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911-sociedade-e-meio-ambiente

Livro sobre sociedade e meio ambiente que apresenta quatro unidades: sociedades humanas e ambiente natural (capitalismo, economia ambiental e ecológica, marxismo), relações etnorraciais no Brasil, meio ambiente e direitos humanos, e desenvolvimento sustentável e educação ambiental.

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Sérgio Goes Barboza
Wilson Sanches
Elias Barreiros
Sociedade e meio 
ambiente
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Sociedade e meio
ambiente
Sérgio Goes Barboza
Wilson Sanches
Elias Barreiros
Sociedade e meio 
ambiente
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) 
 Barboza, Sérgio Goes 
 
 ISBN 9788584826421
 1. Meio ambiente - Sociedade. 2. Ambientalismo. I. 
 Sanches, Wilson. II. Barreiros, Elias. III Título.
 CDD 363.7 
Wilson Sanches, Elias Barreiros. – Londrina: Editora e 
Distribuidora Educacional S.A., 2017.
 168 p.
B239s Sociedade e meio ambiente / Sérgio Goes Barboza,
© 2017 por Editora e Distribuidora Educacional S.A.
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer 
modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo 
de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Editora e 
Distribuidora Educacional S.A.
Presidente
Rodrigo Galindo
Vice-Presidente Acadêmico de Graduação
Mário Ghio Júnior
Conselho Acadêmico 
Alberto S. Santana
Ana Lucia Jankovic Barduchi
Camila Cardoso Rotella
Cristiane Lisandra Danna
Danielly Nunes Andrade Noé
Emanuel Santana
Grasiele Aparecida Lourenço
Lidiane Cristina Vivaldini Olo
Paulo Heraldo Costa do Valle
Thatiane Cristina dos Santos de Carvalho Ribeiro
Revisão Técnica
Fábio Pires Gavião
Editoração
Adilson Braga Fontes
André Augusto de Andrade Ramos
Cristiane Lisandra Danna
Diogo Ribeiro Garcia
Emanuel Santana
Erick Silva Griep
Lidiane Cristina Vivaldini Olo
2017
Editora e Distribuidora Educacional S.A.
Avenida Paris, 675 – Parque Residencial João Piza
CEP: 86041-100 — Londrina — PR
e-mail: editora.educacional@kroton.com.br
Homepage: http://www.kroton.com.br/
Unidade 1 | Sociedades humanas e ambiente natural
Seção 1 - Capitalismo e Meio Ambiente
1.1 | O controle do meio natural e suas consequências
1.2 | Economia ambiental
1.3 | Economia ecológica
1.4 | Marxismo e Meio Ambiente
Seção 2 - Sociedade se Afluência
Seção 3 - Do Antropoceno à Idade da Terra
7
9
9
11
13
15
21
29
Unidade 2 | Relações etnorraciais
Seção 1 - Percurso teórico do conceito de etnicidade nas
ciências sociais
1.1 | Definição do conceito
Seção 2 - Relações etnorraciais no Brasil
2.1 | O povo brasileiro
2.2 | Movimento negro
2.3 | Políticas de ações afirmativas
2.4 | A cultura indígena
45
49
49
61
61
68
73
77
Unidade 3 | Meio ambiente e direitos humanos
Seção 1 - História dos direitos humanos
1.1 | A Declaração Universal dos Direitos Humanos
1.2 | Os direitos humanos e o Estado moderno
1.3 | Universal versus particular
1.4 | Direitos humanos e multiculturalismo
Seção 2 - Dignidade, igualdade humana e direitos humanos
2.1 | Direitos humanos e diversidade cultural
2.2 | Direitos humanos e diálogo intercultural
2.2 | Minorias e o direito à diferença
2.3 | Os direitos humanos e as minorias no Brasil: a questão
Seção 3 - Direitos humanos e meio ambiente
3.1 | Meio ambiente e direito social no Brasil
3.2 | Direitos humanos, meio ambiente e direitos sociais
89
93
93
96
98
99
105
105
107
110
111
119
119
123
Sumário
3.3 | Justiça ambiental no Brasil 125
Unidade 4 | Desenvolvimento sustentável e educação ambiental
Seção 1 - O desenvolvimento social e sustentável
1.1 | Políticas públicas e meio ambiente
1.2 | Sustentabilidade socioambiental
1.3 | Conflitos socioambientais
Seção 2 - Tecnologia e sustentabilidade
2.1 | Tecnologia e desenvolvimento humano
2.2 | Fundamentos políticos da proteção do meio ambiente
139
143
143
150
151
153
153
156
Apresentação
Neste livro, buscaremos, na primeira unidade Sociedades humanas e ambiente 
natural compreender as relações existentes entre a sociedade e o meio ambiente, 
passando pelo pressuposto de entender as formas e as bases sob as quais essas 
relações se dão. Neste sentido, a preocupação será debatê-las relações em um 
primeiro momento. Perpassaremos também pela relação entre o meio ambiente 
e outras sociedades humanas que não estão submetidas ao modo de produção 
capitalista, mas que mesmo assim acabam por sentir os efeitos do avanço do 
capitalismo sobre o mundo.
A segunda unidade, Relações etnorraciais, tem por objetivo proporcionar ao 
aluno uma visão, a partir das discussões das ciências sociais, de como o conceito 
de etnicidade e etnia foi se construindo, bem como mostrar como essas relações 
se deram no Brasil, sobretudo no que diz respeito à questão do negro e dos 
indígenas. Portanto, perpassaremos pela discussão do conceito de etnicidade e 
de grupos étnicos e seu desenvolvimento dentro das ciências sociais; em seguida, 
abordaremos a questão das relações etnorraciais no Brasil. 
A terceira unidade, Meio ambiente e direitos humanos, tem como objetivo 
refletir sobre a construção histórica dos direitos humanos, dando ênfase na maneira 
como se constituiu, no Ocidente moderno, a noção de indivíduo e dos direitos 
individuais; discutiremos ainda a pretensão da aplicação dos direitos humanos 
em toda e qualquer realidade social, com ênfase sobre as diferentes concepções 
socioculturais da dignidade humana e sobre noção de igualdade; e, finalmente, 
abordaremos a relação dos direitos humanos com as questões ambientais, 
discutindo a importância do meio ambiente para a garantia de uma boa qualidade 
de vida, bem como as relações entre a chamada justiça ambiental e justiça social.
E, por fim, na Unidade 4, Desenvolvimento sustentável e educação ambiental, o 
objetivo é levar o aluno a aprender sobre a importância das políticas públicas para 
o desenvolvimento sustentável e a educação ambiental, tendo como exemplos de 
boas políticas as que surgem a partir do programa "Cidades Sustentáveis". Neste 
sentido, tem-se como objetivo o estudo sobre sustentabilidade socioambiental; 
conflitos socioambientais; meio ambiente, tecnologia e sustentabilidade; 
fundamentos políticos da proteção do meio ambiente.
O objetivo deste livro, portanto, é discorrer sobre os temas acerca da disciplina 
Sociedade e meio Ambiente, utilizando as reflexões das principais matrizes teóricas, 
conforme apresentadas nesta leitura. O propósito é que esta abordagem temática 
propicie a motivação necessária a um bom entendimento deste conceito. Neste 
sentido, os autores alvitram incentivar o aluno a refletir sobre o aprendizado, cujos 
textos servirão de base para um aprendizado ímpar e contínuo na busca de novos 
conhecimentos.
Prof. Sérgio de Goes Barboza
Coordenação de Curso
Unidade 1
SOCIEDADES HUMANAS E 
AMBIENTE NATURAL
Objetivos de aprendizagem: 
Introduzir o aluno às principais discussões em torno do tema “ambiente natural 
e sociedades humanas”. Para tanto, expomos as formas de relação nas sociedades 
capitalistas e as principais correntes teóricas que travam essa discussão, para, em 
seguida, tratarmos das sociedades não capitalistas, colocando, ao final, alguns 
posicionamentos alternativos para este debate.
Enquanto o paradigma evolucionista vigorou de maneira hegemônica, as 
sociedades humanas foram classificadas a partir de sua relação com o meio 
ambiente. Identificaram-se os povos primitivos como possuindo uma grande 
dependência em relação ao meio ambiente, ao passo que os povos modernos 
teriam uma maior independência. No entanto, diante dos problemas que afetam 
o nosso cotidiano pela destruição ambiental, é importante nos questionarmos: 
qual é a nossa real independência em relação ao meio ambiente?
Compreender as relações existentes entre as sociedades humanas e o meio 
ambiente passa pelo pressuposto de compreender as formas e as bases sobre as 
quais esta relação se dá. Assim, não podemos falar de uma sociedade humana 
generalizada, por isso a unidade chama-se “sociedades humanas”, muito menos 
entender que há uma única forma de relação entre as diversas sociedades 
humanas e o meio ambiente. 
Como vivemos em uma sociedade capitalista, será tarefadesta unidade 
se preocupar em debater, em um primeiro momento, a relação entre o meio 
ambiente e a sociedade capitalista, visto que o avanço da economia capitalista 
sobre sua fonte de recursos primários é devastador e acarretou toda uma 
preocupação ambiental no Ocidente; também, trataremos da relação entre o 
meio ambiente e outras sociedades humanas que não estão submetidas ao 
modo de produção capitalista, mas que mesmo assim acabam por sentir os 
efeitos do avanço do capitalismo no mundo.
Wilson Sanches
Sociedades humanas e ambiente natural
U1
8
Seção 1 | Capitalismo e Meio Ambiente
Seção 2 | Sociedade se afluência
Seção 3 | Do Antropoceno à Idade da Terra
Nesta seção iremos debater as consequências do modo de produção 
capitalista para o meio ambiente, bem como as principais correntes de 
pensamento que se debruçaram sobre estes problemas.
Nesta seção teremos como finalidade discutir as relações entre as 
sociedades não capitalistas e o meio ambiente, revendo a ideia de que as 
sociedades não capitalistas seriam sociedades da escassez, mas sociedades 
de afluência.
Esta seção propõe discutir o meio ambiente como um ente que possui 
agência dentro das discussões políticas da atualidade. 
Sociedades humanas e ambiente natural
U1
9
Seção 1
Capitalismo e Meio Ambiente
Introdução à seção
1.1 O controle do meio natural e suas consequências
O paradigma da modernidade está atrelado às mudanças ocorridas a partir do 
século XVII, na Europa, e que se desdobraram por todo o Ocidente nos séculos que 
se seguiram.
O século XVII é marcado por diversas mudanças que atingem diretamente a 
forma como os homens se veem e como estes se relacionam com o mundo natural. 
O avanço das ciências e a ascensão da burguesia como classe economicamente 
dominante promovem a união entre técnica e ciência, separadas desde os escritos 
aristotélicos na antiguidade clássica grega. 
A possibilidade de compreensão do mundo, aviltada por Galileu Galilei 
quando afirmou que o livro do Universo está escrito em caracteres matemáticos, 
possibilita também o seu controle. Assim, avança algo que podemos chamar de 
ciências produtivas, ou seja, a capacidade de usar as descobertas das ciências 
para o aprimoramento das técnicas produtivas, expandindo, de forma acelerada, a 
capacidade de produção.
As mudanças em relação ao mundo e à concepção de homem, aliados à 
mudança política que ocorria na Europa no século XVIII provocam uma mudança 
no que tange à dominação, como afirma Augusto Comte:
Como as mudanças na forma de pensar mudam a maneira 
como o homem se relaciona com o ambiente natural?
Sociedades humanas e ambiente natural
U1
10
O desenvolvimento da ação sobre a natureza mudou a direção 
desse sentimento de dominação, transportando-o para as 
coisas. O desejo de comandar transformou-se gradativamente 
no de fazer e desfazer a natureza à vontade [...] Em última 
análise, o desejo de quase todos os indivíduos não é atuar 
sobre o homem, mas sobre a natureza (COMTE apud MORAES 
FILHO, 1978, p. 13).
Por mais que possa haver um equívoco nesta afirmação de Comte − pois 
partimos do pressuposto de que a forma como os homens produzem sua vida 
material determina seu ser social e, nesse sentido, a dominação de um homem 
sobre outro se dá pela posse que alguns têm dos meios de produção em detrimento 
da maioria que não possui −, o que muda é que em cada modo de produção há um 
determinado conjunto de forças produtivas, que é chamado de meio de produção, 
assim, enquanto no período feudal a dominação era exercida mediante os títulos 
e a posse da terra, pois a terra era, e ainda é, o principal meio de produção, e os 
títulos servem como um véu que cobre as verdadeiras relações de exploração, 
no capitalismo a dominação é exercida pela posse dos meios de produção, que 
envolvem a matéria-prima, as ferramentas, o maquinário etc., que pertencem a 
poucos sobre muitos que possuem somente a força de trabalho. Interessa-nos, 
neste trecho, a ideia da atuação do homem sobre a natureza, extraindo-lhe todo o 
possível de forma cada vez mais organizada e ágil.
A partir do século XVII, começa-se a perceber um crescimento considerável da 
população, coisa que passou desapercebida em épocas anteriores, e apesar dos 
avanços no campo técnico-cientifico que conduziam ao aumento da produção, 
isso começou a fazer parte das preocupações dos economistas da época, entre eles 
Thomas Malthus, que afirma:
A população, quando não obstaculizada, aumenta a uma 
razão geométrica. Os meios de subsistência aumentam 
apenas a uma razão aritmética. Uma ligeira familiaridade 
com números mostrará a imensidade da primeira capacidade 
comparativamente à segunda. [...] Essa desigualdade natural 
das duas capacidades, da população e da produção da terra, 
[...] formam a grande dificuldade que me parece insuperável 
no avanço da perfectibilidade da sociedade (MALTHUS apud 
SZMRECSÁNYI, 1982, p. 57-58).
Sociedades humanas e ambiente natural
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11
Malthus apresenta neste excerto uma primeira preocupação a respeito dos limites 
dados pelo meio natural. Para este autor, o aumento da população deveria coincidir 
com as possibilidades de o meio natural prover o necessário para sua subsistência. 
Não obstante o crescimento da produção, sempre haveria o limitador dado pelo 
meio natural em prover recursos para esta população. A preocupação de Malthus 
com o crescimento populacional pauta diversos debates sobre a questão ambiental, 
no entanto, não se pode determinar que apenas o crescimento da população atua 
como elemento para a corrosão do meio ambiente. A partir da Revolução Industrial, 
a busca por novas escalas de produtividade não está pautada apenas para suprir 
as necessidades da população crescente, sobretudo para a obtenção de lucros 
extraordinários por meio da ampliação do mercado e do consumo. Neste sentido, 
Borges e Tachibana (2005, p. 5236) apontam que a “maneira como a produção e o 
consumo estão sendo conduzidos desde então [aqui os autores estão se referindo à 
Revolução Industrial] exige recursos e gera resíduos, ambos em quantidades vultosas, 
que estão ameaçando a capacidade de suporte do próprio planeta”.
Barbieri (2004, p. 6) também indica a Revolução Industrial como marco da 
intensificação dos problemas ambientais. Para este autor, a era industrial alterou 
“a maneira de produzir degradação ambiental, pois ela trouxe técnicas produtivas 
intensivas em material e energia para atender mercados de grandes dimensões”.
No entanto, o que não está presente nesta fala é o porquê de ser preciso atender 
os mercados de grandes dimensões. Isso nos leva a pensar que as indústrias surgiram 
para atender o mercado, e não o contrário, isto é, com a produção em grande escala, 
foi necessário um grande mercado para consumir tudo o que se estava produzindo. 
Este tipo de análise não difere muito daquilo que Malthus estava anunciando em seu 
primeiro ensaio, a ideia de que o aumento da população é que produz o risco, aqui 
novamente parece que as necessidades humanas crescentes são as responsáveis 
pelo aumento da produção. 
Partimos da ideia de que a ampliação do mercado é uma necessidade constante 
das economias capitalistas. Sendo assim, as novas formas de produzir degradação 
ambiental estão ligadas à produção em si, e não à expansão do mercado, que atende 
à necessidade da economia capitalista. Uma análise que tome o efeito pela causa 
pode recair em resultados que, na prática, não conseguem desvendar os problemas 
ambientais, e é o que veremos a seguir.
1.2 Economia ambiental
A partir da década de 1920, há o surgimento de um campo da economia 
preocupado com a degradação ambiental, o qual recebeu o nome de economia 
ambiental. 
Sociedades humanas e ambiente natural
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12
A economia ambiental parte da premissa de que os recursos naturais não são 
finitos, mas que o mercado deve se preocupar em desenvolver estratégias que 
tenham por objetivo a alocação eficiente dos recursos naturais (SOUZA, 2008, s.p.) 
Foladori(1999) explica que, a partir de 1920, existe a ideia de que o Estado deve 
tentar corrigir as falhas que o mercado apresenta. Assim, como a produção esbarra 
em limites naturais dados pelo meio externo, seria preciso impor aos responsáveis 
pelo consumo destes meios uma taxa para utilização dos recursos naturais, tentando, 
com isso, moderar o uso destes recursos, no entanto, o mercado ainda poderia 
utilizar os meios naturais. 
A partir da década de 1960, segundo Foladori (1999), a discussão avançou no 
terreno jurídico e descartou a intervenção estatal, propondo que os recursos naturais 
sejam preservados mediante uma negociação “poluidores e afetados que resolvam 
o problema” (FOLADORI, 1999, p. 84).
Munidos deste instrumental teórico, os economistas ambientais 
avançaram na implementação de políticas tendentes a encarar 
os problemas ambientais. Por um lado, criando mecanismos 
de controle e de planejamento do uso dos recursos naturais e 
de geração de dejetos. Por outro, procurando instrumentos de 
mercado que atribuam preços ao que o mercado livremente 
não engendra (FOLADORI, 1999, p. 84).
A proposta, a partir de então, seria criar um valor para os recursos ambientais, o 
qual poderia refletir o nível de escassez dos recursos naturais para o mercado. Esta 
valoração criaria condições para que o mercado, por meio da “livre negociação” – 
aqui, usamos o termo “livre negociação” entre aspas porque, se há a criação de um 
valor objetivo com vista à escassez de produto e não na demanda de mercado, não 
poderíamos falar de livre negociação como é entendida pelo Liberalismo Clássico –, 
definisse os níveis ótimos de exploração e alocação destes recursos (SOUZA, 2008).
A teoria apresentada por Adam Smith enfatiza que o crescimento 
econômico se dá pela livre circulação da mercadoria, apesar das 
aspirações egoístas da busca pelo lucro, as atividades comerciais seriam 
guiadas por uma “mão invisível” a produzir muito mais do que se pretendia 
no início, se promoveria um aumento da renda da sociedade. 
Sociedades humanas e ambiente natural
U1
13
Para melhor compreensão deste ponto, sugerimos a leitura do artigo:
PRADO, Eleutério F. S. Uma formalização da mão invisível. Est. Econ., São 
Paulo, v. 36, n. 1, p. 47-65, jan./mar. 2006. Disponível em: <http://www.
scielo.br/pdf/ee/v36n1/v36n1a02>. Acesso em: 5 set. 2016.
Segundo Foladori (1999), a tentativa de intervenção na economia com a 
atribuição de valores aos recursos naturais como tentativa de que estes sejam melhor 
aproveitados, ou melhor alocados, demonstra que o mercado fracassou em tentar 
criar uma sociedade sustentável.
Outra tentativa de compreender as relações entre meio ambiente e produção 
veio da economia ecológica. Vamos compreender essa teoria.
1.3 Economia ecológica
A economia ecológica, assim como a ecologia ambiental, apresenta a necessidade 
de se utilizar com eficiência os recursos naturais existentes, mas também compreende 
que os sistemas econômicos devem levar em conta a escala de utilização destes 
recursos, bem como a ideia de uma distribuição justa entre os membros de uma 
sociedade, levando em consideração, também, a interferência que a utilização de 
determinados recursos naturais pode causar nas gerações futuras.
Quais são as possibilidades de uma produção ecologicamente 
sustentável em uma economia capitalista?
Souza (2008, s.p.) aponta que a inovação trazida pela economia ecológica é a 
proposição de que “a economia é um subsistema que faz parte de um ecossistema 
natural global fechado e que há ocorrência de trocas de materiais e energia entre o 
subsistema e o sistema global”.
A ideia sustentada nesta definição é a de que a forma como o subsistema utiliza 
os recursos impacta diretamente em outra parte do sistema, que é fechado, portanto 
é preciso impor limites na própria utilização de recursos e energia. Isso parece bem 
próximo da ideia presente na economia ambiental, mas, nesta última, o limite seria 
dado em razão das negociações, sendo assim, acertadas as negociações, poderia se 
Sociedades humanas e ambiente natural
U1
14
utilizar qualquer recurso oferecido pela natureza; no caso da economia ecológica, 
a decisão de utilização perpassa a ideia de que alguns recursos não podem ser 
utilizados em função dos impactos que se dariam no ecossistema global e de que 
a utilização de alguns recursos para um determinado fim impossibilitaria a utilização 
deles para outros fins.
A economia ecológica defende a ideia de que a utilização de recursos não deva 
somente ser objeto de debate dos economistas, mas de uma gama de profissionais 
que poderiam avaliar as questões de maneira “não econômica”, isto poderia fazer 
com que aspectos éticos, sociais e biológicos fizessem parte da discussão sobre o 
que produzir e como produzir.
De acordo com Foladori (1999), o limite para que a economia ecológica possa 
obter os resultados desejados, que também podem ser associados à economia 
ambiental, se relaciona à separação entre economia e ecologia.
Ao ver o mundo de maneira sistêmica, não se tem a noção de totalidade, a atividade 
econômica como um subsistema aberto aparece separada dos demais subsistemas 
que compõem o ecossistema global, assim, por mais que a economia devesse 
ouvir outras áreas não econômicas, a decisão final sobre a produção apareceria 
como uma lógica pertencente ao mercado, levando em conta as necessidades e 
aspirações deste mercado.
A imposição de limites via políticas, que seria entendido como outro subsistema, 
seria questionável, uma vez que teríamos que entender qual a relação deste 
subsistema com outros subsistemas, isto é, quem faria parte da política e qual 
seria o seu poder de intervenção dentro da economia. A título de questionamento, 
poderíamos nos perguntar: se os tratados internacionais sobre meio ambiente visam 
a um bem não econômico, que é o bem-estar social de todos, por que os países 
ricos se recusam a assinar esses tratados?
 Cavalcanti (2004) chama atenção para o fato de que a preocupação ecológica 
ganha status de retórica vazia, uma vez que está cada vez mais em moda falar sobre 
desenvolvimento sustentável, mas que, na prática, se percebe a desregulamentação, 
sobretudo nos países pobres, das leis ambientais para que as empresas transnacionais 
possam explorar os recursos naturais de maneira cada vez mais insustentável. Este 
autor faz uma reflexão sobre o caso brasileiro afirmando:
No Brasil, ao mesmo tempo que aparece grande preocupação 
com a Amazônia, cortam-se as verbas para a fiscalização 
ambiental e se permite total liberdade de ação de empresas 
madeireiras asiáticas. A tolerância é alta com relação a projetos 
Sociedades humanas e ambiente natural
U1
15
de grande porte que causam enorme impacto ecológico, 
desfigurando a paisagem e deslocando populações locais 
(CAVALCANTI, 2004, p. 151).
Partindo da afirmação de Cavalcanti (2004), podemos questionar qual a 
capacidade de se sobrepor algum tipo de limite dentro de um sistema econômico 
que está separado da ecologia, bem como da economia. 
A questão que tentamos apresentar, mostrando estas duas teorias que se 
preocupam com as questões ambientais, é que há um limite posto nestas análises, 
o qual se dá pela crítica não partir da crítica do próprio sistema capitalista. Assim, no 
nosso próximo tópico, iremos discutir a crítica ao capitalismo como forma de pensar 
a questão ecológica. 
O desmatamento moderno da Amazônia tem sua origem na inauguração 
da rodovia Transamazônica, e seus índices desde então crescem 
rapidamente. Para compreensão desta história, sugerimos a leitura do 
artigo:
FEARNSIDE, Philip M. Desmatamento na Amazônia brasileira: história, 
índices e consequências. Megadiversidade, v. 1, n. 1, jul. 2005. 
Disponível em: <http://www.mstemdados.org/sites/default/files/
Desmatamento%20na%20Amazonia%20brasileira,%20historia,%20
indices%20e%20consequencias%20-%20Philip%20Fearnside%20-%20
2005.pdf>. Acesso em: 5 set. 2016.
1.4 Marxismo e Meio Ambiente
Para muitos autores, atese construída por Marx em “O Capital” não tem um 
fundamento propriamente ecológico, pois sua ocupação está em tentar decifrar os 
elementos do modo de produção capitalista que mostram as contradições dentro 
deste. Estes elementos não eram alvos dos escritos das teorias clássicas, sobretudo 
de Adam Smith, que previa a possibilidade de um equilíbrio dentro do capitalismo 
em função do seu caráter “racional”. Com exceção do livro de Engels, A dialética da 
Natureza (1976), não há, na elaboração destes autores, outro título que exponha a 
questão relativa aos problemas decorrentes da superexploração dos meios naturais. 
No entanto, não haver um título que tenha por referência a natureza não significa 
Sociedades humanas e ambiente natural
U1
16
afirmar que as contradições do modo de produção capitalista em relação ao meio 
natural não tenham sido tratadas por Marx.
Foster (2005) defende a ideia de que as contradições do capitalismo em relação 
ao meio natural está presente no livro O Capital de Marx, não de forma subjacente, 
mas como elemento primordial que conduz as análises sobre o modo de produção 
capitalista. Este autor afirma que “foi no O Capital que a concepção materialista de 
natureza em Marx alcançou plena integração com a sua concepção materialista de 
história” (FOSTER, 2005, p. 201).
O conceito de “metabolismo”, utilizado por Marx em O Capital, permitiu a crítica 
das principais ênfases da economia política burguesa. De fato, Marx utiliza o conceito 
de “metabolismo” para pensar a relação do homem com a natureza.
Antes de tudo, o trabalho é um processo entre o homem e a 
Natureza, um processo em que o homem, por sua própria ação, 
media, regula e controla seu metabolismo com a Natureza. 
[...] A terra (que do ponto de vista econômico inclui também 
a água), como fonte original de víveres e meios já prontos de 
subsistência para o homem, é encontrada sem contribuição 
dele, como objeto geral do trabalho (MARX, 1983, p.149-150).
O que significa este metabolismo entre homem e natureza? O conceito de 
metabolismo foi, originalmente, cunhado pela química e biologia no início do século 
XIX. Ele foi utilizado para explicar o processo pelo qual um organismo, ou mesmo 
uma célula, extrai energia e materiais de um determinado sistema e os converte, 
por meio de processos bioquímicos, em elementos para o seu crescimento. 
Para Marx, este conceito terá um significado socioecológico, isto é, por meio do 
trabalho os homens interagem com o meio ambiente, transformando-o conforme 
as suas necessidades de crescimento, mas, ao mesmo tempo em que os homens 
transformam a natureza, eles transformam-se a si mesmos.
A análise metabólica de Marx reconheceu que os ecossistemas 
incorporam processos regulatórios específicos que envolvem 
complexas relações históricas de intercâmbio que auxiliam 
em sua regeneração e continuidade. Devido à interpenetração 
entre natureza e sociedade, os humanos têm o potencial e a 
habilidade de alterar as condições naturalmente postas de 
maneira que ultrapassam as barreiras naturais. Essa análise 
Sociedades humanas e ambiente natural
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17
permitiu a Marx acessar as reais interações metabólicas entre 
sociedade e natureza, via trabalho humano. Ao mesmo tempo, 
pôde assim estudar o conjunto constantemente cambiante 
de desejos e necessidade que emergiu com o advento e o 
desenvolvimento do sistema capitalista, o qual transformou o 
intercâmbio social com a natureza direcionando-o para busca 
constante de lucro (CLARK; FOSTER, 2010, p. 23).
Se o trabalho é metabolismo entre o homem e a natureza, as necessidades 
constantes do capital de obter cada vez mais lucros intensificou as demandas sobre 
a natureza. A partir deste dado, temos um novo tipo de relação socioecológica que 
tem como consequência uma falha metabólica da relação homem/natureza que 
“leva a práticas insustentáveis de um sistema em seu conjunto” (CLARK; FOSTER, 
2010, p. 23).
Por que um novo tipo de relação? O trabalho aparece como ação humana 
que media e controla o seu metabolismo com a natureza. Nas sociedades pré-
capitalistas, o que se extraía deste processo sociometabólico eram valores de uso. 
Uma vez que os valores de uso se realizam somente quando determinado produto 
é usado ou consumido, o limite da produção está na satisfação das necessidades. 
A produção capitalista, no entanto, está voltada para a produção de valor, a qual 
implica, necessariamente, uma produção voltada para as necessidades do capital, 
em que se empregam novas tecnologias tanto para intensificação da produção 
quanto para o barateamento da força de trabalho. A tecnologia empregada para 
condicionar a produção agrícola aos anseios capitalistas tenta superar as barreiras 
naturais postas, como nutrientes para o solo, por exemplo. A prática intensiva na 
agricultura leva, impreterivelmente, à degradação da terra. Quanto à tecnologia 
imposta para baratear a força de trabalho, leva à precarização das condições de vida 
de uma parcela significativa da humanidade.
Ao converter a força de trabalho em mercadoria, [o capitalismo] 
a sujeita ao crescimento da composição orgânica do capital e 
aos vaivéns da oferta e da demanda, gerando esbanjamento 
de trabalho humano na forma de desemprego, miséria e 
enfermidades. E, mediante a divisão classista do trabalho, 
limita as possibilidades da criatividade humana (FOLADORI, 
1999, p. 89).
Sociedades humanas e ambiente natural
U1
18
Mészáros (2002), discutindo a questão da destruição ecológica moderna e suas 
proporções globais no início do século XXI, aponta que o problema ecológico 
ocasionado pelo modo de produção capitalista é concreto, a questão que se coloca 
agora é a necessidade do controle social.
Aqui, Mészáros (2002) tem claro que a questão de se produzir não é a discussão 
central. É evidente que toda a tecnologia produzida atua de forma a ampliar as 
possibilidades e a longevidade humana, a questão posta não se trata de negar os 
avanços técnicos alcançados, mas a base social da exploração do meio natural. A 
necessidade constante de crescimento do capital e de aumento do lucro não pode 
ser o único tipo de controle imposto à relação metabólica homem/natureza, mas 
este controle deve ser feito pela coletividade e para o interesse comum, a fim de se 
assegurar as condições vitais para a existência humana. 
A possibilidade de uma sociedade sustentável não se dá por reformas feitas no 
atual modo de produção. De acordo com os autores que trabalhamos até aqui, 
a questão é outra: uma sociedade sustentável é uma sociedade qualitativamente 
diferente.
O que está em causa não é se produzimos ou não sob alguma forma 
de controle, mas sob que tipo de controle; dado que as condições 
atuais foram produzidas sob o “férreo controle” do capital que 
nossos políticos pretendem perpetuar como força reguladora 
fundamental de nossas vidas (MÉSZÁROS, 2002, p. 989).
1. Thomas Malthus publicou, em 1798, um texto sobre 
questões demográficas chamado: “Um ensaio sobre o princípio 
de população”. Este texto é importante porque demonstra 
a preocupação de Malthus em relação ao crescimento da 
população.
Sabendo disso, assinale a alternativa correta quanto ao 
pensamento de Thomas Malthus sobre a questão populacional.
a. Para Malthus, há um descompasso entre o crescimento 
populacional, que é geométrico, e o aumento dos meios de 
Sociedades humanas e ambiente natural
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19
subsistência, que ocorre a uma razão aritmética, o que, a 
longo prazo, poderia criar um problema social.
b. Para Malthus, o crescimento populacional tende a se 
uniformizar de acordo com a oferta de bens de consumo, 
assim o crescimento é maior em períodos de fartura e é 
menor, naturalmente, nos períodos de carestia.
c. Para Malthus, o vertiginoso progresso produtivo não 
encontra nenhum tipo de obstáculo, podendo crescer 
infinitamente, e o crescimento populacional tende a 
permanecer estável sem sofrer alterações.
d. Para Malthus, há duas certezas que podem ser 
comprovadas empiricamente:a primeira é que a população 
cresce vertiginosamente, e a segunda é que a produção de 
alimentos sempre acompanha este crescimento.
e. Para Malthus, não deve se impor um limitador para o 
crescimento populacional, uma vez que a produção de 
alimento jamais se tornará um problema, mas a falta de 
braços para o trabalho pode interferir na perfectibilidade de 
uma sociedade.
2. Os anos entre 1760 e 1820 foram um período de 
transição para novos processos de produção conhecido 
como Revolução Industrial.
Tendo em vista este período histórico, observe atentamente 
as proposições a seguir: 
I. A maneira como a produção e o consumo estão sendo 
conduzidos desde a Revolução Industrial exige recursos e 
gera resíduos, ambos em quantidades vultosas, que estão 
ameaçando a capacidade de suporte do próprio planeta.
II. A Revolução Industrial como marco da intensificação 
dos problemas ambientais alterou a maneira de produzir 
degradação ambiental, pois ela trouxe técnicas produtivas 
intensivas em material e energia para atender mercados de 
grandes dimensões.
III. A Revolução Industrial aparece como momento único 
de produção que sabe preservar plenamente a natureza. 
Desde o início, essa revolução deseja que as pessoas 
consumam somente o necessário.
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Sobre a Revolução Industrial e sua relação com o meio 
ambiente, podemos afirmar:
a. Somente a proposição I está correta.
b. Somente a proposição III está correta.
c. Somente as proposições I e II estão corretas.
d. Somente as proposições I e III estão corretas.
e. Somente as proposições II e III estão corretas.
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Seção 2
Sociedade se afluência
Introdução à seção
Até agora apresentamos algumas discussões sobre meio ambiente e as 
sociedades humanas, partindo da análise da nossa sociedade. Por essa razão, a 
primeira discussão necessária foi a relação entre capitalismo e meio ambiente. No 
entanto, apesar de o capitalismo só existir sob a condição de internacionalização e 
globalização de suas atividades, e sabendo que os problemas ambientais gerados 
pela utilização intensiva dos recursos naturais do lucro particular não se restringem 
aos países industrializados, mas atingem todo o globo, não podemos nos esquecer 
de outras análises e outras sociedades que se relacionam, ou se relacionaram, com 
o seu meio natural de maneira diferente. 
Os estudos de Bronislaw Malinowski sobre o sistema de trocas nas Ilhas Trobriand, 
segundo Machado (2012), marcam o início da antropologia econômica. Qual a 
importância deste estudo para nosso tema? A questão fundamental é a possibilidade 
de lançar outro olhar sobre o homem, o que regula suas trocas, e sobre a economia. 
Ao descrever o circuito do Kula, Malinowski rompe com a ideia de um homem 
econômico universal, uma vez que o sistema de troca dos trobriandeses é relatado 
como um sistema de comércio “organizado sem a existência de mercados, dinheiro 
ou estado e na base da generosidade, não da ganância” (MACHADO, 2012, p. 169). 
A contribuição fundamental está em afirmar que não é possível pensar nos modelos 
econômicos das sociedades não capitalistas a partir das concepções econômicas 
próprias do capitalismo, assim não se pode falar que a ação dos homens é sempre 
movida por uma visão racional em busca do interesse próprio.
É possível outra relação do homem com o meio natural em 
que o homem não sofra privações e que a natureza não seja 
destruída?
Sociedades humanas e ambiente natural
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22
Dessa forma, se afasta uma noção formal de economia, que a identifica com a ideia 
de existência de um determinado mercado, para compreensão destas sociedades 
que não estão submetidas ao modo de produção capitalista, e se aproximam de 
uma visão substantivista da economia.
Esta concepção substantivista de economia tem como principal autor Karl 
Polanyi. Para ele, a ideia de necessidade supera a ideia de subsistência, pois, por 
mais que os meios para se atender as necessidades sejam materiais, as necessidades 
em si podem ser materiais ou não. O fundamental desta ideia está em rechaçar 
qualquer afirmação que aponte que as economias não capitalistas são economias 
de escassez, pois, na citação acima, está afirmado que o meio natural oferece de 
maneira contínua os meios para satisfazer as necessidades humanas.
Este debate sobre as sociedades não capitalistas basearem suas produções na 
escassez está presente em Marshall Sahlins. Sahlins, segundo Machado (2012), não é 
um dos substantivistas “puros”, mas utiliza diversos conceitos que são emprestados 
diretamente de Polanyi.
Para Sahlins (2004), os manuais de economia, que analisam as questões 
econômicas pelo viés formalista, apontam que as sociedades “primitivas”, ou 
sociedades caçadoras e coletoras, são sociedades em que a fome e a escassez estão 
sempre presentes. Essas sociedades possuem uma determinada incompetência 
técnica que devem gastar todo o tempo e a energia em tentar conseguir o suficiente 
para sobreviver que não lhes é possível nem mesmo ter condições materiais para 
criar cultura. Todos estes povos caçadores e coletores pertencem ao grupo das 
chamadas economias de subsistência, segundo estes manuais formalistas. 
No entanto, Sahlins (2004) lança um olhar de oposição a estas afirmações. 
Segundo as palavras do próprio autor:
[...] que define a economia como um processo instituído de 
interação entre o homem e o ambiente natural e social que 
o rodeia, o qual resulta em contínua oferta de meios para 
satisfazer as necessidades humanas (MACHADO, 2012, p. 166).
A sabedoria tradicional é sempre resistente. Somos obrigados 
a contestá-la em termos polêmicos, a formular as revisões 
necessárias em termos dialéticos: na verdade, quando 
se chega a analisá-las [o autor está falando da sociedade 
caçadora e coletora] essa era a sociedade afluente original 
(SAHLINS, 2004, p. 105-106).
