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Intervenção ABA para autismo e deficiência intelectual Disciplina 2 − Módulo 1 Este material está protegido por leis de direitos autorais. Todos os direitos sobre ele estão reservados. Está proibida a venda, distribuição gratuita ou cópia e reprodução integral ou parcial desse conteúdo em sites, blogs, jornais ou quaisquer veículos de distribuição e mídia. Qualquer tipo de violação dos direitos autorais estará sujeito a ações legais. Sumário Watson e o nascimento do Behaviorismo 4 Burrhus Frederic Skinner 12 Principais obras de Skinner 18 O Behaviorismo Radical 21 4 Watson e o nascimento do Behaviorismo Watson e o nascimento do Behaviorismo Lucelmo Lacerda Na história da humanidade, na maior parte do tempo, as pessoas compreenderam a realidade como parte de um mundo muito maior, que compreendia uma dimensão não natural, sobrenatural, seja habitada pelos espíritos das coisas, que eram entendidas como animadas (o chamado animismo), seja como um campo em que divindades, seres maiores, mais poderosos e etéreos, reinavam sobre o mundo natural. As divindades primeiras eram caprichosas, cheias de vontades, como Zeus, a principal divindade do panteão grego, conhecido por seu apreço por mulheres e por impor suas vontades, sob pena de severa vingança, que podia incluir relâmpagos e dilúvios. Posteriormente, surgiram e se expandiram as religiões monoteístas que se baseavam em uma divindade que se fundamentava na dualidade entre bem e mal, advinda do zoroastrismo e aprofundada no cristianismo, nas quais a divindade se confundia completamente com o bem, a bondade, enquanto seu oposto era a maldade. A inimizade com Deus não era mais simplesmente a não obediência a suas vontades, mas a adesão ao mal (muita atenção com o lado sombrio da força, padawans). As novas divindades aderiram ao referencial da ética, iniciando o processo que foi chamado de Desencantamento do Mundo. Esse processo de eticização da religião foi lhe extraindo o caráter mágico de explicação dos fenômenos da realidade como meras repercussões das vontades caprichosas dos deuses, e tornou-se progressivamente mais difícil explicar uma praga como fruto da ira de Deus, uma boa colheita como o bom humor divino ou quaisquer destas variações nos campos físicos, criando o contexto em que surgiu e se desenvolveu o racionalismo. A Ciência surge da tentativa de estabelecer um processo de produção de conhecimento capaz de prever os fenômenos, ou seja, compreender tão 5 Watson e o nascimento do Behaviorismo profundamente o mundo que, a partir de certas informações, seja possível antecipar o que ocorrerá em determinadas circunstâncias. No século XIX, as pessoas passaram a encarar de maneira diferente a realidade. A herança do Renascimento e do Iluminismo culminou em uma busca por utilizar a razão como mecanismo para conhecer a realidade, para que fôssemos capazes de descrever as coisas do mundo real de tal modo que nos possibilitasse atuar sobre esse mundo de modo efetivo. Embora não tenha havido qualquer revolta contra o pensamento religioso ou contra a religião organizada, explicar o mundo através da vontade divina tornou-se algo progressivamente menos aceitável, o que deu lugar à razão como base para a busca do conhecimento do mundo. O advento do racionalismo nos instigou a procurar formas cada vez mais efetivas de conhecer a realidade, culminando com o surgimento da Ciência. Tempos depois, com o advento da Física, e com a Química assimilando a herança da Alquimia, assim como a Astronomia absorveu a da Astrologia, esse processo mostrou-se – e ainda se mostra, infelizmente – muito mais complexo nos domínios que envolvem a compreensão dos seres humanos. Foi nesse contexto, entre o final do século XIX e o início do século XX, que surgiram diversas propostas filosóficas, culminando no aparecimento do Behaviorismo, na década de 1910, sob a liderança de John B. Watson, nos Estados Unidos, em um dos principais centros de desenvolvimento científico do mundo. A ciência é um conhecimento sobre a realidade que se baseia na racionalidade, mas como podemos definir quais são os melhores métodos de pesquisa? Qual é a natureza do conhecimento científico? Como devemos produzir ciência? Todas essas questões são muito relevantes e podem parecer menores porque houve séculos de avanço que nos propiciaram um conhecimento científico que se traduziu e se traduz, cotidianamente, em tecnologia altamente eficaz, que afeta todas as pessoas e demonstra o poder deste conhecimento. Mas essa construção não foi simples: ela passou por diversos estágios importantíssimos e continua a passar todos os dias. O campo que investiga como reconhecemos algo como conhecimento científico – qual a sua natureza, se é verdadeiro, quase verdadeiro ou 6 Watson e o nascimento do Behaviorismo não verdadeiro, se representa ou constitui a realidade – é um ramo da Filosofia chamado Epistemologia. Esse campo forneceu o cenário crítico para o surgimento do Behaviorismo, em 1913, mas também se transformou profundamente desde então. Watson, como todo grande pensador, foi um homem de seu tempo, uma pessoa que foi capaz de estudar o que havia de conhecimento até então e formular uma síntese, o Behaviorismo (que podemos chamar também de comportamentalismo). As fontes que possuem maior influência no pensamento de Watson são: 1. O Objetivismo de Comte; 2. O Funcionalismo; 3. A Psicologia Animal. A primeira grande proposta filosófica que nos interessa é o Positivismo (importante lembrar que a versão contemporânea do Behaviorismo, o radical, não parte dos mesmos pressupostos), elaborado por Auguste Comte, que defendeu o que chamou de Lei dos Três Estados. A ideia é que o conhecimento sobre as coisas seguia um processo em que elas eram explicadas, primeiramente, por meio da religião, encontrando causas sobrenaturais para o funcionamento do mundo. Depois, esse conhecimento caminhava para o estado metafísico, em que se supunha a existência de forças acima da natureza, não físicas. A terceira fase seria a científica, na qual o mundo seria tomado pelo que é, um fenômeno natural em todas as suas dimensões e aspectos. O Positivismo entendia que esses três estados eram o processo natural pelo qual tudo passava, inclusive a Psicologia, que começara também com a compreensão das alterações entre as formas de ser como reflexos dos espíritos e forças sobrenaturais, passando pela metafísica e chegando, por fim, em algum tempo, a alguma visão científica sobre os seres humanos. Para o Positivismo, a “natureza” que o cientista desejava conhecer era real, independentemente de nós a observarmos, a conhecermos ou não; ela existe e os cientistas nada mais fazem do que descrever esta realidade, que continha em si todo o seu conhecimento. Ou seja, o cientista era um 7 Watson e o nascimento do Behaviorismo agente descritivo, era alguém que registrava, em uma língua, os códigos da realidade. Ocorre que, nessa perspectiva, o grande desafio é conter as próprias opiniões e tendências; o cientista tinha a si mesmo como inimigo – o que ele precisava gravemente combater, lutar dia após dia, era contra qualquer perversão do conhecimento da realidade. O cientista deveria ser um observador completamente neutro. A ideia de que a ciência pode ser um produto asséptico da relação entre o observador da realidade, que é o cientista, e seu objeto de estudo, a natureza, já foi completamente superada. Hoje é aceito, de modo consensual, que a ciência é um conhecimento formulado pelo cientista, e que não há nenhuma forma de se esquivar de sua própria cultura, sua própria língua, suas convicções. Embora o cientista possa e deva trabalhar para que seja mais objetivo e que o conhecimento que produz tenha mais capacidade de prever e controlar fenômenos, não há como separar o conhecimento científico de seus proponentes. Como diria Skinner, a ciência é o comportamento verbal do cientista e o comportamento verbalé controlado pelas variáveis do contexto, de modo que o conhecimento científico é igualmente produto das variáveis que constroem o cientista, tal como ele o é. Dentro desta perspectiva positivista dominante no século XIX, é que nasce o Objetivismo psicológico, que propunha trazer uma perspectiva objetiva, neutra, também para o campo da Psicologia, que até então se dedicava a estudar a consciência como objeto de pesquisa, o que obviamente não é uma coisa objetiva, mensurável, tangível ou mesmo diretamente acessível. O método fundamental da Psicologia da época era o introspeccionismo, em que os indivíduos eram inquiridos sobre o que pensavam, sentiam e acreditavam e esses relatos eram tomados como um produto da observação dessa consciência pelo sujeito que relata. A forma de realizar a interpretação destes relatos também era assistemática e subjetiva, fazendo com que o discurso objetivista na Psicologia se opusesse gravemente à corrente dominante que se agarrava à introspecção ainda na virada de século. 