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CORTEZ EDITORA 11 PARA QUE A EDUCAÇÃO AMBIENTAL ENCONTRE A EDUCAÇÃO Uma certeza precisa ficar desde já muito clara: se outrora se advo- gava a necessidade de uma Educação Ambiental para ocupar o lugar da educação que não era ambiental, hoje não é mais possível afimar que se faz Educação Ambiental sem qualificá-la. Já não é mais suficiente falar de uma Educação Ambiental genérica, conjugada no singular. No qua- dro da ampla variedade de vertentes, tanto do pensamento ambientalista, como das próprias correntes pedagógicas da educação, existem propos- tas educativas voltadas à questão ambiental que se inserem num gra- diente que enseja a mudança ambiental conquistada por intermédio de três possibilidades: a mudança cultural associada à estabilidade social; a mudança social associada à estabilidade cultural; e, finalmente, a mu- dança cultural concomitante à mudança social. Nesse contexto, como saber qual tendência está sendo discursivamente representada quando ela é apresentada no singular? Como identificar as intencionalidades que preenchem de sentido as ações de Educação Ambiental? Apesar de a complexidade ambiental envolver múltiplas dimensões, verifica-se, atualmente, que muitos modos de fazer e pensar a Educação Ambiental enfatizam ou absolutizam a dimensão ecológica da crise am- biental, como se os problemas ambientais fossem originados indepen- dentemente das práticas sociais. Insatisfeitos com esse tipo de reducio- nismo que ainda conquista muitos adeptos, cientes do risco que a Edu- cação Ambiental apresenta - se a sua vertente que enfatiza a mudança cultural associada à estabilidade social for a hegemônica e represen- tando uma nova tendência que busca efetuar um olhar ponderado entre as múltiplas dimensões da complexidade ambiental, alguns autores bra-criaram novas denominações que para a Educação renomear Ambiental a educação seja que com- já é sileiros adjetivada de "ambiental", para um instrumento de mudança cultural ou preendida não apenas mas também como como ambiental. um instrumento de transformação social comportamental, para se atingir a mudança que provoca redefinições conceituais e ideológi- cas do Nessa seu significado, perspectiva a abrangência passa a incorporar conceitual a dinâmica da Educação societária, Ambiental con- de tal forma que visualizar a complexidade am- dição se amplia sine qua non de para onde que se adquire seja possível um saber ambiental de forma comprometido biental a partir de um futuro sustentável. Pensar de se saber complexa com a construção com que o agir seja consciente, no sentido qual implica fazer nos movemos, o alcance de determinada ação, apre- o terreno coerência em que entre o que se quer, a base teórica da qual se parte, sentando se quer chegar e quem se beneficia com o processo. Qual enqua- dramento, onde pano de fundo ou leitura da realidade há. Não são poucos os trabalhos que mencionam estar em sintonia com princípios orientadores dessa prática pedagógica, demarcados nas grandes os conferências internacionais, e que são provenientes do campo da educação. Contudo, Loureiro constata que eles se esvaziaram de sen- tido, apesar de continuarem sendo citados nas ações de Educação Am- biental, aparentemente apenas como um fortuito ato mecânico. Porém, muitos deles também apresentam sua identidade situada no plano éti- embora curiosamente descolada das condições sociais, o que acarre- ta contradições entre o que se pretende e o que de fato se faz quanto aos objetivos e os resultados de um projeto de intervenção em Educação Ambiental. A crítica aqui elaborada aponta os limites da Educação Ambiental de caráter moralista que recai na concepção desse modo de fazer peda- gógico como se os humanos fossem seres passivos e totalmente sobredeterminados pela esfera ideal, subdimensionando ou ignorando a ação humana no tecido social, negando a existência do sujeito históri- e da Essa vertente enfatiza a dimensão ecológica em detri- mento das demais contextualizações do problema ambiental, promoven- do o entendimento da estrutura e funcionamento dos sistemas ecológi- cos, mas ignorando a sua interface com a dinâmica social. Loureiro aler-E FUNDAMENTOS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL ta que é preciso coerência, porque essa corrente moralista, na pode estar esvaziando o terreno da ação política, por colocar prática, formação do comportamento individual uma centralidade que na não trans- cor- responde ao seu papel na mudança social. Contra a unidimensionalidade das posturas idealistas que vêem na mudança cultural a única necessidade para se cultivar a Educação Am- biental, Loureiro enfatiza a irredutibilidade da dialética entre a mudan- ça social e a mudança cultural para se alcançar o propósito educativo em formar cidadãos de fato comprometidos com a construção de socieda- des ecologicamente prudentes e socialmente justas. Nesse sentido, afir- ma que não há mudança ética possível quando se ignora a sociedade em que se move, porque os valores não são um simples reflexo da estrutura econômica, mas são definidos a partir de condições históricas específi- cas, inseridas num movimento dialético de mútua constituição entre objetividade e subjetividade. Se as bases ecológicas da sustentabilidade não se localizam apenas esfera ideal, mas também na esfera material, no modo de produção na capitalista e nas relações sociais, parece então que a Educação Ambien- tal só poderá frutificar à medida que integrar o método dialético em sua tra- lógica de ação e reflexão. Nessa perspectiva, Loureiro enfatiza que de a científica do método dialético marxista é a melhor forma pen- dição transformar o mundo. E qualifica o conhecimento e uso todo desse deba- mé- sar todo e como algo "indispensável para a Educação Ambiental idéias são e construí- na complexidade ambiental", porque "as idealismo e te das inserido na materialidade da vida e não o contrário, como ideal no se exteriori- vida é definida no plano teorias metafísicas, mundo em que a Caso contrário, as ações pedagógicas socioeco- resul- zando no que alienam o humano de suas condições das relações sociais tam em perspectivas arrancando-o do solo lamacento o mundo real nômicas e carregando-o e políticas, para as alvas nuvens do céu; ideal. abandonando e apregoando a promessa de um mundo O diagnóstico incipiente problematização etérea, ingênua, inócua; efetuado por Loureiro neste teorico-prática livro é preocupante: na Educação apon- ta Ambiental, dada para a displicência uma tornando com a intervenção o rigor teórico, pedagógica muitas vezes em nome do prag-CARLOS FREDERICO LOUREIRO matismo que de alguma forma também já havia contaminado o ambien- talismo, manifestado pela corrente do "ambientalismo É nesse cenário que se estrutura esta obra de vanguarda para a Edu- cação Ambiental. Loureiro, um expoente nesse campo do conhecimen- to, fala das práticas sociais que tecem relações tanto com a educação como com o ambientalismo. Fala das condições sociais que impregnam o problema ambiental. Fala de política. Democracia. Auto- nomia. Emancipação. Cidadania. Transformação social. Conceitos esses que, apesar de fornecerem os referenciais orientadores dos princípios da Educação Ambiental, estão vazios de sentido. E fala também da ca marxista, método que transcende a doutrina ideológica e serve educador e à educadora ambiental como uma potente ferramenta de tra- ao balho. Loureiro destaca que a reflexão a respeito do problema ambiental, sem estar