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Maria Eduarda de Alencar – Odontologia 2019.2 Manejo das Vias Aéreas Introdução - O acesso as vias aéreas tem prioridade sobre todos os outros aspectos da reanimação em quase todos os pacientes graves; → Anatomia - Estruturas: Cavidade nasal, cavidade oral, faringe – se divide em nasofaringe, orofaringe e hipofaringe (na sua frente encontra-se a epiglote, cartilagem que controla a abertura e o fechamento da via aérea) – laringe, traqueia; !!! Cavidade Nasal - Suprimento Arterial: Artéria oftálmica – ramos etmoidais anterior e posterior – artéria maxilar – artéria esfenopalatina e artéria palatina maior – artéria facial – ramos labiais superior e nasal lateral – plexo de Kiesselbach – zona extremamente vascularizada, onde todas as artérias confluem, localizado na região anterior do septo nasal; - Das narinas até a nasofaringe tem-se uma região de, aproximadamente, 10-14 cm – esse conhecimento é necessário para seleção do dispositivo ideal de acesso; - Inervação: O nervo trigêmeo é o responsável primário, atuando através dos seus ramos → Nervo oftálmico (V1), - nervo etmoidal anterior e posterior – e nervo maxilar (V2) – gânglio esfenopalatino; !!! Faringe - Vai da base do crânio até a cartilagem cricoide – limite anterior – e C6 – limite posterior. Tem uma extensão de, aproximadamente, 12-15 cm; - Divisão: Nasofaringe – posterior ao nariz, vai do final dos cornetos e septo até o palato mole – orofaringe – posterior à cavidade oral, inicia no palato mole e vai até a porção superior da epiglote – laringofaringe ou hipofaringe – posterior à laringe, inicia na porção superior da epiglote e vai até a cartilagem cricoide-4°-6° vértebra cervical; !!! Laringe - Vai da vértebra C3 até a C6. Seus limites são → borda superior da epiglote, prega entre as duas aritenoides – limite lateral – e pregas ariepiglóticas – limite anterior; - É formada por nove cartilagens: epiglote, tireoide e cricoide – únicas – aritenoides, corniculadas e cuneiformes – bilaterais; - Membrana Cricotireóidea: Tem forma de trapézio, é menor em mulheres, sua largura vai de 27-32 mm e sua altura de 5-15 cm. Essa membrana localiza-se entre as cartilagens cricoide e tireoide e é importante no acesso as vias aéreas através da cricotireostomia → incisão de emergência para garantir a via aérea do paciente durante certas situações de emergência, principalmente fora do hospital – no ambiente hospitalar opta-se pela traqueostomia ou intubação, normalmente. Acesso as Vias Aéreas - Antes de tudo, o socorrista deve fazer a avaliação do paciente – protocolo ABCDE; - Existem indicações de acesso as vias aéreas, dentre elas encontra-se → permeabilizar, proteger contra broncoaspiração e ventilar. Isso é obtido através de manobras; → Permeabilização de Via Aérea (A) - O tecido mole – palato mole e lingua – tende a cair para a região posterior, sobre a via aérea, bloqueando a passagem de ar. Através de manobras manuais, o socorrista pode reverter isso, permeabilizando as vias aéreas; !!! Manobras Manuais - Chin Lift – Elevação do Mento: O socorrista coloca uma de suas mãos na frente da vítima – na cabeça – e a utiliza para inclinar a cabeça para trás. Os dedos de outra mão são colocados no queixo – mento – da vítima e são utilizados para deslocar a mandíbula para cima e para a frente. Esta manobra não deve ser utilizada na suspeita de lesão cervical; - Jaw Trust: Indicada no caso de suspeita de lesão cervical servindo como alternativa para a manobra chin lift – embora existam trabalhos mostrando semelhança entre elas. O socorrista se posiciona atrás da vítima ou ao seu lado, mantendo a imobilização da cabeça e do pescoço, utilizando o quarto e o quinto dedo de sua mão para colocar a mandíbula para cima e, com os polegares, mantém a boca do paciente aberta; - Abertura de Boca: Utilizada somente em casos de vítima inconsciente. O socorrista coloca o polegar nos incisivos superiores da vítima e o indicador nos inferiores, fazendo um movimento de abertura em tesoura com