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Sexualidade é o termo que se refere ao conjunto de
fenômenos da vida sexual. Ela é o aspecto central de
nossa personalidade, por meio da qual nos relacionamos
com os outros, conseguimos amar, ter prazer e procriar.
Entendemos o ser humano como um todo, indivisí-
vel. Nossas partes podem e devem ser estudadas em
separado, mas não confundidas ou tomadas pelo todo.
Quando se implanta uma ponte safena, não se faz isso
apenas num coração, um órgão que pulsa e faz circular
o sangue pelo corpo.
Na verdade, opera-se um coração que está no corpo
vivo de um ser humano, que tem nome, profissão,
família, medo, inquietudes, dúvidas, necessidades. Não
é só o coração que precisa ficar bom, sarar, mas sim o
ser humano ao qual essa pequena parte pertence.
Este livro pretende abordar a sexualidade como
parte integrante dos seres humanos, com suas sensa-
ções, conflitos e relacionamentos sociais. O presente
trabalho exclui os distúrbios sexuais, que são como
sintomas secundários de doenças mentais.
A apresentação segmentada tem apenas um objeti-
vo prático: o de facilitar a leitura e a compreensão. Nas
escalas que você vai encontrar nos primeiros capítulos
e na Conclusão, os segmentos A, B, C, D e E não
expressam a proporção de pessoas contidas em cada um
deles, pois essa quantificação depende de pesquisas
cientificas que deverão ser realizadas.
Os casos relatados são todos reais. Nomes, profissões
e eventualmente detalhes de situações foram alterados em
respeito à ética médica, salvo aqueles recolhidos direta-
mente da mídia e que são de domínio público.
Ainda não completamos nossos estudos a respeito
da função dos hormônios e das complexas redes do
sistema nervoso sobre a sexualidade. Esses aspectos
estão inseridos neste trabalho apenas a titulo de infor-
mação geral.
Neste livro estamos apresentando uma visão de
sexualidade que não se atém especificamente à vida
sexual, propriamente dita, e sim a uma visão mais ampla
do ser humano. O papel de gênero, masculino ou femi-
nino, é a base para o desenvolvimento de todos os
demais papéis sociais. Portanto, é impossível dissociar
esse primeiro papel de gênero da sexualidade, à qual
está diretamente vinculado.
A sexualidade é o aspecto mais conflituoso, contro-
verso e desconhecido do ser humano. A nossa cultura
lida mal com esse importante aspecto da vida e, para
agravar, cria modelos estanques nos quais pretende
encaixar e classificar as pessoas. Esses moldes, muitos
dos quais baseados apenas no preconceito e na falta de
informação, não nos permitem que sejamos exatamente
aquilo que somos ou que poderíamos ser.
A dimensão total do ser humano tem três aborda-
gens básicas que são a biológica, a psicológica e a social.
Essas três bases são inter-relacionadas e inseparáveis.
A abordagem biológica nos diz que temos um corpo
tisico, que sentimos, que vemos, e que somos vistos. A
abordagem psicológica nos remete a nossa mente, ao
nosso psiquismo, as nossas emoções mais primárias, aos
nossos afetos, aos nossos desejos, as nossas fantasias, aos
nossos sonhos. O mundo social é o mundo que nos rodeia,
povoado de outros seres, inseridos na natureza ou naquilo
em que o homem a transformou, as cidades.
O nosso corpo "contém" o psicológico e está no
mundo em relação com as outras pessoas. É impossível
pensarmos em um desses três compartimentos de forma
estanque. O ser humano não pode ser visto só pelo seu
corpo. porque sem o psiquismo ele está morto.
Um homem apenas "psicológico" também não exis-
te, porque ele se expressa por meio da fala, da postura
e do corpo. Além disso, um ser humano, com corpo e
mente perfeitos, não sobrevive se não estiver EM RELA-
ÇÃO com outras pessoas.
Todos, quando nascemos, trazemos dentro de nós
três potencialidades a serem desenvolvidas. A esponta-
neidade, a criatividade e o fator tele1• A espontaneidade
é a capacidade de responder adequadamente a uma
situação nova ou dar uma resposta diferente a uma
situação antiga.
Essa adequação se refere, antes de mais nada, a nós
mesmos. Nesse sentido, ser espontâneo é estar presente
"de corpo e alma" nas relações existentes a nossa volta.
A espontaneidade, por outro lado, é o fator que nos
permite ser criativos, ou seja, criar algo novo.
A criança, ao nascer, traz consigo o chamado fator
tele em seu psiquismo, que em grego quer dizer à
distância, e significa que todos nós, já nos primeiros
anos de vida, somos capazes de, aos poucos, ir perce-
bendo as outras pessoas com quem nos relacionamos,
da forma mais aproximada possível de como elas são, na
mesma medida em que também nos sentimos, e somos,
percebidos.
1. Conceitos desenvolvidos pelo mêdico romeno J. L. Moreno
(1889-1974). criador do psicodrama e da terapia de grupo, que
emigrou para os EUA, onde completou e aplicou suas teorias.
Esse movimento afetivo e emocional de mão dupla
é responsável pela dinâmica do funcionamento das
pessoas, a dois, a três ou em grupo. Quando essas
capacidades inatas não são bem desenvolvidas, em
função do ambiente onde crescemos. podem acabar se
distorcendo. Essas três potencialidades são "motores"
para o desenvolvimento da identidade sexual. Nossa
teoria é que a identidade sexual pode ser dividida em
três aspectos: identidade genital, identidade de gênero
e orientação afetivo-sexual.
O corpo e o psiquismo precisam do social para se
completar. E no social nos expressamos e nos relacio-
namos através de papéis. Estamos também fazendo uma
distinção entre papéis sociais de gênero e o papel afetivo-
sexual. Para que possamos exercer a nossa sexualidade
em toda a plenitude é indispensável que o corpo seja
provido das necessidades básicas e o psiquismo tenha os
três fatores inatos desenvolvidos. Isso, no entanto, só é
possível a partir da convivência com outros seres.
Um ser humano completo, porém, só pode ser enten-
dido dessa forma se tiver a sua cidadania e seus direitos e
deveres garantidos por leis. Se tiver direito ao trabalho, à
moradia, à educação. à saúde, ao voto. à participação nos
governos e, no tema de que estamos tratando, o direito de
exercer a sua sexualidade independentemente da forma
como ela se exteriortzar.
Isso significa respeito ao seu corpo e aos seus
sentimentos. bem como aos das outras pessoas. Se houver
um mínimo dessas condições, o indivíduo poderá se de-
senvolver saudavelmente e assumir os papéis por meio dos
quais vai se relacionar com seus semelhantes.
Aquilo que afirmamos ser indissociável. ou seja.
corpo, mente e aspectos sociais. aparecem em capítulos
separados ao longo deste livro apenas para facilitar a
leitura e a compreensão de um tema tão complexo. Os
componentes da sexualidade humana. descritos em se-
parado na primeira parte deste livro, também são total-
mente interligados e interdependentes.
A cada capítulo do livro você vai se deparar com
"fragmentos" que compõem um "caleidoscópio". A reu-
nião das escalas que estamos propondo permitirá que
você, quando chegar à Conclusão, gire esse "caleidoscó-
pio", fazendo surgir as mais diversas "imagens" da se-
xualidade humana.
Não estamos afirmando que essas "imagens" são
definitivas.
Mas são como nós as vemos. Hoje.
O Autor
São Paulo, Setembro de 1994.
COMPONENTES DA
SEXUALIDADE HUMANA
Sexos Gonadal ~Cromossômico Genital Interno Genital Externo
o
" .... o
•O •Identidade Genital ~ •Identidade de Gênero
• , •Orientação
~ Afetivo-sexual
~
~
•Papéis Sociais
de Gênero
•Papel Afetlvo-
sexual
1
CAMl~ti()§ ()CULT()§
Você, que está lendo este livro, foi gerado e nasceu.
Isso é óbvio. Tanto que você nem se dá conta. Quando
você nasceu, os seus pais, sua família ou os médicos da
maternidade também não tiveram dúvidas. Tratava-se
de um meninoou de uma menina.
No entanto, por trás do que parece tão natural, há
uma complicada "obra de engenharia". Essa "constru-
ção" precisa ser "bem-executada" desde o primeiro ins-
tante, para que hoje você seja o que é: um homem ou
uma mulher. Ou, do ponto de vista biológico, um ser
humano macho ou um ser humano fêmea.
Alguns "projetos", no entanto. têm pequenos
erros de cálculo, que podem levar a resultados ines-
perados. Embora esses "erros" sejam raros, algumas
crianças nascem sem serem totalmente fêmeas ou
totalmente machos.
Para ter uma idéia do que é o corpo humano, basta
saber que somos formados pelo gigantesco número de
10 trilhões de células, e que todas elas estão interliga-
das. Umas não funcionam sem as outras. Esses grupos
de células formam os órgãos que nos permitem comer,
pensar, amar. Enfim, existir.
No centro de cada uma dessas células estão 23
pares de corpúsculos, os cromossomos, que contêm os
genes, responsáveis por nossas características fisicas.
São os genes, imaginados como um "rosário de contas",
que vão definir se nossos olhos serão castanhos ou
azuis, se o cabelo será ondulado ou crespo, se seremos
altos ou baixos, se calçaremos 38 ou 42. Até mesmo se
teremos predisposição para sofrer do coração, pulmão
ou de outras doenças.
Um par de cromossomos, os cromossomos sexuais,
é o responsável, ou culpado, dependendo de como se enca-
re a vida, por nascermos homem ou mulher. Na mulher,
esse par foi batizado de xx, e no homem o par é xy.
Ao contrário do que ocorre com todas as células do
corpo, o espermatozóide e o óvulo contêm apenas 23
cromossomos cada, e não 23 pares, e só sobreviverão se
puderem juntar-se. O espermatozóide morre horas de-
pois da ejaculação, e o óvulo não-fecundado é expelido
mensalmente pela menstruação. No óvulo, o cromosso-
mo é sempre x, enquanto os espermatozóides presentes
na ejaculação podem ter o cromossomo x ou y.
O encontro desses dois cromossomos, no ato da
fecundação, é o começo do futuro ser.
CJUATV() l:""CVUZILliAUAS
Durante o tempo de gestação, todos nós passamos
por momentos cruciais de definição biológica. O psicó-
logo clínico norte-americano John Money chama esses
"momentos", significativamente, de quatro encruzilha-
das1. Para Money, são encruzilhadas porque o ser hu-
1. John Money, psicólogo clínico norte-americano, estudioso e
pesquisador de intersexos no HospitalJohns Hopkins, Universida-
de de Baltimore, EUA.
2
mano poderá seguir o caminho feminino, masculino, ou
um terceiro, como veremos ao longo deste livro.
Do ponto de vista da Biologia, o sexo pode ser
cromossômico, gonadal e genital. Cromossômico é o sexo
identificado pelos pares xx e xy. Sexo gonadal está
relacionado com um tipo especial de glândulas, ou
gônadas, na linguagem científica. Essas glândulas são
os ovários da futura mulher e os testículos do futuro
homem.
Finalmente, sexo genital são os órgãos sexuais visí-
veis. Nos homens, o pênis e a bolsa escrotal. Nas mulhe-
res, a vulva, a vagina e o clitóris.
Não estamos falando de "sexos" diferentes. Apenas
lembrando que sexo não é só aquela parte íntima do
corpo que costuma ficar bem escondida debaixo da
roupa. O sexo também está dentro do corpo. Mais
adiante veremos que ele está principalmente na cabeça.
A fecundação ocorre quando um espermatozóide do
homem penetra no óvulo da mulher. Esse encontro
acontece nas trompas, região próxima ao útero. Quando
o homem ejacula, cerca de 100 milhões de espermato-
zóides se deslocam em "grande velocidade" para as
trompas e não há qualquer pista sobre "quem" vencerá
a corrida.
Se o espermatozóide mais veloz trouxer dentro de si
um cromossomo x. este, ao juntar-se com o x do cromos-
somo feminino, dará origem a uma menina. Por outro
lado, se "no campeão" estiver presente o cromossomo y,
começará a ser gerado um menino. Quem define o sexo
biológico da futura criança é sempre o pai.
A fecundação é a primeira encruzilhada pela qual
passa o desenvolvimento da sexualidade humana,
embora nesse momento exista apenas uma única
célula, chamada ovo.
Quatro dias após a fecundação, o ovo alcança a
cavidade do útero e já tem, mais ou menos, cem células.
3
Ao longo das primeiras semanas, o embrião desenvolve
os órgãos rudimentares. Nesse momento, ele tem "bro-
tos" tanto da estrutura sexual masculina quanto da
feminina.
Esses "brotos" são minúsculas estruturas, uma
espécie de filamento. Elas foram descobertas por dois
embriologistas alemães, Caspar Wolff e Johannes Mül-
ler, há dois séculos.
Wolff descobriu a estrutura que contém a potencia-
lidade para o desenvolvimento sexual de um ser humano
masculino. A estrutura que leva ao desenvolvimento
feminino foi descoberta por Müller. São essas estruturas
que darão origem aos órgãos sexuais internos e externos
do homem e da mulher.
Até o final do segundo mês, embora traga dentro de
si uma combinação de cromossomos que o definirá como
homem ou mulher, o embrião, do ponto de vista sexual,
é "neutro".
A partir da sétima semana de gravidez, o cromosso-
mo y (do par xy) sente uma "irresistível" necessidade de
ativar a estrutura de Wolff, o lado masculino do embrião.
Por meio de uma combinação química, ele indica que
está na hora de serem formados os testículos.
Os testículos, que após o nascimento descerão para
a bolsa escrotal do menino, são glândulas especializadas
na produção de hormônios sexuais e espermatozóides.
O desenvolvimento dos testículos, ainda no embrião, é
fundamental para que todo o aparelho sexual masculi-
no, interno e externo, seja adequadamente formado.
Quando o cromossomo y "liga o motor" da estrutura
de Wolff, a estrutura de Müller, feminina, se retrai, não
se desenvolve. Mas continua existindo, não desaparece.
Todos os homens carregam, até o fim de suas vidas,
fragmentos da estrutura feminina de Müller.
4
Caso esteja em gestação o embrião de uma futura
menina, "não precisa acontecer nada". Nenhum "motor
precisa ser ligado". Quando o par é xx: (mulher), a
estrutura de Wolff fica quieta em seu canto, sem dar
sinal de vida.
Nos embriões femininos, a estrutura de Müller leva
à formação dos ovários. Mas, como no caso anterior,
também as mulheres vão sempre ter dentro de si "peda-
ços" da velha estrutura masculina de Wolff.
Biologicamente falando, por mais estranho que isso
possa soar, é como se a "tendência natural" dos seres
humanos fosse sempre ser mulher. Isso "só" não acon-
tece porque o cromossomo y do par xy (homem) é "um
inconformado", e logo que pode desencadeia uma forte
reação química no embrião para que ele se desenvolva
como macho.
Essa é a segW1da encruzilhada da vida. Nesse mo-
mento, os cromossomos não podem bobear. Se eles não
enviarem "mensagens" corretas, isso causará uma gran-
de complicação nos órgãos sexuais internos e, mais à
frente, nos externos, como acontece com as crianças que
nascem com a genitália dúbia ou malformada.
Quando chega o terceiro mês de gravidez o embrião
tem que enfrentar a terceira encruzilhada. O desenvolvi-
mento do embrião vai caminhando bem, no conforto do
útero matemo. Esse clima de tranqüilidade é, na verda-
de, aparente. Todas as partes de seu organismo conti-
nuam em intensa atividade.
A decisão agora sobre o caminho a ser seguido ficará
por conta de urna complexa combinação de substâncias
químicas, os hormônios sexuais, produzidos pelos tes-
tículos no embrião masculino ou pelos ovários no em-
brião feminino.
Os hormônios sexuais são responsáveis pelo desen-
volvimento dos demais órgãos genitais internos ou ex-
ternos, femininos ou masculinos. Tanto os testículos
quanto os ovários produzem os mesmos tipos de hormô-
nios, apenas em quantidade e em combinações diferen-
tes, dependendo do sexo.
Se tudo correr bem, a misturahormonal no embrião
masculino levará à formação das vesículas seminais, da
próstata, do epidídimo e dos canais deferentes. Caso
esteja em gestação um ser do sexo feminino, e se a sua
mistura hormonal teve dosagem correta, seu desenvol-
vimento será natural, com a formação do útero, das
trompas e da parede superior da vagina.
Nem tudo está completo. Os órgãos genitais
internos já se formaram mas, no quarto mês de
gravidez, nem mesmo com um exame de ultra-som é
possível identificar o ser em gestação como um me-
nino ou uma menina. Falta uma parte vital: a geni-
tália externa. Vital porque é nesse órgão que a
sociedade se baseia para designar o sexo de nasci-
mento: macho ou fêmea.
Chegou o momento da "moldagem" dos órgãos se-
xuais externos. Chamamos de "moldagem" porque o
"material" que vai formar o órgão sexual masculino e
feminino é exatamente o mesmo. Essa é a quarta encru-
zilhada.
Entre o terceiro e o quarto mês de gravidez, o feto,
tanto o masculino quanto o feminino, apresenta, na
região localizada entre as pernas, uma estrutura cha-
mada de tubérculo genital, duas faixas de pele e uma
pequena protuberãncia de cada lado.
6
Se o bebê em gestação for fêmea, o tubérculo genital
continua pequeno e se transforma no clitóris. As duas
pregas de pele não se fundem e formam os pequenos
lábios e a cobertura do clitóris, e as duas protuberân-
cias ficam separadas e formam os grandes lábios.
Com o mesmo material forma-se a genitália externa
do bebê macho. O tubérculo genital cresce e dá origem
ao pênis, as duas pregas de pele se fundem para formar
a uretra e as duas protuberâncias se fecham, constituin-
do a bolsa escrotal.
Antes de se declarar a guerra dos sexos com base
apenas nas diferenças da genitália, é bom lembrar que
na "construção desses aparelhos" foi utilizada a mesma
matéria-prima.
Até agora, da fecundação ao nascimento, parece que
o nosso piloto automático seguiu à risca, em cada uma
das quatro encruzilhadas, o plano de vôo, tomando o
rumo certo. No entanto, embora isso quase nunca acon-
teça, mesmo os melhores mapas de navegação têm
falhas.
O hermafrodita é o resultado de uma dessas falhas.
Ele é um ser que não seguiu um desses dois caminhos,
normais para quase todas as pessoas. Ele é um inter-
sexo. Logo na primeira encruzilhada a sua combinação
cromossômica se complicou. Ele não tem o par xy ou xx,
mas uma mistura desses, numa variação que pode ser
muito grande.
Esse problema surgido no ato da fecundação pode
levar um hermafrodita, na segunda encruzilhada, a
desenvolver um testículo e um ovário ao mesmo tempo,
ou um único órgão, chamado ovotéstis, onde estão
mesclados testiculos e ovário.
7
O mesmo vai ocorrer nas outras duas encruzi-
lhadas. quando os õrgãos sexuais internos são mal-
formados, indefinidos e não têm funcionamento
normal. Isso também ocorre com os genitais exter-
nos. que são dúbios e incompletos. Na realidade, não
existem hermafroditas com genitais masculino e
feminino inteiramente formados e conjugados. Isso
é um mito.
Essas e outras anomalias são raras e atingem
apenas uma pequena parcela dos recém-nascidos.
Nem todos podem ser consideradas verdadeiros her-
mafroditas e apenas um médico poderá fazer um
diagnóstico correto.
É preciso fazer uma distinção entre o sexo genital,
que é aquele com o qual nascemos, e o sexo registrado
em cartõrio. Para as crianças que nascem com a genitá-
lia normal, o erro no momento do registro não existe.
No entanto, bebês com algum problema relacionado
à formação dos órgãos sexuais, às vezes de fácil correção
pela Medicina, podem ser registrados com o sexo troca-
do, causando a essas futuras pessoas dificuldades imen-
sas. Um casal que tenha um bebê com a genitália dúbia
deve procurar orientação médica, o quanto antes, retar-
dando o registro de nascimento até que se possa ter
certeza do sexo da criança.
A Ciência avança e novos tratamentos surgem para
corrigir problemas congênitos. Esses fatores biológicos,
juntamente com outros igualmente importantes, como
a atitude dos pais, a educação e o meio social, vão influir
na formação de nossa identidade sexual e no nosso
comportamento· ao longo da vida.
8
Depois da adolescência, tanto um homem como
uma mulher, que tenham nascido com um corpo nor-
mal de macho ou fêmea, podem, com hormônios ou
cirurgias, "adquirir" caracteres sexuais secundários do
sexo oposto.
O desenrolar de nossa existência não é uma linha
reta, tenhamos ou não consciência disso, queiramos
ou não.
A verdade é que, aos poucos, a decisão sobre o
caminho a seguir vai passando das mãos da Natureza
para as nossas próprias mãos.
1 -ESCALA DO SEXO BIOLÓGICO
(FENÓTIPO!
W.CHO INTERSEXOS FÊMEA
MACHO com caracteres com caracteres FÊttfA seKuols (hermafrodito) sexuais
secundários secundários
da FÊMEA de MACHO
A 1 1 e 1 D
É possível, através do uso de honnônios e de cirurgia
plástica, uma pessoa MACHO (A) passar para o seg-
mento B da escala e deste para E, assim como uma
pessoa FÊMEA (E) passar para o segmento D e deste
chegar a A. As pessoas de intersexos, dependendo de
sua estrutura biológica. psicológica e social, podem
tWito ir de C para A, quanto de C para E.
Áté agora, falamos de nossa constituição fisica,
como se estivéssemos diante de uma fotografia. O passo
seguinte é acompanhar um filme, movimentado, que se
desenrola dentro de nós. Nesse "filme", vamos acom-
panhar as nossas sensações e "ver" COMO NOS
SENTIMOS.
Se nasce um menino, no futuro ele SE SENTIRÁ
HOMEM. Se nasce menina, SE SENTIRÁ MULHER.
Óbvio, não? Nem sempre, como veremos ao longo
desse livro.
Essa sensação interna de pertencermos ao gênero
masculino ou feminino, bem como a capacidade de nos
relacionarmos socialmente, denominada identidade de
gênero, é muito natural para a grande maioria das
pessoas.
O termo identidade de gênero foi criado em 1964
pelo médico e psicanalista norte-americano Robert Stol-
ler1. Essa sensação interna, para se formar adequada-
1. Robert Stoller, pesquisador norte-americano. Através da investi-
gação psicanalítica, estuda, há quarenta anos, pacientes interse-
xuadosetransexuais.
11
mente, precisa passar por muitas fases, onde entram
fatores biológicos e sociais.
Um exemplo extremo de inadequação da identida-
de de gênero ao corpo biológico de nascimento são os
transexuais. Para eles, o corpo "é de um sexo e a alma
é do outro".
A sexualidade começa a se definir no ato da fecun-
dação e, desse momento até a hora de nascer, passamos
por transformações fisiológicas e bioquímicas, que "re-
forçaram" a nossa estrutura masculina ou feminina.
Durante esse período, se a produção de hormônios
sexuais ocorreu no momento certo e com a estrutura
química correta, uma região do cérebro denominada
hipotálamo recebeu um "banho" de masculinizé:tÇão ou
de feminilização.
As células do hipotálamo são muito sensíveis ao
androgênio ou ao estrogênio, que são hormônios sexuais
masculinos e femininos, respectivamente. Dependendo
da quantidade dessas substâncias presentes no hipotá-
lamo, o indivíduo pode ser predisposto a manifestar
certos padrões de comportamento, caracteristicos de
homem ou de mulher.
O hipotálamo é um centro integrador e coordena-
dor das emoções, está conectado com o sistema límbi-
co e outras áreas do cérebro. É essa rede do cérebro
que regula a vida emocional, modula o desejo sexual
e comanda o funcionamento das glândulas que produ-
zem os hormônios sexuais. Um "excesso" de atividade
do hipotálamo não transforma ninguém num grande
conquistador, pois até aqui estamos falando das nos-
sas sensações.
O relacionamento com as demais pessoas é regula-
do por outra parte do cérebro, o neocórtex, também
12
chamado de "cérebro inteligente". O neocórtexmatiza o
sentimento amoroso com fantasias, é responsável pela
sensação erótica, pelos tabus e até pela noção de culpa.
O prazer que sentimos diante de uma obra de arte,
ou ao ouvir uma bela música, tem seu ponto de partida
nessa região cerebral. O neocórtex não funciona auto-
nomamente, sendo atingido e influenciado por fatores
sócio-culturais. Para alguns pesquisadores. a "força
biológica", presente em todos nós, faz com que nasçamos
com "uma intuição" de que pertencemos ao gênero
masculino ou feminino.
Os estudos a respeito da influência hormonal
durante a vida intra-uterina, assim como sobre o papel
do hipotálamo e do neocórtex, são recentes e não estão
concluídos.
O desenvolvimento completo dessa consciência na
criança só se dará a partir de inúmeros outros fatores,
como o tratamento recebido da mãe, ou de quem
estiver em seu lugar, da família e da sociedade na qual
ela vive.
Menino ou menina?
Essa é a pergunta imediata que parentes e vizi-
nhos fazem quando uma mulher tem um bebê. Hoje,
com o exame de ultra-som, o nascimento perdeu muito
"de sua surpresa".
Na maioria dos casos. ao nascer. não há dúvida. é
um menino ou uma menina. pela simples observação de
sua genitália externa. Porém, alguns bebês nascem com
o sexo malformado, duvidoso.
Uma menina normal mas que tenha um clitóris um
pouco maior. parecendo um "pintinho". corre o risco de
ser considerada um menino. Um bebê fêmea nascido de
13
9 meses de gestação poderá ter um clitóris de 7 a 10
milímetros, variando conforme seu peso2 .
Constatado o sexo da criança, providencia-se o
registro em cartório. Esse documento público vai confir-
mar, perante a sociedade e para toda a vida, se a pessoa
pertence ao sexo masculino ou feminino. Não é apenas
esse documento que vai pesar na formação da identida-
de de gênero masculina ou feminina, pois para isso
contribuem muitos fatores.
A partir do momento em que a criança é identificada
e registrada como menino ou como menina, toda a
sociedade vai se comportar em relação a ela de uma
maneira particular e diferente.
Menina ou menino?
A mãe que traz nos braços uma menina, ou alguém
que ela julga ser uma menina, trata a criança de forma
mais cuidadosa, terna. Não faltam expressões como
"fofura", "gracinha", "um doce'', seguindo-se enfeites
como lacinhos no cabelo, fitinhas.
Se o filho é "homem", o tratamento é um pouco mais
"duro", segura-se a criança com mais firmeza. Pela casa
ouvem-se frases como "que menino forte", "como é es-
perto", "puxou o pai". Os enfeites, quando existem, são
azuis e discretos. Os pais, sem se dar conta, estão
tentando dizer que homens e mulheres devem ser e se
comportar de forma diferente.
Um caso conhecido nos Estados Unidos mostra
como a atitude dos pais influencia na formação da
identidade de gênero, mesmo que no caminho inverso
da constituição biológica da criança.
2. Pesquisa sobre o tamanho do clitóris em recém-natos fêmeas
realizada por A. Ltwin, 1. Aitin e P. Merlob na Universidade de Te!
Aviv, Israel, em" 1990.
14
No final da década de 60, uma mulher teve gêmeos
saudáveis, dois meninos. Como é comum naquele país,
os bebês passaram por uma circuncisão, popularmente
conhecida como "operação de fimose".
Um dos bebês não teve qualquer problema, mas o
outro, durante a cauterização, teve o pênis ofendido e
ficou sem o órgão. A equipe do psicólogo John Money
acompanhou o caso. O que fazer agora? O menino não
poderia crescer sem pênis e a feitura de um novo órgão
não seria possível nessa idade.
Os pais foram consultados e tomaram. em conjunto
com a equipe de especialistas. uma decisão. O menino
foi submetido a algumas cirurgias, a bolsa escrotal e os
testículos foram retirados e, no lugar, moldada uma
vulva para a saída da uretra.
Depois disso e da devida preparação psicológica
da família, a criança teve o seu registro alterado e
passou a ser criada pelos pais como uma menina.
Segundo John Money. essa criança, aos cinco anos, já
tinha desenvolvido a consciência de pertencer ao gê-
nero feminino e se comportava como tal. Quando
adulta resolveria se "construiria" cirurgicamente um
canal vaginal ou não.
Shakespeare usou essa famosa expressão em outro
contexto, mas "ser ou não ser" também se aplica quando
falamos da sexualidade humana. E podemos adicionar
a essa frase a palavra "completamente".
Por volta dos 2 anos e meio, a criança "já sabe" que
é um menino ou uma menina e não perde tempo com o
assunto porque o mundo oferece caminhos muito claros
para o homem e para a mulher. Na infãncia apenas não
há amadurecimento neurológico e psicológico para en-
tender e distinguir essa sensação.
15
Nos primeiros meses de vida desenvolvemos a cons-
ciência sobre o nosso próprio corpo e vamos criando uma
"identidade corporal", principalmente sobre os órgãos
genitais. No bebê, a primeira "noção" de possuir uma
genitália vem do ato de urinar.
A genitália masculina é tocada e manuseada sem
grandes problemas pelos meninos. Ela é visível. e a
nossa cultura valoriza a sua exibição pelos garotos.
Em nossa cultura, a genitália da mulher, mesmo
enquanto criança, é algo proibido, misterioso, intocável.
Na menina, o que se vê é a vulva, ou seja, os grandes e
pequenos lábios. O cuidado dos pais é maior, e ela é
ensinada a não tocar no sexo, a não introduzir nada (até
para não romper o hímen) e a não exibi-lo.
Cada parte do nosso corpo tem uma sensibilidade
própria. Ela não é a mesma na língua, na palma da mão,
na orelha e nos órgãos sexuais. No entanto, para que a
criança conheça o seu corpo é preciso tocá-lo, o que
poderá lhe dar prazer.
Essas sensações prazerosas, vindas do toque nos
genitais, não devem ser confundidas com sensações
eróticas. O menino, mesmo na mais tenra idade, pode
ter ereção, o que não significa que ele esteja sentindo
desejo sexual.
Embora o contato da menina com sua genitália seja
menor, os homens estão mais propensos a carregar
dúvidas sobre a identidade genitat.3. Como o relaciona-
mento entre os meninos é mais livre, o efeito comparativo
das genitálias é mais freqüente. É comum o garotinho
querer ver o "pipi" do amiguinho para comparar com o seu.
Reconhecer e sentir a nossa anatomia sexual tem
grande importância para desenvolvermos a consciência
de pertencermos ao gênero masculino ou feminino.
3. O conceito de identidade sexual (consciência que se tem do
próprio sexo biológico) foi proposto por Charlote Wolff, médica
alemã, sexólo~e existencialista radicada na Inglaterra. Preferimos
dar a esse conceito o nome de Identidade genital.
16
Quando nascemos temos boca, cordas vocais, ouvidos,
vias neurológicas, mas não sabemos falar. Da mesma
forma, nascemos com uma genitália masculina ou femi-
nina, mas "não sabemos SER homem ou mulher". Isso
precisa ser aprendido a partir de nós mesmos, com
nossos pais, com a família e com a sociedade. Trata-se
de um processo longo e a identidade de gênero mas-
culina ou feminina só se evidenciará por completo com
o surgimento dos caracteres sexuais secundários, na
fase da adolescência.
() Nl:UTV() NÁ() l:XISTI:
Nascemos sozinhos, mas não podemos crescer iso-
lados de outras pessoas. A consciência que temos de
pertencer ao gênero masculino ou feminino vem do
comportamento dos pais, dos familiares e da sociedade.
A isso, soma-se a percepção de nosso próprio corpo. É
impossível, do ponto de vista social, que alguém cresça
sem pertencer ao gênero masculino ou feminino. Pes-
soas "neutras", socialmente falando, não existem.
Nem mesmo os travestis, os transexuais ou os
hermafroditas são pessoas neutras, uma vez que têm
"almas" masculinas ou femininas, ou uma combina-
ção das duas. Os sexos podem ser 11. mas as "almas"
são apenas duas. Não estamos nos referindoaqui ao
que hoje se diz "meu lado feminino" ou "meu lado
masculino". Trata-se de uma sensação particular e
mais profunda que leva ao comportamento social dife-
rente, como veremos na segunda parte deste livro.
Existem relatos de casos em que uma mãe, desejan-
do muito ter uma filha, ao ter um filho, passa a tratá-lo
como menina. Esse tipo de atitude pode atrapalhar a
formação da identidade de gênero da criança.
Durante muito tempo, como parte da nossa cul-
tura popular, muitas mães, principalmente em situa-
17
ção de doença ou de aflição, faziam promessas de vestir
o filho como menina até uma certa idade- o que poderia
ou não alterar a sua identidade de gênero.
Os travestis são pessoas com identidade de gênero
diferente da maioria, pois SENTEM-SE ora homens, ora
mulheres. Os transexuais, no entanto, têm uma identi-
dade de gênero bem definida, embora em desacordo com
o seu corpo biológico.
Até o momento, não se conhece totalmente como se
dá o desenvolvimento da identidade de gênero e as
causas de suas alterações. Não há uma regra geral. Uma
família pode criar adequadamente um menino saudável
e ele, no entanto, acabar crescendo com UM SENTIMEN-
TO de que É uma mulher, e tudo fará para conseguir
moldar para si um corpo feminino. Ele é um transexual.
Existem também relatos de meninos que foram
criados como meninas, mas, com a explosão hormonal
da adolescência, afirmaram-se como homens. Cresce-
ram, casaram-se, tiveram filhos, numa trajetória de vida
absolutamente comum.
A família é uma referência importante, porque o
desenvolvimento da identidade sexual também se faz
pela semelhança e pela diferenciação. Para meninos e
meninas, a presença dos pais, portanto de um homem
e de uma mulher. cria a consciência de que existem seres
iguais e diferentes deles mesmos. Estamos nos referindo
a uma estrutura familiar convencional, sem discutir se
esse modelo é válido ou não.
Mesmo quando a formação familiar é pouco habi-
tual. como no caso de duas lésbicas que criam as
crianças nascidas de uma ou da outra, o desenvolvimen-
to da identidade de gênero se dá adequadamente. Essas
crianças sempre terão algum tipo de contato com a figura
masculirni. seja por meio dos pais, tios ou vizinhos.
18
O que é uma família? São pessoas que convivem,
dividem o mesmo espaço numa casa, têm afinidade por
parentesco ou não. Fazem parte da família os pais, tios,
avós, irmãos, a empregada e até amigos que possam
temporariamente estar morando na mesma casa. Esse
núcleo familiar é de fundamental importãncia para o
desenvolvimento da identidade de gênero, pois aí nasce
e cresce uma criança. Chamaremos esse núcleo de Ma-
triz de Identidade4.
Mesmo na fase de gestação, o relacionamento da
mãe e do pai com o bebê que ainda está no útero matemo
não é igual. A mãe e seu filho são um todo. A criança
não "está" dentro dela, faz parte dela. Para o pai, o futuro
filho ou filha existe apenas na sua imaginação. É extre-
mamente dificil para um homem ter uma idéia aproxi-
mada do que sente uma mulher quando está grávida,
porque esta é uma das poucas experiências exclusivas
do ser humano feminino. As outras são amamentar,
menstruar e conceber.
O relacionamento da mãe com a criança é primor-
dial e obedecerá algumas etapas de desenvolvimento
psicológico, a partir do desenvolvimento biológico. Para
o bebê, ele e sua mãe são um todo. É como se o mundo
tivesse se transformado num imenso útero e continuas-
sem existindo apenas ele e ela.
Aos poucos, o bebê "percebe" que há "algo dife-
rente". É como se ele pensasse assim: "Eu sou dife-
rente dela, mas somos tão ligados que não nos
sentimos separados".
Vamos continuar "dando a palavra" a esse bebê
que todos nós fomos um dia, para que ele "conte" a
sua experiência:
4. O conceito de Matriz de Identidade. proposto por J. L. Moreno,
refere-se ao lugar onde a criança se insere desde o nascimento.
Esseconceitofoirevistopelomédicobrasileiro,doutoremPsiquia-
tria pela USP e psicodramatlsta José Fonseca.
19
"Aos pouquinhos vou me desligando dela e passo a
perceber que EU existo em separado de minha mãe.
Começo a me dar conta do meu corpinho, meu pé,
minhas mãos, minhas sensações. Ao mesmo tempo,
noto que ela é outro ser e o corpo dela é diferente do meu.
Eu sou eu, e ela é ela.
Mas, que engraçado, só consigo me perceber e
percebê-la como se eu estivesse "num corredor psicoló-
gico". onde só cabem eu e outra pessoa. Para um entrar
o outro precisa sair.
Se o outro é minha mãe, sou eu e ela. Se o outro é
meu pai, sou eu e ele. Eu sei, é um pouco esquisito
mesmo. Acho que é assim para todo mundo. Nesse
"corredor" estranho não cabe um terceiro.
Também não foi fácil. mas, de tanto olhar, começo
a me dar conta de que existe um corpo macho e um
corpo fêmea. E um dos dois é igual ao meu. Cheguei
a essa conclusão pela maneira como me tratam e como
os dois, meu pai e minha mãe, se comportam. Tudo
isso foi possível porque tenho tempo de sobra. Não
posso fazer muita coisa fora do berço, fico o tempo todo
olhando, olhando".
O tempo passou um pouco, o engatinhar e o esfolar
dos joelhos ficou para trás. O bebê agora é uma criança,
que há algumas semanas apagou duas velinhas no bolo
de aniversário. Vamos deixá-la falar:
"Agora as coisas estão mais fáceis. Posso andar pela
casa, embora viva batendo a cabeça nas coisas. A mesa
parece que está tão longe, dou um passo e pimba. Um
galo. Tenho um bonequinha e às vezes finjo que sou a
mãe dela, do mesmo jeito que minha mãe faz comigo.
Alguma coisa dentro de mim diz que sou uma
menina, mas eu não sei bem dizer que coisa é essa. Os
psicólogos devem saber, pois vivem estudando as pes-
soas por dentro. Tenho a impressão de que os garotos
não sentem a mesma coisa. São tão diferentes de mim.
Acho que também sentem alguma coisa de meninos.
20
Quando nasci, me lembro bem, trouxe duas coisas
dentro de mim: a possibilidade de ser espontânea e de
ser criativa. E uma coisa com nome estranho, "tele"
(como se usa na palavra televisão), que é a capacidade
de perceber as pessoas. Quando meu pai olha feio para
mim, ele não precisa dizer nada. Já entendi tudo! Faço
bico de choro, fico quieta, e ele tira a carranca do rosto.
Dizem que isso entre nós dois é uma tal de relação
télica."
Vamos voltar ao trabalho, nossa amiguinha tem
mais o que fazer. De acordo com as psicólogas gaúchas
Bebeth Fassa e Marta Echenique5 , o relacionamento
principalmente da mãe mas também do pai é diferente
se estão criando um menino ou uma menina. E esse
comportamento, por vezes é consciente, ou intuitivo e
inconsciente.
Quando se trata de um menino, embora ele se
sinta fundido à mãe, ela, aos poucos, procura afastá-
lo. Ela teme, inconscientemente, um sentimento in-
cestuoso ou que ele cresça como mulher. Isso não é
rejeição. Apenas a mãe deseja que seu filho desenvolva
a sensação de que pertence ao gênero masculino. Com
isso o garoto começará a se sentir macho (no corpo) e
masculino (na mente).
Quando a mãe tem uma filha, os sentimentos são
outros. Ela a manterá por mais tempo perto de si, pois
são criaturas iguais. É como se uma filha "mulher" fosse
uma continuação de si mesma. A situação se inverte
naturalmente com o pai e seu filho ou filha.
Por volta dos 2 anos e meio, a criança já possui uma
identidade genital. Ela "sabe" que tem pênis e bolsa
escrotal, ou vulva, vagina e clitóris. SENTEM-SE MENI-
5.As psicológase psicodramatistas Bebeth Fassa e Marta Echeni-
que estudaram o desenvolvimento do ser humano levando em
conta o gênero a que pertence a criança, sua relação com os pais,
e tendo como foco o "papel de gênero", em seu livro Poder e Amor.
21
NOS OU MENINAS. Sua identidade de gênero está sela-
da e será imutável para toda a vida.
Quem somos,afinal?
A resposta a essa pergunta poderá ser mais fácil ou
mais dificil, dependendo de como vivemos cada uma das
diversas fases, sem esquecer que muitas acontecem ao
mesmo tempo.
Pessoas que cresceram em ambientes sadios, com
liberdade e podendo exercer toda a sua espontaneida-
de e criatividade, talvez respondam com mais rapidez
e segurança.
Crescem a violência urbana e a incerteza econômi-
ca, enquanto os meios de comunicação despersonalizam
culturas e embotam os sentimentos. Num país como o
Brasíl, onde nem mesmo as necessidades básicas de
sobrevivência são atendidas, é quase um "luxo" esperar
que a grande maioria das pessoas possa crescer de
maneira criativa e espontânea.
