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Universidade Federal do Rio de Janeiro
A OCUPAÇÃO DAS TERRAS DOS PALMARES DE PERNAMBUCO
(SÉCULOS XVII E XVIII)
Felipe Aguiar Damasceno
2018
A OCUPAÇÃO DAS TERRAS DOS PALMARES DE PERNAMBUCO
(SÉCULOS XVII E XVIII)
Felipe Aguiar Damasceno
Tese de doutoramento apresentada ao Curso de Doutorado do Programa de
Pós-graduação em História Social do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais
da UFRJ como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de doutor
em História Social.
Linha de pesquisa: Sociedade e Economia
Orientadora: Manoela da Silva Pedroza
RIO DE JANEIRO
2018
FOLHA DE APROVAÇÃO
Tese de doutoramento apresentada ao Curso de Doutorado do
Programa de Pós-graduação em História Social do Instituto
de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ como parte dos
requisitos necessários à obtenção do título de doutor em
História Social.
Aprovada por:
____________________________________________________________
Profª. Drª. Manoela da Silva Pedroza – Presidente 
____________________________________________________________
Profª. Drª. Carmen Margarida Oliveira Alveal
____________________________________________________________
Prof. Dr. Gustavo César Machado Cabral
____________________________________________________________
Prof. Dr. José Vicente Serrão
____________________________________________________________
Profª. Drª Sílvia Hunold Lara
Para Vanda e Wilson
AGRADECIMENTOS
Ao fim do processo de pesquisa de doutorado, as dívidas acumuladas são enormes, tão grande
quanto o risco de não declarar algumas delas por esquecimentos. Mas é um necessário e saudável
exercício.
Agradecemos ao CNPq e à CAPES pelo financiamento desta pesquisa, através de bolsas de
doutorado e doutorado sanduíche no exterior, sem o qual ela teria sido ainda mais difícil.
Agradecemos a orientação da professora Manoela da Silva Pedroza, por comprar a ideia da
tese desde o início, mesmo que Palmares pudesse soar distante de seus temas de pesquisa recentes.
Ainda assim, a presteza e a disponibilidade para leituras, discussões, sugestões, indicações,
incentivo, enfim, foi essencial para a finalização do trabalho.
Através da professora Manoela, conhecemos o LEHS-UFRJ, onde as leituras em conjunto de
partes desta tese foram de extrema importância para os momentos inciais do trabalho, e aos
membros do Laboratório de Experimentação em História Social só tenho a agradecer.
Às professoras Sílvia Lara e Hebe Mattos, agradecemos a participação na qualificação deste
trabalho, em 2016. Procuramos ao máximo dar conta dos comentários e sugestões para o texto final.
Nas diversas instituições e arquivos visitados em busca de fontes de pesquisa, as dívidas são
gigantes. Seria injusto tentar citar todos que nos ajudaram ao longo da empreitada de conhecer e
escrutinar os registros documentais. Alguns nos veem à memória, e através deles queremos
agradecer a todos: Hildo e Emerson, funcionários do Arquivo Público Estadual Jordão
Emerenciano, no Recife; Jamerson, funcionário do Memorial da Justiça do Tribunal de Justiça de
Pernambuco, Recife; Ao professor Yony Sampaio e demais membros do Centro de Estudos de
História Municipal do Recife, pela acolhida, sugestões e pelo material bibliográfico fornecido.
Em Portugal, fomos recebidos com imensa atenção e disponibilidade pelo professor José
Vicente Serrão, do ISCTE-IUL, para estágio de doutorado sanduíche, em 2017. Sua orientação foi
muito valiosa para nossas idas aos arquivos portugueses, como a Torre do Tombo, as bibliotecas
Nacional de Portugal e da Ajuda, e o Arquivo Histórico Ultramarino. Passamos ainda uma semana
no Arquivo da Universidade de Coimbra. A todos os funcionários, em especial do atendimento ao
público, nosso reconhecimento pelo trabalho sério e comprometido que fazem.
Aos colegas que participaram da caminhada, no Brasil e em Portugal, nosso muito obrigado:
Henrique Sobral, João Fernando, Marcos Marinho, Ana Lunara, Thiago Mota, Glauber Florindo,
Arthur Curvelo, Cândido Domingues.
Aos muitos amigos que, nos últimos quatro anos, nos apoiaram de diversas formas, fosse
discutindo os temas de pesquisa, ou apenas ouvindo reclamações, ou ainda as lamentações e
amarguras do caminho, sentados em um bar qualquer, não temos como agradecer devidamente.
Felipe Soares, Vinícius Pereira, Érika Melek (mesmo longe) e João Paulo, desde a graduação na
UFF nunca deixaram de estar presentes.
Sem meus pais nunca teria chegado até aqui: Wilson e Vanda, para quem dedico a versão final
desta tese. Não há palavras.
Juliana foi a companheira de todas as horas. Foi o lado mais forte nesses últimos três anos em
que estivemos lado a lado. Sua força, amor e carinho me fizeram acreditar que dava para chegar ao
fim desta pesquisa, e que muito ainda é possível. Muito obrigado!
Ainda que os pontos fortes desta tese sejam reflexo das diversas contribuições ao longo dos
quatro anos, seus erros e omissões são exclusivamente de nossa responsabilidade.
RESUMO
A presente tese de doutorado analisa o processo de ocupação das antigas terras dominadas pelos
mocambos dos Palmares, na capitania de Pernambuco, entre os séculos XVII e XVIII. Num
primeiro momento, buscou-se identificar o domínio territorial quilombola nas matas dos Palmares, e
suas relações com a sociedade escravista envolvente. A partir de dados empíricos, foram propostos
mapas para as diversas conjunturas territoriais das ações quilombolas em Pernambuco, no século
XVII. Num segundo momento, buscou-se dar conta da distribuição de sesmarias na região, e as
questões de direito que suscitavam. Por fim, através de um estudo focado em uma das áreas
conquistadas aos mocambos, tentou-se acompanhar o processo efetivo de ocupação e
institucionalização de uma área nova no império português, discutindo questões de territorialização,
direitos de propriedade e administração colonial, no antigo sertão palmarino, no século XVIII.
ABSTRACT
This dissertation analyzes the occupation process of the lands formerly dominated by the Palmares
maroons, in the captaincy of Pernambuco, Portuguese America, between the 17th and 18th
centuries. At first, it was sought to identify the maroons’ territorial domain in the Palmares
hinterland forests, and its relations with the surrounding slave society. From empirical data, maps
were proposed for the various territorial conjunctures of maroon resistance in Pernambuco, in the
17th century. In a second moment, it was tried analyze the distribution of sesmarias in the region,
and the questions of rights and law that they raised. Finally, through a study focused on one of the
areas conquered from the maroons, it was tried to follow the actual process of occupation and
institutionalization of a new region in the Portuguese empire, discussing issues of territoriality,
property rights and colonial administration in the ancient Palmares hinterlands, in the 18th century.
SUMÁRIO
Lista de Figuras, Mapas e Tabelas......................................................................................................12
Abreviaturas.......................................................................................................................................13
Introdução...........................................................................................................................................14
CAPÍTULO 1
Das primeiras fugas ao auge dos Palmares de Pernambuco, c. 1600-1674
1. Introdução..................................................................................................................................25
2. Historiografia de Palmares.........................................................................................................28
3. Palmares no início do século XVII............................................................................................314. Palmares durante a dominação holandesa e a restauração pernambucana, 1630-1653: Entradas,
expedições e viajantes....................................................................................................................33
5. Os Palmares pós-restauração pernambucana, 1654-1668..........................................................42
6. O apogeu dos mocambos de Palmares, 1669-1674...................................................................53
7. Conclusões.................................................................................................................................56
CAPÍTULO 2
Os mocambos de Palmares e a sociedade colonial em Pernambuco: resistência à escravidão,
produção e relações sociais (séculos XVII e XVIII)
1. Introdução..................................................................................................................................62
2. Brecha camponesa ou projeto camponês? Negociação e resistência à escravidão na colônia. .64
3. Economia quilombola em Palmares: famílias, roças e sua relação com o ecossistema sertanejo
.......................................................................................................................................................73
4. Relações sociais e campo quilombola.......................................................................................81
5. Conclusões.................................................................................................................................93
CAPÍTULO 3
Extermínio e silenciamento: o declínio do domínio palmarino na capitania de Pernambuco, 1674-
1715
1. Introdução..................................................................................................................................97
2. Recuperação econômica do setor açucareiro e o financiamento da repressão nos Palmares....98
3. Dos Palmares do governador Pedro de Almeida à campanha de Domingos Jorge Velho, 1674-
1716.............................................................................................................................................103
3.1. Por uma territorialização dos Palmares na década de 1670.............................................103
3.2. Do fracasso dos acordos de paz ao ataque do Terço de Domingos Jorge Velho..............115
4. Palmares após Zumbi: controle e silenciamento......................................................................125
5. Conclusões...............................................................................................................................130
CAPÍTULO 4
Sesmarias e direitos de propriedade na América Portuguesa: um percurso historiográfico
1. Introdução................................................................................................................................132
2. Sesmarias em Portugal: do surgimento ao declínio.................................................................132
3. Sesmarias e colonização: legislação e prática (1530-1822).....................................................136
4. Apropriação territorial e produção agrícola na colônia: conflitos entre posse e sesmaria.......145
5. A conjuntura pernambucana do século XVII: Palmares na dinâmica do sistema de sesmarias
.....................................................................................................................................................151
6. Conclusões...............................................................................................................................156
CAPÍTULO 5
Sesmarias de Palmares: concessões e disputas (1678-1775)
1. Introdução................................................................................................................................159
2. Primeiras sesmarias de Palmares: sesmeiros, localizações e disputas.....................................162
3. Paulistas no Piauí e nos Palmares: contratos, foro real e conflitos de direitos........................175
4. As sesmarias paulistas nos Palmares.......................................................................................184
5. Conclusões...............................................................................................................................193
CAPÍTULO 6
Depois de Palmares: ocupação e conflitos no Agreste de Pernambuco na primeira metade do século
XVIII
1. Introdução................................................................................................................................198
2. A família Vieira de Melo nos sertões de Palmares...................................................................199
3. Conquista e ocupação dos sertões do norte da América portuguesa: o caso do Ararobá........207
4. Conhecendo as terras palmarinas do Agreste pernambucano: os grandes sesmeiros do sertão
.....................................................................................................................................................216
5. Povoamento no sertão dos Garanhuns e Ararobá na primeira metade do século XVIII.........226
6. Conclusões...............................................................................................................................233
CAPÍTULO 7
Terra, gado e poder no antigo sertão palmarino: o Ararobá na segunda metade do século XVIII
1. Introdução................................................................................................................................237
2. O sertão do Ararobá na segunda metade do século XVIII: senhores e vaqueiros...................238
3. Conflitos e disputas nas antigas terras dos Palmares: os bandos do sertão do Ararobá..........245
4. Disputas em família: Antônio Vieira de Melo e Cristóvão Pinto de Almeida.........................247
5. Terras, disputas legais e instrumentalização da justiça local...................................................251
6. Contratos agrários e direitos de propriedade de Antigo Regime: alguns exemplos................264
7. Conclusões...............................................................................................................................268
Considerações Finais........................................................................................................................272
Fontes Consultadas...........................................................................................................................280
Referências Bibliográficas................................................................................................................282
12
Lista de Figuras, Mapas e Tabelas
Mapa 1 – Localização aproximada dos mocambos atacados em Pernambuco, c. 1600-1654......34
Tabela 1 – Expedição do governador Francisco de Brito Freire (1662)........................................46
Figura 1 – Ciclo agrícola dos engenhos baianos............................................................................80
Mapas 2 e 3: Produzidos por Edison Carneiro (1947).................................................................109
Mapa 4: produzido por Décio Freitas/H. A. Thofehrn (1982-84)................................................110
Mapa 5: Mocambos de Palmares, a partir da “Relação”, c. 1674................................................113
Mapa 6 – Mocambos destruídos pelos bandeirantes paulistas, c. 1692-1700.............................129
Mapa 7 – Mocambos de Palmares (século XVII)........................................................................162
Mapa 8 – Doações de sesmarias no contexto do tratado de paz (1678-1683).............................171
Mapa 9 – Sesmarias (1678-1702)................................................................................................174
Mapa 10 – Sesmarias concedidas aos combatentes ligados ao terço do mestre de campo paulista
Domingos Jorge Velho (1702-1775)............................................................................................189
Mapa11 – Sesmarias nos Palmares (1678-1775)........................................................................192
Figura 2 – Família Vieira de Melo...............................................................................................200
Mapa 12 – Sesmarias do Agreste e Quilombos nos Palmares, séc. XVII e XVIII......................224
Mapa 13 – Sítios e fazendas nas sesmarias do Agreste até 1750.................................................233
Mapa 14 – Sítios e fazendas sequestrados a Antônio Vieira de Melo, 1761...............................259
Tabela 2 – Testemunhas ouvidas pelo Juiz Ordinário do Ararobá em 1759, em devassa contra
Antônio Vieira de Melo...............................................................................................................260
13
Abreviaturas
AHU – Arquivo Histórico Ultramarino (Lisboa)
ABN – Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro
ANTT – Arquivo Nacional da Torre do Tombo (Lisboa)
APEB – Arquivo Público do Estado da Bahia
APEJE – Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano (Recife)
AUC – Arquivo da Universidade de Coimbra
BA – Biblioteca da Ajuda (Lisboa)
BNL – Biblioteca Nacional de Portugal (Lisboa)
BPE – Biblioteca Pública de Évora
DH – Coleção Documentos Históricos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro
DHP – Documentação Histórica Pernambucana (Sesmarias) da Biblioteca Pública do Recife
FCG – Fundo Cartório de Garanhuns do APEJE
FOC – Fundo Orlando Cavalcanti do Arquivo do IAHGP
IAHGP – Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano
IHGAC – Instituto Histórico, Geográfico e Antropológico do Ceará
IHGAL – Instituto Histórico e Geográfico Alagoano
IHGB – Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro
NL-HaNA, OWIC – Arquivo Nacional da Holanda (Haia), Fundo Oude West-Indische Compagnie
MJ-TJPE – Memorial da Justiça do Tribunal de Justiça de Pernambuco
14
Introdução
“E se o nome do governador dos negros era ‘Zumbi’,
esta foi a maior notícia que se viu, e se era ‘Zambi’,
esta é a maior vitória que se viu, nem se há de ver;
‘Zumbi’ quer dizer demônio; vencer um demônio
armado em campo é triunfo só de Deus. ‘Zambi’ quer
dizer Deus; vencer um Deus nunca se viu nem se há
de ver. Esta é, fiéis, a vitória de que viemos aqui dar
graças ao senhor sacramentado; vitória que só um
Deus alcança; vitória que nunca se viu, nem se há de
ver.”
Antônio da Silva, vigário da Igreja Matriz do Recife,
Pernambuco, 1694.1
O sermão escrito e proferido pelo vigário da Matriz do Recife, Antônio da Silva, em 1694,
fora uma grande elegia para a vitória alcançada pelas tropas coloniais, a mando do governador
Caetano de Melo de Castro (o grande herói, para o vigário), sobre os quilombolas liderados por
Zumbi, na Serra da Barriga. Igualava Zumbi a um deus ou um demônio, e seu algoz era igualmente
divinizado. A certa altura do texto, o religioso escreveu que “neste [na vitória sobre Zumbi] tudo é
paz, tudo é descanso, tudo é sossego”.2
O discurso decretava o fim da guerra e o retorno do sossego dos moradores da capitania,
abalado desde a invasão holandesa (1630). Uma espécie de “pacificação” dos sertões da capitania.
Outro documento corroborava a versão, mas deixando claro que o líder palmarino havia conseguido
escapar da empreitada, no dia 6 de fevereiro de 1694.3 A queda dos rebeldes em fuga de um
penhasco na Serra da Barriga, onde muitos teriam morrido, é comparada a passagens bíblicas, de
maneira a confirmar o caráter épico e divino do feito. A verdade é que Zumbi só seria assassinado
em 20 de novembro do ano seguinte, e as batalhas pelas terras dos Palmares de Pernambuco se
estenderiam ainda pelo século XVIII, com outras lideranças quilombolas à frente.
Mas o que acontece depois? A história da região segue, mas a historiografia de Palmares
nunca deu muita atenção para seu destino, limitando-se a observar que diversos combatentes das
guerras contra os mocambos teriam recebido terras em sesmarias na região.
1 “Sermão feito na matriz do Recife de Pernambuco, estando o Santíssimo exposto na ação de graças que deu V. S. o
governador e capitão general Caetano de Melo e Castro, pelo serviço feliz que alcançou dos negros dos Palmares,
em 6 de fevereiro de ano de 1694.”, [Sermões e poemas de matéria histórica e religiosa], BNL-Res. Cód. 6751, fl.
16v.
2 Idem, fl. 15v. Sobre o discurso religioso e senhorial contra Palmares, VAINFAS, Ronaldo. “Deus contra Palmares –
representações senhoriais e ideias jesuíticas”. In: GOMES, F. S.; REIS, J. J. (org.) Liberdade por um Fio. História
dos Quilombos no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, pp. 60-80.
3 “Relação verdadeira da guerra que se fez aos negros levantados do Palmar, em 1694. Anónima e sem data.” BNL-
Res. Cód. 11358//37, fls. 75-101. Nesta tese usaremos a versão publicada por OLIVEIRA, Maria Lêda. “A primeira
Rellação do último assalto a Palmares.” In: Afro-Ásia, 33, (2005), pp. 251-324.
15
É quase impossível decretar uma data para o fim da Guerra dos Palmares. É possível apenas,
como já fizeram outros, apontar para a permanência das referências aos mocambos palmarinos, ou
aos “negros levantados”, ou “rebeldes”, na documentação oficial da época.4 A referência mais
recente à repressão contra os quilombos nos Palmares, por nós encontrada, é de 1829.5
Esta pesquisa, originalmente, buscava respostas sobre possíveis comunidades quilombolas,
remanescentes dos Palmares, que ainda ocupavam o mesmo território disputado ao longo do século
XVII, no século XVIII. Acreditávamos que poderíamos vislumbrar suas relações com os novos
ocupantes da região: basicamente as forças repressivas responsáveis pela destruição das
comunidades originais. Mas as fontes do século XVIII silenciam acerca dos Palmares, sendo
esporádicas referências diretas a possíveis comunidades mocambeiras ainda na região.
Compreendendo que a “pacificação” da região nunca ultrapassou o discurso colonial, e que as
disputas entre quilombolas e senhores de escravos não eram um processo progressivo, linear, em
direção à destruição e aniquilação das comunidades; que esses embates comportavam avanços e
recuos, para ambos os lados, e que se espalhavam por um amplo espaço em disputa, o enfoque se
voltou para as possibilidades empíricas de pesquisa. Buscamos, então, compreender o processo de
ocupação da chamada região dos Palmares, na capitania de Pernambuco, entre os séculos XVII e
XVIII. A hipótese é de que, a partir da documentação era possível mapear aquele espaço em disputa
entre pretensos senhores de terras e negros rebeldes quilombolas. A partir daí, poderíamos observar
a ocupação e territorialização do espaço, ao longo do século XVIII, discutindo formas de
apropriação territorial e de estrutura social que emergiam naquele processo.
O tema dos mocambos de Palmares têm recorrentemente voltado à academia, alimentado por
novas pesquisas que, como esta, se beneficiam das novas tecnologias que facilitam o acesso a fontes
documentais e secundárias. Ao longo dos capítulos, procuraremos abordar esta historiografia,
sempre atentando para suas lacunas a respeito do destino das terras palmarinas – tão lembradas
pelas fontes documentais, como as melhores terras da capitania, que continha os melhores pastos
para a criação de gado, ou a reserva de madeira florestal mais importante da América portuguesa.
Mesmo trabalhos de síntese bastante completos, como o livro de Ivan Alves Filho,6 não ousam
propôr uma leitura da espacialidade da experiência de Palmares. Coube a nós, então, tentar discernir
na documentação, lugares, acidentes geográficos, topônimos, enfim, encontrar os vestígios da
4 Flávio Gomes localizou as últimas referências na década de 1740. Cf. GOMES, Flávio dos Santos. Mocambos de
Palmares. Histórias e fontes (séculos XVI-XIX). Rio de Janeiro: 7 Letras, 2010.
5 Infelizmente os ofícios do governo de Pernambuco de 6 e 7 de março de 1829 estão praticamente ilegível. Cf. 1829,Março, 06 – Recife. Ofício do Governador de Pernambuco, Thomas Xavier Garcia de Almeida, ao Desembargador
Ouvidor Geral do Crime Gustavo Adolfo Aguilar, sobre proceder à devassa aos roubos e assassinatos praticados
pelos negros dos Quilombos dos Palmares e Catucá e seus cumplices; e 1829, Março, 07 – Recife. Ofício do
Governador de Pernambuco, Thomas Xavier Garcia de Almeida, ao Desembargador Ouvidor Geral do Crime
Gustavo Adolfo de Aguilar, sobre remeter preso a sua ordem por ser consórcio dos negros do Quilombo do Catucá
José de Santa Anna, APEJE, Ofícios do Governo de Pernambuco, 31, fls. 31v-32.
6 Originalmente uma dissertação de mestrado defendida na Franca, em 1978. cf. ALVES FILHO, Ivan. Memorial dos
Palmares. Brasília: Fundação Astrojildo Pereira, 2008 [1ª ed. de 1988].
16
ocupação quilombola, para, em seguida, compreender como esta deu lugar, violentamente, a um
território “plenamente” integrado ao Império ultramarino português.
A leitura das fontes clássicas consultadas pela historiografia de Palmares foi feita, por nós,
com objetivos muito claros, quais sejam, identificar os espaços de atuação quilombola na capitania
de Pernambuco, de modo que pudéssemos comprovar, primeiro, quais terras de fato constituíam os
tais Palmares de Pernambuco – a região de mata e campinas, que hoje corresponde a partes do
Agreste e Zona da Mata dos estados de Pernambuco e Alagoas –, e como elas foram
progressivamente ocupadas pelas tropas coloniais – que nada mais eram do que exércitos de
moradores, jovens e velhos, das freguesias próximas, as chamadas Ordenanças. Ainda que a tropa
mais lembrada pela destruição de Palmares seja o Terço pago dos paulistas de Domingos Jorge
Velho, o modus operandi não difere muito, nem no avanço sobre as comunidades, nem na posterior
forma de assentamento nas regiões conquistadas, através das sesmarias concedidas, quase que
exclusivamente, aos oficiais militares.
A historiografia sobre o instituto das sesmarias no Brasil é bastante consolidada, e conta com
inúmeras contribuições – destacando-se aqui as páginas de Ruy Cirne Lima (1954), Lígia Osório
Silva (1991), Márcia Motta (1996), e Carmen Alveal (2007), dentre outros. Entre os séculos XVII e
XVIII, o instituto sofre diversas modificações através de ordens, cartas e alvarás régios que
buscaram dar melhor ordenamento às concessões e diminuir dúvidas e contendas. As distribuições
de sesmarias ns Palmares de Pernambuco se insere justamente na passagem do que Lígia Silva7
denominou de primeiro para o segundo “sesmarialismo brasileiro” (c. 1530-1695 e c.1695-1795,
respectivamente). Por ter sido a forma por excelência da ocupação territorial titulada na América
portuguesa, até 1822, dedicaremos um capítulo a discussão específica do instituto das sesmarias.
Neste trabalho, busca-se uma visão sobre a propriedade que privilegie as relações sociais que
a constituíam no assim chamado Antigo Regime nos trópicos,8 chamando atenção para as práticas
proprietárias que se encontram nas entrelinhas da documentação. Neste sentido, veremos como a
ocupação das grandes sesmarias nos Palmares pode nos remeter a práticas proprietárias regidas
pelas noções de “efetividade” e de “propriedade imperfeita”, consagradas no ordenamento jurídico
medieval europeu.
Segundo o jurista e historiador italiano Paolo Grossi, no ordenamento jurídico medieval
europeu o direito está enraizado9 nas relações sociais, e não se pretende acima delas. São elas que
7 SILVA, Lígia O. Terras devolutas e latifúndio: efeitos da Lei de 1850. 2ª Ed. Campinas: Ed. da Unicamp, 2008, pp.
56-74.
8 Remeto aqui somente à coletânea seminal que inaugura esta perspectiva na historiografia brasileira, dados os
limites deste artigo. Cf. FRAGOSO, J.; BICALHO, M. F.; GOUVÊA, M. F. (orgs.) Antigo Regime nos trópicos: a
dinâmica imperial portuguesa (séculos XVI-XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
9 Para tratar do direito e dos direitos de propriedade enquanto construção social, alude-se aqui à ideia de “economia
enraizada”, desenvolvida por Karl Polanyi para mostrar como a Economia nas sociedades pré-capitalistas estava
imersa nas relações sociais. Ver, POLANYI, Karl. “A economia enraizada na sociedade”. In: __. A subsistência do
homem e ensaios correlatos. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012, pp. 95-106. 
17
dão a solidez das normas e costumes não-escritos, porém severamente observados.10 Assim, o
campo do direito nas idades média e moderna não pode ser deduzido de, ou reduzido a, outras
esferas da vida social, como a economia, a cultura, a dominação de classe, religião, etc. “O social e
o jurídico tendem a se fundir, e é impensável uma dimensão jurídica vista como mundo de formas
puras ou de simples comandos separados por uma substância social”, que seria a marca do
ordenamento jurídico moderno do a partir do século XIX. A dimensão do direito na idade média
funde-se com a realidade objetiva dos fatos sociais e econômicos. Não há um conjunto de regras e
normas puras e abstratas a ser comparado com a realidade objetiva, mas sim a realidade das
relações sociais faz emergir regras submersas na cultura, nos costumes e na experiência, que julga
os fenômenos jurídicos e arbitra as disputas por direitos, sem uma codificação positiva unificada. O
“império da efetividade”, o “pluralismo de situações de acesso”, “posse e propriedade sobre a
terra”, são algumas expressões que o autor utiliza para descrever como o ordenamento jurídico
emerge da experiência social e econômica dos atores históricos.11 No caso dos direitos de
propriedade, estes são então construídos historicamente pelo seu efetivo exercício entre os atores
históricos das diversas sociedades, e não simplesmente ditados por códigos escritos alheios ao jogo
político e social.
Rosa Congost, por exemplo, defende que abandonemos a dicotomia teórica, evolucionista e
juridicista, entre uma “propriedade perfeita”, consagrada pelo ordenamento jurídico liberal,
individual, absoluta e excludente, e uma “propriedade imperfeita”, pré-capitalista, arcaica, e que,
segundo os estudos históricos e econômicos de viés liberal, teria sido um grande entrave para o
crescimento econômico ocidental, com seu caráter feudal, coletivo e fracionado. Segundo a autora,
muito mais frutífero do ponto de vista histórico seria a análise das “condições de realização da
propriedade”: para além de marcos jurídicos e institucionais, se trata de observar o conjunto de
forças de atração e de repulsa, relacionadas à distribuição social da terra, de seu produto e de suas
rendas, que intervêm e interagem na sociedade analisada. As diversas modificações nas relações
sociais de propriedade nem sempre são acompanhadas de mudanças nos códigos e leis de maneira
correspondente, pois, por princípio, os códigos e leis tentam “encapsular” e tornar estática, como
uma fotografia, uma determinada formação social em constante mutação. Assim, é dever do
historiador observar como uma dada sociedade enxergava, em seus diversos momentos, as relações
sociais que construíam os direitos de propriedade, e não analisá-los a partir de um enfoque
evolucionista dos códigos jurídicos rumo à propriedade privada exclusiva.12 Trata-se, portanto, de
conceber a propriedade como “reflexo, produto e fator das relações sociais existentes”,
10 GROSSI, Paolo. “Justiça como lei ou lei como justiça”. In: Mitologias jurídicas da modernidade. Florianópolis:
Boiteux, 2007, pp. 27-29. 
11 GROSSI, Paolo. História da Propriedade e outros ensaios. Rio de Janeiro; São Paulo; Recife: Renovar, 2006, p. 44.
12 CONGOST, Rosa. Tierras, leyes, historia: estudios sobre “la gran obra de la propiedad”. Barcelona: Crítica, 2007,
pp. 22-23.
18
questionando discursos sobre a propriedade e a justiça que apenas servem para naturalizar e
justificaras diversas ordens sociais existentes nas distintas sociedades.13
É preciso compreender que o sentido de proprietário, no Antigo Regime, era bastante
diferente da ideia de propriedade privada moderna, absoluta, exclusiva e excludente. A “propriedade
partida” era a norma da apropriação territorial, e os direitos de propriedade dos sesmeiros
coexistiam com os direitos de donatários (em caso de capitanias hereditárias), da Coroa (em caso de
capitanias reais), de foreiros e rendeiros, e mesmo de posseiros, divididos em direitos de uso e
usufruto dos terrenos; concessões as mais variadas, como aforamentos, arrendamentos, direitos de
herança, etc. O que estava em jogo, para os sesmeiros, era sua capacidade de fazer com que seus
“senhorios coloniais”14 fossem reconhecidos frente aos demais direitos proprietários que incidiam
sobre uma mesma parcela de terras – o objetivo dos sesmeiros era garantir o assenhoramento dos
terrenos, isto é, o domínio sobre as terras e gentes dentro de sua “jurisdição”, e não a expulsão de
outrem para a afirmação de seus direitos de propriedade privada.15
O espaço, portanto, é tema fundamental deste trabalho. Por se definir como “o estudo do
homem no Tempo”,16 a interface entre a História, enquanto disciplina moderna, e a Geografia
sempre foi mediada por conceitos que privilegiassem a ideia de processo, de diacronia, onde o
espaço pudesse ser apreendido a partir do desenrolar das relações humanas que o conformavam.
Portanto, indo além de Marc Bloch, a História, a partir do diálogo já secular com a Geografia, pode
ser entendida como o estudo do homem no Tempo e no Espaço, seja ele físico, político, social, etc.
Daí a centralidade de conceitos como espaço, região e território para este diálogo entre as
disciplinas.17
Dos estudos clássicos de geografia humana e de sua interface crítica com a historiografia, a
sociologia e a geografia crítica francesa,18 emergiram noções como paisagem, região e território,
que complexificavam a noção de espaço, fundadora da disciplina geográfica, ao passo que
forneciam ferramentas novas às pesquisas historiográficas.
13 CONGOST, Rosa. “¿Qué es la propiedad en la época moderna?” Comunicação apresentada ao IV Encontro
Internacional de História Colonial, Belém, 3 a 6 de setembro de 2012, p. 6.
14 Cf. ALVEAL, Carmen. “De senhorio colonial a território de mando: os acossamentos de Antônio Vieira de Melo no
Sertão do Ararobá (Pernambuco, século XVIII)”. In: Revista Brasileira de História, vol. 35, n. 70, 2015, pp. 41-64.
15 Remeto aqui ao capítulo 2 da tese de doutorado inédita, ainda a ser defendida no PPGH-UFF, de Manoela Pedroza,
intitulado provisoriamente como “A construção do senhorio jurisdicional em Portugal e nos trópicos”. Agradeço a
autora pelo acesso ao texto.
16 BLOCH, Marc. Apologia da História. Rio de Janeiro: Zahar, 1997, p. 55.
17 BARROS, José D’Assunção. “Geografia e História: uma interdisciplinariedade mediada pelo espaço”. In:
Geografia, (Londrina), v. 19 n. 3, 2010, pp. 67-84. Disponível em
http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/geografia/article/viewFile/4627/6839. Acessado em março de 2018.
18 Vale citar aqui os estudos que fundaram este diálogo: VIDAL DE LA BLACHE, Paul. Tableau de la Géographie de
la France. Paris: La Table Ronde, 1996 [original: 1903]; FEBVRE, Lucien. A Terra e a Evolução Humana.
Introdução Geográfica à História. 2ª ed. Lisboa: Cosmos, 1991 [original: 1922]; BRAUDEL, Fernand. La
Méditerranée et le monde méditerranéen à l’époque de Philippe II. Paris: Minuit, 1966; LACOSTE, Yves. A
Geografia – isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra. Campinas: Papirus, 1988 [original: 1976];
BOURDIEU, Pierre. “A identidade e a representação: elementos para uma reflexão crítica sobre a ideia de região”.
In: __. O Poder Simbólico. 5ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002 [original: 1980].
http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/geografia/article/viewFile/4627/6839
19
Pode-se dizer que, no espaço geográfico indefinido, a ação humana cria padrões de relações,
uma lógica de movimento interno que singulariza determinado espaço, delimitando-o a partir desta
mesma lógica, mais ou menos homogênea e sistemática, de funcionamento. Assim, surge a região,
um recorte humano e historicamente determinado no espaço físico ou natural.19 Seus determinantes
podem ser de ordem socioeconômica (o movimento da produção e a inserção dos atores sociais
nele), político-jurídica (jurisdições de poder estatal), cultural (relações étnicas), dentre outras.
Foi pensando nestes termos que Ilmar de Mattos, por exemplo, diferenciou a região de
agricultura mercantil-escravista, que englobava as unidades produtivas exportadoras tanto na zona
litoral da Mata Atlântica, quanto nos sertões do Brasil colonial; da cidade colonial, as vilas com
suas câmaras. Embora em ambas as regiões fossem marcadas pelas interações entre colonizadores,
colonos e colonizados, os padrões de interação se distanciavam: enquanto na primeira as relações
sociais eram marcadas pela interação entre colonos e colonizados – senhores de terras e gentes
exercendo domínio econômico e social sobre seus subordinados, escravos negros africanos e
crioulos, indígenas e lavradores pobres –, na cidade colonial, as relações sociais eram marcadas
pelos conflitos e barganhas entre colonos e colonizadores, agentes metropolitanos e a elite agrária
local, representada nas câmaras.20
…se a região possui localização espacial, este espaço já não se distingue tanto por suas
características naturais, e sim por ser um espaço socialmente construído, da mesma forma que,
se ela possui localização temporal, este tempo não se distingue pela sua localização meramente
cronológica, e sim como um determinado tempo histórico, o tempo da relação colonial.21
A dominação só é possível a partir do desdobramento da empresa marítima e mercantil em
empreendimento colonizador, para Mattos. A região é, portanto, determinada, no tempo e no espaço,
pelas relações sociais que a constituem. Ela expressa a dominação do colonizador sobre um espaço,
sobretudo sobre os demais agentes históricos que o compõem.
Já o conceito de território tem a ver a apropriação, concreta ou abstrata, de um determinado
espaço por um sujeito. Assim, essa apropriação pode ser material, concreta, como o estabelecimento
de jurisdições políticas e a delimitação de fronteiras nacionais, com seu aparato de ordenamento
correspondente. Ou ainda, pode ser ideal, no nível das representações, como um mapa produzido
por um pesquisador ou uma autoridade, que visa, de qualquer forma, um controle sobre a
representação de determinado espaço.22 A territorialização do espaço é ação humana consciente, que
visa controle e ordenamento, logo, é um processo de disputa entre expectativas conflitantes – de
grupos sociais distintos, classes antagônicas, etc. –, de eterno territorializar e reterritorializar.
19 BARROS, “Geografia e História”, pp. 70-71.
20 MATTOS, Ilmar Rohloff. O Tempo Saquarema: a formação do Estado imperial. 4ª ed. São Paulo: HUCITEC, 2004,
cap. 1.
21 Idem, p. 36.
22 BARROS, “Geografia e História”, pp. 80-81.
20
No contexto do Império Ultramarino português, pensar direitos de propriedade é, também,
pensar em processos de territorialização. Seguindo José Serrão, o território é um espaço político
acima de tudo, onde conceitos como jurisdição e soberania são exercidos na prática social
cotidiana.“Território é, então, um conceito material, ainda que inseparável da noção de exercício de
direitos.”23 Pensando na América portuguesa, a construção do território colonial dependia da
capacidade da Coroa de exercer sua soberania sobre as porções de terra. O que era tentado através
das instituições da administração colonial (vilas, câmaras, tribunais, cargos civis e militares,etc.).
As jurisdições das sesmarias podem ser entendidas como um exercício de direitos, e, então, como
uma forma de territorialização do espaço na América portuguesa. No entanto, o caso das terras
pernambucanas do antigo quilombo dos Palmares tem mostrado que estes territórios são disputados,
mesmo após as instituições se instalarem. Ou melhor, a territorialização não é um processo dado
pelas instituições, regras e leis do Império português, mas um processo histórico que envolve
práticas diversas de exercício de direitos e disputas sobre a dinâmica de territorialização. Serrão
escreve que, “direitos de propriedade sobre a terra [domínio privado] pressupunham um território
[soberania] na mesma medida em que um território não existiria sem terras.”24 
Se o soberano precisava estabelecer um território delimitado espacial, política e juridicamente
para poder conceder direitos de propriedade a seus súditos sobre este espaço, no caso dos impérios
do ultramar, a progressiva construção deste território também dependia do apossamento e ocupação
individuais pelos súditos, que só após a descoberta e conquista do chão de terras – muito comum no
caso das sesmarias do sertão – comunicavam e pediam a confirmação de seus direitos ao soberano.
Assim, disputas por direitos sobre o chão de terra tinham reflexos no exercício da soberania
imperial portuguesa: quando havia indefinição entre os colonos, rapidamente a Coroa era chamada a
arbitrar os litígios enquanto parte interessada nas rendas que a territorialização dos espaços lhe
garantia – a indefinição dos direitos de propriedade podia prejudicar a fiscalidade do Império.
Em diversos momentos veremos como Palmares representava esta indefinição de direitos
proprietários – justamente porque os quilombolas acabavam por disputar o domínio efetivo das
terras com pretensos sesmeiros e proprietários.
*****
As fontes de pesquisa documental para Palmares são extremamente dispersas e diversas. Os
fundos mais importantes permanecem os documentos avulsos para as capitanias do Norte da
América portuguesa, depositados no Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa. Pioneiramente,
23 SERRÃO, José Vicente. “Property, land and territory in the making of overseas empires”. In: SERRÃO, José V.;
DIREITO, Bárbara; RODRIGUES, Eugénia; MIRANDA, Susana M. (eds.) Property Rights, Land and Territory in
the Europeans Overseas Empires. Lisbon: CEHC-IUL, 2014, p. 8.
24 SERRÃO, “Property, land and territory…”, p. 8.
21
Ernesto Ennes compilou, em dois livros, boa parte dessa documentação, ainda na primeira metade
do século XX.25 Hoje essa documentação está disponível ao pesquisador graças ao famoso Projeto
Resgate, disponibilizado atualmente, online, no site da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.
Também os códices depositados no mesmo Arquivo, com compilações de ordens régias e despachos
do Conselho Ultramarino, contém informações valiosas sobre Palmares – os primeiros a consultar
essa documentação e apresentar em suas sínteses sobre o tema foram Décio Freitas e Ivan Alves
Filho.
Paralelamente, há as compilações das cartas dos governadores de Pernambuco, entre 1652 e
1746, guardadas no Arquivo da Universidade de Coimbra: as chamadas Disposições dos
governadores de Pernambuco. Documentação conhecida pelo trabalho de Evaldo Cabral de Mello,
foi Sílvia Lara quem primeiro a referenciou para discutir os quilombos de Palmares.26 Como lembra
a própria autora, este conjunto de evidências tem o potencial de complementar a documentação do
Arquivo Histórico Ultramarino, uma vez que este concentra a comunicação entre colônia e
metrópole, e aquele a circulação interna, em Pernambuco e capitanias anexas, de informações as
mais variadas.
O outro conjunto importante de fontes aqui utilizado foi a documentação cartorial para o
agreste de Pernambuco, onde pudemos ir além das cartas de sesmarias, e observar a efetividade da
ocupação territorial. Consiste em processos cíveis e criminais do chamado juízo ordinário, a
primeira instância em geral, no Brasil colonial. Estas fontes estão bastante fragmentadas, e cobrem
bem mais a segunda metade do século XVIII, apesar de conter informações valiosas sobre a
primeira. O que no século XIX virou a antiga comarca de Garanhuns, no XVIII era chamado ainda
de sertão do Ararobá. Nele estavam os campos dos Garanhuns importante região de criação de
gado. Formado por grandes sesmarias do século XVII, os direitos de propriedade de seus sesmeiros
se viram inviabilizados pelas Guerras dos Palmares, e a ocupação da região só deslancha a partir da
década de 1710.
Esse processo de ocupação gerou um enorme volume de processos judiciais, os quais hoje,
encontramos em, pelo menos, três fundos arquivísticos distintos. O primeiro, e talvez o maior – com
certeza o menos acessível – é Fundo Orlando Cavalcanti, do Arquivo do Instituto Histórico
Pernambucano. O volume da documentação não pôde ser determinado por nós ao longo da pesquisa
pela dificuldade de acesso, mas já foi quantitativamente mapeado por alguns poucos estudos –
falaremos deles nos capítulos finais da tese. O segundo, é o “Fundo Cartório de Garanhuns” do
Aquivo Público Estadual do Recife. Esta documentação, segundo apuramos, foi depositada no
25 ENNES, Ernesto. As guerras nos Palmares: subsídios para sua história. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1938; e
ENNES, Ernesto. Os primeiros quilombos: subsídios para sua história. Campinas: Biblioteca Hélio Vianna,
Unicamp, 1951. Exemplar datilografado inédito.
26 LARA, Sílvia H. Palmares & Cucaú: o aprendizado da dominação. Tese (Titularidade em História do Brasil) –
Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2008
22
Arquivo na década de 1980, trazida de Garanhuns, mas nunca foi devidamente tratada e catalogada.
Apesar do fácil acesso, o emaranhado da documentação não facilita o trabalho do pesquisador. Por
último, temos o Arquivo Memorial da Justiça, do Tribunal de Justiça de Pernambuco, também no
Recife. É onde os maços de processos da comarca de Garanhuns estão melhor preservados e
catalogados, ainda que com alguns erros de informações em ementas. No geral, toda essa
documentação apresenta bom estado – ainda que haja vários processos, para o século XVIII,
ilegíveis – sendo a falta de tratamento arquivístico adequado e a fragmentação dos livros cartoriais
nestas três instituições diferentes os maiores obstáculos para a pesquisa.
Procurou-se tratar as fontes documentais jurídicas (processos civis tocantes a inventários,
justificações, registros de testamentos, procurações, partilhas, litígios de terras, etc.) como fontes de
um universo de práticas e ideias expressas pelos atores, ainda que inconscientemente. Dos
processos judiciais se pôde extrair relatos de práticas socialmente legitimadas, ainda que, no
contexto de um processo específico, não podermos saber se o relato contém a verdade dos fatos. E
nem nos interessa saber, a medida que não nos colocamos no lugar do juiz de então. Mesmo os
relatos falsos tinham que guardar certa verosimilhança com o mundo das práticas sociais cabíveis e
aceitáveis, de modo a se sustentarem dentro de um processo. Esta é a porta de entrada para as
relações sociais geográfica e historicamente determinadas. Não nos interessou a verdade positivista
do documento e das falas que o constituía, mas sim a verdade social, que mesmo mentiras e
exageros não podem deixar de explicitar. Como diria Thompson, a pretensa universalidade do
direito é, dialeticamente, sua força e sua fraqueza enquanto instrumento de dominação de classe,
uma vez que todo discurso jurídico precisa, mesmo para oprimir os subalternizados, de legitimidade
nas práticas e ideias hegemônicas numa determinada formação social.27
O recorte específico destas fontes se deveuao simples fato da possibilidade de acesso, uma
vez que fontes cartoriais para os séculos XVII e XVIII, da capitania de Pernambuco e anexas, são
raras. Desse modo, ainda que procuremos localizar a totalidade das doações de sesmarias referentes
aos Palmares de Pernambuco, não nos foi possível adentrar o processo de ocupação de várias dessas
áreas devido a escassez de fontes – ou a não localização destas.
*****
A tese está organizada em sete capítulos. O Capítulo 1 busca abordar as diversas conjunturas
dos mocambos de Palmares nos três primeiros quartéis do século XVII. Primeiro, abordamos,
rapidamente, a forma como a historiografia sobre o tema tratou das diferenças entre as diversas
fases da história de Palmares. Em seguida, mergulhamos nas fontes primárias para discernir esta
27 THOMPSON, Edward Palmer. Senhores e caçadores. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997, especialmente suas
conclusões.
23
história em quatro períodos distintos, até 1674, quando, como tentamos demonstrar, a experiência
de crescimento, em poder e população, dos mocambos chega a um limite. Os objetivos, no entanto,
não são de repetir uma análise da organização dos mocambos, já intentada por parte da
historiografia, mas perceber os espaços de atuação e dominação territorial das comunidades nos
sertões da capitania de Pernambuco, nestas conjunturas diversas. Recorremos, então, ao
georreferenciamento dos dados documentais, como forma de expôr alguns dos resultados e
conclusões.
O Capítulo 2 aborda temas caros à historiografia da escravidão no Brasil, como a brecha
camponesa, ou economia interna dos escravos; as relações entre mocambos e a sociedade colonial
em seu entorno; e a produção de subsistência própria aos mocambos de Palmares. A ideia é que o
“projeto camponês” gestado nas senzalas extrapolava seus limites físicos e sociais, tendo
prolongamentos nos mocambos, enquanto espaços de autonomia onde aquele projeto de vida podia
continuar a ser perseguido. Daí os mocambos de Palmares se apresentarem, em muitos momentos,
não como simples esconderijos de negros fugitivos, mas verdadeiras comunidades negras,
integradas a muitos dos moradores seus vizinhos, em relações de trocas comerciais mas também
disputas de poder.
No Capítulo 3 buscamos dar conta do declínio das comunidades palmarinas, a partir da forte
repressão iniciada com o governo de Pedro de Almeida, em Pernambuco (1674-1678). Veremos que
a efêmera recuperação econômica do setor açucareiro, entre as décadas de 1670 e 1680, foi
suficiente para incrementar a repressão aos mocambos na capitania, tendo como consequência a
capitulação de algumas lideranças palmarinas, em 1678, e a desarticulação dos mocambos entre si,
e mesmo entre seus aliados na sociedade colonial. A partir de então, apenas o bando de Zumbi
permanece com forte poder de resistência, nos confins da Zona da Mata, entre a Serra da Barriga e o
agreste sertão do Ararobá. Com a morte de Zumbi, em 1695, outras lideranças tomam seu lugar,
mas sem qualquer capacidade para resistir ao Terço do paulista Domingos Jorge Velho – que se
torna uma espécie de patrulha anti-quilombola em Pernambuco, durante, praticamente, todo o
século XVIII. “Reis”, “principais” e outras designações recorrentes para se referir às lideranças
palmarinas na documentação, desaparecem, e apenas referências esparsas a presos e perseguidos
dos Palmares permanecem, até, mais ou menos, 1715.
No Capítulo 4, procuramos analisar a historiografia sobre as sesmarias no Brasil colonial com
intuito de atentar para a historicidade desta instituição. Nascida em Portugal, em 1375, a legislação
sofre diversas mudanças a partir de sua implantação na América, a partir da década de 1530. Sua
trajetória permite entrever formas de apropriação territorial muito diversas, convivendo – não
pacificamente – com as prerrogativas sesmariais. Permite extrair algumas conclusões a respeito da
natureza dos direitos de propriedade no Brasil colônia e sua relação direta com os conflitos que
24
engendravam a sociedade colonial de então. Entes conflitos envolveram, certamente, as populações
quilombolas, marginalizadas nas fronteiras da sociedade sesmeira litorânea, e estigmatizadas, como
as populações pobres de livres do sertão.
No Capítulo 5 me debruço diretamente sobre as concessões de sesmarias nas terras dos
macombos de Palmares, a partir do fim da guerra de repressão. Como estas terras foram divididas,
quais as dimensões dos domínios sesmarias concedidos, e quais as disputas engendradas por este
processo no seio das classes escravistas do nordeste colonial, são algumas das questões abordadas.
As cartas de sesmarias, apesar de seu conteúdo um tanto quanto padronizado e limitado, se mostra
uma fonte rica para os objetivos de localização e explanação das disputas entre os possíveis
sesmeiros que cobiçavam a região de Palmares.
Os Capítulos 6 e 7 são uma tentativa de adentrar as sesmarias, para além de seu perímetro de
domínio, para vislumbrar a ocupação do chão de terra, o usufruto dos sesmeiros, numa região
interditada ao avanço colonial (territorialização) pelos mocambos de Palmares. O atual Agreste de
Pernambuco, então chamado de sertão do Ararobá e Campos dos Garanhuns, fora doado em sua
quase totalidade, a grandes famílias dos chamados “principais da terra”, de Pernambuco e da Bahia,
ainda durante a guerra de Palmares. A família Vieira de Melo foi a porta de entrada para discutir a
ocupação efetiva das antigas terras dominadas pelos quilombolas, a partir de uma fragmentária,
porém rica, documentação cartorial para o Agreste de Pernambuco. Sua sesmaria no Ararobá foi um
caso singular entre todas as pesquisadas ao longo da tese, pois gerou um grande volume de
documentação, inclusive no Conselho Ultramarino, permitindo-nos observar como usufruíram
aqueles senhores de terras e gentes de seus domínios sesmariais, após o episódio de Palmares.
Trabalhamos também as fontes para a segunda metade do século XVIII, na região do Ararobá e
Garanhuns. Procuramos demonstrar alguns conflitos surgidos no processo de institucionalização
daquela região, envolvendo figuras ligadas às sesmarias distribuídas vizinhas aos antigos mocambos
dos Palmares. Disputas que envolviam poderes locais e direitos de propriedade são analisadas, de
maneira a demonstrar o papel da justiça local nos conflitos e também os argumentos dos atores que
remetiam à conquista da região aos negros palmarinos.
