como um fenômeno multifacetado, que determina requisitos à atuação profissional no intuito de atender ao cliente integralmente e conforma comportamentos diversificados que podem trazer benefícios ou prejuízos à assistência que é prestada. Desta feita, conhecer o modo como as enfermeiras representam suas práticas em face das tecnologias fornece subsídios para entender que elementos integram seu pensamento sobre tais práticas, e os nexos que guardam com a forma como agem diante do cliente que encontra-se hospitalizado. Além disso, possibilita debater sobre a objetividade e a subjetividade envolvidas no cuidado da enfermagem no CTI, muitas vezes colocadas em oposição. No contexto em destaque, alguns resultados de investigações vêm demonstrando implicações da objetividade/subjetividade relacionadas ao uso da tecnologia nas práticas de cuidado da enfermagem como é o caso de Oliveira (2007); Silva (2008); Cunha e Zagonel (2008); Ramos e Vargas (2008); Silva (2009) dentre outros, os quais apontam sejam para a desvalorização da esfera expressiva 31 do cuidado que é mediado pela presença da tecnologia, sejam para os riscos trazidos pelo seu uso inadequado pelos profissionais de saúde, ocasionando danos à vida do cliente. Então, a caracterização dos estilos de cuidar específicos à terapia intensiva proporciona desvelar, a partir dos sujeitos que realizam este cuidado, quais aspectos compõem tais estilos, que importância a objetividade/subjetividade assumem para a efetivação da assistência, e como isso se traduz em qualidade no âmbito destes cenários. Deste modo, será possível pensar acerca do conhecimento especializado, da figura da enfermeira-tipo ideal, da gestão do cuidado, da formação profissional dentre outros. Estas reflexões acerca dos estilos são de grande relevância na atualidade, uma vez que um número significativo dos estudos veiculados na literatura brasileira nesta área detém-se em abordar a questão da humanização, isto é, a estreita inter- relação da tecnologia com a ideia de desumanização, dita característica, da assistência na terapia intensiva. Sob esta ótica, é deveras interessante propiciar meios a uma discussão mais ampla acerca dos processos que conformam os estilos de cuidado na terapia intensiva. Vale acrescentar que, conforme diz Carvalho (2003, p. 669), “o cuidado se estabelece como essência do que seja fundamental na enfermagem”. De acordo com Ferreira (1999, p. 03), o cuidado fundamental é aquele que traduz “a verdadeira essência da enfermagem”, ou seja, “visa promover a preservação e proteção da vida, a promoção do conforto e bem-estar ao ser humano”. Nesta linha é experimentado pelo cliente como uma ação técnica e sensível, pois implica em um encontro entre pessoas – quem cuida e quem participa do cuidado (FERREIRA, 32 2002). No caso em tela, este cuidado se dá com o auxílio de aparelhos e máquinas que mantêm suporte à vida do cliente. Nesta pesquisa investe-se em delimitar as características e peculiaridades dos modos como as enfermeiras cuidam dos clientes, contribuindo para um melhor delineamento da prática assistencial neste campo de atuação, na interface com os cuidados fundamentais. Alinha-se, portanto, aos estudos da Enfermagem Fundamental, sobretudo na Linha de Pesquisa que trata acerca dos Cuidados Fundamentais e Tecnologias de Enfermagem, trazendo avanços teóricos para o seu marco conceitual. Espera-se ainda como contribuição demarcar uma clínica do cuidado de enfermagem que responda pela especificidade da terapia intensiva, isto é, intenta-se a partir dos resultados da pesquisa poder descrever a forma habitual de agir das enfermeiras frente ao cliente, na tentativa de aprofundamento do cuidado de enfermagem, “pedra de toque” da enfermagem fundamental, e crescimento científico nesta área do saber. (Gioconda-Louvre) CAPÍTULO 2: Bases teórico-conceituais 34 2.1 Sobre a ideia dos estilos de cuidar na enfermagem: uma aproximação inicial em vista à clínica do cuidado 2.1.1 O estilo nos campos do saber Numa retrospectiva histórica, é possível perceber a evolução do significado da palavra estilo. Cipiniuk (1997) diz que o termo estilo provém do latim stylus, que na Antiguidade Clássica era usado para nomear um mecanismo de redação escrita. Na Antiguidade, escrever de uma determinada forma foi aplicado para se referir ao modo de falar: a ciência da retórica. A expressão genres ou genera foi utilizada nas artes visuais por Plínio e Vitrúrio para classificar os estilos dórico, jônico e coríntio. O gênero ainda perdura até a atualidade com o mesmo sentido de classificar classes biológicas. No século XVI, Vasari usava a palavra maniera para nomear o que hoje em dia o senso comum designa como estilo, ou seja, o estilo de um artista, período ou de uma nação. O termo genre foi adotado pela cultura francesa no fim do século XVI e durante o XVII como equivalente ao estilo, no campo da pintura em particular e arte em geral. No século XVIII, Winckelman estabeleceu como o estilo era compreendido pela história da arte, o qual significava a expressão de toda uma cultura em um determinado período de desenvolvimento (CIPINIUK, 1997). O autor (op. cit.) refere ainda, que no século XVIII e em especial no XIX, o termo adquiriu uma função heurística, passando a ser visto como um instrumento de classificação e valoração dos artefatos artísticos. Desta forma, assinalava as manifestações artísticas provenientes de diferentes procedências, bem como permitia julgar ou avaliar os padrões de beleza de acordo com sua proximidade com 35 o estilo clássico. Assim, quanto mais próximo ou derivado das formas clássicas, mais belo era o estilo. Embora venha sendo incorporado no âmbito das artes para indicar uma coerência entre obras de arte que são fruto de uma escola ou grupo de artistas, de certo período de tempo ou região geográfica, o conceito de estilo é muito empregado para descrever fenômenos e ações em diversas áreas das ciências. A ideia dos paradigmas nas ciências pode ser concebida como um estilo de pensamento científico, afirma Thomas Kuhn (1991). Quando define-se um estilo, na verdade reúne-se elementos para organizar ou classificar objetos e ações humanas que estariam distribuídos de forma desorganizada pelo mundo fenomenal. Somente é possível falar em objetos individuais, quando existe uma classe a qual ele pertenceria, estabelecendo um limite conceitual para sua existência enquanto indivíduo. Caso não haja classe para incluí-lo, supõe-se sua originalidade e talvez o início de uma nova classe de objetos (CIPINIUK, 1997). No campo da linguística, Brait (2005) comenta que a noção do estilo gera interesse de correntes preocupadas com as particularidades expressivas de determinados autores, poetas, artistas em geral, ou nos conjuntos de características que delimitam os movimentos artísticos – estilos de época - caso do romantismo, do impressionismo, do cubismo etc. Embora não esteja ligado apenas às artes, há uma estreita relação entre estilo e individualidade, ou seja, refere-se às idiossincrasias, à maneira de se expressar de uma pessoa. Sob a ótica da linguística, os estudos sublinham que a ideia de estilo sinaliza para seu entendimento em função do texto e de suas formas de organização em relação às possibilidades oferecidaspela língua. 36 A autora (op. cit) pontua que nesta área há duas vertentes para se pensar o estilo, isto é, por um lado está diretamente relacionado às produções individuais ou a um conjunto de produções de determinados momentos, vinculados à arte em geral ou exclusivamente à personalidade de alguém. Por outro lado, articula-se, de maneira mais ousada, com as diferentes instâncias textuais que implicam escolhas, no que tange às opções oferecidas pelo sistema linguístico. No dicionário de termos literários, Shaw (1982, p. 187-188) aborda estilo como “a maneira de traduzir os pensamentos em palavras; modo característico de construção e de expressão na linguagem escrita e oral; característica de uma obra literária, mais no que respeita a sua forma de expressão do que às suas ideias”. Ela cita (op. cit.) que não se pode definir satisfatoriamente estilo, embora diversos peritos já o tentaram, tratando-o como “o traje do pensamento”; “a moralidade mais elevada do espírito”; “o pensamento em linguagem”; “as palavras próprias nos lugares próprios”; “o estilo é o homem”. Segundo Shaw (op. cit.), a maioria dos críticos está de acordo em que “aquilo que alguém diz”, a “maneira como o diz” são elementos básicos do estilo. Pode-se considerar, então, o estilo como sendo a marca (influência) da personalidade do escritor na matéria por ele versada. No dicionário Enciclopédico das Ciências da Linguagem, Ducrot e Todorov (1977, p. 287-288) denominam o estilo como as escolhas que são realizadas em um texto a partir dos aspectos disponibilizados pela língua. À luz disso equivale aos registros da língua, a seus subcódigos; configura-se numa das explicações para as expressões “estilo figurado”, discurso emotivo etc; permite captar as propriedades verbais a partir da descrição estilística de um enunciado. 37 Pacheco (2008) acrescenta que na Arqueologia, a acepção de estilo também vem sendo amplamente debatida, em virtude da infinita variabilidade de características dos artefatos resgatados nos sítios arqueológicos. Esta autora propõe uma discussão ampla amparando-se em diversos teóricos, no sentido de mostrar que a descrição física dos objetos é condição essencial para o seu estudo, pois somente por meio dela é possível o desenvolvimento de terminologias e princípios classificatórios, que possam ser de compreensão e utilização generalizada entre os diferentes pesquisadores. No processo de categorização de tais artefatos, arqueólogos, antropólogos e os historiadores podem utilizar a referência de estilo. Porém, tal concepção é alvo de intensos embates nesta área, seja porque existe uma variedade de abordagens não integradas sobre o estilo, que são usadas por pesquisadores para análise e interpretação do registro arqueológico, seja no que tange às discordâncias sobre os fatores que determinam o estilo (PACHECO, 2008). Como parte deste processo, alguns estudiosos demarcam o estilo na linha da Arqueologia. Para Roe, por exemplo, (apud Pacheco, 2008, p. 397) estilo é um sistema estruturado e intencional de seleção de certas dimensões de forma, processo ou princípio, função, significância e influência, dentre as possibilidades conhecidas, na criação da variabilidade dentro de um corpus comportamental/artefatual. Hegmon (1998, p.518) contribui dizendo que o estilo pode ser conceituado “como um modo de fazer algo [...] e envolve uma escolha feita dentre várias alternativas”. Numa revisão de estilo entre os etnoarqueólogos, destaca-se: “Estilo é a designação de um evento individual a uma maneira geral de se fazer algo”; “Estilo é a variação formal na cultura material que transmite informações sobre a identidade pessoal e a social”; “Estilo é uma maneira altamente específica e característica de se fazer algo [...] sempre peculiar a específicos tempo e espaço [...]”; “Estilo é a parte da variabilidade formal, na cultura material, que pode ser relacionada à 38 participação dos artefatos nos processos de troca de informação; “O estilo é uma manifestação formal e extrínseca do padrão intrínseco [...] a expressão manifesta, na categoria comportamental, do padrão cultural que, frequentemente, não é nem cognitivamente conhecido, nem mesmo reconhecível por membros de uma comunidade cultural, exceto por artistas” (WOBST, 1977; SACKETT, 1977; LECHTMAN, 1977; WIESSNER, 1983; HODDER, 1990a APUD DAVID; KRAMER, 2001, p. 170-171). Na saúde, investe-se também nos estudos acerca do estilo, principalmente quanto ao estilo de vida dos sujeitos na questão do processo saúde/doença. Desta feita, tal estilo de vida está ligado aos hábitos que se constroem ao longo do processo de socialização, que, via de regra, têm a ver com o livre arbítrio, no âmbito do qual as pessoas exercem certo controle sobre suas opções. A adoção de determinados modos de cuidar do corpo, a atividade, o sedentarismo, higiene, tipos de alimentos ingeridos e maneiras de se alimentar, respeito aos horários, sono e repouso, uso e abuso de bebidas alcoólicas, fumo e outras drogas, formas de relacionamento, uso de medidas de segurança para prevenção de acidentes são alguns dos exemplos que compõem os estilos de vida das pessoas e que guardam importantes nexos com as condições de saúde da população. De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (2009), o estilo de vida remete a forma como as pessoas vivem e as escolhas que fazem, as quais são influenciadas pelo contexto situacional, cultura regional, hábitos familiares e sociais, bem como pelo conhecimento acumulado acerca da saúde. Estilo de vida denota, então, distinguir os modos pelos quais o sujeito se relaciona consigo próprio, com a natureza e com os outros. Logo, a construção de uma vida saudável tem estreita relação com os hábitos adotados pelo indivíduo no cotidiano. 39 2.1.2 Dos estilos de cuidar à clínica do cuidado de enfermagem Na enfermagem, a compreensão do estilo se aglutina em torno dos diferentes estilos de cuidar adotados pela enfermeira nos setores de cuidado em saúde. Cruzalegui (2003), em sua tese de doutorado, buscou investigar quais são e como são os estilos de cuidar/cuidados que desenvolvem as enfermeiras e sua equipe de enfermagem para o cliente com crise asmática aguda. Tal pesquisadora percebeu inicialmente, com base em observações empíricas, que existem diversos estilos de cuidar/cuidados realizados pela enfermeira para o cliente com crise asmática. Segundo a autora (op. cit.), há enfermeiras que realizam o cuidado seguindo estritamente o protocolo de cuidados de enfermagem para clientes com insuficiência respiratória, enquanto existe outro grupo de profissionais que além de cumprir o protocolo desenvolvem um cuidado personalizado, sustentado pela sensibilidade e empatia, respeitando a pessoa; e um terceiro grupo de profissionais que aplica apenas uma parte do protocolo. Nesta discussão, afirma (op. cit.) que para cuidar de um cliente em quadro emergencial, a enfermeira necessita dominar o conhecimento científico, principalmente aquele que se refere ao avanço tecnológico, bem como ter habilidades para lidar com os aspectos expressivos do cuidado de enfermagem, os quais possibilitam o respeito à dignidade humana e sensibilidade frente ao sofrimento do cliente e família. Os resultados revelaram que as enfermeiras têm formas concretas e maneiras de pensar, sentir e agir no cuidar e nos cuidados cotidianos na Unidade de Emergência. Essa situação determina estilos de cuidar e cuidados que realizam as enfermeiras, os quais se configuram em um processo dinâmico, de simultaneidade e complementaridade. Nos achados da pesquisa referenciada (op. cit.) foram 40 encontradas cinco vertentes ligadas ao estilo de cuidar e cuidado pela enfermeira e equipe para o cliente: conhecendo o cliente; os sinais e sintomas do corpo; o cuidado como ação terapêutica clínica; o diálogo como cuidadoe o toque como cuidado terapêutico. Defende, portanto, a tese de que há um estilo de cuidar e de cuidado que fazem as enfermeiras e sua equipe de enfermagem na Unidade de Emergência para o cliente com crise asmática aguda, o qual envolve dimensões subjetivas (sensíveis) e objetivas (concretas) e que contribui para melhorar a evolução do quadro clínico do cliente asmático (CRUZALEGUI, 2003). Em outra pesquisa, Moreno (1999) descreveu os estilos de ensinar o cuidado de enfermagem ao cliente hospitalizado em situações de maior complexidade no Brasil e no Peru. Deste modo, estava de acordo com a ideia de que existiam semelhanças e diferenças nos estilos de ensinar-cuidar em enfermagem para o cliente hospitalizado em situações de maior complexidade no Brasil e Peru, e que o modo como o ensino era desenvolvido nas duas realidades concretas, socialmente definidas, determinava profissionais distintos. Partiu-se do entendimento de estilo como algo dinâmico, libertador e em constante reorganização. Evidenciou-se, com base na análise (op. cit.), que os diferentes estilos de ensino, através de sua dinâmica, geram diferentes estilos de cuidado do cliente hospitalizado com problemas de maior complexidade, os quais, no entender de professores e alunos, se configuram como complexo, emergente, situacional e por competências no Brasil/Escola de Enfermagem Anna Nery-Programa Curricular Interdepartamental (PCI) IX, enquanto no Peru é complexo, especializado e por funções. 41 O cuidado complexo é definido no PCI IX como as ações voltadas aos clientes que estão em estado crítico com maior risco de morte, demandando dos acadêmicos conhecimentos específicos e manuseio de técnicas sofisticadas. Na disciplina de Enfermagem Médico-Cirúrgica Especial (EMCE), no Peru, é compreendido como as ações dirigidas ao cliente, do ponto de vista biopsicossocial, em casos complexos e críticos (médico-cirúrgicas), de emergência e/ou desastres (MORENO, 1999). A diferença do ensino no Brasil e Peru reside nos outros dois estilos de cuidado, ou seja, no PCI IX eles são emergente/situacional e por competências, enquanto na disciplina EMCE o cuidado é especializado e por funções. O cuidado por competências abrange além das habilidades psicomotoras, as cognitivas, isto é, a capacidade de desenvolver consciência crítica, reflexiva e transformadora, considerando as necessidades psicobiológicas, psicossociais e psicoespirituais dos clientes e família. Em contrapartida, o cuidar por funções reproduz as rotinas instituídas pelos serviços médicos. Moreno (op. cit.) conclui que o cuidado por competências no PCI IX proporciona ao aluno desempenhar os diferentes papeis envolvidos na prática profissional, através da atenção direta, atividades educativas, liderança e de pesquisa, manifestadas como habilidades cognitivas, afetivas e psicomotoras. Há um foco nas atitudes e valores que permeiam o cotidiano pessoal e profissional. O cuidado por funções capacita o aluno para a realização das diferentes funções como futuro profissional, através da atenção direta, atividades educativas, de liderança e pesquisa, desenvolvendo basicamente atividades e tarefas. No bojo desta discussão acerca dos estilos de cuidar, Cabral e Tyrrel (1995) declaram que o estilo de cuidar das mães para atender às demandas de seus filhos 42 e socializá-los, integrando-os ao mundo dos adultos, é resultado de um processo de acumulação de informações que são transmitidas de geração em geração. A transmissão de conhecimentos varia em razão do contexto social, cultural e dos valores presentes numa determinada sociedade num momento histórico específico. Então, as enfermeiras precisam aprender a trabalhar com as crenças e práticas dos clientes, respeitando as atitudes, os comportamentos, no sentido de rastrear as lógicas que permeiam o estilo de cuidar da mãe, no intento de evitar avaliações depreciativas ou de menosprezo. Percebe-se, desta forma, que o processo de socialização é marcado por diferenças, relacionadas às divergências culturais inerentes aos grupos sociais nos quais as pessoas estão inseridas. Isto significa dizer, que os grupos sociais socializam seus filhos de forma coerente às suas regras de sobrevivência e interesses sociais particulares. Afirma-se, então, que o estilo de cuidar emerge como um produto da cultura em que a criança interagiu, socializou-se e educou-se. Logo, o trabalho da enfermagem que cuida de crianças deve respeitar as diferenças culturais existentes dentro dos grupos sociais, e, sobretudo, aliando-se ao estilo de cuidar da mãe (CABRAL; TYRREL, 1995). Ainda contribuindo ao debate, Silva (2009), ao estudar as representações sociais das enfermeiras sobre a tecnologia existente no ambiente da terapia intensiva, pôde evidenciar que na dependência do domínio do saber especializado, inerente à enfermagem e ao maquinário, as enfermeiras adotam formas particulares de agir frente ao cliente portador de aparatos tecnológicos. Sendo assim, as enfermeiras se diferenciam em duas categorias de acordo com o tempo de experiência profissional, as novatas e veteranas, com características opostas, tais como: afastamento/aproximação; medo/segurança; malefícios/benefícios; 43 desconhecido/familiaridade. Estes elementos, por sua vez, produzem repercussões positivas e negativas, e parecem conformar a possibilidade de existência de estilos de cuidar também no ambiente da terapia intensiva. Com base no exposto, é possível situar a noção dos estilos de cuidar na enfermagem. O cuidado de enfermagem configura-se no objeto de trabalho da profissão, e pertence a duas dimensões distintas, uma objetiva e outra subjetiva. A objetiva relaciona-se à esfera dos saberes especializados, das técnicas e dos procedimentos instrumentais. Já a subjetiva, diz Figueiredo, Machado e Porto (1995) ampara-se na sensibilidade, criatividade e intuição para cuidar do outro ser. São fundamentais ao cuidado a forma, o jeito de cuidar, a sensibilidade, a intuição, o ‘fazer com’, a cooperação, a disponibilidade, a participação, o amor, a interação, a cientificidade, a autenticidade, o envolvimento, o vínculo compartilhado, a presença, a empatia, o comprometimento, a compreensão, a confiança mútua, o estabelecimento de limites, a valorização das potencialidades, a visão do outro como único, o toque delicado, o respeito ao silêncio, a receptividade, a observação, a comunicação, o calor humano, o sorriso. Ressalta-se também, a sua dimensão ético-política e histórico-filosófica. Na dimensão política, releva-se sua importância na promoção da cidadania, ou seja, o cuidado de enfermagem deve visar a manutenção ou restauração de um estado ótimo de saúde, no intuito do indivíduo exercer o seu direito de cidadão, potencializando a sua existência social. Deve buscar a autonomia do sujeito em sua vida social, num processo de humanização da vida. Assim, o cuidado de enfermagem agrega ações profissionais da natureza própria da profissão, fruto de um preparo teórico e filosófico, que se pauta também em outras ciências, e que se materializa numa prática multidisciplinar (SOUZA et al, 2005). 44 Destarte, ao refletir sobre os estilos de cuidar em enfermagem, conforme diz Souza et al (2005), ganha força a análise do sentido e significado que é conferido a este cuidado, que dimensão do ponto de vista político e social assume, como implica na vida dos cidadãos. Logo, o cuidado não se constitui apenas como um ato instrumental, mas um processo que possui uma finalidade para a vida humana. Nesta ótica, os estilos de cuidar em enfermagem não são neutros, devendo ser pensados a partir de um referencial teórico-filosófico, o qual deriva-se de reflexões pessoais e coletivas, bem como perpassa a relevância do cuidado no contexto sócio-político que se insere. Estes referenciais terminam por orientar as escolhasfeitas por quem o executa. Tudo isso permite definir estilos de cuidar na pesquisa em tela, como as diferentes perspectivas de ação que as enfermeiras adotam para assistir os clientes em determinados ambientes de cuidado. O ambiente, de acordo com suas peculiaridades, fornece elementos que integram tais estilos, e estes se expressam em referência ao sentido que as práticas de cuidado tomam para o sujeito. Portanto, os estilos congregam elementos específicos, de acordo com o cenário em que o cuidado se processa. Apoiando-se numa base sócio-construcionista resultam da forma de pensar as práticas de cuidado da enfermagem, materializada nos modos de fazer. Envolvem características e marcas que formam um sistema deliberadamente estruturado pela enfermeira para cuidar dos clientes. Os diferentes estilos de cuidar, com seus atributos distintivos conformam uma clínica do cuidado. A ideia de clínica tem origem na área médica, sendo entendida como as diferentes formas habituais de atuar, constituídas por aspectos particulares, na qual os médicos realizam o diagnóstico e tratamento das doenças 45 visando o restabelecimento do corpo sadio. Nesta linha argumentativa, posiciona-se a favor de uma noção de clínica do cuidado de enfermagem, a qual perpassa o que fazem as enfermeiras ou o que precisa ser feito numa determinada área de atuação, para alcance do objetivo da enfermagem: o cuidado aos sujeitos. Sobre a clínica, poucos autores já trataram desta temática na enfermagem. Oliveira (2005), por exemplo, investiu na discussão sobre a clínica de enfermagem, mais especificamente na da Enfermagem Psiquiátrica. Segundo a autora (op. cit.), a clínica da Enfermagem Psiquiátrica opta por certa indisciplina, sendo fiel à abertura, à tolerância, ao diferente e à diversidade característica da psiquiatria. Nessa clínica, a doença mental, o tratável, ou seja, o que é possível tratar, não está marcado na especificidade da doença, e sim na pessoa que está doente. A doença mental tem como base do cuidado, a singularidade da relação pessoa-pessoa. É a busca de fazer emergir o sujeito. Nesta clínica a atenção não está voltada para o maquinário ou aparelhos avançados, pois a maior sofisticação está na atenção que é direcionada a pessoa humana, e ao que é possível fazer por ela e com ela, num cuidado crítico e criativo. A autora levanta uma discussão acerca do pouco entendimento da clínica da enfermagem psiquiátrica para as outras clínicas, uma vez que são constantes as avaliações de que não há complexidade na assistência de enfermagem psiquiátrica, ou de que o cuidado resume-se a atividades pouco científicas, resolutivas e demonstráveis. Isto faz com que a enfermagem psiquiátrica não seja vista com o mesmo estatuto das outras especializações na enfermagem (OLIVEIRA, 2005). Oliveira (op. cit.) refere ainda, que o termo empatia está diretamente ligado ao que considera clínica da Enfermagem Psiquiátrica, uma vez que a partir dele, compreende-se todos os outros elementos constitutivos de tal clínica. O sentido do 46 termo empatia tem estreita relação com o fazer da enfermeira psiquiátrica, devendo ser foco de sua atuação. Moreira (2008), ao estudar o cuidado de enfermagem prestado a clientes com distúrbios psiquiátricos a partir de uma internação involuntária, retomou a clínica da enfermagem psiquiátrica descrita por Oliveira (2005), a qual apresenta todas as sutilezas e peculiaridades que não se encontra em outras áreas da enfermagem. Ela se apoia em quatro pressupostos: escuta qualificada, na qual é valorizada a narrativa do sujeito; tempo do paciente para o sintoma; o cuidado só existe pós-demanda e o foco é o sujeito e não a doença, uma ação a ser realizada com ele, respeitando seus desejos e necessidades; a enfermeira deve ter prontidão para cuidar, ou seja, disponibilidade que implica em conhecê-lo e estar ao seu lado, construir caminhos possíveis com ele e não para ele (LOYOLA apud OLIVEIRA, 2005). O estudo pôde concluir que o fato do cliente estar internado involuntariamente, não implica em definições na Clínica da Enfermagem Psiquiátrica, isto é, nas maneiras de cuidar da enfermagem, uma vez que a enfermagem entende que a demanda que irá diferenciar essa clínica encontra-se no psíquico e nas manifestações dos sintomas, e não no tipo de internação do paciente. Sendo assim, não há reação da equipe de enfermagem em relação ao paciente de internação involuntária, pois a equipe não reconhece a internação psiquiátrica involuntária (IPI) como um evento diferenciado, mas como um somatório de manifestações clínicas apresentadas na admissão e no decorrer da internação deste indivíduo (MOREIRA, 2008). Teixeira (2008) empreendeu esforços para apreender os saberes e práticas dos acompanhantes de idosos hospitalizados sobre a prevenção e tratamento das 47 úlceras por pressão. Tal pesquisadora defendeu a tese de que o desenvolvimento de uma tecnologia de processo sustentada no debate teórico de valorização da cultura poderia trazer contribuições à clínica do cuidado de enfermagem. Tal tecnologia de processo se efetiva em cinco etapas, a saber: inicialmente ocorre o encontro da enfermeira com o cliente e seu acompanhante, ou seja, do sistema profissional e popular, no qual a enfermeira estabelece a comunicação inicial no intuito de proporcionar o conhecimento mútuo e iniciar uma relação de confiança. Na segunda fase ocorre a captação dos dados clínicos através do exame físico, bem como de dados sócio-econômicos-culturais com base no histórico. A partir da terceira etapa, o diálogo com o acompanhante passa a centrar-se na temática foco, no caso, a úlcera por pressão, onde o mesmo verbaliza seus saberes e práticas, e a partir de então, inicia-se o processo de problematização e de compartilhamento dos saberes e práticas entre enfermeira e acompanhante. À medida que esta fase progride, o acompanhante elabora um plano de cuidados a ser implementado por este durante sua estada no hospital. Posteriormente, a enfermeira acompanha a implementação do plano pelo acompanhante, mantendo diálogo e reflexão durante a observação, configurando-se esta a quarta fase. A última fase se relaciona a observação após a alta do idoso através de visita ao domicílio (TEIXEIRA, 2008). Evidenciou-se assim, que esta proposta deve fazer parte dos modos de agir da enfermeira no cuidado ao idoso hospitalizado, configurando-se como um dos elementos que compõem a clínica do cuidado de enfermagem. Nesta perspectiva, reforça-se a noção de um cuidado compartilhado, no qual profissional, cliente e acompanhante aparecem como sujeitos coletivos, ativos e produtores de 48 conhecimento, através da valorização da dialogicidade e a reflexão crítica das vivências e experiências diárias. A clínica do cuidado de enfermagem é, pois, compreendida no estudo-tese em tela como composta pelos estilos de cuidado das enfermeiras que, amparados em determinados elementos, e a partir de um referencial teórico e filosófico, possibilitam o cuidado ao cliente. 2.2 A tecnologia no ambiente da Terapia Intensiva e a emergência de estilos de cuidar que conformariam uma clínica 2.2.1 O ponto de partida: o significado do termo tecnologia em saúde e suas relações com a terapia intensiva A origem do conceito de tecnologia, conforme destaca Schraiber; Mota e Novaes (2006), está bem próxima do de técnica. No campo da saúde, a tecnologia está comumente associada a equipamentos médicos. Reconhece-se, contudo, a necessidade de uma definição mais abrangente, na qual a tecnologia é vista como uma ferramenta, incluindo aí as ações de trabalho, que transforma uma determinada realidade ou natureza. Neste sentido, envolve além dos equipamentos os conhecimentos e ações necessários para operá-los: o saber e seus procedimentos. Na contemporaneidade, a tecnologia é percebida comoos recursos materiais e imateriais dos atos técnicos e processos de trabalho. Vale ressaltar que, em virtude do avanço do saber técnico científico na atualidade, o saber da tecnologia também ganha um sentido a mais (SCHRAIBER; MOTA; NOVAES, 2006). Schraiber et al (1999) consideram a tecnologia, como um saber valorizado pelo que possui de conhecimento complexo, além, obviamente, da sua capacidade 49 de propiciar atos técnicos (transformação das coisas por sua intervenção manual). É então “um conhecimento do tipo teoria, uma teoria sobre práticas ou modos de praticar” (SCHRAIBER et al, 1999, p. 227) Alguns autores chamam este saber de teoria científica das técnicas ou tecnologia. Técnica (techné) de acordo com Novaes (1996), é um termo grego que significa “ordem de produção”, pressupõe um engendramento, uma criação de modos de fazer, “engenho e arte”. Refere-se a um saber-fazer, que é ao mesmo tempo um saber e um fazer. Quanto ao fazer, a técnica é tomada na qualidade de engenho humano: “faculdade da arte, de criação daquilo que ela própria não o faz (a natureza) (...)” (NOVAES, 1996, p.25). O saber está ligado à obra criada (saber poiético). Com o avanço do saber científico, ocorre uma mudança no sentido da palavra técnica, passando agora a uma intervenção manual fundamentada em um saber complexo e produzida para o mundo prático, e que ganha um estatuto de verdade a partir da ciência moderna. Deste modo, abandona a concepção de técnica como uma intervenção que envolve um saber imediato e prático (SCHRAIBER; MOTA; NOVAES, 2006). O fazer gera produtos, é um trabalho, um ‘ofício’. O produto “é uma obra exterior ao agente, ainda que intelectualmente maquinada” (NOVAES, 1996, p.26). A partir dos séculos XV e XVI com a valorização do trabalho (ato de produzir produtos) e, enquanto parte do desenvolvimento histórico do capitalismo, observam-se transformações das relações entre a filosofia e a ciência, o trabalho manual e intelectual, a teoria e a técnicas, das quais origina-se um significado de ciência não como verdade desinteressada, mas como um conhecimento que é produzido para o 50 atendimento das coisas necessárias à vida. Isto, por sua vez, impulsiona no século XIX a concepção do trabalho como fundamental para a vida econômica e social. Neste ínterim, os saberes técnicos são incorporados como conhecimento erudito, ao tempo em que a ciência, no século XVIII e XIX separa e rejeita o saber prático. O trabalhador manual da indústria é, então, um agente de trabalho sem saber (útil) (SCHRAIBER et al, 1999). Segundo Ayres (1995), a ciência apoiou-se neste caráter técnico, de noção científico-tecnológica, sendo mais valorizada à medida que represente uma razão tecnológica orientando a produção de conhecimento. Na segunda metade do século XX, com o rápido surgimento de equipamentos, a técnica reveste-se de ciência (conhecimento complexo) e expulsa saberes de outro tipo. Assim, a estreita ligação entre ciência e técnica deixa de lado os saberes práticos, ou artes (técnicas) que se diferenciam da técnica científica moderna. Schraiber; Mota e Novaes (2006) mostram que na saúde, tal movimento de reorientação e nova qualificação da técnica resulta no trabalho do médico moderno, isto é, no âmbito do trabalho manual, a sua interligação com a técnica conduz a uma transformação do ofício, agora visto como “arte de curar”. Nesta perspectiva, os médicos conferem um novo senso para o uso dos equipamentos, muitos deles oriundos e reaproveitados das artes de cura gregas e medievais, enquanto outros são criados no século XIX. Logo, na segunda metade do século XX verifica-se um movimento grande de criação e incorporação de equipamentos e medicamentos, a chamada “tecnologia em saúde”, mais especificamente, a ‘tecnologia de curar’. Portanto, a tecnologia em saúde se confunde com a da medicina, sobretudo pela possibilidade de intervir, a 51 qual passa a ser vista como um bem em si mesmo, corporificado na existência de medicamentos e equipamentos, referências da noção de tecnologia. No Brasil, a partir da década de 1930, em virtude da influência de países industrializados, principalmente no que tange ao ensino médico e infra-estrutura, é que a tecnologia no setor saúde ganha vulto. Nos anos 1950, ocorre assim a fase de industrialização da medicina, culminando na especialização e tecnificação do ato médico. Já na década de 1960, predomina o discurso da racionalidade, no intento de expandir a assistência curativa no âmbito hospitalar (MAIA, 1984). Como resultado deste percurso histórico, na década de 1970 o setor saúde é reconhecido como um novo ramo industrial em relação à produção de equipamentos e fármacos, gerando a entrada de capital no país, o qual não significou melhoria nas condições de saúde da população. No âmbito dos cuidados em saúde, o ambiente que mais expressa as tecnologias são os setores de terapia intensiva. Tais unidades ganharam evidência a partir da década de 1920 no Hospital Johns Hopkins, com a criação das salas de recuperação para pacientes de neurocirurgia (WEIL; PLANTA; RACKOW, 1992), bem como nos anos 1930 na Alemanha, com a assistência intensiva pós-operatória. Na década de 1940 surgiram as salas de recuperação cirúrgica em Rochester, Minnesota, Nova Iorque e Nova Orleans (HILBERMAN apud NISHIDE; MALTA; AQUINO, 2005). Outro ponto que contribuiu para o rápido desenvolvimento das Unidades de Terapia Intensiva foi a epidemia de poliomielite nos anos 1950, que gerou a necessidade de criação de outros centros de atendimento à doença, em decorrência do grande número de casos que chegavam aos hospitais. Isto significou a incorporação de modernas técnicas de ventilação mecânica prolongada fora das 52 salas de cirurgia, impactando na atuação dos profissionais, como é caso da enfermeira, que precisou lidar com os equipamentos além dos cuidados manuais direcionados aos clientes (ADLER, 1992). No fim da década de 1950, surge em Los Angeles a primeira unidade de choque, onde há a introdução da monitorização cardiovascular invasiva em pacientes críticos e com traumatismo (DAY apud NISHIDE; MALTA; AQUINO, 2005). Em 1962, os pacientes vítimas de Infarto Agudo do Miocárdio ganham em Kansas City uma unidade de vigilância, sendo o nascedouro das atuais Unidades Coronarianas. Nos anos subsequentes, outros clientes foram ganhando unidades especiais como: cirúrgicos, com problemas neurológicos, queimaduras etc (WEIL; PLANTA; RACKOW, 1992). Silva; Silva e Francisco (2006) situam que no Brasil, a implantação das Unidades de Terapia Intensiva teve início na década de 1960, e, atualmente, são unidades presentes no contexto hospitalar. Com pouco mais de 50 anos de existência, essas unidades retratam a evolução técnico-científica dos últimos anos. O papel destas unidades, que concentram recursos humanos e materiais especializados, é o restabelecimento da saúde/vida, associando tecnologia de ponta (equipamentos/materiais), cuidados intensivos de enfermagem e medicina “intensivista”. Constitui-se, por fim, em um território com linguagens e ações próprias, incompreensível para aqueles que não estão familiarizados com este contexto, no qual os profissionais de saúde e tecnologias sofisticam-se a cada dia. 2.2.2 A chegada: a tecnologia e as dimensões subjetivas e objetivas do cuidado de enfermagem – os estilos 53 As tecnologias e sua relação com o cuidado de enfermagem vêm sendo discutidas em razão das influências nas formas de agir da enfermeira frente ao cliente. Uma de suas características que ajuda a explicar isso é o fato de mediar a racionalidade e a subjetividade, o que torna necessário a utilização de ferramentas ligadas à razão e à sensibilidade, de maneira a fortalecer e qualificar o cuidado de enfermagem. Acerca da subjetividade e suas interfaces com a tecnologia, Sandelowski(1998) afirma que a revolução tecnológica no tratamento em saúde impactou no modo de abordagem em setores de terapia intensiva, isto é, ao tempo em que as enfermeiras passam a ter uma atuação mais aperfeiçoada tecnicamente, há certo afastamento do cliente, já que pelos muitos aparelhos usados, o contato entre ela (a enfermeira) e o paciente diminui. É fundamental então nortear-se no relacionamento com o cliente pelos princípios humanísticos, em vista dessas repercussões trazidas à assistência pela tecnologia. Este relacionamento humano, segundo Lucena e Crossetti (2004), apoia-se na subjetividade, a qual refere-se a singularidade do sujeito. Singularidade significa dizer que o ser humano é pessoal, particular, reservado, privado, mas ao mesmo tempo interrelaciona-se com outro singular através de encontros, onde ocorre a relação intersubjetiva. Logo, toda relação é um encontro de subjetividades (MELO, 2008). A intersubjetividade se manifesta como história relacional vivida, como linguagens, intercomunicação, conhecimento, valores, crenças, emoções, desejos, temores, perspectivas, projetos. Compreender determinada realidade envolve acessar a subjetividade e a objetividade nela imbricada, pois quando se concebe o indivíduo como objeto, ele perde sua subjetividade (MANDÚ, 2004). 54 Diversos trabalhos no âmbito da enfermagem vêm, por sua vez, discutindo esta questão ao considerar o uso de tecnologias para cuidar. Isto aponta que tal elemento possa fazer parte de um estilo de cuidar das enfermeiras no ambiente da terapia intensiva (OLIVEIRA, 2002; NASCIMENTO; TRENTINI, 2004; CUNHA; ZAGONEL, 2008). Um exemplo ilustrativo de uma possível linha de ação é trazido por Cunha e Zagonel (2008), ao estudarem como se estabelecem as relações interpessoais no cuidar em ambiente tecnológico hospitalar. Tais autoras (op. cit.) relatam que o distanciamento entre tecnologia e humanização está presente num setor de cuidados intensivos à criança desde sua criação e que, a partir desse período, o desenvolvimento tecnológico, que propicia a qualidade da assistência à criança criticamente enferma, sobrepõe-se à dimensão humana do cuidar. Diante disso, defende-se que o encontro entre a enfermeira e o cliente deve ser baseado na interação, em respeito a dimensão existencial do ser, valorizando-se suas experiências de vida no momento do cuidar. Assim, o cuidado implica diálogo entre profissional e sujeito do cuidado, num processo que engloba sentimentos, ações e reações, possibilitando o exercício da intersubjetividade humana. Este cuidado, realizado de forma calorosa, atenciosa e humana, abarcando tanto as percepções técnicas dos profissionais quanto as emoções, pode melhorar o estado do cliente (CUNHA; ZAGONEL, 2008). Nesse sentido, a “intersubjetividade viva do momento assistencial permite escapar a uma objetivação desubjetivadora, exatamente porque ali se efetiva uma troca, um espaço relacional, que extrapola o tecnológico. Apoia-se na tecnologia, mas não se subordina a ela, subverte-a” (AYRES, 2000, p. 119). 