8 Watson e o nascimento do Behaviorismo Watson, por vezes, admitiu que era possível inquirir as pessoas de algumas formas específicas e sobre determinados temas, de modo que aquilo que elas dissessem pudesse ser tomado como um relato fiel do que ele pensava e/ou sentia, proposição pela qual foi atacado por parte de seus pares, acusado de banir o introspeccionismo por uma porta e admiti-la pela porta de trás. Noutras ocasiões, porém, refutou de modo incisivo o uso de relatos como fonte para o trabalho psicológico, evidenciando a mesma fluidez com que tratou a influência da genética no comportamento humano e outros temas. Essa postura revela uma característica importante de quem desbrava novos caminhos, como fez o Behaviorismo na Psicologia: a capacidade de demonstrar flexibilidade e de se transformar ao longo do percurso, à medida que novas evidências e perspectivas surgem. No entanto, o Objetivismo psicológico não era a única corrente a influenciar o surgimento do Behaviorismo. Também cumpriram um papel especial neste processo o fortalecimento da Psicologia Animal e do Funcionalismo. Desde que Charles Darwin propôs a Teoria da Evolução, o mundo tem estado em alvoroço diante de diversos aspectos dessa ideia. Talvez o mais perturbador tenha sido a noção de que os seres humanos não estão acima ou fora da natureza, mas fazem parte dela – resultado do mesmo processo de seleção das espécies que, a partir de estruturas incrivelmente simples, levou ao surgimento de toda a diversidade de formas vivas: a baleia, a aranha, o pinguim, a galinha, a barata e, claro, o próprio ser humano. É claro que essa perspectiva provocou violenta reação daqueles que defendem o “caráter especial” dos seres humanos, feitos à imagem de Deus e portadores de aspectos essenciais não naturais, na verdade, para muito além da natureza. Assim, como não poderia deixar de ser, os defensores de Darwin e da Teoria da Evolução também foram às armas por suas posições e desencadearam um imenso programa de pesquisa para submeter a perspectiva darwinista (e seu oposto) a rigoroso escrutínio. Tarefa alcançada muitos anos depois e incorporada à noção de genética na esteira de Mandel e tantos outros que o sucederam. Um dos eixos centrais para a demonstração empírica da teoria evolucionista de Darwin era o estudo da continuidade entre os diversos animais, contendo os seres humanos como parte. Provavelmente a mais especial característica dos seres humanos seria sua experiência enquanto ser, sua psicologia, 9 Watson e o nascimento do Behaviorismo sua “subjetividade”, de modo que isso os separava, supostamente, da natureza. Construir uma psicologia animal que demonstrasse uma espécie de continuidade entre os animais não humanos e os animais humanos era central dentro deste projeto cético, e assim se fortaleceu enormemente esse campo de pesquisa, no qual se inserem figuras como Thorndike e Pavlov, que tiveram decisiva influência sobre Skinner, Loeb e inclusive o próprio Watson, que se dedicou extensivamente à pesquisa com animais. As pesquisas com animais se consolidaram e passaram desde a tradição do Behaviorismo de Watson para o Behaviorismo Radical, sendo um excelente recurso de produção de conhecimento com maior controle de variáveis, preocupações éticas menos centrais e uma simplicidade do comportamento que torna mais fácil as observações e a experimentação. As primeiras décadas do Behaviorismo Radical também foram dedicadas extensivamente à pesquisa com animais, retirando, no entanto, o caráter antropormofizante que a pesquisa científica possuía neste período anterior. “Quais são os elementos de nossa Psiquê?” se perguntavam diversos sujeitos que estavam embrenhados no desafio da Psicologia humana. Essa foi, por exemplo, uma pergunta feita por Freud e pelos estruturalistas. Nem todos, entretanto, estavam realmente interessados nisso; havia quem acreditasse que sair em busca de que elementos constituem a psicologia humana era um enquadramento inadequado para o estudo da Psicologia, que não era a estrutura psíquica, psicológica, mental ou qualquer outro nome que se possa dar a estes elementos que interessava, mas o processo de existir no mundo. Essa forma de abordar o fenômeno psicológico constituiu o movimento chamado de Funcionalismo, que exerceu enorme influência sobre Watson e o Behaviorismo de modo geral. O Funcionalismo se dedicava aos processos em que o indivíduo existia, se opondo ao estruturalismo, que buscava as estruturas psíquicas da Psicologia humana. Segundo Schultz & Schultz, William James, um dos mais importantes fundadores do Funcionalismo, “acreditava serem as experiências conscientes simplesmente experiências conscientes e não grupos de conjuntos de elementos” (Schultz & Schultz, 2009, p. 161). Angell, outro funcionalista importante e com forte influência na carreira acadêmica de Watson, inclusive considerado como Pseudobehaviorista, chegou a proclamar que a “consciência” seria excluída do vocabulário da Psicologia, 10 Watson e o nascimento do Behaviorismo em benefício da ação do fazer humano, do processo como objeto de estudo fundamental da Psicologia (Carrara, 2005, p. 60). O Funcionalismo se concentrou, em princípio, na chamada Escola de Chicago, sob a liderança de dois intelectuais em especial. O primeiro deles foi John Dewey, de longa carreira e forte influência também na educação. O autor defendeu que a Psicologia deveria se dedicar à análise do indivíduo inteiro e como ele funcionava no ambiente, isto é, pensar o comportamento humano a partir do que ele significava para o organismo, de seu papel adaptativo para o sujeito. Ou seja, o Funcionalismo não se interessava pelo organismo em si, mas por seu funcionamento, pelo processo em que ele agia no ambiente. A outra vaga desta história é de James Rowland Angell, nada mais nada menos que o orientador de John B. Watson. Com uma carreira brilhante, que incluiu a reitoria de Yale e a presidência da Associação Americana de Psicologia, Angell desenvolveu um trabalho, no campo do Funcionalismo, com enorme influência, que sintetizamos em 3 aspectos: a) Angell voltou-se formalmente contra o Estruturalismo de Titchener e acentuou a divisão entre eles; enquanto o Estruturalismo se dedicava ao conhecimento das estruturas mentais, o Funcionalismo se interessava pelos processos mentais, humanos, isto é, dedicava-se a conhecer o modus operandi do processo mental, o que se realiza e em que condições se realizam tais operações; b) O Funcionalismo era utilitarista, assim, a consciência era vista como executora de processos úteis ao organismo em diferentes contextos, e uma tarefa essencial era a descoberta dessas relações, a que servia cada processo; e c) O Funcionalismo é a psicologia das relações psicofísicas, que não admitia a distinção entre mente e corpo e os considerava pertencentes à mesma classe, abrangendo todas as funções nestas esferas. Dado todo essecontexto, emerge a figura de John Broadus Watson (1878-1958), um psicólogo nascido em Nova Iorque, formado e com primeira atuação na Universidade de Chicago, depois se mudando para a Universidade