Sociedades humanas e ambiente natural
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23
Estas revisões necessárias apontadas por Sahlins o leva a afirmar que a sociedade 
caçadora e coletora é a primeira sociedade de afluência.
O termo afluência significa aqui, em sentido figurado, um estado de riqueza, 
desenvolvimento e prosperidade. Portanto, a sociedade caçadora e coletora não 
é uma sociedade de escassez e busca constante de alimento, mas a primeira 
sociedade de abundância, situação que as modernas sociedades capitalistas não 
atingiram, apesar de todos os seus supostos avanços tecnológicos.
Segundo Sahlins (2004), a afluência pode se apresentar de duas formas distintas: 
a primeira forma de afluência se dá em razão das necessidades que podem ser 
facilmente atendidas devido à produção abundante de bens e serviços que 
poderiam ser facilmente acessados por todos. Esta forma poderia ser atendida por 
uma sociedade industrial, que diante de desejos infinitos e recursos finitos poderia 
aperfeiçoar as técnicas de produção a fim de que o descompasso entre desejos e 
recursos fosse superado. Uma segunda forma de afluência se dá devido aos desejos 
moderados. Neste caso, os desejos de uma sociedade são tão poucos que qualquer 
tipo de disponibilidade de bens e de produção poderia facilmente atendê-los. Assim, 
os desejos seriam finitos e os recursos seriam adequados para atendê-los. Portanto, 
a abundância seria sem paralelo.
Para Sahlins (2004), esta última forma de afluência seria típica das sociedades 
caçadoras e coletoras. Contudo, ao invés de imaginar que estas sociedades teriam 
uma economia de escassez, elas possuem uma abundância consistente, que, 
segundo Sahlins, superaria a abundância das sociedades industriais modernas. Aqui, 
a questão da abundância não está ligada à fartura de alguns em detrimento de 
outros, se pensa em uma abundância para todos, por isso que, para este autor, as 
economias das nações ricas são marcadas por uma grande parte da população que, 
geralmente, é pobre.
Sahlins levanta alguns pensamentos recolhidos por diversos etnólogos para 
contestar a “opinião média” antropológicade que as sociedades caçadoras e 
coletoras são sociedades de subsistência, ou de busca ininterrupta pela comida, e 
que as sociedades industriais são sociedades de afluência. Para Sahlins“o sistema 
industrial e de mercado instituiu a escassez de um modo completamente ímpar e 
num grau que não encontra equivalente em parte alguma” (2004, p. 108).
Para este autor, na medida em que o mercado determina os comportamentos 
de consumo numa lógica de obter e gastar, a escassez de recursos torna-se o 
ponto de partida da economia. Esta crítica de Sahlins aponta para o modo como 
as sociedades capitalistas olham as formas de existência das outras sociedades que 
não são capitalistas, em especial as sociedades coletoras e caçadoras. Mas, apesar 
de a escassez ser o ponto nodal de nossas economias, ela deve ser entendida, 
segundo Sahlins, como uma relação entre meios e fins. Não somente contra este 
Sociedades humanas e ambiente natural
U1
24
pensamento dominante em relação à questão econômica que o autor afirma ser 
necessária uma postura dialética, mas à própria compreensão evolucionista de que 
apenas os avanços tecnológicos é que deram possibilidade de o homem se “livrar” 
da eterna obrigação de procurar alimento, e passa-se, com mais tempo, à criação 
da cultura em si. 
Sahlins destaca que alguns relatos de etnógrafos sobre os chamados “povos 
primitivos” endossam a ideia de que estes vivem em lugares pobres em um meio 
ambiente hostil que lhes nega a possibilidade de uma existência que não seja voltada 
para a busca de alimento. No entanto, estes relatos cometem alguns erros, pois não 
levam em conta as tradições alimentares locais, que podem variar de maneira ampla 
e se distinguem grandemente das tradições alimentares dos etnógrafos europeus, e 
também não fazem menção ao meio ambiente que foi empobrecido e deteriorado 
pela exploração colonial europeia.
Quando se analisam os diversos relatos dos etnógrafos junto aos povos caçadores 
e coletores de diversas partes do mundo, se tem a ideia da existência de “uma espécie 
de fartura material” (SAHLINS, 2004, p. 114). Esta fartura está relacionada à facilidade de 
produzir os bens necessários para a sociedade em virtude da simplicidade tecnológica 
e da democracia da propriedade. Utilizam-se ferramentas extremamente simples e 
partilhadas por todos para atender à necessidade geral. Isto só é possível em virtude 
de “um padrão de vida objetivamente baixo”. Este padrão de vida não está ligado a 
uma questão de subsistência, mas a um princípio. Portanto, estes povos não sofrem 
o infortúnio da escassez, mas o desprendimento das necessidades materiais que é 
institucionalizado, pois estes povos são nômades e a posse de bens se transforma 
em um fardo para a mobilidade necessária, portanto, o desprendimento material é 
visto por Sahlins como um “fator cultural positivo expresso em uma multiplicidade 
de arranjos” (SAHLINS, 2004, p. 117).
O caçador, ficamos tentados a dizer, é um 'homem não 
econômico'. Pelo menos no que concerne aos produtos 
não ligados à subsistência, ele é o avesso da criatura 
padrão imortalizada na primeira página de qualquer livro 
de 'princípios gerais de economia'. Suas necessidades são 
escassas e seus recursos (em relação a elas), abundantes. Por 
isso, ele é 'comparativamente isento de pressões materiais', 
não tem 'nenhum sentimento de posse', exibe um sentido 
de propriedade pouco desenvolvido, é 'completamente 
indiferente a qualquer posse material' e manifesta desinteresse 
pelo desenvolvimento de seu equipamento tecnológico 
(SAHLINS, 2004, p. 119).
Sociedades humanas e ambiente natural
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25
A ideia de um homem não econômico aparece em oposição ao homem 
econômico, obra do pensamento burguês. A diferença entre estes caçadores 
e o homem econômico burguês é que o primeiro não transformou os impulsos 
materialistas em uma instituição, como fez o segundo. Assim, a maior riqueza destes 
homens é estarem completamente livres e poderem gozar a vida sem as pressões 
de terem que acumular. Por essa razão, Sahlins afirma:
Sahlins se ocupa de diversos estudos para mostrar que as horas trabalhadas em 
diversas sociedades coletoras e caçadoras são bem menores do que as praticadas 
nas sociedades capitalistas em que os desejos são infinitos, porque foram criados 
para serem infinitos. 
O que a experiência das sociedades originais de afluência tem a ver com nossos 
debates sobre sociedades humanas e meio ambiente? As sociedades caçadoras e 
coletoras nos dão uma visão de outra possibilidade de relação entre o homem e seu 
meio natural. 
Esta outra visão é um elemento extremamente importante, pois muitas vezes 
ficamos presos a determinadas formas de pensar, de trabalhar e de se relacionar 
com a natureza que parecem que são únicas e eternas; é preciso desnaturalizar estas 
relações para que se possa vislumbrar novas possibilidades; e o entendimento de que 
nossa forma de vida é uma entre tantas outras possíveis. Também, temos que ter 
ciência de que nosso modo de vida pode sofrer profundas mudanças, como ocorreu 
com outros povos que tiveram que se adaptar em função do fim de seu mundo.
Pode-se alegar, de modo convincente, que os caçadores e 
coletores trabalham menos que nós; e, em vez de ser uma 
labuta contínua, a busca de alimento é intermitente, o lazer 
é abundante e há uma quantidade maior de horas de sono 
diurno per capita, anualmente, do que em qualquer outra 
condição de existência social (SAHLINS, 2004, p. 120). 
1. Os estudos de Bronislaw Malinowski sobre o sistema de trocas 
nas Ilhas Trobriand, segundo Machado (2012), marcam o início 
Sociedades humanas e ambiente natural
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26
da antropologia econômica. Durante um certo período, se 
acirraram os debates dentro da antropologia econômica no 
que tange ao seu caráter formal ou substantivista.
Sabendo disso, assinale a alternativa que define de forma 
correta a concepção substantivista da antropologia 
econômica:
a. A visão subtantivista identifica a economia como a 
substância da vida material e suas análises são voltadas para 
uma visão romântica de toda a vida, sem levar em conta os 
problemas materiais concretos.
b. A visão substantivista identifica a economia com a ideia de 
existência de um determinado mercado, para compreensão 
estas sociedades não estão submetidas ao modo de 
produção capitalista.
c. A visão substantivista é entendida como um processo 
instituído de interação entre o homem e o ambiente natural 
e social que o rodeia, o qual resulta em contínua oferta de 
meios para satisfazer as necessidades humanas.
d. A visão substantivista aparece ligada à escola marxista, 
exclusivamente, uma vez que foi Marx quem lançou as bases 
do idealismo alemão responsável por fundar esta escola de 
pensamento.
e. A visão substantivista é aquela preocupada em pensar 
como a produção capitalista irá suprir, basicamente, todos 
os homens, uma vez que a humanidade cresce muito 
rapidamente.
2. O termo afluência significa aqui, em sentido figurado, 
um estado de riqueza, desenvolvimento e prosperidade. 
Sabendo disso, observe as proposições a seguir:
I. Segundo Marshall Sahlins, as sociedades caçadoras e 
coletoras não são sociedades de escassez e pela busca 
constante de alimento, mas a sociedade da abundância, 
a primeira sociedade de abundância, situação que as 
modernas sociedades capitalistas não atingiram, apesar de 
todos os seus supostos avanços tecnológicos.
II. A primeira forma de afluência se dá em razão das 
necessidades que podem ser facilmente atendidas devido a 
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uma produção abundante de bens e serviços que poderiam 
ser facilmente acessados por todos.
III. A segunda forma de afluência se dá em razão dos desejos 
moderados. Neste caso, os desejos são tão poucos que 
qualquer tipo de disponibilidade de bens e de produção 
poderia facilmente atender os desejos de uma sociedade.
Assumindo V para o que for verdadeiro sobre as sociedades 
de afluência na concepção de Marshall Sahlinse F para o 
que for falso, assinale a alternativa que contém a sequência 
correta:
a. V-V-V.
b. V-V-F.
c. F-V-F.
d. V-F-V.
e. F-F-F.
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Seção 3
Do Antropoceno à Idade da Terra
Introdução à seção
Em 1971, Guy Debord escreveu um texto para a Revista Internacional Situacionista 
intitulado “O planeta doente” (La planète malade, em francês). Este texto mantém 
uma atualidade impressionante, pois trata da degradação ambiental ocasionada pelo 
modo de produção capitalista. Uma degradação tão perceptível que é impossível 
para o próprio capitalismo negar, tanto que os discursos sobre a poluição se 
tonaram moda, está espetacularizada nas mídias. Mas, como tudo aquilo que está 
espetacularizado, serve apenas para fazer diversos alardes sem nenhum resultado 
prático (DEBORD, 2011).
O desenvolvimento científico aumentou drasticamente o nível de produção 
e também criou as ferramentas necessárias para medir o grau de degradação do 
ambiente, no entanto, enquanto a grande força política que orienta as transformações 
sociais são as forças capitalistas, essa ciência apenas consegue prever, de maneira 
mais ou menos exata, o tempo de degradação da Terra sem que se possam produzir 
mudanças significativas para que cessem, aquilo que Debord chamou de produção 
da morte (DEBORD, 2011). 
Por que a ciência não consegue mudar estas previsões? Porque esta mudança 
não é de cunho quantitativo, ou seja, de como se produzir mais com menos, 
mas de cunho qualitativo, como viver e produzir os elementos necessários para 
a manutenção da vida; aqui, manutenção da vida deve ser entendida de maneira 
ampliada, de outra forma. Essa decisão não é apenas técnica, mas uma decisão 
política, que envolve a preservação da vida ou sua completa aniquilação.
Os senhores da sociedade são obrigados agora a falar da 
poluição, tanto para combatê-la (pois eles vivem, apesar de 
tudo, no mesmo planeta que nós; é este o único sentido ao 
qual se pode admitir que o desenvolvimento do capitalismo 
realizou efetivamente uma certa fusão das classes) e para 
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a dissimular, pois a simples verdade dos danos e dos riscos 
presentes basta para constituir um imenso fator de revolta, uma 
exigência materialista dos explorados, tão inteiramente vital 
quanto foi a luta dos proletários do século XIX pela possibilidade 
de comer. Após o fracasso fundamental de todos os reformismos 
do passado − que aspiram todos eles à solução definitiva do 
problema das classes −, um novo reformismo se desenha, 
que obedece às mesmas necessidades que os precedentes: 
lubrificar a máquina e abrir novas oportunidades de lucros às 
empresas de ponta. O setor mais moderno da indústria se lança 
nos diferentes paliativos da poluição, como em um novo nicho 
de mercado, tanto mais rentável quanto mais uma boa parte 
do capital monopolizado pelo Estado nele está a empregar e 
a manobrar. Mas se este novo reformismo tem de antemão a 
garantia de seu fracasso, exatamente pelas mesmas razões que 
os reformismos passados, ele guarda em face deles a radical 
diferença de que não tem mais tempo diante de si (DEBORD, 
2011, p. 5).
No cerne deste debate, iniciado por Debord já em 1971, é que se insere a 
discussão sobre o Antropoceno e a idade da Terra. Afinal de contas, o que significa 
este termo: Antropoceno?
Segundo Artaxo (2014), a Terra, desde sua origem há 4,5 bilhões de anos, evolui 
a partir de determinadas forças geológicas. O Holoceno é um período geológico 
iniciado há mais de 11.700 anos, com o fim do período glacial. Esse período é 
conhecido como sendo de relativa estabilidade do ponto de vista climático. 
No entanto, alguns pesquisadores, a partir dos anos de 1980, começaram a 
estudar os efeitos da ação dos homens sobre a formação do planeta, a geofísica, e 
não apenas a formação social. Que tipo de transformações ocorreram?
Desde que os homens apareceram na Terra, há cerca de 200 mil anos, sempre 
produziram algum tipo de efeito sobre ela. No entanto, desde a Revolução Industrial, 
Qual é a capacidade dos humanos em alterarem a composição 
geofísica do planeta em que vivemos?
Sociedades humanas e ambiente natural
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31
no século XVIII, as atividades socioeconômicas dos homens sobre a Terra cresceram 
de maneira vertiginosa.
Com o desenvolvimento das máquinas a vapor e, 
posteriormente, dos motores à combustão interna, o uso de 
combustíveis fósseis (inicialmente carvão, depois petróleo 
e gás) cresceu exponencialmente, até esses se tornarem 
hoje responsáveis por 70% a 80% da energia total utilizada 
em nosso planeta. Isso levou ao aumento da concentração 
atmosférica de dióxido de carbono (CO
2
), que passou de cerca 
de 280 ppm, na era pré-industrial, para uma concentração 
média de 399 ppm, em 2015. Essa alta concentração não foi 
observada ao longo dos últimos 800 mil anos, pelo menos. O 
aumento nas concentrações de metano (CH
4
), óxido nitroso 
(N
2
O), ozônio (O
3
) e outros gases de efeito estufa também foi 
muito significante (ARTAXO, 2014, p. 16).
Todas essas mudanças, e outras, provocadas pela forma como os homens 
interagem com a natureza a fim de aumentar sua produção, estão afetando o solo 
e a radiação, provocaram mudanças climáticas substanciais e afetaram os recursos 
hídricos.
Pensando nessas mudanças provocadas pela ação do homem sobre o meio 
físico é que se cogitou a ideia de que o homem, como força geofísica, está fazendo 
a Terra adentrar em outra era geológica, o Antropoceno. O termo foi bastante 
divulgado pelo químico Paul Crutzem, Nobel de Química. No entanto, é preciso 
que compreendamos que este termo não é um elogio à ação humana, mas uma 
constatação de que essas ações se constituem na terceira era geológica do período 
quaternário, e de que essa era durará muito mais do que nossa espécie, ou seja, 
os efeitos provocados pela ação do homem sobre a Terra são tão profundos que, 
mesmo após o desaparecimento da humanidade, o planeta continuará a sentir esses 
efeitos. 
Há uma compreensão, todavia, que não é a humanidade inteira que provoca 
essas mudanças, mas o modo de produção capitalista, no entanto, como o modelo 
de consumo dos países industrializados se torna padrão para todos os outros países, 
sobretudo no Ocidente, essa força geofísica tende a aumentar sua amplitude e seus 
efeitos são sentidos por todos.
Mantidos os atuais níveis de crescimento do consumo e a forma como se produz, 
um efeito é aviltado para um futuro ainda indeterminado, dado a continuidade deste 
regime termodinâmico, o fim do mundo. 
Sociedades humanas e ambiente natural
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32
Em um mundo em que a ação humana supera a ideia de uma ação exclusivamente 
política ou social e a humanidade se converte em força geofísica, a Terra também 
não pode ser simplesmente encarada como um elemento natural, mas torna-se uma 
personagem, uma interlocutora política, um agente que, em diversas conferências 
sobre o tema do fim do mundo, recebe o nome de Gaia. 
Um colóquio internacional realizado no Rio de Janeiro, em setembro de 2014, 
sob o nome “Os mil nomes de Gaia: do Antropoceno à idade da Terra”, afirma em 
seu texto de proposição que:
'Gaia' nomearia uma nova maneira de ocupar e de 
imaginar o espaço, chamando a atenção para o fato de que 
nosso mundo, a Terra, tornado, de um lado, subitamente 
exíguo e frágil, e, de futuro lado, suscetível e implacável, 
assumiu a aparência de uma potência ameaçadora que 
evoca aquelas divindades indiferentes, imprevisíveis e 
incompreensíveis de nosso passado arcaico. Imprevisibilidade, 
incompreensibilidade, sensação de pânico diante da perda do 
controle, e talvez mesmo de perda da esperança: eis o que 
são certamente desafios inéditos para a orgulhosa segurança 
intelectual e o destemido otimismo histórico da modernidade 
(COLÓQUIO INTERNACIONAL, 2014, p. 1).
Mas, por que manter o nome Gaia é importante para o pano de fundo teórico 
que queremos utilizaraqui? Poderíamos falar em Terra, em sistema biogeofísico 
terrestre, mas nos importa pensar Gaia como ser vivo, autorregulado, que possui 
agência sobre as ações que se desenvolvem nela, e não apenas um bloco de terra 
solto no espaço, cujo destino cabe somente aos humanos.
O colóquio “Os mil nomes de Gaia: do Antropoceno à idade da Terra” 
debateu os desafios da contemporaneidade. Os textos dos palestrantes 
estão disponíveis no site do evento: <https://osmilnomesdegaia.eco.br/
sobre/>. Acesso em: 12 set. 2016.
Para compreendermos um pouco melhor este conceito de agência, utilizaremos 
um autor francês chamado Bruno Latour.
Bruno Latour formou-se em Filosofia e prestou serviço militar por dois anos na 
Costa do Marfim. No período em que esteve neste país, Latour ficou encarregado 
Sociedades humanas e ambiente natural
U1
33
de desenvolver pesquisa em sociologia do desenvolvimento. De sua experiência no 
país do continente africano, ele cogitou a possibilidade de transpor as categorias 
analíticas das ciências sociais para uma investigação em laboratório. Seu interesse o 
levou a estudar sobre a prática científica.
De seus estudos sobre a prática científica, Latour propôs uma disciplina que se situa 
entre as ciências sociais e as ciências exatas, cujo objeto de estudo são os processos 
que surgem da científica e da técnica. Para este autor, é importante perceber que os 
conteúdos científicos não estão separados dos contextos sociais. Há, em Latour, uma 
discussão que visa repensar essa questão do social dentro da sociologia.
No livro Reagrupar o Social, Latour (2012, p. 18) tem por objetivo “redefinir a 
noção de social remontando a seu significado primitivo e capacitando-o a rastrear 
conexões novamente”. Com isso, o autor pretende voltar ao objetivo que sempre 
foi o das ciências sociais, “mas com instrumentos mais bem ajustados à tarefa”. Para 
ele, o problema a ser enfrentado é que o termo social acabou e é usado de maneira 
dicotômica, ou seja, para distinguir fenômenos sociais dos fenômenos, ou objetos, 
ou coisas, que não podem ser designados por este substantivo. 
Para Latour (2012, p. 19), “o social parece diluído por toda parte e por nenhuma 
em particular”, assim, para retomar as primeiras pretensões de uma ciência do social, 
como é o caso da sociologia, é preciso repensar tanto o objeto quanto o método 
de estudo. Para isso, o autor em tela afirma que a abordagem por ele proposta deve 
partir da premissa de que não há nenhuma dimensão específica que possa receber 
o rótulo de social ou de sociedade, para ele “a 'sociedade', longe de representar o 
contexto 'no qual' tudo se enquadra, deveria antes ser vista como um dos muitos 
elementos de ligação que circulam por estreitos canais” (LATOUR, 2012, p. 19). 
No extremo, Latour (2012) afirma, parafraseando Margareth Thatcher, que 
“sociedade é coisa que não existe”. Então, o que o autor entende por social ou por 
sociedade?
Conforme Latour (2012, p. 22), o social “é aquilo que outros tipos de conectores 
amalgamam”. Estes agregados sociais seriam explicados em função das suas 
associações. A sociologia, nesse sentido, seria entendida como a busca de 
associações. E o termo “social” é entendido por Bruno Latour (2012, p. 23) não como 
uma coisa em si, mas como um “tipo de conexão entre coisas que não são, em si 
mesmas, sociais”.
Latour chama a atenção para o fato de que a sociologia só pode dar continuidade 
ao seu projeto original se levar em conta todos os tipos de agregados que formam o 
social, um vírus que pode alterar as formas de sociabilidade da mesma maneira que 
uma arma nuclear e que um partido político. “A cada instância precisamos reformular 
nossas concepções daquilo que estava associado, pois a definição anterior se tornou 
praticamente irrelevante” (LATOUR, 2012, p. 23).
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Portanto, para este autor, o social é compreendido como um tipo de movimento 
de reassociação e reagregação. É a partir desta definição de social que Latour constrói 
a sua teoria de análise, a Teoria do Ator-Rede. Alguns livros trazem esta teoria sob a 
sigla TAR, mas outros autores preferem manter o acrônimo ANT, que é a sigla em 
inglês de Actor-Network Theory, em virtude de uma metáfora que o autor faz com 
o trabalho de uma formiga, ant em inglês. Para Latour, o sociólogo deve percorrer 
as conexões entre os diversos tipos de elementos agregados para compreender as 
associações que formam o social naquele contexto específico.
Não obstante, Latour tenha certas reservas a este nome, esta teoria pode ser 
expressada da seguinte forma: há que se atribuir o devido papel aos não humanos 
para compreender as associações, ou nesse caso específico, compreender as redes 
que se estabelecem entre atores heterogêneos. O papel do não humano não pode ser 
restringir a um papel meramente simbólico, mas um papel concreto de participação 
nas redes para compreensão de como o social se reagrupa. Tanto humanos quanto 
os não humanos são compreendidos nesta teoria como “atores”, não apenas 
coadjuvantes que apenas informam aos cientistas como o social está, mas atores 
capazes de construir suas próprias teorias. Os pesquisadores que se utilizam da Teoria 
do Ator-Rede devem seguir estes atores e compreender como o social se reagrupa, e 
não elaborar como os atores são ou dar lucidez às práticas deles. 
A teoria que acabamos de expor é importante para a compreensão daquilo que 
discutíamos em relação ao meio ambiente. Gaia é um ator, possui a capacidade 
de agir e participar da reagregação do social, assim, não é apenas algo que sofre 
as influências dos humanos. Os estudos ambientais que se valem da Teoria do 
Ator-Rede podem configurar uma nova forma de compreensão da atual crise e da 
forma de sua superação, que é uma questão política, tem a ver com as definições 
de determinadas ações, mas estas ações são realizadas e conectadas levando as 
conexões entre humanos e não humanos. 
Há uma crise objetiva que atinge tanto a questão ecológica quanto a questão 
política, a qual aponta para a falência teórica e prática da cultura ocidental, que 
cindiu o social do natural e que atribuiu ao homem o poder de agir sobre a natureza 
como senhor absoluto desta, sem levar em conta como a natureza responderia.
O Antropoceno coloca a nós, humanos, em uma encruzilhada, para alguns 
autores esta era a marca do fim do humano e a necessidade de ter novos sonhos. O 
que ele quer dizer com o fim do humano? O fim do projeto de humanidade surgido 
na modernidade ocidental, cuja figura emblemática é o pensamento exclusivamente 
antropocêntrico.
Neste sentido, muitos empreendimentos que têm por finalidade “salvar a 
natureza” estão fadados ao fracasso desde o início, porque estão baseados na cisão 
entre o reino humano, o qual cabe agir de maneira política, e o reino natural, que em 
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si mesmo não passa de algo que não tem capacidade de agir politicamente. Para 
Latour (2004), sociedade e natureza são termos que carecem de explicação simétrica 
entre não humanos e humanos. Ecologia e política são, para o autor, vocábulos 
que devem ser conjugados para se fazer ecologia política. Ecologia política implica 
reagrupar, reagregar política e ciência da natureza. A ideia proposta por Latour é bem 
vaga, no sentido prático, a ideia é se fazer “ecologia política” reunindo todos os atores 
que fazem parte da realidade como entes que possuem agência para que possamos 
habitar a morada comum que é o bom mundo comum (LATOUR, 2004, p. 363).
Em uma discussão sobre sociedades humanas e meio ambiente, não seria justo 
pensar somente como nós, ocidentais modernos, evocamos esta discussão. É preciso 
também discutir as possibilidades trazidas por outros povos sobre a relação sociedade 
e natureza. Neste sentido, nos parece de fundamental importância a obra de Eduardo 
Viveiros de Castro, quem propõe uma teoria que não tem como ponto de partida 
aquilo que os ocidentais pensam sobre os diversospovos que habitam a Terra, uma 
perspectiva comum às ciências sociais, uma vez que a ciência é fruto do Ocidente 
moderno e o ponto de partida das discussões sobre os “outros” povos. 
A crítica de Eduardo Viveiros de Castro é justamente esta, a compreensão do 
outro a partir do “nós”, ou seja, por mais que o pensamento ocidental tenha se 
valido ao longo dos anos de um certo relativismo para pensar os outros povos, a 
perspectiva assumida ainda é o que se é produzido no Ocidente, e este se vê ainda 
como portador de um projeto científico e de uma cosmologia que tendem a ser 
aplicados a todos os estudos sobre o “outro”. 
Para além dos relativismos produzidos pelas ciências sociais ocidentais, adiante 
dos fins das dualidades, como vimos há pouco com Bruno Latour, Eduardo Viveiros 
de Castro propõe outra perspectiva, o perspectivismo ameríndio, que evoca uma 
abordagem diferente da que temos visto até agora. Se dentro da Antropologia 
praticada até então se parte do pressuposto de que há, nos estudos das diversas 
sociedades, um elemento universal que é a natureza, ou seja, que o mundo natural 
é o objetivo que nos força a percebermos que ele é regido por leis claras e objetivas 
de causa e consequência, e outro particular que é a cultura, porque é produzida de 
maneira subjetiva pelas interações e pelos simbolismos que há no grupo, a proposta 
de Castro é compreender que a cosmologia presente nos povos ameríndios parte do 
oposto da cosmologia ocidental. O que isto quer dizer? Que dentro da perspectiva 
dos povos ameríndios a cultura é o universal e a natureza é particular, donde a 
afirmação de Castro de que o que há dentro desta perspectiva é o multinaturalismo, 
e não o multiculturalismo (CASTRO, 1996). 
Em primeiro lugar, precisamos entender o que é esta qualidade perspectiva dos 
povos ameríndios que o autor trabalha:
Sociedades humanas e ambiente natural
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O perspectivismo parte de diversas etnografias dos povos amazônicos que 
apontam para uma “teoria indígena” em que: 
Assim, há uma mesma natureza humana em todos os animais, a qual está 
“escondida” sob uma roupagem, uma forma na qual as espécies não humanas se 
manifestam. Uma onça, por exemplo, se vê como um homem, e o homem que 
ela espreita para atacar é visto por ela como presa, como qualquer outra presa. Da 
mesma forma que o homem se vê como homem e vê sua presa como animal, a 
presa que é perseguida pelo homem se vê como homem e vê seu perseguidor como 
um predador voraz, como qualquer outro predador que ele possui na natureza, ou 
seja, como animal.
O perspectivismo ameríndio se difere do relativismo proposto pelas ciências 
ocidentais e da própria cosmologia ocidental; no início, para diversos povos indígenas 
das Américas, tudo era humano.
Trata-se da concepção, comum a muitos povos do continente, 
segundo a qual o mundo é habitado por diferentes espécies de 
sujeitos ou pessoas, humanas e não humanas, que o apreendem 
segundo pontos de vista distintos (CASTRO, 1996, p. 115).
[...] o modo como os humanos veem os animais e outras 
subjetividades que povoam o universo − deuses, espíritos, 
mortos, habitantes de outros níveis cósmicos, fenômenos 
meteorológicos, vegetais, às vezes mesmo objetos e artefatos 
−, é profundamente diferente do modo como esses seres os 
veem e se veem (CASTRO, 1996, p. 116).
Tudo era humano, mas tudo não era um. A humanidade era 
uma multidão polinômica; ela se apresentou desde o início 
sob a forma da multiplicidade interna, cuja externalização 
morfológica, isto é, a especiação, é precisamente a matéria da 
narrativa cosmogônica. É a Natureza que nasce ou se 'separa' 
da Cultura e não o contrário, como para nossa antropologia e 
nossa filosofa (DANOWSKI; CASTRO, 2014, p. 92).
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O mundo, para os indígenas da Amazônia, é uma multiplicidade conectada. As 
espécies animais são entes políticos, não apenas os homens no sentido ocidental do 
termo. O ambiente é uma sociedade de sociedades, uma cosmopoliteia (DANOWSKI; 
CASTRO, 2014, p. 94). Assim, na produção de sua vida, os povos amazônicos sabem 
que algo precisa ser destruído, mas como o solo é também vivo, é preciso tomar 
cuidado com as marcas que se deixam sob a terra. Por essa razão, o antropólogo 
Eduardo Viveiros de Castro, em entrevista a Eliane Brum, afirma:
Acho que os índios podem nos ensinar a repensar a relação 
com o mundo material, uma relação que seja menos 
fortemente mediada por um sistema econômico baseado na 
obsolescência planejada e, portanto, na acumulação de lixo 
como principal produto. Eles podem nos ensinar a voltar à 
Terra como lugar do qual depende toda a autonomia política, 
econômica e existencial. Em outras palavras: os índios podem 
nos ensinar a viver melhor em um mundo pior. Porque o 
mundo vai piorar. E os índios podem nos ensinar a viver com 
pouco, a viver portátil, e a ser tecnologicamente polivalente e 
flexível, em vez de depender de megamáquinas de produção 
de energia e de consumo de energia como nós. Quando eu 
falo índio é índio aqui, na Austrália, o pessoal da Nova Guiné, 
esquimós... Para mim, índios são todas as grandes minorias 
que estão fora, de alguma maneira, dessa megamáquina do 
capitalismo, do consumo, da produção, do trabalho 24 horas 
por dia, sete dias por semana (BRUM, 2014, p. 1).
A afirmação de Eduardo Viveiros de Castro é importante para pensarmos a nossa 
relação com a Terra a partir de outra perspectiva. 
1. A partir de década de 1920, há o surgimento de um campo 
da economia preocupado com a degradação ambiental, o 
qual recebeu o nome de economia ambiental.
Sabendo disso, analise as proposições a seguir:
I. A economia ambiental parte da premissa de que os 
recursos naturais não são finitos, mas que o mercado deve 
se preocupar em desenvolver estratégias que tenham por 
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objetivo a alocação eficiente dos recursos naturais.
II. Para a economia ambiental, como a produção esbarra 
em limites naturais dados pelo meio externo, seria preciso 
impor aos responsáveis pelo consumo destes meios uma 
taxa para utilização dos recursos naturais, tentando, com 
isso, moderar o uso destes recursos, no entanto, o mercado 
ainda poderia utilizar os meios naturais.
III. Os economistas ambientais avançaram na implementação 
de políticas tendentes a encarar os problemas ambientais. Por 
um lado, criando mecanismos de controle e de planejamento 
do uso dos recursos naturais e de geração de dejetos. Por 
outro, procurando instrumentos de mercado que atribuam 
preços ao que o mercado livremente não engendra.
Marcando V para o que for verdadeiro sobre a economia 
ambiental e F para o que for falso, assinale a alternativa que 
tem a sequência correta:
a. V-V-V.
b. V-F-V.
c. V-F-F.
d. F-F-F.
e. F-V-F.
2. A economia ecológica, assim como a ecologia ambiental, 
apresenta a necessidade de se utilizar com eficiência os 
recursos naturais existentes, mas há outras compreensões 
possíveis na economia ecológica.
Observe as proposições a seguir:
I. A economia ecológica também compreende que os 
sistemas econômicos devem levar em conta a escala 
de utilização destes recursos, bem como a ideia de uma 
distribuição justa entre os membros de uma sociedade, 
levando em consideração, também, a interferência que a 
utilização de determinados recursos naturais podem causar 
nas gerações futuras.
II. A economia ecológica vê a ecologia apenas como um 
passivo a ser consumido durante o processo de produção e 
qualquer mercadoria para atender o consumismo humano.
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III. Para a economia ecológica, a economia é um subsistema 
que faz parte de um ecossistema natural global fechado e 
que há ocorrência de trocas de materiais e energia entre o 
subsistema e o sistema global.
IV. A economia ecológica se limita ao controle do meio 
ambiente, criando um mercado imaginário de bens de 
consumos que não precisa levar em conta as trocas 
energéticas entre a sociedadee o meio ambiente.
Sobre a economia ecológica, podemos afirmar que estão 
corretas as proposições:
a. I-II.
b. I-III.
c. II-III.
d. II-IV.
e. III-IV.
3. Para muitos autores, a tese construída por Marx em O 
Capital não tem um fundamento propriamente ecológico, 
pois sua ocupação está em tentar decifrar os elementos 
contraditórios do modo de produção capitalista. No 
entanto, alguns autores percebem que o tema da ecologia 
está presente em Marx.
Sabendo disso, assinale a alternativa correta:
a. A análise de Marx privilegia alguns aspectos do pensamento 
humano que possibilita uma visão da ecologia idealista, 
mas nunca um pensamento materialista da história e das 
relações entre os homens.
b. A análise de Marx aponta para a necessidade crescente 
de uma regulação de mercado via estado liberal, para que 
os homens pudessem respeitar o reino natural do qual 
depende toda a produção capitalista.
c. A análise de Marx aponta para a importância do mercado 
no controle da produção sócia. Uma vez que o mercado 
tende a se regular, a liberdade comercial aparece como 
única saída para a crise ambiental vivida.
d. A análise de Marx aponta para uma crescente consciência 
Sociedades humanas e ambiente natural
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da força capitalista e uma tendência de controle social amplo, 
via burguesia, dos processos econômicos que podem ser a 
solução para o impasse ambiental.
e. A análise metabólica de Marx reconheceu que os 
ecossistemas incorporam processos regulatórios específicos 
que envolvem complexas relações históricas de intercâmbio 
que auxiliam em sua regeneração e continuidade.
Nesta unidade, tivemos a oportunidade de discutir, sob alguns 
aspectos, um tema que, dada as atuais conjunturas, é de 
fundamental importância: sociedade humanas e meio ambiente.
Para compreendermos a importância deste tema, nos 
preocupamos, em um primeiro momento, em compreender 
a nossa própria sociedade. Experimentamos, sem dúvidas, 
importantes avanços tecnológicos, melhoria de qualidade 
de vida para um grande número de pessoas, não obstante 
precisemos refletir que os avanços conquistados não foram 
distribuídos igualmente, mas esta sociedade produziu enormes 
danos ao ambiente natural em função da concepção de homem 
e de natureza produzida na modernidade. A produção avançou 
sobre a natureza sem se preocupar com sua finitude. Quando 
essa preocupação apareceu, diversos teóricos começaram a 
se questionar se era possível outra relação entre as sociedades 
capitalistas e o seu meio natural, assim tivemos o aparecimento 
da economia ambiental, da economia ecológica e um retorno 
aos escritos da economia política de Marx para tentar dar conta 
da realidade fatalista que se nos apresentava. 
Mas como o título da unidade é sociedades humanas e meio 
ambiente, procuramos também mostrar que outras “sociedades” 
produziram outras relações com a natureza, chegando à 
conclusão que estas relações surgem de outra explicação 
cosmológica da ligação homem/natureza ou sociedade/
natureza, e a partir desta nova perspectiva é possível pensar em 
um novo vínculo de nossa sociedade com a natureza.
A unidade não conclui dando respostas ou apresentando caminhos 
para o dilema “sociedade humana e meio ambiente”, mas mostra 
Sociedades humanas e ambiente natural
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a possibilidade dos diversos saberes e produções das ciências sociais 
por meio de uma reflexão sobre si mesmo e do conhecimento do 
outro, por pensar essa questão de maneira mais ampla.
Nesta unidade, você aprendeu que:
• As mudanças ocorridas no Ocidente a partir do século 
XVII mudaram a forma como os homens se veem e como se 
relacionam com a natureza.
• Os avanços técnicos e tecnológicos sob o modo de produção 
capitalista provocaram a busca pelo domínio da natureza.
• Thomas Malthus foi um dos primeiros a levantar a questão 
da finitude do mundo natural e os problemas trazidos pelo 
crescimento populacional.
• A Revolução Industrial aparece como marco da intensificação 
dos problemas ambientais.
• No início do século XX, a economia ambiental lançou-se à 
tarefa de pensar a questão da produção capitalista levando em 
conta a preocupação com a degradação ambiental.