25
CAPÍTULO 1
Das primeiras fugas ao auge dos Palmares de Pernambuco, c. 1600-1674
1. Introdução
Neste capítulo temos por objetivo situar no tempo, e principalmente no espaço, as diversas
modificações sociais e espaciais que sofreram os chamados mocambos de Palmares, entre 1600 e
1674, quando os mocambos atingiram seu auge populacional e territorial. Como apreender os
Palmares, múltiplos em sua secular trajetória, sem cair nas armadilhas colocadas pelas fontes da
repressão quilombola e evitando a romantização da “grandiosidade” daquela experiência de
resistência? Nossa sugestão, neste capítulo, será discernir diversos Palmares, entre os séculos XVII
e XVIII, relacionando a ocupação e a mobilidade territorial das comunidades e com os diversos
esforços repressivos. Desta maneira, Palmares será visto em sua movimentação no espaço-tempo,
na itinerância das comunidades em constante fuga – o que implicava a criação e abandono contínuo
dos sítios, casas e paliçadas muito rapidamente –, e na diversidade do poder econômico e social dos
mocambos, isto é, das terras que ocupou e dominou. A hipótese é de que, conjunturalmente, é
possível vislumbrar estas características em transformação, enriquecendo o entendimento acerca das
comunidades, sua relação com os poderes locais estabelecidos e o desafio que representavam aos
interesses senhoriaisna capitania de Pernambuco, se afastando de uma abordagem monolítica e
estática de Palmares, buscando, a partir daquele espaço, tecer as redes de relações que envolviam
quilombolas, senhores de escravos, autoridades, etc.28
Nem sempre fica claro, nas análises até então empreendidas sobre Palmares, que a história
daquele conjunto de mocambos e quilombos comporta uma multiplicidade de atores e momentos
diferentes, o que torna, talvez, impossível afirmar quais as comunidades de fato se relacionavam
com os chamados Palmares do sertão de Pernambuco, ou mesmo em que medida se estabelecia uma
certa rede de pessoas e informações entre as diversas comunidades quilombolas do sertão
pernambucano, formando um grupo mais ou menos coeso de resistência, com organização
produtiva, hierarquia social e militar ao longo de seu desenvolvimento secular. 
28
A ideia é compreender Palmares não apenas como uma erupção de rebeldia escrava, mas (até mesmo pela sua
longevidade) observar os acontecimentos em torno dos mocambos de uma perspectiva micro-histórica, em que o
impacto cotidiano do lidar com a proliferação dos mocambos possa ser apreendido pelas fontes disponíveis,
permitindo entrever algumas estratégias conjunturais tanto dos mocambeiros (a manutenção da autonomia, a
possível busca pela liberdade, ou a fuga da opressão e maus-tratos de certos senhores), quanto dos agentes
repressivos (a garantia da submissão dos cativos, dos investimentos senhoriais representados por aqueles, a
manutenção e ampliação do poder através dos serviços reais e suas contrapartidas), de modo a mapear o domínio
territorial das comunidades. Sobre esta perspectiva, ver LEVI, Giovanni. A Herança Imaterial: trajetória de um
exorcista no Piemonte do século XVII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
26
O “Quilombo dos Palmares”, como boa parte da historiografia já salientou, era constituído por
diversas comunidades de escravos fugitivos, que ocupavam uma região genericamente referida à
época como “os sertões dos Palmares”, ou “os Palmares de Pernambuco”. Estas expressões, na
verdade, se referiam a uma pluralidade de pequenos – e grandes – mocambos espalhados pelo
sertão, ao longo do médio curso dos principais rios da capitania (especialmente Ipojuca, Sirinhaém,
Una, Mundaú e Paraíba do Meio – ver o mapa na última seção deste capítulo) que tinham em
comum agruparem escravos fugitivos dos engenhos de açúcar do litoral em
esconderijos/comunidades, e o plantio e uso extensivo das palmeiras, nativas do nordeste,
conhecidas como catulé, pindoba, babaçu (espécies Rhapis pyramidata, Attalea humilis, ou ainda
Attalea oleifera e Attalea speciosa), ressignificando tradições africanas ancestrais.29 Ao longo de
todo o século XVII, os chamados Palmares foram identificados pelas palmeiras agrestes que se
erguiam em meio à mata fechada que dominava o sertão pernambucano, entre o rio São Francisco e
o Cabo de Santo Agostinho. Os mocambos de escravos fugitivos se espalhavam por mais de
“sessenta léguas” naqueles sertões, constituindo diversos “Palmares” - plural de “palmar”30 –, ou
seja, comunidades que se distinguiam na paisagem natural local por suas palmeiras.
As fontes repressivas são bastante generosas no sentido de “agigantar” e homogeneizar o
episódio de Palmares. É o que lembra Flávio Gomes,31 comentando que parte da historiografia pode
ter “comprado” o discurso repressivo, altamente interessado no agigantamento de Palmares, e,
consequentemente, nas dificuldades para sua destruição e, nas benesses necessárias como
retribuição a este árduo serviço. Em outras palavras, pintar o problema que os mocambos
representavam para a administração colonial carregando nas tintas podia fazer parte de uma
estratégia dos colonos interessados nas mercês em retribuição do serviço prestado à Coroa, mas o
fato de a historiografia ter “comprado” essa representação teve suas consequências.
Os dados essenciais aqui trabalhados são oriundos de dois fundos documentais da maior
importância para a História das capitanias do Norte da América portuguesa. Sobre o primeiro deles,
a documentação das “Disposições dos governadores de Pernambuco”, contida na Coleção Conde
dos Arcos do Arquivo da Universidade de Coimbra, é interessante notar que permaneceu
inexplorada pelos historiadores de Palmares até bem recentemente.32 Tratam-se de dois tomos
29 ALENCASTRO, Luiz Felipe. “História geral das guerras sul-atlânticas: o episódio de Palmares”. In: GOMES,
Flávio dos Santos. Mocambos de Palmares. Histórias e fontes (séculos XVI-XIX). Rio de Janeiro: 7 Letras, 2010,
pp. 61-99, ver as notas 114 a 117.
30 Segundo Raphael Bluteau, no início do século XVIII “palmar” se referia a “campo onde nascem palmas
[palmeiras]”, e “nas histórias do Brasil e da Índia, não só significa campo, mas também aldeia, e casa dos
moradores daquelas terras, que de ordinário fazem as suas povoações em campos abundantes de palmas”. Como
referência, cita a obra do holandês Barléu (1647), afirmando, por fim, que “aqui [no Brasil retratado por Barléu]
palmar é quinta, ou coisa que o valha”. BLUTEAU, Raphael. Vocabulario portuguez & latino: aulico, anatomico,
architectonico ... Coimbra: Collegio das Artes da Companhia de Jesus, 1712-1728. vol. 6, p. 208.
31 GOMES, Flávio dos Santos. Palmares: Escravidão e liberdade no Atlântico Sul. São Paulo: Contexto, 2005.
32 Os trabalhos onde figura como uma das fontes primárias principais são, LARA, Sílvia Hunold. Palmares & Cucaú:
o aprendizado da dominação. Tese (Titularidade em História do Brasil) – Universidade Estadual de Campinas,
27
contendo cópias manuscritas dos registros das provisões, cartas, ordens e outros documentos
enviados pelos governadores de Pernambuco a diversas autoridades da América portuguesa.
Consideramos essa uma importante fonte para conhecermos o dia a dia da administração interna das
capitanias do Norte – centralizadas no governo do Recife/Olinda. Ambos os tomos contêm índices
com ementas de cada documento copiado a mando do governador de Pernambuco, Marcos de
Noronha e Brito (1746-1749). A correspondência cobre o período entre 1652 e 1746, do governo de
Francisco Barreto de Meneses (1654-1657) até o governo de Henrique Luís Pereira Freire (1737-
1746). Já explorado por historiadores como Sílvia Lara e Evaldo Cabral de Mello, este corpus
documental permite cobrir as lacunas da documentação que seguia para o reino, complementando
os dados da administração colonial com informações que circulavam internamente e, portanto, num
ritmo próprio e distinto da dinâmica da relação entre colônia e metrópole.33
Neste capítulo, esta documentação será cotejada com os papéis de governo que cruzavam o
Atlântico e conectavam as secretarias de governo nas capitanias ao Conselho Ultramarino, em
Lisboa. Muito mais bem conhecida dos historiadores de Palmares – graças ao trabalho pioneiro de
divulgação documental do historiador português Ernesto Ennes, ainda na década de 193034 –, a
documentação do Conselho Ultramarino pode ser acessada não apenas graças ao material
digitalizado pelo Projeto Resgate, mas também pelas diversas publicações de documentos nos
anexos de obras sobre o tema.35 Especificamente para o período de dominação holandesa,
trabalharemos com alguns escritos do Brasil holandês divididos em dois grupos. O primeiro deles é
composto pelos papéis administrativos e militares da Companhia das Índias Ocidentais (WIC,
Westindische Compagnie): o Relatório sobre o distrito das Alagoas, de 1643; e o diário da
expedição do capitão Johan Blaer (por vezes João Blaer) aos Palmares, de 1645. Já o segundo são
os relatos de viagem de Gaspar Barleus (ou Barléu, aportuguesamento de Caspaer vanBarlaeus) e
Joan Nieuhof; ambos visitaram as conquistas neerlandesas no Brasil durante o governo do conde de
Nassau. O cruzamento destas informações produzidas por diferentes interlocutores e cuja circulação
e eficácia obedeciam a dinâmicas distintas, poderá nos fornecer um quadro bastante completo da
administração colonial sobre os Palmares. A esperança é que também possa nos ajudar a melhor
Campinas, 2008; e MENDES, Laura Peraza. O serviço de armas nas guerras contra Palmares: expedições,
soldados e mercês (Pernambuco, segunda metade do século XVII). Dissertação (Mestrado em História) –
UNICAMP, Campinas, 2013.
33 LARA, Palmares & Cucaú, pp. 1-2; e MELLO, Evaldo Cabral. A Fronda dos Mazombos: nobres contra mascates,
Pernambuco, 1666-1715. São Paulo: Ed. 34, 2003, pp. 16-17.
34 ENNES, Ernesto. As guerras nos Palmares: subsídios para sua história. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1938. O
segundo volume de documentos obre a história dos quilombos no Brasil, pensado pelo autor, não chegou a ser
publicado, mas pode ser consultado na Biblioteca Hélio Vianna, na UNICAMP. Cf. ENNES, Ernesto. Os primeiros
quilombos: subsídios para sua história. Campinas: Biblioteca Hélio Vianna, Unicamp, 1951. Exemplar
datilografado inédito.
35 Recentemente, Flávio Gomes concentrou parte desta documentação na coletânea de 2010 já citada, GOMES,
Mocambos de Palmares.
28
localizar no tempo e no espaço a atuação das comunidades de mocambos no sertão de Pernambuco
ao longo do século XVII e início do XVIII.
2. Historiografia de Palmares
 
Alguns trabalhos clássicos tentaram enquadrar as diversas conjunturas, essencialmente da
organização política e da resistência quilombola, nos Palmares. O primeiro a formular uma
explicação para a história dos mocambos de Palmares em “fases” ou conjunturas temporais foi Nina
Rodrigues, cujos escritos sobre Palmares foram formulados ainda na virada do século XIX para o
XIX.36 Estas fases seguiam, basicamente, o desenrolar do esforço repressivo contra Palmares: (1) o
“Palmares holandês”, entre 1630 e 1644/1645, quando foi destruído pelas expedições de Roloux
Baro e de Johan Blaer; (2) o “Palmares da Restauração” pernambucana, que começou a se
reconstruir durante a guerra de expulsão holandesa (1645-1654), vindo a cair diante do governador
Pedro de Almeida, culminando com um acordo de paz, em 1678; e (3) o “Palmares terminal”, entre
1685 e 1697, destruído pelas forças de Domingos Jorge Velho – para cujo período, lamentava o
autor por não haver uma crônica coesa da campanha.37 Esta primeira historiografia muito pouco se
preocupou em relacionar estas fases da história de Palmares com a espacialidade dos mocambos do
sertão de Pernambuco e a forma como as comunidades de mocambos ocupavam aqueles espaços ao
longo do tempo; talvez mesmo pela característica das fontes – em sua imensa maioria, relatos
militares e administrativos portugueses – das quais se extraía com muito mais facilidade uma
“história dos vencedores”.38
Ainda na década de 1930, Arthur Ramos, bastante influenciado pelo trabalho de Nina
Rodrigues, chamou a atenção para uma fase anterior ao domínio holandês nas capitanias do Norte
colonial, quando a fuga de cativos das vilas litorâneas em direção aos matos e serras da capitania de
Pernambuco já preocupava as autoridades. Ramos caracterizou Palmares enquanto uma
confederação de “quilombos, ou cidades negras, unidos entre si por laços de solidariedade política e
36 RODRIGUES, “As sublevações de negros no Brasil”.
37 Ainda não havia sido descoberta e publicada a crônica anônima que narrava a incursão das forças de Domingos
Jorge Velho e Bernardo Vieira de Melo nos Palmares, em 1694. cf. Relação verdadeira da guerra que se fez aos
negros levantados do Palmar, governando estas capitanias de Pernambuco o senhor governador e capitão-geral
Caetano de Melo de Castro, no ano de 1694, da feliz vitória que contra o dito inimigo se alcançou , em OLIVEIRA,
Maria Lêda. “A primeira rellação do último assalto a Palmares”. In: Afro-Ásia, 33 (2005), pp. 251-324.
38 Tendência de uma historiografia nacionalista tradicional, denunciada por E. P. Thompson, em 1963, em seu clássico
estudo sobre a formação da classe operária inglesa, The Making of the English Working Class. Uma história dos
vencidos teria que ser produzida, se contrapondo à história tradicional dos vitoriosos dos principais processos
históricos, utilizando-se, quase sempre, dos mesmos escassos e tendenciosos registros do passado, porém com uma
mudança de perspectiva que desse relevo às ações dos derrotados, dos vencidos: camponeses, proletários, mulheres,
escravizados, etc. Ver, THOMPSON, E. P. A Formação da Classe Operária Inglesa. v. 1. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1987, p. 13.
29
militar”.39 Essa “monarquia eletiva”, como o autor chamou, mantinha relações de trocas comerciais
com os moradores das vilas vizinhas, vendendo produtos da lavoura (cana, banana, feijão), e
comprando tecidos, ferramentas, armas e munição.
Tentando discernir as várias conjunturas de Palmares, Benjamin Péret afirmou que, pelo
menos até o período de 1645-1667 (que julga ter sido a “idade de ouro” das comunidades, quando a
população dos quilombos, aproveitando um período de relativa paz, pode crescer e expandir a área
de ocupação), não haveria uma grande centralização política em torno de lideranças guerreiras
“absolutistas”. Já de 1667 a 1676, o vertiginoso aumento das incursões portuguesas aos mocambos
teria criado a necessidade de um governo mais bem centralizado, para dar conta da organização
defensiva. O que não significa, para o autor, uma autoridade absoluta e irrevogável. Assim, ele
aponta duas formas de governo distintas em Palmares: no primeiro momento, um tipo de autoridade
difusa pelos diversos mocambos, em que seus líderes se reuniam para decidir questões mais gerais;
e pós-1667, quando, com o aumento da população e da repressão, se fez necessária uma autoridade
central.40 A novidade na abordagem de Péret foi a tentativa de determinar o desenvolvimento
histórico dos mocambos de Palmares não a partir da perspectiva da repressão, mas da organização
interna das comunidades, e do papel interno de suas lideranças.
Bem mais recentemente, Sílvia Lara defendeu uma diferença crucial entre os Palmares antes e
depois da década de 1670. A partir das fontes do governo de Pedro de Almeida na capitania (1674-
1678), é possível apreender a atuação política de uma parentela ligada ao “rei” Gana Zumba. Este
corpo político, composto por irmãos (Gana Zona, irmão de Gana Zumba; Andalaquituxe, irmão de
Zumbi), filhos (Tuculo e Aca Iuba/Anajubá, filhos de Gana Zumba), mãe (Aca Inene, mãe de Gana
Zumba) e mesmo um genro do líder rebelde (Gangamuisa, “mestre de campo de toda a gente de
Angola”, como se vê na “Relação” de 1678),41 foi invocado ao longo das negociações entre a
administração da capitania e os quilombolas. Ainda que seja impossível dizer se este conhecimento
vasto da organização interna dos mocambos fosse apenas instrumento retórico, por parte do
governador Pedro de Almeida, ou quem quer que tenha mandado redigir o manuscrito anônimo da
“Relação”, para convencimento dos superiores em Lisboa, fato é que antes daquela década a
documentação nunca foi tão explicita acerca dos indivíduos que integravam os mocambos
palmarinos.42 Conjectura-se, assim, que esta organização observada a partir de então tenha se
39 RAMOS, Arthur. O Negro na Civilização Brasileira. [1939]. Rio de Janeiro: Livraria-Editora da Casa do Estudante
do Brasil, 1971, pp. 66, 74-75.
40 PÉRET, Benjamin. “Que foi o quilombo de Palmares?” In: __. O Quilombo dos Palmares. Organização e estudos
complementares de Mário Maestri e Robert Ponge. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2002, pp. 113-125.
41 Trata-se aqui de informaçõesdadas pelo manuscrito anônimo conhecido como “Relação das Guerras Feitas aos
Palmares de Pernambuco no Tempo do Governador D. Pedro de Almeida de 1675 a 1678”, que está sob a guarda do
ANTT, em Lisboa. Voltaremos a ele logo abaixo.
42 Ver LARA, Sílvia H. “Soldados e parentes: nomes centro-africanos nas matas de Pernambuco no século XVII”.
Comunicação inédita feita no evento Africanos nas Américas: reconstruindo vidas num novo mundo, 1675–1825.
University of the West Indies, Cave Hill, Barbados, 14 a 16 de março de 2013. Agradeço à autora por ceder o
manuscrito.
30
formado nos mocambos em algum momento entre as décadas de 1660 e 1670. Todavia, também não
podemos afirmar que algo parecido não existisse anteriormente, apenas pela escassez de fontes. O
que é necessário frisar é que os colonizadores e poderes locais na capitania de Pernambuco
acabaram por definir, sem dúvidas, que os Palmares se tratavam não apenas de uma revolta escrava,
mas de uma espécie de organização política, de inspiração centro-africana – pelo menos, é o
paralelo traçado pelas autoridades, a partir do conhecimento prévio no trato com estados centro-
africanos do outro lado do Atlântico –, organizado para a manutenção da liberdade e da autonomia
de seus “habitantes”, fossem estes escravos fugidos de seus senhores, fossem os nascidos livres nos
matos.43
Também John Thornton acredita que, por essa época, uma espécie de organização política
militarizada tenha se estabelecido nos mocambos de Palmares.44 Assim como na África Central
estados se formaram em meio às necessidades da situação endêmica de guerra – fomentada, no
século XVII, pela colonização na região de Luanda e seu interior –, cujas solidariedades eram
forjadas não por afinidades culturais ou políticas prévias, mas pela luta e resistência, em Palmares
algo parecido teria acontecido, fazendo com que africanos e crioulos escravizados, negros livres ou
forros, tenham forjado elos políticos para a manutenção das comunidades de fugitivos nos sertões.
Daí a referência documental a nomes e títulos africanos nessa documentação, a uma hierarquia
política formada em torno de uma linhagem, encabeçada por dois irmãos, Gana Zumba e Gana
Zona, mas que tinha uma matriarca, Aca Inene – remetendo às linhagens matrilineares dominantes
na África Central conhecidas pelos portugueses de então.45
Ainda que limitados por fontes altamente comprometidas pelo discurso do colonizador,
estudos acadêmicos retomaram esta perspectiva de explicar a dinâmica interna e as mudanças nos
mocambos de Palmares ao longo dos anos. Ainda assim, pouca atenção foi dispensada ao espaço de
atuação e de resistência dos quilombolas, as terras que os palmarinos dominaram por mais de um
século, frente a repressão senhorial em Pernambuco. Com o intuito de contribuir nesse esforço,
buscaremos demarcar os locais de atuação quilombola nos sertões da capitania de Pernambuco, a
partir das fontes da repressão colonial, até a década de 1670. Trata-se de elucidar a ocupação
43 Ver também LARA, “Com fé, lei e rei: um sobado africano em Pernambuco no século XVII”. In: GOMES, Flávio
(org.) Mocambos de Palmares, pp. 90-118. Sobre o Estado em Palmares e comparações com a África Central, ver
principalmente KENT, Raymond K. “Palmares: An African State in Brazil”. In: Journal of African History, VI, 2,
1965, pp. 161-175; SCHWARTZ. Stuart B. “Repensando Palmares: resistência escrava na colônia” [1987]. In:
Escravos, Roceiros e Rebeldes. Bauru: Edusc, 2001, p. 251; e ANDERSON, Robert N. “The quilombo of Palmares:
A new overview of a maroon state in seventeenth-century Brazil”. In: Journal of Latin American Studies, 28-3,
1996, 545-565; e LARA, Palmares & Cucaú. Mais recentemente, o tema foi retomado por um africanista, cf.
THORNTON, John K. “Les États de l’Angola et la formation de Palmares (Brésil)”. In: Annales, 63, 2008, esp. pp.
792-797.
44 THORNTON, “Les États de l’Angola”.
45 Sobre isso, já escrevemos algumas conclusões em, DAMASCENO, Felipe A. Conexões e travessias no Atlântico
Sul: Palmares, africanos e espaços coloniais numa abordagem comparada (século XVII). Dissertação (Mestrado em
História Comparada). Rio de Janeiro: UFRJ, 2014, p. 201.
31
territorial dos mocambos em suas diversas conjunturas, à medida que as fontes nos permitam. 
3. Palmares no início do século XVII
O manuscrito de Frei Vicente do Salvador (c. 1627) se constitui na primeira narrativa
“histórica” em que os cativos refugiados nos Palmares foram citados – um mocambo na mata do rio
Tapiruçu (por vezes escrito Itapicuru), no sertão da antiga vila de Sirinhaém. Escreveu Frei Vicente
que, “informado o governador [do Estado do Brasil, Diogo Botelho (1602-1607)] de um mocambo
ou magote de negros da Guiné fugidos que estavam nos palmares do rio Itapicuru”, assim que
chegou ao Brasil mandou o guerreiro potiguar (etnia indígena tupi concentrada na Paraíba e Rio
Grande do Norte) Zorobabé – líder destacado na conquista da Paraíba pelos portugueses –, que
estava de partida da Bahia para sua terra natal, ir de encontro àqueles negros, “e os apanhassem às
mãos, como fizeram, que não foi pequeno bem tirar aquela ladroeira e colheita que ia em grande
crescimento. Mas poucos tornarão a seus donos”, posto que Zorobabé matou muitos e vendeu
alguns pelo caminho até a Paraíba.46
O recurso ao braço indígena na tarefa de captura de negros fugitivos foi fenômeno presente
desde as primeiras notícias sobre mocambos na América portuguesa. Segundo o frei, os negros
“tinham medo dos ditos índios”, possivelmente seus inimigos mais frequentes, dando como
exemplo a expedição de Zorobabé, uma das primeiras a atacar os chamados Palmares de
Pernambuco. Escrevia Frei Vicente que os aldeamentos indígenas eram de extrema importância,
pois forneciam as tropas empregadas na repressão aos mocambos “principalmente contra os negros
de Guiné, escravos dos portugueses, que cada dia se lhe rebelam, e andam salteando pelos
caminhos”.47
De fato, há registros anteriores à invasão holandesa que já alertavam para as fugas e a
formação de mocambos nas matas de Palmares, como a carta do capitão-mor de Pernambuco,
Manoel Mascarenhas Homem, dando notícias da entrada que o governador-geral do Brasil, Diogo
Botelho, mandou fazer “pelo sertão dentro aos Palmares”, por volta de 1602. Infelizmente, o
documento não é preciso na localização dos redutos quilombolas, frisando apenas que os resultados
da expedição foram “dano e perda de muita gente, morta e cativa, com que esta capitania ficou livre
por ora das insolências desses alevantados.”48 É possível que se tratasse da mesma expedição
46 SALVADOR, Frei Vicente. História do Brasil. [1627/1888] Nova edição revista por Capistrano de Abreu. São
Paulo; Rio de Janeiro: Weiszflog Irmãos, 1918, p. 396 (itálico nosso). Ao que tudo indica, Frei Vicente teria
terminado sua obra no ano de 1627. No entanto, somente em 1888 uma edição acessível dos manuscritos do
capuchinho viria à tona, nos Anais da Biblioteca Nacional, com uma introdução de Capistrano de Abreu. Sobre a
figura de Zorobabé, algumas informações em VAINFAS, Ronaldo. “Zorobabé”. In: VAINFAS, Ronaldo (dir.)
Dicionário do Brasil Colonial (1500-1808). Rio de Janeiro: Objetiva, 2000, p. 592.
47 SALVADOR, História do Brasil, p. 392.
48 “Carta de Manuel Mascarenhas Homem [1603]”. in: GOMES, Mocambos de Palmares, pp. 157-158.
32
relatada por Frei Vicente, o que mostra como as primeiras comunidades de fugitivos nasceram no
sertão da vila de Sirinhaém, cuja produção era dominada pelos engenhos de cana-de-açúcar –
concentrando maior número de africanos escravizados – do que, por exemplo, na freguesia das
Alagoas, muito mais associada à resistência palmarina pela historiografia.49
O que não quer dizer que outras comunidades rebeldes, talvez menores,inexistissem nas
Alagoas. Em outra fonte podemos ver que, naquele mesmo ano de 1602, o capitão-mor Enrique de
Carvalho requereu a fundação de um aldeamento indígena, em nome do sesmeiro da lagoa
Manguaba, Diogo Soares da Cunha. Enrique de Carvalho foi sogro de Gabriel Soares da Cunha,
senhor de engenho e herdeiro de Diogo Soares da Cunha. Dizia um memorial missionário que, no
ano de 1614, Gabriel Soares da Cunha vendera meia légua de terra “em um sítio que é fronteiro ao
Palmar dos negros”, a tribos amigas, que muito ajudavam contra os corsários da costa e os negros
quilombolas, a troco de “uma quantidade de medidas de lenha cada ano até chegar ao computo do
contrato”.50 Anos mais tarde, um tal Gaspar de Araújo transformou as terras perto da meia légua dos
índios em “um curral de gado”, dando início a conflitos entre os índios e a família daquele
proprietário. Portanto, pensado e fundado entre 1602 e 1614 por um preposto dos sesmeiros Soares
da Cunha, sua localização privilegiada no caminho que ligava as duas lagoas das Alagoas indicava
que o aldeamento de Santo Amaro fora pensado para guardar os caminhos dos moradores da
freguesia contra quilombolas.51 Fazer dos índios aldeados uma “barreira” entre colonos (entendidos
como os moradores das vilas do litoral) e os mocambos (no sertão) já era prática estabelecida desde
a virada do século XVI ao XVII.
Até então, bandos de negros rebeldes fugiam para os Palmares, a densa mata que dominava a
paisagem interiorana do baixo para o médio curso dos rios Mundaú e Paraíba, nas Alagoas, e no
sertão de Sirinhaém, no rio Tapiruçu. Mas sua presença “hostil” era sentida principalmente pelos
assaltos promovidos nas estradas. Com a invasão holandesa, em 1630, e a guerra que se seguiu até
1637, o problema dos negros das matas e sua rebeldia contra os senhores escravistas da capitania
tendeu a se agravar. 
49 Para se ter uma ideia, no período holandês a freguesia de Sirinhaém-Una tinha treze engenhos de cana, mais do que
o dobro dos seis engenhos contabilizados em todo o distrito das Alagoas no mesmo período, por exemplo. Ver
MELLO, Evaldo Cabral. O bagaço da cana: engenhos de açúcar do Brasil holandês. São Paulo: Penguin Classics
Companhia das Letras, 2012.
50 Apud PRADO, João Fernando de Almeida. Pernambuco e as capitanias do Norte (1530-1630). 2º Tomo. São
Paulo: Companhia Editora Nacional, 1941, p. 437, nota 164. O capitão Gaspar de Araújo, junto com diversos
outros, estaria presente no esforço anti-palmarino até o ano de 1668, pelo menos. Como representante da Vila das
Alagoas, ele é um dos signatários do “Acordo entre as Câmaras de Porto Calvo e Alagoas acerca da extinção dos
Palmares [1668]”. In: GOMES, Mocambos de Palmares, pp. 180-181.
51 Foi também o que os índios do antigo aldeamento de Santo Amaro alegaram décadas mais tarde para reaver sua
meia-légua de terras naquele aldeamento. cf. 1700, Janeiro, 25, Lisboa CONSULTA do Conselho Ultramarino ao rei
[D. Pedro II], sobre carta do religioso de Santo Antônio do Brasil, padre frei Manuel da Encarnação, acerca da
opressão que sofrem os índios da aldeia de Santo Amaro do Palmar, por causa de um sítio que compraram há
muitos anos. Anexo: cartas, memorial. AHU_CU_005-02, Cx. 34, D. 4267 – 4270, fls. 4-6.
33
4. Palmares durante a dominação holandesa e a restauração pernambucana, 1630-1653:
Entradas, expedições e viajantes
Nesta parte buscaremos localizar os principais mocambos identificados com os negros
rebeldes dos Palmares até o fim da dominação holandesa no norte da América portuguesa. Veremos
que, apesar das imprecisões das fontes, é possível apontar com alguma certeza para as terras de
atuação e esconderijo dos quilombolas. Ainda nas fontes holandesas é possível perceber como
aquelas comunidades estavam organizadas para defender sua autonomia, demandando grandes
esforços repressivos dos poderes coloniais. Abaixo, podemos ver no Mapa 1 o cenário que será aqui
discutido, assim como nele já adiantamos nossas conclusões acerca da localização dos mocambos
até a expulsão dos holandeses, em 1654.
É possível pensar o período holandês, do ponto de vista dos mocambos, em três fases: (1)
entre 1630 e 1637, enquanto durou a guerra de resistência pernambucana à invasão holandesa, as
fugas aumentaram, assim como o número de mocambos nos sertões; (2) no período do governo de
Nassau (1637-1644), de relativa estabilidade e grande preocupação com a economia local, quando
se buscou controlar melhor o fluxo de mão de obra escravizada africana e coibir as fugas de cativos
– nesse período teriam havido duas expedições aos Palmares, em 1638 e 1642, porém não deixaram
qualquer vestígio documental mais consistente52 –, um período de inflexão no desenvolvimento das
comunidades palmarinas; e (3) o período da guerra de restauração pernambucana (1645-1654)
quando, com os holandeses impossibilitados de continuar seus esforços contra os mocambos, a
situação constante de guerrilhas nos matos e campos da capitania fez com que um novo e intenso
fluxo de escravizados deixasse as propriedades coloniais em direção aos matos e serras da
capitania.53
52 Ver NASCIMENTO, Rômulo L. X. Palmares: os escravos contra o poder colonial. São Paulo: Terceiro Nome,
2014, p. 89.
53 Por exemplo, Evaldo Cabral de Mello estima em 4000 o número de cativos emigrados dos engenhos e vilas do
nordeste à época das guerras contra os holandeses. Muitos tomaram o caminho da Bahia e Rio de Janeiro, com ou
sem os seus senhores, mas é possível que muitos tenham preferido o sertão palmarino para reorganizar suas vidas
autonomamente. Ver MELLO, Evaldo C. Olinda Restaurada: guerra e açúcar no Nordeste, 1630-1654. Rio de
Janeiro: Forense Universitária; São Paulo: EDUSP, 1975, pp. 166-167.
34
Mapa 1 – Localização aproximada dos mocambos atacados em Pernambuco, c. 1600-165454
54 Produzido pelo autor a partir das fontes discutidas nas seções 3 e 4, em especial “Journaal gehouden door kapitein
Johan Blaer van zijn reis naar de Palmares, van 26 februari tot 2 april 1645”, NL-HaNA, OWIC, 1.05.01.01, inv. nr.
60. As datas nos nomes dos mocambos se referem ao seu ano de destruição, e no caso do “Velho Palmares”, uma
estimativa de sua duração, a partir das fontes analisadas na seção 4.
35
A partir de 1636-37, com a retomada da estabilidade da região agora sob domínio efetivo
holandês, Nassau solicitou uma série de relatórios sobre a situação de cada parte das conquistas.
Desde 1635, pelo menos, é possível acompanhar as atas diárias da WIC que relatavam os problemas
causados pelos bosnegers/boschnegers55 (negros da mata, ou dos bosques), e também a repressão
sobre os grupos de negros acusados de salteadores das estradas e caminhos.56 Nas Alagoas, em
fevereiro de 1638, os quilombolas, “que eram tão fortes e destemidos”, ameaçavam moradores, e
àquela altura já teriam levado 140 escravizados para as matas. O capitão Lodij seria designado para
perseguir os negros rebeldes, com o maior número de “brasileiros” (índios tupis) que pudesse
arregimentar.57 Um daqueles relatórios, de janeiro de 1642, apontava para a presença de escravos
rebeldes na ribeira do rio São Miguel, ao sul das Alagoas.58 Nas terras do engenho de Lucas de
Abreu, no rio Mundaú próximo à lagoa homônima, queixas surgiam de negros invadindo as roças e
plantações, levando tudo que podiam carregar. Gabriel Soares da Cunha, senhor do engenho Novo
nas Alagoas, denunciava “os distúrbios dos tapanhunos moradores dos Palmares, que [lhe] levavam
os negros”, em 1641.59 Também em Sirinhaém, bem mais ao norte, quilombolas importunavam os
proprietários dos engenhos e seus lavradores, de acordo com as denúncias que chegavam ao Conde
de Nassau.60 Foi nesta época que começaram a haver informações sobre a atuação e a localização
mais precisa dos “negros do mato” dos mocambos de Palmares. Em 1642, o Conselho dos XIX
(Heren XIX) da WIC enviaria,ao Alto Conselho no Brasil, a aprovação para uma expedição ao
“quilombo dos Palmares e pedem que, no momento oportuno, sejam enviados notícias e
relatórios”.61 No ano seguinte, os holandeses voltariam a tocar no assunto, reafirmando a
55 Rômulo Nascimento chega a questionar uma associação direta entre os tais negros da mata e os mocambos
palmarinos, uma vez que as localizações de refúgio e atuação destes grupos acusados de salteadores é imprecisa nas
fontes holandesas. Muitos dos ditos negros salteadores poderiam apenas estar a serviço da guerrilha pernambucana
contra a ocupação holandesa, por exemplo. No entanto, a atuação dos chamados negros da mata é o necessário pano
de fundo para a identificação da mata dos Palmares como o possível reduto dos rebeldes, a partir de 1641, como
veremos. Ver NASCIMENTO, Rômulo. “Palmares em fontes holandesas: sobre os boschnegers entre a guerrilha e a
ordem”. In: GOMES, Mocambos de Palmares, p. 45.
56 Estas fontes foram compiladas em mais de trinta volumes, traduzidas e depositadas na Coleção José Hyginio, do
Instituto Histórico Pernambucano. IAHGP, Coleção José Hyginio, Dagelijkse Notulen, ver as atas do vol. II, 3 de
janeiro de 1636; vol. II, 22 de julho de 1636; vol. II, 19 de agosto de 1636; vol. II, 22 de setembro de 1636; vol. III,
4 de maio de 1637; vol. III, 5 de maio de 1637; vol. III, 30 de dezembro de 1637.
57 IAHGP, Coleção José Hyginio, Dagelijkse Notulen, vol. IV, 26 de fevereiro de 1638.
58 É o Relatório do conselheiro Adrien van Bullestrate, citado em NASCIMENTO, Palmares, pp. 86-87.
59 Arquivo Nacional de Haia, Holanda (NL-HaNA), OWIC, 1.05.01.01, inventário n. 69, f. 36. (tradução nossa).
IAHGP, Dagelijkse Notulen, vol. VII, 8 de fevereiro de 1641. Optamos por utilizar os originais do Arquivo de Haia
quando possível, evitando alguns dos problemas da tradução oitocentista do conselheiro José Hyginio –
logicamente, aproveitando-se de suas virtudes e pioneirismo. Na tradução daquele autor “tapanhunos” tornaram-se
“tapuias”, distorcendo o sentido do texto.
60 NASCIMENTO, Palmares, p. 84. 
61 NL-HaNA, OWIC, 1.05.01.01, inventário n. 9, f. 38. Ver também, para algumas referências documentais de
Palmares nos arquivos da WIC, WIESEBRON, Marianne L. (ed.) Brazilië in de Nederlandse archieven (1624–
1654) / O Brasil em arquivos neerlandeses (1624–1654) [publicação bilíngue]. Série Mauritiana, vol. 4. Leiden:
Leiden University Press, 2011, pp. 176-179. A palavra “quilombo”, ou qualquer outra equivalente, não aparece no
manuscrito original, apenas nos comentários dos pesquisadores holandeses da publicação acima. Veremos adiante
que os neerlandeses se referiam às habitações dos negros apenas como casas (huizen).
36
necessidade de uma expedição, pois “os que lá habitam dificultam a ocupação e o cultivo das
Alagoas”.62
Naquele mesmo ano, outro detalhado relatório sobre o estado do distrito das Alagoas, feito
pelo diretor do distrito, Henrique de Moucheron, e seu assessor, Johannes van Walbeeck, localizou a
ação dos negros quilombolas no entorno das sesmarias litorâneas daquele distrito.63 As terras
distribuídas pelo sesmeiro Diogo Soares da Cunha na margem norte da lagoa Manguaba estavam
completamente “incultas e desertas”. O diagnóstico dos oficiais é de que os poucos moradores que
ali residiam – no total, foram nove lotes de terras doados ao longo da lagoa – depois da guerra de
ocupação holandesa (1630-1637), acabaram por se mudar para a margem sul da lagoa, onde uma
tropa os defendia dos negros dos Palmares.64 O relatório leva a crer que o foco dos ataques dos
negros rebeldes ficava entre a margem norte do rio Paraíba até o rio Mundaú. Na margem do norte
do Paraíba ficava o aldeamento de Santo Amaro, com dez ou doze famílias indígenas. Por volta de
1640-1643, este aldeamento já havia sido transferido para o rio Mundaú, na lagoa norte, pelo
capitão Heyndrick van Tassel (lavrador de cana no rio Mundaú), provavelmente tentando proteger
as suas terras naquela ribeira. Não por coincidência, em 1641 Gabriel Soares da Cunha, retornando
às suas terras após ser libertado no Recife, reclamava a WIC dos distúrbios causados pelos negros
dos Palmares em suas terras na lagoa Manguaba, provavelmente se referindo a ausência dos índios
de Santo Amaro.65 Segundo o relatório de Moucheron e van Walbeeck, apesar de ordens para os
índios retornarem a Santo Amaro, faltava-lhes segurança para a manutenção das suas famílias, e não
ousavam habitar no caminho dos “negros do mato”.66
Essa imagem de indígenas amedrontados com a atuação dos quilombolas contrasta com o que
dizia o Frei Vicente, na década de 1620. Se uma aldeia indígena fora suficiente para pôr medo nos
quilombolas e constranger suas ações, após todo o transtorno causado pela invasão holandesa, o
poder dos bandos de escravos fugitivos e rebeldes parecia ter crescido consideravelmente.
62 NL-HaNA, OWIC, 1.05.01.01, inv.nr. 9; e WIESEBRON, Brazilië in de Nederlandse archieven, pp. 188-189.
63 Manuscrito holandês traduzido e publicado originalmente em Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e
Geográfico de Pernambuco, n. 33, 1887, pp. 153-165. Usaremos a edição publicada em, “Relatório sobre o estado
das Alagoas apresentado pelo assessor Johannes van Walbeeck e por Henrique de Moucheron, diretor do mesmo
distrito e dos distritos vizinhos, em desempenho do encargo que lhes foi dado por Sua Excelência. e pelos nobres
membros do Supremo Conselho [1643]”. In: GOMES, Mocambos de Palmares, pp. 160-167.
64 A referência a terras “incultas e desertas” é contraditória com a informação das mesmas autoridades para a
opulência das propriedades dos Soares da Cunha, quando de seu confisco e destruição, em 1639. Segundo os
documentos holandeses, o Engenho Novo de Gabriel Soares da Cunha contava com oitenta escravos, cinco partidos
de cana de lavradores e outro do próprio engenho. A prisão do senhor de engenho pelos holandeses pode ter tido,
como efeito quase imediato, a dispersão de seus escravos, e dos cativos dos lavradores, pelos matos dos Palmares.
Ver em MELLO, O bagaço da cana, p. 143.
65 BULLESTRAT, Adriaen Van. “Notas do que se passou na minha viagem, desde 15 de dezembro de 1641 até 24 de
janeiro do ano seguinte de 1642, redigido pelo Alto e Secreto Conselheiro Adriaen van Bullestrat”. In:
GONSALVES DE MELLO, J. A.. Fontes para a História do Brasil holandês, vol. 2. Recife: Parque Histórico
Nacional dos Guararapes, MEC/SPHAN/FUNDAÇÃO PRÓ-MEMÓRIA, 1985, DOC. 4, pp. 174 e 178; e MELLO,
O bagaço da cana, p. 142-143.
66 “Relatório sobre o estado das Alagoas”, pp. 163-164.
37
Mais ao sul das lagoas que davam nome ao distrito, na ribeira do rio São Miguel até suas
cabeceiras, nos campos de Cunhaú (por vezes referido como “Unhanhú”, “Unhaú”. “Nhuanhú”, ou
“Nhumahu”), também se via um cenário de abandono de terras, causado em grande parte pela
guerra da WIC e pela ação de quilombolas. O relatório afirmava que “os mais belos pastos de todo
o Brasil” estavam, então, abandonados de homens e gados, uma grande região que se estendia da
margem sul do rio São Miguel, em direção sudoeste até o sertão do rio Coruripe. Um aldeamento,
chamado Nossa Senhora da Ajuda, junto ao engenho de São Miguel, e os homens do alcaide-mor do
Penedo, Belchior Álvares Camelo, – senhor de três léguas de terra nos campos de Cunhaú e uma
légua em quadra na parte baixa do São Miguel, segundo o relatório – cuidavam da defesa daquela
região.67
Dos moradores da desprotegida margem norte, um tal Bastião Ferreira parece ter sido o mais
prejudicado pela proximidade dos quilombolas, e teria sido “muito perseguido pelos negros do
mato”, abandonando suas terras abaixo do engenho São Miguel, indo morar na margem sul da lagoa
Manguaba.68 Estes primeiros relatos acerca dos negros do mato dos Palmares, na capitania de
Pernambuco, entre 1600 e 1643, serestringiam então a ataques aos caminhos dos distritos e
freguesias, bastante próximos ao litoral, e circunscritos às Alagoas e à vila de Sirinhaém, pelo
menos até o fim do período holandês. São um tanto quanto incompletos para nossos fins neste
capítulo – precisar a localização das comunidades ao longo do tempo --, porém, outras fontes
podem completar o quadro indicado até aqui.
Dos relatos de Palmares do Brasil holandês que tiveram algum cuidado com a localização,
mais ou menos precisa, dos mocambos, quase todos foram informados pelas forças repressivas do
governo do Conde de Nassau (1637-1644). Os relatos militares dos combatentes da WIC são
bastante conhecidos da historiografia europeia. Estes corpos militares, formados por soldados
mercenários que afluíam aos Países Baixos no século XVII, contavam com uma multiplicidade de
nacionalidades e línguas, organizavam frequentes expedições aos redutos mais afastados das
conquistas holandesas no nordeste brasileiro.69
O Diário de Viagem do Capitão João Blaer aos Palmares em 1645,70 possivelmente escrito
após a expedição inicialmente comandada por Johan Blaer, porém terminada sob o comando do
67 “Relatório sobre o estado das Alagoas”, pp. 164-165.
68 Idem.
69 Sobre estes militares, suas carreiras, origens sociais e “nacionais”, e alguns dos relatos do que viam no Brasil
holandês, ver a recente tese de MIRANDA, Bruno F. Gente de Guerra. Origem, cotidiano e resistência dos
soldados do exército da Companhia das Índias Ocidentais no Brasil (1630-1654). Tese (Doutorado em História) –
Universidade de Leiden, Leiden, 2011, especialmente capítulo 1 e anexos.
70 A tradução mais conhecida do manuscrito é “Diário da viagem do capitão aos Palmares em 1645”. In: Revista do
Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco, Vol. X, n. 56, março de 1902, pp. 87-96.
Utilizaremos a edição republicada (devidamente confrontada com a primeira publicação e o manuscrito original
holandês) em GOMES, Mocambos de Palmares, pp. 167-172. Para o original, ver “Journaal gehouden door
kapitein Johan Blaer van zijn reis naar de Palmares, van 26 februari tot 2 april 1645”, NL-HaNA, OWIC,
1.05.01.01, inv. nr. 60.
38
tenente holandês Jürgens Reijmbach,71 constitui um dos primeiros relatos mais detalhados de
incursões militares aos mocambos de Palmares. Segundo Rômulo Nascimento,72 o capitão era
conhecido como “aliciador de índios” para a luta holandesa contra a resistência pernambucana, já
em 1634. Também teve, possivelmente, o cargo de supervisor dos capitães do campo holandeses
(supervisor van de jagers op gevluchte slaven).73 Depois de servir no Rio Grande, havia se
assentado na região de Sirinhaém como lavrador de cana, em 1638, com um partido de cana de
vinte tarefas no engenho São Brás. Tinha relações estreitas com a família do grande senhor daquele
e outros engenhos, o comerciante e cristão-novo Pero Lopes de Vera, seu sogro e partidário dos
holandeses.74 Pero Lopes era, por sua vez, genro de Jerônimo de Albuquerque, sendo membro da
família do próprio donatário da capitania de Pernambuco. Assim, o capitão holandês Johan Blaer
não deve ser caracterizado apenas como um militar da WIC nas conquistas holandesas, mas sim um
proprietário de terras e gentes (índios tapuias que o acompanhavam em campanha), para quem os
mocambos representaram uma ameaça aos seus domínios nos arredores da vila de Sirinhaém.
Em resumo, sua expedição partiu do engenho Salgado, ou Engenho Novo, de Gabriel Soares
da Cunha, às margens da lagoa Manguaba e do rio Paraíba, desceu o rio São Miguel e partiu em
direção a sua cabeceira, cruzando os campos de Cunhaú. Encontrando novamente o rio Paraíba, foi
em direção norte, até encontrar o rio Mundaú, em seu médio para alto curso, na divisa entre os
atuais estados de Pernambuco e Alagoas. Ali, no vale do Mundaú, vinte dias após o início da
expedição, encontraram o primeiro mocambo, chamado de “Velho Palmares”. O lugar já estava
abandonado “havia três anos” devido à insalubridade do terreno.75 
A partir daí o relato fica mais confuso quanto ao caminho que seguiram as tropas. Analisando
71 Cf. também CARNEIRO, Edison. O Quilombo dos Palmares. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1958, p. 91.
O capitão Blaer, que não pode ir aos Palmares por ter adoecido, era denunciado em uma carta de agosto de 1645, de
André Vidal de Negreiros, em que este relatava ter se surpreendido com o “elevado número de crianças, mulheres e
religiosos que, para escapar às violências e assaltos contra eles cometidos pelo capitão Blaer na Várzea, vieram
procurar refúgio entre nós”. Saques e raptos também são denunciados por Negreiros. Carta publicada na Revista do
Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco, n. 35, 1887, pp. 47-49.
72 Para as informações biográficas de Johan Blaer, ver NASCIMENTO, Palmares, pp. 66-67.
73 Literalmente, “supervisor dos caçadores de escravos fugitivos”. Cf. WIESEBRON, Brazilië in de Nederlandse
archieven, p. 534. Os capitães do campo eram encarregados de recuperar escravos fugitivos, e o cargo teve diversos
nomes até se tornar definitivamente “capitão-do-mato”. Ver LARA, Sílvia H. “Do singular ao plural. Palmares,
capitães-do-mato e o governo dos escravos”. In: GOMES, Flávio e REIS, João José (orgs.). Liberdade por um Fio.
História dos Quilombos no Brasil. São Paulo: Cia. das Letras, 1996, pp. 81-109.
74 Ver DUSSEN, Adriaen Van der. “Relatório sobre o estado das Capitanias conquistadas no Brasil, redigido pelo
senhor Adriaen van der Dussen, datado de 10 de dezembro de 1639 e apresentado ao Conselho dos XIX na Câmara
de Amsterdam em 4 de abril de 1640”. In: GONSALVES DE MELLO, J. A. Fontes para a História do Brasil
holandês, vol. 1. Recife: MEC/SPHAN/FUNDAÇÃO PRÓ-MEMÓRIA, 1981, p. 160. Pero Lopes de Vera era
proprietário de três engenhos em Sirinhaém e na freguesia do Cabo de Santo Agostinho, quando da invasão
holandesa: o Nossa Senhora do Rosário e o São Brás, ambos na ribeira do rio Sirinhaém, e o Bom Jesus, no Cabo,
ribeira do Gurjaú. A partir de 1637, adquiriu mais dois: um na ribeira do Sirinhaém, o Nossa Senhora da Palma; e
outro no rio Gurjaú, o São João. Ambos antes pertenceram a senhores que fugiram da ocupação holandesa para o
lado português, abandonando as terras e os escravos. Instituidor de um morgadio com suas posses, Pero Lopes fora
também contratador da cobrança dos dízimos em Pernambuco, Itamaracá, Paraíba e Rio Grande. Cf. MELLO, O
bagaço da cana, pp. 112-113 e 130-132.
75 “Diário…”. In: GOMES, Mocambos de Palmares, p. 169.
39
as pistas da documentação – como a referência a um rio que deságua no Mundaú e ao fato de o
Diário declarar que o novo Palmares (grande objetivo da expedição) se situava a leste e sudeste do
Velho – somos levados a inferir que a tropa holandesa, seguindo os rastros através dos pequenos
mocambos que “a cada meia-hora encontravam”, desceu o rio Mundaú por aproximadamente dez
milhas (dez horas de caminhada, aproximadamente) até encontrar o outro mocambo. Aquele era
chamado “o Palmares Grande de que tanto se fala no Brasil”, e seu líder era chamado Dambij,
segundo o Diário.76 As muitas armadilhas pelos caminhos feriram diversos soldados holandeses, e
seus índios só capturaram algumas mulheres e mataram dois ou três homens nas vizinhanças. Tudo
o que não foi possível aos soldados saquear da comunidade foi incendiado com a retirada da tropa.77
Apesar de toda a incerteza quanto as distâncias percorridas pela tropa de Blaer, o Diário aponta a
localização do grande mocambo próximo à Serra da Barriga, no sertão alagoano. Mas seria este o
mesmo lugar onde, anos mais tarde, se localizaria o Oiteiro de Zumbi, atacado por Domingos Jorge
Velho? Estaria o “Palmares Grande” holandês na Serra da Barriga?
