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1 Khilver Doanne Sousa Soares Artralgia Problema 24; 5º período; “As dores do mundo”; 1. Entender a fisiopatologia das artralgias; 2. Diferenciar as artralgias inflamatórias e mecânicas; 3. Compreender os fatores de risco das artralgias inflamatórias e mecânicas; 4. Conhecer os tipos de dores articulares. As articulações são classificadas estruturalmente, com base nas características anatômicas, e funcionalmente de acordo com o tipo de movimento que possibilitam. A classificação ESTRUTURAL das articulações é baseada em dois critérios: (1) existência ou não de espaço entre os ossos integrantes da articulação, chamado de cavidade articular, e (2) tipo de tecido conjuntivo que une os ossos. Do ponto de vista estrutural, as articulações são classificadas como: Articulações fibrosas: não há cavidade articular e os ossos são mantidos unidos por tecido conjuntivo denso não modelado e rico em fibras de colágeno; Articulações cartilagíneas: não há cavidade articular e os ossos são mantidos juntos por cartilagem; Articulações sinoviais: os ossos que formam a articulação apresentam cavidade articular e são unidos pelo tecido conjuntivo denso não modelado de uma cápsula articular e, muitas vezes, por ligamentos acessórios. A classificação FUNCIONAL das articulações tem relação com o grau de movimento que permitem. Funcionalmente, as articulações são classificadas como: Sinartrose: uma articulação imóvel; Anfiartrose: uma articulação discretamente móvel; Diartrose: uma articulação livremente móvel. Todas as diartroses são articulações sinoviais. Elas apresentam várias formas e possibilitam diversos tipos diferentes de movimentos. Mecânicas A osteoartrite, também chamada de doença articular degenerativa, é caracterizada pela degeneração da cartilagem que resulta em falha estrutural e funcional das articulações sinoviais. É o tipo mais comum de doença articular. Na maioria dos casos, a osteoartrite aparece de forma insidiosa, sem uma causa aparente, como um fenômeno de envelhecimento (osteoartrite idiopática ou primária). Nesses casos, a doença é oligoarticular (afeta poucas articulações), mas pode ser generalizada. Em cerca de 5% dos casos, a osteoartrite aparece em indivíduos mais jovens, com alguma condição predisponente, como deformidade da articulação, lesão articular anterior, ou uma doença sistêmica subjacente, como diabetes, ocronose, hemocromatose ou obesidade acentuada, que coloca em risco as articulações. Nesses contextos, a doença é chamada de osteoartrite secundária. O sexo possui certa influência na distribuição. Os joelhos e as mãos são afetados com maior frequência em mulheres, e os quadris, nos homens. As lesões de osteoartrite (OA) decorrem de degeneração da cartilagem articular e a sua reparação desordenada. A cartilagem articular contribui para o movimento virtualmente sem atrito da junta, na medida em que fornece resistência à tensão e à compressão, pela presença do colágeno tipo II e das proteoglicanas, respectivamente, ambos sintetizados por condrócitos. Embora historicamente a OA tenha sido considerada um processo inevitável de desgaste, isso é uma 2 Khilver Doanne Sousa Soares simplificação exagerada, já que a doença efetivamente envolve alterações patológicas complexas nos condrócitos e na matriz. As alterações em condrócitos pode ser dividida em três fases: (1) a lesão de condrócitos, relacionada a fatores genéticos e bioquímicos; (2) a OA precoce, em que os condrócitos proliferam e secretam mediadores inflamatórios, colágenos, proteoglicanas e proteases, os quais atuam em conjunto para remodelar a matriz cartilaginosa e iniciar as alterações inflamatórias secundárias na membrana sinovial e osso subcondral; e (3) AO tardia, em que lesões repetitivas e inflamação crônica levam ao esgotamento, com marcante perda de cartilagem e extensas alterações ósseas subcondrais. Praticamente todos os componentes extracelulares da cartilagem articular são afetados na OA. O colágeno tipo II é degradado por metaloproteinases de matriz. Apesar de os condrócitos continuamente sintetizarem e secretarem proteoglicanas durante a progressão da doença, a degradação, em última análise, excede a síntese, e a composição das proteoglicanas é alterada. As células inflamatórias são escassas, mas citocinas e fatores difusíveis associados a outras condições inflamatórias, particularmente o TGF-β (que induz metaloproteinases de matriz), o TNF, prostaglandinas e o óxido nítrico, foram implicados na osteoartrite. Fonte: KUMAR, V.; ABBAS, A.K.; FAUSTO, N.; ASTER, J.C. Bases Patológicas das Doenças. