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O que não se pode deixar de saber sobre o hemograma e anemias? 2.1 HEMATOPOESE Hematopoese é o processo pelo qual são formados os elementos do sangue. O tecido hematopoético, localizado no adulto predominantemente na medula óssea, é originado das células- tronco hematopoéticas, que apresentam 3 propriedades: 1. Autorrenovação: capacidade de produzir células idênticas; 2. Diferenciação: produção de todas as linhagens das células hematológicas maduras; 3. Plasticidade: capacidade de transdiferenciação, ou seja, de originar células de outros tecidos. A origem da Célula-Tronco Hematopoética (CTH) pode ser entendida relembrando os conceitos da embriogênese. A Célula- tronco totipotente (zigoto) é a que tem a capacidade de formar todos os tecidos embrionários e extraembrionários. A célula-tronco pluripotente – blastocisto, também chamada célula-tronco embrionária – tem a capacidade de formar qualquer tecido embrionário. A célula-tronco multipotente, também chamada célula-tronco adulta, forma tecidos específicos, como neurológico, epidérmico e sanguíneo, mas com propriedade de plasticidade. A CTH é uma célula multipotente que dá origem a todo componente celular sanguíneo pela sua propriedade de plasticidade. Essa propriedade é fundamental para o desenvolvimento das técnicas futuras de terapia celular, que consistem na reparação, pela célula- tronco adulta, de tecidos lesados, como tecido cardíaco em chagásicos ou coronariopatas, tecido neurológico em acidente vascular cerebral e lesão medular, tecido ósseo e cartilaginoso etc. Figura 2.1 - Embriogênese e propriedades da célula-tronco de diferenciação e transdiferenciação Fonte: elaborado pelos autores. As células que povoam os espaços intertrabeculares da chamada medula óssea vermelha ou hematopoética são as CTHs (stem cells), em pequena quantidade, além das células derivadas da sua diferenciação e maturação, que se desenvolvem devido ao microambiente medular – constituído de vasos sanguíneos, células estromais (fibroblastos e osteoblastos, por exemplo), matriz extracelular e citocinas. No processo de diferenciação celular, a CTH tem a capacidade de originar novas células, mais diferenciadas para uma linhagem específica, os chamados precursores mieloides e linfoides. Esses precursores, por meio de sucessivas divisões e maturação, chegam à formação dos elementos maduros que são, então, liberados para a circulação periférica. A divisão e a maturação dos elementos das diferentes linhagens devem-se à ação de mecanismos intracelulares e à atividade de mediadores humorais, fatores de crescimento e citocinas – stem cell factor, fator de crescimento granulocítico, eritropoetina (EPO), trombopoetina, interleucinas e o fator de necrose tumoral, entre outros –, além da ação das chamadas moléculas de adesão medulares. Assim, a ausência ou o excesso de algumas dessas substâncias pode levar a estados patológicos. Figura 2.2 - Hematopoese Legenda: (CFU) unidade formadora de colônia; (BFU) unidade formadora de “ninhos” de eritrócitos e megacariócitos; (GM) Granulócitos e Monócitos. #IMPORTANTE A eritropoese engloba os mecanismos de diferenciação e maturação da linhagem eritroide e compreende os elementos que podem ser detectados na análise da medula óssea. A eritropoese envolve a diferenciação e a maturação da linhagem eritroide, compreendendo, na sequência, pró-eritroblasto, eritroblasto basofílico, eritroblasto policromatófilo, eritroblasto ortocromatófilo e, por fim, os reticulócitos, que já são células enucleadas e capazes de executar as atividades metabólicas de um eritrócito maduro. Figura 2.3 - Eritropoese Nota: as formas vão desde a célula-tronco até a BFU-E e não apresentam características morfológicas próprias quando visualizadas no esfregaço de sangue medular, mostrando-se apenas como células mononucleares indiferenciadas. A partir do pró-eritroblasto, já existem características morfológicas de cada elemento, e são essas características que indicam sua maturação. Fonte: adaptado de Análise da expressão gênica das peroxirredoxinas em pacientes talassêmicos e com anemia falciforme, 2013. A síntese de Hb faz parte do processo de maturação eritroblástica e começa com os eritroblastos policromáticos. Ao final da maturação, o núcleo, já sem utilidade para a célula, é extraído, dando origem ao reticulócito. Os reticulócitos, portanto, são anucleados e capazes de realizar todas as atividades metabólicas de um eritrócito maduro, mas mantêm restos de material ribossômico em seu interior e têm volume celular discretamente maior do que as formas maduras. Após 3 dias de permanência na medula óssea, o reticulócito cai na circulação periférica, finalizando sua maturação em mais 1 dia, e, com a perda do material ribossômico restante (retirado pelo baço), se transformará em eritrócito maduro. Os fatores necessários para uma eritropoese completa e eficiente são a presença de CTH normal, nutrientes, como ferro, vitaminas B12 e B6, ácido fólico, proteínas e lipídios, e do fator estimulante para a síntese eritroide, principalmente EPO e IL-3. A primeira é uma glicoproteína produzida no parênquima renal, pelas células justaglomerulares, por meio de mecanismo autorregulatório – uma alça de feedback cujo estimulante principal é a hipóxia, e o nível de EPO circulante aumenta em proporção inversa à oxigenação tecidual e à massa eritrocitária. À medida que a anemia se desenvolve, o aparelho sensor dentro do rim aumenta a secreção de EPO, com aumento da síntese eritroide na medula óssea. Após 100 a 120 dias na circulação, o eritrócito senil é destruído pelo sistema reticuloendotelial, principalmente no baço. Cerca de 0,8 a 1% da massa eritroide circulante é reposta diariamente. Figura 2.4 - Controle da eritropoese Fonte: adaptado de Anemia of chronic kidney disease: Treat it, but not too aggressively, 2016. A massa eritroide total do indivíduo é resultado do balanço entre produção e destruição diárias. 2.2 COMPOSIÇÃO DO ERITRÓCITO O eritrócito é composto, essencialmente, por uma membrana envolvendo uma solução rica em eletrólitos (principalmente o potássio) e Hb. É altamente dependente de glicose como fonte de energia (ATP), e, como não existem organelas intracelulares como mitocôndrias, a produção de ATP é quase exclusiva por meio da glicólise. 2.2.1 Membrana eritrocitária A membrana eritrocitária é constituída por uma bicamada lipídica, na qual são inseridas proteínas transmembrana de disposição vertical (proteínas integrais, banda 3 e glicoforina), que têm como base de sustentação um citoesqueleto de proteínas de disposição horizontal (malha de alfa e betaespectrinas). A integridade da membrana é responsável por propriedades importantes dos eritrócitos, que permitem sua passagem pelos vasos sem haver lise celular. Essas propriedades são deformabilidade, elasticidade e reestruturação do eritrócito, as quais se encontram alteradas nos defeitos de membrana (esferocitose). Figura 2.5 - Membrana do eritrócito 2.2.2 Hemoglobina A Hb é a macromolécula presente no interior dos eritrócitos, responsável diretamente pelo transporte de oxigênio até os tecidos. A cor vermelha das hemácias é dada por esse pigmento, e a sua concentração no interior do corpúsculo se traduz em diferentes intensidades e padrões de pigmentação, que podem ser armas propedêuticas importantes no diagnóstico da etiologia das anemias. A concentração considerada normal de Hb para mulheres é de 12 a 16 g/dL e, para homens, de 14 a 18 g/dL. Cada molécula da Hb é composta por 4 cadeias heme e 4 cadeias de polipeptídios de globina. As cadeias globínicas, responsáveis pela caracterização do tipo de Hb, são formadas por 2 cadeias alfa e 2 cadeias não alfa (beta, gama e delta). As formas predominantes no indivíduo normal após o nascimento são: 1. Hemoglobina A (HbA): 2 cadeias alfa e 2 cadeias beta; 2. Hemoglobina A2 (HbA2): 2 cadeias alfa e 2 cadeias delta; 3. Hemoglobina fetal (HbF): 2 cadeias alfa e 2 cadeias gama. Contudo, outros tipos de cadeias globínicas e de Hbs aparecemdurante o desenvolvimento embrionário-fetal ou por mutações específicas, como no caso das talassemias e da doença falciforme. Cada cadeia de globina envolve 1 único núcleo contendo ferro, denominado “porção heme da molécula”. O heme contém 1 anel de protoporfirina e 1 átomo de ferro em seu estado ferroso, e pode ligar-se a 1 única molécula de oxigênio. Portanto, cada molécula de Hb é capaz de ligar 4 moléculas de oxigênio. Em um adulto normal, cerca de 98% da Hb circulante consiste em HbA; aproximadamente 2% da Hb restante aparece na forma A2. Menos de 1% apresenta-se na forma fetal ou F, sendo esta de maior afinidade pelo oxigênio do que as formas A. Figura 2.6 - Hemoglobina A: 4 cadeias de globina (2 alfa, 2 beta) e 4 núcleos heme 2.3 CONCEITOS GERAIS EM ANEMIAS A anemia é definida como o estado em que há diminuição da concentração de hemoglobina (Hb) por unidade de sangue, abaixo da média considerada normal para a raça, o sexo, a idade do indivíduo e a altitude em que ele se encontra. Essa condição caracteriza-se pela redução da capacidade de transporte de oxigênio, resultando, nos quadros mais severos, em disfunções miocárdica e cerebral. Segundo os critérios da Organização Mundial da Saúde, os limites mínimos ao nível do mar são de 14 g/dL para homens, 12 g/dL para mulheres e 11 g/dL para gestantes. Erroneamente, considera-se a anemia uma patologia, e não o sinal de uma doença de base. O raciocínio simplista de considerar a anemia uma entidade individual leva a falhas graves na realização de diagnósticos e no seu tratamento. Diagnosticar a etiologia é essencial, pois, se não corrigida ou controlada, a anemia evolui de forma recorrente ou com piora progressiva. Alguns fatos devem ser citados no estudo da anemia: a anemia congênita é sugerida pelas histórias pessoal e familiar. A causa mais comum de anemia é a deficiência de ferro. Má alimentação pode resultar em deficiência de ácido fólico e contribuir para deficiência de ferro, mas o sangramento é muito mais comumente a causa da deficiência de ferro em adultos. O exame físico demonstra palidez. Deve-se ter atenção aos sinais físicos de doenças hematológicas primárias (linfadenopatia, hepatoesplenomegalia ou sensibilidade óssea), sobretudo no esterno ou na região tibial anterior. Alterações na mucosa, como língua lisa, podem sugerir anemia megaloblástica. 2.3.1 Mecanismos adaptativos 2.3.1.1 Aumento do débito cardíaco Para aumentar o aporte de oxigênio aos tecidos, o sangue circula em maior volume por minuto. Tal procedimento é chamado “efeito hipercinético da anemia”, que é consequência da queda da resistência vascular periférica e do aumento da frequência cardíaca. 2.3.1.2 Aumento do 2,3-DPG no interior da hemácia O 2,3-difosfoglicerato é produzido e destruído enzimaticamente como intermediário da glicólise nos eritrócitos e liga-se à Hb desoxigenada, diminuindo, assim, a afinidade desta pelo oxigênio, liberando-o para os tecidos. Este metabólito reduz a afinidade da Hb pelo oxigênio, facilitando a liberação de O2 nos tecidos e minimizando os sintomas. 2.3.1.3 Aumento da perfusão “órgão-seletiva” Tal aumento forma shunts, para melhorar a perfusão de órgãos vitais. Na perda aguda, as maiores áreas de redistribuição são o leito vascular mesentérico e ilíaco; nas perdas crônicas, pele e rim. 2.3.1.4 Aumento da função pulmonar Este consiste no aumento da frequência respiratória para elevar a oxigenação sanguínea. 2.3.1.5 Aumento da produção de eritrócito Tal aumento é mediado pela produção de EPO. A taxa da síntese desta é inversamente proporcional à concentração de Hb e estimulada pela hipóxia do tecido renal. Quando o sistema de adaptação da anemia está preservado, a liberação tissular de oxigênio pode ser mantida, em repouso, com valores de Hb de até 5 g/dL. Sintomas estabelecem-se com valores abaixo desse no indivíduo em repouso, ao esforço físico ou, ainda, nos casos de falha no sistema de adaptação. 2.3.2 Quadro clínico Os sinais e sintomas associados à anemia devem-se à deficiência do aporte tissular de oxigênio. A chamada síndrome anêmica varia em suas manifestações, de acordo com a idade, o tempo de estabelecimento, a intensidade da anemia e as performances hemodinâmica e respiratória do indivíduo. Idosos com comorbidades, como insuficiência cardíaca ou doença pulmonar obstrutiva crônica, têm menor tolerância ao estado de hipóxia tissular. Pacientes cujo quadro anêmico se estabelece lentamente, como no caso da deficiência de ferro por perdas crônicas, suportam níveis mais baixos de Hb (pela adaptação feita com os mecanismos compensatórios) quando comparados àqueles em que há rápida instalação da anemia, como nas perdas agudas. Os sintomas mais habitualmente associados à síndrome anêmica, independentemente de sua etiologia, são dispneia aos esforços, de forma progressiva – até dispneia em repouso, tontura postural, vertigem, cefaleia, palpitação, síncope, astenia, diminuição dos rendimentos físico e intelectual, alteração do sono, diminuição da libido, alteração do humor, anorexia, dor torácica e descompensação de patologias cardiovasculares, cerebrais ou respiratórias de base. No exame físico, encontram-se palidez da pele e das mucosas, taquicardia, aumento da pressão do pulso, sopros de ejeção sistólicos, diminuição da pressão diastólica e edema periférico leve. Nos casos mais graves, letargia, confusão mental, hipotensão arterial e arritmia cardíaca. A anemia causada por perda sanguínea aguda é acompanhada de sintomas de hipovolemia. De acordo com o volume de sangue perdido, a intensidade do sintoma muda e pode variar desde taquicardia até choque hipovolêmico e perda de consciência. Além disso, os reflexos de adaptação vascular à perda volumétrica aguda são mais intensos, e o quadro pode regredir apenas com reposição de volume. É importante reconhecer a diferença entre sintoma de anemia e hipovolemia, a fim de evitar transfusões de sangue desnecessárias. A transfusão de concentrado de hemácias deve ser considerada aos pacientes das classes III e IV, pois, nos de classes I e II, pode ser feita apenas a reposição volêmica com cristaloides. O cor anêmico é possível em indivíduos previamente hígidos e acontece em razão da insuficiência cardíaca de alto débito. 2.4 INVESTIGAÇÃO ETIOLÓGICA E CLASSIFICAÇÃO A anemia é sinal de doença, portanto nunca deve ser admitida como normal, devendo-se sempre procurar uma causa. A abordagem inicial do paciente com anemia deve acontecer da seguinte forma: 1. História clínica completa: a) Questionar quanto aos sintomas da síndrome anêmica e ao tempo de evolução; b) Investigar história nutricional, incluindo ingestão alcoólica; c) Questionar sobre sintomas de doenças que, sabidamente, cursam com anemia (sangue nas fezes, dor epigástrica, artrite, características da diurese); d) Pesquisar comorbidades e medicamentos em uso; e) Investigar história familiar de anemia e origem étnica, considerando alterações hereditárias da Hb e do metabolismo do eritrócito (talassemias, anemia falciforme, deficiência de G6PD etc.); f) Investigar história ocupacional, à procura de exposição a agentes tóxicos. 2. Exame físico: realizar exame físico completo, além de estar atento para sinais de anemia, como glossite, queilite angular, icterícia (sinal de hemólise ou hepatopatia), sinais de neuropatia, esplenomegalia (hemólise ou outra doença de base) e sinais de doenças associadas como causa da anemia (adenomegalia, esplenomegalia, petéquias); 3. Exames laboratoriais na investigação inicial: a) Hemograma: é importante para a análise dos índices eritroides, auxiliando na classificação morfológica da anemia e na avaliação dos outros componentes celulares sanguíneos; b) Contagem de reticulócito: avalia a função medular, importante na classificação funcional das anemias; c) Avaliação do esfregaço de sangue periférico: contém informações importantes quanto à alteração na produção eritroide e nos mostra diferenças no tamanho e na forma das hemácias. A avaliação da anemia depende da avaliaçãofisiopatológica, que compreende a contagem de reticulócitos e classifica a anemia pela produção medular, e a avaliação morfológica, que inclui os elementos do hemograma e do esfregaço periférico e classifica a anemia conforme as características dos exames laboratoriais. 2.4.1 Classificação fisiopatológica (hemograma e contagem de reticulócitos) O número de reticulócitos (precursores das hemácias) ajuda a estimar a função medular e deve ser pedido na avaliação das anemias. A contagem normal de reticulócitos varia de 0,5 a 2%, e sua contagem absoluta de 25.000 a 75.000 µL, podendo ser utilizada como marcador da eritropoese eficaz, pois eles são formas jovens da hemácia recentemente liberados pela medula óssea. Diante do quadro de anemia, se a EPO e a função medular estiverem preservadas, a produção eritroide aumentará em 2 a 3 vezes o valor normal dentro de 10 dias do início da anemia. Desta forma, se o valor normal da contagem não for ampliado dessa maneira, será indício de resposta medular inadequada. O valor do reticulócito pode ser expresso em número absoluto ou relativo (em porcentagem). Como geralmente é referido em porcentagem, para utilizá-lo como indicador de função medular, são necessários ajustes, descritos a seguir. 2.4.1.1 Ajustar para o grau de anemia Na anemia, a porcentagem de reticulócitos pode estar aumentada, enquanto o número absoluto pode estar baixo. Exemplo: em um caso em que o valor de reticulócitos é de 5%, em uma contagem de eritrócitos de 1.000.000/µL, o número absoluto é de 50.000/µL; isto é, infere-se que não há reticulocitose. Para corrigir esse efeito, utiliza-se o seguinte cálculo: Nota: hematócrito normal para o homem: 45%; para a mulher: 40%. Ambos, o hematócrito (Htc) e o reticulócito são mensurados em porcentagem. A maturação depende do nível de Htc: 1 para Htc > 40%; 1,5 para Htc entre 30 e 39,9%; 2 para Htc entre 20 e 29,9%; e 2,5 para Htc < 20%. Um índice de reticulócito > 3 representa uma reação medular normal, e um índice < 2 representa uma resposta medular inadequada (insuficiente). Outra fórmula que pode ser utilizada é o cálculo do número de reticulócitos absolutos, como segue: Quando o reticulócito é expresso em número absoluto, esse cálculo não é necessário. 2.4.1.2 Índice reticulocitário O reticulócito está presente na circulação pelo período de 1 a 2 dias, tempo suficiente para o catabolismo final dos resíduos de RNAs. Em situações com grande estímulo da eritropoese, o reticulócito pode sair precocemente da medula e ficar mais dias no sangue periférico, fato identificado pelo encontro de policromasia (variação de cor na análise do sangue periférico). Portanto, nessas situações, pode-se ter uma estimativa excessiva da eritropoese. Para corrigir esse efeito, utiliza-se o índice reticulocitário. Calcula-se, de forma prática, dividindo o reticulócito corrigido por 2 (ou o valor absoluto), pois a maioria dos pacientes se apresenta com hematócrito entre 20 e 30%. Porém, quanto mais intensa for a anemia, mais precocemente o reticulócito cairá na circulação e ali ficará por maior tempo. Desta forma, o método correto de calcular o índice é correlacionar com o hematócrito. Quadro 2.1 - Fator de correção, segundo o hematócrito para o cálculo do índice reticulocitári Com a avaliação dos reticulócitos, pode-se dividir a função medular em: 1. Medula hipoproliferativa: apresenta contagem de reticulócito corrigida < 2% ou < 100.000/mm3; 2. Medula hiperproliferativa: quando a contagem atinge valores ≥ 2% ou ≥ 100.000/mm3, indicando resposta medular normal à perda de sangue ou à destruição excessiva dos eritrócitos. Com esses dados, pode-se estabelecer a classificação fisiopatológica das anemias: 1. Anemias hipoproliferativas: diagnosticadas pela reticulocitopenia, resultam da baixa taxa de produção de hemácia. As causas mais comuns são: a) Deficiência nutritiva (em crianças e adultos) por falta de absorção, ingesta inadequada ou perda crônica (especialmente de ferro, folato e vitamina B12); b) Falta de estímulo com diminuição de hormônios estimulantes da eritropoese – EPO (disfunção renal), hormônio tireoidiano, androgênio; c) Doenças da célula-tronco (anemia aplásica, mielodisplasia) ou infiltração medular tumoral; d) Supressão medular: quimioterápicos, medicamentos; e) Anemia de doença crônica secundária a processos inflamatórios, infecciosos ou neoplásicos. 2. Anemias hiperproliferativas: diagnosticadas pela reticulocitose, ocorrem em razão da perda ou destruição excessiva dos eritrócitos, com resposta adequada da medula óssea. Hemólise é a destruição prematura de hemácias e pode ser de causa congênita ou adquirida. Quadro 2.2 - Classificação fisiopatológica 2.4.2 Avaliação da morfologia (hemograma e esfregaço do sangue periférico) A avaliação morfológica das anemias baseia-se, principalmente, na hemoglobina corpuscular média, no volume corpuscular médio e no red cell distribution width (RDW). O VCM (que mostra o tamanho médio dos eritrócitos) e a HCM (que mostra o valor médio de Hb nas hemácias – representado morfologicamente pela cor do eritrócito) podem ser calculados com base nos valores de hematócrito, número de eritrócitos e Hb. Baseia-se na cor (CHCM) e no tamanho (VCM) das hemácias (Quadro 2.3). Quadro 2.3 - Valores de referência para concentração da hemoglobina corpuscular média e volume corpuscular médio 2.4.2.1 Hipocrômicas e microcíticas São caracterizadas por células pequenas e de coloração menos intensa, pelo pouco conteúdo de Hb, que pode ser decorrente de: 1. Diminuição da disponibilidade do ferro: deficiência de ferro, anemia de doença crônica, deficiência de cobre; 2. Diminuição da síntese do heme: intoxicação por chumbo, anemia sideroblástica; 3. Diminuição na síntese de globinas: talassemia, outras hemoglobinopatias. 2.4.2.2 Normocrômicas e normocíticas A média do tamanho e da coloração das hemácias é normal. Nessa situação, a análise do sangue periférico é importante, pois pode tratar-se de estágio inicial de anemia microcítica ou macrocítica. Pode também ocorrer pela falta de estímulo da eritropoese (insuficiência renal, endocrinopatia), pela anemia de doença crônica ou pelas anemias por infiltração medular, entre outros. 2.4.2.3 Normocrômicas e macrocíticas Trata-se de hemácias grandes e de coloração normal, maiores que a média, porém com conteúdo globínico normal. Ocorrem frequentemente em: a) Anemias com metabolismo anormal do ácido nucleico – megaloblásticas por deficiência de vitamina B12 ou ácido fólico, medicamentos (zidovudina, hidroxiureia); b) Reticulocitose importante, pois o reticulócito é uma célula grande – anemia hemolítica, resposta à perda sanguínea aguda; c) Alteração da maturação do eritrócito (mielodisplasia); d) Outras causas, como hepatopatia, hipotireoidismo, alcoolismo. Podem-se ainda classificar as anemias, além dos pontos de vista fisiopatológico e morfológico: 1. Quanto à massa eritrocitária: a) Relativas: aumento do volume plasmático, sem alteração da massa eritrocitária (gestante, macroglobulinemia); b) Absolutas: diminuição real da massa eritrocitária. 2. Quanto à velocidade de instalação: a) Agudas: de instalação rápida; b) Crônicas: de instalação lenta. Após a avaliação e a classificação inicial das anemias, muitas vezes são necessários exames específicos para confirmação diagnóstica, como na anemia hipocrômica e microcítica com RDW alto – analisar perfil de ferro; anemia macrocítica com RDW alto – analisar dosagem de vitamina B12 e folato; anemia normocrômica e normocítica com reticulócito baixo e RDW normal – dosar nível sérico de EPO, avaliar funções renal e tireoidiana e solicitar mielograma. O que não se pode deixar de saber sobre o hemograma e anemias? Convém não esquecer de checar os níveis de hemoglobina, VCM, HCM, CHCM e RDW para poder classificar as anemias em micro/macrocíticas, hipo/hipercrômicas. Quais são as principais causas de anemias hipoproliferativas? 3.1 CONCEITOS GERAIS A baixa resposta reticulocitária perante a anemia é sinal patognomônicodas anemias por deficiência de produção ou hiporregenerativas. A faixa da normalidade no número de reticulócitos por volume de sangue varia entre 25.000 e 100.000/mm3, esperando-se contagens maiores ou iguais a 100.000/mm3 quando há regeneração medular, ou seja, nas anemias hiperproliferativas, e valores menores que 100.000/mm3 quando não há resposta medular eficaz, no caso das anemias hipoproliferativas ou por deficiência de produção. 3.2 ANEMIA POR DEFICIÊNCIA DE FERRO 3.2.1 Conceitos gerais O ferro é um mineral essencial ao organismo humano. Suas funções são as de mediador enzimático para a troca de elétrons (citocromo, peroxidases, catalases e ribonucleotídeo redutase) e carreador de oxigênio (mioglobina e Hb). Nesta, é o componente central da molécula heme e o responsável direto por levar oxigênio até os tecidos. A deficiência de ferro é a causa mais comum de anemia no mundo e uma das doenças mais frequentes na prática médica. Sua distribuição geográfica é mais extensa nos países em desenvolvimento, onde o aporte dietético de ferro e o controle das parasitoses intestinais são insuficientes. Dados norte-americanos revelam que de 1 a 2% dos adultos apresentam anemia ferropriva, sendo a deficiência de ferro sem anemia mais comum, acometendo 11% das mulheres e 4% dos homens. Entretanto, não existe faixa etária de maior prevalência dessa patologia, podendo ser encontrada em qualquer idade, com causas variáveis. Em adultos, as causas mais comuns de anemia por deficiência de ferro são ingestão insuficiente, déficit de absorção, perdas sanguíneas ou aumento rápido da demanda (como no crescimento rápido dos adolescentes e na gestação). O desenvolvimento da deficiência de ferro e a velocidade com que ela se instala dependem da reserva individual. O sexo, a idade e o balanço entre ingestão e perda diária do paciente influenciam nesse caso. 3.2.2 Metabolismo do ferro e fisiopatologia da carência O ferro total do organismo varia entre 2 e 4 g: por volta de 50 mg/kg nos homens e 35 mg/kg nas mulheres. Nos homens, 1 mL de concentrado de hemácias contém, aproximadamente, 1 mg de ferro, portanto 1 mL de sangue total contém entre 0,5 e 0,6 mg de ferro, perfazendo um total estimado de 2.100 mg de ferro no sangue de um indivíduo que pesa 70 kg. Nas mulheres, a concentração é mais baixa; calcula-se encontrar cerca de 1.350 mg de ferro, o que pode ser explicado por perda menstrual, gravidez, lactação e menor ingestão. Quadro 3.1 - Distribuição do conteúdo de ferro no organismo A produção do estoque de ferro é feita principalmente por 2 componentes: 1. Ferritina: formada pela proteína apoferritina + ferro, encontrada virtualmente em todas as células do organismo (principalmente fígado, baço e pulmões) e na corrente sanguínea, por ser hidrossolúvel. Sua dosagem sérica reflete o estoque total corpóreo, visto ser essa a forma de estoque mais abundante. É importante para disponibilizar ferro, conforme a necessidade corpórea; 2. Hemossiderina: não é hidrossolúvel, representando cerca de 25 a 30% do estoque corpóreo; nos indivíduos normais, encontra-se armazenada no sistema reticuloendotelial macrofágico e na medula óssea; porém, em condições patológicas, pode acumular-se em qualquer tecido, principalmente no fígado e no baço. Figura 3.1 - Ciclo da cinética de ferro Fonte: elaborado pelos autores. 3.2.2.1 Ingestão A dieta média nos países desenvolvidos contém aproximadamente 15 mg/d de ferro. No Brasil, calcula-se que a dieta das classes B e C apresente cerca de 10 mg/d de ferro nos alimentos. Está presente na forma de anéis heme (carnes, peixes, aves), a mais biodisponível, e na forma de complexos de hidróxido férrico (nos vegetais). Esta necessita do pH ácido do estômago para ser reduzida à forma ferrosa e para poder ser adequadamente absorvida. 3.2.2.2 Absorção Do total de ferro ingerido, 30% da forma heme e 10% da não heme são absorvidos; o restante é eliminado nas fezes. A absorção diária no homem varia de 0,5 a 1 mg/d, sendo o dobro na mulher, o que é justificado pela perda menstrual, e o quádruplo na gestante, em razão do consumo pelo feto. A absorção pode ser ajustada, de acordo com as necessidades orgânicas. Na deficiência de ferro, a eficácia da absorção do metal pode aumentar até 5 vezes em relação ao basal. O ferro, de maneira geral, é absorvido pela borda “em escova” das células epiteliais da vilosidade intestinal, especialmente no duodeno e no jejuno proximal. Os íons ferrosos (Fe++) são absorvidos mais eficientemente do que a forma férrica (Fe+++); esta, por sua vez, necessita da acidez gástrica para a estabilização e a ligação com a mucina. Com tal ligação, uma enzima chamada redutase férrica transmembrana converte Fe+++ em Fe++, o qual precisa atravessar a membrana apical da célula intestinal pela proteína DMT1 (transportador de metal divalente do tipo 1), saindo, assim, do lúmen intestinal e atingindo o interior celular. Existem substâncias capazes de interferir na absorção do ferro, como o ácido ascórbico, que modifica a valência de férrico para ferroso e melhora a absorção, ou como os fitatos (farelos, aveia, centeio), tanatos (chás), oxalatos (uvas-passas, figo, ameixa, batatas-doces, amêndoas, tomate, chocolate, cacau), fosfatos (leite e derivados), antiácidos, cálcio e até antibióticos (tetraciclina, quinolonas), que reduzem a absorção. O duodeno e a porção superior do jejuno são os locais de máxima absorção; consequentemente, síndromes disabsortivas ou bypass dessas áreas podem levar à deficiência de ferro. Uma vez no interior celular, o ferro tem 2 vias possíveis: é armazenado como ferritina, ou é transportado para o plasma, passando pela proteína transmembrana ferroportina, que, por sua vez, atua em conjunto com a hefaestina para nova transformação de íon ferroso em férrico. Atualmente, sabe-se, ainda, que a regulação da absorção é dada por uma proteína de fase aguda chamada hepcidina; sintetizada no fígado, atua diretamente na inibição da absorção de ferro, bem como na diminuição da sua liberação do interior da célula intestinal, pelo feedback negativo do seu transportador na membrana basolateral ferroportina. Logo, sua superexpressão causa aumento dos estoques de ferro, associado à diminuição da absorção desse íon e de sua quantidade sérica circulante. A hepcidina e a ferroportina são reguladoras da absorção de ferro: aumentam a absorção quando os estoques estão baixos ou ausentes e quando há aumento da eritropoese (principalmente em doenças que cursam com eritropoese ineficaz: mielodisplasia, betatalassemia e anemia sideroblástica); e diminuem a absorção quando os estoques estão repletos. Além disso, a hepcidina regula a liberação de ferro pelos macrófagos que fagocitaram eritrócitos senescentes. #IMPORTANTE A hepcidina está aumentada em infecções, inflamações, doença renal crônica e aumento do estoque de ferro, e diminuída em casos de hipóxia, anemia, deficiência de ferro, eritropoese inefetiva e altos níveis de eritropoetina. 3.2.2.3 Transporte do ferro O ferro ferroso (Fe++), absorvido pelo enterócito, pode ser armazenado na forma de ferritina ou novamente ser oxidado em férrico (Fe+++), para ligar-se à transferrina e ser transportado aos diversos tecidos pela ação da hefaestina, enzima dependente de cobre. Os tecidos que necessitam de ferro possuem receptores de transferrina em quantidade proporcional e suficiente, pois, por meio deles, ligam-se à transferrina e recebem o ferro. Figura 3.2 - Absorção de ferro no duodeno Fonte: adaptado de Iron and multiple sclerosis, 2014. 3.2.2.4 Reaproveitamento do ferro Cerca de 20 a 25 mg de ferro são liberados diariamente pelas hemácias senescentes para os macrófagos. O núcleo heme da hemácia fagocitada pelo macrófago é metabolizado, deixando o ferro livre para a circulação sanguínea por meio da ferroportina ou para armazenamento na forma de ferritina, a depender das necessidades do organismo. 3.2.2.5 Perda Não há nenhum mecanismo de regulação da perda de ferro. Este é perdido pelo suor e pela descamaçãoda pele e do epitélio gastrintestinal, na taxa de, aproximadamente, 1 mg/d; na mulher, em cada ciclo menstrual, a perda é aumentada em 1 a 2 mg/d. Nenhum mecanismo de excreção foi ainda detectado, nem pelo fígado nem pelos rins, portanto, a homeostasia fica balanceada entre a absorção diária de 1 a 2 mg e a perda diária da mesma quantidade. Figura 3.3 - Homeostasia do ferro Legenda: Tf-Fe+++: transferrina ligada ao ferro. Fonte: acervo Medcel. A gravidez pode modificar tal equilíbrio, em razão do aumento da demanda de ferro de até 2 a 5 mg/d. A dieta normal, geralmente, não supre essas necessidades, e a suplementação de ferro é indispensável durante a gravidez. Gestações repetidas, principalmente quando seguidas de amamentação, são causas frequentes de anemia ferropriva, caso não haja aporte de ferro adicional. As perdas crônicas desequilibram o cálculo entre o aporte diário e a absorção de ferro. Deve-se pensar nesse fato como um balanço comercial: se a absorção for equivalente a 2 mL de sangue por dia (1 mg), perdas acima dessa quantidade deverão ser compensadas pelo mecanismo de aumento do aproveitamento do ferro alimentar. Contudo, tal mecanismo nem sempre é suficiente, e os estoques de ferro são lentamente depletados, até que a deficiência se instale. O processo é frequente nas hipermenorreias, em que a mulher pode relatar fluxo intenso e duradouro por muitos anos e considerá-lo normal. A redução da absorção do ferro, como na gastrite atrófica ou na acloridria, na doença celíaca e na gastrite por Helicobacter pylori, leva à deficiência. Contudo, o sangramento em algum local do tubo digestivo é causa muito mais comum dessa condição. Reitera-se que a causa mais frequente de deficiência de ferro em adultos é a perda de sangue, seja menstrual, nas hipermenorreias ou polimenorreias, seja digestiva, em úlceras gástricas, doenças diverticulares ou tumores do trato gastrintestinal. As patologias aparentemente não sangrantes, como a esofagite e a hérnia de hiato, podem estar relacionadas. A hemoglobinúria crônica também pode causar deficiência de ferro, pois é possível perder acima de 1 mg/d por essa via. Esse quadro pode ocorrer por hemólise mecânica, por válvulas cardíacas metálicas e por hemólise intravascular sustentada, como na hemoglobinúria paroxística noturna. O Quadro 3.2 sintetiza os fatores que levam à deficiência de ferro. Quadro 3.2 - Fatores etiológicos da deficiência de ferro Em geral, a falta de ingesta como causa isolada de ferropenia é rara. Deve ser um diagnóstico de exclusão, pois mesmo a quantidade de ferro em dietas de extrema pobreza é suficiente para aporte adequado de ferro, levando-se em conta a capacidade do organismo em aumentar a sua absorção de ferro em até 5 vezes. 3.2.3 Quadro clínico A apresentação clínica pode incluir tanto manifestações da doença de base como do próprio estado anêmico. A privação de ferro manifesta-se com sintomas em outros órgãos e tecidos, independentemente da presença ou não de anemia, como queda de cabelo, redução do rendimento intelectual e mialgia. São queixas frequentes na ferropenia: perversão do apetite (pica – vontade de comer terra, barro, arroz cru), pagofagia (compulsão por comer gelo), unhas quebradiças e finas, língua lisa, com perda das papilas, glossite, queilite angular (Figura 3.6), gastrite atrófica e diminuição da saliva. Coiloníquia, que são as unhas em formato de colher (Figura 3.5) também podem ocorrer na anemia ferropriva. Algumas manifestações clínicas são pouco frequentes, como disfagia, alteração nos mecanismos da imunidade e escleras azuladas. Os sintomas evoluem de maneira gradual e incluem fadiga, taquicardia, palpitação, irritabilidade, tontura, cefaleia e intolerância aos esforços de intensidade variável. Pela instalação insidiosa e prolongada, os mecanismos adaptativos do organismo permitem tolerância de níveis bastante baixos de Hb. Figura 3.4 - Glossite atrófica: atrofia das papilas Figura 3.5 - Coiloníquia Fonte: Iweevy. Figura 3.6 - Queilite angular Fonte: Frank60. 3.2.4 Laboratório Os achados laboratoriais acompanham a evolução do quadro clínico, pois a deficiência de ferro se instala por etapas. Inicialmente, ocorre depleção dos estoques de ferro, com redução dos níveis de ferritina sérica abaixo de 30 ng/mL. A ferritina é o indicador mais confiável do status do ferro no organismo, por ser menos sensível às variações distributivas do que o ferro sérico e seus indicadores de transporte. Contudo, é uma proteína “de fase aguda”, ou seja, aumenta perante quadros inflamatórios, devendo ser considerada com cautela quando há concomitância da anemia com infecções ou inflamações severas. Para dosagens de ferritina extremamente baixas (< 15 ng/mL), a especificidade do teste é de 99%. Devido à falta de ferro, a formação de hemoglobina é deficiente, fazendo que o conteúdo das hemácias seja pequeno, acarretando volumes corpusculares médios mais baixos e anisocitose importante, o que eleva o valor do red cell distribution width (RDW). Posteriormente, a formação dos eritrócitos continua, porém os níveis de ferro circulante e a saturação da transferrina caem, mostrando que não resta mais ferro para ser mobilizado. A Capacidade Total de Ligação do Ferro (CTLF) e a quantidade de receptor de transferrina solúvel aumentam, mostrando que os receptores do ferro estão “vazios”. Outros parâmetros menos utilizados no cotidiano, porém de valor acadêmico, são: receptor de transferrina solúvel, produzido pelos eritrócitos de forma aumentada na carência de ferro, conferindo a essas células maior capacidade de absorção do ferro, e protoporfirina eritrocitária livre, que reflete diretamente a substituição do ferro pelo zinco na formação do heme, estando aumentada nas ferropenias. A falta de ferro para formar Hb leva à formação de hemácias com pouco conteúdo (hipocromia: Hemoglobina Corpuscular Média – HCM – baixa), que, ao se adaptarem a essa situação, alcançam volumes corpusculares mais baixos (microcitose: Volume Corpuscular Médio – VCM – baixo), resultando em anisocitose importante e RDW aumentado. Nas formas mais severas, podem ser notadas formas bizarras das hemácias, apresentando poiquilocitose intensa. A contagem de reticulócitos está diminuída, pois a eritropoese também está. A contagem de plaquetas pode elevar-se em razão do aumento da secreção de eritropoetina (EPO) pela anemia. O padrão-ouro para a avaliação direta do estoque de ferro é a análise da medula óssea com pesquisa do ferro medular, por meio da coloração com azul da Prússia (Perls). Dessa forma, é possível avaliar semiquantitativamente o estoque de ferro nos macrófagos; porém, como sua aplicabilidade é limitada, opta-se por medidas indiretas; Deve-se sempre lembrar de investigar a causa: diante de ferropenia ou anemia ferropriva, sem causa aparente (hipermenorreia, gestação, adolescência ou infância), avaliar inicialmente: endoscopia digestiva alta e colonoscopia, caso não seja identificada nenhuma anomalia, avaliar intestino delgado (exame de imagem – tomografia de abdome e cápsula endoscópica). Quadro 3.3 - Perfil laboratorial da anemia ferropriva Quadro 3.4 - Principais causas de anemia ferropriva, de acordo com a faixa etária Diante de situações como gastroplastia redutora, gastrectomia, doença gastrintestinal inflamatória crônica, nas quais se suspeita de resposta insatisfatória com o tratamento com ferro por via oral devido à má absorção deste elemento, um dos métodos preconizados que pode ajudar a confirmar essa alteração é o teste de absorção intestinal do ferro por via oral. Nesse teste, é realizada a dosagem de ferro sérico em jejum, feita a ingestão de ferro elementar por via oral e, após cerca de 2 horas, é dosado novamente o nível de ferro sérico para comparação com o anterior. 3.2.5 Diagnóstico diferencial Outras causas de anemia hipocrômica microcítica devem ser consideradas na avaliação clínica. Contudo, a história e o exame físico geralmente são suficientes para confirmar o diagnóstico. São diagnósticosdiferenciais: a) Anemia de doença crônica; b) Talassemia; c) Anemia sideroblástica; d) Hemoglobinopatia C; e) Intoxicação por chumbo. É importante ressaltar que, no hipotireoidismo e na deficiência de vitamina C, existe diminuição de ferritina sem depleção dos estoques de ferro. 3.2.6 Tratamento A transfusão para a correção de anemia ferropriva deve ser reservada a quadros de instabilidade hemodinâmica por sangramento excessivo ou situações que apresentem sinais de isquemia tecidual/cor anêmico. Além de oferecer o aporte de ferro para o tratamento da deficiência subjacente, deve-se tratar a causa, ou seja, investigar a fonte de perda sanguínea e tratá-la, já que a persistência da perda é o principal motivo de manutenção e até piora da anemia ferropriva. É extremamente rara a necessidade de transfusão para a correção de anemia ferropriva, pois esta é de instalação lenta, e o organismo adapta-se a níveis bastante baixos de Hb. Deve ser reservada a quadros de instabilidade hemodinâmica por sangramento excessivo ou situações que apresentem sinais de isquemia tecidual/cor anêmico. A primeira opção para o tratamento da anemia ferropriva é o ferro oral, pois é de custo bastante baixo, de fácil administração e sem efeitos adversos graves. O ferro parenteral, por ser mais custoso, com necessidade de infusão em ambiente hospitalar e risco de reações adversas graves e até fatais, deve ser reservado para casos especiais. 3.2.6.1 Ferro oral Apesar do aparecimento de várias formas diferentes de ferro oral, o melhor tratamento para a deficiência continua a ser o sulfato ferroso na dose de 300 mg (60 mg de ferro elementar), 3 a 4x/d, que deve ser ingerido longe das refeições, para garantir o máximo aproveitamento. Em crianças, preconiza-se o uso de 2 mg/kg/d, procurando não ultrapassar 15 mg/d, para não aumentar a toxicidade. Os principais problemas no uso do sulfato ferroso são os possíveis efeitos colaterais: intolerância digestiva, com dispepsia, dor epigástrica, diarreia, constipação, gosto amargo na boca e escurecimento das fezes. Muitas vezes, conseguem-se controlar os efeitos adversos com a ingestão do medicamento junto às refeições, fracionamento ou redução da dose diária, lembrando, porém, que essas medidas podem reduzir o aporte terapêutico de ferro elementar em até 50%, resultando em maior tempo de tratamento. O aporte de ferro oral deverá ser mantido por, pelo menos, 4 a 6 meses após a normalização da Hb, para garantir a repleção dos estoques do mineral. Contudo, recomenda-se realizar nova dosagem de ferritina sérica após o término da reposição, a fim de confirmar a normalização das reservas, que devem estar acima de 50 ng/mL e com saturação de transferrina > 20%, deixando um intervalo de pelo menos 7 dias entre a última dose da medicação e a coleta do exame, já que a ingesta de suplementos de ferro é a principal causa de resultados falsamente normais de ferro sérico e ferritina. Algumas vezes, pode ser necessário manter o aporte de ferro oral por mais tempo, principalmente quando a causa da deficiência ainda não foi resolvida ou ultrapassada. Atualmente, existe o ferro quelato ou quelatado, superior ao sulfato ferroso quanto às queixas de intercorrências gastrintestinais, pois não ocorre liberação de íons ferro no trato gastrintestinal, como acontece com o uso de outros sais de ferro, o que pode estar relacionado ao fato de a absorção desse tipo acontecer principalmente no jejuno. A eficácia da reposição pode ser avaliada por meio do pico reticulocitário, que ocorre de 5 a 7 dias após o início do tratamento, e pela elevação de Hb, em 3 semanas, de pelo menos 2 g/dL (0,2 g/dL/d). Em casos de refratariedade ao tratamento, deve-se pensar em dose inadequada da medicação prescrita, falta de adesão, falta de absorção e persistência da causa da ferropenia. 3.2.6.2 Ferro parenteral O grau de anemia não faz parte das indicações de ferro parenteral; assim, mesmo que o paciente esteja com baixos níveis de hemoglobina, se não estiver sintomático a ponto de realizar transfusão de hemácias e não houver nenhuma contraindicação ao uso de ferro oral, opta-se por essa modalidade de reposição. Em virtude de efeitos adversos graves (choque anafilático em 1% dos casos), a administração de ferro parenteral deve ser reservada a casos estritos: a) Na intolerância ao ferro oral, apesar da alteração da posologia ou da mudança na apresentação; b) Na falta de absorção do ferro oral, como em alguns casos pós- gastrectomia; c) Na vigência de doença gastrintestinal (como as doenças inflamatórias intestinais), pois pode haver piora dos sintomas; d) Nos casos em que há perda intensa, com o ferro oral não sendo suficiente para suprir as necessidades; e) Pacientes em hemodiálise, que apresentam perdas constantes pelo procedimento e pelo déficit de absorção intestinal. Até pouco tempo, a única apresentação comercial de ferro parenteral no Brasil era o sacarato de hidróxido de ferro III (Noripurum®), que se encontra em formulação tanto para aplicação intramuscular quanto para infusão intravenosa após diluição, sendo preferível esta última. A administração de ferro intramuscular é dolorosa, de absorção lenta e incompleta, podendo impregnar-se na região da aplicação, e não é menos tóxica ou mais segura do que a outra administração, estando atualmente proscrito o seu uso rotineiro. O déficit de ferro é calculado pela determinação do decréscimo em massa de células vermelhas do sangue normal, reconhecendo que há 1 mg de ferro em cada mL de células vermelhas do sangue. Foi lançada no mercado uma apresentação de ferro para uso intravenoso, a carboximaltose férrica (Ferinject®), a qual propicia mais comodidade e apresenta posologia e cálculo de dose que levam em conta somente o peso do paciente. Ela oferece excelentes resultados, porém com maior custo para aquisição. 3.3 ANEMIA MEGALOBLÁSTICA A anemia megaloblástica é um distúrbio provocado pela síntese comprometida do DNA. A divisão celular é lenta, em razão da inadequada conversão de desoxiuridilato em timidilato. O desenvolvimento citoplasmático progride normalmente, de modo que as células megaloblásticas tendem a ser grandes, com proporção aumentada de RNA e proteínas em relação ao DNA. O aspecto das células é característico, e o termo megaloblástico refere-se às anormalidades que aparecem nos núcleos celulares dos precursores eritroides, com a presença de grandes núcleos com cromatina rendilhada, traduzida no sangue periférico pelo encontro de macro- ovalócitos. Existem 4 tipos etiológicos de anemia megaloblástica: por deficiência de cobalamina (Cbl – vitamina B12), por deficiência de folato, por drogas e por alterações variadas, que incluem síndrome mielodisplásica, formas raras de deficiências enzimáticas e doenças ainda inexplicáveis, como a síndrome de Lesch-Nyhan. Existem 4 tipos etiológicos de anemia megaloblástica: por deficiência de cobalamina, por deficiência de folato, por drogas e por alterações variadas. As alterações morfológicas afetam todas as linhagens, inclusive a granulocítica e a megacariocítica, podendo ocorrer pancitopenia. 3.3.1 Anemia por deficiência de vitamina B12 3.3.1.1 Considerações gerais A vitamina B12 pertence à família das Cbls e atua em 2 reações importantes: 1. Como metil-Cbl: coenzima da metionina sintetase, que catalisa a transferência do radical metil da metil-Cbl para a homocisteína, formando a metionina, importante na metilação de vários neurotransmissores, fosfolipídios, DNA e RNA. O grupo metil do 5- metiltetra-hidrofolato restabelece a metil-Cbl, doando seu radical metil, o que resulta na formação do tetra-hidrofolato, importante para a síntese de timidilato; 2. Como adenosil-Cbl: cofator para a conversão da metilmalonil- coenzima A em succinil-coenzima A. Figura 3.7 - Papel da metilcobalamina no metabolismo humano Legenda: tetra-hidrofolato (THF). Fonte: elaborado pelos autores. 3.3.1.2 Fisiopatologia A vitamina B12 é encontrada somente em produtos de origem animal (carnes, ovos e derivados do leite),e toda aquela presente no corpo humano provém da dieta. A dose necessária diária é de 2 µg/d para adultos e 2,6 µg/d para gestantes e lactentes. A reserva é de 2.000 a 5.000 mg, sendo metade estocada no fígado. Dessa maneira, desde que o consumo diário esteja entre 2 e 5 µg, a carência pode levar mais de 3 anos para estabelecer-se após a instalação de um bloqueio de absorção. A Cbl da dieta está ligada a proteínas alimentares, precisando sofrer ação da acidez e pepsina do estômago para ser liberada e ligada à proteína R (ou haptocorrina), produzida pela saliva e pelo suco gástrico. A combinação proteína R + B12 impede a absorção da vitamina em meio gástrico. Proteases do suco pancreático produzem meio alcalino no duodeno e liberam o ligante da B12, disponibilizando-o para ligar-se ao Fator Intrínseco (FI), secretado pelas células parietais do fundo gástrico e da cárdia. Vitamina B12 + FI são absorvidos no íleo distal (99%), por meio do complexo receptor cubilina-AMN, que é dependente de cálcio. Posteriormente, a Cbl é transportada através do plasma pelas trans- Cbls e estocada, principalmente, no fígado. As trans-Cbls são proteínas de transporte de vitamina B12 e, até o momento, foram identificados 3 tipos dessa proteína: I, II e III, cada qual com um local de síntese diferente e variações na estrutura de glicoproteínas. Aproximadamente 90% da B12 plasmática circula ligada às trans- Cbls, porém apenas a trans-Cbl II tem a capacidade de transportar a vitamina para o interior das células. Uma vez dentro das células, a Cbl é metabolizada em metil-Cbl e adenosil-Cbl. Dessa maneira, para a absorção adequada da vitamina B12, são necessários os seguintes fatores: a) Ingesta adequada; b) Acidez gástrica; c) Proteases pancreáticas; d) Secreção de FI; e) Receptor ileal funcionante. Figura 3.8 - Absorção de vitamina B12 Fonte: ilustração Claudio Van Erven Ripinskas. A principal consequência da deficiência de cobalamina é o aumento da homocisteína, o que é tóxico ao endotélio, podendo acelerar a arteriosclerose e causar tromboembolismo venoso. Pela síntese inadequada de THF, ocorre eritropoese ineficaz, ou seja, a medula óssea é repleta de precursores, porém, no sangue periférico, há reticulocitopenia relativa e anemia, em consequência de hemólise intramedular por formação de precursores alterados. 