• A economia ambiental parte da premissa de que os recursos 
naturais não são finitos, mas que o mercado deve se preocupar 
em desenvolver estratégias que tenham por objetivo a alocação 
eficiente dos recursos naturais.
• A economia ecológica é outra forma de abordar os problemas 
relacionados à produção capitalista e suas consequências para o 
meio ambiente.
• A economia ecológica preocupa-se com a eficiência na 
utilização dos recursos naturais, bem como a escala de utilização 
de recursos naturais e a distribuição justa dos bens produzidos 
em uma sociedade.
• O marxismo não surge como uma preocupação estritamente 
ambiental, no entanto, alguns autores apontam para as 
possibilidades de uma leitura ecológica do marxismo, uma vez 
que esta teoria propõe uma crítica radical ao modo de produção 
capitalista.
Sociedades humanas e ambiente natural
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42
• Para além do modo de produção capitalista, outros povos 
desenvolveram outras formas de relação com meio natural.
• Marshall Sahlins apresenta as sociedades coletoras e caçadoras 
como a sociedade de afluência original.
• A sociedade de afluência é entendida como a sociedade em que 
os bens afluem para todos os seus membros; ela é o oposto das 
sociedades de escassez.
• Desenvolveu-se uma ideia de que as sociedades capitalistas 
poderiam chegar a ser as sociedades de afluência, ao passo que as 
sociedades não capitalistas eram as sociedades de escassez, porém 
Sahlins aponta justamente para o contrário.
• A visão de Sahlins nos ajuda a perceber que há outras formas 
possíveis de relação com a produção e a satisfação da sociedade, 
e isso implica uma maneira de diferente de lidar com o trabalho e 
com o meio natural.
• As mudanças provocadas pelos homens afetaram de tal modo a 
composição geofísica da Terra que alguns estudiosos afirmam que 
estamos entrando em outra era geológica: o Antropoceno.
• O Antropoceno marca a humanidade como força físico-química, 
e neste interregno a Terra surge como força política.
• A possibilidade de compreender a Terra como tendo a capacidade 
de interferir como agente político no meio social só pode ser 
entendida por meio da Teoria do Ator-Rede, de Bruno Latour.
• A teoria proposta por Latour tem por objetivo superar os dualismos 
sob os quais se assenta a ciência moderna; humanos e não humanos 
possuem agência dentro da realidade empírica.
• Eduardo Viveiros de Castro, com o perspectivismo ameríndio, 
oferece outra visão sobre a relação homem e natureza.
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43
Referências
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Unidade 2
RELAÇÕES ETNORRACIAIS
Objetivos de aprendizagem: 
Esta unidade tem por objetivo proporcionar a você uma visão, a partir das 
discussões das Ciências Sociais, de como o conceito de etnicidade e etnia 
foi se construindo, bem como mostrar como estas relações se deram no 
Brasil, sobretudo no que diz respeito à questão do negro e dos indígenas.
Essa arrecadação e o dispêndio do dinheiro arrecadado devem ser 
feitos com rigorosa previsão, sóbrio planejamento e rígido controle – e a 
Constituição brasileira de 1988 estabeleceu instrumentos para a execução 
austera, fiscalização permanente e controle severo sobre o dinheiro público, 
conforme veremos nas leis que prescrevem os planejamentos, as diretrizes e 
a execução do orçamento.
Wilson Sanches
Nesta seção, discutiremos o conceito de etnicidade e de grupos étnicos 
e seu desenvolvimento dentro das ciências sociais.
Nesta seção, iremos abordar a questão das relações etnorraciais no 
Brasil.
Seção 1 | Percurso teórico do conceito de etnicidade nas 
ciências sociais
Seção 2 | Relações etnorraciais no Brasil
Relações etnorraciais
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Relações etnorraciais Relações etnorraciais
U2
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Introdução à unidade
A discussão sobre a diversidade humana passou por diversas fases. No século 
XVIII, uma discussão pretensamente científica teorizou que as diferenças entre os 
grupos humanos era uma diferença biológica, atrelada à ideia de raça. Durante 
algum tempo, o termo raça, em seu sentido biológico, dominou a discussão 
nas ciências sociais. Com o abandono desta palavra, emerge o termo etnia, para 
nominar a diferença entre os agrupamentos humanos. O interesse pelo termo etnia 
começa a ganhar relevância nos estudos das ciências sociais quando começam a 
descortinar, no interior do Estado-Nação, grupos, ou coletividades, formados por 
afinidades de identidade e por repulsa de outros grupos. A partir dos anos de 1970, 
a discussão sobre grupos étnicos ganha relevância nas ciências sociais em função 
das lutas travadas por estes grupos. No Brasil, as lutas mais visíveis, neste sentido, 
são do movimento negro, mas também a questão indígena ganha relevância com 
o reconhecimento da diversidade. Esta unidade tem por objetivo lançar luz sobre 
estes debates.
Relações etnorraciais
U2
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Relações etnorraciais Relações etnorraciais
U2
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Seção 1
Percurso teórico do conceito de etnicidade nas 
ciências sociais
Introdução à seção
1.1 Definição do conceito
Definir um determinado conceito é um elemento essencial para toda ciência, 
pois, mais que um significado etimológico, o termo possui uma historicidade e 
precisa ser pensado dentro deste contexto. Termos como raça e etnia, etnicidade já 
figuraram em diversos escritos antes de serem apropriados pelas ciências sociais, no 
entanto, possuíam significado diverso do que é usado nos dias atuais, sendo assim é 
nosso interesse pensar no conceito de etnicidade, bem como de grupos étnicos e 
seu desenvolvimento dentro das ciências sociais.
Etnia ou Raça?
A etnicidade pode ser definida como “a condição de pertencer a um grupo étnico” 
(FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS, 1986, p. 436), ou seja, a qualidade, a característica, 
de um grupo étnico.
Assim, o conceito de etnicidade é inseparável do conceito de grupos étnicos. 
O grupo étnico pode ser definido, de maneira bastante objetiva, como uma 
A etnicidade reflete as tendências positivas de identificação e 
inclusão num grupo étnico. Nesse caso, é possível vê-la como 
uma qualidade da qual se participa, e que expressa a ênfase na 
atribuição de membro do grupo étnico (FUNDAÇÃO GETULIO 
VARGAS, 1986, p. 436). 
Relações etnorraciais
U2
50
coletividade de pessoas que possuem um determinado padrão de comportamento 
e que fazem parte de uma população maior em que interagem com outras 
coletividades dentro de um sistema social global (FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS, 
1986). Nesse sentido, a etnicidade está relacionada à interação de grupos étnicos 
diferentes dentro de uma mesma sociedade, ou de um mesmo sistema social. 
Diante desta definição, verificamos que a utilização da expressão “grupo étnico” 
não poderia se dar em lugares em que as diferenças étnicas sejam inexistentes, ou 
ainda, não há como falar de etnicidade quando estamos comparando populações 
diferentes que moram em locais diferentes e desenvolvem seus padrões de 
comportamento com uma certa autonomia, assim, por exemplo, quando se 
consideram as diferenças entre determinados países, como China e Índia, estamos 
falando de diferenças nacionais, mas quando falamos dos imigrantes chineses e dos 
imigrantes indianos dentro de um território estrangeiro podemos nos referir a estes 
grupos como grupos étnicos. Dada esta compreensão dos grupos étnicos, podemos 
estabelecer que a “etnicidade é essencialmente uma forma de interação de grupos 
culturais que operam num contexto social comum” (FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS, 
1986, p. 436).
Poutignat e Streiff-Fenart (1998) apontam que o conceito de etnicidade começa 
a ser forjado pelos cientistas sociais, em especial pelos cientistas sociais de língua 
inglesa, para dar conta da problemática dos grupos sociais que, dentro de uma 
determinado Estado, mantêm laços de identidade cultural diferentes daqueles 
praticados dentro de um determinado país. O termo etnicidade começa a aparecer 
nas obras de alguns autores no século XIX, mas ganha maior relevância a partir dos 
anos de 1960, continuando um tema de grande relevância nos dias atuais. Assim, 
será nosso intuito percorrer brevemente os caminhos da construção deste termo 
para compreender melhor sua importância nos dias atuais. 
Na obra Economia e Sociedade, Weber (2012), apresenta uma definição de 
coletividade étnica. O capítulo em que o autor trata do tema começa falando da 
pertinência da ideia de raça para compreender algumas relações comunitárias, 
sobretudo em países que foram colonizados e/ou que acorreram um grande 
número de migrantes.Em um sentido objetivo, a ideia de raça está ligada aos laços 
sanguíneos, mas em caráter subjetivo estes grupos são marcados por sentimentos 
comuns. Esta definição que Weber chama de pertinência à raça (WEBER, 2012, p. 
267) torna-se importante para compreender as relações de atração e repulsão entre 
diversas comunidades em uma mesma sociedade, bem como para compreender a 
formação de uma comunidade política no interior de um Estado, que se distingue de 
outras formas de sociação, por exemplo partidos políticos, sindicatos e associações 
de moradores de uma determinada localidade. 
As semelhanças entre as crenças comuns, ou costumes partilhados por certos 
indivíduos, ou ainda a crença na origem comum de um grupo de indivíduos no 
Relações etnorraciais Relações etnorraciais
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51
interior de uma sociedade mais ampla, bem como o sentimento de repulsa que 
estes grupos sofrem em relação a outros grupos, podem atuar como força criadora 
desta coletividade.
Portanto, para Weber, a comunhão étnica está relacionada a um sentimento 
de comunidade entre indivíduos que acreditam em uma procedência comum, ou 
uma origem comum. Este sentimento vai estabelecer algumas condições para o 
intercâmbio social, ou seja, a relação entre os membros dos diversos grupos étnicos, 
ou mesmo com os membros do grupo dominante, esta relação também implica 
uma repulsão entre os membros de grupos diferentes. Por vezes, a repulsão dos 
demais grupos, ou do grupo dominante, aparece como elemento mais importante 
para a formação da identidade étnica.
É interessante perceber que as discussões sobre grupos étnicos e, por 
conseguinte, sobre etnicidade, em sociologia e ciências políticas, se dá em relação 
ao Estado-Nação. Neste, quando tomamos uma definição mais geral sem observar 
as particularidades que envolvem esta entidade, as pessoas são caracterizadas como 
cidadãs com um determinado estatuto legal, ou seja, um conjunto de leis impessoais 
que determinam os direitos e deveres destes cidadãos de maneira objetiva, e que 
o laço de ancestralidade e origem não precisa ser necessariamente partilhado. No 
entanto, o fenômeno da formação de grupos étnicos dentro do Estado desafia esta 
definição geral, sobretudo a definição de um povo que pertence a um determinado 
Estado entendido como uma massa de cidadãos homogênea. 
O fenômeno da diferenciação de uma determinada localidade dentro de um 
Estado também chama a atenção da Escola de Chicago, nos Estados Unidos da 
América. Os Estados Unidos da América podem ser pensados como uma sociedade 
formada a partir da imigração, portanto uma formação heterogênea desde sua 
origem, mas há determinados grupos imigrantes que guardam certos laços 
comuns com suas sociedades de origem e que, em razão disso, têm suas condutas 
A crença na afinidade de origem – seja esta objetivamente 
fundada ou não – pode ter consequências importantes 
particularmente para a formação de comunidades políticas. 
Como não se trata de clãs, chamaremos de 'grupos étnicos' 
aqueles grupos humanos que, em virtude de semelhanças no 
habitus externo ou nos costumes, ou em ambos, ou em virtude 
da lembrança de colonização e migração, nutrem uma crença 
subjetiva na procedência comum, de tal modo que esta se 
torna importante para a propagação de relações comunitárias, 
sendo indiferente se existe ou não uma comunidade de sangue 
efetiva (WEBER, 2012, p. 270).
Relações etnorraciais
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52
influenciadas por estes laços de pertencimento. Neste sentido, como é possível falar 
de grupos étnicos em uma sociedade pluriétnica? 
O sociólogo norte-americano Willian Lloyd Warner foi, provavelmente, o primeiro 
autor a utilizar o termo etnicidade (POUTIGNAT; STREIFF-FENART, 1998). Neste autor, 
a expressão “grupos étnicos” é utilizada para designar os grupos que moram nos 
Estados Unidos, mas que não são anglo-americanos, ou seja, independentemente 
de suas crenças religiosas e de suas classes sociais, elementos utilizados para apontar 
traços de distinção no interior de um Estado nacional, haveria grupos no interior da 
sociedade norte-americana que possuíam origem distinta dos anglo-americanos, e 
essa origem influenciaria no comportamento destes indivíduos.
Para Warner, a crença na origem comum e a forma como os grupos se formavam 
afetava o comportamento destes indivíduos na relação com os outros grupos 
étnicos, bem como na relação com aqueles considerados norte-americanos, ou 
seja, o grupo dominante. É interessante perceber que, apesar de a sociedade norte-
americana ser formada quase que exclusivamente por imigrantes dado o seu passado 
colonial, Warner nomeia apenas os grupos de não anglo-americanos como etnias, 
assim, haveria um grupo, os de anglo-americanos, que não receberia o rótulo de 
étnico (ethnics) ao passo que todos os outros tipos de grupos de imigrantes seriam 
reconhecidos pelo termo étnico. Há, na utilização deste termo, neste momento, um 
caráter etnocêntrico, a ideia de que um determinado grupo teria a capacidade de 
nomear e classificar todos os demais a partir de seus próprios valores. 
A etnicidade em Warner é “uma característica que modifica o sistema social e 
é modificado por ele” (POUTIGNAT; STREIFF-FENART, 1998, p. 22). A etnicidade é 
entendida como uma característica que afeta o comportamento dos indivíduos, assim 
como a idade e a religião. Para reconhecer esta característica, é preciso responder 
a uma pergunta: “De qual país veio a maioria de seus ancestrais?” (POUTIGNAT; 
STREIFF-FENART, 1998, p. 23), ou seja, em Warner, a caracterização de um grupo 
étnico é objetiva, dada por um cientista social que consegue, por meio de dados 
objetivos, determinar os diversos grupos étnicos no interior de um sistema social 
mais amplo.
De acordo com Warner, os grupos étnicos tenderiam a desaparecer no interior 
da sociedade norte-americana em função das assimilações dos valores do grupo 
dominante (FENTON, 2003).
Na década de 1960, outros dois autores utilizam o termo etnicidade de maneira 
distinta da utilizada por Warner, são eles: Wallerstein, que estudou as tribos do oeste 
da África, e Gordon, que estudou a sociedade norte-americana. Estes dois autores:
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Utilizam o termo etnicidade para designar não a pertença 
étnica, mas os sentimentos que lhe estão associados: o 
sentimento de formar um povo (sense of peoplehood) 
partilhados pelos membros de subgrupos no interior das 
fronteiras nacionais americanas, ou o sentimento de lealdade 
(feeling of loyalty) manifestado em relação aos novos grupos 
étnicos urbanos pelos africanos destribalizados (POUTIGNAT; 
STREIFF-FENART, 1998, p. 24).
As pesquisas de Warner tinham uma pergunta fundamental para descobrir a 
etnicidade: “De que país veio a maioria de seus ancestrais?”. Dessa forma se encontrava 
uma maneira objetiva de definir a etnicidade, ao passo que as pesquisas de Gordon 
e Wallerstein perguntavam sobre os sentimentos de pertença aos grupos no interior 
de uma sociedade mais ampla. Neste último caso, a definição de etnicidade era 
subjetiva, ou seja, o indivíduo se identificava com o grupo.
No final da década de 1960, eclodem diversos conflitos e reivindicações que 
foram categorizadas como “étnicas”. Estes conflitos aconteceram nas sociedades 
industrializadas para a qual acorreram pessoas de diversas origens, mas também 
se deu na sociedade que ainda não havia se industrializado. Conflitos surgiram em 
sociedades que eram tidas como homogêneas e em sociedades pluriétnicas. Estes 
conflitos chamaram a atenção da produção sociológica, e o conceito de etnicidade, 
a partir dos anos 1970, irá impor-se às ciências sociais.
A questão da etnicidade passa a ser vista, segundo alguns autores, como um 
fenômeno presente nos modernos Estados-Nações, pois ao invés de promover a 
homogeneização do mundo, a expansão do capitalismo internacional – caracterizado 
por uma economia monetária que tende à individualização e à produção de uma 
sociedade marcada pelas relações impessoais− inaugura o nacionalismo étnico 
e o racismo. As facilidades das comunicações do mundo moderno permitiram a 
constituição de redes internacionais de contatos que facilitaram a formação de 
identidades étnicas. Outros autores afirmam que as questões ligadas à etnicidade 
sempre tiveram presentes, mas foram ocultadas pelos pesquisadores anteriores em 
função da verve funcionalista, que tinha como objetivo realçar os fenômenos que 
agiam para a integração do grupo, e não para perceber os elementos dissociadores 
no interior das sociedades.
O fato que se apresenta é que as ciências sociais, a partir dos anos de 1970, estão 
diante de novas questões empíricas, os conflitos e as reinvindicações étnicas, que 
apontam para novos desafios teóricos.
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As categorias gênero, classe social e raça são elementos presentes 
em diversos estudos sociológicos. Para entender a relação entre estes 
termos, sugerimos a leitura do artigo:
AGUIAR, Márcio Mucedula. A construção das hierarquias sociais: classe, 
raça, gênero e etnicidade. Cadernos de Pesquisa do CDHIS, Uberlândia, 
n. 36/37, ano 20, p. 83-88, 2007. Disponível em: <http://www.seer.ufu.br/
index.php/cdhis/article/download/1204/1071>. Acesso em: 21 out. 2016.
Entre os autores que se lançaram a este desafio está Fredrik Barth. Em 1969, 
ele publica uma obra coletiva chamada Ethnics groups and boundaries. The 
social organization of culture difference (que pode ser livremente traduzida como 
Grupos étnicos e suas fronteiras. A organização social das diferenças culturais) cuja 
introdução foi publicada na obra de Poutignat e Streiff-Fenart (1998), que utilizamos 
neste texto. 
No trabalho de Fredrik Barth, importa compreender a “constituição dos grupos 
étnicos e a natureza de suas fronteiras” (BARTH apud POUTIGNAT; STREIFF-FENART, 
1998, p. 186), pois, segundo o autor, nos estudos precedentes se deu muita ênfase 
em estudar os traços distintivos dos grupos étnicos sem, contudo, examinar de 
maneira sistemática as fronteiras e as características empíricas dos grupos étnicos.
Nos estudos sobre os grupos étnicos, estes são geralmente caracterizados como 
uma população que:
1. Perpetua-se biologicamente de modo amplo.
2. Compartilha valores culturais fundamentais, realizados em patentes unidades 
nas formas culturais.
3. Constitui um campo de comunicação e interação.
4. Possui um grupo de membros que se identifica e é identificado por outros 
como se constituísse uma categoria diferencial de outras categorias do mesmo tipo 
(BARTH apud POUTIGNAT; STREIFF-FENART, 1998, p. 189-190).
Segundo Barth, essa é uma definição ideal de grupos étnicos e que apenas sua 
utilização inviabiliza a verdadeira problemática destes grupos, que é: entender os 
grupos étnicos e seu lugar na sociedade e nas culturas humanas.
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O mais grave de tudo é que ela [a caracterização dos 
grupos étnicos acima colocada] nos induz a assumir que a 
manutenção das fronteiras não é problemática e decorre do 
isolamento implicado pelas características itemizadas acima: 
diferença racial, diferença cultural, separação social e barreiras 
linguísticas, hostilidade espontânea e organizada. Isso limita 
igualmente o âmbito dos fatores que utilizamos para explicar 
a diversidade cultural: somos levados a imaginar cada grupo 
desenvolvendo sua forma cultural e social em isolamento 
relativo, essencialmente, reagindo a fatores ecológicos 
locais, ao longo de uma história de adaptação por invenção 
e empréstimo seletivo (BARTH apud POUTIGNAT; STREIFF-
FENART, 1998, p. 190).
Para Barth, há uma importância excessiva no fato de os grupos étnicos partilharem 
uma mesma cultura, essa característica deve ser considerada como um fato, ou um 
resultado, mais do que um fator primordial para a formação dos grupos étnicos, 
pois quando se leva em conta a construção cultural como fator primordial, se liga a 
uma ideia de que a cultura é construída isoladamente por cada sociedade e se parte 
de uma análise sincrônica da cultura, ou seja, de que a cultura deve ser analisada 
naquele dado momento histórico sem a compreensão de que os fatores ecológicos 
determinaram mudanças significativas na cultura de um grupo étnico.
É importante reconhecer que, embora as categorias étnicas 
tomem em consideração as diferenças culturais, não podemos 
deduzir disso uma simples relação de um para um entre as 
unidades étnicas e as semelhanças e diferenças culturais. As 
características que são levadas em consideração não são a 
soma das diferenças 'objetivas', mas aquela que os próprios 
atores consideram significantes (BARTH apud POUTIGNAT; 
STREIFF-FENART, 1998, p. 194).
Assim, para Barth (apud POUTIGNAT; STREIFF-FENART, 1998), o item 4, do 
conjunto de itens que apresentamos acima para classificar os grupos étnicos, é 
de especial importância, pois apresenta a possibilidade de o indivíduo se definir 
como membro de um grupo étnico com as características que são significativas e 
importantes para ele. Esta percepção de que o indivíduo se define como membro 
de um grupo resolve dois problemas conceituais: 1°) uma vez que as fronteiras entre 
os grupos étnicos podem mudar, em função de diversos fatores, como localidade 
que o grupo se encontra e os outros grupos com que se relaciona, a percepção do 
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que é significativo com traço distintivo também muda, e o indivíduo que pertence 
a determinado grupo pode se adaptar a estes traços; 2°) as diferenças existentes 
entre os membros de um determinado grupo étnico têm pouca importância, pois 
se um indivíduo afirma pertencer a um determinada grupo, ele quer que suas ações 
sejam interpretadas e julgadas como ações de um indivíduo que pertence àquele 
grupo. Mas o que são essas fronteiras que o autor fala e aponta a importância de 
compreender os seus limites?
Fredrik Barth é um dos autores importantes sobre a teoria da etnicidade.
Para uma leitura mais aprofundada sobre este autor e esta temática, 
sugerimos o artigo: VILLAR, Diego. Uma abordagem crítica do conceito 
de “etnicidade” na obra de Fredrik Barth. Mana, Rio de Janeiro, v. 10, n. 
1, p. 165-192, abr. 2004. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.
php?script=sci_arttext&pid=S0104-93132004000100006&lng=en&nrm
=iso>. Acesso em: 21 out. 2016. 
Para Barth, o ponto central em uma pesquisa sobre grupos étnicos são as 
fronteiras étnicas, pois são estas, e não a matéria cultural, que definem os grupos. As 
fronteiras são fronteiras sociais.
Se um grupo conserva sua identidade quando os membros 
interagem com outros, isso implica critérios para determinar a 
pertença e meios para tornar manifesta a pertença e a exclusão. 
Os grupos étnicos não são simples ou necessariamente 
baseados na ocupação de territórios exclusivos; e os diferentes 
modos pelos quais eles se conservam, não só por meio de um 
recrutamento definitivo, mas por uma expressão e validação 
contínuas, precisam ser analisados (BARTH apud POUTIGNAT; 
STREIFF-FENART, 1998, p. 196).
As fronteiras étnicas canalizam a vida social, uma vez que os membros de grupos 
étnicos diferentes jogam o mesmo jogo, o de reconhecimento de pertença a 
grupos determinados dentro de um mesmo sistema social, que necessita que estes 
interajam entre si. A interação entre membros de grupos distintos não conduz ao fim 
de um dos grupos.
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Assim, a persistência de grupos étnicos com contato implica 
não apenas critérios e sinais de identificação, mas igualmente 
uma estruturação de interação que permite a persistência das 
diferenças culturais. O traço organizacional que, segundo 
a minha tese, deve ser encontrado em quaisquer relações 
interétnicas consiste em um conjunto sistemático de regras 
dirigindo os contatos interétnicos (BARTH apud POUTIGNAT; 
STREIFF-FENART, 1998, p. 196).
Nas sociedades poliétnicas, que são aquelas dominadas por um sistema 
estatal controlado por um dos grupos, mas que há espaço paraa diversidade, o 
comportamento macrossocial é guiado por uma tendência a homogeneizar as 
relações, no entanto, é possível perceber as marcas distintivas dos grupos étnicos e 
as fronteiras que determinam uma forma de relação dos grupos étnicos entre si e 
dos grupos étnicos com o grupo dominante que detém o poder estatal. 
Com base no que expomos até aqui, levantamos algumas questões pertinentes: 
sendo o Brasil uma nação formada a partir da afluência de diversos grupos étnicos, 
como perceber estas fronteiras étnicas em nosso país? Como os estudos sobre 
a interação dos grupos étnicos nos permite compreender melhor as relações 
etnorraciais que se desenvolvem no interior da nação? Estas questões tentaremos 
responder nas próximas seções.
1. A etnicidade reflete as tendências positivas de identificação e 
inclusão num grupo étnico. Nesse caso, é possível vê-la como 
uma qualidade da qual se participa, e que expressa a ênfase na 
atribuição de membro do grupo étnico (FUNDAÇÃO GETULIO 
VARGAS, 1986, p. 436).
Sabendo que o conceito de grupo étnico é inseparável do 
conceito de etnicidade, assinale a alternativa correta quanto ao 
primeiro conceito:
a) O grupo étnico pode ser definido, de maneira bastante 
objetiva, como uma coletividade de pessoas que possuem 
um determinado padrão de comportamento e que fazem 
parte de uma população maior em que interagem com outras 
coletividades dentro de um sistema social global.
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b) O grupo étnico pode ser definido, de uma maneira bastante 
objetiva, como uma coletividade de pessoas que possuem 
um determinado padrão físico herdado de suas origens 
ancestrais, que impede qualquer outra forma de associação 
que não esteja ligada ao elemento racial em questão.
c) O grupo étnico pode ser definido, de uma maneira bastante 
objetiva, como uma coletividade de pessoas que vivem em 
uma nação separada de outras, desenvolvendo características 
próprias que as impossibilitam de qualquer contato com 
sociedade ou comunidade civilizadas.
d) O grupo étnico pode ser definido, de uma maneira bastante 
objetiva, como uma coletividade de pessoas que possuem 
entre si apenas laços afetivos e que se unem para obter 
vantagens políticas que são negadas às pessoas comuns, 
portanto são grupos antidemocráticos.
e) O grupo étnico pode ser definido, de uma maneira 
bastante objetiva, como uma coletividade de pessoas que não 
possuem pátria, ou uma nação de origem específica, e vivem 
como desterradas nos Estados-Nações sem nenhum tipo de 
sentimento de pertença, e se juntam para não ficarem sós.
2. Weber foi um dos primeiros autores das ciências sociais 
a escrever sobre coletividade étnica. Sabendo disso, leia 
atentamente as proposições a seguir: 
I. Para Weber, num sentido objetivo, a ideia de raça está ligada 
aos laços sanguíneos, mas em caráter subjetivo os grupos 
étnicos são marcados por sentimentos comuns.
II. Para Weber, é importante compreender as relações de 
atração e repulsão entre diversas coletividades étnicas em 
uma mesma sociedade, para compreender a formação de 
uma comunidade política no interior de um Estado, que 
se distingue de outras formas de associação, por exemplo, 
partidos políticos, sindicatos e associações de moradores de 
uma determinada localidade.
III. As semelhanças entre as crenças comuns, ou costumes 
partilhados por certos indivíduos, ou ainda a crença na 
origem comum de um grupo de indivíduos no interior de uma 
sociedade mais ampla, bem como o sentimento de repulsa 
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que estes grupos sofrem em relação a outros grupos, podem 
atuar como força criadora desta coletividade étnica.
Levando em conta o pensamento de Weber, podemos afirmar 
que:
a) Apenas a proposição I está correta.
b) Apenas a proposição II está correta.
c) Apenas as proposições I e II estão corretas.
d) Apenas as proposições II e III estão corretas.
e) As proposições I, II e III estão corretas.
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Seção 2
Relações etnorraciais no Brasil 
Introdução à seção
2.1 O povo brasileiro
Diversos autores, a partir do início do século XX, empreenderam várias tentativas 
de interpretação do Brasil. Estas tentativas passaram por temas, como formação 
econômica do país, formação dos tipos que compõem o amplo território brasileiro e 
formação do povo brasileiro. Será nosso interesse nessa seção discutir justamente a 
formação do povo brasileiro, bem como discutir de maneira crítica as relações entre 
as diversas etnias.
Em relação ao desenvolvimento do povo brasileiro, se destaca a ideia de um povo 
construído a partir da mestiçagem (FREYRE, 2000) em função do caráter permissivo 
do colonizador que se instaurou neste território (HOLANDA, 1995).
Sob a formação do povo brasileiro, Darcy Ribeiro afirmou: “Surgimos da 
confluência, do entrechoque e do caldeamento do invasor português com índios 
silvícolas e campineiros e com negros africanos, uns e outros aliciados como 
escravos” (RIBEIRO, 2006, p. 17). Não obstante o destaque dado à obra sobre os 
entrechoques ocorridos entre os povos que aqui estavam com os colonizadores e 
os que foram trazidos à força, Darcy Ribeiro está imbuído da ideia de que formamos 
um povo novo a partir de elementos que poderiam atuar como força desagregadora, 
por esta razão ele também afirma:
O Brasil é um país livre do racismo?
Relações etnorraciais
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A confluência de tantas e tão variadas matrizes formadoras 
poderia ter resultado numa sociedade multiétnica, dilacerada 
pela oposição de componentes diferenciados e imiscíveis. 
Ocorreu justamente o contrário, uma vez que, apesar de 
sobreviverem na fisionomia somática e no espírito dos 
brasileiros os signos de sua múltipla ancestralidade, não se 
diferenciam em antagônicas minorias raciais, culturais ou 
regionais, vinculadas a lealdades étnicas próprias e disputantes 
de autonomia frente à nação (RIBEIRO, 2006, p. 18).
Darcy Ribeiro não nega as diferenças existentes entre os brasileiros e, mais tarde, 
algumas diferenças introduzidas pelos imigrantes europeus que para cá vieram “tentar 
a vida” depois do século XIX, mas ele afirma que há mais características comuns 
entre estes diversos tipos de brasileiros do que diferenças, uma vez que são todos 
conformados à brasilidade. Mesmo a industrialização e o processo de urbanização, 
que serviram para “borrar algumas diferenças”, “os brasileiros se comportam como 
uma só gente, pertencentes a uma mesma etnia” (RIBEIRO, 2006, p. 21).
A ideia de que o Brasil se constitui em uma experiência de acomodação sem choques 
de diversas etnias, ou de uma relação racial relativamente harmoniosa, começa a ser 
desenhada na segunda metade da década de 1930, com a visita de alguns estudiosos 
à Bahia. Essa ideia orientou os estudos feitos, com o patrocínio da Unesco, sobre as 
relações raciais em nosso país na década de 1950 (GUIMARÃES, 1996).
Na Bahia, tais estudos desenvolveram-se no âmbito de um 
acordo de cooperação entre o Governo de Estado da Bahia, 
através da Fundação para o Desenvolvimento da Ciência na 
Bahia (Fundec) e a Universidade de Columbia, New York. O 
acordo, dirigido por Thales de Azevedo, pela Fundec, e por 
Charles Wagley, pela Universidade de Columbia, visava 
retratar situações raciais relativamente harmônicas, sendo 
a Bahia, obviamente, uma localização privilegiada haja visto 
os resultados anteriormente alcançados por Donald Pierson, 
Melville Herskovitz, Franklin Frazier e Ruth Landes, nos anos 
1940, todos unânimes em afirmar o caráter relativamente 
cordial de suas relações raciais (GUIMARÃES, 1996, p. 67-68).
Este estudo patrocinado pela Unesco originou o livro As elites de cor publicado 
em 1953, e tinha um objetivo político bastante claro: reforçar a ideia de que a Bahia 
é o exemplo de uma sociedade multirracial de classe em que a ascensão social 
Relações etnorraciais Relações etnorraciais
U2
63
não é restringida em função da cor dosindivíduos. Para chegar a esta conclusão 
foi realizado um conjunto de entrevistas abertas entre fevereiro e outubro de 1951, 
com “com negros e mulatos ocupando posições de prestígio na sociedade local” 
(GUIMARÃES, 1996, p. 68). Thales de Azevedo afirma na introdução do livro que o 
estudo serve:
O próprio Thales de Azevedo irá afirmar mais tarde que esta é uma obra com 
caráter descritivo e não interpretativo, além de ser politicamente orientada para 
reforçar a ideia construída anteriormente da Bahia como sociedade relativamente 
harmoniosa no que diz respeito às relações raciais. 
[...] para que nossa terra possa sempre ser apontada como 
aquelas raras, em todo o mundo hodierno, em que pessoas 
de origens étnicas diferentes convivem de modo bastante 
satisfatório sem embargo da diversidade e até do contraste 
entre seus tipos físicos (AZEVEDO, 1953, p. 21 apud 
GUIMARÃES, 1996, p. 69).
Sobre o projeto Unesco, sugerimos o seguinte artigo:
MAIO, M. C. O projeto Unesco e a agenda das ciências sociais no Brasil 
dos anos 40 e 50. Rev. Brasileira de Ciências Sociais, v. 14, n. 41, out. 
1999. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_
arttext&pid=S0102-69091999000300009#back>. Acesso em: 21 out. 2016.
Apesar da produção politicamente orientada, o projeto da Unesco possibilitou 
que, de uma maneira geral, as ciências sociais se debruçassem sobre as relações 
raciais no Brasil de maneira mais aprofundada. Segundo Maio (2000), já havia alguns 
estudos sobre as questões raciais no Brasil no período anterior ao projeto da Unesco, 
mas esta iniciativa colaborou para o desenvolvimento das pesquisas sobre a questão 
racial, conforme aponta Octavio Ianni: 
[...] as iniciativas da Unesco e outras instituições estrangeiras 
colaboraram no desenvolvimento das investigações sobre o 
assunto. Note-se que dizemos ‘colaboraram’ e não ‘iniciaram’. 
Relações etnorraciais
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Na verdade, esses institutos encontraram condições favoráveis à sua 
realização, inclusive nos meios acadêmicos, sendo chefiados por 
especialistas brasileiros (Florestan Fernandes, Thales de Azevedo, 
Oracy Nogueira, L. A. Costa Pinto e outros). Note-se que foram as 
preocupações humanitárias da Unesco que a levaram a iniciar essas 
pesquisas, pois que se havia difundido também no exterior que no 
Brasil reinava a ‘democracia biológica’. Recordemos, entretanto, 
que, antes das iniciativas da Universidade de Chicago e da Unesco, 
já se realizavam no país investigações científicas a respeito das 
relações raciais em geral, desde alguns aspectos da integração 
sociocultural dos indígenas, ou as técnicas de infiltração social dos 
mulatos, até a análise dos produtos marginais da assimilação dos 
alemães (IANNI, 1966, p. 71).
Essa possibilidade foi dada pela ampliação da pesquisa:
Dentro desta perspectiva mais ampliada da investigação aparece a figura de 
Florestan Fernandes, em um primeiro momento, como assistente de Roger Bastides 
e, depois, como professor titular da cadeira de Sociologia I da Universidade de São 
Paulo, que a partir de uma análise sociológica se valendo da perspectiva histórica 
apontou que a passagem do trabalho escravo para o trabalho livre não teve o papel de 
revalorizar socialmente o negro, mas as imagens sobre o negro e o pardo persistiram 
no período pós-abolicionista, e que se conservou a mesma lógica de tratamento nas 
relações raciais, ou seja, de assimetria entre brancos e negros na sociedade de classe.
A pesquisa de Florestan na década de 1950 gerou os relatórios para a Unesco, 
mas também resultou em um livro publicado em 1964, intitulado A integração do 
negro na sociedade de classes (FERNANDES, 2008). Esta obra faz uma análise 
sociodinâmica de como o homem comum se integrou em uma ordem social 
competitiva no Brasil, bem como de quais foram as respostas do sistema de relações 
raciais no Brasil em uma sociedade de classes. Ao fazer sua análise, Florestan afirma:
No entanto, os objetivos da investigação foram ampliados, 
graças sobretudo à atuação de Charles Wagley, Luiz de Aguiar 
Costa Pinto, Roger Bastide, Ruy Coelho e Otto Klineberg, 
acrescida da visita de Alfred Métraux ao Brasil, no final de 
1950, após a qual ele veio a afirmar que o caso paulista seria 
suscetível de alterar a imagem por demais otimista que se fez 
do problema racial no Brasil (MAIO, 2000, p. 117).
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Evidencia-se, aí, como a modernização tem ocorrido, na 
esfera das relações raciais, como um fenômeno heterogêneo, 
descontínuo e unilateral, engendrando um dos problemas 
sociais mais graves para a continuidade do desenvolvimento 
da ordem social competitiva na sociedade brasileira. Por 
conseguinte, a análise se converte em um estudo de formação, 
consolidação e expansão do regime de classes sociais no Brasil 
do ângulo das relações raciais e, em particular, da absorção 
do negro e do mulato. Dadas as dificuldades com que se 
depararam para compartilhar do destino comum no plano 
nacional, os resultados da investigação são extremamente 
úteis para se entender os dilemas materiais e morais não só da 
democratização das relações raciais, mas da própria sorte da 
democracia no Brasil (FERNANDES, 2008, p. 22). 
O trabalho de Florestan se torna importante para apontar que o ideal de uma 
“democracia racial” pensada para o Brasil era um mito, não no sentido de falsidade, 
mas com sentido de uma ideologia dominante que tendia a pensar as desigualdades 
raciais apenas como consequência das desigualdades sociais próprias do capitalismo, 
e não como uma condição herdada da ordem social escravocrata. Assim, se encobria 
o racismo presente na sociedade brasileira. 