22
li ·ESCALA DE IDENTIDADE DE GÊNERO
(SENTIR·SE COMO)
HOMEM t.ULHER
HOMEM um pouco mulher
HOMEM
E
MULHER
um pouco
homem MULHER
A e D
Segundo os estudiosos, por volta dos 2 anos e meio esta
identidade é estabelecida e depois é imutável, ou seja,
não se mudará mais de A para C ou E. Até essa idade
é possível educar-se alguém para sentir-se em A ou E,
independentemente de seu sexo biológico.
3
~abemos quem somos, mas por que nos comporta-
mos desta ou daquela maneira?
Mais uma vez tudo parece muito natural. A menos
que alguma coisa não vá bem.
Quando falamos em identidade de gênero, nos refe-
rimos às sensações internas, que estão dentro de cada
um de nós. Essas sensações podem vir para fora ou não.
SENTIMOS pertencer ao gênero masculino ou feminino,
que SOMOS homens ou mulheres.
Papel de gênero nada mais é que o nosso compor-
tamento frente às demais pessoas e à sociedade como
um todo. Nesse caso, temos "uma maneira de ser"
masculina ou feminina. É preciso haver uma perfeita
sintonia entre o que sentimos e nossa maneira de agir.
Do contrário, surgirá um conflito entre a nossa identi-
dade de gênero e o papel que desempenhamos.
"O papel é a forma de funcionamento que o indivi-
duo assume num momento específico, ou quando reage
a uma situação especifica, na qual outras pessoas ou
23
objetos estão envolvidos" 1. Ao longo de apenas um dia
podemos desempenhar o papel de pai, em casa, de
funcionário, no escritório, e de esportista, à noite.
Somos sempre a mesma pessoa. No entanto, a
maneira como nos comportamos com os demais não é a
mesma, dependendo da situação, embora essas formas
de comportamento tenham a nossa marca particular.
Como definição de papel, podemos afirmar que se
trata da "unidade de conduta que se dá entre duas ou
mais pessoas, o que é observável e resultante de elemen-
tos constitutivos da singularidade do agente e de sua
inserção na vida social".
() VAVl:L ()4, MI:
Os nossos primeiros papéis têm sua origem na
família, como vimos no capítulo anterior. O meio em que
nascemos, somos criados e nos desenvolvemos será a
base psicológica para o desempenho de todos os papéis.
Nos primeiros meses de vida, o bebê tem apenas
esboços de papéis. Esses papéis estão relacionados com
as suas necessidades fisiológicas, como se alimentar,
urinar, defecar. Para atender suas necessidades existe
a mãe, ou a substituta, que lhe dá amor e carinho,
ajudando-o a desenvolver-se.
O atendimento a essas necessidades pela mãe é de
fundamental importância. Cada cultura e cada socieda-
de deixam claro como devem se comportar as mães
nesses casos e até mesmo as diferentes formas de ama-
mentar ou trocar um menino ou uma menina.
1. O termo "papel", proposto por J. L. Moreno, em inglês role, vem
do latim rotula. Isso porque na Grêcia antiga, para as apresenta-
ções teatrais, o texto era lido em "rolos" de papel. Moreno iniciou o
desenvolvimento desse conceito, que pressupõe inter-relação e ação
em todas as dimensões da vida, como o nascimento, a experiência
vivenciaqa do individuo e a sua participação na sociedade.
24
Que normas são essas das quais ninguém fala, e
que diferenças existem no tratamento da menina e do
menino?
São "regras" sobre as quais pouco pensamos porque
estão incorporadas em nosso dia-a-dia. Esse tratamento
"diferente" para meninos e meninas está nos gestos da
mãe, na maneira de pegar a criança no colo, de dar o
seio ou a mamadeira. e tantos outros.
A higiene dos genitais do bebê, que é feita pela mãe,
tem muita importãncia para o desenvolvimento da iden-
tidade genital (a sensação de que se tem pênis ou
vagina), da identidade de gênero (se sente pertencer ao
gênero masculino ou feminino) e para a formação do
papel de gênero, ou seja. se esse bebê, no futuro, terá
um desempenho social masculino ou feminino.
Isso acontece porque é no órgão genital do menino
ou da menina que vai desembocar a uretra. canal por
onde passa a urina. Dessa maneira, todas as vezes que
a mãe faz a higiene da criança, ela está lhe dando a
consciência da genitália que possui. A atitude do adulto
diante dos órgãos sexuais difere dependendo do que
"sentem" e "pensam" sobre eles.
A mãe, ao amamentar. faz isso com sentimentos e
emoções. O bebê, por sua vez, ao ser alimentado, não
apenas ingere o leite, mas percebe o que há de mais
profundo no ato realizado pela mãe.
Quando esse ato está envolvido de muito amor, não
é por acaso que as mães procuram, intuitivamente, os
locais mais calmos e silenciosos para amamentar. Nesse
momento, o bebê está recebendo e "reagindo". a seu
modo, ao carinho materno. Essa "reação" do bebê às
emoções da mãe também acontece na hora do banho ou
da fralda limpinha.
25
Aos poucos, a criança aprende a falar. Seus movi-
mentos tornam-se coordenados e ela reage diante de
situações novas. Na medida em que ela percebe o que se
passa entre as outras pessoas e a diferenciar a realidade
da fantasia, começa a desenvolver-se o que chamamos
de papéis sociais de gênero.
"A função de realidade lhe é imposta por outras
pessoas, suas relações, coisas e distâncias nos espa-
ços, e atos e distâncias no tempo"2 . Assim, a criança
aprende como deve se relacionar com seu corpo e
também que atitude deverá tomar em cada papel que
estiver desempenhando.
Nos papéis sociais de gênero, entra em operação a
função de realidade. A criança tem consciência de que é
filho, sobrinho, neto. De que tem pais, avós, família,
coleguinhas de rua ou de creche. A partir do momento
em que a criança sabe o que é realidade, conquista os
chamados papéis de fantasia.
Esses papéis correspondem à dimensão mais indi-
vidual da vida psíquica ou psicológica do ser humano.
Esse é o momento em que a criança "viaja" com seus
brinquedos, finge ser o herói da 1V ou personagem de
sua própria criação, com a consciência de que tudo isso
é fantasia, é de brincadeira.
Por volta dos 2 anos e meio, a criança já desenvol-
veu, em situações de crescimento normal, uma identi-
dade de gênero Uá "sabe" que é um menino ou uma
menina). Isso lhe permite relacionar-se com as pessoas
e até mesmo assumir outros papéis. Nessa fase, a me-
nina já pode dizer "sou a mamãe" enquanto acaricia uma
boneca.
2. Refere-se ao desenvolvimento da Matriz de Identidade, na fase
denominada por Moreno de "brecha entre fantasia e realidade".
26
Na verdade, todos os papéis são complementares.
Um não existe sem o outro. O modo de ser. a identi-
dade de um indivíduo, decorre dos papéis que ele vai
desenvolvendo ao longo de sua existência e de suas
experiências. Não existe o papel do senhor se não
existir o do servo, nem o do chefe sem o do funcionário.
As contradições. crises e transformações nas relações
humanas através dos papéis de gênero fazem parte do
desenvolvimento de cada um de nós.
Quando a criança Mpercebe o mundo" não apenas
pelos olhos. pelos ouvidos e os outros órgãos dos senti-
dos, ela começa a distinguir objetos materiais de seres
humanos. Aos poucos. o fator inato chamado tele3 vai
se desenvolvendo.Esse fator faz com que percebamos a
outra pessoa, ao mesmo tempo que somos e nos senti-
mos percebidos.
Por volta dos seis meses, a criança já é capaz de
reconhecer um sorriso num rosto humano e "correspon-
der" sorrindo. Esse sorriso do bebê também é percebido
pelas outras pessoas que estão a sua volta. Isso é
possível graças ao fator tele. O encontro télico sugere que
as pessoas são capazes de colocar-se uma no lugar da
outra, realizando a inversão de papéis.
Existe algo entre as pessoas que a maioria das
teorias psicológicas não aborda, que é a relação co-in-
3. Fator Tele: J. L. Moreno afinna que todos os seres nascem com a
potencialidade de perceber o mundo, o que vai se desenvolvendo
desde os primeiros meses e se aprimorando ao longo da vida. É a
capacidade de perceber a si próprio (autotele). perceber o outro de
forma objetiva. e sentir-se percebido. numa comunicação de mão
dupla. O fator tele é um dos pontos principais da teoria desenvol-
vida por Moreno.
27
consciente4. Essa relação ocorre quando alguma coisa
de mim passa para o outro sem que eu mesmo saiba.
Como há uma relação co-inconsciente entre todas
as pessoas, a mãe pode ter um desejo ou uma fantasia
inconsciente em relação ao bebê. Isso, de alguma
forma, será captado por ele e ficará registrado em seu
inconsciente.
Oco-inconsciente pode ser grupal, como na comu-
nicação entre as pessoas que estão juntas, convivendo
em família. O melhor exemplo que se pode dar é o sexto
sentido da mãe. Ela, de repente, diz que está acontecen-
do alguma coisa com o seu filho, distante, e o fato se
confirma.
Mãe e filho têm um relacionamento muito próximo.
Essa proximidade desenvolve muito a relação co-incons-
ciente. Isso também acontece com o pai, que muitas
vezes tem uma relação com seus filhos tão próxima
quando a da mãe.
() UISVÃ.12() ()() l21':LÍ)C31()
O início do desempenho do papel de gênero, ou
nosso comportamento social, se dá no momento em que
nos percebemos enquanto menino ou menina. É a fase
em que o menino tem consciência do seu pênis, passan-
do a ter uma identidade genital, e percebe que pertence
ao gênero masculino. A menina vive o mesmo processo,
e os dois passarão a ter comportamentos masculino e
feminino, respectivamente.
O desenvolvimento desse papel de gênero precisa
ser o mais livre possível, e é de suma importância, por
4. Co-inconsciente: Para Moreno, esse estado pressupõe a relação
entre duas ou mais pessoas, vivências, desejos, sentimentos e até
fantasias que são comuns e se dão em "estado inconsciente". Esse
estado se daria concomitantemente aos "estados co-conscientes"
de comunicação entre as pessoas.
28
ser o papel-base. Ele servirá de eixo para o desenvolvi-
mento de todos os outros papéis de gênero, inclusive o
do papel afetivo-sexual.
Na infância, esse desenvolvimento é muito lento.
Primeiro, a criança se relaciona com a mãe e com o pai,
depois com os demais familiares, com a escola, com a
sociedade. A cada momento os seus papéis de gênero
vão sendo confirmados.
Quando chega a adolescência, que muitos chamam
de "aborrescência", o processo "explode" e se torna acele-
rado. Então, rapidamente, em dois ou três anos, aquela
criança, que tinha um papel de gênero tranqüilo, pode ficar
muito perturbada com a eclosão dos hormônios.
Surgem os caracteres sexuais secundários, como
barba nos rapazes e seios e menstruação nas moças,
além do timbre de voz diferenciado. Também os carac-
teres sexuais primários, os genitais externos, se trans-
formam.
O pênis e a bolsa escrotal se desenvolvem, a vulva
toma outra conformação, e é como se aquele corpinho,
que até então era igual para os dois sexos, com exceção
da genitália, passasse a ter uma outra moldura biológi-
ca. No entanto, só será possível ser um homem ou uma
mulher, com os papéis de gênero bem desenvolvidos, na
idade adulta.
C()MVLl:TANU() () Ul:Sl:Nt1()
Em que momento podemos ter certeza sobre quem
somos?
Essa pergunta crucial para muitos de nós só pode
ser respondida se a nossa identidade de gênero e nossos
papéis de gênero foram completamente desenvolvidos,
de tal maneira que exista uma total sintonia entre o que
sentimos e a maneira como exteriorizamos esses senti-
mentos, por meio do comportamento e das atitudes.
29
Existem alguns aspectos, a maioria de ordem cul-
tural, que podem definir o papel de gênero masculino e
o papel de gênero feminino. As diferenças entre as
genitálias externas masculina e feminina e entre os
caracteres sexuais secundários que surgem na adoles-
cência são evidentes e não necessitam ser comentadas.
Outro aspecto é a saúde do corpo, a aparência fisica,
a semelhança existente entre homens e mulheres muito
magros ou obesos. Os homens e as mulheres saudáveis
têm condições de mostrar mais claramente a sua mas-
culinidade ou a sua feminilidade.
Os cuidados com o corpo que os meninos e as
meninas aprendem a ter são completamente diferentes.
A menina aprende a escovar o cabelo, desde cedo usa
xampu e outros cremes, passa esmalte nas unhas.
começa a se embelezar. O menino limita os cuidados com
o corpo à higiene.
Na medida em que ocorre o desenvolvimento da
sociedade, a transmissão desses papéis vai se tomando
mais elástica e, felizmente, menos rígida. As pessoas aos
poucos se dão conta de que não é um creme para a pele
que o garoto usa, benéfico para a saúde, que vai, no
futuro, tomá-lo menos homem. Muitas dessas mudan-
ças devem-se ao movimento feminista que começou nos
Estados Unidos na década de 60 e chegou ao Brasil na
década de 70.
A postura do corpo, a gesticulação, tudo isso é
"ensinado" muito cedo. A criança aprende muito pela
imitação do comportamento dos pais. Assim, a menina
aprende que não deve sentar de pernas abertas, não
pode mostrar a calcinha. O menino é "treinado" de outra
forma, e não há tanta preocupação com seus modos.
limitando-se ao que se entende por boa educação.
Como podemos ver, todos esses aspectos são rela-
tivos a como um homem e uma mulher lidam com o seu
corpo e o seu psiquismo e corno se comportam em nossa
sociedade. Isso vale para o modo de falar, a abordagem
dos assuntos, o tipo de roupa e até o uso dos enfeites.
30
O homem não deve chorar, não deve exteriorizar
muitos de seus sentimentos, porque isso seria uma
característica feminina. A mulher, por sua vez, não pode
demonstrar força nem determinação, pois isso é próprio
do comportamento "masculino". Essa situação acaba
criando dois seres pela metade. Hoje, a mulher já pode
mostrar a sua força, mas o homem ainda não conquistou
o direito de expor a sua fragilidade. E menos ainda de
expor suas fraquezas.
Nem sempre os papéis de gênero assumidos pelo
individuo estão em consonância com os seus atributos
fisicos. Um caso muito conhecido é o da modelo Roberta
Close, que nasceu biologicamente homem mas desen-
volveu papéis de gênero totalmente femininos. Se não
conhecêssemos a sua história, diríamos sempre tratar-
se de uma mulher, e não de um homem.
O desempenho dos papéis de gênero são estabele-
cidos pela sociedade. Existe, nessa sociedade, sempre
uma linha mais ou menos comum a todos os homens e
mulheres, em termos de comportamento. As diferenças
vão acontecer de cultura para cultura, ou de época para
época.
No mundo, a maior parte das relações entre as
pessoas é de gênero e pouco envolve a sexualidade
propriamente dita. Se considerarmos a grande quanti-
dade de papéis que assumimos, o lado sexual só vai se
manifestar com uma pessoa que amamos ou desejamos.
No entanto, nossa cultura tende a erotizar muitas
dessas relações. É fácil hoje ver anúncios dos mais
diferentes produtos, de cigarros a peças para automó-
veis, relacionados com situações em que estão envolvi-
dos o sexo e "um convite ao prazer".É também comum ouvir que é impossível a amizade
entre um homem e uma mulher, porque nessa relação
estaria sempre presente uma segunda intenção de cará-
ter sexual. Isso não é verdade e, se ocorre na cabeça
dessas pessoas, é porque está havendo uma mistura de
31
papéis: o papel de amigo (de gênero) e o papel afetivo-se-
xual (relacionado ao sexo).
É evidente que duas pessoas amigas podem fazer
amor ou até se apaixonar, mas, nesse caso, estarão
assumindo um novo papel. Esse amor pode, e até deve,
conter a amizade, mas essas duas pessoas não estarão
mais desempenhando o papel de amigos.
32
llASCUUNO
A
Ili ·ESCALA DE PAPÉIS DE GÊNERO
(PAPEL SOCIAL!
Afeminado
MASCUUOO
E
FEMINIOO
e
FEMININO
Masculinizado fEMNN()
D
Nesta escala, as pessoas podem ir e vir, independente-
mente do seu sexo biológico e de sua identidade de
gênero. Os papéis de gênero podem ser treinados e
desenvolvidos. Os atores proftssionais mostram, atra-
vés de sua arte, esta possibilidade. Os transexuais
masculinos podem ir de A, passar por B, C, e adaptar-se
em E. O mesmo pode ocorrer com as transexuais
jemininas, no sentido inverso da escala. Algumas pes-
soas. como por exemplo os travestis, podem passar
parte do dia em A e outra em E. independentemente do
sexo biológico.
~ós podemos definir orientação afetivo-sexual
como a sensação interna de que temos a capacidade
para nos relacionarmos amorosa ou sexualmente com
alguém. Ela é parte da identidade sexual, algo que
pertence ao nosso mundo interno, ou ao psicológico.
O termo "orientação sexual" é mundialmente usado
para designar se esse relacionamento vai se dar com
alguém do sexo oposto, do mesmo sexo, ou com pessoas
de ambos os sexos. Preferimos acrescentar ao termo a
palavra "afetivo" para deixar claro que esse relaciona-
mento não é só de ordem sexual, mas também envolve
o amor e o afeto. E os afetos podem ser de natureza
positiva ou negativa. E também porque nem sempre
afeto e sexo caminham de mãos dadas.
A orientação afetivo-sexual está vinculada aos sen-
timentos que existem dentro de todos nós em relação a
outra pessoa. Entre esses sentimentos estão o desejo e
o prazer sexual, as sensações do orgasmo, as fantasias
sexuais, os sonhos eróticos, o amor e a paixão.
Esses sentimentos têm seus contrários, como o
ódio, a repulsa, a frieza, a indiferença e todas as outras
33
emoções que perpassam as relações humanas. Também
pode ser acrescentado à orientação qfetivo-sexual o sen-
timento de se ter a capacidade da reprodução. Uma
pessoa pode ser fértil, mas carregar a sensação de que
não pode procriar, e muitas vezes ocorre a situação
exatamente inversa.
Não se trata, como vimos em capítulos anteriores,
da sensação interna de que pertencemos ao gênero
masculino ou feminino e nem mesmo se o nosso com-
portamento, nas diversas atividades da vida, é masculi-
no ou feminino. Estamos falando agora de uma questão
tão específica quanto importante, que é a capacidade de
escolher a pessoa que vamos amar ou com quem teremos
um relacionamento sexual.
As atuais pesquisas científicas consideram que a
orientação afetivo-sexual é construída, psicologicamen-
te, na primeira infância, até os quatro ou cinco anos de
idade. No entanto, somente na adolescência passamos
a ter consciência desses sentimentos, que se confirmam
ou não na idade adulta.
Quem não se lembra de suas grandes paixões de
adolescente, muitas impossíveis, "amenizadas" com
memoráveis bebedeiras? Relembradas anos depois
com os olhos da realidade parecem não ter significa-
do algum.
O tempo é sábio e tudo acontece na hora certa. Com
o despertar do desejo sexual na adolescência, a partir
da explosão hormonal própria da idade, começamos a
ter consciência de que nossos sentimentos amorosos e
emoções dirigem-se para alguém do sexo oposto, para
alguém do mesmo sexo ou para pessoas de ambos os
sexos. Essa consciência nos revela como heterossexual,
homossexual ou bissexual, o que poderá ou não ser
confirmado mais tarde.
34
Anteriormente, ainda na infância, todos os senti-
mentos, considerados prévios ou primários à orientação
afetivo-sexual, são indefinidos ou discretos, e dos quais,
nessa fase, temos pouca consciência. Não é dificil encon-
trar casos de crianças, principalmente meninos, que se
"apaixonam" por uma babá ou uma prima de mais idade.
Mas, nessa "paixão", está ausente o componente erótico
e, conseqüentemente, o desejo sexual.
Na infância, desde os 4 ou 5 anos até a adolescência,
é como se nós passássemos por um período de latência
em relação a esses sentimentos. Na realidade, esses
sentimentos ainda não emergiram.
Na adolescência eclodem os hormônios sexuais,
disparados pelo relógio biológico, o que pode ocorrer,
conforme a pessoa, aos 1 O, 11, 12 anos ou até mais tarde
um pouco. A explosão desses hormônios faz surgir os
caracteres sexuais secundários.
A orientação afetivo-sexual pode ser básica ou cir-
cunstancial. Uma pessoa pode ser basicamente heteros-
sexual, ou basicamente homossexual, mas somente na
idade adulta terá essa certeza. No período da adolescên-
cia, quando essa revelação acontece, a própria pessoa
pode não ter muito claro qual é, afinal, a sua orientação.
Mesmo na idade adulta, essa orientação pode ser
temporária, dependendo das circunstâncias da vida. Em
ambientes onde ficam confinadas por longo tempo pes-
soas do mesmo sexo, como presídios, um indivíduo
poderá ter um sentimento ou um comportamento hete-
rossexual ou homossexual, retornando a sua orientação
básica assim que a situação de vida se modifique. A bem
da verdade, todos nós podemos "ser" heterossexuais ou
"estar" heterossexuais, "ser" homossexuais ou "estar"
homossexuais.
35
O mundo, em meados do século passado, foi dividi-
do pela Medicina em pessoas heterossexuais e homos-
sexuais. A partir de 18691, momento em que a
homossexualidade, corno comportamento, ganha esse
nome, essa orientação afetivo-sexual entra para a Medi-
cina como algo patológico ou doentio.
Os sentimentos e os comportamentos heterosse-
xuais e homossexuais, no entanto, são tão velhos quanto
o mundo. Desde que o homem existe, esses sentimentos
estão presentes, sempre aconteceram em todas as socie-
dades e em todas as culturas, independentemente de
serem primitivas ou avançadas.
O fato é que até a metade do século passado não
havia uma preocupação em considerar a homossexua-
lidade como doença. Desde então, os homens passa-
ram a ser categorizados como sendo normais os
heterossexuais e patológicos os homossexuais. Dessa
forma, a Medicina, a Genética, a Sociologia, a Antro-
pologia passaram a estudar a orientação afetivo-sexual
dos homossexuais.
Na medida em que a grande maioria das pessoas
tem uma orientação heterossexual, perto de 90% da
população, isso foi considerado como o normal, e a
homossexualidade, como o desvio. Essa visão levou as
pesquisas a sempre se dirigir para a busca das "causas"
da orientação afetivo-sexual homossexual. A Ciência pa-
rece ter-se esquecido de perguntar quais são os mecanis-
mos que levam uma pessoa a ser heterossexual.
1. Até 1869 a relação afetivo-sexual entre homens era objeto de
estudo do campo da F!losofla. da Religião e do Direito. Naquele ano,
quando o II Reich germãnico havia introduzido essa forma de
sexualidade no código penal como sendo passivei de pena de morte,
o médico húngaro Karoly Benkert passou a denominares se com-
portamento como "homossexual" e a defini-lo como de natureza
congênita. Com Isso, a homossexualidade deixou de ser crime e
começou a serestudada pela Medicina como "uma doença mental
a ser tratada".
36 Ronaldo Pamplona da Costa
Existem muitas teorias psicológicas sobre como se
dá a construção da orientação afetivo-sexual, o que querdizer que nenhuma delas é definitiva. As teorias desen-
volvidas por Freud no ínicio do século procuram explicar
a orientação afetivo-sexual como sendo algo que se
estabelece a partir do relacionamento da criança com os
pais, nos primeiros anos de vida.
De acordo com Freud, nesse estágio de desenvolvi-
mento, a criança experimentaria sentimentos incons-
cientes de "desejo sexual" em relação a um dos pais,
juntamente com sentimentos de "rivalidade", também
inconscientes, para com o outro, e vice-versa.
Para o médico-psiquiatra e psicodramatistaJosé Fon-
seca, a criança, após manter uma relação apenas e exclu-
sivamente com a mãe, ou só com o pai, se dá conta de que
os dois, pai e mãe, têm um relacionamento entre si.
Nesse momento, de acordo com Fonseca, que faz
uma releitura do desenvolvimento da Matriz de Identi-
dade ou núcleo familiar proposta por Moreno, a criança
entra na chamada "crise da triangulação", podendo
sentir-se rejeitada ou não, dependendo de como se dá a
intercomunicação entre os três.
A resolução dessa crise pode ser a criança aceitar
que ela não é o centro do mundo, que as outras pessoas
têm relacionamentos entre si, independentemente dela,
o que não significa que ela receberá menos afeto por isso.
Superada essa crise, ela estará pronta para relacionar-se
com as demais pessoas, entrando na fase da socialização.
Tudo isso acontece com a criança de forma incons-
ciente, e por volta dos 5 ou 6 anos ela já pode ter
resolvido essa crise. Nessa fase, a criança tem como
primeiro modelo o relacionamento entre um casal, ge-
ralmente heterossexual. E esse primeiro modelo poderá
servir como ponto de partida para seus relacionamentos
afetivos e sexuais no futuro.
Os Onze Sexos 37
Acreditamos que, do ponto de vista psicológico,
o primeiro passo para a construção da orientação
afetivo-sexual é a definição da identidade de gênero.
Antes de "sabermos" para quem dirigiremos nossos
afetos e nossas emoções de cunho sexual, nós preci-
samos saber se somos uma pessoa do gênero mascu-
lino ou do gênero feminino.
Esse é o primeiro passo, mas não o determinante.
O segundo passo importante para a orientação afeti-
vo-sexual é a resolução da crise da fase da triangula-
ção, a partir do relacionamento da criança com o pai
e com a mãe.
O fato é que as teorias psicológicas não explicam,
para a Ciência, como um todo, o modo como isso acon-
tece. Os cientistas que desenvolvem seu trabalho de
pesquisa sob um ponto de vista mais biológico ou social
não aceitam que só isso explique a construção da orien-
tação afetivo-sexual.
Nos últimos tempos, cientistas especializados em
Biologia e Genética desenvolveram estudos que pudes-
sem indicar uma predisposição inata para a homosse-
xualidade, mas nenhuma dessas teorias conseguiu ser
conclusiva para explicar como se determina a orientação
afetivo-sexual.
Em agosto de 1991, o pesquisador norte-americano
Simon LeVay publicou um importante artigo na revista
Science. Nesse trabalho, o pesquisador mostra as dife-
renças de tamanho de um determinado grupo de células
que pode ser encontrado no hipotálamo, a região do
cérebro responsável pela elaboração das emoções e dos
sentimentos eróticos.
Com base nesses estudos preliminares, Simon Le-
Vay passou a estudar esse grupo de células cerebrais
obtidas de autópsias de três grupos de indivíduos. Ao
38
todo, foram realizadas 41 autópsias de pacientes faleci-
dos em decorrência da Aids, dentre os quais estavam
mulheres, e homens homo e heterossexuais.
O pesquisador concluiu que essas células estuda-
das eram de tamanho menor nos homossexuais se
comparadas com as obtidas das mulheres e dos homens
heterossexuais, o que indicaria alguma relação entre a
conformação celular do hipotálamo e a orientação afeti-
vo-sexual.
Nessa pesquisa publicada por LeVay, ele não havia
obtido material de mulheres lésbicas e também não
descarta alguma implicação da "causa mortis" relacio-
nada com a Aids no tamanho das células.
Richard Pillard, professor de Psiquiatria da Uni-
versidade de Boston, nos Estados Unidos, desenvolveu
um estudo com gêmeos idênticos (univitelinos). com-
parando-os com os não-idênticos (bivitelinos). Ele
mostrou que existe uma incidência maior de homos-
sexualidade nos dois univitelinos, mesmo que criados
por famílias diferentes, do que no caso dos gêmeos
não-idênticos. Isso faz pensar que poderia existir algo
de genético determinando a orientação afetivo-sexual
das pessoas, uma vez que os gêmeos idênticos têm a
mesma configuração genética.
Em julho de 1993 a revista Scíence publicou um
artigo sobre uma pesquisa que estava sendo desenvol-
vida pelo Instituto Nacional do Câncer dos Estados
Unidos, sob a coordenação do professor Dean Hamer.
Hamer selecionou 76 homens homossexuais, e pas-
sou a estudar seus familiares paternos e maternos. O
resultado do estudo mostrou que entre os familiares
paternos do pesquisado havia a incidência de 2% de
pessoas homossexuais, índice que crescia para 7,5%
quando se tratava do lado materno.
Isso levantou a hipótese de que a homossexualidade
estaria vinculada a um fator genético do lado materno,
mais diretamente relacionado com o cromossomo x.
39
A equipe de Hamer também selecionou, posterior-
mente, 40 pares de irmãos homossexuais, que não
tinham características semelhantes. Dentre essas 40
duplas, 33 delas, ou seja. 82,5%. tinham a mesma
seqüência de DNA (a substância dos genes) em uma
parte específica do cromossomo x da mãe.
A partir desses dados ele levantou uma hipótese, a
ser confirmada, de que alguns homossexuais apresen-
tariam uma predisposição genética para ter essa orien-
tação. O estudo de mulheres lésbicas não mostra os
mesmos resultados e ainda não foi concluído.
Dean Hamer deixa claro que seu achado poderá
mostrar uma predisposição ou tendência, para esse
comportamento. Como se trata de tendência, ao longo
da vida ela será ou não confirmada, dependendo de
inúmeros outros fatores.
Preferimos considerar que as origens da orientação
afetivo-sexual no ser humano seriam fruto de uma gama
de fatores que podem ser de ordem orgânica (neurológica
ou genética). psicológica, e social, ainda não totalmente
compreendidas e variando de pessoa para pessoa.
O casal de pesquisadores norte-americanos Mas-
ters e Johnson2 afirmou em 1979: "Até que se conheça
mais sobre as origens da heterossexualidade é dificil
acreditar que um entendimento significativo seja atingi-
do. acerca das origens da homossexualidade".
Somos seres dotados de inteligência, e é impor-
tante que descubramos como e por que nos compor-
tamos desta ou daquela maneira. No mínimo para nos
entendermos melhor e vivermos mais saudáveis, do
ponto de vista biológico, psicológico e social.
2. O médico William Masters e a psicóloga Virgínia Johnson são
pesquisadores norte-americanos especializados no estudo dase-
xualidade. O livro do casal, Conduta Sexual Humana, lançado em
1966, é um marco na sexologia moderna. Masters e Johnson
estudaram em laboratório relações sexuais de casais hetero e
homossexuais.
40
Uma pessoa, qualquer que seja sua orientação afe-
tivo-sexual, só será feliz se estiver em sintonia e em paz
consigo mesma.
IV ·ESCALA DE ORIENTAÇÃO AFETIVO-SEXUAL
!DESEJO)
1 HETEROSSEXUAL ~
1 1
BISSEXUAL
A B e D
A partir da idade adulta estarenws, basicamente, em wn
segmento da escala. Entretanto. o deslocamento ao lon-
go da escala é possíuel e dependerá dafase da uida, do
momento psicológico e das circunstâncias sociais. Por
exemplo, ir de A até E e uoltar ao seu ponto básico e
uice-uersa. Ou, ainda, de A para C, de D para A e assim
por diante. Ao nível das fantasias e dos sonhos o percur-
so de cada wn atraués de todos os segmentos poderá ser
liure. O deslocamento do des~obásico não sfgn[fica que
o indiuiduo uiuerá obrigatoriamente relações ao níuel do
papel afetiuo-sexual pois. para muitas pessoas, este
sentimento é passíuel de ser "controlado".
41
••g . . t uem nunca viveu uma paixao, nunca vai er
nada não", dizia o poeta Vinicius de Moraes.
Toda a história da humanidade está repleta de
paixões, amor, sexo. Até mesmo se decidiu o destino de
nações a partir do relacionamento amoroso entre ho-
mens e mulheres ou entre homens.
Verdade ou não, a famosa Guerra de Tróia começou
com o rapto de Helena, mulher do rei de Esparta, por
Páris, principe de Tróia. Ao que parece, ele se apaixonou
perdidamente pela bela grega. Após dez longos anos de
batalha, entre gregos e troianos, que teria acontecido por
volta de 1300 a.C., a cidade de Tróia foi finalmente
destruída, e com ela uma civilização.
O amor tem sido tema constante na literatura mun-
dial, em todas as épocas. Hoje milhões de pessoas
acompanham, noite após noite. os encontros e desen-
contros amorosos nas novelas da 1V. Por que esse
assunto desperta tanto interesse?
Uma resposta é que o afeto, o amor e o sexo são
necessidades básicas para nós. E, de todas as relações
humanas, estas são consideradas as menos resolvidas.
43
O papel afetivo-sexual é o mais importante de
nossa vida. É através dele que conseguimos estabele-
cer um vínculo que pode ser de amor e sexo, de amor
sem sexo ou ainda de sexo sem amor.
Somente nessa relação vamos poder experimentar
o prazer da paixão e do amor, o prazer de nos entregar-
mos um ao outro, o prazer sexual e o prazer de nos
reproduzinnos, gerando filhos.
Alguns dos mais dolorosos conflitos humanos estão
direta ou indiretamente relacionados com a impossibili-
dade ou dificuldade de se desempenhar adequadamente
o papel afetivo-sexual. Essa parte de nossa vida é a única
que precisamos desenvolver. por nossa própria conta,
sem a presença "de um professor". Na sociedade moder-
na, não existe nenhuma atividade que não possa ser
ensinada e aprendida na escola ou na vida, salvo o papel
afetivo-sexual.
Quando falamos em aprendizado, referimo-nos a um
processo sistemático de orientação, tal como se ensina a
ler, a tocar piano, a dançar. Do ponto de vista afetivo e
amoroso é até possível "algum aprendizado", observando
como fazem as outras pessoas, inclusive nossos pais.
Aqueles que têm uma orientação heterossexual na-
moram na frente dos pais, na presença dos amigos, em
sociedade. As cenas de amor são veiculadas à exaustão
em todos os meios de comunicação, e esse sentimento é
permitido, possível, desejado, cantado "em verso e prosa".
Mas, mesmo assim, quem não ficou um tanto perdido
no primeiro beijo? Quem não ficou em dúvida sobre o que
fazer com a boca naquele momento? Mesmo com os olhos
fechados, provavelmente gastamos alguns segundos ten-
tando entender como e o que estava acontecendo.
A relação amorosa é aplaudida, onde quer que ela
aconteça, desde que não traga consigo, explicitamente,
o seu lado sexual. Dessa maneira. só temos a chance de
44
"aprender" a fazer sexo com alguém mais experiente,
como as "profissionais". ou com alguém que saiba tão
pouco quanto nós.
Na adolescência, entre rapazes e moças que ainda não
tiveram uma experiência sexual, é comum a criação das
mais variadas fantasias, desproporcionais ao fato real.
Para o rapaz, existe um medo difuso no sentido de
que talvez, "naquele momento", ele não saiba como
reagirá a sua parceira, se vai machucá-la ou não satis-
fazê-la. As moças, por sua vez, criam um verdadeiro mito
sobre o orgasmo, como se esse prazer fosse capaz de
fazê-las "subir pelas paredes", enquanto explodiriam
toneladas de imaginários fogos de artificio.
Quando a primeira relação sexual acontece, muitas
vezes o que poderia ter sido bom e agradável ganha os
contornos da frustração. Uma sensação desconfortável
de que "tudo aquilo era só isso" toma conta da pessoa.
O desenvolvimento de todos os papéis da vida de-
pende de aprendizado, pois não são características ina-
tas nos seres humanos. Aprendemos a comer à mesa, a
fazer nossas necessidades fisiológicas em local e de
forma adequados, a higiene corporal é acompanhada
pela mãe ou alguém de nossa família. Ninguém nasce
sabendo como escovar os dentes.
Numa fase posterior, aos 4 ou 5 anos, vamos à pré-es-
cola, depois recebemos conhecimentos gerais no curso
primário, secundário e, por fim, aprendemos uma profissão,
na prática, numa escola técnica ou na universidade. Em
todos os papéis da vida temos a possibilidade de assimilar
os novos conhecimentos e de treiná-los na presença de
alguém que ensine e nos oriente. Porém, quando chegamos
à vida sexual, nada pode ser visto e nem mostrado.
Como o papel afetivo-sexual se desenvolve em nos-
sas vidas? Ele começa a aparecer na adolescência. Na
infância, não se pode afirmar que já exista o desejo
45
sexual. Evidentemente, quando nos referimos a essa
idade cronológica estamos considerando aquelas crian-
ças que vivem num ambiente social favorável e fazem
parte de uma família minimamente estruturada.
A realidade brasileira coloca nas ruas uma quanti-
dade muito grande de crianças que, por necessidade de
sobrevivência, "amadurecem" muito cedo, motivo pelo
qual a sua idade biológica nem sempre está de acordo
com o seu crescimento psicológico. Ainda não existem
estudos completos sobre qual pode ser a influência desse
meio hostil na formação do papel afetivo-sexual.
Quando a criança, menino ou menina, entra na
idade da meninice, que começa por volta dos 5 anos e
vai até os 10, ela passa a ter um prenúncio de sensação
sexual. Essa sensação é como se fosse um tipo de energia
latente que perpassa o seu corpo de maneira muito sutil,
tanto que a criança sequer tem noção disso. É comum,
nessa fase, os jogos considerados "sexuais'', que nada
têm de erótico, e que visam apenas reconhecer o próprio
corpo e o do outro, quanto ao gênero a que pertencem.
Não podemos falar ainda em sexualidade, propria-
mente dita, uma vez que esta continua em estado de
latência, e porque nesse momento outros papéis têm muito
mais importância. A criança se percebe como filho, sobri-
nho, que tem tios, avós, coleguinhas de escola. As brinca-
deiras e o estudo tomam muito tempo e compõem o
universo de preocupações das crianças nessa idade.
Seria ideal que a educação sexual se iniciasse nessa
idade, pois a criança está descobrindo como funciona o
mundo e está cheia de perguntas. A quantidade de
informações que ela recebe principalmente da televisão
é muito grande. Mas não pode interagir, questionar,
dizer que não entendeu.
46
A orientação sexual e a educação sexual precisam
ser feitas com naturalidade, sem tabus nem moralismos.
Infelizmente. muitos pais têm, eles mesmos. pouca ou
nenhuma informação sobre sexo, "acham vergonhoso" o
que fazem na cama ou não querem Mcorrer o risco" de
ensinar aos filhos aquilo que para muitos é proibido, feio
ou mesmo "pecado".
Aos poucos essa situação está se modificando, e
hoje, na década de 90, quem tem 18 anos foi criado com
um pouco mais de liberdade. Isso comparado com as
gerações que nasceram nas décadas de 40 e 50.
l:XIJL()SÁ() l~l:VITÁVl:L
Na realidade, a possibilidade de assumir o papel
afetivo-sexual só vai se dar na adolescência, com a
explosão dos hormônios e com a transformação do corpo.
Na puberdade, os caracteres sexuais primários. que se
referem aos órgãos genitais, desenvolvem-se. O desen-
volvimento desse papel a partir da adolescência será
diferente para rapazes e moças.
Nessa fase surgem também os caracteres sexuais
secundários, que vão moldando o corpo do menino e da
menina, transformando-os num homem ou numa mu-
lher. No homem, o timbre de voz toma-se mais grave,
ocorre a distribuição depêlos pelo corpo e os ombros
ficam mais largos.
Na mulher crescem os seios, os pêlos se concentram
em apenas algumas regiões e os quadris tomam-se mais
volumosos. Também são considerados caracteres se-
xuais secundários a menstruação das mulheres e a
ejaculação dos homens.
Quando essas transformações ocorrem, os adoles-
centes iniciam a descoberta de seu corpo, das emoções
que ele desperta nas outras pessoas e daquelas que os
outros despertam neles mesmos. As mudanças são tan-
tas e simultâneas que muitos se sentem perturbados e
necessitam, tanto quanto for possível, da compreensão
dos pais e dos outros adultos.
47
Nessa fase. rapazes e moças descobrem o funciona-
mento de seus genitais, costumam se masturbar com
maior ou menor freqüência e, na verdade, isto os levará
a saber mais sobre si mesmos e nem devem bloquear
essa necessidade. Na realidade, a masturbação é o
primeiro passo para o desenvolvimento desse papel.
A nossa cultura estimula o rapaz a desempenhar o
seu papel sexual muito precocemente, mas o mesmo não
acontece com o papel afetivo. Muitos pais, tios ou irmãos
mais velhos incentivam o adolescente para que ele exer-
ça a sua "potência" sexual. Hoje, isso ocorre com menor
intensidade, pois muitos jovens, criados de forma mais
livre, têm a sua primeira experiência sexual com uma
namorada ou com alguém de quem gostem.