John Hopkins, onde construiu sua brilhante carreira 11 Watson e o nascimento do Behaviorismo acadêmica, encerrada prematuramente por um escândalo sexual que ocasionou sua demissão e rejeição em todo o campo acadêmico, o que o levou à atuação empresarial na área da publicidade e propaganda, onde teve enorme sucesso utilizando os princípios behavioristas. Talvez possamos dizer que Watson não propôs, de fato, nada novo ou especial. Ele não foi um teórico revolucionário, mas sim um agente dos tempos, capaz de reconhecer, ordenar e lutar por uma nova lógica no campo da Psicologia, estabelecendo firmemente o cenário de uma Psicologia Behaviorista e detratando seus opositores com todo o vigor. Em 1913, Watson publicou um artigo que ficou conhecido como o Manifesto Behaviorista, justamente por apresentar formalmente sua perspectiva e propor este caminho como uma estrada segura para a Psicologia moderna e científica que o autor defendia. Apesar de o Objetivismo se afastar do Introspeccionismo, ele não propunha um caminho de pesquisa que pudesse oferecer à Psicologia outras bases de trabalho. Seria quase como a ideia de que a Psicologia seria uma ideia impossível, uma semente infértil para a produção científica, enquanto Watson propôs claramente que o objeto da pesquisa na Psicologia deveria ser modificado da consciência (ou mente) para o comportamento humano. É verdade que foi duramente criticado por não apresentar o mesmo objeto sob outro enquadramento: a noção de Comportamento, tal como ele a definiu, configurava um reducionismo diante da Psicologia vigente. Ainda assim, naquele momento, sua formulação direta e específica resolveu a principal contradição da corrente objetivista. A Psicologia Animal ganhava espaço e proliferava à toda, mas suas descrições sempre inferiam uma espécie de mente ou de consciência menos evoluída para explicar os processos comportamentais que eram avaliados. Assim ocorria com todos os grandes nomes, como o próprio Pavlov e Thorndike. Assim, se um gato passava a se comportar de uma certa forma depois de um certo estímulo, interpretava-se que ele pensou algo, ou que sua “mente” ou “consciência” se modificou em certo sentido, sempre na procura de uma entidade superior da qual o comportamento fosse expressão, contradição 12 Watson e o nascimento do Behaviorismo que também foi resolvida por Watson ao estabelecer o comportamento em si como objeto de estudo. Enquanto os funcionalistas encaravam a Psicologia como a ciência da vida mental, que estudava os processos em que os sujeitos agem como aquilo que se poderia chamar de consciência, incorriam no problema fundamental de dedicarem-se a um processo sem uma operacionalização clara de sua visão, de modo que Watson também encarou esta contradição ao retirar a mente do campo de estudo da Psicologia. Era preciso, portanto, que essas ideias fossem reunidas e depuradas. Foi exatamente este o papel de Watson: aproveitar essas influências e formar um corpo capaz de propor a si mesmo como uma substituição da Psicologia vigente, que propusesse um modelo diferente de encarar os seres humanos. Progressivamente, o Behaviorismo foi sendo transformado desde sua raiz, especialmente com a chegada de Skinner ao cenário, o mecanicismo deu lugar ao pragmatismo funcionalista de Ernst Mach, o dualismo deu lugar ao monismo, a limitação à relação entre estímulo-resposta deu lugar a um sistema complexo fundamentado em grande medida no Comportamento Operante, entre outras muitas modificações, que veremos nos tópicos seguintes. Burrhus Frederic Skinner Vamos falar brevemente deste importantíssimo intelectual chamado Skinner. Formado primeiramente em Letras, Skinner não estava satisfeito com sua área e se interessou pelo que estava ocorrendo na Psicologia, decidindo fazer um doutorado em Harvard, no Departamento de Psicologia. No entanto, nas voltas que o mundo dá, acabou vinculado à Psicologia, que emitiu seu título de Doutor, tendo realizado, no entanto, toda a sua pesquisa na Fisiologia, praticamente sem orientação. Em sua tese de doutorado, Skinner fez uma apreciação do conceito de reflexo (ou comportamento respondente), já começando a ensaiar a noção de comportamento operante que desenvolveu posteriormente. Um amigo desse período, Fred Keller, ficou especialmente impressionado com Skinner 13 Watson e o nascimento do Behaviorismo e teria, posteriormente, papel decisivo na formação do campo da Análise do Comportamento no mundo. Em princípio, Skinner trabalhou muito com animais, tendo influência de muitos pensadores como Thorndike, Mach e Watson, entre inúmeros outros, vindo a elaborar uma nova versão do Behaviorismo, ao qual se adicionou o adjetivo “Radical”, para sinalizar que neste novo comportamentalismo, a raiz de toda a compreensão humana poderia e deveria se dar pela análise de seu comportamento, não por uma simples questão metodológica, como propõe o Behaviorismo Metodológico, mas porque todo fazer humano é comportamento. Skinner primeiramente enfrentou a questão do delineamento do campo do comportamento, estabelecendo uma distinção fundamental entre o comportamento respondente e um outro tipo de comportamento, o operante. Ele fez isso trabalhando de maneira intensa com animais, como ratos e pombos, elaborando a teoria comportamental a partir de seus princípios básicos. Em 1938, Skinner publicou o livro O comportamento dos organismos, em que apresentou sua proposta como um sistema, que fez com que Keller reconhecesse que aquilo era algo a que realmente se poderia aderir e que ele poderia divulgar, como de fato o fez. Keller escreveu um influente livro de introdução à Psicologia, muito baseado em Skinner, levando essas ideias para os quatro cantos do mundo, inclusive para o Brasil, onde trabalhou na década de 1950, construindo uma base sólida de Analistas do Comportamento, como Carolina Bori, João Claudio Todorov, Maria Amélia Matos, Rodolpho Azzi, entre muitos outros. O autor brasileiro Kester Carrara entende que o sistema skinneriano só foi realmente desenvolvido em 1945, com a publicação do trabalho The operational analysis of psychological terms1 (Carrara, 2005), mas o consenso é que a obra mais completa de Skinner sobre seu sistema foi publicada em 1953, chamada Ciência e Comportamento Humano, que ainda é utilizada em cursos de Psicologia como base para o ensino da Análise do Comportamento. 1 Análise operacional dos termos psicológicos (em tradução livre). 14 Watson e o nascimento do Behaviorismo Quando a tarefa de construção de seu sistema estava mais avançada, sustentada em bases firmes e com sólidas demonstrações empíricas, Skinner quis mais e sua produção foi em busca do que há de mais elaborado, mais complexo, em termos de comportamento humano para demonstrar que o comportamento é, realmente, a raiz de tudo. O primeiro livro desse tipo, publicado em 1957 e considerado ousado para sua época, foi Comportamento Verbal. Nele, Skinner argumentou que a comunicação humana segue as mesmas leis que regem outros comportamentos, classificando as diferentes formas verbais de acordo com os antecedentes presentes e com o tipo de reforçamento que as sustentava – elaboração que ficou conhecida como Operantes Verbais. Diferentemente de suas obras anteriores, contudo, esse livro não foi resultado direto de pesquisa empírica, mas uma derivação de estudos básicos e uma interpretação teórica rigorosa desses dados, aplicada a um contexto distinto daquele em que haviam sido originalmente obtidos. Nessa obra, o autor considerou como “comportamento verbal” todo fazer humano cujo reforçamento não era diretamente produzido pelo comportamento, mas sim por meio da mediação de outra pessoa, treinada pela comunidade verbal para essa mediação.O comportamento verbal, portanto, poderia ocorrer por fala, gestos, cartões e sinais, qualquer forma que, compreendida por uma outra pessoa treinada, faria com que ela mediasse o reforçamento. Assim, se um consumidor pede ao garçom uma cerveja, ele se comporta e o reforçamento, operado pela cerveja, é mediado