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Brasília-DF. Hematologia ClíniCa: Série BranCa Elaboração Claudia Feriotti Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração Sumário APRESENTAÇÃO ................................................................................................................................. 4 ORGANIZAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA .................................................................... 5 INTRODUÇÃO.................................................................................................................................... 7 UNIDADE I HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO ................................................................................................. 9 CAPÍTULO 1 RECONHECIMENTO DOS GLÓBULOS BRANCOS DO SANGUE PERIFÉRICO ................................. 9 CAPÍTULO 2 LEUCOGRAMA ....................................................................................................................... 41 UNIDADE II LEUCEMIAS ......................................................................................................................................... 56 CAPÍTULO 1 TIPOS DE LEUCEMIAS .............................................................................................................. 56 CAPÍTULO 2 HEMOSTASIA E COAGULAÇÃO ............................................................................................... 79 PARA (NÃO) FINALIZAR ..................................................................................................................... 96 REFERÊNCIAS .................................................................................................................................. 97 4 Apresentação Caro aluno A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade. Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da Educação a Distância – EaD. Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade dos conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos específicos da área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém ao profissional que busca a formação continuada para vencer os desafios que a evolução científico-tecnológica impõe ao mundo contemporâneo. Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira. Conselho Editorial 5 Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam tornar sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta para aprofundar seus estudos com leituras e pesquisas complementares. A seguir, apresentamos uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de Estudos e Pesquisa. Provocação Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor conteudista. Para refletir Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões. Sugestão de estudo complementar Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo, discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso. Atenção Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a síntese/conclusão do assunto abordado. 6 Saiba mais Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões sobre o assunto abordado. Sintetizando Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos. Para (não) finalizar Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado. 7 Introdução A ciência da hematologia vem passando por um intenso avanço tecnológico, implicando em uma necessidade constante de atualização. Assim, o Caderno de Estudos e Pesquisa “Hematologia Clínica: Série Branca” foi elaborado com o objetivo de proporcionar ao aluno um melhor entendimento, na área de hematologia clínica, possibilitando a identificação, correlação clínica, e interpretação dos resultados das principais patologias hematológicas. O conhecimento e a utilização das ferramentas necessárias, para a identificação das desordens hematológicas, pela realização e interpretação do hemograma, bem como a identificação dos componentes celulares da série branca, suas funções, características morfológicas, fisiológicas e as alterações patológicas desencadeadoras de diversas condições patológicas, irão preparar os futuros profissionais para o mercado de trabalho, além de despertar o poder crítico e criativo. A automação dentro dos laboratórios é outro fator de fundamental importância, requerendo uma dinâmica de atualização do profissional, por meio de constante reciclagem. Sob essa visão, fica clara a necessidade de se desenvolver práticas laboratoriais modernas e atualizadas, para tanto, a necessidade de um profissional embasado nos conceitos básicos em hematologia é primordial, para o desempenho de técnicas mais sofisticadas. Ao final do curso, o aluno será avaliado, mediante aos exercícios propostos, levando em consideração fatores técnicos, poder de decisão, e análise do contexto individual, para cada evento aprendido no decorrer das aulas. Objetivos » Reconhecer os glóbulos brancos do sangue periférico: funções e características normais dos neutrófilos, eosinófilos, basófilos, linfócitos e monócitos. » Ensinar a leucopoiese: precursores hematopoiéticos e fatores de crescimento; ontogenia das séries: granulocítica, monocítica e linfocítica. » Compreender a diferenciação e maturação neutrofílica, eosinofílica, basofílica, monocítica e linfocítica. 8 » Interpretar o leucograma: valores de referência e alterações; desvio à esquerda, à direita e alterações tóxico-degenerativas. » Reconhecer a distribuição e o processamento dos linfócitos, nos órgãos linfoides centrais, e periféricos. » Caracterizar as anomalias leucocitárias, e alterações tóxico- degenerativas. » Reconhecer e classificar as leucemias: leucemia linfoide aguda, leucemia linfoide crônica, leucemia mieloide aguda, leucemia mieloide crônica, e síndromes mielodisplásicas. » Definir as características e funções das plaquetas, os fatores plaquetários, bem como o papel das plaquetas na coagulação. » Definir os mecanismos e as etapas da hemostasia e coagulação sanguínea. » Caracterizar os inibidores da coagulação e os processos fibrinolíticos. 9 UNIDADE I HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO CAPÍTULO 1 Reconhecimento dos glóbulos brancos do sangue periférico Leucopoiese As stem-cells pluripotentes (células-mãe pluripotentes ou células-tronco) são células pequenas, mononucleares, indiferenciadas, e capazes de se diferenciar para quaisquer das linhagens sanguíneas. São, também, denominadas unidades formadoras de colônias esplênicas (baço = spleen – CFU-S), pois foram caracterizadas em experimentos com baço de camundongo. Ontogenicamente, originaram-se em diferentes locais de hematopoiese: no saco vitelino (período embrionário), no fígado-baço,e na medula óssea (período fetal e adulto). Podem ser identificadas por estudo imunológico, utilizando anticorpos monoclonais, e se caracterizam, por serem CD34+ e CD38-. Ao se diferenciarem (comprometimento ou comissionamento), em unidades formadoras de colônias mieloides (CFU-GEMM), ou linfoides (CFU-L), as células- mãe pluripotentes passam a ser denominadas stem-cells multipotentes, ou células- mãe multipotentes (células-mãe mieloides ou linfoides), ainda não totalmente diferenciadas. É nessa fase que começam a expressar CD38+, e os antígenos (marcadores de superfície) mieloides, ou linfoides específicos. As células-mãe mieloides permanecem na medula óssea, na qual se diferenciam em unidades formadoras de colônias granulocíticas (CFU-G), monocíticas (CFU-M), eritroides (CFU-E) e megacariocíticas (CFU-Meg), que darão origem a granulócitos, monócitos, eritrócitos e plaquetas, respectivamente. 10 UNIDADE I │ HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO As células-mãe linfoides pró-T migram para o timo, e as pró-B ficam na medula. Há evidências indiretas de que as células-mãe linfoides (CFU-L) originam os linfócitos B, T e NK. Os linfócitos se diferenciam em progenitor B específico, ou em progenitor comum T-NK, o qual se diferencia, posteriormente, em progenitores específicos para a linhagem T ou NK. O desenvolvimento dos linfócitos B e T ocorrem em duas fases distintas, e sequenciadas: antígeno-independente (linfopoiese) e antígeno-dependente (imunopoiese). A primeira é coordenada geneticamente, e requer interações hormonais e microambientais, na medula óssea para células B, e no timo para as células T. O desenvolvimento das células NK permanece obscuro. A fase maturativa antígeno-dependente envolve a exposição das células B e T, e a partículas estranhas (não próprias), resultando na expressão de receptores de superfície específicos para tais partículas; ocorre nos órgãos linfoides secundários. O início do processo de linfopoiese ocorre por volta da sétima semana gestacional, quando as células progenitoras migram para os órgãos linfoides primários, nos quais passam por um processo altamente regulado de diferenciação e maturação. As células pró-T, no timo, e as pró-B, na medula óssea, passam por estágios de seleção, de modo que as células defeituosas, ou autorreativas (reagem com os próprios antígenos – self), entram em morte celular programada (apoptose). Apenas linfócitos equipados adequadamente, para reconhecerem antígenos estranhos (not self), sobrevivem e se tornam imunologicamente maduros, porém, virgens, ainda sem contato com antígenos não próprios. Esses linfócitos B e T maduros saem da medula óssea e timo, respectivamente, e passam a circular na corrente sanguínea, na linfa, e nos tecidos linfoides periféricos (órgãos linfoides secundários), em que tomam contato com antígenos não próprios (imunopoiese), e passam a desempenhar suas funções no sistema imune. As células B e T que, em poucos dias, não têm contato com antígenos, entram em processo de morte programada. A Figura 1 mostra o controle da hematopoiese, em todas as suas fases, incluindo a nomenclatura dos precursores hematopoiéticos, e fatores estimuladores. 11 HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO │ UNIDADE I Figura 1. Fases da hematopoiese nomenclatura dos precursores hematopoiéticos e fatores estimuladores. IL-1, IL-3, IL-6, SCF, G-CSF IL-1, IL-3, IL-6, SCF, FLT-3L GM-CSF IL-3 ‘CFU-Mega a IL-3 a IL-3 IL-11 a GM-CSF IL-3 a GM-CSF IL-3 a GM-CSF IL-3 a IL-3 a Pró-eritroblasto Megacariócito Monoblasto Mieloblasto Mieloblasto basofílico Mieloblasto eosinosofílico EPO TPO GM-CSF M-CSF GM-CSF G-CSF GM-CSF IL-5 IL-3 IL-4 a Hemácia Plaquetas Monócito Neutrófilo Eosinófilo Basófilo Linfócito B Linfócito T Linfoblasto T Linfoblasto B Antígeno -Dirigida Células Pré B IL-5 IL-6 a IL-1 IL-2 IL-4 IL-2 IL-4 a Pró-Timócito Célula-tronco Mieloide BFU-E Célula tronco pluripotente Célula- Tronco Linfoide ‘CFU-GM a Fonte: http://www.medicinanet.com.br/m/conteudos/acp-medicine/7607/abordagem_aos_pacientes_com_disturbios_ hematologicos_benignos.htm. Acesso em: 22/01/2020 A Tabela 1 mostra a nomenclatura dos precursores hematopoiéticos e fatores estimuladores. Tabela 1. Precursores hematopoiéticos e fatores estimuladores. CFU-S Célula pluripotente. Chamada de colony forming unit. Por ter sido descrita no baço, recebeu a denominação S (spleen). CFU-GEMM (CFU-C) Unidade ou célula formadora de precursores das linhagens granulocítica, eritroblástica, monocitária e megacariocitária. CFU-GM Unidade ou célula formadora de colônias de neutrófilos e monócitos CFU-Eos Unidade ou célula formadora de colônias de eosinófilos CFU-Bas Unidade ou célula formadora de colônias de basófilos. Admite-se que delas se originam os mastócitos (? ). CFU-Meg Unidade ou célula formadora de colônias de megacariócitos (e plaquetas) BFU-E Fator estimulador de progenitores eritroblásticos CFU-E Unidade ou célula formadora de eritroblastos EPO-(Ep) Eritropoetina. Estimula a diferenciação dos progenitores eritroblásticos GM-CSF Fator estimulador de colônias granulocíticas (G) e monocitárias (M) G-CSF Fator estimulador de colônias granulocíticas M-CSF Fator estimulador de colônias monocitárias Fonte: Atlas de Hematologia Clínica Hematológica. Lorenzi, F. T. Ed. Guanabara Koogan- Rio de Janeiro, p. 5, 2006. http://www.medicinanet.com.br/m/conteudos/acp-medicine/7607/abordagem_aos_pacientes_com_disturbios_hematologicos_benignos.htm http://www.medicinanet.com.br/m/conteudos/acp-medicine/7607/abordagem_aos_pacientes_com_disturbios_hematologicos_benignos.htm 12 UNIDADE I │ HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO Ontogenia da série granulomonocítica Os estímulos para a diferenciação das células pluripotentes são específicos para cada linhagem hemopoética. As hemorragias, por exemplo, atuam estimulando a eritrocitogênese, assim como a plaquetogênese, no nível da medula óssea. Ambientes com baixa pressão de oxigênio levam ao aumento de eritrócitos na circulação, e à hiperplasia de eritroblastos, na medula óssea. Com relação aos granulócitos, são vários e complexos os mecanismos reguladores da produção dessas células na medula, e da sua emissão para a corrente sanguínea. Os dados sobre a cinética dizem respeito, quase que exclusivamente, aos granulócitos neutrófilos. São essas as células que estão em maior número na medula óssea e no sangue, e se prestam aos estudos sobre cinética leucocitária. Alguns desses dados são bem definidos, enquanto outros são duvidosos, principalmente pela variedade medular encontrada na medula óssea. Com finalidade didática, costuma-se dividir as células granulocíticas (especialmente, os neutrófilos) em vários compartimentos. » Compartimento medular: compreende as células pluripotentes indiferenciadas, aquelas que já estão em divisão e diferenciação, e os elementos maduros que ficam retidos durante algum tempo, na medula óssea. » Compartimento circulante: corresponde às células maduras da circulação. A ele pertencem as células circulantes da corrente sanguínea e, também, certa quantidade de granulócitos neutrófilos, que fica aderida ao endotélio dos vasos, em situação marginalizada. » Costuma-se denominar tais células de compartimento de reserva, ou marginalizado. Em condições normais, não há necessidade de que essas células circulem, porque a medula óssea produz um excesso de elementos de defesa. Elas só passam a ser circulantes, quando há solicitação maior. » Compartimento tissular: engloba todas as células granulocíticas, que deixaram a circulação e se dirigiram para os tecidos. Os neutrófilos, como os demais granulócitos, não têm capacidade de voltar à corrente circulatória, depois que atravessam a parede dos capilares. Nos tecidos, eles exercem a função de fagocitose, sofrem várias alterações estruturais e, depois, morrem, sendo, então, fagocitados por células maiores – os macrófagos.13 HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO │ UNIDADE I No compartimento medular, acontece a divisão celular, por meio da qual o tecido hemopoético se expande. As células que se dividem vão, também, se diferenciando, originando outras células, cada vez mais maduras. A partir da célula indiferenciada, origina-se a primeira célula, reconhecidamente granulocítica – o mieloblasto (Mb). Esta, por sua vez, dá origem ao promielócito (Pmc), dando, essa, origem ao mielócito (Mc), do qual derivam o metamielócito (Mm), o bastonete (Bt), e o segmentado (Sg). Na fase de Mb, ocorre uma divisão celular. Em média, o Pmc divide-se três vezes, e o Mc uma vez. Com isso, há produção de um excesso de mielócitos. Entretanto, nesse nível há, também, morte de um número razoável de células, o que se denomina granulocitopoese ineficiente, isto é, não há amadurecimento posterior de todos os granulócitos, até então formados. As células medulares parecem trabalhar aquém de sua capacidade total. Quando há necessidade de maior número de granulócitos na circulação, o número de divisões celulares, nessas fases, pode aumentar. Outro fato que deve ocorrer, quando a demanda aumenta na periferia, é a redução granulocitopoese ineficiente. A partir dos Mm, não ocorre mais divisão celular. Essas células pertencem ao que se denomina compartimento pós-mitótico. Denominam-se fatores estimuladores e inibidores da granulocitopoese aqueles que estimulam, ou inibem a expansão normal do parênquima hemoformador, bem como a maturação ou diferenciação deste. Esses fatores atuam em pontos diferentes do processo proliferativo-maturativo dos granulócitos. Genericamente, são chamados de granulocitopoetinas. Quando há solicitação, para maior afluxo de granulócitos na periferia, a cinética normal se altera, ocorrendo o descrito a seguir. » Maior afluxo de células pluripotentes para a granulocitopoese. » Aumento do número de mitoses, nesse compartimento. Parece que há diminuição da granulocitopoese ineficiente, com a morte de menor número de mielócitos. » Diminuição do tempo de trânsito das células, no compartimento pós- mitótico. Os metamielócitos, células que não mais se dividem, são lançados precocemente na circulação. 14 UNIDADE I │ HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO Alguns experimentos têm mostrado que os metamielócitos, em alguns casos de inflamação induzida, podem aumentar o seu teor de DNA e de RNA. Isso sugere que, talvez, essas células sejam possíveis de readquirir a capacidade de divisão, como resposta à maior solicitação. Fatores estimuladores da granulocitopoese Sempre houve interesse, pelos pesquisadores, em se definir uma granulocitopoetina, isto é, um fator que atuasse sobre a granulocitopoese, de forma análoga à eritropoetina, que estimula a eritropoese medular. O termo CSF ou CSA (colony-stimulating factor e colony-stimulating-activity) foi bastante usado, para definir a ação dessa substância, até então quimicamente mal definida. Existe uma vasta literatura nesse campo de estudos, que se baseiam na técnica de cultura de células medulares. Os fatores estimuladores da granulocitopoese atuam em harmonia com outras substâncias de ação oposta – os fatores inibidores. A ação dessas poetinas se faz por via humoral, pela corrente sanguínea, ou numa relação de célula a célula. O estímulo à proliferação de granulócitos tem origem nas células mononucleadas do sangue – linfócitos e monócitos. Os linfócitos e os monócitos produzem fatores estimuladores de crescimento de colônias dessas células in vitro. Por isso, são utilizados como fontes de produção do chamado meio condicionador, para a produção de colônias granulocíticas em culturas. Os fatores produzidos, por tais células, recebem o nome genérico de linfocinas e monocinas de efeito estimulante da granulocitopoese. Outro termo usado, para definir o fator que estimula o crescimento das colônias mistas, aquelas que são formadas por granulócitos, eritroblastos, monócitos e megacariócitos (CFU-GEMM), é a pluripoetina. Observou-se que a pluripoetina, ou GM-CSF, mantém-se por mais tempo à proliferação das colônias. Outra ação dessa linfocina é a de estimular a quimiotaxia dos neutrófilos, bem como a diferenciação das células jovens, em direção a neutrófilos maduros. Existem outros fatores reguladores de linhagens específicas, que recebem as seguintes denominações: » M-CSF-1: estimula o crescimento de colônias de monócitos. » GM-CSF: estimula o crescimento de colônias de neutrófilos. » Eos-CSF: estimula o crescimento de colônias de eosinófilos. » Bas-CSF: estimula o crescimento de colônias de basófilos e mastócitos. 15 HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO │ UNIDADE I A ação dos fatores de crescimento (CSFs) e das interleucinas (ILs) não se faz isoladamente. Ao contrário, há superposição desses vários fatores, alguns atuando preferentemente sobre precursores menos diferenciados, enquanto outros atuam em precursores mais maduros. Alguns pesquisadores agrupam tais fatores em: (1) aqueles que atuam nas fases iniciais de diferenciação (por exemplo, SF, G-CSF, IL-6, IL-11, IL-12); (2) aqueles que atuam nas fases intermediárias de diferenciação (por exemplo, IL-3, IL-4, GM-CSF); (3) aqueles que atuam nas fases finais de diferenciação (por exemplo, M-CSF, G-CSF, EPO). Os estágios da maturação granulocítica, morfologicamente reconhecíveis em um esfregaço corado de medula óssea, foram definidos, conforme a seguir. » Mieloblasto: é o membro identificável mais precocemente da série granulocítica. Tem um núcleo grande redondo, contendo cromatina fina pontilhada, e um ou mais nucléolos. Seu citoplasma é azul, e não tem grânulos (Figura 2 a). » Promielócito: a cromatina nuclear está começando a condensar, mas ainda se veem os nucléolos. O citoplasma ainda é azul, no entanto, grânulos primários, que se coram, como grânulos azurófilos, estão presentes agora (Figura 2 b). » Mielócito: o núcleo ainda é redondo, mas os nucléolos não estão mais visíveis, e a cromatina está mais condensada. A cor azul do citoplasma da célula imatura está dando lugar à cor rosa amarelada da célula madura. Os grânulos azurófilos podem ser ainda visíveis, mas são menos proeminentes. Grânulos secundários, isso é, grânulos finos neutrofílicos, também estão presentes (Figura 2 c). » Metamielócito: o núcleo se tornou denteado, e sua cromatina está bem condensada. O citoplasma é uniformemente rosa-amarelado, e preenchido com grânulos secundários. Embora ainda presentes, os grânulos primários não são mais visíveis (Figura 2 d). » Bastonete: o núcleo se tornou tão denteado, que assumiu a forma crescente. Com a maturação posterior, aparecem constrições no núcleo (Figura 2 e). 