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ANO LETIVO 2021/2022 
FACULDADE DE LETRAS DA UNIVERSIDADE DO PORTO 
CURSO DE 1º CICLO: Licenciatura em Sociologia 
1º ANO | 2º SEMESTRE 
UNIDADE CURRICULAR: Teorias Sociológicas II 
DOCENTE: Paula Guerra 
 
 
 
 
 
RECENSÃO CRÍTICA INDIVIDUAL 
 
 
 
 
 
Beatriz Costa Matos 
Porto, 11 de maio de 2022 
1 
 
 
 
 
ANO LETIVO 2021/2022 
FACULDADE DE LETRAS DA UNIVERSIDADE DO PORTO 
CURSO DE 1º CICLO: Licenciatura em Sociologia 
1º ANO | 2º SEMESTRE 
UNIDADE CURRICULAR: Teorias Sociológicas II 
DOCENTE: Paula Guerra 
 
 
 
 
ANÁLISE CRÍTICA DOS CAPÍTULOS III, IV E V DA OBRA OUTSIDERS: 
ESTUDOS DE SOCIOLOGIA DO DESVIO DE HOWARD SAUL BECKER 
 
 
 
 
 
Beatriz Costa Matos 
Porto, 11 de maio de 2022 
2 
 
ÍNDICE 
Introdução ................................................................................................................................... 3 
Explanação conceptual ............................................................................................................... 3 
Confronto crítico ........................................................................................................................ 7 
Conclusão ................................................................................................................................... 9 
Anexos ...................................................................................................................................... 10 
1. Artigo de jornal....................................................................................................... 11 
2. Ficha de leitura ....................................................................................................... 12 
Referências bibliográficas ........................................................................................................ 28 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
3 
 
INTRODUÇÃO 
 No âmbito da unidade curricular de Teorias Sociológicas II, a docente Paula Guerra 
propôs a realização de uma recensão crítica sobre três dos capítulos do livro Outsiders: Estudos 
de sociologia do desvio de Howard Saul Becker. Este trabalho está focado nos capítulos III, IV 
e V da obra e foi dividido em duas grandes partes: a primeira trata-se duma explanação dos 
principais conceitos abordados pelo autor ao longo dos capítulos e a segunda é um confronto 
crítico entre a teoria de Howard Becker com a teoria de classes de Karl Marx. 
 Howard Saul Becker é um sociólogo norte-americano e professor na Northwestern 
University de Evanston, Illionois. Nascido a 18 de abril de 1928, Becker é conhecido pelo seu 
contributo para várias áreas da sociologia, como a sociologia da arte. Foi na sua obra Outsiders 
que se basearam os fundamentos para a teoria da etiquetagem social. Escreveu outros livros 
com grande relevância académica como Art Worlds, 1982 e Boys in White, 1961. Integrou a 
segunda escola de Chicago, sendo um dos grandes autores do interacionismo simbólico. 
EXPLANAÇÃO CONCEPTUAL 
 Howard Becker começa o capítulo III com a premissa de que o uso da marijuana apenas 
se torna contínuo quando é tido como um ato de prazer. Isto porque, do ponto de vista aditivo, 
a marijuana não tem substâncias que causem dependência. Então, o autor expõe-nos à carreira 
do usuário que será o processo de aprendizagem que levará um usuário a levar adiante o seu 
consumo enquanto iniciante. 
 Este processo encontra-se dividido em três fases distintas. A primeira é aprender a 
dominar a técnica de fumar. Para Becker, se um novo usuário não souber como fumar de forma 
correta não irá sentir os efeitos da droga que pretende e que estava à espera porque o seu corpo 
não irá absorver as substâncias psicoativas da marijuana. Assim, terá a sensação que não vale a 
pena fumar uma vez que não está a obter resultados visíveis, deixando o consumo de marijuana. 
 A segunda fase do processo de aprendizagem é marcada pelo reconhecimento dos 
efeitos da droga. Isto é, não é porque os efeitos realmente acontecerem que a pessoa os irá 
reconhecer conscientemente. Ou seja, segundo Howard, “antes de ter essa experiência, o 
usuário precisa ser capaz de mostrá-los para si mesmo e associá-los conscientemente ao fato de 
ter fumado maconha. De outra maneira, quaisquer que sejam os efeitos reais produzidos, ele 
considera que a droga não teve efeito algum sobre ele.” (Becker, 1963, p. 58). Quando não há 
4 
 
um reconhecimento dos efeitos a pessoa irá perder o interesse pela droga, cessando o seu 
consumo. 
 A última fase acontece quando há o novo usuário de marijuana aprende a gostar dos 
seus efeitos. Consequências do consumo de marijuana são tidas casualmente como algo 
desagradável e pouco desejável, como a perda da noção de tempo e espaço, sendo assim um 
entrave ao consumo contínuo. Portanto, terá de existir uma redefinição destes efeitos para 
passarem a ser prazerosos e agradáveis, que vai permitir a superação deste processo, levando o 
iniciante a passar a ser um usuário mais experiente. São principalmente os connaisseurs (grupos 
de amigos mais experientes no consumo da marijuana), termo usado por Becker, que 
possibilitam esta redefinição, mas ela pode acontecer em vários contextos diferentes. 
No capítulo IV, Becker começa por definir o que é o comportamento desviante. 
Considera-o um conjunto de atos que metem em causa as normas e os valores alicerces da 
sociedade. Assim, a partir dessas normas e valores, formam-se conceções que perduram no 
tempo sobre o ato de consumir marijuana que acabam por ser as formas de controlo social e um 
guia moral das sociedades. Com isto, Becker questiona “Qual é a sequência de eventos e 
experiências pela qual uma pessoa se torna capaz de levar adiante o uso da maconha, apesar 
dos elaborados controles sociais que funcionam para evitar tal comportamento?” (Becker, 1963, 
p.70). Respondendo a esta situação, Becker distingue três tipos de controlos sociais: o 
fornecimento, o sigilo e a moralidade. 
 O fornecimento de marijuana pode ser um controlo social porque esta não se encontra 
acessível a todas as pessoas. Sendo de difícil acesso, o iniciante terá de estar integrado num 
grupo que sirva de intermédio e possibilite esse fornecimento e que esteja assente em valores 
contrários aos das normas societais. “A pessoa usa a droga quando está com outras que têm um 
fornecimento; quando esse não é o caso, o uso cessa. Ela tende, portanto, a flutuar em termos 
das condições de disponibilidade criadas por sua interação com outros usuários.” (Becker, 1963, 
p. 72). Então, para se tornar num consumidor regular, deverá encontrar outra forma de se 
abastecer e que seja mais estável, criando ligações com pessoas que traficam narcóticos. 
 No entanto, mesmo quando o iniciante já tem uma fonte direta e estável de fornecimento, 
essa fonte pode ser boicotada, isto é, sendo uma atividade ilegal e perigosa, o traficante de 
narcóticos poderá ser preso ou desaparecer. Este acontecimento não é raro e obriga a uma 
5 
 
