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M e c a n i s m o d e a g r e s s ã o e d e f e s a 1 Pedro Henrique Lustosa Soares → Principais características de procariontes -Principais grupos: bactérias; -Núcleo: sem membrana nuclear; -Cromossomos: genoma único e circular de DNA haploide; -Mitocôndria: ausente; -Complexo de Golgi: ausente; -Retículo endoplasmático: ausente; -Membrana citoplasmática: não contém esteroides (exceto micoplasma); -Parede celular: é uma estrutura complexa contendo proteína, lipídios e peptidioglicanos; -Reprodução: assexuada (fissão binária); -Movimento: flagelos simples, se presentes; -Respiração: via membrana citoplasmática. → Classificação bacteriana -As bactérias podem ser classificadas pelos seus aspectos macro e microscópico, pelas características de crescimento e propriedades metabólicas, pela sua antigenicidade e, finalmente, pelo seu genótipo. i. Distinção macroscópica e microscópica -A distinção inicial entre as bactérias pode ser feita pelas características de crescimento em diferentes meios nutrientes e seletivos. As bactérias crescem em colônias. O somatório das características individuais dos organismos determina as características coloniais, tais como cor, tamanho, forma e cheiro. A capacidade das bactérias de resistir a certos antibióticos, fermentar açúcares pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce M e c a n i s m o d e a g r e s s ã o e d e f e s a 2 Pedro Henrique Lustosa Soares específicos, lisar os eritrócitos, ou hidrolisar lipídios, também pode ser determinada utilizando-se o meio adequado para o crescimento; -A aparência microscópica, incluindo o tamanho, a forma e a morfologia dos organismos (cocos, bacilos, curvos ou em espiral), e a sua capacidade de reter a coloração de Gram (Gram-positivas ou Gram-negativas) são as características primárias para diferenciar as bactérias. -A coloração de Gram é um teste rápido, eficaz e fácil que permite aos clínicos diferenciar as duas principais classes de bactérias, desenvolver um diagnóstico inicial e começar a terapêutica com base nas diferenças inerentes às bactérias. As bactérias são fixadas a quente ou deixadas secar sobre uma lâmina, coradas com cristal violeta, um corante que é precipitado com iodo (lugol), e, em seguida, o corante não ligado ou em excesso é removido por lavagem com descorante à base de acetona e água. Um contracorante vermelho, a safranina, é adicionado para corar as células descoradas. Esse processo leva menos de 10 minutos. pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce M e c a n i s m o d e a g r e s s ã o e d e f e s a 3 Pedro Henrique Lustosa Soares A, uma bactéria Gram-positiva tem uma camada espessa de peptidoglicano que contém os ácidos teicoico e lipoteicoico. B, uma bactéria Gram-negativa possui uma camada fina de peptidoglicano e uma membrana externa que contém lipopolissacarídeos, fosfolipídios e proteínas. O espaço periplasmático entre as membranas citoplasmática e externa contém proteínas de transporte, de degradação e de síntese da parede celular. A membrana externa é ligada à membrana citoplasmática em pontos de adesão e está fixada ao peptidoglicano por ligações de lipoproteínas. A, o cristal violeta da coloração de Gram é precipitado por iodo e permanece preso na camada espessa de peptidoglicano em bactérias Gram-positivas. O descolorante dispersa a membrana externa Gram-negativa e remove o cristal violeta da fina camada de peptidoglicano. As bactérias Gram-negativas são visualizadas pelo contracorante vermelho. B, morfologias bacterianas. pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce M e c a n i s m o d e a g r e s s ã o e d e f e s a 4 Pedro Henrique Lustosa Soares -Para as bactérias Gram-positivas, que se tornam roxas, o corante fica preso em uma estrutura grossa e emaranhada, a camada de peptidoglicano, que circunda a célula. As bactérias Gram-negativas possuem uma fina camada de peptidoglicano que não retém o corante cristal violeta, e então as células são coradas com safranina e tornam-se vermelhas. Uma estratégia mnemônica que pode ajudar é o “P-PÚRPURA-POSITIVO”. ii. Diferenciação metabólica, antigênica