16 UNIDADE I │ HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO » Granulócito segmentado: é o granulócito maduro. As constrições do núcleo do bastonete estreitaram-se em finos filamentos de cromatina, que separam o núcleo de dois a quatro lobos (Figura 2 f). Figura 2. Estágios da maturação granulocítica a) mieloblasto; b) promielócito; c) mielócito; d) metamielócito; e) bastonete; f) granulócito segmentado. a b c d e f Fonte: https://docplayer.com.br/6380266-Alteracoes-leucocitarias-nas-doencas.html. Acesso em: 23/01/2020. Diferenciação e maturação neutrófila A Figura 3 mostra os estágios de maturação da linhagem neutrofílica. Mieloblasto → promielócito neutrófilo → mielócito neutrófilo → metamielócito neutrófilo → bastão neutrófilo → segmentado neutrófilo. Figura 3. Estágios de maturação da linhagem neutrofílica. MIELOBLASTO PROMIELÓCITO MIELÓCITO METAMIELÓCITO BASTONETE SEGMENTADOS Fonte: https://www.biomedicinapadrao.com.br/2014/03/como-identificar-metamielocitos-na.html. Acesso em: 23/01/2020 A Figura 4 mostra a análise dos estágios de maturação da linhagem neutrofílica, por citometria de fluxo. As linhagens de mieloblasto, promielócito e mielócito são positivas para os marcadores de receptores de superfície celular (CD3+).As linhagens de metamielócitos, neutrófilos em bastão e maduros, são positivas para (CD3+ e CD11b+). https://docplayer.com.br/6380266-Alteracoes-leucocitarias-nas-doencas.html https://www.biomedicinapadrao.com.br/2014/03/como-identificar-metamielocitos-na.html 17 HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO │ UNIDADE I Figura 4. Estágios de maturação da linhagem neutrofílica: Mieloblasto (verde claro, CD34+); Promielócito (rosa); Mielócito e Metamielócitos (verde)) Neutrófilos em bastão e maduros (amarelo). Legenda: Verde Claro – Estadio I – Mieoloblastos CD34+; Rosa – Estadio II – Promielócitos Verde – Estadio III – Mielócitos e Metamielócitos; Amarelo – Estadio IV – Bandas e Neutrófilos Fonte: https://repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/16406/1/tese%20Mestrado%20-%20Estela.pdf. Acesso em: 23/01/2020 A Figura 5 mostra as populações celulares, correspondentes ao gráfico anterior (Figura 4), e estão representadas em marcadores proeminentes nestas populações da linhagem neutrofílica. https://repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/16406/1/tese%20Mestrado%20-%20Estela.pdf 18 UNIDADE I │ HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO Figura 5. Marcadores celulares de expressão, presentes nas populações da linhagem neutrofílica. Porcentagem do conteúdo de DNA das populações celulares, que estão em fase de maturação (processo de divisão celular), representadas nos histogramas: (I) mieloblastos; (II) promielócitos; (III) mielócitos; (IV) Metamielócitos Bastão; (V) neutrófilos. Fonte: http://www.sbpc.org.br/upload/congressos/2_Aplicacoes_da_citometria_de_fluxo_no_diagnostico_onco-hematologico. pdf. Acesso em: 23/01/2020 Diferenciação e maturação eosinófila Mieloblasto → promielócito eosinófilo → mielócito eosinófilo → metamielócito eosinófilo → bastonete eosinófilo → segmentado eosinófilo (Figura 6). Figura 6. Estágios de maturação da linhagem eosinofílica. MIELÓCITO METAMIELÓCITO BASTONETE SEGMENTADOS EOSINÓFILO EOSINÓFILO EOSINÓFILO EOSINÓFILOS Fonte: https://cadernodefarmacia.blogspot.com/2012/11/mielopoiese.html. Acesso em: 23/01/2020 Diferenciação e maturação basófila Mieloblasto → promielócito basófilo → mielócito basófilo → metamielócito basófilo → bastonete basófilo → segmentado basófilo (Figura7). http://www.sbpc.org.br/upload/congressos/2_Aplicacoes_da_citometria_de_fluxo_no_diagnostico_onco-hematologico.pdf http://www.sbpc.org.br/upload/congressos/2_Aplicacoes_da_citometria_de_fluxo_no_diagnostico_onco-hematologico.pdf https://cadernodefarmacia.blogspot.com/2012/11/mielopoiese.html 19 HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO │ UNIDADE I Figura 7. Estágios de maturação da linhagem basofílica. MIELÓCITO METAMIELÓCITO BASTONETE SEGMENTADO BASÓFILO BASÓFILO BASÓFILO BASÓFILO Fonte: https://cadernodefarmacia.blogspot.com/2012/11/mielopoiese. Acesso em: 23/01/2020 Diferenciação e maturação monocítica Monoblasto → promonócito → monócito (Figura 8). Figura 8. Estágios de maturação da linhagem monocítica. MONOBLASTO PROMONÓCITO MONÓCITO Fonte: https://cadernodefarmacia.blogspot.com/2012/11/linfopoiese-e-monopoiese.html. Acesso em: 23/01/2020 Abbas AK, Lichtman A. H, Pober JS. Imunologia celular e molecular. 4 ed., Rio de Janeiro, Revinter, 2003. Amarante-Mendes GP, Green DR. The regulation of apoptotic cells death . Braz. J. Med. Biol. Res. 1999; 32:1.053-61. Bagby Jr. GC, Heinrich MC. Growth factors, cytokines and the control of hematopoiesis . In : Hoffman R. et al . (eds.). Hematolgy: basic principles and practice. 3 ed., New York: Churcill Livingstone, 2000: 154-244. Borregaard N. The human neutrophil: function and dysfunction . Eur. J. Hematl. 1988; 41:401-13. Cline MJ. The white cell . Cambridge (Mass). Harvard University Press, 1975. https://cadernodefarmacia.blogspot.com/2012/11/mielopoiese https://cadernodefarmacia.blogspot.com/2012/11/linfopoiese-e-monopoiese.html 20 UNIDADE I │ HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO Daniel PT. Dissecting the pathways to death . Leukemia, 2000; 14:2.035- 44. Hayhoe FGJ. Quaglino D. Haematological cytochemistry. Edinburgh: Churchill Livingstone, 1980. http://www.biomedcentral.com. http://www.springeropen.com. http://www.chemistrycentral.com. http://www.angelfire.com/journal/imuno/imuno8.htm. http://www.nupeb.ufop.br/lip/pdf/imunidadeinata.pdf. http://www.ciencianews.com.br/revistavirtual/artapfadel.pdf. http://www.slideshare.net. http://www.jcheminf.com. Ontogenia da série linfocítica – Linfocitogênese Os linfócitos e os plasmócitos se originam de células indiferenciadas da medula óssea, passando por poucas fases intermediárias, até a célula madura. São encontrados em número apreciável, no sangue periférico, sendo mais raros nos esfregaços de medula óssea. Constituem mais de 90% das células nos linfonodos do baço, e de outros órgãos linfoides, como as tonsilas. São reconhecidos os seguintes tipos de células linfoides: Estágios de maturação linfocítica » Linfoblasto: é a forma mais jovem, contendo nucléolos mais ou menos marcados. Apresenta tamanho de 15 a 20µ, núcleo redondo, com cromatina frouxa, com algumas condensações, e que ocupa toda a célula. O citoplasma é escasso, levemente basófilo, não há granulações, ou estão em pequeno número e dispostas em áreas localizadas. » Prólinfocito: costuma ser pouco maior do que o linfócito maduro circulante, com 10 a 15µ de diâmetro. A estrutura cromatínica não é tão frouxa como a do linfoblasto, levemente basófilo, e pode ter granulações. Essa célula também tende a adquirir formas 21 HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO │ UNIDADE I diferentes, especialmente, nos casos de resposta linfocitária a agentes infecciosos virais. Nesses casos, aparecem linfócitos atípicos, isto é, células linfoides grandes, devido ao aumento do volume citoplasmático. Outras vezes, há células com citoplasma muito basófilo e com microvacuolizações. São denominadas, às vezes, linfócitos plasmocitoides, ou células linfoplasmocitárias. Nesses casos, algumas células têm núcleos frouxos e com nucléolos, enquanto outras mantêm os núcleos, com cromatina condensada. » Linfócito maduro: possui de 7 a 10µ de diâmetro. O núcleo é muito grande, em relação ao tamanho das células (relação N/C grande). A cromatina nuclear é disposta em porções, classicamente descrita como semelhantes a côdeas de pão. Não são observados nucléolos, nem granulações citoplasmáticas, na maioria das células. Para se ter boa noção da morfologia celular, é preciso que os esfregaços tenham sido corados com cuidado, porque os linfócitos supercorados ficam extremamente retraídos. Assim, as células blásticas, como linfoblastos leucêmicos, podem passar despercebidas, ou não reconhecidas, ao exame de sangue. A Figura 9 mostra os estágios de maturação dos linfócitos (linfocitopoese). Figura 9. Estágios de maturação dos linfócitos. LINFOBLASTO PROLINFÓCITO LINFÓCITO MÉDIO LINFÓCITO PEQUENO PLASMÓCITO Fonte: https://cadernodefarmacia.blogspot.com/2012/11/linfopoiese-e-monopoiese.html. Acesso em: 23/01/2020 Linfócitos atípicos São células que se distinguem dos pequenos, ou médios, linfócitos comuns normais circulantes, por aumento de tamanho, variação na forma, contorno nuclear, relação núcleo-citoplasma, basofilia citoplasmática, e textura cromatínica. São células, geralmente, em estado proliferativo, com aumento na síntese de DNA e RNA. Estão presentes em bom número de condições associadas a estímulos antigênicos, como em certas infecções, imunizações, reações a drogas, rejeição a transplantes https://cadernodefarmacia.blogspot.com/2012/11/linfopoiese-e-monopoiese.html 22 UNIDADE I │ HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO e doenças autoimunes. Estima-se que mais de 10%dos linfócitos, associados a essas condições, estejam em fase S, do ciclo celular, e tenham como denominador comum a ativação por estímulos antigênicos. Foram descritos, inicialmente, por Turk, em 1907, e têm sido bastante associados à mononucleose infecciosa. As alterações morfológicas dos linfócitos podem estar associadas a estados neoplásicos malignos, ou reacionais benignos. Nos primeiros, são denominadas células atípicas anômalas. Quando associadas a estados reacionais benignos, são mais comumente denominadas virócitos (atipias reacionais). Desse modo, ao serem notados no hemograma, devem ter suas características morfológicas descritas minuciosamente. Subdivisão prática dos linfócitos atípicos » Linfócitos atípicos reacionais ou viróticos: são linfócitos ativados por estímulos antigênicos, presentes em grande variedade de processos benignos de natureza policlonal, cuja proliferação e diferenciação ocorrem de modo controlado. Em geral, desaparecem após a fase aguda do processo infeccioso. Caracterizam-se, morfologicamente, pelo aumento de seu volume, cromatina nuclear de padrão mais heterogêneo, citoplasma mais volumoso e bem basofílico. Em alguns estados benignos, como na mononucleose infecciosa, seu padrão cromatínico pode ser de aspecto imaturo e, por vezes, com nucléolos, entretanto, ainda distinto dos linfoblastos neoplásicos das leucemias agudas. » Linfócitos atípicos anômalos: são de natureza clonal e neoplásica. Estão presentes no sangue periférico, de pacientes com linfomas, em fase circulante e/ou leucemias crônicas. Caracterizam-se, morfologicamente, pela presença de nucléolos e/ou cromatina de padrão imaturo e/ou vilosidades citoplasmáticas e/ou morfologia plasmocitoide. A Figura 10 mostra linfócitos atípicos, de paciente com mononucleose infecciosa. Coloração May-Grunwald. 23 HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO │ UNIDADE I Figura 10. Linfócitos atípicos, de paciente com mononucleose infecciosa. Fonte: Anemias e Leucemias – conceitos básicos e diagnóstico por técnicas laboratoriais. Oliveira, R.A.G; Neto A.P. Roca. 2004. Os linfócitos são células quase que desprovidas de granulações citoplasmáticas e, por isso, recebem o nome de agranulócitos. As células maduras são encontradas no sangue circulante, em porcentagem que varia em condições fisiológicas (idade, sexo) ou patológicas (estímulo antigênico, proliferações benignas e malignas). Essas células são mais numerosas, nos chamados órgãos linfoides primários e secundários. » Órgãos linfoides primários: são a medula óssea e o timo. Nesses locais, ocorre a linfocitopoese, isso é, as células hemopoéticas pluripotentes encontram condições próprias, para fixação e proliferação. As aves possuem órgão linfoide primário – Bursa de Fabricius – que não existe no homem. Neste, é a medula que desempenha o papel de produção de linfócitos, além do timo. Enquanto os linfócitos B amadurecem completamente na medula óssea, os linfócitos T devem migrar para o timo, onde completam seu desenvolvimento. Nos órgãos linfoides primários, há produção constante de células linfoides, que servem para suprir as necessidades dos órgãos linfoides secundários. » Órgãos linfoides secundários: são representados pelos gânglios linfáticos, ou linfonodos, pelo baço, e por outros agrupamentos linfoides (placas de Peyer, amígdalas). Ao nascimento, esses órgãos linfoides secundários são pouco desenvolvidos. À medida que o organismo entra em contato com antígenos diversos, ocorre resposta, ou reação, desses órgãos linfoides. Pode-se, então, 24 UNIDADE I │ HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO observar a hipertrofia de formações, denominadas folículos linfoides. A linfocitogênese apresenta uma dicotomia. As células que se formam, no timo, passam à circulação, e vão se fixar em locais preferenciais dos órgãos linfoides secundários (zona paracortical dos linfonodos e polpa branca do baço). As células derivadas da medula óssea (ou estruturas Bursa-símile) vão povoar e manter a população dos folículos linfoides dos gânglios linfáticos e do baço, assim como a porção medular dos gânglios. Os linfócitos, presentes nessas diversas regiões, são morfologicamente semelhantes, mas diferem funcionalmente. Os linfócitos, que se desenvolvem no timo, são denominados timo-dependentes, ou linfócitos T. Os linfócitos, originados na bursa de Fabricius, ou órgãos bursa-símile, são chamados de linfócitos bursa-dependentes, ou linfócitos B. Os linfócitos T estão encarregados das funções de imunidade celular , enquanto os linfócitos B se encarregam da imunidade humoral , ou seja, a produção de anticorpos. As células medulares pluripotentes (stem-cells, células tronco ou células CD34+) são capazes de originar células precursoras linfoides, que podem seguir a diferenciação para as linhagens T ou B. A diferenciação dos precursores linfoides T, que se faz no timo, segue o sentido da cortical, para a medular do órgão, iniciando-se já por volta da sétima semana de gestação. Essa diferenciação envolve mecanismo complexo de rearranjos genéticos, de forma a aparecerem, na membrana celular, receptores específicos de células T, denominados TCR (Tcell receptors). Esses receptores têm capacidade de reconhecer pontos específicos de antígenos, que invadem nosso organismo, como bactérias, macromoléculas etc., denominados determinantes antigênicos ou epítopos. Os genes, que codificam tais receptores, sofrem rearranjos durante a diferenciação celular dos segmentos V, D e J (variable, diversity and joining), a fim de ser obtida grande diversidade de receptores. Os primeiros TCR identificados foram os chamados heterodímeros, tipos alfa e beta TCRα e TCRβ, expressos pela maioria das células maduras. Os TCR, que aparecem nas células em diferenciação, são os heterodímeros gama e delta, TCRɣ e TCRδ. Tais receptores devem reconhecer como próprios, ou self, os antígenos do complexo maior de histocompatibilidade (MHC). Os clones celulares, que não são reconhecidos, devem ser eliminados. 25 HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO │ UNIDADE I Os TCR ɣ e δ sofrem rearranjos precoces nas células, que já apresentam o antígeno de diferenciação CD7, considerado o primeiro antígeno marcador da linhagem linfocitária. Como consequência da grande variação de TCR das células T, ocorre a produção de grande diversidade de anticorpos, produzidos pelos linfócitos B. Os linfócitos T são encarregados da imunidade celular e, como primeira resposta à presença de um antígeno, são capazes de se multiplicar. É uma resposta imune inicial ou primária. Os linfócitos, que responderam ao antígeno inicial, são capazes de reconhecê-lo, toda vez que ocorrer nova exposição. A cada antígeno, corresponde um clone linfocitário capaz de distingui-lo, havendo, portanto, um número muito grande de especificidades desses clones. Denomina-se reação secundária aquela que ocorre depois da primeira reação. Um maior número de linfócitos é estimulado, expandindo-se mais o clone específico. Muitos desses linfócitos estimulados morrem por apoptose, mas outros permanecem vivos, após a reação, caracterizando os linfócitos de memória. Tanto os linfócitos T, quanto os linfócitos B, podem reconhecer antígenos, entretanto, apenas estes últimos fabricam anticorpos. A resposta imune acompanha-se de alterações morfológicas, nos linfócitos T e B, e podem ser visualizadas nas preparações coradas, por corantes panópticos. As células aumentam de tamanho, o núcleo se torna volumoso, exibindo nucléolo, e o citoplasma se torna mais basófilo, azulado. Há transformação do aspecto maduro em imaturo, formando-se linfoblastos de tipo T ou B. Os linfócitos B transformam-se em plasmoblastos, que dão origem aos plasmócitos. Essa linhagem é produtora de imunoglobulinas de vários tipos. Uma porcentagem dos linfócitos B volta ao aspecto anterior, tornando-se células de memória, enquanto outros caminham para a apoptose. Os linfócitos T estimulados, também se expandem,e se transformam em linfoblastos T, que, posteriormente, transformam-se em células efetoras. Estas são de dois tipos: 1 – células produtoras de citocinas, que atuam sobre os linfócitos T e B e sobre macrófagos; e 2 – células (linfócitos) citolíticas ou citotóxicas, capazes de lisar as células infectadas, por vários antígenos. Alguns linfócitos T são especializados em matar, diretamente, células infectadas por vírus, ou células tumorais. São chamados linfócitos T natural killers ou NK. A resposta imune é muito mais complexa, envolvendo a participação de outras células, denominadas acessórias. Estas são os monócitos/macrófagos, e as células dendríticas. 26 UNIDADE I │ HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO Glóbulos brancos e suas funções O sistema imune é um complexo e dinâmico sistema orgânico, que promove a defesa contra infecções por bactérias, vírus (ou células por ele infectadas), fungos, protozoários e outros parasitas, bem como contra células neoplásicas e tumores, ou a rejeição às células, aos tecidos, ou aos órgãos transplantados, que sejam incompatíveis, independentemente das consequências fisiopatológicas dessa resposta desencadeada. Às estruturas capazes de desencadear resposta imune, dá-se o nome de antígeno (partícula estranha). O determinante antigênico (epítopo) corresponde à parte específica do antígeno, responsável pela resposta imune. Após o reconhecimento de um agente estranho, o sistema imune promove, o mais rápido possível, sua destruição, evitando a ação e disseminação desse agente. Os leucócitos (glóbulos brancos) são as principais células do sistema imune. São os responsáveis pela eliminação dos agentes infecciosos, pela inativação das partículas estranhas, e pelo reconhecimento e ataque a células neoplásicas, células infectadas por vírus, ou transplantes incompatíveis. Dependendo do agente infeccioso, um determinado tipo de leucócito será mais importante do que o outro, na resposta imune. No combate a helmintos, por exemplo, por serem células capazes de lançar seu poderoso conteúdo lítico bem próximo do verme (envolto por IgE), os eosinófilos são mais importantes do que os macrófagos, que só conseguem destruir partículas que possam ser englobadas, o que seria inviável, em razão do grande tamanho do parasita. Por outro lado, parasitas intracelulares obrigatórios, como os vírus, devem ser combatidos, por meio da destruição da célula hospedeira. Nesse caso, a citotoxicidade celular, medida por linfócitos T auxiliares, e efetivada por linfócitos T citotóxicos, é mais importante. As bactérias, em geral, que possuem trânsito extracelular, são combatidas por fagócitos (destroem a bactéria no interior do fagolisossoma), e pelos anticorpos produzidos por plasmócitos (células B diferenciadas), para promover prévia opsonização (interação das imunoglobulinas à membrana do antígeno, o que facilita o reconhecimento e a fagocitose pelos neutrófilos e monócitos – macrófagos). Desse modo, a análise do leucograma deve relacionar, qual o tipo de leucócito é mais eficiente para eliminar um determinado agente agressor. Assim, fica fácil o entendimento de uma eosinofilia, diante de uma parasitose, uma 27 HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO │ UNIDADE I linfocitose, perante uma virose é uma neutrofilia, para infecções bacterianas agudas, como apendicite, pneumonia etc. Funções e características normais dos neutrófilos, eosinófilos, basófilos, linfócitos e monócitos Os leucócitos do sangue (glóbulos brancos), normalmente, consistem em granulócitos, linfócitos e monócitos. Eles são reconhecidos, em um esfregaço de sangue periférico, corado pelo Wright, pelas seguintes características morfológicas. Os granulócitos têm um único núcleo, segmentado com cromatina densa e apertada. O citoplasma contém grânulos, que são finos, de um amarelo róseo no granulócito neutrofílico (neutrófilo), grandes, e cor laranja brilhante, no granulócito eosinofílico (eosinófilo), e grandes, de cor preta purpúrea, no granulócito basofílico (basófilo). Como a maior parte dos granulócitos são granulócitos neutrofílicos, frequentemente, usa-se o termo “granulócito”, como sinônimo de neutrófilo, e os termos “eosinófilo” e “basófilo”, para outros granulócitos. A maior parte dos linfócitos são células pequenas quiescentes, com um núcleo redondo, que contém uma cromatina parcialmente condensada, que parece “manchada”, e quantidades limitadas de citoplasma, que se cora em azul claro. Alguns linfócitos maiores têm núcleo de forma irregular, ou denteada, e quantidade aumentada de citoplasma, contendo áreas que se coram em azul mais profundo. Estes são os linfócitos estimulados circulantes, geralmente, linfócitos T ativados. Um linfócito grande, visto com menor frequência, e com citoplasma azul claro e grânulos azurófilos proeminentes (grande linfócito granular), é uma célula assassina natural “natural killer”. Monócitos são células grandes, com núcleo oval, denteado ou “pregueado”, possuindo uma cromatina rendilhada ou marginal, e com citoplasma azul acinzentado, carregado, contendo grânulos azurófilos finos. No adulto normal, de 50 a 75% dos leucócitos circulantes são neutrófilos, de 20 a 45% são linfócitos, e os restantes, de 5 a 10%, são monócitos e eosinófilos. Os basófilos são infrequentes. Os granulócitos e monócitos fluem em apenas uma direção. As novas células são produzidas na medula óssea, e liberadas no sangue circulante, depois de um breve estágio no sangue, passam para os tecidos. Uma vez nos tecidos, eles não voltam mais para o sangue. Os linfócitos, ao contrário, particularmente os linfócitos T, constantemente se movem para dentro e para fora do sangue circulante e dos tecidos linfoides periféricos. 28 UNIDADE I │ HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO Os granulócitos são necessários para fagocitar e matar muitos tipos de micro- organismos, e para a reação tecidual inflamatória associada. Os linfócitos são necessários às respostas imunes humorais e celulares do organismo a antígenos, isto é, substâncias que não são reconhecidas como próprias “self”. Os monócitos participam da fagocitose e destruição de certos tipos de micro- organismos, e nas respostas imunes. Granulócitos neutrófilos São as células mais numerosas, no sangue circulante dos adultos normais (45% a 70%), em que predomina a forma de segmentado neutrófilo. Possuem função prioritária de fagocitar bactérias. Na criança pequena, predominam os linfócitos maduros, pois está ocorrendo o desenvolvimento da defesa imunológica (reconhecimento de antígenos). Há grandes variações quantitativas dos neutrófilos, de acordo com a idade, principalmente, nos primeiros anos de vida. Ao nascimento, observa-se predomínio de polimorfonucleares. No final da primeira semana de vida, há um equilíbrio entre estes e os linfócitos. A partir de então, há um gradual aumento do número de linfócitos, ao longo dos primeiros quatro anos de vida. Por volta dos oito anos de idade, os neutrófilos voltam a predominar. Aos 15, atingem valores semelhantes aos dos adultos. Os neutrófilos são formados, a partir da maturação mieloide (mieloblastos → promielócitos → mielócitos), passam pelo compartimento de reserva neutrofílico medular (composto por metamielócitos, bastonetes e segmentados), onde podem ficar por um tempo variável, até que haja um estímulo que provoque sua saída para o sangue circulante, causando aumento dos leucócitos (leucocitose) à custa do aumento de neutrófilos (neutrofilia). No sangue periférico, 50% dos neutrófilos ficam sob marginação (aderidos ao endotélio vascular), e apenas 50% é que realmente circulam. Os neutrófilos marginados devem voltar a circular, ou sofrer diapedese (quando saem do vaso para os tecidos). O aumento dos neutrófilos, acima de 7.400 células / mm3 (neutrofilia), com ou sem presença de formas imaturas, como bastonetes (mais de 4%), metamielócitos, mielócitos ou promielócitos, em sangue periférico, o chamado desvio à esquerda, ou a diminuiçãodessas células do sangue periférico, deve-se a três mecanismos básicos: » Produção medular ou necessidade da liberação do pool de reserva medular neutrofílico (segmentados, bastonetes é metamielócitos), ou até mielócitos é promielócitos (pool mitótico). 