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Ent e Manual Certificado pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa De acordo com Programa e Metas Curriculares PORTUGUÊS António Vilas-Boas Manuel Vieira Edição do Professor pp. Educação literária 10 Contextualização histórico-literária 18 20 O pregador dirige-se aos peixes Capítulo I Recurso expressivo: gradação 21 Ficha de apoio nº 1 Texto e textualidade: coerência e coesão textual 24 Estrutura do sermão: virtudes e vícios Louvores aos peixes, em geral Capítulo II 26 Louvores aos peixes, em particular Capítulo III 30 Repreensões aos peixes, em geral Capítulo IV 34 Ficha de apoio nº 2 Intenção persuasiva e exemplaridade 35 Repreensões aos peixes, em particular Capítulo V 41 Temas comuns «Sermão de Santo António» e Os Lusíadas 42 Ficha de apoio nº 3 Crítica social e alegoria 45 Despedida e conselhos aos peixes Capítulo VI 46 Ficha de apoio nº 4 Linguagem e estilo pp. Educação literária 60 Contextualização histórico-literária 68 «Memória ao Conservatório Real» 70 Ato primeiro Cena I 71 Temas comuns D. Madalena de Vilhena de Frei Luís de Sousa e D. Inês de Castro de Os Lusíadas 72 Cena II 80 Cena III 78 Ficha de apoio nº 1 Dêixis 82 Ficha de apoio nº 2 O Sebastianismo: história e ficção 83 Cenas IV e V 86 Cenas VI e VII 88 Cenas VIII a XII 92 Ficha de apoio nº 3 A dimensão patriótica e a sua expressão simbólica 93 Ato segundo Cena I 97 Temas comuns O retrato de D. Sebastião em Frei Luís de Sousa e em Os Lusíadas 98 Cena II 101 Cena V 106 Cena XI 99 Cena III 103 Cenas VI e VII 107 Cenas XII a XIV 100 Cena IV 104 Cenas VIII a X 110 Cena XV 111 Ficha de apoio nº 4 A dimensão trágica 114 Ato terceiro Cena I 120 Cenas II e III 125 Cenas VIII e IX 121 Cenas IV a VII 126 Cenas X a XII 128 Ficha de apoio nº 5 Recorte das personagens principais 131 Ficha de apoio nº 6 Linguagem e estilo pp. Gramática 21 Ficha de apoio nº 1 Texto e textualidade: coerência e coesão textual 29 Subordinação 33 Coesão textual pp. Oralidade Compreensão do oral 25 Capítulo II do «Sermão de Santo António» (excerto) 51 Discurso de José Saramago no banquete de receção do Prémio Nobel de Literatura Expressão oral 48 Filme Selma – a marcha da liberdade pp. Escrita 41 A crítica social no «Sermão de Santo António» 52 A atualidade e intemporalidade do pensamento do Padre António Vieira p. Leitura 49 Martin Luther King, «Tenho um sonho» 53 Esquema-síntese 54 Teste de avaliação de conhecimentos pp. Gramática 78 Ficha de apoio nº 1 Dêixis 81; 85; 97; 100; 119 Funções sintáticas 85; 97; 119 Dêixis 85; 106; 119 Coesão textual pp. Oralidade Compreensão do oral 77 «A química do amor» Expressão oral 81 Documentário «D. Sebastião, o rei mito» 91 Ameaças à vida privada na atualidade 133 Direito ao asilo e a questão da imigração pp. Escrita 91 110 127 Exposição sobre Os jovens e a crítica social um tema D. Madalena de Vilhena, personagem trágica Valor simbólico dos espaços em geral 136 A questão dos refugiados p. Leitura 134 «Nacionalismo de exclusão» 137 Esquema-síntese 138 Teste de avaliação de conhecimentos 1 2Padre António Vieira, «Sermão de Santo António» Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa 6 Projeto de leitura 2 Índice geral pp. Educação literária 182 Contextualização histórico-literária 186 Introdução 188 Ficha de apoio nº 1 Sugestão biográfica (Simão e narrador) e construção do herói romântico 190 Ficha de apoio nº 2 Linguagem e estilo 192 Questões familiares Capítulo I 194 Amor Capítulo II 196 Teresa Capítulo IV 202 Mariana Capítulo X 205 Temas comuns Teresa Albuquerque, Mariana e Maria de Noronha – três tipos femininos românticos 206 Simão Capítulo X 210 O crime Capítulo X 214 Conclusão 220 Ficha de apoio nº 3 Relações entre personagens 223 Ficha de apoio nº 4 O amor-paixão pp. Educação literária 144 Contextualização histórico-literária 146 Capítulo I 151 Capítulo VIII 155 Ficha de apoio nº 1 Deambulação geográfica e sentimento nacional 156 Capítulo X 160 Ficha de apoio nº 2 A representação da Natureza 161 Capítulo XX 164 Temas comuns Joaninha de Viagens na minha terra e a senhor das cantigas de amor 165 Ficha de apoio nº 3 Personagens românticas: Carlos e Joaninha 166 Capítulo XLIX 170 Ficha de apoio nº 4 Dimensão reflexiva e crítica 171 Ficha de apoio nº 5 Linguagem, estilo e estrutura pp. Gramática 187; 200 Funções sintáticas 193 Coerência e coesão 200; 209 Dêixis pp. Oralidade Compreensão do oral 201 «Igualdade de género» Expressão oral 201 A mulher, vítima de violência pp. Escrita 200 A vivência do amor entre os jovens 219 Simão – herói romântico 224 Texto Sensibilidade e bom senso, de Jane Austen p. Leitura 224 Sensibilidade e bom senso, de Jane Austen (apreciação crítica de livro) 225 Esquema-síntese 226 Teste de avaliação de conhecimentos pp. Gramática 159 Funções sintáticas 159 Subordinação 168 Coerência e coesão 150; 168 Dêixis pp. Oralidade Compreensão do oral 154 «Meios de comunicação e transportes» Expressão oral 169 Emigração entre os jovens pp. Escrita 150 O narrador – um projeto plural 169 O materialismo na sociedade moderna 174 Miss Julie, de Liv Ullmann p. Leitura 173 Miss Julie, de Liv Ullmann (apreciação crítica de filme) 175 Esquema-síntese 176 Teste de avaliação de conhecimentos 43 Camilo Castelo Branco, Amor de perdiçãoAlmeida Garrett, Viagens na minha terra 3 pp. Educação literária 232 Contextualização histórico-literária 241 O Ramalhete Capítulo I 243 Temas comuns Indícios trágicos associados aos espaços: o Ramalhete, em Os Maias, e o palácio de D. João de Portugal, em Frei Luís de Sousa 244 246 Pedro da Maia Capítulo I Recurso expressivo: sinestesia 247 Paixões fatais Capítulo II 250 O Jantar em Santa Olávia Capítulo III 253 O Jantar no Hotel Central - I Capítulo VI 255 Ficha de apoio nº 1 A descrição do real e o papel das sensações 256 O Jantar no Hotel Central - II Capítulo VI 258 Temas comuns Comicidade de Ega, Pero Marques e Brás da Mata 259 Ficha de apoio nº 2 Linguagem e estilo: reprodução do discurso no discurso 261 Ega Capítulo IX 265 As Corridas do Hipódromo Capítulo X 266 Temas comuns Crítica social em Os Maias e no «Sermão de Santo António» 267 Ficha de apoio nº 3 A representação de espaços sociais e a crítica de costumes 269 Maria Eduarda Capítulo XI 271 Paixão Capítulo XII 273 Temas comuns Carlos da Maia, de Os Maias, e Manuel de Sousa Coutinho, de Frei Luís de Sousa 274 Carlos e Maria Capítulo XIII 277 Ficha de apoio nº 4 Espaços e seu valor simbólico e emotivo (I) 279 Tragédia Capítulo XVII 282 Ficha de apoio nº 5 Características trágicas dos protagonistas: Afonso da Maia, Carlos da Maia, Maria Eduarda 284 Emoções Capítulo XVIII 286 Ficha de apoio nº 6 Espaços e seu valor simbólico e emotivo (II) 287 Ficha de apoio nº 7 Representações do sentimento e da paixão: diversificação da intriga amorosa (Pedro da Maia, Carlos da Maia e Ega) 288 Ficha de apoio nº 8 Os Maias: personagensda ação central pp. Gramática 249; 276; 281 Funções sintáticas 259; 273 Ficha de apoio nº 2 Reprodução do discurso no discurso Uso do adjetivo e do advérbio 276 Coerência e coesão 276 Dêixis pp. Oralidade Compreensão do oral 290 Filme Debate pela liberdade, de Denzel Washington Expressão oral 246 Autorretrato de Edgar Degas (pintura) 290 Filme Debate pela liberdade, de Denzel Washington pp. Escrita 252 O papel dos avós na vida dos netos, na sociedade atual 266 Relação da sociedade atual com o desporto 285 Filme Os Maias, de João Botelho p. Leitura 291 «Como vemos a luz» 293 Esquema-síntese 294 Teste de avaliação de conhecimentos 5 Eça de Queirós, Os Maias 4 pp. Educação literária 300 Contextualização histórico-literária 302 «O palácio da ventura» 304 «Nox» 305 «Nihil» 306 Temas comuns Desilusão de Antero de Quental e de personagens como D. Madalena de Vilhena, de Frei Luís de Sousa, ou Afonso da Maia, de Os Maias 307 Ficha de apoio nº 1 Configurações do Ideal e a angústia existencial 308 Ficha de apoio nº 2 Linguagem, estilo e estrutura pp. Educação literária 318 Contextualização histórico-literária «O sentimento dum ocidental» 320 I - Avé Marias 322 II – Noite fechada 324 III – Ao gás 326 IV – Horas mortas 327 Temas comuns O imaginário épico em Os Lusíadas e em «O sentimento dum ocidental» 328 Ficha de apoio nº 1 Deambulação e imaginação: o observador acidental e o imaginário épico 330 «Cristalizações» 333 Ficha de apoio nº 2 A representação da cidade e dos tipos sociais 334 «De tarde» 336 «Num bairro moderno» 340 Ficha de apoio nº 3 Perceção sensorial e transfiguração poética do real pp. Gramática 303 Funções sintáticas 303 Coesão textual 303 Subordinação 303 Dêixis p. Oralidade Expressão oral 303 O descontentamento como motor do progresso humano p. Escrita 306 Os jovens e o mundo atual p. Leitura 309 «As Sete Cidades e as Furnas» 311 Esquema-síntese 312 Teste de avaliação de conhecimentos pp. Gramática 325; 338 Funções sintáticas 335; 338 Coerência e coesão 335; 338 Dêixis pp. Oralidade Compreensão do oral 323 «A Lisboa de Cesário» Expressão oral 335 Pintura Almoço na relva, de Édouard Manet 339 A Lisboa de Cesário pp. Escrita 332 A relação entre o sujeito poético e a cidade presente em «Cristalizações» 339 Fotografia de Lisboa, do livro Lisboa – cidade triste e alegre, de Victor Palla e Costa Martins p. Leitura 341 «Um poema gráfico», texto de Ana Soromenho 343 Esquema-síntese 344 Teste de avaliação de conhecimentos 6 7Antero de Quental, Sonetos completos Cesário Verde, Cânticos do Realismo (O Livro de Cesário Verde) 348 Anexo Informativo 5 William Shakespeare Romeu e Julieta Edição: 2007 Editor: Oficina do livro ISBN: 978-989-55-5317-4 «Julieta – Se eles te veem, matar-te-ão. Romeu – Ai! Há mais perigo nos teus olhos do que em vinte das suas espadas. Basta que me olhes com ter- nura e ficarei couraçado contra a sua inimizade. Julieta – Por nada deste mundo eu queria que te vissem aqui. Romeu – O manto da noite oculta-me aos olhos deles. Mas, se tu não me amas, que me importa que me en- contrem? Seria melhor que o ódio deles pusesse fim à minha vida do que a morte tardasse faltando-me o teu amor.» Saul Bellow Jerusalém – ida e volta Edição: 2011 Editor: Tinta da China ISBN: 978-989-67-1068-2 «Saímos para a rua, e o meu amigo David Shahar, que tem um peito largo, respira fundo e aconselha-me a fa- zer o mesmo. O ar, o próprio ar, é inspirador em Jerusa- lém, foram os Sábios que o disseram. Estou disposto a acreditar nisso. Eu sei que deve ter propriedades espe- ciais. A delicadeza da luz também me afeta. Olho lá para o fundo, na direção do Mar Morto, por sobre rochedos fendidos e casinhas com telhados bolbosos. A cor do te- lhado é a do chão, e no meio daquela paisagem estranha e mortiça o ar abrasador cai sobre nós com um peso qua- se humano.» Jane Austen Orgulho e preconceito Edição: 2012 Editor: Relógio d’Água ISBN: 978-989-64-1321-1 «Minha querida Lizzy, Desejo-te grande felicidade. Se o teu amor pelo sr. Darcy é apenas metade do que eu sinto pelo meu mari- do Wickham, então és decerto muito feliz. É um consolo saber-te tão rica, e, quando não tiveres mais nada para fazer, espero que te lembres de nós. Wickham gostaria muito de enveredar pela carreira jurídica, mas não creio que tenhamos dinheiro suficiente para vivermos sem auxílio. Qualquer emprego de trezentas ou quatrocen- tas libras por ano serviria; mas, se preferes, não mencio- nes o asunto ao sr. Darcy. A tua, etc.» Agustina Bessa-Luís Fanny Owen Edição: 2009 Editor: Guimarães editora ISBN: 978-972-66-5403-2 «– Há um baile em casa do barão do Corvo. Queres tu vir comigo? Apresento-te as três mulheres mais belas do Porto. – Que são duas, se estou bem ao par das tuas contas. – Pois que sejam duas. Mas merecem o nome das três Graças, pela abundância de beleza que elas têm. – Pa- receu aturdido e levou a mão ao pescoço, afrouxando o lenço de cetim com um puxão leve. – Ou não te serve a companhia? Eu sou boa pessoa. – Há boas pessoas que nos metem medo. Mas acom- panho-te. Um baile nunca é uma coisa trivial.» PR OJ ET O DE L EIT UR A: A NO SS A SE LE ÇÃ O 1º Período 2º Período eare a 17-44 te veem, matar-te-ãão. mais perigo nos teus olhos do que em do Luís tora 0303-2-2 le em casa ddo bab rãrão o dodo CCorvo. Queres resento te as três mulheres mais belas onceito 2121-1-1 da Lizzy, do a e volta 6868-2-2 a rua, e o meu u amamigigo o DaDavividd ShShahahar, que go respira fundo e aconselha-me a fa- Estes livros podem relacionar-se com Amor de perdição, de Camilo Castelo Branco, e Viagens na minha terra, de Almeida Garrett. Estes livros podem relacionar-se com Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett. Contudo Romeu e Julieta, de William Shakespeare, poderá associar-se a Amor de perdição, de Camilo Castelo Branco, e Jerusalém – ida e volta, de Saul Bellow, a Viagens na minha terra. 6 P R O F E S S O R EL11 15.1, 15.2, 15.3, 15.4, 15.6 O11 3.1, 3.2, 3.3; 4.2, 4.3, 4.4; 5.1, 5.2, 5.3, 5.4; 6.1, 6.2, 6.3 E11 10.1; 11.1; 12.1, 12.2, 12.3, 12.4, 12.5, 12.6; 13.1 Outras sugestões programáticas Proposta de atividades AA.VV. Antologia da poesia do século XVIII (poemas escolhidos) ALEXANDRE DUMAS Os três mosqueteiros ALMEIDA GARRETT Folhas caídas ANTON TCHEKOV Três irmãs ANTÓNIO NOBRE Só BRANQUINHO DA FONSECA O barão CHARLES BAUDELAIRE As flores do mal CHARLES DICKENS Grandes esperanças LEÃO TOLSTOI Ana Karenina LUANDINO VIEIRA Luuanda LUÍS CARDOSO Crónica de uma travessia LUÍS CARLOS PATRAQUIM Manual para incendiários e outras LUÍS DE GÓNGORA Antologia poética (poemas escolhidos) LUÍS DE STTAU MONTEIRO Felizmente há luar! MANUEL M. BARBOSA DU BOCAGE Antologia poética (poemas escolhidos) MÁRIO CLÁUDIO Guilhermina MIA COUTO A confissão da leoa MOACYR SCLIAR O centauro no jardim MOLIÈRE O Burguês gentil-homem OSCAR WILDE O retrato de Dorian Gray PEPETELA Crónicas com fundo de guerra RUBEM ALVES A torre da Barbela RUY DUARTE DE CARVALHO Como se o mundo não tivesse Leste RAINER MARIA RILKE Cartas a um jovem poeta STENDHAL O vermelho e o negro TOMAS TRANSTRÖMER 50 Poemas VICTOR HUGO Nossa Senhora de Paris VOLTAIRE Cândido ou o optimismoWILLIAM SHAKESPEARE Romeu e Julieta EMILY BRONTË O monte dos vendavais GONZALO TORRENTE BALLESTER Crónica do rei pasmado GUSTAVE FLAUBERT Madame Bovary GUY DE MAUPASSANT Contos HONORÉ DE BALZAC Tio Goriot JOHANN WOLFGANG VON GOETHE Fausto (excertos escolhidos) JOSÉ CRAVEIRINHA Antologia poética (poemas escolhidos) JOSÉ DE ALENCAR Iracema Florbela Espanca Sonetos Edição: 2011 Editor: Bertrand Editora ISBN: 978-972-25-2338-7 Amar! Eu quero amar, amar perdidamente! Amar só por amar: Aqui... além... Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente Amar! Amar! E não amar ninguém! Recordar? Esquecer? Indiferente!... Prender ou desprender? É mal? É bem? Quem disser que se pode amar alguém Durante a vida inteira é porque mente! Há uma primavera em cada vida: É preciso cantá-la assim florida, Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar! E se um dia hei de ser pó, cinza e nada Que seja a minha noite uma alvorada, Que me saiba perder... pra me encontrar... 3º Período PR OJ ET O DE L EIT UR A ra 38-77 r amar perdidamente! do Apreciação crítica As obras indicadas para o desenvolvimento do Pro- jeto de Leitura estão relacionadas tematicamente com as obras em estudo no âmbito da educação literária. No leque das opções sugeridas, seleciona uma ou duas obras para leres ao longo do ano e para desenvol- veres uma apreciação crítica, numa apresentação oral, com duração entre dois e quatro minutos, ou num texto escrito, com uma extensão entre 200 e 300 palavras. Qualquer que seja a forma de apresentação da apre- ciação crítica a produzir, considera os seguintes tópicos: descrição sucinta do livro, enquanto objeto (for- mato, capa, contracapa, editor, ano, lugar de edi- ção, organização interna…); comentário crítico, com a indicação dos aspetos mais valorizados, como, por exemplo, um episódio relevante, personagens marcantes, espaço, rela- ção do autor/narrador/personagens, uma citação ou um excerto que valha a pena ler, reler e guar- dar na memória. Segue as fases habituais do processo de produção oral e escrita. Este livro pode relacionar-se, mais especialmente, com Sonetos completos, de Antero de Quental. 7 Educação literária Contextualização histórico-literária Objetivos da eloquência (docere, delectare, movere) Intenção persuasiva e exemplaridade Crítica social e alegoria Linguagem, estilo e estrutura: – visão global do sermão e estrutura argumentativa – o discurso figurativo: a alegoria, a comparação, a metáfora – outros recursos expressivos: a anáfora, a antítese, a apóstrofe, a enumeração e a gradação Leitura Martin Luther King, discurso político: «Tenho um sonho» Gramática Texto e textualidade: – coerência textual – coesão textual Escrita Exposição sobre um tema: a crítica social no «Sermão de Santo António» Exposição sobre um tema: atualidade e intemporalidade do pensamento do Padre António Vieira Oralidade Compreensão do oral Exposição sobre um tema: capítulo II do «Sermão de Santo António» (excerto) Discurso político: José Saramago no banquete de receção do Prémio Nobel da Literatura Expressão oral Apreciação crítica: filme Selma – a marcha da liberdade Em destaque: 1Padre António Vieira, «Sermão de Santo António» 1500 1600 1640 1700 1800 SÉCULO XVII Barroco 1580 1640 1608 1619 1697 1716-17281654 Início da dominação filipina Restauração da Independência Início do reinado de D. João IV Padre António Vieira – «Sermão de Santo António» Morte do Padre António Vieira, em S. Salvador da Baía, Brasil Publicação da coletânea Fénix Renascida, de poetas da 1ª metade do século XVII Nascimento do Padre António Vieira, em Lisboa Publicação de Corte na aldeia, de Francisco Rodrigues Lobo Acontecimentos literários Acontecimentos históricos Contextualização histórico-literária I. O Barroco Texto 1 A arte barroca A arte barroca estendeu-se por todo o século XVII e pelas primeiras décadas do século XVIII. A sua difusão abrangeu quase toda a Europa e a América Latina. O Barroco nasceu e desenvolveu-se, no princípio do século XVII, na Roma dos papas. Mais do que um estilo definido, era uma tendência comum a todas as artes: um gosto, em suma. Em seguida, espalhou-se como que em círculos concêntricos pelo resto da Europa e por regiões sob a sua influência. Esta onda, proveniente de Itália, encontrou-se e fundiu- -se com escolas e tendências locais. Dela nasceram numerosas artes de tipo nacional, cada uma delas com características próprias, particulares. São essas artes, no seu conjunto, que constituem a arte barroca. Os resultados que elas alcançaram, tanto na arquitetura como na pintura e nas outras disciplinas, não são, de forma alguma, inferiores às italianas. No plano teórico, o caráter típico do Barroco foi uma enorme ambiguidade. Os seus artistas proclamavam-se herdeiros do Renascimento e declaravam aceitar-lhe as regras; mas violavam-nas sistematicamente, quer na letra quer no espírito. O Renascimento era equilíbrio, medida, sobriedade, racionalismo, lógica. O Barroco foi movimento, ânsia de novidade, amor pelo infinito e pelo não finito, pelos contrastes e pela audaciosa mistura de todas as artes. Foi dramático, exuberante, teatral, tanto quanto a época anterior fora serena e comedida. Flavio Conti, Como conhecer a arte barroca, Lisboa, Edições 70, 1996, pp. 3-4 (texto adaptado) 1. Indica as afirmações verdadeiras (V) e as falsas (F). Corrige as afirmações falsas. a. A arte barroca circunscreveu-se à Europa. b. A arte barroca apresenta variantes nacionais ou regionais. c. A arte do Renascimento caracteriza-se, tal como a do Barroco, pela exuberân- cia formal. d. A arte barroca apresenta como traço essencial a inquietação formal. - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - O Barroco na pintura O Barroco na arquitetura Caravaggio, detalhe de O tocador de alaúde (1594), Museu Hermitage, em São Petersburgo, Rússia Basílica de S. Pedro, em Roma, concebida por Donato Bramante et alii (1506-1626) Torre dos Clérigos, no Porto, concebida por Nicolau Nasoni (1754-1763) Guido Reni, detalhe de O massacre dos inocentes (1611), Pinoteca Nacional de Bolonha, Itália Diego Velázquez, detalhe de As meninas (1656), Museu do Prado, em Madrid, Espanha Josefa de Óbidos, detalhe de Menino Jesus salvador do mundo (1684), Venerável Ordem Terceira da Penitência de São Francisco, em Coimbra, Portugal 10 1 Padre António Vieira, «Sermão de Santo António» P R O F E S S O R Nota geral A indicação dos tópicos de con- teúdo do Programa e os descri- tores das Metas Curriculares surgirão sempre, no Manual, no início de cada unidade didática, sumariamente. Nota específica O Programa e Metas Curricula- res prevê oito tempos letivos [de 45 minutos] para o tratamento do «Sermão de Santo António». Sugestão didática A linha cronológica localizada no separador desta sequência didática poderá ser explorada com os alunos no âmbito da con- textualização histórico-literária. 1. a. F (A arte barroca difundiu-se também na América Latina.) b. V c. F (Diferentemente da arte barroca, marcada pela exube- rância, a arte da renascença caracterizava-se pela medida e pelo equilíbrio.) d. V 2. (B) 3. (C) 4. (A) Apresentação Contextualização históri- co-literária (Sequência 1) Vídeo Padre António Vieira (vida, obra e atualidade) visto por Professora Micaela Rámon EL11: 16.1 L11: 7.1, 7.4, 7.5; 8.1 EL11 Contextualização histórico-literária Objetivos da eloquência (docere, delectare, movere) Intenção persuasiva e exemplari- dade Linguagem, estilo e estrutura – visão global do sermão e estrutu- ra argumentativa Texto 2 A literatura barroca Na literatura barroca, a expressão da beleza alcança um fulgor, um engenhoso requin- te e uma exuberante riqueza que a poesia renascentista está longe de oferecer. Através de um léxico opulento e raro,através de uma profusa e audaciosa utilização de hipérboles, acumulações, alusões e metáforas, a literatura barroca compraz-se na representação de tudo quanto é peregrinamente belo na figura humana, nas coisas, nas paisagens, nas cria- ções artísticas devidas ao engenho dos homens. O tema da fugacidade, da ilusão da vida e das coisas mundanas ocupa um lugar cen- tral na literatura barroca. As motivações religiosas desse tema são bem evidentes: trata-se de lembrar ao homem que tudo é vão e efémero à superfície da terra, que a vida carnal é uma passagem e que é necessário procurar uma realidade suprema isenta de mentira e de imperfeição. As ruínas atestam a transitoriedade do homem e os poetas meditam angus- tiados sobre a fragilidade da vida humana, sobre a destruição e o vazio que espera tudo o que é grácil e luminoso. Vítor Manuel de Aguiar e Silva, Teoria da literatura, Coimbra, Almedina, 2009, pp. 486, 487 e 493 (texto adaptado) 2. Atenta no primeiro parágrafo do texto. Escolhe a opção correta. A arte literária barroca caracteriza-se essencialmente pela (A) presença de um vocabulário requintado. (B) variedade de recursos expressivos. (C) insistência na beleza da figura humana. (D) utilização de hipérboles. 3. Escolhe a opção que permite obter uma afirmação correta. No segundo parágrafo, estabelece-se uma relação direta entre (A) a efemeridade da vida e a dimensão religiosa do homem barroco. (B) a dimensão religiosa do homem barroco e a transitoriedade da vida. (C) a mentalidade religiosa do homem barroco e a temática da literatura barroca. (D) a mentalidade religiosa do homem barroco e a visão da vida enquanto ilusão. 4. Indica qual das duas opções seguintes sintetiza mais adequadamente o conteúdo do segundo parágrafo. (A) O tema principal da literatura barroca é o da fugacidade da vida. Este tema está intimamente ligado a uma visão religiosa do mundo que valoriza o Além, o eterno, e desvaloriza a vida na terra, pelo facto de ser transitória. (B) O tema principal da literatura barroca é o das ruínas. Estas são o símbolo da fugacidade da vida, do que foi belo e morreu. O escritor barroco desvaloriza, através deste símbolo, a vida terrena. - - - - 5 - - - - 10 - - - 11 Contextualização histórico-literária 1 P R O F E S S O R 1. a. V b. V c. F (A oratória barroca carac- terizava-se por abordar temas de natureza religiosa, mas tam- bém temas de natureza política ou cívica.) d. V II. Objetivos da eloquência (docere, delectare, movere) Texto 1 A oratória A oratória é um género literário que compreende todo o discurso oral dirigido a um au- ditório com a finalidade de o convencer de uma determinada mensagem, pela razão, pela sensibilidade ou pelo prazer que nele provoca o texto dito. A oratória pode ser sagrada ou profana. A primeira aborda temas de natureza religiosa, a segunda temas de natureza política ou cívica. Durante o período Barroco, a oratória sagrada caracteriza-se por juntar temas sagrados e profanos, uma vez que os sermões são motivo para tratar uma infinidade de assuntos, desde a comemoração do nascimento de um príncipe à morte de uma rainha, entre outros. Síntese elaborada com base em Aníbal Pinto de Castro, «Oratória», in Biblos, Enciclopédia Verbo das literaturas de língua portuguesa, volume 3, Lisboa, 1999, colunas 1280-1282 Texto 2 Características da oratória barroca Tende a captar a atenção do destinatário mediante a concentração de recursos expres- sivos, com a intenção de persuadir: a metáfora inesperada, a alegoria, a antítese, a hi- pérbole, a enumeração… Concretiza-se através de uma linguagem poética engenhosa, isto é, trabalhada intelec- tualmente para estabelecer relações inesperadas e insólitas entre as coisas, as palavras, as ideias. Valoriza o período longo, organizado engenhosamente em várias secções dispostas antitética ou simetricamente ou em sucessões compostas por duas ou mais partes. Visa, deste modo, provocar admiração no recetor, deslumbrado por uma linguagem marcada pelo excesso, pela acumulação de detalhes e pelo virtuosismo verbal. Apresenta três objetivos principais: docere (ensinar), delectare (encantar, deleitar) e movere (persuadir). Síntese elaborada com base em António José Saraiva, O discurso engenhoso – Estudos sobre Vieira e outros autores barrocos, São Paulo, Editora Perspectiva, 1980 1. Assinala as afirmações verdadeiras (V) e a única afirmação falsa (F), relativamente aos textos anteriores. Corrige a afirmação falsa. a. A oratória implica obrigatoriamente uma intenção persuasiva. b. Tradicionalmente, distinguem-se dois tipos de oratória. c. A oratória barroca caracterizava-se por abordar exclusivamente temas de natureza religiosa. d. A arte da persuasão assentava na utilização de recursos expressivos que espantavam pela novidade. - - - - 5 - - - - - - - 5 - - - - 10 - - 12 1 Padre António Vieira, «Sermão de Santo António» P R O F E S S O R 2. a. V b. V c. F (O sermão barroco aborda- va temas religiosos e também temas sociais e políticos.) 3. (A) Texto 3 Objetivos da eloquência barroca [No sermão do período Barroco] os seus assuntos e objetivos alargam-se a múlti- plos aspetos da vida social e política, trans- formando-se em verdadeiros espetáculos estranhos à celebração litúrgica, onde as multidões acorrem como se fossem ao tea- tro. E os pregadores servem-se não raro do púlpito para defenderem ideias políticas e tecerem duras críticas aos comportamentos individuais e coletivos. Deste modo, o sermão cumpre um dos objetivos da oratória barroca – docere. Con- tudo, dadas as características de virtuosis- mo verbal do pregador barroco, os outros dois objetivos, delectare e movere, passaram, principalmente o primeiro destes dois, a ocupar lugar central no sermão: o ouvinte era mais atingido pelo deleite e pela emoção – originados no estilo engenhoso do pregador – do que pelos seus ensinamentos. Síntese elaborada com base em Aníbal Pinto de Castro, «Retórica» e «Sermão», in Biblos – Enciclopédia Verbo das literaturas de língua portuguesa, volume 4, Lisboa, Verbo, 2001, colunas 733 e 1273 2. Indica as afirmações verdadeiras (V) e a afirmação falsa (F), relativamente ao texto 3. Corrige a afirmação falsa. a. O sermão barroco propiciava a reflexão sobre a vida coletiva. b. O sermão barroco caracterizava-se pela teatralidade. c. O sermão barroco abordava exclusivamente temas religiosos. 3. Escolhe a opção correta. No período barroco, o objetivo de ensinar através da prega- ção era difícil de atingir porque (A) a linguagem dos pregadores era de tal modo extraordinária que os ouvintes prestavam mais atenção à forma do discurso do que ao seu conteúdo. (B) os ouvintes estavam mais interessados no que os pregadores diziam do que no modo como o faziam. (C) as temáticas que o pregador trazia para o púlpito não interessavam aos ouvin- tes. (D) os ouvintes se interessavam mais pelos temas religiosos do que pelos assun- tos profanos que o pregador tratava. - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - - - 20 Rembrandt, Pregação de S. João Baptista (1634-1635), Galeria Gemälde, Berlim, Alemanha 13 Contextualização histórico-literária 1 P R O F E S S O R 1. a – 3; b – 1 ; c – 2; d – 4 III. Padre António Vieira – o homem missionário e a obra Texto 1 Vida e obra VIEIRA, Pe. António (6/2/1608, Lisboa – 13/6/1697, Baía). Foi levado para o Brasil aos 6 anos de idade, onde fez a sua primeira educação. Voltan- do ao Reino com pouco mais de 30 anos, já ordenado, trazia fama de orador, a qual não cessou de aumentar. Começou, pois, também a pregar em Portu- gal. Após a subida ao trono de D. Afonso VI [1656], perdeu o apoio régio de que gozava e foi perseguido e atacado pelo Santo Ofício, chegando a estar encarcerado dois anos. Aos 70 anos regressa ao Brasil, onde morre, avança- do em anos, após uma vida quedividira e gerira entre a missão social, evan- gelizadora e político-diplomática. A vida, a personalidade e a obra deste jesuíta apresentam-se marcadas por uma intrínseca coerência. Um dos as- petos que primeiro ressaltam como característica é a concordância entre a sua obra humana, o seu pensamento e a sua palavra. O dinamismo como marca fundamental do seu perfil torna-se também a marca inconfundível do seu estilo. O anticonvencionalismo faz dele o missionário que percorre quase descalço os sertões brasileiros com o mesmo à-vontade e o mesmo entusiasmo com que desempenha as suas funções de embaixador diplomático de Portugal em Paris, Haia, Londres e Roma. É, antes de mais, um espírito combativo, e essa combatividade é moldada, simultaneamente, pelo vigor, pela lógica e também pelo visionarismo. Um dos motivos centrais da sua ação reformadora e crítica é a luta contra a escravatura e contra a sede de ambição e domínio dos colonos do Brasil. A sua obra compreende quinze volumes de Sermões e Cartas, que, idênticos no vigor da argu- mentação e no poder de convicção, se mostram, todavia, diferentes quanto ao estilo, na medida em que, nos Sermões, predominam as características oratórias e, nas Cartas, o estilo se atenua numa maior familiaridade e serena simplicidade de expressão. Maria Leonor Carvalhão Buescu, «Padre António Vieira» in Álvaro Manuel Machado (org. e dir.), Dicionário de literatura portuguesa, Lisboa, Editorial Presença, 1996, p. 502 (texto adaptado) 1. Associa as informações de ambas as colunas, de modo a obteres afirmações condizentes com o sentido do texto. A B a. Humanamente, o Padre António Vieira caracteriza-se 1. pelo empenho com que defendeu o que consi- derava injustiças. b. Socialmente, o Padre António Vieira distingue-se 2. por um estilo marcado pela capacidade argu- mentativa. c. Os Sermões do Padre António Vieira definem-se 3. pela grande capacidade de adaptação aos mais variados e diferentes ambientes. d. As Cartas do Padre António Vieira caracterizam-se 4. por um estilo marcado pela simplicidade. - 15 - - - - 20 - - - - - - - 5 - - - - 10 - - - Arnold van Westerhout, António Vieira, padre jesuíta e escritor português (c. 1600), coleção privada 14 1 Padre António Vieira, «Sermão de Santo António» P R O F E S S O R 1. b. (Os colonos apresentavam três argumentos a favor da es- cravização dos índios.) Texto 2 «Sermão de Santo António»: contexto histórico Vinham de longe as diferenças entre o zelo evangelizador dos Jesuítas e a ganância da maioria dos colonos. Estes não queriam ceder a ninguém a tutela dos índios que capturavam como escra- vos, nas entradas pelo sertão; aqueles desejavam organizá-los em comunidades que os mantivessem ao abrigo da rapacidade e dos maus exemplos de comportamento moral e social dos portugue- ses. A publicação de uma ordem régia que concedia liberdade aos índios cativos foi o rastilho que rapidamente ateou o fogo da dis- córdia. Os protestos atingiram tal violência que só a intervenção da força armada, às ordens do capitão-mor, impediu a expulsão dos missionários recém-chegados. Reunido na Câmara [da cida- de do Maranhão], o povo amotinado exigiu a imediata suspensão da lei, sob pretexto de que os cativeiros e, por consequência, os escravos, eram legítimos, os índios eram bárbaros e sempre po- tenciais inimigos de Portugal e (razão sobre todas ponderosa) a economia do Estado não podia sustentar-se sem o seu trabalho. […] As hostilidades assumiam proporções cada vez mais graves. Os colonos recorreram a Lisboa, procurando um instrumento que anulasse definitivamente as ordens régias anterio- res que favoreciam a posição dos padres. Perante a crescente agudização do conflito, Vieira resolve ir ao reino, crente de que, com o seu valimento, poderia resolvê-lo a favor das suas posições. Antes, porém, não resistiu à tentação de, mais uma vez, defrontar os seus inimi- gos e os inimigos da Companhia quando, a 13 de junho de 1654, prega o famoso «Sermão de Santo António», onde, com acerada ironia, se vai servindo dos vários peixes para verberar de novo as vilanias, as hipocrisias e as extorsões que muitos dos seus ouvintes praticavam, no foro privado como em público. Aníbal Pinto de Castro, António Vieira – Uma síntese do barroco luso-brasileiro, Lisboa, CTT Correios, 1997, pp. 93-107 (texto adaptado) 1. Das afirmações seguintes, só uma não se pode comprovar com o texto. Identifica-a e corrige-a. a. Na origem do «Sermão de Santo António» está o conflito entre os colonos do Maranhão e os Jesuítas – ordem religiosa a que pertencia o Padre António Vieira –, a propósito da escravatura dos índios. b. Os colonos apresentavam quatro argumentos a favor da escravização dos índios. c. O Padre António Vieira decidiu ir a Lisboa, convencido de que poderia influenciar o poder político a favor dos Jesuítas no conflito com os habitantes do Maranhão a propósito da escravatura dos índios. d. Antes de partir, o Padre António Vieira pronunciou um sermão, no qual se dirigiu aos peixes, criticando os seus maus comportamentos como se estes fossem seres humanos. - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - - - 20 - - - - 25 Charles Legrand, O Padre António Vieira (1839), Litografia da R. N. dos Martyres, nº 12, Lisboa, Portugal 15 Contextualização histórico-literária 1 P R O F E S S O R 1. a. Texto 1 b. Texto 3 c. Texto 2 - - - - 5 - - - - - 5 - - - - - - - 5 - - IV. Vieira, pregador barroco Texto 1 Função do pregador Ao chamar a si o papel de medianeiro entre Deus e os homens, proje- tando para o exterior a imagem de uma entidade de recorte ético e espi- ritual mais elevado, o pregador predispunha-se a guiar a comunidade que lhe fora confiada, em questões que transcendiam largamente a esfera es- piritual ou religiosa, servindo-se para o efeito de vários momentos do ca- lendário litúrgico, de festividades religiosas ou de cerimónias oficiais […]. Paulo Mota Oliveira, «Poder e eloquência sacra em António Vieira», in Carlos Reis, José Augusto Cardoso Bernardes e Maria Helena Santana (coord.), Uma coisa na ordem das coisas – Estudos para Ofélia Paiva Monteiro, Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012, p. 632 (texto adaptado) Texto 2 O sermão como espetáculo Convirá atender à diferença entre pregação e sermão: este último é um texto escrito, que teria sido apenas uma das componentes do espetáculo da pregação; outras intervinham nesse ato irrepetível: o espaço, a ilumi- nação, as reações do auditório, os gestos, o olhar, os tons de voz e toda a expressão corporal do pregador, segundo regras minuciosas em que os jesuítas eram cuidadosamente treinados. A própria arquitetura adotou o modelo jesuítico da igreja-salão, para que o púlpito fosse visto e a voz do pregador inteiramente captada. Margarida Vieira Mendes, «O Padre António Vieira, pregador barroco», in História da literatura portuguesa, volume 3, Lisboa, Publicações Alfa, 2002, p. 178 Texto 3 «Sermão de Santo António»: intenção persuasiva Todo o discurso de Vieira assenta sobre o trabalho simultaneamen- te analítico, interpretativo e inventivo que exerceu sobre as palavras, tratando-as como seres desmembráveis, reestruturáveis, combináveis, polissémicos e não sobre o recurso a um vocabulário especialmente rico ou rebuscado. Este trabalho não foi concebido meramente como um jogo verbal, mas sobretudo como uma forma de encadear e de desenvolver o pensamento, de argumentar, de demonstrar e de persuadir. Mafalda Ferin Cunha, Padre António Vieira, Lisboa, Edições 70, 2012, p. 58 (texto adaptado) 1. Associa as afirmações seguintes aos textos respetivos. a. O pregador barroco era um guia em assuntos religiosos e também profanos. b. O pregador barroco tinha como principal objetivo argumentar e convencer. c. O pregador barroco fazia do sermão uma encenaçãoteatral. João Alvim, Padre António Vieira (2013), in Revista Círculo de Leitores, edição nº 208, Lisboa, p. 3 Autor desconhecido, ilustração de livro, Perúgia (1579) Um sacerdote prega socorrendo-se de quadros expostos na igreja para ilustrar o seu sermão. 16 1 Padre António Vieira, «Sermão de Santo António» V. Visão global e estrutura argumentativa da obra «Sermão de Santo António» Partes Estrutura argumentativa Exemplos Exórdio Capítulo I Conceito predicável: expressão bíblica «vós sois o sal da terra» O pregador apresenta a TESE que vai ser defendida através de argumentos apropriados, com a intenção de persuadir, convencer o auditório: A TERRA ESTÁ CORRUPTA (não se deixa salgar) «Isto suposto, quero hoje, à imitação de Santo António, voltar-me da terra ao mar e já que os homens se não aproveitam, pregar aos peixes.» Exposição Capítulo II O pregador indica o plano do sermão, que dividirá em virtudes (ou louvores) e defeitos (ou vícios) dos peixes. «[…] dividirei, peixes, o vosso sermão em dois pontos: no primeiro louvar-vos-ei as vossas virtudes, no segundo repreen- der-vos-ei os vossos vícios.» Confirmação Capítulo II O pregador apresenta as virtudes ou os louvores dos peixes, em geral. Capítulo III O pregador louva alguns peixes, em particular. Cada um deles apresenta virtudes que não existem nos homens. Argumentos a favor da tese inicial: argumento da exploração do homem pelo homem, de diversos modos; argumento das discórdias entre os homens; argumento da vaidade dos homens. Capítulo IV O pregador apresenta os defeitos gerais dos peixes, isto é, dos homens. Capítulo V O pregador analisa defeitos de peixes específicos, isto é, de tipos humanos concretos: argumento da presunção, do orgulho e da soberba (o exemplo do peixe roncador); argumento do compadrio e do parasitismo (o exemplo do peixe pegador); argumento da vaidade e da ambição desmedida (o exemplo do peixe voador); argumento da traição (o exemplo do polvo). «Começando pois pelos vossos louvores…» «Descendo ao particular, infinita matéria fora, se houvera de discorrer pelas virtu- des que o Autor da natureza a dotou e fez admirável em cada um de vós. De alguns somente farei menção.» «[…]assim como ouvistes os vossos lou- vores, ouvi também agora as vossas repreensões.» «Descendo ao particular, direi agora, pei- xes, o que tenho contra alguns de vós.» Peroração Capítulo VI Exortação aos ouvintes no sentido de louvarem a Deus. «Louvai, peixes, a Deus, os grandes e os pequenos» 17 Contextualização histórico-literária 1 Antes de ler Lê o excerto da carta do Papa Francisco, uma das vozes que mais se faz ou- vir em defesa dos oprimidos, e refere a sua posição relativamente ao valor que os aborígenes atribuem à terra e às pressões de que estes são alvo pelos interesses económicos. 146. É indispensável prestar atenção especial às comunidades aborígenes com as suas tradições culturais. […] Para eles a terra não é um bem económico, mas dom gra- tuito de Deus e dos antepassados que nela descansam, um espaço sagrado com o qual precisam de interagir para manter a sua identidade e os seus valores. Eles, quando per- manecem nos seus territórios, são quem melhor os cuida. Em várias partes do mundo, porém, são objeto de pressões para que abandonem as suas terras e as deixem livres para projetos extrativos e agropecuários que não prestam atenção à degradação da Na- tureza e da cultura. Papa Francisco, Encíclica sobre o cuidado da casa comum, http://w2.vatican.va/ (consultado em 17.09.2015) P R O F E S S O R Antes de ler O papa recorda os aborígenes, que não atribuem valor econó- mico à terra, vendo-a como um dom de Deus e dos seus ante- passados. A terra é, por isso, um espaço sagrado com o qual eles interagem como forma de man- terem a sua identidade e os seus valores. Por isso, o papa defende a per- manência dos aborígenes nos seus territórios, alertando para o erro relativamente às pres- sões de que são alvo para que os abandonem. Sugestão didática Os alunos podem ser levados a inferir relações possíveis da encíclica com o sermão: a explo- ração dos índios e a ocupação das suas terras pelos colonos europeus. L11 7.2, 7.6 (Antes de ler) EL11 14.1, 14.2, 14.4, 14.11, 14.12; 15.1, 15.2 G11 18.1, 18.2 EL11 Objetivos da eloquência (docere, delectare, movere) Linguagem, estilo e estrutura – o discurso figurativo: a alegoria, a comparação, a metáfora – outros recursos expressivos: a anáfora, a antítese, a apóstrofe, a enumeração, a gradação G11 Texto e textualidade a) coerência textual (compatibi- lidade entre as ocorrências tex- tuais e o nosso conhecimento do mundo; lógica das relações intra- textuais) b) coesão textual: – lexical: reiteração e substituição; – gramatical: referencial (uso ana- fórico de pronomes, frásica (con- cordância), interfrásica (uso de conectores), temporal (expressões adverbiais ou preposicionais com valor temporal, ordenação corre- lativa dos tempos verbais) Sermão de Santo António Pregado na Cidade de São Luís do Maranhão, ano de 16541 Este Sermão (que todo é alegórico) pregou o Autor três dias antes de se embarcar ocul- tamente para o Reino, a procurar o remédio da salvação dos Índios, pelas causas que se apontam no 1.