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José Outeiral Luiza Moura Stela dos Santos ADUL Adult S autores oferecem ao leitor vários capítulos referentes às vicissitudes contemporâneas na passagem da adolescência para a vida adulta, do adolescer ao adultecer. Em uma sociedade com intensas transformações, com valores e paradigmas sendo contestados, transformados e mesmo substituídos por outros, esta transição compreende peculiaridades significativas que, não raramente, originam situações bastante complexas. Os textos dirigem-se não somente aos profissionais da área da saúde mental e da educação, como também aos pais. Organizadores José Outeiral Luiza Moura Stela dos Santos REVINTERde José Outeiral 1. Infância e Adolescência (organizador). ARTMED 1982 2. Donald Winnicott Estudos (organizador). ARTMED 1991 3. Adolescente Borderline ADULTECER (organizador). ARTMED 1993 A Dor Prazer de Tornar-se Adulto 4. Psicanálise Brasileira (organizador com Theobaldo Thomáz). ARTMED 1993 5. Donald Winnicott na América Latina (organizador com Sonia Abadi). Revinter 1997 6. Meros Ensaios Escritos Psicanalíticos. Revinter 1999 7. Donald Winnicott en América Latina Teoría y Clínica Psicoanalítica (organizador com Sonia Abadi). Editorial Lumen Buenos Aires 1999 8. Clínica da Transicionalidade Fragmentos da Análise de uma Adolescente. Revinter 2001 9. Winnicott Seminários Paulistas (organizador com Rita Gabriades e Sueli Hisada). Casa do Psicólogo 2001 10. Drogas Uma Conversa Necessária e Urgente, 2a Edição Ampliada e Atualizada. Editora Sinodal 2002 11. Desamparo e Trauma Transferência e Contratransferência (organizador com Luciana Godoy). Revinter 2003 12. Conhece-te a Ti Mesmo. Editora Unisinos 2004 13. Breve Ensaio sobre a Mentira. Revinter 2004 14. Paixão e Criatividade Frida Kahlo, Camille Claudel e Coco Chanel, 2a Edição (organizador com Luiza Moura). Revinter 2004 Livraria do 15. Mal-Estar na Escola, Psicanalista Edição (organizador com Cleon Cerezer). Revinter 2005 www.livrariadopsicanalista.com.brADULTECER A Dor e Prazer de Tornar-se Adulto Organizadores José Outeiral Médico-Psiquiatra e Psicanalista Ex-Professor da Faculdade de Medicina da PUC-RS Membro Titular da Associação Psicanalítica Internacional Luiza Moura Psicóloga Clínica Especialista em Psicoterapia Psicanalítica Bacharel em Comunicação Social Coordenadora do Curso de Especialização em Psicoterapia Psicanalítica do Adulto Jovem do GEA Stela Marys Vieira dos Santos Psicóloga Clínica Especialista em Terapia de Casal e Família Coordenadora do Curso de Especialização em Psicoterapia Psicanalítica do Adulto Jovem do GEA REVINTERAdultecer A Dor e Prazer de Tornar-se Adulto Copyright © 2008 by Livraria e Editora Revinter Ltda. COLABORADORES ISBN 978-85-372-0168-8 Todos os direitos reservados. É expressamente proibida a reprodução deste livro, no seu todo ou em parte, por quaisquer meios, sem o consentimento por escrito da Editora. ADRIANA MORAES TEIXEIRA Psicóloga Contato com autor: Psicanalista joseouteiral@hotmail.com www.joseouteiral.com Membro Efetivo do Centro de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre, RS Membro Fundador do GEA Coordenadora do Núcleo de Estudos sobre Adultos Maduros da Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul Membro Fundador do Grupo CRIAR ADRIANA SYLLA PEREIRA Psicóloga Clínica Especialista em Psicoterapia Psicanalítica Diretora e Membro Efetivo do Instituto Wilfred Bion de Porto Alegre, RS Coordenadora do Curso de Especialização em Psicoterapia Psicanalítica do Adulto Jovem do GEA BIBIANA LEMKE B. DE CASTILHOS Psicóloga Clínica Especialista em Psicoterapia Psicanalítica do Adulto Jovem pelo GEA DENISE MARTINEZ SOUZA Psicóloga Psicanalista Membro Pleno do Centro de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre, RS Diretora Científica e Coordenadora do Seminário da Teoria da Técnica do Curso de Especialização em Psicoterapia Psicanalítica do Adulto Jovem do GEA LUCIANA SARMENTO CARDOSO Psicóloga Clínica A responsabilidade civil e criminal, perante terceiros e perante a Editora Revinter, sobre o con- teúdo total desta obra, incluindo as ilustrações e autorizações/créditos correspondentes, é Membro Efetivo do Instituto Wilfred Bion de Porto Alegre, RS do(s) autor(es) da mesma. Especialista em Psicoterapia Psicanalítica do Adulto Jovem pelo GEA MAURÍCIO MARX E SILVA Psiquiatra Psicanalista Graduado pelo Instituto da SPPA, RS Coordenador do Núcleo de Neurociência da Sociedade de Psiquiatria do Rio Grande do Sul Livraria e Editora REVINTER Ltda. THAÍS FERNANDES MONTEIRO Rua do Matoso, 170 Tijuca 20270-135 Rio de Janeiro RJ Psicóloga Clínica com Formação em Psicoterapia Psicanalítica pelo Tel.: (21) 2563-9700 Fax: (21) 2563-9701 Instituto Wilfred Bion de Porto Alegre, RS www.revinter.com.br Especialista em Psicoterapia Psicanalítica do Adulto Jovem pelo GEAAPRESENTAÇÃO os últimos anos, a concepção de ciclo vital tem sido fortemente reto- M mada como uma vertente possível e necessária de ser interligada com a Psicanálise. Apoiados em experiências de outros autores que integra- ram, com sucesso, um pensamento que reconhece as características de determinadas fases da vida com paradigmas psicanalíticos, promoven- do desenvolvimentos tanto teóricos como técnicos, iniciamos exercício de lançar um olhar questionador sobre a fase adulta. Particularmente, a experiência de José Outeiral ao dedicar-se a pen- sar a adolescência, organizando e ampliando as idéias sobre esta fase, bem como a sua criação do termo "adolescer", inspirou os demais autores do Adultecer. A transformação destes substantivos em verbos possibilita a representação mais precisa das especificidades e dos movimentos que se encerram em cada um destes períodos. Assim como a adolescência e todas as outras fases do ciclo vital, a adultez é um processo que se constitui totalmente interligado com que aconteceu antes e com que acontecerá depois. A nossa disposição inicial em investigar a adultez conduziu-nos mais e mais adiante: fomos discutindo, dividindo experiências da clínica, pesqui- sando, e chegamos ao ponto em que nossos estudos foram tomando for- ma e gerando um corpo. Por fim, surgiu a idéia de organizá-los em um livro. Acreditamos ter atingido um equilíbrio entre a preservação do pen- samento independente de cada autor e a possibilidade de complementarie- dade e coerência entre os diversos capítulos que compõem Adultecer. Na presente obra, Adriana M. Teixeira, Adriana Sylla Pereira, Bibiana de Castilhos, Denise M. Souza, José Outeiral, Luiza Moura, Luciana S. Cardoso, Maurício Marx e Silva, Stela Marys Vieira dos Santos e Thaís F. Monteiro refletem sobre o "adultecer", contextualizando-o como parte integrante do ciclo vital. Mas, além disto, considerando-o como uma vivência amplamente atravessada pelo processo de amadurecimento neu- ropsíquico; pela historicidade pessoal, com seus complexos registros afe- tivos e relacionais arcaicos; e pela cultura, com os ícones históricos queajudaram a constituir a subjetividade do homem adulto moderno e com Uma das grandes responsabilidades comuns ao "adultecer", tornar-se cui- todas as exigências e expectativas socioculturais e econômicas atuais. dador das novas gerações, é assunto desenvolvido no Capítulo 9. O livro inicia-se justamente com um deslizamento do "adolescer" para "Quando a Dor Vence Prazer", ou seja, as situações em que jovem "adultecer". Em seguida, no Capítulo "Quem é Adulto Jovem?", faze- chega à vida adulta incapaz de lidar com as demandas comuns a esta eta- mos uma revisão cuidadosa da reduzida bibliografia que classifica e descre- pa, é tema desenvolvido no Capítulo 10. O primeiro texto que com- ve a adultez, buscando, também, confrontar conceitos e pensar adulto põe, "A Psicopatologia na Adultez Jovem", abre um espaço para pensar- jovem dentro das constantes transformações sociais e familiares. No Capí- mos adoecer psíquico e OS comportamentos de risco que surgem como tulo 3, em "Lembrar do Futuro, Terminar as Coisas, Renunciar, Esperar... respostas às exigências intoleráveis. O segundo texto, "Trauma e Amadu- E mais Algumas Palavras sobre 'Adultecer' são demar- recimento Precoce O Falso Adulto", aponta para perigo de que uma cados aspectos do amadurecimento neurológico da idade adulta, ao mes- falsa e instável identidade esteja disfarçada sob a forma de um adulto. mo tempo em que a questão da plasticidade cerebral é assinalada como No capítulo 11, "Como Ajudamos um Jovem a Ser Adulto? Os Avan- uma característica inerente e fundamental à nossa espécie. No Capítulo 4, ços da Técnica e suas Aplicações à Psicoterapia do Adulto Jovem", refleti- "A Conquista da Identidade", por meio de um breve percurso pela história mos sobre recursos que a Psicanálise pode oferecer-nos para lidarmos recente do cinema, comparamos a grande quantidade de filmes que ten- com este "adultecer" quando ele implica um adoecer. tam dar VOZ ao "adultecer" com a inibida produção científica dirigida a esta No último capítulo, "Da Juventude à Maturidade (Desenvolvimento fase. em Expansão em concordância com a idéia de que ciclo vital A seguir, em "A Criança é Pai do Adulto Uma Perspectiva Psicana- é dinâmico e constituído por fases absolutamente interligadas, desliza- apresentamos uma revisão das contribuições da Psicanálise para mos para a adultez madura. Neste texto, questões inquietantes, como a entendimento da adultez, enfatizando a influência das experiências arcai- transitoriedade, são discutidadas e ilustradas por intermédio da Pietà de cas na estruturação do psiquismo adulto. No Capítulo 6, algumas perso- Michelangelo. nalidades e personagens que ajudaram a construir a subjetividade do O tema "adultecer", inicialmente, teimava em escapar de nós, pelo homem adulto moderno são apresentadas em dois textos: "A Questão de disfarce de ser uma obviedade. Porém, fomos guiados pela idéia de que, Hamlet Ser ou Não Ser Adulto" e "Os Jovens Românticos na Obra de por trás deste silêncio encobridor, existia estridente som de muitos con- Goethe Do Suicídio ao flitos, medos e sentimentos de perda. A adultez é, raras vezes, tomada Nestes primeiros seis capítulos, levantamos elementos que auxiliam como objeto de reflexão, bem provável porque a subjetividade, conside- na definição do "adultecer" apresentamos as suas características e con- rada padrão e referência para estudo das outras fases do ciclo vital, é sideramos as suas multideterminações: históricas, socioculturais, neuro- justamente a presumida subjetividade adulta. lógicas e psicológicas. Ainda que movimento de reconhecer e refletir sobre as fases espe- desenvolvemos os temas referentes às exi- cíficas da infância, puberdade, latência, adolescência e maturidade se gências do mundo moderno e contemporâneo à vida adulta, as quais fo- constitua como marco no desenvolvimento da nossa cultura, acreditamos ram resumidas por Freud como "Amar e Trabalhar" e, por Erik Erikson, que processo de pensar a vida adulta tem uma característica ímpar a como "as capacidades de ser criativo, de ter intimidade e de ser produtivo". necessidade de uma reversão da perspectiva. Pois a vida adulta sempre foi Nestes capítulos, enfatizamos que as exigências do mundo contempo- pico do alto do qual as outras fases eram observadas e estudadas. râneo, mais do que nunca, colocam o adulto em um impasse: apropri- Ao mesmo tempo em que a evitação da tomada do "adultecer" como ar-se, transmitir e, ao mesmo tempo, recriar a cultura, e isto em um ritmo um objeto de estudo e reflexão protege de um possível desconforto, negar- extremamente acelerado. lhe espaços de discussão incentiva a equivocada idéia de que esta é uma Os amores e as paixões do adulto jovem são tema do Capítulo 7, inti- fase platô, sem conflitos e sem crise. As dores inerentes a uma crise vital, tulado Dibuk destinos da paixão na A questão da in- quando não compartilhadas, podem tomar dimensão mórbida. Precisa- timidade é a base do capítulo seguinte, denominado "Casa, do Latim, Aca- mente, que tem sido furtado ao adulto é espaço para medo e a dúvi- salamento A Casa como Metáfora para a Capacidade de Intimidade". da, como se estes representassem a negação da própria condição de adulto.Com Adultecer, pretendemos abrir um campo de reflexão e discus- SUMÁRIO são para aplacar um pouco da solidão que envolve esta passagem. "Ser Adulto É Ser Só", preconiza Jean Rostand. No entanto, acredita- mos que "ser só" somente é possível por meio da construção de uma iden- tidade consistente e, simultaneamente, flexível. As referências externas, tanto em termos de novas identificações, como informações que apla- quem a angústia, são fundamentais no caminho desta construção, a qual dar-se-á na medida em que alguns mitos da infância e da adolescência DO ADOLESCER AO ADULTECER 1 possam ser destruídos e substituídos por novas e reais possibilidades. José Outeiral Ou seja, escrevemos este livro porque acreditamos que "ser só" não 2 QUEM É O ADULTO JOVEM? 15 significa estar isolado. Stela Marys Vieira dos Santos 3 LEMBRAR DO FUTURO, TERMINAR AS COISAS, RENUNCIAR, ESPERAR E MAIS ALGUMAS PALAVRAS SOBRE ADULTECER NEUROPSÍQUICO 53 Maurício Marx e Silva 4 A CONQUISTA DA IDENTIDADE 63 Luiza Moura 5 A CRIANÇA É O PAI DO ADULTO UMA PERSPECTIVA PSICANALÍTICA 77 Adriana Sylla Pereira 6 BREVES REFLEXÕES SOBRE O NASCIMENTO DO HOMEM MODERNO 93 Luiza Moura 7 O DIBUK DESTINOS DA PAIXÃO NA ADOLESCÊNCIA 123 José Outeiral CASA, DO LATIM, ACASALAMENTO A CASA COMO METÁFORA PARA A CAPACIDADE DE INTIMIDADE 161 Luciana Sarmento Cardoso Thais Fernandes Monteiro 9 CUIDADOR DAS NOVAS GERAÇÕES 177 Bibiana Lemke B. De Castilhos Luciana Sarmento Cardoso Fernandes Monteiro 10 QUANDO A DOR VENCE O PRAZER 195 Stela Marys Vieira dos Santos Bibiana Lemke B. De Castilhos Luciana Sarmento Cardoso 11 COMO AJUDAMOS UM JOVEM A SER ADULTO? AVANÇOS DA TÉCNICA E SUAS APLICAÇÕES À PSICOTERAPIA DO ADULTO JOVEM 223 Denise Martinez Souza 12 DA JUVENTUDE À MATURIDADE (DESENVOLVIMENTOS EM EXPANSÃO CRIATIVA) 233 Adriana Moraes TeixeiraADULTECER A Dor Prazer de Tornar-se AdultoDO ADOLESCER AO CAPÍTULO ADULTECER 1 José Outeiral2 JOSÉ OUTEIRAL Capítulo DO ADOLESCER ADULTECER 3 ste capítulo tem como objetivo compartir com leitor algumas tões que nos fazem refletir sobre avatares da passagem da ques- ciais e culturais. que escuto no consultório e observo na vida coincide cência para a vida adulta, ou seja, do adolescer ao adultecer. com que leio e, acredito, leitor também irá logo identificar algumas observo, na vida cotidiana e na minha atividade clínica, situações muito situações. Os "temas de capa" dos cadernos da Folha são interessantes e singulares nessa "passagem", como, por exemplo, a adolescência, por dizem respeito ao que estou pensando. O primeiro deles trata da "Adultes- lado, invadindo a infância e, por outro, se espraiando sobre anos iniciais um cência" (em 20 de setembro de 1998) com artigos de vários autores que da vida adulta. Uma comédia cinematográfica poderia levar título de "A "analisam por que adultos copiam cada vez mais adolescentes e por que a adolescência: um universo em expansão" uma comédia ou, melhor, tal- cultura jovem é tão segundo comenta sobre "Adeus meninos. vez, um filme de suspense. Existe como que um apagamento das frontei- A idéia de infância entra em crise e a criança é preparada para entrar na era ras entre a infância, a adolescência e mundo adulto; antes, entretanto, pós-moderna" (em 24 de julho de 1994) e último aborda "A dos uma contextualização e algumas considerações inicias. A partir de então kidadults" (em 25 de julho de 2004). Lá pude ler: "O sociólogo inglês Frank abre-se caminho para os capítulos que se seguem. Furedi analisa a crescente infantilização da cultura contemporânea, que tem se Escrevo, cercado por muitos livros "científicos", mas vou optar por alastrado pela universidade, literatura, TV, cinema e arte em todo mundo". Ao manter, dentro do possível, a maior parte da interlocução, autor e leitor, lado, casualmente, separado para um outro texto, sobre um outro tema, através de uma publicação, digamos, "leiga", a Folha de São Paulo. Tenho, que estou escrevendo, tenho também mesmo jornal, com uma chamada à minha frente, um desenho de Tarsila do Amaral, uma mulher rezando, na primeira capa, remetendo ao caderno Folhateen, com seguinte con- assinado com "T." característico, e uma aquarela de Rebollo de uma teúdo: "Filhos estimulam os pais a largar vício. Numa inversão de papéis, ado- cena rural: marcos da modernidade que definem meu lugar, a cidade, e lescentes pressionam pais a buscar ajuda para deixar de fumar maconha. No labo- revelam o enfrentamento inevitável de um homem moderno, como eu ratório da Universidade Federal de São Paulo, muitos dos pacientes têm mais de com a "condição ou, melhor, com a "alta modernidade" 40 anos". Na capa do caderno Folhateen está escrito: "Apagando vício. ou, ainda, com a "contemporaneidade", como prefiro. Feita esta contex- Cobrança dos filhos leva pais a buscar ajuda para deixar de fumar maconha" (19 de julho de 2004). Esse é um fato que tenho constatado no consultório na tualização, adiante. Na segunda edição (outras edições se seguiram) do meu livro Adolescer, inclui um novo capítulo, que não constava da primei- última década: filhos com queixas de que os pais "usam drogas", e não ra edição, publicada apenas alguns anos antes, onde escrevi sobre uma apenas tabaco ou álcool, mas drogas "ilícitas". Filhos que "cuidam" dos série de paradigmas e valores da modernidade que estão sendo contesta- pais, numa reversão de expectativas. O que leio não são observações de dos, transformados ou, mesmo, substituídos por outros. Quais são eles? cientistas, mas notícias de jornal; é que está nas cidades, hoje, não são Como Jack, "estripador", vamos pedaço por pedaço, ou "apenas especulações é a realidade que encontramos, hoje. do", academicamente, como sugere um outro "Jack", isto é, Jacques Derri- da. Embora, entre a primeira e a segunda edição do Adolescer, tenha decorrido menos de uma década, tive de, praticamente, reescrever 0 ADOLESCER livro, pois, além do desenvolvimento de minhas idéias neste período, Ser adulto é ser só. mudou, em muito, a infância, a adolescência e as famílias. Passemos, Jean Rostand. Pensamentos de um biologista (1894-1911) finalmente, estimado leitor, pois não quero cansá-lo já de início, ao traba- lho, enfocando alguns elementos dessa Sobre a mesa três edições do caderno Mais! da Folha de São Paulo, A gente não deveria crescer nunca. que, história como publicação jornalística do maior espaço urbano brasileiro, faz Sófocles. Antígona (496-406 a.C.) a do cotidiano, do dia-a-dia, e, assim, se antecipa às publicações possibilitando uma leitura atualizada dos fenômenos so-4 JOSÉ OUTEIRAL Capítulo ADOLESCER AO ADULTECER 5 Existe certa confusão entre termos adolescência e puberdade, mes- mo entre profissionais que atuam nessa área. Vários autores, como Peter vagas deixadas pelo deslocamento dos homens que partem para da Blos e Eduardo Kalina, dentre outros, consideram estes conceitos diferen- guerra. O crack da bolsa de valores de Nova Iorque, em 1929, pode ser tes, embora estreitamente relacionados. também um marco e, nos Estados Unidos, após esse acontecimento, um Puberdade (de puber, pêlos) é um processo biológico que inicia, em grande número de jovens passou a se deslocar de um lugar a outro, como nosso meio, entre 9 e 14 anos, aproximadamente, e se caracteriza pelo clandestinos nos trens, sem emprego e fazendo pequenas transgressões surgimento de uma atividade hormonal que desencadeia chamados para sobreviver. No final da década de 1940 e, com mais intensidade, nas "caracteres sexuais A puberdade está determinada por fato- décadas de 1950 e 1960, também nos Estados Unidos, e temos de levar res genéticos, nutricionais, geográficos e psicológicos, dentre outros. É em conta toda a influência que a cultura norte-americana exerce no mun- interessante referir que a "menarca", a primeira menstruação, tem ocorri- do ocidental, começou a haver uma definição mais clara do fenômeno do, segundo estudos médicos, cada vez mais cedo. Estes registros revelam "adolescência". Surgiram as aventuras "on the road", lembrem dos livros que, nos últimos 100 anos, a menarca acontece um ano mais cedo a cada de J. Kerouac, particularmente na "Route 66". A literatura e cinema 25 anos. por sua vez, é, basicamente, um fenômeno psico- fizeram um extenso registro desse período em que jovens começaram lógico e social. Esta maneira de compreendê-la nos oferece importantes a se tornar mais presentes e demorando a ingressar na vida adulta. Apa- elementos de reflexão, pois, sendo um fenômeno psicossocial, a adoles- nhador em Campo de Centeio, de Salinger, e On the Road, de Kerouac, são cência gera diferentes peculiaridades conforme ambiente psicológico, exemplos literários. No cinema é provavelmente com Rebel Without a econômico, social e cultural em que adolescente se desenvolve. A pala- Cause (Juventude Transviada), filmado em 1955, por Nicholas Ray, que vra por outro lado, tem uma dupla origem etimológica surge a imagem cinematográfica do adolescente, como um rebelde. Antes que caracteriza muito bem as peculiaridades desta etapa da vida. Ela vem adolescente era representado como alguém comportado, obediente e do latim ad (a, para) e olescer (crescer), significando a condição ou proces- educado; a "turbulência" não era percebida e mostrada. de crescimento. Adolescência também deriva do mesmo étimo da pala- Sigmund Freud, por exemplo, que morreu em 1939, nunca usou em vra adoecer. San Juan de la Cruz, no século XVI, escrevia, "aquele que de sua extensa obra a palavra "adolescência", pois ela não existia no idioma amor Temos assim, etimologicamente, um elemento para pen- alemão de seu tempo; referia-se a esta etapa como "juventude" ou "puber- sar esta etapa da vida: aptidão para crescer (não apenas no sentido físico, dade"; e devemos considerar que ele foi um "grande" analista de adoles- mas também psíquico) e para adoecer (em termos de sofrimento emocio- centes, com 3 de seus casos clínicos abordando jovens adolescentes, Dora, nal, com as transformações biológicas, sociais e mentais). Alguns autores, Catarina e a Mulher homossexual, além de inúmeras vinhetas clínicas des- como Luiz Carlos Osório, referem uma terceira origem etimológica: ta etapa evolutiva, como a que encontramos no capítulo sétimo do livro cência. "dolo", causar dano ou prejuízo a alguém teria a mesma origem de adoles- dos sonhos (1900), que relata as dificuldades de um rapazinho insone. Podemos, inclusive, acrescentar relato de Gradiva como tratamento do A adolescência surge, segundo alguns autores, como período de jovem Arnold por Zoé-Gradiva... Em língua francesa, conta-nos François desenvolvimento, com necessidades e direitos específicos, entre final da Dolto que a palavra adolescência surge, pela primeira vez, com Victor Primeira Guerra Mundial, 1918, e início da Segunda