29 HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO │ UNIDADE I » Alteração da relação entre células circulantes (pool de circulação) e células aderidas ao endotélio vascular (pool marginal). » Quantidade de neutrófilos que saem do sangue para os tecidos (diapedese), para combater infecções. A capacidade maturativa (produção) de saída para o sangue depende do número de precursores na medula óssea, e da ótima modulação por citocinas e fatores estimuladores de crescimento de granulócitos (IL-1, C-CSF é GM- CSF). Normalmente, as células mais imaturas ficam aderidas à matriz extracelular da medula óssea, mantendo uma hierarquia na liberação dos neutrófilos mais maduros, para o sangue. Dessa forma, indivíduos normais não apresentam formas além de segmentados ou, no máximo, alguns raros bastonetes no sangue e, em processos reacionais (benignos) mais agudos, mesmo que possa haver desvio à esquerda, essa hierarquia é mantida (desvio à esquerda escalonado), ou seja, o número de segmentados é maior do que o de bastonetes, que é maior do que o de metamielócitos, e assim por diante. Em suma, a produção medular é o trânsito neutrofílico da medula óssea para o sangue, e deste para os tecidos determinam a quantidade de tais células mensuradas no leucograma. Conteúdo dos neutrófilos Grânulos primários (inespecíficos – azurófilos) – 0,2 a 1 µm de diâmetro: » Mieloperoxidase: potencializa a ação do HOCI na lise bacteriana. » Lisozima: hidrolisa membranas mucopeptídicas microbianas. » Colagenase não específica e proteínas básicas antimicrobianas. » Hidrolases e fosfatases ácidas: digestão microbicida nos fagossomas. » Proteases neutras: destruição de proteínas microbicidas. » Proteína catiônica bactericida: altera a permeabilidade da membrana microbiana. Grânulos secundários (específicos-neutrofílicos) – 0,1 a 0,3 µm de diâmetro: » Lactoferrina: proteína ligante do ferro, que inibe o crescimento bacteriano. 30 UNIDADE I │ HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO » Proteínas de ligação à vitamina B12; β-glicerofosfatase. » Muramidase: ataque à membrana bacteriana. » Colagenase: dissolve membranas tissulares à base de colágeno. » Fosfatase alcalina: digestão microbicida. Membrana plasmática: » NADPH oxidase: geração de ânion superóxido. Citoplasma: » Catalase: destrói peróxidos de hidrogênio citoplasmáticos. » Superóxido dismutase: converte superóxido em peróxido de hidrogênio. Receptores na superfície de membrana dos neutrófilos: para componentes do sistema complemento (C3 é C5a), regiões Fc de IgG, peptídeos inflamatórios e citocinas. Por meio de estímulos via receptores, que promovem a adesão dessas proteínas e outras moléculas, os neutrófilos desempenham suas funções, o que demonstra a importância dos estímulos inflamatórios e/ou do microambiente, para que ocorra a resposta neutrofílica. Quimioatraentes dos neutrófilos: frações C5a a C3 do complemento; produtos metabólicos do ácido araquidônico; leucotrieno B4; linfocinas; secreções de mastócitos ativados. Produtos de macrófagos, monócitos e outros neutrófilos; lipopolissacarídeos bacterianos. Fatores que aumentam a adesão dos neutrófilos: leucotrieno B4; tromboxano A2; fibronectina; lactoferrina; serotonina; fração C5a. Fatores que diminuem a adesão dos neutrófilos: prostaciclinas; corticoides; agentes antiinflamatórios; anestésicos locais. Granulócitos eosinófilos São células de menor poder fagocítico, menor mobilidade, porém, de potente ação lítica. Estão presentes no sangue periférico, em valores de 2% a 5%. Possuem grânulos secundários mais grosseiros do que os dos neutrófilos, e de cor alaranjada (eosinofílica ou acidófila ou oxífila). São distintos da 31 HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO │ UNIDADE I coloração de Romanowsky, a partir da fase promielócitos, sendo mais facilmente visualizados de mielócitos em diante. Acumulam-se em vários tecidos, especialmente, nos pulmões e no intestino. São células de limitada capacidade fagocítica, cuja principal função está relacionada à exocitose, de seu poderoso conteúdo granular. Sua produção medular, e seu número na circulação, estão diminuídos pela presença de ACTH (adrenocorticoides), como na síndrome de Cushing. Os esteroides também inibem sua liberação, da medula para o sangue. Eosinopenia (diminuição na circulação) acompanha reações bacterianas agudas, pela liberação de esteroides, e recrutamento dos eosinófilos para áreas inflamatórias. Fazem parte da primeira linha de defesa contra parasitas. Possuem grande poder de destruição de vermes (metazoários), a partir da aderência de imunoglobulinas IgE e IgG, ou fatores ativadores do complemento a esses parasitas. A partir desse reconhecimento, os eosinófilos liberam o conteúdo lítico, produzindo lesões na membrana parasitária, o que facilita sua entrada, juntamente com neutrófilos e macrófagos (invasão ao parasita), que termina com a morte parasitária. Modulam reações de hipersensibilidade, uma vez que seu conteúdo granular tem a capacidade de neutralizar a histamina, e inibir a degranulação de mastócitos. Estão ligados a respostas alérgicas, com liberação de histaminas. Participam das respostas de hipersensibilidade, envolvendo basófilos e mastócitos. Estão sujeitos a variações diurnas, com pico máximo à noite. Após a produção medular, e liberação para o sangue circulante, no qual ficam por 12 horas, os eosinófilos migram para os tecidos da pele, dos pulmões e do trato gastrointestinal, onde desempenham suas funções. Conteúdo eosinofílico: composto por proteína lítica eosinofílica (proteína básica maior): tóxica para parasitas e tecidos do hospedeiro. Corresponde a cerca de 50% do conteúdo dos grânulos eosinofílicos. É o mediador de morte para helmintos e Trypanosoma cruzi. » Outras moléculas: histaminases (neutralizam ação da histamina); enzimas hidrolíticas; proteína catiônica eosinofílica; proteínas ligantes de vitamina B12; arilsulfatase B (neutraliza substâncias produzidas por mastócitos, mediadora de reações anafiláticas); hidrolases ácidas; fosfolipase D (inativa fatores ativadores de 32 UNIDADE I │ HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO plaquetas); substâncias pró-coagulantes (tromboplastina tissular- like); profibrinolisinas (ação plasminogênio-like); peroxidase eosinofílica; fosfatase ácida; ribonucleases e catepsinas. Receptores de membrana dos eosinófilos: receptores H1 e H2 para histaminas; receptores Fc para IgE (reações alérgicas), IgG e IgM. Os receptores ɛ (épsilon) para Fc promovem adesão e morte dos protozoários Shistosoma mansoni, na presença de IgE. Os receptores ɣ para Fc são diferentes daqueles presentes nos neutrófilos, e participam de processos alérgicos. Por meio de estímulos via receptores para C4, C3b e C3d, os eosinófilos participam do processo fagocítico. Granulócitos basófilos e mastócitos Os basófilos são os menores e mais escassos granulócitos do sangue periférico de indivíduos normais. Seus valores de referência são na ordem de 0 a 2%. Os basófilos permanecem no sangue, durante algumas horas, apenas; sua duração nos tecidos é desconhecida. Os tecidos contêm números abundantes de células, chamadas mastócitos, que lembram basófilos, por possuir grânulos que se coram em preto azulado, com a coloração de Wright, mas que diferem, por ter um núcleo redondo, em vez de segmentado. Embora os basófilos do sangue não sejam os precursores dos mastócitos dos tecidos, ambos se originam, aparentemente, de uma célula precursora comum da medula. Os mastócitos dos tecidos evoluíram com células especializadas, no combate à invasão tissular de parasitas e fungos. Antígenos desses organismos, frequentemente, estimulam a síntese de anticorpos da classe IgE. Os mastócitos dos tecidospossuem receptores de membrana da superfície para o fragmento Fc da IgE, e isso fornece um mecanismo para concentrar a IgE nos tecidos, e nas superfícies de mastócitos, com os sítios de ligação antigênica da imunoglobulina, livres para reagir com antígenos desses organismos. Uma consequência dessas reações antígeno-anticorpo é a degranulação pelos eosinófilos de proteína básica principal, que pode lesar os organismos invasores. Os grânulos dos basófilos e mastócitos são ricos em heparina e histamina. Em pacientes alérgicos, outros antígenos (como polens, antígenos de alimentos, por exemplo) podem, também, induzir à síntese de moléculas de IgE, que se ligam a basófilos e mastócitos dos tecidos, por seu fragmento Fc. A liberação do conteúdo granular, depois da combinação do antígeno, com os sítios de ligação antigênica desta IgE ligada, pode provocar uma reação de hipersensibilidade imediata (um ataque asmático agudo, urticaria generalizada). A degranulação dessas células, em resposta anafilática às 33 HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO │ UNIDADE I toxinas, resulta em resposta hiperimune anafilática, vasodilatação, e broncoconstrição. É quimioatraente para eosinófilos (que tem a finalidade de neutralizar a liberação de histamina, e inibir mediadores da reação anafilática). Conteúdo basofílico: as granulações basófilas são grandes, pouco numerosas, e tem afinidade por corantes básicos, graças à sua riqueza em mucopolissacarídeos ácidos, por isso, a denominação de basófilos. A microscopia eletrônica mostra que esses grãos têm um arranjo praticamente cristaloide, e se diferenciam em duas formas: maduros e imaturos. As granulações maiores são peroxidase-positivas, e não contêm fosfatase ácida. As granulações basófilas são metacromáticas. Metacromasia é a prioridade especial, pela qual uma estrutura fixa determinado corante, mas exibe cor diferente da cor desse corante. Assim, os grãos basófilos coram-se em vermelho, pelo azul-de- toluidina. Essa propriedade de metacromasia serve como coloração marcadora dos basófilos. Monócitos e macrófagos Compõem o sistema monocítico-macrofágico (antigo sistema reticuloendotelial). Suas principais funções são a fagocitose, a apresentação de antígenos, e a secreção de citocinas. São formados na medula óssea, a partir da diferenciação das células bipotenciais CFU-GM. Estas, uma vez diferenciadas em CFU-M, transformam-se nos precursores monoblásticos, que maturam para promonócitos e monócitos. Vão para a circulação e distribuem-se nos diferentes tecidos, por meio da diapedese, onde se tornam fixos e ativados, na forma de macrófagos. Macrófagos especializados estão presentes em vários tecidos, como medula óssea (célula do estroma medular), linfonodos, baço, fígado, timo, membrana dos alvéolos, pele, pulmão, cérebro e rim, recebendo denominações próprias, em cada um desses órgãos. Nos tecidos, podem permanecer semanas ou meses, e recebem nomes específicos, como: células de Kupfer, no fígado; osteoclastos, nos ossos; células de Langerhans, na epiderme; macrófago alveolar, no pulmão etc. Os monócitos constituem de 3 a 10% das células maduras circulantes, no adulto normal. Sua função está ligada à fagocitose, similar à dos neutrófilos, porém com capacidade de fagocitar partículas maiores. Para destruir um determinado agente pela fagocitose, há a necessidade de adesão macrófago-agente. Isto ocorre por intermédio de receptores 34 UNIDADE I │ HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO especializados, presentes nos macrófagos. A fagocitose da partícula estranha, pelos fagócitos (monócitos-macrófagos e neutrófilos), inicia-se pela migração dessas células ao foco de emissão do (s) quimioatraentes (s), tais como componentes do sistema complemento, lipopolissacarídeos bacterianos, ou substâncias liberadas, a partir da interação entre moléculas de adesão de leucócitos e ligantes do tecido lesado. Ao chegar ao local da lesão, o reconhecimento do antígeno a ser fagocitado é facilitado pela opsonização dessa partícula, por imunoglobulinas ou frações do sistema complemento via receptores, para a porção Fc das IgG, e fração C3b do complemento. Após formação do fagossoma, ocorre a liberação do conteúdo lítico, e digestão do antígeno, o qual é processado e seu determinante antigênico apresentado aos linfócitos T auxiliares (CD4+), por meio do MHC classe II. Receptores de membrana dos macrófagos: os macrófagos possuem, em sua superfície, receptores para moléculas IgG (CD64, CD32 e CD16), para fração C3b do complemento, para o CD35, e para fatores estimulantes de linfócitos com IL-2 e IFN-ɣ. Alguns monócitos-macrófagos expressam proteínas de classe II, do MHC, as quais são importantes, na apresentação dos antígenos para as células T auxiliares (CD4+). Secreção de citocinas pelos macrófagos: além da fagocitose e apresentação de antígenos, os macrófagos também possuem a importante função de secretar citocinas (IL-1, IL-3, interferons e TNF-α) e fatores de crescimento (GM-CSF, G-CSF, M-CSF). A liberação dessas substâncias produz efeitos na resposta imune, na ativação das células de defesa envolvidas no processo inflamatório, e no aumento da produção de células fagocíticas (neutrófilos e monócitos), na medula óssea. Eles interagem com os linfócitos, por meio da digestão, da degradação, e do transporte de partícula invasora para os linfonodos, onde fazem a apresentação do determinante antigênico dessa partícula, por meio da ligação a marcadores específicos presentes, principalmente, nas células auxiliares (CD4+), mas também nas células T citotóxicas (CD8+) e células B. Essa interação é mediada pela liberação de interleucina 1 (IL-1). Linfócitos São células morfologicamente simples, mas com funções bastante complexas. Interagem com moléculas e superfícies celulares, determinando se essas estruturas fazem (próprias – self), ou não (não próprias – not self), parte do organismo hospedeiro e, caso haja necessidade, desencadeiam resposta imune de defesa. Em adultos normais, variam de 20 a 50% dos leucócitos, em sangue periférico (1.000 a 4.000/mm3). 35 HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO │ UNIDADE I Quando maduros, podem se especializar na produção de imunoglobulinas (anticorpos), na defesa humoral. Por outro lado, podem interagir, diretamente, com a atividade de outras células do sistema imune, na resposta imune mediada por células. Depois de estimuladas (ativadas), as células B se expandem (proliferam), e se diferenciam em plasmócitos secretores de imunoglobulinas específicas, para determinado antígeno. Esse processo acontece nos tecidos linfoides periféricos (secundários), onde as células B são ativadas e transformadas em imunoblastos – plasmoblastos (blastogênese), os quais se diferenciam, em células produtoras de anticorpos. A ativação das células B pode ser feita, a partir da sinalização antigênica, via células T auxiliares ou, mais raramente, pela apresentação do antígeno, diretamente, por macrófagos. A reposta imune celular ocorre por interação de diferentes tipos de linfócitos, e entre linfócitos e outros leucócitos. Tem como principais mediadores as células T. As células T auxiliares (CD3+/CD4+/CD8+) são apresentadas ao antígeno pelo macrófago e, em seguida, induzem transformação das células B (CD19+ e CD20+), em plasmócitos (CD38++), que produzem imunoglobulinas. As células T citotóxicas (CD3+/CD4-/CD8+) recebem informação específica (diretamente do macrófago ou via células T auxiliares) e são capazes de destruir, diretamente, células infectadas com antígenos intracelulares, ou células neoplásicas. As células T supressoras modulam negativamente a proliferação de linfócitos na resposta imune. As células NK assassinas naturais – natural killers – são uma terceira classe de linfócitos identificada. Elas divergem das células T, em estágio inicial; não necessitam de condicionamento tímico; e diferem, funcionalmente, da célula T, porque atacam certos tipos de células-alvo, sem sensibilizaçãoanterior por antígeno da célula-alvo. Distribuição dos linfócitos – tecido linfoide central e tecidos linfoides periféricos O tecido linfoide central tem dois componentes: » o timo, onde precursores são processados em células T, imunologicamente competentes; » a medula óssea, onde os precursores são processados em células B, imunologicamente competentes. 36 UNIDADE I │ HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO Os tecidos linfoides periféricos, que são os locais para os quais as células T e B, imunologicamente competentes, são distribuídas, incluem os seguintes componentes: a. os linfonodos; b. o baço; c. os tecidos tonsilares da orofaringe (anel de Waldeyer); d. os acúmulos submucosos de linfócitos no intestino, nos tratos respiratório e urinário; e. a medula óssea, que também contém linfócitos, imunologicamente competentes, primariamente células B, mas também algumas células T. A Figura 11 mostra a distribuição dos linfócitos, nos órgãos linfoides central e periférico. Figura 11. Distribuição dos linfócitos nos órgãos linfoides central e periférico. Monócito Medula óssea Timo Célula dendrítica Baço e linfonodos Primed lymphocytes Tecidos Linfócitos virgens Célula T Célula T Célula T Célula T Célula B Célula B Célula B Célula B APC Amigdalas Timo Gânglios linfáticos Vasos linfáticos Baço Placas de Peyer do intestino delgado Apêndice Medula óssea Fontes: https://reniellyfisio.blogspot.com/2011/02/representar-funcaodos-orgaos-linfocitos.html; http://isoldamodestobio. blogspot.com/2011/03/. Acesso em: 23/01/2020. http://isoldamodestobio.blogspot.com/2011/03/ http://isoldamodestobio.blogspot.com/2011/03/ 37 HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO │ UNIDADE I As células T e B são distribuídas, diferentemente, no tecido linfoide periférico. As células B são encontradas como agregados, chamados folículos no córtex dos linfonodos, na polpa branca do baço (Figura 12), e na submucosa do intestino e trato respiratório. Como já foi mencionada, a maioria dos linfócitos pequenos, da medula óssea, também são células B. As células T ocupam as áreas paracorticais dos linfonodos, e as áreas interfoliculares, dos acúmulos de linfócitos, na submucosa do intestino, tratos respiratório e urinário. As células T também formam uma densa bainha, em torno das arteríolas centrais da polpa branca do baço. As células T se movem dos tecidos para o sangue, e vice-versa; isso fornece um mecanismo para um controle contínuo das células T dos antígenos, em todo o corpo. Normalmente, as células T constituem, aproximadamente, 70% dos linfócitos do sangue. As células B, que constituem 10% a 15% dos linfócitos circulantes, também se movem nos dois sentidos, entre sangue e tecidos, mas em menor extensão do que as células T. Deve-se notar que os linfócitos e granulócitos diferem, fundamentalmente, em seu ciclo de vida. Os granulócitos não podem se dividir, apresentam uma sobrevida curta nos tecidos, e devem ser repostos continuamente, por novos granulócitos da medula óssea. Os linfócitos liberados pelo tecido linfoide central para o tecido linfoide periférico, particularmente, as células T, podem sobreviver como células imunocompetentes quiescentes, durante longos períodos de tempo. No entanto, quando expostos a um determinante imunológico, ao qual está programado para responder, o linfócito quiescente sofre ativação e se divide. À medida que o processo continua um clone expandido de linfócitos, responsivo àquele determinante imunológico é formado. Processamento das células T: o processamento das células T ocorre no timo (Figura 12), os precursores das células T migram a partir da medula óssea para o córtex do timo. Aqui, as células se dividem rápida e repetidamente, mas, a maior parte das novas células formadas, morre. Essa perda celular resulta de mecanismos de tentativa e erro, pelos quais as células T combinam segmentos da linha germinativa de DNA, em genes funcionais, para as cadeias polipeptídicas de um receptor da membrana superficial, o receptor antigênico das células T. A estrutura dessas cadeias de polipeptídeos lembra muito a estrutura das cadeias polipeptídicas das moléculas de imunoglobulina (descrito em processamento da célula B). As diferenças, na forma pela qual a linha germinativa de DNA é rearranjada, resultam em diferenças nas sequências de aminoácidos de 38 UNIDADE I │ HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO segmentos das cadeias polipeptídicas, que conferem seletividade do reconhecimento do antígeno pelo receptor. Os linfócitos, que sobrevivem no córtex, migram, então, para a medular da glândula, onde continuam a diferenciação, mas não a divisão celular. Quando o processamento está completo, o linfócito T possui um receptor de antígeno, na membrana superficial, que pode agir das seguintes formas: 1. Responder seletivamente a sequências imunogênicas específicas de determinantes antigênicos estranhos. 2. Distinguir entre determinantes de membrana superficial de histocompatibilidade “self” e “not self”. As células T imunocompetentes são liberadas, a partir da medular para os tecidos linfoides periféricos. Eles circulam livremente, em todos os tecidos linfoides periféricos, mas nunca voltam ao timo. O timo sintetiza substâncias solúveis (timosina, por exemplo), que exercem um efeito hormonal de suporte sobre a função da célula T, nos tecidos linfoides periféricos. O processamento de precursores de célula T, no timo, começa na vida fetal, e continua durante toda a infância. Isto dá origem a um repertório de linfócitos T, de vida longa, nos tecidos linfoides periféricos, programados para responder seletivamente a diferentes antígenos. O processamento de novas células T, então, declina. O timo, que pesa 70g, no final da fase de lactente, definha depois da puberdade e, no idoso, pesa, apenas, 3g. A involução da glândula – com incapacidade para processar novas células T, e uma diminuição do suporte hormonal tímico para as células T já existentes – prejudica o vigor das respostas imunes, nos indivíduos mais idosos (Figura 12). 39 HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO │ UNIDADE I Figura 12. Distribuição dos linfócitos B, no tecido linfoide periférico (baço); e dos linfócitos T, no tecido linfoide central (timo). Corte transversal do Baço Nódulos linfáticos lin Polpa esplênica Cápsula do baço veias artérias Fontes: http://bellllcriss.blogspot.com.br> https://www.uv.es/histomed/medicinaEsp/02/timo-4x.jpg. Acesso em: 23/01/2020 Subgrupos de células T: as células T imunocompetentes, liberadas pelo timo, são programadas para realizar diferentes funções. Foram reconhecidas duas subpopulações principais. 