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FASES CLÍNICAS DO PARTO Parto: caracterizado por contrações das fibras miometriais, cujas principais funções são a dilatação cervical e a expulsão do feto através do canal de parto ● Antes do seu início, o útero sofre modificações fisiológicas e bioquímicas locais concomitantes ao aumento da frequência de contrações indolores (contrações de Braxton Hicks), até que o verdadeiro trabalho de parto seja deflagrado ● O processo fisiológico pode ser dividido em quatro etapas: 1) Quiescência (fase 1) 2) Ativação (fase 2) 3) Estimulação (fase 3) 4) Involução (fase 4) - Quiescência (fase 1) ● Relativa ausência de resposta a agentes que determinam a contratilidade uterina ● Inicia-se com a implantação do zigoto e perdura por quase toda a gestação. ● As poucas contrações serem observadas nesse período não modificam a estrutura cervical nem causam dilatação do colo uterino - Ativação (fase 2) ● Prepara o útero e o canal cervical para o trabalho de parto e dura aproximadamente 6 a 8 semanas ● Esta preparação determina algumas modificações cervicais e caracteriza-se pela descida do fundo uterino - Estimulação (fase 3) ● Clinicamente dividida em três períodos (dilatação, expulsão e dequitação) ● Fenômeno mais importante são as contrações uterinas efetivas ● Para um adequado trabalho de parto, essas contrações devem apresentar uma frequência regular entre duas e cinco contrações a cada 10 minutos, intensidade de 20 a 60 mmHg (média de 40 mmHg) e duração entre 30 e 90 segundos (média de 60 segundos) - Involução (fase 4) ● Retorno ao estado pré-gravídico (puerpério) ● Início ocorre após a dequitação ● Caracterizado por uma contração persistente que promove a involução uterina PERÍODOS DA ESTIMULAÇÃO DILATAÇÃO ● Primeiro período ● Inicia-se com as primeiras contrações dolorosas, cuja principal ação é a modificação da cérvix ● Começa com as primeiras modificações cervicais e termina com a dilatação completa do colo uterino (10 cm) → permitir a passagem fetal ● Essas modificações abrangem dois fenômenos distintos: esvaecimento cervical e a dilatação propriamente dita. ● Primíparas: ocorrem nessa ordem, sucessivamente: primeiro o esvaecimento, de cima para baixo, e depois a dilatação do orifício externo ● Multíparas: simultâneos ● Esvaecimento ou apagamento do canal cervical: - incorporação do colo à cavidade uterina, terminando com a formação de um degrau ao centro da abóbada cervical - processo ativo, decorrente de alterações bioquímicas que levam à fragmentação e à redisposição das fibras de colágeno e à alteração na concentração de glicosaminoglicanas - próximo ao termo, ocorre aumento de infiltrado inflamatório no canal cervical decorrente de mudanças locais que promovem a maturação cervical e da lise de fibras de colágeno - influência de prostaglandinas (prostaglandina E2) e de alguns hormônios esteroides placentários - progesterona inibe a invasão e a ativação de polimorfonucleares no estroma cervical, e essa ação anti-inflamatória pode ter relação com seu efeito inibidor sobre o esvaecimento cervical - drogas antiprogesterona (RU-486) provocam esvaecimento cervical em qualquer época da gestação ● Dilatação do orifício externo do colo: ampliar o canal de parto e completar a continuidade entre útero e vagina - à medida que a dilatação cervical progride, surge um espaço entre o polo cefálico e as membranas ovulares (âmnio e cório), no qual ficará coletado o líquido amniótico (bolsa das águas) → auxiliar as contrações uterinas no deslocamento do istmo - no decorrer do trabalho de parto, sua rotura causa a saída parcial do seu conteúdo líquido, ocorrendo no período em que a dilatação cervical é maior que 6 cm - rotura ocorre contemporânea à expulsão do feto → nascimento de feto empelicado - a rotura das membranas ovulares antes do trabalho de parto (RPMO - amniorrexe prematura) é erroneamente denominada “bolsa rota” → termo deve ser utilizado apenas durante o trabalho de parto, quando a “bolsa das águas” se forma. ● Dilatação cervical é dividida em fase latente e fase ativa ○ Fase ativa dividida em: - aceleração: velocidade de dilatação começa a modificar-se e a curva se eleva - dilatação ou aceleração máxima: dilatação passa de 2 a 3 cm para 8 a 9 cm - desaceleração: precede a dilatação completa 1) Fase latente: - contrações mais eficazes (coordenação e intensidade) sem determinar modificações significativas na dilatação cervical - apesar de ser difícil estabelecer exatamente a duração fisiológica do parto, o tempo é um dos parâmetros mais importantes para identificar alterações na evolução do parto - normalmente dura 8 horas (variações conforme a paridade) - dilatação em torno de 0,35 cm/h - evolução e duração dependem das modificações que ocorrem nas duas semanas que precedem o parto - prolongada quando durar > 20 horas em primíparas e > 14 em multíparas 2) Fase ativa: - inicia com dilatação cervical de 4 cm - Primíparas: 6 horas, com velocidade de dilatação de cerca de 1,2 cm/h - Multíparas: 3 horas, com velocidade de dilatação de 1,5 cm/h Diagnóstico de trabalho de parto ● Presença de contrações uterinas (pelo menos duas em 10 minutos) associada a dilatação cervical (pelo menos 2 cm), esvaecimento cervical e/ou modificações progressivas no colo uterino (esvaecimento e dilatação) EXPULSÃO ● Segunda fase do parto (segundo período) ● Feto é expelido do útero através do canal de parto por meio da ação conjugada das contrações uterinas e das contrações voluntárias dos músculos abdominais (puxos). ● Ocorre a maioria dos fenômenos mecânicos do parto ● Canal de parto é completamente formado → segmento inferior do útero, o canal cervical totalmente dilatado e a vagina formam uma única cavidade. ● Inicia com a dilatação completa e se encerra com a saída do feto ● Quando completada a dilatação, o útero fica imobilizado pela ação de contenção dos ligamentos largo (lateralmente), redondo (superiormente) e uterossacro (posteriormente); ● A resultante de força das contrações miometriais converge sobre o orifício interno do colo uterino, contra o qual a apresentação fetal é impelida ● A descida do polo cefálico pelo canal de parto compreende duas fases: fase pélvica e fase perineal ○ Fase pélvica: dilatação completa do colo uterino e apresentação acima do plano +3 de De Lee ○ Fase perineal: apresenta a cabeça rodada e em um plano inferior a +3 de De Lee ● Duração do período de expulsão depnde da proporção cefalopélvica e da eficiência contrátil do útero e da musculatura abdominal ● Pode durar em média 30 minutos nas multíparas e 60 minutos nas primíparas ● Período expulsivo prolongado: ultrapassa, em primíparas, 3 horas sem analgesia e, em multíparas, 2 horas sem analgesia ● Duração tem acréscimo de 1 hora caso seja realizada analgesia epidural DEQUITAÇÃO ● Secundamento ou dequitadura ● Útero expele a placenta e as membranas (após o nascimento do feto) ● Após descolamento de seu leito uterino, a placenta desce através do canal de parto e é expelida pela rima vulvar ● Descolamento ocorre pela diminuição do volume uterino depois da expulsão fetal, associada às contrações uterinas vigorosas e indolores ● Descolamento central (descolamento de Baudelocque-Schultze) - mais frequente - começam no centro - primeira face placentária visualizada na rima vulvar é a face fetal - sangramento após a dequitação - formação de hematoma retroplacentário ● Descolamento marginal ou periférico (descolamento de Baudelocque-Duncan) - menos comum - começam lateralmente - visualiza-se na rima a face materna - escoamento de sangue antes da total expulsão da placenta ● Dequitação ocorre entre 10 minutos e 1 hora após o parto ● Fisiologicamente, ela deve ocorrer dentro de 20 a, no máximo, 30 minutos ● 80% dos partos a dequitação se dá nos primeiros 10 minutos. PRIMEIRA HORA PÓS-PARTO ● Inicia-se imediatamente após a dequitação → primeira hora do puerpério ● Ocorrem a estabilização dos sinais vitais maternos e a hemostasia uterina ● Ocorrência do miotamponamento, trombotamponamento, pelaindiferença miouterina e pela contração uterina fixa que a segue ● Redução do volume uterino causa angulação das artérias uterinas e ovariana, provocando diminuição da perfusão uterina ● A contração do útero causa oclusão dos vasos miometriais (miotamponamento) → ligaduras vivas, ou globo vivo de Pinard. ● Trombotamponamento é a segunda linha de defesa contra a hemorragia → formação de trombos nos grandes vasos uteroplacentários, os quais se pro- longam pelos coágulos intrauterinos que recobrem o leito placentário ● Indiferença miouterina → contração e relaxamento das fibras miometriais e ocorre na primeira hora pós-parto ● Pode haver enchimento e esvaziamento de sangue no interior do útero, e a hemostasia uterina depende, principalmente, do trombotamponamento nessa fase ● O estado de indiferença uterina pode ser prolongado nos trabalhos de parto laboriosos, nas grandes multíparas e quando há distensão excessiva do útero, como nas gestações múltiplas ou com fetos macrossômicos ou na presença de polidrâmnio ● A contração uterina fixa surge com o fim desse período (depois de 1 hora) e o maior tônus uterino mantém a hemostasia pós-parto, auxiliando no retorno do útero ao estado pré-gravídico.