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Giulia Pacheco Souza As cefaleias podem ser classificadas em primárias e secundárias. As primárias envolvem migrânea (enxaqueca), cefaleia tensional e cefaleias trigeminoautonômicas (em salvas; SUNA / SUNCT). Já as secundárias incluem as cefaleias por TCE, doença vascular, tumores, infecção e uso excessivo de analgésicos. O exame físico pode auxiliar na diferenciação entre as cefaleias. Assim, recomenda palpar as artérias temporais superficiais e couro cabeludo, no qual estarão doloridas e pulsáteis na enxaqueca. A musculatura posterior do crânio e pescoço estará enrijecida na cefaleia tensional. A realização de oroscopia, otoscopia e palpação de seios frontais e maxilares auxiliam em cefaleias causadas por sinusite. Outros aspectos seriam avaliar oclusão dentária (criança) e procurar sinais meníngeos. Cefaleias Cefaleias Giulia Pacheco Souza MIGRÂNEA / ENXAQUECA A apresentação da migrânea baseia em 04 fases: premonitória (sintomas inespecíficos); aura (visuais, motores, neurológicos e sensitivos); dor; e pós- drômica (fadiga e dificuldade de concentração), no qual a fisiopatologia baseia em vasodilatação levando a inflamação local, caracterizando o processo neurovascular. Os principais desencadeantes da enxaqueca são: preocupações excessivas, jejum prolongado, insônia, ciclo hormonal, irritabilidade, excesso de cafeína, sedentarismo, uso excessivo de analgésicos, genética, e determinados alimentos (vinho, chocolate). O protótipo da migrânea é um paciente jovem (muitas vezes, mulheres), com cefaleia intensa, unilateral, pulsátil, acompanhada de foto e/ou fonofobia, presença de náusea e/ou vômitos, com duração ≥ 24 horas, que impede a rotina (diferencia de cefaleia tensional). Além disso, não deve apresentar sinais de alarme (mnemônico MINAS). Os critérios diagnósticos de enxaqueca sem aura são presença de 05 crises que contemplem algumas características: 1. Duração da crise entre 04 e 72 horas. 2. 02 critérios: localização unilateral; caráter pulsátil; intensidade de moderada a forte; exacerbada por atividade física. 3. 01 critério durante a cefaleia: náuseas/vômitos; fotofobia/fonofobia. Na presença de aura deve sempre investigar a associação com outro transtorno. Um exame interessante seria a fundoscopia para afastar uma causa secundária (edema de papila). Deve solicitar TC nos seguintes casos: aura de tronco encefálico (disartria, ataxia, diplopia e vertigem), fraqueza motora (migrânea hemiplégica), perda de visão súbita - amaurose (migrânea retiniana) e papiledema. O tratamento não farmacológico envolve evitar gatilhos (dormir pouco, consumir alimentos desencadeantes), orientar sobre o risco do abuso da medicação (não ultrapassar 03 dias) e explicar sobre o componente genético da doença. O tratamento medicamentoso é subdivido para momento da crise e uso profilático. Durante a crise recomenda-se o uso de Naproxeno ou Ibuprofeno iniciado nos CASO CLÍNICO: Mulher de 42 anos de idade (jovem) procura atendimento em pronto-socorro por crises de cefaleia. Refere ter episódios semelhantes há vários anos. Descreve dor frontotemporal direita (unilateral), pulsátil, com náuseas, vômitos e fotofobia, piora ao realizar atividade física, está presente há 24 horas nessa oportunidade. Refere ter aproximadamente 05 crises mensais semelhantes, muitas delas com necessidade de analgesia venosa no pronto- socorro. Sinais vitais estáveis e afebril. Exame neurológico sem sinais focais e sem edema de papila (normal). Giulia Pacheco Souza primeiros 15 min. da dor e com uso máximo por 03 dias. Outra opção seria os triptanos, como o Sumatriptano (Sumax) e Naratriptano. Além disso, pode ser necessário associação com metoclopramida para alívio da náusea (na gestante pode ser utilizado para tratamento da enxaqueca). É indicado a profilaxia para o paciente quando: ≥ 03 episódios por mês; cefaleia que interfere significativamente nas atividades cotidianas; ou ineficácia dos medicamentos para resolução da crise. As principais opção são: metoprolol, propanol, topiramato (cuidado com nefrolitíase) e amitriptilina. Cefaleia tensional O principal gatilho é algum fator emocional, entretanto, ela apresenta a característica de cronificação (≥ 15 episódios por mês). O protótipo da cefaleia tensional é um paciente jovem (muitas vezes, mulheres), com cefaleia holocraniana (bilateral), em faixa (aperto ou pressão), de intensidade moderada, que progride gradualmente, o esforço não piora a dor, e está associada com tensão muscular pericraniana (“peso nos ombros e peso na cabeça”). Lembrando sempre de passar pelo mnemônico MINAS. Os critérios diagnósticos são duração de 30 min. a 07 dias, associado com: 1. 