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LÍNGUA ESPANHOLA III 
 
2 
 
 
 
SUMÁRIO 
1 MORFOLOGIA DA LÍNGUA ESPANHOLA: CONTEXTUALIZAÇÃO ................ 4 
1.1 Processo de formação de palavras ......................................................... 4 
1.2 Estrutura das palavras ........................................................................... 12 
1.3 Aspectos morfológicos regionais ........................................................... 15 
2 SUBSTANTIVOS ........................................................................................... 20 
2.1 Substantivo e suas classificações ......................................................... 20 
2.2 Substantivos heterogenéricos ............................................................... 24 
2.3 Radicais latinos e heterossemânticos .................................................... 29 
3 ADJETIVOS ................................................................................................... 32 
3.1 Adjetivos e a concordância nominal ...................................................... 32 
3.2 Adjetivos e valores culturais .................................................................. 38 
3.3 Adjetivos no discurso............................................................................. 42 
4 NUMERAIS .................................................................................................... 47 
4.1 Definição ............................................................................................... 48 
4.2 Numeral apocopado .............................................................................. 55 
4.3 Numerais no texto ................................................................................. 60 
5 ORTOGRAFIA E PROSÓDIA ........................................................................ 64 
5.1 A sonoridade da língua espanhola geograficamente ............................. 64 
5.2 Diferentes modos de fala ....................................................................... 70 
5.3 Léxico variacional escrito ...................................................................... 73 
6 ACENTUAÇÃO .............................................................................................. 76 
6.1 Regras de acentuação gerais e especiais ............................................. 76 
6.2 Regras gerais de acentuação ortográfica .............................................. 77 
6.2.1 Palavras agudas ou oxítonas....................................................... 78 
6.2.2 Palavras graves, llanas ou paroxítonas ....................................... 79 
6.2.3 Palavras esdrújulas ou proparoxítonas ........................................ 79 
6.2.4 Palavras monossílabas ................................................................ 80 
 
3 
 
6.3 Regras especiais de acentuação ortográfica ......................................... 81 
6.3.1 Hiato ............................................................................................ 81 
6.3.2 Acento diferencial ou diacrítico .................................................... 82 
6.4 A acentuação e a sua importância no espanhol .................................... 84 
6.5 O acento prosódico ............................................................................... 85 
6.6 O acento nas interrogações e nas exclamações ................................... 88 
7 BIBLIOGRAFIA BÁSICA ................................................................................ 91 
8 BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR................................................................ 92 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
4 
 
1 MORFOLOGIA DA LÍNGUA ESPANHOLA: CONTEXTUALIZAÇÃO 
A língua espanhola é um idioma latino que apresenta palavras com marcas de 
gênero e número e verbos com muitas desinências de flexão. A morfologia estuda 
esses aspectos e analisa o processo de formação de palavras. Você conhece a 
estrutura das palavras espanholas? Identifica as diferenças morfológicas regionais 
desse idioma? 
Nesta seção, você vai estudar o processo de formação de palavras, a estrutura 
das palavras e os aspectos morfológicos regionais da língua espanhola. 
 
 
Fonte: http://idiomaseculturas.com.br/ 
 
1.1 Processo de formação de palavras 
O processo de formação de palavras, também conhecido como morfologia 
léxica, estuda a construção e a derivação de palavras. Tradicionalmente, essa parte 
da morfologia é dividida em derivação e composição. A primeira refere-se às 
palavras que se formam a partir de uma base léxica e o acréscimo de um afixo, como 
em neocolonialismo. Já a segunda refere-se a palavras que se formam a partir da 
união de duas bases léxicas, como em malacostumbrado (RAE, 2010). 
http://idiomaseculturas.com.br/
 
5 
 
A Real Academia Española (RAE) (2010), na Nueva Gramática de la Lengua 
Española, divide a formação derivacional nos seguintes tipos: nominal, adjetival e 
adverbial, verbal e apreciativa. Na derivação nominal, os substantivos surgem a partir 
de verbos (deverbales), substantivos (denominales) e adjetivos (deadjetivales). 
Os substantivos deverbales dão nome a uma ação expressa pelo verbo. 
Observe a palavra realización, que deriva do verbo realizar e expressa não só o verbo 
como também o efeito dessa ação. Os substantivos adjetivales expressam a 
qualidade inerente ao adjetivo do qual derivaram. Observe a palavra beleza, que 
deriva de bello e expressa a qualidade do que é bello. Veja agora os principais sufixos 
que formam substantivos de ação e efeito. 
Os sufixos -ción, -sión, -zón e -ión formam substantivos derivados de verbos 
das três conjugações. O sufixo se une ao tema, à raiz e à vogal temática do verbo. 
Veja: 
 
 Demoler = dem (raiz) o (vogal temática) ler (desinência); 
 Demolición = dem (raiz) o (vogal temática) li (desinência) ción (sufixo). 
 
Verifique a seguir alguns substantivos formados a partir de verbos com o 
acréscimo do sufixo -ción e suas variações: 
 
 
O sufixo -miento, depois de -ción, é o mais utilizado em espanhol. As palavras 
formadas por ele surgem da sua união com a raiz e a vogal temática do particípio dos 
 
6 
 
verbos. Entretanto, esse tipo de formação é ainda mais comum com o uso de verbos 
parassintéticos, isto é, que exigem o acréscimo de dois afixos. Esse é o caso dos 
 
 
seguintes substantivos: abaratamiento, ahorcamiento, emparejamiento, 
enajenamiento, engrandecimento, padecimento, recrudecimiento, rejuvenecimiento. 
Além disso, alguns nomes surgem a partir de outros substantivos que se formaram a 
partir de verbos. Veja: 
 
 
 
Segundo a Real Academia Española (2010), os substantivos derivados a partir 
do sufixo -miento podem expressar ação e efeito, como: acompañamiento, 
casamiento, derrumbamiento, descubrimiento, enrojecimiento, libramiento, 
requerimiento, tratamiento. Além disso, podem se referir à interpretação da ação, 
como: alabamiento, apuñalamiento, custionamiento, engrandecimento, 
ensañamiento, envenenamiento. 
Já o sufixo -(a)je se liga a raízes de verbos de primeira conjugação e forma 
substantivos que também indicam ação ou efeito de um verbo. Verifique a seguir 
alguns substantivos formados a partir de verbos com o acréscimo desse sufixo: 
 
 
 
 
7 
 
 
A raiz dos verbos das três conjugações e a vogal temática dos seus infinitivos 
podem se unir ao sufixo -dura e formar substantivos que indicam qualidade, como em: 
torcedura e investidura (RAE, 2010). 
 
 
Os sufixos vocálicos -a, -e e -o formam substantivos derivados de verbos. 
Observe: 
 
 
 
Existem também os chamados derivados participiales, ou seja, aqueles 
substantivos cuja forma coincide com a dos particípios: asado, cercado, cocido, tejido, 
batido, llamada, salida, subida. 
Os nomes terminados em -ado, -ada, -ido e -ón formamum grande grupo. Os 
com o sufixo -ada designam ações similares a golpes: cuchillada, punhalada, 
pescozada, uñada. Já os com o sufixo -ado indicam medida, como: cucharada e 
sartenada. O sufixo -ido refere-se a sons, por exemplo, ronquido, silbido, zumbido. Os 
nomes com sufixo -ón, por sua vez, não têm relação com o aumentativo, apenas são 
formados a partir de verbos da primeira conjugação, como: agarrón e empujón. 
Os substantivos derivados do sufixo -azo costumam surgir de outros 
substantivos, como se observa em: pistoletazo e puñetazo. Já os substantivos de 
qualidade surgidos a partir de adjetivos surgem com frequência com o uso do sufixo - 
dad. Veja: 
 
 
8 
 
 
 
Na atualidade, é muito mais comum a formação de palavras a partir do sufixo 
que é derivado de -dad, ou seja, o sufixo -edad: solidariedad, complementariedad. Os 
nomes de qualidade também se formam com os sufixos -ía, -eria, -ia e -ncia, 
como 
 
 
em: filología, idolatría, caballería, gramatiquería, niñería, politiquería, audacia, 
eficacia, elecuencia (RAE, 2010). 
Veja agora os nomes formados pela união de um adjetivo com o sufixo -ismo: 
fatalismo, revanchismo. Os sufixos -dor/-dora formam nomes de pessoas, 
instrumentos e lugares, como: trabajador, vendedora e pescador. Já os sufixos -dero/- 
dera, -ero/-era, -torio/-toria, -ario/-aria formam nomes de agente e de lugar: panadero, 
tejedera, fregadero, barrendero, carniceiro, cafetera, arrendatario, dignatario. 
Os nomes derivados de -ista referem-se a pessoas, como em: anarquista e 
publicista. O mesmo ocorre com o sufixo -nte, como: cantante. Contudo, instrumentos 
e produtos também são formados por esse sufixo: calmante, tirante. Nomes de 
conjunto, lugar e tempo podem ser formados pelos sufixos: 
 -ía, -ería, -erío, -ío (jerarquia, cristalería, mujerío); 
 -ario, -era, -ero, -al, -ar, -eda, -edo (epistolario, fichero, instrumental, olivar, 
alameda, hayedo); 
 -iza, -ambre, -dura, -amen (caballeriza, pelambre, armadura, pelamen); 
 -aje, -ado, -ada, -ción, -zón (oleaje, profesorado, arcada, documentación, 
criazón). 
 
9 
 
De acordo com a Real Academia Española (2010), as palavras derivadas de 
adjetivales, são formadas a partir de substantivos e verbos. As formações mais 
comuns são apresentadas no quadro a seguir: 
 
 
 
 
 
 
A derivação verbal, de acordo com a RAE (2010), segue o seguinte esquema 
de formação: 
 
10 
 
 
 
As palavras formadas por derivação também podem surgir do acréscimo de 
prefixos. Para a Real Academia Española (2010), eles costumam ser classificados de 
acordo com o significado que imprimem às palavras. Veja: 
 
 
 
11 
 
 
 
 
O outro processo que forma palavras é chamado de composição. Ele ocorre 
quando duas palavras (ou mais de uma raiz) se unem e formam uma palavra 
composta. Veja a seguir as principais formações. 
 Substantivo + substantivo não atributivo: coliflor, telaraña. 
 Substantivo + substantivo atributivo: bebé probeta, lengua madre. 
 Adjetivo + adjetivo: agridulce, sordomudo. 
 Substantivo + adjetivo: medialuna, radioeléctrico.  Verbo + substantivo: 
cortapuros, guardacoches. 
 Numeral + advérbio: milflores, monodáctilo. 
Em resumo, as palavras da língua espanhola são formadas ou a partir da 
derivação, ou a partir da composição. Em ambos os processos, observam-se 
diferentes elementos que se unem para que um todo tenha significado. 
 
 
 
 
12 
 
1.2 Estrutura das palavras 
 
Para que uma palavra seja formada e seja reconhecida como um termo que 
possui significado sozinho, é preciso que tenha passado por um processo de união de 
diferentes elementos. Assim, é possível constatar que as palavras são constituídas 
por diferentes elementos desprovidos de significação, mas que, juntos, formam a sua 
estrutura. 
Segundo a Real Academia Española (2010, p. 7), “[...] las voces derivadas 
constan de una raíz y un afijo. La raíz aporta el significado léxico, y los afijos agregan 
informaciones de diverso tipo”. Dessa afirmação, constatam-se dois elementos de 
uma palavra: a raiz e os afixos. Vamos conhecê-los? 
A raiz fornece a base do significado da palavra e remete o leitor (ou ouvinte) a 
um conceito existente na realidade. Observe: 
 
Altura, alteza, altivo, altivez, altamente, altitude 
 
O que essas palavras têm em comum? Todas elas são da mesma família, pois 
têm a mesma raiz: alt. Portanto, a raiz é o elemento comum a palavras que seguem 
um paradigma derivativo. 
A diferença na escrita, na pronúncia e no significado dessas palavras 
dependerá dos afixos que serão acrescentados a elas. Nesse sentido, afixos são os 
elementos que se agregam à raiz, alterando-lhe o sentido. Em espanhol, eles se 
classificam em prefijos e sufijos. Os primeiros aparecem antes do radical (enaltecer); 
os segundos, depois do radical (altamente). 
Note que, na palavra altamente, entre a raiz e o sufixo, há uma vogal (a). Esse 
elemento é chamado de vogal temática. Ela se junta à raiz para formar uma base 
para receber as desinências. Costuma-se chamar essa união entre raiz e vogal 
temática de tema. As desinências assinalam as flexões da palavra, isto é, marcam o 
gênero e o número (no caso dos verbos, acrescentam-se modo, tempo e pessoa). 
Dessa forma, abre-se espaço para a morfologia flexiva. Ela estuda as variações 
das palavras, ou seja, refere-se ao paradigma flexivo. Isso significa que as variações 
 
13 
 
das palavras podem ter consequências nas relações sintáticas, como as questões de 
concordância. 
As flexões de número fornecem informação quantitativa. Observe: 
 La pequeña niña se quedó triste. 
 Las pequeñas niñas se quedaron tristes. 
 
Note que a diferença entre as duas orações está diretamente relacionada à 
flexão de número. Na primeira oração, o artigo la, os adjetivos pequeña e triste e o 
verbo quedar estão flexionados no singular; já na segunda oração, estão todos 
flexionados no plural. Assim, há duas possibilidades para a flexão de número: 
singular e plural. Contudo, a informação de número indica apenas a quantidade de 
substantivos. A flexão das demais classes se deve a exigências de concordância. 
De acordo com a RAE (2010, p. 35): 
 
[…] el número es una propiedad gramatical característica de los sustantivos, 
los pronombres, los adjetivos, los determinantes [...] y los verbos. Se presenta en 
dos formas: singular [...] y plural. En el caso de los substantivos y los 
pronombres, el número es informativo, puesto que permite expresar si se 
designan uno o más seres; en el resto de los elementos con flexión de 
número, es una manifestación de la concordância. 
 