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016. Comparação das características morfológicas da artrite reumatoide e da osteoartrite. Resumindo, a osteoartrite é: A perda qualitativa e quantitativa da cartilagem articular acarreta uma significativa remodelação óssea hipertrófica local e uma inflamação secundária, via de regra de pequena magnitude. Para a caracterização da osteoartrite é obrigatória a presença da dor, visto que alterações anatomopatológicas, bioquímicas e verificadas por meio de métodos de imagem +++ Do ponto de vista fisiopatológico, a osteoartrite é definida como uma insuficiência da cartilagem articular, decorrente de um predomínio da degradação sobre a síntese, que evolui com inflamação local, proliferação sinovial e enfraquecimento global dos ligamentos e músculos. 3 Khilver Doanne Sousa Soares Fonte: MARTINS, Mílton de Arruda. et. al. Clínica Médica, 1. ed. São Paulo: Manole, 2009. A osteoartrite decorre principalmente da atuação de fatores que acarretam sobrecarga sobre a cartilagem articular, bem como de deficiências intrínsecas desse tecido, que vão promover uma degradação da cartilagem, ativando condrócitos que passam a produzir não só elementos estruturais, mas também enzimas com ação sobre as moléculas da matriz, acelerando a sua degradação. Paralelamente, a membrana sinovial se torna inflamada, o que piora o processo. Fatores genéticos; Idade; Traumas; Obesidade; Deformidades articulares; Atividade física ocupacional; Atividade física não-ocupacional; Densidade mineral óssea; Deficiência de estrógeno. Joelhos; Mãos; Quadril; Coluna. Fonte: MARTINS, Mílton de Arruda. et. al. Clínica Médica, 1. ed. São Paulo: Manole, 2009. Radiografia dos joelhos: (1) redução do espaço articular, (2) esclerose óssea subcondral e (3) osteófitos. Fonte: MARTINS, Mílton de Arruda. et. al. Clínica Médica, 1. ed. São Paulo: Manole, 2009. Evolução radiográfica da osteoartrite. (A) A cartilagem íntegra propicia um espaço articular normal e ausência de reação óssea. (B) Na osteoartrite, ocorre redução do espaço articular decorrente de perda da cartilagem, aumento da densidade óssea subcondral, esclerose óssea e formação de osteófitos. (C) No processo avançado, há perda total do espaço articular, grandes proeminências osteofitárias e surgimento de cistos ósseos subcondrais com contornos bem definidos. 4 Khilver Doanne Sousa Soares Fonte: MARTINS, Mílton de Arruda. et. al. Clínica Médica, 1. ed. São Paulo: Manole, 2009. Osteoartrite dos joelhos com deformidade em varo. Fonte: MARTINS, Mílton de Arruda. et. al. Clínica Médica, 1. ed. São Paulo: Manole, 2009. Nódulos de Heberden: aumento de volume de consistência rígida dorsolateral nas articulações interfalangianas distais. Fonte: MARTINS, Mílton de Arruda. et. al. Clínica Médica, 1. ed. São Paulo: Manole, 2009. Osteoartrite da articulação carpometacarpiana do polegar ou rizartrose, conferindo o aspecto de “mão quadrada” (seta). Fonte: MARTINS, Mílton de Arruda. et. al. Clínica Médica, 1. ed. São Paulo: Manole, 2009. Radiografia do quadril. Notar a significativa redução do espaço articular e um grande osteófito acetabular (seta). Fonte: MARTINS, Mílton de Arruda. et. al. Clínica Médica,1. ed. São Paulo: Manole, 2009. Radiografia da coluna lombar, com presença de grandes osteófitos na lateral sujeita a forças de compressão. O diagnóstico da osteoartrite se baseia sobretudo no quadro clínico e na avaliação por meio de métodos de imagem (basicamente a radiografia). A dor é o sintoma de presença obrigatória. O tratamento da osteoartrite tem por objetivos básicos o alívio dos sintomas, a recuperação da função e o retardo da evolução da doença e regeneração dos tecidos lesados. O tratamento da OA pode ser dividido em farmacológico, não-farmacológico e cirúrgico. 5 Khilver Doanne Sousa Soares Tratamento Farmacológico: o Tratamento com medicação sintomática de curta duração (analgésicos e anti- inflamatórios não-hormonais – AINH). o Tratamento com fármacos de ação lenta que se subdividem em: a) Fármacos sintomáticos de ação lenta: hialuronatos, cloroquina, sulfato de glicosamina, sulfato de condroitina, diacereína, extratos insaponificados de soja e abacate etc. b) Fármacos modificadores de doença de ação lenta (diacereína, sulfato de glicosamina e ácido hialurônico). O tratamento cirúrgico geralmente é utilizado quando o tratamento clínico falhou. Inclui irrigação, debridamento artroscópico, fenestração do osso subcondral, remoção de osteófitos, osteotomia, colocação de próteses e artrodese. Transplante de cartilagem e