Para os rapazes, não existe a preocupação com a
paternidade. O papel de pai não é estimulado nessa
idade, é postergado ao máximo e, quando acontece uma
gravidez, a "culpa em geral é da moça".
O rapaz pode e deve namorar, deve fazer sexo (ele é
quase obrigado a isso), mas não deve exagerar no seu
afeto, para não se casar precocemente. Muitos pais
defendem que o casamento deve ser adiado ao máximo,
para que isso só aconteça quando ele tiver uma profis-
são, e puder "manter" a sua família. Outros afirmam,
orgulhosos, que o "rapaz precisa, antes, viver a vida".
Seja lá o que isso possa significar.
A adolescência das meninas toma outro rumo.
Elas aprendem que não podem e nem devem tocar nos
seus genitais para não descobrir o prazer erótico e
existe uma grande preocupação com a virgindade.
Muitas moças só voltam a atenção para a sua
genitália quanto vão ao ginecologista, no clima de total
frieza que a situação exige. E isso acontece, na maioria
das vezes, quando o exame clínico se faz necessário
devido a uma doença ou à suspeita de uma gravidez.
Muito precocemente a menina tem a noção de que
pode ser mãe, a partir do momento em que começa a vir
a menstruação. Ela se sente então uma pequena mulher
48
e, se desejar, pode ser mãe. A formação profissional da
mulher é importante mas ainda secundária.
O rapaz passa por uma outra situação, que toma
explícito o seu desejo sexual. Ao ter sonhos eróticos,
acontece o que se chama de polução noturna, ou seja,
ele ejacula dormindo. No dia seguinte, a marca no lençol
ou na cueca deixam claro para si mesmo e para os pais
o quanto "é necessário" um relacionamento sexual. Mas
ele não é alertado de que já pode ser pai, e não é disso
que se gaba.
A mulher "aprende" a vincular amor e sexo. e são
poucas as que conseguem vislumbrar essas duas vivên-
cias como separadas. Na verdade, acreditam que essa é
uma situação natural, inata, quase biológica para elas,
e que é "diferente para os homens". Amor e sexo, no
entanto, podem ser separados se nós assim o desejar-
mos ou se assim nos ensinarem.
O homem, ao se relacionar sexualmente com a
pessoa que ama, pode integrar, nesse momento, o lado
afetivo e o lado sexual, que se distanciaram durante o
"aprendizado". É essa distãncia que faz com que muitos
homens tenham relações sexuais sem amor, ou, mesmo
amando alguém, façam sexo com outra pessoa.
() MU!lliil[)() MUU4
O comportamento humano, no que diz respeito ao
amor, ao afeto e ao sexo tem muito de cultural e vai se
modificando com o passar do tempo. Os valores de hoje
diferem daqueles de 50 anos atrás e certamente não
serão os mesmos no século 21.
Hoje, cada vez mais, aumenta o número de ado-
lescentes que preferem viver a sexualidade apenas
com as pessoas que eles amam. Se fala cada vez menos
em prostituição para os jovens, também pelo temor de
se contrair a Aids, mas muitos ainda têm sua iniciação
com uma profissional.
As moças adolescentes também, aos poucos, vão
reduzindo a importãncia da virgindade e, com o conhe-
49
cimento de métodos anticoncepcionais e da camisi-
nha, têm sua primeira experiência sexual bem antes
do casamento.
A nova maneira de criar as meninas também está
abrindo, para as mulheres, a possibilidade de desvincu-
lar o sexo do amor. Isso pode ser até uma opção, mas o
relacionamento sexual com a pessoa que se ama traz
uma gama muito maior de emoções e o próprio prazer
erótico tem outro colorido. Essa é a situação ideal para
todos mas nem sempre possível.
A partir do "aprendizado" convencional, vão surgir
dois seres adultos muito diferentes na forma de viver o
amor e o sexo. Por isso, não é à toa que o relaciornimento
entre homens e mulheres ainda é tão dificil e complica-
do, o que se demonstra estatisticamente pelo número
crescente de separações.
Na medida em que a adolescência termina, o
homem ou a mulher, agora donos de si, podem desem-
penhar completamente o seu papel afetivo-sexual, re-
lacionando-se com alguém do sexo oposto, do mesmo
sexo, ou de ambos os sexos. É a fase da criatividade
do papel afetivo-sexual.
Desse momento em diante, cada um coloca a sua
própria marca ou a do par que se forma. Esse seria o
momento ideal para urna vida a dois e para pensar em
filhos, pois as duas pessoas estão preparadas, com
vários de seus papéis consolidados e com todas as fases
anteriores resolvidas.
É também na fase adulta que se vai ter certeza sobre
a sua orientação afetivo-sexual básica na vida. Essa
vinculação entre orientação e papel afetivo-sexual é
fundamental, pois o mundo interno e o mundo externo
são duas partes totalmente intercomunicáveis e, para o
nosso perfeito equilíbrio, é necessário haver urna sinto-
nia fina entre ambas.
50
O papel afetivo-sexual, dentre todos os papéis do ser
humano é aquele cujo desenvolvimento se dá em condi-
ções mais precárias. Ele é o que merece ser reeducado
com todo conhecimento, cuidado e carinho porque apa-
rece conflituoso na maioria das pessoas. A pedagogia
desenvolveu os melhores métodos para que possamos
aprender toda e qualquer coisa. mas ainda engatinha a
respeito da educação e orientação sexual.
Em nosso país, algumas pessoas enfrentaram com
muita coragem o assunto, entre elas a psicanalista e
sexóloga Marta Suplicy. Ela desenvolveu, na década de
80, um trabalho pioneiro na 1V, e o Brasil, naquela
época, era um dos únicos países que tinha um programa
diário de educação sexual na televisão 1. Apesar de todos
os problemas com a censura então vigente.
É preciso reconhecer que há algum esforço do poder
público e de organizações não-governamentais em levar
a orientação sexual para as escolas, tema que sequer era
abordado 10 anos atrás. No entanto, essa disposição
esbarra no pouco ou nenhum preparo dos professores
para lidar com o assunto.
Os educadores, é claro, não têm culpa pela sua falta
de conhecimento, pois quase não há onde buscá-lo. Só
agora, em alguns pontos do país, principalmente nas
grandes cidades, começam a surgir grupos de trabalho
e de formação de professores de orientação sexual.
O cinema, o vídeo e as revistas eróticos e pornográ-
ficos acabam preenchendo um espaço. Nesse tipo de
material, pelo menos, os adolescentes, assim como os
adultos, podem ter uma idéia do que acontece, explici-
tamente, entre duas pessoas num momento de intimi-
dade sexual.
Amor e sexo são necessidades básicas de todos nós.
O atosexual é normal. natural e fisiológico. Cercar essa
l. Programa 7V Mulher, da Rede Globo de Televisão. Ia ao ar pela
manhã, diariamente, e foi mantido de 1980 a 1986, com produção das
jornalistas Rose Nogueira e !rede Cardoso.
51
realidade com uma aura de mistério só contribui para
aumentar os conflitos internos, intensificar o sofrimento
e empobrecer a alma.
Precisamos viver nosso lado afetivo e sexual sem "ter
que nos preocupar demais com o assunto", da mesma
forma como nos alimentamos, andamos, respiramos, so-
nhamos, ou nos absorvemos diante de um belo pôr-do-sol.
V ·ESCALA DE RELAÇÕES AFETIVO-SEXUAIS
DE HOMENS (PAPÉIS AFETIVO-SEXUAIS!
HOMEM HOMEM HOMEM HOMEM HOMEM COM COM COM COM COM MULHER MULHER E HOMEM TRAVESTI TRANSEXUAL
HOMEM MASCULINO MASCULINO
A 1 e D
VI ·ESCALA DE RELAÇÕES AFETIVO-SEXUAIS
DE MULHERES fPAPÉIS AFETIVO-SEXUAIS!
MULHER
COM
MULHER
COM
HOMEM
MULHER
COM
MULHER MULHER
COM COM
52
HOMEM E
MULHER
B
1 A
MULHER
e
TRAVESTI
FEMININO
D
TRANSEXUAL
FEMININO
Embora a maioria dos lwmens e das mulheres se
relacione com pessoas do sexo oposto (V e VI/A) ao
longo de sua uida uma parte signiftcatiua deles, depen·
dendo dajase de uida, do momento psicológico ou de
circunstãncías sociais, pode mudar de segmento na
escala, e, portanto, não estar f1Xo em nenhum deles. O
estar em um ou outro segmento dependerá não apenas
mas. principalmente, da decisão de cada indiuiduo.
Áté agora procuramos clarear, explicar ou expli-
citar todos os elementos que compõem a sexualidade
humana na sua esfera biopsicossocial. Pode ser que
você, em alguns momentos da leitura, tenha achado
tudo muito simples ou muito óbvio e, em outros,
algumas idéias e informações complexas das quais
nunca tinha ouvido falar.
Na realidade, tudo o que mostramos nos capítulos
anteriores acontece com os seres humanos ao mesmo
tempo, ou quase ao mesmo tempo. Tratamos o assunto
de maneira separada apenas para facilitar o entendi-
mento das tantas situações pelas quais todos nós pas-
sam os sem muitas vezes nos darmos conta, e,
propositalmente. não aprofundamos temas muito com-
plexos.
Na infância, os fatores biológicos, psicológicos e
sociais, elementos básicos que vão formar a sexualidade,
se desenvolvem simultaneamente e de forma interligada.
Na medida em que a criança vai tendo a sua identidade
corporal, e conseqüentemente a sua identidade genital,
53
ela passa por momentos de intensa vivência com as
pessoas que a educam. A identidade de gênero e o papel
de gênero vão se desenvolvendo ao mesmo tempo. Essa
diferenciação que estamos propondo entre identidade de
gênero e papel de gênero, além de ser teórica, na prática
também existe. A mesma coisa acontece com relação à
orientação afetivo-sexual e o papel afetivo-sexual.
O homem transexual, corno veremos na segunda
parte deste livro, sente-se mulher (identidade de gênero).
mas seu comportamento, eventualmente, pode ser mas-
culino (papel de gênero).
Esses dois aspectos da identidade sexual, gênero e
sexo, podem também ser dissonantes entre si. Um ho-
mem bastante feminino e urna mulher bastante mas-
culinizada podem ser heterossexuais e passar por
conflitos sociais, em função dessa "dissonância".
Em nossa cultura, infelizmente, muitos papéis de
gênero estão distorcidos e "sexualizados". A maior parte
das relações humanas se baseia, ou deveria se basear,
em papéis de gênero, que nada têm que ver com sexua-
lidade propriamente dita. No entanto, às vezes as "esta-
ções se misturam" e um exemplo comum são os casos
de assédio sexual no ambiente de trabalho.
Os próprios pais estão interpretando erroneamen-
te os seus filhos que, com 3 ou 4 anos, lhes dizem que
têm um "namorado". Nesse caso está havendo urna
confusão de papéis porque o que essas crianças têm,
nessa idade, é apenas uma relação de "amizade espe-
cial", ou também podem estar tentando imitar os
adultos.
Na medida em que pudermos perceber as diferenças
existentes entre os papéis de gênero (comportamento
social) e o afetivo-sexual (comportamento amoroso e se-
xual). certamente estaremos facilitando a nossa vida e a
dos outros.
54
J. L. Moreno entendia que o ápice do relaciona-
mento humano se dá quando acontece o que ele cha-
mou de encontro. Para que um encontro aconteça entre
duas pessoas, é necessário que a relação entre elas
seja uma relação télica, onde as duas percebem uma
a outra da maneira a mais intensa e próxima possível
da realidade de ambas.
O encontro de que estamos falando não pode ser
confundido com aquele que nós marcamos no relógio
com alguém. É um encontro que implica a sensibilidade,
a espontaneidade. É um encontro que se pode dar em
qualquer um dos vários papéis que nós estivermos
assumindo na vida.
Wilson Castelo de Almeida, psiquiatra e psicodra-
matista 1 afirma que a palavra encontro abrange diversas
esferas da vida. Significa estar junto, reunir-se, o con-
tato de dois corpos, ver e observar, tocar, sentir, parti-
cipar e amar, compreender, conhecer intuitivamente
através do silêncio ou do movimento, do beijo ou do
abraço, da palavra ou do gesto.
Encontro significa tomar-se um só. Significa não
apenas que duas pessoas se reúnem, mas que elas
se vivenciam e se compreendem cada uma com todo
o seu ser.
Se nós compreendermos melhor o gênero a que
pertencemos e a nossa sexualidade, estaremos mais
prontos para o verdadeiro encontro amoroso e sexual e
é para isso e em busca disso também que o ser humano
vive. Independente da forma de sexualidade das pessoas
no mundo, como nós veremos na segunda parte deste
livro, seria de suma importância que todos se dispuses-
sem a ter verdadeiros encontros uns com os outros.
1. Wilson Castelo de Almeida é médico e mestre em Psiquiatria pela
USP. O conceito de encontro está em seu livro Formas de Encontro -
Psicoterapia Aberta.
55
O encontro revigora, revitaliza, reenergiza os seres.
Ele dá o colorido mais intenso aos momentos da vida e
transforma o ser humano.
Moreno, médico, também vivia a poesia e escreveu
em 1915:
Um encontro entre dois: olho no olho, cara a cara.
E quando estiveres próximo tomarei teus ol11os
e os colocarei no lugar dos meus,
e tu tomarás os meus olhos
e os colocará no lugar dos teus,
então te olharei com teus olhos
e tu me olharás com os meus.
Assim, nosso silêncio se serve até das coisas mais
comuns e o nosso encontro é meta livre:
O lugar indeterminado, em um momento indefinido,
a palavra ilimitada para o homem não cerceado.
1
f) corredor do Fórum está cheio, com advogados
andando para lá e para cá. No meio do burburinho, um
homem visivelmente abatido acende um cigarro e se
aproxima, cabisbaixo, de outro, para puxar conversa.
"É duro se separar quando a gente gosta tanto de
uma mulher", diz ele, com a voz embargada, mal con-
tendo o choro. O outro, com ódio incontido no rosto,
responde: "Nunca mais quero me casar na vida, estou
contando os minutos para me ver livre daquela imbecil,
daquela filha da puta, daquela ... " A conversa fica pela
metade quando o funcionário da repartição chama um
dos casais para a audiência.
Atrás de um grande homem sempre há uma grande
mulher heterossexual. Para outros não há motivo de
orgulho, e muitos se convenceram de que a mulher
representou a ruína, a falência, a perdição ou o ponto
de partida para as mais absurdas violências. Grande
parte da nossa cultura, da nossa literatura, do cinema
e de todas as artes tem como tema a figura feminina.
Que mistério é esse que nos leva a considerar até mesmo
o nosso planeta como "Mãe Terra"?
59
São muitas perguntas para poucas respostas. Mas,
em boa parte, a raiz do problema está na incompreensão
a respeito da mulher.Essa incompreensão é tão profun-
da que alguns, sem pensar no que estão dizendo, che-
gam a afirmar que mulheres fazem parte das "minorias",
quando mais de 50% da população mundial é formada
por pessoas do sexo feminino.
UtiCIL Cl?l.&.TUl?.&.
Da incompreensão nascem os estereótipos, que são
aqueles moldes nos quais todos devem se encaixar,
queiram ou não. A mulher heterossexual será um fracas-
so se não se casar e não tiver filhos. O casamento deve
ser o objetivo de sua vida e com todas as armas precisa
conquistar "o seu homem". Mas atenção! Esse desejo de
conquista fica proibido de se manifestar, e só pode
aparecer, de leve, se o Mescolhido" mostrar alguma atra-
ção por ela.
Depois do casamento, com bolo e champanhe, é a
vez de a mulher se transformar numa boa dona-de-casa,
boa esposa, boa mãe, e pouco importa se ela será capaz
de tudo isso, depois de passar o dia inteiro trabalhando
fora, para equilibrar o orçamento doméstico. E, novamen-
te, atenção! Olhar para outros homens, NEM PENSAR.
Se ela quiser ter uma profissão, "não há problema".
Desde que não deixe de ser a Mdona-de-casa" e que, de
preferência, não ganhe mais que o marido, para não
criar Mconstrangimentos" diante dos amigos dele e da
vizinhança. E não cai bem para ela falar. mesmo com o
esposo, sobre sexo. Com outros homens, NUNCA. Se ela
sentir necessidade de abordar esse assunto, que faça
com uma amiga íntima, de preferência sem que os seus
maridos saibam.
Como podemos ver, todos esses estereótipos são de
ordem cultural, não definem ninguém e na verdade
60
servem apenas para colocar limites nas pessoas, na
maioria das vezes contra a sua própria natureza. É
evidente que hoje, na década de 90, grande parte das
mulheres não se comporta dessa forma, principalmente
as mais jovens.
No entanto, para muitas que hoje estão perto dos
40 anos e que pertencem às camadas médias da popu-
lação, esses "moldes" transformaram-se na sua verda-
deira maneira de ser. Elas acham perfeitamente
"normal" serem sustentadas pelos maridos, evitam fazer
cursos de profissionalização, "respeitam cegamente" a
fidelidade conjugal, seja o casamento bom ou não, e se
consideram felizes por terem uma família e filhos que
por sua vez vão se casar. E não são poucas as que
verdadeiramente "voltam a viver" quando ficam viúvas,
não como se tivessem perdido um ser amado, mas se
livrado de um pesado fardo.
A mulher de hoje é mais livre na sua maneira de ser,
mas isso não quer dizer que os estereótipos deixaram de
existir. Eles apenas se modificaram, e somente daqui a
alguns anos poderemos avaliar os prejuízos que causa-
ram. Hoje, por exemplo, a mulher liberada é aquela que
disputa. com os homens, o mercado de trabalho. que
exerce profissões arriscadas e que toma a iniciativa na
conquista amorosa.
Muitas mulheres heterossexuais transformaram em
verdadeiro símbolo de liberdade a decisão de colocar o
seu êxito pessoal acima de tudo, o que inclui os filhos e
o marido. Uma mulher, hoje. que, por natureza pessoal
e por escolha, decida se dedicar a tarefas domésticas em
sua própria casa certamente será discrinúnada, como se
administrar um lar e acompanhar de perto a educação
dos filhos fossem "tarefas humilhantes e desprezíveis".
Mais uma vez. neste caso, a sociedade está procu-
rando encaixar as pessoas em "moldes" estabelecidos. O
direito à cidadania não existe enquanto as pessoas não
puderem ser o que desejarem, da forma que desejarem.
livres de moldes de qualquer espécie.
61
Não há mistério algum. Claro que não conseguimos
entender muita coisa, principalmente sobre o nosso
comportamento, porque, na realidade, ele não vai bem.
Se pudéssemos crescer espontãneos, criativos e com
liberdade, certamente levaríamos a vida toda sem gran-
des problemas. Por razões complexas, a sociedade, or-
ganizada como está, acabou prejudicando nossa
espontaneidade e criatividade, capacidades com as
quais todos nós nascemos.
Então, o que é uma mulher heterossexual? Mulheres
heterossexuais são aquelas que têm como objeto de amor
e de desejo sexual o homem. Em uma determinada fase
da vida, a sua orientação afetivo-sexual levou-a ao en-
contro do sexo oposto.
No entanto, quando afirmamos isso não estamos
nos referindo apenas à realidade do corpo, mas princi-
palmente sobre como ela se sente. Não basta ter um
corpo feminino perfeito, mas SE SENTIR MULHER. se
comportar como mulher, e desejar um homem. Todas as
mulheres têm quatro características biológicas básicas,
que as distinguem dos homens. Só a mulher pode
ovular, menstruar, gerar e amamentar.
Em situações de profunda crise, algumas mulheres
heterossexuais só encontram apoio em outras mulheres.
Esse companheirismo e solidariedade pode resultar
numa relação afetiva, o que representa uma expressão
de carinho e conforto humano. Superada a crise, se a
orientação afetivo-sexual de ambas estiver definida
como heterossexual. a relação amorosa poderá termi-
nar, restando apenas uma íntima amizade.
() LIMITI: UA Lll31:1iUAUI:
Quando nasce uma menina, já está implícito para
a nossa sociedade que ela será feminina, desejará um
homem pa.ra se casar, terá filhos e uma família. Seu
62
projeto de vida é traçado no berço, e não passa pela
cabeça de muitos pais que a sua filha possa não desejar
esse futuro para si.
Vivemos hoje uma época de transformação de valo-
res familiares e culturais e as crianças começam a
crescer com mais liberdade. No entanto, a grande maio-
ria das moças, qualquer que seja a sua classe social,
ainda tem como sonho dourado o vestido de noiva, o véu
e a grinalda.
O tratamento dado pela mãe à filha, como jà disse-
mos, é muito diferente daquele dispensado ao filho. Com
a menina ela é dócil, carinhosa, reservando para o
menino um pouco mais de "firmeza". E esse tratamento
é comum a todos os demais membros da família, prin-
cipalmente por parte do pai. Mesmo que ele seja um
tanto severo e sisudo, com a filha no colo se derrama em
ternura, suavidade, proteção e cuidados. Sem se dar
conta, ele está transmitindo o modo como, na vida adulta.
os homens tratam ou procuram tratar as mulheres.
A partir do comportamento da família. a menina
percebe as diferenças que existem entre homens e mu-
lheres. A percepção intuitiva dessas diferenças vai levan-
do a menina a ter certeza de que é mulher. Esse
sentimento é reforçado com o aprendizado do modo de
se comportar. também diferente dos meninos.
É muito importante que os pais consigam perceber
sua filha como ela é, e acompanhem o seu desenvolvi-
mento. Mas não é só. Eles também devem ser capazes
de expressar, entre si e para a criança. com naturalida-
de, os sentimentos de amor. carinho, paciência, inveja,
prazer, ciúmes, irritação, raiva, impaciência, "saco
cheio" e tantos outros que fazem parte da natureza huma-
na. Com isso, estarão permitindo aos filhos que não
bloqueiem a sua espontaneidade e cresçam criativos.
Educar uma criança pode ser muito fácil ou muito
dificil. Se nós mesmos tivemos a sorte de crescer livres
e espontâneos, criar uma filha ou filho é tarefa simples.
No entanto, se a nossa infância foi recheada de limita-
63
ções sociais, no caminho contrário da nossa forma de
ser interna, a tarefa será muito difícil, porque não
seremos espontâneos.
A criança não nasce com regras sociais embutidas
em sua cabeça e, mesmo pequena, já possui um cérebro,
embora não totalmente desenvolvido, o que lhe permite
"perceber claramente" quando um adulto está transmi-
tindo algo sem convicção, "da boca para fora". Diante
disso, ela reage, a sua maneira, embirrando, chorando,
ou quebrando o vaso de cristal. Torna-se então uma
criança "difícil".
Somente nos últimos trinta anos, a Psicologia pas-
sou a ser estudada e ensinada entre nós e chegou à
populaçãoatravés dos livros, dos jornais e da televisão.
Até então não existia essa profissão no Brasil. Isso está
representando uma grande ajuda, mas algumas idéias
mal-compreendidas têm levado pais a criarem seus
filhos sem limites. A liberdade excessiva, o medo de
"criar traumas", acaba formando dentro de casa uma
pequena tirana ou um pequeno tirano.
()f:§C()l3l?I~()() () Mt()l?
A partir do movimento feminista, que começou nos
Estados Unidos na década de 60, e chegou ao Brasil dez
anos depois, as mulheres passaram a ter a chance de se
comportar, socialmente falando, de maneira mais pare-
cida com a dos homens. As roupas se tornaram unissex,
cabelos longos ou curtos podem ser usados por homens
e mulheres e, com a difusão da pílula anticoncepcional
e hoje da camisinha, o relacionamento sexual se tornou
mais livre. Entretanto, a desigualdade hoje ainda é
muito grande.
As meninas que nasceram biologicamente fêmeas
saudáveis, cresceram num meio familiar relativamente
equilibrado e estão tranqüilas quanto ao seu sexo reve-
larão na adolescência qual será a sua orientação afeti-
vo-sexual, que será confirmada ou não na vida adulta.
64
O crescimento dos seios, o timbre de voz feminino,
o arredondamento das formas do corpo, a menstruação,
fazem com que essa adolescente desenvolva dentro de si
o sentimento de que pode gerar e amamentar, como a
maioria das mulheres. Surgem então as grandes pai-
xões, muitas impossíveis ou inviáveis, pelo famoso joga-
dor de vôlei, pelo ator de televisão, por um professor.
São os sentimentos de amor e de desejo sexual,
que muitas vezes elas não denominam dessa forma
nem para si mesmas. Essas sensações, que surgem
nos primeiros anos da adolescência, indicam que a
sua escolha está se dando em direção a um homem, e
que sua orientação poderá ser de uma mulher heteros-
sexual. Estamos colocando a questão propositalmente
no condicional porque essa orientação só será confir-
mada, ou não, na idade adulta.
Na fase da adolescência a identidade e os papéis de
gênero já estão estabelecidos. O comportamento das
moças é bem definido, grande parte estuda, trabalha e
já tem suas próprias opiniões. Muitas namoram e já
passaram por sua primeira experiência sexual. Essa
maneira de ser difere, dependendo de sua classe social,
do ambiente em que vivem e de sua formação cultural.
A primeira menstruação infelizmente não é come-
morada em nossa sociedade, nem mesmo pelas mães.
Muitas deixam suas filhas na solidão do quarto, às voltas
com sentimentos de medo, dúvida, frustração e culpa.
Mas a natureza está dando o sinal de que, a partir
daquele momento, a menina se tornou mulher, e está
em condições de gerar e amamentar. Pode ser mãe.
Algumas poucas decidem que chegou o momento
de ter dentro de si uma criança. Outras engravidam
sem querer ou sem saber. A maioria deixa essa possi-
bilidade para mais tarde, para quando a vida estiver
mais em ordem. Mas a primeira menstruação mudou
tudo em sua vida.
65
Quase todas as novelas de 1V terminam com um
casamento heterossexual. Depois de mil encontros e
desencontros, o par romântico encontra-se em frente ao
altar, é abençoado e vive feliz para sempre. E nunca
ficamos sabendo como continuou a história.
É comum que nós queiramos ter esse mesmo des-
tino, porque, afinal de contas, o principal motivo para a
vida é a busca da felicidade. Ninguém, com um mínimo
de equilíbrio mental. faz alguma coisa sabendo de ante-
mão que vai sofrer e ser infeliz.
No entanto, a nossa sociedade não facilita muito a
trilha para a felicidade e, tantas vezes, "no meio do
caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do
caminho". Se isso vale para todos nós, para a mulher
mais ainda. Além da liberdade sexual e de expressão, o
movimento feminista trouxe uma segunda preocupação:
a da profissionalização da mulher.
Colocamos como segunda preocupação porque,
além da formação profissional. a mulher heterossexual
"tem" que continuar com seu papel de boa mãe, boa
esposa, boa dona-de-casa, se desdobrando numa dupla
jornada. Na primeira, em geral. não é remunerada. Na
segunda, quase sempre, é mal paga.
Claro que não podemos perder de vista a realidade
brasileira. Para muitas mulheres, na verdade milhões
delas, não há profissionalização alguma, no sentido da
realização pessoal, mas apenas uma luta desesperada
pela sobrevivência. São as cobradoras de ônibus, as
faxineiras, as empregadas domésticas, as bóias-frias. as
telefonistas, as balconistas, as feirantes, e tantas e tantas.
São em geral mulheres heterossexuais, casadas ou
solteiras. Sua orientação afetivo-sexual se desenvolveu
como foi possível e ela assumiu seu papel. Com exceção
de uma minoria que tem acesso à informação, à cultura,
e até a um tratamento psicoterápico quando necessitam,
as demais vivem como podem.
66
Para essa grande maioria, onde está o tempo para
pensar, sentir, aprender e experimentar as nuances de
seu papel afetivo-sexual? O papel foi assumido por
"instinto", por "exigência" da natureza e se desenvolveu
como foi possível. Trabalhando fora, sem chance de
estudar. vivendo em condições precárias nos bairros
distantes, essa mulher mal conhece suas emoções e
simplesmente "se casa".
Pode ser virgem ou não e, nessas condições, isso
nem faz tanta diferença para ela. Suas experiências
sexuais anteriores podem ter sido insatisfatórias, às
pressas, e sem qualquer prazer. Orgasmo na primeira
noite com o marido, nem pensar. Para aquelas que se
casaram virgens, a principal recordação é a dor, que nem
sempre existe "fisicamente", ou a estranheza de ser
penetrada por um outro ser.
Considera-se que uma mulher heterossexual pode
levar até dois anos para ter o seu primeiro orgasmo
numa relação amorosa estável. Nesse ínterim, não é raro
que já tenha um filho no colo e outro na barriga. O
planejamento familiar simplesmente não existe. e usar
camisinha para quê, se os dois "são fiéis um ao outro e
a Aids é um fantasma distante"?
Enquanto isso, o homem, seu companheiro, está
alheio a tudo. Durante o dia ele foi massacrado na
fábrica, esmagado na condução lotada, humilhado pela
falta de dinheiro e, com as últimas forças, encontrou
com dificuldade o caminho de casa. Na cama, de noite,
a exaustão é mais forte que o desejo, e a anestesia do
sono é preferível ao prazer do sexo.
Outras, infelizmente poucas, são mais privilegia-
das. Receberam noções de orientação sexual, puderam
conversar em família sobre amor e sexo, sabem da vida
amorosa dos seus pais. Viajam, vão ao cinema, ao teatro,
têm vídeo em casa, trabalham nas férias, curtem um
pouco mais a vida.
67
Mas mesmo para elas as coisas não estão totalmen-
te resolvidas. Os padrões de comportamento de uma
sociedade atravessam todas as classes sociais e nem
sempre a fartura, o dinheiro, a formação em uma univer-
sidade são passaportes para viver com liberdade.
As mulheres mais esclarecidas sabem que têm vul-
va, onde estão os grandes e pequenos lábios e o clitóris.
Já descobriram, ou pelo menos ouviram falar, que o
toque manual do clitóris pode levar ao orgasmo e que
esse é o primeiro passo para o aprendizado de uma boa
relação sexual com prazer.
Será que sabem mesmo? Essas mulheres que vão
com regularidade ao ginecologista, em geral, mesmo fora
do consultório, referem-se aos seus órgãos sexuais com
termos técnicos, como se estivessem tratando de um
aparelho que liga e desliga, funciona ou não funciona.
Elas sabem que têm vagina, mas poucas se enchem
de coragem para observá-la num espelho e conhecer
todos os meandros da sua anatomia. Não têm uma idéia
muito clara de onde é o colo do útero e provavelmente
nunca ouviram falar do ponto "G" (ou ponto de Graffen-
berg), que fica logo depois da entrada da vagina, e é um
dos pontos responsáveispelo orgasmo vaginal.
O corpo humano tem no mínimo 20 e no máximo
800 pontos erógenos, que tocados podem despertar o
prazer, como uma preparação para a relação sexual. Mas
onde estão? Algumas, lendo isso.já devem estar pedindo
um mapa, pelo amor de Deus.
Cada mulher heterossexual, sozinha ou com seu
parceiro, pode explorar seu corpo e o dele, descobrindo
esses pontos, que vão dos pés à cabeça. Isso é tarefa para
toda uma vida.
68
Treinadas desde meninas para não tocar em sua
genitália, muitas mulheres passam a vida sem passar
pela experiência da masturbação. Isso não significa
apenas uma maneira de se excitar sexualmente, mas de
conhecer, profundamente, o seu corpo e suas emoções.
Algumas, depois de toda uma vida de frigidez, desco-
brem o prazer do orgasmo com seu parceiro somente
depois de superarem a enorme barreira do tocar em si
mesma. Descobrir o próprio corpo é o primeiro passo
para uma relação a dois.
Para que a mulher heterossexual possa se vincular,
através de seu papel afetivo-sexual, a um homem, ela pre-
cisa estar em paz com a sua identidade de gênero e sua
identidade corporal, e especialmente com a sua identi-
dade genital. Isso significa que ela precisa SE SENTIR
MULHER, estar satisfeita com o fato de ter nascido fêmea
e reconhecer o seu órgão sexual como uma parte do seu
corpo, tão importante quanto qualquer outra parte.
O sexo é vital para a vida, pois, além do prazer que
nos propicia, sem ele simplesmente não existiríamos.
Você só está lendo esse livro porque, anos atrás, seus
pais se amaram e desse ato resultou a gravidez de sua
mãe e conseqüentemente o seu nascimento. Mas uma
coisa é o órgão sexual, e outra, muito diferente, é a
maneira como o sentimos, e como o utilizamos na nossa
vida amorosa.
Sendo uma parte do corpo, você pode estar insatis-
feita com ela por qualquer razão, inclusive de ordem
estética. Assim, não há motivo para não se recorrer a
uma cirurgia plástica. Uma mulher pode reduzir o ta-
manho dos grandes lábios, alterar o formato do Monte
de Vênus, onde estão os pêlos pubianos, ou tomar mais
saliente um clitóris demasiadamente embutido.
Estamos nos referindo a uma região do nosso corpo
que desperta emoções e sentimentos intensos e no caso
dessas cirurgias a avaliação de um psicoterapeuta é
fundamental. Muitas pessoas, inconformadas com o
69
formato do nariz, procuram um cirurgião plástico. Por
mais competente que seja o médico, não é raro o pacien-
te, ao se ver no espelho com "o nariz novo", chegar à
conclusão de que ficou pior. O caso é que algumas vezes
o problema está na cabeça e não no nariz. Infelizmente
a pessoa procurou o profissional "errado".
No Brasil, as cirurgias plásticas corretivas dos ór-
gãos sexuais da mulher ainda mal engatinham.
Um homem pode mudar tudo em seu corpo e até
alterar o seu sexo. Mas é impossível sentir e até mesmo
compreender o que sente uma mulher que está gerando
uma criança. Para os homens, não há qualquer possibi-
lidade de captar que sensações são essas de se ter dentro
de si, no ventre, um outro ser. E mais: que espécie de
prazer ou desprazer é esse.
A partir do momento em que a mulher deseja ser
mãe e se percebe grávida, ela passa por um profundo
processo de transformação, consciente ou não. Volta-se
mais para si, e para o ser que está sendo gerado,
intuitivamente alimentado-o e protegendo-o. Ela e o
bebê não se diferenciam e talvez não seja exatamente
correto afirmar que a mãe tem dentro de si uma criança.
Aparentemente, ela não sente o bebê como outra pessoa
mas como parte de si mesma, um pedaço de seu coração.
Durante o período de gravidez é comum surgir
algum desentendimento entre o casal heterossexual.
Toda a atenção da mulher, que antes era dispensada ao
homem, se transfere não para a criança, que ainda não
nasceu, mas para si mesma. São momentos de crise, e
muitos homens se sentem abandonados.
O mundo mudou muito. Para engravidar e gerar, a
Ciência estudou e conseguiu vários métodos. Por meio
de hormônios tomou-se possível fazer uma mulher, após
70
a menopausa, voltar a ter filhos. Entretanto, se com o
consentimento ou não da mulher um homem a fecun-
dou, a lei brasileira proíbe que uma gestação seja inter-
rompida, a não ser em casos específicos, como a gravidez
por estupro ou a que coloca em risco a vida da mãe.
Mesmo para estes dois tipos de aborto permitidos por lei
são poucos os hospitais públicos que atendem a mulher
para o ato cirúrgico e posterior acompanhamento.
Para interromper uma gravidez indesejada, a não
ser nesses dois casos, no Brasil é necessário burlar a lei.
Para essas mulheres, as conseqüências podem ser dra-
máticas, e uma grande quantidade delas morre por falta
de atendimento médico adequado.
Todo ser humano tem o direito de decidir sobre o
seu corpo, seja homem ou mulher. Assim, apenas à
mulher, e a ninguém mais, cabe o direito de decidir se
uma gravidez deve ou não ser levada adiante.
Mulheres não são anjos e nem demônios.
São seres humanos.
Entre elas existem as determinadas e as submissas,
as corajosas e as covardes, as amáveis e as desagradá-
veis, as carinhosas e as cruéis.
A nossa cultura, infelizmente com a concordância
de muitas mulheres, tem transformado as relações de
amor, afeto e sexo em mercadoria. O corpo feminino
despido, hoje, ajuda a vender sabão, refrigerante, carro,
seguros ...
Isso está se tomando tão confuso, que em muitos
painéis espalhados pela cidade já não temos mais certe-
za de qual é a "mercadoria" que está à venda. Se o
bronzeador ou a linda morena de tanga.
tiomem que é homem não chora.
Mas o que é ser homem e, como a maioria, heteros-
sexual? É brigar na rua por não levar desaforos para
casa? É competir em tudo sem nunca admitir uma
derrota? É ser capaz, com seu dinheiro, de manter uma
família? É não lavar a louça e nem cuidar das crianças
quando a mulher está fora?
Muitos, entre os que gostam de contar vantagens
nas rodas de amigos, são servis no trabalho mas se
acham no direito de reinar absolutos no lar, "doce lar".
Os mais "liberais" e mais abastados concordam até que
a esposa trabalhe fora, desde que seja apenas para dar
"uma mãozinha" no orçamento doméstico, comprar ba-
tom ou outras bijuterias.
Abraçar e beijar a mulher e os filhos é "permitido"
às vezes, mas com grande economia de afetos. Não fica
bem demonstrar carinho, ternura, porque isso "não é
coisa de homem". Quanta diferença do namorado apai-
xonado, que um dia até comprou flores. "Como você
mudou", é a frase inevitável na boca de tantas mulheres,
confusas e decepcionadas com seus maridos.
73
E o carinho com as outras pessoas, principalmente
se forem homens? Nem brincando. "Somos grandes
amigos", mas a aproximação máxima ternúna no aperto
de mão e no tradicional tapinha nas costas. O abraço
apertado só é pennitido em ocasiões muito especiais, como
no Natal, no Ano-Novo, na final do campeonato de futebol.
Um homem entra numa loja para comprar apenas
uma gravata. A balconista se aproxima, sorri, e faz uma
sugestão de cor e estampa. Que sorriso especial era
aquele? Ele começa então a perguntar sobre ternos,
camisas, meias, inflação e, finalmente " ... a que horas
você sair A funcionária, desinteressada, certamente
nem ouviu a "cantada".
É a permanente confusão entre os papéis de gênero,
que são os papéis comuns do nosso dia-a-dia, tais como
comprar, estudar, ir ao dentista. e o papel afetivo-sexual,
em que estão envolvidos o amor, o desejo e o sexo. Para
muitos homens heterossexuais, o simples contato com
uma mulher já coloca em sua cabeça o "colorido sexual".
Eles parecem só pensar "naquilo".
Em nossa sociedade, os meninos são "preparados"
para o desempenho sexual desde a mais tenra idade.
Essa forma de educação pode acabarimpedindo que um
homem heterossexual. na idade adulta, tenha urna ver-
dadeira amizade com uma mulher. Ainda hoje, são raros
os homens que têm amigas. com exceção talvez dos
pertencentes a uma pequena elite cultural.
É evidente que aos poucos as coisas estão mudan-
do. Muitos jovens de hoje já superaram essas barreiras
e comportam-se de maneira mais espontânea. A força
da televisão, e principalmente a da publicidade, está crian-
do novos valores. O "machão" começa a ficar fora de moda.
Muitos já se deram conta de que "ser homem" desse jeito
é o caminho mais curto para, no mínimo, o infarto.
Homens heterossexuais são aqueles que desejam
amar e se relacionar sexualmente com mulheres. Mas,
para chegar a essa definição, o homem heterossexual
74
nasceu um bebê macho e se desenvolveu, em termos
biológicos, normalmente, sem qualquer deficiência. Ele
SE SENTE masculino e desenvolve um comportamento
adequado a esse gênero.
Ao longo da infância e da adolescência, o contato
com a sua genitália foi relativamente tranqüila, e ele
pôde descobrir, sem maiores conflitos, suas emoçôes,
seu primeiro amor e suas primeiras desilusôes afetivas.
É na adolescência, quando os hormônios entram em
ação, que começa a se revelar a sua orientação afetivo-
sexual. E é na idade adulta que a verdadeira orientação
afetivo-sexual vai se confirmar. podendo ou não ser
aquela revelada na adolescência.
Muitos pais se preocupam com a preferência sexual
de seus filhos na fase de adolescência e, no caso dos
rapazes. o medo de que se tornem homossexuais é muito
grande. Alguns pais procuram se informar como podem,
enquanto outros ficam inseguros achando que falharam
na educação. Toda essa preocupação é desnecessária
porque o seu desenvolvimento, no devido tempo, vai
mostrar o caminho.
O mundo, tal como o conhecemos. das eras mais
remotas até hoje, é dominado pelos homens. Um ou
outro caso isolado de sociedade matriarcal só confirma
a regra geral. Esse domínio significa que ainda está só
nas mãos dos homens a decisão sobre o destino de
nações, de impérios econômicos e até dos rumos e da
aplicação da Ciência.