º Sermão do 1.º Tomo2. E nele tocou todos os pontos de doutrina (posto que perseguida) que mais necessários eram ao bem espiritual, e temporal daquela terra, como facilmente se pode entender das mesmas alegorias. O pregador dirige-se aos peixes Vos estis sal terrae [Mt 5]3. Capítulo I «Vós», diz Cristo Senhor nosso, falando com os Pregadores, «sois o sal da terra»; e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção, mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela, que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os Pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina, que lhes dão, a não querem receber; ou é por- que o sal não salga, e os Pregadores dizem uma coisa, e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que di- zem; ou é porque o sal não salga, e os Pregadores se pregam a si, e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes em vez de servir a Cristo servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal! - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - 1 No sábado de 13 de junho 2 «Sermão da Sexagésima» 3 [Mt 5, 13] «Vós sois o sal da terra» Educação literária 18 1 Padre António Vieira, «Sermão de Santo António» 4 «E se o sal perde a sua força, com que se há de salgar? Para nada mais serve senão para ser lançado fora, para ser pisado pelos homens.» 5 valente 6 cidade atual de Rimini 7 protesto 8 forte dedicação 9 decisões Suposto pois que, ou o sal não salgue, ou a terra se não deixe salgar; que se há de fazer a este sal, e que se há de fazer a esta ter- ra? O que se há de fazer ao sal, que não salga, Cristo o disse logo: Quod si sal evanuerit, in quo salietur? Ad nihilum valet ultra, nisi ut mittatur foras, et conculcetur ab hominibus4 [Mt 5, 13]. Se o sal per- der a substância, e a virtude, e o Pregador faltar à doutrina, e ao exemplo, o que se lhe há de fazer é lançá-lo fora como inútil, para que seja pisado de todos. Quem se atrevera a dizer tal coisa, se o mesmo Cristo a não pronunciara? Assim como não há quem seja mais digno de reverência, e de ser posto sobre a cabeça, que o Pregador, que ensina, e faz o que deve; assim é merecedor de todo o desprezo, e de ser metido debaixo dos pés, o que com a palavra, ou com a vida prega o contrário. Isto é o que se deve fazer aosal, que não salga. E à terra, que se não deixa salgar, que se lhe há de fazer? Este ponto não resolveu Cristo Senhor nosso no Evangelho; mas temos sobre ele a resolu- ção do nosso grande Português Santo António, que hoje celebra- mos, e a mais galharda5, e gloriosa resolução, que nenhum Santo tomou. Pregava Santo António em Itália na Cidade de Arimino6, contra os Hereges, que nela eram muitos; e como erros de entendimento são dificultosos de arrancar, não só não fazia fruto o Santo, mas chegou o Povo a se levantar contra ele, e faltou pouco para que lhe não tirassem a vida. Que faria neste caso o ânimo generoso do grande António? Sacudiria o pó dos sapatos, como Cristo aconselha em outro lugar? Mas António com os pés descalços não podia fazer esta protestação7, e uns pés, a que se não pegou nada da terra, não tinham que sacudir. Que faria logo? Retirar-se-ia? Calar-se-ia? Dissimularia? Daria tempo ao tempo? Isso ensinaria porventura a prudência, ou a covar- dia humana; mas o zelo8 da glória divina, que ardia naquele peito, não se rendeu a seme- lhantes partidos9. Pois que fez? Mudou somente o púlpito, e o auditório, mas não desistiu da doutrina. Deixa as praças, vai-se às praias, deixa a terra, vai-se ao mar, e começa a dizer a altas vozes: «Já que me não querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes». Oh mara- vilhas do Altíssimo! Oh poderes do que criou o mar e a terra! Começam a ferver as ondas, começam a concorrer os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos, e postos todos por sua ordem com as cabeças de fora da água, António pregava, e eles ouviam. Se a Igreja quer que preguemos de Santo António sobre o Evangelho, dê-nos outro. Vos estis sal terrae: é muito bom Texto para os outros Santos Doutores; mas para Santo António vem-lhe muito curto. Os outros Santos Doutores da Igreja foram sal da terra, Santo António foi sal da terra, e foi sal do mar. Este é o assunto, que eu tinha para tomar hoje. Mas há muitos dias que tenho metido no pensamento que nas festas dos Santos é melhor pregar como eles, que pregar deles. Quanto mais, que o sal da minha doutrina, qualquer que ele seja, tem tido nesta terra uma fortuna tão parecida à de Santo António em Arimino, que é força segui-la em tudo. Muitas vezes vos tenho pregado nesta Igreja, e noutras de manhã, e de tarde, de dia, e de noite, sempre com doutrina muito clara, muito sólida, muito verdadeira, e a que mais necessária, e importante é a esta terra, para emenda, e reforma dos vícios, que a corrompem. O fruto que tenho colhido desta doutrina, e se a terra tem tomado o sal, ou se tem tomado dele, vós o sabeis, e eu por vós o sinto. - - 20 - - - - 25 - - - - 30 - - - - 35 - - - - 40 - - - - 45 - - - - 50 - - - - 55 - - - - 60 - - Garcia Fernandes, Santo António pregando aos peixes (c. 1600), Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, Portugal 19 1Capítulo I | Objetivos da eloquência (docere, delectare, movere) P R O F E S S O R Educação literária 1. O sermão inicia-se com a me- táfora na qual os pregadores são metaforizados em «sal da terra». 1.1 Trata-se de uma expressiva metáfora, pois o sal salga, isto é, conserva, impede que os ali- mentos se estraguem ou cor- rompam. Do mesmo modo o pregador deve, pela palavra, al- cançar o objetivo de impedir a corrupção da terra, dos fiéis, mantendo-os dentro da boa dou- trina e de práticas cristãs e éti- cas. 2. Trata-se da anáfora – uma sequência anafórica – da con- junção «ou», através da qual o pregador tenta analisar, desco- brir as várias causas da corrup- ção na terra. 2.1 Os pregadores são acusados de não pregarem a doutrina ca- nónica; os ouvintes de não faze- rem caso da doutrina pregada – quando ela é boa. Por outro la- do, os pregadores são ainda acu- sados de não serem coerentes entre palavras e obras, aprovei- tando-se disso os ouvintes para os imitar não nas palavras mas nos atos. Além disso, os prega- dores são acusados de esque- cerem a palavra de Cristo na pregação, pregando antes os seus interesses, que leva os ou- vintes a uma conduta de vida pautada pelos seus próprios in- teresses. 3.1 É estabelecido um contraste entre os pregadores que pregam a doutrina, mas dela se afastam nos atos, e os que são coerentes entre palavras e ações: os pri- meiros devem ser criticados e os segundos louvados. 4.1 Santo António pregava em circunstâncias difíceis, pois o seu auditório era composto por hereges, desinteressados na sua doutrina e agressivos para com ele. 4.2 A ação do santo tornou-se exemplar no sentido em que não desistiu de pregar a sua doutrina, para glória de Deus: não a podia pregar aos homens, foi fazê-lo aos peixes, que o escutaram. Isto suposto, quero hoje à imitação de Santo António voltar-me da terra ao mar, e já que os homens se não aproveitam, pregar aos peixes. O mar está tão perto, que bem me ouvirão. Os demais podem deixar o Sermão, pois não é para eles. Maria quer dizer Domina maris: «Senhora do mar»; e posto que o assunto seja tão desusado, espero que me não falte com a costumada graça. Ave Maria. Padre António Vieira, «Sermão de Santo António», in Obra completa (dir. José Eduardo Franco e Pedro Calafate), tomo II, volume X, Lisboa, Circulo de Leitores, 2014, pp. 137-139 1. Identifica a metáfora bíblica com a qual se inicia o sermão. 1.1 Explica a sua expressividade literária, relacionando-a com a intenção do pregador. 2. Identifica o recurso expressivo usado no primeiro parágrafo para apresentar as causas da corrupção na «terra», que engloba os que pregam e os que escutam a pregação. 2.1 Refere as críticas que são feitas aos pregadores e aos seus ouvintes. 3. O segundo parágrafo apresenta, em forma de antítese, dois tipos de pregadores. 3.1 Justifica esta afirmação. 4. O pregador apresenta Santo António como um exemplo. 4.1 Explicita as circunstâncias difíceis em que ele pregava «na Cidade de Arimino» (l. 36). 4.2 Refere, justificando, em que consistiu a sua exemplaridade. 5. Considera o segmento textual que começa em «Mudou somente […]», (l. 45) e termi- na em «[…] e eles ouviam.» (l. 50). 5.1 Apresenta, justificadamente, uma opinião sobre a reação dos ouvintes a este momento do sermão. 6. Atenta nas expressões destacadas no segmento textual seguinte: «Muitas vezes vos tenho pregado nesta Igreja, e noutras de manhã, e de tarde, de dia, e de noite, sempre com doutrina muito clara, muito sólida, muito verdadeira, e a que mais necessária, e importante é a esta terra, para emenda, e reforma dos ví- cios, que a corrompem.» (ll. 58-60). - - 65 - - Nota informativa A sequência de quatro expressões destacadas concretiza um recurso expres- sivo denominado gradação que consiste na disposição em cadeia dos termos de uma enumeração ou série, segundo uma ordem progressiva – que pode ser de natureza ascendente ou descendente. 6.1 Define a natureza da série de expressões destacadas. 6.2 Refere a intencionalidade comunicativa do pregador ao utilizar esta gradação. 6.3 Identifica, no mesmo segmento, outra série de expressões com valor de gradação. 7. Explicita a invocação e o pedido feitos no final do capítulo. 20 1 Padre António Vieira, «Sermão de Santo António» Ficha de apoio nº 1 P R O F E S S O R 5.1 Dada a sequência «Deixa […]», «vai […]», dadas as excla- mações do pregador, dada a lin- guagem metafórica «[…] ferver as ondas […]» (l. 48), o auditório ficou certamente encantado e emocionado com a arte do pre- gador. 6.1 A natureza desta gradação é ascendente, pois inicia-se com uma parte do dia, a «manhã», e termina na «noite», recobrindo assim o dia inteiro. 6.2 Com esta gradação, o prega- dor define-se como alguém que não cessa de pregar a doutrina cristã, sempre pronto para o fa- zer – em qualquer altura do dia. 6.3 «doutrina muito clara, muito sólida, muito verdadeira,» (l. 59) 7. No final do capítulo, o prega- dor invoca o auxíliode Nossa Senhora, «Senhora do mar», pe- dindo-lhe que o ajude na sua pregação, já que vai pregar aos peixes, o que é algo de extraor- dinário – «assunto […]» «desusa- do» (l. 66). Ficha de apoio nº 1 1. 1 – (B); 2 – (C); 3 – (E); 4 – (A); 5 – (D) O texto coerente: O padre António Vieira dirige-se aos pregadores afirmando que eles são o sal da terra. Isto quer dizer que Jesus Cristo quer que eles façam na terra o que faz o sal – impedir a sua corrupção. De seguida estranha que havendo no Maranhão tantos pregadores, a terra seja, afinal, tão corrup- ta. Por isso, pergunta qual será a causa dessa corrupção, avan- çando com um conjunto de hipó- teses. Entre elas sobressaem a má conduta dos pregadores que não pregam e a teimosia da ter- ra que se não deixa salgar. Con- clui, lamentando que tudo o que afirma seja verdade. Texto e textualidade: coerência e coesão textual Coerência textual Ao leres o capítulo I do sermão pudeste observar que: nada nele vai contra o que conheces do mundo, em geral, e do mundo do século XVII, em particular; por outras palavras, o ouvinte do sermão ou o leitor do mesmo reconheceria ao ouvi-lo ou ao lê-lo nesse século as coordenadas reli- giosas, culturais ou sociais do seu mundo como corretas; ele se apresenta ordenado logicamente, seguindo uma progressão evidente, que começa na constatação de que a terra está corrupta e na indagação das causas deste estado; o texto progride, criticando os maus pregadores e os maus ouvintes; apresenta depois o exemplo de Santo António e da sua pregação aos peixes, dado não ter audiência humana, e termina com a resolução do pregador em pregar também aos peixes, uma vez que nada espera dos homens. Por estes motivos, o texto apresenta coerência textual, a propriedade dos textos que: representam a normalidade do mundo; se apresentam logicamente ordenados; progridem através de relações lógicas internas ou intratextuais – de causa, de consequência, etc.; não apresentam informação contraditória entre si. 1. Ordena os segmentos textuais seguintes de modo a obteres um texto coerente. (A) Entre elas sobressaem a má conduta dos pregadores que não pregam e a tei- mosia da terra que se não deixa salgar. (B) O padre António Vieira dirige-se aos pregadores afirmando que eles são o sal da terra. Isto quer dizer que Jesus Cristo quer que eles façam na terra o que faz o sal – impedir a sua corrupção. (C) De seguida estranha que havendo no Maranhão tantos pregadores, a terra seja, afinal, tão corrupta. (D) Conclui, lamentando que tudo o que afirma seja verdade. (E) Por isso, pergunta qual será a causa dessa corrupção, avançando com um con- junto de hipóteses. Coesão textual Se releres o primeiro parágrafo do capítulo I com a intenção de encontrares palavras ou expressões que se repetem, detetarás vários exemplos desse facto: «sal», «sal da terra», «terra», «corrupção», «ouvintes»… Através destas repetições, o texto apresen- ta-se como um objeto coeso: elas são a primeira marca evidente de coesão textual, propriedade dos textos que assentam numa rede sequencial lógica. 21 1Ficha de apoio nº 1 Texto e textualidade: coerência e coesão textual No quadro seguinte, encontrarás os principais processos de sequencialização que contribuem para a coesão textual. Mecanismos de coesão Explicação Exemplos 1. Coesão lexical Constrói-se através de a. repetições ou reiterações de palavras ou expressões b. substituições – por sinonímia – por antonímia – hiperonímia / hiponímia – holonímia / meronímia a. «pregadores» (palavra várias vezes repe- tida no capítulo) b. – «galharda» / «gloriosa» (l. 35) – «reverência» (l. 27) / «desprezo» (l. 29) – peixe / rémora – peixe / escamas 2. Coesão gramatical 2.1 Coesão referencial Constrói-se através de a. anáforas (palavras, frequentemente pro- nomes, mas também advérbios, que re- cuperam referentes que ocorreram antes no texto) b. catáforas (palavras, frequentemente pro- nomes, que antecipam referentes que ocorrerão depois no texto). a. «[…] o que se lhe há de fazer é lançá-lo fora […]» (l. 24) [ambos os pronomes têm como referente «o pregador», que surgiu antes no texto] Nota: o conjunto sequencial de palavras que se re- ferem à mesma realidade anteriormente men- cionada, ou a retomam, designa-se cadeia de referência. Neste exemplo: pregador – lhe – o. b. Ouvimo-lo e vimo-lo em S. Roque: o Padre António Vieira é um pregador extraordinário! [Os dois pronomes an- tecipam um referente que ocorre à sua direita no texto.] 2.2 Coesão frásica Constrói-se através de mecanismos de concordância (entre sujeito e verbo, entre sujeito e predicativo do sujeito, entre com- plemento direto e predicativo do comple- mento direto): marcas idênticas de pessoa e número, de género e número. «Os outros Santos Doutores da Igreja fo- ram sal da terra, […]» (l. 53) [Concordância entre sujeito e verbo – pes- soa e número] 2.3 Coesão interfrásica Constrói-se através de conectores (conjun- ções e locuções conjuncionais e advérbios conectivos) que ligam frases ou orações (coordenação ou subordinação). Estes conectores estabelecem relações de natureza semântica muito variada entre as frases ou as orações. «[…] é lançá-lo fora como inútil, para que seja pisado de todos.» (ll. 24-25) [valor de fim ou objetivo] “«Já que me não querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes.»” (l. 47) [valor de causa] 2.4 Coesão temporal Constrói-se através a. da ordenação correlativa dos tempos verbais: fomos… vimos b. da utilização de expressões adverbiais ou preposicionais de valor temporal: de manhã… à tarde; primeiramente… a. «Deixa as praças, vai-se às praias, dei- xa a terra, vai-se ao mar, e começa […]» (l. 46) b. «Este é o assunto, que eu tinha para tomar hoje. Mas há muitos dias que tenho metido no pensamento que nas festas dos Santos é melhor pregar como eles, […]» (ll. 54-55) Quadro elaborado com base em AA. VV., Gramática da língua portuguesa, 6ª edição, Lisboa, Caminho, 2003, pp. 87-114 22 1 Padre António Vieira, «Sermão de Santo António» P R O F E S S O R 1. (C) 2.1 a. «já que» b. «tão… que» c. «pois» d. «posto que» 3. (A) 4. (C) Apresentação Coerência e coesão textual 1. Seleciona a opção que completa corretamente a frase. As reiterações das palavras «sal» e «salgar», ao longo do primeiro parágrafo do capítulo I, asseguram, no texto, a (A) coesão interfrásica. (B) coesão frásica. (C) coesão lexical. (D) coesão temporal. 2. Atenta no último parágrafo do capítulo I. «Isto suposto, quero hoje à imitação de Santo António voltar-me da terra ao mar, e já que os homens se não aproveitam, pregar aos peixes. O mar está tão perto, que bem me ouvirão. Os demais podem deixar o Sermão, pois não é para eles. Maria quer dizer Domina maris: «Senhora do mar»; e posto que o assunto seja tão desu- sado, espero que me não falte com a costumada graça. Ave Maria.» (ll. 63-67) 2.1 Identifica os conectores interfrásicos com valor de a. causa; b. consequência; c. explicação; d. concessão. 3. Seleciona a opção que completa corretamente a frase. O pronome pessoal destacado em «Quem se atrevera a dizer tal coisa, se o mesmo Cristo a não pronunciara?» (ll. 25-26) concretiza (A) uma anáfora. (B) uma catáfora. 4. Seleciona a opção que completa correta- mente a frase. No segmento textual «Ou é porque o sal não salga, e os Pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina, que lhes dão, a não querem receber; […]» (ll. 9-12), as duas anáforas pronominais sublinhadas concre- tizam exemplos de (A) coesão temporal. (B) coesão interfrásica. (C) coesão referencial. (D) coesão lexical. Santo António pregando aos peixes (c. 1600), registo de faiança policroma, Oficina de Lisboa,Escadinhas do Jogo da Pela, Museu da Cidade, Lisboa, Portugal Caderno de Atividades Ficha nº 7: Coerência textual p. 22 Ficha nº 8: Coesão textual p. 24 Anexo Informativo Coerência e coesão textual pp. 372-373 23 1Ficha de apoio nº 1 Texto e textualidade: coerência e coesão textual P R O F E S S O R EL11 14.1, 14.2, 14.3, 14.4, 14.6, 14.7 a), 14.11, 14.12; 15.1, 15.2 O11 1.1, 1.4, 1.5, 1.6 EL11 Crítica social e alegoria Linguagem, estilo e estrutura – outros recursos expressivos: a antítese, a apóstrofe e a enumeração O11 Exposição sobre um tema: caráter demonstrativo, elucidação evidente do tema (fundamentação das ideias), concisão e objetividade, valor expressivo das formas linguísticas (deíticos, conectores…) Educação literária Estrutura do sermão: virtudes e vícios Louvores aos peixes, em geral Capítulo II Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes? Nunca pior auditório. Ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem, e não falam. Uma só coisa pudera desconsolar ao Pregador, que é serem gente os peixes que se não há de con- verter. Mas esta dor é tão ordinária, que já pelo costume quase se não sente. Por esta causa não falarei hoje em Céu, nem Inferno: e assim será menos triste este Sermão, do que os meus parecem aos homens, pelos encaminhar sempre à lembrança des- tes dois fins. Vos estis sal terrae. Haveis de saber, irmãos peixes, que o sal, filho do mar como vós, tem duas propriedades, as quais em vós mesmos se experimentam: conservar o são, e preservá-lo, para que se não corrompa. Estas mesmas propriedades tinham as pregações do vosso Pregador Santo António, como também as devem ter as de todos os Pregadores. Uma é louvar o bem, outra repreender o mal: louvar o bem para o conservar, e repreender o mal, para preservar dele1. Nem cuideis que isto pertence só aos homens, porque também nos peixes tem seu lugar. Assim o diz o grande Dou- tor da Igreja, São Basílio: Non carpere solum, reprehendereque possumus pisces, sed sunt in illis, et quae prosequenda sunt imitatione. «Não só há que notar», diz o Santo, «e que repreender nos peixes, senão também que imitar, e louvar». Quando Cristo compa- rou a Sua Igreja à rede de pescar, Sagenae missae in mare2 [Mt 13, 47], diz que os pesca- dores recolheram os peixes bons, e lançaram fora os maus: Collegerunt bonos in vasa, malos autem foras miserunt3 [Mt 13, 48]. E onde há bons, e maus, há que louvar, e que repreender. Suposto isto, para que procedamos com clareza, dividirei, peixes, o vos- so Sermão em dois pontos: no primeiro louvar-vos-ei as vossas virtudes, no segun- do repreender-vos-ei os vossos vícios. E desta maneira satisfaremos às obrigações do sal, que melhor vos está ouvi-las vivos, que experimentá-las depois de mortos. Começando pois pelos vossos louvores, irmãos peixes, bem vos pudera eu dizer que entre todas as criaturas viventes, e sensitivas, vós fostes as primei- ras, que Deus criou. A vós criou primeiro que as aves do ar, a vós primeiro que aos animais da terra, e a vós primeiro que ao mesmo homem. Ao homem deu Deus a monarquia, e o domínio de todos os animais dos três elementos, e nas provisões, em que o honrou com estes poderes, os primeiros nomeados foram os peixes: Ut praesit piscibus maris, et volatilibus caeli, et bestiis, universaeque ter- rae4 [Gn 1, 26]. Entre todos os animais do mundo, os peixes são os mais, e os pei- xes os maiores. Que comparação têm em número as espécies das aves, e as dos animais terrestres com as dos peixes? Que comparação na grandeza o Elefan- te com a Baleia? Por isso Moisés, Cronista da criação, calando os nomes de to- dos os animais, só a ela nomeou pelo seu: Creavit Deus cete grandia5 [Gn 1, 21]. E os três músicos da fornalha da Babilónia o cantaram também como singular entre todos: Benedicite cete, et omnia quae moventur in aquis Domino6 [Dn 3, 79]. Estes, e outros louvores, estas, e outras excelências de vossa geração, e grandeza vos pudera dizer, ó peixes; mas isto é lá para os homens, que se deixam levar destas vaidades, e é também para os lugares, em que tem lugar a adulação, e não para o púlpito. […] Padre António Vieira, «Sermão de Santo António», in Obra completa (dir. José Eduardo Franco e Pedro Calafate), tomo II, volume X, Lisboa, Circulo de Leitores, 2014, pp. 139-140 - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - - - 20 - - - - 25 - - - - 30 - - - - 35 - - - - 40 - Tobias Verhaecht, detalhe de A torre de Babel (c. 1600), Museu-Castelo e Galeria de Arte de Norwich, Reino Unido 1 defender-se dele 2 «Redes lançadas ao mar» 3 «Recolheram os bons em vasos, mas deitaram fora os maus.» 4 «Para que tenha poder sobre os peixes do mar, as aves do céu e os animais selvagens e a terra inteira.» 5 «Criou Deus as grandes baleias.» 6 «Bendizei o Senhor, baleias e tudo quanto se move nas águas.» 24 1 Padre António Vieira, «Sermão de Santo António» P R O F E S S O R Educação literária 1. O pregador vai começar por louvar os peixes, mostrando as suas virtudes; depois vai repreen- dê-los, denunciando os seus ví- cios ou pecados. 1.1 Ele segue este caminho por- que entre homens como entre os peixes há os bons e os maus: os primeiros devem ser louva- dos, os segundos censurados. 2. Fá-lo através da apóstrofe «ir- mãos peixes» (l. 8). 2.1 Esta apóstrofe contribui para a surpresa do auditório, fazendo- -o estar mais atento e mais próxi- mo do pregador. 3. Trata-se de uma relação de identidade: tanto nos homens como nos peixes se encontram motivos de censura e de louvor. 4. O pregador louva os peixes devido ao facto de terem sido criados por Deus antes de Ele ter criado outros seres vivos, in- cluindo o homem. Além disso, os peixes são o tipo de animal mais comum na Terra e entre eles se encontra o maior, a baleia. Compreensão do oral 1.1 a. a obediência, a ordem, a quie- tação e a atenção com que ou- vem a palavra de Deus; o respeito e a devoção que dedicaram aos pregadores b. perseguem Santo António, querendo lançá-lo ao mar; mos- tram-se furiosos e obstinados c. a apóstrofe «vós», a antítese «mar / terra» e a enumeração d. o tom de voz, a entoação, a ex- pressividade 2.1 Louvores gerais dos peixes 2.2 Expor as qualidades dos pei- xes 3.1 (A) 3.2 (B) Áudio «Sermão de Santo António», capítulo II (excerto) 1. Explicita a estrutura que o pregador vai dar ao sermão. 1.1 Apresenta a razão pela qual o pregador o estruturou desse modo. 2. Identifica o recurso expressivo através do qual o pregador se dirige ao seu público. 2.1 Menciona a sua função, justificando. 3. Esclarece a relação entre peixes e homens presente no segundo parágrafo. 4. Apresenta os vários louvores feitos pelo pregador aos peixes. Oralidade COMPREENSÃO DO ORAL Exposição sobre um tema Para convencer os habitantes do Maranhão a ouvirem a palavra de Deus, o Padre António Vieira segue alegoricamente o exemplo de Santo António, fingindo falar aos peixes, quando, de facto, prega aos homens. 1. Ouve o excerto áudio relativo à parte final do capítulo II do «Sermão de Santo António». 1.1 Toma notas no caderno sobre os seguintes tópicos: a. louvores aos peixes; b. comportamentos dos homens; c. recursos expressivos; d. recursos verbais e não verbais. 2. Escuta novamente o excerto. 2.1 Indica o tema dominante. 2.2 Refere a intenção comunicativa própria deste género textual. 3. Seleciona a opção que permite completar cada afirmação corretamente. 3.1 O Padre António Vieira refere as virtudes dos peixes. A sua primeira virtude – a obediência – é «confusão e afronta» para os homens porque (A) sendo irracionais, os peixes se comportam racionalmente, escutando a pregação de Santo António. (B) sendo racionais, os homens obedecem à doutrina pregada por Santo António. (C) sendo irracionais, os peixes se comportam irracionalmente, não ouvindo a pregação de Santo António. (D) sendo racionais, os homens não obedecemà doutrina pregada por Santo António. 3.2 Os peixes são louvados por não se domarem nem domesticarem. Eles merecem ser louvados porque (A) podem viver mais harmoniosamente com o homem pois este os protege. (B) podem viver livremente sem terem por perto o homem que os escraviza. (C) podem viver sem que a escravidão a que são submetidos os preocupe. (D) podem viver aceitando livremente o cativeiro do homem que os escraviza. «Sermão de Santo António», capítulo II (excerto) FAIXA 1 25 1Capítulo II | Crítica social e alegoria P R O F E S S O R Antes de ler 1. A sardinha nas festas de Lisboa de 2015 2. Possíveis relações de sentido: a sardinha enquanto peixe associa-se a Santo António como pregador; outras relações são possíveis. Link Festas de Lisboa (2015) Santo António, figura central do «Sermão de Santo António», é hoje associado a festividades de natureza popular nas quais o peixe possui um lugar central. 1. Vê o vídeo das sardinhas vencedoras do concurso «Sardinhas Festas de Lisboa ‘15», de Catarina Sobral, com música dos Deolinda, e identifica o tema tratado. 2. Tenta prever possíveis relações de sentido entre o conteúdo do vídeo e o excerto que vais ler do capítulo III, partindo do título. Educação literária Louvores aos peixes, em particular Capítulo III Passando dos [peixes] da Escritura aos da História natural1, quem haverá que não louve, e admire muito a virtude tão celebrada da Rémora2? No dia de um Santo Me- nor3, os peixes menores devem preferir4 aos outros. Quem haverá, digo, que não ad- mire a virtude daquele peixezinho tão pequeno no corpo, e tão grande na força, e no poder, que não sendo maior de um palmo, se se pega ao leme de uma Nau da Índia, apesar das velas, e dos ventos, e de seu próprio peso, e grandeza, a prende, e amarra mais, que as mesmas5 âncoras, sem se poder mover, nem ir por diante? Oh se houvera uma Rémora na terra, que tivesse tanta força como a do mar, que menos perigos have- ria na vida, e que menos naufrágios no mundo! Se alguma Rémora houve na terra, foi a língua de Santo António, na qual como na Rémora se verifica o verso de São Gregó- rio Nazianzeno: Lingua quidem parva est, sed viribus omnia vincit6. O Apóstolo Santiago naquela sua eloquentíssima Epístola compara a língua ao leme da Nau, e ao freio do cavalo. Uma, e outra comparação juntas declaram maravilhosamente a virtude da Ré- mora, a qual pegada ao leme da Nau é freio da Nau, e leme do leme. E tal foi a virtude, e força da língua de Santo António. O leme da natureza humana é o alvedrio7, o Piloto é a razão: mas quão poucas vezes obedecem à razão os ímpetos precipitados do al- vedrio? Neste leme porém tão desobediente, e rebelde mostrou a língua de António quanta força tinha, como Rémora, para domar, e parar a fúria das paixões humanas. Quantos correndo Fortuna na Nau soberba com as velas inchadas do vento, e da mes- ma soberba (que também é vento) se iam desfazer nos baixos8, que já rebentavam por proa, se a língua de António como Rémora não tivesse mão no leme, até que as velas se amainassem, como mandava a razão, e cessasse a tempestade de fora, e a de den- tro? Quantos embarcados na Nau Vingança com a artilharia abocada9, e os bota-fogos acesos10, corriam enfunados11 a dar-se batalha, onde se queimariam, ou deitariam a pi- que12, se a Rémora da língua de António lhes não detivesse a fúria, até que composta a ira, e ódio, com bandeiras de paz se salvassem amigavelmente? Quantos navegando na Nau Cobiça sobrecarregada até às gáveas13, e aberta com o peso por todas as costuras14, - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - - - 20 - - - - 25 - - 1 aos da natureza; 2 pequeno peixe, de forma achatada, que tinha a capacidade de, aderindo ao timão de um navio, o impedir de avançar; 3 é um santo da Or- dem Franciscana, canonicamen- te designada Ordem dos Frades Menores; 4 ser preferidos, ter precedência em relação a; 5 as próprias; 6 «A língua é pequena, mas em força tudo vence»; 7 li- vre arbítrio, vontade de cada um; 8 baixios, isto é, bancos de areia ou rochedos cobertos por escas- sa quantidade de água do mar, perigosos para a navegação; 9 artilharia pronta para disparar; 10 morrões acesos, isto é, peda- ços de corda que se acendiam numa das extremidades para comunicar fogo às peças de ar- tilharia; 11 impelidos pelo vento, isto é, com as velas inchadas pelo vento, com grande velocidade; 12 iriam ao fundo; 13 tipo de vela; 14 junção de tábuas contíguas no casco de embarcação Antes de ler Vídeo promocional «Sardinhas Festas de Lisboa ‘15», de Catarina Sobral (2015) 26 1 Padre António Vieira, «Sermão de Santo António» P R O F E S S O R O11 1.1, 1.4 (Antes de ler) EL11 14.1, 14.2, 14.3, 14.4, 14.12; 15.1, 15.2 G10 18.1 G11 17.1 EL11 Objetivos da eloquência (docere, delectare, movere) Crítica social e alegoria Linguagem, estilo e estrutura – o discurso figurativo: a alegoria, a comparação e a metáfora G10 / G11 1. Retoma (em revisão) dos conteú- dos estudados no 10º ano: a frase complexa – subordinação. Nota O excerto relativo ao Santo Peixe de Tobias é apresentado e explorado nas páginas 54 e 55, no teste de avaliação de conhecimentos. 15 excessiva, irracional; 16 ne- voeiro forte; 17 Cila e Caríbdis – rochedos famosos, na Antigui- dade, por provocarem naufrá- gios, no Mediterrâneo; 18 Neste parágrafo alegórico, cada nau corresponde a um vício verbera- do pela língua-rémora do prega- dor; 19 peixe elétrico, conhecido como tremelga; o seu nome latino, torpedo, deve-se ao en- torpecimento que provoca o seu choque incapaz de fugir, nem se defender, dariam nas mãos dos Corsários com per- da do que levavam, e do que iam buscar, se a língua de António os não fi- zesse parar, como Rémora, até que aliviados da carga injusta15, escapassem do perigo, e tomassem porto? Quantos na Nau Sensualidade, que sempre navega com cerração16, sem Sol de dia, nem Estrela de noite, enganados do canto das Sereias, e deixando-se levar da corrente, se iriam perder ce- gamente, ou em Cila, ou em Caríbdis17, onde não aparecesse Navio, nem navegante, se a Rémora da língua de António os não contivesse, até que esclarecesse a luz, e se pusessem em via. Esta é a língua, peixes, do vosso grande Pregador, que também foi Rémora vossa, enquanto o ouvistes; e porque agora está muda (posto que ainda se conserva inteira) se veem, e choram na terra tantos naufrágios18. Mas para que da admiração de uma tão grande virtude vossa passemos ao louvor, ou inveja de outra não menor; admirável é igualmente a quali- dade daqueloutro peixezinho a que os Latinos chamaram Torpedo19. Am- bos estes peixes conhecemos cá mais de fama, que de vista; mas isto têm as virtudes grandes: que quanto são maiores, mais se escondem. Está o pescador com a cana na mão, o anzol no fundo e a boia sobre a água, e em lhe picando na isca o Torpe- do, começa a lhe tremer o braço. Pode haver maior, mais breve, e mais admirável efei- to? De maneira que num momento passa a virtude do peixezinho, da boca ao anzol, do anzol à linha, da linha à cana, e da cana ao braço do pescador. Com muita razão disse que este vosso louvor o havia de referir com inveja. Quem dera aos pescadores do nos- so elemento, ou quem lhes pusera esta qualidade tremente, em tudo o que pescam na terra! Muito pescam; mas não me espanto do muito: o que me espanta é que pesquem tanto, e que tremam tão pouco. Tanto pescar, e tão pouco tremer? Pudera-se fazer pro- blema: onde há mais pescadores, e mais modos, e traças de pescar, se no mar, ou na terra. E é certo que na terra. Não quero discorrer por eles, ainda que fora grande con- solação para os peixes: baste fazer a comparação com a cana, pois é o instrumento do nosso caso. No mar pescam as canas, na terra pescam as varas (e tanta sorte de varas), pescam as ginetas, pescam as bengalas, pescam os bastões, e até os cetros pescam, e pescam mais que todos, porque pescamCidades, e Reinos inteiros. Pois é possível que pescando os homens coisas de tanto peso lhes não trema a mão, e o braço? Se eu pre- gara aos homens, e tivera a língua de Santo António, eu os fizera tremer. Vinte e dois pescadores destes se acharam acaso a um Sermão de Santo António, e as palavras do Santo os fizeram tremer a todos de sorte, que todos tremendo se lançaram a seus pés, todos tremendo confessaram seus furtos, todos tremendo restituíram o que podiam (que isto é o que faz tremer mais neste pecado, que nos outros), todos enfim mudaram de vida, e de ofício, e se emendaram. Quero acabar este discurso dos louvores, e virtudes dos peixes com um, que não sei se foi ouvinte de Santo António, e aprendeu dele a pregar. A verdade é que me pregou a mim, e se eu fora outro, também me convertera. Navegando daqui para o Pará (que é bem não fiquem de fora os peixes da nossa costa), vi correr pela tona da água de quando em quando a saltos um cardume de peixinhos, que não conhecia; e como me dissessem que os Portugueses lhe chamavam «Quatro-olhos», quis averi- guar ocularmente a razão deste nome, e achei que verdadeiramente têm quatro olhos, - - 30 - - - - 35 - - - - 40 - - - - 45 - - - - 50 - - - - 55 - - - - 60 - - - - 65 - - - - 70 - - Andrea Sacchi, Alegoria da sabedoria divina (1629-33), fresco, Galeria Borghese, Roma, Itália 27 1Capítulo III | Objetivos da eloquência (docere, delectare, movere) | Crítica social e alegoria P R O F E S S O R Educação literária 1. A rémora é um peixe digno de admiração porque, sendo um peixe muito pequeno, tem imen- sa força. 1.1 Trata-se de uma relação de identidade: o pregador identi- fica a rémora com a língua do santo, entendendo-se a língua, por associação, como o seu pre- gar. Tanto a rémora como a lín- gua são de pequena dimensão, e, apesar disso, têm muita força. 2.1 É através de uma sucessão de quatro metáforas de nature- za marítima – a «nau Soberba», a «nau Vingança», a «nau Cobi- ça» e a «nau Sensualidade» – naus que correspondem à de- núncia de quatro pecados per- sonificados – que o pregador atinge criticamente a sociedade. A primeira «nau» apresenta-se, significativamente, com as «ve- las inchadas», modo poético de sugerir o pecado mortal da so- berba; a segunda, pronta para a vingança, simbolicamente com os canhões preparados para disparar; a terceira, «sobrecar- regada», como é normal nos ga- nanciosos; finalmente, a quarta, que representa o pecado mortal da luxúria, é a nau cujo engano está metaforicamente sugerido pelo facto de navegar sempre «com cerração», no meio de for- te nevoeiro. São assim critica- dos – através desta alegoria das quatro naus – aqueles que co- metem os pecados da soberba, da vingança , da cobiça e da lu- xúria, contra os quais pregou Santo António. em tudo cabais, e perfeitos. «Dá graças a Deus», lhe disse, «e louva a liberalidade de Sua divina Providência para contigo; pois às Águias, que são os linces do ar, deu somente dois olhos, e aos Linces, que são as águias da terra, também dois; e a ti, peixe- zinho, quatro». Mais me admirei ainda considerando nesta maravilha a circunstância do lugar. Tantos instrumentos de vista a um bichinho do mar nas praias daquelas mes- mas terras vastíssimas, onde permite Deus que estejam vivendo em cegueira tantos milhares de gentes, há tantos séculos? Oh quão altas, e incompreensíveis são as razões de Deus, e quão profundo o abismo de Seus juízos! Filosofando pois sobre a causa natural desta Providência, notei que aqueles quatro olhos estão lançados um pouco fora do lugar ordinário, e cada par deles unidos como dois vidros de um relógio de areia, em tal forma, que os da parte superior olham direi- tamente para cima, e os da parte inferior direitamente para baixo. E a razão desta nova arquitetura é: porque estes peixezinhos, que sempre andam na superfície da água, não só são perseguidos dos outros peixes maiores do mar, senão também de grande quantidade de aves marítimas, que vivem naquelas praias; e como têm inimigos no mar, e inimigos no ar, dobrou-lhes a Natureza as sentinelas, e deu-lhes dois olhos, que direitamente olhassem para cima, para se vigiarem das aves, e outros dois, que direi- tamente olhassem para baixo, para se vigiarem dos peixes. Oh que bem informara es- tes quatro olhos uma Alma racional, e que bem empregada fora neles, melhor que em muitos homens! Esta é a pregação, que me fez aquele peixezinho, ensinando-me que se tenho Fé, e uso de razão, só devo olhar direitamente para cima, e só direitamente para baixo: para cima, considerando que há Céu, e para baixo, lembrando-me que há Inferno. Não me alegou para isso passo da Escritura; mas então me ensinou o que quis dizer Davi em um, que eu não entendia: Averte oculos meos, ne videant vanitatem [Sl 118, 37]. «Voltai-me, Senhor, os olhos, para que não vejam a vaidade.» Pois Davi não po- dia voltar os seus olhos para onde quisesse? Do modo que ele queria, não. Ele queria voltados os seus olhos de modo, que não vissem a vaidade, e isto não o podia fazer neste mundo, para qualquer parte que voltasse os olhos, porque neste mundo tudo é vaidade: Vanitas vanitatum, et omnia vanitas20 [Ecl 1, 2]. Logo para não verem os olhos de Davi a vaidade, havia-lhos de voltar Deus de modo, que só vissem, e olhassem para o outro mundo em ambos seus hemisférios: ou para o de cima, olhando direitamente só para o Céu, ou para o de baixo, olhando direitamente só para o Inferno. E esta é a mercê, que pedia a Deus aquele grande Profeta, e esta a doutrina, que me pregou aque- le peixezinho tão pequeno. […] Deitou-vos Deus a bênção, que crescêsseis, e multiplicásseis; e para que o Senhor vos confirme essa bênção, lembrai-vos de não faltar aos pobres com o seu remédio. Entendei que no sustento dos pobres tendes seguros os vossos aumentos. Tomai o exemplo nas irmãs sardinhas. Porque cuidais que as multiplica o Criador em número tão inumerável? Porque são sustento de pobres. Os Solhos, e os Salmões são muito contados, porque servem à mesa dos Reis, e dos Poderosos; mas o peixe, que sustenta a fome dos pobres de Cristo, o mesmo Cristo o multiplica, e aumenta. Aqueles dois peixes companheiros dos cinco pães do Deserto multiplicaram tanto, que deram de comer a cinco mil homens21. Pois se peixes mortos, que sustentam pobres, multipli- cam tanto, quanto mais, e melhor o farão os vivos. Crescei, peixes, crescei, e multipli- cai, e Deus vos confirme a Sua bênção. Padre António Vieira, «Sermão de Santo António», in Obra completa (dir. José Eduardo Franco e Pedro Calafate), tomo II, volume X, Lisboa, Circulo de Leitores, 2014, pp. 145-149 - - 75 - - - - 80 - - - - 85 - - - - 90 - - - - 95 - - - - 100 - - - - 105 - - - - 110 - - - - 115 - - 20 «Vaidade das vaidades. Tudo é vaidade.» 21 Todos os Evangelhos narram o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes com que Jesus alimentou a multidão. 28 1 Padre António Vieira, «Sermão de Santo António» P R O F E S S O R 3. O torpedo é um peixe que pro- voca uma espécie de descargas elétricas em quem lhe toca: ao ser pescado, essas descargas podem atingir o pescador, fa- zendo-o tremer. O pregador lou- va este peixe porque o considera metáfora dos pregadores que conseguem agir fortemente so- bre o auditório, fazendo-o tre- mer – temer a Deus. 4. A analogia entre o torpedo e Santo António reside no facto de, em dada pregação, também Santo António ter conseguido fazer tremer «vinte e dois» pe- cadores, conseguindo que se emendassem. 5.1 Este peixe provocou admi- ração no Padre António Vieira, pois ao observá-lo com atenção verificou que ele tinha quatro olhos dispostos de tal modo que lhe permitiam uma visão muito alargada, podendo ver simulta- neamente «para cima» e «para baixo». 