Outra fonte importante para este período de Palmares são os relatosde viagem. Apesar destes
terem claramente utilizado como fonte de informação documentos oficiais como os relatórios e atas
da WIC citados, também agregaram informações adicionais, fruto da vivência e experiência pessoal
nos domínios holandeses. Gaspar Barleus,78 viajante que esteve nas capitanias do Norte da América
portuguesa durante o governo de Nassau, localizava os “Palmares pequenos” em um afluente do rio
Paraíba, vinte milhas distantes das Alagoas. Uma de suas possíveis fontes, referida apenas como
Bartholomeu Lintz, pode ter sido Bartolomeu Lins de Almeida, filho do senhor de engenho
Cristóvão Lins (originalmente Christoph Lintz, natural de Augsburg, na Baviera), alcaide-mor da
vila do Porto Calvo.79 Bartolomeu teria “vivido” entre os mocambos por volta de 1640, “para que,
depois de ficar-lhes conhecendo os lugares e o modo de vida, atraiçoasse os antigos companheiros e
servisse de chefe da presente expedição”.80 Não sabemos ao certo se esta expedição a que se refere
Barleus fora de fato liderada por Lins, uma vez que a única expedição que o autor relata aos
Palmares foi a de Roeloff Baro, em 1644.81 É provável que Bartolomeu tenha participado nesta
76 Esta informação não consta em nenhum dos trabalhos publicados sobre Palmares até o momento, nem mesmo nos
poucos que exploraram a documentação holandesa. Talvez porque todos tenham visto apenas a transcrição e
tradução publicada na Revista do Instituto Pernambuco, ignorando o original de 1645, onde se pode ler: “Deze
koning heten zij Dambij, houdt strenge recht over zijn volk…” (“Este rei chamam-no Dambij, mantém severa
justiça sobre sua gente…”, numa tradução livre). Não se sabe o porquê, mas este trecho foi omitido na tradução de
1902. Ver “Journaal gehouden door kapitein Johan Blaer…”, NL-HaNA, OWIC, 1.05.01.01, inv. nr. 60, fl. 4v.
77 “Diário”, p. 171.
78 BARLÉU, Gaspar. História dos feitos recentes praticados durante oito anos no Brasil [1647] Edição fac-similar da
ed. Brasileira, publicada pelo Ministério da Educação em 1940, traduzida com anotações de Cláudio Brandão. Belo
Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1974.
79 BORGES DA FONSECA, Nobiliarchia Pernambucana, vol. 1, pp. 362-363.
80 BARLÉU, Historia dos feitos, p. 253.
81 Idem, pp. 304-305. A referência de Barleus à expedição de Baro é uma cópia, quase ipsis litteris, da ata de 2 de
fevereiro de 1644 do Conselho dos XIX, da WIC. Cf. “Notulen van Brazilië, 13 maart 1643 tot 7 september 1645”,
NL-HaNA, OWIC, 1.05.01.01, inv. nr. 70, fl. 460. Há uma tradução, com alguns problemas, em IAHGP, Coleção
José Hyginio, Dagelijkse Notulen, vol. X, 2 de fevereiro de 1644.
40
expedição de Baro, pelo menos como um guia.82 Voltaremos a ela no próximo capítulo.
Segundo aquele autor, os chamados Palmares Grandes ficariam ao pé da serra “Behé”
(Barriga?), a trinta léguas do aldeamento de Santo Amaro, nas Alagoas. Escreveu que o caminho
para acessar-lhes era “do lado das Alagoas”, sugerindo que possa ter sido informado pelos
documentos do governo nassoviano sobre as incursões, como o Diário de Blaer e os relatórios
citados acima.83 Ou mesmo através dos espiões holandeses entre os quilombolas e índios Tapuias,
Baro e Bartolomeu Lins. Tanto Bartolomeu quanto Johan Blaer são exemplos do forte envolvimento
de elementos da chamada nobreza da terra local com o esforço anti-quilombola holandês, deixando
claro o tamanho do problema que os Palmares começavam a representar para os interesses
senhoriais na capitania.
O alemão Joan Nieuhof foi um pouco mais preciso na localização de Palmares. Para se chegar
naquelas povoações, dizia ele, se deveria partir de “Alagoas através de Santo Amaro, cruzando as
planícies de Nhumahu e Coruripe, rumo à encosta da montanha de Warracaco, até que atinge o rio
Paraíba”.84 Transposto o Paraíba em direção norte, chegar-se-ia ao monte Behe e os vales da atual
serra da Barriga. Parece que os relatos das expedições acabam por ser “esclarecidos” pela pena mais
cuidadosa dos viajantes. O caminho descrito por Nieuhof é muito próximo ao caminho narrado no
Diário de Blaer, porém sem as minúcias e detalhes que acabam tornando o Diário um confuso
emaranhado de nomes, datas e distâncias. É claro que Nieuhof tinha a seu favor o conhecimento
acumulado por estas expedições nos sertões para descrever caminhos e paisagens.
Para além das fontes holandesas, numa carta do governador-geral do Brasil, Antônio Teles da
Silva, de 1645, encontra-se evidência de que os quilombolas dos Palmares já haviam atingido os
“confins do rio São Francisco”,85 isto é, havia notícias de sua atuação entre os moradores do termo
da freguesia do rio São Francisco, jurisdição da câmara da vila de Penedo.
Até o domínio holandês, portanto, as comunidades palmarinas se encontravam em duas
localidades: 1) no sertão da vila de Sirinhaém; e 2) no sertão das Alagoas, com diversas
comunidades espalhadas entre os rios Paraíba e Mundaú, chegando ainda até o rio São Miguel e os
82 Roeloff Baro, Roulox Baro, ou ainda Rodolfo Baro, era um sertanista, conhecido como um “língua”, um intérprete
para os holandeses junto a alguns grupos Tapuias. Cf. seu relato de contato com índios tapuias, em MOREAU,
Pierre; BARO, Roulox. História das últimas lutas no Brasil entre holandeses e portugueses e Relação da viagem
ao país dos Tapuias. Tradução e notas, Lêda Boechat Rodrigues; nota introdutória, José Honório Rodrigues. Belo
Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1979.
83 BARLÉU, História dos feitos, p. 254.
84 NIEUHOF, Joan. Memorável Viagem Marítima e Terrestre ao Brasil. [1682]. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São
Paulo: Edusp, 1981, p. 40. No trabalho do naturalista Georg Marcgraf, que também esteve nos domínios holandeses
no século XVII, se lê: “O caminho mais fácil para êles [Palmares] é por S. Amaro do lado de Alagoas e daí pelos
campos de Nhunahu e Cororipe, até que apareça o cume do monte Wairakaco, onde se encontra o rio Paraíba que
deve ser descido até que se atinja o chamado monte 'Behe', e daí para curvar até os vales”. Cf. MARCGRAVE, G.
História Natural do Brasil. [1648] (trad. Prof. Alexandre Correia, seguido do texto original, da biografia do autor e
de comentários). São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1948, p. 261.
85 “Carta do Governador do Estado do Brasil para Sua Majestade [1645]”. In: GOMES, Mocambos de Palmares, p.
175. O documento original se encontra depositado no arquivo da cidade de Haia, na Holanda.
41
Campos de Cunhaú, fronteira entre as freguesias de Alagoas e Rio de São Francisco. Durante aquele
período, a preponderância de redutos rebeldes era, sem dúvida, no sertão alagoano, fugitivos, talvez,
das escaramuças e hostilidades entre pernambucanos e neerlandeses no entorno das freguesias mais
importantes do açúcar, entre Sirinhaém e Olinda. Sua presença era tratada como um empecilho ao
desenvolvimento agrícola, isto é, um constrangimento à ocupação de mais terras em direção ao
sertão e ao sul da capitania, e a manutenção dos engenhos e partidos de cana, dependentes de seus
plantéis de cativos. Longe de querer afirmar serem as duas áreas as únicas para onde fugiam cativos
e se formavam comunidades rebeldes e autônomas em relação aos senhores, fato é que foram estes
os casos que mais atenção chamaram das autoridades, a ponto de os registros da repressão
sobreviverem até nossos dias.
 Durante a guerra de Restauração de Pernambuco (1645-1654), é bastante provável que as
fugas de cativos para os mocambos do sertão tenham aumentado significativamente, e diversas
novas comunidades tenham aparecido ao longo dos grandes rios do sul da capitania de Pernambuco.
Esta terceira e última fase do Palmares holandês é como uma “idade das trevas” sobre os
mocambos, dada a total falta de fontes sobre o episódio até, pelo menos, 1653.
Buscando ações que prevenissem as fugas de escravos, o mestre de campo general do exércitopernambucano, Francisco Barreto de Meneses, ordenou, em janeiro de 1653, que o capitão-mor do
campo, Domingos Fernandes (ou Fagundes),86 organizasse duas tropas de índios e mestiços, cada
uma com dez homens, para que uma delas, pessoalmente comandada pelo militar, corresse pelos
sertões entre Sirinhaém e Porto Calvo, executando “todos os negros salteadores que prender”. Já a
outra tropa, também com dez homens, deveria percorrer o termo das freguesias de Santo Amaro
(atual cidade de Jaboatão dos Guararapes, região metropolitana do Recife) e Ipojuca, ao sul do
Cabo de Santo Agostinho, com as mesmas ordens para arcabuzear os negros rebeldes que
encontrasse nos matos.87 A ação dos colonos parece ter sido bastante enérgica e, em parte, eficaz,
uma vez que as fontes silenciam sobre novos distúrbios relacionados a Palmares a partir do ano de
1653. Estas parcas indicações documentais para o fim do período 1645-1654 nos fazem conjecturar
sobre o assombroso crescimento do número e das dimensões populacionais dos mocambos de norte
86 Domingos Fagundes era um capitão de Pernambuco, conhecido por andar pelos matos da capitania e emboscar
holandeses, ainda antes do levante de 1645. Diz o Frei Manoel Callado: “Este Domingos Fagundes é um mancebo
pardo, mas forro, filho de um homem nobre e rico, vianês, o qual, no tempo que governou na Bahia o Marquês de
Montalvão, veio a correr a campanha de Pernambuco por capitão de uma tropa de vinte soldados; aonde matou
muitos holandeses que se achou desgarrados pelos caminhos, e roubou a outros sem que fizesse mal a algum dos
moradores; e somente chegava a suas casas quando o apertava a fome, a pedir de comer”. Teria sido protegido de
Belchior Álvares (Camelo?) – amigo de seu pai – e juntos teriam ido ao Recife beijar as mãos do Conde de Nassau,
que lhe prometia passaporte para viver na Cidade Maurícia. Ver CALLADO, Manoel. O Valeroso Lvcideno, e
Trivmpho da Liberdade. Lisboa: Oficina de Domingos Carneiro, 1668, pp. 174-176. Há um Domingos Fagundes
como co-sesmeiro na carta de sesmaria de Belchior Álvares Camelo, de 1678, que veremos em outro capítulo
(DHP, v. 4, p. 91). 
87 Ver a ordem do governador de janeiro de 1653 em “Ordenou ao capitão de campo Domingos Frz. tivesse mão aos
assaltos que faziam os negros dos Palmares”, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, fl. 10v. Todas citações às Disposições dos
Governadores de Pernambuco tomarão como título do documento o título com que aparece no índice de cada tomo.
42
a sul da capitania de Pernambuco neste período. Espalhavam-se dos confins do São Francisco às
freguesias vizinhas ao Recife, passando pelos campos e serras das Alagoas. Talvez este tenha sido o
período de maior desenvolvimento das comunidades, e não surpreendentemente, o menos
documentado, uma vez que a repressão foi quase inexistente.
5. Os Palmares pós-restauração pernambucana, 1654-1668
Em 1654, com o Recife controlado pelos portugueses após a vitória sobre as forças da WIC,
voltaram-se as preocupações da administração local para a questão quilombola nos sertões, em
especial os sertões das Alagoas e da freguesia do Rio de São Francisco. As estratégias mudaram
para não apenas punir os eventuais crimes de escravos pelos termos e caminhos das vilas do litoral,
mas principalmente para tentar localizar e destruir suas habitações e “esconderijos” nas matas dos
Palmares.
Em regimento militar de 165488 para uma das primeiras expedições aos mocambos de
Palmares, pós-Restauração, o governador Francisco Barreto de Meneses (1654-1657) se mostrou
extremamente preocupado com as queixas dos moradores das “capitanias do sul”, referindo-se à
região de Alagoas. Ordenava ao capitão-mor local, André Gomes, e ao capitão Brás da Rocha
Cardoso (veterano da Restauração Pernambucana)89 que marchassem com uma tropa saída do
Recife em direção aos mocambos de Palmares. Partindo das lagoas de Alagoas para o interior, a
expedição certamente subiria os cursos dos rios Paraíba e Mundaú, os principais da região. A
principal estratégia consistiria em destruir as habitações, roças e fortificações dos mocambos, de
modo que não mais fosse possível que negros fugitivos voltassem a ocupar os locais. Segundo
relatos coevos,90 “sustentavam os Palmares mais de vinte mil almas”, em 1654, quando o
88 cf. Regimento que deu ao capitão-mor André Gomes, e ao capitão Brás da Rocha sobre a invasão dos Palmares. 5
de setembro de 1654, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, fls. 16-16v. Os Regimentos são documentos comuns do Antigo
Regime português e, geralmente, contém um conjunto de ordens e regras específicas de uma autoridade ou oficial
para outrem, nomeando-os para determinada tarefa, seja exercer um cargo da administração, ou fazer guerra a
quilombolas e tribos indígenas.
89 Ver “[post. 1654, agosto, Lisboa] INFORMAÇÃO do [Conselho Ultramarino] sobre os serviços do capitão Brás da
Rocha Cardoso, desde 1645 até 1654 na cidade do Porto e na capitania de Pernambuco.” AHU_ACL_CU_015, Cx.
6, D. 496.
90 Há duas versões do relato anônimo, publicadas por diversos pesquisadores ao longo dos anos, porém sem muito
cuidado em se cotejar transcrições e fontes primárias. A primeira versão, escrita ainda em 1678, é “Relação do que
se passou na guerra com os negros dos Palmares nos sertões de Pernambuco. É escrita em 1678, e está incompleta”.
BPE, Cód. CXVI / 2 – 13, n. 9, fls. 51-58v. Suspeita-se que seja um rascunho, visto conter algumas rasuras, e está
sem a sua última folha. Já a outra, que seria uma versão “definitiva”, sem rasuras e completa, porém sem
referências do ano de escrita, está em, [Relação das Guerras Feitas aos Palmares de Pernambuco no Tempo do
Governador D. Pedro de Almeida de 1675 a 1678]. ANTT, Manuscritos da Livraria, n. 1185. Papéis Vários, fls.
149-155v. Esta versão foi transcrita e publicada em 1859, cf. “Relação das guerras feitas aos Palmares de
Pernambuco no tempo do governador dom Pedro de Almeida de 1675 a 1678 (M. S. offerecido pelo Exm. Sr.
Conselheiro Drummond)”. In: RIHGB, 22 (1859), pp. 303-329. Considero o primeiro manuscrito mais rico em
informações, apesar de incompleto, visto que, na versão final, algumas informações ficaram de fora. Este último,
doravante referido apenas como “Relação”, e o primeiro como “Relação do que se passou”. Devo à professora
Sílvia Lara o alerta para esta possível relação entre as duas versões, vide comunicação pessoal com a autora. Ela
43
governador ordenou um outro ataque a cargo do sargento-mor Antônio Jácome Bezerra, partindo
das Alagoas. Nestes dois ataques teriam sido mobilizados mais de seiscentos soldados luso-
brasílicos, e capturados mais de duzentos rebeldes nos matos, além dos mortos em combate.91
As experiências pregressas dos holandeses (contra mocambos) também devem ter tido
influência nas decisões sobre estas expedições do governo de Francisco Barreto. Uma vez
localizado o sul da capitania como o principal foco de alterações e distúrbios envolvendo a
escravaria, todos os governos de Pernambuco, a partir de então, concentrariam esforços na região
para atacar os mocambos dos Palmares, especialmente a partir do chamado sertão das Alagoas – o
médio para alto curso dos rios Mundaú, Paraíba do Meio e São Miguel.
Mais ao sul, na vila do Penedo do Rio de São Francisco, em 1657 o alcaide-mor e capitão
Belchior Álvares Camelo foi ordenado a marchar contra os mocambos, com um contingente
formado na freguesia do rio São Francisco e vila de Alagoas.92 O capitão Belchior deveria nomear
as pessoas que participariam do esforço de guerra nas imediações das vilas do Penedo e da Alagoa
do Sul, cujos moradores e autoridades foram ordenados a fornecer os soldados e mantimentos
necessários. Curiosamente, o documento com a ordem do governador ao capitão dizia apenas que
Belchior deveria alcançar os negros fugitivos e suas famílias, prender a todos e conduzi-losem
segurança até a praça de Olinda. Em nenhum momento se fala numa possível resistência dos
quilombolas e se, nesse caso, deveria o capitão executar os rebeldes – procedimento que, veremos,
mudaria logo. Novamente, desbaratar os esconderijos dos negros nos matos significava o
esgotamento de seus mantimentos, encontrados nos mocambos, ao longo da campanha, de modo
ainda está por publicar suas conclusões de pesquisa sobre Palmares em livro inédito, com o percurso detalhado
daquele relato, inclusive uma possível autoria. Para suas conclusões preliminares, ver LARA, Sílvia. Palmares &
Cucaú, pp. 65-71, e artigos subsequentes sobre o tema.
91 “Relação do que se passou…”, fl. 52v. Ver também, “Regimento que deu ao sargento-mor Antônio Jácome
mandando-o à campanha do Palmar.” 5 de dezembro de 1654, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, f ls. 20v-21. Como numa
disputa de resistência, na guerra nos matos do sertão pernambucano era vital possuir mais mantimentos que o
inimigo, e essa fora uma preocupação constante ao longo de toda a guerra contra os palmarinos.
92 As fontes sugerem que este Belchior Álvares seria o filho do sesmeiro homônimo dos Campos de Cunhaú, citado
pelo relatório holandês de 1643, visto na seção anterior. Os Álvares Camelo eram proprietários do ofício de alcaide-
mor da vila do Penedo, cargo mais alto que o capitão donatário de Pernambuco podia nomear em uma vila da
capitania, e, por costume, era exercido de maneira hereditária. Os alcaides-mores eram responsáveis por cuidar da
defesa das vilas, cidades e fortalezas, indicar às câmaras nomes para possíveis ocupantes do cargo de alcaide, cuidar
da carceragem e suas despesas, entre outras obrigações. Belchior Álvares era também administrador de um
Morgadio instituído pelo pai nas suas terras; grande criador de gado, vindo a fornecê-los inclusive aos holandeses
durante o governo de Nassau. Pode-se dizer que era a figura político-militar mais proeminente nas terras ao sul das
Alagoas. Ver entre outros, BORGES DA FONSECA, Antonio José V. Nobiliarchia Pernambucana. Rio de Janeiro:
Bibliotheca Nacional, 1935, p. 67; MÉRO, Ernani. Penedo: Templos, Ordens e Confrarias. Maceió: SERGASA,
1991; CURVELO, Arthur Almeida de C. O Senado da Câmara de Alagoas do Sul: governança e poder local no sul
de Pernambuco (1654-1751). Dissertação (Mestrado em História) – UFPE – Recife, 2014, pp. 49-50; e
MARQUES, Dimas Bezerra. Pelo bem de meus serviços, rogo-lhe esta mercê: a influência da guerra de Palmares
na distribuição de mercês (Capitania de Pernambuco, 1660-1778). Dissertação (Mestrado em História) –
Universidade Federal de Alagoas – Maceió: 2014, pp. 111-112. O donatário deve ter nomeado a seu pai antes de
1600, porém este perdeu os papéis com a invasão holandesa, e seu filho homônimo usou um ofício de testemunhas
para conseguir a recondução no cargo. Ver a carta régia da recondução de Belchior Álvares Camelo ao cargo de
Alcaide-mor da vila de São Francisco do Penedo, em “Reconduziu a Belchior Álvares Camelo na propriedade da
Alcaidaria-mor do Rio de São Francisco.” 15 de janeiro de 1657, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, fl. 34.
44
que não mais pudessem se valer de suas roças após a saída das tropas dos matos. Na verdade, a
própria permanência das tropas nos matos dependia da quantidade de mantimentos disponíveis nos
mocambos, uma vez que os suprimentos que vinham das vilas do litoral para os soldados eram
bastante incertos.93
Belchior Álvares participou de outra expedição, desta vez a mando do governador André
Vidal de Negreiros (1657-1661), no verão de 1660-1661.94 Esta entrada parece ter conseguido
algum efeito nos mocambos do sertão da vila do Penedo, provavelmente na ribeira do rio Coruripe.
Em 1661, o governador Francisco de Brito Freire (1661-1664) relatava “que o Governador André
Vidal havia mandado aos Palmares antes de minha chegada, com sua tropa de 90 soldados, (…)
ficava no rio de São Francisco com 60 negros que aprisionou em uns mocambos que tinham situado
de seis meses a esta parte”.95 Devido a seu relativo sucesso, o governador queria que este também
fosse ao sertão das vilas de Porto Calvo e Sirinhaém, ao norte de Alagoas, combater os negros
rebeldes. Na mesma carta, dizia que as câmaras das vilas do Porto Calvo, Sirinhaém, mas também
os senhores de escravos da freguesia de São Lourenço, termo de Olinda, se queixavam dos negros
dos matos e suas razias nas fazendas e senzalas, e pediam-lhe que não apenas enviasse seus
capitães-do-campo, mas também alocasse aldeias indígenas nos limites entre as vilas e os sertões –
25 famílias indígenas seriam então deslocadas para o aldeamento dos Ananases, no sertão da vila de
Sirinhaém.96
O recurso a estas figuras de grande poder local, que arregimentavam índios aldeados, escravos
e agregados para fazer guerra, foi uma constante ao longo do século XVII na campanha contra os
mocambos de Pernambuco. Aqui frisamos uma diferença qualitativa importante entre os esforços
anti-quilombolas da WIC e dos colonizadores lusos. Enquanto a companhia dos Países Baixos
empregava um grande de número de mercenários vindos da Europa na tentativa de desbaratar os
mocambos, a administração portuguesa buscou arregimentar colonos locais, pessoas da terra, que
detinham reconhecido conhecimento sobre o sertão e as matas de Pernambuco. Também indígenas e
escravizados foram mobilizados contra aqueles que resistiam aos processos de submissão e
escravização.
Brito Freire organizou nova incursão contra Palmares, que sairia da vila de Alagoas em 7 de
janeiro de 1662, subindo os vales por entre os rios Mundaú e Paraíba do Meio (os volumosos rios
que deságuam nas lagoas de Alagoas), com 150 a 200 homens, mais uma tropa de índios. A ideia
era subir pelo sertão o suficiente para atacar os mocambos “pelas costas”, isto é, de oeste para leste.
93 “Mandou ao capitão Belchior Álvares invadir os Palmares.”, 1657, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, fl. 37.
94 Infelizmente, o volume das Disposições dos Governadores de Pernambuco registra que André Vidal de Negreiros
“não teve disposições nenhumas”. Assim ficamos sem dados para esta expedição, que deve ter partido dos sertões
da comarca do Rio de São Francisco, entre 1657 e 1661.
95 “Escreveu ao mesmo [governador-geral do Brasil] sobre os negros dos Palmares, e sobre os índios que foram
povoar a aldeia dos Ananases.” 23 de março de 1661, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, fl. 49.
96 Idem.
45
Da mesma forma fariam no sertão da vila do Porto Calvo após desbaratarem os mocambos do rio
Mundaú e do Paraíba. A ordem indica que a figura mais importante da expedição, porém, não seria
o seu comandante, o capitão Simão Mendes do Alto, mas sim um tal Domingos Quaresma, “soldado
do capitão Belchior Álvares, que mora nos campos de Cunhaú, por saberem que é homem prático
naquele sertão”.97 Essa região, como já vimos, corresponde às campinas nas cabeceiras dos rios São
Miguel e Coruripe, no sudoeste das Alagoas, e era rica em pau-brasil,98 além de abrigar os melhores
pastos de Alagoas.
Para a expedição que sairia do sertão do São Francisco, um certo Domingos Antunes seria seu
guia, pelo caminho anteriormente feito pelo capitão Belchior Álvares, “por saber eu que é homem
prático naquele sertão”, afirmava o governador. Referia-se aqui, mais uma vez, aos campos de
Cunhaú, que ficavam aos pés das serras dominadas pelos quilombolas. E a confirmação da
localização da expedição vem logo em seguida na ordem passada pelo governador à câmara do
Penedo, onde determinava que, dois dias após a partida da tropa, mandasse o capitão-do-campo
local percorrer o litoral entre a vila e o rio São Miguel, “duas léguas ou três para o sertão, porque
estou informado que os negros, quando os buscam em cima, se vêm chegando para nós, e se livram
andando à beira-mar”.99 No mapa 1 já referimos todas estas localidades em relação às vilas e
povoações da capitania.Ao mesmo tempo, outras forças expedicionárias partiriam de outras cinco localidades para o
sertão, desde a vila de Sirinhaém até a do Penedo, na comarca do rio São Francisco. Quase todas
acabariam por se encontrar no sertão das Alagoas, principal reduto palmarino conhecido até então.
Também na vila das Alagoas, deveria o capitão-do-campo patrulhar entre o rio São Miguel e o
Santo Antônio Grande, três ou quatro léguas da praia rio acima, para evitar a evasão dos rebeldes
em direção ao litoral. No sertão da vila do Porto Calvo, a patrulha do litoral deveria ser feita entre
os rios Persinunga e Camaragibe, da mesma forma.100
A tabela abaixo condensa as informações disponíveis nas fontes encontradas sobre as
expedições simultâneas organizadas por Francisco de Brito Freire, em 1662:
 
97 “Regimento que deu ao cabo da tropa, que ia das Alagoas a demandar os mocambos.” 24 de dezembro de 1661,
AUC_CCA_VI-III-1-1-31, f. 62v. É provável que Domingos Quaresma fosse morador na sesmaria do capitão
Belchior Álvares, citada pelos holandeses no relatório sobre as Alagoas, de 1643 (acima).
98 O superintendente Bento Sorrel Camiglio pediria o monopólio do corte da madeira nos “confins do rio de
Coruripe”, alegando que ninguém até então tinha chegado e se instalado naquele sertão por ser vizinho dos negros
de Palmares, em 1664. AUC_CCA_VI-III-1-1-31, f. 177.
99 “Regimento que deu ao cabo da tropa, que ia da vila do Rio de São Francisco [Penedo] a demandar os mocambos.”,
24 de dezembro de 1661, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, f. 64v.
100 “Escreveu à Câmara do Rio de S. Francisco sobre as tropas que haviam de ir aos mucambos e regimento que deu ao
cabo”, 24 de dezembro de 1661, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, f. 63-64v.
46
Tabela 1 – Expedição do governador Francisco de Brito Freire (1662)101
Local de partida Suposto
contingente
Comandante
(Cabo)
Guia Percurso
Vila das Alagoas 150 a 200 homens
brancos e mais
índios do capitão
Jorge Peres.
Capitão Simão
Mendes do Alto ou
Capitão Gonçalo
Moreira da Silva
Soldado Domingos
Quaresma
Subir ao sertão por
entre os rios
Mundaú e Paraíba,
seguir ao sertão do
Porto Calvo, e
retornar às
Alagoas.
Vila do Penedo do
São Francisco
150 a 200 homens
mais índios
Tapuias
Capitão Francisco
Gonçalves
Domingos Antunes Subir ao sertão
pelo caminho que
fez o capitão
Belchior Álvares e
descer até as
Alagoas.
Vila do Porto
Calvo
150 a 200 homens Capitão Sebastião
de Sá
- Subir ao sertão
pelo rio Santo
Antônio Grande e
tomar o rumo do
sertão das Alagoas.
Freguesia de
Santo Antão
- - - Subir ao sertão o
necessário para
atacar os
mocambos do
Porto Calvo e
Alagoas “pelas
costas”.
- 300 índios Capitão-mor D.
Diogo Pinheiro
Camarão
- -
Vila de Sirinhaém - - - -
Em abril de 1662, o governador já reconhecia o fracasso parcial do esforço de guerra, uma
vez que as tropas encontraram os mocambos “abandonados”. Para ele, tudo se devia aos “espias”
101 AUC_CCA_VI-III-1-1-31, diversos documentos entre as fls. 45-66v.
47
que os palmarinos tinham no Recife, que os avisaram sobre as expedições a tempo para uma fuga
bem-sucedida. Mais ainda, teriam descido pelo menos três vezes aos arredores de Alagoas, levando
mais de quarenta escravizados para os mocambos, segundo queixas de senhores locais.102
O capitão Sebastião de Sá, cabo das tropas do Porto Calvo (citado no quadro acima),
marchara com uma ordem a mais em seu regimento: entregar um papel com uma proposta de anistia
aos quilombolas a dois negros que viesse a capturar na expedição, dos mais velhos e capazes de
compreender a proposta, enviando-os de volta aos mocambos restantes. Garantiria ainda, o
governador, salvo conduto aos rebeldes que viessem a Recife negociar os termos da rendição.103 Era
a primeira tentativa de um acordo de paz com os mocambos de Palmares. O governador enviou aos
mocambos “uns cartazes em que lhes prometia terra para suas lavouras, e deixá-los viver
livremente, com tanto que não admitissem mais escravos dos moradores, antes se obrigariam a
entregar os que para lá fugirem”,104 alistando-se no Terço de Henrique Dias, como os demais negros
forros que nele serviam.105 Já para a Coroa, Brito Freire disse que mandara “lançar nos seus
mocambos alguns cartazes, persuadindo-os a que baixassem e se reduzissem (como já se havia
reduzido a nação dos Tapuias) a viver junto dos nossos em sítios assinalados”.106 Já em outra
missiva, para o governador do Estado do Brasil, Brito Freire relatava o fracasso das negociações,
descrevendo mais minuciosamente a proposta que fizera: 
(…) me resolvi a mandar-lhes uns cartazes em que os dava por livres e isentos de toda a
escravidão, porque para isso tinha eu já o consentimento de quase todos os moradores
interessados por via de seus párocos, dando-lhes sítio na parte que eles nomeassem junto aos
moradores para fazerem suas plantas de roças, e mais mantimentos com a ferramenta necessária,
como tinha concedido a Nação dos Tapuias, que vivem já com suas mulheres e famílias em
aldeias novas, declarando aos ditos negros que não consentiriam dali em diante escravo algum q
102 “Carta ao capitão-mor da Paraíba sobre a jurisdição daquela capitania e a do Rio Grande, e a [ilegível] conta da
invasão dos Palmares”, 18 de abril de 1662, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, f. 81v.
103 “Regimento que deu sobre o mesmo [Regimento que deu ao cabo da tropa, que ia da vila do Porto Calvo aos
mocambos]”, 29 de dezembro de 1661, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, f. 66v.
104 Ver a carta em que o governador comenta estes termos em, “Carta ao mesmo governador[-geral] sobre o Siará e
negros dos Palmares”, 17 de abril de 1663, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, f. 91.
105 Os comentários do governador em, FREIRE, Francisco de B. Nova Lusitânia: história da guerra brasílica [1675].
São Paulo: Beca Produções Culturais, 2001, p. 178. Hebe Mattos lembra que, passada a guerra contra os
holandeses, muito se discutiu sobre como “dissolver” o Terço Negro dos Henriques, não sendo conveniente manter
os negros armados e “ociosos” na capitania. Uma das soluções discutidas entre o Conselho Ultramarino e as
autoridades pernambucanas – para ambos os problemas, então – seria a incorporação dos negros dos Palmares no
terço, através da ação conjunta de religiosos, e só então extinguir o grupamento, dispersando os negros aos poucos
pelas capitanias. cf. MATTOS, Hebe Maria. “A guerra preta: culturas políticas e hierarquias sociais no mundo
atlântico”. In: __. Marcas da Escravidão. Biografia, Racialização e Memória do Cativeiro na História do Brasil.
Tese (Titular) Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2004.
106 Papel do governador de Pernambuco para El-Rei sobre a conservação do Brasil e guerra contra os holandeses.
Recife, Pernambuco, 1663, mar. 23. BA – Cód. 51-VI-1, 76a, fl. 249v. Ver também, com pequenas variações, uma
possível cópia reduzida do documento em, Francisco de Brito Freire, [Relatório dos serviços prestados em
Pernambuco], s/d, BNL-Res., Cód. 236, n. 51, 4f. Esta “cópia reduzida” deve ter sido escrita após março de 1664,
quando chegou ao fim do governo de Brito Freire, e talvez até mesmo por um terceiro, como uma cópia do
Conselho Ultramarino, por exemplo; terceiro este que não tinha todas as informações sobre o episódio, dado que,
ainda em 1663 o governador voltaria a fazer preparativos para um novo ataque aos Palmares, em seguida ao caso da
decapitação dos emissários quilombolas.
48
fosse fugido da casa de seu senhor, e seriam obrigados a entregá-los; encarregando esta missão
ao padre João Duarte do Sacramento (…)107
Os senhores pernambucanos já se contentavam em abrir mão de seus direitos sobre os
escravizados se pudessem ter a certeza do fim das fugas ao cativeiro, e da rebeldia dos grupos
quilombolas. Assim, junto às vilas, longe do sertão,os quilombolas que aceitassem o acordo
poderiam inclusive “escolher” as terras a ocupar, desde que não aceitassem mais nenhum outro
cativo que para eles fosse fugido. Ou se seja, o governador planejara aldear os negros que se
entregassem, e as terras que prometia não seriam as terras que ora ocupavam nos sertões
palmarinos, muito menos com a autonomia de que gozavam vivendo longe das vilas do litoral e dos
senhores de escravos. Teriam que se submeter, como os indígenas, aos chamados ao serviço real, e à
intromissão dos poderes coloniais na sua autonomia produtiva e modo de vida.
Alguns quilombolas teriam pedido uma confirmação sobre a verdade da proposta, e depois
dessa haviam retornado aos mocambos para reunir suas lideranças e aceitar a paz oferecida, “com
que se logrará grande quietação e grande conveniência nestas capitanias”, nas palavras de Brito
Freire. Vê-se que o governador ainda estava no momento de euforia com a possibilidade concreta
da paz com os palmarinos. E um outro detalhe salta aos olhos: em razão da situação frágil em que
os mocambos teriam ficado após as incursões, os negros teriam procurado os “filhos do sargento-
mor Antônio Vieira” para se certificarem da veracidade da oferta, sugerindo que quilombolas e
alguns senhores de escravos poderiam ter relações um pouco mais estreitas, e mesmo de
confiança.108
Em 1663, um grupo de quilombolas teria respondido à proposta de paz do governador,
descendo do sertão da comarca do rio São Francisco para negociar os termos – episódio
pouquíssimo detalhado pela historiografia de Palmares.109 O governador então pedira que o padre
capuchinho João Duarte do Sacramento – experiente no aldeamento de tribos tapuias nos sertões110
– fosse até a vila do Penedo do rio São Francisco encontrar-se com “o cabo de um dos mocambos”,
com a incumbência de reforçar os termos da oferta de paz já mencionados e providenciar os acertos
finais.111 Parecia que tudo enfim daria certo, e os negros dos Palmares aceitariam tornar-se uma
espécie de Terço Negro de Henriques, vassalos da Coroa portuguesa, instalados permanentemente
nos sertões da capitania. Mas algo daria errado. Os palmarinos “o despediram com desprezo e
107 “Escreveu ao governador do estado do Brasil sobre os negros dos Palmares.” 2 de agosto de 1663, AUC_CCA_VI-
III-1-1-31, f. 93.
108 Pretendemos voltar a esta relação entre as famílias proprietárias nas franjas dos Palmares em outro capítulo.
109 Com poucas exceções, sendo a mais recente, algumas páginas dedicadas por LARA, Palmares & Cucaú, pp. 41-42.
110 “Ordenou ao padre João Duarte industriasse os ditos índios [Tapuias] e erigisse uma igreja”, 25 de outubro de 1661;
e “Escreveu aos Prelados dos conventos fizessem preces pelo bom sucesso dos mesmos índios [Tapuias]”, 1 de
setembro de 1661, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, f. 60v-61v.
111 “Carta ao mesmo governador[-geral] sobre o Siará e negros dos Palmares”, 17 de abril de 1663; e “Escreveu ao
superior dos capuchinhos e guardião de Santo Antônio do Recife [ilegível] encomendassem o sucesso dos
Palmares, que faz a cargo do padre João Duarte do Sacramento”, 18 de abril de 1663, AUC_CCA_VI-III-1-1-31,
fls. 74 e 91.
49
palavras escandalosas”112 – o que sugere que o padre teria ido negociar nos matos e não os negros
teriam vindo à vila do São Francisco –, além de degolarem dois de seus companheiros que teriam
começado as negociações.
Enfurecido com a provocação dos negros, Brito Freire pediu permissão ao governador-geral e
vice-rei do Brasil, o conde de Óbidos, para fazer guerra total aos negros rebeldes, com ordens aos
cabos para não fazer prisioneiros, executando todos os negros com mais de quinze anos, mesmo que
se entregassem.113 Apesar de concordar que os palmarinos mereciam um duro castigo, o vice-rei
advertia ao governador que suas ordens eram no sentido de aprisionar os que se rendessem, somente
executando aqueles reconhecidamente líderes dos rebeldes. Seria faltar com a “piedade católica”
executar prisioneiros rendidos, e contraproducente, “pois na clemência se facilita o rendimento”,
nas palavras do conde.114 No entanto, Brito Freire deixou o governo da capitania em março de 1664,
sem qualquer notícia da suposta expedição que teria feito no início daquele ano.
Este episódio é suficiente para demonstrar algumas características da organização política dos
mocambos dos Palmares por aquela época. Fica evidente que os grupos que formavam as
comunidades comportavam divisões internas expressivas, e estavam longe de ser uma monolítica
comunidade de rebeldes governada por uma liderança onipotente. Na verdade, e a documentação
sugere, haveria grupos mais próximos a poderosos senhores, interessados em tomar a dianteira em
negociações de paz e nas benesses provenientes, enquanto outros acreditavam que a manutenção da
autonomia nos matos e serras da capitania era a melhor estratégia de vida, chegando mesmo ao
assassinato de possíveis opositores internos nos mocambos.
Ocorreria então uma mudança de estratégia por parte das autoridades coloniais. Pressionado
pelo fracasso, pelas queixas de alguns senhores de terras e escravos, e por aqueles que viam
possibilidades de ganhos pessoais com a captura de negros fugidos, Brito Freire declarou “livres” as
entradas aos mocambos de Palmares, isto é, qualquer pessoa poderia fazer a guerra no sertão por
conta própria, podendo ainda tomar para si todos os negros que capturasse, contanto que tivessem
fugido de seus senhores há mais de um ano. Ele mandava publicar um edital nas vilas a ser
ratificado pelos possuidores de cativos caso concordassem em abrir mão de seus direitos em nome
da destruição dos mocambos. Numa segunda medida, o governador mandava que se instalasse uma
tropa de índios do Terço do capitão-mor Camarão em um dos mocambos abandonados pelos negros,
de modo a se evitar o regresso dos mesmos, e fazer guerra permanente, baseados no sertão. 115 O
excepcional centralismo das ações anteriores dava lugar a uma estratégia de ação muito mais
112 “Escreveu ao governador do estado do Brasil sobre os negros dos Palmares”, 23 de agosto de 1663,
AUC_CCA_VI-III-1-1-31, f. 94.
113 Idem.
114 “Carta para o Governador Francisco de Brito Freire acerca da entrada que quer fazer nos Palmares [1663]” In:
GOMES, Mocambos de Palmares, p. 180.
115 “Concedeu entradas livres aos mocambos a toda pessoa que a eles quisessem ir”, 6 de dezembro de 1662,
AUC_CCA_VI-III-1-1-31, f. 88.
50
alinhada com as concepções político-administrativas do império português do Antigo Regime, pós-
1640,116 delegando-se direitos, poderes e privilégios aos particulares interessados na destruição de
Palmares e da ameaça que representava para a manutenção dos contingentes cativos, cabendo
também a estes os eventuais prejuízos da empreitada e suas possíveis mercês pelos serviços. 
Assim, a administração esperava resolver os problemas do pouco interesse de alguns
moradores em participar das incursões, uma vez que, se não se engajassem, poderiam perder seus
cativos – se estes tivessem fugido há mais de um ano quando de sua recaptura. A força da ameaça
quilombola dos Palmares crescia, forçando mudanças de curso por parte das autoridades coloniais.
Ao mesmo tempo, a concordância de alguns senhores com esta política mostra que estavam
dispostos a perder alguns de seus cativos se isso significasse a manutenção e a estabilidade do
escravismo local, com o fim da ameaça quilombola.
Em outubro e novembro do mesmo ano, seu sucessor, o governador Jerônimo de Mendonça
Furtado (1664-1666) organizava novas entradas aos mocambos de Palmares. O capitão Antônio da
Silva Barbosa foi chamado a comandar a expedição que sairia da vila de Sirinhaém. O capitão
deveria convocar moradores do local reconhecidamente experientes nas entradas aos Palmares, emarchar rumo ao “mocambo grande” chamado Amaro, no sertão de Sirinhaém:
3º Da dita vila de Sirinhaém entrará logo com a sua tropa e a do capitão-mor Camarão para o
sertão, em demanda do mocambo grande, que chamam de Amaro, não deixando porém atrás
nenhum de que tenha notícia, por pequeno que seja; em todos aos que chegar que tiverem
plantas e roças, lhe arrancarão tudo sem que lhes fique coisa de que os negros se possam valer
para seu sustento;
4º Pelo mesmo sertão, irá marchando sempre até os mocambos que estão sobre as Alagoas,
advertindo que nas cabeceiras do Porto Calvo estão alguns por onde primeiro passará, fazendo
neles o estrago acima referido; em todos os mais que puder descobrir, e tiver notícia, fará o
mesmo, destruindo-lhes de modo que em nenhum tempo possam os ditos negros levantados
valerem-se deles;
(…)
7º depois de haverem corrido toda a campanha, e tido encontro com os negros, destruirão todos
os mocambos e o capitão Antônio da Silva e o capitão-mor D. Diogo Pinheiro Camarão farão
escolha do sítio que lhes parecer mais acomodado e melhor, junto de um mocambo velho que
dista 18 ou 20 léguas das Alagoas para se aposentar o dito capitão-mor com a sua gente, com
a qual fará logo sua aldeia, fortificando-se com estacada, e a mais defensa que lhe parecer
necessária contra os ditos negros levantados, de que se deve acautelar como fazia dos
holandeses, por serem aqueles negros piores inimigos, e caseiros, trazendo, enquanto se
fortifica, gente na campanha, correndo aquela corda do sertão até Porto Calvo;117
Apesar de seus antecessores já terem “buscado todos os meios para reduzir os negros
116 HESPANHA, António Manuel e SANTOS, Maria Catarina. “Os poderes num império oceânico”. In: HESPANHA,
A. M. (org) O Antigo Regime (1620-1807) (volume IV da coleção História de Portugal, direção: MATTOSO, J.).
Lisboa: Editorial Estampa, 1a edição 1998, pp. 395-413.
117 Ver o regimento dado ao capitão com suas instruções em, “Regimento que levou o capitão Antônio da Silva
Barbosa sobre os negros dos Palmares”, 26 de novembro de 1664, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, f. 165 (grifo nosso).
E diversas outras correspondências entre aqueles últimos meses de 1664, do governador para os camaristas
daquelas vilas sobre as entradas aos mocambos, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, f. 119v-160.
51
levantados dos Palmares a que vizinhe bem com os moradores, até se lhe fazerem promessas de os
deixarem viver em sua liberdade, e outros favores”,118 quer dizer, tentado entrar em algum tipo de
arranjo que permitisse a continuidade pacífica das comunidades, Jerônimo Furtado de Mendonça
ainda ouvia queixas dos vizinhos dos mocambos sobre roubos e conflitos armados que acabavam
com mortos e feridos. O regimento do capitão Antônio da Silva Barbosa é bem claro. Alertava para
a presença das comunidades palmarinas entre Sirinhaém e Alagoas, fazendo referência às
comunidades do sertão da vila do Porto Calvo, entre as duas primeiras. Aqui já é possível
vislumbrar, ainda em 1664, o que somente se confirmaria em 1674-1678, quando as autoridades
coloniais nomeariam estas comunidades e as atacariam, produzindo uma documentação que
mapeava os redutos quilombolas. No final deste capítulo mostraremos esta configuração territorial.
Para o governador, restava então aumentar a repressão, destruindo as roças e mantimentos de
todos os pequenos mocambos que a tropa encontrasse pelo caminho até o mocambo do Amaro e os
demais no sertão do Porto Calvo e de Alagoas. Levaria adiante antigos planos de instalar um
aldeamento indígena no sertão palmarino. A novidade é a definição mais precisa do local escolhido,
“junto de um mocambo velho que dista 18 ou 20 léguas das Alagoas” sertão adentro, onde Antônio
da Silva Barbosa e o capitão-mor Camarão deveriam escolher o melhor sítio. Algumas coisas
começam a ficar claras para as autoridades neste momento, como os nomes de alguns mocambos e
distâncias aproximadas em relação às vilas litorâneas. É possível inclusive que o referido
“mocambo velho” fosse uma referência a um dos mocambos antigos encontrados pelos holandeses
no sertão do rio Mundaú, próximo aos Campos dos Garanhuns (ver o mapa 1), ou ainda ao que seria
depois chamado de Serra da Barriga.
O local a ser ocupado pela aldeia dos índios do Camarão, no entanto, teve que ser mudado.
Com as notícias da derrota das tropas do capitão Antônio da Silva Barbosa no mocambo do sertão
do Porto Calvo e a impossibilidade de se chegar a atacar no sertão de Alagoas, o governador
comunicava que deixaria a tropa do capitão-mor Camarão assistindo no sertão da vila, nos limites
das terras do engenho do Morro,119 numa distância de, no máximo, 25 quilômetros da vila do Porto
Calvo. Ali deveriam levantar suas aldeias e caberia aos moradores do Porto Calvo lhes garantir os
mantimentos necessários para os primeiros meses. Já aos índios, caberia agirem como uma espécie
de milícia anti-quilombola a guardar os sertões do Porto Calvo e Alagoas, uma barreira entre os
mocambos e as vilas. Depois da grande derrota sofrida no sertão do Porto Calvo, o governador já
118 “Bando em que se concede aos soldados e mais oficiais da tropa a tomadia que fizessem, não desencaminhando
negro algum. 26 de novembro de 1664”, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, f. 168 (itálico nosso).
119 Este engenho fora fundado nas terras da sesmaria do alcaide-mor da vila de Porto Calvo, Cristóvão Lins, ainda no
século XVI, na margem esquerda do rio Manguaba, junto à barra do “Maciá” (antigo rio que aparece no mapa de
Marcgrave, 1647, onde é identificado como “S. Cosmo”), por seu cunhado Antônio de Barros Pimentel – que teria
recebido as terras por dote. Em 1663, Rodrigo de Barros Pimentel, filho de Antônio de Barros, era seu senhor. cf.
MELLO, O bagaço da cana, pp. 135-137; e BORGES DA FONSECA, Nobiliarquia Pernambucana, v. 1, p. 100.
Para o mapa de Marcgrave, ver online na Biblioteca Nacional de Portugal, http://purl.pt/4068/3/, e o Atlas da
América portuguesa, para detalhes, em http://lhs.unb.br/atlas/S._Co%E2%88%Abmo_(engenho/Mongaguaba).
http://lhs.unb.br/atlas/S._Co%E2%88%ABmo_(engenho/Mongaguaba
http://purl.pt/4068/3/
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recomendava à câmara das Alagoas repetir “aquele contrato que meu antecessor faria com eles [os
quilombolas]”, e ainda dizia que “tudo o que se lhes prometia cumprirei e ainda com mais
vantagem, só a fim de que esses povos vivam com sossego e quietação”.120 As perdas na campanha
do sertão parecem ter sido realmente grandes para os senhores de escravos.
A manutenção das aldeias das tropas do Camarão em Palmares, apesar de algum sucesso,
causou desconfortos entre autoridades e moradores, pois era uma solução que demandava recursos
das vilas e não resolvia, de todo, o problema dos ataques esporádicos de quilombolas nos arredores.
Tanto é assim que o governador logo buscou decretar novamente livres as entradas aos mocambos
para quaisquer moradores, em 1665.121
No entanto, os esforços esbarravam no desinteresse dos habitantes próximos aos mocambos
em tomar armas contra as comunidades. Escrevendo à câmara de Alagoas em fins de 1665,
Mendonça Furtado não disfarçava o descontentamento com a situação. O governador voltava a ter
problemas para o alistamento dos homens capazes de pegar em armas para as expedições aos
mocambos, e culpava o capitão-mor local por não os convocar com mais veemência para as
entradas. Acusava os moradores de “tão frouxos que consintam as vexações que lhe fazem quatro
tapanhunos”,122 num curioso e raro caso de menosprezo pela ameaça dos mocambos.123 Em
Sirinhaém a situação não era diferente. Afirmava para a câmara que as vexações de que sofria a vila
pelos palmarinos eram devidas à falta de ânimo dos moradores em pegar em armas e participar das
expedições repressivas contra os mocambos.124 O que parece reforçar a ideia de que nem sempreera
a vontade do grosso dos moradores combater as comunidades quilombolas, e sim uma aspiração
transmitida pelas câmaras dessas vilas, controladas em sua maioria por representantes da elite
açucareira das localidades, os mais interessados em impedir as fugas em massa de cativos para os
sertões. Lá estariam em liberdade relativa do trabalho nos engenhos e canaviais, mas também em
constante trato com os moradores menos abastados (e menos dependentes da mão de obra servil)
que ocupavam os limites das jurisdições das vilas e freguesias.
Mais ainda, a referência a ‘quatro tapanhunos’ poderia indicar que, à época, já eram
identificadas pelo menos quatro lideranças mocambeiras, talvez atribuindo-se localização específica
120 “Escreveu a Câmara das Alagoas sobre o negócio dos Palmares”, 11 de abril de 1665, AUC_CCA_VI-III-1-1-31,
fls. 184-185; “Ordenou a câmara do Porto Calvo fizesse lançamento para o sustento do Camarão”, 22 de abril de
1665, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, f. 132v; e “Escreveu a câmara de Sirinhaém sobre a mudança da Aldeia para o
engenho de Cucaú”, 17 de junho de 1666, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, f. 203v.
121 “Escreveu a câmara do Porto Calvo sobre o Camarão e os negros levantados”, 16 de setembro de 1665,
AUC_CCA_VI-III-1-1-31, f. 140.
