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A VAl?T9= 9= () T()U() 
Sexualidade é o termo que se refere ao conjunto de 
fenômenos da vida sexual. Ela é o aspecto central de 
nossa personalidade, por meio da qual nos relacionamos 
com os outros, conseguimos amar, ter prazer e procriar. 
Entendemos o ser humano como um todo, indivisí-
vel. Nossas partes podem e devem ser estudadas em 
separado, mas não confundidas ou tomadas pelo todo. 
Quando se implanta uma ponte safena, não se faz isso 
apenas num coração, um órgão que pulsa e faz circular 
o sangue pelo corpo. 
Na verdade, opera-se um coração que está no corpo 
vivo de um ser humano, que tem nome, profissão, 
família, medo, inquietudes, dúvidas, necessidades. Não 
é só o coração que precisa ficar bom, sarar, mas sim o 
ser humano ao qual essa pequena parte pertence. 
Este livro pretende abordar a sexualidade como 
parte integrante dos seres humanos, com suas sensa-
ções, conflitos e relacionamentos sociais. O presente 
trabalho exclui os distúrbios sexuais, que são como 
sintomas secundários de doenças mentais. 
A apresentação segmentada tem apenas um objeti-
vo prático: o de facilitar a leitura e a compreensão. Nas 
escalas que você vai encontrar nos primeiros capítulos 
e na Conclusão, os segmentos A, B, C, D e E não 
expressam a proporção de pessoas contidas em cada um 
deles, pois essa quantificação depende de pesquisas 
cientificas que deverão ser realizadas. 
Os casos relatados são todos reais. Nomes, profissões 
e eventualmente detalhes de situações foram alterados em 
respeito à ética médica, salvo aqueles recolhidos direta-
mente da mídia e que são de domínio público. 
Ainda não completamos nossos estudos a respeito 
da função dos hormônios e das complexas redes do 
sistema nervoso sobre a sexualidade. Esses aspectos 
estão inseridos neste trabalho apenas a titulo de infor-
mação geral. 
Neste livro estamos apresentando uma visão de 
sexualidade que não se atém especificamente à vida 
sexual, propriamente dita, e sim a uma visão mais ampla 
do ser humano. O papel de gênero, masculino ou femi-
nino, é a base para o desenvolvimento de todos os 
demais papéis sociais. Portanto, é impossível dissociar 
esse primeiro papel de gênero da sexualidade, à qual 
está diretamente vinculado. 
A sexualidade é o aspecto mais conflituoso, contro-
verso e desconhecido do ser humano. A nossa cultura 
lida mal com esse importante aspecto da vida e, para 
agravar, cria modelos estanques nos quais pretende 
encaixar e classificar as pessoas. Esses moldes, muitos 
dos quais baseados apenas no preconceito e na falta de 
informação, não nos permitem que sejamos exatamente 
aquilo que somos ou que poderíamos ser. 
A dimensão total do ser humano tem três aborda-
gens básicas que são a biológica, a psicológica e a social. 
Essas três bases são inter-relacionadas e inseparáveis. 
A abordagem biológica nos diz que temos um corpo 
tisico, que sentimos, que vemos, e que somos vistos. A 
abordagem psicológica nos remete a nossa mente, ao 
nosso psiquismo, as nossas emoções mais primárias, aos 
nossos afetos, aos nossos desejos, as nossas fantasias, aos 
nossos sonhos. O mundo social é o mundo que nos rodeia, 
povoado de outros seres, inseridos na natureza ou naquilo 
em que o homem a transformou, as cidades. 
O nosso corpo "contém" o psicológico e está no 
mundo em relação com as outras pessoas. É impossível 
pensarmos em um desses três compartimentos de forma 
estanque. O ser humano não pode ser visto só pelo seu 
corpo. porque sem o psiquismo ele está morto. 
Um homem apenas "psicológico" também não exis-
te, porque ele se expressa por meio da fala, da postura 
e do corpo. Além disso, um ser humano, com corpo e 
mente perfeitos, não sobrevive se não estiver EM RELA-
ÇÃO com outras pessoas. 
Todos, quando nascemos, trazemos dentro de nós 
três potencialidades a serem desenvolvidas. A esponta-
neidade, a criatividade e o fator tele1• A espontaneidade 
é a capacidade de responder adequadamente a uma 
situação nova ou dar uma resposta diferente a uma 
situação antiga. 
Essa adequação se refere, antes de mais nada, a nós 
mesmos. Nesse sentido, ser espontâneo é estar presente 
"de corpo e alma" nas relações existentes a nossa volta. 
A espontaneidade, por outro lado, é o fator que nos 
permite ser criativos, ou seja, criar algo novo. 
A criança, ao nascer, traz consigo o chamado fator 
tele em seu psiquismo, que em grego quer dizer à 
distância, e significa que todos nós, já nos primeiros 
anos de vida, somos capazes de, aos poucos, ir perce-
bendo as outras pessoas com quem nos relacionamos, 
da forma mais aproximada possível de como elas são, na 
mesma medida em que também nos sentimos, e somos, 
percebidos. 
1. Conceitos desenvolvidos pelo mêdico romeno J. L. Moreno 
(1889-1974). criador do psicodrama e da terapia de grupo, que 
emigrou para os EUA, onde completou e aplicou suas teorias. 
Esse movimento afetivo e emocional de mão dupla 
é responsável pela dinâmica do funcionamento das 
pessoas, a dois, a três ou em grupo. Quando essas 
capacidades inatas não são bem desenvolvidas, em 
função do ambiente onde crescemos. podem acabar se 
distorcendo. Essas três potencialidades são "motores" 
para o desenvolvimento da identidade sexual. Nossa 
teoria é que a identidade sexual pode ser dividida em 
três aspectos: identidade genital, identidade de gênero 
e orientação afetivo-sexual. 
O corpo e o psiquismo precisam do social para se 
completar. E no social nos expressamos e nos relacio-
namos através de papéis. Estamos também fazendo uma 
distinção entre papéis sociais de gênero e o papel afetivo-
sexual. Para que possamos exercer a nossa sexualidade 
em toda a plenitude é indispensável que o corpo seja 
provido das necessidades básicas e o psiquismo tenha os 
três fatores inatos desenvolvidos. Isso, no entanto, só é 
possível a partir da convivência com outros seres. 
Um ser humano completo, porém, só pode ser enten-
dido dessa forma se tiver a sua cidadania e seus direitos e 
deveres garantidos por leis. Se tiver direito ao trabalho, à 
moradia, à educação. à saúde, ao voto. à participação nos 
governos e, no tema de que estamos tratando, o direito de 
exercer a sua sexualidade independentemente da forma 
como ela se exteriortzar. 
Isso significa respeito ao seu corpo e aos seus 
sentimentos. bem como aos das outras pessoas. Se houver 
um mínimo dessas condições, o indivíduo poderá se de-
senvolver saudavelmente e assumir os papéis por meio dos 
quais vai se relacionar com seus semelhantes. 
Aquilo que afirmamos ser indissociável. ou seja. 
corpo, mente e aspectos sociais. aparecem em capítulos 
separados ao longo deste livro apenas para facilitar a 
leitura e a compreensão de um tema tão complexo. Os 
componentes da sexualidade humana. descritos em se-
parado na primeira parte deste livro, também são total-
mente interligados e interdependentes. 
A cada capítulo do livro você vai se deparar com 
"fragmentos" que compõem um "caleidoscópio". A reu-
nião das escalas que estamos propondo permitirá que 
você, quando chegar à Conclusão, gire esse "caleidoscó-
pio", fazendo surgir as mais diversas "imagens" da se-
xualidade humana. 
Não estamos afirmando que essas "imagens" são 
definitivas. 
Mas são como nós as vemos. Hoje. 
O Autor 
São Paulo, Setembro de 1994. 
COMPONENTES DA 
SEXUALIDADE HUMANA 
Sexos Gonadal ~Cromossômico Genital Interno Genital Externo 
o 
" .... o 
•O •Identidade Genital ~ •Identidade de Gênero 
• , •Orientação 
~ Afetivo-sexual 
~ 
~ 
•Papéis Sociais 
de Gênero 
•Papel Afetlvo-
sexual 
1 
CAMl~ti()§ ()CULT()§ 
Você, que está lendo este livro, foi gerado e nasceu. 
Isso é óbvio. Tanto que você nem se dá conta. Quando 
você nasceu, os seus pais, sua família ou os médicos da 
maternidade também não tiveram dúvidas. Tratava-se 
de um meninoou de uma menina. 
No entanto, por trás do que parece tão natural, há 
uma complicada "obra de engenharia". Essa "constru-
ção" precisa ser "bem-executada" desde o primeiro ins-
tante, para que hoje você seja o que é: um homem ou 
uma mulher. Ou, do ponto de vista biológico, um ser 
humano macho ou um ser humano fêmea. 
Alguns "projetos", no entanto. têm pequenos 
erros de cálculo, que podem levar a resultados ines-
perados. Embora esses "erros" sejam raros, algumas 
crianças nascem sem serem totalmente fêmeas ou 
totalmente machos. 
Para ter uma idéia do que é o corpo humano, basta 
saber que somos formados pelo gigantesco número de 
10 trilhões de células, e que todas elas estão interliga-
das. Umas não funcionam sem as outras. Esses grupos 
de células formam os órgãos que nos permitem comer, 
pensar, amar. Enfim, existir. 
No centro de cada uma dessas células estão 23 
pares de corpúsculos, os cromossomos, que contêm os 
genes, responsáveis por nossas características fisicas. 
São os genes, imaginados como um "rosário de contas", 
que vão definir se nossos olhos serão castanhos ou 
azuis, se o cabelo será ondulado ou crespo, se seremos 
altos ou baixos, se calçaremos 38 ou 42. Até mesmo se 
teremos predisposição para sofrer do coração, pulmão 
ou de outras doenças. 
Um par de cromossomos, os cromossomos sexuais, 
é o responsável, ou culpado, dependendo de como se enca-
re a vida, por nascermos homem ou mulher. Na mulher, 
esse par foi batizado de xx, e no homem o par é xy. 
Ao contrário do que ocorre com todas as células do 
corpo, o espermatozóide e o óvulo contêm apenas 23 
cromossomos cada, e não 23 pares, e só sobreviverão se 
puderem juntar-se. O espermatozóide morre horas de-
pois da ejaculação, e o óvulo não-fecundado é expelido 
mensalmente pela menstruação. No óvulo, o cromosso-
mo é sempre x, enquanto os espermatozóides presentes 
na ejaculação podem ter o cromossomo x ou y. 
O encontro desses dois cromossomos, no ato da 
fecundação, é o começo do futuro ser. 
CJUATV() l:""CVUZILliAUAS 
Durante o tempo de gestação, todos nós passamos 
por momentos cruciais de definição biológica. O psicó-
logo clínico norte-americano John Money chama esses 
"momentos", significativamente, de quatro encruzilha-
das1. Para Money, são encruzilhadas porque o ser hu-
1. John Money, psicólogo clínico norte-americano, estudioso e 
pesquisador de intersexos no HospitalJohns Hopkins, Universida-
de de Baltimore, EUA. 
2 
mano poderá seguir o caminho feminino, masculino, ou 
um terceiro, como veremos ao longo deste livro. 
Do ponto de vista da Biologia, o sexo pode ser 
cromossômico, gonadal e genital. Cromossômico é o sexo 
identificado pelos pares xx e xy. Sexo gonadal está 
relacionado com um tipo especial de glândulas, ou 
gônadas, na linguagem científica. Essas glândulas são 
os ovários da futura mulher e os testículos do futuro 
homem. 
Finalmente, sexo genital são os órgãos sexuais visí-
veis. Nos homens, o pênis e a bolsa escrotal. Nas mulhe-
res, a vulva, a vagina e o clitóris. 
Não estamos falando de "sexos" diferentes. Apenas 
lembrando que sexo não é só aquela parte íntima do 
corpo que costuma ficar bem escondida debaixo da 
roupa. O sexo também está dentro do corpo. Mais 
adiante veremos que ele está principalmente na cabeça. 
A fecundação ocorre quando um espermatozóide do 
homem penetra no óvulo da mulher. Esse encontro 
acontece nas trompas, região próxima ao útero. Quando 
o homem ejacula, cerca de 100 milhões de espermato-
zóides se deslocam em "grande velocidade" para as 
trompas e não há qualquer pista sobre "quem" vencerá 
a corrida. 
Se o espermatozóide mais veloz trouxer dentro de si 
um cromossomo x. este, ao juntar-se com o x do cromos-
somo feminino, dará origem a uma menina. Por outro 
lado, se "no campeão" estiver presente o cromossomo y, 
começará a ser gerado um menino. Quem define o sexo 
biológico da futura criança é sempre o pai. 
A fecundação é a primeira encruzilhada pela qual 
passa o desenvolvimento da sexualidade humana, 
embora nesse momento exista apenas uma única 
célula, chamada ovo. 
Quatro dias após a fecundação, o ovo alcança a 
cavidade do útero e já tem, mais ou menos, cem células. 
3 
Ao longo das primeiras semanas, o embrião desenvolve 
os órgãos rudimentares. Nesse momento, ele tem "bro-
tos" tanto da estrutura sexual masculina quanto da 
feminina. 
Esses "brotos" são minúsculas estruturas, uma 
espécie de filamento. Elas foram descobertas por dois 
embriologistas alemães, Caspar Wolff e Johannes Mül-
ler, há dois séculos. 
Wolff descobriu a estrutura que contém a potencia-
lidade para o desenvolvimento sexual de um ser humano 
masculino. A estrutura que leva ao desenvolvimento 
feminino foi descoberta por Müller. São essas estruturas 
que darão origem aos órgãos sexuais internos e externos 
do homem e da mulher. 
Até o final do segundo mês, embora traga dentro de 
si uma combinação de cromossomos que o definirá como 
homem ou mulher, o embrião, do ponto de vista sexual, 
é "neutro". 
A partir da sétima semana de gravidez, o cromosso-
mo y (do par xy) sente uma "irresistível" necessidade de 
ativar a estrutura de Wolff, o lado masculino do embrião. 
Por meio de uma combinação química, ele indica que 
está na hora de serem formados os testículos. 
Os testículos, que após o nascimento descerão para 
a bolsa escrotal do menino, são glândulas especializadas 
na produção de hormônios sexuais e espermatozóides. 
O desenvolvimento dos testículos, ainda no embrião, é 
fundamental para que todo o aparelho sexual masculi-
no, interno e externo, seja adequadamente formado. 
Quando o cromossomo y "liga o motor" da estrutura 
de Wolff, a estrutura de Müller, feminina, se retrai, não 
se desenvolve. Mas continua existindo, não desaparece. 
Todos os homens carregam, até o fim de suas vidas, 
fragmentos da estrutura feminina de Müller. 
4 
Caso esteja em gestação o embrião de uma futura 
menina, "não precisa acontecer nada". Nenhum "motor 
precisa ser ligado". Quando o par é xx: (mulher), a 
estrutura de Wolff fica quieta em seu canto, sem dar 
sinal de vida. 
Nos embriões femininos, a estrutura de Müller leva 
à formação dos ovários. Mas, como no caso anterior, 
também as mulheres vão sempre ter dentro de si "peda-
ços" da velha estrutura masculina de Wolff. 
Biologicamente falando, por mais estranho que isso 
possa soar, é como se a "tendência natural" dos seres 
humanos fosse sempre ser mulher. Isso "só" não acon-
tece porque o cromossomo y do par xy (homem) é "um 
inconformado", e logo que pode desencadeia uma forte 
reação química no embrião para que ele se desenvolva 
como macho. 
Essa é a segW1da encruzilhada da vida. Nesse mo-
mento, os cromossomos não podem bobear. Se eles não 
enviarem "mensagens" corretas, isso causará uma gran-
de complicação nos órgãos sexuais internos e, mais à 
frente, nos externos, como acontece com as crianças que 
nascem com a genitália dúbia ou malformada. 
Quando chega o terceiro mês de gravidez o embrião 
tem que enfrentar a terceira encruzilhada. O desenvolvi-
mento do embrião vai caminhando bem, no conforto do 
útero matemo. Esse clima de tranqüilidade é, na verda-
de, aparente. Todas as partes de seu organismo conti-
nuam em intensa atividade. 
A decisão agora sobre o caminho a ser seguido ficará 
por conta de urna complexa combinação de substâncias 
químicas, os hormônios sexuais, produzidos pelos tes-
tículos no embrião masculino ou pelos ovários no em-
brião feminino. 
Os hormônios sexuais são responsáveis pelo desen-
volvimento dos demais órgãos genitais internos ou ex-
ternos, femininos ou masculinos. Tanto os testículos 
quanto os ovários produzem os mesmos tipos de hormô-
nios, apenas em quantidade e em combinações diferen-
tes, dependendo do sexo. 
Se tudo correr bem, a misturahormonal no embrião 
masculino levará à formação das vesículas seminais, da 
próstata, do epidídimo e dos canais deferentes. Caso 
esteja em gestação um ser do sexo feminino, e se a sua 
mistura hormonal teve dosagem correta, seu desenvol-
vimento será natural, com a formação do útero, das 
trompas e da parede superior da vagina. 
Nem tudo está completo. Os órgãos genitais 
internos já se formaram mas, no quarto mês de 
gravidez, nem mesmo com um exame de ultra-som é 
possível identificar o ser em gestação como um me-
nino ou uma menina. Falta uma parte vital: a geni-
tália externa. Vital porque é nesse órgão que a 
sociedade se baseia para designar o sexo de nasci-
mento: macho ou fêmea. 
Chegou o momento da "moldagem" dos órgãos se-
xuais externos. Chamamos de "moldagem" porque o 
"material" que vai formar o órgão sexual masculino e 
feminino é exatamente o mesmo. Essa é a quarta encru-
zilhada. 
Entre o terceiro e o quarto mês de gravidez, o feto, 
tanto o masculino quanto o feminino, apresenta, na 
região localizada entre as pernas, uma estrutura cha-
mada de tubérculo genital, duas faixas de pele e uma 
pequena protuberãncia de cada lado. 
6 
Se o bebê em gestação for fêmea, o tubérculo genital 
continua pequeno e se transforma no clitóris. As duas 
pregas de pele não se fundem e formam os pequenos 
lábios e a cobertura do clitóris, e as duas protuberân-
cias ficam separadas e formam os grandes lábios. 
Com o mesmo material forma-se a genitália externa 
do bebê macho. O tubérculo genital cresce e dá origem 
ao pênis, as duas pregas de pele se fundem para formar 
a uretra e as duas protuberâncias se fecham, constituin-
do a bolsa escrotal. 
Antes de se declarar a guerra dos sexos com base 
apenas nas diferenças da genitália, é bom lembrar que 
na "construção desses aparelhos" foi utilizada a mesma 
matéria-prima. 
Até agora, da fecundação ao nascimento, parece que 
o nosso piloto automático seguiu à risca, em cada uma 
das quatro encruzilhadas, o plano de vôo, tomando o 
rumo certo. No entanto, embora isso quase nunca acon-
teça, mesmo os melhores mapas de navegação têm 
falhas. 
O hermafrodita é o resultado de uma dessas falhas. 
Ele é um ser que não seguiu um desses dois caminhos, 
normais para quase todas as pessoas. Ele é um inter-
sexo. Logo na primeira encruzilhada a sua combinação 
cromossômica se complicou. Ele não tem o par xy ou xx, 
mas uma mistura desses, numa variação que pode ser 
muito grande. 
Esse problema surgido no ato da fecundação pode 
levar um hermafrodita, na segunda encruzilhada, a 
desenvolver um testículo e um ovário ao mesmo tempo, 
ou um único órgão, chamado ovotéstis, onde estão 
mesclados testiculos e ovário. 
7 
O mesmo vai ocorrer nas outras duas encruzi-
lhadas. quando os õrgãos sexuais internos são mal-
formados, indefinidos e não têm funcionamento 
normal. Isso também ocorre com os genitais exter-
nos. que são dúbios e incompletos. Na realidade, não 
existem hermafroditas com genitais masculino e 
feminino inteiramente formados e conjugados. Isso 
é um mito. 
Essas e outras anomalias são raras e atingem 
apenas uma pequena parcela dos recém-nascidos. 
Nem todos podem ser consideradas verdadeiros her-
mafroditas e apenas um médico poderá fazer um 
diagnóstico correto. 
É preciso fazer uma distinção entre o sexo genital, 
que é aquele com o qual nascemos, e o sexo registrado 
em cartõrio. Para as crianças que nascem com a genitá-
lia normal, o erro no momento do registro não existe. 
No entanto, bebês com algum problema relacionado 
à formação dos órgãos sexuais, às vezes de fácil correção 
pela Medicina, podem ser registrados com o sexo troca-
do, causando a essas futuras pessoas dificuldades imen-
sas. Um casal que tenha um bebê com a genitália dúbia 
deve procurar orientação médica, o quanto antes, retar-
dando o registro de nascimento até que se possa ter 
certeza do sexo da criança. 
A Ciência avança e novos tratamentos surgem para 
corrigir problemas congênitos. Esses fatores biológicos, 
juntamente com outros igualmente importantes, como 
a atitude dos pais, a educação e o meio social, vão influir 
na formação de nossa identidade sexual e no nosso 
comportamento· ao longo da vida. 
8 
Depois da adolescência, tanto um homem como 
uma mulher, que tenham nascido com um corpo nor-
mal de macho ou fêmea, podem, com hormônios ou 
cirurgias, "adquirir" caracteres sexuais secundários do 
sexo oposto. 
O desenrolar de nossa existência não é uma linha 
reta, tenhamos ou não consciência disso, queiramos 
ou não. 
A verdade é que, aos poucos, a decisão sobre o 
caminho a seguir vai passando das mãos da Natureza 
para as nossas próprias mãos. 
1 -ESCALA DO SEXO BIOLÓGICO 
(FENÓTIPO! 
W.CHO INTERSEXOS FÊMEA 
MACHO com caracteres com caracteres FÊttfA seKuols (hermafrodito) sexuais 
secundários secundários 
da FÊMEA de MACHO 
A 1 1 e 1 D 
É possível, através do uso de honnônios e de cirurgia 
plástica, uma pessoa MACHO (A) passar para o seg-
mento B da escala e deste para E, assim como uma 
pessoa FÊMEA (E) passar para o segmento D e deste 
chegar a A. As pessoas de intersexos, dependendo de 
sua estrutura biológica. psicológica e social, podem 
tWito ir de C para A, quanto de C para E. 
Áté agora, falamos de nossa constituição fisica, 
como se estivéssemos diante de uma fotografia. O passo 
seguinte é acompanhar um filme, movimentado, que se 
desenrola dentro de nós. Nesse "filme", vamos acom-
panhar as nossas sensações e "ver" COMO NOS 
SENTIMOS. 
Se nasce um menino, no futuro ele SE SENTIRÁ 
HOMEM. Se nasce menina, SE SENTIRÁ MULHER. 
Óbvio, não? Nem sempre, como veremos ao longo 
desse livro. 
Essa sensação interna de pertencermos ao gênero 
masculino ou feminino, bem como a capacidade de nos 
relacionarmos socialmente, denominada identidade de 
gênero, é muito natural para a grande maioria das 
pessoas. 
O termo identidade de gênero foi criado em 1964 
pelo médico e psicanalista norte-americano Robert Stol-
ler1. Essa sensação interna, para se formar adequada-
1. Robert Stoller, pesquisador norte-americano. Através da investi-
gação psicanalítica, estuda, há quarenta anos, pacientes interse-
xuadosetransexuais. 
11 
mente, precisa passar por muitas fases, onde entram 
fatores biológicos e sociais. 
Um exemplo extremo de inadequação da identida-
de de gênero ao corpo biológico de nascimento são os 
transexuais. Para eles, o corpo "é de um sexo e a alma 
é do outro". 
A sexualidade começa a se definir no ato da fecun-
dação e, desse momento até a hora de nascer, passamos 
por transformações fisiológicas e bioquímicas, que "re-
forçaram" a nossa estrutura masculina ou feminina. 
Durante esse período, se a produção de hormônios 
sexuais ocorreu no momento certo e com a estrutura 
química correta, uma região do cérebro denominada 
hipotálamo recebeu um "banho" de masculinizé:tÇão ou 
de feminilização. 
As células do hipotálamo são muito sensíveis ao 
androgênio ou ao estrogênio, que são hormônios sexuais 
masculinos e femininos, respectivamente. Dependendo 
da quantidade dessas substâncias presentes no hipotá-
lamo, o indivíduo pode ser predisposto a manifestar 
certos padrões de comportamento, caracteristicos de 
homem ou de mulher. 
O hipotálamo é um centro integrador e coordena-
dor das emoções, está conectado com o sistema límbi-
co e outras áreas do cérebro. É essa rede do cérebro 
que regula a vida emocional, modula o desejo sexual 
e comanda o funcionamento das glândulas que produ-
zem os hormônios sexuais. Um "excesso" de atividade 
do hipotálamo não transforma ninguém num grande 
conquistador, pois até aqui estamos falando das nos-
sas sensações. 
O relacionamento com as demais pessoas é regula-
do por outra parte do cérebro, o neocórtex, também 
12 
chamado de "cérebro inteligente". O neocórtexmatiza o 
sentimento amoroso com fantasias, é responsável pela 
sensação erótica, pelos tabus e até pela noção de culpa. 
O prazer que sentimos diante de uma obra de arte, 
ou ao ouvir uma bela música, tem seu ponto de partida 
nessa região cerebral. O neocórtex não funciona auto-
nomamente, sendo atingido e influenciado por fatores 
sócio-culturais. Para alguns pesquisadores. a "força 
biológica", presente em todos nós, faz com que nasçamos 
com "uma intuição" de que pertencemos ao gênero 
masculino ou feminino. 
Os estudos a respeito da influência hormonal 
durante a vida intra-uterina, assim como sobre o papel 
do hipotálamo e do neocórtex, são recentes e não estão 
concluídos. 
O desenvolvimento completo dessa consciência na 
criança só se dará a partir de inúmeros outros fatores, 
como o tratamento recebido da mãe, ou de quem 
estiver em seu lugar, da família e da sociedade na qual 
ela vive. 
Menino ou menina? 
Essa é a pergunta imediata que parentes e vizi-
nhos fazem quando uma mulher tem um bebê. Hoje, 
com o exame de ultra-som, o nascimento perdeu muito 
"de sua surpresa". 
Na maioria dos casos. ao nascer. não há dúvida. é 
um menino ou uma menina. pela simples observação de 
sua genitália externa. Porém, alguns bebês nascem com 
o sexo malformado, duvidoso. 
Uma menina normal mas que tenha um clitóris um 
pouco maior. parecendo um "pintinho". corre o risco de 
ser considerada um menino. Um bebê fêmea nascido de 
13 
9 meses de gestação poderá ter um clitóris de 7 a 10 
milímetros, variando conforme seu peso2 . 
Constatado o sexo da criança, providencia-se o 
registro em cartório. Esse documento público vai confir-
mar, perante a sociedade e para toda a vida, se a pessoa 
pertence ao sexo masculino ou feminino. Não é apenas 
esse documento que vai pesar na formação da identida-
de de gênero masculina ou feminina, pois para isso 
contribuem muitos fatores. 
A partir do momento em que a criança é identificada 
e registrada como menino ou como menina, toda a 
sociedade vai se comportar em relação a ela de uma 
maneira particular e diferente. 
Menina ou menino? 
A mãe que traz nos braços uma menina, ou alguém 
que ela julga ser uma menina, trata a criança de forma 
mais cuidadosa, terna. Não faltam expressões como 
"fofura", "gracinha", "um doce'', seguindo-se enfeites 
como lacinhos no cabelo, fitinhas. 
Se o filho é "homem", o tratamento é um pouco mais 
"duro", segura-se a criança com mais firmeza. Pela casa 
ouvem-se frases como "que menino forte", "como é es-
perto", "puxou o pai". Os enfeites, quando existem, são 
azuis e discretos. Os pais, sem se dar conta, estão 
tentando dizer que homens e mulheres devem ser e se 
comportar de forma diferente. 
Um caso conhecido nos Estados Unidos mostra 
como a atitude dos pais influencia na formação da 
identidade de gênero, mesmo que no caminho inverso 
da constituição biológica da criança. 
2. Pesquisa sobre o tamanho do clitóris em recém-natos fêmeas 
realizada por A. Ltwin, 1. Aitin e P. Merlob na Universidade de Te! 
Aviv, Israel, em" 1990. 
14 
No final da década de 60, uma mulher teve gêmeos 
saudáveis, dois meninos. Como é comum naquele país, 
os bebês passaram por uma circuncisão, popularmente 
conhecida como "operação de fimose". 
Um dos bebês não teve qualquer problema, mas o 
outro, durante a cauterização, teve o pênis ofendido e 
ficou sem o órgão. A equipe do psicólogo John Money 
acompanhou o caso. O que fazer agora? O menino não 
poderia crescer sem pênis e a feitura de um novo órgão 
não seria possível nessa idade. 
Os pais foram consultados e tomaram. em conjunto 
com a equipe de especialistas. uma decisão. O menino 
foi submetido a algumas cirurgias, a bolsa escrotal e os 
testículos foram retirados e, no lugar, moldada uma 
vulva para a saída da uretra. 
Depois disso e da devida preparação psicológica 
da família, a criança teve o seu registro alterado e 
passou a ser criada pelos pais como uma menina. 
Segundo John Money. essa criança, aos cinco anos, já 
tinha desenvolvido a consciência de pertencer ao gê-
nero feminino e se comportava como tal. Quando 
adulta resolveria se "construiria" cirurgicamente um 
canal vaginal ou não. 
Shakespeare usou essa famosa expressão em outro 
contexto, mas "ser ou não ser" também se aplica quando 
falamos da sexualidade humana. E podemos adicionar 
a essa frase a palavra "completamente". 
Por volta dos 2 anos e meio, a criança "já sabe" que 
é um menino ou uma menina e não perde tempo com o 
assunto porque o mundo oferece caminhos muito claros 
para o homem e para a mulher. Na infãncia apenas não 
há amadurecimento neurológico e psicológico para en-
tender e distinguir essa sensação. 
15 
Nos primeiros meses de vida desenvolvemos a cons-
ciência sobre o nosso próprio corpo e vamos criando uma 
"identidade corporal", principalmente sobre os órgãos 
genitais. No bebê, a primeira "noção" de possuir uma 
genitália vem do ato de urinar. 
A genitália masculina é tocada e manuseada sem 
grandes problemas pelos meninos. Ela é visível. e a 
nossa cultura valoriza a sua exibição pelos garotos. 
Em nossa cultura, a genitália da mulher, mesmo 
enquanto criança, é algo proibido, misterioso, intocável. 
Na menina, o que se vê é a vulva, ou seja, os grandes e 
pequenos lábios. O cuidado dos pais é maior, e ela é 
ensinada a não tocar no sexo, a não introduzir nada (até 
para não romper o hímen) e a não exibi-lo. 
Cada parte do nosso corpo tem uma sensibilidade 
própria. Ela não é a mesma na língua, na palma da mão, 
na orelha e nos órgãos sexuais. No entanto, para que a 
criança conheça o seu corpo é preciso tocá-lo, o que 
poderá lhe dar prazer. 
Essas sensações prazerosas, vindas do toque nos 
genitais, não devem ser confundidas com sensações 
eróticas. O menino, mesmo na mais tenra idade, pode 
ter ereção, o que não significa que ele esteja sentindo 
desejo sexual. 
Embora o contato da menina com sua genitália seja 
menor, os homens estão mais propensos a carregar 
dúvidas sobre a identidade genitat.3. Como o relaciona-
mento entre os meninos é mais livre, o efeito comparativo 
das genitálias é mais freqüente. É comum o garotinho 
querer ver o "pipi" do amiguinho para comparar com o seu. 
Reconhecer e sentir a nossa anatomia sexual tem 
grande importância para desenvolvermos a consciência 
de pertencermos ao gênero masculino ou feminino. 
3. O conceito de identidade sexual (consciência que se tem do 
próprio sexo biológico) foi proposto por Charlote Wolff, médica 
alemã, sexólo~e existencialista radicada na Inglaterra. Preferimos 
dar a esse conceito o nome de Identidade genital. 
16 
Quando nascemos temos boca, cordas vocais, ouvidos, 
vias neurológicas, mas não sabemos falar. Da mesma 
forma, nascemos com uma genitália masculina ou femi-
nina, mas "não sabemos SER homem ou mulher". Isso 
precisa ser aprendido a partir de nós mesmos, com 
nossos pais, com a família e com a sociedade. Trata-se 
de um processo longo e a identidade de gênero mas-
culina ou feminina só se evidenciará por completo com 
o surgimento dos caracteres sexuais secundários, na 
fase da adolescência. 
() Nl:UTV() NÁ() l:XISTI: 
Nascemos sozinhos, mas não podemos crescer iso-
lados de outras pessoas. A consciência que temos de 
pertencer ao gênero masculino ou feminino vem do 
comportamento dos pais, dos familiares e da sociedade. 
A isso, soma-se a percepção de nosso próprio corpo. É 
impossível, do ponto de vista social, que alguém cresça 
sem pertencer ao gênero masculino ou feminino. Pes-
soas "neutras", socialmente falando, não existem. 
Nem mesmo os travestis, os transexuais ou os 
hermafroditas são pessoas neutras, uma vez que têm 
"almas" masculinas ou femininas, ou uma combina-
ção das duas. Os sexos podem ser 11. mas as "almas" 
são apenas duas. Não estamos nos referindoaqui ao 
que hoje se diz "meu lado feminino" ou "meu lado 
masculino". Trata-se de uma sensação particular e 
mais profunda que leva ao comportamento social dife-
rente, como veremos na segunda parte deste livro. 
Existem relatos de casos em que uma mãe, desejan-
do muito ter uma filha, ao ter um filho, passa a tratá-lo 
como menina. Esse tipo de atitude pode atrapalhar a 
formação da identidade de gênero da criança. 
Durante muito tempo, como parte da nossa cul-
tura popular, muitas mães, principalmente em situa-
17 
ção de doença ou de aflição, faziam promessas de vestir 
o filho como menina até uma certa idade- o que poderia 
ou não alterar a sua identidade de gênero. 
Os travestis são pessoas com identidade de gênero 
diferente da maioria, pois SENTEM-SE ora homens, ora 
mulheres. Os transexuais, no entanto, têm uma identi-
dade de gênero bem definida, embora em desacordo com 
o seu corpo biológico. 
Até o momento, não se conhece totalmente como se 
dá o desenvolvimento da identidade de gênero e as 
causas de suas alterações. Não há uma regra geral. Uma 
família pode criar adequadamente um menino saudável 
e ele, no entanto, acabar crescendo com UM SENTIMEN-
TO de que É uma mulher, e tudo fará para conseguir 
moldar para si um corpo feminino. Ele é um transexual. 
Existem também relatos de meninos que foram 
criados como meninas, mas, com a explosão hormonal 
da adolescência, afirmaram-se como homens. Cresce-
ram, casaram-se, tiveram filhos, numa trajetória de vida 
absolutamente comum. 
A família é uma referência importante, porque o 
desenvolvimento da identidade sexual também se faz 
pela semelhança e pela diferenciação. Para meninos e 
meninas, a presença dos pais, portanto de um homem 
e de uma mulher. cria a consciência de que existem seres 
iguais e diferentes deles mesmos. Estamos nos referindo 
a uma estrutura familiar convencional, sem discutir se 
esse modelo é válido ou não. 
Mesmo quando a formação familiar é pouco habi-
tual. como no caso de duas lésbicas que criam as 
crianças nascidas de uma ou da outra, o desenvolvimen-
to da identidade de gênero se dá adequadamente. Essas 
crianças sempre terão algum tipo de contato com a figura 
masculirni. seja por meio dos pais, tios ou vizinhos. 
18 
O que é uma família? São pessoas que convivem, 
dividem o mesmo espaço numa casa, têm afinidade por 
parentesco ou não. Fazem parte da família os pais, tios, 
avós, irmãos, a empregada e até amigos que possam 
temporariamente estar morando na mesma casa. Esse 
núcleo familiar é de fundamental importãncia para o 
desenvolvimento da identidade de gênero, pois aí nasce 
e cresce uma criança. Chamaremos esse núcleo de Ma-
triz de Identidade4. 
Mesmo na fase de gestação, o relacionamento da 
mãe e do pai com o bebê que ainda está no útero matemo 
não é igual. A mãe e seu filho são um todo. A criança 
não "está" dentro dela, faz parte dela. Para o pai, o futuro 
filho ou filha existe apenas na sua imaginação. É extre-
mamente dificil para um homem ter uma idéia aproxi-
mada do que sente uma mulher quando está grávida, 
porque esta é uma das poucas experiências exclusivas 
do ser humano feminino. As outras são amamentar, 
menstruar e conceber. 
O relacionamento da mãe com a criança é primor-
dial e obedecerá algumas etapas de desenvolvimento 
psicológico, a partir do desenvolvimento biológico. Para 
o bebê, ele e sua mãe são um todo. É como se o mundo 
tivesse se transformado num imenso útero e continuas-
sem existindo apenas ele e ela. 
Aos poucos, o bebê "percebe" que há "algo dife-
rente". É como se ele pensasse assim: "Eu sou dife-
rente dela, mas somos tão ligados que não nos 
sentimos separados". 
Vamos continuar "dando a palavra" a esse bebê 
que todos nós fomos um dia, para que ele "conte" a 
sua experiência: 
4. O conceito de Matriz de Identidade. proposto por J. L. Moreno, 
refere-se ao lugar onde a criança se insere desde o nascimento. 
Esseconceitofoirevistopelomédicobrasileiro,doutoremPsiquia-
tria pela USP e psicodramatlsta José Fonseca. 
19 
"Aos pouquinhos vou me desligando dela e passo a 
perceber que EU existo em separado de minha mãe. 
Começo a me dar conta do meu corpinho, meu pé, 
minhas mãos, minhas sensações. Ao mesmo tempo, 
noto que ela é outro ser e o corpo dela é diferente do meu. 
Eu sou eu, e ela é ela. 
Mas, que engraçado, só consigo me perceber e 
percebê-la como se eu estivesse "num corredor psicoló-
gico". onde só cabem eu e outra pessoa. Para um entrar 
o outro precisa sair. 
Se o outro é minha mãe, sou eu e ela. Se o outro é 
meu pai, sou eu e ele. Eu sei, é um pouco esquisito 
mesmo. Acho que é assim para todo mundo. Nesse 
"corredor" estranho não cabe um terceiro. 
Também não foi fácil. mas, de tanto olhar, começo 
a me dar conta de que existe um corpo macho e um 
corpo fêmea. E um dos dois é igual ao meu. Cheguei 
a essa conclusão pela maneira como me tratam e como 
os dois, meu pai e minha mãe, se comportam. Tudo 
isso foi possível porque tenho tempo de sobra. Não 
posso fazer muita coisa fora do berço, fico o tempo todo 
olhando, olhando". 
O tempo passou um pouco, o engatinhar e o esfolar 
dos joelhos ficou para trás. O bebê agora é uma criança, 
que há algumas semanas apagou duas velinhas no bolo 
de aniversário. Vamos deixá-la falar: 
"Agora as coisas estão mais fáceis. Posso andar pela 
casa, embora viva batendo a cabeça nas coisas. A mesa 
parece que está tão longe, dou um passo e pimba. Um 
galo. Tenho um bonequinha e às vezes finjo que sou a 
mãe dela, do mesmo jeito que minha mãe faz comigo. 
Alguma coisa dentro de mim diz que sou uma 
menina, mas eu não sei bem dizer que coisa é essa. Os 
psicólogos devem saber, pois vivem estudando as pes-
soas por dentro. Tenho a impressão de que os garotos 
não sentem a mesma coisa. São tão diferentes de mim. 
Acho que também sentem alguma coisa de meninos. 
20 
Quando nasci, me lembro bem, trouxe duas coisas 
dentro de mim: a possibilidade de ser espontânea e de 
ser criativa. E uma coisa com nome estranho, "tele" 
(como se usa na palavra televisão), que é a capacidade 
de perceber as pessoas. Quando meu pai olha feio para 
mim, ele não precisa dizer nada. Já entendi tudo! Faço 
bico de choro, fico quieta, e ele tira a carranca do rosto. 
Dizem que isso entre nós dois é uma tal de relação 
télica." 
Vamos voltar ao trabalho, nossa amiguinha tem 
mais o que fazer. De acordo com as psicólogas gaúchas 
Bebeth Fassa e Marta Echenique5 , o relacionamento 
principalmente da mãe mas também do pai é diferente 
se estão criando um menino ou uma menina. E esse 
comportamento, por vezes é consciente, ou intuitivo e 
inconsciente. 
Quando se trata de um menino, embora ele se 
sinta fundido à mãe, ela, aos poucos, procura afastá-
lo. Ela teme, inconscientemente, um sentimento in-
cestuoso ou que ele cresça como mulher. Isso não é 
rejeição. Apenas a mãe deseja que seu filho desenvolva 
a sensação de que pertence ao gênero masculino. Com 
isso o garoto começará a se sentir macho (no corpo) e 
masculino (na mente). 
Quando a mãe tem uma filha, os sentimentos são 
outros. Ela a manterá por mais tempo perto de si, pois 
são criaturas iguais. É como se uma filha "mulher" fosse 
uma continuação de si mesma. A situação se inverte 
naturalmente com o pai e seu filho ou filha. 
Por volta dos 2 anos e meio, a criança já possui uma 
identidade genital. Ela "sabe" que tem pênis e bolsa 
escrotal, ou vulva, vagina e clitóris. SENTEM-SE MENI-
5.As psicológase psicodramatistas Bebeth Fassa e Marta Echeni-
que estudaram o desenvolvimento do ser humano levando em 
conta o gênero a que pertence a criança, sua relação com os pais, 
e tendo como foco o "papel de gênero", em seu livro Poder e Amor. 
21 
NOS OU MENINAS. Sua identidade de gênero está sela-
da e será imutável para toda a vida. 
Quem somos,afinal? 
A resposta a essa pergunta poderá ser mais fácil ou 
mais dificil, dependendo de como vivemos cada uma das 
diversas fases, sem esquecer que muitas acontecem ao 
mesmo tempo. 
Pessoas que cresceram em ambientes sadios, com 
liberdade e podendo exercer toda a sua espontaneida-
de e criatividade, talvez respondam com mais rapidez 
e segurança. 
