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COLEÇÃO “TEMAS DE MEIO AMBIENTE” EDUCAÇÃO AMBIENTAL Mauro Guimarães Editora UNIGRANRIO 2000 Volume 1 2 “Aprendi, com a natureza a me deixar cortar e voltar sempre inteira” (Cecília Meireles) 3 SUMÁRIO I- EDUCAÇÃO AMBIENTAL: UMA REFLEXÃO NECESSÁRIA____________ 4 II- POR UMA EDUCAÇÃO AMBIENTAL CRÍTICA_______________________ 7 III- EDUCAÇÃO AMBIENTAL E INTERDISCIPLINARIDADE_______________12 IV- UMA REFLEXÃO PARA ALÉM DA “RAZÃO”_______________________ 15 V- BIBLIOGRAFIA CITADA_________________________________________ 26 ANEXOS: FICHAS SÍNTESES_______________________________________29 4 I- EDUCAÇÃO AMBIENTAL: UMA REFLEXÃO NECESSÁRIA Atualmente pela crise ambiental que “se produz neste período histórico, onde o poder das forças desencadeadas num lugar ultrapassa a capacidade local de controlá-las, nas condições atuais de mundialidade e de suas repercussões nacionais.”(Santos, 1997:202), gerando graves problemas ambientais locais e globais, justifica-se a inserção da dimensão ambiental na Educação. Internacionalmente, a Educação Ambiental alcança maior projeção com a Conferência da ONU sobre o Ambiente Humano – Estocolmo (72); neste reconheceu-se a Educação Ambiental como o elemento crítico para o combate à crise ambiental no mundo. Dentro do processo de construção conceitual, de pressupostos e objetivos para a Educação Ambiental, a reunião intergovernamental sobre Educação Ambiental ocorrida em Tbilisi (Geórgia) em 1977 promovido pela PNUMA/UNESCO, vem sendo apresentada como um marco na discussão em torno desta temática. Ao final desta reunião foi produzido um documento que buscou delinear princípios, objetivos e metodologias para a Educação Ambiental, tornando-se um referencial, teórico bastante utilizado até hoje por quem busca embasar teoricamente as suas práticas educativas. Aqui estão alguns destes princípios: - Ser um processo contínuo e permanente, iniciando a nível pré-escolar e estendendo-se por todas as etapas da educação formal ou informal; - Adotar a perspectiva interdisciplinar, utilizando o conteúdo específico de cada matéria de modo a analisar os problemas ambientais através da ótica global e equilibrada; - Examinar as principais questões relativas ao ambiente tanto do ponto de vista local como nacional, regional e internacional, para que os educandos tomem conhecimento das condições ambientais de outras regiões; 5 - Fazer com que os alunos participem da organização de suas próprias experiências de aprendizagem e tenham a oportunidade de tomar decisões e de aceitar as conseqüências. - Inter-relacionar os processos de sensibilização aquisição de conhecimentos, habilidades para resolver problemas e especificação dos valores relativos ao ambiente, em todas as idades, enfatizando sobretudo a sensibilidade dos alunos mais jovens em relação ao ambiente de sua própria comunidade. - Ajudar os alunos a descobrirem os sintomas e as causas verdadeiras dos problemas do ambiente. - Ressaltar a complexidade dos problemas e, em conseqüência, a necessidade de desenvolver o sentido crítico e as aptidões à sua resolução. - Utilizar diversos meios educativos e uma ampla gama de métodos para transmitir e receber conhecimentos sobre o ambiente, enfatizando de modo adequado as atividades práticas e as experiências pessoais. Em 1992 no Rio de Janeiro, realiza-se a Conferência das Nações Unidas sobre ,Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio 92), em que entre os vários documentos produzidos, destaca-se a Agenda 21 que consagra o Capítulo 38 “a promoção da educação, da consciência política e do treinamento” e apresenta um plano de ação para o desenvolvimento sustentável”. Durante a Rio 92, diversas Organizações da Sociedade Civil elaboram o Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e responsabilidade Global, de caráter não oficial, em que reconhece a educação como um processo dinâmico em permanente construção. Deve, portanto, propiciar a reflexão, o debate e a auto transformação das pessoas. Reconhece, ainda, que a “Educação Ambiental para a sustentabilidade eqüitativa é um processo de aprendizagem permanente baseado no respeito a todas as formas de vida”. Em dezembro de 1997 ocorreu a Conferência de Thessaloniki (Grécia), Conferência Meio Ambiente e Sociedade: Educação e Consciência Pública para a sustentabilidade, em que mais uma vez discutiu-se o desenvolvimento e os rumos da Educação Ambiental em todo o mundo. Nesta 6 oportunidade reafirmou-se, como em Moscou (1987), que “A Educação Ambiental deve ser implementada de acordo com as orientações de Tbilisi e de sua evolução a partir das questões globais tratadas na Agenda 21 e nas grandes Conferências da ONU, que também abordaram a educação para sustentabilidade”. No Brasil a Educação Ambiental vem se concretizando principalmente a partir da década de 80. Na Constituição federal de 1988, no Capítulo VI sobre o meio ambiente, é instituído como competência do poder público a necessidade de “promover a Educação Ambiental em todos os níveis de ensino”. (art.225, parág. 1. Inciso VI). A abertura dada à Educação Ambiental pela Constituição federal vem favorecendo a sua institucionalização perante a sociedade brasileira tanto que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, determina que esta perspectiva de Educação seja considerada uma diretriz para os conteúdos curriculares da Educação Fundamental. Desta forma o Ministério da Educação e desportos (MEC)) elaborou os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) em que o meio ambiente (Educação Ambiental) é apresentado como tema transversal para todo o currículo. “É o tema meio ambiente tratado de forma articulada entre as diversas áreas do conhecimento, de forma a impregnar toda a prática educativa e, ao mesmo tempo, criando uma visão global e abrangente da questão ambiental”. (PCN , 1997). Em 1997, o Ministério do Meio Ambiente, o Ministério da Educação, o Ministério da Ciência e da tecnologia e Ministério da Cultura, apresentam, conjuntamente, o Programa Nacional de Educação Ambiental (PRONEA), que visa através de seus princípios e linhas de ação, intensificar a implementação da Educação Ambiental na sociedade nacional. Em 1999 é publicada a Política Nacional de Educação Ambiental, em que expõe no Art. 2º “A educação ambiental é um componente essencial e permanente da educação nacional, devendo estar presente, de forma articulada, em todos os níveis e modalidades do processo educativo, em caráter formal e não formal.”