122 Segundo Francisco Eduardo de Andrade, “designação da ‘gente preta’, proveniente da língua geral tupi”, cf.
ANDRADE, Francisco E. “Sertanistas das Minas do Ouro: senhores de tapanhunos e carijós”. In: Politeia: História
e Sociedade, v. 13, n. 1, Vitória da Conquista, 2013, p. 37.
123 “Escreveu ao capitão-mor das Alagoas sobre rusgas com a câmara e sobre Palmares”, 5 de novembro de 1665,
AUC_CCA_VI-III-1-1-31, f. 188v.
124 Escreveu a câmara de Sirinhaém sobre a mudança da Aldeia para o engenho de Cucaú”, 17 de junho de 1666,
AUC_CCA_VI-III-1-1-31, f. 203v.
53
para a habitação e atuação de seus bandos rebeldes. Infelizmente esta indicação não é melhor
esmiuçada na documentação, nem na bibliografia, sendo possível apenas conjecturar sobre seu
significado, com base no que se sabe a posteriori sobre Palmares e suas diversas lideranças, às
quais eram atribuídos redutos distintamente localizados.
O enraizamento dos mocambos nos sertões de Pernambuco nesta época é notável. Não apenas
os arredores das vilas do litoral estavam no raio de ação dos mocambos, mas há indicações de que o
agreste pernambucano já era uma zona de atuação dos palmarinos. Em 1667, a chamada Serra do
Comunaty, no médio para o alto curso do rio Ipanema, também abrigava “o mocambo e maior
fortaleza dos negros”, segundo uma consulta do Conselho Ultramarino. O militar João de Montez,
morador no sertão do rio São Francisco, teria sido o responsável por sua destruição, marchando com
seus escravos e agregados quarenta léguas até a serra, na ribeira do rio Ipanema, grande afluente do
São Francisco.125 A folha de serviços de Montez afirma que ele serviu na naquela serra por três dias,
padecendo de fome, alimentando-se de raízes e abrindo picadas pelas altas serras da região. O relato
dá a entender que um arraial126 já estava instalado no local, servindo de base para os ataques aos
mocambos da região. Apesar de ser a única referência a mocambos palmarinos no sertão do rio
Ipanema, é bastante verossímil que aquelas serras, imediatamente a oeste dos Campos de
Garanhuns, fossem um caminho utilizado para atacar os mocambos “por trás”, tática comum nas
expedições aos Palmares..127
6. O apogeu dos mocambos de Palmares, 1669-1674
Na segunda metade do século XVII, especialmente a partir de 1670, se observou em
Pernambuco uma contínua retomada dos investimentos no negócio do açúcar, em parte, ancorada
nos interesses comerciais pernambucanos instalados em Angola – governando em Luanda João
Fernandes Vieira (1658-1661) e André Vidal de Negreiros (1661-1666), antigos heróis da guerra de
Restauração, e senhores de engenho de Pernambuco. Também a Costa da Mina começava a ter
125 “Consulta do Conselho Ultramarino acerca da Nomeação de pessoas para a Companhia de Infantaria que vagou no
3º dos Paulistas de que é Mestre de Campo Domingos Jorge Velho pela promoção de Luís da Silveira Pimentel
[1699]”. In: GOMES, Mocambos de Palmares, pp. 442-445. Para além de ser possuidor de escravos, sabemos
apenas que João de Montez participou das campanhas da guerra dos Bárbaros no Rio Grande e Ceará contra
diversas tribos indígenas, antes de retornar à campanha de Palmares em 1693, sob o comando de Domingos Jorge
Velho.
126 O arraial era o alojamento dos exércitos portugueses em campanha, e no Brasil se referia principalmente aos
acampamentos de guerra de tropas coloniais nos sertões. cf. BLUTEAU, Vocabulario portuguez, vol. 1, p. 544.
127 O povoado de Águas Belas, que se forma ao pé da Serra do Comunaty, é fruto da instalação de aldeamentos
indígenas, como a aldeia dos Carapotó, entre 1687 e 1688. O que pouco se sabe é sobre a relação entre possíveis
arraiais de guerra contra os palmarinos, onde em geral muitos índios aldeados serviam, e as povoações de índios e
não-índios formadas ali. Sobre o local, cf. DANTAS, Mariana A.. “A presença indígena na constituição da cidade
de Águas Belas, Pernambuco”. In: Revista CLIO, vol. 28.2, s/d, disponível online em
http://www.revista.ufpe.br/revistaclio/index.php/revista/article/viewFile/128/97, acesso em fevereiro de 2017.
http://www.revista.ufpe.br/revistaclio/index.php/revista/article/viewFile/128/97
54
maior participação no fornecimento de cativos para a capitania.128 A conjuntura de recuperação do
investimento e da lucratividade no comércio de açúcar correspondeu ao aumento da repressão aos
mocambos, identificados como entraves e válvulas de escape de preciosos recursos (africanos
escravizados).
Do exposto até aqui, parece claro que as comunidades haviam chegado ao que chamaremos de
apogeu, nos referindo ao grande tamanho de sua área de atuação, em todas as freguesias abaixo do
rio Ipojuca, no sul da capitania de Pernambuco; e à crescente racionalização da repressão aos
mocambos de Palmares, incluindo acordos entre as câmaras das vilas vizinhas à mata para o
financiamento da guerra, e o recurso ao poderio de conhecidos sertanistas, forasteiros, caçadores de
quilombolas e índios rebeldes, como Fernão Carrilho e, mais tarde, Domingos Jorge Velho. Nesta
última parte trataremos do auge dos mocambos de Palmares, e buscaremos redefinir o espaço que
ocupavam na capitania de Pernambuco àquela época, criticando as tentativas anteriores de
espacialização dos quilombos, propondo um novo mapa para aquela conjuntura.
As câmaras das vilas litorâneas, dominadas pelas grandes famílias proprietárias da
capitania,129 detentoras dos postos militares mais altos e interessadas nas sesmarias do sertão,
uniram esforços em 1668/1669 para a destruição de Palmares. O acordo entre as vilas de Sirinhaém,
Porto Calvo e Alagoas, posteriormente estendido à vila de Penedo do São Francisco, para dividirem
os esforços financeiros da guerra contra os mocambos, dava a dimensão territorial da ameaça dos
mocambos palmarinos naquele momento.130 Assim como uma ordem do governador Fernão de
Souza Coutinho (1670-1674) que, em 1670, proibia o porte de armas de fogo nas vilas da capitania
de Pernambuco, exceto para as pessoas, “de qualquer qualidade”, que se acharem nas “fronteiras
dos Palmares” – a saber, Rio de São Francisco [Penedo], Alagoas, Porto Calvo, Una e
Sirinhaém”.131
O acordo não foi cumprido pelas vilas, e a alegação do pauperismo dos moradores foi a mais
utilizada. De fato, a população das vilas tinha acabado de pagar as altas contribuições cobradas pela
Coroa para o acerto da paz com a Holanda e para o dote de casamento de D. Catarina de Bragança,
ao longo da década de 1660.132 Diante desta situação, em junho de 1671, Fernão de Souza Coutinho128 Ver LOPES, Gustavo A. Negócio da Costa da Mina e comércio atlântico. Tabaco, açúcar, ouro e tráfico de
escravos: Pernambuco (1654-1760). Tese (Doutorado em História Econômica) – São Paulo: Universidade de São
Paulo, 2008, cap. 1. Cf. também ALENCASTRO, Luiz F. O Trato dos Viventes. São Paulo: Companhia das Letras,
2000; e BOXER, Charles. Salvador de Sá e a luta pela Brasil e Angola, 1602-1686. São Paulo Cia. Ed. Nacional,
1973.
129 Sobre a composição da câmara de Alagoas entre 1650 e 1750, ver CURVELO, O Senado da Câmara de Alagoas do
Sul, op. cit.
130 Arquivo do IHGAL – 00006-01-02-01 – Segundo Livro de Vereações da Câmara da vila de Santa Maria Madalena
da Lagoa do Sul (1668-1680), fls. 3-3v.
131 “Bando do governador Fernão de Souza Coutinho acerca de armas proibidas – Palmares [1670]”. In: GOMES,
Mocambos de Palmares, pp. 185.
132 Para as listas da contribuição de algumas freguesias que chegaram até nós, ver “1664, abril, 20, Freguesia da
Várzea, CADERNO da finta que se lançou na freguesia da Várzea pelo dote da Rainha da Grã-Bretanha e Paz de
Holanda, constando nomes dos contribuintes e suas respectivas contribuições.” AHU_CU_015, Cx. 8, D. 737;
55
pediu recursos à Fazenda Real para empreender nova entrada aos Palmares. Não pedia apenas ajuda
à Coroa, mas também tentava buscar recursos militares de fora da capitania de Pernambuco, como o
terço da gente da capitania de São Paulo, que já servia na Bahia na guerra contra tribos tapuias do
sertão do Recôncavo, desde 1658. No entanto, em 1672 os paulistas estavam em plena campanha,133
e o governador-geral do Brasil escreveu ao governador de Pernambuco dizendo que “os
pernambucanos não são menos robustos que os paulistas”, e este último deveria lidar com Palmares
com os recursos de que dispunha, haja vista que também a capitania da Bahia se via às voltas com o
problema de dominar as populações rebeldes de seus sertões.134 A partir da vila de Porto Calvo,
“lugar mais proporcionado para se fazer esta guerra”, ele ordenava que a expedição deveria sair no
verão de 1671/1672, “pela aspereza das terras”, que dificultava o carregamento dos mantimentos
para as tropas, visto que os poucos caminhos e picadas conhecidas naqueles matos palmarinos não
comportavam “carros” ou carruagens para os mantimentos, apenas “um homem atrás de outro.”
Dizia ainda que os rebeldes ameaçavam os moradores vizinhos, ostentando que teriam não apenas
armas, mas oficinas e “tendas de ferreiro” onde as fabricavam, sendo o sertão palmarino “fértil de
metais e salitre”, matéria-prima para todo tipo de armas, munições e pólvora.135 
Ainda em fins de 1671, o governador ordenava que o juiz ordinário João Cavalcante tirasse
devassa sobre dois negros, “João, escravo do capitão João de Nobalhas, e outro também João,
crioulo escravo de Mathias Favela”. Eles Haviam sido capturados em uma expedição aos
mocambos “das partes de Ipojuca” levada a cabo pelos moradores locais, com Tapuias do
aldeamento de Santo Antão, norte do rio Ipojuca. Em especial, o juiz deveria averiguar, além dos
crimes e roubos denunciados, as “cominações que tenham com os Palmares”.136 Em que pese a
lacuna deixada por essa possível devassa, nunca encontrada pelos pesquisadores, esta informação é
interessante para se observar como os Palmares correspondiam a um local geograficamente
determinado, e os mocambos encontrados ao norte do rio Ipojuca não eram automaticamente
incluídos entre os palmarinos.
“1664, abril, Freguesia do Cabo, CADERNO da finta que se fez na Freguesia do Cabo, por ordem do governador da
capitania de Pernambuco, Francisco de Brito Freire, com nomes dos contribuintes e suas respectivas contribuições.”
AHU_CU_015, Cx. 8, D. 738; Alguns senhores de engenho se tornaram célebres devedores dos donativos régios,
ver 1679, setembro, 13, Lisboa CONSULTA do Conselho Ultramarino sobre outra do Conselho da Fazenda, acerca
das dívidas dos ex-governadores [de Armas da capitania de Pernambuco], João Fernandes Vieira e André Vidal de
Negreiros, referentes ao dote da Inglaterra e Paz de Holanda, conforme informação do desembargador Antônio
Nabo Peçanha. Anexos: 2 docs. AHU_CU_015, Cx. 12, D. 1152.
133 “Carta que se escreveu ao governador de Pernambuco Fernão de Souza Coutinho [1672].” In: GOMES, Mocambos
de Palmares, p. 190. cf. PUNTONI, Pedro. A Guerra dos Bárbaros: povos indígenas e a colonização do sertão
nordeste do Brasil, 1650-1720. São Paulo: Hucitec; Edusp, 2002, pp. 97-122.
134 “Carta que se escreveu ao governador de Pernambuco Fernão de Souza Coutinho [1671].” In: GOMES, Mocambos
de Palmares, p. 188.
135 “Carta do governador Fernão de Souza Coutinho de sobre o aumento dos mocambos dos negros levantados que
assistem nos Palmares [1671]”. In: GOMES, Mocambos de Palmares, pp. 186-187; e AUC_CCA_VI-III-1-1-31, f.
254.
136 “Ordenou ao ouvidor-geral tomasse conhecimento das culpas dos negros apanhados em mocambos”. 21 de
dezembro de 1671, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, f. 309v.
56
Ao longo do segundo semestre de 1672, o governador Fernão de Souza buscou organizar as
tropas das vilas para novas entradas, mas as dificuldades pareciam intransponíveis. Era quase
impossível reunir os soldados necessários, uma vez que a deserção dos contingentes locais era
enorme, inclusive com casos de oficiais fugindo, com suas tropas inteiras, ao serviço na guerra.137
As tropas eram ordenadas à “recolher” mulatos forros que encontrassem pelo caminho, pelas
regiões por onde marchassem em direção à guerra, incorporando-os aos exércitos, tamanha a recusa
ao serviço nas vilas. A fuga de homens culminou com a não realização das entradas programadas
para o verão de 1672/1673, e com o mandado de prisão do alcaide-mor do Porto Calvo, Cristóvão
Lins, por este ter soltado desertores presos, contra as ordens do governador.138
Tudo indica que os quilombolas aproveitaram a oportunidade dada pela desorganização da
repressão para reorganizar suas comunidades e mesmo expandi-las. Com reveses por toda parte, as
estratégias senhoriais precisariam mudar para fazer frente aos quilombolas. O diagnóstico feito
pelas autoridades coloniais em 1674 era de que todas as diversas entradas e expedições anteriores
teriam tido efeito contrário ao esperado, elevando o espírito dos negros à resistência, face à
ineficiência das tropas senhoriais, sua (falta de) estratégias e sua incapacidade para campanhas
prolongadas nos matos e serras da capitania.139
Organizados para a defesa de suas comunidades, com aliados espalhados pelas senzalas e
engenhos do litoral, os palmarinos expandiam seu domínio sobre a mata sertaneja do sul da
capitania, engendrando alianças entre si para a resistência, ao ponto de, como veremos, uma
linhagem de líderes rebeldes surgir entre eles. A conjuntura 1669-1674 foi de grande demonstração
de resistência das comunidades, e consolidação de possíveis lideranças rebeldes que se destacariam
na documentação portuguesa nas décadas seguintes de repressão. Foi também no início da década
de 1670 que os portugueses aparentemente se deram conta do domínio espacial quilombola em
Pernambuco, mapeando seu território conhecido.
7. Conclusões
Os locais dominados pelos mocambos palmarinos variaram bastante ao longo do século XVII.
As comunidades parecem ter vivido em constante deslocamento, de acordo com a conjuntura
repressiva que enfrentavam.
137 “Ordenou ao ouvidor de Itamaracá fizesse autos de desobediência contra o capitão Manoel Pinheiro e os mais que
fugiram de ir aos Palmares.” 22 de outubro de 1672, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, f. 275.
138 “Escreveu ao ouvidor geral sobre a soltura que o capitão-mor Cristóvão Lins deu aos homens fugidos contra as
ordens que tinha dado.” 9 de janeiro de 1673. AUC_CCA_VI-III-1-1-31, f. 279.
139 “Relação…”, fls. 150-151.
57
Partindo da ideia de que a história de Palmarespode ser enriquecida por uma abordagem
espacial, buscamos delimitar os contornos do território quilombola na capitania de Pernambuco,
entre 1600 e 1678. Vimos que, antes do domínio holandês nas capitanias do Norte da América
portuguesa, os rebeldes quilombolas eram localizados, pelas autoridades locais, nos sertões da
freguesia de Sirinhaém e das Alagoas. Grupos indígenas aliados dos colonos portugueses foram
utilizados para eliminar, momentaneamente, a resistência dos rebeldes.
Após 1630, com a chegada dos holandeses e as lutas pela terra entre estes e os colonos lusos,
a fuga de escravos para os matos aumentou. Os holandeses tiveram que enfrentar as ações das
comunidades palmarinas nas Alagoas, enviando expedições aos mocambos, destruindo plantações e
habitações no sertão. Vários foram os mocambos relatados pela expedição de Johan Blaer no sertão
daquela freguesia, concluindo-se que as fugas dos escravos para as Alagoas podia significar que os
espaços sertanejos mais próximos de Olinda não fossem seguros para a resistência, uma vez que as
emboscadas e escaramuças entre colonos portugueses e holandeses eram rotineiras, a medida que o
levante dos portugueses contra a WIC, em 1645, se aproximava. Um sertão menos povoado nas
Alagoas também pode ter atraído os quilombolas, pela disponibilidade de espaços para habitação e
esconderijo. O Dambij (talvez o Zambi ou Zombi, dos portugueses) era identificado como “rei” dos
Palmares pelos holandeses, mas o alcance de seu “poder” parecia se limitar à região dos tabuleiros
alagoanos, próximos à famosa Serra da Barriga, sem relação com outros eventuais agrupamentos
quilombolas.
Após 1645, com o início do levante dos colonos portugueses, Palmares desapareceu das
fontes por quase dez anos. A falta de registros foi interrompida em 1653, quando, ainda em meio à
guerra de expulsão da WIC, expedições foram organizadas para percorrer as freguesias do Porto
Calvo, Sirinhaém, Ipojuca e Santo Amaro (esta, bem próxima ao Recife), para prender supostos
negros salteadores que estariam pelos matos. O foco era impedir o aliciamento de escravos por estes
bandos, que os levavam aos mocambos do sertão.
Em meados da década de 1660, o governador Francisco de Brito Freire já compreendia que
era preciso assegurar os sertões das demais freguesias do sul da capitania, de onde se avolumavam
queixas contra escravos fugitivos acusados de fazer assaltos nas estradas, aliciar cativos para os
matos, etc. Foi a partir daquela década que as comunidades começaram a sofrer um processo grande
de perseguição e criminalização de lideranças por parte das autoridades coloniais. Não por acaso, a
década de 1660 foi uma das mais difíceis, economicamente, para a elite do açúcar. Em tempos de
baixa produtividade e baixa arrecadação da Coroa e de particulares, o inimigo quilombola virou
pauta permanente da política local. A partir do entendimento de que a conjuntura econômica da
capitania era ruim, consequentemente podemos compreender o crescimento das comunidades
mocambeiras, infladas por cativos que, mais do que liberdade e autonomia, buscavam sobrevivência
58
longe da penúria dos engenhos, plantando suas roças nas matas e ingressando em pequenos
circuitos de troca paralelos à grande economia açucareira.
Foi na década de 1660 que também localizamos o período de maior crescimento das
comunidades. Também é este o período em que lideranças quilombolas distintas começam a ser
associadas com seus locais de domínio nos sertões – surgia o Amaro, em Sirinhaém. As expedições
se intensificaram, e mocambos foram atacados no atual Agreste pernambucano, mostrando a
interiorização dos domínios quilombolas na região. Os episódios de ataques quilombolas se
multiplicavam e as freguesias açucareiras do sul da capitania (Una, Sirinhaém, Porto Calvo e
Alagoas) eram as áreas preferidas de atuação dos mocambeiros. 
A vitória sobre os mocambos de Gana Zumba e Gana Zona, em fins da década de 1670,
coincidiu com o início de uma efêmera recuperação econômica do setor açucareiro e uma sede de
terras para a expansão das plantações de cana-de-açúcar na capitania, especialmente nas freguesias
mais próximas ao Recife.140 É possível que essa melhoria nas condições materiais dos senhores de
terra tenha impulsionado a repressão contra os mocambos, nas décadas de 1670 e 1680. Empurrados
para o sul e para o Agreste, o sertão das Alagoas e do Ararobá, os grupos quilombolas
remanescentes já não teriam poderio suficiente para resistir aos ataques e entradas financiados pela
recuperação econômica dos engenhos. Neste cenário, a necessidade de mão de obra aumentava na
produção açucareira, e a ausência de escravos que se metiam nos matos e sertões era muito mais
sentida e combatida.
A distribuição desigual – no tempo e no espaço – dos mocambos entre as freguesias,
apresentada no capítulo, a nosso ver, está relacionada com as necessidades dos engenhos de açúcar
e sua relação com sua principal mão de obra: os trabalhadores escravizados. Como os vestígios
documentais sobre Palmares são todos indiretos, eles estão relacionados com a repressão, e não é à
toa que muitos dos mocambos foram localizados nos sertões de Sirinhaém, Porto Calvo e Ipojuca,
no século XVII. Para ilustrar o argumento, no período holandês, Evaldo Cabral de Mello
contabilizou apenas seis engenhos nas freguesias das Alagoas e Rio de São Francisco, enquanto que
Sirinhaém e Porto Calvo, juntas, contavam 26 engenhos, quantidade mais de quatro vezes
superior.141 A quantidade de engenhos se fez representar no esforço bélico maior nessas regiões, que
por sua vez, teve reflexo nas referências documentais a um número maior de lideranças e
mocambos atuando ali, em comparação com as regiões citadas mais ao sul, de atividade açucareira
menor. A “calmaria” do período pós-restauração pernambucana fez crescer naquelas importantes
140 Ver o quadro da expansão da arrecadação dos dízimos em Pernambuco, em LOPES, Negócio da Costa da Mina, pp.
20, 23 e 24.
141 MELLO, O bagaço da cana. Em meados do século XVIII a contagem se equilibra um pouco mais, ainda com
expressiva vantagem para as freguesias mais ao norte, com 48 engenhos ativos, enquanto que Alagoas, São Miguel
e Penedo contavam 33 fábricas de açúcar moentes. Ver “Relação do número de engenhos moentes e de fogo morto
que há nas capitanias de Pernambuco e Parahiba, e em cada huma das suas freguesias.” Recife, 4 de fevereiro de
1761. Cópias extrahidas do archivo do Conselho Ultramarino, vol. 14. IHGB-Arq. 1.1.014. f. 249-266.
59
freguesias açucareiras um grande número de mocambos e, consequentemente, uma resposta
repressiva maior por parte dos senhores de engenho, cujo ápice foram as campanhas bélicas entre
1675 e 1678. Essa repressão empurrou os remanescentes dos conflitos para o oeste e sudoeste,
sendo a perseguição ao bando de Zumbi o fato mais representativo do período que vai entre 1680 a
1695, fase que trataremos em capítulo subsequente. Portanto, não se trata de dizer simplesmente
que a mata palmarina no sertão da freguesia das Alagoas comportou menos mocambos, até 1678, do
que nas freguesias imediatamente ao norte. Mas, sim, que em função dos interesses açucareiros
ainda pouco estabelecidos nas Alagoas, a repressão senhorial acabou produzindo um número
reduzido de registros e vestígios documentais em relação às outras freguesias.
A pujança da ocupação e da produção de subsistência dos palmarinos, especialmente no
terceiro quartel do século XVII, fez aumentar a cobiça senhorial pelas matas limítrofes da zona
canavieira de Pernambuco. A relativa capacidade produtiva e de resistência dos quilombolas e
demais grupos sociais habitando as franjas dos engenhos e demais propriedades contrastava com a
crise da produção açucareira. No último quartel daquele século,uma efêmera recuperação do setor
representou também o recrudescimento do esforço anti-quilombola na capitania, culminando na
“expropriação” e destruição das comunidades, num processo de extermínio e subjugo da população
negra rebelde.
Com base no trabalho de Ilmar de Mattos, pode-se dizer que o processo de conquista e
institucionalização da colonização na América portuguesa se desenvolvia da seguinte forma: após o
apossamento de regiões do sertão próximo pelos grupos subalternos colonizados (fugindo ao
domínio dos colonos proprietários do litoral), as terras passavam a ser cobiçadas pelos colonos,
dando lugar ao avanço da expropriação sobre o sertão, na forma de guerra contra os que reagiam ao
processo, e da fundação de novos engenhos, fazendas, currais, etc., em sesmarias que subiam pelas
regiões ribeirinhas; por fim, era a vez dos colonizadores (os agentes administrativos e as instituições
coloniais) avançarem sobre a região, buscando submeter colonizados e colonos, através dos
encargos fiscais e da administração da justiça régia. Este processo expunha o caráter complementar
e contraditório das relações entre colonos e colonizadores na América portuguesa, quando os
últimos, ao passo que garantiam o monopólio dos colonos sobre as terras, a mão-de-obra e os meios
de trabalho da colônia, também os espoliavam através das instituições do poder real, sediadas nos
grandes portos e vilas da América portuguesa.142 O sertão colonial, região a ser colonizada, era
ocupado pelas populações subalternizadas, definidas por Mattos como os colonizados no processo
de “cunhagem da moeda colonial”.143 Escravos, índios, camponeses e quilombolas formavam os
142 MATTOS, Ilmar Rohloff. O Tempo Saquarema: a formação do Estado imperial. 4ª ed. São Paulo: HUCITEC, 2004,
pp. 30-45. Ver também, mais recentemente, a análise sobre as representações dos sertões coloniais em, SANTOS,
Márcio R. Alves. Fronteiras do sertão baiano: 1640-1750. Tese (Doutorado em História Social). São Paulo:
Universidade de São Paulo, 2010, pp. 348-381.
143 Idem, p. 39.
60
colonizados que sofriam o processo de expropriação característico do avanço colonial em direção
ao interior das capitanias.
Estudando a ocupação do sertão do Porto da Folha, Sergipe, Francisco Carlos da Silva144
constata que o avanço do domínio senhorial na região foi freado, ainda no século XVII, por
quilombolas que dominavam o sertão. “Plantadores de milho e mandioca, [os quilombolas] eram
também grandes guerreiros capazes de impedir o avanço dos rebanhos e de algum modo
responsáveis pelo fato das doações de sesmarias não terem efetivamente conseguido ocupar a
região.”145 Silva constata que a pequena produção camponesa precedera a grande propriedade e a
concentração fundiária, simbolizada pelo Morgado dos Castelo Branco, extinto em 1815. Muitos
quilombolas e índios, além de brancos e caboclos livres habitavam a região muito antes da chegada
dos grandes rebanhos de gado.146 A grande propriedade não teria sido, inicialmente, um entrave à
ocupação e expansão de formas camponesas, mas, sim, o contrário.
Um mito comumente aceito e pouco provado, é o de que existiria uma fronteira agrária
sempre aberta no Brasil colonial, tornando fácil o livre apossamento de terras. As evidências dos
diversos conflitos fundiários, desde o início da colonização, fazem necessária uma investigação a
respeito desta afirmação. Para Sheila Faria, na verdade, o instituto das sesmarias não facilitava o
apossamento, mas sim o dificultava para grande parcela da população que não conseguia acesso aos
canais políticos necessários às mercês reais, ou não tinha os recursos para cumprir, ou burlar, as
exigências legais. A ideia de que no sertão haveria uma grande possibilidade de acesso à terra, sem
custos e sem grandes exigências legais, também se mostra uma falácia, diante das barreiras que se
colocavam a este apossamento. “As terras não ocupadas por lavouras, designadas como ‘terras de
sertão’, não estavam livres”,147 afirma a autora, e seus ocupantes – índios rebeldes, quilombolas e
demais grupos marginalizados – constituíam uma barreira importante ao avanço senhorial sobre
elas.
No entanto, como já colocado, era só quando aquelas terras se tornavam objeto de disputas e
cobiças que o acossamento a estes grupos se intensificava. E isto só acontecia após estes mesmos
144 SILVA, Francisco Carlos Teixeira. Camponeses e criadores na formação social da miséria: Porto da Folha no
sertão do São Francisco (1820-1920). Dissertação (Mestrado em História). Niterói: Universidade Federal
Fluminense, 1981, pp. 6-10.
145 SILVA, Camponeses e criadores, p. 10
146 Fernão Carrilho parece ter sido um dos responsáveis pela destruição dos mocambos que ficavam ao sul de Porto da
Folha, na segunda metade do século XVII, em Jeremoabo (divisa atual entre Bahia e Sergipe) e na ribeira do rio
Sergipe, possivelmente próximo as minas de Itabaiana, exploradas pelo espanhol D. Rodrigo de Castelo Branco.
Curiosamente, o vínculo fundado em Porto da Folha, no século XVIII, ficou conhecido como Morgadio Castelo
Branco, mas por fundação e descendência de Alexandre Gomes Ferrão Castelo Branco, militar que servia na vila do
Penedo. Ver, para os serviços de Carrilho, 1699, Maio, 6, Lisboa CONSULTA do Conselho Ultramarino ao rei [D.
Pedro II], sobre nomeação de pessoas para ocupar o posto de capitão-mor do Ceará. Resolução régia a nomear
Fernão Carrilho. AHU_CU_006, Cx. 1, D. 42; e sobre os domínios da família Castelo Branco em Sergipe, SOUZA,
Alexandre Rodrigues. A “Dona” do Sertão: mulher, rebelião e discurso político em Minhas Gerais no século
XVIII. Dissertação (Mestrado em História). Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2011, pp. 39-51.
147 FARIA, Sheila de Castro. A colônia em movimento. Fortuna e família no cotidiano colonial. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1998, p. 127.
61
grupos marginalizados mostrarem que era possível morar, trabalhar e produzir alguma riqueza
naqueles lugares. “Neste sentido, homens pobres foram os ‘purificadores’ dos ares ou, em outras
palavras, desbravadores de vastas e temidas regiões, seguidos de outros, poderosos, que os
substituíam após a constatação da salubridade e por ser a área interessante a grandes
investimentos”, afirma Faria.148 Lugares repletos de pântanos e brejos, florestas densas eram
propícias a epidemias, e necessitavam ser desbravadas e tornadas habitáveis, antes do apossamento
pelos interesses mercantis locais. Não é a toa que a documentação de Palmares sempre alude ao
“viver como feras”, em “terras muito agrestes”, lar para a população marginalizada, especialmente
as comunidades negras e rebeldes.
Cabe agora buscar um maior entendimento da ocupação quilombola do espaço no sertão dos
Palmares, sua relação com a terra, e com a sociedade escravista ao seu redor, a partir dos vestígios
documentais disponíveis. No próximo capítulo vamos nos debruçar sobre o que se sabe das
comunidades de mocambo formadas nos Palmares de Pernambuco, especialmente seu modo de vida
e de reprodução social, assim como suas relações com o mundo colonial à sua volta, os moradores
dos sertões e os demais cativos.
148 Idem, p. 128. A autora constata esta situação na ocupação do sertão de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro,
século XVIII.
62
CAPÍTULO 2
Os mocambos de Palmares e a sociedade colonial em Pernambuco: resistência à
escravidão, produção e relações sociais (séculos XVII e XVIII)
1. Introdução
Este capítulo tem como objetivo uma investigação sobre o viver quilombola em Palmares,
recorrendo, sempre que possível e necessário, a comparações com outras comunidades quilombolas
nas Américas, através da bibliografia pertinente. Pretende-se mostrar como os mocambos de
Palmares conformavam um campo negro149 em Pernambuco, que incluía não apenas os escravizadosfugitivos, mas também aqueles que, dentro das senzalas, mantinham laços de solidariedade com os
rebeldes, em especial no século XVII e início do XVIII.
Estratégias dos escravos e reações senhoriais conformavam o cotidiano do escravismo em
Pernambuco, e as fugas e formação de mocambos nas matas da capitania faziam parte desse
embate. Veremos que os mocambos não eram apenas espaço de fuga da escravidão, mas também
espaço de sociabilidade da comunidade escrava, de garantia de subsistência autônoma e,
consequentemente, de resistência contra alguns dos interesses senhoriais locais.
O campo negro palmarino, isto é, o raio das relações sociais construídas entre mocambeiros e
a sociedade em seu entorno, era grande o bastante para incluir uma miríade de atores sociais,
inclusive senhores de escravos, mas, mais importante, os pobres livres (senhores de escravos ou
não) e os trabalhadores escravizados ainda sob a autoridade de seus senhores. Neste sentido,
buscaremos neste capítulo mostrar o grau de proximidade entre escravizados e quilombolas, entre
mocambos e senzalas, até o limite das evidências documentais, de modo a compreender a
experiência quilombola palmarina dentro da dinâmica da sociedade escravista em que se inseria.
As fontes exploradas serão, novamente, as Disposições dos Governadores de Pernambuco
(1653-1749), sob a guarda do Arquivo da Universidade de Coimbra; e a documentação do Arquivo
Histórico Ultramarino, referente às capitanias do Norte, via Projeto Resgate. A leitura desse
conjunto de fontes mostra, infelizmente, que parte importante da documentação sobre Palmares –
devassas sobre prisioneiros e denunciados, especialmente – parece não ter chegado até nossos dias,
apesar de ser referida em diversas das correspondências de autoridades locais. É uma das lacunas
mais importantes para a explicação da natureza e da longevidade dos mocambos dos Palmares de
Pernambuco, posto que a fala de testemunhas, réus, partícipes de todo tipo, faz com que estes não
149 O conceito é de GOMES, Flávio dos Santos. Histórias de Quilombolas. Mocambos e comunidades de senzala no
Rio de Janeiro – século XIX. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1995.
63
possam ter voz “diretamente”, senão filtrada pelo discurso senhorial e repressivo que domina a
documentação disponível.150
As mesmas fontes nos deixam perceber como os quilombolas se utilizavam de momentos de
enfraquecimento do poder senhorial e das autoridades coloniais para negociar e barganhar sua
autonomia. São diversas as tratativas de paz entre os fugitivos e as autoridades de Pernambuco.
Assim como as mesmas fontes mostram algumas das possíveis redes construídas pelos mocambos,
através do trato comercial (compra de armas, mantimentos, aluguel de casas, etc.), dos espiões que
os alertavam para as campanhas repressivas, e a associação com moradores vizinhos aos
mocambos, denunciados pelas autoridades, militares e senhores de escravos. São estas as estratégias
que permitiram os mocambos resistirem por tanto tempo nas matas de Pernambuco, chegando a um
possível ápice na primeira metade da década de 1670. 
Enquanto alguns senhores de engenho do litoral reclamavam da atuação de quilombolas nas
franjas de seus engenhos, diversos outros setores da sociedade pareciam estar muito mais
articulados aos mocambos de Palmares. Pequenos lavradores e posseiros nas franjas das grandes
propriedades, dentre outros grupos, poderiam se beneficiar da sua proximidade com os mocambos,
como muitas das fontes coevas dão a entender. Por exemplo, as tentativas de paz entre
governadores de Pernambuco e Palmares atestam estas relações. Em 1663, o governador Francisco
de Brito Freire garantiria, como parte de um acordo de paz, “sítio na parte que eles nomeassem
junto aos moradores para fazerem suas plantas de roças, e mais mantimentos com a ferramenta
necessária, como tinha concedido a Nação dos Tapuias”.151 Ou em 1678, quando parte do acordo de
paz buscado pelas autoridades afirmava que os palmarinos poderiam “plantar os vossos frutos, e
terdes os mesmos lucros que têm os mais vassalos de Sua Alteza, que Deus guarde, sem vos
obrigarem por força a nenhum trabalho particular…”,152 no sítio Cucaú, termo da vila de Sirinhaém.
A dominação dos sertões pelos grandes sesmeiros do litoral estava contida pela experiência de
Palmares pode ter contribuído para a manutenção, por mais tempo, de uma fronteira fechada para o
sertão pernambucano, aos possíveis sesmeiros, o que também garantia autonomia e liberdade aos
seguimentos mais pobres da sociedade colonial frente aos interesses terratenentes dos senhores de
terra e gentes do litoral.
150 Discurso que se pretende superar ou desconstruir a partir de uma leitura a contrapelo das fontes. Sobre isso, ver a
visão de Edward Thompson acerca dos discursos e práticas repressivas das classes dominantes inglesas sobre a
plebe, e como acessar os modos de vida, resistência e argumentação dos “de baixo”, escondidos pela retórica dos
dominantes. Cf. THOMSPON, E. P. Costumes em Comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo:
Companhia das Letras, 1998.
151 “Escreveu ao governador do estado do Brasil sobre os negros dos Palmares”, 22 de agosto de 1663,
AUC_CCA_VI-III-1-1-31, fl. 94.
152 “Escreveu ao principal dos negros dos Palmares sobre as pazes que determinavam fazer.” 22 de junho de 1678,
AUC_CCA_VI-III-1-1-31, fl. 334v. Ver também LARA, Sílvia. Palmares & Cucaú: o aprendizado da dominação.
Tese (Titularidade em História do Brasil). Campinas: Unicamp, 2008, Cap. 1 e 4, e anexos.
64
Em 1675, os mocambos de Palmares chegariam a seu auge, em termos de grandeza
populacional e territorial. Desde o massacre das expedições do governador Francisco de Brito
Freire, em 1663, as comunidades não tinham conhecido grandes reveses, até as expedições de
Manoel Lopes e Fernão Carrilho, entre 1675 e 1677 – culminando no acordo de paz de 1678, entre
Gana Zumba, Gana Zona e os governadores Pedro de Almeida e Aires de Souza de Castro. Durante
este período de pouco mais de dez anos (de 1663 a 1675), ao passo que as comunidades cresciam,
crescia também a animosidade de alguns senhores de escravos, que não apenas buscavam garantir a
posse de seus cativos, eliminando rebeldes aliciadores e comunidades autônomas, mas também se
aproveitavam do clima de caça às comunidades negras para submeter, de maneira mais intensa, seus
próprios cativos, tolhendo-lhes de suas margens de autonomia. Movimento que só intensificava as
agressões de ambos os lados.
2. Brecha camponesa ou projeto camponês? Negociação e resistência à escravidão na colônia
Nesta parte procuraremos traçar um histórico da prática da “brecha camponesa” ou da
“economia interna dos escravos” no escravismo colonial na América portuguesa. A partir desta
prática, constitutiva das relações escravistas no Brasil, procurar-se-á entender como um “projeto
camponês”, formado nas senzalas, foi extremamente importante para a resistência quilombola,
especificamente no contexto de Palmares. 
Foi na década de 1970 que a historiografia brasileira, animada por estudos sobre a escravidão
no Caribe colonial, começou a discutir a margem de agência do negro escravizado dentro do próprio
escravismo brasileiro – se opondo frontalmente, alguns autores, à visão coisificada do escravo
emanada dos estudos da chamada Escola Sociológica Paulista. Trabalhos como o de Ciro Cardoso e
Jacob Gorender procuraram, cada um a seu modo, delimitar as bases econômicas do “modo de
produção escravista” e seu funcionamento interno a partir das relações sociais de produção que
opunham senhores e cativos.153 Para Cardoso, seguindo os caminhos teóricos do antropólogo Sidney
Mintz, uma das características da organização interna dos engenhos escravistas brasileiros eram ospequenos lotes de terra cedidos aos cativos para produzirem seu próprio sustento, e até mesmo
algum excedente agrícola. Esta marca do escravismo se constituía numa “brecha camponesa” dentro
do sistema escravista com função muito específica: “a de diminuir o custo de manutenção e
reprodução da força de trabalho”.154
153 GORENDER, Jacob. O Escravismo Colonial. São Paulo: Ática, 1978; CARDOSO, Ciro F. “O modo de produção
escravista colonial na América”. In: SANTIAGO, Theo (org). América Colonial: ensaios. Rio de Janeiro: Palas,
1975, pp. 89-143; CARDOSO, Ciro F. “A brecha camponesa no sistema escravista”. In: ___. Agricultura,
Escravidão e Capitalismo. Petrópolis: Vozes, 1979.
154 CARDOSO, “A brecha camponesa”, p. 135.
65
Os cativos dispunham então de tempo para o cultivo próprio dentro das terras dos engenhos,
uma margem de autonomia que os possibilitava dispor de uma economia “própria”, com impactos
econômicos e psicológicos importantes em suas vidas. Se neste trabalho Cardoso deixa claro que,
para ele, o que determinava a “brecha” era a disposição senhorial em concedê-la ou não, a fim de
baratear seus custos com a manutenção da mão de obra cativa, em seu Escravo ou camponês,
complexifica bem mais a questão, postulando o caráter estrutural da brecha camponesa no
escravismo nas Américas. Cardoso divide o fenômeno em duas modalidades: primeiramente, a
“brecha camponesa” como complemento à distribuição de rações aos cativos na plantation, fazendo
com que os escravos dispusessem de menos terra e menos tempo para o cultivo próprio; ou como
“alternativa às distribuições de rações, as quais desapareceriam, ou quase”, onde as terras
disponíveis para os cativos se localizariam fora do núcleo central da plantation, e os cativos
disporiam de mais tempo para o cultivo próprio.155 Seria difícil conceber a relação senhor/escravo,
dadas as condições materiais da colônia, sem ter em mente a produção para subsistência do cativo.
Assim, a formação de um “protocampesinato” negro no Brasil escravista, dentro da lógica da brecha
camponesa, era, portanto, fator estrutural do escravismo nas Américas, como o autor procurou
demonstrar – de maneira bastante contraditória, é de se notar, uma vez que a ideia da produção
camponesa do escravo como uma brecha, ou uma fenda no escravismo, faz crer que o fenômeno
ocorria paralelo ao sistema, fora, e não dentro dele.
Por sua vez, Antônio Barros de Castro, em ensaio clássico, procura mostrar como o
instrumental teórico-metodológico da economia política clássica se mostra ineficaz para se entender
o escravismo no Brasil, justamente pela presença histórica do negro cativo enquanto agente social e
não apenas como mero fator de produção coisificado.156 Procurando lançar luz sobre a agência
escrava e as visões do próprio cativo sobre a sua condição, critica a visão de Ciro Cardoso sobre a
“brecha camponesa” por seu caráter demasiadamente “‘funcional’ à grande exploração”, ou seja,
uma visão unilateral de um fenômeno que envolve dois agentes distintos e opostos dentro da
estrutura social: escravizados e senhores. Seguindo os estudos de Stuart Schwartz sobre a rebeldia
escrava na Bahia,157 Castro demonstra como a questão da economia interna dos escravos e da
“brecha camponesa” foram muito mais conquistas cotidianas dos escravos que deformavam o
sistema a eles imposto pela classe senhorial, do que uma mera concessão que visava fixá-los à terra
ou baratear a mão de obra das plantations:
155 CARDOSO, Ciro F. Escravo ou camponês? O protocampesinato negro nas Américas. São Paulo: Brasiliense, 1987,
p. 88.
156 CASTRO, Antônio B. “A economia política, o capitalismo e a escravidão”. In: LAPA, José Roberto do A (org.).
Modos de Produção e Realidade Brasileira. Petrópolis: Vozes, 1980, pp. 67-107.
157 Cf. SCHWARTZ, Stuart B. “Resistance and Accommodation in Eighteenth-Century Brazil: The Slaves' View of
Slavery”. In: The Hispanic American Historical Review, Vol. 57, No. 1 (Feb. 1977), pp. 69-81, onde o autor publica
o famoso documento produzido por uma rebelião dos escravos do engenho de Santana, em 1789, onde questões
referentes à economia própria dos cativos são levantadas, dentre outras. 
66
Adaptando-se social, política e militarmente à convivência com os “bárbaros” africanos (com
esta “África transplantada para o Brasil”); buscando meios e medidas para atenuar a
combatividade, ou desviar a agressividade dos escravos, o regime social cedeu a eles – e
transformou-se sob o impacto da sua presença.158
O que Barros de Castro procura defender então – seguindo as pegadas dos estudos americanos
sobre a agência escrava dentro do sistema, dos pioneiros Eugene Genovese159 e Herbert Gutman160 –
é que, ainda que cativos, os africanos e crioulos escravizados tiveram aspirações e expectativas em
relação aos rumos de suas vidas que os faziam agir de acordo com interesses próprios. O fenômeno
da “brecha” tem de ser apreendido dentro do contexto de embate entre as expectativas escravas e as
senhoriais. Ela seria, nesta visão, arena da luta de classes,161 onde a “barganha” social entre escravos
e senhores se desenrolava, com sucessos e revezes para ambos os lados. Estava longe de se
configurar no elemento apaziguador ou puramente ideológico (de arrefecimento do potencial de
fuga ou revolta dos escravos) que algumas análises buscaram demonstrar.162
Fragoso e Florentino mostram que esta prática, por vezes, gerava um paradoxo na estrutura do
escravismo: a presença de dívidas de senhores para com seus cativos, por compra de alimentos e
pequenos excedentes agrícolas. “A compra de gêneros ao escravo nega, pelo menos parcialmente,
esta reificação [o escravo coisificado], pois implica seu reconhecimento como produtor autônomo, o
que se traduz em maiores despesas para a fazenda.”163
A hipótese central de Dale Tomich, em artigo seminal sobre a prática da provision ground164
no Caribe francês, é de que, apesar de nascida dentro dos limites e constrangimentos
socioeconômicos da plantation, sua concessão era, ao mesmo tempo, mediadora e contestadora da
ordem social em que se realizava. Para Tomich, o fato de os senhores da Martinica obrigarem seus
158 CASTRO, “A economia política, o capitalismo e a escravidão”, p. 98.
159 Ver GENOVESE, Eugene. Roll, Jordan, Roll: the world the slaves made. Nova York: Pantheon Books, 1974
(tradução brasileira, em dois volumes, cf. A terra prometida: o mundo que os escravos criaram. Vol. 1. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1988.)
160 Ver GUTMAN, Herbert. The Black Family in slavery and freedom, 1750-1925. Nova York: Random Books, 1976.
161 Sobre luta de classes em sociedades p´re-capitalistas, ver as reflexões de THOMSPON, Edward Palmer. Tradición,
Revuelta y Consciencia de Clase: estudios sobre la crisis de la sociedad preindustrial. Barcelona: Editora Critica,
1979.
162 Essa ideia se aproxima também da “economia moral” thompsoniana, uma vez que, como mostra Schwartz, a
negação do costume de ceder um lote de terras para a economia própria dos cativos, ou seu estreitamente, os fez, no
caso do engenho de Santana, acionar noções de direito costumeiro que legitimavam sua rebeldia e suas demandas,
apesar da inexistência de garantias estritamente legais. A explicitação do conceito de economia moral está em
THOMPSON, E. P. “A economia moral da multidão inglesa no século XVIII”. In: Costumes em Comum: estudos
sobre a cultura popular tradicional. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, pp. 150-202.
163 FRAGOSO, João L.; FLORENTINO, Manolo G. “Marcelino, filho de Inocência Crioula, neto de Joana Cabinda:
um estudo sobre famílias escravas em Paraíba do Sul (1835-1872)”. In: Estudos Econômicos, 17 (2), maio/ago.
1987, p. 171. Elione Guimarães seguiu esta pista, investigando experiências econômicas de escravos a partir do
acesso à terra, emMinas Gerais. Cf. GUIMARÃES, Elione S. “Experiências econômicas de cativos (Zona da Mata
de Minas Gerais, segunda metade do oitocentos)”. In: GUIMARÃES, Elione S.; MOTTA, Márcia (org.) Campos
em Disputa: história agrária e companhia. São Paulo: Annablume; Núcleo de Referência Agrária, 2007, pp. 217-
244.
164 O “chão de provisões”, a horta, a agricultura de subsistência escrava.
67
cativos a trabalharem aos sábados (chamado, ironicamente, de sábado livre) em suas próprias
culturas de subsistência era uma tentativa de rebaixar o custo de manutenção da mão-de-obra
necessária à plantation. “O fardo dos custos de reprodução era transferido diretamente para os
escravos, e eles eram mantidos comodamente empregados mesmo durante períodos onde não existia
trabalho a ser feito nos canaviais”, como escreve o autor.165
Por outro lado, através dessa atividade os escravizados puderam criar e controlar redes
econômicas, paralelas ao regime da plantation, apesar de seus limites socioeconômicos, que lhes
permitiam manter alternativas de modos de vida para além da empresa escravista, construindo
alguma autonomia sobre seus próprios destinos. O antagonismo de classe que se instaurou dentro da
formação da plantation a partir da provision ground envolveu disputas sobre o tempo de trabalho
dedicado às culturas exportadoras (cana-de-açúcar, basicamente) e as culturas de subsistência dos
cativos, fazendo até mesmo com que as noções de tempo e espaço para si, trabalho e poder, fossem
contestadas, não nos escritos, mas no cotidiano.
A prática, no Caribe, começou ainda antes do século XIX. Ainda segundo o autor, nas
colônias francesas da região, a evolução da provision ground pode ser trilhada até sua origem,
primeiro nas holandesas Caribe, fundadas por refugiados de Pernambuco, no século XVII, ou
mesmo até a ilha de São Tomé, no século XVI, o grande laboratório escravista do Atlântico.166 Com
a introdução do “modo de vida da plantation canavieira”, logo os senhores das colônias francesas
no Caribe começaram a adotar o “costume brasileiro”, como era conhecida a prática, para reduzir
seus gastos com a manutenção das escravarias, deixando a prática de distribuição de rações em
favor de conceder um dia “livre” por semana para as atividades agrícolas de subsistência.167 
Como em toda América escravista, no Caribe o “costume brasileiro” variava de acordo com as
conjunturas, especialmente de acordo com os preços do açúcar. Em conjunturas de baixa nos
preços, os escravos, em geral, recebiam quanta terra pudessem plantar para sua subsistência. “Aos
escravos que queriam plantar provisões era dada tanta terra o quanto podiam trabalhar. Esses lotes,
geralmente, eram aqueles não cultivados às margens das fazendas, em geral, espalhados pelas
colinas acima dos canaviais”, escreve Tomich.168 Já quando o preço atingia níveis elevados e as
expectativas de lucro por parte dos fazendeiros aumentavam, muitos optavam por comprar as
provisões para seus escravos no mercado, e concentrar todo o trabalho da escravaria nos canaviais,
suprimindo o sábado livre e as hortas de subsistência. Era nesta conjuntura que o preço social da
165 TOMICH, Dale. “Une petite guinée: Provision ground and plantation in Martinique, 1830-1848”. In: Slavery &
Abolition, 12:1, 1991, pp. 68-9.
166 As ilhas também funcionaram como um grande laboratório para o ordenamento territorial das conquistas
ultramarinas. Cf. LEITE, Antonieta Reis. “Urbanística e ordenamento do território na ocupação do Atlântico: as
ilhas como laboratório”. In: SERRÃO, J. V., DIREITO, B., RODRIGUES, E. et al. (orgs.) Property Rights, Land
and Territory inthe European Overseas Empires. Lisboa: CEHC-IUL, 2014, pp. 67-79.