Crescem a violência urbana e a incerteza econômi-
ca, enquanto os meios de comunicação despersonalizam 
culturas e embotam os sentimentos. Num país como o 
Brasíl, onde nem mesmo as necessidades básicas de 
sobrevivência são atendidas, é quase um "luxo" esperar 
que a grande maioria das pessoas possa crescer de 
maneira criativa e espontânea. 
22 
li ·ESCALA DE IDENTIDADE DE GÊNERO 
(SENTIR·SE COMO) 
HOMEM t.ULHER 
HOMEM um pouco mulher 
HOMEM 
E 
MULHER 
um pouco 
homem MULHER 
A e D 
Segundo os estudiosos, por volta dos 2 anos e meio esta 
identidade é estabelecida e depois é imutável, ou seja, 
não se mudará mais de A para C ou E. Até essa idade 
é possível educar-se alguém para sentir-se em A ou E, 
independentemente de seu sexo biológico. 
3 
~abemos quem somos, mas por que nos comporta-
mos desta ou daquela maneira? 
Mais uma vez tudo parece muito natural. A menos 
que alguma coisa não vá bem. 
Quando falamos em identidade de gênero, nos refe-
rimos às sensações internas, que estão dentro de cada 
um de nós. Essas sensações podem vir para fora ou não. 
SENTIMOS pertencer ao gênero masculino ou feminino, 
que SOMOS homens ou mulheres. 
Papel de gênero nada mais é que o nosso compor-
tamento frente às demais pessoas e à sociedade como 
um todo. Nesse caso, temos "uma maneira de ser" 
masculina ou feminina. É preciso haver uma perfeita 
sintonia entre o que sentimos e nossa maneira de agir. 
Do contrário, surgirá um conflito entre a nossa identi-
dade de gênero e o papel que desempenhamos. 
"O papel é a forma de funcionamento que o indivi-
duo assume num momento específico, ou quando reage 
a uma situação especifica, na qual outras pessoas ou 
23 
objetos estão envolvidos" 1. Ao longo de apenas um dia 
podemos desempenhar o papel de pai, em casa, de 
funcionário, no escritório, e de esportista, à noite. 
Somos sempre a mesma pessoa. No entanto, a 
maneira como nos comportamos com os demais não é a 
mesma, dependendo da situação, embora essas formas 
de comportamento tenham a nossa marca particular. 
Como definição de papel, podemos afirmar que se 
trata da "unidade de conduta que se dá entre duas ou 
mais pessoas, o que é observável e resultante de elemen-
tos constitutivos da singularidade do agente e de sua 
inserção na vida social". 
() VAVl:L ()4, MI: 
Os nossos primeiros papéis têm sua origem na 
família, como vimos no capítulo anterior. O meio em que 
nascemos, somos criados e nos desenvolvemos será a 
base psicológica para o desempenho de todos os papéis. 
Nos primeiros meses de vida, o bebê tem apenas 
esboços de papéis. Esses papéis estão relacionados com 
as suas necessidades fisiológicas, como se alimentar, 
urinar, defecar. Para atender suas necessidades existe 
a mãe, ou a substituta, que lhe dá amor e carinho, 
ajudando-o a desenvolver-se. 
O atendimento a essas necessidades pela mãe é de 
fundamental importância. Cada cultura e cada socieda-
de deixam claro como devem se comportar as mães 
nesses casos e até mesmo as diferentes formas de ama-
mentar ou trocar um menino ou uma menina. 
1. O termo "papel", proposto por J. L. Moreno, em inglês role, vem 
do latim rotula. Isso porque na Grêcia antiga, para as apresenta-
ções teatrais, o texto era lido em "rolos" de papel. Moreno iniciou o 
desenvolvimento desse conceito, que pressupõe inter-relação e ação 
em todas as dimensões da vida, como o nascimento, a experiência 
vivenciaqa do individuo e a sua participação na sociedade. 
24 
Que normas são essas das quais ninguém fala, e 
que diferenças existem no tratamento da menina e do 
menino? 
São "regras" sobre as quais pouco pensamos porque 
estão incorporadas em nosso dia-a-dia. Esse tratamento 
"diferente" para meninos e meninas está nos gestos da 
mãe, na maneira de pegar a criança no colo, de dar o 
seio ou a mamadeira. e tantos outros. 
A higiene dos genitais do bebê, que é feita pela mãe, 
tem muita importãncia para o desenvolvimento da iden-
tidade genital (a sensação de que se tem pênis ou 
vagina), da identidade de gênero (se sente pertencer ao 
gênero masculino ou feminino) e para a formação do 
papel de gênero, ou seja. se esse bebê, no futuro, terá 
um desempenho social masculino ou feminino. 
Isso acontece porque é no órgão genital do menino 
ou da menina que vai desembocar a uretra. canal por 
onde passa a urina. Dessa maneira, todas as vezes que 
a mãe faz a higiene da criança, ela está lhe dando a 
consciência da genitália que possui. A atitude do adulto 
diante dos órgãos sexuais difere dependendo do que 
"sentem" e "pensam" sobre eles. 
A mãe, ao amamentar. faz isso com sentimentos e 
emoções. O bebê, por sua vez, ao ser alimentado, não 
apenas ingere o leite, mas percebe o que há de mais 
profundo no ato realizado pela mãe. 
Quando esse ato está envolvido de muito amor, não 
é por acaso que as mães procuram, intuitivamente, os 
locais mais calmos e silenciosos para amamentar. Nesse 
momento, o bebê está recebendo e "reagindo". a seu 
modo, ao carinho materno. Essa "reação" do bebê às 
emoções da mãe também acontece na hora do banho ou 
da fralda limpinha. 
25 
Aos poucos, a criança aprende a falar. Seus movi-
mentos tornam-se coordenados e ela reage diante de 
situações novas. Na medida em que ela percebe o que se 
passa entre as outras pessoas e a diferenciar a realidade 
da fantasia, começa a desenvolver-se o que chamamos 
de papéis sociais de gênero. 
"A função de realidade lhe é imposta por outras 
pessoas, suas relações, coisas e distâncias nos espa-
ços, e atos e distâncias no tempo"2 . Assim, a criança 
aprende como deve se relacionar com seu corpo e 
também que atitude deverá tomar em cada papel que 
estiver desempenhando. 
Nos papéis sociais de gênero, entra em operação a 
função de realidade. A criança tem consciência de que é 
filho, sobrinho, neto. De que tem pais, avós, família, 
coleguinhas de rua ou de creche. A partir do momento 
em que a criança sabe o que é realidade, conquista os 
chamados papéis de fantasia. 
Esses papéis correspondem à dimensão mais indi-
vidual da vida psíquica ou psicológica do ser humano. 
Esse é o momento em que a criança "viaja" com seus 
brinquedos, finge ser o herói da 1V ou personagem de 
sua própria criação, com a consciência de que tudo isso 
é fantasia, é de brincadeira. 
Por volta dos 2 anos e meio, a criança já desenvol-
veu, em situações de crescimento normal, uma identi-
dade de gênero Uá "sabe" que é um menino ou uma 
menina). Isso lhe permite relacionar-se com as pessoas 
e até mesmo assumir outros papéis. Nessa fase, a me-
nina já pode dizer "sou a mamãe" enquanto acaricia uma 
boneca. 
2. Refere-se ao desenvolvimento da Matriz de Identidade, na fase 
denominada por Moreno de "brecha entre fantasia e realidade". 
26 
Na verdade, todos os papéis são complementares. 
Um não existe sem o outro. O modo de ser. a identi-
dade de um indivíduo, decorre dos papéis que ele vai 
desenvolvendo ao longo de sua existência e de suas 
experiências. Não existe o papel do senhor se não 
existir o do servo, nem o do chefe sem o do funcionário. 
As contradições. crises e transformações nas relações 
humanas através dos papéis de gênero fazem parte do 
desenvolvimento de cada um de nós. 
Quando a criança Mpercebe o mundo" não apenas 
pelos olhos. pelos ouvidos e os outros órgãos dos senti-
dos, ela começa a distinguir objetos materiais de seres 
humanos. Aos poucos. o fator inato chamado tele3 vai 
se desenvolvendo.Esse fator faz com que percebamos a 
outra pessoa, ao mesmo tempo que somos e nos senti-
mos percebidos. 
Por volta dos seis meses, a criança já é capaz de 
reconhecer um sorriso num rosto humano e "correspon-
der" sorrindo. Esse sorriso do bebê também é percebido 
pelas outras pessoas que estão a sua volta. Isso é 
possível graças ao fator tele. O encontro télico sugere que 
as pessoas são capazes de colocar-se uma no lugar da 
outra, realizando a inversão de papéis. 
Existe algo entre as pessoas que a maioria das 
teorias psicológicas não aborda, que é a relação co-in-
3. Fator Tele: J. L. Moreno afinna que todos os seres nascem com a 
potencialidade de perceber o mundo, o que vai se desenvolvendo 
desde os primeiros meses e se aprimorando ao longo da vida. É a 
capacidade de perceber a si próprio (autotele). perceber o outro de 
forma objetiva. e sentir-se percebido. numa comunicação de mão 
dupla. O fator tele é um dos pontos principais da teoria desenvol-
vida por Moreno. 
27 
consciente4. Essa relação ocorre quando alguma coisa 
de mim passa para o outro sem que eu mesmo saiba. 
Como há uma relação co-inconsciente entre todas 
as pessoas, a mãe pode ter um desejo ou uma fantasia 
inconsciente em relação ao bebê. Isso, de alguma 
forma, será captado por ele e ficará registrado em seu 
inconsciente. 
Oco-inconsciente pode ser grupal, como na comu-
nicação entre as pessoas que estão juntas, convivendo 
em família. O melhor exemplo que se pode dar é o sexto 
sentido da mãe. Ela, de repente, diz que está acontecen-
do alguma coisa com o seu filho, distante, e o fato se 
confirma. 
Mãe e filho têm um relacionamento muito próximo. 
Essa proximidade desenvolve muito a relação co-incons-
ciente. Isso também acontece com o pai, que muitas 
vezes tem uma relação com seus filhos tão próxima 
quando a da mãe. 
() UISVÃ.12() ()() l21':LÍ)C31() 
O início do desempenho do papel de gênero, ou 
nosso comportamento social, se dá no momento em que 
nos percebemos enquanto menino ou menina. É a fase 
em que o menino tem consciência do seu pênis, passan-
do a ter uma identidade genital, e percebe que pertence 
ao gênero masculino. A menina vive o mesmo processo, 
e os dois passarão a ter comportamentos masculino e 
feminino, respectivamente. 
O desenvolvimento desse papel de gênero precisa 
ser o mais livre possível, e é de suma importância, por 
4. Co-inconsciente: Para Moreno, esse estado pressupõe a relação 
entre duas ou mais pessoas, vivências, desejos, sentimentos e até 
fantasias que são comuns e se dão em "estado inconsciente". Esse 
estado se daria concomitantemente aos "estados co-conscientes" 
de comunicação entre as pessoas. 
28 
ser o papel-base. Ele servirá de eixo para o desenvolvi-
mento de todos os outros papéis de gênero, inclusive o 
do papel afetivo-sexual. 
Na infância, esse desenvolvimento é muito lento. 
Primeiro, a criança se relaciona com a mãe e com o pai, 
depois com os demais familiares, com a escola, com a 
sociedade. A cada momento os seus papéis de gênero 
vão sendo confirmados. 
Quando chega a adolescência, que muitos chamam 
de "aborrescência", o processo "explode" e se torna acele-
rado. Então, rapidamente, em dois ou três anos, aquela 
criança, que tinha um papel de gênero tranqüilo, pode ficar 
muito perturbada com a eclosão dos hormônios. 
Surgem os caracteres sexuais secundários, como 
barba nos rapazes e seios e menstruação nas moças, 
além do timbre de voz diferenciado. Também os carac-
teres sexuais primários, os genitais externos, se trans-
formam. 
O pênis e a bolsa escrotal se desenvolvem, a vulva 
toma outra conformação, e é como se aquele corpinho, 
que até então era igual para os dois sexos, com exceção 
da genitália, passasse a ter uma outra moldura biológi-
ca. No entanto, só será possível ser um homem ou uma 
mulher, com os papéis de gênero bem desenvolvidos, na 
idade adulta. 
C()MVLl:TANU() () Ul:Sl:Nt1() 
Em que momento podemos ter certeza sobre quem 
somos? 
Essa pergunta crucial para muitos de nós só pode 
ser respondida se a nossa identidade de gênero e nossos 
papéis de gênero foram completamente desenvolvidos, 
de tal maneira que exista uma total sintonia entre o que 
sentimos e a maneira como exteriorizamos esses senti-
mentos, por meio do comportamento e das atitudes. 
29 
Existem alguns aspectos, a maioria de ordem cul-
tural, que podem definir o papel de gênero masculino e 
o papel de gênero feminino. As diferenças entre as 
genitálias externas masculina e feminina e entre os 
caracteres sexuais secundários que surgem na adoles-
cência são evidentes e não necessitam ser comentadas. 
Outro aspecto é a saúde do corpo, a aparência fisica, 
a semelhança existente entre homens e mulheres muito 
magros ou obesos. Os homens e as mulheres saudáveis 
têm condições de mostrar mais claramente a sua mas-
culinidade ou a sua feminilidade. 
Os cuidados com o corpo que os meninos e as 
meninas aprendem a ter são completamente diferentes. 
A menina aprende a escovar o cabelo, desde cedo usa 
xampu e outros cremes, passa esmalte nas unhas. 
começa a se embelezar. O menino limita os cuidados com 
o corpo à higiene. 
Na medida em que ocorre o desenvolvimento da 
sociedade, a transmissão desses papéis vai se tomando 
mais elástica e, felizmente, menos rígida. As pessoas aos 
poucos se dão conta de que não é um creme para a pele 
que o garoto usa, benéfico para a saúde, que vai, no 
futuro, tomá-lo menos homem. Muitas dessas mudan-
ças devem-se ao movimento feminista que começou nos 
Estados Unidos na década de 60 e chegou ao Brasil na 
década de 70. 
A postura do corpo, a gesticulação, tudo isso é 
"ensinado" muito cedo. A criança aprende muito pela 
imitação do comportamento dos pais. Assim, a menina 
aprende que não deve sentar de pernas abertas, não 
pode mostrar a calcinha. O menino é "treinado" de outra 
forma, e não há tanta preocupação com seus modos. 
limitando-se ao que se entende por boa educação. 
Como podemos ver, todos esses aspectos são rela-
tivos a como um homem e uma mulher lidam com o seu 
corpo e o seu psiquismo e corno se comportam em nossa 
sociedade. Isso vale para o modo de falar, a abordagem 
dos assuntos, o tipo de roupa e até o uso dos enfeites. 
30 
O homem não deve chorar, não deve exteriorizar 
muitos de seus sentimentos, porque isso seria uma 
característica feminina. A mulher, por sua vez, não pode 
demonstrar força nem determinação, pois isso é próprio 
do comportamento "masculino". Essa situação acaba 
criando dois seres pela metade. Hoje, a mulher já pode 
mostrar a sua força, mas o homem ainda não conquistou 
o direito de expor a sua fragilidade. E menos ainda de 
expor suas fraquezas. 
Nem sempre os papéis de gênero assumidos pelo 
individuo estão em consonância com os seus atributos 
fisicos. Um caso muito conhecido é o da modelo Roberta 
Close, que nasceu biologicamente homem mas desen-
volveu papéis de gênero totalmente femininos. Se não 
conhecêssemos a sua história, diríamos sempre tratar-
se de uma mulher, e não de um homem. 
O desempenho dos papéis de gênero são estabele-
cidos pela sociedade. Existe, nessa sociedade, sempre 
uma linha mais ou menos comum a todos os homens e 
mulheres, em termos de comportamento. As diferenças 
vão acontecer de cultura para cultura, ou de época para 
época. 
No mundo, a maior parte das relações entre as 
pessoas é de gênero e pouco envolve a sexualidade 
propriamente dita. Se considerarmos a grande quanti-
dade de papéis que assumimos, o lado sexual só vai se 
manifestar com uma pessoa que amamos ou desejamos. 
No entanto, nossa cultura tende a erotizar muitas 
dessas relações. É fácil hoje ver anúncios dos mais 
diferentes produtos, de cigarros a peças para automó-
veis, relacionados com situações em que estão envolvi-
dos o sexo e "um convite ao prazer".É também comum ouvir que é impossível a amizade 
entre um homem e uma mulher, porque nessa relação 
estaria sempre presente uma segunda intenção de cará-
ter sexual. Isso não é verdade e, se ocorre na cabeça 
dessas pessoas, é porque está havendo uma mistura de 
31 
papéis: o papel de amigo (de gênero) e o papel afetivo-se-
xual (relacionado ao sexo). 
É evidente que duas pessoas amigas podem fazer 
amor ou até se apaixonar, mas, nesse caso, estarão 
assumindo um novo papel. Esse amor pode, e até deve, 
conter a amizade, mas essas duas pessoas não estarão 
mais desempenhando o papel de amigos. 
32 
llASCUUNO 
A 
Ili ·ESCALA DE PAPÉIS DE GÊNERO 
(PAPEL SOCIAL! 
Afeminado 
MASCUUOO 
E 
FEMINIOO 
e 
FEMININO 
Masculinizado fEMNN() 
D 
Nesta escala, as pessoas podem ir e vir, independente-
mente do seu sexo biológico e de sua identidade de 
gênero. Os papéis de gênero podem ser treinados e 
desenvolvidos. Os atores proftssionais mostram, atra-
vés de sua arte, esta possibilidade. Os transexuais 
masculinos podem ir de A, passar por B, C, e adaptar-se 
em E. O mesmo pode ocorrer com as transexuais 
jemininas, no sentido inverso da escala. Algumas pes-
soas. como por exemplo os travestis, podem passar 
parte do dia em A e outra em E. independentemente do 
sexo biológico. 
~ós podemos definir orientação afetivo-sexual 
como a sensação interna de que temos a capacidade 
para nos relacionarmos amorosa ou sexualmente com 
alguém. Ela é parte da identidade sexual, algo que 
pertence ao nosso mundo interno, ou ao psicológico. 
O termo "orientação sexual" é mundialmente usado 
para designar se esse relacionamento vai se dar com 
alguém do sexo oposto, do mesmo sexo, ou com pessoas 
de ambos os sexos. Preferimos acrescentar ao termo a 
palavra "afetivo" para deixar claro que esse relaciona-
mento não é só de ordem sexual, mas também envolve 
o amor e o afeto. E os afetos podem ser de natureza 
positiva ou negativa. E também porque nem sempre 
afeto e sexo caminham de mãos dadas. 
A orientação afetivo-sexual está vinculada aos sen-
timentos que existem dentro de todos nós em relação a 
outra pessoa. Entre esses sentimentos estão o desejo e 
o prazer sexual, as sensações do orgasmo, as fantasias 
sexuais, os sonhos eróticos, o amor e a paixão. 
Esses sentimentos têm seus contrários, como o 
ódio, a repulsa, a frieza, a indiferença e todas as outras 
33 
emoções que perpassam as relações humanas. Também 
pode ser acrescentado à orientação qfetivo-sexual o sen-
timento de se ter a capacidade da reprodução. Uma 
pessoa pode ser fértil, mas carregar a sensação de que 
não pode procriar, e muitas vezes ocorre a situação 
exatamente inversa. 
Não se trata, como vimos em capítulos anteriores, 
da sensação interna de que pertencemos ao gênero 
masculino ou feminino e nem mesmo se o nosso com-
portamento, nas diversas atividades da vida, é masculi-
no ou feminino. Estamos falando agora de uma questão 
tão específica quanto importante, que é a capacidade de 
escolher a pessoa que vamos amar ou com quem teremos 
um relacionamento sexual. 
As atuais pesquisas científicas consideram que a 
orientação afetivo-sexual é construída, psicologicamen-
te, na primeira infância, até os quatro ou cinco anos de 
idade. No entanto, somente na adolescência passamos 
a ter consciência desses sentimentos, que se confirmam 
ou não na idade adulta. 
Quem não se lembra de suas grandes paixões de 
adolescente, muitas impossíveis, "amenizadas" com 
memoráveis bebedeiras? Relembradas anos depois 
com os olhos da realidade parecem não ter significa-
do algum. 
O tempo é sábio e tudo acontece na hora certa. Com 
o despertar do desejo sexual na adolescência, a partir 
da explosão hormonal própria da idade, começamos a 
ter consciência de que nossos sentimentos amorosos e 
emoções dirigem-se para alguém do sexo oposto, para 
alguém do mesmo sexo ou para pessoas de ambos os 
sexos. Essa consciência nos revela como heterossexual, 
homossexual ou bissexual, o que poderá ou não ser 
confirmado mais tarde. 
34 
Anteriormente, ainda na infância, todos os senti-
mentos, considerados prévios ou primários à orientação 
afetivo-sexual, são indefinidos ou discretos, e dos quais, 
nessa fase, temos pouca consciência. Não é dificil encon-
trar casos de crianças, principalmente meninos, que se 
"apaixonam" por uma babá ou uma prima de mais idade. 
Mas, nessa "paixão", está ausente o componente erótico 
e, conseqüentemente, o desejo sexual. 
Na infância, desde os 4 ou 5 anos até a adolescência, 
é como se nós passássemos por um período de latência 
em relação a esses sentimentos. Na realidade, esses 
sentimentos ainda não emergiram. 
Na adolescência eclodem os hormônios sexuais, 
disparados pelo relógio biológico, o que pode ocorrer, 
conforme a pessoa, aos 1 O, 11, 12 anos ou até mais tarde 
um pouco. A explosão desses hormônios faz surgir os 
caracteres sexuais secundários. 
A orientação afetivo-sexual pode ser básica ou cir-
cunstancial. Uma pessoa pode ser basicamente heteros-
sexual, ou basicamente homossexual, mas somente na 
idade adulta terá essa certeza. No período da adolescên-
cia, quando essa revelação acontece, a própria pessoa 
pode não ter muito claro qual é, afinal, a sua orientação. 
Mesmo na idade adulta, essa orientação pode ser 
temporária, dependendo das circunstâncias da vida. Em 
ambientes onde ficam confinadas por longo tempo pes-
soas do mesmo sexo, como presídios, um indivíduo 
poderá ter um sentimento ou um comportamento hete-
rossexual ou homossexual, retornando a sua orientação 
básica assim que a situação de vida se modifique. A bem 
da verdade, todos nós podemos "ser" heterossexuais ou 
"estar" heterossexuais, "ser" homossexuais ou "estar" 
homossexuais. 
35 
O mundo, em meados do século passado, foi dividi-
do pela Medicina em pessoas heterossexuais e homos-
sexuais. A partir de 18691, momento em que a 
homossexualidade, corno comportamento, ganha esse 
nome, essa orientação afetivo-sexual entra para a Medi-
cina como algo patológico ou doentio. 
Os sentimentos e os comportamentos heterosse-
xuais e homossexuais, no entanto, são tão velhos quanto 
o mundo. Desde que o homem existe, esses sentimentos 
estão presentes, sempre aconteceram em todas as socie-
dades e em todas as culturas, independentemente de 
serem primitivas ou avançadas. 
O fato é que até a metade do século passado não 
havia uma preocupação em considerar a homossexua-
lidade como doença. Desde então, os homens passa-
ram a ser categorizados como sendo normais os 
heterossexuais e patológicos os homossexuais. Dessa 
forma, a Medicina, a Genética, a Sociologia, a Antro-
pologia passaram a estudar a orientação afetivo-sexual 
dos homossexuais. 
Na medida em que a grande maioria das pessoas 
tem uma orientação heterossexual, perto de 90% da 
população, isso foi considerado como o normal, e a 
homossexualidade, como o desvio. Essa visão levou as 
pesquisas a sempre se dirigir para a busca das "causas" 
da orientação afetivo-sexual homossexual. A Ciência pa-
rece ter-se esquecido de perguntar quais são os mecanis-
mos que levam uma pessoa a ser heterossexual. 
1. Até 1869 a relação afetivo-sexual entre homens era objeto de 
estudo do campo da F!losofla. da Religião e do Direito. Naquele ano, 
quando o II Reich germãnico havia introduzido essa forma de 
sexualidade no código penal como sendo passivei de pena de morte, 
o médico húngaro Karoly Benkert passou a denominares se com-
portamento como "homossexual" e a defini-lo como de natureza 
congênita. Com Isso, a homossexualidade deixou de ser crime e 
começou a serestudada pela Medicina como "uma doença mental 
a ser tratada". 
36 Ronaldo Pamplona da Costa 
Existem muitas teorias psicológicas sobre como se 
dá a construção da orientação afetivo-sexual, o que querdizer que nenhuma delas é definitiva. As teorias desen-
volvidas por Freud no ínicio do século procuram explicar 
a orientação afetivo-sexual como sendo algo que se 
estabelece a partir do relacionamento da criança com os 
pais, nos primeiros anos de vida. 
De acordo com Freud, nesse estágio de desenvolvi-
mento, a criança experimentaria sentimentos incons-
cientes de "desejo sexual" em relação a um dos pais, 
juntamente com sentimentos de "rivalidade", também 
inconscientes, para com o outro, e vice-versa. 
Para o médico-psiquiatra e psicodramatistaJosé Fon-
seca, a criança, após manter uma relação apenas e exclu-
sivamente com a mãe, ou só com o pai, se dá conta de que 
os dois, pai e mãe, têm um relacionamento entre si. 
Nesse momento, de acordo com Fonseca, que faz 
uma releitura do desenvolvimento da Matriz de Identi-
dade ou núcleo familiar proposta por Moreno, a criança 
entra na chamada "crise da triangulação", podendo 
sentir-se rejeitada ou não, dependendo de como se dá a 
intercomunicação entre os três. 
A resolução dessa crise pode ser a criança aceitar 
que ela não é o centro do mundo, que as outras pessoas 
têm relacionamentos entre si, independentemente dela, 
o que não significa que ela receberá menos afeto por isso. 
Superada essa crise, ela estará pronta para relacionar-se 
com as demais pessoas, entrando na fase da socialização. 
Tudo isso acontece com a criança de forma incons-
ciente, e por volta dos 5 ou 6 anos ela já pode ter 
resolvido essa crise. Nessa fase, a criança tem como 
primeiro modelo o relacionamento entre um casal, ge-
ralmente heterossexual. E esse primeiro modelo poderá 
servir como ponto de partida para seus relacionamentos 
afetivos e sexuais no futuro. 
Os Onze Sexos 37 
Acreditamos que, do ponto de vista psicológico, 
o primeiro passo para a construção da orientação 
afetivo-sexual é a definição da identidade de gênero. 
Antes de "sabermos" para quem dirigiremos nossos 
afetos e nossas emoções de cunho sexual, nós preci-
samos saber se somos uma pessoa do gênero mascu-
lino ou do gênero feminino. 
Esse é o primeiro passo, mas não o determinante. 
O segundo passo importante para a orientação afeti-
vo-sexual é a resolução da crise da fase da triangula-
ção, a partir do relacionamento da criança com o pai 
e com a mãe. 
O fato é que as teorias psicológicas não explicam, 
para a Ciência, como um todo, o modo como isso acon-
tece. Os cientistas que desenvolvem seu trabalho de 
pesquisa sob um ponto de vista mais biológico ou social 
não aceitam que só isso explique a construção da orien-
tação afetivo-sexual. 
Nos últimos tempos, cientistas especializados em 
Biologia e Genética desenvolveram estudos que pudes-
sem indicar uma predisposição inata para a homosse-
xualidade, mas nenhuma dessas teorias conseguiu ser 
conclusiva para explicar como se determina a orientação 
afetivo-sexual. 
Em agosto de 1991, o pesquisador norte-americano 
Simon LeVay publicou um importante artigo na revista 
Science. Nesse trabalho, o pesquisador mostra as dife-
renças de tamanho de um determinado grupo de células 
que pode ser encontrado no hipotálamo, a região do 
cérebro responsável pela elaboração das emoções e dos 
sentimentos eróticos. 
Com base nesses estudos preliminares, Simon Le-
Vay passou a estudar esse grupo de células cerebrais 
obtidas de autópsias de três grupos de indivíduos. Ao 
38 
todo, foram realizadas 41 autópsias de pacientes faleci-
dos em decorrência da Aids, dentre os quais estavam 
mulheres, e homens homo e heterossexuais. 
O pesquisador concluiu que essas células estuda-
das eram de tamanho menor nos homossexuais se 
comparadas com as obtidas das mulheres e dos homens 
heterossexuais, o que indicaria alguma relação entre a 
conformação celular do hipotálamo e a orientação afeti-
vo-sexual. 
Nessa pesquisa publicada por LeVay, ele não havia 
obtido material de mulheres lésbicas e também não 
descarta alguma implicação da "causa mortis" relacio-
nada com a Aids no tamanho das células. 
Richard Pillard, professor de Psiquiatria da Uni-
versidade de Boston, nos Estados Unidos, desenvolveu 
um estudo com gêmeos idênticos (univitelinos). com-
parando-os com os não-idênticos (bivitelinos). Ele 
mostrou que existe uma incidência maior de homos-
sexualidade nos dois univitelinos, mesmo que criados 
por famílias diferentes, do que no caso dos gêmeos 
não-idênticos. Isso faz pensar que poderia existir algo 
de genético determinando a orientação afetivo-sexual 
das pessoas, uma vez que os gêmeos idênticos têm a 
mesma configuração genética. 
Em julho de 1993 a revista Scíence publicou um 
artigo sobre uma pesquisa que estava sendo desenvol-
vida pelo Instituto Nacional do Câncer dos Estados 
Unidos, sob a coordenação do professor Dean Hamer. 
Hamer selecionou 76 homens homossexuais, e pas-
sou a estudar seus familiares paternos e maternos. O 
resultado do estudo mostrou que entre os familiares 
paternos do pesquisado havia a incidência de 2% de 
pessoas homossexuais, índice que crescia para 7,5% 
quando se tratava do lado materno. 
Isso levantou a hipótese de que a homossexualidade 
estaria vinculada a um fator genético do lado materno, 
mais diretamente relacionado com o cromossomo x. 
39 
A equipe de Hamer também selecionou, posterior-
mente, 40 pares de irmãos homossexuais, que não 
tinham características semelhantes. Dentre essas 40 
duplas, 33 delas, ou seja. 82,5%. tinham a mesma 
seqüência de DNA (a substância dos genes) em uma 
parte específica do cromossomo x da mãe. 
A partir desses dados ele levantou uma hipótese, a 
ser confirmada, de que alguns homossexuais apresen-
tariam uma predisposição genética para ter essa orien-
tação. O estudo de mulheres lésbicas não mostra os 
mesmos resultados e ainda não foi concluído. 
Dean Hamer deixa claro que seu achado poderá 
mostrar uma predisposição ou tendência, para esse 
comportamento. Como se trata de tendência, ao longo 
da vida ela será ou não confirmada, dependendo de 
inúmeros outros fatores. 
Preferimos considerar que as origens da orientação 
afetivo-sexual no ser humano seriam fruto de uma gama 
de fatores que podem ser de ordem orgânica (neurológica 
ou genética). psicológica, e social, ainda não totalmente 
compreendidas e variando de pessoa para pessoa. 
O casal de pesquisadores norte-americanos Mas-
ters e Johnson2 afirmou em 1979: "Até que se conheça 
mais sobre as origens da heterossexualidade é dificil 
acreditar que um entendimento significativo seja atingi-
do. acerca das origens da homossexualidade". 
Somos seres dotados de inteligência, e é impor-
tante que descubramos como e por que nos compor-
tamos desta ou daquela maneira. No mínimo para nos 
entendermos melhor e vivermos mais saudáveis, do 
ponto de vista biológico, psicológico e social. 
2. O médico William Masters e a psicóloga Virgínia Johnson são 
pesquisadores norte-americanos especializados no estudo dase-
xualidade. O livro do casal, Conduta Sexual Humana, lançado em 
1966, é um marco na sexologia moderna. Masters e Johnson 
estudaram em laboratório relações sexuais de casais hetero e 
homossexuais. 
40 
Uma pessoa, qualquer que seja sua orientação afe-
tivo-sexual, só será feliz se estiver em sintonia e em paz 
consigo mesma. 
IV ·ESCALA DE ORIENTAÇÃO AFETIVO-SEXUAL 
!DESEJO) 
1 HETEROSSEXUAL ~ 
1 1 
BISSEXUAL 
A B e D 
A partir da idade adulta estarenws, basicamente, em wn 
segmento da escala. Entretanto. o deslocamento ao lon-
go da escala é possíuel e dependerá dafase da uida, do 
momento psicológico e das circunstâncias sociais. Por 
exemplo, ir de A até E e uoltar ao seu ponto básico e 
uice-uersa. Ou, ainda, de A para C, de D para A e assim 
por diante. Ao nível das fantasias e dos sonhos o percur-
so de cada wn atraués de todos os segmentos poderá ser 
liure. O deslocamento do des~obásico não sfgn[fica que 
o indiuiduo uiuerá obrigatoriamente relações ao níuel do 
papel afetiuo-sexual pois. para muitas pessoas, este 
sentimento é passíuel de ser "controlado". 
41 
••g . . t uem nunca viveu uma paixao, nunca vai er 
nada não", dizia o poeta Vinicius de Moraes. 
Toda a história da humanidade está repleta de 
paixões, amor, sexo. Até mesmo se decidiu o destino de 
nações a partir do relacionamento amoroso entre ho-
mens e mulheres ou entre homens. 
Verdade ou não, a famosa Guerra de Tróia começou 
com o rapto de Helena, mulher do rei de Esparta, por 
Páris, principe de Tróia. Ao que parece, ele se apaixonou 
perdidamente pela bela grega. Após dez longos anos de 
batalha, entre gregos e troianos, que teria acontecido por 
volta de 1300 a.C., a cidade de Tróia foi finalmente 
destruída, e com ela uma civilização. 
O amor tem sido tema constante na literatura mun-
dial, em todas as épocas. Hoje milhões de pessoas 
acompanham, noite após noite. os encontros e desen-
contros amorosos nas novelas da 1V. Por que esse 
assunto desperta tanto interesse? 
Uma resposta é que o afeto, o amor e o sexo são 
necessidades básicas para nós. E, de todas as relações 
humanas, estas são consideradas as menos resolvidas. 
43 
O papel afetivo-sexual é o mais importante de 
nossa vida. É através dele que conseguimos estabele-
cer um vínculo que pode ser de amor e sexo, de amor 
sem sexo ou ainda de sexo sem amor. 
Somente nessa relação vamos poder experimentar 
o prazer da paixão e do amor, o prazer de nos entregar-
mos um ao outro, o prazer sexual e o prazer de nos 
reproduzinnos, gerando filhos. 
Alguns dos mais dolorosos conflitos humanos estão 
direta ou indiretamente relacionados com a impossibili-
dade ou dificuldade de se desempenhar adequadamente 
o papel afetivo-sexual. Essa parte de nossa vida é a única 
que precisamos desenvolver. por nossa própria conta, 
sem a presença "de um professor". Na sociedade moder-
na, não existe nenhuma atividade que não possa ser 
ensinada e aprendida na escola ou na vida, salvo o papel 
afetivo-sexual. 
Quando falamos em aprendizado, referimo-nos a um 
processo sistemático de orientação, tal como se ensina a 
ler, a tocar piano, a dançar. Do ponto de vista afetivo e 
amoroso é até possível "algum aprendizado", observando 
como fazem as outras pessoas, inclusive nossos pais. 
Aqueles que têm uma orientação heterossexual na-
moram na frente dos pais, na presença dos amigos, em 
sociedade. As cenas de amor são veiculadas à exaustão 
em todos os meios de comunicação, e esse sentimento é 
permitido, possível, desejado, cantado "em verso e prosa". 
Mas, mesmo assim, quem não ficou um tanto perdido 
no primeiro beijo? Quem não ficou em dúvida sobre o que 
fazer com a boca naquele momento? Mesmo com os olhos 
fechados, provavelmente gastamos alguns segundos ten-
tando entender como e o que estava acontecendo. 
A relação amorosa é aplaudida, onde quer que ela 
aconteça, desde que não traga consigo, explicitamente, 
o seu lado sexual. Dessa maneira. só temos a chance de 
44 
"aprender" a fazer sexo com alguém mais experiente, 
como as "profissionais". ou com alguém que saiba tão 
pouco quanto nós. 
Na adolescência, entre rapazes e moças que ainda não 
tiveram uma experiência sexual, é comum a criação das 
mais variadas fantasias, desproporcionais ao fato real. 
Para o rapaz, existe um medo difuso no sentido de 
que talvez, "naquele momento", ele não saiba como 
reagirá a sua parceira, se vai machucá-la ou não satis-
fazê-la. As moças, por sua vez, criam um verdadeiro mito 
sobre o orgasmo, como se esse prazer fosse capaz de 
fazê-las "subir pelas paredes", enquanto explodiriam 
toneladas de imaginários fogos de artificio. 
Quando a primeira relação sexual acontece, muitas 
vezes o que poderia ter sido bom e agradável ganha os 
contornos da frustração. Uma sensação desconfortável 
de que "tudo aquilo era só isso" toma conta da pessoa. 
O desenvolvimento de todos os papéis da vida de-
pende de aprendizado, pois não são características ina-
tas nos seres humanos. Aprendemos a comer à mesa, a 
fazer nossas necessidades fisiológicas em local e de 
forma adequados, a higiene corporal é acompanhada 
pela mãe ou alguém de nossa família. Ninguém nasce 
sabendo como escovar os dentes. 
Numa fase posterior, aos 4 ou 5 anos, vamos à pré-es-
cola, depois recebemos conhecimentos gerais no curso 
primário, secundário e, por fim, aprendemos uma profissão, 
na prática, numa escola técnica ou na universidade. Em 
todos os papéis da vida temos a possibilidade de assimilar 
os novos conhecimentos e de treiná-los na presença de 
alguém que ensine e nos oriente. Porém, quando chegamos 
à vida sexual, nada pode ser visto e nem mostrado. 
Como o papel afetivo-sexual se desenvolve em nos-
sas vidas? Ele começa a aparecer na adolescência. Na 
infância, não se pode afirmar que já exista o desejo 
45 
sexual. Evidentemente, quando nos referimos a essa 
idade cronológica estamos considerando aquelas crian-
ças que vivem num ambiente social favorável e fazem 
parte de uma família minimamente estruturada. 
A realidade brasileira coloca nas ruas uma quanti-
dade muito grande de crianças que, por necessidade de 
sobrevivência, "amadurecem" muito cedo, motivo pelo 
qual a sua idade biológica nem sempre está de acordo 
com o seu crescimento psicológico. Ainda não existem 
estudos completos sobre qual pode ser a influência desse 
meio hostil na formação do papel afetivo-sexual. 
Quando a criança, menino ou menina, entra na 
idade da meninice, que começa por volta dos 5 anos e 
vai até os 10, ela passa a ter um prenúncio de sensação 
sexual. Essa sensação é como se fosse um tipo de energia 
latente que perpassa o seu corpo de maneira muito sutil, 
tanto que a criança sequer tem noção disso. É comum, 
nessa fase, os jogos considerados "sexuais'', que nada 
têm de erótico, e que visam apenas reconhecer o próprio 
corpo e o do outro, quanto ao gênero a que pertencem. 
Não podemos falar ainda em sexualidade, propria-
mente dita, uma vez que esta continua em estado de 
latência, e porque nesse momento outros papéis têm muito 
mais importância. A criança se percebe como filho, sobri-
nho, que tem tios, avós, coleguinhas de escola. As brinca-
deiras e o estudo tomam muito tempo e compõem o 
universo de preocupações das crianças nessa idade. 
Seria ideal que a educação sexual se iniciasse nessa 
idade, pois a criança está descobrindo como funciona o 
mundo e está cheia de perguntas. A quantidade de 
informações que ela recebe principalmente da televisão 
é muito grande. Mas não pode interagir, questionar, 
dizer que não entendeu. 
46 
A orientação sexual e a educação sexual precisam 
ser feitas com naturalidade, sem tabus nem moralismos. 
Infelizmente. muitos pais têm, eles mesmos. pouca ou 
nenhuma informação sobre sexo, "acham vergonhoso" o 
que fazem na cama ou não querem Mcorrer o risco" de 
ensinar aos filhos aquilo que para muitos é proibido, feio 
ou mesmo "pecado". 
Aos poucos essa situação está se modificando, e 
hoje, na década de 90, quem tem 18 anos foi criado com 
um pouco mais de liberdade. Isso comparado com as 
gerações que nasceram nas décadas de 40 e 50. 
l:XIJL()SÁ() l~l:VITÁVl:L 
Na realidade, a possibilidade de assumir o papel 
afetivo-sexual só vai se dar na adolescência, com a 
explosão dos hormônios e com a transformação do corpo. 
Na puberdade, os caracteres sexuais primários. que se 
referem aos órgãos genitais, desenvolvem-se. O desen-
volvimento desse papel a partir da adolescência será 
diferente para rapazes e moças. 
Nessa fase surgem também os caracteres sexuais 
secundários, que vão moldando o corpo do menino e da 
menina, transformando-os num homem ou numa mu-
lher. No homem, o timbre de voz toma-se mais grave, 
ocorre a distribuição depêlos pelo corpo e os ombros 
ficam mais largos. 
Na mulher crescem os seios, os pêlos se concentram 
em apenas algumas regiões e os quadris tomam-se mais 
volumosos. Também são considerados caracteres se-
xuais secundários a menstruação das mulheres e a 
ejaculação dos homens. 
Quando essas transformações ocorrem, os adoles-
centes iniciam a descoberta de seu corpo, das emoções 
que ele desperta nas outras pessoas e daquelas que os 
outros despertam neles mesmos. As mudanças são tan-
tas e simultâneas que muitos se sentem perturbados e 
necessitam, tanto quanto for possível, da compreensão 
dos pais e dos outros adultos. 
47 
Nessa fase. rapazes e moças descobrem o funciona-
mento de seus genitais, costumam se masturbar com 
maior ou menor freqüência e, na verdade, isto os levará 
a saber mais sobre si mesmos e nem devem bloquear 
essa necessidade. Na realidade, a masturbação é o 
primeiro passo para o desenvolvimento desse papel. 
A nossa cultura estimula o rapaz a desempenhar o 
seu papel sexual muito precocemente, mas o mesmo não 
acontece com o papel afetivo. Muitos pais, tios ou irmãos 
mais velhos incentivam o adolescente para que ele exer-
ça a sua "potência" sexual. Hoje, isso ocorre com menor 
intensidade, pois muitos jovens, criados de forma mais 
livre, têm a sua primeira experiência sexual com uma 
namorada ou com alguém de quem gostem. 