3.3.1.3 Causas de deficiência As principais causas de deficiência de vitamina B12 são: anemia perniciosa; gastrectomia/cirurgia bariátrica; doença péptica; ressecção/bypass ileal; doença de Crohn/má absorção; síndrome da alça cega; insuficiência pancreática; dieta vegetariana vegana; gestante vegetariana; medicamentos que alteram a síntese de DNA, como biguanida, neomicina, 6-mercaptopurina e agentes alquilantes (ciclofosfamida); inibidor da bomba de prótons. a) Deficiência de ingesta Uma vez que a vitamina está presente em todos os alimentos de origem animal, a deficiência por ausência de ingesta é raríssima, podendo afetar os considerados vegetarianos veganos (que não ingerem ovos nem produtos lácteos). b) Deficiência de absorção As cirurgias de gastrectomia podem causar deficiência de B12 pela retirada da camada de mucosa produtora de FI, pela diminuição da produção do suco gástrico e pela ocorrência da chamada “síndrome da alça cega”, em que o crescimento bacteriano excessivo leva à competição pela vitamina no lúmen intestinal. Ileostomias em que a porção absorvedora de B12 é retirada também provocam carência. Uma causa rara de deficiência de B12, porém frequentemente citada, é a infestação por Diphyllobothrium latum, um parasita que afeta peixes de águas frias. Essa larva atua competindo com a absorção da vitamina. Na pancreatite e na doença de Crohn grave, há deficiência por retardo da absorção no íleo. Outras doenças que afetam a região de absorção ileal, como tuberculose intestinal, linfoma intestinal e irradiação pélvica, também são fatores que levam à falta da vitamina. Além disso, há relatos entre portadores de Helicobacter pylori, nos quais o tratamento deste supre a deficiência da vitamina. c) Deficiência de fator intrínseco A causa mais comum de deficiência de B12 é a chamada anemia perniciosa, doença autoimune que dificilmente se manifesta antes da idade adulta. O FI diminui por meio de 2 mecanismos principais: 1. Anticorpos antifator intrínseco: detectáveis em 70% dos pacientes com anemia perniciosa, possuem 100% de especificidade; 2. Gastrite atrófica: associada ao anticorpo anticélula parietal (detectável em até 90%), diminuindo a secreção do FI. É mais sensível do que o anticorpo antifator intrínseco, porém menos específico. A gastrite atrófica também está associada ao risco aumentado de neoplasia gástrica e tumor carcinoide gástrico, recomendando-se vigilância com endoscopia anual. Geralmente, a anemia perniciosa associa-se a outras alterações imunológicas, como deficiência de IgA, vitiligo, hipotireoidismo e insuficiência endócrina poliglandular. As causas hereditárias são muito raras, mas podem acontecer por secreção de FI qualitativamente deficiente, mutação do gene do receptor ileal cubilina-AMN e deficiência congênita de trans-Cbl. 3.3.1.4 Quadro clínico Há relato de sintomas relacionados à anemia, geralmente grave, podendo ocorrer também sangramentos quando se instala plaquetopenia. Como a síntese de DNA alterada afeta todos os tecidos com alto turnover, o estado megaloblástico produz mudanças nas mucosas, levando à glossite, assim como a outros distúrbios gastrintestinais inespecíficos, por exemplo, anorexia e diarreia. As manifestações neurológicas associadas incluem polineuropatia, mielopatia, demência e neuropatia óptica. Ocorre também síndrome neurológica complexa e característica chamada “degeneração combinada subaguda”, em que os nervos periféricos geralmente são os primeiros afetados, com queixas iniciais de parestesia simétrica, acometendo mais os membros inferiores do que os superiores. As colunas posteriores da medula espinal começam a sofrer lesão, e os pacientes queixam-se de alterações sensoriais mais graves, caracteristicamente com redução da propriocepção, apresentando ataxia e, nos casos mais severos, paraplegia, incontinência urinária e fecal. Em casos mais avançados, podem ocorrer alterações neuropsiquiátricas e até demência. Os sintomas neurológicos podem aparecer independentemente da anemia; na verdade, de 12 a 25% daqueles com carência de B12 podem evoluir com sintomas neurológicos apenas, sem alteração hematológica. A reposição de folato é capaz de corrigir a anemia, porém não afeta o quadro neurológico ou há até piora deste, nos casos de deficiência de B12. Não é incomum, em pacientes com anemia perniciosa, o diagnóstico de outras doenças autoimunes, como tireoidite de Hashimoto e vitiligo. Ao exame físico, encontram-se palidez e, às vezes, icterícia leve. Durante o exame neurológico, redução da sensação vibratória e da propriocepção pode estar presente, sendo o primeiro sinal de neuropatia periférica. Constitui quadro clássico: pessoa idosa, levemente ictérica e pálida, com língua careca, mentalmente lenta e com passos largos e trôpegos. 3.3.1.5 Alterações laboratoriais A anemia megaloblástica caracteriza-se por macrocitose com VCM aumentado, que pode chegar a 140 fL. A associação à deficiência de ferro não é rara; nesse caso, o VCM pode estar normal ou até diminuído. No esfregaço de sangue periférico, nota-se anisopoiquilocitose acentuada, e o achado característico são os macro-ovalócitos. Os neutrófilos maduros mostram hipersegmentação nuclear (5% com 5 segmentos ou mais, ou 1% com 6 segmentos ou mais – polilobócitos). A contagem de plaquetas e granulócitos pode estar reduzida, e os reticulócitos estão baixos. A morfologia eritroide medular é característica, com hiperplasia eritroide como resposta à produção vermelha ineficaz, e há células grandes, com assincronia de maturação do núcleo e do citoplasma (já que o citoplasma continua a amadurecer, mas o núcleo, pelo defeito de síntese de ácidos nucleicos, retardasua progressão). Na série granulocítica, além dos polilobócitos, podem ser vistos metamielócitos gigantes. A combinação de macro-ovalócitos e neutrófilos hipersegmentados é patognomônica de anemia megaloblástica. Figura 3.9 - Neutrófilo hipersegmentado Fonte: adaptado de Kantarose Boonyuen. Como resultado da eritropoese ineficaz e da destruição intramedular das células anômalas, os níveis séricos de bilirrubinas (principalmente de bilirrubina indireta secundária à hemólise intramedular) e desidrogenase láctica podem elevar-se, com aumento discreto das primeiras e pronunciado da segunda. O diagnóstico de deficiência de vitamina B12 é feito pela dosagem da vitamina no sangue, que deverá estar baixa, desde que o paciente não tenha recebido recentemente aporte exógeno da vitamina. É comum encontrar deficiência de B12, mas com níveis séricos normais, por terem recebido hidratação venosa ou suplementos vitamínicos contendo complexo B. A dosagem sérica da vitamina sofre várias limitações: gestantes com níveis diminuídos sem deficiência, variação individual ampla, alguns com dosagem normal diante do quadro de deficiência; portanto, em casos de dosagem normal de vitamina B12, mas com quadro clínico e hemograma altamente suspeitos, podem-se dosar homocisteína sérica e ácido metilmalônico sérico e urinário (todos estarão aumentados). Essas dosagens são atualmente o padrão-ouro para diagnóstico, tanto que valores normais desses metabólitos intermediários, mesmo com dosagens diminuídas de B12, excluem diagnóstico de anemia megaloblástica. Para o diagnóstico da anemia perniciosa, podem-se dosar o anticorpo antifator intrínseco (especificidade > 95%, mas sensibilidade de 50 a 70%), o anticorpo anticélula parietal (encontrado em 80 a 90% dos pacientes, mas específico para gastrite autoimune) e o anticorpo de dosagem sérica de gastrina (bastante sensível – 90 a 95% –, mas pouco específico). 3.3.1.6 Diagnóstico diferencial Deve-se, primeiramente, diferenciar a deficiência de B12 da deficiência de folato, pela semelhança dos quadros clínico e laboratorial, embora possa haver concomitância. Afastar também a mielodisplasia, capaz de causar alterações morfológicas medulares bem semelhantes, mas sem haver concomitantemente queda dos níveis de B12 (normais na mielodisplasia) nem quadros neurológicos associados. Pelo quadro de pancitopenia que pode acontecer, deve-se diferenciar de anemia aplásica e leucemias agudas. 3.3.1.7 Tratamento Os pacientes com anemia perniciosa são tratados com aporte parenteral de vitamina B12, sugerindo o uso diário de injeção de 1.000 µg IM. O esquema proposto é de 1 injeção/d por 1 semana; após, 1 injeção/sem durante 1 mês; e, depois, 1x/mês por toda a vida. Pode- se, em alguns casos, utilizar a manutenção com Cbl oral de forma alternativa, 1.000 µg/d, continuamente. Também se deve evitar o uso de folato antes do início da reposição da vitamina, pois pode agravar o quadro neurológico. O primeiro sinal de resposta é sensação inespecífica de bem-estar, seguida da redução dos outros sintomas. Já no segundo dia do tratamento, há queda importante de ferro sérico, bilirrubina e desidrogenase láctica, além da normalização das alterações encontradas na medula óssea. Pode acontecer hipocalemia nos primeiros dias de tratamento, principalmente se a anemia é muito grave, pelo aumento da utilização para a eritropoese. Espera-se aumento de contagem reticulocitária em 3 a 4 dias de tratamento, com pico entre o sétimo e o décimo dia. Os neutrófilos hipersegmentados desaparecem ao redor do décimo ao décimo quarto dia. E a normalização hematológica acontece em torno de 2 meses após o início da terapêutica. Os sintomas do sistema nervoso central são reversíveis em até 12 meses, caso haja pouco tempo de evolução (menos de 6 meses), mas podem ficar sequelas permanentes, caso o tratamento não seja iniciado prontamente. 3.4 ANEMIA POR DEFICIÊNCIA DE ÁCIDO FÓLICO 3.4.1 Considerações gerais O Ácido Fólico (AF) está presente na maioria dos vegetais e das frutas, principalmente nos cítricos e nas folhas verdes, na forma de poliglutamato, sendo hidrolisado em monoglutamato no jejuno, onde é absorvido. As necessidades diárias variam entre 50 e 100 µg, aumentando na gestação até 8 vezes. Os estoques corpóreos de folato alcançam cerca de 5.000 µg, nível suficiente para suprir os requerimentos orgânicos por 2 a 3 meses. Os folatos constituem um grupo de compostos heterocíclicos nos quais o ácido pteroico está conjugado com um ou diversos resíduos de ácido L-glutâmico. O AF, para ser biologicamente ativo, necessita sofrer redução, passando pelas formas intermediárias de diidrofolato e THF, por meio da enzima diidrofolato redutase. Pode, ainda, ligar unidades de carbono, que inclui grupos metil (CH3), metileno (CH2), formil (-CHO-) ou formimino (-CHNH-), conferindo ao folato a função de coenzima, em vários sistemas enzimáticos, como carreador dessas unidades de carbono em diferentes graus de oxidação. Os folatos podem ser absorvidos ao longo de todo o intestino delgado, preferencialmente no jejuno. Para sua absorção, os poliglutamatos necessitam ser hidrolisados em monoglutamatos pela enzima intestinal pteroilpoliglutamato hidrolase. Uma vez absorvidos, os folatos monoglutamatos podem ser convertidos em 5-metiltetra-hidrofolato (5-metil-THF), principal forma encontrada no plasma, onde é transportado para o fígado e os tecidos periféricos via circulação porta. O folato é estocado principalmente no fígado e secretado na bile, onde a circulação êntero-hepática será responsável por sua reabsorção e reutilização, diminuindo as perdas orgânicas. A importância dessa vitamina está na participação de reações de transferência de unidades de carbono, como reações de metilação, síntese de metionina, biossíntese de purinas e formação de timidilato (fundamentais para a síntese do DNA). 3.4.2 Causas da deficiência A principal causa de deficiência é falha na ingesta: pessoas anoréxicas, etilistas crônicas, aquelas que não ingerem frutas ou vegetais crus e as que cozinham demasiadamente os alimentos (o AF é termolábil, destruído após 15 minutos de cozimento). O alcoolismo crônico pode resultar em deficiência de folato por diminuição da ingesta alimentar, da circulação êntero-hepática e bloqueio da absorção pela inibição direta do álcool sobre a enzima pteroilpoliglutamato hidrolase. Raramente é vista a deficiência por déficit de absorção. O AF é absorvido no jejuno proximal, por isso a deficiência pode ocorrer principalmente em indivíduos com síndromes disabsortivas crônicas (espru tropical). Existem condições em que os requerimentos diários de folato aumentam intensamente, podendo levar aos quadros carenciais, como na gestação, nas doenças esfoliativas cutâneas crônicas e nas anemias hemolíticas. É muito importante o suplemento durante a gestação, para prevenir malformação fetal, como os defeitos de tubo neural (anencefalia e espinha bífida). Drogas como a fenitoína, que pode interferir na absorção do folato, a sulfassalazina, o sulfametoxazol-trimetoprima (inibidores fracos da diidrofolato redutase) e o metotrexato (inibidor forte da diidrofolato redutase) levam à diminuição da síntese de DNA (diminui a síntese de timidilato) e provocam anemia megaloblástica por deficiência funcional. Paciente em esquema de hemodiálise por Insuficiência Renal Crônica (IRC) pode apresentar deficiência de AF por este ser dialisável, logo, perdido durante as múltiplas sessões às quais é submetido. 3.4.3 Quadros clínico e laboratorial O quadro é semelhante ao da deficiência de vitamina B12, com as mudanças megaloblásticas e as alterações de mucosa, porém não se apresenta quadro neurológico associado. Acontece também a elevação da desidrogenase láctica e das bilirrubinas, porém a dosagem de B12 é normal. O AF sérico está abaixo de 3 ng/mL. Os níveis eritrocitários são mais específicos do que a dosagem no soro, contudo esse é um exame de maior complexidade e menor disponibilidade. Em caso de dúvida diagnóstica, pode-seobservar aumento da homocisteína sérica e urinária, mas, diferentemente do que ocorre na deficiência de vitamina B12, a dosagem do ácido metilmalônico está normal. Quadro 3.5 - Dosagem de metabólitos intermediários 3.4.4 Diagnóstico diferencial Os principais diagnósticos diferenciais de causas de macrocitose são: a) Drogas; b) Alcoolismo/doença hepática alcoólica; c) Hipotireoidismo; d) Mieloma múltiplo (falsa macrocitose); e) Síndrome mielodisplásica; f) Anemia aplásica; g) Leucemias agudas. 3.4.5 Tratamento Utiliza-se AF oral na dose de 1 a 5 mg/d (a maioria das formas comerciais disponíveis no Brasil é de 2 ou 5mg), e espera-se resposta rápida. O tratamento deverá ser continuado até a completa recuperação hematológica ou durante todo o período de aumento da demanda, quando for o caso. 3.5 ANEMIA DE DOENÇA CRÔNICA 3.5.1 Considerações gerais e fisiopatologia A Anemia de Doença Crônica (ADC) é a etiologia mais frequente de anemia entre indivíduos hospitalizados, pois a maioria das doenças sistêmicas crônicas associa-se a quadros de anemia leve ou moderada. Nessa condição, há resposta hematológica insuficiente perante as injúrias sistêmicas dos mais variados tipos, como inflamação, infecção, trauma, neoplasia, hepatopatia alcoólica, insuficiência cardíaca congestiva, diabetes, trombose, doença pulmonar obstrutiva crônica, insuficiência renal, entre outros. Quanto à fisiopatologia, os principais mecanismos que levam à anemia são: 1. Distúrbio na hemostasia do ferro: é o principal mecanismo fisiopatológico; há diminuição na captação e aumento no armazenamento pelo sistema reticuloendotelial, diminuindo o nível sérico do ferro e a disponibilização para os precursores eritroides, com consequente queda do ferro sérico e aumento dos níveis de ferritina; 2. Diminuição da sobrevida e produção eritrocitária: ocorre pela ação de interleucinas, que inibem a proliferação e a diferenciação de precursores eritroides, e pela falha da medula óssea em compensar adequadamente essa redução; 3. Diminuição relativa dos níveis de EPO: embora esta esteja pouco aumentada quando da dosagem, seu nível não é suficiente para aumentar a eritropoese, provavelmente por elevação da apoptose dos precursores eritroides. A hepcidina, já citada, tem sua liberação aumentada diante de quadros infecciosos e inflamatórios, particularmente com liberação de interleucina 6 (IL-6). Tal proteína provoca a retenção do ferro dentro dos macrófagos, impedindo o retorno do ferro estocado à circulação e bloqueando também a passagem daquele presente nos enterócitos para a circulação (inibe a ferroportina), os quais perdem esse metal ao sofrerem a descamação fisiológica. A hepcidina aumentada nos quadros infecciosos e inflamatórios, e o aumento das interleucinas IL-1, IL-6, fator de necrose tumoral e alfainterferona, que diminuem a responsividade da medula óssea à eritropoetina, têm papel importante no desenvolvimento da anemia de doença crônica. Aparentemente, níveis mais elevados de EPO e aumento do estímulo de eritropoese levam à redução da síntese de hepcidina e ao aumento da disponibilidade do ferro. A administração de EPO em doses maiores também pode inibir o efeito de interleucinas, particularmente de alfainterferona. Existe uma variante da ADC, que é a anemia relacionada a eventos agudos: trauma, infarto agudo do miocárdio, pós-cirúrgico e sepse – é a chamada “anemia do doente crítico”, que apresenta a mesma fisiopatologia de baixo ferro sérico e baixa resposta à EPO endógena. Figura 3.10 - Fisiopatologia da anemia de doença crônica Fonte: elaborado pelos autores. 3.5.2 Sinais e sintomas Os achados clínicos são em geral modestos, correlacionados usualmente com a doença de base, devendo-se suspeitar do diagnóstico quando o paciente é portador conhecido de alguma patologia crônica; entretanto, a confirmação será feita somente com os achados laboratoriais. Deve-se investigar a coexistência de causas de deficiência nutricional concomitante, por déficit de ingesta, sangramento ou disabsorção, e observar a presença de sinais/sintomas sugestivos das carências. A sintomatologia é de anemia, e o quadro específico da doença de base pode dificultar o diagnóstico. 3.5.3 Quadro laboratorial A anemia é de intensidade variável. Muitos pacientes apresentam valor de Hb entre 10 e 11 g/dL, mas alguns casos podem ter anemia grave, com Hb < 8 g/dL (até 30% dos casos). Em pacientes com esse tipo de anemia, é sempre importante afastar outras causas de anemia concomitante: insuficiência renal, carência nutricional ou sangramento. A prevalência e a severidade estão relacionadas ao estágio da doença de base e à idade do paciente. A morfologia eritrocitária é normocítica/normocrômica, e a contagem reticulocitária está diminuída como resultado da eritropoese diminuída. Em 30% dos casos, a anemia pode ser hipocrômica e microcítica, especialmente quando em associação à anemia ferropriva. O estudo do perfil de ferro completo demonstra: a) Ferro sérico baixo, às vezes chegando a níveis mínimos; b) CTLF baixa, refletindo o nível de transferrina diminuído; c) Saturação de transferrina normal (mas em 20% dos casos pode estar diminuída); d) Dosagem de receptores de transferrina solúveis diminuída; e) Ferritina normal ou elevada, por tratar-se de proteína de fase aguda e pelo aumento dos estoques de ferro; f) Pesquisa do ferro medular revelando quantidade normal ou aumentada de ferro nos macrófagos e diminuída ou ausente nos precursores eritroides (diminuição ou ausência dos sideroblastos). Substâncias que sugerem atividade inflamatória elevada, como a proteína C reativa, velocidade de hemossedimentação e fibrinogênio, podem estar elevadas. A ADC é um diagnóstico de exclusão, e sempre se devem investigar outras causas de anemia, principalmente as nutricionais. 3.5.4 Diagnóstico diferencial A ADC é uma anemia normocítica e normocrômica, hipoproliferativa e com as demais linhagens celulares normais, tendo como principal diagnóstico diferencial a anemia da insuficiência renal. Outras situações que podem cursar com quadro semelhante são as anemias secundárias às doenças endócrinas graves: hipotireoidismo, hiperparatireoidismo, insuficiência adrenal e mesmo pan- hipopituitarismo. Nas poucas vezes em que a ADC se apresenta como anemia hipocrômica e microcítica, o diagnóstico diferencial mais difícil é da anemia ferropriva. Há de ressaltar que as 2 entidades apresentam ferro sérico diminuído; na anemia ferropriva, porém, existe déficit absoluto de ferro por depleção; já na ADC, existe menor disponibilidade desse íon, que se encontra sequestrado nos estoques teciduais. Assim, os exames mais fidedignos para diferenciar as 2 situações são pesquisa do ferro medular, que, na carência de ferro, está ausente, e dosagem do receptor de transferrina, que está aumentada na ferropriva e diminuída na ADC. A quantificação da CTLF também é um dado importante, pois está aumentada na ferropriva e diminuída na ADC. Deve-se estar atento para o fato de que as 2 situações podem coexistir. Entretanto, na rotina clínica, lança-se mão da ferritina, que usualmente está aumentada na ADC e diminuída na anemia ferropriva. Outros diagnósticos diferenciais de anemia hipocrômica e microcítica: talassemia, anemia sideroblástica, deficiência de cobre, intoxicação por chumbo e hemoglobinopatia C. Quadro 3.6 - Diferenciação entre anemia ferropriva e anemia de doença crônica 3.5.5 Tratamento Na anemia de doença crônica, o tratamento deve ser da doença de base em si, uma vez que a anemia geralmente é discreta e não necessita ser tratada. Em casos mais graves, ou nos quais a doença de base é de tratamento mais difícil, podem ser necessárias transfusões de concentrados de hemácias quando a oxigenação tissular for muito prejudicada. Sangramento, deficiência de vitamina B12, folato e ferro devem ser corrigidos, caso presentes. A EPO recombinante injetável, indicada a pacientes com Hb < 10 g/dL, apresenta boa resposta em 40 a 80% dos casos. O nível sérico de EPO < 500 UI/Lé um bom preditor de resposta. Em 2 semanas de tratamento com EPO, espera-se a elevação de, ao menos, 0,5 g/dL de Hb, com a dose de EPO de 100 a 150 UI/kg, 3x/sem. Se não houver resposta em 6 a 8 semanas, aumentar a EPO para 300 UI/kg, 3x/sem. Se não houver resposta em 12 semanas, suspender e manter apenas suporte transfusional quando necessário. Deve-se fazer reposição de ferro oral concomitante para manter a ferritina > 100 ng/dL e a saturação de transferrina > 20%. Se não houver melhora dos níveis de ferro com a apresentação oral, utilizar ferro parenteral (a hepcidina elevada diminui a absorção intestinal do ferro). De maneira geral, a reposição de ferro somente é indicada a casos de concomitância com anemia ferropriva ou refratariedade ao uso de agentes eritropoéticos por depleção férrica. 3.6 ANEMIA DA INSUFICIÊNCIA RENAL CRÔNICA Na IRC, o grau de anemia é proporcional ao grau de insuficiência renal, de modo que aproximadamente 90% da população com clearance de creatinina < 25 a 30 mL/min apresenta anemia, muitas vezes, com valor de hemoglobina (Hb) < 10 g/dL. A anemia pode, ainda, surgir mesmo com menores valores de creatinina, como 2 mg/dL. No paciente com IRC, a anemia contribui para a piora dos sintomas relacionados à diminuição da função renal, como fadiga, depressão, dispneia e alteração cardiovascular. Também está associada ao aumento da morbimortalidade por eventos cardiovasculares e maiores frequência e duração das hospitalizações. A fisiopatologia da anemia na IRC pode ser explicada por 3 mecanismos: a) Diminuição da produção de EPO; b) Presença de produtos tóxicos metabólicos que diminuem a meia- vida do eritrócito e inibem sua produção (baixa responsividade à EPO); c) Sangramentos (disfunção plaquetária), hemólise e espoliação. Coletas de exame frequentes, associadas à perda de hemácias durante a hemodiálise, causam espoliação crônica de sangue e depleção de ferro. Mais raramente, em pacientes com síndrome nefrótica, pode ocorrer perda de transferrina (proteína carreadora do ferro) na urina, comprometendo o ciclo do ferro e contribuindo para a anemia. A diálise pode contribuir para a anemia por meio de depleção de AF (dialisável no procedimento); hemólise por trauma mecânico; presença de alumínio na água do banho de diálise, que pode interferir na incorporação do ferro aos precursores eritroides, causando anemia microcítica, além da perda de pequena quantidade de sangue, que fica retido no circuito a cada sessão. Na avaliação laboratorial, encontra-se anemia normocrômica e normocítica leve, na maioria dos casos, com Hb em torno de 9 a 10 g/dL (apesar da possibilidade, em até 30% dos casos, de anemia mais intensa, abaixo de 8 g/dL), com reticulócito normal ou diminuído. Deve ser feita a dosagem do perfil completo de ferro ao diagnóstico da anemia e na monitorização durante todo o tratamento. O tratamento é feito com a reposição de EPO recombinante, na dose de 150 UI/kg SC, 3x/sem. O valor-alvo de Hb desejado com o tratamento é de 10 a 12 g/dL (nunca excedendo 13 g/dL), o que ocorre em mais de 95% dos casos, indicando que a ação dos outros mecanismos na diminuição da eritropoese é mínima. Casos de resistência a EPO decorrem de ferropenia, processo inflamatório/infeccioso associado, hiperparatireoidismo secundário à IRC ou intoxicação por alumínio. Como raros efeitos adversos da EPO, podem-se ter hipertensão arterial, crise convulsiva, eventos cardiovasculares e trombose, principalmente de fístula arteriovenosa. Recomenda-se a reposição de AF e ferro, com controle periódico do perfil deste, que deve manter valores de ferritina entre 200 e 500 µg/L e/ou saturação de transferrina entre 20 e 50%. Para pré- dialíticos ou em diálise peritoneal, a reposição de ferro pode ser feita via oral ou parenteral; para aqueles em hemodiálise, a reposição é feita com ferro parenteral. 3.7 ANEMIAS DAS DOENÇAS ENDÓCRINAS O sistema endócrino age direta ou indiretamente sobre a hematopoese, sendo alguns distúrbios responsáveis por quadro de anemia, que pode ser normo, macro ou microcítica. As principais doenças endócrinas que podem cursar com anemia são: hipo/hipertireoidismo (causa mais comum); hipoaldosteronismo (doença de Addison); hiperparatireoidismo; deficiência androgênica. O tratamento consiste em tratar a doença de base. 3.8 ANEMIAS SIDEROBLÁSTICAS 3.8.1 Considerações gerais As anemias sideroblásticas, congênitas ou adquiridas, compõem um grupo heterogêneo de doenças nas quais há o comprometimento da síntese de Hb, em virtude da falha na síntese de protoporfirina, que, junto ao ferro, forma o núcleo heme da Hb. O metabolismo do heme ocorre nas mitocôndrias e, dessa forma, como está deficiente, o ferro pode acumular-se particularmente nas mitocôndrias dos eritroblastos e macrófagos. A anemia sideroblástica hereditária mais comum é ligada ao X, de baixa incidência e de manifestação precoce. Nessa forma, há deficiência da enzima ácido aminolevulínico sintetase, necessária para a formação da protoporfirina. As formas adquiridas são mais comuns e ocorrem por alcoolismo, toxicidade por drogas (cloranfenicol e agentes antituberculose), intoxicação por chumbo, deficiência de cobre e, mais frequentemente, como manifestação de uma desordem medular (clonal) em célula-tronco hematopoética, a mielodisplasia ou síndrome mielodisplásica, capaz de evoluir para leucemia aguda. Figura 3.11 - Formação do heme Legenda: succinil-coenzima A (SCoA); ácido delta-aminolevulínico (ALA). Fonte: elaborado pelos autores. 3.8.2 Quadros clínico e laboratorial Não há sintomas clínicos além dos relacionados à anemia, que geralmente é moderada, com níveis de Hb entre 7 e 9 g/dL. O diagnóstico é feito por meio do exame da medula óssea, que mostra sinais de eritropoese ineficaz (ou seja, hiperplasia eritroide medular que não se traduz em aparecimento de reticulócitos no sangue periférico) e deficiência na maturação citoplasmática. A coloração de ferro medular pelo corante azul da Prússia, ou coloração de Perls, mostra aumento generalizado nos depósitos de ferro. Em algumas situações, podem-se encontrar sideroblastos “em anel” (depósitos de ferro ao redor do núcleo do eritroblasto). Os níveis séricos de ferro e ferritina e a saturação de transferrina estão elevados, revelando a sobrecarga daquele. 3.8.2.1 Hereditária A anemia aparece nos primeiros meses de vida; pode haver esplenomegalia. Apresenta microcitose e hipocromia, devendo haver diferenciação da anemia ferropriva e das talassemias. 3.8.2.2 Adquirida Tende a ser macrocítica, com subpopulação microcítica. Pode apresentar leucopenia e/ou plaquetopenia. No caso da intoxicação por chumbo, o pontilhado basófilo eritroide é característico, e os níveis séricos desse metal estão acima do normal. Figura 3.12 - Sideroblastos “em anel” pela coloração de Perls Fonte: Avaliação da importância da coloração de Perls na rotina de mielogramas de pacientes com anemia associada a uma ou mais citopenias em sangue periférico, 2005. 3.8.3 Tratamento O tratamento é dependente da causa-base. Quando a etiologia é secundária ao uso de drogas, a retirada delas é suficiente. Na intoxicação por chumbo, está indicada a quelação do metal pesado. Na deficiência de cobre, deve ser feita a suplementação do metal. No alcoolismo, deve ser orientada a suspensão da ingesta alcoólica e feita suplementação vitamínica com AF e vitamina B6. Na mielodisplasia, alguns pacientes têm demonstrado resposta ao uso de piridoxina (vitamina B6, necessária para as etapas iniciais da síntese do heme), porém a maioria dos casos não responde a tal terapêutica, sendo necessário tratamento quimioterápico e, quando possível, transplante de células-tronco hematopoéticas. Na forma hereditária, há ótima resposta com a reposição de piridoxina. O uso de EPO pode ser eficaz em alguns casos; por sua vez, o suporte transfusional depende da sintomatologia de cada paciente e pode ser necessário por toda a vida nas displasias. Por fim, os níveis de ferro devem ser monitorizados, e a quelaçãodeve ser indicada àqueles com ferritina > 1.000 µg/mL. 3.9 APLASIA PURA DA SÉRIE VERMELHA 3.9.1 Considerações gerais A Aplasia Pura da Série Vermelha (APSV) descreve uma condição em que somente os precursores eritroides na medula estão praticamente ausentes. As formas congênitas mais frequentes são doenças crônicas, muitas vezes associadas a anomalias físicas. Essa patologia foi descrita por Joseph, Diamond e Blackfan na primeira metade do século passado; por isso, geralmente é conhecida como anemia de Diamond- Blackfan. Ocorrem lesões nas stem cells intraútero, iniciando a anemia, que já se manifesta ao nascimento. Nas formas adquiridas do adulto, a supressão dos precursores eritroides é mediada por linfócitos T ou por anticorpos da classe IgG. Algumas possíveis associações com aplasia pura da série vermelha são descritas. Quadros linfoproliferativos, como leucemia de linfócito large granular, leucemia linfoide crônica, mais raramente linfomas não Hodgkin; Doenças autoimunes como lúpus eritematoso sistêmico e artrite reumatoide; drogas como fenitoína, ácido valproico, isoniazida, azatioprina e cloranfenicol; doenças virais, como hepatite C e HIV, complicação dos usuários de EPO recombinante por meio da formação de anticorpo anti-EPO, em especial em pacientes com IRC e, mais raramente, em doping. Nos timomas, a investigação é obrigatória em casos de APSV, presente em 5% dos casos. A infecção pelo parvovírus B19 caracteristicamente cursa com APSV, embora, em alguns casos, possa afetar outras linhagens. As manifestações clínicas são mais evidentes nos portadores de anemias hemolíticas crônicas, como a anemia falciforme e a esferocitose hereditária, em que a demanda medular está muito aumentada e a queda dos níveis de Hb é súbita. O parvovírus destrói os precursores eritroides e cursa com alteração morfológica característica: pró-eritroblastos gigantes na análise da medula óssea. 3.9.2 Quadros clínico e laboratorial Os sintomas da APSV são apenas os relacionados à anemia, exceto quando há patologia associada, como as linfoproliferações e o lúpus eritematoso sistêmico. No timoma, pode haver quadro de miastenia gravis associado à aplasia. A anemia é severa, normocítica, normocrômica, com níveis de Hb abaixo de 6 g/dL e contagem de reticulócitos baixíssima (< 10.000/mm3). Ao mielograma, evidencia-se normocelularidade global da medula óssea, porém com número muito diminuído, e, às vezes, ausência virtual de precursores eritroides. 3.9.3 Diagnóstico diferencial O principal diagnóstico diferencial é com a anemia aplásica, em que há queda dos precursores de todas as linhagens celulares. Deve ser afastada também a anemia hemolítica autoimune, já que nas linfoproliferações e no lúpus eritematoso sistêmico pode ocorrer a formação de autoanticorpos contra as células eritroides maduras; entretanto, o laboratório na anemia hemolítica autoimune cursa com bilirrubina indireta, reticulócitos e desidrogenase láctica aumentados. As síndromes mielodisplásicas podem levar a quadros de anemia normocítica normocrômica, mas a morfologia displásica na medula óssea é característica. 3.9.4 Tratamento 3.9.4.1 Formas adquiridas Se houver suspeita de ação de drogas, deve-se suspender o seu uso. O tratamento da patologia de base, nas formas adquiridas, é fundamental para a regressão do quadro de APSV. Particularmente no caso do timoma, a exérese do tumor está relacionada à regressão da aplasia. Nos casos de infecção pelo parvovírus, o quadro tende a ser autolimitado, resolvido em 2 a 3 semanas. Caso não haja resolução espontânea nesse período, deve-se utilizar a imunoglobulina intravenosa. Nos demais casos, a conduta inicial é feita com prednisona em doses imunossupressoras. Nos casos não responsivos nos primeiros 3 meses de tratamento, outras drogas imunossupressoras devem ser associadas: imunoglobulina, ciclosporina, ciclofosfamida, azatioprina, globulina antitimocítica ou até o rituximabe (anticorpo monoclonal anti-CD20). 3.9.4.2 Formas congênitas (anemia de Diamond-Blackfan) Nas formas congênitas, existe relato de aproximadamente 50% de resposta ao uso de corticoterapia. Porém, em muitos casos, a indicação é a de transplante alogênico de células-tronco hematopoéticas, ou o paciente será dependente de transfusões de concentrado de hemácias por toda a vida. Quais são as principais causas de anemias hipoproliferativas? As principais causas de anemias hipoproliferativas são a anemia ferropriva (microcítica) e a anemia por deficiência de vitamina B12 (macrocítica). Quais são as principais causas de anemias hiperproliferativas? 4.1 ANEMIA PÓS-HEMORRÁGICA A anemia pós-hemorrágica apresenta 2 mecanismos: a) Perda direta de eritrócitos; b) Em sangramentos crônicos, depleção gradual dos estoques de ferro, resultando em deficiência. A perda aguda de sangue varia, em suas manifestações hematológicas, ao longo das horas, desde o evento sangrante até a realização dos exames, podendo ser identificadas 3 etapas. 1. Primeira etapa: os primeiros sintomas estão relacionados à hipovolemia e, nesta fase inicial, os níveis de hemoglobina (Hb) detectados no exame podem manter-se normais, uma vez que tanto o conteúdo plasmático quanto o celular são perdidos de maneira proporcional, e ainda não ocorreram os mecanismos compensatórios; 2. Segunda etapa: diante da liberação de vasopressina e outros peptídios, o fluido extravascular é mobilizado para o intravascular, levando à reposição volumétrica e à hemodiluição. Nessa situação, evidenciam-se queda dos níveis de Hb e consequente anemia, cujo grau reflete a quantidade de sangue perdida. O processo de expansão plasmática é lento: em uma perda de 20% da volemia, são necessárias de 20 a 60 horas para restaurá-la, por exemplo; 3. Terceira etapa: finalmente, diante do quadro de anemia e hipóxia, a produção de eritropoetina (EPO) aumenta, iniciando o estímulo da produção de eritrócitos. A reticulocitose demora de 2 a 3 dias para ser detectada, atingindo o pico em 8 a 10 dias após o quadro de hemorragia. Nessa fase, é importante o diagnóstico diferencial com anemias hemolíticas, apesar de não haver aumento dos metabólitos da Hb (bilirrubina indireta) nem redução da haptoglobina. As pessoas com reserva baixa de ferro, após manifestações hemorrágicas, não conseguem realizar eritropoese adequada, sem reticulocitose e recuperação eritrocitária no tempo esperado, necessitando de suplementação de ferro para que isso ocorra. Também poderá haver aumento transitório da leucometria e da plaquetometria e, se houver sangramento intenso, liberação de formas jovens de eritrócitos e leucócitos na corrente sanguínea. Tal fenômeno decorre da resposta medular exacerbada ao estímulo da EPO. Trata-se de quadro benigno e passageiro. A primeira conduta diante da hemorragia aguda é a restauração da volemia com cristaloides. Após a avaliação clínica, deve-se tentar quantificar o sangramento e realizar reposição de sangue para perdas > 30% da volemia total. Nas perdas crônicas, a conduta consiste na correção da ferropenia e na identificação da etiologia do sangramento. 4.2 ANEMIAS HEMOLÍTICAS 4.2.1 Conceitos gerais As anemias hemolíticas se estabelecem por redução do tempo de sobrevida eritrocitário, que pode decorrer de alterações estruturais na molécula de hemoglobina, como na anemia falciforme e na esferocitose hereditária. A medula óssea é capaz de aumentar a eritropoese (por estímulo da EPO) em até 8 vezes para compensar as perdas ou a destruição eritrocitária, mas nem sempre haverá hemólise associada à anemia, já que os mecanismos compensatórios podem ser suficientes para evitar a queda dos níveis de Hb circulante. Esse mecanismo pode ser detectado pelo aumento de reticulócitos circulantes no sangue periférico, característica primordial das anemias hiperproliferativas. A anemia surge quando a destruição eritrocitária ultrapassa a velocidade de eritropoese ou se a eritropoese não está aumentando proporcionalmente (como no caso de deficiência de folato associada). É exatamentecom o objetivo de evitar quedas ainda maiores de Hb por falta de folato que, nas anemias hemolíticas crônicas, utilizam-se doses diárias e contínuas de ácido fólico. Os motivos para a redução da sobrevida eritrocitária são variados e vão de alterações estruturais da molécula da Hb, como na Anemia Falciforme (AF), passando por defeitos no esqueleto da membrana celular, como nos casos de esferocitose hereditária, chegando a mecanismos fisiopatológicos extremamente complexos, como o aumento da sensibilidade ao complemento ativado na hemoglobinúria paroxística noturna. A classificação das anemias hemolíticas pode ser feita em relação ao local do glóbulo afetado (intracorpusculares ou extracorpusculares) ou quanto ao local predominante da hemólise (intravasculares ou extravasculares). Com raras exceções (hemoglobinúria paroxística noturna), as hemólises intracorpusculares são congênitas e as extracorpusculares são adquiridas (Quadro 4.1). As hemólises intravasculares acontecem quando a alteração da membrana eritrocitária é muito abrupta e intensa ou há trauma direto da hemácia (microangiopatia, trauma mecânico, queimaduras), e as extravasculares, quando a lesão da membrana é menos intensa, pois o eritrócito alterado é captado pelo sistema macrofágico e levado ao baço, onde ocorrerá sua destruição, o que justifica, em muitos casos de hemólise crônica, a esplenomegalia. A presença de Hb livre no plasma e na urina e a presença de esquizócitos em sangue periférico são indicativas de hemólise intravascular. As características laboratoriais da hemólise estão relacionadas aos processos de destruição globular (aumento dos níveis de desidrogenase láctica – DHL), resposta medular (aumento dos reticulócitos) e eliminação dos metabólitos da Hb (aumento da bilirrubina indireta, diminuição do nível sérico da haptoglobina). Essas alterações podem ou não ser acompanhadas de queda no nível de Hb, conforme explicado. A haptoglobina é uma proteína capaz de carrear a Hb livre, e a queda de seus níveis traduz a presença de hemólise. Porém, quando a haptoglobina é completamente saturada, a Hb livre pode estar presente no plasma e ser filtrada nos glomérulos, aparecendo na forma de hemoglobinúria. Quadros como esses são mais comuns em situação de hemólise intravascular. A combinação de DHL aumentada (devido à destruição globular) e diminuição de haptoglobina (liga-se à hemoglobina livre proveniente da hemólise) garante 90% de especificidade para o diagnóstico de anemia hemolítica. Um quadro de hemólise não relacionado à doença hemolítica é a reação transfusional hemolítica. Nessa situação, a transfusão de concentrados de hemácias com presença de antígenos para os quais o receptor apresenta anticorpos (como na incompatibilidade do sistema ABO) leva à hemólise das hemácias transfundidas. Tal reação grave pode ser prevenida por meio de testes pré- transfusionais e, por isso, tem sido rara, mais associada a erros da equipe de saúde (troca de bolsas, troca de amostras, entre outros). Contudo, quadros de hemólise entre pacientes transfundidos obrigam sempre a exclusão dessa etiologia. Quadro 4.1 - Causas As principais alterações no paciente com hemólise são: a) Anemia de início rápido; b) Palidez; c) Icterícia e, se hemólise crônica, história de calculose biliar; d) Esplenomegalia; e) Aumento de reticulócitos e da DHL e diminuição de haptoglobina; f) A análise do sangue periférico é muito importante para orientar a investigação etiológica da hemólise. 4.3 ANEMIA FALCIFORME 4.3.1 Considerações gerais A AF é a doença hematológica hereditária mais comum no mundo, caracterizando-se pelo acometimento da cadeia beta da Hb, originando uma Hb anormal denominada S (HbS). O padrão de herança é autossômico e codominante. Em consequência de uma mutação estrutural, haverá alteração qualitativa na Hb. A alteração molecular primária é representada pela substituição, no cromossomo 11, de 1 único aminoácido no códon 6 do gene da cadeia betaglobina, tendo como consequência a formação da HbS. Com a elevação desta, a HbS desoxigenada fica insolúvel e forma fibras polimerizadas, resultando em alteração da morfologia da hemácia (hemácia “em foice”). Após a reoxigenação, o polímero se desfaz, e a célula volta ao normal. Porém, a polimerização e a despolimerização frequentes acabam provocando lesões progressivas na membrana, que inicialmente são reversíveis; contudo, após vários processos de falcização, as hemácias tornam-se definitivamente lesadas, transformando-se nas chamadas hemácias irreversivelmente falcizadas. As células com formato alterado (de foice) são rígidas e, com menor capacidade de deformabilidade, passam a circular com mais dificuldade pelos pequenos capilares. Quando associadas a leucócitos em número aumentado e moléculas de adesão, são responsáveis pela lentificação do fluxo, oclusão vascular e lesão de tecidos, que representam os fenômenos principais dessa doença. A formação das células falcizadas também é responsável pela hemólise crônica, pois, pelas alterações estruturais severas, ocorre a retirada da circulação dessas células pelo sistema macrofágico, com subsequente destruição. A taxa de falcização é influenciada por vários fatores, o mais importante deles a concentração de HbS intraeritrocitária. As lesões na membrana celular do eritrócito e o rearranjo dos polímeros em seu interior explicariam por que muitas células se mantêm morfologicamente alteradas mesmo após a reoxigenação. Adesões frequentes de eritrócitos e leucócitos ao endotélio levam à disfunção endotelial, com aumento da geração de trombina e ativação plaquetária, fatores que também contribuem para os fenômenos vaso-oclusivos. Em geral, os pais são portadores assintomáticos de 1 único gene afetado (heterozigoto), produzindo HbA e HbS (AS) – conhecidos como traço falciforme –, e cada um vai transmitir o gene alterado para a criança, que o recebe em dose dupla (homozigoto SS). A denominação “anemia falciforme” é reservada à forma da doença que ocorre nesses homozigotos SS. Além disso, o gene da HbS pode combinar-se com outras anormalidades hereditárias das Hbs, como hemoglobina C (HbC), hemoglobina D (HbD), betatalassemia, entre outras, gerando combinações também sintomáticas, denominadas, respectivamente, hemoglobinopatia SC, hemoglobinopatia SD e S- betatalassemia. No conjunto, todas essas formas sintomáticas do gene da HbS, em homozigose ou em combinação, são conhecidas como doenças falciformes. Apesar das particularidades que as distinguem e da gravidade variável, todas essas doenças têm espectro epidemiológico e de manifestações clínicas e hematológicas sobreponíveis. A cromatografia líquida de alta eficiência é um processo de troca catiônica, permitindo a quantificação de hemoglobinas A, A2 e fetal, bem como de Hbs variantes. Entretanto, seu uso deve ser sempre monitorizado por outros métodos, uma vez que há sobreposição de frações e a HbA2 pode estar falsamente elevada na presença de HbS. A AF também pode estar associada a outras hemoglobinopatias hereditárias, entre elas: 1. AF (doença SS): os indivíduos são homozigotos para o gene da HbS; 2. Traço falciforme (doença AS): o paciente tem 1 gene que sintetiza cadeias polipeptídicas globínicas normais (beta A) e 1 gene anormal (beta S), com produção de ambas as Hbs (A e S), predominando a hemoglobina A (HbA). Seus eritrócitos raramente falcizam, somente sob circunstâncias específicas, como hipóxia severa; 3. AF associada à betatalassemia (S-betatalassemia): a) S-talassemia beta0: não há produção de Hb beta pelo gene da betatalassemia; b) S-talassemia beta+: o indivíduo produz cadeias beta normais, porém em pequenas quantidades. 