esses dedos; - Posição Lateral de Segurança: Essa posição impede a queda da língua e permite que o vômito, sangue e secreções, saiam pela boca sem obstruir as vias aéreas, sendo muito utilizada em pacientes inconscientes. O socorrista deve ajoelhar-se próximo da vítima do mesmo lado para a qual vai virá-la, logo após, deve estender o braço da vítima perpendicular ao corpo, pegar a mão contralateral dela e colocar sobre a palma de sua mão pressionando levemente o rosto – hiperestentendo a cabeça do paciente para melhorar ainda mais a saída de conteúdo líquido – e por fim, deve segurar a vítima pela região posterior ao joelho com a outra mão e puxar para o seu lado; - Remoção de Corpo Estranho: Se o paciente estiver consciente pode-se utilizar a manobra de Heimlich → O socorrista se posiciona atrás da vítima e com as duas mãos colocadas na altura inferior do esterno – em pessoas obesas e mulheres grávidas essas compressões são a nível de tórax – faz compressões em forma de J, para traz e para cima. Em bebês, há uma alteração, primeiramente o socorrista coloca ele apoiado sobre a perna, com a barriga voltada para baixo e a cabeça mais baixa que o restante do corpo, e faz-se cinco batidas leves nas costas, entre as escápulas, utilizando a região hipotênar, sempre mantendo a boca dele aberta, logo depois ele vira o bebê de barriga para cima e realiza cinco compressões torácicas com os dedos indicador e médio, sempre mantendo a cabeça mais baixa que o resto do corpo e repetindo isso até que o bebê desengasgue ou que o socorro chegue. Em vítima inconsciente, o que se pode fazer é abrir a boca dela e tentar retirar o corpo estranho; → Ventilação e Oxigenação (B) - É nessa etapa que o socorrista irá fornecer oxigênio a vítima e para isso existem alguns equipamentos básicos: cânula orofaríngea, cânula nasofaríngea, cânula de aspiração. Eles irão manter as vias aéreas permeáveis, reduzir o trabalho do socorrista e liberar suas mãos para outras tarefas essenciais; !!! Equipamentos Básicos - Cânula Orofaríngea: Também chamada de cânula de guedel, serve para evitar a queda da língua. Só pode ser usada em pacientes inconscientes – se usada em um paciente consciente ele pode vomitar e aspirar esse conteúdo gástrico para dentro da via aérea – e com ausência de reflexo de proteção da via aérea. A cânula deve ser adequada às dimensões da vítima – essa medida pode ser feita usando como parâmetro a distância da cavidade oral até o ramo da mandíbula. Sua introdução deve ser feita com o lado côncavo para cima, efetuando uma rotação de 180°, quando a extremidade distal atingir o palato mole – em crianças e recém nascidos esse protocolo não é feito, pois o palato é muito frágil e pode ser provocada uma lesão; - Cânula Nasofaríngea: É introduzida na região do nariz. O seu tamanho ideal deve ir do ângulo da mandíbula a narina. Ela está indicada em pacientes com trismo e está contraindicado em pacientes com trauma facial ou de crânio – pois ela pode acidentalmente ser introduzida no crânio; - Cânula de Aspiração: Tem como finalidade a remoção de sangue, vômito e de outros materiais. As rígidas são mais úteis para aspiração de matéria particulada, sendo os melhores para a urgência; !!! Equipamentos Avançados - Além dos equipamentos básicos há também os equipamentos avançados, que nada mais são do que dispositivos que promovem o suporte de O2 → Cateter de O2, máscaras, combitube, máscara laríngea e tubo endotraqueal; - Cateter de O2: É adaptado na região do nariz do paciente de maneira fácil, é um equipamento barato, fornece oxigênio a baixo fluxo, no máximo 5 L por minuto, é utilizado nos casos menos graves e cada litro aumenta cerca de 3- 4% fração inspirada de oxigênio de O2; - Máscara de Venturi: Utilizada para pacientes com necessidade de precisa– específica – de FiO2 – fração inspirada de oxigênio O2 – fornece O2 em alto fluxo, 3-15 L/min. A FiO2 precisa depende da cor → laranja = 50%, rosa = 40%, verde = 35%, branco = 31%, amarelo = 28%, azul = 24%; OBS.: Não são todos os pacientes que