Se para a sociedade o poder está com os homens,
para eles mesmos o seu ponto mais forte, e estranha-
mente o mais frágil, está no pênis. Mesmo em culturas
antigas, objetos de arte ou decoração retratam a figura
do pênis ereto, geralmente desproporcional ao tama-
nho real.
75
Para os homens, o pênis tem um valor inestimável
porque ele é o símbolo da sua masculinidade e da sua
virilidade. Em geral, eles são muito preocupados com o
aparelho genital externo, pênis e bolsa escrotal. A não
ser que adoeçam, poucos se lembram de outros órgãos
genitais internos, como a próstata.
A identidade corporal de alguns homens heterosse-
xuais, que é a sensação que têm de seu corpo, pode ser
perturbada por suas próprias características tisicas. Por
exemplo, um acúmulo maior de gordura no peito, que
pode dar a aparência de seio. Mas para corrigir esse
problema, basta uma cirurgia.
Uma barba muito rala ou a falta de pêlos pelo corpo
também pode ser um problema. Mas, o que traz um
transtorno, sem dúvida, é o tamanho das nádegas,
principalmente no Brasil onde essa parte é muito valo-
rizada nas mulheres. Alguns homens heterossexuais
passam a vida usando a camisa fora da calça, para
disfarçar o seu constrangimento.
Todos esses caracteres sexuais secundários tam-
bém diferenciam homens de mulheres. E os homens,
com problemas dessa natureza, podem recorrer aos
tratamentos possíveis. Seria sempre recomendável uma
avaliação psicológica, pois a sensação de possuir um
corpo não tão masculino pode não coincidir com a
realidade do corpo tisico.
E há um outro detalhe. As mulheres heterossexuais
têm preferências variadas por corpos masculinos e nem
sempre os homens estão informados sobre esses gostos.
Na realidade, se o homem está bem consigo mesmo, ele
poderá estar bem com a sua identidade corporal.
Existem mentiras ou enganos a respeito do tama-
nho do pênis nos homens. É considerado normal um
pênis flácido que tenha de 4 a 1 O centímetros e está
76
dentro da normalidade um pênis ereto de 9 a 22 centí-
metros. O tamanho médio do pênis ereto fica entre 12 e
15 centímetros.
Um pênis ereto de 9 a 12 centímetros pode ser
considerado normal embora pequeno, assim como os de
17 a 22 centímetros são considerados grandes. O tama-
nho do pênis flácido nada tem a ver com o tamanho do
pênis ereto. Isso quer dizer que um homem que tem um
pênis flácido de 10 centímetros, quando ereto não é
necessariamente maior do que o de um homem cujo
pênis flácido mede 6 centímetros.
O tamanho do pênis também nada tem a ver com
a performance sexual. A vagina é um órgão elástico,
que pode se contrair ou se dilatar, na largura e na
profundidade, tanto que é capaz de dar passagem a
uma criança no parto.
Na maioria das mulheres, o tamanho da vagina
varia de 8 a 12 centímetros de profundidade, por 4 a 7
centímetros de largura. Ela tanto pode abrigar um pênis
de 9 centímetros e a relação ser muito boa, como receber
dentro de si um pênis de 20 centímetros e o ato ser
igualmente satisfatório.
É um outro engano achar que os homens de pênis
maiores satisfazem mais as mulheres heterossexuais.
Na realidade, elas até preferem, na sua maioria, homens
que tenham um pênis de tamanho médio. Outras estão
totalmente despreocupadas com o tamanho do pênis
ereto de seus parceiros, pois ato sexual envolve o corpo
todo. O prazer nem sempre está relacionado só com a
penetração. Até porque a maioria das mulheres tem
orgasmo a partir do clitóris.
O prazer sexual e o orgasmo fazem parte de uma
inter-relação. Mas ele também pode ser solitário. Tan-
to o corpo do homem quanto o da mulher podem
buscar o prazer por meio das carícias, do carinho.da
relação pele a pele. A preocupação dos homens heteros-
sexuais com o pênis pode levá-los a buscar um médico
77
para saber se o tamanho é normal, se está relacionado
com suas dificuldades com o orgasmo, ou se a ausência
de orgasmo de sua mulher está relacionada com o
tamanho do seu pênis. Esquecem-se de que o orgasmo
feminino não depende só deles. Mesmo um pênis de 7
centímetros quando ereto (micropênis) poderá propiciar
uma boa performance em termos da penetração.
Existem cirurgias plásticas que podem modificar o
tamanho e a circunferência do pênis. Em geral, o órgão
pode ser aumentado em 2 ou 3 centímetros. Entretanto,
essas cirurgias têm uma indicação muito res1:tita e só
devem ser procuradas nos casos em que o tamanho do
pênis possa estar sendo insuficiente para a penetração
vaginal. No caso de uma cirurgia, é necessátio uma
avaliação psicológica anterior.
Esses casos são raríssimos. Infelizmente, a nossa
cultura supervaloriza o tamanho do pênis e iss(), aliado
à faJta de informação, tem levado muitos homens a
procurar tratamento cirúrgico sem necessidade. Existe
ainda um outro risco, pois nem sempre o atendimento
é feito por profissionais competentes, o que pode resultar
num prejuízo para a saúde.
É importante que se diga que um homem com o
pênis nos limites normais, quando se toma muito preo-
cupado com seu tamanho, não deve estar bem com sua
masculinidade. Provavelmente o seu "pênis mental" é
que é pequeno.
O pênis ereto era um órgão que não existia para a
Medicina e, no Brasil, o órgão em ereção só passou a ser
pesquisado e tratado na década de 80. Na realidade, esse
órgão quando flácido tem algumas características e
quando ereto outras. Em casos de impotência e neces-
sário, por exemplo, que se faça a medida de pressão do
pênis, além de outros exames, porque existem algumas
patologias (doenças orgânicas) que interferem na ereção.
78
A avaliação médica do pênis em ereção é importante
para se determinaras causas da impotência. Em nosso
país, até meados da década de 80, os homens impotentes
eram vistos como pessoas que tinham problemas psico-
lógicos a serem resolvidos pelos psicoterapeutas. De lá
para cá, a Sexologia e a Andrologia, ciência que estuda
o comportamento sexual do homem, começaram a des-
vendar os mistérios que existem nos pênis eretos.
Essa nova abordagem da Medicina resultou na
descoberta de que uma quantidade muito grande de
homens impotentes necessitam muito mais do trata-
mento médico clínico do que do psicoterápico.
A impotência é um fantasma do qual os homens
têm verdadeiro pavor. Hoje um grande número de
médicos e psicólogos se dedica ao estudo desse distúr-
bio de funcionamento do órgão sexual masculino.
Entretanto, homens em avançado estado de diabetes ou
que sofreram um acidente e se tomaram paraplégicos
ou tetraplégicos, e que não têm ereção, poderão ter
também relacionamento sexual com as suas parceiras.
Nessa situação, o modo de se obter o orgasmo não
será só genital, mas corporal, levando-se em conta o
corpo como um todo. Existem possibilidades, em caso
de impotência irreversível, da colocação de uma prótese
peniana, que é uma espécie de haste flexível de silicone
dentro do pênis, o que só deve ser indicado por médicos
também especializados em sexualidade.
A ejaculação precoce, outro problema, tem causa
psicológica. Muitas vezes, o orgasmo rápido demais nos
homens pode estar relacionado com uma ansiedade,
com a vontade de terminar "bem" a relação sexual, antes
que ele "se perca".
Novamente a avaliação psicológica é importante.
Alguns médicos chegam a propor uma cirurgia para
reduzir a sensibilidade da cabeça do pênis, como forma
de corrigir a ejaculação precoce, o que é discutível por-
que não existe comprovação científica de sua eficácia.
79
Muitos homens heterossexuais confundem a sua
identidade de gênero com desempenho sexual. Os ho-
mens heterossexuais SE SENTEM HOMENS, têm certeza
de que são masculinos no seu corpo e na sua cabeça,
mas alguns se atrapalham no trabalho, por exemplo,
quando alguma coisa deu errado na cama, na noite
anterior.
Uma dificuldade qualquer de ereção, coisa absolu-
tamente normal, transforma-se num pânico. Algo que
poderia ser facilmente resolvido com a parceira entre
quatro paredes, passa para a vida do cotidiano. Assim
como nosso estômago às vezes funciona mal, com o
pênis pode acontecer o mesmo.
Quando isso se dá, é como se "toda" a masculinida-
de tivesse "ido para o brejo". Alguns, competentes pro-
fissionais, se tornam inseguros diante do chefe. Outros
ficam melancólicos e não são poucos os que descarre-
gam com violência a sua frustração no trânsito. O pior
é que depois de um dia estressante como esse, o desejo
sexual está liquidado, pondo a pique, de uma vez, o pênis
e tudo o mais.
Outro pânico incontrolável se instala quando um
homem heterossexual começa a ter medo da homosse-
xualidade. Depois de ter passado toda uma vida ouvindo
dos pais e do mundo que tem de ser homem, a idéia,
mesmo remota, de que possa sentir "algo" por outro
homem é simplesmente terrível. O medo de ser homos-
sexual se chama homofobia.
Essa situação é particularmente grave não só por-
que afasta, sem qualquer razão, os homens uns dos
outros, mas também porque pode ser motivo para vio-
lências e crimes. Quantas mortes já não aconteceram a
partir de uma brincadeira ingênua, ou de uma palavra
impensada, entre dois homens?
As mulheres não têm esse problema. Costumam ser
amigas mais próximas umas das outras, o que já não
80
acontece com a maioria dos homens, e isso afeta até
mesmo o relacionamento de um pai com o seu filho. Um
pai intranqüilo com a própria sexualidade pode, até sem
pensar, ter um relacionamento "distante" com o filho.
Além do pavor da atração por um homem, há outro, pior,
que é o terror inconsciente do incesto, entre eles.
Até que ponto a extrema competição entre os ho-
mens não tem, lá no fundo, um pouco desse medo?
Como ser cooperativo com alguém que representa "ta-
manho risco"? Será que um pequeno favor, uma genti-
leza, não estaria escondendo "algo proibido"?
O código de conduta entre os homens é rígido e
explícito, mas também implícito, e muitas relações do
gênero estão escoradas nessa preocupação de ordem
sexual. Um homem só cede seu lugar no ônibus a um
outro se este for muito idoso ou estiver passando mal.
Cabe lembrar também que esse medo vem muito da
influência cultural e social e, aos poucos, vai desapare-
cendo. Os homens que, hoje, no meio da década de 90,
estão chegando à idade adulta já não enfrentam tanto
esse problema. Alguns, propositadamente, assumem
uma aparência feminil, com cabelos longos e bem-trata-
dos. Pelo visto, fazem grande sucesso entre as garotas
da mesma idade.
Os homens heterossexuais podem e devem se rela-
cionar com os outros homens sem qualquer preocupa-
ção. Grandes amigos devem ter a liberdade de se abraçar
e de se beijar, sem qualquer risco de, depois disso,
transformarem-se em homossexuais, até porque isto
não é possível. Em alguns países, como a Rússia, o beijo
entre homens é sinal de profundo respeito e faz parte do
protocolo entre as autoridades.
O companheirismo entre homens é absolutamente
necessário e saudável e, em alguns momentos da vida,
um homem fragilizado precisa encontrar apoio em outro
homem. Problemas de homens seriam melhor com-
preendidos por outros homens mas, com tantas dúvidas
sexuais, o máximo de ajuda que se consegue pedir é
apenas algum dinheiro emprestado.
81
É evidente que se homens heterossexuais ficarem,
durante anos confinados em espaços onde não exista a
possibilidade de contato sexual com o sexo oposto, eles
poderão "estar", durante algum tempo, homossexuais.
Isso é comum em presídios e. embora hoje, no Brasil, se
permita a visita de companheiras para o relacionamento
amoroso, nem todos têm essa chance.
Esses homens poderão estabelecer relações homos-
sexuais de sexo e até de afeto. O que não quer dizer que a
partir daí esses homens mudaram a sua orientação afeti-
vo-sexual básica. Assim que ele deixar a situação de
confinamento, provavelmente voltará a se relacionar com
mulheres, sem nenhum problema.
Alguns homens heterossexuais também podem so-
frer de heterofobia. Esse é o nome que se dá para os
homens que têm um medo muito grande do relaciona-
mento afetivo e amoroso com mulheres. Alguns são
solteirões, outros até certo ponto "assexuados".
Quem nunca ouviu falar do amor sem sexo? Muitos
homens passam a vida tendo um relacionamento platô-
nico com mulheres, numa verdadeira "amizade amoro-
sa", sem relacionar-se sexualmente com elas. Eles não
são homossexuais, e resolvem essa parte da vida com
mulheres com quem não tenham um vinculo amoroso.
Todos esses problemas mencionados são alterações
da orientação afetivo-sexual heterossexual, que pode-
riam ser atendidas através de um tratamento psicoterá-
pico. Em nosso país, porém, o serviço público de saúde
ainda engatinha na possibilidade de oferecer às pessoas
a psicoterapia.
Quando um homem heterossexual se torna pai, ele
se enche de orgulho, que será maior se for um menino.
Distribui charutos ou bombons e às vezes toma um
"porre". Mas, e depois? A mulher amada era tudo para
82
ele e agora chegou mais alguém. E, de repente, todo o afeto
que recebia da mulher é transferido para a criança. Insta-
la-se então uma verdadeira crise "pós-parto masculina".
O bêbe começa a se tomar um rival para ele, ainda
que seja amado e desejado. Equacionar esse "triângulo
amoroso" não é fácil, e o próprio casamento pode passar
por dificuldades. Alguns chegam a romper a relação
amorosa por causa desse conflito, afastando-se, retor-
nando um pouco mais tarde, ou nunca mais voltando.
E o motivo nãofoi o choro permanente do bebê.
A natureza não possibilita aos homens compreen-
der os sentimentos de uma mulher grávida e de uma
mãe. Um homem não consegue se colocar nesse papel.
no que diz respeito às emoções. Diante dessa "crueldade"
da natureza com os homens, não há outro caminho a
não ser as mulheres falarem, o quanto puderem, com os
seus companheiros, sobre o que estão sentindo durante
a gravidez, o parto e a amamentação.
Num primeiro momento, provavelmente os homens
levarão um tremendo susto, ficarão pálidos, e se senta-
rão na cadeira mais próxima, "para disfarçar a vertigem".
Mas é um risco que vale a pena, para o bem de todos.
() J)()[)l:.12., ()UI: J)()[)l:.12?
O mundo está nas mãos dos homens. Eles mandam,
desmandam e têm a "liberdade" de cometer todo tipo de
desatino. São mais "inteligentes", mais "competentes",
mais "fortes". No entanto, em todo o mundo, o homem
vive menos que a mulher.
Será outra "crueldade" da natureza? Ou dos pró-
prios homens, que além de desconsiderarem a mulher
passam o tempo todo se discriminando e, em última
análise, se autodestruindo? As mulheres estão cada vez
mais organizadas, assumem novos papéis, alteram seu
comportamento, lutam, brigam por seus direitos, exigem
tratamento justo.
83
E os homens? Permanecem sentados à beira do
caminho vendo a caravana passar. Agora, com o avanço
feminino, começam a ficar desestruturados. Quando
levam uma "cantada" de uma mulher, coisa que fazem
há milênios sem qualquer cerimônia, entram em pânico,
coram ou simplesmente saem correndo.
O mundo precisa com urgência de um movimento
"masculinista", que propicie um relacionamento de igual
para igual com as mulheres e também para tirar dos
ombros dos homens um fardo absurdo, que deveria ter
sido jogado há tempos nos subterrâneos da história.
Afinal, fardos são para serem carregados por máquinas
ou, se preferirem, por burros de carga. Não por seres
humanos.
Quem sabe um dia os homens descubram que o
"poder" dividido com as mulheres fica mais leve e que
assim possam viver tanto quanto elas.
3
() que são homens homossexuais?
Antes de tudo, são HOMENS que nascem biologica-
mente machos.
Os homens homossexuais são aqueles que têm
como objeto de amor e desejo um outro homem. Essa é
a única diferença em relação aos demais homens, o que
se dá na orientação afetivo-sexual.
Podemos dizer que essa orientação homossexual
tem apenas alguma semelhança com a das mulheres
lésbicas, uma vez que, nos dois casos, o objeto do amor
e do desejo é sempre uma pessoa do mesmo sexo.
O comportamento de um homem homossexual não
é igual ao de uma mulher lésbica. Na medida em que são
seres biologicamente diferentes, cujas identidades de
gênero são respectivamente masculina e feminina, os
papéis que vão desempenhar na vida, inclusive o sexual,
não poderão ser iguais.
As estatisticas apontam como sendo de 10% a
população homossexual no mundo. Esses dados prova-
85
velmente incluem as mulheres lésbicas, os bissexuais,
os travestis e os transexuais. Isso significa que quando
nos referimos especificamente aos homens exclusivamente
homossexuais, essa porcentagem deve ser muito menor.
Alguns homens homossexuais, quanto ao seu com-
portamento sexual e amoroso, têm a possibilidade de
escolher, de forma madura, se desejarão ou não se
relacionar exclusivamente com outros homens. Entre-
tanto, quando falamos da orientação afetivo-sexual, que
é algo interno, um sentimento que está dentro da pessoa,
não é possível impedi-lo.
Infelizmente, os meios de comunicação, por desco-
nhecimento do assunto, vêm insistindo na tese de que
ser ou não homossexual é uma questão de escolha
pessoal. Isso não é verdade. O máximo que pode acon-
tecer é a pessoa optar por exteriorizar ou não a sua
orientação sexual. Se uma pessoa tem dentro de si uma
orientação homossexual estabelecida, é possível que ela
seja imutável.
Fazemos aqui uma ressalva. Alguns homens são
"pseudo-homossexuais", porque dentro de si a escolha
do outro para amor e sexo seria do sexo oposto, ou seja,
heterossexual. Como são heterofóbicos, ou seja, têm
medo interno exagerado do sexo oposto, podem se rela-
cionar de forma homossexual, como uma saída. Resol-
vendo a heterofobia, poderão assumir sua heterosse-
xualidade. Alguns dirão: "o doutor fulano curou-o do
homossexualismo". Mas. na realidade, o que aconteceu
foi a liberação de uma heterossexualidade aprisionada.
Do ponto de vista cientifico, ainda não foi possível
saber porque alguém tem essa orientação. E nem mesmo
como se dá a orientação afetivo-sexual dos seres huma-
nos, sejam hetero ou homossexuais.
Alguns homens, basicamente homossexuais, a par-
tir de um determinado momento da vida, de uma cir-
cunstância ou de um envolvimento amoroso muito
intenso com uma mulher, passam a ser bissexuais. Isso
86
significa que estas pessoas se relacionarão, com relação
ao papel visível, com mulheres. Entretanto. internamen-
te, o desejo amoroso e sexual de se relacionar com um
homem não desaparecerá.
Quando isso acontece, esse homem homossexual
certamente poderá dar um outro encaminhamento ao
seu verdadeiro desejo, vivendo-o apenas nas fantasias e
nos sonhos. Outros escolhem o caminho da sublimação,
"transformando" esse desejo em energia para ações mais
"nobres", como tarefas sociais ou religiosas. O desejo,
mesmo "transformado", continuará existindo dentro
dele e poderá até não incomodá-lo.
LUTA CClll!ITl!A UM IMJ:lÍ:l!ICl
O homem homossexual ao nascer é um bebê macho
como qualquer outro. Ele não traz qualquer alteração
biológica interna ou externa, e nada permite dizer que
aquela criança, no futuro, será um homossexual. Em
nossa cultura, casal algum quando tem um filho deseja
que ele seja um homossexual. O mundo é regido pelo
império da heterossexualidade, uma vez que essa con-
dição representa a maioria demográfica dos seres huma-
nos, que, por sua vez, discrimina as minorias sexuais.
Dessa maneira, o comportamento dos pais, dos
familiares, seus cuidados com o bebê, a forma como o
trata e o educa na infãncia será sempre no sentido de
"encaminhá-lo" para um relacionamento com o sexo
oposto. Mesmo assim os homens homossexuais poderão
não ter conflito quanto à sua identidade de gênero.
A partir dos 2 anos e meio, aqueles que futuramente
serão homossexuais passam a sentir-se MASCULINOS
e aceitam isso com naturalidade. O mesmo acontece com
os demais meninos. Na idade adulta, eles SABEM que
são homens, SENTEM-SE homens e comportam-se
como homens nas relações sociais. É totalmente falsa a
idéia de que um homem homossexual deseja ser mulher
ou pensa que é mulher.
87
Certa maneira de se criar um menino poderá fazer
com que ele seja mais delicado, aparentemente feminil, ou
que não tenha as características que a sociedade considera
como masculinas. Entre elas estão a competitividade e a
agressividade. Sua ausência, no entanto, não quer dizer que
ele esteja exteriorizando uma orientação homossexual.
Alguns pais entram em verdadeiro pãnico quando
pegam o filho inocentemente brincando com uma bone-
ca, o que é saudável, pois está "treinando" o papel de pai.
Ficam desesperados quando o pequeno garoto começa
com trejeitos "femininos" e nem por um minuto param
para pensar que a criança poderá estar apenas imitando
um personagem da 1V ou experimentando como é ser
do gênero oposto ao seu.
Algumas mães aflitas, com um pouco mais de esco-
laridade e dinheiro, correm para o psicólogo. O pai,
mesmo prevendo uma provável atitude tranqüilizadora
do terapeuta, apressa-se em matricular o garoto numa
escola de judô e passa a levá-lo, domingos seguidos, ao
estádio de futebol.
Com exceção da busca de uma boa orientação
psicológica, evidentemente válida mais para os paisdo
que para a criança, as demais atitudes são incorretas,
descabidas e só fazem prejudicar o filho. Sua cabeça
pode ficar confusa, porque para ele a boneca é um
brinquedo como qualquer outro. E quem perguntou a
ele se gosta de judô ou de futebol?
Seria muito bom que os pais criassem os seus ftlhos
de uma forma mais tranqüila. Mesmo que o menino
tenha algumas características que fujam ao padrão de
masculinidade determinado pela sociedade isso deve ser
encarado com naturalidade. Não há nada de anormal
nisso e é um grande engano pensar que meninos sensí-
veis serão homossexuais.
Outro pãnico é instaurado, desta vez envolvendo
também professores, quando garotos, na infãncia, são
descobertos em meio a uma brincadeira "sexual". O
termo está propositadamente entre aspas porque essas
brincadeiras, embora envolvam os órgãos genitais, nada
têm de sexual no sentido do desejo e da busca do prazer.
São apenas brincadeiras como tantas outras, que visam
também a descoberta do corpo.
São raros os homens que, nessa fase da vida, não
fizeram troca-troca. A brincadeira, de tão popular, dis-
pensa explicações. E nem por isso tomaram-se homos-
sexuais. E os que mais tarde perceberam uma
orientação homossexual certamente não foi por causa
dessa brincadeira.
Por volta dos 5 ou 6 anos, a sexualidade está latente
no que diz respeito à orientação futura. Os meninos que
nessa fase já carregam dentro de si "um leve sentimento"
identificado como desejo homossexual poderão sentir
algo estranho durante as brincadeiras "sexuais" com os
outros garotos. No entanto, a sua orientação está em
formação e ela só poderá ser confirmada na idade adulta.
Alguns homossexuais afirmam que tiveram esse
sentimento na infância. "Eu sabia que era homossexual
desde criança porque sentia atração pelos meninos".
Entretanto, um grande número de homens heterosse-
xuais contam que tiveram esse mesmo tipo de sentimen-
to e nem por isso se tomaram homossexuais.
É na adolescência que a orientação afetivo-sexual
começa a se explicitar. O rapaz sente-se "diferente", algo
interno que ele não pode ou não consegue comunicar a
ninguém. Na sua cabeça, os sentimentos relacionados
com a sexualidade homossexual representam assuntos
proibidos pela família e pela sociedade.
Quem hoje, na década de 90, tem 30 ou 35 anos
foi criado antes da revolução sexual, que chegou ao
Brasil na década de 70. Antes disso, sexo era uma
conversa proibida.
89
Aos poucos, esse rapaz começa a perceber por que
se sente diferente dos demais. Sua orientação, no caso
homossexual, está se consolidando e surgem os desejos
e as fantasias dirigidos para outros homens. Ainda há
uma sensação de estranheza, pois durante toda a sua
vida o meio social procurou encaminhá-lo para a hete-
rossexualidade. Há uma confusão interna entre amiza-
de, amor e desejo sexual.
Uma amizade muita intensa entre dois rapazes não
é bem vista pela família. O relacionamento entre amigos
adolescentes "precisa" ter características bem heteros-
sexuais. Ela não deve ser sensualizada e esse afeto não
pode ser explicitado através do corpo, com gestos amis-
tosos. Na realidade, a amizade entre os seres humanos
tem algo de sensual. Isso não quer dizer que envolva algo
de erótico ou de sexual.
A certeza da homossexualidade só estará clara den-
tro do homem na idade adulta, após os primeiros anos
de juventude. O rapaz homossexual dá então outro
passo, no sentido de explicitar e de concretizar a sua
orientação afetivo-sexual. Ele começa a se reconhecer
como homossexual, para si mesmo, a partir do desejo
por outros rapazes. Nesse momento inicia-se o desen-
volvimento do seu papel afetivo-sexual.
Esse homem homossexual só se estabilizará psico-
lógica e emocionalmente quando aceitar esses sentimen-
tos e esse modo de vida para si mesmo. E quando tiver
claro para si que são sentimentos e um modo de vida
ainda condenados e abominados pela sociedade. Com
isso, ele não mais incorporará para si o que pensa a
sociedade a seu respeito.
Para se aceitar homossexualmente, o homem passa
por quatro momentos. O sentir-se diferente, o começar
a dar um sentido sexual a essa diferença, o reconhe-
cer-se como homossexual por meio do papel afetivo-se-
xual com outros e, finalmente, o aceitar esses
sentimentos e esse modo de vida.
90
O conflito interno que os homens homossexuais
trazem dentro de si nasce da sociedade. Ninguém faz
uma opção por um modo de vida que sabe será discri-
minado. Para estar tranqüilo, o homem homossexual
precisa ter resolvido dentro de si essa proibição, que é
social, mas que está dentro dele, porque também está
dentro de todas as pessoas.
Na medida em que ele consegue resolver esses
conflitos, poderá assumir-se para si mesmo como um
homem homossexual. Esse caminho, para muitos, é
tortuoso, problemático, dificil e cheio de obstáculos. Não
há com quem falar, com quem conversar, e a sensação,
embora falsa, de ser o único a estar nessa situação é
terrível.
Com a ajuda de uma psicoterapia, de amigos, de
pessoas que possam compreender a situação ou de
grupos de militância homossexual, o homem homosse-
xual pode se aceitar e se assumir. É bom lembrar que
estamos falando de sensações íntimas, internas, de um
ser humano. A sociedade banalizou o verbo "assumir" e
ele perdeu o significado. Quando um homem homosse-
xual se torna "visível" para a sociedade ele não está
assumindo nada. Está apenas exteriorizando publica-
mente a sua orientação afetivo-sexual.
A sociedade é homofóbica, ela tem medo, verdadeiro
pavor da homossexualidade. E esse é um sentimento
coletivo tão forte que está, em maior ou menor intensi-
dade, dentro de todas as pessoas, sejam elas hetero ou
homossexuais. Quando um homem homossexual é ho-
mofóbico, isso quer dizer que ele não promoveu a con-
tento a sua aceitação dessa forma de ser. Além de ter,
injustificadamente, algo contra as pessoas homosse-
xuais, há o agravante de que ele é uma delas.
91
Muitos homens heterossexuais também são homo-
fóbicos e esse sentimento poderá atrapalhar muitas
coisas em sua vida, em seus relacionamentos. A diferen-
ça é que ele "não é homossexual" e a sua agressividade
se volta para outras pessoas.
Um outro sentimento que pode aparecer no homem
homossexual, ainda intranqüilo quanto a sua orientação,
é a heterofobia, ou seja, o medo de se relacionar com
mulheres. Esse medo pode aparecer nas relações sociais,
o que não é comum, mas principalmente diante da possi-
bilidade de uma relação sexual.
Há um senso comum na sociedade de que homens
homossexuais não "suportam mulheres". Na realidade,
a referência vale, com o devido desconto ao exagero,
apenas para os homens homossexuais heterofóbicos,
uma minoria.
A heterofobia é um sentimento que pode ter sua raiz
no relacionamento que esse homem homossexual teve
com seus pais na infância. É um problema que pode ser
resolvido. Nada faz crer que um homem homossexuaL
por ter essa orientação, deva temer relacionar-se sexual-
mente com mulheres. Ele pode muito bem ser "cantado"
e desejado por alguém do sexo feminino e ter com ela
uma relação sexual. Nada o impede que também tenha
atração sexual por mulheres, embora não as escolha
como parceiras.
Os temas pouco discutidos pela sociedade acabam
sempre contaminados por mitos e preconceitos. Precon-
ceito é uma idéia preconcebida, baseada no desconheci-
mento da verdade sobre um fato. E se há muitas dúvidas
sobre o tema sexualidade, a homossexualidade está
saturada de idéias falsas e absurdas.
Uma dessas idéias é a de que o homem homosse-
xual é sempre o afeminado, o afetado, aquele que
92
"desmunheca". Isso é uma bobagem, um clichê, um
molde. Apenas uma minoria de homens tem na aparên-
cia algo feminino e se comporta com "trejeitos" caricatosde mulher. Esses homens tanto podem ser homosse-
xuais quanto heterossexuais. A grande maioria dos
homossexuais é máscula, viril, e se comporta como
HOMEM. Alguns são inclusive "machistas" na forma de
agir e de pensar. Quem poderá dizer que o cantor Fred
Mercury tinha aparência feminina?
Aspectos masculinos ou femininos estão relacio-
nados com o papel de gênero, ou seja, com o compor-
tamento social, que varia de cultura para cultura e de
época para época. Quem é que encontra hoje na rua
um jovem de fartos bigodes. com as pontas voltadas
para cima? Isso foi comum no início do século.
Os jovens hoje são cada vez mais unissex na apa-
rência. Seriam eles todos homens homossexuais? Claro
que não, apenas o tempo mudou.
O que ocorre é que alguns poucos homens homos-
sexuais um tanto "afeminados" revelam publicamente a
sua orientação sexual e se tornam "tipos" para a socie-
dade. Outro fato que reforça essa visão tendenciosa é a
força da televisão, onde o homem homossexual é sempre
tratado de maneira caricata ou depreciativa.
A sociedade agora está começando a abrir mais
espaço para os homens menos masculinizados, sejam
homossexuais ou não. No entanto, quem caminha pelos
guetos gays, principalmente nos Estados Unidos, se dá
conta de que a maioria deles é composta de homens
homossexuais másculos, ou como ainda se diz, "homens
com "H" maiúsculo.
UM f)()UC() [)I: LUZ
Apesar de todo o maleficio que está causando à
humanidade, a Aids trouxe pelo menos duas conseqüên-
cias positivas. A primeira foi fazer a Ciência se debruçar
93
profundamente sobre a questão da imunidade biológica.
A segunda foi fazer a sociedade se acostumar mais com
a existência de homens homossexuais em seu meio.
Quando se fala em homossexuais, a tendência é
pensar que todos eles são iguais. Isso é um grande
engano e uma visão estreita do mundo, porque os
homens homossexuais são tão diferentes entre si
quanto todos os demais seres humanos. Eles estão em
todas as camadas sociais. São ricos ou pobres, inteli-
gentes ou limitados, honestos ou desonestos.
Também não é verdade que os homens homosse-
xuais são mais sensíveis e portanto têm grande pendor
para as artes. Isso é um mito. Entre os homens homos-
sexuais estão gerentes de banco, vendedores, motoristas
de táxi, grandes investidores e, também, artistas.
Como a população homossexual corresponde a
cerca de 10% da população mundial, se transferirmos
isso para o Brasil de hoje teremos perto de 15 milhões
de pessoas homossexuais. E, infelizmente, não temos
15 milhões de artistas! Essa falsa impressão de que
todo homem homossexual é artista ou vice-versa de-
corre do fato de que, no mundo cultural e das artes,
eles se tornaram mais visíveis socialmente.
Os homens homossexuais também são singulares
na sua maneira de se relacionar amorosa e sexualmente.
Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos em 1978,
que demorou dez anos para ser concluída, mostra bem
essas diferenças. O livro Homossexualidade - Informe
Kinsey1 concluiu que existem cinco tipos de relaciona-
mentos entre homens homossexuais.
1. Homossexualidade - Informe Kinsey: Trabalho publicado em
1978 a partir de pesquisa realizada entre homossexuais em São
Francisco, Califórnia, EUA. No estudo, subvencionado pelo Insti-
tuto Nacional de Saúde Mental dos EUA, foi utilizada a base teórica
formulada por Alfred Kinsey. É, até o momento, a pesquisa mais
ampla e rigorosa sobre o estilo de vida dos homossexuais.
94
Depois de pesquisar 3.854 pessoas com idade entre
25 e 46 anos, numa época em que a Aids ainda não
existia, o estudo concluiu que 64% dos homens homos-
sexuais não eram promíscuos e que 39% mantinham
um vínculo amoroso e sexual estável.
Um grupo de cerca de 20% era composto pelos
chamados homens homossexuais funcionais. Nesse seg-
mento não havia vinculo amoroso e eles relacionavam-se
com um número elevado de parceiros. Constituía-se em
boa parte de homens jovens.
O restante do universo pesquisado era constituído
de homens homossexuais "assexuados" que não se acei-
tavam bem ou que mantinham relações sexuais apenas
esporadicamente. Estes somavam 25%.
Embora não exista no Brasil uma pesquisa desse
tipo com os homens heterossexuais, a nossa experiência
clínica mostra que a maioria desses homens se vincula
a mulheres, uma parcela só mantém relacionamentos
sexuais e um número considerável permanece "assexua-
do" por escolha ou impossibilidade emocional.
Isso significa que as dificuldades de relacionamento
intimo não estão diretamente ligadas ao tipo de orienta-
ção afetivo-sexual.
A revista Veja, de maio de 1993, trouxe uma reporta-
gem de capa sobre a situação dos homossexuais brasi-
leiros, com destaque para uma pesquisa realizada pelo
lbope. Depois de ouvir 2 mil pessoas, a pesquisa conclui
que 50% já admitem conviver com homossexuais em seu
bairro, local de trabalho ou em clubes que freqüentam.
Mas trouxe também outros dados preocupantes.
Dentre os entrevistados, 36% não contratariam um
homossexual para a sua empresa, mesmo que ele fosse
o mais qualificado. No caso de uma eleição, 47% muda-
riam seu voto caso descobrissem que seu candidato é
homossexual.
95
E, finalmente, 79% ficariam tristes se tivessem um
filho homossexual e 8% seriam capazes de castigá-lo por
isso. Os números falam por si. Sem comentários.
No ambiente de trabalho, quanto maior for a impor-
tância do cargo ocupado, menor será a discriminação. A
partir do momento em que uma pessoa atinge um status
social elevado, ou passa a ser necessária para a socie-
dade, como é o caso dos cientistas, a sua orientação
sexual torna-se secundária. Claro que existem exceções.
Mas são raros os casos de que se tem notícia, pelo menos
no Brasil, de profissionais competentes que perderam o
emprego apenas por sua orientação homossexual. Ou eles
não teriam tido a coragem de denunciar a discriminação?
Essa é uma questão delicada, pois alguns homens
homossexuais sentem-se profissionalmente persegui-
dos, e acreditam que isso acontece por causa de sua orien-
tação sexual. É dificil saber com certeza, mas muitas
vezes uma demissão pode ocorrer mais por razões polí-
ticas ou até mesmo funcionais do que por outra coisa.
Ou mesmo por pura discriminação inconseqüente. Nenhu-
ma empresa vai demitir o seu principal gerente, que está
trazendo grandes lucros, apenas porque ele é homosse-
xual mas tem um comportamento social adequado.
No entanto, em algumas profissões, é proibida a
entrada de um homem homossexual. Entre essas profis-
sões está o serviço militar. A discussão sobre a presença
de homens homossexuais nas forças annadas tem sido
muito forte nos Estados Unidos.
No que diz respeito à religião, a discriminação é
muito grande entre aquelas de origem cristã. Para essas,
a homossexualidade é um pecado grave e inaceitável. O
mesmo já não ocorre com as seitas de origem africana.
O candomblé, por exemplo, tem muitos pais-de-santo
homossexuais, que são tratados com respeito e veneração.
96
VAI§ I'. f'ILti()§
As famílias, em geral, lidam muito mal com o fato
de terem filhos homossexuais. Recentemente, um jovem
americano deu o seguinte depoimento, publicado em
jornais dos Estados Unidos: "Se eu pudesse optar pela
minha sexualidade, logicamente escolheria a heterosse-
xualidade. Seria uma enorme burrice de minha parte eu
optar por algo que é socialmente discriminado, dificul-
tado e considerado amoral e pecaminoso".
Se uma família discrimina um filho porque ele tem,
como ser humano, um único papel, o afetivo-sexual,
diferente da maioria, ela está dificultando muito a sua
vida. Seria muito bom se os pais pudessem se perguntar
o que eles desejam para os seus filhos.
Os pais desejam que seus filhos sejam seres huma-
nos respeitáveis, alegres, satisfeitos,felizes e que te-
nham uma vida saudável? Ou querem para seus filhos
a realização de um desejo, deles próprios, que não foi
satisfeito?
Quando um pai diz ao seu filho "prefiro pegar na
alça do seu caixão a descobrir que você é bicha". ele não
estará pensando só em si mesmo ou naquilo que ele
supõe que a sociedade esteja pensando dele?
Esse pai está mostrando que não tem o mínimo
interesse nem o mínimo respeito por seu filho. Na
verdade, não quer que o filho seja algo que está mal
resolvido dentro dele próprio. O problema não é dele,
pai. O problema é do filho. E o filho é que vai ter de
lidar com todas as dificuldades que a vida oferece a
um homossexual.
Os pais precisam entender que não são responsá-
veis pela homossexualidade de seus filhos, ao contrário
do que dizem algumas teorias psicológicas. Se as teorias
estivessem certas, nós já poderíamos, ao longo de quase
um século da Psicanálise de Freud e de outras teorias
psicológicas e psiquiátricas, ter descoberto a forma de
evitar ou "consertar" a homossexualidade.
97
As leis, principalmente no Brasil, também devem
ser revistas. Os homens homossexuais não precisam
criar um vínculo jurídico, na forma de um casamento.
Entretanto, a lei deveria repensar os casos nos quais dois
homens se vinculam, vivem um relacionamento estável
durante anos, constroem um patrimônio e prever, no caso
da morte de um deles, como fica a partilha dos bens.
Essa partilha deveria ser mais justa, pois os bens
foram obtidos pelo esforço conjunto. Não existe no Brasil
jurisprudência para resolver esses casos. Quando um
dos parceiros morre, seja por acidente ou doença, e não
deixa claro em testamento como deverá ficar o patrimô-
nio dos dois, muitas vezes o outro parceiro acaba sendo
muito lesado em função da família, que será a única
herdeira legal.
A lei deveria prever que pessoas não-heterossexuais
pudessem estabelecer algum tipo de vínculo legal, que
não precisaria ser o casamento, mas levasse em conta a
previdência social e o patrimônio material construído.
Muitos casos estão acontecendo no Brasil, por morte
pela Aids, e os advogados não encontram saída para
isso. Por que duas pessoas que estabelecem uma parce-
ria amorosa estável não podem ter os mesmos direitos
previdenciários dos casais heterossexuais?
Como forma de resistência à discriminação, os ho-
mens homossexuais acabam criando pontos de encontro
onde podem conviver mais livremente. São bares, sau-
nas, clubes ou os grupos de amigos ou de militância.
Sendo tão discriminados, os homens homossexuais e
também as mulheres lésbicas sentem necessidade social
de conviver em grupo, longe do controle da sociedade
heterossexual.
98
Melhor seria se homens e mulheres homossexuais
pudessem se tornar visíveis, ser aceitos, e conviver
normalmente na sociedade, denunciando e lutando con-
tra qualquer discriminação ou preconceito.
A sociedade em que vivemos se mostra, na defesa
de seus valores, muito contraditória, para não dizer
hipócrita. Não há um único ser humano que não defenda
a solidariedade, o amor e o direito à vida. No entanto, o
texto que você vai ler a seguir, sem comentários, é o retrato
cruel e acabado de um mundo que tem duas caras:
"A Força Aérea me condecorou por matar dois
homens no Vietnã e me expulsou por amar um".
Assinado por Leonardo Matlovich, soldado da Força
Aérea Americana. Foi condecorado por sua atuação na
Guerra do Vietnã e expulso da corporação em 1975 por
homossexualismo.
~asce uma menina.