A informação de gênero — assim como ocorre na língua portuguesa — não 
acontece em todas as palavras. Há aquelas em que a desinência a marca o gênero 
feminino (niña), e aquelas em que a desinência o marca o gênero masculino (niño). 
No entanto, há palavras em que a marca do gênero está no determinante: la dentista, 
el dentista. De qualquer maneira, há duas possibilidades de flexão de gênero: 
masculino e feminino. 
Os verbos constituem a classe que mais apresenta flexões. Na forma verbal, é 
possível distinguir a raiz (também chamada de radical); às vezes, as marcações de 
tempo e modo; e, quando se trata de uma forma pessoal, a desinência (também 
chamada de terminación) da pessoa do discurso. Observe: 
 
 
14 
 
 
 
Observe que, na forma verbal, há a desinência para a pessoa do discurso. 
Existem seis possibilidades: 1ª, 2ª e 3ª pessoa do singular (yo, tú, él), e 1ª, 2ª e 3ª 
pessoa do plural (nosotros, vosotros, ellos). Entretanto, em espanhol, não é 
obrigatório falar nem escrever esses pronomes diante dos verbos, pois a própria 
desinência indica a pessoa do discurso. 
As formas impessoais (no personales) são classificadas em infinitivo, gerúndio 
e particípio. (GONZÁLEZ HERMOSO, 1996). 
Quando o verbo está nessas formas, não é possível localizar desinência de 
pessoa do discurso.Observe: 
 
Negar – negando – negado 
Querer – queriendo – querido 
Bendecir – bendeciendo – bendecido 
 
 
A desinência de modo acompanha a de tempo. No exemplo anterior, da forma 
amábamos, a letra b revela-se típica para a conjugação dos verbos na primeira 
conjugação (terminados em ar no infinitivo) no pretérito imperfeito. Se esse verbo 
fosse conjugado no pretérito do subjuntivo, a letra r marcaria a desinência modo 
temporal: amara. 
A formação dos tempos simples é feita ou a partir da raiz do verbo (presente 
do indicativo, do subjuntivo e do imperativo, imperfeito do indicativo, pretérito 
indefinido, gerúndio e particípio), ou a partir do infinitivo (futuro do indicativo e 
condicional). Observe a seguir um exemplo de cada terminação (GONZÁLEZ 
HERMOSO, 1996). 
 Verbo amar no presente do indicativo: radical + -o = amo 
 Verbo comer no presente do subjuntivo: radical + -a = coma 
 
15 
 
 Verbo escribir no imperfeito do indicativo: radical + -ía = escribía 
 Verbo amar no futuro do indicativo: infinitivo + -é = amaré 
 Verbo comer no condicional: infinitivo + -ía = comería 
 Verbo escribir no gerúndio: radical + -iendo = escribiendo 
 
 
Já na conjugação dos verbos irregulares, há modificações ortográficas que 
identificam as desinências dos verbos. Veja a seguir. 
 Diptongación E – EI (acertar/acierta; apretar/aprieta) 
 Diptongación O – EU (comprobar/comprueba; descontar/descuenta) 
 Diptongación E – IE y transformación E – I (advertir/advierte; conferir/ confiere) 
 Diptongación O – EU y transformación O – U (dormir/duerme) 
 Transformación E – I (pedir/pido) 
 Transformación I – IE (adquirir/adquiere) 
 Transformación U – EU (jugar/juega) 
 Verbos terminados em -ACER, -ECER, -OCER, -UCIR que transforman C- ZC 
delante de O y A (obedecer/obedezca) 
 Verbos terminados em -DUCIR que transforman C – ZC delante de O y A 
(traducir/traduzca) 
 Verbos terminados em -UIR que cambian I – Y delante de A, E, O 
(concluir/concluye) 
Evidencia-se que cada elemento das classes gramaticais apresentadas 
constitui a estrutura das palavras. Esses elementos que só possuem significação no 
universo da língua são denominados morfemas gramaticais, ou seja, não são como 
os morfemas lexicais, os quais remetem a ações, estados, qualidades no mundo 
objetivo. Os morfemas são segmentos das palavras que auxiliam na construção dos 
significados delas, acrescentando uma informação (GONZÁLEZ HERMOSO, 1996). 
1.3 Aspectos morfológicos regionais 
 
A formação das palavras nem sempre ocorre de forma exatamente igual em 
todas as regiões em que uma língua é falada. Com o espanhol não é diferente: a 
 
16 
 
proximidade com outras línguas e as transformações casuais que afetam um dialeto 
determinam usos diferentes das palavras. Consequentemente, as suas estruturas 
também podem ser modificadas. A Real Academia Española (2010) aponta algumas 
diferenças na formação e no uso das palavras, de acordo com a região em que a 
língua espanhola é falada. Veja a seguir algumas distinções morfológicas conforme a 
localização. 
O substantivo calor, por exemplo, é utilizado pela maior parte dos 
hispanohablantes como um substantivo masculino, mas há uma opção informal, 
utilizada por alguns nativos, em que calor recebe um artigo feminino: la calor. Ainda 
quanto ao gênero, uma questão curiosa refere-se à palavra mar. Para o espanhol 
prestigiado, esse substantivo é feminino; porém, as pessoas relacionadas ao mar 
empregam essa palavra com o gênero masculino. Já a palavra arte sofre 
transformações em todas as regiões: geralmente é aplicada no singular como 
masculina (el arte europeo) e, no plural, como feminina (las belas artes). 
Entretanto, a questão geográfica pode ser determinante para a alternância de 
gênero. Por exemplo, pijama ou piyama, embora seja uma palavra masculina em 
muitos países, é comumente usada no feminino (la piyama) no México, em parte da 
América Central e no Caribe. Algo parecido ocorre com a palavra pus. Ainda que o 
seu uso seja majoritariamente masculino, ocorre no Chile, no México e em alguns 
países da América Central, tanto na língua formal quanto na informal, a alternância 
entre os dois gêneros, com preferência para o feminino. Já a palavra bikíni (ou biquíni) 
sofre modificações na região do Rio da Prata, onde é aplicada no gênero feminino, ao 
contrário das demais regiões, em que é masculina. Tanga, uma palavra masculina no 
espanhol europeu, tem gênero feminino em quase toda a América. 
As diferenças são marcadas também na formação das palavras. No processo 
de derivação, encontram-se muitos substantivos formados pelo sufixo -dura. Contudo, 
no espanhol americano, principalmente nas regiões caribenha e chilena, esse 
processo é muito produtivo. Ele é utilizado para formar nomes de instrumento ou meio 
para algo, como: aserradura e techadura. 
A RAE (2010) destaca também o grande número de palavras formadas com o 
sufixo -e na língua utilizada pelos jovens e no mundo esportivo, como chute, corte, 
despelote. Porém, os derivados em -o são mais usados nas Américas: macaneo, 
pescueceo. 
 
17 
 
Além das diferenças nas formações de palavras, as localizações geográficas 
podem imprimir significados diferentes às criações léxicas. Essas diferenças podem 
ser percebidas nos derivados de particípio, que geralmente expressam ações e 
efeitos. No entanto, palavras como: bebida e pintada, que costumam ser aplicadas 
apenas no sentido de efeito, são utilizadas em Porto Rico para designar ações. Já o 
particípio traída, na Espanha, é utilizado apenas com a palavra água: traída del água. 
Na América, esse particípio pode unir-se a outras palavras, como: traída de los dólares 
e traída de los futebolistas. 
No espanhol americano, há a alternância entre llamado e llamada, no sentido 
de ação e de efeito de llamar; na Europa, porém, usa-se apenas llamada. Já a palavra 
vuelto é aplicada em quase toda a América, mas na Europa e em Porto Rico, é usada 
como vuelta. Na Colômbia, por sua vez, é utilizada no plural: las vueltas. 
Na América, o sufixo -ada é usado para formar palavras que designam uma 
batida dada em um lugar, e não uma batida dada com algo. Esse é o caso de palavras 
como cachetada, pescozada. Esses derivados relacionam-se com os particípios que 
se referem a movimentos impetuosos. Na América e nas Ilhas Canárias, existe a 
formação de substantivos que designam ações contínuas intensas ou repetidas a 
partir do sufixo -dera, como em: llovedera e borrachera. Uma especificidade da 
Colômbia e da Venezuela está no uso da palavra lejura, que se refere a lejos. O sufixo 
-ura é unido a um advérbio para formar um substantivo de qualidade. 
No México, no Chile e em grande parte da América Central, usam-se as 
palavras: asador, cenador, comedor, corredor, desayunador, para fazer referência a 
um instrumento. Já o sufixo -ero/-era permite a formação de vários substantivos que 
dão nomes a profissões e ocupações. É comum que esses sufixos se acoplem a 
termos usados em áreas linguísticas não coincidentes, como nas palavras plomero 
(usada no espanhol americano) e fontanero (usada no espanhol europeu). 
Além dessas questões sobre formações de palavras, há outras diferenças 
típicas entre o espanhol americano e o espanhol europeu. Um exemplo importante é 
o uso do voseo na região rio-platense. Além disso, na América, o plural de tú é ustedes 
e, na Europa, é vosotros. Ainda na área dos verbos, há a conjugação do pretérito do 
subjuntivo. Veja nos Quadros a seguir, as formas mais comuns na América 
(GONZÁLEZ HERMOSO, 1996). 
Terminações em ar: formas comuns na América 
 
18 
 
 
Fonte: Adaptado de Espanhol Grátis (2018, documento on-line). 
 
 
Terminações em er/ir: formas comuns na América 
Fonte: Adaptado de Espanhol Grátis (2018, documento on-line). 
 
Veja nos Quadros abaixo as formas mais comuns utilizadas na Espanha. 
 
 
Terminações em ar: formamais usual na Espanha 
 
19 
 
 
Fonte: Adaptado de Espanhol Grátis (2018, documento on-line). 
 
 
Terminações em er/ir: forma mais usual na Espanha 
 
Fonte: Adaptado de Espanhol Grátis (2018, documento on-line). 
 
Saber identificar e comparar esses aspectos morfológicos regionais de língua 
espanhola é fundamental para o aprendiz desse idioma. Afinal, para desenvolver a 
competência comunicativa, ele terá de desenvolver as competências linguística, 
discursiva, acional, sociocultural e estratégica. Aliás, de acordo com Nariño Rodriguez 
(2017, p. 29): 
 
20 
 
Embora o léxico esteja incluído na competência linguística, acreditamos que 
a CL faz parte das outras competências [...], já que o aluno não pode apenas 
limitar-se ao simples conhecimento das unidades lexicais de forma isolada, 
mas deve conhecer seus sentidos, suas variantes e seu uso adequado no 
contexto comunicativo e situacional para poder fazer uso delas em situações 
reais de comunicação. 
 
Portanto, para atingir os objetivos comunicativos na aprendizagem de 
espanhol, é preciso aprofundar os conhecimentos morfológicos sobre esse idioma. 
 
2 SUBSTANTIVOS 
 
 
Os substantivos estão presentes na maior parte das orações que criamos: 
indicam quem realizou o fato, quem o sofreu, etc. Mas qual a sua importância para os 
estudos de brasileiros aprendizes de espanhol? Que peculiaridades essa classe 
gramatical apresenta e que devem receber atenção especial? 
Vamos estudar o conceito de legibilidade estrutural: os substantivos e as suas 
classificações, os heterogenéricos e os heterossemânticos. 
 
2.1 Substantivo e suas classificações 
 
Os substantivos são palavras que dão nome aos seres, aos objetos, aos 
sentimentos, etc. São, portanto, a classe gramatical que corresponde a várias funções 
sintáticas (BIZELLO, 2018). Observe: 
 
La profesora entregó la prueba a los alumnos por la 
mañana. 
 
 
21 
 
Note que o substantivo, nesse exemplo, ocupa funções sintáticas diferentes: 
sujeito (profesor), objeto indireto (alumnos), objeto direto (prueba) e adjunto adverbial 
(mañana). 
Essa supremacia do uso nas orações se deve à grande variedade de 
possibilidades de entidades que os substantivos podem denotar. Aliás, essa 
diversidade é que permite dividir os substantivos em várias classificações. 
A primeira divisão mais comum dessa classe é entre substantivos comuns e 
próprios. Para compreender as características de cada um, observe o exemplo. 
 
Dolores siente dolores en la pierna. 
 
 
Qual é a diferença entre Dolores e dolores? Além da diferença ortográfica (letra 
maiúscula e minúscula), há a diferença semântica. Dolores é um substantivo próprio 
que já identifica um ser de características próprias, pessoais e únicas num contexto. 
Já dolores é um substantivo comum, ou seja, uma palavra que distingue um grupo 
e não um ser apenas. 
Veja mais um exemplo: 
 
 
¿En qué 
avenida vives? En la 
Avenida 9 de Julio. 
 
A palavra avenida refere-se a qualquer avenida, enquanto a palavra Avenida 
identifica uma específica. De acordo com a Real Academia Española, a RAE (2010, 
p. 209): 
 
 
[…] el nombre común [...] se caracteriza, en efecto, por clasificar o categorizar 
las personas, los animales [...] según ciertos rasgos comuns que los 
 
22 
 
distinguen. Los nombres propios no participan en relacionada léxicas [...], 
aunque establecen correspondencia con los nombres similares de otras 
lenguas, no tienen propiamente traducción. 
 
Os substantivos próprios, embora não tenham um significado próprio, têm um 
valor denominativo. Os indivíduos recebem nomes particulares, que os diferenciam de 
outros de mesma espécie. 
Outra classificação dos substantivos é contables e no contables. Os primeiros 
são aqueles que podem ser enumerados, já os segundos não têm essa possibilidade. 
Veja: 
 
Compré un 
libro. Compré dos 
libros. 
 
Note que o substantivo libro pode ser contado ou enumerado. Já o substantivo 
café, por exemplo, designa quantidades da substância ou da matéria. Veja: 
 
Compré un poco de café. 
 
 
Dessa forma, evidencia-se que essa classificação revela o comportamento 
gramatical do substantivo, isto é, se aceita modificadores na frente ou não. Os 
substantivos no contables não costumam ser flexionados no plural. Observe: 
 
Siento mucha alegría. (não 
alegrías) Él hizo poco esfuerzo. (não 
esfuerzos) 
Essa madre tiene poca paciencia. (não paciencias) 
Já os contables alternam singular e plural: 
 
23 
 
Comí una 
manzana. Comí trés 
manzanas. 
 
Além disso, podem aparecer sem determinação: 
 
 
Comí manzanas. 
 
 
 
Há também os substantivos colectivos. São nomes flexionados no singular, 
mas que têm significado plural. Veja: 
 
Compré nuevo mobiliario para mi casa 
 
 
Note que mobiliario designa, no singular, um conjunto homogêneo de coisas, 
isto é, móveis. Entretanto, os colectivos podem designar também pessoas e animais: 
familia, rebaño, público. Tradicionalmente, os coletivos são divididos em determinados 
e indeterminados, ou seja, os que levam em seu significado a natureza de seus 
componentes (orquestra) e os que não têm essa característica (docena). 
Há também a divisão de acordo com a forma: léxicos (possuem estrutura 
morfológica, como em manada) e morfológicos (formam-se com os denominados 
sufixos de sentido abundancial, como em alumnado). (BIZELLO, 2018). 
Os substantivos classificam-se também em cuantificativos e clasificativos. 
Observe: 
 
Bebí un litro de agua. 
 
 
24 
 
A palavra litro admite como complemento um grupo nominal sem determinante 
(agua) a que quantifica. Dessa forma, litro é um substantivo cuantificativo. Contudo, 
há substantivos que classificam outros, como em: 
 
Tuvo una especie de premonición. 
 
Observe que a palavra especie classifica a palavra premonición. Note que tanto 
os substantivos cuantificativos quanto os clasificativos aparecem em estruturas 
pseudopartitivas, introduzidas pela preposição de seguida de um grupo nominal sem 
determinante. 
Em resumo, o substantivo tem classificações variadas, que cumprem um papel 
específico. Para aplicar essa classe gramatical com adequação, é preciso considerar 
todos os tipos de nomes. 
 
2.2 Substantivos heterogenéricos 
 
 
Os substantivos formam uma classe gramatical que carrega a marca de gênero 
e leva os seus determinantes a se flexionarem de acordo com esse gênero (BIZELLO, 
2018). Observe: 
 
La mesa blanca se rompió. 
Toda la familia parecía entusiasmada. 
Unos hombres callados salieron de aquí ahora. 
¿Aquellos libros son tuyos? 
 