167 TOMICH, “Une petite guinée”, p. 70.
168 Idem, p. 78.
68
prática era maior para os senhores, que tinham que reconhecer os direitos de seus cativos sobre a
produção própria, indenizando-os para retomar terrenos para o plantio de cana-de-açúcar. Em 1830,
segundo Tomich, a Martinica já era dependente da produção e livre comercialização das hortas de
provisões dos escravos para seu suprimento de alimentos.
O “Costume brasileiro”, introduzido por refugiados da Companhia das Índias Ocidentais de
Pernambuco, não poderia ser uma coincidência. Era durante o inverno chuvoso que a preocupação
com os trabalhadores escravizados era maior nos engenhos e fazendas, pois a colheita de
mantimentos era dificultada pelo encharcamento da terra, e os administradores das propriedades
deveriam complementar sua alimentação com uma ração. No entanto, essa era a melhor época para
o plantio, devido à umidade. 
Em 1663, um famoso regimento com instruções ao feitor-mor do engenho do Meio
(Pernambuco), escrito por João Fernandes Vieira (herói da restauração pernambucana, e à época
governador de Angola), continha diversas recomendações acerca das acomodações dos
escravizados, dos dias de folga em que deveriam plantar suas roças, do cuidado com a mata do
entorno do engenho, entre outras coisas.169 Segundo Schwartz, o documento pode ser tomado como
particularmente informativo acerca das práticas comuns aos engenhos brasílicos, dada a larga
experiência de Fernandes Vieira como senhor e administrador de cerca de cinco engenhos.170 O
documento trazia nas primeiras recomendações o cuidado com a disciplina religiosa para os negros
(confissão, batismo e assiduidade às missas) e com o cuidado dos cativos enfermos. Logo em
seguida, no tópico sobre o cuidado com as habitações, ordenava ao feitor-mor que fosse “todas as
manhãs pelas casas dos negros para ver os que estiverem doentes e o que faltar procurá-lo logo e
fazer-lhes ter as suas casas barridas, com seus jiraus e esteiras de agasalho para dormirem”, e ainda
neste tópico, deveria “fazer-lhes plantar os dias santos suas roças e tanto que o engenho pejar, que
não moer, lhes dará de mais a mais os sábados para plantarem. Isto se entende no inverno.” 171 Era
justamente nos meses chuvosos, quando o corte da cana era interrompido na maioria dos terrenos,
que os quilombolas e cativos costumavam plantar suas roças de subsistência – como veremos na
próxima seção.
A discussão em torno da prática remonta ao século XVII na América portuguesa, e ao que
Rafael Marquese chamou de “teoria cristã do governo dos escravos”.172 Disseminada por toda a
169 Este documento foi publicado pela primeira vez por GONSALVES DE MELLO, José A. “Um regimento do feitor-
mor de engenho de 1663.” In: Boletim do Instituto Joaquim Nabuco, n. II, 1953, pp. 80-87. Usamos aqui a edição
em GONSALVES DE MELLO, J. A. (ed.) Fontes para a História do Brasil holandês. 1. A economia açucareira.
Recife: MEC, 1981, Apêndice 3, pp. 257-263.
170 SCHWARTZ, Stuart (ed.). Early Brazil: a documentary collection to 1700. New York: Cambridge University Press,
2010, pp. 205.
171 BLUTEAU, vol. 6, p. 368-369: “Pejar o moinho. É entrar-lhe muita água, que afoga o rodízio, e o não deixa andar.
Pejou o moinho.”
172 MARQUESE, Rafael de Bivar. Feitores do corpo, missionários da mente: senhores, letrados e o controle dos
escravos nas Américas, 1660-1860. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
69
América escravista, começou a ser sistematizada pelos religiosos letrados em missões nas colônias,
como os jesuítas italianos Antonil e Jorge Benci, na América portuguesa, na virada dos séculos
XVII e XVIII. Para o autor, a conjuntura de crise do açúcar, associada às guerras contra os
mocambos de Palmares, foram a combinação perfeita para o surgimento desta literatura preocupada
com a “boa” relação entre senhor e escravo. A principal preocupação daqueles escritos era evitar os
problemas advindos dos abusos cometidos pelos senhores contra seus trabalhadores escravizados.
Benci, por exemplo, recomendava a temperança e moderação na quantidade de trabalho que ossenhores deveriam dar a seus escravos, respeitando seu descanso nos dias santos e domingos.
Também não deveriam exagerar, como muitos faziam durante a safra da cana, nas longas horas de
trabalho, sob pena de fugas, rebeldia e suicídios. Em torno da prática de ceder terra e tempo aos
escravos para trabalharem para si mesmos, Benci escrevia que os senhores não poderiam limitar os
dias cedidos aos domingos e dias santos, pois destes se esperava que fossem dedicados ao descanso
e à catequese.173
Nas colônias francesas do Caribe houve também debates em torno de abusos cometidos por
senhores de escravos. Embasados numa interpretação bastante interessada do Code Noir (conjunto
de normas que estabeleciam um patamar mínimo obrigatório de mantimentos e vestimentas a serem
dados pelo senhor ao escravo, nas colônias do Caribe francês, em 1685), muitos se desobrigavam de
alimentar e vestir seus cativos uma vez que lhes cediam terra e tempo para cultivo, rompendo os
preceitos formulados pela teoria cristã do governo dos escravos, de inícios do século XVIII.174 Os
interesses materiais dos senhores eram a principal preocupação quando se buscava acomodar o
Code Noir à realidade da produção colonial, e não a observância de preceitos cristãos, como fazia
Benci, por exemplo, ao recriminar a costume de nos domingos e dias santos os escravos
trabalharem, porque precisavam produzir para si mesmos, no Brasil.
Para Robert Slenes, o termo “brecha camponesa” deveria ser abolido em favor da noção de
“economia interna dos escravos”: o conjunto de elementos (“desde o cultivo de suas roças à caça e,
inclusive, o furto”) pelos quais os escravizados obtinham renda, pecúlio, e a partir dos quais podiam
pensar suas estratégias de vida dentro, e para além, da sua condição de escravizado.175 Para este
autor, a economia interna dos escravos não era apenas um pequeno espaço de concessão dos
senhores para com seus cativos, uma brecha no escravismo, mas sim constituía a própria
“‘arquitetura’ do sistema escravista”. A economia interna dos escravos é uma das faces da luta de
classes que conforma as relações sociais de produção dentro do escravismo no Brasil, e não uma
simples brecha num sistema formal e ideal – o sistema é construído pela luta encenada pelos atores
173 MARQUESE, Feitores do corpo, pp. 50-55.
174 Idem, p. 77.
175 SLENES, Robert. Na senzala, uma flor. Esperanças e recordações na formação da família escrava: Brasil sudeste,
século XIX. 2ª ed. Campinas: Ed. da Unicamp, 2011, pp. 203-205.
70
sociais, e suas contradições e barganhas se expressam através da chamada economia interna dos
escravos. A própria analogia da “brecha”, como uma pequena fenda no “muro” do escravismo,
parece oferecer mais problemas do que soluções, se o historiador está interessado nos processos
reais que engendravam as relações sociais que sustentavam o que Ciro Cardoso chamou de “modo
de produção escravista” no Brasil.
A conquista e manutenção de uma economia própria entre os cativos, na prática, poderia
consistir em atos de resistência e rebeldia em relação à sua situação específica com seu proprietário.
Fugir para os matos seria uma forma de garantir autonomia e acesso à terra num contexto de
vigoroso escravismo de plantation, como nomeou Rafael Marquese.176 Esse consistia no sistema
produtivo que vigorou no Caribe escravista do século XVIII (francês e inglês) e no Brasil até a
primeira metade do século XVII, onde “a produção econômica se concentrava em um único produto
e o quadro social era marcado por desbalanço demográfico entre brancos livres e escravos negros,
amplo predomínio de africanos homens nas escravarias, poucas oportunidades para a obtenção de
alforria e altas taxas de absenteísmo senhorial.”177 
Esse sistema teria se exaurido no Brasil ainda na primeira metade do século XVII, dando
lugar ao que o autor chama de “sistema brasileiro”. O escravismo se difundiu social e
espacialmente, e a posse de escravos se disseminou para além das zonas de plantation litorâneas, se
entranhando no tecido social e criando hierarquias étnicas e culturais bastante complexas. A posse
de escravos se difundiu por diferentes faixas de riqueza, não mais se concentrando nas mãos dos
grandes senhores de engenho. A combinação de senhores de escravos com poucos recursos
monetários e fundiários, e o volume crescente das alforrias e a entrada de africanos, especialmente
para Pernambuco, podem ter favorecido práticas camponesas de subsistência entre a população
negra livre e cativa da capitania.
Em Pernambuco, por exemplo, ao longo da segunda metade do século XVII, a segurança
alimentar da capitania parecia ser dependente, em grande medida, das roças dos cativos. Em 1661, o
governador Francisco de Brito Freire buscou reforçar uma prática já antiga, mas que, segundo ele,
havia sido esquecida, “com prejuízo da abundância comum”: a obrigação do plantio de mil covas de
mandioca por escravo, em cada período de plantio do ano agrícola. O lavrador que não cumprisse
com a ordem, pagaria uma multa de cem cruzados. Já os senhores de engenho e partidos de cana
deveriam plantar quinhentas covas, da mesma forma.178 No fim do século, em 1697, a ordem foi
reforçada em Pernambuco, agora sob a explícita alegação de que, a fim de direcionar a mão-de-obra
inteiramente para o proveito da alta dos preços do açúcar na década anterior, os senhores de
176 MARQUESE, Rafael de Bivar. “A dinâmica da escravidão no Brasil: resistência, tráfico negreiro e alforrias,
séculos XVII a XIX”. In: Novos Estudos – CEBRAP, n. 74, março de 2006, pp. 107-123.
177 MARQUESE, “A dinâmica da escravidão”, p. 109.
178 “Mandou aos lavradores que lavrassem mil covas de mandioca por cada negro, e os senhores de engenho, 500
covas, sob a pena de 100 cruzados”, 5 de maio de 1661, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, fl. 53v.
71
engenhos e lavradores de cana estavam impedindo que seus cativos se dedicassem ao plantio de
mandioca e outras roças de subsistência, causando carestia de mantimentos.179 Responsável pela
cultura de subsistência que sustentava toda a capitania, os cativos tinham maiores poderes de
barganha quanto mais produziam, ou quando produziam em espaços onde detinham maior controle
de seu produto. Este processo de “expropriação”, com a diminuição dos dias de trabalho nas roças
próprias e dos espaços para o plantio de subsistência, era um grande golpe nas expectativas de
autonomia dos escravizados, e a fuga para espaços autônomos rebeldes, nas matas, uma alternativa
a estas restrições senhoriais.
Não por acaso, no mesmo contexto de carestia da década de 1690, o governo da capitania
visava punir todos aqueles que comercializavam farinha de mandioca por preço acima do estipulado
pelas autoridades. Pretendia também punir “todas aquelas pessoas que ocultarem as roças”, e
aqueles que furtavam as roças, ainda imaturas para o consumo, causando prejuízo e
desabastecimento.180 Esta preocupação das autoridades com a ocultação e furto de roças de
mandioca e a alta de preços da farinha, principal item da dieta geral, nos deixa entrever a sua grande
dependência daquela produção, pela qual os escravos eram os principais responsáveis, e como se
procurava tolher este poder de barganha dos escravizados, fixando os preços do produto e punindo a
produção em espaços “ocultos” (uma possível referência aos mocambos do sertão). Num contexto
de perseguição aos espaços de autonomia escrava, é possível pensar que a produção de alimentos
nos mocambos seria uma resposta à superexploração da força de trabalho pelos senhores de
engenho, uma arma de resistência cotidiana que buscava reequilibrar a correlação de forças entre
senhores e escravizados, açambarcando mantimentos, roubando roças alheias, etc.181 Numa
sociedade escravista, uma noção de economia moral também embasavaas atitudes de subversão dos
subalternos, especialmente em se tratando de condições de sobrevivência individual ou familiar, ou
mesmo de grupos maiores.
Escrevendo sobre o cotidiano de libertos e descendentes de escravizados e ex-escravizados no
Vale do Paraíba do Sudeste, no pós-abolição, Ana Lugão Rios e Hebe Mattos defendem que aqueles
grupos perseguiram uma ambição, ou projeto, que já era gestado no interior das senzalas no
escravismo. Ele consistia, basicamente, em “conseguir um espaço para a roça e mantê-lo, com suas
possibilidades de trabalho em família, produção, relativa independência e toda a dimensão de
179 “Bando para que os senhores de engenho e lavradores plantassem roças”, 13 de fevereiro de 1697, AUC_CCA_VI-
III-1-1-31, fl. 565.
180 “Bando sobre os preços por que haviam de vender farinhas.” 19 de junho de 1693, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, fl.
567v.
181 Ver THOMPSON, Edward Palmer. “A economica moral da multidão inglesa no século XVIII”. In: __. Costumes
em comum. São Paulo: Comapanhia das Letras, 1998, pp. 150-202. Ver também, acerca da resistênia individual dos
subalternos em sociedades tradicionais, SCOTT, James. Weapons of the Weak: everyday forms of peasent
resistence. New Haven: Yale University Press, 1985.
72
realização pessoal que ela possibilitava”.182 Negociar contratos de trabalho que possibilitassem a
manutenção deste projeto passou a ser a ambição do campesinato negro no pós-abolição. A lógica
dos contratos investigados pelas autoras relevou a forte arbitrariedade e discricionariedade das
ações dos proprietários em relação aos contratos firmados com famílias de trabalhadores negros.
Essa política criou uma diferenciação entre o campesinato negro: os estáveis e os itinerantes. Rios
localiza o elo entre estes no apego ao projeto camponês da roça própria, da criação de animais, o
acesso e a manutenção da posse da terra, ainda que submetida ao arbítrio dos proprietários diretos e
nem sempre realizado. 
Para o campesinato negro, a expulsão e “expropriação” de suas parcelas pelos proprietários,
sem direitos nem mesmo aos frutos já plantados, era o maior revés possível para a subsistência de
suas famílias. Para a negociação de um bom contrato de trabalho o acesso à terra era essencial,
permitindo aos trabalhadores ganhar os chamados salários “a seco”, onde a alimentação era
garantida pela própria família, e não pelo patrão, em contraposição ao salário “a molhado”, quando
cabia a este a alimentação do trabalhador, que, por isso, diminuía as suas diárias. Mas a
instabilidade das posses sempre gerava processos de expulsão ou rompimento dos acordos –
geralmente, bastante desfavoráveis às famílias negras –, os quais criavam uma situação de
itinerância e incerteza para famílias inteiras, que, de fazenda em fazenda, tentavam manter o projeto
camponês da roça e da autonomia familiar. Assim surgia o campesinato negro itinerante, formado
por aquelas famílias “que permaneceram, por gerações, tentando reproduzir um estilo de vida que
correspondesse ao desejo de estabilidade e roça, mas também ao de uma certa autonomia frente aos
proprietários rurais, de privacidade, e de condições de contrato mais flexíveis e tolerantes.”183
Segundo Robert Slenes, escravos com família tinham mais acesso a uma produção própria,
relativamente autônoma, que alimentava um “projeto camponês”, garantindo-lhes mais tempo de
trabalho para o próprio sustento, consequentemente, menos tempo de trabalho apropriado pelo seu
senhor.184 Segundo Marquese apurou, nas Antilhas francesas o casamento e formação de famílias
entre os cativos era encorajado, pois os homens casados encontravam alimentação preparada por
suas esposas após um duro dia de trabalho, tinham mais tempo para se dedicar à sua roça, e, por
isso, pensariam menos em fugas e quilombos. Esse tempo que o escravo “ganhava” para si
corresponde ao salário “a seco”, de maior valor, que os camponeses negros do pós-abolição
recebiam nas fazendas, quando eram alimentados pela produção familiar própria, em terras cedidas
ou arrendadas.
Vejamos a seguir algumas evidências do viver quilombola em Palmares e sua relação com a
182 RIOS, Ana Lugão. “Cap. 3 – Conflito e acordo: a lógica dos contratos no meio rural”. In: RIOS, Ana Lugão;
MATTOS, Hebe. Memórias do Cativeiro: família, trabalho e cidadania no pós-abolição. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2005, p. 243.
183 Idem, p. 252.
184 SLENES, Na senzala, uma flor, p. 161.
73
sociedade escravista colonial.
3. Economia quilombola em Palmares: famílias, roças e sua relação com o ecossistema
sertanejo
O casamento era traço fundamental do viver escravo e de suas possibilidades de autonomia.
“Há indícios de que dentro do precário ‘acordo’ que os escravos extraíam de seus senhores, casar-se
significava ganhar maior controle sobre o espaço da ‘moradia’”, escreve Slenes.185 O casamento
entre os trabalhadores escravizados de uma fazenda ou engenho poderia significar um relativo
ganho de status sobre os demais cativos solteiros, cujas moradias compartilhadas restringiam a
privacidade e autonomia. As paredes garantiam privacidade, e ela era necessária para se
desenvolver uma série de atividades longe dos olhos dos senhores: fossem relações sexuais, de
lazer, de dormir em família, até o cozinhar e se alimentar, passando por conversas que não deviam
ser ouvidas e percebidas pelos senhores. Diversos relatos de viajantes estrangeiros no Brasil do
século XIX, reunidos por Slenes, atestam a existência de habitações separadas para os escravos que
vivem juntos e se dizem casados, em quanto os outros vivem “misturados”, em senzalas
compartilhadas. Assim, o casamento e a formação de famílias entre os escravizados aumentavam e
muito as chances de acesso a uma economia própria, e a uma habitação exclusiva.
Na Bahia, por exemplo, Stuart Schwartz descreveu a senzala do engenho Santana, em meados
do século XVIII. Para além do predomínio de lares compostos por um casal (homem e mulher,
cativos), ou um casal com filhos, netos ou outros parentes – 72% do total de domicílios e quase
80% do número de escravizados do engenho, em 1752 –, aquele autor notou ainda que a senzala era
formada por casas dispostas em três fileiras, ou arruamentos, num “morro íngreme”, o qual não era
visível a partir da moradia do administrador da fazenda.186 Dentro da barganha cotidiana do
escravismo, habitar fora da visão da casa-grande parece ter sido uma vitória dos escravizados em
diversos lugares do Brasil. O desejo de autonomia dos cativos crescia e as condições de controle e
submissão dos trabalhadores, pelos senhores, diminuía.
Em fins do século XVIII, nas Antilhas francesas, o casamento entre os cativos era visto como
fator essencial na prevenção de fugas e formação de quilombos, assim como se esperava que a
formação de famílias significaria também maior afinco no trabalho em sua roça própria, vital para a
manutenção das escravarias nas propriedades.187 Em Palmares, há alguns relatos de que as
comunidades eram formadas por “casais” que fugiam para o mato para viver em “numerosas
185 SLENES, Na senzala, uma flor, p. 158.
186 SCHWARTZ, Stuart B. Segredos Internos: engenhos e escravos na sociedade colonial, 1550-1835. São Paulo:
Companhia das Letras, 1988, pp. 322-329.
187 MARQUESE, Feitores do corpo, p. 146.
74
aldeias”,188 desmentindo, portanto, o discurso do casamento e da formação de família como arma
senhorial contra a rebeldia escrava.
Tanto nos mocambos quanto nas senzalas, as choças e cabanas, construídas com os
mukambus,189 eram essencialmente cômodos para dormir, e não lugares de sociabilidade, como as
casas-grandes dos brancos, nos engenhos. Geralmente, não se podia ficar dentro delas senão deitado
ou sentado. O nomadismo de muitos grupos étnicos africanosexplica esta arquitetura em nada
parecida com as habitações europeias. Não havia “verdadeiros lugares de moradia”, e a ausência de
janelas corrobora a hipótese. As choças, palhoças, cabanas, mocambos, eram dormitórios e espaços
para o cozimento de algum alimento. A “habitação” de fato englobava também o espaço em torno
da choupana. A roça, neste sentido, faz parte do “habitar”, assim como as tarefas domésticas,
artesanais, o descanso e o lazer, que têm lugar fora da “casa”. Mas, diferentemente da África, na
América, as habitações escravas eram extremamente restritas quanto ao espaço e à autonomia,
sendo a fuga para novas casas nos matos e sertões a escolha de muitos dos escravizados.
Nas descrições de Palmares esta “moradia estendida”, que englobava a roça e o entorno da
casa, também estava presente. Um exemplo é a descrição das casas e roças feita pelo holandês
Roeloff Baro, em 1644. A cerca do “Grande Palmares” comportava, segundo o relato, “milhares de
famílias, fora os solteiros; eles se assentavam por entre a multidão de roças”, vivendo em suas casas
“justo como em Angola, sem mobílias ou adornos”.190 Este mocambo foi destruído pela expedição,
e mais de cem pessoas foram mortas. Mas no ano seguinte já reaparecia nas fontes holandesas, em
dimensões mais modestas. Assim o Grande Palmares era descrito em outro relato, da expedição do
holandês Johan Blaer (1645): 
188 “Papel do governador de Pernambuco para El-Rei sobre a conservação do Brasil e guerra contra os holandeses.
Recife, Pernambuco, 1663, mar. 23”, Biblioteca da Ajuda – Cód. 51-VI-1, 76a, fls. 247-250v.
189 As colunas de madeira, forquilhas de madeira que sustentavam a cobertura das casas, eram chamados de
“mocambos” por observadores na África Central. Cf. SLENES, Na Senzala, uma flor, p. 176: “…mukambu quer
dizer ‘pau de fileira’, ou ‘cumeeira’, não apenas em kimbundu, a língua dos Njinga [povo da região de Angola] e
outros povos mbundu, mas também em kikongo, o idioma dos Bakongo…” De fato, Slenes indica que em nenhum
dos dicionários de línguas banto por ele consultados as palavras mukambu ou kambu aparecem com o sentido de
esconderijo. Na nota 93 escreve: “Tanto na África como no Brasil, contudo, o termo pode ter adquirido esse
significado por metonímia, já que a ‘cumeeira’ (suporte para o teto) era a parte mais importante de uma casa
temporária ou nômade, pensada de fato como ‘esconderijo’. Entre os Bakongo, esse metonímico teria tido
condições especiais para surgir, se (como é provável) o quilombo/esconderijo fosse concebido como um ‘cantinho’
de onde se realizava emboscadas. Em kikongo, kambu tem o significado de ‘barreira’, ‘oposição’; kamba pode ter o
significado de ‘cantinho’ [petit coin, em francês] ou, como verbo, de ‘ê, [être] en travers de’ e, por extensão,
‘resistir’, ‘se opor a’; mu, como prefixo, pode ter o sentido de ‘pessoa que executa a ação indicada pela palavra
principal’. Portanto, mu-kamba poderia ter o significado de ‘aquele que se opõe, que resiste’ (Laman,
Dictionaire…, verbetes kambu e kamba). Enfim, para os Bakongo, a metáfora já existia, o que permitiria uma
identificação fácil do quilombola (aquele que ‘atravessa’ o domínio dos senhores) com o próprio pau de fileira, o
mukambu.” Ver as figuras nas páginas 174 e 175 de Slenes, para gravuras onde o mukambu estava presente nas
habitações e senzalas dos escravos observadas no século XIX, assim como em Angola, nos acampamentos
quilombos, também no XIX.
190 “Notulen van Brazilië, 13 maart 1643 tot 7 september 1645.” NL-HaNA, OWIC, 1.05.01.01, inv.nr. 70, fl. 460
(tradução nossa). Há uma tradução com alguns problemas em Coleção José Hyginio (Monumenta Hyginia),
IAHGP, Dagelijkse Notulen [Atas diárias], vol. X, 1 de jan.-4 de jun., 2 de fevereiro de 1644.
75
(…) as portas deste Palmares eram cercadas por duas ordens de paliçadas ligadas por meio de
travessões, mas estavam tão cheias de mato que a muito custo conseguimos abrir passagem; dali
por diante marchamos por espaço de milha e meia, sempre por dentro de roças ou plantações
abandonadas, nas quais porém, havia muitas pacovas e canas com que matamos a fome (…)
queimamos a casa do rei e tomamos os mantimentos; também encontramos roças grandes, na
maior parte de milho novo, e achamos muito óleo de palmeira, que os negros usam na sua
comida, porém nada mais; as suas roupas são quase todas de entrecasca de árvores e muito
poucas de algodão; e todas as roças são habitadas por duas ou três famílias/lares/casas
[huisgezinnen] (…) Naquele dia nossa gente queimou por volta de 60 casas nas roças de onde
eles fugiram.191
O diário do capitão Blaer relatava que as roças encontradas dentro da paliçada atacada eram
divididas, cada uma, por duas ou três famílias. E mais, que soube-se pelos sobreviventes presos no
ataque que a população era composta por 500 homens adultos, em 220 casas/famílias – uma
população estimada pelos holandeses em 1500 pessoas, e não mais as milhares de famílias aludidas
pela expedição anterior. Pelo número de casas pode-se dizer que existiam então entre 73 e 110 roças
de mantimentos – resultado da divisão do número total de casas/famílias pelos números de
casa/famílias por roça fornecidos no documento. Parece que no seio das comunidades quilombolas a
habitação dos negros não diferia muito das senzalas, sendo elas formadas por casa + roça.Estas
roças tinham que ser grandes o suficiente para prover a subsistência de umas vinte pessoas
(acreditando-se na estimativa dada pelos próprios holandeses de 6,8 pessoas por casa).
Concordamos com as conclusões de Slenes, baseado nos estudos de africanistas sobre os
efeitos das guerras do tráfico de escravos na África,192 de que “antes de serem capturadas e trazidas
ao sudeste do Brasil, muitas das pessoas desterradas da África Central, talvez a maioria, já eram
praticamente ‘quilombolas’ – inclusive no sentido original da palavra, já que moravam em aldeias
que eram pouco mais do que ‘acampamentos (de guerreiros)’”.193 Pode ter ocorrido o reforço de um
nomadismo forçado das populações centro-africanas, com a deterioração das relações entre a
Luanda portuguesa e o antigo reino do Kongo, ao longo do século XVII – com uma piora ainda
maior durante o período de ocupação holandesa em Angola (1641-1648) –, que desembocaria nas
guerras civis e na desestabilização daquele reino, entre 1665 e 1709. 
A chegarem na América, o padrão de construção de aldeias e vilas teria se transformado, e as
montanhas e florestas passaram a ser preferidas pelos fugitivos, atemorizados pela possibilidade
191 Cf. “Journaal gehouden door kapitein Johan Blaer van zijn reis naar de Palmares, van 26 februari tot 2 april 1645”
[“Diário mantido pelo capitão Johan Blaer de sua viagem aos Palmares, de 26 de fevereiro a 2 de abril de 1645”].
NL-HaNA, OWIC, 1.05.01.01, inv.nr. 60, fls. 3v-4 e 5 (itálico e tradução nossa, comparada com a edição em
português de Alfredo de Carvalho, publicada em Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico
Pernambucano, no 55, 1902, pp. 87-96.)
192 Principalmente MILLER, Joseph C. Way of death: merchant capitalism and the Angolan slave trade, 1730-1830.
Madison: University of Wisconsin Press, 1988. Cujas conclusões acerca da movimentação das fronteiras de
escravização na África Central foram atualizadas, justamente em virtude da instabilidade da região, por CANDIDO,
Mariana P. Enslaving Frontiers: slavery, trade and identity in Benguela, 1780-1850. Dissertação (Doutorado em
História). Toronto: York University, 2006.
193 SLENES, Na senzala, uma flor, pp. 181-182.
76
iminente de re-escravização. Assim, para o cativo centro-africano chegado em Pernambuco – a
grande maioria deles – no século XVII, habitar as matas e serras poderia ser a forma mais conhecida
de morar e viver.
Para Fiabani e Maestri,194no caso dos mocambos no Brasil, essa tradição nômade africana,
referida por Slenes, se aliou a uma tradição itinerante da produção de alimentos em hortas e roças,
típica dos ameríndios. Assim como os índios, os quilombolas plantavam “ao longo das trilhas,
transformando assim a caminhada, a caçada, a pesca em possibilidade de coleta, (…) usando as
plantas semidomesticadas como alimento nas longas caminhadas de até três meses na estação
seca”.195 
Segundo o antropólogo Mauro Leonel, as culturas indígenas das Américas sempre
apresentaram como característica um grande esforço para a “antecipação de necessidades”,
desenvolvendo técnicas de manejo de recursos adaptadas a cada ambiente específico em que
habitam. “ilhas” de recursos são organizadas no meio das florestas como reservas de mantimento.
“Assim, a roça abandonada está na verdade em permanente produção. É construtora da floresta não
apenas para os homens diretamente, mas atraindo caça, mediante alimentos plantados com tal
propósito”, como algumas árvores frutíferas, por exemplo. Hortas aparentemente abandonadas na
floresta podem significar, na verdade, uma oferta de colheita a longo prazo, “ilhas” de recursos
“onde há de tudo: alimentos, água, produtos de limpeza, óleos corporais e capilares, repelentes de
insetos, colorantes, folhas para trançado, material para a construção de suas casas, plantas
medicinais, cocos e palmitos, bambu para flechas, comida para caça, fios, agulhas, venenos.”196
Aparentemente abandonadas ao olhar desavisado, na verdade são reservas de longo prazo, culturas
permanentes que também serviriam de locais de refúgio, defesa e descanso.A agricultura
quilombola reuniria , primeiro, práticas produtivas adaptadas às condições ecológicas disponíveis e,
segundo, às necessidades de segurança. Assim, não se estabeleceriam laços profundoscom a terra
que habitavam – diferentemente dos camponeses europeus, por exemplo –, mas sim, garantia-se a
produção e a segurança das suas roças mesmo com a itinerância forçada, como era o caso das fugas
de expedições punitivas. 
O principal problema para o quilombola era quando as forças repressivas destruíam as hortas
e roças, causando penúria e fome na comunidade. A fome causada por estes ataques seria uma das
principais causas das capitulações de lideranças quilombolas.197 Por exemplo, antes de começar
194 MAESTRI, Mário; FIABANI, Adelmir. “O mato, a roça e a enxada: a horticultura quilombola no Brasil escravista
(séculos XVI-XIX)”. In: MOTTA, Márcia; ZARTH, Paulo (Orgs.) Formas de resistência camponesa: visibilidade e
diversidade de conflitos ao longo da história. Vol. I: Concepções de justiça e resistência nos Brasis. São Paulo:
Editora Unesp, 2008, pp. 63-83.
195 LEONEL, Mauro. “O uso do fogo: o manejo indígena e a piromania da monocultura”. In: Estudos Avançados,
vol.14, no.40, São Paulo, Sept./Dec. 2000, pp. 231-250.
196 Cf. LEONEL, “O uso do fogo”, citações à página 237.
197 MAESTRI e FIABANI, “O mato, a roça e a enxada”, p. 75.
77
tratativas de paz com alguns palmarinos, o governador Brito Freire afirmou que, depois de um
enorme massacre de fugitivos pelas tropas coloniais em Palmares, com mais de noventa mortos,
“lhes queimaram muita quantidade de povoações (a que chamam mocambos) com os mantimentos e
lavouras de seus frutos.”198 Segundo o governador, passaram de 1500 os mortos de sede e fome,
uma vez que as tropas teriam estacionado na região, junto aos rios, por cinco meses,
impossibilitando o acesso dos palmarinos aos pontos de água. Brito Freire sugeria que um problema
comum, para os quilombolas, era enfrentar o alto verão, época em que os rios perenes da região de
Alagoas e Pernambuco perdem muito do seu volume, não havendo outras fontes de água para a
manutenção das comunidades, após a destruição das roças e mantimentos pelas tropas coloniais.199 
Daí a necessidade de esconder as roças pelas picadas abertas nas matas, e não apenas em
torno das casas dos mocambos.200 A mandioca, por exemplo, que costumava ser plantada em
clareiras em meio a mata, podia ser colhida após seis meses de plantada até um ano e meio, o que
garantia que ainda estivessem no mesmo ponto, escondidas, após o recuo das forças repressivas e o
possível retorno dos quilombolas para a colheita.
As tropas que os perseguiam não resistiam muito tempo, por causa da limitação dos
mantimentos. Uma vez desistindo do avanço sobre os rebeldes e saindo em retirada, o jogo se
invertia, e então eram os soldados perseguidos pelos quilombolas. Ainda assim, os negros tinham
sempre a necessidade de voltar aos mocambos, porque ali tinham seus celeiros subterrâneos, as
raízes e legumes que armazenavam embaixo da terra ou em cabanas escondidas pelos matos e
caminhos, só por eles conhecidos.201
Parece que foi durante o tempo das entradas de Fernão Carrilho (a primeira em 1677 e a
segunda em 1686) que as autoridades coloniais puderam construir um melhor conhecimento acerca
das estratégias de sobrevivência dos quilombolas palmarinos. O regime de chuvas da região, e as
198 Papel do governador de Pernambuco para El-Rei sobre a conservação do Brasil e guerra contra os holandeses.
Recife, Pernambuco, 1663, mar. 23. Biblioteca da Ajuda – Cód. 51-VI-1, 76a, fl. 249v.
199 Durante a primavera e o verão a vazão dos rios chega a seu volume mais baixo, historicamente o mês de julho
correspondendo a cerca de 20% de toda a vazão anual do rio Mundaú, por exemplo, enquanto que janeiro a apenas
3% do volume de águas anual do mesmo rio. cf. MORAES, J. C.; OLIVEIRA, M. C. F.; COSTA, M. C. “Regime
Hidrológico do rio Mundaú – Alagoas”. In: Anais dos Congressos Brasileiros de Meteorologia, s.d.
http://www.cbmet.com/cbm-files/14-eb3243822f130061a0732433d5903734.pdf, acessado em abril de 2017. Esta
vazão também corresponde ao regime pluviométrico da bacia dos grandes rios perenes de Alagoas (Paraíba e
Mundaú). Os dados para o rio Paraíba do Meio e a similitude, em parte, do regime hidrológico dos dois rios – isto é,
cheias no inverno e secas no alto verão –, podem ser obtidos em PEDROSA, V. A.; SOUZA, R. C.
“Estacionariedade e estudo de vazões mínimas do rio Paraíba do Meio em Alagoas.” In: XVIII Simpósio Brasileiro
de Recursos Hídricos, 2009. Disponível em
http://www.ctec.ufal.br/professor/vap/ArtigoABRH2009Vazaominimaparaiba.pdf, e acessado em abril de 2017. Já a
bacia do rio Una, em Pernambuco, tem seu maior volume de água entre março e agosto, chegando esse mês a
representar quase 80% do volume anual de chuvas da região da Zona da Mata. Cf. Relatório de Impacto Ambiental
(RIMA). Barragens Panelas II e Gatos. Recife: Instituto de Tecnologia de Pernambuco, Secretaria de Recursos
Hídricos e Energéticos – PE, s/d. Disponível em http://www.cprh.pe.gov.br/downloads/rimafinal.pdf, último acesso
em janeiro de 2018.
200 Johan Blaer relatou que encontrou diversas plantações entre um e outro mocambo destruído na expedição de 1645.
Cf. “Journaal gehouden door kapitein Johan Blaer…”, fl. 4.
201 Biblioteca da Ajuda, cota de manuscrito 50-V-37, doc. 65, fl. 168 [1689].
http://www.cprh.pe.gov.br/downloads/rimafinal.pdf
http://www.ctec.ufal.br/professor/vap/ArtigoABRH2009Vazaominimaparaiba.pdf
http://www.cbmet.com/cbm-files/14-eb3243822f130061a0732433d5903734.pdf
78
secas e cheias dos rios perenes e seus afluentes intermitentes já eram bastante conhecidos, mas foi
durante a década de 1680 que começaram a circular, na documentação oficial portuguesa,
informações sobre como os quilombolas faziam uso deste ecossistema. 
Ex-governadores de Pernambuco – como Aires de Souza de Castro e D. João de Souza – eram
os conselheiros da Coroa nos assuntos de Palmares. Por volta de 1686, Aires de Souza escrevia que
era recomendável uma tropa de 400 ou 500 homens, auxiliados de tropas vindas das vilas, que
deveria se instalar em um arraial nosPalmares, e “que esta gente assista todo o verão no arraial, e
ainda depois de passado lhe fique algumas tropas ou outras de novo para os [palmarinos] não deixar
fazer as suas roças e lavouras, que é o que mais os atenua…”202 A estratégia de ataque era
direcionada para se evitar que os negros pudessem usufruir de suas roças na mata e nos caminhos,
quando da fuga, e que não pudessem plantar nem colher os mantimentos já na terra durante o
inverno chuvoso da região. 
Ainda naquele ano de 1686, o governador João da Cunha Souto Maior reclamava da falta de
recursos para a continuidade da campanha de Carrilho inverno adentro, que naquele ano viera
excepcionalmente rigoroso, quer dizer, chuvoso.203 No ano seguinte, corroborando a estratégia, o
ex-governador D. João de Souza escreveria em um parecer que “também [era importante] a
destruição das suas lavouras [nos Palmares] por ter mostrado a experiência ser este o mais sensível
mal que experimentam, não logrando no verão os frutos que lançam à terra no inverno”.204
As colheitas seriam feitas no verão, e os mantimentos armazenados para o consumo durante o
inverno, época de chuvas, cheias nos rios e de plantação. Por isso o verão foi a época escolhida, não
por acaso, pelas autoridades coloniais para os ataques. A ideia era impedir a colheita e estocagem
dos mantimentos pelos quilombolas, e que as tropas pudessem servir-se deles durante a campanha –
destruindo tudo o que não pudessem consumir ou carregar nas marchas.
Fernão Carrilho foi preso, em 1684, pelo então capitão do terço do Mestre de Campo e
governador de Pernambuco, D. João de Souza, por ter pretendido estabelecer uma espécie de trégua
com os palmarinos, à revelia do regimento passado a ele, que expressamente proibia que se
negociasse com os quilombolas.205 Esta recusa em negociar uma trégua, mesmo que momentânea,
202 Anexo em, 1687, março, 11, Olinda CARTA do [governador da capitania de Pernambuco], João da Cunha Souto
Maior, ao rei [D. Pedro II], sobre a situação da guerra contra os negros dos Palmares e a ajuda que solicitou a uns
homens da vila de São Paulo, que se encontravam no sertão do rio de São Francisco. Anexos: 5 docs.
AHU_CU_015, Cx. 14, D. 1409.
203 1686, agosto, 2, Recife CARTA do [governador da capitania de Pernambuco], João da Cunha Souto Maior, ao rei
[D. Pedro II], sobre a guerra que mandou fazer aos negros dos Palmares através de Fernão Carrilho, a falta de
condições financeiras para continuá-la, e pedindo que os gastos sejam aplicados nos sobejos da Fazenda Real.
Anexos: 2 docs. AHU_CU_015, Cx. 14, D. 1383.
204 Anexo em, 1687, março, 11, Olinda CARTA do [governador da capitania de Pernambuco], João da Cunha Souto
Maior, ao rei [D. Pedro II], sobre a situação da guerra contra os negros dos Palmares e a ajuda que solicitou a uns
homens da vila de São Paulo, que se encontravam no sertão do rio de São Francisco. Anexos: 5 docs.
AHU_CU_015, Cx. 14, D. 1409.
205 1684, agosto, 10, Recife CARTA do [governador da capitania de Pernambuco], D. João de Sousa de Castro, sobre o
mau procedimento que teve Fernão Carrilho na conquista dos negros dos Palmares para onde foi mandado. Anexos:
79
vinha na esteira de negociações de paz com o próprio Zumbi, iniciadas por volta de maio 1682,
onde se “ajustou a sujeição dos ditos negros, sítio em que haviam de habitar, entrega dos cativos
que haviam de fazer [em] tempo determinado para a conclusão de tudo”. No entanto, segundo o
governador, “maliciosamente” Zumbi protelaria o cumprimento dos termos do acordo, na tentativa
de ganhar tempo para organizar a resistência aos novos ataques das tropas coloniais – aproveitaria,
assim, uma possível calmaria na estação chuvosa (abril a setembro) para o plantio dos mantimentos
e reorganização dos mocambos. Já tidas como fracassadas em julho de 1683,206 pelo governador
João de Souza, as negociações de paz deram lugar a mais preparativos bélicos para uma entrada no
verão de 1684/1685.207
Segundo um manuscrito anônimo, de 1689, com recomendações para a guerra dos Palmares,
“é uso e costume dos negros no maior sossego ou descanso em que é por todo agosto cada família,
ou casal, com toda a pressa e cuidado fazer cada um seu celeiro, escondidos debaixo do chão ou em
barracas.”208 Os engenhos baianos safrejavam entre agosto e maio, numa média de 200 dias por ano
– descontados os dias santos. A safra só era interrompida pelas fortes chuvas do inverno. O plantio
era feito entre março e agosto – como se pode ver da Figura 1, abaixo. A recomendação era iniciar a
expedição no primeiro dia de agosto, “porque naquelas partes se contam o primeiro dia de agosto
pelo primeiro dia de verão”. Com a terra encharcada pelo inverno dos meses anteriores, a
expectativa do autor era de que as tropas logo afugentassem os quilombolas, e estes, não podendo
colher suas roças de “legumes e milhos” com a terra ainda molhada, ficariam sem mantimentos para
suas famílias sobreviverem e se reagruparem nos matos. Assim que a estação seca avançasse e os
mantimentos das tropas coloniais terminasse, teriam todo o celeiro dos mocambos para se manterem
nos matos até o início do próximo inverno, em maio. A falta de mantimentos, esperava o autor,
espalharia as famílias pelos sertões, em pequenos contingentes que não deixassem pistas pelos
caminhos (evitando serem encontrado), tendo que recorrer à caça e a coleta para o seu sustento. A
força do grande grupo daria lugar à fragilidade de famílias famintas.
2 docs. Obs.: m.est. AHU_CU_015, Cx. 13, D. 1298; também ver “Ordenou ao provedor da fazenda desse baixa no
soldo ao capitão Fernão Carrilho [ilegível] com suspensão [ilegível]”, 24 de julho de 1684, AUC, CCA, IV, 3ª-I-1-
31, t. 1, f. 393.
206 “Escreveu ao capitão-mor João da Fonseca sobre o ajustamento da paz dos Palmares.” 23 de maio de 1682, AUC,
CCA, IV, 3ª-I-1-31, t. 1, f. 384; e “Escreveu às câmaras de Sirinhaém, Porto Calvo, Alagoas e Rio [de São
Francisco] sobre a invasão dos Palmares.” 1 de julho de 1683, AUC, CCA, IV, 3ª-I-1-31, t. 1, f. 386v.
207 “Ordenou aos capitães Francisco Fernandes e Antônio Cavalcante fizessem entrada aos Palmares.” 4 de novembro
de 1684, AUC, CCA, IV, 3ª-I-1-31, t. 1, f. 378v.
208 Biblioteca da Ajuda, cota de manuscrito 50-V-37, doc. 65, fl. 168 et seg.
80
Figura 1 – Ciclo agrícola dos engenhos baianos209
Apesar de pequenas diferenças regionais e conjunturais, o esquema da figura cima parece
corroborar o manuscrito anônimo. O autor sugere que, ao longo de agosto, ainda com as chuvas do
inverno na zona da mata pernambucana, os quilombolas garantiam o plantio de seus mantimentos
nos matos, assim como os escravos trabalhavam no plantio dos partidos de cana – era a época de
menor trabalho nos engenhos de Pernambuco, em contraste com os meses de safra, de trabalho
extenuante na fabricação do açúcar. Assim, ele sugeria maior vigilância justamente naquele período,
quando os rebeldes preparavam seus celeiros.
209 Fonte:SCHWARTZ, Segredos Internos, p. 100.
81
Flávio Gomes sugeriu a manutenção conjunta de roças por cativos e quilombolas como uma
forma de aumentar as rendas e as possibilidades de acumulação de recursos entre os dois grupos. A
grande produção de excedentes dos quilombos mais longevos fazia com que parecessem roceiros
aos de fora, posto que iam com frequência a povoados vizinhos comercializar seus produtos, e
comprar o que não conseguiam produzir autonomamente, como armas de fogo. Alguns quilombolas
eventualmente trabalharam para fazendeiros e roceiros locais, em troca de proteção, dinheiro e
mantimentos.210 De igual maneira, muitos dos cativos assenzalados costumavam escapar
esporadicamente pelos matos e serras, atrás de familiares, amigos, parceiros comerciais, etc.,
frequentando mocambos, costume por vezes legitimado pelos próprios senhores.
4. Relações sociais e campo quilombolaFlávio Gomes lança mão de um conceito interessante para abordar a economia quilombola no
Brasil escravista. Analisando a região da baixada iguaçuana, no Rio de Janeiro, na primeira metade
do século XIX, o autor busca abordar as experiências históricas destes quilombolas a partir não da
resistência escrava ao sistema escravista – e a consequente chave analítica de marginalização e
isolamento dos mocambos naquela sociedade –, mas sim da integração social, política e econômica
destas comunidades com outros agentes sociais que as circundavam, especialmente os comerciantes
locais, autoridades e outros escravos. A partir da produção de gêneros de subsistência –
complementada por caça, pesca e assaltos e rapinas em regiões vizinhas, elementos que formavam
sua, sua economia interna, os quilombolas foram capazes de produzir excedentes que eram
comercializados localmente, geralmente trocando alimentos e madeira por produtos que não podiam
produzir, como sal, armas, etc. Através desta economia quilombola uma rede de relações sociais foi
estabelecida, ligando os diferentes atores. Para Gomes,
Tais contatos constituíram a base de uma teia maior de interesses e relações sociais diversas, de
onde os quilombolas souberam tirar proveito fundamental para a manutenção de sua autonomia.
Era um verdadeiro campo negro, no qual as ações dos variados agentes históricos envolvidos
tinham lógicas próprias, entrecruzando interesses, solidariedade, tensões e conflitos.211
O autor entende por campo negro esta complexa rede social, arena de lutas e de solidariedade
entre diversos seguimentos da sociedade escravista, envolvendo osmocambos. A complexidade
destes campos negros variou de acordo com o tamanho das relações engendradas em torno da
economia quilombola e seus corolários no nível das relações sociais. É possível usar esse conceito
210 GOMES, Flávio dos Santos. Mocambos e quilombos: uma história do campesinato negro no Brasil. São Paulo:
Claro Enigma, 2015. Ver também GOMES, Histórias de Quilombolas.
211 GOMES, Histórias de Quilombolas, p. 63.
82
como ferramenta analítica para se tentar reconstruir o universo das relações entre os quilombos no
interior da região de Pernambuco e Alagoas e os diversos grupos sociais que habitavam as franjas
das matas– incluídos aí os oriundos dos engenhos da mata pernambucana.
O campo negro em torno dos mocambos dos Palmares podia ainda envolver figuras como os
poderosos sesmeiros dos sertões de então. No capítulo anterior mencionamos a tentativa de acordo
entre alguns dos negros rebeldes e o governador Francisco de Brito Freire, em 1663. Segundo o
governador,212 acuados pelas tropas que enviara naquele ano, dois negros teriam buscado os filhos
do sargento-mor Antônio Vieira (de Melo), e “avisar que se estavam juntando todos para descerem
os principais a ter comigo [e] aceitar o que lhes oferecia”.213 No entanto, também afirmava ao
governador-geral em Salvador que dúvidas surgiram entre as lideranças rebeldes, possíveis
contendas acerca do acordo de paz com o governador, acarretando na morte de um “cabo
[comandante] de um mocambo, e (…) [de] outro seu companheiro por quererem aceitar o
ajustamento.”214 Fica por se explicar por que teriam aqueles dois palmarinos – depois assassinados
por outros quilombolas sob a suspeita de serem “espias” do governador – procurado os filhos do
sargento-mor Antônio Vieira. Que tipo de relações poderiam ter grandes senhorescom os negros do
mato?
De maneira pioneira, Richard Price buscou integrar na historiografia das comunidades de
escravos fugitivos (chamadas por ele de maroon societies) o fenômeno recorrente da petit
marronage, qual seja, a prática, bastante aceita por senhores de escravos em toda América, das
ausências repetitivas e periódicas de escravos, cujos objetivos eram eventuais e temporários, como
visitar familiares e conhecidos pela vizinhança.215 Seguindo seus passos, John Thornton escreveu,
Neste sentido, os pesquisadores modernos têm tratado a resistência do dia-a-dia como um bom
exemplo desse tipo simples de negociação [entre trabalhadores e administradores dentro da
unidade de trabalho]. A disciplina no trabalho, o gerenciamento de instrumentos e o absenteísmo
foram as armas disponíveis pelos escravos para exigirem de seus senhores a abolição de maus
hábitos, a punição de administradores sádicos (ou a reavaliação do sadismo dos próprios donos)
ou mais tempo livre, tempo disponível para seu próprio trabalho, direitos de visitar ou morar
com os membros da família, entre outros.216
212 Papel do governador de Pernambuco para El-Rei sobre a conservação do Brasil e guerra contra os holandeses.
Recife, Pernambuco, 1663, mar. 23, Biblioteca da Ajuda – Cód. 51-VI-1, 76a, fls. 249v; e “Francisco de Brito
Freire, [Relatório dos serviços prestados em Pernambuco]”, s/d, BNL-Res., Códice 236, n. 51, fl. 2. [possivelmente
escrito após março de 1664, quando deixou o governo de Pernambuco]. Ambos documentos já citados no capítulo
anterior.
213 “Francisco de Brito Freire, [Relatório dos serviços prestados em Pernambuco]”, s/d, BNL-Res., Códice 236, n. 51,
fl. 2.
214 “Escreveu ao governador do estado do Brasil sobre os negros dos Palmares.” 2 de agosto de 1663, AUC, CCA, IV,
3ª-I-1-31, t. 1, f. 93.
215 PRICE, Richard. (ed.) Maroon Societies. Rebel Slave Communities in the Americas. New York: Anchor Books,
1996, p. 3.
216 THORNTON. John K. A África e os africanos na formação do mundo Atlântico, 1400-1800. Rio de Janeiro:
Elsevier, 2004, capítulo 10, “Resistência, fugas e rebeliões”, p. 358.
83
Além da socialização, é bastante notável o caráter contestatório da petit marronage, como
forma de negociar os termos da relação senhor/escravo, especialmente quando o primeiro abusava
de suas prerrogativas em detrimento da autonomia do último. Para a doutrina jesuítica, estes abusos
eram a principal causa das fugas e rebeldias dos cativos, e da falta de legitimidade dos senhores.