e genética -O próximo nível de classificação baseia-se nas propriedades metabólicas das bactérias, que incluem necessidade de ambientes anaeróbicos ou aeróbicos, necessidade de nutrientes específicos e produção de produtos metabólicos característicos (ácidos, álcoois) e de enzimas específicas (p.ex., catalase de estafilococos); -Uma determinada cepa bacteriana pode ser diferenciada a partir da utilização de anticorpos para detectar antígenos característicos da bactéria (sorotipagem). Esses testes sorológicos também podem ser utilizados para identificar organismos que são difíceis que não crescem no laboratório, que estão associados a síndromes de doenças específicas ou aqueles que devem ser rapidamente identificados; -O método mais preciso para a classificação das bactérias é através da análise do material genético. Novos métodos diferenciam bactérias por características específicas de DNA. Essas técnicas incluem hibridização de DNA, amplificação por reação em cadeia da polimerase (PCR), sequenciamento de DNA e técnicas pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce M e c a n i s m o d e a g r e s s ã o e d e f e s a 5 Pedro Henrique Lustosa Soares relacionadas. Essas técnicas genéticas não necessitam de bactérias vivas ou em crescimento e podem ser utilizadas para a rápida detecção e identificação de organismos de crescimento lento (p.ex., micobactérias, fungos), ou mesmo para análise de amostras enviadas ao laboratório de patologia, e de bactérias muito virulentas; → Estrutura bacteriana ✓ Estruturas citoplasmáticas -O citoplasma da célula bacteriana contém o DNA cromossômico, o RNA mensageiro (RNAm), ribossomos, proteínas e metabólitos. Ao contrário dos eucariotas, a maioria dos cromossomos bacterianos é uma fita única circular de cadeia dupla, que não está contida em um núcleo, mas em uma área definida conhecida como nucleoide. As histonas não estão presentes para manter a conformação do DNA, e o DNA não forma nucleossomos. Os plasmídeos, que são fragmentos extracromossômicos menores de DNA circular, também podem estar presentes. Os plasmídeos, embora geralmente não sejam essenciais para a sobrevivência celular, frequentemente fornecem uma vantagem seletiva: muitos conferem resistência a um ou mais antibióticos. -A falta de uma membrana nuclear simplifica as necessidades e os mecanismos de controle para a síntese de proteínas. em outras palavras, os ribossomos podem ligar-se ao RNAm, e a proteína pode ser produzida ao mesmo tempo que o RNAm está sendo sintetizado e ainda ligado ao DNA; -A membrana citoplasmática tem uma estrutura de bicamada lipídica, mas não contém esteroides (p.ex., colesterol); os micoplasmas são exceção a esta regra; -Funções da membrana citoplasmática: 1. Transporte de elétrons e a produção de energia; 2. Contém proteínas de transporte que permitem a absorção dos metabólitos e a liberação de outras substâncias, bomba de íons para manter o potencial de membrana, e enzimas; 3. O interior da membrana está alinhado com filamentos de proteínas do tipo actina, que ajudam a determinar a forma das bactérias e o local de formação do septo para a divisão celular. Esses filamentos determinam a forma em espiral dos treponemas. pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realcepedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce M e c a n i s m o d e a g r e s s ã o e d e f e s a 6 Pedro Henrique Lustosa Soares i. Parede celular -A estrutura, os componentes e as funções da parede celular distinguem as bactérias Gram-positivas das bactérias Gram-negativas. Componentes da parede celular também são únicos para as bactérias, e as suas estruturas repetitivas se ligam a receptores-padrão de patógeno de células humanas para induzir respostas da imunidade inata; -As camadas rígidas de peptidoglicano (mureína) circundam as membranas citoplasmáticas da maioria dos procariotas; - Como o peptidoglicano proporciona rigidez, ele também ajuda a determinar a forma particular de cada célula bacteriana. As bactérias Gram-negativas também são envolvidas por uma membrana externa. ii. Bactérias Gram-positivas -A bactéria Gram-positiva apresenta uma parede