 
Note que, nesses exemplos, o gênero dos substantivos determina o gênero das 
demais classes gramaticais. Nesse sentido, mesa, substantivo feminino, exige que o 
artigo la e o adjetivo blanca também sejam femininos. O substantivo familia, por ser 
 
25 
 
do gênero feminino, condiciona o gênero do pronome toda, do artigo la e do adjetivo 
entusiasmada. A mesma determinação ocorre com os substantivos masculinos das 
frases do exemplo: se hombres é um substantivo masculino, unos e callados também 
serão; se libros está flexionado no masculino, os pronomes que o determinam também 
serão flexionados nesse gênero. 
Portanto, os substantivos podem ser masculinos e femininos e servem para 
diferenciar o gênero do referente, como em: presidente/presidenta, gato/gata, 
niño/niña. Contudo, nos demais casos, o gênero dos substantivos é apenas uma 
propriedade gramatical inerente, desconectada do gênero. Geralmente, palavras 
terminadas em o são masculinas e as terminadas em a são femininas. Esses exemplos 
mostram palavras que têm a mesma raiz e prefixos diferentes. No entanto, também há 
os de raízes diferentes: nuera/yerno; caballo/yegua. Esses são chamados de 
heterónimos. 
No entanto, a terminação nem sempre mostra claramente o gênero a que 
corresponde o substantivo. Observe: 
 
Esta es mi propiedad. 
En micasa hay un césped muy bello. 
 
Analise as palavras propiedad e césped. A primeira é feminina e a segunda é 
masculina, isto é, a terminação é igual (d), mas o gênero é diferente. Há ainda 
substantivos em que o gênero é revelado apenas pelos determinantes: el testigo/ la 
 
 
testigo, el profesional/ la profesional. Os nomes ambíguos quanto ao gênero 
designam a mesma entidade: la mar/el mar e el vodka/la vodka. 
Existem também os substantivos epicenos, cujo gênero é sempre o mesmo. A 
indicação de um gênero ou outro dos seres ocorre com o acréscimo de hembra ou 
varón: el rinoceronte varón e el rinoceronte hembra. Os substantivos epicenos que 
não se referem a animais não recebem esse acréscimo: el personaje, la víctima. 
Assim como ocorre na língua portuguesa, o masculino na língua espanhola é o 
gênero não marcado, e o feminino é o marcado. De acordo com a Real Academia 
 
26 
 
Española (2010) “[…] en la designación de personas y animales, los sustantivos de 
género masculino se emplean para referirse a los individuos de eso sexo, pero 
también para designar a toda la especie, sin distinción de sexos, sea en singular o en 
plural” 
Observe fragmentos de um texto (VALLESPIN, 2018, documento on-line): 
 
Cuando estudiaba la ESO sufría por los alumnos que no tiraban". Pero fue en 
un campus de verano organizado por la fundación Empieza por Educar donde 
impartió clases a estudiantes de ESO con muchas asignaturas pendientes 
para setiembre donde lo vio claro. Fue el primer choque con la realidad de las 
cifras de abandono escolar e inequidad educativa. Allí se hicieron realidad. 
Las historias que explicaban los chicos no me dejaron indiferente. Y me 
convencí que quería trabajar en educación, pero ya no en cualquier sitio. 
 
Note que a palavra alumnos está flexionada no masculino plural. Contudo, ela 
se refere a alunos e alunas. O mesmo ocorre com a palavra chicos: o masculino plural, 
nesse contexto, revela que se trata dos dois gêneros. 
Contudo, nem sempre o uso do masculino evidencia se a intenção é tratar de 
toda a espécie ou apenas dos varones. Veja o fragmento de uma reportagem 
jornalística (GRIJOTA, 2017, documento on-line): 
 
Cómo afecta a mi desarrollo lo que come papá 
Las investigaciones científicas siguen revelando aspectos sorprendentes 
relacionados con la figura del padre en la crianza 
Decidir ser padres es una gran responsabilidad, eso no es nada nuevo, pero 
la comprensión profunda de lo que ello significa es un camino que todavía 
tiene muchos matices por descubrir. Estudios científicos recientes sobre la 
paternidad han revelado lo que de manera instintiva ya se sabe, que decidir 
ser padre es un rol mucho más vital para los progenitores de lo que a priori 
pueda parecer 
 
 
Observe que a palavra padres, no início da reportagem, poderia referir-se 
apenas aos homens ou aos homens e às mulheres. Entretanto, evidencia-se mais 
adiante, com a palavra paternidad, que a intenção é tratar apenas dos homens. 
Há também uma tendência de construções com os dois gêneros. Nesse caso, 
a finalidade é não hierarquizar os gêneros ou deixar claro que estão todos inclusos. 
 
27 
 
Entretanto, há outros recursos para evidenciar que se trata de toda a espécie, como 
de ambos sexos ou tanto hombres como mujeres. 
Em espanhol, há uma convenção: substantivos terminados em aje são 
masculinos, e substantivos terminados em umbre são femininos. Dessa forma, já 
se pode notar que, entre a língua portuguesa e a espanhola, há substantivos 
comuns com gêneros diferentes. Veja a seguir: 
 
 
 
Esses substantivos podem ser chamados de heterogenéricos, pois têm um 
gênero em espanhol e outro em português. Os dias da semana também são exemplos 
de substantivos heterogenéricos, já que, em espanhol, são masculinos. Veja: 
 
 
 
 
 
28 
 
 
Observe que, em português, sábado e domingo são masculinos, assim como 
em espanhol — aliás, essas palavras são cognatas. Contudo, os outros dias da 
semana são heterogenéricos. 
Na realidade, o espanhol herdou do latim a forma de nomear os dias da 
semana. A origem está relacionada a objetos celestiais identificados pelos romanos: 
Luna (lunes), Marte (martes), Mercúrio (miércoles), Júpiter (jueves), Vênus (viernes), 
Saturno (sábado), Sol (domingo). Já na língua portuguesa, a origem remete à Idade 
Média e à fé cristã: o domingo, dia do senhor, é o primeiro dia; o segundo dia é a 
segunda-feira, e assim por diante. 
 
 
Fonte: http://www.maktraduzir.com.br/ 
 
Observe, no quadro a seguir alguns heterogenéricos que são masculinos em 
espanhol e femininos em português. 
 
 
Heterogenéricos em português e espanhol 
http://www.maktraduzir.com.br/
 
29 
 
 
 
Fonte: Os heterogenericos... ([201-?]). 
 
2.3 Radicais latinos e heterossemânticos 
 
 
Os seres humanos se comunicam por meio de uma linguagem verbal, isto é, 
por um sistema de símbolos e códigos que é utilizado por um mesmo grupo de um 
país ou uma região. Esse sistema é conhecido como língua (BIZELLO, 2018). 
 
30 
 
De acordo com o dicionário Houaiss (LÍNGUA, 2004, p. 458), “[...] língua é um 
conjunto das palavras e das regras que as combinam, usadas por uma comunidade 
linguística como principal meio de comunicação e expressão, falado ou escrito”. 
 
 
Assim, o sistema da língua portuguesa é um, e o da língua espanhola é outro; 
porém, os dois idiomas têm uma base comum: ambos são resultado de 
transformações do latim. As duas línguas se originaram do latim vulgar falado pelas 
pessoas que habitavam a Península Ibérica. Todavia, com a divisão dos reinos, a 
população que pertencia ao Reino de Castela passou a modificar a sua língua, 
inclusive em razão do contato com outros povos (o domínio árabe, por exemplo, 
deixou heranças marcantes na língua espanhola), e desenvolveu-se o que hoje se 
chama de língua espanhola. Já o português surgiu do chamado galego-português, 
uma transformação que o latim sofreu na região onde atualmente estão os territórios 
de Galiza e Portugal. Com a consolidação da autonomia política e a expansão do 
império português, houve a distinção e a separação entre galego e português. 
Dessa forma, a herança latina aparece até hoje no espanhol e no português. 
Daí decorre um dos motivos de haver tantas palavras cognatas entre as duas línguas. 
No entanto, mesmo compartilhando tantas palavras, origens e radicais, as línguas 
portuguesa e espanhola têm divergências. Uma das divergências que mais complica 
os estudos dos aprendizes de espanhol são os falsos cognatos, também conhecidos 
como heterossemânticos. 
Vamos analisar o significado dos radicais e prefixos de algumas dessas 
palavras? Observe os heterossemânticos perjuicio e prejuízo. Eles se referem a uma 
perda ou um dano de algum tipo. Entretanto, em espanhol, há o prefixo per, que 
significa “movimento através”. Já em português, há o prefixo pre, que indica 
“anterioridade”. Observa-se, portanto, que ambos os vocábulos se referem à 
depreciação de algo — seja o movimento de desvalorização, seja a anterioridade da 
depreciação. 
Os vocábulos prejuicio e preconceito, do espanhol e do português, 
respectivamente, também têm o prefixo pre, que indica algo anterior. Assim, haverá 
um julgamento prévio ou a elaboração de um conceito anteriormente. 
A palavra presunto (em espanhol) é constituída pelo prefixo pre; logo, também 
tem relação com a ideia de anterioridade. De fato, presunto refere-se a uma hipótese 
 
31 
 
ou uma suposição, ou seja, a uma elaboração prévia. Assim, tem relação direta com 
a sua tradução em português: suposto. 
Em contrapartida, o prefixo pro indica movimento para frente, ou seja, algo 
positivo, favorável. Dessa forma, prolijo remete ao verbo lijar (lixar, em espanhol). O 
 
 
ato de lixar deixa uma superfície lisa, sem imperfeições. Isso se espera de 
quem é caprichoso, isto é, que seja favorável ao cuidado. Portanto, essa palavra 
dialoga diretamentecom seu significado: caprichoso. 
Observe a palavra portuguesa torpe. O que ela significa? É um adjetivo 
relacionado ao verbo entorpecer. A tradução para o espanhol é impúdico. Im indica 
uma negação, nesse caso, de pudor. Confirma-se, então, a sua relação com o 
português: a falta de pudor é uma característica típica de quem está entorpecido. 
Contrariar e contestar formam um par de falsos cognatos; no entanto, ambos 
têm o prefixo con, que indica uma ação conjunta em oposição. Nesse sentido, estão 
em sintonia com o significado dessas palavras. 
Essa mesma sintonia se verifica no par distinto e diferente. Os prefixos dis e di 
associam-se à ideia de separação, movimento para diversos lados. O significado 
dessas palavras tem relação direta com essa noção, afinal, caracterizam atividades a 
partir da diversidade (BIZELLO, 2018). 
Agora analise os seguintes pares de falsos cognatos: 
 
 
Escoba – 
vassoura Cepillo 
– escova 
 
Note que o prefixo es aparece numa palavra da língua espanhola (escoba) e 
numa palavra da língua portuguesa (escova). As duas estão relacionadas ao 
significado do prefixo es: movimento para fora. No entanto, escoba faz um movimento 
no chão para varrer e escova faz um movimento no cabelo e nos dentes para pentear 
e escovar. Portanto, embora sejam heterossemânticos, compõem o mesmo grupo 
semântico. 
 
32 
 
Em espanhol, apodo significa apelido. As duas palavras iniciam com a, que 
indica afastamento, separação. De fato, apelido e apodo se afastam do nome próprio. 
A palavra zangado, do português, é dita em espanhol como enojado. En é um prefixo 
que significa “movimento para dentro” — exatamente a questão emocional e pessoal 
de quem está zangado. 
Em síntese, embora as línguas portuguesa e espanhola compartilhem 
substantivos cognatos, há palavras que têm grafia e sons semelhantes nos dois 
idiomas, mas apresentam significados diferentes. Entretanto, uma investigação sobre 
os radicais e prefixos latinos permite que se constate que os heterossemânticos 
compartilham radicais e prefixos com seus correspondentes na língua-irmã (BIZELLO, 
2018). 
3 ADJETIVOS 
Os adjetivos são essenciais para a produção de textos orais e escritos, uma 
vez que eles favorecem o detalhamento e a descrição, e contribuem com a imaginação 
e as referências do leitor. Mas como aplicá-los de acordo com as regras de 
concordância e com a finalidade discursiva? 
Nesta seção, você vai estudar a concordância nominal, a relação entre 
adjetivos e valores culturais e o uso de adjetivos no discurso. 
3.1 Adjetivos e a concordância nominal 
Os adjetivos é uma classe gramatical que cumpre o papel de caracterizar um 
substantivo. Dessa forma, é uma palavra que se une a um nome, atribuindo a ele 
vários significados. Veja: 
 
La calle estrecha está rellena 
de gente. Tengo un hambre atroz. 
 
Note que a informação das frases estaria completa sem os adjetivos, mas a 
presença deles garante o acesso às propriedades e às qualidades desses nomes. 
Nesse sentido, de acordo com a Real Academia Española (2010, p. 237), “[…] entre 
 
33 
 
el sustantivo y el adjetivo se establece una relación de predicación. Esta se manifiesta 
sintácticamente como modificación [...] o como atribución […]”. 
Portanto, essas manifestações sintáticas interferem diretamente na 
concordância nominal. 
Observe: 
 
 
La antigua casa de Bruno estaba sucia y llena de polvo. 
 
 
Note que antigua é um adjetivo flexionado no singular e no feminino, porque se 
refere ao substantivo feminino singular casa. Da mesma forma, o adjetivo que aparece 
mais distante do substantivo casa (isto é, sucia) também segue essa regra. 
Essa mesma relação se estabelece com os substantivos comuns, os infinitivos 
substantivados e alguns pronomes (principalmente os indefinidos). (BIZELLO, 2018). 
Veja: 
 
Compré un raro 
vestido. María tiene un 
andar rápido. 
Encontré alguien muy alegre hoy. 
 
Observe que o adjetivo pode exercer diferentes funções sintáticas: 
 
Diego está alegre. 
La niña alegre salió de la casa. 
 
 
Na primeira frase, alegre funciona como predicativo do sujeito; na segunda, 
funciona como adjunto adnominal. Contudo, independentemente da função sintática, 
o adjetivo concorda em gênero e número com o substantivo a que se refere. 
 
34 
 
 
 
Fonte: https://www.brasileiraspelomundo.com/ 
 
Segundo a Real Academia Española (2010, p. 243) 
 
 
[…] la flexión del adjetivo se limita a reproducirlos rasgos de género y número 
del sustantivo. Así, el plural del adjetivo altas en paredes altas constituye una 
marca de concordancia, mientras que el de altas o altos en altas médicas 
[...] tiene contenido semántico, puesto que se trata de sustantivos. En estos 
últimos casos, el plural es, por tanto, informativo. 
 
 
Observe: 
 
 
Mi abuela está 
vieja. Mis abuelas 
están viejas 
 
Veja que as palavras vieja e viejas são adjetivos que concordam com os seus 
respectivos substantivos abuela e abuelas. Entretanto, vieja pode assumir o papel de 
substantivo e, nesse caso, a flexão de número passa a ser uma informação. 
 
http://www.brasileiraspelomundo.com/
 
35 
 
La vieja cruzó la calle. 
Las viejas cruzaron la calle. 
 
