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Profa. Mestra Ana Carolina Peck Psicanalista - CPPA/Psicóloga CRP: 10/04906 Especialista em Psicologia da Saúde e Hospitalar - IEPS Mestra em Psicologia - UFPA • OBJETIVO DA UTI: Restabelecer o funcionamento de um ou vários sistemas orgânicos, severamente alterados, até que a patologia que motivou a internação seja adequadamente compensada, ou que os parâmetros fisiológicos atinjam níveis aceitáveis. • ADMISSÃO NA UTI: quando a probabilidade de sobrevida sem tratamento intensivo é pequena e quando pacientes que não estão gravemente enfermos, têm alto risco de agravamento do quadro clínico. • INTENSIVISMO: Especialidade que apresenta caráter interdisciplinar voltado para o cuidado da pessoa em estado crítico, de forma ininterrupta, por uma equipe de profissionais de saúde com treinamento e competências específicas. Ambiente de múltiplos fatores estressantes Para Profissionais de Saúde, Pacientes e Familiares • Ambiência: Luminosidade /Temperatura, funcionamento de aparelhos e baterias, restrições à alimentação e à locomoção, supervisão da higienização etc. • Avaliações frequentes por parte da equipe: limitam privacidade das pessoas/intimidade do corpo; relações/dificuldades familiares ficam expostas. • Dinâmica de urgência: grande responsabilidade pelo paciente, CH extensa, privação do sono, sobrecarga física e psíquica. • Krodi (2009): • A UTI é um lugar com funcionamento a parte do mundo, com ritmo e vidas próprias. • O tempo é contado: com os resultados dos últimos exames, com os dias de internação, com os dias dos antibióticos, com os dias pós-cirurgias ou com a progressão da dieta alimentar. • Tudo é intenso na UTI: o tratamento, o risco, as emoções, o trabalho, os custos e a esperança (SIMONETTI, 2011). UTI ADULTO Estratégia básica do psicólogo em UTI: criar canais para o expressão dessas intensidades por meio da palavra falada, e embora o foco primário de atendimento seja o paciente/família, o psicólogo se vê muitas vezes escutando outros personagens dessa cena: médicos apressados, enfermeiras atarefadas e familiares angustiados. • Condes et al (2012): O paciente na UTI entra em contato direto com a dor, sofrimento, solidão e possibilidade de morte, pode apresentar importante problemas orgânicos, psicológicos e psiquiátricos: Delirium, depressão, ansiedade, transtorno de ajustamento, dificuldade em lidar com o distanciamento da família. • Sebastiani (2001): A cadência de atividades constantes na UTI nas 24h, rotina, o acordar e dormir intermitente, ausência do contato com o mundo externo, a falta de conversa, de orientação acaba trazendo para a pessoa, com mais de 3 dias na UTI... • SINDROME DA UTI: Desorientação (tempo e de espaço físico); Comportamentos estranhos; Frases desarticuladas; Alteração sensoperceptiva ; Fuga de ideias; Atitudes obsessivas; Derivação para quadros delirantes; Desconfigurações da imagem perspectiva real; circulo circadiano desorganizado (função da ausência de atividades, da ação de fármacos, das oscilações de consciência, da falta de estímulos específicos) etc. MEDIDAS PREVENTIVAS E INTERVENTIVAS FRENTE A SÍNDROME DA UTI Ambiente: box individual, com janela, relógio (orientação), painel de fotos e lembranças, manutenção de prótese, óculos, aparelho auditivo • Atendimento Psicológico: ✓Estimulação psíquica, visual ✓Oferecendo orientação temporal ✓Reforçando atividades que o paciente goste e tenha condições de realizar ✓Orientando visita de familiares ✓Trazendo informações sobre o mundo externo. 1. Participação da entrada/admissão na UTI 2. Primeiro atendimento visando orientar paciente e família acerca da rotina da UTI 3.Avaliação Psicológica inicial: Condição psíquica: alterações emocionais/comportamentais: ansiedade, desesperança, passividade, regressão, humor deprimido, delirium/comportamento auto-destrutivo, adesão ao tratamento (rejeição das medicações, procedimentos), tentativas de suicídio, gritos, tentativa de evasão, se existe necessidade da equipe solicitar avaliações complementares (ex: Psiquiatria, AS), relação do paciente com sua doença, com a equipe, com a UTI, suas funções cognitivas, etc. ACOMPANHAMENTO PSICOLÓGICO 4. conduta para os próximos atendimentos 5. Atendimentos com caráter interventivo: paciente entre em contato com seus aspectos emocionais desencadeados pela doença/internação. 