6. Na teologia cristã, o alto é o lugar do Paraíso; o baixo,o do Inferno. O Padre António Vieira associou a capacidade dos «pei- xinhos» para ver nos dois sen- tidos com a necessidade de o cristão refletir continuamente no seu destino depois da mor- te, lembrando-se do Céu e do In- ferno, e agindo no sentido de não cair na condenação eterna. 7.1 Trata-se de um momento do sermão cuja função é principal- mente ensinar, pois, através do exemplo das «irmãs sardinhas», o pregador procura inculcar no auditório a necessidade de aju- dar os pobres. Gramática 1. a. oração subordinada adver- bial final b. oração subordinada substan- tiva completiva c. oração subordinada adjetiva relativa explicativa d. oração subordinada adverbial consecutiva e. oração subordinada adjetiva relativa explicativa Rémora 1. Refere os motivos pelos quais, segundo o pregador, a rémora é um peixe digno de admiração. 1.1 Esclarece a relação que o pregador estabelece entre a rémora e Santo António. 2. O pregador combate ou denuncia vários pecados ou vícios da sociedade através de uma sucessão de metáforas que constituem uma alegoria, cuja função é a crítica social. 2.1 Comprova a veracidade desta afirmação com os elementos textuais adequados. Torpedo 3. Refere os motivos pelos quais o torpedo é digno de louvor para o pregador. 4. Explicita a analogia que o pregador faz entre o torpedo e Santo António. Quatro-olhos 5. Observador da Natureza, o Padre António Vieira confessa ter ficado fascinado com este peixe. 5.1 Refere as características físicas do peixe que provocaram esse sentimento no pregador. 6. Explica de que modo o Padre António Vieira faz uma leitura pessoal destas caracte- rísticas, no sentido de ensinar e converter o seu auditório. 7. Atenta no último parágrafo deste excerto do capítulo III. 7.1 Sabendo que a eloquência barroca tinha como objetivos docere (ensinar), delec- tare (encantar) e movere (persuadir), apresenta, justificadamente, uma opinião sobre a função deste momento do sermão. Na tua resposta, deves explicitar a função da referência ao «exemplo» das «irmãs sardinhas». Gramática 1. Classifica as seguintes orações subordinadas retiradas do texto. a. «[…] para se vigiarem das aves […]» (l. 89); b. «[…] que no sustento dos pobres tendes seguros os vossos aumentos.» (l. 109); c. «[…], que sustenta a fome dos pobres de Cristo, […]» (ll. 112-113); d. «[…] que deram de comer a cinco mil homens.» (ll. 114-115); e. «[…] que sustentam pobres, […]» (l. 115). Caderno de Atividades Ficha nº 6: Coordenação e subordinação p. 18 Anexo Informativo Subordinação pp. 369-371 29 1Capítulo III | Objetivos da eloquência (docere, delectare, movere) | Crítica social e alegoria P R O F E S S O R Antes de ler 1. O cartoon apresenta duas fi- guras masculinas, uma abraçan- do sobranceiramente a outra, que apresenta o ar de quem aceita resignado uma amizade imposta. O sorriso forçado do primeiro e o sorriso tímido do se- gundo reforçam a convicção de que se trata de uma amizade em que o mais forte se aproveita do mais fraco – como metaforica- mente ilustra a desproporção do tamanho dos peixes que ambos empunham. 2. Vários títulos são possíveis: «A lei do mais forte»; «Amizades perigosas»; «Os grandes engo- lem os pequenos», «Tão amigos que nós somos…», etc. 3. O cartoon relaciona-se com a expressão destacada, na me- dida em que ela mostra a fome insaciável dos mais fortes, que apenas se satisfazem com a ex- ploração de muitos pequenos. L11 7.2, 7.6 (Antes de ler) ; 7.1, 7.4, 7.5 (Ficha de apoio nº 2) EL11 14.1, 14.2, 14.3, 14.11, 14.12; 15.1, 15.2 G11 18.1 EL11 Crítica social e alegoria Intenção persuasiva e exemplari- dade Linguagem, estilo e estrutura – o discurso figurativo: a alegoria, a comparação, a metáfora – outros recursos expressivos: a anáfora G11 Texto e textualidade b) coesão textual: – lexical: reiteração e substituição; – gramatical: referencial (uso ana- fórico de pronomes, frásica (con- cordância), interfrásica (uso de conectores), temporal (expressões adverbiais ou preposicionais com valor temporal, ordenação corre- lativa dos tempos verbais) 1. Descreve as duas figuras mascu- linas do cartoon, estabelecendo um paralelismo entre elas e os cartazes que ambas empunham. 2. Apresenta um título para o car- toon que ilustre as relações en- tre os cartazes. 3. Infere relações de sentido entre o cartoon e o excerto destacado a cor no capítulo IV seguinte. Educação literária Repreensões aos peixes, em geral Capítulo IV Antes porém que vos vades, assim como ouvistes os vossos louvores, ouvi também agora as vossas repreensões. Servir-vos-ão de confusão, já que não seja de emenda. A primeira coisa, que me desedifica1, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este; mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era me- nos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pe- quenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. Olhai como estranha isto Santo Agostinho: Homines pravis, praeversisque cupiditatibus facti sunt veluti pisces invicem se devorantes. «Os homens com suas más, e perversas cobiças vêm a ser como os peixes, que se comem uns aos outros». Tão alheia coisa é, não só da razão, mas da mesma natureza, que sendo todos criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria, e todos finalmente irmãos, vi- vais de vos comer. Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealda- de deste escândalo, mostrou-lho nos peixes; e eu que prego aos peixes, para que vejais quão feio, e abominável é, quero que o vejais nos homens. Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não; não é isso o que vos digo. Vós virais os olhos para os matos, e para o Sertão? Para cá, para cá; para a Cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os Tapuias2 se comem uns aos outros; muito maior açougue3 é o de cá, muito mais se comem os brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças, e cruzar as ruas; vedes aquele subir, e descer as calçadas, vedes aquele entrar, e sair sem quietação, nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão de comer, e como se hão de comer. - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - - - 20 - - Vocabulário 1 indigna 2 ameríndios do Maranhão 3 talho Antes de ler Michael Kountouris, sem título (2015), in jornal Shedia, Grécia Cartoon vencedor, na categoria desenho de humor, do World Press Cartoon, Cascais (2015) 30 1 Padre António Vieira, «Sermão de Santo António» Morreu algum deles, vereis logo tantos sobre o miserável a despedaçá-lo, e comê- -lo. Comem-no os herdeiros, comem-no os testamenteiros, comem-no os legatários, comem-no os acredores; comem-no os oficiais dos órfãos, e os dos defuntos, e ausen- tes; come-o o Médico, que o curou, ou ajudou a morrer, come-o o sangrador, que lhe tirou o sangue4, come-o a mesma mulher5, que de má vontade lhe dá para a mortalha o lençol mais velho da casa, come-o o que lhe abre a cova, o que lhe tange os sinos, e os que cantando o levam a enterrar: enfim, ainda ao pobre defunto o não comeu a terra, e já o tem comido toda a terra. Já se os homens se comeram somente depois de mortos, parece que era menos horror, e menos matéria de sentimento. Mas para que conheçais a que chega a vossa crueldade, considerai, peixes, que também os homens se comem vivos assim como vós. Vivo estava Jó, quando dizia: Quare persequimini me, et carnibus meis saturamini?6 [Jó 19, 22]. «Porque me perseguis tão desumanamente, vós, que me estais comendo vivo, e fartando-vos da minha carne?» Quereis ver um Jó destes? Vede um homem desses, que andam perseguidos de pleitos7, ou acusados de crimes, e olhai quantos o estão comendo. Come-o o Meirinho, come-o o Carcereiro, come-o o Escri- vão, come-o o Solicitador, come-oo Advogado, come-o o Inquiridor, come-o a Teste- munha, come-o o Julgador, e ainda não está sentenciado, já está comido. São piores os homens que os corvos. O triste que foi à forca, não o comem os corvos senão depois de executado, e morto; e o que anda em juízo ainda não está executado, nem sentenciado, e já está comido. E para que vejais como estes comidos na terra são os pequenos, e pelos mesmos modos, com que vós comeis no mar, ouvi a Deus queixando-Se deste pecado: Nonne cognoscent omnes, qui operantur iniquitatem, qui devorant plebem meam, ut cibum panis?8 [Sl 13, 4]. «Cuidais», diz Deus, «que não há de vir tempo, em que conheçam, e paguem o seu merecido aqueles que cometem a maldade?» E que maldade é esta, à qual Deus singularmente chama «a maldade», como se não houvera outra no mundo? E quem são aqueles que a cometem? A maldade é comerem-se os homens uns aos outros, e os que a cometem são os maiores, que comem os pequenos: Qui devorant plebem meam, ut cibum panis. Nestas palavras, pelo que vos toca, importa, peixes, que advirtais9 muito outras tantas coisas, quantas são as mesmas palavras. Diz Deus que comem os homens não só o Seu povo, senão declaradamente a Sua plebe: Plebem meam, porque a plebe, e os plebeus, que são os mais pequenos, os que menos podem, e os que menos avultam na República10, estes são os comidos. E não só diz que os comem de qualquer modo, senão que os engolem, e os devoram: Qui devorant. Porque os grandes, que têm o mando das Cidades, e das Províncias, não se contenta a sua fome de comer os pequenos um por um, ou poucos a poucos, senão que devoram, e engolem os povos inteiros: Qui devo- rant plebem meam. E de que modo os devoram, e comem? Ut cibum panis: não como os outros comeres, senão como pão. A diferença que há entre o pão, e os outros come- res é que para a carne, há dias de carne, e para o peixe, dias de peixe, e para as frutas, diferentes meses no ano; porém o pão é comer de todos os dias, que sempre, e conti- nuadamente se come: e isto é o que padecem os pequenos. São o pão quotidiano dos grandes; e assim como o pão se come com tudo, assim com tudo, e em tudo são comi- dos os miseráveis pequenos, não tendo, nem fazendo ofício, em que os não carreguem, em que os não multem, em que os não defraudem, em que os não comam, traguem, e devorem: Qui devorant plebem meam, ut cibum panis. Parece-vos bem isto, peixes? - - 25 - - - - 30 - - - - 35 - - - - 40 - - - - 45 - - - - 50 - - - - 55 - - - - 60 - - - - 65 - - Vocabulário 4 Na medicina antiga, sangrar consistia em retirar ao paciente grande quantidade de sangue considerado infetado, para diminuir a infeção. O especialista nessa prática terapêutica era o sangrador. 5 a própria mulher 6 «Porque me perseguis e vos satisfazeis com minha carne?» 7 processos em tribunal 8«Acaso não terão conhecimento todos quantos cometem a maldade e devoram o meu povo como um pedaço de pão?» 9 tenhais em atenção 10 No tempo de Vieira, o termo «República» designa o Estado e não qualquer forma de regime político. Guido Reni, O arcanjo Miguel derrotando Satanás (1636), Santa Maria da Conceição, Roma, Itália 31 1Capítulo IV | Crítica social e alegoria | Intenção persuasiva e exemplaridade Jan Moreelse, detalhe de Narciso (c. 1620), coleção privada, Londres, Inglaterra Representa-se-me11 que com o movimento das cabeças estais todos di- zendo que não; e com olhardes uns para os outros, vos estais admirando, e pasmando de que entre os homens haja tal injustiça, e maldade! Pois isto mesmo é o que vós fazeis. Os maiores comeis os pequenos: e os muito gran- des não só os comem um por um, senão os cardumes inteiros; e isto conti- nuamente sem diferença de tempos, não só de dia, senão também de noite, às claras, e às escuras, como também fazem os homens. […] Outra coisa muito geral, que não tanto me desedifica, quanto me lastima em muitos de vós, é aquela tão notável ignorância, e cegueira, que em to- das as viagens experimentam os que navegam para estas partes. Toma um homem do mar um anzol, ata-lhe um pedaço de pano cortado, e aberto em duas, ou três pontas, lança-o por um cabo delgado até tocar na água, e em o vendo o peixe, arremete cego a ele, e fica preso, e boqueando12 até que assim suspenso no ar, ou lançado no convés, acaba de morrer. Pode haver maior ignorância, e mais rematada cegueira que esta? Enganados por um retalho de pano, perder a vida? Dir-me-eis que o mesmo fazem os homens. Não vo-lo nego. Dá um exército batalha contra outro exército, metem-se os homens pelas pontas dos piques, dos chuços13, e das espadas, e porquê? Porque houve quem os engodou14, e lhes fez isca com dois retalhos de pano. A vaidade entre os vícios é o pescador mais astuto, e que mais facilmente engana os homens. E que faz a vaidade? Põe por isca na ponta desses piques, desses chuços, e dessas espadas dois retalhos de pano, ou branco, que se chama Hábito de Malta, ou verde, que se chama de Avis, ou vermelho, que se chama de Cristo, e de Santiago15; e os homens por chegarem a passar esse retalho de pano ao peito não reparam em tragar, e engolir o ferro. E depois disso que sucede? O mesmo que a vós. O que engoliu o ferro, ou ali, ou noutra ocasião ficou morto; e os mes- mos retalhos de pano tornaram outra vez ao anzol para pescar outros. Por este exemplo vos concedo, peixes, que os homens fazem o mesmo que vós, posto que me parece que não foi este o fundamento da vossa resposta, ou escusa, porque cá no Maranhão, ainda que se derrame tanto sangue, não há exércitos, nem esta ambição de Hábitos. Mas nem por isso vos negarei que também cá se deixam pescar os homens pelo mesmo engano, menos honrada, e mais ignoradamente. Quem pesca as vidas a todos os homens do Maranhão, e com quê? Um homem do mar com uns retalhos de pano. Vem um Mestre de Navio de Portugal com quatro varreduras das lojas, com quatro pa- nos, e quatro sedas, que já se lhes passou a era, e não têm gasto: e que faz? Isca com aqueles trapos aos moradores da nossa terra; dá-lhes uma sacadela16, e dá-lhes outra, com que cada vez lhes sobe mais o preço; e os Bonitos, ou os que o querem parecer, todos esfaimados aos trapos, e ali ficam engasgados, e presos, com dívidas de um ano para outro ano, e de uma safra para outra safra, e lá vai a vida. Isto não é encarecimento. Todos a trabalhar toda a vida, ou na roça17, ou na cana, ou no engenho18, ou no taba- cal: e este trabalho de toda a vida, quem o leva? Não o levam os coches, nem as liteiras, nem os cavalos, nem os escudeiros, nem os pajens, nem os lacaios, nem as tapeçarias, nem as pinturas, nem as baixelas, nem as joias; pois em que se vai, e despende toda a vida? No triste farrapo com que saem à rua, e para isso se matam todo o ano. - - - - 95 - - - - 100 - - - - 105 - - - - 110 - - - 70 - - - - 75 - - - - 80 - - - - 85 - - - - 90 Vocabulário 11 quer-me parecer 12 arquejando, abrindo e fechando a boca para respirar – com dificuldade 13 «dos piques, dos chuços» – espécies de lanças 14 enganou atraindo com um engodo 15 Vieira enuncia as diversas cores que distinguiam as insígnias e os hábitos das ordens militares: Ordem de Malta, de Avis, de Cristo e de Santiago. Assim como os peixes se deixam enganar pelo anzol escondido debaixo do pano, assim os homens são seduzidos pelo hábito de uma ordem militar e seus privilégios. Ambos têm o mesmo destino: engolem a morte. 16 ato de retirar rapidamente da água o peixe que mordeu o anzol 17 propriedade agrícola 18 «na cana, ou no engenho» – referência à cultura da cana-de- -açúcar e à produção do açúcar nos engenhos 32 1 Padre António Vieira, «Sermão de Santo António» P R O F E S S O R Educação literária 1. A sociedade é criticada pois apresenta como característica essencial a exploração do ho- mem pelo seu semelhante; esta exploração caracteriza-sepelo facto de os mais poderosos ex- plorarem os mais fracos. 2. O verbo comer – usado me- taforicamente para sugerir a exploração do homem pelo ho- mem – ocorre, numa sucessão anafórica («comem-no» / «co- me-o»), repetindo-se muitas vezes. Esta reiteração da metá- fora, associada à anáfora, é mui- to expressiva, pois traduz bem a ideia que o pregador quer trans- mitir: os homens prejudicam-se uns aos outros na ânsia de ga- nhar a vida. 3.1 O habitante do Maranhão deixa-se vencer pela vaidade quando adquire roupas ou teci- dos vindos de Portugal, por ve- zes já fora de moda, mas caros: endivida-se por mera vaidade. 3.2 Santo António é o exemplo perfeito contra a vaidade no ves- tir: sendo rico, vestindo-se bem, ao converter-se, ao mudar de vi- da chamado por Deus, alterou a indumentária, passando a ves- tir-se pobremente. Gramática 1. Todos os pronomes têm o mesmo antecedente: «o miserá- vel» (l. 23). 1.1 (B) 2.1 O verbo comeu, em «ain- da o não comeu a terra», signi- fica que ainda o cadáver não foi consumido pela terra, enten- dendo-se esta palavra – terra – no sentido denotativo, isto é, a terra onde o corpo foi sepulta- do e onde desaparecerá. Quan- to à segunda parte da frase, a expressão «o tem comido», sig- nifica «o tem explorado», «tem tirado dele proveito» – toda a terra: aqui a palavra terra, por associação metonímica, no sen- tido conotativo, significa as pes- soas que habitam na terra, na localidade, e que lucram com a morte de alguém. Não é isto, meus peixes, grande loucura dos homens com que vos escusais? Claro está que sim; nem vós o podeis negar. Pois se é grande loucura esperdiçar19 a vida por dois retalhos de pano quem tem obrigação de se vestir; vós, a quem Deus vestiu do pé até à cabeça, ou de peles de tão vistosas, e apropriadas cores, ou de escamas prateadas, e douradas, vestidos que nunca se rompem, nem gastam com o tempo, nem se variam, ou podem variar com as modas; não é maior ignorância, e maior cegueira deixares-vos enganar, ou deixares-vos tomar pelo beiço com duas tirinhas de pano? Vede o vosso Santo António, que pouco o pôde enganar o mundo com essas vaidades. Sendo moço, e nobre, deixou as galas, de que aquela idade tanto se preza, trocou-as por uma loba de sarja20, e uma correia de Cónego Regrante; e depois que se viu assim vestido, pare- cendo-lhe que ainda era muito custosa aquela mortalha21, trocou a sarja pelo burel, e a correia pela corda. Com aquela corda, e com aquele pano pescou ele muitos, e só estes se não enganaram, e foram sisudos. Padre António Vieira, «Sermão de Santo António», in Obra completa (dir. José Eduardo Franco e Pedro Calafate), tomo II, volume X, Lisboa, Circulo de Leitores, 2014, pp. 149-155 1. Explicita a crítica geral que é feita à sociedade no seu todo (ll. 1-22). 2. Esclarece a expressividade da sucessão de metáforas concretizada nas várias for- mas do verbo comer (ll. 23-42). 3. O pregador pronuncia-se sobre determinado vício – ou pecado – típico do ser humano: a vaidade. 3.1 Apresenta o modo pelo qual o habitante do Maranhão se deixa vencer por este vício (ll. 101-118). 3.2 Explica a referência a Santo António feita no final deste excerto do capítulo IV. Gramática 1. Identifica, no texto em análise, o antecedente dos pronomes destacados no excerto seguinte: «[…] come-o a mesma mulher, que de má vontade lhe dá para a mortalha o lençol mais velho da casa, come-o o que lhe abre a cova, o que lhe tange os sinos, e os que cantando o levam a enterrar: enfim, ainda ao pobre defunto o não comeu a terra, e já o tem comido toda a terra.» (ll. 27-30) 1.1 Seleciona o tipo de coesão gramatical presente no excerto. (A) frásica (B) referencial (C) interfrásica (D) temporal 2. O verbo comer, nas diversas formas em que ocorre no texto, e o nome terra são par- ticularmente polissémicos nos contextos em que surgem. 2.1 Indica os significados que assumem na frase «[…] ainda ao pobre defunto o não comeu a terra, e já o tem comido toda a terra.» (ll. 29-30). - - - 115 - - - - 120 - - - - Vocabulário 19 desperdiçar 20 veste eclesiástica de sarja, tecido mais rico do que o burel 21 o hábito eclesiástico 33 1Capítulo IV | Crítica social e alegoria | Intenção persuasiva e exemplaridade Ficha de apoio nº 2 P R O F E S S O R Ficha de apoio nº 2 1. (C) Intenção persuasiva e exemplaridade Texto 1 Função dos exemplos no sermão barroco Nos sermões barrocos eram frequentes as referências a exemplos de vidas ou de comportamentos apresentados pelo pregador, com a intenção de edificar, ensinar ou con- vencer o auditório. No capítulo I do «Sermão de Santo António», perante um auditório hostil que o não quer ouvir, o Padre António Vieira imita o exemplo do Santo ao não desistir da doutri- na simulando uma pregação aos peixes. Conserva assim um auditório cujas virtudes gerais (a atenção e a obediên- cia) e particulares (as «virtudes interiores» do Santo Peixe Tobias, a perseverança da rémora, o tremor do torpedo) apresentará como exemplos, mais adiante, nos capítu- los II e III, para os comparar ao comportamento em tudo oposto dos homens, instando-os a mudarem de vida. A mesma técnica retórica será mantida nos capítulos IV e V ao apresentar os vícios gerais dos peixes (comem- -se uns aos outros; a ignorância e a cegueira) e particulares (a arrogância dos «roncadores», a adulação dos «pegado- res», a ambição desmedida dos «voadores» e a hipocrisia do «polvo»), como exemplos de comportamentos a reprovar nos homens. Estes exemplos servem de prova a toda uma argumentação orientada para a persua- são do auditório, que se fundamenta na autoridade da palavra de teólogos e Doutores da Igreja, na propriedade de diversas passagens bíblicas ou na irrefutabilidade da palavra do próprio Cristo e dos seus apóstolos, profusamente citada ao longo do sermão. (Texto dos autores) 1. Seleciona a opção que completa corretamente a frase. O Padre António Vieira serviu-se, no «Sermão de Santo António», de exemplos de peixes, com a intenção de (A) reprovar os seus vícios e louvar as suas virtudes. (B) os apresentar como exemplos aos homens. (C) convencer os homens a mudarem de vida. (D) contrastar os vícios e as virtudes dos peixes. - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - - - 20 - - - - Adriaen van Stalbemt, Alegoria do amor e da ignorância, da sabedoria e da aprendizagem (c. 1655), coleção privada, Londres, Inglaterra 34 1 Padre António Vieira, «Sermão de Santo António» P R O F E S S O R O11 1.1, 1.4, 1.5 (Antes de ler) L11 7.1, 7.4, 7.5 (Ficha de apoio nº 3) EL11 14.1, 14.2, 14.3, 14.4, 14.7 a) 14.11, 14.12; 15.1, 15.2, 15.3, 15.4, 15.5; 16.2 (Temas comuns) E11 10.1; 11.1; 12.1 a 12.4; 13.1 EL11 Crítica social e alegoria Linguagem, estilo e estrutura – outros recursos expressivos: a anáfora, a antítese, a apóstrofe, a enumeração, a gradação E11 Exposição sobre um tema: caráter demonstrativo, elucidação eviden- te do tema (fundamentação das ideias), concisão e objetividade, valor expressivo das formas linguísticas (deíticos, conectores) Antes de ler 1. Ezequiel Valadas comprou a si mesmo um terreno de 6 m2 por um preço exorbitante, para aí edificar uma cabine telefónica. O autarca pretende demolir também o hospital para lá cons- truir mais um estádio de futebol. Pretende ainda alcatifar a vi- la toda, por um preço especial, uma vez que o seu filho possui uma loja de alcatifas. Esta se- rá limpa por um produto de que a mulher é a representante no nosso país. Como o chefe da po- lícia é seu sobrinho, estas situa- ções não serão denunciadas. Os intervenientes são o presidente da câmara, a mulher, o filho e o sobrinho. Sugestão didática Como objetivo de leitura, os alu- nos poderão ser levados a inferir possíveis relações com o vídeo: a arrogância – a vaidade e a hi- pocrisia do autarca podem re- lacionar-secom os defeitos dos peixes. Link Ezequiel Valadas, Gato Fedorento O Padre António Vieira denunciou com vigor a corrupção que grassava entre os colonos por- tugueses do Maranhão. Hoje, o fenómeno não só persiste como tem florescido nas mais diversas camadas sociais. Anota as situações de corrupção satirizadas na rubrica humorística Diz que é uma espécie de magazine I, dos Gato Fedorento, concretamente no episódio «Ezequiel Valadas – Presidente de Vila Nova de Rabona», referindo os intervenientes. Educação literária Repreensões aos peixes, em particular Capítulo V Descendo ao particular, direi agora, peixes, o que tenho contra alguns de vós. E come- çando aqui pela nossa costa: no mesmo dia, em que cheguei a ela, ouvindo os Roncadores, e vendo o seu tamanho, tanto me moveram a riso, como a ira. É possível que sendo vós uns peixinhos tão pequenos haveis de ser as roncas do mar? Se com uma linha de coser, e um alfinete torcido vos pode pescar um aleijado, porque haveis de roncar tanto? Mas por isso mesmo roncais. Dizei-me, o Espadarte porque não ronca? Porque ordinariamente quem tem muita espada tem pouca língua. Isto não é regra geral; mas é regra geral que Deus não quer Roncadores, e que tem particular cuidado de abater, e humilhar aos que muito roncam. São Pedro, a quem muito bem conheceram vossos antepassados, tinha tão boa espada, que ele só avançou contra um exército inteiro de Soldados Romanos; e se Cristo lha não mandara meter na bainha, eu vos prometo que havia de cortar mais orelhas, que a de Malco1. Contudo que lhe sucedeu naquela mesma noite? Tinha roncado, e barbateado2 Pedro que se todos fraqueassem3 só ele havia de ser constante até morrer, se fosse necessário: e foi tanto pelo contrário, que só ele fraqueou mais que todos, e bastou a voz de uma mulherzinha para o fazer tremer, e negar. Antes disso já tinha fraqueado na mesma hora, em que prometeu tanto de si. Disse-lhe Cristo no Horto que vigiasse, e vindo daí a pouco a ver se o fazia, achou-o dormindo com tal descuido, que não só o acordou do sono, senão também do que tinha bra- sonado: Sic non potuisti una hora vigilare mecum?4 [Mc 14, 37]. «Vós, Pedro, sois o valente, que havíeis de morrer por mim, e não pudestes uma hora vigiar comigo?» Pouco há tanto roncar, e agora tanto dormir? Mas assim sucedeu. O muito roncar antes da ocasião é sinal de dormir nela. Pois que vos parece, irmãos Roncadores? Se isto sucedeu ao maior pescador, que pode acontecer ao menor peixe? Medi-vos, e logo vereis quão pouco fundamento tendes de bra- sonar, nem roncar. Se as Baleias roncaram, tinha mais desculpa a sua arrogância na sua grandeza. Mas ainda nas mesmas Baleias não seria essa arrogância segura. O que é a Baleia entre os peixes era o gigante Golias entre os homens. Se o Rio Jordão, e o mar de Tiberíades têm comunicação com o Oceano, - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - - - 20 - - - - 25 - Antes de ler «Ezequiel Valadas – presidente da câmara de Vila Nova de Rabona», in Diz que é uma espécie de Magazine, série I (2006), RTP 1 O servo do Sumo- -Sacerdote ao qual São Pedro decepou a orelha direita, em resistência à prisão de Jesus. 2 dito em voz alta 3 fraquejassem 4 «Não fostes capaz de vigiar comigo uma hora?» 35 Capítulo V | Crítica social e alegoria 1 como devem ter, pois dele manam todos; bem deveis de saber que este Gigante era a ron- ca dos Filisteus. Quarenta dias contínuos esteve armado no campo, desafiando a todos os arraiais de Israel, sem haver quem se lhe atrevesse: e no cabo que fim teve toda aquela arrogância? Bastou um pastorzinho com um cajado, e uma funda, para dar com ele em terra5. Os arrogantes, e soberbos tomam-se com Deus6; e quem se toma com Deus sem- pre fica debaixo. Assim que, amigos Roncadores, o verdadeiro conselho é calar, e imitar a Santo António. Duas cousas há nos homens, que os costumam fazer roncadores, porque ambas incham: o saber, e o poder. Caifás roncava de saber: Vos nescitis quidquam7 [Jo 11, 49]. Pilatos roncava de poder: Nescis quia potestatem habeo?8 [Jo 19, 10]. E ambos contra Cristo. Mas o fiel servo de Cristo, António, tendo tanto saber, como já vos disse, e tanto poder como vós mesmos experimentastes, ninguém houve jamais que o ouvisse falar em saber, ou poder, quanto mais brasonar disso. E porque tanto calou, por isso deu tamanho brado. Nesta viagem, de que fiz menção, e em todas as que passei a Linha Equinocial, vi debai- xo dela o que muitas vezes tinha visto, e notado nos homens, e me admirou que se hou- vesse estendido esta ronha, e pegado também aos peixes. Pegadores se chamam estes, de que agora falo, e com grande propriedade, porque sendo pequenos, não só se chegam a outros maiores, mas de tal sorte se lhes pegam aos costados9, que jamais os desaferram10. De alguns animais de menos força, e indústria11 se conta que vão seguindo de longe aos Leões na caça, para se sustentarem do que a eles sobeja. O mesmo fazem estes Pegadores, tão seguros ao perto, como aqueles ao longe; porque o peixe grande não pode dobrar a cabeça, nem voltar a boca sobre os que traz às costas, e assim lhes sustenta o peso, e mais a fome. Este modo de vida, mais astuto que generoso, se acaso se passou, e pegou de um elemento a outro, sem dúvida que o aprenderam os peixes do alto12 depois que os nossos Portugueses o navegaram; porque não parte Vizo-Rei, ou Governador para as Conquistas, que não vá rodeado de Pegadores, os quais se arrimam a eles13, para que cá lhes matem a fome, de que lá não tinham remédio. Os menos ignorantes, desenganados da experiência, despegam-se, e buscam a vida por outra via; mas os que se deixam estar pegados à mercê, e fortuna dos maiores, vem-lhes a suceder no fim o que aos Pegadores do mar. Rodeia a Nau o Tubarão nas calmarias da Linha com os seus Pegadores às costas, tão cerzidos com a pele14, que mais parecem remendos, ou manchas naturais, que os hóspe- des, ou companheiros. Lançam-lhe um anzol de cadeia com a ração de quatro Soldados, arremessa-se furiosamente à presa, engole tudo de um bocado, e fica preso. Corre meia companha15 a alá-lo16 acima, bate fortemente o convés com os últimos arrancos, enfim, morre o Tubarão, e morrem com ele os Pegadores. Parece-me que estou ouvindo a São Mateus, sem ser Apóstolo pescador, descrevendo isto mesmo na terra. Morto Herodes17, diz o Evangelista, apareceu o Anjo a José no Egito, e disse-lhe que já se podia tornar para a pátria, porque «eram mortos todos aqueles que queriam tirar a vida ao Menino»: Defuncti sunt enim qui quaerebant animam Pueri [Mt 2, 20]. Os que queriam tirar a vida a Cristo Menino eram Herodes, e todos os seus, toda a sua família, todos os seus aderentes, todos os que seguiam, e pendiam da sua fortuna. Pois é possível que todos estes morressem jun- tamente com Herodes? Sim: porque em morrendo o Tubarão, morrem também com ele os Pegadores: Defuncto Herode, defuncti sunt qui quaerebant animam Pueri. Eis aqui, peixe- zinhos ignorantes, e miseráveis, quão errado, e enganoso é este modo de vida, que esco- lhestes. Tomai exemplo nos homens, pois eles o não tomam em vós, nem seguem, como deveram, o de Santo António. - - - 30 - - - - 35 - - - - 40 - - - - 45 - - - - 50 - - - - 55 - - - - 60 - - - - 65 - - - - 70 - - Vocabulário 5 O gigante Golias, filisteu, foi derrotado em duelo pelo jovem Davi 6 medem-se com Deus, desafiam Deus 7 «Vós de nada entendeis»: Caifás: o Sumo-Sacerdote dos judeus no processo que conduzia Jesus à morte 8 «Não sabes que tenho poder?» Pilatos: Procurador romano da judeia que exerceu o papel de juiz 9 costas 10 largam 11 habilidade 12 do alto mar 13 «se arrimam a eles» – se apoiam neles 14 «cerzidos com a pele» – juntos à pele 15 tripulação 16 içá-lo 17 o rei Herodes (Magno) associado à história dos magos do Oriente e à matança dos inocentes Jan van Bylert, detalhe de Pilatos lavando suas mãos (c. 1640), MuseuNacional, País de Gales 36 1 Padre António Vieira, «Sermão de Santo António» Deus também tem os Seus Pegadores. Um destes era Davi, que dizia: Mihi autem adhaerere Deo bonum est18 [Sl 72, 28]. «Peguem-se outros aos grandes da terra, que eu só me quero pe- gar a Deus». Assim o fez também Santo António, e senão, olhai para o mesmo Santo, e vede como está pegado com Cristo, e Cristo com ele. Verdadeiramente se pode duvidar qual dos dois é ali o pegador: e parece que é Cristo; porque o menor é sempre o que se pega ao maior, e o Senhor fez-Se tão pequenino, para Se pegar a António. Mas António também se fez Menor, para se pegar mais a Deus. Daqui se segue que todos os que se pegam a Deus, que é imortal, seguros estão de morrer como os outros Pegadores. E tão seguros, que ainda no caso, em que Deus Se fez Homem, e morreu, só morreu para que não morressem todos os que se pegassem a Ele. Bem se viu nos que estavam já pegados, quando disse: Si ergo me quaeritis, sinite hos abire [Jo 18, 8]: «Se me buscais a mim, deixai ir a estes». E posto que deste modo só se podem pegar os homens, e vós, meus peixezinhos, não; ao menos devereis imitar aos outros animais do ar, e da terra, que quando se chegam aos grandes, e se amparam do seu poder, não se pegam de tal sorte, que morram juntamente com eles. Lá diz a Escritura daquela famosa árvore, em que era significado o grande Nabucodonosor, que todas as aves do Céu descansavam sobre seus ramos, e todos os animais da terra se recolhiam à sua sombra, e uns, e outros se sustentavam de seus frutos: mas também diz que tanto que foi cortada esta árvore as aves voaram, e os outros animais fugiram19. Chegai-vos embora aos grandes; mas não de tal maneira pegados, que vos mateis por eles, nem morrais com eles. Considerai, Pegadores vivos, como morreram os outros, que se pegaram àquele peixe grande, e porquê. O Tubarão morreu porque comeu, e eles morreram pelo que não comeram. Pode haver maior ignorância, que morrer pela fome, e boca alheia? Que morra o Tubarão, porque comeu, matou-o a sua gula; mas que morra o Pegador pelo que não comeu: é a maior desgraça, que se pode imaginar! Não cuidei que também nos peixes havia pecado original. Nós os homens fomos tão desgraciados, que outrem comeu, e nós o pagamos20. Toda a nossa morte teve princípio na gulodice de Adão, e Eva; e que hajamos de morrer pelo que outrem comeu, grande desgraça! Mas nós lavamo-nos desta desgraça com uma pouca de água, e vós não vos podeis lavar da vossa ignorância com quanta água tem o mar. Com os Voadores tenho também uma palavra, e não é pequena a queixa. Dizei-me, Voa- dores, não vos fez Deus para peixes? Pois porque vos meteis a ser aves? O mar fê-lo Deus para vós, e o ar para elas. Contentai-vos com o mar, e com nadar, e não queirais voar, pois sois peixes. Se acaso vos não conheceis, olhai para as vossas espinhas, e para as vossas es- camas, e conhecereis que não sois ave, senão peixe, e ainda entre os peixes não dos me- lhores. Dir-me-eis, Voador, que vos deu Deus maiores barbatanas, que aos outros do vosso tamanho. Pois porque tivestes maiores barbatanas, por isso haveis de fazer das barbatanas asas? Mas ainda mal porque tantas vezes vos desengana o vosso castigo. Quisestes ser me- lhor que os outros peixes, e por isso sois mais mofino21 que todos. Aos outros peixes do alto, mata-os o anzol, ou a fisga22; a vós sem fisga, nem anzol, mata-vos a vossa presunção, e o vosso capricho. Vai o navio navegando, e o Marinheiro dormindo, e o Voador toca na vela, ou na corda, e cai palpitando. Aos outros peixes mata-os a fome, e engana-os a isca; ao Voa- dor mata-o a vaidade de voar, e a sua isca é o vento. Quanto melhor lhe fora mergulhar por baixo da quilha23, e viver, que voar por cima das entenas24, e cair morto. Grande ambição é que sendo o mar tão imenso lhe não basta a um peixe tão pequeno todo o mar, e queira outro elemento mais largo. Mas vede, peixes, o castigo da ambição. O Voador fê-lo Deus peixe, e ele quis ser ave, e permite o mesmo Deus que tenha os perigos de ave, e mais os de peixe. Todas as velas para ele são redes como peixe, e todas as cordas, laços como ave. - - 75 - - - - 80 - - - - 85 - - - - 90 - - - - 95 - - - - 100 - - - - 105 - - - - 110 - - - - 115 - - - Juan Correa, detalhe de Adão e Eva expulsos do paraíso (c. 1690), Museu Nacional de Virreinato, México Vocabulário 18 «A minha felicidade é estar próximo de Deus.» 19 A árvore do sonho de Nabucodonosor, interpretado por Daniel, representa as ambições do homem; a sua destruição representa o poder de Deus, que humilha os soberbos pois só a Ele pertence a glória 20 referência ao pecado original, à maçã comida por Adão 21 infeliz 22 espécie de arpão 23 peça inferior da estrutura da embarcação 24 antenas, isto é, paus de grande dimensão com que se fazem mastros dos navios à vela 37 Capítulo V | Crítica social e alegoria 1 Vê, Voador, como correu pela posta25 o teu castigo. Pouco há nadavas vivo no mar com as barbatanas, e agora jazes em um convés amortalhado nas asas. Não contente com ser peixe, qui- seste ser ave, e já não és ave, nem peixe: nem voar poderás já, nem nadar. A Natureza deu-te a água, tu não quiseste senão o ar, e eu já te vejo posto ao fogo26. Peixes, contente-se cada um com o seu elemento. Se o Voador não quisera passar do segundo ao terceiro, não viera a parar no quarto. Bem seguro estava ele do fogo, quando nadava na água; mas porque quis ser borboleta das ondas, vieram-se-lhe a queimar as asas. À vista deste exemplo, Peixes, tomai todos na memória esta sentença27: quem quer mais do que lhe convém perde o que quer, e o que tem. Quem pode nadar, e quer voar, tempo virá em que não voe, nem nade. Ouvi o caso de um Voador da ter- ra. Simão Mago28, a quem a Arte Mágica, na qual era famosís- simo, deu o sobrenome, fingindo-se que ele era o verdadeiro Filho de Deus, sinalou29 o dia, em que nos olhos de toda Roma havia de subir ao Céu, e com efeito começou a voar mui alto; porém a oração de São Pedro, que se achava presente, voou mais depressa que ele, e caindo lá de cima o Mago, não quis Deus que morresse logo, senão que nos olhos também de to- dos quebrasse, como quebrou os pés. Não quero que repareis no castigo, senão no género dele. Que caia Simão, está muito bem caído; que morra, também estaria muito bem morto, que o seu atrevimento, e a sua arte diabólica o merecia. Mas que de uma queda tão alta não rebente, nem quebre a cabeça, ou os braços, senão os pés? Sim, diz São Máximo: porque quem tem pés para andar, e quer asas para voar, justo é que perca as asas, e mais os pés. Elegantemente o Santo Padre: Ut qui paulo ante volare tentaverat, subito ambulare non posset; et qui pennas assumpserat, plantas amitteret30. E Simão tem pés, e quer asas; pode andar, e quer voar; pois quebrem-se-lhe as asas para que não voe, e também os pés, para que não ande. Eis aqui, Voadores do mar, o que sucede aos da terra, para que cada um se contente com o seu elemento. Se o mar tomara exemplo nos rios, depois que Ícaro31 se afogou no Danúbio, não haveria tantos Ícaros no Oceano. Oh Alma de António, que só vós tivestes asas, e voastes sem perigo, porque soubestes voar para baixo, e não para cima! Já São João viu no Apocalipse aquela mulher, cujo ornato gastou todas as luzes ao Firmamento, e diz que lhe foram dadas duas grandes asas de Águia: Datae sunt mulieri alae duae Aquilae magnae32 [Ap 12, 14]. E para quê? Ut volaret in desertum. «Para voar ao deserto». Notável coisa, que não debalde lhe chamou o mesmo Profeta «grande ma- ravilha». Esta mulher estava no Céu: Signum magnum apparauit in Caelo, mulier amicta Sole33. Pois se a mulher estava no Céu, e o deserto na terra, como lhe dão asas para voar ao deserto? Porque há asas para subir, e asas para descer. As asas para subir são muito perigosas, as asas para descer, muito seguras: e tais foram as de Santo António. Deram-seà Alma de Santo Antó- nio duas asas de Águia, que foi aquela duplicada sabedoria natural, e sobrenatural tão subli- me, como sabemos. E ele que fez? Não estendeu as asas para subir, encolheu-as para descer: e tão encolhidas, que sendo a Arca do Testamento era reputado, como já vos disse, por Lei- go, e sem ciência. Voadores do mar (não falo com os da terra), imitai o vosso Santo Pregador. - - - 145 - - - - 150 - - - - 155 - - - - 160 - - - Vocabulário 25 chegou depressa 26 no Inferno 27 ditado popular 28 feiticeiro célebre na Samaria, que recebeu o batismo de Filipe e tentou depois obter dos Apóstolos, pelo dinheiro, a possibilidade de comunicar, como eles, o poder do Espírito Santo 29 marcou 30 «O que tinha tentado voar de repente deixa de andar; e o que se aparelhara de asas acaba perdendo os pés.» 31 o herói grego, filho de Dédalo, que tendo recebido do pai umas asas de cera para voar, e rejeitando os conselhos prudentes de que não voasse nem muito alto nem muito baixo, acabou por cair, quando, elevando- -se nos ares, o calor do sol derreteu as asas 32 «Foram dadas à mulher duas grandes asas de águia.» 