 
Nas duas frases, há palavras que costumam caracterizar substantivos. Porém, 
aqui elas não se referem a nenhum substantivo: elas são a referência do grupo 
nominal. Uma regra importante sobre concordância determina que os adjetivos 
cualificativos coordinados concordem necessariamente com o substantivo (BIZELLO, 
2018). Veja: 
 
Compré dos 
adornos bellos. Compré un 
adorno bello. 
 
Note que, nesse caso, não é possível flexionar os adjetivos de forma diferente 
da flexão do substantivo: 
 
*Compré dos adornos bellos y pequeño. 
 
 
Por outro lado, adjetivos de relación podem levar traços de plural. Veja: 
 
 
El candidato dijo que va a 
desarrollar políticas social y cultural. 
Están vivos todavía mis abuelos materno y 
paterno. Leí los capítulos primero y segundo. 
 
 
 
36 
 
Além dessas, há outras regras de concordância a que os adjetivos estão 
associados. Veja a seguir. 
 Quando há dois ou mais substantivos ou pronomes no singular e cada um deles 
se refere a uma entidade diferente, o adjetivo deve ser flexionado no plural: 
 
La falda y la blusa nuevas se quedaron sobre la cama. 
 
 
 Quando há dois ou mais substantivos coordenados e eles têm gêneros 
diferentes, o adjetivo fica no masculino plural: 
 
La falda y el saco nuevo se quedaron sobre la cama. 
 
 
 Quando o adjetivo aparece após vários substantivos e os qualifica, recomenda-
se que ele seja flexionado no masculino plural se os substantivos são de 
gêneros diferentes: 
 
Compré falda y saco blancos. 
 
 
 Se os substantivos coordenados são concebidos como unidade, o adjetivo 
pode concordar em gênero e número com o mais próximo: 
 
Conocí persona de origen y habla inglesa. 
 
 
 
37 
 
 Se o adjetivo aparece antes de vários substantivos, costuma-se realizar a 
concordância apenas com o mais próximo: 
 
La nueva ropa y coche le dieron más confianza. 
 
 
 Quando o adjetivo aparece após substantivos unidos pela conjunção o 
denotando exclusão, é recomendável que ele fique no masculino plural: 
 
La botella o el estuche rojos desaparecieron. 
 
 
 Quando há vários adjetivos coordenados no singular e eles modificam um 
substantivo plural, os adjetivos ficam no singular. 
 
Hay perros de raza juguetón y calmo. 
 
 
Há outras regras que seguem modelos: 
 de tipo ou de caráter + adjetivo = masculino singular: No hubo discusiones de 
tipo afectivo. 
 lo + adjetivo + que = adjetivo concorda com o substantivo: Esto revela lo 
olvidada que María está. 
Em resumo, embora a tradição leve o adjetivo a concordar em gênero e número 
com o substantivo a que se refere, é preciso estar atento a questões específicas que 
essa classe gramatical denota, ao sentidoda frase e à organização das informações. 
Nesse contexto, essas determinações muitas vezes são resultado de questões 
culturais que ratificam um uso do adjetivo e consagram determinada aplicação 
(BIZELLO, 2018). 
 
38 
 
3.2 Adjetivos e valores culturais 
 
A identidade cultural de um povo está associada a aspectos étnicos, religiosos, 
geográficos e também à identidade linguística, a qual costuma estar atrelada à 
determinação da língua oficial de uma nação. Nesse sentido, língua e cultura têm uma 
relação intrínseca que influencia a identidade. 
A cultura latina refere-se primeiramente à cultura dos latinos, isto é, dos 
fundadores de Roma. Assim, passou a ser referência para todo o legado desse povo, 
desde o Império Romano. Hoje os países cuja língua oficial surgiu dos povos 
românicos são considerados latinos. Dessa forma, os hispanohablantes são 
vinculados com o legado étnico cultural latino nas tradições religiosas, festivas e 
idiomáticas. 
 
 
 
Fonte: https://www.jornalopcao.com.br/ 
 
A língua espanhola surgiu de transformações do latim vulgar, que tinha 
palavras com gênero feminino, masculino e neutro. No espanhol, foi mantida a 
distinção dos gêneros masculino e feminino, mas não há o neutro. Assim, as palavras 
que eram neutras no latim pertencem, no espanhol, ao masculino ou ao feminino. Os 
adjetivos seguiram essa tradição (BIZELLO, 2018). 
Veja: 
http://www.jornalopcao.com.br/
 
39 
 
 
 
La 
niña bella 
El niño 
bello 
El libro interesante 
La escena interesante 
 
 
O domínio árabe, que durou mais de 500 anos na Península Ibérica, deixou um 
grande legado, desde novas culturas para plantações até questões científicas. Um 
aspecto importante desse período é o enriquecimento que os conquistadores 
proporcionaram à língua peninsular, por exemplo com novos vocábulos (BIZELLO, 
2018). 
Veja alguns adjetivos que surgiram dessa mescla entre o árabe e o espanhol: 
 
 
 Chismoso 
 Embarazada 
 Joroba 
 Macabro 
 Mezquino 
 Místico 
 
A língua espanhola é falada atualmente em vários países. Cada região constrói 
a sua marca e desenvolve variedades linguísticas. Veja no quadro a seguir alguns 
exemplos de gírias em três países de fala espanhola. 
 
 
40 
 
 
 
 
 
 
 
41 
 
 
Essa heterogeneidade marca os territórios da língua espanhola como espaços 
culturais híbridos (KOCH, 2018, documento on-line). Valores como costumes e 
crenças complementam essa pluralidade. Nesse sentido, para adquirir e desenvolver 
a língua espanhola, o aprendiz precisará conhecer músicas, lendas, tradições, 
festividades que dão voz às características de um povo. 
A língua espanhola é falada por povos que têm o costume de conversar e 
reunir-se com os amigos para debater. A própria origem latina remete a isso: é comum 
afirmar que os povos latinos são mais amigáveis e calorosos. Assim, se nas línguas 
de origem germânica uma pergunta costuma ser respondida com um simples sim ou 
não, nas românicas é comum que o falante justifique, indague, acrescente ideias e 
detalhes — daí a necessidade de usar muitos adjetivos para ilustrar os cenários, os 
personagens, os fatos. Observe, na reportagem a seguir (KOCH, 2018, documento 
on-line) os adjetivos que apoiam o autor na expressão de ideias. 
 
En el cine de lujo, como en casa 
Las primeras salas españolas con sillones reclinables y amplia oferta 
gastronómica buscan recuperar al público con su comodidad. 
Tom Cruise lleva más de dos horas cruzando el mundo y salvándolo. Se ha 
lanzado desde 8.000 metros de altura, quemado las calles de París en moto 
y se ha agarrado a un helicóptero en vuelo. Mientras tanto, cómodamente 
tumbado, Markel Bergara se ha limitado a observar sus gestas. Su mayor 
esfuerzo físico debe de haber sido mover la mano hacia la mesita de su sillón, 
para cogerla Coca-Cola o pescar entre las raciones que comparte con sus 
amigos: nachos, tacos y minihamburguesas. Junto con este joven de 32 años, 
otra treintena de personas ha escogido ver las peripecias de Misión: 
Imposible. Fallout de la misma forma: pagando más, pero reclinados y con el 
estómago lleno. 
 
O que aconteceria se esses adjetivos fossem retirados do texto? Observe: 
 
En el cine, como en casa 
Las primeras salas con sillones y oferta buscan recuperar al público con su 
comodidad. 
Tom Cruise lleva más de dos horas cruzando el mundo y salvándolo. Se ha 
lanzado desde 8.000 metros de altura, quemado las calles de París en moto 
y se ha agarrado a un helicóptero en vuelo. Mientras tanto, cómodamente, 
Markel Bergara se ha limitado a observar sus gestas. Su mayor esfuerzo debe de 
haber sido mover la mano hacia la mesita de su sillón, para cogerla Coca- Cola 
o pescar entre las raciones que comparte con sus amigos: nachos, tacos y 
minihamburguesas. Junto con este joven de 32 años, otra treintena de 
 
42 
 
personas ha escogido ver las peripecias de Misión: Imposible. Fallout de la 
misma forma: pagando más, pero reclinados y con el estómago. 
 
Note que, de forma geral, a informação essencial continua a ser transmitida. 
No entanto, os adjetivos especificam ou ampliam o significado das palavras a que eles 
se referem. Esse é o caso de españolas: observe que esse adjetivo especifica salas. 
Já o adjetivo amplia imprime um sentido ao texto que seria modificado se houvesse 
a supressão do grupo adjetival. Aliás, algumas frases ficam sem sentido quando o 
adjetivo é suprimido, como em: pero reclinados y con el estómago. 
Portanto, caracterizar e relacionar os substantivos com o uso de adjetivos faz 
parte da tradição, da história e da cultura da língua espanhola. Nesse sentido, aplicar 
essa classe gramatical com adequação é fundamental para que haja uma 
comunicação clara e eficiente (BIZELLO, 2018). 
 
 
Fonte: https://blogdoenem.com.br/ 
 
3.3 Adjetivos no discurso 
 
 
Quando se usa o termo discurso, pretende-se tratar de enunciados que 
envolvem a comunicação dentro de determinado contexto. Nesse sentido, 
consideram-se os interlocutores e a finalidade comunicativa. Essa abordagem é 
fundamental para a compreensão da relação entre a funcionalidade das palavras no 
texto e o sentido das mensagens. Orlandi (1987, p. 178) afirma: “[...] é também na 
 
43 
 
prática que a análise do discurso acaba revelando aspectos da linguagem que não 
seriam conhecidos através de outras perspectivas [...]”. 
Os adjetivos podem ser empregados de acordo com essa intenção. A posição 
em que eles aparecem, o tipo de adjetivo e a própria presença dessa classe gramatical 
podem dar indícios dos objetivos do falante. Observe a frase: 
 
Los alumnos cerraron la puerta. 
 
 
Note que não há adjetivos que caracterizem alumnos. Se for empregado um 
adjetivo, é possível indicar com mais precisão que alunos são esses: 
 
Los alumnos rebeldes cerraron la puerta. 
 
 
Nesse enunciado, rebeldes é um modificador que restringe a extensão do 
substantivo. Dessa forma, assim como o adjetivo restringe o significado do 
substantivo, ele pode também destacá-lo (Los increíbles saltos de la gimnasta me 
encantaron). Entretanto, o adjetivo também pode não ter um caráter restritivo, e sim 
explicativo. Dessa forma, ao aplicá-lo, o falante pode ponderar sobre o aspecto 
mencionado: Los juguetones perros caminan por la plaza. 
Nesse caso, avalia-se que juguetones é uma característica inerente a todos os 
cachorros, e o uso do adjetivo reforça esse aspecto. De acordo com a Real Academia 
Española (2010, p. 238), “[…] la distinción entre adjetivos restrictivos [...] y no 
restrictivos está estrechamente relacionada con la posición que ocupa el adjetivo em 
su grupo nominal: el adjetivo restrictivo suele aparecer en posición posnominal y el no 
restrictivo, en la posición prenominal […]”. 
Há os adjetivos inerentemente restritivos, cujas propriedades léxicas já 
garantem a restrição, como nos seguintes casos: 
 
 
 
44 
 
Hubo una guerra civil. 
Compréun aire condicionado portátil. 
 
 
Contudo, há também adjetivos que se tornam restritivos ou não, de acordo 
com a intenção e a escolha da posição pelo falante. Verifique: 
 
Los verdes campos transmiten calma. 
Los campos verdes son más bellos que los llenos de flores. 
 
 
No primeiro exemplo, pressupõe-se que todos os campos são verdes, isto é, 
que essa característica é inerente a esse substantivo. No segundo exemplo, deseja- 
se tratar apenas dos campos verdes. 
A maior parte dos adjetivos não restritivos refere-se a características inerentes 
ao substantivo. Veja alguns exemplos: 
 
Visité todos los suntuosos palacios. 
Sus blancos dientes embellezan su sonrisa. 
 
 
Note que os dentes costumam ser brancos e os palácios, suntuosos. Nesse 
sentido, o adjetivo é utilizado para confirmar e realçar essas características. Há 
também as chamadas colocações léxicas, que registram casos de lugar comum. 
Observe: 
 
Los candidatos hicieron un acalorado 
debate. La aplastante mayoría aceptó el 
orden. 
 
45 
 
Los candidatos expresaron su fe inquebrantable en la vitória 
 
 
É comum o uso desse tipo de construção no discurso jornalístico. Análise o 
fragmento de uma reportagem (ENRIQUEZ, 2018, documento on-line): 
 
Aguas rebeldes 
La primera inundación de mi casa fue en 2008, el agua salía a borbotones de 
la rejilla como de la garganta de un monstruo mitológico. Llueve después de 
días de calor este invierno raro y me alarmo hasta la demencia. Cada persona 
que visita mi casa dice: qué paz les debe dar el ruido de las gotas sobre el 
techo del patio, qué romántica la lluvia. Toda esa gente que vive en los barrios 
que no se inundan, que le sacan fotos a los rayos en el horizonte gris del cielo 
y las postean y cocinan comidas invernales para acompañar con vino tinto. 
 
Note que o adjetivo surge já na própria manchete, anunciando a ironia e as 
comparações que surgirão no texto. Dessa forma, evidencia-se que os adjetivos não 
aparecem nos discursos apenas para qualificar, mas também para revelar 
propriedades que distinguem um substantivo dos outros. Análise as seguintes 
orações: 
 
Gané piedras 
preciosas. Estas flores son 
preciosas. 
 
Note que, na primeira oração, preciosas é uma característica que diferencia 
essas pedras de outras; já na segunda oração, é uma qualidade indicada pelo falante. 
Veja outro exemplo: 
 
Me gusta 
vino blanco. Pinté la 
pared blanca 
 
46 
 
 
Nesse caso, blanco restringe o substantivo vino; enquanto blanca é uma 
característica de pared. 
A intenção do falante determina também o grau da intensidade da propriedade 
indicada pelo adjetivo (BIZELLO, 2018). Veja: 
 
La noticia muy interesante fue recibida con entusiasmo. 
 
 
Note que o adjetivo interesante teve o seu grau de intensidade elevado: a 
notícia era mais que interessante, era muy interesante. Entretanto, o acréscimo de 
advérbios (muy, poco, bastante) não é a única maneira de indicar o grau do atributo. 
É possível indicá-lo com recursos morfológicos, como a afijación afectiva (como em 
pobretón e niñito), e sintáticos, como a reduplicação léxica (como em Vou a hacer un 
cartel grande grande). 
 