. Percebe-se que a Educação Ambiental já é uma realidade, que políticas públicas estão sendo traçadas para essa questão, sem contudo, que esta institucionalização esteja sendo acompanhada por um devido aprofundamento crítico nas discussões por parte dos educadores e da sociedade em geral. Portanto; Educação Ambiental: uma reflexão necessária. (Anexo I) 7 II- POR UMA EDUCAÇÃO AMBIENTAL CRÍTICA Atualmente há alguns grandes consensos na sociedade moderna, como por exemplo: o reconhecimento da gravidade dos problemas ambientais, que esses são decorrência de um modelo de desenvolvimento econômico e que a Educação Ambiental é uma importante ação para a superação destes problemas. No entanto, este reconhecimento não significa que estão sendo propostas na sociedade soluções consensuais. Algumas destas propostas trabalham com a intenção de reformar o atual modelo via soluções tecnológicas, sem contudo alterar sua racionalidade econômica que o informa. Outras trabalham com a perspectiva de mudanças de valores, hábitos e atitudes,de uma nova ética substanciada em diferentes paradigmas. Busca-se a transformação social e a construção de um novo modelo de sociedade. A Educação Ambiental é uma das dimensões do processo educacional. No entanto, podemos ter diferentes projetos educacionais que refletem e são reflexos de diferentes “visões sociais de mundo”, em um espectro que alcança das visões mais conservadoras as mais críticas. O caráter conservador compreende o compromisso em manter o atual modelo de sociedade; enquanto crítico, o que aponta a dominação do homem e da natureza, revelando as relações de poder na sociedade, em um processo de politização das ações humanas voltadas para as transformações da sociedade em direção ao equilíbrio sócio-ambiental. Portanto, se temos propostas conservadoras e críticas de Educação presentes na sociedade, certamente o mesmo ocorrerá com a Educação Ambiental, como procurei demonstrar em minha Dissertação de Mestrado (1996) “Educação Ambiental: Consensos e Embates”. Estas diferentes concepções de Educação presentes em nossa sociedade travam um embate pela hegemonia. Uma atrelada “aos interesses populares de emancipação, de igualdade social e melhor qualidade de vida que se reflete em melhor qualidade ambiental; outra, que assume prioritariamente os interesses do capital, da lógica do mercado, defendida por grupos dominantes.” (Guimarães, 1996). Esta última, hegemônica na constituição da sociedade contemporânea. 8 Um projeto conservador de Educação baseado em uma visão liberal de mundo, acredita que a transformação da sociedade é conseqüência da transformação de cada indivíduo. Desta forma, a Educação por si só é capaz de resolver todos os problemas da sociedade, basta ensinar o que é certo para cada um, tornando-se assim uma Educação teórica, transmissora de informações. Nesta concepção as relações sociais são secundarizadas no trabalho pedagógico, enfocando o indivíduo. Sendo assim, poderíamos exemplificar: em um trabalho de Educação Ambiental em uma industria poluidora, todos os seus operários passaram por treinamento de conscientização ambiental. Mesmo que todos estes operários estivessem informados e conscientes dos riscos ambientais, isto bastaria para que a industria deixasse de poluir ? Resolveria o problema da insustentabilidade do atual modelo econômico ? Em uma concepção crítica de Educação, acreditasse que a transformação da sociedade é causa e conseqüência (relação dialética) da transformação de cada indivíduo, há uma reciprocidade dos processos no qual propicia a transformação de ambos. Nesta visão, educando e educador são agentes sociais que atuam no processo de transformações sociais; portanto, o ensino é teoria/prática, é práxis. Ensino que se abre para a comunidade com seus problemas sociais e ambientais, sendo estes conteúdos do trabalho pedagógico. Aqui a compreensão e atuação sobre as relações de poder que permeiam a sociedade são priorizados, significando uma Educação política. No exemplo dos operários da indústria poluidora, seria trabalhar estes operários como agentes sociais, incorporando estas questões em suas lutas sindicais e políticas. (Anexo II e III) Em uma proposta crítica de Educação Ambiental trabalha-se com uma visão sistêmica de meio ambiente, compreendido em sua totalidade como um conjunto em que seus elementos interdependentes se interrelacionam em um equilíbrio dinâmico. Este meio ambiente veio historicamente sendo apropriado pelas sociedades humanas, transformando-o em um espaço socialmente produzido. A apropriação da natureza se deu sobre o jugo das relações de dominação das sociedades humanas sobre o meio ambiente, em consonância com as relações de poder que perpassam as relações sociais. Tais relações se substanciam pela postura antropocêntrica que a humanidade exacerbou nos últimos séculos, colocando-se como o personagem principal da história planetária, justificando a exploração do meio ambiente a seu favor. Da mesma forma, a primazia do privado, do particular, do individual sobre o coletivo que se consolidou nas idades moderna e contemporânea, justifica a exploração do coletivo social, assim como o coletivo meio ambiente (conjunto em inter-relações) em favor de interesses particulares. 9 Esta forma desarmônica como as sociedades contemporâneas se relacionam com o meio ambiente, vem produzindo uma série de impactos ambientais que atinge cada vez mais a capacidade que o ambiente tem de suportar estas intervenções. Este fato vem gerando problemas ambientais locais, assim como pela magnitude da capacidade produtiva e por extensão do consumo de recursos naturais, bem como da não priorização da preservação das relações em equilíbrio do meio ambiente, acentua-se os problemas ambientais em escala global. A gravidade dos problemas ambientais que aponta até para a extinção da vida planetária e/ou humana (Hipótese Gaia), denota uma crise ecológica sem precedentes na história do Planeta Terra, o que vem levar a um questionamento do modelo de desenvolvimento das sociedades urbanas-industriais. Como conseqüência deste questionamento surge o tão propalado desenvolvimento sustentável, como um desenvolvimento econômico preocupado com a preservação ambiental para garantir a sobrevivência das gerações futuras. Vem sendo tratado genericamente como um “guarda chuva” que abriga desde os desamparados, vítimas das violências sócio- ambientais do atual modelo desenvolvimentista, até os setores dominantes das sociedades que tem fortes interesses (econômicos) atrelados a manutenção do status quo. Mas será este desenvolvimento sustentável um novo modelo que supera o antropocentrismo? Será que propõe alterar as relações de poder que subjuga Homens e a natureza? Será que prioriza o meio ambiente como um bem coletivo frente a atual primazia do privado? A problematização de tais propostas é uma prática de cidadania que se faz pelo exercício crítico na produção social do espaço. (Anexo IV e V) Diferenças precisam ser percebidas e aprofundadas na análise dos educadores ambientais, já que propostas vem sendo aceitos quase que consensualmente, sem grandes críticas. Ao olhar os Parâmetros Curriculares Nacionais, como um referencial da política educacional de governo, elaborado pelo Ministério de Educação e Desportos, depara-se com um posicionamento que vem sendo apresentada de forma consensual na sociedade, a de que a principal função do trabalho com o tema Meio Ambiente, entre outros, é a de contribuir para a formação de Cidadãos conscientes. Mas afinal, o que os educadores ambientais entendem por cidadania? Esta categoria vem sendo discutida por estes educadores? A noção de cidadania é consensual na sociedade? 