articulada com a contextualização social, cultural, histórica, política, ideológica e econômica, resulta na reprodução de uma visão de luta Assim, mundo dualista, que dissocia as dimensões social e pela proteção da natureza sobressai como algo hierarquicamente a prioritário sobre a luta por justiça e igualdade social, em vez de serem percebidas como intrinsecamente Loureiro argumenta que os educadores ambientais podem se liber- tar da "construção de teorias abstratas sobre bases idealizadas, que des- pejam uma enormidade de informações desconexas e atomizadas e não favorecem a intervenção qualificada dos agentes sociais, mas que nas a proliferação de queixas individuais sobre o estado da miséria ape- e degradação ambiental, sem efeitos E essa releitura da Educa- ção do Ambiental é desejável porque "educar sem clareza do lugar ocupa- pelo educador na sociedade, de sua responsabilidade social, e sem devida problematização da realidade, é se acomodar na posição conser- a vadora de produtor e transmissor de conhecimentos e de valores vistos são como ecologicamente corretos, sem o entendimento preciso de que estes mediados social e culturalmente. que, definitivamente, por si só duz não gera mudanças significativas do quadro em que vivemos e repro- um padrão de sociedade que, paradoxal e discursivamente, é nega-TRAJETÓRIA E FUNDAMENTOS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL 15 do por educadores ambientais". Essa menção à clareza da responsabili- dade social do educador é uma advertência que Loureiro não se permite esquivar: Educação Ambiental, antes de tudo, é educação. Mas não uma educação genérica, e sim aquela que se nutre das pedagogias progressis- tas histórico-crítica e libertária, que são as correntes orientadas para a transformação social. Por isso "é absolutamente crucial para a concreti- zação de um novo patamar societário que a produção em Educação Ambiental aprofunde o debate teórico-prático acerca daquilo que pode tornar possível ao educador discernir uma concepção ambientalista e educacional conservadora e tradicional de uma emancipatória e trans- formadora, e as variações e nuances que aí se inscrevem." Assim proce- dendo, Loureiro resgata o substantivo da "educação", aquilo que é defi- nido como muito importante ou mesmo fundamental, mas que ficou historicamente abandonado, ofuscado pelo adjetivo "ambiental", que qualifica esse fazer educativo no cenário de uma crise ambiental. Educação Ambiental Emancipatória se conjuga a partir de uma matriz A que compreende a educação como elemento de transformação fortalecimento social inspirada no diálogo, no exercício da cidadania, no das re- dos de convívio social, na superação das formas de dominação da vida sujeitos, na criação de espaços coletivos de estabelecimento capita- gras compreensão do mundo em sua complexidade e de cons- em listas, totalidade. na Como práxis social que contribui no processo civilizatórios e so- sua de uma sociedade pautada por novos padrões da vida, a atua- trução distintos dos atuais, na qual a sustentabilidade se afirme como ção cietários política consciente seu cerne. e a Educar construção é emancipar. de uma ética A ação que emancipatória vigente é de o ecológica meio sejam qual podemos romper com a barbárie e transformação do padrão social são pelo civilização. Emancipação Ambiental gené- ele- sociedade e de explicitam não se tratar de uma Educação indistintamente para qual- mentos que de conceitos que servem Ambiental. rica, quer de atividade um conjunto que se autodenomine como Educação Educação Ambiental só apresentará completa resulta- contex- Tudo leva se a crer incorporar que a em seu fazer cotidiano isso, é imperativo a o envol- tualização dimensões social, econômica, territoriais geo- dos coerentes da complexidade ambiental. Para política, ideológica, cultural e vimento e ecológica das do problema ambiental, em suas conexões16 CARLOS FREDERICO políticas, promovendo leituras relacionais e dialéticas da vocando não apenas as mudanças culturais que possam conduzir à pro- ambiental, mas também as mudanças sociais necessárias para a ética trução de uma sociedade ecologicamente prudente e socialmente incentivando não apenas a ação individual na esfera privada, mas justa: tam- bém a ação coletiva na esfera pública. Afinal, o contexto político que reina na sociedade brasileira é de- mocrático, o que por si só justifica a necessidade de a Educação Ambien- tal desempenhar um papel protagonista na condução da promoção de uma nova subjetividade no povo brasileiro voltada à participação social nas decisões que envolvem não apenas o futuro do país, mas do planeta, porque um pressuposto básico da educação emancipatória é a prepara- ção dos sujeitos da ação educativa feita prioritariamente para estes Se organizarem e intervirem em processos decisórios nos espaços de parti- cipação existentes. Parece não ser mais possível isolar os problemas ambientais da com- plexidade que os formam. Loureiro lança um apelo para que as práticas em Educação Ambiental passem a ser coerentemente contextualizadas, para não ficarem falando de uma ética estéril sem associá-la à base es- trutural. A tese defendida neste livro diz respeito à impossibilidade de a Educação Ambiental ser praticada de modo descontextualizado das prá- ticas sociais. Loureiro construiu uma sólida argumentação para evidenciar as características que estruturam a Educação Ambiental coerentemente ar- ticulada com a cidadania, e que pretende servir a um projeto social eman- cipatório e transformador, em sintonia com os ideais de construção de uma sociedade ecologicamente prudente, socialmente justa, culturalmen- te diversa, politicamente atuante e economicamente viável. Enfim, Loureiro enfatiza que é necessário efetuar uma ação educa- tiva plena, integral e articulada a outras esferas da vida social para que se consolidem iniciativas capazes de mudar o modelo contemporâneo de E, para isso, torna-se necessário evitar as leituras superfi- ciais tes e simplificadoras da realidade, que resultam em práticas incoeren- transformar e A questão de fundo é que não parece ser possível te as a relação humano-natureza sem transformar simultaneamen- relações sociais, porque as dinâmicas entre as esferas social e natu-17 E FUNDAMENTOS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL ral estão articuladas na mesma conjuntura societária. Parece não bastar o estímulo à mudança cultural da visão de mundo fragmentada e redu- cionista, em direção à visão complexa, se o educando não for capaz de se desalienar de suas condições sociais, porque "a dimensão humana para realizar-se (ser emancipado) precisa ultrapassar a desigualdade de clas- a fragmentação científica, as relações de dominação, a hierarquia ses, saberes e a exclusão social, em que a crítica e a capacidade de refle- entre xão e superação atinjam o ser concreto e a sociedade na qual este se ma- nifesta e se realiza". Definitivamente, esta obra estabelece uma fronteira: de fazer não só Educação entre as características que delimitam os diferentes à estabilidade social; mas também na modos Ambiental de voltados conhecimento à mudança no campo ou da Educação Ambiental, de que maiori- ad- produção as condições apropriadas para conquistar seu estatuto com as condi- quire dade, deixando as posturas ingênuas que não dialogam ções sociais nas no páginas frutífero do esforço passado. para demarcar os princípios e explicitar da Edu- Loureiro, Ambiental Emancipatória, dissecar bandeira seu significado de luta em favor