Essa criança, desde o nascimento, tem um destino
traçado pela sociedade. Ela deverá se comportar como
menina, como moça, escolher um homem para se rela-
cionar, casar, ter filhos. Deve se dedicar basicamente à
família, ao marido, à casa. Ela poderá até mesmo ter
uma profissão, mas isso é secundário. As famílias dese-
jam sobretudo que suas filhas encontrem a felicidade
amorosa com alguém do sexo oposto.
No entanto, o caminho natural de vida para algu-
mas mulheres não é esse, principalmente quanto ao
amor. Seus desejos e seus afetos vão em outra direção.
São FÊMEAS, SENTEM-SE MULHERES, comportam-se
de maneira feminina, mas desejam vincular-se afetiva e
sexualmente a outra mulher e não a um homem.
A orientação afetivo-sexual dessas mulheres toma
um caminho diferente do da maioria. Essa orientação,
que começou na infância, revelou-se na adolescência e
definiu-se na idade adulta, é de natureza homossexual.
A formação da orientação afetivo-sexual de uma pessoa
é um processo não totalmente conhecido pela Ciência.
101
Pesquisas estão em andamento, mas ainda é impos-
sível afirmar com segurança o que determina a orienta-
ção amorosa e sexual. qualquer que seja. de uma pessoa.
O que se pode dizer é que, no caso de uma orientação
homossexual. ela não se dá por problemas familiares.
repressão dos pais. famílias em desequilíbrio, falhas na
educação, "más companhias". disfunções genéticas ou
qualquer outra coisa. Existem pessoas homossexuais
em famílias estáveis ou não, entre ricos e pobres. entre
doutores e ignorantes.
Alguns pesquisadores vêm apresentando hipóteses.
mas nada há de conclusivo. A verdade é que desde a
mais remota antigüidade existe a orientação homosse-
xual para homens e mulheres, em todas as culturas e
em todas as sociedades, avançadas ou primitivas.
Tal como os deuses que venero, quando me
{sento a vossa frente, hóspede minha.
Sinto-me feliz, com os ouvidos atentos a vossa
{voz, tão doce, tão próxima,
Vosso riso encantador faz com que o coração
{ pulse em meu peito!
Versos de Safo, poetisa grega que viveu há 2600
anos na Ilha de Lesbos.
Mulher homossexual ou mulher lésbica? O prefixo
"homo" vem do grego homós, que significa igual. seme-
lhante. No latim o termo identifica o homem.
As mulheres homossexuais preferem ser chamadas
de lésbicas porque elas têm consciência de pertencer ao
gênero feminino. Ao contrário do que pensam algumas
pessoas, uma mulher lésbica não SE SENTE um homem,
não pensa que é um homem e não quer ser homem.
Algumas têm comportamento um tanto "masculiniza-
do", mas isso não quer dizer nada, pois o mesmo acon-
tece com outras mulheres que não são lésbicas.
102
A palavra lésbica vem da Ilha de Lesbos, que foi um
centro importante da Grécia na antigüidade. Nessa ilha,
nasceu e viveu a poetisa grega Safo. Ela foi uma mulher
revolucionária, fundou uma escola para mulheres, onde
não só ensinava poesia e música mas também, e princi-
palmente, sobre a emancipação social da mulher.
Os versos que Safo escreveu falam do amor entre as
mulheres e da paixão por suas companheiras. Em fun-
ção disso, a palavra lésbica passou a designar as mu-
lheres que amam mulheres.
As mulheres que se definem como lésbicas, que
assumem isso para si mesmas e que pertencem a grupos
militantes preferem ser chamadas dessa forma. Para
elas, a palavra tem uma conotação de força e de liberda-
de. Na sociedade, a palavra lésbica é vista como ofensa
e, muitas vezes, utilizada com a clara intenção de ferir.
Assim como existe uma heterossexualidade mascu-
lina e uma feminina, há uma homossexualidade mascu-
lina e uma feminina. O relacionamento homossexual
masculino difere do feminino. Mas, nos dois casos, essas
pessoas têm consciência de que são HOMENS ou são
MULHERES. Também é errada a idéia de que uma
mulher lésbica deseja ser homem, ou pensa ser homem.
Situações como essa aparecem apenas nas travestis e
nas transexuais.
As mulheres lésbicas desenvolvem o seu papel de
gênero "a contento" para a sociedade, ou seja, compor-
tam-se como mulheres no dia-a-dia, no trabalho e nas
relações sociais de gênero. Afirmar que uma mulher cria
problemas no trabalho porque "é lésbica", é puro pre-
conceito e falta de informação. Como todos os demais
seres humanos,as mulheres lésbicas podem ser agradá-
veis ou desagradáveis, criativas ou limitadas, afáveis ou
impertinentes.
103
De maneira geral, a sociedade permite maior liber-
dade para as mulheres entre si, o que torna "menos
visível" um relacionamento amoroso entre elas. As mu-
lheres podem ser muito mais afetuosas, carinhosas e
delicadas umas com as outras. As mulheres podem se
beijar, andar de braços dados, se aconchegar. Para a
sociedade, isso é perfeitamente normal.
É evidente que essa liberdade das mulheres não leva
ao lesbianismo. Em função dessa liberdade talvez a
mulher lésbica possa ter menos dificuldade que os ho-
mens homossexuais em "dissimular" socialmente a sua
verdadeira orientação sexual. Entretanto, a partir do
momento em que essa condição da sexualidade humana
se torna visível para a sociedade, lésbicas e homosse-
xuais passam a sofrer preconceitos, tabus e todo tipo de
discriminação.
As mulheres lésbicas, no entanto, são duplamente
discriminadas. Primeiro porque são mullieres e fazem parte
de uma maioria demográfica desconsiderada. Segundo
porque pertencem a uma minoria incompreendida.
A mulher em nossa sociedade não tem a mesma
força, o mesmo espaço que os homens. São vistas como
cidadãs de segunda classe e o trabalho não é remune-
rado à altura de sua competência ou função. A minoria
lésbica, além de tudo isso, acaba segregada pelo mundo
masculino e também pelo mundo feminino.
O trajeto de vida social das mulheres lésbicas segue
o mesmo das demais mulheres. No Brasil, a partir de
1975, as mulheres passaram a desenvolver um trabalho
feminista, para começar a fazer valer os seus direitos.
Esse movimento passou a promover encontros periódi-
cos, nos quais se discutia os direitos da mulher, sua
saúde e sua inserção no trabalho e na vida pública.
104
A necessidade de defender interesses comuns e de
lutar contra a discriminação e os preconceitos levou o
movimento feminista, desde o início, a abrigar o movi-
mento lésbico.
As mulheres lésbicas, por sua necessidade de
autodefesa, formaram um dos grupos mais bem orga-
nizados enquanto movimento social. Há anos elas
mantêm uma rede "invisível" de grupos, que se reúnem
para se defender do império machista. Essa rede tem
conexões internacionais e é rapidamente acionada
quando necessário.
Uma evidência da organização das mulheres lésbicas
e também dos homens gays foi a sua participação no N
"Gay's Games", que se realizou em Nova York no final de
junho de 1994. Dessa grande olimpíada. que acontece de
quatro em quatro anos. participaram cerca de 1 O mil
atletas homossexuais de 44 países, inclusive do Brasil.
A competição desse ano teve um caráter diferente.
com forte conotação política, na luta pelos direitos dos
homossexuais, levada até o âmbito da ONU. Paralela-
mente aos jogos, foram realizados shows, apresentações
de teatro e festivais de filmes, tendo como tema a homos-
sexualidade.
O evento, oficialmente aberto pelo prefeito de Nova
York, Rudolph Giuliani, em campanha pela reeleição, foi
encerrado com uma grande passeata com mais de 500
mil pessoas, onde a palavra de ordem foi a luta pelos
direitos dos homossexuais.
Tanto os jogos quanto a passeata foram permeados
por campanhas de alerta para os riscos da Aids, assim
como pela conquista de mais recursos para as pesquisas
destinadas ao estudo e tratamento da doença.
No Brasil o movimento também avança e. em 1993,
foi realizado em Cajamar, cidade próxima a São Paulo,
o 7 2 Encontro Brasileiro de Militantes Gays e Lésbicas.
À época em que este livro foi escrito, já existiam no Brasil
4 7 grupos organizados de gays e lésbicas.
105
O relacionamento entre duas mulheres é algo estra-
nho para a sociedade "porque não existe o pênis". Os
corpos femininos não têm órgão sexual de penetração.
Isso intriga muito as pessoas, que ficam imaginando
como pode ser possível duas mulheres fazerem amor
sem um órgão de penetração.
Na realidade, as mulheres lésbicas têm muito para
ensinar sobre o corpo feminino, até para os homens
heterossexuais, que pouco conhecem do corpo da mu-
lher. Por que isso? Porque as mulheres lésbicas desco-
brem o corpo feminino, que ambas possuem, numa
intensidade e amplitude muito grande. Elas descobrem
que o prazer do relacionamento não está apenas na
genitália, mas no corpo como um todo.
A relação entre duas mulheres é muito menos "ge-
nitalizada" do que entre dois homens. Os homens ho-
mossexuais acabam, muitas vezes, "genitalizando"
intensamente as suas relações. Os riscos da Aids aos
poucos estão levando muitos homens a perceberem que
todo o corpo é fonte de prazer e não apenas os seus
órgãos sexuais.
Essa descoberta deveria ser a meta de todas as
pessoas. O nosso corpo oferece muitas possibilidades de
nos dar prazer e de nos levar ao orgasmo. Os órgãos
sexuais são apenas uma parte do corpo.
O relacionamento amoroso e afetivo entre as mulhe-
res lésbicas também é diferente do relacionamento entre
os homens homossexuais, em função de serem casais
de gênero só feminino ou só masculino. O Informe
Kinsey, realizado nos Estados Unidos, e já citado no
capítulo anterior, trouxe dados interessantes.
Esse estudo pioneiro mostrou que 63% das mu-
lheres lésbicas constituem relacionamentos estáveis,
com vínculos afetivos e amorosos duradouros. Essa
porcentagem para os homens é de quase 40%.
106
O importante dessa pesquisa foi mostrar o quan-
to é falsa a idéia de que uma mulher que se vincula
a outra foi atraída apenas pelo prazer da relação
sexual. Cabe lembrar que somente uma pequena
porcentagem de mulheres, sejam heterossexuais ou
lésbicas, vivenciam a sexualidade desvinculada do
afeto. A maioria, no entanto, necessita fazer esse
vínculo entre o amor e o sexo.
Poucas mulheres lésbicas, ao se vincularem amoro-
samente, procuram reproduzir um modelo de casamen-
to heterossexual. A maioria delas percebe que dispõem
de uma outra possibilidade, que é a de viver uma relação
amorosa em que as duas pessoas são do mesmo gênero,
o feminino. Portanto, não precisam imitar relações de
gênero diferente. Numa convivência entre duas lésbicas,
uma não "precisa ser o homem da casa».
A convivência entre duas pessoas do mesmo sexo
pode propiciar uma relação mais harmoniosa, uma vez
que seus padrões de mundo são semelhantes. Claro que
isso vale para todos os seres humanos e a harmonia
entre as pessoas seria perfeitamente possível se a socie-
dade passasse a criar homens e mulheres de maneira
mais igualitária, e não opostas, como tem sido até hoje.
As relações entre mulheres lésbicas também tendem
a ser mais monogâmicas do que entre homens homos-
sexuais. O homem, hetero ou homossexual é criado para
o sexo e não para o afeto, e ele disvincula com muita
facilidade essas duas formas de relacionamento. Isso
não acontece com as mulheres, lésbicas ou não.
O relacionamento entre duas mulheres lésbicas ten-
de a ser mais estável do que entre dois homens. Essa é
uma diferença, mas não é a única. Entretanto, tais
relações passam por dificuldades que se não são seme-
lhantes pelo menos se parecem.
107
Duas mulheres lésbicas, muito femininas, bonitas,
charmosas, bem vestidas, como pede a sociedade, e que
têm um relacionamento amoroso entre si, vão a uma
festa. E uma situação muito constrangedora acontece
quando uma delas, ou as duas, começam a ser "canta-
das" pelos homens que estão na festa, uma vez que eles
não sabem que estão diante de duas lésbicas.
Alguns "machões" desinformados acreditam que
uma mulher só é lésbica porque foi "mal-amada" por um
homem. A mulher lésbica passa a ser, para esse tipo de
homem, um desafio muito grande a ser vencido, um
"verdadeiro troféu de caça".
A mulher lésbica que consegue obter um destaque
social mais elevado tema chance de vivenciar a sua
sexualidade de maneira mais tranqüila. No mundo ar-
tístico, mais liberal se comparado a outros segmentos
da sociedade, muitas mulheres lésbicas demonstram ou
insinuam publicamente sua orientação, sendo não só
aceitas como aplaudidas.
É interessante notar que muitos homens heterosse-
xuais sentem grande prazer em ver duas mulheres se
relacionando sexualmente. Isso fica claro nos vídeos
heterossexuais pornográficos, à disposição nas videolo-
cadoras. No entanto, são mais raras as cenas, nesses
vídeos, de dois homens fazendo amor.
Os meios de comunicação, a publicidade e princi-
palmente os ensaios fotográficos publicados em revistas
de qualidade valorizam a relação entre mulheres. Alguns
desses trabalhos insinuantes, que retratam uma situação
real ou simulada, são de muito bom gosto e de grande
senso estético. A mídia as chama de lesbian chies.
A literatura para homens homossexuais e mulheres
lésbicas é farta no Exterior mas escassa no Brasil. Esse
quadro começa a mudar e o jornal Folha de S. Paulo, um
dos mais importantes veículos de comunicação do Bra-
sil, já traz na sua revista dominical um espaço exclusivo
para o mundo homossexual.
108
Quando duas mulheres lésbicas se vinculam, há um
problema que elas podem resolver de forma diferente em
relação a dois homens homossexuais. As duas podem
gerar filhos. Uma mulher lésbica pode se deixar insemi-
nar pelo esperma de um homem para ter um filho. Ou
até escolher um relacionamento sexual apenas para a
sua fecundação. Isso começa a acontecer no Brasil e é
mais comum no Exterior.
Outro fato possível é uma mulher lésbica vir de um
relacionamento anterior heterossexual, do qual tem fi-
lhos, e se unir, "definitivamente", a outra mulher. As
duas passam então a criar os filhos. Vale lembrar,
porém, que ninguém "vira" lésbica.
A orientação dessa mulher já estava definida ao
longo de sua vida e o casamento heterossexual pode ter
ocorrido por inúmeros fatores e não só o amor. A mu-
dança para uma nova forma de sexualidade se deu, na
verdade, externamente, quando ela tomou visível a sua
orientação afetivo-sexual básica. Em algumas mulheres
isso pode acontecer tardiamente, até mesmo quando já
são avós.
Quando há filhos de casamento anterior numa
relação agora homossexual isso não quer dizer que as
crianças crescerão "traumatizadas ou neuróticas". Des-
de que a relação entre as duas mulheres seja amorosa,
com muito respeito e com muita tranqüilidade, essas
crianças não crescerão, obrigatoriamente, conflituosas.
Essas mulheres deverão ter tranqüilidade no seu
relacionamento amoroso, assim como qualquer outro
casal. para que seus filhos cresçam saudáveis. Essas
crianças precisam estar mais capacitadas a lidar com
essa diferença, que socialmente poderá ser visível.
109
O melhor será se essas mulheres conseguirem falar
abertamente de sua forma de relacionamento com os
filhos, explicando como são os mundos homossexual e
heterossexual. E prepará-los para os preconceitos da
sociedade.
A idéia de que a presença da figura paterna em casa
é fundamental para o desenvolvimento saudável dos
filhos é um mito, principalmente em nossa sociedade.
Em sua maioria, os filhos são criados apenas pelas
mães, uma vez que o trabalho, a competição e as condi-
ções de vida tornam os pais sempre "ausentes". Muitos
apenas "dormem" em casa. Estar "presente", seja mãe,
pai, ou qualquer outra pessoa da família, não é estar em
casa, com os "olhos grudados" no jornal ou na 1V. E é
isso que faz a diferença.
Os profissionais médicos não estão, em sua maioria,
habilitados a lidar com a sexualidade e só muito recen-
temente no Brasil a Sexologia passou a ser uma das
cadeiras em raros cursos de Medicina. As mulheres
lésbicas se queixam de problemas quando vão ao gine-
cologista para seus exames periódicos.
A primeira pergunta, "como vai a sua vida sexual?",
pressupõe apenas uma relação heterossexual. Diante da
revelação, muitos médicos não sabem como agir e al-
guns chegam a emitir uma guia para tratamento psi-
quiátrico.
A Organização Mundial de Saúde, na última versão
da sua Classificação Internacional de Doenças (CID-
10), deixou de considerar a homossexualidade como
patologia. Os médicos, em sua maioria, mesmo com
essa nova classificação, consideram esse modo de ser
como patológico.
110
Os psicólogos têm outra visão do psiquismo humano,
a maioria aceitando com mais tranqüilidade a homosse-
xualidade como uma possibilidade a mais de relação
humana. As abordagens e as posturas profissionais
dependem, porém, das diferentes escolas psicológicas.
A sociedade humana, apesar de seu desenvolvimen-
to tecnológico, científico e cultural, ainda não aprendeu
a lidar com diferenças e com o diferente.
O homem foi à Lua, em pouco tempo estará em
Marte. A sociedade ainda continua considerando o "di-
ferente" às vezes como uma ameaça. As mulheres lésbi-
cas são discriminadas. Mas, no Brasil, isso também
ocorre com os negros, os albinos, os canhotos, os anões,
os pobres. Estranhamente, a segregação atinge até os
muito inteligentes.
O planeta Terra é uma esfera e saindo de um ponto,
sempre e~ direção ao Leste, chegaremos ao mesmo
lugar da partida. Segregar para quê? De um jeito ou de
outro acabaremos nos encontrando mesmo.
Maria nasceu num vilarejo simples e humilde do
litoral da Bahia. Quarta menina de uma família de sete
irmãos, foi criada com poucos recursos numa comuni-
dade pequena e isolada, onde não havia padre, médico
e apenas uma precária escola rural. Ali, naquela vida
singela, plantava-se para comer e o que vinha de fora,
por barco, quando faltava, era o sal. o açúcar e algum
tecido.
A sua infãncia não foi diferente das outras meninas
do lugar. Ela passava horas brincando nas areias bran-
cas da praia, ou subindo nas árvores como as outras
crianças. O tempo passou, Maria se enamorou, e casou
com um homem do povoado. E desse casamento nasce-
ram filhos.
Nessa época, a pequena vila não conhecia o rádio,
a televisão, nem os jornais. As novidades, poucas, quan-
do vinham, chegavam pelos barcos. As viagens eram
raras e só por necessidade.
O tempo continuou passando, devagar. E Maria, já
casada, começou também a se relacionar. amorosamen-
te, com outras mulheres. O fato, para aquela gente
113
humilde, a princípio, pareceu estranho, mas não assus-
tou ninguém. Não se falava muito no caso, Maria não
perdeu suas amizades e nem a consideração de todos
por causa disso. No meio daquele povo não existia a
palavra "discriminação" e nem o seu significado.
Um dia chegou o progresso. E com ele as estradas,
e os trabalhadores das estradas, gente desconhecida de
todos os cantos do Brasil. Algumas moças do lugar
escolheram esses homens para se casar. Mas Maria, ao
longo de toda a sua vida, ora viveu com um homem, ora
viveu com uma mulher. Hoje, em 1994, Maria está com
quase 50 anos, tem dez filhos, e continua se relacionan-
do amorosamente ora com homens e ora com mulheres.
O que você acabou de ler não é uma história fictícia.
O vilarejo, hoje ponto turístico da Bahia, propositada-
mente não foi identificado a fim de preservar e respeitar
as pessoas envolvidas.
Maria é uma mulher bissexual.
As mulheres bissexuais são MULHERES. Elas nas-
ceram fêmeas, biologicamente normais, reconhecem e
aceitam o seu órgão sexual feminino, comportam-se e
SENTEM-SE como mulheres. Algumas, eventualmente,
podem ter alguma aparência "masculina", mas, como
vimos nos capítulos anteriores, essa aparência em ter-
mos dos papéis de gênero nada tem a ver com a sua
orientação afetivo-sexual.
Os comportamentos considerados masculinos e fe-
mininos, denominados papéis de gênero, são muito
mutáveis e basicamente determinados pela cultura e
pela sociedade. NoBrasil não existem estudos sobre o
comportamento social das mulheres bissexuais e tam-
pouco um detalhamento sobre como são os seus víncu-
los afetivos e sexuais. Mas podemos afirmar que as
mulheres bissexuais são basicamente femininas e se
comportam, no seu dia-a-dia, dessa maneira.
114
Onde está a diferença entre as mulheres heterosse-
xuais, que são a maiorta, e as mulheres bissexuais? A
única diferença está no fato de que as bissexuais dese-
jam vincular-se afetiva e sexualmente tanto a homens
quanto a mulheres, numa relação intercalada ou conco-
mitante de maior ou menor duração.
Pode-se dizer que a orientação afetivo-sexual é
"dupla", e o objeto do amor e do desejo é variável, ao
longo da vida.
A idéia de que uma mulher bissexual na verdade
"apenas não sabe o que quer" é absolutamente precon-
ceituosa e falsa. A mulher bissexual tranqüila sabe o
que quer. Ela simplesmente deseja e ama homens e
mulheres, com a mesma intensidade ou com intensi-
dades diferentes.
Existe uma importante diferença de comporta-
mento entre as mulheres bissexuais e os homens
bissexuais. Os homens bissexuais, por serem HO-
MENS, são criados para separarem amor e sexo, o que
não acontece com as mulheres.
O relacionamento afetivo de uma mulher bissexual
traz uma ligação mais estreita entre o sentimento amo-
roso e o desejo sexual. Quando estão vinculadas a um
homem, elas, em geral, o amam. E sentem o mesmo
quando a relação é com uma outra mulher.
As mulheres bissexuais, assim como os homens com
essa orientação, podem ser bissexuais proprtarnente
ditas, ou seja, elas desejarão homens e mulheres numa
mesma proporção. Outra possibilidade é que sejam
predominantemente heterossexuais, pois desejam mais
os homens do que as mulheres, mas também sentem
atração por alguém do mesmo sexo.
Algumas mulheres bissexuais poderão ainda ser
basicamente homossexuais. Isso acontece quando o seu
afeto, o seu amor e o seu desejo caminham em direção
a outra mulher, embora possam amar e se relacionar
com os homens.
115
Uma mulher, que preferimos chamar de Zilda, mora
em Curitiba, é pedagoga e tem 40 anos. Nunca se casou,
embora tenha um filho adolescente. Ao longo de toda a
sua vida, em períodos de maior ou menor duração, Zilda
amou e se relacionou mais com homens e também com
mulheres. Hoje, quando estamos escrevendo este livro,
ela está "solteira", leva uma vida tranqüila e é muito
respeitada por seu trabalho na Educação.
A socióloga Aurora, de 32 anos, é funcionária do
governo do Estado de São Paulo. Casada com Carlos,
teve com ele um filho que hoje está com 8 anos. Depois
de alguns anos de casamento e após o nascimento do
filho os dois se separaram. Depois da separação, Aurora
conheceu outros homens e teve outros namorados. No
entanto, a figura feminina a atrai e, em alguns períodos
da vida, assumiu para si mesma o relacionamento amo-
roso e sexual com outras mulheres.
Um garoto de 10 anos e uma menina de 12 são os
filhos de Lúcia. Hoje com 43 anos, economista respeita-
da em seu meio, Lúcia nasceu numa família equilibrada,
onde é muito querida. Após uma adolescência feliz e, de
certa forma, privilegiada, Lúcia se apaixonou por João
Carlos, seu colega de faculdade, e desse casamento
nasceram as duas crianças.
O casal tinha uma amiga comum, Márcia, igual-
mente economista. A amizade não era o que se pode
chamar de "íntima". mas os três se encontravam sempre
que possível. Nessa época, Márcia era solteira e já tinha
se relacionado com alguns namorados.
Quando o filho mais novo do casal tinha 2 anos,
Lúcia passou a sentir por Márcia um afeto especial, que
aos poucos foi ganhando os contornos de uma grande
atração. Márcia correspondeu com a mesma intensidade
e as duas se apaixonaram. O sentimento amoroso foi tão
forte que não deixou outra saída a não ser o fim do
casamento de Lúcia.
116
Márcia e Lúcia passaram a "namorar". para que
pudessem se conhecer melhor. Após algum tempo. con-
cluíram que era o momento de passarem a viver juntas
e criar, também juntas, os filhos do casamento de Lúcia.
Após algum tempo da separação, João Carlos. o pai,
passou a aceitar normalmente a nova condição de sua
ex-mulher. Ele também refez sua vida, apaixonou-se por
outra mulher. casou-se e teve outros filhos.
A maturidade dessas pessoas permitiu que elas
passassem a conviver normalmente entre si. Visitam-se
sempre que possível. mantêm uma relação amistosa.
conversam sobre a educação das crianças. As relações
de João Carlos com os filhos é de muito afeto e ele, em
momento algum, colocou restrições a que as crianças
permanecessem com a mãe.
As duas crianças, travessas como quaisquer ou-
tras crianças, também convivem bem nessa situação
pouco comum. Nenhum dos dois apresenta "traumas"
ou "neuroses" porque sua mãe ama uma mulher.
O relacionamento entre essas duas mulheres é
estável e já dura anos. No entanto, no futuro, por
qualquer razão. elas poderão se separar e voltar a se
relacionar amorosamente com homens. Elas são mulhe-
res bissexuais.
Outros homens. mesmo humildes e sem instrução.
intuitivamente também podem compreender que suas
companheiras necessitem. eventualmente. relacionar-
se com outras mulheres. Para contornar a situação para
o seu meio social. fazem "vista grossa", "interpretram"
essa vontade apenas como uma forma de amizade. Com
isso. estão aceitando. à sua maneira. essa forma de viver,
cujas causas não conhecem. Casamentos respeitosos,
cheios de amor e de carinho entre um homem e uma
mulher pode sobreviver e durar, mesmo com a partici-
pação de "alguém mais".
117
Para a grande maioria das mulheres bissexuais, a
maternidade é um fato importante. A maternidade
para as mulheres é muito diferente da paternidade
para os homens. As mulheres, em nossa sociedade,
são preparadas para procriar. Esse sentimento, esse
desejo ou essa "obrigatoriedade" são tão acentuados
nas mulheres que alguns autores chegam a falar em
"instinto materno".
Discordamos dessa visão, porque esse papel está
sobrecarregado de conceitos e preconceitos de origem
puramente social ou cultural. Na verdade, a materni-
dade é uma escolha ou uma "obrigação" imposta pela
sociedade. A aparente "naturalidade" do papel de mãe
certamente vem de séculos de imposição social, de tal
modo que acabou se cristalizando na cabeça de todas
as pessoas.
Para as mulheres bissexuais a questão da mater-
nidade é relevante, o que nem sempre acontece no caso
das mulheres lésbicas. As primeiras se relacionam
com homens, às vezes por longos períodos. Desse vín-
culo podem nascer filhos, que mais à frente terão de
conviver com a nova parceira ou parceiro de sua mãe.
Como somente a mulher pode gerar uma criança e
como a cultura leva as mulheres a cuidar da educação
de seus filhos, a mulher bissexual provavelmente tam-
bém deverá "assumir" esse papel.
As mulheres bissexuais, assim como as lésbicas, são
muito menos visíveis aos olhos da sociedade. Isso acon-
tece porque elas não têm conflito na sua identidade de
gênero, ou seja, SENTEM que são mulheres, e seu
comportamento social é feminino. Todos os seus papéis,
como professora, inquilina, dona de casa, e tantos ou-
tros, têm o colorido da feminilidade.
118
A própria sociedade, a partir do movimento feminis-
ta. passou a questionar os padrões dos papéis masculino
e feminino. Um exemplo dessa mudança de padrões é o
fato de que uma excelente jogadora de basquete. em
função do pesado treinamento que recebe, passe a agir
socialmente de modo masculino ou "masculinizado".
Isso é apenas a exteriorização de um papel de
gênero, um corportamento social, que nada tem a ver
com a orientação afetivo-sexual da atleta. Hoje isso já é
visto com naturalidade, em parte devido ao status da
profissão exercida,no caso o esporte.
Pode-se afirmar que um comportamento humano
diferente do da maioria só passa a ser aceito pela
sociedade quando ele acontece, é visível, mas já não
chama a atenção.
Com isso, não estamos dizendo que as mulheres
bissexuais ou lésbicas, quando em seus papéis de gêne-
ro, estão sendo mais aceitas. Na verdade, a "aceitação"
vai somente até o momento em que se toma visível a sua
forma de amar. A partir daí, surgem as discriminações,
porque "aceitação pela metade" não existe.
O preconceito e a discriminação são mais "imedia-
tos" quando se trata de um homem ou uma mulher
travestis, ou transexuais, como veremos nos próximos
capítulos. A maneira de se comportar, de se vestir, de
falar e de agir revelam imediatamente a sua diferencia-
ção quanto aos papéis de gênero.
As pessoas que não conseguem lidar bem com a
própria sexualidade poderão ter dificuldade em lidar com
a sexualidade do outro. Não é fácil chegar ao equilibrio
nesse setor tão fundamental da vida, porque a sociedade
está carregada de tabus, preconceitos e idéias falsas. Por
isso, o relacionamento afetivo e sexual, algo tão inerente à
vida quanto respirar, passa por tantos problemas.
Quando nos referimos à sexualidade, não estamos
limitando o assunto apenas ao ato de amar e de fazer
amor. Na verdade, a incompreensão passa também pelas
119
relações de gênero, ou seja, pela forma como vivemos no
dia-a-dia, em permanente interação.
Costumamos dizer que homens e mulheres não se
entendem no trabalho, em casa, nos passeios, na política
ou na tomada de decisões. É a aparente "guerra dos sexos".
Infelizmente, grande parte dos seres humanos, homens ou
mulheres, não consegue alcançar a tão desejada harmonia
em suas relações de gênero.
As mulheres bissexuais, ao contrário das mulheres
lésbicas, no Brasil, não se associam, não se agrupam.
Praticamente ainda não se conhecem e quase não têm a
possibilidade de conversar umas com as outras dentro
de um grupo.
A sociedade brasileira é diferente, por exemplo, da
sociedade americana, que tem gll}pos organizados para
todo e qualquer tipo de pessoa. Nos Estados Unidos,
organizam-se para se defender, fazer valer seus direitos
ou se relacionar, os diabéticos, as lésbicas, os homosse-
xuais que são pais, os filhos de homossexuais, os defi-
cientes fisicos e até mesmo os aficionados de determi-
nados hobbies.
Quando falamos de mulheres bissexuais, não as
estamos confundindo com as lésbicas que um dia foram
casadas e até tiveram filhos. É muito provável, porém,
que as mulheres lésbicas, na época em que se casaram,
ainda não tivessem claro para si mesmas a sua verda-
deira orientação afetivo-sexual.
Há uma diferença importante nessas duas formas
de viver a sexualidade. A mulher exclusivamente lésbica,
a partir do momento em que toma consciência de sua
verdadeira orientação, passa a desejar e a se relacionar
com intensidade apenas com outras mulheres. Os pou-
cos e raros encontros íntimos com homens só vêm
reforçar a regra.
120
A mulher exclusivamente bissexual, no entanto, ao
longo de sua vida, alternadamente se vincula amorosa
e sexualmente com homens e mulheres, com igual
plenitude. Nos dois casos, pode haver predominância
ou integralidade, situações estas que estão relaciona-
das com o tempo de duração de um vínculo ou com a
sua intensidade.
Assim, uma mulher predominantemente lésbica
pode vir a desejar e a amar um homem. Mas será um
relacionamento eventual, de curta duração, ou de menor
intensidade comparado ao amor dirigido a uma parceira.
As mulheres bissexuais mais visíveis em nossa
sociedade estão no meio artístico. Algumas cantoras
famosas são bissexuais, não escondem ou pelo menos
insinuam essa orientação e nada têm de "masculinas".
Algumas são muito atraentes e desejadas pelo público
masculino e as poucas que, no palco, preferem uma
apresentação mais "agressiva" continuam femininas
no seu papel de gênero. Continuam se comportando
como MULHERES.
t=UTUl?() VISÍVl:L
As mulheres bissexuais e lésbicas são um pouco
"menos" discriminadas pela sociedade porque são em
geral "invisíveis". O movimento lésbico-feminista inter-
nacional está lutando para que essas mulheres se tor-
nem visíveis para a sociedade e assim possam ser aceitas
em sua integridade social e afetivo-sexual.
O atual presidente dos EUA, Bill Clinton, deu um
passo importante nesse sentido ao manter no primeiro
escalão de seu governo uma mulher assumidamente
lésbica. Clinton quis demonstrar com isso que o impor-
tante para a sociedade é a competência, e não o que as
pessoas fazem entre quatro paredes. Isso é apenas da
conta delas e de mais ninguém.
121
() IJlf'ÍCIL CM!l~ti() IJ() Mr=I()
••Jovem. alto, musculoso, bem-dotado. Só atendo
executivos. Fone ... "
É bem possível que você já tenha visto um anúncio
como esse nas páginas de classificados dos grandes
jornais. São comuns. não causam espanto e de certa
forma já nos acostumamos com eles. Mas quem são os
"executivos"?
Ora, são homens homossexuais, você poderá ima-
ginar. Eles estão em busca de um "garoto de progra-
ma". Em alguns casos, é provável que sim. Mas uma
grande parte de homens que procura esses rapazes é
composta de homens bissexuais, muitos dos quais
casados e com filhos.
Isso é certo ou errado? Nem uma coisa. nem outra,
pois a sexualidade é uma experiência que precisa e deve
ser vivida em sua plenitude. E. sendo uma necessidade
humana, para ser saudável, não deve estar sujeita a
juízos de valor dos educadores e profissionais de saúde.
A compreensão ou o preconceito dependem da forma e
do estágio em que se encontra a sociedade.
123
O aparecimento da Aids no início dos anos 80 foi
visto por muitos como um "castigo de Deus" para punir
os homossexuais. Pouco tempo depois, esses homens
passaram a ser perseguidos e discriminados por disse-
minar a "peste gay", constituindo, ao lado dos drogados,
os chamados "grupos de risco". Hoje já se sabe que não
existem grupos de risco, mas comportamentos de risco.
Lamentavelmente a doença se alastrou e ainda hoje
não se pode falar em cura. Uma situação nova, no
entanto, apareceu. A Aids passou a contaminar não
apenas os homens homossexuais mas também os hete-
rossexuais e as mulheres. que não faziam parte do então
"grupo de risco".
A falta de informação e o preconceito falaram mais
alto e mais rápido. As mulheres estariam sendo conta-
minadas porque seus maridos levavam "vida dupla n e
"saíam" também com homens. A bissexualidade, ou
melhor dizendo, a "provável'' bissexualidade masculina
veio à tona.
Essa nova realidade criou mais um estigma. Os
transmissores da Aids não seriam apenas os homens
homossexuais, mas também e principalmente os bisse-
xuais. No que diz respeito aos homens homossexuais,
isso não é verdade, porque eles passaram a redobrar os
cuidados e a maioria evita a promiscuidade. Mas os
homens bissexuais não foram e nem são os responsáveis
pelo crescimento da doença. A responsabilidade pela
propagação da Aids é de todo ser humano que pratica
sexo sem o conhecimento de como pode ser uma relação
sexual segura.
Uma reportagem publicada pelo jornal Folha de S.
Paulo, no dia 30 de junho de 1994, confirma esse fato.
Segundo levantamento feito pela Secretaria de Saúde do
Estado, o crescimento da Aids entre os heterossexuais
em São Paulo está se dando mais pelo uso de drogas
injetáveis do que pela prática bissexual.
124
No início dos anos 80, havia em São Paulo uma
mulher doente para cada grupo de 40 homens. Em 1994,
a proporção chegou a uma mulher contaminada para
cada 4 homens. Desde 1989, mais de 30% das notifica-
ções dos casos de Aids estão relacionadas com o uso de
drogas injetáveis, principalmente nas grandes cidades.
O fato de um homem contaminarsua companheira
com o vírus não significa, necessariamente, que ele seja
bissexual ou que tenha tido um relacionamento, ainda
que casual, com outro homem. Ele pode ter sido infec-
tado durante uma relação sexual com outra mulher. Ou,
ainda, a Aids pode tê-lo atingido numa transfusão de
sangue realizada numa operação anos antes, da qual ele
mal se lembra.
A nossa sociedade nunca viu com bons olhos e nem
compreendeu os homens bissexuais. Até hoje eles são
identificados com termos pejorativos e de péssimo gosto,
"cortam dos dois lados", ou então vistos como homosse-
xuais "não-assumidos".
Quando o caminho não é o da agressão e da incom-
preensão, a sociedade classifica os homens bissexuais
ora corno pessoas de caráter indefinido, ora como gente
que leva a vida "na sacanagem". E muitos homens
bissexuais ainda se consideram "mais machos" do que
os outros, no sentido heterossexual da expressão. simples-
mente porque fazem amor com homens e com mulheres.
No entanto, como temos dito, uma coisa é o com-
portamento amoroso, que chamamos de papel afetivo-
sexual, e outra, bem diferente, é o que vai dentro de cada
um, no seu íntimo. É o seu desejo e a sua vontade, é a
sua ORIENTAÇÃO AFETIVO-SEXUAL.
O homem bissexual também nasce biologicamente
macho e perfeito, não apresenta disfunções orgânicas
relacionadas à sexualidade, e cresce comportando-se de
forma masculina. ELE SE SENTE HOMEM.
125
Na idade adulta, quando a sua orientação afetivo-
sexual se definir como bissexual, ele passará a desejar
homens e mulheres. Isso é um sentimento, um desejo.
uma necessidade, algo interno que está além do controle
da própria pessoa, na maioria das vezes.
Esse sentimento, como tantos outros que temos ao
longo da vida, poderá se exteriorizar ou não. Poderá ser
revelado ou não. Nesse caso trata-se de uma questão de
decisão, ou da resolução de um conflito interno.
Cabe lembrar que muitos desses conflitos, como no
caso dos homens homossexuais, das mulheres lésbicas
e das mulheres bissexuais, têm sua raiz mais no precon-
ceito social do que propriamente na forma de viver a
sexualidade.
Ao contrário do que possa parecer, os consultórios
dos psicoterapeutas não vivem cheios de pessoas com a
"sexualidade diferente". Após 25 anos de experiência
como psicoterapeuta, posso afirmar que cerca de 70%
das pessoas que me procuram para tratamento são
heterossexuais.
Outra idéia equivocada é imaginar que as minorias
sexuais só procuram o psicoterapeuta para tratar de sua
sexualidade. Isso não é verdade. Alguns que procuram,
tanto quanto os heterossexuais, querem se resolver sexual
e afetivamente. Mas há outros, também como os heteros-
sexuais, que estão com problemas no trabalho, no relacio-
namento com as pessoas ou com seus parceiros.
O que às vezes acontece é que os psicoterapeutas
passam a considerar a sexualidade e suas variadas
formas de ser como a fonte causadora de todos os outros
conflitos. Alguns clientes revelam que percebiam um
certo preconceito perpassando as palavras de seu antigo
psicoterapeu ta.
Minoria humana é minoria demográfica. Diferentes,
todos nós somos uns dos outros.
126
Um advogado, a quem preferimos chamar de Júlio,
nos procurou porque estava sentindo problemas no seu
ambiente de trabalho, um grande escritório de advocacia
do centro de São Paulo. Disse que estava um tanto
irritadiço porque tinha perdido uma causa e que, apesar
dos 15 anos de profissão, ainda não conseguia lidar
muito bem com uma derrota, coisa habitual nas carrei-
ras profissionais.
O problema, segundo ele, vinha do fato de a compe-
tição entre os colegas ser acirrada e, para agravar, a sua
situação financeira, no momento, não era tão boa. Isso
o deixava tenso e com insônia.
Ao longo do processo de terapia, Júlio foi falando de
sua vida. Nasceu em uma família de classe média,
recebeu boa educação, cursou a melhor escola de Direito.
Aos 24 anos, Júlio casou-se com Lígia, a quem
amava muito e, dois anos depois, nasceu seu filho. Com
o passar do tempo, o relacionamento foi se desgastando
e o amor, dez anos depois, acabou. Veio a separação, o
divórcio e uma nova Mvida de solteiro".
Um domingo, ao sair do clube, por conta de um
problema qualquer no carro, Júlio conheceu Antonio
Carlos. Uma conversa de amigos, o mesmo time de
futebol, os problemas de sempre, inflação, política.