 
Os adjetivos classificativos não aceitam advérbios cuantificativos (como em 
análisis clínicos), mas aceitam comparativos em situações em que a construção 
más...que... admite uma paráfrase: más propiamente... que... Veja: 
 
El problema es más social que político 
 
 
Os advérbios completamente, totalmente e absolutamente sofrem essa mesma 
adequação. Essa construção costuma aparecer em propagandas de prédios de 
apartamentos: Totalmente vendido. A intenção é informar que quase todas as 
unidades já foram vendidas, isto é, o objetivo não é mostrar o grau máximo do adjetivo 
vendido. É comum também a construção com completamente + adjetivo com prefixo 
negativo: 
 
 
47 
 
Completament
e injusto 
Completamente inútil 
Completamente 
incapaz 
 
Esse par mostra uma relação entre limite e valor absoluto, isto é, não se trata 
de um valor absoluto, e sim de um estado de carência. Em essência, cada escolha 
relacionada ao adjetivo — seja de posição, seja de significado — alterará o discurso 
e contribuirá com a intencionalidade discursiva. Portanto, os adjetivos são 
fundamentais para a comunicação sem ruídos na língua espanhola, podendo aparecer 
em três graus: positivo, comparativo e superlativo (BIZELLO, 2018). 
 
 
Fonte: https://www.todamateria.com.br/ 
4 NUMERAIS 
Os numerais são palavras que indicam quantidade e ordem. Portanto, estão 
presentes em diversas atividades diárias de um indivíduo: nas compras, na 
localização temporal (horas e dias dos meses, por exemplo), na sequência de ações, 
etc. Na língua espanhola, os numerais são divididos em quatro tipos e são 
fundamentados por algumas regras especiais, como o fenômeno apócope 
(SELLANES, 2018). 
http://www.todamateria.com.br/
 
48 
 
Além disso, tal grupo gramatical é muito útil para a produção de textos, 
principalmente em situações que exigem dados precisos para sustentar uma 
afirmação. 
Os numerais são uma ponte que une um quantificador abstrato a um 
correspondente concreto. Por isso, formam uma classe gramatical que quantifica e 
posiciona entidades. Para aplicá-los, é preciso estar atento a algumas convenções, 
como o fenômeno chamado de apócope. Você conhece? Já refletiu sobre a 
importância dos numerais na construção e na leitura de textos? 
 
4.1 Definição 
 
 
Os numerais referem-se a uma classe gramatical de cuantificadores, ou seja, 
são palavras que estabelecem alguma quantia baseada nos números naturais. 
Observe: 
 
Nueve alumnos fueron al paseo. 
 
 
Note que nueve quantifica alumnos, especificando a informação. Entretanto, os 
numerais não revelam apenas a quantidade, e cada tipo tem uma função diferente. 
Os cardinales revelam a medida numérica de um conjunto de entidades: una pelota, 
dos mujeres, tres libros, veinte perros, etc. Já os ordinales revelam o lugar ocupado 
pela entidade. Veja: 
 
Camila fue la primera a entrar en el cine. 
 
 
 
49 
 
Note que primera ordena a entrada no cinema. Assim, palavras como segundo, 
duodécimo, décimo são numerales ordinales. Outro tipo de numeral é o fraccionário, 
cuja finalidade é revelar a quantidade segmentada, ou seja, refere-se a partes ou 
frações de uma entidade: 
 
Perdí onceavo de mi sueldo contigo. 
 
 
Já os multiplicativos denotam a multiplicação de uma quantidade por um 
número: 
 
Quiero el doble de animación 
 
 
A Real Academia Española (2010, p. 391) alerta: 
 
 
[…] una misma unidad puede pertenecer, según su uso, a grupos diferentes 
de numerales. Así, veintitrés es cardinal en Había veintitrés alumnos, pero 
ordinal en el piso veintitrés; a su vez, vigésima es ordinal en la vigésima vez, 
pero fraccionario en la vigésima parte; cuarto es ordinal en el cuarto día, pero 
es sustantivo fraccionario en un cuarto de kilo. 
 
Os numerais cardinais são os mais conhecidos. Observe no quadro abaixo os 
numerais de 0 a 100. 
 
 
50 
 
 
 
 
 
Fonte: Adaptado de Sellanes (2018, documento on-line). 
 
Note que os cardinais têm formas segmentadas (dieciséis e treinta y uno, por 
exemplo) e não segmentadas (de cero a quince, por exemplo). Os inferiores a cien, 
múltiplos de diez, têm terminação -nta, com exceção de veinte (RAE, 2010). 
 
51 
 
Já os numerais superiores a cien se formam por justaposição: se o número 
inferior aparece antes do superior, há multiplicação, como em 2 × 100 = 200, ou seja, 
doscientos. Quando o número inferior aparece depois do superior, há soma: 
novecientos dos = 902. Veja o quadro abaixo: 
 
 
Fonte: Adaptado de Sellanes (2018, documento on-line). 
 
 
Nos milhares, usa-se o numeral mil como multiplicando, mas de forma 
invariável (por exemplo, veintidos mil estudiantes) (SELLANES, 2018), como 
mostrado no quadro abaixo: 
 
 
Fonte: Adaptadode Sellanes (2018, documento on-line). 
 
 
52 
 
Observe que, em espanhol, mil millones corresponde a um bilhão em 
português, enquanto un billón em espanhol equivale a um trilhão em português. Os 
numerais ordinais têm variantes femininas e plurais. Observe: 
 
Em primer alumno a hablar 
fue... La primera alumna a 
hablar fue... 
Las primeras alumnas a hablar fueron... 
 
Veja no quadro a seguir como são escritos os numerais ordinais em espanhol. 
 
 
 
 
 
53 
 
 
Fonte: Adaptado de Sellanes (2018, documento on-line). 
 
Os numerais fracionários são lidos de formas distintas, de acordo com o seu 
uso como substantivo ou como adjetivo (SELLANES, 2018), como pode ver abaixo: 
 
 
54 
 
 
 
 
 
Fonte: Adaptado de Real Academia Española (c2005, documento on-line). 
 
Os numerais multiplicativos expressam resultados obtidos numa multiplicação. 
 
55 
 
Observe a seguir (PRACTICA ESPAÑOL, 2018): 
 Doble (x2): dos veces lo mismo. 
 Triple (x3): tres veces lo mismo. 
 Cuádruple/cuádruplo (x4): cuatro veces lo mismo. 
 Quíntuple/quíntuplo (x5): cinco veces lo mismo. 
 Séxtuple/séxtuplo (x6): seis veces lo mismo. 
 Séptuple/séptuplo (x7): siete veces lo mismo. 
 Óctuple/óctuplo (x8): ocho veces lo mismo. 
 Nónuplo (x9): nueve veces lo mismo. 
 Décuplo (x10): diez veces lo mismo. 
 Undécuple/undécuplo (x11): once veces lo mismo. 
 Duodécuplo (x12): doce veces lo mismo. 
 Terciodécuplo (x13): trece veces lo mismo. 
 Céntuple/céntuplo (x100): cien veces lo mismo. 
 
Em resumo, os numerais formam uma classe gramatical que quantifica os seus 
referentes e ordena as suas posições. Em espanhol, há convenções de escrita que 
devem ser aplicadas pelos aprendizes dessa língua. Aliás, essas convenções muitas 
vezes dizem respeito também à fala. Esse é o caso do fenômeno chamado de 
apócope. 
 
 
4.2 Numeral apocopado 
 
 
Os numerais cardinais podem ser utilizados de forma adjetiva ou pronominal, 
ou seja, podem acompanhar um substantivo ou substituí-lo. Observe: 
 
 
56 
 
Añada cuatro 
zanahorias. Sólo tengo 
dos. 
 
Note que, no exemplo, o numeral cuatro funciona como adjetivo, 
acompanhando o substantivo zanahoria; já o numeral dos funciona como pronome, 
pois ele ocupa o lugar do substantivo. Vale ressaltar que, nesse caso, o numeral 
equivale a um substantivo tácito, já que zanahorias poderia aparecer logo após dos. 
Agora observe os seguintes enunciados: 
 
 
Voy a comprar algunos platos de fiesta, pues sólo 
tengo uno. Voy a hacer una fiesta de cumpleaños para mi 
hijo. 
Él hará un año el viernes. 
 
 
Veja que todos os numerais destacados indicam quantidade, mas um está 
flexionado no feminino (una) e os outros dois (uno e un), no masculino. Por que o 
masculino tem duas formas distintas? Isso ocorre porque, no primeiro caso, uno não 
sofreu apócope, mas no segundo sim. 
Apócope, de acordo com o Dicionário Houaiss (INSTITUTO ANTONIO 
HOUAISS, 2004, p. 52), significa a queda de um ou vários fonemas no final de uma 
palavra. Em espanhol, esse fenômeno ocorre com os numerais cardinais uno e seus 
derivados quando eles estão na frente de um substantivo masculino: 
 
Compré treinta y un cubiertos 
de mesa. Ella tiene veintiún años. 
 
 
57 
 
Isso significa que os numerais cardinais só são apocopados quando funcionam 
como adjetivos. Entretanto, independentemente do uso adjetivo ou pronominal, os 
cardinais têm flexão de gênero: 
 
 
Doscientos 
hombres 
Doscientas 
mujeres 
 
Note que os numerais femininos não sofrem apócope: 
 
 
U
na mujer 
Un 
hombre 
¿Quieres cuántas bebidas? Una. 
¿Quieres cuántos bolígrafos? Uno 
 
 
Quanto à flexão, observe um alerta da Real Academia Española (2010, p. 393): 
 
 
[...] los numerales cardinales superiores a la unidad se construyen siempre 
con substantivos en el plural cuando se usan como adjetivos y pronombres. 
Lo mismo sucede con el numeral cero: cinco deseos, cero grados. Si 
consideran incorrectas, por tanto, construcciones como doscientos un 
soldado, y se recomienda en su lugar la variante con el substantivo en plural: 
doscientos un soldados. 
 
O uso pronominal do numeral cardinal pode coincidir com o uso do numeral 
como atributo. Observe: 
 
58 
 
 
Los enfermos de la familia eran tres. 
 
 
Note que tres ocupa a posição de predicativo do sujeito, mas mantém a 
informação sobre a quantidade. A diferença de uma construção como Eran tres 
enfermos en la familia está na ênfase dada à quantidade. Além disso, o uso 
pronominal pode gerar uma construção chamada de cuantificación flotante, ou seja, 
quando o numeral é acompanhado de um artigo: 
 
Los alumnos pidieron los dos la misma explicación. 
 
 
Note que los dos realça a totalidade dos alunos e quantifica o substantivo. 
Entretanto, não há condições para a ocorrência do fenômeno da apócope, pois o 
numeral está em posição pronominal. 
Os numerais ordinais costumam participar de grupos nominais definidos: 
 
 
Gané el primer lugar. 
Hice mi segunda 
votación. Juan dio sus 
primeros pasos. 
 
Dessa forma, os ordinais abrem espaço para a apócope, pois podem 
aparecer diante de um substantivo. Contudo, a condição para que os numerais 
ordinais sejam apocopados são: 
 Ser os numerais primero e tercero (e seus derivados); 
 Estar na frente de um substantivo masculino singular. 
 
 
59 
 
Observe alguns exemplos: 
 
Ellos ganaron el tercer 
premio. Eva encontró su 
primer marido. 
 
Se esses mesmos numerais ocuparem a posição de pronome, não há apócope. 
Veja: 
 
— Qué premio ganaron? 
— El tercero. 
— ¿Aquel es el actual marido de Eva? 
— No. Es el primero. 
 
De acordo com a Real Academia Española (2010, p. 401): 
 
 
[…] los numerales ordinales se usan como sustantivos em algunas 
construcciones. Así sucede con los que se refieren a las marchas o 
velocidades de los automóviles (No metas tan pronto la tercera), a los niveles 
de escolaridad (alumnos del primero), a carreteras o avenidas, y a otras 
muchas nociones, variables según los países. 
 
Vale informar que o numeral primero pode funcionar como advérbio em 
enunciados como a seguir: 
 
Llegué primero. 
 
 
Portanto, a escolha da posição do numeral contribuirá com o sentido que se 
deseja dar à frase, e isso pode levar ao uso de apócope. 
 
60 
 
 
 
4.3 Numerais no texto 
 
 
Os numerais formam uma classe gramatical que contribui com a precisão das 
informações de um texto. Eles podem indicar quantidade ou ordem hierárquica, mas 
sempre apresentam um dado que faz diferença para o argumento do autor e para as 
reflexões do leitor. Observe o trecho de um texto (SÁNCHEZ, 2018, documento on- 
line): 
 
 
Grecia queda libre hoy de los rescates pero seguirá prisionera de la deuda La 
Comisión Europea da por terminada la crisis en la zona euro con el fin en el 
país heleno de la tutela de los acreedores [...] Grecia abandona este lunes 
toda una era de rescates. Eso significa que deberá financiarse por sí misma 
en los mercados. Ocho años y casi 289.000 millones después, no habrá más 
dinero de los acreedores. Tampoco nuevas órdenes desde Bruselas, 
Fráncfort y Washington más allá de los compromisos adquiridos, que no son 
pocos ni sencillos de cumplir. Atenas recupera las riendas de la soberanía de 
su política económica, lastrada por una deuda mastodóntica de casi el 180% 
del PIB, aunque la troika volverá cuatro veces al año —la próxima será en 
septiembre— para comprobar que las reformas no se revierten y que la 
situación fiscal sigue siendo holgada. Habrá vigilancia, pero menos estrecha. 
[...] 
Los recortes más crueles 
En Grecia casi nadie ha salido indemne de la depresión: recortes de 
pensiones, subidas de IVA, congelaciones salariales o ajustes en la sanidad 
pública forman parte de un memorial de daños que se ha comido un 25% del 
PIB desde el comienzo de las turbulencias y ha dejado a más de un tercio de 
la poblaciónal borde de la pobreza, el nivel más alto de la UE tras Rumanía 
y Bulgaria según Eurostat. El precipicio por el que se ha despeñado la 
economía familiar de muchos hogares ha arrastrado también a la banca: los 
préstamos fallidos y las tasas de morosidad alcanzan cotas alarmantes. 
 
 
 
Note que a reportagem sobre a situação da Grécia desde o anúncio da crise 
financeira que comprometeu a zona do euro está cheia de numerais. Não é à toa: o 
texto trata de economia e precisa mostrar aos leitores o que significa e significou a 
 
61 
 
crise para os gregos. Os numerais aparecem na referência à passagem do tempo 
(dado importante para avaliar a possibilidade de saída da crise), aos valores de 
dívidas, ao comprometimento do PIB e ao atingimento da população. Dessa forma, o 
leitor consegue avaliar as consequências ocorridas depois de 2010. Observe que há 
numerais cardinais que indicam a quantidade (289.000 millones) e numerais 
fracionários (un tercio), relacionados a questões de divisão. Esse tipo de numeral 
costuma aparecer em textos jornalísticos cujos assuntos exigem dados precisos que 
os numerais conseguem expressar (como economia ou atualidade). 
Nos textos informativos, é costume aplicar os chamados sustantivos numerales 
colectivos o de grupo (BIZELLO, 2018). Eles são nomes que indicam quantidade, 
como você observa a seguir. 
 
 
Os numerales colectivos são comuns também nas receitas, como você pode 
ver a seguir. 
 
62 
 
 
 
 
Analise um trecho do poema de Rafael de León (2010, documento on-line): 
 
 
Y me bendijo a mi mare; y me bendijo a mi mare. 
Diez céntimos le di a un pobre y me bendijo a mi mare. 
¡Ay! qué limosna tan chiquita, 
 
 
qué recompensa tan grande. 
¡Qué limosna tan chiquita, 
y qué recompensa tan grande! 
 