10 A Professora Maria de Lourdes M. Covre , em seu conciso trabalho “O Que é Cidadania”(1991), apresenta a origem da atual noção de cidadania atrelada a ascensão da burguesia, de sua cultura e sua visão de mundo que tornou-se hegemônica a partir do século XVIII. “A concepção de que todos os homens podem ser iguais pelo trabalho e pela capacidade que têm – eis aí a visão de mundo burguesa, que preza o individualismo e um tipo de cidadania.” (Covre, 1991:23) Apresenta-nos também a diversidade da noção de cidadania segundo a evolução deste modelo hegemônico de sociedade, bem como diferentes concepções contra hegemônicas, o que demonstra as diferentes compreensões possíveis sobre esta categoria. Portanto, falar/escrever que a formação da cidadania é um dos principais objetivos da Educação, e da Ambiental em particular, sem uma melhor qualificação de sua concepção, como se fosse algo consensual entre todos os segmentos da sociedade brasileira, pode servir a uma homogeneização “- que a todos iguala numa aparente afinidade, quando abriga perspectivas diversas e mesmo antagônicas.” (Carvalho, 1988:3) de uma importantecategoria. A homogeneização de uma categoria travestida em um falso consenso, vela conflitos decorrentes de relações assimétricas de poder, que geram dominação/exclusão neste modelo de sociedade, e retira o caráter crítico desta categoria. Sendo assim, para que Cidadania seja uma categoria estratégica para a construção de um novo modelo de sociedade ambientalmente sustentável, dentro de uma perspectiva mais crítica para um projeto educacional, é preciso superar a compreensão dominante no senso comum, e propositiva pela visão de mundo (liberal) hegemônica, que cidadão é o indivíduo passivo que respeita e pratica os direitos e deveres estabelecidos por esta sociedade, refletido nestes direitos e deveres as relações sociais desiguais. “As pessoas tendem a pensar a cidadania apenas em termos dos direitos a receber, neglicenciando o fato de que elas próprias podem ser o agente da existência desses direitos. ..., é preciso trabalhar para conquistar esses 11 direitos. Em vez de meros receptores, são acima de tudo sujeitos daquilo que podem conquistar. ... cidadania é o próprio direito à vida no sentido pleno. Trata-se de um direito que precisa ser construído coletivamente, não só em termos de atendimento às necessidades básicas, mas de acesso a todos os níveis de existência, incluindo o mais abrangente, o papel do(s) homem(s) no Universo.” (Covre, 1991:10/11) Compactuando com a posição de que “Educar para a cidadania é construir a possibilidade da ação política, no sentido de contribuir para formar uma coletividade que é responsável pelo mundo que habita. Ter uma atitude ecológica é assumir essa responsabilidade que se exerce em todo o tempo e lugar, sendo cidadão. A educação pode ter um papel fundamental na construção destas práticas sociais cidadãs, desde que assuma sua inalienável dimensão política.” (Carvalho, 1992:40). Assumir a dimensão política da cidadania e da Educação se faz fundamental para educadores ambientais e demais agentes sociais, já que “Atualmente, há uma disputa de hegemonia e nós (educadores) somos atores centrais nisso, queiramos ou não. A serviço de nosso próprio projeto, consciente de nosso projeto, ou serviço do projeto dos outros.” (Grzybowski, 1991:27). A questão ética se afirma como fundamental nas ações sociais de educadores ambientais e demais agentes sociais, em que no exercício desta cidadania , como uma prática solidária, esteja impregnada da valorização da participação, da igualdade, da diferença, da comunhão. “ . A participação : o ser humano é inteligente e livre ; não quer ser apenas beneficiário, mas participante do projeto coletivo. Só assim ele se faz sujeito da história. Esta participação deve começar de baixo para cima, para não excluir ninguém. . A igualdade : resulta da participação de todos. Cada um é singular e diferente. Mas a participação impede que a diferença se transforme em desigualdade. É a igualdade na dignidade e no direito que sustenta a justiça social. Junto com a busca de igualdade vem a equidade, isto é, a proporção que recebo pela minha colaboração na construção do social. 12 . A diferença : deve ser respeitada e acolhida como manifestação das potencialidades das pessoas e das culturas e como riqueza nas formas de participação . São as diferenças que revelam a riqueza da mesma e única humanidade. . A comunhão : o ser humano possui subjetividade, capacidade de comunicação com sua interioridade e com a subjetividade dos outros; é capaz de valores, de compaixão e solidariedade com os mais fracos e de diálogo com a natureza e com a divindade. Eis a espiritualidade.” (Souza apud Boff, 1994:72) Essa Cidadania é que pode vir a ser um instrumento, resultado de uma Educação Ambiental crítica, atuante no processo de transformação para um novo mundo justo e equilibrado; ou seja, ambientalmente sustentável. III – EDUCAÇÃO AMBIENTAL E INTERDISCIPLINARIDADE Retomando os comentários sobre os Parâmetros Curriculares Nacionais, elaborado pelo MEC, percebe-se também a ênfase dada a abordagem interdisciplinar, como um dos princípios da Educação Ambiental fartamente divulgado, mas que necessita porém de maior aprofundamento. A valorização da abordagem interdisciplinar é decorrência da crise dos atuais paradigmas deste modelo de sociedade. Crise dos paradigmas, entendido como: “...mudança conceitual, ou uma mudança de visão de mundo, conseqüência de uma insatisfação com os modelos anteriormente predominantes de explicação.” (Marcondes, 1995:15), que na questão ambiental centra-se, entre outros, na crítica ao cartesianismo que produziu uma fragmentação do conhecimento com suas especializações e a compreensão linear dos fenômenos apenas nas relações entre causas e efeitos imediatos; comprometendo contudo a visão da totalidade/unicidade/organicidade da realidade. Esta fragmentação vem sendo considerada como uma das responsáveis pela incapacidade desta nossa sociedade compreender, e portanto atuar equilibradamente, sobre a complexidade das relações ecológicas em sua totalidade; intensificando com isso, a crise ambiental. 13 O meio ambiente como um tema transversal no currículo escolar (proposto no PCN), tratado de forma articulada entre as diversas áreas do conhecimento, de forma a impregnar toda a prática educativa é um indicativo natural do tratamento interdisciplinar que deve ser dado a questão ambiental. Entendendo que o conhecimento científico é supervalorizado na sociedade ocidental moderna e este, como já foi dito, é por si fragmentado. Esta interpretação da realidade formula uma realidade escolar cristalizada em diferentes áreas de conhecimento. A cultura da separação das áreas de conhecimento, em que cada uma tem seu conteúdo específico sem nenhuma ou quase nenhuma integração entre elas, e mais, a desconsideração de outras formas de conhecimento da realidade (filosófico, religioso, artístico, popular), produz um descolamento, uma grande alienação entre o que se ensina na escola e a realidade na qual ela está inserida, ou pelo menos deveria estar. Sendo assim, a interdisciplinaridade é um processo de construção do conhecimento capaz de superar a visão disciplinar elaborando um nova interpretação ampliada da realidade; no entanto esta é uma conduta a ser introduzida no cotidiano escolar. Pode a princípio parecer algo extremamente difícil de se concretizar, mas por experiências em andamento, pode-se afirmar que para alcançar a interdisciplinaridade o primeiro passo, e fundamental, é a vontade de cada um dos participantes do processo. Tal vontade gera uma atitude interdisciplinar, que é estar aberto ao outro ao diálogo, sendo que esta conduta interdisciplinar se constrói na e pela vivência deste processo. Portanto algo não tão difícil assim. A interdisciplinaridade como “...uma relação de reciprocidade, de mutualidade, ou melhor dizendo, um regime de co-propriedade que iria possibilitar o diálogo entre os interessados. Neste sentido, pode dizer-se que a interdisciplinaridade