repetição do processo de arranjar uma nova fonte de fornecimento. Isto cria instabilidade no 
seu consumo de marijuana, favorecendo o controlo social que lhe é imposto. 
Os novos usuários de marijuana estão sujeitos a um sigilo em relação ao seu consumo 
devido ao medo das sanções que podem receber dos não-usuários. Este sigilo é promovido pelo 
medo de que se descubra os seus hábitos de consumo e das respetivas consequências informais 
que derivam dos códigos morais e das conceções sociais que acima referi. Esse medo ir-se-á 
repercutir numa irregularidade na frequência do consumo da marijuana, tornando impossível 
criar uma rotina. Para um consumidor se tornar regular terá de romper com este medo e, caso 
este rompimento não aconteça, não há um avanço para um nível superior de consumo, 
retornando até ao estágio de consumidor ocasional ou até mesmo cessando o consumo. 
Segundo Becker, os usuários de drogas limitame escondem o seu consumo de acordo 
com o grau de medo de outras pessoas mais convencionais, segundo a sociedade, descobrirem 
este hábito com receio de uma má reação e de consequências. Isto faz do sigilo um controlo 
social na medida em que, se não romper com estas conceções, o uso da droga irá terminar. No 
entanto, quando o usuário chega à conclusão de que os seus medos podem ser exagerados e que 
a prática do consumo de drogas é possível de se manter em segredo, este controlo social 
enfraquece. 
 O controlo social adjacente à moralidade é baseado nas normas morais da sociedade, 
que apelam ao autocuidado e autocontrolo. Uma pessoa que não esteja de acordo com esta 
perspetiva convencional, como um usuário de marijuana, será visto como um outsider, criando 
uma hesitação ao início do consumo da droga. Todos os usuários já partilharam desta opinião 
mais convencional. No entanto, através de interações e redefinições, como expliquei acima, este 
controlo perde-se, visto que o iniciante arranja justificações (apelidadas de racionalizações por 
Becker) para responder às objeções feitas pelas noções básicas da sociedade convencional e 
para neutralizar a sensibilidade ao estereótipo para que a ‘carreira do usuário’ progrida, caso 
contrário ir-se-á autointitular como um ‘outsider desviante’. 
A racionalização mais frequente é a tese de que “as pessoas convencionais entregam-se 
a práticas muito mais nocivas, e que um vício comparativamente pequeno com o fumar 
maconha não pode ser errado quando coisas como o uso de álcool são tão aceitas” (Becker, 
1963, p. 83). 
6 
 
 Logo depois, o autor introduz-nos à ‘teoria’ psiquiátrica popular, que também afeta o 
consumo de marijuana e, por isso, também é um controlo social. Esta teoria, defendida por 
alguns usuários de marijuana, diz que o uso de drogas na mesma quantidade e frequência que 
eles usam está associado a transtornos e desequilíbrios psíquicos. Assim, o uso da droga torna-
se um sinal de fraqueza moral e psíquica, enfraquecendo o uso regular. 
Para concluir, Becker defende que “(…) uma pessoa se sentirá livre para usar maconha 
à medida que passe a considerar as conceções convencionais sobre ela como as ideias mal 
fundamentadas de outsiders e as substitua pela visão ‘inside’ que adquiriu por meio de sua 
experiência com a droga na companhia de outros usuários.” (Becker, 1963, p. 87). 
No capítulo V, o autor dá-nos o exemplo dos músicos das casas noturnas, que são 
considerados outsiders devido à extravagância do seu modo de vida, mesmo quando a sua 
atividade é completamente legal. 
Becker apresenta-nos a perspetiva sobre a cultura de Hughes, que se opõe à visão 
antropológica da cultura (a cultura é resultado dos consensos finais que determinado grupo 
concebe para a definir um comportamento, por isso são significados básicos que todos os 
indivíduos reconhecem como corretos). Este autor afirma que a sociedade contemporânea, por 
ser extremamente heterogénea e complexa, não se resume a um conceito tão simples como o da 
conceção antropológica. Tendo este caráter heterogéneo, a cultura terá também subculturas que 
incluem, no exemplo deste capítulo, os músicos das casas noturnas. O seu trabalho é 
condicionado pelos clientes, então “para alcançar sucesso, ele sente necessidade de se ‘tornar 
comercial’, isto é, tocar de a cordo com os desejos dos não-músicos para quem trabalha; ao 
fazê-lo, sacrifica o respeito de outros músicos e, assim, na maioria dos casos, seu autorrespeito” 
(Becker, 1963, p. 92). 
De seguida, Becker distingue os músicos dos ‘quadrados’. Os músicos autodescrevem-
se como alguém que tem um dom inato para a música, sendo, por isso, superiores a outros 
cidadãos. Numa dinâmica intragrupo, eles não se criticam nem se julgam, crendo que todos 
devem viver como quiserem e à sua própria vontade – repudiando, assim, qualquer tipo de 
discriminação. “O quadrado, por outro lado, não possui esse dom especial nem qualquer 
compreensão da música ou do modo de vida dos que a possuem (…) é visto como uma pessoa 
ignorante e intolerante, que deve ser temida, uma vez que produz as pressões que forçam o 
músico a tocar de maneira não-artística” (Becker, 1963, p. 98). 
7 
 