Guerra Mundial, Hugo, no último quartel do século XIX. 1939; até então se passava da infância à idade adulta em curto espaço de É necessário considerar, ainda como introdução, que conceito de tempo, após breves rituais de iniciação. Dois acontecimentos podem ser como escreve Ph. Áries é uma concepção relativamente recente. observados, dentre muitos, neste período entre as duas grandes guerras, A criança, é óbvio, sempre existiu. A infância, por sua vez, é produto da particularmente crescimento dos centros urbanos e ingresso da mu- Modernidade e do Iluminismo, e surge em torno do século XVII. As pin- lher no mercado de trabalho, cobrindo, nos meios de produção e nos turas, por exemplo, são exemplos destas idéias. As crianças eram repre- setores secundários e terciários da economia (serviços, comércio etc.), as sentadas como adultos "em inclusive nas vestimentas. Dentro desta concepção de contextualização histórica, a adolescência é um fenô-6 JOSÉ OUTEIRAL DO ADOLESCER AO ADULTECER 7 meno contemporâneo, bastante recente e que requer uma maior teoriza- 3 A adolescência final (de 17 anos a 20 anos) tem vários elementos ção sobre suas características. Esta compreensão, entretanto, não descar- importantes, dentre quais estabelecimento de novos vínculos ta a idéia de que alguns indivíduos, em períodos anteriores aos citados, com pais, a escolha profissional e a aceitação do novo corpo e dos não apresentassem uma "conduta Esta "adolescência" ocor- processos psíquicos do mundo adulto. ria mais como um fenômeno individual do que como um fenômeno cole- tivo e da cultura. Álvares de Azevedo (1831-1852) é um exemplo. Adoles- Esta divisão em "idades", repito, é artificial, pois nos defrontamos cente na São Paulo da metade do século XIX, escrevia como um "perfeito hoje tanto com adolescentes antes dos 10 anos, assim como após 20 adolescente", e seu poema Spleen e os Charutos, no livro Lira dos vinte anos. interessante ler algumas referências para determinar "término" anos, mostra esta vivência. No mesmo sentido, a leitura do Ateneo, de da adolescência nas três últimas décadas do século passado. Raul Pompéia (1863-1895), ou de Dom Casmurro, de Machado de Assis Ronald Pagnoncelli de Souza, pediatra gaúcho, na década de 1980, (1839-1908), mostra a existência de personagens adolescentes. Foram, por exemplo, elencou como elementos para caracterizar final desta etapa entretanto, adolescentes além de seu tempo, adolescentes avant la lettre e as seguintes realizações: (a) estabelecer uma identidade estável, (b) aceitar suas experiências adolescentes não configuravam um fenômeno da sua sexualidade e se ajustar gradativamente ao papel sexual adulto, (c) se cultura. tornar independente dos pais e (d) fazer a escolha de uma vocação e uma A Organização Mundial de Saúde (OMS) define que a adolescência é profissão. período compreendido entre 10 e 20 anos, e nosso Estatuto da Crian- Na mesma década Luiz Carlos Osório, em seu livro Adolescência Hoje, se ça e do Adolescente (ECA) a coloca entre 12 e 18 anos. A Sociedade de referiu às seguintes tarefas para término da adolescência: (a) redefinição Medicina Adolescente, uma sociedade médica norte-americana, coloca da imagem corporal, propiciada pela perda do corpo infantil e da conse- em seu site que se ocupa de pessoas "dos 10 aos 26 anos". Mais curiosa é a qüente aquisição do corpo adulto (em especial, caracteres sexuais secun- afirmação da Fundação MacArthur, também norte-americana, que em dários); (b) culminação do processo de separação/individuação e substitui- uma pesquisa recente intitulada "Transições para a Idade colo- ção do vínculo de dependência simbiótica com pais da infância por rela- cou final desta transição, do adolescer ao adultecer, nos 34 anos. A ções objetais de autonomia plena; (c) elaboração de lutos referentes às per- observação feita, em distintos espaços culturais das sociedades ocidentais das da condição infantil; (d) estabelecimento de uma escala de valores ou nos revela que, atualmente, a adolescência começa cada vez mais cedo e código de ética próprios; (e) estabelecimento de um padrão de luta e fuga no também se posterga cada vez mais. relacionamento com a geração precedente; (f) aceitação tácita dos ritos de A adolescência, em geral, é composta de 3 etapas, de início e fim não iniciação como condição de ingresso ao status adulto, busca de pautas de muito precisos, em que algumas características se confundem, e outras, identificação no grupo de iguais e (g) assunção de funções ou papéis sexuais não e por "flutuações" progressivas e regressivas que sucedem, se alter- auto-outorgados, ou seja, consoante às inclinações pessoais independente- nam ou executam um movimento de mente das expectativas familiares e, eventualmente, até mesmo das imposi- ções biológicas do gênero a que pertence (homossexuais). Vejamos... Luiz Carlos Osório, no mesmo livro, escreveu seguinte, quanto ao final da adolescência: 1. A adolescência inicial (de 10 anos a 14 anos) é caracterizada pelas trans- formações corporais e alterações psíquicas derivadas destes aconteci- A puberdade estaria concluída, e com ela crescimento físico e amadureci- mentos. mento gonadal (que permite a plena execução das funções reprodutivas), 2. A adolescência média (de 14 anos a 17 anos) tem como seu elemento em torno dos 18 anos, coincidindo com a soldadura das cartilagens de con- central as questões relacionadas à sexualidade, em especial, a passa- jugação das epífeses dos longos, 0 que determina fim do crescimento esquelético. término da adolescência, a exemplo de seu início, é bem mais gem da bissexualidade infantil para a heterossexualidade. difícil de determinar e novamente obedece a uma série de fatores de nature-8 JOSÉ OUTEIRAL Capítulo DO ADOLESCER AO ADULTECER 9 za sociocultural. Tentando discriminar quais os elementos mais universais firo partir, neste caso, de um terreno conhecido. trabalho de Calvin na atualidade que nos possibilitaram assinalar 0 término da adolescência, relaciono preenchimento das seguintes condições: Colarusso inicia com uma abordagem histórica. Ele registra: 1. estabelecimento de uma identidade sexual e possibilidade de estabelecer (...) Os pensamentos sobre ciclo vital são tão antigos quanto registros da relações afetivas estáveis; história. Por exemplo, 0 estadista poeta grego Sólon (639-599 a.C.) descre- 2. capacidade de assumir compromissos profissionais e manter-se neles veu seis fases da vida adulta e determinou tarefas evolutivas para cada uma (independência econômica); delas, como desenvolvimento de habilidades do indivíduo para a mais ple- 3. aquisição de um sistema de valores pessoais; na e maior Mais tarde, Confúncio (aproximadamente 551-579 4. relação de reciprocidade com a geração precedente (sobretudo com os a.C.) descreveu ciclo da termos de aspectos relacionados com a ida- pais). Em termos etários, isto ocorreria por volta dos 25 anos na classe de, como empenhar-se de corpo e alma para aprender aos 15 anos, plantar média brasileira, com variações para mais ou para menos consoante as pés em solo firme aos 30, conhecer os desígnios do céu aos 50 e ditames condições socioeconômicas da família de origem do adolescente. do coração aos 60. Esta idéia de contínua mudança ao longo do desenvolvi- mento também se expressa na busca de Confúncio pelo Devemos considerar que o autor escreveu este texto há mais de 20 anos Temas similares são vistos nas prescrições talmúdicas para os estágios suces- e que hoje a adolescência invade muito mais a idade adulta... sivos da maturação da fé e na busca da salvação cristã (...) Um grupo de estudos da Associação Psiquiátrica Americana, para O mesmo autor também define a idade adulta como compreendendo exemplificar mais que estou descrevendo, constituído para estudar a duas etapas, cada uma delas com tarefas desenvolvimentais específicas: adolescência, na década de 1960, considerou os seguintes critérios para adulto jovem (dos 20 aos 40 anos) e (dos 40 aos 60 anos). Veja- final desta etapa vital: (a) separação e individuação dos pais, (b) estabele- mos que expõe. cimento da identidade sexual, (c) aceitação do trabalho como parte inte- grante do cotidiano da vida; (d) construção de um sistema pessoal de Tarefas desenvolvimentais da idade adulta jovem 20-40 valores morais, capacidade de relações duradouras e de amor sexual, ter- Desenvolver um senso de self e de outro: a terceira individuação no e genital, nas relações heterossexuais e (e) regresso aos pais numa Desenvolvimento de amizades adultas nova relação baseada numa igualdade relativa. Desenvolver a capacidade para a intimidade: tornar-se um cônjuge Tornar-se pai/mãe em termos biológico e psicológico ADULTECER Separação psicológica dos pais e desenvolvimento de um relacionamento com eles de mutualidade e igualdade e facilitação do desenvolvimento da meia-idade Não é fácil, em nossos dias, descrever o que é ser adulto. A complexidade, Formação de uma identidade profissional adulta a diversidade e as singularidades da cultura contemporânea nos revelam Desenvolvimento de formas adultas de brincar diferentes manifestações do ser adulto. É necessário referir, de início, que Tarefas desenvolvimentais da meia-idade encontraremos várias "fases" nessa etapa da vida, particularmente quan- do a expectativa média de vida passou de 35 anos, na década de 1930, em A aceitação do corpo que envelhece nosso país, para quase 70 anos, na passagem para novo século. Poderá, Aceitando a limitação do tempo e a morte pessoal por outro lado, ser interessante fazer um breve percurso histórico, com a Manutenção da intimidade ajuda do clássico Tratado de Psiquiatria, de H. Kaplan e B. Sadock, em Reavaliação dos relacionamentos particular o capítulo Idade Adulta, de Calvin Colarusso. Deixo ao leitor a Relacionamento com os filhos: deixando ir, atingindo a igualdade e integrando novos membros à família ressalva de que embora os tratados de psiquiatria não me pareçam me- lhores parâmetros para se definir o que é ser adulto, pois estamos falando Relacionando-se com os pais: inversão de papéis, morte e individuação de normalidade, temos de começar por algum lado e, sendo médico, pre- Exercício do poder e posição: trabalho e papel do instrutor10 JOSÉ OUTEIRAL Capítulo DO ADOLESCER AO ADULTECER 11 O leitor deve considerar que em um país como Brasil, temos de seus pais depois da adolescência. Ocasionalmente levarão muito tempo pensar que convivemos com o pós-moderno em um país que nem bem é até que possam ter, por sua própria conta, as mesmas facilidades e benes- moderno, como tão adequadamente coloca Sérgio Rouanet. Assim, estou ses que têm nas casas dos pais. escrevendo sobre estratos sociais e culturais mais favorecidos, dos espa- terceira tarefa se refere à aceitação do que vai se ços urbanos modernos e com acesso à educação, saúde e emprego. Nas fazendo, inexoravelmente, adulto, muito na dependência da hereditarie- classes sociais marginalizadas encontramos situações diversas como, por dade e também por parte da cultura e do ambiente. Quando crianças a exemplo, as avós cuidando sozinhas dos netos, pois o avô não muito imagem do corpo que teremos quando adultos é geralmente idealizada, em casa, e pais das crianças, adolescentes ainda, estão nas ruas. A pas- pautada pelos padrões estéticos da época (da forma em excesso da "maja sagem da infância ao mundo adulto, nesses espaços, é muito rápida. desnuda" de Goya, nos quinhentos, até a esquálida Twygi dos anos sessen- ta do século XIX). À medida que tempo passa vamos tendo um corpo A TRANSIÇÃO DA ADOLESCÊNCIA AO MUNDO "real", não fantasiado, determinado pela genética, que, invariavelmen- ADULTO te, comporta uma ferida narcísica. A aceitação do corpo adulto não é uma tarefa simples. Feitos comentários "introdutórios", vejamos como ocorre, em um sentido geral a transição da adolescência à vida adulta. Certamente a protelação do ingresso na vida "adulta" por parte dos A etapa final da adolescência apresenta, a meu ver, tarefas específi- adolescentes se deve a vários fatores além dos que referi. Aspectos cultu- cas. rais e econômicos são importantes. A valorização excessiva do estilo de A primeira delas diz respeito ao estabelecimento de novas relações vida adolescente e a esteticização desta etapa como símbolo de beleza são com relações de independência e de menor idealização. O elementos que contribuem para que a adolescência se prolongue. bebê humano é aquele que nasce em maior estado de desamparo físico Assim temos "adultescentes": vejamos como este termo é referido e psíquico dentre todos mamíferos. Na infância, em função de nossas no livro Um glossário para os anos 90, de David Rowan. fragilidades e inseguranças, necessitamos de pais idealizados e fantasia- Adultescente pessoa imbuída de cultura jovem, mas com idade dos como muito "poderosos": assim nos sentimos protegidos. Desenvol- suficiente para não o ser. Geralmente entre os 35 e 45 anos, adul- vemos fortes vínculos de dependência, dependência esta proporcional às tescentes não conseguem aceitar fato de estarem deixando de ser nossas ansiedades: à medida que vamos ingressando nas etapas finais da jovens. adolescência, as relações com nossos pais mudam. Os vínculos serão de No mundo contemporâneo, ocidental e urbano, particularmente nas menor dependência emocional e material e de menor idealização. A desi- dealização dos pais, quando aceitamos como "seres comuns", como classes sociais mais favorecidas, "ser" ou "parecer ser" um adolescente é um objetivo de muitos indivíduos em idade para serem adultos. A Folha de nós, com suas dificuldades e limitações, é um marco importante neste São Paulo, em seu caderno Mais!, de 20 de setembro de 1998, abordou processo. A segunda tarefa se refere às questões ligadas às atividades profissio- tema dos adultescentes. Este neologismo expressa a permanência de valores nais Devemos estabelecer uma diferença entre vocação e escolha profissi- adolescentes na vida adulta e é uma mistura, no idioma inglês, das pala- vras "adulto" e onal. Vocação é um conjunto de habilidades inatas que o ambiente identi- fica e, eventualmente, trata de desenvolver. A escolha profissional diz res- Analisando a crescente infantilização da cultura contemporânea, peito a fatores econômicos e sociais, ao mercado profissional numa deter- sociólogo inglês, Frank Furedi, desenvolve, no caderno Mais!, da Folha de minada época e lugar. As possibilidades profissionais estão, hoje, bastante São Paulo, de 25 de julho de 2004, um artigo sobre a síndrome dos kida- difíceis para os jovens que buscam postergar ingresso no mercado de dults, escrevendo que "... fusão em inglês das palavras criança e adulto, os trabalho. Eles permanecerão, então, bastante tempo morando na casa de kidadults questionam noções como maturidade e autonomia e põem em xeque a patologia da vida adulta na sociedade contemporânea". O mesmo autor espe-12 JOSÉ OUTEIRAL Capítulo DO ADOLESCER ADULTECER 13 cifica, ainda mais, algumas singularidades considerando que "...é impor- (pessoas que permanecem no ninho). No Japão, são conhecidas tante não confundir adultescentes com as pessoas descritas como estando na "meia- como "solteiros" parasitas, e nos EUA são descritas por diversos juventude". Estas se encontram uma geração à frente dos adultescentes. São pessoas nomes: "boomerang Kids" (filhos-bumerangue), adultos co-resi- dentes ou "returnees" (retornados). Em julho de 2001 um estudo de 35 a 45 anos que se vêem como estando na vanguarda da cultura jovem; elas encomendado pela Abbey National confirmou a descoberta e indi- passam por uma fase conhecida como "mediascência" ("middlescence"), um esta- cou que a proporção de adultos jovens que retornam para a casa do de espírito que resiste ferozmente a tudo que costuma acompanhar a chegada dos pais depois de uma fase inicial longe dela quase dobrou, de da meia-idade". 25%, em 1950, para 46%, hoje. Uma pesquisa encomendada pela Vários autores registram que é cada vez maior número de adultos BTopenworld em 2002 concluiu que 27% dos jovens que deixam a que permanecem na casa dos pais. Na Europa chega a cerca de 20% a por- casa dos pais pela primeira vez voltam pelo menos uma vez e que centagem de maiores de 30 anos que permanecem em seus lares de ori- "um em cada dez jovens recém-independentes volta a viver na casa gem. Frank Furedi escreve que no Japão 70% das solteiras de 30 a 35 anos dos pais até quatro vezes até saírem de casa de maneira que trabalham vivem com os pais, e que número de filhos adultos que Uma nova definição, dando conta do que estou escrevendo são as girlies, residem com pais nos Estados Unidos vem subindo constantemente: 18 lheres adultas que abdicam de seu papel adulto e portam-se como meninas, Tanto milhões de jovens na faixa de 20 a 34 anos vivem com os pais, que repre- na forma de agir como na estética do vestir. senta 38% dos adultos solteiros jovens. Este autor não considera correto enfatizar que esta situação se deve, exclusivamente, a fatores econômicos A adolescência, período de desenvolvimento e estilo de vida contemporâneo, e escreve que "... no Japão, onde a tendência é mais desenvolvida, freqüentemen- expande-se cada vez mais. Jacqueline Barus-Michel, em seu texto Entre sofri- te se comenta a riqueza relativa dos jovens solteiros de 20 a 34 anos que ainda mento e violência (Haag, 2007), segue nossa maneira de pensar e escreve: vivem na casa dos pais. É fato largamente reconhecido que 0 boom recente na ven- adolescente é uma criação da cultura ocidental contemporânea, da de produtos de luxo vem sendo movido pelo consumo conspícuo dos solteiros em que prevalece um culto da infância, que se acompanha de um parasitas, muitos dos quais vivem com os pais... Nos Estados Unidos as empresas movimento de postergação da entrada na fase adulta, seja porque têm como alvo justamente mercado dos filhos-bumerangue, já que esses consumi- vigora a idéia de aproveitar ao máximo um período supostamente dores são vistos como possuindo uma renda disponível muito alta. A insegurança isento de preocupações, seja porque se tem em vista favorecer um econômica pode ajudar a explicar por que alguns filhos crescidos ainda vivem desenvolvimento que possibilite um preparo para a assunção de tarefas adultas da vida. com seus pais, mas não ajuda muito a lançar luz sobre processo como um todo". No Brasil algumas estimativas apontam que, nas classes médias, Estas considerações me levam a convidar leitor a brincar, através de jovens deixam a casa dos pais em torno de 5 anos depois do período em gestos criativos e espontâneos, de muita seriedade, refletindo como que seus pais deixaram a casa paterna. A condição econômica é, certa- assim como a arara-azul, mico-leão-dourado, tamanduá-bandeira, e mente, um fator, onde ingresso no mercado de trabalho, como sabe- tantos outros animais os "adultos" podem ser considerados como uma mos, é bastante difícil para jovens. Nas classes sociais menos favoreci- espécie "em Esta situação é muito diferente da fantasia sempre das, entretanto, os jovens deixam a casa dos pais mais cedo. São inúmeros presente em diversas culturas e nos mitos de encontrar a "fonte da eterna fatores a serem considerados. Uma "nomenclatura" surge e vale a pena, mais uma vez, retornar ao artigo de Frank Furedi, Não quero ser grande, no caderno Mais!, já refe- BIBLIOGRAFIA rido. Ele registra: Cardoso M. (Org.). Adolescentes. São Paulo: Escuta, 2006. Haag C. A pedra no meio do caminho ou de como a adolescência "engoliu" os Em seu livro The Nesting Syndrome (A Síndrome do Aninhamen- adultos do planeta. Pesquisa FAPESP, 133 março de 2007. to), Valerie Weiner descreve essas crianças adultas como "nesters" Outeiral J. Adolescer. Rio de Janeiro: Revinter, 2007.QUEM ADULTO CAPÍTULO JOVEM? 2 Stela Marys Vieira dos Santos16 JOSÉ OUTEIRAL Capítulo 2 QUEM É 0 ADULTO JOVEM? 17 D ponto de vista científico muitos são mistérios, dúvidas e questio- namentos que a fase da adultez jovem esconde. Este capítulo objetiva Por que falar de ciclo vital da família em vez de focar apenas indiví- percorrer a reduzida produção científica ao apresentar uma revisão bibli- duo na etapa em que se encontra? Freqüentemente nos deparamos com ográfica que busca mostrar ao leitor as respostas sinalizadas por diversos famílias que vinham muito bem e de repente "tudo mudou". Muitas vezes autores à pergunta que título sugere. em decorrência de uma causa externa, por exemplo desemprego do pai. Em outras situações observamos que a passagem de uma fase para a outra do ciclo vital exige da família recursos internos que nem sempre estão dis- ADULTO JOVEM E CICLO VITAL DA FAMÍLIA poníveis. Os maiores estressores familiares costumam ocorrer nos pontos Talvez uma das questões que mais chame a atenção é a desproporcional de transição do ciclo vital, produzindo em muitos casos sintomas e disfun- atenção à psicologia do desenvolvimento do adulto jovem se comparada a ções. sua real importância na produção cultural e na geração de riqueza, isto Embora, isto seja comumente aceito na passagem da infância para a sem citar seu lugar como pais e cuidadores. Destacando potencial criati- adolescência, costumamos pensar que esta mesma crise não ocorre na VO da adultez jovem, Osório (2001) assinala que "Freud tinha 35 anos passagem para a adultez. quando lançou a "Interpretação dos Sonhos", Shakespeare estava com E quanto maior a ansiedade gerada na família em qualquer ponto de aproximadamente 37 anos quando produziu "Hamlet", Steven Spielberg transição, mais difícil ou disfuncional será a transição, mesmo quando a tinha 35 anos quando dirigiu "Os Caçadores da Arca Perdida" e Vicent passagem se dá para a vida adulta. Van Gogh pintou sua obra prima, "Os Comedores de Batatas", aos 32 Mas quando a passagem da adolescência para a adultez começa a ser anos. Miguelangelo produziu "David" aos 29 anos, e a decoração do teto marcada? A noção de infância foi descrita como uma invenção da socie- da Capela Sistina, aos 37 anos." Dados estes que sem dúvida nos incenti- dade ocidental do século XVIII, e a da adolescência, como uma invenção vam a estudar a complexidade deste universo pouco explorado. Mas para do século XIX (Áries, 1962), relacionadas ao contexto cultural, econômi- isto, entendo como imprescindível partir do que até agora foi publicado, CO e político daquelas épocas, enquanto que a noção de idade adulta jo- melhor dizendo, partilhar com o leitor aquilo que tivemos acesso sobre vem como uma fase independente poderia ser reclamada como uma in- tema. venção do século XX. Carter & Macgoldrick (1995) em seu livro "As Mudanças no Ciclo E que marcaria ingresso na adultez? casamento, nascimento Vital da Família" nos permitem um novo olhar, iniciando ciclo vital da dos filhos, a formatura? família com a saída do jovem adulto da casa dos pais em vez da tradicional Difícil responder, pois é crescente número de pessoas que optaram visão onde processo tem início na infância. por não casar, as mulheres que optam por não ter filhos, a crescente aceita- Apontam, como primeira etapa ou primeiro estágio, jovem adulto ção de casais homossexuais, casais separados, as famílias reconstituídas. saindo de casa. A revista Veja (junho/2003) afirma que há pelo menos 2 milhões de Assinalando, como princípio-chave desta etapa, a aceitação da res- crianças morando com casais homossexuais, só nos Estados Unidos, além ponsabilidade emocional e financeira pelo Destacam-se como princi- de assinalar que 10% da população é constituída de homossexuais. pais mudanças necessárias para prosseguir Voltando ao livro, Carter e McGoldrick (1995) ressaltam que, se con- siderarmos número de "famílias que vivenciam a morte do companhei- A) Diferenciação do eu em relação à família de origem. ro antes da terceira idade e aquelas que têm um membro cronicamente B) Desenvolvimento de relacionamentos íntimos com os adultos iguais. doente, deficiente ou alcoolista, que altera seu padrão de ciclo vital, C) Estabelecimento do eu com relação ao trabalho e à independência número de famílias "normais" é ainda menor. Além disso nos deparamos financeira. com outras variáveis próprias do nosso momento histórico: casamento com 2 salários, casamentos de "progenitor solteiro", casais não casados e18 JOSÉ OUTEIRAL Capítulo 2 QUEM ADULTO JOVEM? 