33 «Apareceu no céu um grande sinal, uma mulher revestida de Sol.» - 120 - - - - 125 - - - - 130 - - - - 135 - - - - 140 - Francesco Allegrini, A queda de Ícaro (c. 1650), Museu Fitzwilliam, Universidade de Cambridge, Reino Unido 38 1 Padre António Vieira, «Sermão de Santo António» Vocabulário 34 deus do mar que apascentava os animais de Poseidon; podia metamorfosear-se em tudo o que quisesse Peter Paul Rubens, O triunfo de Judas Macabeu (1635), Museu de Arte Beaux, Nantes, França Se vos parece que as vossas barbatanas vos podem servir de asas, não as estendais para subir, porque vos não suceda encontrar com alguma vela, ou algum cos- tado; encolhei-as para descer, ide-vos meter no fundo em alguma cova; e se aí estiveres mais escondidos, es- tareis mais seguros. Mas já que estamos nas covas do mar, antes que saiamos delas, temos lá o irmão Polvo, contra o qual têm suas queixas, e grandes, não menos que São Ba- sílio, e Santo Ambrósio. O Polvo com aquele seu ca- pelo na cabeça parece um Monge, com aqueles seus raios estendidos, parece uma Estrela, com aquele não ter osso, nem espinha, parece a mesma brandu- ra, a mesma mansidão. E debaixo desta aparência tão modesta, ou desta hipocrisia tão santa, teste- munham constantemente os dois grandes Doutores da Igreja Latina, e Grega, que o dito Polvo é o maior traidor do mar. Consiste esta traição do Polvo primei- ramente em se vestir, ou pintar das mesmas cores de todas aquelas cores, a que está pegado. As cores, que no Camaleão são gala, no Polvo são malícia; as figu- ras, que em Proteu34 são fábula, no Polvo são verda- de, e artifício. Se está nos limos, faz-se verde; se está na areia, faz-se branco; se está no lodo, faz-se pardo; e se está em alguma pedra, como mais ordinariamente costuma estar, faz-se da cor da mesma pedra. E daqui que sucede? Sucede que outro peixe inocente da traição vai passando desacautelado, e o salteador, que está de emboscada dentro do seu próprio engano, lança-lhe os braços de repente, e fá-lo prisioneiro. Fizera mais Judas? Não fizera mais; porque nem fez tanto. Judas abraçou a Cristo, mas outros O prenderam: o Polvo é o que abraça, e mais o que prende. Judas com os braços fez o sinal, e o Polvo dos próprios braços faz as cordas. Judas é verdade que foi traidor, mas com lanternas diante: traçou a traição às escuras, mas executou-a muito às claras. O Polvo escurecendo-se a si tira a vista aos outros, e a primeira traição, e roubo, que faz, é à luz, para que não distinga as cores. Vê, Peixe aleivoso, e vil, qual é a tua maldade, pois Judas em tua comparação já é me- nos traidor. Oh que excesso tão afrontoso, e tão indigno de um elemento tão puro, tão claro, e tão cristalino como o da Água, espelho natural não só da terra, senão do mesmo Céu. Lá disse o Profeta por encarecimento que «nas nuvens do ar até a água é escura»: Tenebrosa aqua in nubibus aeris [Sl 17, 12]. E disse nomeadamente «nas nuvens do ar», para atribuir a escurida- de ao outro elemento, e não à água, a qual em seu próprio elemento sempre é clara, diáfana, e transparente, em que nada se pode ocultar, encobrir, nem dissimular. E que neste mes- mo elemento se crie, se conserve, e se exercite com tanto dano do bem público um mons- tro tão dissimulado, tão fingido, tão astuto, tão enganoso, e tão conhecidamente traidor? Vejo, Peixes, que pelo conhecimento, que tendes das terras, em que batem os vossos mares, me estais respondendo, e convindo, que também nelas há falsidades, enganos, fingimentos, embustes, ciladas, e muito maiores, e mais perniciosas traições. E sobre o mesmo sujeito, - 165 - - - - 170 - - - - 175 - - - - 180 - - - - 185 - - - - 190 - - - - 195 - - - - 200 - - - - 205 - - - 39 Capítulo V | Crítica social e alegoria 1 P R O F E S S O R Educação literária 1.1 Os peixes roncadores permi- tiram ao pregador criticar um tipo humano que se caracteri- zava pelo facto de pretender ser mais do que o que era, apesar de não ter especial estatuto social. Este peixe simboliza «[…] os ar- rogantes, e soberbos […]» (l. 31). 2. Os peixes pegadores são pei- xes que vivem à custa de outros, numa espécie de simbiose; o pregador usou-os para – meta- foricamente – se referir aque- les que viviam à custa de outros. 3. O pregador lembrou ao au- ditório que estes peixes pega- dores, quando lhes morria o protetor, isto é, o peixe de que dependiam, morriam também: o mesmo sucedia a quem vi- via sob a proteção de alguém – caindo o protetor, caía também o protegido. 4. As duas perguntas servem para definir desde logo a nature- za dos peixes voadores, os quais, pelas suas características, mais parecem aves do que peixes. Deste modo, a sua natureza é criticável, pois não se conten- tam com ser o que são, violando a lei divina. Por outro lado, esta sequência de interrogações lan- çadas do púlpito contribuíam por certo para aumentar a aten- ção do auditório. 5. As perguntas poderiam ser feitas a pessoas que, não ten- do possibilidades financeiras para isso, entram em despe- sas incomportáveis, arruinan- do-se através do crédito. Com estes comportamentos, estas pessoas pretendem usufruir de uma vida para a qual não têm capacidades. 6. Judas é, na cultura cristã, o exemplo máximo da traição, pois traiu Cristo; sendo o polvo «o maior traidor do mar», é na- tural que o pregador o associe a Judas. Por outro lado, esta com- paração entre o polvo e Judas serve para intensificar o caráter traidor do «peixe», uma vez que ele ultrapassou o paradigma da traição – Judas. 7. Trata-se do contraste entre o parecer e o ser: o polvo apresen- ta uma série de características físicas que apontam no sentido da «brandura» e da «mansidão»; contudo, na realidade, essa apa- rência não condiz com o seu comportamento, pois ele é «o maior traidor do mar». que defendeis, também podereis aplicar aos semelhantes outra propriedade muito própria; mas pois vós a calais, eu também a calo. Com grande confusão porém vos confesso tudo, e muito mais do que dizeis, pois o não posso negar. Mas ponde os olhos em António, vosso Pregador, e vereis nele o mais puro exemplar da candura, da sinceridade, e da verdade, onde nunca houve dolo, fingimento, ou engano. E sabei também que para haver tudo isto em cada um de nós, bastava antigamente ser Português, não era necessário ser Santo. Tenho acabado, Irmãos Peixes, os vossos louvores, e repreensões, e satisfeito, como vos prometi, às duas obrigações de sal, posto que do mar, e não da terra: Vos estis sal terrae. Só resta fazer-vos uma advertência muito necessária, para os que viveis nestes mares. Como eles são tão esparcelados35, e cheios de baixios, bem sabeis quese perdem, e dão à costa muitos navios, com que se enriquece o mar, e a terra se empobrece. Importa pois que advirtais que nesta mes- ma riqueza tendes um grande perigo, porque todos os que se aproveitam dos bens dos naufra- gantes ficam excomungados, e malditos. Esta pena de excomunhão, que é gravíssima, não se pôs a vós, senão aos homens; mas tem mostrado Deus por muitas vezes que quando os animais cometem materialmente o que é proibido por esta Lei também eles incorrem, por seu modo, nas penas dela, e no mesmo ponto começam a definhar, até que acabam miseravelmente. Mandou Cristo a São Pedro que fosse pescar, e que na boca do primeiro peixe, que tomasse, acharia uma moeda, com que pagar certo tributo. Se Pedro havia de tomar mais peixe que este, suposto que ele era o primeiro, do preço dele, e dos outros podia fazer o dinheiro, com que pagar aquele tributo, que era de uma só moeda de prata, e de pouco peso. Com que misté- rio manda logo o Senhor que se tire da boca deste peixe, e que seja ele o que morra primeiro, que os demais? Ora estai atentos. Os peixes não batem moeda36 no fundo do mar, nem têm contratos com os homens, donde lhes possa vir dinheiro: logo a moeda, que este peixe tinha engolido, era de algum navio, que fizera naufrágio naqueles mares. E quis mostrar o Senhor que as penas, que São Pedro, ou seus sucessores fulminam contra os homens, que tomam os bens dos naufragantes, também os peixes por seu modo as incorrem, morrendo primeiro que os outros, e com o mesmo dinheiro, que engoliram, atravessado na garganta. Oh que boa dou- trina era esta para a terra, se eu não pregara para o mar. Para os homens não há mais miserável morte, que morrer com o alheio atravessado na garganta; porque é pecado de que o mesmo São Pedro, e o mesmo Sumo Pontífice não pode absolver. E posto que os homens incorrem a morte eterna, de que não são capazes os peixes, eles contudo apressam a sua temporal, como neste caso, se materialmente, como tenho dito, se não abstêm dos bens dos naufragantes. Padre António Vieira, «Sermão de Santo António», in Obra completa (dir. José Eduardo Franco e Pedro Calafate), tomo II, volume X, Lisboa, Circulo de Leitores, 2014, pp. 156-164 Roncadores 1. Os peixes roncadores serviram ao pregador para censurar determinadas pessoas. 1.1 Apresenta comportamentos típicos dessas pessoas. Pegadores 2. Caracteriza as atitudes das pessoas metaforizadas nestes peixes. 3. Comprova que a relação entre os peixes pegadores e os peixes de que dependem pode ser funesta aos primeiros. - 210 - - - - 215 - - - - 220 - - - - 225 - - - - 230 - - - - 235 - - - - 240 35 perigosos 36 cunham moeda 40 1 Padre António Vieira, «Sermão de Santo António» P R O F E S S O R 7.1 O espanto do pregador pe- rante o «excesso» que é essen- cial ao polvo concretiza-se na interjeição «Oh» (l. 198) e no ad- vérbio «tão» associado aos adje- tivos «afrontoso, e […] indigno» (l. 198). 8. O pregador admoesta o au- ditório através da enumeração dos seus vícios: «[…] falsidades, enganos, fingimentos, embus- tes, ciladas, e muito maiores, e mais perniciosas traições.» (ll. 207-208). 9. Trata-se da «doutrina» de não cobiçar o alheio, de não ser ga- nancioso, de não querer o que é dos outros. O pecado da ganân- cia é muito grande e não tem ab- solvição. Temas comuns Sugestão didática O professor poderá sugerir aos alunos a planificação do tra- balho, sugerindo-lhes a relei- tura das secções do «Sermão de Santo António», nas quais o pregador apresenta os defeitos dos peixes/dos homens e a to- mada de notas. O mesmo pro- cedimento deverá ser seguido relativamente a Os Lusíadas (as estância em causa são forneci- das em documento PDF em 20 Aula Digital.) A tarefa pode ser desenvolvida no âmbito da escrita (texto expo- sitivo, que tenha entre 130 e 170 palavras), ou da oralidade (uma apresentação oral, com duração entre cinco e sete minutos). Cenário de resposta O «Sermão de Santo António» critica tipos humanos como os arrogantes e soberbos (ronca- dores), os parasitas (pegadores), os gananciosos (voadores), os traidores (o polvo). Os Lusíadas apresentam críticas aos que não sabem dar o justo valor ao Poeta que os canta, deste modo cons- tituindo maus exemplos para fu- turos poetas épicos (VII, 81 e 82), aos maus governantes e explo- radores do povo (VII, 85 e 86). Vídeo «Sermão de Santo António» e Os Lusíadas vistos por Professora Micaela Rámon Voadores 4. Explicita a função das duas primeiras perguntas que o pregador lançou ao seu audi- tório. 5. Apresenta, justificando, um tipo de pessoas da sociedade atual a quem as mesmas perguntas pudessem ser feitas. Polvo 6. Explicita a função da referência ao exemplo de Judas no contexto em que ocorre. 7. Explicita o contraste que está na base da argumentação do pregador. 7.1 Identifica os elementos textuais que comprovam o espanto do pregador perante o contraste que referiu. 8. Justifica a afirmação seguinte com elementos textuais pertinentes. A enumeração é um recurso expressivo utilizado para castigar o auditório nesta fase do sermão, lembrando-lhe um conjunto de defeitos ou pecados. Advertências finais 9. Explicita, justificando, a que «doutrina» se refere o pregador com a exclamação «Oh que boa doutrina era esta para a terra, se eu não pregara para o mar.». Escrita Exposição sobre um tema Escreve um texto de natureza expositiva, que tenha entre 130 e 170 palavras, no qual, com base na tua experiência de leitura, apresentes os diferentes motivos de crítica social presentes no «Sermão de Santo António». Segue as fases inerentes à produção de qualquer texto. Planificação: relê excertos significativos do «Sermão de Santo António» e toma notas sob a forma de tópicos; aponta algumas expressões ou frases que possas citar. Textualização: redige o texto, de forma estruturada, seguindo a planificação. Revisão: revê para aperfeiçoares o teu texto. Temas comuns É possível relacionar o «Sermão de Santo António», de Padre António Vieira, com Os Lusíadas, de Luís de Camões, nomeadamente com as estâncias finais dos cantos VII e VIII, mostrando que ambos os autores apontam defeitos aos portugueses e aler- tam para a necessidade de os corrigir. Desenvolve este tema, apresentando exemplos de defeitos criticados aos portu- gueses nas duas obras mencionadas. A B C 41 Capítulo V | Crítica social e alegoria 1 Ficha de apoio nº 3 Crítica social e alegoria Texto 1 «Sermão de Santo António»: a origem política [É num] contexto de acesas desavenças que Vieira utiliza o esquema alegórico dos peixes como meio de satirizar e caricaturar o poder dos brancos maranhenses. A génese política do sermão torna-se assim evidente, o que na época se revestia de inteira perti- nência, porquanto este género ocupava um lugar privilegiado na vida pública do século XVII, semelhante ao dos mass media dos nossos dias, gozando de uma liberdade de ex- pressão que autorizava a abordagem de questões políticas e sociais ao lado das questões morais e religiosas. O sermão barroco era, além de discurso sacro, espetáculo e não raro comício. Daí que nesta alegoria moral e política a retórica barroca da sedução (o delectare) se converta a par e passo numa retórica de persuasão (o movere) em que a voz anunciadora calcula sistematicamente os seus efeitos emocionais e éticos sobre a massa do auditório. Luís Adriano Carlos, «Prefácio» in Padre António Vieira, Sermão de Santo António aos peixes, Porto, Campo das Letras, 1997, pp. 12-14 (texto adaptado) Texto 2 «Sermão de Santo António»: o sagrado e o profano Ao ler os sermões «empenhados» de Vieira, o leitor moderno dificilmente deixará de ficar espantado, se não escandalizado, com a abundância neles encontrada de tantos assuntos políticos, sociais e até económicos, por sinal de forma muito concreta. É que vive numa sociedade secularizada1, na qual estes terrenos são consideradosautónomos, suscetíveis de serem influenciados só indiretamente pela religião. Vieira vivia em plena época sacral, em que tudo estava impregnado de religiosidade, tanto no setor coletivo como na vida particular. Claro está que sabia distinguir nitidamente o sacro do profano, mas uma distinção teórica é muito diferente de uma distinção prática. Na realidade, liga- va os dois terrenos entre si: as coisas temporais2 eram avaliadas como instrumentos de salvação eterna do homem. Até podemos dizer que Vieira, filho do Barroco peninsular, não raro confundia as duas coisas. O púlpito era, para ele como para muitos dos seus contemporâneos, uma tribuna pú- blica que gozava de liberdade quase inexistente em outros foros. Ali ele comentava com franqueza os grandes problemas da época, não hesitando em sugerir soluções concre- tas, e sempre à luz dos textos bíblicos habilmente interpretados. José van den Basselaar, António Vieira: o homem, a obra, as ideias, Lisboa, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1981, pp. 69-70 (texto adaptado) Vocabulário 1 regida por leis civis e não religiosas 2 materiais; mundanas - - - - 5 - - - - 10 - - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 42 1 Padre António Vieira, «Sermão de Santo António» P R O F E S S O R Ficha de apoio nº 3 1. a – 1, 3; b – 1, 2; c – 3 Texto 3 «Sermão de Santo António»: alegoria e humor O Sermão de Santo António aos peixes é, entre as obras de Vieira, uma peça extraordinária. O tema é a questão dos Ín- dios. A população maranhense andava levantada contra os jesuítas. Vieira estava de abalada para o reino a fim de pedir o auxílio do rei. Antes, porém, quis mostrar aos colonos as queixas que tinha contra eles. Fê-lo de modo singularíssimo: encobriu as censuras sob a forma de alegoria, e fingiu-se es- tar pregando aos peixes. Escolheu os peixes que melhor po- deriam simbolizar os vícios e fraquezas dos seus adversários: o roncador, o voador, o pegador, o polvo. Traça a esse respei- to pequenos quadros de história natural, cheios de pitores- co. Uma obra-prima de humorismo, que, sob aparência de brincadeira inocente, deveria tocar profundamente os seus adversários e os da causa da liberdade que defendia. Rodrigues Lapa, in Padre António Vieira, Sermão de Santo António aos Peixes e Carta a D. Afonso VI, Lisboa, 1961, p. 15 1. Associa as afirmações da coluna A ao(s) respetivo(s) texto(s), mencionados na coluna B. A B a. O «Sermão de Santo António» serviu ao Padre António Vieira para criticar os colo- nos que exploravam os índios. 1. Texto 1 – «Sermão de Santo António»: a origem política b. O sermão barroco não se cingia a assun- tos de natureza religiosa; abordava tam- bém temas profanos. 2. Texto 2 – «Sermão de Santo António»: o sagrado e o profano c. Concretizando um discurso alegórico, o «Sermão de Santo António» caracteriza- -se também pelo humor. 3. Texto 3 – «Sermão de Santo António»: alegoria e humor - - - - 5 - - - - 10 - - - - Júlio Pomar, Santo António a pregar aos peixes (1984-85), Coleção Millenium, Sintra Museu de Arte Moderna, Portugal 43 Ficha de apoio nº 3 Crítica social e alegoria 1 P R O F E S S O R Ficha de apoio nº 3 2. (D) Crítica social e alegoria no «Sermão de Santo António» vistas por… 1. a., b. e e. V c. F (Os vários peixes come- çam por ser apresentados na realidade dos seus defeitos – denotativamente; depois são apresentados conotativamente, pois representam defeitos ou ví- cios humanos.) f. F (Além deste objetivo tam- bém teve os de encantar (delec- tare) e persuadir (movere). EL11 Objetivos da eloquência (docere, delectare, movere) Linguagem, estilo e estrutura – o discurso figurativo: a alegoria, a comparação, a metáfora – outros recursos expressivos: a anáfora, a antítese, a apóstrofe, a enumeração, a gradação O11 (EO) Apreciação crítica (de filme): des- crição sucinta do objeto, acompa- nhada de comentário crítico O11 (CO) Discurso político L11 Discurso político: caráter persua- sivo, informação seletiva, capaci- dade de expor e argumentar (coe- rência e validade dos argumentos, contra-argumentos e provas), di- mensão ética e social, eloquência (valor expressivo dos recursos mo- bilizados) E11 Exposição sobre um tema: caráter demonstrativo, elucidação eviden- te do tema (fundamentação das ideias), concisão e objetividade, va- lor expressivo das formas linguís- ticas (deíticos, conectores) Vídeo Crítica social e alegoria no «Sermão de Santo António» vistas por… Texto 4 Forma e função da alegoria no «Sermão de Santo António» Recurso expressivo que procura representar um conceito ou uma abstração através de uma sucessão de comparações ou metáforas, a alegoria tem como principal função tornar concretas e rapidamente apreensíveis ideias abstratas. No «Sermão de Santo António», a alegoria pode ser perspetivada de duas formas. A. Num sentido particular: o polvo é o «peixe» que, alegoricamente, representa os conceitos de hipocrisia e de traição. Através de uma sucessão de comparações concreti- zam-se, tornam-se visíveis, ambos os conceitos: «com aquele seu capelo na cabeça, pa- rece um monge; com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela; com aquele não ter osso nem espinha, parece a mesma [a própria] brandura e a mesma mansidão.» Estas características e principalmente a propriedade de mudar de cor consoante o ambiente que o rodeia são os equivalentes no plano físico da hipocrisia e do disfarce de que se serve a traição – que é a ideia abstrata representada pelo polvo. B. Num sentido geral: todo o «Sermão de Santo António» é uma grande alegoria reli- giosa, moral, ética e política da sociedade do Maranhão no século XVII. O polvo é alego- ria da traição, o peixe roncador da soberba, o peixe voador da ganância, o peixe pegador dos parasitas, na nau Cobiça, «sobrecarregada», alegoriza-se a ganância… A alegoria é a estratégia através da qual se concretiza a crítica social, permitindo ver tipos humanos alegorizados de várias formas. Síntese elaborada com base em Maria Vitalina Leal de Matos, «Alegoria», in Jacinto do Prado Coelho (dir.), Dicionário de literatura, volume 1, Porto, Figueirinhas, 1987, p. 30 2. Seleciona a opção que permite obter uma afirmação correta. A função da alegoria no «Sermão de Santo António» é (A) descrever os vícios ou pecados dos homens. (B) construir uma série de comparações ou metáforas. (C) representar os vícios ou pecados dos homens. (D) criticar os vícios ou pecados dos homens. - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - - Vê o curto vídeo de uma entrevista inédita feita à Professora Micaela Rámon, especialista no estudo da obra do Padre António Vieira. 1. Identifica as afirmações verdadeiras (V) e as falsas (F). Corrige as afirmações falsas. a. O Padre António Vieira concretiza a crítica social através da alegoria. b. A alegoria apresenta conceitos abstratos por meio da referência a reali- dades concretas. c. Os vários peixes são apresentados exclusivamente como exemplos de vícios e de defeitos dos seres humanos. d. O Padre António Vieira, no «Sermão de Santo António», criticou indireta- mente os seres humanos. e. O único objetivo do Padre António Viera neste sermão foi ensinar (docere). Fotograma da entrevista inédita realizada na Fundação Eça de Queirós, em Tormes, Edições ASA (2016) 44 1 Padre António Vieira, «Sermão de Santo António» Isaak van Oosten, A criação de Adão e Eva (c. 1650), coleção privada, Londres, Inglaterra P R O F E S S O R Educação literária 1. O pregador inveja os peixes por serem isentos de razão e vi- verem pelo instinto: deste modo não podem ofender a Deus. 2. Este momento do sermão apresenta como função princi- pal docere, ensinar a necessi- dade de louvar a Deus que tudo criou, tudo deu ao Homem, aqui substituído pelos peixes. Contu- do, muito próximo dessa função estará a de delectare, encantar – através da anáfora «Louvai a Deus»– a expressão que se repe- te, com justificação, dez vezes. E ainda a de movere – conven- cer, persuadir –, através das jus- tificações referidas. EL11 14.1, 14.2, 14.3, 14.4, 14.7 a) 14.11, 14.12; 15.1, 15.2, 15.3, 15.5 L11 7.1, 7.4 [Ficha de apoio nº 4], 7.5, 7.6, [Antes de ler], 7.7 O11 1.1, 1.2, 1.4, 1.5, 1.6, 1.7; 2.1; 3.1, 3.2; 4.1 a 4.4; 5.1 a 5.4; 6.1 a 6.3 E11 10.1; 11.1; 12.1 a 12.6; 13.1 Educação literária Despedida e conselhos aos peixes Capítulo VI Com esta última advertência vos despido, ou me despido de vós, meus Peixes. […] Ah Peixes, quantas invejas vos tenho a essa natural irregu- laridade! Quanto melhor me fora não tomar a Deus nas mãos, que tomá-Lo tão indignamente! Em tudo o que vos excedo, peixes, vos reconheço muitas vantagens. A vossa bruteza é melhor que a minha razão, e o vosso instinto melhor que o meu alvedrio. Eu falo, mas vós não ofendeis a Deus com as palavras; eu lembro-me, mas vós não ofendeis a Deus com a memória; eu discorro, mas vós não ofendeis a Deus com o entendimento; eu quero, mas vós não ofendeis a Deus com a vontade. Vós fostes criados por Deus, para servir ao homem, e conseguis o fim para que fostes criados: a mim criou-me para O servir a Ele, e eu não consigo o fim para que me criou. Vós não haveis de ver a Deus, e podereis aparecer diante Dele muito confiadamente, porque O não ofendestes; eu espero que O hei de ver; mas com que rosto hei de aparecer diante do Seu divino acatamento, se não cesso de O ofender? Ah que quase estou por dizer que me fora melhor ser como vós, pois de um homem, que tinha as mesmas obrigações, disse a suma Verdade que melhor lhe fora não nascer, ou não nascer homem: Si natus non fuisset homo ille1. E pois os que nascemos homens respondemos tão mal às obrigações de nosso nascimento, contentai-vos, Peixes, e dai muitas graças a Deus pelo vosso. Benedicite cete, et omnia, quae moventur in aquis Domino2. Louvai, Peixes, a Deus, os grandes, e os pequenos, e repartidos em dois coros tão inumeráveis, louvai-O todos uniformemente. Louvai a Deus, porque vos criou em tanto número. Louvai a Deus, que vos distinguiu em tantas espécies; louvai a Deus, que vos vestiu de tanta varieda- de, e formosura; louvai a Deus, que vos habilitou de todos os instrumentos necessários para a vida; louvai a Deus, que vos deu um elemento tão largo, e tão puro; louvai a Deus, que vindo a este Mundo viveu entre vós, e chamou para Si aqueles, que convosco, e de vós viviam; louvai a Deus, que vos sustenta, louvai a Deus, que vos conserva, louvai a Deus, que vos multiplica; louvai a Deus, enfim, servindo, e sustentando ao homem, que é o fim para que vos criou; e assim como no princípio vos deu Sua bênção, vo-la dê também agora. Amen. Como não sois capazes de Glória, nem de Graça, não acaba o vosso Sermão em Graça, e Glória. Padre António Vieira, «Sermão de Santo António», in Obra completa (dir. José Eduardo Franco e Pedro Calafate), tomo II, volume X, Lisboa, Circulo de Leitores, 2014, pp. 164-165 1. Explicita os motivos da inveja do pregador relativamente aos peixes. 2. Sabendo que a eloquência barroca tinha como objetivos docere (ensinar), delectare (encantar) e movere (persuadir, convencer), apresenta, justificadamente, uma opi- nião sobre a função deste momento do sermão. - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - - - 20 - - - - 25 - - - - 30 - - 1 Cristo referia-se a Judas: «[Melhor fora] se esse homem não tivesse nascido.» 2 «Bendizei o Senhor, baleias e tudo quanto se move nas águas.» 45 1Capítulo VI | Objetivos da eloquência (docere, delectare, movere) Ficha de apoio nº 4 P R O F E S S O R Ficha de apoio nº 4 1. a. V b. F (O seu auditório era variado e eram muitas as pessoas que acorriam para o escutar; daí se concluiu que havia interesse ge- ral pelo conteúdo dos seus ser- mões.) c. V Linguagem e estilo Texto 1 O estilo do «imperador da língua portuguesa» O Padre António Vieira foi porventura o mais alto expoente do chamado «estilo en- genhoso» do barroco português. Com ele a prosa portuguesa ganhou a sua perfeita ma- turidade, como havia acontecido para a poesia com Camões, um século antes. Para tal contribuíram as seguintes características estilísticas: propriedade vocabular; precisão; clareza; harmonia expressiva; sentido do ritmo; construção hábil e geométrica de frases e parágrafos; grande frequência de verbos dinâmicos (dinamismo); uso de metáforas, ima- gens, hipérboles, hipérbatos, etc.; grande importância dada à palavra do ponto de vista fónico, gráfico, sintático, se- mântico – e aos «jogos de palavras», à maneira bem típica do Barroco. Amélia Pinto Pais, História da literatura em Portugal, volume 1, Porto, Areal Editores, 2004, p. 213 (texto adaptado) Texto 2 Linguagem e discurso figurativo Numa linguagem simples, sedutora, suscetível de cativar os seus ouvintes por mais rudes que fossem, o pregador, cuja mensagem não é escutada (é sal que não salga), con- vida os homens a deixar o sermão e dirige-se aos peixes, louvando-lhes as virtudes e os privilégios com que o criador os beneficiou e apontando a cada um deles os graves defei- tos morais que exibem, a começar pelo simples facto de os maiores devorarem os mais pequenos, mas lembrando-lhes que os homens, dos quais se devem sempre afastar, fa- zem o mesmo. Nessa época do ano a marinhagem das naus aumentava consideravel- mente a população da cidade em muitas centenas de pessoas que, antes de se fazerem ao mar, não deixavam de encomendar a Deus e aos santos da sua devoção o destino dos seus corpos e a salvação das suas almas. O auditório era certamente variado e o pequeno templo não devia conter todos os fiéis que queriam ouvir o sermão de um padre por de- mais conhecido pelas suas tomadas de posição e polémicas com as autoridades. António de Abreu Freire, Ação e palavra – vida e obra do Padre António Vieira, Porto, Edições Afrontamento, 2010, p. 110 1. Indica as afirmações verdadeiras (V) e a afirmação falsa (F), relativamente aos tex- tos 1 e 2. Corrige a afirmação falsa. a. O Padre António Vieira adequava a sua linguagem ao público que o ouvia. b. As temáticas dos sermões do Padre António Vieira revelavam-se desinteres- santes para o público em geral. c. O discurso figurativo do «Sermão de Santo António» radica no facto de o pregador se dirigir aos peixes e não aos homens. - - - - 5 - - - - 10 - - - - 5 - - - - 10 - - 46 1 Padre António Vieira, «Sermão de Santo António» Linguagem e estilo Recursos expressivos Exemplos O discurso figurativo Alegoria No capítulo V, a sequência de peixes com seus defeitos, cada um metaforizando um tipo humano, constitui uma visão alegórica da sociedade do Maranhão. Comparação No capítulo V, a sequência de comparações relativa ao polvo, através do verbo parecer («parece»), é uma técnica que permite visualizar o animal. Metáfora O sermão inicia-se com a conhecida metáfora dos prega- dores – «o sal da terra». Esta metáfora de abertura per- mite ao pregador entrar no tema da «corrupção», dada a função do sal – produto muito mais importante na época do que hoje para preservar os alimentos. Deste modo, a metáfora e a sua explicação terão contribuído para avivar o interesse do auditório. Outros recursos expressivos Anáfora Presente também no início do Sermão, a anáfora está, como todos os outros recursos aqui referidos, dissemi- nada ao longo dele. Anáforas como «Ou é porque» / «ou é porque» (capítulo I) ou «vedes» / «vedes» (capítulo IV) constituem para o pregador um instrumento de análise de determinadas realidades. Antítese Antíteses como «tão pequeno no corpo e tão grande na força e no poder» (capítulo III) ou «traçou a traição às es- curas, mas executou-a muito às claras» (capítulo V) con- tribuíam certamente – como o investimento do pregador na generalidade dos recursos – para intensificar no audi- tório o deleitee a emoção. Apóstrofe Muito presente no Sermão, através dela o pregador diri- ge-se diretamente ao seu público, provocando o reforço da atenção deste, interessando-o, aproximando-o: «co- meçando pois pelos vossos louvores, irmãos peixes […]» (capítulo I). Enumeração No capítulo IV, ocorre um exemplo da utilização des- te recurso, associado à metáfora e à anáfora, pelo qual a sátira aos maranhenses atinge um ponto culminante, denunciando uma sociedade virada para a ganância até na morte: «Comem-no os herdeiros, comem-no os testa- menteiros, comem-no os legatários, comem-no os acre- dores; comem-no…». Gradação Associada frequentemente à enumeração, a gradação ocorre em frases como «Estes e outros louvores, estas e outras excelências» (capítulo II) ou «de um elemento tão puro, tão claro e tão cristalino como a água» (capítulo V). É um dos recursos expressivos que mais contribui para provocar admiração no auditório. Discurso figurativo e outros recursos expressivos 47 Ficha de apoio nº 4 Linguagem e estilo 1 P R O F E S S O R Expressão oral Vídeo Selma – a marcha da liberdade Apresentação Cenário de resposta: apreciação crítica (Selma – a marcha da liberdade) Oralidade EXPRESSÃO ORAL O filme da realizadora Ava DuVernay, intitulado Selma – a marcha da liberdade, cuja ação decorre na década de 60, nos Es- tados Unidos, tem como pano de fundo a luta pelos direitos civis dos negros, vítimas de todo o tipo de discriminação com base na cor da pele. Uma luta que não difere substancial- mente da travada pelo Padre António Vieira, no século XVII, em defesa dos índios brasileiros. Apresenta, num discurso com duração entre dois e quatro minutos, uma aprecia- ção crítica deste filme, de acordo com a estrutura apresentada abaixo e seguindo os tópicos do plano que elaborares previamente. Introdução Enquadramento do filme na temática tratada, relacionando-o com outros que ver- sem a defesa das minorias. Desenvolvimento Descrição objetiva do filme (atores principais, realizador, ano de realização, guar- da-roupa…); Comentário crítico – confronto entre os poderes instituídos e Martin Luther King; a consciência da luta por uma causa; a marcha vitoriosa. Conclusão Recomendação ou não do filme e indicação dos respetivos motivos. Na tua apresentação, utiliza adequadamente recursos verbais e não verbais: tom de voz, entoação, articulação, ritmo, expressividade e postura. Selma – a marcha da liberdade, de Ava DuVernay (2015) Apreciação crítica Anexo Informativo Géneros textuais Apreciação crítica p. 380 1 Padre António Vieira, «Sermão de Santo António» 48 Tenho um sonho Martin Luther King Lincoln Memorial, Washington D. C., Estados Unidos da América. 28 de agosto de 1963 Estou muito feliz por me juntar a vós naquela que virá a ser conhecida como a maior manifestação pela liberdade na história do nosso país. Há cem anos, um grande americano, sob cuja sombra simbólica nos encontramos, as- sinou a Proclamação da Emancipação. Esse decreto fundamental foi como a luz de um farol de esperança para milhões de escravos negros que tinham sido marcados a ferro pe- las chamas de uma injustiça vergonhosa. Veio como uma aurora feliz para pôr fim à longa noite do seu cativeiro. Contudo, cem anos depois, o Negro ainda não é livre. Cem anos depois, a vida do Ne- gro é ainda lamentavelmente restringida pelas algemas da segregação e pelos grilhões da discriminação. Cem anos depois, o Negro continua a viver numa ilha isolada de pobreza no meio de um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos depois, o Negro ainda definha nas margens da sociedade americana, exilado na sua própria terra. E por isso vie- mos aqui hoje para chamar a atenção para esta condição vergonhosa. De certo modo, viemos à capital do nosso país levantar um cheque. Quando os arqui- tetos da nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e da Declara- ção da Independência, estavam a assinar uma nota promissória de que cada americano se tornaria herdeiro. Esta nota era uma promessa de que todos os homens, sim, os negros como os brancos, teriam garantidos os «direitos inalienáveis» «à vida, à liberdade e à bus- ca da felicidade». Hoje, é evidente que a América ainda não pagou esta promissória, pelo menos no que diz respeito aos seus cidadãos de cor. Em vez de honrar este compromisso sagrado, a América deu ao Negro um cheque sem cobertura; um cheque que foi devolvido com a inscrição «saldo insuficiente». No entanto recusamo-nos a aceitar a ideia de que o banco da justiça esteja falido. Re- cusamo-nos a acreditar que não exista dinheiro suficiente nos grandes cofres de oportu- nidades deste país. Por isso viemos aqui cobrar este cheque, um cheque que nos dará as riquezas da liberdade e a segurança da justiça. - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - - - 20 - - - - 25 - Leitura Discurso político Antes da marcha de Selma, Martin Luhter King notabilizara-se já ao pronunciar um dos mais famosos discursos políticos de sempre contra o racismo e a discrimina- ção – que viria a ter forte influência na promoção da igualdade entre todos os norte- -americanos. 49 1Apreciação crítica e discurso político Martin Luther King, in http:// kindakind.com/mlkquotes/ (consultado em 08.02.2016) P R O F E S S O R Leitura 1. O negro americano, em 1963, apesar de tudo o que foi conse- guido nesse âmbito, continua a não ver os seus direitos cabal- mente reconhecidos. 2. O argumento da segregação «algemas da segregação» (l. 9) e o argumento da discrimina- ção «grilhões da discriminação» (ll. 9-10). 3. O discurso aborda a situação dos negros americanos em 1963, centrado na ideia de que, ape- sar dos avanços feitos na sua si- tuação, eles continuam sem ver cumprida a igualdade em rela- ção aos brancos. 4. A dimensão ética e social do discurso deriva do facto de valo- rizar e defender um princípio de igualdade racial para todos os cidadãos norte-americanos. 5. A metáfora surge em «gri- lhões da discriminação» (ll. 9-10) ou em «a América ainda não pa- gou esta promissória,» (l. 19); a anáfora é visível em «Agora não é […]», «Agora é […]» (ll. 28-33). Viemos também a este lugar santificado para lembrar à América da urgência feroz do Ago- ra. Agora não é o momento de nos darmos ao luxo de deixar as coisas arrefecer ou para tomar o calmante do progresso gradual. Agora é o momento de tornar mais reais as promessas da democracia. Agora é o momento de sairmos do vale obscuro e desolado da segregação e de nos erguermos em direção ao caminho solarengo da justiça social. Agora é o momento de elevarmos o nosso país das areias movediças da injustiça social para o terreno firme da fra- ternidade. Agora é o momento de fazer da justiça uma realidade para todos os filhos de Deus. Seria fatal para a nação não prestar atenção à importância deste momento. Este verão su- focante do legítimo descontentamento do Negro não passará até que chegue o outono revi- gorante de liberdade e igualdade. 1963 não é o fim, mas o começo. E aqueles que esperavam que o Negro precisava apenas de desabafar e que a partir de agora iria ficar sossegado vão acordar sobressaltados se o país regressar à velha maneira de fazer as coisas. E não haverá descanso nem tranquilidade na América enquanto o Negro não tiver garantido os seus direi- tos de cidadania. Os turbilhões da revolta continuarão a sacudir os alicerces do nosso país até que desponte o dia luminoso da justiça. Mas há uma coisa que devo dizer ao meu povo, que se encontra no caloroso limiar que conduz ao palácio da justiça: ao conquistar o nosso legítimo lugar, não façamos o mal. Não tentemos satisfazer a sede de liberdade bebendo da taça da amargura e do ódio. Teremos sempre de travar a nossa luta ao nível mais elevado da dignidade e da disciplina. Não pode- mos deixar que o nosso protesto construtivo degenere na violência física. Teremos de nos ergueruma e outra vez às alturas majestosas para defrontar a força física com a força da cons- ciência. Esta maravilhosa nova militância que envolveu a comunidade negra não nos deve levar a desconfiar de todas as pessoas brancas, pois muitos dos nossos irmãos brancos, como a sua presença que hoje torna claro, estão conscientes de que os seus destinos estão ligados ao nosso destino. E perceberam que a sua liberdade está indissociavelmente ligada à nossa liberdade. Não podemos caminhar sozinhos. À medida que caminharmos, devemos comprometer-nos a continuar sempre a andar. Não podemos andar para trás. Chris Abbott, 21 discursos que mudaram o mundo, Lisboa, Editora Bertrand, 2011, pp. 51-52 (texto adaptado) - - - 30 - - - - 35 - - - - 40 - - - - 45 - - - - 50 - - - - 55 - 1. Explicita o assunto do discurso de Martin Luther King. 2. Identifica, no mínimo, dois argumentos que comprovem a posição do orador relativamente aos negros americanos. 3. Indica qual o contra-argumento de que se serve o orador para acentuar a injustiça da situa- ção desses negros. 4. Comprova que este discurso encerra uma evidente dimensão ética e social. 5. Transcreve exemplos que demonstrem a eloquência do orador, nomeadamente através do recurso à metáfora e à anáfora. 50 1 Padre António Vieira, «Sermão de Santo António» P R O F E S S O R Compreensão do oral 1. Posição do orador: Nos últimos 50 anos, nem os go- vernos nem os cidadãos fizeram o que deviam sobre os direitos humanos. Argumentos em defesa da sua posição: Os governos não fizeram o que deviam porque não pude- ram, não quiseram ou não lho permitiram os interesses das grandes empresas (exemplos: as injustiças multiplicam-se, as desigualdades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra.) Os cidadãos também não, por- que reivindicam mais direitos que deveres. Dimensão ética e social do dis- curso: Apelo à responsabilidade dos cidadãos face à inação dos go- vernos («Tomemos então, nós, ci- dadãos comuns, a palavra. Com a mesma veemência com que reivindicamos direitos, reivindi- quemos também o dever dos nossos deveres»). 2. (B) 3. (C) 4. (D) 5. Com esta comparação o ora- dor pretende reforçar o argu- mento da indiferença da huma- nidade perante o sofrimento hu- mano. Relacionar «Marte» com o «nosso semelhante» permite que o auditório se consciencia- lize da verdadeira distância que existe entre nós e aqueles cujos direitos não são respeitados. Vídeo Discurso de José Saramago Oralidade COMPREENSÃO DO ORAL Discurso político A defesa dos direitos humanos, que sempre orientou a ação do Padre António Vieira, foi também uma causa que motivou a intervenção empenhada de intelectuais de gran- de projeção internacional, como o escritor José Saramago. 1ª audição 1. Vê o vídeo do discurso de José Saramago e regista as ideias-chave no caderno: posição do orador; argumentos em defesa da sua posição; dimensão ética e social do discurso. 2ª audição 2. Seleciona a opção que permite obter uma afirmação correta. Com este discurso o ora- dor pretende (A) apresentar um ponto de vista institucional sobre os direitos humanos. (B) persuadir a auditório a agir relativamente à defesa dos direitos humanos. (C) descrever situações de violação dos direitos humanos. (D) debater o papel dos governos e dos cidadãos na defesa dos direitos humanos. 3. Identifica a prova que o orador não utiliza para reforçar o argumento de que os governos não têm feito tudo aquilo a que estão moralmente obrigados na defesa dos direitos humanos. (A) As injustiças multiplicaram-se. (C) A pobreza diminuiu. (B) As desigualdades agravaram-se. (D) A ignorância cresceu. 4. Seleciona a opção que leva à formulação de uma afirmação errada. A dimensão ética e social está presente no discurso do orador através do apelo aos cidadãos para que (A) continuem a reivindicar os seus direitos. (B) se juntem aos governos na defesa dos direitos humanos. (C) denunciem a inação dos governos na defesa dos direitos humanos. (D) reivindiquem o dever de defender os direitos humanos. 