A comercialização forçada do seu trabalho provoca um conflito interno nos músicos, 
que enfrentam um dilema entre o desejo de dar à sua música um significado íntimo e de 
autoexpressão e a ‘necessidade’ de ceder às preferências dos ‘quadrados’, com o objetivo de 
poder obter estabilidade financeira. Quem não ceder aos ‘quadrados’ acabará por cair no 
isolamento e auto-segregação, último tópico do capítulo. 
Para proteção da sua música, os músicos ir-se-ão afastar do seu público devido ao receio 
que sentem em relação aos ‘quadrados’. Este afastamento do seu público e das ‘pessoas 
convencionais’ irá provocar a entrada numa espiral de medo, onde cada vez mais serão 
rotulados como outsiders e desviantes. Como exemplo disto mesmo, Becker dá-nos a conhecer 
o grupo de jazzmen, X Avenue Boys. Este grupo é um grande opositor à música comercial e ao 
estilo de vida dos ‘quadrados’. Então, os X Avenue Boys sempre tocaram em locais específicos 
onde conviviam apenas com pessoas no mesmo círculo social, sendo um bom exemplo da auto-
segregação e do isolamento a que são sujeitos como medida de autoproteção. 
CONFRONTO CRÍTICO 
 Ao longo destes três capítulos vemos uma perspetiva beckeriana sobre grupos 
desviantes que fogem das normas da sociedade, principalmente os consumidores de marijuana. 
Esta obra, embora tenha muitos pontos fortes como, por exemplo, demonstrar na prática, através 
de entrevistas, tudo o que autor teoriza, apresenta também algumas falhas. 
 Ao estudarmos Karl Marx conhecemos a sua teoria das classes sociais. Esta teoria, 
resumidamente, diz que a sociedade contemporânea, marcada pelo capitalismo, é uma 
sociedade de classes. Ou seja, existem duas grandes classes distintas, a dos dominadores e a 
dos dominados – burguesia e proletariado, respetivamente. Estas classes são determinadas 
principalmente pela condição económica, isto é, quem detém e quem não detém os meios de 
produção. A partir do materialismo-histórico, sabemos que quem controla a base, ou 
infraestrutura, também terá o poder e o controlo da superestrutura. Então, é possível afirmar 
que a nossa condição económica, ou seja, a nossa classe, irá determinar toda a nossa vida. O 
sistema de classes oprime uns e facilita outros, portanto as nossas experiências e vivências serão 
todas influenciadas pela nossa classe – não só a nível financeiro como também a nível social. 
 Howard Becker erra ao não levar em conta isto mesmo, a questão da classe. Por 
exemplo, no capítulo III o autor descreve o caminho que um não-usuário terá de percorrer até 
8 
 
ser considerado um consumidor rotineiro e experiente de marijuana. Fala de três fases do 
processo de aprendizagem mas não tem em conta se o novo usuário terá capacidades financeiras 
para poder continuar o seu uso, mesmo que tenha aprendido a dominar a técnica e a reconhecer 
os efeitos e tenha completado a redefinição dos mesmos. 
 Ainda nesta linha de pensamento, nós sabemos que certos grupos sociais são 
extremamente marginalizados devido apenas à sua posição social. Desde cedo que lhes é 
incutido que devem fazer certas coisas só porque vivem num certo bairro ou porque são de 
determinada família. Assim sendo, isto poderá influenciar o seu consumo de marijuana. É 
óbvio, do ponto de vista financeiro, que as classes mais altas terão uma melhor condição para 
o consumo regular de marijuana, no entanto, as classes mais baixas são as mais afetadas. A 
marginalização que vivem é um entrave, por exemplo, a conseguirem ou não um emprego. Isso 
terá repercussões a nível social porque, como já sabemos, o desemprego é um dos fatores que 
pode aumentar o nível de exclusão social. Esta exclusão social levará os indivíduos para os 
‘maus caminhos’ que secomeçam a tornar numa bola-de-neve, cada vez maior e mais difícil de 
contornar. 
 Já no capítulo IV, é-nos apresentado três tipos de controlos sociais – o fornecimento, o 
sigilo e a moralidade – mas, tal como na carreira do usuário, Becker esquece a condição 
económica dos indivíduos. Como já referi, o dinheiro, ou a falta dele, pode ser uma causalidade 
do consumo, ou não, de marijuana. Relacionado com o fornecimento, o consumidor também 
precisa de uma fonte de rendimento minimamente estável que possa manter o seu ‘vício’ ativo, 
só assim poderá manter uma frequência mais regular de uso. É, portanto, óbvio que a falta de 
estrutura económica na vida de alguém o possa fazer afastar-se, sem mesmo antes experimentar, 
da marijuana (ou até outras drogas). 
 Já o capítulo V trata do grupo desviante dos músicos das casas noturnas. Neste capítulo, 
Becker foca, numa das suas partes, um ponto muito importante e fulcral que preocupa à 
comercialização quase forçada que muitos músicos sentem no processo de criação artística. No 
anexo número 1 – Artigo de Jornal – encontra-se uma publicação online do site Fama ao Minuto 
com uma entrevista à banda musical Todagente. No texto abaixo citado, podemos ver um 
excerto desta entrevista que, em contraponto ao que Becker fez mostrar na sua análise em 
Outsiders, mostra algum conforto na ‘comercialização’ dos seus trabalhos. 
9 
 
“Podes chamar comercial. Não devemos de ter medo de lhe chamar música comercial, porque 
a partir do momento que o nosso intuito como compositores é entrar num mercado de música 
em que a música passa a ser um produto – que tem que ser visto como um produto industrial 
como outro qualquer –, passa a ser um comércio. Nós também temos de ganhar a vida com a 
música.” 
(Membro da banda Todagente, 2022) 
Não obstante, a visão beckeriana sobre este assunto não deixa de ser atual e de elevada 
importância para os músicos, que se sentem vendidos para algo que não é realmente deles. 
Neste momento podemos, mais uma vez, aproximar Marx à discussão na medida em que a 
necessidade de sobrevivência faz com que estes indivíduos façam de tudo para conseguirem 
ganhar dinheiro, mesmo que isso signifique o distanciamento total dos seus valores e desejos. 
Com isto podemos ver que o trabalho de Howard Becker está bastante incompleto no 
que toca à visão socioeconómica do consumo de marijuana na população; no entanto, aborda 
outros temos de igual importância como a comercialização emergente dos trabalhos dos 
músicos. 
CONCLUSÃO 
 Com a análise dos capítulos III, IV e V de Outsiders, posso concluir que Howard Saul 
Becker é um dos grandes pilares da sociologia do desvio. Através de uma pesquisa exaustiva, 
que descreveu por completo nesta obra, Becker conseguiu desmontar alguns dos estigmas 
enraizados na sociedade relativamente ao que não é convencional bem como a forma como isso 
pode afetar a nossa vida individualmente. Todos nós já fomos, ou seremos um dia, parte dos 
outsiders, mas Becker vem com a sua teorização explicar o porquê e a forma de tal acontecer. 
 Com o confronto crítico pude desenvolver o meu espírito mais crítico e, na minha 
opinião, enriquecer um pouco a sociologia do desvio e do interacionismo simbólico com o que 
acrescentei sobre a teoria de classes. Assim, a leitura deste livro e a realização deste trabalho 
foram umas excelentes oportunidades para poder aprofundar e consolidar os conhecimentos já 
adquiridos na unidade curricular de Teorias Sociológicas II. 
Embora seja um trabalho de 1963, considero esta obra atemporal na medida em que 
podemos ainda projetá-la nos dias de hoje para perceber comportamentos que se calhar não 
eram nem pensados no século XX, quando foi publicado. 
10 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
ANEXOS 
 