de uma sua cação lógica, apregoa implicitamente uma não existe, pelo menos no reconheci- Educação Ambiental que identidade. ainda Isso significa dizer que de existe modo uma coe- alternativa mento público esperançosa, de sua otimista, sua missão que busca no enfrentamento a mudança da crise am- en- rente, cumprindo contexto de do fato dilema a civilizacional que e envolve a e disputa entre aque- biental, no sociedades justas igualitárias tre os que desejam desejam manter viver em as sociedades apenas livres, mesmo que ambas les desejem que Com construir esta obra, um parece futuro não sustentável. ser mais possível que ao educador fragmentam ambiental a com- é prosseguir implementando ambientais ações pedagógicas e acreditando ingenuamente éticas ou comporta- que plexidade dos problemas apenas com mudanças indivíduo eximindo da o quadro e possível reverter responsabilidade no produção do sistema a de mentais, social responsabilidade em depositando que convive. a estrutura Ou a social Educação e o modo Ambiental se integra à leituraCARLOS FREDERICO B. LOUREIRO 18 complexa ideológico de reprodução do produção, apro- do mundo, ou estará fadada a servir seu modo ao capitalismo de como um fundando que a rigor, sozinha, é dotada de poder de inter- instrumento o abismo social e a diluição cultural duvidoso em nome de uma ética "ecológica", na dinâmica da mudança ambiental. Essa mensagem deve ser entendida ferência como um alerta aos educadores ambientais para que efetuem cuidadosa auto-reflexão crítica e analisem se, em suas ações, o prin- uma da coerência pode ser incrementado para que no limite não seja mais cípio necessário adjetivar a educação de ambiental, e muito menos de emancipatória. Inquietação com o preocupante diagnóstico que enseja a necessi- dade de uma nova adjetivação na Educação Ambiental que se remeta a um elemento substantivo da educação, equilibrado com a esperança de que os fundamentos da Educação Ambiental Emancipatória se incorpo- rem no cotidano de cada um dos educadores ambientais do país, pela força da coerência entre os princípios da Educação Ambiental e os refe- renciais teórico-conceituais e metodológicos da educação como um ins- trumento de transformação social, são sentimentos que esta obra nos permite experimentar. E que também nos possibilita manter acesa a von- tade de intervir na construção de um futuro melhor, em que a Educação Ambiental encontre a educação, porque para isso é que este livro foi escrito. Philippe Pomier Layrargues Diretoria de Educação Ambiental/Ministério do Meio Ambiente Brasília, novembro de 2003CORTEZ 59 EDITORA 2 MOVIMENTO AMBIENTALISTA E EDUCAÇÃO É fato que existem diversas formas de se pensar e realizar a educa- ção, o que estabelece epistemologias próprias a cada perspectiva. Pro- por uma base teórica que permita compreender a Educação Ambiental numa abordagem integradora, crítica e transformadora pressupõe que se entenda a diversidade histórica desta, definindo um posicionamento consistente e distinto de outras possibilidades paradigmáticas. Para ilus- trar tal afirmação, vejamos alguns sentidos de educação construídos ao longo da história, tendo por base a obra de Aranha (1996) e partindo do entendimento desta como: "[...] uma prática social cujo fim é o aprimoramento humano naquilo que pode ser aprendido e recriado a partir dos diferentes saberes existentes em uma cultura, de acordo com as necessidades e exigências de uma so- ciedade. Atua, portanto, sobre a vida humana em dois sentidos: (1) de- senvolvimento da produção social, inclusive dos meios instrumentais e tecnológicos de atuação no ambiente; (2) construção e reprodução dos va- lores culturais" (Loureiro et al., 2003: 12). Nas sociedades tribais a educação tinha (e ainda tem) uma finalida- de comunitária, de dar bases comuns de conhecimentos e saberes sobre a vida, transmitindo de geração para geração as "verdades" da tribo, com seus mitos, lendas e cosmogonia. Geralmente era feita dos mais velhos para os mais jovens, como um mecanismo de preservar o que era tradicional, o que mantinha a identidade do grupo. Não havia um espa-CARLOS FREDERICO 60 que ritos e atividades culturais cotidianas uma organiza- poderia ser denominado de escola, o aprendizado e sob se portanto, nos homogênea. Mesmo tendo essas características se alterado ção social em boa parte das comunidades indígenas, por recentemente cultura ocidental dominante, a idéia central de educação da universal a todos da tribo e reproduzir a cultura ao longo das gera- ções, ser numa dinâmica reflexiva lenta, posto que essa não é a finalidade do educar nesse tipo de sociedade. Nas antigas sociedades orientais, mesmo hoje diante de um cenário que leva a educação a se enquadrar no ideário liberal globalizado e, multaneamente, a procurar se universalizar, há uma grande preocupa- ção em se educar para preservar os costumes e se evitar a transgressão às normas, definidas a partir de rígidos sistemas religiosos e Diferentemente das sociedades tribais em que o saber é difuso, nas civi- lizações orientais profundamente hierarquizadas e segmentadas, certos conhecimentos são privilégios de castas e elites religiosas e Em sociedades de matriz ocidental, principalmente para o mundo greco-romano no século V a.C., a educação começa a ser definida como um processo de formação e construção consciente dos indivíduos, con- tudo, não numa visão de educação unitária, mas em cima das funções desempenhadas por grupos específicos em sociedade: uma educação para os que pensam ricos e nobres e outra voltada para a instrumentali- zação e ação sobre a natureza para os que executam - pobres e escravos. Mas mesmo essa divisão não foi homogênea com o passar dos séculos. buição do nobreza e direção política, passou do cultivo ao e à mente, Por exemplo, de a educação clássica, voltada para os que possuíam a atri- saber literário e para o saber corpo escolar e para Na a habilitação do cidadão que estará em cargos políticos. livresco e na educação o meio desenvolvimento na conquista de novos territórios viam seu crescimento fase do e expansionismo de impérios, civilizações que pautavam ser objeto de intervenção com isso, dominar. Em Roma, linguagem esses a espaços conquistados principal e, para levar sua cultura e a lizada Na nos Idade aspectos Média, morais crescente e éticos, dos nas interesses ações políticas do Império, a educação sendo passa foca- perados pela do o naturalismo e o intelectualismo e cotidianas. gregos são su- A Igreja, nesse momento, passa aTRAJETÓRIA E FUNDAMENTOS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL exercer supremacia forte dos domínio valores sobre espirituais as concepções sobre afirmando 61 à moral cristã, e a eliminar todo o conhecimento os mundanos, o culto a Deus a e desvios da fé. que pudesse levar a forma de se pensar a educação, em função do significativas na No século XVI, fatos históricos levam a mudanças sociedade passa a se organizar. Dentre eles, destacamos próprio modo como a Comercial e o início da consolidação do modo de produção a Revolução resultando na decadência do feudalismo e ascendência da capitalista, burguesia, com as cidades assumindo papel central. A educação renascentista, em contraponto ao período anterior e para afirmar o novo projeto de socie- dade, enfatiza valores antropocêntricos e a crença no poder absoluto dos homens no domínio da natureza. Aqui o saber deve ser secularizado, ou seja, sem a parcialidade religiosa, e a razão valorizada como o meio para a liberdade humana. Nos