celular espessa, de múltiplas camadas, que consiste principalmente em peptidoglicano em torno da membrana citoplasmática. O peptidoglicano é uma malha de exoesqueleto com função semelhante à do exoesqueleto de um inseto. Porém, ao contrário do exoesqueleto dos insetos, o peptidoglicano da célula é suficientemente poroso para permitir a difusão de metabólitos até a membrana plasmática. Um novo modelo de peptidoglicano sugere que o glicano se estende para o exterior da membrana plasmática como cerdas que são reticuladas com cadeias curtas de peptídeos. O peptidoglicano é essencial para a estrutura, replicação e sobrevivência em condições normalmente hostis nas quais as bactérias crescem. -O peptidoglicano pode ser degradado pela lisozima. A lisozima é uma enzima presente nas lágrimas e no muco de seres humanos, mas é também produzida pelas bactérias e outros organismos. A lisozima cliva o esqueleto central de glicano do peptidoglicano. Sem o peptidoglicano, as bactérias não resistiriam às grandes diferenças de pressão osmótica ao longo da membrana citoplasmática e lisariam. A remoção da parede celular produz um protoplasto que lisa, a menos que seja estabilizado osmoticamente; -A parede celular das bactérias Gram-positivas também pode incluir outros componentes, tais como proteínas, ácidos teicoicos e lipoteicoicos e polissacarídeos complexos; pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce M e c a n i s m o d e a g r e s s ã o e d e f e s a 7 Pedro Henrique Lustosa Soares iiii. Bactérias Gram-negativas -Estruturalmente, a parede celular Gram-negativa contém duas camadas externas à membrana citoplasmática. Imediatamente externa à membrana citoplasmática existe uma fina camada de peptidoglicano. Ácidos teicoicos ou lipoteicoicos não estão presentes na parede celular de Gram-negativos. Externa à camada de peptidoglicano existe uma membrana externa, que é única para as bactérias Gram- negativas. A área entre a superfície externa da membrana citoplasmática e a superfície interna da membrana exterior é denominada de espaço periplasmático. Esse espaço é, na verdade, um compartimento que contém componentes do sistema de transporte de ferro, proteínas, açúcares e outros metabólitos, e uma variedade de enzimas hidrolíticas que são importantes na clivagem de macromoléculas para o metabolismo. Essas enzimas tipicamente incluem proteases, lipases, fosfatases, nucleases e enzimas de degradação carboidratos. No caso das espécies Gram-negativas patogênicas, muitos dos fatores de virulência, como colagenases, hialuronidases, proteases, e β-lactamases, localizam-se no espaço periplasmático; -A parede celular das bactérias Gram-negativas também é atravessada por diferentes sistemas de transporte, incluindo os sistemas de secreção dos tipos I, II, III, IV, V. Os sistemas de transporte fornecem mecanismos para a captação e liberação de diferentes metabólitos e outros compostos. O sistema de secreção do tipo III é o principal fator de virulência para algumas bactérias, com uma estrutura complexa que atravessa tanto a membrana interna quanto a membrana externa, e pode agir como uma seringa para injetar proteínas em outras células; -A membrana externa é como um saco de lona rígida em torno das bactérias que mantém a estrutura bacteriana e funciona como uma barreira de permeabilidade a grandes moléculas e moléculas hidrofóbicas. Ela também proporciona proteção contra as diversas condições ambientais adversas, como o sistema digestivo do hospedeiro; -A monocamada interna contém fosfolipídios normalmente encontrados nas membranas bacterianas. No entanto, a monocamada externa é composta principalmente de lipopolissacarídeos (LPS). O LPS é também chamado de endotoxina, um potente estimulador das respostas imune e inata. O LPS é liberado pelas bactérias no hospedeiro. O LPS se liga a receptores-padrão de patógeno, pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce M e c a n i s m o d e a g r e s s ã o e d e f e s a 8 Pedro Henrique Lustosa Soares ativa as células B e induz macrófagos, células dendríticas e outras células, a liberar interleucina (IL)-1, IL-6, fator de necrose tumoral (TNF) e outros