19 casais recasados, adoções por progenitores solteiros e mulheres sozinhas Ao casar, a necessidade de estabelecer fronteiras em torno do novo de todas as idades..." subsistema, muitas vezes, cria problemas. Pais e sogros podem ser intrusi- neste novo contexto que se situa adulto jovem, "cuja tarefa primá- demais, e novo casal tem medo de colocar limites, ou casal pode ria é o acordo que deverá chegar com a sua família de origem, qual influ- ter dificuldade em estabelecer conexões adequadas com subsistemas enciará profundamente com quem, quando, como, e se ele irá casar, e ampliados, separando-se em um grupo fechado de duas pessoas. Às ve- como executará todos os outros estágios seguintes do ciclo vital familiar." zes, a incapacidade de formalizar, no casamento, um relacionamento de Se antigamente script já estava escrito ao sair da adolescência, hoje a casal, quando as duas pessoas estão morando juntas, indica que elas ain- gama de escolhas multiplicou-se, originando uma importante conflitiva da estão muito emaranhadas com suas próprias famílias de origem para intrafamiliar e intrapsíquica. "Um encerramento adequado desta tarefa definirem um novo sistema e aceitarem as implicações desse realinha- requer que jovem adulto se independize da família de origem sem rom- mento." per relações ou fugir reativamente. Considerada desta maneira, a fase de Segundo Groisman (1996) a influência da família de origem será mai- adulto jovem é um marco, é o momento de estabelecer objetivos de vida or ou menor dependendo do desenvolvimento e da consolidação da uni- pessoais e de se tornar um "eu", antes de juntar-se a uma outra pessoa pa- dade conjugal. Se casal consolidar paulatinamente a sua família nuclear, ra formar um novo subsistema familiar. Essa é a sua chance de escolhe- isso implicará uma perda de poder dos pais, que passarão gradualmente rem emocionalmente aquilo que levarão da família de origem e aquilo de uma posição atuante à posição de consultores, mais passiva em relação que irão criar sozinhos." E é neste sentido que as autoras entendem que a seus respectivos filhos. ciclo vital da família tem aqui seu início. Bowen (1991) em seu livro "De la familia al indivíduo" discute a im- A relação de adulto para adulto exige uma nova postura dos pais do portância de avaliarmos nível de diferenciação do nosso paciente com adulto jovem, permitindo uma comunicação menos hierárquica, e reco- relação à sua família de origem. Estará ele diferenciado ou apresenta um nhecimento das necessidades de ambos. apego emocional não resolvido, mantendo-se indiferenciado com sua fa- mília de origem? "Os problemas em mudar status podem assumir a forma de O autor observa que "no atendimento de vínculo emocional OS pais encorajarem a dependência de seus filhos adulto jovens, entre cônjuges é idêntico ao de cada um deles com sua respectiva famí- OU de jovens adultos permanecerem dependentes se rebe- lia de origem. larem e se afastarem, num rompimento de relações pseudo-in- dependentes com seus pais e O triângulo entre cada cônjuge com seus pais é principal e mais importante da sua vida, do qual toda pessoa toma como modelos relacio- O afastamento físico não necessariamente reflete um distanciamento nais triangulares e que se reproduzem em todas as relações futuras." do "programa Freqüentemente vamos nos deparar, dentro dos O conceito de diferenciação de si mesmo se relaciona com grau em consultórios, com pessoas que estão amarradas ao script definido pela família, mesmo estando morando a quilômetros de distância dela. que uma pessoa vai se diferenciando dos seus pais. Em um sentido amplo, a criança se separa fisicamente da mãe no momento do nascimento, mas processo de separação emocional é lento e complicado. Inicialmente "A mudança rumo ao status adulto requer uma forma de rela- isto depende muito da mãe e de sua capacidade de permitir ao filho cres- cionar-se mutuamente respeitosa e pessoal, em que jovens cer separado dela, mais que dos fatores inatos do filho. A isto tudo so- podem apreciar pais como eles são, sem precisar transfor- mam muitos outros fatores incluindo grau em que a mãe tem sido capaz má-los naquilo que eles não são e sem culpá-los por aquilo que de diferenciar-se dos seus próprios pais, da natureza da relação com seu não puderam ser. Os jovens adultos também não precisam sub- meter-se às expectativas e desejos paternos." marido e com outras pessoas significativas e por último estresse da rea- lidade e sua capacidade de suportar tensão.JOSÉ OUTEIRAL 20 2 QUEM ADULTO JOVEM? 21 "O grau de diferenciação determina estilo de vida de uma surgem ele foge, distanciando-se fisicamente, como fez com a família de pessoa e em que ponto a mudança é difícil. de diferenci- origem. Enfim, teremos infinitas formas do adulto jovem diferenciar-se ação se repete no matrimônio, tal e qual, que observamos ou emaranhar-se, e isto independe do local onde ele mora e sim da ca- com a família de origem. pacidade interna de estar só, mesmo que na presença do "Quanto mais baixo é o nível de diferenciação, mais forte é apego Carter & Mcgoldrick (1995) no livro anteriormente citado, As Mudan- emocional não elaborado com seus pais e mais intenso são mecanis- ças no Ciclo Vital da Família, enumeram uma série de pesquisas na área mos destinados a controlar a indiferenciação. Algumas pessoas man- da adultez jovem. têm-se dependentes, outras se afastam fisicamente e outras se afastam Nesta revisão bibliográfica que me propus a fazer, certamente este emocionalmente." Em um extremo encontramos as pessoas que se valem será livro mais citado. Apesar de não enfocar especificamente tema da da distância emocional dos seus pais, isolando-se emocionalmente quan- adultez jovem, as autoras acrescentam muito à discussão. Neste sentido do estão em contato físico com eles: se trata aqui de mecanismos intrapsí- gostaria de partilhar com leitor trechos desta leitura, assim como convi- quicos. Quando não há estresse emocional, essas pessoas podem intera- dá-lo a ler material na íntegra, pois em termos de desenvolvimento gir entre si com maior espontaneidade e liberdade, mas quando a ansie- humano livro aborda cada etapa do ciclo vital com igual riqueza. dade aumenta, mostram-se mais reservadas e isolam-se ainda mais. Entre outros aspectos, as autoras ressaltam aspectos culturais. "As- No outro extremo, autor aponta pessoas tão sensíveis à presença físi- sim como a individuação no ingresso da adultez jovem requer que che- ca do outro que para seu equilíbrio emocional se faz necessário um certo guemos a um acordo com a nossa família de origem, ela também requer grau de distância física. É como se que olhos não vêem,o coração que cheguemos a um acordo com a nossa etnicidade." não sente". Um exemplo extremo é daquelas pessoas que mudam de cida- Grupos étnicos diferentes vivem processo de individuação do adul- de para nunca mais voltar ou fazem muito raramente. Podemos obser- to jovem de forma diferente. "Para grupos como alemães e escandina- var "formas menos nítidas de distância física em todos graus." que valorizam a independência do jovem adulto, podem surgir pro- A maioria das pessoas aplica uma combinação de mecanismos inter- blemas quando isto não puder ser realizado, seja em virtude de um retar- nos e distância física, com certa preferência por um tipo de do desenvolvimental, como no caso de uma criança incapacitada, seja Bowen cita como exemplo, "uma pessoa que pode chegar a dominar um porque a necessidade de uma educação prolongada torna impossível pa- nível não demasiado de ansiedade com um mecanismo interno, como 0 ra jovem adulto tornar-se auto-suficiente. silêncio ou negando-se a falar. Somente quando a ansiedade alcança ní- Em grupos que não valorizam a independência em relação à família veis muito altos, recorre à distância física, por exemplo, saindo de casa." (assim como os italianos e porto-riquenhos), esse período pode ser parti- Ou seja, a questão não é sair ou não sair da casa dos pais, mas como cularmente difícil." isto acontece. "Se não houve diferenciação, a pessoa que saiu de casa está Para outros grupos a permissão da saída da casa dos pais fica vincula- ligada emocionalmente da mesma forma que aquela que ainda não saiu. da a determinadas condições. "Para gregos e judeus, em que sucesso Se separa com a ilusão de ter conquistado a sua "independência". Quanto e a família são altamente valorizados, um jovem adulto pode separar-se da mais rígido for este "corte" com seus pais, mais previsível será a repetição família para buscar seus objetivos de sucesso. Nas famílias judias a separa- deste modelo em relações ção em relação à família freqüentemente só é permitida na extensão que o O adulto pode não conseguir sair de casa por estar indiferenciado jovem adulto é bem-sucedido. Nestas famílias a ausência de sucesso é con- com seus pais. Mas outro adulto poderá estar morando em casa e viver siderada problema primário na fase de lançamento para a individua- de forma independente. E ainda poderemos ter um outro que sai de casa, ção. mas "vive na casa da Também tem aquele que foi morar na Aus- Nas famílias a esposa, tradicionalmente, passava a fazer trália para afastar-se dos pais e chegando lá buscou uma família substituta parte da família do marido e esperava-se que se conformasse a isso. O ób- onde tudo vai bem desde que não haja estresse, quando as dificuldades vio triângulo envolvendo a esposa e a sogra é repetidamente discutido22 JOSÉ OUTEIRAL Capítulo 2 QUEM É 0 ADULTO JOVEM? 23 nas descrições da família japonesa. Para irlandeses, fronteira em tor- Embora vivendo um grande conflito interno, um número cada vez no do casal é bastante cerrada, e um progenitor que oferecesse conselhos maior de mulheres opta por ter filhos cada vez mais tarde, priorizando a seria considerado "intrusivo". formação e a especialização profissional. As famílias não pretendam lançar seus filhos nunca, Antigamente casar era simplesmente parte da progressão "natural" mas em vez disso, absorver recém-chegados através do casamento e nasci- através da vida, parte do inevitável, a menos que acontecesse uma catás- mento. A expectativa é a de que todos permaneçam trabalhando e viven- trofe. "Só recentemente a nossa sociedade modificou suas normas a res- do juntos na mesma comunidade. Eles esperam que filhos adultos con- peito disso, na medida em que uma parte maior da população não se ajus- vivam primariamente com a família. Nessas famílias, as ambições dos fi- tava aos padrões tradicionais, e inclusive questionava a sua viabilidade." lhos de uma realização independente pode ser vista como uma ameaça à família, que pode responder como se tivesse havido uma traição à lealda- MATERNIDADE E PATERNIDADE de familiar. Neste sentido, as famílias italianas pretendem tomar conta dos filhos aconteça que acontecer." Ainda citando Carter & McGoldrick: nascimento dos filhos requer que os adultos avancem uma geração e se tornem cuidadores da geração CASAMENTO COMO RITUAL DE PASSAGEM jovem." Opinião esta marcada por Erikson ao discorrer sobre a fase. Ao mesmo tempo que tornar-se cuidador caracteriza a fase, também As cerimônias de casamento, mais do que qualquer outro ritual de passa- marca um dos seus principais conflitos. "Muitas vezes, pais são incapa- gem, são vistas como a solução para problemas, como a solidão ou difi- zes de colocar limites e exercer a autoridade necessária, ou não tem pa- culdades com a família ampliada. ciência para permitir que seus filhos se expressem à medida que se desen- O evento é visto como encerrando um processo, embora ele não o volvem, pela dificuldade de funcionarem como cuidadores, negam a con- encerre; "E eles viverão felizes para sempre" é mito. As famílias muitas dição de dependência dos filhos." vezes dizem: "finalmente eles se acomodaram", como se casamento re- solvesse alguma coisa, em vez de acontecer no meio de um complexo pro- Abrir espaço e colocar limite, eis um dilema diário ditado pela mater- nidade e paternidade. Dilema este que exige maturidade do adulto jo- cesso de mudança de status familiar. vem. "Ter filhos é fácil, difícil é criá-los..." "(...) casamento coloca para a família um estresse que não é As autoras ainda destacam as conquistas profissionais como um desa- pequeno, de abrir-se para um estranho que é agora um mem- fio importante quando acompanhadas da maternidade e paternidade. bro oficial de seu círculo íntimo. Freqüentemente, nenhum novo "No moderno casamento com 2 salários (e às vezes 2 carreiras) a briga membro foi acrescentado aos sistemas nos últimos anos. A ame- central nessa fase é quanto à divisão das responsabilidades e cuidados à aça dessa mudança pode afetar profundamente estilo de uma criança e pelas tarefas domésticas quando ambos pais trabalham em família; a tendência dos membros de se polarizarem e verem tempo integral. vilões e vítimas sob estresse dessas mudanças pode ser muito forte." Esse problema é central na maioria dos conflitos conjugais apresenta- dos nesse estágio, e freqüentemente leva a queixas de disfunção sexual e casamento costumava ser principal marco de transição para o depressão. Não é possível trabalhar proveitosamente com casais nesta mundo adulto, porque simbolizava a transição para a paternidade; atual- fase sem lidar com as questões de gênero e com impacto do funciona- mente ele muitas vezes reflete uma continuidade maior da fase da idade mento do papel sexual que ainda é considerado pela maioria de homens adulta jovem, uma vez que nascimento de filhos está cada vez mais adia- e mulheres." do para vários anos depois do casamento em função da pressão do merca- Realmente não surpreende que esta seja a fase do ciclo da vida familiar do de trabalho sobre a mulher. que possui o índice mais elevado de divórcios.24 JOSÉ OUTEIRAL Capítulo 2 QUEM 0 ADULTO JOVEM? 25 A análise das autoras sobre impacto da maternidade e paternidade ça pode aprender algo sobre relações que incluem amor e respeito sem para adultos jovens reflete universo dos casamentos tradicionais, idealização. que certamente não abarca a realidade fora dos livros. Frente às situações que não se tem controle, a tendência é simplificar. Há 100 anos, havia 3 possibilidades de ter filhos: dentro do casamen- Ser pai é://Ser mãe é: E ao lado dos 2 pontos encontramos conceitos que to (filho legítimo), fora do casamento (filho bastardo) ou por adoção de não definem, mas aplacam a ansiedade. É difícil suportar a complexidade casais heterossexuais. de algo que faz parte do universo de todos nós, seja como pais ou como fi- Mas, atualmente, muitas são as opções: lhos. Entretanto sabemos que esta é uma resposta que encerra contradi- ções, que é constantemente modificada pelas mudanças externas refletin- Barriga de aluguel. do diretamente no mundo interno de cada um de nós. Clonagem humana. Produção independente. A FAMÍLIA DE ORIGEM Adoção por homossexuais. Poderíamos, como nos filmes de Batman e Robin, perguntar: que estará Além disso, é possível casar sem ter como objetivo a procriação, assim acontecendo no outro lado de Gothan City? Paralelamente à constituição como procriar sem casar, ou que está cada vez mais freqüente, postergar destas novas famílias ou à simples saída de casa do adulto jovem encontra- a gravidez em função da carreira profissional. mos um outro cenário. Ou seja, se até aqui falávamos sobre O jovem que E IBGE revela que houve um aumento no número de famílias che- sai da casa dos pais. Como se sentem aqueles que ficam? Observamos na fiadas por mulheres, crescendo de 11,2% em 1991 para 16% em 2001. prática clínica que a saída do adulto jovem provoca mudanças, mobilizan- Enfim, são muitas as mudanças, são muitas as opções de escolha. Difi- do sentimentos de perda e abandono ou permitindo um recomeço na vi- cultando aos teóricos conceituar maternidade e paternidade. da do casal de adultos maduros (os pais). Por exemplo, toda a tecnologia disponível e a conseqüente multiplici- Muitos destacam ninho vazio de filhos, vazio de casal e vazio de pro- dade de escolhas permitem dispensar a função paterna? Para nos auxiliar jeto de vida, muitas vezes sendo retratado como uma época de depressão nesta reflexão gostaria de relembrar as palavras de Madeleine Davis e para as mulheres, especialmente para aquelas cujas vidas foram dedica- David Wallbridge no livro "Limite e Espaço Uma Introdução à obra de das ao lar e à família. Entretanto, a recente literatura sobre esta fase suge- re que esse fenômeno é muito mais imaginado do que real. Geralmente, D. W Winnicott: Quando bebê emerge da fase de dependência absoluta e começa a as mulheres ficam gratas pela oportunidade de recapturar tempo livre relacionar-se com pessoas separadas completas, pai torna-se importante e explorar novas opções. Elas não lamentam tanto fim da época de criar filhos como se imaginava. para ele enquanto pessoa; parte desta importância reside no fato de que, embora pai seja uma figura familiar para bebê, ele é essencialmente Neste momento, a conflitiva do adulto jovem soma-se a dos seus pais, diferente da mãe, a partir de quem bebê cresceu. É verdade que a rela- onde a ordem é "Lançamento dos filhos e seguindo em frente" (McGol- drik & Carter, 1995). ção com assume uma nova dimensão quando acaba a fusão: mas, para bebê e para a criança pequena, a mãe ainda retém uma caracterís- As autoras ressaltam que em termos gerais, essa transição e tarefa se relacionam com: tica subjetiva, pois é parte de sua função estar disponível para uma volta ao estado de fusão sempre que o bebê precisar. Com a criança pode 1. A mudança de função do casamento dos pais. aprender sobre fato de um ser humano ser diferente de si mesmo e dife- 2. O desenvolvimento de relacionamentos adultos entre filhos adul- rente de outros seres humanos, em outras palavras, singular. Aqui se vê tos e seus pais. um padrão que ele pode usar para sua própria integração ulterior. (...) a 3. A expansão dos relacionamentos familiares, para incluir parentes partir do pai como indivíduo separado, conhecido pelo que ele é, a crian- por afinidade e netos.Capítulo 2 QUEM É 0 ADULTO JOVEM? 27 26 JOSÉ OUTEIRAL DIFERENÇAS ENTRE GÊNEROS 4. A oportunidade de resolver relacionamentos com pais que estão en- velhecendo. As cobranças e as expectativas com relação a homens e mulheres adultos Embora a maioria se ajuste bem a esta transição de "ninho vazio" são as mesmas? O relógio biológico caminha na mesma velocidade para homens e mulheres? (Neugarten, 1970), a capacidade de fazê-lo depende, em parte, de como Balzaquiana no Novo Dicionário Aurélio é definida da seguinte for- ninho vazio é sentido. "A transição pode ser dificultada por um relacionamento conjugal ma: "diz-se de, ou mulher de 30 anos, ou mais ou menos esta idade." insatisfatório e um apego excessivo a um filho. Em algumas famílias, um Balzaquiano: relativo ou pertencente ao escritor francês Honoré de filho, adulto jovem que fica preso num triângulo destes, pode apresentar Balzac, ou próprio dele. Outra definição no mesmo dicionário: Grande sintomas nesse momento. Em outros casos, o fracasso em negociar esta admirador e/ou profundo conhecedor da obra de Balzac. transição pode ter um impacto retardado, interferindo com a capacidade Ao lermos estas definições podemos pensar que a mulher ao se apro- subseqüente da família de lidar com transições na terceira idade." ximar dos 30 anos recebe um adjetivo. E qual adjetivo correspondente Podemos pensar que o problema não é sair ou não sair, ficar ou não no homem? Parecem ser muitas as diferenças de gênero... ficar. O que importa é como se sai e como se fica... O livro A Mulher dos Trinta Anos foi escrita por Balzac em 1832. Que A pesquisa de Constance Ahrons sobre o impacto do divórcio sobre idade teria hoje aquela mulher atraente e sexualmente madura descrita os filhos jovens adultos de 19 a 24 anos (AFTA Conference, Washington, pelo escritor francês? DC, 1986) indica que divórcio dos pais pode ser muito difícil. Em entrevista ao jornal Zero Hora (27/10/02) a escritora gaúcha Lya Luft responde a esta pergunta: "Acho que teria 50 ou 60 anos. O conceito "Embora, eles não se sintam responsáveis pelo divórcio, expe- renciam conflitos de lealdade, um senso de perda do lar familiar, de idade mudou. Quando eu era criança, uma mulher de 45 anos era ve- abandono pelos pais, raiva em relação ao pai por sua responsa- lha. Hoje, se envelhece aos 80 anos, e a mulher atinge a plenitude aos 40, bilidade maior em ter de tomar conta da mãe, mesmo quando 50 anos. Antes, havia preconceito de que só se poderia apaixonar até não foi ele quem iniciou divórcio, e um sentimento de preocu- 30 anos. Agora, não mais." pação em relação ao casamento." Já o psicanalista Alfredo Jerusalinsky responde que "teria entre 40 e O maior risco para os filhos é quando pais se agarram a eles ou eles 45 anos. Desde a época de Balzac, a vida se prolongou uns 30 anos, pro- assumem o papel de cônjuge substituto para preencher a solidão. O que duzindo uma extensão da juventude e um retardo no aparecimento dos lembra aquela máxima: ninguém pode estar casado com duas pessoas ao temores de envelhecimento na mulher. O que Balzac chama de plenitude mesmo tempo. filho que se coloca como cônjuge substituto terá mais na verdade se trata de uma formação psíquica reativa ao temor do enve- lhecimento." dificuldade em formar novos pares. Quando os pais são incapazes de recomeçar significativamente, fi- A partir dos dados fornecidos pelo IBGE, constata-se que, no Brasil, lhos podem ter dificuldade em seguir em frente na sua própria vida. há mais de 6 milhões de mulheres na faixa dos 30 aos 34 anos. Quase 2 milhões de brasileiras moram sozinhas. E 21% das mulheres que se divor- ciaram no país em 1998 tinham de 30 a 34 anos. Na faixa de 35 a 39 anos, esse índice é de 18%. Se as questões referentes ao aspecto profissional se assemelham, ob- serva-se, na prática clínica, que a conflitiva com relação à gravidez e ao corpo difere bastante entre homens e mulheres, revelando a pressão im- posta pelo relógio biológico da mulher.28 JOSÉ OUTEIRAL 2 QUEM É 0 ADULTO JOVEM? 