séculos XVII e XVIII, com a consolidação da nova ordem por meio do mercantilismo e depois da Revolução Industrial, a busca é por uma educação que afirme a liberdade (nos moldes e segundo os interes- ses europeus), a capacidade de discernir, e o realismo, privilegiando a dimensão prática, a experimentação, o uso do método científico das ciên- cias naturais dentro do paradigma cartesiano, e o domínio da natureza para uso em benefício do crescimento econômico. Aqui a educação dei- xa definitivamente de ser atrelada à religião, à aristocracia, devendo ser leiga e independente de privilégios de classe, o que traz alguns preceitos obri- para a educação recente: responsabilidade do Estado em garanti-la; ciências gatoriedade e gratuidade do ensino; orientação voltada para as e ofícios. A noção implícita de educação nas sociedades ocidentais nobres até o sé- culo XVI era a de que esta servia à sociedade governada algo por que terá mu- possuidores de "direitos divinos" ou "naturais" foi: a educa- ção dança significativa a partir para do século tornar XVII. o indivíduo A questão apto posta condizentes para o convívio com social não e o pode ser apenas segundo normas preestabelecidas e 1. Na teórica adotada, o conceito de individualidade, trabalho se refere a qualquer em com contato a atividade natureza com humana que perspectiva permite ao que a realiza expressar portanto, sua a mediação da humanidade sua exterioridade e com os outros, sendo,CARLOS FREDERICO B. LOUREIRO 62 interesses das elites ou normas divinas, porém para formá-lo como cidadão os ativo e sujeito capaz de se realizar em sua individualidade, con- viver em sociedade e, mais do que isso, em suas expressões mais radi- cal-democráticas, capaz de decidir sobre como deve ser a sociedade em que se quer viver. Cidadão, neste momento, deixa de ser a elite política e religiosa que pode participar das decisões públicas e passa a ser todo indivíduo, pelo menos em tese, uma vez que a história mostrou que o universalismo burguês não se concretizou. Entre os séculos XVIII e XIX, o cidadão, em seu processo de realiza- ção em sociedade, foi entendido e enquadrado dentro de duas grandes visões de mundo: como agente de transformação histórica e societária, em que a educação necessariamente é dialógica e possui um caráter emancipatório (visão crítica, socialista e revolucionária); ou definido a partir das capacidades individuais em si, em que a educação tem a fun- ção de transmitir os valores e conhecimentos vistos como universais, garantindo acesso ao conhecimento que permite a escolha racional indi- vidual, integrando-o à sociedade e consolidando sua condição de cida- dão (visão liberal e conservadora). Em na atualidade, a construção e o exercício da cida- dania na órbita educativa se buscam de diferentes formas, sob antagônicos de mundo em disputa, com ênfases operacionais não campos exclu- pretende dentes, contudo profundamente distintas em relação à finalidade serviço Universalização ou do ensino fundamental, qualificação profissional da. concretizar no fazer educativo, segundo a perspectiva assumi- que se lógicos não), fim do acesso universal (em nero, etnia, cor e opção fim de qualquer forma de discriminação aos meios de tecno- gê- entre outras, passam a ser sexual no acesso e permanência na rede res, que destas se bandeiras amplas e consensuais de escolar, de, seja Desse no marco apropriam capitalista, visando seja objetivando concretizar seus ideais de educado- socieda- mar, conhecer, modo, mobilizar, independentemente organizar e agir da no perspectiva cotidiano passam adotada, a se infor- cons- cidade consciente em sentido instrumental e estrito ativa no e entre mundo os humanos, (Löwy e por meio da qual operamos dado contexto social de e histórico atuar associada à cultura, 2000). à linguagem Logo, é um e à conceito a socialização que pressupõe e a intervenção a capa- comunicação entre sujeitos emTRAJETÓRIA E FUNDAMENTOS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL 63 tituir como etapas do fazer educativo, e não a educação em mente, como se afirma no senso Logo, a educação si isolada- implicada por processos teóricos e práticos políticos, culturais implica e é que redefinem os valores que são considerados, a uma dada sociedade, e sociais adequados a uma vida digna e sustentável (ou não). Por ser igualmente um que se materializa em sociedade, o movimento ambientalista é constituído por tendências afinadas e an- tagônicas no que se refere ao entendimento do humano na natureza e ao projeto societário que signifique a superação do atual padrão de vida. É interessante observar que os questionamentos mais contundentes à ci- vilização moderna surgem de atores sociais novos que ganham espaço no debate público na década de 1960 (movimentos estudantis, pacifis- tas, antinuclear, grupos de contracultura, de defesa dos direitos huma- nos, movimento feminista etc.), na Europa, nos países do denominado Estado de Bem-Estar Social (Gonçalves, 2000). Exatamente onde tudo parecia ir bem, a insatisfação com os padrões societários e as incertezas quanto aos riscos futuros ganham dimensões que vieram a influenciar agentes sociais de todos os países. É aí nesse contexto que a ecologia política se consolida, questionan- do a concentração urbana e a insalubridade da vida em cidades não pla- nejadas e inchadas, a poluição, o modelo de produção e consumo, e pro- pondo uma ação política radical e articulada, entre os diferentes movi- mentos sociais contemporâneos, capaz de levar à ruptura com a socie- dade industrial capitalista. Dentre as muitas passagens que poderia ci- tar aqui para demonstrar a atualidade das denúncias feitas e seu teor radical-transformador, vale a pena reproduzir um trecho do clássico Eco- logia e política, de André Gorz: "Com 13% da população mundial, os países capitalistas industrializados da consomem 87% dos recursos energéticos. Apropriam-se da metade pes- ca mundial, não deixando ao Terceiro Mundo mais do que a quinta do parte. globo Eles utilizam, para se alimentar, de 20% das superfícies agrícolas fome, criação além das suas próprias. Estabelecem no Sahel, em plena Dão 2/3 uma da colheita de 150 mil hectares que deve fornecer carne à Europa. primeiro alimento mundial de soja a seus animais, enquanto a soja é o a hidrosfera bilhão de habitantes da Ásia. Afirmam que 16 bilhões de e proteínico a atmosfera para serão um envenenadas pelos dos 8, 12 ouCARLOS FREDERICO B. LOUREIRO 64 no próximo século; mas os 500 milhões da tantos Europa estragos Ocidental e da homens Norte causam hoje ao meio ambiente 1976: como América fariam (se do existissem) dez bilhões de indianos" (Bosquet, 134). Consolidam-se também as vertentes fundamentalistas, as aproxi- entre espiritualismo e ambientalismo, filosofias orientais e ciên- mações cias "ocidentais", se ampliam as ações de grupos voltados para a conser- vação da natureza e proliferam as comunidades formadas por pessoas que adotam "modos alternativos" de vida. O ambientalismo é um movimento intrinsecamente plural, com fi- nalidades de mudança social (absoluta ou não), composto por atores sociais individuais e coletivos que se identificam pelo modo como com- preendem e atuam na "questão ambiental", na construção de novos pa- drões na relação sociedade-natureza. Em sua diversidade carrega uma marca específica: é o movimento social nascido nas últimas décadas que se contrapôs ao individualismo, à fragmentação dos saberes e à raciona- lidade instrumental, buscando repensar o destino do planeta a