depende basicamente de uma atitude. Nela a colaboração entre as diversas disciplinas conduz a uma “interação”, a uma intersubjetividade como única possibilidade de efetivação de um trabalho interdisciplinar.” (Fazenda, 1992:39). É portanto, uma proposta de conduta para o processo de construção coletiva de novos conhecimentos, que pela interação das diferentes áreas/disciplinas, está melhor estruturado para apreender a totalidade dos fenômenos. Um instrumento importante para se viabilizar a interdisciplinaridade é o planejamento participativo dos projetos de Educação Ambiental, tal como apresentei em meu livro “A Dimensão Ambiental na Educação”. (Anexo VI e VII) “Sabemos, por exemplo, em termos de ensino, que os currículos organizados pelas disciplinas tradicionais, conduzem o aluno apenas a um acumulo de informaçõesque de pouco ou nada valerão na sua vida profissional, 14 principalmente porque o desenvolvimento tecnológico atual é de ordem tão variada que fica impossível processar-se com a velocidade adequada, a esperada sistematização que a escola requer.” (Fazenda, 1993:16) É preciso nos apropriarmos deste conceito em sua integralidade para não cairmos em visões reducionistas já presentes em diferentes discursos que privilegiam a racionalidade econômica. “Valorização do trabalho em equipe não como um princípio organizativo de sociedade e possibilidade de produção coletiva de um conhecimento, mas como uma potencialidade do aumento da produtividade do trabalho e neste prisma, é interpretada a interdisciplinaridade.” (Guimarães, 1996:65/66) Na vivência de um processo interdisciplinar em sua integralidade, em que novos conhecimentos vão sendo construídos e que novos valores e atitudes podem ser gerados, resultando em práticas sociais diferenciadas; essas possibilidades de transformação são propícias ao processo educativo que objetiva a formação da cidadania, mas uma cidadania que seu exercício seja resultado de práticas críticas e criativas de sujeitos aptos a atuar nessa sociedade mundializada. O atual cidadão necessita desta compreensão de totalidade para se situar e ser eminentemente um agente social neste mundo globalizado e complexificado. “A possibilidade de “situar-se” no mundo de hoje, de compreender e criticar as inúmeras informações que nos agridem cotidianamente só pode acontecer na superação das barreiras existentes entre as disciplinas. A preocupação com a verdade de cada disciplina, seria substituída pela verdade do homem enquanto ser no mundo.” (Fazenda, 1992:42) “A rigor, o indivíduo somente pode realizar-se e emancipar-se na sociedade. Mesmo que se iluda em sua autosuficiência, como se fosse um pequeno Deus, está sempre na dependência das suas relações com os outros, as coisas, as idéias, a natureza, a sociedade. As suas carências, continuamente 15 recriadas, instituem a trama das relações sociais, a dialética indivíduo e sociedade, um implicando o outro, ambos constituindo-se reciprocamente todo o tempo. E quando a sociedade se torna global, ele nada ganha em refugiar-se no eu, em si, identidade, mesmidade. Ao contrário, adquire outras possibilidades de realizar-se, emancipar-se, precisamente no âmbito da sociedade, da trama das relações sociais. O mesmo contexto no qual o indivíduo se constitui é o contexto no qual ele se forma e transforma. E se a sociedade é global, além de nacional, pode-se imaginar que aí ele adquire outra figura: transfigura.” (Ianni, 1992:123) Portanto, o desenvolvimento de ações interdisciplinares no âmbito da educação formal e não formal pode ser uma vivência necessária e complementar, que instrumentalize um processo educacional que se volte para a construção da cidadania. O aprofundamento crítico destas categorias pelos educadores, se faz fundamental neste momento de desenvolvimento teórico e de institucionalização desta dimensão educativa. Esta reflexão objetiva a superação de um posicionamento ingênuo por profissionais da educação que partem para a prática pedagógica, sem um subsídio teórico que lhes permita uma atuação crítica como sujeitos nas propostas educacionais em curso. Desta forma, poderemos comprometermo-nos com um projeto educacional emancipador, que atue na construção de um mundo ambientalmente sustentável, aí entendido, como um mundo justo socialmente e com relações harmônicas entre sociedade e natureza. IV- UMA REFLEXÃO PARA ALÉM DA “RAZÃO” Nas reflexões a cerca da Educação Ambiental, uma das questões centrais que têm sido bastante discutida em todo o mundo como causa da destruição da natureza, é a atual postura antropocêntrica da humanidade. 16 Tal postura construída historicamente nas civilizações ocidentais, consolida-se na história moderna, tendo suas nuances mais refinadas na sociedade contemporânea urbano-industrial. “... postura que cada vez mais se fortaleceu e se tornou dominante e vigente até atingir, talvez sua forma mais extremada, mais elaborada, mais sofisticada e mais poderosa na modernidade; postura mediante a qual o homem entende sua humanidade na razão direta de sua capacidade de dominar e de manipular a natureza. É essa postura de tiranização da vida que me parece um dos eixos da crítica do pensamento ecológico atual. Essa crítica aponta muito das vezes para o que já foi chamado de “humanismo antropocêntrico”.” (Unger, 1992: 19) Para o ser humano dominar e manipular a natureza foi necessário sentir-se diferente e, do diferente para o desigual, foi um passo. A desigualdade se dá pela relação de dominação de um que se considera superior sobre outro considerado inferior. O ser humano calcando-se na razão (animal racional) justifica a sua diferença e estabelece uma hierarquia de superioridade por sua capacidade (poder) racional de dominar a natureza. Esta postura coloca-nos pretensiosamente como centro da história planetária, produzindo historicamente uma dualidade dicotomizada entre o ser humano em sociedade e a natureza. “Para Unger (1991), tal dicotomia prevaleceu como uma opção na nossa história, vigorando até os dias de hoje, não como um acaso do destino, mas sim porque “ela serve aos interesses de dominação”. Portanto tais princípios dicotômicos encontram-se tão arraigados nos hábitos de nossa civilização ocidental que são confundidos com a própria realidade. Dessa forma, a naturalização desses princípios dificulta a sua percepção como construção históricas.” (Serrão, 1996: 1/2) O sentimento de separação e dominação das sociedades humanas para com a natureza, está refletido também na exacerbação do individualismo em nossa sociedade. 