¿A dónde vas tan deprisa sin decirme ni ¡con Dios!? Me puedes mirar de frente, 
que estoy enteraó de todo. 
Me lo contaron ayer 
las lenguas de doble filo, que te casaste hace un mes y me quedé tan tranquilo. 
Otro cualquiera en mi caso, se hubiera echado a llorar. yo cruzándome de 
brazos dije que me daba igual. 
Y nada de pegarme un tiro ni liarme a maldiciones 
ni apedrear con suspiros los vidrios de tus balcones. 
¿Qué te has casado? 
¡Buena suerte! 
Vive cien años contenta y a la hora de la muerte, 
 
63 
 
Dios no te lo tenga en cuenta. 
Que si al pie de los altares mi nombre se te borró, 
 
Note que o uso dos numerais no poema não tem a intenção de informar com 
exatidão. Pelo contrário: o objetivo é fazer o leitor mergulhar nos vastos sentimentos 
do eu lírico. Todos os números são figuras de linguagem que não equivalem a um 
valor real. A intenção não é denotar uma quantidade aproximada, e sim exagerar. 
Os numerais cardinais são utilizados em fórmulas que expressam distribuição, 
como em: dos para mí y dos para tí ou de + numeral cardinal + en + numeral ordinal: 
entraron de tres en tres. Outra possibilidade é numeral cardinal + a + numeral cardinal: 
se comía las uvas dos a dos. Contudo, a combinação distributiva mais comum nos 
textos é cada + substantivo singular. Observe: 
 
El éxodo de Venezuela y Nicaragua provoca brotes xenófobos en la región 
La presión migratoria en países en delicado equilibrio está originando una 
situación muy compleja desde el punto de vista de la seguridad Cientos de 
miles de venezolanos han cruzado las fronteras terrestres hacia Brasil y 
Colombia en los últimos meses para intentar escapar de la crisis económica, 
política y social que vive su país. Colombia ha dado residencia temporal a 
más de 800.000. Centenares emprenden cada día una trayectoria terrestre 
para alcanzar Perú, Chile, Argentina e incluso Uruguay. Perú, que desde hace 
dos años les otorga un permiso temporal de trabajo, estima que casi 400.000 
venezolanos se han establecido en su territorio desde hace un año. El pico 
fue el 11 de agosto pasado, cuando entraron en un solo día 5.100 (JIMÉNEZ, 
MURILLO e CASTRO, 2018, documento on-line) 
 
 
Nesse caso, cada dia indica que são dias diferentes. Dessa forma, evidencia- - 
se a grande variedade de numerais que podem contribuir com a elaboração da escrita 
de um texto. É preciso, portanto, estar atento às escolhas para que elas correspondam 
aos significados que se deseja transmitir. 
 
 
64 
 
 
Fonte: https://www.ie.com.br/ 
 
5 ORTOGRAFIA E PROSÓDIA 
Sabemos que a língua está em constante modificação e que essas 
modificações são realizadas pelos falantes. As transformações ocorrem na língua 
falada e na escrita; no entanto, para termos uma uniformidade na língua, precisamos 
dispor de um conjunto — por vezes conservador — de regras. Além disso, precisamos 
nos utilizar do sistema linguístico por analogia, para que possamos usá-lo de forma 
eficaz, isto é, de forma que possamos nos comunicar e ser compreendidos. 
Nesta seção, o estudo terá como foco a fonética voltada às variações de 
pronúncia entre os países que falam espanhol e ao significado expresso em seus 
signos. Você vai estudar as diferenças entre a escrita e a pronúncia na língua 
espanhola e compreenderá as variações lexicais existentes na oralidade e na escrita. 
Assim, você vai entender como a língua é capaz de se manifestar por meio de 
diferentes formas e significados e, ao mesmo tempo, ser responsável por identificar 
culturalmente um povo, um país e um continente. 
5.1 A sonoridade da língua espanhola geograficamente 
Sonoridade é o termo utilizado no estudo da fonética e da fonologia para 
designar um som e os seus aspectos, como tom, duração e intensidade. Quando 
estudamos os sons e como eles se constituem no ato da fala, deparamo-nos com uma 
vasta produção realizada pelos falantes, isto é, nem sempre o mesmo som será 
http://www.ie.com.br/
 
65 
 
produzido de maneira uniforme e igual em uma mesma língua. Assim, no estudo da 
linguística, além de compreendermos como os sons são produzidos pelo corpo 
humano, precisamos entender a forma como entoamos uma palavra ou expressão 
idiomática. 
Desse modo, observamos as variações de um mesmo fone, por exemplo, em 
diferentes regiões de fala de determinada língua. Para Alkmim (2001), as línguas 
coexistem sem homogeneidade, visto que língua e variação são indissociáveis. 
Portanto, toda e qualquer língua, ao ser estudada, apresentará um conjunto de 
variações que vão defini-la e caracterizá-la, seja pelos seus falantes, seja 
geograficamente. Assim, quando falamos de variação geográfica em determinada 
língua, estamos não só abordando os diversos modos de falar de diferentes países, 
mas também os modos de falar em um mesmo país. 
Conceituamos as diferentes variações na língua como diastrática, diafásica e 
diacrônica. Primeiramente, para concebermos o que é variação, precisamos falar 
sobre norma culta, isto é, o conjunto de regras determinadas pelos falantes como 
“certas” ou “erradas”. Esse conceito, na realidade, baseia-se na ideia de que todos os 
falantes devem falar de acordo com a gramática; no entanto, esse conjunto de regras 
estipuladas refere-se à modalidade escrita, e não ao que de fato produzimos na fala 
(ALKMIM, 2001). 
Além disso, quando falamos em dominar a norma culta de uma língua, 
precisamos também refletir sobre quais pessoas em nossa sociedade têm acesso a 
essa modalidade erudita. Vemos, com isso, que apenas uma pequena parcela poderia 
usá-la. Desse modo, além de não representar o uso da língua na fala, a norma culta 
vista como o uso certo da língua em qualquer contexto segrega classes sociais e 
estimula o preconceito linguístico. À luz desse ponto de vista, abordamos o que foge 
à regra gramatical: a variação linguística nos idiomas. Variação, então, é o 
discernimento de que a língua é primordialmente heterogênea e variável. 
Para enfocarmos o estudo da variação no aspecto sonoro na língua, 
precisamos distinguir o que entendemos por grafema e fonema. Chamamos de 
grafema a representação escrita de um fone na língua,isto é, como escrevemos os 
sons que produzimos na fala. De forma visual, reconhecemos os grafemas por meio 
de uma letra ou de um dígrafo em nosso alfabeto, por exemplo. Assim, reconhecemos 
o alfabeto de uma língua pela sua função de reproduzir graficamente aquilo que é 
 
66 
 
empregado sucessivamente na fala. Logo, a letra A é a ilustração do som que 
conhecemos como vocálico aberto e central 
 
 
Fonte: https://traducaojuramentada24h.com.br/ 
 
Quando falamos de fonemas dentro de uma língua, abordamos aspectos 
relacionados à fonética. Eles correspondem ao entendimento de que, na verdade, são 
“[...] modelos mentais do som que caracterizam cada língua, ainda que na fala 
apareçam concretizados de diversas formas” (ALARCOS LLORACH, 1954, p. 67). 
Assim, são exemplos de variações geográficas na pronúncia do idioma 
espanhol os fenômenos yeísmo e seseo. Essas variações constituem as diferentes 
pronúncias de grafemas — em especial as chamadas consoantes “sonantes”, cuja 
articulação do ar sai sem fricção. São exemplos de tais consoantes os fones /l/, /m/ 
ou /r/. Presenciamos uma variação mais perceptível em diversas regiões de fala 
hispânica das consoantes sonantes laterais, isto é, aquelas em que o som sai em uma 
corrente de ar contínua (sem turbulência alguma) e pelas laterais do trato bucal. Na 
língua espanhola, observamos essa articulação da consoante l, encontrada em cala, 
ou no sistema contrastivo entre ll e y, visto em lluvia. 
 
 
Segundo a Nueva Gramática de la Lengua Española, o principal processo de 
variação entre as consoantes laterais é o fenômeno conhecido como yeísmo, 
produzidos na região do Rio da Prata (Uruguai e Argentina). Essa ocorrência se deve 
à fusão dos fones /y/ e /ʎ/ em palavras escritas com ll e y, como Callado e Cayado. 
 
67 
 
Tal ação se justifica pela proximidade na realização desses sons, como podemos 
observar na figura a seguir: 
 
 
Fonte: Adaptada de Alarcos Llorach (1988). 
 
Além do yeísmo, encontramos outra variação, conhecida como rehilado. 
Definida por Amado Alonso, em 1925, como um “zumbido especial produzido no ponto 
de articulação”, consiste na fusão dos sons /y/ e /ʝ/. Na escrita, vemos o rehilamiento 
pronunciado em palavras com as letras LL, Y e HI + vogal (por exemplo, llave, yo e 
hielo). Como já mencionado, essa variação é encontrada na região rio-platense e é 
descrita pela fusão de sons. 
Além dos fenômenos yeísmo e rehilamiento, vemos na língua espanhola a 
ocorrência de quatro maneiras de pronunciar a letra ll (elle). Essa variedade é 
encontrada em quatro regiões de fala hispânica diferentes, conforme o quadro a 
seguir. 
 
 
 
 
 
68 
 
É importante ressaltar que não existe um tipo de pronúncia mais correto que 
outro. Tais características devem ser abordadas na língua como variações presentes 
e produtivas. Não existe também uma hierarquia entre os tipos de pronúncias, no 
sentido de um ser mais fácil ou mais difícil que outro, visto que esse entendimento 
partirá do falante, seja nativo ou estrangeiro. Assim como vimos no fenômeno yeísmo 
e nas suas implicações nos sons produzidos pelas letras ll, hi + vogal e y, é relevante 
estudar também como é a pronúncia da consoante y em determinadas regiões, a fim 
de que possamos expandir o nosso conhecimento para além das regiões rio-platenses 
(ALKMIM, 2001). Por isso, veja mais um quadro explicativo sobre as diferentes 
pronúncias de y. 
 
 
 
Observe que, diferentemente da elle, a consoante y apresenta apenas três 
variações na pronúncia. Como já mencionado, pela proximidade da articulação das 
consoantes soantes laterais ll e y, os sons variam e apresentam semelhanças. Por 
exemplo, no Uruguai, o som de ll e y manifestam a mesma pronúncia. 
Outro fenômeno relacionado à pronúncia de consoantes na língua espanhola 
são os pares seseo e ceceo. O ceceo é uma variação oriunda da articulação 
interdental da consoante /z/, isto é, o falante produz um som similar ao z em língua 
portuguesa, aproximando a língua entre os dentes. Essa variação ocorre diante da 
consoante c + vogais e e i (por exemplo, cero cujo som produzido é zero) e da 
consoante z + vogais a, o e u (como em zapato). Podemos também comparar o som 
realizado com a língua inglesa, no som de th /θ/ produzido em think. Encontramos 
esse estilo de pronúncia na Espanha, especialmente nas regiões da Costa da 
Andaluzia, no interior da Província de Sevilha e no sul de Córdoba (ALKMIM, 2001). 
 
69 
 
Já o seseo, como o próprio nome indica, é a produção do som similar ao s em 
espanhol ou em português, diante das construções c + vogal e e i, e z + a, o e u. Por 
exemplo, em zapato, a pronúncia é próxima a sapato, com s. Veja mais um quadro 
exemplificando tal fenômeno. 
 
 
 
 
Para finalizar, vamos estudar também o que chamamos de aspiração do s e 
supressão dos particípios em espanhol. A aspiração do s em espanhol é um fenômeno 
recorrente no México, no Chile, na Argentina e no sul da Espanha, em Andaluzia. 
Aspirar, como o nome já supõe, pode ser definido como “recolher por meio da sucção 
ou sugar”. Embora pareça estranho, tal variação pode ser entendida como se 
“sugássemos” o s das palavras — por exemplo, mimo em vez de mismo ou iempre 
em vez de siempre. 
Devemos lembrar que, quando abordamos uma variação na pronúncia, ela não 
deve se estender à escrita, ou seja, a aspiração do s ocorre na fala, mas não deve 
ocorrer quando escrevemos. Assim, do mesmo modo, o fenômeno da supressão dos 
particípios -ado e -ido são outra variação correspondente à fala. Ela ocorre, de acordo 
com a Nueva Gramática de la Lengua Española (REAL ACADEMIA ESPAÑOLA, 
2011), por toda a Espanha e, em Madrid, é mais frequente na fala dos jovens. Ainda, 
além da supressão dos particípios, temos a supressão dos términos femininos -ida e 
-ada. No entanto, esses traços são estigmatizados, e a sua produção não é 
recomendada. A figura abaixo apresenta um mapa de distribuição das variações 
estudadas: 
 
70 
 
 
 
 
Fonte: Mapa... (2015). 
 
5.2 Diferentes modos de fala 
O espanhol é a língua oficial em 21 países no mundo e a terceira língua mais 
falada em países como Estados Unidos e Filipinas. A amplitude que a língua 
espanhola atinge, portanto, faz deste um idioma importante no cenário mundial, 
correspondendo à segunda língua mais falada no mundo após o inglês e o mandarim. 
Dessa forma, são em torno de 500 milhões de pessoas falando espanhol em diversas 
regiões do planeta. Esse fato resulta em muitos modos de falar a mesma língua. 
Como já discutido anteriormente, a língua não é homogênea. Dentro das 
variações de pronúncia que vimos de determinado som, encontramos também 
características peculiares da fala como um todo. Retomamos a ideia de que não existe 
um sotaque melhor do que outro ou mais fácil que outro, mas sim formas que, além 
de caracterizarem uma região, constroem a identidade cultural de um país. 
O estudo dos modos de falar de uma língua corresponde à variação diatópica, 
ou seja: 
 
71 
 
 
[...] aquela que se verifica na comparação entre os modos de falar de lugares 
diferentes, como as grandes regiões, os estados, as zonas rural e urbana, as 
áreas socialmente demarcadas nas grandes cidades etc. O adjetivo diatópico 
provém do grego diá-, que significa ‘através de’, e de tópos, ‘lugar’ (BAGNO, 
2007, p. 46). 
 
Logo, são exemplos de variações diatópicas do idioma espanhol: 
 Os diferentes tipos de sotaques; 
 Os usos do pretérito indefinido e do pretérito perfecto compuesto; 
 O uso do voseo. 
 