Para os rapazes, não existe a preocupação com a 
paternidade. O papel de pai não é estimulado nessa 
idade, é postergado ao máximo e, quando acontece uma 
gravidez, a "culpa em geral é da moça". 
O rapaz pode e deve namorar, deve fazer sexo (ele é 
quase obrigado a isso), mas não deve exagerar no seu 
afeto, para não se casar precocemente. Muitos pais 
defendem que o casamento deve ser adiado ao máximo, 
para que isso só aconteça quando ele tiver uma profis-
são, e puder "manter" a sua família. Outros afirmam, 
orgulhosos, que o "rapaz precisa, antes, viver a vida". 
Seja lá o que isso possa significar. 
A adolescência das meninas toma outro rumo. 
Elas aprendem que não podem e nem devem tocar nos 
seus genitais para não descobrir o prazer erótico e 
existe uma grande preocupação com a virgindade. 
Muitas moças só voltam a atenção para a sua 
genitália quanto vão ao ginecologista, no clima de total 
frieza que a situação exige. E isso acontece, na maioria 
das vezes, quando o exame clínico se faz necessário 
devido a uma doença ou à suspeita de uma gravidez. 
Muito precocemente a menina tem a noção de que 
pode ser mãe, a partir do momento em que começa a vir 
a menstruação. Ela se sente então uma pequena mulher 
48 
e, se desejar, pode ser mãe. A formação profissional da 
mulher é importante mas ainda secundária. 
O rapaz passa por uma outra situação, que toma 
explícito o seu desejo sexual. Ao ter sonhos eróticos, 
acontece o que se chama de polução noturna, ou seja, 
ele ejacula dormindo. No dia seguinte, a marca no lençol 
ou na cueca deixam claro para si mesmo e para os pais 
o quanto "é necessário" um relacionamento sexual. Mas 
ele não é alertado de que já pode ser pai, e não é disso 
que se gaba. 
A mulher "aprende" a vincular amor e sexo. e são 
poucas as que conseguem vislumbrar essas duas vivên-
cias como separadas. Na verdade, acreditam que essa é 
uma situação natural, inata, quase biológica para elas, 
e que é "diferente para os homens". Amor e sexo, no 
entanto, podem ser separados se nós assim o desejar-
mos ou se assim nos ensinarem. 
O homem, ao se relacionar sexualmente com a 
pessoa que ama, pode integrar, nesse momento, o lado 
afetivo e o lado sexual, que se distanciaram durante o 
"aprendizado". É essa distãncia que faz com que muitos 
homens tenham relações sexuais sem amor, ou, mesmo 
amando alguém, façam sexo com outra pessoa. 
() MU!lliil[)() MUU4 
O comportamento humano, no que diz respeito ao 
amor, ao afeto e ao sexo tem muito de cultural e vai se 
modificando com o passar do tempo. Os valores de hoje 
diferem daqueles de 50 anos atrás e certamente não 
serão os mesmos no século 21. 
Hoje, cada vez mais, aumenta o número de ado-
lescentes que preferem viver a sexualidade apenas 
com as pessoas que eles amam. Se fala cada vez menos 
em prostituição para os jovens, também pelo temor de 
se contrair a Aids, mas muitos ainda têm sua iniciação 
com uma profissional. 
As moças adolescentes também, aos poucos, vão 
reduzindo a importãncia da virgindade e, com o conhe-
49 
cimento de métodos anticoncepcionais e da camisi-
nha, têm sua primeira experiência sexual bem antes 
do casamento. 
A nova maneira de criar as meninas também está 
abrindo, para as mulheres, a possibilidade de desvincu-
lar o sexo do amor. Isso pode ser até uma opção, mas o 
relacionamento sexual com a pessoa que se ama traz 
uma gama muito maior de emoções e o próprio prazer 
erótico tem outro colorido. Essa é a situação ideal para 
todos mas nem sempre possível. 
A partir do "aprendizado" convencional, vão surgir 
dois seres adultos muito diferentes na forma de viver o 
amor e o sexo. Por isso, não é à toa que o relaciornimento 
entre homens e mulheres ainda é tão dificil e complica-
do, o que se demonstra estatisticamente pelo número 
crescente de separações. 
Na medida em que a adolescência termina, o 
homem ou a mulher, agora donos de si, podem desem-
penhar completamente o seu papel afetivo-sexual, re-
lacionando-se com alguém do sexo oposto, do mesmo 
sexo, ou de ambos os sexos. É a fase da criatividade 
do papel afetivo-sexual. 
Desse momento em diante, cada um coloca a sua 
própria marca ou a do par que se forma. Esse seria o 
momento ideal para urna vida a dois e para pensar em 
filhos, pois as duas pessoas estão preparadas, com 
vários de seus papéis consolidados e com todas as fases 
anteriores resolvidas. 
É também na fase adulta que se vai ter certeza sobre 
a sua orientação afetivo-sexual básica na vida. Essa 
vinculação entre orientação e papel afetivo-sexual é 
fundamental, pois o mundo interno e o mundo externo 
são duas partes totalmente intercomunicáveis e, para o 
nosso perfeito equilíbrio, é necessário haver urna sinto-
nia fina entre ambas. 
50 
O papel afetivo-sexual, dentre todos os papéis do ser 
humano é aquele cujo desenvolvimento se dá em condi-
ções mais precárias. Ele é o que merece ser reeducado 
com todo conhecimento, cuidado e carinho porque apa-
rece conflituoso na maioria das pessoas. A pedagogia 
desenvolveu os melhores métodos para que possamos 
aprender toda e qualquer coisa. mas ainda engatinha a 
respeito da educação e orientação sexual. 
Em nosso país, algumas pessoas enfrentaram com 
muita coragem o assunto, entre elas a psicanalista e 
sexóloga Marta Suplicy. Ela desenvolveu, na década de 
80, um trabalho pioneiro na 1V, e o Brasil, naquela 
época, era um dos únicos países que tinha um programa 
diário de educação sexual na televisão 1. Apesar de todos 
os problemas com a censura então vigente. 
É preciso reconhecer que há algum esforço do poder 
público e de organizações não-governamentais em levar 
a orientação sexual para as escolas, tema que sequer era 
abordado 10 anos atrás. No entanto, essa disposição 
esbarra no pouco ou nenhum preparo dos professores 
para lidar com o assunto. 
Os educadores, é claro, não têm culpa pela sua falta 
de conhecimento, pois quase não há onde buscá-lo. Só 
agora, em alguns pontos do país, principalmente nas 
grandes cidades, começam a surgir grupos de trabalho 
e de formação de professores de orientação sexual. 
O cinema, o vídeo e as revistas eróticos e pornográ-
ficos acabam preenchendo um espaço. Nesse tipo de 
material, pelo menos, os adolescentes, assim como os 
adultos, podem ter uma idéia do que acontece, explici-
tamente, entre duas pessoas num momento de intimi-
dade sexual. 
Amor e sexo são necessidades básicas de todos nós. 
O atosexual é normal. natural e fisiológico. Cercar essa 
l. Programa 7V Mulher, da Rede Globo de Televisão. Ia ao ar pela 
manhã, diariamente, e foi mantido de 1980 a 1986, com produção das 
jornalistas Rose Nogueira e !rede Cardoso. 
51 
realidade com uma aura de mistério só contribui para 
aumentar os conflitos internos, intensificar o sofrimento 
e empobrecer a alma. 
Precisamos viver nosso lado afetivo e sexual sem "ter 
que nos preocupar demais com o assunto", da mesma 
forma como nos alimentamos, andamos, respiramos, so-
nhamos, ou nos absorvemos diante de um belo pôr-do-sol. 
V ·ESCALA DE RELAÇÕES AFETIVO-SEXUAIS 
DE HOMENS (PAPÉIS AFETIVO-SEXUAIS! 
HOMEM HOMEM HOMEM HOMEM HOMEM COM COM COM COM COM MULHER MULHER E HOMEM TRAVESTI TRANSEXUAL 
HOMEM MASCULINO MASCULINO 
A 1 e D 
VI ·ESCALA DE RELAÇÕES AFETIVO-SEXUAIS 
DE MULHERES fPAPÉIS AFETIVO-SEXUAIS! 
MULHER 
COM 
MULHER 
COM 
HOMEM 
MULHER 
COM 
MULHER MULHER 
COM COM 
52 
HOMEM E 
MULHER 
B 
1 A 
MULHER 
e 
TRAVESTI 
FEMININO 
D 
TRANSEXUAL 
FEMININO 
Embora a maioria dos lwmens e das mulheres se 
relacione com pessoas do sexo oposto (V e VI/A) ao 
longo de sua uida uma parte signiftcatiua deles, depen· 
dendo dajase de uida, do momento psicológico ou de 
circunstãncías sociais, pode mudar de segmento na 
escala, e, portanto, não estar f1Xo em nenhum deles. O 
estar em um ou outro segmento dependerá não apenas 
mas. principalmente, da decisão de cada indiuiduo. 
Áté agora procuramos clarear, explicar ou expli-
citar todos os elementos que compõem a sexualidade 
humana na sua esfera biopsicossocial. Pode ser que 
você, em alguns momentos da leitura, tenha achado 
tudo muito simples ou muito óbvio e, em outros, 
algumas idéias e informações complexas das quais 
nunca tinha ouvido falar. 
Na realidade, tudo o que mostramos nos capítulos 
anteriores acontece com os seres humanos ao mesmo 
tempo, ou quase ao mesmo tempo. Tratamos o assunto 
de maneira separada apenas para facilitar o entendi-
mento das tantas situações pelas quais todos nós pas-
sam os sem muitas vezes nos darmos conta, e, 
propositalmente. não aprofundamos temas muito com-
plexos. 
Na infância, os fatores biológicos, psicológicos e 
sociais, elementos básicos que vão formar a sexualidade, 
se desenvolvem simultaneamente e de forma interligada. 
Na medida em que a criança vai tendo a sua identidade 
corporal, e conseqüentemente a sua identidade genital, 
53 
ela passa por momentos de intensa vivência com as 
pessoas que a educam. A identidade de gênero e o papel 
de gênero vão se desenvolvendo ao mesmo tempo. Essa 
diferenciação que estamos propondo entre identidade de 
gênero e papel de gênero, além de ser teórica, na prática 
também existe. A mesma coisa acontece com relação à 
orientação afetivo-sexual e o papel afetivo-sexual. 
O homem transexual, corno veremos na segunda 
parte deste livro, sente-se mulher (identidade de gênero). 
mas seu comportamento, eventualmente, pode ser mas-
culino (papel de gênero). 
Esses dois aspectos da identidade sexual, gênero e 
sexo, podem também ser dissonantes entre si. Um ho-
mem bastante feminino e urna mulher bastante mas-
culinizada podem ser heterossexuais e passar por 
conflitos sociais, em função dessa "dissonância". 
Em nossa cultura, infelizmente, muitos papéis de 
gênero estão distorcidos e "sexualizados". A maior parte 
das relações humanas se baseia, ou deveria se basear, 
em papéis de gênero, que nada têm que ver com sexua-
lidade propriamente dita. No entanto, às vezes as "esta-
ções se misturam" e um exemplo comum são os casos 
de assédio sexual no ambiente de trabalho. 
Os próprios pais estão interpretando erroneamen-
te os seus filhos que, com 3 ou 4 anos, lhes dizem que 
têm um "namorado". Nesse caso está havendo urna 
confusão de papéis porque o que essas crianças têm, 
nessa idade, é apenas uma relação de "amizade espe-
cial", ou também podem estar tentando imitar os 
adultos. 
Na medida em que pudermos perceber as diferenças 
existentes entre os papéis de gênero (comportamento 
social) e o afetivo-sexual (comportamento amoroso e se-
xual). certamente estaremos facilitando a nossa vida e a 
dos outros. 
54 
J. L. Moreno entendia que o ápice do relaciona-
mento humano se dá quando acontece o que ele cha-
mou de encontro. Para que um encontro aconteça entre 
duas pessoas, é necessário que a relação entre elas 
seja uma relação télica, onde as duas percebem uma 
a outra da maneira a mais intensa e próxima possível 
da realidade de ambas. 
O encontro de que estamos falando não pode ser 
confundido com aquele que nós marcamos no relógio 
com alguém. É um encontro que implica a sensibilidade, 
a espontaneidade. É um encontro que se pode dar em 
qualquer um dos vários papéis que nós estivermos 
assumindo na vida. 
Wilson Castelo de Almeida, psiquiatra e psicodra-
matista 1 afirma que a palavra encontro abrange diversas 
esferas da vida. Significa estar junto, reunir-se, o con-
tato de dois corpos, ver e observar, tocar, sentir, parti-
cipar e amar, compreender, conhecer intuitivamente 
através do silêncio ou do movimento, do beijo ou do 
abraço, da palavra ou do gesto. 
Encontro significa tomar-se um só. Significa não 
apenas que duas pessoas se reúnem, mas que elas 
se vivenciam e se compreendem cada uma com todo 
o seu ser. 
Se nós compreendermos melhor o gênero a que 
pertencemos e a nossa sexualidade, estaremos mais 
prontos para o verdadeiro encontro amoroso e sexual e 
é para isso e em busca disso também que o ser humano 
vive. Independente da forma de sexualidade das pessoas 
no mundo, como nós veremos na segunda parte deste 
livro, seria de suma importância que todos se dispuses-
sem a ter verdadeiros encontros uns com os outros. 
1. Wilson Castelo de Almeida é médico e mestre em Psiquiatria pela 
USP. O conceito de encontro está em seu livro Formas de Encontro -
Psicoterapia Aberta. 
55 
O encontro revigora, revitaliza, reenergiza os seres. 
Ele dá o colorido mais intenso aos momentos da vida e 
transforma o ser humano. 
Moreno, médico, também vivia a poesia e escreveu 
em 1915: 
Um encontro entre dois: olho no olho, cara a cara. 
E quando estiveres próximo tomarei teus ol11os 
e os colocarei no lugar dos meus, 
e tu tomarás os meus olhos 
e os colocará no lugar dos teus, 
então te olharei com teus olhos 
e tu me olharás com os meus. 
Assim, nosso silêncio se serve até das coisas mais 
comuns e o nosso encontro é meta livre: 
O lugar indeterminado, em um momento indefinido, 
a palavra ilimitada para o homem não cerceado. 
1 
f) corredor do Fórum está cheio, com advogados 
andando para lá e para cá. No meio do burburinho, um 
homem visivelmente abatido acende um cigarro e se 
aproxima, cabisbaixo, de outro, para puxar conversa. 
"É duro se separar quando a gente gosta tanto de 
uma mulher", diz ele, com a voz embargada, mal con-
tendo o choro. O outro, com ódio incontido no rosto, 
responde: "Nunca mais quero me casar na vida, estou 
contando os minutos para me ver livre daquela imbecil, 
daquela filha da puta, daquela ... " A conversa fica pela 
metade quando o funcionário da repartição chama um 
dos casais para a audiência. 
Atrás de um grande homem sempre há uma grande 
mulher heterossexual. Para outros não há motivo de 
orgulho, e muitos se convenceram de que a mulher 
representou a ruína, a falência, a perdição ou o ponto 
de partida para as mais absurdas violências. Grande 
parte da nossa cultura, da nossa literatura, do cinema 
e de todas as artes tem como tema a figura feminina. 
Que mistério é esse que nos leva a considerar até mesmo 
o nosso planeta como "Mãe Terra"? 
59 
São muitas perguntas para poucas respostas. Mas, 
em boa parte, a raiz do problema está na incompreensão 
a respeito da mulher.Essa incompreensão é tão profun-
da que alguns, sem pensar no que estão dizendo, che-
gam a afirmar que mulheres fazem parte das "minorias", 
quando mais de 50% da população mundial é formada 
por pessoas do sexo feminino. 
UtiCIL Cl?l.&.TUl?.&. 
Da incompreensão nascem os estereótipos, que são 
aqueles moldes nos quais todos devem se encaixar, 
queiram ou não. A mulher heterossexual será um fracas-
so se não se casar e não tiver filhos. O casamento deve 
ser o objetivo de sua vida e com todas as armas precisa 
conquistar "o seu homem". Mas atenção! Esse desejo de 
conquista fica proibido de se manifestar, e só pode 
aparecer, de leve, se o Mescolhido" mostrar alguma atra-
ção por ela. 
Depois do casamento, com bolo e champanhe, é a 
vez de a mulher se transformar numa boa dona-de-casa, 
boa esposa, boa mãe, e pouco importa se ela será capaz 
de tudo isso, depois de passar o dia inteiro trabalhando 
fora, para equilibrar o orçamento doméstico. E, novamen-
te, atenção! Olhar para outros homens, NEM PENSAR. 
Se ela quiser ter uma profissão, "não há problema". 
Desde que não deixe de ser a Mdona-de-casa" e que, de 
preferência, não ganhe mais que o marido, para não 
criar Mconstrangimentos" diante dos amigos dele e da 
vizinhança. E não cai bem para ela falar. mesmo com o 
esposo, sobre sexo. Com outros homens, NUNCA. Se ela 
sentir necessidade de abordar esse assunto, que faça 
com uma amiga íntima, de preferência sem que os seus 
maridos saibam. 
Como podemos ver, todos esses estereótipos são de 
ordem cultural, não definem ninguém e na verdade 
60 
servem apenas para colocar limites nas pessoas, na 
maioria das vezes contra a sua própria natureza. É 
evidente que hoje, na década de 90, grande parte das 
mulheres não se comporta dessa forma, principalmente 
as mais jovens. 
No entanto, para muitas que hoje estão perto dos 
40 anos e que pertencem às camadas médias da popu-
lação, esses "moldes" transformaram-se na sua verda-
deira maneira de ser. Elas acham perfeitamente 
"normal" serem sustentadas pelos maridos, evitam fazer 
cursos de profissionalização, "respeitam cegamente" a 
fidelidade conjugal, seja o casamento bom ou não, e se 
consideram felizes por terem uma família e filhos que 
por sua vez vão se casar. E não são poucas as que 
verdadeiramente "voltam a viver" quando ficam viúvas, 
não como se tivessem perdido um ser amado, mas se 
livrado de um pesado fardo. 
A mulher de hoje é mais livre na sua maneira de ser, 
mas isso não quer dizer que os estereótipos deixaram de 
existir. Eles apenas se modificaram, e somente daqui a 
alguns anos poderemos avaliar os prejuízos que causa-
ram. Hoje, por exemplo, a mulher liberada é aquela que 
disputa. com os homens, o mercado de trabalho. que 
exerce profissões arriscadas e que toma a iniciativa na 
conquista amorosa. 
Muitas mulheres heterossexuais transformaram em 
verdadeiro símbolo de liberdade a decisão de colocar o 
seu êxito pessoal acima de tudo, o que inclui os filhos e 
o marido. Uma mulher, hoje. que, por natureza pessoal 
e por escolha, decida se dedicar a tarefas domésticas em 
sua própria casa certamente será discrinúnada, como se 
administrar um lar e acompanhar de perto a educação 
dos filhos fossem "tarefas humilhantes e desprezíveis". 
Mais uma vez. neste caso, a sociedade está procu-
rando encaixar as pessoas em "moldes" estabelecidos. O 
direito à cidadania não existe enquanto as pessoas não 
puderem ser o que desejarem, da forma que desejarem. 
livres de moldes de qualquer espécie. 
61 
Não há mistério algum. Claro que não conseguimos 
entender muita coisa, principalmente sobre o nosso 
comportamento, porque, na realidade, ele não vai bem. 
Se pudéssemos crescer espontãneos, criativos e com 
liberdade, certamente levaríamos a vida toda sem gran-
des problemas. Por razões complexas, a sociedade, or-
ganizada como está, acabou prejudicando nossa 
espontaneidade e criatividade, capacidades com as 
quais todos nós nascemos. 
Então, o que é uma mulher heterossexual? Mulheres 
heterossexuais são aquelas que têm como objeto de amor 
e de desejo sexual o homem. Em uma determinada fase 
da vida, a sua orientação afetivo-sexual levou-a ao en-
contro do sexo oposto. 
No entanto, quando afirmamos isso não estamos 
nos referindo apenas à realidade do corpo, mas princi-
palmente sobre como ela se sente. Não basta ter um 
corpo feminino perfeito, mas SE SENTIR MULHER. se 
comportar como mulher, e desejar um homem. Todas as 
mulheres têm quatro características biológicas básicas, 
que as distinguem dos homens. Só a mulher pode 
ovular, menstruar, gerar e amamentar. 
Em situações de profunda crise, algumas mulheres 
heterossexuais só encontram apoio em outras mulheres. 
Esse companheirismo e solidariedade pode resultar 
numa relação afetiva, o que representa uma expressão 
de carinho e conforto humano. Superada a crise, se a 
orientação afetivo-sexual de ambas estiver definida 
como heterossexual. a relação amorosa poderá termi-
nar, restando apenas uma íntima amizade. 
() LIMITI: UA Lll31:1iUAUI: 
Quando nasce uma menina, já está implícito para 
a nossa sociedade que ela será feminina, desejará um 
homem pa.ra se casar, terá filhos e uma família. Seu 
62 
projeto de vida é traçado no berço, e não passa pela 
cabeça de muitos pais que a sua filha possa não desejar 
esse futuro para si. 
Vivemos hoje uma época de transformação de valo-
res familiares e culturais e as crianças começam a 
crescer com mais liberdade. No entanto, a grande maio-
ria das moças, qualquer que seja a sua classe social, 
ainda tem como sonho dourado o vestido de noiva, o véu 
e a grinalda. 
O tratamento dado pela mãe à filha, como jà disse-
mos, é muito diferente daquele dispensado ao filho. Com 
a menina ela é dócil, carinhosa, reservando para o 
menino um pouco mais de "firmeza". E esse tratamento 
é comum a todos os demais membros da família, prin-
cipalmente por parte do pai. Mesmo que ele seja um 
tanto severo e sisudo, com a filha no colo se derrama em 
ternura, suavidade, proteção e cuidados. Sem se dar 
conta, ele está transmitindo o modo como, na vida adulta. 
os homens tratam ou procuram tratar as mulheres. 
A partir do comportamento da família. a menina 
percebe as diferenças que existem entre homens e mu-
lheres. A percepção intuitiva dessas diferenças vai levan-
do a menina a ter certeza de que é mulher. Esse 
sentimento é reforçado com o aprendizado do modo de 
se comportar. também diferente dos meninos. 
É muito importante que os pais consigam perceber 
sua filha como ela é, e acompanhem o seu desenvolvi-
mento. Mas não é só. Eles também devem ser capazes 
de expressar, entre si e para a criança. com naturalida-
de, os sentimentos de amor. carinho, paciência, inveja, 
prazer, ciúmes, irritação, raiva, impaciência, "saco 
cheio" e tantos outros que fazem parte da natureza huma-
na. Com isso, estarão permitindo aos filhos que não 
bloqueiem a sua espontaneidade e cresçam criativos. 
Educar uma criança pode ser muito fácil ou muito 
dificil. Se nós mesmos tivemos a sorte de crescer livres 
e espontâneos, criar uma filha ou filho é tarefa simples. 
No entanto, se a nossa infância foi recheada de limita-
63 
ções sociais, no caminho contrário da nossa forma de 
ser interna, a tarefa será muito difícil, porque não 
seremos espontâneos. 
A criança não nasce com regras sociais embutidas 
em sua cabeça e, mesmo pequena, já possui um cérebro, 
embora não totalmente desenvolvido, o que lhe permite 
"perceber claramente" quando um adulto está transmi-
tindo algo sem convicção, "da boca para fora". Diante 
disso, ela reage, a sua maneira, embirrando, chorando, 
ou quebrando o vaso de cristal. Torna-se então uma 
criança "difícil". 
Somente nos últimos trinta anos, a Psicologia pas-
sou a ser estudada e ensinada entre nós e chegou à 
populaçãoatravés dos livros, dos jornais e da televisão. 
Até então não existia essa profissão no Brasil. Isso está 
representando uma grande ajuda, mas algumas idéias 
mal-compreendidas têm levado pais a criarem seus 
filhos sem limites. A liberdade excessiva, o medo de 
"criar traumas", acaba formando dentro de casa uma 
pequena tirana ou um pequeno tirano. 
()f:§C()l3l?I~()() () Mt()l? 
A partir do movimento feminista, que começou nos 
Estados Unidos na década de 60, e chegou ao Brasil dez 
anos depois, as mulheres passaram a ter a chance de se 
comportar, socialmente falando, de maneira mais pare-
cida com a dos homens. As roupas se tornaram unissex, 
cabelos longos ou curtos podem ser usados por homens 
e mulheres e, com a difusão da pílula anticoncepcional 
e hoje da camisinha, o relacionamento sexual se tornou 
mais livre. Entretanto, a desigualdade hoje ainda é 
muito grande. 
As meninas que nasceram biologicamente fêmeas 
saudáveis, cresceram num meio familiar relativamente 
equilibrado e estão tranqüilas quanto ao seu sexo reve-
larão na adolescência qual será a sua orientação afeti-
vo-sexual, que será confirmada ou não na vida adulta. 
64 
O crescimento dos seios, o timbre de voz feminino, 
o arredondamento das formas do corpo, a menstruação, 
fazem com que essa adolescente desenvolva dentro de si 
o sentimento de que pode gerar e amamentar, como a 
maioria das mulheres. Surgem então as grandes pai-
xões, muitas impossíveis ou inviáveis, pelo famoso joga-
dor de vôlei, pelo ator de televisão, por um professor. 
São os sentimentos de amor e de desejo sexual, 
que muitas vezes elas não denominam dessa forma 
nem para si mesmas. Essas sensações, que surgem 
nos primeiros anos da adolescência, indicam que a 
sua escolha está se dando em direção a um homem, e 
que sua orientação poderá ser de uma mulher heteros-
sexual. Estamos colocando a questão propositalmente 
no condicional porque essa orientação só será confir-
mada, ou não, na idade adulta. 
Na fase da adolescência a identidade e os papéis de 
gênero já estão estabelecidos. O comportamento das 
moças é bem definido, grande parte estuda, trabalha e 
já tem suas próprias opiniões. Muitas namoram e já 
passaram por sua primeira experiência sexual. Essa 
maneira de ser difere, dependendo de sua classe social, 
do ambiente em que vivem e de sua formação cultural. 
A primeira menstruação infelizmente não é come-
morada em nossa sociedade, nem mesmo pelas mães. 
Muitas deixam suas filhas na solidão do quarto, às voltas 
com sentimentos de medo, dúvida, frustração e culpa. 
Mas a natureza está dando o sinal de que, a partir 
daquele momento, a menina se tornou mulher, e está 
em condições de gerar e amamentar. Pode ser mãe. 
Algumas poucas decidem que chegou o momento 
de ter dentro de si uma criança. Outras engravidam 
sem querer ou sem saber. A maioria deixa essa possi-
bilidade para mais tarde, para quando a vida estiver 
mais em ordem. Mas a primeira menstruação mudou 
tudo em sua vida. 
65 
Quase todas as novelas de 1V terminam com um 
casamento heterossexual. Depois de mil encontros e 
desencontros, o par romântico encontra-se em frente ao 
altar, é abençoado e vive feliz para sempre. E nunca 
ficamos sabendo como continuou a história. 
É comum que nós queiramos ter esse mesmo des-
tino, porque, afinal de contas, o principal motivo para a 
vida é a busca da felicidade. Ninguém, com um mínimo 
de equilíbrio mental. faz alguma coisa sabendo de ante-
mão que vai sofrer e ser infeliz. 
No entanto, a nossa sociedade não facilita muito a 
trilha para a felicidade e, tantas vezes, "no meio do 
caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do 
caminho". Se isso vale para todos nós, para a mulher 
mais ainda. Além da liberdade sexual e de expressão, o 
movimento feminista trouxe uma segunda preocupação: 
a da profissionalização da mulher. 
Colocamos como segunda preocupação porque, 
além da formação profissional. a mulher heterossexual 
"tem" que continuar com seu papel de boa mãe, boa 
esposa, boa dona-de-casa, se desdobrando numa dupla 
jornada. Na primeira, em geral. não é remunerada. Na 
segunda, quase sempre, é mal paga. 
Claro que não podemos perder de vista a realidade 
brasileira. Para muitas mulheres, na verdade milhões 
delas, não há profissionalização alguma, no sentido da 
realização pessoal, mas apenas uma luta desesperada 
pela sobrevivência. São as cobradoras de ônibus, as 
faxineiras, as empregadas domésticas, as bóias-frias. as 
telefonistas, as balconistas, as feirantes, e tantas e tantas. 
São em geral mulheres heterossexuais, casadas ou 
solteiras. Sua orientação afetivo-sexual se desenvolveu 
como foi possível e ela assumiu seu papel. Com exceção 
de uma minoria que tem acesso à informação, à cultura, 
e até a um tratamento psicoterápico quando necessitam, 
as demais vivem como podem. 
66 
Para essa grande maioria, onde está o tempo para 
pensar, sentir, aprender e experimentar as nuances de 
seu papel afetivo-sexual? O papel foi assumido por 
"instinto", por "exigência" da natureza e se desenvolveu 
como foi possível. Trabalhando fora, sem chance de 
estudar. vivendo em condições precárias nos bairros 
distantes, essa mulher mal conhece suas emoções e 
simplesmente "se casa". 
Pode ser virgem ou não e, nessas condições, isso 
nem faz tanta diferença para ela. Suas experiências 
sexuais anteriores podem ter sido insatisfatórias, às 
pressas, e sem qualquer prazer. Orgasmo na primeira 
noite com o marido, nem pensar. Para aquelas que se 
casaram virgens, a principal recordação é a dor, que nem 
sempre existe "fisicamente", ou a estranheza de ser 
penetrada por um outro ser. 
Considera-se que uma mulher heterossexual pode 
levar até dois anos para ter o seu primeiro orgasmo 
numa relação amorosa estável. Nesse ínterim, não é raro 
que já tenha um filho no colo e outro na barriga. O 
planejamento familiar simplesmente não existe. e usar 
camisinha para quê, se os dois "são fiéis um ao outro e 
a Aids é um fantasma distante"? 
Enquanto isso, o homem, seu companheiro, está 
alheio a tudo. Durante o dia ele foi massacrado na 
fábrica, esmagado na condução lotada, humilhado pela 
falta de dinheiro e, com as últimas forças, encontrou 
com dificuldade o caminho de casa. Na cama, de noite, 
a exaustão é mais forte que o desejo, e a anestesia do 
sono é preferível ao prazer do sexo. 
Outras, infelizmente poucas, são mais privilegia-
das. Receberam noções de orientação sexual, puderam 
conversar em família sobre amor e sexo, sabem da vida 
amorosa dos seus pais. Viajam, vão ao cinema, ao teatro, 
têm vídeo em casa, trabalham nas férias, curtem um 
pouco mais a vida. 
67 
Mas mesmo para elas as coisas não estão totalmen-
te resolvidas. Os padrões de comportamento de uma 
sociedade atravessam todas as classes sociais e nem 
sempre a fartura, o dinheiro, a formação em uma univer-
sidade são passaportes para viver com liberdade. 
As mulheres mais esclarecidas sabem que têm vul-
va, onde estão os grandes e pequenos lábios e o clitóris. 
Já descobriram, ou pelo menos ouviram falar, que o 
toque manual do clitóris pode levar ao orgasmo e que 
esse é o primeiro passo para o aprendizado de uma boa 
relação sexual com prazer. 
Será que sabem mesmo? Essas mulheres que vão 
com regularidade ao ginecologista, em geral, mesmo fora 
do consultório, referem-se aos seus órgãos sexuais com 
termos técnicos, como se estivessem tratando de um 
aparelho que liga e desliga, funciona ou não funciona. 
Elas sabem que têm vagina, mas poucas se enchem 
de coragem para observá-la num espelho e conhecer 
todos os meandros da sua anatomia. Não têm uma idéia 
muito clara de onde é o colo do útero e provavelmente 
nunca ouviram falar do ponto "G" (ou ponto de Graffen-
berg), que fica logo depois da entrada da vagina, e é um 
dos pontos responsáveispelo orgasmo vaginal. 
O corpo humano tem no mínimo 20 e no máximo 
800 pontos erógenos, que tocados podem despertar o 
prazer, como uma preparação para a relação sexual. Mas 
onde estão? Algumas, lendo isso.já devem estar pedindo 
um mapa, pelo amor de Deus. 
Cada mulher heterossexual, sozinha ou com seu 
parceiro, pode explorar seu corpo e o dele, descobrindo 
esses pontos, que vão dos pés à cabeça. Isso é tarefa para 
toda uma vida. 
68 
Treinadas desde meninas para não tocar em sua 
genitália, muitas mulheres passam a vida sem passar 
pela experiência da masturbação. Isso não significa 
apenas uma maneira de se excitar sexualmente, mas de 
conhecer, profundamente, o seu corpo e suas emoções. 
Algumas, depois de toda uma vida de frigidez, desco-
brem o prazer do orgasmo com seu parceiro somente 
depois de superarem a enorme barreira do tocar em si 
mesma. Descobrir o próprio corpo é o primeiro passo 
para uma relação a dois. 
Para que a mulher heterossexual possa se vincular, 
através de seu papel afetivo-sexual, a um homem, ela pre-
cisa estar em paz com a sua identidade de gênero e sua 
identidade corporal, e especialmente com a sua identi-
dade genital. Isso significa que ela precisa SE SENTIR 
MULHER, estar satisfeita com o fato de ter nascido fêmea 
e reconhecer o seu órgão sexual como uma parte do seu 
corpo, tão importante quanto qualquer outra parte. 
O sexo é vital para a vida, pois, além do prazer que 
nos propicia, sem ele simplesmente não existiríamos. 
Você só está lendo esse livro porque, anos atrás, seus 
pais se amaram e desse ato resultou a gravidez de sua 
mãe e conseqüentemente o seu nascimento. Mas uma 
coisa é o órgão sexual, e outra, muito diferente, é a 
maneira como o sentimos, e como o utilizamos na nossa 
vida amorosa. 
Sendo uma parte do corpo, você pode estar insatis-
feita com ela por qualquer razão, inclusive de ordem 
estética. Assim, não há motivo para não se recorrer a 
uma cirurgia plástica. Uma mulher pode reduzir o ta-
manho dos grandes lábios, alterar o formato do Monte 
de Vênus, onde estão os pêlos pubianos, ou tomar mais 
saliente um clitóris demasiadamente embutido. 
Estamos nos referindo a uma região do nosso corpo 
que desperta emoções e sentimentos intensos e no caso 
dessas cirurgias a avaliação de um psicoterapeuta é 
fundamental. Muitas pessoas, inconformadas com o 
69 
formato do nariz, procuram um cirurgião plástico. Por 
mais competente que seja o médico, não é raro o pacien-
te, ao se ver no espelho com "o nariz novo", chegar à 
conclusão de que ficou pior. O caso é que algumas vezes 
o problema está na cabeça e não no nariz. Infelizmente 
a pessoa procurou o profissional "errado". 
No Brasil, as cirurgias plásticas corretivas dos ór-
gãos sexuais da mulher ainda mal engatinham. 
Um homem pode mudar tudo em seu corpo e até 
alterar o seu sexo. Mas é impossível sentir e até mesmo 
compreender o que sente uma mulher que está gerando 
uma criança. Para os homens, não há qualquer possibi-
lidade de captar que sensações são essas de se ter dentro 
de si, no ventre, um outro ser. E mais: que espécie de 
prazer ou desprazer é esse. 
A partir do momento em que a mulher deseja ser 
mãe e se percebe grávida, ela passa por um profundo 
processo de transformação, consciente ou não. Volta-se 
mais para si, e para o ser que está sendo gerado, 
intuitivamente alimentado-o e protegendo-o. Ela e o 
bebê não se diferenciam e talvez não seja exatamente 
correto afirmar que a mãe tem dentro de si uma criança. 
Aparentemente, ela não sente o bebê como outra pessoa 
mas como parte de si mesma, um pedaço de seu coração. 
Durante o período de gravidez é comum surgir 
algum desentendimento entre o casal heterossexual. 
Toda a atenção da mulher, que antes era dispensada ao 
homem, se transfere não para a criança, que ainda não 
nasceu, mas para si mesma. São momentos de crise, e 
muitos homens se sentem abandonados. 
O mundo mudou muito. Para engravidar e gerar, a 
Ciência estudou e conseguiu vários métodos. Por meio 
de hormônios tomou-se possível fazer uma mulher, após 
70 
a menopausa, voltar a ter filhos. Entretanto, se com o 
consentimento ou não da mulher um homem a fecun-
dou, a lei brasileira proíbe que uma gestação seja inter-
rompida, a não ser em casos específicos, como a gravidez 
por estupro ou a que coloca em risco a vida da mãe. 
Mesmo para estes dois tipos de aborto permitidos por lei 
são poucos os hospitais públicos que atendem a mulher 
para o ato cirúrgico e posterior acompanhamento. 
Para interromper uma gravidez indesejada, a não 
ser nesses dois casos, no Brasil é necessário burlar a lei. 
Para essas mulheres, as conseqüências podem ser dra-
máticas, e uma grande quantidade delas morre por falta 
de atendimento médico adequado. 
Todo ser humano tem o direito de decidir sobre o 
seu corpo, seja homem ou mulher. Assim, apenas à 
mulher, e a ninguém mais, cabe o direito de decidir se 
uma gravidez deve ou não ser levada adiante. 
Mulheres não são anjos e nem demônios. 
São seres humanos. 
Entre elas existem as determinadas e as submissas, 
as corajosas e as covardes, as amáveis e as desagradá-
veis, as carinhosas e as cruéis. 
A nossa cultura, infelizmente com a concordância 
de muitas mulheres, tem transformado as relações de 
amor, afeto e sexo em mercadoria. O corpo feminino 
despido, hoje, ajuda a vender sabão, refrigerante, carro, 
seguros ... 
Isso está se tomando tão confuso, que em muitos 
painéis espalhados pela cidade já não temos mais certe-
za de qual é a "mercadoria" que está à venda. Se o 
bronzeador ou a linda morena de tanga. 
tiomem que é homem não chora. 
Mas o que é ser homem e, como a maioria, heteros-
sexual? É brigar na rua por não levar desaforos para 
casa? É competir em tudo sem nunca admitir uma 
derrota? É ser capaz, com seu dinheiro, de manter uma 
família? É não lavar a louça e nem cuidar das crianças 
quando a mulher está fora? 
Muitos, entre os que gostam de contar vantagens 
nas rodas de amigos, são servis no trabalho mas se 
acham no direito de reinar absolutos no lar, "doce lar". 
Os mais "liberais" e mais abastados concordam até que 
a esposa trabalhe fora, desde que seja apenas para dar 
"uma mãozinha" no orçamento doméstico, comprar ba-
tom ou outras bijuterias. 
Abraçar e beijar a mulher e os filhos é "permitido" 
às vezes, mas com grande economia de afetos. Não fica 
bem demonstrar carinho, ternura, porque isso "não é 
coisa de homem". Quanta diferença do namorado apai-
xonado, que um dia até comprou flores. "Como você 
mudou", é a frase inevitável na boca de tantas mulheres, 
confusas e decepcionadas com seus maridos. 
73 
E o carinho com as outras pessoas, principalmente 
se forem homens? Nem brincando. "Somos grandes 
amigos", mas a aproximação máxima ternúna no aperto 
de mão e no tradicional tapinha nas costas. O abraço 
apertado só é pennitido em ocasiões muito especiais, como 
no Natal, no Ano-Novo, na final do campeonato de futebol. 
Um homem entra numa loja para comprar apenas 
uma gravata. A balconista se aproxima, sorri, e faz uma 
sugestão de cor e estampa. Que sorriso especial era 
aquele? Ele começa então a perguntar sobre ternos, 
camisas, meias, inflação e, finalmente " ... a que horas 
você sair A funcionária, desinteressada, certamente 
nem ouviu a "cantada". 
É a permanente confusão entre os papéis de gênero, 
que são os papéis comuns do nosso dia-a-dia, tais como 
comprar, estudar, ir ao dentista. e o papel afetivo-sexual, 
em que estão envolvidos o amor, o desejo e o sexo. Para 
muitos homens heterossexuais, o simples contato com 
uma mulher já coloca em sua cabeça o "colorido sexual". 
Eles parecem só pensar "naquilo". 
Em nossa sociedade, os meninos são "preparados" 
para o desempenho sexual desde a mais tenra idade. 
Essa forma de educação pode acabarimpedindo que um 
homem heterossexual. na idade adulta, tenha urna ver-
dadeira amizade com uma mulher. Ainda hoje, são raros 
os homens que têm amigas. com exceção talvez dos 
pertencentes a uma pequena elite cultural. 
É evidente que aos poucos as coisas estão mudan-
do. Muitos jovens de hoje já superaram essas barreiras 
e comportam-se de maneira mais espontânea. A força 
da televisão, e principalmente a da publicidade, está crian-
do novos valores. O "machão" começa a ficar fora de moda. 
Muitos já se deram conta de que "ser homem" desse jeito 
é o caminho mais curto para, no mínimo, o infarto. 
Homens heterossexuais são aqueles que desejam 
amar e se relacionar sexualmente com mulheres. Mas, 
para chegar a essa definição, o homem heterossexual 
74 
nasceu um bebê macho e se desenvolveu, em termos 
biológicos, normalmente, sem qualquer deficiência. Ele 
SE SENTE masculino e desenvolve um comportamento 
adequado a esse gênero. 
Ao longo da infância e da adolescência, o contato 
com a sua genitália foi relativamente tranqüila, e ele 
pôde descobrir, sem maiores conflitos, suas emoçôes, 
seu primeiro amor e suas primeiras desilusôes afetivas. 
É na adolescência, quando os hormônios entram em 
ação, que começa a se revelar a sua orientação afetivo-
sexual. E é na idade adulta que a verdadeira orientação 
afetivo-sexual vai se confirmar. podendo ou não ser 
aquela revelada na adolescência. 
Muitos pais se preocupam com a preferência sexual 
de seus filhos na fase de adolescência e, no caso dos 
rapazes. o medo de que se tornem homossexuais é muito 
grande. Alguns pais procuram se informar como podem, 
enquanto outros ficam inseguros achando que falharam 
na educação. Toda essa preocupação é desnecessária 
porque o seu desenvolvimento, no devido tempo, vai 
mostrar o caminho. 
O mundo, tal como o conhecemos. das eras mais 
remotas até hoje, é dominado pelos homens. Um ou 
outro caso isolado de sociedade matriarcal só confirma 
a regra geral. Esse domínio significa que ainda está só 
nas mãos dos homens a decisão sobre o destino de 
nações, de impérios econômicos e até dos rumos e da 
aplicação da Ciência. 