17 “Com o passar do tempo a humanidade vai afirmando uma consciência individual. Paralelamente, cada vez mais vai deixando de se sentir integrada com o todo e assumindo a noção de parte da natureza. Nas sociedades atuais o ser humano afasta-se da natureza. A individualização chegou ao extremo do individualismo. O ser humano, totalmente desintegrado do todo, não percebe mais as relações de equilíbrio da natureza. Age de forma totalmente desarmônica sobre o ambiente, causando grandes desequilíbrios ambientais;...” (Guimarães, 1995: 12) O cientificismo mecanicista associado a esta postura antropocêntrica, sustentado na razão do indivíduo como um sujeito que se separa da realidade para conhece-la (dominá-la), de acordo com a neutralidade axiológica positivista que tanto informou esse cientificismo, veio reforçar esse sentimento de separação Homem (sujeito) X Natureza (objeto). A abordagem mecanicista supõe que “... a natureza é inanimada e neutra. Nada do que é natural possui uma vida, uma finalidade ou um valor próprio; os recursos naturais estão lá para serem desdobrados, e seu único valor é aquele que as forças de mercado ou os planejadores oficiais neles imprimem.” (Sheldrake, 1993: 16) “... esse humanismo antropocêntrico se fundamentaria em uma fé suprema na razão humana, em detrimento de qualquer outra afirmação de poder, inclusive o poder da natureza. Daí a crença arrogante na habilidade de o ser humano, através da técnica e da ciência, tudo dominar e tudo controlar.” (Unger, 1992: 20) Estas características, sinteticamente citadas acima, consolidaram-se nestes últimos 500 anos e tornaram-se pilares da formação da atual sociedade urbano-industrial, hoje hegemônica em praticamente todo o mundo. No ano 2000, “comemora-se” os 500 anos do Brasil. Portanto, a sociedade brasileira formou-se exclusivamente neste contexto, o que reforçatais padrões dicotômicos entre ser humano em sociedade e a natureza, até por não possuirmos diferentes referenciais civilizatórios que os 18 contraponham; já que, na lógico do colonizador, as sociedades indígenas originais foram “eficientemente” eliminadas de nossa história. Os colonizadores, além de carregarem como bagagem cultural “...a separação da sociedade branca da própria natureza, um impulso profundamente soterrado na cultura do mediterrâneo, onde 7 mil anos de lavoura e criação de ovelhas tinham deixado pouco mais que um deserto desprezado.” (Dean, 1998: 87), aqui encontraram ambientes totalmente exóticos aos do solo europeu, demarcando ainda mais, um estranhamento, um sentimento de não pertencimento ao meio. A História Ambiental brasileira, brilhantemente relatada por Warren Dean em seu livro “A ferro e fogo”, desvela com clareza que a formação da sociedade brasileira, desde o nascedouro, deu-se as custas de uma intensa destruição da natureza (biótica e abiótica) com suas populações (humanas e não humanas) originais. A ocupação do território brasileiro deu-se pela ótica da colonização mercantilista, que o via com um espaço a ser dominado para atender a seus interesses de acumulação material de riquezas. Tal visão de mundo contrastava grandemente com a dos Tupis aqui residentes no primeiro século de ocupação e praticamente exterminados nos séculos seguintes. Tal fato percebe-se no relato “registrado pelo feitor francês Jean de Léry: “Vocês franceses são uns grandes idiotas; precisam sofrer tanto para cruzar o mar, no qual (como você nos contou) suportam tantas privações, apenas para ajuntar riquezas para seus filhos ou para aqueles que vão sucedê-los? A terra que alimenta vocês não será suficiente para alimentá-los?” (Dean, 1998: 65/66). Para os interesses de exploração dos colonizadores, geralmente a densa vegetação tropical representava uma barreira para a ocupação e o desenvolvimento de atividades econômicas. A natureza era vista negativamente, o que resultou em ações sem nenhuma preocupação conservacionista. “Na realidade, para se encontrarem espaços para as lavouras, necessário se tornou, na esmagadora maioria das vezes, derrubar o manto denso das matas, as quais tinham se formado lentamente, tendo podido construir o seu próprio solo, à custa de sua capacidade intrínseca de vida sob condições excepcionais de calor e umidade. Aquilo que a natureza custou muito tempo para elaborar em seu gigantesco laboratório tropical, mesmo nas áreas de 19 solos muito pobres, os homens puderam destruir, desarranjar e desequilibrar em espaço de dezenas de anos apenas.” (Holanda, 1972: 66) Não se criou aqui um sentimento de apego a terra. A natureza era um “recurso transitório” a ser explorada; quando este se esgotava, facilitada pela abundância de terras, avançava-se para outras áreas atrás de novos recursos. Essa dinâmica de fronteiras abertas perdurou até o século atual, espalhando devastação por todo o território brasileiro. “Quando, após uma série de plantios e abandonos, um campo não mais rebrotava como floresta secundária mas gerava apenas capim, carriços e felos, era abandonado ao pastoreio.” (Dean, 1998: 209) e novas terras eram conquistadas para a lavoura. Em tal dinâmica não se colocava a necessidade de conservação da natureza. A razão instrumental imediatista que informa essa visão de mundo foi muito bem sintetizada por Dean (1998) na epígrafe de seu livro: “Quem vier depois que se arrume” (velho provérbio brasileiro). Este provérbio, assim como o que foi citado pelo autor em sua conclusão: “o valor da terra nua tornou-se o padrão do banqueiro para o cálculo da calção. “Uma agressão etimológica contra a natureza”, como o chamou um ambientalista.” (p.380), são bons indicativos do imaginário construído historicamente associando natureza e destruição na constituição da sociedade brasileira. Segundo Pádua (1992), havia dois tipos de olhar, não necessariamente antagônicos, sobre o Brasil e, particularmente, sobre a natureza no início da colonização. Um olhar humanista da cultura renascentista, louvando a diferença e exuberância da natureza brasileira. Outro olhar dos mercadores interessados em explorar novas riquezas. Ambos criaram uma imagem atraente do Brasil através de sua natureza, de acordo com cada ótica. “Temos a respeito da questão da natureza no Brasil uma tradição de dois pólos esquizofrenicamente divorciados: uma celebração puramente retórica de um lado, e uma realidade de devastação impiedosa do outro. É verdade que esse divórcio é em grande parte aparente, na medida em que a retórica serve para obscurecer a prática, ...” (Pádua, 1992: 20) 20 Isto nos leva a crer, que mesmo quando havia uma associação positiva à imagem da natureza, essa imagem, estava atrelada a uma “tradição da retórica laudatória e acrítica” (idem: 22), portanto não resultando na prática um freio a destruição ambiental. Certamente, tais fatos hegemônicos na história de nossa sociedade, corroboraram para extensa devastação da natureza no Brasil. No entanto havia vozes discordantes que criticavam a destruição da natureza, como demonstra Pádua (1992, 1998). Entre as várias citações de autores, destacou-me, por sua importância histórica, a figura de José Bonifácio. “... nossas preciosas matas vão desaparecendo, vítimas do fogo e do machado da ignorância e do egoísmo; nossos montes e encostas vão-se escalvando diariamente, e com o andar do tempo faltarão as chuvas fecundantes, que favorecem a vegetação e alimentam nossas fontes e rios, sem o que nosso belo Brasil, em menos de dois séculos, ficará reduzido aos páramos e desertos da Líbia. Virá então esse dia (dia terrível e fatal), em que a ultrajada natureza se ache vingada de tantos erros e crimes cometidos.” José Bonifácio (1823) Esta citação do início do século XIX, demonstra um caráter crítico e visionário de Bonifácio. Este posicionamento na “contra mão” da época foi seguido por alguns, como Capanema, Pacova, Moreira, entre outros trabalhados por Pádua (1998). Apesar destes autores terem até certa ascensão nos setores dominantes da sociedade brasileira, a realidade, passada e atual, demonstra que eles tiveram pouca influência para mudar o curso do processo histórico de destruição ambiental no Brasil. Estes autores críticos da destruição ambiental no Brasil, seguem uma racionalidade em que “...