podem receber O2 em alto fluxo em qualquer quantidade, pois eles podem reter esse O2, para eles, é importante se saber exata PO2 que está sendo fornecida. - Máscara Não Reinalante: Fornece O2 em alto fluxo. Ela permite a entrada de oxigênio na via aérea e ao mesmo tempo impede que o CO2 seja aspirado – as válvulas presentes na máscara vão se abrir quando o paciente expira, permitindo a saída do CO2, no momento da inspiração a válvula de fecha, não permitindo entrada de ar do meio externo – o paciente aspira oxigênio a 100%. Utilizada em pacientes com hipoxemia grave; - Bolsa-Válvula-Máscara (Ambu): Fornece O2 em alto fluxo, utilizado na ventilação de pacientes sem drive respiratório – que não conseguem respirar por conta própria. O socorrista deve segurar o ambu, com o dedo indicador e o polegar, de forma que ele fique totalmente vedado no rosto do paciente, mantendo os outros dedos na base da mandíbula do paciente, suspendendo a cabeça do paciente; - Ventilação Não Invasiva (VNI): Realiza ventilação com pressão positiva, em paciente consciente, mas com respiração deficiente – em quadros como, doença pulmonar obstrutiva crônica, insuficiência cardíaca congestiva e insuficiência respiratória hipoxêmica. Se o paciente precisa de ventilação invasiva – intubação – não se deve perder tempo com a VNI; - Combitube: Pode ser usado em situações de emergência. Indicado na manutenção das vias aéreas e ventilação de pacientes arreativos – sem resposta – e com respiração deficiente. Ele tem duas luzes e dois balonetes, A primeira luz funciona como um obturador de esôfago, terminado em orifícios laterais acima de um balonete situado no terço superior do combitubo, o balonete superior se destina a enviar escapamento de ar pela orofaringe quando o tubo é posicionado no esôfago. A segunda luz funciona como um conduto de ar para os pulmões, caso o tubo seja introduzido na traqueia, ela termina na extremidade distal do combitubo. Para saber se o tubo foi introduzido no esôfago ou na traqueia o profissional deve fazer a ausculta e observar a expansão torácica; OBS.: Vantagens do combitube → É um equipamento que permite que vários profissionais da saúde, não só médicos, ventilem um paciente através da bolsa, com eficácia, utilizando apenas uma das mãos, protege a via aérea do paciente da broncoaspiração maciça, dá segurança e sua introdução é fácil, não é necessária a manipulação da coluna cervical e permite a ventilação, não importando se o tubo é introduzido no esôfago ou na traqueia. Embora tenha muitas vantagens, na prática ele não é muito utilizado, normalmente faz-se o uso de máscara laríngea, ambu ou é intubado. - Máscara Laríngea: É um dispositivo supra- glótico das vias aéreas, dispensando o uso do laringoscópio. Quando corretamente posicionada, a face convexa posterior da máscara laríngea estará em contato com a parede da faringe e a anterior sobreposta as estruturas supra- glóticas – laringe – de forma a permitir a ventilação. Sua ponta se aloja sobre esfíncter esofagiano superior. Para introduzir a máscara, o profissional deve verificar a transparência do tubo à integridade do manguito pneumático e testar a válvula de retenção – se ela apresentar vazamento e não se mantiver desinflada não deve ser utilizada. Após isso, deve ser feita a limpeza do manguito contra uma superfície plana, mantendo suas bordas lisas e com um formato uniforme, seguida da lubrificação a face posterior da máscara, para facilitar seu deslizamento contra o palato e a curvatura posterior da faringe... ... Indicações da máscara laríngea → Parada cardiorrespiratória, apneia e insuficiência respiratória, ventilação sob pressão positiva por poucas horas em cirurgias eletivas, no suporte básico de vida em adultos como alternativa ao ambu – é a primeira escolha para assegurar via aérea para reanimadores que não estão treinados para intubação traqueal – no suporte avançado de vida em adultos, como dispositivo aceitável e possivelmente útil nos casos de intubação traqueal difícil, no suporte avançado da vida