Se para a sociedade o poder está com os homens, 
para eles mesmos o seu ponto mais forte, e estranha-
mente o mais frágil, está no pênis. Mesmo em culturas 
antigas, objetos de arte ou decoração retratam a figura 
do pênis ereto, geralmente desproporcional ao tama-
nho real. 
75 
Para os homens, o pênis tem um valor inestimável 
porque ele é o símbolo da sua masculinidade e da sua 
virilidade. Em geral, eles são muito preocupados com o 
aparelho genital externo, pênis e bolsa escrotal. A não 
ser que adoeçam, poucos se lembram de outros órgãos 
genitais internos, como a próstata. 
A identidade corporal de alguns homens heterosse-
xuais, que é a sensação que têm de seu corpo, pode ser 
perturbada por suas próprias características tisicas. Por 
exemplo, um acúmulo maior de gordura no peito, que 
pode dar a aparência de seio. Mas para corrigir esse 
problema, basta uma cirurgia. 
Uma barba muito rala ou a falta de pêlos pelo corpo 
também pode ser um problema. Mas, o que traz um 
transtorno, sem dúvida, é o tamanho das nádegas, 
principalmente no Brasil onde essa parte é muito valo-
rizada nas mulheres. Alguns homens heterossexuais 
passam a vida usando a camisa fora da calça, para 
disfarçar o seu constrangimento. 
Todos esses caracteres sexuais secundários tam-
bém diferenciam homens de mulheres. E os homens, 
com problemas dessa natureza, podem recorrer aos 
tratamentos possíveis. Seria sempre recomendável uma 
avaliação psicológica, pois a sensação de possuir um 
corpo não tão masculino pode não coincidir com a 
realidade do corpo tisico. 
E há um outro detalhe. As mulheres heterossexuais 
têm preferências variadas por corpos masculinos e nem 
sempre os homens estão informados sobre esses gostos. 
Na realidade, se o homem está bem consigo mesmo, ele 
poderá estar bem com a sua identidade corporal. 
Existem mentiras ou enganos a respeito do tama-
nho do pênis nos homens. É considerado normal um 
pênis flácido que tenha de 4 a 1 O centímetros e está 
76 
dentro da normalidade um pênis ereto de 9 a 22 centí-
metros. O tamanho médio do pênis ereto fica entre 12 e 
15 centímetros. 
Um pênis ereto de 9 a 12 centímetros pode ser 
considerado normal embora pequeno, assim como os de 
17 a 22 centímetros são considerados grandes. O tama-
nho do pênis flácido nada tem a ver com o tamanho do 
pênis ereto. Isso quer dizer que um homem que tem um 
pênis flácido de 10 centímetros, quando ereto não é 
necessariamente maior do que o de um homem cujo 
pênis flácido mede 6 centímetros. 
O tamanho do pênis também nada tem a ver com 
a performance sexual. A vagina é um órgão elástico, 
que pode se contrair ou se dilatar, na largura e na 
profundidade, tanto que é capaz de dar passagem a 
uma criança no parto. 
Na maioria das mulheres, o tamanho da vagina 
varia de 8 a 12 centímetros de profundidade, por 4 a 7 
centímetros de largura. Ela tanto pode abrigar um pênis 
de 9 centímetros e a relação ser muito boa, como receber 
dentro de si um pênis de 20 centímetros e o ato ser 
igualmente satisfatório. 
É um outro engano achar que os homens de pênis 
maiores satisfazem mais as mulheres heterossexuais. 
Na realidade, elas até preferem, na sua maioria, homens 
que tenham um pênis de tamanho médio. Outras estão 
totalmente despreocupadas com o tamanho do pênis 
ereto de seus parceiros, pois ato sexual envolve o corpo 
todo. O prazer nem sempre está relacionado só com a 
penetração. Até porque a maioria das mulheres tem 
orgasmo a partir do clitóris. 
O prazer sexual e o orgasmo fazem parte de uma 
inter-relação. Mas ele também pode ser solitário. Tan-
to o corpo do homem quanto o da mulher podem 
buscar o prazer por meio das carícias, do carinho.da 
relação pele a pele. A preocupação dos homens heteros-
sexuais com o pênis pode levá-los a buscar um médico 
77 
para saber se o tamanho é normal, se está relacionado 
com suas dificuldades com o orgasmo, ou se a ausência 
de orgasmo de sua mulher está relacionada com o 
tamanho do seu pênis. Esquecem-se de que o orgasmo 
feminino não depende só deles. Mesmo um pênis de 7 
centímetros quando ereto (micropênis) poderá propiciar 
uma boa performance em termos da penetração. 
Existem cirurgias plásticas que podem modificar o 
tamanho e a circunferência do pênis. Em geral, o órgão 
pode ser aumentado em 2 ou 3 centímetros. Entretanto, 
essas cirurgias têm uma indicação muito res1:tita e só 
devem ser procuradas nos casos em que o tamanho do 
pênis possa estar sendo insuficiente para a penetração 
vaginal. No caso de uma cirurgia, é necessátio uma 
avaliação psicológica anterior. 
Esses casos são raríssimos. Infelizmente, a nossa 
cultura supervaloriza o tamanho do pênis e iss(), aliado 
à faJta de informação, tem levado muitos homens a 
procurar tratamento cirúrgico sem necessidade. Existe 
ainda um outro risco, pois nem sempre o atendimento 
é feito por profissionais competentes, o que pode resultar 
num prejuízo para a saúde. 
É importante que se diga que um homem com o 
pênis nos limites normais, quando se toma muito preo-
cupado com seu tamanho, não deve estar bem com sua 
masculinidade. Provavelmente o seu "pênis mental" é 
que é pequeno. 
O pênis ereto era um órgão que não existia para a 
Medicina e, no Brasil, o órgão em ereção só passou a ser 
pesquisado e tratado na década de 80. Na realidade, esse 
órgão quando flácido tem algumas características e 
quando ereto outras. Em casos de impotência e neces-
sário, por exemplo, que se faça a medida de pressão do 
pênis, além de outros exames, porque existem algumas 
patologias (doenças orgânicas) que interferem na ereção. 
78 
A avaliação médica do pênis em ereção é importante 
para se determinaras causas da impotência. Em nosso 
país, até meados da década de 80, os homens impotentes 
eram vistos como pessoas que tinham problemas psico-
lógicos a serem resolvidos pelos psicoterapeutas. De lá 
para cá, a Sexologia e a Andrologia, ciência que estuda 
o comportamento sexual do homem, começaram a des-
vendar os mistérios que existem nos pênis eretos. 
Essa nova abordagem da Medicina resultou na 
descoberta de que uma quantidade muito grande de 
homens impotentes necessitam muito mais do trata-
mento médico clínico do que do psicoterápico. 
A impotência é um fantasma do qual os homens 
têm verdadeiro pavor. Hoje um grande número de 
médicos e psicólogos se dedica ao estudo desse distúr-
bio de funcionamento do órgão sexual masculino. 
Entretanto, homens em avançado estado de diabetes ou 
que sofreram um acidente e se tomaram paraplégicos 
ou tetraplégicos, e que não têm ereção, poderão ter 
também relacionamento sexual com as suas parceiras. 
Nessa situação, o modo de se obter o orgasmo não 
será só genital, mas corporal, levando-se em conta o 
corpo como um todo. Existem possibilidades, em caso 
de impotência irreversível, da colocação de uma prótese 
peniana, que é uma espécie de haste flexível de silicone 
dentro do pênis, o que só deve ser indicado por médicos 
também especializados em sexualidade. 
A ejaculação precoce, outro problema, tem causa 
psicológica. Muitas vezes, o orgasmo rápido demais nos 
homens pode estar relacionado com uma ansiedade, 
com a vontade de terminar "bem" a relação sexual, antes 
que ele "se perca". 
Novamente a avaliação psicológica é importante. 
Alguns médicos chegam a propor uma cirurgia para 
reduzir a sensibilidade da cabeça do pênis, como forma 
de corrigir a ejaculação precoce, o que é discutível por-
que não existe comprovação científica de sua eficácia. 
79 
Muitos homens heterossexuais confundem a sua 
identidade de gênero com desempenho sexual. Os ho-
mens heterossexuais SE SENTEM HOMENS, têm certeza 
de que são masculinos no seu corpo e na sua cabeça, 
mas alguns se atrapalham no trabalho, por exemplo, 
quando alguma coisa deu errado na cama, na noite 
anterior. 
Uma dificuldade qualquer de ereção, coisa absolu-
tamente normal, transforma-se num pânico. Algo que 
poderia ser facilmente resolvido com a parceira entre 
quatro paredes, passa para a vida do cotidiano. Assim 
como nosso estômago às vezes funciona mal, com o 
pênis pode acontecer o mesmo. 
Quando isso se dá, é como se "toda" a masculinida-
de tivesse "ido para o brejo". Alguns, competentes pro-
fissionais, se tornam inseguros diante do chefe. Outros 
ficam melancólicos e não são poucos os que descarre-
gam com violência a sua frustração no trânsito. O pior 
é que depois de um dia estressante como esse, o desejo 
sexual está liquidado, pondo a pique, de uma vez, o pênis 
e tudo o mais. 
Outro pânico incontrolável se instala quando um 
homem heterossexual começa a ter medo da homosse-
xualidade. Depois de ter passado toda uma vida ouvindo 
dos pais e do mundo que tem de ser homem, a idéia, 
mesmo remota, de que possa sentir "algo" por outro 
homem é simplesmente terrível. O medo de ser homos-
sexual se chama homofobia. 
Essa situação é particularmente grave não só por-
que afasta, sem qualquer razão, os homens uns dos 
outros, mas também porque pode ser motivo para vio-
lências e crimes. Quantas mortes já não aconteceram a 
partir de uma brincadeira ingênua, ou de uma palavra 
impensada, entre dois homens? 
As mulheres não têm esse problema. Costumam ser 
amigas mais próximas umas das outras, o que já não 
80 
acontece com a maioria dos homens, e isso afeta até 
mesmo o relacionamento de um pai com o seu filho. Um 
pai intranqüilo com a própria sexualidade pode, até sem 
pensar, ter um relacionamento "distante" com o filho. 
Além do pavor da atração por um homem, há outro, pior, 
que é o terror inconsciente do incesto, entre eles. 
Até que ponto a extrema competição entre os ho-
mens não tem, lá no fundo, um pouco desse medo? 
Como ser cooperativo com alguém que representa "ta-
manho risco"? Será que um pequeno favor, uma genti-
leza, não estaria escondendo "algo proibido"? 
O código de conduta entre os homens é rígido e 
explícito, mas também implícito, e muitas relações do 
gênero estão escoradas nessa preocupação de ordem 
sexual. Um homem só cede seu lugar no ônibus a um 
outro se este for muito idoso ou estiver passando mal. 
Cabe lembrar também que esse medo vem muito da 
influência cultural e social e, aos poucos, vai desapare-
cendo. Os homens que, hoje, no meio da década de 90, 
estão chegando à idade adulta já não enfrentam tanto 
esse problema. Alguns, propositadamente, assumem 
uma aparência feminil, com cabelos longos e bem-trata-
dos. Pelo visto, fazem grande sucesso entre as garotas 
da mesma idade. 
Os homens heterossexuais podem e devem se rela-
cionar com os outros homens sem qualquer preocupa-
ção. Grandes amigos devem ter a liberdade de se abraçar 
e de se beijar, sem qualquer risco de, depois disso, 
transformarem-se em homossexuais, até porque isto 
não é possível. Em alguns países, como a Rússia, o beijo 
entre homens é sinal de profundo respeito e faz parte do 
protocolo entre as autoridades. 
O companheirismo entre homens é absolutamente 
necessário e saudável e, em alguns momentos da vida, 
um homem fragilizado precisa encontrar apoio em outro 
homem. Problemas de homens seriam melhor com-
preendidos por outros homens mas, com tantas dúvidas 
sexuais, o máximo de ajuda que se consegue pedir é 
apenas algum dinheiro emprestado. 
81 
É evidente que se homens heterossexuais ficarem, 
durante anos confinados em espaços onde não exista a 
possibilidade de contato sexual com o sexo oposto, eles 
poderão "estar", durante algum tempo, homossexuais. 
Isso é comum em presídios e. embora hoje, no Brasil, se 
permita a visita de companheiras para o relacionamento 
amoroso, nem todos têm essa chance. 
Esses homens poderão estabelecer relações homos-
sexuais de sexo e até de afeto. O que não quer dizer que a 
partir daí esses homens mudaram a sua orientação afeti-
vo-sexual básica. Assim que ele deixar a situação de 
confinamento, provavelmente voltará a se relacionar com 
mulheres, sem nenhum problema. 
Alguns homens heterossexuais também podem so-
frer de heterofobia. Esse é o nome que se dá para os 
homens que têm um medo muito grande do relaciona-
mento afetivo e amoroso com mulheres. Alguns são 
solteirões, outros até certo ponto "assexuados". 
Quem nunca ouviu falar do amor sem sexo? Muitos 
homens passam a vida tendo um relacionamento platô-
nico com mulheres, numa verdadeira "amizade amoro-
sa", sem relacionar-se sexualmente com elas. Eles não 
são homossexuais, e resolvem essa parte da vida com 
mulheres com quem não tenham um vinculo amoroso. 
Todos esses problemas mencionados são alterações 
da orientação afetivo-sexual heterossexual, que pode-
riam ser atendidas através de um tratamento psicoterá-
pico. Em nosso país, porém, o serviço público de saúde 
ainda engatinha na possibilidade de oferecer às pessoas 
a psicoterapia. 
Quando um homem heterossexual se torna pai, ele 
se enche de orgulho, que será maior se for um menino. 
Distribui charutos ou bombons e às vezes toma um 
"porre". Mas, e depois? A mulher amada era tudo para 
82 
ele e agora chegou mais alguém. E, de repente, todo o afeto 
que recebia da mulher é transferido para a criança. Insta-
la-se então uma verdadeira crise "pós-parto masculina". 
O bêbe começa a se tomar um rival para ele, ainda 
que seja amado e desejado. Equacionar esse "triângulo 
amoroso" não é fácil, e o próprio casamento pode passar 
por dificuldades. Alguns chegam a romper a relação 
amorosa por causa desse conflito, afastando-se, retor-
nando um pouco mais tarde, ou nunca mais voltando. 
E o motivo nãofoi o choro permanente do bebê. 
A natureza não possibilita aos homens compreen-
der os sentimentos de uma mulher grávida e de uma 
mãe. Um homem não consegue se colocar nesse papel. 
no que diz respeito às emoções. Diante dessa "crueldade" 
da natureza com os homens, não há outro caminho a 
não ser as mulheres falarem, o quanto puderem, com os 
seus companheiros, sobre o que estão sentindo durante 
a gravidez, o parto e a amamentação. 
Num primeiro momento, provavelmente os homens 
levarão um tremendo susto, ficarão pálidos, e se senta-
rão na cadeira mais próxima, "para disfarçar a vertigem". 
Mas é um risco que vale a pena, para o bem de todos. 
() J)()[)l:.12., ()UI: J)()[)l:.12? 
O mundo está nas mãos dos homens. Eles mandam, 
desmandam e têm a "liberdade" de cometer todo tipo de 
desatino. São mais "inteligentes", mais "competentes", 
mais "fortes". No entanto, em todo o mundo, o homem 
vive menos que a mulher. 
Será outra "crueldade" da natureza? Ou dos pró-
prios homens, que além de desconsiderarem a mulher 
passam o tempo todo se discriminando e, em última 
análise, se autodestruindo? As mulheres estão cada vez 
mais organizadas, assumem novos papéis, alteram seu 
comportamento, lutam, brigam por seus direitos, exigem 
tratamento justo. 
83 
E os homens? Permanecem sentados à beira do 
caminho vendo a caravana passar. Agora, com o avanço 
feminino, começam a ficar desestruturados. Quando 
levam uma "cantada" de uma mulher, coisa que fazem 
há milênios sem qualquer cerimônia, entram em pânico, 
coram ou simplesmente saem correndo. 
O mundo precisa com urgência de um movimento 
"masculinista", que propicie um relacionamento de igual 
para igual com as mulheres e também para tirar dos 
ombros dos homens um fardo absurdo, que deveria ter 
sido jogado há tempos nos subterrâneos da história. 
Afinal, fardos são para serem carregados por máquinas 
ou, se preferirem, por burros de carga. Não por seres 
humanos. 
Quem sabe um dia os homens descubram que o 
"poder" dividido com as mulheres fica mais leve e que 
assim possam viver tanto quanto elas. 
3 
() que são homens homossexuais? 
Antes de tudo, são HOMENS que nascem biologica-
mente machos. 
Os homens homossexuais são aqueles que têm 
como objeto de amor e desejo um outro homem. Essa é 
a única diferença em relação aos demais homens, o que 
se dá na orientação afetivo-sexual. 
Podemos dizer que essa orientação homossexual 
tem apenas alguma semelhança com a das mulheres 
lésbicas, uma vez que, nos dois casos, o objeto do amor 
e do desejo é sempre uma pessoa do mesmo sexo. 
O comportamento de um homem homossexual não 
é igual ao de uma mulher lésbica. Na medida em que são 
seres biologicamente diferentes, cujas identidades de 
gênero são respectivamente masculina e feminina, os 
papéis que vão desempenhar na vida, inclusive o sexual, 
não poderão ser iguais. 
As estatisticas apontam como sendo de 10% a 
população homossexual no mundo. Esses dados prova-
85 
velmente incluem as mulheres lésbicas, os bissexuais, 
os travestis e os transexuais. Isso significa que quando 
nos referimos especificamente aos homens exclusivamente 
homossexuais, essa porcentagem deve ser muito menor. 
Alguns homens homossexuais, quanto ao seu com-
portamento sexual e amoroso, têm a possibilidade de 
escolher, de forma madura, se desejarão ou não se 
relacionar exclusivamente com outros homens. Entre-
tanto, quando falamos da orientação afetivo-sexual, que 
é algo interno, um sentimento que está dentro da pessoa, 
não é possível impedi-lo. 
Infelizmente, os meios de comunicação, por desco-
nhecimento do assunto, vêm insistindo na tese de que 
ser ou não homossexual é uma questão de escolha 
pessoal. Isso não é verdade. O máximo que pode acon-
tecer é a pessoa optar por exteriorizar ou não a sua 
orientação sexual. Se uma pessoa tem dentro de si uma 
orientação homossexual estabelecida, é possível que ela 
seja imutável. 
Fazemos aqui uma ressalva. Alguns homens são 
"pseudo-homossexuais", porque dentro de si a escolha 
do outro para amor e sexo seria do sexo oposto, ou seja, 
heterossexual. Como são heterofóbicos, ou seja, têm 
medo interno exagerado do sexo oposto, podem se rela-
cionar de forma homossexual, como uma saída. Resol-
vendo a heterofobia, poderão assumir sua heterosse-
xualidade. Alguns dirão: "o doutor fulano curou-o do 
homossexualismo". Mas. na realidade, o que aconteceu 
foi a liberação de uma heterossexualidade aprisionada. 
Do ponto de vista cientifico, ainda não foi possível 
saber porque alguém tem essa orientação. E nem mesmo 
como se dá a orientação afetivo-sexual dos seres huma-
nos, sejam hetero ou homossexuais. 
Alguns homens, basicamente homossexuais, a par-
tir de um determinado momento da vida, de uma cir-
cunstância ou de um envolvimento amoroso muito 
intenso com uma mulher, passam a ser bissexuais. Isso 
86 
significa que estas pessoas se relacionarão, com relação 
ao papel visível, com mulheres. Entretanto. internamen-
te, o desejo amoroso e sexual de se relacionar com um 
homem não desaparecerá. 
Quando isso acontece, esse homem homossexual 
certamente poderá dar um outro encaminhamento ao 
seu verdadeiro desejo, vivendo-o apenas nas fantasias e 
nos sonhos. Outros escolhem o caminho da sublimação, 
"transformando" esse desejo em energia para ações mais 
"nobres", como tarefas sociais ou religiosas. O desejo, 
mesmo "transformado", continuará existindo dentro 
dele e poderá até não incomodá-lo. 
LUTA CClll!ITl!A UM IMJ:lÍ:l!ICl 
O homem homossexual ao nascer é um bebê macho 
como qualquer outro. Ele não traz qualquer alteração 
biológica interna ou externa, e nada permite dizer que 
aquela criança, no futuro, será um homossexual. Em 
nossa cultura, casal algum quando tem um filho deseja 
que ele seja um homossexual. O mundo é regido pelo 
império da heterossexualidade, uma vez que essa con-
dição representa a maioria demográfica dos seres huma-
nos, que, por sua vez, discrimina as minorias sexuais. 
Dessa maneira, o comportamento dos pais, dos 
familiares, seus cuidados com o bebê, a forma como o 
trata e o educa na infãncia será sempre no sentido de 
"encaminhá-lo" para um relacionamento com o sexo 
oposto. Mesmo assim os homens homossexuais poderão 
não ter conflito quanto à sua identidade de gênero. 
A partir dos 2 anos e meio, aqueles que futuramente 
serão homossexuais passam a sentir-se MASCULINOS 
e aceitam isso com naturalidade. O mesmo acontece com 
os demais meninos. Na idade adulta, eles SABEM que 
são homens, SENTEM-SE homens e comportam-se 
como homens nas relações sociais. É totalmente falsa a 
idéia de que um homem homossexual deseja ser mulher 
ou pensa que é mulher. 
87 
Certa maneira de se criar um menino poderá fazer 
com que ele seja mais delicado, aparentemente feminil, ou 
que não tenha as características que a sociedade considera 
como masculinas. Entre elas estão a competitividade e a 
agressividade. Sua ausência, no entanto, não quer dizer que 
ele esteja exteriorizando uma orientação homossexual. 
Alguns pais entram em verdadeiro pãnico quando 
pegam o filho inocentemente brincando com uma bone-
ca, o que é saudável, pois está "treinando" o papel de pai. 
Ficam desesperados quando o pequeno garoto começa 
com trejeitos "femininos" e nem por um minuto param 
para pensar que a criança poderá estar apenas imitando 
um personagem da 1V ou experimentando como é ser 
do gênero oposto ao seu. 
Algumas mães aflitas, com um pouco mais de esco-
laridade e dinheiro, correm para o psicólogo. O pai, 
mesmo prevendo uma provável atitude tranqüilizadora 
do terapeuta, apressa-se em matricular o garoto numa 
escola de judô e passa a levá-lo, domingos seguidos, ao 
estádio de futebol. 
Com exceção da busca de uma boa orientação 
psicológica, evidentemente válida mais para os paisdo 
que para a criança, as demais atitudes são incorretas, 
descabidas e só fazem prejudicar o filho. Sua cabeça 
pode ficar confusa, porque para ele a boneca é um 
brinquedo como qualquer outro. E quem perguntou a 
ele se gosta de judô ou de futebol? 
Seria muito bom que os pais criassem os seus ftlhos 
de uma forma mais tranqüila. Mesmo que o menino 
tenha algumas características que fujam ao padrão de 
masculinidade determinado pela sociedade isso deve ser 
encarado com naturalidade. Não há nada de anormal 
nisso e é um grande engano pensar que meninos sensí-
veis serão homossexuais. 
Outro pãnico é instaurado, desta vez envolvendo 
também professores, quando garotos, na infãncia, são 
descobertos em meio a uma brincadeira "sexual". O 
termo está propositadamente entre aspas porque essas 
brincadeiras, embora envolvam os órgãos genitais, nada 
têm de sexual no sentido do desejo e da busca do prazer. 
São apenas brincadeiras como tantas outras, que visam 
também a descoberta do corpo. 
São raros os homens que, nessa fase da vida, não 
fizeram troca-troca. A brincadeira, de tão popular, dis-
pensa explicações. E nem por isso tomaram-se homos-
sexuais. E os que mais tarde perceberam uma 
orientação homossexual certamente não foi por causa 
dessa brincadeira. 
Por volta dos 5 ou 6 anos, a sexualidade está latente 
no que diz respeito à orientação futura. Os meninos que 
nessa fase já carregam dentro de si "um leve sentimento" 
identificado como desejo homossexual poderão sentir 
algo estranho durante as brincadeiras "sexuais" com os 
outros garotos. No entanto, a sua orientação está em 
formação e ela só poderá ser confirmada na idade adulta. 
Alguns homossexuais afirmam que tiveram esse 
sentimento na infância. "Eu sabia que era homossexual 
desde criança porque sentia atração pelos meninos". 
Entretanto, um grande número de homens heterosse-
xuais contam que tiveram esse mesmo tipo de sentimen-
to e nem por isso se tomaram homossexuais. 
É na adolescência que a orientação afetivo-sexual 
começa a se explicitar. O rapaz sente-se "diferente", algo 
interno que ele não pode ou não consegue comunicar a 
ninguém. Na sua cabeça, os sentimentos relacionados 
com a sexualidade homossexual representam assuntos 
proibidos pela família e pela sociedade. 
Quem hoje, na década de 90, tem 30 ou 35 anos 
foi criado antes da revolução sexual, que chegou ao 
Brasil na década de 70. Antes disso, sexo era uma 
conversa proibida. 
89 
Aos poucos, esse rapaz começa a perceber por que 
se sente diferente dos demais. Sua orientação, no caso 
homossexual, está se consolidando e surgem os desejos 
e as fantasias dirigidos para outros homens. Ainda há 
uma sensação de estranheza, pois durante toda a sua 
vida o meio social procurou encaminhá-lo para a hete-
rossexualidade. Há uma confusão interna entre amiza-
de, amor e desejo sexual. 
Uma amizade muita intensa entre dois rapazes não 
é bem vista pela família. O relacionamento entre amigos 
adolescentes "precisa" ter características bem heteros-
sexuais. Ela não deve ser sensualizada e esse afeto não 
pode ser explicitado através do corpo, com gestos amis-
tosos. Na realidade, a amizade entre os seres humanos 
tem algo de sensual. Isso não quer dizer que envolva algo 
de erótico ou de sexual. 
A certeza da homossexualidade só estará clara den-
tro do homem na idade adulta, após os primeiros anos 
de juventude. O rapaz homossexual dá então outro 
passo, no sentido de explicitar e de concretizar a sua 
orientação afetivo-sexual. Ele começa a se reconhecer 
como homossexual, para si mesmo, a partir do desejo 
por outros rapazes. Nesse momento inicia-se o desen-
volvimento do seu papel afetivo-sexual. 
Esse homem homossexual só se estabilizará psico-
lógica e emocionalmente quando aceitar esses sentimen-
tos e esse modo de vida para si mesmo. E quando tiver 
claro para si que são sentimentos e um modo de vida 
ainda condenados e abominados pela sociedade. Com 
isso, ele não mais incorporará para si o que pensa a 
sociedade a seu respeito. 
Para se aceitar homossexualmente, o homem passa 
por quatro momentos. O sentir-se diferente, o começar 
a dar um sentido sexual a essa diferença, o reconhe-
cer-se como homossexual por meio do papel afetivo-se-
xual com outros e, finalmente, o aceitar esses 
sentimentos e esse modo de vida. 
90 
O conflito interno que os homens homossexuais 
trazem dentro de si nasce da sociedade. Ninguém faz 
uma opção por um modo de vida que sabe será discri-
minado. Para estar tranqüilo, o homem homossexual 
precisa ter resolvido dentro de si essa proibição, que é 
social, mas que está dentro dele, porque também está 
dentro de todas as pessoas. 
Na medida em que ele consegue resolver esses 
conflitos, poderá assumir-se para si mesmo como um 
homem homossexual. Esse caminho, para muitos, é 
tortuoso, problemático, dificil e cheio de obstáculos. Não 
há com quem falar, com quem conversar, e a sensação, 
embora falsa, de ser o único a estar nessa situação é 
terrível. 
Com a ajuda de uma psicoterapia, de amigos, de 
pessoas que possam compreender a situação ou de 
grupos de militância homossexual, o homem homosse-
xual pode se aceitar e se assumir. É bom lembrar que 
estamos falando de sensações íntimas, internas, de um 
ser humano. A sociedade banalizou o verbo "assumir" e 
ele perdeu o significado. Quando um homem homosse-
xual se torna "visível" para a sociedade ele não está 
assumindo nada. Está apenas exteriorizando publica-
mente a sua orientação afetivo-sexual. 
A sociedade é homofóbica, ela tem medo, verdadeiro 
pavor da homossexualidade. E esse é um sentimento 
coletivo tão forte que está, em maior ou menor intensi-
dade, dentro de todas as pessoas, sejam elas hetero ou 
homossexuais. Quando um homem homossexual é ho-
mofóbico, isso quer dizer que ele não promoveu a con-
tento a sua aceitação dessa forma de ser. Além de ter, 
injustificadamente, algo contra as pessoas homosse-
xuais, há o agravante de que ele é uma delas. 
91 
Muitos homens heterossexuais também são homo-
fóbicos e esse sentimento poderá atrapalhar muitas 
coisas em sua vida, em seus relacionamentos. A diferen-
ça é que ele "não é homossexual" e a sua agressividade 
se volta para outras pessoas. 
Um outro sentimento que pode aparecer no homem 
homossexual, ainda intranqüilo quanto a sua orientação, 
é a heterofobia, ou seja, o medo de se relacionar com 
mulheres. Esse medo pode aparecer nas relações sociais, 
o que não é comum, mas principalmente diante da possi-
bilidade de uma relação sexual. 
Há um senso comum na sociedade de que homens 
homossexuais não "suportam mulheres". Na realidade, 
a referência vale, com o devido desconto ao exagero, 
apenas para os homens homossexuais heterofóbicos, 
uma minoria. 
A heterofobia é um sentimento que pode ter sua raiz 
no relacionamento que esse homem homossexual teve 
com seus pais na infância. É um problema que pode ser 
resolvido. Nada faz crer que um homem homossexuaL 
por ter essa orientação, deva temer relacionar-se sexual-
mente com mulheres. Ele pode muito bem ser "cantado" 
e desejado por alguém do sexo feminino e ter com ela 
uma relação sexual. Nada o impede que também tenha 
atração sexual por mulheres, embora não as escolha 
como parceiras. 
Os temas pouco discutidos pela sociedade acabam 
sempre contaminados por mitos e preconceitos. Precon-
ceito é uma idéia preconcebida, baseada no desconheci-
mento da verdade sobre um fato. E se há muitas dúvidas 
sobre o tema sexualidade, a homossexualidade está 
saturada de idéias falsas e absurdas. 
Uma dessas idéias é a de que o homem homosse-
xual é sempre o afeminado, o afetado, aquele que 
92 
"desmunheca". Isso é uma bobagem, um clichê, um 
molde. Apenas uma minoria de homens tem na aparên-
cia algo feminino e se comporta com "trejeitos" caricatosde mulher. Esses homens tanto podem ser homosse-
xuais quanto heterossexuais. A grande maioria dos 
homossexuais é máscula, viril, e se comporta como 
HOMEM. Alguns são inclusive "machistas" na forma de 
agir e de pensar. Quem poderá dizer que o cantor Fred 
Mercury tinha aparência feminina? 
Aspectos masculinos ou femininos estão relacio-
nados com o papel de gênero, ou seja, com o compor-
tamento social, que varia de cultura para cultura e de 
época para época. Quem é que encontra hoje na rua 
um jovem de fartos bigodes. com as pontas voltadas 
para cima? Isso foi comum no início do século. 
Os jovens hoje são cada vez mais unissex na apa-
rência. Seriam eles todos homens homossexuais? Claro 
que não, apenas o tempo mudou. 
O que ocorre é que alguns poucos homens homos-
sexuais um tanto "afeminados" revelam publicamente a 
sua orientação sexual e se tornam "tipos" para a socie-
dade. Outro fato que reforça essa visão tendenciosa é a 
força da televisão, onde o homem homossexual é sempre 
tratado de maneira caricata ou depreciativa. 
A sociedade agora está começando a abrir mais 
espaço para os homens menos masculinizados, sejam 
homossexuais ou não. No entanto, quem caminha pelos 
guetos gays, principalmente nos Estados Unidos, se dá 
conta de que a maioria deles é composta de homens 
homossexuais másculos, ou como ainda se diz, "homens 
com "H" maiúsculo. 
UM f)()UC() [)I: LUZ 
Apesar de todo o maleficio que está causando à 
humanidade, a Aids trouxe pelo menos duas conseqüên-
cias positivas. A primeira foi fazer a Ciência se debruçar 
93 
profundamente sobre a questão da imunidade biológica. 
A segunda foi fazer a sociedade se acostumar mais com 
a existência de homens homossexuais em seu meio. 
Quando se fala em homossexuais, a tendência é 
pensar que todos eles são iguais. Isso é um grande 
engano e uma visão estreita do mundo, porque os 
homens homossexuais são tão diferentes entre si 
quanto todos os demais seres humanos. Eles estão em 
todas as camadas sociais. São ricos ou pobres, inteli-
gentes ou limitados, honestos ou desonestos. 
Também não é verdade que os homens homosse-
xuais são mais sensíveis e portanto têm grande pendor 
para as artes. Isso é um mito. Entre os homens homos-
sexuais estão gerentes de banco, vendedores, motoristas 
de táxi, grandes investidores e, também, artistas. 
Como a população homossexual corresponde a 
cerca de 10% da população mundial, se transferirmos 
isso para o Brasil de hoje teremos perto de 15 milhões 
de pessoas homossexuais. E, infelizmente, não temos 
15 milhões de artistas! Essa falsa impressão de que 
todo homem homossexual é artista ou vice-versa de-
corre do fato de que, no mundo cultural e das artes, 
eles se tornaram mais visíveis socialmente. 
Os homens homossexuais também são singulares 
na sua maneira de se relacionar amorosa e sexualmente. 
Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos em 1978, 
que demorou dez anos para ser concluída, mostra bem 
essas diferenças. O livro Homossexualidade - Informe 
Kinsey1 concluiu que existem cinco tipos de relaciona-
mentos entre homens homossexuais. 
1. Homossexualidade - Informe Kinsey: Trabalho publicado em 
1978 a partir de pesquisa realizada entre homossexuais em São 
Francisco, Califórnia, EUA. No estudo, subvencionado pelo Insti-
tuto Nacional de Saúde Mental dos EUA, foi utilizada a base teórica 
formulada por Alfred Kinsey. É, até o momento, a pesquisa mais 
ampla e rigorosa sobre o estilo de vida dos homossexuais. 
94 
Depois de pesquisar 3.854 pessoas com idade entre 
25 e 46 anos, numa época em que a Aids ainda não 
existia, o estudo concluiu que 64% dos homens homos-
sexuais não eram promíscuos e que 39% mantinham 
um vínculo amoroso e sexual estável. 
Um grupo de cerca de 20% era composto pelos 
chamados homens homossexuais funcionais. Nesse seg-
mento não havia vinculo amoroso e eles relacionavam-se 
com um número elevado de parceiros. Constituía-se em 
boa parte de homens jovens. 
O restante do universo pesquisado era constituído 
de homens homossexuais "assexuados" que não se acei-
tavam bem ou que mantinham relações sexuais apenas 
esporadicamente. Estes somavam 25%. 
Embora não exista no Brasil uma pesquisa desse 
tipo com os homens heterossexuais, a nossa experiência 
clínica mostra que a maioria desses homens se vincula 
a mulheres, uma parcela só mantém relacionamentos 
sexuais e um número considerável permanece "assexua-
do" por escolha ou impossibilidade emocional. 
Isso significa que as dificuldades de relacionamento 
intimo não estão diretamente ligadas ao tipo de orienta-
ção afetivo-sexual. 
A revista Veja, de maio de 1993, trouxe uma reporta-
gem de capa sobre a situação dos homossexuais brasi-
leiros, com destaque para uma pesquisa realizada pelo 
lbope. Depois de ouvir 2 mil pessoas, a pesquisa conclui 
que 50% já admitem conviver com homossexuais em seu 
bairro, local de trabalho ou em clubes que freqüentam. 
Mas trouxe também outros dados preocupantes. 
Dentre os entrevistados, 36% não contratariam um 
homossexual para a sua empresa, mesmo que ele fosse 
o mais qualificado. No caso de uma eleição, 47% muda-
riam seu voto caso descobrissem que seu candidato é 
homossexual. 
95 
E, finalmente, 79% ficariam tristes se tivessem um 
filho homossexual e 8% seriam capazes de castigá-lo por 
isso. Os números falam por si. Sem comentários. 
No ambiente de trabalho, quanto maior for a impor-
tância do cargo ocupado, menor será a discriminação. A 
partir do momento em que uma pessoa atinge um status 
social elevado, ou passa a ser necessária para a socie-
dade, como é o caso dos cientistas, a sua orientação 
sexual torna-se secundária. Claro que existem exceções. 
Mas são raros os casos de que se tem notícia, pelo menos 
no Brasil, de profissionais competentes que perderam o 
emprego apenas por sua orientação homossexual. Ou eles 
não teriam tido a coragem de denunciar a discriminação? 
Essa é uma questão delicada, pois alguns homens 
homossexuais sentem-se profissionalmente persegui-
dos, e acreditam que isso acontece por causa de sua orien-
tação sexual. É dificil saber com certeza, mas muitas 
vezes uma demissão pode ocorrer mais por razões polí-
ticas ou até mesmo funcionais do que por outra coisa. 
Ou mesmo por pura discriminação inconseqüente. Nenhu-
ma empresa vai demitir o seu principal gerente, que está 
trazendo grandes lucros, apenas porque ele é homosse-
xual mas tem um comportamento social adequado. 
No entanto, em algumas profissões, é proibida a 
entrada de um homem homossexual. Entre essas profis-
sões está o serviço militar. A discussão sobre a presença 
de homens homossexuais nas forças annadas tem sido 
muito forte nos Estados Unidos. 
No que diz respeito à religião, a discriminação é 
muito grande entre aquelas de origem cristã. Para essas, 
a homossexualidade é um pecado grave e inaceitável. O 
mesmo já não ocorre com as seitas de origem africana. 
O candomblé, por exemplo, tem muitos pais-de-santo 
homossexuais, que são tratados com respeito e veneração. 
96 
VAI§ I'. f'ILti()§ 
As famílias, em geral, lidam muito mal com o fato 
de terem filhos homossexuais. Recentemente, um jovem 
americano deu o seguinte depoimento, publicado em 
jornais dos Estados Unidos: "Se eu pudesse optar pela 
minha sexualidade, logicamente escolheria a heterosse-
xualidade. Seria uma enorme burrice de minha parte eu 
optar por algo que é socialmente discriminado, dificul-
tado e considerado amoral e pecaminoso". 
Se uma família discrimina um filho porque ele tem, 
como ser humano, um único papel, o afetivo-sexual, 
diferente da maioria, ela está dificultando muito a sua 
vida. Seria muito bom se os pais pudessem se perguntar 
o que eles desejam para os seus filhos. 
Os pais desejam que seus filhos sejam seres huma-
nos respeitáveis, alegres, satisfeitos,felizes e que te-
nham uma vida saudável? Ou querem para seus filhos 
a realização de um desejo, deles próprios, que não foi 
satisfeito? 
Quando um pai diz ao seu filho "prefiro pegar na 
alça do seu caixão a descobrir que você é bicha". ele não 
estará pensando só em si mesmo ou naquilo que ele 
supõe que a sociedade esteja pensando dele? 
Esse pai está mostrando que não tem o mínimo 
interesse nem o mínimo respeito por seu filho. Na 
verdade, não quer que o filho seja algo que está mal 
resolvido dentro dele próprio. O problema não é dele, 
pai. O problema é do filho. E o filho é que vai ter de 
lidar com todas as dificuldades que a vida oferece a 
um homossexual. 
Os pais precisam entender que não são responsá-
veis pela homossexualidade de seus filhos, ao contrário 
do que dizem algumas teorias psicológicas. Se as teorias 
estivessem certas, nós já poderíamos, ao longo de quase 
um século da Psicanálise de Freud e de outras teorias 
psicológicas e psiquiátricas, ter descoberto a forma de 
evitar ou "consertar" a homossexualidade. 
97 
As leis, principalmente no Brasil, também devem 
ser revistas. Os homens homossexuais não precisam 
criar um vínculo jurídico, na forma de um casamento. 
Entretanto, a lei deveria repensar os casos nos quais dois 
homens se vinculam, vivem um relacionamento estável 
durante anos, constroem um patrimônio e prever, no caso 
da morte de um deles, como fica a partilha dos bens. 
Essa partilha deveria ser mais justa, pois os bens 
foram obtidos pelo esforço conjunto. Não existe no Brasil 
jurisprudência para resolver esses casos. Quando um 
dos parceiros morre, seja por acidente ou doença, e não 
deixa claro em testamento como deverá ficar o patrimô-
nio dos dois, muitas vezes o outro parceiro acaba sendo 
muito lesado em função da família, que será a única 
herdeira legal. 
A lei deveria prever que pessoas não-heterossexuais 
pudessem estabelecer algum tipo de vínculo legal, que 
não precisaria ser o casamento, mas levasse em conta a 
previdência social e o patrimônio material construído. 
Muitos casos estão acontecendo no Brasil, por morte 
pela Aids, e os advogados não encontram saída para 
isso. Por que duas pessoas que estabelecem uma parce-
ria amorosa estável não podem ter os mesmos direitos 
previdenciários dos casais heterossexuais? 
Como forma de resistência à discriminação, os ho-
mens homossexuais acabam criando pontos de encontro 
onde podem conviver mais livremente. São bares, sau-
nas, clubes ou os grupos de amigos ou de militância. 
Sendo tão discriminados, os homens homossexuais e 
também as mulheres lésbicas sentem necessidade social 
de conviver em grupo, longe do controle da sociedade 
heterossexual. 
98 
Melhor seria se homens e mulheres homossexuais 
pudessem se tornar visíveis, ser aceitos, e conviver 
normalmente na sociedade, denunciando e lutando con-
tra qualquer discriminação ou preconceito. 
A sociedade em que vivemos se mostra, na defesa 
de seus valores, muito contraditória, para não dizer 
hipócrita. Não há um único ser humano que não defenda 
a solidariedade, o amor e o direito à vida. No entanto, o 
texto que você vai ler a seguir, sem comentários, é o retrato 
cruel e acabado de um mundo que tem duas caras: 
"A Força Aérea me condecorou por matar dois 
homens no Vietnã e me expulsou por amar um". 
Assinado por Leonardo Matlovich, soldado da Força 
Aérea Americana. Foi condecorado por sua atuação na 
Guerra do Vietnã e expulso da corporação em 1975 por 
homossexualismo. 