é possível identificar uma certa identidade conceitual subjacente. Esta identidade vai estar ligada ao processo de reflexão acumulada que, de forma direta ou indireta, constituiu uma tradição de pensamento ecológico-político no Brasil dos séculos XVIII e XIX. Entre os elementos comuns que a caracterizam encontra-se a forte presença de uma postura antropocêntrica, cientificista e progressista. Em nenhum dos autores brasileiros que criticaram a destruição ambiental naquele período, até onde eu tenha podido investigar, apareceu uma defesa da conservação do meio natural e da vida selvagem a partir do seu direito autônomo à existência e do seu valor intrínseco, seja biológico, espiritual ou estético. A idéia de conservação estava sempre calcada no valor 21 instrumental da natureza para a sociedade e o país. A questão não estava em isolar o meio natural da ação humana, mas sim em promover o seu uso inteligente e cuidadoso, buscando conciliar o aumento da produção econômica com a continuidade dos recursos naturais.” (Pádua, 1998:158). Há na proposição moderadora destes autores, uma grande atualidade ao colocá-los frente às discussões de hoje sobre desenvolvimento sustentável. “Bonifácio não via um antagonismo básico entre crescimento econômico e preservação do meio ambiente, desde que esse crescimento estivesse calcado numa utilização racional e não predatória dos recursosnaturais.” (Pádua, 1992: 36). Tais posicionamentos discordantes da lógica dominante pouco puderam contribuir, em sua época (séc. XIX), na alteração da trajetória da destruição ambiental. Contudo, foram percursores do discurso da modernização. No século seguinte, a modernização chega ao Brasil acompanhado de um discurso desenvolvimentista, com uma retórica que o anuncia como capacitado para a erradicação da pobreza. “O desenvolvimento foi imbuído dos valores positivos de independência e auto-realização. Enquanto sistema de crenças, era milenarista: o atraso se encerraria, o tradicionalismo daria lugar à modernização e a nação alcançaria o desenvolvimento, um patamar edênico. Em vez disso, desastrosamente, o desenvolvimento se revelou um alvo sempre fugidio.” (Dean, 1998:281) Em nome do desenvolvimento, intensificou-se a destruição da natureza, com a nobre justificativa de acabar com a pobreza no Brasil. A natureza era percebida como recurso para promover o desenvolvimento econômico, portanto a sua destruição era vista (transmitida) para o imaginário social, como algo “natural”. Hoje, preservamos a pobreza e destruímos ainda mais a natureza. 22 Até a década de 70 estes discursos eram hegemônicos, até pela força já que vivíamos em um regime político totalitário, e era comum ouvir-se nas esferas dominantes da sociedade brasileira, discursos recheados com: “Que venha a poluição, desde que as fábricas venham com ela.” ou “A pior forma de poluição é a pobreza.” (Dean,1998:307). Com esta retórica, vieram vários programas de desenvolvimento, como por exemplo os grandes projetos hidrelétricos. Como resultado prático tivemos um crescimento econômico às custas de um tremendo sacrifício do meio ambiente. A sociedade brasileira, até pelas conquistas democráticas, começa a reagir a este estado de coisas lá pelo final dos anos setenta. Não por acaso, é nesse período que também floresce a Educação Ambiental de forma mais consistente no Brasil. A modernização da sociedade brasileira acarretou em um rápido processo de urbanização, hoje já nos aproximamos dos 90% da população brasileira vivendo em áreas urbanas. Cidades em que a qualidade ambiental é lastimável, com graves deficiências de saneamento básico, abastecimento de água, qualidade do ar, disposição inadequada de lixo, etc. O meio urbano caracteriza-se por um ambiente bastante alterado, com pouca presença de elementos naturais. “Para aqueles de nós que moram em cidades, é fácil esquecer as fontes naturais de nossa subsistência: elas chegam até nós vindas dos armazéns ou através de fios e de canos. É fácil esquecer para onde vão nossos resíduos: desaparecem nos canos de esgoto ou os lixeiros os levam embora.” (Sheldrake, 1993: 209). O modo de vida moderna que traz subjacente uma artificialização da vida, a reverência ao virtual, potencializa o sentimento de afastamento dos seres humanos para com a natureza. “A relação com a realidade concreta, com seus cheiros, cores, frios, calores, pesos, resistências e contradições é mediada pela imagem virtual que é somente imagem. O pé não sente mais o macio da grama verde. A mão não pega mais um punhado de terra escura. O mundo virtual criou um novo habitat para o ser humano, caracterizado pelo encapsulamento sobre si mesmo e pela falta de toque, do tato e do contato humano.” (Boff,1999: 11) 23 A crise ambiental planetária é uma das dimensões que denotam estarmos vivenciando uma crise civilizacional. “As últimas duas décadas de nosso século vêm registrando um estado de profunda crise mundial. É uma crise complexa, multidimensional, cujas facetas afetam todos os aspectos de nossa vida – a saúde e o modo de vida, a qualidade do meio ambiente e das relações sociais, da economia, tecnologia e política. É uma crise de dimensões intelectuais, morais e espirituais; uma crise de escala e premência sem precedentes em toda a história da humanidade. Pela primeira vez, temos que nos defrontar com a real ameaça de extinção da raça humana e toda a vida no planeta.” (Capra, 1989:19) Certamente percebe-se hoje uma reação, movimentos contra-hegemônicos carregados com uma crítica ecológica que vem encontrando cada vez mais ressonância. Percebe-se já hoje uma valorização do natural em processo de rearticulação do imaginário social. Mas será esta valorização do natural decorrência do processo de conscientização ecológica ? Ou será uma resposta do sistema as demandas, coisificando a natureza, tornando-a mercadoria ? Acredito que estas questões interagem na constituição da realidade. Porém são 500 anos de destruição da natureza; há fortemente impregnado no imaginário do brasileiro este afastamento, até mesmo um estranhamento ao natural. No presente, estamos mais identificados com um desenvolvimento insustentável. Não é ao acaso que, quando vamos desmatar uma área, falamos que vamos limpá-la; ou quando folhas de uma árvore caem numa piscina, dizemos que está suja. É a “naturalização” deste processo histórico refletido em nosso “dia a dia”. Dificilmente, na atualidade, alguém discordaria da importância da preservação da natureza. Mas com toda a tradição brasileira de uma retórica acrítica de enaltecimento a natureza sem conseqüências preservacionistas na prática, não será essa apenas uma nova versão desta retórica ? Talvez esta valorização se dê pela compreensão racional da importância da natureza para a manutenção da vida, principalmente a humana. O que sem dúvida já é um ganho, pois faz muito pouco tempo nem esta compreensão era generalizada. No entanto, apenas utilizarmos da razão para superarmos a separação histórica, extremamente enraizada, entre homem – sociedade – natureza, não seria estarmos restritos a uma racionalidade que imprimiu a visão de mundo da modernidade ? 24 Não seria mantermo-nos numa dicotomia interna entre a razão e a emoção, negando-nos como seres integrais na relação com o mundo ? Tais reflexões precisam fundamentar as práticas de Educação ambiental. Acreditamos juntamente com Sheldrake (1993: 70) que “quanto maior for o senso de separação da natureza, maior será a necessidade de retornar”; assim torna-se fundamental aos educadores ambientais trabalharem em suas ações educativas, a perspectiva da sensibilização através da reaproximação com o natural, do emocionar-se com a natureza, do sentimento de pertencimento à vida planetária; e como nos diz Boff (1999: 22) “que saiba organizar a convivência humana sob a inspiração da lei mais fundamental do universo: a sinergia, a cooperação de todos com todos e a solidariedade.”