55 Contudo, apesar da existência desta perspectiva de ação exposta, investigações mostram que também há reconhecimento pelos profissionais da importância de valorização dos aspectos subjetivos quando o cuidado se dá mediado pela tecnologia. Assim, existem profissionais que mantêm relações interpessoais durante este cuidado, pois percebem ser necessário não somente a realização de atividades técnicas, mas também vincular a ele a presença de sentimentos humanos (OLIVEIRA, 2002). Isto revela a espessura da esfera subjetiva quando tratada no contexto das práticas de cuidado da enfermagem em setores como este, permitindo entender a relevância de tal aspecto na compreensão dos estilos de cuidar inerentes à terapia intensiva. Com base nisso, pensa-se nas dimensões objetivas, pois, conforme diz Ribeiro; Carandina; Fugita (1999, p. 19): não adianta ser um humanista e observar o homem que morre por falta de tecnologia, nem ser rico em tecnologia para observar os homens que vivem e morrem indignamente. É necessário o equilíbrio entre o cuidar de maneira humana sem desprezar os benefícios da técnica. Sobre esta objetividade, no caso de um pós-operatório de cirurgia cardíaca, cita Silva (2006), as máquinas que fornecem suporte avançado à vida também precisam de assistência e cuidado. Desta feita, a atenção e o cuidado com os aparelhos importam às enfermeiras, com o propósito final de manter a vida dos clientes. Como consequência é fundamental conhecer, dominar e refletir sobre o uso de tecnologias no CTI, de maneira que os cuidados prestados ocorram com segurança. Esta característica de conhecimento e domínio das máquinas ocupa lugar de destaque no campo dos cuidados intensivos de enfermagem, uma vez que os aparelhos resultam da ciência, são produtos de um determinado saber tecnológico. Logo, no intento de que os equipamentos sejam utilizados pelos 56 profissionais no cotidiano de sua prática de modo cada vez mais aperfeiçoado, objetivando a qualidade do cuidado ao cliente, é primordial atenção a tais conhecimentos (MARTINS; NASCIMENTO, 2005). Nesta ótica, o preparo dos trabalhadores para entender o funcionamento das tecnologias com vistas ao trabalho eficiente é condição para que estas sejam percebidas como um recurso da enfermagem. Em virtude do avanço do conhecimento e da produção acelerada de inovações tecnológicas, a capacitação e atualização profissional para o cuidado é mister, requerendo, portanto, qualificação continuada dos trabalhadores em saúde, já que na sua formação esta abordagem ainda é bastante superficial (MARTINS; NASCIMENTO, 2005). A existência de uma linguagem tecnológica objetivada na amplificação dos sinais que emanam do corpo do cliente por meio do maquinário e que se traduzem em códigos de manipulação é outra ideia defendida no contexto em tela. Há que observar e entender os códigos emitidos pela máquina, para se direcionar o cuidado aos clientes sem prejuízos a eles. Para evitar o manuseio equivocado das máquinas, se releva a observação rigorosa, a tradução/interpretação correta desta linguagem, já que erros podem trazer danos e causar a morte do cliente, sendo fato, pois, importante observar a linguagem tecnológica para o cuidado de enfermagem ao cliente (SILVA, 2009). Contribuindo para este diálogo, Florence e Calil (2005) mencionam que a evolução da medicina traz em seu bojo, o crescimento cada vez mais rápido da complexidade dos aparelhos eletromédicos (EEM) que, por sua vez, possibilitam o aumento da eficácia do tratamento médico hospitalar. Isto pode ser evidenciado pelo aparecimento das técnicas cirúrgicas minimamente invasivas, novos equipamentos de diagnósticos e procedimentos, avanços farmacológicos e melhor conhecimento 57 dos mecanismos das doenças, dentre outros. Entretanto, esta maior complexidade traz como uma das consequências, o aumento significativo de erros de operação do uso da tecnologia. Segundo os autores (op. cit.), uma grande parte das notificações de incidentes com tecnologias, como, por exemplo, os desfibriladores, indicam que a falha ocorreu por conta de erro de operação do equipamento. Tal questão, além de comprometer a vida do cliente traz também implicações financeiras, já que é grande o número de ações legais movidas por pacientes que sofreram danos, em busca de indenizações. O uso seguro dos EEM se relaciona com fatores como infraestrutura hospitalar, treinamento da equipe de saúde na utilização de EEM, prestação de serviços técnicos de manutenção, e adoção de uma política de segurança no hospital. O gerenciamento dos riscos de uso da tecnologia médico-hospitalar, focando os fatores que interferem na segurança, como é o caso da atuação de enfermagem torna-se imprescindível. Portanto, um sistema de vigilância constante pela enfermeiraou de tecnovigilância, a fim de prevenir a ocorrência de erros no manejo da tecnologia e minimizar os riscos à população é de grande valia para o cuidado de enfermagem. O termo tecnovigilância surge da junção entre as palavras tecnologia e vigilância. No caso da tecnologia refere-se aos produtos de uso médico-hospitalar, odontológico e laboratorial, enquanto vigilância é utilizada com sentido de monitoração destes produtos, na sua fase de pós-comercialização (OLIVEIRA, 2007). O intuito principal é acompanhar as condições de segurança oferecida pelos produtos de uso médico-hospitalar, após estarem disponíveis para consumo, identificando rapidamente aqueles que oferecem riscos, e captando informações que subsidiem a tomada de decisão para minimizar tais riscos. 58 Os elementos elencados exprimem os reflexos que a incorporação de tecnologia na atenção ao cliente traz ao cuidado de enfermagem, suscitando conhecimentos, destrezas, habilidades técnicas, preparo e qualificação por parte da enfermeira. Estes aspectos objetivos devem integrar as práticas de cuidado da enfermagem, ajudando a conformar os estilos de cuidar das enfermeiras frente ao cliente. 2.3 A Teoria das Representações Sociais A teoria das representações sociais (TRS), segundo Arruda (2002), põe em prática um conceito que trabalha com o pensamento social em sua dinâmica e diversidade. Um dos pressupostos básicos é o de que as pessoas usam formas diferentes de conhecer e de se comunicar frente às questões que o mundo nos coloca, as quais são móveis e norteadas por objetivos diferentes. Destaca, então, duas delas: a consensual e a científica. O universo consensual é marcado pelas conversações de cunho informal, enquanto o universo reificado se constroi no espaço científico, caracterizado pelo que chama de cânones da linguagem e hierarquia interna. Ambos universos, com intuitos diferentes, possuem uma funcionalidade para a vida humana. Nesta concepção, não há hierarquia nem isolamento entre eles, apenas propósitos diversos (ARRUDA, 2002). As representações sociais se elaboram no âmbito consensual, onde não existem fronteiras, todos podem falar de tudo. Sobre isso, a autora (op. cit.) lembra Moscovici, ao referir-se a sua afirmação de que todos poderíamos ser “sábios 59 amadores”, capazes de opinar sobre diferentes temas. Isto se diferencia dos meios científicos, nos quais a especialidade determina quem pode falar o quê. A representação social é uma forma de conhecimento das sociedades que produzem uma “avalanche” de novidades, gerando a necessidade de processá-las, a partir do olhar de quem vê. Isto faz com que não haja tempo para a cristalização das tradições. Implica em dizer que a representação social não é uma cópia conforme, uma simples fotografia da realidade, mas trata-se de uma versão desta, amparada em elementos individuais e sociais. Logo, o sujeito do conhecimento é ativo e criativo, não sendo visto como uma tabula rasa que recebe passivamente o que o mundo lhe oferece (ARRUDA, 2002). Diversos autores vêm propondo uma definição para a representação social, de acordo com seu foco de interesse e posição teórica. Segundo Arruda (2004, p. 335-350), por exemplo, em estudo sobre o meio ambiente: as representações sociais constituem uma espécie de fotossíntese cognitiva: metabolizam a luz que o mundo joga sobre nós sob a forma de novidades que nos iluminam (ou ofuscam) transformando-a em energia. Esta se incorpora ao nosso pensar/perceber este mundo, e a devolvemos a ele como entendimento, mas também como juízos, definições, classificações. Como na planta esta energia nos colore, nos singulariza diante dos demais. Como na planta, ela significa intensas trocas e mecanismos complexos que, constituindo eles mesmo um ciclo, contribuem para o ciclo de renovação da vida [...] minha convicção [é] que nesta química reside uma possibilidade de descoberta da pedra filosofal para o trabalho de construção de novas sensibilidades ao meio ambiente. Ou seja, é nela que residem nossas chances de transformar ou, quando menos, de entender as dificuldades de transformação do pensamento social. Jodelet (2001, p. 22) traz uma definição bem aceita entre os pesquisadores: “as representações sociais são uma forma de conhecimento socialmente elaborado e compartilhado, com um objetivo prático e que contribui para a construção de uma realidade comum a um conjunto social”. 60 A construção do saber, de acordo com Arruda (2002), baseando-se na obra seminal de Moscovici, proponente da TRS, ampara-se em dois processos: o primeiro é a objetivação, a qual ocorre em três etapas: inicialmente seleciona e descontextualiza elementos do que vai representar, retirando o excesso de informação, visto que não se consegue lidar com o todo da informação transmitida. Este enxugamento se dá baseado nos valores, experiência e informação prévia; em seguida aos recortes, os fragmentos são ligados num esquema que se torna o núcleo figurativo da representação, apresentando um aspecto imagético, cerne da representação. O que era obscuro, desconhecido, algo misterioso foi destrinchado, recomposto e por fim, tornado objetivo, palpável e naturalizado (terceira etapa). O segundo processo é a ancoragem, que confere sentido ao objeto apresentado à nossa compreensão. Assim, recorre-se ao familiar para converter o novo, ou seja, “trazê-lo ao território conhecido da nossa bagagem nocional, ancorar aí o novo, o desconhecido, retirando-o de suas navegações às cegas pelas águas do não-familiar” (ARRUDA, 2002, p. 07). Para abarcar os elementos e relações contidos numa representação social, é necessário responder a três questões: quem sabe, e a partir de onde sabe? O que e como sabe? Sobre o que sabe, e com que efeitos? A partir de tais perguntas, é possível então chegar a 3 planos: 1- das condições de produção e circulação das representações sociais; 2- os processos e estados das representações sociais; 3- o estatuto epistemológico das representações sociais (JODELET, 2001). Os processos e estados da representação social implicam no estudo dos fenômenos de ordem cognitiva, orientada pelas marcas sociais e as condições da sua gênese. Tal estudo se dá amparado no conteúdo dessas representações, a partir da linguagem contida em documentos, práticas, falas, imagens etc. Ao estudar 61 o conteúdo é possível abarcar o campo das representações sociais, enquanto um campo estruturado de significações, saberes e informações. Envolve as expressões, imagens, ideias e valores presentes no discurso sobre o objeto (JODELET, 2001). Tem-se, assim, um tipo de abordagem das representações sociais, a dimensional ou processual, por abarcar as dimensões da representação: seu campo estruturado, a atitude que carrega e que lhe dá o componente afetivo, o elemento da informação que ela contém. É chamada processual, pois preocupa-se com a construção da representação, sua gênese, processos de elaboração e maneja os aspectos constituintes. Quanto às condições de produção da representação, possibilitam explicar o sentido que os grupos atribuem ao objeto representado. Parte-se assim do entendimento de que toda representação se origina de um “alguém”, que é um sujeito social, imerso em condições específicas de seu espaço e tempo, e refere-se a um objeto. As condições de produção expressam a cultura, no sentido amplo e restrito, a comunicação e linguagem (intragrupo, entre grupos e massas), e a inserção econômica, institucional, educacional e ideológica. Desta forma, as condições de produção reafirmam a marca social das representações (JODELET, 2001). Já o estatuto epistemológico da representação está ligado a relação desta com o real, isto é, a representação se forma na tentativa de atender às necessidades, interesses de um determinado grupo, sendo, portanto, um conhecimento sociocêntrico.Isto conduz a compreender, que quando se percebe certa defasagem entre o objeto e sua representação, revela-se uma marca grupal/cultural. 62 A subtração ou acréscimo de determinados elementos ao objeto representado tem a ver com os aspectos normativos e valores de quem representa, bem como pelo envolvimento ou imaginário do sujeito. Assim, pensar o estatuto epistemológico é observar com mais cuidado como e por que acontecem determinadas modificações, o que elas indicam e como elas constituem a representação, conferindo-a um sentido de verdade e eficácia simbólica (JODELET, 2001). (Escola de Atenas-Vaticano) CAPÍTULO 3: Referencial metodológico 64 3.1 Tipo de Estudo Trata-se de uma pesquisa de campo, do tipo descritivo-explicativa, de abordagem qualitativa e cunho etnográfico, com aplicação da Teoria das Representações Sociais (TRS) na sua vertente processual. Entendendo que o intuito deste estudo é descrever as representações sociais das enfermeiras intensivistas sobre suas práticas de cuidado, bem como caracterizar os elementos que influenciam na produção de tais representações, na tentativa de explicar determinados estilos de cuidar das enfermeiras, optou-se pelo tipo de pesquisa descritivo-explicativa, uma vez que suas características alinham-se aos objetivos propostos nesta investigação, possibilitando o alcance dos mesmos. Nesta pesquisa são valorizadas as relações que as enfermeiras estabelecem com os clientes e demais membros da equipe, as quais são permeadas por emoções, subjetividades, intuição e percepção. Isto porque possibilitam apreender as representações sociais, já que estas abarcam elaborações dos indivíduos tanto a nível individual, envolvendo afeto, como no âmbito social a partir das conversações cotidianas. Logo, a natureza da abordagem é qualitativa, pois mostra-se como a mais apropriada para compreender a organização das representações sociais no grupo selecionado. No que se refere à etnografia, aplica-se, pois, no intento de retratar o cotidiano prático das enfermeiras intensivistas no cuidado ao cliente criticamente enfermo, ou seja, destacar o que dizem, o que fazem e o que pensam que deveriam fazer. Neste sentido, são descritos os comportamentos, crenças, valores, elementos materiais, permitindo conhecer as linhas de ação predominantes neste ambiente. Em se tratando da TRS, parte-se do princípio que, o avanço tecnológico em saúde, e, como consequência, a rápida transformação do conhecimento que a ele 65 acompanha, repercute-se fortemente no agir da enfermeira frente ao cliente na terapia intensiva, demandando destrezas e habilidades de cunho objetivo e subjetivo. Isto, por sua vez, faz com que as práticas de cuidado da enfermagem ao cliente neste cenário, o modo, a forma de cuidar, passe a fazer parte das rodas de conversa das enfermeiras, tornando-se assunto importante, em voga. Há, então, troca de informações e experiências, compartilhamento de ideias, reflexões sobre elas que, em conjunto com valores pessoais, crenças, afeto, conduzem a uma elaboração cognitiva que passa a orientar as ações, com vistas a atender seus interesses. Defende-se, portanto, que as práticas de cuidado da enfermagem na terapia intensiva se conformam como fenômeno de representação social para as enfermeiras, justificando a utilização da teoria na pesquisa em tela. Nesta direção, optou-se pela abordagem processual da TRS, investindo-se em desvelar seu processo de elaboração, que elementos a constituem, como se interrelacionam e que influência exercem na sua conformação. Além disso, empreende-se esforços para caracterizar o lugar social dessas representações, isto é, quem são os sujeitos, de onde vêm, e de onde falam, no intento de apontar as condições de produção e melhor entender o estatuto epistemológico. Para que estas metas sejam alcançadas, torna-se necessário definir critérios e meios coerentes para coleta e obtenção das informações, que possam contribuir para o estudo do objeto em discussão. 3.2 Campo de Pesquisa O campo de estudo foi um hospital federal localizado no município do Rio de Janeiro. O lócus foi a Unidade de Terapia Intensiva da referida instituição. A escolha por este local de pesquisa justifica-se porque tal setor apresenta características 66 semelhantes ao cenário inicial em que foram delineados os construtos na pesquisa- dissertação, fornecendo condições, em termos qualitativos, para conduzir esta investigação. O CTI fica situado no segundo andar do edifício central do hospital estudado, sendo composto por 10 leitos de terapia intensiva, dos quais dois deles destinam-se a clientes portadores de patologias que necessitam de isolamento (respiratório/contato). Apresenta um formato no qual o posto de enfermagem fica centralizado, tendo 4 leitos à sua direita, 3 à esquerda e 3 numa posição de fundo (isolamento), o que lhe confere uma visibilidade de aproximadamente 80% da unidade. A equipe é composta por enfermeiras, médicos, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas e funcionários da limpeza, os quais permanecem 24 horas no setor. Durante o período diurno esta equipe é complementada por nutricionistas, assistentes sociais, psicólogos, fonoaudiólogos e outras especialidades médicas e de enfermagem. A equipe de enfermagem se reveza numa escala de trabalho de 12 por 60 horas, com uma média de 2 a 3 enfermeiros e 5 a 6 técnicos de enfermagem por turno. Além disso, durante o dia a equipe é acrescida por duas enfermeiras responsáveis pela chefia da unidade. Quanto à estrutura física dos leitos, observa-se que estes são compostos por uma cama, um monitor multiparamétrico, uma mesa de cabeceira, uma mesa de alimentação, duas prateleiras, um ventilador artificial, dispositivos de gazes e bombas infusoras de acordo com a demanda. O posto de enfermagem possui uma área destinada à realização de atividades administrativas e outra voltada especificamente ao preparo de medicamentos. Há ainda uma sala para a reunião clínica da equipe e de guarda dos equipamentos. 67 A dinâmica de trabalho da equipe de enfermagem se inicia quando da passagem de plantão pelos profissionais do turno anterior, seguido pela divisão de atividades conforme escala por paciente, envolvendo um técnico de enfermagem e uma enfermeira. Em média cada enfermeira responde pela assistência direta de 3 clientes, existindo um funcionário destinado exclusivamente ao preparo das medicações. Tal processo demarca o início de organização da assistência diária. 3.3 Participantes da pesquisa Os participantes foram 21 enfermeiras, 17 mulheres e 04 homens, sendo 12 que atuam no período diurno e 9 no noturno na Unidade de Terapia Intensiva da instituição escolhida como campo de estudo. Fizeram parte da pesquisa os participantes que atenderam aos seguintes critérios de inclusão: ser enfermeira com atuação em UTI; estar em atividade no setor de estudo durante o período destinado à pesquisa; atuar diretamente na assistência ao cliente internado neste setor; aceitar participar da pesquisa. Considerando um universo composto por 24 enfermeiras, 03 participantes não atenderam a estes critérios previamente estabelecidos, sendo excluídos da pesquisa. Deste modo trabalhou-se com o quantitativo possível de enfermeiras, porém, a pré-análise qualitativa dos dados empíricos indicava que os mesmos eram suficientes no atendimento aos objetivos inicialmente propostos pela pesquisa. 3.4 Produção dos dados Optou-se pela triangulação no processo de produção dos dados. A ideia de triangulação ampara-se no princípio de validação dos resultados pela combinação de diferentes métodos, visando verificar a exatidão e a estabilidade das 68 observações. A estratégia de triangulaçãobusca conferir aos procedimentos qualitativos não somente a validade, mas também o rigor, a amplitude e a profundidade (APOSTOLIDIS, 2006). Neste sentido, a triangulação é antes de tudo uma estratégia indutiva de pesquisa tendo por objetivo geral construir um saber pertinente e consistente sobre o fenômeno, a partir de diferentes operações de cruzamento sob o plano teórico, metodológico e de produção de dados (APOSTOLIDIS, 2006). Tal triangulação se alinha com o enfoque das representações sociais. Isto porque estudar, como sugeria Moscovici, o conhecimento que os indivíduos têm de um objeto e a maneira como ele é organizado e utilizado pelos indivíduos e grupos, implica em uma perspectiva plurimetodológica. Essa perspectiva ganha força principalmente no estudo do conteúdo das representações sociais, pois mostra-se apropriada à sua especificidade epistemológica, que se interessa por um conjunto de fenômenos complexos e determinados pela interdependência dinâmica de fatores psicológicos, relacionais e sociais (APOSTOLIDIS, 2006). Então, foram utilizadas duas técnicas para produção dos dados: 3.4.1- Observação etnográfica Realizou-se na primeira fase da produção dos dados, denominada exploração de campo, conforme roteiro pré-estabelecido (Apêndice 1). O uso da observação nesta etapa objetivou realizar uma primeira aproximação da realidade estudada, no sentido de identificar determinados aspectos das práticas de cuidar das enfermeiras intensivistas que, posteriormente, num segundo momento, pudessem ser aprofundados durante a realização das entrevistas. Utilizou-se como referência para orientar tal observação inicial, alguns elementos preliminares 69 caracterizadores de uma possível linha de ação adotada pela enfermeira diante do cuidado ao cliente na terapia intensiva (TI): Cuidado tecnológico: enfermeiras que, frente ao cuidado do cliente na TI, agem amparando-se nos elementos: objetivos - baseiam-se nos dados provenientes do uso do maquinário, bem como da sua interpretação, articulando-os àqueles oriundos da avaliação semiológica dos sinais e sintomas do cliente em conjunto com os aspectos fisiopatológicos das doenças por ele acometidas; subjetivos - consideram os dados de cunho emocional, psíquico, experiencial, expressivos, produzidos a partir da relação intersubjetiva com o cliente. Fundamentam-se no saber tecnológico e da enfermagem, guiados pela observação acurada. Ação tecnológica: enfermeiras que, frente ao cuidado do cliente na TI, agem amparadas no seguinte elemento: objetivo - baseiam-se nos dados provenientes do manejo e interpretação do maquinário, articulados com o conhecimento do mecanismo das doenças. Fundamenta-se no saber tecnológico e no saber clínico. A observação orientada por tais aspectos se deu na tentativa de iniciar o processo de validação dos construtos delineados na pesquisa-dissertação. A observação etnográfica foi realizada ainda na segunda fase de produção dos dados, objetivando captar mais profundamente a dinâmica das práticas de cuidar destas enfermeiras, de tal modo a descrevê-las e analisá-las. A escolha pela observação etnográfica justifica-se pelo fato de que, captar o que pensam e como agem as enfermeiras em relação às práticas de cuidado frente ao cliente na terapia intensiva ganha mais fundamento a partir da imersão do pesquisador neste contexto cultural, objetivando conhecer os conteúdos que estruturam as representações, as imagens, símbolos, referências, informações. 70 Logo, a utilização desta técnica permite partilhar da vida cotidiana no contexto da terapia intensiva, na tentativa de apreender as normas e valores das enfermeiras, as percepções e significados dos seus comportamentos, as lógicas e os significados socioculturais de suas práticas. Portanto, possibilita uma riqueza e profundidade de dados a partir do próprio contexto e espontaneidade. A fase de observação iniciou-se no dia 19/11/2010. Tal estratégia foi realizada no decorrer do turno diurno de trabalho das enfermeiras, tendo uma duração média de 5 a 6 horas cada período de observação e abarcando tanto a parte da manhã quanto da tarde, na tentativa de visualizar a dinâmica das atividades no maior intervalo de tempo possível. A chegada no campo acontecia entre 8 e 9 horas da manhã ou entre 13 e 14 horas da tarde. Nos primeiros dias desta etapa de produção de dados buscou-se apreender as características iniciais da unidade, obter as primeiras impressões acerca do cotidiano assistencial dos profissionais, e através de conversas informais com eles e clientes tentou-se alcançar uma aproximação e familiaridade suficiente para iniciar a produção efetiva dos dados. Neste contexto, percebeu-se nas semanas iniciais de observação que os profissionais sentiam-se incomodados com a presença do pesquisador, tido como um “vigia” ou avaliador dos afazeres das enfermeiras, sobretudo pelas constantes anotações no diário de campo de forma concomitante com o desenrolar dos fatos. Optou-se nesta fase preliminar por apenas observar o desenvolvimento das atividades, sem uma participação direta do pesquisador, e num segundo momento realizou-se a observação participante. Entre o primeiro e o segundo mês entendeu- se que o pesquisador já era visto como “nativo”, fornecendo condições para o aprofundamento dos dados da observação. Assim, as observações eram compostas 71 pelos seguintes tipos de registros: sobre as situações incluindo o relato dos sujeitos que dela participaram de maneira ipsis literis; impressões do pesquisador; respostas dos sujeitos aos questionamentos do pesquisador sobre pontos previamente identificados; narrativas dos fatos pelo pesquisador. À medida que eram percebidos determinados aspectos caracterizadores de estilos de cuidar da prática das enfermeiras, buscava-se detalhar a observação orientando-se pelos critérios previamente delineados (cuidado e ação tecnológica). Evitou-se ao máximo interferir na dinâmica dos acontecimentos, salvaguardando-se, entretanto, a segurança do cliente hospitalizado. Então, manteve-se o olhar atento aos comportamentos, atitudes, conteúdo das conversas entre os membros da equipe multiprofissional, diálogos com os clientes, expressões não verbais, registros escritos dentre outros, buscando descrever o que diziam, o que faziam e o que pensavam os enfermeiros no CTI, a partir de respostas às seguintes perguntas: Quem? Como? Quando? Aonde? As situações comumente retratadas no diário de campo envolviam majoritariamente cuidados para o atendimento das necessidades biológicas, cenas de admissão e transferência de clientes no setor, realização de procedimentos e técnicas por diferentes membros da equipe, reunião clínica da equipe de enfermagem, cuidados gerenciais realizados no posto de enfermagem, atuação em momentos de intercorrências clínicas. Ao final da primeira etapa de observação (entre o terceiro e quarto mês) foi possível com base na leitura e análise dos registros nos diários de campo traçar um conjunto de características preliminares dos participantes relacionadas ao objeto em estudo, de maneira a discutir tais questões identificadas na entrevista em profundidade. A observação foi finalizada no mês de maio de 2011, compondo um 72 quantitativo de aproximadamente 150 horas de observação registradas em diário de campo. 3.4.2- Entrevista individual Constituiu-se na segunda etapa de produção dos dados, a qual foi realizada, considerando as informações oriundas desta observação prévia das enfermeiras pautada nos critérios destacados, com a aplicação de dois instrumentos: o roteiro de produção de dados sociodemográficos (Apêndice 2), composto de questões objetivas e discursivas, com o propósito de descrever o perfil dos sujeitos (caracterização do grupo de pertença); e o roteiro de entrevista semiestruturada (Apêndice 3), composto dequestões abertas para a exploração do objeto de estudo, considerando a etapa de observação.Tais dados oriundos da entrevista foram registrados em fita magnética. O uso da entrevista possibilita a observação dos sujeitos em seu território, interagindo com estes através de sua própria linguagem e em seus termos. É então um diálogo intersubjetivo entre o pesquisador e a enfermeira. Compreende-se que as representações sociais são resultantes de um contínuo burburinho e um diálogo permanente entre indivíduos, um diálogo que é tanto externo quanto interno, durante o qual as representações sociais ecoam ou são complementadas (SPINK, 1995). Logo, a entrevista possibilita que o pesquisador acesse este diálogo. 3.5 Análise dos dados Aplicou-se a triangulação na análise dos dados, isto é, àqueles provenientes das entrevistas foram submetidos a um software para processamento dos dados e a análise de conteúdo temático; os oriundos da observação sofreram análise etnográfica. 73 3.5.1- Análise etnográfica Os dados produzidos pela observação participante passaram por análise etnográfica, visando descrever, traduzir, explicar e interpretar a cultura e as relações sociais de maneira densa, delineando os sentidos da realidade sociocultural para os agentes implicados nela. Tais resultados estão apresentados em conjunto com os que foram gerados pelo software Alceste, proporcionando um contraste das questões que emergiram no conteúdo das narrativas com o cotidiano prático da assistência das enfermeiras. 3.5.2- Uso do software Alceste (Análise Lexical Contextual de um conjunto de segmentos de texto) Fundamentos teóricos O Alceste é um método informatizado para a análise de textos criado por Max Reinert em 1986, no marco da investigação sobre o desenvolvimento de métodos de análise de dados linguísticos iniciado por Benzecri em 1981 na França, e que vem ao encontro das necessidades de cientistas sociais, geralmente confrontados com a análise de materiais linguísticos oriundos de perguntas abertas. A tese principal de Reinert é a de que todo discurso expressa um sistema de mundos lexicais, que organiza uma racionalidade e dá coerência a tudo que o locutor enuncia. O termo mundo lexical é uma noção primária que remete a conceituação das palavras que constituem uma frase ou um fragmento do discurso (ALBA, 2004) Reinert (1997) se propõe a observar a noção de mundo lexical a partir da análise estatística do uso do vocabulário em um ou mais textos. Ele afirma que o 74 objetivo do método é pôr em evidência através de um conjunto de textos os mundos lexicais usuais evocados pelos enunciadores. É a redundância da sucessão de palavras que permite localizar os mundos lexicais frequentes, ou comuns no sentido de frequentemente habitado pelo enunciador (ALBA, 2004). Os mundos lexicais podem ser então estudados através da análise da organização e distribuição das palavras principais coocorrentes dos enunciados simples de um texto. A metodologia focaliza a distribuição estatística de sucessões de palavras sem tomar em conta a sintaxe e semântica do discurso (análise temática), mas unicamente a coocorrência ou presença simultânea de várias palavras funcionais (substantivos, adjetivos, verbos) em um mesmo enunciado, eliminando palavras suplementares (conjunções, artigos, preposição). Esta metodologia parte do pressuposto de que a análise da sucessão de palavras principais em um conjunto de enunciados permitirá diferenciar globalmente os lugares de enunciação ou mundo lexicais mais significativos do discurso. Alguns mundos lexicais são mais enunciados do que outros e para observá-los é necessário analisar a frequência de aparição do conjunto de palavras principais associadas entre si que compõe o texto. A ideia é que ao utilizar um vocabulário determinado o locutor evoca um lugar comum de enunciação, o qual se define por oposição a outros lugares, de sorte que um mundo lexical não se define em si mesmo, mas em relação aos outros (ALBA, 2004). Funcionamento do programa Pelas dificuldades para definir com exatidão o que é um enunciado simples, o programa utiliza uma heurística estatística que delimita nos enunciados somente unidades de contexto elementar (uce), que são segmentos de texto compostos por 75 sucessões de palavras principais, cujo tamanho é definido pelo utilizador do programa (8 a 20 palavras). Do mesmo modo que o enunciado é substituído por uce, as palavras do texto são substituídas por formas simples: as palavras principais e as suplementares, estas últimas que servem a construção sintática da frase (artigos, conjunções, preposições etc) serão eliminadas da análise principal. Tal análise realizar-se-á a partir de palavras principais (substantivos, adjetivos, advérbios) que serão submetidos a uma redução às suas raízes – morfemas lexicais, enriquecendo as relações estatísticas implicadas na coocorrência das formas simples e eliminando a variabilidade de formas de uma palavra (ALBA, 2004). O conjunto de cálculos que realiza o programa se desenvolve em 3 etapas: 1-Durante a primeira etapa o programa divide o texto em uce, realiza uma diferenciação das palavras principais e suplementares para proceder a redução às raízes das primeiras, a qual permite calcular a tabela binária com as uce em linha e os morfemas lexicais em coluna. Este é o procedimento de base para os demais. 2-Num segundo momento efetua a classificação das unidades de contexto em função da similaridade ou diferenciação do seu vocabulário. Um duplo procedimento de classificação permite comprovar a estabilidade das classes: uma primeira classificação com a unidade de contexto de determinado tamanho é feita e uma segunda com tamanho superior. A classe é estável se esta variação no tamanho do vocabulário da uce não modifica a estrutura ou distribuição das classes, nem seu conteúdo. 3-A terceira etapa descreve as classes obtidas com os procedimentos estatísticos empregados: seleção do vocabulário específico de cada classe, seleção das unidades de contexto representativas de cada classe, cálculo dos segmentos 76 repetidos por classe, de formas reduzidas e suas terminações, análise fatorial de correspondência, classificação hierárquica ascendente de cada classe. Organização e tratamento dos dados do software Alceste Após o preparo inicial do arquivo contendo as entrevistas, o mesmo foi submetido ao software Alceste na versão 2010, gerando um relatório no qual obteve- se 58% de aproveitamento. Optou-se no decorrer do estudo por explorar a análise através da Classificação Hierárquica Descendente (CHD) e da Classificação Hierárquica Ascendente (CHA). A CHD tem por objetivo a repartição dos enunciados em classes marcadas pelo contraste do vocabulário. Deste modo, a partir do cruzamento das formas reduzidas e uce, obtém-se classes de uce que tem vocabulário semelhante entre si e diferente das uce de outras classes. Para tanto utiliza-se um conjunto de procedimentos estatísticos. A CHA é um recurso fornecido pelo programa Alceste que permite o estudo das relações das formas lexicais no interior de cada classe. Segundo Reinert (1998, p. 33) os “laços de vizinhança ou sinônimos” das palavras dentro da classe são indicativos do que chama “núcleos”, que auxiliam a entender a dinâmica de formação da classe. Quanto mais próximo do eixo estiver o traço de ligação entre as palavras, maior é o número de vezes que aparecem juntas. Nesta medida, com base na CHD é possível apreender as relações entre as classes, de oposição e similaridade, a partir da distribuição do seu vocabulário, enquanto no caso da CHA, capta-se a dinâmica das coocorrências no interior de cada classe. Então, ambas concorrem para identificar os mundos lexicais implicados na organização das representações sociais do objeto em tela, justificando sua utilização na análise.77 Tomando como referência as 6 classes produzidas, a análise organizou-se em dois blocos, sendo um contendo as classes 1, 2 e 4 e outro as 3, 5 e 6. Cada classe é composta pela análise da temática referencial e dos seus respectivos subtemas, ilustrados pelos trechos típicos de entrevista. Estes procedimentos de análise permitiram formalizar os dois blocos da seguinte maneira: o primeiro intitula-se “O sentido da tecnologia na terapia intensiva e a organização dos estilos de cuidar”, do qual fazem parte os elementos abaixo, considerando o tema geral da classe: Classe 1: Funcionalidades da tecnologia no CTI; Classe 2: Elementos organizativos dos estilos de cuidar; Classe 4: Fatores estruturais externos à prática de cuidado das enfermeiras O segundo foi denominado: “A condição do cliente e suas repercussões na prática de cuidar das enfermeiras” envolvendo os aspectos: Classe 3: Cotidiano assistencial da enfermeira no CTI; Classe 5: Prática de cuidar com a tecnologia; Classe 6: As características do paciente como indicador do trabalho no CTI. Os resultados provenientes da análise textual realizada pelo emprego do Alceste foram interpretados à luz da teoria das representações sociais, bem como do levantamento bibliográfico pertinente às temáticas evidenciadas. Após esta etapa, a partir das hipóteses empíricas que surgiram neste processo, realizou-se uma testagem experimental das variáveis sexo, turno de trabalho e tempo de formação profissional, na tentativa de verificar se no material oriundo das entrevistas existiam diferenças na produção do discurso em função destas variáveis. Assim, o arquivo contendo as entrevistas foi novamente submetido ao Alceste para uma análise cruzada (tri-coisée). O conjunto destes dados está apresentado de maneira 78 comparativa após a discussão do segundo bloco de classes e analisados sob a ótica do objeto da pesquisa. 3.5.3 Análise de conteúdo A técnica de análise de conteúdo foi aplicada aos dados provenientes das entrevistas após a análise textual efetuada a partir do programa Alceste, na tentativa de complementá-la. A justificativa para esta escolha pauta-se no argumento de que, conforme o resultado obtido pela rodagem do corpus das entrevistas no programa Alceste, e tendo por base os fundamentos teóricos que lhe dão sustentação, 58% da narrativa dos participantes sobre suas práticas se constroem em torno das diferenças no discurso acerca deste objeto. Estas diferenças foram identificadas pelo Alceste e polarizadas na organização das classes lexicais. Como consequência, isto significa dizer que 42% desta narrativa é composta por um conteúdo comum veiculado pelos participantes sobre o objeto representado. Nesta direção, através da análise de conteúdo, investe-se em desvelar tais sentidos comuns que integram o discurso sobre a prática de cuidar. A análise de conteúdo encontra respaldo em diferentes autores, para os quais este tipo de análise consiste na aplicação de técnicas pautadas pela objetividade, sistematização e utilização de indicadores quantitativos com o intuito de fazer sobressair o conteúdo presente nas mensagens, de tal modo a possibilitar sua interpretação ou inferência de conhecimentos. Esta técnica situa os significados manifestos em estruturas sociológicas, a exemplo das variáveis psicossociais e contexto (OLIVEIRA, 2008). A unidade utilizada para interpretação das respostas foi o tema, isto é, uma asserção sobre determinado assunto, envolvendo seja uma simples sentença 79 (sujeito e predicado) ou um conjunto delas ou um parágrafo. Na análise de conteúdo temático capta-se o aspecto pessoal e social que encontra-se investido nas respostas do sujeito acerca do significado de uma palavra ou um conceito, abarcando aspectos racionais, ideológicos, afetivos e emocionais (FRANCO, 2005). No caso desta investigação, alinha-se com o objetivo de analisar as representações sociais em torno do objeto de pesquisa. Em atendimento as etapas que integram esta técnica realizou-se os seguintes procedimentos de análise: 1- Pré-análise Constituiu-se numa fase de organização, na qual ocorreu uma aproximação inicial com o material a ser analisado, no sentido de preparar um esquema prévio para o desenvolvimento das operações. Envolveu as seguintes atividades: -Leitura flutuante: estabelecimento de contato com o material, observando as mensagens/informações nele contido, levantando impressões, emoções, expectativas, representações; -Levantamento dos indicadores: identificação dos temas mais importantes, a partir da frequência em que eram sendo mencionados. Constituiu-se numa análise quantitativa, rastreando-se os depoimentos na busca da ocorrência e coocorrência dos temas, no intuito de se dar densidade aos resultados. Utilizou para tanto a frequência relativa e absoluta, e a proporção de determinado tema em relação aos outros presentes. Considerou-se ainda aspectos particulares de um sujeito ou típicos de um grupo que fossem importantes para entender o objeto, independente da frequência de ocorrência. 