 
11 
 
1. ARTIGO DE JORNAL 
 
Fonte: Gonçalves, M. (1 de abril de 2022). "Não devemos de ter medo de lhe chamar música 
comercial". Obtido em 29 de abril de 2022, de Fama ao Minuto: 
https://www.noticiasaominuto.com/fama/1965364/nao-devemos-de-ter-medo-de-lhe-chamar-musica-
comercial 
 
 
 
 
 
 
 
 
https://www.noticiasaominuto.com/fama/1965364/nao-devemos-de-ter-medo-de-lhe-chamar-musica-comercial
https://www.noticiasaominuto.com/fama/1965364/nao-devemos-de-ter-medo-de-lhe-chamar-musica-comercial
12 
 
2. FICHA DE LEITURA 
Resumo: Outsiders é um livro escrito por Howard Becker onde há uma análise em torno 
dos outsiders da sociedade americana, isto é, os grupos de todos aqueles que possuem 
comportamentos desviantes, como por exemplo os usuários da marijuana. O capítulo III ocupa-
se da delineação de uma “carreira do usuário”, onde o autor distingue as três fases do processo 
de aprendizagem dum novo usuário da marijuana. A primeira fase é aprender a técnica do ato 
de fumar, a segunda é reconhecer os efeitos que a marijuana tem nas pessoas e a terceira é 
aprender a gostar dos efeitos provocados pela marijuana. O capítulo IV, Becker explica como 
certos usuários de marijuana desistem do seu consumo mesmo completando o processo de 
aprendizagem. O autor explica isso a partir dos três principais tipos de controlos sociais: o 
fornecimento, o sigilo e a moralidade. Já o capítulo V aborda os músicos de casas noturnas e a 
sua subcultura e modo de vida extravagantes e não-convencionais que os fazem ser rotulados 
de outsiders, segundo as normais societais. 
Conceitos-chave: carreira desviante; comportamentos desviantes; estrutura social; ‘uso por 
prazer’ da marijuana; carreira do usuário; connaisseurs; comportamento desviante; controle 
social; fornecimento; sigilo; moralidade; sanções; grupos desviantes; contactos convencionais; 
racionalizações; isolamento; autossegregação; ‘quadrados’; jazzmen; comercialização. 
Capítulo Análise Excertos do texto Conceitos-chave 
Capítulo III: 
“Tornando-
se um usuário 
de maconha” 
Ao longo deste capítulo, 
Becker explica que o uso 
da droga marijuana só se 
torna estável e regular 
quando a o seu consumo 
é tido como prazeroso. 
Assim, o autor fala-nos 
da carreira do usuário e 
explicita que este deve 
passar por um processo 
de aprendizagem como 
iniciante do uso de 
marijuana. O autor 
também fala sobre o 
termo connaisseurs, 
sendo ele referente aos 
usuários de marijuana 
mais experientes e 
conhecedores. 
“A maconha não produz 
adição, pelo menos não no 
mesmo sentido em que o 
álcool e as drogas opiáceas. 
O usuário não experimenta 
nenhuma síndrome de 
abstinência e não exibe 
qualquer ânsia inextirpável 
pela droga. O padrão mais 
frequente de uso poderia ser 
denominado ‘recreativo’. 
Lança-se mão da droga 
ocasionalmente pelo prazer 
que o usuário encontra nela, 
um tipo de comportamento 
relativamente casual em 
comparação com aquele 
associado ao uso de drogas 
‘Uso por prazer’ 
da marijuana 
 
Carreira 
desviante 
 
Carreira do 
usuário 
 
Connaisseurs 
 
13 
 
 
 
 
 
 
O processo de 
aprendizagem é feito em 
três fases distintas. A 
primeira é aprender e 
saber a técnica de fumar. 
Se não souber fumar, o 
iniciante não sentirá os 
efeitos da droga e 
portanto sentirá que não 
vale a pena usá-la, 
cessando o consumo da 
marijuana. 
 
 
 
 
A segunda fase é ocupada 
pela aprendizagem e pelo 
reconhecimento dos 
efeitos do consumo da 
droga em questão. 
Segundo Becker, os 
usuários de marijuana 
têm de reconhecer 
conscientemente as 
consequências do seu 
consumo pois, caso 
contrário, não irão 
reconhecer que estão 
realmente sobre o seu 
efeito e vão assumir que a 
marijuana não resulta 
com eles, perdendo o 
interesse nesta droga e, 
consequentemente, 
desistindo de a consumir. 
 
 
 
 
A terceira e última fase 
do processo de 
aprendizagem acontece 
que geram dependência.” 
(Becker, 1963, p. 52) 
 
 
 
 
“A droga não é fumada da 
maneira apropriada, isto é, 
de um modo que assegure 
dosagem suficiente para 
produzir sintomas reais de 
embriaguez.”(Becker, 
1963, p. 55) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“Não basta que os efeitos 
estejam presentes; por si 
sós, eles não fornecem 
automaticamente a 
experiência de estar no 
barato. Antes de ter essa 
experiência, o usuário 
precisa ser capaz de mostrá-
los para si mesmo e associá-
los conscientemente ao fato 
de ter fumado maconha. De 
outra maneira, quaisquer 
que sejam os efeitos reais 
produzidos, ele considera 
que a droga não teve efeito 
algum sobre ele.” (Becker, 
1963, p. 58) 
 
 
 
 
 
 
 
“Dadas essas primeiras 
experiências tipicamente 
14 
 
quando o novo usuário da 
marijuana aprende a 
gostar dos efeitos do 
consumo desta droga. 
Para o autor, certos 
efeitos como a perda da 
noção de tempo e espaço 
ou a incessante sede são, 
à partida, efeitos 
desagradáveis que iriam 
evitar o consumo 
contínuo da droga. No 
entanto, podemos ver que 
o consumo continua 
mesmo assim porque há 
uma redefinição destes 
efeitos, que passam a ser 
tidos com prazerosos e 
agradáveis. Esta 
redefinição é obtida por 
várias razões e vários 
contextos, como por 
exemplo uma maior 
interação com grupos de 
amigos mais experientes 
no consumo da marijuana 
– os connaisseurs. 
assustadora e desagradáveis, 
o iniciante não dará 
continuidade ao uso, a 
menos 
que aprenda a redefinir as 
sensações como 
agradáveis.” (Becker, 1963, 
p. 62) 
“Em interação com seus 
amigos, ele se tornou capaz 
de encontrar prazer nos 
efeitos da droga e 
finalmente tornou-se 
usuário regular.” (Becker, 
1963, p. 63) 
Capítulo IV: 
“Uso de 
maconha e 
controle 
social” 
No capítulo IV, o autor 
fala dos controles sociais 
e da luta que é necessária 
acontecer contra eles 
para que o consumo da 
marijuana se mantenha. 
Becker começa por 
definir comportamento 
desviante como um 
conjunto de atos que 
metem em causa as 
normas e os valores 
básicos da sociedade. 
 