29 A adultez jovem era, até pouco tempo, uma fase somente para homens. nham suas redes pessoais de amigos, uma vez que "amigos casados" As mulheres passavam de suas famílias de origem para as suas famílias de costumam reforçar a fusão, e não permitem aos cônjuges seus interesses e procriação sem nenhum espaço entre elas para ser independente. preferências individuais. Segundo Carter & McGoldrick "quanto mais a mulher se centra na carreira, menos visível suas opções de casamento. Ao contrário dos CRISE E FINITUDE homens, em que o grau de instrução aumenta a probabilidade de casa- mento, para as mulheres com formação universitária as chances de casar Relógio biológico, conflitos, exigências, consciência da finitude... depois dos 30 anos diminui Falar sobre processo evolutivo nos leva inevitavelmente a pensar sobre tempo e como a sua passagem repercute em cada etapa da vida. Neste (...) quanto maior salário da mulher, menor índice de casa- sentido Colarusso (2000) alega que futuro é vivenciado de forma dife- mento. Uma vez que sempre foi esperado que as mulheres ca- rente no início e no final da fase adulto jovem. No início da década dos sassem com homens mais altos, mais velhos, mais espertos e 1920, o futuro é longo e se encontra aberto. O adulto jovem tem muito tem- mais ricos do que elas. A única categoria que se espera que a po para dominar suas tarefas evolutivas, mas, no final da década dos 1930, mulher seja "mais e melhor" era na atratividade física. uma atitude diferente em relação ao futuro começa a ser percebida por "(...) filhas que utilizam inteiramente a idade adulta jovem para meio de uma mudança gradual do foco sobre tempo, passando do já vivi- desenvolvimento pessoal tendem a fazê-lo a uma distância do para o que ainda resta viver. O passado fica cada vez mais longo e estra- maior de suas famílias de origem do que OS filhos, provavelmen- tificado, graças à realização da maioria dos aspectos da vida adulta, com te porque existe uma menor aceitação familiar do desenvolvi- sucesso ou não. Gradualmente, o futuro passa a ser reconhecido como mento individual feminino." uma época em que se antevê uma limitação das oportunidades de trabalho, (....) ainda hoje tendem a desistir da universidade e de um em- pesadas responsabilidades domésticas, envelhecimento e doença." prego muito mais do que homens. Também é verdade que os Ainda dentro desta mesma idéia do luto pela finitude, Elliot Jaques, homens têm menos opções de desistir da carreira da ascen- citado por Osório (2001), busca explicar a correlação entre alta criativida- são profissional. de e morte prematura em artistas (e outras pessoas criativas). Levanta a A amizade constitui um recurso extremamente importante para as hipótese que o auge, a glória de pessoas, como, por exemplo, James mulheres durante toda a vida (Rubin, 19985). Dean, Mozart e Chopin viessem acompanhadas pela sua morte. Jaques Os homens podem ter conhecidos com quais passam o tempo, mas entende que "há um paradoxo nesta etapa de adulto jovem: a pessoa tem dificilmente amigos íntimos em quem confie. data marcada para terminar a morte está do outro isto é, as con- Schydlowsky (1983) demonstra que a importância das amizades ínti- quistas psicológicas do adulto jovem se acompanham de uma maior cons- mas femininas das mulheres diminui da adolescência para a idade adulta, ciência da mortalidade. conforme elas centram-se em encontrar um companheiro e estabelecer um casamento, e depois aumenta por todo restante do ciclo de vida. As CLASSIFICAÇÕES E CARACTERÍSTICAS DA FASE amizades femininas foram relatadas como mais importantes do que as Os diversos autores propõem diferentes divisões no ciclo vital a partir de amizades masculinas íntimas, e estão em segundo lugar, depois de boa uma variedade de conceitos que se mesclam, mas também se contrapõem saúde, em importância para a satisfação de vida. e se contradizem. A idéia a seguir é apresentar estas diferenças. Muitas vezes, sistemas de amigos e relacionamentos com a famí- Pensando em todos aspectos que integram universo do adulto lia ampliada mudam depois do casamento. Muitos casais têm dificuldade jovem, Osório (2001) defende que esta fase não significa um período mar- em manter amizades individuais e passam a ter, pelo menos nos primei- cado pela tranqüilidade e ausência de conflitos. Coloca que esta etapa, por ros anos apenas "amigos É importante que os cônjuges mante- estar entre as crises e os tumultos da adolescência e a importante crise da30 JOSÉ OUTEIRAL Capítulo 2 QUEM É 0 ADULTO JOVEM? 31 meia-idade, pode dar a enganosa impressão de "latência", de estabilidade. Griffa & Moreno (1993) no livro Chaves para a Psicologia do Desen- Ou de desenvolvimento "acabado", fechado, sem as singularidades huma- volvimento dividem a adultez em: nas. O autor ainda ressalva outra concepção errônea: a relacionada com a Juventude ou segunda adolescência (18 a 25 anos). ideologia da "adaptação" e conformismo como características da fase. Vida adulta jovem ou precoce (25 a 30 anos). Colarusso (2000) propõe a inclusão de tarefas evolutivas do adulto Vida adulta média (30 a 50 anos), amadurecimento adulto, crise da meia- jovem e maduro, para se referir às maiores ou principais experiências da idade. vida nesta etapa. Vida adulta tardia ou segunda vida adulta (50 a 65 anos). Tarefas evolutivas do adulto jovem (20 a 40 anos): Quanto à vida adulta jovem autores caracterizam esta como a etapa Desenvolvimento de um sentido de self e do outro a terceira indivi- do encontro ou do conflito entre gerações, da continuidade ou desconti- duação. estabelecimento de um self separado dos pais é a maior tare- nuidade entre as idades. período em que as pessoas começam a mo- fa do adulto jovem. A primeira individuação ocorre de forma exclusi- delar seu projeto de vida, sua vocação, Embora ainda tenham de fazer importantes escolhas de vida, estas, diferentemente do que ocorre na ado- va entre a criança, a mãe e o pai. Durante a segunda individuação lescência, são feitas já no decorrer de um caminho, e assim as pessoas colo- relacionamentos se expandem para incluir importantes relacionamen- cam à prova ou modificam seu plano de vida." tos não familiares. A transição da segunda para a terceira individuação Griffa & Moreno destacam a importância da intimidade, entendendo é uma experiência do adulto jovem, estimulada pela crescente separa- que a construção da mesma se dá a partir da passagem por 3 diferentes ní- ção intrapsíquica dos pais e pela solidão que se segue, podendo esta la- veis: primeiro caracteriza-se pela tarefa, encontro com outro é medi- cuna ser preenchida pela formação da família procriativa. atizado pela tarefa. Este é nível predominante na primeira infância ou 2 Desenvolvimento de amizades adultas, mais difíceis de serem manti- em casos psicopatológicos de adultos esquizóides. O segundo nível de das. E à medida que as pessoas casam e nascem filhos, as amizades relação interpessoal surge quando a tarefa deixa de ser principal ponto tornam-se cada vez mais "amigos do casal". de contato vincular e de integração grupal. A aproximação com outro é 3 Desenvolvimento da capacidade para a intimidade: tornar-se um côn- agora mediatizada e regulada por um sistema de explícitas ou im- plícitas. Isto supõe a internalização dessas normas e desempenho de juge. papéis dentro do grupo. Esse estágio representa uma "cultura grupal", Tornar-se pai ou mãe em termos biológicos e psicológicos. Como fi- própria da infância escolar. O terceiro nível, ou seja, aquele que objetiva a lhos que eram anteriormente, os que agora são pais administram a intimidade no encontro com outro, sem predomínio da tarefa ou do criação de seus próprios filhos e submetem-se a profundas mudan- sistema de normas. Na relação de intimidade, as normas do vínculo são ças intrapsíquicas como resultado do reexame simultâneo de suas permanentemente discutidas. Aquilo que no início era proibido e evitado próprias experiências como filhos e do crescente sentido de si pró- pode passar a ser admitido ou até mesmo tornar-se habitual. A intimidade prios como adultos. supõe uma reflexão permanente sobre vínculo, sobre a definição do 5 Separação psicológica dos pais e desenvolvimento de um relaciona- vínculo, sobre grau de compromisso pessoal em jogo. Supõe uma afeti- mento com eles de mutualidade e igualdade e facilitação do desen- vidade e uma sexualidade menos centrada no eu e menos narcisistas. É volvimento da meia-idade. Os relacionamentos reais e intrapsíquicos uma relação de amor, em que predomina a preocupação com outro. com pais passam por dramáticas mudanças durante a fase do adul- Neste terceiro nível das relações interpessoais há uma necessidade pre- to jovem. mente de estar juntos, de compartilhar experiências, de abrir e de abrir-se para a mútua intimidade, para profundo, para interior. Paradoxal- 6 Formação de uma identidade profissional adulta, encontrando um mente, porém, enriquece e fortalece a identidade individual. lugar gratificante no mundo do trabalho. Keniston (apud Lids, 1983) compreende que a juventude surgiu com 7 Desenvolvimento de formas adultas de brincar. crescimento das complexidades das civilizações pós-industrializadas.32 JOSÉ OUTEIRAL Capítulo 2 QUEM É 0 ADULTO JOVEM? 33 Os comprometimentos da vida adulta não ocorrem imediatamente após Somente é possível O uso máximo de habilidades e perícias quando a a adolescência. Esta pode até prolongar-se, e os adolescentes tardios e jo- pessoa não é perturbada por ansiedade ou temores e é capaz de ser realis- vens adultos solteiros fazem parte do grupo "juventude". ta a respeito do que tem de positivo e do que tem de negativo. Keniston entende que a juventude é um estágio distinto no ciclo da vida através do qual passa apenas um número limitado de pessoas. Estas, (...) resposta madura implica que foram vencidas as tendências e que já adquiriram uma identidade de ego e autoconceito, estão presas vicissitudes da infância e da adolescência. A busca constante de entre as tensões do eu e da sociedade. auxílio é uma indicação de desamparo. A irritabilidade freqüen- Mosquera (apud Rodrigues, 1978) propõe a seguinte classificação: te, ensimesmamentos e as explosões emocionais como res- postas ao desapontamento frustração do dia a dia, são rea- Adulto jovem (25 a 40 anos). cões adolescentes. A busca constante de excitação, alegria Adulto médio (40 a 65 anos). de querer coisas sensacionais também são sinais de motivação adolescente. Se um nível de motivação adolescente enraizar-se Adulto velho (65 até a morte). muito dentro da estrutura de personalidade do indivíduo, ele es- tará prejudicado para assumir as responsabilidades adultas. Mosquera diz que o adulto jovem emergente da busca de uma identi- dade anseia e busca fundir sua identidade com a de outros. Lembra que ingresso da adultez pode se dar marcado pela maturidade ou não. Erikson afirma que nesta fase o jovem deverá estar preparado para a inti- "Quando a sociedade frustra os desejos imaturos do adolescente, ele se midade e que esta envolve desenvolver força ética para ser fiel a estas sente impelido a utilizar comportamento mais adulto. Inversamente, se ligações, mesmo que elas impliquem em sacrifícios e compromissos signi- comportamento adolescente revelar ser gratificante e se as pessoas impor- ficativos. tantes na vida do jovem reforçarem o comportamento imaturo, haverá Pikunas (1979) no seu livro "Desenvolvimento Humano" divide a vi- pouca motivação para ingressar no modo adulto de viver." da adulta em início da vida adulta, estágio intermediário da vida adulta e estágio avançado da vida adulta. (...) muitos aprendem a exibir uma "fachada de maturidade" ex- terna, mas internamente, com freqüência sentem ansiedade e "A plena maturidade e status adulto chegam com a consolida- ambivalência. De vez em quando evitam fazer frente aos seus ção da estrutura da personalidade, desenvolvimento da identi- problemas e usam a fantasia, a racionalização a doença dade e a auto-realização, especialmente no que se relacionam mo meios para escapar a situações e eventos desafiadores. As aos papéis ocupacionais e conjugais que a pessoa irá assumir." oscilações de ânimo e emocionais também são um sinal do nível pré-adulto de viver. Pikunas identifica alguns rituais de passagem para a adultez." Embo- ra a sociedade americana não tenha ritos específicos a fim de marcar a (...) à medida que período adulto progride, vão desaparecen- transição para a idade adulta, tem um número de marcos ao longo da do as dúvidas normais sobre identidade valor próprio. Isto acon- estrada da maturação. Ter permissão para dirigir um automóvel aos 18 tece porque a pessoa recebe de outros adultos a confirmação de sua aceitação como par. anos, votar e casar, ingerir bebidas alcoólicas em lugares públicos são in- dicações da situação adulta, seus direitos e privilégios." A definição de maturidade na opinião do autor apresenta muitos pro- blemas. Tem que levar em conta diferenças individuais em capacidades e (...) valores, hábitos e mecanismos para enfrentar situações, suscetibilidade de auto-expresão, expectativas sociais, variações étnicas, aprendidos e praticados em níveis anteriores, podem facilitar culturais e subculturais, as circunstâncias particulares da vida de cada in- embaraçar uma pessoa como adulto. divíduo e uma série de outros fatores.34 JOSÉ OUTEIRAL Capitulo 2 QUEM ADULTO JOVEM? 35 Pikunas aponta as seguintes características do adulto: áreas é aprofundado pela melhoria do teste de realidade durante este Interdependência emocional: equilíbrio entre dependência e inde- período. E neste estágio que a pessoa tem oportunidades invejáveis para a pendência. auto-realização. A menos que enfrente muitas situações estressantes, a 2 Interdependência social: aceitação de uma pessoa na sociedade adulta. consolidação dos ganhos obtidos até este ponto e uma avaliação legítima 3 Atividade participante: adulto maduro é capaz de agir com inicia- do eu conduzem a um progresso real na aplicação para a consecução de tiva e estabelecer metas. metas. 4 Aplicação de conhecimento e experiência: onde adulto avalia as im- No final da fase da vida adulta, uma pessoa está na posição de prog- plicações e possíveis conseqüências de uma decisão, avalia presente nosticar seu próprio futuro de modo, aproximadamente, exato e a se ajus- em termos de experiência anterior. tar de maneira correspondente à configuração da vida. 5 Comunicação de experiência: habilidade para relacionar satisfatoria- Para Pikunas, a idade adulta intermediária abrange anos da maior mente as experiências, especialmente as que são emocionalmente realização nos papéis ocupacionais (estima que as mulheres entram nesta importantes. fase aos 30 anos e homens aos 35). São anos geralmente mais produ- 6 Sensibilidade às necessidades dos outros. tivos da vida de uma pessoa, econômica, socialmente e em muitos outros Tratamento construtivo da frustração: crescente capacidade para adi- aspectos. A autoconfiança e senso de competência alcançam pico. ar a satisfação de necessidades psicológicas e controlar ou tolerar Este período é mais estável em termos de desenvolvimento da per- muito desapontamento, privação, ansiedade e frustração em geral. sonalidade, com poucas modificações de maior importância. Mas as alte- 8 Disposição para assumir responsabilidades adultas. rações significativas são necessárias no autoconceito para permitirem 9 Caráter moral: quando numerosos princípios éticos e morais são as- que uma pessoa se ajuste às realidades da vida, seja qual for sexo, e à ine- similados e começam a atuar como organizadores eficazes de com- vitabilidade do envelhecimento. portamento: "as decisões que tomo precisam ser válidas para resto Papalia & Olds (2000), no seu livro Desenvolvimento Humano, carac- da minha terizam a fase adulto jovem como período que compreende dos 20 aos A partir destas características o autor entende que início da fase 40 anos. adulta é período de consolidação máxima do progresso em desenvolvi- Defendem que, ao contrário do que era amplamente aceito, desen- mento. É a introdução do trabalho, casamento e criação de filhos, pró- volvimento não pára repentinamente após a adolescência. prios da vida adulta. Nesta época, a maioria das pessoas deixa a casa dos pais, assume seu As tarefas específicas do início da fase adulta incluem a consecução primeiro emprego, casa-se ou estabelece outros relacionamentos impor- de interdependência emocional, social e econômica, juntamente com o tantes, tem e cria filhos. Elas tomam decisões que irão afetar resto de casamento, paternidade e estabelecimento do lar. suas vidas: sua saúde, sua felicidade e seu sucesso. Neste estágio da vida a pessoa está estabelecendo a configuração de A abordagem de desenvolvimento de Paul Baltes sugere que cresci- sua personalidade adulta, qualquer que seja sexo, aumentando a auto- mento e declínio ocorrem num equilíbrio variável que difere de indiví- realização e continuando processo de desenvolvimento e ajustamento. duo para indivíduo. As escolhas feitas durante início da idade adulta Uma tarefa decididamente difícil é a consecução de autodireção e não têm muito a ver com modo de atingir este equilíbrio. domínio de grupo. O adulto socialmente maduro na opinião de Pikunas Como jovem adulto come, quanto bebe, se fuma, quanto pratica é em grande parte dirigido pelo íntimo e não controlado pelo grupo. de exercício, como lida com estresse todos estes fatores influenciam Durante anos iniciais da vida adulta, as pessoas geralmente passam funcionamento físico presente e futuro. a compreender sua natureza total. As ambições irrealistas da adolescência cederam lugar a metas mais práticas. autoconhecimento em muitas Além de estarem no auge do funcionamento sensório e motor, jo- vens adultos constituem a faixa etária mais saudável nos Estados Unidos.34 JOSÉ OUTEIRAL Capítulo 2 QUEM ADULTO JOVEM? 35 Pikunas aponta as seguintes características do adulto: áreas é aprofundado pela melhoria do teste de realidade durante este Interdependência emocional: equilíbrio entre dependência e inde- período. E neste estágio que a pessoa tem oportunidades invejáveis para a auto-realização. A menos que enfrente muitas situações estressantes, a pendência. consolidação dos ganhos obtidos até este ponto e uma avaliação legítima 2 Interdependência social: aceitação de uma pessoa na sociedade adulta. do eu conduzem a um progresso real na aplicação para a consecução de 3 Atividade participante: adulto maduro é capaz de agir com inicia- metas. tiva e estabelecer metas. 4 Aplicação de conhecimento e experiência: onde adulto avalia as im- No final da fase da vida adulta, uma pessoa está na posição de prog- plicações e possíveis conseqüências de uma decisão, avalia presente nosticar seu próprio futuro de modo, aproximadamente, exato e a se ajus- em termos de experiência anterior. tar de maneira correspondente à configuração da vida. 5 Comunicação de experiência: habilidade para relacionar satisfatoria- Para Pikunas, a idade adulta intermediária abrange anos da maior mente as experiências, especialmente as que são emocionalmente realização nos papéis ocupacionais (estima que as mulheres entram nesta importantes. fase aos 30 anos e homens aos 35). São anos geralmente mais produ- 6 Sensibilidade às necessidades dos outros. tivos da vida de uma pessoa, econômica, socialmente e em muitos outros Tratamento construtivo da frustração: crescente capacidade para adi- aspectos. A autoconfiança e senso de competência alcançam pico. ar a satisfação de necessidades psicológicas e controlar ou tolerar Este período é mais estável em termos de desenvolvimento da per- muito desapontamento, privação, ansiedade e frustração em geral. sonalidade, com poucas modificações de maior importância. Mas as alte- 8 Disposição para assumir responsabilidades adultas. rações significativas são necessárias no autoconceito para permitirem 9 Caráter moral: quando numerosos princípios éticos e morais são as- que uma pessoa se ajuste às realidades da vida, seja qual for sexo, e à ine- similados e começam a atuar como organizadores eficazes de com- vitabilidade do envelhecimento. portamento: "as decisões que tomo precisam ser válidas para resto Papalia & Olds (2000), no seu livro Desenvolvimento Humano, carac- da minha vida". terizam a fase adulto jovem como período que compreende dos 20 aos 40 anos. A partir destas características autor entende que início da fase adulta é período de consolidação máxima do progresso em desenvolvi- Defendem que, ao contrário do que era amplamente aceito, desen- mento. É a introdução do trabalho, casamento e criação de filhos, pró- volvimento não pára repentinamente após a adolescência. prios da vida adulta. Nesta época, a maioria das pessoas deixa a casa dos pais, assume seu As tarefas específicas do início da fase adulta incluem a consecução primeiro emprego, casa-se ou estabelece outros relacionamentos impor- de interdependência emocional, social e econômica, juntamente com o tantes, tem e cria filhos. Elas tomam decisões que irão afetar resto de casamento, paternidade e estabelecimento do lar. suas vidas: sua saúde, sua felicidade e seu sucesso. Neste estágio da vida a pessoa está estabelecendo a configuração de A abordagem de desenvolvimento de Paul Baltes sugere que cresci- sua personalidade adulta, qualquer que seja sexo, aumentando a auto- mento e declínio ocorrem num equilíbrio variável que difere de indiví- realização e continuando processo de desenvolvimento e ajustamento. duo para indivíduo. As escolhas feitas durante início da idade adulta Uma tarefa decididamente difícil é a consecução de autodireção e não têm muito a ver com modo de atingir este equilíbrio. domínio de grupo. adulto socialmente maduro na opinião de Pikunas Como jovem adulto come, quanto bebe, se fuma, quanto pratica é em grande parte dirigido pelo íntimo e não controlado pelo grupo. de exercício, como lida com O estresse todos estes fatores influenciam Durante anos iniciais da vida adulta, as pessoas geralmente passam funcionamento físico presente e futuro. a compreender sua natureza total. As ambições irrealistas da adolescência Além de estarem no auge do funcionamento sensório e motor, jo- cederam lugar a metas mais práticas. O autoconhecimento em muitas vens adultos constituem a faixa etária mais saudável nos Estados Unidos.36 JOSÉ OUTEIRAL Capítulo 2 QUEM 0 ADULTO JOVEM? 