1. Os linfócitos T que, após a exposição a antígeno estranho nas células (por exemplo, antígeno viral, na superfície de células infectadas), em conjunção com determinantes de histocompatibilidade, tornam-se células citotóxicas, que podem lisar as células-alvo. 2. Células T que, após exposição a antígeno, em conjunção com determinantes de histocompatibilidade, agem como célula T imunorreguladoras, com funções auxiliadoras. Essas funções auxiliadoras mantêm: › o desenvolvimento das células T citotóxicas; › a aquisição de propriedades microbicidas pelos macrófagos; › a secreção de anticorpos pelas células B. Outras células imunorreguladoras apresentam funções supressoras que diminuem e, assim, evitam respostas imunes excessivas. https://www.uv.es/histomed/medicinaEsp/02/timo-4x.jpg 40 UNIDADE I │ HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO Há dois tipos de determinantes de histocompatibilidade – determinantes da Classe I, e da Classe II. As células T são programadas para reconhecer uma ou outra. As células T, que reconhecem determinantes da Classe I, têm um antígeno na membrana superficial, que reage com um anticorpo monoclonal chamado CD8 (T8). As células T, que reconhecem determinantes da Classe II, têm um antígeno da membrana de superfície, que reagecom um anticorpo monoclonal chamado CD4 (T4). As células CD* são células citotóxicas, ou supressoras. A maioria, mas não todas as células CD4, tem funções auxiliadoras. Processamento das células B: as células B são processadas na medula óssea, que, como a córtex do timo, contém uma fração de linfócitos sofrendo rápida divisão celular, e uma alta taxa de morte celular. Durante o processamento, cada precursor de uma célula B tenta combinar segmentos de linhagem germinativa de DNA, em genes funcionais rearranjados, mantendo a síntese, primeiro da cadeia pesada, e, depois, da cadeia leve, de uma molécula de imunoglobulina única, para aquela célula que está sendo processada, mas uma dos literalmente milhões de especificidades antigênicas possíveis. À medida que esses rearranjos genéticos se processam, são formadas muitas células, com rearranjos aberrantes de DNA, ou com rearranjos de DNA que codificam imunoglobulinas, que reagem contra antígenos reconhecidos como próprios ou “self”. Essas células morrem, e são responsáveis pelas grandes perdas das células. A demonstração, por análise de DNA, do início do rearranjo da linha germinativa do DNA, para as cadeias pesada e leve de IgM, fornece evidência mais precoce do que uma célula pertence à linhagem de células B. No próximo estágio, é formada uma célula pré-B, que contém cadeias µ no seu citoplasma, como evidência de que a célula se destina à síntese de imunoglobulina. Depois, as cadeias desaparecem do citoplasma, e são substituídas por moléculas completas de IgM, inseridas na membrana da superfície da célula B, em amadurecimento. Esta IgM, ligada à superfície, serve como o sítio inicial de reconhecimento antigênico da célula, isto é, um sítio de reconhecimento superficial, para o determinante haptênico específico contra a qual a célula, por meio dos rearranjos da linha germinativa de seu DNA, ficou destinada a produzir anticorpos. Nesse estágio, se o determinante haptênico é reconhecido como próprio “self”, a célula é eliminada. À medida que prossegue o desenvolvimento, uma segunda imunoglobulina, a IgD, também fica inserida na superfície da célula. Com essas duas classes de sítios de reconhecimento antigênico em seus lugares, a célula B já está programada para funcionar como célula imunocompetente. Ela, então, se junta ao “pool” de células B, do tecido linfoide periférico, pronta a responder aos antígenos estranhos, aos quais o organismo pode ser exposto. Esse “pool” de células B maduras, mas “virgens”, isto é, ainda não expostas ao antígeno, presumivelmente 41 HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO │ UNIDADE I muda continuamente, durante toda a vida da pessoa, à medida que novas células B são processadas, para substituir as células senis. Há cinco tipos principais de cadeias polipeptídicas pesadas, reconhecidas, inicialmente, por causa das diferenças antigênicas, em suas regiões constantes. Elas receberam os nomes de letras gregas ɣ (gama), α (alfa), µ (mu), δ (delta) e ɛ (épsilon). As imunoglobulinas são divididas em classes, com base no tipo de cadeia pesada que possuem. Cada classe de imunoglobulinas contém moléculas, ou de cadeias leves ĸ, ou de cadeias leves λ lambda, mas com a mesma classe única de cadeia pesada. É usada uma nomenclatura padronizada, em que o símbolo Ig (para imunoglobulina) é seguido por uma letra, e denota a classe, por exemplo, IgG, para a classe que contém cadeias pesadas ɣ, IgA, para a classe que contém a cadeias pesadas α, IgE, para a classe que contém cadeias pesadas ɛ, IgM, para a classe que contém cadeias pesadas µ, IgD, para a classe que contém cadeias pesadas δ. O gene da linha germinativa, para a cadeia pesada, difere dos genes de linha germinativa, para as cadeias leves. Além dos múltiplos segmentos de DNA alternativos, para as diferentes porções da região variável, um gene da linha germinativa, para cadeia pesada, também contém uma série de segmentos de DNA de cadeia constante – um para cada uma das classes de cadeia pesada. Durante os diferentes estágios de processamento e diferenciação das células B, cadeias pesadas são formadas onde a região variável se combina com regiões constantes de classes diferentes, por meio de complexos mecanismos, envolvendo união de RNA, para algumas ligações, e de DNA, para outras. A célula B madura possui outros componentes, na superfície celular, além dos receptores antigênicos, que são as imunoglobulinas inseridas. Estes incluem determinantes de histocompatibilidade da Classe II, receptores para o Fc das imunoglobulinas, e receptores para fragmentos (C3b e C3bi) do componente C3 do complemento. 42 CAPÍTULO 2 Leucograma O leucograma é o conjunto de determinações laboratoriais que, associadas, determinam o perfil hematológico dos glóbulos brancos (leucócitos) circulantes de um indivíduo, no exato momento da coleta de sangue. É constituído pelas contagens global e diferencial (incluindo a análise das alterações morfológicas) dos leucócitos, que são expressas por meio da fórmula leucocitária (com valores absolutos e relativos de cada tipo de leucócito). » Contagem global dos leucócitos: consiste na determinação do total de leucócitos por mm3 de sangue, após lise dos eritrócitos, em uma câmara de contagem, ou por meio de um contador eletrônico. » Contagem diferencial dos leucócitos: é a contagem percentual de cada tipo leucocitário, realizada em esfregaços sanguíneos corados. Estabelece a quantidade de cada tipo de célula, encontrada no final da contagem de 100 leucócitos. Contagem global pelo método manual Material » Amostra: sangue total em EDTA. » Câmara de Neubauer; líquido diluidor de Turk; tubos de hemólise (Kahn); micropipeta de 20µL. » Pipetas de 1 ml graduadas ao décimo; lenço de papel ou gaze; microscópio. Líquido de Turk » Ácido acético glacial.........40 ml » Violeta genciana a 1%.......40 gotas (4 gotas para cada 100 ml) » Água destilada qsp.............1L Procedimento 43 HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO │ UNIDADE I » Pipetar 0,4 ml (400µL) do líquido diluidor para um tubo de hemólise. » Aspirar 0,02 ml (20µL) de sangue total, limpar a parte externa da ponteira, transferir os 20µL para um tubo de hemólise, com líquido diluidor, tendo o cuidado de lavar o interior da ponteira, por aspiração e expulsão. A diluição será de 1:20. » Agitar suavemente, aguardar por dois minutos. Para, depois, proceder ao enchimento da câmara e contagem em microscópio óptico comum, em objetiva de 10x, com condensador baixo. Contagem » É feita nos quatro quadrados grandes laterais (L1, L2, L3, L4) da câmara de Neubauer (Figura 13). Cálculo » Contagem por mm3 (ou µL) de sangue. » Cada quadrado lateral secundário tem capacidade para um volume 0,1 mm3, ou seja, 1/10 mm3. » N = número total de leucócitos lidos, nos quatro quadrados. » 10 = ajuste para mm3. » 20 = ajuste do grau de diluição. » 4 = ajuste para o número de quadrados lidos. » Leucócitos/mm3 = N x 10 x 20/4 → leucócitos/mm3 = N x 50. 44 UNIDADE I │ HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO Figura 13. Contagem global dos leucócitos, em câmara de Neubauer. Áreas onde se contam os leucócitos Áreas onde se contam os eritrócitos Fonte: https://zunigamartinez.blogspot.com/2011/05/camara-de-neubauer_09.html. Acesso em: 23/01/2020 Para pacientes normais, o grau de diluição é de 1/20. Para casos de leucopenia, é preferível fazer diluição 1/10. Nesse caso, o cálculo seria o seguinte: » Leucócitos/mm3 = N x 10 x 10/4 → Leucócitos/mm3 = N x 25 » Para casos de hiperleucocitoses, poderão ser utilizadas diluições bem mais elevadas, 1/100 ou 1/200, por exemplo, conforme a necessidade, ajustando sempre o cálculo, de acordo com a respectiva diluição. Contagem diferencial pelo método manual É a contagem percentual de cada tipo de leucocitário, realizada em esfregaços sanguíneos corados. Estabelece a quantidade de cada tipo de célula, encontrada ao final da contagem de 100 leucócitos. Material» Amostra: sangue recém-colhido, com ou sem anticoagulante (de preferência). » Lâminas, corante, microscópio, óleo de imersão, contador diferencial. Procedimento » Identificar, morfologicamente, 100 leucócitos em região, e de modo apropriado, no esfregaço, em objetiva de imersão. Deve-se caminhar no sentido vertical da extensão do sangue, na lâmina, até a borda superior. Ao atingir a borda superior, caminhar um pouco pela borda, na extensão, e voltar em sentido vertical contrário, atravessando toda a extensão, até https://zunigamartinez.blogspot.com/2011/05/camara-de-neubauer_09.html 45 HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO │ UNIDADE I a borda oposta, onde, da mesma forma, deverá caminhar-se um pouco. Repetir esse procedimento até que seja diferenciado um total exato de 100 leucócitos. Fórmula leucocitária » É o modelo que traduz o percentual relativo, e o valor absoluto, de cada tipo leucocitário, obtidos, respectivamente, pela contagem diferencial, e por cálculo indireto (a partir da contagem global dos leucócitos, e do percentual de cada tipo celular). Cálculos » Valor absoluto = % relativo x contagem global/100 › Exemplo: contagem global = 6.000 leucócitos/mm3. Ao final da contagem diferencial, foram observados 61 segmentados, 1 bastão, 3 monócitos, 31 linfócitos, 3 eosinófilos, e 1 basófilo. » Contagem diferencial, ou específica (percentual relativo). » Neutrófilos ............................................62% » Segmentados .......................................61% » Bastonetes.............................................1% » Metamielócitos ...................................... - » Mielócitos.............................................. - » Monócitos................................................3% » Linfócitos ...............................................31% » Eosinófilos ..............................................3% » Basófilos .................................................1% » Valor absoluto de neutrófilos = 62 x 6.000/100 = 3.720/mm3 » Valor absoluto de segmentados = 61 x 6.000/100 = 3.660/mm3 » Valor absoluto de bastonetes = 1 x 6.000/100 = 60/mm3 » Valor absoluto de monócitos = 3 x 6.000/100 = 180/mm3 46 UNIDADE I │ HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO » Valor absoluto de linfócitos = 31 x 6.000/100 = 1.860/mm3 » Valor absoluto de eosinófilos = 3 x 6.000/100 = 180/mm3 » Valor absoluto de basófilos = 1 x 6.000/100 = 60/mm3 Durante a contagem diferencial da série branca, deve ser obtida não só a diferenciação morfológica dos diversos tipos de leucócitos, ao final da contagem de 100 células, mas, além disso, é nesse momento que, simultaneamente, deverão ser procedidas todas as correlações quantitativas, com as determinações globais (tanto de leucócitos quanto de plaquetas), e qualitativas, como a análise morfológica eritrocitária, análise do tamanho das plaquetas, presença ou não de aglutinação plaquetária, leuco, ou eritrocitária, satelismo, entre outros. Tendo-se um esfregaço bem seco e corado, após percurso uniforme de bordos e centro, a partir do local onde os eritrócitos começam a se soltar uns dos outros, não chegando, porém, até o final da lâmina, uma boa análise morfológica de todas as células sanguíneas poderá ser feita. Interpretação do leucograma Avaliação da contagem global (Tabela 2) » Leucócitos: 4.000 a 11.000/ mm3 (adultos) » Leucocitose: leucócitos > 11.000/ mm3 » Leucopenia: leucócitos < 4.000/ mm3 Tabela 2. Valores de referência dos leucócitos do sangue de um adulto normal. Leucócitos Por µL ou mm3 % Neutrófilos 1550 ~ 6800 40 ~ 70 Linfócitos 1000 ~3800 20 ~ 50 Monócitos 100 ~800 2 ~10 Eosinófilos 50 ~400 1 ~7 Basófilos 0 ~200 0 ~ 3 Leucócitos 3600 ~ 11000 100 Fonte: https://www.slideshare.net/JoaoMaarcos/hemograma-em-idosos-pacientes-geritricos. Acesso em: 23/01/2020 https://www.slideshare.net/JoaoMaarcos/hemograma-em-idosos-pacientes-geritricos 47 HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO │ UNIDADE I Avaliação de perfil de cada subtipo leucocitário » Neutrofilia: total de neutrófilos (segmentados + bastão + meta + mielo + promielócitos) maior que 7.400/ mm3. » Causas reacionais (não neoplásicas) e reações leucemoides – principais características: » Leucocitose: geralmente leve e moderada (< 25.000/ mm3), raramente superior a 50.000/ mm3; não ultrapassam 80.000/ mm3. » Casos mais graves, em que há maior aumento na contagem dos leucócitos. e das células precursoras, são, muitas vezes, confundidos com processos leucêmicos (neoplásicos). São as chamadas reações leucemoides, de caráter eminentemente benigno e reacional. Principais características das reações leucemoides » Desvio à esquerda: diretamente proporcional à gravidade do processo. » Guarda hierarquia maturativa (escalonamento). » Geralmente, com bastões, metamielócitos, até mielócitos. » Em casos mais graves, há maior quantidade de mielócitos e, às vezes, promielócitos. » Mieloblastos, geralmente, não são observados (exceto em raros casos, como, por exemplo, na sepse neonatal). » Granulações tóxicas: presentes, principalmente, nos casos graves. » Microvacúolos citoplasmáticos: presentes nas sepses ou bacteremias. » Aspectos displásicos: sempre ausentes. » Aspectos degenerativos: presentes nos casos mais graves com sepse. » Fosfatase alcalina nos neutrófilos: elevada atividade. » Outras: geralmente acompanhada com monocitose, eosinopenia e bastopenia. 48 UNIDADE I │ HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO » Eritroblastos, geralmente ausentes, exceto nas hemorragias e hemólises graves. » Clínica: com febre. » Cariótipo: ausência do Ph, o cromossomo Filadélfia. Exemplos de reações leucemoides: infecções bacterianas primárias; algumas infecções virais; micobactérias; leptospirose; toxoplasmose; tratamento por G-CSF, GM-CSF; destruição tissular e/ou necrose (grandes queimados, politraumatizados, gangrena, câncer); doenças inflamatórias (artrite reumatoide, vasculites, febre reumática, tireidites etc.); fisiológicas (estresse físico ou mental, medo, pânico, choro, gravidez, recém-nascidos, exercícios físicos); hematológicas (hemorragias agudas, estados hemolíticos, esplenectomia); medicamentos (epinefrina, corticosteroides); eclampsia; uremia etc. » Neutropenia: total de neutrófilos menor que 1.600/mm3, em brancos, e menor que 1.200/mm3, em negros. › Exemplos de principais mecanismos: aumento do consumo nos tecidos e esgotamento na produção medular, nos processos infecciosos graves, e de mau prognóstico (são os estados terminais de pacientes anteriormente neutrofílicos); infecções virais (hepatite, influenza, mononucleose, dengue etc.); febre tifoide, paratifoide, rickettsioses, sobrevida diminuída, em estados infecciosos, ou imunológicos com anticorpos antineutrófilos (por exemplo, lúpus); desordens constitucionais (geralmente, em crianças); defeito de produção hematopoiética, nas reações idiossincrásicas a drogas (cloranfenicol, clorpromazina, rifampicina, antibióticos etc.); doenças hematológicas (bloqueio da maturação granulocítica na medula, em leucemias mieloides agudas, anemia aplástica, mielodisplasias, anemias megaloblásticas, leucemias linfoides agudas, leucemias linfoides crônicas, e linfomas leucemizados); infiltração medular por tumores metastáticos; esplenomegalia (hiperesplenismo, doença de Gaucher); terapias citorredutoras; imunossuprimidos etc. » Eosinofilia: total de eosinófilos maior que 500/mm3. › Exemplos de casos, em que ocorre a eosinofilia: desordens alérgicas (asma, reação a drogas, alérgenos em geral); parasitoses (esquistossomose, estrongiloidíase, cisticercose, equinococose, 49 HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO │ UNIDADE I ascaridíase, tricuríase, ancilostomíase etc.); infecções fúngicas; câncer (colo uterino, ovário, pulmão); doenças hematológicas (leucemia mieloide crônica, leucemia eosinofílica, doença de Hodgkin, alguns linfomas não Hodgkin) doenças de pele (eczema, psoríase, urticária, dermatites); doençasvasculares do colágeno (lúpus eritematoso, poliartrite nodosa, vasculites); colite ulcerativa; doença de Chron; síndromes hipereosinofílicas (Loefler, pneumonia eosinofílica crônica) etc. » Eosinopenia: total de eosinófilos menor que 40/mm3. Só confiável por automação, em que são contados em valor absoluto direto, para só, então, ser calculado o valor percentual. A ausência total de eosinófilos é um dado exclusivo da tecnologia automatizada. › A determinação manual indireta do número absoluto de eosinófilos, a partir do valor percentual obtido na contagem diferencial x contagem global de leucócitos, não é um dado acurado e preciso. Para esses casos, é aconselhável a contagem em valor manual direto (câmara de Fuchs-Rosenthal) ou, pelo menos, proceder à contagem diferencial manual, em 200 células. Esse problema também ocorre nas monocitopenias. › O mecanismo da eosinopenia está associado à diminuição da liberação na medula óssea e/ou pela marginalização dessas células, no compartimento vascular. › Exemplos: a grande maioria dos casos está associada a processos bacterianos agudos com neutrofilia. Também pode estar presente, durante a administração de ACTH (hormônio adrenocorticotrófico), prostaglandinas, epinefrina ou glicocorticoides. » Basofilia: total de basófilos superior a 200/mm3. Causas relacionadas benignas: associada à hipersensibilidade mediada por IgE; em processos inflamatórios crônicos, como a artrite reumatoide e colite ulcerativa; em algumas infecções virais; após radiação; sarcoidose; sífilis; tuberculose; rickettsioses etc. » Neoplasias: dado de valor prognóstico, na leucemia mieloide crônica; também ocorrem nas demais desordens mieloproliferativas, leucemia basofílica, e doença de Hodgkin. 50 UNIDADE I │ HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO » Basopenia: total de basófilos abaixo de 10/mm3. Apesar de controversa, tem sido descrita em condições associadas à eosinopenias, e ao tratamento esteroide. » Monocitose: total de monócitos maior que 880/mm3. Associada à tuberculose (infecção micobacteriana); a infecções agudas com neutrofilia; a doenças autoimunes; à mononucleose infecciosa; à malária; a certas viroses; a parasitoses; a rickettsioses; a inflamações; a doenças secundárias, a cânceres em geral etc. Doenças hematológicas: leucemia mielomonocítica crônica (LMMC); leucemia monocítica aguda (LMA M5b); leucemia mielomonocítica juvenil (LMMJ); secundária a alguns linfomas e mielomas. » Monocitopenia: total de monócitos inferior a 80/mm3. É descrita em doenças autoimunes, como lúpus eritematoso, leucemia de células “cabeludas” (tricoleucemia), ou após administração de corticoides, ou pós-quimioterapias. » Linfocitose: total de linfócitos maior que 4.000/mm3, em adultos, e maior que 8.000/mm3, em crianças. Infecções virais reacionais (citomegalovírus, linfocitose infecciosa, herpes, influenza, mononucleose infecciosa, hepatite, rubéola, caxumba, adenovírus, HIV etc.); fumo; reacionais a drogas; transitória por estresse; hematológicas neoplásicas (leucemias linfocíticas crônicas, linfomas não Hodgkin leucemizados, secundárias ao mieloma múltiplo); púrpura trombocitopênica idiopática; infecções bacterianas (crônicas, toxoplasmose, secundaria a sífilis, febre tifoide, tuberculose etc.); doenças inflamatórias (colite ulcerativa); doenças endócrinas (hipertireoidismo, hipofunção adrenal) etc. » Linfopenia: total de linfócitos menor que 1.000/mm3, em adultos, e menor que 4.000/mm3, em crianças. Estados infecciosos bacterianos agudos associados à neutrofilia; à má nutrição proteico-calórica; à síndrome de Cushing; a corticosteroides; à imunossuprimidos; a estados de imunodeficiência; ao câncer; à falência renal; ao alcoolismo; à destruição aumentada (lúpus eritematoso, perda pelos linfáticos intestinais, globulina antilinfocítica, HIV, terapia radioativa, quimioterapia antineoplásica, síndrome de Wiskott- Aldrich); à anestesia; a processos cirúrgicos; à sarcoidoses; à tuberculose; à influenza; à doença de Hodgkin; à miastenia grave etc. 51 HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO │ UNIDADE I Desvio à esquerda Desvio à esquerda é o aumento do número de bastonetes (acima do normal), acompanhado, ou não, dos neutrófilos mais imaturos (promielócitos, mielócitos, metamielócitos). Sua principal causa é o processo infeccioso bacteriano. Também pode ocorrer no período de cura da agranulocitose, tratamento por G-CSF, GM-CSF, gravidez, grandes queimados, politraumatizados etc. Nesses casos mais graves, na maioria das vezes, o desvio é acompanhado pela presença de grânulos tóxicos nos neutrófilos. Nos casos de septicemia, ou bacteremia, podem ser vistas microvacuolizações citoplasmáticas. Os corpúsculos de Döhle são um raro achado dos processos infecciosos graves. Nos processos reacionais benignos, uma vez que a medula óssea é normal, estando apenas com hiperprodução transitória, as células lançadas na circulação guardam uma hierarquia maturativa (há uma tendência dos mais maduros estarem em maior proporção do que os mais imaturos). É o chamado desvio à esquerda escalonado. Nas leucemias (medula óssea neoplásica), o desvio não guarda, necessariamente, essa hierarquia. As leucemias mieloides agudas, com leucocitose, apresentam desvio de até blastos e, dependendo do subtipo, com ou sem (hiato leucêmico) formas intermediárias imaturas (meta, bastão etc.). Na leucemia mieloide crônica, toda a linhagem maturativa mieloide está presente, entretanto, não necessariamente de modo escalonado. A Figura 15 mostra as células imaturas (metamielócitos e bastões), características de um desvio à esquerda, e segmentadas (célula madura). Figura 15. Células imaturas (metamielócito e bastão) encontradas em desvio à esquerda, e segmentado maduro. Metamielócito Bastonete Segmentados Fonte: https://deskgram.co/p/2170116239471610621_1729473184. Acesso em: 23/01/2020 https://deskgram.co/p/2170116239471610621_1729473184 52 UNIDADE I │ HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO Desvio à direita O desvio à direita é caracterizado pelo aumento de formas polisegmentadas (> que 3%) dos neutrófilos do sangue periférico. Tem correlação diagnóstica com os processos bacterianos crônicos. Ocorrem nos casos de deficiência de vitamina B12 e ácido fólico, doenças crônicas (rins e fígado), uremia e drogas citotóxicas. A Figura 16 apresenta as formas polisegmentadas dos neutrófilos, característicos de desvio à direita. Figura 16. Neutrófilos polissegmentados, característicos de desvio à direita. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Anemia_megalobl%C3%A1stica. Acesso em: 23/01/2020 A Figura 17 esquematiza o conceito de desvio à esquerda, e desvio à direita. Observamos células imaturas (mieloblastos, mielócitos e bastonetes) localizadas à esquerda, enquanto que as células maduras e hipersegmentadas estão localizadas à direita. Figura 17. Esquematização de desvio à esquerda, e desvio à direita. Esquerda Direita Desvios Mielócitos Metamielócitos 1 ou + células Neutrófilo Bastonete >300 células/µl Neutrófilo Segmentado de 2-5 segmentos Neutrófilo hipersegmentado com 6 ou mais segmentos Fonte: https://deskgram.co/p/2146863722706420151_14450420197. Acesso em: 23/01/2020. https://pt.wikipedia.org/wiki/Anemia_megalobl%C3%A1stica https://deskgram.co/p/2146863722706420151_14450420197 53 HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO │ UNIDADE I Anomalias leucocitárias e alterações tóxico- degenerativas Denominam-se anomalias leucocitárias as alterações de forma, e de função, dos leucócitos em geral. Algumas dessas anomalias são típicas dos granulócitos, outras se manifestam, também, nos mononucleares (monócitos e linfócitos). Quando há alteração da forma normal dos leucócitos, em geral, existe, também, alteração da função, embora isso não ocorra obrigatoriamente. As anomalias leucocitárias têm caráter hereditário, podendo ser transmitidas como doenças autossômicas recessivas ou dominantes.As alterações leucocitárias autossômicas são as seguintes: Anomalia de Pelger-Huët: é uma anomalia da forma do núcleo dos segmentados neutrófilos, relativamente frequente. Existe falta de segmentação dos núcleos, de modo que há um aparente assincronismo de maturação. Enquanto o citoplasma das células neutrófilas apresenta coloração típica, com granulações secundárias normais, finas e ausência de basofilia, os núcleos são arredondados, em bastão, ou exibem, no máximo, um esboço de segmentação. Aparecem formas típicas, que lembram o aspecto de duas lentes de óculos, ligadas por uma ponte de material cromatínico. Nessa anomalia, parece ocorrer, realmente, um assincronismo de maturação do núcleo, em relação ao citoplasma celular. Ocorrem formas heterozigóticas e homozigóticas, não havendo quadro clínico de deficiência funcional de neutrófilos. Na leucemia mieloide crônica, e na síndrome mielodisplásica, aparece um grande número de células com morfologia desse tipo, por isso a denominação pseudo-Pelger-Huët (Figura 18). Figura 18. Anomalia de Pelger-Huët. Fonte: https://imagebank.hematology.org/image/17390/pseudo-pelgerhut-anomaly; https://twitter.com/farmaceutica/ status/735256437128081408. Acesso em: 23/01/2020. https://twitter.com/farmaceutica/status/735256437128081408 https://twitter.com/farmaceutica/status/735256437128081408 54 UNIDADE I │ HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO Anomalia de May-Hegglin: é uma alteração do citoplasma de granulócitos e monócitos, caracterizadas pela presença de granulações grandes e acinzentadas, após coloração panóptica. Esses grãos contêm material de ácido ribonucleico (pironinófilo). Além dessas alterações, faz parte do quadro a presença de plaquetas gigantes, deficientes em fator 3 plaquetário, por isso, a possibilidade de haver certa tendência hemorrágica nos pacientes portadores. As plaquetas podem ser alteradas em número e forma (gigantismo), sendo a causa de retração do coágulo deficiente (Figura 19). Figura 19. Anomalia de May-Hegglin. Fonte: https://emedicine.medscape.com/article/956447-overview. Acesso em: 23/01/2020. Anomalia de Alder-Reilly: trata-se de anomalia dos grânulos dos neutrófilos (tipo neutrofílico), dos monócitos (tipo monocítico) ou dos linfócitos (tipo linfocítico). Essa alteração é vista em algumas mucopolissacaridoses, como as síndromes de Hurler e Hunter. Nessas síndromes, há um erro metabólico, que altera o metabolismo das granulações lisossomais das células, de tal forma que se acumulam grãos muito finos no citoplasma. Não há alteração na função das células, mas existe quadro clínico variável, com lesões oculares, ósseas, cardíacas e neurológicas, em decorrência do erro metabólico geral (Figura 20). https://emedicine.medscape.com/article/956447-overview 55 HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO │ UNIDADE I Figura 20. Anomalia de Alder-Reilly. Fonte: https://imagebank.hematology.org/image/17022/alderreilly-anomaly. Acesso em: 23/01/2020. Anomalia de Chédiak-Higashi-Steinbrinck: é uma anomalia rara, mas facilmente diagnosticada, quando se observam leucócitos de esfregaços de sangue, ou de medula óssea, corados por Leishman, ou outro corante panóptico. O diagnóstico é sempre feito em crianças pequenas, uma vez que há quadro clínico grave, especialmente, na forma homozigótica. Praticamente, esta é incompatível com a sobrevida, devido à grande suscetibilidade dos pacientes às infecções bacterianas. Na forma heterozigótica, o quadro clínico é mais brando, e o diagnóstico é feito pelo achado das granulações anômalas, e pela história clínica, em que, com muita frequência, encontra-se consanguinidade entre os pais do paciente. As granulações de Chédiak-Higashi-Steinbrinck correspondem a lisossomas das células, que adquirem um aspecto gigante, e são relativamente menos numerosos do que os lisossomas normais, nos segmentados neutrófilos. Nos linfócitos, essas granulações são quase sempre únicas e, nos monócitos, podem ser múltiplas. Tais grânulos se formam por associação de lisossomas, ou granulações primárias (azurófilas) dos leucócitos, em decorrência de defeito genético da membrana lisossomal. A coloração citoquímica da peroxidase põe em evidência esses grânulos gigantes. As granulações secundárias dos neutrófilos são normais, mas, ainda assim, há menor defesa contra infecções. Ao defeito lisossomal, acrescenta-se a deficiente capacidade quimiotática dos neutrófilos. Fazem parte do quadro clínico dessa doença o albinismo parcial ou total, adenoepatoesplenomegalia, e manifestações neurológicas diversas (Figura 21). https://imagebank.hematology.org/image/17022/alderreilly-anomaly 56 UNIDADE I │ HEMATOLOGIA CLÍNICA: INTRODUÇÃO Figura 21. Anomalia de Chédiak-Higashi-Steinbrinck. Fonte: http://pt.medicalmeds.eu/show_img.php-img=665.htm. Acesso em: 23/01/2020. Diagnóstico laboratorial: baseia-se, na maioria das vezes, no exame morfológico de esfregaços de sangue, corados pelos métodos de rotina. A reação citoquímica da peroxidase, ou a reação de imunoperoxidase, é usada no diagnóstico da doença de Chédiak, com bons resultados. A Tabela 3 mostra as alterações granulocíticas adquiridas. Tabela 3. Alterações granulocíticas adquiridas. Tipo de alteração Significado Granulações tóxicas Aumento de granulações azurófilas, nos segmentados neutrófilos. Origem: lisossômica (peroxidase positiva) Resposta medular acelerada a uma infecção, inflamação, queimadura etc., com provável redução do número de mitoses nas células jovens Corpúsculos de Döhle Granulação grosseira, basófila, na borda do citoplasma dos segmentados neutrófilos. Origem: RE rugoso (RNA) não lisossômico (peroxidase negativa) Incerto. Comum em infecções graves (escarlatina), queimaduras, e após uso de citotóxicos Pseudo-Pelger-Huet Núcleo não segmentado, ou com apenas dois lobos Assincronismo de maturação núcleo/citoplasma. Comum em leucemias, após uso de quimioterápicos e mixedema Vacuolização tóxica Vacúolos citoplasmáticos Origem: fagolisossomas Fagocitose de bactérias, com grande atividade lisossômica Hipersegmentação e gigantismo celular Núcleo com mais de quatro lobos e células de grande tamanho Alteração na maturação celular por várias causas, deficiência de vitamina B 12 , de ácido fólico, ou após uso de citotóxicos que interferem na síntese de DNA Fonte: Manual de Hematologia Propedêutica e Clínica. 4. ed. Therezinha F. Lorenzi p. 303. 2006. http://pt.medicalmeds.eu/show_img.php-img=665.htm 57 UNIDADE IILEUCEMIAS CAPÍTULO 1 Tipos de leucemias As leucemias são um grupo de doenças neoplásicas, caracterizadas por proliferação clonal de células hematopoiéticas mieloides, ou linfoides, as quais sofreram anormalidades genéticas. São doenças bastante heterogêneas, quanto à patogenia (mecanismo leucomogênico), à etiologia, ao prognóstico, e à resposta ao tratamento. Desse modo, devem ser separadas em entidades biológicas distintas. Nas leucemias agudas, a célula que origina o clone neoplásico é um precursor, cuja alteração mutacional causa perda da capacidade maturativa, com consequente acúmulo na medula óssea e no sangue periférico de células imaturas, denominadas blastos. Nas leucemias crônicas, a biologia da célula, iniciadora do processo leucemogênico, mantém a capacidade de diferenciação/maturação, havendo um característico aumento de células maduras, na medula óssea e no sangue periférico. O termo clonal diz respeito à origem, em uma única célula. Em geral, é referido aos processos neoplásicos, relacionados à expansão monoclonal. Quando um tecido responde apropriadamente a um estímulo exógeno, com aumento na produção de células, usualmente, resulta em uma expansão policlonal (o estímulo age sobre várias células – vários clones), como ocorre, naturalmente, nas granulocitoses ou linfocitoses, em resposta a infecções; eritrocitose secundária à hipóxia. Na prática, esses casos são ditos reacionais, não sendo referidos como clonais. Por outro lado, quando uma célulaganha vantagem, em relação às suas equivalentes, com aumento da capacidade proliferativa, perda de dependência, em relação aos fatores de crescimento, ou fuga do controle regulatório do ciclo celular, ou da apoptose, pode desenvolver um clone. Sabendo-se que uma leucemia pode emergir em qualquer estágio de uma célula sanguínea em desenvolvimento, o ponto ao longo da via de diferenciação, no qual tem 58 UNIDADE II │ LEUCEMIAS início o processo, bem como a extensão da capacidade de maturação da célula, são determinantes significativos, no comportamento e entendimento da evolução clínica de cada subtipo de leucemia. A transformação leucêmica pode ocorrer em um precursor linfoide, num precursor mieloide, ou numa célula progenitora com capacidade pluripotente (stem-cell pluripotente – CFU-S) e potencial de diferenciação, tanto para a linhagem mieloide quanto linfoide. Particularmente, as leucemias mieloides agudas podem surgir em uma célula de linhagem única (CFU-E; CFU-meg; CFU-G; CFU-M), ou numa célula mieloide pluripotente (CFU-GEMM, stem-cell mieloide), com capacidade de diferenciação eritroide, granulocítica, monocítica e megacariocítica. Apesar de bastante heterogênea e incerta, a etiologia das leucemias parece estar ligada a fatores ambientais, como radiações; infecções virais (vírus Epstein- Barr, HTLV1); substâncias tóxicas, como benzeno e solventes orgânicos; fatores genéticos (maior predisposição em indivíduos com anemia de Fanconi, síndrome de Down); e fatores individuais, como fumo, estresse, imunodeficiências. A grande consequência dos diferentes agentes desencadeadores da expressão inapropriada de oncogêneses, e da perda da função dos genes supressores de tumor, é o descontrole no mecanismo regulador do crescimento celular ou de apoptose. Sob o ponto de vista cinético, à proporção que vão povoando a medula óssea, as células leucêmicas passam para o sangue periférico, no qual podem ser observadas não só com relação à alteração de seu número, mas também ao seu aspecto qualitativo. Suas aberrantes alterações citomorfológicas e, em muitos casos, sua disponibilidade em estudo de esfregaço sanguíneo são, também, importantes. Além da medula óssea, e do sangue periférico, pode-se, ainda, observar infiltração das células neoplásicas em outros órgãos, como baço, fígado e sistema nervoso central (compreendendo as infiltrações leucêmicas de meninges, encéfalo, raízes nervosas, nervos periféricos e articulações). Do ponto de vista citológico, observam-se dois principais grupos: as leucemias mieloides agudas, ou não linfoides (incluindo subtipos mais raros, como as leucemias minimamente diferenciadas; leucemias eosinofilicas e basofílicas agudas) e as leucemias linfoides agudas, ou linfoblasticas. Há, também, as leucemias de células indiferenciadas, e leucemias bifenotípicas, as quais são colocadas num grupo à parte das leucemias mieloides agudas, ou leucemias linfoides agudas. Juntamente com as minimamente diferenciadas, além da 59 LEUCEMIAS │ UNIDADE II análise morfológico-citoquímica, essas entidades necessitam, obrigatoriamente, de estudos imunofenotípicos, para o seu diagnóstico. Leucemias linfoides As leucemias linfoides merecem ser diferenciadas dos linfomas, que também são proliferações neoplásicas das células de origem linfoide. De modo geral, as leucemias têm suas manifestações clínicas associadas a alterações no sangue e na medula óssea. Os linfomas têm suas manifestações primariamente, e de modo predominante, nos linfonodos, ou em outros órgãos linfoides. São entidades cujas células linfomatosas podem vir a infiltrar a medula óssea, e invadir o sangue periférico, tornando-se um linfoma leucemizado (fase leucêmica). Leucemia linfoide aguda As leucemias linfoides agudas (LLA) são neoplasias resultantes da proliferação anormal de células linfoides imaturas, que perderam sua capacidade maturativa, os linfoblastos. Essas células têm sua origem nos progenitores linfoides da medula óssea, ou do timo, e caracterizam os estágios iniciais de diferenciação dos linfócitos B e T, respectivamente. Assim, acumulam-se os linfoblastos, ou células jovens, em grande número, e em etapas diferentes de maturação. Essa parada de maturação pode ser detectada, por meio de anticorpos monoclonais, capazes de demonstrar os antígenos de diferenciação linfocitários. Os marcadores das células leucêmicas diferem conforme o tipo de linfócito proliferante. A pesquisa desses marcadores imunológicos é muito importante na prática, pois orienta a terapêutica e, até certo ponto, determina o prognóstico. As LLA são as doenças neoplásicas mais comuns da infância. Constituem cerca de 80% das leucemias que acometem indivíduos até os 15 anos de idade. Cerca de 70% dos casos de LLA ocorrem em pacientes com menos de 15 anos de idade. São pouco comuns em indivíduos acima dessa idade, sendo responsáveis por apenas 15 a 20% dos casos de leucemias agudas. Sua incidência é maior em brancos do que em negros. A anormalidade primária está correlacionada a células precursoras linfoides, desde a stem-cell linfoide, ainda não diferenciada para a linhagem B ou T, até os blastos 60 UNIDADE II │ LEUCEMIAS linfoides B ou T mais diferenciados. Cerca de 85% das LLA possuem blastos que expressam marcadores de células B, 15% dos casos são de células T. O padrão de expressão antigênica varia de caso a caso. Em uma minoria dos pacientes, os blastos LLA podem coexpressar antígenos mieloides; esses casos sugerem que o defeito de proliferação/diferenciação se inicie em nível de uma célula precursora hematopoiética mais indiferenciada, ou seja, com expressão de antígenos não específicos de maturação. Os elementos clínicos das LLA são semelhantes aos de uma leucemia aguda em geral, tais como mal-estar, febre, palidez (quando estado anêmico acentuado), depressão das funções da medula óssea, sangramentos (em decorrência de trombocitopenia), infecções, dores ósseas (consequente à infiltração dos ossos), adenomegalia (hipertrofia dos linfonodos, pouco comum nas mieloides), hepatoesplenomegalia, cefaleia, convulsões, e coma (resultado da infiltração do SNC por blastos). Para fins de diagnósticos, as LLA são classificadas, basicamente, sob critérios morfológico-citoquímicos, segundo a classificação FAB (French-American-British), para as leucemias nos subtipos L1, L2 e L3; por critérios imunológicos, em leucemias linfoblásticas tipo B ou tipo T. As alterações citogenéticas são de grande valor prognóstico, sendo levadas em consideração as classificações MIC (classificação morfológica, imunológica e citogenética) e WHO (World Health Organization – OMS) (Tabelas 4, 5 e 6). Além de alterações cariotípicas (cromossômicas) específicas, o prognóstico é ruim, quando são encontrados leucócitos acima de 100.000/mm3, hepatoesplenomegalia acentuada, idade menor que 1 ano, ou acima de 10 anos, pacientes da raça negra, infiltração blástica no sistema nervoso central, UgG ou IgA diminuídas, e quando são do tipo L2 ou L3 (classificação FAB) (Tabela 7). Dos subtipos FAB, a LLA-L3 é o mais raro e, mesmo tendo obtido grandes avanços com protocolos mais agressivos, ainda é de prognóstico desfavorável. À luz dos critérios morfológicos, imunológicos e citogenéticos, as LLA foram divididas pela classificação MIC, conforme as Tabelas 4, 5. De acordo com a classificação WHO, as denominações FAB L1, L2 e L3, para as LLA, não são de grande relevância, uma vez que os tipos L1 e L2 não predizem o imunofenótipo (se tipo B ou T), tampouco as anormalidades citogenético- moleculares. A LLA-L3, entretanto, equivale à célula B do linfoma de Burkit. Para a WHO, deixaram de existir as denominações FAB, e a LLA passaria a ser denominada como leucemia de células de Brukitt (Tabela 6). 61 LEUCEMIAS │ UNIDADE II Além disso, as neoplasias de células precursoras, apresentando tumores sólidos, e aquelas com envolvimento primário da medula óssea e sangue periférico, sãoapenas diferentes estágios de doenças, de um mesmo tipo celular, de relevância apenas prognóstica, e não de classificação. Desse modo, o termo LLA deve ser mantido para neoplasias linfoides de células precursoras primariamente leucêmicas, e para os linfomas de células precursoras B ou T (linfomas linfoblásticos), ou suas fases leucêmicas. Diagnóstico clínico: o quadro clínico não permite o diagnóstico diferencial entre LLA e LMA (leucemia mieloide aguda), pois, em ambas, há queixas de fraqueza, palidez progressiva, hemorragias, e quadro infeccioso. Na LLA, é mais frequente o crescimento de tecidos linfoides, provocando a adenomegalia e esplenomegalia. Fenômenos compressivos decorrentes do crescimento de gânglios linfáticos (mediastino, timo etc.), embora raros, podem ser encontrados. A infiltração do SNC, que resulta em quadro semelhante ao da meningite, com a paralisia de nervos cranianos, pode estar presente, caracterizando a neuroleucemia. Esse quadro também ocorre na LMA. Quando o crescimento de órgãos linfoides é mais de tipo tumoral, acentuado, suspeita- se de leucemização de um linfoma maligno (não Hodgkin). Tais casos recebem, também, a designação de leucossarcoma, ou leucemia de células linfomatosas. Alguns casos de LLA correspondem à fase de agudização da LMC (leucemia mieloide crônica), aparecendo a alteração citogenética clássica desta: o cromossomo Ph1. Este é mais frequente na LLA do adulto, e indica sempre o pior diagnóstico. Certas viroses da infância costumam causar reação linfocitária intensa, aparecimento de pequena porcentagem de linfócitos jovens circulantes (linfoblastos e prolinfócitos) e atipias celulares, que levam a suspeita de LLA. Quando a adenomegalia for muito acentuada, e houver baço grande, palpável, associado a quadro purpúrico (plaquetopenia), está indicado o mielograma, para o diagnóstico diferencial entre reação linfocitária e LLA. Diagnóstico laboratorial: baseia-se no exame morfológico de esfregaços de sangue e de medula óssea, sendo encontrada alta porcentagem de linfoblastos, mais ou menos anômalos. Esse exame sempre deve ser complementado com observação das células, por meio de testes citoquímicos e imunofenotipagem. Hemograma: encontram-se quase sempre no sangue anemia e plaquetopenia, com blastos linfoides, em proporção alta e leucocitose variável. 62 UNIDADE II │ LEUCEMIAS O grupo FAB classifica a LLA em três tipos morfológicos (L1, L2 e L3). As características, de cada um desses grupos, estão descritas a seguir: » LLA tipo L1 – leucemia linfoide de blastos pequenos e homogêneos, com relação nucleocitoplasmática alta. Os nucléolos são conspícuos, dificultando a observação dos nucléolos. » LLA tipo L2 – leucemia linfoide de blastos de tamanho variável, heterogêneos. Relação nucleocitoplasmática pequena, nucléolos grandes, e bem visíveis. Pode ser confundida com a LMA tipo M7 (com blastos pequenos). » LLA tipo L3 – leucemia linfoide de blastos grandes, com citoplasma abundante, basófilo e vacuolizado, tipo Burkitt. Forma grave e com pior prognóstico. Apenas a classificação FAB não é suficiente para distinguir os tipos de LLA. Assim como para as LMA, utiliza-se uma classificação mais abrangente, que leva em consideração as anomalias citogenéticas, a citoquímica e os marcadores de diferenciação das células envolvidas, por meio de anticorpos monoclonais (Tabelas 4, 5, 6 e Quadro 1). A finalidade última das classificações, até agora usadas, é a de separar as leucemias linfoides das mieloides, principalmente, quando os blastos são muito indiferenciados. Essa separação orienta a terapêutica a ser instituída e, até certo ponto, determina o prognóstico. Mielograma: costuma revelar hipercelularidade acentuada, com substituição quase total das células normais por linfoblastos leucêmicos. Muitas vezes, a morfologia dessas células é mais marcada nos esfregaços de material medular, facilitando a classificação dos vários tipos (L1, L2 ou L3). 63 LEUCEMIAS │ UNIDADE II Tabela 4. Classificação morfológica, imunológica e citogenética (MIC) das LLA, para a linhagem B. Categoria e cariótipo Marcadores celulares CD19 TdT 1a CD10 (cALLA) Citlg mlg Tipo FAB Precursor-B LLA (pró-B)* » LLA pró-B, t(4;11) » LLA pró-B, t(9;22)** + + + - - - L1, L2 LLA B comum (pré-pré-B) » LLA comum, 6q- » LLA comum, quase haploide » LLA comum, t ou t Del (12p) » LLA comum, t(9;22) + + + + - - L1, L2 LLA pré-B » LLA pré-B, t(1;19) » LLA pré-B, t(9;22) + + + +*** - - L1 LLA B maduras » LLA B maduras t(8;14) » LLA B maduras t(2;8) » LLA B maduras t(8;22) » LLA B maduras 6q- + - + +/- +/- +**** L3 * anteriormente chamada de null-LLA ** t(9,22) é, também, raramente visto nas LLA linhagem T *** muito raramente, o antígeno cALLA pode estar ausente **** cadeia leve única; + = no mínimo >10% das células são positivas acima do controle Fonte: Anemias e Leucemias – Conceitos Básicos e Diagnósticos por Técnicas Laboratoriais. Oliveira R.A.G; Neto A.P, pp. 117. 2004. Tabela 5. Classificação morfológica, imunológica e citogenética (MIC) das LLA, para a linhagem T. Marcadores celulares* Categoria e cariótipo CD7 CD2 TdT Tipo FAB Precursor-T LLA » LLA Precursor-T ou del (9p) + + + L1, L2 LLA células T** » LLA células T, t (11; 14) – LLA células T, 6q- + + + L1, L2 * uma minoria dos casos (6 a 10%) pode expressar cALLA ** alguns casos são positivos também para CD1 Fonte: Anemias e Leucemias – Conceitos Básicos e Diagnósticos por Técnicas Laboratoriais. Oliveira R.A.G; Neto A.P, pp. 117. 2004. 64 UNIDADE II │ LEUCEMIAS Quadro 1. Proposta WHO, para a classificação das leucemias linfoides agudas LLA. Leucemia linfoblástica aguda de células B precursoras (alterações citogenéticas): › t(9;22) (q34;q11); brc/abl; › anormalidade 11q23 (rearranjo MLL); › t(1;19) (q23;p13) E2A/PBX1; › t(12;21) (p12;q22) ETV/CBF-α Leucemia linfoblástica aguda de células T precursoras; Leucemia de células de Burkitt Fonte: Anemias e Leucemias – Conceitos Básicos e Diagnósticos por Técnicas Laboratoriais. Oliveira R.A.G; Neto A.P, p. 118. 2004. Tabela 6. Principais fatores de prognóstico para as LLA. Classificação FAB. Variáveis Favoráveis Desfavoráveis Leucócitos ao diagnóstico Imunofenótipo < 50.000/mm3 Pré-pré B (cALLA) T (tímica) >50.000/mm3 Pré B; B-maduro Pré T Coexpressão de Ag mieloides Tempo para remissão Organomegalia Massa mediastinal Recidiva Infiltração do SNC Morfologia* Plaquetas ao diagnóstico* Hemoglobina ao diagnóstico* Citogenética Ausente MO livre de doença, em 14 dias Ausente Ausente Ausente Ausente L1* >100.000/mm3 < 10g/dl t(12;21), 6q- hiperploidia (>50 cromos.) Presente Doença residual > 28 dias Presente Presente Presente Presente L2*, L3** <100.000/mm3 >10 g/dl t(9;22) t(8;14) t(8;22) t(2;8) t(4;11) t(1;19) Pseudoploidia LLA especificamente em crianças: CD10 CD24 Idade Gene TEL Índice DNA Presente Presente 1-9 anos Presente >1,16 Ausente Ausente <1 e >10 anos Ausente <1,16 Fonte: Anemias e Leucemias – Conceitos Básicos e Diagnósticos por Técnicas Laboratoriais. Oliveira R.A.G; Neto A.P, p. 125. 