Não obstante algumas teses apresentadas por Florestan terem sido contrariadas 
no decorrer do tempo, como a ideia de autoexclusão do negro na sociedade de 
classe. Sua obra indica um marco para começar a pensar na tese de que é impossível 
falar das questões sociais que marcam a realidade brasileira sem passar pela 
“gênese do pauperismo, que está intrinsicamente ligada, como herança, às relações 
etnorraciais que se conformaram neste país” (DURANS, 2014, p. 392).
Outro elemento importante neste período é a retomada do conceito de raça. O 
conceito de raça implica a classificação de pessoas por meio de características físicas, 
como cor da pele, olhos, tamanho do crânio etc. Este conceito muito utilizado, 
em sua definição biologizante, até os anos de 1930, é substituído pelas discussões 
que levam em conta a dimensão sociocultural da formação das relações raciais, 
conforme mostramos anteriormente em Florestan Fernandes (2008), e perdura esta 
discussão até o final dos anos de 1960. A discussão sobre as questões raciais no 
Brasil tem uma pequena pausa no início da ditadura militar no país, em função de 
outras discussões que teriam mais urgências, bem como pela formação do ideal 
de nação brasileira. No final dos anos de 1970, o termo raça é recuperado pelo 
movimento negro com um caráter político. 
Esta retomada é influenciada, teoricamente, pelos estudos sobre a questão racial 
no Brasil realizados nos Estados Unidos da América por dois estudantes brasileiros.
Relações etnorraciais
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Nelson do Valle e Silva (1978) e Carlos Hasenbalg (1979), dois 
jovens estudantes de doutorado em diferentes universidades 
americanas, um em Michigan, outro em Berkeley, defenderam 
suas teses problematizando o fenômeno das crescentes 
desigualdades sociais entre brancos e negros no país 
(GUIMARÃES, 1999, p. 154).
Estes dois autores concordam com os estudos anteriores que tomam as diferenças 
de renda entre brancos e negros, bem como as diferenças de escolaridade e de classe 
social, sempre em prejuízo do negro, no entanto, eles trazem um componente novo 
em seus estudos que lança luzes sobre os outros elementos de discriminação, que 
é a desigualdade de tratamento, ou seja, a discriminação racial propriamente dita. 
A partir de então, em termos estatísticos, os dados produzidos pelos censos 
e pelaspesquisas amostrais podem ser divididos em dois grupos: brancos e não 
brancos, nesta última categoria conta-se, principalmente, com pardos e pretos. 
Esta divisão pode ser feita porque em todas as variáveis importantes, como renda, 
educação, residência e outras, há uma semelhança entre os membros dos grupos 
de não brancos e uma diferença profunda entre estes e os brancos.
Assim, a produção destes autores põe fim à esperança de Florestan Fernandes 
(2008) da integração tardia do negro na sociedade de classe, criando uma situação 
de desvantagem permanente. Neste sentido, Jaccoud afirma:
Mesmo quando se esgotam as variáveis de status e de 
classe social nos modelos explicativos (renda, escolaridade, 
naturalidade, local de residência etc.), persiste inexplicado um 
resíduo substantivo, que só pode ser atribuído à própria cor 
ou raça dos indivíduos (GUIMARÃES, 1999, p. 155).
Dos estudos dedicados à análise das desigualdades raciais 
no país não se infere a ausência de mudanças na sociedade 
brasileira, mas sim a ausência de uma mobilidade relativa dos 
negros. Examinando as desigualdades raciais entre as décadas 
de 1940 e 1990, conclui-se que a posição relativa dos negros e 
brancos na hierarquia social não foi substancialmente alterada 
com o processo de crescimento e modernização econômica. 
Relações etnorraciais Relações etnorraciais
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A industrialização não eliminou a raça como fator organizador 
de relações sociais e oportunidades econômicas, nem reverteu 
a subordinação social das minorias raciais (JACCOUD apud 
THEODORO, 2008, p. 54).
Esta autora afirma que, neste período, o que se pode observar é a piora relativa 
da posição dos negros em ocupações que exigem nível superior. No entanto, ela 
adverte:
A autora afirma que todos os indicadores apontam para a desigualdade racial no 
Brasil, no entanto, como o quadro é complexo e de difícil análise, há uma tendência 
a naturalizar a situação do negro na sociedade brasileira. Ela aponta que a condição 
de ser negro impacta diretamente na distribuição dos privilégios e do prestigio social. 
Alguns dados podem nos ajudar a pensar nesta questão.
Segundo Durans (2014), 97 milhões de brasileiros, num total de pouco mais de 
190 milhões, segundo o censo de 2010, se declararam pretos e pardos, ou seja, 
pouco mais de 50% dos brasileiros são negros, no entanto, entre os 10% mais pobres 
da população brasileira, 65% são negros, e entre os 10% mais ricos, 86% são brancos. 
O IBGE apontou, segundo Durans (2014), que entre os brancos a média salarial é de 
R$ 1.538,00, ao passo que entre os negros é de R$ 834,00, e entre os pardos é de R$ 
845,00. No quesito educação, a taxa de analfabetismo para pessoas com mais de 15 
anos é de 5,9% entre os brancos, de 14,4% entre os negros e de 13% para os pardos. 
Assim, parece que há dois países distintos.
Os estudos sobre esses temas têm, assim, avançado de forma 
significativa. Mas limites ainda são enfrentados. De um lado, 
existem dificuldades de se medir o fenômeno da discriminação, 
seja porque suas manifestações e efeitos são múltiplos, 
seja porque é difícil isolar seus efeitos nos indicadores de 
desigualdade. De outro lado, a discriminação não atua 
isoladamente, mas em conjunto com outros mecanismos, no 
processo de produção e reprodução da pobreza e da restrição 
de oportunidades para os negros no país (JACCOUD apud 
THEODORO, 2008, p. 155).
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Do ponto de vista do Índice de Desenvolvimento, dados da ONU 
de 2009 mostram que o Brasil ocupava a 75ª posição, entre os 
182 países. Porém, há uma diferença entre os indicadores para 
os brancos, onde o país ocuparia o 46° lugar e para os negros 
cuja colocação subiria para a 105ª posição. Esse dado da posição 
do Brasil negro revela o quão vulnerável está a população 
afrodescendente. Por exemplo, segundo o Ipea (2008) existem 
16,2 milhões de brasileiros (8,5%) que sobrevivem com menos 
de R$ 70,00/mês. Desses 8,5%, 70,8% são negros, 63% da 
população que vive abaixo da linha da pobreza é negra e o 
mesmo ocorre com a condição racial de 70% que vivem abaixo 
da linha de indigência (DURANS, 2014, p. 393).
Os dados sobre a desigualdade racial no Brasil, o novo enfoque de interpretação 
para estes dados que mostravam que a tendência era a perpetuação da condição 
subalterna do negro e a retomada do conceito de raça como referencial político 
orientaram, de certa forma, as lutas do movimento negro no Brasil no pós-década 
de 1980.
2.2 Movimento negro
O primeiro ponto importante para compreendermos a ideia de movimento 
negro é termos uma definição bem clara deste fenômeno social, o que se revela 
uma tarefa complexa. 
Joel Rufino dos Santos (apud SANTOS; BARBOSA, 1994) irá apresentar uma 
definição de movimento negro bastante ampla, que inclui todas as entidades 
fundadas e promovidas por negros para sua defesa, seja ela de qualquer espécie. 
Inclui nesta definição os terreiros de candomblé responsáveis pela defesa religiosa, 
as confrarias para as defesas sociais, os clubes de negros, os grupos de danças, 
teatro, capoeira e diversos centros de pesquisa, além do Movimento Negro Unificado 
mais responsável pelas ações políticas, “toda essa complexa dinâmica, ostensiva ou 
encoberta, extemporânea ou cotidiana, constitui movimento negro” (SANTOS apud 
SANTOS; BARBOSA, 1994, p. 157).
Se essa definição ampla é importante para a militância, para fins de estudo, 
segundo Domingues (2007), não é tão proveitosa. Dessa forma, iremos tratar aqui 
do movimento negro em sua faceta política, que pode ser brevemente entendido 
como:
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[...]a luta dos negros na perspectiva de resolver seus problemas 
na sociedade abrangente, em particular os provenientes dos 
preconceitos e das discriminações raciais, que os marginalizam 
no mercado de trabalho, no sistema educacional, político, 
social e cultural (DOMINGUES, 2007, p. 101).
Se o início da república brasileira coincide com o racismo embasado nas 
teorias biológicas, pretensamente científicas, sobre as raças, e com a teoria do 
branqueamento no território nacional, as primeiras associações negras se deram 
com a criação de grêmios e clubes de associação em diversos estados brasileiros. O 
aparecimento da imprensa negra é um elemento fundamental para a divulgação de 
informações que não poderiam ser encontradas em outros periódicos.
Esses jornais enfocavam as mais diversas mazelas que afetavam 
a população negra no âmbito do trabalho, da habitação, da 
educação e da saúde, tornando-se uma tribuna privilegiada 
para se pensar em soluções concretas para o problema do 
racismo na sociedade brasileira. Além disso, as páginas desses 
periódicos constituíram veículos de denúncia do regime 
de 'segregação racial' que incidia em várias cidades do país, 
impedindo o negro de ingressar ou frequentar determinados 
hotéis, clubes, cinemas, teatros, restaurantes, orfanatos, 
estabelecimentos comerciais e religiosos, além de algumas 
escolas, ruas e praças públicas. Nesta etapa, o movimento 
negro organizado era desprovido de caráter explicitamente 
político, com um programa definido e projeto ideológico mais 
amplo (DOMINGUES, 2007, p. 105).
Na primeira metade do século XX, a FNB foi a mais importante 
entidade negra do país. Com 'delegações' – espécie de filiais 
– e grupos homônimos em diversos estados (Rio de Janeiro, 
Minas Gerais, Espírito Santo, Pernambuco, Rio Grande do 
Sul e Bahia), arregimentou milhares de 'pessoas de cor', 
conseguindo converter o Movimento Negro Brasileiro em 
Em 1930, foi criada a Frente Negra Brasileira (FNB), que foi uma organização com 
reinvindicações políticas mais explícitas.
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movimento de massa. Pelas estimativas de um de seus dirigentes, 
a FNB chegou a superar os 20 mil associados (DOMINGUES, 2007, 
p. 106).
É importante ressaltar a participação das mulheres negras no movimento desde 
seu início. A FNB era formada, em grande parte, por mulheres que assumiam diversasfunções dentro da Frente. 
Em 1936, segundo Domingues (2007), a Frente Negra Brasileira transformou-
se em partido político. Membros da FNB foram recebidos pelo presidente Getúlio 
Vargas e tiveram algumas reivindicações atendidas, dentre elas destaca-se o fim da 
proibição dos negros integrarem a guarda municipal de São Paulo. 
Neste período, a Frente Nacional Brasileira não foi a única associação de negros 
para as lutas políticas.
Vale salientar que, além da Frente Negra Brasileira, outras 
entidades floresceram com o propósito de promover a 
integração do negro à sociedade mais abrangente, dentre as 
quais destacam-se o Clube Negro de Cultura Social (1932) e 
a Frente Negra Socialista (1932), em São Paulo; a Sociedade 
Flor do Abacate, no Rio de Janeiro, a Legião Negra (1934), 
em Uberlândia/MG, e a Sociedade Henrique Dias (1937), em 
Salvador (DOMINGUES, 2007, p. 107).
Com a ampliação do mercado de trabalho, ampliava-se também a competição 
entre os trabalhadores e, segundo Guimarães (2002), com a continuidade da situação 
de marginalidade do negro e do preconceito, ampliam-se também as reivindicações 
e os protestos do movimento negro organizado.
A União dos Homens de Cor, fundada em Porto Alegre em 1943, tinha como 
objetivo “elevar o nível econômico e intelectual das pessoas de cor em todo o 
território nacional, para torná-las aptas a ingressarem na vida social e administrativa 
do país, em todos os setores de suas atividades” (DOMINGUES, 2007, p. 108).
A União dos Homens de Cor (UHC) ganhou bastante notoriedade nos anos 
que se seguiram à sua fundação, tendo aberto diversas sucursais em vários estados 
brasileiros. No entanto, com a implantação da ditadura militar, houve o recuo na 
atuação de diversos movimentos sociais, inclusive do UHC.
Relações etnorraciais Relações etnorraciais
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Neste período, também é importante destacar a atuação do Teatro Experimental 
do Negro. A fundação deste grupo se deu no Rio de Janeiro, em 1944, sob a liderança 
de Abdias Nascimento, entre outros nomes. Se, em um primeiro momento, o Teatro 
Experimental do Negro tinha por objetivo formar um grupo teatral apenas com atores 
negros, sua abrangência e atuação foram se expandindo durante os anos em busca 
dos direitos civis dos negros e chegando a propor uma legislação antidiscriminatória 
no país (DOMINGUES, 2007). 
O Teatro Experimental do Negro sofreu também com a ditadura militar e foi 
extinto em 1968. Sua importância se dá, também, por ter introduzido nos debates 
brasileiros sobre a questão racial a proposta de negritude do movimento negro 
francês. O conceito de negritude implica a valorização da cultura negra tanto nos 
países africanos como nos países com população afrodescendente vítimas do 
colonialismo.
Nessa segunda etapa do movimento negro, a UHC ou o 
TEN não eram os únicos grupos que empreendiam a luta 
antirracista, mas foram aqueles cujas ações adquiriram mais 
visibilidade. Além deles, articulou-se o Conselho Nacional 
das Mulheres Negras, em 1950. Em Minas Gerais, foi criado o 
Grêmio Literário Cruz e Souza, em 1943; e a Associação José 
do Patrocínio, em 1951. Em São Paulo, surgiram a Associação 
do Negro Brasileiro, em 1945, a Frente Negra Trabalhista e a 
Associação Cultural do Negro, em 1954, com inserção no meio 
negro mais tradicional. No Rio de Janeiro, em 1944, ainda veio 
a lume o Comitê Democrático Afro-Brasileiro – que defendeu 
a convocação da Assembleia Constituinte, a Anistia e o fim 
do preconceito racial –, entre dezenas de outros grupos 
dispersos pelo Brasil (DOMINGUES, 2007, p. 110).
Com a desarticulação dos movimentos sociais no pós-golpe de 1964 e, 
consequentemente, o fim das discussões públicas sobre as questões raciais, o 
movimento negro volta a tomar fôlego no final da década de 1970, com a ascensão 
dos movimentos sociais, sindicais e estudantis.
Em 1978, foi fundado o Movimento Negro Unificado (MNU), com o intuito de 
retomar as discussões políticas abandonadas no período anterior. Domingues (2007) 
identifica dois tipos de inspiração para a fundação do MNU, uma no plano externo e 
outra no plano interno. 
No plano externo, a inspiração está nas lutas dos negros norte-americanos 
por direitos civis sob a liderança de Martin Luther King e Malcon X, bem como 
no movimento dos Panteras Negras. Os movimentos de libertação de diversos 
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países africanos, como Guiné Bissau, Moçambique e Angola, também serviram de 
inspiração ao Movimento Negro Unificado.
A inspiração interna, segundo Domingues (2007), foi a Convergência Socialista, 
uma organização marxista com direcionamento trotskista, que foi o lócus de 
formação de diversas lideranças do movimento negro.
No Programa de Ação, de 1982, o MNU defendia as seguintes 
reivindicações 'mínimas': desmistificação da democracia 
racial brasileira; organização política da população negra; 
transformação do Movimento Negro em movimento de 
massas; formação de um amplo leque de alianças na luta 
contra o racismo e a exploração do trabalhador; organização 
para enfrentar a violência policial; organização nos sindicatos 
e partidos políticos; luta pela introdução da História da África 
e do Negro no Brasil nos currículos escolares, bem como a 
busca pelo apoio internacional contra o racismo no país 
(DOMINGUES, 2007, p. 114).
A tônica do movimento negro neste momento histórico do país, ou seja, no 
período de redemocratização, foi contestar a ordem social instalada no país 
combinando a luta dos negros com a de todos os oprimidos da sociedade. O 
Movimento Unificado Negro adotou o termo negro para identificar os descendentes 
dos africanos no território brasileiro ao invés de “homem de cor”, que passou a ser 
considerado pejorativo.
O MNU tinha como objetivo a promoção de uma identidade étnica do negro, 
assim o resgate das raízes africanas e o discurso da negritude serviram de norte para 
o movimento.
Durante as décadas de 1980 e 1990, ocorreram diversos encontros entre grupos 
do movimento negro, organização de encontro dos estudantes universitários negros, 
bem como de pesquisadores negros das universidades brasileiras, tendo como base 
a discussão do racismo em âmbito nacional (SILVA, 2008;2010).
Um evento marcante dentro das lutas contra o racismo no Brasil foi a Marcha 
Zumbi dos Palmares, realizada em 20 de novembro de 1995. Essa marcha marcou 
a comemoração dos 300 anos de morte de Zumbi dos Palmares, bem como 
denunciava o racismo e a exclusão do negro na sociedade brasileira. Uma carta foi 
entregue ao presidente Fernando Henrique Cardoso exigindo ações governamentais 
para combater o racismo.
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A partir de então, seguindo pistas já lançadas pelo núcleo de 
consciência negra da USP em 1992, propondo reparações, 
inclusive por meio de ações jurídicas, as organizações do 
movimento social negro passaram a assumir explicitamente a 
reivindicação pró-políticas de promoção da igualdade racial. 
Em que pesem algumas reações mais radicais de algumas 
lideranças de esquerda, que interpretavam as reivindicações 
por inclusão como 'integracionistas' a marcha contribuiu 
para que políticas de promoção da igualdade racial através da 
implantação de políticas de ações afirmativas na educação e 
no mercado de trabalho constituíssem um tema de amplos 
debates, na sociedade brasileira, para além de militância negra, 
seja na academia, seja na sociedade civil (SILVA, 2008;2010, p. 
134-135).
A partir de então, tem-se a discussão sobre políticas de promoção da igualdade 
racial por meio de políticas compensatórias.
2.3 Políticas de ações afirmativas
As políticas de ações afirmativas têm por objetivo oferecer aos grupos 
discriminados tratamento diferenciado para compensar as desvantagens oriundas 
do racismo, ou de outra forma de discriminação, por essa razão estas políticas são 
também chamadas de políticas compensatórias. Elas são aplicadas nos Estados 
Unidos, por exemplo, desde a década de 1960, para garantir aos afro-americanosparticipação na mobilidade social (MUNANGA, 2003).
Sobre as ações afirmativas no Brasil, sugerimos o artigo:
HOFBAUER, Andreas. Ações afirmativas e o debate sobre racismo no 
Brasil. Lua Nova, São Paulo, n. 68, p. 9-56, 2006. Disponível em: <http://
www.scielo.br/pdf/%0D/ln/n68/a02n68.pdf>. Acesso em: 20 out. 2016.
No Brasil, as discussões sobre as políticas de ação afirmativa ganham destaque 
a partir da Terceira Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, 
Xenofobia e Outras Formas de Intolerância, realizada em Durban, em 2001 
(HOFBAUER, 2006; SILVA, 2008/2010; JACCOUD apud THEODORO, 2008). 
Durante o segundo governo Fernando Henrique Cardoso, percebe-se uma mudança 
de discurso oficial apontando para a existência, no Brasil, de um problema racial. 
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Porém, somente em 2003 criou-se a Secretaria Especial de Políticas de Promoção 
da Igualdade Racial (Seppir).
Não obstante estas discussões, viu-se o avanço sistemático das ações afirmativas 
no Brasil durante os anos 2000, cabe-nos pensar quais são estas ações e quais 
resultados obtiveram.
Destaca-se em primeiro lugar o combate ao racismo institucional. O racismo 
institucional pode ser compreendido um tipo de racismo presente “no cotidiano 
organizacional, inclusive na implementação efetiva de políticas públicas, gerando 
de forma ampla, mesmo que difusa, desigualdades e iniquidades” (JACCOUD apud 
THEODORO, 2008, p. 136). 
O Ministério da Saúde e algumas prefeituras desenvolvem durante os anos de 
2004 e 2006 o Programa de Combate ao Racismo Institucional (PCRI).
A proposta de introduzir ações afirmativas como meio para 
contrabalançar os efeitos históricos de discriminações 
estruturais, não consegue, porém, gerar consenso nem mesmo 
entre estudiosos do assunto. Enquanto alguns entendem 
a introdução de ações afirmativas como uma espécie de 
precondição para a superação da discriminação racial – uma 
vez que, segundo esta interpretação, a discriminação positiva 
ajudará os historicamente desprivilegiados a criar e fortalecer 
uma identidade positiva –, outros veem em tais medidas um 
ataque perigoso contra a “maneira tradicional brasileira” de 
se relacionar com as diferenças humanas, e temem que por 
meio delas possam ser instigados conflitos raciais abertos 
(HOFBAUER, 2006, p. 10).
Esse programa resgata o debate de como o setor público 
poderia desenvolver atividades efetivas de combate ao racismo 
e à discriminação racial de uma forma inovadora. Parte do 
pressuposto de que os tratamentos desiguais têm como base as 
práticas dos corpos funcionais das instituições, e essas práticas 
devem ser tornadas visíveis, combatidas e prevenidas por 
meio de novas normas, procedimentos e cultura institucional 
(JACCOUD apud THEODORO, 2008, p. 141).
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Esse programa tinha como foco a discussão sobre a saúde da população negra, 
e dois objetivos fundamentais: identificar e prevenir o racismo institucional no setor 
público, bem como incentivar a participação da população nos diálogos sobre 
políticas públicas.
O PCRI possibilitou ampliar a discussão sobre o tema da desigualdade racial no 
setor da saúde. Como resultado dessas discussões houve o reconhecimento de que 
o Sistema Único de Saúde (SUS) não tratava de maneira igualitária brancos e negros 
nos cuidados continuados de saúde.
No campo das ações afirmativas, a mais conhecida é a política de cotas, que 
passou a ser adotada nas universidades brasileiras, de forma voluntária, a partir de 
2001, como forma de promover o ingresso de estudantes negros em seus cursos 
(JACCOUD apud THEODORO, 2008). 
Esta política é uma das mais debatidas e com implementação mais possível de 
ser visualizada pela sociedade. Segundo Munanga (apud PACHECO; SILVA, 2007), 
ela tem uma importância fundamental, pois combate um determinado tipo de 
preconceito que tende a naturalizar a discriminação racial e coloca como uma 
faceta “apenas” da falta de oportunidade social. Para este autor, a desigualdade na 
educação ocupa uma posição de destaque, pois atinge demais áreas.
Diz-se que os negros não conseguem bons empregos e bons 
salários porque não tiveram acesso a uma boa educação e 
que não tiveram acesso a uma boa educação porque seus pais 
são pobres. Neste beco sem saída entre educação, pobreza e 
mobilidade social, a discriminação racial nunca é considerada 
como uma das causas das desigualdades. E esta falta de 
consideração da discriminação racial como umas das variáveis 
na discussão sobre cotas se constitui como complicadora, 
quando as chamadas cotas raciais ou étnicas são interpretadas 
como introdução do racismo no sistema educativo brasileiro, 
em vez de considerá-la como uma política para corrigir e 
reduzir as desigualdades acumuladas ao longo dos séculos 
(MUNANGA apud PACHECO; SILVA, 2007, p. 7).
Conforme Munanga (apud PACHECO; SILVA, 2007), as cotas no ensino superior 
não são uma invenção brasileira, esta política compensatória já havia sido adotada 
em diversos países que conviveram com a segregação racial. Pode-se observar 
que esse sistema de cotas para o ensino superior foi adotado nos Estados Unidos 
a partir da década de 1960, o que implicou uma melhora significativa no grau de 
escolaridade desta população.
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Durante o período de 1960 a 2000, os dados mostram um 
quadro positivo e um aumento significativo daqueles que 
ingressaram na educação superior. A percentagem de negros 
na idade ideal (entre 18 e 25 anos), matriculados nesse nível de 
ensino passou de 13% em 1963 para 30,3% em 2000, sendo o 
período de maior crescimento os anos de 1967 a 1979, quando 
praticamente dobrou a percentagem daqueles ingressantes. A 
população negra matriculada no ensino superior representava 
4,4% do total em 1966; dez anos depois, o número de negros 
subiu para 1 milhão e 33 mil e sua proporção para 9,6% 
(MUNANGA apud PACHECO; SILVA, 2007, p. 10).
A melhoria nos graus de escolaridade, de uma maneira geral, afetou a forma como 
o negro participa da dinâmica de mobilidade social na sociedade norte-americana. 
No caso brasileiro, é possível observar uma extrema desigualdade no acesso ao 
ensino superior. Não obstante, Henriques (2001) aponta uma melhora nos índices 
de educação geral no Brasil durante a década de 1990, mantém-se uma inércia no 
que diz respeito à diferença de anos de estudo entre a população negra e branca 
adulta. Em média, a população branca adulta tem 2,3 anos de estudo a mais que a 
população negra adulta, isso levando em conta o total de anos estudados. Quando 
se filtra a informação para pensar no ingresso no ensino superior, Munanga (apud 
PACHECO; SILVA, 2007) aponta que, no final dos anos de 1990, 97% dos estudantes 
universitários eram brancos. 
A partir de 2004, com a implementação do sistema de cotas nas universidades 
públicas e das bolsas de estudos (Prouni) para as universidades particulares, é possível 
perceber uma alteração significativa no perfil etnorracial dos estudantes universitários 
(ARTES; RICOLDI, 2015).
A taxa bruta de escolaridade no ensino superior da população 
residente branca passou de 12,4% em 1988, para 35,8% em 
2008, correspondendo a uma elevação de 23,4 pontos 
percentuais, ou um aumento proporcional de 189,2%. Já no 
caso da população preta ou parda, a taxa bruta de escolaridade 
no nível superior passou de 3,6%, em 1988 para 16,4%. 
Essa evolução corresponde a um aumento de 12,7 pontos 
percentuais, ou em termos proporcionais, de 350,4% em 2008 
(PAIXÃO, 2010, p. 229 apud ARTES; RICOLDI, 2015, p. 861).
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As autoras chamam a atenção para a demanda reprimida de acesso ao ensino 
superior por parte dos estudantes negros, o que significa o aumento expressivo de 
sua participação na universidade. 
A aprovação da Lei n° 10.639/2003, que estabelece a obrigatoriedade do estudo da 
História e da Cultura Afro-Brasileira nos currículos do ensino básico, é um importantepasso para uma formação capaz de compreender o processo de formação da 
sociedade brasileira em sua complexidade, bem como para diminuir o preconceito 
e evitar a reprodução dos valores racistas (JACCOUD apud THEODORO, 2008).
Em 2008, foi aprovada a Lei nº 11.645, que inclui a obrigatoriedade do ensino de 
História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena. Essa lei possui ainda pouca visibilidade, 
chegando a passar desapercebida em muitos casos (SILVA, 2014). Uma das 
dificuldades, apontadas por Silva (2014), para o ensino da temática indígena, é a 
superação da visão exótica e folclórica que se tem sobre estas populações.
2.4 A cultura indígena
Manuela Carneiro da Cunha (1992) adverte que o que sabemos sobre história 
indígena é muito pouco. Não é de nosso conhecimento a origem destes povos, 
quantos habitavam o Brasil quando da colonização, ou ainda, pouco sabemos o 
que realmente aconteceu com estes povos. Some-se a isso a visão folclórica que a 
imagem do índio é passada pela escola, sobretudo nas comemorações do dia do 
índio, que acontecem, geralmente, com crianças se “vestindo de índio”, mas de que 
índio estamos falando? Há uma única etnia indígena no Brasil?
Silva (2014) aponta que:
O último Censo IBGE/2010 apontou que no Brasil existem 305 
povos indígenas, falando 274 línguas e contabilizando cerca 
de 900 mil indivíduos. Significa que tratar sobre os grupos 
que se convencionou chamar-se genericamente de 'índios' é 
uma situação parecida ao olhar um caleidoscópio: são povos 
em suas múltiplas expressões socioculturais, diversos entre si 
e diferentes de nossa sociedade. Pensar os povos indígenas 
é, portanto, pensar sempre em experiências socio-históricas 
plurais e diferenciadas (SILVA, 2014, p. 29).
Vencer a visão etnocêntrica dos povos indígenas como povos primitivos e 
possuidores de uma historicidade é uma tarefa extremamente importante e complexa 
para que o ensino de cultura indígena supere esta visão folclórica e reducionista.
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Em primeiro lugar, dentro da história dos povos indígenas, é preciso afirmar que 
o território em que hoje se situa o Brasil era amplamente habitado, e os europeus 
que por aqui chegaram não ocuparam o vasto território ocioso, mas invadiram uma 
terra já ocupada.
É preciso compreender também que, se em um primeiro contato com os 
colonizadores os povos indígenas foram tratados como parceiros comerciais, em 
que algumas iguarias dos territórios por eles habitados eram trocados por utensílios 
com os portugueses, com a decisão de se instalar no país uma empresa comercial 
para fornecer lucro para a coroa, as relações entre os indígenas e os portugueses se 
tornaram mais tensas. Não eram mais parceiros, mas a partir de então os indígenas 
eram vistos tão somente como mão de obra para o bom andamento dos negócios 
(CUNHA, 1992). Ao longo dos anos, as relações entre o governo que se encontrava 
no Brasil e as populações indígenas foram bastantes tensas.
Em 1910, há a criação do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), extinto em 1966, 
sendo substituído em 1967 pela Fundação Nacional do Índio (Funai). Nos anos de 
1970, houve o investimento em grandes obras de infraestrutura, como o caso da 
Transamazônica, da barragem de Tucuruí e Balbina, época do projeto Carajás, em 
todos esses casos os povos indígenas foram considerados como empecilho para o 
“progresso” da nação (CUNHA, 1992).
Assim, a história dos povos indígenas deve ser pensada como uma histórica 
marcada pelos poderes hegemônicos que constituíram a nação, ora vistos como 
parceiros, ora como mão de obra barata, ora como almas a serem conquistadas, 
ora como indivíduos que precisam da proteção do Estado, ora como empecilhos ao 
progresso. Somente no final dos anos de 1980 reconhece-se jurídica e politicamente 
os povos indígenas como portadores de direitos. Direito à sua própria história, bem 
como direito à terra que já ocupavam antes da invasão dos colonizadores.
Ora, não há dúvida de que os índios foram atores políticos 
importantes de sua própria história e de que, nos interstícios 
da política indigenista, se vislumbra algo do que foi a política 
indígena. Sabe-se que as potências metropolitanas perceberam 
desde cedo as potencialidades estratégicas das inimizades entre 
grupos indígenas: no século XVI, os franceses e os portugueses 
em guerra aliaram-se respectivamente aos Tamoio e aos 
Tupiniquins; e no século XVII os holandeses pela primeira 
vez se aliaram a grupos “tapuias” contra os portugueses. No 
século XIX, os Munduruku foram usados para 'desinfestar' o 
[Rio] Madeira de grupos hostis e os Krahô, no Tocantins, para 
combater outras etnias Jê (CUNHA, 1992, p. 18).
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Para que as metrópoles pudessem ter feito todas estas alianças, era preciso 
ter também uma política indígena, ou seja, há necessidade de uma compreensão 
dos povos indígenas como sujeitos históricos e políticos, e não apenas como um 
agregado da história dos “homens brancos”. A história dos povos indígenas é a história 
de suas opções, de suas escolhas, das razões de suas escolhas e, portanto, faz parte 
da história da formação do Brasil. A cultura indígena, rica e diversa, deve ser pensada 
neste contexto, caso contrário recairíamos na mesma atitude dos colonizadores, a 
de tratá-los como um povo sem história, sem memória.
1. Durante muito tempo, o Brasil, por meio até mesmo de 
propagada, propalou a ideia de um “paraíso racial”. Assinale 
a alternativa que melhor define a forma como este termo foi 
utilizado:
a) Foi um termo utilizado para demonstrar que, no Brasil, as 
políticas de cotas funcionam.
b) Foi um termo utilizado para demonstrar que, no Brasil, o 
preconceito racial é pior do que nos Estados Unidos.
c) Foi um termo utilizado para simbolizar a ideia do Brasil como 
um país miscigenado.
d) Foi um termo utilizado para identificar o nosso país com os 
ideais raciais norte-americanos.
e) Foi um termo utilizado para estigmatizar o Brasil como um 
país em que há segregação racial.
2. Um evento marcante dentro das lutas contra o racismo 
no Brasil foi a Marcha Zumbi dos Palmares, realizada em 20 
de novembro de 1995. Esta marcha marcou a comemoração 
dos 300 anos de morte de Zumbi dos Palmares, bem como 
denunciava o racismo e a exclusão do negro na sociedade 
brasileira.
Sabendo disso, leia atentamente as proposições a seguir:
I. O documento elaborado pela Marcha e entregue ao governo 
defende a implementação de políticas específicas nos campos 
da educação, incluindo capacitação dos professores para 
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lidar com o tema da diversidade racial e como as práticas 
discriminatórias poderiam gerar discriminação, e que todo 
tipo de política afirmativa era nociva à nação.
II. O documento elaborado pela Marcha propõe também 
a instituição de ações afirmativas para o acesso a cursos 
profissionalizantes e a universidades.
III. O documento elaborado pela Marcha propõe a 
representação proporcional dos grupos raciais nas campanhas 
de comunicação do governo e de entidades a ele vinculadas.
Assinale a alternativa correta sobre o documento elaborado 
pela Marcha Zumbi dos Palmares contra o racismo, pela 
cidadania e pela vida:
a) Somente a proposição I está correta.
b) Somente a proposição II está correta.
c) Somente a proposição III está correta.
d) Somente as proposições II e III estão corretas.
e) As proposições I, II e III estão corretas.
Nesta unidade, você aprendeu que:
• Etnicidade é a condição de pertença a um grupo étnico e implica 
em formas de relacionamento entre diversos grupos étnicos.
• Grupo étnico é aquele formado por pessoas que partilham 
de uma mesma identidade, que possuem um padrão de 
comportamento distinto dentro de uma coletividade.
• A formação do conceito de etnicidade e grupos étnicos no 
interior das ciências sociais se deu ao longo do tempo e pela 
superação do conceito biológico de raça.
• O Brasil foi concebido como um país multiétnico que, mesmo 
dianteda diversidade, permaneceu com uma certa coesão.
• O Brasil foi considerado um laboratório em que a convivência 
interétnica se deu sem grandes confrontos.
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• Com o avanço das pesquisas em ciências sociais, sobretudo em 
relação à situação do negro no Brasil, se percebeu que esta suposta 
harmonia étnica poderia ser questionada.
• Florestan Fernandes é um dos autores que questiona o mito 
brasileiro da convivência harmônica entre as etnias que habitavam 
o território nacional.
• Pesquisas do fim da década de 1960 lançam nova luz às relações 
raciais no Brasil.
• O conceito de raça é retomado como conteúdo político e não 
biológico pelo movimento negro.
• As políticas afirmativas marcam um momento importante das 
lutas antirracistas no Brasil.
• As culturas afro-brasileira e indígena passam a ser contempladas 
como conteúdo obrigatório do ensino básico brasileiro.
• Em relação à cultura indígena, a principal questão a ser superada 
é a visão exótica e folclórica que se tem destas populações.
• O reconhecimento destas populações perpassa pela ideia de que 
é preciso compreendê-las como sujeitos de sua própria história.
O Brasil é um país multiétnico, sua constituição como Estado-Nação 
está repleta de contradições e complexidades. O conhecimento 
sobre esta condição só pode existir na medida em que 
compreendamos estas contradições. Esta compreensão só é possível 
pelo reconhecimento das diversas etnias que formam o país, o qual 
implica a superação de uma história contada apenas pelas forças 
hegemônicas no poder, mas se dá, sobretudo, pelo conhecimento 
da história e da cultura das diversas etnias aqui presentes. Essa história 
não pode ser encarada apenas como um conjunto de informações 
que ficaram no passado, mas como elemento presente nos dias 
atuais, que pautam as lutas por reconhecimento e redistribuição. 
Reconhecimento de suas existências em suas próprias diversidades, 
não tendo que se conformar a um determinado padrão imposto 
pelas forças hegemônicas; e redistribuição no sentido de terem 
asseguradas condições de existência social que historicamente 
foram negadas a estas populações.
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1. As políticas de ações afirmativas têm por objetivo oferecer 
aos grupos discriminados tratamento diferenciado para 
compensar as desvantagens oriundas do racismo, ou de 
outra forma de discriminação, por essa razão estas políticas 
são também chamadas de políticas compensatórias. Estas 
políticas são aplicadas nos Estados Unidos, por exemplo, 
desde a década de 1960, para garantir aos afro-americanos 
participação na mobilidade social.
Sabendo disso, assinale a alternativa correta sobre as ações 
afirmativas:
a) Entende-se por ação afirmativa o conjunto de medidas 
especiais voltadas para grupos sociais privilegiados no 
passado e no presente.
b) Entende-se por ação afirmativa o conjunto de medidas 
especiais voltadas para grupos exclusivamente negros.
c) Entende-se por ação afirmativa o conjunto de medidas 
especiais voltadas para grupos discriminados e vitimados 
pela exclusão social no passado e no presente.
d) As ações afirmativas são ações que visam estimular as 
propostas educacionais exclusivamente.
e) Ações afirmativas são ações que não adiantam para uma 
melhoria da população excluída.
2. Algumas pessoas que são contra as ações afirmativas 
dizem que elas ferem o artigo 5º da Constituição, que 
diz que todos somos iguais perante a lei sem distinção de 
qualquer natureza.