37 Costa & McCrae (1994), dentro de um modelo de traços de personali- de intimidade, competitividade e distanciamento, eles desenvolvem um dade, concluem que a personalidade adulta muda pouco, "em algum senso ético, que Erikson considerava a marca do adulto. ponto entre os 21 e 30 anos, a personalidade parece assumir sua forma Os jovens adultos que desenvolveram um forte senso de identidade final e Ainda assim alguns teóricos dizem que a personalida- a principal tarefa da adolescência, segundo ele estão prontos para unir de é mais que uma coleção de traços. Ela é a soma total do modo de pen- sua identidade com a identidade de outra pessoa. Eles estão dispostos a sar, sentir e se comportar de uma pessoa, e embora ela realmente apre- arriscar a perda temporária da identidade no coito e no orgasmo e em sente continuidade, parecem existir padrões definidos de mudança. amizades mais íntimas. Erikson divide em: Erikson distinguia a intimidade sexual, que ocorre em encontros casuais, da intimidade madura, a qual vai muito além da simples sexuali- Adulto jovem intimidade isolamento. dade. Somente depois de estarem prontos para este tipo de intimidade é Adulto generatividade X estagnação. que a "verdadeira genitalidade" pode ocorrer orgasmo duplo num rela- Adulto tardio integridade do ego X desespero. cionamento amoroso heterossexual, no qual compartilha-se da confiança e regulam-se ciclos de trabalho, procriação e recreação. Erik Erikson é psicanalista, mas ao contrário da psicanálise ortodoxa, A resolução desta crise resulta na "virtude" do amor: devoção mútua sua teoria da evolução psicológica do homem dá grande ênfase ao papel entre parceiros que escolheram compartilhar suas vidas, ter filhos e aju- significativo dos fatores sociais do comportamento humano e do desen- dar esses filhos a conquistar seu próprio desenvolvimento saudável. A volvimento da personalidade. Foi influenciado pelo trabalho de Margaret decisão de não satisfazer O impulso procriativo natural tem graves conse- Mead e outros antropólogos americanos. qüências para desenvolvimento, segundo Erikson. A exclusão de Erik- Ele encara o homem no seu meio total biológico e cultural e estu- son dos estilos de vida solteiros, celibatários, homossexuais e casais sem da a vida humana como um todo desde nascimento até a morte. filhos de seu plano de desenvolvimento saudável foi alvo de críticas. Papalia & Ols (2000) descrevem a teoria de Erikson, destacando que Colarusso (2000) atribui a Erikson duas grandes contribuições para a em cada fase do desenvolvimento humano, portanto, indivíduo tem que teoria do desenvolvimento: a divisão do ciclo vital em 8 estágios igual- adquirir algum tipo de habilidade e fazer alguma sorte de ajustamento às mente importantes e a descrição de uma importante polaridade dinâmica demandas da vida. Aparentemente existe um nível maturacional em que para cada estágio, tendo sem dúvida influenciado fortemente todos indivíduo está pronto para aprender habilidades e também existe um teóricos contemporâneos da vida adulta. nível de maturidade emocional para fazer este ajustamento. Quando tal No livro "Identidade Juventude e Crise" Erikson (1976) coloca que a ajustamento é feito na fase própria do processo evolutivo do indivíduo e contrapartida da intimidade é distanciamento: a facilidade em repudiar, ao nível normal, isso facilita a aprendizagem e ajustamento do próximo isolar e, se necessário, destruir aquelas forças pessoais cuja essência parece estágio evolutivo. Quando porém, por qualquer motivo, a tarefa evolutiva perigosa para indivíduo. Assim, a conseqüência duradoura da necessidade não é alcançada, ajustamento nos estágios subseqüentes se torna mais de distanciamento é a presteza em fortificar território próprio de intimida- difícil e, em muitos casos, pode até nunca ocorrer. de e solidariedade e em ver todos estranhos com uma fanática "supervalo- A sexta crise de desenvolvimento psicossocial de Erikson, intimidade rização das pequenas diferenças" entre familiar e desconhecido. versus isolamento, é a questão mais importante no início da idade adulta. Erikson acrescenta que enquanto na adolescência a fórmula é "eu sou", Os jovens adultos precisam estabelecer profundo comprometimento pes- ao ingressar na adultez deverá mudar para somos que soal com outros. Caso sejam incapazes ou tenham receio de fazê-lo, Com relação à generatividade, autor define que a evolução fez do eles podem sentir-se isolados e voltados a si mesmos. Entretanto, eles pre- homem um animal tanto ensinante como aprendiz, visto que dependên- cisam sem dúvida de certa dose de isolamento para pensar sobre suas cia e maturidade são recíprocas: homem maduro necessita ser necessi- vidas. À medida que trabalham para resolver as necessidades conflitantes tado, e a maturidade é guiada pela natureza daquilo que deve ser assisti-Capítulo 2 QUEM É 0 ADULTO JOVEM? 39 JOSÉ OUTEIRAL 38 do. A generatividade é, pois, de modo primordial a preocupação em esta- nem com a idade e nem, basicamente, com eventos externos, mas com progresso na realização do potencial de uma pessoa. belecer e orientar a geração seguinte. Vaillant (apud Papalia & Olds, 2000) define a idade de estabelecimen- Um psicólogo humanista influente foi Maslow (1954), que identificou uma hierarquia de necessidades (necessidades de fisiológicas, de segu- to que ocorre dos 20 aos 30 anos. Tendo como foco mecanismos de defesa, Vailant descobriu uma rança, de pertencer e de amor, de estima e de auto-realização). Somente modificação no uso de mecanismos de defesa na vida adulta. As defesas depois de terem satisfeito as necessidades mais básicas é que as pessoas imaturas (como a atuação, a hipocondria e a projeção) são utilizadas de for- podem se esforçar para as mais elevadas. ma menos freqüente que as defesas maduras (supressão, altruísmo, subli- As pessoas auto-realizadas, diz Maslow (1968), têm aguda percepção mação, antecipação e humor). O trabalho de Vailant sobre as defesas forne- da realidade, aceitam a si mesmas e aos outros, e apreciam a natureza. ce claras evidências da evolução da estrutura psíquica na vida adulta. Elas são espontâneas, altamente criativas e autodirigidas; elas são boas na resolução de problemas. Elas se identificam com outros e estabelecem Vaillant concluiu que as vidas são moldadas primordialmente pela relacionamentos satisfatórios e produtivos com outras pessoas, mas têm adaptação às circunstâncias e pela qualidade de relacionamentos susten- também um certo distanciamento, um desejo de privacidade. Ninguém táveis. Dos homens que aos 47 anos de idade eram considerados mais jamais chega a ser totalmente auto-realizado; a pessoa saudável está sem- bem ajustados, 93% tinham tido casamentos estáveis antes dos 30 anos e pre ascendendo a níveis mais satisfatórios. ainda estavam casados aos 50 anos. Maslow (1971) define maturidade em termos de "ascendência da ori- Vaillant identificou 4 padrões característicos ou mecanismos adaptati- entação quando a sociedade é um embaraço potencial ao vos: maduro, imaturo, psicótico e neurótico. desenvolvimento humanístico do indivíduo. Para Levinston (apud Papalia & Olds, 2000) a meta do desenvolvi- As necessidades mais baixas para a sobrevivência fisiológica, seguran- mento adulto é a construção de uma estrutura de vida que se forma na ju- ça, pertinência e estima e as mais altas para a auto-realização e entendi- ventude e na vida adulta jovem. mento cognitivo interagem, mas somente as últimas representam cresci- Fase da vida adulta: dos 17 aos 33 anos. mento genuíno em direção à maturidade. É a interação do comportamen- No centro da teoria de Levinson está a estrutura de vida em desenvol- to determinado por necessidades e conteúdo e restrições do ambiente vimento Essa estrutura é construída em torno do que a pessoa considera da pessoa que determina seu estilo de vida. mais importante. A maioria das pessoas constroem uma estrutura de vida Rosa (1983) no seu livro Psicologia Evolutiva ressalta a importância em torno do trabalho e da família. Para ele as pessoas passam quase meta- de Harry Stack Sullivan dentre principais teóricos do desenvolvimento de da vida adulta em transição, às quais podem envolver crises. humano Divide em 3 períodos de transição: Sullivan é psicanalista e dá maior ênfase aos fatores sociais da perso- nalidade do que Freud, pelo menos na sua primeira fase de seu trabalho. A) Transição adulta inicial (dos 17 aos 22 anos). Mudar-se da casa dos pais; A teoria de Sullivan se baseia na importância das relações interpessoais tornar-se mais independente. como fundamento das estruturas da personalidade. B) Ingresso na estrutura de vida do adulto jovem (dos 22 aos 28 anos). Fase adultícia: dos 20 aos 30 anos de idade. Escolher uma ocupação; casar-se; fixar casa e família; seguir um Para Sullivan, nesta fase do desenvolvimento humano, se tudo correu nho" e encontrar um menor. bem, encontramos indivíduo normal e emocionalmente amadurecido. C) Transição para a quarta década (dos 28 aos 33). Reavaliar o trabalho e Seu eu se mostra estável e sua experiência cognitiva é da modalidade sin- padrões familiares; criar as bases para a estrutura de vida seguinte. tática e caracterizada por elevada capacidade simbólica. Do ponto de vista Modelo Humanista enfatiza controle dos adultos de seu próprio de suas relações interpessoais, o indivíduo nesse período da vida é autô- desenvolvimento. Nesse modelo, as mudanças não estão relacionadas nomo no sentido de ser independente do controle dos pais. Quanto aoJOSÉ OUTEIRAL Capítulo 2 QUEM 0 ADULTO JOVEM? 41 40 processo de socialização podemos dizer que o mesmo se encontra com- Ao contrário de outros autores, Lids acredita que início da vida pleto, isto é, podemos afirmar, como diz Sullivam, que a sociedade trans- adulta não é definido cronologicamente, porque as pessoas podem ter formou um animal humano num animal completamente social. definido vocações e escolhido seu cônjuge na adolescência, e outras per- Ele reconhece que muitas vezes adulto recorre à regressão como manecerão fazendo tentativas em seus comprometimentos através de to- mecanismo de defesa e começa a comportar-se de acordo com níveis ima- da a década de seus 20 anos e podem sob certo aspecto ser considerados turos do seu processo evolutivo. Entretanto afirma que sua experiência adolescentes. profissional com adulto jovem foi principalmente com esquizofrênicos. O período termina em uma época mais ou menos indefinida, aproxima- Sullivan admite que alvo por excelência do desenvolvimento psico- damente quando OS filhos já não precisam mais ser centro das atenções, lógico do indivíduo é a sua maturidade emocional que capacita a lidar usualmente entre 35 e 40 anos, quando as pessoas conseguiram posições es- eficientemente com os problemas da ansiedade, da frustração e da ambi- táveis na sociedade, ou pelo menos quando compreendem que precisam valência. Ele afirma que, quanto maior for o grau de maturidade emocio- entrar em acordo como que são capazes de fazer com sua única vida. nal de uma pessoa, menor será a interferência da ansiedade no seu viver. Casar ou não casar eis a questão... "Embora comprometimento com Na época em que pais escolhiam marido para suas filhas, evitava uma outra pessoa acarrete perigo de ser levado pelas inadequações e em parte conflito interno, pois a escolha não era da "mocinha" do fil- infortúnios que ela possa ter, sua evitação envolve a perda da oportunida- me, e "bandido" era o pai da noiva. A possibilidade de múltiplas esco- de de ser significativa a vida com um cônjuge." lhas abre caminho para a ambivalência pela diminuição das possibilida- Em concordância com OS demais autores, para Lids a escolha do cônju- des de projetar a culpa de uma má escolha no pai da noiva. Conflito este ge e a escolha vocacional são as duas decisões mais importantes na vida. brilhantemente apresentado no filme "Colcha de Retalhos" de 1995, do "São duas resultantes fundamentais do longo processo de adquirir a condi- diretor Jocelyn Moorhouse. ção de adulto, e agora estas decisões tornar-se-ão as principais determinan- Neste sentido, Lids (1983) em seu livro "A Pessoa" ressalta que, para- tes do curso do desenvolvimento ulterior da personalidade do indivíduo." doxalmente, a capacidade de escolha conquistada pelo jovem adulto abre Estabelecendo algumas diferenças entre adolescente e jovem adul- caminho para o conflito. to, autor coloca que adolescente está lutando para definir quem é; Utilizando uma metáfora, Lids fala que, ao ingressar na adultez, jovem começa a sentir quem ele é e assim reconhece a possibilidade de jovens deixaram piloto e agora estão navegando por si sós mas foram conflito e disparidade entre seu eu emergente e sua ordem social. ensinados a navegar e receber mapas, embora mapas que não podem ser Um problema central do período é encontrar maneiras pelas quais senão aproximadamente precisos porque os arrecifes e as correntes se eu e a sociedade podem tornar-se mais congruentes; e uma tarefa crítica modificam constantemente. Praticaram sob supervisão aproximdamente do desenvolvimento está em conseguir a individuação." competente, fizeram viagens em águas fechadas, e agora assumem a res- Além dos aspectos afetivos, Lids destaca cognitivo. "As característi- ponsabilidade por si próprios e têm de aceitar as conseqüências de suas cas da juventude dependem da consecução do estágio de operações for- decisões. Usualmente decidem realizar jornadas em casais e em breve mais no desenvolvimento cognitivo e para depois passar a uma aprecia- outros indivíduos se juntam a eles, desejados ou não, cujo bem-estar de- ção da relatividade (reconhecer a relatividade dos valores, bem como dos penderá de suas habilidades e estabilidade. costumes) dos sistemas sociais e dos papéis e costumes sociais que abran- Mas o autor ressalta que nem sempre será assim, pois, alguns ainda gem; o reconhecimento da maleabilidade das pessoas e de quem são e o ficarão indecisos sobre seu futuro, ou que rota tomarão para algum lugar que se tornam dependem de como e onde são criadas; e de transcender a desconhecido, ou se experimentarão parceiros imaginariamente ou na moralidade convencional e até a pós-convencional do contrato social a realidade antes da partida. Alguns ainda estão incertos sobre onde encon- fim de ser obtida uma justiça universal superior a respeito da qual indi- trarão seu lugar no esquema ou se existe mesmo um esquema para eles. víduos possam e devem formar seus juízos."42 JOSÉ OUTEIRAL Capítulo 2 QUEM 0 ADULTO JOVEM? 43 (...) jovem reconhece que suas trajetórias, a dele e de seus pais, agora divergem porque estão se deslocando para metas Pesquisas realizadas na Austrália que utilizaram um arcabouço teóri- diferentes. Agora poderão apreciar seus pais de forma mais rea- eriksoniano sugere que a solidão é mais comum entre aqueles adultos lista e já não necessitam que eles dirijam sustente, pois as que não atingiram a intimidade emocional (Boldero & Moore, 1990). figuras foram internalizadas e assim são uma parte de sua identi- Cada um de nós tende a recriar em nossas relações de parceria pa- dade, e ele não precisará apegar-se imediatamente a outra pes- drão que trazemos em nosso modelo interno de apego. soa para evitar a sensação de vazio. A autora cita as novas pesquisas que apontam que adultos com mode- Lids destaca mais algumas características da fase: distinção entre fan- los de apego seguros são inclinados a confiar nos outros, a encarar seu tasia e o que na realidade é possível realizar, postergação da gratificação, parceiro como amigo e como amante, a mostrar pouco ciúme e reduzida maior tolerância à frustração, mesmo em situações de frustração não ansiedade quanto a seu afeto ser recíproco ou não. Eles proporcionam recorrem com muita freqüência a uma busca de consolo regressivo em mais apoio a seus parceiros, em situações de tensão ou ansiedade, e bus- sensualidade, no sono, ou na perda de autoconsciência pelo uso de álcool cam conforto com parceiro com mais facilidade. ou drogas. "Agora que os problemas de dependência e conflitos simbióti- COS foram resolvidos, as fronteiras do eu estão suficientemente seguras "Entre 30 e 40 anos, os jovens adultos tornam-se mais indepen- para que jovens adultos não temam mais inconscientemente perder dentes, mais confiantes, mais afirmativos, mais voltados para as suas identidades quando vão em busca de intimidade." conquistas, mais individualistas e menos governados por regras sociais. Esses padrões diferem um pouco nos adultos que não adotam um mais dentre principais papéis, tais como de "Chegou a ocasião para OS adultos jovens percorrerem seu não casar não ter filhos." próprio caminho no mundo; eles podem atrasar e ficar sob proteção do lar, mas não podem permanecer por muito tempo sem comprometimento da direção que isso proporciona. A Baseada em pesquisas Bee salienta que "adultos não-casados são, em escolha de uma ocupação e de um parceiro são decisões que média menos felizes e mais propensos à doença. Adultos sem filhos não lançam em seu caminho." experimentam mesmo grau de declínio na qualidade conjugal que aqueles com filhos. O momento certo e a seqüência dos inúmeros e im- Hellen Bee (1997) em seu livro O Ciclo Vital confirma a idéia dos portantes papéis dos jovens adultos são também importantes. Qualquer autores anteriormente citados destacando aprendizado e desempenho desvio significativo do momento entendido como normal tem um preço de 3 papéis fundamentais para a vida adulta: profissional, conjugal e a ser pago". parental. Onde detalhes do momento certo e do conteúdo desses pa- péis diferem, obviamente, de grupo social para grupo social. o PENSAMENTO ADULTO O indivíduo demonstra sua capacidade de realizar uma adultez sau- dável mediante sua capacidade de realizar (amar e trabalhar). senso comum nos diz que os adultos não pensam igual às crianças e aos Weiss afirma que na vida adulta apego dos pais é totalmente aban- adolescentes. Eles se envolvem em diferentes tipos de conversas, compre- donado. Já Nydegger difere de opinião: tarefa do jovem adulto é a endem material mais complicado e usam sua maior experiência para re- solver problemas práticos. O senso comum está certo? obtenção de emancipação emocional dos pais, ao mesmo tempo que per- manece envolvido como filha ou filho". Papalia & Olds (2000) buscam responder a esta questão trazendo a Bee ressalta que a solidão tem seu auge nos anos iniciais da vida adul- posição de alguns autores contemporâneos. O pensamento pós-formal ta, anos esses em que tantos jovens adultos se encontram em um grau pode ocorrer com ou sem educação superior. A pesquisa e o trabalho teó- intermediário, tendo em parte se distanciado de sua família, embora ain- rico desde a década de 1970 sugerem que o pensamento maduro pode ser da não tenham formado uma parceria de intimidade. muito mais rico e mais complexo do que as manipulações intelectuais abs- tratas descritas pelo estágio superior de Piaget. O estágio de operações44 JOSÉ OUTEIRAL Capítulo 2 QUEM É 0 ADULTO JOVEM? 45 formais. pensamento na idade adulta muitas vezes parece ser flexível, B) Elemento experencial: como as pessoas abordam tarefas familiares ou aberto, adaptativo e individualista. Ele se baseia na intuição e na lógica. novas. Esse é aspecto de insight da inteligência. Ele nos permite Ele aplica os frutos da experiência a situações ambíguas. Ele se caracteriza comparar novas informações com que já sabemos e criar novas ma- pela capacidade de lidar com a incerteza, a inconsistência, a contradição, neiras de interpretar fatos, pensar com originalidade. O desempe- a imperfeição e o compromisso. nho automático de operações familiares (como reconhecer palavras) Um destacado pesquisador (Sinnott, 1984) propôs diversos critérios facilita insight porque libera a mente para trabalhar com material de pensamento pós-formal: desconhecido. C) Elemento contextual: como as pessoas lidam com seu ambiente. Esse é A) Mudar de marcha: capacidade de transitar do raciocínio abstrato pa- ra considerações práticas do mundo real (isso pode funcionar no pa- aspecto prático da inteligência. É a habilidade de avaliar uma situa- ção e decidir que fazer: adaptar-se a ela, mudá-la ou encontrar um pel, mas não na vida real). ambiente novo mais adequado. B) Causalidade múltipla, soluções múltiplas: consciência de que a maioria dos problemas tem mais do que uma causa e mais do que uma solu- ção, e que algumas soluções têm mais chances de funcionar do que Uma vez que as inteligências experencial e contextual são muito im- outras. portantes na vida adulta, testes psicométricos são menos úteis para C) Pragmatismo: capacidade de escolher a melhor entre diversas solu- medir a inteligência de adultos e prever seu êxito na vida do que para me- ções possíveis e reconhecer critérios para escolher. ("Se você quer a dir a inteligência das crianças e prever seu sucesso escolar. solução mais prática, faça isto; se quiser a mais rápida, faça aquilo".) Um aspecto importante da inteligência prática é conhecimento táci- D) Consciência de paradoxos: reconhecimento de que um problema ou to: conhecimento útil de como agir para atingir metas pessoais. É "sen- solução envolve conflitos inerentes. ("Fazer isso irá dar-lhe que ele comum" de como avançar, por exemplo: como ganhar uma promoção quer, mas acabará lhe trazendo infelicidade".) ou como evitar burocracia. Os pesquisadores sobre pensamento pós-formal questionam as ba- Em 1990, Salovey e Mayer, 2 psicólogos, criaram termo inteligência ses da avaliação psicométrica da inteligência adulta. Se teóricos pós-for- emocional. Eles referem-se à capacidade de compreender e regular emo- mais estiverem certos, os adultos podem se sair mal em questões e tarefas ções, reconhecer e lidar com nossos próprios sentimentos e sentimen- que não sejam significativas ou não reflitam suas experiências. Os críticos tos dos outros. Daniel Goleman (1995), psicólogo e escritor científico alegam que a idéia do pensamento pós-formal tem bases de pesquisa mui- que popularizou termo, especulou que a inteligência emocional pode to estreitas. ser em grande parte determinada em meados da adolescência. Todos nós conhecemos pessoas que se saem bem na escola, mas fra- Talvez ingrediente mais importante seja a autoconsciência, a qual cassam na carreira, ou, inversamente, fracassam na escola, mas têm êxito permite autocontrole e capacidade de lidar com a rejeição e desencora- na carreira. jamento. Empatia, controle de impulsos e capacidade de retardar a grati- A teoria da inteligência de Robert Sternberg (1987) abarca 3 elemen- ficação são outros elementos. Essas capacidades podem ser mais impor- tos da inteligência, os quais todos nós temos em maior ou menor grau e tantes para o sucesso, no trabalho e em outros lugares que QI. A inteli- que são úteis em diferentes tipos de situações: gência emocional não é oposto da cognitiva. QI te emprega, mas é o A) Elemento componencial: com que eficiência as pessoas processam as QE que te promove". informações. Esse é um aspecto analítico da inteligência. Ele diz às Embora papel das emoções no comportamento inteligente tenha pessoas como resolver problemas, como monitorizar soluções e sido confirmado, conceito de inteligência emocional é controverso, pe- como avaliar resultados. la dificuldade em medir.46 JOSÉ OUTEIRAL Capítulo 2 QUEM 0 ADULTO JOVEM? 