6. Mediação paciente-equipe 7. Atendimento Familiar (Individual ou Grupal): Papel do paciente na dinâmica familiar, impactos da doença no núcleo familiar, Alterações de papeis, medo da perda e da morte, luto antecipatório, identificar membros familiares que tenham recursos psíquicos preservados e que possam auxiliar no enfrentamento no processo de adoecimento e hospitalização. ACOMPANHAMENTO PSICOLÓGICO 8. Visita Aberta ou Estendida: Avaliar, medir e acompanhar. 9. Acompanhar Visitas: Antes e Pós. 10. Acompanhar Boletins Médicos e Realizar atendimento após os Boletins ou Comunicações de Alterações de Quadro Clínico. 11. Participar de Rounds ou Discussão de casos Clínicos, visando fornecer informações diárias do Estado Psíquico do Paciente. ACOMPANHAMENTO PSICOLÓGICO •Grupos de Reflexão acerca da Tarefa Assistencial •Grupos com Familiares ACOMPANHAMENTO PSICOLÓGICO ✓Fala está mantida como forma privilegiada de comunicação. Não recuar diante do silencio/ coma: ainda há ali subjetividade. ✓Cria, inventa novas formas de linguagem: linguagem não-verbal deve ser explorada: bilhetes, comunicação gestual, pequenos toques são bastantes eficientes. ✓Paciente não fala, o psicólogo fala para ele, sobre ele, diz. Ex: como está indo o tratamento, o quanto a família deseja sua recuperação etc (SIMONETI, 2011). • Pacientes com dificuldades de falar (comatosos, sedados, nível de consciência rebaixados, entubados ou deprimidos). • Simonetti (2011): Relato de muitos pacientes que estiveram em coma, que, embora não fossem capazes de falar, ainda assim registraram o que ouviram. UTI NEONATAL O que chama atenção na imagem? UTI NEONATAL O que chama atenção nesta imagem? • Presença (máquinas, fios e tubos /essenciais) ao redor da criança • Mal podemos ver o bebê ao centro da incubadora- criança pode não prender a atenção do observador. • Lugar idealizado para crianças pequenas - quarto bebê. UTI NEONATAL Até 28 dias • Por que os bebês são levados a UTINS? • Malformações • Prematuridade • Desconforto respiratório • Baixo peso (-2.500g) e muito baixo peso (- 1.500g) • Asfixia UTI NEONATAL • A chegada de um bebê é compreendida como um grande desafio para as famílias sendo, inclusive, um estágio de importantes alterações no ciclo de vida familiar. • A hospitalização configura-se como um evento estressante e angustiante para pais e familiares. Momento de crise, haja vista, o repentino rompimento de expectativas, revelando uma realidade muito distante da idealizada. • Presença constante e paradoxal de sentimentos como dor, sofrimento, alegrias, tristezas e extremos de vida e morte convivendo coexistindo. Bradt (2001): Krodi (2009): • O encontro da família com o bebê na UTIN é impactante: cercado de fios e tubos, este familiar teve que se paramentar e lavar a mão de forma diferenciada. É comum que o 1º a ver o bebê seja o pai/exerce a função paterna – o bebê chega poucas horas após o parto. E a mãe ficará internada 48h. • Bebê na UTIN é a expressão máxima do desamparo e é preciso propor seu resgate orgânico e psíquico • Semblante é de Horror - para o qual não encontra palavras – o psicólogo/analista facilita a fala, oferta a escuta. O bebê idealizado INTERVENÇÕES PSICOLÓGICAS Bebê, Pais e Cuidadores na UTI neonatal O bebê idealizado O bebê da realidade • Confronto das idealizações/Luto- bebê imaginado e bebê real (frágeis, pequenos e doentes) dá-se de forma intensificada, abrupta, violenta e traumática. • Expressões de dor/ marcas roxas no corpo/na pele- insuportáveis (provocadas por alguns procedimentos).