partir da relação entre partes e todo. Anticonsumista e antimilitarista por princí- pio, se consolidou com propostas pacifistas, pautadas na solidariedade, no diálogo entre culturas e povos. Relativizou a importância do progres- e do desenvolvimento tecnológico como sinônimo de libertação das formas opressivas de sociedade e repensou o ser humano na natureza. À luz desse entendimento do que é o ambientalismo, a categoria ambiental caracterizada a partir dos anos sessenta se refere a relações entre elementos humanos e naturais stricto sensu, espacialmente e histo- ricamente localizadas, não podendo ser confundida com a visão clássica das ciências naturais e das perspectivas tecnocráticas, excluíam com totalidade, que só se concretiza à medida que é preenchido dinâmica social. O conceito de ambiente, portanto, passa que a exprimir uma a diz Leff suas visões de mundo (Gonçalves, 2000). Em síntese, por sujeitos central de desde o momento em que se constitui complexidade do mundo", (2001: 17), ambiente não é a ecologia, mas a como nos natureza e um da movimento histórico de rediscussão como da a categoria da do também vida em seus significados mais profundos, sociedade, ção a educação na conformação do que se designa influencian- por Educa-E FUNDAMENTOS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL tarem Apesar em noções das tendências pouco esclarecedoras conservadoras 65 vida e desenvolvimento sustentável do que vem a qualidade e se pau- sua origem, o ambientalismo não pode 2000), exatamente por de homogeneamente desvinculado das grandes compreendido como estando nas, das minorias, e da recusa aos lutas das classes subalter- Esse contrário simplificado conduziu a um tipo de entendimento padrões de acumulação fortemente de sindicatos de trabalhadores posicionamento de sociais populares às propostas verdes no Brasil até a década e movimentos de Época em que se percebeu, após maior diálogo e aproximação sas forças sociais, que a luta por melhores ambientes de trabalho, entre es- cidades planejadas, por modelos diferenciados de produção e de por mo, e pela preservação do patrimônio natural não era exclusiva daque- consu- les que "não tinham preocupações concretas e imediatas", mas uma rea- lidade mediata, relacionada com a busca e definição do que se pretende e entende por qualidade de vida e por sociedade igualitária. Cabe lembrar que a Central Única dos Trabalhadores (CUT) via com preconceito todo aquele que qualificava a relação capital-trabalho dis- tintamente dos modelos tradicionais e sindicais, incorporando as ques- tões de gênero e ambientais. A superação disso somente se deu com a entrada da CUT em Fóruns de Movimentos Sociais e ONGs aglutinados em torno dos debates preparatórios da Rio-92; com a defesa do patrimô- nio hídrico e da qualidade da água na represa Billings, em São Paulo, por sindicalistas metalúrgicos do ABC, em meados dos anos noventa; e, mais recentemente, com a criação da Comissão de Meio Ambiente de- na CUT Nacional e em algumas estaduais, que iniciaram importantes Rio bates acerca do movimento de justiça ambiental. Particularmente no 2000, de Janeiro, este último processo culminou com a publicação, em em articula- pela CUT/RJ, da série Sindicalismo e Justiça Ambiental, feita (Ibase) ção com o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas da UFRJ. e Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano (Ippur) desde sua estruturação Sempre é oportuno lembrar também os pensadores que, de esquerda que na defendem década o de Ecossocialismo sessenta, inúmeros (Gorz, são Marcuse, Castoriadis, entre muitos Cohn-Bendict, outros). Eles Bensaid, Pepper, 'Connors, posturas Kovel, políticas ocorridas princi- expressam confluência de idéias e aCARLOS FREDERICO B. LOUREIRO 66 na Europa entre os movimentos de esquerda sociais e alguns e dos "contem- deno- palmente porâneos", o ambientalismo, verdes, com partidos vigorosas posições à esquerda. minados partidos a ponte entre essa análise do ambientalismo precisa e a pers- ser Estabelecendo adotada, um último comentário pectiva feito antes de de educação passarmos crítica ao histórico da Educação Ambiental em termos internacionais e nacionais. Para o ambientalismo e o tipo de educação que fundamenta a prá- social transformadora, um dos problemas associados ao pragma- tismo tica reinante, além do que foi dito no capítulo anterior, está no en- tendimento do quadro histórico em que vivemos a partir da categoria crise ecológica, como se os problemas existentes decorressem da ação humana genérica, facilitando análises superficiais do que se sucede na sociedade. Em de um posicionamento que é ingênuo e descon- textualizado na crítica à tecnologia, ao produtivismo e ao industrialis- mo, ignoram-se as apropriações pelo capitalismo dos processos científi- co-tecnológicos e o peso estrutural do modo de produção no tipo de re- lações que se estabelecem na natureza. Em termos da atuação prática e relacionada ao de compreensão do processo de degradação ecológica, tal postura pragmática pensa a sociedade dissociando a esfe- ra social, das esferas econômica e política, e estas da natural, na crença de que a parceria e a cooperação entre grupos sociais resolverão o qua- dro observado e de que um pretenso consenso obtido arbitrariamente sem a explicitação dos conflitos existentes (numa ordem de dominação resultado aparentemente é democrática) é o caminho para a salvação planetária. resses uma postura ideológica de neutralidade científica de inte- patrimônio hierarquizado natural e de exclusão das classes populares os no padrões acesso de ao poder em nome do bem comum, que acaba por reforçar e e gestão do ambiente em que vivem. talismo, Concluindo, formando a diversidade uma totalidade de perspectivas que compõem o ambien- nas últimas quatro décadas, inviabiliza complexa de múltiplas orientações uma perspectiva conservadora isso, não negamos sua trajetória de leitura superfi- cial e simplificadora. Com qualquer tipo diversidade e seu sentido de movimento, e conservacionista, com tensões mas e destacamos conflitos marcada inter- por suaTRAJETÓRIA E FUNDAMENTOS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL nos que sociedade. redefinem as tendências existentes em suas buscas por hegemo- 67 nia na Apresentadas rapidamente as duas categorias estruturantes conformam a Educação fica fácil perceber a diversidade que de perspectivas possíveis de aí se concretizar e que convivem sociedade, cabendo a nós educadores ter clareza disso, fazendo e atuam na e trilhando caminhos condizentes com os valores a partir dos quais escolhas nos pautamos. vez que estas já foram 2. o exaustivamente detalhamento feito trabalhadas sobre as em categorias obras anteriores educação e (Loureiro ambiente foi et. breve, al., 2000, uma 2002, Loureiro, 2003, 2003a).CORTEZ EDITORA 79 4 EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO BRASIL No Brasil, em particular, a Educação Ambiental se fez tardiamente. Apesar da existência de registros de projetos e programas desde a década de setenta, é em meados da década de oitenta que esta começa a ganhar dimensões públicas de grande relevância, até mesmo, com sua inclusão na Constituição Federal de 1988. Dentre as ações anteriores, é interes- sante lembrar as primeiras medidas governamentais promovidas pela extinta Sema, que realizou cursos de ecologia para profissionais do ensi- no fundamental, e, entre 1986 e 1990, esta, em conjunto com Capes, CNPq, UnB e Pnuma, o primeiro formato de curso de especialização em