2004. Leucemia linfoide crônica Esta doença linfoproliferativa é, relativamente, rara em nosso meio, caracterizando-se por quadro clínico benigno, evolução lenta, e grande 65 LEUCEMIAS │ UNIDADE II leucocitose no sangue. A leucocitose é causada por aumento acentuado de linfócitos de tipo maduro, com raras formas blásticas (linfoblastos), e formas intermediárias (prolinfócitos) circulantes. Alguns casos de LLC são diagnosticados quase que por acaso, após realização de um exame hematológico, sem que haja sintomatologia clínica alguma. Outras vezes, o quadro clínico é severo, ocorrendo anemia grave, icterícia, hepatoesplenomegalia e adenomegalia generalizada. A doença tem caráter lento e progressivo, podendo ser detectada em várias fases de sua evolução natural. A LLC apresenta quadroclínico e características muito próximas do linfoma maligno tipo linfocítico e, em muitos casos, o diagnóstico diferencial entre ambos é difícil de ser estabelecido. Isso deve ao fato de o linfoma tipo linfocítico costumar evoluir para a fase de disseminação leucêmica. Nesses casos, a conduta terapêutica é semelhante, ficando o diagnóstico diferencial, com valor apenas acadêmico. A doença origina-se da proliferação neoplásica de uma célula indiferenciada, que é responsável pelo aparecimento do clone leucêmico. Em mais de 90% dos casos, a LLC é do tipo B e, em raríssimos casos, é de tipo T. No sangue periférico, assim como nos esfregaços de medula óssea, há aumento de linfócitos de tipo maduro, raros prolinfócitos e blastos. A alteração inicial, que origina a LLC, não está definitivamente esclarecida. O fato das células leucêmicas apresentarem baixo índice mitótico impediu, até certo ponto, o progresso dos estudos citogenéticos. A partir da década de 90, surgiram novos conhecimentos sobre os rearranjos genéticos, mais frequentemente encontrados na LLC. As anomalias cromossômicas detectadas incluem: (1) trissomia do 12 (+12q), presente em cerca de 50 % dos casos, dependendo das séries estudadas, é reconhecida mais facilmente pela técnica FISH, ou citogenética de interfase; (2) deleção do 13 (-13q14), considerada, por alguns, como a anomalia mais frequente; (3) deleção do 11 (-11q22); (4) deleção do 6 (-6q21-23); (5) deleção do 17 (17p13), com mutação do gene p53 (supressor tumoral). Vários genes são candidatos a apresentar alterações, em decorrência dessas anormalidades cromossômicas. Outras alterações genéticas, menos frequentes, incluem: (1) trissomia do 8 (+8q); (2) t(11;14); trissomia do 3 (+3q). A LLC tipo T tem incidência relativamente elevada, em portadores de ataxia teleangiectasia, doença imunológica de caráter hereditário. É encontrada incidência 66 UNIDADE II │ LEUCEMIAS elevada de anomalias citogenéticas nesses casos, como: (1) quebras de cromossomos, (2) translocações e (3) inversões. Entre as translocações, a t(11;14) pode afetar o gene atm, alterado na telangiectasia. Como acontece com outros tipos de leucemia, e com as neoplasias em geral, tem-se procurado correlacionar a origem da LLC com a ação de agentes do meio, com os quais os pacientes tenham entrado em contato. Entre esses agentes, alguns parecem atuar positivamente na origem da doença, de acordo com substâncias químicas usadas, como pesticidas (organofosforados) na zona rural. Diversos outros itens têm entrado nessas pesquisas epidemiológicas, cujos resultados não são bem definidos, entre eles: solventes químicos, derivados do petróleo, substâncias químicas, de várias naturezas, utilizadas em indústrias de plástico, agentes físicos, como exposição a campos elétricos e magnéticos. Certas doenças hereditárias, com alterações cromossômicas (mutações etc.), e doenças autoimunes, parecem atuar positivamente ao aparecimento da LLC. Há muito tempo, a incidência de linfoproliferações malignas tem chamado a atenção, em mais de um membro da mesma família. Entre estas, a LLC familial é encontrada com certa frequência. Alguns trabalhos têm procurado explicar a ocorrência da LLC familial, por meio de estudos genéticos e de análise molecular, em especial, nos casos em que ocorrem as mutações genéticas relacionadas aos genes das imunoglobulinas. É aceita a existência de grupamentos familiares da doença, e um ponto chama a atenção nesses casos: a ocorrência antecipada da doença, ou seja, o início da LLC se dá nos descendentes dos pacientes leucêmicos. Além disso, a incidência de LLC familial parece ser maior, quando há trissomia do cromossomo 12. Considera-se que, ao lado das anomalias genéticas herdadas dos ancestrais, as mutações devem estar relacionadas, também, à ação de fatores ambientais. Na LLC, ocorrem alterações imunológicas importantes, que resultam do processo linfoproliferativo. Inversamente, alterações imunológicas, que aparecem em várias doenças, podem levar ao desencadeamento de uma linfoproliferação maligna, entre elas, a LLC ou linfoma. Estudos sobre a função de linfócitos T têm demonstrado que há desequilíbrio na relação T auxiliares/T supressores (CD4/CD8) nessas linfoproliferações, causando excesso de atividade supressora. Numa primeira fase, há estímulo 67 LEUCEMIAS │ UNIDADE II aumentado para a proliferação de linfócitos B, tipo policlonal. Quando se instala a LLC, a proliferação passa a ser do tipo monoclonal. Na LLC, é relativamente alta a incidência de anticorpos antieritrocitários, antileucocitários ou antiplaquetários. De início, os anticorpos se originam da proliferação policlonal dos linfócitos B. Essa proliferação costuma estar relacionada a uma infecção virótica (tipo EB vírus). Numa etapa seguinte, a expansão das células B passa a ser monoclonal, caracterizando-se a LCC. Geralmente, a proliferação monoclonal das células B vem acompanhada de hipogamaglobulinemia, com produção de excesso de cadeias leves (kappa ou lambda), em relação às cadeias pesadas. A anemia hemolítica, assim como a plaquetopenia, que ocorre em casos da doença é explicada pela presença de autoanticorpos. Há dúvidas quanto ao tipo de células produtoras desses anticorpos. Seriam os linfócitos B proliferantes da LCC (CD5+), uma linhagem anormal de linfócitos T, ou linfócitos B normais que não pertencem ao clone leucêmico? As características imunofenotípicas dos linfócitos da LLC são interessantes. Eles expressam antígenos da linhagem B madura (CD19, CD20, CD23), são CD10 negativos, e são CD5+. Considera-se típico da LLC o achado de células B CD5+, CD23+, com traços de Ig de superfície. Os marcadores CD79b e FMC79 têm baixa positividade. O antígeno CD20 é expresso no citoplasma celular, e está ausente, ou fracamente positivo, na membrana. As células exibem cadeias leves de imunoglobulinas tipo kappa ou lambda, monoclonais. Os linfócitos leucêmicos da LLC têm pequeno índice de proliferação, acumulando, na circulação ou nos órgãos, linfoides na fase G0 do ciclo celular. O acúmulo de células está relacionado à inibição do fenômeno da apoptose, ou morte programada, que ocorre nessas células. A LLC é considerada uma linfoproliferação, com características próprias, na qual o aumento progressivo de linfócitos, em circulação, não ocorre por excesso de proliferação, mas, sim, por acúmulo dessas células. Elas têm sobrevida aumentada, em virtude de defeito no mecanismo de apoptose, ou seja, de perda da capacidade de caminhar para a morte. Utiliza-se a classificação de Raí (1975), como referência para a classificação do estado evolutivo da doença. 68 UNIDADE II │ LEUCEMIAS » Estágio 0: a doença é um achado do exame de sangue, pois há linfocitose absoluta (≥ 15.000 linfócitos/mm3). Na medula óssea, os linfócitos maduros estão em porcentagem ≥ 40%. » Estágio I: há linfocitose e aumento de linfonodos. » Estágio II: há linfocitose, ou aumento do fígado, ou, ainda, de ambos. Os linfonodos podem estar ou não aumentados. » Estágio III: presença de linfocitose e anemia (hemoglobina < 11g/100 mL ou hematócrito < 33%). Os linfonodos, o baço e o fígado estão, ou não, aumentados de volume. A anemia pode ser de qualquer tipo, inclusive, anemia hemolítica. » Estágio IV: linfocitose e plaquetopenia (plaquetas < 100.000/mm3). Anemia e organomegalia podem estar, ou não, presentes. Leucemia Mieloide aguda É uma doença de natureza maligna, caracterizada pela proliferação anômala dos precursores granulocíticos da medula óssea. No processo de diferenciação das células pluripotentes (stem-cells), da medula óssea, ocorre parada, ou dificuldade de maturação, de modo que se acumulam células jovens, que nunca chegam ao amadurecimento completo. Como a parada de maturação pode ocorrer em qualquer etapa da granulocitogênese, as células resultantes podem ter aspectos variados, desde forma muito diferenciadas (blastos), até aspecto bem mais diferenciado.Essa variação serve de base para a classificação morfológica dos vários tipos de LMA. Os blastos encontrados na LMA correspondem a células incapazes de evoluir até o estágio de maturação completa. O processo de multiplicação, e diferenciação normal, está alterado, em virtude da falha no mecanismo genético regulador do ciclo celular. Os genes responsáveis pela síntese dos fatores de crescimento, e de seus receptores celulares (proto-oncogenes), podem sofrer mutações, e isso vai afetar os sinais que devem ser transmitidos ao DNA dos precursores medulares. O crescimento desordenado das células malignas do câncer, e das leucemias, traduz o desequilíbrio entre a proliferação e diferenciação. 69 LEUCEMIAS │ UNIDADE II Genes encarregados da síntese dos vários fatores de crescimento, da série granulocítica, e de seus receptores celulares, podem sofrer mutações que resultam em leucemia. As alterações cromossômicas tipos translocações também podem resultar numa proliferação leucêmica, em decorrência dos chamados fatores de translocação. A leucemia pode, ainda, resultar de mutação, presente em genes supressores do crescimento celular. O WT-1, ou gene supressor de Wilms, por exemplo, é expresso em células-tronco CD34+ e, normalmente, está associado à diferenciação celular. Sua expressão aumentada é encontrada na LMA, e traduz diminuição da diferenciação na proliferação dos precursores. O p53 é outro gene supressor associado à incidência de câncer e de leucemia, quando sofre mutação. Está relacionado ao prognóstico pior, e alto risco da doença. Alguns casos de LMA aparecem depois do tratamento quimioterápico, utilizado para vários tipos de câncer ou de linfomas, tanto em indivíduos adultos, quanto em crianças. São casos de LMA secundária, que também estão associados a alterações genéticas. Dois tipos de quimioterápicos são responsáveis pelas LMA secundárias: (1) os agentes alquilantes e (2) os inibidores da enzima topoisomerase II. São exemplos de agentes alquilantes os derivados da mostarda nitrogenada, tais como ciclofosfamida, melfalan, clorambucil etc., e de inibidores da topoisomerase II, as epipodofilotoxinas, antraciclinas, mitoxantrone etc. Além desses quimioterápicos, a radioterapia, especialmente quando se associa ao uso de agentes alquilantes, é responsável pela origem de uma segunda neoplasia de tipo LMA. As LMA são subdivididas, sob critérios morfológicos e citoquímicos, pelo grupo FAB, em leucemias mieloides agudas dos tipos M0, M1, M2, M3, M4, M5 (M5a e M5b), M6 e M7 (Tabela 8). Alguns tipos citogenéticos são associados a subtipos FAB, de apresentação clínico- patológica específica. A t(8;21) é uma entidade clínica, relativamente homogênea, que, em mais de 90% dos casos, está associada ao subtipo FAB M2, de ocorrência em adultos jovens, caracterizada por mieloblastos com corpos de Auer, maturação granulocítica e prognóstico favorável. Entretanto, o raciocínio invertido não é 70 UNIDADE II │ LEUCEMIAS totalmente válido. Desse modo, isoladamente, os subtipos FAB M2 não são entidades clinicamente homogêneas, e nem sempre apresentam t(8;21). A translocação t(15,17), exclusivamente em subtipos FAB M3 e M3v, a inv(16) e/ou deleção (16q22), nas FAB M4 variante, eosinofílica e a t(9;11), nas M5, são alguns outros exemplos. Tomando por base alterações cariotípicas (segundo o 4o workshop Internacional das Alterações Cromossômicas nas Leucemias, 1984, e Heim et.al), as LMA poderiam ser divididas em dois grandes grupos: 1. Associadas a alterações citogenéticas típicas das LMA “de novo”, em crianças e adultos, incluindo t(15;17), t(8;21), inv(16), t(16;16), t(9;11), t(1;22), e t(8;16). 2. Anormalidades associadas a síndromes mielodisplásicas, incluindo ganho ou perda de segmentos cromossômicos, tais como -7, 7q-, -5, 5q-, +8, +9, -11, 11q-, 12p-, -18, +19, 20q-, +21, e, menos frequentemente, translocações t(2;11), t(1;7), as quais não respondem, satisfatoriamente, às quimioterapias LMA-associadas, apresentando baixos índices de remissão. As leucemias agudas, classificadas como não linfocíticas, constituem um grupo com considerável heterogenicidade morfológica: leucemia meroblástica aguda, incluindo a promielocítica, mielomonocítica aguda, monocítica e, também, a eritroleucemia. O fato de granulócitos, monócitos e megacariócitos, apresentarem alguma anormalidade. Juntamente com o comprometimento das células eritroides, sugere a existência de comprometimento, no nível de uma célula primordial mais indiferenciada. Os subgrupos, anteriormente citados, com exceção da eritroleucemia, são considerados leucemias granulocíticas agudas. Para a diferenciação diagnóstica entre as leucemias mieloides agudas, pode-se, também, lançar mão da avaliação do grau de maturação dos subtipos M1, M2, M3, M5a e M5b, utilizando, para isso, o cálculo do índice de maturação (IM) para leucemias monocíticas e granulocíticas, proposto por Van Rhenen et. al. (Quadro 2). 71 LEUCEMIAS │ UNIDADE II Características biológicas específicas podem distinguir as LMA secundárias à SMD (síndromes mielodisplásicas), das LMA verdadeiramente primárias (“de novo”). A subdivisão das LMA em entidades (LMA-MDR), leucemias multirresistentes a drogas, que incluiriam as leucemias secundárias à SMD, leucemia em idosos, ou como complicação de doenças, como a anemia de Fanconi, e LMA “de novo”, poderia ser de maior aplicação para as decisões clínicas e o tratamento. As LMA-MDR estariam ligadas a alterações genéticas comuns às displasias multilinhagens, à hematopoiese clonal, e à baixa resposta ao tratamento com quimioterapia citotóxica. As LMA “de novo” incluíram as LMA, com translocações características, vistas em crianças ou adultos jovens. Nesse grupo, não existiriam fatores prévios para mutações, não haveria alterações displásicas multilinhagem, e elas teriam boa resposta a tratamentos citostáticos. As displasias multilinhagem, definidas pela presença de sinais displásicos, em duas ou mais linhagens, juntamente com as LMA originárias de pacientes com SMD prévia, estão associadas a prognóstico ruim. Da mesma forma, LMA secundárias a terapias com agentes alquilantes são biologicamente distintas das LMA “de novo”. Elas estão associadas a alterações citogenéticas, características como: 3q-, -5, 5q-, -7, 7q-, -8, -9, 11q-, 12p-, -18, -19, 20q-, -21, t(1;7), t(2;11) e cariótipos complexos e péssimo prognóstico. São precedidas por um estado hipoproliferativo, com displasia multilinhagem, como nas SMD. Semelhantes alterações citogenéticas, não associadas à terapia prévia, são comuns nas LMA “de novo”, em idosos. Por outro lado, a terapia com inibidores da topoisomerase II, apesar de estar associada a leucemias secundárias, geralmente, mieloides, mostra anormalidades citogenéticas similares às da LMA “de novo”, de bom prognóstico e, desse modo, devem ser classificadas como entidades distintas das LMA secundárias a agentes alquilantes (Tabela 9). 72 UNIDADE II │ LEUCEMIAS Tabela 8. Classificação das leucemias mieloides agudas, segundo FAB. SUBTIPOS DE LMA, SEGUNDO A CLASSIFICAÇÃO DA FAB (FRENCH-AMERICAN-BRITISH M1 LMA sem maturação (mais de 90% de blastos mieloides, com menos de 10% de elementos mieloides maturando); M2 LMA com maturação (mais de 30% de blastos, até 89%, com mais de 10% das células anormais, sendo de promielócitos a células mais maduras); M3 Leucemia promielocítica aguda; M4 Leucemia mielomonocítica aguda (os blastos mieloides devem exceder a 30% das células medulares nucleadas não eritroides, sendo 20 a 80% de monoblastos); M5 Leucemia monocítica aguda (mais de 30% das células medulares nucleadas não eritroides são blastos, sendo mais de 80% precursores de monócitos); M6 Eritroleucemia aguda, ou síndrome de Di Guglielmo (mais de 50% dos elementos nucleados da medula devem ser eritroblastos, e mais de 30% dos elementos não eritroides devem ser blastos mieloides); M7 Leucemia megacariocítica aguda. * percentualentre as LMA dos adultos Fonte: http://anatpat.unicamp.br/taleucemias.html. Acesso em: 23/01/2020. Leucemia linfoide crônica Quadro 2. Índice de maturação (IM), para classificação das LMA, proposto por Van Rhenen. Leucemias Mielocíticas agudas (M1, M2 e M3): IM = promielócitos x 100 / (blastos + promielócitos) » LMA M1 : IM ≤ 4% » LMA M2 : IM de 4 a 85% » LMA M3 : IM > 85% Leucemias Monocíticas agudas (M5a M5b) IM = promonócitos x 100 / (blastos + promonócitos) » LMA M5a : IM ≤ 4% » LMA M5b : IM > 4% Fonte: Anemias e Leucemias - Conceitos Básicos e Diagnósticos por Técnicas Laboratoriais. Oliveira R.A.G; Neto A.P, p. 126. 2004. Tabela 9. Principais caracteres diferenciais entre LMA-MDR e LMA “de novo”. Variáveis LMA-MDR LMA “de novo” História clínica Idade Citogenética Mielodisplasias; agentes alquilantes ou quimioterapia > 50 anos -7, 7q-, -5, 5q-, +8, 20q-, +9, 11q-, 12p-, -18, +19, +21, t(1;7), 3q21-26, t(2;11) Sem antecedentes < 50 anos t(8;21), t(15;17), t(9;11), inv(16), t(11;17), t(6;9), t(16;16), t(8;16) Morfologia Displasias multilinhagem Fenótipos mais maduros dos tipos M2, M4, M3, M5; sem displasias multilinhagens http://anatpat.unicamp.br/taleucemias.html 73 LEUCEMIAS │ UNIDADE II Hematopoiese Resposta e tratamento Stem-cell multipotencial mieloide Baixa resposta a quimioterápicos, doenças resistentes, rápidas recidivas, impedimento de reserva medular, expressão de MDR 1 à apresentação Stem-cell linhagem restrita Boa resposta a tratamento quimioterápico apropriado, sem expressão de MDR 1 à apresentação Remissão Modelo iatrogênico Pode reverter para ou de SMD LMA pós-alquilantes ou quimioterápicos Remissões completas com quimioterapia LMA pós- epipondofilotoxinas ou combinações terapêuticas complexas Fonte: Anemias e Leucemias - Conceitos Básicos e Diagnósticos por Técnicas Laboratoriais. Oliveira R.A.G; Neto A.P, p. 127. 2004. Leucemia Mieloide crônica Caracteriza-se como uma proliferação de células mieloides granulocíticas, que mantêm sua capacidade de diferenciação. É uma doença de origem clonal, surgindo em decorrência de anomalia da célula primordial, ou indiferenciada (stem-cell), da medula óssea. O clone anômalo, originado dessa célula, expande-se e infiltra o parênquima medular, de modo lento, mas progressivo, em detrimento da proliferação das células normais. Considera-se que a causa primária da LMC seja o aumento de células indiferenciadas comprometidas com a granulocitopoese. Várias condições foram propostas, para explicar o porquê desse aumento, entre elas, a falha na resposta dessas células jovens aos fatores reguladores (estimuladores e inibidores) da granulocitogênese. O achado da anomalia cromossômica, denominada translocação t(9;22), presente em mais de 90% de casos de LMC típica, sugeriu que essa pudesse ser a origem da doença. Várias situações poderiam levar a essa alteração cromossômica, como: (1) radiações (raios X, radiação atômica), (2) intoxicações por drogas (benzeno), e (3) infecção virótica. Com o progresso da biologia molecular, chegou-se à demonstração de que a translocação entre partes dos cromossomos 9 e 22, as chamadas bandas q34.1 e q11.21, respectivamente, resulta na t(9;22) (q34.1; q11.21). Isso dá origem a um cromossomo 9 atípico, denominado 9q+, e a um cromossomo 22, também atípico, 22-q, denominado cromossomo Ph 1, presente em mais de 90% das LMC. 74 UNIDADE II │ LEUCEMIAS Estudos, sobre localização de oncogenes nos cromossomos de animais e humanos, demonstram que, na banda q34 do cromossomo 9, está presente o oncogene c-abl, enquanto que na região entre as bandas q12.3 e q13.1, do cromossomo 22, situa-se o oncogene c-sis. Com a t(9;22), ocorre, então, a translocação recíproca dos genes c-abl, do cromossomo 9, para 22, e do c-sis deste, para o cromossomo 9. Na grande maioria dos casos de LMC, o local de quebra (breakpoint) do cromossomo 22 se dá na região denominada breakpoint cluster region, ou bcr. Essa translocação causa um rearranjo genético, considerado típico da LMC, com Ph1 positivo. A translocação do gene c-abl, para o cromossomo 22 alterado (22q- ou cromossomo Ph1), determina o aparecimento de uma proteína, com atividade de tirosinoquinase tipo P210, diferente daquele produto resultante de um gene normal. Assim, os pacientes com LMC PH1 mostram evidências de um rearranjo de DNA, na região bcr. Tanto essa região, quanto o novo gene resultante da translocação, recebe o nome de bcr. O rearranjo genético bcr (ou gene bcr) estaria ligado à maior capacidade proliferativa dos granulócitos da LMC. Os estudos, sobre cinética celular desses casos, demonstram que os defeitos de proliferação dessa leucemia são mais complexos, podendo ser resumidos nos seguintes itens: » As células indiferenciadas não apresentam proliferação aumentada, ao contrário, grande número delas permanece em fase G0, não proliferante. » As células indiferenciadas mostram capacidade de amadurecerem, sendo, então, responsáveis aos fatores estimuladores da diferenciação. Tais células alcançam a fase de precursores mais diferenciados, e estes são os que, na verdade, apresentam maior capacidade proliferativa. Esta se manifesta por aumento do número de mitoses, resultando na expressão do parênquima granulocítico da medula óssea. » As células granulocíticas maduras têm sobrevida mais longa, e esse fato, associado ao aumento dos precursores diferenciados, leva ao acúmulo de granulócitos no sangue, na medula óssea, e em outros órgãos. Esses fatos processam-se de modo lento, sendo necessários, em geral, vários anos para se instalar um quadro típico da LMC. Durante esse tempo, os clones de células normais da medula óssea persistem na sua diferenciação normal, mas, em determinada fase, eles são suplantados pelas células leucêmicas. 