2- Categorização Configurou-se numa operação de classificação dos elementos que faziam parte do conjunto, inicialmente por diferenciação e posteriormente houve um 80 reagrupamento por analogias, de acordo com o critério semântico. Deste modo, o tratamento analítico do material foi feito a partir do mapeamento dos conteúdos, à luz do que os participantes veicularam. Inicialmente foi feita a descrição do sentido atribuído pelos respondentes de uma parte das entrevistas, destacando as nuances observadas. Procedeu-se a classificação das divergências e convergências, criando- se um código para a leitura das demais respostas. Assim, as categorias e subcategorias foram sendo definidas de modo a traduzir o conteúdo expresso e latente dos discursos dos participantes. Deste modo, a confluência das unidades temáticas que integram as categorias de análise origina dois eixos temáticos, assim constituídos: 1º eixo: Elementos da prática de cuidar das enfermeiras na terapia intensiva *A enfermeira e o lidar com as tecnologias nas práticas de cuidar na terapia intensiva *As formas de assistir ao cliente na terapia intensiva 2º eixo: A complexidade do trabalho na terapia intensiva *Os sentidos atribuídos pelas enfermeiras ao trabalho na terapia intensiva *Requisitos profissionais para o trabalho no CTI Os dados a eles ligados estão dispostos sob a forma de descrições cursivas, acompanhadas pelos fragmentos de entrevista mais significativos. A discussão sustentada pela TRS e estudos que servem de referência ao debate se estrutura na interface com os resultados originados pelo Alceste e observação participante 3.6 Aspectos Éticos Em atendimento a resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde/CNS, que dispõe sobre as pesquisas envolvendo seres humanos, o projeto foi submetido 81 ao Comitê de Ética em Pesquisa no hospital lócus do estudo, sendo aprovado sob número de protocolo 35/10. Além disso, foi solicitado o aceite de participação dos sujeitos, mediante a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Apêndice 4). A confidencialidade dos participantes foi garantida através da identificação numérica deles, a partir da ordem sequencial em que se organizou a observação participante. (Coliseu-Roma) CAPÍTULO 4: Apresentação dos resultados 83 4.1 Dados sociodemográficos Em atendimento às condições de produção da representação social, através da qual é possível caracterizar os sujeitos quanto à pertença grupal, apresenta-se neste momento os dados relativos ao perfil dos entrevistados, composto por informações de cunho pessoal e profissional. Ao entender que no processode elaboração das representações sociais sobre determinado objeto o lugar social que os sujeitos ocupam ou as funções que assumem exercem influências nos conteúdos representacionais e sua organização, valorizam-se as variáveis psicossociais e demográficas que encontram-se implicadas no grupo estudado. Todavia, tais variáveis importam à discussão quando articuladas à narrativa em torno do objeto, permitindo compreender as representações sociais a partir do contexto que as engendram. É então sob esta perspectiva que optou-se por uma apresentação preliminar destes dados sociodemográficos, aprofundando-se o debate relacionado a eles na interface com as produções feitas pelos sujeitos sobre o fenômeno em tela. A tabela 1 em seguida ilustra a frequência absoluta e porcentual das características que constituem os dados pessoais e profissionais. Numa primeira análise verifica-se um equilíbrio quantitativo na população estudada quanto a aspectos como: horário de trabalho (turno diurno/turno noturno), idade (mais jovens/menos jovens), religião (católicos e não católicos) e presença ou não do título de especialista. Observa-se ainda no grupo um predomínio das mulheres, mais jovens na profissão em relação ao tempo de formação, que escolheram trabalhar no setor e tendo no momento majoritariamente dois empregos. 84 Tabela 1: Perfil sociodemográfico dos sujeitos investigados Variáveis Psicossociais n % DADOS PESSOAIS Sexo Feminino Masculino 17 4 80,95 19,05 Idade Até 35 anos Mais de 36 anos 11 10 52,39 47,61 Religião Católicos Não católicos DADOS PROFISSIONAIS 12 9 57,14 42,86 Tempo de formação Até 10 anos Mais de 10 anos Número de empregos 1 emprego 2 empregos 3empregos Turno de trabalho Diurno Noturno Especialização Especialistas Não especialistas Escolha do CTI como local de trabalho Escolheu Não escolheu 13 8 3 12 6 12 9 12 9 14 7 61,90 38,10 14,29 57,14 28,57 57,14 42,86 57,14 42,86 66,67 33,33 O quadro 1, por sua vez, retrata as variáveis psicossociais e demográficas ligadas a cada participante da pesquisa. Em outro estudo que também aplicou-se a teoria das representações sociais (SILVA, FERREIRA, 2011), já demonstrou-se, por exemplo, como características de formação e qualificação das enfermeiras atuantes em unidades de cuidados intensivos, como essas em evidência nesta pesquisa-tese, interferem na interpretação dos fenômenos sociais presentes neste cenário, repercutindo-se na assistência aos clientes internados. Neste sentido, é que se faz importante conhecer 85 os conteúdos que integram o discurso das enfermeiras sobre a prática de cuidar no CTI na tentativa de desvelar suas representações sociais, tendo como referência para balizar esta análise tais variáveis psicossociais e demográficas. Enf. 1 Feminino; até 35 anos; mais de 11 anos de formado; 2 empregos, turno diurno; não escolheu trabalhar no setor; não especialista; não católico Enf. 2 Feminino; mais de 36 anos; mais de 11 anos de formado; 3 empregos; turno diurno; escolheu trabalhar no setor; especialista; não católico Enf. 3 Masculino; mais de 36 anos; até 10 anos de formado; 3 empregos; turno diurno; não escolheu trabalhar no setor; especialista; não católico Enf. 4 Feminino; mais de 36 anos; mais de 11 anos de formado; 3 empregos; turno diurno; escolheu trabalhar no setor; especialista; católico Enf. 5 Feminino; mais de 36 anos; mais de 11 anos de formado; 2 empregos; turno noturno; escolheu trabalhar no setor; especialista; católico Enf. 6 Feminino; até 35 anos; até 10 anos de formado; 2 empregos; turno diurno; escolheu trabalhar no setor; não especialista; não católico Enf. 7 Masculino; até 35 anos; até 10 anos de formado; 3 empregos; turno noturno; escolheu trabalhar no setor; não especialista; católico Enf. 8 Feminino; até 35 anos; até 10 anos de formado; 3 empregos; turno diurno; escolheu trabalhar no setor; não especialista; católico Enf. 9 Feminino; até 35 anos; até 10 anos de formado; 1 emprego; turno diurno; escolheu trabalhar no setor; especialista; católico Enf. 10 Feminino; mais de 36 anos; até 10 anos de formado; 2 empregos; turno diurno; escolheu trabalhar no setor; especialista; católico Enf. 11 Feminino; até 35 anos; até 10 anos de formado; 2 empregos; turno diurno; escolheu trabalhar no setor; especialista; não católico Enf. 12 Feminino; mais de 36 anos; até 10 anos de formado; 2 empregos; turno noturno; não escolheu trabalhar no setor; não especialista; não católico Enf. 13 Feminino; mais de 36 anos; mais de 11 anos de formado; 2 empregos; turno diurno; não escolheu trabalhar no setor; não especialista; católico Enf. 14 Feminino; mais de 36 anos; mais de 11 anos de formado; 1 emprego; turno diurno; escolheu trabalhar no setor, especialista; católica Enf. 15 Masculino; até 35 anos, até 10 anos de formado; 3 empregos; turno noturno; escolheu trabalhar no setor; especialista; não católico Enf. 16 Feminino; até 35 anos; até 10 anos de formado; 1 emprego; turno diurno; escolheu trabalhar no setor; especialista; católico Enf. 17 Feminino; até 35 anos; até 10 anos de formado; 2 empregos; turno noturno; não escolheu trabalhar no setor; não especialista; não católico Enf. 18 Feminino; até 35 anos; até 10 anos de formado; 2 empregos; turno noturno; não escolheu trabalhar no setor; especialista; católico Enf. 19 Feminino; mais de 36 anos; mais de 11 anos de formado; 2 empregos; turno noturno; não escolheu trabalhar no setor; não especialista; católico Enf. 20 Feminino; mais de 36 anos; mais de 11 anos de formado; 2 empregos; turno noturno; não escolheu trabalhar no setor; não especialista; não católico Enf. 21 Masculino; até 35 anos; até 10 anos de formado; 2 empregos; turno noturno; escolheu trabalhar no setor; não especialista; não católico Quadro 1: Classificação dos participantes segundo variáveis psicossociais e demográficas Destaca-se, por fim, em face do número de participantes e de suas características, que nesta pesquisa trabalha-se com um quantitativo limitado de investigados, o que conduz a evitar generalizações e relativizar determinadas 86 afirmações, sobretudo no que tange a análises mais específicas, como é o caso da variável gênero, considerando a constituição do grupo. 4.2 Análise textual através do software Alceste (parte I) O programa Alceste obteve uma classificação do enunciado das enfermeiras em função da semelhança e da não semelhança estatística do vocabulário (palavras) que o compõe, a fim de colocar em evidência os mundos lexicais. Conforme visto, a hipótese geral do programa consiste em considerar as leis de distribuição do vocabulário no enunciado de um corpus, como um traço linguístico de um trabalho cognitivo de reconstrução de um objeto por um indivíduo. Assim, o Alceste procedeu uma divisão do texto em enunciados ou unidades de contexto elementar (uce) e explorou a distribuição do vocabulário nestas uce, para extrair do corpus as classes lexicais tendo um vocabulário próprio. O perfil de cada classe correspondeu ao conjunto de palavras mais significativamente presentes nestas. O grau de associação de uma palavra ou uma variável a uma classe foi calculado por um Chi² (qui-quadrado) de associação. Esta análise permitiu colocar em evidência os diferentes conteúdos do discurso das enfermeiras sobre sua prática de cuidar na terapia intensiva. Ela possibilitou ainda isolar as temáticas em torno das quais se articula tal discurso, identificar o papel de algumas variáveis na sua organização, e as ligações entre as classes. Diante desta explicação, torna-se pertinente descrever o tratamento dado pelo programa ao corpus de 21 entrevistas submetido à análise. No quese refere ao cálculo do dicionário, obteve-se 7992 formas distintas ou palavras diferentes, com um número de ocorrências de 181408, sendo a média por forma distinta igual a 23. 87 Além disso, 3623 palavras tiveram frequência igual a 1. Após a redução das palavras às suas raízes alcançou-se 1384 palavras analisáveis (que ocorreram 119016 vezes), com frequência mínima igual ou maior que 4, bem como 38 palavras instrumento e 38 palavras com asterisco (variáveis). O corpus foi dividido em 3855 uce, das quais 2244 apareceram numa mesma classe em duas classificações hierárquicas descendentes, equivalendo a 58,21% do total e denotando a estabilidade das classes. Desta maneira, de acordo com a figura 1, se observa que o corpus sofreu uma primeira divisão em duas partes, de um lado aquela que vai originar as classes 3, 6 e 5 e do outro as 1, 2 e 4. No prosseguimento do processo de análise, a primeira parte origina a classe 5 e sofre uma nova partição para gerar as classes 3 e 6. Logo após, a segunda parte inicialmente deriva a classe 1, e novamente se divide para produzir as classes 2 e 4, últimas a serem formadas. A figura 1 apresenta ainda o perfil das classes através do dendograma da classificação hierárquica descendente. Os critérios utilizados para a seleção das palavras foram: a) o valor do Chi² de associação da forma lexical à classe (calculado a partir do cruzamento da presença/ausência da forma em uma uce, e a associação dessa uce à classe lexical); b) porcentagem de cada palavra na classe, calculado levando-se em conta a sua frequência na classe em relação ao corpus total; c) força de associação (coocorrências) das palavras características de cada classe através da classificação hierárquica ascendente; d) vocabulário específico de cada classe. As figuras 2 e 3 que se seguem mostram também a importância de cada classe na constituição do corpus, bem como o número de palavras que as integram. Reitera-se, segundo Kalampalikis (2003), que os mundos lexicais têm um sentido e se emprestam à interpretação apenas em um contexto de oposição, num 88 sistema de relações de antítese. Assim, sua autonomia é proporcional às suas ligações, e de maneira complementar às relações de força que a tornam diferentes. Baseando-se nisso, o dendograma da classificação hierárquica descendente oferecido pelo Alceste conduz dizer numa primeira análise, que de um lado o discurso das enfermeiras sobre sua prática de cuidar se constroi amparado pelo seu cotidiano do fazer e de assistir o cliente em face das tecnologias neste cenário, agregando uma característica mais feminina, e marcado pelo fator da experiência profissional, além de ter sido mais veiculado pelas enfermeiras do turno diurno e de religião católica. Do outro lado, através das classes 1, 2 e 4 possui um tom mais conceitual, crítico-avaliativo articulado ao uso da tecnologia, com um olhar mais masculino e jovem dos enfermeiros que trabalham no período noturno e não católicos na organização do seu conteúdo. A partir desta aproximação inicial, com o intuito de melhor sistematizar a apresentação dos resultados será feita a descrição do primeiro bloco de classes gerado pelo Alceste, e, após, do segundo. Cada bloco de classes foi intitulado em função do sentido a que remetia às temáticas referenciais contidas nas classes. Em ambos os casos, optou-se por uma estrutura, na qual a descrição de cada classe é precedida por um quadro contendo as palavras características e seus respectivos valores de Chi² e porcentagem na classe, variáveis associadas e tema referencial. Em seguida é feita a análise descritiva de tais temáticas referenciais e dos seus sub- temas, ilustrando-os através dos trechos das entrevistas típicas à cada classe (uce). Na tentativa de rastrear pensamento e ação no processo de elaboração das representações sociais acerca do objeto em tela, a análise será acompanhada pelos dados da observação etnográfica, de maneira a fornecer uma fonte comparativa de informação. 89 Classe 1 233 uce Classe 2 224 uce Classe 4 427 uce Classe 3 406 uce Classe 6 694 uce Classe 5 260 uce Chi² Chi² Chi² Chi² Chi² Chi² Tecnologia Creio Cuidado Tecnológico Hoje Administrativ Elemento Questões Ano Favor Direto Distante Utilização Instrumento Exercício Maquinário Aliar Facilitador Execução Avanço 275,7 172,3 116,8 102,9 100,3 96,8 95,3 83,7 77,3 75,0 75,0 66,7 60,6 60,6 59,8 54,1 51,9 51,9 51,3 51,3 Cada Cuida Buscar Conhecimento Acho Busca Cuidar Adaptar Religião Perfil Manipular Maneira Modo Personalidade Envolve Querer Acordo Individualid. Emocional Dominar 136,2 82,1 78,9 72,4 62,7 51,0 50,4 44,9 41,9 39,7 37,7 36,3 36,1 34,8 33,4 32,5 32,3 31,3 31,3 29,5 Enfermeiro Profissionais São Estrutura Acho Terap. intensiva Assistência Grande Serviço Trabalham Hospital Interação Setor Lidar Enfermagem Médicos Diferente Geral Maioria Relacionamento 157,7 95,9 95,6 70,2 70,0 69,1 64,0 63,5 51,6 48,9 41,5 40,3 40,2 39,7 38,6 36,6 36,5 35,7 33,2 32,4 Medicação Fazer Horário Banho Curativo Hora Prescrição Farmácia Médico Dou Livro Sonda Técnico Chata Dei Exame Dez Junto Cima Manhã 201,7 111,0 96,9 89,8 88,1 76,9 74,1 43,4 43,0 39,3 39,0 39,0 36,2 35,0 31,7 31,1 30,9 30,6 29,1 28,8 Falar Paciente Ele Aqui Acordado Sei Foi Sair Estava Sedado Deu Lúcido Intubado Bem Teve Fulano Agradecer Fala Ficou Gratificant. 76,3 67,7 55,8 54,2 53,0 51,1 51,0 49,7 47,6 41,2 40,3 39,6 35,4 35,4 32,8 31,9 31,4 31,2 29,7 27,5 Monitor Pressão Alarme Dado Saturação Correlacionar Eletrodo Mostrando Verificar Respiratório Respirador Preciso PAM* Oxímetro Parâmetro Apresentando Curva Vitais Sinais Monitorização 414,4 169,8 129,4 112,2 107,5 100 98,5 92,0 92,0 90,9 87,6 85,3 83,7 83,1 79,4 76,9 76,6 75,5 63,6 54,0 Variáveis: Sexo masculino, menos tempo de formado, mais jovens, escolheu o setor, 3 empregos, turno noite, especialista, não católico Variáveis: Sexo feminino, mais tempo de formado, menos jovens, não escolheu o setor, turno noite, não especialista, não católico Variáveis: Sexo masculino, menos tempo de formado, mais jovem, escolheu o setor, turno noite, não especialista, não católico Variáveis: Sexo feminino, mais tempo de formado, menos jovens, turno diurno, católico, não escolheu o setor Variáveis Sexo feminino, mais tempo de formado, menos jovens, turno diurno, católica escolheu o setor Variáveis Sexo feminino, menos jovens, 2 empregos, não especialista, turno diurno, não escolheu o setor Funcionalidades da tecnologia no CTI Elementos organizativos dos estilos de cuidar 9,98% Fatores estruturais externos ao cuidado 19,03% Cotidiano assistencial 18,09% As características do paciente como indicador do trabalho no CTI 30,93% Prática de cuidar com a tecnologia 11,59% 10,38% O sentido da tecnologia na TI A condição do cliente e suas e a organização dos estilos de cuidar repercussões na prática de cuidar Figura 1: Dendograma da classificação hierárquica descendente efetuada pelo programa Alceste *PAM: pressão arterial média 90 Figura 2: Repartição das uce nas classes Alceste Figura 3: Número de palavras analisadas por classe Alceste91 4.2.1 O sentido da tecnologia na terapia intensiva e a organização dos estilos de cuidar Este primeiro bloco que se estrutura ao redor das classes 1, 2 e 4 tem o objetivo de trazer a discussão quais funções são atribuídas à tecnologia pelas enfermeiras no cuidado ao cliente no ambiente da terapia intensiva, e a partir destes usos como organizam sua prática considerando determinados elementos, de maneira a sistematizar estilos de cuidar. O quadro sinóptico em seguida fornece um panorama geral deste conjunto de classes. N° da classe de discurso CLASSE 1 CLASSE 2 CLASSE 4 Tema geral da classe Funcionalidades da tecnologia no CTI Elementos organizativos dos estilos de cuidar Fatores estruturais externos à prática de cuidar das enfermeiras Porcentagem em relação ao discurso total 10,38% do discurso 9,98% do discurso 18,9% do discurso Variáveis Associadas Sexo masculino, menos tempo de formado, mais jovens, escolheu o setor, 3 empregos, turno noite, especialista, não católico Sexo feminino, mais tempo de formado, menos jovens, não escolheu o setor, turno noite, não especialista, não católico Sexo masculino, menos tempo de formado, mais jovem, escolheu o setor, turno noite, não especialista, não católico Sub-temas Face funcional organizativa Diferenças dos estilos Equipe multiprofissional Administrativa, distante, facilitador, instrumento, ano, hoje, utilização Cada, cuida, cuidar maneira, modo individualidade, personalidade, Enfermeiro, profissionais, interação, médicos, lidar, enfermagem, relacionamento Face funcional cuidativa Elementos pessoais- profissionais Condições de trabalho Tecnologia, cuidado, tecnológico, avanço, aliar, execução, exercício, favor, questão Buscar, conhecimento, busca, perfil, adaptar, querer, emocional, dominar Estrutura, hospital, terapia intensiva, assistência, serviço, cansaço, sobrecarga Quadro 2: Classes do discurso associadas ao bloco 1 92 4.2.1.1 Classe 1 Classe 1 233 uce Chi² Porc. Tecnologia Creio Cuidado Tecnológico Hoje Administrativo Elemento Questões Ano Favor Direto Distante Utilização Instrumento Exercício Maquinário Aliar Facilitador Execução Avanço 275,7 172,3 116,8 102,9 100,3 96,8 95,3 83,7 77,3 75,0 75,0 66,7 60,6 60,6 59,8 54,1 51,9 51,9 51,3 51,3 45,7 88,4 29,6 87,5 40,4 78,9 82,3 59,3 44,2 65,2 65,2 70,5 81,8 100 88,8 75,0 100 100 87,5 87,5 Variáveis: Sexo masculino, menos tempo de formado, mais jovens, escolheu o setor, 3 empregos, turno noite, especialista, não católico Funcionalidades da tecnologia 10,38% Quadro 3: Classe 1 Alceste A classe 1 obteve uma representatividade de 10,38% do material que foi classificado para análise, e se expressa pelas palavras de maior significado para sua organização, a partir da identificação do valor do qui-quadrado/porcentagem. A análise de tais elementos permite afirmar que esta classe, com um traço mais conceitual, se relaciona às funcionalidades da aplicação da tecnologia na assistência de enfermagem na terapia intensiva. As palavras tecnologia (chi²: 275,74), cuidado (chi²: 116,89) e tecnológico (chi²: 102,99) são ilustrativas disso, na medida em que indicam que uma das faces funcionais da tecnologia é a cuidativa, mais relacionada à pragmática de assistência e cuidado ao paciente através da avaliação, identificação, direcionamento e previsão dos acontecimentos. O enfermeiro 15 se associa de maneira típica a classe 1 (chi²: 870,13), demonstrando esta visão da tecnologia, conforme se observa nos extratos de uce que foram selecionados. 93 A tecnologia eu vejo como fundamental, uma vez que favorece uma melhor avaliação, te dá maior segurança no cuidado e te possibilita questões adiante, muito mais concretas do que quando você não tem ela a seu favor. (uce 2210, enf. 15) E no cuidado de enfermagem a tecnologia, creio que possibilita pelas alterações evidenciadas no paciente o melhor direcionamento do cuidado em si (....) acho que tem como está sendo utilizada a nosso favor, na medida em que você perceba as alterações e implemente aquele cuidado preconizado para o paciente. (uce 2212, enf. 15) E aí você conseguia vislumbrar paciente com alterações respiratórias, padrão de gases e você fazia alterações, a questão da visualização das arritmias no monitor, então assim, no meu tempo eu conseguia atrelar a questão da tecnologia com o cuidado. (uce 2267, enf. 15) No entanto, o alcance desse tipo de uso da tecnologia dirigido para o cuidado implica estar próximo do paciente para observá-lo, tocá-lo, sentir e identificar suas reações. As palavras ‘questão’ com chi² de 83,07 e ‘aliar’ com chi² 51,9 estão presentes nestes excertos, e ao mesmo tempo que remetem a esta ideia de proximidade ao cliente também denotam existir uma zona de tensão que envolve o debate sobre a utilização da tecnologia, pois parece que esta última, a despeito de seu uso tratar-se de uma exigência da atualidade, por si só não é suficiente quando é pensada no âmbito da assistência de enfermagem, sendo de igual modo necessário o desenvolvimento de uma relação interpessoal. E hoje não tem como fugir da questão da tecnologia em terapia intensiva (....) creio que nossa grande preocupação é tentar aliar a questão do cuidado aos avanços tecnológicos, aliar no sentido de não fugir da nossa essência que é a questão de estar próximo do paciente, tocando, sentindo o que ele sente. (uce 2209, enf. 15) Creio que o cuidado de enfermagem ele não pode ser deixado de lado, no sentido de prevalecer a questão da tecnologia em detrimento daquela questão de estar próximo do paciente, cuidando. (uce 2211, enf. 15) Acho que ele tem que saber entender as reações humanas que o paciente da terapia intensiva pode ter durante esse processo de internação e da dependência do cuidado. (uce 2365, enf. 15) A articulação desses aspectos apresentados está associada na classe 1 pela palavra favor, com chi²: 75,09. Significa dizer que a aplicação da tecnologia no cuidado de enfermagem remete ao uso das informações oriundas dela como orientadoras das ações profissionais, tomando como referência as respostas emitidas pelo cliente e captadas pela enfermeira a partir de uma assistência prestada ao seu lado, focada no sujeito. Nesta perspectiva a palavra favor ganha 94 sentido, uma vez que significa o uso a favor da enfermeira e do cliente, quando se busca um equilíbrio entre os elementos que integram o cuidado de enfermagem, revelando a existência de um modo de agir na terapia intensiva. É a visão do profissional que consegue utilizar a seu favor questões da prática profissional mais ligadas àquelas questões dos avanços que a tecnologia no CTI lhe proporciona. A minha preocupação enquanto profissional de terapia intensiva é fazer com que a gente hoje consiga distribuir melhor essas energias aí nas diversas atividades que desempenhamos na terapia intensiva. (uce 2343, enf. 15) Por outro lado, a presença das palavras hoje, administrativo e ano, com chi² respectivamente de 100,31, 96,81, 77,35 demarcam a outra funcionalidade da tecnologia, ou seja, a sua face funcional organizativa do trabalho da enfermeira, mais aproximada ao estrutural das atividades. Assim, tais palavras indicam uma questão temporal, e sugerem que a evolução científica e tecnológica dos dias atuais impactou no setor saúde e repercutiu-se no cotidiano assistencial, isto porque implicou em dividir a atenção da enfermeira com atividades administrativas. Em vista disso, neste caso então, o emprego de tecnologias se dá na lógica do gerenciamentodas respostas do cliente e, como consequência, pode gerar o afastamento/distanciamento da enfermeira em relação ao cliente. Mas hoje essa tecnologia é dividida na verdade, essa questão da tecnologia no cuidado ela é muito mais dividida com as questões administrativas (....) então acaba assim, na minha geração de trabalho no CTI, meu cuidado ele era muito mais leito do que propriamente com administração, administração ela vem de um curto espaço de tempo, dois anos. (uce 2273/ 2239, enf. 15) No meu início de trabalho eu não saía praticamente do leito, eu permanecia no leito durante muito tempo das minhas doze horas, acredito que as paradas eram apenas para almoço, para alguma atividade administrativa. (uce 2264, enf. 15) Logo, este possível afastamento para a resolução de atividades de teor administrativo faz com que a enfermeira se aproveite das vantagens e facilidades resultantes da implementação dos recursos tecnológicos, conferindo a estes uma conotação de facilitador do processo de trabalho. A palavra distante (chi²: 66,7) traz em si este senso de afastamento. 95 Creio que existam profissionais que com a tecnologia se afastam mais do cuidado e preferindo visualizar as vantagens que a tecnologia dá no sentido de permanecer mais distante e estabelecer outras prioridades do que não o cuidado na essência. (uce 2213, enf. 15) O que acontece ultimamente, é que como o enfermeiro permanece mais distante do leito no seu trabalho, deixando a cargo do técnico de enfermagem essa execução, acho que nesse sentido o procedimento fica mais descoberto da observação coerente que o enfermeiro tem, embora muitos profissionais de repente o fazem por comodidade, por facilidade. (uce 2218, enf. 15) À luz destas ideias, a palavra favor neste caso expressa apenas o uso a favor da enfermeira, como um instrumento facilitador (chi²: 51,9) que propicia maior agilidade no desempenho das suas atividades diárias, mas que parece estar desprovida dos elementos mais próprios ao cliente. Assim, poucos sabem utilizar a seu favor, acho que ela é utilizada muito mais como um facilitador do trabalho, do que basicamente a seu favor, hoje eu vislumbro enfermeiros que usam a tecnologia para adiantar o seu trabalho. (uce 2310, enf. 15) As partes selecionadas da CHA da classe 1 apontam as duas funcionalidades da tecnologia. Na primeira figura, as palavras alterações, avaliação, observação e segurança se aproximam de cuidado e tecnologia e se inter- relacionam com um segundo bloco que contém as palavras exercício e favor, trazendo marcada a questão prática-assistencial. Enquanto na segunda, as palavras hoje, passado, questão, trabalho e administrativo ilustram o sentido gerencial da tecnologia. 96 Figura 4: Classificação hierárquica ascendente da classe 1 O enfermeiro 15 dá a impressão de revestir suas ideias por uma reflexão mais crítica e abrangente, acerca da relação das enfermeiras com a tecnologia. Ele, ao tempo em que faz menção a uma prática mais idealizada, estabelece um paralelo com aquela que vem sendo realizada, delimitando a sua fala por uma comparação entre o passado e o presente. É provável que sua experiência docente-gerencial favoreça esse caráter mais avaliativo dado à classe. O tema geral relativo às funções atribuídas à tecnologia identificado na classe lexical 1 produzida pelo programa Alceste, pode ser aprofundado com base nas nuances encontradas no contexto cultural da terapia intensiva a partir da sua atenciosa observação. Esta estratégia dá condições para proceder uma análise comportando os conteúdos presentes nos discursos e as características que fazem parte das ações habituais das enfermeiras. Levando-se em conta esta linha de pensamento, afirma-se que embora se reconheça a utilidade da tecnologia dirigida para o cuidado direto no âmbito da assistência de enfermagem, na prática, ela aparenta ter importância relativa, pois em diversas situações as informações provenientes dos aparatos tecnológicos não eram captadas ou passavam despercebidas, indicando a existência de outros focos de atenção da enfermeira. Um exemplo registrado com bastante frequência que retrata isso se refere ao banho no leito do paciente crítico, onde muitas vezes a monitorização era completamente retirada, impossibilitando um acompanhamento mais intensivo. No 97 decorrer da observação de campo, o comentário do enfermeiro 3 sobre esse tipo de ocorrência, no contraponto com o sentido da tecnologia no seu cuidado, coloca em evidência a ação pautada no procedimento/tarefa e o excesso de atividades da enfermeira impedindo uma supervisão mais próxima da assistência. _Ela é primordial, é primordial para o cuidado que presto, principalmente aqui no CTI, se fosse na enfermaria acho que não, mas aqui no CTI ela é primordial (....) ela nos fornece informações que direcionam o banho, se eu tenho as informações eu sei se o cliente está instável, se vou dar o banho ou não (....) se eu implemento o processo de enfermagem em todas as etapas, que é lógico que vai mudando diariamente, eu tenho como decidir e ela ajuda (....) não só no banho, mas em intercorrências, nas intervenções. (trecho de diário de campo, enf. 3, 02/02/2011, de 08:50 às 14 hs) Quando peço para que ele olhe para o leito ao lado, e fale sobre o fato da equipe estar realizando os cuidados de higiene sem o auxílio da tecnologia, ele continua: _Isso é a praga da rotina, a rotina, as pessoas estão muito mais preocupadas com o procedimento técnico do que com outras coisas (....) aí depois acontece alguma coisa e a culpa vai recair sobre quem? Hoje sou eu e mais uma colega e é muita sobrecarga sobre o profissional de nível superior (....) o pessoal faz aquilo há muito tempo (....) eu acho que tem que morrer uma geração dos profissionais de enfermagem para as coisas mudarem. (trecho de diário de campo, enf. 3, 02/02/2011, de 08:50 às 14 hs) Essa sobrecarga de que trata o enfermeiro 3 dá indícios de ter relação com a participação da enfermeira em um conjunto de atividades de cunho administrativo, o qual toma de modo considerável a sua atenção e concentração durante o trabalho, e que pode repercutir-se na não detecção de determinados problemas clínicos com o cliente. A explicação para isso é que o maior envolvimento com esse tipo de demanda conduz automaticamente a um certo grau de distância do cliente e a realização de ações pontuais, como ocorre com as enfermeiras 6 e 1 em um dia da pesquisa. Elas estiveram no posto de enfermagem até próximo do meio dia, manipulando as prescrições médicas e dando encaminhamento à terapêutica medicamentosa, além de promover os registros clínicos. Durante esta permanência das enfermeiras no posto central, escuta-se um dos técnicos que encontra-se no leito 10 chamando: 98 _Quem é o enfermeiro que está aqui? Enfermeira (....) [tom de voz alto]. Uma pessoa no posto responde: _é a enfermeira 1. Esta rapidamente se pronuncia: _é a hiperemia que estava na região sacra? Já vi, parece que é de antes de chegar ao CTI. Ela se encaminha ao leito 10, e a técnica de enfermagem executa o teste de reatividade da pele, chegando a conclusão de que trata-se de uma hiperemia não reativa. Ao final a técnica questiona: _não tem um dersani, um hidratante ou algo assim? A enfermeira 1 vai em busca dos produtos solicitados e retorna com dois pacotes de gaze embebidos com as soluções. Logo em seguida volta ao posto de enfermagem e dá continuidade aos afazeres anteriores. (trecho de diário de campo, enf. 1, 19/01/2010 de 08:50 às 14:00 hs) Em outro plantão dessas mesmas enfermeiras, acompanha-se a evolução clínica do cliente do leito 1 por aproximadamente uma hora, o qual apresentava descompensação da frequência cardíaca, com oscilação entre 36 e 45 batimentos por minuto. Neste período não se observou movimentação dasenfermeiras com vistas às intervenções. A médica então, ao verificar tal anormalidade, solicita o início de solução vasoativa, objetivando a estabilização cardíaca. (trecho de diário de campo, enf. 1 e 6, 28/01/2011 de 9 às 14:30 hs) De outro modo, o ambiente da terapia intensiva, pelas peculiaridades dos clientes que lá estão internados, marcados pela criticidade, gravidade clínica e instabilidade, oferece ao expectador uma variedade de situações, as quais põem em destaque a importância do uso de tecnologias, contribuindo para a compreensão do papel e do lugar que ela ocupa no cuidado neste cenário. É o que acontece durante o desenvolvimento do banho ao cliente do leito 1, quando se constata através da monitorização uma alteração no valor da pressão arterial. A enfermeira 4 vai até o leito, manipula o dispositivo de pressão arterial 99 invasiva, observa a curva de pressão, e resolve por enquanto manter vigilância constante. Na continuação do procedimento, o valor sistólico alcança 60 mmHg, se traduzindo em uma conduta clínica da equipe, que decidem pelo uso de um reexpansor de volume endovenoso. A intercorrência evolui de maneira desfavorável, com queda drástica da pressão arterial e diminuição progressiva da frequência cardíaca. Há um clima de agitação, correria e tensão, e a equipe baseada nos dados fornecidos pelas tecnologias e naqueles provenientes da avaliação clínica direcionam as decisões. Tal cliente passa a requerer um novo procedimento de intubação endotraqueal e restabelecimento da ventilação artificial, porém após a sua execução, entra em quadro de parada cardiorespiratória, desencadeando um novo ciclo de ações. Os profissionais de enfermagem participam ativamente do transcorrer desta cena, através da manipulação das tecnologias e instrumentos, observação dos resultados das intervenções e interpretação dos dados clínicos, demonstrando a aplicação de conhecimentos científicos de modo a prever as novas condutas e produzindo, ao final, um retrato da implementação da tecnologia nas práticas de cuidar da enfermagem. (anotação geral do diário de campo, 19/05/2011 de 10:20 às 15 hs) 100 Avaliar/ Identificar Direcionar / Prever Proximidade do cliente: tocar, sentir, observar entender as reações Tecnologia no cuidado de enfermagem na TI Facilitador do processo de trabalho a partir de suas vantagens e facilidades Afastamento do cliente: questões institucionais- administrativas; e pessoais Uso a favor da enfermeira e do cliente Uso a favor da enfermeira Figura 5: Composição da classe 1 Alceste; Fonte: produção do pesquisador Modo de agir: equilíbrio entre as atividades Modo de agir: maior atenção às atividades administrativas FACE CUIDATIVA FACE GERENCIAL 101 4.2.1.2 Classe 2 Quadro 4: Classe 2 Alceste Na classe em tela, composta por 9,98% do discurso analisado, sobressai-se a noção dos elementos pessoais e profissionais que possibilitam a organização dos estilos de cuidar em enfermagem na terapia intensiva. A afirmação acerca da existência de diferenças nos estilos ganha substância com base nas palavras cada, cuida, maneira, todas com chi²: 136,24, 82,10 e 36,3 respectivamente, expressando o entendimento de que existem diferentes estilos de cuidar das enfermeiras no ambiente da terapia intensiva, considerando as particularidades inerentes a este sujeito. Cada um tem suas especificações, mas eu acho que cada um tem um olhar sim, e dentro do CTI cada um cuida de uma forma (....) todo mundo visualiza a mesma coisa acredito, mas cada um tem um jeito de cuidar. (uce 784, enf. 6) Têm pessoas, eu acho que de uma forma positiva, uma forma tranquila, ninguém é igual a ninguém, mas assim, cada pessoa tem uma forma de pensar, agir, atuar, trabalhar. (uce 1236, enf. 8) Eu acho que cada um cuida da sua maneira, eu acho que não existe uma unificação, um padrão, até porque a sua vida, o teu comprometimento profissional, o grau de satisfação pessoal e profissional influencia a sua maneira de cuidar, na sua maneira de lidar com o outro. (uce 149, enf. 2) Classe 2 224 uce Chi² Porc. Cada Cuida Buscar Conhecimento Acho Busca Cuidar Adaptar Religião Perfil Manipular Maneira Modo Personalidade Envolve Querer Acordo Individualidade Emocional Dominar 136,2 82,1 78,9 72,4 62,7 51,0 50,4 44,9 41,9 39,7 37,7 36,3 36,1 34,8 33,4 32,5 32,3 31,3 31,3 29,5 42,9 64,0 65,2 41,9 17,2 69,2 30,6 85,7 46,4 44,8 75,0 26,5 44,4 57,1 47,6 44,0 50,0 58,3 58,3 71,4 Variáveis: Sexo feminino, mais tempo de formado, menos jovens, não escolheu o setor, turno noite, não especialista, não católico Elementos organizativos dos estilos de cuidar 9,98% 102 A gente está trabalhando com indivíduos completamente diferentes, entendeu, se nós quisermos que seja um atendimento igual, você não vai estar trabalhando com o ser humano. Tem que ser de forma diferenciada, porque são pessoas diferentes que prestam o atendimento. (uce 1778, enf. 12) As palavras que se apresentam na sequência da classe 2 são buscar (chi²: 78,90), conhecimento (chi²: 72,45), busca (chi²: 51,08), querer (chi²: 32,5) conduzindo ao argumento de que um aspecto que distingue tais estilos de cuidar é a capacidade individual de busca e domínio constante do conhecimento. O conhecimento se coloca de uma maneira particular na classe, pois se mostra como um elemento pessoal-profissional destacado na organização dos estilos de cuidar, ou seja, a necessidade de busca do conhecimento para subsidiar as ações em face das tecnologias extrapola o perfil profissional para trabalhar na UTI, e se constitui como uma obrigatoriedade para enfermeira por si só, independente de outras características. Acrescenta-se também que o uso do verbo buscar situa o lugar da ação da enfermeira, da iniciativa, isto é, sua forma de cuidar tem a ver com essa vontade de buscar, de ser um agente ativo e criativo que se inquieta diante das novidades que o ambiente lhe proporciona, impulsionando-se em direção ao conhecimento. A enfermeira 20 (chi²: 140,27) participa ativamente desta elaboração, fornecendo subsídios à classe 2. Primeiro você tem que ter vontade de aprender um pouquinho, mas depois que essa vontade passa, que você domina, você vira tarefeiro entendeu, aí você tem que buscar mais, mas vai de cada um querer buscar mais ou não. (uce 3405, enf. 20) Acho que quem gosta de terapia intensiva mesmo, se você quiser você consegue agregar muito conhecimento, mas acho que vai de cada um querer agregar ou não, vai de cada enfermeiro querer buscar, querer crescer, querer saber. (uce 3407, enf. 20) E às vezes os colegas falam mal um do outro e isso é uma coisa bem normal que a gente encara com muita naturalidade, porque o padrão de cuidar de cada um é bem diferenciado, e as vezes a gente tem que respeitar o colega que cuida de uma forma diferente da sua, diferente não tecnicamente, mas assim, você respeita o conhecimento dele. (uce 230, enf. 3) Então assim, não é só ter o conhecimento, mas você saber manejar bem tudo isso na assistência ao teu cliente, para você realmente poder ter um cuidado de qualidade para ele (....) você tem que saber manejar, tem que saber dominar. (uce 3216, enf. 20) 103 Esta configuração que as práticas da enfermagem assumem na terapia intensiva, na qual o conhecimento desempenha um papel importante na organização dos estilos, é o que direciona a questão do perfil profissional para trabalhar neste setor, representada na classe pelaspalavras adaptar (chi²: 44,82) e perfil (chi²: 39,70). Logo, o que justifica uma linha de ação marcada pela procura incessante do saber para o domínio dos instrumentos articulados a este local, é a existência do perfil profissional e consequente adaptação da enfermeira à assistência. Ele tem a opção de tapar o buraco, de ser mais um para agregar na equipe, e nem sempre essa pessoa tem perfil. Muitos se adaptam, mas muitos realmente não têm esse perfil, e aí lá na frente dão um problema e você acaba tendo que trocar (....) então eu me adaptei na terapia intensiva, mas eu acho que na hora que você faz uma seleção, você tem que fazer uma seleção de acordo com o perfil de cada um, porque realmente se não tem perfil não vai se adaptar, não se adapta. (uce 3336/3329, enf. 20) A variável escolha do CTI como local de trabalho é um ponto interessante para análise, pela sua conexão com a classe ora discutida. Isto porque não optar por lá atuar pode ter estreitas relações com a existência do perfil profissional, trazendo influências na ação. A enfermeira 20, por exemplo, que não havia escolhido o CTI voluntariamente tem um relato que traz implícito a importância do