4. AF associada a HbC (HbSC): o paciente tem 2 genes de cadeia beta alterados (beta S e beta C), o que ocasiona a produção tanto de HbS quanto de HbC; 5. AF associada à alfatalassemia: deleção de 1 ou 2 genes da alfaglobina. Anemia hemolítica mais discreta, com menos complicações se comparada à AF; 6. AF associada à talassemia delta beta: condição heterozigóticacombinada que constitui uma das várias deleções grandes dos genes das globinas delta e beta e permite o desvio de produção da HbF para a Hb do adulto; 7. AF associada a PHHF (persistência hereditária da HbF): resulta de várias deleções grandes dos genes das globinas delta e beta que retardam o desvio da produção de HbF para a Hb do adulto. Figura 4.1 - Padrão de herança genética Nota: traço falciforme – HbAS; normal – HbAA2; falciforme – HbSS. Fonte: acervo Medcel. Figura 4.2 - Fisiopatologia Fonte: elaborado pelos autores. De modo geral, além da anemia crônica, as diferentes formas de doenças falciformes caracterizam-se por numerosas complicações que podem afetar quase todos os órgãos e sistemas, com expressiva morbidade e redução da capacidade de trabalho e da expectativa de vida. 4.3.2 Diagnóstico 4.3.2.1 Quadro clínico As síndromes falciformes apresentam manifestações clínicas extremamente heterogêneas, variando de pacientes praticamente assintomáticos durante toda a vida àqueles que necessitam de internação hospitalar frequente desde a infância. Em geral, quanto maior a quantidade de HbS, mais grave a doença. Os homozigotos para HbS tendem a ter quadro clínico mais grave do que os pacientes com hemoglobinopatias SC, SD etc. A associação à persistência hereditária de HbF confere melhor prognóstico à doença, pois a HbF tem maior afinidade com o oxigênio, diminuindo a polimerização. A doença inicia-se normalmente após o sexto mês de vida, quando os níveis de HbF caem e as hemácias perdem a proteção dessa Hb. Inicia-se quadro de anemia hemolítica crônica, com icterícia e esplenomegalia (nos primeiros anos de vida). A esplenomegalia pode persistir por toda a vida entre os pacientes com doenças mistas, como na HbSC, PHHF e S-betatalassemia, porém, em indivíduos SS, a ocorrência frequente de infartos esplênicos por obstrução dos capilares leva à chamada autoesplenectomia (ou asplenia funcional), em que o baço se transforma em órgão residual cicatricial, com pouca ou nenhuma função. Isso provoca a redução da capacidade de opsonização e o aumento da suscetibilidade a infecções por germes capsulados, como pneumococo (Streptococcus pneumoniae), Haemophilus e Salmonella sp. Os episódios de infecção também podem ser facilitados pela disfunção de IgM e IgG, além de distúrbio na fixação do complemento e da opsonização – anomalias observadas nesses pacientes. Retardos de crescimento e de desenvolvimento e atraso da puberdade são bastante observados entre os falciformes, mas a patogênese é pouco conhecida. Nos 2 primeiros anos, um quadro clínico considerado característico é a chamada “síndrome mão-pé” ou dactilite, em que ocorrem edema, calor e rubor dos dedos das mãos e dos pés por infarto ósseo, com dor intensa, que deve ser abordada de forma semelhante às das crises álgicas dos adultos. Figura 4.3 - Criança com dactilite Fonte: Sickle Cell Disease (SCD), 2015. A manifestação clínica mais característica é a chamada crise álgica ou vaso-oclusiva, em que as micro-obstruções vasculares, principalmente no interior dos vasos sanguíneos ósseos, levam a quadros isquêmicos difusos, com intensa dor e, eventualmente, febre baixa. As crises álgicas costumam ser deflagradas por quadros infecciosos, desidratação, exercício excessivo, mudanças bruscas na temperatura, hipóxia, estresse emocional, menstruação e ingestão de bebida alcoólica, mas muitas vezes não se encontra o motivo. Diante de um paciente com crise dolorosa, contudo, é sempre obrigatória a investigação de foco infeccioso. Esses episódios podem durar de horas a semanas e afetam, teoricamente, qualquer região do corpo, todavia parecem predominar em ossos e articulações. A dor é muito intensa, geralmente incapacitante, algumas vezes necessitando de hospitalização para analgesia parenteral. Crises repetidas com necessidade de internação (> 3/ano) têm correlação com pior sobrevida, sugerindo que esses episódios sejam responsáveis por lesões crônicas em órgãos-alvo. As úlceras perimaleolares ocorrem pelas micro-obstruções vasculares e podem cronificar-se, pois o déficit de perfusão local é mantido. Quase sempre se desenvolvem nos tornozelos, acima dos maléolos laterais e mediais; mais raramente, surgem na região pré- tibial e no dorso do pé. O início pode ser espontâneo ou subsequente a trauma, por vezes leve, como a picada de um inseto. Figura 4.4 - Úlceras perimaleolares A vaso-oclusão pode alcançar tecidos mais “nobres” e levar a acidentes vasculares cerebrais, infartos pulmonares e priapismo. O acidente vascular cerebral acomete mais as crianças e tende a ser recorrente, sendo necessárias medidas de profilaxia; não é comum em adultos. Infartos pulmonares subagudos e crônicos resultam em hipertensão pulmonar e cor pulmonale, sendo, muitas vezes, causas de óbito. As complicações renais mais comuns são secundárias a microinfartos renais, com hematúria dolorosa por infarto papilar; proteinúria e hipertensão (que podem ser tratadas pelo uso de inibidores da enzima conversora de angiotensina); necrose papilar; isquemia parenquimatosa que culmina em glomeruloesclerose segmentar e focal, e insuficiência renal crônica; diabetes insipidus nefrogênico; e alto risco para carcinoma medular renal. Também pode acontecer a chamada retinopatia proliferativa, similar à do diabetes mellitus, podendo levar à cegueira, além de oclusão da artéria retiniana, descolamento de retina e hemorragia, como complicações retinianas. Como complicação óssea, pode ocorrer a osteonecrose (necrose óssea isquêmica ou necrose asséptica) da cabeça do fêmur ou do úmero, além do favorecimento de osteomielite pela falha de perfusão óssea. Os agentes etiológicos mais frequentes da osteomielite na AF são Salmonella e Staphylococcus aureus. A hiperproliferação da medula óssea e os microinfartos ósseos podem levar a alterações crônicas, sendo a mais conhecida as vértebras “em boca de peixe”, em que elas apresentam aumento do espaço medular e adelgaçamento do córtex, com osteoporose. Também são citados o infarto da medula óssea (com reticulocitopenia e/ou pancitopenia) e a embolia gordurosa secundária ao infarto ósseo. Figura 4.5 - Vértebras “em boca de peixe” Fonte: Diagnóstico por imagem na avaliação da anemia falciforme, 2008. Por sua vez, as complicações cardíacas, típicas da doença falciforme, são usualmente derivadas da circulação hiperdinâmica. Raramente, porém, ocorre crise vaso-oclusiva coronariana, ocasionando isquemia miocárdica. Hipertensão pulmonar e insuficiência cardíaca congestiva são, ainda, eventos possíveis. Finalmente, as complicações hepatobiliares são representadas pela formação de cálculos biliares. A hemólise crônica leva ao excesso de bilirrubina indireta, que tem como complicação comum colecistopatia calculosa por cálculos de bilirrubinato de cálcio. Alterações hepáticas podem, ainda, ser derivadas de vaso-oclusão naquele órgão, sobrecarga de ferro e infecções, sendo estas 2 últimas determinadas por politransfusões. Em resumo, os episódios repetidos e silenciosos de vaso-oclusão podem afetar virtualmente todos os órgãos. Quadro 4.2 - Tipos de crises álgicas em pacientes com anemia falciforme Outros tipos de “crises” que afetam tais pacientes estão descritas a seguir. a) Crise hemolítica Exacerbação da hemólise, com reticulocitose, diante de quadros infecciosos (em especial por Mycoplasma), crises álgicas, medicamentos e, raramente, associação da AF à deficiência de G6PD ou à esferocitose hereditária. Esse diagnóstico deve ser feito após a exclusão de todas as causas possíveis de piora da anemia. b) Crises hiperemolíticas Surgem quadros hemolíticos graves e súbitos, deflagrados por transfusão de sangue ou anemia hemolítica autoimune. A Hb pós- transfusão é inferior à Hb pré-transfusão. Mesmo que a bolsa de sangue transfundida tenha sido compatível com antígenos negativos, desencadeia-se um processo de hemólise severa, intravascular, com hemoglobinúria, alteração da função renal, queda da Hb e reticulocitopenia (mecanismo poucoconhecido, talvez por destruição também dos reticulócitos). Nessa situação, deve-se evitar transfusão, manter hidratação vigorosa e usar corticoide ou imunoglobulina. c) Crises aplásicas Na AF, há redução importante na sobrevida dos eritrócitos (média de 17 dias), e qualquer supressão temporária na eritropoese pode resultar em anemia grave. Na crise aplásica, ocorre diminuição intensa e transitória da proliferação medular, com consequente queda importante nos níveis de Hb. Geralmente, é precedida por episódios infecciosos, e 70% dos casos decorrem de infecção pelo parvovírus B19, sendo os demais por outros agentes infecciosos, como Salmonella, Streptococcus ou vírus Epstein-Barr. A deficiência de folato também deve ser lembrada como possível fator causal, recebendo, então, a denominação de crise megaloblástica. Os pacientes podem apresentar fadiga, dispneia, febre, infecção respiratória alta e sintomas gastrintestinais. A reticulocitopenia é marcante, com valores < 1% (ou < 10.000/mm3, diferenciando-se do quadro clássico de reticulocitose em falcêmico). Embora a maioria dos quadros regrida espontaneamente, a transfusão de glóbulos vermelhos deve ser considerada entre pacientes sintomáticos. Imunoglobulina intravenosa é o tratamento de escolha quando a aplasia é causada pelo parvovírus B19, que não apresenta remissão espontânea. d) Síndrome torácica aguda A Síndrome Torácica Aguda (STA) caracteriza-se por febre, dor torácica, hipoxemia e opacidade radiológica pulmonar nova. Queda no valor da Hb e na contagem de plaquetas pode preceder a alteração radiológica. Cerca de 50% dos pacientes com AF apresentam ao menos 1 episódio de STA no decurso da doença, sendo essa a segunda causa mais frequente de hospitalizações desses pacientes e a principal complicação em anestesias e cirurgias. A frequência é de 8,7 eventos/100 pacientes/ano, e a mortalidade é de 4 a 9%. A etiologia é multifatorial e pode incluir infecção, embolia gordurosa, hiper-hidratação, hipoxemia, microatelectasias. Sua gravidade varia de acordo com a idade do paciente; em crianças, a manifestação clínica é mais branda, e geralmente o fator desencadeante é uma infecção; em adultos jovens, predominam eventos trombóticos pulmonares que resultam em hipoxemia, hospitalização prolongada e alta taxa de mortalidade. Em cerca de 1 terço dos pacientes com STA, a radiografia simples de tórax pode estar normal inicialmente, e, dependendo da evolução, que pode variar de horas a dias, as anormalidades radiográficas podem acentuar-se, como infiltrado localizado, lobar ou difuso, unilateral ou bilateral e/ou derrame pleural. Como infarto pulmonar e pneumonia nem sempre são diferenciáveis à radiografia simples de tórax e à cintilografia de ventilação-perfusão, e como a arteriografia pulmonar com contrastes hipertônicos é contraindicada àqueles com AF, pelo alto risco de induzir alteração estrutural na Hb, a tomografia computadorizada de alta resolução tem sido sugerida como bom método para detecção de microêmbolos. Os principais diagnósticos diferenciais da STA são pneumonia, doença pulmonar vaso-oclusiva e isquemia coronariana nos pacientes mais idosos. Outras condições que podem simular a doença são Síndrome de Embolia Gordurosa (SEG) e infarto ósseo. A SEG geralmente está associada à dor óssea, alteração do nível de consciência, trombocitopenia, hipocalcemia e hiperuricemia; petéquias na conjuntiva e no tórax podem reforçar o diagnóstico. Acredita-se que a dor local provocada pelo infarto ósseo, principalmente das costelas, do esterno e das vértebras, possa resultar em hipoventilação, atelectasia, hipercapnia e hipoxemia. O tratamento consiste em manter o paciente euvolêmico, oxigenoterapia sempre que paO2 = 70 a 80 mmHg ou SatO2 < 92%, controle da dor, terapêutica transfusional para deixar a HbS < 30%, fisioterapia respiratória para evitar atelectasia, e antibioticoterapia empírica (macrolídeos e/ou quinolonas) para cobertura de Streptococcus pneumoniae, Mycoplasma pneumoniae e Chlamydophila pneumoniae. Para a prevenção da STA, pacientes com AF devem receber vacinas antipneumocócica e anti-influenza. A antibioticoterapia empírica também é recomendada aos indivíduos com suspeita de pneumonia adquirida na comunidade, visando cobrir os agentes mais comuns, que podem variar de acordo com a história, o quadro clínico, a idade e a presença de outras doenças de base. Hidratação com solução salina hipotônica deve ser utilizada para prevenir ou reverter a depleção de volume intravascular e diminuir a osmolaridade em crise de falcização. O programa transfusional crônico, visando reduzir a concentração de HbS para menos de 30%, pode ser útil na profilaxia em longo prazo, por meio da transfusão simples ou da eritrocitaférese, procedimento que consiste na troca automatizada do volume hemático, suficiente para deixar a HbS no valor desejado. Figura 4.6 - Radiografia de paciente com síndrome torácica aguda Fonte: adaptado de Anemia falciforme e suas manifestações respiratórias, 2010. e) Crises de sequestração ou sequestro esplênico No sequestro esplênico, há retenção de eritrócitos no baço levando à hipovolemia. No exame laboratorial, podem-se ter níveis de hemoglobina muito baixos (2 a 3 g/dL), reticulocitose intensa e, geralmente, diminuição de leucócitos e/ou plaquetas. e esplenomegalia. É causado por aprisionamento de eritrócitos no baço, podendo levar a choque hipovolêmico. Há associação ao parvovírus B19. Observam-se sintomas de hipovolemia, como taquicardia, palidez, taquipneia ou até hipotensão e choque; percebe-se, também, aumento do volume abdominal com esplenomegalia e dor no hipocôndrio esquerdo. O não atendimento imediato e eficaz pode, muitas vezes, levar a óbito em poucas horas. É mais frequente dos 3 meses aos 5 anos de idade e em pacientes com HbSC e HbS beta, em quem ainda há persistência do baço. O tratamento inicial consiste na correção da hipovolemia, com reposição de cristaloides e transfusão de glóbulos vermelhos. A transfusão deve ser feita com cuidado, visto que o sangue aprisionado no baço pode entrar na circulação novamente. A recorrência do quadro na infância é comum (50%), e a mortalidade pode chegar a 15%. A profilaxia da recorrência pode ser observação clínica ou esplenectomia, em razão de não haver consenso na literatura. Nos adultos, opta-se pela observação clínica, pois os episódios tendem a ser mais leves e com menor taxa de recorrência. f) Priapismo O quadro é definido como ereção involuntária com duração ≥ 4 horas, sustentada e dolorosa, em virtude da vaso-oclusão que obstrui a drenagem venosa do pênis. O priapismo prolongado é uma urgência médica e requer avaliação urológica, pois, se não tratado, pode causar disfunção erétil. A média de idade é de 12 anos, e, aos 20 anos, 89% já apresentaram 1 ou mais episódios. Os pacientes devem ser orientados a reconhecer o quadro, iniciar ingesta hídrica vigorosa e analgesia via oral, urinar com frequência (a bexiga cheia pode ser um fator desencadeante) e procurar atendimento médico de urgência. Outros fatores desencadeantes são infecção, desidratação, ingestão de drogas (álcool, cocaína, maconha, psicotrópicos) e traumatismo. O tratamento consiste em analgesia vigorosa e hidratação parenteral, e a não regressão imediata do quadro após a terapêutica inicial indica aspiração do corpo cavernoso e irrigação com solução salina, com ou sem alfa-adrenérgico (adrenalina, fenilefrina), a fim de prevenir a disfunção erétil. Para os casos que não respondem à irrigação, a cirurgia para colocação de shunt entre os corpos cavernoso e esponjoso deve ser considerada. g) Avaliação do paciente com crise álgica no pronto-socorro Na crise álgica, sempre está indicado fazer uma avaliação clínica minuciosa, hidratação e analgesia, e, dependendo da avaliação clínica e laboratorial, indica-se transfusão sanguínea, antibioticoterapia e oxigenoterapia. 1. História: avaliar início (agudo ou crônico), intensidade (escala de zero a 10), duração, localização e frequência da dor. Investigarfatores desencadeantes, tratamento utilizado no domicílio, data da última crise e hospitalização prévia; 2. Exame físico: sinais vitais (pressão arterial, pulso, frequência respiratória, temperatura e oximetria de pulso). Avaliar local da dor, edema e mobilidade articular. Pode-se encontrar icterícia, em razão da hemólise. Procurar sinais sugestivos de quadro infeccioso; 3. Exames complementares: radiografia de tórax, hemograma com contagem de reticulócitos, hemocultura e urocultura, função renal e eletrólitos; outros exames, a depender da queixa e do exame físico; 4. Analgesia: a) Dor de leve a moderada intensidade: Anti-Inflamatórios Não Hormonais (AINHs), analgésicos comuns (dipirona, paracetamol) e opioides fracos (codeína, tramadol). Deve-se ter cuidado com o uso de AINH por possíveis alterações da função renal, comuns no paciente falciforme. Sempre evitar o uso crônico, pelos mesmos motivos; b) Dor forte: opiáceos fortes (cloridrato de morfina 0,1 mg/kg em bolus; repetir a dose a cada 20 minutos, até o controle da dor ou a sedação excessiva). Evitar meperidina, pelo alto potencial de dependência dessa droga; outros opioides fortes, como metadona e oxicodona, também podem ser utilizados. Para casos de dor grave e refratária, pode-se utilizar bomba de infusão contínua de morfina; c) Hidratação: encorajar a ingesta hídrica e manter o paciente euvolêmico por meio da reposição de solução salina. Cuidado com a hipo e a hiper-hidratação – fazer controle diário dos líquidos ingeridos e administrados, perdas e controle de peso; d) Transfusão: não diminui a duração da crise e está indicada na STA, na crise aplásica, no sequestro esplênico e na anemia sintomática; e) Tratamento das infecções: a principal causa de óbito entre crianças é a sepse por Streptococcus pneumoniae; f) Oxigenoterapia: apenas se houver hipoxemia. O Quadro 4.3 descreve os principais quadros infecciosos e patógenos relacionados em portadores de doença falciforme. Quadro 4.3 - Quadros infecciosos Toda criança com doença falciforme que apresenta febre > 38,5 °C deve ser tratada, tendo em vista a possibilidade de septicemia. Recomendam-se a internação e hemoculturas e culturas de nasofaringe (procurando colonização por S. pneumoniae e possivelmente identificando cepas resistentes). Imediatamente, deve ser iniciada antibioticoterapia empírica utilizando-se, por exemplo, de ampicilina ou amoxicilina. Estudos evidenciam a ceftriaxona como antibiótico ideal para a maioria das infecções bacterianas na AF. Qualquer sinal de gravidade, como taquicardia, hipotensão e bacteriemia, deve ser tratado agressivamente com ceftriaxona e, quando necessário, vancomicina. Crianças com doença SS têm resposta imunológica normal a vacinas, sendo essas armas importantes na profilaxia das infecções na infância. Embora apresente eficácia limitada para determinados sorotipos e em menores de 4 anos, a vacinação contra pneumococo representou grande avanço na proteção da criança com AF, assim como a vacinação contra Haemophilus. É interessante também que a criança falcêmica seja submetida à imunização contra o vírus da hepatite B, em razão do risco elevado dessa infecção, relacionado às frequentes hemotransfusões. Além das imunizações, o uso de penicilina oral 125 mg, 2x/d, até os 3 anos, e 250 mg, 2x/d, para maiores de 3 anos, de forma profilática, visa, principalmente, evitar os casos de sepse por pneumococo. Há controvérsias quanto à faixa etária em que a profilaxia por penicilina deve ser descontinuada. Embora alguns estudos recomendem sua manutenção por toda a vida, demonstrou-se ser seguro suspender a penicilina oral após o quinto ano de vida. 4.3.2.2 Investigação laboratorial Os sinais de anemia hemolítica crônica são evidentes, com níveis de Hb em torno de 7, podendo ser mais baixos, principalmente nas exacerbações hemolíticas e na associação ao gene talassêmico, e reticulócitos entre 3 e 15%. As alterações morfológicas do sangue periférico são características, com a presença de hemácias “em foice”, reticulocitose, eritroblastos circulantes e, quando ocorrer autoesplenectomia, presença de corpúsculos de Howell-Jolly. As hemácias são normocíticas e normocrômicas, exceto quando há alfa ou betatalassemia associada, em que são encontradas microcitose e hipocromia. A leucometria de base geralmente está elevada, entre 12.000 e 15.000/mm3, e pode ocorrer trombocitose (nos asplênicos). Entre os pacientes com doença falciforme (HbSC, S-betatalassemia), a leucometria é normal, e pode haver trombocitopenia (por hiperesplenismo, quando há grande esplenomegalia). As bilirrubinas estão elevadas, com evidente predomínio da indireta, e pode haver elevações crônicas e não severas das enzimas hepatocelulares. Elevações da fosfatase alcalina, da gamaglutamiltranspeptidase (gama-GT) e da bilirrubina direta podem ser evidências de colestase por cálculos de bilirrubinato de cálcio. A confirmação diagnóstica é feita pela eletroforese de Hb, também chamada de cromatografia líquida de alta eficiência. Nesse exame, a Hb fetal está em torno de 5 a 15%, e níveis de HbS entre 85 e 98% nos indivíduos SS. A associação de outras hemoglobinopatias pode reduzir os níveis de HbS, porém a HbA estará ausente (exceto na S-alfatalassemia, em que a HbA pode chegar a 70 ou 75%, porém sem oferecer proteção alguma contra a falcização). Os níveis de HbF são pouco a moderadamente elevados, e os casos com HbF mais alta costumam ter quadros clínicos mais brandos. Exames, como o teste de solubilidade da Hb e o teste de falcização, são excelentes provas para triagem, porém estão positivos nos heterozigotos (traço falciforme), que são assintomáticos, não sendo importantes para o diagnóstico. Para o seguimento clínico dos pacientes com AF, devem ser realizados exames periódicos em que se avaliem não só a Hb, mas também o índice de hemólise (DHL, BTF – Bilirrubina Total e Frações), a resposta medular (reticulócitos) e, anualmente, verifiquem-se os efeitos sobre órgãos e sistemas (avaliações cardiológica, oftalmológica, neurológica, entre outras). 4.3.3 Tratamento Não existe tratamento específico para a AF, apenas de suporte, ou seja, o paciente deve fazer acompanhamento periódico com especialista para profilaxia e diagnóstico precoce das complicações. O tratamento da AF é apenas de suporte, e o paciente deve fazer acompanhamento periódico com o especialista para profilaxia e diagnóstico de complicações. Além disso, os pacientes são mantidos constantemente em uso de ácido fólico para evitar a falência medular por esgotamento dos estoques da substância. Exames recomendados periodicamente, além dos de sangue, são: a) Ultrassonografia de abdome, com o objetivo de encontrar cálculo biliar, para proceder à colecistectomia eletiva; b) Ultrassonografia com Doppler transcraniano a partir dos 2 até os 16 anos, para detecção do risco de acidente vascular cerebral e inclusão no programa de transfusão crônica para profilaxia primária, quando necessário; c) Exame oftalmológico; d) Ecocardiograma após os 15 anos, para avaliação da pressão da artéria pulmonar e função cardíaca; e) Densitometria óssea e monitorização do nível sérico de cálcio e vitamina D após os 12 anos; f) Demais exames, conforme os sintomas. As transfusões de concentrados de hemácias podem ser terapêuticas ou profiláticas. As transfusões terapêuticas devem ser utilizadas apenas quando a sintomatologia do quadro anêmico é severa, em crises aplásicas ou de sequestração, fase aguda do acidente vascular cerebral, STA e falência aguda de múltiplos órgãos. Não são indicações de transfusão: anemia crônica, crise dolorosa e infecções leves ou moderadas. As transfusões de concentrados de hemácias podem ser terapêuticas ou profiláticas. As terapêuticas só devem ser utilizadas quando os sintomas do quadro anêmico são severos, e a profilática não deve ser realizada de rotina. Uma complicação importante das múltiplas transfusões a que os pacientes são submetidos é a sobrecarga de ferro, portanto devem ser evitadas as que sãodesnecessárias. Deve-se quantificar a ferritina a cada 3 a 4 meses e iniciar tratamento de quelação do ferro com desferroxamina ou deferasirox com níveis de ferritina > 1.000 ng/mL, principalmente naqueles submetidos a esquema crônico de transfusão (profilaxia de acidente vascular cerebral). A sobrecarga de ferro é potencializada pelo aumento fisiológico de absorção de ferro, secundário à eritropoese ineficaz, sendo contraindicação absoluta a administração de ferro medicinal para esses pacientes. Tal hemossiderose pode ocasionar problemas graves, como insuficiências hepática, cardíaca e pancreática e endocrinopatia. Outras complicações das múltiplas transfusões são a aloimunização e a transmissão de infecção. A profilaxia de infecções por germes capsulados inclui o uso de vacinas contra pneumococo, Haemophilus B, hepatite B e influenza a partir dos 2 anos de vida. A utilização profilática de penicilina via oral, desde a fase lactente até os 5 anos, como forma de prevenção, tem sido feita rotineiramente, assim como a imunização para o vírus influenza. A orientação quanto aos sinais de infecção e ao uso precoce de antibióticos deve ser sempre reforçada. A hidroxiureia, um agente citotóxico utilizado classicamente nas mieloproliferações, revolucionou o tratamento de casos selecionados de AF, com diminuição da morbidade e aumento da sobrevida. Ela eleva a síntese de HbF, diminui o número de granulócitos e reticulócitos, aumenta o nível de óxido nítrico e diminui a aderência da hemácia à parede vascular. Deve ser indicada em pacientes com mais de 3 crises/ano, com necessidade de internação; antecedente de STA; anemia sintomática frequente; e história de outros eventos vaso-oclusivos severos como acidente vascular encefálico e priapismo recorrente. Outros medicamentos também vêm sendo estudados para o tratamento específico da AF, por intermédio de vários mecanismos de ação, como 5-azacitidina, decitabina, inalação de óxido nítrico, suplementação de magnésio e EPO. Há grande esperança no tratamento da AF com a terapia gênica em estudo. O transplante de células-tronco hematopoéticas é considerado uma alternativa nos casos mais graves, refratários aos tratamentos tradicionais, já autorizado pelo Sistema Único de Saúde para essa patologia. Podemos resumir o tratamento da AF da seguinte forma: a) Tratamento curativo com transplante alogênico de células-tronco hematopoéticas, somente em casos selecionados; b) Ácido fólico; c) Vacinação contra pneumococo, Haemophilus B, hepatite B e influenza; d) Profilaxia infecciosa com penicilina oral até os 5 anos; e) Hidroxiureia para pacientes com mais de 3 crises graves por ano, antecedente de STA, anemia sintomática frequente com necessidade transfusional elevada e história de outros eventos vaso-oclusivos severos; f) Profilaxia primária e secundária de acidente vascular cerebral em pacientes de risco; g) Transfusão de hemácias em situações especiais, como anemia sintomática severa, crise aplásica ou de sequestração, fase aguda do acidente vascular cerebral, STA e falência aguda de múltiplos órgãos; h) Quelação do ferro – ferritina > 1.000 ng/mL; i) Acompanhamento com especialista para monitorização e tratamento de complicações diversas. 4.3.4 Prognóstico e sobrevida A sobrevida global do paciente com AF é reduzida, mas tem melhorado com acompanhamento médico e diagnóstico precoce das complicações, imunização adequada, profilaxia antibiótica na infância, uso precoce de antibióticos em quadros infecciosos, suporte transfusional adequado e uso de hidroxiureia, quando indicado. O teste do pezinho é um exame de triagem, realizado na primeira semana de vida (terceiro ao sétimo dia), para rastreamento de algumas doenças congênitas, entre elas as hemoglobinopatias. Se alterado, devem ser realizados exames confirmatórios (eletroforese de Hb, no caso da AF). O teste é de extrema importância, pois medidas profiláticas podem ser instituídas precocemente, diminuindo a mortalidade e a morbidade. As principais causas de óbito, em ordem decrescente de frequência, são: infecção, principalmente na infância, com STA e falência de múltiplos órgãos; acidente vascular cerebral; sequestro esplênico; tromboembolismo; insuficiência renal; hipertensão pulmonar. Alguns fatores estão associados à alta morbidade e menor sobrevida, como dactilite antes de completar 1 ano de vida, leucocitose na ausência de infecção e Hb < 7 g/dL. 4.3.5 Situações especiais 4.3.5.1 Acidente Vascular Cerebral Isquêmico (AVCI) Devido ao risco de acidente vascular cerebral em crianças com anemia falciforme, está indicado rastreamento com Doppler transcraniano, a fim de indicar ou não a transfusão sanguínea crônica para evitar essa complicação. A tomografia computadorizada de crânio sem contraste deve ser realizada para descartar quadros hemorrágicos ou não isquêmicos nos pacientes sintomáticos. A ressonância é o melhor exame para a avaliação das lesões isquêmicas, que são mais comuns entre crianças de 2 a 9 anos; os quadros hemorrágicos são mais frequentes em indivíduos entre 20 e 29 anos. Isso porque, com os microinfartos de repetição na infância, há a formação de pequenos aneurismas de circulação colateral peri-infarto (aneurismas de moyamoya), os quais, na vida adulta, podem se romper, levando ao AVC hemorrágico. Na criança, o tratamento na fase aguda consiste em hidratação e transfusão, além de antiagregação. Na prevenção secundária, utiliza-se o programa de transfusão crônica em razão do alto risco de recidiva. O adulto deve ser avaliado para receber rt-PA (ativador tissular do plasminogênio recombinante) na fase aguda do AVCI; se não for possível, pode ser utilizado ácido acetilsalicílico (325 mg). Na infância, 25% podem ter lesões isquêmicas silenciosas, resultando em alterações cognitivas. Dessa forma, está indicado o rastreamento para toda criança com AF, por meio da ultrassonografia com Doppler transcraniano; o fluxo aumentado na artéria cerebral média ou na carótida interna (> 170 a 200 ms) é interpretado como alto risco de evento isquêmico, estando indicada a profilaxia primária do AVC por meio do regime de transfusão crônica. A hidroxiureia está sendo estudada para essas situações. A transfusão de sangue visa reduzir a concentração de HbS para menos de 30%, com benefício no programa de profilaxia do AVC. A transfusão crônica pode ser feita por transfusão simples ou eritrocitaférese (procedimento que consiste na troca automatizada do volume hemático, suficiente para deixar a HbS no valor desejado). 4.3.5.2 Falência de múltiplos órgãos A falência de múltiplos órgãos aguda é vista, com mais frequência, durante crises álgicas graves nos pacientes HbSS. A fisiopatologia não é completamente entendida, mas sabe-se que suporte transfusional com eritrocitaférese pode reverter o quadro. 4.3.5.3 Anestesia e cirurgia O risco de morbimortalidade é maior do que o da população em geral, por presença de anemia, propensão à falcização na microcirculação, lesões de órgãos-alvo, risco de hipóxia e efeitos da asplenia (risco aumentado de infecção). São orientações no pré- operatório: a) Correção da anemia (manter Hb entre 8 e 10 g/dL); b) Se possível, transfusão de concentrado de hemácias fenotipadas para evitar a aloimunização; c) Manutenção de oxigenação e hidratação; d) Seleção de procedimentos menos invasivos e extensos; e) Fisioterapia respiratória no pós-operatório. 4.3.5.4 Gravidez A gravidez em mulheres com AF traz uma série de riscos, tanto para a mãe quanto para o bebê. Esses riscos não são impeditivos de gravidez desejada, salvo em situações especiais. A incidência de aborto espontâneo é elevada. O pré-natal é fundamental, e a paciente deve ser aconselhada a buscar acompanhamento médico logo no início da gestação. É necessário pesquisar a presença de aloanticorpos, independentemente da história transfusional. O acompanhamento da paciente aloimunizada deve ser meticuloso, e a amniocentese para pesquisar o desenvolvimento fetal e a concentração de bilirrubina é recomendada, para investigaçãode doença hemolítica do recém-nascido. Também é sugerida a administração de imunoglobulina anti-Rh, em casos selecionados. O retardo do crescimento intrauterino é frequente, assim como a prematuridade. Toxemia gravídica, STA, infecções do trato urinário e tromboflebite também são complicações comuns. É preciso atentar, ainda, para episódios infecciosos, como infecção do trato urinário, pielonefrite e endometrite. Durante o trabalho de parto, a hipercinesia e o alto débito cardíaco tornam-se acentuados, e a dor deve ser controlada pelo uso de narcóticos. As perdas sanguíneas devem ser repostas de acordo com a rotina obstétrica habitual, com oxigênio e hidratação de manutenção. No período pós-parto, deve-se manter hidratação adequada, e é possível diminuir o risco de tromboembolismo com uso de meias elásticas e deambulação precoce. A prevenção de atelectasia é importante e, em caso de febre, deve-se diagnosticar a causa e tratá- la agressivamente. O recém-nascido deve ser submetido a testes para identificação de hemoglobinopatia, assim como de outras desordens genéticas. Em caso de aborto espontâneo ou provocado, a paciente Rh negativo deve sempre receber a imunoglobulina anti-Rh. O emprego de transfusões de concentrado de hemácias profilaticamente, para manter níveis hematimétricos mais altos (Hb em torno de 10 g/dL) com o intuito de reduzir a incidência de complicações, como abortamento e/ou prematuridade, é discutível e, para alguns, injustificável. É sempre importante que seja realizado o aconselhamento genético para mulheres que pretendem engravidar. 4.3.5.5 Traço falciforme Os pacientes com genótipo heterozigoto apresentam uma condição hereditária benigna, não uma doença: não apresentam manifestação hematológica (valores de Hb, VCM – Volume Corpuscular Médio –, HCM – Hemoglobina Corpuscular Média – e reticulócitos normais), crises vaso-oclusivas, riscos gestacional, cirúrgico ou anestésico adicionais em relação à população normal e têm expectativa de vida normal. Apesar de ser condição benigna, algumas complicações raras podem acontecer. Algumas complicações raras são: 1. Renais: a medula renal pode sofrer infartos microscópicos, o que leva à incapacidade de concentrar a urina (hipostenúria); em infartos da papila renal, episódios de hematúria macroscópica; risco aumentado de carcinoma medular renal; 2. Trombose: há risco de infarto esplênico em grandes altitudes; 3. Pacientes com traço falciforme submetidos a exercícios extenuantes e prolongados (militares): há risco 30 vezes maior de morte súbita, provavelmente em razão de rabdomiólise, infarto do miocárdio e arritmia. Pela benignidade do quadro, não se indicam rotineiramente os mesmos cuidados de vacinação ou reposição prolongada de ácido fólico aplicados a indivíduos com AF. É importante o aconselhamento genético, informando que se ambos os pais tiverem traço falciforme, haverá 25% de chance de seus filhos apresentarem a AF propriamente dita. 4.4 HEMOGLOBINOPATIA C A HbCC tem herança autossômica e é resultado da substituição de 1 único aminoácido na molécula da cadeia betaglobina, trocando glutamina por lisina na posição B6. A forma homozigota da HbCC provoca o aparecimento de anemia hemolítica crônica leve, com esplenomegalia discreta, icterícia leve e colelitíase por cálculos de bilirrubinato. Os heterozigotos para HbAC são assintomáticos, todavia apresentam alterações morfológicas no sangue periférico (microcitose), sendo importante diagnóstico diferencial com o traço talassêmico. A HbC não é falcemizante, mas participa na polimerização se está junto à HbS (HbSC). O sangue periférico mostra predomínio de hemácias “em alvo” e, ocasionalmente, células contendo cristais retangulares de HbC precipitada. O diagnóstico é confirmado pelo achado de HbS e HbC na eletroforese de proteínas. Os indivíduos com HbSC podem apresentar as mesmas complicações daqueles com AF (HbSS), mas em menor intensidade e mais tardiamente, com episódios de dor óssea ou articular de intensidade leve. O tratamento é meramente de suporte, com ácido fólico, transfusões (quando necessário) e tratamento sintomático das crises. Das doenças falciformes, a hemoglobinopatia C é a forma que mais apresenta risco de retinopatia, com necessidade de consultas periódicas com oftalmologista, mesmo se não houver nenhum sintoma. 4.5 HEMOGLOBINAS INSTÁVEIS Hbs instáveis são resultantes de mutações que levam à síntese de Hb alterada, diminuindo a solubilidade da molécula no eritrócito e deixando-a com maior propensão à oxidação, o que ocasiona a sua precipitação, mesmo quando há um sistema de G6PD eficaz, culminando com lesão na membrana celular. A transmissão é autossômica dominante, e a severidade varia de acordo com a quantidade de Hb mutada. A maioria dos pacientes mostra quadro de hemólise crônica, com icterícia, esplenomegalia, reticulocitose e colecistopatia calculosa por bilirrubinato de cálcio. O início da manifestação clínica depende da cadeia globínica afetada: se cadeia alfa, o início é neonatal; se cadeia beta, após o terceiro ao sexto mês de vida. Os pacientes com formas mais leves só apresentam anemia sob condições de estresse oxidativo, como infecção, febre e medicamentos. Alguns se queixam de urina escura (pigmentúria), resultado da presença de anéis pirrólicos na urina. O diagnóstico é feito por meio da evidência de corpúsculos de Heinz eritrocitários, alteração no teste de precipitação de Hb instável e níveis normais de G6PD. O encontro de hemácias “mordidas” no sangue periférico também auxilia o diagnóstico (células que perderam parte da membrana lesada em passagem pelo sistema reticuloendotelial do baço). Figura 4.7 - Lâmina de sangue periférico de paciente com hemoglobina instável Legenda: (A) hemácias “mordidas”; (B) corpúsculos de Heinz. O diagnóstico diferencial inclui outras formas de anemias hemolíticas, não esferocíticas, que apresentam corpúsculos de Heinz: 1. Congênitas: deficiência de G6PD, deficiência de piruvatoquinase; 2. Adquiridas: meta-hemoglobinemia por intoxicação medicamentosa, doença de Wilson. O tratamento nem sempre é necessário, visto que a maior parte dos casos é de anemia leve. Para todos, recomenda-se o uso de ácido fólico contínuo, a utilização precoce de antibióticos nos casos de infecção e evitar medicamentos oxidantes. Nos casos em que há hemólise mais intensa e mantida, suporte transfusional; pode ser necessária a esplenectomia. O prognóstico é benigno na grande maioria dos casos. 4.6 TALASSEMIAS 4.6.1 Considerações gerais As talassemias são condições caracterizadas pela redução ou ausência da síntese das cadeias de globina (as cadeias deficientes são, assim, indicadas no nome da patologia, ou alfa, ou beta). A síntese reduzida da cadeia globínica mutada leva à redução do conteúdo eritrocitário de Hb e, finalmente, à anemia hipocrômica e microcítica de intensidade variada. Em compensação, o excesso da cadeia globínica normal pode levar à hemólise crônica e eritropoese ineficaz. A Hb normal circulante de um adulto é composta por 3 principais tipos de Hb, os quais, por sua vez, apresentam sempre 2 cadeias globínicas alfa associadas a 2 cadeias globínicas de outro tipo; em média, 98% correspondem a HbA, que é formada por um tetrâmero de 2 cadeias alfa e 2 cadeias betaglobínicas, podendo ser chamada de “alfa 2 beta 2”; < 3% de HbA2, formada por 2 cadeias alfa e 2 cadeias delta (alfa 2 delta 2); e < 2% de HbF, com 2 cadeias alfa e 2 cadeias gama (alfa 2 gama 2). Esta HbF predomina na vida intraútero, sendo gradativamente substituída pelas HbA e A2 na vida extrauterina. Quadro 4.4 - Tipos de hemoglobina normal 4.6.1.1 Alfatalassemia As 2 cópias do gene da alfaglobina estão localizadas no cromossomo 16, e não há substituto para esta na formação da Hb, podendo trazer repercussões desde a vida intrauterina, já que todas as Hbs contêm cadeias alfa. A deficiência de formação da alfaglobina leva, consequentemente, ao excesso relativo de cadeia beta nas crianças e nos adultos, formando a HbH (beta-4),e ao excesso intraútero de globina do tipo gama, gerando a Hb de Bart (gama-4). O excesso de cadeia beta é capaz de formar tetrâmeros solúveis (HbH), que são instáveis e podem precipitar dentro da hemácia, gerando uma variedade de manifestações clínicas. A HbH tem alta afinidade com o oxigênio e distribui mal o O2 nos tecidos; a Hb de Bart apresenta extraordinária afinidade com o oxigênio e resulta na hidropisia fetal e na morte intrauterina ou pós-parto na alfatalassemia major, em que não há produção da cadeia alfa. As mutações dos genes da alfatalassemia são: 1. 3 genes normais e 1 gene mutado [ / -]: portador silencioso ou alfatalassemia mínima (alfa + talassemia); 2. 2 genes normais e 2 mutados [ -/ - ou /- -]: talassemia minor ou traço talassêmico alfa; não existem sintomas, mas o hemograma pode apresentar anemia leve, microcítica; 3. 1 gene normal [ -/- -]: doença da HbH; anemia hemolítica, esplenomegalia, alterações esqueléticas devido a eritropoese aumentada; 4. Nenhum gene normal [- -/- -]: hidropisia fetal com Hb de Bart, pois a cadeia alfa não é formada, sendo incompatível com a vida extrauterina. 4.6.1.2 Betatalassemia As betatalassemias são causadas mais por mutações pontuais do que por deleções e resultam na formação de cadeias beta incompletas ou até na ausência das cadeias. Os defeitos moleculares que levam à betatalassemia são múltiplos e heterogêneos. O único gene da betaglobina localiza-se no cromossomo 11, adjacente aos locais onde estão codificadas as cadeias delta e gama, capazes de substituir a cadeia beta. O excesso relativo das cadeias alfa provoca diminuição da solubilidade e precipitação da Hb, levando a lesões de membrana e alteração no transporte de oxigênio. Essas lesões provocam hemólise, tanto dentro da medula óssea quanto no sangue periférico, e são responsáveis por uma variedade de manifestações clínicas. A intensidade destas depende da quantidade de cadeia alfaglobina em excesso. Quando não há síntese de cadeias beta, o subtipo é denominado “zero”, enquanto aqueles com síntese reduzida são chamados “+”. A redução na síntese de cadeias beta leva à formação de maior quantidade de HbA2 e F. O traço talassêmico beta é o termo usado para os heterozigotos, que herdam 1 único gene mutado responsável pela redução da cadeia da betaglobina ( / +). A talassemia intermediária é o resultado da homozigose para mutações talassêmicas – os 2 alelos apresentam mutação que resulta na diminuição da síntese de cadeia beta ( +/ +) – ou heterozigose – com alelos não produtores de cadeia beta ( +/ 0). Talassemia major é o termo utilizado quando há mutação em homozigose, que resulta na ausência da síntese de cadeia globínica ( 0/ 0). 4.6.2 Quadros clínico e radiológico 4.6.2.1 Alfatalassemia As síndromes alfatalassêmicas predominam em indivíduos originários da China e do Sudeste Asiático e, mais raramente, de raça negra. O portador silencioso é assintomático e não manifesta alterações hematológicas. O traço alfatalassêmico apresenta anemia leve, microcítica e hipocrômica, com excelente qualidade de vida e sintomatologia mínima ou ausente. A doença da HbH tem quadro de anemia hemolítica de intensidade variável, mas geralmente em associação à necessidade transfusional desde a infância, com esplenomegalia e alteração óssea variável pela eritropoese ineficaz. O quadro de anemia e icterícia já se manifesta logo ao nascimento, visto que há deficiência de alfaglobina para a síntese de HbF. Na hidropisia fetal, ocorre hepatoesplenomegalia intensa, com anemia severa (Hb = 3 a 4) e insuficiência cardíaca, culminando com óbito fetal ou natimorto. Figura 4.8 - Hidropisia fetal 4.6.2.2 Betatalassemia Os indivíduos mais afetados são os originários da costa do Mediterrâneo (italianos e gregos, principalmente) e, em grau menor, chineses, outros asiáticos e negros. O traço talassêmico (betatalassemia minor) pode apresentar anemia discreta, porém é assintomático. Geralmente, a suspeita é confirmada com hemograma de rotina. Na talassemia intermediária, os pacientes apresentam anemia hemolítica crônica, de intensidade variável, habitualmente com pouca necessidade transfusional ao longo da vida, sendo necessário o aporte de sangue apenas em períodos de estresse. Podem apresentar eritropoese extramedular, com formação de massas nos mais diversos locais (pulmão, paravertebral), e ter deformidades ósseas de intensidade variável em consequência da eritropoese ineficaz. Na betatalassemia major (anemia de Cooley), os sinais geralmente são evidentes em torno do sexto mês de vida, período em que ocorre diminuição da síntese de HbF e seria esperado aumento da Hb contendo cadeia beta (HbA). Numerosos problemas clínicos acontecem a partir desse momento, como anemia hemolítica crônica intensa, falhas de crescimento e desenvolvimento, deformidades ósseas devido a eritropoese intensa, hepatoesplenomegalia, icterícia e hematopoese extramedular. Se as crianças não são tratadas, 8% morrem no primeiro ano de vida por insuficiência cardíaca, inanição e infecção. A evolução clínica é modificada pela realização de terapêutica transfusional adequada, porém a sobrecarga de ferro transfusional (hemossiderose) pode ser grave, com lesões de múltiplos órgãos e redução da sobrevida, se não tratada. Nas formas mais graves de talassemia, como resposta à eritropoese ineficaz, a série eritroide medular aumenta, às vezes de maneira tão intensa que pode levar à proliferação das camadas hematopoéticas de ossos chatos e longos, com deformidades ósseas severas, osteopenia e, eventualmente, fraturas patológicas. As principais alterações ósseas na talassemia são: protuberância da região frontal e das regiões malares; depressão na ponta do nariz; horizontalização dos orifícios nasais e hipertrofia dos maxilares com exposição de dentes e gengivas superiores. Figura 4.9 - Alterações ósseas No crânio, podem-se ter, ainda, o alargamento da díploe, o desaparecimento da tábua externa e o aparecimento de estrias perpendiculares, que conferem o aspecto característico de “porco- espinho”. O exame radiológico de ossos em geral, por sua vez, mostra redução do osso compacto da cortical e reabsorção das trabéculas. Figura 4.10 - Alargamento da díploe e diminuição da tábua externa no crânio Figura 4.11 - Crânio “em porco-espinho” 4.6.3 Laboratório 4.6.3.1 Alfatalassemia minor (traço) A Hb varia desde a normalidade até em torno de 10 g/dL. O VCM é marcadamente baixo (entre 60 e 75 fL), e a contagem eritrocitária está normal ou elevada. O esfregaço de sangue periférico mostra microcitose, hipocromia, hemácias “em alvo” e acantócitos. A contagem de reticulócitos é normal, assim como o ferro sérico. A eletroforese de Hb não mostra aumento de A2 ou de F, e não ocorre HbH. Trata-se de diagnóstico geralmente de exclusão, quando se afastam a deficiência de ferro, esferocitose e betatalassemia. Para diagnóstico de certeza, é necessária a pesquisa molecular. 4.6.3.2 Doença da HbH São pacientes com anemia hemolítica de intensidade moderada a severa, que cursam com Hb em torno de 7 a 9 g/dL e que apresentam uma morfologia rica de sangue periférico, com poiquilocitose, microcitose, hipocromia e hemácias “em alvo”. Apresentam como característica as chamadas hemácias “em bola de golfe” com coloração supravital, em razão dos precipitados intraeritrocitários de HbH. A contagem de reticulócitos é elevada, e, na eletroforese de Hb, é identificada a HbH. 4.6.3.3 Betatalassemia minor (traço) São indivíduos assintomáticos. Alguns cursam com anemia leve (Hb em torno de 10 g/dL). Microcitose e hipocromia são marcantes, com hemácias “em alvo” vistas na análise do sangue periférico; assim, um diagnóstico diferencial importante é a anemia ferropriva. Na talassemia, o RDW é normal, o número de eritrócitos é aumentado, e a contagem de reticulócitos é normal ou pouco aumentada. Em alguns casos, pode-se encontrar esplenomegalia discreta. Deve-se pensar em anemia ferropriva como diagnóstico diferencial para betatalassemia minor, já quehá microcitose, hipocromia e hemácias “em alvo”. 4.6.3.4 Betatalassemia intermediária A anemia é variável, geralmente em torno de 7 a 8 g/dL, com VCM baixo (entre 55 e 75 fL) e contagem eritrocitária normal ou elevada. O sangue periférico mostra poiquilocitose, microcitose, hipocromia, hemácias “em alvo” e pontilhado basófilo. A contagem de reticulócitos é normal ou elevada; o ferro sérico tende a ser elevado, pela absorção aumentada, que é estimulada pela eritropoese ineficaz. A eletroforese de Hb mostra aumento de A2 entre 4 e 8% e de HbF entre 1 e 5%. 4.6.3.5 Betatalassemia major Ocorre anemia severa, com hipocromia e microcitose intensas, e a Hb pode chegar a valores de 3 g/dL. O esfregaço de sangue periférico mostra múltiplas alterações, com poiquilocitose, hipocromia muito intensa, pontilhado basófilo e eritroblastos circulantes e eritrócitos em formas bizarras. Corpúsculos de Heinz podem ser vistos, pois a cadeia alfa se precipita. Pode haver, ainda, leucocitose e reticulócitos baixos como resultado do aumento do estímulo medular e da eritropoese ineficaz. Praticamente não há HbA na eletroforese, as quantidades de HbA2 são variáveis, e o predomínio é de HbF. Quadro 4.5 - Talassemias: genética, clínica e laboratório Legenda: produção normal de cadeia beta ( ); produção de cadeia beta diminuída, mas não completamente ( +); produção de cadeia beta completamente ausente ( 0). 4.6.4 Diagnóstico diferencial Ocorre principalmente com a deficiência de ferro, particularmente nas formas menores. O paciente com talassemia tem VCM menor, número de hemácias por mm3 normal ou elevado, RDW normal, ferro e ferritina séricos normais ou elevados e reticulócitos normais ou aumentados. #IMPORTANTE A eletroforese de hemoglobina é o exame de eleição para o principal diagnóstico diferencial entre a alfatalassemia, a betatalassemia e as anemias carenciais por deficiência de ferro. 4.6.5 Tratamento Nas formas heterozigóticas menores, não é necessário tratar nem realizar aporte de ácido fólico, exceto em períodos de estresse ou aumento da demanda, após perdas ou na gestação. Os pacientes podem desenvolver deficiência de ferro por perdas ou aumento de demanda, e não há contraindicações ao uso de suplementos de ferro nesses casos. As formas intermediária e major devem fazer uso contínuo de ácido fólico. Na doença da HbH, devem ser evitadas as drogas oxidantes e o uso de ferro medicinal. As formas maiores necessitam de esquemas regulares de transfusão desde a infância, para garantir crescimento e desenvolvimento adequados, bem como minimização dos efeitos ósseos e endocrinológicos da anemia severa crônica, com o objetivo de deixar a Hb entre 9 e 10 g/dL. Indica-se esplenectomia se o hiperesplenismo elevar os requerimentos transfusionais ou se a talassemia intermediária estiver com Hb em nível de transfusão frequente. A terapêutica de quelação de ferro é essencial para as formas maiores em transfusão, assim que os níveis de ferritina ultrapassem 1.000 ng/mL. A sobrecarga de ferro leva a complicações graves, como disfunção endócrina e metabólica (diabetes mellitus, hipotireoidismo, hipogonadismo e retardo de crescimento). As opções terapêuticas são a desferroxamina, de administração subcutânea e preferencialmente contínua, ou ainda o deferasirox, de uso oral. Na talassemia, podem acontecer, ainda, as crises aplásicas. Da mesma forma que na AF, na maioria das vezes, estão relacionadas com a infecção por parvovírus B19 ou deficiência de folato. O transplante alogênico de células-tronco hematopoéticas vem sendo realizado em casos selecionados de betatalassemia major, particularmente em crianças que ainda não desenvolveram sobrecarga de ferro, com índice de resposta em torno de 80% dos casos com sobrevida sem necessidade transfusional. 4.7 ESFEROCITOSE HEREDITÁRIA E OUTRAS DOENÇAS DA MEMBRANA ERITROCITÁRIA 4.7.1 Considerações gerais A membrana eritrocitária executa funções altamente especializadas e apresenta estrutura básica de 2 camadas de fosfolípides e um conjunto de proteínas de membrana, possibilitando que cada proteína celular realize diferentes atividades. Essas proteínas são classificadas basicamente como periféricas, que compõem o citoesqueleto, e integrais, que ocupam toda a espessura da membrana, sendo geralmente glicoproteínas com diversas funções. As proteínas do citoesqueleto são constituídas principalmente por membros da família das espectrinas e anquirinas, dispostas em sentido horizontal ou vertical, sendo responsáveis, entre outras funções, pela deformabilidade da hemácia. Por outro lado, uma função importante das proteínas integrais é o transporte de água e íons por meio das membranas. A esferocitose hereditária é a anemia hemolítica por defeito de membrana mais comum, cuja incidência é da ordem de 1 em 5.000 indivíduos europeus. O padrão de herança é autossômico dominante em 75% dos casos, sendo os demais de padrão recessivo. Resulta de mutações em genes que codificam as proteínas da membrana eritrocitária (espectrinas, banda 3, anquirinas e proteína 4.2), com consequente mudança na estrutura do citoesqueleto, deixando a membrana instável e suscetível à perda de superfície por vesiculações, formando os esferócitos, que são mais rígidos, comprometendo sua passagem pelos sinusoides esplênicos, onde são captados pelo sistema reticuloendotelial e fagocitados. Figura 4.12 - Proteínas da membrana eritrocitária Fonte: adaptado de Disorders of red cell membrane, 2008. 