por esse garçom. O consumidor pode ter dito “Chefe, vê uma cerveja pra mim, por favor?”, pode ter simplesmente feito um gesto apontando a garrafa vazia, pode ter tocado em um tablet com o cardápio, mas, de todas as formas, o reforçamento foi mediado por uma pessoa treinada para essa tarefa. Esses são todos exemplos de comportamento verbal. O livro Comportamento Verbal foi duramente criticado dentro da comunidade de Analistas do Comportamento por não se basear em pesquisas experimentais específicas para aquelas afirmações, e recebeu uma pesada crítica externa, especialmente do linguista Noam Chomsky, advindo de outro campo de pesquisa, de natureza cognitivista, que teceu diversas críticas à perspectiva comportamental, sendo a maioria delas baseadas em equívocos sobre o tema, uma vez que ele não conhecia a 15 Watson e o nascimento do Behaviorismo Análise do Comportamento e sequer havia lido todo o livro que criticava. Ainda assim, por este conjunto de fatores, o livro de Skinner ficou “enterrado”, até que Murray Sidman resolveu, entre as décadas de 1970 e 1980, o principal problema da perspectiva comportamental sobre o comportamento verbal, que era o surgimento de novos comportamentos não diretamente reforçados (isso veremos depois), e Jack Michael colocou o livro debaixo do braço e o adotou como aquilo que ele de fato era: um verdadeiro programa de pesquisa (ainda hoje incompleto). Surpreendentemente, a esmagadora maioria das afirmações feitas por Skinner naquela obra se demonstraram corretas por rigorosa experimentação posterior, inclusive com grande impacto sobre a área aplicada às intervenções com pessoas com desenvolvimento atípico. Outra obra igualmente ousada foi Tecnologias do Ensino, na qual Skinner examinou os equívocos e as potencialidades educacionais a partir da ciência do comportamento, propondo um ensino baseado em novas e inovadoras premissas. Suas ideias serviram, de um lado, como fundamento para experiências pedagógicas marcantes — como a Escola da Ponte, em Portugal, e boa parte da instrução programada do ensino a distância contemporâneo — e, de outro, foram equivocadamente interpretadas como uma defesa da substituição dos professores por máquinas de aprender. Essas máquinas eram dispositivos que apresentavam, mecanicamente, atividades para os estudantes, que respondiam de maneira correta ou errada. Caso acertassem de modo consistente, demonstrando que atingiam os critérios de aprendizagem, os estudantes passavam para o próximo tópico, assim como aqueles que não acertavam suficientemente ficavam no mesmo nível até aprenderem adequadamente, individualizando o processo de ensino e respeitando os ritmos individuais. No livro, Skinner acentua o papel do professor como alguém que apoia os estudantes de modo a explicar, resolver problemas, ajudar na escolha de certos percursos – uma tarefa muito superior à de selecionar atividades em sala de aula (o que era feito antes na programação das máquinas de aprender), mas o discurso apressado e corporativista também fez com que este livro ficasse por muito esquecido. Na visão de Skinner, a escola deveria ser um lugar maravilhoso – o lugar de aprender deve ser bonito, agradável, cheiroso (olha que sacada!) para 16 Watson e o nascimento do Behaviorismo produzir um reforçamento poderoso para os vários comportamentos que a escola se propõe a produzir e, mais ainda, para o próprio comportamento de aprender, que possibilitaria aos indivíduos interagir com outros ambientes e ter autonomia para aprender muitas outras coisas não planejadas pela escola. Em suas últimas obras, o autor ainda analisou temas sofisticados, como arte, poesia e as várias formas do amor, como se pode ler em Questões Recentes da Análise do Comportamento, demonstrando que a Análise do Comportamento é uma ferramenta versátil e complexa de descrição dos fenômenos humanos. Por outro lado, o autor também refletiu seriamente sobre a humanidade e nossas limitações e possibilidades. Em um livro chamado Walden II, Skinner pensou em uma sociedade perfeita, governada por um modelo a que chamou de “personocracia”, em que os conhecimentos derivados das ciências do comportamento seriam a base do governo. Esse livro é uma das grandes controvérsias em nosso campo de estudo: para alguns, a realidade imaginada por Skinner configura uma utopia; para outros, trata- se de uma verdadeira distopia. Walden II inspirou diversas comunidades reais — a mais duradoura delas, ainda em atividade, é Los Horcones, onde decisões são tomadas a partir de experimentos científicos cujos resultados são publicados sem autoria individual, apenas sob o nome coletivo do grupo. Outras comunidades semelhantes fracassaram, e muitos consideram a proposta de Skinner ingênua, apontando que seu modelo poderia facilmente degenerar-se em um autoritarismo tecnocrático. Outro livro mais filosófico é Beyond Freedom and Dignity, que em tradução literal significa “Para além da liberdade e da dignidade” e que sofreu (a palavra ideal é essa, que remete a sofrimento) a infeliz tradução de “O mito da liberdade e da dignidade”. Nele, o autor discorre longamente sobre o papel do ambiente em nosso comportamento, argumenta que a liberdade não é nunca absoluta, que somos governados por uma interação com o contexto em que vivemos. Assim, à medida que nossa realidade muda, também mudamos. Por um lado, pode parecer uma acepção limitadora de homem, quando, na verdade, é precisamente o contrário. Skinner argumenta que se quisermos pessoas boas, adeptas da paz, que preservem o meio ambiente, etc., temos 17 Watson e o nascimento do Behaviorismo que arranjar nosso ambiente para produzir contingências que reforcem precisamente estes comportamentos e que impeçam o reforçamento dos comportamentos que lhes são opostos. Em outras palavras, Skinner assumiu que a responsabilidade por um mundo mais justo está em nossas mãos e que a Análise do Comportamento deveria se comprometer com esse objetivo ético. Nessa obra, o autor examina a visão de senso comum sobre o tema, que busca explicar por que as pessoas se comportam de maneiras tão distintas – algumas alcançando sucesso, outras acumulando fracassos – atribuindo a elas características como perseverança, coragem, medo, fraqueza, determinação ou ousadia, entre muitas outras, que supostamente brotariam de suas mentes, vistas como inexplicavelmente diferentes. Parte da ciência endossa esse tipo de explicação, ao adotar constructos teóricos como a “mente”, mesmo sem existência física no mundo real, como recurso explicativo. No entanto, essa estratégia acaba aprisionando a Psicologia em um esquema circular de explicação, que não permite o avanço rumo ao verdadeiro propósito científico: a predição e o controle dos fenômenos. Assim, se um estudante não realiza as atividades propostas na escola, pode-se atribuir isso a um suposto estado mental chamado “preguiça”. Mas, ao perguntar como se chegou a essa conclusão, a resposta seria algo como: “porque ele nunca faz a lição”. E, se questionarmos novamente por que nunca faz a lição, a réplica será: “ora, porque é preguiçoso”. Forma-se, assim, um círculo pseudoexplicativo que nada esclarece e, pior, impede a busca de intervenções que realmente promovam a mudança do comportamento e o avanço de uma ciência capaz de contribuir para o desenvolvimento da sociedade. Skinner morreu em 18 de agosto de 1990, pouco depois de publicar sua última obra, sendo, portanto, um autor que acompanhou cerca de 60 anos desse campo de estudo como seu principal experimentador e formulador, desenvolvendo sempre obras revolucionárias e solidamente fundamentadas,sendo a construção teórica da contingência, base do comportamento operante, comparada, em termos de relevância, à formulação da Teoria da Evolução, à Genética e às Teorias da Relatividade e da Mecânica Quântica. 