Vemos na Espanha uma forte diferença entre o espanhol falado na parte central 
e o falado na parte da Andaluzia. Na região andaluz, os falantes fazem pouco 
movimento com a boca ao articular a fala. Outra característica desses falantes é 
suprimir algumas sílabas, os particípios e o s das palavras — assim como os 
madrilenhos. Outro sotaque que encontramos na Espanha é oriundoda região de 
Castela e é entendido como mais aberto e rápido. 
Os falantes da América Central e da América do Sul herdaram o sotaque 
andaluz da época de colonização, então algumas variações — como o seseo e o 
yeísmo — foram mantidas. Encontramos no México uma característica melódica ao 
final das palavras, como se os falantes estivessem sempre produzindo a entonação 
interrogativa. Já o espanhol de Cuba apresenta uma característica bem peculiar: 
muitos falantes trocam a pronúncia do r por l, ou seja, em vez de amor, pronunciam 
amol. 
Na Argentina, além do rehilamiento, temos o uso do voseo como uma das 
mais marcantes formas de falar. O voseo se constitui na utilização do pronome vos 
no lugar do tú em diálogos informais. Veja a seguir exemplos desse fenômeno: 
 
Javier: Mirá Javier, este es mi padre. 
Marta: Vos sos idéntico. Vos tenés su misma cara 
 
 
 
72 
 
Perceba que, além do vos, ao voseo se aplica uma conjugação específica, 
proveniente da conjugação de vosotros. Já a utilização de usted se aplica a situações 
formais da língua. Além da Argentina, esse fenômeno é visto em mais países da 
América Sul, como Paraguai, Uruguai e Colômbia, e se estende até países da América 
Central. Historicamente, o vos na língua espanhola era uma forma de tratamento 
formal, assim como na língua portuguesa; entretanto, ao longo do tempo, tornou-se 
aforma utilizada entre amigos e familiares. Hoje o uso do voseo representa uma 
característica diatópica morfossintática essencial para reconhecer as variações do 
espanhol latino-americano (BAGNO, 2007). 
Desse modo, temos essa distinção no uso dos pronomes nos modos de falar 
do espanhol europeu e do espanhol americano. Veja o quadro a seguir: 
 
 
Fonte: Adaptado de Carricaburo (1997). 
 
Além do voseo, outra característica que exemplifica os modos de falar entre os 
países de fala hispânica é representada pelo uso do pretérito indefinido e pelo 
pretérito perfecto compuesto. Entre esses dois tempos verbais, há uma preferência 
pelo pretérito indefinido, nos países americanos, para situações ocorridas no passado. 
Já na Espanha, há uma distinção entre o uso do pretérito indefinido e o pretérito 
perfecto compuesto. O primeiro é utilizado para situações ocorridas no passado, 
sem que haja qualquer proximidade ou interferência com o presente; o segundo é 
relacionado a um passado anterior ao presente — é como se o passado ainda 
estivesse relacionado ao presente da fala (BAGNO, 2007). Por exemplo: 
 
73 
 
 
Mi abuela murió hace 10 años (pretérito indefinido) 
Mi abuela ha muerto hace 10 años (pretérito perfecto compuesto) 
 
A partir desses exemplos, entende-se, no espanhol europeu, que a primeira 
oração expressa um passado que ocorreu e não interfere mais no presente. Já na 
segunda oração, é como se o enunciador ainda sentisse a morte de sua avó, isto é, 
existe um passado que ainda interfere no presente. Essa relação é feita no espanhol 
peninsular (europeu); nos países americanos, usa-se somente o pretérito indefinido. 
Veja a figura abaixo: 
 
 
Fonte: Adaptada de Inhakito (2012). 
Países com o uso do voseo. Preto: países ou regiões que usam vos na fala e 
na escrita. Cinza listrado: países ou regiões onde vos é predominante, mas 
não intensivo. Cinza médio: países ou regiões onde o uso do vos coexiste 
com tú ou é considerado vulgar. Cinza: países ou regiões onde a presença do 
vos é praticamente inexistente. 
5.3 Léxico variacional escrito 
 
74 
 
A língua falada está em constantes modificações e estas são realizadas pelos 
próprios falantes. No entanto, para conservar a língua escrita, é preciso dispor de um 
conjunto de regras e um sistema a fim de que ela possa ser utilizada de modo eficaz, 
isto é, a fim de que seja possível se comunicar por meio da língua escrita e ser 
compreendido. 
A palavra é “[...] uma unidade linguística básica, facilmente reconhecida por 
falantes em sua língua nativa” (BASÍLIO, 1987, p. 12). Ela é entendida também por 
Pastora Herrero (1990) como uma simples denominação para um termo, um objeto, 
uma ação ou um fato. Entretanto, por trás da sua escrita, existe um significado 
inerente, que carrega sentidos de caráter sonoro, situacional e conceitual. Sob a ótica 
gerativista, Chomsky (1998, p. 32) define palavra como “[...] um complexo de 
propriedades: no jargão técnico, traços fonéticos e semânticos”. 
Desse modo, o conjunto de palavras de uma língua constitui o que chamamos 
de léxico. O léxico de uma língua, portanto, é compreendido como diversas unidades 
lexicais que são criadas pelos falantes, revitalizadas e compradas de outras línguas 
(ANDRADE, 2011). Logo, quando estamos diante do conjunto lexical de uma língua, 
precisamos compreender que ele é estabelecido por criações, modificações e 
possíveis acepções diferentes. 
Quando dizemos que a língua apresenta uma variação, estamos reforçando a 
ideia da heterogeneidade que a contempla. Assim, para estudar a variação, 
precisamos analisar de onde ela vem e quem a produz, já que “[...] língua e sociedade 
estão indissoluvelmente entrelaçadas, entremeadas, uma influenciando a outra, uma 
constituindo a outra” (BAGNO, 2007, p. 38). 
Você viu as variações referentes à fonética e à fonologia que, na aprendizagem 
de uma língua, auxiliam na pronúncia, assim como na compreensão auditiva. Mas 
para que estudar a variação lexical de uma língua? A importância do estudo das 
variações lexicais está em poder aplicar de maneira adequada as diferentes formas 
de significar a língua por meio da palavra. Assim, ressaltamos a relevância de saber, 
por exemplo, que podemos falar cajeta na América e dulce de leche na Espanha. Em 
resumo, a variação lexical consiste em dizer de várias formas o mesmo sentido. 
Veja a seguir a tabela das variações lexicais nos países hispanohablantes. 
 
 
 
75 
 
 
Fonte: SPESSATO, 2018 
 
 
 
76 
 
6 ACENTUAÇÃO 
 
A escrita é um sistema substituto da oralidade, o qual tenta representar o que 
é dito por meio de letras, acentuação e pontuação. Antes de escrever, de acordo com 
Gómez Fernández (1979), já sabemos como as palavras são pronunciadas e onde as 
suas respectivas sílabas fortes caem. Portanto, caso não conheçamos determinada 
palavra na língua espanhola e já saibamos as regras de acentuação, podemos 
solucionar dúvidas de pronúncia. 
Assim, o nosso trabalho como professores — ou futuros professores — é 
possibilitar que os nossos alunos cheguem ao domínio da língua espanhola o mais 
rápido possível. Para isso, é essencial utilizar todos os meios e instrumentos que 
aceleram o processo de expressão e de compreensão da linguagem oral e escrita. 
6.1 Regras de acentuação gerais e especiais 
Segundo a Real Academia Española (2010), a fonética é a disciplina linguística 
que estuda os mecanismos de produção e percepção dos sons da fala. A fonologia 
estuda a organização linguística desses sons, e a prosódia é a disciplina que estuda 
o conjunto dos elementos fônicos suprassegmentais, isto é, aqueles que afetam vários 
segmentos. O acento indica o grau de força que se aplica na pronúncia da sílaba e o 
que expressa o limite silábico. 
Alarcos Llorach (1999) afirma que, juntamente com as características fônicas, 
que são combinadas nos sucessivos fonemas de uma sequência de fala, existem as 
chamadas prosódicas, que se sobrepõem às primeiras — é por isso que elas também 
são chamadas de suprassegmentais. Portanto, é pela prosódia que saberemos a 
pronúncia correta e a acentuação das palavras na língua espanhola. 
Sabemos que a escrita é um sistema substituto da oralidade em determinados 
contextos, o qual procura representá-la da maneira mais fiel possível. Segundo 
Gómez Fernández (1979), uma vez que a prosódia nos diz qual é o caminho certo 
para acentuar as palavras, é a ortografia que deve nos ensinar — indicando as regras 
apropriadas — como indicar esse acento prosódico. 
Nosso objetivo comoprofessores e estudantes de espanhol se resume a 
compreender todos os degraus envolvidos no aprendizado do idioma, em todos os 
 
77 
 
níveis discursivos. Assim, para que possamos aprender e repassar o nosso 
conhecimento de maneira aprofundada, precisamos não apenas compreender o 
funcionamento sintático da língua espanhola, mas também o seu funcionamento 
prosódico. 
6.2 Regras gerais de acentuação ortográfica 
O primeiro ponto a ser considerado em relação às regras de acentuação é que 
nem todas as palavras que possuem acento prosódico carregam a tilde (o acento) na 
escrita. Às vezes a sílaba tônica será marcada, outras não — aqui começam as 
possíveis confusões. Para evitá-las, é necessário saber precisamente quando as 
palavras devem ou não ser acentuadas, independentemente do seu acento prosódico. 
Segundo Gómez Fernández (1979), compreender as regras de acentuação é 
uma forma de facilitar a ortografia. Ao mesmo tempo, não acentuar graficamente todas 
as palavras que são acentuadas em termos de prosódia é positivo, pois se mantém a 
escrita da língua espanhola menos atormentada por linhas oblíquas e evita-se o 
esforço monótono que envolveria acentuar tantas palavras. 
Vargas Sierra (2009) afirma que em todas as palavras existe uma sílaba tônica; 
as restantes são conhecidas como átonas. Há momentos em que essa sílaba tônica 
será marcada pela tilde, mas esse acento não é de livre marcação, ao gosto de quem 
escreve. A acentuação segue regras, as quais demarcam a presença ou ausência do 
acento gráfico para a marcação da sílaba tônica. 
 
 
 
 
78 
 
Fonte: https://mundoeducacao.uol.com.br/ 
 
O acento presente na língua espanhola é o conhecido acento agudo (´) da 
língua portuguesa. Não há em espanhol o acento grave (`), o acento circunflexo (^) ou 
o til (~). As regras gerais de acentuação dependem de onde está a sílaba tônica: se 
estiver na última sílaba da palavra, temos as agudas ou oxítonas; se estiver na 
penúltima, temos as graves, llanas ou paroxítonas; se estiver na antepenúltima ou 
em qualquer sílaba anterior, temos as esdrújulas ou proparoxítonas; caso a palavra 
tenha apenas uma sílaba, temos os monossílabos. 
 
6.2.1 Palavras agudas ou oxítonas 
Segundo Torrego (2007), são palavras agudas ou oxítonas aquelas que 
possuem a sílaba tônica na última sílaba. Por exemplo: 
 reloj; 
 pared; 
 también; 
 compró; 
 interés; 
 mujer; 
 impar; 
 así; 
 estás; 
 nivel. 
 
Como podemos perceber, há palavras com e sem acento. As palavras oxítonas 
terminadas em vogal, em n ou s sempre levam acento. Em contrapartida, as palavras 
que tenham qualquer outra terminação e que não tiverem acento serão 
obrigatoriamente oxítonas. 
 
79 
 
6.2.2 Palavras graves, llanas ou paroxítonas 
 
 
Conforme Torrego (2007), são palavras graves, llanas ou paroxítonas aquelas 
que possuem a sílaba tônica na penúltima sílaba. Por exemplo: 
 Fácil; 
 Cierto; 
 Cráter; 
 Fútil; 
 Solo; 
 Fértil; 
 Azúcar; 
 Hombre; 
 Estas; 
 Revólver. 
 
Como podemos perceber, assim como ocorreu com as oxítonas, há palavras 
com e sem acento. As palavras paroxítonas com qualquer terminação que não seja 
vogal, em n ou s sempre levam acento. Por outro lado, as palavras que terminam em 
vogal, em n ou s e que não têm acento serão obrigatoriamente paroxítonas. 
6.2.3 Palavras esdrújulas ou proparoxítonas 
De acordo com Torrego (2007), são palavras esdrújulas ou proparoxítonas 
aquelas que possuem a sílaba tônica na antepenúltima sílaba. 
 Héroe; 
 Síntoma; 
 Rubéola; 
 Área; 
 Régimen; 
 Dámelo; 
 
80 
 
 Teléfono; 
 
Chamam-se sobresdrújulas as palavras cuja sílaba tônica é anterior à 
antepenúltima. Torrego (2007) afirma que esse grupo é uma variante das 
proparoxítonas, ou seja, toda sobresdrújula é uma esdrújula, mas nem toda esdrújula 
será uma sobresdrújula. Além disso, segundo a Real Academia Española (RAE), 
apenas palavras compostas por uma forma verbal com dois ou três pronomes 
enclíticos são sobresdrújulas. 
 
 
Cómpramelo respóndanoslo devuélvaselas 
 
 
6.2.4 Palavras monossílabas 
 
 
Segundo Torrego (2007), os monossílabos — aquelas palavras de uma única 
sílaba com acento de intensidade — não levam acento. Por exemplo: 
 Sal; 
 Mar; 
 Mes; 
 Seis; 
 Vio; 
 Soy; 
 Dio; 
 Fue; 
 Fui; 
 Dios; 
 Fe; 
 Da. 
 
81 
 
 
O autor afirma que, desde 1959, é considerado erro acentuar vio, dio, fue, fui. 
Todavia, há também uma exceção a essa regra: o acento diacrítico. Quando um 
monossilábico oferece dois significados para a mesma palavra, eles são distinguidos 
pela adição de um acento à sua forma tônica, com o objetivo de não criar confusão. 
Veremos as regras especiais com mais precisão a seguir. 
 
6.3 Regras especiais de acentuação ortográfica 
O primeiro ponto a ser considerado é que, quando ocorre algo não esperado 
na língua, passamos a considerar tal fenômenos como uma regra especial. Dentro 
das regras especiais, temos dois grupos: o hiato e o acento diferencial ou diacrítico. 
6.3.1 Hiato 
As vogais a, e e o são fortes na língua espanhola, enquanto i e u são fracas. 
Portanto, normalmente, quando há um encontro vocálico entre as vogais fortes e as 
fracas, temos os ditongos ortográficos. De acordo com a RAE, para fins de 
acentuação gráfica, as seguintes sequências de vogais são consideradas ditongos. 
 Vogal aberta + vogal fechada, ou vice-versa: estáis, agua, suave, viento. 
 Duas vogais fechadas diferentes: huida, ciudad, veintiún, diurno, viudo. Em 
essência, espera-se que as vogais i e u sejam sempre fechadas (fracas). 
Contudo, as vogais fechadas são acentuadas quando estão ao lado das vogais 
naturalmente abertas. Logo, quando temos a construção a/e/o + í/ú ou í/ú + a/e/o, 
temos o fenômeno do hiato (TORREGO, 2007). Por exemplo: 
 Río; 
 Comía; 
 Baúl; 
 Ironía; 
 Búho; 
 Ahí; 
 Salía; 
 
82 
 
 Reíd. 
Como você pode perceber, o h não tem som na língua espanhola e, assim, não 
influencia a regra de acentuação do hiato. 
6.3.2 Acento diferencial ou diacrítico 
Na regra geral, não se acentuam os monossílabos (fue, pan, vio, ir, sal, etc.), 
nem as oxítonas com qualquer terminação que não seja n, s ou vogal (mujer, pared, 
nivel, aquel) ou as paroxítonas terminadas em n, s ou vogal (niño, muchacha, solo, 
cuanto, como). No entanto, quando há duas palavras iguais na forma, mas com 
diferentes funções gramaticais, normalmente se aplica o acento na forma tônica. Para 
Gómez Fernández (1979), todos os pares de palavras aos quais o acento diacrítico é 
aplicado são homônimos, ou seja, são palavras que possuem a mesma forma, mas 
com significados diferentes. 
Quando o monossílabo possui duas formas que podem ser confundidas, elas 
se diferenciam colocando o acento no monossílabo tônico (TORREGO, 2007). 
Veja os seguintes exemplos. 
 
 
el: artigo masculino singular (o). 
él: pronome de sujeito (ele). 
 