fatores. O LPS induz febre e pode causar choque; -A variedade de proteínas que se encontram presentes nas membranas externas Gram-negativas é limitada, mas várias das proteínas estão presentes em concentrações elevadas. Muitas dessas proteínas se localizam de forma transversal na bicamada lipídica e são, portanto, denominadas de proteínas transmembranares. Um grupo dessas proteínas é conhecido como porinas, porque formam poros que permitem a difusão de moléculas hidrofílicas menores de 700 Da de massa através da membrana. Os canais de porinas permitem a passagem de metabólitos e moléculas pequenas de antimicrobianos hidrofílicos. A membrana exterior também contém proteínas estruturais, moléculas receptoras de bacteriófagos e outros ligantes e componentes dos sistemas de transporte e de secreção; -A membrana externa é conectada à membrana citoplasmática em pontos de adesão e é unida ao peptidoglicano através da lipoproteína; -A membrana externa é mantida unida por ligações de cátions divalentes (Mg+2 e Ca+2) entre os fosfatos das moléculas de LPS e as interações hidrofóbicas entre o LPS e as proteínas. Essas interações produzem uma membrana forte e rígida que só pode ser rompida por antibióticos ou pela remoção dos íons Mg e Ca. O rompimento da membrana externa enfraquece as bactérias e permite a permeabilidade de grandes moléculas hidrofóbicas. O rompimento da membrana externa pode proporcionar a entrada de lisozima para produzir esferoplastos, que, como os protoplastos, são osmoticamente sensíveis. iv. Estruturas externas -Algumas bactérias (Gram-positivas ou Gram-negativas) são envolvidas por polissacarídeos soltos (não fixados à célula) ou por camadas de proteína denominadas de cápsulas, algumas vezes referidas como slime ou glicocálix; -As cápsulas não são necessárias para o crescimento das bactérias, mas são muito importantes para a sua sobrevivência no hospedeiro. A cápsula é fracamente antigênica e antifagocítica e é um importante fator de virulência. A cápsula também pode atuar como uma barreira para moléculas hidrofóbicas tóxicas, como pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce M e c a n i s m o d e a g r e s s ã o e d e f e s a 9 Pedro Henrique Lustosa Soares os detergentes, e pode promover a adesão a outras bactérias ou superfícies do tecido do hospedeiro; -Algumas bactérias (p.ex., Pseudomonasaeruginosa e S. aureus) também podem produzir um biofilme polissacarídico, quando um número suficiente (quorum) está presente e em condições que suportam o crescimento. O biofilme contém e protege a comunidade bacteriana dos antibióticos e das defesas do hospedeiro; -Os flagelos são estruturas propulsoras tipo hélices, compostas de subunidades de proteína helicoidal enrolada (flagelina), que estão ancoradas nas membranas bacterianas, através de um gancho e estruturas do corpo basal, e são orientadas por potenciais de membrana. Os flagelos promovem a motilidade para as bactérias, permitindo que a célula se movimente (quimiotaxia) na direção de nutrientes e fique distante de substâncias nocivas; -As fímbrias (pili) (do latim, “franjas”) são estruturas semelhantes à pelos, presentes na superfície externa das bactérias; elas são compostas de subunidades proteicas (pilina). As fímbrias podem ser distinguidas morfologicamente dos flagelos, pois são menores em diâmetro e geralmente não são estruturas enroladas. As fímbrias promovem a adesão a outras bactérias ou ao hospedeiro (denominações alternativas são adesinas, lectinas, evasinas e agressinas). Como fator de adesão (adesina), as fímbrias são um importante fator de virulência para a colonização e infecção do trato urinário por E. coli, Neisseria gonorrhoeae e outras bactérias; v. Bactérias com estruturas de parede celular alternativas -As micobactérias possuem uma camada de peptidoglicano; -Essas bactérias são descritas como álcool-acidorresistentes. O revestimento externo é responsável pela virulência e é antifagocítico; -Micoplasmas não possuem parede celular de peptidoglicano e incorporam esteroides, provenientes do hospedeiro, em suas membranas. pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce pedro Realce