Assinale a alternativa que melhor explique porque as ações 
afirmativas não ferem o artigo 5º da Constituição:
a) Não há problemas aparentes neste artigo, ele deve ser 
respeitado e as ações afirmativas abolidas, pois elas são 
danosas ao país.
b) O problema deste artigo é que ele se refere a uma 
igualdade formal, genérica, abstrata. O problema é que essa 
forma genérica de tratar o indivíduo não é eficiente quando 
se pensa nas práticas cotidianas concretas.
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c) O problema deste artigo é que ele se refere a uma 
igualdade concreta. Muitas pessoas que são contra as ações 
afirmativas se valem deste artigo para dizer que tais ações 
são constitucionais, pois não tratam as pessoas de maneira 
igual perante a lei. 
d) O problema é que essa forma genérica de tratar o 
indivíduo é eficiente quando se pensa nas práticas cotidianas 
concretas.
e) O problema deste artigo é que ele se refere a uma igualdade 
concreta. O problema é que essa forma concreta de tratar o 
indivíduo é eficiente quando se pensa nas práticas cotidianas 
concretas.
3. Leia as proposições a seguir:
I. As ações afirmativas visam promover a maior diversidade 
social de grupos sub-representados em certos espaços 
sociais.
II. As ações afirmativas teriam como objetivo tanto a igualdade 
de oportunidades como o combate às desigualdades não 
justificáveis.
III. As ações afirmativas não garantem a diversidade e o 
pluralismo.
IV. As ações afirmativas atuam para a manutenção da 
subordinação de determinados grupos.
Sobre as ações afirmativas, estão corretas as proposições:
a) I e II.
b) I e III.
c) I e IV.
d) II e III.
e) III e IV.
4. Leia as proposições a seguir:
I. Há perda na qualidade de ensino da instituição e uma 
diferença significativa entre os alunos cotistas e não cotistas 
no que tange ao desenvolvimento acadêmico. 
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II. Democratização do acesso nas instituições, com ampliação 
de diferentes grupos raciais e sociais entre o alunado.
III. Nas universidades, não houve mudanças significativas.
Assinale a alternativa correta sobre os resultados obtidos com 
o sistema de cotas na universidade:
a) Somente a proposição I está correta.
b) Somente a proposição II está correta.
c) Somente a proposição III está correta.
d) Somente as proposições I e II estão corretas.
e) As proposições I, II e III estão corretas.
5. A história dos povos indígenas deve ser pensada como uma 
história marcada pelos poderes hegemônicos que constituíram 
o Brasil enquanto nação, ora vistos como parceiros, ora como 
mão de obra barata, ora como almas a serem conquistadas, 
ora como indivíduos que precisam da proteção do Estado, ora 
como empecilhos ao progresso.
Sabendo disso, analise as afirmações a seguir:
I. A situação dos povos indígena terá alguma modificação no 
final dos anos de 1980,
PORQUE
II. Foi somente neste período que se reconheceu jurídica 
e politicamente os povos indígenas como portadores de 
direitos. Direito à sua própria história, bem como direito à 
terra que já ocupavam antes da invasão dos colonizadores.
Assinale a alternativa correta:
a) As afirmações I e II estão corretas, no entanto, a afirmação 
II não explica a afirmação I.
b) As afirmações I e II estão corretas, e a afirmação II explica 
a afirmação I.
c) A afirmação I está incorreta, e a afirmação II está correta.
d) A afirmação I está correta, e a afirmação II está incorreta.
e) As afirmações I e II estão incorretas.
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Unidade 3
MEIO AMBIENTE E DIREITOS 
HUMANOS
Nesta seção, abordaremos a história dos direitos humanos, com 
ênfase na maneira como se constitui, no Ocidente moderno, a noção de 
indivíduos e dos direitos individuais, pois é a partir dessa concepção que 
se fundamentam os direitos humanos universais.
Nesta seção, enfatizaremos a discussão sobre as diferentes 
concepções socioculturais sobre a ideia de dignidade humana e sobre a 
noção de igualdade. Também, discutiremos as diferentes situações que 
envolvem as minorias sociais, e os impasses para se garantir os direitos 
fundamentais de grupos sociais que se pautam em valores coletivos e 
nos direitos difusos. 
Na terceira seção, discutiremos a importância do meio ambiente para 
a garantia de uma boa qualidade de vida, bem como ressaltam-se as 
relações entre a chamada justiça ambiental e justiça social.
Seção 1 | História dos direitos humanos
Seção 2 | Dignidade, igualdade humana e direitos humanos
Seção 3 | Direitos humanos e meio ambiente
Objetivos de aprendizagem: 
Nesta unidade, nós iremos refletir sobre a construção histórica dos 
direitos humanos; discutiremos, ainda, a pretensão da aplicação dos direitos 
humanos em toda e qualquer realidade social; e, finalmente, abordaremos a 
relação dos direitos humanos com as questões ambientais.
Elias Barreiros
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Introdução à unidade
Os direitos humanos representam um avanço fundamental para a sociedade, 
contribuindo para a garantia de qualidade de vida em diversas partes do planeta. 
É importante considerarmos, desde já, que a diversidade sociocultural coloca 
dificuldades enormes para o diálogo entre os valores morais que fundamentam os 
direitos humanos e os valores que fundamentam as diversas culturas espalhadas 
pelo mundo. Esse debate é importante, pois os direitos humanos têm a pretensão 
de serem universais, ou seja, de serem aplicáveis em quaisquer grupos humanos. 
É para dar conta desse debate que faremos uma apresentação da história dos 
direitos humanos, apresentando o contexto social e histórico no qual esses direitos 
foram elaborados. Posteriormente, abordaremos o tema da dignidade humana, 
e de que maneira esses direitos ajudam na consolidação da igualdade social em 
diversas sociedades e grupos sociais, pensando nos diversos impasses criados a 
partir da relação entre direitos individuais e coletivos. Por fim, faremos uma reflexão 
sobre a garantia a um ambiente saudável e sustentável para as sociedades que 
compartilham o planeta, bem como das futuras gerações que aqui viverão. 
Qual é o papel que os direitos humanos têm exercido no mundo contemporâneo? 
Em que medida ele pode ser uma ferramenta de emancipação social? Os direitos 
humanos têm ajudado a melhorar a vida das pessoas em todo o mundo? O lugar 
que os direitos humanos ocupam é o mesmo em qualquer país do globo, nos países 
centrais e nos países em desenvolvimento? Vamos tentar responder a essas questões? 
Espero que todos aproveitem a leitura desse capítulo e que ele contribua com a 
formação de profissionais comuma visão ampla sobre os direitos que usufruímos 
enquanto pessoas. 
Boa leitura!
Meio ambiente e direitos humanos
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Meio ambiente e direitos humanos
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Seção 1
História dos direitos humanos
O primeiro passo a ser dado na direção da reflexão sobre os direitos humanos é 
nos situarmos no contexto histórico de seu surgimento, bem como nos contornos 
sociais e morais que os fundamentam. 
Ou seja, os direitos humanos são pensados aqui como resultado da história da 
sociedade ocidental, dos desdobramentos da concepção do que é o homem para 
essas sociedades, bem como para a maneira como esses direitos foram sendo 
consolidados no mundo moderno.
A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) foi proclamada na 
Assembleia Geral das Nações Unidas, em Paris, no dia 10 de dezembro de 1948. 
Porém, para se chegar a esse documento, a sociedade ocidental percorreu um longo 
caminho, que remete à própria história do pensamento moderno que culminou, por 
exemplo, na Revolução Francesa. Dessa forma, não podemos dissociar a Declaração 
Universal dos Direitos Humanos da concepção de homem moderno e, portanto, do 
Iluminismo. 
Introdução à seção
1.1 A Declaração Universal dos Direitos Humanos
“Desde sua adoção, em 1948, a DUDH foi traduzida em mais de 360 
idiomas – o documento mais traduzido do mundo – e inspirou as 
constituições de muitos Estados e democracias recentes. A DUDH, em 
conjunto com o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e 
seus dois Protocolos Opcionais (sobre procedimento de queixa e sobre 
pena de morte) e com o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, 
Meio ambiente e direitos humanos
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94
Sociais e Culturais e seu Protocolo Opcional, formam a chamada Carta 
Internacional dos Direitos Humanos.
Uma série de tratados internacionais de direitos humanos e outros 
instrumentos adotados desde 1945 expandiram o corpo do direito 
internacional dos direitos humanos.
Eles incluem a Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime 
de Genocídio (1948), a Convenção Internacional sobre a Eliminação de 
Todas as Formas de Discriminação Racial (1965), a Convenção sobre 
a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres 
(1979), a Convenção sobre os Direitos da Criança (1989) e a Convenção 
sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (2006), entre outras.” 
A Declaração Universal dos Direitos Humanos. ONU. Disponível em: 
<http://www.dudh.org.br/declaracao>. Acesso em: 31 maio 2016.
No mesmo link acima você pode acessar a Declaração Universal dos 
direitos humanos na íntegra. 
Ao tratar da história dos direitos humanos universais, Sousa (apud NOVAES; LIMA, 
2001) aponta para as transformações econômicas e culturais, que se processam 
desde o final da Idade Média, como a raiz de uma concepção ocidental de mundo 
que coloca o homem como um ‘universal concreto’. 
Partindo de Dumont, Sousa (apud NOVAES; LIMA, 2001) remete à noção de 
indivíduo como um valor que está relacionado com a ideia cristã de igualdade de 
todos os homens frente a Deus. Nesta concepção, que antecede à do indivíduo 
moderno, temos a ideia do “Indivíduo-fora-do-mundo”, ou seja, os interesses desse 
sujeito estavam voltados para a vida espiritual, desprezando o “mundo”. 
A passagem do “Indivíduo-fora-do-mundo” para o “Indivíduo-no-mundo”, 
conforme Sousa (apud NOVAES; LIMA, 2001), se dá com a aproximação entre Estado 
e Igreja, que se radicaliza por volta do século VIII e se intensifica ao longo da Idade 
Média. Nas palavras de Sousa (apud NOVAES; LIMA, 2001, p. 50):
Estas condições históricas de 'gênese do individualismo' 
perpassam outros campos da vida social, dentre eles o campo 
jurídico-filosófico. Pode-se identificar em polêmicas jurídico-
filosóficas durante a Idade Média o germe de um direito universal 
do indivíduo, baseado em um nascente 'direito subjetivo'.
Meio ambiente e direitos humanos
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95
Aqui, devemos nos remeter ao nascimento do sujeito de direito que está 
relacionado a dois paradigmas jurídicos: o jusnaturalismo e o Positivismo Jurídico. 
Como aponta Sousa (apud NOVAES; LIMA, 2001), este debate está situado no início da 
era moderna. O autor ainda aponta que o jusnaturalismo procura legitimar leis e sua 
moralidade a partir de uma concepção de justiça apoiada em um direito natural, que 
deve ser encontrado com o apoio da razão; já o Positivismo Jurídico está associado 
à busca de um ordenamento racional de um corpo de leis, independentemente de 
uma legitimidade moral, mas que se apoia em fatos empíricos do fenômeno jurídico.
Permita-me um aparte nessa construção histórica que estamos 
fazendo aqui, para chamar a atenção da importância desse 
debate para a construção da noção de direitos individuais que 
temos hoje no Ocidente, debate esse que será fundamental 
para refletirmos sobre a potencialidade de universalidade de 
direitos, como pretende a Declaração Universal dos Direitos 
Humanos. Chamo a atenção, portanto, para a relação entre 
uma concepção de indivíduo que se coaduna com certa 
perspectiva de direitos individuais e universais. 
É na primeira metade do século XIV que há, segundo Sousa (apud NOVAES; LIMA, 
2001), uma verdadeira revolução no direito, quando Guilherme de Occam procura 
fundamentar o direito de cada indivíduo a utilizar o bem que lhe é necessário, e 
postula que não se pode deduzir leis naturais de uma ordem ideal sem que possuam 
uma existência concreta. Estamos vendo aqui a delineação de uma teoria subjetiva 
do direito e do sujeito de direito individual. Conforme Sousa (apud NOVAES; LIMA, 
2001, p. 51): 
Temos então três poderosos vetores de inclusão do indivíduo 
no mundo e que, por isso, conformam o indivíduo moderno 
tal como o conhecemos no Ocidente: os fatores políticos, 
indicados por Dumont, através dos quais a Igreja passa a intervir 
nos assuntos mundanos, coroando reis e declarando guerras; 
o fator econômico, explicado por Weber, impulsionado pela 
crença protestante no sucesso econômico neste mundo 
como precondição para salvação eterna; e o fator filosófico-
jurídico que introduz o indivíduo no mundo dos direitos. 
A combinação destes vetores, e seus desdobramentos são 
Meio ambiente e direitos humanos
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96
estritamente particulares à história do Ocidente, o que já introduz 
o problema de sua generalização para outras partes do mundo que 
não compartilham da mesma condição histórica.
Percebemos, assim, como foi se constituindo uma concepção de indivíduo 
dentro de um contexto histórico particular ao Ocidente, que se apoia em valores, 
como a liberdade e a igualdade. Tal concepção deve ser observada junto ao quadro 
de formação do Estado moderno, como trataremos no tópico seguinte. 
As abordagens contratualistas dos séculos XVI e XVII são importantes para 
refletir sobre o valor da igualdade e da liberdade, um dos pressupostos básicos da 
construção do Estado. Conforme Sousa (apud NOVAES; LIMA, 2001), os principais 
contratualistas, Hobbes, Locke e Rousseau, constroem suas reflexões a partir de 
uma ideia de que o homem viveu em um ‘estado de natureza’. Seria durante esse 
‘estado de natureza’ que o indivíduo teria vivido intensamente a liberdade, na medida 
em que estaria livre de quaisquer laços de subordinação, além de não ter vínculos 
políticos ou sociais.
Sousa (apud NOVAES; LIMA, 2001) ressalta que essa ideia dos contratualistas tem 
um caráter ideológico importante para o liberalismo, e que o recurso de pensar essa 
pretensa igualdade original foi um importante instrumento da burguesia europeia, 
em particular a francesa, para lutar contra o Antigo Regime, na medida em que a 
existência da nobreza pressupunha uma rígida hierarquia. 
Esse contexto econômico, político, jurídico, filosófico e social vai culminar na 
Revolução Francesa, com forte participação dos iluministas. Sousa (apud NOVAES; 
LIMA, 2001) lembra que, em 1789, temos a Declaração dos Direitos do Homem e 
do Cidadão, que é expressão da ruptura com os privilégios estamentais do Antigo 
Regime. 
Lembrem-se de queé nesse momento histórico que surge o lema Liberdade, 
Igualdade e Fraternidade. É importante citar ainda a noção presente no jusnaturalismo 
e sua busca por uma ideia de justiça moral que deve ser posta a todos os homens 
e Estados, na medida em que seria próprio da natureza humana. Sousa (apud 
NOVAES; LIMA, 2001) aponta que os ideais da Revolução Francesa se amparam, em 
alguma medida, nesse pressuposto, ou seja, a vida deve ser submetida à lei natural, 
e é nesse pressuposto que o Estado burguês nascente vai legitimar suas pretensões 
universalizantes.
1.2 Os direitos humanos e o Estado moderno
Meio ambiente e direitos humanos
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97
Fonte: <http://www.infoescola.com/wp-content/uploads/2007/06/revolucao-francesa.jpg>. Acesso em: 31 maio 2016.
Figura 3.1 | A queda da Bastilha
É interessante que, ao mesmo tempo que se apoiou em pressupostos 
jusnaturalistas, a Revolução Francesa também promoveu condições para o 
Positivismo Jurídico, como diz Sousa (apud NOVAES; LIMA, 2001, p. 54): 
1LAFER, Celso. A Reconstrução dos direitos humanos, um diálogo com o pensamento de Hannah Arendt. 
São Paulo: Companhia das Letras, 1988.
2BOBBIO, Norberto. Locke e o direito natural. Brasília: UnB, 1997.
Porém, o mesmo constitucionalismo, nascido na Revolução 
Francesa, e afirmado como condição de civilidade levou a 
um processo crescente de secularização, sistematização, 
positivação e, principalmente, historicização do direito, 
responsáveis pela erosão do Direito Natural. Celso Lafer situa 
a substituição deste pela Filosofia do Direito no final do século 
XVIII; na mesma direção Bobbio indica o fim do século XVIII 
como o marco da convergência das críticas ao direito natural, 
operadas pelo utilitarismo na Inglaterra, pelo positivismo na 
França e pelo historicismo na Alemanha. (LAFER, 1998 p. 16, 
BOBBIO, 1997, p. 24 apud SOUSA, 2001, p. 54)
Meio ambiente e direitos humanos
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98
A junção desses aspectos, conforme Sousa (apud NOVAES; LIMA, 2001, p. 54), 
implicou no processo da “busca de universalização do um modelo normativo 
proposto pelo ideário político-revolucionário francês”. É a escola historicista alemã 
que vai se preocupar pela primeira vez, segundo o autor, com a diversidade histórica 
dos direitos. É nesse quadro que temos a reflexão sobre um dos grandes dilemas do 
direito moderno, qual seja: o universalismo versus o particularismo.
A relação entre universal e particular é um tema caro à Antropologia, o que nos 
leva ao aprofundamento do diálogo com essa área de conhecimento. Desde seu 
início, no final do século XIX e começo do XX, a Antropologia se deparou com essa 
reflexão quando se debruçou sobre a investigação de sociedades não ocidentais. 
Ao se deparar com diferentes modos de vida e de organização social, a 
Antropologia privilegiou tanto a busca por Universais, como no caso das teorias 
evolucionistas que entendiam haver uma única cultura em diferentes estágios de 
evolução, apoiando-se numa concepção positivista e linear da análise histórica, 
quanto em abordagens relativistas, se dedicando ao entendimento do Particular, 
como no caso do Culturalismo americano, que chamava atenção para a necessidade 
de investigação da história particular de cada cultura sob análise.
1.3 Universal versus particular
Para uma excelente introdução ao pensamento Antropológico, ver:
LAPLANTINE, François. Aprender antropologia. 9. ed. São Paulo: 
Brasiliense, 2000. 
Em outros termos, podemos falar também da relação entre igualdade e 
diferença, ou ainda, em processos de assimilação do diferente a um corpo moral 
que se coloque como hegemônico. Conforme Sousa (apud NOVAES; LIMA, 2001), 
a ordem liberal emergente no bojo da Revolução Francesa entende que a diferença 
é equivalente à desigualdade; nesse modelo, a incorporação da diferença implica 
o apagamento de atributos culturais que marcam a particularidade de certo grupo 
cultural/social. 
Nessa linha de pensamento, não podemos deixar de nos referirmos a Boaventura 
de Sousa Santos (1997), que traz uma reflexão muito interessante sobre a relação 
entre direitos humanos e multiculturalismo. Note que até o momento discutimos a 
história dos direitos humanos e a maneira como ele foi se consolidando tomando o 
indivíduo como centro e como sujeito de direitos. O problema é que esses direitos 
Meio ambiente e direitos humanos
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99
que se propõem como universais se construíram tomando como base um corpo 
de valores próprios às sociedades ocidentais, particularmente da Europa. O desafio 
que nos deparamos, portanto, é o de relacionar esse corpo normativo às diferentes 
sociedades e culturas. É isso que discutiremos no próximo tópico.
Qual o papel que os direitos humanos têm exercido no mundo contemporâneo? 
Em que medida ele pode ser uma ferramenta de emancipação social? Os direitos 
humanos têm ajudado a melhorar a vida das pessoas em todo o mundo? O lugar 
que os direitos humanos ocupam é o mesmo em qualquer país do globo, nos países 
centrais e nos países em desenvolvimento? São essas perguntas que vão orientar 
nossa reflexão nas próximas páginas. 
Temos discutido acerca de uma dificuldade própria de qualquer política ou norma 
que se queira universal, o fato de vivermos em meio a tanta diversidade, seja entre 
Estados nacionais ou no interior de um Estado-nação qualquer, nos impõe uma 
dificuldade inicial. É nesse contexto que nos deparamos com o debate da relação 
entre o universal e o particular, ou entre o global e o local, as reflexões acerca da 
globalização nos ajudam nesse debate. 
E o que é a globalização? Santos (1997) lembra que é difícil defini-la, algumas 
vezes ela é definida pela perspectiva econômica, no contexto da nova economia 
mundial com o crescimento da transnacionalização da produção e dos mercados 
financeiros. O autor, no entanto, prefere ressaltar as dimensões sociais, políticas e 
culturais. Nas palavras de Santos (1997, p. 14):
1.4 Direitos humanos e multiculturalismo
Aquilo que habitualmente designamos por globalização são, 
de fato, conjuntos diferenciados de relações sociais; diferentes 
conjuntos de relações sociais dão origens a diferentes 
fenômenos de globalização. Nestes termos, não existe 
estritamente uma entidade única chamada globalização; 
existem, em vez disso, globalizações; em rigor, este termo 
só deveria ser usado no plural. Qualquer conceito mais 
abrangente deve ser de tipo processual e não substantivo. 
Por outro lado, enquanto feixes de relações sociais, as 
globalizações envolvem conflitos e, por isso, vencedores e 
vencidos. Frequentemente, o discurso sobre globalização é a 
história dos vencedores contada pelos próprios. 
Meio ambiente e direitos humanos
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100
E o autor finalmente conclui que a globalização deve ser pensada como um 
processo “[...] pelo qual determinada condição ou entidade local estende sua 
influência a todo o globo e, ao fazê-lo, desenvolve a capacidade de designar como 
local outra condição social ou entidade rival” (SANTOS, 1997, p. 14).
Uma das características mais marcantes da globalização, afirma Santos (1997), 
é a compressão tempo-espaço, que se refere à aceleração de processos sociais e 
sua difusão pelo globo. O importante é notar que esse processo não acontece de 
modo arbitrário, mas responde a determinadas relações de poder, pois, segundo o 
autor, a classe capitalista transnacional transforma essas relações espaço-temporais 
a seu favor, enquanto classes e grupos subordinados – trabalhadores, migrantes e 
refugiados, por exemplo. 
Assista ao filme documentário sobre Milton Santos, importante geógrafo 
brasileiro, sobre a globalização.
Encontro com Milton Santos ou O mundo global visto do lado de 
cá. Direção: Silvio Tendler. Brasil: Distribuidora: Caliban Produções 
Cinematográficas Ltda, 2006. 89 minutos.
É importante não deixar de notar que estamos falando 
aqui de globalização para aprofundarmos a reflexão sobre 
a relação entre universal e particular, debate esse que é 
central para pensarmos no processo de universalização 
dosdireitos humanos, que muitas vezes se impõem em 
relação a determinadas realidades locais. No que se refere 
à relação entre globalização e cultura, vale a pena refletir 
sobre os aspectos socioculturais que influenciam nossa 
realidade graças à aceleração provocada pelos novos meios 
de comunicação. Pense na importância que tem, hoje, na 
sociedade brasileira, o fast-food, um modelo de alimentação 
que vem de fora e que passa a fazer parte de nosso 
cotidiano. Pense também nas músicas e filmes que dominam 
nossos cinemas e televisores, de onde eles vêm? Será que 
nossa comida, nossa música e nosso cinema têm a mesma 
importância para outras sociedades? Faça a mesma relação 
para os direitos: será possível? 
Meio ambiente e direitos humanos
U3
101
Em coerência à ideia de que a globalização deve ser tratada de modo plural, 
Santos (1997) distingue quatro modos de produção da globalização, são eles: 1) o 
localismo globalizado; 2) o globalismo localizado; 3) cosmopolitismo; 4) patrimônio 
comum da humanidade. Vamos examinar cada um desses aspectos. 
Em relação ao localismo globalizado, Santos (1997) explica que o conceito se 
refere ao processo de expansão pelo globo de determinada característica local, por 
exemplo, a transformação da língua inglesa em língua franca, a globalização do fast- 
food e do cinema americanos, a atividade mundial das multinacionais, e assim por 
diante. 
O globalismo localizado, segundo o autor, remete ao impacto de práticas 
internacionais em realidades locais, que podem promover a reestruturação ou 
desestruturação de certas condições. Como exemplo, Santos (1997, p. 16-17) 
destaca:
Enclaves de comércio livre ou zonas francas; desflorestação e 
destruição maciça dos recursos naturais para pagamento da 
dívida externa; uso turístico de tesouros históricos, lugares ou 
cerimônias religiosas, artesanato e vida selvagem; dumping 
ecológico ('compra' pelos países do Terceiro Mundo de lixos 
tóxicos produzidos nos países capitalistas centrais para gerar 
divisas externas); conversão da agricultura de subsistência 
em agricultura para exportação como parte do 'ajustamento 
estrutural'; etnização do local de trabalho (desvalorização 
do salário pelo fato de os trabalhadores serem de um grupo 
étnico considerado 'inferior' ou 'menos exigente'). 
Nesse contexto, destaca Santos (1997), os países centrais tornaram-se os 
principais agentes do localismo globalizado, enquanto os países periféricos ficam 
reféns do globalismo localizado. Mas para além desses dois processos destacados, 
temos outras relações sociais que escapam a essas definições preliminares. 
Um desses processos, Santos (1997) define como cosmopolitismo. Segundo 
o autor, há espaços que permitem aos países periféricos defenderem interesses 
comuns, assim, se valem do sistema de relações transnacionais para se organizarem 
e estabelecerem diálogos. Como exemplo, o autor cita, entre outros: as organizações 
mundiais de trabalhadores (Federação Mundial de Sindicatos e Confederação 
Internacional dos Sindicatos Livres); organizações Sul-Sul; redes internacionais 
de assistência jurídica; organizações transnacionais de direitos humanos; redes 
mundiais de movimentos feministas; associações ecológicas e de desenvolvimento 
alternativo. 
Meio ambiente e direitos humanos
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102
Dicas de filmes: dois filmes podem ser ilustrativos desse debate: “Babel” 
e “Crash: No limite”.
Babel mostra como um fato ocorrido no Marrocos, com um casal de 
norte-americanos, que traz implicações em vários lugares do mundo. O 
filme trata das diferenças e das discriminações em torno do outro.
Crash: No limite: é um filme que fala de racismo e violência. 
“Babel”. Título Original: Babel. País de Origem: EUA / México. Gênero: 
Drama. Classificação etária: 16 anos. Tempo de Duração: 143 minutos. 
Ano de Lançamento: 2006.
<http://www.adorocinema.com/filmes/filme-20151>. Estúdio/Distrib.: 
Paramount Pictures. Direção: Alejandro González Iñárritu. 
“Crash: No limite”. Título Original: Crash. País de Origem: EUA / Alemanha. 
Gênero: Suspense. Classificação etária: 14 anos. Tempo de Duração: 122 
minutos. Ano de Lançamento: 2004. Site Oficial: <http://www.crashfilm.
com>. Estúdio/Distrib.: Imagem Filmes. Direção: Paul Haggis.
Outro ponto que escapa ao localismo globalizado e ao globalismo localizado é 
o que Santos (1997) define como patrimônio comum da humanidade. Neste caso, 
acentuam-se temas que só fazem sentido se pensado em sua relação com todo o 
planeta, como exemplo, temos questões relativas à sustentabilidade da vida humana 
na Terra; a temas ambientais, como proteção da camada de ozônio; à preservação 
da Amazônia, da Antártida, da biodiversidade e dos oceanos. Percebemos, assim, 
que são temas que se referem a toda a humanidade e às gerações futuras. 
A partir disso, podemos sugerir que há um campo produtivo de lutas, resistências 
e coligações em torno das ideias do cosmopolitismo e do patrimônio comum 
da humanidade. Desse modo, Santos (1997) aponta que a globalização é um 
conjunto de lutas transfonteiriças. Daí sua distinção entre localismo globalizado e 
globalismo localizado como uma globalização de-cima-para-baixo ou globalização 
hegemônica, e do cosmopolitismo e do patrimônio comum da humanidade como 
globalizações de-baixo-para-cima. 
O interessante para nossa discussão sobre os direitos humanos é que Santos 
(1997) demonstra que os direitos humanos podem ser concebidos tanto como 
localismo globalizado quanto como cosmopolitismo, ou seja, podem ser tratados 
no âmbito de uma globalização hegemônica, mas também como uma globalização 
contra-hegemônica. Nas palavras do autor:
Meio ambiente e direitos humanos
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103
A minha tese é que, enquanto forem concebidos como direitos 
humanos universais, os direitos humanos tenderão a operar 
como localismo globalizado – uma forma de globalização de-
cima-para-baixo. Serão sempre um instrumento do 'choque 
de civilização' tal como o concebe Samuel Huntington (1993), 
ou seja, como arma do Ocidente contra o resto do mundo 
('the West against the rest'). A sua abrangência global será 
obtida à custa da sua legitimidade local. Para poderem operar 
como forma de cosmopolitismo, como globalização de-
baixo-para-cima ou contra-hegemônica, os direitos humanos 
têm de ser reconceitualizados como multiculturais (SANTOS, 
1997, p. 18-19).
Aqui, é interessante definirmos a importância do multiculturalismo na aplicação 
dos direitos humanos. Para Santos (1997), o multiculturalismo é fundamental para que 
haja equilíbrio nas relações globais, ou seja, que seja mutuamente potencializadora 
da competência global e para ter legitimidade local. Para o autor, essas são condições 
fundamentais para uma globalização contra-hegemônica e de garantia dos direitos 
humanos. 
A questão é que, segundo Santos (1997), os direitos humanos não são universais 
em sua aplicação. Lembra o autor que todas as culturas têm uma tendência a 
considerar seus próprios valores como os mais abrangentes, mas é uma característica 
ocidental a busca pela universalização de seus valores. Nesse sentido, a questão da 
universalidade é uma particularidade, uma especificidade da cultura ocidental. 
Vale a pena recorrermos mais uma vez ao autor para uma descrição precisa 
sobre os valores ocidentais que orientam o conceito de direitos humanos:
O conceito de direitos humanos num bem conhecido 
conjunto de pressupostos, todos eles tipicamente ocidentais, 
designadamente: existe uma natureza humana universal que 
pode ser conhecida racionalmente; a natureza humana é 
essencialmente diferente e superior à restante realidade; o 
indivíduo possui uma dignidade absoluta e irredutível que tem 
de ser defendida da sociedade ou do Estado; a autonomia do 
indivíduo exige que a sociedade esteja organizada de forma 
não hierárquica, como soma de indivíduos livres (PANIKKAR, 
1984, p. 30 apud SANTOS, 1997, p. 19). 
Meio ambiente e direitos humanos
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104
Percebam que tais características não são, necessariamente, encontradasem 
outras culturas, portanto, a concepção sobre o que é dignidade humana pode variar, 
e é nesse sentido que podemos questionar a universalidade dos direitos humanos. 
Ou seja, se quisermos discutir dignidade e igualdade em todos os contextos sociais, 
temos que ter um olhar relativizador para os direitos humanos. 
Vamos discutir isso na próxima seção, que versará sobre as alternativas para 
pensarmos a funcionalidade dos direitos humanos como ferramenta emancipadora 
em contextos sociais que não são idênticos ao do europeu. 
1. Qual é a relação entre os direitos humanos e a noção de 
indivíduo?
2. Por que podemos associar a ideia de multiculturalismo e 
direitos humanos? 
Meio ambiente e direitos humanos
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Seção 2
Dignidade, igualdade humana e direitos 
humanos
Olá! Nessa seção, vamos aprofundar o debate sobre as diferentes concepções 
existentes no planeta, e sobre questões básicas para se definir se uma sociedade é justa 
e igualitária, ou desigual. Para falar sobre isso, devemos nos fazer algumas perguntas 
centrais, tais como: o que é dignidade? Quais são os fatores mais importantes para a 
garantia de uma boa vida? O que é justiça? Vamos levantar algumas reflexões sobre 
essas perguntas. Espero que aproveite a leitura!
Para iniciarmos esta seção, é preciso destacar, desde o início, a partir da exposição 
de Santos (1997), que o discurso ocidental-liberal, caracteristicamente ocidental, foi 
fartamente utilizado pelos países centrais (leia-se Europa e Estados Unidos) para 
defender interesses próprios. Exemplos dessa prática é que a Declaração Universal 
de 1948 foi elaborada sem a participação da maior parte dos povos do mundo; 
foram reconhecidos quase que exclusivamente os direitos individuais, sendo que os 
únicos direitos sociais reconhecidos são os direitos coletivos à autodeterminação 
– quando um grupo social pode se declarar como pertencente a um grupo étnico, 
por exemplo: o direito aos povos indígenas brasileiros de se autodeterminarem 
como pertencentes à etnia x ou y −, mas, ainda assim, restrito aos povos subjugados 
pelo colonialismo europeu; houve a priorização dos direitos cívicos e políticos em 
detrimento dos direitos econômicos, sociais e culturais; entre os direitos econômicos, 
houve acentuada atenção ao direito à propriedade. 
Porém, como destaca Santos (1997), milhares de ONGs e milhões de pessoas 
vêm lutando pela igualdade e dignidade humanas ao se contraporem à hegemonia 
dos países centrais e resistindo ao lado de classes sociais e grupos oprimidos. Nesse 
contexto, ressalta o autor, outras concepções de direitos humanos não ocidentais 
foram propostas a partir de um diálogo intercultural. 
Introdução à seção
2.1 Direitos humanos e diversidade cultural
Meio ambiente e direitos humanos
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106
E quais caminhos podem ser percorridos para que os direitos humanos se tornem, 
cada vez mais, ferramenta de promoção da igualdade e dignidade humanas? Santos 
(1997) parte da ideia de que o primeiro passo é superar o debate sobre universalismo 
e relativismo cultural. Para o autor, seria preciso encontrar um meio termo entre 
o universalismo e o relativismo cultural. Contra o universalismo seria necessário 
intensificar os diálogos interculturais, e contra o relativismo seria preciso produzir 
uma política progressista em busca da emancipação.
Dois conceitos importantes para a Antropologia contribuem para o 
entendimento de nosso debate: a ideia de Etnocentrismo e Relativismo 
Cultural.
Etnocentrismo: é quando indivíduos de uma sociedade tendem a avaliar 
e julgar outra cultura – ou outro grupo social no interior de sua própria 
cultura − a partir de suas próprias referências do que é certo e errado, do 
que é aceitável ou não.
Relativismo Cultural: é o exercício de procurar entender, ou interpretar, 
uma cultura ou um grupo social, prestando atenção em como eles se 
expressam em suas práticas sociais.
Dessa forma, aponta Santos (1997), torna-se fundamental que o diálogo 
intercultural não se torne uma disputa entre valores culturais, nesse sentido, 
busca-se uma espécie de denominador comum no diálogo transnacional. Não 
podemos perder de vista que todas as culturas possuem certa concepção do que 
é dignidade humana, mas, como coloca o autor, nem todas a concebem como 
direitos humanos. Destaca-se ainda que, apesar de diferentes concepções, é preciso 
identificar se elas não apontam para preocupações e aspirações semelhantes, o que 
facilitaria o diálogo.
Outro ponto central, de acordo com Santos (1997), é que todas as culturas são 
incompletas. Para o autor, essa qualidade é inescapável, na medida em que temos 
uma pluralidade de culturas e, se todas as culturas fossem tão completas, existiria 
apenas uma. É mais fácil perceber essa incompletude em outra cultura, já que a 
percepção de uma falta em si mesmo é sempre mais difícil. Esse é um elemento 
central, pois, ao passo que as culturas tomem consciência de sua incompletude, 
será mais fácil a construção de uma concepção multicultural de direitos humanos.
A questão fica ainda mais complexa se pensarmos que em todas as culturas 
as pessoas estão distribuídas em princípios hierárquicos, que podem ser divididos 
em igualdade e diferença. Conforme Santos (1997), o princípio da igualdade atua 
através de hierarquias entre grupos relativamente homogêneos, como acontece, 
Meio ambiente e direitos humanos
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por exemplo, entre classes sociais (no sentido de estratos socioeconômicos) e na 
diferenciação entre nativo/estrangeiro. Já a ideia de diferença remete às hierarquias 
que se estabelecem entre etnias; raças; sexo; orientação sexual; gênero; religiões. 
Percebemos, assim, que há uma ampla gama de dificuldades a serem superadas 
na instrumentalização dos direitos humanos como ferramenta para a diminuição das 
desigualdades e o alcance de modelos de vida que respeitem a dignidade humana 
em todas as partes. Aprofundaremos esse debate no próximo tópico.
Quando falamos em diálogo intercultural, devemos ter em mente, alerta Santos 
(1997), que estamos tratando de trocas entre diferentes saberes de diferentes 
culturas, ou seja, são universos de sentido, muitas vezes, completamente diversos 
e, em alguns casos, incompatíveis. Para exemplificar a dificuldade dessa relação, 
vamos ver alguns exemplos: vamos comparar algumas características centrais do 
dharma da cultura hindu, ou da umma na cultura islâmica, com os direitos humanos 
na cultura ocidental. 
O dharma dá sustentação e coesão a uma determinada coisa, ou à própria 
realidade, segundo Panikkar4 apud Santos (1997, p. 24), nessa concepção:
2.2 Direitos humanos e diálogo intercultural
4PANIKKAR, op. cit.
A justiça dá coesão às relações humanas; a moralidade mantém 
a pessoa em harmonia consigo mesma; o direito é o princípio 
do compromisso nas relações humanas; a religião é o que 
mantém vivo o universo; o destino é o que nos liga ao futuro; 
a verdade é a coesão interna das coisas... Um mundo onde a 
noção de Dharma é central e quase omnipresente não está 
preocupado em encontrar o 'direito' de um indivíduo contra 
outro ou do indivíduo perante a sociedade, mas antes em 
avaliar o caráter dharmico (correto, verdadeiro, consistente) 
ou adharmico de qualquer coisa ou ação [...]. 