 
 
 
Howard considera que, 
como forma de controle 
social, há a formação de 
conceções sobre o ato de 
“Aprender a gostar de 
maconha é uma condição 
necessária mas não 
suficiente para que uma 
pessoa desenvolva um 
padrão estável de uso da 
droga. Ela precisa lutar 
ainda com as poderosas 
forças de controle social que 
fazem o ato parecer 
inconveniente, imoral ou 
ambos.” (Becker, 1963, p. 
69) 
 
 
 
 
“Conjunto de ideias 
tradicionais definindo a 
prática como uma violação 
de imperativos morais, 
Comportamento 
desviante 
 
Controle social 
 
Fornecimento 
 
Sigilo 
 
Moralidade 
 
Sanções 
 
Grupos 
desviantes 
 
Contactos 
convencionais 
 
Racionalizações 
15 
 
consumir marijuana. 
Essas conceções são 
criadas em situações 
socias e perduram no 
tempo, sendo quase um 
guia moral das 
sociedades. Este 
conjunto de ideias têm 
como consequências as 
sanções informais (por 
exemplo o ostracismo ou 
a retirada de afeto), sendo 
por isso um grande 
obstáculo ao consumo 
regular da marijuana. 
 
 
 
 
Com isto, surge a grande 
questão de Becker neste 
capítulo: como é que as 
pessoas conseguem levar 
avante o seu consumo de 
marijuana mesmo com 
todos os entraves 
impostos pelo controle 
social? 
Para responder a esta 
questão, o autor distingue 
os principais tipos de 
controle social: o 
fornecimento, o sigilo e a 
moralidade. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O fornecimento pode ser 
um entrave ao consumo 
de marijuana na medida 
em que ela não está 
como um ato que leva à 
perda do autocontrole, à 
paralisia da vontade e, por 
fim, a escravidão à droga.” 
(Becker, 1963, p.70) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“Qual é a sequência de 
eventos e experiências pela 
qual uma pessoa se torna 
capaz de levar adiante o uso 
da maconha, apesar dos 
elaborados controles sociais 
que funcionam para evitar 
tal comportamento?” 
(Becker, 1963, p.70) 
“Os principais tipos de 
controle a serem 
considerados são: (a) 
controle pela limitação do 
fornecimento da droga e do 
acesso a ela; (b) controle 
pela necessidade de evitar 
que não-usuários descubram 
que a pessoa é usuária; (c) 
controle pela definição do 
ato como imoral.” (Becker, 
1963, p.71) 
 
 
 
 
“O uso de maconha é 
limitado (…) por leis que 
tornam a posse ou a venda 
da droga passíveis de 
16 
 
acessível a qualquer 
pessoa, tornando-se de 
difícil acesso. Para 
consumirem, as pessoas 
têm de pertencer a um 
grupo que sirva de 
intermédio de 
fornecimento. Este grupo 
tem de ser “organizado 
em torno de valores e 
atividades opostos aos da 
sociedade convencional 
mais ampla” (Becker, 
1963, p. 71). Durante o 
início, esta será a fonte de 
abastecimento do 
iniciante e de quem 
dependerá para obter 
droga e quando não 
existe mais interação 
com este grupo, o 
consumo cessa. 
 
 
 
O passo seguinte para se 
tornar num consumidor 
mais rotineiro, o usuário 
terá de encontrar uma 
fonte de fornecimento 
mais estável, isto é, irá 
criar ligações com 
pessoas que traficam 
narcóticos (porém, terão 
de ultrapassar primeiro 
um processo de ganhar a 
confiança dos 
traficantes). 
 
 
 
 
 
 
Mesmo assim, já com 
uma fonte direta de 
fornecimento, o usuário 
pode-se ver numa 
severas punições.” (Becker, 
1963, p. 71) 
“A pessoa usa a droga 
quando está com outras que 
têm um fornecimento; 
quando esse não é o caso, o 
uso cesso. Ela tende, 
portanto, a flutuar em 
termos das condições de 
disponibilidade criadas por 
sua interação com outros 
usuários.” (Becker, 1963, p. 
72) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“Se um usuário ocasional 
começa a se mover em 
direção a um modo de 
consumo mais regular e 
sistemático, isso só será 
possível se ele encontrar 
uma fonte de fornecimento 
mais estável que os 
encontros fortuitos com 
outros usuários, e isso 
significa estabelecer 
conexões com pessoas que 
se dedicam a traficar 
narcóticos.” (Becker, 1963, 
p. 73) 
 
 
 
 
“O uso regular é muitas 
vezes interrompido pela 
prisão ou desaparecimento 
do homem de quem 
17 
 
situação em que o seu 
fornecedor é preso ou 
desparece, obrigando a 
repetição toda do 
processo de arranjar uma 
nova fonte segura e 
estável de abastecimento 
de marijuana. Toda esta 
instabilidade nas fontes 
de fornecimento podem 
ser um controle social 
imposto ao consumo de 
drogas. 
 
 
 
 
No que toca ao sigilo, os 
usuários, com medo das 
sanções que podem obter 
dos não-usuários, tendem 
a esconder o seu 
consumo. No entanto, à 
medida que as interações 
com outros usuários e a 
experiência com a droga 
aumentam, este controle 
social vai perdendo a 
eficácia porque o usuário 
apercebe-se que os 
receios que tinha podem 
ser ou não verdadeiros. 
 