~asce uma menina. 
Essa criança, desde o nascimento, tem um destino 
traçado pela sociedade. Ela deverá se comportar como 
menina, como moça, escolher um homem para se rela-
cionar, casar, ter filhos. Deve se dedicar basicamente à 
família, ao marido, à casa. Ela poderá até mesmo ter 
uma profissão, mas isso é secundário. As famílias dese-
jam sobretudo que suas filhas encontrem a felicidade 
amorosa com alguém do sexo oposto. 
No entanto, o caminho natural de vida para algu-
mas mulheres não é esse, principalmente quanto ao 
amor. Seus desejos e seus afetos vão em outra direção. 
São FÊMEAS, SENTEM-SE MULHERES, comportam-se 
de maneira feminina, mas desejam vincular-se afetiva e 
sexualmente a outra mulher e não a um homem. 
A orientação afetivo-sexual dessas mulheres toma 
um caminho diferente do da maioria. Essa orientação, 
que começou na infância, revelou-se na adolescência e 
definiu-se na idade adulta, é de natureza homossexual. 
A formação da orientação afetivo-sexual de uma pessoa 
é um processo não totalmente conhecido pela Ciência. 
101 
Pesquisas estão em andamento, mas ainda é impos-
sível afirmar com segurança o que determina a orienta-
ção amorosa e sexual. qualquer que seja. de uma pessoa. 
O que se pode dizer é que, no caso de uma orientação 
homossexual. ela não se dá por problemas familiares. 
repressão dos pais. famílias em desequilíbrio, falhas na 
educação, "más companhias". disfunções genéticas ou 
qualquer outra coisa. Existem pessoas homossexuais 
em famílias estáveis ou não, entre ricos e pobres. entre 
doutores e ignorantes. 
Alguns pesquisadores vêm apresentando hipóteses. 
mas nada há de conclusivo. A verdade é que desde a 
mais remota antigüidade existe a orientação homosse-
xual para homens e mulheres, em todas as culturas e 
em todas as sociedades, avançadas ou primitivas. 
Tal como os deuses que venero, quando me 
{sento a vossa frente, hóspede minha. 
Sinto-me feliz, com os ouvidos atentos a vossa 
{voz, tão doce, tão próxima, 
Vosso riso encantador faz com que o coração 
{ pulse em meu peito! 
Versos de Safo, poetisa grega que viveu há 2600 
anos na Ilha de Lesbos. 
Mulher homossexual ou mulher lésbica? O prefixo 
"homo" vem do grego homós, que significa igual. seme-
lhante. No latim o termo identifica o homem. 
As mulheres homossexuais preferem ser chamadas 
de lésbicas porque elas têm consciência de pertencer ao 
gênero feminino. Ao contrário do que pensam algumas 
pessoas, uma mulher lésbica não SE SENTE um homem, 
não pensa que é um homem e não quer ser homem. 
Algumas têm comportamento um tanto "masculiniza-
do", mas isso não quer dizer nada, pois o mesmo acon-
tece com outras mulheres que não são lésbicas. 
102 
A palavra lésbica vem da Ilha de Lesbos, que foi um 
centro importante da Grécia na antigüidade. Nessa ilha, 
nasceu e viveu a poetisa grega Safo. Ela foi uma mulher 
revolucionária, fundou uma escola para mulheres, onde 
não só ensinava poesia e música mas também, e princi-
palmente, sobre a emancipação social da mulher. 
Os versos que Safo escreveu falam do amor entre as 
mulheres e da paixão por suas companheiras. Em fun-
ção disso, a palavra lésbica passou a designar as mu-
lheres que amam mulheres. 
As mulheres que se definem como lésbicas, que 
assumem isso para si mesmas e que pertencem a grupos 
militantes preferem ser chamadas dessa forma. Para 
elas, a palavra tem uma conotação de força e de liberda-
de. Na sociedade, a palavra lésbica é vista como ofensa 
e, muitas vezes, utilizada com a clara intenção de ferir. 
Assim como existe uma heterossexualidade mascu-
lina e uma feminina, há uma homossexualidade mascu-
lina e uma feminina. O relacionamento homossexual 
masculino difere do feminino. Mas, nos dois casos, essas 
pessoas têm consciência de que são HOMENS ou são 
MULHERES. Também é errada a idéia de que uma 
mulher lésbica deseja ser homem, ou pensa ser homem. 
Situações como essa aparecem apenas nas travestis e 
nas transexuais. 
As mulheres lésbicas desenvolvem o seu papel de 
gênero "a contento" para a sociedade, ou seja, compor-
tam-se como mulheres no dia-a-dia, no trabalho e nas 
relações sociais de gênero. Afirmar que uma mulher cria 
problemas no trabalho porque "é lésbica", é puro pre-
conceito e falta de informação. Como todos os demais 
seres humanos,as mulheres lésbicas podem ser agradá-
veis ou desagradáveis, criativas ou limitadas, afáveis ou 
impertinentes. 
103 
De maneira geral, a sociedade permite maior liber-
dade para as mulheres entre si, o que torna "menos 
visível" um relacionamento amoroso entre elas. As mu-
lheres podem ser muito mais afetuosas, carinhosas e 
delicadas umas com as outras. As mulheres podem se 
beijar, andar de braços dados, se aconchegar. Para a 
sociedade, isso é perfeitamente normal. 
É evidente que essa liberdade das mulheres não leva 
ao lesbianismo. Em função dessa liberdade talvez a 
mulher lésbica possa ter menos dificuldade que os ho-
mens homossexuais em "dissimular" socialmente a sua 
verdadeira orientação sexual. Entretanto, a partir do 
momento em que essa condição da sexualidade humana 
se torna visível para a sociedade, lésbicas e homosse-
xuais passam a sofrer preconceitos, tabus e todo tipo de 
discriminação. 
As mulheres lésbicas, no entanto, são duplamente 
discriminadas. Primeiro porque são mullieres e fazem parte 
de uma maioria demográfica desconsiderada. Segundo 
porque pertencem a uma minoria incompreendida. 
A mulher em nossa sociedade não tem a mesma 
força, o mesmo espaço que os homens. São vistas como 
cidadãs de segunda classe e o trabalho não é remune-
rado à altura de sua competência ou função. A minoria 
lésbica, além de tudo isso, acaba segregada pelo mundo 
masculino e também pelo mundo feminino. 
O trajeto de vida social das mulheres lésbicas segue 
o mesmo das demais mulheres. No Brasil, a partir de 
1975, as mulheres passaram a desenvolver um trabalho 
feminista, para começar a fazer valer os seus direitos. 
Esse movimento passou a promover encontros periódi-
cos, nos quais se discutia os direitos da mulher, sua 
saúde e sua inserção no trabalho e na vida pública. 
104 
A necessidade de defender interesses comuns e de 
lutar contra a discriminação e os preconceitos levou o 
movimento feminista, desde o início, a abrigar o movi-
mento lésbico. 
As mulheres lésbicas, por sua necessidade de 
autodefesa, formaram um dos grupos mais bem orga-
nizados enquanto movimento social. Há anos elas 
mantêm uma rede "invisível" de grupos, que se reúnem 
para se defender do império machista. Essa rede tem 
conexões internacionais e é rapidamente acionada 
quando necessário. 
Uma evidência da organização das mulheres lésbicas 
e também dos homens gays foi a sua participação no N 
"Gay's Games", que se realizou em Nova York no final de 
junho de 1994. Dessa grande olimpíada. que acontece de 
quatro em quatro anos. participaram cerca de 1 O mil 
atletas homossexuais de 44 países, inclusive do Brasil. 
A competição desse ano teve um caráter diferente. 
com forte conotação política, na luta pelos direitos dos 
homossexuais, levada até o âmbito da ONU. Paralela-
mente aos jogos, foram realizados shows, apresentações 
de teatro e festivais de filmes, tendo como tema a homos-
sexualidade. 
O evento, oficialmente aberto pelo prefeito de Nova 
York, Rudolph Giuliani, em campanha pela reeleição, foi 
encerrado com uma grande passeata com mais de 500 
mil pessoas, onde a palavra de ordem foi a luta pelos 
direitos dos homossexuais. 
Tanto os jogos quanto a passeata foram permeados 
por campanhas de alerta para os riscos da Aids, assim 
como pela conquista de mais recursos para as pesquisas 
destinadas ao estudo e tratamento da doença. 
No Brasil o movimento também avança e. em 1993, 
foi realizado em Cajamar, cidade próxima a São Paulo, 
o 7 2 Encontro Brasileiro de Militantes Gays e Lésbicas. 
À época em que este livro foi escrito, já existiam no Brasil 
4 7 grupos organizados de gays e lésbicas. 
105 
O relacionamento entre duas mulheres é algo estra-
nho para a sociedade "porque não existe o pênis". Os 
corpos femininos não têm órgão sexual de penetração. 
Isso intriga muito as pessoas, que ficam imaginando 
como pode ser possível duas mulheres fazerem amor 
sem um órgão de penetração. 
Na realidade, as mulheres lésbicas têm muito para 
ensinar sobre o corpo feminino, até para os homens 
heterossexuais, que pouco conhecem do corpo da mu-
lher. Por que isso? Porque as mulheres lésbicas desco-
brem o corpo feminino, que ambas possuem, numa 
intensidade e amplitude muito grande. Elas descobrem 
que o prazer do relacionamento não está apenas na 
genitália, mas no corpo como um todo. 
A relação entre duas mulheres é muito menos "ge-
nitalizada" do que entre dois homens. Os homens ho-
mossexuais acabam, muitas vezes, "genitalizando" 
intensamente as suas relações. Os riscos da Aids aos 
poucos estão levando muitos homens a perceberem que 
todo o corpo é fonte de prazer e não apenas os seus 
órgãos sexuais. 
Essa descoberta deveria ser a meta de todas as 
pessoas. O nosso corpo oferece muitas possibilidades de 
nos dar prazer e de nos levar ao orgasmo. Os órgãos 
sexuais são apenas uma parte do corpo. 
O relacionamento amoroso e afetivo entre as mulhe-
res lésbicas também é diferente do relacionamento entre 
os homens homossexuais, em função de serem casais 
de gênero só feminino ou só masculino. O Informe 
Kinsey, realizado nos Estados Unidos, e já citado no 
capítulo anterior, trouxe dados interessantes. 
Esse estudo pioneiro mostrou que 63% das mu-
lheres lésbicas constituem relacionamentos estáveis, 
com vínculos afetivos e amorosos duradouros. Essa 
porcentagem para os homens é de quase 40%. 
106 
O importante dessa pesquisa foi mostrar o quan-
to é falsa a idéia de que uma mulher que se vincula 
a outra foi atraída apenas pelo prazer da relação 
sexual. Cabe lembrar que somente uma pequena 
porcentagem de mulheres, sejam heterossexuais ou 
lésbicas, vivenciam a sexualidade desvinculada do 
afeto. A maioria, no entanto, necessita fazer esse 
vínculo entre o amor e o sexo. 
Poucas mulheres lésbicas, ao se vincularem amoro-
samente, procuram reproduzir um modelo de casamen-
to heterossexual. A maioria delas percebe que dispõem 
de uma outra possibilidade, que é a de viver uma relação 
amorosa em que as duas pessoas são do mesmo gênero, 
o feminino. Portanto, não precisam imitar relações de 
gênero diferente. Numa convivência entre duas lésbicas, 
uma não "precisa ser o homem da casa». 
A convivência entre duas pessoas do mesmo sexo 
pode propiciar uma relação mais harmoniosa, uma vez 
que seus padrões de mundo são semelhantes. Claro que 
isso vale para todos os seres humanos e a harmonia 
entre as pessoas seria perfeitamente possível se a socie-
dade passasse a criar homens e mulheres de maneira 
mais igualitária, e não opostas, como tem sido até hoje. 
As relações entre mulheres lésbicas também tendem 
a ser mais monogâmicas do que entre homens homos-
sexuais. O homem, hetero ou homossexual é criado para 
o sexo e não para o afeto, e ele disvincula com muita 
facilidade essas duas formas de relacionamento. Isso 
não acontece com as mulheres, lésbicas ou não. 
O relacionamento entre duas mulheres lésbicas ten-
de a ser mais estável do que entre dois homens. Essa é 
uma diferença, mas não é a única. Entretanto, tais 
relações passam por dificuldades que se não são seme-
lhantes pelo menos se parecem. 
107 
Duas mulheres lésbicas, muito femininas, bonitas, 
charmosas, bem vestidas, como pede a sociedade, e que 
têm um relacionamento amoroso entre si, vão a uma 
festa. E uma situação muito constrangedora acontece 
quando uma delas, ou as duas, começam a ser "canta-
das" pelos homens que estão na festa, uma vez que eles 
não sabem que estão diante de duas lésbicas. 
Alguns "machões" desinformados acreditam que 
uma mulher só é lésbica porque foi "mal-amada" por um 
homem. A mulher lésbica passa a ser, para esse tipo de 
homem, um desafio muito grande a ser vencido, um 
"verdadeiro troféu de caça". 
A mulher lésbica que consegue obter um destaque 
social mais elevado tema chance de vivenciar a sua 
sexualidade de maneira mais tranqüila. No mundo ar-
tístico, mais liberal se comparado a outros segmentos 
da sociedade, muitas mulheres lésbicas demonstram ou 
insinuam publicamente sua orientação, sendo não só 
aceitas como aplaudidas. 
É interessante notar que muitos homens heterosse-
xuais sentem grande prazer em ver duas mulheres se 
relacionando sexualmente. Isso fica claro nos vídeos 
heterossexuais pornográficos, à disposição nas videolo-
cadoras. No entanto, são mais raras as cenas, nesses 
vídeos, de dois homens fazendo amor. 
Os meios de comunicação, a publicidade e princi-
palmente os ensaios fotográficos publicados em revistas 
de qualidade valorizam a relação entre mulheres. Alguns 
desses trabalhos insinuantes, que retratam uma situação 
real ou simulada, são de muito bom gosto e de grande 
senso estético. A mídia as chama de lesbian chies. 
A literatura para homens homossexuais e mulheres 
lésbicas é farta no Exterior mas escassa no Brasil. Esse 
quadro começa a mudar e o jornal Folha de S. Paulo, um 
dos mais importantes veículos de comunicação do Bra-
sil, já traz na sua revista dominical um espaço exclusivo 
para o mundo homossexual. 
108 
Quando duas mulheres lésbicas se vinculam, há um 
problema que elas podem resolver de forma diferente em 
relação a dois homens homossexuais. As duas podem 
gerar filhos. Uma mulher lésbica pode se deixar insemi-
nar pelo esperma de um homem para ter um filho. Ou 
até escolher um relacionamento sexual apenas para a 
sua fecundação. Isso começa a acontecer no Brasil e é 
mais comum no Exterior. 
Outro fato possível é uma mulher lésbica vir de um 
relacionamento anterior heterossexual, do qual tem fi-
lhos, e se unir, "definitivamente", a outra mulher. As 
duas passam então a criar os filhos. Vale lembrar, 
porém, que ninguém "vira" lésbica. 
A orientação dessa mulher já estava definida ao 
longo de sua vida e o casamento heterossexual pode ter 
ocorrido por inúmeros fatores e não só o amor. A mu-
dança para uma nova forma de sexualidade se deu, na 
verdade, externamente, quando ela tomou visível a sua 
orientação afetivo-sexual básica. Em algumas mulheres 
isso pode acontecer tardiamente, até mesmo quando já 
são avós. 
Quando há filhos de casamento anterior numa 
relação agora homossexual isso não quer dizer que as 
crianças crescerão "traumatizadas ou neuróticas". Des-
de que a relação entre as duas mulheres seja amorosa, 
com muito respeito e com muita tranqüilidade, essas 
crianças não crescerão, obrigatoriamente, conflituosas. 
Essas mulheres deverão ter tranqüilidade no seu 
relacionamento amoroso, assim como qualquer outro 
casal. para que seus filhos cresçam saudáveis. Essas 
crianças precisam estar mais capacitadas a lidar com 
essa diferença, que socialmente poderá ser visível. 
109 
O melhor será se essas mulheres conseguirem falar 
abertamente de sua forma de relacionamento com os 
filhos, explicando como são os mundos homossexual e 
heterossexual. E prepará-los para os preconceitos da 
sociedade. 
A idéia de que a presença da figura paterna em casa 
é fundamental para o desenvolvimento saudável dos 
filhos é um mito, principalmente em nossa sociedade. 
Em sua maioria, os filhos são criados apenas pelas 
mães, uma vez que o trabalho, a competição e as condi-
ções de vida tornam os pais sempre "ausentes". Muitos 
apenas "dormem" em casa. Estar "presente", seja mãe, 
pai, ou qualquer outra pessoa da família, não é estar em 
casa, com os "olhos grudados" no jornal ou na 1V. E é 
isso que faz a diferença. 
Os profissionais médicos não estão, em sua maioria, 
habilitados a lidar com a sexualidade e só muito recen-
temente no Brasil a Sexologia passou a ser uma das 
cadeiras em raros cursos de Medicina. As mulheres 
lésbicas se queixam de problemas quando vão ao gine-
cologista para seus exames periódicos. 
A primeira pergunta, "como vai a sua vida sexual?", 
pressupõe apenas uma relação heterossexual. Diante da 
revelação, muitos médicos não sabem como agir e al-
guns chegam a emitir uma guia para tratamento psi-
quiátrico. 
A Organização Mundial de Saúde, na última versão 
da sua Classificação Internacional de Doenças (CID-
10), deixou de considerar a homossexualidade como 
patologia. Os médicos, em sua maioria, mesmo com 
essa nova classificação, consideram esse modo de ser 
como patológico. 
110 
Os psicólogos têm outra visão do psiquismo humano, 
a maioria aceitando com mais tranqüilidade a homosse-
xualidade como uma possibilidade a mais de relação 
humana. As abordagens e as posturas profissionais 
dependem, porém, das diferentes escolas psicológicas. 
A sociedade humana, apesar de seu desenvolvimen-
to tecnológico, científico e cultural, ainda não aprendeu 
a lidar com diferenças e com o diferente. 
O homem foi à Lua, em pouco tempo estará em 
Marte. A sociedade ainda continua considerando o "di-
ferente" às vezes como uma ameaça. As mulheres lésbi-
cas são discriminadas. Mas, no Brasil, isso também 
ocorre com os negros, os albinos, os canhotos, os anões, 
os pobres. Estranhamente, a segregação atinge até os 
muito inteligentes. 
O planeta Terra é uma esfera e saindo de um ponto, 
sempre e~ direção ao Leste, chegaremos ao mesmo 
lugar da partida. Segregar para quê? De um jeito ou de 
outro acabaremos nos encontrando mesmo. 
Maria nasceu num vilarejo simples e humilde do 
litoral da Bahia. Quarta menina de uma família de sete 
irmãos, foi criada com poucos recursos numa comuni-
dade pequena e isolada, onde não havia padre, médico 
e apenas uma precária escola rural. Ali, naquela vida 
singela, plantava-se para comer e o que vinha de fora, 
por barco, quando faltava, era o sal. o açúcar e algum 
tecido. 
A sua infãncia não foi diferente das outras meninas 
do lugar. Ela passava horas brincando nas areias bran-
cas da praia, ou subindo nas árvores como as outras 
crianças. O tempo passou, Maria se enamorou, e casou 
com um homem do povoado. E desse casamento nasce-
ram filhos. 
Nessa época, a pequena vila não conhecia o rádio, 
a televisão, nem os jornais. As novidades, poucas, quan-
do vinham, chegavam pelos barcos. As viagens eram 
raras e só por necessidade. 
O tempo continuou passando, devagar. E Maria, já 
casada, começou também a se relacionar. amorosamen-
te, com outras mulheres. O fato, para aquela gente 
113 
humilde, a princípio, pareceu estranho, mas não assus-
tou ninguém. Não se falava muito no caso, Maria não 
perdeu suas amizades e nem a consideração de todos 
por causa disso. No meio daquele povo não existia a 
palavra "discriminação" e nem o seu significado. 
Um dia chegou o progresso. E com ele as estradas, 
e os trabalhadores das estradas, gente desconhecida de 
todos os cantos do Brasil. Algumas moças do lugar 
escolheram esses homens para se casar. Mas Maria, ao 
longo de toda a sua vida, ora viveu com um homem, ora 
viveu com uma mulher. Hoje, em 1994, Maria está com 
quase 50 anos, tem dez filhos, e continua se relacionan-
do amorosamente ora com homens e ora com mulheres. 
O que você acabou de ler não é uma história fictícia. 
O vilarejo, hoje ponto turístico da Bahia, propositada-
mente não foi identificado a fim de preservar e respeitar 
as pessoas envolvidas. 
Maria é uma mulher bissexual. 
As mulheres bissexuais são MULHERES. Elas nas-
ceram fêmeas, biologicamente normais, reconhecem e 
aceitam o seu órgão sexual feminino, comportam-se e 
SENTEM-SE como mulheres. Algumas, eventualmente, 
podem ter alguma aparência "masculina", mas, como 
vimos nos capítulos anteriores, essa aparência em ter-
mos dos papéis de gênero nada tem a ver com a sua 
orientação afetivo-sexual. 
Os comportamentos considerados masculinos e fe-
mininos, denominados papéis de gênero, são muito 
mutáveis e basicamente determinados pela cultura e 
pela sociedade. NoBrasil não existem estudos sobre o 
comportamento social das mulheres bissexuais e tam-
pouco um detalhamento sobre como são os seus víncu-
los afetivos e sexuais. Mas podemos afirmar que as 
mulheres bissexuais são basicamente femininas e se 
comportam, no seu dia-a-dia, dessa maneira. 
114 
Onde está a diferença entre as mulheres heterosse-
xuais, que são a maiorta, e as mulheres bissexuais? A 
única diferença está no fato de que as bissexuais dese-
jam vincular-se afetiva e sexualmente tanto a homens 
quanto a mulheres, numa relação intercalada ou conco-
mitante de maior ou menor duração. 
Pode-se dizer que a orientação afetivo-sexual é 
"dupla", e o objeto do amor e do desejo é variável, ao 
longo da vida. 
A idéia de que uma mulher bissexual na verdade 
"apenas não sabe o que quer" é absolutamente precon-
ceituosa e falsa. A mulher bissexual tranqüila sabe o 
que quer. Ela simplesmente deseja e ama homens e 
mulheres, com a mesma intensidade ou com intensi-
dades diferentes. 
Existe uma importante diferença de comporta-
mento entre as mulheres bissexuais e os homens 
bissexuais. Os homens bissexuais, por serem HO-
MENS, são criados para separarem amor e sexo, o que 
não acontece com as mulheres. 
O relacionamento afetivo de uma mulher bissexual 
traz uma ligação mais estreita entre o sentimento amo-
roso e o desejo sexual. Quando estão vinculadas a um 
homem, elas, em geral, o amam. E sentem o mesmo 
quando a relação é com uma outra mulher. 
As mulheres bissexuais, assim como os homens com 
essa orientação, podem ser bissexuais proprtarnente 
ditas, ou seja, elas desejarão homens e mulheres numa 
mesma proporção. Outra possibilidade é que sejam 
predominantemente heterossexuais, pois desejam mais 
os homens do que as mulheres, mas também sentem 
atração por alguém do mesmo sexo. 
Algumas mulheres bissexuais poderão ainda ser 
basicamente homossexuais. Isso acontece quando o seu 
afeto, o seu amor e o seu desejo caminham em direção 
a outra mulher, embora possam amar e se relacionar 
com os homens. 
115 
Uma mulher, que preferimos chamar de Zilda, mora 
em Curitiba, é pedagoga e tem 40 anos. Nunca se casou, 
embora tenha um filho adolescente. Ao longo de toda a 
sua vida, em períodos de maior ou menor duração, Zilda 
amou e se relacionou mais com homens e também com 
mulheres. Hoje, quando estamos escrevendo este livro, 
ela está "solteira", leva uma vida tranqüila e é muito 
respeitada por seu trabalho na Educação. 
A socióloga Aurora, de 32 anos, é funcionária do 
governo do Estado de São Paulo. Casada com Carlos, 
teve com ele um filho que hoje está com 8 anos. Depois 
de alguns anos de casamento e após o nascimento do 
filho os dois se separaram. Depois da separação, Aurora 
conheceu outros homens e teve outros namorados. No 
entanto, a figura feminina a atrai e, em alguns períodos 
da vida, assumiu para si mesma o relacionamento amo-
roso e sexual com outras mulheres. 
Um garoto de 10 anos e uma menina de 12 são os 
filhos de Lúcia. Hoje com 43 anos, economista respeita-
da em seu meio, Lúcia nasceu numa família equilibrada, 
onde é muito querida. Após uma adolescência feliz e, de 
certa forma, privilegiada, Lúcia se apaixonou por João 
Carlos, seu colega de faculdade, e desse casamento 
nasceram as duas crianças. 
O casal tinha uma amiga comum, Márcia, igual-
mente economista. A amizade não era o que se pode 
chamar de "íntima". mas os três se encontravam sempre 
que possível. Nessa época, Márcia era solteira e já tinha 
se relacionado com alguns namorados. 
Quando o filho mais novo do casal tinha 2 anos, 
Lúcia passou a sentir por Márcia um afeto especial, que 
aos poucos foi ganhando os contornos de uma grande 
atração. Márcia correspondeu com a mesma intensidade 
e as duas se apaixonaram. O sentimento amoroso foi tão 
forte que não deixou outra saída a não ser o fim do 
casamento de Lúcia. 
116 
Márcia e Lúcia passaram a "namorar". para que 
pudessem se conhecer melhor. Após algum tempo. con-
cluíram que era o momento de passarem a viver juntas 
e criar, também juntas, os filhos do casamento de Lúcia. 
Após algum tempo da separação, João Carlos. o pai, 
passou a aceitar normalmente a nova condição de sua 
ex-mulher. Ele também refez sua vida, apaixonou-se por 
outra mulher. casou-se e teve outros filhos. 
A maturidade dessas pessoas permitiu que elas 
passassem a conviver normalmente entre si. Visitam-se 
sempre que possível. mantêm uma relação amistosa. 
conversam sobre a educação das crianças. As relações 
de João Carlos com os filhos é de muito afeto e ele, em 
momento algum, colocou restrições a que as crianças 
permanecessem com a mãe. 
As duas crianças, travessas como quaisquer ou-
tras crianças, também convivem bem nessa situação 
pouco comum. Nenhum dos dois apresenta "traumas" 
ou "neuroses" porque sua mãe ama uma mulher. 
O relacionamento entre essas duas mulheres é 
estável e já dura anos. No entanto, no futuro, por 
qualquer razão. elas poderão se separar e voltar a se 
relacionar amorosamente com homens. Elas são mulhe-
res bissexuais. 
Outros homens. mesmo humildes e sem instrução. 
intuitivamente também podem compreender que suas 
companheiras necessitem. eventualmente. relacionar-
se com outras mulheres. Para contornar a situação para 
o seu meio social. fazem "vista grossa", "interpretram" 
essa vontade apenas como uma forma de amizade. Com 
isso. estão aceitando. à sua maneira. essa forma de viver, 
cujas causas não conhecem. Casamentos respeitosos, 
cheios de amor e de carinho entre um homem e uma 
mulher pode sobreviver e durar, mesmo com a partici-
pação de "alguém mais". 
117 
Para a grande maioria das mulheres bissexuais, a 
maternidade é um fato importante. A maternidade 
para as mulheres é muito diferente da paternidade 
para os homens. As mulheres, em nossa sociedade, 
são preparadas para procriar. Esse sentimento, esse 
desejo ou essa "obrigatoriedade" são tão acentuados 
nas mulheres que alguns autores chegam a falar em 
"instinto materno". 
Discordamos dessa visão, porque esse papel está 
sobrecarregado de conceitos e preconceitos de origem 
puramente social ou cultural. Na verdade, a materni-
dade é uma escolha ou uma "obrigação" imposta pela 
sociedade. A aparente "naturalidade" do papel de mãe 
certamente vem de séculos de imposição social, de tal 
modo que acabou se cristalizando na cabeça de todas 
as pessoas. 
Para as mulheres bissexuais a questão da mater-
nidade é relevante, o que nem sempre acontece no caso 
das mulheres lésbicas. As primeiras se relacionam 
com homens, às vezes por longos períodos. Desse vín-
culo podem nascer filhos, que mais à frente terão de 
conviver com a nova parceira ou parceiro de sua mãe. 
Como somente a mulher pode gerar uma criança e 
como a cultura leva as mulheres a cuidar da educação 
de seus filhos, a mulher bissexual provavelmente tam-
bém deverá "assumir" esse papel. 
As mulheres bissexuais, assim como as lésbicas, são 
muito menos visíveis aos olhos da sociedade. Isso acon-
tece porque elas não têm conflito na sua identidade de 
gênero, ou seja, SENTEM que são mulheres, e seu 
comportamento social é feminino. Todos os seus papéis, 
como professora, inquilina, dona de casa, e tantos ou-
tros, têm o colorido da feminilidade. 
118 
A própria sociedade, a partir do movimento feminis-
ta. passou a questionar os padrões dos papéis masculino 
e feminino. Um exemplo dessa mudança de padrões é o 
fato de que uma excelente jogadora de basquete. em 
função do pesado treinamento que recebe, passe a agir 
socialmente de modo masculino ou "masculinizado". 
Isso é apenas a exteriorização de um papel de 
gênero, um corportamento social, que nada tem a ver 
com a orientação afetivo-sexual da atleta. Hoje isso já é 
visto com naturalidade, em parte devido ao status da 
profissão exercida,no caso o esporte. 
Pode-se afirmar que um comportamento humano 
diferente do da maioria só passa a ser aceito pela 
sociedade quando ele acontece, é visível, mas já não 
chama a atenção. 
Com isso, não estamos dizendo que as mulheres 
bissexuais ou lésbicas, quando em seus papéis de gêne-
ro, estão sendo mais aceitas. Na verdade, a "aceitação" 
vai somente até o momento em que se toma visível a sua 
forma de amar. A partir daí, surgem as discriminações, 
porque "aceitação pela metade" não existe. 
O preconceito e a discriminação são mais "imedia-
tos" quando se trata de um homem ou uma mulher 
travestis, ou transexuais, como veremos nos próximos 
capítulos. A maneira de se comportar, de se vestir, de 
falar e de agir revelam imediatamente a sua diferencia-
ção quanto aos papéis de gênero. 
As pessoas que não conseguem lidar bem com a 
própria sexualidade poderão ter dificuldade em lidar com 
a sexualidade do outro. Não é fácil chegar ao equilibrio 
nesse setor tão fundamental da vida, porque a sociedade 
está carregada de tabus, preconceitos e idéias falsas. Por 
isso, o relacionamento afetivo e sexual, algo tão inerente à 
vida quanto respirar, passa por tantos problemas. 
Quando nos referimos à sexualidade, não estamos 
limitando o assunto apenas ao ato de amar e de fazer 
amor. Na verdade, a incompreensão passa também pelas 
119 
relações de gênero, ou seja, pela forma como vivemos no 
dia-a-dia, em permanente interação. 
Costumamos dizer que homens e mulheres não se 
entendem no trabalho, em casa, nos passeios, na política 
ou na tomada de decisões. É a aparente "guerra dos sexos". 
Infelizmente, grande parte dos seres humanos, homens ou 
mulheres, não consegue alcançar a tão desejada harmonia 
em suas relações de gênero. 
As mulheres bissexuais, ao contrário das mulheres 
lésbicas, no Brasil, não se associam, não se agrupam. 
Praticamente ainda não se conhecem e quase não têm a 
possibilidade de conversar umas com as outras dentro 
de um grupo. 
A sociedade brasileira é diferente, por exemplo, da 
sociedade americana, que tem gll}pos organizados para 
todo e qualquer tipo de pessoa. Nos Estados Unidos, 
organizam-se para se defender, fazer valer seus direitos 
ou se relacionar, os diabéticos, as lésbicas, os homosse-
xuais que são pais, os filhos de homossexuais, os defi-
cientes fisicos e até mesmo os aficionados de determi-
nados hobbies. 
Quando falamos de mulheres bissexuais, não as 
estamos confundindo com as lésbicas que um dia foram 
casadas e até tiveram filhos. É muito provável, porém, 
que as mulheres lésbicas, na época em que se casaram, 
ainda não tivessem claro para si mesmas a sua verda-
deira orientação afetivo-sexual. 
Há uma diferença importante nessas duas formas 
de viver a sexualidade. A mulher exclusivamente lésbica, 
a partir do momento em que toma consciência de sua 
verdadeira orientação, passa a desejar e a se relacionar 
com intensidade apenas com outras mulheres. Os pou-
cos e raros encontros íntimos com homens só vêm 
reforçar a regra. 
120 
A mulher exclusivamente bissexual, no entanto, ao 
longo de sua vida, alternadamente se vincula amorosa 
e sexualmente com homens e mulheres, com igual 
plenitude. Nos dois casos, pode haver predominância 
ou integralidade, situações estas que estão relaciona-
das com o tempo de duração de um vínculo ou com a 
sua intensidade. 
Assim, uma mulher predominantemente lésbica 
pode vir a desejar e a amar um homem. Mas será um 
relacionamento eventual, de curta duração, ou de menor 
intensidade comparado ao amor dirigido a uma parceira. 
As mulheres bissexuais mais visíveis em nossa 
sociedade estão no meio artístico. Algumas cantoras 
famosas são bissexuais, não escondem ou pelo menos 
insinuam essa orientação e nada têm de "masculinas". 
Algumas são muito atraentes e desejadas pelo público 
masculino e as poucas que, no palco, preferem uma 
apresentação mais "agressiva" continuam femininas 
no seu papel de gênero. Continuam se comportando 
como MULHERES. 
t=UTUl?() VISÍVl:L 
As mulheres bissexuais e lésbicas são um pouco 
"menos" discriminadas pela sociedade porque são em 
geral "invisíveis". O movimento lésbico-feminista inter-
nacional está lutando para que essas mulheres se tor-
nem visíveis para a sociedade e assim possam ser aceitas 
em sua integridade social e afetivo-sexual. 
O atual presidente dos EUA, Bill Clinton, deu um 
passo importante nesse sentido ao manter no primeiro 
escalão de seu governo uma mulher assumidamente 
lésbica. Clinton quis demonstrar com isso que o impor-
tante para a sociedade é a competência, e não o que as 
pessoas fazem entre quatro paredes. Isso é apenas da 
conta delas e de mais ninguém. 
121 
() IJlf'ÍCIL CM!l~ti() IJ() Mr=I() 
••Jovem. alto, musculoso, bem-dotado. Só atendo 
executivos. Fone ... " 
É bem possível que você já tenha visto um anúncio 
como esse nas páginas de classificados dos grandes 
jornais. São comuns. não causam espanto e de certa 
forma já nos acostumamos com eles. Mas quem são os 
"executivos"? 
Ora, são homens homossexuais, você poderá ima-
ginar. Eles estão em busca de um "garoto de progra-
ma". Em alguns casos, é provável que sim. Mas uma 
grande parte de homens que procura esses rapazes é 
composta de homens bissexuais, muitos dos quais 
casados e com filhos. 
Isso é certo ou errado? Nem uma coisa. nem outra, 
pois a sexualidade é uma experiência que precisa e deve 
ser vivida em sua plenitude. E. sendo uma necessidade 
humana, para ser saudável, não deve estar sujeita a 
juízos de valor dos educadores e profissionais de saúde. 
A compreensão ou o preconceito dependem da forma e 
do estágio em que se encontra a sociedade. 
123 
O aparecimento da Aids no início dos anos 80 foi 
visto por muitos como um "castigo de Deus" para punir 
os homossexuais. Pouco tempo depois, esses homens 
passaram a ser perseguidos e discriminados por disse-
minar a "peste gay", constituindo, ao lado dos drogados, 
os chamados "grupos de risco". Hoje já se sabe que não 
existem grupos de risco, mas comportamentos de risco. 
Lamentavelmente a doença se alastrou e ainda hoje 
não se pode falar em cura. Uma situação nova, no 
entanto, apareceu. A Aids passou a contaminar não 
apenas os homens homossexuais mas também os hete-
rossexuais e as mulheres. que não faziam parte do então 
"grupo de risco". 
A falta de informação e o preconceito falaram mais 
alto e mais rápido. As mulheres estariam sendo conta-
minadas porque seus maridos levavam "vida dupla n e 
"saíam" também com homens. A bissexualidade, ou 
melhor dizendo, a "provável'' bissexualidade masculina 
veio à tona. 
Essa nova realidade criou mais um estigma. Os 
transmissores da Aids não seriam apenas os homens 
homossexuais, mas também e principalmente os bisse-
xuais. No que diz respeito aos homens homossexuais, 
isso não é verdade, porque eles passaram a redobrar os 
cuidados e a maioria evita a promiscuidade. Mas os 
homens bissexuais não foram e nem são os responsáveis 
pelo crescimento da doença. A responsabilidade pela 
propagação da Aids é de todo ser humano que pratica 
sexo sem o conhecimento de como pode ser uma relação 
sexual segura. 
Uma reportagem publicada pelo jornal Folha de S. 
Paulo, no dia 30 de junho de 1994, confirma esse fato. 
Segundo levantamento feito pela Secretaria de Saúde do 
Estado, o crescimento da Aids entre os heterossexuais 
em São Paulo está se dando mais pelo uso de drogas 
injetáveis do que pela prática bissexual. 
124 
No início dos anos 80, havia em São Paulo uma 
mulher doente para cada grupo de 40 homens. Em 1994, 
a proporção chegou a uma mulher contaminada para 
cada 4 homens. Desde 1989, mais de 30% das notifica-
ções dos casos de Aids estão relacionadas com o uso de 
drogas injetáveis, principalmente nas grandes cidades. 
O fato de um homem contaminarsua companheira 
com o vírus não significa, necessariamente, que ele seja 
bissexual ou que tenha tido um relacionamento, ainda 
que casual, com outro homem. Ele pode ter sido infec-
tado durante uma relação sexual com outra mulher. Ou, 
ainda, a Aids pode tê-lo atingido numa transfusão de 
sangue realizada numa operação anos antes, da qual ele 
mal se lembra. 
A nossa sociedade nunca viu com bons olhos e nem 
compreendeu os homens bissexuais. Até hoje eles são 
identificados com termos pejorativos e de péssimo gosto, 
"cortam dos dois lados", ou então vistos como homosse-
xuais "não-assumidos". 
Quando o caminho não é o da agressão e da incom-
preensão, a sociedade classifica os homens bissexuais 
ora corno pessoas de caráter indefinido, ora como gente 
que leva a vida "na sacanagem". E muitos homens 
bissexuais ainda se consideram "mais machos" do que 
os outros, no sentido heterossexual da expressão. simples-
mente porque fazem amor com homens e com mulheres. 
No entanto, como temos dito, uma coisa é o com-
portamento amoroso, que chamamos de papel afetivo-
sexual, e outra, bem diferente, é o que vai dentro de cada 
um, no seu íntimo. É o seu desejo e a sua vontade, é a 
sua ORIENTAÇÃO AFETIVO-SEXUAL. 
O homem bissexual também nasce biologicamente 
macho e perfeito, não apresenta disfunções orgânicas 
relacionadas à sexualidade, e cresce comportando-se de 
forma masculina. ELE SE SENTE HOMEM. 
125 
Na idade adulta, quando a sua orientação afetivo-
sexual se definir como bissexual, ele passará a desejar 
homens e mulheres. Isso é um sentimento, um desejo. 
uma necessidade, algo interno que está além do controle 
da própria pessoa, na maioria das vezes. 
Esse sentimento, como tantos outros que temos ao 
longo da vida, poderá se exteriorizar ou não. Poderá ser 
revelado ou não. Nesse caso trata-se de uma questão de 
decisão, ou da resolução de um conflito interno. 
Cabe lembrar que muitos desses conflitos, como no 
caso dos homens homossexuais, das mulheres lésbicas 
e das mulheres bissexuais, têm sua raiz mais no precon-
ceito social do que propriamente na forma de viver a 
sexualidade. 
Ao contrário do que possa parecer, os consultórios 
dos psicoterapeutas não vivem cheios de pessoas com a 
"sexualidade diferente". Após 25 anos de experiência 
como psicoterapeuta, posso afirmar que cerca de 70% 
das pessoas que me procuram para tratamento são 
heterossexuais. 
Outra idéia equivocada é imaginar que as minorias 
sexuais só procuram o psicoterapeuta para tratar de sua 
sexualidade. Isso não é verdade. Alguns que procuram, 
tanto quanto os heterossexuais, querem se resolver sexual 
e afetivamente. Mas há outros, também como os heteros-
sexuais, que estão com problemas no trabalho, no relacio-
namento com as pessoas ou com seus parceiros. 
O que às vezes acontece é que os psicoterapeutas 
passam a considerar a sexualidade e suas variadas 
formas de ser como a fonte causadora de todos os outros 
conflitos. Alguns clientes revelam que percebiam um 
certo preconceito perpassando as palavras de seu antigo 
psicoterapeu ta. 
Minoria humana é minoria demográfica. Diferentes, 
todos nós somos uns dos outros. 
126 
Um advogado, a quem preferimos chamar de Júlio, 
nos procurou porque estava sentindo problemas no seu 
ambiente de trabalho, um grande escritório de advocacia 
do centro de São Paulo. Disse que estava um tanto 
irritadiço porque tinha perdido uma causa e que, apesar 
dos 15 anos de profissão, ainda não conseguia lidar 
muito bem com uma derrota, coisa habitual nas carrei-
ras profissionais. 
O problema, segundo ele, vinha do fato de a compe-
tição entre os colegas ser acirrada e, para agravar, a sua 
situação financeira, no momento, não era tão boa. Isso 
o deixava tenso e com insônia. 
Ao longo do processo de terapia, Júlio foi falando de 
sua vida. Nasceu em uma família de classe média, 
recebeu boa educação, cursou a melhor escola de Direito. 
Aos 24 anos, Júlio casou-se com Lígia, a quem 
amava muito e, dois anos depois, nasceu seu filho. Com 
o passar do tempo, o relacionamento foi se desgastando 
e o amor, dez anos depois, acabou. Veio a separação, o 
divórcio e uma nova Mvida de solteiro". 
Um domingo, ao sair do clube, por conta de um 
problema qualquer no carro, Júlio conheceu Antonio 
Carlos. Uma conversa de amigos, o mesmo time de 
futebol, os problemas de sempre, inflação, política. 