18 Watson e o nascimento do Behaviorismo É claro que a Análise do Comportamento não é limitada a Skinner e, como qualquer ciência, o objetivo é que ele seja largamente superado. Mas o conhecimento deste autor ainda é fundamental para as bases desta ciência e para compreendermos os fenômenos comportamentais. Recentemente, a Teoria das Molduras Relacionais (RFT), apresentou-se como uma Teoria Pós- Skinneriana, causando grande frisson dentro da comunidade de Analistas do Comportamento, acentuando a necessidade imperativa a qualquer ciência de esquivar-se de qualquer tipo de dogma e de “fidelidade” a qualquer autor – a única fidelidade que uma ciência pode ter é com as evidências disponíveis. Principais obras de Skinner • Skinner, B. F. The Concept of the Reflex in the Description of Behavior. Journal of General Psychology, 1931, 5, 427-457. • Skinner, B. F. On the Rate of Extinction of a Conditioned Reflex. Journal of General Psychology, 1933, 8, 114-129. • Skinner, B. F. A Discrimination Without Previous Conditioning. Proceedings of the National Academy of Science, 1934, 20, 532-536. • Skinner, B. F. The Generic Nature of the Concepts of Stimulus and Response. Journal of General Psychology, 1935, 12, 40-65. • Skinner, B. F. The Effect on the Amount of Conditioning of an Interval of Time Before Reinforcement. Journal of General Psychology, 1936, 14, 279- 295. • Skinner, B. F. The Behavior of Organisms: An Experimental Analysis. New York: Appleton-Century-Crofts, 1938. • Skinner, B. F. The Alliteration in Shakespeare Sonets. Psychological Record, 1939, 3, 186-192. • Skinner, B. F. A Quantitative Estimate of Certain Types of Soundpatterning in Poetry. American Journal o f Psychology, 1941, 54, 64-79. 19 Watson e o nascimento do Behaviorismo • Skinner, B. F. The Operational Analysis of Psychological Terms. Psychological Review, 1945, 52, 270-277. • Skinner, B. F. Differential Reinforcement with Respect to Time. American Psychologist, 1946, 1, 274-275. • Skinner, B. F. “Superstition” in the Pigeon. Journal of Experimental Psychology, 1948(a), 38, 168-172. • Skinner, B. F. Walden Two. New York: MacMillan, 1948(b). • Skinner, B. F. Are Theories of Learning Necessary? 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A outra é a Análise Experimental do Comportamento, na qual se formulam os conhecimentos sobre os processos básicos do comportamento, e a terceira é a Análise do Comportamento Aplicada. 22 Watson e o nascimento do Behaviorismo O Behaviorismo Radical é uma filosofia, mas por que uma ciência necessita de uma filosofia? Simples: todas as ciências se fundamentam em uma filosofia (embora nem sempre de maneira clara) porque a epistemologia, o modo de se produzir conhecimento, é um ramo da filosofia. O Behaviorismo Radical possui uma relação intrínseca com a Análise Experimental do Comportamento, sendo submetido à crítica e possível modificação à medida que temos novos conhecimentos sobre a realidade. Não se trata de uma filosofia estática, mas de uma base sobre a qual a Análise Experimental atua. Como exemplo, temos alguns elementos fundamentais do Behaviorismo Radical. Ao observar cada um desses pontos com atenção, percebe-se o enorme impacto que exercem sobre a prática. Todo fazer humano é comportamento. Não faz sentido afastar comportamentos que ocorrem dentro da pele, como pensar, amar, sentir dor, da esfera de atuação dessa ciência simplesmente porque não são observáveis diretamente. Esse é um problema metodológico resolvido com sofisticação metodológica à medida que esta ciência avança. Assim, tudo o que o homem morto não faz é comportamento, sendo mensurável, como o comportamento motor, e mesmo não sendo mensurável, como o pensamento. Esse foi o grandediferencial do Behaviorismo Radical em relação às versões comportamentalistas que o precederam, pois eram versões reducionistas, por não olharem para aquilo que era absolutamente fundamental para a Psicologia e para o que a sociedade esperava dela. Um trecho do trabalho do Prof. Kester Carrara descreve bem o problema fundamental da perspectiva de Watson, que criou o espaço que acentua a importância da inovação proposta por Skinner: Watson foi [. . .] acusado de ter removido a consciência como objeto central do estudo científico, sem colocar no mesmo lugar alguma forma de análise daquelas ações humanas não visíveis a olho nu, mas de cuja existência e relevância ninguém duvida (o pensamento, sentimentos e algumas emoções mais sutis, por exemplo). Watson não tinha uma resposta clara para estas questões, embora especulasse sobre elas. [. . .] (Carrara, 2005, p.42). 23 Watson e o nascimento do Behaviorismo É verdade que há importantes dificuldades metodológicas no estudo do pensamento, porque ele não é visível e só há uma forma de acessá- lo: por meio do relato da própria pessoa que pensa, que é a única capaz de observá-lo. No entanto, a pessoa que pensa pode fazer um relato completamente contrário ao seu pensamento – ela pode ter uma dificuldade em se auto-observar para relatar com fidedignidade o que ocorre, e ela pode, ainda, ser incapaz de comunicar-se, como é o caso de pessoas com o Transtorno do Espectro Autista que são não verbais. Nada disso, porém, faz o pensamento ser menos comportamento, afinal, a definição do que é ou não é comportamento não se baseia em critérios metodológicos e sim em critérios epistemológicos. O Behaviorismo Radical rompeu com o Behaviorismo Metodológico justamente por esse motivo: o que as pessoas fazem só pode ser entendido como comportamento porque o ser humano é parte da natureza, na qual os eventos físicos se influenciam mutuamente e não surgem “do nada”. Assim, qualquer acontecimento ou mudança – dentro ou fora de um organismo, seja um movimento motor, um pensamento ou um sentimento – decorre das relações físicas estabelecidas entre variáveis. Em outras palavras, tudo isso só pode ser considerado comportamento, independentemente de ser observável diretamente ou não. O ser humano é um todo único, uno, sendo assim, o Behaviorismo Radical é monista e não admite a separação entre corpo e mente ou alma e corpo (embora isso não vede em nenhum momento uma compreensão religiosa do Analista do Comportamento de que exista uma alma – desde que isso não se misture com sua avaliação científica). Isso significa que o ser humano é inteiramente um ser orgânico e físico – não existe nele uma substância de outra natureza, algo distinto a que se possa chamar “mente”, como se fosse diferente do corpo. Descartes utilizou o sistema de irrigação do Palácio de Versalhes como modelo de compreensão dos seres humanos. Ele observou que todo o sistema era uma maquinaria engenhosa em que uma coisa movimentava a outra, que movimentava outra em uma relação mecânica complexa de causa e efeito. A partir disso, formulou-se a ideia de que os seres humanos seriam como uma maquinaria dotada de complexas relações mecânicas que mobilizam o corpo (base do mecanicismo), mas habitada por um espírito ou 24 Watson e o nascimento do Behaviorismo força vital responsável por determinar como essa máquina se comportaria. Dessa concepção surgiu a alegoria do “Fantasma na Máquina”, que marcou, e ainda marca, o senso comum e diversas correntes teóricas que tratam o comportamento humano como mera expressão física de algo distinto, de outra natureza, inefável: a chamada “mente humana”. O pensamento (ou mente) não são, em nenhuma hipótese, causadores do comportamento. É o conjunto de relações complexas entre organismo e ambiente que determinam o comportamento, mas isso se dá por meio de um processo ao qual chamamos de “seleção pelas consequências”. Assim, um comportamento se torna mais provável à medida que suas consequências atendem às funções necessárias ao organismo, e menos provável quando não as satisfazem, seja em uma pessoa ou em qualquer outro organismo. O papel do pensamento é um dos temas mais discutidos na interface entre a Análise do Comportamento e outros campos que estudam o comportamento humano. A experiência subjetiva nos leva a crer que nossos pensamentos governam nosso comportamento. No entanto, essa interpretação não é precisa e carece de evidências que a sustentem. Por outro lado, para a Análise do Comportamento, o pensamento