75 LEUCEMIAS │ UNIDADE II O diagnóstico da LMC, em fase precoce, é muito difícil de ser feito, pois a morfologia das células normais, e das leucemias (Ph1 positivas), é praticamente a mesma. Existe um assincronismo de maturação nas células do sangue e/ou da medula óssea. Tais células exibem citoplasma maduro, porém, os núcleos permanecem jovens, com nucléolos marcados. O cromossomo Ph1 não é encontrado numa pequena porcentagem dos casos, denominados LMC Ph1 negativos. Estes têm evolução clínica diferente, menos favorável. Os achados, sobre a biologia molecular desses casos, mostram que o rearranjo genético bcr pode estar, ou não, presente. De fato, a LMC Ph1- pode ter quadro clínico e hematológico semelhante ao da LMC Ph1+, ou pode apresentar-se clínica e laboratorialmente diferente. Alteração genética próxima à do gene bcr tem sido detectada, em leucemia linfoide aguda. A LMC incide, preferencialmente, na quarta e quinta décadas de vida, predominando, ligeiramente, no sexo masculino. É muito mais frequente nos indivíduos brancos. A LMC, raramente, incide antes dos 20 anos de idade. Na infância e na adolescência, a doença tem evolução clínica mais severa, cursando com quadro de hemorragias, o que é muito raro na forma do adulto. Esses casos de LMC costumam ser Ph1 negativos. As características de evolução crônica da LMC costumam persistir, por tempo médio de três a cinco anos. A doença evolui, sistematicamente, para uma fase de agravamento, e termina por se transformar numa forma de leucemia mieloide aguda. Descrevem-se, então, três fases da LMC: fase crônica, fase de aceleração, e fase de agudização. » Fase Acelerada da LMC: corresponde a uma fase em que a doença se torna refratária à terapêutica, e há aumento de precursores granulocíticos, no sangue e na medula óssea. A hepato, e a esplenomegalia, que haviam desaparecido com a terapêutica apropriada, na fase crônica, voltam a se instalar, intensificando-se a trombocitopenia ou a trombocitose. Esta fase precede a fase de agudização, que surge após um período de tempo variável. » Fase de Agudizaçãoou Crise Blástica: a anemia intensifica-se, há quadro hemorrágico variável em gravidade, febre e queda do estado geral. Os blastos aparecem em grande número no sangue e 76 UNIDADE II │ LEUCEMIAS na medula óssea. A evolução costuma ser rapidamente fatal, com pouco sucesso terapêutico. » Fase Blástica: a leucemia pode continuar a apresentar células mieloides jovens, ou aparecem blastos de tipo linfoide (forma linfoide da transformação blástica). Diagnóstico laboratorial Hemograma: mostra leucocitose variável, característica da LMC. A maior porcentagem das células granulocíticas é de tipo maduro (bastonetes e segmentados). Há desvio à esquerda, até mieloblastos, de modo não escalonado. O desvio à esquerda, com escalonamento, é encontrado nas reações leucemoides granulocíticas, nas quais são encontradas formas precursoras, no sangue periférico, mas sempre com predomínio das células progressivamente mais maduras. Na LMC, pode haver, por exemplo, maior porcentagem de mielócitos (20%) do que de metamielócitos, ou de bastonetes. Raramente as células blásticas estão em porcentagem alta (>10%). A anemia pode ser discreta, ou acentuada, dependendo do tempo de evolução da doença. As plaquetas estão, geralmente, em número normal ou aumentado (plaquetose ou trombocitose). A plaquetopenia é rara, e traduz pior prognóstico. Dado importante, na fórmula leucocitária, é a presença de basofilia e de eosinofilia. Mielograma: mostra a hipercelularidade acentuada, com aumento dos precursores granulocíticos. Os precursores eritroblásticos estão relativamente diminuídos, e há aumento da série megacariocítica, com plaquetogênese marcada. Na fase acelerada, nota-se parada de maturação. Na série branca, e na fase blástica, há infiltração maior ou menor, por blastos muito atípicos, de tipo mieloide, e, raramente, de tipo linfoide. Síndromes mielodisplásicas As síndromes mielodisplásicas (SMD) constituem grupo heterogêneo de doenças clonais da medula óssea, decorrentes da expansão de uma stem-cell multipotente que, sofreu alterações no seu genoma, que resulta em dismielopoiese. São caracterizadas por citopenias periféricas, e hipercelularidade medular, o que define hematopoiese ineficaz. Há grande displasia celular, em uma ou mais linhagens celulares, podendo, ou não, ter aumento de blastos, instabilidade genética, 77 LEUCEMIAS │ UNIDADE II e progressão (clínica, morfológica e cariotípica) a subtipos mais avançados de SMD, ou a leucemias mieloides agudas. Ocorrem, geralmente, em indivíduos idosos, que apresentam anemia refratária a tratamento. Além de anemia, esses pacientes, muitas vezes, apresentam neutropenia e/ou trombocitopenia persistentes. São consideradas como quadros pré-leucêmicos. Raramente, pode haver casos com medula hipocelular ou hiperfibrótica. Cerca de 50% dos casos “de novo”, e mais de 80% das SMD secundárias, possuem alterações citogenéticas (cariótipo alterado: deleções, inversões, translocações) à apresentação, que aumentam em frequência, com a progressão da doença. Essas alterações, na maioria das vezes, incluem perda ou ganho de segmentos cromossômicos. As síndromes mielodisplásicas foram classificadas, pelo Grupo Cooperativo Franco-Americano-Britânico (FAB), em cinco subgrupos, baseando-se na avaliação morfológica do aspirado de medula óssea, e do sangue periférico. Atualmente, o limite de corte do número de blastos, para as divisões dos diversos grupos e, principalmente, o seu significado para o tratamento, tem sido bastante debatido. (Tabelas 10 e 11). Principais características dos subtipos FAB de mielodisplasias » Anemia refratária (RA): é frequente acima dos 50 anos de idade. Cursa com a anemia e, raramente, há neutropenia e plaquetopenia, sem que exista anemia. Há hiperplasia de eritroblastos e diseritropoese, na medula óssea e no sangue periférico. Ausência de blastos no sangue (até 1%), ou pequeno aumento de blastos na medula óssea (até 5%). Ausência de disgranulocitopoese e dismegacariocitopoese (plaquetas atípicas) medular. » Anemia refratária com sideroblastos em anel (anemia sideroblástica adquirida – ARSA): distingue-se da anterior, pela presença de sideroblastos em anel, na medula óssea (mais de 15% das células nucleadas da medula óssea). Esses sideroblastos, conforme foi mencionado, são eritroblastos, que têm uma coroa de grãos de ferro, circundando o núcleo, observados após a coloração de Perls. » Anemia refratária, com excesso de blastos (RAEB): há um número maior de blastos no sangue periférico (<5%), enquanto a medula óssea mostra-se 78 UNIDADE II │ LEUCEMIAS hiperplásica, nos setores eritroblástico e granulocítico. Há diseritropoese, disgranulocitopoese e dismegacariocitopoese, com certa porcentagem de sideroblastos em anel. O número de blastos, na medula óssea, fica entre 5% e 20%, havendo sinais de maturação na série granulocítica até promielócitos, ou além destes. » Leucemia mielomonocítica crônica (CMML): o aspecto mais característico é o aumento de monócitos no sangue periférico; na medula óssea, há, também, monocitose com células maduras e precursores (raros monoblastos e aumento de promonócitos). Ocorre, com frequência, aumento de outros granulócitos, e há sinais evidentes de disgranulocitopoese medular. » Anemia refratária, com excesso de blastos (AREBt), em transformação: diferencia-se das formas anteriores, por haver mais de 5% de blastos no sangue periférico; há aumento de blastos na medula óssea, não ultrapassando os 30%. Nessas células jovens, podem ser encontrados bastonetes de Auer. Apesar de o quadro ser muito sugestivo de leucemia, há leucopenia isolada, ou associada à anemia e plaquetopenia. Essa condição pode ser encontrada em pessoas de qualquer idade. Tabela 10. Classificação WHO, ou OMS, das síndromes mielodisplásicas (SMD). Tipo Sangue Periférico Medula Óssea Anemia Refratária (RA) Anemia Blastos raros, ou ausentes Displasia linhagem eritroide, <5% blastos Anemia Refratária, com sideroblastos em anel (ARSA) Anemia Blastos ausentes Displasia linhagem eritroide, 15% sideroblastos em anel, <5% blastos Citopenia refrataria, com displasia multilinear (CRMD) Bi ou pancitopenia Blastos <1% Displasia em 2/3 linhagens <5% blastos Citopenia refrataria, com displasia multilinear e sideroblastos em anel (CRDMSA) Bi ou pancito <1% blastos Displasia em 2/3 linhagens <5% blastos >15% sideroblastos em anel Anemia refrataria, com excesso de blastos-1 (AREB- 1) Bi ou pancito Blastos <5 <1 x 109/L monócitos Displasia uni ou multilinhagem 5-9% blastos Anemia refrataria, com excesso de blastos-2 (AREB- 2) Bi ou pancito 5-19% blastos <1 x 109/L monócitos Displasia uni ou multilinhagem 10-19% blastos SMS, inclassificável Citopenias variáveis Displasia unilinhagem <5% blastos SMD – 5q- Anemia plaq nl ou elevadas <5% blastos Megas, em número normal ou elevado, com núcleos unilobulados <5% blastos del (5q) Fonte: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-84842006000300008. Acesso em: 23/01/2020 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-84842006000300008 79 LEUCEMIAS │ UNIDADE II Tabela 11. Classificação FAB, para as Síndromes Mielodisplásicas (SMD). Subtipos Sangue periférico (blastos) Medula óssea (blastos) Sideroblastos (medula óssea) Anemia refratária (AR) < 1% Citopenia (s) <5% <15% Anemia refratária, com sideroblastos em anel (ARSA) < 1% Anemia <5% >15% Anemia refratária, com excesso de blastos (RAEB) <5% Pancitopenia 5 a 20% < 1% Anemia refratária, com excesso de blastos (AREBt) em transformação >5% Pancitopenia 21 a 30% Bastões de Auer < 1% Leucemia mielomonocítica crônica (CMML) <5% 5 a 20% < 1% Fonte: Anemias e Leucemias - conceitos básicos e diagnóstico por técnicas laboratoriais. Oliveira, R.A.G; Neto, P.A. Ed Roca. p. 167. 2004. 80 CAPÍTULO 2 Hemostasia e coagulação Mecanismos de hemostasia Hemostasia é o fenômeno fisiológico, dinâmico, queprocura manter o sangue fluido, no interior dos vasos, bem como impedir a sua saída para os tecidos vizinhos. Esses dois fatos evitam a trombose e a hemorragia. A hemostasia normal depende do equilíbrio entre vários fatores, como: vasculares, plaquetários, coagulantes, anticoagulantes, fibrinolíticos, bem como da pressão e velocidade do fluxo sanguíneo, no interior dos vasos. Para compreender melhor esse fenômeno fisiológico, costuma-se considerar várias fases, ou etapas, na hemostasia normal, embora sabendo que não existe um limite nítido entre elas, pois essas fases sucedem-se sem interrupção. Etapas da hemostasia Os processos hemostáticos podem ser divididos em três passos: 1. Formação de rolhas hemostáticas primárias e plaquetas: são massas de plaquetas, que se acumulam no local onde houve lesão, na parede do vaso, como resultado da aderência das plaquetas. Ocorre primeiro com o colágeno, no tecido endotelial exposto (adesão), e, depois, entre si (coesão ou agregação). O colágeno, e os primeiros traços de trombina que se formam no local da lesão, estimulam as respostas plaquetárias, que levam à coesão. As rolhas primárias são instáveis, e facilmente dissolvidas. 2. Conversão das rolhas primárias, em rolhas estáveis permanentes reforçadas por uma rede de fibrina como suporte: à medida que aumenta a concentração de trombina, no local da lesão, as plaquetas, frouxamente aderidas das primárias, são consolidadas em rolhas estáveis. Uma contração em direção central da massa de plaquetas faz com que fiquem compactas, parecendo perder suas bordas distintas. Os grânulos plaquetários desaparecem, à medida que seu conteúdo é secretado. Forma-se fibrina, primeiro na superfície das plaquetas agregadas e, depois, como uma rede, que se espalha 81 LEUCEMIAS │ UNIDADE II para fora, que reforça as rolhas, e contribui para a massa do selo hemostático. Esses eventos necessitam da produção de quantidades efetivas de trombina, nas reações de coagulação do sangue. 3. Lise de fibrina: à medida que o trombo de fibrina cresce, são desencadeadas reações, para dissolver a fibrina, e restringir o trombo à área lesada da parede vascular. Nessas reações fibrinolíticas, a proenzima plasmática, o plasminogênio, liga-se à fibrina e, depois, é ativada a plasmina, por um ativador liberado pelas células endoteliais. Quando a hemostasia é deficiente, o paciente pode começar a sangrar novamente, de 7 a 10 dias, depois de um procedimento como uma extração dentária. A administração de um antifibrinolítico pode evitar esse sangramento tardio. Deduz-se, portanto, que a deposição e a lise equilibradas da fibrina, normalmente, continuam durante, aproximadamente, 10 dias após uma lesão na parede vascular – mantendo e remoldando o selo hemostático, enquanto a parede do vaso cicatriza. A Figura 22 mostra as fases da hemostasia. Figura 22. Fases da coagulação. Fibrinólise Parede do vaso lesada Sangue fluido, vaso recuperado Agregação de plaquetas e requerimento de fatores de coagulação Formação do plug hemostático 11 2 31 41 51 Fonte: https://pt.slideshare.net/mariareginaazevedo/hemostasia-27544655. Acesso em: 23/01/2020 3 Supressão da hemostasia pelo endotélio normal Embora essenciais para interromper o sangramento, após uma lesão na parede vascular, as reações hemostáticas são prejudiciais, quando ocorrem no intravascular, para formar um trombo, que bloqueia o fluxo de sangue, a partir de, ou para um tecido. As células endoteliais, que revestem o lúmen dos vasos https://pt.slideshare.net/mariareginaazevedo/hemostasia-27544655 82 UNIDADE II │ LEUCEMIAS sanguíneos, suprimem as reações hemostáticas, na ausência de lesão na parede vascular por: 1. Separar fisicamente o sangue de substâncias da parede vascular subjacente, que podem ativar plaquetas e desencadear a coagulação sanguínea. 2. Sintetizar e liberar prostaciclina (PGI2), uma prostaglandina que diminui a resposta plaquetária a estímulos ativadores. 3. Fornecer sítios de ligação na superfície, essenciais para reações que interrompem a coagulação do sangue. Esses sítios da superfície incluem: Trombomodulina: um sítio de ligação, com alta afinidade por trombina. A ligação com a trombomodulina altera a especificidade enzimática da trombina, de forma que ela adquire a capacidade de ativar um fator hemostático, dependente de vitamina K, a proteína C, que tem uma função anticoagulante fundamental. Sítios de ligação para a antitrombina III: foram identificadas, na superfície luminar das células endoteliais, dois tipos de proteoglicans (proteínas que contêm longas cadeias de polissacarídes, chamadas de glicosaminoglicans). As cadeias de glicosaminoglicans, em uma dessas proteínas, comportam-se como heparina, no sentido em que contêm de quatro a oito tetrassacárides (uma sequência de quatro açúcares), por cadeia, possuindo um arranjo crítico de grupos sulfato, que permite a ligação com antitrombina III. A ligação da antitrombina III, com esses sítios, aumenta enzimas da coagulação sanguínea. Características das plaquetas As plaquetas, ou trombócitos, são elementos sanguíneos circulantes, provenientes do citoplasma dos megacariócitos, formados no sistema hematopoiético da medula óssea, a partir da célula primitiva stem-cell comprometida (UFB-Meg). Essa célula, sob o estímulo da trombopoetina ou da plaquetopoetina, transforma-se em megacarioblasto, o qual se desenvolve, apresentando endomitoses, e adquirindo grande tamanho, o megacariócito. Do seu citoplasma, desprendem-se fragmentos, que passam para a circulação como pequenos discos, com 3 a 5µ de diâmetro, e 5 a 7µ3 de volume. Cada megacariócito pode formar de 2 a 3 mil plaquetas. As plaquetas circulantes constituem dois terços do número total, sendo que um terço é sequestrado pelo baço. 83 LEUCEMIAS │ UNIDADE II A plaqueta apresenta uma vida média de sete a dez dias, sendo retiradas da circulação, pelo sistema fagocitário, principalmente, do baço. O tamanho pequeno da plaqueta (3 a 5µ de diâmetro) não permite a visualização de sua estrutura na microscopia ótica. Na ultramicroscopia, podem-se distinguir três zonas importantes nas plaquetas: Zona Periférica: é a região que recebe e transmite os estímulos para as funções de aderência e agregação. Nela, encontram-se antígenos, glicoproteínas e vários tipos de enzimas. Por meio dessa zona, a plaqueta interage com outras células, e com a parede dos vasos. Muitas proteínas plasmáticas, e muitos fatores da coagulação (V, XI e fibrinogênio), ficam firmemente ligados a essa superfície, denominada, também, atmosfera plaquetária. A membrana da plaqueta é trilaminar, formada por proteínas (as laterais) e lípides (a central). Abaixo da membrana, localiza-se uma camada (submembrana) com microtúbulos e/ou microfilamentos, que constituem o “esqueleto” da plaqueta. Os filamentos são os responsáveis pela forma discoide da plaqueta, e pela formação dos pseudópodos. A membrana plaquetária é formada de proteínas, de lípides e, em menor proporção, de carboidratos (57, 35, e 8%, respectivamente). Essa membrana está organizada como outras membranas celulares, isso é, há uma camada dupla de fosfolípides, que representam 70% do total dos lípides, e mais o colesterol e os glicolípides. O colesterol e as proteínas ficam intercalados, entre fosfolípides da membrana. Quase que em sua totalidade, as proteínas da membrana são glicoproteínas. Elas estão colocadas de permeio à dupla camada lipídica, ficando a sua porção hidrofílica livre, na zona periférica. Há vários tipos de glicoproteínas, denominadas GPI, II, III e IV (Tabela 12). Algumas proteínas têm função de receptores específicos, para determinados fatores da coagulação, como o GPIb, que atua como receptor para a trombina, e o fator von Willebrand (vWF). As glicoproteínas IIb e IIIa formam um complexo (GPIIb-IIIa), que é receptor para o fibrinogênio. Desse modo, essas glicoproteínas atuam nasfunções plaquetárias de adesão e agregação. 84 UNIDADE II │ LEUCEMIAS Tabela 12. Principais glicoproteínas da membrana plaquetária e suas funções. GPIa Reage com o colágeno, na fase inicial da adesão das plaquetas ao endotélio GPIb Receptor para o vWF. Atua na fixação da plaqueta ao endotélio vasular GPIIb-IIIa Atua na agregação plaquetária. Liga-se ao fibrinogênio, fibronectina, e vWF GPIV Receptor para tromboplastina. Atua nas interações da superfície de contato Fonte: Manual de Hematologia. Lorenzi, T. 4. ed. p. 152. Roca. 2006. Zona Sol-Gel ou Citosol: contém proteínas, arranjadas abaixo da região submembranosa, denominadas microtúbulos, formando uma zona anular, que contorna a grande circunferência plaquetária. Esses microtúbulos conectam-se aos microfilamentos, formando o esqueleto da plaqueta, que serve para orientar os movimentos da célula, e a eliminação de produtos secretados, para retração do coágulo. Logo, os microtúbulos constituem um aparelho de contração. São compostos de uma proteína – tubulina – que se apresenta sob forma de subunidades polimerizadas e despolimerizadas, conforme o estado funcional da plaqueta. Na plaqueta em repouso, a quase totalidade da tubulina se encontra sob a forma polimerizada. Quando há ativação, ocorre a despolimerização e, logo a seguir, a repolimerização. Os microtúbulos podem ser vistos nos pseudópodos, emitidos pelas plaquetas estimuladas. Os microfilamentos são formados pela actina, proteína que adquire a forma de G-actina (não polimerizada), e a forma filamentosa ou F-actina (polimerizada), e, ainda, por menor quantidade de miosina. Essas proteínas contráteis atuam em processos vitais importantes, como a trombocitopoese, e, também, nas funções plaquetárias, tais como a emissão de pseudópodos, após a ativação, contração interna da plaqueta, eliminação e secreção de grânulos plaquetários, e na retração do coágulo. Há várias outras proteínas que interferem no sistema contrátil actina-miosina da plaqueta. A contração dessas proteínas é responsável pela mudança de forma da plaqueta, ocasião em que há movimento das organelas, para a zona central, e liberação de material dos grânulos. É, ainda, responsável pela retração do coágulo. Essa contração exige o dispêndio de energia, e requer cálcio. Durante o processo de secreção, e liberação de material dos corpos densos, dos grânulos alfa e dos lisossomos, há, também, consumo de energia, com participação do cálcio e dos nucleotídeos cíclicos (c-AMP e c-GMP) da célula. Zona de organelas: nesta zona, são encontrados vários tipos de estruturas; (1) corpos densos; (2) grânulos; (3) lisossomas; (4) mitocôndrias; (5) partículas 85 LEUCEMIAS │ UNIDADE II de glicogênio; (6) aparelho de Golgi; (7) sistema tubular denso; (8) sistema de canalículos abertos. Corpos densos: são estruturas densas, graças ao seu conteúdo em cálcio. Contêm 65% do total de ADP (adenosina-difosfato) e ATP (adenosina-trifosfato) das plaquetas. Contêm, também, bastante serotonina, pirofosfato e, provavelmente, antiplasmina. Quando esses corpos densos estão diminuídos, há alteração da propriedade de agregação das plaquetas. Grânulos alfa: contêm vários tipos de substâncias, tais como (1) fatores de crescimento (PDGF = fator de crescimento derivado de plaquetas; fator plaquetário 4; TGF-β = fator transformador de crescimento β); (2) fatores da coagulação (fator V; fibrinogênio; fator VIII R: Ag = fator VIII – related antigen; proteína S); (3) proteínas de adesão (fibronectina; trombospondina; vWF = fator von Willebrand; vitronectina). Lisossomas: contêm as enzimas fosfatase ácida; glucosaminidase; galactosidase. A catalase é uma enzima, presente em grânulos denominados peroxissomas. Mitocôndrias: atuam na síntese de ATP, que é essencial para que a plaqueta funcione normalmente. Na plaqueta estimulada, há aumento de consumo de oxigênio, que promove a oxigenação do ácido aracdônico. Glicogênio: no endoplasma plaquetário, há numerosas partículas de glicogênio, que constituem material de reserva, ou fonte de energia da célula. Sistemas de membrana interna: compreende o sistema tubular denso (STD), e o sistema de canalículos abertos (SCA). Os dois sistemas interagem amplamente, quando a plaqueta é ativada. O STD é o local de síntese de prostaglandina e do tromboxane, parecendo ser equivalente aos sarcotúbulos das fibras musculares, que retêm e eliminam íons de cálcio, para controlar as suas contrações. Os SCA correspondem a verdadeiras invaginações da membrana celular e, por eles, o endoplasma se comunica com o meio externo. Admite-se que substâncias secretadas passem para o meio externo, por meio desse sistema, e que os estímulos para a ativação celular sejam, também, transmitidos por essa via, em sentido inverso. O aparelho de Golgi também faz parte do sistema de membranas da plaqueta. 86 UNIDADE II │ LEUCEMIAS Funções das plaquetas As plaquetas são elementos importantes na hemostasia, principalmente, na fase inicial, graças às funções de aderência ao colágeno e agregação entre si, para formar o botão, ou tampão hemostático, no local da lesão vascular. A aderência ao tecido conjuntivo do subendotélio estimula a plaqueta, que inicia o seu mecanismo de secreção e de liberação de substâncias, como o ADP e a tromboxane A2, ambos os fatores agregantes facilitam a agregação de novas plaquetas, que, também estimuladas, liberam mais substâncias agregantes, aumentando o botão plaquetário que tampona o local lesado. O ADP l iberado é regulado pelas prostaglandinas, pela tromboxane A2 (da plaqueta) e pela prostacic l ina (PGI2, da parede vascular) , com efe i tos opostos . A tromboxane A2 aumenta o ADP, enquanto a protacic l ina diminui a l iberação do ADP. A agregação plaquetária também pode se fazer, por meio do fator ativador das plaquetas (PAF), substância liberada por várias células (basófilos, neutrófilos, plaquetas e monócitos), após sua estimulação. Na fase da coagulação, a plaqueta tem papel importante, com seu fator plaquetário 3, fosfolípide, que facilita a interação dos fatores coagulantes IX e VIII, bem como X e V, e do II e I, nas reações em que há participação do cálcio. Papel das plaquetas na coagulação As plaquetas atuam na hemostasia primária e na coagulação. Algumas proteínas da coagulação estão presentes nas plaquetas, como o fator Va, que é liberado pelos grânulos alfa. Esse fator Va serve de receptor da membrana para o fator Xa. Forma-se, assim, um complexo – VaXa – na membrana plaquetária, que vai ativar a protrombina (fator II), transformando-a em trombina. Com a formação da trombina, há maior estímulo à conversão do fator V em Va, com geração de maior quantidade de trombina no local. A ativação do fator Xa, na membrana das plaquetas, é importante etapa no início da coagulação, que exige, ainda, a ação dos fatores IXa, fator VIIIa e dos íons Ca++. 