condrócitos, uso de matriz artificial e aplicação de fatores de crescimento apresentam resultados aceitáveis apenas nos casos de lesões focais, em indivíduos mais jovens. Inflamatórias Microrganismos de todos os tipos podem se alojar nas articulações durante uma disseminação hematogênica. Estruturas articulares também podem ser infectadas por inoculação direta ou por contiguidade a partir de um abscesso de partes moles ou foco de osteomielite. A artrite infecciosa é potencialmente séria, pois pode causar rápida destruição articular, levando a deformidades permanentes. As infecções bacterianas que causam a artrite supurativa aguda geralmente entram nas articulações a partir de regiões distantes por disseminação hematogênica. A artrite por H. influenzae predomina em crianças menores de 2 anos de idade, o S. aureus é o principal agente causador em crianças mais velhas e adultos, e o gonococo é predominante durante o final da adolescência e início da vida adulta. Os indivíduos com anemia falciforme apresentam uma propensão para infecção por Salmonella em qualquer idade. Essas infecções articulares afetam ambos os sexos de modo similar, exceto para artrite gonocócica, que é vista em especial nas mulheres sexualmente ativas. O quadro clássico é o desenvolvimento súbito de uma articulação muito dolorosa e edemaciada com restrição funcional. Os achados sistêmicos de febre, leucocitose e aumento da velocidade de hemossedimentação são comuns. Na infecção gonocócica disseminada, os sintomas são mais subagudos. Em 90% dos casos não gonocócicos, a infecção envolve apenas uma única articulação, geralmente o joelho, seguida frequentemente pelas articulações do quadril, ombro, cotovelo, punho e esternoclavicular. A artrite micobacteriana é uma infecção crônica progressiva monoarticular, causada pelo M. tuberculosis, que ocorre em todas as faixas etárias, especialmente em adultos. Em geral 6 Khilver Doanne Sousa Soares desenvolve-se como uma complicação de uma osteomielite concomitante ou após a disseminação hematogênica a partir de um sítio de infecção visceral (comumente pulmonar). O início é insidioso, com dor gradual e progressiva. Os sintomas sistêmicos podem ou não estar presentes. A contaminação por micobactérias de uma articulação induz a formação de granulomas confluentes com necrose caseosa central. A sinóvia afetada pode crescer como um pannus sobre a cartilagem articular e causar erosão do osso ao longo das margens articulares. A doença crônica resulta em anquilose fibrosa e obliteração do espaço articular. As articulações de suporte de peso geralmente são afetadas, em particular os quadris, joelhos e tornozelos, em ordem decrescente de frequência. A artrite reumatoide (AR) é um distúrbio inflamatório crônico de origem autoimune, que pode afetar muitos tecidos e órgãos, mas principalmente ataca as articulações, produzindo sinovite inflamatória proliferativa e não supurativa. As alterações patológicas são mediadas por anticorpos contra autoantígenos e inflamação mediada por citocinas, predominantemente secretadas por células T CD4 +. Os linfócitos T CD4 + auxiliares (TH) podem iniciar a resposta autoimune na AR por reação com um agente artritogênico, talvez microbiano ou um autoantígeno. As células T produzem citocinas que estimulam outras células inflamatórias para efetuar a lesão do tecido. A sinóvia da AR contém centros germinativos com folículos secundários e plasmócitos abundantes que produzem anticorpos, alguns dos quais contra autoantígenos. Muitos dos autoanticorpos produzidos em órgãos linfoides e na membrana sinovial são específicos para peptídios citrulinados (PCC), em que os resíduos de arginina são convertidos em citrulina após a tradução. Na AR, os complexos antígeno-anticorpo contendo fibrinogênio citrulinado, colágeno tipo II, α-enolase e vimentina se depositam nas articulações. Os anticorpos contra esses peptídios são marcadores diagnósticos da doença e podem mediar lesão articular. As evidências sugerem que os níveis elevados de anticorpos anti-PCC, em combinação com uma resposta de células T para as proteínas citrulinadas, contribuem para que a doença se torne crônica. Além disso, cerca de 80% dos pacientes têm autoanticorpos IgM e IgA no soro que se ligam às porções Fc de suas próprias imunoglobulinas. REFERÊNCIAS MARTINS, Mílton de Arruda. et. al. Clínica Médica, 1. ed. São Paulo: Manole, 2009. KUMAR, V.; ABBAS, A.K.; FAUSTO, N.; ASTER, J.C. Bases Patológicas das Doenças. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016. _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________