4.7.2 Quadro clínico O diagnóstico normalmente é feito na infância, pelo quadro de anemia, icterícia e esplenomegalia, e, muitas vezes, é confundido com AF ou hepatite. Doença leve ocorre em 20 a 30% dos casos, situação em que não há anemia nem icterícia, pois a medula óssea compensa a hemólise, ocorrendo reticulocitose moderada e discreta esplenomegalia. Esse caso pode ser diagnosticado apenas na adolescência ou no indivíduo já adulto. De 60 a 75% dos casos são de intensidade moderada, com anemia leve a moderada, reticulocitose intensa, esplenomegalia significativa, icterícia e necessidade transfusional ocasional. Os casos graves são minoria e caracterizam-se por necessidade transfusional frequente, em consequência da hemólise intensa. Há citação de morte intraútero por hidropisia fetal em casos extremos. Em quaisquer dessas situações, a anemia pode ser muito agravada quando há concomitância com deficiência de ácido fólico ou com infecção viral, em especial pelo parvovírus B19. A hemólise crônica leva ao quadro de colecistopatia crônica calculosa. Ao exame físico, chama a atenção a presença de esplenomegalia e icterícia. 4.7.3 Laboratório É encontrada anemia de gravidade variável, e even tualmente pode não haver anemia. Reticulocitose é um achado constante, e o esfregaço de sangue periférico mostra a presença de esferócitos, podendo fazer parte de apenas um percentual dos eritrócitos ou ocupar completamente a lâmina. Figura 4.13 - Sangue periférico com esferócitos (seta) Fonte: Nonimmune Hemolytic Anemia, 2017. A Concentração de Hemoglobina Corpuscular Média (CHCM) está elevada (sendo essa uma das raras causas de anemia hipercrômica), porém o VCM está diminuído ou normal (média entre o VCM dos esferócitos – microcíticos –, e dos reticulócitos – macrocíticos), e o RDW está elevado. Pela perda de parte de sua superfície de membrana, os esferócitos têm aumento da vulnerabilidade quando presentes em meios hipotônicos. Nessa característica, fundamenta- se o teste da curva de fragilidade osmótica, no qual os eritrócitos são expostos a soluções de cloreto de sódio cada vez menos concentradas, e faz-se um traçado da hemólise percentual a cada diluição, demonstrando que, nesse caso, começa a haver hemólise com concentrações de NaCl que não causariam esse efeito sobre eritrócitos normais. Contudo, a curva de fragilidade mostra apenas a existência de esferócitos, não a etiologia deles, podendo estar alterada, por exemplo, na anemia hemolítica autoimune. Portanto, o diagnóstico é feito por meio de históriafamiliar de anemia, presença de anemia hemolítica, com esferócitos no sangue periférico e alteração da curva de fragilidade osmótica. Figura 4.14 - Curva de fragilidade osmótica normal Figura 4.15 - Curva de fragilidade osmótica alterada 4.7.4 Tratamento Os pacientes com hemólise devem permanecer constantemente em uso de ácido fólico para garantir a resposta medular à hemólise crônica. O tratamento de escolha para indivíduos que mantêm hemólise severa, com necessidade transfusional, consiste na esplenectomia. A retirada do baço não corrige o defeito da membrana, mas elimina o principal sítio de hemólise, portanto não deve ser indicada a casos de anemia leve. É recomendado, quando possível, aguardar até 4 anos para realizar a esplenectomia, pelo risco de sepse grave. É imprescindível vacinação pré-esplenectomia com antipneumococos, meningococo e Haemophilus, além de profilaxia com penicilina via oral até 5 anos após esplenectomia. 4.8 DEFICIÊNCIA DE GLICOSE-6- FOSFATO DESIDROGENASE E PIRUVATOQUINASE 4.8.1 Deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase A via da glicose-6-fosfato desidrogenase protege a hemoglobina e a membrana eritrocitária do dano oxidativo dos radicais livres do O2 produzidos por infecções, drogas, toxinas e cetoacidose diabética, e a oxidação de estruturas da membrana pode causar hemólise intravascular. A glicose-6-fosfato (G6P), formada no início da glicólise, pode ser desviada para a via das pentoses ou shunt da hexose monofosfato. Nessa via, a G6P sofre ação da G6P desidrogenase, formando a 6-fosfogluconato e restaurando o NADPH. Este último é uma coenzima da glutationa redutase, que leva à regeneração da glutationa reduzida (GSH). A GSH é usada pela glutationa peroxidase na eliminação do peróxido de hidrogênio na hemácia, evitando a oxidação da membrana plasmática da hemácia, das globinas e das proteínas estruturais (já que isso causaria instabilidade celular). Figura 4.16 - Metabolismo da glicose-6-fosfato desidrogenase Fonte: elaborado pelos autores. A G6PD também atua, por meio da produção de NADH, para manter o heme na forma reduzida Fe++. Na deficiência da G6PD, a meta-Hb (heme contendo ferro na forma férrica) persiste e se precipita, formando os corpúsculos de Heinz, que se ligam à membrana, lesando-a de diversas maneiras. Assim, a G6PD é necessária para a formação de NADPH e GSH, protegendo a hemácia dos efeitos oxidativos e evitando a formação de meta-Hb. A deficiência da G6PD é uma doença ligada ao cromossomo X, que afeta 1 a cada 100.000 pessoas na Europa, especialmente homens; cerca de 10% dos negros americanos têm a variante africana (classe III); no Brasil, 8% dos negros apresentam a deficiência. Os corpúsculos de Heinz são observados no período precoce do quadro no esfregaço de sangue periférico, pelo corante cristal violeta. Os eritrócitos com corpúsculos de Heinz são rapidamente retirados da circulação pelo baço, que detecta essa alteração, levando ao aparecimento das bite cells, ou células “mordidas”. Existem 4 formas de manifestação clínica da deficiência: 1. Anemia hemolítica aguda: pacientes apresentam crise hemolítica aguda, intravascular e extravascular, quando expostos a agentes oxidantes, como algumas drogas, com sintomatologia nos primeiros 2 a 4 dias após a ingesta. Ocorre queda rápida do hematócrito, com elevação da bilirrubina indireta, queda da haptoglobina e elevação da hemoglobinemia. Há queixas de mal-estar precordial, calafrios, cefaleia, náuseas e vômitos, confusão mental, dor lombar, hematúria e alteração da dinâmica cardiorrespiratória. Como toda crise hemolítica intravascular, a destruição eritrocitária maciça pode levar à necrose tubular aguda, por deposição de Hb e seus metabólitos. A queda de Hb estimula a secreção de EPO, que resultará em reticulocitose, com pico entre 7 e 10 dias do início da hemólise; 2. Anemia hemolítica não esferocítica congênita: apresenta hemólise crônica de intensidade variável mesmo na ausência de agentes oxidantes, mas os quadros hemolíticos costumam ser fulminantes após a exposição a drogas; 3. Icterícia neonatal: pico de incidência de hemólise ocorre entre o segundo e o quarto dia de vida; há mais icterícia do que anemia; raramente a anemia é grave; 4. Favismo: principalmente em crianças de 1 a 5 anos. Após a ingesta de fava (5 a 24 horas), há hemólise intravascular intensa. Quadro 4.6 - Principais medicamentos e produtos químicos que podem levar a crises hemolíticas na deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase A Organização Mundial da Saúde preconiza classificar a deficiência de G6PD, de acordo com a magnitude da deficiência e a severidade da hemólise: 1. Classe I: deficiência enzimática severa (< 10% de atividade) e hemólise crônica; 2. Classe II: deficiência enzimática severa, com hemólise intermitente associada à infecção ou a medicamento; 3. Classe III: deficiência enzimática moderada (10 a 60% de atividade), com hemólise intermitente associada a quadro infeccioso ou uso de medicação. 4.8.1.1 Diagnóstico É realizado com base no estudo quantitativo de G6PD em hemolisados e na eletroforese da enzima em acetato de celulose. 4.8.1.2 Tratamento O tratamento consiste no suporte transfusional durante as crises hemolíticas graves. Entretanto, a profilaxia das crises, evitando-se o uso/consumo das substâncias que podem desencadear os sintomas, é a melhor recomendação para esses pacientes. Na icterícia neonatal, a conduta é a mesma de qualquer doença hemolítica do recém- nascido, sendo indicadas a fototerapia e a exsanguineotransfusão, a depender dos valores de bilirrubina. A grande recomendação aos portadores dessa deficiência é a profilaxia, evitando o uso das drogas citadas e o consumo de fava. A esplenectomia é indicada apenas em casos especiais. 4.8.2 Deficiência de piruvatoquinase A piruvatoquinase está envolvida no metabolismo da glicose e produz ATP por meio do catabolismo do fosfoenolpiruvato em lactato. O ATP assegura o funcionamento da bomba de sódio e é importante para a manutenção dos lipídios da membrana. Além disso, mantém a atividade da bomba Ca/Mg, evitando a calcificação da membrana plasmática. O déficit de ATP leva a alterações na membrana do eritrócito, com tendência a hiper-hidratação, formação de esferócitos e destruição da célula (anemia crônica). Essa deficiência é a segunda causa mais comum de anemia hemolítica decorrente de deficiências enzimáticas, sendo a herança autossômica recessiva. O quadro de hemólise crônica interfere no desenvolvimento da criança, por isso pode estar indicada a esplenectomia. 4.9 HEMOGLOBINÚRIA PAROXÍSTICA NOTURNA A hemoglobinúria paroxística noturna, ou doença de Marchiafava- Micheli, é uma doença clonal, adquirida e rara do tecido hematopoético, capaz de afetar todas as suas linhagens. A incidência exata não é conhecida; afeta todas as faixas etárias, particularmente adultos jovens, e incide igualmente em ambos os sexos. Caracteriza- se como doença crônica com significantes morbidade e mortalidade. No entanto, muitos pacientes têm sobrevida longa (> 10 anos), e alguns casos podem entrar em remissão espontânea. Raros casos (1 a 2%) evoluem para mielodisplasia ou leucemia aguda, ou, ainda, para aplasia de medula. É resultado da mutação somática do gene PIG-A localizado no cromossomo X de uma célula-tronco pluripotencial. O produto do gene PIG-A é essencial à biossíntese de glicosilfosfatidilinositol (GPI), um fosfolípide necessário para que determinadas proteínas (mais de 25) possam ser fixadas à membrana celular externa. A trombose venosa e/ou arterial, outra característica da doença, acontece por ativação plaquetária, junto à ativação do complemento e à formação de trombos espontaneamente. Em 30 a 40%, esses eventos são a principal causa de óbito. O evento mais descrito é a síndrome de Budd-Chiari (trombose das supra-hepáticas). Os sintomas são os relacionados às citopenias: fadiga pela anemia, quadros infecciosos pela leucopenia e sangramento (raro) pela plaquetopenia; urina escura pela manhã (hemoglobinúria)e após estresse (infecção, cirurgia, exercícios vigorosos); icterícia pela hemólise; esplenomegalia leve; deficiência de ferro pela perda na urina; e os relacionados à trombose. Deve-se pensar em hemoglobinúria paroxística noturna quando houver citopenias associadas à anemia hemolítica e a eventos trombóticos. Figura 4.17 - Ativação do complemento e hemólise na hemoglobinúria paroxística noturna São situações que devem despertar suspeita de hemoglobinúria paroxística noturna: citopenias associado a fenômenos trombóticos; neutropenia ou plaquetopenia associadas à hemólise; hipoplasia de medula óssea associada à hemólise; hemólise adquirida sem esplenomegalia; hemólise adquirida com teste de Coombs negativo; trombose hepática ou mesentérica; dor abdominal recorrente associada às citopenias; acidente vascular cerebral ou qualquer episódio trombótico sem risco conhecido. Os principais testes diagnósticos são: 1. Testes indiretos da sensibilidade das células à lise pelo complemento: testes de Ham (lise em meio ácido) e de sacarose (teste de ativação do complemento em meio de baixa força iônica); pouco utilizados na prática, por sua baixa sensibilidade; 2. Citometria de fluxo: deficiência de GPI detectada por redução na expressão dos antígenos CD55 e CD59 em eritrócitos e granulócitos, sendo o método diagnóstico padrão para essa patologia; 3. Biologia molecular: estudo do gene PIG-A. O tratamento consiste na suplementação de ácido fólico e de ferro, quando comprovada a associação à carência de ferro pela perda urinária crônica, além de suporte transfusional nas crises hemolíticas. Acreditava-se que alguns casos seriam beneficiados pelo corticoide em baixas doses, androgênios ou imunossupressores, porém todos já se comprovaram ineficazes. Atualmente, o anticorpo monoclonal anti-C5 inibe a ativação final do complemento (eculizumabe), droga utilizada com ótimos resultados na diminuição da necessidade transfusional e de eventos trombóticos, apesar do custo ainda bastante elevado, sendo o único medicamento eficaz, até o momento, para essa patologia. Em casos de citopenias graves e persistentes, sem resposta à terapêutica, deve-se considerar o transplante alogênico de células-tronco hematopoéticas, apesar dos resultados de moderado sucesso. 4.10 ANEMIA HEMOLÍTICA AUTOIMUNE A membrana eritrocitária, além da bicamada lipídica e das proteínas de membrana, possui várias estruturas antigênicas, que identificam os grupos sanguíneos (detectados mais de 300 antígenos). A anemia hemolítica autoimune é uma patologia bem caracterizada, cujo diagnóstico se baseia na demonstração da existência de hemólise, conduzindo a grau variável de anemia. Anticorpos IgG, IgM, IgA e ativação do sistema complemento contra os antígenos eritrocitários são responsáveis por essa destruição. As anemias hemolíticas autoimunes (AHAIs) podem classificar-se em 2 grandes grupos: 1. De acordo com a temperatura na qual a reação antígeno-anticorpo será máxima: a) Anticorpos quentes: geralmente IgG, que reage à temperatura corpórea de 37 °C; representa 70 a 80% de todos os casos de AHAI; b) Anticorpos frios: geralmente IgM, que reage a temperaturas inferiores a 37 °C (doença das hemaglutininas frias); constituem 20 a 30% dos casos. 2. De acordo com o local da hemólise: a) Extravascular: IgG aderida ao eritrócito rapidamente reconhecida pelos receptores Fc dos macrófagos teciduais e eliminada pelo baço e/ou pelo fígado; b) Intravascular: IgM que rapidamente ativa a via clássica do complemento, produzindo hemólise intravascular. As AHAIs por anticorpos quentes podem estar associadas a doenças linfoproliferativas, colagenoses (como o lúpus eritematoso sistêmico, a artrite reumatoide e outras), infecções virais (vírus Epstein-Barr, HIV) e tumores sólidos. As AHAIs por anticorpos frios podem ser secundárias a infecções (como Mycoplasma sp., mononucleose) e linfoproliferações. Dessa forma, diante de um quadro de AHAI, sempre se deve investigar um fator causal, e, em algumas situações, a AHAI pode preceder a doença à qual está relacionada, que deverá ser tratada para o controle adequado do paciente. Quando não se encontra nenhuma causa, trata-se de AHAI idiopática. Inúmeras drogas podem provocar a formação de anticorpos dirigidos contra antígenos eritrocitários e, consequentemente, causar AHAI – as principais classes de medicamentos são cefalosporinas, penicilinas e derivados, AINHs e quinidina. A patogênese da AHAI tem diversos mecanismos: 1. Adsorção da droga: a droga (exemplo: penicilina), que funciona como hapteno, liga-se fortemente às proteínas da membrana eritrocitária, resultando na síntese de anticorpos dirigidos contra a droga ligada às hemácias; 2. Adsorção de imunocomplexos: os anticorpos reagem com a droga (quinidina, fenacetina, cefalosporinas de terceira geração) para formar imunocomplexos que são adsorvidos por receptores específicos das hemácias e podem ativar o sistema do complemento e desencadear hemólise intravascular; 3. Indução de autoimunidade: drogas (alfametildopa, procainamida) alteram antígenos da superfície eritrocitária, induzindo à formação de autoanticorpos, que, inclusive, apresentam reação cruzada com antígenos não alterados, em geral relacionados ao grupo sanguíneo Rh. Quando a droga é a responsável pela hemólise, na maioria das vezes, a sua suspensão é suficiente para assegurar a resolução do quadro. Quando o anticorpo tem atividade sobre outras glicoproteínas ou antígenos eritrocitários, o processo é autolimitado e requer cerca de 2 a 12 semanas para a resolução completa do quadro hemolítico após a suspensão da droga. Alguns pacientes permanecem com teste de Coombs direto positivo durante alguns dias após a interrupção do medicamento. Têm sido relatados casos de AHAI, geralmente quadros graves, secundários ao uso de drogas que interferem no sistema imunológico, como fludarabina, pentostatina, tacrolimo e alfainterferona. A hemoglobinúria paroxística ao frio, por sua vez, é rara, compreendendo um autoanticorpo IgG que reage ao frio (4 °C) e ao calor (37 °C) – anticorpo de Donath-Landsteiner. Após a exposição ao frio, constatam-se hemoglobinúria, febre, dor lombar e sintomas de anemia. 4.10.1 Diagnóstico Caracteristicamente, encontra-se anemia de instalação rápida, que geralmente pode colocar a vida em risco, por sua severidade. Há queixas de astenia e dispneia intensas, muitas vezes podendo haver insuficiência cardíaca e quadros de hipofluxo cerebral grave. Icterícia e esplenomegalia ocorrem frequentemente, e, caso o indivíduo apresente uma patologia de base, os sinais e sintomas desta podem ser confundidos com os da AHAI. Nos casos da doença das hemaglutininas frias, o paciente pode apresentar sintomas relacionados à aglutinação das hemácias na exposição a ambientes frios: acrocianose (coloração azulada da pele nas extremidades – dedos, orelhas e nariz – que desaparece após aquecimento). Os pacientes chegam a níveis de Hb de 3 ou 4 g/dL, com reticulocitose intensa e esferócitos no sangue periférico, aumento de DHL e de bilirrubina indireta e diminuição da haptoglobina. Se o estresse sobre a medula óssea for muito intenso, poderão aparecer eritroblastos na circulação periférica. Nos casos de hemólise intravascular, ocorre hemoglobinúria, podendo evoluir com insuficiência renal, pelo depósito de Hb livre. Cerca de 10% apresentam trombocitopenia imune associada (síndrome de Evans). Utiliza-se o teste de antiglobulina direto (denominado antigamente Coombs direto) para detectar a presença de anticorpos ou complemento aderidos aos antígenos eritrocitários, porém pode estar negativo em aproximadamente 5% dos casos. O teste de Coombs indireto (Pesquisa de Anticorpos Irregulares – PAI) detecta a presença de autoanticorpos livres no plasma. Quando a titulação de autoanticorpos é elevada ou a afinidade destes com os eritrócitos é intensa, pode haver positividade inespecífica nas PAIs pré-transfusionais, e as provas cruzadas podem ser positivas a todas as unidades de hemácias testadas, sendorequeridas “manobras” imuno-hematológicas para identificar as bolsas compatíveis em caso de necessidade transfusional. 4.10.2 Tratamento Como tratamento, sugere-se a suplementação com ácido fólico e o início do uso de prednisona 1 mg/kg/d, que pode ser dividida em 2 tomadas para minimizar a intolerância. Se não houver resposta, ou em casos de anemia severa, pode-se fazer pulso com metilprednisolona intravenosa, imunoglobulina intravenosa ou imunossupressão com ciclofosfamida. A esplenectomia fica reservada aos casos mais graves, em que não há resposta clínica às drogas, ou aos de corticodependência ou recidivas frequentes. Em alguns casos refratários, pode-se lançar mão do anticorpo monoclonal anti-CD20 (rituximabe), pois, inibindo os linfócitos B, a síntese de anticorpo também é inibida. Nos casos de AHAI por anticorpo frio, como o mecanismo de hemólise se dá por meio da ativação do complemento, o corticoide apresenta benefício limitado, visto que atua modulando a fagocitose; a esplenectomia não está indicada, pois a destruição eritrocitária ocorre em pequena porcentagem no baço. Pode-se, ainda, proceder à plasmaférese (procedimento em que há a troca de plasma rico em anticorpos do paciente por plasma normal proveniente de estoques de banco de sangue), porém o tratamento recomendado nessa patologia é o uso de alquilante (clorambucila, ciclofosfamida) ou o rituximabe. A transfusão de concentrados de hemácias deve ser feita apenas nos casos com risco de vida, e serão usadas unidades que apresentem o fenótipo eritrocitário mais compatível com o do receptor, pois as provas cruzadas podem tornar-se invalidadas pela presença dos autoanticorpos. 4.11 ANEMIA HEMOLÍTICA MICROANGIOPÁTICA A anemia hemolítica microangiopática, ou hemólise por fragmentação, ocorre por lesão mecânica da membrana eritrocitária durante a circulação, levando à hemólise intravascular e ao aparecimento de esquizócitos, que são os achados característicos dessa síndrome no esfregaço de sangue periférico. Quando as hemácias atravessam um vaso onde houve lesão endotelial com deposição local de fibrina e agregação plaquetária no local, sofrem lesões de membrana (cisalhamento). Essa fragmentação acontece em diversas patologias, como na púrpura trombocitopênica trombótica, na síndrome hemolítico-urêmica, na coagulação intravascular disseminada – essas 3 entidades serão mais bem estudadas no capítulo de hemostasia e trombose –, na eclâmpsia, na hipertensão maligna e nas crises de esclerodermia. Além das patologias descritas, o estresse de cisalhamento induzido por próteses valvares, próteses vasculares, aparelhos de circulação extracorpórea e shunts portossistêmicos pode ocasionar anemia microangiopática, em razão do turbilhonamento não fisiológico. A chamada hemólise do corredor ocorre em atletas de alta performance (como fundistas, maratonistas, jogadores de basquete ou praticantes de judô), em que o impacto dos pés contra o chão provoca hemólise mecânica, muitas vezes com hemoglobinúria macroscópica. 4.11.1 Púrpura trombocitopênica trombótica A Púrpura Trombocitopênica Trombótica (PTT) é uma microangiopatia trombótica disseminada, caracterizada pela oclusão difusa da microcirculação por microtrombos plaquetários. Estes causam anemia hemolítica microangiopática com formação de esquizócitos. Pode resultar em isquemia do sistema nervoso central e insuficiência renal aguda, com grande probabilidade de mortalidade, se não tratada rápida e adequadamente. O principal mecanismo é a deficiência ou a inibição (congênita ou adquirida) da metaloproteinase ADAMTS13 (A Disintegrin And Metalloproteinase with ThromboSpondin III motifs), responsável fisiologicamente pela degradação dos polímeros de alto peso do FvW (Fator de von Willebrand – forma inicial hiperfuncionante e maior) em polímeros de baixo peso (forma final e normofuncionante). A presença de anticorpos IgG antimetaloproteinase parece ser um fenômeno habitualmente associado às formas adquiridas de PTT, permanecendo, no entanto, pouco claros os mecanismos que levam esses anticorpos inibitórios a reconhecerem o complexo enzimático, bem como a razão pela qual são produzidos. Por outro lado, as formas congênitas de deficiência da enzima parecem estar relacionadas a mutações no gene da ADAMTS13, situado no braço longo do cro9q34. A disfunção endotelial é o elemento desencadeante da microangiopatia, em que haverá a adesão plaquetária persistente pela presença constante dos multímeros de alto peso do FvW (já que não há ADAMTS13), originando direta e indiretamente a trombose microvascular e promovendo a formação de um trombo primariamente plaquetário na microcirculação (microangiopatia trombótica disseminada). As hemácias, ao tentarem vencer o trombo plaquetário, chocam-se, o que resulta em hemólise (anemia hemolítica microangiopática) e formação dos esquizócitos. Uma lista crescente de agentes etiológicos tem sido descrita, com especial destaque para as toxinas bacterianas, vírus e fármacos, como alguns antiagregantes plaquetários – ticlopidina e clopidogrel. Todavia, somente em 15% dos casos se detecta um fator causal. Figura 4.18 - Fisiopatologia da púrpura trombocitopênica trombótica Legenda: (A) normal; (B) púrpura trombocitopênica trombótica. Fonte: adaptado de ADAMTS-13 in the Diagnosis and Management of Thrombotic Microangiopathies, 2014. Figura 4.19 - Formação de trombos plaquetários na púrpura trombocitopênica trombótica Legenda: (A) no cérebro; (B) no rim. Essa síndrome predomina na idade adulta, com pico de incidência na terceira década de vida e com uma razão sexo feminino:masculino de 3:2. Os dados sobre a incidência são escassos, mas parecem indicar aumento progressivo, com valores estimados de 3,7 casos/1.000.000/ano. 4.11.1.1 Como investigar Avaliação clínica (com alta suspeita de síndrome de microangiopatia trombótica) em pacientes com evidência de microangiopatia trombótica – trombocitopenia e anemia hemolítica microangiopática – com hemólise não imune (teste direto de Coombs negativo, reticulocitose, esquizócitos no esfregaço periférico, desidrogenase lática – DHL – elevada, haptoglobina não detectável, aumento de bilirrubina indireta) e painel de coagulação normal (TP, TTPa, fibrinogênio, D-dímero). O aumento da DHL é intenso e característico, indicando hemólise e lesão pela isquemia tecidual, e o acompanhamento dos níveis séricos de DHL é útil na avaliação da resposta ao tratamento. 4.11.1.2 Quadro clínico O quadro clínico assenta-se, sobretudo, na pêntade composta por trombocitopenia, anemia hemolítica microangiopática (sinais de hemólise e esquizócitos), febre, disfunções neurológica e renal. Apesar da utilidade diagnóstica, a pêntade está presente em apenas 25% dos pacientes; febre, púrpura e sinais neurológicos flutuantes são encontrados em cerca de 90%. Em 40% dos casos, é identificado quadro semelhante à síndrome gripal, que antecede imediatamente o aparecimento do quadro clínico típico de PTT. A púrpura é o sinal clínico inicial em 90% dos pacientes, sendo a trombocitopenia comumente inferior a 20.000 plaquetas/µL, em razão do consumo na formação dos trombos plaquetários. A anemia é de grau moderado a grave. A febre está sempre presente em algum momento da evolução da doença. A disfunção neurológica está presente inicialmente em 60% dos pacientes, ascendendo a 90% em qualquer momento da enfermidade. Nos sinais neurológicos, tipicamente transitórios e flutuantes, predominam síndromes confusionais, alterações do campo visual, parestesias e paresias, afasia, disartria, síncope, vertigens, ataxia, paralisias centrais, convulsões e alterações do estado de consciência. Podem ainda ser observados distúrbios na condução miocárdica, associados ou não à insuficiência cardíaca, bem como infiltrados intersticiais pulmonares. Anticorpos antinucleares (ANAs) são identificados em até 20% dos pacientes. Geralmente, a insuficiência renal aguda não decorre da necrose cortical, podendo cursar com hematúria e proteinúria; acomete 40% dos pacientes,mas, com frequência, é ligeira e transitória, e raramente torna-se crônica (ao contrário do que acontece na SHU – Síndrome Hemolítico-Urêmica). Figura 4.20 - Esquizócitos Fonte: adaptado de Paulo Henrique Orlandi Mourão, 2009. O diagnóstico da PTT é clínico. Como visto, nem sempre se encontram os 5 principais sintomas; assim, em qualquer plaquetopenia associada à presença de esquizócitos em sangue periférico, o diagnóstico de PTT deve ser lembrado, em especial se associado ao achado de anemia microangiopática e DHL alta. Infelizmente, não há nenhum teste que confirme o diagnóstico. A dosagem da metaloprotease ADAMTS13 é de difícil realização, e ainda não há a padronização dos seus resultados, não tendo utilidade no diagnóstico da doença, talvez apenas no prognóstico (quanto mais severa a deficiência, pior a sobrevida, mais lenta é a recuperação das plaquetas e maior o risco de recidiva). 4.11.1.3 Tratamento Antes do desenvolvimento de um tratamento eficaz, o desfecho era fulminante. Atualmente, a mortalidade é inferior a 10% em caso de tratamento adequado. Recomenda-se início imediato de plasmaférese, mesmo diante da suspeita diagnóstica, pois o retardo do tratamento pode comprometer consideravelmente o prognóstico. O objetivo é a retirada dos anticorpos anti-ADAMTS13 (quando presentes) e dos multímeros de alto peso, por meio da troca de grandes volumes de plasma (cerca de 40 a 60 mL/kg ou uma volemia plasmática em cada sessão), com reposição de plasma fresco congelado normal, que contém a proteinase. A presença de depressão grave do estado de consciência não é contraindicação para plasmaférese, visto que, com tratamento eficaz, verifica-se a reversão completa do quadro neurológico. É possível que os sintomas neurológicos amenizem já nas primeiras horas e que o número de plaquetas e os níveis de Hb comecem a elevar-se em 3 a 5 dias (porém, a normalização só é observada após semanas). A plasmaférese deve ser mantida até a resolução do quadro neurológico, a normalização da contagem plaquetária e a estabilização da DHL, por pelo menos 3 dias. Cerca de 90% dos pacientes respondem ao tratamento nas primeiras 3 a 4 semanas. Recomenda-se o uso de prednisona, 1 mg/kg, associado à plasmaférese, na tentativa de inibir a formação de mais anticorpos. Há controvérsia sobre o início imediato do corticoide ou se deve ser utilizado apenas em caso de resposta inicial ruim. O antiagregante plaquetário compreende tratamento adjunto que deve ser utilizado quando a contagem plaquetária ultrapassar 50.000/mm3. A transfusão plaquetária pode piorar os quadros neurológico e renal, portanto é reservada apenas a casos de sangramento que coloquem o paciente em risco de vida. Em indivíduos refratários, opta-se por aumentar a troca plasmática, realizando 2 procedimentos por dia, com o uso de plasma isento de crioprecipitado (menos multímeros de alto peso), e aumentar a imunossupressão com vincristina, rituximabe, ciclosporina ou azatioprina. A esplenectomia foi considerada tratamento de primeira linha para PTT antes do uso das aféreses, não sendo mais indicada. 4.11.1.4 Diagnóstico diferencial Fazem parte todas as causas de microangiopatia, ou seja, anemia secundária à hemólise por trauma mecânico microvascular, portanto, com presença de esquizócitos no sangue periférico e plaquetopenia de consumo: SHU, síndrome HELLP, vasculites e coagulação intravascular disseminada (CIVD). 4.11.1.5 Síndrome hemolítico-urêmica A SHU também é uma forma de microangiopatia trombótica disseminada com anemia hemolítica microangiopática; logo, clinicamente se apresenta com sintomas e achados laboratoriais similares à PTT. Entretanto, a diferenciação entre essas 2 entidades é de extrema importância para o tratamento de cada uma. A SHU afeta principalmente crianças (95% dos casos), independentemente do sexo, mas é ocasional em adultos. Existe a formação de microtrombos na circulação, que atingem principalmente os rins, podendo causar insuficiência renal oligoanúrica. A SHU típica é associada à febre, à disenteria e à infecção pela Escherichia coli produtora de verotoxina (VTEC) ou toxina de Shiga (STEC). O subtipo O157:H7 está presente em, aproximadamente, 80% dos casos, mas a SHU pode ser causada ainda por outros sorotipos de E. coli produtores de toxina ou por Shigella dysenteriae tipo I. Cerca de 15% dos pacientes que cursam com diarreia pela E. coli VTEC evoluem para SHU. O mecanismo fisiopatogênico exato dessa entidade mantém-se desconhecido, mas provavelmente se correlaciona com lesão renal vascular provocada pela toxina. Os demais tipos de SHU não são associados a VTEC e podem correlacionar-se com uso de medicamentos, em especial ciclosporina, quinidina, quimioterápicos, ticlopidina e interferona. A maioria dos casos apresenta-se com plaquetopenia, porém em níveis não tão baixos como na PTT. Sintomas neurológicos são bem menos comuns e menos severos: convulsões, coma e acidente vascular cerebral ocorrem somente em 10% dos casos. Em compensação, os microtrombos na microcirculação renal são bem mais comuns, evoluindo com insuficiência renal. O objetivo do tratamento inicial é manter a perfusão renal com fluidos intravenosos, ao mesmo tempo em que se evita a congestão pelo excesso de líquidos. Aproximadamente 50 a 60% dos pacientes com insuficiência renal evoluem para insuficiência renal oligúrica, necessitando de hemodiálise. Entretanto, 90% das crianças sobrevivem com tratamento de suporte clínico. Não há benefício adicional pela infusão de plasma e/ou plasmaférese, enquanto o uso de antibioticoterapia específica para os germes envolvidos é controverso. Infelizmente, em até 1 terço dos pacientes haverá prejuízo da função renal por anos após o evento inicial da SHU. #PERGUNTA AÍ Quais são as indicações para se fazer antibiótico profilático nos pacientes com anemia falciforme? Penicilina profilática deve ser prescrita para todos os pacientes com anemia falciforme até os 5 anos. Após 5 anos, pode-se optar por parar a profilaxia ou seguir com ela, dado que a disfunção esplênica faz parte do curso da doença. Alérgicos a penicilina devem fazer uso da eritromicina. Quadro 4.7 - Comparação entre púrpura trombocitopênica trombótica e síndrome hemolítico-urêmica Quadro 4.8 - Diferenças entre púrpura trombocitopênica trombótica e síndrome hemolítico- urêmica 4.12 ANEMIA HEMOLÍTICA ALCOÓLICA A síndrome de Zieve, também conhecida como anemia hemolítica alcoólica, consiste em um distúrbio metabólico agudo, resultante da ingestão abusiva de bebidas alcoólicas. Clinicamente, esse transtorno caracteriza-se por anemia hemolítica, hiperlipoproteinemia, icterícia e dor abdominal. O diagnóstico pode ser feito por meio de exames de sangue e de imagem, como ultrassonografia abdominal, sendo confirmado por meio de biópsia hepática. O tratamento consiste na suspensão do consumo de bebidas alcoólicas. Quais são as principais causas de anemias hiperproliferativas? As anemias hemolíticas são de causa intrínseca, as mais comuns as talassemias e a anemia falciforme, ou extrínseca, principalmente púrpura trombocitopênica trombótica e síndrome hemolítico-urêmica. Quais as características clínicas que sugerem o diagnóstico de hemocromatose? 5.1 INTRODUÇÃO O conteúdo de ferro corpóreo é resultado do constante equilíbrio entre a absorção pela dieta e as perdas pelo suor, da descamação da pele e mucosas, além de sangramentos, como a menstruação. O principal estoque de ferro no corpo é feito pela hemoglobina. As mulheres com hemocromatose (HH) costumam apresentar sintomas mais tardiamente, em razão da menstruação, gravidez e amamentação. 5.2 FISIOPATOLOGIA A maioria dos pacientes apresenta a mutação do gene HFE (C282Y e H63D), porém outras mutações gênicas, como da hepcidina (HAMP), hemojuvelina (HJV) e ferroportina, podem causar a doença. Na HH há excesso de absorção intestinal do ferro, que, em longo prazo, provoca lesões em diversos órgãos, como fígado, coração e pâncreas. 5.3 APRESENTAÇÃO CLÍNICA A doença acomete2 a 3 vezes mais homens do que mulheres e, inicialmente, apresenta sintomas inespecíficos. Após anos de acúmulo de ferro nos tecidos, acarreta diversos sinais e sintomas, relacionados a seguir: 1. Anormalidades da função hepática: o fígado é o principal órgão envolvido (75% dos casos). O depósito progressivo de ferro está associado a hepatomegalia, alteração de enzimas hepáticas (aumento de TGO e TGP) e fibrose, podendo culminar em cirrose hepática. Todos os pacientes com HH e cirrose devem realizar endoscopia digestiva alta para avaliar a presença de varizes esofágicas e o risco de hemorragia. O carcinoma hepatocelular é uma das complicações mais temidas, responsável por aproximadamente 45% das mortes. O paciente deve ser aconselhado a interromper o uso de álcool por causa do aumento do risco de hepatopatia; 2. Fraqueza e letargia: muito comum, ocorre em 75% dos casos; 3. Pigmentação da pele: difusa, mas pode ser maior na face, no pescoço e nas faces extensoras dos antebraços; 4. Diabetes mellitus: ocorre em 50% dos pacientes, e é causado pelo acúmulo de ferro no pâncreas. O tratamento com flebotomia normalmente não reverte a doença, mas pode haver diminuição nas doses de insulina; 5. Artropatia: as articulações das mãos (segundo e terceiro metacarpos) são as primeiras acometidas. Posteriormente, ocorre lesão dos punhos, quadris, tornozelos e joelhos, podendo evoluir para artropatia destrutiva. Os sintomas não costumam responder à terapia de remoção do ferro; 6. Outras alterações endocrinológicas: a) Hipogonadismo: endocrinopatia mais comum na HH, causando diminuição da libido, impotência sexual em homens e amenorreia; b) Hipotireoidismo: causado pelo depósito de ferro na tireoide; c) Hipopituitarismo: raro. 7. Acometimento cardíaco: a HH pode culminar em miocardiopatia dilatada (sintomas clássicos de insuficiência cardíaca), além de poder lesar o sistema de condução e causar arritmias cardíacas, como flutter e fibrilação atrial, e graus variados de bloqueio atrioventricular; 8. Infecções: o risco aumentado de infecções bacterianas ocorre em razão da diminuição na ação de macrófagos e avidez de algumas bactérias por ferro. A tríade clássica, composta por cirrose hepática, diabetes mellitus e pigmentação da pele (“diabético bronzeado”), ocorre apenas em casos mais avançados. Existe a forma juvenil da HH, que é mais agressiva, e cursa com sintomas mais precoces (segunda ou terceira década da vida), predominantemente endocrinológicos e cardíacos (principal causa de morte). Figura 5.1 - Principais sintomas da hemocromatose hereditária 5.4 DIAGNÓSTICO A associação de hepatomegalia, pigmentação cutânea, diabetes mellitus, miocardiopatia, artrite e hipogonadismo deve sugerir o diagnóstico. Na suspeita de HH, é importante excluir outras causas de hepatopatia crônica, anemias hemolíticas crônicas e histórico de múltiplas hemotransfusões. Na investigação, o perfil de ferro é o exame inicial, apresentando geralmente ferro sérico, ferritina e saturação de ferro elevados, com transferrina normal. A saturação de ferro > 45% sugere prosseguir investigação, com a pesquisa de mutações (C282Y e H63D) do gene HFE. Caso negativo, as outras mutações gênicas (genes HAMP, HJV e ferroportina) podem ser pesquisadas. A ferritina > 200 ng/mL em mulheres e > 300 ng/mL em homens sugere sobrecarga, e valores acima de 1.000 ng/mL indicam cirrose hepática. Deve-se ter especial cuidado com falsos positivos, pois a ferritina é um reagente de fase aguda. No diagnóstico de HH, deve-se ter cuidado com falsos positivos relacionados à ferritina, pois ela é um reagente de fase aguda. No passado, a biópsia hepática era utilizada para confirmar o diagnóstico, porém, com os novos testes genéticos, a ressonância magnética (quantificação do ferro) e a elastografia hepática (FibroScan®) têm sido mais utilizadas para determinar a gravidade do quadro em pacientes com hepatopatias subjacentes. 5.5 TRATAMENTO A instituição de terapia precoce pode reverter a toxicidade pelo ferro e restaurar a expectativa de vida. #IMPORTANTE A sangria terapêutica é um método efetivo e seguro para a remoção dos estoques de ferro. São retirados de 200 a 500 mL de sangue semanais, até que a saturação de ferro fique < 30% e a ferritina < 50 ng/mL. A sangria terapêutica é um método efetivo e seguro para a remoção dos estoques de ferro. O transplante de fígado pode ser realizado desde que os estoques de ferro estejam corrigidos. É importante que o paciente seja orientado a interromper a ingestão de álcool pelo maior risco de cirrose hepática. Alimentos ricos em ferro e uso de suplementos com ácido ascórbico (vitamina C) também devem ser evitados. Com o tratamento precoce e adequado, podem ocorrer regressão da fibrose hepática, melhora no controle do diabetes mellitus, diminuição da pigmentação e reversão da insuficiência cardíaca. A artropatia e o hipogonadismo não costumam responder ao tratamento. Quais as características clínicas que sugerem o diagnóstico de hemocromatose? As principais características clínicas associadas à hemocromatose são hepatomegalia, pigmentação da pele, fraqueza, diabetes mellitus e hipogonadismo. Como diagnosticar as alterações da coagulação? 6.1 INTRODUÇÃO E FISIOLOGIA DA COAGULAÇÃO A hemostasia é o processo resultante do equilíbrio entre proteínas pró-coagulantes, anticoagulantes e fibrinolíticas, para manter o sangue fluido e, quando necessário, coibir o sangramento. O equilíbrio é alcançado pelo bom funcionamento de vasos sanguíneos (endotélio), plaquetas, proteínas da coagulação, da fibrinólise e dos anticoagulantes naturais. Muitos fatores, genéticos ou adquiridos, podem contribuir para romper esse equilíbrio, levando a estados de hipocoagulabilidade ou hipercoagulabilidade. Didaticamente, a hemostasia pode ser dividida em 3 etapas (Figura 6.1). Figura 6.1 - Etapas da hemostasia Fonte: acervo Medcel. 6.1.1 Hemostasia primária A hemostasia primária é responsável por estancar o sangramento por meio da formação do tampão plaquetário. Após lesão endotelial, ocorrem exposição do colágeno e vasoconstrição reflexa. Plaquetas circulantes aderem ao colágeno por meio do fator de von Willebrand, liberado pelo endotélio em razão do estresse de cisalhamento. Essa adesão ocorre por intermédio das glicoproteínas Ib (GPIb) e Ia-IIa localizadas, respectivamente, na superfície das plaquetas e do colágeno. As plaquetas aderidas ao colágeno são ativadas, liberando secreções dos conteúdos granulares (adenosina difosfato, prostaglandinas, tromboxano A2 e serotonina), e sofrem alteração de sua estrutura, expondo outra glicoproteína de membrana: GPIIb/IIIa. Esta é responsável pela agregação plaquetária por meio da sua ligação ao fibrinogênio: agregação plaqueta-plaqueta (Figura 6.2). As secreções dos grânulos plaquetários são responsáveis por maiores vasoconstrição, adesão, ativação e agregação plaquetária. Assim, forma-se o tampão plaquetário, responsável pelo controle do sangramento em poucos minutos. Por fim, o tampão plaquetário tem atividade pró-coagulante, por meio da exposição de fosfolípides pró-coagulantes e complexos enzimáticos na superfície da plaqueta, o que resulta na inter-relação entre ativação plaquetária e ativação da cascata da coagulação. As principais doenças relacionadas com distúrbios da hemostasia primária são relacionadas com o aumento da fragilidade da parede vascular (púrpura trombótica e púrpura de Henoch-Schönlein), alterações na forma e na quantidade das plaquetas (púrpura trombocitopênica imunológica), além de alterações quantitativas e qualitativas do fator de von Willebrand, que levam à doença de mesmo nome. Figura 6.2 - Hemostasia primária 6.1.2 Hemostasia secundária Hemostasia secundária é o nome dado às reações da cascata da coagulação, que consistem na ativação sequencial de uma série de pró-enzimas ou precursores proteicos inativos em enzimas ativas, resultando na formação de fibras de fibrina que fortalecem o tampão plaquetário. A hemostasia secundáriaé capaz de evitar o ressangramento por meio da formação de uma rede adesiva de fibrina que consolida o tampão plaquetário (a partir daí, chamado de coágulo). No caso das alterações da hemostasia secundária, temos, como principais problemas, a hemofilia por deficiências do fator VIII ou IX, a coagulação intravascular disseminada e a deficiência de vitamina K comum nos usuários de cumarínicos. Todos os fatores de coagulação são produzidos pelo fígado, com exceção do fator VIII e do fator de von Willebrand, que são secretados pelo endotélio. Essa cascata da coagulação é dividida didaticamente em 2 vias principais: a via intrínseca, desencadeada por fatores de contato, de carga negativa, presentes no intravascular, e a via extrínseca, desencadeada pelo Fator Tecidual (FT), que confluem para uma via comum. A cascata da coagulação é dividida em 2 vias principais: a via intrínseca, desencadeada por fatores de contato, de carga negativa, e a via extrínseca, desencadeada pelo fator tecidual, que confluem para uma via comum. Na via extrínseca, o fator VII circulante liga-se ao FT (tromboplastina) exposto pelo endotélio lesado e, juntos, ativam o fator X (via comum). Na via intrínseca, o fator XII, na presença de Cininogênio de Alto Peso Molecular (CAPM) e pré-calicreína (PK), é ativado por fatores de contato (substâncias de carga negativa, como toxinas bacterianas). O XIIa ativa o fator XI, que atuará na ativação do fator IX. O fator IXa, na presença do VIIIa, ativa o fator X. Após a geração de fator Xa por ambas as vias, o fator Xa se associa ao fator Va e ativa a protrombina (fator II) em trombina (fator IIa), sendo esta a responsável pela transformação do fibrinogênio em fibrina. O fator XIII é fundamental para a estabilização do coágulo de fibrina. Cálcio e fosfolípides são cofatores importantes para a cascata da coagulação. Os fatores de coagulação dependentes de vitamina K são: II, VII, IX, X, proteínas C e S. Figura 6.3 - Cascata da coagulação sanguínea Nota: as pró-enzimas estão mostradas nos retângulos brancos, e os fatores ativados, nos retângulos vermelhos; os fatores anticoagulantes (TFPI – inibidor do fator tissular –, proteína C ativada e antitrombina) e a plasmina estão mostrados nos retângulos de cantos arredondados. Fonte: elaborado pelos autores. Tal maneira clássica de apresentar a cascata da coagulação é importante para o raciocínio na interpretação dos exames laboratoriais, mas não é o que acontece no organismo. Fisiologicamente, sabe-se que o FT exposto após a lesão endotelial é o evento primário da cascata da coagulação, pois o complexo FT- VIIa ativa os fatores X e IX, gerando pequena quantidade de trombina. Sabe-se também que os fatores da antiga via intrínseca (como XI, IX, VIII) funcionam como amplificadores do processo dessa geração de trombina, peça-chave na formação do coágulo de fibrina. Tal amplificação ocorre na membrana das plaquetas ativadas (aquelas ativadas no processo da hemostasia primária), utilizadas como fonte de fosfolípides, importante para a localização do coágulo apenas no tecido lesado. Três importantes substâncias agem como moduladoras da cascata da coagulação: antitrombina (AT), o inibidor da via do Fator Tecidual (FT) e a proteína C ativada/proteína S. A AT, produzida no fígado e, possivelmente, nas células endoteliais, é um dos mais potentes inibidores da cascata da coagulação. Exerce seu papel como anticoagulante pela inibição da trombina, dos fatores XIIa, XIa, IXa, Xa e da calicreína. O inibidor da via do FT bloqueia a ação do complexo VIIa-FT ao ligar-se com o fator Xa, diminuindo a geração de trombina em sua fase mais inicial. A principal fonte do inibidor da via do FT são as células endoteliais. A trombina gerada pela cascata da coagulação liga-se à trombomodulina, presente no endotélio sem lesão. O complexo trombomodulina-trombina ativa a proteína C circulante (PCa), e esta, a proteína S (PSa). Tanto a PCa quanto a PSa exercem seus papéis como anticoagulantes ao inativarem os fatores Va e VIIIa, bloqueando a geração de mais trombina. Além dessa ação anticoagulante, a proteína C ativada é capaz de bloquear a ação do PAI-1 (inibidor do ativador do plasminogênio-1) e do TAFI (inibidor da fibrinólise ativado pela trombina), diminuindo o efeito supressivo desses compostos sobre a fibrinólise. Portanto, a proteína C ativada apresenta papel pró-fibrinolítico e, por fim, também é capaz de reduzir a resposta inflamatória por vários mecanismos. Figura 6.4 - Modulação da cascata da coagulação Fonte: elaborado pelos autores. Além desses mecanismos, o tromboxano, a prostaciclina e o óxido nítrico modulam a reatividade da parede vascular e das plaquetas, contribuindo para o controle da cascata da coagulação e para a fluidez do sangue. 6.1.3 Fibrinólise Além dos fatores de coagulação e de anticoagulação, o organismo conta também com um sistema fibrinolítico. O plasminogênio é uma proteína inativada circulante no plasma que se liga à fibrina à medida que o coágulo se forma. Ao se ligar à fibrina, converte-se em plasmina, a qual dissolve o coágulo e inicia a fibrinólise. Essa conversão ocorre pela ação do ativador tecidual do plasminogênio (tPA – tissue Plasminogen Activator), sintetizado pelo endotélio, e do ativador do plasminogênio tipo uroquinase (uPA – urokinase- type Plasminogen Activator), secretado por diversos tecidos. A liberação endotelial do tPA é estimulada pela presença de trombina, serotonina, bradicinina, adrenalina e citocinas. Os compostos que controlam a fibrinólise são PAI, especialmente o PAI-1, TAFI e alfa-2-antiplasmina. O TAFI é ativado pelo complexo trombina-trombomodulina e liga-se à fibrina já parcialmente lisada, impedindo a ligação do plasminogênio e a formação de mais plasmina. Os distúrbios da hemostasia terciária são causados principalmente pelas alterações adquiridas da fibrinólise que ocorrem também na coagulação intravascular disseminada, em hepatopatias crônicas, em neoplasias de próstata e em cirurgias cardíacas. Essas doenças são abordadas no capítulo distúrbios da hemostasia secundária e terciária. Figura 6.5 - Fibrinólise Fonte: elaborado pelos autores. 6.1.4 Avaliação laboratorial da hemostasia Na avaliação da hemostasia, deve ser realizada avaliação laboratorial a depender do tipo de distúrbio de hemostasia a ser suspeitado (primário ou secundário). Nos distúrbios da hemostasia primária, devem ser solicitados: a) Contagem de plaquetas; b) Tempo de sangramento; c) Curva de agregação plaquetária; d) Fator de von Willebrand e fator VIII (investigação de doença de von Willebrand). Nos distúrbios da hemostasia secundária, devem ser solicitados: a) Tempo de Protrombina (TP); b) Tempo de Tromboplastina Parcial Ativada (TTPA); c) Tempo de trombina; d) Fibrinogênio; e) D-dímero. Quadro 6.1 - Diferenças entre hemostasias primária e secundária Quadro 6.2 - Interpretação laboratorial da hemostasia primária 1 Os valores podem variar de acordo com o laboratório de referência. Quadro 6.3 - Interpretação laboratorial da hemostasia secundária 1 Os valores podem variar de acordo com o laboratório de referência. Figura 6.6 - Resultados de agregação plaquetária 6.1.5 A via da coagulação Para a análise da hemostasia secundária, deve ser lembrada a divisão didática em via intrínseca/extrínseca, pois assim é possível desenvolver raciocínio clínico com a história do paciente e os exames laboratoriais. #IMPORTANTE O TP/INR avalia a via extrínseca, o TTPA, a via intrínseca, e a via comum é avaliada por ambos. TP alargado corresponde à presença de inibidores ou deficiência de VII; TTPA alargado, à deficiência ou inibidores de VIII, IX, XI, XII, cininogênio de alto peso molecular e pré-calicreína; TP e TTPA (ambos) alargados, à deficiência ou inibidores da via comum – V, X, II, fibrinogênio. Figura 6.7 - Cascata da coagulação Fonte: adaptado de Fisiologia da coagulação, anticoagulação e fibrinólise, 2001. 