. “É importante reconhecer a realidade de nossas experiências diretas da natureza na região silvestre, nos campos, nas florestas, nas montanhas, à beira mar, ou onde quer que nos tenhamos sentido em conexão com o imenso mundo vivo. Em suas formas mais intensas, essa sensação de comunhão possui a força da experiência mística, da iluminação, da surpresa e da alegria. Mas quando retornamos à nossa vida do dia-a-dia, sentimo-nos fortemente tentados a rejeitar essas experiências, descartando-as como meramente subjetivas, como algo que aconteceu dentro de nós, e que não envolve nenhuma participação real numa vida de vastidão maior que a nossa própria vida. Penso que deveríamos resistir a essa tentação. Nossas experiências intuitivas diretas da natureza são mais reais e mais diretas do que as meras teorias, que entram em moda e saem da moda.” (Sheldrke, 1993: 211) Caminhar na direção da construção de uma postura diferente da antropocêntrica, não significa negar a centralidade do Homem para ele próprio e sim, afirmar a sua responsabilidade no processo de mudança na relação com o mundo; afinal, nós somos o centro do nosso universo. Um biocentrismo que negue o ser humano em seu papel na trama da vidaé “...também um raciocínio simplificador, excludente dos antagonismos e complementariedades inerentes aos processos naturais de que o ser humano é parte integrante, e como muito bem resume Gonçalves (1989) “é necessário que se elabore a visão que comporta tanto a rosa como o espinho: a visão da roseira.”.” (Guimarães, 1995: 30). 25 Construir uma nova postura, significa superarmos a dicotomia presente na racionalidade materialista do cientificismo mecanicista, o que contribui para transcendermos a nossa separação/dominação da natureza. Desta forma, buscaremos um “novo paradigma de re-ligação, de re-encantamento pela natureza e de com-paixão pelos que sofrem; inaugura-se uma nova ternura para com a vida e um sentimento autêntico de pertença amorosa à Mãe-Terra.” (Boff,1999: 25/26). Na superação do distanciamento entre seres humanos e natureza, que produz a degradação de ambos, faz-se necessário vivenciarmos a nossa relação com o meio de forma integral, complementando as dimensões racional e emocional do ser, e integrando-nos às relações dinâmicas interdependentes que informam a natureza; “... não é apenas compreender mas também sentir-se e agir integrado a esta relação” (Guimarães, 1995: 39). É apropriarmo-nos da categoria cuidado assim descrita por Boff: “Construímos o mundo a partir de laços afetivos. Esses laços tornam as pessoas e as situações preciosas, portadoras de valor. Preocupamo-nos com elas. Tomamos tempo para dedicar-nos a elas. Sentimos responsabilidade pelo laço que cresceu entre nós e os outros. A categoria cuidado recolhe todo esse modo de ser. Mostra como funcionamos enquanto seres humanos. Daí se evidencia que o dado originário não é o logos, a razão e as estruturas de compreensão, mas o pathos, o sentimento, a capacidade de simpatia e empatia, a dedicação, o cuidado e a comunhão com o diferente.” (Boff, 1999: 99) Santa Teresa Do alto do morro, Meu quarto de monge, Parece que é o centro de todo o viver. Do alto do morro, O mundo tão longe E o longe tão dentro Que chega a doer... Do alto do morro, Eu fico cismado Que é bem mais intenso O mundo sem som. Do alto do morro, 26 Eu fico calado... E eu quase nem penso, De tanto que é bom. Spencer Mendes 1 Somente a vivência integral e integrada, que une na razão a emoção, como numa síntese poética, nos possibilitará a desconstrução de um imaginário tão enraizado que associa natureza e destruição no homem moderno e, em particular no brasileiro, por sua história de intensa exploração ambiental. Esta poderá ser uma importante contribuição da Educação Ambiental. V – BIBLIOGRAFIA CITADA ACSERLRAD, H. Ecologia: Direito do Cidadão. Rio de Janeiro: Gráfica JB, 1993. BOFF, Leonardo. Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela terra. Petrópolis: Vozes, 1999. BRANDÃO, Zaia. (org.) A crise dos paradigmas e a Educação. 2ª ed. São Paulo: Cortez, 1995. CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. São Paulo: Cultrix, 1988. _____________. Sabedoria Incomum. São Paulo: Cultrix, 1990. CARVALHO, Isabel C.M. Territorialidades em Luta : Uma Análise dos Discursos Ecológicos. Rio de Janeiro, 1988. 133 p. Dissertação (Mestrado em Educação) – IESAE/FGV. ____________. Ecologia, Desenvolvimento e Sociedade Civil. Revista de Administração Pública, Rio de Janeiro, 25 (4) :4-11, out/dez 1991. COVRE, Maria de L. M. O que é Cidadania. São Paulo : Brasiliense, 1991. DEAN, Warren. A ferro e fogo. A história da devastação da mata atlântica brasileira. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. DIAS, Genebaldo F. Educação Ambiental: Princípios e Práticas. 2ª ed. São Paulo: Gaia, 1993. DREIFUSS, René A. A época das perplexidades. Petrópolis: Vozes, 1996. 1 Poesia inédita de Spencer Luiz Marques Porto Mendes 27 DRUMMOND, J.A. “A história ambiental: temas, fontes e linhas de pesquisa”. In Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol. 4, n.8, 1991, p. 177-197. FAZENDA, Ivani C. A. Integração e Integração e Interdisciplinaridade no Ensino Brasileiro. 2ª ed. São Paulo: 1992. _________________.(org.) Práticas Interdisciplinares na escola. 2ª ed. São Paulo: 1993. FEEMA. Vocabulário básico do meio ambiente. Rio de Janeiro: FEEMA, 1992. FRIGOTTO, Gaudêncio. Trabalho e Educação Face a Crise do Capitalismo: Ajuste Neoconservador e Alternativa democrática. Niterói, 1993. 231 p. Tese (Concurso para Professor Titular) – Departamento de Teoria e Métodos de Administração Escolar – Universidade Federal Fluminense. ________________. Educação e Formação Humana: Ajuste Neoconservador e alternativa democrática. In: GENTILI, Pablo A. A. & SILVA Tomaz Tadeu da. (orgs.) Neoliberalismo, Qualidade Total e Educação. 2ª. ed. Petrópolis: Vozes, 1995, Cap. 2, p. 31-92. GRYBOWSKI, Cândido. Modelo de Desenvolvimento, Democracia e Educação. (texto datilografado). 13 Reunião Anual ANPED, 1991. GUATARRI, Félix. As três Ecologias. Campinas: Papirus, 1989. GUIMARÃES, Mauro. Educação Ambiental: Consensos e Embates. Niterói, 1996. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação /UFF. ______________. A dimensão ambiental na educação. Campinas: Papirus, 1995. HOLANDA, S.B. História geral da civilização brasileira. 4ª ed. São Paulo: Difusão Européia do Livro, Tomo I, 1º vol. 1972. IANNI, Octavio. A Sociedade Global. 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1993. LÜCK, Heloísa. Pedagogia interdisciplinar.5ª ed. Petrópolis: Vozes, 1998. MEC. A implantação da educação ambiental no Brasil. Brasília: MEC, 1998. PÁDUA, J.A. “Cultura esgotadora: agricultura e destruição ambiental nas últimas décadas do Brasil império”. In Estudos Sociedade e Agricultura. n.11, Out/1998, p.134-163. __________ (org.). Ecologia e política no Brasil. 2ª ed. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo/IUPERJ, 1992. 28 SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo – Razão e Emoção. 