gerenciamento das competências das enfermeiras intensivistas no processo de admissão, talvez pelas dificuldades enfrentadas e também pela sua experiência no desempenho de cargos de direção técnica. Portanto, a partir da presença dos atributos pessoais/profissionais que compõem a figura da enfermeira intensivista é possível o seu ajustamento a este ambiente, refletindo-se em um estilo de cuidar orientado pela busca e posterior junção de conhecimentos que atendam às demandas integrais do cliente na interface com a tecnologia, apreendidas pela sua proximidade a ele. Então, os caracteres requeridos à enfermeira que vão propiciar tal articulação do conhecimento devem responder por aspectos relativos ao cliente e à máquina, como por exemplo, gostar, agilidade, estabilidade, responsabilidade, manejo/interpretação 104 dentre outras. Ao contrário disso, a ausência de perfil gera a não adaptação da enfermeira, a qual passa a não agregar valor à equipe de trabalho, produzindo um estilo de cuidar passivo, guiado pela tarefa, com menor utilização do conhecimento, e, possivelmente mais distante do cliente. Essas qualidades profissionais são visíveis nas uce abaixo: Então acho que o clima também, o ambiente do hospital, você tem que gostar disso e eu acho depois você ter o comprometimento teu, não só teu, mas de toda uma equipe, para você cuidar bem desse doente. (uce 3500, enf. 20) Então tem que ter estabilidade emocional para trabalhar lá, tem que saber trabalhar em equipe, você lida com diversos profissionais e com várias pessoas (....) ter agilidade, agilidade em determinadas situações, não é só agilidade, tem que saber manusear as coisas, tem que saber interpretar as coisas, tem que saber lidar com as coisas, manipular as coisas . (uce 1435, enf. 9) Acho que tem que ter respeito e responsabilidade, comprometimento, conhecimento, ser humano, humanização, tratar o paciente como ser em todos os aspectos e companheirismo. (uce 2553, enf. 16) A força associativa destes elementos da classe 2 pode ser vista na classificação hierárquica ascendente, onde o primeiro conjunto de palavras (cada, um, tem) retrata as diferenças no cuidar; o segundo, através da coocorrência entre busca, buscar e conhecimento traz as marcas de tais diferenças; e o terceiro (ter, ser, trabalhar) indica os atributos profissionais, ou seja, o que se deve ter, ou como a enfermeira tem que ser para trabalhar na UTI. Figura 6: Classificação hierárquica ascendente da classe 2 As diferentes perspectivas de ação que as enfermeiras assumem na condução de suas práticas e que revelam a presença dos elementos pessoais- 105 profissionais que levam à composição de estilos de cuidar, se expressam de modo bastante claro quando o olhar se concentra sobre o fazer destes profissionais. Desta maneira, os dados provenientes da imersão etnográfica no CTI permitem um cotejamento com aqueles presentes na classe 2 gerada pelo Alceste, fomentando uma discussão mais fundamentada sobre este subtema. A conformação de estilos de cuidar enunciados na classe Alceste pode encontrar respaldo nesta circunstância, a qual fornece uma imagem que vai ao encontro deste ponto de vista. Ao conversarem sobre a dinâmica de cuidado das enfermeiras, um membro da equipe de enfermagem descreve: _Tem enfermeiro que entra nos cuidados, que gosta de participar do banho, que não precisa a gente chamar, que quando a gente vê ele já está lá, principalmente paciente após cirurgia, com curativos (....) existem outros que a gente olha assim e a gente já fala: “_aquele ali, nem vamos chamar!” Mas assim, após o banho, os cuidados, a maioria das coisas é com a gente mesmo, a gente identifica que o paciente está com bradicardia, aí a gente já vai lá e chama, quando tem uma punção profunda a gente auxilia (....) tem diferentes tipos de enfermeiros aqui. (trecho de diário de campo, técnicas de enfermagem, 19/01/2011 de 08:50 às 14 hs) Tal diálogo pode ser complementado pelo relato da enfermeira 4, que imprime à sua fala sobre os leitos de isolamento um tom de reclamação, pelo fato de ficarem afastados do posto de enfermagem e de uma maior vigilância da equipe multiprofissional. Assim, no seu conteúdo diferencia algumas características que parecem delimitar os estilos de cuidar, como o comprometimento e o conhecimento. Quando expõe sua opinião no que concerne à presença de uma central de monitorização de todos os leitos do CTI no posto de enfermagem afirma: _Com a central de monitorização ou não os problemas continuariam, pois isso depende do comprometimento da equipe. Esses dias vim colher um sangue aqui no leito ao lado [referindo-se a um dos leitos de isolamento], e acabei passando neste leito para observar a cliente. Quando vi o respirador estava desconectado, a cliente em parada cardíaca e o alarme estava tocando e ninguém viu. Tem gente que diz ser intensivista, faz pós-graduação, diz que tem vinte anos de CTI, e? Se realmente você não tiver um acompanhamento intensivo de nada adianta. Eu dava aula de emergência e CTI, e eu dizia aos meus alunos que a tecnologia é burra, ela precisa de cuidados, de manutenção (....) você precisa utilizar os seus conhecimentos, os sinais que o cliente está apresentando. (trecho de diário de campo, enf. 4, 12/01/2011 de 08:30 às 14 horas) Esta necessidade de comprometimento com a assistência ao cliente no cenário em debate, como um atributo profissional, se configura como um argumento 106 recorrente utilizado por esta enfermeira quando apresenta sua maneira de ver alguns aspectos do cuidado de enfermagem. Ela então continua: _Olha, o plantão de sábado foi super pesado, deu oito horas da noite, fui embora e não consegui olhar na cara do cliente do leito seis, me senti até mal por isso. A enfermeira 11 me ligou e disse à ela que ainda não havia conseguido ir lá no leito, pois passei a maior parte do tempo no leito, sete, oito e nove (....) acho que poderíamos fazer mais pelos pacientes (....) mas falta comprometimento, falta envolvimento de alguns profissionais, não adianta somente eu e você fazermos pois não vai adiantar. (trecho de diário de campo, enf. 4, 17/01/2011 de 08:30 às 14 hs) Ao considerar este excerto reitera-se a concepção de que alguns caracteres que compõem o perfil podem dar sentido à configuração dos estilos de cuidar na terapia intensiva, se refletindo sob a forma de ações ou condutas que anunciam através de gestos e comportamentos a presença de tais qualidades, bem como uma maior ou menor aproximação do cliente. É o que acontece com os enfermeiros 8 e 3. Nas ações da enfermeira 8 aparece de modo repetido características como o respeito à subjetividade, interesse pelo outro, envolvimento. Esta descrição clínicaassinalada é a história de uma cliente acamada, do sexo feminino, vítima de soterramento, lúcida e orientada, com fratura em membro inferior direito e lesão com fasciotomia no membro esquerdo. Na cena verifica-se que existe uma reunião médica em torno do leito desta cliente, discutindo-se acerca da conduta terapêutica a ser implementada. A enfermeira 8 se aproxima da cliente, segura a sua mão e começa a acariciá-la, permanecendo ao seu lado enquanto os demais membros da equipe continuam conversando. Após alguns minutos a equipe médica decide por uma intervenção cirúrgica, e a enfermeira resolve então promover cuidados preparatórios de higiene. A cliente sentindo-se acolhida pela enfermeira e com tom carinhoso se dirige a ela pelo nome: _será que teria possibilidade de escovar os dentes? Durante todo período percebe-se preocupação com a possível experiência de dor à manipulação física. A enfermeira 8 com ar de consternação vira-se ao pesquisador e diz: 107 _Ela [a paciente] foi, abraçou a filha e conseguiu permanecer por seis horas soterrada (....) no plantão passado (....) nossa quando cheguei em casa não consegui fazer mais nada, fiquei com aquela história na minha cabeça. (trecho de diário de campo, enf. 8,17/01/2011 de 08:30 às 14 hs) Já a anotação do enfermeiro 3 parece mostrar um menor envolvimento e a valorização de outros assuntos implicados na assistência. No boxe de número 2, duas técnicas de enfermagem realizam os cuidados de uma cliente idosa, hospitalizada há algum tempo no CTI, encontrando-se sob uso de ventilação artificial e com quadro de rebaixamento do nível de consciência. Em determinado instante uma das técnicas de enfermagem pergunta: _quem está aqui? [aludindo-se ao enfermeiro responsável na escala por este leito]. Alguém então responde: _o enfermeiro 3. A técnica se direciona a ele: _enfermeiro 3, ela está vomitando [não observa-se movimentação deste enfermeiro em relação à cliente]. Pouco tempo depois a técnica de enfermagem solicita a um integrante da equipe que está no posto central um cateter nasogástrico e novamente alerta: _gente ela está vomitando muito, já saiu até pela traqueostomia! A enfermeira 4 ao passar próximo ao leito e percebendo o desenrolar da situação se dirige até lá. Neste momento a cliente evolui com queda da oxigenação e pressão arterial, e a enfermeira propõe um chamado médico. A técnica de enfermagem em tom de reclamação completa: _sabe o que é pior de tudo, é que o enfermeiro 3 está vendo isso tudo e está no telefone! Após a passagem de um cateter nasogástrico de maior calibre e a administração de medicações sedativas e antieméticas a cliente apresenta melhora clínica. (trecho de diário de campo, enf. 3, 02/02/2011 de 08:50 às 14 hs) Destaca-se neste trecho ilustrativo do diário de campo que o comportamento do enfermeiro 3 não expressa diretamente o seu estilo de cuidar, mas a ausência de cuidado em relação ao cliente, situação esta que do ponto de vista ético significa negligência. 108 Com perfil – adaptação (Atributos relativos ao cliente e máquina) Estilo de cuidar orientado pela busca e junção de conhecimentos: cliente x máquina Proximidade do cliente x máquina: atendimento das demandas Conhecimento ( busca/domínio) elemento diferenciador Perfil profissional Sem perfil - não se adapta Estilo de cuidar orientado pela tarefa; protocolizado Menor aproximação do cliente Figura 7: Composição da classe 2 Alceste; Fonte: produção do pesquisador Estilos de cuidar na TI AGENTE ATIVO E CRIATIVO AGENTE PASSIVO 109 4.2.1.3 Classe 4 Quadro 5: Classe 4 Alceste Com um número de 427 uce, o equivalente a 19,03% do total analisado, a classe 4 apresenta relevante importância na constituição do corpus de análise e no fornecimento de evidências que contribuem à compreensão da questão posta em discussão neste estudo. Trata-se assim, da interrelação dos fatores externos/estruturais com as práticas próprias da enfermeira na terapia intensiva, e suas implicações nos estilos de cuidar. Isto se exemplifica inicialmente nesta classe pelo uso das palavras enfermeiro e profissionais, chi²: 157,77 e 95,98, interação e lidar, chi²: 40,3 e 39,7, as quais apontam a interface da enfermeira com os outros profissionais que integram a equipe de saúde neste campo, como é possível observar nas uce selecionadas. Em terapia intensiva ela é boa, porque assim, a gente trabalha muito junto, muito em conjunto, a ação de um depende da ação do outro, então é uma interação muito boa com a equipe multiprofissional interna. (uce 2966, enf. 18) Classe 4 427 uce Chi² Porc. Enfermeiro Profissionais São Estrutura Acho Terapia intensiva Assistência Grande Serviço Trabalham Hospital Interação Setor Lidar Enfermagem Médicos Diferente Geral Maioria Relacionamento 157,7 95,9 95,6 70,2 70,0 69,1 64,0 63,5 51,6 48,9 41,5 40,3 40,2 39,7 38,6 36,6 36,5 35,7 33,2 32,4 46,3 61,2 44,4 90,4 29,1 44,2 47,0 53,8 57,6 77,2 52,7 57,1 45,3 46,7 42,0 65,3 42,7 47,0 51,0 78,5 Variáveis: Sexo masculino, menos tempo de formado, mais jovem, escolheu o setor, turno noite, não especialista, não católico Fatores estruturais externos à prática de cuidar das enfermeiras 19,03% 110 A gente tem um pouco de briga com esses profissionais externos, mas os profissionais que ficam dentro do CTI, de modo geral o relacionamento é bom (....) com certeza se algum enfermeiro escutasse isso ele iria falar, ainda mais se eu conheço a equipe que tem lá (....) eu sou brigona, mas não sou tanto, tem gente que é muito pior do que eu. (uce 2756, enf. 17) Você não tem que ter medo de falar o que você pensa, eu acho que muitas vezes a pessoa se retrai um pouco, mas em sua maioria não, a maioria da equipe de enfermagem, eu percebo que eles lidam muito bem com os outros profissionais das outras áreas. (uce 2021, enf. 13) Acho que o que me dificulta é a falta de interação profissional, eu acho que as outras profissões não têm a mesma. (uce 1156, enf. 7) Os trechos ilustrativos destas uce servem para mostrar que a relação da enfermeira com a equipe multiprofissional que compõe a estrutura externa ao CTI do hospital é demarcada nos discursos por um aspecto espacial, os de dentro e os de fora, da qual emergem possíveis conflitos que podem dificultar o exercício do profissional, retraí-lo e impactar nos seus estilos de cuidar. Por sua vez, o uso frequente da palavra médico (chi²: 36,6) dá a entender que este profissional ocupa posição central no relacionamento da enfermeira com a equipe. (...) Existem alguns profissionais que são assim, em contrapartida existem outros profissionais médicos que não são assim, eles simplesmente tomam as condutas deles e não repassam para gente (uce 1416, enf.9) Não acho que seja uma constante, nem algo que seja de todos os médicos, você nota aqui que tem médicos que tem uma postura boa em relação à enfermagem e aos procedimentos que são feitos. (uce 3747, enf. 21) Eu acredito que seja boa sim, porque a maioria, tanto profissionais fisioterapeutas, os médicos, na sua grande maioria são bons médicos, porque às vezes eu achava até que não eram e quando eu fui trabalhar em outro lugar eu quase morri. (uce 2749, enf. 17) Essa influência de determinantes externos nas práticas assistenciais da terapia intensiva se materializa também na existência de outros assuntos, como é o caso das condições de trabalho, que ocupa a atenção e concorre para uma sobrecarga da enfermeira.Embora não estejam presentes no quadro inicial da classe 4, as palavras cansaço e sobrecarga, ambas com porcentagens de 83,33% parecem ser um vocabulário típico a esta classe, remetendo a tais condições de trabalho. Uma coisa também é a sobrecarga de trabalho deles, que eu acho que eles estão sobrecarregados, as equipes estão muito sobrecarregadas, e acabam sobrecarregando também a equipe, os enfermeiros estão sobrecarregados.(uce 2477, enf. 16) 111 Mas a gente nota também que em alguns momentos o cansaço é forte, e isso acaba sendo nítido assim, nessas nossas, não só nas conversas, mas até na figura do profissional enfermeiro, e como eu falei, as questões fora da assistência acabam interferindo nesse cansaço. (uce 3769, enf. 21) Esta ideia das condições do trabalho é evidenciada no arranjo da classe 4 pelas palavras estrutura (chi²: 70,23), terapia intensiva (chi²: 69,11), serviço (chi²: 51,06), hospital (chi²: 41,5), que sinalizam a presença de problemas relacionados à estrutura institucional, a exemplo do quantitativo de membros da equipe de enfermagem em comparação ao número de leitos no CTI, disponibilidade de material, bem como no que tange às questões salariais e à necessidade de outras atividades rentáveis, e têm fortes reflexos no nível de desgaste, cansaço e talvez motivação das enfermeiras. E seja por falta de pessoal, pela estrutura deficiente que está bem aquém do que a gente precisaria, e eu acho que em alguns momentos a gente está lidando com uma equipe que está realmente desgastada, cansada. (uce 3770, enf. 21) Hoje a gente tem dez leitos de terapia intensiva geral no hospital, é muito pouco para demanda que nós temos, outra coisa também em relação a essa questão estrutural, número de vagas e a questão do número de pessoal. (uce 3696, enf. 21) As questões de problemas que existem no serviço público, sejam pela falta de pessoal, material (uce 3642, enf. 21) Como também a questão salarial também vai interferir no meu humor. (uce 2749, enf. 17) O grupo dos enfermeiros mais jovens e com menor tempo de formação, como ocorre com o enfermeiro 21, possui correlação especial com esta classe. Presume-se que tais características os façam rapidamente perceber o impacto que as dificuldades estruturais têm sobre a atuação dos membros da equipe de enfermagem que estão há mais tempo trabalhando, os levando a produzir então um discurso nesta linha de argumentação. Os dois cortes executados na CHA desta classe amplificam tais fatores, os quais na árvore colocam de um lado a interação com a equipe médica, visto pela relação da palavra médicos e relacionamento, que se liga a enfermagem e 112 profissionais, e de outro lado os aspectos estruturais identificados pelo cruzamento entre estrutura, hospital, serviço e assistência. Figura 8: Classificação hierárquica ascendente da classe 4 Estes elementos externos à prática direta de cuidar da enfermagem, mas com implicações no seu desenvolvimento, também possuem partes interessantes para serem discutidas quando se visualiza essas relações durante o seu desenrolar imediato, como feito na observação sistemática, enriquecendo o debate em torno da classe 4 do Alceste. No caso da equipe multiprofissional, percebe-se um convívio permeado em alguns momentos por contingências e discordâncias que denotam ter efeitos no contexto da assistência de enfermagem, sobretudo do que se refere aos profissionais médicos. O conjunto de registros selecionados traz um quadro disso. No primeiro, antes de fazer o relato sobre os temas que foram levantados durante o round (reunião clínica da equipe), a enfermeira 9 se direciona às outras enfermeiras e diz: 113 _Enfermeira 4 eu lembrei de você hoje na hora do round, eles [a equipe médica] estão fazendo tipo um roteirinho aonde eles vão checando, exemplo, prevenção de trombose ok, aí chegou a cabeceira elevada, o médico falou: “_ah, tem que ver com a enfermagem”. Aí eu disse: “_tem que ver com a enfermagem não, a cabeceira elevada qualquer profissional que ver pode fazer, até o próprio paciente, a gente já informou a ele”. Aí seguiu, a aspiração. Eu levantei o dedo e falei: “_a aspiração também não, não é só a enfermagem que realiza a aspiração (....) se for assim eu também vou andar com a prescrição vendo: “_ah você também não prescreveu a liquemine e sabia que não tinha heparina”. A enfermeira 4 comenta durante a conversa: “_eu fico me coçando com isso” [faz uma expressão corporal de inquietação]. (trecho de diário de campo, enf. 9, 08/04/2011 de 09:20 às 13:40 hs) Na segunda situação a enfermeira 5, ao ver a aglomeração de profissionais de enfermagem ao redor do leito 1, questiona sobre a admissão deste cliente. A enfermeira 6 em conjunto com outros membros da equipe relatam o ocorrido com gestos de descontentamento: _O paciente chegou em cadeira de rodas com o maqueiro somente, saturando a 39% e sem oxigênio. Eu pedi para a técnica de enfermagem chamar o médico e quando sinalizei para ele no monitor, ele disse que era do aparelho. A técnica de enfermagem complementa: _ela colocou o saturímetro no dedo dela e estava 98% (....) mas ele é ortopedista. A enfermeira 6 conclui: gente ortopedista não é médico. (trechos de diário de campo, enf. 5 e 6, 18/03/2011 de 13 às 17 hs) A última cena refere-se à presença no CTI de uma equipe de outro setor para a realização do exame de endoscopia digestiva em uma cliente com quadro de sangramento, que evoluía com descompensação do padrão hemodinâmico. Após preparo e posicionamento da cliente, o médico a recomenda: _A partir de agora a senhora pode deixar a saliva escorrer no lençol, não se preocupe que a enfermagem troca, eles gostam de trocar a roupa de cama, quanto mais sujo melhor. (anotação geral do diário de campo, 25/03/2011 de 12:40 às 17 hs) Um fato anterior a este é que a equipe de enfermagem há poucos minutos tinha efetuado a troca da roupa de cama desta cliente em virtude do sangramento. No contexto em foco, um item concernante à estrutura institucional que provoca insatisfação das enfermeiras é a falta de materiais para a provisão de um cuidado adequado. A ausência de recursos assistenciais causa desgaste e polêmica, como se vê neste trecho do diário de campo acerca da roupa de cama. Uma técnica de enfermagem pergunta sobre a quantidade de lençois: _enfermeira 4, quem recebeu a roupa hoje, por que já acabou? Pouco tempo depois esta enfermeira faz contato telefônico com o serviço de rouparia/lavanderia. Durante a conversa ela argumenta: 114 _olha só, vocês encaminharam vinte lençois para o setor, mas já acabou, a gente não usa só dois lençois no cliente. Após a resposta do funcionário da rouparia, a enfermeira 4 novamente explica, algo contrariada: _Tem que dar não! Não é que tem que dar, aqui no CTI o paciente é diferenciado, a gente precisa de mais lençois! Após o término da ligação ainda continua: _tem que dar! Eu não gosto disso, aqui não é enfermaria não! Eu hein! Quando o ministro teve aqui tinha até edredon (....) são 10:40, se 11:00 horas a roupa não chegar eu vou ligar para a administração. (trecho de diário de campo, enf. 4, 02/02/2011 de 08:50 às 14 hs) Ressalta-se ainda questões como a distribuição dos leitos de terapia intensiva, e a redução no quantitativo de pessoal que são constantes objetos de preocupação das enfermeiras. Acerca desta alocação de vagas no CTI, a enfermeira 8, por exemplo, mostra-se inquieta por não saber quem será o paciente a ser admitido, e alega que existe a necessidade de que as vagas do CTI sejam reguladas por um setor específico do hospital, pois quando isso não acontece as pessoas vêm diretamente na unidade, criando um clima de indecisão. Sobre as idas e vindas relacionadas à internação afirma: _está tudo certo e aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo tudo muda (referindo-se às constantes mudanças na distribuiçãodos leitos). A enfermeira 11 também ratifica essa concepção quando diz: _Ele ainda não percebeu que é ele quem tem que ver a vaga (....) mas hoje eu estou uma pessoa zen, não vou brigar com ninguém! Em outro momento, ao estar diante de uma situação inadequada identificada, expressa o excesso de atividades: _é por isso que eu tenho orgulho de ser da enfermagem. A gente identifica as coisas, a gente pode não saber fazer, mas a gente sabe que alguma coisa não está certa. E é tudo a gente cara, tudo a enfermagem que tem que resolver, ninguém vê nada, não resolve nada! (trechos de diário de campo, enf. 8 e 11, 24/01/2011 de 09:20 às 14:20; 03/02/2011 de 09 às 14 horas) Já a redução do número de funcionários é uma matéria que também faz parte das conversas das enfermeiras, como consequência do impacto que acarreta na assistência de enfermagem. A enfermeira 5, pensando no clima de incerteza relativo à dispensa de membros da equipe, e a mudança na escala de trabalho com a vinda de enfermeiras do turno da noite para o dia com o intuito de suprir as necessidades de pessoal, exprime o seu receio: 115 _Conversei com a chefia e eles disseram que muita coisa vai mudar (....) [fica um ar de incertitude] eu falei que posso ajudar, dar uma ajuda na rotina, mas dentro do possível. (trecho de diário de campo, enf. 5, 14/02/2011 de 11:30 às 16:30 horas) Os de dentro x os de fora Conflitos profissionais Dificultam/Retraem Gera insatisfação Sobrecarga profissional Número de empregos, de membros da equipe/ salário/material Desgaste/ Cansaço/Falta de motivação Figura 9: Composição da classe 4 Alceste; Fonte: produção do pesquisador 4.2.2 DISCUSSÃO O debate no campo da saúde, e, em especial, na área da enfermagem sobre a aplicação de tecnologias que dizem respeito aos equipamentos e máquinas, ocupa na atualidade espaço importante no cenário internacional, discutindo-se, sobretudo, os riscos e benefícios oriundos dos usos que se faz de tais tecnologias, bem como as relações construídas pelos sujeitos com elas. Na pesquisa em tela, esta discussão ganha destaque com foco no cuidado de enfermagem. No caso do Brasil, algumas das produções recentes vêm abordando a temática. O estudo de Schwonke e colaboradores (2011) traz uma reflexão acerca Fatores externos às práticas de cuidar Relação com a equipe multiprofissional/médicos Condições de trabalho 116 do uso da tecnologia no cuidado de enfermagem ao doente crítico em terapia intensiva, na defesa de um cuidado com as máquinas. Nesta perspectiva, posicionam-se a favor da necessidade de análise da função relacional dos aparelhos com a enfermeira, o doente e o ambiente de cuidado, para que se obtenha uma maior chance de efeitos terapêuticos positivos. Os autores propõem repensar as tecnologias chamadas de duras como um estar com o doente crítico, ou seja, significa deixar de lado o entendimento de que ao se cuidar da máquina se esquece aquele que de certa forma depende dela. Portanto, argumenta-se que a tecnologia dura não é contrária ao contato humano, mas considerada um agente e um objeto desse encontro, podendo remeter ao senso de humanizar mesmo em um local altamente tecnológico como é o de terapia intensiva. É primordial então estabelecer novas relações harmônicas entre o cuidado e a tecnologia, nas quais esta última seja percebida como um instrumento de visualização do humano (SCHWONKE e colaboradores, 2011). Méier e colaboradores na sua publicação de 2010 acrescentam a questão ética como balizadora quando abordam sobre a tecnologia. Estes autores (op. cit.), ao partirem de um conceito abrangente de tecnologia em enfermagem questionam a sua interface com a ética. Define-se na investigação que a tecnologia no âmbito da enfermagem ultrapassa a existência de um produto palpável, pois implica em utilizar saberes, compreende métodos e processos envolvidos no cuidado, dos quais emergem determinados dilemas éticos. Dentre os resultados da pesquisa, do que importa para o que ora se apresenta, salienta-se o eixo denominado a ética e o uso da tecnologia de enfermagem, que engloba pontos como o conhecimento empregado, os benefícios da sua aplicação e o acesso à tecnologia, e que ressalta a importância de um 117 exercício reflexivo e do amparo em princípios éticos que embasam a profissão quando da utilização de tecnologias numa concepção ampliada, e na tomada de decisões concernantes a ela (MÉIER e colaboradores, 2010). Marques e Souza (2009) retomam o diálogo sobre a humanização em ambientes intensivos, buscando articulações com a inserção da tecnologia neste cenário. Neste ínterim, considera-se a utilidade das tecnologias na preservação do estado clínico e manutenção da vida do cliente, favorecendo ações imediatas e segurança à equipe. Todavia, acredita-se que ela possa contribuir para o abandono do cliente, sendo necessário que haja a sua integração com os pilares da humanização, através de elementos como o acolhimento, respeito ético e cultural do paciente, satisfação dos profissionais e usuários. A abordagem das tecnologias em investigações de outros países também possui algumas similaridades. É o que mostra, por exemplo, este estudo divulgado em 2009 pelo European Journal of Disability Research. O problema de partida que se coloca é que o calor do cuidado é frequentemente posto em oposição à frieza da tecnologia, mas seria esta uma oposição significativa? Segundo os pesquisadores inúmeros trabalhos concebem a relação entre o homem e as tecnologias como sendo puramente racional e instrumental, e nestes, as tecnologias são vistas como meios funcionais a serviço de fins humanos (POLS, MOSER, 2009). Entretanto, preferem se apoiar em um segundo grupo de dados de pesquisas, os quais colocam em evidência a maneira como as tecnologias e seus utilizadores se reconfiguram reciprocamente nas suas práticas particulares. Neste sentido, com base em documentários e material etnográfico, a partir dos quais foi feito o aprofundamento das relações estabelecidas com as tecnologias de cuidado, dos valores em jogo, das identidades produzidas na interação, os autores alegam 118 que a oposição entre a frieza da tecnologia e o calor do cuidado não se sustenta, pois existem diferentes conexões entre as pessoas e as tecnologias nos seus contextos de uso, as quais permitem criar variados laços afetivos e sociais (POLS, MOSER, 2009). Já o artigo da Revue Européene de Psychologie Appliqué de 2010 propôs uma crítica à noção de aceitação das tecnologias ao analisar o paradigma da aceitação. Isto porque humanos e tecnologias estão ligados por relações estreitas, e do que se pode falar de simbiose humano-máquina. A avaliação da aceitação das tecnologias conduz a considerar que elas não devem ser entendidas como um corpo estrangeiro que o homem deve aceitar ou recusar, mas como uma parte de nós mesmos, que do ponto de vista metafórico se comporta como uma simbiose. Quando o homem e máquinas começam a formar unidades coerentes e indissociáveis, esta interface entre o homem, a máquina e a organização pode ser apreendida como uma relação simbiótica, marcada por forte dependência, e sendo esta a melhor perspectiva para explicá-las (BRANGIER; HAMMES-ADELÉ; BASTIEN, 2010). O aspecto moral implicado no emprego das tecnologias está presente nas ideias de O’Keefe-McCarthy (2009) na revista inglesa Nursing Ethics, segundo a qual há a necessidade de um exame moral dentro do contexto tecnologicamente mediado da UTI. Por meio de uma análise reflexiva, pontua-se que ao informar e direcionar a assistência de enfermagem, a tecnologia muda a dinâmica moral e social do binômio enfermeira-paciente, pois quando as enfermeiras aplicam-na para interpretar e avaliar os resultados produz-se uma distância que ascoloca em posições de poder como autoridade epistêmica constrangendo os pacientes. Desta maneira, tenta-se mostrar como a tecnologia modifica a forma de compreensão das 119 enfermeiras, oferecendo subsídios para a discussão ética da tecnologia e seu impacto na prática moral das enfermeiras. À conta do exposto pelos estudos que servem de base à interpretação, bem como tendo em vista os dados apresentados na interlocução da classe 1 do Alceste com a observação sistemática, afirma-se que o discurso das enfermeiras sobre a sua prática de cuidar no ambiente da terapia intensiva perpassa as tecnologias/maquinários aplicadas às situações de atendimento ao cliente, a partir das funções que são atribuídas a elas no contexto da assistência, qual seja quando utilizada numa perspectiva pragmática de atenção direta ao cliente, ou ao ocupar um papel destinado ao gerenciamento das ações de cuidar. Sob esta ótica, ambos os usos feitos destes recursos tecnológicos pelas enfermeiras vêm demarcado por uma atribuição de sentido, na qual sobressai uma ideia de dualidade envolvendo os pólos aproximação e distanciamento do cliente, onde estar próximo incute um sinônimo de ter melhores condições para o respeito às suas necessidades físicas e psicossociais no intermédio com os aparelhos, enquanto que a distância assume uma conotação negativa de desvalorização dos aspectos humanos e manejo operacional das informações fornecidas, tendo esta última um tom narrativo de desaprovação no exercício profissional. Esta característica extraída na composição da fala das enfermeiras sobre a prática que se reporta às tecnologias tem fundamento nas normas e valores próprios que integram, desde a sua constituição histórica, a profissão de enfermagem no mundo e que foi se configurando ao longo do desenvolvimento e evolução profissional elemento fundamental da sua identidade, e que seria, inclusive, um aspecto diferenciador da atuação de outros membros da equipe multiprofissional. 120 Um relato importante que sustenta esta análise é o de Carvalho (1997, p.10), importante pensadora da enfermagem brasileira, quando diz: os valores ético-profissionais estão integrados no corpus do conhecimento da enfermagem. Eles estão nas leis e nos códigos e fundamentam os processos éticos, disposições e normas que regulam a enfermagem (...). Na vida profissional somos obrigados moralmente a considerá-los, respeitá-los, a ponderá-los e a cumprir suas determinações. Tal como entendo, os valores da enfermagem fundamentam-se em uma ética da “dignidade do homem” e como princípios os que constam nos documentos básicos da profissão. Ela cita ainda que no código de ética profissional consta o tipo de relação que a enfermeira deve manter com o indivíduo, a qual sublinha: “exige-se da enfermeira consideração aos cuidados de enfermagem, não só pela promoção do conforto físico, emocional, espiritual, mas pelos requisitos adequados a um ambiente terapêutico e propício ao respeito dos valores, costumes e crenças individuais” (op. cit., p. 10). Portanto, o uso da tecnologia, não obstante traga inúmeros benefícios, sobretudo no que concerne à objetividade no cuidado prestado pela enfermeira ao cliente, apela pelo respeito aos valores profissionais através de uma postura com o cliente de resolução das suas necessidades de maneira integral, já que, ao contrário, a valorização da dignidade humana seria posta em “cheque”. Isso exprime ainda os limites da tecnologia e o fato dela não ser por si. Assim, verifica-se que os argumentos em torno dos usos feitos pela enfermeira da tecnologia se inscrevem em um território de pertença social e de identidade. Tais aspectos têm relevante implicação quanto às representações sociais. As concepções de Jovchelovitch (2008) contribuem neste trabalho elucidativo. Ao entender a noção de comunidade como um espaço social que se define pelos atores, refere que nestas comunidades se elaboram saberes comuns que fornecem a seus integrantes referências e servem de baliza para uma 121 construção de sentido sobre as coisas ao seu redor, a partir das quais estabelecem interface entre suas histórias individuais com a vida em comunidade. Estes saberes comuns produzem um sentimento de pertencimento, de forma que as histórias individuais estão imbricadas por acontecimentos, formas culturais e modos de se comportar de toda a comunidade. Por bem dizer, se referem ao quem da representação, por meio do qual se conhece as condições de produção de um saber. Significa então, que quando fala- se do quem recupera-se a questão da identidade e o fato de que nos atos de saber as pessoas representam a si mesmo e aos outros. Desta maneira, representações trazem em si identidade, cultura e história de um grupo de pessoas, são impregnados de memórias sociais e pertencimento que atestam a inscrição do sujeito no grupo (JOVCHELOVITCH, 2008). A existência de formas de agir diversificadas das enfermeiras quando se refere ao ambiente de cuidados intensivos tem sido veiculada em produções recentes da área da enfermagem. Um dos objetos de preocupação dos profissionais deste campo, acerca das diferenças na maneira de cuidar, diz respeito à implementação de tecnologias na assistência. Silva e Ferreira (2011) ao identificarem as representações sociais das enfermeiras sobre a tecnologia presente no CTI, relacionando-as a formas particulares de agir destas no cuidado ao cliente, traz evidências destas marcas pessoais do cuidado. Nesta pesquisa referenciada (op. cit.) a tecnologia se apresenta como um ente desconhecido a enfermeira novata, o qual possui especificidades relativas à manipulação e consequente interpretação dos dados que se repercutem na necessidade do seu domínio. Assim, sublinha a importância de uma espécie de letramento tecnológico para esta enfermeira como um requisito para cuidar. A 122 justificativa para tal letramento é que para o domínio da tecnologia e o cuidado integral ao cliente, a novata precisa aprender os modos de comunicação da tecnologia, pois, caso contrário, o cuidado torna-se interditado. Contudo, frente à esta demanda de aprender sobre a tecnologia tem aquelas que querem e as que não querem investir na aprendizagem. As que aceitam adotam estratégias próprias para conhecer, enquanto as que optam pela segunda alternativa se distanciam do cliente ou se acomodam, alegando fatores como a escolha do setor, acolhimento dos colegas, gosto pelo tipo de trabalho (SILVA; FERREIRA, 2011). Ao encontro desta linha de pensamento, as interrogações de Santana e Fernandes (2008) sobre o processo de capacitação profissional das enfermeiras de UTI de um hospital geral da cidade de Salvador/Bahia acrescentam alguns elementos interessantes. Entendendo o CTI como um setor onde as transformações advindas da inserção tecnológica são velozes, introduzindo novos sistemas e aparelhagens, a enfermeira se depara com a necessidade do processo de capacitação, que se conforma como uma prática interna e social. Dentre os núcleos de sentido apontados tomando como referência a análise de conteúdo realizada, se destaca neste momento: a sofisticação tecnológica como um fator, que inserido nas reformulações atuais da saúde e nos paradigmas contemporâneos impulsiona a capacitação profissional da enfermeira na busca de novos conhecimentos e habilidades técnicas que garantam a qualidade da assistência; os aspectos individuais e coletivos da organização interferindo na capacitação da enfermeira. Quanto a este último núcleo, percebeu-se nos treinamentos oferecidos pela instituição que a participação era baixa das enfermeiras, guardando explicações com os aspectos organizacionais e individuais, tais como ausência de horário, falta de 123 recursos financeiros, dificuldade de conciliação com outras atividades, desmotivação pelo tempo de trabalho e falta deinteresse. Desta maneira, conclui-se que a capacitação profissional da enfermeira intensivista está permeada de determinantes históricos, sociais e também pessoais que impactam na aquisição de saberes frente a um contexto de trabalho contraditório e complexo (SANTANA; FERNANDES, 2008). Estas bibliografias sinalizadas ajudam a remarcar como o conhecimento termina por se configurar um componente fundamental no contexto assistencial da terapia intensiva, sobretudo quando pensado no contraponto com os avanços tecnológicos. Esta afirmação é ratificada por uma investigação brasileira conduzida sobre o enfoque das representações sociais acerca do trabalho da enfermeira no CTI, mediante o rastreamento do núcleo central e periférico (SILVA; CRUZ, 2008). Conforme as autoras (op. cit.), a dinâmica que se desenvolve neste local, onde incidem aspectos como a interação com a equipe multiprofissional, a proximidade com a morte, tensão e conflitos fornece condições para a construção de representações sociais. Com base nas evocações livres de 90 enfermeiras sobre a questão foco, emergiram duas categorias centrais: o trabalho da enfermeira em UTI associado ao estresse e responsabilidade, do qual participam elementos como conhecimento, compromisso, atenção, exaustivo, cansativo; e trabalho da enfermeira em UTI associado à assistência integral e gratificação, onde fazem parte a dedicação, o amor, o trabalho em equipe e autonomia. A interpretação proposta pelo trabalho indica que a característica de centralidade de ser uma prática estressante e de responsabilidade, tem interface com o conhecimento adquirido pelos profissionais 124 diante das transformações e dos desafios impostos pela atualidade, dando sustentação ao significado atrelado à categoria. Além disso, o fato de ser cansativo e exaustivo justifica a qualidade de estressante. Outro resultado que merece ser pontuado são os conteúdos periféricos, os quais se organizam em torno do núcleo central. Assim, a despeito de ser um trabalho estressante, de responsabilidade e englobando uma assistência integral, faz sobressair os atributos pessoais e profissionais para quem lá vai atuar, tais como competência, discernimento e união de um lado, e dinâmico, paciência, esforço de outro (SILVA; CRUZ, 2008). Este perfil profissional também encontra respaldo em pesquisas que abordam avaliações da assistência de enfermagem na terapia intensiva recentemente publicadas em periódicos conceituados na literatura, como é o caso da de Balsaneli e colaboradores (2008), Bucchi e Mira (2010), Silva (2011). Há confluência na discussão dessas produções científicas quando se pautam na complexidade do cuidado intensivo, onde dimensões objetivas e subjetivas impactam ativamente, para ressaltar a preocupação com a atuação da enfermeira, já que esta precisa assistir de maneira segura, ética e com qualidade. Por conseguinte, em virtude das peculiaridades do ambiente de cuidado acentua-se a questão das competências e habilidades do profissional, formando o que poderia ser denominado de figura tipo da enfermeira intensivista. A competência das enfermeiras necessária para o desempenho do trabalho no CTI tem assento em pesquisas internacionais, o que reforça a interrogação sobre quem pode atuar neste local. As professoras norte-americanas Kendall-Gallagher e Blegen (2009) realizaram uma pesquisa cujo objetivo era explorar a relação de enfermeiras certificados na equipe e o risco de danos ao paciente. Elas explicam 125 (op. cit.) que o nível de conhecimento e julgamento desempenha papel importante na prevenção dos eventos adversos, e, apesar de ser uma área nova, aconselham sobre a associação entre a certificação na especialidade, competência clínica das enfermeiras e segurança dos pacientes. Embora tenham um discurso cauteloso e recomendem mais investigações, demonstram que a proporção de enfermeiras certificadas foi inversamente relacionada com a taxa de quedas, e o número de anos de experiência das enfermeiras da unidade inversamente relacionado à frequência de infecções do trato urinário, indicando que existem ligações entre a competência das enfermeiras e a segurança dos pacientes (KENDALL-GALLAGHER; BLEGEN, 2009). Em estudo francês de 2006, intitulado práticas avaliativas da formação da enfermeira e competências profissionais (ROBERTON, 2006), o desenvolvimento de competências pela enfermeira que deem conta das demandas sanitárias da população em conformidade com as políticas de saúde ganha relevância. Neste sentido, coloca como cerne a avaliação de tais competências, a qual deve ser centrada na identificação das situações, dos conhecimentos teóricos associados, nas capacidades profissionais desejadas, devendo ser pensada em termos de processo e não simplesmente quanto a produto e métodos. Levanta-se, portanto, a pergunta sobre o lugar das competências profissionais nos dispositivos atuais de formação da enfermeira, denotando também a existência desta preocupação em outros países (ROBERTON, 2006). Os resultados da classe 2 do Alceste apoiados no debate atual da temática permitem ilustrar o entrelaçamento do individual e social implicado na emergência deste sub-tema ligado às práticas de cuidar das enfermeiras no CTI. A explicação para isso tem o seguinte fundamento: por um lado as informações que circulam no 126 meio acadêmico/científico/profissional referentes ao campo especializado da terapia intensiva vinculam a necessidade de conhecimento aprofundado sobre os domínios de atuação profissional nesta área, bem como a busca pela renovação constante dele para o atendimento das demandas do moderno. Além disso, reafirmam a constituição de uma figura idealizada de enfermeira, a qual porta determinados atributos que a qualifica como um tipo adequado ao fornecimento da assistência que acontece neste ambiente. Este “social” cria uma espécie de norma que regulamenta e serve de referência para as enfermeiras intensivistas, principalmente quando analisadas em relação às enfermeiras de outros campos de saber; por outro lado revelam como a enfermeira se comporta diante disso, a esfera da singularidade, que posição ela assume quando toma em consideração estes elementos socialmente compartilhados, sem perder de vista a dimensão da experiência, dos valores e dos afetos que este social mobiliza nelas. Estes processos envolvidos nas perspectivas desenvolvidas pelas enfermeiras para cuidar dos clientes leva a retomar alguns pontos trazidos por Jovchelovitch (2008) ao tratar dos contextos do saber e interrelacioná-los com as representações sociais. A autora (op. cit.) coloca os saberes partilhados como um algo permeado de sentido que já está ali, pronto, algo definido que fornece aos participantes deste espaço social (comunidade) normas, regulamentações e padrões de comportamento, mas que também se reconstitui no cotidiano. Sob esta ideia e apoiando-se em outros teóricos, utiliza-se do exemplo do “pensar costumeiro” para fazer alusão ao estranho. Isto porque o estranho tem dificuldade de entender regras de comportamento e modelos de pensamento que são familiares àqueles que já fazem parte do grupo, e, consequentemente, 127 comporta-se de maneira “estranha” pela distância que existe em relação ao pensar costumeiro desta comunidade, o que atesta o papel dos saberes comuns na experiência do pertencimento (JOVCHELOVITCH, 2008). Esses pontos de referência comuns podem ser utilizados para tomadas de posição diferentes, o que responde pelas representações sociais, refere Doise (2001). Doise (op.cit., p.193) continua, “representações sociais são tomadas de posição simbólicas organizadas de maneiras diferentes (...) em cada conjunto de relações sociais, princípios ou esquemas organizam as tomadas de posição simbólicas ligadas a inserções específicas nessas relações”. As representaçõessociais ao abarcarem tais posições retratam as atitudes perante uma entidade social dada, as quais, por sua vez, apresentam uma funcionalidade, qual seja a manutenção do vínculo entre membros do mesmo grupo. É em parte neste solo da dimensão da atitude das representações sociais que se situa a questão dos estilos de cuidar das enfermeiras na terapia intensiva, pois ao tempo que tomam um posicionamento de singularidade, notadamente em termos de investimento de cada cuidante na busca de informações e constituição de um perfil profissional congruente às características do ambiente e do cliente, organizando uma prática de cuidar influenciado por estes aspectos, fortalecem o pertencimento ao grupo social dando sentido a ele. Entretanto, uma atitude inversa pode também gerar um distanciamento deste “social” do grupo, com menor reconhecimento e maior estranhamento pelos seus integrantes, mas que pode estar ancorada em outros fatores. A postura inquieta e ativa da enfermeira na busca pelo conhecimento demonstra como o objeto toca estes profissionais e os impulsiona a um agir/iniciativa em vista do reconhecimento do grupo que marca seu estilo de cuidar. 