6.1.6 Avaliação de situações especiais 6.1.6.1 Pseudoplaquetopenia A pseudoplaquetopenia(plaquetopenia espúria) é um diagnóstico diferencial importante. Corresponde à aglutinação plaquetária in vitro, interpretada pelos contadores automáticos como plaquetopenia, geralmente relacionada ao EDTA (anticoagulante do tubo de coleta – tubo roxo). Para confirmar a pseudoplaquetopenia causada pelo EDTA, utiliza-se o anticoagulante citrato de sódio (tubo de tampa azul), que previne a aglutinação das plaquetas. Pela análise de sangue periférico, pode-se avaliar a morfologia plaquetária (presença de macroplaquetas, comuns nas púrpuras trombocitopênicas imunes). A plaquetopenia dilucional acontece nas transfusões sanguíneas maciças, em que o aporte transfusional chega ao correspondente a uma volemia ou próximo disso. Transfusão de 15 unidades de hemácias em 24 horas resulta na contagem plaquetária entre 47 e 100.000/mm3, e transfusão de 20 unidades pode levar à contagem entre 25 e 61.000/mm3. Figura 6.8 - Plaquetas aglutinadas, típicas do uso de anticoagulante EDTA Fonte: Tleonardi. 6.1.6.2 Razão Normatizada Internacional (RNI) A fim de padronizar a monitorização dos pacientes que fazem uso de anticoagulante oral (cumarínicos como a varfarina), o valor do TP deve ser dado na forma de RNI. A RNI nada mais é do que o TP corrigido a padrões mundiais. O uso de anticoagulantes orais é avaliado somente pela RNI. 6.1.6.3 Diferença entre deficiência de fator e presença de inibidor É feita por meio do teste com o plasma do paciente misturado com plasma normal, à proporção 1:1. Em caso de deficiência, o alargamento do tempo em estudo será corrigido completamente, visto que foi ofertado o fator deficiente. Em caso de presença de inibidor, após a mistura a 50%, o tempo não corrige ou o faz parcialmente. A utilidade dos testes de coagulação é avaliar a deficiência de fator ou presença de inibidor, detectadas pelo alargamento daqueles. O encurtamento dos testes é possível em algumas circunstâncias especiais, sendo as principais erro de coleta e técnica inadequada na realização dos testes. Afastadas essas causas, os fatores de coagulação podem estar aumentados em neoplasias malignas, coagulação intravascular disseminada ou após exercícios, resultando no encurtamento dos testes. Finalmente, pode-se solicitar a dosagem dos fatores individualmente, como no caso da hemofilia A (fator VIII) e hemofilia B (fator IX). 6.1.6.4 Avaliação de fibrinólise Além dos anteriores, pode-se utilizar o teste do tempo de lise de euglobulina, que consiste em separar do plasma do paciente a fração de euglobulina (proteínas que incluem fibrinogênio, plasminogênio, plasmina ativa, ativadores e inibidores do plasminogênio – ativadores da fibrinólise). Essa fração separada é ressuspensa junto à trombina, e, a partir daí, conta-se o tempo para a formação do coágulo; tempo encurtado equivale a hiperfibrinólise, e tempo alargado, a hipofibrinólise. Como diagnosticar as alterações da coagulação? Para avaliar o tipo de distúrbio de hemostasia, é importante avaliar o coagulograma, fator de von Willebrand, fibrinogênio e D-dímero. Quais são as doenças relacionadas com distúrbios da hemostasia primária? 7.1 INTRODUÇÃO Os distúrbios da hemostasia primária são resultantes de 3 mecanismos: a) Fragilidade da parede vascular; b) Alterações quantitativas ou qualitativas das plaquetas; c) Alterações quantitativas ou qualitativas do Fator de von Willebrand (FvW). A manifestação clínica dos distúrbios da hemostasia primária mais comum é o sangramento mucocutâneo (petéquias, gengivorragia, epistaxe, hematêmese/melena, hematúria, menorragia) espontâneo e/ou imediatamente após pequenos traumas. 7.2 FRAGILIDADE DA PAREDE VASCULAR A maior fragilidade da parede vascular causada por alterações microvasculares. de causa inflamatória ou não, leva a um distúrbio da hemostasia primária que pode ocasionar sangramento mucocutâneo, causando as púrpuras não trombocitopênicas. Na investigação, é importante determinar se há púrpura palpável (depósito de fibrina, edema ou infiltração celular), se há sinais inflamatórios (calor local, dor ou eritema) e se há alteração nos exames laboratoriais que denotem causa hematológica (contagem e função plaquetárias, coagulograma). As púrpuras não trombocitopênicas são um diagnóstico diferencial muito importante das púrpuras trombocitopênicas, visto que sua manifestação clínica é semelhante: petéquias, púrpuras, sangramento mucoso (gengivorragia ou epistaxe), e raramente apresentam sangramento digestivo ou urinário. Os principais exemplos de púrpuras não trombocitopênicas são púrpura trombótica, púrpura de Henoch-Schönlein, pioderma gangrenoso e eritema multiforme. A telangiectasia hemorrágica hereditária (doença de Rendu-Osler- Weber) é um distúrbio autossômico dominante com o aparecimento de vasos tortuosos, dilatados, com paredes finas, geralmente na submucosa do tubo digestivo e na mucosa respiratória. Manifesta-se com epistaxes frequentes e sangramento de mucosa oral e gastrintestinal, consequentes à malformação vascular. No exame físico, é característico o encontro de telangiectasias na face, nos dedos, na língua, nos lábios e no nariz. Parece púrpura, mas não é. Quadro 7.1 - Etiologias mais frequentes das púrpuras vasculares Nota: a púrpura de Henoch-Schönlein – principal causa de vasculite na infância, afeta predominantemente a população pediátrica (3 a 15 anos); 90% dos casos ocorrem em crianças com idade abaixo de 10 anos; mais comum em meninos (1,8:1). A causa não é bem esclarecida, mas acredita-se que infecções virais, bacterianas (principalmente por Streptococcus), medicamentos, alergia alimentar ou picada de insetos possam ser desencadeadores. Ocorre vasculite leucocitoclástica por depósito de complemento e imunocomplexo (à custa de IgA e C3). Manifesta-se pela tétrade clínica: púrpura palpável simétrica, na ausência de plaquetopenia ou alteração da coagulação (principalmente nos membros inferiores e nádegas); artralgia/artrite; dor abdominal de intensidade variável (com ou sem sangramento digestivo); nefrite (glomerulonefrite aguda). O diagnóstico é clínico, e a biópsia do local afetado (pele ou rim) é reservada aos casos de apresentação clínica incompleta ou atípica. É uma doença autolimitada, que necessita apenas de tratamento de suporte (ingesta de líquidos, repouso e analgesia). O uso de corticoide é reservado aos casos complicados com envolvimento renal ou não responsivos aos sintomáticos. O prognóstico é muito bom: apenas 1/3 dos casos apresenta recidiva nos 4 meses seguintes ao quadro inicial, de forma mais branda e com menor duração. A complicação com perfuração ou intussuscepção intestinal é rara, e 94% das crianças e 89% dos adultos que apresentam alteração renal evoluem com recuperação completa. 7.3 ALTERAÇÕES QUANTITATIVAS DAS PLAQUETAS A trombocitopenia (também chamada plaquetopenia) é definida como contagem de plaquetas < 150.000/mm3. As principais causas são diminuição da produção, aumento da destruição (imune ou não imune) e sequestro esplênico. A identificação da etiologia é essencial para a indicação do tipo de tratamento, já que, em alguns casos (como na púrpura trombocitopênica imunológica), o uso de concentrados de plaquetas para transfusão pode piorar o quadro clínico. A trombocitopenia é causa importante de sangramento de pequenos vasos. Essas manifestações hemorrágicas estão relacionadas à sua etiologia e à contagem plaquetária: sangramento clinicamente significativo em geral não ocorre na presença de contagens plaquetárias acima de 10.000 a 20.000/mm3, e pacientes com púrpura trombocitopênica imunológica têm menor tendência a sangramentos, pois, com a destruição periférica excessiva, há maior produção medular e consequente liberação de plaquetas mais jovens circulantes e com maior poder hemostático. A seguir, são analisadas as formas mais frequentes de plaquetopenia, suas manifestações clínicas e tratamentos. 7.3.1 Trombocitopenia por diminuição de produção Pode ser congênita ou adquirida. A primeira é muito rara, destacando-se as síndromesde Wiskott-Aldrich, de Bernard- Soulier, tromboastenia de Glanzmann e May-Hegglin. As causas mais comuns são: 1. Carências nutricionais de vitamina B12 e ácido fólico: são causas importantes de plaquetopenia por déficit de produção, geralmente acompanhada por anemia e/ou leucopenia; 2. Doenças primárias da medula óssea: distúrbio na produção dos megacariócitos, anemia aplásica, mielodisplasia, infiltrações medulares por leucemias, tumores e mielofibrose. Destaca-se, ainda, a agressão medular por quimioterapia ou radioterapia, ou ainda por outros agentes tóxicos (benzeno e álcool); 3. Megacariopoese ineficaz: ocorre produção medular de megacariócitos anômalos, com liberação inadequada de plaquetas para o sangue periférico, como a mielodisplasia; 4. Quadros infecciosos: em especial o HIV, que leva à trombocitopenia nos primeiros estágios, por reações antígeno-anticorpo e por supressão megacariocítica direta pelo vírus. A hepatite por vírus C e Epstein-Barr causam, frequentemente, um quadro semelhante. Carências nutricionais de vitamina B12 e de ácido fólico são causas importantes de plaquetopenia por déficit de produção, geralmente acompanhada por anemia e/ou leucopenia. 7.3.2 Trombocitopenia por excesso de destruição As principais causas são: 1. Púrpura Trombocitopênica Idiopática (PTI): destruição plaquetária por formação de anticorpos antiplaquetários ou por interação dos anticorpos com outros elementos, em que a plaqueta atua como hapteno ou, ainda, por produção ineficaz de plaquetas. Pode estar associada a outras doenças autoimunes, como Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES), anemias hemolíticas autoimunes, quadros infecciosos virais e ingestão de drogas, ou pode ser idiopática; 2. Destruição mecânica: como na hemólise por próteses valvares cardíacas, hemangioma cavernoso, aneurisma de aorta ou aterosclerose; 3. Consumo: por quadros inflamatórios ou infecciosos, como na meningococcemia, dengue hemorrágica, mononucleose, citomegalovirose, HIV e sepse; nas microangiopatias trombóticas, em que as plaquetas são consumidas em razão da trombose na microcirculação (Púrpura Trombocitopênica Trombótica – PTT –, Síndrome Hemolítico-Urêmica – SHU –, síndrome HELLP, coagulação intravascular disseminada – CIVD). As microangiopatias trombóticas PTT e SHU também cursam com anemia hemolítica; 4. Medicamentos: uso de heparina, quinidina, ácido valproico, sulfas, interferona e vacina de catapora; 5. Púrpura aloimune: destruição plaquetária em razão de aloanticorpos (anticorpo antiplaquetário não presente no indivíduo, adquirido por transfusão ou transmissão materno-fetal, contra antígeno presente na superfície de sua plaqueta). Ocorre em indivíduos que recebem muitas transfusões de plaquetas e na púrpura aloimune neonatal; Figura 7.1 - Fatores etiológicos da trombocitopenia Legenda: MO: Médula Óssea; CIVD: coagulação intravascular disseminada; PTT: Púrpura Trombocitopênica Trombótica; SHU: Síndrome Hemolítico-Urêmica; PPT: Púrpura Pós- Tranfusional; PTI: Púroura Trombocitopênica Idiopática; LES: Lúpus Eritematoso Sistêmico Fonte: elaborado pelos autores. 6. Trombocitopenia aloimune neonatal: acontece quando as plaquetas do feto contêm antígenos herdados do pai, não possuídos pela mãe. Assim, há desenvolvimento de anticorpos maternos diretamente contra esses antígenos plaquetários do feto (HPA 1a ou PLA1, principalmente), semelhante ao que ocorre na doença hemolítica do recém-nascido. A mãe passa a produzir anticorpos específicos (IgG), que cruzam a barreira placentária e destroem as plaquetas em formação. Os recém-nascidos podem apresentar plaquetopenia leve, moderada ou severa. Deve-se manter o nível de plaquetas > 30.000 a 50.000, pois a maior complicação é o sangramento intracraniano, que ocorre em 10 a 20% dos recém-nascidos acometidos, sobretudo nas primeiras 72 a 96 horas, ou ainda intraútero (25 a 50% dos casos). O quadro reverte-se em 1 a 4 semanas, período necessário para o clearance dos anticorpos maternos. Enquanto isso, devem-se transfundir plaquetas com antígenos plaquetários compatíveis com os da mãe (inclusive a própria plaqueta da mãe) e/ou administrar imunoglobulina. A transfusão será indicada se a contagem de plaquetas for < 30.000 a 50.000/mm3, principalmente nas primeiras 96 horas, em que o risco de sangramento é muito alto. A taxa de recorrência nas gestações subsequentes é de 75 a 90%, sendo indicada transfusão intraútero imediatamente antes do parto e/ou infusão de imunoglobulina na mãe, associadas ou não a corticoide. 7.3.2.1 Púrpura trombocitopênica idiopática Também chamada de púrpura trombocitopênica imunológica, é uma das causas mais comuns de plaquetopenia em crianças. Trata-se de uma doença autoimune, que pode ser aguda (com duração de até 3 meses), persistente (de 3 a 12 meses) ou crônica (acima de 12 meses), e cursa com destruição plaquetária imunologicamente mediada por anticorpos, à semelhança do que acontece na AIDS, no LES, nas infecções virais (hepatites B e C), na leucemia linfoide crônica, no linfoma não Hodgkin e nas complicações de terapias medicamentosas diversas (púrpuras trombocitopênicas imunológicas secundárias). Essas etiologias secundárias devem ser devidamente investigadas e descartadas, pois o diagnóstico de PTI é de exclusão. a) Patogênese A patogênese da PTI ainda é incerta, mas acredita-se que está relacionada: 1. Ao aumento da destruição das plaquetas por anticorpos IgG produzidos por linfócitos B (podem coexistir anticorpos IgM em 40% dos casos) contra os complexos glicoproteicos plaquetários IIb/IIIa e Ib/IX. As plaquetas opsonizadas após essa reação antígeno-anticorpo são fagocitadas pelo sistema reticuloendotelial, levando à destruição plaquetária, principalmente no baço; 2. À participação importante de linfócitos T helper CD4+, tanto no estímulo da ação dos linfócitos B quanto na possível ação citotóxica direta; 3. À diminuição da secreção de trombopoetina; fisiologicamente, em situações de plaquetopenia, essa substância encontra-se elevada, o que não ocorre na PTI. b) Epidemiologia A incidência maior é na infância, porém pode afetar virtualmente todas as faixas etárias em ambos os sexos. Em crianças, é mais frequente o aparecimento da plaquetopenia após quadro viral ou vacina (principalmente a SCR – Sarampo, Caxumba e Rubéola), iniciando-se, geralmente, 3 semanas após a infecção, com taxa de remissão espontânea bastante alta nessa faixa etária, chegando a 80%. Infecção pelo Helicobacter pylori tem sido associada à PTI em alguns relatos. Nos adultos, acomete em geral mulheres em torno da segunda à quarta década de vida ou, ainda, idosos; nessas situações, a remissão clínica é menos comum, com maior chance, por conseguinte, de cronicidade do quadro, mesmo com tratamento adequado. Figura 7.2 - Incidência de púrpura trombocitopênica imunológica por faixa etária Fonte: elaborado pelos autores. c) Quadro clínico e laboratorial A PTI se apresenta como um distúrbio da hemostasia primária, destacando-se a presença de petéquias, geralmente ascendentes. Pode ocorrer sangramento em, virtualmente, todos os tecidos do organismo, sendo mais comuns epistaxe, gengivorragia e menorragia. Idosos tendem a apresentar sangramentos mais graves, como digestivo ou urinário. O Sistema Nervoso Central (SNC) raramente apresenta fenômenos hemorrágicos potencialmente fatais, tendo em vista hiperfunção das poucas plaquetas presentes. Os pacientes encontram-se em bom estado geral e afebris, com ausência de esplenomegalia ou de outras alterações no exame físico, além de petéquias, púrpuras e equimoses. Diferentemente da púrpura de Henoch-Schönlein, a PTI é indolor, não palpável e não ocorre de forma exclusiva ou principal nos membros inferiores. Os pacientes apresentam bom estado geral, sem febre, esplenomegalia ou outras alterações além de petéquias, púrpuras e equimoses. Também podem ocorrer sangramentos, sendo mais comuns epistaxe, gengivorragia e menorragia. A contagem plaquetária pode alcançar valores abaixo de 10.000/mm3, muitas vezes com megatrombócitoscirculantes (macroplaquetas), consequentes ao aumento da demanda medular, sem qualquer outra evidência de alteração no hemograma. Eventualmente, pode haver anemia ferropriva, secundária aos episódios de sangramento. As outras linhagens celulares estão normais, porém 10% têm anemia hemolítica autoimune associada (síndrome de Evans). d) Como investigar Avaliação inicial deve incluir anamnese e exames físicos detalhados, hemograma completo e avaliação do esfregaço de sangue periférico. Em pacientes com mais de 50 anos, devem-se considerar aspirado e biópsia de medula óssea, a fim de afastar um processo mielodisplásico. A análise do sangue periférico é importante para descartar pseudoplaquetopenia e presença de células anômalas (leucemia) e de esquizócitos (sinal de microangiopatia). Na púrpura trombocitopênica imunológica, é comum aparecerem macroplaquetas. Ao mielograma, evidenciam-se linhagens celulares normais, podendo haver aumento do número de megacariócitos, muitos deles imaturos, basofílicos, com núcleo grande e não lobulado, demonstrando eritropoese acelerada e resposta medular elevada. Pode-se encontrar também número de megacariócitos normais ou diminuídos, nos casos em que estes são afetados. Logo, o mielograma não é importante para o diagnóstico da PTI, mas para a exclusão de outras doenças que afetam a medula. Deve ser solicitado em crianças, ou menores de 18 anos (pela possibilidade de diagnóstico de leucemia aguda), idosos (pelo diagnóstico diferencial de mielodisplasia), pacientes corticorrefratários e aqueles que não apresentaram boa resposta à esplenectomia. Podem-se, ainda, detectar anticorpos antiplaquetários por citometria de fluxo; entretanto, a sensibilidade e a especificidade desse teste são muito baixas, o que impede sua utilização para o diagnóstico. É importante a realização de investigação laboratorial extensa, dado que não há nenhum exame laboratorial que confirme PTI, e o diagnóstico é de exclusão. É importante descartar outras doenças para o diagnóstico de PTI, como: 1. Doenças autoimunes; 2. Anemia megaloblástica; 3. Doenças infecciosas, em especial hepatite C e HIV; 4. Agamaglobulinemia (solicitar eletroforese de proteínas e dosagem de imunoglobulinas); 5. Tireoidopatias (se houver sintomas de hipo ou hiperfunção tireoidiana); 6. Síndrome mielodisplásica (principalmente em idosos); 7. Leucemia aguda (principalmente em crianças); 8. Uso de medicamentos. Já que não há nenhum exame laboratorial que confirme a PTI, deve-se realizar investigação laboratorial extensa, e o diagnóstico de PTI é de exclusão. e) Tratamento Considerando-se que nas crianças geralmente há remissão espontânea, e em alguns poucos casos nos adultos (< 10%), o início da terapia está indubitavelmente indicado apenas em 3 situações: nível plaquetário abaixo de 30.000/mm3, quadro de sangramento ativo ou previsão de intervenção cirúrgica. Outras situações podem ser levadas em conta para a indicação terapêutica objetivando plaquetometria maior, como risco de trauma (geralmente idosos ou pacientes que exercem atividade de risco), uso de medicamentos anticoagulantes ou antiagregantes e a presença de comorbidades. A primeira opção terapêutica é o corticoide, para reduzir a afinidade dos macrófagos com as plaquetas marcadas por anticorpos, além de diminuir a ligação dos anticorpos à superfície das plaquetas. Quando mantida a corticoterapia por longos períodos, a produção de anticorpos diminui. A corticoterapia pode ser administrada em diferentes formas: 1. Prednisona: 1 mg/kg de peso/d, pelo mínimo de 4 semanas (mais utilizada); 2. Pulsos com dexametasona: 40 mg/d, por 4 dias, a cada 14 a 28 dias, quantas vezes forem necessárias para aumentar a contagem plaquetária (em geral, de 1 a 6 vezes); 3. Pulso com metilprednisolona: 30 mg/kg/d, respeitando a dose máxima de 1 g/d, por 3 dias, seguido da prednisona na dose já descrita. Nessa opção, obtém-se resposta mais rapidamente, mas sem diferenças na frequência e/ou na duração da resposta completa, sendo reservada apenas a pacientes com quadro de sangramento importante ou refratários à dose convencional de prednisona. O sangramento geralmente diminui de intensidade após o primeiro dia de corticoide, mesmo antes do início da elevação plaquetária, talvez por aumento da estabilidade vascular. Após o início da corticoterapia, a contagem de plaquetas pode levar até 4 semanas para se elevar. Em pacientes com sangramento importante, em pré-operatório (particularmente para a esplenectomia), gestantes e/ou refratários ao uso de corticoide, a imunoglobulina é indicada. Tal agente atua no bloqueio dos receptores Fc dos macrófagos e na diminuição da captação de plaquetas recobertas por anticorpos. Preconiza-se dose de 400 mg/kg de peso/d, por 3 a 5 dias, ou 1 g/kg/d, por 2 dias. Espera-se resposta laboratorial em 1 a 5 dias. A transfusão de plaquetas só é recomendada em casos de sangramento ativo e com risco de vida iminente, geralmente com o dobro da dose usual. A transfusão de plaquetas está contraindicada, recomendada apenas em casos de sangramento ativo e com risco de vida iminente (sangramentos no trato gastrintestinal ou no sistema nervoso central), geralmente calculando-se o dobro da dose usual – enquanto a dose usual de plaquetas randômicas é 1 unidade a cada 10 kg, aqui se faz 2 a 3 unidades a cada 10 kg de peso. Não há contraindicações para transfusões de concentrados de hemácias caso haja anemia severa sintomática associada, em razão das perdas. Não há contraindicação para transfusão de concentrados de hemácias em casos de anemia severa sintomática associada, em razão das perdas. Para os casos refratários, a esplenectomia é indicada aos casos em que não há resposta a prednisona, quando há dependência de altas doses do uso desta ou em casos de recidiva da doença. Deve-se aguardar pelo menos 6 meses para indicar esse procedimento, tendo em vista a chance de remissão espontânea nesse período. Entretanto, a cirurgia não é garantia de sucesso a 100% dos pacientes, tendo índice de resposta em longo prazo que varia de 60 a 90%, dependendo da série estudada. O anticorpo monoclonal anti-CD20 (rituximabe), responsável pela supressão de linfócitos B e, portanto, da síntese de anticorpos, vem sendo bastante estudado na tentativa de diminuir as indicações de esplenectomia, mas ainda carece de estudos que comprovem superioridade quanto à sua eficácia como primeira linha, principalmente em longo prazo, porém é reservado aos refratários à esplenectomia ou àqueles com contraindicação cirúrgica, com boas taxas de sucesso. Os análogos de trombopoetina (eltrombopague e romiplostim) são aprovados para uso em pacientes refratários às terapias anteriores; não induzem à remissão, entretanto melhoram a plaquetometria durante seu uso em pelo menos 50% dos casos. Ambos os medicamentos já foram lançados no Brasil. Descreve-se, também, que o uso do danazol, um agente anabolizante, está associado à melhora em pacientes refratários a corticoides, o mesmo acontecendo com o quimioterápico ciclofosfamida e o imunossupressor ciclosporina. Ressalta-se, porém, que esses medicamentos são de terceira linha terapêutica, apresentando respostas menores do que os demais supracitados. É importante lembrar que, em pacientes com HIV, a terapia antirretroviral auxilia no incremento dos níveis plaquetários. f) Prognóstico Nas crianças, a maior parte apresenta remissão completa (80%), enquanto nos adultos, a maioria dos casos (aproximadamente 60%) regride com uso de prednisona. O prognóstico é bom na maioria dos casos, com resolução após terapêutica medicamentosa ou esplenectomia. A mortalidade relacionada à PTI é pequena (< 1%) e secundária a sangramento ou infecção. Figura 7.3 - Tratamento na púrpura trombocitopênica idiopática Fonte: elaborado pelos autores. 7.3.3 Plaquetopenia por sequestro esplênico Pacientes com esplenomegalia podem reter até 90% das plaquetas circulantes no baço. Portanto, a massa plaquetária do paciente pode ser normal, mesmo quando a contagemrepresentar apenas 20% do valor normal. A causa mais importante da plaquetopenia por sequestro esplênico é a hepatopatia crônica com hipertensão portal e esplenomegalia congestiva. Hiperesplenismo é uma situação distinta, em que a esplenomegalia está associada ao aumento da destruição de plaquetas, leucócitos e hemácias, com aumento dos precursores medulares (citopenia, esplenomegalia e medula hipercelular). Ocorre nas citopenias autoimunes, doenças infecciosas e inflamatórias, como lúpus, esquistossomose, mononucleose, malária ou leishmaniose. 7.3.4 Defeitos qualitativos das plaquetas Podem ser congênitos ou adquiridos e são responsáveis por quadro clínico semelhante ao das plaquetopenias. 7.3.4.1 Defeitos congênitos 1. Síndrome de Bernard-Soulier: doença autossômica recessiva em que há deficiência no complexo glicoproteico plaquetário GPIb, resultando em menor número de receptores para o FvW e defeito na adesão plaquetária. Além da alteração da função, também apresenta diminuição da contagem plaquetária; 2. Tromboastenia de Glanzmann: é uma síndrome hemorrágica rara, causada por um defeito autossômico recessivo, com perda do receptor de fibrinogênio (GPIIb/IIIa), resultando em déficit de agregação plaquetária; 3. Storage pool disease: é uma “doença do armazenamento”, ocorrendo por defeitos das reações de liberação do conteúdo dos grânulos plaquetários, levando a respostas anormais na produção de prostaglandinas ou liberação de ADPs, alterando agregação e ativação plaquetárias. 7.3.4.2 Defeitos adquiridos 1. Ingestão de ácido acetilsalicílico: liga-se de forma irreversível à cicloxigenase 2 (COX-2), enzima responsável pela produção de prostaglandinas e tromboxano A2 na membrana plaquetária, levando à alteração da agregação plaquetária e ao aumento do tempo de sangramento; 2. Ingestão de outros anti-inflamatórios não hormonais: inibem reversivelmente a COX e a agregação plaquetária, porém esta última de forma menos intensa; 3. Tienopiridinas: a ticlopidina e o clopidogrel agem inibindo o receptor plaquetário de ADP e a sua agregação; 4. Inibidores da glicoproteína IIb/IIIa: são drogas que inibem especificamente esse componente, impedindo a agregação plaquetária (abciximabe, eptifibatida e tirofibana, utilizados no tratamento da insuficiência coronariana); 5. Uremia: o mecanismo exato para a alteração da função plaquetária é desconhecido, porém, acredita-se que o acúmulo do ácido guanidinossuccínico possa alterar a adesão, agregação e secreção de grânulos plaquetários. A gravidade do quadro clínico associa-se à severidade da insuficiência renal concomitante. 7.3.5 Doença de von Willebrand 7.3.5.1 Considerações gerais A Doença de von Willebrand (DvW) é um distúrbio autossômico dominante (o tipo 1, forma mais comum, afeta cerca de 80% dos casos) ou recessivo (o tipo 3, mais raro), em que pode haver redução da síntese do FvW ou produção de substância alterada, ineficaz, que é incapaz de realizar as funções de adesão plaquetária e manutenção adequada dos níveis de fator VIII. É a coagulopatia hereditária mais frequente e raramente pode ser adquirida, em geral associada a mieloproliferações ou a tumores sólidos. O FvW é uma glicoproteína multimérica sintetizada nos megacariócitos e nas células endoteliais e circula no plasma como multímeros de tamanhos variáveis. Só os multímeros de alto peso atuam na adesividade plaquetária. Desmopressina, trombina e colágeno estimulam a secreção de multímeros ultragrandes, que são clivados na circulação, pela metaloprotease ADAMTS13, em multímeros menores e menos ativos. O FvW tem 2 funções na hemostasia: adesão plaquetária e manutenção adequada dos níveis de fator VIII, pois o FvW ligado ao fator VIII na corrente sanguínea o protege da degradação plasmática pelas proteínas C e S. Assim, na sua deficiência, além de existirem distúrbios da adesividade plaquetária, pode ocorrer a redução dos níveis de fator VIII. A DvW pode ser de 3 tipos: 1. Tipo 1: deficiência quantitativa parcial do FvW; 2. Tipo 2: deficiência qualitativa do FvW. a) 2A: redução da função de ligação às plaquetas e ausência de grandes multímeros de alto peso molecular; b) 2B: maior afinidade pela glicoproteína Ib; c) 2M: redução da função da ligação às plaquetas, sem ausência de grandes multímeros de alto peso molecular; d) 2N: redução da afinidade do fator VIII coagulante. 3. Tipo 3: deficiência quantitativa virtualmente completa do FvW (deficiência total). A pseudodoença de von Willebrand consiste em alterações da membrana plaquetária, com excessiva avidez pelas formas multiméricas grandes, causando sua retirada precoce do plasma. 7.3.5.2 Quadro clínico Ocorre manifestação clínica de patologia da hemostasia primária: sangramento mucocutâneo, com exceção do subtipo 2N, que se comporta como hemofílico (deficiência de fator VIII), com sangramentos articulares e musculares profundos e sangramento tardio após trauma. Deve-se ter atenção para a história familiar, que pode apresentar episódios de sangramento prolongado após extração dentária, procedimentos cirúrgicos, parto e sangramento menstrual excessivo. A perda sanguínea diminui na vigência de estrogênios ou durante a gravidez, pois essas situações aumentam a síntese de FvW. 7.3.5.3 Diagnóstico laboratorial O diagnóstico laboratorial da DvW pode ser difícil, pois o nível sérico de FvW é influenciado por diversos fatores, e os resultados dos vários testes relacionam-se mal com a gravidade da situação clínica. Esse fato exige frequentemente a repetição das análises se a suspeita clínica for grande, e os resultados, inconclusivos. Vários testes podem e devem ser utilizados no diagnóstico da DvW e na sua classificação e são agrupados em 3 níveis: de rastreamento; específicos para o FvW, que permitem estabelecer o diagnóstico; testes classificatórios, que permitem caracterizar precisamente os diferentes subtipos da doença. 1. Testes de rastreamento: a) Tempo de sangramento: importante na suspeita inicial de muitos casos de DvW, pois estará aumentado em todos os tipos, exceto no subtipo 2N (deficiência de fator VIII); b) Tempo de tromboplastina parcial ativada: pode ser normal ou prolongado, a depender do valor do fator VIII; c) Contagem plaquetária: estará normal, descartando outras patologias de hemostasia primária. Exceção ao subtipo 2B, em que, em razão da alta afinidade GPIb-FvW, é possível haver plaquetopenia. 2. Testes específicos: a) Dosagem do fator VIII plasmático: estará diminuído no subtipo 2N e no tipo 3; b) Dosagem do antígeno FvW plasmático: estará diminuído nos tipos 1 e 3 e normal ou limítrofe no tipo 2, lembrando que um grande número de fatores pode alterar os níveis plasmáticos do antígeno FvW, como o sistema ABO do sangue (os indivíduos do grupo O têm níveis de FvW plasmático mais baixos do que os do AB), estrogênios, hormônios tireoidianos, idade e estresse; c) Atividade de cofator da ristocetina: avalia alteração funcional do FvW. A ristocetina é um antibiótico capaz de induzir a interação entre o FvW e o complexo GPIb-IX. Logo, a determinação do cofator da ristocetina estará diminuída em todos os tipos da DvW. 3. Testes classificatórios: a) Eletroforese do FvW em gel de agarose: permite a análise dos diferentes multímeros; b) Aglutinação plaquetária induzida pela ristocetina (RIPA): aumentada no subtipo 2B e diminuída nos demais tipos; c) O diagnóstico pré-natal da DvW já é possível por meio de análise genética. 7.3.5.4 Tratamento Deve-se evitar sempre o uso de anti-inflamatórios não esteroides e anticoagulantes orais. O tratamento da doença de von Willebrand é feito com desmopressina, e, para os casos não responsivos, pode-se usar fator VIII liofilizado. A desmopressina, um análogo sintético do hormônio antidiurético, provoca aumento dos níveis de fator VIII e FvW, mas não da pressão arterial, vasoconstrição nem contração uterina ou gastrintestinal, sendo bem tolerada pelos pacientes. Seu uso não está associado ao aumento de infecções virais, e o produto é comercializado em várias formulações (intravenosa,subcutânea ou inalatória), com custo relativamente baixo. Apresenta boa resposta terapêutica na DvW tipo 1 e resposta variável no tipo 2. O uso de concentrados de fator VIII liofilizado (contendo FvW) é preconizado para os que não respondem à desmopressina, na dose de 20 a 50 UI/kg, a ser repetida 3x/d enquanto for necessário. Agentes antifibrinolíticos, como o ácido tranexâmico ou o ácido épsilon-aminocaproico e cola de fibrina, podem ser utilizados como terapêutica adjuvante durante pequenos procedimentos invasivos. O estrogênio pode ser utilizado em mulheres com sangramento menstrual excessivo, com boa resposta na DvW tipo 1 e resposta variável no tipo 2. Quais são as doenças relacionadas com distúrbios da hemostasia primária? Os distúrbios de hemostasia primária mais comuns são a doença de von Willebrand e a púrpura trombocitopênica idiopática. Quais características clínicas ajudam no diagnóstico de distúrbios da hemostasia secundária? 8.1 DISTÚRBIOS DA HEMOSTASIA SECUNDÁRIA 8.1.1 Introdução e considerações gerais As coagulopatias causadas por alterações da hemostasia secundária manifestam-se quase sempre por grandes equimoses ou hematomas após traumas menores e por tempo de coagulação prolongado após lacerações ou cirurgias. O sangramento é tardio após o trauma, diferentemente das alterações da hemostasia primária, em que o sangramento é imediato. Sangramentos articulares são bastante comuns, também sendo possíveis no trato gastrintestinal. Quase todos os fatores de coagulação têm descrições de alterações, que podem ser adquiridas ou hereditárias. Os distúrbios da hemostasia secundária podem ser: 1. Adquiridos: geralmente, são deficiências múltiplas, como no caso da hepatopatia ou da deficiência de vitamina K (nesta última, há menor síntese de fatores II, VII, IX, X e de proteínas S e C). Nas doenças hepáticas, há deficiência de síntese de todos os fatores de coagulação de síntese no fígado, inclusive os antifibrinolíticos; 2. Hereditários: geralmente, envolvem apenas um fator de coagulação deficiente. Por exemplo, as deficiências do fator VIII (hemofilia tipo A, mais comum) e do fator IX (hemofilia tipo B ou doença de Christmas) são desordens com transmissão ligada ao cromossomo X. 8.1.2 Alterações hereditárias 8.1.2.1 Hemofilia a) Etiologia Doença de caráter recessivo ligado ao X, afetando particularmente homens, pois as mulheres portadoras heterozigotas do gene são assintomáticas. Raros casos de mulheres homozigotas foram descritos. Pode ser de 2 tipos, hemofilia A (fator VIII ou hemofilia clássica) e hemofilia B (deficiência do fator IX ou doença de Christmas). b) Classificação Em qualquer um dos tipos de hemofilia, ocorre diminuição de fator VIII ou IX, que pode ser secundária à deficiência quantitativa ou qualitativa de síntese do fator. A classificação da hemofilia se dá de acordo com a quantidade presente de fator, conforme o Quadro 8.1. Quadro 8.1 - Classificação da hemofilia c) Quadro clínico As hemofilias A e B são clinicamente indistinguíveis. Ocorrem hemartroses espontâneas (em grandes articulações, como joelhos, tornozelos e cotovelos) e são responsáveis por 80% das manifestações hemorrágicas de hemofilia. Também ocorrem sangramentos musculares, do trato gastrintestinal e do trato geniturinário. Em alguns casos, o diagnóstico é feito logo ao nascimento, pois pode ocorrer hemorragia intracraniana ou subgaleal nos casos graves, no período perinatal. Figura 8.1 - Hemartrose em paciente hemofílico grave Aos pequenos traumas, inicialmente ocorre parada do sangramento, porém, após algum tempo, com difícil controle local, o sangramento retorna, podendo muitas vezes durar vários dias. De todos os tipos de sangramento, o mais temido é o que ocorre no sistema nervoso central. Pode acometer virtualmente qualquer região (subdural, epidural, parenquimatosa ou subaracnóidea) e deve ser sempre diagnosticado e tratado de forma agressiva. Sempre que houver um episódio de cefaleia não habitual, intensa, que dure mais de 4 horas e que não responda à analgesia comum, é importante excluir sangramento no sistema nervoso central. A artropatia hemofílica crônica é uma complicação derivada de repetidas hemorragias em articulação, causando destruição da cartilagem articular, hiperplasia sinovial resultando em deformidade articular permanente e contraturas musculares. Pode ocorrer em qualquer articulação, em especial nos joelhos, tornozelos, cotovelos e na articulação coxofemoral. Todo esse processo inflamatório e fibrótico resulta em perda da função articular (inclusive com articulação anquilosada) e intensa atrofia muscular. Figura 8.2 - Artropatia crônica no joelho Os hematomas musculares são a segunda causa mais comum de sangramento em hemofílicos. Quando em pequena quantidade, apresentam dor local e desconforto, sendo facilmente manejáveis; entretanto, nos hemofílicos graves, esses hematomas podem ser de volume crescente, fazendo compressão e dissecção de tecidos, com risco de complicações, podendo apresentar leucocitose, febre e dor intensa. Sangramentos espontâneos ou pós-traumáticos de vias aéreas (língua, musculatura ou partes moles do pescoço ou da garganta) podem aumentar rapidamente e causar sua compressão, devendo ser prontamente tratados. Figura 8.3 - Hematomas em hemofílico Legenda: (A) região dorsal; (B) região glútea. De acordo com o local acometido, os hematomas podem causar síndromes compressivas: no antebraço, podem causar paralisia dos nervos mediano ou ulnar, ou a contratura isquêmica da mão (contratura de Volkmann); e sangramento abundante na panturrilha pode causar paralisia de nervo fibular. Em especial, devem-se destacar hematomas no músculo iliopsoas que, de acordo com o volume, podem acarretar dor no abdome inferior, simulando outras patologias abdominais cirúrgicas, como apendicite aguda. Por sua vez, a hematúria é um sintoma comum, ocorrendo em até 75% dos hemofílicos em algum momento de seu acompanhamento, em geral após os 12 anos. Pode ser totalmente assintomática ou ocasionar sintomas de dolorimento no flanco e dor no abdome inferior/disúria. Usualmente, esse quadro é autolimitado, devendo- se, porém, sempre investigar patologias do sistema geniturinário, especialmente em hematúrias de repetição. Pode-se ter ainda o chamado pseudotumor hemofílico, complicação pouco frequente, porém grave. Também chamado de cisto hemorrágico, ocorre quando o sangramento abundante não é completamente reabsorvido, com a formação de lesão capsular cística, contendo fluido serossanguinolento ou viscoso. Esta estrutura pode, por sua vez, crescer ocasionando compressão óssea ou vascular e destruição tecidual. Os locais mais acometidos são pelve, fêmur e tíbia nos adultos, enquanto nas crianças ocorre predominantemente nos ossos das mãos e dos pés. d) Avaliação laboratorial Devem ser solicitados: tempo de tromboplastina parcial ativada, tempos de sangramento e protrombina, agregação plaquetária e níveis séricos dos fatores VIII e IX. Nos exames laboratoriais, o Tempo de Tromboplastina Parcial Ativada (TTPA) encontra-se prolongado, enquanto os tempos de sangramento e de protrombina e a agregação plaquetária estão normais. Os níveis séricos de fator VIIIc (fator VIII “coagulante”) e de fator IX estão diminuídos. e) Tratamento O tratamento básico fundamenta-se no aporte dos fatores VIII e IX, hoje disponíveis na forma de concentrados liofilizados, tratados de maneira a inativar vírus como o HIV, pois são hemoderivados. Procura-se alcançar níveis de fator VIII suficientes para tratar o sangramento ativo ou prevenir hemorragias, como em pré- procedimentos cirúrgicos. É importante destacar que o uso do fator tem como objetivo suspender a hemorragia ativa, enquanto o organismo reabsorverá por si só o hematoma formado. A dose de fator VIII é calculada assumindo que 1 UI/kg de fator VIII aumenta em 2% o seu valor plasmático. A partir desse valor, calculam-se o volume plasmático do indivíduo e o número de unidades de fator que deverá receber paraalcançar níveis de atividade de fator VIII suficientes para tratar a condição do momento. Considera-se que, em sangramentos menores, 30% de atividade do fator será suficiente, ao passo que, para perdas moderadas, indica- se alcançar 50% de atividade. Para grandes cirurgias, sugere-se 100% de atividade como nível seguro. As infusões de fator VIII devem ser repetidas a cada 12 horas, para garantir a ação desse fator dentro da sua vida média. As formas leves de hemofilia A podem ainda favorecer-se com o uso de desmopressina, já que esta substância aumenta a liberação de fator VIIIc. Na hemofilia B, utilizam-se concentrados de fator IX, na dose calculada de 1 UI/kg de peso de fator IX, o que leva a aumento de 1% do seu valor plasmático, pois o seu volume de distribuição tecidual é maior. O tempo de vida média do fator IX é de 24 horas, o que reduz o número de infusões, sem indicação para uso da desmopressina nesta doença. Atualmente, entretanto, o Sistema Único de Saúde brasileiro já autoriza o uso de fatores VIII e IX de forma profilática, o que traz resultados bem mais benéficos para o paciente hemofílico. Enquanto na transfusão tradicional “sob demanda”, dá-se fator quando o paciente apresenta algum evento hemorrágico (como hemartrose ou hematomas), a profilaxia mantém um nível quase constante de fatores VIII ou IX por meio do uso desses concentrados liofilizados de 2 a 3 vezes por semana. Assim, mantém-se sempre a atividade do fator deficiente acima de 30%, evitando-se sangramentos de qualquer tipo, refletindo diretamente na melhora da qualidade de vida e na prevenção de sangramentos graves que evoluam com disfunção articular ou risco de vida. Como medidas coadjuvantes, têm-se, ainda, ações locais (curativos compressivos ou tampões com adrenalina), uso de agentes antifibrinolíticos, como ácido tranexâmico ou ácido gama- aminocaproico. O atendimento multidisciplinar, com orientações de psicólogo, enfermeiro, nutricionista e dentista, é de extrema importância. Finalmente, deve haver treinamento dos pais ou responsáveis para aplicação domiciliar de fator, prevenindo ao máximo as complicações da hemofilia, como artropatia hemofílica crônica. f) Prognóstico Como complicações tardias da hemofilia, podem-se ter, além das anormalidades ortopédicas secundárias a hemartroses de repetição, a transmissão de infecção viral pelos derivados do sangue e desenvolvimento do anticorpo antifator VIII e antifator IX. A disponibilidade de fator VIII liofilizado para reposição tem modificado a história natural da hemofilia A, e a inativação viral eficaz dos concentrados de fator seguramente interferiu no aumento da sobrevida desses pacientes. Cerca de 40% dos pacientes desenvolvem anticorpos inibidores do fator VIII e necessitam de abordagem mais específica, como aumento da dose do fator, uso de complexo protrombínico ativado (FEIBA) ou fator VII ativado (NovoSeven®). Já na hemofilia B, somente 6 a 10% evoluirão com inibidores de fator IX, lançando-se mão, nesses casos, das mesmas medidas para hemofilia A. 8.1.2.2 Deficiência do fator XIII O fator XIII é responsável pela estabilização da fibrina formada; logo, sua deficiência leva à tendência hemorrágica por instabilidade do coágulo de fibrina, com maior suscetibilidade à sua degradação. É uma doença hereditária rara, que se manifesta por sangramento persistente, imediato ou tardio após procedimentos cirúrgicos ou traumas (imediatamente ou até 12 a 36 horas depois), com alteração da cicatrização. Caracteristicamente, apresenta persistência de sangramento no coto umbilical após queda do cordão. Apesar de ser uma deficiência de fator de coagulação, hemartroses e hematomas musculares são bem menos comuns do que na hemofilia. Na avaliação laboratorial, Tempo de Protrombina (TP), TTPA, tempo de sangramento e contagem plaquetária estão normais, podendo apresentar somente um discreto aumento do tempo de trombina (este pode ser o único exame alterado a levantar a suspeita para deficiência de fator XIII). O diagnóstico confirmatório é feito com o teste da urease concentrada (5M). A quantidade de fator XIII para adequada hemostasia é extremamente baixa, sendo utilizada para tratamento a transfusão de plasma fresco congelado na dose de 2 a 4 mL/kg ou crioprecipitado (1 UI; 10 kg). Como a meia-vida é longa (14 dias), a reposição com plasma, quando necessária, pode ser feita a cada 20 dias. 8.1.2.3 Outras deficiências É possível apresentar deficiência de quaisquer um dos fatores: XI (hemofilia C ou síndrome de Rosenthal), V, X, VII, XII, fibrinogênio ou disfibrinogenemia ou, ainda, uma combinação dessas deficiências. O diagnóstico é feito pela manifestação hemorrágica e pela dosagem do fator deficiente. O tratamento é realizado por meio da reposição do fator deficiente com a infusão de complexo protrombínico (para deficiência dos fatores II, VII ou X), fator VII ativado (para deficiência de fator VII), transfusão de crioprecipitado (para deficiência de fibrinogênio ou disfibrinogenemia) ou de plasma fresco congelado, nos casos que não dispõem de produto liofilizado. Deve-se realizar a reposição do fator deficiente nos casos de sangramento ativo ou em profilaxia pré-procedimento invasivo. A deficiência do fator XII, particularmente, não apresenta tendência hemorrágica; ao contrário, estuda-se a possibilidade de deficiências severas (< 1%) estarem relacionadas a fenômenos trombóticos. É importante para diagnóstico diferencial de TTPA alargado, mas não exige cuidado para profilaxia de sangramento. 8.1.3 Alterações adquiridas 8.1.3.1 Coagulação intravascular disseminada a) Considerações gerais A coagulação intravascular disseminada (CIVD) é uma síndrome adquirida, caracterizada pela ativação maciça dos fatores da coagulação, plaquetas e fibrinólise, com manifestação clínica de trombose e/ou sangramento excessivo. É uma síndrome caracterizada pela ativação sistêmica da coagulação intravascular, levando à formação e deposição de fibrina na microvasculatura e ao consumo de fatores de coagulação e de plaquetas. A deposição de fibrina em excesso pode levar a oclusão microvascular e consequente comprometimento do fluxo sanguíneo, o que, em conjunto com alterações metabólicas e hemodinâmicas, pode contribuir para a falência de múltiplos órgãos. O consumo e a consequente depleção dos fatores da coagulação e das plaquetas, resultantes da ativação contínua da coagulação, podem levar ao quadro de sangramento em diversos sítios. b) Etiologia e patogênese A CIVD é sempre secundária e pode ocorrer em associação a grande variedade de patologias. As principais causas de CIVD são: 1. Doenças infecciosas: infecções bacterianas são as mais associadas (Gram positivos e negativos). Exotoxinas de bactérias resultam em resposta inflamatória generalizada, com liberação sistêmica de citocinas e ativação de macrófagos. Estes espalham fator tissular em sua superfície e, junto à lesão endotelial pela ação direta das toxinas, ativam a cascata da coagulação; 2. Trauma grave: mecanismos incluem liberação de gordura e fosfolípides tissulares na circulação, hemólise e lesão endotelial; 3. Tumores sólidos e neoplasias hematológicas: o mecanismo envolvido parece estar relacionado ao fator tissular expresso na superfície das células tumorais. De 10 a 15% dos pacientes com tumores metastáticos e de 15 a 20% daqueles com leucemia apresentam evidências de ativação intravascular da coagulação; 4. Leucemia promielocítica aguda (LMA M3): forma distinta de CIVD, caracteriza-se por hiperfibrinólise decorrente da liberação de substância fibrinolítica dos grânulos dos promielócitos patológicos; 5. Condições obstétricas: o descolamento prematuro de placenta e a embolia de líquido amniótico são relatos clássicos, e considera-se que a liberação de material tromboplástico é que provavelmente desencadeia o quadro. Pré-eclâmpsia e eclâmpsia, síndrome do feto morto retido, rotura uterina e aborto séptico são outros exemplos; 6. Doenças vasculares: hemangiomas gigantes (síndrome de Kasabach-Merritt) ougrandes aneurismas de aorta, que resultam em ativação local da coagulação pelo turbilhonamento não fisiológico. Quando a CIVD é de instalação aguda, há o consumo excessivo de fatores de coagulação, os quais o fígad> não consegue “repor”. Esse fato, associado à fibrinólise intensa, explica os fenômenos hemorrágicos que acompanham a CIVD. Quando a CIVD é de instalação crônica, o consumo dos fatores de coagulação é compensado pela produção hepática, e os pacientes apresentam alto risco de trombose. Como exemplo, têm-se as neoplasias malignas, que muitas vezes se apresentam inicialmente com quadro de trombose profunda ou tromboflebite superficial migratória (síndrome de Trousseau). Figura 8.4 - Fisiopatologia da coagulação intravascular disseminada Fonte: elaborado pelos autores. c) Quadro clínico O quadro clínico é de sangramento importante em feridas operatórias, locais de punção ou drenos, petéquias, sangramento digestivo ou urinário, eventos trombóticos e falência multissistêmica em casos avançados. Os trombos formados podem ser encontrados em diferentes topografias (em ordem decrescente de frequência): cérebro, coração, pulmões, rins, adrenais, baço, fígado e hipófise, culminando nos casos mais avançados com a falência de múltiplos órgãos. Necrose hemorrágica da pele e púrpura fulminante também podem ser manifestações da CIVD. Os principais diagnósticos diferenciais são doença hepática grave, trombocitopenia induzida por heparina (devendo ser considerada nos pacientes sépticos em UTI recebendo heparina não fracionada ou de baixo peso molecular), púrpura trombocitopênica trombótica e outras patologias que cursam com anemia microangiopática. d) Alterações laboratoriais As principais alterações são alargamento do TP e do TTPA, aumento do D-dímero, trombocitopenia (consumo), anemia hemolítica microangiopática (trauma mecânico), elevação dos produtos de degradação da fibrina e dos multímeros de von Willebrand. A antitrombina e a proteína C podem estar diminuídas pelo mesmo motivo de consumo, contribuindo para eventos trombóticos. Em casos iniciais ou de CIVD crônica, encontram-se apenas contagem plaquetária discretamente alterada, D-dímero e Produto de Degradação da Fibrina (PDF) aumentados, podendo o tempo de trombina também estar alargado (pelo aumento de PDF). Os demais exames (TP, TTPA e fibrinogênio) são normais. e) Tratamento Inicialmente, deve-se tratar a causa que desencadeou o processo e proceder com estabilização hemodinâmica. As outras medidas, como reposição de plasma fresco e crioprecipitado, devem basear-se no quadro clínico de sangramento ativo ou na necessidade de submissão a procedimentos cirúrgicos. A reposição de plasma fresco e de concentrados de plaquetas deve ser criteriosa e usada apenas quando há fundamento laboratorial, sangramento ativo ou necessidade de procedimento invasivo/intervenção cirúrgica. Tenta-se manter TP e TTPA normais e as plaquetas acima de 50.000/mm3, nesses casos. O fibrinogênio é reposto por intermédio do crioprecipitado, a fim de manter as concentrações acima de 100 mg/dL, sempre que há sangramento ativo ou necessidade de intervenção invasiva. Não há evidência de que a transfusão de plaquetas, plasma fresco congelado ou crioprecipitado, na ausência de sangramento ativo ou risco de sangramento (procedimento invasivo), traga benefício. Tampouco há estudos que comprovem o benefício do uso da heparina na CIVD aguda para melhora da disfunção orgânica, sendo reservada só aos casos de CIVD crônica, com manifestação trombótica e antes de procedimentos cirúrgicos. A utilização de concentrado de proteína C recombinante é controversa. No passado, já foi indicada em algumas situações de sepse grave, com risco de morte e disfunção de órgão, mas, recentemente, essa medicação foi retirada do mercado. A antitrombina recombinante não mostrou benefício nos pacientes estudados e evidenciou maior risco de sangramento, e fator VII ativado é reservado para casos com sangramento muito grave, com risco de morte, sem melhora com a reposição de plasma fresco, plaquetas e crioprecipitado. Há estudos que mostram que o uso de concentrado de proteína C pode reduzir a mortalidade em casos de púrpura fulminans. É utilizada na dose de 100 UI/kg em bolus, seguida de 50 UI/kg a cada 6 horas até a normalização ou decréscimo nos níveis de D-dímero. Já a utilização de agentes antifibrinolíticos é contraindicada, pois, ao inibir a fibrinólise, aumenta o risco trombótico. f) Prognóstico A CIVD é uma complicação grave, com mortalidade chegando de 40 a 80%. Depende da causa-base, da rapidez no diagnóstico e da pronta instituição de terapêutica adequada. 