Educa- ção Ambiental do país (Arruda, 2001). Outro marco nacional anterior à Constituição Federal ocorreu em 1987, quando o Conselho Federal de Educação define, por meio do Parecer 226, que a Educação Ambiental tem caráter interdisciplinar, oficializando a posição de governo acerca do debate comum na época, principalmente entre as secretarias esta- duais e municipais de Educação, se esta deveria ser inserida no ensino formal como uma disciplina ou não, apesar de todas as orientações in- ternacionais serem refratárias a qualquer tentativa de torná-la uma dis- ciplina específica. Porém, as ausências, dificuldades e contradições observadas têm explicações. Num breve olhar para o passado, constatamos que o debate ambien- tal se instaurou no país sob a égide do regime militar nos anos setenta, muito mais por força de pressões internacionais do que por movimentos80 CARLOS FREDERICO B. sociais de cunho ambiental, nacionalmente consolidados. Até a gação da Constituição Federal de 1988 a política ambiental brasileira foi gerida de forma centralizada, sem a participação popular efetiva na definição de suas diretrizes e estratégias, à luz da Lei Federal 6.938 de 31/08/81, que instituiu a Política Nacional do Meio na aplicação dos existentes códigos das águas, florestal e de minas (que foram formulados na década de 1930); e no processo de criação de uni- dades de conservação e de cumprimento da obrigatoriedade, desde de realização dos Estudos de Impacto Ambiental (EIA) e dos Relatórios de Impacto Ambiental (Rima). O movimento ambientalista ganha caráter público e social efetivo no Brasil apenas no início da década de oitenta, com raras exceções ante- riores em estados como o Rio Grande do Sul. Mesmo nessa década, um viés conservacionista altamente influenciado por valores da classe mé- dia européia deu o "tom" político predominante nas organizações re- cém-formadas, algo que se refletiu imediatamente no processo de for- mação do Partido Verde Além disso, falar em ambiente era pensar em preservação do patrimônio natural, em um assunto técnico voltado para a resolução dos problemas ambientais identificados e em algo que impedia o desenvolvimento do país. Nesse contexto, a Educa- ção Ambiental se inseriu nos setores governamentais e científicos vincula- dos à conservação dos bens naturais, com forte sentido comportamenta- lista, tecnicista e voltada para o ensino da ecologia e para a resolução de problemas. Evidentemente que já havia perspectivas críticas que vincula- te vam o social ao ambiental, mesmo entre setores de órgãos de meio ambien- como Rio a Feema (Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente), duziram Ambiental), em São Paulo, que realizaram importantes no de Janeiro, e a Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento oitenta, alguns textos e guias didáticos excelentes nos cursos e pro- e possuíam, contudo, à não eram tendências hegemônicas (como anos não setenta são) nem época, grande capilaridade no tecido social. devidamente reconhecida pelas instituições oficiais, Ambiental cabe lembrarmos não era Para ilustrar o quanto a relevância da Educação tica e 1. popular, As dificuldades no campo no das processo forças sociais de implantação e consolidação do PV democrá- e ruptura com o capitalismo, foram por nós comprometidas analisadas sinteticamente com projetos em de como Loureiro transformação opção (2003). socialTRAJETÓRIA E FUNDAMENTOS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL 81 do Relatório Nacional, produzido pela extinta Comissão Interministerial para o Meio Ambiente (Cima), que fez parte da programação da ONU para a Conferência de 1992 e que expressou a posição do país naquele momento. Lembramos que este foi um documento tipo diagnóstico, por- tanto, datado, com posições que não correspondem à atual postura go- vernamental, mas que serve para ressaltar o quanto a Educação Am- biental era secundarizada no debate público. O item relativo à Educação Ambiental apresentou uma descrição lógica, porém, a boa articulação do discurso se perdeu pela falta de ênfa- se em pontos essenciais e pela análise precária destes. O relatório gover- namental colocou como fato secundário que um dos maiores problemas foi a Educação Ambiental não ter sido tratada como parte de área da educação e sim como de meio ambiente. "A peculiaridade notável da década de 1970 está no fato de que a Educa- ção Ambiental se inseriu primeiro na estrutura administrativa dos órgãos públicos de meio ambiente, em vez de ser objeto de trabalho do sistema educativo. Isto talvez se explique em razão dessa educação ser, à época, ainda carente de desenvolvimento conceitual e, logo, vinculada mais a ambiente do que a educação propriamente dita" (Cima, 1991: 63). Isto não deveria ser apresentado como um fato do tipo mas como o principal problema. A falta de percepção da Educação Am- biental como processo educativo, reflexo de um movimento histórico, produziu uma prática descontextualizada, voltada para a solução de problemas de ordem física do ambiente, incapaz de discutir questões de sociais e categorias teóricas centrais da educação. E mais, a ausência reflexão sobre o movimento ambientalista, seus propósitos educadores e significa- dos políticos, levou à incorporação acrítica por parte dos dominantes, ambientais, das tendências conservadoras e pragmáticas natural, fun- estabelecendo ações educativas dualistas entre o social e o e idea- damentadas em concepções abstratas de ser humano e generalistas processo listas no modo como definem a responsabilidade humana institucional no de degradação ambiental. Portanto, houve a possibilidade Ambiental que ignorou e princípios do fazer educativo e a diversidade e radicalidade vetor da trans- histórica de concretização de uma Educação inserida no ambientalismo, perdendo o sentido de educação como formação social e civilizacional.82 CARLOS FREDERICO LOUREIRO Reconhecem, no relatório, que os pressupostos teóricos da Educa- ção Ambiental não foram aprofundados e que isso, associado ao biologizante, impediu uma perspectiva popular e Contudo, enfoque confirmarem tal dado de realidade, o fazem como se fosse apenas um ao cracia de conhecimento e de má administração do tema pela estatal. Ora, esses não são apenas fatores conjunturais, resultantes da "imaturidade" do Estado brasileiro no tratamento da questão, até porque isso não é algo inerente ao Estado como ente genérico, mas a como este se formou ao longo de nossa história e em um contexto de profunda desigualdade e exclusão. O problema é estrutural, vinculado ao modelo de desenvolvimento, ao modo de produção, à baixa partici- pação política e cidadã nas questões vistas como ambientais, à conjun- ção e subordinação do Estado aos interesses privados e mercantis, e ao reducionismo no tratamento da categoria ambiente. Assim, a Educação Ambiental se constituiu de modo precário como política pública em educação. Algo que se manifesta até hoje na ausên- cia de programas e recursos financeiros que possam implementá-la como parte constitutiva das políticas sociais, particularmente a educacional, como uma política de Estado universal e inserida de forma orgânica e transversal no conjunto de ações de caráter público que podem garantir a justiça social e a sustentabilidade. Apesar desse macrocenário que nos traz pouco entusiasmo, é pre- ciso explicitar outros processos ocorridos no país, dialetizando o quadro histórico e evidenciando as possibilidades existentes. No início da dé- cada de noventa, seja pela mobilização