Júlio vive com Antonio Carlos há quatro anos. E o 
seu sentimento pelo companheiro tem a mesma inten-
sidade daquele que tinha por Lígia. Júlio é um homem 
bissexual, está tranqüilo com isso, e não veio ao nosso 
consultório para discutir sexualidade. O problema dele 
era a derrota de uma causa no escritório de advocacia. 
E, claro, como tantos de nós, queria aprender a lidar 
melhor com a frustração da derrota. 
Homens como Júlio eram pouco visíveis para a 
sociedade até bem pouco tempo atrás. Estamos nos 
referindo ao homem basicamente bissexual, ou seja, 
127 
aquele que ama e faz amor com um homem e com uma 
mulher, durante períodos mais ou menos longos. 
A bissexualidade assume outras formas. Muitos, 
senão a maioria, casam-se, constituem família e têm 
filhos. Amar nem sempre significa a concretização de um 
relacionamento físico só com a pessoa amada. Um ho-
mem pode amar muito uma mulher, casar-se com ela e, 
anos depois, passar a se relacionar com um homem, sem 
que isso destrua o seu casamento. Essa mesma situação 
triangular pode acontecer num casamento heterosse-
xual onde o homem tem uma amante. 
A sociedade tem muita dificuldade em aceitar o 
homem bissexual. Grande parte das pessoas ainda não 
está preparada para aceitar que alguns homens são 
bissexuais e que entre a heterossexualidade e a homos-
sexualidade pode haver uma continuidade. 
Os sentimentos e os desejos humanos não são 
estanques. Por essa razão preferimos utilizar o termo 
"basicamente" quando nos referimos à orientação afeti-
vo-sexual. Uma pessoa poderá caminhar ao longo de sua 
vida, qualquer que seja a sua orientação básica, da 
heterossexualidade para a homossexualidade, passan-
do pela bissexualidade. Isso pode ocorrer em períodos 
longos ou curtos e até em situações circunstanciais. 
Esse trajeto que vai e volta pode se dar tanto em 
relação aos sentimentos afetivos, muitas vezes não re-
velados, quanto ao relacionamento sexual. Isso não quer 
dizer que essa pessoa mudou ou pode ter mudado a sua 
orientação afetivo-sexual básica. 
Para os homens a dicotomia entre amor e sexo é 
maior do que para as mulheres. Isso se deve, como já 
vimos, ao nosso modelo de educação familiar. Assim, é 
comum homens bissexuais se casarem e constituírem 
128 
família a partir de um vínculo amoroso, mas continua-
rem fazendo apenas sexo com outros homens. 
Casos como o de Júlio, que relatamos há pouco, não 
constituem a regra. A tendência da maioria é manter um 
casamento heterossexual. Um homem bissexual casado 
pode amar sua esposa, mas sentir a necessidade de um 
relacionamento sexual esporádico ou constante com 
outros homens. 
A maioria das correntes psicoterápicas defende que 
todos os seres humanos seriam, na sua origem, bisse-
xuais. Entretanto, grande parte dessas teorias coloca a 
bissexualidade como algo que deveria ser vivenciado na 
adolescência para que os seres se definissem como 
heterossexuais. 
No Brasil não há estudos ou estatísticas a respeito 
do número de homens bissexuais. Esse comportamento 
apenas agora começa a se tomar visível, na medida em 
que homens casados adquiriram a Aids pela via do 
relacionamento sexual com outros homens. 
Essa situação tem levado alguns homens doentes a 
revelar para a família o seu comportamento bissexual, 
que no entanto se mantém oculto para a sociedade. 
Algumas famílias escondem a doença, não comentam, e 
preferem dizer que esse homem morreu decâncer, leu-
cemia ou qualquer outro mal. 
A maioria dos homens bissexuais não é visível so-
cialmente, pois esse lado eles não revelam, guardam 
para si, e são capazes de "transformar" a necessidade de 
relacionamento com outro homem numa "grande ami-
zade" aos olhos dos outros. 
O sofrimento interno dos homens bissexuais é gran-
de e talvez maior até do que o sofrimento dos homens 
homossexuais. Eles acreditam que isso é doentio e que 
deveriam eliminar o seu desejo por homens. 
129 
O que esse homem pode fazer, se a conclusão sobre 
a sua bissexualidade for correta, é aprender a viver de 
modo mais equilibrado com aquilo que ele sente. A 
tentativa de reprimir um dos lados de sua sexualidade 
pode ser infrutífera e lhe trazer maior sofrimento ainda. 
Evidentemente não se está aqui fazendo uma apologia 
de que os homens casados devem fazer sexo com outros 
homens. Cada um pode descobrir o seu caminho e que 
canal vai usar para viver esse sentimento. 
O sofrimento interno poderá ser amenizado na me-
dida em que esse homem encontrar a solução, que é 
peculiar para cada uma das pessoas. Através de uma 
psicoterapia ou do amadurecimento propiciado pela pró-
pria vida, muitos homens bissexuais poderão encontrar 
o equilíbrio para os seus desejos. 
O mundo é um permanente jogo de opostos. Noite 
e dia, preto e branco. feio e bonito. Entre esses pólos 
existe uma grande área intermediária que a maioria das 
pessoas não consegue compreender ou perceber. A bis-
sexualidade é uma dessas áreas. 
Hoje, graças aos modernos meios de comunicação, as 
sociedades ocidentais já aceitam em certo grau a homos-
sexualidade mas têm dificuldade em compreender um 
comportamento bissexual, por sua natureza "aparente-
mente" dúbia. O termo está propositalmente entre aspas 
porque, para os homens bissexuais bem resolvidos em 
termos de sua orientação, não há dúvida alguma. 
Mas muitos homens vivem na incerteza, conside-
ram-se basicamente heterossexuais ou basicamente ho-
mossexuais. Alguns chegam a afirmar ter absoluta 
certeza de que são homossexuais e que não compreen-
dem o porquê de uma atração repentina por determina-
da mulher. Quando têm condições, procuram a 
130 
psicoterapia e, durante o tratamento, se descobrem 
bissexuais. 
Após a descoberta, superam seus conflitos e pas-
sam a conviver com uma mulher até quando durar o 
amor ou for possível. Um exemplo claro dessa situação 
é a atual sociedade do Japão, onde a homossexualidade 
é reprimida ao máximo 1. 
Naquele país, o sucesso na carreira e no trabalho 
depende, e muito, da estabilidade familiar que a pessoa 
apresenta. Ser casado e ter um filho conta muito para 
alcançar postos importantes. Mas, como em todo o 
mundo, os homossexuais existem no Japão. Entretanto, 
eles estão completamente ocultos na bissexualidade, 
verdadeira ou aparente. Muitos homens basicamente 
homossexuais japoneses se casam e constituem família 
porque a sociedade assim o exige. 
Muitos homens sequer têm noção da sua bissexua-
lidade. Em nossa experiência clínica ouvimos muitos 
relatos de homens homossexuais que preferem para o 
relacionamento sexual os homens casados. Isso aconte-
ce em todas as classes sociais e as razões são as mais 
variadas. De acordo com o relato desses homossexuais, 
os homens casados seriam menos promíscuos, não 
haveria o risco de envolvimento amoroso e essa relação 
ficaria oculta. 
O crescimento da Aids levou obrigatoriamente a 
Medicina a se defrontar com a questão da sexualidade. 
No Brasil, e também em outros países. isso está aconte-
cendo sem que muitos médicos tenham recebido o devi-
do preparo. 
Um caso clínico, do qual tomamos conhecimento 
recentemente, mostra de maneira dramática essa situa-
l. Conforme o livro-reportagem Favela Hígh-Tech, do jornalista 
Marcos Lacerda. 
131 
ção. Um jovem casado, de classe média, procurou aten-
dimento médico em São Paulo. Seu estado de saúde não 
era bom, estava com pneumonia. O médico que o aten-
deu, apressadamente, considerou a pneumonia como sen-
do uma das doenças oportunistas decorrentes da Aids. 
Sem que o rapaz soubesse, solicitou um teste Elisa 
para detectar o vírus HN. Tão logo recebeu o resultado, 
o médico comunicou a ele e a sua esposa. O resultado 
fora soropositivo. Ele estava com o vírus da Aids e 
iniciara a doença. 
O rapaz não aceitou o diagnóstico e negou que 
poderia ter-se contaminado. Tinha se casado há pouco 
tempo, não tinham qualquer tipo de relacionamento 
extraconjugal, e muito menos bissexual. Não conhecia 
drogas nem tinha passado por nenhuma transfusão de 
sangue. 
A partir desse momento, o casal passou a viver um 
tenivel drama. Surgiram dúvidas sobre o que ele estava 
afirmando. Talvez mentisse, talvez a mulher já estivesse 
contaminada. 
Passados alguns dias, diante da constante negativa 
do jovem e da insistência de sua esposa, foi realizado 
outro exame, esse mais sofisticado e mais caro. O teste 
de Western-Blot, obrigatório para um resultado soropo-
sitivo do teste Elisa. Conclusão: o resultado do primeiro 
teste era falso-positivo. Ele não estava com o vírus da 
Aids. Tudo o que esse jovem tinha, desde o início, era 
apenas pneumonia. 
Maria Rosa chegou um pouco mais tarde do traba -
lho em sua casa simples num bairro de periferia de São 
Paulo. Da esquina avistou sua mãe no portão e estra-
nhou. Teria acontecido alguma coisa com as crianças? 
Antes que perguntasse qualquer coisa, a mãe, mu-
lher simples, e naquele momento um tanto transtorna-
132 
da, foi dizendo: "Peguei o Jorge, seu marido, sem roupa, 
de agarra com o Nezinho lá na oficina". 
Maria Rosa ajeitou a bolsa, abriu o portão e respon-
deu: "Eu sei, e a senhora agora já sabe. O Jorge precisa 
de uma coisa que eu não posso dar para ele. Ele me 
contou antes de casar. Mas eu gosto dele do mesmo jeito 
e ele também me ama". 
A mãe entrou e ainda ouviu a filha falar calmamen-
te: "Não me sinto ameaçada por isso. E a gente é feliz". 
7 
Us caminhos da vida têm longos trechos de areia 
movediça. O verde muitas vezes parece azul e não é fácil 
distinguir o alaranjado do amarelo-escuro. A condição 
humana tem fronteiras muito tênues entre o Mser" e o 
"estar", e nem mesmo a alma sabe com clareza o que vai 
dentro de si. 
Quando urna criança está para nascer, os pais 
escolhem um enxoval azul para o menino ou rosa para 
a menina. Talvez a opção mais sensata fosse simples-
mente pela cor branca. 
''Travesti - substantivo masculino. Disfarce de tra-
jes, mascaramento, pessoa vestida insolitarnente, corno 
homens trajados de mulher e vice-versa. Do francês 
travestL" A definição é do Grande Dicionário Etimológico 
da Língua Portuguesa, edição de 197 4, de Francisco da 
Silveira Bueno, professor da Universidade de São Paulo. 
A mesma obra define o termo Minsólito" corno algo que é 
135 
"raro, excepcional, não costumado". Essa palavra vem 
do latim insolitus. 
A realidade nem sempre concorda com os dicioná-
rios. Os travestis masculinos, embora representem ape-
nas uma pequena parcela da população, não são raros, 
muito pelo contrário. Numa cidade grande como São 
Paulo, eles estão no teatro, na televisão e nas ruas, 
dividindo o espaço e, algumas vezes, os clientes com as 
prostitutas. 
Recentemente quase surgiu uma querela diplomá-
tica entre o governo brasileiro e o italiano devido ao 
grande número de travestis que daqui seguiam para o 
Exterior com o objetivo de melhorar de vida. 
Os travestis podem ser vistos nos shows das casas 
noturnas, das mais simples às mais sofisticadas. Na 
televisão, costumam se apresentar em populares progra-
mas de calouros, levados ao ar aos domingos, quando 
toda a família, incluindo as crianças, está reunida diante 
do aparelho de 1V. 
Mas quem são eles? Ou elas? 
Travesti é um termo leigo que ficou consagrado no 
Brasilpara designar os homens que nascem machos, 
são educados como meninos, mas têm uma identidade 
·de gênero diversa da maioria. São pessoas que ao lado 
da identidade de gênero masculina, desenvolvida atra-
vés do reconhecimento de seu corpo biológico e da 
educação, SENTEM-SE também femininos. 
A identidade de gênero, como já vimos anteriormen-
te, é a base para a construção da maneira de ser. 
Trata-se de algo interno, uma sensação de pertencer ao 
gênero masculino ou feminino. As pessoas bissexuais 
sentem-se homens ou mulheres, caso sejam do sexo 
masculino ou feminino, e são atraídas ora por um sexo, 
ora por outro. 
Com os travestis isso não acontece. Eles sentem-se, 
ao mesmo tempo, homens e mulheres. O travesti mas-
culino deseja, regra geral, um homem para se relacionar. 
136 
No entanto, ele sabe que biologicamente é um homem e 
não deseja eliminar o seu órgão sexual masculino. Al-
guns travestis, no entanto, relacionam-se, ainda que 
ocasionalmente, com mulheres e são bissexuais, outros 
até heterossexuais. 
O fato de essas pessoas sentirem-se ao mesmo 
tempo homem e mulher leva alguns travestis a se trans-
formarem em caricaturas de mulher. Seus gestos podem 
ser exageradamente amaneirados, carregam na maquia-
gem, tomam hormônios ou aplicam silicone para ter 
seios fartos e grandes nádegas. 
Esse "desenho feminino" que está em sua cabeça 
pouco tem a ver com as mulheres. Se olharmos com 
atenção perceberemos que dentro daquele ser mora 
também um homem. Esses travestis preferem como 
parceiros os homens heterossexuais, ou pelo menos que 
se digam heterossexuais. 
Pouca gente conhece Astolfo. 
Ele nasceu um bebê macho normal e teve uma 
infância comum a tantos outros garotos. Passou pela 
adolescência sem jamais ter rejeitado seu pênis e bolsa 
escrotal e, adulto, tornou-se um excelente maquiador. 
A partir de um determinado momento de sua vida, 
algo emergiu de dentro de si, pedindo que ele transfor-
masse os caracteres sexuais secundários de seu corpo 
masculino. Conseguiu deixar sua barba mais rala, arre-
dondou as formas do corpo e submeteu-se a um trata-
mento para ter seios. 
Quem conhece Astolfo? Hoje quase ninguém. 
E Rogéria, o travesti brasileiro mais famoso e res-
peitado? 
São a mesma pessoa. Inteligente, bem-humorada, 
Rogéria é um sucesso no teatro e na televisão, onde 
aparece ora como entrevistada, ora como entrevistadora. 
137 
Durante o Carnaval, Rogéria é personagem obrigatória 
do famoso baile Gala Gay, que reúne no Rio de Janeiro 
travestis, transexuais, homossexuais e heterossexuais 
de todo o mundo. 
Rogéria nunca escondeu que tem Astolfo dentro de 
si e rejeita qualquer hipótese de operação para retirada 
do seu pênis e testículos. Ela, com seu jeito despachado 
e popular, desperta muito mais simpatia do que "curio-
sidade" entre as pessoas. 
Cientificamente falando, o melhor termo para defi-
nir um travesti, homem ou mulher, seria "heonafrodita 
mental". Essas pessoas nascem com um corpo normal 
do sexo masculino ou feminino mas sentem necessidade 
de assumir um comportamento de gênero oposto ao seu 
sexo biológico. Em outros casos, procuram combinar os 
dois tipos de comportamento, masculino e feminino, num 
único, o que resulta num ser aparentemente andrógino. 
Cabe lembrar que a aparência andrógina não impli-
ca necessariamente um comportamento de travesti. Al-
gumas pessoas, por seus traços fisionômicos, modo de 
se vestir, corte de cabelo ou uso de determinados enfeites 
dificultam a sua identificação imediata como homem ou 
como mulher. Alguns famosos ídolos da juventude têm 
essa aparência indefinida. 
Aqueles travestis, cujo desejo interno em relação ao 
seu gênero não é muito forte, de um modo geral não 
modificam o seu corpo. Numa parte do dia comportam-
se de maneira masculina e numa outra parte apresen-
tam um comportamento feminino. O uso dos cosméticos, 
as unhas bem tratadas, o cabelo ou uma peruca são 
suficientes para que eles possam se sentir inteiros. 
Não são poucos os casos de homens, funcionários 
responsáveis, de temo e gravata durante o dia, que nas 
noites de sábado transformam-se numa bela cantora de 
138 
clubes noturnos. O corpo não mudou, os seios são 
apenas um enchimento de espuma dentro do sutiã, mas 
a bela voz aguda e o charme com que caminham de salto 
alto pelo palco revelam seu outro lado. São artistas de 
talento, se consideram apenas "transformistas". e não 
travestis. Em Juiz de Fora, Minas Gerais, realiza-se anual-
mente o concurso de "Miss Brasil Gay", do qual só podem 
participar travestis cujos corpos não foram modificados. 
Esses homens são chamados de "transformistas". 
É possível, mas somente eles podem ter a certeza 
do que vai pelo seu coração. E quanto a nós, só sabere-
mos quando revelarem como se sentem em nível de 
identidade de gênero. 
Ao afirmarmos que essas pessoas se sentem inteiras 
quando se comportam dessa maneira, estamos queren-
do dizer que um travesti que se sente homem e mulher 
ao mesmo tempo, e não exterioriza essa condição, é um 
ser pela metade. 
A maior parte de nossas relações é de gênero, e não 
sexuais. É o nosso dia-a-dia, trabalho, escola, lazer. E 
nessas relações se faz necessário, sempre, um compor-
tamento masculino ou feminino, independentemente do 
corpo biológico. Não é possível viver em sociedade com 
um comportamento neutro. 
Um outro grupo de travestis necessita transfor-
mar os seus caracteres sexuais secundários. Eles 
conservam a sua genítália interna e externa mas mo-
dificam a voz, eliminam os pêlos, arredondam o corpo, 
desenvolvem seios e aumentam as nádegas, procuran-
do aproximar-se do que seria um padrão feminino. 
Os travestis sempre existiram, assim como todas as 
outras formas de viver a sexualidade. No Brasil, e tam-
bém em outros países, eles passaram a se tomar visíveis, 
como fenômeno social, apenas recentemente. 
139 
Por falta de conhecimento, a sociedade tem muita 
dificuldade em distinguir um travesti masculino de um 
transexual. Para a sociedade. todos os homens que se 
vestem ou se comportam como mulher são travestis. Isso 
não é verdade. As maiores diferenças estão no mundo 
interior dessas pessoas. 
O travesti masculino não rejeita o seu órgão sexual 
e. na verdade, o utiliza durante o relacionamento íntimo. 
Apenas em seu corpo falta "algo" feminino. A sua iden-
tidade de gênero, no entanto, é bigenérica, ou seja, eles 
se sentem homens e mulheres ao mesmo tempo. 
Essa dupla identidade de gênero acaba se refletin-
do, com maior ou menor intensidade, em todos os papéis 
que a pessoa vier a desempenhar em sua vida. Por isso, 
até intuitivamente, é possível distinguir um travesti de 
uma mulher, o que já não ocorre com os transexuais. 
São comuns as histórias contadas em rodas de 
amigos de homens que conheceram uma bela mulher, 
se encantaram. e só descobriram que estavam com um 
travesti na cama do motel. Se o caso for verdadeiro e se 
se passou exatamente dessa forma, é possível que esse 
homem tenha conhecido não um travesti e sim um 
transexual ainda não operado. 
Os transexuais masculinos, ao contrário dos 
travestis, rejeitam a sua genitália, querem se livrar 
dela e ter, no lugar. uma vulva e uma vagina. Em 
alguns depoimentos, os transexuais afirmam que 
SEMPRE se sentiram mulheres num corpo de homem 
e alguns, antes da operação para a mudança de sexo, 
chegam a confessar que sentiam nojo de seu órgão 
sexual masculino. 
O problema, no Brasil, é que a operação para a 
mudança de sexo é proibida. Assim, muitos transexuais 
acabam se considerando travestis e dessa forma são 
vistos pela sociedade. 
Os travestis, muitas vezes, foram meninos com 
características femininas desde criança e, outras vezes 
140 
não. Entretanto. na adolescência, com a explosão dos 
hormônios, quando suas características masculinasfi-
cam totalmente defmidas. é que a maioria dos travestis 
sente a necessidade de acrescentar um comportamento 
diferente daquele que ele vinha tendo até então. 
Nesse momento surge o grande conflito consigo 
mesmo e com a família. Pouquíssimos pais aceitam ter 
um filho que foi criado como homem e que, "de repente". 
começa a ter um comportamento masculino e feminino 
ao mesmo tempo. A maioria desses rapazes não encontra 
outra solução a não ser abandonar a casa, passando a 
buscar um espaço social onde possam ser eles mesmos. 
Nas grandes cidades. esse espaço é garantido pelo 
anonimato. Eles então se agrupam a pessoas que estão 
na mesma situação para poder viver ou. pelo menos. 
sobreviver. Esses travestis, ainda na adolescência. antes 
de iniciar a mudança de seu corpo ou do papel de gênero, 
se descobertos são considerados como homossexuais, 
uma vez que a maioria se relaciona amorosamente com 
pessoas do mesmo sexo. 
Como já vimos anteriormente. há um equívoco nes-
sa identificação. Os travestis não são homens homosse-
xuais. Estes, internamente. sentem-se SEMPRE 
homens. Não há duplicidade na sua identidade de gêne-
ro. Apenas, coincidentemente. nos dois casos, os rela-
cionamentos afetivos acontecem entre pessoas do 
mesmo sexo biológico, embora nem sempre. 
Na medida em que a sociedade não abre espaço 
para pessoas de comportamento ambíguo. isso vai se 
refletir em todas as situações de vida e principalmente 
no trabalho. Homens homossexuais e lésbicas são pes-
soas discriminadas, mas podem e exercem suas profis-
sões. as mais variadas. Para os travestis isso não 
acontece, na maioria dos casos. 
Para a sociedade, essas pessoas são "muito estra-
nhas". As dificuldades tornam-se enormes, e é a sobre-
vivência que está em jogo. Restam, para os travestis, 
poucas e raras opções. Com esforço conseguem se colo-
141 
car em ambientes tipicamente femininos, como salões 
de beleza ou ateliês de costura. 
Alguns, com mais sorte, empregam-se em hospitais 
como enfermeiros, ou em outras instituições, mas, nesse 
caso, exige-se que eles se comportem de acordo com o 
seu sexo biológico, ou seja, de forma masculina. Outros, 
talentosos, ingressam no meio artístico, e para muitos 
sobra apenas o caminho da prostituição. 
Como tantos, veio do nordeste para São Paulo, há 
muitos anos, um rapaz chamado Caetano, hoje conhe-
cido como Brenda Lee. Essa pessoa conseguiu, com 
algum esforço, abrir uma pensão destinada exclusiva-
mente a travestis. Com a propagação da Aids, no início 
da década de 80, Brenda Lee decidiu, corajosamente, 
transformar a sua pensão numa casa para atendimento 
de travestis aidéticos. 
Essa pensão, onde moram alguns travestis, pouco 
difere do ambiente de uma família "convencional". 
Brenda tem verdadeiro carinho pelas "meninas" e as 
trata quase como filhas. "Algumas" são mais dóceis, 
outras mais rebeldes, mas todas muito amadas e 
respeitadas, estejam ou não na prostituição. O Palácio 
das Princesas, nome de sua pensão, é uma casa alegre, 
com astral elevado. 
Um morador resumiu com uma frase, num depoi-
mento para um documentário suíço 1• o que sentia por 
Brenda: "Aqui, se a gente traz dinheiro da rua. come. Se 
não traz, come do mesmo jeito". Brenda tomou-se muito 
respeitada por seu trabalho na prevenção contra a Aids 
e passou a receber recursos públicos do setor de Saúde 
para manter de pé a sua iniciativa. 
1. Documentârio suíço Douleur d' amour, idealizado e realizado por 
Mathlas Kãlian e Pierre Alain Meter. Uma produção da Amldou Paterson 
Fllm. Genéve e Jurg Müller Fllm, São Paulo, maio de 1987. 
142 
É na sua casa que os doentes encontram refúgio, 
mesmo que estejam em estado terminal. O carinho de 
Brenda é o mesmo ou até maior. Quando a morte, 
inevitável, põe fim ao sofrimento de uma wcompanheira", 
é ela quem toma todas as providências para que haja um 
funeral digno, que acompanha, invariavelmente, sozinha. 
Os travestis não se relacionam amorosa ou sexual-
mente entre si e nem com homossexuais. Eles preferem, 
em sua grande maioria, homens heterossexuais. O tra-
vesti Jane de Castro, uma produtora de shows de trans-
formistas no Rio de Janeiro, vive maritalmente há 25 
anos com um homem que se considera heterossexual. 
Essas pessoas de dupla identidade de gênero são as 
menos estudadas pela Medicina atualmente. Não se 
sabe por que são dessa forma. não se entende por QJ-1,e 
se sentem e se comportam dessa maneira. Na realidade. 
deyerjam ser estudadas. poraue muitos trqµestis dese-
jam mudar o seu coroo. 
Para conseguir isso, eles precisam da ajuda da 
Medicina e necessitariam contar com uma eQuipe mul-
tidisciplinar composta, no mínimo. por endocrinolo6!is-
ta. psiguiatra. psicólogo e cirurgião plástico. Esse 
atendimento deveria ter um respaldo cjentífico muito 
bom para se Saber quando e corno um homem pode 
acrescentar caracteres sexuais secundários femininos 
ao seu corpo masculino. 
Como um serviço de saúde com essas característi-
cas inexiste no Brasil, os travestis, para fazer cumprir 
sua necessidade de transformação, buscam meios clan-
destinos e perigosos. Eles se automedicam. fazem a 
.· aplicação de silicone para dar formas femininas ~ 
corpo, e isso costuma trazer grandes problemas. com 
143 
riscos para a saúde e para a sua própria vida. Apenas 
os travestis que dispõem de recursos têm condicões de 
recorrer a um atendimento médico particular. 
Na medida em que a Medicina e a sociedade não 
aceitam essas pessoas e se comporta como se elas não 
existissem, os travestis se valem de todos os meios para 
garantir os seus direitos como seres humanos. Alguns 
se tomam violentos e agressivos para se defender, e as 
páginas policiais dos jornais estão cheias de casos dessa 
natureza. Na verdade, estão devolvendo à sociedade toda 
a carga de violência que recebem ao longo de suas vidas. 
Outros se valem do humor para abrir um espaço 
para si. São as Drag-Queens, hoje muito populares. As 
Drag-Queens são "mulheres" propositalmente caricatas 
e, diga-se de passagem, personagens dos carnavais 
brasileiros de há algumas décadas. Vale dizer que mui-
tas Drag-Queens são homens heterossexuais. Outro 
caminho é a arte, principalmente a música. 
Quando fazem isso de forma adequada, são absor-
vidos, até certo ponto, pela sociedade. É o caso, por 
exemplo, da artista Laura de Vison, um travesti caricato 
que atua com muito talento em casas noturnas. 
Durante o dia, Laura transforma-se, num respeita-
do professor de História em um tradicional colégio do 
Rio de Janeiro. O comportamento de Laura não é uma 
imitação de mulher à noite ou a de um professor homem 
durante o dia. Laura vive, verdadeiramente. os dois 
lados, em sua plenitude. 
Quando a sociedade não compreende e rejeita de-
terminados grupos de pessoas, podem ocorrer duas 
situações, igualmente desumanas. Essas pessoas são 
marginalizadas e abandonadas à própria sorte ou man-
tidas em guetos. Essa discriminação atinge, em maior 
ou menor grau, os homossexuais, os travestis, as pros-
titutas, os loucos, os deficientes fisicos e tantos outros 
seres humanos "diferentes". 
144 
UUTV4. f' 4.CI:. 
Há uma expressão preconceituosa e de mau 
gosto, muito comum em rodas de homens. Quando 
eles vêem passar uma mulher muito bonita, exube-
rante nas nádegas e nos seios, afirmam, se sentindo 
atraídos: "Não é possível. Que máquina! Só pode ser 
um travesti". 
Os travestis que se sentem esteticamente bonitos e 
atraentes encontram espaço aberto na prostituição. Eles 
só se prostituem porque existe clientela para eles. Mui-
tos homens desejam se relacionar sexualmente com 
travestis, sabendo de sua condição. Quando precisam 
revelar o "caso", muitas vezes dissimulam, dizem que se 
enganaram, mas, como era tarde demais ... 
Que homens são esses? 
Pelo relato dos travestis, sabemos que durantea 
relação alguns clientes pedem para ser penetrados, no 
que ás vezes são atendidos ou não. Seriam homens 
homossexuais que não têm coragem de procurar um 
outro homem? Acreditamos que não. 
Esses "clientes" seriam então bissexuais? É uma 
pergunta sem resposta. Ou seriam homens que têm algo 
diferente dentro de si, que os leva a se relacionar com 
seres que tenham fundidos no mesmo corpo o homem e 
a mulher? 
Esses homens têm um papel complementar ao pa-
pel afetivo-sexual dos travestis. Entretanto, isso não foi 
estudado e nem mesmo é conhecido. A verdade é que em 
todas as grandes cidades brasileiras existem pontos de 
prostituição de travestis. 
Esses pontos de prostituição, onde trabalham os 
travestis mais sofisticados, mais educados e que têm um 
corpo muito atraente, estão localizados em bairros de 
classe média ou alta das grandes cidades. Na penumbra 
da noite. é comum ver parar diante dos travestis carros 
145 
do ano e até importados, o que indica que são procura-
dos por pessoas de bom poder aquisitivo, e que sabem 
quem estão buscando. 
Muitos travestis brasileiros partem para o Exterior 
para trabalhar na prostituição ou no meio artístico. Hoje 
já disputam esse mercado de trabalho em países como 
Portugal, França e Itália. Quase todos desejam retomar 
um dia ao Brasil em melhores condições para aqui poder 
viver uma vida normal. 
Da mesma forma como ocorre com os homosse-
xuais, as seitas brasileiras de origem africana, como a 
umbanda e o candomblé, aceitam sem discriminação os 
travestis. Muitos ingressam nessas seitas e chegam até 
a pais-de-santos respeitáveis, o ponto mais elevado nes-
sas religiões. 
Na medida em que esses travestis atingem um 
status religioso, passam a ser aceitos por nossa socie-
dade. Eles são procurados como pontos de apoio ou 
como conselheiros que podem ajudar a resolver as 
mazelas da alma. Vale a regra: quando em um papel 
social se é muito importante, um outro papel diferente 
passa a ser aceito pela sociedade. 
Da mesma maneira como são procurados, são tam-
bém agredidos, violentados e assassinados. As rondas 
policiais noturnas, também nos bairros mais pobres, 
caçam essas pessoas como cães vadios destinados à inci-
neração. Enxotados de um lado para o outro da cidade, as 
páginas policiais trazem, freqüentemente, noticias de tra-
vestis assassinados a sangue-frio, por homens que pas-
sam de carro, atiram muitas vezes e vão embora. 
As investigações sobre essas mortes invariavelmen-
te vão para o arquivo, com o carimbo "crime de autoria 
desconhecida". Nisso, essas investigações não diferem 
muito das dos crimes políticos. A impunidade impera 
segundo a conveniência social. 
146 
Por que tanta violência contra pessoas que não são 
consideradas cidadãos e nem têm seus direitos huma-
nos preservados? Alguns desses homens, criminosos, 
aparentemente, querem matar algo dentro de si mes-
mos. Algo que "escondem" de si mesmos e que não 
compreendem. 
É necessário deixar claro que um homem que se 
veste de mulher não é necessariamente um travesti. 
Podemos, no máximo, dizer que se trata de um 
homem travestido. A questão está na forma de viver 
a sexualidade. 
Existem numerosos casos de homens heterosse-
xuais que, durante a relação sexual com sua compa-
nheira, vestem as suas roupas, especialmente as 
peças mais íntimas. Isso lhes dá mais prazer, esti-
mula a fantasia e dá mais colorido à relação. Isso é o 
que a Medicina denomina de travestismo e considera 
patológico. 
Se uma situação corno essa for vivida com natura-
lidade pelo casal. não há problemas. O homem não é, 
por ter usado num momento de maior prazer a lingerie 
preta de sua mulher, um travesti, e menos um homos-
sexual. 
E o que dizer então do Carnaval? Em Recife, 
blocos com centenas de homens vestidos de mulher 
saem às ruas, sendo muito aplaudidos pela população. 
Esses blocos adotam, de propósito, nomes provocati-
vos, como "As virgens de Olinda'', ou de acordo com o 
bairro de origem. 
Alguns excelentes atores de cinema ou de teatro, 
heterossexuais, especializam-se em representar papéis 
femininos. Quem poderá dizer que Dustin Hofmann, ao 
viver Tootsie, no cinema, virou travestL? O tradicional 
teatro Nô japonês não admite mulheres em seu elenco, 
e isso acontece há séculos. 
147 
Estúdio. Silêncio. Gravando. 
Tal<:e para os colares coloridos de contas graúdas. 
Corta para o sorriso, abre plano geral. 
Vestiu uma camisa listrada 
e saiu por aí 
Em vez de tomar chá com torrada 
ele bebeu parati 
Levava um canivete no cinto 
e um pandeiro na mão 
E sorria quando o povo dizia: 
Sossegaleão!Sossegaleão! 
. Corta, OK. Os olhos de Carmen Miranda têm um 
brilho diferente. É a sua oportunidade, seu sonho 
realizado. 
Corta. Desempregado, carioca, brasileiro. Eric 
Barreto. Ator transformista convidado pelo cine-
ma americano para viver a nossa Pequena Notável 
num filme. 
Foi demitido do banco onde trabalhava assim que 
voltou dos Estados Unidos. Lá sua estrela brilhara tanto 
por tão pouco tempo. 
s 
Lza Minelli termina a última música do seu show 
e agradece, emocionada, os aplausos da platéia seleta 
de um dube de elite. Os olhos negros brilham, realçando 
a beleza do seu rosto. ela ajeita com charme o vestido e 
vai para o camarim. Diante do espelho, retirando a 
maquiagem, algo dentro de si mostra o rosto verdadeiro, 
de Ricardo, um travesti. 
A presença de um homem com belas formas femi-
ninas tomou-se comum no Carnaval e na TV. Essas 
pessoas já fazem parte de nossa "paisagem", principal-
mente nas grandes metrópoles. As batidas policiais são 
constantes e numa delas foi preso Binho, depois de uma 
confusão na saída de um baile. 
Negro, alto, forte e casado, Binho não tinha passa-
gem pela polícia, mas foi indiciado por crime de falsidade 
ideológica. No bolso, o único documento trazia o nome 
de Maria Quitéria. Binho, para espanto dos agentes de 
plantão, era mulher, uma travesti. 
Raramente temos noticia de casos como o de Binho. 
As mulheres travestis existem em pequeno número, e 
estão totalmente camufladas, de forma tal que passam 
149 
despercebidas. Essas mulheres não têm nenhuma dis-
função orgânica, nasceram fêmeas normais, e, de um 
modo geral, devem ter sido criadas dentro de um padrão 
de gênero feminino. 
É no periodo da meninice, por volta dos 8 anos, 
quando a sua identidade de gênero está se cristalizando, 
que esse modo de sentir começa a ganhar forma. poden-
do se explicitar ou não. 
A maioria das crianças, nessa etapa da vida. já sabe 
que é macho ou fêmea e SENTE-SE pertencendo ao 
gênero masculino ou feminino. Entretanto, algumas 
começam a ter a sensação de que são as duas coisas ao 
mesmo tempo. Ora se percebem corno meninas, ora 
corno meninos. Novamente voltamos a afirmar que a 
Ciência ainda não dispõe de elementos para explicar 
essa condição humana, e tudo permanece no terreno das 
hipóteses. 
As mulheres travestis comportam-se, na maioria 
das vezes, corno homens e chegam até mesmo a se casar. 
Mas não rejeitam a sua condição biológica de mulheres 
e nem pensam em mudar de sexo. Os órgãos sexuais são 
normais e fazem parte de sua vida amorosa e de seus 
relacionamentos. 
Essa forma de viver a sexualidade, entretanto, leva 
as mulheres travestis a sentir necessidade de acrescen-
tar caracteres sexuais secundários masculinos ao seu 
corpo. Entre eles estão o desenvolvimento da muscula-
tura e, mais raramente, com o uso de hormônios, pêlos 
é barba. Urna característica tipicamente masculina, o 
tom de voz grave, pode ser obtido com um treinamento 
e pela imitação. 
Os brincos e o batom são abandonados. A roupa 
justa feminina cede lugar a trajes mais largos, que 
escondem o corpo, e todo o seu comportamento, no 
150 
andar, no falar e o gesticular, é o de um homem. Seu 
objeto de desejoe de amor geralmente é uma mulher 
bastante feminina, que se sinta heterossexual. 
Como a sociedade não tem um espaço aberto para 
as mulheres travestis, elas acabam passando desperce-
bidas pelos meios de comunicação, a não ser que se 
envolvam em casos de contravenção penal. Em situa-
ções como essa, o tratamento que essas pessoas rece-
bem é muito cruel. 
O número reduzido de mulheres travestis faz com 
que tenhamos poucas informações sobre como vivem e 
como se sentem essas pessoas. No Brasil, nem a Medi-
cina e nem a Psicologia vêm desenvolvendo estudos a 
respeito do assunto. Se comparadas com a quantidade 
de travestis masculinos, elas praticamente não existem, 
o que não é verdade. Estão apenas "escondidas" no meio 
da população e não despertam o interesse da televisão 
ou do meio artístico. Salvo quando são apresentadas 
como "curiosidade". 
O descaso da Ciência não se limita apenas à Medi-
cina e à Psicologia. mas avança também pela Sociologia 
e pela Antropologia. A falta de conhecimento e de inte-
resse retira dessas pessoas a possibilidade de assegurar 
uma identidade social e, em conseqüência, o respeito. 
O comportamento das mulheres travestis nunca é 
totalmente "masculino". Essas mulheres, que se sentem 
com dupla identidade de gênero, guardam dentro de si 
traços femininos. É possível perceber, diante desse "apa-
rente" homem, alguma coisa de mulher. 
Essa forma de sexualidade difere da que é vivida 
pelas mulheres bissexuais. Estas SENTEM-SE o tempo 
todo MULHERES, mas são atraídas por pessoas de 
ambos os sexos. Quanto às mulheres travestis, essas 
trazem dentro de si a sensação de que, embora mulhe-
res, são QUASE HOMENS. A expressão está em desta-
que porque, pelo que se sabe, as mulheres travestis 
procuram agir como homens, mas não rejeitam o seu 
sexo feminino, como acontece com as mulheres transe-
xuais, o que veremos mais adiante. 
151 
É necessário também não confundir as mulheres 
travestis com as lésbicas "masculinizadas". No caso 
dessas lésbicas é possível identificar nelas uma mulher 
com trejeitos masculinos, mas ainda assim claramente 
uma mulher. A mulher lésbica masculinizada não quer 
ser homem, mas apenas se parecer com um homem ou 
sentir como é ser homem socialmente. 
As travestis femininas vão além. Elas querem se 
fazer passar por homens no dia-a-dia e até nas suas 
relações amorosas. Isso não é fácil de conseguir, uma 
vez que não se SENTEM totalmente homens. Interna-
mente, são mulher e homem ao mesmo tempo. 
Há uma fronteira muito tênue entre a mulher 
lésbica bastante masculinizada e a travestifeminina, 
pois ambas se assemelham no seu exterior e nos seus 
relacionamentos amorosos e sexuais. A diferença está 
na forma como cada uma delas se sente. E isso só elas 
podem saber. 
Interior do Ceará, 1993. 
Agripino de Oliveira, de 84 anos, é internado às 
pressas no modesto hospital da cidade com uma úlcera 
perfurada. Dona Idalina, sua segunda mulher de papel 
passado, acompanha o marido, como sempre fez nos 
trinta anos de casados. O agricultor, pobre, rapidamente 
vai piorando. Nos últimos meses o pequeno sítio ficou 
quase abandonado na mão de dois rapazes, um de 13 e 
outro de 15 anos, seus filhos adotivos. Outros dois, bem 
mais velhos e também adotivos, moram em São Paulo e 
há anos não visitavam o pai. 
De um dia para o outro, uma infecção adquirida no 
hospital e o coração sem forças dão o descanso final ao 
velho e curtido homem da roça. Dona Idalina entra em 
desespero. Ela quer retirar o marido morto a qualquer 
152 
custo e o quanto antes do hospital. Os médicos não 
deixam. Há providências de praxe a serem tomadas. 
O desespero da mulher aumenta, ela se toma vio-
lenta e não há outra saída a não ser chamar a polícia 
para contê-la. A chegada de um policial coincide com o 
momento de espanto dos enfermeiros que preparavam o 
corpo. O velho Agripino, na verdade, era uma mulher. 
Imediatamente dona Idalina é detida como "cúmpli-
ce" por crime de falsidade ideológica cometido pelo 
marido, que tinha todos os documentos com o nome de 
homem. Na delegacia, diante do escrivão, a humilde 
mulher de mais de 60 anos afirma, singelamente, que 
em 30 anos de vida em comum jamais viu seu marido 
nu. Os policiais não acreditam. Certamente ela estaria 
mentindo. 
Ou não. 
Não temos conhecimento de como as mulheres tra-
vestis se comportam no relacionamento sexual. Prova-
velmente podem ter tido relacionamentos com homens, 
numa idade em que não estavam totalmente definidas, 
ou até mesmo um casamento. Entretanto, a partir de 
um determinado momento, não aceitam mais relacio-
nar-se com um ser masculino e buscam uma mulher 
para um vínculo. 
A Psicologia não dispõe também de estudos sobre 
como são as mulheres que se relacionam com uma 
mulher travesti. Ao que parece, essas mulheres seriam 
muito femininas, estariam dentro de um padrão que 
nada deixa a desejar à sociedade e têm claro dentro de 
si a consciência de pertencer ao gênero feminino. Não 
há nada que confirme que essas mulheres têm uma 
orientação afetiva voltada para a homossexualidade. 
Elas não são lésbicas porque estão amando um "ho-
mem", ainda que "ele" seja mulher. 
153 
A sociedade é desumana com as mulheres tra-
vestis, principalmente se elas pertencerem às cama-
das mais pobres da população. Com elas a lei é 
implacável, e o preconceito sem limites. Essas mu-
lheres. por serem "diferentes" da maioria, são mar-
ginalizadas ao extremo quando seu verdadeiro corpo 
de fêmea é revelado. 