5. Tendo em conta a intenção persuasiva do orador, mostra o valor expressivo da compa- ração «Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante». Nota informativa CARACTERÍSTICAS DO DISCURSO POLÍTICO Capacidade de expor e de argumentar (coerência e validade dos argumentos, con- tra-argumentos e provas) Caráter persuasivo, que se prende com a sua finalidade – convencer Utilização de informação seletiva Demonstração de uma evidente dimensão ética e social Recurso a mecanismos expressivos de eloquência Discurso de José Saramago no banquete de receção do Prémio Nobel da literatura, em Estocolmo, no dia 10 de dezembro de 1998 51 1Discurso político P R O F E S S O R Escrita Apresentação Cenário de resposta: exposição sobre um tema (A atualidade do Padre António Vieira) Exposição sobre um tema A atualidade e intemporalidade do pensamento do Padre António Vieira Vieira, homem do nosso tempo Vieira perturba os seus compatriotas de hoje pelo fracas- so pessoal nas lutas que travou em prol dos princípios uni- versais da liberdade e dos direitos humanos, que continuam a não ser reconhecidos, pela denúncia da corrupção que mina ainda as sociedades contemporâneas, pelo baixo perfil produtivo dos seus compatriotas, que não melhorou desde então, pela inveja que paralisa e destrói a ousadia dos pouco corajosos, ontem como hoje, pela ganância dos poderosos que continua a não ter barreiras, pela impunidade dos protegidos do poder que continua a desafiar as regras mais elemen- tares da justiça, pelo desprezo votado aos desprotegidos, hoje como ontem vítimas de dis- criminação, pela incompetência dos responsáveis pela governação, incapazes de criar mu- danças estruturais adaptadas às reais necessidades básicas dos cidadãos, pelo roubo, pelo desperdício, pelo egoísmo, pela hipocrisia, pela insolência e pela vaidade dos privilegiados, que ele sempre denunciou ao longo da sua vida. António de Abreu Freire, Padre António Vieira – História de um homem corajoso contada os jovens e lembrada ao povo, Porto, Edições Afrontamento, 2010, p. 135 (texto adaptado) Redige um texto de natureza expositiva, no qual apresentes objetivamente, no mí- nimo, quatro aspetos que concretizem marcas negativas da sociedade atual – os quais o Padre António Vieira poderia denunciar. Não apresentes opiniões pessoais, expõe ou descreve simplesmente os factos. O teu texto deve ter entre 200 e 300 palavras e dividir-se nas três secções habituais: introdução, desenvolvimento e conclusão. Considera as fases do processo de escrita abaixo mencionadas. Planificação: seleciona os vários aspetos que vais abordar; recolhe informação so- bre cada um deles, em jornais, na internet, etc.; organiza a informação sob a forma de tópicos. Textualização: segue a planificação, desenvolvendo os tópicos que elaboraste e or- ganizando a progressão da informação através de conectores e marcadores textuais adequados. Revisão: revê o texto, com vista ao seu aperfeiçoamento. Divulgação: apresenta o texto à turma, lendo-o, ou publica-o no jornal da escola ou num blogue. - - - - 5 - - - - 10 - - - - Escrita Caderno de Atividades Oficina de escrita nº 2 Exposição sobre um tema p. 57 Anexo Informativo Géneros textuais Exposição sobre um tema p. 379 A B C D © T a n ia n R o c h a 52 1 Padre António Vieira, «Sermão de Santo António» P R O F E S S O R Esquema-síntese a. efemeridade b. religiosas c. ensinar d. deleitar e. pelo excesso f. persuadir g. encantá-los h. ensiná-los i. o poder j. alegórico k. criticar l. criticar m. devorarem n. insurgir-se o. fracos p. dividirá q. virtudes r. em geral s. em particular t. os defeitos u. em particular Apresentação Síntese da sequência 1 Esquema-síntese Revê os teus conhecimentos no âmbito da educaçãoliterária, escolhendo, em cada opção, a alternativa correta. Contextualização histórico-literária O barroco estendeu-se por todo o século XVII e pelas primeiras décadas do século XVIII. Nasceu em Roma e espalhou-se pela Europa e regiões sob sua influência.Teve expressão particular nas artes plásticas e arquitetura e na literatura. Na literatura, tanto na poesia como nos géneros em prosa, cultivou os temas da a. efemeridade / perenidade da vida humana, da transitoriedade do homem e da ilusão da vida e das coisas mundanas. Estes temas têm motivações b. religiosas / profanas. A literatura barroca compraz-se na representação do belo na figura humana, nas coisas e nas paisagens através de um léxico opulento e raro onde são frequentes as hipérboles, as alusões e as metáforas. CONSULTA AS PP. 10-17. Objetivos da eloquência Os objetivos da eloquência, no sermão, exprimem-se pelas seguintes palavras latinas: a. docere, isto é, c. ensinar / dissertar, visto que os pregadores se servem dos púlpitos para criticarem comportamentos; b. delectare, isto é, d. deleitar / enfeitar através de uma linguagem marcada e. pelo excesso / pela simplicidade, pela acumulação de detalhes e pelo vir- tuosismo verbal e por artifícios retóricos utilizados; c. movere, isto é, f. persuadir / mover ou convencer. CONSULTA AS PP. 12-13. Intenção persuasiva e exemplaridade Com este sermão, o Padre António Vieira pretende não apenas persuadir os fiéis a seguirem a palavra de Deus mas também g. encantá-los / convencê-los com o seu engenho e virtuosismo e h. ensiná-los / desincentiva-los a seguir uma vida reta. Para tal, serve-se de múltiplas citações de exemplos colhidos nos evangelhos, na vida de santos, particularmente em Santo António, ou nos ensinamentos dos Doutores da Igreja. CONSULTA A P. 34. Crítica social e alegoria O Padre António Vieira satiriza i. o poder / a fraqueza dos colonos do Maranhão, que pretendem continuar a escravizar os índios, utilizando um esquema j. alegórico / metafórico que lhe permitia referir-se-lhes simulando um discurso aos peixes e exemplificando, com as suas virtudes e os seus defeitos, a realidade que pretende k. criticar / exaltar. Por exemplo, ao l. criticar / tolerar nos peixes o defeito de se m. devorarem / enganarem uns aos outros, o Padre Vieira está alegoricamente a n. insurgir-se / defender-se contra o exercício do poder dos mais fortes perante os mais o. fracos / fortes. CONSULTA AS PP. 42-44. Linguagem, estilo, estrutura Visão global e estrutura argumentativa: o «Sermão de Santo António» di- vide-se em quatro partes – exórdio, no capítulo I; exposição e confirmação, entre os capítulos II a V; peroração, no capítulo VI. Na exposição, no capítulo II, o orador apresenta o plano do sermão, que p. dividirá / iniciará em louvores das q. virtudes / virtualidades e repreensões dos defeitos dos peixes. Na confirmação, ainda no ca- pítulo II, o orador desenvolve os seus argumentos apresentando as virtudes r. em geral / em particular, seguindo-se, já no capítulo III, as virtudes s. em particular / em geral. No capítulo IV, refere t. os defeitos / os valores dos peixes em geral, de- morando-se posteriormente nos defeitos u. em particular / em geral, no capítulo V. O discurso figurativo: o discurso está repleto de recursos expressivos, dadas as características alegóricas do sermão. Os mais frequentes são a alegoria, a metáfora, a comparação, a enumeração e a gradação. CONSULTA AS PP. 17 E 46-47. 53 Esquema-síntese 1 P R O F E S S O R Nota geral Estes testes apresentam uma estrutura semelhante à do atual Exame Nacional. GRUPO I A 1. Este peixe é digno de louvor porque o seu interior está cheio de «virtudes», as que verdadei- ramente contam. O fel deste peixe curava a cegueira, e os homens bem precisavam de ser curados das cegueiras em que viviam; por outro lado, o seu coração tinha a propriedade de expulsar os demónios – isto é, afastar as tentações. 2. Do mesmo modo que as «vir- tudes interiores» do Peixe de Tobias eram boas para dissipar a cegueira e combater as ten- tações demoníacas, também Santo António possuía, pela palavra, as mesmas aptidões. A relação é de identidade. 3. Trata-se da apóstrofe «mora- dores do Maranhão». Com esta apóstrofe, pela qual exorta os seus ouvintes a olharem para si próprios, para as suas «en- tranhas», as quais têm as mes- mas propriedades das de Santo António, o pregador apresenta- -se como alguém cuja palavra é salvadora. Teste de avaliação de conhecimentos GRUPO I A Lê o texto. Em caso de necessidade, consulta o vocabulário e as notas apresentados. 1 em geral 2 a Bíblia 3 «Se puseres o seu coração sobre a chama, o seu fumo expulsará toda a espécie de demónios; e com o seu fel ungirás os olhos que estiverem cobertos de manchas brancas, e eles ficarão curados.» Santo Peixe de Tobias Este é, peixes, em comum1 o natural, que em todos vós louvo, e a felicidade, de que vos dou o parabém não sem inveja. Descendo ao particular, infinita matéria fora, se houvera de discorrer pelas virtudes, de que o Autor da Natureza a dotou, e fez admirá- vel em cada um de vós. De alguns somente farei menção. E o que tem o primeiro lugar entre todos, como tão celebrado na Escritura, é aquele Santo Peixe de Tobias, a quem o Texto Sagrado2 não dá outro nome, que de grande, como verdadeiramente o foi nas vir- tudes interiores, em que só consiste a verdadeira grandeza. Ia Tobias caminhando com o Anjo São Rafael, que o acompanhava, e descendo a lavar os pés do pó do caminho nas margens de um rio: eis que o investe um grande Peixe com a boca aberta, em ação de que o queria tragar. Gritou Tobias assombrado, mas o Anjo lhe disse que pegasse no Peixe pela barbatana, e o arrastasse para terra, que o abrisse, e lhe tirasse as entranhas, e as guardasse, porque lhe haviam de servir muito. Fê-lo assim Tobias, e perguntando que virtude tinham as entranhas daquele Peixe, que lhe mandara guardar, respondeu o Anjo que o fel era bom para sarar da cegueira, e o coração para lançar fora os Demónios: Cordis ejus particulam, si super carbones ponas, fumus ejus extricat omne genus Daemonio- rum, et fel valet ad ungendos oculos, in quibus fuerit albugo, et sanabuntur3 [Tb 6, 8]. Assim o disse o Anjo, e assim o mostrou logo a experiência, porque sendo o Pai de Tobias cego, aplicando-lhe o filho aos olhos um pequeno do fel, cobrou inteiramente a vista; e ten- do um Demónio chamado Asmodeu morto sete maridos a Sara, casou com ela o mes- mo Tobias; e queimando na casa parte do coração, fugiu dali o Demónio, e nunca mais tornou. De sorte, que o fel daquele Peixe tirou a cegueira a Tobias o velho, e lançou os Demónios de casa a Tobias o moço. Um peixe de tão bom coração, e de tão proveitoso fel, quem o não louvará muito? Certo que se a este Peixe o vestiram de burel, e o ataram com uma corda, pareceria um retrato marítimo de Santo António. Abria Santo António a boca contra os Hereges, e enviava-se a eles, levado do fervor, e zelo da Fé, e glória divi- na. E eles que faziam? Gritavam como Tobias, e assombravam-se com aquele homem, e cuidavam que os queria comer. Ah homens, se houvesse um Anjo que vos revelasse qual é o coração desse homem, e esse fel, que tanto vos amarga, quão proveitoso, e quão necessário vos é! Se vós lhe abrísseis esse peito, e lhe vísseis as entranhas, como é certo que havíeis de achar, e conhecer claramente nelas que só duas coisas pretende de vós, e convosco: uma é alumiar, e curar vossas cegueiras; e outra lançar-vos os Demónios fora de casa. Pois a quem vos quer tirar as cegueiras, a quem vos quer livrar dos Demónios, Tiziano Vecelli Titian, detalhe de Rafael e Tobias (c. 1560), Galeria da Academia, Veneza, Itália - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - - - 20 - - - - 25 - - - - 30 - - 54 1 Padre António Vieira, «Sermão de Santo António» P R O F E S S O R B 4. OPadre António Vieira cri- ticaria por certo a ganância de quem carregou excessivamente a nau; o excesso de carga foi um dos motivos pelos quais a nau não se pode desencalhar. 5. Esta expressão permite infe- rir que Albuquerque Coelho foi alertado para a possibilidade de novas complicações na na- vegação, uma vez que já experi- mentara problemas: «[…] pelos maus princípios que já tivera; […]» (l. 11). 1. Refere os motivos pelos quais, segundo o pregador, o Peixe de Tobias é digno de louvor. 2. Esclarece a relação que o pregador constrói entre o Peixe de Tobias e Santo António pregador. 3. Identifica o recurso expressivo na frase: «Ah moradores do Maranhão, quanto eu vos pudera agora dizer neste caso!» (ll. 35-36) e explica a sua expressividade no contexto em que ocorre. B Lê o texto. Em caso de necessidade, consulta o vocabulário apresentado. 1 mercadoria variada 2 em sentido contrário 3 banco de areia ou rochedo coberto por escassa quantidade de água do mar 4 navegou, libertou-se do baixio 4. Indica, justificadamente, que motivos teria o Padre António Vieira para criticar os responsáveis pela nau, se tivesse conhecimento da situação referida no segundo parágrafo. 5. Explicita a que se refere a expressão «tais prognósticos» (l. 12). Carregada a nau de muita fazenda1 no belo porto da vila de Olinda, deu à vela com vento em popa a 16 de maio de 65. Não eram ainda bem saídos da barra quando se acal- mou o vento com que partiram; logo depois se lhes tornou contrário, os levou de tra- vés2 e os atirou para um baixo3, onde permaneceram por quatro marés e se viram em risco de se perderem, o que lhes teria sem dúvida acontecido se fossem então os mares mais grossos. Acudiram-lhes com presteza muitos batéis, que lograram salvar a gente toda e a maior parte da carregação. Porém, nem assim descarregada se desencalhou, pelo que decidiram cortar-lhe os mastros; então, nadou e saiu dos baixos4. […] Vários amigos de Albuquerque Coelho, vendo que ele pensava em reembarcar na nau, quiseram dissuadi-lo pelos maus princípios que já tivera; mas nem ele, nem os demais passageiros, quiseram dar ouvidos a tais prognósticos, e tornaram a embarcar na «Santo António», que largou enfim da vila de Olinda a 29 de junho de 65. «As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho (1565)», in História trágico-marítima – narrativas de naufrágios da época das conquistas, adaptação de António Sérgio, Lisboa, Sá da Costa Editora, 2009, p. 126 perseguis vós? Só uma diferença havia entre Santo António, e aquele Peixe: que o Peixe abriu a boca contra quem se lavava, e Santo António abria a sua contra os que se não queriam lavar. Ah moradores do Maranhão, quanto eu vos pudera agora dizer neste caso! Abri, abri estas entranhas; vede, vede este coração. Mas ah sim, que me não lem- brava! Eu não vos prego a vós, prego aos peixes.. Padre António Vieira, «Sermão de Santo António», in José Eduardo Franco e Pedro Calafate (dir.), Obra completa, tomo II, volume X, Lisboa, Círculo de Leitores, 2014, pp. 143-144 - - - - 5 - - - - 10 - - - - - 35 - - 55 Teste de avaliação de conhecimentos 1 Que a raiva não nos leve a cometer injustiças Mohandas Gandhi Ashram de Sabarmati, Ahmedabad, Índia 11 de março de 1930 É muito provável que este seja o último discurso que faço perante vós. Já vos disse ontem o que tinha a dizer. Hoje vou limitar-me àquilo que devem fazer caso eu e os meus companheiros sejamos presos. O programa da marcha para Jalalpur deve ser cumprido, tal como inicialmente estabelecido. O recrutamento dos voluntá- rios para o efeito deve limitar-se apenas ao Gujarat. Pelo que tenho visto e ouvido du- rante as últimas duas semanas, estou inclinado a acreditar que o fluxo de resistentes civis vai continuar ininterrupto. Mas que não haja sequer a aparência de violação da paz, mesmo depois de todos termos sido presos. Decidimos utilizar todos os recursos na busca de uma luta exclu- sivamente não violenta. Que a raiva não nos leve a cometer injustiças. Esta é a minha esperança e a minha oração. Gostava que estas minhas palavras chegassem a todos os cantos e recantos da terra. A minha tarefa deve ser completada se eu sucumbir, assim como os meus camaradas. Nessa altura será a Comissão de Trabalho do Congresso quem vos irá mostrar o caminho e vai depender de vós seguir o seu exemplo. Assim que eu tenha alcançado Jalalpur, que nada seja feito em violação da autoridade a mim conferida pelo Congresso. Mas caso seja preso, toda a responsabilidade [de continuar a luta] recai sobre o Congresso. Ninguém que acredita na não violência precisa, por isso, de ficar parado. No entanto, não nos vamos contentar apenas com isto. Não há proibição do Con- gresso e onde quer que os trabalhadores locais tenham autoconfiança podem ser ado- tadas outras medidas adequadas. Sublinho apenas uma condição, ou seja, fazer com que seja fielmente observado o nosso compromisso para com a verdade e a não vio- lência como único meio para obtenção do swaraj. Quanto ao resto, cada um tem uma mão livre. Mas isso não é uma licença para que cada um exerça a sua própria responsa- bilidade. Onde quer que haja líderes locais, as suas ordens devem ser obedecidas pelo povo. Onde não houver líderes e apenas um punhado de homens tiver fé no programa [do Congresso], eles devem fazer o que puderem, se tiverem autoconfiança bastante. Há muito a fazer de muitas outras maneiras para além destas. As lojas que vendem álcool e tecidos estrangeiros podem ser alvo de piquetes. Podemos recusar-nos a pa- gar impostos se tivermos a força necessária. Os advogados podem deixar de exercer. O povo pode boicotar os tribunais abstendo-se do litígio. Os funcionários do Governo podem demitir-se dos seus cargos. Chris Abbott, 21 discursos que mudaram o mundo, Lisboa, Editora Bertrand, 2011, pp. 281-282 (texto adaptado) GRUPO II Lê o texto. - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - - - 20 - - - - 25 - - - - 30 - - 56 1 Padre António Vieira, «Sermão de Santo António» P R O F E S S O R GRUPO II 1. 1.1 (B) 1.2 (B) 1.3 (C) 1.4 (A) 2. 2.1 «homens» (l. 26) 2.2 complemento agente da passiva 2.3 oração subordinada adver- bial temporal Apresentação Teste de avaliação de conhecimentos 1 (soluções) Testes nº 1 e nº 2D P P GRUPO I · A 1 20 pontos 2 20 pontos 3 20 pontos GRUPO I · B 4 20 pontos 5 20 pontos GRUPO II 1.1 5 pontos 1.2 5 pontos 1.3 5 pontos 1.4 5 pontos 2.1 10 pontos 2.2 10 pontos 2.3 10 pontos GRUPO III 50 pontos Cotação: 1. Nos itens de 1.1 a 1.4, seleciona a única opção que permite obter uma afirmação correta. 1.1 O nome pelo qual este discurso é conhecido exprime (A) uma possibilidade. (B) um desejo. (C) um apelo. (D) uma alternativa. 1.2 O projeto de resistência civil preconizado por Gandhi caracteriza-se, de um modo geral, por (A) incitar os seus partidários a respeitar escrupulosamente a lei. (B) incitar os seus partidários a respeitar a lei e a não cometer qualquer tipo de violência. (C) incitar os seus partidários a não cometer qualquer tipo de violência e a mar- char para Jalalpur. (D) incitar os seus partidários a obedecer ao Congresso, no caso de ele ficar incapacitado. 1.3 A frase «Mas caso seja preso,» (l. 16) exprime (A) uma certeza. (B) uma dúvida. (C) uma condição. (D) uma alternativa. 1.4 A utilização sucessiva, no último parágrafo do texto, de várias formas do verbo poder, configura um exemplo de (A) coesão lexical. (B) coesão temporal. (C) coesão referencial (D) coesão frásica. 2. Responde, de forma correta, aos itens apresentados. 2.1 Identifica o antecedente do pronome pessoal «eles» (l. 27). 2.2 Indica a função sintática de «pelo Congresso» (l. 16). 2.3 Classifica a oração subordinada «Assim que eu tenha alcançado Jalalpur» (ll. 14-15). GRUPO III Na sociedade de hoje, como na do tempo do Padre António Vieira,continuam a obser- var-se frequentemente comportamentos reprováveis. Redige um texto de natureza expositiva, no qual apresentes, pelo menos, três tipos humanos atuais que podem ser alvo de crítica devido às suas atitudes. Justifica as tuas escolhas. O teu texto deve ter entre 200 e 300 palavras e deve ser estruturado em três partes lógicas. 57 Teste de avaliação de conhecimentos 1 2 Educação literária Contextualização histórico-literária A dimensão patriótica e a sua expressão simbólica O sebastianismo: história e ficção Recorte das personagens principais A dimensão trágica Linguagem, estilo e estrutura – características do texto dramático – a estrutura da obra – o drama romântico: características Leitura Artigo de opinião: «Nacionalismo de exclusão» Gramática Dêixis: pessoal, temporal e espacial Oralidade Compreensão do oral Exposição sobre um tema: «A química do amor» Expressão oral Apreciação crítica (de documentário): «D. Sebastião, o rei mito» Exposição sobre um tema: ameaças à vida privada na atualidade Texto de opinião: direito ao asilo e a questão da imigração Escrita Exposição sobre um tema Os jovens e a crítica social D. Madalena de Vilhena, personagem trágica Valor simbólico dos espaços em geral Texto de opinião A questão dos refugiados Em destaque: Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa SÉCULO XIX Romantismo (Primeira geração romântica) 1800 1900 1820 1842 1825 1843 1851 1854 1844 1799 Revolução liberal em Portugal Indigitação de Costa Cabral para ministro do reino, que dá início ao período repressivo do «cabralismo» Publicação de Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett Nascimento de Almeida Garrett, no Porto Publicação em dois volumes de Lendas e narrativas, de Alexandre Herculano, que incluem «A abóbada» Morte de Almeida Garrett Camilo Castelo Branco publica Amor de perdição Início da publicação de Viagens na minha terra, de Almeida Garrett, na Revista Universal Lisbonense Acontecimentos literários Acontecimentos históricos Garrett introduz o Romantismo em Portugal com o poema «Camões» Nascimento de Camilo Castelo Branco, em Lisboa 1862 Contextualização histórico-literária I. Contexto histórico A. O contexto histórico do tempo da escrita Texto 1 O Liberalismo 1. A revolução liberal e a independência do Brasil No início do século XIX as invasões francesas fizeram de Portugal um cam- po de batalha e acentuaram a decadência económica do país. A retirada da corte para o Brasil (1807) veio a promover um grande desenvolvimento deste território que, a partir de 1808, por decreto de D. João VI, passou a ter os portos abertos ao comércio internacional. Depois da retirada dos invasores franceses (1811), a permanência do rei no Brasil, o domínio dos militares ingleses que permaneciam no nosso país e a difícil situação económica que se agravara desde a perda do mo- nopólio do comércio brasileiro, acentuaram o descontentamento da maior parte da população portuguesa. Em agosto de 1820, a partir do Porto, uma revolução triunfante estabeleceu, pela primeira vez, um regime liberal no país. Os revolu- cionários tinham o propósito de reunir cortes para elaborar uma Constituição, realizar as reformas necessárias para modernizar Portugal e fazer regressar o rei do Brasil. A crise política que ocorreu no Brasil, após o regresso de D. João VI, veio a culminar com a declaração de independência, por parte, desta antiga co- lónia o que contribuiu para aumentar o número dos que estavam contra as me- didas consignadas na Constituição de 1822, entretanto assinada por D. João VI. A primeira experiência liberal foi, por isso, de curta duração. Em 1823, o golpe da vila-francada, chefiado por D. Miguel, derrubou o vintismo deu origem a um re- gime mais moderado. 2. A guerra civil Após a morte de D. João VI, em 1826, entrou-se num período bastante contur- bado. Porque qualquer dos filhos (D. Pedro e D. Miguel) se considerava legítimo herdeiro do trono de Portugal. No Brasil, D. Pedro assumiu-se como sucessor, outorgou uma Carta Constitucional e abdicou dos seus direitos à Coroa portu- guesa na sua filha mais velha D. Maria da Glória que casaria com o tio D. Miguel (exilado na Áustria desde 1824) depois de este jurar a Carta Constitucional. Ao regressar a Portugal, em 1828, D. Miguel passou a governar como rei, restabele- cendo o absolutismo e perseguindo os liberais. Os refugiados nos Açores for- maram um núcleo liberal a que se juntou D. Pedro, em 1831. No ano seguinte, D. Pedro, à frente de um exército liberal desembarcou perto do Porto, dando ori- gem a uma violenta guerra civil que terminou, em 1834, com a vitória dos liberais. - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - - - 20 - - - - 25 - - - - 30 Imagens: Óscar Pereira da Silva, Sessão das Cortes de Lisboa (1920), Museu Paulista, São Paulo, Brasil Honoré Daumier, D. Pedro IV de Portugal contra o seu irmão D. Miguel I (1833), Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa Roque Gameiro, A revolta da Maria da Fonte (1846), in Maria Manuela Tavares, «A nova ordem liberal (1834-1851): reformas, dificuldades e sobressaltos político-militares», História de Portugal, João Augusto Medina (dir.), 1998, volume VIII, Ediclube, p. 231 60 2 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa P R O F E S S O R Nota geral O Programa e Metas Curricula- res prevê oito tempos letivos de [45 minutos] para o tratamento do Frei Luís de Sousa. Sugestão didática A linha cronológica localizada no separador desta sequência didática poderá ser explorada com os alunos no âmbito da contextualização histórico-lite- rária 1. a. F (A revolta de 1820 tinha o intuito de instaurar um regime monárquico constitucional em Portugal.) b. V c. F (Estabelecido o regime libe- ral, a vida política portuguesa caracterizou-se pela instabili- dade e pela guerra civil.) d. F (O contexto histórico do tempo da escrita decorre no século XIX, entre 1820 e 1847; o tempo da ação reporta-se ao século XVI e inícios do século XVII, ao governo dos Filipes.) Apresentação Contextualização históri- co-literária (Sequência 2) Vídeo Almeida Garrett (vida, obra e atualidade) visto por Professora Maria Helena Santana EL11 14.6, 14.12; 16.1 L11 7.1, 7.4, 7.5; 8.1 EL11 Contextualização histórico-literária Linguagem, estilo e estrutura – a estrutura da obra 3. O constitucionalismo monárquico O fim da guerra não trouxe ao país a desejada acalmia devido às divisões existentes en- tre vintistas, mais radicais e defensores da Constituição de 1822, e os cartistas, mais mo- derados e partidários da Carta Constitucional de 1826. Seguiu-se um período de instabili- dade até que, em setembro de 1836, triunfou uma revolução, de carácter mais radical, que aboliu a Carta Constitucional e repôs em vigor a Constituição de 1822, até à promulgação de uma nova Constituição, em 1838. Enquanto estiveram no poder, os setembristas exe- cutaram importantes reformas no país, mas em 1842, a fação mais conservadora, chefiada por Costa Cabral, chegou ao poder dando origem a um novo período que ficou conhecido como cabralismo. Em 1846, Costa Cabral repôs em vigor a Carta Constitucional, mas a sua tentativa de restauração da autoridade foi interrompida pela revolta popular da Maria da Fonte e o país viu-se, de novo, mergulhado numa guerra civil generalizada, a «Patuleia» que só terminou em 1847 com a intervenção estrangeira. Em 1851, após o golpe da Rege- neração, foi possível reencontrar a estabilidade que permitiu ao país entrar no caminho do progresso. A segunda metade do século XIX, foi marcada por um período de acalmia política, caracterizada pelo rotativismo no poder dos principais partidos políticos – His- tóricos e Regeneradores. (Texto inédito de Maria Cândida Proença) B. O contexto histórico do tempo da ação Texto 2 O governo dos Filipes – 1593 a 1600 No âmbito da união de Portugal com Espanha (1580-1640), depois da derrotado rei D. Sebastião em Alcácer Quibir (1578), da regência do Cardeal Infante D. Henrique (1578- -1580) e da invasão do exército espanhol que venceu o português na batalha de Alcântara (1580), em 1593 Filipe II recorreu a uma fórmula governativa coletiva para Portugal, esco- lhendo cinco governadores para constituírem um conselho de regência, presidido pelo arcebispo de Lisboa, D. Miguel de Castro. O primeiro conselho de regentes durou até 1600. A. H. de Oliveira Marques, Breve História de Portugal, Lisboa, Editorial Presença, 2012, p. 290 (texto adaptado) 1. Indica a afirmação verdadeira (V) e as afirmações falsas (F), relativamente aos tex- tos anteriores. Corrige as falsas. a. A revolta de 1820 tinha o intuito de restabelecer o regime monárquico abso- lutista. b. D. João VI foi o primeiro monarca que, em Portugal, governou com uma Cons- tituição. c. Estabelecido o regime liberal, a vida política portuguesa caracterizou-se pela estabilidade. d. O contexto histórico do tempo da escrita é o mesmo do tempo da ação. - - - - 35 - - - - 40 - - - - 45 - - - - - 5 - 61 Contextualização histórico-literária 2 P R O F E S S O R 1. (B) 2. (C) II. Contexto literário Texto 1 Características do Romantismo 1. Origens literárias O Romantismo, em Portugal como na Europa de um modo geral, conhece uma fase primordial de instauração que costuma designar-se pelo nome de Pré-Romantismo. Dominado por poetas como Bocage, José Anastácio da Cunha, Marquesa de Alorna e outros, o Pré-Romantismo constitui uma fase de transição na dinâmica de evolução li- terária, em fins do século XVIII e princípios do século XIX: ressentindo-se ainda de uma herança neoclássica relativamente forte e vigente sobretudo ao nível estilístico (léxico, sintaxe, formas poéticas, etc.), os autores citados abrem-se, entretanto, a outras sugestões estéticas. Para esse movimento de abertura muito contribuíram contactos culturais no- meadamente com a Inglaterra e a Alemanha. Daqui resultou uma criação poética em que a emoção e o individualismo eram notas dominantes; em sintonia com essas diretrizes, surgem largamente privilegiados na poesia pré-romântica temas como o da morte, o da solidão, o da infelicidade amorosa, o das ruí- nas, etc. Tudo isto muitas vezes enquadrado em cenários horríficos (locus horrendus) que mais acentuam a carga emotiva do discurso pré-romântico. 2. Origens políticas e sociais Mas não só o Pré-Romantismo preparou a constituição do Romantismo português. A seu modo fizeram-no também outros fatores muitas vezes de grande relevo na produ- ção do fenómeno literário: as circunstâncias políticas e sociais que o envolveram. Assim, o aparecimento do Romantismo em Portugal deve relacionar-se com a revolução libe- ral e com as transformações sociais que dela resultaram. Enquadrado neste cenário, o Romantismo forma-se à luz dos princípios da liberdade, igualdade e fraternidade que, como facilmente se percebe, muito tinham a ver com a dimensão idealista da estética ro- mântica. Mas a relação do Liberalismo com o Romantismo dá-se também por uma outra via concreta: a da emigração a que foram coagidos escritores como Herculano e Garrett, profundamente empenhados na difusão do ideário liberal em Portugal. Carlos Reis, Português – volume 3, Lisboa, Ministério da Educação e Ciência / Instituto Português de Ensino à Distância, 1980, pp. 5-8 (texto adaptado) 1. Identifica a única afirmação que não se pode comprovar no texto. (A) O Pré-Romantismo constitui um período literário de transição entre o Neoclas- sicismo e o Romantismo. (B) A centralidade da emoção na estética clássica passou a ser ocupada pela ra- zão na estética pré-romântica. (C) Na origem do Romantismo, em Portugal, encontram-se fatores de natureza literária, política e social. - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - - - 20 - - - - 62 2 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa Texto 2 Características gerais da visão romântica do mundo O foco irradiador da cosmovisão romântica será uma forma extremamente aguda do sentimento individualista concretizado no interesse por tudo o que está individualizado (o que tem sabor local, o que está marcado por caracterís- ticas históricas específicas), uma nova forma de conhecimento, privilegiando fontes irracionalistas, como o sentimento e a crença; um certo impudor artísti- co que leva o romântico a uma exibição confessionalista; uma visão pessimista e melancólica do mundo (considerado como elemento hostil e castrador da atividade artística) – o que conduz a um desejo forte de alienação, de evasão no tempo e no espaço e a uma forma profundamente irónica. Estela Pinto Ribeiro Lamas (coord.), Dicionário de metalinguagens da didática, Porto, Porto Editora, 2000, pp. 425-426 (texto adaptado) 2. Seleciona a opção mais adequada no que diz respeito à ordem pela qual se apresentam, no texto, as características da visão do mundo dos escritores românticos. (A) melancolia / desejo de evasão no tempo e no espaço / irracionalismo / sentimentalismo / individualismo (B) desejo de evasão no tempo / desejo de evasão no espaço / individua- lismo / irracionalismo / pessimismo (C) individualismo / irracionalismo / pessimismo / melancolia / desejo de evasão no espaço e no tempo (D) melancolia / irracionalismo / desejo de evasão no espaço e no tempo / melancolia / pessimismo - - - - 5 - - - - Eugène Delacroix, detalhe de Hamlet e Horácio no cemitério (1839), Museu do Louvre, Paris, França Francesco Hayes, O último beijo de Romeu e Julieta (1823), Museu e palácio Villa Carlotta, Tremezzo, Itália Almeida Garrett, poema «Camões», 1ª edição, Paris, Livraria Nacional Estrangeira, 1825 63 Contextualização histórico-literária 2 P R O F E S S O R 3. a. V b. V c. F (A terceira geração românti- ca alia um idealismo de cariz in- dividualista a preocupações so- ciais.) Texto 3 As três gerações românticas 1. Primeira geração romântica (1825) O Romantismo português participa, claro está, das características do Romantismo euro- peu em geral. O culto do diferente explica a literatura confessional, em que o eu liricamente se exibe na singularidade dos sentimentos e da imaginação, como explica ainda o nacionalismo estético, a valorização do que distingue uma cultura regional de todas as outras, logo o apre- ço do tradicional e do popular, o gosto de evocar a Idade Média e o gosto do exótico. Os no- mes mais importantes desta geração, introdutores do Romantismo em Portugal, são Almeida Garrett e Alexandre Herculano. Jacinto do Prado Coelho, «Romantismo», in Dicionário de literatura, volume 3, Porto, Figueirinhas, 1987, pp. 963 e 964 (texto adaptado) 2. Segunda geração romântica (1851) É nesta geração que se desenvolve sobremaneira o «Ultrarromantismo», acentuação de traços românticos como o sentimentalismo, o melodramatismo1, a morbidez2, o idealismo nacionalista e desencantado. [Os poetas] entregam-se, em ritmos fáceis, à melancolia com acentos religiosos (por vezes funéreos3), ao medievalismo decorativo4, a saudades do passa- do português, nobre, rural, pitoresco. São nomes incontornáveis desta geração Mendes Leal, João de Lemos, Soares de Passos, Pinheiro Chagas e Camilo Castelo Branco. Ofélia Paiva Monteiro, «Romantismo», in Biblos, volume 4, Lisboa, Verbo, 2001, colunas 976 e 977 (texto adaptado) 3. Terceira geração romântica (1865) A geração caracteriza-se por «um toque de rebeldia» «romântica por natureza», concre- tizada principalmente nas Odes modernas de Antero de Quental. Elas são marcadas por um forte idealismo que supera o exagerado sentimentalismo individualista dos ultrarromânticos, concretizando-se numa poesia de recorte humanitarista na qual o poeta se apresenta como um «sacerdote da sociedade» no sentido em que prega a mudança da sociedade, dando atenção aos problemas políticos, sociais e culturais do seu tempo. Contudo, a linguagem que usadefine-se por um certo grau de abstração, através de palavras que repete com frequência como «‘Verdade’ e ‘Justiça’, ‘Liberdade’ e ‘Ideal’». Carlos Reis e Maria da Natividade Pires, História crítica da literatura portuguesa, volume 5, Lisboa, Verbo, 1993, p. 322 (texto adaptado) 3. Identifica as afirmações verdadeiras (V) e a afirmação falsa (F), re- lativamente ao conteúdo dos três textos anteriores. Corrige a falsa. a. A primeira geração romântica caracteriza-se pelo gosto dos temas nacionais, entre outros. b. A segunda geração romântica compraz-se no excesso senti- mentalista. c. A terceira geração romântica define-se por um idealismo de cariz individualista. - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - - - 20 - - - 1 exagero dos sentimentos 2 estado de abatimento físico ou psíquico 3 relativos à morte 4 «medievalismo decorativo» – cenários medievais Columbano Bordalo Pinheiro, [da esquerda para a direita] Passos Manuel, Almeida Garrett, Alexandre Herculano e José Estevão de Magalhães (1926), Sala dos Passos Perdidos, Palácio de S. Bento, sede da Assembleia da República, Lisboa, Portugal 64 2 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa III. Almeida Garrett: vida e obra – tábua cronológica Tábua construída com base em Almeida Garrett, prefácio de Annabela Rita, Frei Luís de Sousa, Porto, Edições Caixotim, 2002, pp. 21-22 (texto adaptado) 1799 1809 1816 1820 1821 1822 1823 1824 1826 1828 1832 1834 1836 1837 1838 1843 1844 1852 1853 1853 4 DE FEVEREIRO Nasce João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett, no Porto. Ensaia os primeiros passos na poesia lírica. Matricula-se em Coimbra, no curso de Direito. Forma-se em Direito e instala-se em Lisboa. Instala-se no Havre, em França. É nomeado Cônsul e Encarregado de Negócios de Portugal, na Bélgica. Torna-se Ministro dos Negócios Estrangeiros. Casa com Luísa Midosi, de quem virá a separar-se. Regressa a Portugal. Regressa a Portugal. 9 DE DEZEMBRO Morre em Lisboa. Publica Frei Luís de Sousa. Desembarca no Mindelo, depois de passar pelos Açores, integrado no exército liberal de D. Pedro; participa nas lutas do Cerco do Porto – guerra civil de 1828-1834 entre partidários do rei absolutista D. Miguel e partidários liberais de seu irmão D. Pedro. Obtém o bacharelato em Direito e distingue-se, já, pelas suas ideias liberais e por uma defesa ativa e empenhada das mesmas. Publica Folhas Caídas. Emigra de novo para Inglaterra aquando da subida ao trono de D. Miguel. Parte com a família para a Ilha Terceira, nos Açores. Inicia os seus estudos humanísticos, com o tio bispo, D. Alexandre da Sagrada Família. Emigra [num contexto político de perseguição aos defensores de ideias liberais pelos partidários do absolutismo, encarnado em D. Miguel] para Inglaterra. Apaixona-se por Adelaide Pastor, de quem terá uma filha – órfã de mãe em 1841. Ilustrações de Maria Keil para a edição de 1955 de Folhas Caídas Inicia a atividade parlamentar. Inicia a publicação de Viagens na minha terra na Revista Universal Lisbonense. Ilustração de António Jorge Gonçalves para a revista Colóquio/letras nº 153-154 o, mília. 65 Contextualização histórico-literária 2 P R O F E S S O R Documento Quadro-síntese da evolução da ação trágica em Frei Luís de Sousa IV. A obra Frei Luís de Sousa Texto 1 Frei Luís de Sousa – a ação central «Frei Luís de Sousa». Drama de Garrett, em três atos, em prosa, justamente conside- rado a obra-prima do teatro português. A ação é de trágica simplicidade. D. João de Portugal foi dado como perdido na batalha de Alcácer Quibir. Sua mulher, D. Madalena de Vilhena, após sete anos de espera e de buscas infrutíferas, desposou D. Manuel de Sousa Coutinho, que já amava em vida de D. João; deste segundo casamento, nasceu uma filha, D. Maria de Noronha, que, aos treze anos, revela estranha sensibilidade, aguçada pela tuberculose. Só o velho criado, Telmo, sempre fiel à memória de D. João, espera que ele esteja vivo e regresse; essa íntima fé enche a casa de negros presságios. E, numa sexta-feira, dia fatídico para D. Madalena («faz hoje anos que… que casei a primeira vez, faz anos que se perdeu el-rei D. Sebastião, e faz anos também que… vi pela primeira vez a Manuel de Sousa»), apa- rece um romeiro vindo da Terra Santa: é D. João de Portugal. Essa família está pois conde- nada à destruição. D. Manuel e D. Madalena decidem entrar num convento; e, durante a cerimónia em que recebem do Prior de Benfica os escapulários dominicanos, surge Maria que, desvairada, vem morrer na própria igreja («morro, morro… de vergonha…»). Jacinto do Prado Coelho, in Jacinto do Prado Coelho (dir.), Dicionário de literatura, volume 2, 3ª edição, Porto, Figueirinhas, 1987, pp. 351-352 (texto adaptado) - - - - 5 - - - - 10 - - - - Frei Luís de Sousa em cena no Teatro D. Maria II (2012), criação de Diogo Bento e Inês Vaz Frei Luís de Sousa em cena no Teatro Experimental do Porto (2012), criação de Susana Sá Miguel Ângelo Lupi, D. João de Portugal (1863), Uma cena da peça Frei Luís de Sousa (ato II, cena XIV) de Almeida Garrett, Museu de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal © A lí p io P a d il h a 66 2 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa V. Visão global e estrutura da obra Frei Luís de Sousa Estrutura externa Estrutura interna Ato I Cenas I-IV Exposição Informações sobre as personagens (D. Madalena, Manuel de Sousa Coutinho, Maria, Telmo), seu passado e relações entre si. Cenas V-VI Conflito Os governadores, ao serviço do ocupante castelhano, decidem sair de Lisboa e instalar-se em casa de Manuel de Sousa Coutinho. Cenas VII-X Manuel de Sousa Coutinho resiste-lhes e decide dar-lhes uma lição de insubmissão incendiando o palácio. Cenas XI-XII Manuel de Sousa Coutinho incendeia o seu palácio. Ato II Cenas I-III Informações sobre o incêndio, reação de D. Madalena, presságios de Maria sobre o destino dos pais, identificação de D. João de Portugal. Cenas IV-VIII Ida de Manuel de Sousa Coutinho, Maria e Telmo a Lisboa. Temores e presságios de D. Madalena por ser sexta-feira. D. Madalena fica apenas acompanhada por Frei Jorge. Cenas IX-XV Chegada do Romeiro. Ato III Cenas I-III Manuel de Sousa Coutinho e D. Madalena decidem tomar o hábito, recolhendo-se ao convento. O estado de saúde de Maria agrava-se. Cenas IV-IX Dilemas de Telmo depois da vinda de D. João, que tenta remediar o mal feito. Cenas X-XII Desenlace Tomada de hábito de D. Madalena e de Manuel de Sousa Coutinho. Morte de Maria. 67 Contextualização histórico-literária 2 Senhores:Um estrangeiro fez, há pouco tempo, um romance da aventurosa vida de Frei Luís de Sousa. Há muito enfeite de maravi- lhoso nesse livro, que não sei se agrada aos estranhos; a mim, que sou natural, pareceu-me empanar2 a singela beleza de tão interessante história. Exponho um sentimento meu; não tive a mínima ideia de censurar, nem sequer de julgar a obra a que me refiro, escrita em francês, como todos sabeis, pelo nosso consócio o sr. Fernando Dinis. […] Na história de Frei Luís de Sousa […] há toda a simplicidade de uma fábula trágica antiga. Casta e severa como as de Ésquilo, apaixonada como as de Eurípi- des, enérgica e natural como as de Só- focles3, tem, demais do que essoutras, aquela unção4 e delicada sensibilidade que o espírito do Cristianismo derrama por toda ela, molhando de lágrimas con- tritas5 o que seriam desesperadas ânsias num pagão, acendendo até nas últimas trevas da morte a vela da esperança que se não apaga com a vida. A catástrofe é um duplo e tremendo suicídio; mas não se obra pelo punhal ou pelo veneno: foram duas mortalhas6 que caíram sobre dois cadáveres vivos: – jazem em paz no mosteiro, o sino dobra por eles; morreram para omundo, mas vão esperar ao pé da Cruz que Deus os chame quando for a sua hora. […] Esta é uma verdadeira tragédia – se as pode haver, e como só imagino que as possa haver sobre factos e pessoas comparativamente recentes. […] Demais, posto que eu não creia no verso como língua dramática possível para assuntos tão modernos, também não sou tão desabusado7 contudo que me atreva a dar a uma composição em prosa o título solene que as musas gre- gas deixaram consagrado à mais subli- me e difícil de todas as composições poéticas. […] Contento-me para a minha obra com o título modesto de drama; só peço que a não julguem pelas leis que regem, ou devem reger, essa composição de forma e índole nova; porque a minha, se na for- ma desmerece da categoria, pela índole há de ficar pertencendo sempre ao anti- go género trágico. […] […] o drama é a expressão literária mais verdadeira do estado da sociedade; a sociedade de hoje ainda se não sabe o que é; o drama ainda se não sabe o que é; a literatura atual é a palavra, é o verbo ainda balbuciante de uma sociedade in- definida, e contudo já influi sobre ela; é, como disse, a sua expressão, mas reflete a modificar os pensamentos que a pro- duziram. […] Escuso dizer-vos, Senhores, que me não julguei obrigado a ser escravo da cronologia, nem a rejeitar por impró- prio da cena tudo quanto a severa crítica moderna indigitou como arriscado de se apurar para a história. Eu sacrifico às musas de Homero, não às de Heródoto; e quem sabe, por fim, em qual dos dois altares arde o fogo de melhor verdade! Versei muito e com muito afincada atenção, a Memória […] do douto só- cio da Academia Real das Ciências o Memória ao Conservatório Real 1 - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - - - 20 - - - - 25 - - - - 30 - - - - 35 - - - - 40 - - - - 45 - - - - 50 - - - - 55 - - - - 60 - - - - 65 - - - - 70 - - - - 75 - - - C h a rl e s L e g ra n d ,P a ço d o s E st a u s (s /d ) O primeiro Teatro Nacional, criado por Garrett, localizou-se entre 1836 e 1846 na rua dos Condes, vindo a ser construído posteriormente das ruínas do palácio dos Estaus, antiga sede da Inquisição de Lisboa. Em 1964, o Teatro Nacional de D. Maria II foi destruído por um incêndio, reabrindo apenas em 1978 totalmente recuperado. 