social em decorrência da Rio-92, seja pelo alcance global que a questão ambiental adquiriu, o governo federal, principalmente por meio do Ministério da Educação e do Minis- tantes. tério do Meio Ambiente, produziu alguns documentos e ações impor- Programa Nacional de Educação de 1994, que foi definido por meio de sete linhas de ação: (1) Educação Ambiental no ção Ambiental Ambiental do Meio Ambiente (DEA/MMA) e pela Coordenação Geral de Educa- 2. Há do uma nova versão produzida em 2003, conjuntamente pela Diretoria de Educação Ambiental, (COEA/MEC), e acordada pelo órgão gestor da Política Nacional de Educação A que foi submetida a consulta nacional, visando sua consolidação até meados de versão em discussão pode ser encontrada no site: www.mma.gov.br.E FUNDAMENTOS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL ensino fissionalizante); formal (capacitar (2) Educação os sistemas no processo de ensino de formal, supletivo e pro- 83 gestores pios da gestão públicos ambiental); e privados (3) a Realização agirem em de concordância gestão ambiental com os (levar instrumentalizar Educação Ambiental usuários para usuários de de recursos campanhas naturais (conscientizar específicas de bilidade processo produtivo e a qualidade de vida das no recursos naturais, promovendo a sustenta- e (4) Cooperação com sociais os que atuam nos meios de comunicação e com os comunicadores (viabilizar aos que atuam nos meios de cação as condições para que contribuam com a formação da consciência comuni- ambiental); (5) Articulação e integração das comunidades em favor da Educação Ambiental (mobilizar iniciativas comunitárias adequadas à sus- tentabilidade); (6) Articulação intra e interinstitucional (promover a coo- peração no campo da Educação Ambiental); (7) Criação de uma rede de centros especializados em Educação Ambiental, integrando universida- des, escolas profissionais, centros de documentação, em todos os Esta- dos da federação. Os Parâmetros Curriculares Nacionais, produzidos com base na LDB e lançados oficialmente em 15 de outubro de 1997, documento que defi- niu como temas transversais, em função da relevância social, urgência e universalidade: saúde, ética, pluralidade cultural, orientação sexual e meio ambiente. Apesar das críticas que recebeu pelo modo como pen- sou a transversalidade em educação (mantendo como eixos principais as disciplinas de conteúdos formais - português, matemática, ciências história e geografia) e pela baixa operacionalização da proposta, abordá- teve o mérito e de inserir a temática ambiental não como disciplina e de articulada às diversas áreas de conhecimento. Isso está projetado das ações e planejado la para ocorrer desde o entendimento do significado gestão coleti- cotidianas no local de vida, passando pela reconstrução e o quadro de va de alternativas de produção que minimizem e superem todo, redefi- degradação, até a inserção política qualidade na sociedade de vida e como propiciando um a constru- ção nindo de o uma que ética se que se possa nomear como ecológica. pretende por vinte No mesmo ano e em comemoração Educação aos cinco Ambiental, anos da Rio-92 que e visava consolidar ção de Tbilisi, de 2.868 a diretrizes I pessoas Conferência políticas de entidades Nacional para governamentais sua de concretização. e da Teve sociedade a participa- civilCARLOS FREDERICO LOUREIRO 84 documentos regionais, elaboraram um documento na- des temas com Educação seus Ambiental e as vertentes desenvolvimento cional, problemas e recomendações. do categori- que, a partir conhecido de como a Declaração de Brasília, em Estes que foram constam gran- zados em: (1) Educação Ambiental formal; (3) Educação Ambiental no sustentável; de gestão (2) ambiental (metodologia e capacitação); (4) Educação Ambiental processo e as políticas públicas; (5) Educação Ambiental, ética e for- mação da cidadania: comunicação e informação da sociedade. Segundo Arruda (2001), o evento transcorreu de forma bastante polêmica quanto à organização, evidenciando a desarticulação entre o governo federal e os estaduais e problemas de disponibilização de recursos para envio de representações governamentais, criando desequilíbrios regionais. Hou- ve também na estruturação da programação com atividades sobrepostas, gerando reclamações dos participantes. A Lei 9.795, de 27 de abril de 1999, que institui a Política Nacio- nal de Educação Ambiental, da qual, no que se refere ao objeto do pre- sente texto, destaca-se o seguinte trecho: "Art. 3° - Como parte do processo educativo mais amplo, todos têm di- reito à Educação Ambiental [...] Art. 4° São princípios básicos da Educação Ambiental: [...] I o enfoque humanista, holístico, democrático e participativo; II a concepção do meio ambiente em sua totalidade, considerando a interdependência entre o meio natural, o sócio-econômico e o cultural, sob o enfoque da sustentabilidade; III o pluralismo de idéias e concepções pedagógicas, na perspectiva da inter, multi e transdisciplinaridade; IV a vinculação entre a ética, a educação, o trabalho e as práticas sociais; V a garantia de continuidade e permanência do processo educativo; VI a permanente avaliação crítica do processo educativo; [...] dual e cultural. VIII o reconhecimento e o respeito à pluralidade e à diversidade indivi- I Art. o 5° São objetivos fundamentais da Educação Ambiental: em suas desenvolvimento múltiplas e de uma compreensão integrada do meio ambiente psicológicos, complexas relações, envolvendo éticos; legais, políticos, sociais, econômicos, aspectos ecológicos, culturais eE FUNDAMENTOS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL 85 II a garantia de democratização das informações ambientais; blemática e social; o estímulo ambiental e o fortalecimento de uma consciência crítica sobre a pro- IV o incentivo à participação individual e coletiva, ponsável, na preservação do equilíbrio do meio ambiente, permanente e res- a defesa da qualidade ambiental como um valor inseparável entendendo-se do exercício da cidadania; [...] VII - o fortalecimento da cidadania, autodeterminação dos e soli- dariedade como fundamentos para o futuro da humanidade. povos [...] Art. 10 A Educação Ambiental será desenvolvida como uma prática educativa integrada, contínua e permanente em todos os níveis e modali- dades do ensino formal. [...] § 3° Nos cursos de formação e especialização técnico-profissional, em todos os níveis, deve ser incorporado conteúdo que trate da ética ambien- tal das atividades profissionais a serem desenvolvidas". Observamos na Lei uma preocupação com a construção de condu- tas compatíveis com a "questão ambiental" e a vinculação de processos formais de transmissão e criação de conhecimentos a práticas sociais, numa defesa das abordagens que procuram realizar a práxis educativa por meio de um conjunto integrado de atividades curriculares e extra- curriculares, permitindo ao educando aplicar em seu cotidiano o que é aprendido no ensino formal. Há também efetiva preocupação em fazer com que os cursos de formação profissional insiram de modo transver- sal conceitos que os levem a padrões de atuação profissional minima- mente impactantes sobre os bens naturais e aceitos como ecológicos. A pergunta que está em aberto para todos os educadores ambientais, sen- do relevante colocá-la para reflexão do leitor, é: Como, no movimento contraditório de constituição da Educação Ambiental, esse posiciona- mento oficial e legal vem sendo interpretado e realizado na sociedade brasileira? 