02 critérios: localização bilateral; em pressão ou aperto (não pulsátil); intensidade leve a moderada; não agravada ou não piora por atividade física de rotina. 2. 01 critério: ausência de náuseas/vômitos; presença de fotofobia ou fonofobia. O tratamento da crise baseia-se no uso de AINES, como Dipirona, Paracetamol ou Ibuprofeno, além de massagem na musculatura cervical, por exemplo, e banhos quentes. Já o manejo profilático é indicado nos casos de cronificação da dor, em que utiliza amitriptilina. OBS.: os opioides são reservados apenas nos casos em que não há outra opção, pois estão associados à dependência e maiores taxas de retorno dos pacientes ao pronto socorro (“cronificação da enxaqueca”). CASO CLÍNICO: Mulher de 37 anos (jovem) apresenta história de 12 anos de cefaleia episódicas. Os episódios manifestam-se 4x por semana, normalmente começando ao final de um dia de trabalho (moderada intensidade). A dor é generalizada (bilateral) e descrita como semelhante a uma faixa apertada ao redor da cabeça. As cefaleias são incômodas, mas não incapacitantes (não piora com esforço), e ela nega náuseas ou vômitos. Ela apresenta ligeira sensibilidade a barulhos, mas não tem fotofobia. A dor durante os ataques geralmente responde a ibuprofeno. Exame revela sensibilidade no couro cabeludo e em ambos os músculos trapézios. Giulia Pacheco Souza uso excessivo de medicação É classificada como uma cefaleia crônica diária, em que ocorre em ≥ 15 dias do mês em um paciente com cefaleia primária pré-existente. Além disso, observa-se uso excessivo e regular de medicamentos por mais de 03 meses para alívio sintomático da cefaleia (AINEs ≥ 15 dias/mês ou ergots [cefaliv] ≥ 10 dias/mês). O tratamento envolve a detoxificação com associação de tratamento não farmacológico (orientações) e farmacológico. Este último envolve o uso de Naproxeno 550 mg de 12 em 12 horas por 02 a 04 semanas, em que seria uma terapia de ponte até iniciar a profilaxia. A profilaxia que pode ser iniciada durante a terapia de ponte (associação) ou após finalizar, totalizando 06 meses, é o topiramato 50 mg. Trigêmicas autonômicas CASO CLÍNICO: Seu Claudiomiro, ex-zagueiro conhecido como “Arranca-Toco”, é um senhor de 42 anos, viúvo, que mora sozinho e é assíduo frequentador da pracinha Vila Pinga-Fogo, onde diariamente costuma passar horas jogando cartas e damas. Procura o ambulatório com queixa de cefaleia em pontada bilateral desde os 20 anos de idade. No começo, as dores eram esporádicas e melhoravam com aspirina. Há mais ou menos 2 anos, notou que as crises de dor estavam se tornando cada vez mais frequentes e há 1 ano tem dor de cabeça diariamente. Atualmente, controla a dor com analgésicos comuns, usando vários comprimidos ao dia. A dor não impede as atividades habituais e não seexarceba com as atividades físicas. Em geral, não acompanha fotofobia, intolerância a barulho, náuseas ou vômitos. CASO CLÍNICO: Mulher, 57 anos, com história de uma cefaleia recorrente (episódica) fronto-orbital direita (unilateral) iniciada há mais ou menos 20 anos, que ocorria em série que permaneciam em média por 02 meses, separadas por períodos de remissão que duravam em torno de 02 anos. Os ataques demoravam menos de 20 minutos e ocorriam 3x ao dia. A dor era forte, pulsátil, em pontadas ou em ardume, associada a náuseas, fobias sensoriais, semiptose e edema palpebral, lacrimejamento e congestão nasal. Quando procurou, estava sofrendo crises quase diárias há 02 semanas, usando pizotifeno e isometepteno, sem melhora do quadro. CASO CLÍNICO: Helena, solteira, secretária. Não entende por que Clarismundo lhe gritou daquele jeito naquela manhã. Mesmo com aquela dor de cabeça estranha já há dias, ela obedeceu e pegou o ônibus para a Avenida