68 2 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa P R O F E S S O R 1. a. V b. V c. V d. F (O drama é a expressão literária mais adequada à socie- dade moderna porque, tal como ela, «ainda se não sabe o que é» (ll. 59-60).) e. F (Garrett não se preocupou com a cronologia. Tal como afir- ma «Eu sacrifico às musas de Homero, não às de Heródoto;» (ll. 72-73), ou seja, é um drama- turgo e não um historiador.) f. V g. V L11 7.2, 7.4; 8.1 EL11 A dimensão trágica Linguagem, estilo e estrutura – o drama romântico: caracterís- ticas sr. bispo de Viseu; e colacionei8 todas as fontes de onde ele derivou e apurou seu copioso cabedal9 de notícias e reflexões; mas não foi para ordenar datas, verificar factos ou assentar nomes, senão para estudar de novo, naquele belo compên- dio, carateres, costumes, as cores do lugar e o aspeto da época, aliás das mais sabidas e averiguadas. Nem o drama, nem o romance, nem a epopeia são possíveis, se os quiserem fazer com a Arte de verificar as datas na mão. […] Este é um século democrático: tudo o que se fizer há de ser pelo povo e com o povo… ou não se faz. Os príncipes dei- xaram de ser, nem podem ser, Augustos. Os poetas fizeram-se cidadãos, toma- ram parte na coisa pública como sua; querem ir, como Eurípides e Sófocles, solicitar na praça os sufrágios populares, não como Horácio e Virgílio, cortejar no paço as simpatias de reais corações. As cortes deixaram de ter Mecenas10; os Médicis, Leão X, D. Manuel e Luís XIV já não são possíveis; não tinham favores que dar nem tesouros que abrir ao poeta e ao artista. Os sonetos e os madrigais eram para as assembleias perfumadas dessas da- mas que pagavam versos a sorrisos: – e era talvez a melhor e mais segura letra que se vencia na carteira do poeta. Os leitores e espetadores de hoje querem pasto mais forte, menos condimentado e mais substancial: é o povo, quer ver- dade. Dai-lhe a verdade do passado no romance e no drama histórico – no dra- ma e na novela da atualidade oferecei- -lhe o espelho em que se mire a si e ao seu tempo, a sociedade que lhe está por cima, abaixo, ao seu nível – e o povo há de aplaudir, porque entende: é preciso entender para apreciar e gostar. […] - 80 - - - - 85 - - - - 90 - - - - 95 - - - - 100 - - - - 105 - - - - 110 - - - - 115 - - - - 120 - - 1. Identifica as afirmações verdadeiras (V) e as afirmações falsas (F). Corrige as falsas. a. A fábula trágica de Frei Luís de Sousa distingue-se da das tragédias gregas pela esperança que o cristianismo traz às suas vítimas após a morte. b. Apesar de ser «uma verdadeira tragédia», Frei Luís de Sousa está escrito em pro- sa porque o verso, segundo Garrett, não é adequado a assuntos tão modernos. c. Para Garrett, Frei Luís de Sousa é verdadeiramente uma tragédia, não na forma mas no conteúdo. d. O drama é a expressão literária mais adequada à sociedade moderna porque, tal como ela, se apresenta bem estruturado e definido. e. Uma das preocupações de Garrett na criação de Frei Luís de Sousa foi a ordena- ção correta de factos e datas, visto tratar-se de um drama histórico. f. A obra do bispo de Viseu em que Garrett se baseou para escrever Frei Luís de Sousa serviu-lhe sobretudo como fonte para obter conhecimentos sobre os ca- rateres, os costumes, as cores do lugar e o aspeto da época e não para verificar datas. g. Segundo Garrett, o povo, enquanto leitor e espetador, só apreciará o romance ou o drama da atualidade se estes retratarem a verdade do passado histórico ou se forem espelhos em que se possa mirar a si e ao seu tempo. Vocabulário 1 Texto que acompanha a peça, da qual é anúncio, justificação e interpretação. Foi lida pelo próprio Garrett em conferência no Conservatório Real de Lisboa, em 6 de maio de 1843 2 tirar o brilho, tapar 3 Ésquilo, Eurípides e Sófocles – autores de tragédias da Antiguidade Clássica grega 4 doçura 5 arrependidas 6 vestes mortuárias, hábito monástico 7 petulante, arrogante 8 confrontei, verifiquei 9 grande quantidade 10 protetores das artes Almeida Garrett, «Memória ao Conservatório Real», in Frei Luís de Sousa, prefácio de Annabela Rita, Porto, Edições Caixotim, 2004, pp. 35-45 69 2«Memória ao Conservatório Real» P R O F E S S O R L11 7.1, 7.2 (Antes de ler), 7.4; 8.1, 8.2 EL11 14.1, 14.2, 14.3, 14.4, 14.5, 14.7 a), 14.7 b), 14.7 c), 14.7d), 14.9, 14.11, 14.12; 15.1, 15.2, 15.3, 15.5; 16.2 (Temas comuns) G10 18.1 G11 17.1; 18.1, 18.2; 20.1 O11 1.1 a 1.4 (Antes de ler); 2.1; 3.2, 3.3; 4.2, 4.3; 5.1 a 5.4; 6.1 a 6.3 E11 10. 1; 11.1; 12.1, 12.2, 12.3, 12.4 EL11 A dimensão patriótica e a sua ex- pressão simbólica O sebastianismo: história e ficção Recorte das personagens princi- pais A dimensão trágica Linguagem, estilo e estrutura – o drama romântico: caracterís- ticas G11 Dêixis: pessoal, temporal e espacial Retoma (em revisão) dos conteú- dos estudados no 10º ano: funções sintáticas Texto e textualidade b) coesão textual: – lexical: reiteração e substituição – gramatical: referencial (uso ana- fórico de pronomes, frásica (con- cordância), interfrásica (uso de conectores), temporal (expressões adverbiais ou preposicionais com valor temporal, ordenação corre- lativa dos tempos verbais) O11 (EO) Apreciação crítica (de documen- tário): descrição sucinta do obje- to, acompanhada de comentário crítico Exposição sobre um tema: caráter demonstrativo, elucidação eviden- te do tema (fundamentação das ideias), concisão e objetividade, valor expressivo dasformas lin- guísticas (deíticos, conectores…) E11 Exposição sobre um tema Nota específica para esta sequência didática A indicação dos tópicos de con- teúdo do Programa e os descri- tores das Metas Curriculares surgirão, no tratamento do Frei Luís de Sousa, antes de cada ato, sumariamente. Educação literária Frei Luís de Sousa Ato primeiro Câmara antiga, ornada com todo o luxo e caprichosa elegância portuguesa dos princípios do século dezassete: porcelanas, charões1, sedas, flores, etc. No fundo, duas grandes janelas rasgadas, dando para um eirado2 que olha sobre o Tejo e donde se vê toda Lisboa; entre as janelas o retrato, em corpo inteiro, de um cavaleiro moço, vestido de preto, com a cruz branca de noviço de S. João de Jerusalém. – Defronte e para a boca da cena um bufete pequeno coberto de rico pano de veludo verde franjado de prata; sobre o bufete alguns livros, obras de tapeçaria meias-feitas, e um vaso da China de colo alto, com flores. Algumas cadeiras antigas, tambore- tes3 rasos, contadores. Da direita do espetador, porta de comunicação para o interior da casa, outra da esquerda para o exterior. – É no fim da tarde. A ação de Frei Luís de Sousa gira em torno do desaparecimento do primeiro marido de D. Madalena de Vilhena e do seu segundo casamento. 1. Observa a imagem e levanta hipóte- ses quanto à figura nela representada. Carlos Botelho, «O Romeiro» da peça Frei Luís de Sousa, in Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, Porto, Edições Caixotim, 2014, p. 27 1 objetos decorativos de madeira revestidos de verniz de laca 2 espécie de terraço 3 tipo de cadeira Antes de ler 70 2 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa P R O F E S S O R Antes de ler 1. A figura possui algo de sinis- tro pela cor preta, podendo tam- bém representar um peregrino, como sugere a capa e a cabaça à cintura. Educação literária 1. D. Madalena está a ler Os Lusíadas, concretamente o epi- sódio de Inês de Castro. Ao ler os versos que referem o amor vi- vido por D. Inês, «Naquele enga- no…», ela para e repete-os, pois automaticamente comparou a situação de D. Inês com a sua, o que a fez refletir, pensar na sua vida, fazendo mesmo uma pausa no que está a pensar em voz alta. Ao reconhecer o seu estado de espírito, carac- terizado pela tristeza e pela preocupação, fica a meditar profundamente no que se passa consigo. Temas comuns Sugestão didática O Professor poderá sugerir aos alunos a planificação do traba- lho nos seguintes termos: reler a estrofe e elaborar tópicos relativos à situação de D. Inês; para a de D. Madalena, é funda- mental a releitura da cena I do ato I e a respetiva elaboração de tópicos. O trabalho a desenvolver em torno dos temas comuns pode assumir a forma de texto expo- sitivo, que tenha entre 130 e 170 palavras, ou uma apresentação oral, com duração entre cinco e sete minutos. Cenário de resposta Tanto D. Madalena como D. Inês de Castro amam. Contudo, en- quanto D. Inês de Castro amava sem qualquer preocupação na alma, num «engano da alma le- do e cego», isto é, amando com alegria, D. Madalena, por sua vez, ama, mas sempre com uma tremenda dor interior – «estes contínuos terrores» – cuja na- tureza ela não desvenda ainda. Assim sendo, o seu amor é, nas suas próprias palavras, uma «desgraça». Vídeo Frei Luís de Sousa e Os Lusíadas vistos por Professora Maria Helena Santana Cena I Madalena, só, sentada junto à banca, os pés sobre uma grande almofada, um livro aberto no regaço, e as mãos cruzadas sobre ele, como quem descaiu da leitura na meditação. Madalena (repetindo maquinalmente e devagar o que acaba de ler). «Naquele engano d’alma ledo e cego Que a fortuna não deixa durar muito...» Com paz e alegria de alma... um engano, um engano de poucos instantes que seja... deve de ser a felicidade suprema neste mundo. E que importa que o não dei- xe durar muito a fortuna? Viveu-se, pode-se morrer. Mas eu!... (Pausa). Oh! que o não saiba ele ao menos, que não suspeite o estado em que eu vivo... este medo, es- tes contínuos terrores que ainda me não deixaram gozar um só momento de toda a imensa felicidade que me dava o seu amor. – Oh! que amor, que felicidade... que desgraça a minha! (Torna a descair em profunda meditação; silêncio breve). Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, prefácio de Annabela Rita, Porto, Edições Caixotim, 2004, pp. 59-61 1. Explicita, justificando, o estado de espírito de D. Madalena. Na tua resposta deves referir as três didascálias associadas às suas palavras. - - - - 5 - - - - 10 Temas comuns Relembra um momento do episódio de Inês de Castro de Os Lusíadas, de Luís de Camões, que estudaste no 9º ano. 120 Estavas, linda Inês, posta em sossego, De teus anos colhendo doce fruito, Naquele engano da alma, ledo e cego, Que a Fortuna não deixa durar muito, Nos saudosos campos do Mondego, De teus fermosos olhos nunca enxuito, Aos montes insinando e às ervinhas O nome que no peito escrito tinhas. Luís de Camões, Os Lusíadas, III, 120, Emanuel Paulo Ramos (org.), 3ª edição, Porto, Porto Editora, 1987 Compara as situações de D. Madalena e de D. Inês de Castro, mencionando as seme- lhanças e as diferenças que consideres mais pertinentes. Azulejo da Lírica de Luís de Camões, «Estavas, linda Inês, posta em sossego» (1907), do Grande Hotel do Buçaco (Palácio Hotel de Bussaco), concebido por Maragato 71 Ato primeiro, cena I | Recorte das personagens principais | Dimensão trágica 2 Educação literária Cena II Madalena, Telmo Pais Telmo (chegando ao pé de Madalena, que o não sentiu entrar) – A minha senhora está a ler?... Madalena (despertando) – Ah! sois vós, Telmo... Não, já não leio: há pouca luz de dia já; con- fundia-me a vista. – E é um bonito livro este! o teu valido1, aquele nosso livro, Telmo. Telmo (deitando-lhe os olhos) – Oh, oh! Livro para damas – e para cavaleiros... e para todos: um livro que serve para todos; como não há outro, tirante o respeito devido ao da Palavra de Deus! Mas esse não tenho eu a consolação de ler, que não sei latim como meu senhor... quero dizer, como o Senhor Manuel de Sousa Coutinho – que lá isso!... acabado escolar2 é ele. E assim foi seu pai antes dele, que muito bem o conheci: grande homem! Muitas letras e de muito galante prática3 – e não somenos as outras partes de cavaleiro: uma gravida- de!... Já não há daquela gente. – Mas, minha senhora, isto de a Palavra de Deus estar assim noutra língua, numa língua que a gente... que toda a gente não entende... confesso-vos que aquele mercador inglês da Rua Nova, que aqui vem às vezes, tem-me dito suas coisas que me quadram4… E Deus me perdoe! que eu creio que o homem é herege desta seita nova5 da Alemanha ou da Inglaterra. Será? Madalena – Olhai, Telmo; eu não vos quero dar conselhos: bem sabeis que desde o tempo que... que... Telmo – Que já lá vai, que era outro tempo. Madalena – Pois sim... (suspira). Eu era uma criança, pouco maior era que Maria. Telmo – Não, a Senhora D. Maria já é mais alta. Madalena – É verdade, tem crescido de mais, e de repente nestes dois meses últimos... Telmo – Então! Tem treze anos feitos; é quase uma senhora, está uma senhora... (à parte). Uma senhora aquela... pobre menina! Madalena (com as lágrimas nos olhos) – És muito amigo dela, Telmo? Telmo – Se sou! Um anjo como aquele... uma viveza, um espírito!… e então que coração! Madalena – Filha da minha alma! (Pausa; mudando de tom). Mas olha, meu Telmo, torno a dizer-to: eu não sei como hei de fazer para te dar conselhos. Conheci-te de tão criança, de quando casei a... a… a primeira vez, costumei-me a olhar para ti com tal respeito – já então eras o que hoje és, o escudeiro valido, o familiar quase parente, o amigo velho e provado de teus amos. Telmo (enternecido) – Não digais mais, senhora, não me lembreis de tudo o que eu era. Madalena (quase ofendida) – Porquê? Não és hoje o mesmo, ou mais ainda, seé possível? Qui- taram-te6 alguma coisa da confiança, do respeito, do amor e carinho a que estava costuma- do o aio fiel do meu Senhor D. João de Portugal, que Deus tenha em glória? Telmo (à parte) – Terá... Madalena – O amigo e camarada antigo de seu pai? Telmo – Não, minha senhora, não, por certo. Madalena – Então?... Telmo – Nada. Continuai, dizei, minha senhora. - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - - - 20 - - - - 25 - - - - 30 - - - - 35 - - - Vocabulário 1 preferido 2 homem de letras, erudito 3 agradável conversação 4 me agradam 5 protestante (luterano ou anglicano) 6 tiraram-te 72 2 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa Madalena – Pois está bem. Digo que mal sei dar-vos conselhos, e não queria dar-vos ordens... Mas, meu amigo, tu tomaste – e com muito gosto meu e de seu pai – um ascendente no espírito de Maria... tal que não ouve, não crê, não sabe senão o que lhe dizes. Quase que és tu a sua dona, a sua aia de criação. Parece-me... eu sei... não fales com ela desse modo, nessas coisas… Telmo – O quê? No que me disse o inglês sobre a Sagrada Escritura que eles lá têm em sua língua, e que... Madalena – Sim... nisso decerto... e em tantas outras coisas tão altas, tão fora de sua idade, e muitas de seu sexo também, que aquela criança está sempre a querer saber, a perguntar. É a minha única filha: não tenho... nunca tivemos outra... e, além de tudo o mais, bem vês que não é uma criança... muito... muito forte. Telmo – É... delgadinha7, é. Há de enrijar8. É tê-la por aqui, fora daqueles ares apestados9 de Lisboa; e deixai, que se há de pôr outra. Madalena – Filha do meu coração! Telmo – E do meu. Pois não se lembra, minha senhora, que, ao princípio, era uma criança que não podia... – é a verdade, não a podia ver: já sabereis porquê... mas vê-la, era ver... Deus me perdoe!... nem eu sei... E daí começou-me a crescer, a olhar para mim com aqueles olhos... a fazer-me tais meiguices, e a fazer-se-me um anjo tal de formosura e de bondade, que – vedes-me aqui agora, que lhe quero mais do que seu pai. Madalena (sorrindo) – Isso agora!... Telmo – Do que vós. Madalena (rindo) – Ora, meu Telmo! Telmo – Mais, muito mais. E veremos: tenho cá uma coisa que me diz que antes de muito se há de ver quem é que quer mais à nossa menina nesta casa. Madalena (assustada) – Está bom; não entremos com os teus agouros e profecias do costume: são sempre de aterrar... Deixemo-nos de futuros... Telmo – Deixemos, que não são bons. Madalena – E de passados também... Telmo – Também. Madalena – E vamos ao que importa agora. Maria tem uma compreensão... Telmo – Compreende tudo! Madalena – Mais do que convém... Telmo – Às vezes. Madalena – É preciso moderá-la. Telmo – É o que eu faço. Madalena – Não lhe dizer... Telmo – Não lhe digo nada que não possa, que não deva saber uma donzela honesta e digna de melhor... de melhor... Madalena – Melhor quê? Telmo – De nascer em melhor estado. Quisestes ouvi-lo... está dito. Madalena – Oh! Telmo! Deus te perdoe o mal que me fazes. (Desata a chorar). - 40 - - - - 45 - - - - 50 - - - - 55 - - - - 60 - - - - 65 - - - - 70 - - - - 75 - - - - Vocabulário 7 magrinha 8 fortalecer-se 9 referência à peste que grassava 73 Ato primeiro, cena II | Recorte das personagens principais | Dimensão trágica 2 Telmo (ajoelhando e beijando-lhe a mão) – Senhora... senhora D. Madalena, minha ama, mi- nha senhora... castigai-me... mandai-me já castigar, mandai-me cortar esta língua perra que não toma ensino. Oh! senhora, senhora!... é vossa filha, é a filha do Senhor Manuel de Sousa Coutinho, fidalgo de tanto primor e de tão boa linhagem como os que se têm por melhores neste reino, em toda a Hespanha… A Senhora D. Maria... a minha querida D. Maria é sangue de Vilhenas e de Sousas; não precisa mais nada, mais nada, minha se- nhora, para ser... para ser... Madalena – Calai-vos, calai-vos, pelas dores de Jesus Cristo, homem. Telmo (soluçando) – Minha rica senhora!... Madalena (enxuga os olhos e toma uma atitude grave e firme) – Levantai-vos, Telmo, e ouvi-me. (Telmo levanta-se) Ouvi-me com atenção. É a primeira e será a última vez que vos falo deste modo e em tal assunto. Vós fostes o aio e o amigo de meu senhor... de meu primeiro ma- rido, o Senhor D. João de Portugal; tínheis sido o companheiro de trabalhos e de glória de seu ilustre pai, aquele nobre conde de Vimioso, que eu de tamanhinha10 me acostumei a reverenciar como pai. Entrei depois nessa família de tanto respeito; achei-vos parte dela, e quase que vos tomei a mesma amizade que aos outros... chegastes a alcançar um poder e do mundo, o que tendes adquirido na conversação dos homens e dos livros – porém, mais que tudo, o que de vosso coração fui vendo e admirando cada vez mais – me fizeram ter-vos numa conta, deixar-vos tomar, entregar-vos eu mesma tal autoridade nesta casa e sobre minha pessoa... que outros poderão estranhar... Telmo – Emendai-o, senhora. Madalena Depois que fiquei só, depois daquela funesta jornada de África11 que me deixou viúva, órfã e sem ninguém... sem ninguém, e numa idade... com dezassete anos! – em vós, Telmo, em vós só, achei o carinho e proteção, o amparo que eu precisava. Ficastes-me em lugar de pai; e eu... salvo numa coisa! – tenho sido para vós, tenho-vos obedecido como filha. Telmo – Oh, minha senhora, minha senhora! Mas essa coisa em que vos apartastes dos meus conselhos... Madalena – Para essa houve poder maior que as minhas forças... D. João ficou naquela batalha com seu pai, com a flor da nossa gente (sinal de impaciência em Telmo). Sabeis como chorei a sua perda, como respeitei a sua memória, como durante sete anos, incrédula a tantas provas e testemunhos da sua morte, o fiz procu- rar por essas costas de Berbéria12, por todas as séjanas13 de Fez e Marrocos, por todos quantos aduares de Alarves14 aí houve... Cabedais15 e valimentos16, tudo se empregou; gastaram-se grossas quantias; os embaixadores de Portugal e Castela tiveram ordens apertadas de o buscar por toda a parte; aos padres da Redenção, a quanto religioso ou mer- cador podia penetrar naquelas terras, a todos se encomendava o seguir a pista do mais leve indício que pudesse desmentir, pôr em dúvida ao menos, aquela notícia que logo viera com as primeiras novas da batalha de Alcácer. Tudo foi inútil; e a ninguém mais ficou resto de dúvida... 80 - - - - 85 - - - - 90 - - - - 95 - - - - 100 - - - - 105 - - - - 110 - - - - 115 - - - - 120 - - - - 125 Vocabulário 10 desde criança 11 batalha de Alcácer Quibir 12 Norte de África 13 prisões 14 aldeias árabes 15 capitais, dinheiro 16 conhecimentos ssa gente (sinal de impaciência em Telmo). respeitei a sua memória, como durante estemunhos da sua morte, o fiz procu- odas as séjanas13 de Fez e de Alarves14 aí houve... pregou; gastaram-se Portugal e Castela or toda a parte; oso ou mer- odos se leve 74 2 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa Telmo – Senão a mim. Madalena – Dúvida de fiel servidor, esperança de leal amigo, meu bom Telmo!, que diz com vosso coração, mas que tem atormentado o meu... E então sem nenhum fundamento, sem o mais leve indício... Pois dizei-me em consciência, dizei-mo de uma vez, claro e desenga- nado: a que se apega esta vossa credulidade de sete... e hoje mais catorze... vinte e um anos? Telmo (gravemente) – Às palavras, às formais palavras daquela carta escrita na própria madru- gada do dia da batalha, e entregue a Frei Jorge, que vo-la trouxe. – «Vivo ou morto» – rezava ela – «vivo ou morto»... Não me esqueceu uma letra daquelas palavras; e eu sei que homem era meu amo para as escrever em vão: – «Vivo ou morto, Madalena, hei de ver-vos pelo menos ainda uma vez neste mundo». – Não era assim que dizia? Madalena (aterrada) – Era. Telmo – Vivo não veio... e ainda mal! E morto... a sua alma, a sua figura... Madalena (possuída de grande terror) – Jesus, homem! Telmo– ... não vos apareceu, decerto. Madalena – Não, credo! Telmo (misterioso) – Bem sei que não. Queria-vos muito; e a sua primeira visita, como de ra- zão, seria para minha senhora. Mas não se ia sem aparecer também ao seu aio velho. Madalena – Valha-me Deus, Telmo! Conheço que desarrazoais17, e contudo as vossas pala- vras metem-me medo... Não me faças mais desgraçada. Telmo – Desgraçada! Porquê? Não sois feliz na companhia do homem que amais, nos braços do homem a quem sempre quisestes mais sobre todos? Que o pobre do meu amo... respei- to, devoção, lealdade, tudo lhe tivestes, como tão nobre e honrada senhora que sois... mas amor! Madalena – Não está em nós dá-lo, nem quitá-lo, amigo. Telmo – Assim é. Mas os ciúmes que meu amo não teve nunca – bem sabeis que têmpera de alma era aquela – tenho-os eu... aqui está a verdade nua e crua... tenho-os eu por ele: não posso, não posso ver... e desejo, quero, forcejo por me acostumar... mas não posso. Manuel de Sousa... o Senhor Manuel de Sousa Coutinho é um guapo cavalheiro, honrado fidalgo, bom português... mas… – mas não é, nunca há de ser, aquele espelho de cavalaria e gentile- za, aquela flor dos bons... Ah! meu nobre amo, meu santo amo! Madalena – Pois sim, tereis razão... tendes razão; será tudo como dizeis. Mas refleti, que ha- Sousa; foi do aprazimento18 geral de nossas famílias, da própria família de meu primeiro marido, que bem sabeis quanto me estima; vivemos (com afetação) seguros, em paz e fe- lizes... há catorze anos. Temos esta filha, esta querida Maria que é todo o gosto e ânsia da nossa vida. Abençoou-nos Deus na formosura, no engenho, nos dotes admiráveis daquele anjo... E tu, tu, meu Telmo, que és tão seu, que chegas a pretender ter-lhe mais amor que nós mesmos... Telmo – Não, não tenho! Madalena - tentar essa quimera, a levantar esse fantasma, cuja sombra, a mais remota, bastaria para enodoar a pureza daquela inocente, para condenar a eterna desonra a mãe e a filha!... (Telmo dá sinais de grande agitação) Ora dize: já pensaste bem no mal que estás fazendo? – Eu bem sei que a ninguém neste mundo, senão a mim, falas em tais coisas... falas assim como hoje temos falado... mas as tuas palavras misteriosas, as tuas alusões frequentes a esse desgraça- do rei D. Sebastião, que o seu mais desgraçado povo ainda não quis acreditar que morresse, - - - - 130 - - - - 135 - - - - 140 - - - - 145 - - - - 150 - - - - 155 - - - - 160 - - - - 165 - - - - 170 - Vocabulário 17 dizeis coisas sem sentido 18 agrado 75 Ato primeiro, cena II | Recorte das personagens principais | Dimensão trágica 2 P R O F E S S O R Educação literária 1. O texto apresenta, tanto nas palavras de D. Madalena como nas de Telmo, várias referên- cias à batalha de Alcácer Quibir – 1578. D. Madalena, traçando o percur- so da sua vida desde o momento em que enviuvou, dado o fac- to de o marido ter morrido nes- sa batalha, diz que o procurou «durante sete anos» (ll. 111-112). Depois disso casou, tendo uma filha do novo casamento, Ma- ria, que tem agora «treze anos feitos», nas palavras de Telmo (l. 21). Assim sendo, a ação passa- -se aproximadamente vinte e um anos depois da batalha, se consi- derarmos os sete anos referidos, mais os treze de idade de Maria, mais o tempo da sua gestação, o que situa a ação em 1599, no século XVI, portanto. Este foi o século da Reforma protestante, que traduziu a Bíblia para o ver- náculo dos países onde se im- plantou; a esse facto se refere Telmo na sua segunda fala. 2. Trata-se de uma relação de grande confiança e abertura, considerando o modo como dia- logam – que revela uma longa convivência de natureza tipica- mente familiar: Telmo era bem mais um parente do que um ser- viçal da casa, dado o muito tem- po passado ao serviço da família de D. João. 3. Telmo Pais não aprecia par- ticularmente Manuel de Sousa Coutinho. E isso sucede pois Manuel de Sousa Coutinho veio ocupar o lugar que pertencia ao seu amo anterior, D. João de Por- tugal – o qual Telmo acredita es- tar vivo ainda. 4.1 Fisicamente, Maria tem «tre- ze anos feitos» (l. 21), é alta pa- ra a idade (l. 19), «delgadinha» (l. 50), isto é, de compleição frá- gil. Psicologicamente, revela- -se muito esperta, «uma viveza, um espírito» (l. 24), de bom cora- ção e, principalmente, de grande capacidade de entendimento do que se passa à sua volta: «Com- preende tudo!» – admira-se Tel- mo (l. 69). 5.1 D. Madalena receia que Telmo revele o que ele sabe sobre o passado da família a Maria; in- formações sobre esse passado, ligadas à crença de Telmo de que D. João de Portugal está vi- vo, seriam fatais para Maria, que assim se veria na condição de fi- lha ilegítima. por quem ainda espera em sua leal incredulidade – esses contínuos agouros em que an- das sempre de uma desgraça que está eminente sobre a nossa família... não vês que estás excitando com tudo isso a curiosidade daquela criança, aguçando-lhe o espírito – já tão perspicaz! – a imaginar, a descobrir... quem sabe se a acreditar nessa prodigiosa desgraça em que tu mesmo... tu mesmo... sim, não crês deveras? Não crês, mas achas não sei que doloroso prazer em ter sempre viva e suspensa essa dúvida fatal. E então considera, vê: se um terror semelhante chega a entrar naquela alma, quem lho há de tirar nunca mais?... Telmo (em grande agitação durante a fala precedente, fica pensativo e aterrado; fala depois como para si) - zes não. (Para Madalena) À fé de escudeiro honrado, Senhora D. Madalena, a minha boca não se abre mais; e o meu espírito há de... há de fechar-se também... (à parte) Não é possí- vel, mas eu hei de salvar o meu anjo do céu! (alto para Madalena) Está dito, minha senhora. Madalena – Ora Deus to pague. Hoje é o último dia de nossa vida que se fala em tal. Telmo – O último. Madalena – Ora pois, ide, ide ver o que ela faz (levantando-se): que não esteja a ler ainda, a estudar sempre. (Telmo vai a sair) E olhai: chegai-me depois ali a S. Paulo, ou mandai, se não podeis... Telmo – Ao convento dos Domínicos19? Pois não posso!... quatro passadas. Madalena – … E dizei a meu cunhado, a Frei Jorge Coutinho, que me está dando cuidado a demora de meu marido em Lisboa; que me prometeu vir antes de véspera, e não veio; que é quase noite, e que já não estou contente com a tardança. (Chega à varanda e olha para o rio) O ar está sereno, o mar tão quieto e a tarde tão linda!... Quase que não há vento, é uma viração que afaga... Oh! e quantas faluas navegando tão garridas por esse Tejo! Talvez nal- guma delas – naquela tão bonita – venha Manuel de Sousa. Mas neste tempo não há que fiar no Tejo, dum instante para o outro levanta-se uma nortada... e então aqui o pontal de Cacilhas! Que ele é tão bom mareante... Ora, um cavaleiro de Malta! (Olha para o retrato com amor) Não é isso o que me dá maior cuidado. Mas em Lisboa ainda há peste, ainda não estão limpos os ares... E essoutros ares que por aí correm destas alterações públicas, des- tas malquerenças20 entre castelhanos e portugueses! Aquele caráter inflexível de Manuel que me assossegue, se puder. Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, prefácio de Annabela Rita, Porto, Edições Caixotim, 2004, pp. 62-73 1. Apresenta elementos textuais que te permitam indicar o tempo da ação, nomeadamente de natureza histórica e religiosa. 2. Define o tipo de relação existente entre D. Madalena e Telmo Pais, justificando a tua resposta. 3. Explicita a relação existente entre Telmo Pais e Manuel de Sousa Coutinho. 4. Embora Maria não participe nesta cena, a sua presença é por demais evidente. 4.1 Caracteriza-a física e psicologicamente, com base nas palavras de Telmo e de sua mãe, D. Madalena. 5. D. Madalena pede a Telmo para ter cuidado com tudo o que diz a Maria. 5.1 Refere o que pode estar na origem deste pedido. - - - 175 - - - - 180 - - - - 185 - - - - 190 - - - - 195 - - - - 200 - - - Vocabulário 19 frades dominicanos;20 lutas 76 2 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa P R O F E S S O R 6. Telmo admite que quando Ma- ria nasceu ele «não a podia ver» (l. 54). Esta atitude tem na ori- gem o facto de Maria ser fruto de um casamento que para Telmo estava amaldiçoado, pois acredi- tava que D. João de Portugal es- tava vivo. Com o tempo, contudo, Telmo afeiçoou-se de tal modo a Maria que afirma amá-la mais do que o próprio pai (l. 57). 7.1 D. Madalena «desata a cho- rar» quando Telmo lhe diz com clareza que Maria deveria ter nascido «em melhor estado», isto é, numa família constituí- da por pais casados sem qual- quer sombra a pairar sobre eles, nomeadamente a sombra de um casamento ilegítimo – nes- te caso, devido à possibilidade de estar vivo D. João de Portu- gal. Maria seria uma filha ilegí- tima se isso acontecesse, o que, para a mentalidade da época e à luz da lei e das convenções so- ciais então vigentes, teria con- sequências funestas para ela. 8. D. Madalena confessa a Telmo que ela e o marido vivem «segu- ros, em paz e felizes…» (ll. 159- -160), mas fá-lo «com afetação», o que revela que não está tão se- gura do que diz como parece. 9.1 1º exemplo: o sofrimento contí- nuo expresso por D. Madalena, presa a medos e receios; 2º exemplo: as crenças irracio- nais de Telmo, com origem na cultura popular, que crê na pos- sibilidade de D. João de Portugal lhe aparecer depois de morto; 3º exemplo: a presença implíci- ta de convenções sociais que im- pedem a felicidade individual. Compreensão do oral 1. Tópicos possíveis que os alu- nos podem selecionar: o tema do amor; ponto de vista sobre o amor; as três fases do amor ro- mântico; características de cada uma das três fases; hormonas associadas às três fases. 2.1. (C) 2.2 (C) 3. a. V b. V c. V d. F (Corres- ponde à fase do amor sóbrio, que ultrapassa a fase da atra- ção/paixão e fornece os laços para que os parceiros permane- çam juntos.) e. F (A oxitocina é a hormona do «carinho» ou do «abraço» e a vasopressina é a hormona da fidelidade.) Áudio «A química do amor» 6. Explicita, justificando, a evolução da relação existente entre Telmo e Maria. 7. Em determinado momento da conversa, Telmo diz algo que perturba muito D. Madalena, de tal modo que começa a chorar. 7.1 Pronuncia-te sobre o que esteve na origem do pranto de D. Madalena. 8. Apresenta uma justificação válida para o facto de D. Madalena ter dito determinadas pala- vras «com afetação» (l. 159). 9. No decurso da cena são várias as referências a componentes da visão romântica do mundo, que contribuem, na generalidade, para a criação de uma atmosfera dramática. 9.1 Justifica esta afirmação recorrendo a, pelo menos, três exemplos pertinentes. Oralidade COMPREENSÃO DO ORAL Exposição sobre um tema O amor é muitas vezes definido como uma «química» que leva a que as pessoas se apai- xonem. É ela que faz a sua felicidade, mas também as conduz a tragédias – como bem ilustra Frei Luís de Sousa. Mas, se é uma «química», que luz nos poderá trazer a ciência sobre o amor? 1ª audição 1. Faz uma primeira audição do recurso áudio «A química do amor» e regista, no caderno, as ideias-chave do documento através de tópicos. 2ª audição 2. Procede a uma nova audição e seleciona a opção que permite obter uma afirmação correta em cada alínea. 2.1 A principal intenção comunicativa do texto é a de (A) informar, visto que o texto é uma notícia sobre o amor. (B) apresentar uma opinião fundamentada sobre o tema do amor. (C) expor ideias sobre um tema, fundamentando-as com dados científicos. (D) argumentar a favor da tese «A química do amor». 2.2 A química do amor desenvolve-se em três momentos, correspondentes às fases (A) da atração, da paixão e da sedução. (B) da paixão, do desejo e do amor. (C) do desejo, da atração e da ligação. (D) da ligação, da sedução e da atração. 3. Indica as afirmações verdadeiras (V) e a afirmação falsa (F). Corrige a falsa. a. A primeira fase do amor romântico é desencadeada pelas nossas hormonas sexuais, a testosterona nos homens e o estrogénio nas mulheres. b. A norepinefrina, a serotonina e a dopamina são as hormonas da paixão. c. A fase da paixão conduz a situações em que as mãos suam, a respiração falha e é difícil pensar com clareza. d. A fase da ligação corresponde ao amor apaixonado, anterior à fase da atração. e. A oxitocina e a vasopressina são as hormonas da fidelidade. «A química do amor», in Paulo Ribeiro Claro, revista Química, da Sociedade Portuguesa de Química, nº 100, 2006 FAIXA 2 77 Ato primeiro, cena II | Recorte das personagens principais | Dimensão trágica 2 Ficha de apoio nº 1 Dêixis Observa a fala de uma das personagens de Frei Luís de Sousa. Telmo – […] Deus me perdoe!... nem eu sei... E daí começou-me a crescer, a olhar para mim com aqueles olhos... a fazer-me tais meiguices, e a fazer-se- -me um anjo tal de formosura e de bondade, que – vedes-me aqui agora, que lhe quero mais do que seu pai. Frei Luís de Sousa, ato I, cena II As palavras destacadas indicam o enunciador («eu»), o momento da enunciação («agora») e o local onde produz essa enunciação («aqui»). O conhecimento do contexto situacional permite-nos saber que elas se referem a Telmo («eu»), ao momento em que fala («agora» – durante a tarde), e ao local onde se encontra («aqui» – no palácio de Manuel de Sousa Coutinho e de D. Madalena). Dêixis é o processo que permite identificar, num enunciado, as marcas da enun- ciação dos participantes numa situação de comunicação, a qual decorre num tempo e num espaço por eles partilhada. Deíticos são palavras e expressões com as quais é possível construir a referência, num enunciado. Observa o quadro. Coordenadas da dêixis Eu – a pessoa que assume o discurso. Aqui – o lugar onde o «eu» se encontra, no momento da enunciação. Agora – o momento em que o «eu» fala. Tipos de dêixis Pessoal – Refere as pessoas do discurso, que participam no ato de enunciação: a(s) pessoa(s) com quem o «eu» fala («tu» / «vós») e a(s) pessoa(s) de quem se fala («ele»; «ela» /«eles»; «elas») Espacial – Assinala a localização espacial de pessoas ou objetos, tendo como ponto de referência o lugar em que decorre a enuncia- ção («aqui»). Temporal – Localiza, no tempo, factos relacionados com a enuncia- ção: o momento da enunciação e o que, em simultâneo, ocorre com ela (simultaneidade); o que ocorre antes do momento da enunciação (anterioridade); o que ocorre depois (posterioridade). 78 2 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa P R O F E S S O R Ficha de apoio nº 1 1.1 a. «me» b. «vos» c. «aqui» 2. a. «agora»: neste momento b. hoje»: no presente, na atuali- dade c. «eu»: D. Madalena; «vós»: Telmo 3.1 a. «esta noite» b. «dei» c. «sairemos» Apresentação Dêixis pessoal, temporal e espacial Os deíticos referenciam pessoas, locais e tempos diferentes, uma vez que se atuali- zam em função do contexto situacional em que ocorre a comunicação (um diálogo, uma conversa), como se pode verificar nas situações de comunicação seguintes. 1. Atenta no segmento textual seguinte: «[…] confesso-vos que aquele mercador inglês da Rua Nova, que aqui vem às vezes, tem-me dito suas coisas que me quadram…» (ll. 11-13). 1.1 Identifica a. o deítico pessoal que identifica o enunciador do discurso; b. o deítico pessoal que identifica o interlocutor; c. o deítico espacial com que o enunciador localiza o lugar onde fala. 2. Menciona os referentes dos deíticos destacados nas frases seguintes, atendendo ao contexto da enunciação. a. «E vamos ao que importa agora.» (l. 68). b. «Não és hoje o mesmo, ou mais ainda, se é possível?» (l. 31). c. «[…] e eu... salvo numa coisa! – tenho sido para vós, tenho-vos obedecido como fi- lha.» (l. 106). 3. Relê a fala seguinte, na qual se encontram marcas de dêixis temporal. «Sairemos esta noite mesma. Já dei ordens a toda a família» 3.1 Identifica a. a expressão que indica o momento da enunciação;b. o tempo verbal que indica anterioridade, relativamente ao momento da enunciação; c. o tempo verbal que indica posterioridade, relativamente ao momento da enun- ciação. Caderno de Atividades Ficha nº 10: Dêixis p. 35 D. Madalena («eu») dia- logando com Telmo Pais («te»). Manuel de Sousa Cou- tinho («eu») dialogando com Frei Jorge («conti- go»), às 8 horas da noite («agora», implícito), no palácio de D. João de Portugal («aqui»). Telmo («me») dialogan- do com D. Madalena («vós» implícito), sobre Maria, durante a tarde («agora»), no palácio de Manuel de Sousa Couti- nho («aqui»). Telmo Pais («me» / «eu») dialogando com D. Ma- dalena («vós» implícito). «[…] ainda bem que aqui estás, preciso de ti: bem sei que é tarde […]; mas eu irei depois contigo dizer a “mea culpa” e o “peccavi” ao nosso bom prior.» «[…] vedes-me aqui agora, que lhe quero mais do que seu pai.» «[…] não me lembreis de tudo o que eu era.» «[…] eu não sei como hei de fazer para te dar conselhos.» Anexo Informativo Dêixis pp. 376-377 79 Ficha de apoio nº 1 Dêixis 2 P R O F E S S O R Antes de ler 1. A educação 1.1 Malala é uma jovem corajo- sa, determinada e idealista, que acredita no poder transforma- dor da educação. 2. Maria, tal como Malala, é um espírito irrequieto, com uma in- saciável sede de conhecimento. Vídeo Discurso de Malala na Assembleia Geral da ONU Educação literária Cena III Madalena, Telmo, Maria Maria (entrando com umas flores na mão, encontra-se com Telmo, e o faz tornar para a cena) – Bonito! Eu há mais de meia hora no eirado passeando – e sentada a olhar para o rio a ver as faluas e os bergantins1 que andam para baixo e para cima – e já aborrecida de esperar... e do romance que me prometestes? Não é o da batalha, não é o que diz: Postos estão, frente a frente, Os dous valorosos campos; é o outro, é o da ilha encoberta onde está el-rei D. Sebastião, que não morreu e que há de vir um dia de névoa muito cerrada... Que ele não morreu; não é assim, minha mãe? Madalena – Minha querida filha, tu dizes coisas! Pois não tens ouvido, a teu tio Frei Jorge e a teu tio Lopo de Sousa, contar tantas vezes como aquilo foi? O povo, coitado, imagina essas quimeras para se consolar na desgraça. Maria – Voz do povo, voz de Deus, minha senhora mãe: eles que andam tão cren- tes nisto, alguma coisa há de ser. Mas ora o que me dá que pensar é ver que, tirado aqui o meu bom velho Telmo (chega-se toda para ele, acarinhando-o), ninguém nesta casa gosta de ouvir falar em que escapasse o nosso bravo rei, o nosso santo rei D. Sebastião. Meu pai, que é tão bom português, que não pode sofrer2 estes castelhanos, e que até às vezes, dizem que é demais o que ele faz e o que ele fala… em ouvindo du- vidar da morte do meu querido rei D. Sebastião... ninguém tal há de dizer, mas põe-se logo outro, muda de semblante, fica pensativo e carrancudo; parece que o vinha afrontar, se D. Filipe; não é, não? Madalena – Minha querida Maria, que tu hás de estar sempre a imaginar nessas coisas que são tão pouco para a tua idade! - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - - - 20 - - - - 25 - 1. Identifica, no vídeo do breve discurso de Malala na Assembleia Geral da ONU, o tema da sua intervenção. 1.1 Com base nas suas palavras, refere alguns traços de caráter desta jovem laureada com o prémio Nobel da Paz. 2. De acordo com o que leste na cena II, apresen- ta algumas afinidades entre Maria de Noronha e Malala. Antes de ler Discurso de Malala, «As canetas e os livros são as mais poderosas armas», proferido na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, no dia 13 de julho de 2013 Vocabulário 1 tipo de embarcação 2 não pode aguentar 80 2 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa P R O F E S S O R Educação literária 1.1 De facto, Maria apercebe- -se de que os pais não gostam que se fale na possibilidade de D. Sebastião poder regressar; já Telmo aceita a possibilida- de. Relativamente ao pai, Maria lembra que, perante tal even- tualidade, ele «põe-se logo ou- tro, muda de semblante, fica pensativo e carrancudo» (ll. 21- -22); em relação a D. Madalena, constata que – comprovando o que vinha dizendo – a mãe cho- ra: «está a chorar» (l. 30). 