Podemos perceber, como aponta Santos (1997), que se pensarmos a partir do 
ponto de vista do dharma, os direitos humanos são incompletos, já que não fazem 
a ligação entre a parte (indivíduo) e o todo (o cosmos), pois nessa perspectiva o 
indivíduo está subordinado à sociedade, diferente do modelo ocidental que se 
pauta numa relação entre direitos e deveres individuais, ou seja, só têm direitos os 
indivíduos que cumprem deveres. Se só são garantidos direitos de quem pode ser 
Meio ambiente e direitos humanos
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108
cobrado o exercício de deveres, criamos uma dificuldade na garantia de direitos às 
futuras gerações, bem como a natureza também não possui direitos.
Fonte: <http://www.telegraph.co.uk/travel/destinations/asia/india/galleries/Steve-McCurrys-India/mccurry6/>.Acesso em: 21 
set. 2016.
Figura 3.2 | Festival Holi, Rajasthan, Índia. 1996 (mais conhecido como festival das cores)
Dito de outro modo, no Ocidente, o direito produz uma relação em que a 
sociedade funciona para garantir a existência do indivíduo como tal, enquanto que, 
na sociedade indiana, o indivíduo está subordinado ao interesse de a sociedade se 
manter como tal. Mas isso também aponta para um problema de completude em 
relação ao dharma, se visto do ponto de vista dos direitos humanos. Como mostra 
Santos (1997), o dharma acaba por negligenciar o indivíduo, que pode ser facilmente 
subjugado. Há, neste contexto, enorme dificuldade em se garantir princípios 
democráticos, a liberdade e autonomia do indivíduo. Além disso, o dharma, ao 
negligenciar os indivíduos, não percebe que é ele quem sofre, e não a sociedade. 
Outro exemplo que podemos utilizar para reflexão é o umma na cultura islâmica, 
que tem significados variados, dificultando uma definição precisa. Entretanto algumas 
afirmações podem ser feitas, nas palavras de Santos (1997, p. 25):
O conceito de umma refere-se sempre a entidades étnicas, 
linguísticas ou religiosas de pessoas que são objeto do plano 
divino de salvação. À medida que a atividade profética de 
Maomé foi progredindo, os fundamentos religiosos da umma 
tornaram-se cada vez mais evidentes e, consequentemente, a 
Meio ambiente e direitos humanos
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109
umma dos árabes foi transformada na umma dos mulçumanos. Vista 
a partir do topo da umma, a incompletude dos direitos humanos 
individuais reside no fato de, com base neles, ser impossível fundar 
os laços de solidariedade coletivas sem as quais nenhuma sociedade 
pode sobreviver, e muito menos prosperar. Exemplo disto mesmo 
é a dificuldade da concepção ocidental de direitos humanos em 
aceitar direitos coletivos de grupos sociais ou povos, sejam eles 
minorias étnicas, as mulheres, as crianças ou os povos indígenas.
Já do ponto de vista dos direitos humanos, afirma Santos (1997), a umma enfatiza 
muito mais os deveres em detrimento dos direitos; ela tende a perdoar desigualdades, 
como as que ocorrem entre homens e mulheres e entre muçulmanos e não 
muçulmanos.
A comparação entre umma/direitos humanos e dharma/direitos humanos nos 
coloca, conforme Santos (1997), as seguintes questões: a cultura ocidental expressa 
nos direitos humanos estabelece uma dicotomia demasiada entre indivíduo e 
sociedade, o que pode acarretar em individualismo exacerbado, individualismo 
possessivo, narcisismo, alienação e anomia. Assim como, tanto entre os hindus 
quanto na cultura islâmica, não há o reconhecimento que o sofrimento humano 
tem uma dimensão individual irredutível. 
É nesse sentido que um diálogo intercultural deve partir do reconhecimento das 
culturas de suas incompletudes. Segundo Santos (1997, p. 30, grifo do autor):
Uma vez que todas as culturas tendem a distribuir pessoas 
e grupos de acordo com dois princípios concorrentes de 
igualdade e diferença, as pessoas e os grupos sociais têm o 
direito a ser iguais quando a diferença os inferioriza e o direito 
a ser diferentes quando a igualdade os descaracteriza.
Tratamos, nas últimas linhas, das diferenças entre fundamentos básicos de 
grandes culturas e da dificuldade em efetivarmos um diálogo intercultural. Nesse 
último trecho destacado na citação acima, temos o alerta de Boaventura de Sousa 
Santos (1997) sobre a importância de pensarmos no reconhecimento das diferenças 
como um elemento fundamental para garantia de uma cidadania plena. No próximo 
item dessa seção, vamos aprofundar a reflexão sobre a relação entre minorias, 
diferenças e direitos humanos.
Meio ambiente e direitos humanos
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110
Nesta unidade, temos feito uma crítica cuidadosa ao princípio de universalidade 
de um modelo de pessoa, que é o indivíduo moderno. Neste segundo momento, 
a crítica passa a ser realizada não somente à ideia da dificuldade de universalização 
do indivíduo, mas também de tomar como importante as questões relacionadas à 
alteridade, na medida em que incorporaremos a análise da relação entre minorias 
sociais e direitos humanos. Acompanharemos a crítica de Sousa (apud NOVAES; 
LIMA, 2001), que aponta a importância de levar em conta a crítica pós-colonial, que 
acentua a utilização da diferença como reivindicação legítima de autonomia dos 
grupos minoritários, especialmente no Terceiro Mundo.
2.2 Minorias e o direito à diferença
Minoria é um conceito que se refere aos grupos sociais de menor poder 
em uma dada sociedade. Dessa forma, não se refere a uma questão 
numérica, mas a uma questão social. 
Trataremos, portanto, da luta de grupos sociais por direitos culturais, que não 
se resume à garantia do direito à diferença, como mostra Sousa (apud NOVAES; 
LIMA, 2001), mas na procura de legitimidade da própria diferença. Nesse tipo de 
reivindicação temos a busca pela legitimidade de um tipo diferente de sujeito de 
direitos tratado até aqui, qual seja: o sujeito coletivo de direito. Perceba que estamos 
falando de uma busca de direitos mais ampla do que aquele fundado no sujeito de 
direito individual. Nas palavras do autor: 
Ao invés do indivíduo do liberalismo, trata-se agora de 
minorias culturais, étnicas, raciais, sociais ou de gênero, as 
quais reclamam direitos para seus respectivos grupos. O 
objeto de disputa de direitos também é peculiar: o direito 
a uma identidade cultural autêntica e a um processo de 
subjetivação autônoma, isto é, formação de identidades 
possíveis, baseadas em critérios valorativos próprios. Esta nova 
configuração social apresenta-se como um desafio ao campo 
jurídico, que deve enfrentar os impasses engendrados pela 
contraposição dos sujeitos de direitos coletivos versus sujeito 
de direito individual (SOUSA apud NOVAES; LIMA, 2001, p. 61).
Meio ambiente e direitos humanos
U3
111
A questão é de difícil resolução, pois, conforme Sousa (apud NOVAES; LIMA, 
2001), o artigo II, da Declaração de Direitos Humanos de 1948, ao proteger a 
dignidade humana, aponta para a igualdade de direitos dos indivíduos e condena 
todo tipo de distinção de sexo, língua, raça, religião, opinião política etc., e assim 
garante que os indivíduos não sejam subjugados por tais características, o problema 
é que, ao mesmo tempo, não percebe integralmente a diferença em sua natureza 
coletiva e social. Ou seja, protege a diferença somente como um atributo do sujeito-
indivíduo isolado. 
Como bem mostra Sousa (apud NOVAES; LIMA, 2001), o problema é que a 
igualdade não é, efetivamente, um dado, mas algo que se constrói no interior de 
instituições políticas – isso no que se refere à esfera do Estado −, colocando em 
diálogo, portanto, Estado e minorias, sejam elas étnicas, culturais, raciais, sociais ou 
de gênero. 
O que acontece com as minorias é que, muitas vezes, os sujeitos a elas 
identificados carregam estigmas que os colocam em uma espécie de cidadania de 
“segunda classe”, tendo dificuldades estruturais para garantia de igualdade efetiva na 
sociedade. 
A questão da relação conflituosa, no que toca aos direitos humanos, entre 
Estado e grupos sociais minoritários, se torna mais evidente quando consideramos 
os grupos nativos dos diversos países que passaram por processos de colonização. 
Historicamente, em diferentes continentes, como África e América, houve um 
processo de tentativa de assimilação cultural das populações nativas; tal processo 
produz um esforço de apagamento das especificidades culturais – como língua, 
religião, modo de organização social − ao impor os princípios ideológicos e de 
produção material das sociedades colonizadoras. 
A política indigenista brasileira, até a Constituição de 1989, propôs a assimilação 
das sociedades indígenas. Tais procedimentos constitucionais acompanhavam a 
teoria social positivista do começo do século XX, que anunciava o fim das populações 
tradicionais de todo o mundo, seja através de um processo de genocídio, ou através 
da aculturação.
2.3 Os direitos humanos e as minorias noBrasil: a questão 
indígena
Um dos melhores instrumentos para se obter informações sobre os 
povos indígenas no Brasil é o site do Instituto Socioambiental (ISA). Como 
Meio ambiente e direitos humanos
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112
exemplo, os dados a seguir: 
“Em pleno século XXI a grande maioria dos brasileiros ignora a imensa 
diversidade de povos indígenas que vivem no país. Estima-se que, na 
época da chegada dos europeus, fossem mais de 1.000 povos, somando 
entre 2 e 4 milhões de pessoas. Atualmente encontramos no território 
brasileiro 235 povos, falantes de mais de 180 línguas diferentes.
Os povos indígenas somam, segundo o Censo IBGE 2010, 817.963 
pessoas. Destas, 315.180 vivem em cidades e 502.783 em áreas rurais, o 
que corresponde aproximadamente a 0,42% da população total do país.
A maior parte dessa população distribui-se por milhares de aldeias, 
situadas no interior de 674 Terras Indígenas, de norte a sul do território 
nacional”.
Instituto Socioambiental. Povos Indígenas. Disponível em: <https://pib.
socioambiental.org/pt/c/no-brasil-atual/quem-sao/povos-indigenas>. 
Acesso em: 22 set. 2016.
O positivismo considerava as populações nativas como espécies de “seres da idade 
da pedra” que não contribuíam com a sociedade, pois não produziam mercadorias 
de maneira adequada aos ideais de progresso predominante na época. Tais grupos 
e indivíduos poderiam se tornar úteis para a sociedade ao serem assimilados na 
sociedade envolvente. 
Ao longo da história, a política indigenista brasileira passou por diferentes 
modelos de integração dos povos indígenas: 1) aldeamentos religiosos no período 
colonial; 2) aldeamentos no período imperial; 3) postos e parques indígenas criados 
pelo Serviço de Proteção ao Índio (SPI) (o SPI existiu de 1910 a 1967, quando foi 
substituído pela Funai); 4) terras e áreas indígenas criadas pela Funai. Dessa forma, 
os índios seriam aldeados, temporariamente, em grandes terras, para num segundo 
momento, quando não precisassem mais de terras com o processo de integração e 
emancipação, seriam organizados em pequenas propriedades individuais com uma 
nova maneira de trabalhar a terra.
Como demonstra Cordeiro (1999), no plano do direito internacional, a questão 
indígena é tratada pela primeira vez em 1949, no âmbito das Nações Unidas, quando 
a Assembleia Geral pediu que fosse realizada uma pesquisa sobre a situação das 
populações indígenas da América. 
Conforme Cordeiro (1999, p. 109), foi com a Organização Internacional do 
Trabalho (OIT) que se elaborou o primeiro instrumento jurídico internacional a tratar 
os direitos coletivos das populações indígenas. Nas palavras do autor:
Meio ambiente e direitos humanos
U3
113
Em 1957, reagindo a um número crescente de informes 
sobre a discriminação nas relações laborais, a Organização 
Internacional do Trabalho aprovou a Convenção nº 107 
sobre Populações Indígenas e outras Populações Tribais e 
Semitribais em Países Independentes. [...] Ao todo, 27 países 
tornaram-se parte da Convenção, dentre os quais 14 países 
latino-americanos. Em 1986 teve início o processo de revisão 
parcial da Convenção, com o propósito de escoimá-la do 
enfoque integracionalista de seu texto, já então incompatível 
com as aspirações das populações indígenas e com a 
evolução do pensamento antropológico em favor de posições 
que valorizam a preservação da diversidade cultural. Desse 
exercício resultou a aprovação em 1989 da Convenção nº 169 
sobre Povos Indígenas e Tribais em Países Independentes.
Esse é um instrumento importante para a proteção internacional dos direitos 
indígenas. Some-se à Convenção nº 169 outros instrumentos normativos vinculados 
à Declaração Universal dos Direitos Humanos, tais como: o Pacto Internacional 
sobre Direitos Civis e Políticos; o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, 
Sociais e Culturais; a Convenção Internacional sobre Eliminação de todas as Formas 
de Discriminação Racial; a Convenção para a Prevenção e Sanção do Crime de 
Genocídio; a Convenção contra a Discriminação na Educação (Unesco). 
Cordeiro (1999) também ressalta, no plano das Nações Unidas, a Agenda 
21, ratificada pela Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e 
Desenvolvimento, ocorrida no Rio de Janeiro, em 1992; e a Declaração e Programa 
de Ação de Viena, resultado da Conferência Mundial sobre Direitos Humanos, em 
1993. 
Ainda conforme Cordeiro (1999), estima-se que, no mundo todo, as populações 
indígenas e tribais somem cerca de 300 milhões de pessoas; destas, de 30 a 40 
milhões vivem no continente americano. Neste contexto, há uma diversidade 
imensa de culturas, o que dificulta a construção de conceitos capazes de abarcar 
a totalidade desses povos, daí conceitos genéricos, como: indígenas, aborígenes, 
autóctones, grupos tribais e populações nativas. 
Para além da diversidade cultural desses povos, é possível encontrar características 
particulares comuns. Como mostra Cordeiro (1999), esses grupos mantêm modos 
de vida que os diferenciam dos padrões hegemônicos das sociedades nacionais, 
como uma relação mítica com a terra e, em muitos casos, a preservação da língua 
nativa; essas culturas são reconhecidas como culturas autônomas e diferenciadas. 
Meio ambiente e direitos humanos
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114
Ponto fundamental de reconhecimento da autonomia e diferenciação dessas 
culturas é o conceito de autodeterminação, segundo o qual índio é todo sujeito que 
se define como tal e é reconhecido pela comunidade indígena como pertencente 
ao grupo. Esse conceito é tratado da seguinte forma por Cordeiro (1999, p. 116-117), 
ao tratar do processo de identificação desses grupos:
Os exercícios de definição apoiam-se em última análise em 
critérios subjetivos de autoafirmação e reconhecimento, ou 
seja, grupos indígenas são os que se consideram como tais 
e são dessa forma reconhecidos pela sociedade envolvente. 
Os elementos objetivos de definição não conseguem ser 
mais do que meramente aproximativos [...]. Tão difícil quanto 
encontrar uma definição operacional que se acomode à 
imensa variedade de situações, é a questão de definir, no 
plano internacional, os direitos específicos que devem ser 
reconhecidos essas populações.
A partir disso, Cordeiro (1999) levanta a questão das possibilidades de 
reconhecimento dessas populações como sujeito de direitos no plano internacional. 
O debate em torno do direito internacional pontua dois grandes pontos: tratar essas 
populações como povos ou como minorias. 
 Tratar essas populações como povos com direito à autodeterminação, em 
tese, poderia provocar questionamentos sobre o direito desses grupos constituírem 
unidades políticas independentes com completa autonomia sobre os recursos 
naturais de seus territórios, porém, como bem aponta Cordeiro (1999, p. 119-120), a 
Conferência Mundial sobre Direitos Humanos (1993) indica que: 
O exercício do direito à autodeterminação dos povos não 
deverá ser entendido como uma autorização ou estímulo a 
qualquer ação que possa desmembrar ou prejudicar, total ou 
parcialmente, a integridade territorial ou a unidade política 
de Estados Soberanos e independentes que se conduzam 
de acordo com o princípio da igualdade de direitos e 
autodeterminação dos povos e que possuam assim um 
governo representativo do povo como um todo, pertencente 
ao território, sem qualquer tipo de distinção.
Dessa forma, conseguiu-se manter o direito dos povos à autodeterminação sem 
colocar em risco a unidade política dos Estados. Já em relação à associação dos 
Meio ambiente e direitos humanos
U3
115
povos indígenas às minorias sociais, nos leva a outro problema. Ao menos em tese, 
como nos diz Cordeiro (1999, p. 120):
[...] tratar as populações indígenas como minorias implica, 
em princípio, negar-lhes a existência de direitos coletivos. 
Isso porque, no direito Internacional Positivo, os direitos 
das minorias étnicas, religiosas e linguísticas têm dimensão 
individual: são direitos das pessoas pertencentes a minorias, 
gozados em comunidade com os demaismembros do grupo, 
mas que não podem ser coletivamente invocados perante 
o Estado. Essa é a interpretação que deriva do artigo 27 do 
Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos.
Conforme demonstra Cordeiro (1999), a questão relativa aos direitos indígenas 
ganha especificidade própria nesse contexto. Desse modo, esses grupos não se 
confundem com a questão das minorias, mesmo tendo vários pontos de contato 
com a questão em termos conceituais. 
É uma demanda das populações indígenas e das organizações que as representam 
o direito à autodeterminação (contemplado em nossa Constituição). Devemos notar 
que os direitos reivindicados por essas populações só fazem sentido dentro do rol 
dos direitos coletivos, como da posse coletiva das terras tradicionalmente ocupadas.
Assim, como demonstra Cordeiro (1999), o princípio da autodeterminação 
remete ao reconhecimento da participação política e da possibilidade de as 
populações indígenas participarem das decisões de seu interesse. Não se confunde a 
autodeterminação com a reivindicação de soberania externa, mas sim à autogestão 
e a diferentes graus de autonomia para a manutenção da identidade cultural. 
No que toca à legislação brasileira sobre o tema, podemos afirmar que a questão 
indígena teve a atenção merecida apenas com a Constituição de 1988, na qual, pela 
primeira vez, temos um capítulo específico para a questão indígena, garantindo-lhes 
direitos coletivos e afastando a perspectiva assimilacionista.
A seguir, temos o Capítulo VIII, da Constituição da República Federativa 
do Brasil de 1988, que trata dos índios: 
DOS ÍNDIOS
Art. 231. São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, 
línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que 
Meio ambiente e direitos humanos
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116
tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e 
fazer respeitar todos os seus bens.
§ 1º - São terras tradicionalmente ocupadas pelos índios as por eles 
habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas atividades 
produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais 
necessários a seu bem-estar e as necessárias à sua reprodução física e 
cultural, segundo seus usos, costumes e tradições.
§ 2º - As terras tradicionalmente ocupadas pelos índios destinam-se a sua 
posse permanente, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do 
solo, dos rios e dos lagos nelas existentes.
§ 3º - O aproveitamento dos recursos hídricos, incluídos os potenciais 
energéticos, a pesquisa e a lavra das riquezas minerais em terras indígenas 
só podem ser efetivados com autorização do Congresso Nacional, 
ouvidas as comunidades afetadas, ficando-lhes assegurada participação 
nos resultados da lavra, na forma da lei.
§ 4º - As terras de que trata este artigo são inalienáveis e indisponíveis, e os 
direitos sobre elas, imprescritíveis.
§ 5º - É vedada a remoção dos grupos indígenas de suas terras, salvo, "ad 
referendum" do Congresso Nacional, em caso de catástrofe ou epidemia 
que ponha em risco sua população, ou no interesse da soberania do 
País, após deliberação do Congresso Nacional, garantido, em qualquer 
hipótese, o retorno imediato logo que cesse o risco.
§ 6º - São nulos e extintos, não produzindo efeitos jurídicos, os atos que 
tenham por objeto a ocupação, o domínio e a posse das terras a que se 
refere este artigo, ou a exploração das riquezas naturais do solo, dos rios 
e dos lagos nelas existentes, ressalvado relevante interesse público da 
União, segundo o que dispuser lei complementar, não gerando a nulidade 
e a extinção direito a indenização ou a ações contra a União, salvo, na 
forma da lei, quanto às benfeitorias derivadas da ocupação de boa-fé.
§ 7º - Não se aplica às terras indígenas o disposto no art. 174, § 3º e § 4º.
Art. 232. Os índios, suas comunidades e organizações são partes legítimas 
para ingressar em juízo em defesa de seus direitos e interesses, intervindo 
o Ministério Público em todos os atos do processo.
Araújo e Leitão (2002) destacam que, desde a Constituição de 1988, os índios 
passam a ter capacidade processual, cabendo ao Ministério Público intervir em sua 
defesa e à Justiça Federal o julgamento das questões indígenas. Além disso, também 
se intensifica o debate sobre a necessidade de reformular o Estatuto do Índio, que 
é de 1973. 
O Estatuto do Índio ainda mantém as noções de Tutela e Assimilação já superados 
pela Constituição. Araújo e Leitão (2002), apontam que, desde 1991, há projetos de 
lei para a substituição do Estatuto do Índio, porém, desde 1995, o debate em torno 
Meio ambiente e direitos humanos
U3
117
da questão está parado. Parte da discussão que se refere à reformulação do Estatuto 
passa pelo debate da Tutela, isso é o que garante a presença constante da Funai, 
como órgão representante do Estado nessa questão. O Congresso Nacional ratificou 
a Convenção 169, da OIT, em 2002, reafirmando o afastamento dos princípios de 
assimilação e aculturação desses povos.
Devemos notar que, em nossa sociedade, são tutelados, 
por exemplo, as crianças e os loucos. Isso nos coloca uma 
questão importante acerca da legitimidade da tutela dos 
povos indígenas. Você considera necessário esses povos 
serem mantidos em tutela, ou deveriam ser autônomos nas 
suas tomadas de decisão?
São inegáveis os avanços legislativos que tratam da questão indígena no Brasil. 
Araújo e Leitão (2002) lembram que o Novo Código Civil de 2001 retira o termo de 
relativamente incapaz ao se referir aos índios, e diz que a questão indígena deve ser 
tratada por código específico, por isso a necessidade de um novo Estatuto do Índio 
que se adeque aos preceitos internacionais de construção de autonomia dos povos 
indígenas. 
1. Vimos, ao longo dessa seção, que todas as culturas são 
incompletas, o que nos remete para a discussão da necessidade 
de diálogo intercultural para a construção dos direitos humanos. 
Comente sobre o assunto. 
2. Considere a citação a seguir: “Ainda conforme Cordeiro 
(1999), estima-se que, no mundo todo, as populações 
indígenas e tribais somem cerca de 300 milhões de pessoas; 
destas, de 30 a 40 milhões vivem no continente americano. 
Neste contexto, há uma diversidade imensa de culturas, o 
que dificulta a construção de conceitos capazes de abarcar 
a totalidade desses povos, daí conceitos genéricos, como: 
indígenas, aborígenes, autóctones, grupos tribais e populações 
Meio ambiente e direitos humanos
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118
nativas”. Analise as afirmações a seguir sobre a questão 
indígena: 
I − Para além da diversidade cultural dos povos indígenas, é 
possível encontrar características particulares comuns, como 
uma maneira própria de se relacionar com a terra. 
II − Podemos dizer que os povos indígenas devem ser 
considerados diferentes das sociedades ocidentais, pois se 
apoiam em direitos coletivos.
III − O fato de os povos indígenas serem diferentes das 
sociedades envolventes faz com que eles não sejam 
considerados portadores de direitos internacionais. 
IV − Os povos indígenas têm reivindicado um tratamento 
diferente daquele oferecido aos indivíduos membros das 
sociedades ocidentais, pois querem autonomia para a 
autodeterminação coletiva. 
Assinale a alternativa correta: 
a) Estão corretas somente as afirmações I e II. 
b) Estão corretas somente as afirmações I, II e III.
c) Estão corretas somente as afirmações I, II e IV.
d) Estão corretas somente as afirmações III e IV.
e) Estão corretas somente as afirmações I e IV.
Meio ambiente e direitos humanos
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119
Seção 3
Direitos humanos e meio ambiente
Não há citações diretas na Declaração dos Direitos Humanos Universais acerca 
do direito ao meio ambiente equilibrado, o que é perfeitamente compreensível, na 
medida em que essa não era uma questão preocupante no bojo da elaboração 
desse corpo normativo.
A questão do meio ambiente não se refere unicamente aos problemas de impacto 
à Natureza, mas também à maneira como o processo de degradação ambiental 
afeta os grupos sociaismenos favorecidos nas sociedades. Nesse sentido, falar em 
justiça ambiental é também discutir a justiça social.
No caso brasileiro, conforme Trentin e Santos (2012, p. 141), o modelo de 
desenvolvimento adotado com a promoção de grandes projetos de infraestrutura, 
que inclui certas formas de produção de energia, a manutenção do latifúndio e da 
pecuária extensiva, bem como o modelo de reordenamento das cidades, provoca 
um alto custo socioambiental para a sociedade brasileira e, em particular, às suas 
parcelas mais vulneráveis: “negros, mulheres, crianças, adolescentes e jovens, 
povos indígenas, pequenos produtores rurais, quilombolas, ribeirinhos, pescadores 
artesanais, extrativistas, moradores de favelas, trabalhadores sem-terra e sem-teto”.
A importância em tratar o meio ambiente saudável como um direito humano é 
ressaltado por Trentin e Santos (2012, p. 142):
Introdução à seção
3.1 Meio ambiente e direito social no Brasil
Para garantir o direito ao meio ambiente efetivamente, é 
necessário afirmá-lo como um direito humano. Os brasileiros 
têm o direito constitucional a um ambiente saudável e 
equilibrado, o que não representa sua garantia como um 
direito humano. Quando usamos a expressão direito humano 
Meio ambiente e direitos humanos
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120
ao meio ambiente estamos fazendo uma afirmação política, com 
a pretensão de gerar consequências, uma vez que os direitos 
humanos tendem a receber ampla proteção dos tribunais, da 
legislação e da sociedade. Afinal, os direitos humanos são básicos 
ou fundamentais porque ocupam uma posição transcendental 
sobre outros direitos. Apesar de não estar previsto desta maneira 
em nenhum tratado internacional específico a referência a 
outros direitos como dignidade, saúde, trabalho, vida, bem-
estar, moradia, alimentação, água, livre determinação, inclui 
necessariamente o reconhecimento do meio ambiente como 
direito humano.
Para Trentin e Santos (2012), no Brasil, o direito humano ao meio ambiente é 
constantemente violado, seja na cidade ou no campo, e tanto pelos atores públicos 
quanto particulares. É importante notar que a violação aos direitos humanos, no 
que toca à esfera ambiental, é constatável na medida em que determinado modelo 
de exploração e organização dos territórios afetam a dignidade humana de grupos 
sociais e, mais intensamente, atinge as populações tradicionais. 
A noção de meio ambiente como um direito humano é importante para trazer 
maior visibilidade às demandas das populações tradicionais, mas não só. Conforme 
Trentin e Santos (2012), o reconhecimento ao meio ambiente como direito humano 
vai tomando força e forma com diversos protocolos e acordos internacionais, entre 
os quais se destacam: a Declaração de Estocolmo da Convenção das Nações Unidas 
sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento; o Pacto Internacional sobre Direitos 
Econômicos, Sociais e Culturais (PIDESC); Rio 92 – Conferência das Nações Unidas 
para o Meio Ambiente e Desenvolvimento. 
Os governos signatários dos acordos acima mencionados têm se comprometido, 
como mostram Trentin e Santos (2012), a reconhecer que os povos não podem ser 
privados de seus meios de subsistência, bem como os acordos internacionais têm 
se referido ao direito a uma vida saudável e ao meio ambiente como um direito 
humano e como uma forma de diminuição da pobreza. 
A Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, que produziu a 
Declaração de Estocolmo e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente 
(PNUMA), promoveu, em 1972, a entrada do Direito Ambiental no cenário 
internacional, colocando o direito ao meio ambiente equilibrado como fundamental 
do indivíduo. Segundo Trentin e Santos (2012, p. 142), a Declaração de Estocolmo 
estabelece de início que:
Meio ambiente e direitos humanos
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121
O ser humano tem o direito fundamental à liberdade, à 
igualdade e ao desfrute de condições de vida adequada em 
um meio cuja qualidade lhe permita levar uma vida digna e 
gozar de bem-estar, e tem solene obrigação de proteger e 
melhorar esse meio para as gerações presentes e futuras. 
Ainda segundo as autoras, a ONU tem apontado para três grandes áreas de relação 
entre direitos humanos e proteção ambiental, são elas: 1) o ambiente é precondição 
para o pleno exercício dos direitos humanos, ou seja, oa estados deveriam incluir a 
garantia de proteção ao ambiente para a garantia do exercício dos outros direitos; 2) 
direitos humanos, como os de acesso à informação, à participação na tomada das 
decisões e o à justiça são fundamentais para se atingir a proteção ao ambiente; 3) 
e o direito a um ambiente seguro, sadio e ecologicamente equilibrado deveria ser 
considerado um direito humano. 
Percebe-se assim, conforme Trentin e Santos (2012), que há um esforço para 
equiparar o direito a um ambiente saudável com direitos econômicos e sociais. Isso 
quer dizer que, quando se adotam determinados modelos de desenvolvimento, corre-
se o risco de violar direitos fundamentais, como nos casos de projetos, por exemplo, de 
construção de grandes hidrelétricas, que causam impactos em direitos econômicos, 
sociais e culturais de uma gama significativa de pessoas ao destruir a base material 
de manutenção de grupos sociais, inviabilizando, inclusive, sua reprodução cultural, 
como é o caso de grupos sociais de pequenos pescadores, índios e demais sujeitos 
que vivem em certo território atingido. Nesse sentido, pode-se afirmar que:
Entendemos que a manutenção das bases materiais e culturais 
de reprodução, como objeto de direito fundamental, referem-
se não apenas ao acesso (quantitativo e qualitativo) aos bens 
naturais, mas também à garantia das formas e modos de 
apropriação que asseguram condições de vida comunitária 
para o exercício da liberdade do grupo.
A liberdade é compreendida aqui como 'liberdade igual', 
exercida na medida em que todos tenham acesso aos bens 
econômicos, sociais e culturais. A liberdade que trata o direito 
humano ao meio ambiente equilibrado é a liberdade da vida, é 
a liberdade de ter condições de manutenção e reprodução da 
existência garantidas, neste sentido, a vida se manifesta não 
só em cada indivíduo, mas também nas relações sociais que 
permitam a sua manutenção (DERANI, 19985 apud TRENTIN; 
SANTOS, 2012, p. 143).
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5DERANI, Cristiane. Meio ambiente ecologicamente equilibrado: direito fundamental e princípio da 
atividade econômica. In: FIGUEIREDO, Guilherme José Purvin de (org.). Temas de direito ambiental e 
urbanístico. São Paulo: Max Limonad, 1998.
Apesar de todos esses debates, Trentin e Santos (2012) lembram que, em termos 
internacionais, não há instrumentos legais para proteger as pessoas vitimadas por 
qualquer tipo de degradação ambiental, e no plano nacional há intensas disputas 
políticas e legislativas para flexibilizar a proteção das pessoas e do meio ambiente, 
que, conforme as autoras, contribuem para intensificação de conflitos e violação de 
direitos. 
Empreendimentos recentes no Brasil, segundo demonstram Trentin e Santos 
(2012), como a construção das Hidrelétricas de Belo Monte (PA) e Santo Antonio 
e Jirau, no Rio Madeira (RO), demonstram a perda de território pelos povos, a 
degradação da biodiversidade e a destruição de determinados modos de vida e de 
trabalho, tanto no campo quanto na cidade. 
Tais empreendimentos são levados à frente em nome do “desenvolvimento”, mas 
raramente nos perguntamos: o que é desenvolvimento? Ou ainda: desenvolvimento 
para quem? Para realização desses empreendimentos, afirmam Trentin e Santos 
(2012), são articulados diversos instrumentos, tais como: pressão nas casas legislativas 
para modificação – e fragilização – de processos de licenciamento e proteção 
ambiental; pressão sobre órgãos de controle, como o Instituto Brasileiro do Meio 
Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama); e revisão do Código Florestal, que 
regula a preservação ambiental. 
Percebe-se, com isso, que há pressão constante de grandes corporações e do 
próprio Estadopara levar a cabo um modelo de desenvolvimento voltado, segundo 
Trentin e Santos (2012), para exportação de commodities e, para tanto, buscam-se 
constantes mudanças no marco legal e jurídico para flexibilizar o uso de territórios e 
demais recursos naturais. 
O que fica evidente também, na análise de Trentin e Santos (2012), é a importância 
da esfera política, na medida em que são áreas de intensos conflitos. Mostram as 
autoras que, a partir do final dos anos de 1980, as discussões sobre o combate 
às desigualdades passam a chamar a atenção para a inter-relação das questões 
ambientais com as do emprego e da renda. 
Nesse sentido, torna-se preponderante a crítica ao modelo de desenvolvimento 
hegemônico e urgente o esclarecimento à sociedade que os modelos tradicionais 
de relação com o território e de exploração dos recursos ambientais são não só 
sustentáveis ambientalmente, como grande gerador de empregos e renda, além de 
garantir direitos sociais e culturais à reprodução de modos tradicionais de vida. 
É importante termos em mente que, conforme demonstram Trentin e Santos 
Meio ambiente e direitos humanos
U3
123
(2012), que o ambiente é significado de formas diferentes, bem como há diversidade 
nas lógicas de uso e de definição dos territórios. Assim, os riscos ambientais também 
são diferentes na medida em que os grupos sociais são desigualmente atingidos. 
Frente a isso, Trentin e Santos (2012, p. 145) entendem que “o debate sobre o direito 
humano ao meio ambiente deve ser orientado sob o ponto de vista das populações 
mais diretamente atingidas”.
É no bojo desse processo que as autoras apontam para que uma Justiça Ambiental 
esteja em diálogo com a Justiça Social, pois os danos ambientais sempre afetam 
mais os grupos sociais vulneráveis, como os grupos étnicos tradicionais, para citar 
alguns: populações indígenas, populações quilombolas, pescadores e ribeirinhos. 
Além da violência, como assassinatos e ameaças, esses povos estão sujeitos a 
outras injustiças, como: a negação nos processos de tomada de decisão; a expulsão 
sumária; e a exploração do trabalho.
Quando se fala em crise ambiental, tendemos a pensar em grandes efeitos que 
atingem todo o planeta, dessa forma, as consequências ficam associadas a sujeitos 
abstratos. No entanto, um olhar mais atento, como o da análise de Trentin e Santos 
(2012), nos demonstra que é no território onde se exploram os recursos que está o 
efeito mais direto e cruel. Como exemplo, as autoras citam os casos da mineração de 
urânio, em Caetité (BA), e o Projeto Porto Maravilha, no Rio de Janeiro, que significam 
perdas de bases materiais e culturais dos grupos sociais diretamente atingidos. 
Frente a esse impacto, explicam Trentin e Santos (2012), muitas vezes, são garantidas 
aos atingidos determinadas compensações, que nem sempre são efetuadas e, em 
geral, são insuficientes. As perdas de terras e os deslocamentos forçados de populações 
provocam perdas culturais, desestruturação da vida de pessoas e de grupos inteiros. 
As autoras lembram ainda que é comum a falta de informações, que os processos 
de licenciamento são insuficientes e, dessa forma, mostram a associação direta dos 
fatores ambientais (ou do desrespeito ao direito humano ao ambiente sadio) para 
efetivação de injustiças sociais e, assim, concluem que:
3.2 Direitos humanos, meio ambiente e direitos sociais
Entendemos que a proteção ambiental é parte integrante das 
lutas sociais e se constitui cada vez mais em um projeto contra-
hegemônico frente ao atual modelo desenvolvimentista 
brasileiro. Tanto no plano discursivo quanto nas formas de 
luta inovadoras desses atores sociais, a questão ambiental se 
constitui em um potente espaço de construção de justiça, em 
contraposição à racionalidade do mercado. O processo de 
Meio ambiente e direitos humanos
U3
124
construção, significação e ressignificação dos direitos humanos 
é constante através da disputa e sua salvaguarda não reside 
só nos documentos nem nas instituições, mas também – e 
principalmente – no sentido de dignidade (TRENTIN; SANTOS, 
2012, p. 146).
Nesse mesmo sentido, Acselrad (2010) se pergunta sobre como dar legitimidade 
à preocupação ambiental num contexto no qual o discurso hegemônico, com 
frequência, aponta para as questões em torno do meio ambiente – ou o que seria 
uma preocupação excessiva com a proteção ao meio ambiente − como um entrave 
para o desenvolvimento e a geração de emprego e renda. E isso num país tão 
desigual como o Brasil.
Num primeiro momento, Acselrad (2010) discute o termo “ambientalização”, que 
remete tanto ao uso de um discurso ambiental genérico utilizado por uma diversidade 
de grupos sociais para justificar e legitimar práticas institucionais, políticas, científicas 
etc. quanto para caracterizar determinados fenômenos relacionados a contextos e 
momentos históricos específicos e, assim, uma gama significativa de processos são 
incorporados ao “guarda-chuva” do discurso da proteção ao meio ambiente.
Vejamos essas questões com mais detalhes. Conforme mostra Acselrad (2010), 
o ambientalismo brasileiro assume um lugar mais central a partir dos anos de 1990. 
Surgem, nesse período, organizações mais profissionalizadas e com maior capacidade 
de arrecadação de recursos; nesse momento, também, há um debate maior em 
relação aos sujeitos que reivindicam fazer parte do “movimento ambientalista”, ou seja, 
organizações e grupos que buscam legitimidade para falar/atuar na área ambiental. 
As ambiguidades desse período aparecem, segundo Acselrad (2010), na visão 
pragmática estatal e empresarial versus a crítica ao modelo de desenvolvimento 
hegemônico; na ideia de uma certa modernização ecológica do capitalismo 
brasileiro versus a busca pela expansão dos direitos levada a cabo por determinados 
atores sociais. 