128 A interação da enfermeira com a equipe multiprofissional conforma-se em um assunto que é encontrado na literatura associado com diferentes sub-temas tais como a qualidade assistencial, motivação para o trabalho, estresse, sofrimento, dentre outros. A recorrência deste tipo de inquietação possivelmente se ampara no fato de que as unidades de terapia intensiva, como locais voltados ao tratamento e recuperação de clientes com condições clínicas graves e complexas, reúnem no seu interior uma variedade de profissionais e especialidades, os quais encontram na imagem da enfermeira uma referência neste ambiente, e em torno da qual, teoricamente, deveria se produzir um diálogo interdisciplinar. Porém, uma série de evidências a nível mundial mostra que esta, por diversas razões históricas e sociais, ainda é uma situação delicada no âmbito do fazer profissional da enfermeira. Exemplo disso pode ser visualizado quando se observa os sentimentos de sofrimento no trabalho das enfermeiras de UTI, apresentado por Martins e Robazzi (2009). Estas consideram que a realização de uma atividade laboral com sofrimento origina o estresse decorrente do trabalho, sendo que este último, em se tratando do CTI, já envolve em si várias condições específicas que o tornam percebido como desgastante. Através de entrevista a 8 enfermeiras, duas categorias foram construídas: o sofrimento no trabalho das enfermeiras de UTI, e as estratégias defensivas utilizadas pelas enfermeiras. Nestas, identifica-se o trabalho em equipe como fonte do sentimento de ansiedade e com interferência negativa no cuidado, principalmente em termos do cumprimento das responsabilidades individuais. Portanto, diante disso, salienta-se a importância da promoção do interrelacionamento entre os membros da equipe, como um recurso que propicia um melhor compartilhamento de experiências e comportamento colaborativo por meio do diálogo (MARTINS; ROBAZZI, 2009). 129 Tal relacionamento interpessoal também aparece em um inquérito feito com 235 enfermeiras de Portugal publicado no Brasil em 2011, e que retoma os fatores geradores do estresse em enfermeiras de UTI. A coleta dos dados englobou instrumentos para apreensão das variáveis sócio-demográficas e relacionadas ao trabalho, escala de relações interpessoais e índex para o estresse. Dentre os achados relevantes, verificou-se numa associação estatística significativa que quanto pior é a relação interpessoal maior é o nível de estresse das enfermeiras, em consonância com o que afirmam outros investigadores, devendo este ser foco de intervenção (RODRIGUES; FERREIRA, 2011). No centro do debate quando se trata da interação enfermeira versus equipe estão os profissionais médicos, cujo saber lhes conferem uma estrutura de poder no campo da saúde. Os reflexos desta hegemonia vêm sendo colocado à prova pelas enfermeiras, todavia, este “jogo de forças” parece trazer implicações de vulto na prática assistencial. Como parte desta polêmica na França, o caso de dois hospitais foi estudado em artigo presente na Revue Française des Affaires Sociales (2005) intitulado “Entre médicos e pessoal de enfermagem no hospital público: uma relação social instável”. Nele, considera-se as transformações das características sexuais dos profissionais médicos e da área de enfermagem, em que constata-se uma feminização da medicina e masculinização da enfermagem. O objetivo é então o de compreender essa mudança social, ou seja, a divisão sexuada e seus efeitos sobre a construção dessa relação social. Desta maneira, analisam-se os efeitos da modificação da divisão sexual do trabalho na relação social entre médicos e pessoal de enfermagem (PICOT, 2005). 130 Foi feita a observação de duas unidades de hospitalização e 70 entrevistas semi-diretivas com o pessoal do serviço hospitalar. O conjunto de informações demonstra um modelo de relação social muito mais complexa, no qual as novas modalidades de gênero conferem um caráter de instabilidade. No primeiro cenário estudado, com um predomínio de médicos homens, tal instabilidade se traduz por um conflito direto entre as duas categorias, resultado de uma ordem sexuada tradicional, onde os médicos são os homens e as mulheres as enfermeiras, numa configuração fortemente hierarquizada em que existe uma divisão entre concepção e execução que separa médicos e enfermeiras. No outro, mais marcado pela presença de médicos do sexo feminino, e que acreditava-se na tendência de uma solidariedade de gênero das médicas com as enfermeiras em virtude dos valores femininos, evidencia-se um efeito inverso no desenvolvimento da solidariedade entre gênero, isto é, as médicas mulheres tentam se afirmar enquanto médicas, buscando se diferenciar das enfermeiras e de tudo aquilo que possa remeter ao gênero feminino (PICOT, 2005). Ainda no que tange ao contexto em que se insere a assistência de enfermagem na terapia intensiva, encontra-se em forte ascensão a abordagem de problemáticas que se repercutem no produto final que é ofertado ao cliente, incluindo fatores organizacionais e estruturais como dimensionamento de pessoal, carga de trabalho e disponibilidade de recursos materiais. Quanto ao primeiro item, uma revisão recente da literatura mundial concernante à influência do dimensionamento da equipe de enfermagem na qualidade do cuidado ao paciente crítico (VERSA e colaboradores, 2011) traz dados que subsidiam o conhecimento da magnitude deste aspecto. 131 Através de diferentes pesquisas captadas, as autoras sinalizam as implicações da subestimação do quantitativo da equipe de enfermagem. Isto porque a redução do número de funcionários contribuiu na produção de condições como: alta taxa de extubação e aumento da necessidade de reintubação por extubação acidental, com o aumento de complicações como a infecção hospitalar; elevação do índice de quedas e das intercorrências oriundas dessas; aumento do risco de infecção hospitalar. Logo, dimensionar a equipe de enfermagem levando-se em conta as características de gravidade da clientela resulta pensar nos custos, na prevenção das ocorrências, na satisfação dos profissionais, e, por fim, na qualidade da atenção prestada (VERSA e colaboradores, 2011). Este tema da satisfação/insatisfação veio à tona, por exemplo, quando Salomé, Espósito e Silva (2008) perguntaram aos profissionais de enfermagem de uma UTI como eles se sentem em trabalhar neste setor. A partir de uma análise fenomenológica, dentre os objetos elencados como de insatisfação estavam a falta de materiais e funcionários, a qual suscita sentimentos de frustração, impotência e desvalorização em virtude das repercussões que gera nas ações profissionais.Os sujeitos entrevistados associam tais déficits com os possíveis riscos prejudiciais ao cliente, sobrecarga de atividades e aumento do desgaste físico e mental, o que, por sua vez, se repercute sobre o modo de lidar com o cliente, geralmente demarcado pela correria, falta de tempo e tendo como pano de fundo o estresse. Então, entendem como primordial refletir sobre as condições de trabalho (SALOMÉ; ESPÓSITO; SILVA, 2008). A carga de trabalho dos profissionais da UTI também aparenta ser interessante fazer parte dessa análise, já que a sobrecarga e o cansaço advêm justamente pelo excesso de atividades frente às circunstâncias inapropriadas. 132 Algumas investigações vêm se mobilizando nesta direção, na tentativa de mensurar a carga de trabalho, com vistas a melhorar/estruturar a distribuição de recursos humanos nesta unidade. Padilha e colaboradores (2011) retratam esta afirmação, já que estiveram interessados em medir a carga de trabalho em uma UTI especializada, verificando sua associação com determinadas variáveis. A carga de trabalho medida foi em média 66,60%, isto é, os clientes requeriam em média 5,30 horas de trabalho direto da enfermagem, entendida como uma carga elevada. Além disso, as variáveis demográficas e clínicas não tiveram interferência na mensuração da carga de trabalho, indo de encontro ao pressuposto inicial, embora haja limitações por tratar- se de uma UTI especializada. A conclusão que se chega a partir da apreensão dos dados da classe 4 em paralelo com o conhecimento atual produzido pelos estudiosos desta área é que ao falarem sobre sua prática de cuidar na terapia intensiva as enfermeiras revelam a incidência de dois fatores contextuais a saber: um saber/poder médico historicamente constituído, que se manifesta, sobretudo, em virtude da aquisição de novos conhecimentos e habilidades pela enfermeira, a qual lhe capacita para assumir determinadas tomadas de decisão no âmbito do cuidado, e que, nesta medida, ao se confrontar com uma figura médica que supostamente estaria numa posição hierárquica superior, responsável pela prescrição das atividades é origem de desentendimentos e possíveis embates inter-profissionais; uma política institucional inserida em um cenário sócio-econômico que exige um maior nível de produtividade com o menor número de gastos possíveis, e, neste sentido, as enfermeiras se deparam com o escasso número de recursos humanos e materiais. 133 Esta explicação é corroborada por diferentes autores que ajudam a fomentar a interpretação. No que se refere ao fator institucional, aponta-se a interferência de um modelo econômico baseado no capitalismo, o qual gerou uma mudança no processo de organização do trabalho, caracterizado na atualidade por uma expressiva precarização refletida no trabalhador (CAVALCANTE, 2006; SILVA, 2006; SOUZA, 2009). No caso da relação social entre médicos e enfermeiras, Picot (2005) compara-a a uma relação do tipo conjugal, na qual nesta ordem social as enfermeiras devem se adaptar ao médico, a sua prática de trabalho, hábitos e disponibilidade. As cuidantes, como as mulheres na esfera familiar estão em disponibilidade permanente. O modelo do chefe de família e provedor de recursos, e da mulher guardiã do cuidar está reproduzido, onde existe uma divisão sexuada das tarefas, mas sem desfrutar do mesmo reconhecimento e visibilidade social, já que a dependência profissional ao monopólio médico caracteriza a construção das profissões que se localizam na periferia. Este contexto de produção de sentidos tem papel fundamental na escolha de uma forma de pensamento em detrimento da outra, conforme nos diz Moscovici (2003). Segundo ele (op. cit.) a maneira como as pessoas tratam a informação depende do contexto em que esta se inscreve e de todos os aspectos que se encontram a ela articulados, fazendo emergir as diferentes causas. Newton, por exemplo, ao falar da maçã pensou-a em um contexto que excluía o vento, a maturação do fruto etc (MOSCOVICI, 2003). Jovchelovitch (2008) o complementa afirmando que o significado e o contexto são inseparáveis na representação, isto é, as representações são elaboradas em um contexto de relação eu-outro, de característica emocional, social, 134 cultural e historicamente determinada. Assim, entende-se que os sujeitos constroem uma forma de pensar tendo em vista as exigências do ambiente social, bem como da sua configuração psicossocial. Nesta direção então, ao se orientar por estes fundamentos teóricos abarcados na teoria das representações sociais, reconhece-se que as relações profissionais e condições de trabalho vivenciadas pelas enfermeiras estão situadas em um campo macro-contextual que se delineia de especificidade, e que é acessado por estas profissionais na estruturação de uma lógica que sustenta suas narrativas sobre a prática de cuidar própria em face das tecnologias na terapia intensiva. Além disso, os estilos de cuidar adotados podem ter como pano de fundo os reflexos da sua interferência. Ao pensar no objeto em causa nesta pesquisa a partir da articulação metodológica efetuada, e em função dos resultados que esta conduziu a identificar, afirma-se que as representações sociais das enfermeiras da terapia intensiva acerca das suas práticas de cuidar neste cenário se organizam tendo como base a atribuição de sentido que conferem à tecnologia e que a coloca em dois blocos funcionais, um pragmático e um organizativo, entre os quais figura uma questão valorativa e identitária da profissão que serve de referência para os usos que se faz desta tecnologia, tendo em vista o grupo social de pertença. À luz destas funcionalidades da tecnologia, ou seja, dos sentidos que a enfermeira constroi para ela considerando os valores profissionais, orientam sua prática de cuidar diante do cliente. Implica em dizer assim que assumem um comportamento frente ao socialmente instituído, acerca da necessidade de domínio constante do conhecimento e aquisição dos atributos profissionais que irão sustentar a aplicação das tecnologias em tal ambiente, e que o faz dar forma a um estilo 135 singular de cuidar. Para tanto, entra no lócus contextual, que está retratado no seu cotidiano através do contato com outros profissionais e condições de trabalho, que contribuem para explicar as escolhas feitas. Nesta medida, as relações que se estabelecem entre as classes 1, 2 e 4 originadas pelo Alceste possibilitam destacar dois estilos de cuidar: um no qual a enfermeira é um agente ativo e criativo, marcado pelo maior acesso à face funcional cuidativa da tecnologia, através da avaliação/identificação/previsão/direcionamento dos acontecimentos, considerando o fato da maior proximidade ao cliente e a atenção às suas necessidades físicas e psicossociais (classe 1). Este uso é mediado por um conhecimento constantemente renovado pelo profissional, reflexo de determinadas qualidades/atributos adquiridos (classe 2). Tal formato assistencial reforça os valores profissionais e se inscreve na identidade social do grupo na terapia intensiva, fortalecendo o sentimento de pertencimento. O outro estilo de cuidar em que o profissional assume uma postura mais passiva expressa-se pela maior utilização à face funcional de cunho administrativo da tecnologia, por meio da qual gerencia-se o cuidado do cliente à distância (valorizando-se as ações administrativas), aproveitando-se dos benefícios advindos da implementação dos recursos tecnológicos, os quais facilitam seu processo de trabalho (classe 1). Este uso justifica-se por fatores como: ausência de certas características que integram o perfil desejado de atuação no setor, e que substanciariam um maior domínio do conhecimento, levando-o, como consequência, a orientar-se pela tarefa, e fazer apenas aquilo que está programado/protocolizado (classe 2); pelo apoio em aspectos estruturaisque dizem respeito ao contexto em que se circunscreve o trabalho das enfermeiras, e dos quais ganham evidência as relações interprofissionais e condições de trabalho, como argumentos para uma 136 passividade diante da assistência ao cliente, gerenciando através da tecnologia a evolução do cliente (classe 4). Este estilo de cuidar, por sua vez, vai de encontro aos elementos que reforçam a identidade da profissão, sendo, inclusive, foco de intensos debates ao redor da atuação da enfermeira nesta área, bem como se distancia da atitude que se espera dela quando analisada sob a ótica do vínculo compartilhado, já que nos dados sobressai a noção de um uso não favorável da tecnologia. Todavia, defende-se a ideia de que a prática de cuidar das enfermeiras na terapia intensiva se constroi e reconstroi no cotidiano de assistir, e, neste sentido, é que acredita-se que as enfermeiras elaboram e re-elaboram o uso que fazem da tecnologia no seu dia-a-dia, onde incide o individual e o social, que influenciam na maior utilização da face cuidativa ou organizativa, permitindo-as circular pelos dois pólos em maior ou menor intensidade. Este cruzamento entre as classes, na conformação das representações sociais do fenômeno em estudo, também está expresso na classificação hierárquica descendente, na qual se observa a formação inicial da classe 1 em separado, seguida pela subdivisão entre as classes 2 e 4, mais próximas. Ao reportar tal figura para análise verifica-se de um lado um relato sobre a tecnologia (classe 1), acompanhado do outro pelos fatores que interferem no seu uso (classe 2 e 4), quais sejam os pessoais/profissionais (classe 2) e os estruturais/contextuais (classe 4). Ao mesmo tempo, quando toma-se em conta as variáveis psicossociais e demográficas que se ligam com maior força nesta elaboração em torno do sentido da tecnologia nota-se: sexo masculino, mais jovens e com menos tempo de formado, turno noturno, não católicos e que escolheram o setor. Este conjunto de variáveis permitem fazer um certo número de considerações e hipóteses. Quanto ao 137 gênero, revela-se nos homens a marca do tecnicismo ao se reportarem a uma dimensão avaliativa dos usos da tecnologia, o que levanta o pressuposto, no interesse da questão em discussão, da existência de diferenças entre homens e mulheres na maneira como incorporam/lidam com as tecnologias no cuidado. Este pressuposto pode se fundar em estudos que se baseiam na variável gênero para abordar a análise das tecnologias. Nesta ótica, autores realçam diferentes correntes que articulam tecnologia e gênero (BEVACQUA; SCHWARTZ; MACHADO; VOLPATO; SILVA, 2003). Dentre elas, por exemplo, destaca-se uma concepção em que o poder econômico, político e social masculino é visto como de grande impacto nos modos como as mulheres têm contato com os conhecimentos científicos e tecnológicos, criando um grupo de habilidades femininas que incitam a subordinação das mulheres às mudanças tecnológicas. Além disso, há uma linha argumentativa que compreende que as mulheres têm demandas e valores que se diferenciam das dos homens, e então, utilizam a tecnologia de forma particular (BEVACQUA; SCHWARTZ; MACHADO; VOLPATO; SILVA, 2003). Os homens estariam, portanto, mais voltados à concepção enquanto as mulheres à prática em relação à tecnologia. No que tange à dimensão da experiência implicada, ao analisar as representações sociais da tecnologia em vista das diferenças do tempo de experiência das enfermeiras já demonstrou-se que estas profissionais organizam o pensamento por lógicas contrárias (SILVA, 2011). Na pesquisa em tela, não obstante as profissionais mais novas possam ter maior dificuldade em lidar com questões assistenciais em consequência da menor expertise, as mesmas conseguem facilmente contrastar a realidade vivida com aquela recentemente aprendida, integrando inclusive à narrativa pontos polêmicos, o 138 que sustenta o tom mais crítico-reflexivo sobre a prática em face das tecnologias. Acrescenta-se também que as enfermeiras com menos tempo de formação geralmente buscam uma maior capacitação do que aquelas com mais tempo de trabalho, cujo nível de motivação leva a uma tendência de acomodação. Conjectura-se ainda que as enfermeiras noturnas teriam um “olhar” mais periférico sobre a prática, englobando itens como perfil, estrutura institucional, relações profissionais, conhecimento e análise dos modos de usar a tecnologia, aspectos que estão no entorno do fazer profissional. As características do trabalho deste turno, em que há uma continuidade das atividades iniciadas durante o período matutino, com atenção especial às possíveis alterações do quadro clínico, e envolvendo uma etapa de repouso, podem estar de permeio à esta forma de elaborar o pensamento. O esquema explicativo que se segue apresenta sinteticamente o processo de organização das representações sociais, revelando, ao mesmo tempo, algumas características ou elementos que ajudam a conformar a linha de ação do profissional - estilos de cuidar, na interface com os construtos previamente delineados - cuidado e ação tecnológica. 139 Pragmático atributos Uso da face funcional cuidativa da tecnologia Proximidade do cliente Avaliar/ Identificar Direcionar / Prever as necessidade físicas/psicossociais na interface com a tecnologia Orienta-se pelo saber especializado e apoia-se nos atributos profissionais DIMENSÃO DO PENSAMENTO Sentido da tecnologia na TI Organizativo Valor e identidade profissional CONSTROI COTIDIANO RECONSTROI Uso da face funcional administrativa da tecnologia Distância do cliente: valorizam-se as atividades administrativas aproveitando-se da tecnologia Orienta-se pela tarefa e apoia-se nos fatores estruturais Figura 10: Esquema explicativo 1 das RS sobre as práticas de cuidado da enf.ª na TI; Fonte: produção do pesquisador Estilo de cuidar: elementos do cuidado tecnológico Estilo de cuidar: elementos da ação tecnológica TOMADA DE ATITUDE ENFERMEIRA ATIVA Busca do conhecimento e aquisição dos atributos profissionais APROXIMA DO GRUPO Fortalece a identidade social Enfraquece a identidade social ENFERMEIRA PASSIVA Comportamento passivo quanto a busca do conhecimento e aquisição dos atributos profissionais DISTANCIA DO GRUPO DIMENSÃO DA PRÁTICA DIMENSÃO DO PENSAMENTO CONTEXTO Relações profissionais Condições de trabalho inadequadas (Vieux Port- Marseille) CAPÍTULO 5: Apresentação dos resultados 141 5.1 Análise textual através do software Alceste (parte II) 5.1.1 A condição do cliente e suas repercussões nas práticas de cuidar das enfermeiras Neste bloco de análise, assim denominado com base nos temas de maior relevância, encontram-se as classes 3, 5 e 6. Sua intenção situa-se em pontuar o processo de construção do pensamento que as enfermeiras realizam sobre suas práticas na terapia intensiva, tendo como referência o estado do cliente. Uma visão geral preliminar é exposta no quadro que se segue. N° da classe de discurso CLASSE 3 CLASSE 5 CLASSE 6 Tema geral da classe Cotidiano assistencial da enfermeira no CTI Prática de cuidar com a tecnologia As características do paciente como indicador do trabalho no CTI Porcentagemem relação ao discurso total 18,09% do discurso 11,59% do discurso 30,93% do discurso Variáveis Associadas Sexo feminino, mais tempo de formado, menos jovens, turno diurno, católico, não escolheu o setor Sexo feminino, mais tempo de formado, menos jovens, turno diurno, católica, escolheu o setor Sexo feminino, menos jovens, 2 empregos, não especialista, turno diurno, não, escolheu o setor Sub-temas Atividades burocráticas Dados do maquinário Positividade do trabalho Medicação, fazer, horário, prescrição, farmácia, médico, livro, manhã Alarme, monitor, pressão, saturação, pressão arterial média, respirador, oxímetro, curva Gratificante, agradecer, bem, voltar, sair, falar Atividades procedimentais/ assistenciais Avaliação do cliente O estado do cliente e a ocupação no trabalho Banho, curativo, hora, sonda, dou, exame, técnico, dez Verificar, correlacionar, dado, perto, clínica, mostrando, sinal Acordado, sedado, lúcido, intubado, paciente, fala, ele Quadro 6: Classes do discurso associadas ao bloco 2 142 5.1.1.1 Classe 3 Quadro 7: Classe 3 Alceste A classe 3 traduz o cotidiano das enfermeiras da terapia intensiva, respondendo por 18,9% do material analisado, com um quantitativo de 406 uce. Tal cotidiano está reproduzido nesta classe pelo uso do verbo fazer, bem como pela presença nas unidades de contexto elementar do termo ter que. Neste sentido, identifica-se que este dia-a-dia é sublinhado pela imperiosa urgência do cumprimento de uma série de atribuições relativas ao desempenho do papel de enfermeira neste ambiente, formado por questões burocráticas e assistenciais. Assim, verifica-se que o uso do verbo fazer (chi²: 111,05) /ter que vem assinalado por uma ideia de separação entre suas funções burocráticas e assistenciais. Além disso, a palavra burocrática (chi²: 26,5) presente na classificação ascendente e ilustrada nas uces é também indicativa desta separação. Claro que devia ser todo dia, mas existem milhões de coisas para fazer como você observou muito bem, e, então eu tento, em primeiro cuidado, eu quero estar junto, só que tem a burocracia a ser feita. (uce 824, enf. 6) Classe 3 406 uce Chi² Porc. Medicação Fazer Horário Banho Curativo Hora Prescrição Farmácia Médico Dou Livro Sonda Técnico Chata Dei Exame Dez Junto Cima Manhã 201,7 111,0 96,9 89,8 88,1 76,9 74,1 43,4 43,0 39,3 39,0 39,0 36,2 35,0 31,7 31,1 30,9 30,6 29,1 28,8 73,9 38,1 89,2 54,7 66,6 44,4 81,4 85,7 54,1 74,4 84,6 84,6 44,5 90,0 31,7 46,4 51,2 50,0 29,1 28,8 Variáveis: Sexo feminino, mais tempo de formado, menos jovens, turno diurno, católico, não escolheu o setor Cotidiano assistencial 18,09% 143 E porque tinha gente que só queria fazer assistência, não, porque só burocracia é chato, não sei o quê, e vai para assistência. (uce 96, enf. 1) Tem que escrever o que você viu, o que você fez de procedimento, e você fica dividido entre essa rotina, essa parte burocrática, tem que agilizar para farmácia, para essa medicação vir logo para o paciente. (uce 507, enf. 6) Até porque é muita coisa, tentando despachar tudo para depois dar seguimento a assistência. (uce 3222, enf. 19) Conforme se observa, a execução de atividades indiretas ao cliente, intituladas pelos sujeitos como burocráticas, assume grande relevância nesse cotidiano assistencial das enfermeiras de terapia intensiva. Dentre elas está a medicação, com destaque na organização desta classe através de palavras como medicação (chi²: 201,71), horário (chi²: 96,98), farmácia (chi²: 43,47), prescrição (chi²: 74,10), em que é fundamental uma ordenação de ações prévias à administração do medicamento ao cliente, que suscitam da enfermeira uma elevada atenção e cuidado. Existem enfermeiras que não tem o perfil de estar ali naquela parte burocrática, que as coisas as vezes não andam, eu preciso dar uma continuidade para o técnico da medicação, para ele fazer a medicação. (uce 830, enf. 6) Você tem um acompanhamento, a prescrição já está aprazada, você só vai tirar, ainda tem as tiras, que você tira a medicação para não atrasar o horário, para o técnico administrar a medicação, então essa coisa é pesada demais. (uce 1544, enf. 10) (...) O que é prioridade para o sistema hoje eu tenho que cumprir, porque se eu não faço aquilo de perder a manhã quase toda tirando a medicação, a medicação do horário da manhã não vai ser feita (uce 755, enf. 5) Você tem que fazer o medicamento às dez da noite, as vinte e quatro, às duas da manhã, então assim, se tem pedido para o banco de sangue você tem que ir lá pegar, se tem gasometria para levar ali dentro você faz. (uce 3523, enf. 20) De outro lado, das funções que a enfermeira precisa também fazer, estão aquelas de cuidado direto ao cliente, as quais passam a ter um cunho procedimental na constituição da classe 3, exemplificada pela aplicação de palavras como banho (chi²: 89,89), curativo (chi²: 88,12), hora (chi²: 76,94), sonda (chi²: 39,05). Vai depender muito da dinâmica do dia (...) eu gostaria sempre de poder, de todos os dias poder acompanhar o paciente no banho junto com o técnico, realmente trocar os curativos do paciente e visualizá-lo de costas, eu gostaria de fazer isso. (uce 1342, enf. 9) 144 E porque aí na hora de virar eu já fico lá de vez, já faço todos os curativos que tem que fazer, já examino, já saio de lá sabendo o que eu vou fazer, então para você ir lá antes ficar só segurando, ai, jogando aguinha. (uce 846, enf. 6) E quem tem mais curativos, que vai demandar mais algum cuidado, eu normalmente eu peço, eu falo: “_você espera que vou entrar no banho do seu fulano”, como até o último plantão que eu dei de manhã aconteceu isso. (uce 2802, enf. 17) Então a gente costuma entrar nos banhos com os técnicos, a gente faz todos os procedimentos invasivos, a gente faz o exame clínico, a gente tira as medicações, estamos falando de cuidado. (uce 3032, enf. 19) Outra ocupação que engloba a assistência ao cliente de maneira mais genérica e desperta inquietação das enfermeiras durante seus afazeres diários são os registros clínicos e a interlocução com a equipe médica, para os quais ela deve se dividir em relação àquelas técnicas e procedimentos que tendem a causar um efeito mais imediato ao cliente, e que também requer que ela os faça. As palavras médico chi²: 43,07, livro chi²: 39,05 e exame chi²: 31,1 mencionam isso. Solicitação de exame aonde a gente tem que deixar relato, já são três livros que você tem que estar de imediato com eles, aonde vem as prescrições (....) o outro enfermeiro está atuando ou auxiliando o próprio técnico dentro do boxe, ou o médico que veio dar uma avaliada. (uce 1539, enf. 10) E porque eles já terminaram de visitar os pacientes e cada um visita um paciente e vão lá fazer o round, e acaba chamando a enfermagem, só que eles não querem saber se está na hora de gente entrar para fazer o curativo. (uce 1413, enf. 9) Me incomoda, a gente chega e perde pelo menos duas horas de plantão lá em cima do posto, com tudo acontecendo lá embaixo, você tem que fazer papelzinho, fazer livrozinho. (uce 2995, enf. 18) Essa dicotomia que os profissionais instituem durante sua atuação no ambiente da terapia intensiva exposta na classe 3 induz a efeitos negativos no cuidado prestado, uma vez que provoca a ocorrência de uma desarticulação assistencial e a realização de atividades automáticas, ao contrário da perspectiva de cuidado integral. Vou dar meus banhos, dei três banhos no leito, acabou, não dou mais banho hoje, evolui meus pacientes, acabou, não faço mais nada, e assim, isso é uma coisa negativa, muito negativa, e não tem porque ser assim, as coisas poderiam ser programadas, e embora a gente dependada prescrição médica, a gente deveria estar fazendo as coisas junto. (uce 2529, enf. 16) (....) Tudo isso vai gerando uma angústia muito grande, esse estar da gente de fazer as coisas, que as vezes a gente faz no automático, vou fazer uma medicação ali, foi ali onde está o acesso fiz. (uce 733, enf. 5) 145 Ao contrário do que ocorre na classe 4, a variável que congrega as enfermeiras menos jovens em relação à idade média do grupo, e com maior tempo de formação, foi a que mais incidiu na 3. Conjectura-se que esta maior experiência em termos de prática colabore para que as enfermeiras ratifiquem através da fala a tendência do fazer da profissão, o qual está traduzido durante seu exercício profissional diário. A CHA expressa de maneira clara essa classe, na medida em que as relações de vizinhança entre as palavras curativo, procedimento, banho, hora, dez, horário e manhã, indicam a necessidade de execução dos procedimentos no período da manhã, sobretudo os banhos dos clientes e seus curativos; ao tempo em que também precisa preparar/reservar/separar (“tirar”) o medicamento, a partir da liberação da prescrição pelo médico, para encaminhá-la à farmácia, como sinaliza a organização esquemática da árvore classificatória através das palavras tirar, medica (medicamento), médico, farmácia e prescrição. Figura 11: Classificação hierárquica ascendente da classe 3 Considera-se que a classe 3, formada sob o ponto de vista do cotidiano assistencial das enfermeiras da terapia intensiva, impregnado de tudo aquilo que elas têm para fazer, adquire também sentido pela apropriação em campo que foi 146 feita de tal cotidiano, onde o desempenho destas profissionais dá a oportunidade de detalhar os aspectos inicialmente propostos para análise a partir do software Alceste. A preocupação da enfermeira com as inúmeras tarefas que precisa dar conta é um exemplo a ser salientado. Após o toque do telefone, a enfermeira 8 reconhece que se trata do funcionário de um setor do hospital responsável pelo controle das internações no CTI, solicitando maiores detalhes sobre os pacientes. A enfermeira fica profundamente irritada argumentando que eles (a equipe de enfermagem) estão cheios de coisas para fazer, e a obrigação deste funcionário é vir ao CTI, posicionando-se contra a aquisição de informações pelo telefone. Ela continua: _Ninguém faz o serviço da enfermagem (....) olha, se vocês ligassem e perguntassem somente o nome dos pacientes por leito, mas vocês querem saber quem admitiu, quando, como, religião, cor (....) e isso a gente não consegue dar conta, pois o setor está tumultuado, é médico pedindo coisas. Então você me desculpa, mas a gente não tem como atender à isso, às vezes a gente precisa sair do posto para ir em busca do prontuário para responder à essas perguntas. Então sinceramente, vocês precisam vir até aqui, eu sei que vocês estão tumultuados, mas nós também estamos. (trecho de diário de campo, enf. 8, 17/01/2011 de 08:30 às 14 hs) Essas “coisas” que a enfermeira tem que fazer são fragmentadas entre ações ditas burocráticas e que se voltam diretamente ao cliente. Isso é reafirmado na prática em vários momentos, certificando os pólos da assistência de enfermagem na terapia intensiva. A enfermeira 8 quando aborda o round, momento de reunião da equipe multiprofissional explicita isso. Com um tom de reclamação ela relembra: _Olha hoje, passei a maior parte da manhã aqui, sentada, as prescrições demoram a sair, e aí fico tirando a medicação. Me perguntaram no round se havia secreção no óstio uretral e eu falei: “_gente, não sei, deixa eu perguntar ao pessoal que deu banho nela”. Então a manhã é complicada, a gente não consegue ter uma visão do cliente, porque a visão da enfermagem é diferenciada. (trecho de diário de campo, enf. 8, 26/01/2011 de 08:40 às 14:30 horas) Tal desintegração se repercute na efetuação das ações de modo bastante operacional e parcelar, com um senso executivo de mais uma tarefa, porém, sem agregar todos os componentes que fazem parte do cuidado ao cliente, e pressupondo uma não complementaridade dos saberes. Explora-se este fato em um 147 procedimento bastante comum no setor que é o banho no leito, visto em particular neste determinado dia, em que a enfermeira 6 realizava ações administrativas no posto de enfermagem, e, enquanto isso, a técnica de enfermagem iria iniciar os cuidados de higiene e conforto no cliente que ambas estavam responsáveis naquele plantão. Logo que se dá conta da iniciativa da técnica de enfermagem, a enfermeira alerta: _olha, quando chegar na perna você me chama! E assim a técnica o faz, solicitando a presença da enfermeira, por precisar de auxílio durante a manipulação do membro que portava grande lesão. Este tipo de sistemática assistencial se repete em outros dias, quando diante de uma cliente com história semelhante, a técnica de enfermagem situa a enfermeira 6: _a gente vai começar lá viu, na hora de virar a gente chama! E ela faz um gesto de concordância. Na tentativa de participar junto à equipe no desenvolvimento da assistência, ofereço-me a promover o banho no leito em parceria com a técnica, ela (a enfermeira) rapidamente contrapõe: _não vai agora não, é só na hora de virar! (trecho de diário de campo, enf. 6, 19/01/2011 de 08:50 às 14 hs; 31/01/2011 de 08:40 às 14:30 hs) Um aspecto que se destaca é a interferência da terapia medicamentosa na orientação das ações profissionais da enfermeira, a qual foi vista com muita frequência no contexto das práticas na terapia intensiva. Destarte, à medida que tais práticas eram detalhadas e aprofundadas, a suposição de que as enfermeiras organizavam sua rotina de cuidados diários circunscritas pela prescrição médica/medicamentosa, ocupando grande parte do seu tempo com esse gerenciamento parecia confirmar-se. Isto porque aguardavam a recepção das prescrições médicas para que pudessem aprazar as medicações, elaborar uma ficha contendo os nomes das drogas a serem utilizadas durante as doze horas de 148 trabalho (incluindo a via de administração, dosagem e horário, de maneira a ser encaminhada ao funcionário da equipe responsável pelo preparo e ministração), e liberar e entregar tais prescrições ao serviço de farmácia, para que os referidos medicamentos chegassem ao setor. (anotação geral do diário de campo, 26/01/2011 de 08:40 às 14:30 hs; 09/04/2011 de 09:20 às 18 hs) Enquanto isso, os técnicos de enfermagem, subdivididos entre os leitos que compõem o CTI, começavam os cuidados que estavam centrados no bem estar do cliente e atendimento de suas necessidades básicas, e em momentos pontuais requeriam o comparecimento da enfermeira para proceder exames, avaliações, verificação da