8.1.3.2 Deficiência de vitamina K A vitamina K é essencial para a funcionalidade dos fatores de coagulação que apresentam radical glutâmico: fatores II (protrombina), VII, IX, X, proteína C e proteína S. Ela é sintetizada no organismo pela flora bacteriana intestinal, em pequenas quantidades. A ingesta alimentar de vegetais de folhas verdes (que contêm a vitamina) é necessária para complementar a necessidade diária de 90 a 120 µg. Após a ingesta, a vitamina K é separada do alimento pelas enzimas pancreáticas e, por ser lipossolúvel, necessita de sais biliares para ser absorvida no intestino delgado. A função da vitamina K é de coenzima para a gamacarboxilação dos fatores de coagulação citados, junto à enzima gamacarboxilase. Após esse processo, tem-se a formação da vitamina K na forma inativa (epóxido), que é novamente ativada pela enzima epoxirredutase. Figura 8.5 - Oxirredução da vitamina K e ação dos dicumarínicos sobre a vitamina K redutase Fonte: acervo Medcel. Os principais fatores de risco para deficiência de vitamina K são: 1. Alcoolistas crônicos: ocorre pela diminuição da ingesta e pela insuficiência pancreática; 2. Pacientes com doença inflamatória intestinal ou pós-ressecção ileal: ocorrem redução da absorção e alteração da flora bacteriana; 3. Uso de antibióticos e nutrição parenteral por períodos prolongados: levam à alteração da flora bacteriana. São exemplos cefalosporinas de segunda e de terceira geração e cloranfenicol; 4. Lactentes: em razão do fígado imaturo, ausência de vitamina K no leite materno e ausência de flora bacteriana. Manifesta-se pelo quadro clínico da doença hemorrágica do recém-nascido, que consiste em sangramento cutâneo, gastrintestinal ou até intracraniano na primeira semana de vida e pode ser prevenido pela administração de vitamina K 0,5 a 1 mg IM; 5. Uso de dicumarínico: essa classe de medicamentos inibe a enzima vitamina K-redutase, diminuindo a atividade da vitamina K. O diagnóstico é feito pelo TP alargado, visto que é um teste altamente sensível para detectar redução nos fatores vitamina K- dependentes, sendo o fator VII o principal deles, pois apresenta baixa meia-vida (6 horas). Nas deficiências extremas, também pode haver prolongamento do TTPA. No teste da mistura a 50%, observa- se a correção do tempo prolongado. A manifestação clínica é de hematomas após pequenos traumas, e, nas deficiências severas, podem ocorrer hematêmese, melena ou hematúria. O tratamento é feito com a reposição de vitamina K na dose de 1 a 10 mg VO, IM ou IV. Em casos de sangramento com risco de vida, transfundir plasma fresco congelado na dose de 10 a 15 mL/kg, complexo protrombínico ou fator VII ativado, a depender da urgência e das condições do paciente. 8.1.3.3 Hepatopatia O fígado é o local de síntese de todos os fatores de coagulação, com exceção do fator VIII e do fator de von Willebrand. Também é local de carboxilação dos fatores dependentes da vitamina K, de síntese de antitrombina e de fatores fibrinolíticos. Hepatopatas crônicos têm deficiência de vitamina K tanto pela falta de ingesta quanto pela diminuição da absorção pela colestase em estágios terminais. Diminuição da síntese dos fatores de coagulação, da carboxilação dos fatores dependentes da vitamina K, da síntese de antitrombina e alfa-2-antiplasmina, disfibrinogenemia (em razão do excesso de ácido siálico, que interferena formação de fibrina) colocam o hepatopata em risco de sangramento e de trombose, sendo necessário um equilíbrio muito justo para não acontecer nenhum desses eventos. Muitas vezes, também cursa com plaquetopenia secundária a esplenomegalia, contribuindo para as manifestações hemorrágicas. O tratamento deve basear-se apenas na manifestação clínica, nunca em exame laboratorial. Pode-se administrar profilaticamente a vitamina K, e, enquanto o fígado for capaz de produzir fatores, ela será benéfica. Em casos de sangramento, deve-se transfundir plasma fresco congelado e, em caso de trombose, anticoagulação cautelosa. 8.2 DISTÚRBIOS DA HEMOSTASIA TERCIÁRIA 8.2.1 Definição Anormalidade congênita da fibrinólise é uma condição muito rara, sendo mais comuns as alterações adquiridas. Como resultado dessas anormalidades, podem-se encontrar: a) Aumento excessivo da plasmina, decorrente do aumento dos ativadores do plasminogênio ou deficiência dos inibidores. Tais situações cursam com manifestação clínica de sangramento (hiperfibrinólise); b) Aumento dos inibidores da fibrinólise ou deficiência dos ativadores, cursando com manifestação clínica de trombose (hipofibrinólise). As causas de distúrbio da fibrinólise podem ser: Congênitas: afibrinogenemia ou disfibrinogenemia; hipoplasminogenemia, displasminogenemia; deficiência de PAI-1; deficiência de alfa-2-antiplasmina; Adquiridas: CIVD por aumentar t-PA e diminuir alfa-2- antiplasmina; hepatopatia crônica, por diminuir o clearance de t- PA e a síntese de alfa-2-antiplasmina; neoplasias, por aumentarem u-PA; cirurgias cardíacas. Na hiperfibrinólise, o diagnóstico diferencial com CIVD aguda é muito difícil, visto que há alargamento de TP e TTPA, diminuição de fibrinogênio, aumento de D-dímero e PDF e encurtamento do tempo de lise de euglobulina. A diferença é que não há consumo de plaquetas e esquizócitos nem consumo de antitrombina. Na hipofibrinólise, o diagnóstico é bastante difícil, visto que a dosagem dos ativadores do plasminogênio e dos inibidores da fibrinólise é muito variável e sofre diversas interferências. O exame que sugere esse quadro é o tempo de lise de euglobulina alargado. No tratamento dos quadros de hiperfibrinólise, utilizam-se os antifibrinolíticos; nos casos de hipofibrinólise, anticoagulante oral. Quadro 8.2 - Diagnósticos diferenciais entre coagulação intravascular disseminada, hiperfibrinólise primária e púrpura trombocitopênica trombótica Quais características clínicas ajudam no diagnóstico de distúrbios da hemostasia secundária? A hemostasia secundária é caracterizada por início do sangramento tardio ao trauma, hematomas profundos, hemartrose, sangramentos profundos e história familiar comum. Como diagnosticar o paciente com trombofilia? Como realizar sua anticoagulação? 9.1 INTRODUÇÃO A trombose está relacionada ao desequilíbrio de um dos fatores da chamada tríade de Virchow: estase sanguínea, lesão endotelial e hipercoagulabilidade (Figura 9.1). Figura 9.1 - Tríade de Virchow Fonte: Rudolf.hellmuth, 2012. Exemplos comuns dessas situações são a cirurgia com longos períodos de imobilização (estase), a arteriosclerose, que provoca alterações endoteliais severas (lesão endotelial) e doenças hereditárias ou adquiridas com redução das substâncias que atuam na modulação da cascata da coagulação ou fibrinólise, como a deficiência de antitrombina (AT – alteração da coagulação). Em 80% dos casos de trombose, é possível identificar um fator de risco para o evento trombótico e, em muitos casos, detectar múltiplos fatores. O tromboembolismo venoso inclui a embolia pulmonar e a trombose venosa profunda. Os principais fatores de risco para tromboembolismo venoso são: a) Idade > 40 anos; b) Obesidade (índice de massa corpórea > 35 kg/m2); c) Diagnóstico de trombofilia hereditária; d) Varizes ou insuficiência arterial periférica; e) Câncer; f) Anemia falciforme e hemoglobinúria paroxística noturna; g) Insuficiência cardíaca congestiva classe funcional III/IV; h) História prévia de trombose; i) Síndrome nefrótica; j) Procedimento cirúrgico; k) Imobilidade prolongada (estar acamado ou passar > 50% do dia deitado ou sentado, por mais de 72 horas); l) Trauma; m) Gestação e puerpério; n) Uso de anticoncepcional oral ou reposição hormonal; o) Alguns quimioterápicos (talidomida, asparaginase); p) Infecção grave; q) Acidente vascular cerebral; r) Infarto agudo do miocárdio. Quadro 9.1 - Causas de hipercoagulabilidade 9.2 TROMBOFILIAS HEREDITÁRIAS Compreendem situações em que a trombose acontece por alteração de substâncias moduladoras da coagulação ou fibrinólise herdadas por meio de mutação genética, associada ou não a fatores desencadeantes. Os pacientes, uma vez tendo apresentado episódio de trombose, poderão necessitar de anticoagulação por toda a vida, a depender das circunstâncias nas quais a trombose ocorrer. As trombofilias hereditárias mais associadas a eventos trombóticos, em ordem decrescente, são homozigose para o fator V de Leiden (mutante e resistente à inativação pela proteína C), deficiência de antitrombina (juntas causam 50 a 60% dos casos) e deficiência de proteína C. Os principais exames a serem solicitados na investigação de trombofilias hereditárias são: a) Pesquisa de fator V Leiden; b) Mutação no gene da protrombina; c) Proteína C; d) Proteína S; e) Dosagem de antitrombina III. Outros exames que podem ser solicitados são: 1. D-dímero: o D-dímero é produzido quando a plasmina começa a degradação do coágulo (fibrina). É utilizado no diagnóstico de trombose, mas não permite identificar trombofilias hereditárias. Apresenta alta sensibilidade e baixa especificidade para o diagnóstico de trombose venosa profunda. Pela sua baixa especificidade, seu uso exclusivo não permite o diagnóstico de trombose venosa profunda, sendo necessários outros exames; 2. Homocisteína: a hiper-homocisteinemia é um fator etiológico- metabólico para a doença vascular prematura e trombose, principalmente arterial. Após um evento trombótico agudo, é interessante aguardar em torno de 3 meses para iniciar a investigação de trombofilias. Os testes para investigação de trombofilias hereditárias não são indicados imediatamente após um evento trombótico significativo, pois podem depletar algumas proteínas do plasma transitoriamente e levar a diagnóstico equivocado de deficiência hereditária de antitrombina III e proteínas C e S. A anticoagulação também pode interferir em alguns dos testes funcionais; a heparina pode reduzir os níveis de antitrombina, e a varfarina pode reduzir os níveis de proteínas C e S, levando potencialmente ao erro diagnóstico. Diante de um evento trombótico, aqueles que devem ser investigados para trombofilia hereditária são: a) Trombose idiopática; b) Trombose em indivíduos com idade abaixo de 50 anos sem evento predisponente; c) História familiar de trombose (em familiares com menos de 50 anos); d) Trombose recorrente; e) Trombose em locais pouco comuns (retina, mesentério e cérebro); f) Associação de trombose venosa e arterial; g) Tromboflebite migratória; h) Púrpura fulminante; i) Resistência a heparina. 9.2.1 Fator V de Leiden Trata-se de uma mutação genética que resulta na formação de fator V mutante, resistente à inativação pela proteína C. Essa resistência é um dos principais fatores de risco para tromboembolismo venoso (TEV), sendo a mutação do fator V de Leiden uma das causas. A presença da mutação aumenta o risco de doença trombótica em 3 a 10 vezes para heterozigotos e em 80 vezes para homozigotos, e é maior quando associada a outros fatores de risco (utilização de contraceptivos orais, gravidez, imobilização após cirurgias, traumatismo ou doenças malignas). Essa mutação também favorece abortos espontâneos, e descreve-se possível correlação com a síndrome microangiopática, conhecida como síndrome HELLP. Estima-se que, no Brasil, tal gene esteja presente em cerca de 2 a 4% da população, e a detecção é feita por meio da pesquisa da mutação. 9.2.2 Deficiência de antitrombinaDoença autossômica dominante, em que ocorre síntese reduzida do inibidor dos fatores IIa, Xa, XIa e IXa. Como a anticoagulação nos pacientes acometidos de trombose é feita inicialmente pela heparina não fracionada, caracteristicamente esses indivíduos têm maior dificuldade de alcançar níveis de anticoagulação, visto que a ação dessa heparina depende da antitrombina. O diagnóstico é feito pela dosagem dos níveis da atividade de antitrombina sérica. 9.2.3 Deficiência de proteína C Doença autossômica dominante que pode apresentar-se sob 3 formas clínicas características, além da Trombose Venosa Profunda (TVP): a) Tromboflebite superficial recorrente; b) Púrpura fulminante neonatal, que ocorre em recém-nascidos com deficiência grave, nos primeiros dias de vida, manifestando-se como tromboses venosa e arterial extensas e rapidamente progressivas, culminando com coagulação intravascular disseminada (CIVD) e falência de múltiplos órgãos, caso não seja feita a reposição do fator deficiente; c) Necrose cutânea induzida pela varfarina, uma necrose extensa e rapidamente progressiva que acontece nos primeiros dias de uso da varfarina (habitualmente, altas doses) em pacientes com deficiência de proteína C, em razão do período transitório inicial de hipercoagulabilidade, visto que a proteína C é dependente da vitamina K. O diagnóstico é feito pela pesquisa da atividade da proteína C sérica. 9.2.4 Deficiência de proteína S Trata-se de uma doença autossômica dominante. A proteína S é uma glicoproteína dependente da vitamina K e é cofator da proteína C. Sintetizada por células hepáticas, endoteliais e megacariócitos, apenas a sua forma circulante livre possui atividade anticoagulante. Sua ação se dá pelo aumento da velocidade de inativação dos fatores Va e VIIIa, na presença da proteína C. Fase aguda do evento trombótico, gravidez, uso de contraceptivos orais ou agentes varfarínicos são causas de diminuição da atividade da proteína S e devem ser considerados na avaliação laboratorial. Sempre que possível, a dosagem da sua forma livre deve ser solicitada na suspeita dessa patologia. 9.3 TROMBOFILIAS ADQUIRIDAS As principais causas de trombofilias adquiridas incluem gestação/puerpério, cirurgias (especialmente as ortopédicas), neoplasias malignas e uso de anticoncepcionais hormonais. 1. Gestação e puerpério: são os principais exemplos de trombofilia adquirida, associados a risco de trombose 6 vezes maior em razão de diversos fatores, como diminuição do nível sérico de proteína C, estase sanguínea pela compressão uterina, imobilização prolongada e obesidade; 2. Cirurgia e trauma: pode ocorrer devido à exposição de grande quantidade de fator tecidual por lesão endotelial, imobilidade prolongada e patologia de base. O risco trombótico é bastante aumentado em pacientes submetidos a procedimento cirúrgico, principalmente cirurgias ortopédica, vascular, neurológica e oncológica. Outros fatores de risco que aumentam ainda mais o risco trombótico nessa população são idade, evento trombótico prévio, trombofilia hereditária, tempo cirúrgico e imobilização prolongada. Os pacientes devem receber profilaxia antitrombótica primária no período pós- operatório, pois, sem isso, o risco de TVP sintomática e embolia pulmonar é bastante alto; 3. Neoplasias malignas: decorrentes da exposição de fator tecidual em células neoplásicas, levando à formação excessiva de trombina, manifestando-se como tromboflebite migratória (síndrome de Trousseau), endocardite trombótica não infecciosa ou CIVD crônica; 4. Deficiência adquirida da antitrombina: decorre de consumo (CIVD, pré-eclâmpsia e eclâmpsia), diminuição de síntese (doença hepática) e perda urinária (síndrome nefrótica); 5. Deficiência adquirida de proteína C: em razão de consumo em infecções graves, CIVD e pós-operatório; 6. Anemias hemolíticas: hemoglobinúria paroxística noturna (trombose venosa, principalmente no leito hepático, ou arterial), anemia falciforme e talassemia; 7. Hiperviscosidade: plasmática (mieloma múltiplo, Waldenström), eritrocitária (policitemia vera), leucocitária (leucemia aguda) ou plaquetária (trombocitemia essencial, mieloproliferação crônica); 8. Medicamentos: talidomida, L-asparaginase, bevacizumabe e anticoncepcional oral/terapia de reposição hormonal. 9.3.1 Síndrome do anticorpo antifosfolípide Caracterizada por fenômenos trombóticos (venosos e/ou arteriais) e/ou morbidade gestacional na presença persistente de alguma evidência laboratorial de anticorpos antifosfolípides, essa síndrome pode ocorrer como uma doença primária, responsável pela maioria dos casos (na ausência de outra patologia) ou que faz parte de outra doença, geralmente do lúpus eritematoso sistêmico. Outras condições associadas são neoplasia, infecções e drogas. Os principais anticorpos antifosfolípides são anticoagulante lúpico, anticardiolipina e antibeta-2-glicoproteína I. O anticoagulante lúpico é uma IgM ou uma IgG autoimune que provoca o prolongamento paradoxal do Tempo de Tromboplastina Parcial Ativada (TTPA) in vitro e leva ao aumento do risco trombótico e a abortos de repetição. O TTPA prolongado, que não se corrige com a adição de plasma normal, com Tempo de Protrombina (TP) e fibrinogênio normais, é bastante característico. O tempo de Russel, realizado com veneno de cobra, é o teste mais específico. Os anticorpos anticardiolipina ou antibeta-2-glicoproteína I também podem ser IgM ou IgG e afetam diretamente a camada fosfolípide plaquetária, levando, paradoxalmente, à plaquetopenia e à trombose, por ativação das plaquetas e formação de microcoágulos. Também estão associados a abortamentos de repetição, por microtrombos placentários. Para o diagnóstico, é necessária a presença de, pelo menos, 1 critério clínico (trombose vascular ou morbidade gestacional) em associação a, no mínimo, 1 critério laboratorial (presença de anticorpos antifosfolípides em 2 ou mais ocasiões com pelo menos 12 semanas entre estas e menos de 5 anos antes de alguma manifestação clínica). Quadro 9.2 - Critérios diagnósticos de síndrome do anticorpo antifosfolípide 9.4 ANTICOAGULAÇÃO 9.4.1 Heparina A heparina é comumente utilizada no tratamento de eventos trombóticos, iniciada assim que se dá a trombose. A forma não fracionada exige controle por meio do tempo de tromboplastina parcial ativada (deve ficar entre 1,5 e 2,5), enquanto a forma de baixo peso molecular não o exige. É utilizada principalmente em ambiente hospitalar, previamente ao uso de anticoagulantes orais e em pacientes que fazem uso de anticoagulantes orais no pré-operatório de cirurgias. A heparina amplia a capacidade inibitória da antitrombina. A heparina não fracionada inibe os fatores IIa, Xa, IXa, XIa, sendo necessário o controle do nível terapêutico por meio do TTPA (manter entre 1,5 e 2,5 vezes o valor basal). As Heparinas de Baixo Peso Molecular (HBPMs – enoxaparina, dalteparina, tinzaparina, nadroparina) inibem apenas os fatores IXa, Xa e XIa, não necessitando do controle com o TTPA. A heparina deve ser iniciada imediatamente diante de episódio agudo de trombose. Sugere-se uma forma dessa droga (não fracionada ou de baixo peso molecular) nos primeiros 2 a 5 dias, podendo-se iniciar o anticoagulante oral (cumarínico ou anticoagulantes orais diretos) concomitantemente, e retirando-se a heparina após ação evidente da droga oral. No caso dos cumarínicos, é pelo prolongamento de TP, com INR (razão normatizada internacional) acima de 2, por pelo menos 2 dias consecutivos. As principais complicações são sangramento e Trombocitopenia Induzida pela Heparina (TIH). Em casos de sangramento, está indicada a interrupção do tratamento até ser resolvida a causa; e, em casos de sangramentos graves, pode-se utilizar a protamina, o antídoto da heparina. A TIH acontece em 2 a 5% dos pacientes que recebem heparina, é imunologicamente mediada e inicia-se entre o quarto e o décimo dia de uso, sendo mais associada à heparina não fracionada quando comparada à ocorrência após o uso de HBPM. A TIH está relacionada a potencialrisco de vida, com possíveis complicações tromboembólicas, sendo os mais frequentes os tromboembolismos venosos, especialmente nos membros inferiores, e a embolia pulmonar. As complicações arteriais geralmente envolvem as grandes artérias dos membros inferiores, levando à isquemia aguda das extremidades. Diante da suspeita de TIH (diminuição de pelo menos 50% da contagem plaquetária basal do paciente, sem justificativa), é obrigatória a suspensão imediata da heparina. A contagem de plaquetas geralmente se normaliza após 7 a 10 dias da interrupção. Entretanto, só a sua suspensão não é suficiente, devendo ser instituída nova anticoagulação, pelo alto risco trombótico, até que a contagem plaquetária se normalize. A HBPM não é recomendada como alternativa para anticoagulação na TIH, por apresentar reatividade cruzada in vitro com os anticorpos formados em mais de 90% dos casos. Anticoagulantes orais também não devem ser usados como substitutos da heparina: apresentam lento início de ação e promovem queda dos níveis de proteína C que, associada ao aumento na geração de trombina já existente nesses pacientes, coloca-os em risco maior de complicações tromboembólicas. Seu uso tem sido associado à gangrena venosa de extremidades. A terapia com anticoagulante oral deve ser postergada até que a trombocitopenia seja resolvida. A alternativa ideal para anticoagulação deve incluir uma droga que reduza a síntese/ação de trombina. Entre essas drogas estão os inibidores diretos da trombina, a hirudina, argatrobana ou bivalirudina ou um inibidor indireto da trombina, como o danaparoide. Fondaparinux (inibidor do fator Xa) é uma alternativa. Quadro 9.3 - Meia-vida, dose convencional e dose corrigida das principais heparinas 9.4.2 Cumarínicos Foram a primeira classe de drogas utilizadas para a anticoagulação em longo prazo nos pacientes com TEV. O principal medicamento dessa classe é a varfarina (Marevan® e Coumadin®). Tais drogas agem no fígado, inibindo os fatores de coagulação dependentes da vitamina K (fatores II, VII, IX, X, proteínas C e S). No tratamento do TEV, a varfarina deve ser iniciada no primeiro dia de tratamento, concomitantemente ao começo da heparinização, após se obterem os valores basais de TP (INR) e TTPA. Nas primeiras 48 horas de uso, o cumarínico pode ter efeito pró-coagulante, piorando a trombose. Por esse motivo, no início de seu uso, deve ser associado o uso de heparina. A dose atualmente preconizada é de 1 comprimido de 5 mg, 1x/d, em jejum, com controle periódico do INR nos primeiros dias de tratamento para ajuste da dosagem. Quadro 9.4 - Tratamento da anticoagulação excessiva com cumarínicos São inúmeros os fatores que interferem na dose ideal de varfarina para cada paciente: genéticos (alguns pacientes metabolizam muito lentamente os anticoagulantes orais, necessitando de doses extremamente baixas), alimentação (alimentos que contenham vitamina K) e diversos medicamentos (alteram o metabolismo da vitamina K e do anticoagulante oral). Há uma vasta lista de medicações que interagem com a varfarina, como anti- inflamatórios não esteroides, antibióticos da classe das quinolonas, macrolídeos e cefalosporinas, alopurinol, estatinas e diversos antidepressivos. Da mesma maneira, diversos alimentos aumentam a ação dos cumarínicos, principalmente os vegetais verde-escuros. É imprescindível checar a interação medicamentosa dos fármacos de uso do paciente ao prescrever cumarínicos. Devido à extensa interação medicamentosa e necessidade de monitoração constante do INR, seu uso tem sido reduzido e substituído pelos novos anticoagulantes orais. 9.4.3 Anticoagulantes orais diretos Novos anticoagulantes estão sendo utilizados no tratamento do TEV. Conhecidos pela sigla DOAC (direct oral anticoagulants), apresentam como vantagem sobre os cumarínicos o fato de não necessitarem de monitorização laboratorial do INR e vantagem sobre as HBPMs pela administração ser oral. Como principal desvantagem, não apresentam antídoto específico para os casos de sangramento. A falta de correlação com métodos laboratoriais de rotina (TP, TTPA, TT) dificulta a quantificação do efeito anticoagulante dos novos agentes. Apesar da comodidade de não requerer monitorização, o uso de provas de coagulação que correlacionem com a atividade (e nível sérico) das novas drogas é desejável em situações de complicações hemorrágicas, pré e pós-operatórias. São exemplos de novos anticoagulantes orais: rivaroxabana; apixabana; edoxabana; dabigatrana. O fondaparinux é um novo anticoagulante, mas não é classificado como DOAC por ser de administração subcutânea. As principais características dos novos anticoagulantes orais, indicações e antídotos são mostrados no Quadro 9.5. Quadro 9.5 - Diferenças entre os principais anticoagulantes 1 Indicações clínicas aprovadas da droga, não necessariamente no Brasil. Legenda: Acidente Vascular Cerebral (AVC); Fibrilação Atrial (FA). Quadro 9.6 - Manejo do sangramento com novos anticoagulantes orais 1 Preferencialmente para rivaroxabana e apixabana. 2 Preferencialmente para dabigatrana. A Figura 9.2 mostra o mecanismo de ação dos novos anticoagulantes orais na cascata da coagulação. Figura 9.2 - Cascata da coagulação e mecanismo de ação dos novos anticoagulantes orais Fonte: elaborado pelos autores. Como diagnosticar o paciente com trombofilia? Como realizar sua anticoagulação? No diagnóstico do paciente com trombofilia, é importante solicitar o fator V de Leiden, proteína C, proteína S e antitrombina. Quando pensar no diagnóstico de leucemia aguda? 11.1 DEFINIÇÃO E EPIDEMIOLOGIA As leucemias agudas formam um grupo heterogêneo de doenças que apresentam a proliferação de um clone maligno originado da stem cell hematopoética, com a produção de células imaturas que perderam a capacidade de diferenciação, chamadas blastos. Esses blastos infiltram a medula óssea e, progressivamente, o sangue periférico, ocasionando redução na produção de células sanguíneas normais. A perda da função normal da medula óssea leva às complicações das leucemias agudas: infecções, sangramento e anemia. Se a proliferação clonal for de precursor mieloide, que origina granulócitos, eosinófilos, basófilos, monócitos, hemácias e plaquetas, a doença será chamada Leucemia Mieloide Aguda (LMA); caso os blastos tenham origem em precursor linfoide, que resultam em linfócitos B, T, células NK e plasmócitos, é denominada Leucemia Linfoide Aguda (LLA). Ambas são fatais e rapidamente progressivas, se não instituída terapêutica imediata, portanto, em caso de suspeita, o hematologista deve ser consultado imediatamente. A incidência anual de novos casos é de cerca de 8 a 10 por 10.000 habitantes, representando cerca de 3% dos cânceres na população em geral. A LLA é o câncer mais comum na infância, sendo de 20 a 30% dos casos de neoplasia e 75 a 80% dos casos de leucemia, incidindo principalmente na faixa etária de 2 a 10 anos, com excelente prognóstico, alcançando 80% de índice de cura. No adulto, essa neoplasia incide à taxa de 20%, com prognóstico mais reservado, alcançando sobrevida em 5 anos de 50%. A LMA, por sua vez, representa somente cerca de 10% das leucemias em crianças menores de 10 anos e 80% em adultos, aumentando gradativamente a incidência de acordo com a idade – metade dos casos acontece em pacientes com menos de 50 anos. 11.2 PATOGÊNESE A maioria das leucemias agudas acontece “de novo”, ou seja, em consequência da mutação genética de um precursor hematopoético sem motivo aparente, resultando em proliferação maligna (sem controle) da célula anômala. Entre as alterações genéticas envolvidas nesse processo, podem-se citar mutação em oncogene e perda de gene supressor tumoral, com alteração de processos regulatórios do controle e da diferenciação celular (Figura 11.1). Essas células perdem a capacidade de diferenciação celular, produzindo um número elevado de células imaturas (“blastos”) na medula óssea, que vão para o sangue periférico e podem infiltrar outros órgãos (sistema reticuloendotelial,Sistema Nervoso Central – SNC – e outros tecidos). Figura 11.1 - Genética das leucemias A Célula-Tronco Hematopoética (CTH) origina, por meio de diversos estímulos, o progenitor mieloide; tanto este quanto a própria CTH, porém, podem sofrer mutações em seu material genético, ativando oncogene antes silencioso. Dessa forma, existe parada de maturação das células, que não mais produzem células maduras, como o granulócito, aumentando somente as formas imaturas (blastos), resultando na LMA. Para a LLA, o raciocínio é o mesmo, porém com células progenitoras linfoides. No entanto, sabe-se que alguns fatores genéticos e ambientais estão associados à “predisposição” ao aparecimento dessas neoplasias, principalmente: 1. Genéticos: anemia de Fanconi e síndromes de Down (trissomia 21), Patau (trissomia 13) e Klinefelter (XXY); 2. Ambientais: exposição a agentes potencialmente mutagênicos, como radiação, derivados de benzeno, solventes orgânicos, agentes alquilantes e epipodofilotoxinas (para o tratamento de outras neoplasias, como etoposídeo e teniposídeo); 3. Doenças adquiridas: mielodisplasia, doenças mieloproliferativas crônicas, hemoglobinúria paroxística noturna e anemia aplástica. 11.3 CLASSIFICAÇÃO A distinção das linhagens celulares mieloide e linfoide pode ser feita por diferentes métodos: morfológico, citoquímico, imunofenotípico, citogenético e molecular. 11.4 LEUCEMIA MIELOIDE AGUDA 11.4.1 Morfologia celular Blastos mieloides apresentam, em grande parte dos casos, citoplasma claro, abundante e frequentemente granular. Os grânulos, quando agrupados, formam os chamados bastonetes de Auer, e sua presença é patognomônica de leucemia mieloide aguda. 11.4.2 Citoquímica Os blastos positivos para os métodos de Sudan Black B (SBB) e mieloperoxidase (MPO) são característicos da linhagem mieloide. 11.4.3 Imunofenotipagem A imunofenotipagem é um método mais preciso do que a citoquímica e foi incorporado ao diagnóstico, à classificação, ao prognóstico e, em alguns casos, à monitorização das leucemias agudas. A citometria de fluxo é um método que utiliza anticorpos monoclonais fluorescentes para analisar padrões de expressão de antígenos (Cluster of Di�erentiation – CD) em populações celulares específicas. Existe um tipo de anticorpo monoclonal para cada tipo de CD; caso haja ligação CD versus anticorpo, pela capacidade fluorescente deste, há a emissão de luz registrada por um aparelho especial, o citômetro, o qual traduz esses sinais em gráficos. Da avaliação desses gráficos, ou seja, da positividade ou negatividade dos diferentes CDs, surge o diagnóstico específico da linhagem acometida. 11.4.4 Citogenética Leucemias são doenças que apresentam alterações cromossômicas numéricas e/ou estruturais frequentes e, muitas vezes, específicas de determinados subtipos, envolvendo genes que, uma vez alterados qualitativa ou quantitativamente, atuam como fatores de iniciação e progressão neoplásicas. Anormalidades cromossômicas caracterizadas por translocações balanceadas e por perda e ganho de cromossomos são encontradas em mais de 65% dos casos. A avaliação pode ser feita pelo cariótipo convencional ou pelo método FISH (hibridização fluorescente in situ), e a aplicação clínica é de contribuição diagnóstica e prognóstica, já utilizada desde a classificação MIC para LMA: Morfológica, Imunofenotípica e Citogenética. Na estratificação prognóstica, os achados no estudo citogenético são divididos em cariótipos favorável, intermediário e desfavorável (Quadro 11.1). Como regra geral, as translocações apresentam bom prognóstico, enquanto as deleções e inversões (salvo se inversão 16) são de mau prognóstico. Quadro 11.1 - Estratificação de risco dos achados 11.4.5 Pesquisa genética molecular A pesquisa genética molecular é feita por meio de PCR e tem sua importância no diagnóstico e no prognóstico do paciente, uma vez que pode ser utilizada para acompanhamento da resposta terapêutica. Recentemente, têm sido estudadas algumas mutações ou expressões gênicas com importância prognóstica, o que teve vital importância, em especial nos pacientes com cariótipo normal. Observa-se que, neste grupo, alguns evoluem de forma melhor, com maior resposta à quimioterapia e sem recidiva de doença, do que outros. Foram, assim, detectadas por meio de pesquisa molecular mutações de mau e bom prognósticos, justificando as diversas respostas desse grupo. As alterações moleculares são muito importantes na classificação do prognóstico da leucemia mieloide aguda. Com base nelas, planeja-se o tratamento quimioterápico e avalia-se a indicação de transplante de medula óssea. As mutações consideradas de mau prognóstico são FLT3 e c-Kit, e as de bom prognóstico são NPM1 e CEBPA. 11.4.6 Classificação da leucemia mieloide aguda Encontram-se, em grande parte das LMAs, características morfológicas sugestivas da linhagem afetada, por exemplo, células de aspecto monocitoide nas leucemias mielomonocíticas ou promielócitos anômalos na Leucemia Promielocítica Aguda (LPA). Assim, de acordo com a classificação FAB (Franco-Americana- Britânica), usam-se critérios morfológicos para classificar a LMA em M0 a M7. Essa classificação vem sendo cada vez menos utilizada na prática clínica. Em 2008, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reformulou os critérios e a nomenclatura da classificação da LMA, levando em conta, em especial, a alteração genética encontrada e a origem da leucemia, sendo a classificação de escolha. O Quadro 11.2 mostra a classificação da OMS e a classificação correspondente da FAB. Na classificação FAB, as LMAs ditas “do meio” são de bom prognóstico (M2, M3 e M4); as demais são de mau prognóstico. E deve-se dar atenção especial à LMA M3, de características e tratamento diferentes das demais. Quadro 11.2 - Classificação das leucemias agudas – Organização Mundial da Saúde (2008) e classificação Franco-Americana-Britânica 11.4.7 Manifestações clínicas O quadro clínico das leucemias agudas é secundário à falência medular e à infiltração orgânica pelos blastos. As manifestações clínicas da leucemia mieloide aguda são decorrentes da anemia, neutropenia e plaquetopenia e envolvem palidez cutânea, astenia, dispneia aos esforços, infecções oportunistas e sangramentos que se manifestam por meio de petéquias, equimoses e hematomas, podendo ocorrer hemorragias mais graves. Raramente, na leucemia mieloide aguda, há infiltração linfonodal ou hepatoesplenomegalia. Quando presentes, a primeira suspeita diagnóstica é a leucemia da série monocítica, após descartar leucemia linfoide aguda. As leucemias apresentam, inicialmente, sintomas e sinais inespecíficos, que podem simular o quadro clínico de muitas patologias: artrite reumatoide juvenil, febre reumática, lúpus eritematoso sistêmico, púrpura trombocitopênica idiopática, aplasia medular e mononucleose infecciosa, entre outras. A ocupação medular pelos blastos leva à deficiência de produção de elementos normais do sangue, ocasionando anemia, neutropenia e plaquetopenia graves. Os sintomas principais são decorrentes das alterações hematológicas: 1. Anemia: astenia, dispneia aos esforços, palidez cutânea e taquicardia, podendo chegar a cor anêmico; 2. Leucopenia e neutropenia: febre e infecções oportunistas, como candidíase e micoses profundas (pela neutropenia severa e prolongada). É muito rara a manifestação de febre como sinal da própria leucemia, portanto, quando presente, deve ser investigada e tratada como secundária à infecção; o termo neutropenia febril é utilizado para definir a presença de febre, com temperatura oral > 38,3 °C (ou temperatura axilar > 37,8 °C), ou persistência de temperatura entre 38 e 38,3 °C por mais de 1 hora. Já a neutropenia é definida por contagem de neutrófilos < 500/mm3 ou entre 500 e 1.000/mm3 e com tendência à queda; 3. Sangramentos: desde petéquias, equimoses e hematomas, passando por sangramentos de mucosas, até hemorragias cranianas ou pulmonares (pela plaquetopenia severa); 4. Leucostase: grandes contagens de leucócitos no sangueperiférico, geralmente acima de 100.000/mm3, estão associadas ao aumento da viscosidade sanguínea e à síndrome de leucostase (caracterizada por lentificação e obstrução da microcirculação pelos blastos circulantes, em geral, maior do que 100.000/mm3), que podem levar à insuficiência respiratória, alterações neurológicas graves, evoluindo, muitas vezes, para o coma ou o sangramento cerebral, priapismo e fenômenos trombóticos. O mecanismo ainda não é bem compreendido, pois se evidencia falha na capacidade de reduzir os efeitos da leucostase apenas por meio da remoção mecânica das células (leucoaférese), e há casos em que se instala a síndrome com contagens não tão elevadas de leucócitos. O tamanho, a deformabilidade e os receptores celulares, além da capacidade de liberação de citocinas pelas células neoplásicas, parecem estar relacionados ao quadro; 5. Infiltração extramedular: a infiltração extramedular por blastos é conhecida como cloroma ou sarcoma granulocítico. Os sítios mais comuns são pele (leukemia cutis) e mucosa (hiperplasia gengival), mais frequentes na LMA de linhagem monocítica. O cloroma (mais comum no subtipo M2) pode aparecer virtualmente em qualquer tecido e é também descrito atrás dos olhos e na meninge (particularmente relacionado à LMA promielocítica), epidural, ovário, intestino e mediastino. É pouco comum o seu aparecimento sem a detecção da doença medular, mas é possível (daí a classificação da OMS separadamente de sarcoma mieloide), e o tratamento é igual. Dor óssea, principalmente no esterno e em ossos longos, é pouco comum entre adultos com LMA e corresponde à expansão leucêmica na cavidade medular. Figura 11.2 - Hiperplasia gengival por infiltração leucêmica na leucemia mieloide aguda M5 Fonte: Gingival Hyperplasia as an Early Diagnostic Oral Manifestation in Acute Monocytic Leukemia: A Case Report, 2007. Figura 11.3 - Leukemia cutis Figura 11.4 - Cloroma retro-orbitário Fonte: Sarcoma granulocítico em órbita: relato de caso, 2005. 11.4.7.1 Leucemia promielocítica aguda ou LMA M3 De acordo com a classificação FAB, a LPA ou LMA M3 representa de 10 a 15% das LMAs. Pela classificação da OMS, é conhecida como LMA t(15;17) com a fusão gênica PML/RARa. É uma variante clínica e biológica distinta das LMAs. Esse tipo de leucemia apresenta morfologia celular característica, com promielócitos anormais, núcleo excêntrico e abundantes granulações no citoplasma. Caracteriza-se também pela presença de múltiplos bastonetes de Auer no citoplasma, formando feixes, conferindo a essas células a denominação de faggot cells (células com maços ou feixes – Figura 11.5). Os indivíduos com LPA apresentavam alta taxa de mortalidade devido à coagulopatia que lhe é característica, sendo, por isso, uma emergência médica. Tal complicação é consequente à liberação de substâncias fibrinolíticas pelos grânulos dos promielócitos, que resulta em quadro de coagulação intravascular disseminada (CIVD). Os pacientes beneficiam-se do uso do ácido transretinoico (ATRA), que leva à maturação dos blastos por ação direta no ponto de bloqueio induzido pela translocação, com diminuição dos promielócitos anômalos e consequente melhora da coagulopatia. O uso do ATRA levou a LMA t(15;17) a ser um dos subtipos mais curáveis, devendo esse medicamento ser iniciado prontamente após a suspeita diagnóstica. Nas raras situações de LPA em que não se observa tal translocação (15;17) ou seu equivalente molecular, o rearranjo PML/RARa, pode haver translocações variantes, como t(5;17), t(11;17) ou outras que também respondem ao ATRA, exceto a t(11;17)(q23;q22). Figura 11.5 - Promielócitos anômalos e faggot cells de leucemia promielocítica aguda 11.5 LEUCEMIA LINFOIDE AGUDA 11.5.1 Morfologia celular Os blastos de linhagem linfoide geralmente são de dimensões menores do que os mieloides e apresentam, em sua maior parte, citoplasma basófilo e sem granulações. Podem ser monomórficos ou pleomórficos e não apresentam grânulos ou bastonetes de Auer. A classificação morfológica das LLAs da FAB em L1, L2 e L3, muito utilizada anteriormente, é pouco específica e não fornece dados precisos sobre o subtipo leucêmico e os índices prognósticos. Deve- se destacar morfologia para a LLA L3, atualmente conhecida como LLA Burkitt, que tem vacúolos citoplasmáticos bastante característicos e prognóstico reservado (Figura 11.6). Quadro 11.3 - Classificação Franco-Americana-Britânica de leucemia linfoide aguda Figura 11.6 - Leucemias linfoides agudas Legenda: (A) L1; (B) L3. Fonte: Leucemia linfoide aguda e seus principais conceitos, 2017. 11.5.2 Citoquímica Nas LMAs, o advento da citoquímica, por meio de colorações capazes de aproveitar a atividade enzimática celular, possibilita diferenciar as LMAs das LLAs (com exceção da LMA M0 e, algumas vezes, da M1). Os blastos linfoides são positivos para o ácido periódico de Schi� (PAS) e negativos para MPO e Sudan Black. 11.5.3 Imunofenotipagem A determinação do CD na LLA é fundamental para: a) Diferenciar a linhagem linfocitária B da T; b) Determinar o ponto de parada de maturação do linfócito neoplásico; c) Diferenciar da linhagem mieloide, principalmente nos casos de LMA M0 e M1 e, algumas vezes, LMA M6 e M7; d) Determinar prognósticos e auxiliar a indicação da terapêutica. Quadro 11.4 - Perfil imunofenotípico das leucemias linfoides B Quadro 11.5 - Perfil imunofenotípico das leucemias linfoides T 11.5.4 Citogenética Na LLA, anormalidades citogenéticas são encontradas em cerca de 60 a 85% dos casos; algumas delas apresentam implicações prognósticas importantes. Em 30% dos casos das LLAs nos adultos, encontra-se a translocação entre os cromossomos 9 e 22, formando o cromossomo Filadélfia (o mesmo da LMC), conferindo mau prognóstico a esse tipo de LLA. Quadro 11.6 - Anormalidades citogenéticas e implicação prognóstica De forma semelhante às LMAs, a OMS organizou, também em 2008, a classificação das LLAs, mais uma vez levando em extrema consideração as alterações cariotípicas dessa doença: a) Leucemia/linfoma linfoblástico B com anormalidades citogenéticas recorrentes: Leucemia/linfoma linfoblástico B com t(9;22); BCR-ABL1; Leucemia/linfoma linfoblástico com t(v;11q23); rearranjo MLL; Leucemia/linfoma linfoblástico B com t(12;21); TEL-AML1; Leucemia/linfoma linfoblástico B com hiper/hipodiploidia; Leucemia/linfoma linfoblástico B com t(5;14); IL3-IGH; Leucemia/linfoma linfoblástico B com t(1;19); E2A-PBX1. b) Leucemia/linfoma linfoblástico B não especificado; c) Leucemia/linfoma linfoblástico T. 11.5.5 Pesquisa genética molecular A pesquisa genética molecular visa identificar a presença do cromossomo Filadélfia (translocação entre os cromossomos 9 e 22). A principal pesquisa molecular nas LLAs é da fusão gênica BCR-ABL, correspondente à alteração cromossômica da t(9;22), que, algumas vezes, pode não ser detectada pelo método de cariótipo comum. A PCR e a RT-PCR são métodos mais sensíveis e, inclusive, utilizados para o seguimento da resposta terapêutica. Pacientes com essa alteração constituem um grupo distinto no tratamento das LLAs. 11.5.6 Quadro clínico Além do quadro clínico decorrente das citopenias (anemia, plaquetopenia e neutropenia), com fadiga, sangramentos e infecção, não é rara a ocorrência de sintomas B. Sintomas B são definidos como febre (temperatura > 38 °C), emagrecimento (perda de > 10% do peso corpóreo em 6 meses) e sudorese noturna. Adenomegalia e hepatoesplenomegalia podem ser vistas em 50% dos pacientes ao diagnóstico. Os locais extranodais mais acometidos na leucemia linfoide aguda são o sistema nervoso central e o testículo. O envolvimento do SNC é comum e pode ser acompanhado por sintomas de neuropatia de par craniano, hipertensão intracraniana, crise convulsiva e sintomas meníngeos. A LLA T é mais comum na infância tardia, nos adolescentes e nos adultos jovens. Além dos sintomas já citados, particularmente apresentam-se adenomegalias cervical, supraclavicular e axilar, inclusive com massa mediastinal em 50 a 75% dos casos,cuja manifestação clínica é tosse seca (Figura 11.7). Como complicação desse quadro, é possível haver derrame pleural, derrame pericárdico (com ou sem tamponamento), obstrução traqueal ou compressão da veia cava superior. O SNC e os testículos, pela presença das barreiras hematoencefálica e hematotesticular, respectivamente, são considerados “santuários”, em que a quimioterapia tem mais dificuldade para infiltração, tornando esses locais possíveis fontes de recidiva, se não tratados adequadamente. A presença de infiltração meníngea ou testicular sugere uma doença mais agressiva. Figura 11.7 - Massa mediastinal anterior na leucemia linfoide aguda T Legenda: (A) à radiografia; (B) à tomografia computadorizada. 11.5.7 Leucemia linfoide aguda na infância O pico de incidência está entre os 2 e os 5 anos, com predomínio no sexo masculino. Na manifestação clínica, além dos sintomas inespecíficos de astenia, inapetência, febre e sangramento cutâneo-mucoso, destaca-se a dor óssea, particularmente em ossos longos, como consequência da infiltração leucêmica do periósteo, da metáfise e da região articular ou, ainda, de osteonecrose asséptica por células leucêmicas. Acomete de 20 a 30% das crianças, e, em metade dos casos, é possível encontrar imagem radiológica: tarja leucêmica (imagem radiotranslúcida na região metafisária), periostite, osteólise e osteoporose. É importante salientar que a tarja leucêmica não é patognomônica da leucemia aguda e que, em casos bastante precoces (raro), o hemograma pode ser normal, com manifestação exclusiva de dor osteomuscular. Trata-se de diagnóstico diferencial importante da artrite reumatoide e da febre reumática. Toda criança com dor osteomuscular e alteração no hemograma deve ser avaliada quanto à possibilidade de leucemia aguda. 11.5.7.1 Diagnóstico O diagnóstico das leucemias agudas é feito por meio da detecção de mais de 20% de blastos na medula óssea, pelos novos critérios da OMS (em detrimento da já antiquada classificação FAB, que considerava como ponto de corte 30% de blastos). O exame que possibilita esse diagnóstico é o mielograma. Para “medulas secas”, em que a aspiração de sangue medular durante o mielograma não é produtiva (dry tap), a infiltração deve ser confirmada pela análise histológica do tecido (biópsia de medula óssea). Esses casos têm como diagnóstico diferencial as aplasias medulares e a mielofibrose. O diagnóstico também pode ser feito pela avaliação do hemograma, com número de blastos maior do que 20% da contagem diferencial de leucócitos. Para a definição da linhagem acometida e do subtipo de leucemia, utiliza-se de imunofenotipagem, citogenética e pesquisa molecular, conforme explicado nos itens anteriores. Atualmente, para o correto diagnóstico e o manejo terapêutico das leucemias agudas, são imprescindíveis mielograma ou biópsia de medula óssea, imunofenotipagem e cariótipo (ao menos, pelo método convencional). Outras alterações laboratoriais frequentemente encontradas são: 1. Hemograma: a) Citopenias, como plaquetopenia, anemia e leucopenia; b) Leucocitose, à custa de blastos, promielócitos anômalos ou monócitos; c) Eritroblastose (rara). 2. Bioquímica: a) Hiperuricemia, acidose metabólica, hiperpotassemia ou hipopotassemia, hipocalcemia, hiperfosfatemia, aumento de ureia e creatinina, elevação de enzimas hepáticas, DHL aumentada (principalmente nas LLAs); b) Particularmente na LMA promielocítica (M3): alargamento de Tempo de Protrombina (TP) e Tempo de Tromboplastina Parcial Ativada (TTPA) e diminuição do fibrinogênio; c) Hematúria, cilindrúria, pH ácido, cristais de urato. São necessários, em alguns casos, outros exames complementares, a depender dos sintomas, com o intuito de avaliar o comprometimento de outros órgãos e sistemas. Exames de imagem, a depender da suspeita clínica, liquor com pesquisa de células neoplásicas em todas as LLAs e nas LMAs que apresentam sintomas no SNC, avaliação de fundo de olho nas suspeitas de leucostase, biópsia testicular para avaliação de infiltração em testículo. 