Júlio vive com Antonio Carlos há quatro anos. E o
seu sentimento pelo companheiro tem a mesma inten-
sidade daquele que tinha por Lígia. Júlio é um homem
bissexual, está tranqüilo com isso, e não veio ao nosso
consultório para discutir sexualidade. O problema dele
era a derrota de uma causa no escritório de advocacia.
E, claro, como tantos de nós, queria aprender a lidar
melhor com a frustração da derrota.
Homens como Júlio eram pouco visíveis para a
sociedade até bem pouco tempo atrás. Estamos nos
referindo ao homem basicamente bissexual, ou seja,
127
aquele que ama e faz amor com um homem e com uma
mulher, durante períodos mais ou menos longos.
A bissexualidade assume outras formas. Muitos,
senão a maioria, casam-se, constituem família e têm
filhos. Amar nem sempre significa a concretização de um
relacionamento físico só com a pessoa amada. Um ho-
mem pode amar muito uma mulher, casar-se com ela e,
anos depois, passar a se relacionar com um homem, sem
que isso destrua o seu casamento. Essa mesma situação
triangular pode acontecer num casamento heterosse-
xual onde o homem tem uma amante.
A sociedade tem muita dificuldade em aceitar o
homem bissexual. Grande parte das pessoas ainda não
está preparada para aceitar que alguns homens são
bissexuais e que entre a heterossexualidade e a homos-
sexualidade pode haver uma continuidade.
Os sentimentos e os desejos humanos não são
estanques. Por essa razão preferimos utilizar o termo
"basicamente" quando nos referimos à orientação afeti-
vo-sexual. Uma pessoa poderá caminhar ao longo de sua
vida, qualquer que seja a sua orientação básica, da
heterossexualidade para a homossexualidade, passan-
do pela bissexualidade. Isso pode ocorrer em períodos
longos ou curtos e até em situações circunstanciais.
Esse trajeto que vai e volta pode se dar tanto em
relação aos sentimentos afetivos, muitas vezes não re-
velados, quanto ao relacionamento sexual. Isso não quer
dizer que essa pessoa mudou ou pode ter mudado a sua
orientação afetivo-sexual básica.
Para os homens a dicotomia entre amor e sexo é
maior do que para as mulheres. Isso se deve, como já
vimos, ao nosso modelo de educação familiar. Assim, é
comum homens bissexuais se casarem e constituírem
128
família a partir de um vínculo amoroso, mas continua-
rem fazendo apenas sexo com outros homens.
Casos como o de Júlio, que relatamos há pouco, não
constituem a regra. A tendência da maioria é manter um
casamento heterossexual. Um homem bissexual casado
pode amar sua esposa, mas sentir a necessidade de um
relacionamento sexual esporádico ou constante com
outros homens.
A maioria das correntes psicoterápicas defende que
todos os seres humanos seriam, na sua origem, bisse-
xuais. Entretanto, grande parte dessas teorias coloca a
bissexualidade como algo que deveria ser vivenciado na
adolescência para que os seres se definissem como
heterossexuais.
No Brasil não há estudos ou estatísticas a respeito
do número de homens bissexuais. Esse comportamento
apenas agora começa a se tomar visível, na medida em
que homens casados adquiriram a Aids pela via do
relacionamento sexual com outros homens.
Essa situação tem levado alguns homens doentes a
revelar para a família o seu comportamento bissexual,
que no entanto se mantém oculto para a sociedade.
Algumas famílias escondem a doença, não comentam, e
preferem dizer que esse homem morreu decâncer, leu-
cemia ou qualquer outro mal.
A maioria dos homens bissexuais não é visível so-
cialmente, pois esse lado eles não revelam, guardam
para si, e são capazes de "transformar" a necessidade de
relacionamento com outro homem numa "grande ami-
zade" aos olhos dos outros.
O sofrimento interno dos homens bissexuais é gran-
de e talvez maior até do que o sofrimento dos homens
homossexuais. Eles acreditam que isso é doentio e que
deveriam eliminar o seu desejo por homens.
129
O que esse homem pode fazer, se a conclusão sobre
a sua bissexualidade for correta, é aprender a viver de
modo mais equilibrado com aquilo que ele sente. A
tentativa de reprimir um dos lados de sua sexualidade
pode ser infrutífera e lhe trazer maior sofrimento ainda.
Evidentemente não se está aqui fazendo uma apologia
de que os homens casados devem fazer sexo com outros
homens. Cada um pode descobrir o seu caminho e que
canal vai usar para viver esse sentimento.
O sofrimento interno poderá ser amenizado na me-
dida em que esse homem encontrar a solução, que é
peculiar para cada uma das pessoas. Através de uma
psicoterapia ou do amadurecimento propiciado pela pró-
pria vida, muitos homens bissexuais poderão encontrar
o equilíbrio para os seus desejos.
O mundo é um permanente jogo de opostos. Noite
e dia, preto e branco. feio e bonito. Entre esses pólos
existe uma grande área intermediária que a maioria das
pessoas não consegue compreender ou perceber. A bis-
sexualidade é uma dessas áreas.
Hoje, graças aos modernos meios de comunicação, as
sociedades ocidentais já aceitam em certo grau a homos-
sexualidade mas têm dificuldade em compreender um
comportamento bissexual, por sua natureza "aparente-
mente" dúbia. O termo está propositalmente entre aspas
porque, para os homens bissexuais bem resolvidos em
termos de sua orientação, não há dúvida alguma.
Mas muitos homens vivem na incerteza, conside-
ram-se basicamente heterossexuais ou basicamente ho-
mossexuais. Alguns chegam a afirmar ter absoluta
certeza de que são homossexuais e que não compreen-
dem o porquê de uma atração repentina por determina-
da mulher. Quando têm condições, procuram a
130
psicoterapia e, durante o tratamento, se descobrem
bissexuais.
Após a descoberta, superam seus conflitos e pas-
sam a conviver com uma mulher até quando durar o
amor ou for possível. Um exemplo claro dessa situação
é a atual sociedade do Japão, onde a homossexualidade
é reprimida ao máximo 1.
Naquele país, o sucesso na carreira e no trabalho
depende, e muito, da estabilidade familiar que a pessoa
apresenta. Ser casado e ter um filho conta muito para
alcançar postos importantes. Mas, como em todo o
mundo, os homossexuais existem no Japão. Entretanto,
eles estão completamente ocultos na bissexualidade,
verdadeira ou aparente. Muitos homens basicamente
homossexuais japoneses se casam e constituem família
porque a sociedade assim o exige.
Muitos homens sequer têm noção da sua bissexua-
lidade. Em nossa experiência clínica ouvimos muitos
relatos de homens homossexuais que preferem para o
relacionamento sexual os homens casados. Isso aconte-
ce em todas as classes sociais e as razões são as mais
variadas. De acordo com o relato desses homossexuais,
os homens casados seriam menos promíscuos, não
haveria o risco de envolvimento amoroso e essa relação
ficaria oculta.
O crescimento da Aids levou obrigatoriamente a
Medicina a se defrontar com a questão da sexualidade.
No Brasil, e também em outros países. isso está aconte-
cendo sem que muitos médicos tenham recebido o devi-
do preparo.
Um caso clínico, do qual tomamos conhecimento
recentemente, mostra de maneira dramática essa situa-
l. Conforme o livro-reportagem Favela Hígh-Tech, do jornalista
Marcos Lacerda.
131
ção. Um jovem casado, de classe média, procurou aten-
dimento médico em São Paulo. Seu estado de saúde não
era bom, estava com pneumonia. O médico que o aten-
deu, apressadamente, considerou a pneumonia como sen-
do uma das doenças oportunistas decorrentes da Aids.
Sem que o rapaz soubesse, solicitou um teste Elisa
para detectar o vírus HN. Tão logo recebeu o resultado,
o médico comunicou a ele e a sua esposa. O resultado
fora soropositivo. Ele estava com o vírus da Aids e
iniciara a doença.
O rapaz não aceitou o diagnóstico e negou que
poderia ter-se contaminado. Tinha se casado há pouco
tempo, não tinham qualquer tipo de relacionamento
extraconjugal, e muito menos bissexual. Não conhecia
drogas nem tinha passado por nenhuma transfusão de
sangue.
A partir desse momento, o casal passou a viver um
tenivel drama. Surgiram dúvidas sobre o que ele estava
afirmando. Talvez mentisse, talvez a mulher já estivesse
contaminada.
Passados alguns dias, diante da constante negativa
do jovem e da insistência de sua esposa, foi realizado
outro exame, esse mais sofisticado e mais caro. O teste
de Western-Blot, obrigatório para um resultado soropo-
sitivo do teste Elisa. Conclusão: o resultado do primeiro
teste era falso-positivo. Ele não estava com o vírus da
Aids. Tudo o que esse jovem tinha, desde o início, era
apenas pneumonia.
Maria Rosa chegou um pouco mais tarde do traba -
lho em sua casa simples num bairro de periferia de São
Paulo. Da esquina avistou sua mãe no portão e estra-
nhou. Teria acontecido alguma coisa com as crianças?
Antes que perguntasse qualquer coisa, a mãe, mu-
lher simples, e naquele momento um tanto transtorna-
132
da, foi dizendo: "Peguei o Jorge, seu marido, sem roupa,
de agarra com o Nezinho lá na oficina".
Maria Rosa ajeitou a bolsa, abriu o portão e respon-
deu: "Eu sei, e a senhora agora já sabe. O Jorge precisa
de uma coisa que eu não posso dar para ele. Ele me
contou antes de casar. Mas eu gosto dele do mesmo jeito
e ele também me ama".
A mãe entrou e ainda ouviu a filha falar calmamen-
te: "Não me sinto ameaçada por isso. E a gente é feliz".
7
Us caminhos da vida têm longos trechos de areia
movediça. O verde muitas vezes parece azul e não é fácil
distinguir o alaranjado do amarelo-escuro. A condição
humana tem fronteiras muito tênues entre o Mser" e o
"estar", e nem mesmo a alma sabe com clareza o que vai
dentro de si.
Quando urna criança está para nascer, os pais
escolhem um enxoval azul para o menino ou rosa para
a menina. Talvez a opção mais sensata fosse simples-
mente pela cor branca.
''Travesti - substantivo masculino. Disfarce de tra-
jes, mascaramento, pessoa vestida insolitarnente, corno
homens trajados de mulher e vice-versa. Do francês
travestL" A definição é do Grande Dicionário Etimológico
da Língua Portuguesa, edição de 197 4, de Francisco da
Silveira Bueno, professor da Universidade de São Paulo.
A mesma obra define o termo Minsólito" corno algo que é
135
"raro, excepcional, não costumado". Essa palavra vem
do latim insolitus.
A realidade nem sempre concorda com os dicioná-
rios. Os travestis masculinos, embora representem ape-
nas uma pequena parcela da população, não são raros,
muito pelo contrário. Numa cidade grande como São
Paulo, eles estão no teatro, na televisão e nas ruas,
dividindo o espaço e, algumas vezes, os clientes com as
prostitutas.
Recentemente quase surgiu uma querela diplomá-
tica entre o governo brasileiro e o italiano devido ao
grande número de travestis que daqui seguiam para o
Exterior com o objetivo de melhorar de vida.
Os travestis podem ser vistos nos shows das casas
noturnas, das mais simples às mais sofisticadas. Na
televisão, costumam se apresentar em populares progra-
mas de calouros, levados ao ar aos domingos, quando
toda a família, incluindo as crianças, está reunida diante
do aparelho de 1V.
Mas quem são eles? Ou elas?
Travesti é um termo leigo que ficou consagrado no
Brasilpara designar os homens que nascem machos,
são educados como meninos, mas têm uma identidade
·de gênero diversa da maioria. São pessoas que ao lado
da identidade de gênero masculina, desenvolvida atra-
vés do reconhecimento de seu corpo biológico e da
educação, SENTEM-SE também femininos.
A identidade de gênero, como já vimos anteriormen-
te, é a base para a construção da maneira de ser.
Trata-se de algo interno, uma sensação de pertencer ao
gênero masculino ou feminino. As pessoas bissexuais
sentem-se homens ou mulheres, caso sejam do sexo
masculino ou feminino, e são atraídas ora por um sexo,
ora por outro.
Com os travestis isso não acontece. Eles sentem-se,
ao mesmo tempo, homens e mulheres. O travesti mas-
culino deseja, regra geral, um homem para se relacionar.
136
No entanto, ele sabe que biologicamente é um homem e
não deseja eliminar o seu órgão sexual masculino. Al-
guns travestis, no entanto, relacionam-se, ainda que
ocasionalmente, com mulheres e são bissexuais, outros
até heterossexuais.
O fato de essas pessoas sentirem-se ao mesmo
tempo homem e mulher leva alguns travestis a se trans-
formarem em caricaturas de mulher. Seus gestos podem
ser exageradamente amaneirados, carregam na maquia-
gem, tomam hormônios ou aplicam silicone para ter
seios fartos e grandes nádegas.
Esse "desenho feminino" que está em sua cabeça
pouco tem a ver com as mulheres. Se olharmos com
atenção perceberemos que dentro daquele ser mora
também um homem. Esses travestis preferem como
parceiros os homens heterossexuais, ou pelo menos que
se digam heterossexuais.
Pouca gente conhece Astolfo.
Ele nasceu um bebê macho normal e teve uma
infância comum a tantos outros garotos. Passou pela
adolescência sem jamais ter rejeitado seu pênis e bolsa
escrotal e, adulto, tornou-se um excelente maquiador.
A partir de um determinado momento de sua vida,
algo emergiu de dentro de si, pedindo que ele transfor-
masse os caracteres sexuais secundários de seu corpo
masculino. Conseguiu deixar sua barba mais rala, arre-
dondou as formas do corpo e submeteu-se a um trata-
mento para ter seios.
Quem conhece Astolfo? Hoje quase ninguém.
E Rogéria, o travesti brasileiro mais famoso e res-
peitado?
São a mesma pessoa. Inteligente, bem-humorada,
Rogéria é um sucesso no teatro e na televisão, onde
aparece ora como entrevistada, ora como entrevistadora.
137
Durante o Carnaval, Rogéria é personagem obrigatória
do famoso baile Gala Gay, que reúne no Rio de Janeiro
travestis, transexuais, homossexuais e heterossexuais
de todo o mundo.
Rogéria nunca escondeu que tem Astolfo dentro de
si e rejeita qualquer hipótese de operação para retirada
do seu pênis e testículos. Ela, com seu jeito despachado
e popular, desperta muito mais simpatia do que "curio-
sidade" entre as pessoas.
Cientificamente falando, o melhor termo para defi-
nir um travesti, homem ou mulher, seria "heonafrodita
mental". Essas pessoas nascem com um corpo normal
do sexo masculino ou feminino mas sentem necessidade
de assumir um comportamento de gênero oposto ao seu
sexo biológico. Em outros casos, procuram combinar os
dois tipos de comportamento, masculino e feminino, num
único, o que resulta num ser aparentemente andrógino.
Cabe lembrar que a aparência andrógina não impli-
ca necessariamente um comportamento de travesti. Al-
gumas pessoas, por seus traços fisionômicos, modo de
se vestir, corte de cabelo ou uso de determinados enfeites
dificultam a sua identificação imediata como homem ou
como mulher. Alguns famosos ídolos da juventude têm
essa aparência indefinida.
Aqueles travestis, cujo desejo interno em relação ao
seu gênero não é muito forte, de um modo geral não
modificam o seu corpo. Numa parte do dia comportam-
se de maneira masculina e numa outra parte apresen-
tam um comportamento feminino. O uso dos cosméticos,
as unhas bem tratadas, o cabelo ou uma peruca são
suficientes para que eles possam se sentir inteiros.
Não são poucos os casos de homens, funcionários
responsáveis, de temo e gravata durante o dia, que nas
noites de sábado transformam-se numa bela cantora de
138
clubes noturnos. O corpo não mudou, os seios são
apenas um enchimento de espuma dentro do sutiã, mas
a bela voz aguda e o charme com que caminham de salto
alto pelo palco revelam seu outro lado. São artistas de
talento, se consideram apenas "transformistas". e não
travestis. Em Juiz de Fora, Minas Gerais, realiza-se anual-
mente o concurso de "Miss Brasil Gay", do qual só podem
participar travestis cujos corpos não foram modificados.
Esses homens são chamados de "transformistas".
É possível, mas somente eles podem ter a certeza
do que vai pelo seu coração. E quanto a nós, só sabere-
mos quando revelarem como se sentem em nível de
identidade de gênero.
Ao afirmarmos que essas pessoas se sentem inteiras
quando se comportam dessa maneira, estamos queren-
do dizer que um travesti que se sente homem e mulher
ao mesmo tempo, e não exterioriza essa condição, é um
ser pela metade.
A maior parte de nossas relações é de gênero, e não
sexuais. É o nosso dia-a-dia, trabalho, escola, lazer. E
nessas relações se faz necessário, sempre, um compor-
tamento masculino ou feminino, independentemente do
corpo biológico. Não é possível viver em sociedade com
um comportamento neutro.
Um outro grupo de travestis necessita transfor-
mar os seus caracteres sexuais secundários. Eles
conservam a sua genítália interna e externa mas mo-
dificam a voz, eliminam os pêlos, arredondam o corpo,
desenvolvem seios e aumentam as nádegas, procuran-
do aproximar-se do que seria um padrão feminino.
Os travestis sempre existiram, assim como todas as
outras formas de viver a sexualidade. No Brasil, e tam-
bém em outros países, eles passaram a se tomar visíveis,
como fenômeno social, apenas recentemente.
139
Por falta de conhecimento, a sociedade tem muita
dificuldade em distinguir um travesti masculino de um
transexual. Para a sociedade. todos os homens que se
vestem ou se comportam como mulher são travestis. Isso
não é verdade. As maiores diferenças estão no mundo
interior dessas pessoas.
O travesti masculino não rejeita o seu órgão sexual
e. na verdade, o utiliza durante o relacionamento íntimo.
Apenas em seu corpo falta "algo" feminino. A sua iden-
tidade de gênero, no entanto, é bigenérica, ou seja, eles
se sentem homens e mulheres ao mesmo tempo.
Essa dupla identidade de gênero acaba se refletin-
do, com maior ou menor intensidade, em todos os papéis
que a pessoa vier a desempenhar em sua vida. Por isso,
até intuitivamente, é possível distinguir um travesti de
uma mulher, o que já não ocorre com os transexuais.
São comuns as histórias contadas em rodas de
amigos de homens que conheceram uma bela mulher,
se encantaram. e só descobriram que estavam com um
travesti na cama do motel. Se o caso for verdadeiro e se
se passou exatamente dessa forma, é possível que esse
homem tenha conhecido não um travesti e sim um
transexual ainda não operado.
Os transexuais masculinos, ao contrário dos
travestis, rejeitam a sua genitália, querem se livrar
dela e ter, no lugar. uma vulva e uma vagina. Em
alguns depoimentos, os transexuais afirmam que
SEMPRE se sentiram mulheres num corpo de homem
e alguns, antes da operação para a mudança de sexo,
chegam a confessar que sentiam nojo de seu órgão
sexual masculino.
O problema, no Brasil, é que a operação para a
mudança de sexo é proibida. Assim, muitos transexuais
acabam se considerando travestis e dessa forma são
vistos pela sociedade.
Os travestis, muitas vezes, foram meninos com
características femininas desde criança e, outras vezes
140
não. Entretanto. na adolescência, com a explosão dos
hormônios, quando suas características masculinasfi-
cam totalmente defmidas. é que a maioria dos travestis
sente a necessidade de acrescentar um comportamento
diferente daquele que ele vinha tendo até então.
Nesse momento surge o grande conflito consigo
mesmo e com a família. Pouquíssimos pais aceitam ter
um filho que foi criado como homem e que, "de repente".
começa a ter um comportamento masculino e feminino
ao mesmo tempo. A maioria desses rapazes não encontra
outra solução a não ser abandonar a casa, passando a
buscar um espaço social onde possam ser eles mesmos.
Nas grandes cidades. esse espaço é garantido pelo
anonimato. Eles então se agrupam a pessoas que estão
na mesma situação para poder viver ou. pelo menos.
sobreviver. Esses travestis, ainda na adolescência. antes
de iniciar a mudança de seu corpo ou do papel de gênero,
se descobertos são considerados como homossexuais,
uma vez que a maioria se relaciona amorosamente com
pessoas do mesmo sexo.
Como já vimos anteriormente. há um equívoco nes-
sa identificação. Os travestis não são homens homosse-
xuais. Estes, internamente. sentem-se SEMPRE
homens. Não há duplicidade na sua identidade de gêne-
ro. Apenas, coincidentemente. nos dois casos, os rela-
cionamentos afetivos acontecem entre pessoas do
mesmo sexo biológico, embora nem sempre.
Na medida em que a sociedade não abre espaço
para pessoas de comportamento ambíguo. isso vai se
refletir em todas as situações de vida e principalmente
no trabalho. Homens homossexuais e lésbicas são pes-
soas discriminadas, mas podem e exercem suas profis-
sões. as mais variadas. Para os travestis isso não
acontece, na maioria dos casos.
Para a sociedade, essas pessoas são "muito estra-
nhas". As dificuldades tornam-se enormes, e é a sobre-
vivência que está em jogo. Restam, para os travestis,
poucas e raras opções. Com esforço conseguem se colo-
141
car em ambientes tipicamente femininos, como salões
de beleza ou ateliês de costura.
Alguns, com mais sorte, empregam-se em hospitais
como enfermeiros, ou em outras instituições, mas, nesse
caso, exige-se que eles se comportem de acordo com o
seu sexo biológico, ou seja, de forma masculina. Outros,
talentosos, ingressam no meio artístico, e para muitos
sobra apenas o caminho da prostituição.
Como tantos, veio do nordeste para São Paulo, há
muitos anos, um rapaz chamado Caetano, hoje conhe-
cido como Brenda Lee. Essa pessoa conseguiu, com
algum esforço, abrir uma pensão destinada exclusiva-
mente a travestis. Com a propagação da Aids, no início
da década de 80, Brenda Lee decidiu, corajosamente,
transformar a sua pensão numa casa para atendimento
de travestis aidéticos.
Essa pensão, onde moram alguns travestis, pouco
difere do ambiente de uma família "convencional".
Brenda tem verdadeiro carinho pelas "meninas" e as
trata quase como filhas. "Algumas" são mais dóceis,
outras mais rebeldes, mas todas muito amadas e
respeitadas, estejam ou não na prostituição. O Palácio
das Princesas, nome de sua pensão, é uma casa alegre,
com astral elevado.
Um morador resumiu com uma frase, num depoi-
mento para um documentário suíço 1• o que sentia por
Brenda: "Aqui, se a gente traz dinheiro da rua. come. Se
não traz, come do mesmo jeito". Brenda tomou-se muito
respeitada por seu trabalho na prevenção contra a Aids
e passou a receber recursos públicos do setor de Saúde
para manter de pé a sua iniciativa.
1. Documentârio suíço Douleur d' amour, idealizado e realizado por
Mathlas Kãlian e Pierre Alain Meter. Uma produção da Amldou Paterson
Fllm. Genéve e Jurg Müller Fllm, São Paulo, maio de 1987.
142
É na sua casa que os doentes encontram refúgio,
mesmo que estejam em estado terminal. O carinho de
Brenda é o mesmo ou até maior. Quando a morte,
inevitável, põe fim ao sofrimento de uma wcompanheira",
é ela quem toma todas as providências para que haja um
funeral digno, que acompanha, invariavelmente, sozinha.
Os travestis não se relacionam amorosa ou sexual-
mente entre si e nem com homossexuais. Eles preferem,
em sua grande maioria, homens heterossexuais. O tra-
vesti Jane de Castro, uma produtora de shows de trans-
formistas no Rio de Janeiro, vive maritalmente há 25
anos com um homem que se considera heterossexual.
Essas pessoas de dupla identidade de gênero são as
menos estudadas pela Medicina atualmente. Não se
sabe por que são dessa forma. não se entende por QJ-1,e
se sentem e se comportam dessa maneira. Na realidade.
deyerjam ser estudadas. poraue muitos trqµestis dese-
jam mudar o seu coroo.
Para conseguir isso, eles precisam da ajuda da
Medicina e necessitariam contar com uma eQuipe mul-
tidisciplinar composta, no mínimo. por endocrinolo6!is-
ta. psiguiatra. psicólogo e cirurgião plástico. Esse
atendimento deveria ter um respaldo cjentífico muito
bom para se Saber quando e corno um homem pode
acrescentar caracteres sexuais secundários femininos
ao seu corpo masculino.
Como um serviço de saúde com essas característi-
cas inexiste no Brasil, os travestis, para fazer cumprir
sua necessidade de transformação, buscam meios clan-
destinos e perigosos. Eles se automedicam. fazem a
.· aplicação de silicone para dar formas femininas ~
corpo, e isso costuma trazer grandes problemas. com
143
riscos para a saúde e para a sua própria vida. Apenas
os travestis que dispõem de recursos têm condicões de
recorrer a um atendimento médico particular.
Na medida em que a Medicina e a sociedade não
aceitam essas pessoas e se comporta como se elas não
existissem, os travestis se valem de todos os meios para
garantir os seus direitos como seres humanos. Alguns
se tomam violentos e agressivos para se defender, e as
páginas policiais dos jornais estão cheias de casos dessa
natureza. Na verdade, estão devolvendo à sociedade toda
a carga de violência que recebem ao longo de suas vidas.
Outros se valem do humor para abrir um espaço
para si. São as Drag-Queens, hoje muito populares. As
Drag-Queens são "mulheres" propositalmente caricatas
e, diga-se de passagem, personagens dos carnavais
brasileiros de há algumas décadas. Vale dizer que mui-
tas Drag-Queens são homens heterossexuais. Outro
caminho é a arte, principalmente a música.
Quando fazem isso de forma adequada, são absor-
vidos, até certo ponto, pela sociedade. É o caso, por
exemplo, da artista Laura de Vison, um travesti caricato
que atua com muito talento em casas noturnas.
Durante o dia, Laura transforma-se, num respeita-
do professor de História em um tradicional colégio do
Rio de Janeiro. O comportamento de Laura não é uma
imitação de mulher à noite ou a de um professor homem
durante o dia. Laura vive, verdadeiramente. os dois
lados, em sua plenitude.
Quando a sociedade não compreende e rejeita de-
terminados grupos de pessoas, podem ocorrer duas
situações, igualmente desumanas. Essas pessoas são
marginalizadas e abandonadas à própria sorte ou man-
tidas em guetos. Essa discriminação atinge, em maior
ou menor grau, os homossexuais, os travestis, as pros-
titutas, os loucos, os deficientes fisicos e tantos outros
seres humanos "diferentes".
144
UUTV4. f' 4.CI:.
Há uma expressão preconceituosa e de mau
gosto, muito comum em rodas de homens. Quando
eles vêem passar uma mulher muito bonita, exube-
rante nas nádegas e nos seios, afirmam, se sentindo
atraídos: "Não é possível. Que máquina! Só pode ser
um travesti".
Os travestis que se sentem esteticamente bonitos e
atraentes encontram espaço aberto na prostituição. Eles
só se prostituem porque existe clientela para eles. Mui-
tos homens desejam se relacionar sexualmente com
travestis, sabendo de sua condição. Quando precisam
revelar o "caso", muitas vezes dissimulam, dizem que se
enganaram, mas, como era tarde demais ...
Que homens são esses?
Pelo relato dos travestis, sabemos que durantea
relação alguns clientes pedem para ser penetrados, no
que ás vezes são atendidos ou não. Seriam homens
homossexuais que não têm coragem de procurar um
outro homem? Acreditamos que não.
Esses "clientes" seriam então bissexuais? É uma
pergunta sem resposta. Ou seriam homens que têm algo
diferente dentro de si, que os leva a se relacionar com
seres que tenham fundidos no mesmo corpo o homem e
a mulher?
Esses homens têm um papel complementar ao pa-
pel afetivo-sexual dos travestis. Entretanto, isso não foi
estudado e nem mesmo é conhecido. A verdade é que em
todas as grandes cidades brasileiras existem pontos de
prostituição de travestis.
Esses pontos de prostituição, onde trabalham os
travestis mais sofisticados, mais educados e que têm um
corpo muito atraente, estão localizados em bairros de
classe média ou alta das grandes cidades. Na penumbra
da noite. é comum ver parar diante dos travestis carros
145
do ano e até importados, o que indica que são procura-
dos por pessoas de bom poder aquisitivo, e que sabem
quem estão buscando.
Muitos travestis brasileiros partem para o Exterior
para trabalhar na prostituição ou no meio artístico. Hoje
já disputam esse mercado de trabalho em países como
Portugal, França e Itália. Quase todos desejam retomar
um dia ao Brasil em melhores condições para aqui poder
viver uma vida normal.
Da mesma forma como ocorre com os homosse-
xuais, as seitas brasileiras de origem africana, como a
umbanda e o candomblé, aceitam sem discriminação os
travestis. Muitos ingressam nessas seitas e chegam até
a pais-de-santos respeitáveis, o ponto mais elevado nes-
sas religiões.
Na medida em que esses travestis atingem um
status religioso, passam a ser aceitos por nossa socie-
dade. Eles são procurados como pontos de apoio ou
como conselheiros que podem ajudar a resolver as
mazelas da alma. Vale a regra: quando em um papel
social se é muito importante, um outro papel diferente
passa a ser aceito pela sociedade.
Da mesma maneira como são procurados, são tam-
bém agredidos, violentados e assassinados. As rondas
policiais noturnas, também nos bairros mais pobres,
caçam essas pessoas como cães vadios destinados à inci-
neração. Enxotados de um lado para o outro da cidade, as
páginas policiais trazem, freqüentemente, noticias de tra-
vestis assassinados a sangue-frio, por homens que pas-
sam de carro, atiram muitas vezes e vão embora.
As investigações sobre essas mortes invariavelmen-
te vão para o arquivo, com o carimbo "crime de autoria
desconhecida". Nisso, essas investigações não diferem
muito das dos crimes políticos. A impunidade impera
segundo a conveniência social.
146
Por que tanta violência contra pessoas que não são
consideradas cidadãos e nem têm seus direitos huma-
nos preservados? Alguns desses homens, criminosos,
aparentemente, querem matar algo dentro de si mes-
mos. Algo que "escondem" de si mesmos e que não
compreendem.
É necessário deixar claro que um homem que se
veste de mulher não é necessariamente um travesti.
Podemos, no máximo, dizer que se trata de um
homem travestido. A questão está na forma de viver
a sexualidade.
Existem numerosos casos de homens heterosse-
xuais que, durante a relação sexual com sua compa-
nheira, vestem as suas roupas, especialmente as
peças mais íntimas. Isso lhes dá mais prazer, esti-
mula a fantasia e dá mais colorido à relação. Isso é o
que a Medicina denomina de travestismo e considera
patológico.
Se uma situação corno essa for vivida com natura-
lidade pelo casal. não há problemas. O homem não é,
por ter usado num momento de maior prazer a lingerie
preta de sua mulher, um travesti, e menos um homos-
sexual.
E o que dizer então do Carnaval? Em Recife,
blocos com centenas de homens vestidos de mulher
saem às ruas, sendo muito aplaudidos pela população.
Esses blocos adotam, de propósito, nomes provocati-
vos, como "As virgens de Olinda'', ou de acordo com o
bairro de origem.
Alguns excelentes atores de cinema ou de teatro,
heterossexuais, especializam-se em representar papéis
femininos. Quem poderá dizer que Dustin Hofmann, ao
viver Tootsie, no cinema, virou travestL? O tradicional
teatro Nô japonês não admite mulheres em seu elenco,
e isso acontece há séculos.
147
Estúdio. Silêncio. Gravando.
Tal<:e para os colares coloridos de contas graúdas.
Corta para o sorriso, abre plano geral.
Vestiu uma camisa listrada
e saiu por aí
Em vez de tomar chá com torrada
ele bebeu parati
Levava um canivete no cinto
e um pandeiro na mão
E sorria quando o povo dizia:
Sossegaleão!Sossegaleão!
. Corta, OK. Os olhos de Carmen Miranda têm um
brilho diferente. É a sua oportunidade, seu sonho
realizado.
Corta. Desempregado, carioca, brasileiro. Eric
Barreto. Ator transformista convidado pelo cine-
ma americano para viver a nossa Pequena Notável
num filme.
Foi demitido do banco onde trabalhava assim que
voltou dos Estados Unidos. Lá sua estrela brilhara tanto
por tão pouco tempo.
s
Lza Minelli termina a última música do seu show
e agradece, emocionada, os aplausos da platéia seleta
de um dube de elite. Os olhos negros brilham, realçando
a beleza do seu rosto. ela ajeita com charme o vestido e
vai para o camarim. Diante do espelho, retirando a
maquiagem, algo dentro de si mostra o rosto verdadeiro,
de Ricardo, um travesti.
A presença de um homem com belas formas femi-
ninas tomou-se comum no Carnaval e na TV. Essas
pessoas já fazem parte de nossa "paisagem", principal-
mente nas grandes metrópoles. As batidas policiais são
constantes e numa delas foi preso Binho, depois de uma
confusão na saída de um baile.
Negro, alto, forte e casado, Binho não tinha passa-
gem pela polícia, mas foi indiciado por crime de falsidade
ideológica. No bolso, o único documento trazia o nome
de Maria Quitéria. Binho, para espanto dos agentes de
plantão, era mulher, uma travesti.
Raramente temos noticia de casos como o de Binho.
As mulheres travestis existem em pequeno número, e
estão totalmente camufladas, de forma tal que passam
149
despercebidas. Essas mulheres não têm nenhuma dis-
função orgânica, nasceram fêmeas normais, e, de um
modo geral, devem ter sido criadas dentro de um padrão
de gênero feminino.
É no periodo da meninice, por volta dos 8 anos,
quando a sua identidade de gênero está se cristalizando,
que esse modo de sentir começa a ganhar forma. poden-
do se explicitar ou não.
A maioria das crianças, nessa etapa da vida. já sabe
que é macho ou fêmea e SENTE-SE pertencendo ao
gênero masculino ou feminino. Entretanto, algumas
começam a ter a sensação de que são as duas coisas ao
mesmo tempo. Ora se percebem corno meninas, ora
corno meninos. Novamente voltamos a afirmar que a
Ciência ainda não dispõe de elementos para explicar
essa condição humana, e tudo permanece no terreno das
hipóteses.
As mulheres travestis comportam-se, na maioria
das vezes, corno homens e chegam até mesmo a se casar.
Mas não rejeitam a sua condição biológica de mulheres
e nem pensam em mudar de sexo. Os órgãos sexuais são
normais e fazem parte de sua vida amorosa e de seus
relacionamentos.
Essa forma de viver a sexualidade, entretanto, leva
as mulheres travestis a sentir necessidade de acrescen-
tar caracteres sexuais secundários masculinos ao seu
corpo. Entre eles estão o desenvolvimento da muscula-
tura e, mais raramente, com o uso de hormônios, pêlos
é barba. Urna característica tipicamente masculina, o
tom de voz grave, pode ser obtido com um treinamento
e pela imitação.
Os brincos e o batom são abandonados. A roupa
justa feminina cede lugar a trajes mais largos, que
escondem o corpo, e todo o seu comportamento, no
150
andar, no falar e o gesticular, é o de um homem. Seu
objeto de desejoe de amor geralmente é uma mulher
bastante feminina, que se sinta heterossexual.
Como a sociedade não tem um espaço aberto para
as mulheres travestis, elas acabam passando desperce-
bidas pelos meios de comunicação, a não ser que se
envolvam em casos de contravenção penal. Em situa-
ções como essa, o tratamento que essas pessoas rece-
bem é muito cruel.
O número reduzido de mulheres travestis faz com
que tenhamos poucas informações sobre como vivem e
como se sentem essas pessoas. No Brasil, nem a Medi-
cina e nem a Psicologia vêm desenvolvendo estudos a
respeito do assunto. Se comparadas com a quantidade
de travestis masculinos, elas praticamente não existem,
o que não é verdade. Estão apenas "escondidas" no meio
da população e não despertam o interesse da televisão
ou do meio artístico. Salvo quando são apresentadas
como "curiosidade".
O descaso da Ciência não se limita apenas à Medi-
cina e à Psicologia. mas avança também pela Sociologia
e pela Antropologia. A falta de conhecimento e de inte-
resse retira dessas pessoas a possibilidade de assegurar
uma identidade social e, em conseqüência, o respeito.
O comportamento das mulheres travestis nunca é
totalmente "masculino". Essas mulheres, que se sentem
com dupla identidade de gênero, guardam dentro de si
traços femininos. É possível perceber, diante desse "apa-
rente" homem, alguma coisa de mulher.
Essa forma de sexualidade difere da que é vivida
pelas mulheres bissexuais. Estas SENTEM-SE o tempo
todo MULHERES, mas são atraídas por pessoas de
ambos os sexos. Quanto às mulheres travestis, essas
trazem dentro de si a sensação de que, embora mulhe-
res, são QUASE HOMENS. A expressão está em desta-
que porque, pelo que se sabe, as mulheres travestis
procuram agir como homens, mas não rejeitam o seu
sexo feminino, como acontece com as mulheres transe-
xuais, o que veremos mais adiante.
151
É necessário também não confundir as mulheres
travestis com as lésbicas "masculinizadas". No caso
dessas lésbicas é possível identificar nelas uma mulher
com trejeitos masculinos, mas ainda assim claramente
uma mulher. A mulher lésbica masculinizada não quer
ser homem, mas apenas se parecer com um homem ou
sentir como é ser homem socialmente.
As travestis femininas vão além. Elas querem se
fazer passar por homens no dia-a-dia e até nas suas
relações amorosas. Isso não é fácil de conseguir, uma
vez que não se SENTEM totalmente homens. Interna-
mente, são mulher e homem ao mesmo tempo.
Há uma fronteira muito tênue entre a mulher
lésbica bastante masculinizada e a travestifeminina,
pois ambas se assemelham no seu exterior e nos seus
relacionamentos amorosos e sexuais. A diferença está
na forma como cada uma delas se sente. E isso só elas
podem saber.
Interior do Ceará, 1993.
Agripino de Oliveira, de 84 anos, é internado às
pressas no modesto hospital da cidade com uma úlcera
perfurada. Dona Idalina, sua segunda mulher de papel
passado, acompanha o marido, como sempre fez nos
trinta anos de casados. O agricultor, pobre, rapidamente
vai piorando. Nos últimos meses o pequeno sítio ficou
quase abandonado na mão de dois rapazes, um de 13 e
outro de 15 anos, seus filhos adotivos. Outros dois, bem
mais velhos e também adotivos, moram em São Paulo e
há anos não visitavam o pai.
De um dia para o outro, uma infecção adquirida no
hospital e o coração sem forças dão o descanso final ao
velho e curtido homem da roça. Dona Idalina entra em
desespero. Ela quer retirar o marido morto a qualquer
152
custo e o quanto antes do hospital. Os médicos não
deixam. Há providências de praxe a serem tomadas.
O desespero da mulher aumenta, ela se toma vio-
lenta e não há outra saída a não ser chamar a polícia
para contê-la. A chegada de um policial coincide com o
momento de espanto dos enfermeiros que preparavam o
corpo. O velho Agripino, na verdade, era uma mulher.
Imediatamente dona Idalina é detida como "cúmpli-
ce" por crime de falsidade ideológica cometido pelo
marido, que tinha todos os documentos com o nome de
homem. Na delegacia, diante do escrivão, a humilde
mulher de mais de 60 anos afirma, singelamente, que
em 30 anos de vida em comum jamais viu seu marido
nu. Os policiais não acreditam. Certamente ela estaria
mentindo.
Ou não.
Não temos conhecimento de como as mulheres tra-
vestis se comportam no relacionamento sexual. Prova-
velmente podem ter tido relacionamentos com homens,
numa idade em que não estavam totalmente definidas,
ou até mesmo um casamento. Entretanto, a partir de
um determinado momento, não aceitam mais relacio-
nar-se com um ser masculino e buscam uma mulher
para um vínculo.
A Psicologia não dispõe também de estudos sobre
como são as mulheres que se relacionam com uma
mulher travesti. Ao que parece, essas mulheres seriam
muito femininas, estariam dentro de um padrão que
nada deixa a desejar à sociedade e têm claro dentro de
si a consciência de pertencer ao gênero feminino. Não
há nada que confirme que essas mulheres têm uma
orientação afetiva voltada para a homossexualidade.
Elas não são lésbicas porque estão amando um "ho-
mem", ainda que "ele" seja mulher.
153
A sociedade é desumana com as mulheres tra-
vestis, principalmente se elas pertencerem às cama-
das mais pobres da população. Com elas a lei é
implacável, e o preconceito sem limites. Essas mu-
lheres. por serem "diferentes" da maioria, são mar-
ginalizadas ao extremo quando seu verdadeiro corpo
de fêmea é revelado.