3. São feitas severas críticas a certos limites que a lei possui, principalmente por e sociedade definir a educação ambiental de modo impreciso, à pouca clareza no modo como social governo desigual e fragmen- civil transversal educação ambiental em uma estrutura cabe dis- tária podem e se fazem tornar questionamentos a se esse é o melhor caminho. foco. Contudo, aqui não essa cussão, pois levaria o texto para um outro tipo de análise e deCARLOS FREDERICO Sistema Brasileiro de Informação em Educação Ambiental Ministério e Práticas Sustentáveis (Sibea), criado em 2001 e coordenado ensino pelo superior, ONGs do Meio Ambiente em parceria com instituições de difundir e re- finalidade organizar, sistematizar e as informa- ções des, produzidas tem por em Educação Ambiental e articular ações de encontram fragmentadas. Em seu documento apresentação tais que se objetivos: (1) implantar um sistema de informações referenciais lista os seguintes sobre Educação Ambiental e reformular o site de Educação Ambiental para difundir notícias e informações, assegurando a integra- ção entre ambos; (2) captar, processar, armazenar e disseminar informa- ções sobre Educação Ambiental e práticas sustentáveis; (3) coletar, pro- cessar, armazenar e difundir informações atualizadas sobre profissio- nais e instituições atuantes em Educação Ambiental e práticas sustentá- veis; (4) coletar, processar, armazenar e difundir informações atualiza- das sobre programas, metodologias, práticas e tecnologias sustentáveis relacionadas com a Educação Ambiental; e (5) fornecer informação para os programas ou atividades de capacitação. Além dos acontecimentos e normatizações apresentados, é vel identificar uma "simpatia" popular pela Educação Ambiental quan- do verificamos que, em pesquisas nacionais feitas ao longo da década de noventa, 95% dos brasileiros gostariam de vê-la como obrigatória nas escolas, entendendo-a como instrumento de mudança das pessoas em seus hábitos e comportamentos no ambiente (Crespo, 1998; Crespo e Leitão, 1993). Evidentemente a leitura dessa informação não deve ser reducionis- ta. Pelo tipo de resposta encontrada, é provável que o sentido de Educa- ção Ambiental representada por parcela significativa da população pesquisada seja a comportamentalista. focada no indivíduo e na descontextualizada. Ademais, nesse tipo de resposta fica prática uma crença pelas ainda comum de que à educação cabe a responsabilidade implícita exclusi- forma va determinante mudanças desejadas, exatamente por se colocar de dado relevante, no plano dos valores e das idéias. Contudo, o problema é um Educação Ambiental no possibilidades de uma se informação obter apoio que da opinião expressa o interesse das pessoas e pública em processos de em entre setores sociais (efetiva ou como além prestação de projetos de serviços), parceria No âmbito da denominada sociedade civil, feitosE FUNDAMENTOS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL estratégico, ao longo da várias década redes de noventa foram criadas, e com destaque relevante significado político 87 e de Educação Ambiental (Rebea), em Contamos para a Rede Brasileira redes mato-grossense, mineira, paulista, atualmente com as nal, do Rio de Janeiro, da Paraíba, de Centros de acreana, panta- de Programas Universitários de Educação Ambiental Educação (Rupea), Ambiental, tras formadas ou em fase de construção, e que, independentemente entre ou- considerações críticas que podem ser feitas ao modo como se de ram e atuam, são expressões vivas de mobilização de educadores articula- e am- bientalistas em torno da Educação Além disso, incontáveis eventos ocorreram desde o I Congresso Brasileiro de Educação Ambiental, realizado em e o En- contro Nacional de Educação para o Meio Ambiente, no Rio de Janeiro, ambos realizados em outubro de 1988. Os públicos participantes são cres- centes e com sujeitos oriundos de formações profissionais cada vez mais diferenciadas, que apontam para a possibilidade concreta de incorpora- ção do debate ambiental em todas as áreas do conhecimento e atividades sociais. Nesse processo contraditório, plural e dinâmico que caracteriza a história da Educação Ambiental no Brasil, o poder público, ao estabele- cer suas políticas para a área, explicita o caráter da sustentabilidade que assume em relação não somente a esta mas em relação à gestão do am- biente em sentido amplo. E, por meio de seus canais institucionais e nor- mativos, marca os processos de mediação de interesses e de conflitos entre diferentes grupos e classes, pelo uso e acesso ao patrimônio am- biental, bem como de orientação política e ideológica hegemonizada. bens e ao Essa prática produz simetrias e assimetrias na distribuição dos afir- atender interesses e necessidades de grupos definidos. Isso significa em nome do mar que toda e qualquer política pública, mesmo realizada ao decidir a des- bem do interesse coletivo, não é neutra, pois perde tinação comum de determinados e bens estabelece quem ganha ou quem nesse (Quintas e Gualda, 1995). As processo políticas públicas podem ser sinteticamente Estado definidas capaz como de opera- ações planejadas enquanto instância do igualitárias. Estas se cionalizar políticas de governo, universalistas, includentes na construção e coletiva e parti- baseiam, em uma sociedade democrática,88 CARLOS FREDERICO B. LOUREIRO problemática ou tema. Normalmente, a viabilidade destas se cipativa, envolvendo os agentes sociais representativos de determinada em dois pilares: (1) a busca constante de diálogo, apoio dos envolvidos sustenta obtenção de consenso quanto às diretrizes, aumentando o grau de e apro- vação e capacidade de implementação; (2) a definição de normas, ins- tâncias públicas deliberativas e procedimentos para a solução dos con- flitos e situações imprevistas que surgem no processo. Considerando os aspectos mencionados, podemos inferir que, ape- sar da mobilização dos educadores ambientais e da aprovação da lei que define sua política nacional, a Educação Ambiental ainda não se conso- lidou em termos de política pública de caráter democrático, universal e includente, o que, inclusive, justifica os recentes encaminhamentos em âmbito federal. No atual governo está sendo possível construir espaços de diálogo que envolvem redes, universidades, Ministério do Meio Ambiente e Ministério da Educação; além de se ter conseguido a im- plantação do órgão gestor da Política Nacional de Educação Ambiental, prevista em lei desde 1999.4 Tal feito, no entanto, apenas sinaliza em determinada direção, mas não pode ser entendido como a certeza de que a teremos como uma política pública nacionalmente consolidada, principalmente se considerarmos que as orientações econômicas volta- das para os interesses do mercado continuam dominantes, mesmo em um governo aberto ao diálogo com os movimentos sociais. O percurso apresentado permite compreender a história contradi- tória em que se move a Educação Ambiental à luz da teoria e da pedago- gia crítica. Buscaremos, a seguir, detalhar as bases conceituais desta, obje- tivando sua compreensão e realização numa perspectiva transformado- ra e emancipatória em contraponto às tendências hegemônicas conser- vadoras, pragmáticas e comportamentalistas Henrique lei federal e seu órgão gestor foi feita em junho de 2002, portanto, no final da gestão Fernando 4. Em termos de precisão e correção histórica, é importante dizer que a regulamentação da Cardoso. Contudo, o que ressaltamos é que o efetivo funcionamento dessa instância começa a ocorrer apenas no governo Lula.