Paulista. Ele era seu homem, seu amante, seu dono! Estavam juntos há anos. Quando ele largaria a mulher? Aquilo doía. Doía muito em torno do olho esquerdo latejando. E junto vinha um lacrimejamento e o nariz ficava entupido do mesmo lado. Aquilo durava 1 ou 2 minutos e ia embora, para voltar alguns minutos depois. Enquanto o ônibus descia a Consolação e entrava na Paulista, a cada ponto de parada vinha tudo novamente. Giulia Pacheco Souza É uma cefaleia caracterizada pela presença de sintomas autonômicos, como lacrimejamento, edema e ptose palpebral, congestão nasal. É subdividida em 04 tipos: cefaleia em salvas; hemicrania paroxística (caso 01), SUNA / SUCNT (caso 02) e hemicrania contínua. Os critérios diagnósticos de hemicrania paroxística são pelo menos 20 crises prévias, com dor unilateral, orbitária / temporal, com duração de 2 a 30 min., com uma frequência superior a 05 dias e melhora significativa com indomectatina. É necessário a presença de pelo menos 01 critério: 1. Hiperemia conjuntival e/ou lacrimejamento ipsilateral. 2. Congestão nasal. 3. Edema palpebral ipsilateral. 4. Sudorese facial. 5. Miose e/ou ptose. Além disso, no tratamento com indomectatina deve sempre associar com IBP (omeprazol). A cefaleia em salvas é mais comum em homens, que surge a noite (acorda o paciente), com associação com apneia do sono. Uma das diferenças com a hemicrania paroxística seria a duração maior, variando de 15 a 180 min. O tratamento baseia em uso de triptanos e oxigênio a 100% (7L por min.). A SUCNT (Cefaleia neuralgiforme unilateral de curta duração com hiperemia conjuntival e lacrimejamento) / SUNA (Cefaleia neuralgiforme unilateral com sintomas autonômicos faciais) é tratada com lamotrigina. A nevralgia do trigêmeo ocorre pela compressão do vaso sobre o nervo, ocasionando dores intensas no trajeto do trigêmeo, paroxismos de dor súbita, forte intensidade e de curta duração, e dor desencadeada por estímulos territoriais do trigêmeo. Além disso, surge após os 50 anos (diferenciar de vasculite de células gigantes). O tratamento pode incluir carbamazepina ou até descompressão cirúrgica. Na suspeita de cefaleias trigêmnio-autonômicas sempre realizar TC para excluir causas secundárias, como tumores ou outras doenças intracranianas. Giulia Pacheco Souza CEFALEIA SECUNDÁRIA Trata-se de um caso de cefaleia secundária, no qual deve-se pensar em algumas hipóteses diagnósticas, como vasculite de células gigantes, meningoencefalite e encefalite por Herpes, sendo obrigatório a solicitação de TC. Esse caso trata-se de uma vasculite de células gigantes caracterizada pelos sintomas constitucionais + ↑ VHS + dor frontal + idoso (> 50 anos). O hematoma subdural é caraterizado por uma dor persistente à noite, com histórico de trauma, e mais comum em idoso. CASO CLÍNICO: Dona Lucrécia, 68 anos, é conhecida como a maior fofoqueira da Vila Xurupita. Há um mês tem apresentado episódios de forte cefaleia em região temporoparietal à direita, associada à dor mandibular do mesmo lado, que é agravada quando fala ou mastiga durante muito tempo. Seu marido sugeriu que a mulher parasse de falar da vida dos outros “24 horas por dia, que talvez a dor melhorasse”. Dona Lucrécia seguiu o conselho, mas não houve melhora, razão pela qual ela procurou a APS. O interno que fez o atendimento, muito atencioso, colheu uma história clínica detalhada, na qual destacam-se os relatos de diminuição recente de acuidade visual, alguns episódios de febre baixa nos últimos meses e perda de 3kg nos últimos dois meses. Os exames laboratoriais solicitados demonstraram uma anemia normocítica e normocrômica leve (Hb: 11,7 g/dL e Ht: 35%) e VHS elevado (90 mm/h). FORMA DA INTENSIDADE: THUNDERCLAP - indica doenças vasculares (hemorragia subaracnóidea [dor occipital, em facada e com sinais meníngeos], síndrome de vasoconstrição cerebral reversível e trombose venosa central [mulher de meia-idade, uso de ACO e com dor forte holocraniana]). Deve sempre investigar (TC sem contraste → RM → Punção liquórica). INTENSIDADE CRESCENTE - sugestivo de doença estrutural, como tumor, hematoma ou hidrocefalia. OBS.: CA de mama, CA de pulmão e meningioma são as neoplasias mais prováveis e comuns de cursar com cefaleia.