Rafael Marquese217 demonstrou como a teoria cristã do governo dos escravos, apresentada pelos
jesuítas em inícios do século XVIII (os escritos Jorge Benci e Antonil, basicamente) fazia parte da
polarização destes com os senhores de escravos e terras da América portuguesa, em torno das
normas de conduta esperadas de senhores e escravos no cotidiano de suas relações. Aos jesuítas,
cada vez mais ficava clara a necessidade da doutrinação religiosa católica para a efetiva
legitimidade da dominação de corpos e mentes africanos no Novo Mundo, enquanto que aos
senhores seculares, a “soberania doméstica” deveria prevalecer sobre qualquer outra premissa,
mesmo que para isso a superexploração e a crueldade fossem requeridos.218 Estas práticas foram
denunciadas ao longo do século XVII, e a partir especialmente do acordo de paz com os palmarinos
(1678), a Coroa enviou uma série de normas ao Estado do Brasil para lidar com os maus-tratos de
senhores contra seus escravos, tido como o principal motivo para o aquilombamento, indo na
mesma linha de argumentação dos letrados jesuítas da colônia.219
A ideia de negociação com “maus senhores” é expressa, no contexto de Palmares, em uma
carta do Rei português endereçada a Zumbi, em 1685. Nela, o monarca concedia o perdão ao
escravo rebelde pelos seus “excessos”, se aquele aceitasse se render e servir ao soberano português,
e compreendia suas ações como consequência das “maldades praticadas por alguns maus senhores
em desobediência às minhas reais ordens”.220 No mesmo sentido em que Thornton escreveu acima,
parece que o monarca português compreendia e conferia certa legitimidade à revolta escrava e à
fuga ao jugo de “maus senhores”. É como se a rebelião dos palmarinos expusesse, às autoridades,
os pecados dos senhores de escravos pernambucanos. 
Aos olhos dos senhores do Caribe francês, por exemplo, a prática das pequenas fugas eracolocada na conta da preguiça e da libertinagem dos escravizados, que não eram considerados
fugitivos de fato.221 A própria legislação, nas várias colônias do Caribe e da América espanhola,
fazia esta diferenciação, e mesmo os observadores da época percebiam o deslocamento constante
217 MARQUESE, Rafael de Bivar. Feitores do corpo, missionários da mente: senhores, letrados e o controle dos
escravos nas Américas, 1660-1860. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, Parte I.
218 Sobre esta disputa, ver VAINFAS, Ronaldo. Ideologia e Escravidão. Os letrados e a sociedade escravista no Brasil
colonial. Petrópolis: Vozes, 1986.
219 Especificamente as cartas régias de 20 e 23 de março de 1688, 23 de fevereiro de 1689, e 7 de fevereiro de 1698.
Essa legislação pode ser consultada em LARA, Sílvia H. (org.) “Legislação sobre escravos africanos na América
portuguesa”. In: ANDRÉS-GALLEGO, j. (coord.) Nuevas Aportaciones a la Historia Jurídica de Iberoamérica.
Madri: Fundación Histórica Tavera-Digibis-Fundación Hernando de Laramendi, 2000 (CD-ROM), pp. 198-199,
201 e 211.
220 “Do rei de Portugal ao capitão Zumbi dos Palmares” [26 de fevereiro de 1685]. In: FREITAS, Décio. República de
Palmares. Pesquisa e comentários em documentos históricos do século XVII. Alagoas: EdUFAL, 2004, p. 183.
221 DEBIEN, Gabriel. “Marronage in the French Caribbean”. In: PRICE, Maroon societies.
84
dos cativos, que sumiam por dias, dormiam em locais variados, e retornavam ao trabalho tempos
depois, diante da complacência dos senhores.222 O fenômeno era completamente diferenciado, pelos
colonos, do aquilombamento e da rebeldia, isto é, da fuga definitiva. Sobre isso, Thornton dá um
exemplo de um trabalhador especializado escravizado no engenho Remire, em Caiena, 1690. Era
identificado como “fugitivo habitual”, e já havia perdido uma orelha como punição. No entanto, era
considerado o melhor trabalhador do engenho, e seu senhor não se desfaria dele por conta das
ausências.223 Dentro do embate e da negociação que caracterizava as relações senhor/escravo, o
acordo a que aqueles haviam chegado comportaria a habitual fuga do escravizado, em troca de sua
habilidade no trabalho do engenho, que poderia ser bastante especializado.
A mesma distinção era feita pelos senhores de escravos de Pernambuco. Em 1698, os
camarários de Olinda pediam ao Rei que a pena de venda para fora de Pernambuco, aplicada aos
negros capturados nos Palmares,224 não fosse ampliada aos escravos que “fugiam aos seus senhores,
e andando de um engenho para outro em poucos dias eram presos, porque estes se não deviam
regular por negros fugidos para os Palmares”.225 Fica claro que fugas e ausências temporárias eram
comuns e aceitas pelos senhores de Pernambuco, e que a criminalização das fugas permanentes e
prologadas, em especial dos que passavam a viver nos Palmares, chegou a causar prejuízos aos
senhores de escravos que confiavam no retorno de seus cativos ausentes.
É bastante sintomática da tentativa do poder colonial de enquadrar os fenômenos, e suas
diferenças. A ordem do governador Francisco de Brito Freire, em 1662, concedendo a qualquer
pessoa o direito de tomar, nas incursões aos Palmares, os quilombolas que prendesse como seus
escravos, sem qualquer custo:
Hei por bem que todas as pessoas de qualquer qualidade e condição que seja possam fazer as
ditas entradas aos mocambos e lhes concedo que quantos negros tomarem, constando haver
mais de um ano que fugiram da casa de seus donos, sem pagarem coisa alguma, lhes fiquem por
seus próprios escravos (…) e encomendo aos reverendos vigários (…) consultem a seus
fregueses, em particular aos que tiverem negros nos Palmares, se lhes parece conveniente este
meio.226
222 Ver THORNTON, A África e os africanos, p. 360.
223 THORNTON, A África e os africanos, p. 362.
224 A primeira referência documental a esta pena vem do escravizado Pedro, cativo de Antônio de Sá, que teria sido
preso nos Palmares e embarcado para o reino, em 1663. Antônio pedia que se lhe restituíssem o valor do escravo
perdido, ao que o governador mandou descontar as despesas pelo tempo de encarceramento, mais a tomadia,
geralmente paga às tropas pela prisão (12$000 por escravo, em geral). Cf. “Ordenou se pagasse a Antônio de Sá o
valor de um seu escravo”, 16 de agosto de 1663, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, fls. 92v-93. Ver também a “Carta para
o governador Francisco de Brito Freire acerca da entrada que quer fazer nos Palmares”, 9 de setembro de 1663. DH,
vol. 9, 1929, pp. 127-129.
225 AHU_ACL_CU – Cod. 257, fl. 2v.
226 “Concedeu entradas livres aos mocambos a toda pessoa que a eles quisessem”, 6 de dezembro de 1662,
AUC_CCA_VI-III-1-1-31, fl. 88 (itálico nosso).
85
Parece que, no contexto de Palmares, um limite para a petit marronage foi buscado pelas
autoridades. Após um ano de ausência, o escravo era considerado oficialmente um rebelde
quilombola, potencialmente um palmarino. É claro que a ordem não mirava proibir o senhor de
permitia as ausências esporádicas de seus cativos, uma vez que um ano era tempo suficiente para
que um senhor de escravo não mais esperasse seu retorno, por livre e espontânea vontade. O
governador almejava, sim, frear o aumento do contingente dos mocambos, permitindo a re-captura
de sua população pelas tropas coloniais. 
Curioso também é notar que os vigários e senhores sabiam muito bem quais os escravos
estariam se abrigando nos Palmares, ou, pelo menos quais aqueles que haviam se ausentado – talvez
há mais de um ano – e que muito provavelmente não retornariam ao trabalho por vontade própria. 
A propriedade de Caiena contava com 92 trabalhadores escravizados, realidade bastante
diferente da maioria dos senhores de escravos de Pernambuco227 – apesar de ser gerida no “‘modelo
pernambucano’,228 que permitia a formação de famílias e tempo livre para o cultivo de seus próprios
alimentos e a organização de uma comunidade.”229 Ao fim do século XVII, com a ascensão do
açúcar antilhano no Atlântico, a situação de endividamento dos engenhos nordestinos – e
consequentemente, dos lavradores de cana – era alarmante, e o perigo de penhoras, real. A proteção
da Coroa se estendia, normalmente, apenas aos engenhos empenhados, sendo os senhores
executados apenas em seus rendimentos (mantendo seus bens intactos, terras, ferramentas e
escravos) – enquanto que lavradores eram executados em seus escravos, diminuindo sua capacidade
produtiva.230 Com plantéis bastante modestos, em cenário de crise do comércio de açúcar (na virada
dos séculos XVII e XVIII), os pequenos possuidores de escravos da região da Mata e Agreste
pernambucanos talvez vissem o fato de seus cativos frequentarem os mocambos como algo
inescapável, ou mesmo como parte dos direitos adquiridos em meio ao “modelo pernambucano” –
227 Em 1708, a Coroa mandou suspender a proibição do plantio de cana para lavradores com menos de seis escravos,
em virtude de uma reclamação da câmara de Porto Calvo, em que os vereadores alegavam que, em virtude dos
negros dos Palmares, os mais ricos senhores de escravos haviam deixado a capitania, restando apenas os mais
modestos, com pequenos plantéis, que compunham a maioria dos lavradores pernambucanos – a ordem se estendeu
a todas as capitanias anexas de Pernambuco. Apud LOPES, Gustavo A. Negócio da Costa da Mina e comércio
Atlântico. Tabaco, açúcar, ouro e tráfico de escravos: Pernambuco (1654-1760). Tese (Doutorado em História
Econômica). São Paulo: USP, 2008, pp. 100-101. Ver a consulta do Conselho Ultramarino de 6 de novembro de
1704 em, APEJE, Ordens Régias, 6, p. 72.
228 Outro nome para o já citado “costume brasileiro”.
229 THORNTON, A África e os africanos, p. 359.
230 É no século XVIII que os lavradores e partidores de cana-de-açúcar mais sofrerão com as execuções contínuas de
suas dívidas. A questão é ambígua. Se por um lado lavradoresestão subordinados, de maneira geral, aos senhores de
engenho, estes últimos dependiam muito dos lavradores para amenizar os custos de produção e manutenção de seus
engenhos. A Coroa tendia a, em determinadas conjunturas de alta nos preços do açúcar, estender o privilégio da
não-execução das dívidas comerciais também aos lavradores. Cf. FERLINI, Vera Lucia A. “A subordinação dos
lavradores de cana aos Senhores de Engenho: tensão e conflito no mundo dos brancos”. In: Revista Brasileira de
História, São Paulo, v. 6, n. 12, 1986, p. 153, também notas 12 e 13.
86
diante de sua incapacidade de alimentar seus próprios cativos e/ou de fornecer-lhes terra e tempo
suficiente para seu próprio sustento.
O mais interessante é que, mesmo com a proximidade dos mocambos em Pernambuco, os
senhores de escravos continuavam permitindo a seus cativos as ausências temporárias. É possível
que muitos destes senhores soubessem que, dada a linha tênue entre senzalas e mocambos, seus
cativos, se não habitavam temporariamente, no mínimo “frequentavam” as comunidades de
fugitivos nos matos da capitania. As relações de proximidade entre palmarinos e escravizados
também foram sugeridas por várias fontes documentais. Em tempos de repressão, quilombolas
foram flagrados procurando abrigo em senzalas próximas aos mocambos,231 ou mesmo próximas
aos engenhos de açúcar. 
É o que sugerem algumas pistas de Palmares. O governador de Pernambuco, Francisco de
Brito Freire, expediu várias ordens às vilas da capitania para que se organizassem expedições contra
os quilombolas no verão de 1661-1662, tomando especial cuidado em patrulhar o litoral “duas
léguas ou três para o sertão, porque estou informado que os negros, quando os buscam em cima, se
vêm chegando para nós, e se livram andando à beira-mar”,232 “metidos pelos matos (…) pelo que
convém tanto esta diligência como a que se vai fazer aos mocambos”.233 Os tais matos litorâneos
certamente incluíam florestas apropriadas por senhores de engenho, primeiro como reserva de
lenha, mas também para ceder parcelas aos seus cativos, para que pudessem levantar suas senzalas e
ter sua roça de mantimentos. Terras íngremes ou terrenos acidentados, de vegetação densa,
geralmente eram preteridas para o plantio de cana, servindo otimamente para as culturas que
abasteciam as propriedades e seus trabalhadores – legumes, frutas, raízes, etc. 
Parece-nos que as autoridades coloniais estavam bastante conscientes das relações estreitas –
de parentesco sanguíneo, inclusive – entre mocambos e senzalas. Por exemplo, em 1654, o
governador Francisco Barreto mandou que uma tropa fosse até Alagoas à procura de um escravo de
Gabriel Soares da Cunha. Era sabido que o pai do cativo era morador nos Palmares, e a tropa tinha
então ordens para arrancar-lhe informações, usando de tortura se necessário. Caso não o encontrasse
nos matos deveriam prender quaisquer negros encontrados, “para que lhe deem notícia da paragem
em que tem o mulherio”, isto é, as mulheres dos mocambos que geralmente carregavam os
mantimentos e as bagagensdos quilombolas.234 O que sugere relações familiares que se estendiam
do cativeiro às matas quilombolas. Não é dito onde o escravo seria encontrado, mas mesmo
231 GOMES, Flávio dos Santos. Mocambos e quilombos: uma história do campesinato negro no Brasil. São Paulo:
Claro Enigma, 2015, p. 75.
232 “Escreveu à Câmara do Rio de S. Francisco sobre as tropas que haviam de ir aos mocambos e regimento que deu ao
cabo.” 24 de dezembro de 1661, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, f. 63v.
233 “Escreveu ao capitão-mor e câmara de Porto Calvo sobre o mesmo.” 23 de dezembro de 1661, AUC_CCA_VI-III-
1-1-31, f. 65v.
234 “Regimento que deu ao sargento-mor Antônio Jácome mandando-o à campanha do Palmar.” 5 de dezembro de
1654. AUC_CCA_VI-III-1-1-31, f. 20v.
87
imaginando-se que morasse nos limites do engenho de seu senhor, não é possível dizer que vivesse
em uma moradia sob vigilância, uma vez que não era incomum que as senzalas se situassem longe
da visão da casa-grande, como no exemplo do engenho de Santana, na Bahia. Neste sentido, o
mocambo acabava por se tornar uma espécie de extensão da senzala (entendida, como no kimbundu,
como povoado, moradia da família estendida, do grupo de parentesco), e a comunidade escrava –
seus laços de solidariedade e reciprocidade, suas práticas de subsistência, enfim – poderia abarcar
ambos os espaços, criando uma rede formada por escravizados, libertos, fugitivos negros ou não,
mestiços de diversas origens, etc. 
Através da prática da petit marronage escravizados não apenas frequentavam os mocambos,
mas também faziam neles suas roças de subsistência e formavam suas famílias, o mais distante
possível dos olhares senhoriais. Mais ainda, a petit marronage poderia ser uma necessária válvula
de escape para a situação de penúria de alguns senhores, que não tinham também as condições de,
ou fornecer terra e tempo para seus cativos buscarem sua própria subsistência, ou de fornecer, ele
mesmo, a alimentação necessária aos trabalhadores.235 No mais, é bastante plausível que as
escapadelas dos cativos durante a entressafra da cana-de-açúcar fossem bem-vistas por parte dos
senhores decadentes.
No mesmo sentido, fazendo alusão ao caso de um capitão das Minas Gerais que se recusava a
atacar um quilombo sob a justificativa de que a maioria dos negros que lá habitavam eram seus, e
não queria arriscar perder suas propriedades, Thomas Flory afirma que 
Talvez os quilombos brasileiros dos sertões [suburban] como aquele fossem com efeito reservas
de trabalho, escravo e livre, que a economia colonial não podia absorver em determinado
período. Cortar a força de trabalho desnecessária desta forma [permitindo que fossem para os
quilombos] pode ter sido o equivalente, na escravidão brasileira, a demitir trabalhadores em
tempos de economia em baixa e poupar despesas de manutenção.236
A expectativa seria de uma recaptura, ao menos parcial, daquela força de trabalho, à medida
que a necessidade de mão de obra crescesse. Enquanto isso, os escravizados poderiam produzir
mantimentos para os mercados locais, ou se aproveitar da produção de subsistência da população
pobre dos sertões, através de trocas comerciais ou dos roubos e rapina. De qualquer forma, seus
senhores estariam isentos de alimentá-los ou de ceder-lhes terras dentro dos engenhos – a qual
235 A ideia dos pequenos quilombos como uma válvula de escape do escravismo, especialmente em áreas de sertão,
está também em RAMOS, Donald. “O quilombo e o sistema escravista em Minas Gerais do século XVIII”. In:
REIS, João José & GOMES, Flávio dos Santos (orgs.). Liberdade por um fio. História dos quilombos no Brasil. São
Paulo: Companhia das Letras, 1996, pp. 164-192.
236 FLORY, Thomas. “Fugitive Slaves and Free Society: The Case of Brazil”. In: The Journal of Negro History, Vol.
64, Nº. 2 (Spring, 1979), p. 127.
88
poderia ter de ser retomada num momento de incremento da produção do engenho, causando
atritos.237 A manutenção dos plantéis de senhores empobrecidos poderia passar, então, pela
tolerância relativa com os mocambos.
No Rio de Janeiro do século XVIII, Flávio Gomes analisou os mocambos que se formavam
no recôncavo da Guanabara. Em princípios daquele século, uma carta régia lembrava ao governador
do Rio de Janeiro que era necessário tomar providências efetivas contra as comunidades de
mocambos que se formavam nas serras dos arredores da cidade, ou os quilombolas iriam “fazer
nessa Capitania o que fizeram nos Palmares de Pernambuco”.238 O quilombo de Bacaxá, distrito de
Saquarema, foi atacado pelo governador Luiz Vahia Monteiro, em 1729. A justificativa para o
ataque é reveladora. O governador afirmava que “os negros são muitos e que estão situados com
casas, e rossas há muitos annos o que naturalmente pode serem quanto não fazião insultos, mas
depois destes hé impraticável dissimular semelhantes atrevimentos”.239 Fica bastante claro que
havia certa tolerância com comunidades negras formadas em meio às matas e florestas, mas que
essa tolerância tinha um limite. Acerca dos Palmares, também parece ser este o entendimento do
autor anônimo referido acima. Propondo formas de acabar com os problemas entre moradores e
mocambeiros, propunha o envio de dois ou três dos negros capturados de volta aos Palmares, para
oferecer-lhes perdão e alforria, dizendo que os senhores de escravos se contentavam com os já
presos, abrindo mão dos restantes nos matos. Ele escreveu,
E [a alforria] será mais suave aos moradores que muitas vezes querem antes sofrer a tirania dos
bárbaros inimigos, que a insolência dos soldados da guerra; porque os bárbaros muitas vezes
não fazem dano senão de mês em mês; e isso não é a todos, e os soldados e oficiais da guerra, a
todos oprimem e violentam os mais dos dias.240
Primeiro, o autor já afirma que nem todos os moradores eram acossados pelos palmarinos,
mas que todos sofriam com a violência das tropas anti-quilombolas. Tolerar a vizinhança dos negros
rebeldes, que há décadas já ocupavam as matas palmarinas, era preferível aos estragos advindos do
esforço de guerra – custeado, na maior parte das vezes, por todos os moradores. Vale lembrar
também que o recrutamento das tropas para as expedições era feito, por vezes, de maneira forçada,
entre as populações mais pobres da capitania, e que viviam nas franjas dos sertões palmarinos –
talvez estes fossem aqueles poupados pelos quilombolas e mais assediados pelas tropas coloniais.241
237 FLORY, “Fugitive Slaves and Free Society”, pp. 126-127 (tradução nossa).
238 Apud GOMES, Flávio dos Santos. A Hidra e os Pântanos. Mocambos, quilombos e comunidades de fugitivos no
Brasil (século XVII-XIX). Tese (Doutorado em História). Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 1997, p.
532.
239 Apud GOMES, A Hidra e os Pântanos, p. 534 (itálico nosso).
240 Biblioteca da Ajuda, cota de manuscrito 50-V-37, doc. 65, fl. 168v.
241 Sobre o recrutamento forçado nas Alagoas, cf. “Escreveu ao capitão-mor das Alagoas sobre a gente alistada para se
fazer entrada aos mocambos.” 13 de janeiro 1666, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, fls. 193v. Para evidências da
resistência ao recrutamento e deserções nas tropas enviadas aos Palmares, cf. “Ordenou ao ouvidor de Itamaracá
fizesse autos de desobediência contra o capitão Manoel Pinheiro e os mais que fugiram de ir aos Palmares.” 22 de
89
Mas o certo é que as relações estabelecidas entre quilombolas e a sociedade a sua volta não se
limitavam aos “excluídos”, ou desclassificados – para usar a expressão de Laura de Mello e
Souza.242 Os indícios são de que, mesmo para o caso de Palmares, senhores de engenho e oficiais
coloniais poderiam ter que barganhar com os rebeldes, trocando proteção ou fazendo vista-grossa
por trabalho, ou mesmo por sossego para se apropriar de terras no sertão palmarino.
No entanto, há outras pistas para estas relações. Marcus de Carvalho,243 em artigo pioneiro
sobre o “roubo” de escravos na província de Pernambuco do século XIX, constatou, em especial na
década de 1840 – com o declínio do tráfico de escravos para a província –, que muitos senhores de
engenho não só compravam escravos roubados do Recife, como também participavam ativamente
de um mercado de cativos roubados, inclusive do próprio ato do roubo. Argumenta que “somente a
conivência do cativo podia assegurar o sucesso destas ações”, fazendo parte das possibilidades de
ação dos escravizados o “deixar-se roubar”, no sentido de assegurar ou potencializar seu espaço de
autonomia dentro do regime escravista. Para o autor, o elevado número destes crimes se devia a
“quase inexpugnabilidade dos grandes engenhos”, onde os escravos roubados nunca mais eram
recuperados. Havia também casos em que engenhos roubavam escravos entre si. “Furtar ou acoutar
escravos alheios” fazia parte das estratégias de poder dos grupos políticos de um determinado local
para enfraquecer adversários – tudo com a conivência das autoridades locais, exercidas por
possíveis familiares e clientes. A partir de 1831, coma ilegalidade do tráfico de escravos, a
renovação dos plantéis passou a ser fortemente dependente do contrabando. Assim, no dia a dia da
classe senhorial crescentemente incidia uma certa tolerância com outros desvios, em especial os
correlatos ao contrabando, como era a compra de escravos roubados – tão ilegais quanto os
comprados dos tumbeiros que chegavam da África.
Carvalho localiza nos jornais e relatórios policiais os nomes das principais famílias da terra
envolvidas nos casos de roubo e ocultação de cativos, dentro de seus diversos engenhos: Cavalcanti,
Rego Barros, Paes Barreto, etc. O número de escravos furtados e fugidos apreendidos em oito
meses na província passava de 200, em 1846.244 Muitos senhores de engenho pegos no crime de
acobertar escravos fugidos, ou mesmo roubar escravos, podiam alegar desconhecimento da
procedência de um cativo comprado, ou mesmo filantropia na ação de ajudar um cativo a fugir dos
outubro de 1672, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, f. 275; “Ordenou a todos os capitães das ordenanças de Una e
Sirinhaém prendessem aos que vieram fugidos das Alagoas.” 18 de novembro de 1672, AUC_CCA_VI-III-1-1-31,
fls. 276v; “Escreveu ao capitão-mor Cristóvão Lins sobre matérias pertencentes a entrada dos Palmares.” 18 de
novembro de 1672, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, fls. 277v; “Escreveu ao capitão-mor do Cabo, Estevão Paes
[Barreto] para que prendesse aos que vieram fugindo da viagem que fez aos Palmares.” 18 de novembro de 1672,
AUC_CCA_VI-III-1-1-31, fls. 277v-278; “Ordenou aos moradores dessas capitanias entregassem os índios que
tivessem em suas casas pertencentes ao governador Antônio Pessoa Arcoverde.” 19 de setembro de 1683,
AUC_CCA_VI-III-1-1-31, fls. 374; 
242 MELLO E SOUZA, Laura. Os desclassificados do ouro. Rio de Janeiro: Graal, 1986.
243 CARVALHO, Marcus J. M. “‘Quem furta mais e esconde’: o roubo de escravos em Pernambuco, 1832-1855.” In:
Estudos Econômicos, vol. 17, n. especial, 1987, pp. 89-110.
244 Idem, p. 100.
90
maus-tratos de um senhor cruel. Havia uma miríade de possibilidades para se tirar proveito da
ocultação de escravos alheios. Para os ladrões e intermediários, havia a possibilidade de comprar o
escravo escondido como se fosse um fugitivo, com um preço bem mais barato; ou pedir uma
recompensa por um escravo que acobertou por um tempo. Mesmo para os cativos, podia significar
uma boa mudança de vida, com um novo senhor. Poderiam vincular-se a um outro senhor,
conquistar mais espaços de autonomia, melhor proteção e liberdade. Em resumo, era relativamente
fácil para um senhor de escravos se apropriar da força de trabalho de outrem, através da ocultação
ou do acobertamento de fugas de trabalhadores escravizados.
Esta prática era uma realidade no contexto de Palmares, havendo notícias desde o período de
dominação holandesa,245 adentrando o século XVIII. Em 1654, o governador da recém-restaurada
Pernambuco, Francisco Barreto de Meneses, aludia ao amparo que os negros dos Palmares,
dispersados pelas tropas coloniais, encontravam nas casas de alguns moradores, isto é, brancos
livres. Os tais moradores que não declarassem os negros fugitivos que tinham em suas casas ao
ouvidor geral poderiam ser punidos com degredo para Fernando de Noronha e uma multa de mil
cruzados – dos quais um quarto iria para quem os denunciasse.246 Dez anos mais tarde, em 1664, o
governador Jerônimo Furtado de Mendonça (1664-1666) ordenava, através de um bando, que
nenhum morador recolhesse, em suas casas ou fazendas, negro algum dos mocambos, ainda que
fosse um dos líderes rebeldes.247 A necessidade de proibir já é prova deque esta era uma prática
relativamente difundida entre os moradores vizinhos aos negros de Palmares.
Em 1681, o governador Aires de Souza de Castro visava punir mesmo os negros que
retornassem dos Palmares para seus senhores, se ficasse provado que tivessem relações com os
quilombolas. Ordenava ainda que se punisse aqueles que os ocultassem.248 Já em 1683, o capitão do
campo de Olinda, Antônio Vedoia, dava parte ao governador Dom João de Souza das notícias que
tinha sobre os “escravos fugidos e levantados”, “que muitos moradores destas capitanias os
ocultavam e viviam deles, tendo-os em suas casas e fazendas, servindo-se deles, e dando-lhes por
este meio maior ousadia a cometerem maiores insultos”.249 Além de ordenar que o capitão de campo
vasculhasse todas as propriedades de onde viessem denúncias da ocultação de escravos tidos como
fugitivos de seus senhores, governador ordenava a prisão para “brancos ou pretos” que fossem
flagrados na prática daquele crime. Já ficava claro então que, se parte dos moradores se queixava
245 Para este período, ver PUNTONI, Pedro. A Mísera Sorte: escravidão africana no Brasil holandês e as guerras do
tráfico no Atlântico Sul, 1621-1648. São Paulo: Hucitec, 1999, pp. 162-171.
246 “Bando para que aquelas pessoas de cujas casas se amparassem os negros dos Palmares os apresentassem ao
Ouvidor.” 7 de setembro de 1654, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, f. 17v.
247 “Bando para que nenhum morador recolhesse negro algum”, 26 de abril de 1664, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, fl.
168v.
248 “Edital para que se não desse quartel a negros dos Palmares.” 16 de agosto de 1681, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, fl.
343.
249 “Ordenou ao capitão do campo Antônio Vedoia pudesse prender negros e mulatos fugidos em qualquer parte ou
casa em que eles estiverem.” 22 de novembro de 1683, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, fls. 375-375v.
91
dos negros palmarinos, outra poderia estar se beneficiando de sua proximidade, possivelmente
interessada em sua mão-de-obra ou mesmo em seu auxílio armado.
Em junho de 1707, uma ordem do governador de Pernambuco, Sebastião de Castro e Caldas
(1707-1710), condenava “as pessoas que induzem, ocultam e se servem de negros fugidos”. Em
abril do ano seguinte, como se a primeira determinação não tivesse tido o efeito esperado sobre o
ânimo dos infratores, o governador anunciava que as pessoas que fossem flagradas mediando a
compra ou venda de escravos fugitivos, para si ou para outrem, incorreriam nas penas do mesmo
crime de roubo de escravos.250 Segundo Carvalho, as transações de negros roubados eram simples.
Bastava a troca de nomes e uma escritura particular entre o vendedor e o comprador para que os
cativos trocassem de senhor, sem qualquer possibilidade de intervenção de outrem neste processo.251
Por fim, em 1716, uma ordem do governador Lourenço de Almeida (1715-1718) proibia que
se alugassem casas a escravos, e que proprietários abrigassem negros escravos ou forros dentro ou
nos arredores de suas casas. A alegação era de que os imóveis eram constantemente utilizados por
aquelas pessoas para “jogos ilícitos” e “outros malefícios”, resultando em “grave dano ao bem
comum, (…) pela falta que fazem aos seus senhores”. A ordem afirma que estas casas serviam de
“valhacouto a muitos que fogem a seus senhores”, e se denunciava a prática de algumas pessoas que
recolhiam estes cativos “em suas casas por dias”. A pena para o crime seria de 1.000 réis para a
primeira vez, e 8.000 réis em caso de reincidência, para os brancos; e prisão de oito dias com açoite,
para os negros.252 Claramente o que se queria coibir era a chamada prática do roubo, acoitamento ou
acobertamento de fugas de cativos. Vale ressaltar que, neste processo, o escravizado é agente
principal, em cuja iniciativa depositava suas expectativas de melhoria de condições de vida, para si
e/ou sua família.
Esta proximidade entre moradores e quilombolas no campo negro palmarino tomava ainda
outras formas. Claramente as autoridades não tinham a exata noção da localização dos mocambos, e
confiavam a tarefa de localizá-los ao capitão-mor local e seus homens, além, é claro, dos escravos
que os moradores ficavam obrigados a fornecer ao esforço bélico. Estes escravos, que segundo o
documento eram os responsáveis pela condução de mantimentos para as tropas, no entanto, teriam
como uma de suas principais funções guiar a expedição para o suposto local “correto”, uma vez que
era grande a proximidade entre mocambos e senzalas, e o paradeiro de fugitivos não devia ser
250 Ver referência a primeira ordem feita na segunda, de 1708. Cf. “Bando sobre a fugida dos negros para que
incorressem nas mesmas penas as pessoas que mediassem na compra ou venda dos ditos negros.” 20 de setembro
de 1708. AUC_CCA_VI-III-1-1-32, f. 69.
251 CARVALHO, “‘Quem furta mais e esconde’”, p. 108.
252 “Bando para se não alugar casas a negros cativos, nem a estes e nem aos forros se consentissem nelas ou fora delas
jogos de nenhuma maneira.” 24 de janeiro de 1716. AUC_CCA_VI-III-1-1-32, f. 233v.
92
grande segredo para o conjunto dos cativos dos arredores das vilas em que atuavam os
quilombolas.253
Os pobres livres das franjas das vilas e das matas palmarinas também podiam ser utilizados
como guias de expedições. Era de conhecimento geral que muitos sabiam a localização dos
mocambos, e mesmo que eram “práticos nos mocambos dos negros”,254 como dizia um regimento de
um dos oficiais da repressão, na vila de Sirinhaém. Para chegar até o mocambo do Amaro o capitão
Antônio da Silva Barbosa deveria, se necessário, levar consigo os moradores que melhor
conhecessem os mocambos da região. Muitos destes moradores poderiam ter sido, eles mesmos,
antigos quilombolas ou indivíduos alforriados que passaram a compôr a população livre pobre da
região. Com o passado predominante de escravidão da plebe pernambucana, o conhecimento sobre
mocambos nos matos deveria ser bastante comum.
Talvez aquelas ordens se referissem a propriedades que ocupassem a zona litorânea da
capitania, como os grandes engenhos de açúcar e fazendas de cana. Mas como se daria uma possível
relação entre palmarinos fugitivos e grandes senhores nos sertões pernambucanos? Poucos destes
adentraram o sertão para se estabelecer. Geralmente a ocupação daquelas terras era feita por
prepostos dos sesmeiros, arrendatários, foreiros, seus escravos e agregados. Estes homens poderiam,
por vezes, tornarem-se verdadeiros potentados locais, estabelecendo-se através da violência e do
mandonismo, ou mesmo acobertando fugitivos.255
Por volta de 1696, Domingos Jorge Velho, reclamando seus direitos sobre as terras
conquistadas nos Palmares, denunciava ao rei o conluio entre os negros rebeldes e pretensos
cultivadores das terras palmarinas, a quem chamou de “colonos dos negros, e inimigos atuais dos
povos; porquanto para que os tais negros os consentissem povoar nas tais terras lhes pagavam
tributo, de ferramentas, de pólvora, chumbo, de armas, e de tudo o mais que eles lhes pediam.”256
Em sua contenda com o desembargador Burgos, chamava a seu preposto e vaqueiro, Manoel de
Souza, de criminoso, pois dava amparo aos escravos fugitivos nos Palmares, e “este faltando à
contribuição costumada, temendo-se das ameaças dos negros, fugiu”, aludindo a uma possível
253 Flávio Gomes foi quem sugeriu, de maneira mais sistemática, esta proximidade entre comunidades de mocambos e
comunidades de senzalas, fugitivos e escravos, que compartilhariam identidades socioculturais fortes em diversos
contextos temporais e espaciais no Brasil, assim como experiências concretas de vida que incluíam o cativeiro e as
possibilidades de fuga e liberdade. Ver; GOMES, Flávio dos Santos. A Hidra e os Pântanos. Mocambos, quilombos
e comunidades de fugitivos no Brasil (século XVII-XIX). Tese (Doutorado em História). Campinas: UniversidadeEstadual de Campinas, 1997, pp. 425-435; e GOMES, Histórias de Quilombolas.
254 “Regimento que levou o capitão Antônio da Silva Barbosa sobre os negros dos Palmares.” 26 de novembro de
1664, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, fl. 164v.
255 Sobre isto, ver SILVA, Célia Nonata. Territórios de mando: banditismo em Minas Gerais, século XVIII. Belo
Horizonte: Crisálida, 2007.
256 “Requerimento que aos pés de Vossa Majestade humildemente prostrado faz em seu nome, e naquele de todos os
oficiais e soldados do terço de Infantaria São Paulista de que é mestre de campo Domingos Jorge Velho, que
atualmente serve a Vossa Majestade na guerra dos Palmares, contra os negros rebelados nas capitanias de
Pernambuco.” [c.1696-1697] AHU_ACL_CU_015, Cx. 18, D. 1746, anexo 02. Ver também a cópia da carta régia
de 26 de setembro de 1699, em APEJE, Ordens Régias, 5, p. 87.
93
quebra de confiança entre quilombolas e os homens do sesmeiro baiano. Para Jorge Velho, o auxílio
de homens como Manoel de Souza era vital para a permanência das comunidades negras nos
Palmares, e como ele, também é possível que existissem outros, como Bernardo Vieira de Melo –
apesar deste não ser denunciado pelo bandeirante.
É certo que ao final do século XVII os rebeldes dos Palmares atacaram as terras e os gados do
Ararobá e Garanhuns, e que o filho homônimo do sesmeiro, Bernardo Vieira de Melo, o moço,
tenha preparado uma expedição para contra-atacar. Ele esteve comprometido financeiramente com a
guerra contra os mocambos (financiando expedições e contribuindo com dinheiro, escravos e gado,
desde 1675); e participou pessoalmente (com seus irmãos Antônio Vieira de Melo e Manoel de
Melo Bezerra) no cerco ao mocambo de Zumbi, na Serra da Barriga, em 1694.257 É de se supor que
tenha havido uma quebra de confiança entre quilombolas e os Vieira de Melo neste ínterim de 1663
a 1675 (período entre a intervenção dos Vieira de Melo nas negociações de paz com Palmares e a
entrada de Bernardo Vieira de Melo, o moço, na guerra contra os mocambos), ou que simplesmente,
assim como aqueles rebeldes que quiseram negociar em 1663 foram mortos por outros quilombolas,
o grupo mais próximo àqueles senhores de engenho tenha perdido força entre os mocambeiros, e
seu engajamento na repressão aos mocambos tenha despertado ânimos vingativos nos rebeldes.
Dúvidas que as fontes não permitem esclarecer.
Interessante pensar que proprietários e quilombolas, colonos e colonizados (para usar a
distinção de Ilmar de Mattos258), como diversas pesquisas já demonstram há algum tempo,
conviviam e partilhavam o território destas áreas “marginalizadas”, os chamados sertões,
desenvolvendo, possivelmente, relações de trocas comerciais e acordos tácitos de convívio. Claro
que o atrito e os conflitos não estavam fora de questão, até mesmo porque a proximidade fazia com
que as disputas pelos recursos escassos do sertão fosse muito viva e intensa, surgindo embates
físicos armados, como os relatados aqui.
5. Conclusões
Este capítulo procurou demonstrar as relações estabelecidas entre as comunidades palmarinas
e a sociedade colonial em seu entorno, a partir da (1) proximidade entre os modos de vida de
quilombolas e cativos, em torno da roça de subsistência e da construção comum de uma economia
própria; (2) os usos das terras ocupadas pelas comunidades rebeldes nas matas sertanejas; e (3) os
257 1691, novembro, 17, Lisboa CARTA PATENTE do rei D. Pedro II, confirmando Bernardo Vieira de Melo no posto
de capitão-mor da vila de São Cosme e Damião e de todo distrito e jurisdição da capitania de Igarassu.
AHU_CU_015, Cx. 15, D. 1556; ANTT, Chancelaria Régia de D. Pedro II, livro 22, fls. 196v-198; e Relação
verdadeira da guerra… In: OLIVEIRA, “A primeira Rellação do último assalto a Palmares”, pp. 302 e 314.
258 MATTOS, O Tempo Saquarema, pp. 30-44.
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modos como quilombolas e senhores de escravo se relacionavam, estabelecendo normas e
características do escravismo na América portuguesa.
Procuramos mostrar como a constituição do campo negro nos Palmares de Pernambuco nada
tinha a ver com a construção idílica de uma comunidade escrava alternativa nos sertões, avessa e
apartada da sociedade colonial. Acima, vimos como estes aspectos comunitários, por vezes até
violentos e autoritários, se manifestaram em Palmares. Quilombolas foram assassinados por outros
quando tentaram negociar um acordo de paz, em 1663. Anos mais tarde, algo muito similar voltou a
acontecer, contra Gana Zumba, considerado a maior liderança palmarina pelas autoridades de
Olinda e do Recife. A comunidade quilombla tem uma faceta dupla: interna e externa, pois suas
hierarquias são constituídas em relação à sociedade escravista envolvente e em relação aos grupos
de escravizados, portanto, a constituição de grupos coesos ficava a mercê também destas
hierarquias, assim como a maior legitimidade frente a sociedade colonial de Antigo Regime poderia
significar menor reconhecimento dentro da comunidade, e vice-versa.259
Para além de funções ideológicas para a manutenção do cativeiro,260 ou do perigo de se pensar
a relação senhor/escravo como uma negociação entre iguais,261 entendemos que o fenômeno da
economia interna dos escravos tem que ser apreendido pelo prisma da luta entre interesses
antagônicos no seio do setor produtivo colonial.262 Os senhores não cediam terras e tempo livre aos
seus trabalhadores escravizados apenas por questões econômicas ou por liberalidade, mas sim
porque a reação dos cativos, através de fugas, roubos, assassinatos e formação de mocambos e
quilombos armados nos matos, os fazia ceder.263 É certo que, em momentos de maior pressão sobre
a mão de obra escravizada – como nas altas do preço do açúcar no mercado mundial –, a repressão e
a violência senhorial certamente se abatiam sobre as conquistas dos cativos, em uma tentativa de
otimizar a produção e aumentar o controle social sobre o contingente de trabalhadores disponíveis.
Nesses momentos, liberdades eram cerceadas, terras eram retomadas pelos senhores de canas e
gados, e mocambos eram atacados, a fim de que os trabalhadores retornassem aos engenhos e
canaviais. Este capítulo buscou mostrar como o viver quilombola, e especialmente a experiência de
vida dos quilombolas palmarinos, se inseria no sistema escravista como uma contradição que
expunha o “barril de pólvora” permanente do escravismo brasileiro. Vimos como, muitas vezes, as
comunidades negras pelos matos e florestas eram referidas com relativa naturalidade pelas
259 São conclusões próximas das de Fábio Carvalho, quando este autor discute a comunidade escrava num estudo de
caso. Ver, CARVALHO, Fábio P. Vassouras: comunidade escrava, conflitos e sociabilidade (1850-1888).
Dissertação (Mestrado em História Social). Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2013, p. 169.
260 SILVA, Eduardo. “A função ideológica da brecha camponesa”. In: REIS, João José e SILVA, Eduardo (orgs.).
Negociação e conflito: a resistência negra no Brasil escravista. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, pp. 22-31.
261 Denunciado veementemente por MAESTRI, Mário. “Silêncio, Marginalização, Superação e Restauração. O Cativo
Negro na Historiografia Brasileira”. In: EUGÊNIO, João K (org.). Escravidão negra no Piauí e temas conexos.
Teresina: EDUFPI, 2014, pp. 7-52.
262 CASTRO, “A economia política, o capitalismo e a escravidão”.
263 SLENES, Na senzala, uma flor, pp. 209-212.
95
autoridades pernambucanas, ao passo que em momentos específicos eram considerados
quilombolas perigosos.
Estes registros sugerem que havia certa normalidade no fato dos escravos habitarem seus
“palmares” nas matas, rio acima. O fenômeno passou a ser encarado como um problema pelos
senhores de escravos pernambucanos quando estas comunidades e habitações começaram a ser
utilizadas como refúgioe esconderijo para supostos negros que cometiam crimes pelas estradas,
povoações e vilas. Talvez, só então, com o diagnóstico de que as habitações que os cativos
construíam nas florestas e matas densas, mais ou menos distantes dos engenhos, vinham sendo
usadas como esconderijo para cativos rebeldes e fugitivos da justiça, que o termo “mocambo” tenha
começado a ser utilizado pelos colonizadores para se referir negativamente às comunidades e
moradias dos “criminosos”.264 Mas este era somente o discurso senhorial que buscou,
ideologicamente, atacar uma necessidade material conjuntural: a retomada dos investimentos da
economia açucareira pernambucana, entre 1670 e 1690, e o maior controle da força de trabalho
cativa que ela demandava.
A manutenção de um “projeto” camponês, gestado nas senzalas, dentro dos mocambos de
Palmares, pensamos que seja um traço essencial daquela experiência quilombola. Como um tipo de
campesinato negro itinerante, os palmarinos buscavam os matos e serras de Pernambuco numa
tentativa de negociar os termos do escravismo com os proprietários dos engenhos e fazendas da
capitania. A prática do cultivo de roças e hortas de subsistência, incentivada dentro do escravismo
seiscentista da América portuguesa, foi a base para a manutenção da resistência ao cativeiro no
interior dos mocambos. A grande adaptabilidade das comunidades ao meio, e também sua grande
capacidade de deslocamento, “abandonando” sítios atacados e reerguendo rapidamente suas
paliçadas e mocambos em novas áreas, são traços que nos remetem à itinerância típica do
campesinato brasileiro, sujeito à instabilidade dos contratos de posses de terra.265 O foco da
resistência eram as práticas e abusos senhoriais, condenados até mesmo pelos senhores letrados da
colônia, como vimos acima, mas acabavam por atacar o próprio escravismo enquanto sistema de
dominação.
A luta engrendrada na experiência quilombola, portanto, criava situações novas, que
tensionavam os limites da relação de propriedade que senhores e escravos construíam. Uma relação
264 Mukambo, aportuguesado para “mocambo”, consensualmente é traduzido do kimbundu como “esconderijo” pelos
pesquisadores. Já “quilombo”, como “acampamento de guerra”, uma vez que derivaria do kilombo dos povos
Imbangala da África Central, campos de treinamento militar, verdadeira “sociedade militar à qual qualquer homem
podia pertencer por meio de treinamento e iniciação”, servindo ao propósito de dar coesão a elementos étnicos
variados que aquele povo nômade assimilou durante sua história. Cf. SCHWARTZ, “Repensando Palmares”, p.
258; e ANDERSON, “The quilombo of Palmares”, p. 558. Voltamos ao tema no próximo capítulo.
265 Ver a extensa análise para a zona canavieira de Pernambuco, sobre o tema dos moradores de engenho e do
campesinato, em DABAT, Christiane Rufino. Moradores de engenho: relações de trabalho e condições de vida dos
trabalhadores rurais na zona canavieira de Pernambuco segundo a literatura, a academia e os próprios atores sociais.
Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2007, especialmente capítulos 5 e 7.
96
social de propriedade muito sui generis, uma vez que era construída por dois atores sociais, ao
mesmo tempo que recaía não sobre um bem, mas sobre o próprio corpo de um deles. Estes, ainda
que escravizados, e coisificados na legislação pertinente, se mostavam, em situação de
aquilombamento, agentes de seus próprios destinos, ainda que para maioria, este pareça ter sido de
perseguições e tragédias. Tensionando os limites de sua própria exploração, os escravizados
expunham – e é o que vimos na documentação – as “condições reais de realização da
propriedade”266 escrava, onde senhores se associavam à quilomblas, e vice-versa, quando necessári;,
barganhavam dias de trabalho e folga; e se degladiavam fisicamente nos sertões de Pernambuco: os
cativos, em busca de autonomia e subsistência; os senhores, em busca da garantia de seus direitos
sobre os corpos e a força de trabalho dos escravos.
No próximo capítulo, veremos como o período final da experiência palmarina, a partir da
década de 1680, se caracterizou pela crescente diminuição do poder dos grupos quilombolas,
reduzindo o número de mocambos e de lideranças rebeldes – basicamente, só o grupo de Zumbi
continuaria resistindo até o início do século XVIII, mesmo após a morte daquele, em 1695. Esse
processo se completou com a distribuição de sesmarias nas antigas terras dominadas pelos
mocambeiros dos Palmares, tema de capítulo subsequente.
266 O termo é emprestado de Rosa Congost. Ela entende por “condições de realização da propriedade” a materialidade
das relações sociais de propriedade, para além de marcos jurídicos e institucionais. Se trata de observar o conjunto
de forças de atração de repulsa relacionadas à distribuição social da terra, do produto e da renda, que intervêm e
interagem na sociedade analisada. As diversas modificações nas relações sociais de propriedade nem sempre são
acompanhadas de mudanças nos códigos e leis de maneira correspondente, pois, por princípio, os códigos e leis
tentam “encapsular” e tornar estática, como uma fotografia, uma determinada formação social em constante
mutação. Assim, é dever do historiador observar como uma dada sociedade enxergava, em seus diversos momentos,
as relações sociais que construíam os direitos de propriedade, e não analisa-los a partir de um enfoque evolucionista
dos códigos jurídicos rumo à propriedade privada exclusiva. CONGOST, Rosa. Tierras, leyes, historia: estudios
sobre “la gran obra de la propiedad”. Barcelona: Crítica, 2007, pp. 22-23.
97
CAPÍTULO 3
Extermínio e silenciamento: o declínio do domínio palmarino na capitania de
Pernambuco, 1674-1715
1. Introdução
 Entre 1674 e 1695, os mocambos de Palmares foram de um suposto apogeu – com, pelo
menos, dez grandes mocambos fortificados conhecidos – até a quase extinção das comunidades,
com a derrota do mocambo da Serra da Barriga, em 1694 (e a morte de Zumbi, em 1695). Entre a
morte de Zumbi (1695), e a prisão do último líder palmarino conhecido, o Mouza (1715), a
perseguição aos mocambos da mata palmarina continuou sem trégua, assim como se iniciou, em
1702, o processo de concessão de sesmarias aos soldados e oficiais do Terço paulista sobre as terras
antes ocupadas pelos palmarinos. Este capítulo aborda esta última conjuntura de perseguição às
lideranças dos Palmares, mostrando o declínio de seu domínio nos sertões de Pernambuco.
As fontes serão as mesmas do primeiro capítulo, e a ênfase da narrativa estará em marcar uma
diferença importante no caráter dos registros produzidos neste período em comparação com o
período anterior a 1680. Palmares não mais era, pelo menos para as autoridades de Pernambuco, um
Estado negro organizado. A partir de 1680, os mocambos voltaram a ser tratados como simples
rebeldes transgressores da justiça real e dos direitos de propriedade de seus senhores. As diversas
lideranças, seus séquitos, parentelas e funções desapareceram das fontes, e somente o bando de
Zumbi – como espécie de potentado negro dos sertões – era referenciado. Apenas depois de sua
morte foi que outras lideranças voltaram aos documentos oficiais, como Camoanga e Mouza, no
início do século XVIII. 
A hipótese é de que Zumbi tenha de fato unificado a resistência quilombola em Pernambuco,
tendo, sob seu comando, diversos redutos mocambeiros pela Zona da Mata e Agreste
pernambucanos. No entanto, a força da repressão e a diminuição dos espaços de autonomia dos
escravizados a partir do último quartel do século XVII podem ter afastado possíveis aliados nas
senzalas, vilas e freguesias da capitania, isolando seu grupo, o que só faria diminuir seu poderio, até
o fim da resistência organizada pelas lideranças palmarinas, na década de 1710.Territorialmente, os mocambos se deslocaram de vez para o entorno da Serra da Barriga e
para o Agreste pernambucano, nos Campos de Garanhuns e no sertão do Ararobá. A guerra
promovida pelo Terço Paulista de Jorge Velho se concentrou nestas regiões, e a distribuição de
terras aos conquistadores bandeirantes respeitou, basicamente, o perímetro da campanha contra
98
Zumbi, sendo bloqueada por sesmarias pregressas que já dominavam os Garanhuns e o Ararobá – o
que veremos nos capítulos finais deste tese.