integridade da pele, dentre outros. Na grande parte dos registros, o término da atividade administrativa relativa à terapia medicamentosa demarcava o início da estada da enfermeira ao lado do cliente, prioritariamente para fazer curativos deixados pelos técnicos de enfermagem, avaliação semiológica etc. Num dia atípico na dinâmica de cuidar do CTI, a enfermeira 6, pelo fato de poder estar mais próxima dos clientes surpreende-se: _Nossa, os médicos de maneira extraordinária liberaram as prescrições cedo hoje. (trecho de diário de campo, enf. 6, 08/04/2011 de 09:20 às 13:40 hs) Esse exercício do seu ofício diuturnamente declara a importância atribuída à terapia medicamentosa no conjunto de atividades a fazer da enfermeira. Este zelo com as prescrições continua durante toda a jornada, onde não invariavelmente ela encontra-se manipulando-as. A enfermeira 11 demonstra tal sentimento: _gente, eu preciso das prescrições! Depois de reuni-las, passa abraçada com as prescrições. (trecho de diário de campo, enf. 11, 21/04/2011 de 10 às 15 hs) Uma espécie de fenômeno, que poderia ser chamado de “ondas assistenciais” caracteriza o CTI,cujos níveis de coisas a fazer aumentam e diminuem no decorrer do dia, começando pelo turno da manhã com um alto nível, 149 quando a enfermeira se ocupa dos afazeres administrativos e procedimentos diretos ao cliente, o qual é interrompido por uma fase de estabilização, mas que logo reinicia-se com a operacionalização dos registros clínicos, e de técnicas como mudança de decúbito, sinais vitais, fornecimento de alimentação. Indiretas ao cliente (burocráticas) Medicacão: aprazar, separar, encaminhar Cumprir os horários; Registros clínicos Orientam o cotidiano COTIDIANO ASSISTENCIAL DAS ENFERMEIRAS NA TI Diretas ao cliente (assistenciais) Banho, Curativos, Sonda, Exame Cunho procedimental Figura 12: Composição da classe 3 Alceste; Fonte: produção do pesquisador AFAZERES separação Desarticulação das ações Automatização 150 5.1.1.2 Classe 5 Quadro 8: Classe 5 Alceste Construída com 11,59% das unidades de contexto elementar que foram agrupadas pelo exame lexical, a classe 5 reflete o caráter da prática das enfermeiras no manejo da tecnologia no cuidado, a qual demanda o estabelecimento de nexos entre as informações que têm origem no maquinário com aquelas emitidas pelos clientes como alicerce para as intervenções. Tal classe oportuniza um paralelo com a classe 1, já que ela aborda este mesmo sub-tema, mas em uma linha mais conceitual. O uso como meio de comunicação entre o corpo do cliente e o profissional pode ser percebido a partir das palavras de maior representatividade numérica na classe como é o caso, por exemplo, de monitor, alarme, respirador e sinais com os respectivos chi² de 414,04, 129,41, 87,6, e 58,7, que dão uma conotação centrada nas sinalizações que são feitas pelos recursos tecnológicos incorporados ao cuidado do cliente. Classe 5 260 uce Chi² Porc. Monitor Pressão Alarme Dado Saturação Eletrodo Mostrando Verificar Respirador Preciso PAM* Oxímetro Parâmetro Curva Vitais Respiratório Monitorização Correlacionar Sinais Apresentando 414,4 169,8 129,4 112,2 107,5 98,5 92,0 92,0 87,6 85,3 83,7 83,1 79,4 76,6 75,5 67,9 66,2 61,2 58,7 54,4 65,9 80,5 84,0 62,7 100 93,3 100 100 67,8 69,2 82,3 92,3 63,3 100 91,6 90,9 54,0 100 63,6 76,9 Variáveis: Sexo feminino, menos jovens, 2 empregos, não especialista, turno diurno, não escolheu o setor Prática de cuidar com a tecnologia 11,59% 151 Tem que ter alguma coisa para te ajudar, então quer dizer que a tecnologia, quando um respirador fica alarmando, alarmando, alarmando, vai te dizer, vai te dá o alerta que alguma coisa, se é monitor, se é bomba, se é o respirador, então vai alarmar, te dizer alguma coisa. (uce 13, enf. 1) Então assim, se ele está mostrando algum sinal, é de alarme, de alguma coisa, mas assim, a gente está sempre, a gente tenta estar atento a esses sinais. (uce 3017, enf. 19) As máquinas disparam um alarme ou dão um sinal sob a forma de um dado codificado, seja ele relacionado à saturação do oxigênio/oxímetro, à alteração de uma curva respiratória etc. Desta maneira, tomando como referência estes códigos amplificados pelas tecnologias há a imediata aproximação da enfermeira, na tentativa de buscar contextualizá-los a partir do olhar direcionado ao cliente, fazendo-se primordial nesta situação o senso de observação. Este formato empreendido ao cuidado na terapia intensiva materializa-se de igual modo na palavra monitor, agora acrescentada das palavras dado chi²: 112,21, saturação chi²: 107,50, curva: 76,6. Além disso, a relação de vizinhança na árvore ascendente do termo dado à palavra perto (chi²: 25,93) ratifica este sentido da proximidade. E se o dado que vem do monitor é a dessaturação, e ele está alarmando lá essa dessaturação, eu vou olhar para o paciente para saber o que está acontecendo, essa dessaturação pode ser o oxímetro mal posicionado? Pode. A curva de saturação está boa? (uce 1947, enf. 13) Não, a distância você já alarma diante de um dado que você está vendo, sem olhar para o paciente entendeu. (uce 1884, enf. 13) (...) Não basta você olhar e ver uma ausência de curva, achar que aquilo é uma assistolia, correr, dizer que o paciente está parado, sem antes chegar perto do leito e perceber isso. (uce 1883, enf. 13) Então você tem que observar o doente (....) porque se você está ali, você vê que o paciente está taquicárdico, vamos ver o que está acontecendo, basta não olhar só para o monitor, você olha o monitor e chega perto do doente. (uce 2048, enf. 14) Ao exprimir a importância da proximidade da enfermeira ao cliente, o acesso a um dado reenvia também a necessidade de sua avaliação, à luz do exame clínico de enfermagem, bem como do aporte teórico que serve de embasamento científico às ações de cuidar. O uso dos verbos verificar (chi²: 92,0) e correlacionar (chi²: 61,2) retratam isso. Um exemplo que pode ser citado é a correlação de um dado oriundo de uma pressão (chi²: 169,8) elevada. O cumprimento destas etapas dará subsídios 152 para que o processo de reflexão e questionamento, início da fase interpretativa, se efetive no profissional. Não adianta você visualizar um dado e não correlacionar com a clínica do doente (....) tem que estar perto. (uce 1910, enf. 13) Uma pressão elevada e eu não vou procurar um sinal no meu exame clínico que justifique aquilo, então não adianta ter somente esse dado frio aí. (uce 3563, enf. 21) Você tem que detectar, você tem que detectar o problema e verificar as causas daquilo ali, mas para isso você tem que saber a clínica, e você tem que estar perto do paciente, tem que estar olhando para ele e junto dele (uce 1912, enf. 13) Eu preciso saber o que de repente costuma acontecer nessas situações de acordo com a literatura, e ver o que o doente está apresentando e vê o que a máquina está me dizendo, então são coisas que se entrelaçam. (uce 1673, enf. 11) Essa correlação também é vista na figura de classificação ascendente abaixo, onde 2 blocos de palavras se aproximam. Inicialmente as palavras alarme, sinal, oxímetro e frequência cardíaca, e em outra, dado, perto, correlacionar e máquina, ou seja, é necessário estar perto do paciente para correlacionar um sinal de alarme emitido pela máquina, como ocorre com aqueles de oximetria e frequência cardíaca. Figura 13: Classificação hierárquica ascendente da classe 5 A estruturação da classe 5 favorece a compreensão de que essa junção dos dados do cliente com os da máquina constitue a estratégia adequada para uma interpretação correta, ou seja, para o alcance de um diagnóstico clínico situacional 153 apropriado, que, por sua vez, determinará as tomadas de decisão no que concerne às intervenções de enfermagem. Observando o que a tecnologia está mostrando e tentando resolver, diante do que ela mostra tentando resolver o problema, se é uma dessaturação, se é uma hipotensão (...) se é uma arritmia cardíaca ou se é um baixo débito urinário, porque está com baixo débito urinário? Se está hidratado, se não está. (uce 1906, enf. 13) O doente está fazendo febre, porque o doente está fazendo febre? O doente está taquicárdico, o doente está hipertenso, vamos aumentar a noradrenalina ou diminuir? Isso são coisas que eu preciso estar constantemente avaliando, porque eu preciso tomar iniciativa de algumas situações, e essas coisas servem para que eu possa intervir. (uce 1634, enf. 11) A tecnologia ajuda muito, mas você tem que saber interpretar o que a tecnologia está te mostrando. (uce 1884, enf. 13) As profissionais que trabalham durante o turno diurno tiveram maior participação na veiculação destas particularidades que definem o cuidado com a tecnologia.Um motivo para isso é a realização de grande quantidade de procedimentos e terapêuticas neste período, como exames diagnósticos, manipulações e avaliações, os quais muitas vezes geram a ocorrência de eventos inesperados que tornam mais ativa a imagem da atuação da enfermeira na prestação dos cuidados intensivos com o auxílio das tecnologias. A enfermeira 13 é uma destas, que ainda indica utilizar de sua experiência em lidar com as tecnologias para conduzir seu pensamento sobre a prática de cuidar. Essa forma como está disposta a classe 5 dá contornos a um tipo de cuidado com a tecnologia que é ainda mais perceptível quando se avalia as práticas rotineiras das enfermeiras. Isso porque no seu dia-a-dia experiencia uma variedade de acontecimentos, fatos e episódios, os quais manifestam a dinâmica, bem como a organização do cuidado que ela estabelece para dar conta das necessidades do cliente captadas por intermédio do arsenal tecnológico empregado. Na intercorrência descrita a seguir, alguns distintivos que caracterizam este cuidado tecnológico aparecem em destaque. A enfermeira 11 está no posto de enfermagem, enquanto no boxe de número 10 duas técnicas de enfermagem 154 realizam o banho no leito do cliente. A enfermeira volta-se aos técnicos e questiona: _o que está acontecendo aí que não para de alarmar? Rapidamente ouve-se uma explicação: _é que ele está fazendo esforço, tossindo. A enfermeira 11 após obter essa informação permanece no posto. A enfermeira 13 passa próximo a este leito e intrigada interroga: _por que está alarmando? A técnica repete: _ele não está bem sedado! A enfermeira 13 complementa: _acho que ele está mordendo o tubo, vamos colocar uma cânula de Guedel [sai em direção ao armário de materiais]. Ao retornar com o dispositivo ela diz: _mas ele está com esforço respiratório. Imediatamente se aproxima do cliente, pega o estetoscópio e realiza ausculta respiratória. No fim chega ao diagnóstico da situação: mas ele está com sibilos expiratórios, ele tem alguma nebulização prescrita? (trechos de diário de campo, enf. 13 e 11, 24/01/2011 de 09:20 às 14:20 hs) Uma experiência semelhante acontece com a enfermeira 18, que ao suspeitar de uma deterioração no estado clínico da cliente do leito 5 rapidamente se mobiliza. Logo após chegar ao seu lado, constata que não há uma expansão torácica adequada, comprovada ao monitor pela redução na saturação do oxigênio de modo importante. A enfermeira chama a cliente pelo nome, a qual não responde, em seguida olha para o monitor novamente, e ao analisar o quadro apresentado, afirma acreditar que alguns daqueles dados não sejam fidedignos. Em vista disso, decide desacoplar o circuito do respirador artificial da cliente e iniciar uma ventilação manual através do uso do dispositivo Ambu. Procede na sequência a ausculta pulmonar e conclui existirem secreções pulmonares, optando então pelo procedimento de aspiração traqueal. O resultado das medidas implementadas é visto por meio do retorno aos níveis de normalidade pela doente, com estabilização dos valores relativos à respiração e pressóricos. A enfermeira 155 finaliza sugerindo a suspensão temporária da dieta enteral e realização de gasometria arterial para acompanhamento dos gases sanguíneos. (trecho de diário de campo, enf. 18, 07/05/2011 de 09:30 às 13:20 hs) Assim como na classe 5 do Alceste, promover a interseção do dado proveniente do maquinário com o padrão clínico mostrado pelo cliente, apoiada nos conhecimentos da enfermeira e no seu raciocínio diagnóstico, constitui-se uma estratégia de validação da informação, de modo a verificar a sua coerência, com consequente integração ao contexto do cuidado, e posterior condução das ações. O comportamento da enfermeira 19 é um exemplo, quando busca verificar a fidedignidade de um parâmetro anormal, considerando a clínica do doente. Esta profissional nota à distância, através do visor do boxe, que o cliente do leito 5 exibia ao monitor pressão arterial equivalente à 191 x 107 mmHg. Sua imediata expressão facial denotava uma sensação de estranhamento, pelo movimento de seus olhos. No entanto, encaminhou-se de maneira apressada ao leito, centrou sua atenção sobre o maquinário, e em seguida virou o corpo na direção do cliente, com um ar de desconfiança frente àquele resultado. Minutos depois, opta por repetir a medição da pressão arterial, cuja nova aferição indicava 120 x 70 mmHg. Com uma feição mais tranquila volta ao posto de enfermagem. (trecho de diário de campo, enf. 19, 08/04/2011 de 09:20 às 13:40 hs) Vale ressaltar que sob a ótica do cuidado tecnológico o sujeito do cuidado é fundamental no envio de sinais que possam auxiliar no processo de interpretação. Um dos recursos que viabilizam essa apreensão dos dados é a interação, na medida em que seja um instrumento de mediação ente a objetividade e subjetividade. A enfermeira 9 diante da instabilidade respiratória, retorna várias vezes à unidade do 156 cliente do leito 9, detectando sua inquietude através da retirada constante da máscara de macronebulização. A enfermeira expõe preocupação indagando a ele: _Mas por que o senhor retira a máscara? Se o senhor retirar vai sentir mais desconforto, mais falta de ar! O elástico te incomoda? O senhor está cansado (....) evite falar muito para não ficar com falta de ar! (trecho de diário de campo, enf. 9, 14/02/2011 de 11:30 às 16:30 hs) MÁQUINAS CUIDADO COM A TECNOLOGIA NO AMBIENTE DA TI CLIENTE ENFERMEIRA Avaliação clínica Exame clínico x suporte teórico Processo Interpretativo REFLEXÃO/ QUESTIONAMENTO Figura 14: Composição da classe 5 Alceste; Fonte: produção do pesquisador SINAIS OBJETIVOS (DADOS CODIFICADOS) Articulação dos dados OBSERVAÇÃO DO CLIENTE SINAIS OBJETIVOS E SUBJETIVOS Diagnóstico clínico situacional - INTERVENÇÃO 157 5.1.1.3 Classe 6 Classe 6 694 uce Chi² Porc. Falar Paciente Ele Aqui Acordado Sei Foi Sair Estava Sedado Deus Lúcido Intubado Bem Teve Fulano Agradecer Fala Ficou Gratificante 76,3 67,7 55,8 54,2 53,0 51,1 51,0 49,7 47,6 41,2 40,3 39,6 35,4 35,4 32,8 31,9 31,4 31,2 29,7 27,5 65,8 41,2 41,7 49,6 88,2 50,8 55,8 70,7 59,0 83,8 68,3 91,3 84,6 49,5 69,5 86,3 100 59,4 76,6 93,3 Variáveis Sexo feminino, mais tempo de formado, menos jovens, turno diurno, católica, escolheu o setor As características do paciente como indicador do trabalho no CTI 30,93% Quadro 9: Classe 6 Alceste Aparece como a classe principal desta investigação, visto agrupar 30,93% da narrativa das enfermeiras sobre a sua prática de cuidar na terapia intensiva. Esta classe lexical remete ao sujeito a que se destina o cuidado de enfermagem neste setor, uma vez que o conteúdo que a integra veicula com clareza concepções das enfermeiras sobre aspectos relacionados a ele. Assim, tais concepções articulam determinadas características dos pacientes para se referir ao trabalho no CTI. Uma das características que sobressai no material é a sua condição de comunicação, a qual vem revestida de uma conotação tanto de gratificação do trabalho, quanto do nível de ocupação. No primeiro caso, falar e estar acordado, por exemplo, são indicativos de positividade do trabalho, isto é, produz uma ideia de alcance do resultado, de melhora clínica. Já quando as enfermeiras a abordam para tratarda ocupação, diferenciam o cliente acordado e lúcido, daquele que está sedado e intubado, 158 trazendo em pauta a maior ou menor demanda de trabalho que cada um deles suscita. As palavras falar (chi²: 76,32), paciente (chi²: 67,76), acordado (chi²: 53,08), sedado (chi²: 41,2), lúcido (chi²: 39,6) dão suporte para essa afirmação. Eu gosto de ver o paciente evoluir e sair daqui bem falando, então essa parte de ver o paciente falando e reclamando isso não me incomoda, muito pelo contrário, principalmente se ele chegou assim, mais grave, isso me deixa super satisfeita. (uce 2872, enf. 18) Essa é a questão da evolução que eu já falei tantas vezes, ver o paciente gravíssimo sair daqui bem, rindo, falando, isso é super super gratificante para mim, então é isso, não me vejo trabalhando de outra forma. (uce 2944, enf. 18) Eu falo por mim, porque eu não gosto muito de paciente lúcido, porque paciente conversa, fica naquela coisa, então eu não sou muito de, adoro, amo conversar, sendo que paciente para mim mesmo, depende de mim, eu não estou dizendo que ele não depende, mas paciente que é paciente está sedado, comatoso e paciente que não perturba. (uce 51, enf. 1) É que de repente tem pessoas, como eu já ouvi falar aqui: “_ah, não me coloca com paciente acordado, eu prefiro paciente sedado, não me coloca com esse paciente”. (uce 1227, enf. 8) Os dados evocam ainda que o senso de obtenção do resultado é “atravessado” por uma temporalidade, através dos contrários chegada e saída, que reportam ao estado inicial e o modo como estão deixando o setor, a mudança, a qual reflete um progressão satisfatória da condição de saúde e justifica todos os esforços empreendidos pelas enfermeiras, gerando tal sentimento de gratificação e satisfação. As palavras sair (chi²: 49,74), bem (chi²: 35,4) e gratificante (chi²: 27,5) propiciam explicitar este sub-tema da classe 6. Ele saiu daqui muito bem, saiu do CTI muito bem, cuidei dele muito bem, posso até falar para você que quando ele chegou aqui era um paciente moribundo, nós demos uma geral. (uce 277, enf. 3) Quando sai daquele quadro, depois retorna para te visitar e fala: “_olha aqui como eu estou!” É a melhor coisa, a parte mais gratificante que tem. (uce 57, enf. 1) Para mim assim é muito gratificante, porque muitas vezes eu vejo aquela criança, seja criança seja adulto, aquele paciente ali, chegar muito grave e às vezes, muitas vezes eu mesmo achei que não teria jeito, hoje em dia eu já não falo mais isso. (uce 2730, enf. 17) Então assim, para você é muito mais gratificante ver aquele paciente que teve aqui, que fez aquela parada difícil de reverter, que você conseguiu reverter, paciente que ficou grave muito tempo se recuperando. (uce 2468, enf. 16) A visão que constroem sobre o nível de trabalho tendo como ponto de partida o estado de comunicação do cliente, provavelmente se respalda no tipo de demanda e de dificuldades a serem vivenciadas nesta relação de cuidado, como é o 159 caso daquelas oriundas da interação comunicativa, as quais levam aos profissionais no momento de escolha preferirem cuidar de um cliente sedado que não a ocupará com esse tipo de atividade, já que não fala e, consequentemente, não relata suas necessidades, insatisfações, queixas. Estes trechos de uce fornecem condições, de certa maneira, para o reconhecimento dessas contingências que se apresentam no cuidado deste cliente. Tem uns pacientes que são chatos mesmo. Então quando é chato o pessoal vai mesmo, vai deixar lá, vai ficar confinado, o pessoal nem vai aparecer, porque qualquer coisinha é dor, dor, dor, mas as vezes nem é dor, é mais atenção mesmo (...) por encher tanto a paciência quando for ver que é atenção mesmo, a pessoa não quer nem ficar lá, porque encheu o saco de todo mundo o tempo todo. (uce122/123, enf. 1) Não tinha sensibilidade de nada, foi quando eu perguntei para ele se estava doendo, ele foi e falou um palavrão, só que ele não estava falando porque ele estava intubado, aí eu percebi que ele falou um palavrão, eu falei: “_ah é, você vai falar isso para mim, você mal acordou e está falando isso para mim? Você não merece meu carinho”. (uce 1520, enf. 10) À propósito destas considerações, afirma-se que a compreensão feita pelas enfermeiras mediada pela capacidade interativa do cliente exerce influências nos seus modos de atuar. As palavras falar/fala (chi²: 76,3, e 31,2) permitem captar estas consequências, pelo sentido que é investido ao diálogo. No caso da perspectiva relacionada à gratificação do trabalho, observa-se que o diálogo se concretiza como instrumento para apreensão das necessidades do cliente com vistas à obtenção do resultado, implicando na aproximação a ele. Quando a ideia está situada na esfera da ocupação, pode representar um maior quantitativo de solicitações, causando numa primeira impressão o afastamento da enfermeira. E se ele tivesse acordando e verbalizando me falava: “_oh doutor, ou enfermeira, estou com dor no peito, meu coração está acelerado”, e isso vai me dar um olhar diferente para aquele paciente, se ele conseguisse falar isso para mim. (uce 1520, enf. 5) E a enfermeira que estava passando o plantão falou assim: “_ai fala baixo para ele não acordar, senão ele vai chamar”. Então quer dizer, é aquele paciente que se ele dormir ninguém vai acordar para conversar com ele, mas é verdade. (uce 3199, enf. 19) A dialética deste exercício cognitivo das enfermeiras de estabelecimento de lugar, e que engloba aproximação e afastamento, termina por impactar na elaboração que o cliente passa a fazer sobre o setor e equipe, envolvendo inclusive 160 atitudes que exprimem a criação de vínculo ou não entre ele e a enfermeira, como se confirma abaixo, por exemplo, pelo emprego da palavra agradecer (chi²: 31,4), a qual coocorre com o verbo voltar. É muito legal poder perceber que o paciente voltou para agradecer: “_estou no ambulatório, obrigado, eu estou bem, já melhorei, já operei!” Como também outros saem daqui odiando. (uce 740, enf.5) Você acha que eu recebi aquela criança lá e depois cuidei e depois o pai voltou para agradecer, então aquilo foi ótimo para mim, então assim o que prova que é bom e que se pudesse a gente cuidaria de todos assim. (uce 3488, enf.20) E saem com uma má impressão, porque as pessoas ali são frias, e eu chamava e ninguém me dava atenção, porque às vezes tem paciente que chama, mas chama menos, e aí acaba criando uma impressão ruim. (uce 1791, enf.17) Então acabava que criava vínculos, esse rapaz mesmo que ficou no leito quatro, o do acidente de moto, veio passar o natal com a gente. (uce 1831, enf. 12) Tais relações abordadas na classe 6 também estão em evidência na classificação ascendente, já que esta liga, por exemplo, sedado, intubado e acordado, com fala e gosta, remetendo às escolhas da enfermeira com base nas suas preferências. De outro modo, quando ele sai daqui bem, isso é gratificante, e ele (o paciente) volta para agradecer. Figura 15: Classificação hierárquica ascendente da classe 6 Alguns destes elementos constitutivos da classe 6 tiveram importante inscrição nos registros de campo relativos às práticas de cuidar das enfermeiras, 161 estabelecendo coerência entre pensamento e ação acerca do objeto em estudo. A construção ancorada no resultado ou na mudança tem forma na transcrição deste acontecimento que abrange a participação do cliente. Durante um dia de observação, chegou ao setor um cliente que havia ficado internado no CTI por longo tempo, e este aparentava excelente estado geral. A enfermeira 4, assim que o vê, corre em direção a ele, posiciona-se a minha frente e reforça: _anota isso. Isso que é gratificante no CTI, a gente ver o paciente bem! Ela continua, olhando para o cliente e sorrindo: _você se lembra do leito onde ficou? O cliente aponta em direção ao leito 6. Era possível depreender um sentimentode alegria pela expressão facial da enfermeira 4. Mais tarde, ao relembrar o encontro diz: _fiquei tão feliz de ver o L. (trecho de diário de campo, enf. 4, 17/01/2011 de 08:30 às 14 hs) Essa premência na mudança do cliente é uma característica que se manifesta no cotidiano das enfermeiras, principalmente no que tange aos cuidados de higiene e conforto, onde a modificação na aparência torna-se fundamental, pois funciona como um indicador em direção à recuperação clínica e chegada ao produto do trabalho esperado. A admissão de um paciente no CTI é bastante elucidativa deste desejo dos profissionais, nesta em especial, onde após o posicionamento da cliente no leito é feita uma espécie de “limpeza” nela, retirando todos os dispositivos que estavam em uso prévio e sucedendo-se uma sequência de procedimentos como cuidados estéticos, realização de swabs, troca de fralda, instalação da monitorização etc. Após algum tempo, a enfermeira 8 que está no posto de enfermagem pergunta aos profissionais que ainda permanecem no leito: _vocês estão precisando de alguma coisa? O que vocês ainda estão fazendo lá? A técnica de enfermagem logo se pronuncia: _passando creme! Ao me aproximar do leito visualizo uma feição completamente diferente daquela que chegou e sinto um odor agradável. O 162 profissional finaliza: _isso é que é trato! (trecho de diário de campo, enf. 8, 25/02/2011 de 12 às 16:30 hs) A recusa a priori do cliente a partir da sua fala também tem assento na prática, trazendo à discussão outro aspecto interessante que é a condição física e psicológica da enfermeira. Ao analisar o panorama de uma cliente que apresentava baixa auto-estima a enfermeira 4 discorre: _A gente tem que conversar, está ali do lado, tentar entender (....) a gente tem uma participação nisso, é óbvio, mas olha sexta-feira, o plantão foi o caos, um inferno, tinha procedimento da vascular no leito 7, traqueostomia ali (aponta para outro leito), e eu praticamente não tive tempo de ir no leito dela. Teve uma hora que eu disse: “_não, agora a gente tem que ir aqui!” Mas a gente tem que ver também como a gente está naquele dia, porque se eu não estiver bem eu peço logo:,”_ah, não quero ficar hoje com ninguém que converse ou interaja, me dá algum intubado!” [fazendo referência à escala de trabalho diário] Mas se eu estiver bem fico com paciente que interage. (trecho de diário de campo, enf. 4, 24/01/2011 de 09:20 às 14:20 hs) Esta proposição na qual o cliente é ajuizado em virtude do maior número de chamamentos e pedidos pode ser confirmada nesta conversa entre as enfermeiras 1 e 6. Na cena, são por volta das 13 horas e uma parte da equipe de enfermagem deixou o setor para o almoço. Ainda na unidade, tais enfermeiras estão realizando registros nos prontuários, até que um dos clientes solicita a ida de uma delas ao leito. Imediatamente, elas cochicham, numa atitude de concordância entre si: gente, por que não transfere logo (....) é chatice! A enfermeira 1 acrescenta: _mas o leito não sei se está disponível, não tem maqueiro. A enfermeira 6 continua: _ah, liga para neurocirurgia! Pouco tempo depois verificou-se que o cliente solicitava que esvaziasse o patinho. (trechos de diário de campo, enf. 1 e 6, 19/01/2011 de 08;50 às 14 hs) Ainda sobre os obstáculos e barreiras que podem vir à tona na relação com um paciente acordado em condições de interação, o relato da enfermeira 9 ratifica os resultados da classe Alceste, e facilita o seu melhor esclarecimento. Após retornar do cuidado de um cliente, ela diz em tom de insatisfação: 163 _Eu fico agoniada quando eu fico com esse menino, eu não gosto de ficar com ele não, ele não se comunica, não interage, a gente fala e ele não faz nada (....) com algumas pessoas ele interage, mas com a gente ele não fala nada! (trecho de diário de campo, enf. 9, 25/02/2011 de 12 às 16:30 hs) Tal registro serve para conhecer o porquê em algumas circunstâncias existe a escolha pelo paciente sedado, já que o problema experimentado neste caso pela enfermeira seria minimizado. Do mesmo modo, no tocante às preferências do cliente, identifica-se que quando ele está impossibilitado de se comunicar há a oportunidade para que a equipe de enfermagem tenha determinadas formas de agir sem maiores preocupações com uma rejeição do cliente, como a que se desenvolve em seguida, levando em consideração a advertência da enfermeira 4: _Nossa, aquela hora estava uma confusão, essas duas aqui cantando lá no leito 10 [alusão às duas técnicas de enfermagem que estavam dando banho no cliente], aqui estava cheio de gente, essa aqui conversando. Essas duas cantando música evangélica para o paciente. A médica estava aqui comentando, que você cantando música evangélica, e se o paciente não gostasse, gostasse de macumba? A técnica retruca: _e eu com isso! Se ele não tivesse gostando ele tinha falado. A enfermeira 4 então contra-argumenta: _mas como ele ia falar, ele não podia falar [referindo-se ao estado do cliente]. A técnica mostra uma expressão não verbal de não preocupação com a preferência do cliente e a enfermeira 4 sinaliza: _mas você sabe que não pode ser assim! (trecho de diário de campo, enf. 4,02/02/2011 de 08:50 às 14 hs) 164 Gratificação do trabalho Ideia de resultado Mudança/Melhora/Saída Gera satisfação Influência positiva na concepção do cliente CONDIÇÃO DE COMUNICAÇÃO Ocupação no trabalho Ideia de maior/menor demanda Número de solicitações Opta pelo sedado Influência negativa na concepção do cliente Figura 16: Composição da classe 6 Alceste; Fonte: produção do pesquisador 5.1.2 DISCUSSÃO A assistência de enfermagem na terapia intensiva no que se refere ao seu modo de organização é uma das problemáticas que desperta a curiosidade dos interessados em aprofundar a dinâmica estabelecida no dia-a-dia pelas enfermeiras para cuidar dos clientes gravemente doentes. Neste sentido, um olhar mais Sujeitos do cuidado na TI Estilo de cuidar: diálogo como instrumento – aproximação Estilo de cuidar: diálogo como demanda - afastamento 165 detalhado sobre os processos de trabalho destas profissionais prende a atenção de uma parte da literatura especializada. Este interesse já vem expresso há alguns anos como revelam os estudos do início da última década. Em 2002, por exemplo, perguntou-se aos trabalhadores de enfermagem de um hospital escola, não-enfermeiros, sobre como eles percebem o trabalho na UTI, utilizando como enfoque a teoria das representações sociais. Os conteúdos que abordavam a organização do trabalho da enfermagem na UTI evidenciavam que os modelos adotados estavam baseados nos fundamentos da administração científica clássica (Taylor, Fayol e Ford) e da burocracia, de modo que favoreciam que as atividades tivessem uma característica de trabalho parcial, pautado em normas e regras, e centralizado em um ponto de comando. Assim, a investigação sublinha o predomínio da lógica do parcelamento das atividades, muito embora reconheça as contribuições que a sistematização do cuidar de maneira efetiva poderia trazer (SHIMIZU; CIAMPONE, 2002). O advento da Política Nacional de Humanização em 2004, e, por conseguinte, dos seus princípios, impulsiona um novo conjunto de produções preocupadas, sobretudo, com a ideia de clínica ampliada. Em 2011 duas pesquisas que consideram esta proposição ao pensar sobre o processo de trabalho das enfermeiras ganharam espaço em periódicos nacionais. Numa delas cujo objetivo é refletir sobre a assistência de enfermagem na UTI tendo em vista a clínica ampliada, alguns aspectos que importam para o debateem curso são pontuados. Dentre as razões tomadas para sustentar a defesa em torno da clínica está o fato de que existe uma preocupação exacerbada dos profissionais com prescrição médica, banho no leito e exames, em detrimento de um maior fortalecimento do diálogo, determinando o que se denomina de inversão dos valores, e que encontra 166 eco em um modelo hegemônico. Sob esta ótica é que se colocam a favor de uma posição na qual supera-se uma clínica em pedaços, fragmentada, indo em direção à noção de interdisciplinaridade, em que se respeita o caráter subjetivo e social dentro da complexidade de cada sujeito. Então, o conceito de integralidade, que vê o cliente na sua plenitude e no qual a autonomia tem papel central, exerce função primordial para o alcance da mudança na estruturação da prática assistencial (CAMPOS; MELO, 2011). Esta linha de compreensão voltada à integralidade do cuidado na prática inter-profissional na terapia intensiva foi foco do segundo estudo, cuja intenção era analisar a atuação profissional à luz de tal premissa. A justificativa para isso é que, no geral, as ações no hospital se caracterizam por estarem decompostas em variados atos diagnósticos e terapêuticos desarticulados, implementados por diversas pessoas. Utilizando um estudo de caso, e abrangendo observações da prática e entrevistas a 10 sujeitos chegou-se a dois eixos temáticos: o cuidado individual instrumental frente às instabilidades clínicas, e o cuidado coletivo fragmentado por funções (PIROLO; FERRAZ; GOMES, 2011). O primeiro eixo aponta para um cuidado que se fundamenta em um sentido biomédico e fragmentado, no qual valoriza-se os métodos de tratamento. Assim, o cuidado individual tem como foco a detecção de alterações no quadro clínico a partir dos sinais e sintomas de modo a intervir visando a cura, e denota a ausência de ações de cuidado voltadas a atender às necessidades coletivas de saúde. No segundo eixo que ressalta o plano coletivo aparece uma organização de trabalho funcionalista, baseada na tarefa, em que as ações são descontínuas, fundadas em protocolos e centradas no profissional. 167 Deste modo, volta-se ao entendimento da doença e assume um formato racional que tem assento na teoria geral da administração (marcada pelo trabalho parcelar, o tempo é controlado, dividido por funções, e no qual há uma ruptura entre concepção e execução). Ambas categorias, por sua vez, divergem da diretriz da integralidade do cuidado, através da qual preconiza-se uma articulação/interdependência das ações e a complementaridade dos saberes (PIROLO; FERRAZ; GOMES, 2011). O estudo clássico desenvolvido por Guimelli em 1994 na França com enfermeiras aplicando a teoria das representações sociais, e reeditado recentemente (2011) no livro Pratiques sociales et representations traz contribuições interessantes para entender como estes profissionais representam sua própria função, e, por consequência, dá indícios que propiciam desvelar os motivos que explicam a dinâmica do seu processo de trabalho. Guimelli estava preocupado com a mudança de estado das representações sociais, sua transformação a partir da evolução das práticas. Assim, acreditava-se à época que o cuidado de enfermagem comportava dois campos distintos: um campo tradicional, inerente à prescrição médica, no qual a enfermeira executa atos prescritos pelo médico; um campo relativo ao papel próprio, no qual ela tem real autonomia e aplica seu próprio saber. Este campo próprio tem como foco a pessoa cuidada, tomada globalmente com características físicas, psicológicas, sociais e culturais, e se conforma, segundo o autor, como uma prática nova (ABRIC, 2011). A execução de tarefas relativas ao papel próprio varia na prática em termos de intensidade, o que permitiu o estudo de dois grupos, um onde os sujeitos são estimulados regularmente a exercer o papel próprio, e então de implementar as práticas novas; e outro onde os sujeitos exercem a sua função de maneira mais 168 tradicional centrada nas prescrições médicas. Partindo do pressuposto de que o acesso às práticas novas é um determinante na transformação das representações sociais, e tendo como enquadramento teórico o conceito de cognição prescritiva, realizou-se três manipulações empíricas de maneira a explicitar como esse processo ocorre. Em um dos estudos realizado com 40 enfermeiras diplomadas em Marseille, após caracterizar os grupos que exerciam o papel próprio ou não através de um questionário de intensidade, foi procedida uma análise de similitude com base em um instrumento de 20 itens. A análise confirmou a hipótese inicial de mudança na estrutura das representações sociais quando os sujeitos acessam as práticas novas. Então, nos indivíduos marcados pelas práticas tradicionais o papel prescrito ocupa lugar importante na representação e integra algumas prescrições do papel próprio. Ao passo que no momento que as práticas novas se tornam mais frequentes, as prescrições relativas ao papel próprio se destacam no campo representacional. Essas informações ajudam no fornecimento de pistas sobre os nexos que se constroem pelas enfermeiras para justificar o arranjo conferido às práticas de cuidar (ABRIC, 2011). As evidências fornecidas tanto pela classe 3 gerada pelo Alceste quanto pela observação de campo, bem como àquelas presentes neste arcabouço conceitual conduzem a dizer que as enfermeiras, ao pensarem sobre sua prática de cuidar circunscritas pelo cenário onde ela se desenvolve, se reportam ao seu cotidiano de assistir o cliente, revelando, deste modo, a estrutura de um modelo assistencial que serve de mola propulsora para a realização das suas ações diárias. Este modelo, conforme atestam os dados, é delimitado na prática pelas seguintes características: o cuidado é dividido/separado por tarefas a serem 169 executadas, entre as quais existe uma supremacia da terapêutica prescrita pelo médico, e, a partir desta, as outras atividades a serem feitas são ordenadas, principalmente às de atenção direta ao cliente, que possuem um cunho procedimental. Este compilado de atribuições causa grande preocupação no profissional, já que precisa dar conta de todos estes afazeres durante seu dia de trabalho. Nota-se assim um processo de ritualização deste aspecto nas práticas de cuidar na terapia intensiva. Isto é deveras interessante, pois segundo cita Jovchelovitch (2008) os rituais são ricos depósitos de sentido simbólico que indicam sistemas representacionais colocados em ação, ou seja, a disposição que dão às suas práticas e formas de agir são centrais para compreender as relações de produção, gestos e não-ditos, que, por sua vez, possibilitam manter ou produzir os saberes sociais. Jovchelovitch (op. cit.) continua afirmando que apreender o sentido do comportamento ritualizado, através das rotinas e repetições implementadas, permite captar o valor simbólico e afetivo investidos, que são bases do porquê da representação social, mapeando a lógica que orienta a perspectiva adotada . Ao remeter estes pressupostos teóricos à elucidação do objeto, percebe-se que esta maneira do fazer profissional está alicerçada em um paradigma de racionalidade que trouxe grandes influências no modelo de saúde que dele derivou, fortemente marcado por uma fragmentação e com abordagem centrada nos órgãos do corpo, entendidos como sistemas isolados. Então, constitui-se como reflexo de um modelo biomédico no qual a saúde é vista como ausência de doença, e que ainda repercute-se nos profissionais de saúde, mormente nas enfermeiras na sua dinâmica de trabalho (SILVA, 2009). 