47 Os críticos à teoria de Folwel questionam sua ênfase no conhecimen- A MORALIDADE ADULTA to cognitivo e alegam que ele subestima a maturidade da fé simples e não Na idade adulta, julgamentos morais muitas vezes parecem mais com- questionadora. plexos; a experiência e a emoção desempenham um papel cada vez mais Uma vez que estudos originais de Kolhberg foram realizados com importante. Para muitos adultos, o credo religioso é um guia para as deci- homens, Gilliam pesquisou sobre desenvolvimento moral das mulhe- sões morais, e a fé por si mesma pode se desenvolver durante a vida. res. Segundo ele, dilema das mulheres é conflito entre suas próprias Segundo Kohlberg (apud Papalia & Olds, 2000), avanço para a necessidades e as dos outros. Entretanto pesquisas posteriores mostram moralidade pós-convencional, plenamente baseada em princípios, de- que as evidências parecem não dar suporte a qualquer uma das alegações pende em grande parte da experiência. A maioria das pessoas não chega originais de Gillian: uma tendenciosidade masculina na teoria de Kolberg a esse nível até os 20 anos, podendo nunca atingi-lo. Duas experiências ou uma perspectiva feminina distinta da moralidade. Se existe um siste- que estimulam desenvolvimento moral nos jovens adultos são encon- ma alternativo de valores, ele não depende de sexo. tro com valores conflitantes longe de casa (como ocorre na faculdade ou Erikson (1968) afirma que medida que as áreas de responsabilida- nas forças armadas ou por vezes em viagens) e a responsabilidade pelo de adulta são gradualmente delineadas, quando encontro competitivo, bem-estar dos outros (como na paternidade). vínculo erótico e a inimizade irredutível são diferençados uns dos ou- A experiência leva adulto a reavaliar seus critérios do que é certo e tros, elas acabam ficando sujeitas aquele sentimento ético que é a marca justo. Assim, em relação aos julgamentos morais, estágios cognitivos não do adulto e que sucede à ideológica da adolescência e ao mora- contam toda a história. Evidentemente, é improvável que alguém cujo pen- lismo da infância. samento ainda é egocêntrico tome decisões morais num nível pós-convenci- Winnicott 1963) no artigo "Moral e Educação" acrescenta que a mo- onal; mas mesmo uma pessoa que seja capaz de pensar em termos abstra- ralidade mais ferrenha é a da mais tenra infância, que persiste como um tos pode não atingir nível mais alto de desenvolvimento moral a menos traço da natureza que se pode verificar por toda a vida do indivíduo. Imo- que a experiência acompanhe a cognição. Muitos adultos que são capazes ralidade para lactente é se submeter, à custa de seu modo pessoal de de pensar por si mesmos não rompem com o molde convencional, a viver. menos que suas experiências tenham preparado para a transição. Além disso, a experiência é interpretada num contexto cultural. "No época em que a criança está crescendo para estado A fé pode ser estudada de uma perspectiva desenvolvimentista? Se- adulto, destaque não é mais para código moral que lhe gundo James Fowle (1989) influenciado por Piaget e Kolhgerg, bem transmitimos: ela passou para coisas mais positivas, conjunto mo por outros teóricos Sua teoria enfoca a forma da de conquistas culturais da humanidade. E então, ao invés de fé, não seu conteúdo. A fé pode ser religiosa ou não-religiosa; uma pessoa educação moral, propiciamos à criança a oportunidade de ser pode ter fé num deus, na ciência, ou numa causa que atribui valor funda- criativa que a prática das artes e da arte da vida oferece a todos mental. Folwler nomeia a fé do adulto jovem de fé individuativo-reflexiva, aqueles que não copiam e não se submetem, mas desenvolvem os adultos que chegam a este estágio pós-convencional examinam suas genuinamente uma forma de auto-expressão." próprias crenças, independente da autoridade externa e das normas de grupo. Uma vez que adultos estejam profundamente preocupados com intimidade, o movimento em direção a esse estágio é, muitas vezes, dispara- do pelo divórcio, a morte de um amigo ou algum outro acontecimento es- tressante.48 JOSÉ OUTEIRAL 2 QUEM É 0 ADULTO JOVEM? 49 BRASILEIRO DOS 20 AOS 29 ANOS EDUCAÇÃO Segundo o censo demográfico do IBGE/2000 estima-se que a população ALFABETIZAÇÃO residente no Brasil seja de 169.369.557 de pessoas. Sendo que este total, Homens alfabetizados = 13.533.196 29.991.180 de pessoas, é constituído de adultos jovens com idade entre 20 Mulheres alfabetizadas e 29 anos. São cerca de 30 milhões os brasileiros que compõem univer- 14.261.652 dos anos iniciais da adultez jovem. Pessoas alfabetizadas entre 20 e 29 anos 27.794.848 Homens analfabetos 1.329.350 HOMENS MULHERES Mulheres analfabetas Mulheres entre 20 e 29 anos 15.128.634 866.982 Pessoas analfabetas com idade entre 20 e 29 anos 2.196.332 Homens entre 20 e 29 anos 14.862.546 Fonte: IBGE/Censo demográfico 2000. Fonte: IBGE/Censo demográfico 2000. ESTADO CIVIL NÍVEL ESCOLAR QUE FREQÜENTAVAM NA OCASIÃO DA PESQUISA DO CENSO DEMOGRÁFICO 2000 Casado(a) 7.909.863 Alfabetização de adultos = 97.553 Desquitado(a) ou separado(a) judicialmente = 270.385 Ensino fundamental 1.603.030 Divorciado(a) 149.601 Ensino médio 1.964.305 Viúvo Pré-vestibular 194.456 Solteiro(a) 21.174.101 Superior de graduação 1.757.864 Fonte: IBGE/Censo demográfico 2000 Resultados preliminares da Mestrado ou doutorado 56.806 amostra. Total de adultos jovens entre 20 e 29 anos que estavam estudando na URBANO RURAL ocasião da pesquisa 5.674.014. População urbana 24.923.101 Embora a maioria das pessoas entre 20 e 29 anos seja alfabetizada, menos População rural 5.068.079 nesta faixa etária é sem dúvida um dado bastante significativo. de 6 milhões em sala de aula comparados aos quase 30 milhões de pessoas Fonte: IBGE/Censo demográfico 2000. Fonte: IBGE/Censo demográfico 2000. FECUNDIDADE DOMICÍLIO COM APENAS 1 MORADOR Das 15.127.668 mulheres com idade entre 20 e 29 anos, 8.749.698 mulheres tiveram filhos. Sendo a média de filhos de 1,96 filho por mulher. O levantamento do IBGE informa que 5.068.079 pessoas entre 20 e 29 jovens nesta mesma faixa etária saíram da casa dos pais e/ou se moram sozinhas. Entretanto não dispõe da informação de quantos adultos anos Menos da metade das brasileiras nesta faixa etária tiveram filhos, e aquelas que optaram pela maternidade tiveram uma média de menos de 2 filhos, o independizaram que pode ser considerada baixa. Se considerarmos que estes dados Fonte: IBGE/Censo demográfico 2000. representam todas as regiões do país e abrangem todas as classes sociais, estes números parecem bastante significativos. Fonte: IBGE/Censo demográfico 2000.JOSÉ OUTEIRAL Capítulo 2 QUEM É 0 ADULTO JOVEM? 50 51 NÍVEL SOCIOECONÔMICO Ferreira ABH. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. O levantamento do IBGE informa rendimento mensal da pessoa responsável pelo domicílio com idade entre 20 e 29 anos. Importante Griffa MC, Moreno IE. (1993). Chaves para a psicologia do desenvolvimento ressaltar que estes dados não se referem a uma análise econômica do adolescência, vida adulta e velhice. São Paulo: Paulinas, 2001. adulto jovem, mas somente daqueles que constam no levantamento do Groisman M. Família é Deus. Rio de Janeiro: Eldorado, 2000. IBGE como responsáveis pela família. Lids T. A pessoa: seu desenvolvimento durante ciclo Porto Alegre: Artes médicas, 1983. Sem rendimento 683.987 Osório C. Adultos jovens, seus scripts e cenários. In: Eizirik C, et al. O ciclo da vida De 1/4 até 1 salário mínimo = 1.320.623 humana: uma perspectiva psicodinâmica. Porto Alegre: Artmed, 2001. Papalia DE, Olds SW. (1998). Desenvolvimento humano. Porto Alegre: Artmed, De 1 até 2 salários mínimos = 1.750.258 2000. De 2 até 3 salários mínimos = 1.008.222 Pikunas Desenvolvimento humano. São Paulo: McGraw-Hill, 1979. Rodrigues E. Vida adulta jovem. In: Psicologia e educação: desenvolvimento De 3 até 5 salários mínimos = 981.282 humano adolescência e vida adulta. Porto Alegre: Edipucrs, De 5 a 10 salários mínimos 672.624 Rosa M. Psicologia evolutiva. Rio de janeiro: Vozes, 1983. Veja, revista (2003). Adolescentes. São Paulo: Abril, julho de 2003. De 10 a 15 salários mínimos = 122.817 Winnicott DW. (1963). Moral e educação. In: O ambiente e processos de De 15 a 20 salários mínimos = 69.547 maturação. Porto Alegre: Artes médicas, 1990. Zero Hora, jornal. (2002). Adolescentes e adultecentes. Porto Alegre: RBS, De 20 a 30 salários mínimos = 31.226 27/10/02. Mais de 30 salários mínimos = 28.789 Fonte: IBGE/Censo demográfico 2000. CAUSA MORTIS Dos 52.324 óbitos de pessoas entre 20 e 29 anos registrados em 1998, 32.343 foram conseqüências de causas externas de morbidade e mortalidade. Fonte: Ministério da saúde, fundação nacional de saúde, departamento de informática do sistema único de saúde, sistema de informações sobre mortalidade SIM - levantamento de 1998. BIBLIOGRAFIA Bee H.O ciclo vital. Porto Alegre: Artes médicas, 1997. Bowen M. (1979). De la familia al individuo la del si mesmo en el sistema familiar. Buenos Aires: Paidos, 1991. Carter & McGoldrick. (1989). As mudanças no ciclo de vida familiar. Porto Alegre: Artes médicas, 1995. Colarrusso C. Idade adulta. In: Kaplan HI, Sadock BJ. Compêndio de psiquiatria dinâmica. Porto Alegre: Artmed, 2000. Davis M, Wallbridge D. (1998). Limite e espaço uma introdução à obra de D.W. Winnicott. Rio de Janeiro: Imago, 1982. Erikson (1968). Identidade Juventude e crise. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.LEMBRAR DO CAPÍTULO FUTURO, TERMINAR AS COISAS, RENUNCIAR, ESPERAR.. E MAIS ALGUMAS PALAVRAS SOBRE O ADULTECER NEUROPSÍQUICO Maurício Marx e SilvaJOSÉ OUTEIRAL Capítulo 3 LEMBRAR DO FUTURO, TERMINAR AS COISAS, RENUNCIAR, ESPERAR.. 55 té há poucos anos, as discussões sobre a base neurobiológica envolvi- nhos dão tempero à vida, a motivação indispensável à busca de realiza- da em questões subjetivas e complexas, como identidade, maturidade ção. Sem eles não se evolui. Porém, sem as considerações de realidade, íquica, ética pessoal, tendiam a ser frustrantes, reducionistas (simplis- eles estão condenados à desilusão. Já a realidade desprovida de sonho, de Talvez a maior parte das pessoas, incluindo aí profissionais do cam- certo grau de ilusão, é seca, amarga, carente de sentido e esperança, frus- "psi" (psicólogos, psiquiatras, psicanalistas, filósofos da mente, assis- e tediosa (Winnicott, 1979). sociais, antropólogos e outros), ainda mantenha esta impressão, É crescente a aceitação do público leigo de que a nossa capacidade de um preconceito. Procurarei neste capítulo apresentar bre- pensar, sentir, imaginar, depende do que está 'dentro da cachola', encé- alguns achados e algumas propostas recentes da neurociência falo. Tanto que se considera atualmente a morte do indivíduo quando há do amadurecimento do cérebro na idade adulta que me parecem morte cerebral, mesmo que resto do corpo continue funcionando rela- alguma luz sobre a compreensão deste processo, que está sendo tivamente bem. Ultimamente tem-se descoberto muito sobre as diferentes amado neste livro de "adultecer", e, "de quebra", tentar atenuar um funções das diversas partes do encéfalo. Este tipo de pesquisa, a que bus- deste preconceito. Como muitos, acredito numa possibilidade de ca entender que faz cada parte do sistema nervoso, esteve fora de moda e compatibilidade destas duas vertentes da pesquisa, a neuro- por muito tempo, devido a um descaminho que sofreu no início do sécu- entífica e a psicológica e psicanalítica, de metodologias tão distintas, lo passado: a frenologia. Esta disciplina buscava localizar em cada parte que compartilham um mesmo objetivo: entender a mente. do cérebro cada característica da mente humana, de forma que postulava Uma das principais unanimidades entre as diversas disciplinas que cantinho da vergonha, cantinho do altruísmo, da responsabilidade tudam a mente como critério para a maturidade psicológica é a capaci- etc. Queriam seus defensores inclusive que se pudessem identificar, de buscar realisticamente objetivos de longo prazo (Damásio, 1996; Freud, pelo formato externo da cabeça, as saliências, que se podiam observar as 920). Não me refiro aqui aos objetivos remotos, idealizados, tão comuns características de qualquer pessoa. O ridículo da sua proposta e risco de adolescência, que consomem boa parte das energias juvenis, mas que mau uso evidente afetaram muito dos rumos da investigação científica. A muito distantes de considerações práticas realísticas, de forma que concepção de que encéfalo fosse, por outro lado, uma massa homogê- esultam no mais das vezes em quase nenhum resultado concreto. Tam- nea de neurônios esperando para se diferenciar ao interagir com ambi- não se trata de desvalorizar os sonhos adolescentes, dos quais resul- ente, era igualmente despropositada, porém parecia ser mais democráti- a maior parte das evoluções sociais que conquistamos. Pelo contrá- ca (Solms & Turnbull, 2002). é por valorizá-los sobremaneira que é preciso enfatizar que são neces- Hoje nos encaminhamos para uma visão mais equilibrada. Sabe-se algumas capacidades a ser adquiridas na vida adulta para que eles que sistema nervoso é um aparelho biológico altissimamente diferencia- desapareçam no ar sem deixar quase vestígio de sua passagem. do e sofisticado desde início, composto de milhares de "peças" ou sub- Para que possamos fazer aquela mistura saudável dos nossos sonhos sistemas que têm funções específicas e são muito semelhantes entre in- fantis e adolescentes com a nossa realidade cotidiana de adultos com- divíduos, organizados a partir da programação genética. Ao mesmo tem- rometidos(as) com responsabilidades com o nosso sustento e eventual- po, grande parte das funções mais sofisticadas é dependente de funciona- já de filhos, com a troca afetiva com um(a) parceiro(a), familiares, mento interativo entre diversos destes subsistemas. Sabe-se que há partes migo(a)s, colegas, necessitamos mais que a capacidade de sonhar. So- do encéfalo que são centrais para algumas funções, principalmente por- aqui se refere a imaginar cenários alternativos da realidade, basea- que todas as pessoas que sofrem lesões nestas áreas, seja por acidente, unicamente nos nossos desejos. Necessitamos que estes cenários do seja por cirurgia ou doença (tumores, "derrames", infecções), têm estas nundo, da vida, criados na nossa mente, considerem suficientemente as funções sistematicamente alteradas. Também em experimentos científi- mitações da realidade, tanto a realidade do mundo, da convivência soci- pode-se detectar um maior funcionamento dos neurônios daquela quanto a realidade de nossas próprias capacidades, que não devem ser localização ao realizarmos funções associadas a ela (Kandel et al., 2000). ubestimadas nem tampouco superestimadas (Damásio, 1999). Estes so-56 JOSÉ OUTEIRAL Capítulo 3 LEMBRAR DO FUTURO, TERMINAR AS COISAS, RENUNCIAR, ESPERAR.. 57 "BATER CABEÇA" tes possibilidades que apresentam diferentes combinações, muitas vezes São de especial interesse para o tema deste livro as funções do chamado conflitantes, de maior/menor prazer e maior/menor desprazer. Tam- "córtex pré-frontal". Simplificando, é a ponta da frente do cérebro, aquela bém, a tomada de decisão é influenciada parcialmente pelos resultados que fica acima dos olhos. Apesar da descrição feita por um médico inglês imediatos das nossas decisões, ou seja, pela informação presente que che- em 1848 de um rapaz que teve boa parte desta área do cérebro arrancada ga aos nossos cérebros através dos sentidos, que é usada para correções por uma barra de ferro que lhe atravessou a face, tendo ele sido levado a de rumo, mas sempre lembrando que a informação que chega é sempre este médico sentado numa charrete conversando aparentemente normal- interpretada conforme colorido individual dado pela história e pelas mente, apesar do buraco enorme na cabeça, até recentemente pouco se características particulares, inclusive diferenças genéticas, de cada um. compreendia das funções desta parte do encéfalo. O rapaz mencionado Para tomarmos as melhores decisões, que em geral são aquelas que (para um belo relato deste caso e muito mais, leia-se Erro de Descartes" consideram de modo mais completo uma grande quantidade de fatores e de Antônio Damásio) não só sobreviveu como, a todos que conheciam, tem longo alcance no futuro, precisamos poder "lembrar do futuro", parecia estar "normal", com memória preservada, capacidade de raciocí- quer dizer, manter presente em nossa mente aquilo que imaginamos que nio, cálculo, de forma que reassumiu seu trabalho de supervisor de um irá ocorrer no futuro em decorrência de cada possível decisão. Mas, pre- grupo de trabalhadores. Sua única mudança, observada após algum tem- cisamos ter uma imagem forte em nossa mente do que iremos sentir no po, foi ter se tornado 'inconveniente', fazendo piadinhas onde não devia, futuro se tomarmos esta ou aquela decisão. Aquele dito popular, "eu per- ficando "sem freios" no comportamento, sendo por fim demitido de CO amigo mas não perco a piada", é uma ilustração disso. Não basta ima- diversos empregos, "batendo cabeça" na vida até ter um fim melancólico ginar que vamos perder amigo se fizermos piada com alguma coisa, (Damásio, 1996). Não é difícil comparar este processo com uma regres- mas além disso é necessário que fique muito presente em nossa mente são a um funcionamento adolescente, principalmente quando adoles- que vamos sentir se perdermos amigo. Com este cenário imaginário de cente está "aborrescente". um futuro de sofrimento pelo sentimento de perda é que seremos capa- zes de renunciar eventualmente ao prazer imediato de fazer uma piada. Modernamente tem-se descoberto que esta área do cérebro tem papel prazer imediato é sempre evidente, enquanto cenário do futuro é bem central na nossa possibilidade de gerar dentro da nossa mente cenários mais subjetivo e impalpável, incluindo não só que irá acontecer nas nos- do futuro que utilizamos ao tomarmos nossas decisões, conscientes ou inconscientes. Nosso processo de pensar se origina pouco das informa- sas relações com os outros, se nosso amigo vai ficar magoado ou decep- cionado, mas principalmente como vamos nos sentir diante de nós mes- ções que chegam no presente ao nosso cérebro. Tomamos as nossas deci- mos, de nossos princípios, que foram moldados em grande parte por nos- sões principalmente com base em nossas experiências passadas, nossa sa história particular. Precisamos ter acesso às chamadas emoções sociais história, e nas projeções que fazemos do futuro. Ou seja, com base em ou morais: culpa, vergonha, orgulho etc. rapaz do acidente com a barra nossa história, imaginamos que vai acontecer se agirmos de tal ou qual de ferro, mencionado anteriormente, "perdia emprego mas não perdia maneira, que vai acontecer se ocorrer este ou aquele evento, escolhe- a e isto levou-o a uma destruição de suas possibilidades de realiza- mos qual conduta deverá conduzir ao cenário do futuro que preferiría- ção de seus sonhos juvenis na vida prática. mos e agimos de acordo com isto. cenário do futuro que preferiríamos será aquele que, dentro daquilo que imaginamos, vai nos trazer emoções O que estivemos falando até agora é muito semelhante ao que Freud positivas e/ou evitar emoções negativas. Trazer prazer e/ou evitar des- chamou de princípio de realidade em contraposição ao princípio do pra- prazer (Damásio, 2003; Freud, 1920; Rolls, 1999). zer, embora estes 2 princípios não sejam qualitativamente diferentes, mas É claro que tudo isto é uma supersimplificação com fins didáticos do apenas quantitativamente. O princípio de realidade é princípio de pra- zer postergado, a renúncia do ato que pode levar ao prazer imediato, mas que seria funcionamento do processo normal de pensar. Na prática, as que se antecipa que trará desprazer no futuro, em troca de uma ação que coisas são bem mais complicadas, pois temos que escolher entre diferen- no futuro conciliará máximo de satisfação com um mínimo de sofri-JOSÉ OUTEIRAL Capítulo 3 LEMBRAR DO FUTURO, TERMINAR AS COISAS, RENUNCIAR, ESPERAR... 