Uma bela mulher. de 25 anos, muito feminina e
charmosa, nos procurou para fazer psicoterapia. For-
mada em Pedagogia, essa mulher, que preferimos
identificar apenas como Cristiana, se dizia um tanto
insegura porque havia recebido uma boa proposta
para mudar de emprego.
Tranqüila, Cristiana disse não ter grandes proble-
mas no seu relacionamento social e amoroso, mas se
confessava insegura e frágil. Isso a estava preocupando,
e ela desejava, se possível, melhorar esses aspectos de
sua vida.
Aos poucos, após as primeiras sessões de psico-
terapia, Cristiana foi contando a sua história. Teve
excelente educação, a familia era de classe média, o
que lhe permitiu concluir os estudos universitários
sem precisar trabalhar. O pai, um comerciante de
tecidos, queria que ela cursasse Administração ou
Contabilidade, mas o gosto em trabalhar com crianças
a levou para a Pedagogia.
Cristiana, na época do tratamento, tinha um namo-
rado e pretendia se casar logo. A única irmã, mais velha,
já era casada e havia se mudado para o Canadá. Deixar
os pais sozinhos também a incomodava.
Quando completou 21 anos, seu pai fez questão de
dar uma grande festa. Não havia nenhum motivo especial
para isso, mas os negócios da familia finalmente estavam
indo muito bem. E portanto a data merecia comemoração.
154
Entre os convidados e amigos estava Norma, uma em-
presárta bem-sucedida. também do ramo de confecções.
O pai apresentou as duas, e a conversa, inicialmen-
te sobre tecidos, acabou se dirigindo para a educação
infantil, os problemas de nossas escolas, a pouca valo-
rização do professor. A festa terminou, mas Cristiana
não conseguiu apagar da mente a boa impressão que
Norma lhe havia causado.
No dia seguinte. a empresária telefonou. Gostaria
de conversar novamente com Cristiana. As duas se
encontraram e, semanas depois, estavam apaixonadas.
Norma estava com 38 anos, era filha única e
herdara os negócios da família com a morte dos pais,
num acidente aéreo. Ela já gerenciava a empresa, mas,
a partir de então, passou a dirigir a firma com "mão
de ferro".
Desde a juventude Norma trajava-se com roupas
masculinas, vestia terno, usava gravata e sapatos de
homem. Usava o cabelo curto, mas não disfarçava os
traços femininos de seu rosto, que nunca conheceu um
batom.Mas ela não negou para ninguém a sua condição
biológica, nascera fêmea e tornou-se masculina. Apenas
escondia, sob o terno, os seios, comprimidos por uma
faixa bem apertada. Norma jamais usou um sutiã.
Respeitada pelos funcionários, pelos clientes e pela
família, o comportamento "diferente" de Norma passava
quase despercebido entre aqueles que conviviam com ela
no trabalho ou na sociedade.
O carinho, os mesmos gostos, o amor levaram Cris-
tiana a morar na casa de Norma. As duas se considera-
vam um casal heterossexual "normal". Norma passava
o dia dirigindo a empresa, e Cristiana, depois de voltar
da faculdade, cuidava da casa, administrava as empre-
gadas, ia às compras. Para Cristiana, Norma era, em
quase todos os momentos, o seu "marido".
Pelo relato de Cristiana, apenas num momento ela
se dava conta de que estava vivendo com uma mulher.
155
Nos primeiros instantes de amor, Cristiana sentia falta
em seu "companheiro" de um pênis. Corno em qualquer
relacionamento, elas foram felizes, brigaram, fizeram
planos, viajaram com a família. Até que, três anos
depois, o vínculo se rompeu.
Cristiana sofreu e provavelmente Norma também.
Mas a dor passou. Depois disso, Cristiana nunca mais
voltou a se relacionar amorosamente com mulheres.
Perguntamos se esse relacionamento com Norma havia
deixado alguma marca desagradável e profunda. Ela diz
que não, que apenas não sente atração ou interesse por
mulheres. Reconhece apenas que na época era um tanto
imatura. Desejava um homem que a protegesse mas, ao
mesmo tempo, não a ameaçasse. Por isso, completa
sorrindo, se "casou" com "um marido fêmea".
É pouco comum as mulheres travestis procurarem
ajuda psicológica, quer seja porque elas são em número
reduzido ou porque os profissionais de saúde mental no
Brasil não estão preparados para lidar com essa situa-
ção. Não existem também serviços públicos que aten-
dam essas pessoas. As poucas informações a que ternos
acesso vêm de suas parceiras eventuais, corno no caso
apresentado.
Nas camadas mais desfavorecidas da população o
atendimento médico às mulheres travestis é, corno para
os demais, extremamente precário e nesse caso até
desrespeitoso. Urna mulher que se traje e se comporte
corno homem, ao ser internada num hospital público,
recebe, de início, roupas femininas, "adequadas" ao seu
corpo biológico.
A Medicina não tem qualquer preocupação com o
"corpo psicológico" dessas pessoas. Qual não seria o
constrangimento e o sofrimento de um homem heteros-
sexual que, nas mesmas condições, recebesse de uma
156
enfermeira roupas femininas para usar durante o
período do internamento? E em que enfermaria deve
ficar uma mulher travestr? Entre os homens ou entre
as mulheres?
Os serviços de saúde, por razões de respeito huma-
no, deveriam prever e se preparar para uma situação
como essa. Não importa se essas pessoas fazem parte de
uma minoria ou se são raras. São pessoas, e nada
justifica o sofrimento de um ser humano, principalmen-
te se ele pode ser evitado.
A Medicina e a lei privilegiam o corpo biológico, no
que diz respeito à sexualidade. O lado psicológico, que
são a identidade genital, a de gênero e a orientação
afetivo-sexual ficam para um segundo ou terceiro
planos. Cada um tem de se "adequar" ao corpo bioló-
gico, de macho ou de fêmea. Nasceu com um corpo
biológico normal, a pessoa que se ajuste, que se adap-
te, "que se vire".
C()Mf:Ç() ()() l'IM?
Aparentemente, a situação de miséria extrema de
nosso país está fazendo com que os mecanismos de
controle social se afrouxem, de tal forma que está vindo
à tona, com mais intensidade, a verdadeira identidade
de gênero de homens e mulheres. Essas pessoas já
perderam tudo e nada mais resta para elas a não ser o
seu próprio corpo e sua mente.
A discriminação, a violentação, a crueldade social
estão muito perto de acabar com esses dois últimos
traços dos seres humanos. Não sabemos o que sobrará
depois disso.
Vrocure se imaginar na seguinte situação: você é
verdadeiramente uma mulher. Comporta-se como mu-
lher, sente-se uma mulher, emociona-se facilmente, é
meiga e muito feminina. Enfim. você é uma mulher.
Agora se imagine se despindo, lentamente, diante
de um espelho. Observe carinhosamente cada detalhe
de seu belo corpo. E veja, em sua parte mais íntima, um
pênis e uma bolsa escrotal.
Esse não é um exercício de imaginação fácil de fazer
e talvez seja mesmo impossível para uma mulher.
É assim que se sente, mais ou menos. um homem
transe.xuaL Na fase final de sua transformação, o corpo já
adquiriu todas as formas femininas. No entanto, algo está
sobrando, enquanto outra parte, mais importante para ele,
não existe. Aquele pênis não é "seu". No lugar deveria estar
uma vulva e uma vagina. É como se tivessem colado ao
seu corpo um órgão, vivo, de outra pessoa.
Ao longo de quase toda uma vida, desde a infância,
os transexuais se sentem como uma pessoa que nasceu
com o corpo "trocado". SÃO "almas" femininas aprisio-
nadas em corpos masculinos.
159
Ternos grande dificuldade para compreender essa
forma de existência, pois, em quase todos nós, "a alma"
está adequada ao nosso corpo biológico. Sequer conse-
guimos nos colocar no papel dessas pessoas em termos
de suas sensações internas.
A Medicina e tampouco a Psicologia até hoje não
encontraram respostas para essa condição humana. Os
transexuais masculinos não apresentam qualquer anor-
malidade biológica. Nascem bebês machos mas desen-
volvem, desde cedo, urna identidade de gênero feminina.
Não são homens que desejam se tornar mulheres. Eles,
psicologicamente, SÃO MULHERES.
Eles têm perfeita consciência de que nasceram ma-
chos, de que têm um corpo e urna genitália masculina,
mas não conseguem aceitar a sua estrutura sexual
biológica. Em função disso, surge um imenso conflito
entre a identidade de gênero dessa pessoa, o que ela
sente internamente, e o seu corpo tisico. Para eles os
órgãos sexuais de nascimento estão a mais no seu corpo,
e eles sentem que aquela parte não lhes pertence.
Para os transexuaiS, o conflito básico está na inver-
são completa entre a sua identidade de gênero e o seu
corpo biológico. Esse drama é tão intenso que eles
chegam a ter vergonha de seus genitais.
Quando conseguem ter relações sexuais antes de
sua transformação corporal através de cirurgia, portan-
to ainda dispondo de pênis e bolsa escrotal, freqüente-
mente excluem a genitália no momento do ato amoroso.
Eles escondem seus órgãos sexuais, em geral não tocam
e nem permitem ser tocados nessa região.
Os transexuais masculinos não buscam o prazer em
seus órgãos sexuais, ao contrário do que ocorre com os
outros homens. corno os travestis, homossexuais, os
bissexuais e os heterossexuais.
Dessa forma, o caminho desejado para eliminar esse
conflito passa a ser a realização de uma cirurgia para
160
mudança de sexo. Após a cirurgia, quando eles já se
transformaram em uma mulher por inteiro, o prazer
sexual com um homem não será genital como para as
outras mulheres. O prazer existe, porque de certa forma
foram aproveitadas partes de seu sexo original, mas o
orgasmo será mais corporal e psíquico.
Os transexuais masculinos podem ser divididos em
dois grupos: os primários e os secundários. Considera-
mos transexuais masculinos primários aqueles que,
desde meninos, sentem com grande intensidade que
pertencem ao gênero feminino.
Por volta dos 2 anos e meio, a identidade de gênero,
ou seja, a noção interna de pertencer ao gênero mascu-
lino ou feminino, começa a se definir. Para a grande
maioria das pessoas, essa identidade vai na mesma
direção de seu corpo biológico, e a criança, nessa fase,
já SE SENTE menino ou menina.
Isso não acontece com os transexuais masculinos
primários. Nesse caso,na fase infantil, a sua identidade
toma um rumo oposto ao de seu corpo biológico. Ele,
então, com pouco mais de 2 anos, já SE SENTE uma
menina. Essa sensação vai acompanhá-lo ao longo da
vida, em todas as fases pelas quais ele passar. A sensa-
ção de SER mulher estará presente na infância, na
adolescência, na vida adulta e na velhice.
Os papéis de gênero que ele vai desenvolver, o seu
comportamento diante de todas as situações da vida,
apesar da educação e de todas as dificuldades que vier
a enfrentar, serão sempre femininos. Em qualquer mo-
mento da vida, ao nos depararmos com essa pessoa,
sentiremos estar diante de uma menina, de uma adoles-
cente, de uma mulher ou de uma senhora idosa.
Os transexuais masculinos não apresentam, em
geral, qualquer disfunção hormonal, sendo, portanto,
do ponto de vista biológico machos. Alguns iniciam nos
primeiros anos da juventude o tratamento para mudar
o corpo, e outros, muito mais tarde.
161
É possível que existam casos de transexuais que não
transformam o corpo, mas essa pessoa passará toda a
vida se sentindo "estranha" dentro dele.
Os transexuais primários, a partir do momento em
que sentem intimamente que têm uma identidade de
gênero oposta a sua sexualidade tisica, passam a se
comportar como mulheres. Esse tipo de transexual não
encontra qualquer prazer erótico em vestir roupas femi-
ninas. Ele apenas se sente mais "ela". Também não se
vêem como homossexuais porque sua atração é por
homens que se consideram heterossexuais.
Se observarmos uma relação de gênero, do dia-a-
dia, entre um transexual masculino primário adulto, com
seu corpo feminino já definido, e um homem, não tere-
mos dúvida de que estamos diante de um casal heteros-
sexual. É quase impossível diferenciar um transexual
masculino de uma mulher apenas pela aparência, pelos
gestos ou pelo comportamento social.
Uma linda mulher, morena, desinibida, transbor-
dando sensualidade. Durante meses. já famosa como
modelo fotográfico, foi capa, em meados da década de
80, das principais revistas brasileiras. E em pouco
tempo transformou-se num símbolo sexual por todo o
país, povoando a imaginação e instigando o desejo de
milhares de homens.
Seu nome de batismo: Roberto.
O nome da sensual e desejada morena: Roberta Close.
Isso se deu porque Roberta tem papéis de gênero
femininos muito desenvolvidos. Seu comportamento é
o de uma mulher, nos gestos, no falar e na maneira de
pensar. No início de sua carreira, muitas pessoas
chegaram a duvidar de que ela tivesse nascido homem,
e acharam que aquilo que estavam dizendo na TV era
pura mentira.
162
É uma mulher, não há nada de masculino, pensa-
vam as pessoas. Muitos homens não se conformavam,
mesmo sabendo da verdade, e mal podiam disfarçar a
atração pela modelo.
Ela se sente uma mulher, sempre foi uma mulher,
embora tenha nascido com um corpo masculino. Não
dispomos de informações médicas precisas, mas, pela
sua história de vida, é possível afirmar que seus órgãos
genitais eram normais.
Roberta nasceu numa familia de classe média, seu
pai é um militar de patente e provavelmente teria pro-
curado tratamento médico se o seu filho apresentasse
então alguma anomalia anatômica nos órgãos sexuais.
Roberta operou-se no Exterior, mantém relaciona-
mentos amorosos com homens e continua sua carreira
de modelo, povoando com fantasias a cabeça dos
homens brasileiros, dos "machões" aos mais feminis-
tas. À época em que este livro foi escrito, as autorida-
des brasileiras ainda não tinham, por sua visão
tacanha e atrasada, autorizado a mudança dos docu-
mentos de Roberta.
A nossa Justiça ainda a obriga a passar por cons-
trangimentos. Aonde quer que vá, tem de apresentar
uma carteira de identidade com o nome de Roberto
Gambini. A Justiça, em casos como esse, perdeu com-
pletamente a noção do que seja "falsidade ideológica".
Existe um outro tipo de transexual masculino, que
nós chamamos de secundário. Nesse caso, embora o
menino tenha uma identidade de gênero feminina, corno
vimos, desde a primeira infância, seu comportamento
permanece masculino. Ele se SENTE uma menina, mas,
em geral, por pressão da familia, procura comportar-se
de forma masculina ou, pelo menos, imitar o comporta-
mento dos meninos.
163
Para algumas famílias, é insuportável a idéia de que
um filho nascido homem possa se comportar como
menina. Muitos pais não podem, não conseguem ou nem
tentam compreender o que se passa no interior dos seus
filhos e não enxergam além da realidade aparente. Me-
nino se fazendo de menina é bandalheira, que se cura
com uma boa surra, dizem alguns. Ou é doença mental,
dizem outros.
Dona Jesuína, mãe da modelo Teima Lip, pensa
diferente. Em vários depoimentos a jornais e a redes de
televisão, ela fez questão de afirmar que estranhou um
pouco quando percebeu que seu filho, desde pequeno,
não era como os outros. Teima, hoje com 30 anos, era
então Ricardo Franco.
No início, confessa ela, sentiu muito medo de que
as pessoas não entendessem seu filho, que o perseguis-
sem. Mas o coração dessa mãe falou mais alto e bateu
mais forte. O medo foi passando. Dona Jesuína se
acostumou com a idéia e passou a ajudar e a lutar pela
"filha" até onde era possível.
"Hoje somos mãe e filha, duas amigas. Às vezes
brigamos, Teima é um pouco relaxada, larga as roupas
pelos cantos, mas eu a amo muito. É a minha filha
querida."
Os transexuais secundários só vão explicitar a sua
verdadeira identidade de gênero, que no caso é feminina,
muito mais tarde, em geral na idade adulta. A severa
educação dada pelos pais, os quais ao longo do tempo
procuraram "educá-lo" de acordo com o seu sexo bioló-
gico, criou nessa pessoa um simulacro de comportamen-
to masculino, que vai ser mantido até o ponto em que
não resistir mais à força de sua "natureza" interna.
Durante esse tempo. todas as suas sensações de
pertencer ao gênero feminino só vão se realizar na
imaginação, nos sonhos, ou na privacidade de quatro
paredes, à qual ninguém tem acesso.
José Paulo, casado, engenheiro eletrônico.
164
Num espaço de tempo de 30 anos, nasceu bebê
macho, cresceu como homem, namorou, formou-se e
casou-se. Mas havia algo estranho em seu íntimo. Bom
profissional em sua área, ele obteve um emprego impor-
tante numa empresa multinacional. Seu lar era quase
perfeito, sua mulher o amava e com ele se satisfazia.
Com o passar dos anos, no entanto, a sensação
estranha aumentou. Ele se deu conta então de que nem
tudo ia tão bem dentro de si, quanto ia fora.
Onde estava o prazer? Não estava mais na relação
com sua mulher. A vida sexual era monótona, enfado-
nha, inutilmente cansativa e, apesar da ereção, não
chegava ao orgasmo. O mundo tinha perdido a graça.
O que fazer? Os meses iam passando. José Paulo
conversou com a mulher, uma, duas, três, inumeráveis
vezes. Um dia, sem querer, ficou minutos diante do
espelho de seu quarto. Estranho, aquela imagem de um
homem refletida no espelho não era a sua.
Inteligência e coragem. Ele tinha matado a charada.
Passou a ler. a pesquisar e a refletir sobre toda a sua
vida. Em muitos instantes, o desespero tomava conta de
sua alma. Mas não podia fraquejar, tinha de ir em frente.
Um dia chegou o momento. Pediu à esposa que o
ouvisse com calma e revelou a ela o que lhe parecia ser
a sua verdadeira identidade, da qual até então nem
mesmo ele tinha pleno conhecimento. Sentia-se mulher.
Ele seria um transexual?
A mulher o ouviu imóvel e em silêncio. Não fez
questão de esconder uma lágrima que rolou pelo rosto. E
estendeu-lhe a mão com amizade, afeto e compreensão.
Nas primeiras semanas, com grande timidez e apoio
da esposa. passou a usar roupas femininas em casa.
Procurou tratamento psiquiátrico e foi exaustivamente
analisado por umaequipe muldisciplinar de bom nível.
Essa equipe, após muitos exames, confirmou definitiva-
mente aquilo que José Paulo já sabia e tinha revelado.
Era, de fato, um transexual.
165
José Paulo e sua mulher se separaram sem brigas
e sem mágoas. A nova situação não permitia mais o
casamento. Tornaram-se amigos e, para ele, aquela
mulher, que fora sua, transformara-se na pessoa mais
importante de sua vida. Ela foi a única pessoa capaz de
compreendê-lo e suficientemente forte para ajudá-lo a
se libertar de um drama sem tamanho.
Na busca para transformar-se de um homem
numa mulher, José Paulo abandonou o emprego e a
profissão, por imaginar que não seria mais aceito
numa grande empresa com outra aparência física.
Ele não poderia simplesmente voltar ao local de tra-
balho como "engenheira".
Aos trinta anos de idade, a guinada precisava ser de
360 graus. Agora, com o corpo já arredondado, seios,
longos cabelos loiros, existe apenas Marina. José Paulo e
os cálculos matemáticos da Engenharia desapareceram.
Se tudo correr bem, dentro de dois anos uma com-
petente psicóloga estará atendendo em seu consultório.
As consultas poderão ser marcadas com a Ora. Marina.
Na medida em que os tmnsexuais secundários exer-
cem por muito tempo um comportamento masculino, em
termos de seu papel de gênero, eles acabam não se
tomando tão femininos, num primeiro momento, quan-
to os transexuais primários.
Com o passar dos anos eles poderão, aos poucos, ir
eliminando os traços de comportamento masculino, in-
cutidos pela família e pela sociedade, e por eles assumi-
dos ao tempo em que desempenharam o papel de
homem. Para conseguirem isso será necessário algum
treinamento, como fazem os atores que desempenham
papéis femininos no teatro, no cinema ou na 1V, em
peças sérias. O transexual, mesmo o secundário, não
deseja nunca ser uma caricatura de mulher.
166
Entretanto, essas pessoas precisam, mais cedo ou
mais tarde, de uma cirurgia para adequar o corpo tisico
ao psiquismo. Isso é muito mais que uma decisão, é uma
necessidade. Ao contrário dos travestis, que inclusive
fazem uso de seus órgãos sexuais originais nos relacio-
namentos amorosos, os transexuais não aceitam a sua
genitália de nascimento.
No Brasil, essas pessoas passam a viver uma luta
insana quando desejam mudar o seu sexo. A Medicina
brasileira está proibida, por lei, de realizar esse tipo de
cirurgia. Na verdade, os transexuais que desejam modi-
ficar o seu corpo deveriam ser estudados por uma equipe
mui tidisci plinar.
São necessários exames genéticos para verificar a
constituição de seus cromossomos, analisar o funcio-
namento de suas glândulas e órgãos, bem como a
dosagem dos hormônios. O psiquismo de um transe-
xual deve ser bem observado, e ele precisa receber um
suporte psicoterápico adequado para que possa ter
certeza absoluta de que deseja mudar o seu sexo. Esse
processo é relativamene longo e pode levar anos. So-
mente depois disso o transexual estaria preparado
para a cirurgia, e a equipe profissional segura de que
está fazendo o tratamento correto.
Alguns transexuais alteram apenas os caracteres
sexuais secundários, como seios, forma do rosto e ná-
degas, e se adaptam à vida com sua genitália masculina.
Mas a grande maioria luta pela mudança completa.
Um dos mais competentes cirurgiôes plásticos de
São Paulo, o Dr. Roberto Farina 1, decidiu remar contra
a correnteza. Em 1975, ele realizou uma operação pio-
neira de mudança de sexo num homem chamado Valdir,
que se transformou em Valdirene.
1. Dr. Roberto Farina é médico, livre-docente de Cirurgia Plástica da
Escola Paulista de Medicina, de São Paulo, e membro da Academia
Nacional de Medicina.
167
A operação foi muito bem-sucedida, do ponto de
vista médico, e acabou com um drama vivido há anos
por essa pessoa. Graças ao excelente trabalho realizado,
Dr. Roberto Farina recebeu ... um processo na Justiçai
A acusação: mutilar um homem.
O polêmico processo se arrastou por 5 anos, geran-
do controvérsia e noticiário na imprensa. Alguns saíram
em defesa do médico, mas outros, pelos meios de comu-
nicação, o atacaram sem descanso. Condenado, Dr.
Farina poderia ser impedido até de exercer a Medicina.
A decisão final da Justiça foi pela absolvição. Ficou
provado que o pênis de Valdir era um órgão inútil para
o paciente e uma biópsia de seus testículos indicou
esclerose completa e ausência de espermatozóides pelo
uso de hormônios. Para agravar, Valdir não tinha ereção,
e era, já nessa época, uma pessoa totalmente feminina.
Como se o Dr. Roberto Farina não soubesse de nada
disso quando realizou a operação.
A nossa Justiça, além de ser absolutamente cega,
tem, digamos assim, um raciocínio um tanto lento!
Valdirene confmnou o sucesso da operação e la-
mentou apenas uma coisa. "Dr. Farina está de parabéns,
conseguiu trocar uma parte do meu corpo que eu não
queria por outra que eu desejava". E completou: "Agora
vem a .Parte mais dificil, talvez impossível. Como vou
conseguir "trocar" minha carteira de identidade?"
O raciocínio um tanto lento de nossos legisladores,
nesses casos, não tem paralelo.
CÁMl~ti() Sl~U()§()
Apesar de proibidas por lei, algumas poucas cirur-
gias para mudança de sexo continuam sendo feitas no
Brasil, porém clandestinamente e, como é de se esperar,
sem as condições adequadas. Para aqueles que podem
dispor de pelo menos 20 mil dólares para um tratamen-
to, o único caminho a seguir é para o Exterior.
168
Todos os anos, inúmeras cirurgias para mudança
de sexo são realizadas legalmente na Holanda, Ingla-
terra, Dinamarca, Noruega, Alemanha, Itália, Rússia
e Suécia, país pioneiro nesse tipo de tratamento. Em
alguns estados dos EUA, como Illinois, os transexuais
operados recebem nova certidão de nascimento.
Qual é o trajeto dos transexuais brasileiros que
desejam mudar o seu sexo? Inicialmente eles modificam
os seus caracteres sexuais secundários. Para isso se
valem do uso de hormônios, de uma cirurgia plástica de
seios e a retirada, pela raiz, dos pêlos do corpo, por um
processo chamado eletrólise. E não podem passar disso.
Os que têm posses vão para o Exterior, onde são
operados. Os demais procuram, com grande dificuldade,
adaptar-se de alguma maneira. A dificuldade em conse-
guir uma operação para mudança de sexo pode levá-los
a conviver com travestis, com os quais se confundem,
até certo ponto, na aparência.
A primeira operação para mudança de sexo ocorreu
na década de 50, quando o ex-soldado americano, Geor-
ge Jorgensen submeteu-se a essa cirurgia para trans-
formar-se numa mulher. Somente a partir daí a
Medicina, no Exterior, passou a estudar e a trabalhar
com essas pessoas.
Existem várias técnicas cirúrgicas para o trata-
mento desses casos. Em uma delas, os testículos e o
pênis do homem são removidos parcialmente. A pele
do pênis e da bolsa escrotal é preservada e utilizada,
juntamente com um enxerto retirado de outras partes
do corpo, para construir uma vagina, cientificamente
chamada de neovagina.
Essa neovagina é um canal, internamente revestido
com a pele aproveitada do pênis. Em alguns casos, a
cabeça do pênis, ou glande, é implantada no final desse
canal para garantir a sensibilidade e algum prazer geni-
tal durante a futura relação sexual com um homem. A
pele da bolsa escrotal é reservada para a construção dos
grandes e pequenos lábios.
169
Além da mudança nos órgãos genitais, também se
faz necessária uma correção plástica nos seios e é
retirado o "pomo-de-adão", proeminência que os homens
têm no pescoço. Após esse tratamento, estamos diante
de uma mulher "inteira".
Pouco depois de operada, Roberta Close posou nua
para a revista Playboy. Era uma mulher inteira, em nada
diferente das demais. Seu corpo fisico exteriorfinalmen-
te estava adequado às suas sensações internas femini-
nas. Usamos o termo "inteira", e não "completa", porque
Roberta não tem ovários, trompas ou útero e não poderá,
jamais. gerar uma criança.
Ela, no entanto, garantiu numa entrevista: "Claro
que tenho orgasmo. Você acha que eu iria fazer uma
operação dessas para ficar insensível?"
Roberta é uma mulher e, apesar disso, não tinha
conseguido mudar seus documentos, à época em que
este livro foi escrito. Essa "impertinência" legal, na
verdade, é apenas uma máscara da sociedade para não
"oficializar" a existência de pessoas transexuais e por-
tanto continuar a rejeitá-las.
A lei argumenta que uma mudança de documento
poderia dar margem a enganos. Um homem correria o
"risco" de se casar com uma "mulher dessas" e depois
descobrir que ela não é completa, não tem útero e sua
vagina é "artificial". Ora!
Quando se vai fazer o registro civil de uma criança,
a definição do sexo se faz pela genitália externa. Nenhum
funcionário de cartório pede uma radiografia para saber
se a menina tem útero, trompas e ovários ou não. Um
bebê fêmea para ser registrado como do sexo feminino
precisa ser inteiro, mas não completo. E as meninas que
nascem sem útero ou com o órgão atrofiado? Não são
registradas? Aliás, escrivão algum de cartório despe uma
criança para saber se é menino ou menina. Na verdade,
a presença da criança nem é necessária.
170
~()VA MULtil:l:i
A revista Mulher Atual, da Editora Azul, empresa
vinculada ao grupo Abril, um dos maiores complexos
editoriais brasileiros, publicou em 1992 uma grande
reportagem sobre transexualidade. Nessa reportagem,
uma mulher identificada apenas como Rosana conta
como se sentiu após a mudança de sexo. Reproduzimos
um pequeno trecho da matéria:
"A operação durou oito horas e quando voltou
a si Rosana se sentia outra: - Não pude me olhar
no espelho, porque tinha um curativo, mas dias
depois, quando ele foi retirado, senti que meu corpo
havia mudado. Pode ser coisa da minha cabeça, mas
acho que ele ficou mais arredondado.
Rosana é do tipo que os homens chamam de
violão: busto pequeno e quadris largos, embora sua
cintura não seja muito fina. Tem um jeito natural,
sem afetação, e a voz, um pouco rouca, confere um
charme sensual a sua figura de mulata do Sargen-
telli. Casou-se, há oito meses, e esqueceu a Bahia,
o pai, a mãe e os innãos. - Passei uma borracha em
todo esse meu passado. Hoje sou outra pessoa e
minha família é o meu marido.
A reportagem é assinada pela jornalista Cláudia
Ferraz, com a colaboração das repórteres Thereza Mar-
tins e Vera Gomes.
Até quando os seres humanos continuarão se agre-
dindo mutuamente? Para quê? Um dos livros mais
conhecidos do mundo diz que do pó viemos e a ele
retornaremos. Então, para que tanta agressão e cruel-
dade? Tanto preconceito e segregação? Que pânico é
171
esse que transforma seres humanos em feras irracionais
acuadas?
Em uma entrevista à Rede Manchete de Televisão,
em 1985, o transexual Joana, então bioquímica do
lnamps, na época uma mulher inteira e operada, afir-
mou com certa mágoa: "Sou uma mulher, mas não
consegui mudar meus documentos. Joana agora é o meu
nome, e muitas pessoas me aceitaxn assim".
E continuou: "Algumas, no entanto, me agridem
brutalmente, me chamando de Dr. Nilson Falcão. Elas
sabem como fazer sangrar, com crueldade, a minha
maior ferida, que ainda está aberta".
1()
UM V121:=Ç() AL T() Ul:=MAIS
Todas os seres humanos, homens ou mulheres,
estão sujeitos às mesmas situações ao longo da vida. Os
caminhos a serem percorridos durante a existência
podem ser idênticos ou semelhantes. E apenas se bifur-
cam, inexoravelmente, quando o corpo biológico é de um
bebê macho ou fêmea.
O número de transexuaisfemininas é menor que o
de transexuais masculinos. mas esses dados não devem
ser tomados com exatidão porque faltam levantamentos
a respeito do assunto. Só nos Estados Unidos, cerca de
40% das cirurgias para mudança de sexo atendem às
transexuais femininas.
Outro ponto a ser considerado é que as mulheres
são criadas, de certa forma, mais Nlivres", sem a exage-
rada pressão familiar e da sociedade. Para a família, está
implícito que ela será heterossexual. Isso não acontece
com o homem. Desde o seu nascimento, a sociedade
procura "empurrá-lo" para a heterossexualidade.
Da mulher não se exige isso. Ela não é obrigada a
ser feminina, principalmente hoje. quando os controles
sociais estão perdendo sua força. Sua educação é repres-
173
siva, no aspecto da sexualidade, mas não direcionada,
como ocorre com os homens.
As transexuaisfemininas são muito pouco conheci-
das e quase não são estudadas. Seu trajeto, em relação
aos transexuais masculinos, é o mesmo. Aquelas consi-
deradas primárias SENTEM-SE, desde a infãncia, como
meninos, embora sejam meninas.
Essa sensação as acompanha na adolescência, ida-
de adulta e velhice. O comportamento masculino, para
elas, "vem de dentro", e não é uma imitação, pois a sua
identidade de gênero é masculina. Comportando-se e
sentindo-se como homem, sua atração afetiva e sexual
muitas vezes é por outras mulheres. No entanto, não são
lésbicas. Também nesse caso existem as transexuais
secWldárias, que só revelam a sua verdadeira identidade
de gênero masculina bem mais tarde, na idade adulta.
Nesse ponto há uma grande área cinzenta, dificil de
definir. Somente a própria pessoa poderá garantir o que
vai verdadeiramente dentro de si. Como os transexuais
masculinos, as transexuais rejeitam o corpo fisico e
principalmente os órgãos sexuais. Elas se sentem ho-
mens com corpo de mulher, o que não acontece com as
lésbicas e as travestis.
Para procurar entender, ainda que parcialmente, o
sentimento das transexuais femininas, vamos repetir o
exercício do capítulo anterior, o que talvez agora seja
ainda mais dificil.
Você é um homem. Firme, às vezes até um pouco
agressivo, com grande disposição e vontade de competir,
no trabalho e nos esportes. Conheceu um bela mulher,
muito sensual, que o atraiu muito. Tanto que chegou a
sonhar que fazia amor com ela, acariciando e penetran-
do seu corpo.
Você gosta de seu carro, entende um pouco de
mecânica, vai aos estádios de futebol, discute política e
adora conversar com os amigos. Às vezes você até conta
algumas vantagens. Vamos, seja sincero, confesse! To-
dos nós fazemos isso.
174
Vá para o seu quarto, apague a luz, e fique de costas
para um grande espelho. Agora retire a camisa, a calça,
a cueca, fique nu. Vire-se lentamente. Olhe para a sua
imagem no espelho. Que corpo arredondado é esse? E
esses seios, para que servem? E essa "coisa" aí abaixo
do umbigo?
Simplesmente você não é você.
Sentimento semelhante têm as trwisexuaisfemininas.
Como os transexuais masculinos, as femininas de-
sejam adequar o seu corpo biológico a sua identidade de
gênero. Mas nem todas fazem ou podem fazer isso, por
inúmeras razões. Seja porque é comum que determina-
das mulheres, mesmo as heterossexuais, não possuam
caracteres sexuais secundários exuberantes, seja por-
que a própria operação de transformação é mais compli-
cada para as transexuais femininas, principalmente em
nosso país, e também porque não têm informação e nem
dinheiro.
É possível que transexuais femininas estejam em
nosso meio vivendo corno "mulheres heterossexuais"
conflituosas. solteironas, religiosas, travestis ou lésbi-
cas "mal-resolvidas". Aquelas que corajosamente par-
tem para a mudança de sexo encontram barreiras quase
intransponíveis.
A cirurgia para transformar uma mulher num ho-
mem de certa forma deixa a desejar, e o resultado nem
sempre é satisfatório. A grande dificuldade aqui está no
fato de que não se trata de remover um órgão, abrir um
canal, mas sim defechar um canal e implantar um
"pênis artificial". Além disso, urna equipe de cirurgiões
precisa remover todos os órgãos femininos internos,
corno útero, ovário e trompas.
175
Para construir a bolsa escrotal é utilizada a pele dos
grandes lábios, e pequenas bolas de silicone, os testícu-
los, são colocados nessa bolsa. Para construir um pênis,
ou mais precisamente um neopênis, é utilizada a pele
do abdômen. Essa pele vai revestir uma prótese em
forma de haste flexível. No entanto, esse órgão não tem
sensibilidade erótica. O clitóris pode ser preservado
como forma de garantir algum prazer durante a relação
sexual.
Além de toda essa dificuldade, o neopênis não tem
a ereção comum aos homens. As mulheres transexuais
operadas não obtêm o mesmo resultado estético e fun-
cional que conseguem os transexuais masculinos. Ainda
assim, costumam se confessar mentalmente felizes. O
prazer sexual não vem da região genital, mas de todo o
corpo e principalmente do psiquismo.
As transexuais femininas, assim corno os masculi-
nos, quando se decidem pela operação, na realidade não
estão preocupadas exclusivamente com o prazer erótico
genital. O que elas buscam é retirar e implantar em seus
corpos algo que sobra e algo que falta. O principal
conflito está entre o seu gênero biológico e sua identida-
de de gênero.
Elas querem completar, com a operação, o desenho
do próprio corpo que têm na cabeça. O funcionamento
satisfatório ou pouco satisfatório do novo órgão é urna
questão quase secundária.
Nem todas as transexuaisfemininas fazem a opera-
ção completa, permanecendo com a sua genitália origi-
nal. Em depoimento à revista Manchete, em 1990, a
transexual Mariângela F. D. contou como foi a sua
cirurgia para mudança de sexo, realizada na Holanda.
Ela retirou os seios, por meio de uma rnastectomia,
e os órgãos sexuais internos, útero, trompas e ovários.
Porém, não fez implantação do pênis, conservando a
vulva e a vagina. "Eu não teria um real prazer sexual
com a prótese", disse ela.
176
Também como no caso dos transexuais masculinos,
devem as transexuais passar por um completo acompa-
nhamento médico e psicológico antes de chegar à cirur-
gia. Esse estudo detalhado deverá incorporar à equipe,
além de outros profissionais, um ginecologista e um
assistente social. A psicoterapia é fundamental para
confirmar o diagnóstico e para que essa pessoa tenha
uma noção exata das dificuldades que certamente terá
de enfrentar.
Mariângela, agora Mário, tirou documentos falsos
para poder viver socialmente. "Como eu iria, por exem-
plo, abrir uma conta bancária?" Casado com uma pro-
fessora de ginástica aeróbica, Mário luta para conseguir
legalizar seus documentos.
Joana não existe e João também não. Os dois nomes
são falsos e não se conhece a verdadeira identidade da
pessoa que prefere se identificar como João Nery. Autor
de um importante livro, Erro de Pessoa. Joana ou João,
publicado pela Editora Record, infelizmente hoje esgota-
do, Nery conta sobre a sua vida e a sua transformação.
O livro foi prefaciado pelo filólogo Antônio Houaiss,
um dos intelectuais mais importantes do Brasil. que
reconhece em Nery não só a coragem e a sinceridade
para abordar um tema tão delicado, mas também seu
talento como escritor.
Nery mora hoje em algum ponto do Rio de Janeiro,
não se deixa fotografar nem filmar e raramente dá
entrevistas. Ele prefere ficar no anonimato de seu nome
falso. Sua infância e sua adolescência foram como as de
tantos outros transexuais.
Na sua autobiografia, Nery usa para si o nome de
Joana, no período que vai do nascimento ao momento
da operação, realizada clandestinamente no Rio de Ja-
neiro em 1977.
177
Acompanhe alguns trechos do livro, escolhidos pelo
jornal Folha de S. Paulo, que em março de 1994 conse-
guiu entrevistar João Neiy, num excelente trabalho de
reportagem dos jornalistas Daniel Castro e Ricardo Bo-
nalume Neto.
Joana, aos seis anos.
"Adorava brincadeiras de menino e era comba-
tido. Jogava bolas de gude na pracinha. Uma vez,
passeava com mamãe e alguém gritou: Maria ho-
mem. Maria homem".
Joana aos oito anos.
"Não gostava de presentes de menina. Quando
fiz oito anos, na hora de apagar as velinhas, como
em muitos outros aniversários, concentrei-me no
mesmo pedido: quero ser um MENINO como os
outros!"
Joana aos quinze anos.
"Tento ser mulher. Ganhava estojos de som-
bras, batom. sapato alto. vestidos, o diabo!"
Joana aos dezesseis anos.
"Arrumaram um namorado para mim Estáva-
mos conversando num banco de praça, quando,
inesperadamente, ele parou de falar, ficou sério e
engoliu a minha boca. Que sensação horrível!"
Joana (?) aos 22 anos.
"Virei taxista. Andar vestido de homem na rua
fazia com que eu me sentisse muito bem O desagra-
dável era parecer um garotão imberbe, com voz de
taquara rachada."
João (?) aos 27 anos.
"Queria me submeter a uma operação, mas
cirurgias desse tipo não eramfeitas aqui, por serem
ilegais. Sentia-me perdido. Foi quando recebi um
telefonema de uma amiga psicóloga que se especia-
lizou em Sexologia na Bélgica ... "
Na época em que se operou, Nery era psicóloga,
fazia pós-graduação e dava aulas em cursos supe-
riores no Rio. Tinha 27 anos.
Num depoimento emocionado, em 1985, à Rede
Manchete de Televisão, sem mostrar seu rosto, no mes-
mo programa que entrevistou o transexual Nilson Fal-
cão, hoje Joana, Nery falou de sua vida à repórter
Solange Bastos.
Após a operação não lhe restou outra saída a não
ser abandonar tudo. Ele confessou que nunca conhecera
uma outra transexual e não tinha a quem contar seu
drama, de forma que pudesse ser entendido, não inte-
lectualmente, mas vivencialmente.
Nery abandonou a família, os amigos, a pós-gradua-
ção, os documentos e o próprio nome. Conseguiu
documentos falsos, os quais não revela, mas perdeu todo
o seu currículo acadêmico, conquistado durante anos
de estudo. Para sobreviver foi pintor de paredes, chofer
de tàxi e até lavrador. Na época desse depoimento na 1V,
estava desempregado.
Em 1994, localizado pela reportagem da Folha, era
outro homem. Empresário do ramo de confecções, com
43 anos, casou-se três vezes, a penúltima oficialmente.