2ª ed. São Paulo: HUCITEC, 1997. SERRÃO, M.A. Da lógica dicotomizante à busca de novos paradigmas: o discurso de pesquisadores ambientais do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Anais da III Jornada de Pesquisadores em Ciências Humanas CFCH/UFRJ, 1996. SHELDRAKE, Rupert. O renascimento da natureza – o reflorescimento da ciência e de Deus. São Paulo: Cultrix, 1993. UNGER, N.M. (org.). Fundamentos filosóficos do pensamento ecológico. São Paulo: Edições Loyola, 1992. 29 - ANEXO I MARCOS HISTÓRICOS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL CONFERÊNCIA DE ESTOCOLMO – 1972 (Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano) Recomendou-se a criação do Programa Internacional de Educação Ambiental (PIEA). CONFERÊNCIA DE BELGRADO – 1975 Formulação dos primeiros princípios orientadores da EA e implantação do PIEA. CONFERÊNCIA DE TBLISI – 1977 (Conferência Intergovernamental de Educação Ambiental) Estabelecimento de definições, objetivos, princípios e estratégias. Grande marco para a discussão da Educação Ambiental. CONFERÊNCIA DE MOSCOU – 1987 (Conferência Internacional sobre Educação e Formação Ambiental) Confirma os referenciais de Tbilisi. RIO 92 (Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento) Agenda 21 – Cap. 36: “promoção do Ensino, da Conscientização e do Treinamento”. Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global. 1ª CONFERÊNCIA NACIONAL DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL – 1997 Declaração de Brasília. CONFERÊNCIA DE THESSALONIKI – 1997 (Conferência Meio Ambiente e Sociedade: Educação e Consciência Pública para a Sustentabilidade) 30 - ANEXO II CONSENSOS ATUAIS ATUALMODELO DESTRUTIVO DE DESENVOLVIMENTO A GRAVIDADE DA CRISE AMBIENTAL A IMPORTÂNCIA DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL PARA O SURGIMENTO DE UMA SOCIEDADE SUSTENTÁVEL GRANDES CONSENSOS NÃO SIGNIFICAM QUE A HUMANIDADE FINALMENTE TENHA ENCONTRADO UM CAMINHO ÚNICO, EM QUE TODOS IRÃO TRILHAR HARMONICAMENTE OS EMBATES MODELO DE DESENVOLVIMENTO Alguns acreditam na possibilidade de reforma desse modelo. Outros acreditam na inviabilidade deste modelo e apontam para transformações que gerariam um novo modelo. CRISE AMBIENTAL Descuido do sistema produtivo, mas com soluções tecnológicas dentro da lógica atual. Reflete a crise civilizatória no nível ambiental; no nível social, precisa excluir para se manter. 31 - ANEXO III DIFERENTES CONCEPÇÕES DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL PROJETO DE EDUCAÇÃO BASEADO EM UMA VISÃO LIBERAL (POSITIVISTA/CARTESIANA) DE MUNDO: A transformação da sociedade é conseqüência da transformação de cada indivíduo; A Educação por si só é capaz de resolver os problemas da sociedade (basta ensinar o que é certo teoria); As relações sociais são secundarizadas no trabalho pedagógico (educação conservadora). PROJETO DE EDUCAÇÃO BASEADO EM UMA VISÃO CRÍTICA DE MUNDO: A transformação da sociedade é causa e conseqüência (relação dialética) da transformação de cada indivíduo; Educando/educador são agentes sociais que atuam no processo de transformação sociais (o ensino é teoria/prática práxis); A compreensão e atuação sobre as relações de poder que permeiam a sociedade são priorizadas (educação política). 32 ANEXO IV CONCEITOS BÁSICOS MEIO AMBIENTE: “O conjunto de todos os fatores físicos, químicos, biológicos e sócio-econômicos que atuam sobre um indivíduo, uma população ou uma comunidade.” (FEEMA/Interim Mekong Committee. Vocabulário Básico do Meio Ambiente, 1992.) IMPACTO AMBIENTAL: “Qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas que, direta ou indiretamente, afetem: (I) a saúde, a segurança e o bem estar da população; (II) as atividades sociais e econômicas; (III) a biota; (IV) as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente; (V) a qualidade dos recursos ambientais." (FEEMA/Resolução do CONAMA. Vocabulário Básico do Meio Ambiente, 1992.) PROBLEMAS AMBIENTAIS: “São manifestações dos conflitos entre interesses privados e o bem coletivo (que pertence a todos).” (Acserlrad, H. Ecologia: Direito do Cidadão, 1993.) DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL: “O ecodesenvolvimento se define como um processo de transformação do meio com a ajuda de técnicas ecologicamente prudentes, concebidas em função das potencialidades deste meio, impedindo desperdícios inconsiderado dos recursos, e cuidando para que estes sejam empregados na satisfação das necessidades de todos os membros da sociedade, dada a diversidade dos meios naturais e dos contextos culturais.” (FEEMA/ Sachs, I. Vocabulário Básico do Meio Ambiente, 1992.) CIDADANIA: “Direitos e deveres (conteúdo do exercício de cidadania) é algo possível mas dependente do enfrentamento político adotado por quem tem pouco poder. Só existe cidadania se houver a prática da reivindicação, da apropriação de espaços, da pugna para fazer valer os direitos do cidadão. Neste sentido, a prática da cidadania pode ser estratégica, por excelência, para a construção de uma sociedade melhor.” (Covre, M. de I.M. O Que é Cidadania. 1991.) 33 ANEXO V ARTICULAÇÃO CONCEITUAL MEIO AMBIENTE Conjunto em inter-relação APROPRIAÇÃO Espaço socialmente produzido RELAÇÕES DE DOMINAÇÃO Homem – Natureza / Homem – Homem antropocentrismo primazia do privado IMPACTO AMBIENTAL Secundariza o coletivo / o conjunto em equilíbrio PROBLEMAS AMBIENTAIS locais globais novo modelo? Altera relações de poder? DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL supera antropocentrismo? Prioriza o bem coletivo? CIDADANIA Exercício crítico na produção social do espaço “Educar para a cidadania é construir a possibilidade da ação política, no sentido de contribuir para formar uma coletividade que é responsável pelo mundo que habita. Ter uma atitude ecológica é assumir essa responsabilidade que se exerce em todo o tempo e lugar, sendo cidadão. A educação pode ter um papel fundamental na construção destas práticas sociais cidadãs, desde que assuma sua inalienável dimensão política.” (Isabel C.M. Carvalho - Meio Ambiente e Democracia – 1992) 34 ANEXO VI MEIO AMBIENTE TEMA TRANSVERSAL TRANSVERSALIDADE: “É o tema meio ambiente tratado de forma articulada entre as diversas áreas do conhecimento, de forma a impregnar toda a prática educativa e, ao mesmo tempo, criando uma visão global e abrangente da questão ambiental.” (PCN – versão preliminar – nov./1995) TRANSVERSALIDADE CONHECIMENTO INTERDISCIPLINAR filosófico religioso conhecimento interpretação / formulação da realidade popular artístico científico conhecimento científico fragmentação da realidade (partes) áreas de conhecimento A construção do conhecimento ao superar a visão disciplinar elaborando uma nova interpretação ampliada da realidade, alcança a interdisciplinaridade e uma melhor visão do todo. 1º PASSO É A VONTADE CONSTRUÇÃO PELA VIVÊNCIA ATITUDE INTERDISCIPLINAR É ESTAR ABERTO AO OUTRO / AO DIÁLOGO 35 ANEXO VII PLANEJAMENTO DE PROJETOS DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL Práxis Práxis em EA em EA Práxis (teoria/prática) da Educação Ambiental: Participativa – envolve todos os segmentos escolares e comunitários na implantação do projeto; Ativa – intervenção na realidade pelos agentes sociais participantes do projeto; Permanente – a intervenção gera novas realidades que demanda novos planejamentos em um processo de retroalimentação EXECUÇÃO PLANO DE AÇÃO DIAGNÓSTICO REALIDADE GLOBAL REALIDADE LOCAL