existe, é relevante, mas não é a CAUSA do comportamento. O pensamento é, em si, também um comportamento. Assim, não devemos encará-lo como uma coisa “o pensamento”, mas como um ato, uma ação: “o pensar”. Dessa forma, se pensar é um comportamento, ele pode ser descrito também como funcionando a partir das regras que regem o comportamento humano. No entanto, não é exatamente este ponto que pretendemos trabalhar neste texto e sim uma outra questão, de fundo. Quando entramos em uma lanchonete e pensamos “Humm, estou com fome, vou pedir uma coxinha” e então falamos “Boa tarde! Me vê uma coxinha, por favor!”, a pergunta é: foi o pensamento anterior que causou o comportamento de pedir a coxinha? A resposta é NÃO. Isso não quer dizer que o comportamento de pensar não existiu, mas que ele apenas descreve o organismo se comportando e optando por comprar ou não, mas o que faz com que o indivíduo se comporte são as relações de reforçamento, extinção e punição que estabelecemos em 25 Watson e o nascimento do Behaviorismo nossa vida. Assim, se comemos em uma lanchonete que tem uma péssima coxinha, esta consequência pode ser punitiva e, portanto, da próxima vez nosso pensamento pode ser descrito como “Humm, a coxinha daqui é ruim, não vou comer” e mais uma vez não é esse pensamento que causou o comportamento de não comer a coxinha, mas o pensamento foi um comportamento de auto-observação e descrição do organismo se comportando. Basta lembrarmos das tantas vezes em que agimos contra o nosso próprio pensamento para termos a certeza de que o pensamento não controla o comportamento. Ele é a nossa forma de sentir e descrever como nos comportamos e não a sua causa. Quando uma pessoa com TEA severo se comporta de certa forma e há uma consequência reforçadora, ele tende a se comportar mais da mesma forma. Alguém poderia argumentar “Mesmo sem entender?”, sim, mesmo sem entender (por “entender” consideremos “ser capaz de descrever”) e o entendimento será ensinado aos poucos. Quando ensinamos, priorizamos o entendimento, queremos que a pessoa mude seu comportamento por meio de um discurso que fazemos, que objetiva mudar seu entendimento, e isso quase nunca é eficaz, porque essa atitude parte do pressuposto “mudo o pensamento dele, logo, o comportamento mudará” e como essa afirmativa está equivocada, ele não funciona. Nós mudamos o comportamento mudando o ambiente em que o sujeito está, portanto, mudam também as contingências, fazendo com que o ambiente não permita mais acesso a reforçadores que sejam produzidos por comportamentos indesejáveis e fazendo com que o ambiente libere reforçadores para comportamentos desejados. E quanto ao pensamento? Ele será mudado junto com os demais comportamentos. Por exemplo, quando Joãozinho faz uma birra para não tomar banho, sua mãe diz “Não quer tomar banho, não toma!”, e deixa que ele vá para o videogame. Mudar o ambiente pode ser, por exemplo, reter o controle do videogame até que Joãozinho tome seu banho. Se isso ocorrer consistentemente, você verá que após algum tempo, Joãozinho “se conscientizará” da importância do banho. 26 Watson e o nascimento do Behaviorismo Quando um comportamento é fortemente reforçado em determinada circunstância, torna-se muito provável que seja emitido em situações semelhantes. Contudo, não é possível garantir sua ocorrência com 100% de certeza; o que se pode afirmar é que ele provavelmente ocorrerá.Em outras palavras, se a circunstância se repetir diversas vezes, na maioria delas o comportamento será emitido. A isso chamamos de “Determinismo Probabilístico”, a que, talvez, a Análise do Comportamento se filie. Digo “talvez” porque esta posição foi defendida por Skinner e tantos outros Analistas do Comportamento relevantes, mas vem sendo questionada recentemente por importantes teóricos. Carolina Laurenti, em 2009, publicou sua tese doutoral Determinismo, Indeterminismo e Behaviorismo Radical, em que defendeu que a Análise do Comportamento é muito mais compatível com o indeterminismo do que com sua versão determinada. Isto é, o estudo exaustivo dos desfechos alcançados com as inúmeras manipulações de variáveis nos dá uma excelente segurança de que possamos predizer e controlar fenômenos, criando cenários em que atuamos efetivamente quase sempre. No entanto, também é verdade que é impossível asseverar que dada uma certa relação entre variáveis, SEMPRE se dará um certo desfecho, necessariamente aberto ao imponderável da realidade, sendo, portanto, indeterminista (a discussão é muito mais profunda do que este parágrafo, como você deve imaginar, então é recomendado que leia a tese). O comportamento é sempre individual e a avaliação do comportamento, bem como a intervenção, deve considerar este critério de modo radical. Assim, sempre que se realiza uma intervenção de caráter analítico- comportamental, a medida de avaliação nunca é outra pessoa e sim sempre o próprio sujeito, em sua linha de base, isto é, em sua avaliação antes da intervenção. A isso chamamos de delineamento de sujeito único (este é um dos motivos pelos quais uma intervenção baseada em ABA para uma criança nunca será igual a de outra, mesmo que ambas tenham autismo e que tenham o comportamento bem semelhante). Existem 3 níveis de seleção do comportamento que são complementares e se integram de modo ímpar em cada ser humano existente, eles se entrelaçam de modo que a descrição de médias gerais do comportamento humano não oferece medidas de ninguém em particular, são conhecimentos 27 Watson e o nascimento do Behaviorismo que não descrevem o comportamento de nenhuma pessoa real, mas uma pessoa ideal, uma pessoa que não existe, e não é (ou não deveria ser) o caminho de uma ciência do comportamento. O primeiro desses níveis é a Filogênese, a base orgânica sobre a qual se ergue tudo o que um organismo realiza no mundo. Nossa biologia também foi moldada pelas consequências – não ao longo da vida individual, mas da história de nossa espécie. Bilhões de anos atrás, o surgimento da vida deu origem a uma imensa variedade de formas estruturais e comportamentais, algumas adaptativas ao ambiente, outras não. Sobreviveram aquelas que favoreceram a adaptação, enquanto as demais foram eliminadas. Imagine, em determinado momento da história de nossa espécie, ou de algum antepassado, a presença simultânea de indivíduos que respondiam à variação de luz dilatando a pupila no escuro e contraindo-a em ambientes claros, e outros que não apresentavam essa capacidade. Aqueles que conseguiam contrair e dilatar a pupila rapidamente podiam enfrentar predadores ou rivais da própria espécie e transitar do interior de uma caverna para a mata densa ou para o descampado ensolarado mantendo o mesmo nível de visão em poucos segundos. Já os que não possuíam essa adaptação tinham grandes dificuldades nessas transições, com alta probabilidade de serem mortos. Isso reduzia suas chances de deixar descendentes, fazendo com que a variação genética mais adaptativa se espalhasse até dominar a espécie. É claro que este exemplo é um arremedo de um comportamento biologicamente instalado, um respondente, que provavelmente foi selecionado por meio de aproximações sucessivas no decorrer de milhares ou milhões de anos, em que competiam exemplares com maior dilatação e contração da pupila contra outros com menos dilatação e contração da pupila, favorecendo progressivamente aqueles com melhor habilidade, mas é bem ilustrativo de como as consequências de um certo comportamento determinado por uma variação genética o selecionaram na história da espécie, constituindo este nível filogenético. É verdade, contudo, que o nível filogenético não se limita à história de seleção da espécie em geral. Cada indivíduo possui uma filogenia específica, diferente da de outras pessoas, o que pode torná-lo 28 Watson e o nascimento do Behaviorismo mais ou menos sensível aos estímulos do ambiente e, assim, alterar significativamente seu percurso comportamental, mesmo vivendo em um contexto muito semelhante ao de outros. O segundo nível de seleção