170 Vale destacar, que as condições sociais onde os saberes se desenvolvem são fundamentais no processo de formação do conhecimento, circunscrevendo a experiência cotidiana. A produção das representações sociais está intimamente ligada aestes contextos organizacionais, onde incidem complexos sistemas administrativos, divisão de trabalho, hierarquia, acesso a poder. No estudo das representações sociais sobre a prática tem efeito um ritual de cuidar que ganha sentido a partir do momento que a enfermeira se inscreve em um referencial biomédico de assistência, o qual circunda um ambiente atravessado pela carga da doença e de predomínio dos instrumentais terapêuticos, exercendo “força” sobre os profissionais na elaboração que fazem sobre a prática. As pessoas incorporam e lidam com as tecnologias na sua vida diária de variadas maneiras em função da utilidade que elas assumem nos diversos campos. Esse traço confere um polimorfismo a tal fenômeno, que o classifica como uma questão complexa na sociedade atual geradora de um debate público de grandes dimensões. Alguns teóricos já ressaltaram essa influência das tecnologias na vida das pessoas, a exemplo de Heidegger, Feinberg, enfatizando, principalmente, a sua capacidade de controle sobre o ser humano no plano político, econômico, cultural, social, ambiental, determinando no final o estilo de viver desses indivíduos. Lahlou (2005), ao examinar o papel da tecnologia na reificação, avalia que estas tecnologias formalizam o processo de reprodução dos objetos em nome da ciência, sendo tomadas pela indústria e produzindo um fenômeno de reificação em massa que faz parte de um sistema industrial globalizado. Assim, os consumidores, cidadãos, agem diante destes objetos dentro de um contexto de forças políticas e econômicas, no qual os vários interesses serão mobilizados para conduzir a forma como irão lidar com eles. 171 Estas indagações em torno da maneira como as pessoas tratam a tecnologia vem estimulando reflexões que giram ao redor das concepções que estão atreladas a elas, em busca de uma compreensão mais abrangente que responda por todas as dimensões do cuidado em saúde. Nesta corrente se encontram diferentes iniciativas (KOERICH e colaboradores, 2006; AQUINO e colaboradores, 2010) que revisitam a literatura pertinente à temática no intento de mostrar que na assistência à saúde existe a necessidade de que os profissionais estejam imbricados com tecnologias de cuidado que superem os equipamentos e saberes tecnológicos estruturados e alcancem os processos de intervenção, as tecnologias do encontro e das subjetividades, o próprio saber da profissão que é mediado pela experiência. Isso atesta, ao mesmo tempo, a “espessura” social que as tecnologias apresentam, dentro da qual os sujeitos se implicam continuamente, e, a este processo, onde se inserem os elementos articulados às práticas grupais, o produto da conversação e o acesso aos meios de comunicação se misturam afetos, opiniões, sentimentos, valores e costumes que possibilitam explicar os modos como as pessoas se relacionam com as tecnologias no seu cotidiano (SILVA, 2009). Na saúde, e, em particular, em ambiente de cuidados intensivos, a prática de cuidar com a tecnologia parece se revestir de um significado particular. Neste lugar, considerando o seu domínio a partir da correta interpretação da linguagem emitida pelas máquinas, tal aparelhagem é vista como uma aliada para o desenvolvimento das ações de cuidar, que atua em benefício do cliente e do próprio profissional. Desta forma, fornecem um olhar tecnológico através da amplificação dos sinais do corpo do cliente, que alertam os sentidos destes agentes cuidantes para a necessidade de tomada de decisão, o que termina por deixá-los mais seguros e confiantes durante a sua jornada de trabalho. Este uso teoricamente imprime uma 172 maior velocidade às atividades, sobretudo na identificação das alterações clínicas e aplicação das intervenções. Apesar de geralmente serem destacados pelas suas qualidades positivas, os equipamentos existentes nas UTI são origem de angústia e desconforto de uma parcela dos profissionais. Isto porque, em muitas situações não encontram-se em condições apropriadas ao uso, em virtude da sua deterioração com o tempo. O risco de pane de funcionamento, incidentes, anomalias, causa uma visão negativa destes recursos, já que ocasionam uma intensificação do trabalho e reorganização da sua dinâmica. Como consequência os profissionais vivem em um estado de alerta permanente, na tentativa de evitar a ocorrência de prejuízos à saúde do cliente (MARTINS; NASCIMENTO, 2005; MARTINS; ROBAZZI, 2009). Em outros locais do hospital, a incorporação das tecnologias e o modo como isso se acontece também se enche de particularidades. Nos setores de clínica de internação, a introdução de tecnologias informatizadas recaiu sobre trabalho cotidiano da enfermeira e da sua subjetividade (FONSECA; SANTOS, 2007). Na tentativa de verificar a interferência destas tecnologias no cuidado e de como o profissional a vivencia é que se desenvolveu o estudo das autoras com sete enfermeiras por meio de entrevistas e observação. A convivência da enfermeira com este tipo de tecnologia remete aos seguintes aspectos: difícil, complicado, aumenta a quantidade de serviço, afasta da enfermaria, falta de destreza, mais lento. Com base no agrupamento que foi feito dos dados concluem que existe um desinteresse pelo trabalho mediado pela tecnologia informatizada, rechaçando-a, já que é esvaziada de significado para o seu trabalho (FONSECA; SANTOS, 2007). Essa necessidade de entender a relação do homem com as tecnologias no contexto de trabalho ainda impulsionou Silva, Alvim e Figueiredo (2008) a 173 investigarem a incorporação de tecnologias denominadas leves em setores de internação pelas enfermeiras no hospital. Neste sentido, mostram que no seu dia-a- dia a prática de cuidar com as tecnologias leves ocorrem por meio das tecnologias de relação, como o acolhimento e a interação/comunicação, as quais, em vista do ambiente onde o cliente se encontra e a situação de fragilidade quanto à saúde, vão lhe possibilitar um cuidado mais eficiente e autêntico, na medida em que fornecerá subsídios para a construção do vínculo entre os partícipes da ação de cuidar. A ideia veiculada pelas enfermeiras na classe 5 de que no CTI a sua prática se materializa pela inserção das tecnologias (aparelhos) no cuidar, reforça a premissa de um saber técnico-prático – cuidado tecnológico, que se efetiva ao articular os alertas oferecidos pelo maquinário com aqueles enviados pelo cliente como base para um processo interpretativo, e que culmina com o diagnóstico e intervenção de enfermagem frente à situação problema captada. Esta perspectiva parece estar envolvida de forte cunho simbólico na construção das representações sociais. A função simbólica das representações é onde estão situadas as razões e as lógicas, através das quais o sujeito confere uma racionalidade específica ao seu sistema de conhecimento. Por meio de símbolos que dão sentido, incute-se na representação uma complexa rede de significados que vão se repercutir na mediação das pessoas com o objeto, abarcando os desejos e afetos nesse processo de conhecer (JOVCHELOVITCH, 2008). O que num primeiro momento pode parecer irracional/irreal ao observador faz total sentido para os agentes implicados no conhecimento, os quais o produzem dentro de uma realidade psicológica. Desta maneira, o simbólico, na ótica das representações, apresenta o subjetivo e o intersubjetivo, expressando o lugar dos 174 desejos investidos, a dinâmica das interações que orientam os motivos e intenções imbricados nos processos representacionais (JOVCHELOVITCH, 2008). Acrescenta-se ao debate o fato de que a prática de cuidar com a tecnologia se realiza em um cliente potencialmente recuperável, portador de uma condição clínica em estado de criticidade que o fez ser internado em um setor que dispõe de recursos terapêuticos de “última geração” e equipe dotada de saberes especializados,que em conjunto cumpram a missão de serem capazes de promover cuidados intensivos avançados voltados ao restabelecimento de melhores níveis de saúde. Ao tempo que os profissionais devem responder a estes objetivos que demarcam o ambiente de atuação, se situam também em relação aos princípios que norteiam a profissão, e que, no caso da enfermagem, estão calcados em pressupostos básicos de respeito à vida, à dignidade humana, alcance de ótimo estado de saúde, os quais se encontram retratados nas posturas assistenciais. Entende-se, por fim, que este saber técnico - cuidado tecnológico simboliza um elemento importante articulado às práticas neste local, na medida em que exprime por intermédio das ações realizadas pela enfermeira, que associa a estas a importância do uso de tecnologias, o seu desejo de estar em consonância com as características de especificidade do ambiente, bem como as que se pautam no exercício profissional. Assim, empreende os seus esforços na decodificação das informações tornadas visíveis pela aparelhagem e na tradução das necessidades identificadas pelo olhar direcionado ao cliente, que, em última instância, darão subsídios para as intervenções, possibilitando conduzir à melhora ou recuperação em comparação ao problema de saúde inicial. É então neste agir compartilhado que o cuidado tecnológico tem espaço no CTI, oportunizando aos sujeitos construírem esta 175 realidade na qual encontram-se imersos. Quando este desejo se realiza, os profissionais se investem de sensações de orgulho e de sentimentos positivos em torno da sua prática. A percepção da enfermeira acerca do seu exercício profissional na terapia intensiva se constitui alvo de grupos de pesquisa voltados à gerência dos serviços, com o objetivo de melhor entender como ela enfrenta/vivencia o seu trabalho diário visando futuras intervenções. Neste ínterim, temáticas que frequentemente são vinculadas ao desempenho da assistência neste local são a satisfação/gratificação/motivação. A qualidade de ser um trabalho gratificante é atribuída em razão de que nesse espaço a enfermeira é dotada de um nível de autonomia para aplicar os conhecimentos provenientes da sua formação teórico-prática no atendimento direto ao cliente, o que propicia através de tal assistência observar sua melhora, e, consequentemente, o resultado do trabalho, sendo assim fonte de gratificação e prazer, e produzindo uma satisfação interior (CRUZ; SILVA, 2008). Salomé, Espósito e Silva (2008) corroboram que há um sentimento de satisfação quando se avalia o sentido de ser um profissional de terapia intensiva. Nos excertos que ilustram o trabalho destes autores, verifica-se que isso se deve ao fato de que para as enfermeiras essa prática de cuidar se apresenta como algo diferente, na medida em que adquirem novos conhecimentos a cada dia que as dão condições de evoluir enquanto profissionais, e, ao mesmo tempo, por lhes proporcionar visualizar a qualidade do cuidado prestado através da alta do cliente do setor, fazendo-a experimentar a sensação de valorização e satisfação. Os fatores motivacionais também já começaram a ser estudados por enfermeiras. Num destes estudos divulgado no ano de 2006, 53 funcionários da 176 equipe de enfermagem de uma UTI foram interrogados sobre os aspectos ligados à motivação. Algumas contradições são indicadas, pois embora 45% da equipe esteja desmotivada em trabalhar na unidade, 100% se diz satisfeita no trabalho e 75% não tem interesse em trocar de setor. Entre o que motiva, isto é, o que desperta uma disposição positiva para realizar uma atividade, está principalmente a característica de ser um trabalho desafiador e que promove uma realização profissional, além da existência de uma imensa responsabilidade por conta das condições dos clientes (MILANA; BUCARIA; CARTA; CONTRIN, 2006). No caso internacional, encontra-se na França o exemplo de uma pesquisa que trata a satisfação profissional como um dos motivos explicativos para que muitas enfermeiras estejam abandonando a profissão. Parte-se então da hipótese de que a satisfação depende da importância do papel próprio (reconhecimento das competências específicas) na representação profissional da sua função, mormente quanto ao valor da autonomia. Embasando-se em estudos já desenvolvidos, Lheureux (2010) afirma que quanto mais eles têm a possibilidade de aplicar com autonomia suas competências próprias mais eles são satisfeitos. O resultado da abordagem a 120 enfermeiras confirma a hipótese inicial, ou seja, quanto mais a representação está em torno dos elementos relativos à questão humana das doenças (possibilidade de implementá-los com autonomia em relação aos atos médicos) mais elas são satisfeitas, revelando as enfermeiras como pessoas (valores) e enquanto profissionais (papel próprio) (LHEUREUX, 2010). Continuando esta reflexão sobre o trabalho no CTI, observa-se com regularidade que uma das justificativas utilizadas pelo profissional para explicar a sua escolha por atuar neste setor está relacionada ao tipo de assistência que é 177 prestada e a especificidade da clientela hospitalizada. Esta inerência do cliente atendido na terapia intensiva, geralmente em graves condições clínicas e na qual a capacidade de comunicação está prejudicada, é abordada pelo profissional para se referir às características peculiares do trabalho no CTI. Todavia, este ponto tornou- se foco de críticas da comunidade científica ao analisar o comportamento assumido pela enfermeira quanto à comunicação com o cliente considerando o seu nível de consciência. Uma ilustração bem clara disso é dada por Shimada e Silva (2003) em investigação que buscou identificar e avaliar a preferência de auxiliares de enfermagem de uma UTI ao prestar cuidados integrais aos pacientes com e sem condições de verbalização. Isto porque as experiências práticas forneciam indícios de que a equipe de enfermagem preferia trabalhar com pacientes inconscientes, intubados e traqueostomizados, ou seja, que não falam e não se queixam verbalmente. Além disso, havia uma maior distância dos pacientes que verbalizavam, comumente definidos como queixosos. Assim, foi feita a exploração desta questão com 15 auxiliares de uma UTI pública de São Paulo. Dentre os resultados, 8 preferiam os inconscientes, 4 os que verbalizam e 3 foram indiferentes a seu estado de comunicação. Os motivos elencados para a opção pelo inconsciente foram: o que verbaliza chama a toda hora e impede o cumprimento de outras tarefas rotineiras pela equipe; não ter tempo para atender às outras necessidades de comunicação; o inconsciente tem suas demandas emocionais silenciadas pela sedação/coma; o inconsciente requer uma maior observação pelo seu quadro clínico. Para aqueles que escolheram o paciente consciente predominou o fato de precisarem de um maior apoio psicológico, e através da sua presença como profissional poderiam favorecer sua recuperação, 178 reduzindo o tempo de internação. Concluiu-se que a preferência pelos clientes inconscientes se pauta numa tentativa de se proteger do desgaste emocional que os que estão conscientes suscitam (SHIMADA; SILVA, 2003). Esta predisposição ao cliente sedado pela via da não comunicação é vista em linhas de pesquisa no sentido contrário de mostrar que a comunicação com o paciente sedado também é possível, e vislumbrando compreender de que maneira esse processo se daria. Foi o que fizeram Zim, Silva e Telles (2003) através de entrevista a 10 enfermeiras de um hospital escola com base na pergunta norteadora: como interagir com pacientes sedados aparentemente incapazes de se expressar? A vivência das enfermeiras em torno do fenômeno o coloca em duas perspectivas: uma na qual a comunicação depende do grau de sedação do cliente (dependente), ou de que se tratam de coisas diferentes (independente); outra emque a comunicação depende da capacidade de percepção pelo cliente, sem relação com a sedação. Contudo, ambas convergem ao sinalizarem para a existência de comunicação com o sedado, apesar de a definirem como algo difícil pela falta de tempo, de reflexão, de estrutura da unidade e pela dúvida na compreensão pelo cliente da mensagem recebida. Ressalta-se a premência de maior aprofundamento das enfermeiras sobre o significado da comunicação, no intento de ampliar sua capacidade de percebê-la dentro do contexto do CTI (ZIM; SILVA; TELLES, 2003). Ainda quanto ao processo de comunicação no cuidado, remarca-se as ideias de Waquet (2004) ao discutir a fala como instrumento/ferramenta de trabalho, principalmente o seu papel na construção dos conhecimentos, no contraponto com objetos como o livro e o computador. Segundo o autor (op. cit.) a fala é um instrumento de primeira ordem na comunicação do saber, e que em um mundo onde as tecnologias da inteligência reverberam é fundamental recuperar o espaço da fala, 179 de natureza viva e animada neste conjunto, através da qual na produção de conhecimentos põe em evidência as trocas intelectuais, a relação com o outro, e se aproxima de uma ecologia cognitiva mais humanista. Ao reportar os dados analisados na classe 6 à discussão que a embasa reconhece-se que o trabalho da enfermeira no CTI incita nesta a vivência de sentimentos, a partir das propriedades apresentadas pelos clientes. Neste sentido, a condição de comunicação do cliente produz dupla significação. De um lado, representa o resultado da melhora do seu estado de saúde, a qual pode ser percebida pela capacidade de verbalização, o que cria um forte sentimento de gratificação, especialmente quando comparado ao padrão apresentado na internação, uma vez que a possibilidade de saída (alta) do cliente do setor em bom nível de saúde justifica todos os esforços empreendidos pelo profissional em favor da vida. Por outro lado, ao referir-se particularmente à questão interativa, diferencia os clientes que são aptos à comunicação daqueles que se encontram sedados, comatosos, e este elemento termina por tocar a prática com sentimentos opostos, gostar/não gostar, já que desloca a compreensão para a carga de trabalho/demanda associada à cada tipologia de cliente em termos de cuidado de enfermagem. Tais sentimentos expressam-se nas preferências relatadas pelas enfermeiras. Destarte, no fenômeno da prática de cuidar na terapia intensiva acentuam-se os afetos que tocam as enfermeiras, que pulsam no seu cotidiano de assistir e que se mostram quando falam desta prática, principalmente sobre o paciente. Vê-se então a dimensão afetiva das representações sociais, como abordada por Arruda (2009). De acordo com ela (op. cit.) os afetos contribuem à elaboração das representações sociais, pois o objeto provoca de tal maneira que os sujeitos 180 implicados nele se veem impelidos a falar, a participar deste circuito de conversação, sentindo-se incluído a partir do uso de uma linguagem que permite estabelecer a comunicação. Através da conversação mediada pelo objeto fortalece- se os laços de pertença grupal, assim como os da identidade, visto que o ser ouvido causa o reconhecimento do grupo. A representação social tem uma função também de familiaridade com o grupo, e a dimensão afetiva é a base para esse processo, tendo como referência a memória, experiência dentre outros. É importante citar ainda as considerações de Farias e Rouquete (2003, p. 436) que, partindo-se de autores como Rouquete, Rateau, Moliner comentam sobre a dimensão afetiva: a dimensão afetiva é importante à medida que influencia, às vezes organiza ou determina cognições ou comportamentos avaliativos. A partir do momento em que os indivíduos produzem uma avaliação do objeto de representação, ou de alguns de seus aspectos, pode-se dizer que a dimensão afetiva é ativada, dentro de um raciocínio do tipo, isto me agrada ou isto não me agrada. À luz do exposto acredita-se que o objeto prática de cuidar na terapia intensiva impulsiona, causa uma “pulsão” nas enfermeiras que com ele se interrelacionam, que as levam a falar acerca deste nos espaços grupais. Este objeto as enche de sentimentos de gratificação e satisfação, produtos do trabalho desenvolvido, os quais constituem a fagulha desencadeadora de uma coleção de ideias articuladas a ele e que reforçam a sensação de pertencimento. Nesta construção, ao colocarem o paciente no centro desta prática, novamente acessam a esteira dos afetos, dentro da qual realizam um juízo avaliativo do cliente baseado na sua capacidade de comunicação que irá orientar suas escolhas e as ações resultantes dessas. A intercessão entre as classes 3, 5 e 6 ilustradas pelas observações práticas fornecem indicativos sobre os contornos através dos quais as representações 181 sociais vão se formando. Este delineamento aponta que a dimensão afetiva encerrada neste objeto direciona a falar sobre o cliente, que passa a ter uma posição de centralidade nesta representação tendo em vista os afetos que evocam sua condição de comunicação. Tal característica do cliente pressupõe então dois aspectos a saber: a positividade e o nível de ocupação do trabalho. Assim, se o entendimento se assenta sobre a melhora clínica do paciente objetivada na sua fala e na implícita ideia de restabelecimento físico que ela carrega, a enfermeira experimenta um sentimento de gratificação no trabalho (classe 6), já que se configura como o fruto de uma prática de cuidar implementada com o auxílio da tecnologia (cuidado tecnológico), com o objetivo de atender às especificidades do ambiente onde ela se processa ao tempo que aos princípios básicos da profissão (classe 5). Logo, quando alcança sua meta torna-se uma prática positiva que gratifica a enfermeira, lhe traz satisfação, simbolizada por um cuidado tecnológico que dá sentido e coerência ao seu fazer profissional. Numa outra codificação, se esta natureza do cliente reenvia a um julgamento avaliativo deste mediado pelos afetos, distingue-se duas tipologias de paciente: acordado/lúcido/orientado versus sedado/comatoso/intubado, as quais anunciam uma maior ou menor ocupação dos profissionais, balizada pela demanda interativa que eles suscitam (classe 6). Deste modo, a influência de um modelo assistencial que se estrutura por funções e no qual as intervenções têm como foco a doença, leva a categorizar o cliente em função do quantitativo de solicitações e possíveis dificuldades a serem enfrentadas pela enfermeira durante o trabalho. Então, o cliente em que a fala está preservada remete a um suposto de maior ocupação/sobrecarga, o que pode inviabilizar a realização das várias atividades burocráticas e assistenciais que ela 182 tem para fazer, justificando uma maior distância ou a escolha pelo paciente sob sedação, em uso do tubo endotraqueal, bem como a execução de ações fragmentadas e automáticas que materializam um ritual de cuidado (classe 3). Destaca-se neste contexto que a demanda interativa assume uma conotação negativa, pois a metodologia de obtenção dos dados sobre o cliente (histórico) se situa em um modelo de anamnese que tem como essência a interação clínica. Até porque em grande parte se considera que as tecnologias aplicadas irão portar todas as informações de que ele precisa. A consequência é que uma interação mais aprofundada distoa deste princípio, aludindo à sobrecarga da enfermeira, muito embora se saiba que este aspecto possa ter um efeito contrário, ou seja, o cliente possa se tornar colaborativo. Esta interface da enfermeira com o cliente não está presa ao indivíduo, enraizada numa elaboração individualizada, mas se dá no cotidiano, onde ocorre o contato com os outros e a partir do qual ela é reelaborada. As dimensões das representações ancoradas no cliente estão retratadas no esquemaexplicativo 2, o qual fornece ainda subsídios para o delineamento dos estilos de cuidar balizados pela noção de cuidado e ação tecnológica. 183 Positividade do trabalho Fala como expressão da melhora clínica/ restabelecimento físico Gera gratificação e satisfação Nível de ocupação no trabalho Fala mediando o juízo avaliativo da enfermeira Acordado Sedado Lúcido/Orient. Comatoso/Intub. Não gosta Gosta (maior ocupação pela (menor ocupação pela demanda interativa) demanda interativa) CONSTROI COTIDIANO RECONSTROI Figura 17: Esquema explicativo 2 das RS sobre as práticas de cuidado da enf.ª na TI; Fonte: produção do pesquisador Estilo de cuidar: elementos do cuidado tecnológico Prática objetiva/subjetiva: Utiliza a tecnologia como um recurso auxiliar que potencializa a recuperação do cliente, valorizando sua fala como instrumento de apreensão das necessidades SENTIMENTOS VINCULADOS AO CLIENTE (Condição de comunicação) Processo de cuidar com a tecnologia: -Articula dados da máquina/cliente (objetivos/subjetivos); -Avaliação clínica (exame clínico/suporte teórico); -Interpretação (reflexão); -Diagnóstico e Intervenção Modelo assistencial: -Estruturado por funções/tarefas; -Foco na doença; Supremacia da terapêutica médica; -Atenção ao cliente de cunho procedimental; Prática objetiva: Escolhe o sedado/intubado para cuidar, distanciando-se do acordado pela sua demanda interativa. Executa-se ações burocráticas e assistenciais de maneira fragmentada e automatizada- cunho procedimental Estilo de cuidar: elementos da ação tecnológica Referencial: características do ambiente e princípios da profissão Referencial: paradigma biomédico e de racionalidade DIMENSÃO AFETIVA DAS RS DIMENSÃO SIMBÓLICA DAS RS 184 As variáveis psicossociais e profissionais que aparecem com maior relevância nesta construção de sentido são sexo feminino, enfermeiras menos jovens/mais tempo de formado, turno diurno, católicos. Estas variáveis se aglutinam ao redor de um discurso demarcado pela praticidade do cotidiano, pelo fazer do dia- a-dia, de onde surgem sentimentos que distinguem o seu trabalho. No bojo desta prática estão ainda o paciente, as tecnologias usadas no seu cuidado e as suas variadas atividades. Constata-se, portanto, que ao passo que o primeiro grupo de classes se ancora socialmente de maneira mais predominante nos homens, enfermeiros mais jovens e que atuam à noite, orientada por uma concepção crítica/intelectualizada da tecnologia e dos estilos de cuidar que se organizam em torno dela, as classes reunidas nesse eixo tem um tom mais feminino e experiente, articulando-se por uma característica executiva do seu trabalho. Esse campo psicossocial direciona a seguinte análise: a enfermagem enquanto profissão apresenta um progresso histórico que a localiza como feminina e que evoluiu dentro de um panorama de profundas disparidades, como é o caso da divisão social/sexual do trabalho. Embora o movimento da atualidade demonstre um maior influxo de homens, as mulheres identificam a categoria, e, nesta ótica, o fator gênero constitui-se de grande importância na sua trajetória. Considera-se assim, que neste percurso evolutivo quando comparada às ocupações ditas masculinas, mais valorizadas e titulares de um saber científico e intelectualizado a enfermagem foi relegada ao plano das atividades manuais, à execução de ordenações médicas, desprovidas de um cunho científico, vista como invisível, uma extensão do lar onde a mulher cuida dos demais conferindo-os carinho e atenção. Conjectura-se com base no exposto, que este delineamento da 185 historicidade das enfermeiras se liga à conformação de uma narrativa eminentemente prática e cheia de componentes emotivos. Uma segunda reflexão a fazer é que ao se pensar nos níveis de desenvolvimento profissional, que diferencia as enfermeiras chamadas novatas daquelas com maior experiência, entende-se que o conhecimento guarda relações com a experiência, isto é, a enfermeira com maior experiência desenvolve, testa e refina as suas proposições e princípios baseada em situações práticas, apresentando grande consciência intuitiva. Os saberes práticos, instrumentos que a enfermeira lança mão no exercício diário da profissão, são a base para as decisões daquelas definidas como experientes, o que justifica uma linha argumentativa sustentada por sua prática observada na pesquisa. Por fim o turno de trabalho diurno, com todas as contingências de um setor de terapia intensiva, envolvido durante o dia pela agitação, presença da família, realização de procedimentos, interação multiprofissional, que servem de eixo norteador para uma fala mais centralizada sobre a prática, onde estão o paciente, as tarefas de cuidado a executar, o uso dos instrumentos auxiliares ao cuidado. Em função destas 03 hipóteses, envolvendo sexo, horário de trabalho e tempo de formação profissional, realizou-se uma segunda rodagem do material textual através de três novas testagens do corpus de investigação no programa Alceste. Assim, em cada caso verificava-se se existiam diferenças na produção do discurso em razão das variáveis psicossociais e profissionais selecionadas, quais sejam: turno diurno/noturno, mais tempo de formado/menos tempo de formado; sexo masculino/sexo feminino. Os resultados relativos ao horário de trabalho podem ser visualizados no quadro 11: 186 Classe 1 Turno Diurno Classe 2 Turno Noturno Chi² Porc. Chi² Porc. Eu Esta Pessoas Mesmo Humanização Isso Acham Parâmetro Agir Porque Aqui Digo Dou Apenas Existe Gerencial Característica Sei Disse Falo Defeito Precisa Assistencialista Deve Sou 31 31 27 26 22 21 20 19 18 18 16 15 14 14 14 14 14 14 13 13 13 13 13 12 12 49 53 54 58 87 51 75 81 79 51 54 74 86 89 61 93 73 54 93 65 100 61 100 66 59 Terapia intensiva Cuidado Assim Grande Demanda Você Ambiente Formação Talvez Noite Postura Gerar Tarefa Questões Consegue Interação Assistência Normalmente Profissional Dependendo Hoje Geral Nível Papel Ano 69 44 32 32 32 28 27 26 24 23 22 21 21 20 20 20 19 19 19 18 17 16 16 16 15 81 68 61 81 94 60 87 97 75 83 90 100 89 86 69 84 69 94 69 88 71 72 90 81 75 Quadro 10: Análise cruzada segundo a variável turno de trabalho Neste sentido, percebe-se que os profissionais atuantes durante o dia produzem um discurso em primeira pessoa, utilizando verbos como digo, dou, sou, estou, falo, para se situar em tal discurso e também os seus colegas, remetendo-se ao seu cotidiano e tendo como pano de fundo o paciente. (...) O meu estilo de cuidar, primeiro com amor, eu chego até o paciente lá do leito dois, ontem fiquei feliz da vida que eu cheguei lá, sempre que chego lá, que vou no CTI trocar de roupa, e dou uma olhada nos pacientes. (uce 2081, enf. 14) Sou aquela pessoa de home care mesmo, independente se vou demorar uma, duas,três horas, eu fico lá, sou aquela pessoa que vê cada detalhe. Vejo se tem que limpar orelha, não só aquela coisa superficial e pronto, tem que ver e acabou pronto, não, gosto de fazer xuxinha, gosto de cortar e lixar a unha, eu cuido da pessoa como se fosse alguém da minha família. (uce 28, enf.1) Eu estou olhando para o monitor e ele está taquicárdico, ele está taquicárdico e eu não faço nada, “_ele está febril? Ele não está?” Eu tenho que ver o porquê dele estar taquicárdico. (uce 1911, enf 13) Por outro lado, as enfermeiras noturnas falam sobre o contexto da terapia intensiva, remetem-se a este ambiente de cuidados de maneira genérica, preocupando-se com a formação, a postura e o desempenho adequado do papel pelos profissionais que lá atuam. As palavras formação, profissional, assistência e terapia intensiva são exemplos disso. 187 (...) A minha preocupação maior é essa, em termos da formação profissional, da maneira como este profissional que trabalha na terapia intensiva está sendo formado, “_será que ele está sendo formado distante do leito?” (uce 2339, enf 15) (...) e não a quantidade, mas assim, a verdadeira assistência, e o índice de segurança técnica com relação à quantidade de enfermeiros dentro do CTI com dez leitos, de um cuidado ideal a gente nunca vai ter eu acredito, até que a gente possa ter. (uce 3519, enf 20) (...) que perceba as modificações e que atue perante essas modificações, sempre objetivando o melhor para o paciente. Acho que se ele conseguir agregar essas qualidades, esses fatores ou elementos em um profissional só, você teria uma terapia intensiva acho que melhor desempenhada, de repente até com reconhecimento profissional melhor. (uce 2403, enf 15) Portanto, aqueles que prestam assistência durante o dia centram-se no paciente, fazendo referência, ao mesmo tempo, aos seus colegas de trabalho através do uso da palavra pessoas, e abarcando assim as diversas dimensões do cuidado - a gerência, a assistência, os procedimentos, a tecnologia, o aspecto humano. Mas paciente nenhum chama por chamar, às vezes ele está sentindo dor, sentindo alguma coisa ou não está sentindo nada, ele quer a presença de uma pessoa ali, não custa nada você ir ali, dar uma certa atenção ao paciente. (uce 2105, enf 14) Eu me surpreendi com o, é verdade, eu me surpreendi que as pessoas aqui se preocupam se vai está, se o paciente está sujo, os técnicos se preocupam se o paciente está sujo, se preocupam com as coisas. (uce 790, enf. 6) O que eu acho, particularmente eu não me encaixo nisso, não me incluo nisso, mas que tem pessoas assim, as pessoas se tornam muito automáticas, acham que tudo é parte tecnológica. (uce 41, enf 1) Mas tem que haver essa parte de humanização, é isso que falta nas pessoas, em muitas pessoas a humanização (...) por isso que eu digo, tem que haver tecnologia sim, me relaciono bem, eu não tenho assim resistência com a tecnologia. (uce 2097, enf 14) Enquanto no primeiro grupo identifica-se o uso de uma linguagem que indica proximidade, neste segundo o termo você apresenta um tom de distância, referindo- se ao processo de cuidar e ao comprometimento profissional para efetivá-lo. Demanda de você uma assistência direta, que tem um comprometimento maior, porque se você não tem, isso vai gerar no serviço um transtorno, seja porque a taxa de infecção hospitalar vai aumentar, a taxa de mortalidade vai aumentar. (uce 682, enf 5) Elas vão favorecer esse processo de você conseguir cuidar desse paciente de uma maneira que você consiga entender a situação daquele paciente e oferecer para ele, dentro daquilo que está disponível no CTI, um algo que vai melhorar. (uce 3532, enf 21) E continuo afirmando que para mim o que é palpável é muito mais fácil do que o que não é, agora essa questão do subjetivo na terapia intensiva, isso sempre vai ser elemento de discussão, sempre vai ter barreiras que não vão favorecer o processo. (uce 2326, enf 15) 188 Classe 1 Menos tempo de formado Classe 2 Mais tempo de formado Khi² Porc. Khi² Porc. Questão Pessoa Cara Verdade Maneira Relação Situações Existem Era Falei Enfermeiro Gosto Interação Postura Elemento Paciente Enfim Sinto Dentro Podem Informação Normalmente São Creio Próximo 39 34 27 26 25 24 23 21 19 19 19 17 17 16 16 16 15 15 15 14 14 14 13 13 13 80 69 86 82 76 78 84 84 79 75 70 77 88 90 97 65 79 92 74 88 88 94 69 93 87 Doente Mas Você Tudo Meu Cuidado Acho Olha Não Acaba Talvez Papel Depois Aquele Bomba Vê Faz Vou Família Prontuário Capacitação Farmácia Prioridade Cada Ajudar 73 33 28 27 26 25 24 24 19 19 19 18 18 16 16 15 15 15 15 14 14 13 13 12 12 63 45 45 53 52 49 44 60 41 52 57 67 59 48 81 52 51 49 60 100 100 73 79 51 60 Quadro 11: Análise cruzada segundo a variável tempo de formação profissional O comparativo baseado na variável tempo de formação profissional destaca de um lado os menos experientes e do outro aqueles com maior experiência na profissão. As enfermeiras que integram este primeiro grupo utilizam com frequência a palavra questão, conferindo-lhe uma perspectiva reflexiva. Então, a empregam para retratar a discussão em torno das maneiras de atuar da enfermeira, dando um tom analítico à interface entre proximidade e distância, as informações objetivas e subjetivas, ambas intermediadas pela interação com o cliente. As palavras maneira, interação, elemento, próximo, enfermeiro também vão ao encontro desta afirmação. Além disso, as palavras emprego, objetiva, proximidade e tecnológica com porcentagem de 100% são características deste grupo, ratificando esta argumentação. Eu acho particularmente que a gente pode viver perfeitamente com as questões objetivas e as subjetivas dentro da terapia intensiva, vou fazer isso como faço dentro ou fora dela. Agora é fato que as pessoas lidam com isso de maneiras diferentes é, tem enfermeiro que vai estar muito mais próximo e tem enfermeiro que não vai está. (uce 2327, enf 15) As pessoas que são mais extrovertidas tendem a cuidar dos pacientes de maneira mais leve no sentido da interação, costumam ter uma interação de uma maneira mais a nível de brincadeira, a nível de ponderação. (uce 1013, enf 7) 189 Então assim, creio que o subjetivo eu vou avaliar de qualquer maneira, sendo com tecnologia ou sem tecnologia, os elementos que serão observados não vão diferenciar, dependendo da área de atuação. E é verdade, quem trabalha no CTI, trabalha muito a questão técnica, você executa atividades de alta complexidade, você consegue agir com maior destreza em situações que requerem habilidade, agora falar no CTI não é convencional. (uce 2315, enf 15) Acrescenta-se ainda que tais profissionais denotam analisar os fatores que se associam ou interferem nas maneiras de agir, como por exemplo, a carga de trabalho e o cansaço. (...) quem tem uma rotina de trabalho, de atividades muito grande no período diurno prejudicam o trabalho noturno, assim como o enfermeiro, como pessoas que tem uma acumulação de trabalho no período diurno sofrem uma relação mais distante com os pacientes por cansaço. (uce 115, enf 7) Olha, vejo as pessoas muito cansadas, muito desgastadas com o trabalho exercido na terapia intensiva, como eu tive uma parada em alguns anos, eu passei a exercer uma atividade administrativa, passei a ocupar um outro lado. (uce 2359, enf 15) As enfermeiras experientes, por sua vez, adotam uma narrativa pragmática, pautando-se na defesa em prol do cuidado, aproximando-se do fazer e da prática da profissão. A prioridade do cuidado direto ao invés do papel administrativo é ressaltado por eles. Eu acho que a própria autonomia preocupa um pouco, entendeu. A autonomia não docuidado, a autonomia para quando você delega, porque infelizmente tem colegas que querem só delegar, não querem fazer, e quando você se afasta do cuidado, se afasta da prática, você é visto como aquele enfermeiro que só está no papel. (uce 3368, enf 20) Mas não é prioridade entendeu, não estabelece a prioridade naquele momento. Então acaba ficando difícil, acho que isso é uma coisa que me preocupa sim, enfermeiro só do papel, enfermeiro que se afasta do cuidado, enfermeiro que só quer ter o título, mas assim, a titulação (...). (uce 3375, enf 20) Este cuidado está imerso de afazeres que fazem parte do seu cotidiano e prática de assistir. Nesta medida, abarca uma série de atividades, as quais estão retratadas nos excertos que tratam da família, farmácia, sangue, bomba, prontuário, cateter, pedido etc. Só vem a numeração, então eu acho isso errado, porque tinha que estar com identificação, com matrícula, com tudo. Então assim, eu me preocupo a ficar mais atenta do que a gente já tem que ter realmente, e aquela, vou botar um sangue, vejo o nome do paciente, o boxe, por mais que você já conheça, mas a gente sabe que realmente tem que fazer isso. (uce 3127, enf 19) Eu preciso trocar o respirador, preciso pegar o monitor de transporte para colocar, preciso trocar aquela bomba, enfim, algumas coisas a gente acaba resolvendo, mais ou menos resolvido, mas assim, de dia é mais fácil pelos serviços que são auxiliares que vão ajudar a gente. Tem a chefia na casa, tem a diarista que está aí, profissionais de apoio que vão ajudar na resolução desse problema e a gente tenta ajudar dessa forma. (uce 626, enf 5) 190 Ver o que a família também sente para gente poder ajudar também, esse é o momento que a gente senta para poder escrever porque tem que registrar tudo, esse é o momento que a gente senta para poder estar escrevendo, para poder receber farmácia. (uce 434, enf 4) Por fim, revestem os depoimentos sobre sua prática voltada ao doente pelo cunho da experiência, indicando os modos adequados de atuar frente a ele. Você não vai gerar mais, não é dispositivo não, mas você não vai gerar mais sofrimento para o doente ou mais complicação para o doente além daquelas todas que ele está ali entendeu, mas você vai tentar também prevenir aquelas outras que podem surgir. (uce 3505, enf 20) Você, aquilo te sinalizou, você chamou, porquê você também não trabalha, eu não quero fazer o papel do médico, eu quero fazer o meu papel de enfermeiro. Eu quero saber a hora que eu tenho que levantar a cabeceira, “_não, vamos elevar as pernas, vamos fazer os meus cuidados”, o que eu posso fazer para melhorar hemodinamicamente, não é a medicação, mas é de repente também de sinalizar. (uce 3049, enf 19) Classe 1 Sexo masculino Classe 2 Sexo feminino Chi² Porc. Chi² Porc. Assistência Maneira Terapia intensiva Atividade Enfermeiro Creio Verdade Elemento Utilização Próximo Postura Tarefa Grande Questões Situações Óbvio Sua Vão Processo Administrativo Nível Uma Distante Cara Diferente 108 107 106 96 83 78 75 67 65 62 61 61 59 58 54 50 48 44 42 40 38 37 37 36 36 50 49 49 68 39 90 52 83 100 70 71 70 51 66 51 86 41 47 63 73 68 27 72 47 42 Porque Não Mas Sei Mesmo Doente Esta Estou Só Mim Entendeu Ali Vez Vou Hora Tudo Isso Junto Posso Pouco Até Banho Ficar Jeito Olhar 77 49 39 39 36 30 27 25 22 22 22 21 20 18 17 17 15 14 14 14 13 13 13 13 11 87 81 84 91 90 91 83 90 87 92 88 87 84 87 89 88 82 95 91 87 85 90 88 94 90 Quadro 12: Análise cruzada segundo a variável sexo Quanto à variável sexo, verifica-se nos homens uma linguagem mais elaborada, que dá uma conotação de impessoalidade e indica reflexão/análise, como são o caso de termos como elemento, processo, questão, postura, que podem ser vistos nos trechos abaixo. (...) se tornar um mero executor de tarefas que já estão lá enraizadas no seu subconsciente, eu acho que isso que é a grande preocupação, deveria ser a grande preocupação do profissional da terapia intensiva, não se distanciar do elemento pensante do processo. (uce 2284, enf 15) Um ou outro com capacidade reflexiva, crítico reflexiva, vamos dizer assim. (uce 2311, enf 15) 191 Dessa reflexão emergem as questões que se articulam a assistência na terapia intensiva, mormente àquelas voltadas a formação profissional e sobrecarga de trabalho, a proximidade e distância ao leito do cliente, bem marcadas nas palavras terapia intensiva, assistência, próximo e distante. (...) dos elementos que te preocupam, para um cuidado mais individualizado, muito mais especializado vamos dizer assim. A minha preocupação maior é essa, em termos da formação profissional, da maneira como este profissional que trabalha na terapia intensiva está sendo formado, será que ele está sendo formado distante do leito. (uce 2339, enf 15) Então, uma boa parte da minha preocupação em relação a enfermagem, é essa questão da acumulação de trabalho e aí você prejudica a assistência. E uma outra coisa que me preocupa bastante é a questão do reconhecimento como profissionais, não só o reconhecimento, digamos na terapia intensiva o que me preocupa é isso, a sobrecarga de trabalho, mas na profissão como um todo. (uce 116, enf 7) Você tem uma carga de trabalho, uma jornada de trabalho muito grande, como também preocupações de quem a enfermagem, você é representada pela enfermagem, uma pessoa sempre vai representar sua classe, então se você escutar uma notícia do jornal. (uce 1119, enf 7) Surgem ainda nos homens algumas concepções ligadas ao uso de tecnologia no cuidado. Então, o uso da tecnologia na enfermagem, para mim, é uma utilização das aparelhagens, dos instrumentos, dos dispositivos que foram desenvolvidos no decorrer do tempo, com a evolução dos processos como um todo e, que esses equipamentos (...). (uce 987, enf 7) (...) Em relação à tecnologia, o que é uma coisa assim, me exige em algumas situações, a questão do uso das tecnologias fora da unidade hospitalar influenciam também no uso da tecnologia a nível hospitalar. (uce 1015, enf 7) O gênero feminino vem demarcado na organização de sua classe pelo uso de termos que ajudam a constituir um discurso explicativo sobre sua prática, revelando as contingências do cotidiano. Expressões que aludem a negação, contradição, explicação (não, mas, porque), assim como aquelas de sentido demonstrativo (ali, esta, isso, vez, hora) conferem o cunho descritivo desta prática. (...) porque, por exemplo, se tem alguma coisa, a gente discute com o médico, quando ele faz uma prescrição, não é porque ele prescreveu que eu vou fazer, mas se eu tenho dúvida em relação aquilo, eu vou lá perguntar: “_é isso mesmo que está aqui?” (uce 2185, enf 14) Eu quero que sempre tudo chegue a mim, não admito que faça alguma coisa sem, não, não aceito assim, sem falar comigo, sem, não pedir, mas sim tem que me comunicar: “_estamos pensando em fazer isso, acho melhor aquilo”, a gente juntos. (uce 818, enf 6) E quando tiver algum problema a gente sentar e discutir, mas eu tenho muita dificuldade, porque eu fico sabe, às vezes eu fico irritada, mal humorada ai eu vou lá e tento fazer, ou então eu chego para pessoa falo: “_olha só, de quem é esse doente aqui?”