Desse casamento teve um filho, a partir de uma insemi-
nação artificial feita em sua mulher. "Sempre quis ser
pai. Minha mulher engravidou e eu acompanhei o pré-
natal", conta Nery na reportagem. Aos 37 anos, assistiu
ao parto da esposa, por cesariana, e foi o primeiro a pegar
o bebê, um menino.
Tempos depois, esse casamento se desfez, e Nery já
estava constituindo nova familia.
Conheci pessoalmente João Nery num seminário
em São Paulo, realizado para discutir homossexualidade
feminina. Durante o intervalo, nos apresentamos e con-
versamos um pouco no corredor do centro de conven-
ções. Apesar de toda a minha experiência como
psicoterapeuta, se ele não dissesse quem era, eu não
imaginaria que aquele homem havia sido uma mulher.
179
A sociedade tem, ao mesmo tempo que rejeita, um
verdadeiro fascínio por homens travestidos e transe-
xuais que chegam ao ponto de mudar de sexo. São
verdadeiros sucessos na mídia e no mundo artístico.
Tornam-se belas modelos de altos cachês e nunca recu-
sam ser entrevistadas ou fotografadas.
Essa realidade deveria interessar aos sociólogos e
aos antropólogos, pois a situação é completamente in-
versa com as mulheres que se comportam como homens,
no caso das travestis, ou das que mudam o seu sexo,
como as transexuais. Não se tem notícia de que qualquer
uma dessas pessoas tenha conseguido elevar seu status
ao assumir essa forma de sexualidade.
Na verdade, ocorre o contrário. Elas se ocultam, se
escondem, como pudemos perceber pela vida de João
Nery, que não sabemos exatamente quem é nem onde
está,embora tenha se revelado excelente escritor.
É evidente que, numa sociedade machista como a
nossa, o preconceito e a discriminação têm graus dife-
rentes. A atrasada legislação brasileira, que não permite
uma óbvia e necessária correção de documentos, certa-
mente constrange Roberta Close. Mas ela é uma modelo
internacional, muito bela, e isso contorna as coisas.
Mas e o caso de Nery? Como abrir uma conta
bancária com uma carteira de identidade feminina?
Como obter habilitação para dirigir? Como fazer um
registro num hotel com a esposa?
O atraso e o primarismo de nossos legisladores e
governantes fez com que uma pessoa extremamente
inteligente e útil à sociedade, como João Nery, perdesse
tudo, até mesmo sua vida acadêmica.
De pós-graduando em Psicologia, voltou, oficial-
mente, à condição legal de analfabeto e teve que começar
180
do zero, com documentos falsos. Isso exigiu, numa
verdadeira demonstração de absurdo, que ele cursasse
o Supletivo Noturno, para poder "recuperar" parte de
sua escolaridade.
Perguntado na 1V se todo seu esforço tinha valido
a pena, ele respondeu com voz pausada e grave que sim.
Mas pagou um preço alto demais.
Nery se considera ateu e afirma que acredita no
homem. Para ele, era vital encontrar-se e reencontrar-se
consigo mesmo. E, seguindo esse caminho. enfrenta-se
qualquer sacrificio, mesmo aqueles que não conhecem
limites.
E enquanto um homem desse quilate luta sozinho
contra tudo e contra todos, a sociedade liga o ar refrige-
rado, acomoda-se no sofá e pede ao copeiro um suco de
laranja. Com açúcar.
11
() LIMITt U() LIMITt
() homem existe na Terra há milhares de anos. Os
registros mais precisos sobre quem eram e como viviam
os seres humanos, porém, datam apenas dos anos 700
ou 800 a.C., a partir das obras da civilização grega que
chegaram intactas até o nosso tempo.
A Antropologia e a Arqueologia têm recuado bem
mais. Entretanto, o que essas ciências nos trazem são
apenas indícios humanos, como ferramentas e utensí-
lios utilizados, que permitem supor as atividades das
civilizações antigas.
Essas civilizações antigas deixaram muitas inscri-
ções, em monumentos ou túmulos. Esse material ape-
nas em parte foi decifrado e nos casos em que isso
aconteceu o resultado foram textos religiosos, políticos
ou normas sobre direitos e deveres. O dia-a-dia domés-
tico, as preocupações, a forma de amar, os preconceitos,
tudo isso continua oculto no túnel do tempo.
Os seres vivos da natureza, que compõem o reino
vegetal e animal, e os próprios seres humanos, desde
sempre, podem nascer normais, de acordo com o padrão
geral de sua espécie, ou com defeitos. Isso pode ser
183
facilmente verificado entre os vegetais. Algumas plantas
dão belas flores, outras, da mesma espécie são mirradas.
Quem nunca viu uma banana popularmente chamada
incõe ou filipe, que consiste em duas frutas gêmeas, uma
grudada na outra? Entre os animais acontece a mesma
coisa. Quem cria gado sabe que quase todos os bezerros
nascem normais mas alguns têm algum defeito de nas-
cença. Nenhuma espécie animal está a salvo desse "erro"
da natureza. Alguns pintinhos saem do ovo com defeito
nas asas, com dedo a mais, cegos.
Considerar isso uma falha da natureza é uma ques-
tão de ponto de vista, de concepção. É imaginar que os
fenômenos naturais são uma perfeita equação matemá-
tica, e que sempre se comportam da mesma maneira. É
como se um plano preestabelecido tivesse que dar sem-
pre o mesmo resultado.
Essa questão fica para os filósofos, mas a Ciência
já conhece em profundidade que tudo no universo é
composto por átomos, moléculas e um permanente jogo
de forças variadas e de intensidade variável. Se há uma
lógica por trás de tudo isso, certamente ela não pode ser
simplificada a uma soma de 1 + 1 sempre igual a 2.
Os seres humanos não estão fora dessa regra geral.
Todas as pessoas, com exceção de um pequeno grupo,
nascem com seus corpos biológicos normais. Mas alguns
não estão livres de nascer com defeitos, que podem ser
herdados dos pais ou não.
Esses defeitos podem ser internos e comprometer o
funcionamento dos órgãos que compõem o corpo huma-
no, ou não alterar absolutamente em nada a vida da
pessoa. Um coração com um defeito numa válvula pode
perturbar a circulação sangüínea. Isso se constitui num
problema. No entanto, uma pessoa pode nascer com o
coração do lado direito do peito e passar a vida toda sem
se dar conta disso.
Uma situação rara, mas que pode acontecer, é uma
pessoa nascer com todos os órgãos de seu corpo em
posição invertida. O coração, nesse caso, fica do lado
184
direito, o figado do lado esquerdo, o baço do lado direito
e o apêndice do lado esquerdo e assim por diante.
Como esse, as pessoas podem nascer com um sem-
número de outros defeitos, prejudiciais ou não a sua
saúde fisica e mental. São os daltônicos, que confundem
as cores, os lábio-leporinos, as pessoas com dedos a
mais ou a menos, com falta de determinados dentes e
tantas outras anomalias congênitas.
Você se lembra do primeiro capítulo deste livro?
Naquele ponto, ficou claro que durante a vida intra-
uterina todos nós passamos por quatro encruzilhadas
decisivas. Como você se recorda, a base de todos os
caracteres de nosso corpo fisico estão contidos nos 23
pares de cromossomos.
Muitos dos defeitos congênitos anteriormente citados
estão direta ou indiretamente vinculados a problemas nos
cromossomos. E um desses defeitos, que nos interessa
diretamente, está relacionado com o par de cromossomos
responsável pela nossa configuração sexual.
No ato da fecundação, apenas para relembrar, o
óvulo da mulher carrega um único cromossomo x en-
quanto o espermatozóide do homem pode trazer um
cromossomo x ou y. A combinação desses dois cromos-
somos vai definir o sexo do futuro ser humano. Se o par
formado for xx, nascerá uma menina. Se, por outro lado,
o par for xy, nascerá um menino.
No entanto, como os demais cromossomos, esses
podem não ser perfeitos, ou se combinar de maneira
anormal. Essa possibilidade existe e, se ocorrer, poderá
nascer um ser humano com o seu órgão genital dúbio,
em que os dois sexos, macho e fêmea, estão fundidos.
Nascer com uma anormalidade nos órgãos sexuais
internos e principalmente nos externos é uma questão
muito séria. Pelo menos para nós onde tudo o que se
185
refere a sexo é problemático. Talvez isso não seja um
problema para os índios. Eles lidam com a genitália de
outra forma, não precisam de quatro paredes para fazer
amor e, afinal, vivem nus.
Para nós, a genitália desnuda é proibida. Isso é tão
forte, que o Gênesis, da Bíblia. descreve com detalhes a
vergonha que sentiram Adão e Eva no Paraíso, quando
se perceberam nus. E, pelo que se sabe, não só eram
companheiros mas foram formados do mesmo corpo!
Andamos vestidos e apenas em raros momentos e
em determinados lugares podemos aparecer sem a
maior parte de nossas roupas. Mesmo nas praias mais
liberais, o máximo que podemos observar é uma mulher
praticando top-less.
No carnaval. outro momento "liberado", a genitália
feminina desnuda é muito bem camuflada com enfeites
e pintura. Quanto aos homens, nem pensar. Seus pênis
não podem ser mostrados. São imediatamente enqua-
drados no Código Penal por atentado violento ao pudor.
Não vamos falar dos campos de nudismo porque são
lugares isolados para uns poucos privilegiados.
Genitália não quer dizer somente sexo. A genitália
é uma parte do corpo que determina o sexo biológico,
mas é onde está a uretra por onde escoa a urina e o canal
de entrada, nas mulheres, para o pênis, e de saída para
a menstruação e o parto. Finalmente, é a principal fonte
de prazer no momento de se fazer amor.
Ul:~VI() lllllA l:lllllCl?UZlliAUA
Os estudos sobre sexualidadesão relativamente
recentes e até bem pouco tempo a Medicina não tinha
condições de resolver o problema de uma criança que
porventura tivesse nascido com a sua genitália defeituo-
sa. As cirurgias para correção do aparelho genital só
começaram a ser desenvolvidas na década de 60.
186
Qual a razão desse tipo de defeito? Como já vimos,
esse problema surge durante a vida intra-uterina. Cro-
mossomos defeituosos, envio de mensagens genéticas
incorretas para a formação de ovários ou testículos,
desequilíbrio na dosagem de hormônios sexuais podem
ser a causa de defeitos congênitos nos órgãos sexuais
internos ou externos.
A má-formação do órgão sexual externo de uma
criança é percebida quase sempre, por leigos ou por
médicos. No entanto, se o defeito afetou apenas os
órgãos internos, as conseqüências só vão se tornar
visíveis na adolescência, através dos caracteres se-
xuais secundários.
A Medicina registra uma variedade muito grande
de anomalias relacionadas ao sexo biológico. Essas
alterações poderão ocorrer em qualquer uma daque-
las quatro encruzilhadas. Uma perturbação durante
a segunda encruzilhada, quando estão sendo forma-
das as gônadas (ovários e testículos). pode determi-
nar para a futura pessoa uma genitália interna ou
externa ambígua.
O fato de uma criança nascer com uma genitália
defeituosa não quer dizer que ela é hermafrodita. Os
tipos de defeitos são tão variados em sua forma e
extensão que seria necessário fazer uma abordagem
especifica. Somente um profissional de reconhecida
competência poderá diagnosticar o problema corre-
tamente.
Entre os defeitos congênitos mais comuns estão a
ausência de bolsa escrotal e pênis reduzido em meninos,
canal de uretra fora de lugar, meninas com útero atro-
fiado e clitóris anormal, meninos com orificio abaixo da
região do pênis, ausência de testículos, e tantos outros.
Essas crianças que apresentam tais anomalias são con-
sideradas intersexos.
187
O Monte Olimpo, na mitologia da antiga Grécia, era
habitado por deuses como Zeus, Palas Atena, Apolo,
Afrodite e tantos outros. Entre eles vivia Hermes, a
divindidade com asas nos pés, mensageiro dos deuses e
patrono da música. A bela Afrodite, deusa do amor,
deixou apaixonados deuses e mortais, dentre os quais
não escapou nem mesmo o esperto Hermes.
Da união de Hermes com Afrodite nasceu um filho,
chamado Hermafrodito, da fusão dos nomes de seus
pais, que provavelmente resolveram se auto-homena-
gear. Contam os cronistas gregos que esse menino foi
criado pelas ninfas e levou uma vida selvagem, crescen-
do na floresta.
Um dia, jovem e bonito, com 15 anos, mergulhou
na água de uma fonte cuidada pela ninfa Sálmacis, que
imediatamente apaixonou-se por ele. Infelizmente, Her-
mafrodito não levou a ninfa muito a sério e a repeliu. A
ninfa, inconformada, abraçou-o muito fortemente e cla-
mou aos deuses que nunca mais a deixassem separar-se
do amado. Como Hermafrodito tinha recebido ordens de
seus pais para não se meter em encrencas, o Olimpo
atendeu. Os dois corpos se fundiram num só e Herma-
frodito tornou-se homem e mulher no mesmo ser.
Algumas versões dizem que era ele o apaixonado,
mas isso não muda muito o resultado da história. O
termo hermafrodita, por causa desse mito, passou a
designar os seres que nascem com os dois sexos bioló-
gicos fundidos numa só pessoa. A idade do rapaz, na
lenda, é muito significativa, 15 anos, justamente o pe-
ríodo da adolescência, em que os hormônios estão "ex-
plodindo" e no qual a sexualidade se revela.
Extremamente raros, seriam no máximo 500 em
todo o mundo, o hermafrodita verdadeiro é o décimo
primeiro sexo deste livro. Também nesse caso. as varia-
ções são muitas, e por isso decidimos escolher um tipo-
padrão, apenas para facilitar a compreensão do assunto.
188
O hermafrodita não é uma junção perfeita de dois
seres completos. Ao contrário do que se pensa, essas pes-
soas não possuem os dois sexos normais ao mesmo tempo
e, é evidente, não tem qualquer cabimento, nem mesmo
na teoria, a idéia de que poderiam se auto-fecundar.
Seu pênis é de tamanho pequeno, nunca como o de
um homem adulto, têm uma bolsa escrotal pela metade
e uma vulva e uma vagina rudimentares. Os traços de
seu rosto são femininos, não há sinal de barba e os seios
são os de uma mulher. A pele é sedosa mas os ombros
são um pouco mais largos que os quadris.
Apesar de possuir um pênis reduzido, o hermafrodi-
ta ejacula. Durante a ejaculação o líquido seminal rara-
mente contém espermatozóides. Num determinado
período de cada mês, a vagina expele algumas gotas de
sangue, constituindo-se numa precária menstruação.
Internamente o hermafrodita tem conjuntamente
ovário e testículo, ambos mal-formados e com funciona-
mento comprometido. É evidente que estamos falando
de um hermafrodita adulto, não tratado e nem operado.
IUl:""'TIUAUI: Vl:l/UIUA
E como fica a identidade genital de um hermafrodita?
Como já vimos anteriomente, identidade genital é a
consciência que se tem da existência, em seu corpo, de
um órgão genital masculino ou feminino. Os homens,
sejam hetero, homo ou bissexuais SABEM que têm pênis
e bolsa escrotal. As mulheres, todas, que têm vulva,
vagina e clitóris. Os transexuais também sabem, mas
não aceitam.
No hermafrodita, a sua identidade genital se forma
não a partir da observação, manipulação e consciência
de seus órgãos sexuais, mas sim pela maneira como
foi criado. Caso a parte mais evidente de seu sexo seja
masculina, provavelmente seus pais o criarão como
menino.
189
Essa forma de educação o levará a se sentir como
pertencendo ao gênero masculino, embora muito dife-
rente dos demais rapazes. Já afirmamos diversas vezes
que a construção da identidade de gênero ainda não é
totalmente conhecida e depende também da educação.
Isso vale para todos os sexos, incluindo o hermafrodita.
Dependendo de como for criado, ele se sentirá ho-
mem ou se sentirá mulher. Uma revista erótica brasilei-
ra, a Internacional, publica de tempos em tempos, as
fotos do hermafrodita de Boston. Não há texto e nem
maiores explicações, mas pela pose sensual pode-se
inferir que esse hermafrodita, com toda a sua nudez,
sente-se uma mulher, apenas um pouco diferente.
No que diz respeito ao seu papel de gênero, ou seja,
o seu comportamento no dia-a-dia, o hermafrodita pode
ser absolutamente normal, tanto agindo como homem
ou como mulher, dependendo de como foi criado. Esse
papel é social, pode ser aprendido pela observação e pelo
treinamento, até se tornar espontâneo.
Como o hermafrodita possui os dois sexos, seria
normal imaginar que sua orientação afetiva fosse bisse-
xual. Ele deveria procurar homens e mulheres para se
completar afetiva e sexualmente, mas nem sempre.
Desse ponto de vista, digamos que um hermafrodita
tenha sido criado e educado como menino. A sua orien-
tação afetivo-sexual poderá levá-lo a ser predominante-
mente heteressexual, homossexual ou bissexual.
Estamos falando de uma pessoa escolhida como
padrão. Na verdade, o comportamento e a maneira de se
sentir é muito variável entre essas pessoas, ainda que
representem uma parcela ínfima da população mundial.
Que providências devem ser tomadas para que
essas pessoas cheguem à idade adulta de forma a mais
equilibrada possível?
190
As pesquisas e os estudos que temos realizado ao
longos dos últimos dez anos anos confirmam a teoria
sobre a identidade de gênero, como indicam todos os
trabalhos científicos consultados nas áreas da Medicina
e da Psicologia.
Assim, podemos afirmar que a decisão sobre o
encaminhamento do papel de gênero, ou seja, o compor-
tamento social, e sobre a identidade de gênero, que é a
nossa identidade interna, a sensação que temos sobre
quem somos quanto à sexualidade, no caso doshenna-
jroditas deve ser feita até os 2 anos de idade.
No caso de uma criança que nasça com os órgãos
sexuais alterados, seja um hennafrodita verdadeiro ou
outros casos de intersexo, o melhor é que não se faça o
seu registro civil até que se decida a qual gênero ela vai
pertencer.
Por que isso? Porque ela deve passar por exames
complexos e demorados, até que se decida o seu sexo
biológico. Esses exames precisam ser feitos por profis-
sionais especializados.
Um erro de registro, feito apressadamente. pode
representar um grande transtorno para essa pessoa
que não teve qualquer culpa de ter nascido com um
defeito sexual. Esse período de tempo também é im-
portante, na medida em que até os 2 anos de idade a
criança está nos primeiros passos da formação de sua
identidade de gênero.
No limite, caso a família não possa ou não consiga
amparo legal para adiar o registro civil, o nome escolhido
deverá ser unisex, como é tão comum entre nós. Como
exemplos desses nomes, que tanto são dados a homens
quanto a mulheres estão Darci, Jaci, Juraci e outros.
Outra orientação, nesse caso, é a colocação de
nomes que possam passar do masculino para o feminino
e vice-versa, sem problemas para a pessoa, como de
Cláudio, para Cláudia, Sílvia para Sílvio. Essa observa-
ção é importante porque a Justiça brasileira, em casos
191
absolutamente comprovados pela Medicina de pessoas
intersexos devidamente tratadas, autoriza a mudança
de documentos, diferentemente do que faz com os
transexuais.
Não se pode esquecer, no entanto, que esse trata-
mento leva tempo e que o processo legal outro tanto. De
tal forma que os novos documentos poderão sair quando
essa criança estiver já na primeira infância ou, em casos
de tratamento tardio, na adolescência. E como se adap-
tará ao nome se, descoberto masculino, foi registrado
como Cintia?
As crianças com defeitos congênitos nos seus ór-
gãos sexuais devem ser levadas para tratamento, prio-
ritariamente, aos hospitais de bom nível vinculados a
escolas de Medicina. Nesses locais estão disponíveis
médicos especialistas, permanentemente reciclados em
cursos ou seminários.
No caso das crianças normais, não há decisão a
tomar sobre sua vida, pois seu desenvolvimento é natu-
ral. Para os hermafroditas e os intersexos, a direção de
vida tem de ser tomada pelos pais e por profissionais de
extrema competência.
Essa é uma decisão muito séria, que não deve ser
apressada e da qual deve participar, além da família,
obrigatoriamente, uma equipe de profissionais. Não
existe a possibilidade de um ser humano crescer men-
talmente saudável com uma identidade hermafrodita
ou dúbia. Independentemente de sua situação sexual,
ele precisa viver como um ser masculino ou como um
ser feminino.
O pediatra que vai atender essa criança precisa ter
profundos conhecimentos de endocrinologia. Devem par-
ticipar do tratamento um urologista, um ginecologista, um
cirurgião plástico, um especialista em genética, um psicó-
logo ou um psiquiatra e também um assistente social.
Essa equipe multidisciplinar terá de estudar em
profundidade toda a conformação fisica, genética e psi-
cológica da criança, bem como fazer uma avaliação de
192
seus pais, que precisam ter auxílio médico, psicológico
e social para enfrentar o problema. Somente após esse
estudo é que se poderá concluir sobre o verdadeiro sexo
ou o sexo predominante da criança e tomar as devidas
providências médicas. Num tratamento como esse, a
margem de erro médico deve ser zero.
Como nos casos dos transexuais, a cirurgia plástica
para a correção do órgão sexual para ser fêmea ou
menina é menos complicada, mas também é possível
para ser macho ou menino. Somente após isso é que a
criança deveria ser registrada.
A postura dos pais é muito importante. Após o
tratamento especializado que descrevemos, a criança
poderá crescer normalmente, desde que a família não
transforme a situação causada por um defeito congênito
numa história sem fim. A naturalidade e a espontanei-
dade são o melhor caminho.
Seria bom que as pessoas não encarassem os seus
órgãos sexuais como "coisa do outro mundo", como
peças que devem ser sacralizadas ou condenadas. A
genitália, como vimos, não serve só para fazer amor. Tal
como a boca que, utilizada para alimentar, beija com
prazer.
Se uma criança que nasce com seis dedos se opera
e cresce normal, por que não uma criança com defeitos
corrigidos nos seus órgãos sexuais internos e externos?
O que estamos afirmando, no que diz respeito aos
hermafroditas, é tão verdadeiro que alguns deles, depois
de competente tratamento e operados, se tornaram mu-
lheres adultas completas, engravidaram e pariram uma
criança! Onde está o problema?
Voltamos a insistir que a correção desse problema
deve ser feita precocemente, antes dos 2 anos. Após
esse período, a criança, de uma forma ou de outra, já
adquiriu uma identidade de gênero e qualquer cirurgia
futura, que seja contrária a essa identidade, feita por
médicos desavisados, poderá trazer grandes proble-
mas para essa pessoa.
193
Como se vê, a questão mais séria não está em nascer
com um defeito congênito nos órgãos sexuais. mas na
forma como o caso é tratado e na ineficiência dos siste-
mas de saúde, principamente no Brasil. Não necessaria-
mente, mas nós médicos também somos muito
mal-informados sobre sexualidade. Estamos na mesma
sociedade.
Quando um hospital recebe uma criança com mais
de 3 anos, e ainda com a genitália ambígua, talvez fosse
mais prudente esperar chegar a adolescência para ver o
caminho que sua identidade sexual vai tomar, dentro de
si mesma. Um erro médico, num caso como esse, não
tem conserto, é irreversível.
Como estamos vendo, não se trata apenas de
adaptar o corpo. É preciso levar em conta o que se
passa dentro do ser humano, a sensação que ele tem
de si mesmo.
O pequeno número de hermafroditas verdadeiros
adultos, existentes no mundo, são pessoas que não
puderam, ou a família não permitiu, se operar. De
qualquer forma, internamente, sentem-se homens ou
sentem-se mulheres. É possível SER hermafrodita. mas
não SENTIR-SE hermafrodita, a partir de sua configura-
ção sexual.
Daí o risco de um tratamento inadequado. Imagine
um hermafrodita criança, que já se sente internamente
como homem, mas não tem consciência para externar
essa sensação. Possui um pequeno pênis e uma vagina
rudimentar.
Seus pais o encaminham para tratamento e, como
é mais fácil transformar um homem em mulher, a equipe
médica desavisada decide transformá-lo numa menina.
Na adolescência, salta de dentro da agora menina "um
rapaz". mas com corpo de mulher. Ele sentirá então que
o que fizeram com ele foi uma "castração".
194
ALÍ:M ()() LIMITI: ()() LIMITI:
Chegamos ao limite do limite.
Na verdade, um falso limite, como se os hennafrodi-
tas fossem verdadeiras monstrnosidades da natureza,
motivo de curiosidade nos circos de lona ou eletrônicos,
como a 1V.
Você se lembra da banana gêmea que mencionamos
no início desse capítulo? Por causa de seu defeito ela
deixou de ser uma banana?
Chegamos ao limite do limite porque a "alma" de
grande parte dos seres humanos, ainda muito primitiva,
não consegue sequer atravessar a pequena parede de
seu próprio corpo.
Acompanhamos, em julho de 1994, pela 1V e via
satélite, o bombardeio sofrido pelo planeta Júpiter por
pedaços de um cometa desgarrado. E nossas pequenas
naves já estão viajando pelo cosmos, para longe do
sistema solar.
No entanto, ao despir o seu uniforme tecnológico, e
até mesmo com ele, o homem ainda se estranha ao ver
sua imagem refletida no espelho, real ou da própria
mente.
Poucos tiveram a coragem de fazer a mais fantástica
e necessária das viagens.
Não rumo às estrelas. Mas para dentrode si mesmos.
Á VÃ.VT~ V~L() T()[)()
t= oram necessários mais de dez anos de estudos, a
observação constante da vida ao vivo e pelos meios de
comunicação, além de minha experiência como psicote-
raupeta, para agrupar os diversos modos de ser das
pessoas em relação a sua sexualidade. Nesses estudos,
levei em conta o corpo com o qual se nasce, as mudanças
psicológicas ao longo da vida e as condições sociais nas
quais estamos imersos.
Observei os avanços da Medicina em relação ao
funcionamento e as transformações que ela é capaz de
produzir no corpo humano e embasei a identidade se-
xual nas sensações internas que ocorrem em termos do
psiquismo, subdividindo-a em identidade genital, iden-
tidade de gênero e orientação afetivo-sexual. Avaliei as
manifestações dos papéis relativos ao gênero e do papel
afetivo-sexual das pessoas.
Minha conclusão é a de que existem "11" sexos.
Propositalmente, não os rotulei como tipos ou catego-
rias. Se analisarmos a escala biológica, as escalas de
gênero e as escalas afetivo-sexuais, veremos que os seres
humanos não são estanques, estão em constante trans-
formação, num vai-e-vem permanente.
199
Os estudos de Alfred Kinsey 1 são pionein?s, mas
sua abordagem cobre apenas a vertente do papel
sexual. Eu proponho uma leitura onde o aspecto dessa
parte da sexualidade e a relação afetivo-sexual entre
as pessoas não estejam obrigatoriamente vinculados.
Existem inúmeras possibilidades de combinação entre
as necessidades psíquicas, biológicas e sociais do ser
humano. As necessidades e as possibilidades das re-
lações de gênero são diferentes daquelas que envolvem
as relações afetivo-sexuais.
Diante disso, concluímos que "ll" sexos são "depar-
tamentos" muito estanques e muito limitados para
abranger a grandiosidade da sexualidade humana. Só
como exemplo, posso afirmar, numa possibilidade de
combinação, conforme as escalas do final deste livro, que
a maioria dos homens são homens machos, masculinos,
heterossexuais. As mulheres são fêmeas, femininas e
heterossexuais.
No entanto, uma gama de homens são afeminados,
feminis, ou femininos, mas continuam sendo machos e
heterossexuais. Ou podem também ser homo ou bisse-
xuais. Encontramos outra gama de mulheres que são
fêmeas masculinizadas, masculinas, ou viris e que po-
dem ser heterossexuais, homo ou bissexuais.
Da mesma forma, existem travestis, com o corpo
masculino, que ainda não incorporaram neles próprios
caracteristicas sexuais secundárias do corpo feminino.
1. Alfred Kinsey: Zoólogo norte-americano, coordenou as duas maio-
res e mais rigorosas pesquisas sobre sexualidade. Propôs a "Escala
Kinsey", pela qual as pessoas podem variar de exclusivamente
heterossexuais (50%) a exclusivamente homossexuais (4%). Entre
esses dois extremos estão as pessoas predominantemente heteros-
sexuais. as bissexuais e as predominantemente homossexuais. O
estudo mostrou que numa população de 18 mil pessoas estudadas,
46% seriam bissexuais. Segundo Kinsey. as pessoas podem ir de
um ponto a outro da escala, de acordo com a sua fase da vida, seu
momento psicológico ou as circunstãncias do meio em que vivem.
Suas pesquisas, das décadas de 40 e 50, são utilizadas até hoje
pelos estudiosos da sexualidade.
200
Em termos de identidade e do papel de gênero são
machos-fêmeas, masculinos e femininos. Porém, podem
ser hetero, homo ou bissexuais quanto a sua orientação
afetivo-sexual. E assim por diante.
As escalas que desenvolvemos mostram que a rea-
lidade, no que diz respeito à sexualidade, não é estan-
que, corno aprendemos até hoje. Eu proponho
alargarmos os nossos horizontes para essas formas da
sexualidade, para que possamos ser uma sociedade
mais saudável amanhã.
Somos uma sociedade em que a sexualidade ainda
não está livre. A sexualidade está trancafiada.
Apesar de ser o eixo principal de nossa personali-
dade, que nos define na vida enquanto espécie, que é
fonte de prazer e forma de reprodução, nós relegamos a
sexualidade ao último plano.
A Medicina não a estuda totalmente, e o mesmo
ocorre com a Psicologia. Os demais ramos da Ciência
"pouco tempo têm para o assunto". Somos uma socie-
dade em que a sexualidade não é exercida democratica-
mente, não é livre; que não respeita os direitos e prin-
cipalmente as necessidades das pessoas.
Somos, enfim. uma sociedade hipócrita.
Uma sociedade que aplaude a cantora Madonna,
considerada um ídolo de comportamento andrógino, ao
mesmo tempo homo, hetero, bissexual, mas não aceita
a vizinha que trouxe uma amiga para morar com ela.
Somos uma sociedade que reconhece as diferenças
entre o gênero masculino e feminino para tirar proveito
dessas diferenças. Com base nisso, pagamos à mulher
um salário menor, mesmo que ela seja competente.
Somos uma sociedade que não respeita o direito que
a mulher tem ao seu corpo, e nem totalmente o seu
direito à saude. Não respeitamos o direito da mulher de
escolher se dará ou não continuidade a um embrião, um
projeto de vida, que está dentro do seu corpo.
201
Mas aceitamos, complacentemente, milhares e mi-
lhares de meninos e meninas vivendo nas ruas, ou em
instituições, pelos quais não nos responsabilizamos.
Muitas dessas crianças, provavelmente, são frutos de
gravidez indesejada. Ou de pais que não tinham como
criar seus filhos.
Somos uma sociedade cuja Medicina ainda não dá,
totalmente, o direito ao homem de ter o seu pênis ereto
avaliado, examinado e tratado. As doenças do pênis
ereto são patologias sérias e que "não existiam", até bem
pouco tempo, para a Medicina.
Somos uma sociedade em que os médicos, ao exa-
minarem um ser que é macho e masculino ou fêmea e
feminina, têm dificuldade de conversar com eles a res-
peito de sua orientação afetivo-sexual, seja ela hetero,
homo ou bissexual. Nossas escolas de Medicina não
estudam a sexualidade na sua maior amplitude, pren-
dendo-se apenas ao lado funcional ou fisiológico dos
órgãos sexuais, desde que não erotizados.
Essas escolas esquecem-se de que a sexualidade
tem um aspecto psicológico e um aspecto social, que
todos os médicos precisam tomar conhecimento. Conhe-
cendo melhor sua própria sexualidade terão maior pos-
sibilidade de atender ãs pessoas como elas são. E não
como eles gostariam que fossem, do ponto de vista da
sexualidade.
Nós somos uma sociedade cuja Medicina encara
muitos fatos de ordem social ou cultural adversos ou
desconhecidos como patologias.
Somos uma sociedade em que a Psiquiatria biológi-
ca e as correntes psicoterápicas. em vez de se aliarem,
advogam para si a solução das mazelas da alma humana
esquecendo-se de que o psiquismo se exterioriza através
do corpo, conseqüentemente pelo sistema nervoso cen-
tral, passando pela Bioquímica.
Uma sociedade em que os homossexuais foram
classificados como personalidades doentias no final do
202
século passado, tendo sido necessário que se rebelas-
sem para não serem considerados "pacientes". É muito
estranho! Talvez não exista nenhum outro grupo que não
queira ser tratado pela Medicina como os homossexuais.
Somos uma sociedade que psicologiza, excessiva-
mente, todos os atos humanos. Uma sociedade que
importa teorias psicoterápicas elaboradas no Primeiro
Mundo para compreender a sexualidade da menina, do
menino ou dos adultos que vivem nas ruas, nas favelas
das grandes cidades, ou em lugares ermos da zona rural.
Seriam essas teorias aplicáveis a eles?
A Psicologia e a Psiquiatria perderam de vista sua
finalidade maior, que é a de atender o ser biopsicosso-
cial, prevenir os distúrbios psicológicos e tratar as pes-
soas com esses problemas. Em vez disso, rotulam
previamente, ou seja, com pré-conceitos.
Somos uma sociedade que aplaude Rogéria, um
travesti famoso do País. Mas que não dá o direito aos
travestise aos transexuais de tratarem de seu corpo ou
modificá-lo, de uma forma saudável. Sem escolha, eles
fazem essa transformação por meio de métodos leigos e
precários. Somos uma sociedade que mata os travestis
ou os coloca dentro de um camburão de polícia corno
cães vadios.
Somos uma sociedade que assiste passivamente ao
assassinato de homossexuais, de adolescentes da peri-
feria e de meninos de rua. Seus assassinos ficam impu-
nes como os criminosos de "colarinho branco" .
Somos uma sociedade que transforma transexuais
como a modelo Roberta Close num símbolo sexual femi-
nino, mas não dá a ela documentos de mulher, mesmo
depois de ter seu corpo masculino corrigido pela Medi-
cina para o feminino.
Somos uma sociedade em que as religiões cristãs
pregam o "amor ao próximo como a si mesmo", "esque-
cendo" que "os diferentes", para amar, precisam se acei-
tar e ser aceitos.
203
Somos uma sociedade que interpreta o que os polí-
ticos fazem entre quatro paredes como algo que pode
interferir diretamente na sua capacidade de administrar
uma cidade, um estado ou um país.
Estamos à cata de saber como é o comportamento
afetivo-sexual desses homens. Se eles não forem ma-
chos, masculinos e heterossexuais, não serão capazes
de gerir os bens públicos. Esquecemo-nos que està em
jogo sua capacidade político-administrativa (papel de
gênero). e não seu papel sexual.
Somos uma sociedade que não concebe dois atores
ou duas atrizes representando atos de amor homosse-
xual na novela das oito, mas que se compraz ou se
horroriza pelo inusitado de ver, ao vivo, uma adolescente
suicidar-se, saltando para a morte do alto de um edifício.
Assistimos carnificinas nas cidades ou nos campos de
batalha como se isso fosse mais saudável do que o amor
entre dois homens ou duas mulheres.
Somos uma sociedade em que um partido político
precisa reunir os seus adeptos gays e lésbicas num
comitê nacional, para que essas pessoas possam ter o
direito à cidadania.
Somos uma sociedade em que não existe a possibi-
lidade da espontaneidade, da criatividade, e do fator tele
para propiciar a relação entre as pessoas, a partir de um
encontro saudàvel para todos.
A sociedade não é uma abstração. Por isso insisti
no "somos uma sociedade". A sociedade sou eu, é você!
Ela é composta por todos nós, do mesmo modo que está
dentro de todos nós.
Transformar uma sociedade é nos transformarmos. E
transformar, também, a sociedade que está dentro de nós.
204
Mas somos também uma sociedade que tem um
sonho utópico. Nessa utopia possível, a Educação, a
Medicina, o Direito, a Sociologia, a Antropologia e a
Psicologia ajudarão as pessoas a serem livres.
Neste trabalho tive a necessidade de agrupar as
pessoas de acordo com seu modo de ser e de se compor-
tar sexualmente. A denominação hetero, homo ou bis-
sexual refere-se apenas à orientação afetivo-sexual
dessas pessoas. O termo travesti está ligado ao papel de
gênero, enquanto transexual e intersexo são palavras
imprecisas para designar essas formas de sexualidade.
Assim, tive de chamar as pessoas pelos "nomes como
são conhecidas", mas em nenhum momento minha
intenção foi de rotular, classificar ou catalogá-las em
compartimentos estanques. É assim que este trabalho
deve ser visto. A classificação leva ao preconceito e à
estigrnatização do ser humano.
Corno você deve ter percebido ao longo dos onze
capítulos que compõem a segunda parte deste livro, em
cada um deles dedica-se um espaço a cada um dos "11"
sexos, porque foi a forma que escolhi para focar partes
da multifacetada sexualidade do ser humano. Entretan-
to, apesar de nosso esforço, fomos incapazes de apre-
sentar, também em cada um desses capítulos, a
complexidade e a totalidade da vida sexual de cada um
deles, e estabelecer limites claros entre eles, porque
esses limites não existem.
Essa impossibilidade, a meu ver, deve-se ao fato de
que o ser humano não cabe em "escaninhos", departa-
mentos ou categorias.
Somos ao mesmo tempo semelhantes e diferentes
de todos os demais, em nossa indivisibilidade. Somos,
em cada momento, únicos e universais. Portanto, não é
possível dizer que a espécie humana é formada de seres
com "apenas 11" sexos. Podemos ser 11, ou 111 ou 1.111
ou 1.111.111 sexos, ou mais. Tudo é muito pouco para
explicar o ser humano.
205
Espero que este trabalho, no qual muitas idéias apre-
sentadas podem e devem ser debatidas, sirva para as
pessoas, incluindo aquelas com um modo de ser diferente
do da maioria, iniciarem a conquista da sua identidade
sexual. Que elas conquistem o direito de, por meio de seus
papéis de gênero, serem socialmente o que são inte-
riormente. Que tenham o direito à transformação do seu
corpo biológico, quando isso for necessário e pertinente.
E que, com suas sexualidades, conquistem uma
identidade social, e que se transformem em pessoas com
direito à CIDADANIA.
206
Corno você pode ver nas tabelas da página ao lado. a
maioria dos HOMENS é macho U A). sente·se homem
(II A). assume papéis de gênero masculino (III A). tem
orientação afetivo-sexual heterossexual (IV A) e se
relaciona em nível de afeto e/ou sexo com uma mulher
(VA).
Da mesmaforma, a maioria das MULHERES éfêmea (l
E). sente-se mulher (II E), assume papéis de gênero
femininos (III E). tem orientação afetivo-sexual heteros-
sexual (IV A) e se relaciona em nível de afeto e/ou sexo
com um homem (VI A).
Do ponto de vista da sexualidade, embora maioria. os
seres não "são" ou "estão" só assim. Olhando a nossa
volta a multiplicidade do ser é infinita.
VISÃO DA SEXUALIDADE HUMANA ATRAVÉS DAS
ESCALAS PROPOSTAS
1 • ESCALA DO SEXO BIOLÓGICO (FENÓTIPO!
IKTERSEXOS
com caracteres com caracteres
sexuais (hermafradlla) sexuais FÊllEA
secundárias secundárias
de FÊMEA de MACHO
"
1 1 e o
li · ESCALA DE IDENTIDADE DE GtNERO ISENTIR·SE COllOI
HOMEM
"
IQIEM
um pouco
mulher
fflMEM
E
t.fJLIER
e
IAA.IER
um pouco
hamem llJLIER
Ili • ESCALA DE PAPÉIS DE GtNERO (PAPEL SOCIAL!
Afeminada
"
w.saJUNO
E
FEMNINO
e
FEMININO
Mascullnlzada Mt«l
IV· ESCALA DE ORIENTAÇÃO AFETIVO-SEXUAL (DESEJO!
1 HETEROSSEXUAL H~ BISSEXUAL = IKlllOSSEXUAL
1 1
"
e o
V • ESCALA DE RELAÇÕES AFETIVO-SEXUAIS DE HOMENS
(PAPÉIS AFETIVO·SEXUAISI
HOMEM HOMEM HOMEM HOMEM HOMEM COM
COM MULHER COM COM COM MULHER E HOMEM TRAVESTI TRANSEXUAL
HOMEM MASCULINO MASCULINO
"
e D
VI • ESCALA DE RELAÇÕES AFETIVO-SEXUAIS DE MULHERES
(PAPÉIS AFETIVO-SEXUAIS)
MULHER MULHER MULHER MULHER MULHER
COM COM COM COM COM
HOMEM HOMEM MULHER TRAVESTI TRANSEXUAL E
MULHER FEMININO FEMININO
"
e D
207
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