do comportamento é a história individual do sujeito, seu percurso desde a geração até a morte, em que certos comportamentos operam uma mudança no ambiente, que por sua vez também operam sobre o indivíduo uma mudança e tornam este organismo mais ou menos propenso a emitir este mesmo comportamento. Em minha história pessoal, agi no mundo e os comportamentos produziram modificações que constituíram uma vantagem para mim, enquanto organismo, dotado de uma certa sensibilidade específica ao ambiente. Desta forma, estes estímulos também me transformaram e eu me tornei alguém com mais probabilidade de repetir esses mesmos comportamentos caso o contexto em que foram emitidos se repita. É a essa relação que damos o nome de reforçamento. Por outro lado, eu também fiz coisas no passado que modificaram o ambiente – não em um sentido vantajoso, mas desvantajoso para mim enquanto organismo. Essas consequências do ambiente também me modificaram no sentido de que me tornei alguém com menor probabilidade de fazer estas mesmas coisas, isto é, a relação estabelecida não foi de reforçamento, mas de punição (não se preocupe, isso será melhor trabalhado e explicado logo à frente). Então, durante uma vida inteira, nós agimos no mundo e este mundo pune certas respostas que emitimos, fazendo com que nós não mais as emitamos ou as façamos com menor frequência. Mas ele também reforça certas respostas, que se tornam muito frequentes e passam a constituir o nosso repertório, isto é, o conjunto de comportamento que emitimos durante nosso dia a dia, em determinadas circunstâncias. Este nosso repertório é composto de comportamentos motores, de sentimentos e de pensamentos. Basta se auto-observar e comparar-se consigo mesmo quando era adolescente – não são somente as partes de nosso corpo que mudaram (mais moles, lamentavelmente): também mudaram nossos gostos, a maneira com que nos sentimos diante da vida, as paixões (lembra da primeira vez que teve o coração partido e achou que o mundo iria ruir? Que não passaria nunca?), nossos pensamentos, enfim, somos outras pessoas, porque sobre a nossa 29 Watson e o nascimento do Behaviorismo base filogenética houve, desde então, intensa relação entre ambiente e nosso fazer, moldando nosso repertório atual, ao que também podemos chamar de personalidade. Nesta nossa história pessoal, uma bronca pode ser um baita punidor para um comportamento de qualquer um de nós, principalmente se for de alguém muito querido ou admirado, se for em um momento em que estejamos tristes, se usar palavras fortes e que se relacionam com algum evento que no passado nos trouxe sofrimento ou, a depender de outro percurso, pode ser, pasmem, um poderoso reforçador, caso seja dada em uma pessoa com forte privação de atenção social ou que não consiga discriminar o que a pessoa que está dando a bronca está pensando ou sentindo, como acontece muitas vezes com pessoas com o Transtorno do Espectro Autista com uma alteração importante na percepção social. Ou seja, um mesmo estímulo do ambiente não opera da mesma forma sobre diferentes pessoas porque cada pessoa possui uma base filogenética específica e à medida que se relaciona com o ambiente, passa a ter uma história ontogenética também particular, que altera também as próximas interações com o ambiente, tornando,portanto, o comportamento humano uma coisa altamente complexa e indeterminada, uma verdadeira bola de neve. O terceiro nível de seleção do comportamento humano é a cultura. Todos nós nascemos em um determinado tempo na história e isso determina diferencialmente se nós vamos, por exemplo, caçar elefantes em grandes planícies, se vamos protegê-los para preservação da natureza, adorá-los como divindades ou simplesmente comercializá-los em feiras, e todos os pensamentos e sentimentos que acompanham estas ações descritas, ou seja, a cultura de um certo tempo, influenciam diretamente os limites e possibilidades de quem somos e tudo o que fazemos. Contudo, mesmo que duas pessoas nasçam no mesmo período – digamos, por volta do ano 2000 –, é possível que pensem, sintam e ajam de formas radicalmente diferentes. Algumas podem defender a igualdade de gêneros, enquanto outras sustentam a primazia dos homens sobre as mulheres; há ainda aquelas que praticam ou apoiam atos abomináveis, como a mutilação genital feminina, em que lâminas enferrujadas produzem cortes profundos na vulva de meninas para impedir que sintam prazer – prática que ainda 30 Watson e o nascimento do Behaviorismo atinge milhares delas em todo o mundo. Isso ocorre porque a cultura varia entre diferentes regiões do planeta e afeta diretamente a definição de quem somos, mesmo sendo todos da mesma espécie. Essas culturas sobreviveram porque foram adaptativas, isto é, elas criaram contingências, contextos de comportamento de seus membros que fizeram com que essas sociedades continuassem existindo e conseguissem manter- se em pé mesmo com a eliminação progressiva da maior parte das culturas que já viveram neste nosso planeta. Estas culturas, no entanto, continuam fazendo isso, criando contextos de comportamento para que nós existamos, e continuam lutando por sua sobrevivência, seja modificando-se e se adaptando, seja sendo eliminadas e dando lugar a novas culturas. A interação entre estes três níveis de seleção do comportamento produz exemplares altamente idiossincráticos que só podem ser bem estudados idiograficamente, isto é, perseguindo suas histórias individuais, observando e experimentando interações específicas com o ambiente e não nomoteticamente, isto é, pela extração de médias de populações, em que não se conhece a relação específica de organismo com o ambiente e seu desfecho sempre único. O Behaviorismo Radical, esta filosofia que subsidia a Análise do Comportamento, adota alguns princípios científicos fundamentais que também merecem ser apresentados brevemente aqui neste contexto: O Pragmatismo – Em grande parte da ciência prevalece a corrente chamada Realismo, que pressupõe a existência de uma realidade independente de nós. Como não podemos acessá-la tal como ela é em si mesma, recorremos aos sentidos para percebê-la e, para consolidar esse conhecimento, realizamos a aferição intersubjetiva do objeto. Em outras palavras, não basta que alguém veja ou sinta a realidade de determinada forma: é necessário que outros também a percebam do mesmo modo, para que possamos confirmar sua “existência real”. Se a realidade só pode ser percebida pelos sentidos, como podemos afirmar, com certeza, que ela de fato existe? Essa é uma das principais premissas de uma outra corrente filosófica contemporânea, o Pós- Modernismo, que coloca em xeque a existência da realidade e defende que ela é uma construção social da linguagem, que ordena nossa percepção. 31 Watson e o nascimento do Behaviorismo Para os adeptos do Behaviorismo Radical, há uma outra corrente filosófica que melhor representa nossa visão de mundo, a pragmatista. Desse ponto de vista, não interessa se a realidade existe ou se ela não existe, se ela é uma construção externa ou não, só o que importa é que nós percebemos algo como realidade, intersubjetivamente, ou seja, eu vejo uma criança se comportando de maneira inadequada e outra pessoa também a vê, eu meço seu comportamento disruptivo (digamos que ele bata a cabeça na parede) e outra pessoa também mede o fenômeno de modo muito próximo a mim (o que é verificado por um índice de concordância entre observadores). Assim, não discutimos se a realidade “existe de verdade” ou não; permanecemos agnósticos quanto a isso e lidamos, pragmaticamente, apenas com aquilo a que temos acesso. Ainda que percebamos o mundo de maneira semelhante, propomos intervenções nessa realidade percebida que efetivamente a transformam no sentido desejado e previsto. Essas transformações podem ser observadas e mensuradas tanto por mim quanto por outras pessoas, sem que haja necessidade de combinação prévia. Assim, podemos afirmar que a percepção de algo que se assemelha a uma realidade exterior mostra-se consistente entre diferentes observadores: quando olhamos para o mesmo lugar, percebemos as mesmas coisas, a mesma realidade. Podemos também afirmar, a partir dessa relação, que essa realidade pode não existir, ela pode ser uma ilusão; talvez vivamos todos em uma espécie de Matrix. Ainda assim, as regras naturais que conseguimos identificar por meio de numerosos estudos experimentais nos fornecem segurança suficiente para desenvolver tecnologias cuja eficácia pode ser prevista. Assim, da mesma forma que os físicos conseguem estabelecer conexões entre processos físicos para enviar mensagens de um lado a outro do planeta, os Analistas do Comportamento podem elaborar intervenções capazes de eliminar comportamentos inadequados, como aqueles cuja função é chamar atenção, apenas para citar um exemplo. 