• Dentro do corpo: aquilo que a medicação visa combater, uma infecção generalizada, um tumor ou algo dessa ordem, seja muito mais grave. Bebê, Pais e Cuidadores na UTI neonatal O bebê idealizado O bebê da realidade • Os pais trazem um desejo endereçado àquele bebê. • São os pais e seu desejo que poderão tecer um lugar simbólico para o filho ainda que passem pelo horror inicial provocado pela internação na UTIN • O reconhecimento do lugar dos pais para a construção subjetiva do bebê - implica numa rede de cuidados. Reações Emocionais O bebê idealizado O bebê da realidade Presença de mecanismos de defesa: • Negação: rejeição por parte dos pais das informações médicas sobre o quadro clinico e possíveis seqüelas no bebê. • Regressão: inúmeras solicitações são feitas para obter maior atenção da equipe. • Deslocamento: raiva e sentimentos hostis, por sentirem-se incapazes de gerar um filho perfeito, são transferidos para familiares, equipe e instituição. • Aproximar/estabelecer um vinculo afetivo com o bebê x dificuldades de ir em casa descansar (CONDES et al, 2012). Intervenções Psicológicas O bebê idealizado O bebê da realidade ✓Entrevista inicial com a mãe e/ou família: ocorre logo após o parto. Visa a avaliação dos recursos internos da familiar, repercussões psíquicas frente a internação do bebê, com objetivos de estabelecer um projeto terapêutico. ✓Atendimento aos pais, cuidadores e familiares ✓Intervenções junto à equipe de assistência: discussões sobre o estado emocional dos familiares, mediação na comunicação equipe/família e manejo adequado. Intervenções Psicológicas O bebê idealizado O bebê da realidade ✓Incentivos à participação da mãe/pai nos cuidados primários ao bebê: podem sentir-se excluídos. Promover o (re)stabelecimento da competência parental, contribuindo para o desenvolvimento da vinculação afetiva. ✓Permanência dos pais juntos ao paciente: possibilita a aproximação e o contato com as repercussões do nascimento e hospitalização do recém- nascido, pela proximidade com a rotina e com a equipe da UTI, o que colabora no estabelecimento e/ou fortalecimento do vínculo com o bebê. Intervenções Psicológicas O bebê idealizado O bebê da realidade ✓Visitas de outros membros da família ✓Grupo de apoio aos pais: diminuição do estresse vivenciado pela condição de “co-hospitalização”, redução do sentimento de isolamento social, construção de uma rede de apoio entre os pais, mobilização de recursos de enfrentamento. ✓Acompanhar Boletins/Discussão de Casos ✓Assistência ao familiares por ocasião de óbito neonatal: Favorece o acolhimento e mobilização para a continuidade do atendimento em ambulatório de forma a elaborar o luto pela perda. • Caso de B. (puérpera com RN internado na UTI neonatal) que ao cantar para seu bebê prematuro na UTI neonatal, teve como efeito deste endereçamento, o reconhecimento por parte da equipe, de que suas palavras/voz contribuíam para o controle da saturação do bebê. Além de estimular as outras mães a enfrentarem o horror inicial com a prematuridade e investirem em seus bebês (BALTAZAR et al, 2010). ✓A presença da mãe, autorizada e potencializada pela equipe da UTIN poderá ter um efeito organizador para o bebê, pois a voz da mãe impõe outro ritmo às intervenções voltadas para o mesmo. ✓ Para nós, o valor da presença dessa mãe é inquestionável, trata-se não somente de uma política humanizadora do espaço neonatal, mas de uma intervenção precoce em saúde mental, uma vez que a presença deste Outro é fundante para o sujeito. REFERÊNCIAS ✓ BALTAZAR, D.; GOMES, R.; CARDOSO, T. Atuação do psicólogo em unidade neonatal: rotinas e protocolos para uma prática humanizada1. Rev. SBPH, Rio de Janeiro , v. 13, n. 1, p. 02- 18, jun. 2010. ANGERAMI-CAMON, V. ; (ORG.). Psicologia Hospitalar: Teoria e Prática. 2ª Edição. SP: Pioneira, 1995. • ELIACHEFF,C. Corpos que gritam: A psicanálise com bebês. SP: Editora Ática, 1995. • JERUSALINSKY, A. et al. Psicanálise e desenvolvimento infantil. 3ª edição. Porto Alegre: Artes e Ofícios Ed, 2004. • MATHELIN, C. O sorriso de Gioconda: clínica psicanalítica com bebês prematuros. RJ: companhia de Freud, 1999. • KRODI, P. Psicanálise, saúde e desenvolvimento humano na prática do analista em Unidade de Terapia intensiva neonatal. SP, 2009. • WILZE, B. (Org.). A Psicologia na Saúde: da Atenção primária à alta complexidade. SP: Casa do psicólogo, 2012. • SIMONETTI, A. Manual de Psicologia Hospitalar: O mapa da doença. Casa do Psicólogo, 2011.