 
Exemplo: Él compró el coche rojo que tanto quería. (Ele comprou o carro 
vermelho que tanto queria.) 
 
de: preposição (de). 
dé: verbo (dar). 
 
 
Exemplo: Dile a María que me dé el regalo de cumpleaños que me 
prometió. 
 
83 
 
(Diga a Maria que me dê o presente de aniversário que me prometeu.) 
 
 
mas: conjunção adversativa (mas). 
más: advérbio de quantidade (mais). 
 
 
Exemplo: No tengo mucho tiempo, mas lo que me resta busco más cosas para 
hacer. (Não tenho muito tempo, mas o tempo que me sobra procuro mais coisas para 
fazer.) 
 
tu: adjetivo possessivo (teu, tua). 
tú: pronome de sujeito (tu). 
 
 
Exemplo: ¿Tú compraste tu gramática de español en Argentina? (Tu compraste 
tua gramática de espanhol na Argentina?) 
 
te: pronome oblíquo (te). 
té: substantivo (chá). 
 
 
Exemplo: Te preparé un té verde. (Te preparei um chá verde.) 
 
 
Em essência, todos os monossílabos acentuados se encaixam nessa regra 
especial de acentodiferencial ou diacrítico. Cabe esclarecer ainda que nem todos os 
monossílabos homônimos se distinguem pelo acento: la pode ser um artigo, um 
pronome ou uma nota musical; sol pode ser o astro ou uma nota musical; o verbo di 
pode ser a conjugação do imperativo afirmativo de decir (dizer) ou o pretérito indefinido 
 
84 
 
do verbo dar. Nesses casos, é importante ressaltar que o contexto deixará claro o seu 
significado. 
De acordo com Torrego (2007), todos os pronomes e advérbios, ao assumirem 
caráter interrogativo ou exclamativo, são acentuados. Embora sejam monossílabos ou 
paroxítonas terminadas em vogal ou s e, na sua forma átona, não levem acento, nesse 
contexto eles passam a fazer parte da regra do acento diacrítico ou diferencial. 
Perceba o contraste dos dois grupos oracionais a seguir: 
 
 Primeiro grupo: 
o La ciudad donde nací continúa linda. 
o Quien lo hice, que nos cuente. 
 
 Segundo grupo: 
o ¿Dónde naciste? 
o ¿Quién fue al cumpleaños de Carlos? 
o ¿Qué ocurrió ayer? 
o ¡Qué día lindo! 
 
 
6.4 A acentuação e a sua importância no espanhol 
As palavras, sejam orais ou escritas, são signos linguísticos compostos de 
significante e de significado. Na cadeia sonora, há sinais que apresentam frequência, 
intensidade, tensão articulatória, enfim, muitos mecanismos que fazem com que cada 
palavra seja única. Segundo Gómez Fernández (1979), quando nos comunicamos 
com alguém pela linguagem oral, produzimos uma série de sinais linguísticos 
entrelaçados. 
Ao estudar acentuação na língua espanhola, é necessário pensar em 
tonicidade, pois o objetivo dessa disciplina é que o indivíduo, ao escrever, saiba como 
marcar a sílaba tônica. Assim, ao ter acesso a qualquer tipo de discurso escrito, ainda 
que não conheça determinadas palavras, ele consegue identificar onde está a sílaba 
tônica. Contudo, cabe ressaltar que o conhecimento prosódico é fundamental, em 
 
85 
 
muitas circunstâncias, para o conhecimento semântico de determinada palavra. 
Mesmo que exista uma liberdade em relação à posição da sílaba tônica na língua 
espanhola, essa liberdade carrega características distintivas fundamentais para o 
processo comunicativo. 
Na língua francesa, de acordo com Alarcos Llorach (1999), a posição da sílaba 
tônica é fixa (acento final obrigatório); já na língua espanhola, o acento é livre, ou seja, 
ele pode se localizar em diferentes sílabas. Cabe ressaltar, porém, que essa liberdade 
é limitada às últimas três sílabas da palavra. Segundo o autor, o acento que é colocado 
na sequência silábica em geral está condicionado à tradição herdada do latim vulgar, 
de onde vêm, historicamente, a língua espanhola e a portuguesa. Nesse contexto, a 
posição da sílaba tônica normalmente tem valor distintivo, ou seja, a tonicidade é 
responsável pelo significado da palavra. 
 
6.5 O acento prosódico 
 
Quando nos deparamos com situações em que temos as sequências sonoras 
entre hablo (verbo falar no presente do indicativo, traduzido como falo no português) 
e habló (verbo falar no pretérito perfeito do indicativo, traduzido como falou no 
português), percebemos que não se trata de diferentes tipos de fonema. Não há 
propriedades fônicas que estão ou não presentes na sequência distintiva entre pares 
mínimos fonêmicos, como /k/ e /g/, /p/ e /b/ ou /t/ e /d/, cujas distinções são marcadas 
pelo fato de um fonema ser surdo e o outro sonoro. Trata-se de duas palavras que 
são semanticamente diferentes, mas que possuem o traço distintivo composto pelo 
mesmo fonema /o/. Alarcos Llorach (1999) afirma que, nesse contexto, não é o fonema 
que determina o significado entre pares de palavras, mas o acento prosódico. 
Em palavras que têm a mesma forma, é o acento prosódico que se 
responsabiliza pela determinação de qual é a sua sílaba tônica. Ele agrega, dessa 
maneira, o seu significado, pois a diferença de sentido entre as palavras que têm a 
mesma forma depende exclusivamente do acento prosódico. Em essência, a função 
transcendental linguística é distinguir significados a partir de acentos prosódicos. 
Analise as seguintes orações. 
 
86 
 
 
Si ellos amaran tanto su perro, intentarían cuidarlo más. (Se eles amassem 
tanto seu cachorro, tentariam cuidar mais dele.) 
 
Mis padres dicen que amarán viajar a Europa en cuanto yo empiece a hablar 
italiano. (Meus pais dizem que amarão viajar à Europa quando eu começar a falar 
italiano.) 
 
Nessas duas orações, temos a mesma sequência fonológica; porém, com 
diferentes acentos prosódicos, os quais são determinantes para o contexto das 
orações. Por exemplo, o primeiro verbo amaran está conjugado no pretérito perfeito 
do subjuntivo e tem como tradução no português amassem — há nele uma noção de 
possibilidade. Já o verbo amarán, da segunda oração, está conjugado no futuro do 
indicativo. Perceba que temos um verbo acentuado e o outro não. 
Ao dominar as regras de acentuação, o indivíduo conseguirá diferenciar ambos 
os verbos e classificá-los em seus respectivos tempos e modos (LLORACH, 1999). 
Por exemplo, sabemos, sem nenhum problema, que o verbo da primeira oração é uma 
paroxítona, já que, quando temos uma palavra terminada em n, s ou vogal sem 
nenhuma marcação de acento, a penúltima sílaba é a tônica. Da mesma forma, a 
marcação da tonicidade na segunda oração é fundamental para que se compreenda 
que se trata de uma palavra oxítona. Uma situação bastante parecida ocorre nas 
orações a seguir. 
 
Yo siempre canto con el coro de la escuela en las fiestas de la comunidad. Mi 
novio cantó una vez, pero a él no le gustó mucho. (Eu sempre canto com o coral da 
escola nas festas da comunidade. Meu namorado cantou uma vez, mas ele não 
gostou muito.) 
El canto de los pájaros es lindo. (O canto dos pássaros é lindo.) 
 
Na primeira oração, temos o mesmo problema das orações apresentadas 
anteriormente: os dois verbos marcados estão conjugados no modo indicativo, mas o 
 
87 
 
primeiro está na primeira pessoa do singular do presente e o segundo, na terceira 
pessoa do singular no pretérito simples ou indefinido. (classificação do espanhol). 
Com a mudança de tempo verbal, também temos a mudança de tonicidade da palavra, 
portanto Can to (presente) tem a sílaba tônica no 'can', sendo uma 'llana ou grave' 
terminada em vogal e, por isso, não é acentuada. Quando temos can tó (pretérito), 
verificamos que a sílaba tônica é tó, logo é uma 'aguda' terminada em vogal, 
conferindo-lhe o acento, que tem a mesma forma e o mesmo acento prosódico do 
verbo conjugado no presente do indicativo. Nesse contexto, não há ambiguidade, uma 
vez que nunca teremos um verbo conjugado após um artigo (ou seja, tal questão não 
entra em discussão no quesito sentido). Obviamente, em termos de regras de 
acentuação, o substantivo canto e o verbo canto são considerados palavras 
paroxítonas. 
É importante também ressaltar que, para Alarcos Llorach (1999), o acento 
prosódico que diferencia determinadas palavras resulta da economia linguística, já 
que podemos dar significados diferentes à mesma forma. Por exemplo, temos a 
mesma sequência fonética para três significados diferentes em termino, termino e 
termino. Se isso não ocorresse, precisaríamos de três novas palavras com formas 
diferentes (em alguns de seus fonemas ou em todos), o que multiplicaria o esforço 
dos falantes em relação à língua, além de sobrecarregar a memória com algo 
desnecessário. 
É importante que nós consigamos compreender e passar aos nossos alunos 
que as palavras devem ser expressas, oral ou graficamente, levando em conta não 
apenas a ortografia, mas também o acento prosódico. Assim, aprender a língua 
espanhola consiste em compreender que a palavra constitui um todo, o qual abrange 
desde a sua fala até a sua escrita, e com isso, ela deve ser assimilada e expressa. 
A figura abaixo apresenta um exemplo de diferenças de prosódia. 
 
 
 
88 
 
 
Fonte: [Gaturro] ([2017]).6.6 O acento nas interrogações e nas exclamações 
 
 
Sabemos que a língua é formada por um conjunto de signos que usamos para 
a comunicação. De acordo com Gómez Fernández (1979), o ar é o meio que usamos 
para materializá-la. Por meio dele, podemos produzir diferentes tipos de vibrações, as 
quais caracterizam as diferenças de sons que, interpretados como sinais, são 
captados pelo aparato acústico do receptor, enviados ao cérebro e decodificados por 
ele. 
Como já vimos, a prosódia é responsável pela musicalidade das línguas e, 
dessa forma, estudá-la representa estudar o ritmo e a entonação linguística. A 
prosódia é fundamental em qualquer idioma; se ela não existisse, seríamos máquinas 
reprodutoras de palavras e falaríamos como robôs. De acordo com Milan (2013), a 
prosódia é tão importante para um idioma quanto a sua estrutura sintática e 
morfológica. Assim, não existe uma língua sequer sem aspectos prosódicos e, como 
todos os outros critérios linguísticos, a prosódia também costuma mudar de uma 
língua para outra. 
O sistema fonológico de uma língua inclui tanto as unidades distintivas que 
ocorrem na cadeia — os fonemas segmentais — quanto as unidades 
 
89 
 
suprassegmentais ou prosódicas: acento, pausa e entonação. Essas unidades são 
relevantes para distinguir gramaticalmente sequências de outra forma idênticas. Isso 
representa que, ainda que determinadas palavras tenham a mesma forma e a mesma 
 
 
sequência sonora, inclusive com a mesma sílaba tônica, não necessariamente 
elas assumirão os mesmos contextos discursivos. Por exemplo, quando pensamos na 
utilização do que, vemos que esse elemento pode ser um pronome relativo, um 
pronome interrogativo, um pronome exclamativo ou uma conjunção integrante, como 
podemos perceber a seguir. 
 
Los libros que compré año pasado son muy buenos. (pronome relativo) 
 
 
¿Qué pasa? (pronome interrogativo) 
 
 
¡Qué lindo! (pronome exclamativo) 
 
 
Beta nos dijo que debemos estudiar. (conjunção integrante) 
 
 
Na primeira oração, temos um pronome relativo, o qual possui o mesmo acento 
prosódico que a conjunção integrante da última oração. A segunda e terceira orações, 
ainda que sejam tão monossílabas quanto as outras, possuem um acento prosódico 
diferente, pois há uma entonação interrogativa e outra exclamativa. 
Como você percebeu, existe uma diferença entonacional na fala que, de certa 
forma, materializa-se também na escrita. Enquanto a prosódia cuida do ritmo 
melódico, a entonação se preocupa com o objetivo da comunicação. Em outras 
 
90 
 
palavras, esta analisa a intenção do emissor no momento da fala: se é uma pergunta, 
uma exclamação ou uma declaração. 
Pela prosódia, segundo a RAE (2010), os advérbios e os pronomes relativos se 
diferenciam por serem vozes átonas, já os interrogativos e os exclamativos são 
palavras tônicas. Compare as seguintes orações, atentando ao fato de que todas as 
primeiras orações de cada dupla contêm pronomes ou advérbios relativos, enquanto 
todas as segundas orações apresentam pronomes ou advérbios interrogativos: 
 
La amiga de mi hermana, quien estudia francés, también habla inglés. 
(pronome relativo) 
 
 
¿Quién fue a la fiesta de Navidad? (pronome interrogativo) 
 
 
La falda roja, la cual compré ayer, me pareció muy linda. (pronome relativo) 
 
¿Cuál es tu nombre? (pronome interrogativo) 
 
El país donde Anne Frank murió hace mucho frío. (advérbio relativo) 
 
¿Dónde Anne Frank murió? (advérbio interrogativo) 
 
 
Segundo Torrego (2007), a entonação é uma característica que agrega ao 
enunciado um novo significado. É um elemento que permite que o falante manifeste 
uma afirmação, uma pergunta, uma ordem, etc. Sabemos que a escrita é uma 
tentativa de clonar a fala da realidade. 
Em função disso, o autor ressalta que, na escrita, para se diferenciar as 
modalidades exclamativas e interrogativas, é necessário que não apenas que se 
pontue, no discurso direto, com os pontos de exclamação (¡!) e interrogação (¿?) inicial 
 
91 
 
e final, mas também que se acentuem os pronomes interrogativos e exclamativos 
como os exemplos a seguir. 
 ¡Qué lindo! 
 ¿Qué pasa? 
 
Por fim, é importante destacar que a morfologia, fonética e a gramática dizem 
muito sobre uma língua: pode descrever suas regras e estruturas, explicar a formação 
de suas palavras, as formas como estas se relacionam e os sons que as caracterizam, 
além de serem responsáveis por identificar culturalmente um povo, um país. 
 
 
Fonte: https://catracalivre.com.br 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
7 BIBLIOGRAFIA BÁSICA 
 
 
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