. (uce 3386, enf 20) 192 O uso da palavra entendeu pelos entrevistados demonstra esta tentativa de reafirmar a explicação dos aspectos da prática. Só que existem algumas especificações que jogavam só para o ministério da saúde, eu tenho que avaliar, eu tenho que não sei o quê, varias coisas que recaem para quem é do ministério, entendeu, e isso acabou cada dia mais. (uce 827, enf 6) Tem alguns que reclamam até, que falam da gente justamente isso: “_ah eu tive lá no CTI, mas nãosei nem quem é a enfermeira!”, entendeu, porque não, mas eu, eu escuto muito bem, eu escuto muito bem, eu ganho presentinho, então eu acho que (..). (uce 962, enf 6) No caso da aplicação de tecnologias, se apoiam na sua prática diária de cuidar em face delas, trazendo as características de como se processa este seu fazer. Mas muitas vezes aquele paciente está estável, é lógico que durante o banho ele pode ter alguma instabilidade hemodinâmica, mas muitas vezes o paciente está estável, quando ele está instável, realmente, eu não desligo, assim nem desconecto, mas vou dando o banho, mas se descolar vai ficar, vai ficar se o paciente não estiver grave. (uce 2575, enf 17) Então em relação a algumas coisas, existe a tecnologia, mas assim, às vezes está quebrada, aí então o monitor não fica, aí o pessoal tem, o pessoal, eu me incluo até também, é de as vezes tirar o monitor e observar o cliente, eu não gosto. (uce 771, enf 6) 5.2 A análise do conteúdo Conforme destacada na metodologia, esta técnica de análise foi aplicada aos dados na tentativa de complementar o conteúdo presente nas 6 classes originadas pelo programa Alceste. Sendo assim, terá um cunho abrangente e utiliza como referência tais resultados prévios. A análise se amparou nos seguintes indicadores: Unidades de registro temático: unidades compostas por temas, a partir das quais foi feito o registro (marcação) de todo o corpus das entrevistas; Unidades de significação ou temas: núcleos de sentido, ao redor dos quais se aglutinam um conjunto de unidades de registro temático. Na sua organização, foram consideradas todas as expressões sobre o tema; 193 Análise categorial: análise das unidades de significação com base na sua quantificação e na dimensão em que apareciam na interface com o objeto da pesquisa. Estes indicadores possibilitaram a construção dos quadros em seguida, que buscam retratar o processo de categorização. Os quadros estão organizados a partir de 03 colunas. A primeira diz respeito às unidades de significação, compostas por suas respectivas unidades de registro temático. O somatório em número absoluto das ocorrências destas unidades de registro temático dá origem a segunda coluna. A terceira coluna equivale, por fim, à sua frequência porcentual em relação ao quantitativo de entrevistados (21). Quanto às variáveis psicossociais e demográficas, foram inicialmente consideradas àquelas que mais se destacaram na emergência de cada tema, as quais, num segundo momento foram relacionadas ao conjunto de temas que integram as unidades categoriais, compondo assim o que denominou-se de variáveis associadas, cuja discussão é aprofundada no decorrer da descrição de tais resultados. As convergências temáticas das categorias conduziram a estruturação de dois eixos orientadores da análise, sendo o primeiro denominado: “Os elementos da prática de cuidar das enfermeiras na terapia intensiva (TI)” e o segundo: “A complexidade do trabalho na terapia intensiva”, em torno dos quais dar-se-á a apresentação dos dados oriundos do emprego desta técnica. 194 5.2.1 Elementos da prática de cuidar das enfermeiras na terapia intensiva 5.2.1.1 A enfermeira e o lidar com tecnologias nas práticas de cuidar na terapia intensiva Temas/ Unidades de significação Nº UR % UR Efeitos da tecnologia Positividade da tecnologia: 18 ocorrências Negatividade da tecnologia: 09 ocorrências Coocorrência- positividade/negatividade: 07 20 95% Tipos de enfermeiras em relação ao uso da tecnologia Grupo das que utilizam em conformidade com as enfermeiras intensivistas: 14 ocorrências Grupo das que utilizam de maneira inadequada: 10 ocorrências Coocorrência- uso adequado/uso inadequado: 05 19 90% Cotidiano prático de cuidar com a tecnologia Subutilização da tecnologia: 09 ocorrências Substituição da tecnologia: 11 ocorrências Naturalização da tecnologia: 05 ocorrências Coocorrência- Subutiliza/ Naturaliza: 03 Subutiliza/Substitui: 02 Substitui/Naturaliza: 02 17 80% Interação com o cliente no CTI em face das tecnologias Prioridade das rotinas administrativas: 08 ocorrências Valorização dos doentes mais graves/dados objetivos: 09 ocorrências Articulação objetivo/subjetivo: 06 ocorrências Não envolvimento: 02 ocorrências Coocorrências: Rotinas/Mais graves: 03 Mais graves/Envolvimento: 02 Mais graves/Articulação: 02 Rotina/Articulação: 01 18 85% A enfermeira e o lidar com as tecnologias nas práticas de cuidar na terapia intensiva Variáveis psicossociais e demográficas associadas: Sexo, idade, tempo de formação profissional, especialização, escolha para trabalho no setor, turno de trabalho Quadro 13: Unidades de registro temático associadas às tecnologias no CTI A análise de conteúdo aplicada aos dados empíricos aponta que a utilização de recursos tecnológicos na assistência de enfermagem na terapia intensiva perpassa de um lado pelos efeitos positivos e do outro pelos negativos. A positividade do uso da tecnologia obteve 18 ocorrências no corpus de análise, as quais estiveram relacionadas, sobretudo, ao impacto direto que a incorporação de tal instrumental traz às ações profissionais. Dentre estes efeitos benéficos está o fornecimento de informações mais qualificadas a enfermeira, que possibilitarão orientar suas condutas diante do cliente, sub-tema recorrente em 10 das 18 unidades de registro temático, como se observa nestes fragmentos de entrevistas. 195 Acho que influencia no aspecto de você ter um olhar até mais direcionado durante a sua avaliação do teu paciente. A gente começa a avaliar esse paciente e olha logo para o monitor, e a gente já tem um retrato mais ou menos de como está esse paciente. (Enf. 8) Vai dizer o modo como eu tenho que agir, o que eu tenho que fazer, se ela está me mostrando que uma coisa não é normal e pelo meu conhecimento eu vejo que não é normal, eu vou agir de determinada maneira para resolver o problema ou minimizar o problema ou chamar alguém que possa resolver. (Enf. 9) Ela subsidia, ela dá informações para que nós possamos traçar nossas condutas (...) A tecnologia, ela contribui com informações que vão subsidiar nossas decisões e condutas. (Enf. 18) Um dos processos que concorre para a elaboração da representação social de um fenômeno é a objetivação, que corresponde a uma operação do imaginário, através da qual o indivíduo concretiza e estrutura os conhecimentos relacionados ao objeto da representação. Para tanto, lança mão de imagens no intuito de dar concretude à noções abstratas. Os fragmentos acima que tratam das tecnologias, trazem exemplos de objetivações ao referi-las como um retrato ou dispositivo tradutor do corpo do cliente, que mostra algo sobre ele ao profissional. Essas imagens indicam que a tecnologia é semelhante a uma máquina fotográfica, que materializa a doença, tornando visível o invisível. Destaca-se ainda com 6 ocorrências, que o acesso a estes dados clínicos de maneira rápida acelera a detecção de problemas junto ao cliente, e, consequentemente, fornece condições para que a implementação de intervenções seja otimizada. Além disso, abre espaço para outras frentes de atuação da enfermeira. Um monitor digital e um aparelho de pressão são exemplos que você pode poupar o teu tempo, e aquele tempo que você estaria se deslocando para pegar um aparelho de pressão, verificar uma pressão, você tem um monitor ali, multiparamétrico, que te dá esse resultado de maneira muito mais imediata, você pode estar gastando esse tempo com outra coisa, com uma assistência, uma atenção maior, uma conversa com o paciente. (Enf. 2) Me dá dados mais precisos desse meu cuidar. Se eu estou na beira do leito de um paciente e começa a fazer uma taquiarritmia,o monitor, a primeira coisa que vou fazer é tentar ver o que está acontecendo, é uma ‘monitorite’, ou o eletrodo que desposicionou? (...) Acelera a minha assistência, faz com que as coisas, os problemas que eu vejo seja no monitor ou seja no ventilador, que eu faça ou tente buscar soluções mais rápidas. (Enf. 5) 196 Este conjunto de repercussões resultantes da inserção de tecnologias no campo assistencial tende a gerar a melhoria/aprimoramento do cuidado prestado, conferindo-lhe, por fim, uma maior qualidade. Para o bem, você pode ter maiores dados, e você aprimorar melhor, fazer melhor o seu planejamento e assim você cuidar melhor do paciente. (Enf. 6) Sim, positivamente, porque se me oferece coisas que eu possa estar oferecendo, ofertando a esse paciente em relação ao próprio cuidado, melhorar a qualidade do cuidado, tanto que quando se criou os centros de terapia intensiva foi realmente para se ter uma melhora no cuidado. (Enf. 17) Entretanto, situado em um polo oposto em relação a este primeiro estaria a influência negativa produzida pela tecnologia, mencionada por 9 enfermeiras, das quais no relato de 7 delas este aspecto coocorreu com a influência positiva. A avaliação negativa se dá calcada principalmente pelo fato de causar uma dependência das informações enviadas pelo maquinário no profissional, fazendo com que este gradativamente se distancie do cliente e priorize apenas os dados objetivos codificados pelos aparelhos. A questão da influência que a gente vê em relação aos maquinários assim, a criar uma dependência por parte de alguns enfermeiros para estar realizando o cuidado, então, o cara, ele fica limitado muitas vezes ao cuidado do doente, observando ali, por exemplo, só o que está no monitor, ou só o que está no respirador, e falta em alguns momentos o enfermeiro chegar à beira do leito, auscultar o paciente, tocar o paciente, ver o que está acontecendo com ele (...) elas não podem limitar a nossa atividade, elas não podem se transformar aí, como eu diria, em uma muleta. (Enf. 21) Acho que acaba que as pessoas se acostumam com o padrão tecnológico e não sabem sobreviver sem ele. É a mesma coisa: “_você se vê hoje sem internet, você consegue se vê no meio do mato aonde não tem sinal, nem de fogo, você se imagina sem internet?”. Então, está se colocando muito isso em primeiro lugar. O oxímetro não funciona: “_ah, está quebrado! Vamos fazer uma perfusão, vamos avaliar uma gasometria, vamos ver se esse paciente tem cianose (...)”. (Enf. 12) O depoente 21 exemplifica mais uma vez a objetivação quando compara a tecnologia a uma muleta, cujo significado estrito remete a um objeto formado por um encosto côncavo, em que os aleijados apoiam as axilas para se moverem. Neste sentido, a muleta exprime simbolicamente o auxílio para uma pessoa deficiente, permitindo complementar o que está faltando a ela. No caso da enfermeira, a tecnologia é o apoio que utiliza para suprir sua ausência no leito na integração dos 197 dados sobre o cliente, minimizando insuficiências que podem estar relacionadas ao conhecimento, perfil, iniciativa, comprometimento. No que tange às variáveis psicossociais e demográficas, o discurso positivo sobre as tecnologias é eminentemente feminino, enquanto a coocorrência dos efeitos positivos e negativos é mais marcada nas enfermeiras mais jovens e com menos tempo de formação. Esta coocorrência mostra o caráter ambivalente das tecnologias ao congregar simultaneamente dois aspectos opostos quando pensada no âmbito das práticas pelas enfermeiras. A tecnologia enquanto componente dessa prática é, por assim dizer, intensamente carregada do ponto de vista emocional, pois ao ser abordada pelos profissionais nos seus diferentes campos de atuação, em especial na TI, frequentemente é foco de discussões, levando-os a atribuir avaliações positivas e negativas do seu emprego, que guiam os comportamentos perante a elas. Em vista desta primeira apreensão que se faz dos dados, evidencia-se que a partir do modo como o profissional integra os aparatos tecnológicos na sua prática cotidiana, estes podem influenciar de forma positiva ou negativa no contexto do cuidado. Destarte, conduz a pensar sobre as enfermeiras e a maneira como lidam com as tecnologias. Nesta perspectiva, ao reportar-se a análise verifica-se a emergência desta temática no material, que vem expressa sob a ideia de uso adequado/inadequado das tecnologias em relação ao grupo de enfermeiras que faz parte da terapia intensiva, e sendo composta por 19 unidades de registro temático. Assim, aparece em destaque dois elementos que ilustram tal interface das enfermeiras com a tecnologia. Primeiro existe o grupo daquelas que a utilizam em conformidade com as 198 demais colegas desta área, dando-lhe a importância apropriada, com 14 ocorrências. Acho que meus colegas são muito bons nessa parte também, eles usam da mesma forma que eu uso, da mesma forma que eu vejo eles veem também, com certeza, é impossível não ver. (Enf. 3) Eu acredito que eles tenham a mesma visão porque quem já trabalha em terapia intensiva já tem essa visão. (Enf. 4) Eu acho que ela tem um espaço importante em todos nós, eu acho que ninguém consegue visualizar um CTI sem essas informações mais pormenorizadas (...) Por exemplo, uma vez eu estava trabalhando em um CTI(...) aí eu vi uma médica falar assim: “_ah, esse paciente está com pressão arterial média, mas eu quero que você veja a pressão no manual”, e as reações que os enfermeiros da época tiveram, eu era acadêmica, mas assim, aquilo me chamou a atenção de uma forma, o que eles falavam era: “_eu estou no CTI!”(...) A reação foi assim unânime de todas os enfermeiros que estavam lá, auxiliares e técnicos, de assim, “_isso é um absurdo!”. (Enf. 18) A outra parcela é representada por dois contrários, de um lado as enfermeiras que descartam ou “abrem mão” da aplicação deste tipo de suporte, e do outro as que direcionam seu planejamento baseando-se prioritariamente pelos indicativos dados por essas tecnologias, totalizando 10 ocorrências. Ela se baseia única e exclusivamente na tecnologia, esquecendo do que a clínica esteja mostrando. Ela parte do princípio que se não está mostrando aquilo, o que o paciente fala não tem valor (...) Tem pessoas que acham que a tecnologia não serve, não é aquilo e ponto final. Não gostam da tecnologia, não aceitam muito bem a tecnologia. Tem aquelas pessoas que equilibram e tem aquelas que são extremamente voltadas para tecnologia. (Enf. 2) Eu acho que tem algumas pessoas que tem uma aversão a essa tecnologia, não gostam de lidar com isso, e tem umas que realmente não sabem (...) você tem gente lá que tem dificuldade em lidar com essas coisas, de lidar com equipamentos novos, que às vezes você tem pessoas que veem a tecnologia como um afastamento do profissional. Normalmente, as pessoas têm esse conceito de achar que as máquinas vão substituir as pessoas. (Enf. 7) Eu acho que a maioria das pessoas já se acostumou com a tecnologia, é difícil falar isso, mas assim, eu acho que as pessoas se tornam mais frias, eu vejo isso, às vezes, eu já escutei muitas vezes assim, muito, não foram poucas: “_paciente falando tem que sair do CTI, porque no CTI só é para ficar sedado!”(...) O CTI é mais do que isso, o paciente pode estar ali falando, mas ele pode estar sinalizando muitas outras coisas, acho que no geral as pessoas ficam mais acomodadas também, acreditando muito no que a máquina está ali dizendo. (Enf. 19) Acerca deste último grupo de enfermeiras, um detalhe que chama a atenção é que tal classificação da prática de lidar com a tecnologia é demarcada pelo tom da experiência, já que é feita principalmente pelos enfermeiras menos jovens, com mais tempo de formado e que são especialistas. Portanto, este modo como o uso das tecnologias se processa diariamente releva-se para os investigados, atingindo80% do corpus analisado. Então, quando 199 discutido sob esta ótica, algumas nuances da sua rotina de cuidados vêm à tona, retratando com clareza como ocorre esta implementação. É o que acontece durante a realização de determinadas técnicas pela enfermeira, como no caso do banho no leito, onde a profissional prefere substituir a tecnologia pelo seu olhar avaliativo, dando aos aparelhos neste momento um papel secundário. Acho que isso é até um pouco de falha nossa, e acho que a gente tem que chamar atenção e conversar com a equipe técnica, que a equipe técnica tem hábito de tirar essa monitorização, então cabe a nós enfermeiros também chamar e tentar orientar quanto à importância disso, porque acho que principalmente durante o banho, que a gente tem assim uma grande chance do paciente descompensar, do paciente apresentar qualquer alteração, e a gente fica ali só com as observações do paciente, do que o paciente estiver apresentando clinicamente, de sinais, e a gente acaba perdendo esses parâmetros que a tecnologia nos oferece. (Enf. 8) Creio que assim, o ideal seria você manter o paciente com a monitorização, ainda que mínima, para te oferecer dados enquanto você está fazendo ali a mobilização do seu paciente, que podem realmente ocorrer intercorrências e que podem passar sem ser percebida. Obviamente que a proximidade vai minimizar isso, você está vendo, você está olhando se o paciente vai alterar um padrão respiratório, se o paciente tem uma cianose que não tinha antes, se o paciente diminui ou rebaixa o nível de consciência, se ele interage menos com você. (Enf. 21) Um dos argumentos referido repetidamente para este tipo de conduta é o de que tais tecnologias incorporadas ao cliente, sobretudo aquelas com foco na monitorização hemodinâmica, por vezes atrapalham ou dificultam o desempenho do profissional, além de não funcionarem adequadamente. Logo, na tentativa de facilitar a execução das ações, opta-se pela retirada temporária destes recursos. Na verdade existem vários tipos de profissionais e maneiras como eles atuam (...) mas eu digo a coisa física da monitorização, os fios, por atrapalhar às vezes, não o que ela está me informando (...), mas a parte física dela mesma, os fios e tal, por atrapalhar a manipulação, às vezes alguns profissionais acabam por retirar. (Enf. 9) Acho que o ser humano se condiciona com muita facilidade, então, você vai pelo mais prático. É mais prático você retirar toda monitorização na hora do banho para facilitar o banho, você acaba às vezes arriscando, alguma alteração ou dano possa ocorrer na hora desse banho pela facilidade. Vai ficar mais prático, acelerar meu processo de banho, não vou ter fio nenhum atrapalhando e eu vou dar o banho mais rápido. É uma questão de condicionamento também. Muitas vezes a gente se condiciona a ter a informação ali na tela e não observa, não dá importância. (Enf. 2) Identifica-se também que a falta de capacitação técnico-científica de uma parcela da equipe no manejo dos equipamentos e na interpretação dos sinais oriundos destes, interfere no uso correto destas tecnologias, podendo trazer prejuízos à recuperação do cliente. 200 Eu acredito que outra coisa que influencia na utilização das tecnologias é que nem todos os profissionais que trabalham na terapia intensiva estão preparados e treinados a lidar com os tipos de equipamentos que nós temos hoje, então, às vezes, você tem alguns funcionários que têm um pouco mais de tempo de serviço, que não se atualizaram. (Enf. 7) Com relação às informações, que às vezes eles [os aparelhos] nos fornecem e às vezes as pessoas não dão atenção, eu acredito assim, que não seja nem porque às vezes a pessoa não dê atenção, é lógico que tem algumas especificidades que o monitor, que nem sempre o enfermeiro, que ele não tem uma certa, não fez um curso para você ler realmente todos os parâmetros que a monitorização cardíaca pode, as arritmias, ele não vai saber ler. (Enf. 17) Outro ponto interessante é que a convivência habitual com casos clínicos que requerem tecnologias para cuidar torna estes aparatos naturalizados à assistência de enfermagem, e, neste sentido, por lidarem frequentemente com esta modalidade de informação os profissionais acostumam com ela, o que é um risco, pois caso isso ocorra há a possibilidade de subestimarem tais dados, aumentando as chances de gerar uma intercorrência ou complicação clínica. Um exemplo típico disso acontece com os cuidados com os alarmes ligados às máquinas. Dentro do CTI às vezes as pessoas se acomodam em ter, essa tecnologia traz dois pontos: tem a praticidade, a otimização, mas por outro lado as pessoas também acabam se acomodando, porque tem tudo ali muito fácil, e acabam se acostumando com aquelas informações, com aqueles sons e com aqueles alarmes. Acho que às vezes a gente tem que parar um pouco e ficar se cobrando mesmo de estar atento, observar mesmo, porque a gente se pega às vezes muito tempo, que às vezes a gente está fazendo uma coisa e outra nem sequer olha para o monitor. (Enf. 8) A outra questão em relação, a questão da banalização dos alarmes, dificilmente o paciente que é admitido, ele é admitido também em relação à máquina, porque se tem lá, a máquina está programada com os parâmetros e você não define os parâmetros adequados para o diagnóstico daquele paciente (...) as pessoas não, não setam os alarmes, não ajustam os alarmes de acordo com a patologia, e o quê que acontece? Os monitores alarmam por qualquer motivo e para qualquer paciente, e as pessoas banalizam os alarmes. (Enf. 16) Uma das funções das representações sociais é realizar a apropriação daquilo que é novo ou desconhecido, permitindo ao sujeito familiarizar-se com tal objeto estranho, de modo a conseguir lidar com ele. As enfermeiras 8 e 16 levam a entender, nestes recortes de entrevistas, que a tecnologia transformou-se numa prótese do cliente, ou seja, uma peça artificial que faz parte do seu corpo, substituindo a função de determinados órgãos. Então, neste caso, a tecnologia já se tornou algo visto como naturalizado pela enfermeira, que não lhe causa estranhamento pois já foi naturalmente incorporado ao cliente, fazendo com que não 201 preste atenção nas informações por ela enviadas. A representação perdeu assim sua função, já que duram enquanto circulam e são úteis, deixando de ser eficaz e proporcionando riscos à saúde do cliente. O entendimento deste tema que abarca os tipos de atuação da enfermeira frente à tecnologia no seu cotidiano prático pode ser complementado por um aspecto que se destaca no conteúdo que é a interação com o cliente, através da qual é possível captar informações objetivando atender às suas necessidades integrais. Sobre isso, observa-se três características relevantes. Uma delas pauta-se na justificativa de que no CTI, pelas peculiaridades de ser um setor voltado a clientes criticamente enfermos, portadores de condições complexas, a prioridade é dada aos doentes mais graves e aos dados objetivos a ele relacionados, desvalorizando-se, portanto, as situações que envolvem uma interação mais aprofundada. Este sub-tema com 09 ocorrências esteve mais presente nos depoimentos das enfermeiras mais jovens e com menos tempo de formadas, o que leva a conjecturar que tal concepção possa vir se organizando já durante sua formação acadêmica. Algumas pessoas fazem isso naturalmente, ou seja, elas realmente não se preocupam porque esqueceram ou porque acham que ali no CTI não é lugar de ter paciente acordado, que tenha essas outras necessidades, e acabam não dando atenção a essa parte. (Enf. 9) (...) Tem enfermeiro que vai estar muito mais próximo, e tem enfermeiro que não vai estar, eu tenho enfermeiro que na hora, quando vai fazer uma escala, vai pedir para não ser escalado com paciente que esteja lúcido e orientado (...) agora acho que a questão objetiva, a questão palpável é importanteno CTI, isso é o diferencial no CTI e vai continuar sendo para sempre, o subjetivo no CTI sempre vai ser tratado, como algo, não digo em segundo plano, mas algo secundário, secundário a aquilo que é o elemento principal, que é o cuidado tecnológico, cuidado direcionado a evidências claras concretas, e disso a gente não tem como fugir, até porque a nossa formação em terapia intensiva é muito voltada para isso, é muito voltada para questão da evidência. (Enf. 15) Sublinha-se que neste cenário muitas são as demandas administrativas que recaem sobre a enfermeira. Então, como ela tem diversas rotinas burocráticas a cumprir passa a interagir com o cliente de forma pontual ou superficial, já que a execução de tais atividades ocupa um lugar diferenciado numa escala de 202 importância quando comparada à interação com o cliente. As enfermeiras que trabalham durante o turno diurno se aglutinam em torno desta ideia, retratada em 08 unidades de registro temático, como constam nestes trechos de entrevista. Quando o plantão realmente fica esse caos, esse caos de agitação, muitos procedimentos acontecendo ao mesmo tempo, uma rotina atropela a outra, quando você acaba de fazer uma rotina aí, já vem, o próximo horário já está em cima, para você dar continuidade ao serviço, aí realmente me incomoda não conseguir ver nem o rosto desse paciente (...) eu acho que sobra até pouco tempo para ir nos leitos, infelizmente, mas não deveria ser assim (...). (Enf. 4) Esse que está mais acordado é o menos observado, porque, porque a gente gosta de pacientes mais, mais sedados, mais graves, de uma forma geral, e quando a gente vai nesse paciente, a gente acaba pescando apenas o que ele tem a informar, é, em relação de imediato ali ao que a gente está vendo (...) a gente acaba não conversando além, sobre a família, sobre alguma coisa que pode trazer dados também para o nosso diagnóstico (...) porque a gente tem, prioriza os outros, e aí como ele está bem clinicamente eu acabo priorizando, indo para outras coisas a fazer, volto para burocracia que eu tenho quinhentos milhões de coisas para fazer, não dá para ficar ali à beira do leito, ouvindo todas as histórias que ele tem para contar (...) a hemodinâmica dele, é isso que está me importando nesse momento, então ele acaba sendo um, o paciente que é examinado, mas que não é aquele a menina dos olhos. (Enf. 6) O paciente aqui é objetivado pela enfermeira 6 como “menina dos olhos”. Esta expressão faz alusão à pupila, que é um termo oriundo do latim pupilla- menininha, e é uma parte do olho como um orifício responsável pela passagem da luz do meio exterior, até os órgãos sensoriais da retina, de grande importância para a visão. A analogia do paciente crítico a menina dos olhos lhe dá um cunho de preciosidade na terapia intensiva, como da pupila para a visão, merecendo assim uma atenção especial das enfermeiras. Entretanto, embora citados com menor frequência (33%), há profissionais que, mesmo diante da avaliação de gravidade deste cliente, buscam acessar dados de uma dimensão mais objetiva, ao tempo que quando possível utilizam estratégias para alcançar outro conjunto de dados que se aproximam da esfera subjetiva, apoiando-se neste caso na interação. Eu acho que aqui tem pessoas que se preocupam com esse aspecto subjetivo sim. Tem pessoas que se envolvem com o paciente, mas lidam com isso de uma forma muito mais descontraída. (Enf. 8) Você tem realmente aquele enfermeiro que vai trabalhar com os dados sendo reunidos e um colaborando com o outro, para você oferecer uma assistência melhor e você vai ter enfermeiros que vão se dedicar de repente mais ao tipo de dado que é oferecido (Enf. 21) 203 5.2.1.2 As formas de assistir ao cliente na terapia intensiva Temas/ Unidades de significação Nº UR % UR Elementos caracterizadores dos estilos de cuidar Atividades de maior cunho burocrático x assistencial: 13 ocorrências Comprometimento com a assistência: 10 ocorrências Envolvimento com o cliente: 06 ocorrências Coocorrência- Burocrático/comprometimento: 05 Burocrático/envolvimento: 01 Envolvimento/comprometimento: 02 21 100% Fatores ligados aos estilos de cuidar Aspectos inerentes ao indivíduo: 11 ocorrências Experiências profissionais: 11 ocorrências Formação profissional: 06 ocorrências Valores da profissão: 01 ocorrência Coocorrência- Experiências pessoais/profissionais: 06 Formação/experiências profissionais: 01 Formação/experiências pessoais: 01 Valores/experiências pessoais:01 20 95% Convivência com os estilos de cuidar Busca adaptar-se: 11 ocorrências Age independente do colega: 07 ocorrências Tenta influenciar o colega: 01 ocorrência 19 90% As formas de assistir ao cliente na terapia intensiva Variáveis psicossociais e demográficas associadas: Sexo, idade, tempo de formação profissional, especialização, escolha para trabalho no setor Quadro 14: Unidades de registro temático associadas às formas de assistir na terapia intensiva Tomando por referência estes resultados preliminares, em articulação com a busca dos temas organizadores das categorias empíricas, constata-se a veiculação de outros elementos, além desta interface entre a enfermeira e a tecnologia, que denotam contribuir para a configuração dos estilos de cuidar, e que estão reproduzidos no cotidiano da assistência neste ambiente. Percebe-se, deste modo, que ao produzirem um discurso sobre sua prática, as enfermeiras investigadas diferenciam duas linhas de ação em relação às atividades de cuidado ao cliente, sendo uma definida como burocrática e a outra assistencial, às quais remetem a uma compreensão de proximidade ou distância do cliente. O cunho burocrático estaria mais voltado para as tarefas gerenciais e administrativas, enquanto o assistencial centra-se no atendimento direto ao cliente. Esta dialética burocrático versus assistencial está presente em 13 unidades de 204 registro temático, como, por exemplo, nestes excertos de entrevista ilustrados abaixo. A gente tem muitos enfermeiros que são assistencialistas, que gostam do cuidado, que gostam de estar à beira do leito, de cuidar do doente realmente. Pessoas que chegam, que se aproximam dos doentes, que cuidam de verdade do paciente na sua totalidade, que tem um cuidado especial ao fazer um curativo, mas eu tenho muitos enfermeiros que são mais burocratas, que eu percebo que não têm ainda o comprometimento que eu gostaria que tivessem, com o cuidado de enfermagem (...) Um é mais gerente e o outro é mais assistencialista, ele presta assistência ao paciente, o outro presta, mas mais indiretamente, e quando vai ao paciente, é aquela coisa de naquele momento ele faz o que tem que fazer e terminada aquela tarefa, ele se distancia e só vai chegar de novo em um caso extremo quando muito solicitado, entendeu? (...) tem enfermeiros que o monitor está tocando, o paciente está mostrando que está dessaturando e ele é incapaz de ir lá e aspirar o paciente. (Enf. 13) Eu acho que há diferença, tem gente que fica mais na beira do leito, tem uns que ficam mais fora, mas também estão atentos a outras coisas importantes também, porque senão não chega a medicação, agilizando exame, tem gente que fica mais, gosta mais dali da beira do leito, e às vezes não tanto dessa parte burocrática. (Enf. 19) Mesmo quando se referem às enfermeiras assistenciais, as narrativas sinalizam as diferenças entre elas em níveis de participação, demonstrando a existência de um cuidado mais pontual. Além disso, o relato do sujeito 9 parece ser interessante neste contexto, na medida em que distingue as várias características das enfermeiras no seu dia-a-dia de trabalho. Tem enfermeiros e os enfermeiros. Tem aqueles enfermeiros que são mais burocráticos, que vão e sentamna cadeira, ficam, só querem saber de prontuário, de livro, controle de psicotrópico aquela coisa toda. Em termos de assistência não querem nem saber do paciente. Aí inventam que estão no telefone, fazem isso, fazem aquilo. Tem outros que gostam mais da assistência, mas mesmo assim, na assistência tem diferença, tem uns que acham que só tem o banho e acabou, aquela coisa bem ponto e acabou, pronto já tem que dar o conforto e tal. Tem outros não, que são aquela coisa bem minuciosa. (Enf. 1) Acho que tem enfermeiro que cuida, mas fica muito na parte de papel, burocracia (...) existem outros que se envolvem mais com os pacientes, são mais realmente assistencialistas, em termos, gostam de colocar a mão na massa, gostam de pegar no paciente, acompanhar o paciente, dar banho e junto com os técnicos fazem os curativos, enfim. Existem também profissionais que são assistencialistas, mas não colocam a mão na massa (...) mas eles gostam, eles ficam mais relacionados ao paciente mas não chegam perto do paciente, não é que não chegam perto do paciente, chegam perto no momento que devem chegar, se acontecer alguma intercorrência. (Enf. 9) Esses dados ao tempo em que possibilitam o debate em torno dos estilos de cuidar suscitam uma reflexão acerca da dimensão ética do cuidado, sobretudo no que se refere à responsabilidade profissional na assistência ao cliente de maior complexidade, já que ao assumir uma linha de ação de maior teor burocrático, 205 delega a atenção direta a outros membros da equipe de enfermagem de menor qualificação. Esse processo de cuidar, no qual as atividades de cunho burocrático ocupam um espaço privilegiado do tempo da enfermeira, dificultam a percepção com maior clareza da utilização do seu conhecimento clínico e conduzem a realização de ações protocolizadas, desprovidas de uma maior crítica. Isto é visto quando o conhecimento desta enfermeira é articulado à imagem de um catálogo, algo que está inventariado, ou seja, registrado e enumerado de forma ordenada como um fluxograma para a solução de um problema clínico. Por mais que você tenha pessoal, não tem como você ser exclusivamente assistencial. Existe a parte burocrática e a parte administrava a ser feita. Então, você acaba abrindo mão ou deixa algum lado descoberto, ou não dá muita qualidade em algum desses dois lados para tentar dividir o tempo (...) Você acaba tendo ou não a facilidade de poder dar a devida atenção a parte clínica do paciente, de estar com ele, conversar, avaliar e examinar. (Enf. 2) As atividades de uma maneira geral viraram um simples procedimento, e a utilização do conhecimento, ele vira quando algum padrão é alterado, então, quando você muda um decúbito do paciente, você tem uma alteração do padrão respiratório, ou se tem algum outro tipo de alteração, ou alguma queixa, aí você vai buscar o seu catálogo de informações, o seu catálogo de informações, e vê quais são as situações, sempre dentro daquele bendito fluxograma imaginário que nós temos. (Enf. 7) Os enfermeiros atuam de uma forma igualitária como se tivesse tratando de outro cliente também, e só seguindo ali aqueles protocolos, aqueles cuidados e esquecem de juntar dados, de utilizar até os dados que são fornecidos, tanto na observação como no exame, enfim, e implementar nisso em cuidados, transformar nos cuidados, numa prescrição. (Enf. 19) Os depoimentos delineiam também uma qualidade do profissional, que se repercute no comportamento que este assume frente às atividades a serem desempenhadas. Assim, em 10 destes depoimentos ressaltam-se os profissionais comprometidos e os não comprometidos, isto é, ganha evidência a postura tomada pela enfermeira diante das situações clínicas que se apresentam na prática. Tal postura aponta, ao mesmo tempo, a importância que é atribuída por ela aos componentes que integram a assistência de enfermagem, bem como o seu nível de implicação com os acontecimentos que se sucedem neste cenário. Os trechos 206 selecionados exprimem as implicações dos sujeitos perante o cuidado do cliente na terapia intensiva. Você vê que a pessoa fica dali de cima, faz tudo ali de cima, não entra nos leitos. Assim como você tem outras enfermeiras que são extremamente dedicadas, que se tiver que passar o dia inteiro assistindo o paciente, ali do lado do paciente (...) tem enfermeiros, equipe no geral, que tem comprometimento, tem responsabilidade, se responsabilizam pelo serviço. (Enf. 16) O paciente visivelmente, porque ele estava com o abdome cheio de líquido, que não deixava o pulmão dele expandir e ele respirar melhor. Então, imediatamente eu detectei, disseram: “_como você fez isso?” Olhar para o doente entendeu (...) às vezes tem enfermeiro que trabalha em dois, três lugares, tem pessoas, infelizmente isso são em todas as profissões, que estão ali para ganhar dinheiro (...) vem também a questão da responsabilidade profissional, então tem enfermeiro realmente que vê as coisas e ele finge que não vê, para ele é mais cômodo. (Enf. 14) Acho que o maior exemplo aqui em termo de comprometimento dentro da terapia intensiva é a questão da aspiração em vias aéreas, que é um momento que todas as pessoas, não existe uma obrigatoriedade profissional, é função de fulano, a aspiração é um momento de necessidade do paciente que pode surgir em qualquer situação (...) quando você vê uma pessoa próxima, e não faz essa aspiração porque não é função ou porque o paciente não é o da escala. (Enf. 7) Esta questão do comprometimento e engajamento com a assistência se mostra mais forte nas mulheres, com idade e tempo de formação elevadas e que escolheram atuar no setor, podendo ser visualizada na maneira de execução dos procedimentos e técnicas durante as ações profissionais, como ratifica esta enfermeira quando comenta sobre os tipos de cuidar. (...) Os meus curativos têm que ser ali certinhos, bonitinhos, eu não gosto de coisas assim, então às vezes você vê uma falta de capricho, às vezes eu pego um paciente, uma falta de capricho na execução dos curativos ou na higiene oral inadequada, na fixação do tubo, isso me incomoda muito (...) no geral, todo mundo assim, mantém aquela rotina de fazer, a diferença está nos detalhes, nas coisas pequenas. (Enf. 19) Com um número de 06 ocorrências no corpus, o envolvimento com o cliente citado pelas mulheres desponta como outro indicativo da perspectiva de ação adotada pelo profissional. Isto quer dizer que para eles, importam além das informações clínicas pautadas no processo saúde-doença, a vivência do cliente situada no seu contexto de vida acerca do adoecimento. Neste sentido, valoriza-se o diálogo com ele e família, com vistas à apreensão de demandas que requeiram intervenções, aproximando-se, por fim, da ideia de cuidado integral. Acho que existem diferenças na forma de trabalhar, tem pessoas que são mais secas, estabelecem uma relação mais profissional com o paciente, vou lá, vou avaliar meu paciente, vou fazer o que tenho que fazer, sai dali, pronto e acabou, e se tiver que voltar para fazer uma coisa vão voltar e tudo. 207 Mas tem pessoas que não tem esse perfil, que de repente tem pessoas, como eu já ouvi falar aqui: “_ah, não me coloca com paciente acordado, eu prefiro paciente sedado”, “_ah, não me coloca com esse paciente, porque esse paciente solicita”. Tem também pessoas, que acho que às vezes que não valorizam alguns sentimentos do paciente, não dão importância a alguns sentimentos ou banalizam alguns sentimentos, se o paciente está depressivo, é queixoso, é choroso, às vezes não dão tanta importância a isso. (Enf. 8) Então tem aquele outro enfermeiro que fica lá e que pede para fazer, que às vezes até avalia o doente, mas não se envolve com o doente, na problemática toda do doente para tentar resolver a vida do doente. E tem gente que se aproxima e se envolve (...) porque tem gente que acho que sabe se envolver na terapia intensiva, aí se envolve