 
 
 
Assim, o medo dos não-
usuários descobrirem que 
o usuário consome droga 
faz com que este último 
se cubra num sigilo 
imenso, provocando uma 
irregularidade na 
frequência do consumo 
pois é quase impossível 
definir uma rotina de 
consumo. Para avançar 
para outro nível de 
compram (…) o uso regular 
só pode prosseguir se o 
usuário for capaz de 
encontrar uma nova fonte de 
fornecimento.” (Becker, 
1963, p. 75) 
“A instabilidade das fontes 
de fornecimento é um 
importante controle sobre o 
uso regular (…).”(Becker, 
1963, p. 75) 
 
 
 
 
 
“(…) temem o repúdio por 
parte de pessoas de cujo 
respeito necessitam (…) 
supõem que as suas relações 
com não-usuários serão 
perturbadas e rompidas caso 
estes venham a descobrir 
(…)” (Becker, 1963, p. 76) 
“Em cada nível de uso, há 
um avanço nessa 
compreensão que torna 
possível o próximo estágio.” 
(Becker, 1963, p. 76) 
 
 
 
 
 
 
“(…) prever as 
consequências da 
descoberta do segredo 
impede a pessoa de manter a 
provisão mínima para o uso 
regular. O consumo 
continua irregular, uma vez 
que depende de encontros 
com outros usuários e nãopode ocorrer sempre que o 
usuário deseja.” (Becker, 
1963, p. 78) 
18 
 
consumo, o usuário terá 
de romper com as 
relações que impendem o 
consumo regular. Caso 
este rompimento não 
aconteça, não há um 
avanço para um nível 
superior de consumo, 
retornando até ao estágio 
de consumidor ocasional. 
 
 
 
 
Resumindo, para o autor, 
os usuários de drogas 
limitam o seu consumo 
mediante o grau de medo 
de outras pessoas não-
usuárias descubram o 
consumo devido ao 
receio de uma má reação 
ou de sanções informais. 
Assim, o sigilo é outro 
tipo de controle social 
uma vez que, se alguém 
não romper com estas 
relações, o uso da droga 
irá terminar. Quando o 
usuário ganha a noção de 
que os seus medos podem 
ser exagerados e que a 
prática do consumo de 
drogas é facilmente 
mantida em segredo, este 
tipo de controle social 
perde a sua força. 
 
 
 
 
Howard considera que as 
normas morais da 
sociedade – que apelam 
ao autocuidado e ao 
autocontrolo – são um 
controle social. Segundo 
estas normas, um viciado 
“Se a pessoa ingressa quase 
totalmente no grupo de 
usuários, o problema deixa 
de existir sob muitos 
aspetos, e é possível que o 
consumo regular ocorra, 
exceto quando se faz uma 
nova conexão com o mundo 
mais convencional.” 
(Becker, 1963, p. 78) 
 
 
 
 
“Cada estágio de uso só 
pode ocorrer depois que a 
pessoa reviu sua conceção 
dos perigos envolvidos 
nele.” (Becker, 1963, p. 82) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“Exigem que o indivíduo 
seja responsável por seu 
próprio bem-estar, e capaz 
de controlar seu 
comportamento 
racionalmente. O 
estereótipo do viciado em 
19 
 
em droga é alguém que 
não se encontra de acordo 
com a sociedade e 
portanto existirá uma 
hesitação por parte dos 
iniciantes em 
experimentar marijuana. 
 
 
 
 
O iniciante partilhou em 
algum momento a 
perspetiva convencional; 
ao participar em grupos 
não-convencionais, a sua 
opinião irá ser alterada. 
Esta interação permite ao 
iniciante escapar às 
normas da sociedade e 
arranjar racionalizações 
ou justificações para 
responder às objeções 
feitas pelas noções 
básicas da sociedade 
convencional. Assim, só 
neutralizando a 
sensibilidade ao 
estereótipo é que a 
‘carreira do usuário’ irá 
progredir caso contrário 
ir-se-á autointitular como 
um ‘outsider desviante’. 
 
 
 
 
A racionalização mais 
frequente é a tese que o 
resto da população 
pertencente aos grupos 
convencionais se subjuga 
a outras práticas 
comprovadas mais 
nocivas, como o 
consumo de álcool. 
 
 
drogas retrata uma pessoa 
que viola esses 
imperativos.” (Becker, 
1963, p. 82) 
 
 
 
 
 
 
 
“Ela não começará, manterá 
ou aumentará seu uso de 
maconha a menos que possa 
neutralizar sua sensibilidade 
ao estereótipo, aceitando 
uma visão alternativa da 
prática. De outro modo, irá, 
como faria a maior parte dos 
membros da sociedade, 
condenar a si mesma como 
um outsider desviante.” 
(Becker, 1963, p. 82) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“As pessoas convencionais 
entregam-se a práticas 
muito mais nocivas, e que 
um vício comparativamente 
pequeno com o fumar 
maconha não pode ser 
errado quando coisas como 
o uso de álcool são tão 
aceitas” (Becker, 1963, p. 
83) 
 
20 
 
 
 
 
Nesta fase, o usuário é 
apenas ocasional e 
portanto tem controlo 
sobre as situações e 
contextos em que vai 
fumar ou não. Esse 
controlo dá-lhe o poder 
do planeamento de 
quando vai fumar, seja 
ela qual for a quantidade 
de marijuana, e por isso o 
usuário não se sente 
‘escravo’ da droga, 
estando assim de acordo 
com as regras morais da 
sociedade. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Se a utilização progredir, 
ou seja, o uso se tornar 
regular, irão surgir novas 
questões morais para o 
usuário pois ele passará a 
ser, para si a para os 
outros, um ‘viciado em 
drogas’ da mitologia 
popular. A solução, 
segundo o autor e a partir 
dum testemunho, é parar 
de fumar durante, por 
exemplo, uma semana e 
perceber que nada 
aconteceu e que estava 
tudo bem. Portanto as 
pessoas mantêm o uso 
regular da droga porque 
essa semana foi prova de 
 
 
 
“O fato de haver ocasiões 
em que, a princípio, ele não 
usa a droga, pode-lhe servir 
como uma prova para si 
mesmo de sua liberdade em 
relação a ela.” (Becker, 
1963, p. 84) 
“Pode adotar um modo de 
utilização ocasional porque 
reorganizou suas noções 
morais de maneira a 
permiti-lo, sobretudo ao 
adquirir a conceção de que 
os valores morais 
convencionais sobre drogas 
não se aplicam a esta droga 
que ele consome, e que, de 
todo modo, o uso que faz 
dela não se tornou 
excessivo.” (Becker, 1963, 
p. 85) 
 
 
 
 
“Se a utilização progride até 
o ponto de se tornar regular 
e sistemática, podem 
ressurgir questões morais 
para o usuário, pois ele 
passa agora a parecer, para 
si mesmo e para os outros, o 
‘viciado em drogas’ da 
mitologia popular. Ele 
precisa se convencer de 
novo — para que o uso 
regular possa continuar — 
de que não cruzou essa 
linha.” (Becker, 1963, p. 85) 
 
 
 
 
 
 
21 
 
que não eram ‘escravos’ 
da mesma. 
 