59 58 mento (Freud, 1920). Para isto, é necessário incluir adequadamente na Esses mecanismos já vêm praticamente prontos ao nascermos, obedecen- tomada de decisão a consideração com os sentimentos dos outros de do manual de instruções para a construção do nosso corpo que foi quem se gosta ou gostou (os que passaram, mas deixaram sua marca den- escrito em nossos genes pela evolução. As redes de neurônios relacio- tro de nós). Este último ponto foi magnificamente desenvolvido por Win- nadas a estas funções têm pouca plasticidade, porque risco de alguma nicott ao tratar do desenvolvimento da capacidade de se preocupar, de mudança não ser compatível com a manutenção da vida é muito grande ter consideração (Winnicott, 1979), uma função mental que, na melhor (Julezs & Kovács, 1995). Esta é a parte mais primitiva do nosso encéfalo, das hipóteses, fica amadurecida e adequadamente modulada no início da que fica na parte de baixo e no centro dele. Comparando encéfalo com idade adulta, juntamente com o amadurecimento neurológico do córtex uma árvore, seriam as raízes, tronco e suas primeiras ramificações. Já a pré-frontal (que é a última parte do encéfalo a maturar, assim como foi a última parte a surgir na evolução, neocórtex (os pequenos galhos e as última a surgir na evolução da espécie humana) (Chugani, 1998a). folhas da árvore), relacionada ao aprendizado sobre ambiente, é bem mais plástica, necessita ser bem mais moldável para realizar suas funções. Para concluir as tarefas a que nos propusemos em decorrência de ter- Essas funções, em última instância, também buscam a homeostase, a re- mos imaginado que elas serão as que nos conduzirão no final das contas gulação do organismo da melhor maneira possível para a manutenção do ao melhor destino, temos que ser capazes de, em diversos momentos, re- indivíduo e da espécie (Damásio, 2003). nunciar a desviar nossa atenção dessas tarefas para outras atividades que Se desenvolvemos um modo de agir visando lidar com mundo e de- nos dariam naqueles momentos um prazer imediato, abdicar deste pra- pois temos acesso a um modo melhor que anterior, ou se mundo em zer imediato e esperar pela satisfação que imaginamos que teremos no futuro. Caso contrário, estaremos constantemente deixando coisas pelo torno de nós muda, podemos precisar mudar que está gravado em nos- neurônios para nos sairmos melhor. Entretanto, não podemos mudar meio e começando outras, mais imediatistas, e que também ficarão in- tão facilmente de modo que, quando nossos amigos nos encontrarem no conclusas por terem sido abandonadas novamente em troca de outras. Es- dia seguinte, não saibam que esperar de nós, pois poderíamos ter mu- ta é em termos simples a 'disfunção executiva' observada em pessoas com dado até nossa identidade. Isto tornaria a vida em grupo impossível. déficit de atenção, uma condição associada a uma imaturidade do córtex pré-frontal. Trata-se de uma imaturidade das funções executivas do ego, A solução encontrada pela evolução foi deixar algumas partes do uma insuficiência da capacidade de contenção dos impulsos que visam a encéfalo mais moldáveis que outras, e também deixá-las mais moldáveis uma descarga imediata (Pally, 2000; Panksepp, 1998). no início da vida, quando estamos construindo nossa identidade, com a plasticidade diminuindo acentuadamente com amadurecimento. Como já foi dito anteriormente, amadurecimento do encéfalo se dá primeiro MACACOS FETAIS E UMA ESCULTURA EM ARGILA nas partes mais primitivas e por último nas mais recentes do ponto de vis- A evolução biológica teve que procurar ao longo de milhões de anos bus- ta filogenético, as últimas a surgirem na evolução da nossa espécie. O cór- cando encontrar um ponto de equilíbrio para o nosso encéfalo entre plas- tex pré-frontal foi o último a surgir na evolução, é a parte do cérebro que ticidade, ou seja, estar passível de ser moldado, e resistência à mudança. É é mais propriamente humana e que centraliza várias das funções mais preciso que nossas redes neurais estejam maleáveis para que possam apren- sofisticadas de que somos capazes, e que foram esboçadas anteriormente. der sobre o ambiente e buscar comportamentos mais adaptativos. Tam- Estudos de neuroimagem demonstram que, enquanto as partes mais pri- bém é necessário, porém, que este aprendizado tenha certa estabilidade, mitivas do encéfalo amadurecem nos primeiros anos de vida, tornan- não mude fácil demais. Alguns mecanismos básicos para a sobrevivência do-se, portanto, menos moldáveis, a área pré-frontal só amadurece no iní- surgiram bem cedo na evolução e foram preservados de forma muito cio da idade adulta (Chugani, 1998b). Se nosso encéfalo fosse uma escul- semelhante entre todos os animais. É o caso dos chamados mecanismos tura em argila, poderíamos dizer que esta argila vai secando, e endure- homeostáticos básicos, aqueles que regulam funções do corpo como tem- cendo, portanto, de baixo para cima e de trás para frente, tornando-se peratura, oxigenação, aporte de nutrientes para cada órgão, entre outras. menos moldável e modificável. Isto coincide com a ordem em que cada60 JOSÉ OUTEIRAL 3 LEMBRAR DO FUTURO, TERMINAR AS COISAS, RENUNCIAR, ESPERAR... 61 uma destas partes surgiu na história de nossa espécie (isto não deve ser de desenvolver autonomia e se acredita menor e mais incapaz do que real- confundido com o princípio de Haeckel, que se mostrou incorreto, e que mente é, com rebaixamento da auto-estima. Na prática, como essas for- diz que a evolução do indivíduo necessariamente recapitula a evolução da mas de se comportar são duas faces da mesma moeda, que observamos espécie) (Gould, 1977). são estados mistos desses 2 padrões comportamentais, sempre com as par- A prolongada dependência que nós humanos temos dos nossos cui- ticularidades de cada um. Quaisquer destes casos resultam em problemas dadores, da família, se comparados a outros animais, está relacionada a no processo do "adultecer". um evento muito interessante de nossa evolução, e que leva alguns estudi- OSOS deste fenômeno a dizerem que nós somos macacos que permane- BIBLIOGRAFIA cem jovens até fim da vida. Isto é, nós humanos retemos características Bjorklund DF. The role of immaturity in human development. Psychological que nos outros macacos pertencem ao período fetal ou do início da vida. Bulletin 1997;122(2):153-169. Nosso cérebro permanece crescendo após o nascimento num ritmo que, Chugani H. A Critical period of brain development: studies of cerebral glucose nos outros primatas, só ocorre no período fetal, resultando no final mui- utilization with PET. Preventive Medicine 1998;27:184-188. to maior e com muito mais capacidade. Esta é a mesma razão pela qual Chugani H. Biological basis of emotions: brain systems and brain development. Pediatrics 1998;102(5):1225-1229. temos poucos pêlos, mesmo quando adultos. Nossas pernas são mais Damásio A. Looking for spinoza: joy, sorrow and the feeling brain. New York: compridas que as dos chimpanzés, porque o fechamento do disco de cres- Harcourt Books, 2003. cimento nos nossos é retardado em comparação a eles, pois perma- Damásio A. O erro de descartes: emoção,razão e cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. nece crescendo em comprimento por muito mais tempo. O amadureci- Damásio A. The feeling of what happens. London: William Heinemann Ed., 1999. mento do cérebro nos outros primatas se dá muito mais cedo do que em Freud S. (1920) Além do princípio do prazer. Edição Standard das Obras Completas nós. A escultura em argila deles seca muito mais rápido. Isto deixa in- de Sigmund Freud. V. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1976. dependentes dos cuidadores muito mais cedo também, mas diminui sua Gould SJ. Ontogeny and phylogeny. London: The Belknap Press of Harvard capacidade de aprendizado, sua flexibilidade comportamental. Já pre- University Press, 1977. ço que nós pagamos por estas capacidades maiores é uma prolongada Julezs B, Kovács I. Maturational windows and adult cortical plasticity, Santa Fe Institute Proceedings. V. XXIII. Massachusetts: Addison-Wesley Pb. Co., 1995. imaturidade, resultando daí uma maior dependência e percepção de Kandel ER, Schwartz JH, Jessel TM. (Eds.). Principles of neural science. ed. New nossa fragilidade e necessidade dos outros (Gould, 1977; Bjorklund, York: McGraw-Hill, 2000. 1997). Pally R. The mind-brain relationship. London: Karnac Books, 2000. Se nossas necessidades e fragilidades não forem bem encaminhadas Panksepp J. Affective neuroscience: the foundations of human and animal emotions. New York: Oxford University Press, 1998. durante nosso desenvolvimento psicológico, se não obtivermos a prote- Rolls ET. The brain and emotion. Oxford: Oxford Univ. Press, 1999. ção necessária até que possamos estar mais maduros, se nosso contato Solms M, Turnbull O. The brain and the inner world. London: Karnac Books, 2002. com a realidade da vida não for atenuado pelos nossos cuidadores para Winnicott DW. (1979). O ambiente e processos de maturação: estudos sobre a que possa se dar de forma gradual, corremos risco de que este estado teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983. de desamparo seja vivido de maneira traumática, gerando descaminhos no nosso desenvolvimento psíquico até a adultez (Winnicott, 1979). Um exemplo seria a incapacidade no adulto de experimentar intimidade e de se perceber necessitando muito de alguém, necessitando mostrar-se su- perior, prepotente, visando a negar sentimentos relacionados à depen- dência porque esta foi vivida durante o período mais imaturo de uma for- ma muito sofrida. Outra possibilidade é a sedimentação de uma atitude de dependência exagerada, onde o indivíduo descrê de sua capacidadeA CONQUISTA DA CAPÍTULO IDENTIDADE Luiza Moura64 JOSÉ OUTEIRAL Capítulo 4 CONQUISTA DA IDENTIDADE 65 om estudo do Ciclo Vital, observamos que a adultez jovem é uma tural que ajuda a definir a identidade dos adultos jovens, no mínimo, em etapa da vida relativamente pouco retratada, com uma bibliografia todo mundo ocidental. reduzida. Assim, conseqüentemente, quando tema é adultecer, tor- As produções cinematográficas brasileiras já trilham mesmo cami- nam-se raras as incursões no sentido de inter-relacionar a psicologia do nho. Desde "Pequeno Dicionário Amoroso" (1997), temos uma série de desenvolvimento e a psicanálise. obras que podem ser classificadas como "Comédias "Amo- Ao mesmo tempo, no campo da produção artística e cultural, este res Possíveis" (2000), "As Avassaladoras" (2001), "Cristina quer Casar" tema sempre foi fonte de inspiração, alcançando muita receptividade. Te- (2003). E, claro, dentro do meio de comunicação mais popular do Brasil, mos como exemplos as imortais obras de Shakespeare, destacando Ham- temos grandes sucessos: "Comédias da Vida Privada" (Rede Globo) e let e Otelo, e os personagens fascinantes de Goethe, Werther e Wilhelm "Os Normais" (Rede Globo). Meister. Apesar de já estar bem representado em obras literárias e teatrais atra- Contemporaneamente, as criações que refletem os conflitos do jo- vés dos tempos, podemos pensar que, nos últimos anos, adulto jovem vem adulto proliferam, obtendo incrível popularidade. Os seriados de tem ocupado um lugar muito especial nas produções culturais. Parece que televisão americanos ganham audiência em todo mundo. Entre muitos, de 20 anos para cá, meios de comunicação começaram a espelhar um destacamos: "Friends" (Sony-Warner), "Seinfeld" (Sony), "Sex and the City" adulto que não depende mais financeiramente de seus pais, já passando, (MultiShow), "Will and Grace" (Sony), "Mad About You" (Sony); todos também, por uma transformação na relação de dependência afetiva com tendo em comum objetivo de refletir as angústias, fracassos e as estes, sem ainda, no entanto, ter constituído sua própria família. conquistas de jovens adultos frente às exigências desta etapa da vida. Os Abre-se aí um universo potencialmente rico e assustadoramente am- enredos giram em torno das dificuldades para se estabelecer como profis- plo. Uma vez que, até então, jovem adulto passava da posição de filho sional, dos encontros e desencontros amorosos e sexuais, e dos conflitos para cônjuge e pai automaticamente. Seu destino já era predeterminado envolvidos na execução e retardamento de projetos de vida, tais como casa- e, neste processo, ocorria uma supressão aparente dos espaços para ques- mento, paternidade e maternidade; incluindo as novas formas de se rela- tionamentos. Expandiram-se as possibilidades e, com isto, ampliaram-se cionar com próprios pais, neste momento em que todos são adultos. as dúvidas, medos e conflitos. Na literatura, este tema também conquista espaço. O livro Diário Este período intermediário entre as mudanças na relação com a famí- de Bridget Jones" de Helen Fielding, publicado em 1996, alcançou enor- lia de origem e a constituição da própria família, qual se estende dos 20, me sucesso e transformou-se em filme (2001). A esta publicação segue-se ultrapassando 30 anos, parece ávido de representabilidade. E daí vem uma série de "Diários" e "Confissões", que tentam dar às conquistas e grande sucesso alcançado pelos seriados de televisão e filmes classifi- perdas de quem tem entre 20 e 40 anos. cados como "Comédias Gênero "Comédias ao pretender "dar voz" aos ansei- No entanto, é de se estranhar tamanha disparidade entre a forma os dos jovens adultos, tem encontrado uma grande penetração e, conse- qüentemente, estas produções Hollywoodianas multiplicam-se. Nascido na maciça como tema adulto jovem invade a nossa cultura através dos mei- década de 1960, este gênero surgiu junto com uma tendência dos jovens de comunicação e das artes, e a maneira discreta e pouco sistemática americanos de, ao terminar estudos universitários, irem morar sozi- como esta etapa da vida é tratada pela psicologia e pela psicanálise. nhos em Nova Iorque em busca de uma vida cosmopolita. Este movimen- Uma hipótese seria fato de que, ao sair da adolescência, jovem to foi absolutamente localizado, mas, aos poucos, a liberdade sexual, a adulto rompe com seu papel de objeto de estudo, tornando-se sujeito. invenção da pílula anticoncepcional e a própria ampliação da expectativa Assim, observar e estudar de maneira sistemática a adultez jovem repre- de vida foram fazendo da "mudança para Nova Iorque" uma metáfora sentaria para os psicólogos e psicanalistas um processo de auto-observa- que passou a fazer sentido quase que universalmente. Com isto, nas últi- ção, que poderia gerar um certo incômodo, e, inclusive, um prejuízo do mas 2 ou 3 décadas, a "Comédia Romântica" compõe um movimento cul- pensamento científico.66 JOSÉ OUTEIRAL Capítulo 4 CONQUISTA DA IDENTIDADE 67 Por hábito, partimos sempre da experiência de observar Ciclo Vital "Essa ausência de rituais iniciáticos, mais propriamente, de do ponto de vista da adultez, assim acreditamos ter uma "visão privilegia- rituais de passagem marcando fim da adolescência, nos infan- da" da infância, da latência, da puberdade, da adolescência e da maturida- tiliza eternamente, de um lado; e, de outro, nos leva a uma situa- de e velhice. Tomando a vida adulta como referência para as demais fases, ção de considerável indefinição de papéis sexuais e da própria sexualidade. Brasil é talvez um dos países de maior grau de além dos possíveis riscos de empobrecimento da nossa percepção das indefinição neste âmbito, que reforça caráter infantil e, até outras etapas, caímos num grande erro que é esquecermos de olhar para certo ponto, perverso de nossa sexualidade." nós mesmos. Aragão, 1999 "Ser adulto é ser só." Jean Rostand Então, segundo Tarlei de Aragão, além das dificuldades universais para se sistematizar estudo do adulto jovem, nosso país com sua cultu- ra e ordenação social está em maior desvantagem. processo natural de adultecer já traz em si uma experiência de soli- Ainda buscando enfocar e desenvolver este tema, propomos lembrar dão, uma vez que jovem se vê abandonado por vários de seus sonhos, da contribuição de autores, a partir dos quais podemos pensar e proces- muitas vezes ainda sem a confiança nos recursos advindos da realidade. Solidão que é vivenciada também na prática, pois é comum que as turmas sar inter-relações e apontar contradições e discordâncias. da adolescência se dispersem ou se esfacelem. Solidão também por perce- Lidz assim define a Adultez: longo processo de desenvolvimento ber o envelhecimento de seus próprios pais, quais há um tempo já não chega ao fim na medida em que indivíduo obtém uma identidade pró- serviam como ídolos, mas que agora já não se prestam a serem objetos de pria e atinge a capacidade de viver intimamente com um membro do sexo ataque. Solidão, principalmente, ao sentir-se abandonado por si próprio, oposto, propondo-se a formar uma família." (Lidz, 1980). por aquele adolescente que fora e que já não mora no seu corpo. Em contrapartida, Pappalia e Olds. criticam este tipo de abordagem Sendo assim, é fundamental oportunizar espaços onde as exigências, em que período adulto é considerado "como um platô relativamente conflitos e as conquistas do adulto jovem possam ser pensados e discuti- destituído de acontecimentos" "(Pappalia e Olds, 1998), e ressaltam que dos. Ou seja, é importante evitar que se dê continuidade a este vácuo teó- tornar-se adulto não significa finalizar um processo de desenvolvimento. rico e reflexivo. Insistir na idéia de que adultecer é um período de platô Longe disto, ingressar na adultez é viver e sobreviver a uma contínua e sem conflitos, ou que esses conflitos são óbvios e simples e não mere- experiência de crise. A qual nada tem de tranqüila. A necessidade de res- cem ser discutidos por grupos científicos sérios, além de ser um ataque à postas às expectativas sociais, familiares e intrapsíquicas, ou seja, pessoais, realidade, representa mais uma vertente complicadora, que deixa o in- é intensa e incessante. Estas exigências incluem todos os setores: afetivo, gresso à vida adulta "a Deus sexual, produtivo e criativo. antropólogo Luiz Tarlei de Aragão, através de suas contribuições, complicador deste processo está justamente numa tendência a se lança nova luz sobre este "vazio" de pensamento e de produções científi- minimizar conflitos da fase adulta, como se o que diferenciasse adul- cas que se instala quando tema diz respeito ao período entre a adoles- to jovem do adolescente e do adulto maduro fosse a ausência de crise. Ou cência e a maturidade. Este autor assinala que, entre outros fatores, ser seja, as dores de ser adulto precisam ser vividas em silêncio. Pode-se pen- herdeiro de uma cultura mediterrânea contribui para que Brasil seja sar que tocar com seriedade nesta natural vulnerabilidade do "ser adulto" pobre no que diz respeito a rituais de passagens. que geraria uma difi- mexe com uma ordenação social, uma vez que todas as fases do Ciclo culdade ainda maior no processo que leva à adultez e à reflexão sobre es- Vital se organizam partindo deste marco, desta referência que é a vida ta condição. Assim o antropólogo se expressa: adulta.68 JOSÉ OUTEIRAL Capítulo 4 A CONQUISTA DA IDENTIDADE 69 A adultez jovem se constrói, justamente, numa combinação entre al- Neste ponto, nos deparamos com 2 elementos paradoxais básicos guns pontos estruturais já demarcados, conjugados a uma capacidade de flexibilidade, ser adulto é conviver com as incertezas e contradições. A que permeiam ser adulto, primeiro: entrega afetiva, incluindo a capacida- de de intimidade e disponibilidade para doar-se, sem sentir-se ameaçado própria origem etimológica dos termos nos revela um paradoxo. Adulto: pelo risco de perder a identidade; segundo: perpetuação de elementos da do latim "adultus", "crescido, desenvolvido," "indivíduo que atingiu má- ximo de seu crescimento, a plenitude das funções biológicas, que chegou tradição, incluindo laços familiares e níveis hierárquicos, sem perder a capacidade criativa, garantindo assim dinamismo do processo histórico. à maioridade". Jovem: também de origem latina, "juvenis", "indivíduo que está nos primeiros tempos de existência, na tenra idade." Uma das visíveis características da adultez jovem é a imposição do prin- Ou seja, adulto jovem se situa, ao mesmo tempo, no fim e no início. cípio da realidade em todos OS setores da vida. Agora, projetos da ado- Esta fase tanto representa final de um ciclo familiar, como sugere a exe- lescência estão em xeque, serão testados e, muitas vezes, refutados pela rea- cução das escolhas que darão início a uma nova família. Sendo que a lidade. Neste momento, a dor pela perda de ilusões será uma constante. mudança do papel deste adolescente que se torna adulto é drástica, exi- Falar deste contato do jovem adulto com uma impiedosa realidade é gindo suficiente estrutura psíquica e flexibilidade para suportar transfor- falar do final de uma moratória sociopsico-familiar comum à adolescên- mações. cia, da qual Erikson (1968) faz referência. A passagem para a adultez é Acredito que Erik Erikson estava um passo à frente quando fez suas marcada por uma crise vital, e essa crise engloba tanto um processo inter- contribuições sobre Ciclo Vital. Este autor, que está sendo redescoberto no como um movimento na atualidade, conseguiu um feito bastante raro: conjugar referenciais da Alguns sinalizadores apontam para final dessa moratória. Os mar- psicologia do desenvolvimento e da psicanálise, lançando um olhar extre- COS são variáveis e, segundo Luiz Tarlei de Aragão (1999), ritos de pas- mamente criativo e profundo ao abordar todas as etapas da vida, inclusi- sagem podem ser mais ou menos definidos, de acordo com as caracterís- ve a adultez jovem. ticas culturais do país, que facilitará ou prejudicará este processo tão Ao propor uma exposição das características da adultez, Erikson se delicado. Pode-se assinalar, também, que as condições dessa moratória, reporta a Freud quando questionado sobre que ele considerava que assim como momento da sua interrupção, variam de acordo com nível uma pessoa normal estaria habilitada a fazer bem", surpreendendo seu socioeconômico do meio em que jovem está inserido. interlocutor, Freud deu uma resposta bastante simples: "Lieben und Por exemplo, final desta complacência sociofamiliar pode se dar Arbeiten". Ou seja, Amar e Trabalhar, e sobre estes pilares Erikson cons- com fim do curso de graduação universitária, ou com a obtenção do trói sua percepção sobre que é ser adulto. Para Erik Erikson, falar da passagem da adolescência para a vida adul- primeiro emprego, ou com a saída de casa do interior para a cidade gran- de, ou com a decisão de se aventurar em outro país, ou com a chegada dos ta é falar da aquisição da capacidade de intimidade, generatividade e pro- dutividade. Isto é, tornar-se adulto inclui a possibilidade de amar com 21 anos, ou ainda, com final de um curso de pós-graduação, ou casa- intimidade aqueles da mesma geração, amigos e cônjuges; amar com zelo, podendo ser um cuidador das outras gerações, seus filhos e seus pais; e O tempo de moratória é variável, ritos de passagem serão mais ou por produtividade autor entende a capacidade de ingressar ativamente menos definidos, suporte familiar e a preparação para enfrentar as res- na cultura, não apenas reproduzindo-a, mas recriando-a constantemente. ponsabilidades da vida adulta também. Mas, certo é que, em qualquer Ou seja, ser adulto é amar com preocupação e entrega, o que só é pos- sociedade, em dado momento, uma grande expectativa familiar e social sível quando está afastado o risco de fusão e confusão; e é também tor- passa a ser dirigida ao jovem, contribuindo para a vivência de uma crise. nar-se um ser histórico, trazendo consigo os elementos da história pre- As irresponsabilidades e as instabilidades toleradas no período da adoles- gressa e estabelecida e, ao mesmo tempo, delineando processos de trans- cência não terão mais espaço, chegou o momento de jovem adulto fazer formação socioculturais. sua miliar. contribuição social e cultural e, muitas vezes, a própria economia fa-Capítulo 4 A CONQUISTA DA IDENTIDADE 71 JOSÉ OUTEIRAL 70 A dor relativa ao contato direto com a realidade estará presente nos Os diferenciais, no entanto, ficam por conta de alguns ingredientes impasses profissionais, nas escolhas de parceiros, nas relações interpessoais, de realidade que integram as histórias, como, por exemplo: ao invés de maternidade, na paternidade e no somatório das responsabilidades encontrar um "príncipe a personagem principal descobre assumidas na pelo adulto jovem. No momento da execução, muitos sonhos que amor pode estar ao seu lado, no seu dia-a-dia. Esta fórmula é usada nos filmes, "Harry e Sally" (1989), um marco em termos de moderna his- ficarão pelo caminho. mundo circundante tem uma série de expectativas dirigidas ao tória romântica, "Surpresas do Coração" (1995), "Alguém como Você" jovem adulto, e seu ajustamento social e, conseqüentemente, psicológico (2001), entre vários outros. No entanto, algumas produções se arriscam a tratar dos conflitos do dependem da aprovação do meio em que está inserido. Mesmo que, mui- tas vezes, tornar-se adulto inclua um movimento de destruição do que adulto já compondo um novo núcleo familiar, por exemplo, a comédia "Esqueça Paris" (1995) reflete justamente as dificuldades de relação de está estabelecido numa família ou sociedade doente. um casal, vivendo a vida após encontro