2. Recuperação econômica do setor açucareiro e o financiamento da repressão nos Palmares
É lugar-comum na historiografia que o século XVII foi um período de dificuldades para a
economia açucareira no Brasil. Nos dois principais portos exportadores de açúcar da América
portuguesa, Salvador e Recife, a crise se fez sentir. Em Pernambuco, os problemas começaram com
a invasão e o domínio holandês, mas se agravaram na década e meia posterior à expulsão dos
batavos, quando os preços caíram no mercado Atlântico e a produção antilhana cresceu – fazendo
crescer com ela a concorrência e o preço dos cativos africanos no mercado Atlântico.267
Estas tendências só foram aliviadas, temporariamente, entre as décadas de 1670 e 1690,
quando os números da arrecadação dos dízimos da capitania de Pernambuco mostram um aumento
e uma estabilização, a partir de 1677, apenas para voltar a cair, a partir de 1690 – com a crescente
fuga dos investimentos e da mão-de-obra em direção às minas de ouro recém-descobertas na
capitania de São Paulo.268 
Defendemos que, a esta recuperação econômica dos investimentos no setor açucareiro
correspondeu um incremento do investimento na repressão aos quilombolas na capitania de
Pernambuco. Os principais interessados na destruição das comunidades de cativos fugitivos em
Pernambuco, claro, eram os senhores de engenho – os maiores detentores de escravos, para quem
aqueles significavam um investimento produtivo importante, e suas fugas e resistência ao trabalho
nos canaviais e engenhos, um grande prejuízo financeiro. Logo, foram estes que, crescentemente a
partir de 1670, colocaram seus recursos materiais no financiamento de expedições punitivas nos
sertões palmarinos. Passemos a alguns casos que comprovam essa hipótese.
267 SCHWARTZ, Stuart. Segredos Internos. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. Sobre a conjuntura e os preços do
açúcar, LOPES, Gustavo A. Negócio da Costa da Mina e comércio Atlântico. Tabaco, açúcar, ouro e tráfico de
escravos: Pernambuco (1654-1760). Tese (Doutorado em História Econômica). São Paulo: USP, 2008, cap. 1;
PALACIOS, Guillermo. “Campesinato e Escravidão: uma proposta de periodização para a história dos cultivadores
pobres livres no nordeste oriental do Brasil. C. 1700-1875”. In: Dados – revista de Ciências Sociais, vol. 30.03,
1987, pp. 325-356; FERLINI, Vera Lúcia A. Terra, trabalho e poder. O mundo dos engenhos no Nordeste colonial.
São Paulo: Brasiliense, pp. 73-93. Para os números do tráfico de escravos para Pernambuco e seu incremento no
último quartel do século XVII, ver VIERA RIBEIRO, Alexandre. “Aspectos comparativos do comércio de escravos
na Amazônia e nordeste brasileiro, séculos XVI-XIX”. In: XII Jornadas Interescuelas/Departamentos de Historia.
Universidad Nacional del Comahue, San Carlos de Bariloche, 2009, disponível em
https://www.aacademica.org/000-008/205, acessado em julho de 2017.
268 Ver a Tabela II, em LOPES, Negócio da Costa da Mina e comércio Atlântico, p. 23. Sobre a descoberta das Minas e
os problemas do fluxo de gentes e capitais para a atividade de mineração, as autoridades coloniais manifestaram
estas preocupações durante toda a década de 1690. Ver as recentes considerações de ROMEIRO, Adriana. Paulistas
e Emboabas no coração das Minas: ideias, práticas e imaginário político no século XVIII. Belo Horizonte: Ed.
UFMG, 2008, pp. 35-39. 
https://www.aacademica.org/000-008/205
99
Gustavo Lopes salientou o papel importante desempenhado por homens de negócio na
capitania de Pernambuco, e seus interesses intimamente relacionados à produção açucareira e o
comércio de escravos. Este autor salientou o caso do senhor de engenho e comerciante, o capitão
Manoel da Fonseca Rego, senhor de diversos engenhos em Pernambuco e Itamaracá.269 Manoel da
Fonseca Rego era morador no Recife desde 1660, e foi o vereador mais velho da câmara de Olinda,
por volta de 1689. Olharemos mais de perto a relação de Fonseca Rego com a repressão aos
Palmares, com o negócio do açúcar em Pernambuco, as conexões Atlânticas que financiavam sua
atividade de mercância e, indiretamente, os ataques aos mocambos de Palmares, entre as décadas de
1670 e 1680.
Manoel da Fonseca Rego era filho de Antônio da Fonseca e sobrinho de Antônio de Barros
Rego. Natural de Pernambuco, herdou os serviços prestados pelo tio na América – veterano da
guerra contra os holandeses e capitão-mor da capitania de Rio Grande do Norte (1670-1673) – com
os quais, somados aos seus, conseguiu a mercê real de um hábito de Avis.270 Em sua folha de
serviços, relatou a participação que teve, em 1677, no aumento dos contratos dos subsídios do
açúcar e dos vinhos, arrematados respectivamente por 14.000 cruzados e 2.000 cruzados acima do
ano anterior,271 – os dízimos da produção agrícola da capitania de Pernambuco foram arrematados
por 35.500 cruzados, naquele ano.272 Durante os 28 anos que esteve morando no Recife, alegava que
“assistira a 37 engenhos com o fornecimento necessário, reedificando também a 9 de fogo morto,
alcançando em muitos contratos que fez subir a preços que nunca chegaram, tendo contas com as
mais pessoas dessa capitania”.273 Desde 1660, portanto, Manoel da Fonseca Rego alegava que
esteve financiando a reedificação de engenhos arruinados, assim como a ampliação da produção
açucareira, através do financiamento de mais de quarenta engenhos em Pernambuco. Estas relações
lhe rendiam, em 1690, uma dívida ativa na capitania de cerca de 200.000 a 260.000 cruzados (em
torno de oitenta a cem contos de réis), a qual, reclamava, não conseguia cobrar de seus devedores.
Acreditamos que parte desses recursos foi empregado diretamente no financiamento da
repressão a Palmares, entre as décadas de 1670 e 1680. Como arrematante da cobrança do dízimo
da capitania – cuja maior parte dos rendimentos provinha do açúcar produzidos nos engenhos –,
Manoel da Fonseca Rego identificava em Palmares a causa de grande prejuízo aos direitos reais e,
claro aos seus próprios rendimentos particulares como contratador, posto que se temia a retirada dos
269 LOPES, Negócio da Costa da Mina e comércio Atlântico, pp. 80-83.
270 [ant. 1689, julho, 1, Pernambuco] REQUERIMENTO do capitão Manoel da Fonseca Rego ao rei [D. Pedro II],
pedindo um hábito de Cristo com tenças efetivas, em remuneração aos seus serviços. Anexos: 4 docs.
AHU_CU_015, Cx. 15, D. 1483.
271 [post. 1688, agosto, 28, Lisboa] INFORMAÇÃO do [Conselho Ultramarino] sobre os serviços do capitão Manoel
da Fonseca Rego, desde 1674 até 1688, nas capitanias de Pernambuco e Rio Grande. Obs.: m. est. AHU_CU_015,
Cx. 14, D. 1454.
272 LOPES, Negócio da Costa da Mina e comércio Atlântico, p. 24.
273 Para o ouvidor-geral da capitania de Pernambuco. Sobre Manoel da Fonseca Rego lhe serem devedor algumas
pessoas de duzentos e sessenta mil cruzados. E nesta mesma forma se escreve ao sindicante da capitania de
Pernambuco. Lisboa, 7 de janeiro de 1690, AHU_ACL_CU - Cod. 256, fl. 100v.
100
lavradores de cana das terras próximas aos Palmares. Após 28 anos de investimentos no comércio e
na produção do açúcar, parece não ter medido esforços no combate aos mocambos. 
Em 1679, o governador Aires de Souza de Castro ordenou duas expedições contra Zumbi,
uma chefiada pelo sargento-mor Manoel Lopes e outra pelo capitão João de Freitas da Cunha. O
destinoera o mocambo do sertão das Alagoas, onde Zumbi estaria “aquartelado”, recusando-se a
aceitar o acordo de paz firmado por Gana Zumba, Gana Zona e o governo da capitania.274 Manoel
da Fonseca Rego alegou ter feito grandes despesas com os comboios de mantimentos que
garantiram o sucesso da empreitada. Teria enviado 450 escravos com mantimentos, em cinco
comboios, entre 29 de janeiro e 12 de março de 1680, indo pessoalmente às freguesias do Cabo,
Sirinhaém e Porto Calvo, “largando o seu negócio e a reedificação de suas fazendas e engenhos, em
cuja ausência experimentaram considerável perda, solicitando com tanta diligência a condução dos
mantimentos, escravos e soldados.”275 Pôs, inclusive, uma recompensa pela cabeça de Zumbi. Ao
todo, foram seis meses em que pôs seus recursos a serviço da caçada ao líder dos Palmares,
“suprindo com seu dinheiro a falta do da Fazenda Real”,276 como fez questão de frisar.
O trabalho de Gustavo Lopes destacou a capacidade de financiamento de Manoel da Fonseca
Rego para a recuperação do setor açucareiro ainda no século XVII. Mas uma documentação não
consultada por aquele autor, as cartas entre os governadores de Pernambuco e seu locotenentes pela
capitania, os capitães-mores, demonstra que parte dos recursos movimentados por Manoel da
Fonseca Rego eram provenientes de empréstimos contraídos no Reino. Em 1690, o senhor de
engenho reclamava das tentativas de execução de dívidas que sofria por parte de seus credores em
Portugal. Alegava que não podia ser obrigado a pagar seus credores uma vez que seus devedores em
Pernambuco nunca pagavam os mais de duzentos mil cruzados que tinha a receber de diversos
senhores de engenho – ele teria inclusive apresentado uma relação dos devedores, infelizmente não
transcrita na documentação.277
Desde 3 de março de 1676, os senhores de engenho e lavradores de cana de Pernambuco
gozavam do privilégio, concedido por provisão régia, de não terem suas propriedades e escravos
penhorados em processos de execução de dívidas, mas apenas os rendimentos das propriedades
poderiam ser confiscados para os pagamentos.278 O privilégio foi prorrogado em janeiro de 1683, e
274 “Edital sobre a invasão que novamente se quis fazer aos Palmares.” agosto de 1679, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, fl.
33v; e “Ordenou ao provedor da fazenda mandasse dar ao capitão João de Freitas da Cunha balas e murrão para a
guerra dos Palmares.” 6 de dezembro de 1679; “Ordenou ao dito capitão fosse invadir o mocambo em que estava
aquartelado o negro Zambi.” 8 de dezembro de 1679, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, fls. 361v-362.
275 Doc. cit. AHU_CU_015, Cx. 14, D. 1454, fl. 1v.
276 Idem.
277 “Escreveu aos capitães-mores mandassem vir as pessoas conteudas no rol devedoras ao sargento-mor Manoel da
Fonseca Rego, para efeito de ser pago o que se devia ao casal de Fernão Cabral.” 3 de janeiro de 1690,
AUC_CCA_VI-III-1-1-31, fl. 483.
278 1682, novembro, 17, Lisboa CONSULTA do Conselho Ultramarino ao príncipe regente D. Pedro, sobre a
representação dos moradores da capitania de Pernambuco, em que pedem prorrogação, por mais seis anos, do prazo
da execução das fábricas dos senhores de engenho e as fazendas e escravos dos lavradores, executando-se apenas os
101
novamente, por volta de 1690 – sob pedidos de perpetuação dos privilégios por parte dos
camarários de Olinda.279 As alegações eram sobre as grandes perdas que a própria fazenda real teria
na capitania com as execuções e o desmantelamento de alguns engenhos por parte de credores, uma
vez que a insolvência daqueles senhores era constantemente questionada judicialmente por
credores, como Manoel da Fonseca Rego.
Algumas fontes indicam, no entanto, que a partir da década de 1690, com nova tendência de
queda na produção e nos preços do açúcar no mercado Atlântico, Manoel da Fonseca Rego –
pressionado por seus credores reinóis – buscou outras fontes de financiamento para suas atividades.
Em 1694, o Conselho Ultramarino ordenava que a provedoria da Fazenda Real em Pernambuco
cobrasse uma dívida de mais de dois contos de réis de Manoel da Fonseca Rego com a Coroa.
Alegava-se que ele teria “superfaturado” uma remessa de madeiras entregue na Bahia, através de
fraudes na avaliação da mercadoria.280 Impossibilitado de cobrar seus devedores,281 o grande
financiador da recuperação conjuntural da economia açucareira pernambucana nas décadas de 1670
e 1680 acabou recorrendo a fraudes no novo contexto de crise dos rendimentos dos engenhos de
Pernambuco.
Assim, é possível relacionar os capitais envolvidos na repressão aos Palmares através de uma
cadeia de créditos que se espalhava entre os senhores de engenho de Pernambuco. Não é nenhuma
novidade que a circulação não-monetária e o crédito eram a fonte principal de financiamento da
produção colonial, especialmente a economia açucareira.282 Mas é a primeira vez que esta cadeia de
obrigações é vista em sua completude, ligando o investimento comercial reinol à repressão aos
mocambos da América portuguesa.
O caso de Manoel da Fonseca Rego não foi o único. Outro bastante conhecido da
historiografia de Palmares é o do senhor de engenho de Ipojuca, Bernardo Vieira de Melo. Bernardo
seus rendimentos, como foi feito com os moradores do Rio de Janeiro. Anexo: 1 doc. AHU_CU_015, Cx. 13, D.
1239.
279 1690, novembro, 14, Lisboa CONSULTA do Conselho Ultramarino ao rei D. Pedro II, sobre a representação dos
senhores de engenhos e lavradores de canas da capitania de Pernambuco, pedindo que a prorrogação por tempo de
seis anos das fábricas, partidos de canas e escravos, vigorem perpetuamente. Anexo: 1 doc. AHU_CU_015, Cx. 15,
D. 1514.
280 1694, fevereiro, 13, Lisboa CONSULTA do Conselho Ultramarino ao rei D. Pedro II, sobre a cobrança da dívida de
Manoel da Fonseca Rego, pela Provedoria da Fazenda Real da capitania de Pernambuco. Anexos: 3 docs.
AHU_CU_015, Cx. 16, D. 1642.
281 Para o Bispo de Pernambuco. Sobre Manoel da Fonseca Rego, acerca da cobrança das suas dívidas e da promessa
que prometia para ornato da Sé. Lisboa, 2 de fevereiro de 1690, AHU_ACL_CU - Cod. 256, fl. 101v.
282 Para um balanço da historiografia sobre o assunto, ver SAMPAIO, Antônio Carlos J. “Crédito e circulação
monetária na colônia: o caso fluminense, 1650-1750”. Trabalho apresentado no V Congresso Brasileiro de História
Econômica e 6ª Conferência internacional de História de Empresas, Caxambu/2003. Disponível em
http://www.abphe.org.br/arquivos/2003_antonio_carlos_juca_sampaio_credito-e-circulacao-monetaria-na-colonia-
o-caso-fluminense-1650_1750.pdf. Acesso em janeiro de 2018. Para uma análise mais recente, relacionando crédito
e financiamento da pequena produção camponesa, além de uma análise das redes de crédito que envolviam relações
de reciprocidade e obrigações pessoais, típicas do Antigo Regime, ver PEDROZA, Manoela. “Passa-se uma
engenhoca, ou como se faziam transações com terras, engenhos e crédito em mercados locais e imperfeitos
(freguesia de Campo Grande, Rio de Janeiro, séculos XVIII e XIX)”. In: Varia História, Belo Horizonte, vol. 26, nº
43: p. 241-266, jan/jun 2010.
http://www.abphe.org.br/arquivos/2003_antonio_carlos_juca_sampaio_credito-e-circulacao-monetaria-na-colonia-o-caso-fluminense-1650_1750.pdf
http://www.abphe.org.br/arquivos/2003_antonio_carlos_juca_sampaio_credito-e-circulacao-monetaria-na-colonia-o-caso-fluminense-1650_1750.pdf
102
alegava que servia à Coroa em Pernambuco desde 1675, como capitão de infantaria das Ordenanças
da Vila de Igarassu. Na mesma conjuntura de recuperação de seus rendimentos mais importantes, do
açúcar, Bernardo Vieira de Melo alegava ter financiado a expedição de Fernão Carrilho aos
Palmares, no governo de João da Cunha Souto Maior (1685-1688), “oferecendo para este efeito a
sua fazenda, dando ordem para nos seus curraisse lhe dar o gado que fosse necessário para os
soldados”, além de uma “grande oferta” em dinheiro para a manutenção da campanha.283 Não por
acaso, o mesmo governador lhe passou a patente de capitão de cavalaria, em 1686,284 logo após a
campanha de Fernão Carrilho, em que um sobrinho de Zumbi teria sido aprisionado, e muitas roças
de mantimentos destruídas, nos redutos palmarinos.285
Quando falamos, portanto, da conjuntura palmarina a partir de 1675, é necessário ter em
mente que um grande incremento nos recursos senhoriais se desdobrou numa repressão mais
eficiente, diminuindo espaços de autonomia da população escravizada em geral, e, de maneira
particularmente violenta, da população quilombola. O diagnóstico do governador Caetano de Melo
de Castro era certeiro, em 1697. Em face da falta de manimentos experimentada pela população, o
governador encontrava sua causa no aumento de preços do açúcar e naquele privilégio real
concedido aos lavradores de cana e senhores de engenho, “pela qual razão largaram, todos, as roças
[de alimentos], em dano grave destes povos”. Os senhores de escravos estariam concedendo poucos
dias livres aos cativos para o plantio das roças, buscando concentrar toda a força de trabalho na
safra da cana-de-açúcar. Assim, determinava que todos os senhores de escravos fizessem cada um
dos seus cativos plantar mil covas de mandioca, sob pena de vinte cruzados – já os senhores de
engenho e lavradores de cana, quinhentas covas por cativo, sob pena de perder o privilégio da não-
execução de dívidas nos seus partidos e propriedades.286
O maior controle sobre os cativos tinha o objetivo de direcionar sua força de trabalho mais
intensamente para os canaviais e engenhos, ao passo que diminuía seu tempo disponível para a
cultura de subsistência. Este movimento foi tão intenso que, em fim do século XVII, as autoridades
de Pernambuco discutiam a grave falta de farinha para o sustento da população, e a subida no seu
283 ANTT, Chancelaria Régia de D. Pedro II, livro 22, fl. 197; ANTT, Registo Geral de Mercês, Mercês de D. João V,
liv. 2, fl. 197; e 1691, novembro, 17, Lisboa CARTA PATENTE do rei D. Pedro II, confirmando Bernardo Vieira de
Melo no posto de capitão-mor da vila de São Cosme e Damião e de todo distrito e jurisdição da capitania de
Igarassu. AHU_CU_015, Cx. 15, D. 1556.
284 “Ordenou ao coronel da cavalaria desse posse ao capitão Bernardo Vieira de Melo de uma companhia de cavalos na
freguesia da Várzea.” 18 de dezembro de 1686, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, fl. 437.
285 A ordem da expedição em, “Encarregou ao capitão Fernão Carrilho o ataque dos Palmares.” 6 de setembro de 1685,
AUC_CCA_VI-III-1-1-31, fl. 402-402v; a descrição do ataque na folha de serviços de Carrilho, cf. 1699, Maio, 6,
Lisboa, CONSULTA do Conselho Ultramarino ao rei [D. Pedro II], sobre nomeação de pessoas para ocupar o posto
de capitão-mor do Ceará. Resolução régia a nomear Fernão Carrilho. AHU_CU_006, Cx. 1, D. 42.
286 “Bando para que os senhores de engenho e lavradores plantassem roças” 13 de fevereiro de 1697, AUC_CCA_VI-
III-1-1-31, fls. 565-565v.
103
preço, fruto de açambarcamentos e escassez, mas também de repressão aos espaços de autonomia
dos escravizados.287
3. Dos Palmares do governador Pedro de Almeida à campanha de Domingos Jorge Velho,
1674-1716
No governo de Pedro de Almeida (1674-1678), a repressão contra os mocambos se
intensificou. Não por coincidência, como já afirmado, entre as décadas de 1670 e 1680/90 o
mercado açucareiro sentiu uma leve recuperação em relação aos anos imediatamente posteriores à
restauração, levando a uma alta no preço do açúcar (que se refletiu na arrecadação dos dízimos da
capitania) e no investimento (incremento do tráfico de cativos e recuperação de engenhos de
açúcar). A partir de então a repressão contra as fugas e a autonomia das comunidades de mocambos
aumentou, financiada por esta retomada da economia açucareira. A autonomia das comunidades e o
grande número de cativos pelos matos começava a ser um empecilho importante, uma ralo por onde
o investimento senhorial poderia escoar.
Para Sílvia Lara, por essa época a administração colonial em Pernambuco tinha consolidado
um grande volume de informações de natureza diversa sobre os mocambos de Palmares. Nomes,
líderes, parentescos, hierarquias políticas e familiares, etc., todas obtidas no decorrer dos anos pelas
centenas de soldados brancos, índios e escravos que, de uma forma ou de outra, estabeleceram
contato com as comunidades.288 Estas informações foram, em parte, consolidadas no manuscrito que
relatava a conjuntura do conflito entre 1674 e 1678. A Relação do que se passou na guerra com os
negros dos Palmares nos sertões de Pernambuco289 é o ponto de partida necessário para se analisar
este período de intensa repressão aos Palmares.
287 “Bando sobre os preços por que haviam de vender farinhas.” 19 de junho de 1693, AUC_CCA_VI-III-1-1-31, fl.
567-567v.
288 LARA, Palmares & Cucaú, p. 127. Para uma análise das principais entradas do governo de Pedro de Almeida e
suas consequências políticas, do ponto de vista da economia das mercês, ver MENDES, O serviço de armas.
289 “Relação do que se passou na guerra com os negros dos Palmares nos sertões de Pernambuco. É escrita em 1678, e
está incompleta”. BPE, Cód. CXVI / 2 – 13, n. 9, fls. 51-58v. Sobre as versões e edições publicadas desta fonte de
extrema importância para a história de Palmares, Sílvia Lara (Palmares & Cucaú, pp. 64-69) já deixou claro que
existem duas versões/cópias do documento, que remete aos fatos acontecidos entre 1654 e 1678, na campanha
contra os mocambos, publicadas por diversos pesquisadores ao longo dos anos, porém sem muito cuidado em se
cotejar transcrições e fontes primárias. A primeira versão, escrita em 1678, é que citamos acima. Em comunicação
pessoal conosco, Lara disse suspeitar que seja um rascunho, visto conter algumas rasuras, e está sem a sua última
folha. Já a outra, que seria uma versão “definitiva”, sem rasuras e completa, porém sem referências a data de
escrita, está em [Sem título]. ANTT, Manuscritos da Livraria, n. 1185. Papéis Vários, fls. 149-155v. Esta versão foi
transcrita e publicada em 1859, cf. “Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco no tempo do
governador dom Pedro de Almeida de 1675 a 1678 (M. S. offerecido pelo Exm. Sr. Conselheiro Drummond)”. In:
RIHGB, 22 (1859), pp. 303-329. Consequentemente, é a versão mais utilizada pela historiografia, e doravante será
referida apenas como “Relação”,. Considero o primeiro manuscrito, a “Relação do que se passou…”, mais rico em
informações, apesar de incompleto, visto que, na “versão final”, algumas informações ficaram de fora.
104
3.1. Por uma territorialização dos Palmares na década de 1670
Discutir o espaço das conquistas portuguesas na América, em especial a interiorização da
colonização em direção aos chamados sertões, é questão bastante atual de debate. Para Tiago Gil,290
é preciso repensar a velha imagem historiográfica de que os europeus, brancos, pouco se
aventuravam no interior das conquistas da América portuguesa até fins do século XVII. De fato,
este postulado já vem sendo rediscutido a partir de pesquisas empíricas que demonstram as relações
entre o espaço central da governança (litoral) e o sertão – as relações entre tribos indígenas,
comunidades de mocambos e camponesas, com as vilas e povoações portuguesas, de onde se
expandia para o interior o Império português no ultramar.291
Ainda segundo Gil, a aproximação com a antropologia acabou por afastar a geografia dos
modelos explicativos e das pesquisas empíricas em História. No âmbito dos Institutos Históricos,
por exemplo, a geografia sempre representou uma grande ferramenta para a explicitação de
resultados de pesquisa. Segundo o autor, apesar das grandes dificuldades técnicas dos séculos XIX eXX para a confecção dos mapas, aqueles pesquisadores tinham um trunfo em relação aos atuais: a
erudição toponímica, que os permita encontrar, no espaço-tempo, os lugares que precisavam de
maneira muito mais rápida.292 
Acreditamos que hoje as ferramentas digitais também nos permitem “recuperar” um pouco
desta erudição, e programas como Google Earth e Quantum Gis (para ficar apenas nos softwares
utilizados nesta pesquisa) permitem ao historiador comparar uma grande massa de informações
geográficas do presente com as suas fontes do passado. Em nossa experiência de pesquisa,
acrescentaríamos ainda a inestimável contribuição dos genealogistas e memorialistas que, com
enorme erudição sobre seus objetos, fornecem dados geográficos e históricos importantíssimos para
as pesquisas atuais, especialmente no que diz respeito à toponímia e à memória locais.
290 GIL, Tiago. “Recuperando terreno: o espaço como problema de pesquisa em história colonial”. In: Locus: revista de
história, Juiz de Fora, v. 20, n. 1, 2014, p. 183-202.
291 Uma recente historiografia traz boas indicações neste sentido, especialmente para as capitanias do norte. Faço
referência aqui a, SILVA, Kalina. Nas Solidões Vastas e Assustadoras. A conquista do sertão de Pernambuco pelas
vilas açucareiras nos séculos XVII e XVIII. Recife: Cepe, 2010; SANTOS, Márcio R. Fronteiras do sertão baiano:
1640-1750. Tese (Doutorado em História Social) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010; SILVA, Thyego. A
ribeira da discórdia: terras, homens e relações de poder na territorialização do Assu colonial (1680-1720). Natal:
Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Dissertação de Mestrado), 2015. Cf. também os clássicos de
RUSSEL-WOOD, A. J. R. “Centros e periferias no mundo luso-brasileiro, 1500-1808”. In: Revista Brasileira de
História, vol. 18, n. 36, São Paulo, 1998; PALACIOS, Guillermo. Campesinato e Escravidão no Brasil:
Agricultores livres e pobres na Capitania Geral de Pernambuco (1700-1817). Brasília: Editora UNB, 2004; e
PUNTONI, Pedro. A Guerra dos Bárbaros. São Paulo: HUCITEC, 2002. Sobre conquista e territorialização do
Império português no ultramar de uma perspectiva da história agrária, cf. a coletânea de SERRÃO, José V.;
DIREITO, Bárbara; RODRIGUES, Eugénia; MIRANDA, Susana M. (ed.) Property Rights, Land and Territory in
the Europeans Overseas Empires. Lisbon: CEHC-IU, 2014.
292 Gil, “Recuperando…”, p. 185.
105
Não se trata aqui de defender um regresso a uma escrita da história positivista, renegando o
legado da “história-problema” e seus avanços desde Marc Bloch e os Annales, passando pelas
contribuições da história serial quantitativa e da renovação teórica inspirada pelo marxismo
britânico e pela micro-história italiana – marcas inegáveis da atual produção historiográfica dos
grandes centros de pesquisa acadêmica. Mas talvez a excessiva identificação do espaço e do
território com a causa do Estado Nacional tenha contribuído para a crescente desconsideração que a
cartografia enfrentou na produção histórica ao longo do século XX, pelo menos na produção
historiográfica nacional, associada à historiografia metódica e positivista dos Institutos Históricos
regionais, difundida desde seu centro, o IHGB (fundado em 1838). Esta desconsideração,
pensamos, pode ter contribuído para a perpetuação de imagens distorcidas sobre os processos
históricos, elevando imprecisões e arbitrariedades ao estatuto de verdade histórica. Isto é
justamente o que acreditamos ter acontecido com parte da historiografia sobre o Quilombo de
Palmares, que pouco criticou os dados, especialmente os geográficos, fornecidos por historiadores
como Edison Carneiro e Décio Freitas.
Por outro lado, não defenderemos aqui uma nova “verdade histórica” sobre a localização
dos mocambos dos Palmares de Pernambuco. Procuramos, ao contrário, deixar claras as lacunas
documentais que forçam o historiador a tomar decisões mais ou menos arbitrárias, mostrando que
escolhas foram feitas para a produção de uma cartografia alternativa para um determinado momento
da experiência palmarina. Como dito acima, as novas ferramentas informacionais tornaram possível
apresentar novas conclusões a partir dos mesmos dados usados pelos historiadores do passado,
mantendo a necessária relação com a pesquisa empírica e a verosimilhança no preenchimento de
suas lacunas. 
Após a vitória de Pedro de Almeida em 1678, através da liderança militar do capitão-mor
das expedições, Fernão Carrilho (sertanista de Sergipe293), um documento anônimo foi redigido,
exaltando as qualidades do governador e seus comandados, provavelmente para ser anexado a um
eventual pedido de mercês reais por parte dos mesmos. Sílvia Lara já mapeou a trajetória deste
manuscrito, localizando suas diversas cópias (como as duas que existem na Biblioteca Nacional do
Rio de Janeiro), e seu original, depositado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa. O
texto é anônimo e não tem referência alguma à sua data de produção. 
Há ainda uma outra versão na Biblioteca Pública de Évora, incompleta e com algumas
rasuras, sugerindo um possível rascunho para posterior versão definitiva da crônica (que julgo ter
sido concluída após 1678, uma vez que a referência textual ao “presente ano 1678”, na versão da
Biblioteca de Évora, desaparece na versão final).294 De maneira bastante pouco cuidadosa, esta fonte
293 SANTOS, Fabiano V. “Feitos de Armas e Efeitos de Recompensa: perfil do sertanista Fernão Carrilho”. In:
Klepsidra – Revista Virtual de História, 2004.
294 Ver nota 67.
106
vinha sendo usada pela historiografia de Palmares sem grandes questionamentos quanto a seu
contexto de produção, autoria, público-alvo, e tomava-se seu conteúdo quase que como a verdade
absoluta sobre a realidade das comunidades palmarinas – cuja história secular extrapola, e muito, os
marcos temporais dados por aquele documento, c. 1674 a 1678. 
O que mais nos interessa nesta crônica, escrita em meio aos conflitos entre os poderes
coloniais estabelecidos em Pernambuco e as comunidades de escravos rebeldes dos Palmares, é a
localização, com um nível de detalhe não alcançado por quase nenhum outro documento, dos
principais mocambos dos Palmares conhecidos e atacados à época pelas forças do sargento-mor
Manoel Lopes e do capitão-mor Fernão Carrilho, a mando do governador de Pernambuco, Pedro de
Almeida.295 Este é o único documento sobre Palmares em que as principais comunidades são
listadas e suas localizações aproximadas são explicitadas, sempre com suas distâncias, em léguas,
em relação às vilas litorâneas, e entre si. Teria sido quase que exclusivamente a partir destes
documentos que Décio Freitas produziu seu famoso e largamente republicado mapa dos quilombos
de Palmares. O texto anônimo é bastante claro quanto à localização dos redutos:
Não se lançam tão uniformemente estes Palmares, que os não separem outros bosques de
diversas árvores; com que na distância de sessenta ou setenta léguas, se acham distintos
Palmares. A saber ao noroeste o mocambo do Zambi, dezesseis léguas do Porto Calvo; e ao
norte deste distância de 5 léguas, o de Aca Inene, e logo para a parte de leste destes, dois
mocambos, chamados os das Tabocas, e destes para o noroeste 14 léguas o de Dambiabanga, ao
norte deste 8 léguas a cerca chamada Subupira, e ao norte desta seis léguas a cerca real do
Macaco, e ao oeste desta cinco léguas o mocambo do Osenga; e nove léguas da nossa povoação
de Sirinhaém, para o noroeste a cerca do Amaro, e 25 léguas das Alagoas para o noroeste o
palmar do Andalaquituxe, irmão do Zambi; e entre todos estes, que são os maiores, e mais
fortificados, há outros de menor conta e de menos gente…296
Mais adiante, o autor anônimo do manuscrito registrouque o líder Gana Zumba, tido como
rei entre os palmarinos, habitava “na cidade real, a que chamam o Macaco, nome sortido da morte
que naquele lugar se deu a um animal destes”. 
Segundo as coordenadas do documento, a partir da vila do Porto Calvo, sempre para o norte
ou noroeste, os grandes mocambos seguiam nesta ordem: o do Zambi (ou Zombi, ou Zumbi), o de
Aca Inene, os das Tabocas a leste destes, voltando a seguir a noroeste o de Dambiabanga, e de
Subupira (comandada por Gana Zona), e seis léguas a norte deste último a “cerca real” do Macaco,
liderada por Gana Zumba. Todos estes redutos, somados aos outros mencionados no documento, se
localizavam, segundo os observadores locais, no sertão noroeste do Porto Calvo e oeste de
295 Sobre estas expedições, ver MENDES, Laura Peraza. O serviço de armas nas guerras contra Palmares:
expedições, soldados e mercês (Pernambuco, segunda metade do século XVII). Dissertação (Mestrado em História)
– Programa de Pós-graduação em História Social, Universidade Estadual de Campinas, 2013.
296 “Relação do que se passou…”, f. 51. Mantive a pontuação original no manuscrito, assim como números por
extenso, ou não, conforme aparecem no documento. Da mesma forma, procurei manter a grafia dos nomes dos
mocambos o mais fiel possível ao documento, como “Andalaquituxe” com -x, e Aca Inene, separado, como sugere
a grafia do papel.
107
Sirinhaém. A única exceção é Andalaquituxe, que aparece referenciado em relação à vila das
Alagoas, a 25 léguas de distância.
Uma informação importante que a historiografia clássica do tema nunca problematizou é a
forma como estas informações foram apresentadas pelo autor anônimo da Relação. Lendo o
documento com cuidado, fica claro que a sequência em que são apresentados os redutos palmarinos
corresponde ao deslocamento das tropas que os atacaram e a ordem em que elas encontraram,
destruíram ou dispersaram, cada mocambo, a partir das vilas do litoral. 
Por exemplo, o sargento-mor Manoel Lopes encontrou, em 22 de janeiro de 1676, o que
seria um mocambo, com 2.000 casas e defensores que lutaram por dois dias com as tropas do
sargento-mor, antes de fugirem do local.297 Por saber que nesta batalha teria saído ferido o “Zambi,
que quer dizer ‘Deus das armas’, negro de singular valor, grande ânimo e constância admirável”,
atingido em uma das pernas, tido como uma das lideranças palmarinas, logo se nomeou no referido
manuscrito aquele mocambo com o nome do líder que ali resistia. O mesmo processo de
identificação e nomenclatura dos mocambos deve ter se repetido em diversos outros casos, como o
Amaro e Andalaquituxe. Já outros foram identificados em função de características naturais do
local, como os mocambos das Tabocas (nomenclatura local para uma variedade de bambus); e o
mocambo de Subupira (ou sucupira), “título usurpado de uma árvore que pela monstruosidade de
sua grandeza, se adotou em padrão daquele lugar”, e que seria liderado pelo Gana Zona. Havia
ainda a chamada cerca real do Macaco, habitada pelo líder Gana Zumba, “nome sortido da morte,
que naquele lugar se deu a um animal destes”, sugerindo algum tipo de ritual de sacrifício
relacionado às origens da comunidade. A distância entre os mocambos se mostrava importante
quando das entradas das tropas coloniais, que dificilmente conseguiam atacar mais de um grande
mocambo fortificado na mesma expedição, devido às dificuldades naturais do espaço (que
dificultava o carregamento de apetrechos de guerra e mantimentos) e as armadilhas defensivas dos
mocambos.298
No ano seguinte o capitão-mor Fernão Carrilho sairia do Porto Calvo em direção à “cerca de
Aca Inene”, “é este o nome da mãe do rei [Gana Zumba], que assiste em um mocambo
fortificado”.299 Depois desta, foi a vez de Subupira, onde os irmãos, “reis” dos rebeldes, estariam
fortificados. Encontrada vazia, Subupira foi convertida em arraial de guerra dos homens de
Carrilho, que dali desferiram ataques a outros mocambos das redondezas. Estas incursões foram
decisivas para a prisão de diversos dos principais líderes dos Palmares e para a capitulação de Gana
Zumba e Gana Zona, em junho de 1678. O mocambo do Macaco deve ter sido conhecido pelos
297 Idem, f. 53v.
298 “Relação do que se passou”, fls. 51v-52. Sobre as estratégias defensivas dos mocambos, cf. SCHWARTZ,
“Repensando Palmares”.
299 Idem, f. 55.
108
combatentes durante os meses de assistência no arraial de Carrilho (de outubro de 1677 a janeiro de
1678), quando também o mocambo do Amaro foi atacado. 
Com o relato dos combatentes e o tempo de percurso entre os redutos foi possível às
autoridades construir uma certa imagem do domínio quilombola nas matas dos Palmares entre as
vilas de Sirinhaém e Porto Calvo. Assim como foi possível aos historiadores tirar conclusões, mais
ou menos acuradas, a partir daqueles relatos.
Até onde nossos esforços de pesquisa permitiram avaliar, o primeiro pesquisador a publicar
um mapa que contivesse a localização de algum dos mocambos descritos na documentação sobre
Palmares foi Edison Carneiro, ainda em 1947.300 Nele, apenas o mocambo do Macaco é situado pelo
autor, admitindo que “quanto aos outros mocambos há apenas conjecturas sobre a sua
localização”.301 No entanto, Carneiro não é claro quanto às suas fontes para localizar a chamada
“cerca do Macaco” nas proximidades do atual município de União dos Palmares, em Alagoas.
Apenas um riacho que corta a cidade de União dos Palmares, chamado Macaco, corroboraria a
hipótese de Carneiro, a qual nenhum outro documento encontrado reforça.
Parece que a confusão com as informações dadas pelas fontes primárias fez com que este
autor identificasse o mocambo do Macaco (onde o líder Gana Zumba tinha seu reduto, até 1678)
com a “capital” da “república palmarina”, onde Zumbi, líder maior dos rebeldes a partir da década
de 1680, comandava a resistência. No entanto, é possível ver que as referências à resistência de
Zumbi no sertão de Alagoas nunca mencionaram o mocambo do Macaco (já destruído por Fernão
Carrilho), mas sim o mocambo do Oiteiro do Barriga, ou Serra da Barriga,302 onde o líder negro
resistiu até 1694, sendo assassinado por tropas paulistas no ano seguinte. A tal serra, um alto monte,
escarpado no lado oeste, fica, de fato, no atual município de União dos Palmares, Alagoas. Mas,
como referimos acima, o mocambo do Macaco ficava a quilômetros daquela serra, no sertão das
vilas de Sirinhaém e Porto Calvo (cf. os Mapas II e III, abaixo).
300 CARNEIRO, Edison. O Quilombo dos Palmares, 1630-1695. 1ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1947, Mapa II, entre
pp. 9 e 10. Curiosamente, na edição seguinte – de 1958, muito mais completa, incluindo a íntegra de alguns
documentos pesquisados pelo autor, e também abandonando os marcos temporais da primeira edição, 1630-1695 –,
o mapa não foi republicado, constando apenas uma descrição aproximada da localização dos mocambos, com base
texto anônimo da “Relação das guerras”.
301 CARNEIRO, Edison. O Quilombo dos Palmares. 4ª ed., fac-similar à 2ª ed. São Paulo: Companhia Editora
Nacional, 1988, pp. 57-58.
302 Primeira referência documental em, 1684, agosto, 10, Recife CARTA do [governador da capitania de Pernambuco],
D. João de Sousa de Castro, sobre o mau procedimento que teve Fernão Carrilho na conquista dos negros dos
Palmares para onde foi mandado. Anexos: 2 docs. Obs.: m.est. AHU_CU_015, Cx. 13, D. 1298.
109
Mapas 2 e 3: Produzidos por Edison Carneiro (1947)303
É curioso como praticamente toda a historiografia posterior a Carneiro confirmou sua
hipótese quanto a localização do mocambo do Macaco, ignorando todas as evidências documentais
contrárias e o próprio texto da Relação, que dizia que o mocambo ficaria a noroeste da vila do Porto
Calvo. O local em que Carneiro localiza o Macaco poderia,segundo o manuscrito, ter sido ocupado
pelo mocambo de Andalaquituxe, localizado 25 léguas a noroeste das Alagoas. Infelizmente, este
reduto não é mais referido em nenhum outro documento da época, nem mesmo quando as
expedições de captura saíam das Alagoas, a vila teoricamente mais próxima.
Quase quarenta anos depois dos mapas de Carneiro, surgiu o mapa de Décio Freitas, na
quarta edição brasileira de sua obra mais conhecida, Palmares: a guerra dos escravos.304 A obra de
Freitas foi publicada no Brasil em 1973, e conta com cinco edições desde então. Muito mais
complexo e rico em informações do que o primeiro, o mapa de Freitas buscava ser a representação
gráfica do texto da Relação, no que tange à localização dos Palmares. Apesar disso, poucas
informações são dadas pelo autor sobre a confecção do mesmo. Sabe-se apenas que foi feito pelo
geógrafo H. A. Thofern, “pelo método histórico-dedutivo”, admitindo apenas ser uma tentativa de
localização. Vejamos o mapa abaixo:
303 Fonte: CARNEIRO, O Quilombo dos Palmares, op. cit.
304 FREITAS, Décio. Palmares. A guerra dos escravos. 4ª ed. Rio de Janeiro: Graal, 1982, p. 8; e FREITAS, Décio.
Palmares. A guerra dos escravos. 5ª ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1984, p. 33. A primeira edição conhecida do
primeiro livro de Freitas sobre o assunto é FREITAS, Décio. Palmares: la guerrilla negra. Montevidéu: Editorial
Nuestra America, 1971.
110
Mapa 4: produzido por Décio Freitas/H. A. Thofehrn (1982-84)305
Infelizmente, por não fornecer mais informações sobre o processo de confecção, o mapa de
Freitas gera mais dúvidas do que respostas. A própria historiografia posterior ao trabalho de Freitas
305 Fonte: FREITAS, Palmares. 5ª ed., p. 33.
111
admitiu ser difícil definir a primeira aparição de seu mapa dos mocambos. Praticamente nenhum
dos trabalhos sobre o tema que reproduziram a imagem a creditou de maneira precisa, isto é, com a
autoria e ano de edição.306 Reconhecido seu pioneirismo, é necessário fazer algumas observações
sobre a carta para podermos, em seguida, apresentar uma nova representação cartográfica a partir
das mesmas fontes.
Apesar da ótima precisão nas distâncias (para a época) em relação ao texto-base tomado
como referência (a Relação), a carta de Freitas contém muitas imprecisões, pouco ou nada
justificadas. Por exemplo, a orientação cartográfica fornecida pelo manuscrito para as localizações
dos mocambos de Dambiabanga, Subupira e Macaco é do sul para o norte. Mas, nos mapas de
Edison Carneiro e Décio Freitas a orientação se inverteu, localizando Subupira e Dambiabanga ao
norte de Macaco, sem maiores explicações. Freitas manteve a localização do mocambo de Macaco
na atual União dos Palmares, como sugerido por Carneiro, sem qualquer questionamento à luz das
fontes disponíveis, e acabou sujeitando a localização dos outros mocambos a do primeiro, ao pé da
chamada Serra da Barriga.
As distâncias e os caminhos traçados para localizar as comunidades também não são claros
no mapa daquele autor. É sempre muito difícil lidar com as medidas fornecidas pelas fontes
documentais da América portuguesa. Léguas, braças, entre outras unidades de comprimento, não
são padronizadas e a sua conversão para o nosso sistema métrico atual é sempre feita com uma boa
dose de arbitrariedades por parte do pesquisador. Estas escolhas não estão claras no caso do mapa
de Freitas. Por exemplo, ele não explicou por que o mocambo de Andalaquituxe, que estaria a 25
léguas de distância das Alagoas, aparece mais perto daquela vila do que o mocambo do Zambi
aparece do Porto Calvo, supostamente a dezesseis léguas de distância dessa última vila – nove
léguas a menos. Não há uma uniformidade na representação das distâncias em seu mapa. Freitas
também localizou um suposto mocambo de Aqualtene, não referido no manuscrito, e deixou de
localizar o mocambo do Osenga, entre outros problemas que tornam sua carta geográfica bastante
frágil a um escrutínio mais cuidadoso.
No entanto, o que é mais problemático na carta de Freitas é que, talvez sem querer, sua
representação pouco cuidadosa se tornou, através da repetição acrítica da historiografia, uma
espécie de “imagem oficial” dos mocambos de Palmares. A falta de referências documentais claras
no trabalho e de um recorte temporal preciso para aquela representação levou muitos, especialistas
ou não, a desconsiderar outras conjunturas histórico-geográficas da experiência secular de
Palmares. É importante frisar que os mocambos localizados na Relação fazem parte de um contexto
306 A exceção que confirma a regra é o livro organizado por Mário Maestri, em que foi editado o artigo do francês
Benjamin Péret sobre o tema, e onde estão anexados todos os mapas produzidos até então, com as referências
bibliográficas completas. Ver PÉRET, Benjamin. O Quilombo dos Palmares. Organização e estudos
complementares de Mário Maestri e Robert Ponge. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2002, pp. 141-151.
112
entre 1674 e 1678. Para aquém ou além destes marcos temporais, as comunidades podem ter
assumido configurações espaciais diversas, como já observamos no capítulo 1.307
Para a conjuntura da década de 1670 foi necessário reinterpretar os vestígios que deram base
ao mapa de Freitas, produzindo uma carta mais clara e verossímil a partir da documentação,
especialmente a Relação – com recurso pontual a alguma documentação administrativa local.308
Para medir as distâncias foi fundamental “imaginar” os caminhos percorridos pelas expedições. Na
maior parte do tempo, estes caminhos correspondiam ao traçado dos rios mais caudalosos, tornando
relativamente fácil medir as distâncias dadas pelo texto, considerando o percurso sinuoso destes
rios, através do software Google Earth. Segundo o trabalho de Maria Lúcia Gnerre, sobre o texto
anônimo de fins do século XVIII, Roteiro do Maranhão a Goiaz pela capitania do Piauhi:
Mas, de um modo ou de outro, todos os textos escritos sob o título de “Roteiro”, produzidos na
região norte no fim do século XVIII, se configuravam como narrativas sobre os rios e suas
paisagens. Têm nos rios o centro da narrativa, a sua rota. São por isso Roteiros Fluviais – não
mais marítimos ou terrestres, como aqueles que antes eram produzidos pelos portugueses em
suas expedições, mas roteiros adaptados à temporalidade e ao fluir dos rios.309
Esta autora fez uma ampla pesquisa sobre os roteiros de viagens referentes ao Grão-Pará e
Maranhão, publicados nas revistas do IHGB, chegando à conclusão do papel central dos rios nestas
narrativas, consistindo em verdadeiros “roteiros fluviais”. A natureza, em especial os rios, era a
“protagonista” destes escritos, através da qual os textos se tornavam inteligíveis. Só com o
aprofundamento da colonização – ou do projeto de colonização e ocupação do sertão, defendido
pelo autor anônimo do “Roteiro”310 – é que as relações de viagens ao interior começaram a
307 Trataremos da conjuntura “final” de Palmares em outro capítulo.
308 Basicamente a documentação do Conselho Ultramarino, através do Projeto Resgate, e as cartas, bandos e ordens
dos governadores de Pernambuco (1652-1745) cujas cópias manuscritas estão nos dois volumes das Disposições
dos Governadores de Pernambuco, do Arquivo da Universidade de Coimbra, Cota VI, 3a, I-1-31 e 32.
309 GNERRE, Maria Lúcia Abaurre. Roteiro do Maranhão a Goiaz pela Capitania do Piauhi: uma viagem às
engrenagens da máquina mercante. Tese (Doutorado em História) – Campinas: Unicamp, 2006, p. 136 (Grifo
nosso). Cf. também “Roteiro do Maranhão a Goiaz pela capitania do Piauhi”. In: Revista do IHGB, tomo LXII, v.
99, pt. 1. Rio de Janeiro, 1900, pp. 60-161. O texto teria sido produzido entre 1770 e 1780, segundo ABREU, João
Capistrano. Caminhos antigos e povoamento do Brasil. Estudo publicado no “Jornal do Commercio” de 12, 29 de
agosto e10 de setembro de 1899 e reproduzido, refundido e ampliado na “América Brasileira”, números 32, 33 e
34 de agosto, setembro e outubro de 1924. Disponível em http://www.cdpb.org.br/capistrano_de_abreu[1].pdf,
último acesso em outubro de 2016.
310 ROLIM, Leonardo C. “Projetos de colonização para os sertões do norte no ‘Roteiro do Maranhão a Goiás pela
capitania do Piauí’ (c. 1770 – c. 1790)”. in: Anais do XXVIII Simpósio Nacional de História. Florianópolis:
ANPUH, 2015. Disponível em
http://www.snh2015.anpuh.org/resources/anais/39/1434410885_ARQUIVO_ROLIM,Leonardo.Trab.Completo.pdf,
último acesso em outubro de 2016.
http://www.snh2015.anpuh.org/resources/anais/39/1434410885_ARQUIVO_ROLIM,Leonardo.Trab.Completo.pdf
http://www.cdpb.org.br/capistrano_de_abreu%5B1%5D.pdf
113
descrever mais vilas e povoações do que rios, serras, matas e afins.311 Daí a importância do
conhecimento toponímico e dos rios locais a que nos referimos no início.
Foi neste sentido que buscamos traçar as distâncias e direções apontadas no texto da
“Relação das guerras”, dando forma ao mapa abaixo. A partir das distâncias em léguas dadas pelo
texto, convertidas para quilômetros, equivalendo cada légua de 2,5 a 3,5 km, e dos marcos
geográficos mais confiáveis oferecidos pelo documento (as vilas de Alagoas, Sirinhaém e Porto
Calvo, e a Serra da Barriga, onde julgamos que estava localizado o mocambo de Andalaquituxe, o
reduto final de Zumbi), tentamos retraçar o mapa do quilombo de Palmares, por volta de 1674-
1678:
Mapa 5: Mocambos de Palmares, a partir da “Relação”, c. 1674312
311 Sobre isso, ver MACEDO, Helder Medeiros. “Percepções dos colonos a respeito da natureza do sertão da Capitania
do Rio Grande”. In: Topoi: Revista de História. Vol. 8, n. 14, jan-jun, 2007, pp. 37-76. Este autor analisa os relatos
de viagens, e as descrições das capitanias do Norte dos séculos XVI e XVII, as cartas de sesmarias da capitania do
Rio Grande, para traçar uma relação evolutiva na forma das descrições do espaço, conformando assim um processo
de evolução da territorialidade da colonização, a partir da conversão dos marcos descritivos naturais em marcos
humanos e sociais – as povoações, as jurisdições, vilas, comarcas, etc – já nos textos do século XVIII.