87 LEUCEMIAS │ UNIDADE II O fator von Willebrand (vWF) está presente nos grânulos alfa, que são liberados quando a plaqueta é estimulada. A ação do vWF se dá na fase de adesão plaquetária ao endotélio vascular. As plaquetas atuam, também, na fase contato da coagulação. Com a liberação de ADP, ocorre ativação do fator XII (fator contato), em presença de fator XI. Na chamada fase de estabilização do coágulo, também há participação das plaquetas, mediante a presença do fator XIII (fator estabilizador de fibrina) nelas. Esse fator contribui para a formação de uma rede de fibrina estável, após a formação do plug ou tampão plaquetário. O fibrinogênio (também denominado fator plaquetário 5) é encontrado nos grânulos alfa. Esse fibrinogênio parece ser estruturalmente diferente daquele que está no plasma. Entretanto, o fibrinogênio plasmático também é encontrado, adsorvido à membrana plaquetária. A atuação do fibrinogênio acontece na fase de agregação das plaquetas, para a formação do plug plaquetário. Fatores plaquetários: é uma denominaçãoantiga, de algumas substâncias contidas no citoplasma plaquetário, ou adsorvidas à sua membrana. Recebem a designação de fator plaquetário, seguido de um algarismo arábico, reconhecendo- se os fatores de número 1 a 10. As denominações mais usadas são as seguintes: » Fator Plaquetário 1: tem atividade do fator V, encontrando-se adsorvido à superfície da membrana, assim como nos grânulos alfa. » Fator Plaquetário 2: é também denominado de fator ativador do fibrinogênio. Parece intensificar a reação entre a trombuna e o fibrinogênio, e induz a agregação plaquetária. » Fator Plaquetário 3: é referido como a capacidade das plaquetas de acelerar o consumo da protrombina, a formação da trombina, e a formação de fibrina. Tem papel importante na coagulação, tornando- se ativo apenas depois da estimulação plaquetária. » Fator Plaquetário 4: é, também, chamado de fator anti-heparina, sendo encontrado nos grânulos alfa. Tem papel importante na fisiopatologia da coagulação intravascular, podendo estar, aqui, aumentado. » Fator Plaquetário 5: é encontrado nos grânulos alfa, e na membrana, tendo atividade de fibrinogênio. 88 UNIDADE II │ LEUCEMIAS » Fator Plaquetário 6: é, também, denominado antiplasmina plaquetária. » Fator Plaquetário 7: ainda conhecido como cotromboplatina plaquetária. Mecanismo da coagulação A coagulação do sangue é um processo dinâmico, de reações bioquímicas e enzimáticas, envolvendo proteínas plasmáticas, lípides e íons, que transformam o sangue circulante, fluido, em um gel insolúvel, pela conversão do fibrinogênio em fibrina. A fibrina forma uma rede que contém, em suas malhas, os glóbulos vermelhos (trombo vermelho), e envolve o trombo plaquetário (trombo branco), formado, inicialmente, estabilizando o tampão hemostático. O processo da coagulação se inicia com a ativação do fator chamado contato (fator XII), e segue uma sequência de ativação de proteínas precursoras, ou proenzimas, num mecanismo de multiplicação, chamado cascata, ou reação em cascata. Inicialmente, pensou-se que a coagulação fosse devida à interação de quatro fatores: uma enzima originada nos tecidos (tromboplastina ou tromboquinase) que ativaria uma proenzima plasmática (protrombina), na presença de íons cálcio, formando uma enzima proteolítica (trombina), que, por sua vez, agiria sobre o fibrinogênio, proteína plasmática, e o converteria em fibrina. Atualmente, muitos fatores são conhecidos e, para ordenar a terminologia, um comitê internacional estabeleceu a nomenclatura, baseada em números romanos, usando como critério a data do descobrimento de cada fator. Os numerais indicam os fatores não ativados, que existem no plasma. São exceções o fator III, que é encontrado nos tecidos e na superfície da membrana da plaqueta (fosfolípide), o fator IV, que é o íon cálcio, e o fator VI, que, mais tarde, foi reconhecido como produto intermediário, e não um fator coagulante dito. O fator VIII é uma molécula de grande tamanho, e compreende dois fatores: o fator coagulante (VIII:C), e o fator von Willebrand (VIII:vW), ambos com participação em locais diferentes, no mecanismo homeostático. O primeiro participa do mecanismo em cascata, enquanto o segundo é importante na fase inicial de hemostasia, facilitando a agregação plaquetária. Mais recentemente, outros fatores foram descritos, e não receberam, ainda, a numeração romana. São conhecidos como precalicreína, cininogênio de elevado peso molecular, proteína C, e proteína S. 89 LEUCEMIAS │ UNIDADE II Fatores de coagulação Os fatores da coagulação são serina proteases, que circulam no plasma, na forma inativa. Podem ser agrupados segundo a função e as propriedades bioquímicas. São considerados três grupos, ou sistemas de fatores, segundo a função. O sistema da via intrínseca inclui fatores XII, XI, IX, VIII, precalicreína e cininogênio de alto peso molecular. No sistema da via extrínseca, está o fator VII e, na via comum, os fatores, V, X, II e I. Conforme o comportamento bioquímico, os fatores são separados em três grupos. O grupo I, ou grupo do fibrinogênio, compreende os fatores I, V, VIII e XIII, todos com elevado peso molecular (em geral, maior do que 250.000 kDa). Esses fatores são consumidos durante a coagulação, aumentam na inflamação aguda, e não são alertados pelos anticoagulantes orais, bem como não são vitaminas K dependentes. No laboratório, alguns apresentam termolabilidade (I, V e VIII), enquanto outros perdem atividade no armazenamento (V e VIII). Esses fatores não são absorvidos pelo sulfato de bário, ou pelo hidróxido de alumínio. O grupo II, ou grupo protrombínico, tem a participação dos fatores II, VII, IX, X, e proteínas C e S. Apresentam peso molecular baixo, entre 55.000 e 70.000 kDa. São vitamina K dependentes, e sofrem ação dos anticoagulantes orais. Não são consumidos completamente, durante a coagulação, sendo encontrados, em pequenas quantidades, no soro. Com exceção do fator II, esses fatores são termolábeis. São mais estáveis ao armazenamento do que os anteriores, e são precipitados com sulfato de bário e hidróxido de alumínio. O grupo III, também conhecido como sistema de ativação por contato, inclui os fatores XII e XI, o cininogênio de elevado peso molecular, e precalicreína. São fatores que, se ativados, permanecem no soro, mesmo após a coagulação. Apresentam peso molecular entre 80.000 e 200.00 kDa e, no laboratório, são precipitados pelo sulfato de bário, hidróxido de alumínio e caolim. Na Tabela 13, estão representadas algumas características dos fatores de coagulação. 90 UNIDADE II │ LEUCEMIAS Tabela 13. Nomenclatura dos fatores de coagulação. Fator Sistema Outras Designações I IN Fibrinogênio II E, IN Protrombina III IN Tromboplastina, suco tissular IV E, IN Cálcio V E, IN Proacelerina, AC-globulina plasmática, fator lábil VII E Proxonvertina, fator estável, acelerador da conversão da protrombina VIII IN Fator anti-hemofílico (AHF), globulina anti-hemofílica IX IN Componente tromboplastínico do plasma (PTA), fator Christmas X E, IN Fator Stuart-Prower XI IN Antecedente tromboplastínico do plasma (PTA); fator anti-hemofílico C XII IN Fator Hageman; fator vidro XIII Fator estabilizante da fibrina Fonte: http://www.infoescola.com/sangue/tromboplastina. Acesso em: 23/01/2020. Via intrínseca A via intrínseca da coagulação se inicia com a ativação do fator plasmático, fator XII, ou fator de contato pelo colágeno do subendotélio, ou quando o plasma entra em contato com materiais carregados? negativamente, como o vidro, o caolim, o celite, os tecidos conjuntivos, ou as preparações de colágeno, cristais de pirofosfato ou urato, endotoxinas etc. O fator XII, uma vez ativado (XIIa), ativa o fator XI (XIa), que, por sua vez, ativa o fator IX (IXa). O fator XIIa também é capaz de ativar a formação das cininas e, com elas, o sistema complementa, bem como ativa, o plasminogênio e a conversão do fator VII, em fator VIIa (da via extrínseca da coagulação). O fator IXa forma, com o fator VIII, íons Ca e fosfolípide da plaqueta, um complexo que ativa o fator X (Xa). Na sequência seguinte, o fator Xa liga-se ao fator V, ao cálcio, e à fosfolípide da plaqueta, formando um segundo complexo, que ativa o fator II (IIa), o qual converte o fibrinogênio em fibrina. Esse é o produto final da coagulação. A fibrina formada é instável e, pela ação do fator XIII (fator estabilizador da fibrina), transforma-se em fibrina estável e insolúvel, a qual mantém um coágulo resistente. Via extrínseca A via extrínseca da coagulação é o meio alternativo para ativar o fator X, sem a participação dos fatores XII, XI, IX e VIII. O fator liberado dos tecidos lesados se liga http://www.infoescola.com/sangue/tromboplastina 91 LEUCEMIAS │ UNIDADE II ao cálcio (Ca++), e ao fator VII, e, assim, ativam o fator X (Xa). Daí segue a via comum já descrita. As vias intrínseca e extrínseca se complementam. A via extrínseca possui um mecanismo rápido, paraa produção de pequenas quantidades de trombina, a qual age sobre os fatores V e VIII, tornando-os formas mais ativas e, portanto, acelerando a via intrínseca. O fator XIIa também age sobre o fator VII, tornando-o mais reativo. Ambos os sistemas são importantes para a coagulação in vivo. A Figura 23 apresenta o esquema da coagulação. Figura 23. Cascata da coagulação e representação das vias intrínseca e extrínseca. Fator XIII Superfície nega- tivamente carregada Fator XII Ativado Fator XII Calicreína Ceninogênio Fator XI Fator XI Ativado Fator IX Fator VIII Cálcio Fator IX Ativado Fator VIII Ativado Cálcio Fosfolipídeo Fator X Fator V Fator X Ativado Fator X Ativado Cálcio Fosfolipídeo Tromboplastina tecidual (fator tecidual) Fator VII Cálcio Protrombina Trombina Fibrinogênio Monômeros de Fibrina Solúvel Trombina Cálcio Fator XIII Ativado Polímero de Fibrina Insolúvel VIA EXTRÍNSICA VIA INTRÍNSICA Fator XIII Fonte: https://diagnosticobucal.com.br/adesivo-fibrinico-proposta-terapeutica-para-hemostasia/. Acesso em: 23/01/2020. A visão clássica da cascata da coagulação, como a descrita anteriormente, é a de maior utilidade, do ponto de vista clínico. No entanto, certas constatações obtidas de pacientes, como aqueles deficientes em fator XII, que não têm hemorragias, de que pacientes deficientes em fator XI levam a uma heterogeneidade de sintomas hemorrágicos, além daqueles pacientes deficientes dos fatores VIII (Hemofilia A), ou IX (Hemofilia B), produzirem hemorragias graves, conduziram a uma reformulação da hipótese clássica do processo de coagulação (FERREIRA et. al., 2010). Na nova hipótese da https://diagnosticobucal.com.br/adesivo-fibrinico-proposta-terapeutica-para-hemostasia/ 92 UNIDADE II │ LEUCEMIAS coagulação sanguínea, começa a ser, cada vez mais evidente, a existência de apenas uma via, em que todos os fatores interagem, e em que a fase de contato tem cada vez menor importância. Essas diferenças, em relação à hipótese clássica, estão descritas a seguir: 1. A iniciação da coagulação sanguínea se faz pelo sistema extrínseco. 2. A formação inicial dos fatores IXa e Xa, por ação do complexo FVIIa/ FT, é insuficiente, para uma hemostasia normal, porque a atividade catalítica desse complexo é inibida, à medida que o processo da coagulação progride. 3. O FXIa é importante, como fator amplificador, e não como iniciador da coagulação sanguínea. 4. O FX requer uma ativação dupla, uma vez que é ativado, diretamente, pelo complexo FVIIa/FT, e indiretamente, pelo complexo FIXa/FVIIIa/ fosfolipídeos. 5. O fator inibidor da via do fator tecidual (TFPI) se liga ao FXa, e o complexo resultante (TFPI/FXa) inativa o complexo FVIIa/FT. Esse mecanismo inibidor explica, provavelmente, por que razão os hemofílicos têm hemorragias. 6. A formação de trombina não é apenas o passo que antecede a formação do coágulo de fibrina, mas, também, um passo intermédio necessário, para desencadear mecanismos de amplificação e, assim, consolidar o estímulo pró-coagulante, iniciado pelo complexo FVIIa/ Fator Tecidual. A trombina 10 tem, como principal função, a conversão do fibrinogênio em fibrina, mas também ativa os fatores XI, IX, VIII, X e XIII, estimula a agregação e secreção plaquetárias, e promove vários efeitos celulares, como quimiotaxia, proliferação, renovação da matriz extracelular e libertação de citocinas. Desse modo, o processo de coagulação sanguínea deve ser encarado não como uma simples cascata de fatores, mas como um mecanismo de sinalização celular, que participa em todos os processos de resposta inflamatória do hospedeiro. 93 LEUCEMIAS │ UNIDADE II Inibidores da coagulação Sempre que um excesso de trombina é formado, durante o fenômeno da coagulação, existe tendência para o aparecimento de quantidade exagerada de coágulos. Daí poderá resultar um quadro de trombose. O organismo conta com mecanismos que regulam a quantidade de trombina formada, após a ativação das plaquetas, e o estímulo das enzimas que atuam na coagulação. Exatamente para evitar que a trombose se generalize, esses mecanismos são acionados, ao mesmo tempo em que a coagulação é ativada. Os fenômenos que ocorrem, simultaneamente, à coagulação do sangue, e que são responsáveis pelo controle de uma situação, em que haveria excesso de coágulos, podem ser resumidos nos seguintes: » Diluição dos fatores da coagulação, na corrente sanguínea. Quando o sangue flui normalmente, sem estase, a tendência é de que os fatores ativados sejam diluídos e, ao atravessarem o parênquima hepático, sejam metabolizados pelas células. » Os fatores ativados se ligam a substâncias, também presentes na corrente sanguínea, as quais têm ação inibidora específica contra esses fatores. Formam-se, então, os complexos entre os fatores da coagulação, e seus inibidores naturais. » Os inibidores naturais da coagulação podem ser classificados em dois grupos: » Inibidores das serina-proteases, ou antitrombinas. Esses inibidores podem ser heparina-dependentes (antitrombina e heparina-cofator II), ou ser independentes da heparina (alfa 2-macroglobulina e alfa 1-antitripsina). » Inibidores de cofatores ativados (fatores Va e VIIIa). Incluem-se, aqui, a proteína C e a proteína S. Antitrombinas As mais importantes são a antitrombina (AT), alfa 2-macrobulina, e a alfa 1-antitripsina, sendo que a primeira desperta maior interesse. Trata-se de uma glicoproteína de peso molecular de 58.000 kDa, produzida pelo fígado, que forma, 94 UNIDADE II │ LEUCEMIAS com a trombina, e com outras serina-proteases ativas (fatores XIIa, XIa, Xa, IXa e IIa), um complexo estequiométrico, por meio de suas ligações de arginina. Com a formação desse complexo, essas enzimas tornam-se inativas. O fator VIIa é a única serina-protease, que não se inativa com AT. A heparina é um mucoplossacarídeo ácido, que interfere na função da AT, aumentando a reação que se dá entre ela e as serina-proteases. Logo, trata-se de uma substância com efeito anticoagulante. Sabe-se que a heparina forma, com a AT, um complexo denominado AT + heparina, com capacidade de aumentar muito a ação anticoagulante da AT. Esse efeito potencializador da heparina não é observado em relação aos outros inibidores. Além de inibir as serina-proteases mencionadas, a AT também inibe a plasmina, a calicreína, e a fração C1 do complemento. Os níveis de AT do adulto estão em torno de 0,2 mg/ml de plasma. Nas crianças, até o sexto mês de vida, esse valor está reduzido à metade. Nas mulheres em idade madura, e na velhice, os níveis podem cair, aparecendo, consequentemente, maior tendência para o desenvolvimento de tromboses. A ação anticoagulante da heparina, nos casos de trombose, só pode ser conseguida naqueles indivíduos que têm nível normal de AT. TPFPI – Inibidor da Via Extrínseca da Coagulação: atua sobre a ligação FT/ FVIIa (fator tissular/fator VII ativado). Heparina – Cofator II: é um inibidor da trombina diferente da AT, porque, enquanto inibe várias serina-proteases, a heparina-cofator II parece inibir, de modo seletivo, apenas a trombina. Proteína C: é uma glicoproteína dependente de vitamina K, considerada importante regulador fisiológico da quantidade de trombina, que se forma no organismo. Encontra-se in vivo, sob a forma inativa, podendo ser ativada por várias enzimas, entre elas a trombina. Para que a proteína C atue, há a necessidade de intervenção de um cofator, presente nas células endoteliais, denominado trombomodulina. A formação de um complexo trombina-trombomodulina, no endotélio, é capaz de ativar a proteína C, originando a proteína ativada (Ca). Esta tem a função de cindir as moléculas dos fatores V e VIII ativados. Desse modo, a proteína Ca regula a formação de mais trombina, que promoveria a ativação de maiores quantidades daqueles fatores, impedindo, assim, um excesso de coagulação.95 LEUCEMIAS │ UNIDADE II Existe um inibidor fisiológico da proteína C, que impede o excesso da ação anticoagulante desse fator. Por outro lado, a proteína S atua como cofator, acelerando a atividade anticoagulante da Ca. A proteína Ca só é capaz de inativar os fatores Va e VIII:Ca (fator VIII coagulante ativado), quando os mesmos estão livres. Quando o fator Va está ligado ao fator Xa, a proteína Ca não apresenta mais atividade inibidora. Existem várias substâncias que também têm efeito controlador da coagulação, e da fibrinólise, cuja estrutura química é muito próxima da antitrombina. Entre elas, está a antiplasmina, o inibidor da ativação do plasminogênio (PAI), o inibidor da fração C1 do complemento, e a antiquimiotripsina. Fibrinólise Consiste no mecanismo de dissolução enzimática do coagulo, que se forma após a lesão do endotélio vascular, sobre a qual se deposita a rede de fibrina. A fibrinólise permite a recanalização do vaso lesado e tamponado, a fim de que o fluxo sanguíneo seja restabelecido. A enzima responsável pela lise do coágulo é a plasmina, que se forma a partir de um precursor – o plasminogênio. Existem substâncias que são ativadoras do plasminogênio, e outras que são inibidoras, de modo que, como acontece com a coagulação, na fibrinólise também deve haver um equilíbrio entre esses dois tipos de substâncias. Ocorre fibrinólise fisiológica sempre que, na circulação, houver formação de coágulo. O sistema fibrinolítico tem um esquema parecido ao da coagulação, havendo, também, uma via intrínseca, e uma extrínseca de ativação do plasminogênio. O plasminogênio é ativado em plasmina, na via intrínseca (intravascular), pelo fator XIIa (o mesmo que inicia a via intrínseca da coagulação). Na via extrínseca (extravascular), o plasminogênio sofre ação dos ativadores do tecido, de modo semelhante ao da ativação do fator VII, pelo fosfolípide dos tecidos, na via extrínseca da coagulação. A plasmina formada quer pela via intrínseca ou extrínseca, cinde a fibrina e, também, o fibrinogênio, em pequenos fragmentos, chamados produtos de degradação da fibrina (PDF). Esses fragmentos são pequenos peptídeos, que devem ser removidos da circulação, pelo sistema reticuloendotelial, especialmente, pelas células de Kupfer, no fígado. Se não forem removidos, ficando em alta concentração 96 UNIDADE II │ LEUCEMIAS no sangue, podem agir como potentes inibidores da formação do coágulo. Altas concentrações dos produtos de degradação da fibrina também podem alterar a função plaquetária. A Figura 24 mostra o processo fibrinolítico. Figura 24. Esquema das fases do processo fibrinolítico. Fibrina ➔➔ PDF PLASMINOGÊNIO PLASMINA t-PA u-PA PAI-1 α2-AP Fonte: http://revista.fmrp.usp.br/2001/vol34n3e4/fisiologia_coagulacao.pdf. Ashby B, Daniel JL, Smith JB. Mechanisms of platelet activation and inhibition. Hematol Oncol Clin N Amer. 1999; 4(1):1-26. Celi A, Lorenzet R, Furie B, Furie BC. Platelet – leucocyte – endothelial cell interaction on the blood vessel wall. Sem Hematol. 1997, 34:327-35. Colman RW. Platelet receptors. Hematol Oncol Clin N Amer. 1990; 4(1):27-42. Kottke-marchant K. Laboratory diagnosis of hemorrhagic and thrombotic disorders. Hematol Oncol Clin N Amer. 1994; 8:809-53. Mosesson MW. The roles of fibrinogen and fibrin in hemostasis and thrombosis. Sem Hematol. 1992; 29\;177-88. Davie EW; Ratnoff OD. Waterfall sequence for intrinsic blood clotting. Science 145: 1310-1312, 1964. Macfarlane RG. An enzyme cascade in the blood clotting mechanism, and its function as a biochemical amplifier. 1964. Nature 202:498-499 97 Para (não) Finalizar O estudo da disciplina Hematologia Clínica, apresentado neste caderno, é de grande importância, não só para o aluno, mas também para os professores que estiveram empenhados neste trabalho. Todo o educador tem a curiosidade pela busca do novo, quer aprimorar e enriquecer seus conhecimentos, e, desta forma, ambos, professor e aluno, são beneficiados. Neste momento de formação, a capacidade autônoma é de grande relevância, considerando as habilidades crítica e criativa, desenvolvidas durante este período de aprendizado. O exame hematológico mais solicitado é o hemograma, e essa preferência universal exprime a necessidade do hemograma no diagnóstico, e no controle evolutivo das doenças infecciosas, das doenças crônicas em geral, das emergências médicas, cirúrgicas e traumatológicas. O hemograma está suportado na quantificação e observação morfológica das células sanguíneas. Por isso, o estudo da morfologia das células sanguíneas, as quais podem ser observadas, por meio da leitura de lâminas hematológicas, retrata todos os aspectos laboratoriais e clínicos, na hematologia clínica, e representam uma ferramenta poderosa, que pode ajudar nos exames de rotina laboratorial, bem como na correlação com outros exames laboratoriais. As doenças hematológicas constituem um grande problema de saúde pública. As hemoglobinopatias, mais conhecidas como anemias hereditárias, como a anemia falciforme, e as síndromes talassêmicas, são oriundas de movimentos migratórios, que ocorreram durante a ocupação dos europeus, em diversos estados do Brasil, no final do século XIX, e início do século XX; as anemias carenciais são decorrentes da falta de nutrientes, pela alimentação inadequada, presente, principalmente, nas classes menos favorecidas. Todos esses fatores enfatizam a importância de profissionais qualificados, que possam atuar, efetivamente, na identificação laboratorial das desordens hematológicas. Portanto, fica claro o objetivo deste Caderno de Estudos, no sentido de aprimorar e consolidar os conhecimentos em hematologia, e auxiliar, também, nas boas práticas de rotina laboratorial hematológica. 98 Referências BAIN, J. B. Células sanguíneas. 4. ed. São Paulo: Artes Médicas, 1997. BERNE, R. M.; LEVY, M. N. Fisiologia, 4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2000. BERNARD, J. J. Manual de hematologia. 3. ed. São Paulo: Masson do Brasil,1986. BORGES-OSÓRIO, M. R; ROBINSON, W. M. Genética humana. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2001. BROW, BA. Hematology. 5th ed. Philadelphia: Lea & Febiger, 1993. CARVALHO, W. F. C. Técnicas médicas de hematologia e imunohematologia. 8. ed. Belo Horizonte: Cooperativa Editora e de Cultura Médica, 1994. CHARLES, A.; JANEWAY, J.R; TRAVERS, P. Imunobiologia. 7. ed. 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