Uma bela mulher. de 25 anos, muito feminina e 
charmosa, nos procurou para fazer psicoterapia. For-
mada em Pedagogia, essa mulher, que preferimos 
identificar apenas como Cristiana, se dizia um tanto 
insegura porque havia recebido uma boa proposta 
para mudar de emprego. 
Tranqüila, Cristiana disse não ter grandes proble-
mas no seu relacionamento social e amoroso, mas se 
confessava insegura e frágil. Isso a estava preocupando, 
e ela desejava, se possível, melhorar esses aspectos de 
sua vida. 
Aos poucos, após as primeiras sessões de psico-
terapia, Cristiana foi contando a sua história. Teve 
excelente educação, a familia era de classe média, o 
que lhe permitiu concluir os estudos universitários 
sem precisar trabalhar. O pai, um comerciante de 
tecidos, queria que ela cursasse Administração ou 
Contabilidade, mas o gosto em trabalhar com crianças 
a levou para a Pedagogia. 
Cristiana, na época do tratamento, tinha um namo-
rado e pretendia se casar logo. A única irmã, mais velha, 
já era casada e havia se mudado para o Canadá. Deixar 
os pais sozinhos também a incomodava. 
Quando completou 21 anos, seu pai fez questão de 
dar uma grande festa. Não havia nenhum motivo especial 
para isso, mas os negócios da familia finalmente estavam 
indo muito bem. E portanto a data merecia comemoração. 
154 
Entre os convidados e amigos estava Norma, uma em-
presárta bem-sucedida. também do ramo de confecções. 
O pai apresentou as duas, e a conversa, inicialmen-
te sobre tecidos, acabou se dirigindo para a educação 
infantil, os problemas de nossas escolas, a pouca valo-
rização do professor. A festa terminou, mas Cristiana 
não conseguiu apagar da mente a boa impressão que 
Norma lhe havia causado. 
No dia seguinte. a empresária telefonou. Gostaria 
de conversar novamente com Cristiana. As duas se 
encontraram e, semanas depois, estavam apaixonadas. 
Norma estava com 38 anos, era filha única e 
herdara os negócios da família com a morte dos pais, 
num acidente aéreo. Ela já gerenciava a empresa, mas, 
a partir de então, passou a dirigir a firma com "mão 
de ferro". 
Desde a juventude Norma trajava-se com roupas 
masculinas, vestia terno, usava gravata e sapatos de 
homem. Usava o cabelo curto, mas não disfarçava os 
traços femininos de seu rosto, que nunca conheceu um 
batom.Mas ela não negou para ninguém a sua condição 
biológica, nascera fêmea e tornou-se masculina. Apenas 
escondia, sob o terno, os seios, comprimidos por uma 
faixa bem apertada. Norma jamais usou um sutiã. 
Respeitada pelos funcionários, pelos clientes e pela 
família, o comportamento "diferente" de Norma passava 
quase despercebido entre aqueles que conviviam com ela 
no trabalho ou na sociedade. 
O carinho, os mesmos gostos, o amor levaram Cris-
tiana a morar na casa de Norma. As duas se considera-
vam um casal heterossexual "normal". Norma passava 
o dia dirigindo a empresa, e Cristiana, depois de voltar 
da faculdade, cuidava da casa, administrava as empre-
gadas, ia às compras. Para Cristiana, Norma era, em 
quase todos os momentos, o seu "marido". 
Pelo relato de Cristiana, apenas num momento ela 
se dava conta de que estava vivendo com uma mulher. 
155 
Nos primeiros instantes de amor, Cristiana sentia falta 
em seu "companheiro" de um pênis. Corno em qualquer 
relacionamento, elas foram felizes, brigaram, fizeram 
planos, viajaram com a família. Até que, três anos 
depois, o vínculo se rompeu. 
Cristiana sofreu e provavelmente Norma também. 
Mas a dor passou. Depois disso, Cristiana nunca mais 
voltou a se relacionar amorosamente com mulheres. 
Perguntamos se esse relacionamento com Norma havia 
deixado alguma marca desagradável e profunda. Ela diz 
que não, que apenas não sente atração ou interesse por 
mulheres. Reconhece apenas que na época era um tanto 
imatura. Desejava um homem que a protegesse mas, ao 
mesmo tempo, não a ameaçasse. Por isso, completa 
sorrindo, se "casou" com "um marido fêmea". 
É pouco comum as mulheres travestis procurarem 
ajuda psicológica, quer seja porque elas são em número 
reduzido ou porque os profissionais de saúde mental no 
Brasil não estão preparados para lidar com essa situa-
ção. Não existem também serviços públicos que aten-
dam essas pessoas. As poucas informações a que ternos 
acesso vêm de suas parceiras eventuais, corno no caso 
apresentado. 
Nas camadas mais desfavorecidas da população o 
atendimento médico às mulheres travestis é, corno para 
os demais, extremamente precário e nesse caso até 
desrespeitoso. Urna mulher que se traje e se comporte 
corno homem, ao ser internada num hospital público, 
recebe, de início, roupas femininas, "adequadas" ao seu 
corpo biológico. 
A Medicina não tem qualquer preocupação com o 
"corpo psicológico" dessas pessoas. Qual não seria o 
constrangimento e o sofrimento de um homem heteros-
sexual que, nas mesmas condições, recebesse de uma 
156 
enfermeira roupas femininas para usar durante o 
período do internamento? E em que enfermaria deve 
ficar uma mulher travestr? Entre os homens ou entre 
as mulheres? 
Os serviços de saúde, por razões de respeito huma-
no, deveriam prever e se preparar para uma situação 
como essa. Não importa se essas pessoas fazem parte de 
uma minoria ou se são raras. São pessoas, e nada 
justifica o sofrimento de um ser humano, principalmen-
te se ele pode ser evitado. 
A Medicina e a lei privilegiam o corpo biológico, no 
que diz respeito à sexualidade. O lado psicológico, que 
são a identidade genital, a de gênero e a orientação 
afetivo-sexual ficam para um segundo ou terceiro 
planos. Cada um tem de se "adequar" ao corpo bioló-
gico, de macho ou de fêmea. Nasceu com um corpo 
biológico normal, a pessoa que se ajuste, que se adap-
te, "que se vire". 
C()Mf:Ç() ()() l'IM? 
Aparentemente, a situação de miséria extrema de 
nosso país está fazendo com que os mecanismos de 
controle social se afrouxem, de tal forma que está vindo 
à tona, com mais intensidade, a verdadeira identidade 
de gênero de homens e mulheres. Essas pessoas já 
perderam tudo e nada mais resta para elas a não ser o 
seu próprio corpo e sua mente. 
A discriminação, a violentação, a crueldade social 
estão muito perto de acabar com esses dois últimos 
traços dos seres humanos. Não sabemos o que sobrará 
depois disso. 
Vrocure se imaginar na seguinte situação: você é 
verdadeiramente uma mulher. Comporta-se como mu-
lher, sente-se uma mulher, emociona-se facilmente, é 
meiga e muito feminina. Enfim. você é uma mulher. 
Agora se imagine se despindo, lentamente, diante 
de um espelho. Observe carinhosamente cada detalhe 
de seu belo corpo. E veja, em sua parte mais íntima, um 
pênis e uma bolsa escrotal. 
Esse não é um exercício de imaginação fácil de fazer 
e talvez seja mesmo impossível para uma mulher. 
É assim que se sente, mais ou menos. um homem 
transe.xuaL Na fase final de sua transformação, o corpo já 
adquiriu todas as formas femininas. No entanto, algo está 
sobrando, enquanto outra parte, mais importante para ele, 
não existe. Aquele pênis não é "seu". No lugar deveria estar 
uma vulva e uma vagina. É como se tivessem colado ao 
seu corpo um órgão, vivo, de outra pessoa. 
Ao longo de quase toda uma vida, desde a infância, 
os transexuais se sentem como uma pessoa que nasceu 
com o corpo "trocado". SÃO "almas" femininas aprisio-
nadas em corpos masculinos. 
159 
Ternos grande dificuldade para compreender essa 
forma de existência, pois, em quase todos nós, "a alma" 
está adequada ao nosso corpo biológico. Sequer conse-
guimos nos colocar no papel dessas pessoas em termos 
de suas sensações internas. 
A Medicina e tampouco a Psicologia até hoje não 
encontraram respostas para essa condição humana. Os 
transexuais masculinos não apresentam qualquer anor-
malidade biológica. Nascem bebês machos mas desen-
volvem, desde cedo, urna identidade de gênero feminina. 
Não são homens que desejam se tornar mulheres. Eles, 
psicologicamente, SÃO MULHERES. 
Eles têm perfeita consciência de que nasceram ma-
chos, de que têm um corpo e urna genitália masculina, 
mas não conseguem aceitar a sua estrutura sexual 
biológica. Em função disso, surge um imenso conflito 
entre a identidade de gênero dessa pessoa, o que ela 
sente internamente, e o seu corpo tisico. Para eles os 
órgãos sexuais de nascimento estão a mais no seu corpo, 
e eles sentem que aquela parte não lhes pertence. 
Para os transexuaiS, o conflito básico está na inver-
são completa entre a sua identidade de gênero e o seu 
corpo biológico. Esse drama é tão intenso que eles 
chegam a ter vergonha de seus genitais. 
Quando conseguem ter relações sexuais antes de 
sua transformação corporal através de cirurgia, portan-
to ainda dispondo de pênis e bolsa escrotal, freqüente-
mente excluem a genitália no momento do ato amoroso. 
Eles escondem seus órgãos sexuais, em geral não tocam 
e nem permitem ser tocados nessa região. 
Os transexuais masculinos não buscam o prazer em 
seus órgãos sexuais, ao contrário do que ocorre com os 
outros homens. corno os travestis, homossexuais, os 
bissexuais e os heterossexuais. 
Dessa forma, o caminho desejado para eliminar esse 
conflito passa a ser a realização de uma cirurgia para 
160 
mudança de sexo. Após a cirurgia, quando eles já se 
transformaram em uma mulher por inteiro, o prazer 
sexual com um homem não será genital como para as 
outras mulheres. O prazer existe, porque de certa forma 
foram aproveitadas partes de seu sexo original, mas o 
orgasmo será mais corporal e psíquico. 
Os transexuais masculinos podem ser divididos em 
dois grupos: os primários e os secundários. Considera-
mos transexuais masculinos primários aqueles que, 
desde meninos, sentem com grande intensidade que 
pertencem ao gênero feminino. 
Por volta dos 2 anos e meio, a identidade de gênero, 
ou seja, a noção interna de pertencer ao gênero mascu-
lino ou feminino, começa a se definir. Para a grande 
maioria das pessoas, essa identidade vai na mesma 
direção de seu corpo biológico, e a criança, nessa fase, 
já SE SENTE menino ou menina. 
Isso não acontece com os transexuais masculinos 
primários. Nesse caso,na fase infantil, a sua identidade 
toma um rumo oposto ao de seu corpo biológico. Ele, 
então, com pouco mais de 2 anos, já SE SENTE uma 
menina. Essa sensação vai acompanhá-lo ao longo da 
vida, em todas as fases pelas quais ele passar. A sensa-
ção de SER mulher estará presente na infância, na 
adolescência, na vida adulta e na velhice. 
Os papéis de gênero que ele vai desenvolver, o seu 
comportamento diante de todas as situações da vida, 
apesar da educação e de todas as dificuldades que vier 
a enfrentar, serão sempre femininos. Em qualquer mo-
mento da vida, ao nos depararmos com essa pessoa, 
sentiremos estar diante de uma menina, de uma adoles-
cente, de uma mulher ou de uma senhora idosa. 
Os transexuais masculinos não apresentam, em 
geral, qualquer disfunção hormonal, sendo, portanto, 
do ponto de vista biológico machos. Alguns iniciam nos 
primeiros anos da juventude o tratamento para mudar 
o corpo, e outros, muito mais tarde. 
161 
É possível que existam casos de transexuais que não 
transformam o corpo, mas essa pessoa passará toda a 
vida se sentindo "estranha" dentro dele. 
Os transexuais primários, a partir do momento em 
que sentem intimamente que têm uma identidade de 
gênero oposta a sua sexualidade tisica, passam a se 
comportar como mulheres. Esse tipo de transexual não 
encontra qualquer prazer erótico em vestir roupas femi-
ninas. Ele apenas se sente mais "ela". Também não se 
vêem como homossexuais porque sua atração é por 
homens que se consideram heterossexuais. 
Se observarmos uma relação de gênero, do dia-a-
dia, entre um transexual masculino primário adulto, com 
seu corpo feminino já definido, e um homem, não tere-
mos dúvida de que estamos diante de um casal heteros-
sexual. É quase impossível diferenciar um transexual 
masculino de uma mulher apenas pela aparência, pelos 
gestos ou pelo comportamento social. 
Uma linda mulher, morena, desinibida, transbor-
dando sensualidade. Durante meses. já famosa como 
modelo fotográfico, foi capa, em meados da década de 
80, das principais revistas brasileiras. E em pouco 
tempo transformou-se num símbolo sexual por todo o 
país, povoando a imaginação e instigando o desejo de 
milhares de homens. 
Seu nome de batismo: Roberto. 
O nome da sensual e desejada morena: Roberta Close. 
Isso se deu porque Roberta tem papéis de gênero 
femininos muito desenvolvidos. Seu comportamento é 
o de uma mulher, nos gestos, no falar e na maneira de 
pensar. No início de sua carreira, muitas pessoas 
chegaram a duvidar de que ela tivesse nascido homem, 
e acharam que aquilo que estavam dizendo na TV era 
pura mentira. 
162 
É uma mulher, não há nada de masculino, pensa-
vam as pessoas. Muitos homens não se conformavam, 
mesmo sabendo da verdade, e mal podiam disfarçar a 
atração pela modelo. 
Ela se sente uma mulher, sempre foi uma mulher, 
embora tenha nascido com um corpo masculino. Não 
dispomos de informações médicas precisas, mas, pela 
sua história de vida, é possível afirmar que seus órgãos 
genitais eram normais. 
Roberta nasceu numa familia de classe média, seu 
pai é um militar de patente e provavelmente teria pro-
curado tratamento médico se o seu filho apresentasse 
então alguma anomalia anatômica nos órgãos sexuais. 
Roberta operou-se no Exterior, mantém relaciona-
mentos amorosos com homens e continua sua carreira 
de modelo, povoando com fantasias a cabeça dos 
homens brasileiros, dos "machões" aos mais feminis-
tas. À época em que este livro foi escrito, as autorida-
des brasileiras ainda não tinham, por sua visão 
tacanha e atrasada, autorizado a mudança dos docu-
mentos de Roberta. 
A nossa Justiça ainda a obriga a passar por cons-
trangimentos. Aonde quer que vá, tem de apresentar 
uma carteira de identidade com o nome de Roberto 
Gambini. A Justiça, em casos como esse, perdeu com-
pletamente a noção do que seja "falsidade ideológica". 
Existe um outro tipo de transexual masculino, que 
nós chamamos de secundário. Nesse caso, embora o 
menino tenha uma identidade de gênero feminina, corno 
vimos, desde a primeira infância, seu comportamento 
permanece masculino. Ele se SENTE uma menina, mas, 
em geral, por pressão da familia, procura comportar-se 
de forma masculina ou, pelo menos, imitar o comporta-
mento dos meninos. 
163 
Para algumas famílias, é insuportável a idéia de que 
um filho nascido homem possa se comportar como 
menina. Muitos pais não podem, não conseguem ou nem 
tentam compreender o que se passa no interior dos seus 
filhos e não enxergam além da realidade aparente. Me-
nino se fazendo de menina é bandalheira, que se cura 
com uma boa surra, dizem alguns. Ou é doença mental, 
dizem outros. 
Dona Jesuína, mãe da modelo Teima Lip, pensa 
diferente. Em vários depoimentos a jornais e a redes de 
televisão, ela fez questão de afirmar que estranhou um 
pouco quando percebeu que seu filho, desde pequeno, 
não era como os outros. Teima, hoje com 30 anos, era 
então Ricardo Franco. 
No início, confessa ela, sentiu muito medo de que 
as pessoas não entendessem seu filho, que o perseguis-
sem. Mas o coração dessa mãe falou mais alto e bateu 
mais forte. O medo foi passando. Dona Jesuína se 
acostumou com a idéia e passou a ajudar e a lutar pela 
"filha" até onde era possível. 
"Hoje somos mãe e filha, duas amigas. Às vezes 
brigamos, Teima é um pouco relaxada, larga as roupas 
pelos cantos, mas eu a amo muito. É a minha filha 
querida." 
Os transexuais secundários só vão explicitar a sua 
verdadeira identidade de gênero, que no caso é feminina, 
muito mais tarde, em geral na idade adulta. A severa 
educação dada pelos pais, os quais ao longo do tempo 
procuraram "educá-lo" de acordo com o seu sexo bioló-
gico, criou nessa pessoa um simulacro de comportamen-
to masculino, que vai ser mantido até o ponto em que 
não resistir mais à força de sua "natureza" interna. 
Durante esse tempo. todas as suas sensações de 
pertencer ao gênero feminino só vão se realizar na 
imaginação, nos sonhos, ou na privacidade de quatro 
paredes, à qual ninguém tem acesso. 
José Paulo, casado, engenheiro eletrônico. 
164 
Num espaço de tempo de 30 anos, nasceu bebê 
macho, cresceu como homem, namorou, formou-se e 
casou-se. Mas havia algo estranho em seu íntimo. Bom 
profissional em sua área, ele obteve um emprego impor-
tante numa empresa multinacional. Seu lar era quase 
perfeito, sua mulher o amava e com ele se satisfazia. 
Com o passar dos anos, no entanto, a sensação 
estranha aumentou. Ele se deu conta então de que nem 
tudo ia tão bem dentro de si, quanto ia fora. 
Onde estava o prazer? Não estava mais na relação 
com sua mulher. A vida sexual era monótona, enfado-
nha, inutilmente cansativa e, apesar da ereção, não 
chegava ao orgasmo. O mundo tinha perdido a graça. 
O que fazer? Os meses iam passando. José Paulo 
conversou com a mulher, uma, duas, três, inumeráveis 
vezes. Um dia, sem querer, ficou minutos diante do 
espelho de seu quarto. Estranho, aquela imagem de um 
homem refletida no espelho não era a sua. 
Inteligência e coragem. Ele tinha matado a charada. 
Passou a ler. a pesquisar e a refletir sobre toda a sua 
vida. Em muitos instantes, o desespero tomava conta de 
sua alma. Mas não podia fraquejar, tinha de ir em frente. 
Um dia chegou o momento. Pediu à esposa que o 
ouvisse com calma e revelou a ela o que lhe parecia ser 
a sua verdadeira identidade, da qual até então nem 
mesmo ele tinha pleno conhecimento. Sentia-se mulher. 
Ele seria um transexual? 
A mulher o ouviu imóvel e em silêncio. Não fez 
questão de esconder uma lágrima que rolou pelo rosto. E 
estendeu-lhe a mão com amizade, afeto e compreensão. 
Nas primeiras semanas, com grande timidez e apoio 
da esposa. passou a usar roupas femininas em casa. 
Procurou tratamento psiquiátrico e foi exaustivamente 
analisado por umaequipe muldisciplinar de bom nível. 
Essa equipe, após muitos exames, confirmou definitiva-
mente aquilo que José Paulo já sabia e tinha revelado. 
Era, de fato, um transexual. 
165 
José Paulo e sua mulher se separaram sem brigas 
e sem mágoas. A nova situação não permitia mais o 
casamento. Tornaram-se amigos e, para ele, aquela 
mulher, que fora sua, transformara-se na pessoa mais 
importante de sua vida. Ela foi a única pessoa capaz de 
compreendê-lo e suficientemente forte para ajudá-lo a 
se libertar de um drama sem tamanho. 
Na busca para transformar-se de um homem 
numa mulher, José Paulo abandonou o emprego e a 
profissão, por imaginar que não seria mais aceito 
numa grande empresa com outra aparência física. 
Ele não poderia simplesmente voltar ao local de tra-
balho como "engenheira". 
Aos trinta anos de idade, a guinada precisava ser de 
360 graus. Agora, com o corpo já arredondado, seios, 
longos cabelos loiros, existe apenas Marina. José Paulo e 
os cálculos matemáticos da Engenharia desapareceram. 
Se tudo correr bem, dentro de dois anos uma com-
petente psicóloga estará atendendo em seu consultório. 
As consultas poderão ser marcadas com a Ora. Marina. 
Na medida em que os tmnsexuais secundários exer-
cem por muito tempo um comportamento masculino, em 
termos de seu papel de gênero, eles acabam não se 
tomando tão femininos, num primeiro momento, quan-
to os transexuais primários. 
Com o passar dos anos eles poderão, aos poucos, ir 
eliminando os traços de comportamento masculino, in-
cutidos pela família e pela sociedade, e por eles assumi-
dos ao tempo em que desempenharam o papel de 
homem. Para conseguirem isso será necessário algum 
treinamento, como fazem os atores que desempenham 
papéis femininos no teatro, no cinema ou na 1V, em 
peças sérias. O transexual, mesmo o secundário, não 
deseja nunca ser uma caricatura de mulher. 
166 
Entretanto, essas pessoas precisam, mais cedo ou 
mais tarde, de uma cirurgia para adequar o corpo tisico 
ao psiquismo. Isso é muito mais que uma decisão, é uma 
necessidade. Ao contrário dos travestis, que inclusive 
fazem uso de seus órgãos sexuais originais nos relacio-
namentos amorosos, os transexuais não aceitam a sua 
genitália de nascimento. 
No Brasil, essas pessoas passam a viver uma luta 
insana quando desejam mudar o seu sexo. A Medicina 
brasileira está proibida, por lei, de realizar esse tipo de 
cirurgia. Na verdade, os transexuais que desejam modi-
ficar o seu corpo deveriam ser estudados por uma equipe 
mui tidisci plinar. 
São necessários exames genéticos para verificar a 
constituição de seus cromossomos, analisar o funcio-
namento de suas glândulas e órgãos, bem como a 
dosagem dos hormônios. O psiquismo de um transe-
xual deve ser bem observado, e ele precisa receber um 
suporte psicoterápico adequado para que possa ter 
certeza absoluta de que deseja mudar o seu sexo. Esse 
processo é relativamene longo e pode levar anos. So-
mente depois disso o transexual estaria preparado 
para a cirurgia, e a equipe profissional segura de que 
está fazendo o tratamento correto. 
Alguns transexuais alteram apenas os caracteres 
sexuais secundários, como seios, forma do rosto e ná-
degas, e se adaptam à vida com sua genitália masculina. 
Mas a grande maioria luta pela mudança completa. 
Um dos mais competentes cirurgiôes plásticos de 
São Paulo, o Dr. Roberto Farina 1, decidiu remar contra 
a correnteza. Em 1975, ele realizou uma operação pio-
neira de mudança de sexo num homem chamado Valdir, 
que se transformou em Valdirene. 
1. Dr. Roberto Farina é médico, livre-docente de Cirurgia Plástica da 
Escola Paulista de Medicina, de São Paulo, e membro da Academia 
Nacional de Medicina. 
167 
A operação foi muito bem-sucedida, do ponto de 
vista médico, e acabou com um drama vivido há anos 
por essa pessoa. Graças ao excelente trabalho realizado, 
Dr. Roberto Farina recebeu ... um processo na Justiçai 
A acusação: mutilar um homem. 
O polêmico processo se arrastou por 5 anos, geran-
do controvérsia e noticiário na imprensa. Alguns saíram 
em defesa do médico, mas outros, pelos meios de comu-
nicação, o atacaram sem descanso. Condenado, Dr. 
Farina poderia ser impedido até de exercer a Medicina. 
A decisão final da Justiça foi pela absolvição. Ficou 
provado que o pênis de Valdir era um órgão inútil para 
o paciente e uma biópsia de seus testículos indicou 
esclerose completa e ausência de espermatozóides pelo 
uso de hormônios. Para agravar, Valdir não tinha ereção, 
e era, já nessa época, uma pessoa totalmente feminina. 
Como se o Dr. Roberto Farina não soubesse de nada 
disso quando realizou a operação. 
A nossa Justiça, além de ser absolutamente cega, 
tem, digamos assim, um raciocínio um tanto lento! 
Valdirene confmnou o sucesso da operação e la-
mentou apenas uma coisa. "Dr. Farina está de parabéns, 
conseguiu trocar uma parte do meu corpo que eu não 
queria por outra que eu desejava". E completou: "Agora 
vem a .Parte mais dificil, talvez impossível. Como vou 
conseguir "trocar" minha carteira de identidade?" 
O raciocínio um tanto lento de nossos legisladores, 
nesses casos, não tem paralelo. 
CÁMl~ti() Sl~U()§() 
Apesar de proibidas por lei, algumas poucas cirur-
gias para mudança de sexo continuam sendo feitas no 
Brasil, porém clandestinamente e, como é de se esperar, 
sem as condições adequadas. Para aqueles que podem 
dispor de pelo menos 20 mil dólares para um tratamen-
to, o único caminho a seguir é para o Exterior. 
168 
Todos os anos, inúmeras cirurgias para mudança 
de sexo são realizadas legalmente na Holanda, Ingla-
terra, Dinamarca, Noruega, Alemanha, Itália, Rússia 
e Suécia, país pioneiro nesse tipo de tratamento. Em 
alguns estados dos EUA, como Illinois, os transexuais 
operados recebem nova certidão de nascimento. 
Qual é o trajeto dos transexuais brasileiros que 
desejam mudar o seu sexo? Inicialmente eles modificam 
os seus caracteres sexuais secundários. Para isso se 
valem do uso de hormônios, de uma cirurgia plástica de 
seios e a retirada, pela raiz, dos pêlos do corpo, por um 
processo chamado eletrólise. E não podem passar disso. 
Os que têm posses vão para o Exterior, onde são 
operados. Os demais procuram, com grande dificuldade, 
adaptar-se de alguma maneira. A dificuldade em conse-
guir uma operação para mudança de sexo pode levá-los 
a conviver com travestis, com os quais se confundem, 
até certo ponto, na aparência. 
A primeira operação para mudança de sexo ocorreu 
na década de 50, quando o ex-soldado americano, Geor-
ge Jorgensen submeteu-se a essa cirurgia para trans-
formar-se numa mulher. Somente a partir daí a 
Medicina, no Exterior, passou a estudar e a trabalhar 
com essas pessoas. 
Existem várias técnicas cirúrgicas para o trata-
mento desses casos. Em uma delas, os testículos e o 
pênis do homem são removidos parcialmente. A pele 
do pênis e da bolsa escrotal é preservada e utilizada, 
juntamente com um enxerto retirado de outras partes 
do corpo, para construir uma vagina, cientificamente 
chamada de neovagina. 
Essa neovagina é um canal, internamente revestido 
com a pele aproveitada do pênis. Em alguns casos, a 
cabeça do pênis, ou glande, é implantada no final desse 
canal para garantir a sensibilidade e algum prazer geni-
tal durante a futura relação sexual com um homem. A 
pele da bolsa escrotal é reservada para a construção dos 
grandes e pequenos lábios. 
169 
Além da mudança nos órgãos genitais, também se 
faz necessária uma correção plástica nos seios e é 
retirado o "pomo-de-adão", proeminência que os homens 
têm no pescoço. Após esse tratamento, estamos diante 
de uma mulher "inteira". 
Pouco depois de operada, Roberta Close posou nua 
para a revista Playboy. Era uma mulher inteira, em nada 
diferente das demais. Seu corpo fisico exteriorfinalmen-
te estava adequado às suas sensações internas femini-
nas. Usamos o termo "inteira", e não "completa", porque 
Roberta não tem ovários, trompas ou útero e não poderá, 
jamais. gerar uma criança. 
Ela, no entanto, garantiu numa entrevista: "Claro 
que tenho orgasmo. Você acha que eu iria fazer uma 
operação dessas para ficar insensível?" 
Roberta é uma mulher e, apesar disso, não tinha 
conseguido mudar seus documentos, à época em que 
este livro foi escrito. Essa "impertinência" legal, na 
verdade, é apenas uma máscara da sociedade para não 
"oficializar" a existência de pessoas transexuais e por-
tanto continuar a rejeitá-las. 
A lei argumenta que uma mudança de documento 
poderia dar margem a enganos. Um homem correria o 
"risco" de se casar com uma "mulher dessas" e depois 
descobrir que ela não é completa, não tem útero e sua 
vagina é "artificial". Ora! 
Quando se vai fazer o registro civil de uma criança, 
a definição do sexo se faz pela genitália externa. Nenhum 
funcionário de cartório pede uma radiografia para saber 
se a menina tem útero, trompas e ovários ou não. Um 
bebê fêmea para ser registrado como do sexo feminino 
precisa ser inteiro, mas não completo. E as meninas que 
nascem sem útero ou com o órgão atrofiado? Não são 
registradas? Aliás, escrivão algum de cartório despe uma 
criança para saber se é menino ou menina. Na verdade, 
a presença da criança nem é necessária. 
170 
~()VA MULtil:l:i 
A revista Mulher Atual, da Editora Azul, empresa 
vinculada ao grupo Abril, um dos maiores complexos 
editoriais brasileiros, publicou em 1992 uma grande 
reportagem sobre transexualidade. Nessa reportagem, 
uma mulher identificada apenas como Rosana conta 
como se sentiu após a mudança de sexo. Reproduzimos 
um pequeno trecho da matéria: 
"A operação durou oito horas e quando voltou 
a si Rosana se sentia outra: - Não pude me olhar 
no espelho, porque tinha um curativo, mas dias 
depois, quando ele foi retirado, senti que meu corpo 
havia mudado. Pode ser coisa da minha cabeça, mas 
acho que ele ficou mais arredondado. 
Rosana é do tipo que os homens chamam de 
violão: busto pequeno e quadris largos, embora sua 
cintura não seja muito fina. Tem um jeito natural, 
sem afetação, e a voz, um pouco rouca, confere um 
charme sensual a sua figura de mulata do Sargen-
telli. Casou-se, há oito meses, e esqueceu a Bahia, 
o pai, a mãe e os innãos. - Passei uma borracha em 
todo esse meu passado. Hoje sou outra pessoa e 
minha família é o meu marido. 
A reportagem é assinada pela jornalista Cláudia 
Ferraz, com a colaboração das repórteres Thereza Mar-
tins e Vera Gomes. 
Até quando os seres humanos continuarão se agre-
dindo mutuamente? Para quê? Um dos livros mais 
conhecidos do mundo diz que do pó viemos e a ele 
retornaremos. Então, para que tanta agressão e cruel-
dade? Tanto preconceito e segregação? Que pânico é 
171 
esse que transforma seres humanos em feras irracionais 
acuadas? 
Em uma entrevista à Rede Manchete de Televisão, 
em 1985, o transexual Joana, então bioquímica do 
lnamps, na época uma mulher inteira e operada, afir-
mou com certa mágoa: "Sou uma mulher, mas não 
consegui mudar meus documentos. Joana agora é o meu 
nome, e muitas pessoas me aceitaxn assim". 
E continuou: "Algumas, no entanto, me agridem 
brutalmente, me chamando de Dr. Nilson Falcão. Elas 
sabem como fazer sangrar, com crueldade, a minha 
maior ferida, que ainda está aberta". 
1() 
UM V121:=Ç() AL T() Ul:=MAIS 
Todas os seres humanos, homens ou mulheres, 
estão sujeitos às mesmas situações ao longo da vida. Os 
caminhos a serem percorridos durante a existência 
podem ser idênticos ou semelhantes. E apenas se bifur-
cam, inexoravelmente, quando o corpo biológico é de um 
bebê macho ou fêmea. 
O número de transexuaisfemininas é menor que o 
de transexuais masculinos. mas esses dados não devem 
ser tomados com exatidão porque faltam levantamentos 
a respeito do assunto. Só nos Estados Unidos, cerca de 
40% das cirurgias para mudança de sexo atendem às 
transexuais femininas. 
Outro ponto a ser considerado é que as mulheres 
são criadas, de certa forma, mais Nlivres", sem a exage-
rada pressão familiar e da sociedade. Para a família, está 
implícito que ela será heterossexual. Isso não acontece 
com o homem. Desde o seu nascimento, a sociedade 
procura "empurrá-lo" para a heterossexualidade. 
Da mulher não se exige isso. Ela não é obrigada a 
ser feminina, principalmente hoje. quando os controles 
sociais estão perdendo sua força. Sua educação é repres-
173 
siva, no aspecto da sexualidade, mas não direcionada, 
como ocorre com os homens. 
As transexuaisfemininas são muito pouco conheci-
das e quase não são estudadas. Seu trajeto, em relação 
aos transexuais masculinos, é o mesmo. Aquelas consi-
deradas primárias SENTEM-SE, desde a infãncia, como 
meninos, embora sejam meninas. 
Essa sensação as acompanha na adolescência, ida-
de adulta e velhice. O comportamento masculino, para 
elas, "vem de dentro", e não é uma imitação, pois a sua 
identidade de gênero é masculina. Comportando-se e 
sentindo-se como homem, sua atração afetiva e sexual 
muitas vezes é por outras mulheres. No entanto, não são 
lésbicas. Também nesse caso existem as transexuais 
secWldárias, que só revelam a sua verdadeira identidade 
de gênero masculina bem mais tarde, na idade adulta. 
Nesse ponto há uma grande área cinzenta, dificil de 
definir. Somente a própria pessoa poderá garantir o que 
vai verdadeiramente dentro de si. Como os transexuais 
masculinos, as transexuais rejeitam o corpo fisico e 
principalmente os órgãos sexuais. Elas se sentem ho-
mens com corpo de mulher, o que não acontece com as 
lésbicas e as travestis. 
Para procurar entender, ainda que parcialmente, o 
sentimento das transexuais femininas, vamos repetir o 
exercício do capítulo anterior, o que talvez agora seja 
ainda mais dificil. 
Você é um homem. Firme, às vezes até um pouco 
agressivo, com grande disposição e vontade de competir, 
no trabalho e nos esportes. Conheceu um bela mulher, 
muito sensual, que o atraiu muito. Tanto que chegou a 
sonhar que fazia amor com ela, acariciando e penetran-
do seu corpo. 
Você gosta de seu carro, entende um pouco de 
mecânica, vai aos estádios de futebol, discute política e 
adora conversar com os amigos. Às vezes você até conta 
algumas vantagens. Vamos, seja sincero, confesse! To-
dos nós fazemos isso. 
174 
Vá para o seu quarto, apague a luz, e fique de costas 
para um grande espelho. Agora retire a camisa, a calça, 
a cueca, fique nu. Vire-se lentamente. Olhe para a sua 
imagem no espelho. Que corpo arredondado é esse? E 
esses seios, para que servem? E essa "coisa" aí abaixo 
do umbigo? 
Simplesmente você não é você. 
Sentimento semelhante têm as trwisexuaisfemininas. 
Como os transexuais masculinos, as femininas de-
sejam adequar o seu corpo biológico a sua identidade de 
gênero. Mas nem todas fazem ou podem fazer isso, por 
inúmeras razões. Seja porque é comum que determina-
das mulheres, mesmo as heterossexuais, não possuam 
caracteres sexuais secundários exuberantes, seja por-
que a própria operação de transformação é mais compli-
cada para as transexuais femininas, principalmente em 
nosso país, e também porque não têm informação e nem 
dinheiro. 
É possível que transexuais femininas estejam em 
nosso meio vivendo corno "mulheres heterossexuais" 
conflituosas. solteironas, religiosas, travestis ou lésbi-
cas "mal-resolvidas". Aquelas que corajosamente par-
tem para a mudança de sexo encontram barreiras quase 
intransponíveis. 
A cirurgia para transformar uma mulher num ho-
mem de certa forma deixa a desejar, e o resultado nem 
sempre é satisfatório. A grande dificuldade aqui está no 
fato de que não se trata de remover um órgão, abrir um 
canal, mas sim defechar um canal e implantar um 
"pênis artificial". Além disso, urna equipe de cirurgiões 
precisa remover todos os órgãos femininos internos, 
corno útero, ovário e trompas. 
175 
Para construir a bolsa escrotal é utilizada a pele dos 
grandes lábios, e pequenas bolas de silicone, os testícu-
los, são colocados nessa bolsa. Para construir um pênis, 
ou mais precisamente um neopênis, é utilizada a pele 
do abdômen. Essa pele vai revestir uma prótese em 
forma de haste flexível. No entanto, esse órgão não tem 
sensibilidade erótica. O clitóris pode ser preservado 
como forma de garantir algum prazer durante a relação 
sexual. 
Além de toda essa dificuldade, o neopênis não tem 
a ereção comum aos homens. As mulheres transexuais 
operadas não obtêm o mesmo resultado estético e fun-
cional que conseguem os transexuais masculinos. Ainda 
assim, costumam se confessar mentalmente felizes. O 
prazer sexual não vem da região genital, mas de todo o 
corpo e principalmente do psiquismo. 
As transexuais femininas, assim corno os masculi-
nos, quando se decidem pela operação, na realidade não 
estão preocupadas exclusivamente com o prazer erótico 
genital. O que elas buscam é retirar e implantar em seus 
corpos algo que sobra e algo que falta. O principal 
conflito está entre o seu gênero biológico e sua identida-
de de gênero. 
Elas querem completar, com a operação, o desenho 
do próprio corpo que têm na cabeça. O funcionamento 
satisfatório ou pouco satisfatório do novo órgão é urna 
questão quase secundária. 
Nem todas as transexuaisfemininas fazem a opera-
ção completa, permanecendo com a sua genitália origi-
nal. Em depoimento à revista Manchete, em 1990, a 
transexual Mariângela F. D. contou como foi a sua 
cirurgia para mudança de sexo, realizada na Holanda. 
Ela retirou os seios, por meio de uma rnastectomia, 
e os órgãos sexuais internos, útero, trompas e ovários. 
Porém, não fez implantação do pênis, conservando a 
vulva e a vagina. "Eu não teria um real prazer sexual 
com a prótese", disse ela. 
176 
Também como no caso dos transexuais masculinos, 
devem as transexuais passar por um completo acompa-
nhamento médico e psicológico antes de chegar à cirur-
gia. Esse estudo detalhado deverá incorporar à equipe, 
além de outros profissionais, um ginecologista e um 
assistente social. A psicoterapia é fundamental para 
confirmar o diagnóstico e para que essa pessoa tenha 
uma noção exata das dificuldades que certamente terá 
de enfrentar. 
Mariângela, agora Mário, tirou documentos falsos 
para poder viver socialmente. "Como eu iria, por exem-
plo, abrir uma conta bancária?" Casado com uma pro-
fessora de ginástica aeróbica, Mário luta para conseguir 
legalizar seus documentos. 
Joana não existe e João também não. Os dois nomes 
são falsos e não se conhece a verdadeira identidade da 
pessoa que prefere se identificar como João Nery. Autor 
de um importante livro, Erro de Pessoa. Joana ou João, 
publicado pela Editora Record, infelizmente hoje esgota-
do, Nery conta sobre a sua vida e a sua transformação. 
O livro foi prefaciado pelo filólogo Antônio Houaiss, 
um dos intelectuais mais importantes do Brasil. que 
reconhece em Nery não só a coragem e a sinceridade 
para abordar um tema tão delicado, mas também seu 
talento como escritor. 
Nery mora hoje em algum ponto do Rio de Janeiro, 
não se deixa fotografar nem filmar e raramente dá 
entrevistas. Ele prefere ficar no anonimato de seu nome 
falso. Sua infância e sua adolescência foram como as de 
tantos outros transexuais. 
Na sua autobiografia, Nery usa para si o nome de 
Joana, no período que vai do nascimento ao momento 
da operação, realizada clandestinamente no Rio de Ja-
neiro em 1977. 
177 
Acompanhe alguns trechos do livro, escolhidos pelo 
jornal Folha de S. Paulo, que em março de 1994 conse-
guiu entrevistar João Neiy, num excelente trabalho de 
reportagem dos jornalistas Daniel Castro e Ricardo Bo-
nalume Neto. 
Joana, aos seis anos. 
"Adorava brincadeiras de menino e era comba-
tido. Jogava bolas de gude na pracinha. Uma vez, 
passeava com mamãe e alguém gritou: Maria ho-
mem. Maria homem". 
Joana aos oito anos. 
"Não gostava de presentes de menina. Quando 
fiz oito anos, na hora de apagar as velinhas, como 
em muitos outros aniversários, concentrei-me no 
mesmo pedido: quero ser um MENINO como os 
outros!" 
Joana aos quinze anos. 
"Tento ser mulher. Ganhava estojos de som-
bras, batom. sapato alto. vestidos, o diabo!" 
Joana aos dezesseis anos. 
"Arrumaram um namorado para mim Estáva-
mos conversando num banco de praça, quando, 
inesperadamente, ele parou de falar, ficou sério e 
engoliu a minha boca. Que sensação horrível!" 
Joana (?) aos 22 anos. 
"Virei taxista. Andar vestido de homem na rua 
fazia com que eu me sentisse muito bem O desagra-
dável era parecer um garotão imberbe, com voz de 
taquara rachada." 
João (?) aos 27 anos. 
"Queria me submeter a uma operação, mas 
cirurgias desse tipo não eramfeitas aqui, por serem 
ilegais. Sentia-me perdido. Foi quando recebi um 
telefonema de uma amiga psicóloga que se especia-
lizou em Sexologia na Bélgica ... " 
Na época em que se operou, Nery era psicóloga, 
fazia pós-graduação e dava aulas em cursos supe-
riores no Rio. Tinha 27 anos. 
Num depoimento emocionado, em 1985, à Rede 
Manchete de Televisão, sem mostrar seu rosto, no mes-
mo programa que entrevistou o transexual Nilson Fal-
cão, hoje Joana, Nery falou de sua vida à repórter 
Solange Bastos. 
Após a operação não lhe restou outra saída a não 
ser abandonar tudo. Ele confessou que nunca conhecera 
uma outra transexual e não tinha a quem contar seu 
drama, de forma que pudesse ser entendido, não inte-
lectualmente, mas vivencialmente. 
Nery abandonou a família, os amigos, a pós-gradua-
ção, os documentos e o próprio nome. Conseguiu 
documentos falsos, os quais não revela, mas perdeu todo 
o seu currículo acadêmico, conquistado durante anos 
de estudo. Para sobreviver foi pintor de paredes, chofer 
de tàxi e até lavrador. Na época desse depoimento na 1V, 
estava desempregado. 
Em 1994, localizado pela reportagem da Folha, era 
outro homem. Empresário do ramo de confecções, com 
43 anos, casou-se três vezes, a penúltima oficialmente. 