2. A expressão refere-se às cren- ças sebastianistas de Telmo e do povo. 3. Maria enquadra-se na cren- ça sebastianista, argumentando que, se o povo crê nela, é porque é verdadeira: «Voz do povo, voz de Deus […]», «alguma coisa há de ser.» (ll. 13-14). 4. D. Madalena acredita na mor- te de D. Sebastião em Alcácer Quibir, invocando como autori- dades o cunhado Frei Jorge e Lopo de Sousa. Contudo, afli- ge-se perante a possibilidade do regresso do jovem rei; Maria acredita na possibilidade do re- gresso de D. Sebastião; Manuel de Sousa Coutinho não está ab- solutamente certo da morte de D. Sebastião: a dúvida sobre a morte do rei o deixa muito inco- modado. No caso de D. Madalena, e tendo em vista a cena I deste ato, ela aflige-se perante a possibilida- de do regresso de D. Sebastião porque, se ele pode regressar, o primeiro marido – desapareci- do em idênticas circunstâncias – o pode também. Gramática 1.1 a. Sujeito Expressão oral Link «D. Sebastião, o rei mito» Apresentação Cenário de resposta: apreciação crítica («D. Sebastião, o rei mito») Isso é o que nos aflige, a teu pai e a mim; queria-te ver mais alegre, folgar mais, e com coisas menos... Maria – Então, minha mãe, então! – Veem, veem?... também minha mãe não gosta. Oh! essa ainda é pior, que se aflige, chora... ela aí está a chorar (vai-se abraçar com a mãe, que cho- ra falar, nem ouvir falar de tal batalha, nem de tais histórias, nem de coisa nenhuma dessas. Telmo – E é assim: não se fala mais nisso. E eu vou-me embora. (À parte, e indo-se depois de lhe tomar as mãos) Que febre que ela tem hoje, meu Deus! Queimam-lhe as mãos... e aquelas rosetas nas faces... Se o perceberá a pobre da mãe! Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, prefácio de Annabela Rita, Porto, Edições Caixotim, 2004, pp. 72-75 1. Maria revela, através das suas atitudes e palavras, ter um espírito de grande capacidade de observação, de análise de comportamento dos que lhe são mais próximos. 1.1 Comprova a afirmação, considerando as suas palavras relativamente aos pais. 2. Esclarece a que se refere a expressão «essas quimeras» (ll. 11-12). 3. Explicita a relação de Maria com a crença sebastianista. 4. Refere as diferentes perspetivas que têm D. Madalena, Maria e Manuel de Sousa Coutinho relativamente ao destino de D. Sebastião e justifica a perspetiva de D. Madalena. Gramática 1. Atenta nas expressões presentes no texto: «el-rei D. Sebastião» (l. 8); «o nosso bravo rei» (ll. 16-17); «a pobre mãe» (l. 36). 1.1 Identifica a afirmação correta, justificando. a. Todas as expressões têm a mesma função sintática. b. As expressões não têm todas a mesma função sintática. Oralidade EXPRESSÃO ORAL Apreciação crítica Maria e sua mãe, D. Madalena, têm sobre o regres- so de D. Sebastião perspetivas opostas. Na atualidade, D. Sebastião e o mito sebastiânico continuam a ser objeto de olhares críticos, em particular na literatura e no cinema. Faz uma apreciação crítica, com duração entre dois e quatro minutos, do breve documentário «D. Sebastião, o rei mito», respeitando os tópicos fornecidos: descrição sucinta do objeto – o tema; a perspetiva sobre D. Sebastião; o contraste entre os factos históricos e a visão que Camões dele apresenta na Dedicatória de Os Lusíadas; comentário crítico. Na tua apresentação, utiliza adequadamente recursos verbais e não verbais: tom de voz, entoação, articulação, ritmo, expressividade e postura. - - - 30 - - - - 35 - Documentário «D. Sebastião, rei mito», Companhia das Ideias, RTP (2012) Anexo Informativo Funções sintáticas pp. 364-366 81 Ato primeiro, cena III | O sebastianismo:história e ficção 2 Ficha de apoio nº 2 Alonso Sánchez Coello, Retrato d’El Rei Dom Sebastião (1575), Museu de História de Arte, Viena, Áustria P R O F E S S O R Ficha de apoio nº 2 1. a. V b. F (A relação entre Frei Luís de Sousa e o sebastianismo é mui- to forte.) c. F (A ficção romântica, através de Frei Luís de Sousa, apresenta uma dupla visão da crença.) d. V O sebastianismo: história e ficção Texto 1 Alcácer Quibir: consequências O desastre de Alcácer Quibir, o estado de decapitação financeira do reino e o enig- ma relativo à veracidade da morte de D. Sebastião, seguidos da perda da independên- cia, geraram uma miscelânea cultural e social tendente a acentuar os indícios de uma vaga esperança de que D. Sebastião não tivesse de facto morrido e, presumivelmente, após ter expiado o seu erro político e militar numa peregrinação à Terra Santa, regres- sasse para restabelecer em Portugal o espírito de justiça e de bem-estar. Miguel Real, Nova teoria do sebastianismo, Lisboa, D. Quixote, 2014, p. 146 Texto 2 Alcácer Quibir: simbolismo Com o Frei Luís de Sousa, fez Almeida Garrett uma peça sebastianista por duas vias: por um lado, o fidalgo que está no cerne do drama esteve em Alcácer Quibir, sendo um espetro incómodo naquele Portugal que se conformara já com a ocupação estrangeira; por outro, há nesta peça toda uma atmosfera angustiadamente interroga- dora sobre a própria sobrevivência presente – oitocentista – da Nação, após a grande crise da revolução liberal e da intérmina guerra civil que ela vivera e que ainda havia de viver em contínuos sobressaltos próximos (guerra civil de 1846-1847, 1851, etc.). João Medina, «Sebastianismo», in Álvaro Manuel Machado (org. e dir.), Dicionário de literatura portuguesa, Lisboa, Editorial Presença, 1996, p. 559 (texto adaptado) Texto 3 Alcácer Quibir: sebastianismo Se Garrett não tivesse escrito Frei Luís de Sousa, poderíamos dizer que o sebastia- nismo tinha tido uma presença discreta no Romantismo português. Como Eduardo Lourenço demonstrou, a propósito de Frei Luís de Sousa, «Garrett escreveu uma obra política», «fantomática», tendo por assunto a «existência» anómala de Portugal, país sem presente. À luz desta leitura, a presença muda de D. Sebastião, cujo retrato, re- corde-se, está colocado ao lado do de D. João de Portugal, transforma-se na metáfora vazia do próprio país, que assiste impotente à sua própria tragédia. Teresa Almeida, «(D). Sebastião (na literatura romântica portuguesa)», in Helena Carvalhão Buescu (coord.), Dicionário do romantismo literário português, Lisboa, Caminho, 1997, p. 532 (texto adaptado) 1. Indica as afirmações verdadeiras (V) e as afirmações falsas (F). Corrige as falsas. a. Historicamente, a crença sebastianista tem origem no desastre de Alcácer Quibir. b. A relação entre Frei Luís de Sousa e a crença sebastianista é muito ténue. c. A ficção romântica, através de Frei Luís de Sousa, apresenta uma estrita visão histórica da crença. d. A presença do sebastianismo em Frei Luís de Sousa é de natureza simbólica, incidindo fortemente no Portugal do tempo da escrita da peça. nismo Loure polític sem p corde vazia Tere 1. Ind a d - - - - 5 - - - - - 5 - - - - - - 5 - - 82 2 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa Educação literária Cena IV Madalena, Maria Maria – Quereis vós saber, mãe, uma tristeza muito grande que eu tenho? A mãe já não chora, não? Já não se enfada comigo? Madalena – Não me enfado contigo nunca, filha; e nunca me afliges, querida. O que tenho é o cuidado que me dás, é o receio de que... Maria – Pois aí está a minha tristeza; é esse cuidado em que vos vejo andar sempre por minha causa. Eu não tenho nada, e tenho saúde, olhai que tenho muita saúde. Madalena – Tens, filha... se Deus quiser, hás de ter; e hás de viver muitos anos para consolação e amparo de teus pais que tanto te querem. Maria – Pois olhai: passo noites inteiras em claro a lidar nisto, e a lembrar-me de quantas pa- pensar em tudo, a ver se descubro o que isto é – o porque, tendo-me tanto amor... que, oh! isso nunca houve decerto filha querida como eu!... Madalena – Não, Maria. Maria – Pois sim; tendo-me tanto amor, que nunca houve outro igual, estais sempre num sobressalto comigo?... Madalena – Pois se te estremecemos1? Maria – Não é isso, não é isso: é que vos tenho lido nos olhos... Oh! que eu leio nos olhos, Madalena – Que estás a dizer, filha, que estás a dizer? Que desvarios! Uma menina do teu juí- zo, temente a Deus... não te quero ouvir falar assim. Ora vamos: anda cá, Maria; conta-me do teu jardim, das tuas flores. Que flores tens tu agora? O que são estas? (Pegando nas que ela traz na mão). Maria (abrindo a mão e deixando-as cair no regaço da mãe) – Murchou tudo... tudo estragado da calma2... Estas são papoulas que fazem dormir; colhi-as para as meter debaixo do meu cabeçal3 esta noite; quero-a dormir de um sono, não quero sonhar, que me faz ver coisas… lindas às vezes, mas tão extraordinárias e confusas... Madalena – Sonhar, sonhas tu acordada, filha! Que, olha, Maria, imaginar é sonhar: e Deus pôs-nos neste mundo para velar e trabalhar, com o pensamento sempre n’Ele sim, mas sem nos estranharmos a estas coisas da vida que nos cercam, a estas necessidades que nos impõe o estado, a condição em que nascemos. Vês tu, Maria: tu és a nossa única filha, todas as esperanças de teu pai são em ti... Maria Madalena – Lês demais, cansas-te, não te distrais como as outras donzelas da tua idade, não és... Maria – O que eu sou... só eu o sei, minha mãe... E não sei, não: não sei nada, senão que o - do4 e valente mancebo, capaz de comandar os terços de meu pai, de pegar numa lança daquelas com que os nossos avós corriam a Índia, levando adiante de si turcos e gentios! Um belo moço que fosse o retrato próprio daquele gentil cavaleiro de Malta que ali está! (Apontando para o retrato) Como ele era bonito, meu pai! Como lhe ficava bem o preto!... - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - - - 20 - - - - 25 - - - - 30 - - - - 35 - - - - Vocabulário 1 amamos muito 2 pelo calor 3 almofada 4 garboso, elegante 83 Ato primeiro, cena IV | Recorte das personagens principais | Dimensão trágica 2 e aquela cruz tão alva em cima! Para que deixou ele o hábito, minha mãe, porque não ficou naquela santa religião, a vogar em suas nobres galeras por esses mares, e a afugentar os infiéis diante da bandeira da Cruz? Madalena – Oh, filha, filha!... (mortificada) porque não foi vontade de Deus: tinha de ser Valha-me Deus! Cena V Jorge, Madalena, Maria Jorge – Ora seja Deus nesta casa! (Maria beija-lhe o escapulário e depois a mão; Madalena, somente o escapulário) Madalena – Sejais bem-vindo, meu irmão! Maria – Boas-tardes, tio Jorge! Jorge - segado como vós, mana Madalena: mas não vos aflijais, espero que não há de ser nada. Madalena (assustada) – Pois que é, que foi? Jorge – Nada, não vos assusteis; mas é bom que estejais prevenida, por isso vo-lo digo. Os governadores1 querem sair da cidade... é um capricho verdadeiro... Depois de aturarem metidos ali dentro toda a força da peste, agora que ela está, se pode dizer, acabada, que são raríssimos os casos, é que por força querem mudar de ares. Madalena – Pois coitados! Maria – Coitado do povo! – Que mais valem as vidas deles? Em pestes e desgraças assim, eu entendia, se governasse, que o serviço de Deus e do rei me mandava ficar, até à última, onde a miséria fosse mais e o perigo maior, para atender com remédio e amparo aos neces- Jorge – A minha donzela Teodora2 faremos? Maria – Emendá-lo. Jorge (para Madalena, baixo) – Sabeis que mais? Tenho medo desta criança. Madalena (do mesmo modo) – Também eu. Jorge (alto) – Mas enfim, resolveram sair: e sabereis mais que, para corte e «buen-retiro» dos nossos cinco reis, os senhores governadores de Portugal por D. Filipe de Castela que Deus guarde, foi escolhida esta nossa boa vila de Almada, que o deveuà fama de suas águas sa- dias, ares lavados e graciosa vista. Madalena Jorge – Assim é: que remédio! Mas ouvi o resto. O nosso pobre convento de S. Paulo tem de é ele; e, se não fosse que nos tira do humilde sossego de nossa vida, por vir como senhor e príncipe secular... o mais, paciência. Pior é o vosso caso... Madalena – O meu! Jorge casa, e pôr aqui aposentadoria. Maria (com vivacidade) 3 40 - - - - 45 Vocabulário 1 os cinco governadores que governavam Portugal em nome do rei de Espanha 2 referência a uma heroína da cultura popular 3 regimento militar - - - - 50 - - - - 55 - - - - 60 - - - - 65 - - - - 70 - - - - 75 - - - - 80 - - 84 2 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa P R O F E S S O R Educação literária 1. (B) 2.1 Maria defende o povo em de- trimento dos governadores, com- preendidos por D. Madalena. Maria tem uma sensibilidade pa- ra com as injustiças, nesse senti- do toma a atitude referida. 3. Maria sofre de tuberculose, doença típica de heróis e heroí- nas literários do Romantismo; os tuberculosos são mais sen- síveis ao som do que quem não tem a doença. Gramática 1. a. «nesta casa» b. «da cidade» 2. Os deíticos são o pronome pessoal «eu» e o advérbio com valor locativo «aí». 2.1 «eu» referencia Maria e «aí» referencia o lugar onde se encon- tra Manuel de Sousa Coutinho. 3. «por isso» 3.1 «vo-lo» – [este pronome, uma catáfora, refere-se ao facto de os governadores quererem sair de Lisboa. Esta informação ocor- re depois do pronome.] com uma batalha! Jorge – Louquinha! Madalena – Mas que mal fizemos nós ao conde de Sabugal e aos outros governadores, para nos fazerem esse desacato? Não há por aí outras casas; e eles não sabem que nesta há senhoras, uma família... e que estou eu aqui?... Maria (que esteve com o ouvido inclinado para a janela) – É a voz de meu pai! Meu pai que chegou! Madalena (sobressaltada) – Não oiço nada. Jorge – Nem eu, Maria. Maria – Pois ouço eu muito claro. É meu pai que aí vem... e vem afrontado!4 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, prefácio de Annabela Rita, Porto, Edições Caixotim, 2004, pp. 75-80 Cena IV 1. Seleciona o facto que contribui para indiciar a dimensão trágica desta cena. (A) Maria refere-se ao facto de seu pai ter sido cavaleiro da Ordem de Malta e posterior- mente a ter abandonado para se casar com D. Madalena. (B) Maria por várias vezes refere mais ou menos vagamente a existência de um mistério na sua família, que ela sente, mas cuja natureza não consegue explicar ou desvendar. (C) D. Madalena mostra-se preocupada com certos comportamentos de Maria, nomea- damente ser «sonhadora» e ler muito. (D) D. Madalena mostra-se «mortificada» quando Maria se referiu ao facto de o seu pai ter deixado o hábito para se casar, o que, segundo ela, não deveria ter feito. Cenas IV e V 2. Perante a notícia trazida por Frei Jorge, é de Maria a reação mais forte. 2.1 Apresenta essa reação, justificando-a. 3. Explica a razão de só Maria conseguir ouvir os ruídos indiciadores da chegada do seu pai. Gramática 1. Identifica a. o predicativo do sujeito presente na primeira fala de Frei Jorge da cena V; b. o primeiro complemento oblíquo presente na terceira fala de Frei Jorge da cena V. 2. Indica dois exemplos de dêixis na última fala da cena V. 2.1 Identifica os referentes de cada um desses deíticos. 3. Transcreve o conector presente nas palavras de Frei Jorge abaixo mencionadas, cuja fun- ção é exprimir uma ideia de consequência. «Nada, não vos assusteis; mas é bom que estejais prevenida, por isso vo-lo digo. Os gover- nadores querem sair da cidade…» (ll. 54-55). 3.1 Identifica o pronome pessoal cuja referência se encontra à sua direita, no segmento reproduzido. - - 85 - - - - 90 - - - - 95 Anexo Informativo Funções sintáticas pp. 364-366 Dêixis pp. 376-377 Coesão textual pp. 372-373 Caderno de Atividades Fichas nº 1 a nº 5: Funções sintáticas pp. 4-16 Ficha nº 10: Dêixis p. 35 Ficha nº 8: Coesão textual p. 24 4 zangado 85 Ato primeiro, cena V | Recorte das personagens principais | Dimensão trágica 2 P R O F E S S O R Educação literária 1. Este aparte refere-se ao pro- blema de saúde de Maria, a tuberculose. Os tuberculosos ga- nham acuidade especial nos sentidos da visão e da audição, especialmente neste – cf. as pa- lavras de D. Madalena; se a es- te facto se juntar a referência à idade e à «compleição» de Maria, justifica-se o aparte de Frei Jorge. Vocabulário 1 o corpo 2 demora 3 tochas 4 a boca da cena 5 «a ‘mea culpa’ e o ‘peccavi’» – a oração da confissão 6 quartos Cena VI Jorge, Madalena, Maria, Miranda Miranda – Meu senhor chegou: vi agora daquele alto entrar um bergantim que é por força o nosso. Estáveis com cuidado; e era para isso, que já vai a cerrar-se a noite... Vim trazer-vos depressa a notícia. Madalena criança; vê e ouve em tais distâncias... (Maria tem saído para o eirado, mas volta logo depois). Jorge – É verdade. (à parte) Terrível sinal naqueles anos e com aquela compleição1! Cena VII Jorge, Madalena, Maria, Miranda, Manuel de Sousa, entrando com vários criados que o seguem, alguns com brandões acesos. É noite fechada. Manuel (parando junto da porta, para os criados) – Façam o que lhes disse. Já, sem mais deten- ça2! Não apaguem esses brandões3; encostem-nos aí fora no patim. E tudo o mais que eu mandei. (Vindo ao proscénio4) (Abraça-as) Jorge, ainda bem que aqui estás, preciso de ti: bem sei que é tarde e que são horas conven- tuais; mas eu irei depois contigo dizer a «mea culpa» e o «peccavi»5 ao nosso bom prior. (Vai com ele à porta da esquerda, depois às do eirado, e dá-lhe algumas ordens baixo.) Madalena – Que tens tu? Nunca entraste em casa assim. Tens coisa que te dá cuidado... e não mo dizes? O que é? Manuel – É que... Senta-te, Madalena; aqui ao pé de mim, Maria; Jorge, sentemo-nos que es- tou cansado. (Sentam-se todos) Pois agora sabei as novidades, que seriam estranhas se não fosse o tempo em que vivemos. (Pausa) É preciso sair já desta casa, Madalena. Maria – Ah! inda bem, meu pai! Manuel – Inda mal! Mas não há outro remédio. Sairemos esta noite mesma. Já dei ordens a toda a família: Telmo foi avisar as tuas aias do que haviam de fazer, e lá anda pelas câmaras6 velando nesse cuidado. Sempre é bom que vás dar um relance de olhos ao que por lá se vão quatro; daqui lá o pouco que me importa salvar estará salvo... e eles não virão antes da manhã. Madalena – Então sempre é verdade que Luís de Moura e os outros governadores?... Manuel – Luís de Moura é um vilão ruim, faz como quem é; o Arcebispo é... o que os outros querem que ele seja. Mas o conde de Sabugal, o conde de Santa Cruz, que deviam olhar por quem são, e que tomaram este encargo odioso, e vil… de oprimir os seus naturais em nome de um rei estrangeiro!... Oh! que gente, que fidalgos portugueses!... Hei de lhes dar uma lição, a eles e a este escravo deste povo que os sofre, como não levam tiranos há muito tempo nesta terra. Maria – O meu nobre pai! Oh, o meu querido pai! Sim, sim, mostrai-lhes quem sois e o que vale um português dos verdadeiros. 10 - - - - 15 - - - - 20 - - - - 25 - - - - 30 - - - - 35 - - - - - - 5 - - - - Educação literária 86 2 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa P R O F E S S O R 2. A dimensão patriótica des- ta cena reside na intenção de Manuel de Sousa Coutinho in- cendiar o seu palácio de modo a afrontar os governadores por- tugueses que serviam o rei es- trangeiro. 3. Manuel de Sousa Coutinho re- vela-se um patriota decidido. A sua assertividade evidencia-se no seu discurso, no qual predo- minam frases do tipo imperati- vo; as exclamações reforçam a ideia de decisão. 4. O patriotismo de Manuel de Sousa Coutinho consiste em opor-se aos governadores que dirigiam Portugal em nome do rei castelhano. Ele leva a família para outraresidência não para – como diz – deixar entrar na sua os governadores, mas por ter ou- tro desígnio em mente. 5. As atitudes de Manuel de Sousa Coutinho são atitudes de antipoder. Em 1844, ano da pu- blicação da peça, Portugal era governado pela ditadura ca- bralista; assim sendo, o grito de revolta de Manuel de Sousa Coutinho podia entender-se – e assim foi entendido, por isso o poder proibiu a representação da peça – como simbolizando não a revolta contra os castelha- nos mas contra Costa Cabral. 6. Maria fica entusiasmada, D. Madalena entristecida e mui- to preocupada. Maria é idealista, patriota, por is- so rejubila com a decisão do pai; D. Madalena, desde que entende para onde Manuel de Sousa Cou- tinho a quer levar, hesita no que diz, o que revela a sua extrema preocupação em ir para o palá- cio onde vivera já com o primei- ro marido, cuja presença no seu espírito se adensa deste modo. 7. Quando Manuel de Sousa Cou- tinho diz a D. Madalena onde irão residir, esta responde com um discurso entrecortado (l. 49), o que revela a aflição que sobre ela recaiu perante a perspetiva de habitar de novo o palácio on- de vivera com o primeiro marido. Neste momento, a ação dramá- tica adensa-se, uma vez que a presença do primeiro marido, de cuja morte D. Madalena não está na verdade certa, se torna mais real pela associação do novo es- paço a habitar à sua memória. Madalena – Meu adorado esposo, não te deites a perder, não te arrebates. Que farás tu contra esses poderosos? Eles já te querem tão mal pelo mais que tu vales que eles, pelo teu sa- - Jorge – Tua mulher tem razão. Prudência, e lembra-te de tua filha. Manuel aqui amanhã de manhã, e nós forçosamente havemos de sair antes de eles entrarem. Por isso é preciso já. Madalena – Mas para onde iremos nós, de repente, a estas horas? Manuel – Para a única parte onde podemos ir: a casa não é minha... mas é tua, Madalena. Madalena – Qual?... a que foi?... a que pega com S. Paulo?… Jesus me valha! Jorge – E fazem muito bem: a casa é larga e está em bom reparo, tem ainda quase tudo de para os nossos padres todos, que alegria! Ficamos quase debaixo dos mesmos telhados. mais bela de toda a igreja... Ficamos como vivendo juntos. Maria – Tomara-me eu já lá! (Levanta-se pulando) Manuel – E são horas, vamos a isto. (Levantando-se) Madalena (vindo para ele) – Ouve, escuta, que tenho que te dizer; por quem és, ouve: não ha- verá algum outro modo? Manuel – Qual, senhora, e que lhe hei de eu fazer? Lembrai vós, vede se achais. Madalena – Aquela casa... eu não tenho ânimo... Olhai: eu preciso de falar a sós convosco. Maria – Tio, venha, quero ver se me acomodam os meus livrinhos; (confidencialmente) e os meus papéis, que eu também tenho papéis; deixai que lá na outra casa vos hei de mostrar... Mas segredo! Jorge – Tontinha! Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, prefácio de Annabela Rita, Porto, Edições Caixotim, 2004, pp. 81-84 1. Explica o aparte dito por Frei Jorge no final da cena VI. 2. Esclarece em que consiste a dimensão patriótica da cena VII. 3. Caracteriza Manuel de Sousa Coutinho, partindo das ordens que dá e das decisões que toma. 4. Explicita, recorrendo a elementos textuais pertinentes, o conceito de patriotismo de Manuel de Sousa Coutinho. Na tua resposta, refere o contexto político do Portugal de então. 5. Refere os motivos pelos quais as atitudes de Manuel de Sousa Coutinho, o seu patriotismo, adquirem uma dimensão simbólica. 6. Contrasta as atitudes de Maria e de D. Madalena perante a notícia trazida por Manuel de Sousa Coutinho, justificando cada uma delas. 7. Justifica a reação de D. Madalena perante a indicação, por parte do marido, do novo espaço a habitar. - - 40 - - - - 45 - - - - 50 - - - - 55 - - - - 60 - - - - 65 87 Ato primeiro, cenas VI e VII | A dimensão patriótica e a sua expressão simbólica 2 Cena VIII Manuel de Sousa, Madalena Manuel (Passeia agitado de um lado para outro da cena, com as mãos cruzadas detrás das costas; e parando de repente) – Há de saber-se no mundo que ainda há um português em Portugal. Madalena – Que tens tu, dize, que tens tu? Manuel – Tenho que não hei de sofrer esta afronta... e que é preciso sair desta casa, senhora. Madalena – Pois sairemos, sim: eu nunca me opus ao teu querer, nunca soube que coisa era ter outra vontade diferente da tua; estou pronta a obedecer-te sempre, cegamente, em tudo. Mas, oh! esposo da minha alma... para aquela casa não, não me leves para aquela casa! (Deitando-lhe os braços ao pescoço) Manuel – Ora tu não eras costumada a ter caprichos! Não temos outra para onde ir: e a estas a casa que tem? Porque foi de teu primeiro marido? É por mim que tens essa repugnância? Eu estimei e respeitei sempre a D. João de Portugal; honro a sua memória, por ti, por ele e por mim; e não tenho na consciência por que receie abrigar-me debaixo dos mesmos tetos pertencia. E o presente, esse é meu, meu só, todo meu, querida Madalena... Não falemos mais nisso; é preciso partir, e já. Madalena – Mas é que tu não sabes... eu não sou melindrosa nem de invenções: em tudo o mais sou mulher, e muito mulher, querido; nisso não... Mas tu não sabes a violência, o constrangimento de alma, o terror com que eu penso em ter de entrar naquela casa. Pa- rece-me que é voltar ao poder dele, que é tirar-me dos teus braços, que o vou encontrar - bra despeitosa de D. João, que me está ameaçando com uma espada de dois gumes... que a atravessa no meio de nós, entre mim e ti e a nossa filha, que nos vai separar para sempre... e com Maria, não posso com ela. Sei de certo que vou ser infeliz, que vou morrer naquela casa funesta, que não estou ali três dias, três horas sem que todas as calamidades do mun- peço, pela nossa filha... vamos seja para onde for, para a cabana de algum pobre pescador desses contornos, mas para ali não, oh! Não! - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - - - 20 - - - - 25 - - - - Educação iterária 88 2 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa Manuel – Em verdade, nunca te vi assim; nunca pensei que tivesses a fraqueza de acreditar em agouros. Não há senão um temor justo, Madalena, é o temor de Deus; não há espectros que nos possam aparecer senão os das más ações que fazemos. Que tens tu na consciência que tos faça temer? O teu coração e as tuas mãos estão puras: para os que andam diante de Deus, a terra não tem sustos, nem o inferno pavores que se lhes atrevam. Rezaremos por alma de D. João de Portugal nessa devota capela que é parte da sua casa; e não hajas medo que nos venha perseguir neste mundo aquela santa alma que está no céu, e que em tão santa batalha, pelejando por seu Deus e por seu rei, acabou mártir às mãos dos infiéis. e não me tires, querida mulher, com vãs quimeras de crianças, a tranquilidade do espírito e a força do coração, que as preciso inteiras nesta hora. Madalena – Pois que vais tu fazer? Manuel – Vou, já te disse, vou dar uma lição aos nossos tiranos que lhes há de lembrar, vou dar um exemplo a este povo que o há de alumiar.. Cena IX Manuel de Sousa, Madalena, Telmo, Miranda e outros criados, entrando apressadamente Telmo – Senhor, desembarcaram agora grande comitiva de fidalgos, escudeiros e soldados, que vêm de Lisboa e sobem a encosta para a vila. O arcebispo não é de certo, que já cá está há muito no convento: diz-se por aí... Manuel – Que são os governadores? (Telmo faz um sinal afirmativo) Quiseram-me enganar, e apressam-se a vir hoje... parece que adivinharam... Mas não me colheram desapercebido. (Chama à porta da esquerda) Jorge, Maria! (Volta para a cena) Madalena, já, já, sem mais demora. Cena X Manuel de Sousa, Madalena, Telmo, Miranda e outros criados; Jorge e Maria, entrando Manuel – Jorge, acompanha estas damas. Telmo, ide, ide com elas! (Para os outros criados) – Partiu já tudo, as arcas, os meus cavalos, armas e tudo o mais? Miranda – Quasetudo foi já; o pouco que falta está pronto e sairá num instante... pela porta de trás, se quereis. Manuel – Bom; que saia. (A um sinal de Miranda saem dois criados) Madalena, Maria, não vos quero ver aqui mais. Já, ide; serei convosco em pouco tempo. Cena XI Manuel de Sousa, Miranda e outros criados Manuel – Meu pai morreu desastrosamente caindo sobre a sua própria espada: quem sabe se eu morrerei nas chamas ateadas por minhas mãos? Seja. Mas fique-se aprendendo em Portugal como um homem de honra e coração, por mais poderosa que seja a tirania, sempre lhe pode resistir, em perdendo o amor a coisas tão vis e precárias como são esses haveres que duas faíscas destroem num momento... como é esta vida miserável que um sopro pode apagar em menos tempo ainda! (Arrebata duas tochas das mãos dos criados, cor- re à porta da esquerda, atira com uma para dentro; e vê-se atear logo uma lavareda imensa. Vai ao fundo, atira a outra tocha; e sucede o mesmo. Ouve-se alarido de fora.) 30 - - - - 35 - - - - 40 - - - - 45 - - - - 50 - - - - 55 - - - - 60 - - - - 89 Ato primeiro, cenas VIII a X | A dimensão patriótica e a sua expressão simbólica 2 P R O F E S S O R Educação literária 1.1 A dimensão trágica desta ce- na reside no facto de D. Madale- na se apresentar possuída por um extremo receio de ir resi- dir na casa onde morara já com o primeiro marido. Como ela vi- ve na dúvida sobre a sua morte – cf. a cena I deste ato –, o facto de ir para essa casa aviva a lem- brança de D. João de Portugal, tornando-o mais presente – fa- zendo a tragédia aproximar-se. 2. Manuel de Sousa Coutinho não imagina o que vai no espírito da mulher, e que ela sempre pro- curou esconder-lhe – cf. a cena I deste ato; assim, apresenta-lhe vários argumentos para afastar dela o receio em ir para a nova residência: não há outro lugar para onde ir, de repente (ll. 9-10); não lhe custa viver onde viveu D. João de Portugal com a que é agora sua mulher (ll. 14-15); não deve acreditar «em agou- ros» (ll. 30-32); a única cren- ça que deve ter é em Deus (ll. 33-34); nada tem a temer porque nun- ca pecou (ll. 32-34); ela não deve recear a perse- guição por parte da alma de D. João de Portugal (ll. 34-37) 3. a. V b. F (Manuel de Sousa Coutinho estabelece com seu pai uma possível relação de identidade.) c. V 4.1 O principal traço psicológi- co de Manuel de Sousa Coutinho neste momento é a serenidade na decisão. De tal modo que, em circunstâncias tão dramáticas, chega a utilizar um eufemismo eivado de ironia para se referir ao incêndio que está a atear à sua própria casa – «Ilumino a mi- nha casa […]» (l. 66). 4.2 A dimensão patriótica do ato de Manuel de Sousa Coutinho consiste em tomar uma atitude nacionalista, pois ao incendiar o seu palácio afronta os governa- dores que dirigiam Portugal em nome do rei de Espanha. Cena XII Manuel de Sousa e criados; Madalena, Maria, Telmo e Jorge, acudindo Madalena Manuel (tranquilamente) – Ilumino a minha casa para receber os muito poderosos e excelen- tes senhores governadores destes reinos. Suas Excelências podem vir quando quiserem. Madalena – Meu Deus, meu Deus!... Ai, e o retrato de meu marido!... Salvem-me aquele retrato! (Miranda e outro criado vão para tirar o painel; uma coluna de fogo salta nas tapeçarias e os afugenta.) Manuel – Parti! Parti! As matérias inflamáveis que eu tinha disposto vão-se ateando com es- pantosa velocidade. Fugi. Madalena (cingindo-se ao braço do marido) – Sim, sim, fujamos. Maria (tomando-o do outro braço) – Meu pai, nós não fugimos sem vós. Todos – Fujamos! Fujamos! (Redobram os gritos de fora, ouve-se rebate de sinos; cai o pano.) Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, prefácio de Annabela Rita, Porto, Edições Caixotim, 2004, pp. 85-90 Cena VIII 1. D. Madalena implora a Manuel de Sousa Coutinho que a não faça residir no palácio que foi de seu primeiro marido e onde viveu com este. 1.1 Tem em consideração as suas palavras e explica de que modo esta cena contribui para adensar a dimensão trágica da peça. 2. Apresenta os argumentos referidos por Manuel de Sousa Coutinho no sentido de combater a disposição de espírito de D. Madalena. Cenas IX a XI 3. Indica as afirmações verdadeiras (V) e a falsa (F), relativamente às três cenas. Corrige a afirmação falsa. a. Manuel de Sousa Coutinho revela-se um homem previdente e decidido. b. Manuel de Sousa Coutinho estabelece com seu pai uma relação de oposição ou con- traste. c. A referência feita por Manuel de Sousa Coutinho ao modo como seu pai morreu e a possibilidade que exprime a esse propósito podem ser consideradas indícios de tragédia. Cena XII 4. Manuel de Sousa Coutinho é uma figura central nesta cena. 4.1 Caracteriza-o psicologicamente com base nas suas palavras e atitudes. Na tua respos- ta, deves fazer uma referência ao eufemismo por ele utilizado e à sua função. 4.2 Explica em que consiste a dimensão patriótica da sua atitude de atear fogo ao seu próprio palácio. 4.3 Refere o valor simbólico desta atitude. 65 - - - - 70 - - - - 75 - 90 2 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa P R O F E S S O R 4.3 O valor simbólico desta ce- na poderia ter sido apreendido pelos espetadores no ano da pu- blicação da peça, 1844, se ela ti- vesse sido logo representada. Mas não o foi, porque a censura da ditadura cabralista impediu que fosse levada à cena, já que o grito de liberdade de Manuel de Sousa Coutinho podia ser en- tendido como um ato de revolta contra Costa Cabral. Expressão oral e escrita Apresentação Cenários de resposta: – exposição sobre um tema (Ameaças à vida privada na atualidade) – exposição sobre um tema (Os jovens e a crítica social) Produção oral e escrita (da planificação à revisão) – Proposta nº 3 D P P Oralidade EXPRESSÃO ORAL Exposição sobre um tema Manuel de Sousa Coutinho deu ao povo uma lição de coragem e de liberdade in- cendiando o seu palácio para evitar que os governadores do reino, ao serviço do rei de Espanha, o ocupassem. Também na atualidade, e sob o pretexto de ameaças, nem sempre detetáveis, à segurança de pessoas e bens, o direito à privacidade tem vindo a ser restringido em di- versas situações, muitas vezes sem o nosso consentimento. Disso podem ser exemplo: a monitorização dos computadores pessoais e outros dispositivos tecnológicos, sempre que utilizamos a internet; a localização de pessoas através do GPS presente nos nossos telemóveis; a videovigilância no trabalho, na escola, nas ruas, nas estradas, etc. Numa exposição com duração entre quatro e seis minutos, apresenta o tema das ameaças à vida privada que hoje se colocam aos cidadãos. Estrutura a exposição em: introdução – apresentação, enquadramento e ponto de vista sobre o tema a desen- volver; desenvolvimento – tópicos relativos às ameaças atuais, devidamente ilustradas com exemplos relevantes de pessoas ou de situações; conclusão – retoma do enquadramento inicial do tema, reafirmando o ponto de vista apresentado. Na tua apresentação, utiliza adequadamente recursos verbais e não verbais: tom de voz, entoação, articulação, ritmo, expressividade e postura. Escrita Exposição sobre um tema Maria revela-se uma adolescente insatisfeita com determinados aspetos da socie- dade do seu tempo, defendendo, por exemplo, a liberdade. Escreve um texto de natureza expositiva, que tenha entre 180 e 240 palavras, no qual apresentes, pelo menos, três características do mundo atual que possam ser alvo de crítica por parte de jovens como tu. O teu texto deve apresentar-se dividido nas três partes lógicas: introdução, desen- volvimento e conclusão. Segue as fases inerentes ao processo de escrita. Planificação: elabora um plano com os tópicos a desenvolver Textualização: redige a exposição, assegurando-te que incluis os tópicos da plani- ficação. Revisão:revê o texto e aperfeiçoa-o. A B C Caderno de Atividades Oficina de escrita nº 2 Exposição sobre um tema p. 57 Anexo Informativo Géneros textuais Exposição sobre um tema p. 379 91 Ato primeiro, cenas VIII a X | A dimensão patriótica e a sua expressão simbólica 2 Ficha de apoio nº 3 P R O F E S S O R Ficha de apoio nº 3 1. (C) Antes de ler (p. 93) 1. O sujeito quer uma casa no campo, para, entre outras coisas: plantar discos; plantar um amor como o dos pais; deixar entrar amigos; ter um pedaço de terra; adormecer na relva, longe da selva de cimento; cultivar mais do que mero co- nhecimento. A «casa no campo» é o espaço onde o sujeito projeta o seu de- sejo de liberdade e de felicidade. 2. A «casa no campo» é o lugar de uma liberdade e felicidade projetadas no futuro, contras- tando, por isso, com o palácio de D. João de Portugal para onde D. Madalena vai viver depois do incêndio da casa de Manuel de Sousa Coutinho. Para D. Madale- na, esse é o espaço do passado e, presume-se pelas suas palavras, de infelicidade. A dimensão patriótica e a sua expressão simbólica Texto 1 Teatro e liberdade Almeida Garrett foi um dos introdutores do Romantismo em Portugal, poética que conheceu aquando do seu exílio em Inglaterra e em França, devido ao regime absolu- tista que reinava em Portugal – do qual teve de fugir. Uma vez regressado ao seu país e vitoriosas as ideias liberais, o caminho traçado pelo Liberalismo não era exatamente o que Garrett gostaria de ter visto. Frei Luís de Sousa foi publicado em 1844, em plena ditadura cabralista e de triunfo do materialismo económico que Garrett detestava. Só seria, contudo, representado pela primeira vez em 1850. Para este facto terá pesado, provavelmente, a afronta feita por Manuel de Sousa Coutinho, num grito de revolta e de liberdade, aos governadores em nome do rei estrangeiro – ato I, cenas V a XII –, afronta que podia ser entendida como referência à ditadura no poder. A luta de Garrett pela liberdade e seu sentido de patrio- tismo estão simbolicamente representados no ato de insubmissão de Manuel de Sousa Coutinho. Este ato mais não é, na verdade, que uma metáfora da própria luta de Garrett contra quem, no seu entender, abastardara o sonho liberal: «ao ideal (a conquista de uma liberdade instauradora de maior equidade social, de maior hombridade e de mais abnegada consciência cívica) viera contrapor-se um real bem distinto, o reinado da ma- téria com o seu grotesco herói, o barão», símbolo da cupidez e da ganância. «Foi sem dú- vida o ‘portuguesismo’ de Frei Luís de Sousa, com a sua exaltação da honra nacional, de enérgica resistência à tirania [de Costa Cabral] e do apelo ao acordar coletivo do ‘povo’, que tornou o drama de Garrett, notório opositor ao regime, alvo da censura cabralista, em geral receosa, aliás, da apresentação pública de dramas históricos, propícios à emis- são camuflada de ‘perigosas’ mensagens.» Ofélia Paiva Monteiro, «Introdução», in Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett, Porto, Civilização, 1987, pp. 8, 10 e 16 (texto adaptado) 1. Seleciona a afirmação que não pode ser comprovada pelo texto. (A) Garrett passou por um processo de desilusão relativamente à implanta- ção do regime liberal em Portugal. (B) A atitude de Manuel de Sousa Coutinho ao afrontar os governadores de Portugal foi entendida, aquando da publicação de Frei Luís de Sousa, como uma crítica à governação cabralista. (C) A dimensão patriótica de Frei Luís de Sousa tem de ser compreendida no âmbito das lutas históricas pela independência de Portugal em relação a Espanha. (D) A expressão simbólica da dimensão patriótica de Frei Luís de Sousa con- cretiza-se através de uma situação que funciona como metáfora: a revolta de Manuel de Sousa Coutinho. - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - - - 20 - - Ilustração de António Jorge Gonçalves para a revista Colóquio/letras nº 153-154 92 2 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa P R O F E S S O R L11 7.1, 7.2, 7.4, 7.5, 7.6 EL11 14.1, 14.2, 14.3, 14.4, 14.5, 14.7 a), 14.7 b), 14.7 c); 15.3, 15.5 G10 18.1 G11 17.1; 18.1, 18.2 O11 1.1, 1.3 (Antes de ler, Cena I) E11 10. 1; 11.1; 12.1, 12.2, 12.3, 12.4 EL11 A dimensão patriótica e a sua ex- pressão simbólica Recorte das personagens princi- pais A dimensão trágica E11 Exposição sobre um tema: caráter demonstrativo, elucidação eviden- te do tema (fundamentação das ideias), concisão e objetividade, valor expressivo das formas lin- guísticas (deíticos, conectores…) G11 Retoma (em revisão) dos conteú- dos estudados no 10º ano: funções sintáticas Dêixis: pessoal, temporal e espa- cial Ato segundo É no palácio que fora de D. João de Portugal, em Almada: salão antigo, de gosto melancóli- co e pesado, com grandes retratos de família, muitos de corpo inteiro, bispos, donas, cavalei- ros, monges; estão em lugar mais conspícuo, no fundo, o de El-rei D. Sebastião, o de Camões e o de D. João de Portugal. Portas do lado direito para o exterior, do esquerdo para o inte- rior, cobertas de reposteiros com as armas1 dos condes de Vimioso. São as antigas da casa de Bragança: uma aspa vermelha sobre campo de prata com cinco escudos do reino, um no meio e os quatro nos quatro extremos da aspa; em cada braço e entre os dois escudos uma cruz flo- reteada2, tudo do modo que trazem atualmente os duques de Cadaval; sobre o escudo, coroa de conde. No fundo, um reposteiro muito maior e com as mesmas armas cobre as portadas da tribuna que deita sobre a capela da Senhora da Piedade, na igreja de S. Paulo dos Domínicos de Almada. Cena I Maria, Telmo Maria (saindo pela porta da esquerda e trazendo pela mão a Telmo, que parece vir de pouca vontade) – Vinde, não façais bulha, que minha mãe ainda dorme. Aqui, aqui nesta sala é que quero conversar. E não teimes, Telmo, que fiz tenção e acabou-se! Telmo – Menina!... Maria – «Menina e moça me levaram de casa de meu pai» – é o princípio daquele livro3 - nina nem moça; e vós, senhor Telmo Pais, meu fiel escudeiro, «faredes o que manda- 4, faz-se bulha, e acorda minha mãe, que é o que eu não quero. Coitada! Há oito dias que aqui estamos nesta casa, e é a primeira noite que dorme com sossego. Aquele palácio a arder, aquele povo a gritar, o rebate dos sinos, aquela cena toda... oh! tão grandiosa e sublime, que a mim me en- cheu de maravilha, que foi um espetáculo como nunca vi outro de igual majestade!... - - - - 5 - - - - 10 - - Educação literária A mudança para o palácio de D. João de Portugal acentua a perma- nente inquietação em que vive D. Madalena. No entanto, a calma e a tranquilidade encontram-se, muitas vezes, em pequenas coisas e em espaços simples. 