32 Watson e o nascimento do Behaviorismo O Funcionalismo de Ernst Mach – A ciência possui quatro objetivos, que são: a) Descrever; b) Explicar; c) Predizer; e d) Controlar fenômenos. Explicarei preliminarmente três desses elementos, deixando de lado o segundo, para depois abordá-lo brevemente e esclarecer a influência central de Mach sobre Skinner, que permeou todo o Behaviorismo Radical. A descrição dos fenômenos necessita da observação da realidade tal como ela é e da experimentação, sempre que possível, para que a relação específica de cada variável do ambiente em relação às demais variáveis seja mensurada adequadamente e possamos estabelecer como a natureza se comporta, dadas todas as circunstâncias em que a conhecemos. A predição da realidade é diretamente derivada da robustez de nossa descrição. Se nós descrevemos uma enorme quantidade de corpos celestes que fazem uma trajetória esperada, inúmeras vezes vista, e descrevemos tudo o que circunda um determinado corpo celeste, a existência ou não e o efeito ou não na trajetória de matéria escura, energia escura, atmosferas e outros corpos celestes próximos, então podemos dizer, com grande margem de segurança, que esse corpo fará um determinado roteiro. Ou seja, apesar de não terem habilidades de videntes e pouco conhecimento sobre leitura de mãos e de borra de café no fundo das canecas, os cientistas partem das descrições da realidade para fazer predições muito precisas sobre o futuro dos fenômenos que descreveram, tanto mais precisas quanto melhor descrita sua área de atuação, como a citada Física, a Química, entre outras. Assim, se nós sabemos que em dada situação ou em certa interação entre variáveis, ocorrerá isto ou aquilo, e podemos predizer o que acontecerá em uma série de situações em que somos espectadores, como um magma que ameaça irromper em um vulcão, um furacão que varrerá a costa de um país ou uma espécie que será eliminada em alguns anos caso continuemos no mesmo ritmo de exploração, então também é possível que nós mesmos 33 Watson e o nascimento do Behaviorismo arranjemos o ambiente de modo a dispor certas variáveis para produzir o desfecho que pretendemos. Em um passado distante, as tecnologias eram produzidas pelo método da tentativa e erro ou por alguma intuição engenhosa de algumas pessoas, mas a maior parte da tecnologia contemporânea é fruto da ciência mais avançada, naqual nós descrevemos de maneira incrivelmente minuciosa a realidade e com isso somos capazes, por exemplo, de provocar fenômenos em partículas menores do que os átomos em computadores quânticos; conseguimos falar com uma pessoa vendo seu rosto do outro lado do mundo, simultaneamente, através dessa invenção fabulosa que é o celular; conseguimos organizar estímulos reforçadores para reforçar comportamentos socialmente relevantes e retê-los para que não reforcem comportamentos inadequados… enfim, conseguimos organizar parcelas do mundo para que essa organização/interação entre variáveis promova desfechos vantajosos para a humanidade. Esse é o controle da realidade a que a ciência se propõe. O que nos interessa mais especialmente aqui, no entanto, é o segundo objetivo, a EXPLICAÇÃO – de que se trata explicar a realidade após descrevê-la? Imaginemos que nós tenhamos a relação entre duas coisas, um corpo celeste com uma massa substancial, como o sol, e um outro corpo celeste com uma massa menor, a curta distância, como um meteoro. Então, este pequeno corpo celeste será atraído pela força gravitacional do sol (uma maneira leiga de descrever a ação das ondas gravitacionais) e será tragado pela estrela maior deste sistema planetário. Provavelmente será dito que a gravidade do sol CAUSOU a atração do pequenino corpo celeste, mas esta pergunta levará à necessidade de uma outra explicação, que é POR QUE uma coisa causou a outra, e talvez explicaremos que isto ocorre porque corpos com massa maior atraem corpos com massa menor, mas poderíamos perguntar mais uma vez POR QUE isso acontece e qualquer outra explicação poderia receber a mesma pergunta novamente até finalmente chegar a um “porque sim”, que, obviamente, todos os que acompanharam o Castelo Rá-Tim-Bum sabem que não é resposta. 34 Watson e o nascimento do Behaviorismo É por esse motivo que Mach entendeu que toda relação entre variáveis não pode ser apresentada como uma relação de causalidade em que A causa B, porque uma relação deste tipo pressupõe sempre que há uma outra explicação, necessariamente metafísica, para que o porquê seja adequadamente respondido. Assim, em sua perspectiva, depois adotada por Skinner e incorporada ao Behaviorismo Radical, a explicação da realidade que a ciência propõe realizar nada mais é do que uma sintetização da descrição em termos mais gerais, para melhor aplicação nos processos de predição e controle da realidade. Portanto, sabemos que os seres humanos se comportam e, ao fazê-lo, modificam o ambiente, que por sua vez os modifica. Contudo, não podemos afirmar que a apresentação de um determinado estímulo cause o aumento da probabilidade de um comportamento (mesmo que seja um reforçador). O que podemos dizer é que, dadas certas relações entre uma resposta e um estímulo, esse comportamento tenderá a ocorrer mais vezes no futuro. Trata-se de uma relação funcional entre variáveis em interação, e não de uma relação causal direta entre eventos (sim, é complexo, mas vale ir assimilando a ideia). Quando descrevemos essa relação entre variáveis, o behaviorista descreve o que ocorre, como o ambiente se modifica e afeta o organismo e como este organismo se comporta, como ele age no mundo, e faz a descrição de tudo isso, que se transforma, na pena do teórico, como Skinner e tantos outros, em processos gerais identificados como o Reforçamento e a Punição, a Operação Motivacional, a Lei da Igualação, a Extinção, entre tantos outros conceitos, que não servem para EXPLICAR nada a rigor, isto é, para dizer o porquê de certas coisas ocorrerem ou não ocorrerem, mas para descrever certas coisas que ocorrem, de modo que podemos identificar estes mesmos processos em outras circunstâncias. Portanto, nessa explicação conceitual, é preciso que sejamos claros e diretos – uma descrição não pode acrescentar conjecturas a seu escopo, ela deve ser transparente tanto quanto possível, e a explicação deve refletir esse pé no chão, sem apelar a forças metafísicas ou constructos teóricos como a MENTE, dado o princípio da Parcimônia, que estabelece a necessidade, em ciência, de sempre se optar pelo caminho mais direto que dê conta da explicação dos fenômenos. Referências bibliográficas • CARRARA, Kester. Behaviorismo: crítica e metacrítica. São Paulo: Editora UNESP, 2005. • CRUZ, Robson Nascimento. B. F. Skinner: uma biografia do cotidiano científico. Belo Horizonte: Artesã, 2019. • LAURENTI, Carolina. Determinismo, Indeterminismo e Behaviorismo Radical. 2009. 430 f. Tese (Doutorado em Ciências Humanas) - Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2009. • RICHELLE, Marc. B. F. Skinner: uma perspectiva europeia. São Carlos: EDUFSCar, 2014. • WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. Watson e o nascimento do Behaviorismo Burrhus Frederic Skinner Principais obras de Skinner: O Behaviorismo Radical