Durante os anos de 1990 tomou força, segundo Acselrad (2010), a ideia de que 
um certo “ecologismo de resultados” substituiu o ambientalismo contestatário – 
este mais próximo aos movimentos sociais −, com o foco em ações pragmáticas e 
tecnicistas mais próximas ao modelo hegemônico de desenvolvimento e dentro de 
uma noção de capitalismo ecológico. Porém, alerta o autor, essa substituição não 
ocorreu plenamente, havendo um processo de neutralização das lutas ambientais 
entre o chamado “ecologismo desenraizado” – aquele que não tem suas bases 
nos movimentos sociais −, levada à frente por organismos multilaterais, empresas 
poluidoras e governos. Segundo o autor:
Meio ambiente e direitos humanos
U3
125
Parte do 'ecologismo desenraizado' respondeu favoravelmente 
ao discurso consensualista propugnado por agências 
multilaterais, de apologia da parceria público-privada, de 
deslegitimação da esfera nacional em favor da esfera local, 
de favorecimento das ações fragmentárias em detrimento da 
coerência articulada da ação política (ACSELRAD, 2010, p. 107).
A noção de discurso consensualista, conforme Acselrad (2010), remete à ideia de 
que seria possível conciliar crescimento econômico com a resolução de problemas 
ambientais a partir do uso de novas tecnologias e da parceria entre sociedade civil 
e governos. Mas há resistências a esse projeto no bojo dos movimentos ligados 
a um ecologismo enraizado, que questionam a cooperação consensualista e se 
pautam pela legitimidade política de suas demandas contra-hegemônicas. Esse 
ambientalismo social é o que mais se aproxima da chamada justiça ambiental.
A noção de justiça ambiental está diretamente vinculada à de justiça social. 
Segundo Acselrad (2010), os atores sociais ligados à busca de justiça ambiental 
promovem uma ressignificação da questão ambiental ao atrelá-la ao processo de 
busca por justiça social, bem como ao associar a questão ambiental ao tema do 
emprego e da renda. 
Ao passar em revisão a história dos significados atribuídos à questão ambiental, 
Acselrad (2010) enfatiza que pelo menos dois sentidos estiveram em disputa em 
uma história recente: uma visão contracultural e outra utilitária.No caso do sentido 
contracultural, ressalta-se a crítica ao estilo de vida hegemônico de apropriação do 
mundo material, com vistas ao consumismo, à industrialização químico-mecanizada 
da agricultura, e assim por diante; já a visão utilitária vislumbra a continuidade da 
acumulação do capital a partir de racionalização e economia de matéria-prima e 
energia. Nas palavras de Acselrad (2010, p. 108-109):
3.3 Justiça ambiental no Brasil
Para a razão utilitária hegemônica, o meio ambiente é uno e 
composto estritamente de recursos materiais, sem conteúdos 
socioculturais específicos e diferenciados; é expresso em 
quantidades; justifica interrogações sobre os meios e não 
sobre os fins para os quais a sociedade se apropria dos recursos 
Meio ambiente e direitos humanos
U3
126
do planeta; pressupõe um risco ambiental único, instrumental 
– o da ruptura das fontes de abastecimento do capital em 
insumos materiais e energéticos, assim como da ruptura das 
condições materiais da urbanidade capitalista –, ou seja, o risco 
de inviabilização crescente da cidade produtiva, por poluição, 
congestionamento etc. [...].
Uma razão cultural, por sua vez, se interroga sobre os fins 
pelos quais os homens se apropriam dos recursos do planeta; o 
meio ambiente é múltiplo em qualidades socioculturais; não há 
ambiente sem sujeito – ou seja, ele tem distintas significações 
e lógicas de uso conforme os padrões das distintas sociedades 
e culturas. Os riscos ambientais, nessa óptica, são diferenciados 
e desigualmente distribuídos, dada a diferente capacidade de os 
grupos sociais escaparem aos efeitos das fontes de tais riscos.
É importante notar, como faz Acselrad (2010), que os sentidos atribuídos às bases 
materiais são múltiplos, ou seja, há diferentes sentidos atribuídos ao ambiente. No 
entanto, certas perspectivas tendem a se impor, por isso temos conflitos e a disputa 
pelo sentido que se fará hegemônico. Mas fica claro também que nem todos têm as 
mesmas ferramentas de luta e poder de influência nas sociedades.
Assim, a partir da razão cultural, temos um processo de denúncia e resistência. 
Acselrad (2010) mostra qu,e a partir dessa noção, temos a denúncia da distribuição 
desigual, tanto dos benefícios quanto dos danos ambientais; é desproporcional, 
também, a possibilidade de decisão sobre os recursos ambientais, sendo esse poder 
de decisão centrado nos poderosos que transferem, por sua vez, os reflexos da 
degradação ambiental para os mais vulneráveis e despossuídos. 
É no seio da razão utilitária que cresce o discurso da modernização ecológica. 
Conforme Acselrad (2010), a busca da “sociedade de proprietários” pela eficiência 
é usada como justificativa para produzir e, ao mesmo tempo, “economizar” o 
planeta; assim constrói um consenso político e a afirmação no mercado. Nessa 
concepção, o “meio ambiente” tem um preço e é pensado como “oportunidade de 
negócios”; bens comunais – como territórios tradicionais de extração de recursos 
− são privatizados; a “ecologia” e a “sustentabilidade” tornam-se marcas a serem 
incorporadas para obtenção de vantagens na concorrência. 
Para visualizarmos melhor esses conflitos, podemos citar os exemplos trazidos 
por Acselrad (2010), que demonstra que, para a ampliação da monocultura de 
eucalipto, pode-se “sacrificar” os quilombolas incorporando suas terras e suas 
fontes de água; ou ainda, para o aumento da produção de soja transgênica, são 
inviabilizadas as produções de pequenos agricultores orgânicos; para produção de 
energia que alimenta as multinacionais de alumínio, perdem pescadores, ribeirinhos 
Meio ambiente e direitos humanos
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127
e índios ao terem sido comprometidos os rios que utilizam tradicionalmente para 
suas atividades.
Frente a esse quadro, uma série de atores em âmbito nacional e internacional 
tem procurado consolidar as práticas de justiça ambiental. São pressupostos dessa 
ideia, segundo Acselrad (2010), os seguintes princípios: que os grupos étnicos, raciais 
ou de classe não sejam impactados desproporcionalmente dos efeitos negativos da 
degradação ambiental; que o acesso aos recursos ambientais sejam equitativos; que 
se assegure o acesso a informações sobre o uso de recursos ambientais, bem como 
sobre o destino de seus rejeitos; que seja garantida a participação mais democrática 
na definição de políticas, planos projetos e programas que afetem o ambiente; que 
seja facilitada a formação de sujeitos coletivos de direitos, e que esses sujeitos sejam 
protagonistas na produção de modelos de desenvolvimento democráticos em 
relação ao uso dos recursos ambientais.
Frente a esse contexto que estamos construindo até aqui, 
uma questão torna-se importante: é possível pensarmos em 
outro modelo de desenvolvimento que implique, ao mesmo 
tempo, no crescimento econômico e na justiça ambiental e 
social? Será que há alternativas para geração de empregos 
e renda sem que determinados grupos sociais tenham que 
sofrer para que a sociedade se desenvolva? É possível pensar 
que uma sociedade é desenvolvida quando há grupos sociais 
tendo seus direitos violados? 
O país da África que se tornou um “cemitério de eletrônicos”
Em um vasto lixão no oeste da capital de Gana, Acra, pequenas fogueiras 
queimam pilhas de velhos computadores, telas de TVs e laptops, lançando 
uma negra e espessa fumaça.
Ao redor delas, catadores recolhem placas-mãe, metais valiosos e fios 
de cobre, queimando pelo caminho as capas de plástico – e, assim, 
enchendo o ar de substâncias tóxicas.
Trata-se de um dos maiores “cemitérios de eletrônicos” do mundo, e um 
dos locais mais poluídos do planeta.
A cada ano, centenas de milhares de toneladas de lixo eletrônico 
vindos da Europa e da América do Norte encontram neste espaço seu 
destino final, no qual têm seus metais valiosos extirpados em uma forma 
Meio ambiente e direitos humanos
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128
rudimentar de reciclagem.
Para muitos, é um negócio lucrativo em um país onde perto de um quarto 
da população vive abaixo da linha da pobreza.
“É algo instantâneo”, diz Sam Sandu, um sucateiro que trabalha no local. 
“Você trabalha nisso hoje e consegue seu dinheiro no mesmo dia.”
Especialistas alertam, porém, que as toxinas do lixão estão lentamente 
envenenando os trabalhadores locais, ao mesmo tempo em que poluem 
o solo e a atmosfera.
“Mercúrio, chumbo, cádmio, arsênico – estas são as quatro substâncias 
mais tóxicas [no mundo], e são encontradas em grandes quantidades 
em lixões de eletrônicos”, explica Atiemo Sampson, um pesquisador da 
Comissão de Energia Atômica de Gana, que conduziu vários estudos sobre 
a área de Agbogbloshie, usada para o despejo [...]”.
Acesse o link a seguir para continuar a ler a matéria:
Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/01/160109_
lixao_eletronicos_ab>. Acesso em: 14 set. 2016.
Fonte: <http://www.trendnotes.com.br/fotografo-mostra-a-poluicao-do-senegal-com-roupas-de-lixo/>. Acesso em: 14 set. 
2016.
Figura 3.3 | Foto de Fabrice Monteiro, com o trabalho do estilista Doulsy (Jah Gal), com 
a organização de Eco Fund, para o projeto “Profecia”, que reflete sobre o problema do 
despejo de lixo em países africanos
Meio ambiente e direitos humanos
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Não é tarefa fácil resistir ao processo de mercantilização das relações entre as 
pessoas e o ambiente. Os atores sociais – movimentos sociais, associações de 
produtores tradicionais etc. – que atuam num processo de resistência e manutenção 
de modelos tradicionais do uso do território enfrentam fortes agentes do mercado 
nacional e internacional, especialmente com a intensificação das relações comerciais 
no cenário da globalização. 
Um dos maiores problemas enfrentados, segundo Acselrad (2010), é que o 
atual modelo de desenvolvimento brasileiro favorece aquilo que o autor nomeia 
de “chantagem locacional”. A ideia se refere à pressão que agentes do mercado 
mundial exercem, tanto no plano nacional, quando exigem vantagens financeiras, 
como liberdade de remessas de lucros e estabilidade, para não seestabelecerem em 
outros países, quanto num plano subnacional, ameaçando mudarem de estados ou 
municípios se não obtiverem vantagens, como terreno de graça, vantagens fiscais, 
flexibilização de normas ambientais e urbanísticas. 
É importante notar que tal lógica, como demonstra Acselrad (2010), acaba por 
premiar estados e municípios onde a organização da sociedade em torno dos direitos 
é menos eficiente, e punir ao deixar de investir e gerar empregos, as localidades em 
que a sociedade está mais organizada. Isso faz com que as organizações tenham 
critérios distintos em diferentes localidades do planeta, ou seja, as organizações 
podem poluir e danificar mais o ambiente em lugares onde a organização social é 
mais frágil. 
Frente a esse contexto, qual o lugar da chamada justiça ambiental? Acselrad 
(2010, p. 113-114) aponta para o seguinte quadro:
Em acepção ampliada e reinterpretada pelos atores sociais do 
país, são compreendidos, assim, como sujeitos da resistência 
à produção de desigualdades ambientais: as vítimas da 
contaminação de espaços não diretamente produtivos – 
entorno de grandes empreendimentos portadores de risco 
e periferias das cidades onde são localizadas instalações 
ambientalmente indesejáveis (lixões, depósitos de lixo tóxico 
etc.) [...].
As lutas por justiça ambiental, tal como caracterizadas 
no caso brasileiro, combinam assim: a defesa dos direitos 
a ambientes culturalmente específicos – comunidades 
tradicionais situadas na fronteira da expansão das atividades 
capitalistas e de mercado; a defesa dos direitos a uma proteção 
ambiental equânime contra a segregação socioterritorial e a 
desigualdade ambiental promovidas pelo mercado; a defesa 
dos direitos de acesso equânime aos recursos ambientais, 
Meio ambiente e direitos humanos
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130
contra a concentração das terras férteis, das águas e do solo seguro 
nas mãos dos interesses econômicos fortes no mercado.
Além disso, destaca Acselrad (2010), é preciso estar atento para os direitos das 
populações futuras e, para tanto, o autor aponta para a necessidade de evitar que os 
mais pobres paguem a conta da degradação ambiental, na medida em que, enquanto 
houver a possibilidade de transferir para os mais pobres os custos ambientais do 
desenvolvimento, não haverá mudanças significativas. É nesse processo que se faz a 
articulação, como mostra o autor, da justiça social com a proteção ambiental. 
Por fim, podemos notar que a questão dos direitos humanos sempre está atrelada 
a questões políticas, sociais e culturais, o que envolve uma busca contínua de 
diálogos com os diversos grupos sociais que compõem as sociedades. A busca por 
um ambiente saudável e a garantia da sustentabilidade ambiental para as gerações 
futuras depende do respeito às diferenças e, principalmente, da garantia da dignidade 
humana a todos os grupos sociais.
1. Considere as afirmações a seguir sobre a relação entre 
direitos humanos e meio ambiente: 
I − A ONU tem apontado que o ambiente é precondição para 
o pleno exercício dos direitos humanos, ou seja, os estados 
deveriam incluir a garantia de proteção ao ambiente para a 
garantia do exercício dos outros direitos.
II – A ONU também tem chamado a atenção para a importância 
de acesso à informação, à participação na tomada das decisões 
e à justiça como fundamentais para se atingir a proteção ao 
ambiente.
III − O direito a um ambiente seguro, sadio e ecologicamente 
equilibrado deveria ser considerado um direito humano. 
Porém, para a ONU, esse é um aspecto que deve ser observado 
somente em países em desenvolvimento.
Assinale a alternativa correta: 
a) Estão corretas somente as afirmações I e II.
Meio ambiente e direitos humanos
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131
b) Estão corretas somente as afirmações II e III. 
c) Estão corretas somente as afirmações I e III.
d) Está correta somente a afirmação I.
e) Está correta somente a afirmação III.
2. Por que, ao falarmos em crise ambiental, não podemos 
pensar somente em grandes efeitos que acometem o planeta 
como um todo? 
Nesta unidade, vimos:
• A história dos direitos humanos: nesta seção, refletimos sobre 
a noção do indivíduo no Ocidente moderno e a maneira como 
essa noção fundamentou os direitos humanos.
• A ideia de dignidade e igualdade humana: a ideia central, aqui, 
foi a da dificuldade em se pensar na universalidade de direitos em 
um mundo tão diverso.
• Discutimos o multiculturalismo e a concepção multicultural 
dos direitos humanos.
• Vimos o problema das minorias sociais e a dificuldade de se 
tratar as relações entre direitos individuais e direitos coletivos. 
• Tratamos da relação entre direitos humanos e meio ambiente; 
analisamos a relação entre justiça ambiental e justiça social. 
• Discutimos os impasses entre desenvolvimento e 
sustentabilidade.
Chegamos ao fim de nossa leitura, o que deve nos levar a 
aprofundar as novas reflexões. Como vimos, o tema aqui tratado 
Meio ambiente e direitos humanos
U3
132
é de extrema complexidade, pois envolve uma variedade enorme 
de conceitos e abordagens. 
Iniciamos discutindo a história dos direitos humanos, o que 
nos levou a refletir sobre a ideia de indivíduo, já que esse corpo 
normativo se apoia nos valores da sociedade ocidental moderna, 
que, por sua vez, tem seus próprios valores morais e filosóficos. 
O fato de os direitos humanos serem constituídos a partir de 
fundamentos locais e se colocarem como uma ferramenta global 
e universal nos levou a discutir os limites desses direitos ao se 
depararem com sociedades nas quais a cultura, muitas vezes, 
leva a um certo distanciamento dos valores contidos nos direitos 
humanos universais, o que obriga ao estabelecimento de um 
diálogo intercultural de difícil realização. 
Se a dificuldade ocorre na relação entre culturas de Estados-nação 
diferentes, não é diferente no interior de um mesmo Estado-nação, 
que comporta grupos com diferentes modos de vida e visões de 
mundo. Tal constatação leva ao debate sobre a aplicabilidade dos 
direitos humanos na garantia de direitos coletivos dos grupos 
sociais que compõem as chamadas minorias. Isso ficou evidente 
quando analisamos, por exemplo, a questão indígena brasileira. 
À parte as críticas aqui tecidas ao pressuposto da universalidade 
contida nos direitos humanos, é inegável o avanço que esse corpo 
normativo trouxe para a sociedade humana. Os direitos humanos, 
mesmo apoiados nos direitos individuais, vêm possibilitando a 
garantia de direitos coletivos das minorias, sendo uma importante 
ferramenta internacional na busca de igualdade social e respeito à 
autonomia dos diferentes grupos sociais. 
Por fim, refletimos sobre o meio ambiente como um direito 
humano, o que remete à reflexão sobre a relação entre direito a um 
meio ambiente saudável e direitos sociais. Isso acontece porque os 
impactos ambientais sempre acabam por atingir mais fortemente 
as populações mais vulneráveis da Terra
1. A relação entre universal e particular é um tema fundamental 
quando se discutem os direitos humanos universais. Nesse 
Meio ambiente e direitos humanos
U3
133
2. Considere as afirmações a seguir sobre a questão das terras 
indígenas:
I − O uso indígena do território é diferente da maneira como 
o não índio utiliza a terra, pois para as sociedades indígenas o 
território é muito mais do que uma maneira de se manterem 
materialmente. 
II − Podemos afirmar que o território indígena é fundamental 
para sua manutenção e reprodução cultural, pois o território 
é interpretado de modo simbólico por esses povos. 
III – Há uma dificuldade em se conciliar os direitos humanos 
universais e a concepção de direitos coletivos dos povos 
indígenas. Esses grupos, até hoje, ainda, não conseguiram 
reconhecimento internacional de seus direitos. 
Assinale a alternativa correta: 
a) Estão corretas somente as afirmações I e III. 
b) Estão corretas somente as afirmações II e III.
c) Estão corretas somente as afirmações I e II. 
sentido, analise as afirmações a seguir: 
I − Diferentes modosde vida implicam diferentes maneiras 
de organização social e, portanto, também pode acarretar em 
diversos modos de se pensar os direitos fundamentais.
II – Os direitos humanos universais se propõem como 
universais, porém o problema é que esses direitos se 
construíram tomando como base um corpo de valores 
próprios às sociedades ocidentais, particularmente da Europa. 
III − O desafio que nos deparamos, portanto, é o de relacionar 
esse corpo normativo às diferentes sociedades e culturas, tal 
tarefa exige a construção de um diálogo intercultural. 
Assinale a alternativa correta: 
a) Estão corretas somente as afirmações I e II.
b) Estão corretas somente as afirmações I e III. 
c) Estão corretas somente as afirmações II e III.
d) Estão corretas as afirmações I, II e III. 
e) Está correta somente a afirmação I.
Meio ambiente e direitos humanos
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d) Está correta somente a afirmação I.
e) Está correta somente a afirmação III.
3. Considere as afirmações a seguir sobre a relação entre 
desenvolvimento e meio ambiente:
I – A legitimidade à proteção ambiental esbarra em ideias que 
colocam a proteção ao meio ambiente como um entrave 
ao desenvolvimento e, portanto, à resolução de problemas 
sociais.
II – Podemos concluir que a proteção ambiental tem sido 
excessiva, causando entraves para o desenvolvimento e a 
diminuição das desigualdades sociais, especialmente no 
Brasil. 
III − Um termo importante nesse debate é o de 
“ambientalização”, que se refere a um discurso ambiental 
genérico para justificar e legitimar práticas institucionais, 
políticas, científicas.
Assinale a alternativa correta:
a) Estão corretas somente as afirmações I e II. 
b) Estão corretas somente as afirmações II e III. 
c) Estão corretas somente as afirmações I e III. 
d) Está correta somente a afirmação I.
e) Está correta somente a afirmação II.
4. Considere as afirmações a seguir sobre o ambientalismo 
brasileiro:
I – As ambiguidades desse período aparecem na visão 
pragmática estatal e empresarial versus a crítica ao modelo 
de desenvolvimento hegemônico; na ideia de uma certa 
modernização ecológica do capitalismo brasileiro. 
II – Nos anos de 1990, também há um debate maior em relação 
aos sujeitos que reivindicam fazer parte do “movimento 
ambientalista”, ou seja, organizações e grupos que buscam 
legitimidade para falar/atuar na área ambiental. 
III − O ambientalismo brasileiro toma força a partir dos anos 
de 1990. Nesse período, temos um aumento significativo de 
Meio ambiente e direitos humanos
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5. Analise as afirmações a seguir, levando em conta as 
reflexões realizadas sobre a relação entre justiça ambiental e 
justiça social, bem como sobre as perspectivas contracultural 
e utilitarista:
I − As noções de justiça ambiental e de justiça social estão 
diretamente vinculadas. As questões ambientais podem estar 
relacionadas, por exemplo, ao tema do emprego e da renda. 
II − Diversos atores sociais têm criticado o estilo de vida 
hegemônico baseado na apropriação do mundo material 
para o consumismo e para a industrialização química 
da agricultura; esses agentes podem ser associados à 
perspectiva contracultural. 
III − Para a razão utilitária, o meio ambiente é composto 
estritamente de recursos materiais, sem conteúdos 
socioculturais específicos e diferenciados levando ao risco 
de inviabilização crescente da cidade produtiva, por poluição, 
congestionamento etc.
IV – A razão utilitária considera os conteúdos socioculturais 
que estão atrelados ao espaço ambiental, bem como critica o 
uso de recursos naturais para a geração de riqueza ou lucro. 
Assinale a alternativa correta: 
a) Somente as afirmações I e II estão corretas.
b) Somente as afirmações I e III estão corretas. 
c) Somente as afirmações I, II e III estão corretas.
d) Somente as afirmações II, III e IV estão corretas.
e) Somente as afirmações I, II e IV estão corretas.
organizações profissionalizadas e com maior capacidade de 
arrecadação de recursos.
Assinale a alternativa correta: 
a) Estão corretas somente as afirmações I e II.
b) Estão corretas somente as afirmações II e III. 
c) Estão corretas somente as afirmações I e III. 
d) Está correta somente a afirmação III. 
e) Está correta somente a afirmação I.
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em: <https://www.unicef.org/brazil/pt/resources_10120.htm>. Acesso em: nov. 2016.
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on economic, social and cultural rights. 18 jun. 2008. Disponível em: <http://www.
ohchr.org/EN/ProfessionalInterest/Pages/OPCESCR.aspx>. Acesso em: nov. 2016.
DESENVOLVIMENTO 
SUSTENTÁVEL E EDUCAÇÃO 
AMBIENTAL
Nesta seção, serão apresentadas as bases teóricas do presente 
estudo que fundamentarão o tema proposto. Para tanto, serão tratadas 
as seguintes temáticas: Desenvolvimento Social e Sustentável, Políticas 
Públicas e Meio Ambiente. Neste, veremos as boas práticas de políticas 
visando ao bem-estar da sociedade, o qual apresentaremos o programa 
“Cidades Sustentáveis”. Trataremos estas práticas a partir do contexto da 
Responsabilidade Social e da sustentabilidade socioambiental.
Nesta seção, mostraremos que os reflexos desse contexto para o 
ambiente corporativo, que exige mudanças na forma de gerenciar os 
processos produtivos, administrativos e também as pessoas, precisam 
ser repensados, pois o excesso da busca constante de riquezas e de 
exploração do meio ambiente força a necessidade de estudos e de 
novas alternativas para o equilíbrio socioambiental. Neste sentido, a 
Seção 1 | O desenvolvimento social e sustentável
Seção 2 | Tecnologia e sustentabilidade
Objetivos de aprendizagem: 
Nesta unidade, você vai aprender sobre a importância das políticas 
públicas para o desenvolvimento sustentável e a educação ambiental, 
tendo como exemplos de boas políticas as que surgem a partir do programa 
"Cidades Sustentáveis". Neste sentido, tem-se como objetivo o estudo sobre 
sustentabilidade socioambiental; conflitos socioambientais; meio ambiente, 
tecnologia e sustentabilidade; fundamentos políticos da proteção do meio 
ambiente.
Sérgio de Goes Barboza
Unidade 4
Desenvolvimento sustentável e educação ambiental
U4
140
sustentabilidade e o uso de inovações tecnológicas são necessárias 
para repensar a estabilização da relação homem e natureza. Percebe-
se a necessidade, além dos instrumentais técnicos, também de 
comprometimentos com as consequências em todas as dimensões em 
que se pode trabalhar a sustentabilidade.
Desenvolvimento sustentável e educação ambiental
U4
141
Introdução à unidade
Nesta unidade, na primeira seção, apontaremos algumas considerações 
importantes referentes às políticas públicas. A intenção é mostrar a importância de 
construir políticas com base em indicadores e a realização de programas, como 
exemplo, “Cidades Sustentáveis”. A partir destas ações, as Políticas Públicas têm como 
proposta a harmonia na relação entre o homem e o meio ambiente fundamental 
para a sustentabilidade social e ambiental.
A sustentabilidade pode ser definida, também, como o desenvolvimento de 
ações para o meio ambiente e a sociedade, capazes de satisfazer as necessidades 
dessa sociedade sem prejudicar as oportunidades das gerações futuras. Portanto, 
o objetivo é mostrar que as políticas públicas devem partir das primícias focadas na 
essência desta temática. Não perpassaremos pelas nomeações de leis e políticas 
específicas sobre a área social e ambiental, mas o que se pretende é mostrar que a 
gênese da política ambiental brasileira tem como preocupação explícita a proteção, 
conservação e o uso dos recursos ambientais. Nos dias atuais, essa preocupação 
não é somente brasileira, mas ocorre em nível internacional.
O que se pretende, na primeira seção deste estudo, é mostrar que a falta de 
planejamento de responsabilidade socioambiental incentiva o crescimento 
desordenado dos municípios brasileiros; além disso, os excessos de consumo 
esgotam os recursos naturais. Portanto, a intenção é dar a ênfase de que a consciência 
política é fundamental na prática da Responsabilidade Social. Neste sentido, 
mostraremos um exemplo de carta de adesão ao Programa Cidades Sustentáveis, 
em que os prefeitos das cidades brasileiras assinam assumindo o compromisso 
com as ações para uma cidade sustentável. Neste documento, o prefeito concorda 
em produzir um documento de Diagnóstico da Situação atual que contenha, no 
mínimo, os indicadores básicos da Plataforma Cidades Sustentáveis. 
Perpassaremos também pela análise do termo “Responsabilidade Social”, 
demonstrando que, ao contrário do seu real significado, esta terminologia é, muitas 
vezes, denominada para ações que na prática são puramente filantrópicas. Neste 
caso, o que se pretende é mostrar a distinção entre Responsabilidade Social e 
Filantropia, o que se conclui que uma organização deve assumir obrigações de 
caráter moral, além das estabelecidas em lei. Em função da complexidade das 
relações internacionais e da necessidade de conservação do meio ambiente, o 
homem estabelece uma série de direitos considerados fundamentais para o convívio 
entre os povos. Sabe-se que existe um distante consenso entre a teoria e a prática. 
Desenvolvimento sustentável e educação ambiental
U4
142
Neste contexto, a sociedade precisa cobrar dos governantes aquilo que foi 
estabelecido na teoria, fazendo, portanto, se estabelecer na prática. Esta proposta de 
reflexão é fazer com que o estudante tenha em mente que o Brasil deve conduzir 
suas relações internacionais tendo como objetivo a cooperação entre os povos 
para o progresso de toda a sociedade e, consequentemente, a proteção do meio 
ambiente, que é uma das partes importantes quando o assunto é a qualidade de vida 
das pessoas. Esta compreensão parte do questionamento: quais são os fundamentos 
da República? Não é o princípio da dignidade da pessoa humana? E o objetivo 
fundamental não é o desenvolvimento do país? Sendo assim, esta proposta não deve 
ficar só no âmbito da teoria, mas se concretizar.
Na segunda seção, tem-se como proposta descrever sobre as transformações 
que ocorreram ao longo dos últimos anos e que foram possível perceber, e 
acompanhar as transformações da sociedade advindas da globalização da economia 
e da revolução das tecnologias de comunicação e informação. Portanto, a ênfase 
aqui é a tecnologia ligada à sustentabilidade.
Observam-se, nas ações de desenvolvimento ambiental sustentável, as ideias 
positivas quanto às novas tecnologias, aquelas que conservem recursos e reduzam 
a poluição e se apresentam como um instrumento adequado que ajuda na busca da 
qualidade de vida, porém, por outro lado, há também uma certa desconfiança em 
relação às promessas e aos riscos das novas tecnologias. Compreende-se, portanto, 
que embora as tecnologias oferecem imensas oportunidades, é preciso também 
observar e compreender os possíveis riscos e entender o papel e a eficiência na 
consecução da sustentabilidade.
Quanto aos fundamentos políticos da proteção do meio ambiente, refletiremos 
sobre os discursos produzidos, hoje, sobre a Responsabilidade Social das empresas 
e sobre o que proporcionou o surgimento das organizações não governamentais 
como mais uma possibilidade de buscar soluções imediatas aos problemas mais 
emergentes. Busca-se, portanto, uma análise da Responsabilidade Social em 
comparação às responsabilidades jurídicas.
Desenvolvimento sustentável e educação ambiental
U4
143
Seção 1
O desenvolvimento social e sustentável
Nesta seção, você compreenderáa importância das políticas públicas no 
desenvolvimento de uma cidade, ou seja, buscando fazer sempre o melhor para 
a cidade e, consequentemente, para a população. Neste sentido, as Políticas 
Públicas visando à harmonia na relação entre o homem e o meio ambiente, além de 
corresponderem aos direitos assegurados constitucionalmente, são fundamentais 
pela sustentabilidade social e ambiental.
Introdução à seção
Por que é importante as políticas públicas para o desenvolvimento sustentável e 
a educação ambiental?
Porque a devastação da natureza é uma realidade e o que se vê de forma 
concreta é a desertificação crescente. Neste sentido, é importante que sejam 
realizadas políticas públicas comprometidas com o desenvolvimento sustentável 
e, principalmente, com a conscientização da sociedade pela educação ambiental. 
Como mencionam Araújo e Arruda (2010, p. 289):
1.1 Políticas públicas e meio ambiente
A problemática ambiental é corrente no mundo todo, pois 
com o advento do capitalismo e das Revoluções Industriais, 
a alteração nos padrões de consumo e climático promoveu 
uma ação desenfreada que pôs em xeque a forma de vida pós-
moderna. O alto crescimento do consumo é conflitante com 
o meio ambiente, ocasionando degradação ecológica e via de 
regra, social. Isto posto, é essencial que haja a preocupação 
com a educação ambiental, com o desenvolvimento 
sustentável e com o desenvolvimento e a implementação de 
políticas públicas que são necessárias para coibir o avanço da 
Desenvolvimento sustentável e educação ambiental
U4
144
desertificação e transformar a realidade ambiental e humana das 
áreas afetadas. No Brasil há um clima propício para o surgimento 
do processo de desertificação que é o do semiárido nordestino, 
que abrange além dos estados do Nordeste, o norte de Minas 
Gerais e o oeste da Bahia, cujas ações antrópicas, historicamente, 
em razão dos usos e costumes, comprometem o frágil ecossistema 
da Caatinga. O desenvolvimento sustentável atrelado a uma 
educação ambiental profícua, com políticas públicas orientadas 
para o combate e mitigação dos efeitos da desertificação, podem 
mudar o panorama ecológico-social do interior nordestino. 
As questões sobre “homem e natureza” são recíprocas, considerando que um 
depende do outro para a sobrevivência e a continuidade de ambos. Sabe-se que o 
homem, ao explorar a natureza na produção de bens necessários para a vida, afeta 
diretamente a sociedade e o seu desenvolvimento. Se há, de um lado, a degradação 
ecológica, necessariamente há degradação social, poi o homem e a natureza se 
relacionam no mesmo espaço geográfico.
Neste sentido, as Políticas Públicas visando à harmonia nesta relação entre 
o homem e o meio ambiente são fundamentais pela sustentabilidade social e 
ambiental. Esta preocupação com o meio ambiente não é recente:
A gênese da política ambiental brasileira, preocupada 
explicitamente com a proteção, conservação e uso dos 
recursos ambientais, pode ser datada do primeiro governo de 
Vargas. A partir desse momento, a política ambiental sofreu 
alterações significativas, culminando com a promulgação da 
Constituição de 1988. O início das ações governamentais 
no campo das políticas de meio ambiente corresponde à 
adoção, em 1934, do Código das Águas, do Código de Minas 
e do Código Florestal, além da criação, em 1937, do Parque 
Nacional de Itatiaia e da legislação de proteção ao patrimônio 
histórico e artístico nacional. De um modo geral, o primeiro 
momento da política ambiental brasileira foi marcado por 
duas preocupações básicas: a racionalização do uso e 
exploração dos recursos naturais e a definição de áreas de 
preservação permanente, estabelecendo, assim, alguns limites 
à propriedade privada (SALHEB et al., 2009, p. 8).
Desenvolvimento sustentável e educação ambiental
U4
145
Atualmente, o que se tem apresentado como exemplo de boas políticas nesta 
área é o programa "Cidades Sustentáveis".
O que são cidades sustentáveis? Primeiramente, vamos entender o que é 
sustentabilidade. Está é a palavra de ordem no mundo hoje, que significa a ação 
de nossos governantes quanto ao planejamento, boa gestão, consciência política, 
participação, economia responsável, compromisso com os valores humanos e 
cuidado com a natureza e as pessoas. Todas essas ações são locais, porém com 
visão global.
Portanto, as cidades sustentáveis são aquelas cujos governantes têm um olhar para 
os verdadeiros problemas das cidades, como mobilidade, iluminação com células 
solares, políticas de reduções de carbono, a questão da biodiversidade, resíduos 
sólidos, redução das emissões de gases que causam o efeito estufa, conservação dos 
recursos naturais e proteção ambiental. Assim, a meta de qualquer governante deve 
ser o de fortalecer esta rede de cidades que buscam o desenvolvimento sustentável.
Não somos todos nós responsáveis pela cidade onde 
moramos?
Cobramos ou fiscalizamos as políticas municipais quanto aos 
principais enfrentamentos da cidade?
Qual é o seu comportamento e o da população de sua 
cidade com relação às ações de responsabilidade social e 
sustentabilidade?
Os governantes de todo o país, assim como também os partidos políticos, podem 
confirmar seu compromisso com o desenvolvimento sustentável assinando a Carta-
Compromisso. Candidatos à Câmara Municipal também podem aderir ao programa 
assinando o documento específico para o legislativo. 
A seguir, um exemplo de carta de adesão ao Programa Cidades Sustentáveis, em 
que os prefeitos das cidades brasileiras assinam assumindo o compromisso com as 
ações para uma cidade sustentável:
Desenvolvimento sustentável e educação ambiental
U4
146
Fonte: <http://www.cidadessustentaveis.org.br/downloads/carta-compromisso/carta-adesao-pcs.pdf>. Acesso em: 7 dez. 
2016.
Desenvolvimento sustentável e educação ambiental
U4
147
Conheça os doze eixos da plataforma Cidades Sustentáveis:
PROGRAMA CIDADES SUSTENTÁVEIS. Eixos da Plataforma Cidades 
Sustentáveis. Disponível em: <http://www.cidadessustentaveis.org.br/
eixos>. Acesso em: 7 dez. 2016.
A tendência das cidades é crescerem e aparecerem novos problemas, aqui 
encontram-se os grandes desafios da urbanização. Neste sentido, o planejamento 
tem uma relevância fundamental para a preservação e a sustentabilidade em todas 
as suas dimensões: social, ambiental, econômica, espacial etc. Os governantes, em 
conjunto com a sociedade, devem estudar, observar os indicadores e pôr em práticas 
as ações que visam à qualidade de vida da população atual, assim como ter o cuidado 
de garantir que as gerações futuras também tenham esta mesma qualidade.
Atualmente, metade da população mundial está na área urbana. Diante deste 
contexto, a zona rural e as pequenas cidades estão se esvaziando e as cidades de 
porte médio e as grandes cidades estão tendo sua população aumentando. Conforme 
podemos constatar pelos dados do IBGE sobre os desafios da urbanização:
A crescente urbanização coloca grandes desafios aos governos 
e países. Segundo o relatório anual das Nações Unidas, cerca 
de 160 mil pessoas abandonam, todos os dias, as zonas rurais e 
vão para as cidades. Atualmente, quase metade dos habitantes 
do planeta vive em zonas urbanas. As consequências são o 
agravamento das condições de vida e a falta de infraestrutura 
adequada para satisfazer as necessidades sempre crescentes 
nas cidades. [...] O crescimento se deu, sobretudo, nas grandes 
cidades. Os municípios de mais de 100 mil habitantes que 
contavam, em 1991, com 70,8 milhões de pessoas, passaram 
para 86,5 milhões em 2000. Os municípios com mais de 
500 mil, que contavam com 38,8 milhões de habitantes, 
alcançaram 46,9 milhões em 2000. Já os municípios, com 
populações entre 10 e 100 mil habitantes, apresentaram baixo 
crescimento entre os dois últimos censos (IBGE, 2001, p. 1).
Aqui se explicam os grandes desafios dos governos e da sociedade para os 
novos enfrentamentos e, consequentemente, a criação de novas políticas visando 
amenizar os problemas enfrentados.Desenvolvimento sustentável e educação ambiental
U4
148
A consciência política, o compromisso com os valores humanos e o cuidado 
com a natureza e as pessoas estão caracterizados ou deveriam estar implícitos na 
ação dos governos das três esferas, federal, estadual e municipal, sendo dado a esta 
última uma ênfase maior com relação às cidades.