 
 
 
Numa outra dimensão, o 
autor afirma que a 
‘teoria’ psiquiátrica 
popular também afeta o 
consumo de marijuana e, 
por isso, também é um 
controle social. Isto é, 
muitos usuários 
partilham a opinião de 
que o uso de drogas na 
mesma quantidade e 
frequência que eles usam 
está associado a 
transtornos e 
desequilíbrios psíquicos. 
Portanto, o uso da 
marijuana torna-se um 
sinal de fraqueza moral e 
psíquica, enfraquecendo 
o uso regular da droga. 
 
 
Becker conclui então que 
o consumo de drogas está 
dependente das ideias 
preconcebidas das 
normais socias e da 
forma como o usuário 
consegue, ou não, 
substituí-las por outros 
pontos de vista. 
 
 
 
 
 
“(…) eles raciocinam que 
ninguém iria usar drogas em 
grandes quantidades a 
menos que houvesse ‘algo’ 
de ‘errado’ com ele, a 
menos que houvesse algum 
desajuste neurótico que 
tomasse as drogas 
necessárias. Fumar 
maconha torna-se um 
símbolo de fraqueza 
psíquica e, em última 
análise, de fraqueza moral. 
Isso predispõe a pessoa 
contra a continuação do uso 
regular e causa um retorno 
ao consumo ocasional (…)” 
(Becker, 1963, p. 86) 
 
 
 
 
“(…) uma pessoa se sentirá 
livre para usar maconha à 
medida que passe a 
considerar as conceções 
convencionais sobre ela 
como as ideias mal 
fundamentadas de outsiders 
e as substitua pela visão 
‘inside’ que adquiriu por 
meio de sua experiência 
com a droga na companhia 
de outros usuários.” 
(Becker, 1963, p. 87) 
Capítulo V: 
“A cultura de 
um grupo 
desviante – o 
músico de 
casa noturna” 
O capítulo V é iniciado 
pela afirmação de que um 
comportamento 
desviante é, 
consensualmente, 
rotulado de criminoso e 
delinquente, uma vez que 
vão contra os acordos 
“Embora suas atividades 
estejam formalmente dentro 
da lei, sua cultura e o modo 
de vida são suficientemente 
extravagantes e não-
convencionais para que eles 
sejam rotulados de outsiders 
Cultura 
 
Isolamento 
 
Auto-segregação 
 
‘Quadrados’ 
 
22 
 
morais da sociedade 
contemporânea. No 
entanto, o autor diz que 
não é tão linear assim, 
dando o exemplo dos 
músicos das casas 
noturnas que, embora os 
seus comportamentos 
estejam de acordo com a 
lei, ou seja, não sejam 
criminosos ou 
delinquentes, estes 
continuam a ser rotulados 
de outsiders devido à 
extravagância do seu 
modo de visa. 
 
 
 
 
Logo depois, é 
apresentado ao leitor o 
conceito antropológico 
de cultura que se sustenta 
na tese de que a cultura é 
resultado dos consensos 
finais que um 
determinado grupo de 
indivíduos concebe para 
a definir um objeto ou 
comportamento, portanto 
sãosignificados básicos 
que todos os indivíduos 
reconhecem como 
corretos. Esta visão é, no 
entanto, refutada por 
Hughes que afirma ser 
desadequada para a 
sociedade 
contemporânea por ser 
extremamente 
heterogénea e complexa 
para se resumir a um 
conceito tão simples. 
 
 
 
 
pelos membros mais 
convencionais da 
comunidade.” (Becker, 
1963, p. 89) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“Hughes observou que a 
concepção antropológica da 
cultura parece ser mais 
adequada para a sociedade 
homogênea, a sociedade 
primitiva com a qual o 
antropólogo trabalha. Mas o 
termo, no sentido de uma 
organização de 
entendimentos comuns 
aceitos por um grupo, é 
igualmente aplicável aos 
grupos menores que 
compõem uma sociedade 
moderna complexa, grupos 
étnicos, religiosos, 
regionais, ocupacionais. É 
possível mostrar que cada 
um desses grupos tem certos 
tipos de entendimento 
comuns e, portanto, uma 
cultura.” (Becker, 1963, p. 
90) 
 
 
 
 
Jazzmen 
 
Comercialização 
23 
 
Tendo um caráter 
heterogéneo, a cultura 
terá outras subculturas 
que incluem, no exemplo 
dado neste capítulo, os 
músicos das casas 
noturnas. O seu trabalho 
é condicionado pelos 
clientes, que acabam por 
ser ao mesmo tempo os 
seus espectadores, e 
portanto terão também de 
se adaptar ao que vende 
mais e agrada os 
espectadores, 
comercializando a sua 
música. 
 
 
 
 
 
 
 
 
A sua pesquisa foi 
através da observação 
participante devido à 
facilidade de recolha de 
informação porque o 
autor estava ele mesmo 
dentro da indústria 
musical. Ou seja, a 
recolha de testemunhos e 
anotações de observações 
foram feitas muitas vezes 
enquanto tocava em 
palco ou até em meras 
conversas com colegas. 
Despois de terminada 
esta fase, o investigador 
partiu para trabalhar em 
duas bandas diferentes: a 
primeira localizada numa 
cidade grande (maior 
poder de escolha e 
liberdade) e a segunda 
numa cidade mais 
 
“No entanto, eles têm de 
suportar a incessante 
interferência no que tocam 
por parte de patrões e do 
público. O problema mais 
árduo na carreira do músico 
médio, como iremos ver, é a 
necessidade de escolher 
entre sucesso convencional 
e seus padrões artísticos. 
Para alcançar sucesso, ele 
sente necessidade de se 
‘tornar comercial’, isto é, 
tocar de a cordo com os 
desejos dos não-músicos 
para quem trabalha; ao fazê-
lo, sacrifica o respeito de 
outros músicos e, assim, na 
maioria dos casos, seu 
autorrespeito.” (Becker, 
1963, p. 92) 
 
 
 
 
“Colhi o material deste 
estudo por meio de 
observação participante 
(…). Na época em que fiz a 
pesquisa, eu era pianista 
profissional há alguns anos 
e atuava em círculos 
musicais de Chicago.” 
(Becker, 1963, p. 93) 
“Quando completava a 
pesquisa, trabalhei como 
músico em dois outros 
lugares: uma pequena 
cidade universitária (…) e 
uma cidade grande, embora 
não tão grande quanto 
Chicago (…).” (Becker, 
1963, p. 94) 
 
 
 
 
24 
 
pequena universitária 
(maior necessidade de 
adaptação e 
comercialização). 
 