em pediatria, como alternativa quando não se consegue entubar e/ou ventilar e em vias aéreas difíceis. OBS.: Na área da cirurgia bucomaxilofacial a máscara laríngea é utilizada, mas ela acaba não sendo muito prática, principalmente em situações de traumas, pois não tem como se realizar procedimentos a nível de cavidade oral se o paciente estiver utilizando-a. - Tubo Endotraqueal: Utilizado na intubação endotraqueal. É um método de controle definitivo da via aérea, de escolha para assegurar a ventilação pulmonar adequada sem distensão gástrica ou risco de broncoaspiração, permitindo a ventilação sob pressão positiva. Existem vários tipos de tubo, dentre eles o tradicional, o aramado – ele não dobra, sendo usado para intubações submentonianas, por exemplo – e o polar norte – ele já possui uma dobra, se encaixando no nariz. A colocação errada do tubo no esôfago gera má ventilação e induz o vômito, essa falta de ventilação gera aumento da pressão intracraniana, hipoxemia e arritmias, por isso é importante se fazer o procedimento da melhor forma possível – pode haver a perda da habilidade se não for praticada. Para que a intubação seja feita de forma adequada é necessário seguir algumas etapas → analgesia – geralmente é feita com opióides (fentanil 100 a 250 μg) e lidocaína 1,0 a 1,5 mg/Kg (antiarrítmico e diminui a irritação das vias aéreas) – sedação – promove a hipnose, fazendo com que o paciente esteja anestesiado, o proporfol é o agente indutor endovenoso de preferência, já que produz a hipnose rapidamente, atenua os reflexos laríngeos e tem efeito fugaz, ou seja, se a administração dele é interrompida o paciente retorna rapidamente, mas existem outros fármacos, como o etomidato – relaxamento – produzido por bloqueadores neuromusculares, sendo a succinilcolina o mais usado por seu efeito rápido e fugaz... ... Após essas etapas faz-se a pré-oxigenação, é feita a hiperoxigenação do paciente com FiO2 de 100% por 3-5 min. Com isso, consegue-se uma apneia de 3-5 min antes que a saturação de oxigênio caia para < 90%, sem ventilar o paciente... ... É feita então a introdução do laringoscópio do lado esquerdo, utilizando a mão esquerda, pela rima labial direita, deslocando a língua para a esquerda, logo após o profissional traciona o laringoscópio para cima e para frente, posicionando-o na valécula – região em forma de V na base da língua – e afastando a língua para frente e para cima, sendo possível a visualização das cordas vocais do paciente, por onde o profissional introduz o tubo – 7,5-9,5 para homens e 7,0-8,5 para mulheres – até que a borda proximal do cuff ultrapasse elas, chegando lá ele infla o cuff – para que não entre corpo estrando na traqueia e que o tubo fique fixado – acopla o ambu e insufla, fazendo depois a ausculta, verificando que está tudo certo é feita então a fixação do tubo. O paciente no momento da intubação deve estar em decúbito dorsal com 30° de inclinação no dorso, em posição de “sniff” ou “farejador” – é utilizado um coxim na região occipital + hiperextensão do pescoço, se não houver contraindicação para tal – dessa forma, os eixos oral, laríngeo e faríngeo do paciente estarão alinhados; OBS.: Classificação de Mallampati → Classe 1 – tonsilas, úvula e palato mole totalmente visíveis – classe 2 – palato duro e mole, parte superior das tonsilas e úvula visíveis – classe 3 – palato mole e duro e base da úvula visíveis – classe 4 – apenas o palato duro visível. Quanto maior for o número da classe, mais difícil é a intubação... ... Além dessa complicação,pacientes com pescoço curto – distância tiromentual menor que 6 cm – pouca abertura de boca, protusão dentária, extensão limitada do pescoço e obesidade também são considerados difíceis de intubar. Quando não é possível a intubação endotraqueal pode-se optar pela traqueostomia ou a cricotireoidostomia. OBS.: Complicações → Intubação esofagiana, perfuração do esôfago, lesão da glote, lesão de tonsila, isquemia da traqueia, broncoaspiração, hipoxemia, trauma oral, traumatismo dentário, entre outras.