312 Mapa produzido pelo autor com os softwares de geoprocessamento Google Earth e Quantum Gis.
114
As rotas que levavam as tropas até os mocambos, através das curvas dos grandes rios da
região, serviram para medir as distâncias, padronizando-as e diminuindo a arbitrariedade da
plotagem feita por Décio Freitas. Afastando-se das terras baixas dominadas pelos engenhos de cana,
os quilombolas buscavam as serras mais altas, ainda que as distâncias em relação aos engenhos não
fossem muito grandes, como se vê no mapa. Para se chegar a uma medida de légua verossímil,
marcamos primeiro a localização do mocambo do Osenga, no limite da mata palmarina, a noroeste
do Porto Calvo, por ser o mocambo mais distante em relação àquela vila, conforme o documento. A
partir daí, traçou-se um caminho possível até ele, subindo os principais rios locais – quase todos na
bacia do rio Una –, seguindo a rota descrita na Relação, ou seja, passando pelos mocambos do
Zambi, Aca Inene, Dambiabanga, Subupira e Macaco. A quilometragem final (135 km, mais ou
menos) serviu de base para estipular a distância entre estes vários mocambos – dividindo os
quilômetros pelas léguas dadas pela documentação, para cada mocambo entre si –, chegando-se a
uma medida de 2,5 km para cada légua relatada no documento. 
Para os mocambos de Andalaquituxe e Amaro, infelizmente o mesmo procedimento não
pôde ser feito com as informações disponíveis. Então, no caso do Amaro, praticamente mantivemos
a localidade proposta por Freitas, uma vez que a distância em relação a vila de Sirinhaém não difere
muito da medida aqui proposta – chegando próximo aos 3,5 km. Já para o caso do mocambo de
Andalaquituxe, traçando as 25 léguas (mais ou menos 63 km) a partir da vila da Alagoa do Sul, em
direção noroeste, chegou-se bastante próximo ao sopé da Serra da Barriga, onde localizamos então
o mocambo.
Esta nova carta pareceu-nos muito mais em acordo também com a documentação que narrou
os acontecimentos posteriores ao contexto de 1674-1678. Por exemplo, logo em seguida às
investidas de Fernão Carrilho, a Relação narrou a fuga dos remanescentes dos mocambos atacados
para os vales e campinas do rio Mundaú, nas Alagoas (o rio Mundaú nasce nos antigos Campos dos
Garanhuns, hoje agreste pernambucano). Ali foram descobertos pela tropa do capitão Francisco
Álvares Camelo, “se queimaram alguns mocambos, que são os seus retiros, onde se cativaram vinte
e seis peças e morreram dois capitães, um sobrinho do rei, outro irmão do Bangala; também se
prendeu a mulher do Gana Zona com dois filhos mestiços.”313 Estes vestígios documentais provam
que os ataques das tropas enviadas pelo governador Pedro de Almeida não se concentraram nas
Alagoas, mas sim que a fuga para o sul e o oeste dos remanescentes dos mocambos atacados pode
ter estabelecidos novos, e reforçado antigos, mocambos no sertão das Alagoas, sob novas lideranças
rebeldes, como Zumbi.
Assim, percebemos que na conjuntura de 1669-1674, o domínio quilombola se concentrava
fortemente no sertão das vilas de Sirinhaém e Porto Calvo, com apenas um grande reduto no sertão
313 “Relação do que se passou…”, f. 57v.
115
alagoano, apesar de outros vestígios documentais, citados no início deste capítulo, abrirem a
possibilidade de que o mocambo de Andalaquituxe já fosse conhecido desde os tempos dos
holandeses, assim como as proximidades do mocambo do Amaro poderem ter sido atacadas ainda
por volta de 1602. Conforme as forças repressivas adquiriam conhecimento sobre as comunidades,
estas eram nomeadas, como já referimos acima.
Veremos mais a frente que, entre 1675 e 1678, o governador Pedro de Almeida se empenhou
na destruição dos redutos palmarinos, que àquela altura causavam descontentamentos e reclamações
por parte da elite senhorial, principalmente das vilas de Alagoa do Sul, Porto Calvo e Sirinhaém, na
parte sul da capitania. As expedições daqueles anos renderam frutos importantes para os poderes
locais, como a capitulação dos líderes Gana Zumba e Gana Zona, provavelmente africanos
escravizados que eram reconhecidos pelos portugueses como “cabeças” dos maiores e mais
fortificados redutos dos rebeldes.314 Seria o início da última conjuntura de Palmares, adentrando o
século XVIII.
3.2. Do fracasso dos acordos de paz ao ataque do Terço de Domingos Jorge Velho
Em janeiro de 1678, Fernão Carrilho desceu de seu arraial de volta à vila do Porto Calvo,
declarando sua vitória sobre os mocambos de Palmares. Teria então enviado de volta aos mocambos
ainda resistentes um casal de negros de mais idade, Mateus Zambi (ou Matias Dambi, na versão do
ANTT)315 e sua mulher Madalena, cativa Angola, que seriam sogros de um dos “filhos do rei”, com
o objetivo de conseguir a rendição dos quilombolas restantes, sob a ameaça da continuação dos
assaltos de Carrilho nos matos.
Ainda em 1678, nos campos de São Miguel, sul de Alagoas, uma patrulha que carregava
mantimentos para o arraial de Carrilho teria entrado em conflito com Gana Zona. No mesmo ano,
adentrando pelos campos de Cunhaú indo até o alto curso do rio Mundaú, o capitão Francisco
Álvares Camelo e seus homens atacaram outro mocambo (talvez o Andalaquituxe), afugentando um
grupo de quilombolas e capturando “26 peças”. Neste encontro, segundo uma das versões do
documento anônimo, teriam sido mortos dois “capitães” de Palmares, um sobrinho do rei e o outro
irmão do “Bengala”, e presos a mulher e dois filhos de Gana Zona.316 Estas ações contra os
mocambos do rio Mundaú também constam das folhas de serviço de Francisco Álvares Camelo, noRegistro Geral de Mercês do rei D. Pedro II.317 Estes encontros, pouco posteriores aos ataques de
314 O melhor estudo sobre o episódio é LARA, Palmares & Cucaú.
315 “Relação”, f. 154.
316 “Relação do que se passou”, f. 57-57v.
317 ANTT, Registro Geral de Mercês. Mercês de D. Pedro II, Livro 13, f. 395-395v. Os serviços do pai, Francisco
Álvares, e do avô Belchior Álvares Camelo, garantiram a propriedade dos cargos de Juiz, Escrivão dos Órfãos,
Tabelião do Público Judicial e Escrivão do Concelho e Câmara da vila do Penedo ao filho mais velho de Francisco
116
Carrilho em 1677, aparecem, segundo o documento, como uma consequência da fuga para o sul dos
quilombolas atacados no sertão de Sirinhaém e Porto Calvo.
Estes sucessos militares das tropas de Carrilho levaram ao tratado de paz celebrado entre
Gana Zumba, Gana Zona e os governadores Pedro de Almeida e Aires de Souza de Castro (1678-
1682), recém-chegado à capitania em junho de 1678. O papel do acordo de paz pode ser consultado
na Coleção Conde dos Arcos, nas Disposições do governador Aires de Souza de Castro318, assim
como as outras cartas em que o governador tratava da rendição de outras lideranças palmarinas,
como o Amaro, João Mulato e Zumbi. O lugar escolhido (não se sabe ao certo se pelas autoridades
do Recife ou pelos quilombolas, como o governador deixa transparecer no documento) era o sítio de
Cucaú, uma mata bem próxima à vila de Sirinhaém e aos olhos senhoriais. A ideia era aldear os
palmarinos, e o discurso senhorial do governador era de que, ali, os quilombolas ficariam
“moradores nela [Cucaú] com vossa liberdade para podereis plantar os vossos frutos, e terdes os
mesmos lucros que têm os mais vassalos de S. A., que Deus guarde, sem vos obrigarem por força a
nenhum trabalho particular, salvo se for para o serviço do dito senhor”319, o que demonstra o
paralelo com a política dos descimentos e aldeamentos indígenas, ao longo do século XVII, por
todo o sertão norte da América portuguesa.320
Cucaú ou Cocaú, ao que tudo indica, foi um engenho com “cerca de uma milha [holandesa,
cerca de 5,5 km] de terra, da qual a maior parte são matas”, segundo as fontes holandesas
consultadas por Cabral de Mello. Somente suas várzeas estavam plantadas com canas, e podia
produzir, por volta de 1630-1640, três mil a quatro mil arrobas de açúcar/ano. Suas casas eram de
taipa, e era banhado pelo rio Sirinhaém e pelo riacho Cucaúpe, de onde vinha seu nome. Quando
confiscado pelos holandeses, tinha dezoito trabalhadores escravizados: seis homens, seis mulheres,
e seis crianças.321 Difícil estabelecer a cadeia de domínio do engenho. Foi fundado por Alexandre
de Moura, primo do donatário da capitania de Pernambuco, ainda em início do século XVII. Passou
a seu filho Francisco de Moura, antes de ser tomado pelos holandeses, e vendido a Duarte Nunes,
em 1641. Além disso, só nos foi possível saber que seu ocupante era Manoel de Barros Franco e que
era moente, em 1761, sem maiores informações sobre a propriedade.322
e sucessor no morgado da família – pois o tio Belchior não teve herdeiros legítimos –, Antônio Álvares Bezerra. Ver
também, ANTT, Registro Geral de Mercês. Mercês de D. Afonso VI, Livro 8, f. 182 e 184v.
318 “Escreveu ao principal dos negros dos Palmares sobre as pazes que determinavam fazer”, 22 de junho de 1678,
AUC, CCA, IV, 3ª-I-1-31, t. 1, fls. 334-334v.
319 Idem.
320 Sobre isso, ver LARA, Palmares & Cucaú, especialmente pp. 209-227, onde o fracasso do acordo de Cucaú é
explicitado. Para o contexto maior da expansão colonial sobre os sertões e as populações “bárbaras” que os
habitavam, no XVII, ver PUNTONI, A Guerra dos Bárbaros.
321 MELLO, Evaldo Cabral. O bagaço da cana. Os engenhos de Açúcar do Brasil holandês. São Paulo: Penguin
Classics Companhia das Letras, 2012, p. 127; e LARA, Sílvia. Palmares & Cucaú. O aprendizado da dominação.
Tese (Titularidade em História do Brasil). Campinas: Unicamp, 2008, p. 193.
322 1761, fevereiro, 15, Recife. OFÍCIO do [governador da capitania de Pernambuco], Luís Diogo Lobo da Silva, ao
[secretário de estado do Reino e Mercês], conde de Oeiras, [Sebastião José de Carvalho e Melo], sobre o envio das
relações dos engenhos existentes nas capitanias de Pernambuco e da Paraíba, bem como os que se encontram de
117
A “Aldeia de Cucaú”, como aparece por vezes na documentação, era mais recente. Em 1666,
o então governador Jerônimo de Mendonça Furtado, autorizou a câmara de Sirinhaém a transferir a
aldeia indígena que existia naquela freguesia para o engenho de Cucaú, emitindo ordem ao capitão
da aldeia em junho daquele ano. A ideia era defender os moradores da vila dos ataques dos negros
rebeldes dos mocambos.323 Assim, a região, antes de ser habitada pelos palmarinos, já era ocupada
por um grande engenho, em cujas terras uma aldeia indígena estava instalada justamente para
impedir a ação de quilombolas em Sirinhaém.
As tratativas se estenderam entre junho de 1678 e agosto de 1679, quando, já percebendo a
relutância de outros líderes rebeldes em seguir Gana Zumba e Gana Zona, o governador buscou
reorganizar as forças de repressão e fechar o cerco contra Zumbi, nos Palmares.324
Em março de 1680, o acordo de paz entre lideranças de alguns dos mocambos palmarinos e os
governadores de Pernambuco já se mostrava praticamente esquecido. A justificativa das autoridades
era de que muitas das lideranças que haviam aceitado as pazes com o governo de Pernambuco
(como João Mulato, Canhonga[Camoanga?], Gaspar e Amaro) já planejavam nova rebelião com os
moradores da “Aldeia de Cucaú”, termo da vila de Sirinhaém – sítio onde foram assentados os que
desceram do sertão e aceitaram a trégua. O sargento-mor Manoel Lopes publicou um bando naquele
ano, em que buscava criminalizar os rebeldes de Cucaú, acusando-os de matar seu líder Gana
Zumba envenenado, ao mesmo tempo em que oferecia anistia a Zumbi, se em quatro meses
procurasse “seu tio” Gana Zona para servir à Coroa – junto de “outros mais fidedignos” que os que
conspiravam para retornar aos matos.325
Em uma carta de 22 de abril de 1680, o governador Aires de Souza de Castro afirmava que:
O maioral dos negros que assistira na Aldeia de Cucaú (que foram dar obediência quando logo
[cheguei] àquele governo), assistira com negros na campanha servindo de guia para o que se
executava, mostrando nisso zelo e fidelidade, e os mais que na dita Aldeia ficaram se foram
desviando do que prometeram, e obrando por tal forma que, das muitas queixas que lhes
chegaram, se certificara estarem conjurados para se retirarem outra vez, levando muitos
escravos dos moradores daquela vizinhança, além de darem avisos e levarem mantimentos e
munições para a defesa dos outros, posto lugar mui circunvizinho para o tal efeito, como que se
resolvera a mandá-los prender, e havê-los por cativos, como os mais, com parecer dos letrados,
soldados e pessoas de maior capacidade (…)326
fogo morto. Anexos: 2 docs. AHU_CU_015, Cx. 95, D. 7501.
323 “Escreveu a câmara de Sirinhaém sobre a mudança da Aldeia para o engenho de Cucaú”, 17 de junho de 1666; e
“Ordem que mandou [ao capitão da aldeia de índios de Sirinhaém] sobre o mesmo”, 17 de junho de 1666,
AUC_CCA_VI-III-1-1-31, fls. 203v-204v.
324 “Edital sobre a invasão que novamente se quis fazer aos Palmares.”, agosto de 1679, AUC, CCA, IV, 3ª-I-1-31, t. 1,
fls. 339v; e “Escreveu ao capitão-mor João da Fonseca sobre o ajustamento da paz dos Palmares.” 23 de maio de
1682, AUC, CCA, IV, 3ª-I-1-31, t. 1, f. 384. João da Fonseca era capitão-mor da vila de Santa Maria Madalena da
Alagoa do Sul.
325 Ver o bando do Sargento-mor Manoel Lopes em “Dezenove documentos sobre os Palmares, pertencentes à
Collecção Studart”. In: Revista Trimestral do Instituto do Ceará, n. 20, 1906, pp. 268-269.
326 Claramente o “maioral dos negros” citado era Gana Zona, e não Gana Zumba, àquelaaltura já morto. Ver o parecer
do Conselho Ultramarino, de 8 de agosto de 1680, que reproduz a carta em, AHU_ACL_CU_Consultas de
Pernambuco, Cod. 265, fl. 29v. A carta original está destruída em, 1680, abril, 22, Pernambuco CARTA do
118
Aliás, Gana Zona já era tratado como “maioral” desde o acordo de paz de 1678. Em 1679 o
governador Aires de Souza de Castro já se referia a ele desta maneira, dando a entender que o
“reinado” de Gana Zumba havia chegado ao fim com a capitulação. Talvez as autoridades coloniais,
assim como faziam com os índios, buscassem eleger a liderança quilombola mais conveniente a
seus interesses.327 Segundo o governador, Gana Zona teria guiado tropas coloniais a um dos maiores
mocambos de Palmares, onde “estava a maior parte dos cativos que para lá tinha fugido”, o que
animava as autoridades a continuar as expedições, agora com um guia muito experiente.328
O avanço final sobre os mocambos de Palmares parece ter começado, quase simultaneamente,
pelos ataques ao mocambo da Serra da Barriga (referido em boa parte das fontes como “Oiteiro do
Barriga”) e à aldeia de Cucaú, no início da década de 1680. A aldeia de Cucaú parece ter se
transformado em um mocambo rebelde, entre 1680 e 1682, seja por vontade dos próprios negros de
voltar a seus mocambos no sertão palmarino, seja pela cobiça senhorial em recapturar aqueles que
haviam aceitado viver em paz no local, e ganhado a liberdade do cativeiro. Segundo relatos
militares e de autoridades da capitania, pouco menos de trezentas ou mais de quatrocentas pessoas
desceram dos sertões palmarinos para habitar a mata do engenho Cucaú.329 O capitão João de
Freitas da Cunha teria feito um cerco ao local, aprisionando “perto de duzentas peças,330 por
haverem se rebelado”, segundo a folha de serviços de um militar que alegou ter participado do
cerco.331 A justificativa era a estreita relação estabelecida entre o grupo rebelde de Zumbi, que
governador da capitania de Pernambuco, Aires de Sousa de Castro, ao príncipe regente [D. Pedro] sobre as medidas
tomadas na guerra dos Palmares. Obs.: m. est. AHU_CU_015, Cx. 12, D. 1163. 
327 Sílvia Lara lança esta hipótese quando comparada as lideranças palmarinas com os “principais”, líderes indígenas e
chefes dos aldeamentos coloniais. Ver LARA, Palmares & Cucaú.
328 AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco, Cod. 265, fls. 26-27v.
329 As informações vem de carta do provedor da Fazenda de Pernambuco, João do Rego Barros, em 16 de agosto de
1679, e da folha militar do capitão Antônio Pinto Pereira, co-sesmeiro na grande sesmaria do Ararobá, à qual
voltaremos em outro capítulo. Ver a consulta sobre a carta do provedor em AHU_ACL_CU_Consultas de
Pernambuco, Cod. 265, fls. 26-27v (o original está ilegível em AHU_CU_015, Cx. 12, D. 1146); e folha do militar
em, 1699, Maio, 6, Lisboa CONSULTA do Conselho Ultramarino ao rei [D. Pedro II], sobre nomeação de pessoas
para ocupar o posto de capitão-mor do Ceará. Resolução régia a nomear Fernão Carrilho. AHU_CU_006, Cx. 1, D.
42.
330 O termo “peça”, desumanizador e coisificante para com os africanos escravizados, era uma forma de padronizar o
cativo “perfeito”, isto é, em idade e condições ótimas para o trabalho no Novo Mundo. Escreve Charles Boxer, a
partir das pesquisas de Robert Southey: “Ao embarcar em Luanda, os escravos eram classificados por uma medida-
padrão, denominada peça das Índias, devendo entender-se por isso ‘um negro de quinze a vinte e cinco anos de
idade; de oito a quinze anos, e de vinte e cinco a trinta e cinco, três passavam como dois [duas peças]; menos de
oito e de trinta e cinco a quarenta e cinco, dois passavam por um[a peça]; crianças de peito acompanhadas das mães
não eram contadas; todos que tivessem mais de quarenta e cinco anos, e os portadores de doença eram avaliados por
árbitros.’” Cf. BOXER, Charles. Salvador de Sá e a Luta pelo Brasil e Angola, 1602-1686. São Paulo: Editora
Nacional; EdUSP, 1973, p. 244. Segundo Joseph C. Miller, entre os séculos XV e XVII os tecidos eram medidas de
riqueza no comércio escravista transatlântico, servindo de moeda na compra de cativos, sendo uma peça de tecido
fino indiano trocada por um adulto sadio. Cf. MILLER, Joseph C. Way of death: merchant capitalism and the
Angolan slave trade, 1730-1830. Madison: University of Wisconsin Press, 1988, pp. 81-82.
331 1699, novembro, 18, Lisboa CONSULTA do Conselho Ultramarino ao rei D. Pedro II, sobre nomeação de pessoas
para a Companhia de Infantaria, que vagou na capitania de Pernambuco no Terço do mestre-de-campo Manoel
Lopes, pela promoção de Fernão Carrilho a um posto no governo do Estado do Maranhão. AHU_CU_015, Cx. 18,
D. 1797. Ver também o relato do ataque aos rebelados de Cucaú em, “1697, dezembro, 20, Lisboa CONSULTA do
119
permanecia nos matos, e os negros aldeados em Cucaú, desde o tratado de 1678. Alguns dos relatos
levam a crer que Cucaú tenha se tornado também um refúgio para os mocambeiros acossados no
interior dos Palmares. Seguindo a acusação de conspiração entre os aldeados e os quilombolas ainda
nos Palmares, a aldeia foi destruída, sendo possível que o referido número de “200 peças” na
documentação correspondesse ao total dos habitantes de Cucaú, em torno de quatrocentas pessoas.
Já o mocambo da Serra da Barriga, no sertão de Alagoas, foi atacado pela primeira vez em
1681. Essa referência, tão próxima ao contexto do acordo de paz de 1678, sua localização e
distância em relação à vila da Alagoa do Sul, fez com que o identificássemos como sendo o mesmo
que na “Relação” foi chamado de Andalaquituxe. Ele teria sido atacado em 1681 e 1683, por
Manoel Lopes e Fernão Carrilho.332 Fato pouco problematizado pelos pesquisadores foi o elo que o
texto da “Relação” estabeleceu entre Zumbi (ou Zambi) e Andalaquituxe. Segundo o manuscrito,
seriam irmãos, o que pode significar que uma relação bastante estreita entre as duas lideranças era
conhecida das autoridades. O que reforça a hipótese de que o reduto de Zumbi na Serra da Barriga
fosse o mesmo mocambo referenciado pela “Relação” sob a liderança de seu “irmão”,
Andalaquituxe, onde o líder palmarino teria encontrado refúgio e resistido até a tomada do monte
pelas tropas bandeirantes de Domingos Jorge Velho.
Outras fontes sugerem que Andalaquituxe poderia ter sido uma liderança que caiu no
“mocambo Garanhanhum” – talvez já nos Campos de Garanhuns, a noroeste da Serra da Barriga. O
relato é pouco preciso, mas o soldado Jerônimo de Albuquerque de Melo, “dos homens principais
daquela capitania”, afirmava ter participado de uma incursão até aquele mocambo, sob o comando
de Fernão Carrilho. Infelizmente, o relato não fornece uma data para a expedição, dizendo apenas
que entre os mortos e feridos “entrou o seu maior Andala Quitagi”. Depois o relato segue com
descrições de outras expedições comendadas por Fernão Carrilho, entre 1681 e 1686 – informações
corroboradas por outras fontes.333 De qualquer forma, ainda nos parece verossímil que o reduto
desta liderança, irmão de Zumbi, estivesse entre a Serra da Barriga e o alto do planalto nos Campos
dos Garanhuns. Talvez por já haver sido capturado ou morto (entre 1678 e 1680), Andalaquituxe
não seja mais referido nos relatos acerca da incursão na Serra da Barriga, na década de 1680.
Conselho Ultramarino ao rei D. Pedro II, sobre a nomeação de pessoas para a Companhia de Infantaria da capitania
de Pernambuco, no Terço do mestre-de-campo Manoel Lopes, por falecimento de Luís Vaz da Costa. Anexos: 2
docs.” AHU_CU_015, Cx. 17, D. 1741.
332 1699, Maio, 6, Lisboa CONSULTA do Conselho Ultramarino ao rei [D. Pedro II], sobre nomeação de pessoas para
ocupar o posto de capitão-mor do Ceará. Resolução régia a nomear Fernão Carrilho. AHU_CU_006, Cx. 1, D. 42.
Sobre Manoel Lopes e Fernão Carrilho, ver MENDES, Laura Peraza. O Serviço de Armas nas Guerras contra
Palmares: expedições,soldados e mercês (Pernambuco, segunda metade do século XVII). Dissertação (Mestrado
em História) Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2013.
333 Cf. 1696, março, 14, Lisboa CONSULTA do Conselho Ultramarino ao rei D. Pedro II, sobre nomeação de pessoas
para a propriedade do ofício de juiz dos Órfãos e escrivão da Câmara da vila das Alagoas, por falecimento de Pedro
Bezerra. Anexo: 1 doc. AHU_CU_015, Cx. 17, D. 1696. Há uma cópia feita em Lisboa para registro da mercê de
Jerônimo de Albuquerque de Melo, onde se lê “Andola Guitugi”, no ANTT, Registo Geral de Mercês, Mercês de D.
Pedro II, liv. 10, f. 332.
120
A década de 1680 foi marcada por esse constante movimento de diminuição do espaço de
atuação possível do bando de Zumbi, com diversas incursões aos mocambos onde aquele líder
poderia estar escondido. Ao mesmo tempo, havia uma certa expectativa de rendição dos rebeldes,
registrada em diversos documentos até o início da década de 1690334, quando os bandeirantes
paulistas finalmente se dirigiram aos Palmares. A grande mudança entre as conjunturas foi a guerra
ter passado a se concentrar majoritariamente contra os rebeldes liderados por Zumbi, e não mais em
oposição a diversos líderes quilombolas espalhados pelos sertões de Palmares.
Décio Freitas transcreveu uma carta que o rei D. Pedro II fez chegar a Pernambuco pelas
mãos do recém-ordenado governador da capitania, João da Cunha Souto Maior (1685-1688),
endereçada a Zumbi dos Palmares, onde o monarca concedia o perdão ao escravo rebelde pelos seus
“excessos”, e compreendia suas ações como consequência das “maldades praticadas por alguns
maus senhores” contra ele e os demais cativos rebelados de seu bando. Em troca, o “capitão Zumbi”
aceitaria “assistir em qualquer estância que vos convier, com vossa mulher e vossos filhos, e todos
os vossos capitães, livres de qualquer cativeiro ou sujeição, como meus fiéis e leais súditos, sob
minha real proteção.”335 Infelizmente, aquele autor não referencia a carta, e não pudemos encontrar
o manuscrito nos fundos arquivísticos consultados. O primeiro relatório enviado pelo governador de
volta a Lisboa, sobre os Palmares, no entanto, demonstra (como já vínhamos dizendo) que as pazes
com Zumbi já vinham sendo discutidas pelos antecessores de Souto Maior. Em agosto de 1685, o
governador relatava que não haveria alternativa a não ser aceitar as pazes, se assim os mocambeiros
pedissem, pois não havia recursos para a guerra. A resposta do Conselho Ultramarino – após o
parecer do ex-governador de Pernambuco, D. João de Souza (1682-1685)336 – foi que “a experiência
tem mostrado que esta prática é sempre um meio engano e ainda pelo que toca a nossa reputação em
se tratar a vista com eles ficamos com menos opinião pois isto são uns pretos fugidos e cativos e
assim se deve dizer ao governador que ele lhe faça a guerra”.337 Assim, a carta de D. Pedro II
parecia apenas uma suposta garantia legal para que o governador pudesse aceitar uma trégua com o
334 Ver o bando de Manoel Lopes, de 1680, em “Dezenove documentos sobre os Palmares pertencentes à Coleção
Studart”. In: Revista Trimestral do Instituto do Ceará, Fortaleza, 20: 254-289, 1906, pp. 268-269. O manuscrito
deste documento nunca foi encontrado, sendo a publicação do Instituto Histórico do Ceara a única fonte. Também
“Escreveu ao capitão-mor João da Fonseca sobre o ajustamento da paz dos Palmares.”, 23 de maio de 1682, AUC,
CCA, IV, 3ª-I-1-31, t. 1, fl. 384; “Escreveu às câmaras de Sirinhaém, Porto Calvo, Alagoas e Rio [de São Francisco]
sobre a invasão dos Palmares.”, 1 de julho de 1683, AUC, CCA, IV, 3ª-I-1-31, t. 1, fl. 386v. 
335 “Do rei de Portugal ao capitão Zumbi dos Palmares” [26 de fevereiro de 1685]. In: FREITAS, República de
Palmares, p. 183.
336 1685, agosto, 8, Recife CARTA do [governador da capitania de Pernambuco], João da Cunha Souto Maior, ao rei
[D. Pedro II], sobre a paz que pedem os negros dos Palmares, a falta de condições dos moradores da dita capitania
em financiar a guerra devido ao preço do açúcar, e a incapacidade de alguns oficiais militares para o trabalho.
Anexos: 2 docs. AHU_CU_015, Cx. 13, D. 1329.
337 Veja-se o relatório do governador e a resposta do Conselho, de 1686, em “1685, agosto, 8, Recife CARTA do
[governador da capitania de Pernambuco], João da Cunha Souto Maior, ao rei [D. Pedro II], sobre a paz que pedem
os negros dos Palmares, a falta de condições dos moradores da dita capitania em financiar a guerra devido ao preço
do açúcar, e a incapacidade de alguns oficiais militares para o trabalho. Anexos: 2 docs.” AHU_CU_015, Cx. 13, D.
1329.
121
grupo de Zumbi de imediato, apesar de a recomendação geral ser a continuidade das incursões nos
matos contra os mocambos (posto que, àquela altura, Zumbi já protelava uma possível rendição
havia seis anos).338
Mas qual era a área de atuação efetiva do bando de Zumbi, e onde estavam os mocambos
atacados naquele período? Como já dito acima, a aldeia de Cucaú foi atacada por tropas entre 1680
e 1682, seguindo uma suposta “rebelião” de seus habitantes – até então, todos livres ou alforriados,
a serviço d’El-Rei.
Atacado no sertão das Alagoas, por volta de abril ou maio de 1684, Zumbi teria estabelecido
um novo reduto no chamado sítio do Gongro ou Gongolo, no atual município de Quipapá, Agreste
de Pernambuco. Depois de um mês de resistência, o mocambo do Gongro foi queimado pelas tropas
de Fernão Carrilho e João de Freitas da Cunha.339 As terras do Gongro ficavam na grande sesmaria
do Ararobá, do capitão Bernardo Vieira de Melo, cujo filho homônimo teria participação decisiva na
campanha dos paulistas de Jorge Velho contra Palmares.340 Esta região de mangues, brejos e olhos
d’água se encontrava já no limite oeste da mata palmarina, e os fugitivos deste ataque devem ter
alcançado o sertão do Ararobá e os Campos de Garanhuns em fuga.
Um arraial foi montado na intersecção dos rios Paraibinha (ou Paraíba-mirim) e Paraíba do
Meio, em 1684. Ele serviu de base para os ataques ao mocambo da “Serra Daquâ”, que julgamos se
tratar da mesma “serra da Haca”, nos Campos de Cunhaú, citada por Domingos Jorge Velho em seu
requerimento ao rei para ver cumprido o contrato que firmou para a destruição de Palmares. Esta
serra, provavelmente, é a atual serra das Cruzes, no município de Tanque d’Arca, Alagoas, onde os
antigos Campos de Cunhaú encontram os tabuleiros costeiros alagoanos.341 O município vizinho,
Anadia, tem sua origem num arraial chamado Arraial dos Campos (de Cunhaú?), convertido em vila
a partir de 1801-2,342 talvez um arraial auxiliar para as tropas anti-quilombolas que atacaram a
chamada “Serra Daquâ”, ou simplesmente para policiar os Campos de Cunhaú.
A fronteira oeste da mata palmarina começou a ganhar mais importância na campanha. Após
os sucessivos ataques nos mocambos na altura de Porto Calvo e Sirinhaém e a dispersão dos
338 A referência mais tardia das tratativas com Zumbi se encontra na carta de Domingos Jorge de Velho, de 10 de
novembro de 1691, onde condena uma possível trégua, que significaria a anulação de fato do seu acordo com o
governo da capitania. cf. BNL, Coleção Pombalina, vol. 293, fls. 361-363.
339 Ver as descrições em, 1699, novembro, 18, Lisboa CONSULTA do Conselho Ultramarino ao rei D. Pedro II, sobre
nomeação de pessoas para a Companhia de Infantaria, que vagou em Pernambuco no Terço do mestre-de-campo
Jorge Lopes Alonso, por falecimento de Manoel Bernardes Cardoso. AHU_CU_015, Cx. 18, D. 1796; e 1701,
fevereiro, 12, Lisboa CONSULTA do Conselho Ultramarino ao rei D. Pedro II, sobre nomeação de pessoas para a
Companhia de Infantaria, que vagou na capitania de Pernambuco, no Terço do mestre-de-campo Jorge Lopes
Alonso, por falecimento de Antônio Barbosa. AHU_CU_015, Cx. 19, D. 1867.
340 As terras dos Vieira de Melo no Ararobá, e sua relação com os mocambos de Palmares, são tema de outro capítulo.
341 Ver a referência à Serra na folha de serviço deAntônio Pinto Pereira. Cf. 1699, Maio, 6, Lisboa CONSULTA do
Conselho Ultramarino ao rei [D. Pedro II], sobre nomeação de pessoas para ocupar o posto de capitão-mor do
Ceará. Resolução régia a nomear Fernão Carrilho. AHU_CU_006, Cx. 1, D. 42.
342 1801, novembro, 18, Recife, CARTA dos governadores de Pernambuco, ao ouvidor geral de Alagoas, Manoel
Joaquim Pereira de Matos Castelo Branco, sobre criar a vila de São João de Anadia, em Arraial dos Campos.
APEJE, Ofícios do Governo, 9, fl.117v.
122
quilombolas em direção oeste e sudoeste, abriu-se a possibilidade do estabelecimento de tropas e
aldeamentos nos Campos de Garanhuns. O governador Aires de Souza de Castro (1678-1682)
ordenou que se estabelecesse um novo aldeamento de índios do Terço do capitão-mor Camarão
entre os rios Canhoto e Mundaú, que seria responsável por abastecer a campanha de Palmares com
tropas indígenas e munição de boca, evitando as longas caminhadas para o abastecimento das
tropas.343 E, em 1688, parecia que a esperança das autoridades pernambucanas era de que Domingos
Jorge Velho atacaria os mocambos de Palmares a partir de sua fronteira oeste, cruzando os Campos
de Garanhuns até as matas palmarinas.344
Sabemos que, antes de ir aos Palmares, o Terço dos paulistas foi enviado ao sertão do Açu,
nacapitania do Rio Grande, para atuar contra os índios Janduís e seus aliados.345 Em carta de 12 de
fevereiro de 1690346, do governador Antônio Câmara Coutinho (1689-1690) a Rodrigo de Barros
Pimentel – o já referido senhor do engenho do Morro – temos a última referência a tratativas de paz
com Zumbi. O líder palmarino teria enviado uma carta ao senhor de engenho, o qual mandou cópia
ao governador (infelizmente, não encontrada). Também não foi possível encontrar a resposta de
Pimentel a Zumbi, mas o governador escrevia que a aprovava, mandando que o senhor de engenho
esperasse nova carta do negro rebelde, advertindo que “a experiência tem mostrado em muitas
ocasiões a sua pouca fé e verdade, e nesta fora o mesmo, se na nossa mão não estivera o remédio.”
O remédio era o terço de Domingos Jorge Velho, que já estaria em Olinda, se aprontando para a
campanha nos Palmares. 
Na década de 1690, os chamados negros rebeldes dos Palmares estavam circunscritos, pelo
menos no imaginário das autoridades coloniais, ao grupo de quilombolas de Zumbi. Portanto, era
problema bem menor do que a miríade de lideranças rebeldes de outrora. Tanto é assim que o
governador Antônio Félix Machado (1690-1693) dizia não ser mais necessária a implantação de
aldeamentos indígenas nos Palmares para a proteção das vilas, dando a entender que o problema
estava já bastante mais localizado e com solução encaminhada: os paulistas.347
343 “Ordenou ao governador dos índios fosse situar as aldeias entre o rio do Canhoto e o Mundaú.”, 8 de outubro de
1680, AUC, CCA, IV, 3ª-I-1-31, t. 1, fls. 363-363v.
344 “Ordenou ao provedor da Fazenda que das munições que estavam no rio de São Francisco em mão do capitão
Miguel Álvares para fornecimento dos paulistas fossem levadas em conta ao dito capitão duas arrobas de pólvora e
3 de chumbo”, 2 de agosto de 1688, AUC, CCA, IV, 3ª-I-1-31, t. 1, f. 457. Ao longo de toda negociação com o
governo de Pernambuco os procuradores de Domingos Jorge Velho estiveram na freguesia do rio São Francisco.
345 Ver PUNTONI, A Guerra dos Bàrbaros.
346 “Escreveu a Rodrigo Barros Pimentel sobre os Palmares.” 12 de fevereiro de 1690, AUC, CCA, IV, 3ª-I-1-31, t. 1,
f. 487.
347 Ver, “1690, julho, 20, Olinda CARTA do [governador da capitania de Pernambuco], marquês de Montebelo,
[Antônio Félix Machado da Silva e Castro], ao rei D. Pedro II sobre a carta dos oficiais da Câmara de Porto Calvo,
em que pedem sejam aliviados da contribuição do dote da Rainha da Inglaterra, e acerca da ida para Palmares do
paulista Domingos Jorge Velho.” Anexo: 1 doc. Obs.: m.est. AHU_CU_015, Cx. 15, D. 1509. Havia ainda, no
entanto, notícias de escravos fugidos relacionados aos rebeldes dos Palmares, em Una e no Cabo de Santo
Agostinho, como se vê nas ordens do governador de Pernambuco em abril e maio de 1691. cf. Biblioteca Nacional
de Lisboa, Coleção Pombalina, Vol. 293, fls. 86-87; 95.
123
O que se observa pelas evidências documentais é que, após as mortes e prisões de diversas
lideranças quilombolas, pós-1678, o grupo de Zumbi passou a atuar de maneira bem mais isolada.
Ao mesmo tempo, pequenos mocambos, desarticulados entre si, apareciam aqui e ali, fruto de
iniciativas de um conjunto de escravizados de um mesmo senhor, por exemplo. Em 1690, Miguel
Golan Janga, cativo de um alferes de Pernambuco, se encontrava preso em Olinda, sob a alegação
de que “intencionava fugir para um mocambo, para o que tinha induzido vários negros”. A
informação vinha de um sargento-mor, Antônio da Silva Pereira.348 Já o capitão Manoel Rabelo de
Abreu349 pedia autorização, em 1691, para ir ao sertão da freguesia de Una, sul da vila de
Sirinhaém, para onde haviam fugido alguns escravos seus, com notícia de que lá haveria um
mocambo. Entre os rebeldes, afirmava, estariam também “negros levantados dos Palmares”. O
governador Antônio Félix Machado (1690-1693) não apenas autorizava a entrada, como ordenava a
Manoel Rabelo de Abreu que fosse até a viúva de um tal Lourenço de Guimarães e pedisse um de
seus escravos, de nome Diogo, para servir de guia nos matos, pois havia vindo, fazia pouco tempo,
do mesmo mocambo.350
É provável que as tropas de Jorge Velho tenham subido aos sertões dos Palmares no verão de
1691/1692, cruzando a mata até a Serra da Barriga, bacia do rio Mundaú. Serviram naquele sertão
durante anos, para além da morte de Zumbi (1695). Mas diferentemente do esforço de guerra
anterior, em que as tropas coloniais andavam pelos sertões atrás de diversos mocambos e negros
rebeldes espalhados pela capitania, as tropas de Jorge Velho tiveram um alvo bem mais específico e
circunscrito, além de possuírem um poder de ataque constantemente renovado por tropas que se
abasteciam no aldeamento de Santo Amaro, nas Alagoas.351 Além disso, o grande número de índios
que o terço levava consigo garantia um grau muito maior de adaptação da tropa à campanha nos
sertões e florestas, do que as anteriores.
Na documentação dos volumes da Coleção Pombalina, da Biblioteca Nacional de Portugal,
estão diversas cartas trocadas entre Domingos Jorge Velho e a administração da capitania de
Pernambuco.352 Fica bastante claro nesta correspondência a estratégia de ação dos paulistas,
fechando o cerco sobre a área da Serra da Barriga (ou Oiteiro da Barriga, como se referiam ao
monte do quilombo de Zumbi). Após descerem pelo sertão do Ararobá, alcançariam os Campos de
Garanhuns, onde a bagagem da tropa foi alojada, e de onde sairiam para os ataques ao mocambo de
348 BNL, Coleção Pombalina, v. 293, fl. 39.
349 Aparece relacionado como um dos capitães que promoveram expedições aos Palmares antes de 1678, em [Relação
das Guerras Feitas aos Palmares de Pernambuco no Tempo do Governador D. Pedro de Almeida de 1675 a 1678].
ANTT, Manuscritos da Livraria, n. 1185. Papéis Vários, fl. 150v.
350 BNL, Coleção Pombalina, v. 293, fl. 95.
351 “Relação verdadeira da guerra”, p. 303.
352 Em especial o volume 293, “Brasil. Governo de Pernambuco.—1690-1693.—Portarias, Ordens, Bandos, Editaes,
etc., sendo D. Antonio Felix Machado, Marquês de Montebelo, Governador de Pernambuco. —Correspondência
official do mesmo Governador. Ms. in-foi. de 549 pag. numer., com indice minucioso.—Registo autêntico. Tem no
começo o escudo d'armas dos Machados, iluminado.—Pertenceu à livraria de Nossa Senhora da Graça de Lisboa.”
124
Zumbi.353 O capitão-mor da vila de Igaraçu, ao norte de Olinda, Bernardo Vieira de Melo, foi o
responsável pelo abastecimento das tropas paulistas através de uma espécie de arraial auxiliar às
margens do rio Jacuípe (depoisnomeado arraial de São Caetano do Jacuípe)354, assim como pela
abertura de caminhos e estradas por onde os comboios pudessem acessar o sertão do Ararobá e dos
Garanhuns, cruzando toda a mata.355 Havia ainda o arraial montado próximo ao aldeamento de
Santo Amaro, nas Alagoas (depois da guerra, nomeado como Arraial de Nossa Senhora das Brotas),
de onde tropas saíam em direção ao cerco da Serra da Barriga.356 A dispersão das tropas por estes
locais garantia a capacidade dos paulistas em manter um cerco permanente nos Palmares entre 1691
e 1694, e foi decisiva para o enfraquecimento da resistência quilombola. Entre o primeiro ataque de
Jorge Velho, em outubro de 1692, e a destruição do mocambo, em janeiro de 1694, pouco mais de
um ano se passou.357
Para os historiadores Manoel Arão e Alfredo Brandão, o último cerco aos negros de Palmares
na Serra da Barriga fora romantizado e engrandecido por Rocha Pita, e depois por Rocha Pombo358,
dando-lhe dimensões incompatíveis com as evidências documentais. Estas, “induzem antes a uma
série de pequenos combates, uma sorte de guerrinhas isoladas e em pontos diferentes”, quando a
organização defensiva palmarina já não era a mesma de tempos atrás.359 Mais ainda, quando a
quantidade de redutos havia diminuído consideravelmente. As tropas das diversas vilas iam se
revezando na assistência ao arraial de Domingos Jorge Velho, uma substituía a outra na guerra,
como se tentou fazer antes no arraial de Carrilho, não com o mesmo sucesso. Por exemplo, em
janeiro de 1693, o capitão Domingos Gonçalves de Nevoa, morador na freguesia do rio São
Francisco, queria se juntar a Domingos Jorge Velho nos Palmares, às suas custas, e foi então
nomeado pelo governador como cabo de uma tropa.360 
Em janeiro de 1694, a viagem entre Santo Amaro e o front onde estava Domingos Jorge Velho
durou seis dias para a tropa do capitão Bernardo Vieira de Melo. A descrição da batalha deixa claro
que o ataque seguiu os moldes costumeiros, cercando o mocambo e atacando mais fortemente “por
353 “Carta do capitão-mor Domingos Jorge Velho Sobre o levantamento do tapuia que estava em sua companhia. 7 de
agosto de 1691”, BNL, Coleção Pombalina, 293, fls. 355-357.
354 Ver “Carta do Mestre de Campo paulista Domingos Jorge Velho. 10 de novembro de 1691”, BNL, Coleção
Pombalina, 293, fls. 361-363; e “Carta para a câmara do Porto Calvo para darem as farinhas e consertarem umas
armas aos paulistas, 4 de agosto de 1692”, BNL, Coleção Pombalina, 293, fls. 379-380.
355 O que foi atribuído também a seu irmão mais novo, Antônio Vieira de Melo. Cf. “Documentos e notas que ao
Instituto Arqueológico e Geográfico oferece J. D.” In: GONSALVES DE MELLO, José Antônio. O Diário de
Pernambuco e a história social do Nordeste 2. Recife: Ed. O Cruzeiro S. A., 1975, p. 772. Esta compilação de
documentos especificamente sobre os Vieira de Melo, seu patrimônio e sua relação com a guerra de Palmares será
explorada em outro capítulo.
356 Ver OLIVEIRA, “A primeira rellação do último assalto a Palmares”, pp. 300-324.
357 O relato do primeiro ataque de Jorge Velho à Serra da Barriga está em, “Carta do mestre de campo Domingos Jorge
Velho ao Marques [de Montebelo], 27 de novembro de 1692”, BNL, Coleção Pombalina, 293, fls. 404-405.
358 POMBO, J. Francisco da Rocha. História do Brasil. 10 v. Rio de Janeiro: 1905-1917, volume 5.
359 BRANDÃO, Alfredo. Viçosa de Alagoas… apud ARÃO, Manuel. “Os quilombos dos Palmares”. In: Revista do
Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico de Pernambuco, v. 24, nº 115/118, 1922, p. 252.
360 “Constituiu ao capitão Domingos Gonçalves cabo das tropas que foram a guerra dos Palmares.”, 7 de janeiro de
1693, AUC, CCA, IV, 3ª-I-1-31, t. 1, f. 524v.
125
trás”, isto é, a partir do oeste em relação ao mocambo de Zumbi na Serra da Barriga. Ainda naquele
verão, o último reduto fortificado de Zumbi no sertão de Alagoas foi destruído, e os sobreviventes
que não foram capturados se espalharam pelo sertão pernambucano.
O sertão do Ararobá parece ter sido um dos lugares escolhidos para a escapada. E o
governador Caetano de Melo de Castro (1693-1699) mandava que se fizesse entrada a “um
mocambo de negros levantados para a parte do Orobo [Ararobá]”.361 No mesmo ano de 1694, outro
mocambo era invadido no sertão do São Francisco362, assim como tropas eram enviadas aos sertões
para atacar mocambos, saindo da freguesia de Ipojuca363, da vila de Sirinhaém364 e da Mata de Santo
Antão365, em 1695 – esta última comandada por Bernardo Vieira de Melo.
Os mocambos se interiorizavam cada vez mais, à medida que o financiamento das expedições
permitia campanhas melhor estruturadas. Já na década de 1690, com nova crise do setor açucareiro,
o grupo de Zumbi já estava demasiadamente enfraquecido e isolado para resistir às campanhas
paulistas na Serra da Barriga.
4. Palmares após Zumbi: controle e silenciamento
Ainda no final de 1695 Zumbi foi assassinado pela gente do Terço paulista, em uma
emboscada, traído por um dos seus.366 Camoanga seria a liderança que tomaria seu lugar nos
Palmares, ainda antes da virada do século. Teria negociado uma rendição com o Bispo de
Pernambuco, por volta de 1698, mas o governador e o Conselho Ultramarino alertavam o rei para a
impossibilidade do acordo, que parecia se chocar frontalmente com os interesses dos paulistas nas
matas palmarinas. Assim, o governador dizia que era impossível negociar com Camoanga “em
tempo certo e lugar determinado”, porque “as entradas que fazem os paulistas no sertão se repetem
amiudadamente, nunca poderá [Camoanga] demorar em um lugar”, restando resolver-se “com ele e
com seus sequazes, pelo meio das armas, que é o único”.367 
361 “Ordenou ao capitão Francisco Dias fizesse entrada em um mocambo de negros levantados.”, 4 de fevereiro de
1694, AUC, CCA, IV, 3ª-I-1-31, t. 1, f. 558.
362 “Mandou ao capitão Damião Gonçalves fazer uma entrada da parte do rio de São Francisco nos mocambos de
negros levantados.”, 28 de junho de 1694, AUC, CCA, IV, 3ª-I-1-31, t. 1, f. 559v.
363 “Nomeou ao ajudante João Rodrigues Pereira cabo de uma tropa contra os negros dos Palmares.”, 21 de fevereiro
de 1695,AUC, CCA, IV, 3ª-I-1-31, t. 1, f. 574.
364 “Nomeou ao capitão Francisco de Abreu Bezerra cabo de outra tropa para o mesmo efeito.” 22 de fevereiro de
1695, AUC, CCA, IV, 3ª-I-1-31, t. 1, f. 574v.
365 “Ordenou ao prov. mandasse pagar ao capitão Lázaro Frazão a importância dos mantimentos que deu para o
sustento da infantaria que foi a guerra dos Palmares.” 15 de abril de 1695, AUC, CCA, IV, 3ª-I-1-31, t. 1, f. 577v-
578.
366 [562v] n. 19 Ordenou ao provedor mandasse dar ajuda de custo a quem trouxe a cabeça do negro Zumbi.”, 20 de
dezembro de 1695, AUC, CCA, IV, 3ª-I-1-31, t. 1, f. 562v; 1696, março, 14, Pernambuco CARTA do [governador
da capitania de Pernambuco], Caetano de Melo de Castro, ao rei [D. Pedro II], sobre a morte e decapitação do negro
Zumbi. Anexo: 1 doc. Obs.: m. est. AHU_CU_015, Cx. 17, D. 1697.
367 “1700, junho, 24, Recife CARTA do governador da capitania de Pernambuco Fernão Martins Mascarenhas de
Lencastro, ao rei [D. Pedro II], sobre a redução do negro Camoanga dos Palmares.” Anexo: 1 doc. AHU_CU_015,
126
Os mocambos de Pernambuco, em fins do século XVII, já não mais se concentravam apenas
nas matas dos Palmares, agora extremamente vigiadas pelos paulistas de Jorge Velho – terras que
ele almejava conseguir em sesmarias para si e seus comandados. Assim, notícias de pequenos
mocambos de fugitivos dos Palmares começavam a surgir e adentraram o século XVIII. Em 1700, o
sargento-mor do Terço de Henrique Dias, Manoel Barbalho de Lira, teria atacado “os negros
levantados em Hainam, escapados dos Palmares”.368 Infelizmente, não temos informações precisas
sobre a localidade referida no documento. E em 1704, Domingos Jorge Velho era ordenado a

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