11.6 PROGNÓSTICO E EVOLUÇÃO Como em todas as neoplasias, as LMAs e as LLAs apresentam fatores prognósticos que contribuem para a decisão de terapêutica mais ou menos agressiva e para a distinção daqueles que terão maior chance de resposta completa, sustentada ou não. As leucemias de melhor prognóstico são a LMA promielocítica com t(15;17) e as LLAs na infância. Quadro 11.7 - Fatores prognósticos das leucemias mieloides agudas 1 Sem patologia prévia que predispõe à leucemia. 2 Proteína de resistência a multidrogas, que confere maior resistência aos quimioterápicos. 3 Existe previamente alguma patologia que predispõe à leucemia, como SMD, mieloproliferação crônica ou tratamento com quimioterapia/radioterapia. A idade e o performance status são os melhores preditores de mortalidade, enquanto os demais fatores são preditores de doença refratária ou recidiva precoce. Figura 11.8 - Performance status ECOG São fatores prognósticos desfavoráveis na leucemia linfoide aguda em adultos: a) Idade > 30 anos; b) > 30.000 leucócitos na LLA B; c) Tempo para alcançar remissão completa > 4 semanas; d) Imunofenótipo pró-B, T precoce e T madura; e) t(9;22); t(4;11). Quanto maior o número de fatores desfavoráveis na LLA, pior a sobrevida em 3 anos, variando entre 21 e 91%. A taxa de remissão completa e a sobrevida livre da doença em 5 anos dependem do tipo e do subtipo da leucemia e dos fatores prognósticos, sendo as leucemias de melhor prognóstico a LMA promielocítica com t(15;17) e as LLAs na infância. 11.7 TRATAMENTO O tratamento das leucemias pode ser feito de forma específica, por meio de poliquimioterapia, seguindo as etapas de indução da remissão, pós-remissão (intensificação/consolidação) e manutenção, ou de forma inespecífica, na qual se devem fazer hidratação vigorosa, prescrição de alopurinol, controle diário de hemograma, eletrólitos, TP, TTPA e fibrinogênio. 11.7.1 Específico É feito por meio de esquemas de poliquimioterapia, diferentes para cada tipo de leucemia. Para a escolha do tratamento adequado, é importante o diagnóstico do tipo e do subtipo da leucemia e da estratificação de risco por intermédio dos fatores prognósticos. Com isso, os pacientes de baixo risco são preservados dos efeitos tóxicos da quimioterapia e há a tendência a ser mais agressivo na tentativa de obter maior êxito naqueles de alto risco. Vale lembrar o importante papel do ATRA, especificamente no subtipo M3/promielocítico, transformando uma das leucemias de maior mortalidade na leucemia de melhor prognóstico atualmente. A radioterapia está indicada a situações específicas, não sendo amplamente utilizada. O Transplante de Células-Tronco Hematopoéticas (TCTH) alogênico nas leucemias agudas, de um modo geral, apresenta as seguintes indicações: pacientes cuja doença se caracteriza por alto risco assim que entram em remissão; pacientes de qualquer risco diante da recidiva ou refratariedade da doença; e, finalmente, pacientes com LMA secundária. Por sua vez, o TCTH autólogo pode, ainda, ser utilizado na LMA de baixo risco ou na LMA de risco intermediário ou alto na ausência de doador compatível para realização de procedimento alogênico. Já na LLA, o TCTH autólogo encontra-se em desuso, pois essa modalidade de transplante apresentou resultados inferiores aos da quimioterapia isoladamente. 11.7.2 Inespecífico A profilaxia e o tratamento das infecções são fundamentais para a sobrevivência, visto que a imunossupressão é muito severa e prolongada, tanto pela doença quanto pelo tratamento. Outras medidas são a hidratação vigorosa durante a quimioterapia e o uso de medicações para evitar a síndrome de lise tumoral (alopurinol ou rasburicase). 11.8 COMPLICAÇÕES CLÍNICAS 11.8.1 Hiperleucocitose e leucostase Pacientes com leucemia aguda podem apresentar o quadro inicial com contagens muito elevadas de leucócitos no sangue periférico, o que caracteriza a chamada hiperleucocitose (> 100.000 leucócitos/mm3). No adulto, a hiperleucocitose podeocorrer em 10 a 30% das LLAs e em 5 a 20% das LMAs. É mais comum entre crianças e em certas variantes das leucemias agudas (por exemplo: M3, M4, M5 e LLA T). Também é muito frequente hiperleucocitose em leucemias crônicas indolentes, como a Leucemia Mieloide Crônica (LMC) e a Leucemia Linfoide Crônica (LLC). Entre os pacientes com hiperleucocitose, alguns podem manifestar uma síndrome chamada leucostase, em que há lentificação e obstrução da microcirculação pelos blastos circulantes. A viscosidade na hiperleucocitose aumenta principalmente em situações de baixo fluxo sanguíneo, daí o predomínio de manifestações em território microvascular. A leucostase está, em geral, associada a contagens elevadas de blastos, sendo mais comum nas leucemias agudas e incomum nas leucemias crônicas, como a LLC. Em geral, tem-se leucostase com > 100.000 blastos/mm3 nas LMAs e > 300.000 blastos/mm3 nas LLAs, porém já foram descritos casos com < 50.000 blastos/mm3, apontando que outros fatores, como possível interação do blasto com a célula endotelial, devem ter seus papéis na patogênese dessa condição. A leucostase apresenta sintomas predominantemente nos territórios pulmonar e cerebral, sendo insuficiência respiratória e hemorragia intracerebral as principais causas de morte. No entanto, qualquer órgão pode ser afetado pela contagem excessiva de blastos. A suspeita diagnóstica de leucostase deve ser feita em indivíduos com quadro neurológico ou pulmonar que apresentam contagens elevadas de blastos no sangue periférico. Quadro 11.8 - Sintomas da síndrome de leucostase Deve-se fazer avaliação laboratorial com hemograma, funções renal e hepática, eletrólitos e coagulograma. O exame de fundo de olho pode ser muito útil, assim como em todas as síndromes de hiperviscosidade, demonstrando dilatação e tortuosidade de veias retinianas, hemorragias retinianas, papiledema etc. A leucostase é uma emergência médica e deve ser tratada como tal. A mortalidade pode ser muito alta, chegando a 34 a 40% em 1 semana em algumas séries de casos, devendo a terapêutica ser iniciada prontamente em caso de suspeita clínica. O tratamento da leucostase envolve leucoaférese (medida de efeito mais imediato), uso de hidroxiureia e quimioterapia. O tratamento de suporte envolve hidratação vigorosa, uso de alopurinol para evitar síndrome de lise tumoral e transfusão de hemoderivados, caso necessário. 11.8.2 Síndrome do ácido transretinoico A síndrome ATRA (ácido transretinoico) é uma complicação possivelmente fatal, causada pela liberação de citocinas pelos promielócitos. Tem ocorrência bimodal, podendo surgir logo na primeira semana após o início do tratamento, ou entre a terceira e a quarta semana, acometendo cerca de 25% dos pacientes submetidos à terapia. Os achados mais comuns são dispneia, infiltrado pulmonar, edema periférico, febre inexplicada e hipotensão; casos graves podem cursar com hipoxemia, disfunção hepática e renal, edema cerebral e serosites (derrame pericárdico e pleural). O tratamento baseia-se na corticoterapia com dexametasona, 10 mg, 2x/d, por pelo menos 3 dias, ou até o desaparecimento dos sintomas. A suspeita precoce da síndrome é fundamental para que seja iniciado o tratamento, visto que a mortalidade pode chegar a mais de 30% em pacientes com insuficiência respiratória e edema cerebral. Quando pensar no diagnóstico de leucemia aguda? Principalmente em pacientes jovens (crianças ou adultos jovens), com leucocitose de grande monta (linfocitose ou neutrofilia), associado a blastos no sangue periférico, podendo estar associado a anemia e plaquetopenia. Febre, fadiga e sintomas constitucionais acompanham o quadro. Quais são as manifestações da leucemia crônica? 12.1 INTRODUÇÃO De acordo com a classificação da Organização Mundial da Saúde (2008), as doenças mieloides crônicas do adulto são divididas em: a) Síndromes mielodisplásicas (SMDs); b) Neoplasias mieloproliferativas; c) Neoplasias mieloides associadas à eosinofilia e a anormalidades do PDGF (fator de crescimento derivado de plaquetas). Todas as síndromes mieloproliferativas são neoplasias hematológicas cujo clone neoplásico se origina de células-tronco, com diferenciação em células maduras (hemácias, leucócitos e plaquetas); logo, todas são doenças crônicas. Quadro 12.1 - Principais tipos de neoplasia com origem em precursor mieloide As neoplasias mieloproliferativas incluem 4 doenças clássicas: leucemia mieloide crônica, policitemia vera, trombocitemia essencial e mielofibrose primária. Existem, ainda, outras doenças menos comuns, também inclusas nesse grupo: leucemia neutrofílica crônica, leucemia eosinofílica crônica, mastocitose e neoplasia mieloproliferativa não classificável. 12.2 HEMATOPOESE Seguindo a hematopoese fisiológica, podem-se classificar as neoplasias hematológicas em mieloides ou linfoides. Estas podem ser subdivididas em aguda ou crônica, a depender da proporção de células morfológicas e imunofenotipicamente imaturas na medula óssea. As neoplasias agudas apresentam maior proporção de células precursoras (imaturas), enquanto as neoplasias crônicas são constituídas de células maduras. #IMPORTANTE Existem várias neoplasias do tecido hematopoético, que incluem leucemias, linfomas, neoplasia de células plasmáticas, neoplasias mieloproliferativas, tumor histiocítico e neoplasia de células dendríticas. A classificação das neoplasias hematológicas foi atualizada pela Organização Mundial da Saúde em 2008, e leva em conta aspectos clínicos, histológicos, histoquímicos, citogenéticos e moleculares. Figura 12.1 - Hematopoese Fonte: adaptado de MD.Saude. 12.3 LEUCEMIA MIELOIDE CRÔNICA 12.3.1 Introdução A Leucemia Mieloide Crônica (LMC) é a mais frequente das síndromes mieloproliferativas crônicas (nesse grupo, ainda existem a policitemia vera, a trombocitemia essencial e a mielofibrose primária). A LMC evolui inexoravelmente para uma fase aguda ao longo dos anos e na ausência de tratamento, semelhante à leucemia aguda. Caracteriza-se pela proliferação clonal da célula-tronco multipotente anômala, que gera células mieloides granulocíticas, as quais mantêm sua capacidade de diferenciação – logo, com aparecimento de células normais e diferenciadas na medula óssea e no sangue periférico, contrastando com as leucoses agudas, em que ocorre parada de maturação –, com infiltração lenta e progressiva da medula óssea. Existe marcadamente hiperplasia mieloide, que se revela como leucocitose, predominantemente à custa de neutrofilia, mas também pode haver basofilia e eosinofilia, além de volumosa esplenomegalia. A LMC constitui de 15 a 20% das leucemias nos adultos, e sua incidência é de 1,6 caso por 100.000 habitantes/ano. A idade mediana clássica do diagnóstico está entre a quinta e a sexta década de vida, entretanto, não são poucos os casos diagnosticados entre a terceira e a quarta década), com discreto predomínio no sexo masculino (1,4:1). 12.3.2 Patogênese #IMPORTANTE A LMC resulta de uma anormalidade genética adquirida, a translocação entre os cromossomos 9 e 22 – t(9;22) (q34;q11) –, caracterizada citogeneticamente pela formação do cromossomo Filadélfia (Ph). A LMC resulta de uma anormalidade genética adquirida, a translocação entre os cromossomos 9 e 22 – t(9;22) (q34;q11) –, caracterizada citogeneticamente pela formação do cromossomo Filadélfia (Ph). O produto resultante é a expressão de oncogene denominado BCR-ABL, derivado da fusão do gene BCR, no cromossomo 22, com o gene ABL, do cromossomo 9. Esse oncogene codifica a proteína P210, ou BCR-ABL, e quase a totalidade dos casos de LMC está associada a essa mutação. Figura 12.2 - Formação do cromossomo Filadélfia Fonte: Attacking cancer at its foundation, 2009. 12.3.3 Manifestações clínicas e laboratoriais A LMC evolui de forma lenta, mas progressiva, e o diagnóstico é feito, em média, cerca de 12 meses após a instalação da doença. Aproximadamente 20 a 50% dos pacientes são assintomáticos, sendo a primeira suspeita diagnóstica feita em exames de rotina.Os sintomas são inespecíficos, como queixa de fraqueza progressiva, febre, perda de peso, sudorese noturna, aumento do volume abdominal e sensação de plenitude gástrica (pelo aumento do baço). Dor óssea também pode ser uma queixa comum, principalmente na região esternal, correspondendo à expansão medular. Raramente, há fenômenos trombóticos ou hemorrágicos (por plaquetose ou disfunção plaquetária), adenomegalias e hepatomegalia. A LMC pode evoluir com 3 fases. Primeiramente a fase crônica, de evolução lenta e que costuma persistir por tempo médio de 3 a 5 anos, podendo evoluir posteriormente se não houver tratamento adequado ou se houve resistência ao tratamento para a fase de agravamento (Fase Acelerada – FA) e, a seguir, para a fase de leucemia aguda (fase ou Crise Blástica – CB). Na Fase Crônica (FC), ocorre proliferação clonal maciça das células granulocíticas, mantendo estas a capacidade de diferenciação, sendo a doença controlada por medicamentos tradicionais. Posteriormente, em um período variável, o clone leucêmico perde a capacidade de diferenciação, e a doença passa a ser de difícil controle (FA) e progride para leucemia aguda ou CB. Algumas vezes, os pacientes apresentam-se, ao diagnóstico, já em CB. É importante a diferenciação de tais casos com casos de leucose aguda de novo, pois aqueles se beneficiam do uso de inibidores de tirosinoquinase. 12.3.3.1 Fase crônica Cerca de 85% têm o diagnóstico de LMC enquanto estão na FC. Essa fase caracteriza-se por marcada hiperplasia medular e capacidade de maturação preservada das células mieloides. O paciente, geralmente, apresenta-se oligossintomático ou com queixas inespecíficas, podendo ser apenas um achado incidental laboratorial, durante exames de rotina. Não há aumento de incidência de infecções pela presença de leucócitos funcionantes. Por vezes, o paciente apresenta quadro de priapismo como primeira manifestação, caso haja hiperviscosidade por hiperleucocitose. Essa fase leva cerca de 3 a 5 anos e é a mais provável de responder satisfatoriamente ao tratamento. Os principais achados laboratoriais da LMC (fase crônica) são: a) Leucocitose (em geral, acima de 25.000) com granulócitos em todas as suas fases de maturação, podendo chegar a blastos, o chamado desvio escalonado com maturação preservada ou, simplesmente, desvio à esquerda. Um achado clássico da LMC na FC é o “hiato leucêmico”, quando há mais mielócitos (granulócitos imaturos) do que metamielócitos (granulócitos mais maduros), ou mesmo ausência desses precursores intermediários. A basofilia e a eosinofilia podem ser encontradas em 90% dos casos, e a monocitose não é incomum; b) A presença de anemia normocítica e normocrômica é mais comum do que a poliglobulia; c) A plaquetose é mais frequente do que a plaque topenia; d) Mielograma e biópsia de medula óssea apresentam hipercelularidade global, das 3 séries, com todas as formas de maturação mieloide em abundância (hiperplasia granulocítica com aumento da relação mieloide: eritroide), observando-se, no anatomopatológico, diferentes graus de fibrose medular. Figura 12.3 - Biópsia de medula óssea Legenda: (A) medula óssea normal, com celularidade normal e alguns adipócitos; (B) medula óssea de leucemia mieloide crônica com hipercelularidade global, com algumas traves ósseas de permeio. Quadro 12.2 - Exemplo de hemograma na leucemia mieloide crônica Figura 12.4 - Sangue periférico de paciente com leucemia mieloide crônica, revelando leucocitose com desvio à esquerda 12.3.3.2 Fase acelerada ou de transformação A FA caracteriza-se por perda progressiva da capacidade de diferenciação dos neutrófilos e por dificuldade de controle da leucocitose com medicamentos, constituindo-se como fase intermediária entre a leucemia crônica e a aguda, com duração aproximada de 3 a 18 meses. Pode haver pacientes assintomáticos, entretanto, geralmente se observam piora de sintomas constitucionais e aumento da esplenomegalia, bem como do número de leucócitos, da basofilia, de células blásticas, da trombocitose ou plaquetopenia. Os critérios para fase acelerada da LMC (Organização Mundial da Saúde, 2008) são: a) Leucocitose progressiva não responsiva à terapêutica; b) Trombocitopenia < 100.000/µL, não relacionada à terapia; c) Trombocitose > 1.000.000/mm3, não responsiva à terapia; d) Esplenomegalia progressiva, não responsiva à terapêutica; e) Blastos entre 10 e 19% no sangue ou na medula óssea; f) Basófilos ≥ 20% no sangue periférico; g) Anormalidade citogenética adicional à presença do cromossomo Ph. 12.3.3.3 Crise blástica ou aguda Na CB, os mieloblastos ou linfoblastos perdem a capacidade de diferenciação. A LMC em CB é agressiva e ainda mais resistente à terapia convencional, com quadro clínico da leucemia aguda, permitindo ao paciente uma sobrevida muito curta. Essa fase se caracteriza por 20% ou mais de blastos no sangue periférico ou na medula óssea; ou por infiltrado extramedular de células blásticas. Em 70% dos casos, os blastos são de características mieloides e, em 20%, são linfoblastos. Raros casos podem ser formados por células indiferenciadas ou bifenotípicas (que expressam tanto características mieloides quanto linfoides à imunofenotipagem). Na CB, os sintomas constitucionais pioram bastante, com febre, sudorese noturna, anorexia, perda de peso, dores ósseas e aumento ainda maior da esplenomegalia. Se não tratada, a sobrevida é de cerca de 3 a 6 meses. A hiperleucocitose é uma alteração laboratorial caracterizada por um total de leucócitos acima de 5x109 (50.000/µL) ou 100x109 (100.000/ µL). A leucostase é a hiperleucocitose sintomática, uma emergência médica que normalmente ocorre em pacientes com Leucemia Mieloide Aguda (LMA) ou LMC em CB. As principais manifestações clínicas de leucostase estão relacionadas com o sistema nervoso central (40%) e os pulmões (30%). 12.3.3.4 Subtipos especiais A leucemia mielomonocítica crônica é uma N-MD/MP caracterizada por monocitose persistente no sangue periférico, com variado grau de neutrofilia, incluindo neutrófilos maduros e seus precursores, além de ausência do cromossomo Ph t(9;22) e do oncogene BCR- ABL1 da LMC, menos de 20% de blastos no sangue ou na medula e displasias envolvendo 1 ou mais séries da linhagem mieloide. A Leucemia Eosinofílica Crônica (LEC) caracteriza-se por mieloproliferação ou linfoproliferação, isto é, pode ter manifestação de LEC, de leucemia mieloide aguda ou mesmo de linfoma, com eosinofilia persistente, em geral > 1.500/µL; infiltração orgânica pelos eosinófilos ou mastócitos; presença de rearranjos envolvendo PDGFR-alfa, PDGFR-beta ou FGFR1; ausência de cromossomo Ph ou rearranjo de proteínas de fusão BCR-ABL1; menos de 20% de blastos na medula óssea. 12.3.4 Outros achados laboratoriais 12.3.4.1 Fosfatase alcalina leucocitária Dosagem sérica da fosfatase alcalina leucocitária intensamente baixa, que está presente no citoplasma de granulócitos maduros e reduz ou desaparece completamente na LMC, denotando a anormalidade das células presentes no sangue periférico e diferenciando essa leucemia da reação leucemoide granulocítica, em que há aumento evidente da fosfatase alcalina de neutrófilos. 12.3.4.2 Desidrogenase láctica aumentada A desidrogenase láctica aumenta em razão da proliferação celular excessiva. 12.3.4.3 Ultrassonografia de abdome Este exame evidencia esplenomegalia intensa e hepatomegalia. 12.3.5 Diagnóstico O diagnóstico é feito pelo encontro de anormalidades no hemograma e na medula óssea (mielograma e biópsia de medula óssea), conforme já descrito, e confirmado pelo encontro do cromossomo Filadélfia – t(9;22) –, por meio da citogenética convencional ou pelo método FISH (Fluorescence In Situ Hybridization) ou, ainda, pelo encontro da fusão gênica resultante dessa translocação, o BCR-ABL (por PCR Real Time – RT-PCR). Atualmente, pela sensibilidade de métodos diagnósticos como FISH e RT-PCR, é consensual que, para o diagnóstico da LMC, é necessário que o t(9;22) seja encontrado. Caso contrário, mesmo que haja quadroclínico sugestivo, na ausência dessa alteração genética por tais métodos de maior sensibilidade (o que ocorre em 1% dos casos), o diagnóstico é de outra doença mieloproliferativa (classificada pela Organização Mundial da Saúde como doença mieloproliferativa/mielodisplásica, correspondente à antiga LMC atípica). Os exames obrigatórios para o diagnóstico de LMC são: hemograma com avaliação do esfregaço de sangue periférico; mielograma; cariótipo (banda G – FISH realizado isoladamente, ao diagnóstico, não consegue identificar anormalidades cromossômicas adicionais ao t(9;22)); RT-PCR para BCR-ABL. 12.3.6 Evolução e prognóstico A evolução costuma ser lenta, porém progressiva. No entanto, hoje se dispõe de terapêutica menos agressiva e que fornece períodos de sobrevida maiores. 12.3.7 Tratamento O tratamento da leucemia mieloide crônica é feito com base na fase de evolução da doença (FC, FA ou CB) e envolve o uso de inibidores de tirosinoquinase, o transplante de células progenitoras hematopoéticas e, por fim, o tratamento paliativo. As opções terapêuticas são: a) Controle da doença com inibidores de tirosinoquinase (ITK); b) Tratamento curativo com transplante de células progenitoras hematopoéticas; c) Tratamento paliativo. As opções de tratamento para pessoas com LMC dependem da fase da doença, da idade do paciente, das comorbidades, dos fatores prognósticos, da existência de doador de medula em potencial compatível e da resposta ao tratamento inicial com inibidores de tirosinoquinase Os inibidores da tirosinoquinase são medicamentos considerados de primeira linha para o tratamento da leucemia mieloide crônica. 12.3.7.1 Tratamento por fases a) Fase crônica Os ITKs de primeira (mesilato de imatinibe) e segunda geração (dasatinibe, nilotinibe) são inibidores seletivos de TK e induzem à remissão hematológica em 98% e à citogenética em pelo menos 80% dos casos, sendo atualmente o tratamento de primeira linha para LMC na fase crônica. Devemos considerar o Transplante de Células-Tronco Hematopoéticas (TCTH) alogênico para pacientes com doença resistente e/ou sem resposta ideal aos ITKs de primeira e segunda linha, após obtenção de resposta máxima à terapia de salvamento. De forma geral, com o tratamento, objetiva-se alcançar: 1. Resposta hematológica: contagem de leucócitos < 10.000/mm3, sem desvio à esquerda, com < 5% de basófilos, contagem de plaquetas < 450.000/mm3 e baço não palpável; 2. Resposta citogenética: ausência do cromossomo Ph; 3. Resposta molecular: gene BCR-ABL não detectável pelo método de RT-PCR. A monitorização da resposta deve ser feita, ao ser alcançada a resposta hematológica, a cada 3 meses, com RT-PCR associada ou não ao cariótipo, e, diante da perda de resposta, deve ser revista a terapêutica. b) Fase acelerada As opções de tratamento nesta fase são semelhantes às da FC. Para pacientes que ainda não utilizaram o imatinibe, este deve ser utilizado em maiores doses. Pacientes em FA têm alta taxa de perda de resposta e progressão para CB com ITK isolada, devendo ser obrigatoriamente considerado o TCTH. Em pacientes que evoluem para a FA durante o uso de imatinibe, pode-se optar pelo aumento da dose ou, preferencialmente, pelo uso de ITK de segunda geração antes do transplante. c) Crise blástica ou aguda Nesta fase da LMC, as células doentes assemelham-se às células da LMA ou da Leucemia Linfoide Aguda (LLA), sendo resistentes às drogas usadas para tratá-la. O tratamento-padrão quimioterápico da LMA raramente consegue atingir remissão da doença. A opção, então, é o uso concomitante de imatinibe, para os virgens de tratamento ou usuários prévios, em doses maiores do que na FA, ou ITK de segunda geração, para os refratários ao imatinibe. Aqueles que não responderem ao tratamento inicial não terão boa resposta ao transplante (sobrevida em 4 anos < 10%), sendo indicado o tratamento paliativo para o alívio dos sintomas. 12.4 LEUCEMIA LINFOIDE CRÔNICA 12.4.1 Introdução A Leucemia Linfoide Crônica (LLC) é uma neoplasia constituída por acúmulo progressivo de linfócitos maduros funcionalmente incompetentes, de origem clonal. É considerada idêntica ao linfoma linfocítico de pequenas células B – são estágios diferentes da mesma doença: um apresenta acúmulo das células na medula óssea (leucemia), podendo ou não acometer linfonodos, e o outro cursa apenas com adenomegalias (linfoma). Em 98% dos casos, os linfócitos clonais maduros são da linhagem B, e somente 2% são linfócitos T. A doença pode evoluir assintomática por longas fases, e, de acordo com o estadiamento, pode-se tanto optar por tratamento quimioterápico quanto adotar conduta expectante. A LLC é a leucemia mais comum em adultos. A idade média ao diagnóstico é 70 anos, mas pacientes < 50 anos também podem ser acometidos; a incidência aumenta com a idade, e a frequência é maior em homens, à proporção de 2:1. A etiologia é desconhecida; fatores ambientais, como exposição a agentes químicos e a derivados de petróleo, parecem estar associados ao aumento do risco de doença, porém ainda sem comprovação científica. Sabe-se que parentes de primeiro grau de pacientes com LLC apresentam frequência maior do que a esperada para casos da doença, outras neoplasias linfoides ou hematológicas, inclusive neoplasias sólidas, mas não está demonstrado nenhum padrão de transmissão genética. Como é usual nas neoplasias hematológicas, anormalidades citogenéticas estão entre os fatores causais e de prognóstico em 50% dos casos, sendo as mais comuns a deleção do braço longo do cromossomo 13 e a trissomia do 12. 12.4.2 Quadro clínico A maioria dos pacientes com LLC é assintomática, e não é incomum que a suspeita diagnóstica seja feita na realização de exames de rotina, por outras causas quaisquer. Entre os sintomáticos, as queixas mais comuns são linfadenopatia generalizada, cansaço, intolerância aos exercícios e sintomas B: febre > 38 °C inexplicada, perda de peso (> 10% do peso em 6 meses) e sudorese noturna. Os gânglios são geralmente pequenos, mas podem ser volumosos, móveis e indolores. Os locais mais acometidos são as regiões cervical, supraclavicular e axilar. Hepatomegalia é bem mais frequente, e a esplenomegalia, bem menos volumosa do que na LMC. Além disso, a infiltração leucêmica pode estar presente em qualquer parte do corpo, sendo os locais não linfoides mais comuns a pele e as tonsilas. Sintomas de anemia, petéquias e equimoses ou infecções de repetição podem estar presentes, mas não são comuns. Algumas situações paraneoplásicas podem acompanhar a LLC, como pênfigo paraneoplásico, reação excessiva à picada de insetos e glomerulonefrite membranoproliferativa. Cerca de 0,5 a 3% dos casos podem evoluir para a chamada síndrome de Richter, que se caracteriza pela transformação em linfoma difuso de grandes células, associada a febre, emagrecimento, sudorese noturna (os chamados sintomas B), aumento importante de linfadenopatia, anemia e trombocitopenia; ou seja, parte-se de uma doença indolente (LLC) para uma doença extremamente agressiva (linfoma não Hodgkin difuso). O prognóstico nesses casos é muito ruim, com sobrevida média de 6 meses. Pode ocorrer ainda aumento de pró-linfócitos (leucemia pró-linfocítica), ocasionando resistência ao tratamento instituído. Adicionalmente, em 1% dos casos ocorre progressão para leucemia aguda, não somente linfoide, mas também mieloide, bem como há relatos de evolução para mieloma múltiplo, linfoma de Hodgkin e carcinomas. 12.4.3 Achados laboratoriais A característica laboratorial marcante é o achado de leucocitose à custa de linfócitos: linfocitose persistente > 5.000/mm3, de aspecto morfológico maduro. É comum a descrição de manchas de Gumprecht, que são restos celulares encontrados na lâmina de sangue periférico. Com a evolução da doença, aumenta o número de linfócitos. Anemia pode estar presente, especialmente pelo déficit de produção proveniente da ocupação e infiltração medulares pelos linfócitos clonais. Pode haver desenvolvimento de autoanticorpos contra hemácias emcerca de 35% dos casos (no entanto, somente 11% evoluem com anemia por essa causa, a despeito da detecção de anticorpos) ou induzidos pelo tratamento com fludarabina. O Teste da Antiglobulina Direta (TAD ou Coombs direto) deve ser realizado com o intuito de afastar ou confirmar essa patologia. Tal fato também pode acontecer na série plaquetária, tanto déficit de produção quanto formação de autoanticorpos, bem como sequestro esplênico pela esplenomegalia. Mais rara é a agranulocitose em consequência de autoanticorpos antineutrófilos. A hipogamaglobulinemia é comum, podendo ser detectada em 60% dos pacientes, e é possível piorar com a evolução da doença, contribuindo para os quadros infecciosos de repetição. Pode-se, ainda, detectar aumento da fração gamaglobulina, podendo ser policlonal (a maioria) ou monoclonal. Não há anormalidades características da LLC nos exames bioquímicos, mas a desidrogenase láctica e a beta-2-microglobulina podem estar elevadas em 60% dos casos, correlacionando-se com a massa tumoral. As características imunofenotípicas dessa leucemia também devem ser investigadas, sendo os resultados de imunofenotipagem um critério diagnóstico. Os critérios diagnósticos para LLC são: a) Aumento de linfócitos de aspecto maduro no sangue periférico, presente por pelo menos 3 meses, > 5.000/µL; b) Características imunofenotípicas importantes: Positividade para marcadores de células B: CD19, CD20, CD23; Presença anômala de marcador para célula T: CD5; Presença fraca de imunoglobulina de superfície: IgM ou IgD com cadeia leve kappa ou lambda (nunca ambas) – marcação fraca ou negativa para: FMC7, CD22 e CD79b. Figura 12.5 - Características dos linfócitos Legenda: (A) linfócitos maduros; (B) manchas de Gumprecht. Não é necessária a avaliação da medula óssea para o diagnóstico da LLC; apenas a análise do sangue periférico com hemograma, estudo morfológico e imunofenotipagem são suficientes. 12.4.4 Diagnóstico diferencial 1. Linfocitose reacional a quadros infecciosos: mononucleose, toxoplasmose, pertussis (apresenta quadro clínico da doença infecciosa); a linfocitose é transitória, e os linfócitos geralmente têm morfologia atípica (sem aspecto maduro) e não são monoclonais; 2. Outras doenças linfoproliferativas: diagnóstico diferencial feito pelo perfil imunofenotípico; 3. Linfocitose B monoclonal: situação benigna que ocorre em indivíduos assintomáticos, sem adenomegalia ou visceromegalia, com linfocitose monoclonal e contagem < 5.000/mm3. Ocorre mais em idosos (> 60 anos), com risco de evoluir para LLC com necessidade terapêutica na taxa de 1 a 2% ao ano; 4. Linfocitose B policlonal persistente: como o próprio nome diz, é policlonal. Faz diagnóstico diferencial com LLC pela contagem persistentemente alta de linfócitos (> 4.000/mm3). É uma condição benigna que acomete principalmente mulheres jovens tabagistas. Além do perfil imunofenotípico (policlonal), difere da LLC pela morfologia (os linfócitos são binucleados). Pode estar acompanhada de adenomegalias discretas ou esplenomegalia. A causa é desconhecida. 12.4.5 Estadiamento e prognóstico O estadiamento da leucemia linfoide crônica apresenta papel importante na definição do prognóstico e na decisão terapêutica, pois alguns podem viver de 10 a 20 anos, com óbito não relacionado à doença (30% dos casos), enquanto outros evoluem rapidamente a óbito em um período de 2 a 3 anos. As principais causas de morte são quadro infeccioso e sangramento. O prognóstico é estabelecido com base nas características clínicas e hematológicas e leva em conta a história natural da doença, que é resultante do acúmulo progressivo de células leucêmicas no organismo. Os 2 sistemas mais utilizados são os de Rai (com 5 estágios) e o de Binet (com 3 estágios, mais simples de serem lembrados). Em 1987, foi introduzida modificação no estadiamento de Rai, em que os pacientes eram subdivididos em 3 grupos, de acordo com o risco: baixo (estádio 0), intermediário (estádios I e II) e alto (estádios III e IV). Quadro 12.3 - Estadiamento de Rai Quadro 12.4 - Estadiamento de Binet * Áreas linfoides: cervical, axilar, inguinal, baço e fígado. Além dos sistemas de estadiamento, as anormalidades citogenéticas deleção 11q e deleção 17p, quando presentes, conferem pior prognóstico à doença. 12.4.6 Tratamento O tratamento da leucemia linfoide crônica varia de acordo com o estádio da doença e é feito com quimioterapia, utilizando-se as seguintes opções: agentes alquilantes (clorambucila, ciclofosfamida); análogos da purina (fludarabina) e anticorpos monoclonais (como o rituximabe – anti-CD20 – e o alentuzumabe – anti-CD52), ou a combinação destes. Até o momento, não há tratamento curativo para a LLC, estando as indicações de tratamento de acordo com o estadiamento do paciente. Aos pacientes em estádio Binet A ou baixo risco de Rai, assintomáticos, o tratamento não é indicado. Torna-se necessário um período de observação, e se a doença for estável e assintomática, serão indicados apenas observação com hemograma e exame clínico. As principais situações para as quais a terapêutica está indicada são: a) Na presença de sintomas B, fraqueza e adenomegalia dolorosa ou com sintoma compressivo; b) Presença de anemia e/ou plaquetopenia (Binet C); c) Presença de anemia hemolítica ou plaquetopenia autoimune não responsivas a corticoide; d) Sinal de progressão de doença – aumento de 2 vezes na contagem de linfócitos em um período menor que 12 meses e aumento importante do tamanho dos linfonodos, baço ou fígado (Binet B); e) Quadros infecciosos de repetição. O tratamento da LLC é feito com quimioterapia, com as seguintes opções: agentes alquilantes (clorambucila, ciclofosfamida); análogos da purina (fludarabina) e anticorpos monoclonais (como o rituximabe – anti-CD20 – e o alentuzumabe – anti-CD52), ou a combinação destes, das mais diversas formas. O TCTH alogênico deve ser pensado apenas em jovens pertencentes aos grupos de alto risco que não responderam ao tratamento-padrão. Em alguns casos, ainda se pode realizar radioterapia quando ocorre compressão por conglomerado de linfonodos. 12.4.6.1 Leucemia de células pilosas (tricoleucemia) Caracterizada pelo acúmulo de pequenas células linfoides maduras com citoplasma abundante e projeções citoplasmáticas (lembrando pelos ou cabelos), é mais comum em homens (5:1), com idade média de 55 anos. Pode cursar com esplenomegalia de grande monta, pancitopenia, linfocitose relativa, e até 80% dos pacientes podem apresentar monocitopenia (marco da doença). A punção aspirativa da medula óssea é caracteristicamente seca. O paciente tem maior suscetibilidade a infecções por Aspergillus, Histoplasma, Cryptococcus e Pneumocystis jirovecii. O tratamento de escolha é feito com cladribina, geralmente realizado em protocolos de 5 ou 7 dias. 12.5 OUTRAS NEOPLASIAS MIELOPROLIFERATIVAS Outros exemplos de neoplasias mieloproliferativas incluem a policitemia vera, a trombocitemia essencial e a mielofibrose: 1. Policitemia vera: a) Manifestações clínicas: caracterizada pela proliferação de eritrócitos, com a elevação persistente do hematócrito. Apresenta prurido aquagênico, eritromelalgia (sensação de queimação de pés e mãos com eritema, palidez ou cianose e pulsos palpáveis); b) Complicações: eventos tromboembólicos (principalmente arteriais). Sangramentos são raros; c) Diagnóstico: Hb > 18,5 g/dL (homem) ou > 16,5 g/dL (mulher) + mutação no gene JAK2 positivo + biópsia de medula óssea hipercelular nas 3 séries + dosagem de eritropoetina diminuída ou normal; d) Tratamentos: Baixo risco: flebotomia + ácido acetilsalicílico; Alto risco (> 60 anos ou trombose prévia): flebotomia + hidroxiureia + ácido acetilsalicílico. e) Prognóstico: baixo risco de transformação hematológica (mielofibrose e LMA), sobrevida longa. 2. Trombocitemia essencial: a) Manifestações clínicas: doença clonal que envolve, primariamente, a linhagem megacariocítica. São comuns sintomas vasomotores (como cefaleia, síncope, dor torácica atípica, parestesias de extremidades,alterações visuais transitórias, livedo reticularis e eritromelalgia). Os eventos hemorrágicos são menos frequentes e consistem em sangramento cutâneo, mucoso ou do trato gastrintestinal; b) Complicações: evento tromboembólico, hemorragia; c) Diagnóstico: plaquetas > 450.000/mm3 + JAK2 positivo + hipercelularidade medular (principalmente de megacariócitos) + exclusão de plaquetose reacional, LMC, policitemia vera, mielofibrose, mielodisplasia ou outra mieloproliferação; d) Tratamentos: Baixo risco: ácido acetilsalicílico – se sintoma vasomotor ou plaquetas > 1.000.000, após descartar doença de von Willebrand; Alto risco (> 60 anos ou trombose anterior): hidroxiureia + ácido acetilsalicílico. e) Prognóstico: bom/baixo risco de transformação hematológica (mielofibrose e LMA). 3. Mielofibrose: a) Manifestações clínicas: sintomas sistêmicos de compressão mecânica pela esplenomegalia e de anemia; b) Complicações: estado hipercatabólico, hepatoesplenomegalia maciça com hipertensão portal, outros sintomas de eritropoese extramedular, a depender do local acometido, infecção, transformação leucêmica; c) Diagnóstico: No sangue periférico, há eritroblastos, acompanhados de mielócitos e células mais jovens da linhagem mieloide – esse quadro é denominado reação leucoeritroblástica; Hemácias “em lágrima” (dacriócitos); Plaquetas podem estar normais ou diminuídas em número; a trombocitose é rara e, frequentemente, há plaquetas gigantes degranuladas (fragmentos de megacariócitos); ↑ megacariócitos + fibrose medular na biópsia de medula óssea + JAK2 ou MPL positivo + exclusão de LMC, policitemia vera e SMD; Leucoeritroblastose + esplenomegalia + ↑ DHL + anemia. d) Tratamentos: Tratamento curativo: transplante de células-tronco hematopoéticas; Tratamento paliativo: androgênio, danazol, eritropoetina e transfusões (anemia); talidomida com prednisona, lenalidomida (sintomas sistêmicos, anemia, plaquetopenia); esplenectomia ou radioterapia esplênica (refratários); radioterapia de tecido sintomático de eritropoese extramedular (exemplo: compressão medular). e) Prognóstico: possivelmente bastante ruim, a depender dos fatores prognósticos, com sobrevida de 26 meses entre os pacientes de alto risco. #FALA AÍ Uma leucemia crônica pode converter-se em uma leucemia aguda? Leucemia mieloide crônica pode evoluir em alguns casos para crise blástica. Este é um quadro de difícil tratamento. Leucemia linfoide crônica também pode apresentar, apesar de mais raro, crise blástica. A crise blástica se caracteriza por número maior ou igual a 20% de blastos na medula ou no sangue periférico, focos de blastos na biópsia de medula e infiltração blástica extramedular. Quais são as manifestações da leucemia crônica? Na leucemia crônica, são comuns a fadiga, a anemia, os sangramentos e os quadros de infecções de repetição. Quais são os tipos de linfoma? Como fazer o diagnóstico? 13.1 INTRODUÇÃO Os linfomas são tumores sólidos com origem no tecido linfoide normal, geralmente nos linfonodos, e incluem várias apresentações, que cursam com quadros clínico, morfológico e imuno-histoquímico bastante diversos. São responsáveis por 4% de todas as mortes relacionadas a neoplasias. Os linfomas são divididos em Hodgkin ou não Hodgkin, com base em achados clínico-patológicos. O diagnóstico do Linfoma de Hodgkin (LH) baseia-se no encontro da célula de Reed-Sternberg (RS) ou suas variantes, o que não ocorre no Linfoma Não Hodgkin (LNH). Os linfomas são a principal causa de quilotórax por causa neoplásica. Haja vista ser uma neoplasia relacionada ao sistema linfático e causar maior risco de imunossupressão (tanto pela neoplasia quanto pelos tratamentos quimioterápicos), aumentam o risco de infecções oportunistas, como a tuberculose. O pseudolinfoma é um diagnóstico diferencial importante que pode gerar dificuldades no diagnóstico. Trata-se de um grupo de desordens de curso benigno, mas com características clínicas e histológicas sugestivas de linfoma. A diferenciação é feita por biópsia: o pseudolinfoma é caracterizado por infiltração benigna das células linfoides ou histiócitos que microscopicamente lembram linfoma. 13.2 INVESTIGAÇÃO Independentemente do tipo de linfoma, a abordagem inicial é igual: a) História clínica e exame físico; b) Exames diagnósticos; c) Exames de estadiamento; d) Estratificação de risco. 13.2.1 História e exame físico Na história clínica, é importante avaliar manifestações sistêmicas que têm importância prognóstica: emagrecimento (perda de mais de 10% do peso nos últimos 6 meses), febre (temperatura > 38 °C, geralmente vespertina, persistente ou recorrente no último mês) e sudorese noturna recorrente no último mês. Esses sintomas são chamados de sintomas B. A manifestação clínica mais comum é o surgimento de adenomegalias indolores com consistência endurecida, que podem ser localizadas (em estádios precoces) ou disseminadas (em estádios avançados). Todos os tecidos do organismo apresentam células linfoides; dessa forma, pode-se desenvolver linfoma em qualquer órgão (linfoma extranodal), como ovário, testículo, tireoide, pálpebra, fígado, pulmão etc. Por isso, história e exame físico detalhados são muito importantes. 13.2.2 Diagnóstico Para diagnosticar o tipo de linfoma, utiliza-se o exame histopatológico da região acometida. A biópsia excisional (biópsia de todo o linfonodo, e não apenas de um fragmento) é recomendada sempre que possível. O exame de punção por agulha fina não permite a análise histológica, o que, muitas vezes, compromete o diagnóstico do tipo e do subtipo de linfoma, não sendo encorajado como exame diagnóstico. Quando há adenomegalia palpável, opta-se por biopsiar o maior gânglio, com a seguinte ordem de preferência: supraclavicular, cervical, axilar ou inguinal. As indicações para biópsia de linfonodo são: crescimento progressivo; tamanho > 2 cm em adultos e 1 cm em crianças; localização supraclavicular ou escalênica; consistência endurecida, aderida aos planos profundos; persistência por mais de 4 a 6 semanas. 13.2.3 Estadiamento O estadiamento objetiva avaliar a extensão da doença. Para isso, são usados exames de imagem e laboratoriais. Além da classificação da extensão da doença (estádios I a IV), a classificação pode utilizar letras complementares para especificar a presença de sintomas B e do acometimento de órgãos específicos. Os exames utilizados para o estadiamento são: a) Tomografia computadorizada de pescoço, tórax, abdome e pelve ou PET-scan (preferencialmente nos linfomas mais agressivos, se disponível); b) Biópsia de medula óssea unilateral, que avalia se há comprometimento medular por meio da análise histológica. O mielograma faz análise apenas citológica e não é indicado para estadiamento de linfoma; não é necessário no linfoma de Hodgkin se o PET-CT for utilizado no estadiamento; c) Liquor, pois alguns linfomas agressivos tendem a comprometer o Sistema Nervoso Central (SNC), estando indicado esse exame como parte do estadiamento em casos selecionados, como nos pacientes HIV positivos (pela maior chance de infiltração no SNC) e naqueles em que há acometimento da linha média facial (oronasofaringe, anel de Waldeyer, cavidades paranasais e olhos, pela proximidade com SNC); d) Endoscopia digestiva alta para subtipos específicos, como linfomas de orofaringe (anel de Waldeyer); e) Hemograma e bioquímica completa. Há outros exames laboratoriais que não fazem parte do estadiamento, mas são importantes para a avaliação dos linfomas: 1. Desidrogenase láctica: é um preditor independente de sobrevida; 2. Beta-2-microglobulina: está relacionada à massa tumoral; 3. Dosagem de cálcio sérico: está elevada principalmente em alguns tipos de LNH; 4. Dosagem de ácido úrico sérico: está possivelmente elevada em linfomas de alto turnover e é indicativa de lise tumoral; 5. Eletroforese de proteínas: alguns linfomas podem cursar com síntese de proteína monoclonal, inclusive com síndrome da hiperviscosidade (particularmente o linfoma linfoplasmocítico); 6. Sorologiaspara vírus das hepatites C e B, e HIV: alguns linfomas podem cursar com essas alterações sorológicas, que, inclusive, têm implicação terapêutica. A sorologia positiva para vírus da hepatite B exige cuidados aos pacientes que são submetidos à quimioterapia. Após os exames, o paciente pode ser classificado conforme a extensão da doença em estádios de I a IV (Figura 13.1 e Quadro 13.1). Figura 13.1 - Estadiamento pelo sistema de Ann Arbor Nota: os pontos coloridos caracterizam-se como acometimento linfomatoso. Quadro 13.1 - Estadiamento dos linfomas: sistema de Ann Arbor 13.2.4 Estratificação de risco A estratificação de risco é feita por meio da pontuação de fatores prognósticos, que variam de acordo com o tipo de linfoma (LH ou LNH), importante no planejamento terapêutico. 13.3 LINFOMA DE HODGKIN 13.3.1 Introdução Trata-se de uma doença proliferativa que tem origem no linfócito B do centro germinativo e caracteriza-se, histopatologicamente, pela presença das células de Reed-Sternberg. Está associado a agentes infecciosos, como o Epstein-Barr, e tem chances aumentadas em parentes de primeiro grau de indivíduos com a doença e naqueles em estado de imunossupressão. Representa 10% de todos os linfomas e 0,6% de todas as neoplasias do adulto. Observa-se curva bimodal de incidência, caracterizada por baixa ocorrência na infância, rápida elevação com pico em torno dos 20 anos, platô ao longo da meia-idade e novo pico após a quinta ou sexta década. Há maior incidência em homens do que em mulheres e em brancos do que em negros. Figura 13.2 - Curva bimodal de distribuição dos casos Fonte: elaborado pelos autores. 13.3.2 Etiologia Os principais fatores relacionados ao desenvolvimento de linfoma são: 1. Agentes infecciosos: o fator etiológico mais estudado na doença de Hodgkin é o vírus Epstein-Barr. O antecedente de mononucleose infecciosa, confirmado por testes sorológicos, confere risco 3 vezes maior para o aparecimento do LH; 2. Fator genético: o risco de LH é maior entre parentes de primeiro grau de indivíduos com a doença, devido à suscetibilidade genética e à exposição ambiental comum dos membros da família. A agregação familiar de incidência é de 3 a 5 vezes maior em parentes de primeiro grau quando em comparação com a população geral. Gêmeos idênticos têm risco ainda maior; 3. Imunossupressão: existe incidência bastante aumentada do LH na população imunossuprimida por transplante de órgão sólido, transplante de células-tronco hematopoéticas, HIV e doença autoimune. As doenças autoimunes podem predispor ao linfoma B, mais especificamente do tipo MALT (principalmente nos casos de síndrome de Sjögren e tireoidite de Hashimoto). 13.3.3 Classificação histopatológica As células de Reed-Sternberg são descritas como “olhos de coruja” e estão imersas em um conteúdo inflamatório com apenas 1 a 2% de células neoplásicas. As células de Reed-Sternberg são descritas como “olhos de coruja” e estão imersas em um conteúdo inflamatório com apenas 1 a 2% de células neoplásicas. São grandes, binucleadas ou multinucleadas, com nucléolo evidente e eosinofílico, e o citoplasma é abundante, sendo também eosinofílico (Figura 13.3). As células classicamente expressam o CD30 (em quase 100% dos casos) e o CD15 (de 75 a 85% dos casos). Figura 13.3 - Célula de Reed-Sternberg Fonte: adaptado de Instituto Nacional do Câncer. A subclassificação do LH clássico baseia-se na diferença da composição do tecido inflamatório que acompanha as células de Reed-Sternberg. A classificação do LH é feita de acordo com a Organização Mundial da Saúde (2008): a) Predominância linfocítica nodular; b) LH clássico: Subtipo esclerose nodular; Subtipo rico em linfócitos; Subtipo depleção linfocitária; Subtipo celularidade mista. 13.3.3.1 Esclerose nodular Subtipo histológico mais comum, corresponde a cerca de 70% dos casos de LH clássico. Apresenta células lacunares e bandas de colágeno que, caracteristicamente, separam o tecido linfoide em nódulos. Acomete, em geral, adolescentes e adultos jovens. Normalmente, tal subtipo histológico envolve os linfonodos cervicais inferiores, supraclaviculares e mediastinais e, em cerca de 70% dos casos, é diagnosticado ainda em estágio limitado (estádio I ou II). Figura 13.4 - Bandas de colágeno separando nodulações no linfonodo, no subtipo esclerose nodular 13.3.3.2 Celularidade mista Trata-se do subtipo mais comum de linfoma de Hodgkin associado ao HIV. Não podemos esquecer também da importante associação ao vírus Epstein-Barr. Corresponde a até 25% dos casos de LH nos 2 extremos de idade (crianças e idosos) e é mais comumente associado a estágios avançados ao diagnóstico, sintomas constitucionais e imunodeficiência. A celularidade mista passa a ser o principal tipo histológico quando há associação de LH e HIV. As clássicas células de RS são facilmente encontradas com fundo celular composto de linfócitos, eosinófilos, células plasmáticas e histiócitos. 13.3.3.3 Predominância linfocítica nodular A principal característica morfológica do subtipo Predominância Linfocítica Nodular (PNL) é a ausência da célula RS clássica, contudo há uma variante, conhecida como célula “em popcorn”. Representa, aproximadamente, 5% dos casos de LH. É um tipo distinto do LH clássico, inclusive pela epidemiologia, pois o pico de incidência é maior em adultos entre 30 e 50 anos, predominantemente do sexo masculino. Setenta e cinco por cento dos casos são classificados como estádio I ou II, sendo os linfonodos periféricos as regiões mais acometidas. É bastante raro o acometimento mediastinal, esplênico e medular. Ao diagnóstico, são pouco comuns os sintomas B (6 a 15%). Sua evolução é bastante lenta, apresentando alta taxa de recidiva, mas com ótima resposta terapêutica. 13.3.3.4 Rico em linfócitos Corresponde a cerca de 5% dos LHs clássicos, que contêm, em tecido inflamatório, muitos linfócitos e poucos neutrófilos e eosinófilos. A apresentação clínica habitualmente é em estádio precoce, raramente acometendo o mediastino, com predomínio em homens e em idosos. Trata-se de um subtipo histológico de bom prognóstico, com baixa taxa de recidiva. 