No próximo tópico, o 
autor aborda a diferença 
entre músicos e 
‘quadrados’. Os músicos 
autodescrevem-se como 
alguém que tem um dom 
inato para a música, 
sendo ‘superiores’ aos 
outros cidadãos pois 
nasceram com este dom. 
Na dinâmica intragrupo, 
não se criticam nem 
julgam, crendo que todos 
devem viver como 
quiserem e à sua própria 
vontade – repudiando, 
assim, qualquer tipo de 
discriminação. Aos 
músicos que fazem 
práticas não-
convencionais, é dado 
respeito e a ideia de 
heroísmo. 
 
 
 
 
Já os ‘quadrados’ são, 
para os músicos, são 
indivíduos iguais e sem 
distinção. São vistos com 
um misto de raiva e 
medo. Raiva porque se 
considera que não deverá 
existir nenhum tipo de 
obstáculo exterior ao 
processo de criação 
musical individual dos 
músicos. E medo porque 
são estas pessoas que 
consomem a produção 
musical, tendo nas suas 
mãos o poder de decidir o 
 
 
 
 
 
 
“O músico é concebido 
como um artista que possui 
um misterioso dom artístico 
que o distingue de todos os 
demais.” (Becker, 1963, p. 
94) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“O quadrado, por outro 
lado, não possui esse dom 
especial nem qualquer 
compreensão da música ou 
do modo de vida dos que a 
possuem (…) é visto como 
uma pessoa ignorante e 
intolerante, que deve ser 
temida, uma vez que produz 
as pressões que forçam o 
músico a tocar de maneira 
não-artística.” (Becker, 
1963, p. 98) 
 
 
25 
 
mercado desta indústria. 
Concluímos que, 
segundo o autor, os 
‘quadrados’ não terão 
conhecimento ou um 
bom gosto sobre a 
música, sendo apenas 
uma manta homogénea 
da sociedade. 
 
 
 
 
Como segundo tópico, 
Becker apresenta-nos as 
relações ao conflito 
interno que os músicos 
experienciam. O conflito 
surge devido ao desejo de 
dar à sua música um 
significado íntimo e de 
autoexpressão que choca 
com a ‘necessidade’ de 
ceder às preferências dos 
‘quadrados’ com o 
objetivo de poder obter 
estabilidade financeira. 
Assim, através de vários 
testemunhos e 
depoimentos de diversos 
artistas, Howard Becker 
vai perceber neste 
capítulo o porquê de 
existir tanta necessidade 
de adaptação ao estilo 
dos ‘quadrados’. 
Resumindo, é possível 
afirmar que há um certo 
tipo de privilégio para 
aqueles que conseguem 
fazer da sua vida a 
música e/ou ter 
reconhecimento artístico 
sem ceder à 
comercialização da sua 
arte uma vez que são 
poucos aqueles que 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“Dois temas conflitantes 
constituem a base da 
concordância: (1) o desejo 
de autoexpressão de acordo 
com as crenças do grupo de 
músicos e (2) o 
reconhecimento de que 
pressões externas podem 
forçar o músico a se privar 
de satisfazer esse desejo.” 
(Becker, 1963, p. 101) 
“Além da pressão para 
agradar ao público que 
emana do desejo que o 
músico tem de maximizar 
salário e renda, há pressões 
mais imediatas. Muitas 
vezes é difícil sustentar uma 
atitude independente.” 
(Becker, 1963, p. 103) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
26 
 
obtêm os mesmos 
resultados. 
 
 
 
 
Para encerrar o capítulo 
IV, Becker fala-nos do 
isolamento e da auto-
segregação sentidos neste 
meio social. Para os 
músicos, o receio que 
sentem em relação aos 
‘quadrados’ resulta num 
afastamento dos 
primeiros para com o seu 
público, com vista à 
proteção da sua música. 
Ao se afastarem do seu 
público e das ‘pessoas 
convencionais’, estarão a 
entrar numa espiral de 
medo onde cada vez mais 
serão rotulados como 
outsiders. 
 
 
 
 
Para isso, o autor 
apresenta-nos ao grupo 
de jazzmen, ‘X Avenue 
Boys’. Este grupo é 
composto na grande 
maioria por imigrantes de 
classe alta que rejeitam o 
seu privilégio e a cultura 
americana que é imposta 
na arte. Assim sendo, 
mostram-se grandes 
opositores à música 
comercial e ao estilo de 
vida dos ‘quadrados’. 
Como tal, os ‘X Avenue 
Boys’ sempre tocaram 
em locais específicos 
onde conviviam apenas 
com pessoas no mesmo 
 
 
 
 
 
 
“Os músicos são hostis a 
seus púbico, temerosos de 
ter de sacrificar seus 
padrões artísticos aos 
‘quadrados’.” (Becker, 
1963, p. 105) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“Em suma, sua rejeição ao 
comercialismo na música e 
aos quadrados na vida social 
fazia parte do embargo a 
toda a cultura norte-
americana erguido por 
homens que gozavam de 
uma posição privilegiada, 
mas eram incapazes de 
conseguir um ajuste pessoal 
satisfatório dentro dela.” 
(Becker, 1963, p. 107) 
 
 
 
 
 
 
 
27 
 
círculo social, isto é, com 
músicos. Este grupo é um 
bom exemplo da auto-
segregação e do 
isolamento a que são 
sujeitos com medida de 
autoproteção e, 
consequentemente,da 
sua arte. 
 
 
 
 
Por fim, também temos 
um testemunho dum 
artista que devido à 
diferenciação entre 
músicos e ‘quadrados’ 
abandonou a sua 
atividade artística. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“Mas estou satisfeito por 
estar deixando a profissão. 
Estou enjoado de ficar no 
meio de músicos. Há tanto 
ritual e cerimônia sem 
sentido. Eles têm de falar 
uma língua especial, se 
vestir de maneira diferente, 
usar um tipo diferente de 
óculos. E, tudo isso não 
significa porcaria alguma, a 
não ser: ‘Nós somos 
diferentes’.” (Becker, 1963, 
p. 110) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
28 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
Becker, H. S. (1963). Outsiders: Studies in the Sociology of Deviance. Nova Iorque, 
Estados Unidos da América: The Free Press (pp. 51-110). 
Engels, F., & Marx, K. (1867). A Ideologia Alemã. Bruxelas, Bélgica.

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