A falta de planejamento de responsabilidade socioambiental incentiva o 
crescimento desordenado dos municípios brasileiros, além disso os excessos de 
consumo esgotam os recursos naturais. A consciência política é fundamental na 
prática da Responsabilidade Social.
Quando se trata de “Responsabilidade Social”, ao contrário do seu real significado, 
esta termologia é, muitas vezes, denominada para ações que, na prática, são 
puramente filantrópicas. 
Qual a diferença entre filantropia e Responsabilidade Social? É certo que algumas 
empresas ou outras instituições, sejam elas governamentais ou não governamentais, 
utilizam o termo Responsabilidade Social como marketing para mostrar uma boa 
aparência aos consumidores ou clientes e, muitas vezes, confundem filantropia com 
o real significado do termo Responsabilidade Social (RS). No entanto, a nossa análise 
está em cima do real significado, e não da ação distorcida das instituições quanto 
a esse conceito. Como já mencionamos, a Responsabilidade Social deve constar 
no planejamento estratégico de qualquer instituição, tendo como propósitos a 
sustentação e a continuidade daquilo que foi projetado. Daí o nome sustentabilidade: 
aquilo que se sustenta por si só, cujo trabalho proferido pelo projeto alcance o 
objetivo esperado e significativo, que seja assíduo, que se preserve e se desenvolva. 
Já no caso da filantropia, não há uma responsabilidade, uma transformação e um 
real desenvolvimento, e sim uma dependência. É considerada uma assistência que 
ocorre esporadicamente sem a responsabilidade de prestação de contas, portanto 
não há necessidade de constar no balanço social das instituições. É nesse contexto 
que a análise deste estudo passa pela relação ética ou estética − estética no sentido 
Prefeitos(as) de todo o país e partidos políticos podem confirmar seu 
engajamento com o desenvolvimento sustentável assinando a Carta-
Compromisso 2016 (de candidato(a) a prefeito(a) e de partidos políticos). 
Candidatos à Câmara Municipal também podem aderir ao programa 
assinando o documento específico para o legislativo. As cartas devem 
ser assinadas, escaneadas e enviadas para o e-mail: zuleica@isps.org.br
PROGRAMA CIDADES SUSTENTÁVEIS. Carta-Compromisso 2016. 
Disponível em: <http://www.cidadessustentaveis.org.br/carta-
compromisso-2016>. Acesso em: 7 dez. 2016.
Desenvolvimento sustentável e educação ambiental
U4
149
das aparências, em que se mascara uma realidade, o que se percebe muitas vezes 
nas ações políticas.
Neste contexto, a Responsabilidade Social é muito mais ampla e entra no 
planejamento estratégico de qualquer organização, instituição ou governo.
Confunde-se muitas vezes a Responsabilidade Social com as ações filantrópicas, 
as obrigações sociais e/ou as obrigações jurídicas. Ashley et al. (2002, p. 6) assim 
definem Responsabilidade Social:
Concluindo, como vimos na citação de Ashley et al. (2002, p. 6), “a organização 
assume obrigações de caráter moral, além das estabelecidas em lei”. Vamos entender 
as obrigações jurídicas, constitucionais e Responsabilidade Social.
Quanto à obrigação que está dentro da órbita jurídica, há um dever jurídico que se 
relaciona a uma lei específica ou a um contrato firmado entre as partes. No entanto, 
se considerarmos que constitucionalmente todos têm direito à vida e a viver num 
meio ambiente que proporciona qualidade de vida, como mencionado por meio de 
tratados e convenções internacionais, quanto ao direito fundamental ao meio ambiente 
ecologicamente saudável e equilibrado, significa dizer que, direta ou indiretamente, 
ainda que a Responsabilidade Social não esteja necessariamente incluída no campo 
jurídico, estando mais na consciência das pessoas e das instituições, ela é, mesmo que 
indiretamente, uma obrigação de toda sociedade, fazendo cumprir o que na teoria 
constitucional e nas convenções dos homens está escrito.
[…] compromisso que uma organização deve ter para com a 
sociedade, expresso por meio de atos e atitudes que a afetem 
positivamente, de modo amplo, ou a alguma comunidade, de 
modo específico, agindo proativamente e coerentemente no 
que tange a seu papel específico na sociedade e a sua prestação 
de contas para com ela. A organização, neste sentido, assume 
obrigações de caráter moral, além das estabelecidas em lei, 
mesmo que não diretamente vinculadas a suas atividades, mas 
que possam contribuir para o desenvolvimento sustentável 
dos povos. Assim, numa visão expandida, responsabilidade 
social é toda e qualquer ação que possa contribuir para a 
melhoria da qualidade de vida da sociedade (grifo nosso).
Desenvolvimento sustentável e educação ambiental
U4
150
Em função da complexidade das relações internacionais e 
da necessidade de conservação do meio ambiente o homem 
estabelece uma série de direitos considerados fundamentais 
para o convívio entre os povos. Esses direitos que se 
encontram formalizados por meio de tratados e convenções 
internacionais tomam a forma de uma verdadeira Constituição 
Planetária. Tal Constituição tem como escopo salvaguardar 
os direitos mínimos dos cidadãos e o respeito ao meio 
ambiente para que se torne possível a preservação do planeta. 
Em função disso, constata-se cada vez mais que o direito ao 
meio ambiente saudável se concretiza internacionalmente 
como um direito fundamental, razão pela qual tal direito já 
se encontra preservado dentro da Constituição de diversos 
países, inclusive o Brasil (OTTONI; COSTA, 2012, p. 1).
Quais são os fundamentos da República? Não é o princípio da dignidade da pessoa 
humana? E o objetivo fundamental não é o desenvolvimento do país? O Brasil deve 
conduzir suas relações internacionais tendo como objetivo a cooperação entre os 
povos para o progresso de toda a sociedade e, consequentemente, a proteção do 
meio ambiente, que é uma das partes importantes quando o assunto é a qualidade 
de vida das pessoas.
Portanto, o que se espera de toda a sociedade, das instituições públicas e 
privadas, das governamentais e não governamentais, da sociedade civil e de outras 
com relação à dignidade humana tanto na convivência social quanto aos aspectos 
do trabalho é um comportamento ético, transparente, que não seja uma filantropia, 
mas uma responsabilidade de fato. É o trabalho que dignifica o homem e que 
desenvolve o progresso tanto das pessoas quanto da sociedade como um todo.
Sustentabilidade pode ser definida também como o desenvolvimento de ações, 
para o meio ambiente e a sociedade, capazes de satisfazer as necessidades dessa 
sociedade sem prejudicar as oportunidades das gerações futuras. 
1.2 Sustentabilidade socioambiental 
O conceito de sustentabilidade e desenvolvimento sustentável
O conceito de sustentabilidade comporta sete aspectos ou dimensões 
Desenvolvimento sustentável e educação ambiental
U4
151
principais: Social, Econômica, Ecológica, Cultural, Espacial, Política 
e Ambiental. Disponível em: <http://www.catalisa.org.br/site/index.
php?option=com_content&view=article&id=30&Itemid=59>. Acesso em: 
7 dez. 2016.
Podemos perceber que um dos papéis mais importantes dos gestores públicos e 
privados é trabalhar, em um primeiro momento, as parcerias, ou seja, as mobilizações 
entre o governo, as instituições e a sociedade civil. Este é um dos caminhos não 
somente para a sustentabilidade social, econômica e ambiental, como para a própria 
sustentabilidade governamental, pois o governante e o empresário precisam ir além 
de suas convicções para proporcionar uma ação dentro da ética da responsabilidade. 
Atualmente, podemos citar como exemplo a Lei da Responsabilidade Fiscal.
A Lei de Responsabilidade Fiscal é um código de condutapara os 
administradores públicos de todo o país, que passa a valer para os três 
poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário), nas três esferas de governo 
(federal, estadual e municipal).
Você sabe definir o que é crise? A crise tem sempre a origem na economia, pois 
a economia, a sociedade e o meio ambiente estão interligados. Por quê? Como 
mencionamos na primeira seção, o homem e a natureza estão num mesmo espaço 
geográfico. O sentido é de desequilíbrio e, no nosso caso, é o desequilíbrio do trinômio 
“economia, sociedade e meio ambiente”. Ao observarmos o problema dos conflitos 
existentes atualmente, chegaremos sempre na questão dos recursos escassos.
1.3 Conflitos socioambientais 
“DESENVOLVIMENTO” “SUSTENTÁVEL”
Será que tais conceitos carregam ideias e, principalmente, 
ideais diferentes?
É possível a junção dos dois termos?
Desenvolvimento sustentável e educação ambiental
U4
152
Os próprios termos “Desenvolvimento” e “Sustentável” podem, considerando o 
ângulo em que são analisados, trazer uma certa reflexão sobre seu significado. 
 Em relação à primeira expressão, a incorporação do “sustentável” ao 
“desenvolvimento” demonstra o reconhecimento de limites para essa ação, buscando 
a harmonia entre desenvolvimento econômico, social e a manutenção do ambiente.
Se considerarmos o atual modo de produção capitalista em que vivemos, a 
concepção de “desenvolvimento” significa crescimento econômico, baseado no lucro 
que é gerado a partir da exploração do homem (mão de obra) e da natureza (matéria-
prima e recursos energéticos). Por outro lado, a palavra “sustentável”, que adjetiva o 
primeiro termo, inclui a ideia de preservação e conservação da natureza a partir do uso 
racional dos recursos e qualidade de vida para todos. Desse modo, surgiu a questão: 
será possível um desenvolvimento, aos moldes do que conhecemos atualmente, que 
seja sustentável?
Nesse debate, existem os que acreditam que isso seja possível: o modelo 
hegemônico pode ser ajustado para se alcançar um equilíbrio, buscando, nos avanços 
tecnológicos, as soluções para a problemática ambiental, sem questionar o padrão 
de produção e consumo atual. Por outro lado, há os que acreditam ser o termo 
desenvolvimento sustentável controverso, pois como conseguir ser sustentável em 
um modelo de desenvolvimento que precisa justamente explorar pessoas e recursos 
naturais para se manter?
O levantamento da percepção ambiental e da realidade de cada cidade ou espaço 
geográfico deve obedecer aos requisitos e aos indicadores para uma ação mais eficaz.
Para tratarmos de questões ambientais, precisamos entender a relação homem 
e natureza, conhecer o universo das pessoas e perceber seus problemas e, 
consequentemente, o meio em que estão inseridas.
1. Por que é importante as políticas públicas para o 
desenvolvimento sustentável e a educação ambiental?
2. O que são cidades sustentáveis? 
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153
Seção 2
Tecnologia e sustentabilidade
Nas questões de tecnologia e sustentabilidade, há uma relação compatível com as 
transformações ocorridas na sociedade contemporânea. A tecnologia é vista como 
um instrumento que oferece imensas oportunidades para elevar a produtividade e 
os padrões de vidas da população, no entanto, é possível perceber a necessidade 
de observação e avaliação dos riscos. Nesta seção, procuraremos mostrar que a 
responsabilidade social não é somente do Estado, ou que não devemos esperar 
pela vontade de cumprir a sua função, mas que todos nós, cidadãos, temos papel 
fundamental neste processo. São muitos os desafios para que se possam atingir os 
objetivos necessários, embora possa haver desconfiança, a inovação tecnológica e a 
sustentabilidade são causas inspiradoras para muitos profissionais da área ambiental.
Introdução à seção
O mundo está em transformação e, ao longo dos últimos anos, foi possível 
perceber e acompanhar as transformações da sociedade advindas da globalização 
da economia e da revolução das tecnologias de comunicação e informação. 
Este processo de globalização afeta, hoje, todas as esferas da sociedade, seja ela 
econômica, política, científica, sociocultural e até mesmo educativa.
Os reflexos desse contexto para o ambiente corporativo, que exige mudanças 
na forma de gerenciar os processos produtivos, administrativos e também as 
pessoas, precisam ser repensados, pois o excesso da busca constante de riquezas 
e de exploração do meio ambiente força a necessidade de estudos e de novas 
alternativas para o equilíbrio socioambiental. Neste sentido, a sustentabilidade e o uso 
de inovações tecnológicas são necessárias para repensar a estabilização da relação 
homem e natureza. Percebe-se a necessidade, além dos instrumentais técnicos, 
também de comprometimentos com as consequências em todas as dimensões em 
que se pode trabalhar a sustentabilidade.
2.1 Tecnologia e desenvolvimento humano
Desenvolvimento sustentável e educação ambiental
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154
Quando se fala em preservação do meio ambiente, qualidade de vida das pessoas 
e Direitos Humanos, passamos pela questão da sustentabilidade, que é primordial 
nos dias atuais. Neste contexto, tanto a sustentabilidade quanto a tecnologia estão 
intrinsecamente relacionadas. A inovação e as novas técnicas são consideradas como 
a opção mais atraente e criativa quanto aos impactos ambientais enfrentamentos 
pelas instituições. 
Embora, de um lado, se observa o apoio ao desenvolvimento ambiental 
sustentável que perpassa por uma ideia positiva quanto às novas tecnologias, 
aquelas que conservem recursos e reduzam a poluição e se apresenta como um 
instrumento adequado que ajuda na busca da qualidade de vida, por outro lado há 
também uma certa desconfiança em relação às promessas e aos riscos das novas 
tecnologias, como podemos observar a seguir:
Quando se fala de desenvolvimento humano, apesar de tantas 
adversidades, existe ainda esperança de que as novas tecnologias 
irão conduzir para vidas mais saudáveis, maiores liberdades sociais, 
conhecimento e meios de vida mais dignos (ALMEIDA, 2016, p. 52).
A tecnologia continuará a mudar a tessitura social, econômica 
e cultural das nações e da comunidade mundial. Administradas 
com cautela, as tecnologias novas e emergentes oferecem 
imensas oportunidades para elevar a produtividade e os 
padrões de vida, melhorar a saúde e conservar a base de 
recursos naturais. Muitas também trarão novos riscos, exigindo 
maior capacidade para avaliá-los e administrá-los (COMISSÃO 
MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO, 
1991, p. 358, grifo nosso).
Portanto, embora as tecnologias ofereçam imensas oportunidades, é também 
preciso observar e compreender os possíveis riscos e entender o papel e a eficiência 
na consecução da sustentabilidade.
São muitos os desafios para que se possam atingir os objetivos necessários, 
embora possa haver desconfiança, a inovação tecnológica e a sustentabilidade são 
causas inspiradoras para muitos profissionais da área ambiental.
Desenvolvimento sustentável e educação ambiental
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Fonte: Kickante (2016, p. 1).
Figura 4.1 | Tecnologia e Meio Ambiente
O mundo natural traz incógnitas e muito esforço para buscar o tão esperado 
equilíbrio e vencer os desafios da contradição entre os termos “desenvolvimento”, 
que tem por significado o progresso socioeconômico e, ao mesmo tempo, a 
“sustentabilidade”, que freia e determina a necessidade de analisar os avanços 
buscando valorizar o meio natural.
Estudos sobre o desenvolvimento humano iniciaram-se 
por volta dos anos 50, quando muitos territórios coloniais 
tornaram-se independentes. A ONU denominou a década 
de 60 como a Primeira Década das Nações Unidas para o 
Desenvolvimento, imaginando que através da cooperação 
internacional, proporcionando crescimento econômico pela 
transferência de tecnologia, experiência e fundos monetários, 
os problemas dos países subdesenvolvidos pudessem ser 
rapidamente desenvolvidos. Tal otimismo dissolveu-se 
poucos anos maistarde, quando se verificou o crescimento 
da pobreza e das desigualdades, no assim chamado Terceiro 
Mundo (CORDANI, 1995, p. 13).
O Brasil tem muito ainda a se desenvolver na área tecnológica, utilizando-a 
para a concretização do Desenvolvimento Sustentável e Ambiental. Portanto, 
é preciso fazer uso do benchmarking ambiental. Observar as boas práticas por 
meio de comparações competitivas. A partir daí é preciso transformar a realidade 
socioambiental por meio da educação ambiental, buscando formar a consciência e 
a sensibilização das pessoas.
Desenvolvimento sustentável e educação ambiental
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156
No atual contexto da sociedade humana, muitos são os desafios com que nos 
defrontamos. Os problemas sociais, ou mais precisamente, os mais diversos tipos 
de enfrentamentos não são vencidos pelo Estado. Até porque o desenvolvimento 
econômico não foi proporcional ao crescimento econômico. Este se mostrou 
incapaz de solucionar tais enfrentamentos.
Essa ineficiência do Estado proporcionou o surgimento das organizações não 
governamentais como mais uma possibilidade de buscar soluções imediatas aos 
problemas mais emergentes. Nesse caso, entra em ação a sociedade civil para 
defender suas causas e seus problemas.
Entre as medidas econômicas, desde Adam Smith passando pelo Estado do Bem-
Estar Social de Keynes e seguidas pelos neoliberais, nota-se a ausência das funções 
sociais que competem ao Estado, conforme comenta Roman (2004, p. 37):
2.2 Fundamentos políticos da proteção do meio ambiente
O esvaziamento da capacidade do Estado para cumprir 
funções sociais, que lhe cabiam historicamente, deixou um 
vácuo que deve ser preenchido. Inseridos nesse cenário é que 
devemos refletir sobre os discursos produzidos hoje sobre a 
responsabilidade social das empresas.
Se o Estado não dá conta de resolver as soluções para 
uma melhor qualidade de vida da população, quais são os 
caminhos a serem seguidos? Devemos esperar só pela ação 
do Estado?
E as instituições? São obrigadas a contribuir para que a população atual e, 
consequentemente, as gerações futuras possam viver de maneira digna com 
qualidade de vida? À medida que a empresa foi se vendo obrigada a repensar alguns 
de seus valores no sentido de constituir mais que uma realidade econômica, foi sendo 
incorporado à sua filosofia um contexto social, dentro do qual se estabeleceram 
responsabilidades socioambientais.
O meio ambiente está inserido entre os direitos de 3° geração, porém isso 
não significa que as consideradas anteriores sejam excluídas, mas sim esta é uma 
Desenvolvimento sustentável e educação ambiental
U4
157
sequência que traz a ideia de harmonização, de continuidade, complemento. 
Quando mencionamos que a responsabilidade vai além das questões jurídicas e que 
é uma questão moral, neste contexto questionamos: as instituições têm a obrigação 
devida para com a sociedade? Sim, porque a própria Constituição (BRASIL, 2015), no 
art. 225, que assim dispõe:
Neste sentido, quando analisamos a responsabilidade social versus 
responsabilidades jurídicas, verifica-se que as indústrias, por exemplo, precisam, de 
forma direta ou indireta, dos recursos naturais para a realização de sua produção. 
Pergunta-se: de quem são os recursos naturais? Das indústrias? Não, os recursos que 
estão disponibilizados na natureza pertencem à sociedade, no entanto, as empresas 
apropriam-se delas para a devida transformação enquanto matéria-prima, criando 
seus produtos e obtendo lucros com elas. Nesse caso, o que deve ser cobrado é 
pelo trabalho de transformação dos recursos naturais e seu respectivo valor de uso. 
Nesse contexto, entende-se que cada instituição deve dar um retorno da mesma 
proporção em forma de benefícios, tanto ao social quanto ao meio ambiente e, 
consequentemente, ao anfitrião dessa transformação, o trabalhador. Por que as 
indústrias devem se conscientizar disso? Porque, ao extrair a matéria-prima da 
natureza, elas criam gradativamente um passivo ambiental, e assim acabam por 
trazer graves problemas aos indivíduos. É a sociedade que sofre as consequências 
da ação industrial.
Quando falamos de ação industrial, não estamos nos referindo apenas à 
questão da transformação da matéria-prima, mas a toda a trajetória e aos impasses 
decorrentes dessa ação, como a poluição, as doenças e a contribuição para a efetiva 
escassez cada vez mais presente desses recursos, que não são propriedades das 
empresas industriais, mas de toda a sociedade e da biodiversidade. Seria possível 
dizer que essa obrigação seria apenas das indústrias por estarem diretamente ligadas 
às transformações? Necessariamente não, pois se considerarmos que o comércio 
também contribui para a contínua extração dos produtos naturais, então elas, as 
empresas comerciais, além das obrigações sociais ou do cumprimento de suas 
funções sociais, também têm que ser responsáveis socialmente, ou seja, cumprir 
com a sua parte colaborando com o sistema social e ambiental. 
Quanto à obrigação que está dentro da órbita jurídica, há um dever jurídico que 
se relaciona a uma lei específica ou a um contrato firmado entre as partes. No entanto, 
Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente 
equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à 
sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à 
coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as 
presentes e futuras gerações.
Desenvolvimento sustentável e educação ambiental
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158
se considerarmos que, constitucionalmente, todos têm direito à vida e a viver em um 
meio ambiente que proporciona qualidade de vida, como mencionado por meio de 
tratados e convenções internacionais quanto ao direito fundamental ao meio ambiente 
ecologicamente saudável e equilibrado, significa dizer que, direta ou indiretamente, 
ainda que a Responsabilidade Social não esteja necessariamente incluída no campo 
jurídico, estando mais na consciência das pessoas e das instituições, ela é, mesmo que 
indiretamente, uma obrigação de toda sociedade, fazendo cumprir o que na teoria 
constitucional e nas convenções dos homens está escrito.
Entende-se, nesse contexto, que a responsabilidade social das empresas, 
embora seja caracterizada como não obrigatória, algo que se realiza para além da 
lei e da lucratividade, é importante na prática para enfatizar e dar credibilidade à 
teoria constitucional. Portanto, podemos concluir que a responsabilidade social 
é distinta de obrigações até certo limite, não descaracterizando de certa forma 
a sua obrigatoriedade das instituições jurídicas, tendo em sua essência, portanto, 
a necessidade de refletirmos o teor da obrigatoriedade dentro desse conceito 
de responsabilidade social. É certo que as empresas não são obrigadas a realizar 
ações fora da órbita jurídica, teoricamente, no entanto, o que está em jogo são os 
valores morais e a própria pressão do mercado em que a nova visão empresarial 
está marcada pela transição do paradigma industrial para o paradigma pós-industrial. 
Considere-se que as empresas de hoje não podem ser avaliadas com os padrões 
tangíveis de ontem, pois os referenciais intangíveis, como marca, imagem, prestígio 
e confiabilidade decidem a permanência das empresas no mercado, tornando-as 
preferenciais e garantindo ao mesmo tempo a sua continuidade. São as mudanças 
ocorridas na modernidade que forçaram as empresas a saírem de uma visão 
tradicional para uma nova forma de administração quebrando os paradigmas 
tradicionais. A responsabilidade é de todo o grupo social, governo e sociedade civil. 
Portanto, há de salientar que:
Isso nos introduz a ideia de substituição das funções essenciais 
do Estado para a iniciativa privada. Esta ideia tem sua vertente 
negativa, porque pode significar abandono social da população, 
no caso brasileiro é quase uma renúncia ao Estado de bem-estar 
social. Entretanto, esta crítica não significa que rechaçamos a 
ideia do engajamento da sociedade como um todo, inclusive 
as empresas, no sentido de viabilizar melhores condiçõesde 
vida. Afinal, a política social depende da participação intensa, 
dinâmica e revitalizadora de todo o aparato social. Todavia, 
esta atitude de substituição pode acelerar o abandono/
redução governamental/estatal das políticas públicas (saúde, 
educação etc.), o que não é desejável sob nenhum ponto de 
Desenvolvimento sustentável e educação ambiental
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159
vista. Dizemos isto, porque aceitar substituições pode desembocar 
num clientelismo e numa manipulação política maniqueísta, 
indesejáveis num modelo de Estado Democrático. Em uma 
democracia insipiente como a nossa, haveria certamente lugar para 
oportunistas (ALMEIDA, 2006, p. 1).
Quais são os fundamentos da República? Não é o princípio da dignidade da pessoa 
humana? E o objetivo fundamental não é o desenvolvimento do país? O Brasil deve 
conduzir suas relações internacionais tendo como objetivo a cooperação entre os 
povos para o progresso de toda a sociedade e, consequentemente, a proteção do 
meio ambiente, que é uma das partes importantes quando o assunto é a qualidade 
de vida das pessoas. Portanto, o que se espera de toda a sociedade, das instituições 
públicas e privadas, das governamentais e não governamentais, da sociedade civil e 
de outras com relação à dignidade humana tanto na convivência social quanto aos 
aspectos do trabalho é um comportamento ético, transparente, que não seja uma 
filantropia, mas uma responsabilidade de fato. É o trabalho que dignifica o homem e 
que desenvolve o progresso tanto das pessoas quanto da sociedade como um todo.
1. Quando mencionamos que a responsabilidade vai além das 
questões jurídicas e que é uma questão moral, neste contexto 
questionamos: por que as instituições têm a obrigação devida 
para com a sociedade?
2. Entende-se que a Responsabilidade Social das empresas, 
embora seja caracterizada como não obrigatória, algo que 
se realiza para além da lei e da lucratividade, é importante na 
prática para enfatizar e dar credibilidade à teoria constitucional 
e à sua própria existência no mercado. Por quê? 
É importante que sejam realizadas Políticas Públicas 
comprometidas com o desenvolvimento sustentável e, 
Desenvolvimento sustentável e educação ambiental
U4
160
principalmente com a conscientização da sociedade pela educação 
ambiental.
Como mencionam Araújo e Arruda (2010, p. 289), “O alto 
crescimento do consumo é conflitante com o meio ambiente, 
ocasionando degradação ecológica e via de regra, social”. 
Portanto, as Políticas Públicas, visando à harmonia nesta relação 
entre o homem e o meio ambiente, são fundamentais pela 
sustentabilidade social e ambiental.
E, atualmente, o que se tem apresentado como exemplo de boas 
políticas nesta área é o programa "Cidades Sustentáveis".
As cidades sustentáveis são aquelas cujos governantes têm um 
olhar para os verdadeiros problemas das cidades, como mobilidade, 
iluminação com células solares, políticas de reduções de carbono, a 
questão da biodiversidade, resíduos sólidos, redução das emissões 
de gases que causam o efeito estufa, conservação dos recursos 
naturais e proteção ambiental.
A falta de planejamento de responsabilidade socioambiental 
incentiva o crescimento desordenado dos municípios brasileiros, 
além disso os excessos de consumo esgotam os recursos naturais. 
A consciência política é fundamental na prática da responsabilidade 
social.
A responsabilidade social deve constar no planejamento estratégico 
de qualquer instituição, tendo como propósitos a sustentação e a 
continuidade daquilo que foi projetado. Daí o nome sustentabilidade: 
aquilo que se sustenta por si só, cujo trabalho proferido pelo projeto 
alcance o objetivo esperado e significativo, que seja assíduo, que se 
preserve e se desenvolva.
Já no caso da filantropia, não há uma responsabilidade, uma 
transformação e um real desenvolvimento, e sim uma dependência. 
É considerada uma assistência que ocorre esporadicamente sem 
a responsabilidade de prestação de contas, portanto, não há 
necessidade de constar no balanço social das instituições.
Sustentabilidade pode ser definida também como o desenvolvimento 
de ações para o meio ambiente e a sociedade, capazes de satisfazer 
as necessidades dessa sociedade sem prejudicar as oportunidades 
das gerações futuras.
Os termos “Desenvolvimento” e “Sustentável”, considerando 
a primeira expressão, a incorporação do “sustentável” ao 
“desenvolvimento” demonstra o reconhecimento de limites 
Desenvolvimento sustentável e educação ambiental
U4
161
para essa ação, buscando a harmonia entre desenvolvimento 
econômico, social e a manutenção do ambiente.
Neste sentido, a concepção de “desenvolvimento” significa 
crescimento econômico, baseado no lucro que é gerado a partir da 
exploração do homem (mão de obra) e da natureza (matéria-prima 
e recursos energéticos). Por outro lado, a palavra “sustentável”, 
que adjetiva o primeiro termo, inclui a ideia de preservação e 
conservação da natureza, a partir do uso racional dos recursos e 
qualidade de vida para todos. Desse modo, surgiu a questão: será 
possível um desenvolvimento, aos moldes do que conhecemos 
atualmente, que seja sustentável?
Quando se fala em preservação do meio ambiente, qualidade de 
vida das pessoas e Direitos Humanos, passamos pela questão da 
sustentabilidade, que é primordial nos dias atuais. Neste contexto, 
tanto a sustentabilidade quanto a tecnologia estão intrinsecamente 
relacionadas. A inovação e as novas técnicas são consideradas 
como as opções mais atraentes e criativas quanto aos impactos 
ambientais enfrentamentos pelas instituições. Entende-se, nesse 
contexto, que a responsabilidade social das empresas, embora seja 
caracterizada como não obrigatória, algo que se realiza para além 
da lei e da lucratividade, é importante na prática para enfatizar e dar 
credibilidade à teoria constitucional.
É certo que as empresas não são obrigadas a realizar ações fora da órbita 
jurídica, teoricamente, no entanto, o que está em jogo são os valores 
morais e a própria pressão do mercado em que a nova visão empresarial 
está marcada pela transição do paradigma industrial para o paradigma 
pós-industrial. Considere-se que as empresas de hoje não podem 
ser avaliadas com os padrões tangíveis de ontem, pois os referenciais 
intangíveis, como marca, imagem, prestígio e confiabilidade, decidem 
a permanência das empresas no mercado, tornando-as preferenciais e 
garantindo, ao mesmo tempo, a sua continuidade.
Nesta unidade, você percebeu a importância das políticas 
públicas para o desenvolvimento sustentável e a educação 
ambiental, não no sentido de especificar as Políticas Públicas 
atuais existentes, identificando-as uma a uma, mas com o 
Desenvolvimento sustentável e educação ambiental
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162
objetivo de observar e refletir a essência destas na perspectiva dos 
indicadores e a sua aplicação no que se refere à Responsabilidade 
Social e Sustentabilidade. Portanto, tomamos como exemplo de 
boas práticas as Políticas Públicas que surgem a partir do programa 
"Cidades Sustentáveis", sempre direcionando às temáticas: 
sustentabilidade socioambiental; conflitos socioambientais; meio 
ambiente, tecnologia e sustentabilidade e fundamentos políticos da 
proteção do meio ambiente.
1. Analise os dois textos a seguir:
Texto 1. A consciência política, o compromisso com os 
valores humanos e o cuidado com a natureza e as pessoas 
estão caracterizados ou deveriam estar implícitos na ação 
dos governos das três esferas: federal, estadual e municipal. 
Dado a esta última uma ênfase maior com relação às cidades, 
neste sentido, prefeitos(as) de todo o país e partidos políticos 
podem confirmar seu compromisso com desenvolvimento 
sustentável assinando a carta compromisso. 
Texto 2. As cidades sustentáveis são aquelas que adotam 
uma série de práticas eficientes voltadas para a melhoria 
da qualidade de vida da população, desenvolvimento 
econômico e preservação do meio ambiente. Geralmente, 
são cidades muito bem planejadas e administradas.Atualmente, existem várias cidades no Brasil e no mundo 
que já adotam práticas sustentáveis. Embora não podemos 
encontrar uma cidade que seja 100% sustentável, várias 
delas já praticam ações sustentáveis em diversas áreas (SUA 
PESQUISA, 2016, p. 1).
A partir dos textos acima e considerando as “ações 
sustentáveis” propostas pelo programa "Cidades 
Sustentáveis", analise as afirmações a seguir.
I. Promover comunidades inclusivas e solidárias.
II. Aumento do transporte coletivo e de frotas de táxis, 
visando melhorar a mobilidade urbana.
Desenvolvimento sustentável e educação ambiental
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III. Promover a mobilidade sustentável, reconhecendo a 
interdependência entre os transportes, a saúde, o ambiente 
e o direito à cidade.
IV. Apoiar e criar as condições para uma economia local 
dinâmica e criativa, que garanta o acesso ao emprego sem 
prejudicar o ambiente.
É correto apenas o que se afirma em:
a) I e II.
b) I, III e IV.
c) II e III.
d) II e IV.
e) I, II, III e IV.
2. A carta de adesão ao Programa Cidades Sustentáveis é o 
documento pelo qual os prefeitos assumem o compromisso 
de atuar em prol de uma cidade sustentável. Com relação a 
este documento, julgue as sentenças a seguir:
I. O prefeito concorda em produzir um documento 
diagnóstico da situação atual que contenha, no mínimo, os 
indicadores básicos da Plataforma Cidades Sustentáveis.
II. O diagnóstico será apresentado em até 120 dias após a 
data da assinatura do compromisso.
III. Concorda em publicar e divulgar, em até cinco meses 
antes do final do mandato, um relatório de prestação de 
contas que contenta, no mínimo, os indicadores básicos da 
Plataforma.
IV. Caso seja candidato à reeleição e ganhe um segundo 
mandato, concorda em assumir o compromisso de assinar 
e colocar em prática a íntegra do documento.
É correto o que se afirma apenas em:
a) I e II.
b) I e III.
c) I, II, III e IV.
Desenvolvimento sustentável e educação ambiental
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164
d) I, II e IV.
e) II, III e IV.
3. Quando se trata de “Responsabilidade Social”, ao 
contrário do seu real significado, esta terminologia é muitas 
vezes relacionada a ações que na prática são puramente 
filantrópicas. Sobre a Responsabilidade Social e a Filantropia, 
analise as afirmativas a seguir: 
I. A responsabilidade social deve constar no planejamento 
estratégico de qualquer instituição, tendo como propósitos 
a sustentação e a continuidade daquilo que foi projetado.
II. O nome sustentabilidade: aquilo que se sustenta por si 
só, cujo trabalho proferido pelo projeto alcance o objetivo 
esperado e significativo, que seja assíduo, que se preserve e 
se desenvolva.
III. Na filantropia, não há uma responsabilidade, uma 
transformação e um real desenvolvimento, e sim uma 
dependência.
IV. A filantropia é considerada uma assistência que ocorre 
esporadicamente sem a responsabilidade de prestação de 
contas, portanto não há necessidade de constar no balanço 
social das instituições.
É correto o que se afirma apenas em:
a) II e III. 
b) I e IV.
c) I e III.
d) I, II, III e IV.
e) II e IV.
4. Ashley et al. (2002, p. 6) assim definem Responsabilidade 
Social: 
"[…] compromisso que uma organização deve ter para 
com a sociedade, expresso por meio de atos e atitudes 
Desenvolvimento sustentável e educação ambiental
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165
que a afetem positivamente, de modo amplo, ou a alguma 
comunidade, de modo específico, agindo proativamente 
e coerentemente no que tange a seu papel específico na 
sociedade e a sua prestação de contas para com ela. A 
organização, neste sentido, assume obrigações de caráter 
moral, além das estabelecidas em lei, mesmo que não 
diretamente vinculadas a suas atividades, mas que possam 
contribuir para o desenvolvimento sustentável dos povos. 
Assim, numa visão expandida, responsabilidade social é toda 
e qualquer ação que possa contribuir para a melhoria da 
qualidade de vida da sociedade" (grifo nosso).
Com relação ao texto acima, considerando as frases 
sublinhadas, o autor está querendo dizer que:
I. Quanto à obrigação que está dentro da órbita jurídica, há um 
dever jurídico que se relaciona a uma lei específica ou a um 
contrato firmado entre as partes; portanto, Responsabilidade 
Social é o mesmo que obrigações jurídicas.
II. A responsabilidade social das empresas, embora seja 
caracterizada como não obrigatória, algo que se realiza para 
além da lei e da lucratividade, é importante na prática para 
enfatizar e dar credibilidade à teoria constitucional.
III. Que as empresas não são obrigadas a realizar ações fora 
da órbita jurídica, teoricamente, no entanto, o que está em 
jogo são os valores morais e a própria pressão do mercado 
em que a nova visão empresarial está marcada pela transição 
do paradigma industrial para o paradigma pós-industrial.
IV. Uma empresa que respeita as leis, paga seus impostos, 
cuida da saúde e segurança de todos os seus colaboradores 
não está praticando a responsabilidade sócia, mas sim, 
praticando o cumprimento da lei. Portanto, não se deve 
confundir “obrigações” com “Responsabilidade Social”, pois a 
Responsabilidade Social vai além do lucro e do que determina 
a legislação. 
É correto o que se afirma apenas em:
a) I e II.
b) I e III.
c) II, III e IV.
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d) III.
e) I, III e IV.
5. Embora, de um lado, se observe o apoio ao 
desenvolvimento ambiental sustentável que perpassa uma 
ideia positiva quanto às novas tecnologias, aquelas que 
conservam recursos e reduzam a poluição e se apresentam 
como instrumentos adequados que ajudam a qualidade de 
vida, por outro lado há também uma certa desconfiança em 
relação às promessas e aos riscos das novas tecnologias. 
Com relação a esta temática, avalie as afirmações a seguir:
I. A tecnologia continuará a mudar a tessitura social, 
econômica e cultural das nações e da comunidade mundial.
II. Administradas com cautela, as tecnologias novas e 
emergentes oferecem imensas oportunidades para elevar 
a produtividade e os padrões de vida, melhorar a saúde e 
conservar a base de recursos naturais.
III. Administradas com cautela, as tecnologias novas e 
emergentes oferecem imensas oportunidades para elevar 
a produtividade e os padrões de vida, melhorar a saúde e 
conservar a base de recursos naturais.
IV. O meio ambiente interligado às tecnologias são 
incompatíveis, pois estas acabam por desencadear inúmeras 
ações não naturais, interferindo negativamente na relação 
homem e natureza.
É correto o que se afirma apenas em:
a) I, II e IV.
b) I, II e III.
c) I e IV.
d) I e III.
e) IV.
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Sérgio Goes Barboza
Wilson Sanches
Elias Barreiros
Sociedade e meio 
ambiente
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