romântico em Paris. Soma-se a Em relação a este delicado momento de mutação, em que falamos da este filme, "A História de Nós Dois" (1999) e "Um Homem de Família" inserção do jovem na realidade e do processo correspondente, em que o (2001), comédias que também se aventuram a ir além do "... e foram felizes princípio da realidade passa a permear mais efetivamente seu psiquis- para sempre". mo, sugerimos uma ilustração fazendo uso dos Contos de Fadas. Fora do campo da comédia, temos intrigante filme "De Olhos Bem Os Contos de Fadas obtiveram enorme penetração através dos tem- Fechados" (1999), qual toca sem dó nas incertezas que permeiam a pos, são construções que tentam auxiliar na reflexão e elaboração dos suposta estabilidade da vida adulta; destaca-se também drama "Colcha conflitos que se situam entre a adolescência e ingresso na vida adulta. de Retalhos" (1995), trazendo uma proposta para se pensar profunda- Porém, como o nome já diz, estes Contos não se comprometem com a mente processos de identificações que dão origem à identidade e às es- realidade. É interessante assinalar fato de que as histórias que falam colhas adultas. sobre amor retratam uma jovem que, depois de passar por algum tipo de Indo mais além da eleição de parceiro, a obra cinematográfica, batiza- sofrimento ou risco, encontra um príncipe lindo e protetor. Destaca-se da com sugestivo título: Último Ano do Resto de Nossas Vidas" que, invariavelmente, estes Contos terminam justamente no momento (1985), constituiu-se certamente como um demarcador, que, há quase deste encontro. Qualquer ameaça de uma realidade se impondo a este duas décadas, favorecia tanto a reflexão como delineamento do perfil amor, como dificuldades do dia-a-dia, problemas de adaptação entre dos adultos jovens. Este filme surgiu abrindo espaço para se falar sobre dois, que afinal mal se conhecem, é afastada pela mágica frase "... e foram estes "desavisados": recém-chegados a um mundo adulto. Um mundo felizes para sempre". de regras e exigências capazes de colocá-los em situações de extremo A nossa proposta aqui é justamente trazer à tona que está ocultado risco. por esta frase. A idéia é nos aproximarmos das dores e dos prazeres que A produção italiana, Último Beijo" (2000), classificada como estão envolvidos no processo de se estabelecer como adulto. Uma fase da média, arrisca-se a tratar com rara propriedade um leque amplo de con- vida em que se descobre que ser feliz é uma conquista ativa e diária, cons- flitos comuns ao adultecer. Questões como: maternidade, paternidade, tantemente sob ameaça e nunca para sempre. escolhas profissionais, tentativas de prolongamento da moratória sociofa- Ainda que as "Comédias Românticas" sejam competentes para refle- miliar, além de superposição da crise dos filhos adultos jovens com a crise tir um universo que se revelou nas últimas décadas, o qual compreende de meia-idade e morte de pais adultos maduros, são apresentadas com jovens adultos já numa nova relação com suas famílias de origem, mas, elogiável seriedade e poesia. ainda, sem constituir um novo núcleo familiar; elas ainda se sustentam na A temática da maternidade e paternidade e os anseios que envolvem fórmula dos Contos de Fadas. Em que um longo caminho de dúvidas e este importante passo foram tratados com leveza na comédia "Nove incertezas é finalizado no encontro com um grande amor. Meses" (1995).JOSÉ OUTEIRAL Capítulo 4 A CONQUISTA DA IDENTIDADE 73 72 Na nossa sociedade atual, a decisão de ter filhos recobre-se de uma Lembra aquela nossa conversa? grande importância, uma vez que, com a liberdade sexual e independên- - Qual? cia financeira das mulheres, as relações entre homem e mulher incluem - Veja na terceira página do Correio de hoje. Um pequeno tópi- no canto inferior direito. É a prova de tudo aquilo que nós dis- as mais diferentes dinâmicas e arranjos; muitas vezes, rompimento mais cutíamos no outro dia, lembra? observável com a adolescência dá-se com a chegada de um bebê. Consta- - Não. ta-se uma inversão: é a decisão de engravidar ou de não interromper uma A crise é irreversível, meu filho. Um abração. gravidez que, em certos casos, leva ao casamento; é a experiência de tor- Ele só ganha presente de homem sério. De homem preocu- nar-se pai e mãe que traz a necessidade de repensar rumos profissionais pado com problemas contemporâneos. Lenços brancos, ca- e, inclusive, a turma de amigos e tipo de lazer de cada um dos 2 adultos misas sóbrias, meias pretas e marrons. No ano passado deu envolvidos. para um primo taciturno uma gravata cinza escura com man- A produção alemã que Fazer em Caso de Incêndio" (2001) enfati- chas pretas e estrias roxas como hematomas. Com um cartão za o processo de adultecer, enfocando um outro vértice: contraste entre gozando a seriedade do primo. Este ano recebeu de volta a ideais da adolescência e a realidade da vida adulta. De forma criativa, mesma gravata. Sem cartão. As pessoas, pensa, me confundem com um adulto. (...) este filme apresenta uma circunstância específica em que um ato de mais Decidiram, ele e a mulher, não dar nenhuma arma de brin- de 10 anos atrás "bate à porta" de 6 adultos jovens e, a partir disso, enre- quedo no Natal. Nem arco e flecha. Os psicólogos não aconse- do mostra as controvertidas, perigosas e divertidas situações decorrentes Mas ele agora tem um lembrança que lhe sobe até a gar- deste reencontro com passado. ganta e fica atravessada: aos doze anos ganhou uma metralha- Com muito bom humor e poesia cronista Luis Fernando Veríssimo dora de latão que cuspia fogo. Tinha uma manivela do lado que trata do cotidiano doméstico. Como conseqüência de seu talento, ele a gente girava e a metralhadora cuspia fogo! O cunhado senta expõe mais íntimos conflitos de forma que estes se universalizam. E, ao ao seu lado, com um copo de uísque na mão. Aponta para se expandir, temas de seus textos nos englobam e nos abrigam, assim, livro. podemos nos reconhecer nas suas histórias e nos seus personagens. Des- Isso aí explica muita coisa, lembra daquela minha tese?... Mas ele não ouve mais nada. Ergue Henry Kissinger até taco aqui trechos da crônica Mundo do livro "Comédias olhos, como se mirasse uma metralhadora, e começa a girar da Vida Privada" (1994). Esta crônica enfoca as exigências e estereóti- uma manivela invisível do lado do livro. Ao mesmo tempo, com pos que se estabelecem no curso da vida, quais, na tentativa de forma- a boca imita ruído de tiros, e descobre entusiasmado que ain- tar que é ser adulto, podem tornar-se inibidores da espontaneidade. da não perdeu jeito. O cunhado fica olhando, entre surpreso e divertido, enquanto ele varre a sala com rajadas imaginárias." "O pai ganha presentes que um pai costuma ganhar. Camisas, lenços, uma gravata muito parecida com a que deu Veríssimo, 1994 para alguém no ano passado, meias. Alguns livros, alguns vi- nhos. Mas fica de olho nos presentes das crianças. Com con- descendente de quem tem um saudável interesse nas atividades Esta é apenas uma das crônicas que merecem ser lidas, sendo que mui- dos filhos. Mas louco de inveja. (...) tas delas tratam com humor e sensibilidade a dor e o prazer intrínsecos ao Ele examina livro que ganhou do cunhado. O Mundo Restau- ingresso na vida adulta. rado', de Henry Kissinger. O cunhado, inexplicavelmente, lhe atribui um grave interesse nos problemas contemporâneos. Vive Sem dúvida, a adultez é uma etapa onde muitas atitudes definitivas lhe mandando recortes de jornal com trechos sublinhados e serão tomadas, por exemplo: decisões envolvendo a paternidade e a pontos de exclamação na margem. Às vezes, telefona, com re- maternidade. Outras, se não forem definitivas, terão fortes conseqüências, cados cifrados. por exemplo: em que termos será processada a mudança nos vínculos com74 JOSÉ OUTEIRAL Capítulo 4 A CONQUISTA DA IDENTIDADE 75 a família de origem, encaminhamentos profissionais, escolha de parce- Para Erik Erikson, assim como para autores mais atuais, como Pap- iros e de grupos de amigos. palia e Olds, ser adulto é ingressar num movimento contínuo de transfor- Porém, este período tornar-se-á tanto mais insuportável e ameaçador, mação e de certa instabilidade, baseado num senso de identidade e de quanto lhe for negada a possibilidade de encontrar eco para que seus con- integridade. flitos sejam expostos e discutidos. A criatividade dos escritores e profissi- Erikson (1968) assinala também que a conquista ou não de uma iden- onais dos meios de comunicação em geral é um alento para que adul- tidade organizada não é um processo estanque, mas sim, resultado de tos saibam que, ao viverem as dúvidas, inseguranças e dores, comuns a contínuo de marcas deixadas pelas relações mais primitivas, com esta etapa, não estarão sozinhos e nem doentes. pais e cuidadores do bebê e da criança. Incluindo introjeções, identifi- Para dar conta destas exigências, conflituando-se, porém, sem uma cações, desidentificações, idealizações e desidealizações. Ou seja, neste ameaça de desintegração psíquica e sem romper com a continuidade histó- processo estão incluídos conjunto de registros provenientes do contato rica pessoal, é essencial que o ingresso na adultez seja contemporâneo à com meio circundante e as correspondentes alterações qualitativas pró- conquista de um senso de Erikson (1968) assinala, que tripé: prias ao desenvolvimento do psiquismo. capacidade de intimidade, generatividade e produtividade só se organiza A da fortemente dependente da qualida- em torno de uma identidade constituída, que não significa que esta seja de do acolhimento que OS adultos dedicaram ao bebê e à criança, se este estática e rígida. Ao contrário, um senso de identidade inclui uma liberda- de e confiança internas que permitem a permeabilidade e a flexibilidade. foi caracterizado pelo suporte ou pelo abandono e invasão, pela tranqüili- zadora previsibilidade ou pela confusão. O encontro com um ambiente Para este autor, conceito de identidade é central para entender-se a que oportunize desenvolvimento das potencialidades da criança a dota- vida adulta. Estas são algumas das suas definições para este termo apa- rá de uma confiança básica, que irá se expressar pela capacidade de lidar rentemente tão impreciso, identidade: com as adversidades e com as transformações em geral. "Um sentimento subjetivo de uma revigorante uniformidade e Um desenvolvimento saudável certamente não evitará as vivências de continuidade. angústia, conflitos e dor. Diferente disso: percorrer um caminho que via- Erikson, 1968 bilize ao bebê tornar-se criança, à criança tornar-se púbere e adolescente e ao adolescente tornar-se adulto, situações de O "Está sempre mudando e evoluindo; na melhor das hipóteses, é que dar-se-á graças à conquista de uma íntima em que algo de um processo de crescente diferenciação e abrangente à bom sempre está por vir. Mesmo uma grande dor poderá ser tolerada, medida que indivíduo vai ganhando cada vez maior consciên- mediante um registro pregresso de repetidos acolhimentos das necessida- cia de um círculo, em constante ampliação, em relação a outros des e experiências de prazer. que são significativos para ele desde a pessoa materna até a Em outras palavras, à medida que a pessoa tiver experiências, no de- humanidade. correr do seu desenvolvimento, que confirmem que a realidade externa é Idem razoavelmente confiável e constante, tanto mais suportável será proces- gradual de abrir mão de algumas ilusões. Este movimento direciona-se "Um sentimento ótimo de identidade é meramente experimenta- ao adultecer, e irá, aos poucos, plantando não só uma capacidade para do como uma sensação de bem-estar psicossocial. Os seus mais aceitar a realidade, mas, mais do que isto, uma capacidade para benefici- óbvios concomitantes são sentimento de "estar em casa" em ar-se desta realidade. nosso próprio corpo, um sentimento de "saber para onde vai" e uma certeza íntima de reconhecimento antecipado por parte daqueles que são importantes para nós. Ibidem76 JOSÉ OUTEIRAL Neste ponto, citamos Donald Winnicott: A CRIANÇA É O PAI CAPÍTULO "Uma das coisas que se segue à aceitação da realidade externa DO ADULTO* é a vantagem que se pode tirar dela. Freqüentemente, ouvimos falar das frustrações reais impostas pela realidade externa mas é mais raro que se fale do alívio e da satisfação que ela proporcio- UMA PERSPECTIVA na. leite real é gratificante, quando comparado com leite imaginário, mas a questão não é esta. A questão é que na fanta- PSICANALÍTICA sia, as coisas acontecem por mágica: a fantasia não tem freios e tanto amor como o ódio podem ter efeitos alarmantes. A reali- Adriana Sylla Pereira dade externa possui freios e pode ser estudada e conhecida e, de fato, só se pode tolerar a fantasia total quando a realidade objeti- va é bem apreciada. O subjetivo tem um valor enorme mas é tão alarmante e mágico que só pode ser fruído paralelamente à rea- lidade objetiva. " Winnicott, 1945 A verdade é que, paralelamente às dores, aos medos e às responsabili- dades comuns ao adultecer, estará o prazer da liberdade, da autonomia e da possibilidade de execução de projetos. Prazeres que só a vida adulta é capaz de proporcionar. BIBLIOGRAFIA Aragão LT. O casamento acabou. Viva o casamento. In: Caligaris, et al. O laço conjugal. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1999. Erickson E. Identidade Juventude e crise. Rio de Janeiro: Zahar, 1976. Fielding H. (1996). diário de Bridget Jones. Rio de janeiro: Record, 2003. Lidz T. (1980). adulto jovem. In: A pessoa: seu desenvolvimento durante ciclo vital. Porto Alegre: Artemed, 1983. Pappalia 2000. DE, Olds SW. (1998). Desenvolvimento humano. Porto Alegre: Artmed, Veríssimo LF. Comédias da vida privada: 101 crônicas Porto Alegre: LePM, 1994. Winnicott DW. (1945). Desenvolvimento emocional primitivo. In: Textos selecionados Da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1993. *Título parafraseando Wordsworth (1770-1850), autor da famosa frase: "A criança é o pai do78 JOSÉ OUTEIRAL Capítulo 5 A CRIANÇA É 0 PAI DO ADULTO UMA PERSPECTIVA PSICANALÍTICA 79 "As coisas que não conseguem ser olvidas, continuam aconte- Partindo da visão atual da fase adulta, conceituada em capítulos ante- cendo, Sentimo-las como da primeira vez, riores, permeada por crises, conflitos, tarefas evolutivas próprias e conti- Sentimo-las fora de tempo, nuidade do crescimento intrapsíquico, não se refuta a importância das Neste mundo do sempre, onde as datas não datam. fases pregressas como constituinte do adulto, ao contrário, as duas visões Só no mundo do nunca existem lápides... se agregam: na adultez a saúde mental da infância e adolescência é Há certos momentos que, ao contrário do que pensas, fazem parte da tua vida presente, não do teu passado. posta à prova e estará se revelando a qualidade dos alicerces sobre E abre-se no teu sorriso, mesmo quando, deslembrado deles, quais erguer-se-ão as etapas posteriores. estiveres sorrindo a outras coisas..." Além disto, durante todo contínuo desenvolvimento que segue, da adultez à morte, através das vivências emocionais, conflitos podem ser re- Mário Quintana solvidos, e patologias, desencadeadas. Se não acreditássemos neste cons- tante desenvolvimento, tratamento psicanalítico não teria eficácia, já O que vem a ser "adulto" dentro da teoria psicanalítica? E como adul- que o psiquismo estaria estagnado. tecer? O "eu" adulto é a síntese da trajetória percorrida pela criança do Certa vez, Freud (1933) foi questionado sobre que é ser adulto. Sua passado eu pressupõe perfeição, é um personagem multifa- resposta foi simples: amar e trabalhar. É verdade que as escolhas profissio- cetado, um pouco neurótico, outro tanto perverso, algo de psicossomáti- nal e de parceiro são as duas mais importantes deste momento de vida. Eis e com sua parte psicótica. Para se transformar neste ser complexo, po- que também é verdade que não são escolhas absolutamente simples. Ao rém capaz de sorrir, depende-se de uma história e tem que ser uma bela contrário, geram elevado grau de angústia, podem ser consideradas como história... as maiores causas de conflito e busca de tratamento psicológico pelo adul- A adultez é constituída desde os primórdios da infância, ou mesmo to jovem. antes, através do inconsciente dos pais e da cultura. De acordo com a for- Estas escolhas típicas da fase (amor e trabalho) trarão, de alguma for- ma como se estabeleceram as relações primitivas, associada aos fatores ma, a marca das vivências satisfatórias, traumáticas e dos modelos identi- hereditários, podemos traçar perfil do personagem que estreará nos ficatórios das fases anteriores. A relevância das experiências pré-edípicas palcos da fase adulta, compreender suas escolhas e, quem sabe, prever e edípicas na capacidade para sujeito se tornar adulto é uma unanimida- resultados. de entre os autores psicanalíticos. Pensa-se, a partir de Freud, que todo Em 1905, Freud criou sua teoria sobre o desenvolvimento psicossexu- encontro amoroso nada mais é do que um reencontro e que todo tipo de al humano, enfrentando a fúria e crítica da sociedade da época. Quando escolha que se faz na vida, bem como a disposição à maternidade, pater- estabeleceu o primado genital como final deste processo, pode ter, inad- nidade, amizades, trabalho está intimamente ligada a forma como indi- vertidamente, dado margem a seus sucessores compreenderem este está- víduo solucionou seu conflito primitivo básico de amor e Deste con- gio como estagnado, sem continuidade de evolução. flito surgirá, em maior ou menor grau, a capacidade de reparação, impul- sionando sujeito nas trilhas da vida. "Com a chegada da puberdade introduzem-se as mudanças Em 1895, no "Projeto para uma Psicologia e em 1914, em que levam a vida sexual infantil a sua configuração definitiva... "Sobre Narcisismo, uma introdução", Freud já definiu a relação com a Agora, surge um novo alvo sexual para cuja consecução todas figura materna ("pessoa que executa a ação específica para o desampara- as pulsões parciais se conjugam, enquanto as zonas erógenas do") como fundadora do psiquismo e matriz das futuras relações adultas. subordinam-se ao primado genital..." Atribui à falha desta primeira relação doenças psíquicas posteriores. Conclui a descrição do desenvolvimento psicossexual com a escolha " desamparo inicial dos seres humanos é a fonte primordial de objeto e a integração das pulsões parciais, "para o qual o caminho fora de todos os motivos morais." preparado desde a mais tenra infância" (Freud, 1905). Freud, 189580 JOSÉ OUTEIRAL Capítulo 5 A CRIANÇA 0 PAI DO ADULTO UMA PERSPECTIVA PSICANALÍTICA 81 Através da primeira experiência de satisfação, bebê passa a ser ca- A ilusão da onipotência é fundamental para O brinquedo, amor, tra- paz de, nas inevitáveis situações de insatisfação, criar seu objeto de desejo balho, para todo e qualquer viver criativo. É que move futuro adulto seio. Graças a indiscriminação "eu não eu", funda-se narcisismo, em busca de seus objetivos. A "mãe suficientemente boa", (conceito de- onde sujeito mantém a ilusão de completude, base da auto-estima e do senvolvido por Winnicott em 1962) além de possibilitar a criação deste sentimento de "ser" e ponto de partida rumo às relações objetais. espaço potencial, através do empréstimo e adaptação de seu ego ao bebê, também deixar-se-á ser usada pelo filho como alvo de suas fantasias des- " estamos a supor que uma unidade comparável ao ego não trutivas. pode existir desde começo; ego tem de ser Os instintos auto-eróticos, contudo, ali se encontram desde início, A sobrevivência e a estabilidade materna constituem a base da identi- sendo, portanto necessário que algo seja adicionado ao auto- dade, criatividade e confiança no adulto. Apenas com estabelecimento erotismo uma nova ação específica a fim de provocar nar- do objeto sobrevivente, indivíduo desenvolve a capacidade de desejar, cisismo." sem sua identidade diante do desejo do outro. Freud, 1914 indivíduo que contou com uma mãe capaz de emprestar seu apare- lho psíquico, nomeando objetos, decodificando sensações, contendo an- gústias e tolerando, sem revidar, fantasias destrutivas, além de gradativa- Dentre importantes autores pós-freudianos, destacam-se Melanie Kle- mente ir frustrando filho (na medida de sua capacidade para suportar a in, Bion, Joyce McDougall e, principalmente Winnicott, reforçando e frustração), possivelmente adquiriu a confiança necessária para, quando aprofundando a idéia da importância das primeiras relações de objeto no adulto, arriscar-se em suas relações, amar e trabalhar. desenvolvimento do indivíduo e definindo estas como referência para O grau de investimento real e simbólico do pai aos olhos da mãe, bem toda e qualquer relação futura. como a participação efetiva deste na relação com bebê e com a mãe, No início da vida da criança, a mãe, através da identificação, sintoni- também tem papel estruturante para sujeito. zada com filho, compreende seus anseios, proporcionando-lhe confor- Ainda que tenha sido Winnicott autor que melhor correlacionou to e satisfação. Neste ambiente de estabilidade, afeto e tranqüilidade, o brincar da criança com viver criativo do adulto, Freud, em "Escritores bebê se estrutura como sujeito separado dela com desejos e fantasias Criativos e Devaneio" (1908), já havia discorrido sobre assunto. Equipa- próprias. rou o brinquedo ou jogo, qual a criança leva muito a com as pro- De acordo com as idéias de Winnicott, por meio desta adaptação da duções científicas, literárias e ocupações adultas. Disse que o adulto subs- mãe às necessidades do bebê, ela oferecerá o seio justamente no momen- titui o brinquedo pela fantasia, pelo devaneio, porém, desta forma sen- to em que bebê sentir fome, permitindo-lhe acreditar em sua onipotên- te-se envergonhado, uma vez que entende a fantasia como algo infantil. cia e capacidade criativa, imaginando que o seio é uma produção sua. Escreve uma frase que causa polêmica na atualidade: "A pessoa feliz não "experiência de ilusão" é o que prepara o indivíduo para lidar com a fantasia, somente a realidade externa. Talvez Freud pudesse ter usado um outro termo, que não "feliz", eis "A partir de experiência inicial de onipotência, bebê é capaz que nenhum ser humano pode satisfazer todos seus desejos e nem por de começar a vivenciar a frustração, e chegar, algum dia ao isto deve se considerar "infeliz." Hoje se entende que a capacidade de tro extremo, a saber, ter consciência, de ser um simples ponto no desejar, devanear, fantasiar é atributo da integridade egóica e sinônimo universo, que já existia antes de ele ter sido pensado por seu pai de saúde mental. próprio Freud, em diversos pontos de sua obra, se e por sua mãe." contradiz. No mesmo artigo, por exemplo, relaciona sonhos noturnos, realização de desejo e fantasia, considerando tudo isto como normal e Winnicott, 1975 saudável na vida psíquica do sujeito.

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