13.3.3.5 Depleção linfocitária É o LH menos comum. Há 2 tipos histológicos descritos: fibrose difusa e fibrose reticular. Em qualquer uma delas, as células de RS são esparsas e de difícil achado. Geralmente, são encontradas em pacientes idosos e nos HIV positivos, que apresentam, ao diagnóstico, sintomas sistêmicos e estadiamento avançado. O envolvimento abdominal é bastante comum, logo icterícia e hepatoesplenomegalia podem, inicialmente, estar presentes. É pouco frequente o comprometimento linfonodal e mediastinal. 13.3.4 Manifestações clínicas e laboratoriais A apresentação clínica mais comum é o aparecimento de adenomegalias indolores (em 60% dos casos, cervicais ou supraclaviculares; nos demais casos, axilares ou inguinais), de consistência de borracha. O paciente pode referir dor na região acometida após a ingestão de álcool, mesmo em pequena quantidade; tal queixa é bastante rara (< 10%), mas, se presente, é bastante específica de LH. A doença geralmente progride de forma contígua, isto é, cervical, supraclavicular, axilar e mediastinal, retroperitoneal e inguinal. A segunda forma de apresentação mais comum é a massa mediastinal, detectada por radiografia, em virtude de sintomas respiratórios (tosse seca, dispneia, dor torácica, rouquidão, pneumonite obstrutiva, até síndrome da veia cava superior), ou durante investigação de prurido intratável (outra queixa inespecífica que pode se correlacionar com LH). O baço pode estar envolvido em 25% dos casos, e a medula óssea, infiltrada em 15%. Áreas extraganglionares, raramente, são afetadas no LH, incluindo pele, SNC e trato gastrintestinal; se envolvidos, devem suscitar a associação da doença ao HIV ou ao diagnóstico de LNH. Um terço dos pacientes apresentará sintomas B ao diagnóstico. Há uma particularidade bastante rara, mas específica do linfoma de Hodgkin, que é a febre de Pel-Ebstein, caracterizadapor períodos de dias ou semanas de febre alta, separados por intervalos afebris de mesma duração. O prurido, apesar de não ter valor prognóstico e, por esse motivo, não ser considerado sintoma B, é um sintoma importante, pois pode ser precoce ou inclusive preceder o diagnóstico de linfoma em meses, devendo ser sinal de alerta para pessoas com queixa de prurido difuso sem motivo aparente. São alterações inespecíficas encontradas na avaliação laboratorial: a) Hemograma com anemia de doença crônica, ou seja, normocítica/normocrômica; podem estar presentes anemia hemolítica, leucocitose com neutrofilia e/ou eosinofilia (sinal indireto de atividade de doença), linfopenia, plaquetas em número normal, aumentado ou diminuído; b) Hipoalbuminemia; c) Desidrogenase láctica (DHL) aumentada; d) Velocidade de hemossedimentação (VHS) aumentada, sendo o principal fator inespecífico correlacionado com atividade de doença. 13.3.5 Evolução e prognóstico Alguns fatores estão diretamente relacionados ao prognóstico, a depender do estadiamento clínico, os quais se separam em 2 grupos: de prognóstico favorável ou desfavorável. A estratificação de risco é importante para determinar a intensidade do tratamento e reavaliar, após o término, a efetividade da terapêutica instituída. Quadro 13.2 - Fatores de mau prognóstico Para pacientes em estádio precoce, a presença de apenas 1 fator de mau prognóstico classifica-o como desfavorável. Nos estádios avançados, quanto maior o número de fatores de mau prognóstico, pior a sobrevida em 5 anos, variando de 84% para aqueles com nenhum fator a 42%, se 5 ou mais fatores estiverem presentes. Com as opções terapêuticas atuais, é possível alcançar até 94% de sobrevida em 10 anos, o que torna o LH a doença onco-hematológica com maior taxa de cura da atualidade. 13.3.6 Tratamento O tratamento do linfoma de Hodgkin é feito com base no estádio clínico do paciente e é baseado em quimioterapia. Radioterapia pode ser utilizada em estádios avançados. Em pacientes com estádio precoce favorável, a proposta é de 2 a 4 ciclos de quimioterapia e radioterapia da região linfonodal acometida. O uso de radioterapia exclusiva apresenta maior taxa de recidiva quando em comparação com o da terapia combinada. Já em pacientes com estádio precoce desfavorável, a proposta é de 2 a 6 ciclos de quimioterapia e radioterapia de campo estendido. Pacientes em estádio avançado devem receber quimioterapia isolada. Radioterapia só é usada na lesão volumosa ou se houver lesão residual. Mesmo nos casos refratários, ou seja, resistentes à quimioterapia, ou nas recaídas, que responderam ao tratamento inicial e voltaram a apresentar a doença, a probabilidade de cura ainda chega a 50% com tratamento adequado. A proposta, nesse caso, é quimioterapia de resgate, com drogas quimioterápicas diferentes das do tratamento anterior, seguida do transplante de células-tronco hematopoéticas autólogo. Um dos principais esquemas quimioterápicos de primeira linha para o tratamento é o “ABVD” (Adriamicina, Bleomicina, Vimblastina e Dacarbazina). O papel do transplante de células-tronco hematopoéticas alogênico (de doador) limita-se aos casos refratários a todas as terapias prévias, com resultados bem menos promissores (aproximadamente, 10 a 15% de resposta). Como a maior parte dos pacientes com LH com PLN apresenta-se em estádio precoce favorável e tem evolução e prognóstico muito bons, o tratamento pode ser menos agressivo, com base em radioterapia exclusiva. Para os estádios precoces desfavoráveis e avançados, o tratamento é semelhante ao do LH clássico. 13.3.7 Linfoma de Hodgkin e HIV Nos pacientes em que ocorre infecção pelo HIV, o LH apresenta-se com maior frequência de sintomas B, diagnóstico de doença em estadiamento avançado com maior incidência de infiltração de medula óssea e/ou extranodal. Quase universalmente, encontra-se coinfecção com vírus Epstein-Barr. Os subtipos histológicos mais incidentes são a celularidade mista e a depleção linfocitária, deixando de ser o LH clássico esclerose nodular. Apesar da melhora dos resultados da quimioterapia após o uso de terapia antirretroviral de alta potência (HAART, ou TARV, em português), o prognóstico é pior do que no HIV negativo, denotando doença extremamente agressiva. 13.4 LINFOMA NÃO HODGKIN 13.4.1 Introdução O linfoma não Hodgkin caracteriza-se por uma proliferação anômala de linfócitos T, linfócitos B ou células reticulares que estão em estágios variados de maturação. Ocorre principalmente nos linfonodos, mas pode acometer qualquer região onde haja essas células. Apresentam, assim, ampla variedade histológica, imuno- histoquímica e clínica. 13.4.2 Epidemiologia É a sexta neoplasia mais diagnosticada e a sexta principal causa de óbito por câncer. A incidência aumenta com a idade, e homens são mais acometidos que mulheres. A incidência dos diversos tipos difere geograficamente. Por exemplo: o linfoma T/NK (Natural Killer) nasal tem maior incidência no sul da Ásia e em partes da América Latina; ATLL (leucemia/linfoma de células T do adulto) é mais comum no sul do Japão e no Caribe. São consideradas causas do aumento da incidência: a) Melhoria do diagnóstico; b) AIDS; c) Exposição ambiental; d) Advento de terapias imunossupressoras. 13.4.3 Etiologia Existem alguns agentes infecciosos relacionados já bem definidos: 1. HTLV-1 (vírus humano linfotrópico T): ATLL; 2. Vírus Epstein-Barr: linfoma de Burkitt, linfoma primário do SNC, linfomas relacionados à imunossupressão e linfoma T/NK nasal; 3. Helicobacter pylori: linfoma MALT (Mucosa- Associated Lymphoid Tissue) de estômago; 4. Borrelia sp.: linfoma B cutâneo; 5. Chlamydia psittaci: linfoma MALT ocular; 6. HIV: linfoma difuso de grandes células B e linfoma de Burkitt; 7. Vírus da hepatite C: linfoma esplênico da zona marginal; 8. Herpes-vírus humano tipo 8: linfoma primário de efusão (também conhecido como linfoma de cavidades serosas). Investigam-se ainda as incidências familiares aumentadas de LNH. Doenças imunossupressoras, congênitas ou adquiridas também estão relacionadas com o aumento da incidência. Em cerca de 50% dos linfomas de células B, podem-se identificar anormalidades cromossômicas, geralmente translocações. Pelo menos em 3 entidades (linfoma de Burkitt, linfoma folicular e linfoma do manto), translocações distintas estão presentes na maioria dos casos, o que parece constituir eventos críticos no desenvolvimento da doença. 13.4.4 Quadro clínico A manifestação clínica depende muito do tipo de linfoma e do local acometido. Tipicamente, manifesta-se como adenomegalia indolor, confluente e de aumento progressivo; sintomas B estão presentes em 25 a 40%, principalmente nos linfomas agressivos; outros sintomas sistêmicos são menos comuns (< 10%) e sem valor prognóstico, como fadiga, mal-estar e prurido. O tecido linfoide da orofaringe (anel de Waldeyer) pode estar envolvido, em geral em associação ao trato gastrintestinal. A hepatoesplenomegalia é bem mais comum no LNH do que no LH, principalmente nos linfomas indolentes. A história e o exame físico completos são fundamentais para detectar evidências de envolvimento extranodal (mais frequente no trato gastrintestinal, mas também no SNC, nos testículos, no pulmão, na pele e na medula óssea), sendo essa infiltração extranodal bem mais comum do que no LH, com incidência em torno de 35% dos casos. O performance status é de valor prognóstico muito importante e influi na decisão terapêutica, devendo ser documentado. As 2 escalas mais utilizadas são a de Karnofsky e a do ECOG (Eastern Cooperative Oncology Group – Quadro 13.3). Quanto às síndromes paraneoplásicas, a hipercalcemia da malignidade é vista no LNH, principalmente na doença mais agressiva. A síndrome paraneoplásica mais rara é o pênfigo paraneoplásico. Aproximadamente 80% das neoplasias associadas ao pênfigo paraneoplásico são LNH, leucemia linfocítica crônica ou doença de Castleman. Quadro 13.3 - Escala de performance status do Eastern Cooperative Oncology GroupComplicações possíveis, como manifestação inicial do linfoma, que necessitam de rápida identificação e tratamento, caracterizando emergência médica, podem ocorrer principalmente nos subtipos mais agressivos e nos pacientes com doença avançada. As principais emergências médicas relacionadas com o linfoma são: a) Síndromes compressivas, como compressão medular, síndrome da veia cava superior, obstrução da via aérea superior (em geral, por massa mediastinal), obstrução ou intussuscepção intestinal e obstrução ureteral; b) Tamponamento cardíaco; c) Hipercalcemia, particularmente na ATLL; d) Meningite linfomatosa ou lesão com efeito de massa no SNC; e) Lise tumoral em linfomas de alto turnover (Burkitt e linfoblástico); f) Hiperviscosidade em linfoma linfoplasmocítico; g) Anemia ou plaquetopenia autoimune severas – habitualmente, associadas ao linfoma linfocítico. 13.4.5 Classificação Atualmente, é usada a classificação da OMS, que considera aspectos morfológicos, imunofenotípicos, genéticos e clínicos. Quadro 13.4 - Classificação da Organização Mundial da Saúde resumida Os pacientes também podem ser agrupados em apresentações clínicas de sobrevida semelhante; assim, os LNHs são agrupados em indolentes, agressivos e muito agressivos, classificação importante para a programação terapêutica. Os linfomas indolentes têm crescimento lento e acometem principalmente os idosos. Os pacientes podem apresentar-se com poucos sintomas por vários anos, mesmo após o diagnóstico, sendo comuns, por esse motivo, a apresentação em estádios avançados (estádio III ou IV) e o envolvimento do sangue e da medula óssea. Como o curso é lento, a sobrevida é de vários anos, mesmo se não tratados. Pode-se, inclusive, observar ocasional regressão espontânea em alguns casos. Entretanto, a cura em tais situações é menos provável do que nos pacientes com formas agressivas de linfoma, pois a taxa de recidiva é muito alta. Os linfomas indolentes correspondem a, aproximadamente, 40% dos diagnósticos de LNH. Por sua vez, os linfomas agressivos atingem qualquer idade, geralmente adultos, apresentando-se com massa de rápido crescimento. O envolvimento do sangue e da medula óssea, ao contrário, é menos comum, e, caso não haja tratamento, a sobrevida é curta, com duração de meses. Por fim, os LNHs muito agressivos acometem crianças e adultos jovens, com crescimento tumoral extremamente rápido; como consequência, o estádio ao diagnóstico também é avançado. É comum, inicialmente, a medula óssea e o SNC estarem comprometidos, com sobrevida de semanas, se não houver tratamento. Os principais tipos de linfoma são indolentes (sobrevida de anos), que incluem os linfomas linfocítico, linfoplasmocítico, folicular, MALT e micose fungoide; agressivos (sobrevida de meses), que compreendem os linfomas do manto, de grandes células B, anaplásico e angiocêntrico T/NK; e, por fim, os altamente agressivos (sobrevida de semanas), envolvendo o linfoma linfoblástico e o de Burkitt. 13.4.6 Principais linfomas não Hodgkin 13.4.6.1 Difuso de grandes células B É a neoplasia linfoide mais comum e corresponde a 25% de todos os linfomas. A incidência aumenta com a idade, com mediana ao diagnóstico de 64 anos e predomínio no sexo masculino. Apresenta- se como massa de rápido crescimento, com diagnóstico em estádio avançado em 60% dos casos. O acometimento extralinfonodal ocorre em 40%, sendo o local mais comum o trato gastrintestinal, mas pode acometer qualquer tecido: pele, testículo, SNC, ovários, osso, tireoide, amígdalas etc. A medula óssea pode estar envolvida em até 30% dos casos ao diagnóstico. É agressiva, com taxa de sobrevida em 4 anos de 53 a 94%, de acordo com os fatores prognósticos e o tratamento. A associação de poliquimioterapia ao rituximabe (anticorpo monoclonal anti-CD20) melhorou em 15% as taxas de remissão completa e sobrevida. 13.4.6.2 Folicular É o linfoma indolente mais comum (20% dos LNHs e 70% dos LNHs indolentes) de células B. Ocorre, sobretudo, em idosos (mediana de idade ao diagnóstico de 60 anos), com discreto predomínio nas mulheres, com linfadenopatia generalizada, indolor e, muitas vezes, extensa. O comprometimento de órgãos que não linfonodos ou medula óssea é incomum. Em 60 a 70% dos casos, a medula óssea está acometida ao diagnóstico. Histologicamente, é subclassificado pela OMS em graus I, II ou III (predomínio de células pequenas, mistas ou grandes, respectivamente), sendo essa divisão de importante valor prognóstico, pois o grau III é de evolução mais rápida e com menor sobrevida. Pode evoluir para formas rapidamente progressivas (linfoma de células B difuso), de prognóstico mais reservado. A sobrevida de 8 a 12 anos é comum, mesmo sem indicação terapêutica. 13.4.6.3 MALT O MALT é um linfoma indolente de células B, que pode ser dividido em 3 classes: nodal, esplênico e extranodal, sendo o último o mais comum. O linfoma MALT extranodal pode desenvolver-se em inúmeros tecidos: estômago, intestino, glândulas salivares, tireoide, pulmões, anexos oculares, pele etc., sendo o quadro clínico dependente do local acometido. A maioria dos casos de linfoma MALT é localizada, muitas vezes alcançando longos períodos de remissão apenas com tratamento cirúrgico ou radioterápico, mas apresenta alta taxa de recidiva e potencial de disseminação e transformação em linfoma agressivo ao longo dos anos. O linfoma MALT gástrico é o principal representante dessa classe de LNH, associado ao Helicobacter pylori em mais de 90% dos casos. Os sintomas são semelhantes aos da úlcera e do adenocarcinoma gástrico (com dispepsia inespecífica, epigastralgia e síndrome consumptiva), e o aspecto endoscópico pode ser de gastrite inespecífica a úlcera péptica, pólipo e adenocarcinoma, localizados principalmente no antro ou de padrão multifocal. A biópsia permite fazer o diagnóstico. Alguns linfomas MALT gástricos, quando localizados, curam-se com a erradicação do Helicobacter pylori (60 a 70%); a radioterapia é reservada aos casos refratários ao tratamento antimicrobiano, mas com doença localizada, e aos casos em que a pesquisa de H. pylori é negativa. A quimioterapia concomitante está indicada apenas quando a doença está avançada; já a cirurgia é prescrita somente quando há complicações (obstrução ou perfuração). O paciente com linfoma MALT tem prognóstico, na maior parte das vezes, muito bom. 13.4.6.4 Linfoblástico Pode ter origem em célula B ou T. Trata-se de um espectro linfomatoso da leucemia linfoide aguda, ou seja, a célula que dá origem às 2 doenças é a mesma (linfócito imaturo – linfoblasto), mas as manifestações clínicas são diferentes. No Linfoma Linfoblástico (LL), há aumento de gânglios linfáticos, caracteristicamente do mediastino, e na medula óssea há menos de 25% de blastos. Na leucemia, podem existir adenomegalias, mas há mais de 25% de blastos na medula óssea. O LLT (linfócito T intratímico imaturo) ocorre, predominantemente, em adultos jovens, adolescentes e crianças. É 2 vezes mais frequente em homens e tem, como característica clínica mais importante, o aparecimento de adenomegalia difusa e de massa mediastinal, muitas vezes, com derrames pleural e pericárdico associados. No LLB, é menos comum o envolvimento mediastinal, sendo mais frequente o acometimento extranodal. Junto à LLAB, perfaz o tipo de câncer mais comum da infância. Ambos apresentam alto risco de infiltração no SNC. Tanto o LLB como o T apresentam envolvimento precoce de medula óssea e evoluem rapidamente para LLA, devendo ser tratados como uma leucemia aguda. Os poucos que conseguem manter a doença na fase linfomatosa alcançam alta taxa de cura. 13.4.6.5 Burkitt Consiste em um linfoma morfologicamente formado por pequenas células não clivadas. Observam-se 3 formas clínicas distintas: 1. Endêmica: principalmente em crianças africanas, com comprometimento mandibular ou intra-abdominal, sendo considerado endêmico nessa região, onde é comum o encontro de evidências de infecção pelo vírus Epstein-Barr; 2. Esporádica: mais frequente na África e na América,envolvendo mais comumente o intestino, o retroperitônio e os ovários; 3. Em associação a imunodeficiência: mais comum em adultos e pacientes HIV positivos (acomete aqueles com alto valor de CD4 e sem infecção oportunista). É considerado o linfoma de crescimento mais rápido, que pode dobrar o volume das massas em 24 horas, com habitual envolvimento extranodal, principalmente intra-abdominal, do SNC e da medula óssea. Em vista da velocidade de crescimento exacerbada, é comum apresentar, ao diagnóstico, sinais de lise tumoral espontânea (hipercalemia, hiperfosfatemia, hiperuricemia, hipocalcemia, alto valor de DHL, disfunção renal, convulsões e arritmias cardíacas ou morte súbita), e o prognóstico pode ser muito comprometido, se o tratamento não é iniciado o mais rápido possível. A taxa de cura com as opções terapêuticas atuais chega a 80%. Figura 13.5 - Criança com linfoma não Hodgkin de Burkitt Fonte: adaptado de Mike Blyth. 13.4.6.6 Do manto Corresponde a 7% dos LNHs. O diagnóstico é feito em estádio avançado em 70% dos casos, sendo bastante frequente o envolvimento extranodal, como a medula óssea, o baço e o trato gastrintestinal, principalmente o intestino e o anel de Waldeyer. É um subtipo de linfoma de prognóstico ruim, com sobrevida em 5 anos entre 25 e 50%, de acordo com os fatores prognósticos. 13.4.6.7 Micose fungoide É um linfoma de células T cutâneo que geralmente leva a variado quadro clínico dermatológico, incluindo placas, nódulos e/ou eritrodermia esfoliativa generalizada. Quando ocorre a leucemização desse linfoma (pela presença de células de Sézary, de núcleos convolutos e cerebriformes), dá-se o nome de síndrome de Sézary. A sobrevida média desse tipo de linfoma é de cerca de 10 anos, caracterizando-se como doença indolente, podendo variar até 1 ano, de acordo com estadiamentos mais avançados. Figura 13.6 - Placas elevadas e eritematosas, cuja biópsia resultou em infiltração difusa por linfócitos T, típicos de micose fungoide Fonte: Bobjgalindo, 2009. Figura 13.7 - Eritrodermia difusa em micose fungoide Figura 13.8 - Células de Sézary 13.4.6.8 Leucemia/linfoma de células T do adulto Rara nos países ocidentais, é a forma mais comum de linfoma na Ásia e é causada pelo vírus HTLV-1. A ATLL pode ter comportamento extremamente agressivo, mas algumas apresentações clínicas podem ter curso mais indolente. De maneira geral, essa patologia não pode ser curada, apresentando diferentes formas clínicas: 1. ATLL aguda: apresenta-se na forma leucêmica com elevada contagem leucocitária à custa de linfócitos cujo núcleo tem aspecto “de flor” (flower cells), rash cutâneo, linfadenomegalia generalizada, visceromegalia, sintomas constitucionais, aumento de DHL e hipercalcemia. A sobrevida pode variar de algumas semanas a 1 ano; 2. ATLL linfomatosa: caracterizado, como o nome indica, por proeminente linfonodomegalia, porém sem envolvimento de sangue periférico. Hipercalcemia é menos frequente do que na forma aguda; em contrapartida, o estadiamento ao diagnóstico é usualmente avançado. A sobrevida varia no mesmo período do que na fase aguda; 3. ATLL crônica: apresenta quadro clínico mais protraído, com sobrevida mais longa, podendo, entretanto, transformar-se na fase aguda agressiva. Pode haver lesões de pele e linfocitose sem linfócitos atípicos no sangue periférico. Nesta forma, não há hipercalcemia; 4. ATLL indolente/smoldering: quadro bastante lento, caracterizado apenas por imunofenotipagem com células neoplásicas em pequena quantidade, usualmente abaixo de 5%. Como as demais apresentações, pode tornar-se agressiva. Figura 13.9 - Flower cells típicas de leucemia/linfoma de células T do adulto – forma leucêmica Fonte: Human T-cell leukemia virus type I (HTLV-I) infection and the onset of adult T-cell leukemia (ATL), 2005. 13.4.7 Fatores prognósticos Alguns fatores prognósticos são utilizados na tentativa de predizer a sobrevida em caso de LNHs agressivos, submetidos ao tratamento convencional. Quadro 13.5 - Prognóstico internacional para linfoma não Hodgkin Esse índice pode ser adaptado de acordo com a idade (indivíduos > 60 anos têm sobrevida pior), o subtipo histológico (o folicular considera a hemoglobina também como fator importante) ou o uso de anticorpo monoclonal anti-CD20 no tratamento do linfoma de grandes células B (a estratificação é feita em prognóstico muito bom, bom e ruim, e a sobrevida em 4 anos varia entre 55 e 94%). 13.4.8 Linfoma não Hodgkin e HIV Em pacientes HIV positivos, os LNHs ocorrem com uma frequência muito maior que a esperada na população HIV negativo. Nos pacientes HIV positivos, os LNHs ocorrem a uma frequência extremamente maior do que a esperada na população HIV negativo, constituindo, assim, a segunda neoplasia mais comum nesse grupo, só perdendo para o sarcoma de Kaposi. Comparando o LH e o LNH, este último é o mais comum em pacientes com HIV. Apesar de o uso de antirretrovirais altamente ativos ter mudado a história natural da AIDS e a incidência das neoplasias nessa população, a ocorrência de LNH se mantém alta quando comparada com a população HIV negativo. Em contraste com o sarcoma de Kaposi, que tem maior incidência em homens que fazem sexo com homens, o LNH não tem predileção por comportamento de risco, acometendo todas as faixas etárias, especialmente homens. O risco de desenvolvimento do linfoma correlaciona-se diretamente com a intensidade e o tempo de imunossupressão (CD4 < 100/mm3) e com a alta carga viral; configura-se, então, em um evento tardio na evolução da doença. Exceção se faz ao linfoma de Burkitt, que habitualmente acomete indivíduos mais jovens e com contagem de CD4 relativamente alta (cerca de 200/mm3). Esses linfomas são histologicamente heterogêneos e quase sempre derivados de células B. Os tipos mais comuns de linfomas associados ao HIV são: a) LNH sistêmico, com destaque para o difuso de grandes células B e suas variantes imunoblástica e plasmoblástica (acometem a cavidade oral) e o linfoma de Burkitt; b) Linfoma de efusão primária, que se apresenta com derrames pleural e pericárdico ou ascite, sem massa associada, diagnosticado por imunofenotipagem desses líquidos; c) Linfoma primário de SNC. Em quaisquer de suas formas, o curso é extremamente agressivo e de acometimento extranodal frequente. O tratamento do linfoma concomitante com esquema antirretroviral é fundamental. 13.4.9 Tratamento A orientação terapêutica depende do tipo histológico e do estadiamento clínico e baseia- se em esquemas de poliquimioterapia associados ou não a anticorpos monoclonais ou à radioterapia. Para algumas formas específicas de linfoma, o rituximabe (um tipo de anticorpo monoclonal anti-CD20) associado à quimioterapia é utilizado. Nos linfomas indolentes, observa-se baixa fração de proliferação celular neoplásica; logo, apesar do curso lento, em sua maioria, são doenças incuráveis, embora sejam indolentes e de curso arrastado, e dificilmente respondem ao tratamento de forma definitiva. Mesmo após o tratamento e a aparente remissão, as chances de recidivas são enormes. Por isso, muitas vezes, é possível adotar uma conduta expectante em que o paciente é mantido sem tratamento até haver sintomatologia ou progressão da doença. O tratamento habitualmente é realizado com quimioterapia. Nos linfomas T cutâneos (micose fungoide), pode-se optar por tratamento tópico com esteroides ou quimioterapia, bem como quimioterapia ou radioterapia nos estadiamentos mais avançados. Já os linfomas agressivos apresentam alta taxa de proliferação celular, tornando-os mais sensíveis à ação quimioterápica e com potencial chance de cura. Em estádios mais localizados, pode-se optar por poucos ciclos de quimioterapia em associação a radioterapia ou mais ciclos de quimioterapia e sem radioterapia – apenas para casos que não apresentarem doença bulky. A radioterapia exclusiva apresenta altas taxas de recidiva, não sendo encorajada. Nos estádios avançados, é imperioso o tratamento quimioterápico completo, com 6 ciclos contendo antracíclicoe, se linfoma B, rituximabe, sendo associados à radioterapia apenas em situações especiais. A taxa de remissão completa e a sobrevida livre de doença dependem do tipo de linfoma, do escore prognóstico e do tratamento utilizado. Finalmente, os linfomas altamente agressivos têm extrema sensibilidade ao tratamento quimioterápico, pela altíssima taxa de proliferação celular, sendo neoplasias potencialmente curáveis. Destaca-se que esses linfomas têm incidência importante de infiltração extranodal no SNC, necessitando, na grande maioria dos protocolos, de quimioterapia profilática ou terapêutica intratecal. No tratamento de recidivas dessas doenças, o raciocínio é semelhante àquele utilizado para o LH: deve-se proceder à terapia de salvamento com protocolos de quimioterapia não utilizados, dando preferência ao transplante de células-tronco hematopoéticas autólogo (agressivos) e alogênico (indolentes e muito agressivos). 13.4.10 Evolução e prognóstico Os linfomas com melhor prognóstico apresentam como características principais: histologia favorável; menor volume de massa tumoral; nenhum comprometimento extranodal; ausência de leucocitose no sangue periférico; idade < 60 anos; estádios menos avançados (I ou II); bom performance status; DHL normal. 13.5 DIFERENÇAS CLÍNICAS Quadro 13.6 - Diferenças entre linfoma de Hodgkin e linfoma não Hodgkin Quais são os tipos de linfoma? Como fazer o diagnóstico? Os principais tipos de linfoma são o de Hodgkin e o linfoma não Hodgkin. Para o diagnóstico, é importante biópsia excisional e exames de imagem para avaliação da doença. Quando pensar no diagnóstico de mieloma múltiplo? 14.1 INTRODUÇÃO O Mieloma Múltiplo (MM) é uma neoplasia resultante da proliferação dos plasmócitos, que são células oriundas de precursores linfoides. Essas células são linfócitos B maduros destinados a produzir imunoglobulinas (anticorpos), normalmente presentes na medula óssea, mas que podem ser encontrados em todo o corpo, em qualquer lugar que exista uma resposta imune. Os plasmócitos produzem diferentes anticorpos, de acordo com os estímulos antigênicos (ou seja, levam ao aumento policlonal de imunoglobulinas). No MM, entretanto, ocorre a proliferação de um único tipo de plasmócito neoplásico, produtor de um único tipo de imunoglobulina, sem necessidade de estímulo antigênico, levando ao aumento da chamada proteína M, que resulta no seu pico monoclonal e é detectada no sangue e/ou na urina. O MM corresponde a 1% de todos os tipos de câncer e a 10% das neoplasias hematológicas. É responsável por 20% de todas as mortes por neoplasia hematológica. A incidência é de, aproximadamente, 4 casos por 100.000 habitantes/ano nos países industrializados, sendo mais comum em negros do que em brancos, e acomete mais homens do que mulheres, segundo trabalhos norte-americanos. A doença acomete, principalmente, indivíduos mais velhos, com idade média de 65 anos, entretanto 10% dos casos são de pessoas com menos de 50 anos, e 2%, de pessoas com menos de 40 anos, denotando a tendência atual de aumento de incidência em faixas etárias mais precoces. Algumas anormalidades cromossômicas têm importância na patogênese do MM. A translocação mais encontrada na patogênese do MM envolve os cromossomos 11 e 14; vale destacar que as deleções 13q e 17p, quando detectadas, conferem pior prognóstico à doença, principalmente a 17p. Também são frequentes as trissomias (cromossomos 3, 5, 7, 9, 11, 15, 18, 19, 21), monossomias (8, 13, 16, 20, 22), translocações dos tipos t(11;14), t(8;14) e t(14;18), hipodiploidias e deleções. Estas, por sua vez, determinam rearranjos genéticos que aumentam a expressão de certos genes (proto- oncogenes que se tornam oncogenes) e diminuem a atividade de outros (como as mutações do gene supressor p53). 14.2 FISIOPATOLOGIA Após anormalidade genética, origina-se um clone de plasmócitos anômalos, produtores de proteína monoclonal, resultando em uma condição clínica chamada Gamopatia Monoclonal de Significado Indeterminado (GMSI). É necessário que novas anormalidades citogenéticas aconteçam para que o plasmócito anômalo interaja com as células do estroma medular e proteínas da matriz extracelular por meio de moléculas de adesão, desencadeando vias produtoras de citocinas (IL-6, IGF-1, VEGF, alfa-SDF-1), responsáveis pelo crescimento e pela sobrevida da célula tumoral, efeito antiapoptótico e inclusive de resistência a drogas. O crescimento descontrolado dos plasmócitos, a inibição de sua apoptose e o aumento da síntese de proteína M têm várias consequências clínicas, incluindo destruição óssea, anemia, aumento da viscosidade plasmática, supressão da síntese das imunoglobulinas normais e insuficiência renal, responsáveis pelo quadro clínico do MM. Em alguns casos, a doença pode permanecer assintomática por anos, pois o crescimento tumoral pode ser muito lento. 14.2.1 Proteína M As imunoglobulinas são proteínas formadas por 4 cadeias polipeptídicas: 2 cadeias pesadas e 2 leves (Figura 14.1). As cadeias pesadas podem ser de 5 tipos e dão nome ao tipo de imunoglobulina (G, A, D, E, M), enquanto as cadeias leves são de 2 tipos: lambda e kappa. Figura 14.1 - Estrutura de uma molécula de imunoglobulina As imunoglobulinas formadas normalmente têm diferentes cadeias pesadas e ambas as cadeias leves, sendo, portanto, policlonais, enquanto as proteínas sintetizadas por plasmócitos e linfócitos B neoplásicos ou monoclonais têm sempre o mesmo tipo de cadeias pesadas e/ou leves, sendo então chamadas de proteína M (proteína - monoclonal). A síntese excessiva da proteína M resulta em: a) Déficit de produção e do funcionamento normal das imunoglobulinas normais; b) Quadro de hiperviscosidade, a depender da quantidade e do tipo da imunoglobulina – quanto maior em tamanho e quantidade, maior o risco de sintomas relacionados ao aumento da viscosidade sanguínea (maior risco com a IgM); c) Ligação a fatores de coagulação com disfunção destes, ocasionando quadros de sangramento; d) Pseudo-hiponatremia; e) Redução do ânion-gap; f) Ligação a hormônios circulantes, resultando em disfunções endócrinas variadas; g) Disfunção renal por depósito de cadeias leves. Em cerca de 30% dos casos, a proteína monoclonal produzida não é uma imunoglobulina inteira, somente fragmentos desta; quando essa proteína é uma cadeia leve (kappa ou lambda), pode passar pelos glomérulos renais e ser excretada na urina, sendo chamada proteína de Bence Jones. Em outros casos, ainda mais raros, a proteína M é formada apenas por cadeias pesadas (ocasionando a chamada doença das cadeias pesadas). Existem ainda casos menos comuns em que o MM, apesar da proliferação excessiva de plasmócitos, não é capaz de produzir cadeias de imunoglobulina, chamado de “mieloma não secretor”. A eletroforese de proteínas é o exame laboratorial capaz de avaliar a concentração das proteínas séricas e a proporção das diferentes frações, permitindo quantificar as imunoglobulinas que se movem de forma heterogênea pelo campo elétrico, e, quando há componente monoclonal, este se move de maneira homogênea, formando um pico na região gama (menos comum na região beta ou alfa 2 – Figuras 14.2 e 14.3). A quantidade de anticorpo deve ser de, no mínimo, 0,5 g/dL para ser detectada por esse método, podendo passar despercebida em pacientes com neoplasia pouco secretora. Figura 14.2 - Eletroforese de proteínas: padrão normal Fonte: adaptado de Eletroforese de proteínas séricas: interpretação e correlação clínica, 2008. Figura 14.3 - Eletroforese de proteínas: padrão monoclonal na região gama Fonte: adaptado de Eletroforese de proteínas séricas: interpretação e correlação clínica, 2008. A imunoeletroforese de proteínas, ou imunofixação, é o exame que confirma a monoclonalidade da proteína, mesmo em pequenas quantidades, sendo um exame muito mais sensível e específico do que a eletroforese, devendo, sempre que possível, ser solicitado em associação à eletroforese de proteínas tradicional. O encontro da proteína monoclonal não é exclusivodo mieloma e pode ser detectado em outras situações: outras doenças dos plasmócitos (amiloidose primária, macroglobulinemia de Waldenström), linfoproliferações malignas (leucemia linfoide crônica, linfomas B ou T), outras neoplasias (leucemia mieloide crônica, câncer de mama, câncer de cólon), outras doenças não neoplásicas (cirrose, sarcoidose), doenças autoimunes (artrite reumatoide, miastenia gravis) e raras doenças de pele (líquen mixedematoso, xantogranuloma necrobiótico). 14.3 QUADRO CLÍNICO O quadro clínico do MM manifesta-se comumente por dor óssea, anemia (associada a fraqueza e astenia), poliúria e polidipsia (associadas a lesão renal e hipercalcemia), infecções e sangramentos. 14.3.1 Dor óssea A dor óssea é o sintoma mais comum do mieloma, acometendo 70% dos pacientes, enquanto a lombalgia é caracterizada por ser mecânica, tendendo a poupar os pedículos vertebrais (diferentemente das metástases ósseas). A maior parte dos pacientes de MM apresenta dor de intensidade variável, com frequência no dorso ou nas costelas, que piora ao movimento e melhora ao repouso. Dor súbita e severa sugere fratura patológica ou colapso de corpo vertebral. Existe intensa inter-relação entre os plasmócitos anômalos e as outras células do estroma medular, incluindo osteoclastos e osteoblastos. No MM, observa-se aumento da ativação de osteoclastos. Paralelamente, há inibição de osteoblastos por ação das mesmas citocinas locais, resultando, desse desequilíbrio entre osteoblastos e osteoclastos, na hipercalcemia, na osteoporose difusa, nas lesões líticas, na diminuição da estatura e na suscetibilidade a fraturas patológicas. Figura 14.4 - Achatamento de vértebras por fraturas patológicas Figura 14.5 - Lesão lítica no crânio Deve-se suspeitar da compressão da medula espinal por plasmocitoma ou fragmento ósseo quando há dor intensa, fraqueza e parestesia de membros, disfunção ou incontinência urinária ou fecal. Esse caso compreende uma emergência médica. O principal diagnóstico diferencial das lesões líticas é feito com metástases ósseas líticas oriundas geralmente de carcinomas de mama e pulmão. Destacam-se as seguintes diferenças entre MM e lesões metastáticas: 1. Dor óssea do MM: é, em geral, movimento-dependente, enquanto na metástase a dor costuma ser contínua e com piora noturna (esse padrão pode ocorrer no mieloma, sugerindo fratura óssea); 2. Lesões do MM: poupam os pedículos vertebrais, enquanto as metastáticas têm preferência por estas estruturas. 14.3.2 Anemia Mal-estar geral, fraqueza e queixas vagas são frequentes e comumente associados à anemia. A anemia no MM é geralmente hipoproliferativa, normocítica e normocrômica. Pequena porcentagem dos casos apresenta anemia megaloblástica secundária à deficiência de vitamina B12 ou folato, de etiologia não esclarecida. Neutropenia e plaquetopenia também podem ocorrer. 14.3.3 Hipercalcemia A hipercalcemia, presente em 30% dos casos ao diagnóstico, pode ser assintomática, apresentar sintomas inespecíficos, como astenia, obstipação e depressão, ou sintomas mais severos, como poliúria, polidipsia, desidratação, náusea e vômito, confusão mental, rebaixamento do nível de consciência ou até coma. A precipitação tubular de sais de cálcio piora a função renal desses indivíduos. 14.3.4 Disfunção renal As principais causas de disfunção renal no MM são obstrução tubular por proteínas monoclonais de cadeia leve associada à atrofia e à inflamação tubular (rim do mieloma), além de hipercalcemia. Não podemos esquecer também a nefrotoxicidade causada por medicamentos, como os anti-inflamatórios não esteroides. A creatinina sérica está aumentada em 50% dos casos ao diagnóstico (> 2 mg/dL, em 20%), e pode-se estabelecer correlação entre presença e severidade da disfunção renal ao diagnóstico e sobrevida (80% de sobrevida em 1 ano para creatinina 1,5 mg/dL versus 50% para creatinina > 2,3 mg/dL). Dois fatores principais contribuem para a insuficiência renal: acúmulo de proteínas monoclonais e hipercalcemia. O acúmulo tubular de proteínas monoclonais de cadeias leves resulta em nefropatia obstrutiva (rim do mieloma), caracterizada por atrofia dos túbulos proximais, obstrução dos túbulos distais e coletores, inflamação e fibrose intersticial. É a primeira causa de insuficiência renal no MM. O principal dano tubular causa acidose tubular renal do tipo II (proximal, com redução na capacidade de reabsorção do bicarbonato). A hipercalcemia é a segunda principal causa de nefropatia, ocasionando diminuição da capacidade de concentração urinária, por induzir resistência ao hormônio antidiurético, levando a poliúria e desidratação. A hipercalciúria acarreta aumento da diurese por osmose e, consequentemente, depleção volêmica e insuficiência renal do tipo pré-renal (causa vômitos e anorexia). Nesses casos, a vasoconstrição renal aumenta a toxicidade das cadeias leves. Pode haver, ainda, depósito de cálcio nos túbulos renais, evoluindo para nefrite intersticial. Outros fatores também importantes são o uso de drogas nefrotóxicas (anti-inflamatórios não esteroides e contrastes radiográficos), infecções e hiperuricemia, que podem contribuir na evolução para a falência renal; 50% dos pacientes que apresentam creatinina < 4 g/dL manifestam reversão completa da função renal após o início do tratamento. Também tem valor prognóstico a recuperação completa da função renal após o tratamento: sobrevida de 28 meses para aqueles que a recuperam e 4 meses para os que não a recuperam. 14.3.5 Infecções As principais manifestações clínicas infecciosas no MM são pneumonia e pielonefrite, e os principais agentes, Streptococcus pneumoniae, Haemophilus influenzae, Klebsiella pneumoniae e Escherichia coli. Infecção viral, como o herpes-zóster, também é comum. As infecções são causadas por diminuição da produção e aumento da destruição das imunoglobulinas normais (por elevação do catabolismo), diminuição dos linfócitos T CD4+, diminuição de plasmócitos normais, comprometimento da função de neutrófilos, monócitos/macrófagos e do sistema complemento e uso de medicamentos imunossupressores, como a dexametasona. 14.3.6 Sintomas constitucionais Há perda ponderal em 24% dos casos, ao passo que febre aparece em menos de 1% e, quando presente, provavelmente, está relacionada à manifestação de quadro infeccioso. 14.3.7 Síndrome de hiperviscosidade Trata-se de complicação em menos de 10% dos pacientes com diagnóstico de mieloma, mais comum nos casos de IgA e IgM. As altas concentrações de proteína M plasmática levam ao aumento da viscosidade do plasma, responsável por distúrbio circulatório, que se manifesta principalmente por disfunções cerebral, pulmonar, cardíaca e renal. Em geral, está associada à manifestação hemorrágica pela relação entre coagulopatia e distúrbio circulatório, provocados pelo excesso de imunoglobulina. Na síndrome de hiperviscosidade, o quadro clínico pode ser bastante severo, com sangramento de mucosas (epistaxe é frequente), distúrbios visuais, hipoacusia, cefaleia, sonolência (até coma), infarto agudo do miocárdio e grande quantidade de sintomas neurológicos isquêmicos, causados pela redução da oxigenação tecidual. O risco aumentado de sangramento é causado pela ligação das proteínas monoclonais aos fatores de coagulação e às plaquetas, e muito raramente há trombocitopenia. A uremia, quando presente, faz piorarem os quadros hemorrágicos. O tratamento da hiperviscosidade é feito com plasmaférese. A macroglobulinemia de Waldenström é caracterizada principalmente por síndrome de hiperviscosidade. 14.3.8 Sintomas neurológicos A radiculopatia configura-se como a principal complicação neurológica do MM, resultante, em geral, de plasmocitoma paravertebral compressivo ou colapso vertebral. Compressão da medula espinal por plasmocitoma ou fragmento ósseo é uma emergência médica e necessita de intervenção imediata, com radioterapia e/ou com corticoterapia em altas doses. Plasmocitoma no sistema nervoso central é raro e, quando ocorre, em geral se deve à extensãode lesão na calota craniana ou na base do crânio. A hipercalcemia pode ser responsável por sintomas como letargia, fraqueza, depressão e confusão mental. A hiperviscosidade pode causar cefaleia, fadiga, distúrbio visual ou até sinais e sintomas de isquemia cerebral. Neuropatia periférica, pouco comum, ocorre como resultado do depósito de substância amiloide ou efeito adverso de medicamento (talidomida, bortezomibe). Finalmente, as infecções (em especial, a varicela-zóster) podem levar a quadros neurológicos, como a paralisia de Bell. O Quadro 14.1 traz a fisiopatologia das principais manifestações do MM. Quadro 14.1 - Fisiopatologia das manifestações do mieloma múltiplo 14.4 TIPOS DE MIELOMA As diferentes imunoglobulinas produzidas pelas várias formas do MM caracterizam padrões de doença diversos. A imunoglobulina mais usual produzida no MM é a IgG, e a mais rara, a IgE. O MM IgA é aquele associado à monoclonalidade da imunoglobulina A, comumente ligado ao envolvimento extraósseo. O MM IgD (produção exacerbada e exclusiva de imunoglobulina D) está, com frequência, relacionado a leucemia de células plasmáticas, lesões renais mais severas e pior prognóstico (junto às imunoglobulinas de cadeia leve). Quadro 14.2 - Distribuição dos diferentes tipos de mieloma múltiplo 14.5 DIAGNÓSTICO Alguns exames laboratoriais são importantes para o diagnóstico de mieloma múltiplo: hemograma, mielograma, imunofenotipagem, eletroforese de proteínas séricas e urinárias, urina de 24 horas, imunofixação de proteínas urinárias. Certos exames são confirmatórios para o diagnóstico, como imunofenotipagem e - citogenética. A urina I detecta aumento de proteína à custa de albumina, mas não proteína monoclonal, portanto não pode ser utilizada para a triagem de mieloma. Deve-se solicitar imunoeletroforese ou imunofixação para detecção da proteína monoclonal e eletroforese para quantificação. No hemograma, há a formação do chamado rouleaux de hemácias (glóbulos vermelhos empilhados – “empilhamento de moedas”, em virtude do excesso de paraproteínas séricas), anemia normocítica e normocrômica em 75% dos casos, leucopenia (< 4.000/mm3) e plaquetopenia (< 100.000/mm3) podem ocorrer, apresentando-se em 20 e 5% dos casos, respectivamente. Leucemia de células plasmáticas é definida como plasmocitose no sangue periférico > 20% do diferencial de leucócitos, ou > 2.000/mm3, bastante rara (15% dos casos) e de prognóstico muito ruim. Figura 14.6 - Hemácias “em rouleaux” Fonte: Interpretación del Hemograma, 2017. O mielograma ou biópsia de medula óssea evidencia > 10% de plasmócitos monoclonais maduros, pró-plasmócitos ou plasmoblastos. A imunofenotipagem ou imuno-histoquímica é importante para comprovar a monoclonalidade do plasmócito, detecta cadeia kappa ou lambda, nunca ambas (a relação kappa–lambda > 4:1 ou < 1:2 preenche a definição de monoclonalidade kappa ou lambda, respectivamente). Dessa forma, é possível a diferenciação de quadros com plasmocitose reacional. Figura 14.7 - Células plasmáticas Fonte: LindseyRN. Não há alteração citogenética típica ou diagnóstica do MM, mas se pode investigar alterações que tenham valor prognóstico e possam influenciar a conduta terapêutica, por meio do exame de cariótipo convencional ou, preferencialmente, por técnicas mais sensíveis, como o FISH (hibridização fluorescente in situ); o cariótipo convencional, por sua vez, é de extrema dificuldade nessa doença, pelo baixo índice mitótico plasmocitário, com pobres resultados e ausência de metáfases. O índice de replicação plasmocitária na medula óssea é pouco utilizado na prática clínica, mas tem valor prognóstico importante – índice ≥ 1% apresenta pior prognóstico quando comparado com índice < 1%. A identificação da imunoglobulina monoclonal é possível em 97% dos casos com o arsenal diagnóstico atual. Pode ser feito pelo sangue periférico e urina. No sangue, a eletroforese de proteínas revela, de forma quantitativa, pico de proteína monoclonal, e a imunoeletroforese de proteínas, ou imunofixação, é importante para esclarecer a monoclonalidade de forma qualitativa. Na urina, a proteinúria de 24 horas e a eletroforese de proteínas quantificam a perda proteica e diferenciam a perda de albumina (síndrome nefrótica ou amiloidose AL) da perda de proteína monoclonal (de Bence Jones), além de fazer análise quantitativa. A imunofixação de proteínas na urina determina proteína M qualitativamente e pesquisa cadeias leves livres em pacientes oligossecretores, nos quais não se identifica alteração na eletroforese de proteínas ou na imunofixação. Em 3% dos casos, não é possível identificar a proteína monoclonal (mesmo com a pesquisa de cadeia leve livre no sangue ou na urina), ao que se dá o nome de mieloma não secretor. Os pacientes não têm risco de desenvolver doença renal e apresentam prognóstico semelhante ao do mieloma secretor. Outros exames necessários para avaliação do MM são: dosagem das imunoglobulinas séricas, importante para detectar redução das imunoglobulinas normais; cálcio sérico, ureia e creatinina, que geralmente estão elevados; ânion-gap, que está diminuído secundária à hipercalcemia e pela presença de IgG aumentada (catiônica); ácido úrico e coagulograma, que estão eventualmente alterados; dosagem de beta-2-microglobulina, que está elevada em 75% ao diagnóstico, indicando tanto carga tumoral quanto valor prognóstico. 14.5.1 Métodos de imagem 1. Radiografia de esqueleto: espera-se encontrar osteoporose difusa, lesões líticas e/ou fraturas patológicas em aproximadamente 80% ao diagnóstico. Os locais mais acometidos são corpos vertebrais, calota craniana, caixa torácica, pelve, úmero e fêmur; 2. Ressonância magnética e/ou PET-TC: devem ser consideradas sempre que possível ou ao menos em pacientes com quadro de dor sem alterações na radiografia simples. Ressonância é obrigatória quando há sinais de compressão medular ou na suspeita de plasmocitoma ósseo solitário. 14.6 CRITÉRIOS DE DIAGNÓSTICO Para o diagnóstico de mieloma, é necessária a presença de 3 fatores: a) Presença de proteína monoclonal sérica ou urinária – não é estipulado nenhum valor mínimo, visto que 40% apresentam < 3 g/dL dessa proteína (porém, esta deve estar presente); b) Presença de > 10% de plasmócitos monoclonais na medula óssea ou plasmocitoma; c) Presença de sintomas, ou seja, alteração em tecidos/órgãos-alvo (pelo menos 1 dos 4 sintomas, conhecidos pelo acrônimo CRAB: Calcemia elevada, insuficiência Renal, Anemia e Bone lesions – lesão óssea lítica). A diferença entre mieloma indolente (ou smoldering) e mieloma sintomático se faz exatamente pela presença de lesões de órgão-alvo (CRAB), ausentes no indolente e presentes no MM sintomático. 14.7 ESTADIAMENTO E PROGNÓSTICO O sistema de estadiamento de Durie e Salmon é utilizado desde 1975, porém diversos novos parâmetros foram adicionados na avaliação prognóstica dos pacientes com MM, com especial destaque para o ISS (International Staging System), que utiliza a beta-2- microglobulina e a albumina como fatores prognósticos, sendo mais usado atualmente. Quadro 14.3 - Sistema de estadiamento de Durie e Salmon Os estádios são subclassificados como: 1. A: função renal relativamente normal (valor de creatinina sérica < 2 mg/dL); 2. B: função renal anormal (valor de creatinina sérica > 2 mg/dL). As lesões ósseas são classificadas como: 1. Esqueleto normal: 0; 2. Osteoporose: 1; 3. Lesões líticas: 2; 4. Destruição externa e fraturas: 3. Quadro 14.4 - International Staging System Outros fatores de prognóstico são anormalidade citogenética – hipodiploidia, deleção do 13q ou 17p, t(4;14) e t(4;16) –, índice de replicação plasmocitária ≥ 3%, DHL aumentado, VHS aumentado, célula plasmática circulante e escala de performance status. 14.8 VARIANTES DE IMPORTÂNCIA CLÍNICA DA DOENÇA DOS PLASMÓCITOS 14.8.1 Gamopatia monoclonal de significado indeterminado A chamada Gamopatia Monoclonal de Significado Indeterminado (GMSI, ou Monoclonal Gammopathy of Undetermined Significance – MGUS