Desse casamento teve um filho, a partir de uma insemi-
nação artificial feita em sua mulher. "Sempre quis ser 
pai. Minha mulher engravidou e eu acompanhei o pré-
natal", conta Nery na reportagem. Aos 37 anos, assistiu 
ao parto da esposa, por cesariana, e foi o primeiro a pegar 
o bebê, um menino. 
Tempos depois, esse casamento se desfez, e Nery já 
estava constituindo nova familia. 
Conheci pessoalmente João Nery num seminário 
em São Paulo, realizado para discutir homossexualidade 
feminina. Durante o intervalo, nos apresentamos e con-
versamos um pouco no corredor do centro de conven-
ções. Apesar de toda a minha experiência como 
psicoterapeuta, se ele não dissesse quem era, eu não 
imaginaria que aquele homem havia sido uma mulher. 
179 
A sociedade tem, ao mesmo tempo que rejeita, um 
verdadeiro fascínio por homens travestidos e transe-
xuais que chegam ao ponto de mudar de sexo. São 
verdadeiros sucessos na mídia e no mundo artístico. 
Tornam-se belas modelos de altos cachês e nunca recu-
sam ser entrevistadas ou fotografadas. 
Essa realidade deveria interessar aos sociólogos e 
aos antropólogos, pois a situação é completamente in-
versa com as mulheres que se comportam como homens, 
no caso das travestis, ou das que mudam o seu sexo, 
como as transexuais. Não se tem notícia de que qualquer 
uma dessas pessoas tenha conseguido elevar seu status 
ao assumir essa forma de sexualidade. 
Na verdade, ocorre o contrário. Elas se ocultam, se 
escondem, como pudemos perceber pela vida de João 
Nery, que não sabemos exatamente quem é nem onde 
está,embora tenha se revelado excelente escritor. 
É evidente que, numa sociedade machista como a 
nossa, o preconceito e a discriminação têm graus dife-
rentes. A atrasada legislação brasileira, que não permite 
uma óbvia e necessária correção de documentos, certa-
mente constrange Roberta Close. Mas ela é uma modelo 
internacional, muito bela, e isso contorna as coisas. 
Mas e o caso de Nery? Como abrir uma conta 
bancária com uma carteira de identidade feminina? 
Como obter habilitação para dirigir? Como fazer um 
registro num hotel com a esposa? 
O atraso e o primarismo de nossos legisladores e 
governantes fez com que uma pessoa extremamente 
inteligente e útil à sociedade, como João Nery, perdesse 
tudo, até mesmo sua vida acadêmica. 
De pós-graduando em Psicologia, voltou, oficial-
mente, à condição legal de analfabeto e teve que começar 
180 
do zero, com documentos falsos. Isso exigiu, numa 
verdadeira demonstração de absurdo, que ele cursasse 
o Supletivo Noturno, para poder "recuperar" parte de 
sua escolaridade. 
Perguntado na 1V se todo seu esforço tinha valido 
a pena, ele respondeu com voz pausada e grave que sim. 
Mas pagou um preço alto demais. 
Nery se considera ateu e afirma que acredita no 
homem. Para ele, era vital encontrar-se e reencontrar-se 
consigo mesmo. E, seguindo esse caminho. enfrenta-se 
qualquer sacrificio, mesmo aqueles que não conhecem 
limites. 
E enquanto um homem desse quilate luta sozinho 
contra tudo e contra todos, a sociedade liga o ar refrige-
rado, acomoda-se no sofá e pede ao copeiro um suco de 
laranja. Com açúcar. 
11 
() LIMITt U() LIMITt 
() homem existe na Terra há milhares de anos. Os 
registros mais precisos sobre quem eram e como viviam 
os seres humanos, porém, datam apenas dos anos 700 
ou 800 a.C., a partir das obras da civilização grega que 
chegaram intactas até o nosso tempo. 
A Antropologia e a Arqueologia têm recuado bem 
mais. Entretanto, o que essas ciências nos trazem são 
apenas indícios humanos, como ferramentas e utensí-
lios utilizados, que permitem supor as atividades das 
civilizações antigas. 
Essas civilizações antigas deixaram muitas inscri-
ções, em monumentos ou túmulos. Esse material ape-
nas em parte foi decifrado e nos casos em que isso 
aconteceu o resultado foram textos religiosos, políticos 
ou normas sobre direitos e deveres. O dia-a-dia domés-
tico, as preocupações, a forma de amar, os preconceitos, 
tudo isso continua oculto no túnel do tempo. 
Os seres vivos da natureza, que compõem o reino 
vegetal e animal, e os próprios seres humanos, desde 
sempre, podem nascer normais, de acordo com o padrão 
geral de sua espécie, ou com defeitos. Isso pode ser 
183 
facilmente verificado entre os vegetais. Algumas plantas 
dão belas flores, outras, da mesma espécie são mirradas. 
Quem nunca viu uma banana popularmente chamada 
incõe ou filipe, que consiste em duas frutas gêmeas, uma 
grudada na outra? Entre os animais acontece a mesma 
coisa. Quem cria gado sabe que quase todos os bezerros 
nascem normais mas alguns têm algum defeito de nas-
cença. Nenhuma espécie animal está a salvo desse "erro" 
da natureza. Alguns pintinhos saem do ovo com defeito 
nas asas, com dedo a mais, cegos. 
Considerar isso uma falha da natureza é uma ques-
tão de ponto de vista, de concepção. É imaginar que os 
fenômenos naturais são uma perfeita equação matemá-
tica, e que sempre se comportam da mesma maneira. É 
como se um plano preestabelecido tivesse que dar sem-
pre o mesmo resultado. 
Essa questão fica para os filósofos, mas a Ciência 
já conhece em profundidade que tudo no universo é 
composto por átomos, moléculas e um permanente jogo 
de forças variadas e de intensidade variável. Se há uma 
lógica por trás de tudo isso, certamente ela não pode ser 
simplificada a uma soma de 1 + 1 sempre igual a 2. 
Os seres humanos não estão fora dessa regra geral. 
Todas as pessoas, com exceção de um pequeno grupo, 
nascem com seus corpos biológicos normais. Mas alguns 
não estão livres de nascer com defeitos, que podem ser 
herdados dos pais ou não. 
Esses defeitos podem ser internos e comprometer o 
funcionamento dos órgãos que compõem o corpo huma-
no, ou não alterar absolutamente em nada a vida da 
pessoa. Um coração com um defeito numa válvula pode 
perturbar a circulação sangüínea. Isso se constitui num 
problema. No entanto, uma pessoa pode nascer com o 
coração do lado direito do peito e passar a vida toda sem 
se dar conta disso. 
Uma situação rara, mas que pode acontecer, é uma 
pessoa nascer com todos os órgãos de seu corpo em 
posição invertida. O coração, nesse caso, fica do lado 
184 
direito, o figado do lado esquerdo, o baço do lado direito 
e o apêndice do lado esquerdo e assim por diante. 
Como esse, as pessoas podem nascer com um sem-
número de outros defeitos, prejudiciais ou não a sua 
saúde fisica e mental. São os daltônicos, que confundem 
as cores, os lábio-leporinos, as pessoas com dedos a 
mais ou a menos, com falta de determinados dentes e 
tantas outras anomalias congênitas. 
Você se lembra do primeiro capítulo deste livro? 
Naquele ponto, ficou claro que durante a vida intra-
uterina todos nós passamos por quatro encruzilhadas 
decisivas. Como você se recorda, a base de todos os 
caracteres de nosso corpo fisico estão contidos nos 23 
pares de cromossomos. 
Muitos dos defeitos congênitos anteriormente citados 
estão direta ou indiretamente vinculados a problemas nos 
cromossomos. E um desses defeitos, que nos interessa 
diretamente, está relacionado com o par de cromossomos 
responsável pela nossa configuração sexual. 
No ato da fecundação, apenas para relembrar, o 
óvulo da mulher carrega um único cromossomo x en-
quanto o espermatozóide do homem pode trazer um 
cromossomo x ou y. A combinação desses dois cromos-
somos vai definir o sexo do futuro ser humano. Se o par 
formado for xx, nascerá uma menina. Se, por outro lado, 
o par for xy, nascerá um menino. 
No entanto, como os demais cromossomos, esses 
podem não ser perfeitos, ou se combinar de maneira 
anormal. Essa possibilidade existe e, se ocorrer, poderá 
nascer um ser humano com o seu órgão genital dúbio, 
em que os dois sexos, macho e fêmea, estão fundidos. 
Nascer com uma anormalidade nos órgãos sexuais 
internos e principalmente nos externos é uma questão 
muito séria. Pelo menos para nós onde tudo o que se 
185 
refere a sexo é problemático. Talvez isso não seja um 
problema para os índios. Eles lidam com a genitália de 
outra forma, não precisam de quatro paredes para fazer 
amor e, afinal, vivem nus. 
Para nós, a genitália desnuda é proibida. Isso é tão 
forte, que o Gênesis, da Bíblia. descreve com detalhes a 
vergonha que sentiram Adão e Eva no Paraíso, quando 
se perceberam nus. E, pelo que se sabe, não só eram 
companheiros mas foram formados do mesmo corpo! 
Andamos vestidos e apenas em raros momentos e 
em determinados lugares podemos aparecer sem a 
maior parte de nossas roupas. Mesmo nas praias mais 
liberais, o máximo que podemos observar é uma mulher 
praticando top-less. 
No carnaval. outro momento "liberado", a genitália 
feminina desnuda é muito bem camuflada com enfeites 
e pintura. Quanto aos homens, nem pensar. Seus pênis 
não podem ser mostrados. São imediatamente enqua-
drados no Código Penal por atentado violento ao pudor. 
Não vamos falar dos campos de nudismo porque são 
lugares isolados para uns poucos privilegiados. 
Genitália não quer dizer somente sexo. A genitália 
é uma parte do corpo que determina o sexo biológico, 
mas é onde está a uretra por onde escoa a urina e o canal 
de entrada, nas mulheres, para o pênis, e de saída para 
a menstruação e o parto. Finalmente, é a principal fonte 
de prazer no momento de se fazer amor. 
Ul:~VI() lllllA l:lllllCl?UZlliAUA 
Os estudos sobre sexualidadesão relativamente 
recentes e até bem pouco tempo a Medicina não tinha 
condições de resolver o problema de uma criança que 
porventura tivesse nascido com a sua genitália defeituo-
sa. As cirurgias para correção do aparelho genital só 
começaram a ser desenvolvidas na década de 60. 
186 
Qual a razão desse tipo de defeito? Como já vimos, 
esse problema surge durante a vida intra-uterina. Cro-
mossomos defeituosos, envio de mensagens genéticas 
incorretas para a formação de ovários ou testículos, 
desequilíbrio na dosagem de hormônios sexuais podem 
ser a causa de defeitos congênitos nos órgãos sexuais 
internos ou externos. 
A má-formação do órgão sexual externo de uma 
criança é percebida quase sempre, por leigos ou por 
médicos. No entanto, se o defeito afetou apenas os 
órgãos internos, as conseqüências só vão se tornar 
visíveis na adolescência, através dos caracteres se-
xuais secundários. 
A Medicina registra uma variedade muito grande 
de anomalias relacionadas ao sexo biológico. Essas 
alterações poderão ocorrer em qualquer uma daque-
las quatro encruzilhadas. Uma perturbação durante 
a segunda encruzilhada, quando estão sendo forma-
das as gônadas (ovários e testículos). pode determi-
nar para a futura pessoa uma genitália interna ou 
externa ambígua. 
O fato de uma criança nascer com uma genitália 
defeituosa não quer dizer que ela é hermafrodita. Os 
tipos de defeitos são tão variados em sua forma e 
extensão que seria necessário fazer uma abordagem 
especifica. Somente um profissional de reconhecida 
competência poderá diagnosticar o problema corre-
tamente. 
Entre os defeitos congênitos mais comuns estão a 
ausência de bolsa escrotal e pênis reduzido em meninos, 
canal de uretra fora de lugar, meninas com útero atro-
fiado e clitóris anormal, meninos com orificio abaixo da 
região do pênis, ausência de testículos, e tantos outros. 
Essas crianças que apresentam tais anomalias são con-
sideradas intersexos. 
187 
O Monte Olimpo, na mitologia da antiga Grécia, era 
habitado por deuses como Zeus, Palas Atena, Apolo, 
Afrodite e tantos outros. Entre eles vivia Hermes, a 
divindidade com asas nos pés, mensageiro dos deuses e 
patrono da música. A bela Afrodite, deusa do amor, 
deixou apaixonados deuses e mortais, dentre os quais 
não escapou nem mesmo o esperto Hermes. 
Da união de Hermes com Afrodite nasceu um filho, 
chamado Hermafrodito, da fusão dos nomes de seus 
pais, que provavelmente resolveram se auto-homena-
gear. Contam os cronistas gregos que esse menino foi 
criado pelas ninfas e levou uma vida selvagem, crescen-
do na floresta. 
Um dia, jovem e bonito, com 15 anos, mergulhou 
na água de uma fonte cuidada pela ninfa Sálmacis, que 
imediatamente apaixonou-se por ele. Infelizmente, Her-
mafrodito não levou a ninfa muito a sério e a repeliu. A 
ninfa, inconformada, abraçou-o muito fortemente e cla-
mou aos deuses que nunca mais a deixassem separar-se 
do amado. Como Hermafrodito tinha recebido ordens de 
seus pais para não se meter em encrencas, o Olimpo 
atendeu. Os dois corpos se fundiram num só e Herma-
frodito tornou-se homem e mulher no mesmo ser. 
Algumas versões dizem que era ele o apaixonado, 
mas isso não muda muito o resultado da história. O 
termo hermafrodita, por causa desse mito, passou a 
designar os seres que nascem com os dois sexos bioló-
gicos fundidos numa só pessoa. A idade do rapaz, na 
lenda, é muito significativa, 15 anos, justamente o pe-
ríodo da adolescência, em que os hormônios estão "ex-
plodindo" e no qual a sexualidade se revela. 
Extremamente raros, seriam no máximo 500 em 
todo o mundo, o hermafrodita verdadeiro é o décimo 
primeiro sexo deste livro. Também nesse caso. as varia-
ções são muitas, e por isso decidimos escolher um tipo-
padrão, apenas para facilitar a compreensão do assunto. 
188 
O hermafrodita não é uma junção perfeita de dois 
seres completos. Ao contrário do que se pensa, essas pes-
soas não possuem os dois sexos normais ao mesmo tempo 
e, é evidente, não tem qualquer cabimento, nem mesmo 
na teoria, a idéia de que poderiam se auto-fecundar. 
Seu pênis é de tamanho pequeno, nunca como o de 
um homem adulto, têm uma bolsa escrotal pela metade 
e uma vulva e uma vagina rudimentares. Os traços de 
seu rosto são femininos, não há sinal de barba e os seios 
são os de uma mulher. A pele é sedosa mas os ombros 
são um pouco mais largos que os quadris. 
Apesar de possuir um pênis reduzido, o hermafrodi-
ta ejacula. Durante a ejaculação o líquido seminal rara-
mente contém espermatozóides. Num determinado 
período de cada mês, a vagina expele algumas gotas de 
sangue, constituindo-se numa precária menstruação. 
Internamente o hermafrodita tem conjuntamente 
ovário e testículo, ambos mal-formados e com funciona-
mento comprometido. É evidente que estamos falando 
de um hermafrodita adulto, não tratado e nem operado. 
IUl:""'TIUAUI: Vl:l/UIUA 
E como fica a identidade genital de um hermafrodita? 
Como já vimos anteriomente, identidade genital é a 
consciência que se tem da existência, em seu corpo, de 
um órgão genital masculino ou feminino. Os homens, 
sejam hetero, homo ou bissexuais SABEM que têm pênis 
e bolsa escrotal. As mulheres, todas, que têm vulva, 
vagina e clitóris. Os transexuais também sabem, mas 
não aceitam. 
No hermafrodita, a sua identidade genital se forma 
não a partir da observação, manipulação e consciência 
de seus órgãos sexuais, mas sim pela maneira como 
foi criado. Caso a parte mais evidente de seu sexo seja 
masculina, provavelmente seus pais o criarão como 
menino. 
189 
Essa forma de educação o levará a se sentir como 
pertencendo ao gênero masculino, embora muito dife-
rente dos demais rapazes. Já afirmamos diversas vezes 
que a construção da identidade de gênero ainda não é 
totalmente conhecida e depende também da educação. 
Isso vale para todos os sexos, incluindo o hermafrodita. 
Dependendo de como for criado, ele se sentirá ho-
mem ou se sentirá mulher. Uma revista erótica brasilei-
ra, a Internacional, publica de tempos em tempos, as 
fotos do hermafrodita de Boston. Não há texto e nem 
maiores explicações, mas pela pose sensual pode-se 
inferir que esse hermafrodita, com toda a sua nudez, 
sente-se uma mulher, apenas um pouco diferente. 
No que diz respeito ao seu papel de gênero, ou seja, 
o seu comportamento no dia-a-dia, o hermafrodita pode 
ser absolutamente normal, tanto agindo como homem 
ou como mulher, dependendo de como foi criado. Esse 
papel é social, pode ser aprendido pela observação e pelo 
treinamento, até se tornar espontâneo. 
Como o hermafrodita possui os dois sexos, seria 
normal imaginar que sua orientação afetiva fosse bisse-
xual. Ele deveria procurar homens e mulheres para se 
completar afetiva e sexualmente, mas nem sempre. 
Desse ponto de vista, digamos que um hermafrodita 
tenha sido criado e educado como menino. A sua orien-
tação afetivo-sexual poderá levá-lo a ser predominante-
mente heteressexual, homossexual ou bissexual. 
Estamos falando de uma pessoa escolhida como 
padrão. Na verdade, o comportamento e a maneira de se 
sentir é muito variável entre essas pessoas, ainda que 
representem uma parcela ínfima da população mundial. 
Que providências devem ser tomadas para que 
essas pessoas cheguem à idade adulta de forma a mais 
equilibrada possível? 
190 
As pesquisas e os estudos que temos realizado ao 
longos dos últimos dez anos anos confirmam a teoria 
sobre a identidade de gênero, como indicam todos os 
trabalhos científicos consultados nas áreas da Medicina 
e da Psicologia. 
Assim, podemos afirmar que a decisão sobre o 
encaminhamento do papel de gênero, ou seja, o compor-
tamento social, e sobre a identidade de gênero, que é a 
nossa identidade interna, a sensação que temos sobre 
quem somos quanto à sexualidade, no caso doshenna-
jroditas deve ser feita até os 2 anos de idade. 
No caso de uma criança que nasça com os órgãos 
sexuais alterados, seja um hennafrodita verdadeiro ou 
outros casos de intersexo, o melhor é que não se faça o 
seu registro civil até que se decida a qual gênero ela vai 
pertencer. 
Por que isso? Porque ela deve passar por exames 
complexos e demorados, até que se decida o seu sexo 
biológico. Esses exames precisam ser feitos por profis-
sionais especializados. 
Um erro de registro, feito apressadamente. pode 
representar um grande transtorno para essa pessoa 
que não teve qualquer culpa de ter nascido com um 
defeito sexual. Esse período de tempo também é im-
portante, na medida em que até os 2 anos de idade a 
criança está nos primeiros passos da formação de sua 
identidade de gênero. 
No limite, caso a família não possa ou não consiga 
amparo legal para adiar o registro civil, o nome escolhido 
deverá ser unisex, como é tão comum entre nós. Como 
exemplos desses nomes, que tanto são dados a homens 
quanto a mulheres estão Darci, Jaci, Juraci e outros. 
Outra orientação, nesse caso, é a colocação de 
nomes que possam passar do masculino para o feminino 
e vice-versa, sem problemas para a pessoa, como de 
Cláudio, para Cláudia, Sílvia para Sílvio. Essa observa-
ção é importante porque a Justiça brasileira, em casos 
191 
absolutamente comprovados pela Medicina de pessoas 
intersexos devidamente tratadas, autoriza a mudança 
de documentos, diferentemente do que faz com os 
transexuais. 
Não se pode esquecer, no entanto, que esse trata-
mento leva tempo e que o processo legal outro tanto. De 
tal forma que os novos documentos poderão sair quando 
essa criança estiver já na primeira infância ou, em casos 
de tratamento tardio, na adolescência. E como se adap-
tará ao nome se, descoberto masculino, foi registrado 
como Cintia? 
As crianças com defeitos congênitos nos seus ór-
gãos sexuais devem ser levadas para tratamento, prio-
ritariamente, aos hospitais de bom nível vinculados a 
escolas de Medicina. Nesses locais estão disponíveis 
médicos especialistas, permanentemente reciclados em 
cursos ou seminários. 
No caso das crianças normais, não há decisão a 
tomar sobre sua vida, pois seu desenvolvimento é natu-
ral. Para os hermafroditas e os intersexos, a direção de 
vida tem de ser tomada pelos pais e por profissionais de 
extrema competência. 
Essa é uma decisão muito séria, que não deve ser 
apressada e da qual deve participar, além da família, 
obrigatoriamente, uma equipe de profissionais. Não 
existe a possibilidade de um ser humano crescer men-
talmente saudável com uma identidade hermafrodita 
ou dúbia. Independentemente de sua situação sexual, 
ele precisa viver como um ser masculino ou como um 
ser feminino. 
O pediatra que vai atender essa criança precisa ter 
profundos conhecimentos de endocrinologia. Devem par-
ticipar do tratamento um urologista, um ginecologista, um 
cirurgião plástico, um especialista em genética, um psicó-
logo ou um psiquiatra e também um assistente social. 
Essa equipe multidisciplinar terá de estudar em 
profundidade toda a conformação fisica, genética e psi-
cológica da criança, bem como fazer uma avaliação de 
192 
seus pais, que precisam ter auxílio médico, psicológico 
e social para enfrentar o problema. Somente após esse 
estudo é que se poderá concluir sobre o verdadeiro sexo 
ou o sexo predominante da criança e tomar as devidas 
providências médicas. Num tratamento como esse, a 
margem de erro médico deve ser zero. 
Como nos casos dos transexuais, a cirurgia plástica 
para a correção do órgão sexual para ser fêmea ou 
menina é menos complicada, mas também é possível 
para ser macho ou menino. Somente após isso é que a 
criança deveria ser registrada. 
A postura dos pais é muito importante. Após o 
tratamento especializado que descrevemos, a criança 
poderá crescer normalmente, desde que a família não 
transforme a situação causada por um defeito congênito 
numa história sem fim. A naturalidade e a espontanei-
dade são o melhor caminho. 
Seria bom que as pessoas não encarassem os seus 
órgãos sexuais como "coisa do outro mundo", como 
peças que devem ser sacralizadas ou condenadas. A 
genitália, como vimos, não serve só para fazer amor. Tal 
como a boca que, utilizada para alimentar, beija com 
prazer. 
Se uma criança que nasce com seis dedos se opera 
e cresce normal, por que não uma criança com defeitos 
corrigidos nos seus órgãos sexuais internos e externos? 
O que estamos afirmando, no que diz respeito aos 
hermafroditas, é tão verdadeiro que alguns deles, depois 
de competente tratamento e operados, se tornaram mu-
lheres adultas completas, engravidaram e pariram uma 
criança! Onde está o problema? 
Voltamos a insistir que a correção desse problema 
deve ser feita precocemente, antes dos 2 anos. Após 
esse período, a criança, de uma forma ou de outra, já 
adquiriu uma identidade de gênero e qualquer cirurgia 
futura, que seja contrária a essa identidade, feita por 
médicos desavisados, poderá trazer grandes proble-
mas para essa pessoa. 
193 
Como se vê, a questão mais séria não está em nascer 
com um defeito congênito nos órgãos sexuais. mas na 
forma como o caso é tratado e na ineficiência dos siste-
mas de saúde, principamente no Brasil. Não necessaria-
mente, mas nós médicos também somos muito 
mal-informados sobre sexualidade. Estamos na mesma 
sociedade. 
Quando um hospital recebe uma criança com mais 
de 3 anos, e ainda com a genitália ambígua, talvez fosse 
mais prudente esperar chegar a adolescência para ver o 
caminho que sua identidade sexual vai tomar, dentro de 
si mesma. Um erro médico, num caso como esse, não 
tem conserto, é irreversível. 
Como estamos vendo, não se trata apenas de 
adaptar o corpo. É preciso levar em conta o que se 
passa dentro do ser humano, a sensação que ele tem 
de si mesmo. 
O pequeno número de hermafroditas verdadeiros 
adultos, existentes no mundo, são pessoas que não 
puderam, ou a família não permitiu, se operar. De 
qualquer forma, internamente, sentem-se homens ou 
sentem-se mulheres. É possível SER hermafrodita. mas 
não SENTIR-SE hermafrodita, a partir de sua configura-
ção sexual. 
Daí o risco de um tratamento inadequado. Imagine 
um hermafrodita criança, que já se sente internamente 
como homem, mas não tem consciência para externar 
essa sensação. Possui um pequeno pênis e uma vagina 
rudimentar. 
Seus pais o encaminham para tratamento e, como 
é mais fácil transformar um homem em mulher, a equipe 
médica desavisada decide transformá-lo numa menina. 
Na adolescência, salta de dentro da agora menina "um 
rapaz". mas com corpo de mulher. Ele sentirá então que 
o que fizeram com ele foi uma "castração". 
194 
ALÍ:M ()() LIMITI: ()() LIMITI: 
Chegamos ao limite do limite. 
Na verdade, um falso limite, como se os hennafrodi-
tas fossem verdadeiras monstrnosidades da natureza, 
motivo de curiosidade nos circos de lona ou eletrônicos, 
como a 1V. 
Você se lembra da banana gêmea que mencionamos 
no início desse capítulo? Por causa de seu defeito ela 
deixou de ser uma banana? 
Chegamos ao limite do limite porque a "alma" de 
grande parte dos seres humanos, ainda muito primitiva, 
não consegue sequer atravessar a pequena parede de 
seu próprio corpo. 
Acompanhamos, em julho de 1994, pela 1V e via 
satélite, o bombardeio sofrido pelo planeta Júpiter por 
pedaços de um cometa desgarrado. E nossas pequenas 
naves já estão viajando pelo cosmos, para longe do 
sistema solar. 
No entanto, ao despir o seu uniforme tecnológico, e 
até mesmo com ele, o homem ainda se estranha ao ver 
sua imagem refletida no espelho, real ou da própria 
mente. 
Poucos tiveram a coragem de fazer a mais fantástica 
e necessária das viagens. 
Não rumo às estrelas. Mas para dentrode si mesmos. 
Á VÃ.VT~ V~L() T()[)() 
t= oram necessários mais de dez anos de estudos, a 
observação constante da vida ao vivo e pelos meios de 
comunicação, além de minha experiência como psicote-
raupeta, para agrupar os diversos modos de ser das 
pessoas em relação a sua sexualidade. Nesses estudos, 
levei em conta o corpo com o qual se nasce, as mudanças 
psicológicas ao longo da vida e as condições sociais nas 
quais estamos imersos. 
Observei os avanços da Medicina em relação ao 
funcionamento e as transformações que ela é capaz de 
produzir no corpo humano e embasei a identidade se-
xual nas sensações internas que ocorrem em termos do 
psiquismo, subdividindo-a em identidade genital, iden-
tidade de gênero e orientação afetivo-sexual. Avaliei as 
manifestações dos papéis relativos ao gênero e do papel 
afetivo-sexual das pessoas. 
Minha conclusão é a de que existem "11" sexos. 
Propositalmente, não os rotulei como tipos ou catego-
rias. Se analisarmos a escala biológica, as escalas de 
gênero e as escalas afetivo-sexuais, veremos que os seres 
humanos não são estanques, estão em constante trans-
formação, num vai-e-vem permanente. 
199 
Os estudos de Alfred Kinsey 1 são pionein?s, mas 
sua abordagem cobre apenas a vertente do papel 
sexual. Eu proponho uma leitura onde o aspecto dessa 
parte da sexualidade e a relação afetivo-sexual entre 
as pessoas não estejam obrigatoriamente vinculados. 
Existem inúmeras possibilidades de combinação entre 
as necessidades psíquicas, biológicas e sociais do ser 
humano. As necessidades e as possibilidades das re-
lações de gênero são diferentes daquelas que envolvem 
as relações afetivo-sexuais. 
Diante disso, concluímos que "ll" sexos são "depar-
tamentos" muito estanques e muito limitados para 
abranger a grandiosidade da sexualidade humana. Só 
como exemplo, posso afirmar, numa possibilidade de 
combinação, conforme as escalas do final deste livro, que 
a maioria dos homens são homens machos, masculinos, 
heterossexuais. As mulheres são fêmeas, femininas e 
heterossexuais. 
No entanto, uma gama de homens são afeminados, 
feminis, ou femininos, mas continuam sendo machos e 
heterossexuais. Ou podem também ser homo ou bisse-
xuais. Encontramos outra gama de mulheres que são 
fêmeas masculinizadas, masculinas, ou viris e que po-
dem ser heterossexuais, homo ou bissexuais. 
Da mesma forma, existem travestis, com o corpo 
masculino, que ainda não incorporaram neles próprios 
caracteristicas sexuais secundárias do corpo feminino. 
1. Alfred Kinsey: Zoólogo norte-americano, coordenou as duas maio-
res e mais rigorosas pesquisas sobre sexualidade. Propôs a "Escala 
Kinsey", pela qual as pessoas podem variar de exclusivamente 
heterossexuais (50%) a exclusivamente homossexuais (4%). Entre 
esses dois extremos estão as pessoas predominantemente heteros-
sexuais. as bissexuais e as predominantemente homossexuais. O 
estudo mostrou que numa população de 18 mil pessoas estudadas, 
46% seriam bissexuais. Segundo Kinsey. as pessoas podem ir de 
um ponto a outro da escala, de acordo com a sua fase da vida, seu 
momento psicológico ou as circunstãncias do meio em que vivem. 
Suas pesquisas, das décadas de 40 e 50, são utilizadas até hoje 
pelos estudiosos da sexualidade. 
200 
Em termos de identidade e do papel de gênero são 
machos-fêmeas, masculinos e femininos. Porém, podem 
ser hetero, homo ou bissexuais quanto a sua orientação 
afetivo-sexual. E assim por diante. 
As escalas que desenvolvemos mostram que a rea-
lidade, no que diz respeito à sexualidade, não é estan-
que, corno aprendemos até hoje. Eu proponho 
alargarmos os nossos horizontes para essas formas da 
sexualidade, para que possamos ser uma sociedade 
mais saudável amanhã. 
Somos uma sociedade em que a sexualidade ainda 
não está livre. A sexualidade está trancafiada. 
Apesar de ser o eixo principal de nossa personali-
dade, que nos define na vida enquanto espécie, que é 
fonte de prazer e forma de reprodução, nós relegamos a 
sexualidade ao último plano. 
A Medicina não a estuda totalmente, e o mesmo 
ocorre com a Psicologia. Os demais ramos da Ciência 
"pouco tempo têm para o assunto". Somos uma socie-
dade em que a sexualidade não é exercida democratica-
mente, não é livre; que não respeita os direitos e prin-
cipalmente as necessidades das pessoas. 
Somos, enfim. uma sociedade hipócrita. 
Uma sociedade que aplaude a cantora Madonna, 
considerada um ídolo de comportamento andrógino, ao 
mesmo tempo homo, hetero, bissexual, mas não aceita 
a vizinha que trouxe uma amiga para morar com ela. 
Somos uma sociedade que reconhece as diferenças 
entre o gênero masculino e feminino para tirar proveito 
dessas diferenças. Com base nisso, pagamos à mulher 
um salário menor, mesmo que ela seja competente. 
Somos uma sociedade que não respeita o direito que 
a mulher tem ao seu corpo, e nem totalmente o seu 
direito à saude. Não respeitamos o direito da mulher de 
escolher se dará ou não continuidade a um embrião, um 
projeto de vida, que está dentro do seu corpo. 
201 
Mas aceitamos, complacentemente, milhares e mi-
lhares de meninos e meninas vivendo nas ruas, ou em 
instituições, pelos quais não nos responsabilizamos. 
Muitas dessas crianças, provavelmente, são frutos de 
gravidez indesejada. Ou de pais que não tinham como 
criar seus filhos. 
Somos uma sociedade cuja Medicina ainda não dá, 
totalmente, o direito ao homem de ter o seu pênis ereto 
avaliado, examinado e tratado. As doenças do pênis 
ereto são patologias sérias e que "não existiam", até bem 
pouco tempo, para a Medicina. 
Somos uma sociedade em que os médicos, ao exa-
minarem um ser que é macho e masculino ou fêmea e 
feminina, têm dificuldade de conversar com eles a res-
peito de sua orientação afetivo-sexual, seja ela hetero, 
homo ou bissexual. Nossas escolas de Medicina não 
estudam a sexualidade na sua maior amplitude, pren-
dendo-se apenas ao lado funcional ou fisiológico dos 
órgãos sexuais, desde que não erotizados. 
Essas escolas esquecem-se de que a sexualidade 
tem um aspecto psicológico e um aspecto social, que 
todos os médicos precisam tomar conhecimento. Conhe-
cendo melhor sua própria sexualidade terão maior pos-
sibilidade de atender ãs pessoas como elas são. E não 
como eles gostariam que fossem, do ponto de vista da 
sexualidade. 
Nós somos uma sociedade cuja Medicina encara 
muitos fatos de ordem social ou cultural adversos ou 
desconhecidos como patologias. 
Somos uma sociedade em que a Psiquiatria biológi-
ca e as correntes psicoterápicas. em vez de se aliarem, 
advogam para si a solução das mazelas da alma humana 
esquecendo-se de que o psiquismo se exterioriza através 
do corpo, conseqüentemente pelo sistema nervoso cen-
tral, passando pela Bioquímica. 
Uma sociedade em que os homossexuais foram 
classificados como personalidades doentias no final do 
202 
século passado, tendo sido necessário que se rebelas-
sem para não serem considerados "pacientes". É muito 
estranho! Talvez não exista nenhum outro grupo que não 
queira ser tratado pela Medicina como os homossexuais. 
Somos uma sociedade que psicologiza, excessiva-
mente, todos os atos humanos. Uma sociedade que 
importa teorias psicoterápicas elaboradas no Primeiro 
Mundo para compreender a sexualidade da menina, do 
menino ou dos adultos que vivem nas ruas, nas favelas 
das grandes cidades, ou em lugares ermos da zona rural. 
Seriam essas teorias aplicáveis a eles? 
A Psicologia e a Psiquiatria perderam de vista sua 
finalidade maior, que é a de atender o ser biopsicosso-
cial, prevenir os distúrbios psicológicos e tratar as pes-
soas com esses problemas. Em vez disso, rotulam 
previamente, ou seja, com pré-conceitos. 
Somos uma sociedade que aplaude Rogéria, um 
travesti famoso do País. Mas que não dá o direito aos 
travestise aos transexuais de tratarem de seu corpo ou 
modificá-lo, de uma forma saudável. Sem escolha, eles 
fazem essa transformação por meio de métodos leigos e 
precários. Somos uma sociedade que mata os travestis 
ou os coloca dentro de um camburão de polícia corno 
cães vadios. 
Somos uma sociedade que assiste passivamente ao 
assassinato de homossexuais, de adolescentes da peri-
feria e de meninos de rua. Seus assassinos ficam impu-
nes como os criminosos de "colarinho branco" . 
Somos uma sociedade que transforma transexuais 
como a modelo Roberta Close num símbolo sexual femi-
nino, mas não dá a ela documentos de mulher, mesmo 
depois de ter seu corpo masculino corrigido pela Medi-
cina para o feminino. 
Somos uma sociedade em que as religiões cristãs 
pregam o "amor ao próximo como a si mesmo", "esque-
cendo" que "os diferentes", para amar, precisam se acei-
tar e ser aceitos. 
203 
Somos uma sociedade que interpreta o que os polí-
ticos fazem entre quatro paredes como algo que pode 
interferir diretamente na sua capacidade de administrar 
uma cidade, um estado ou um país. 
Estamos à cata de saber como é o comportamento 
afetivo-sexual desses homens. Se eles não forem ma-
chos, masculinos e heterossexuais, não serão capazes 
de gerir os bens públicos. Esquecemo-nos que està em 
jogo sua capacidade político-administrativa (papel de 
gênero). e não seu papel sexual. 
Somos uma sociedade que não concebe dois atores 
ou duas atrizes representando atos de amor homosse-
xual na novela das oito, mas que se compraz ou se 
horroriza pelo inusitado de ver, ao vivo, uma adolescente 
suicidar-se, saltando para a morte do alto de um edifício. 
Assistimos carnificinas nas cidades ou nos campos de 
batalha como se isso fosse mais saudável do que o amor 
entre dois homens ou duas mulheres. 
Somos uma sociedade em que um partido político 
precisa reunir os seus adeptos gays e lésbicas num 
comitê nacional, para que essas pessoas possam ter o 
direito à cidadania. 
Somos uma sociedade em que não existe a possibi-
lidade da espontaneidade, da criatividade, e do fator tele 
para propiciar a relação entre as pessoas, a partir de um 
encontro saudàvel para todos. 
A sociedade não é uma abstração. Por isso insisti 
no "somos uma sociedade". A sociedade sou eu, é você! 
Ela é composta por todos nós, do mesmo modo que está 
dentro de todos nós. 
Transformar uma sociedade é nos transformarmos. E 
transformar, também, a sociedade que está dentro de nós. 
204 
Mas somos também uma sociedade que tem um 
sonho utópico. Nessa utopia possível, a Educação, a 
Medicina, o Direito, a Sociologia, a Antropologia e a 
Psicologia ajudarão as pessoas a serem livres. 
Neste trabalho tive a necessidade de agrupar as 
pessoas de acordo com seu modo de ser e de se compor-
tar sexualmente. A denominação hetero, homo ou bis-
sexual refere-se apenas à orientação afetivo-sexual 
dessas pessoas. O termo travesti está ligado ao papel de 
gênero, enquanto transexual e intersexo são palavras 
imprecisas para designar essas formas de sexualidade. 
Assim, tive de chamar as pessoas pelos "nomes como 
são conhecidas", mas em nenhum momento minha 
intenção foi de rotular, classificar ou catalogá-las em 
compartimentos estanques. É assim que este trabalho 
deve ser visto. A classificação leva ao preconceito e à 
estigrnatização do ser humano. 
Corno você deve ter percebido ao longo dos onze 
capítulos que compõem a segunda parte deste livro, em 
cada um deles dedica-se um espaço a cada um dos "11" 
sexos, porque foi a forma que escolhi para focar partes 
da multifacetada sexualidade do ser humano. Entretan-
to, apesar de nosso esforço, fomos incapazes de apre-
sentar, também em cada um desses capítulos, a 
complexidade e a totalidade da vida sexual de cada um 
deles, e estabelecer limites claros entre eles, porque 
esses limites não existem. 
Essa impossibilidade, a meu ver, deve-se ao fato de 
que o ser humano não cabe em "escaninhos", departa-
mentos ou categorias. 
Somos ao mesmo tempo semelhantes e diferentes 
de todos os demais, em nossa indivisibilidade. Somos, 
em cada momento, únicos e universais. Portanto, não é 
possível dizer que a espécie humana é formada de seres 
com "apenas 11" sexos. Podemos ser 11, ou 111 ou 1.111 
ou 1.111.111 sexos, ou mais. Tudo é muito pouco para 
explicar o ser humano. 
205 
Espero que este trabalho, no qual muitas idéias apre-
sentadas podem e devem ser debatidas, sirva para as 
pessoas, incluindo aquelas com um modo de ser diferente 
do da maioria, iniciarem a conquista da sua identidade 
sexual. Que elas conquistem o direito de, por meio de seus 
papéis de gênero, serem socialmente o que são inte-
riormente. Que tenham o direito à transformação do seu 
corpo biológico, quando isso for necessário e pertinente. 
E que, com suas sexualidades, conquistem uma 
identidade social, e que se transformem em pessoas com 
direito à CIDADANIA. 
206 
Corno você pode ver nas tabelas da página ao lado. a 
maioria dos HOMENS é macho U A). sente·se homem 
(II A). assume papéis de gênero masculino (III A). tem 
orientação afetivo-sexual heterossexual (IV A) e se 
relaciona em nível de afeto e/ou sexo com uma mulher 
(VA). 
Da mesmaforma, a maioria das MULHERES éfêmea (l 
E). sente-se mulher (II E), assume papéis de gênero 
femininos (III E). tem orientação afetivo-sexual heteros-
sexual (IV A) e se relaciona em nível de afeto e/ou sexo 
com um homem (VI A). 
Do ponto de vista da sexualidade, embora maioria. os 
seres não "são" ou "estão" só assim. Olhando a nossa 
volta a multiplicidade do ser é infinita. 
VISÃO DA SEXUALIDADE HUMANA ATRAVÉS DAS 
ESCALAS PROPOSTAS 
1 • ESCALA DO SEXO BIOLÓGICO (FENÓTIPO! 
IKTERSEXOS 
com caracteres com caracteres 
sexuais (hermafradlla) sexuais FÊllEA 
secundárias secundárias 
de FÊMEA de MACHO 
" 
1 1 e o 
li · ESCALA DE IDENTIDADE DE GtNERO ISENTIR·SE COllOI 
HOMEM 
" 
IQIEM 
um pouco 
mulher 
fflMEM 
E 
t.fJLIER 
e 
IAA.IER 
um pouco 
hamem llJLIER 
Ili • ESCALA DE PAPÉIS DE GtNERO (PAPEL SOCIAL! 
Afeminada 
" 
w.saJUNO 
E 
FEMNINO 
e 
FEMININO 
Mascullnlzada Mt«l 
IV· ESCALA DE ORIENTAÇÃO AFETIVO-SEXUAL (DESEJO! 
1 HETEROSSEXUAL H~ BISSEXUAL = IKlllOSSEXUAL 
1 1 
" 
e o 
V • ESCALA DE RELAÇÕES AFETIVO-SEXUAIS DE HOMENS 
(PAPÉIS AFETIVO·SEXUAISI 
HOMEM HOMEM HOMEM HOMEM HOMEM COM 
COM MULHER COM COM COM MULHER E HOMEM TRAVESTI TRANSEXUAL 
HOMEM MASCULINO MASCULINO 
" 
e D 
VI • ESCALA DE RELAÇÕES AFETIVO-SEXUAIS DE MULHERES 
(PAPÉIS AFETIVO-SEXUAIS) 
MULHER MULHER MULHER MULHER MULHER 
COM COM COM COM COM 
HOMEM HOMEM MULHER TRAVESTI TRANSEXUAL E 
MULHER FEMININO FEMININO 
" 
e D 
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