1. Partindo da audição da música «Casa no campo», de Capicua, e to- mando as tuas notas sobre a letra da canção, indica as razões que o sujeito invoca para querer uma casa no campo. 2. Infere possíveis relações (de semelhança, de contraste, entre outras) entre a «casa no campo» e o palácio de D. João e de D. Madalena. Vocabulário 1 o brasão 2 termos técnicos da heráldica, a ciência dos brasões 3 refere-se à novela sentimental de Bernardino Ribeiro (século XVI), que relata uma série de amores infelizes 4 discutimos Antes de ler «Casa no campo», de Capicua (com Mistah Isaac), Projeto 500, gravado na Casa Independente, em 15 de novembro de 2012 FAIXA 3 93 Ato segundo, cena I | A dimensão patriótica e a sua expressão simbólica Recorte das personagens principais | A dimensão trágica 2 À minha pobre mãe aterrou-a, não se lhe tira dos olhos: vai a fechá-los para dormir, e diz que vê aquelas chamas enoveladas em fumo a rodear-lhe a casa, a crescer para o ar e a devorar tudo com fúria infernal... O retrato de meu pai, aquele do quarto de lavor5 tão seu favorito, em que ele estava tão gentil-homem, vestido de cavaleiro de Malta com a sua cruz branca ali. Vês tu? Ela que não cria em agouros, que sempre me estavaa repreender pelas minhas cismas, agora não lhe sai da cabeça que a perda do retrato é prognóstico fatal de outra perda maior, que está perto, de alguma desgraça inesperada, mas certa, que a tem de separar de a animar, coitada!... que aqui entre nós, Telmo, nunca tive tanta fé neles. Creio, oh, se creio! sobre meu pai... de certo! e sobre minha mãe também, que é o mesmo. Telmo (disfarçando o terror de que está tomado) – Não digais isso... Deus há de fazê-lo por me- lhor, que lho merecem ambos. (Cobrando ânimo e exaltando-se) Vosso pai, D. Maria, é um português às direitas. Eu sempre o tive em boa conta; mas agora, depois que lhe vi fazer aquela ação, que o vi, com aquela alma de português velho6, deitar a mão às tochas, e lan- çar ele mesmo o fogo à sua própria casa; queimar e destruir numa hora tanto de seu haver, tanta coisa de seu gosto, para dar um exemplo de liberdade, uma lição tremenda a estes nossos tiranos... oh! minha querida filha, aquilo é um homem! A minha vida, que ele quei- ra, é sua. E a minha pena, toda a minha pena é que o não conheci, que o não estimei sempre no que ele valia. Maria (com as lágrimas nos olhos e tomando-lhe as mãos) – Meu Telmo, meu bom Telmo!… é uma glória ser filha de tal pai, não é? Dize. Telmo – Sim, é: Deus o defenda! Maria meu pai? Já soubeste hoje alguma coisa das diligências do tio Frei Jorge? Telmo falsos de todo. O arcebispo, o conde de Sabugal e os outros, já vosso tio os trouxe à razão, já os moderou. Miguel de Moura é que ainda está renitente; mas há de lhe passar. Por es- tes dias fica tudo sossegado. Já o estava se ele quisesse dizer que o fogo tinha pegado por acaso. Mas ainda bem que o não quis fazer: era desculpar com a vilania de uma mentira o generoso crime por que o perseguem. Maria 7? Passar os dias retirado nessa quinta tão triste de além do Alfeite, e não poder vir aqui senão de noite, por instan- tes, e Deus sabe com que perigo! - - 15 - - - - 20 - - - - 25 - - - - 30 - - - - 35 - - - - 40 - - - - 45 - - Vocabulário 5 de trabalhos femininos 6 português de antigamente 7 exílio 94 2 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa Telmo – Perigo nenhum; todos o sabem e fecham os olhos. Agora é só conservar as aparências aí mais uns dias, e depois fica tudo como dantes. Maria com tanto trabalho na presença de meu pai (também a mim mo queria encobrir, mas agora já não pode, coitada!), aquilo é pressentimento de desgraça grande... – Oh! Mas é verdade... vinde cá. (Leva-o diante dos três retratos que estão no fundo; e apontando para o de D. João). De quem é este retrato aqui, Telmo? Telmo (olha e vira a cara de repente) – Esse é… há de ser… é um da família destes senhores da casa de Vimioso, que aqui estão tantos. Maria (ameaçando-o com o dedo) – Tu não dizes a verdade, Telmo. Telmo (quase ofendido) – Eu nunca menti, senhora D. Maria de Noronha. Maria – Mas não diz a verdade toda o senhor Telmo Pais, que é quase o mesmo. Telmo – O mesmo!... Disse-vos o que sei, e o que é verdade. É um cavaleiro da família de meu outro amo que Deus… que Deus tenha em bom lugar. Maria – E não tem nome o cavaleiro? Telmo (embaraçado) – Há de ter; mas eu é que… Maria (como quem lhe vai tapar a boca) - mos para esta casa, no meio de toda aquela desordem, eu e minha mãe entrámos por aqui dentro sós e viemos ter a esta sala. Estava ali um brandão aceso, encostado a uma dessas ca- deiras que tinham posto no meio da casa; dava todo o clarão da luz naquele retrato… Minha mãe, que me trazia pela mão, põe de repente os olhos nele e dá um grito, oh! meu Deus!... ficou tão perdida de susto, ou não sei de quê, que me ia caindo em cima. Pergunto-lhe o que é; não me respondeu: arrebata da tocha, e leva-me com uma força… com uma pressa, a correr por essas casas, que parecia que vinha alguma coisa má atrás de nós. Ficou naquele estado em que a temos visto há oito dias, e não lhe quis falar mais em tal. Mas este retrato que ela não nomeia nunca de quem é, e só diz assim às vezes: «O outro, o outro…», este re- trato, e o de meu pai que se queimou, são duas imagens que lhe não saem do pensamento. Telmo (com ansiedade) – E esta noite ainda lidou muito nisso? Maria – Não; desde ontem pela tarde, que cá esteve o tio Frei Jorge e a animou com muitas palavras de consolação e de esperança em Deus, e que lhe disse do que contava abrandar então, vamos, tu não me dizes do retrato? Olha: (designando o de el-rei D. Sebastião) aquele do meio, bem sabes se o conhecerei: é o do meu querido e amado rei D. Sebastião. Que majestade! Que testa aquela tão austera, mesmo dum rei moço e sincero ainda, leal, ver- dadeiro, que tomou ao sério o cargo de reinar, e jurou que há de engrandecer e cobrir de glória o seu reino! Ele ali está… E pensar que havia de morrer às mãos de mouros, no meio de um deserto, que numa hora se havia de apagar toda a ousadia refletida que está naque- les olhos rasgados, no apertar daquela boca!... Não pode ser, não pode ser. Deus não podia consentir em tal. Telmo – Que Deus te ouvisse, anjo do céu! Maria – Pois não há profecias que o dizem? Há, e eu creio nelas. E também creio naqueloutro que ali está; (indica o retrato de Camões) aquele teu amigo com quem tu andaste lá pela Ín- dia, nessa terra de prodígios e bizarrias, por onde ele ia… como é ? ah, sim… N’~ua mão sempre a espada e noutra a pena. - - 50 - - - - 55 - - - - 60 - - - - 65 - - - - 70 - - - - 75 - - - - 80 - - - - 85 - - - - 90 - - - 95 Ato segundo, cena I | A dimensão patriótica e a sua expressão simbólica Recorte das personagens principais | A dimensão trágica 2 P R O F E S S O R Educação literária 1.1 Segundo Maria, D. Madalena confere à destruição do retrato de Manuel de Sousa Coutinho o caráter de presságio, de «prog- nóstico fatal de outra perda ain- da maior» (ll. 19-20). 1.2 Maria relaciona-se com es- tes retratos de modo diverso. Em relação ao de D. João de Portugal, mostra grande curio- sidade e pressente, através da sua capacidade de análise do que observa e dos seus «pode- res» premonitórios, que se trata de alguém muito importante na vida da mãe. Relativamente ao de D. Sebastião, ela sabe bem de quem se trata e não acredita na sua morte em Alcácer Quibir – o que adensa a atmosfera trágica, pois se o rei não morreu, D. João de Portugal pode ter conhecido idêntico destino… 1.3 Telmo afirma ter conhecido pessoalmente Luís de Camões e critica os nobres que, sendo can- tados em Os Lusíadas, não sou- beram agradecer devidamente ao poeta seu amigo, que viu mor- rer na miséria. 2. A tensão dramática agudiza- -se, pois o novo espaço faz cres- cer e aproximar-se a figura de D. João de Portugal: trata-se do seu palácio, onde habitara com D. Madalena na constância do primeiro matrimónio desta. 3.1 Maria refere o facto de sua mãe estar convencida de que a destruição do retrato de Manuel de Sousa Coutinho pressagia ou- tra destruição maior. Apesar de dizer que tenta convencer a mãe de que tal não vai suceder, Ma- ria confessa estar convencida de que algo de sinistro se aproxi- ma, na verdade. Esta crença afe- ta muito Telmo, que se mostra disfarçadamente tomado de ter- ror (ll. 25-33). 4. Telmo confessa que antes dos acontecimentos finais do ato I apreciava Manuel de Sousa Cou- tinho, tinha-o «em boa conta». Contudo, depois de o ter visto dar o passo patriótico que deu, a sua estima por ele aumentou muito, de tal modo que está dis- posto a dar a vida por ele. Telmo – Oh! O meu Luís, coitado! bem lho pagaram. Era um rapaz, mais moço do que eu, muito mais… e quando o vi a última vez… foi no alpendre de S. Domingos8, em tão desembaraçado e galã… e então velho! Velho alquebrado – com aquele olho que valia por dois, mas tão sumido e encovado já, que eu disse comigo: – «Ruim terra te foi o último… Ele pareceu ouvir o que me estava dizendo o pensamento cá por den-tro e disse-me: – «Adeus, Telmo! São Telmo seja comigo neste cabo da navegação9… que já vejo terra, amigo» – e apontou para uma cova que ali se estava a abrir. Os fra- des rezavam o ofício dos mortos10 na igreja… Ele entrou para lá, e eu fui-me embo- ra. Daí a um mês, vieram-me aqui dizer: – «Lá foi Luís de Camões num lençol para Sant’Ana». E ninguém mais falou nele. Maria – Ninguém mais!... Pois não leem aquele livro que é para dar memória aos mais esquecidos? Telmo – O livro sim: aceitaram-no como o tributo de um escravo. Estes ricos, estes grandes, que oprimem e desprezam tudo o que não são as suas vaidades, tomaram o livro como uma coisa que lhes fizesse um servo seu e para honra deles. O servo, acabada a obra, deixaram-no morrer ao desamparo, sem lhes importar com isso… Quem sabe se folgaram? Podia pedir-lhes uma esmola, escusavam de se incomodar a dizer que não. Maria (com entusiasmo) - suas palavras são de profeta. Não te lembras o que lá diz do nosso rei D. Sebastião?... Como havia de ele então morrer? Não morreu. (Mudando de tom) Mas o outro, o outro… quem é este outro, Telmo? Aquele aspeto tão triste, aquela expressão de melancolia tão profunda… aquelas barbas tão negras e cerradas… e aquela mão que descansa na espada como quem não tem outro arrimo, nem outro amor nesta vida… Telmo (deixando-se surpreender) – Pois tinha, oh! se tinha… (Maria olha para Telmo, como quem compreendeu, depois torna a fixar a vista no retrato; e ambos ficam diante dele como fascinados. No entanto e às últimas palavras de Maria, um homem embuçado com o chapéu sobre os olhos levanta o reposteiro da direita e vem, pé ante pé, aproximando-se dos dois que o não sentem.) Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, prefácio de Annabela Rita, Porto, Edições Caixotim, 2004, pp. 91-100 1. A didascália inicial refere a presença de três retratos. Por outro lado, o ato I terminou com o incêndio, no qual desapareceu o retrato de Manuel de Sousa Coutinho. 1.1 Esclarece o significado que, segundo Maria, D. Madalena atribui à destruição do retrato do marido. 1.2 Explica de que modo Maria se relaciona com os retratos de D. João de Portugal e de D. Sebastião. 1.3 Explicita a relação entre Telmo e Luís de Camões. 2. Associa o espaço em que se desenrola este ato ao agudizar da tensão dramática, justificando. - 95 - - - - 100 - - - - 105 - - - - 110 - - - - 115 - - - - 120 - - - - 125 8 varanda coberta na igreja de S. Domingos 9 fim da navegação, fim da vida 10 oração pelos mortos 96 2 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa P R O F E S S O R 5. São características típicas de Maria a crença em agouros, a curiosidade e o patriotismo. 6.1 Com a sua capacidade de tu- do entender (cf. cena I do ato I – Maria deve ou pode ter com- preendido de quem era o retra- to e a relação do retratado com sua mãe. 6.2 É um momento em que a presença de D. João de Portugal se intensifica, anunciando a sua chegada – daí o adensar do cli- ma trágico. Gramática 1. a. «nos» – complemento indireto b. «me» – complemento direto c. «me» – complemento indireto d. «me» – complemento indireto 2.1 O deítico «aqui» referencia o palácio de D. João de Portugal; «agora» referencia o tempo pre- sente da enunciação de Telmo. 2.2 «dantes» refere-se ao tem- po anterior ao incêndio do pa- lácio de Manuel de Sousa Coutinho, facto que o obriga a andar escondido, no presente. Temas comuns Sugestão didática O trabalho a desenvolver em torno dos temas comuns, pode assumir a forma de texto expo- sitivo, que tenha entre 130 e 170 palavras, ou apresentação oral, com a duração entre cinco e se- te minutos. Cenário de resposta Maria observa no retrato as- petos físicos e psicológicos de D. Sebastião. Refere-se concre- tamente à idade do rei, «moço», aos seus «olhos rasgados», à «boca» apertada; destes traços físicos parte para os psicológi- cos, referindo a sua coragem, lealdade e responsabilidade. Em Camões, o rei é apresenta- do também na sua juventude, «tenro ramo» (I, 7, 1) e nas suas capacidades guerreiras «novo temor da maura lança» (I, 6, 5). Por outro lado, apesar de jovem, «tenro gesto» (I, 9, 2), o rei mos- tra já um aspeto majestático (I, 9, 1 e 2). Documento Dedicatória de Os Lusíadas 3. Esse aumento da tensão dramática é, desde logo, evidente nas palavras de Maria e na reação de Telmo (ll. 5-33), respetivamente. 3.1 Identifica os factos e a opinião apresentados por Maria que contribuem para a reação de Telmo. 4. Explicita a evolução que se verifica na opinião de Telmo relativamente a Manuel de Sousa Coutinho, justificando. 5. Indica as várias características da personalidade de Maria, evidentes nesta cena, que contribuem decisivamente para a intensificação do ambiente dramático. 6. Tem em atenção a última fala de Telmo e a didascália que lhe está associada. 6.1 Explica o que é que Maria teria compreendido. 6.2 Relaciona a atitude de Maria e de Telmo, que olham «fascinados» para o retrato, com o adensar do clima de tragédia iminente. Gramática 1. Refere a função sintática dos pronomes pessoais átonos nas frases seguintes. a. «[…] são avisos que Deus nos manda […]» (l. 23) b. «Minha mãe, que me trazia pela mão» (ll. 69-70) c. «[…] não me respondeu […]» (l. 72) d. «[…] tu não me dizes do retrato?» (l. 81) 2. Relê o excerto seguinte. «Maria - le homizio? Passar os dias retirado nessa quinta tão triste de além do Alfeite, e não poder vir aqui senão de noite, por instantes, e Deus sabe com que perigo! Telmo – Perigo nenhum; todos o sabem e fecham os olhos. Agora é só conservar as aparências aí mais uns dias, e de- pois fica tudo como dantes.» 2.1 Identifica os referentes dos deíticos «aqui» e «agora». 2.2 Explicita o momento a que se refere o deítico «dantes». Caderno de Atividades Fichas nº 1 a nº 5: Funções sintáticas pp. 4-16 Ficha nº 10: Dêixis p. 35 Temas comuns Maria aprecia o retrato de D. Sebastião, referindo determinadas características que vê nele. Com base nas suas palavras, compara este retrato com o que Camões compôs, literariamente, do mesmo rei, na Dedicatória de Os Lusíadas – canto I, estâncias 6 a 9. Anexo Informativo Funções sintáticas pp. 364-366 Dêixis pp. 376-377 97 Ato segundo, cena I | A dimensão patriótica e a sua expressão simbólica Recorte das personagens principais | A dimensão trágica 2 P R O F E S S O R Educação literária 1. A mudança de D. Madalena de- ve-se ao novo espaço em que ha- bita, o qual lhe veio tornar mais presentes as suas desconfian- ças e incertezas relativamente à morte do primeiro marido (cf. cena I, ato I). 2. Ele trata-a por «feiticeira» pe- lo facto de ela ser capaz de sa- ber tudo, de adivinhar. Cena II Maria, Telmo e Manuel de Sousa Manuel – Aquele era D. João de Portugal, um honrado fidalgo e um valente cavaleiro. Maria (respondendo, sem observar quem lhe fala) – Bem mo dizia o coração! Manuel (desembuçando-se1 e tirando o chapéu, com muito afeto) – Que te dizia o coração, minha filha? Maria (reconhecendo-o) – Oh! meu pai, meu querido pai! Já me não diz mais nada o coração senão isto. (Lança-se-lhe nos braços e beija-o na face muitas vezes.) – Ainda bem que viestes. Manuel – Perigo, pouco. Ontem à noite não pude vir; e hoje não tive paciência para aguar- dar todo o dia: vim bem coberto com esta capa… Telmo – Não há perigo nenhum, meu senhor; podeis estar à vontade e sem receio. Esta madrugada, muito cedo, estive no convento, e sei pelo senhor Frei Jorge que está, se pode dizer, tudo concluído. Manuel – Pois ainda bem, Maria. E tua mãe, tua mãe, filha? Maria – Desde ontem está outra… Manuel (em ação de partir) – Vamos a vê-la. Maria (retendo-o) – Não, que dorme ainda. Manuel (Toma- -lhe as mãos; sentam-se) Tens as mãos tão quentes! (Beija-a na testa) E esta testa, esta tu penses. Maria – Então que hei de eu fazer? Manuel Telmo que te não conte mais histórias, que te não ensine mais trovase solaus1. Poetas e trovadores padecem todos da cabeça... e é um mal que se pega. Maria – E então para que fazeis vós como eles?... eu bem sei que fazeis. Manuel (sorrindo) – Se tu sabes tudo! Maria, minha Maria! (Animando-a) Mas não sabias ainda agora de quem era aquele retrato... Maria – Sabia. Manuel – Ah! você sabia e estava fingindo? Maria (gravemente) – Fingir, não, meu pai. A verdade... é que eu sabia de um saber cá de dentro; ninguém mo tinha dito; e eu queria ficar certa. Manuel – Então adivinhas, feiticeira. (Beija-a na testa) irmão; dizei-lhe que estou aqui. Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, prefácio de Annabela Rita, Porto, Edições Caixotim, 2004, pp. 100-102 1. Justifica a mudança de comportamento de D. Madalena que, segundo as palavras de Maria «Desde ontem está outra…» (l. 14), relacionando-a com o espaço no qual decorre o ato II. 2. Explica os motivos que levam Manuel de Sousa Coutinho a tratar Maria por «feiticeira» (l. 32). - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - - - 20 - - - - 25 - - - - 30 - - - Educação literária Vocabulário 1 descobrindo-se 98 2 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa P R O F E S S O R Educação literária 1. As palavras finais de Maria, nas quais ela deixa escapar uma interjeição que pode ser enten- dida como sinal de aflição rela- tivamente à fala anterior de seu pai – «[…] não te tinha eu aqui […]» (l. 29) –, pode ser interpre- tada como mais um momento em que Maria tem consciência de que o seu estatuto de filha de Manuel de Sousa Coutinho e de D. Madalena é complicado. Nes- ta consciência residiria a sua «[…] propensão para achar ma- ravilhas e mistérios nas coisas mais naturais e singelas» (ll. 1-2). 2. Manuel de Sousa Coutinho diz a Maria que D. Madalena «estre- mece» sempre que se ouve falar de D. João de Portugal (l. 24). Ele atribui esta atitude ao respeito que D. Madalena teria pela me- mória do anterior marido: não se apercebe de que, na verdade, ela «estremece» por causa dos re- ceios relativamente ao destino de D. João de Portugal. Cena III Manuel de Sousa e Maria Manuel – Ora ouve cá, filha. Tu tens uma grande propensão para achar maravilhas e mistérios nas coisas mais naturais e singelas. E Deus entregou tudo à nossa razão, menos os segre- dos de sua natureza inefável, os de seu amor, e de sua justiça e misericórdia para connosco. Esses são os pontos sublimes e incompreensíveis da nossa fé! Esses creem-se: tudo o mais (sorrindo) não dirão que sou da Ordem dos Pregadores? Há de ser destas paredes, é unção da casa: que isto é quase um convento aqui, Maria... Para frades de S. Domingos não nos falta senão o hábito... Maria – Que não faz o monge... Manuel – Assim é, querida filha! Sem hábito, sem escapulário nem correia, por baixo do ce- tim e do veludo, o cilício pode andar tão apertado sobre as carnes, o coração tão contrito no peito... a morte – e a vida que vem depois dela – tão diante dos olhos sempre, como na cela mais estreita e com o burel1 mais grosseiro cingido2. Mas enfim, chega-te aos bons... sempre é meio caminho andado. Eu estou contentíssimo de virmos para esta casa, quase que nem já me pesa da outra. Tenho aqui meu irmão Jorge e todos estes bons padres de (Levanta o reposteiro do fundo e chegam ambos à tribuna.) É uma devota capela esta. E todo o templo tão grave! Dá consolação vê-lo. Deus nos deixe gozar em paz de tão boa vizinhança. (Tornam para o meio da casa.) Maria (que parou diante do retrato de D. João de Portugal, volta-se de repente para o pai.) – Meu pai, este retrato é parecido? Manuel – Muito; é raro ver tão perfeita semelhança: o ar, os ademanes, tudo. O pintor copiou fielmente quanto viu. Mas não podia ver, nem lhe cabiam na tela, as nobres qualidades de alma, a grandeza e valentia de coração, e a fortaleza daquela vontade, serena mas indomá- vel, que nunca foi vista mudar. Tua mãe ainda hoje estremece só de o ouvir nomear: era um respeito... era quase um temor santo que lhe tinha. Maria – E lá ficou naquela fatal batalha!... Manuel Maria – Tenho. Manuel – Mas se ele vivesse... não existias tu agora, não te tinha eu aqui nos meus braços. Maria (escondendo a cabeça no seio de seu pai) – Ai, meu pai! Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, prefácio de Annabela Rita, Porto, Edições Caixotim, 2004, pp. 102-104 1. Relaciona a «propensão» referida por Manuel de Sousa Coutinho a propósito de Maria com as palavras finais que ela profere na cena. 2. Comenta a pertinência das palavras de Manuel de Sousa Coutinho a propósito da reação de D. Madalena sempre que esta ouvia falar de D. João de Portugal. - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - - - 20 - - - - 25 - - - - 30 Educação literária 1 tecido grosseiro 2 vestido de modo apertado 99 Ato segundo, cenas II e III | Recorte das personagens principais | A dimensão trágica 2 P R O F E S S O R Educação literária 1. As alvíssaras são pedidas por Frei Jorge como forma de agra- decimento a quem traz uma boa notícia – ele próprio. 2. (B) 3. Nem um nem outro querem nomear os inimigos – os despre- zados governadores em nome do rei castelhano. É uma forma de evidenciar desprezo por eles. Gramática 1. a. modificador b. modificador do nome restri- tivo 2. «os ares maus de Lisboa» Cena IV Maria, Manuel de Sousa, Jorge Jorge – Ora alvíssaras1, minha dona sobrinha! Venha-me já abraçar, senhora D. Maria. (Maria beija-lhe o escapulário, e depois abraçam-se.) Inda bem que vieste, meu irmão! Está tudo fei- arcebispo foi ontem a Lisboa e volta esta tarde. Vamos eu e mais quatro religiosos nossos buscá-lo, para o acompanhar, e tu hás de vir connosco para lhe agradecer; que não teve parte no agravo que te fizeram, e foi quem acabou com os outros que se não ressentissem da ofensa ou do que lhes prouve tomar como tal... Deixemos isso. Volta para o convento e quase que vem ser teu hóspede: é preciso fazer-lhe cumprimento, que no-lo merece! Manuel – Se ele vem só, sem os outros... Jorge – Só, só: os outros estão por essas quintas de aquém do Tejo. E nós não chegamos aqui senão lá por noite. Manuel – Se entendes que posso ir... Jorge – Podes e deves. Manuel Sacramento, no vosso convento novo de freiras abaixo de S. Vicente1; necessito falar com a abadessa. Maria – Oh! meu pai, meu querido pai, levai-me, por quem sois, convosco. Eu queria ver a tia Joana de Castro: é o maior gosto que posso ter nesta vida. Quero ver aquele rosto... De mim não se há de tapar... Manuel – E tua mãe? Maria – Minha mãe dá licença, dá. Ela já está boa... oh, e em vos vendo fica boa de todo, e eu vou. Manuel – E os ares maus em Lisboa? Jorge – Isso já acabou de todo: nem sinal de peste. – Mas, enfim, a prudência... Maria Manuel – Veremos o que diz tua mãe, e como ela está. Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, prefácio de Annabela Rita, Porto, Edições Caixotim, 2004, pp. 104-105 1. Explica por que razão Frei Jorge pede alvíssaras a Maria. 2. Escolhe a opção correta. A primeira fala de Manuel de Sousa Coutinho expressa (A) uma explicação. (C) uma consequência. (B) uma condição. (D) uma causa. 3. Justifica a repetição intencional de «os outros» por Frei Jorge e Manuel de Sousa Coutinho. Gramática 1. Indica as funções sintáticas das orações subordinadas seguintes: a. «para lhe agradecer» (l. 5); b. «que te fizeram» (l. 6). 2. Identifica o antecedente do pronome demonstrativo «Isso» (l. 23). - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - - - 20 - - - - 25 Vocabulário 1 recompensa para quem traz boas notícias Educação literária Anexo Informativo Funções sintáticas pp. 364-366 100 2 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa Cena V Maria, Manuel de Sousa, Jorge; Madalena (entrando) Madalena (correndo a abraçar Manuel de Sousa) – Estou boa já, não tenho nada, esposo da minha alma, todo o meu mal era susto; era terror de te perder. Manuel – Querida Madalena! MadalenaDeus lembrou-se de nós: ouviu as tuas orações, filha, que as minhas... (Vai recair na sua tristeza.) Jorge – Ora, pois, mana, ora pois!... Louvado seja Ele por tudo. E haja alegria! Que era sermos desagradecidos para com o Senhor, que nos valeu, mostrar-se hoje alguém triste nesta casa. Madalena (fazendo por se alegrar) – Triste porquê? As tristezas acabaram. (Para Manuel de Sousa.) olha, estes primeiros dias ao menos, hás de me aturar, hás de me fazer companhia. Preciso muito, querido. Manuel – Pois sim, Madalena, sim; farei quanto quiseres. Madalena – É que eu estou boa... boa de todo, mas tenho uma... Manuel – Uma imaginação que te atormenta. Havemos de castigá-la, ainda que não seja senão para dar exemplo a certa donzela que nos está ou- Madalena – Sexta-feira! (aterrada) Ai que é sexta-feira! Manuel – Para mim tem sido sempre o dia mais bem estreado de toda a semana. Madalena – Sim! Manuel – É o dia da Paixão de Cristo, Madalena. Madalena (caindo em si) – Tens razão. Manuel – É hoje sexta-feira: e daqui a oito... vamos – daqui a quinze dias bem contados, não saio de casa. Estás contente? Madalena – Meu esposo, meu marido, meu querido Manuel! Manuel – E tu, Maria? Maria (amuada) – Eu não. Manuel (para Madalena) – Queres tu saber porque é aquele amuo? É que eu precisava de ir hoje a Lisboa... Madalena – A Lisboa... hoje! Manuel – Sim: e não posso deixar de ir. Sabes que por fins desta minha pen- dência1 com os governadores, eu fiquei em dívida – quem sabe se da vida? Miguel de Mou- ra e esses meus degenerados parentes eram capazes de tudo! – Mas o certo é que fiquei em muita dívida ao arcebispo. Ele volta hoje para o convento; e meu irmão, que vai com outros religiosos para o acompanharem, entende que eu também devo ir. Bem vês que não há remédio. Madalena – Logo hoje!... Este dia de hoje é o pior... se fosse amanhã, se fosse passado hoje!... E quando estarás de volta? Jorge – Estamos aqui sem falta à boca da noite. - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - - - 20 - - - - 25 - - - - 30 - - - - 35 - - - - 40 - Educação literária Vocabulário 1 conflito 101 Ato segundo, cenas IV e V | Recorte das personagens principais 2 P R O F E S S O R Educação literária 1. a. F (As suas palavras, na segun- da fala, terminam de modo a revelar descrença nas suas ora- ções; por outro lado, a didascália informa que ela volta a «recair na sua tristeza», ll. 5-6.) b. V c. V d. V e. F (Pelo contrário, Frei Jorge, através das suas palavras e ati- tudes, procura que todos se sin- tam alegres – «haja alegria!» (l. 7), e oferece-se para fazer companhia a D. Madalena, para que Maria possa acompanhar o pai – cf. a sua última fala. Madalena (fazendo por se resignar) – Paciência: ao menos valha-nos isso. Não me dei- xam aqui só outra noite... Esta noite, particularmente, não fico só... Manuel – Não, sossega, não: estou aqui ao anoitecer. E nunca mais saio de ao pé de ti. E não serão quinze dias; vinte, os que tu quiseres. Maria – Então vou, meu pai, vou? Minha mãe dá licença, dá? Madalena – Vais aonde, filha? Que dizes tu? Maria - rida mãe, que eu ando há tanto tempo para ir àquele convento para conhecer a tia D. Joana. Jorge – Soror Joana: assim é que se chama agora. Maria – É verdade. E andam-me a prometer, há um ano, que me hão de levar lá... Desta vez hão de mo cumprir… não é assim, minha mãe (acarinhando-a), minha querida Madalena (abraçada com a filha) Também tu me desamparas2... e hoje! Maria – Venho logo, minha mãe, venho logo3. – Olhai; e não tenhais cuidado comigo: vai meu pai, vai o tio Jorge, e levo a minha aia, a Doroteia... E, é verdade, o meu fiel escudeiro há de ir também, o meu Telmo. Madalena – E tua mãe, filha, deixá-la aqui só, a morrer de tristeza? (à parte) e de medo? Manuel – Tua mãe tem razão: não há de ser assim, hoje não pode ser. (Maria fica triste e desolada.) Jorge - nha cá a minha donzela dolorida (pegando-lhe na mão) e faça aqui muitas festas ao tio frade, que eu fico a fazer companhia a sua mãe. E vá, vá satisfazer essa louvável curiosidade que tem de ir ver aquela santa freirinha que tanto deixou para deixar o mundo e se ir enterrar num claustro. Vá e venha... melhor de coração, não pode ser – que tu és boa como as que são boas, minha Maria; mas quero-te mais fria de cabeça: ouves? Maria (à parte) – Fria!... Quando ela estiver oca! (Alto) Madalena (sem vontade) – Se teu pai quer... Manuel – Dou licença: vai. (Maria sai a correr) Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, prefácio de Annabela Rita, Porto, Edições Caixotim, 2004, pp. 106-109 1. Indica as afirmações verdadeiras (V) e as falsas (F). Corrige as falsas. a. D. Madalena mostra-se completamente refeita dos seus problemas de ordem psicológica. b. D. Madalena procura encontrar no marido o apoio de que necessita para os seus problemas íntimos. c. Dona Madalena revela-se atormentada por crenças de origem popular como a que pretende que a sexta-feira é um dia aziago. d. A fala de Dona Madalena «– A Lisboa… hoje!» (l. 32), acentua a influência nela da crença de que há dias nefastos. e. Frei Jorge revela-se no decurso da cena uma personagem que contribui para adensar o clima de tragédia. - - - 45 - - - - 50 - - - - 55 - - - - 60 - - - - 65 - - - - 70 - - Vocabulário 2 me abandonas 3 regresso depressa 102 2 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa P R O F E S S O R Educação literária 1. D. Madalena pede a Manuel de Sousa Coutinho que Telmo vá com Maria para o afastar dela própria: agora que está num es- paço que a fragiliza psicologica- mente, pretende afastar Telmo e as suas «cismas» (l. 8) – que tanto a fizeram sofrer na cena II do ato I. 2. Todas as hesitações do dis- curso de D. Madalena revelam os seus problemas interiores – agravados na nova morada. Cena VI Manuel de Sousa, Madalena, Jorge Manuel – É preciso deixá-la espairecer, mudar de lugar, distrair-se: aquele sangue está em - lhor: verás. Madalena – Deus o queira! Telmo que vá com ela: não o quero cá. Manuel – Porquê? Madalena já está muito... e entra-me com cismas que... Manuel – Está, está muito velho, coitado! Pois que vá: melhor é. Cena VII Manuel de Sousa, Madalena, Jorge, Maria entrando com Telmo e Doroteia Maria – Então vamos, meu pai. Manuel – Pois vamos. Jorge – E são horas; vão. À Ribeira é um pedaço de rio; e até às sete, o mais, tu precisas de estar de volta à porta da Oira, que é onde irão ter os nossos padres à espera do arcebis- Maria – Minha mãe! (Abraçando-a) Então, se chorais assim, não vou. Manuel – Nem eu, Madalena. Ora pois! Eu nunca te vi assim. Madalena (Examina uma bolsa grande de damasco que Doroteia leva no braço.) Pode haver qualquer coisa, molhar-se, ter frio para a tarde... (Tendo examina- do a bolsa.) Vai tudo: bem! (Baixo a Doroteia) Ouve. (Fala baixo a Doroteia, que lhe responde baixo também, depois diz alto:) Está bom. Manuel – Não tenhas cuidado; vamos todos com ela. (Abraçam-se outra vez; Maria sai apressadamente e, para a mãe não ver que vai sufocada com choro.) Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, prefácio de Annabela Rita, Porto, Edições Caixotim, 2004, pp. 110-111 1. Apresenta uma explicação válida para o facto de D. Madalena pedir ao marido para Telmo ir com Maria a Lisboa. Na tua resposta, deves referir a cena II do ato I. 2. Justifica o comportamento de D. Madalena que, falando, se exprime através de hesitações sucessivas. - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - - - 20 - - - - 25 Educação literária 103 Ato segundo, cenas VI e VII | Recorte das personagens principais | A dimensão trágica 2 Cena VIII Manuel de Sousa, Madalena, Jorge Madalena (seguindo com os olhos a filha, e respondendo a Manuel de Sousa) – Cuidados!... eu não tenho já cuidados. Tenho este medo, este horror de ficar só... de vir a achar-me só no mundo. Manuel – Madalena! Madalena Manuel – Oh! querida mulher minha, pareceque vou eu agora embarcar num galeão para a Vimioso, esta Joana de Castro que a nossa Maria tanto deseja conhecer... olha se ela faria esses prantos quando disse o último adeus ao marido... Madalena – Bendita ela seja! Deu-lhe Deus muita força, muita virtude. Mas não lha invejo, não sou capaz de chegar a essas perfeições. Jorge – É perfeição verdadeira; é a do Evangelho: «deixa tudo e segue-me». Madalena – Vivos ambos... sem ofensa um do outro, querendo-se, estimando-se… e separar- -se cada um para sua cova! Verem-se com a mortalha1 já vestida e... vivos, são... depois de tantos anos de amor... e convivência... condenarem-se a morrer longe um do outro, sós, Jorge – Não o permitirá Deus assim... Oh! não. Que horrível coisa seria! Manuel (Pau- sa). E que temos nós com isso? A nossa situação é tão diferente… (Pausa). Em todas nos (Abraçam-se; Madalena vai até fora da porta com ele.) - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - - - 20 - - Vocabulário 1 hábito religioso Educação literária 104 2 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa P R O F E S S O R Educação literária 1. Trata-se de uma exclama- ção com valor de repreensão a D. Madalena por ela continuar a mostrar-se crente em achar-se «só no mundo». 2. Os sentimentos são o espan- to e a indignação. D. Madalena demonstra espanto, pois sem razão aparente os esposos se- pararam-se; indignação, pois tal separação não lhe parece razoá- vel – trata-se de uma condena- ção (ll. 13-16). 3. D. Madalena refere-se ao tem- po dizendo que ele pode mudar muito depressa, apesar de pare- cer bom…. Esta referência pode ser entendida, simbolicamente, como um presságio: a infelicida- de pode chegar de um momento para o outro, sem avisar, tal co- mo o mau tempo num dia de sol. 4.1 Ao falar do seu passado, D. Madalena revela a sua alma, o que de mais escondido tem e que o espetador conhece desde a cena I do ato I: os seus medos, traduzidos numa característica do seu discurso que se concre- tiza em situações como esta, na qual recorda o seu passado rela- cionado com D. João de Portu- gal e com o momento em que, ainda casada, se apaixonou por quem havia de ser o seu segun- do marido. Os seus medos tra- duzem-se no seu discurso em frequentes interrupções e hesi- tações. 4.2 Trata-se do facto de se ter apaixonado na constância do primeiro casamento, sendo, as- sim, infiel em pensamento ao seu marido; aqui reside a origem da tragédia. 4.3 É este «crime» que vai provo- car a tragédia e levar à destrui- ção D. Madalena e a sua família. Cena IX Jorge Jorge (só) – Eu faço por estar alegre, e queria vê-los contentes a eles... mas não sei já que diga do estado em que vejo minha cunhada, a filha... até meu irmão o desconheço! A todos parece que o coração lhes adivinha desgraça... E eu quase que também já se me pega o mal. Deus seja connosco! Cena X Jorge, Madalena Madalena (falando ao bastidor) – Vai, ouves, Miranda? Vai e deixa-te lá estar até veres chegar o bergantim; e quando desembarcarem, vem-me dizer para eu ficar descansada. (Vem para a cena.) Não há vento, e o dia está lindo. Ao menos não tenho sustos com a viagem. Mas a vol- ta... quem sabe? O tempo muda tão depressa... Jorge – Não, hoje não tem perigo. Madalena – Hoje... hoje! Pois hoje é o dia da minha vida que mais tenho receado... que ainda temo que não acabe sem muito grande desgraça... É um dia fatal para mim: faz hoje anos que... vi pela primeira vez a Manuel de Sousa. Jorge – Pois contais essa entre as infelicidades da vossa vida? Madalena estava-me no coração; a boca não o disse... os olhos não sei o que fizeram, mas dentro da alma eu já não tinha outra imagem senão a do amante... já não guardava a meu marido, a meu bom... a meu generoso marido... senão a grosseira fidelidade que uma mulher bem nascida quase que mais deve a si do que ao esposo. Permitiu Deus... quem sabe se para me tentar?... que naquela funesta batalha de Alcácer, entre tantos, ficasse também D. João. Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, prefácio de Annabela Rita, Porto, Edições Caixotim, 2004, pp. 111-114 Cenas VIII e IX 1. Justifica a exclamação de Manuel de Sousa Coutinho na sua primeira fala. 2. Atenta nas palavras de D. Madalena relativas à atitude tomada pela condessa de Vimioso e indica, justificando, dois dos seus sentimentos enquanto as profere. Cena X 3. Explicita o valor simbólico da referência ao tempo na primeira fala de D. Madalena. 4. Atenta no que D. Madalena diz seguidamente. 4.1 Justifica as frequentes hesitações no seu discurso. 4.2 Explica a natureza do «crime» (l. 38) por ela confessado. 4.3 Refere a importância deste «crime» no desenrolar da ação trágica. - - 25 - - - - 30 - - - - 35 - - - - 40 - - - - 105 Ato segundo, cenas VIII a X | A dimensão trágica 2 P R O F E S S O R Educação literária 1. Perante a chegada do Ro- meiro, D. Madalena, sempre agourenta, de nada em espe- cial desconfia. Mostra-se, sim- plesmente, admirada porque o Romeiro lhe quer falar. Já Frei Jorge desconfia do recém-che- gado, mas por outros motivos: teme que seja um impostor em busca de dinheiro, vendendo fal- sas relíquias supostamente tra- zidas da Terra Santa. 2. Este facto fragiliza D. Madale- na, praticamente sozinha num momento em que se aproxima a concretização dos seus medos mais profundos. Gramática 1.1 (C) 1.2 (A) Cena XI Madalena, Jorge, Miranda Miranda (apressado) – Senhora... minha senhora! Madalena (sobressaltada) – Quem vos chamou, que quereis? Ah! és tu, Miranda! Como assim! já chegaram? Não pode ser. Miranda – Não, minha senhora: ainda agora irão passando o pontal. Mas não é isso… Madalena – Então que é? Não vos disse eu que não viésseis dali antes de os ver chegar? Miranda um estranho recado, por minha fé. Madalena – Dizei já, que me estais a assustar. Miranda – Para tanto não é; nem coisa séria, antes quase para rir. É um pobre velho peregrino, um destes romeiros que aqui estão sempre a passar, que vêm das bandas de Espanha... Madalena – Um cativo... um remido1? Miranda mas diz ele que vem de Roma e dos Santos Lugares. Madalena – Pois, coitado! Virá. Agasalhai-o, e deem-lhe o que precisar. Miranda – É que ele diz que vem da Terra Santa, e... Madalena Miranda Madalena – A mim! Miranda – A vós; e que por força vos há de ver e falar. Madalena – Ide vê-lo, Frei Jorge. Engano há de ser; mas ide ver o pobre do velho. Miranda – É escusado, minha senhora: o recado que traz, diz que a outrem o não dará senão a vós, e que muito vos importa sabê-lo. Jorge bom do velho vos quer dar... como tais coisas se dão a pessoas da vossa qualidade... a troco de uma esmola avultada. É o que ele há de querer: é o costume. Madalena – Pois venha embora o romeiro! E trazei-mo aqui, trazei. Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, prefácio de Annabela Rita, Porto, Edições Caixotim, 2004, pp. 114-116 1. Perante o anúncio da chegada de um romeiro, refere as reações de D. Madalena e de Frei Jorge, justificando-as. 2. Indica que significado pode ter, à luz da evolução trágica da ação, o facto de D. Madalena se encontrar só no palácio, na companhia de Frei Jorge. Gramática 1. Escolhe as opções que completam corretamente as afirmações. 1.1 As palavras «peregrino» (l. 9) e «romeiro» (l. 12) configuram um exemplo de coesão (A) interfrásica. (B) temporal. (C) lexical. (D) frásica. 1.2 As palavras destacadas na frase «Agasalhai-o, e deem-lhe o que precisar.» (l. 14) con- figuram exemplos de coesão (A) referencial. (B) frásica. (C) interfrásica. (D) temporal. - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - - - 20 - - - - 25 - - Vocabulário 1 alguém que foi libertado mediante pagamento de uma quantia Educação literária Anexo Informativo Coesão textual pp. 372-373 106 2 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa Cena XII Madalena, Jorge Jorge – Queé precisa muita cautela com estes peregrinos! A vieira no chapéu e o bordão na mão, às vezes não são mais do que negaças para armar à caridade dos fiéis. E nestes tempos revoltos... Cena XIII Madalena, Jorge e Miranda, que volta com o Romeiro Miranda (da porta) – Aqui está o romeiro. Madalena – Que entre. E vós, Miranda, tornai para onde vos mandei: ide já, e fazei como vos disse. Jorge (chegando à porta da direita) – Entrai, irmão, entrai. (O romeiro entra devagar) Esta é a senhora D. Madalena Romeiro – A mesma. (A um sinal de Frei Jorge, Miranda retira-se). Cena XIV Madalena, Jorge, Romeiro Jorge – Sois português? Romeiro – Como os melhores, espero em Deus. Jorge – E vindes?... Romeiro – Do Santo Sepulcro de Jesus Cristo. Jorge – E visitastes todos os Santos Lugares1? Romeiro – Não os visitei; morei lá vinte anos cumpridos. Madalena – Santa vida levastes, bom romeiro. Romeiro nem sempre os levei com os olhos n’Aquele que ali tinha padecido tanto por mim... Queria rezar e meditar nos mistérios da Sagrada Paixão que ali se obrou... e as paixões mundanas, e as lembranças dos que se chamavam meus segundo a carne2, travavam-me do coração e eu não merecia estar onde estive: bem vedes que não soube morrer lá. Jorge – Pois bem: Deus quis trazer-vos à terra de vossos pais; e, quando for Sua vontade, ireis morrer sossegado nos braços de vossos filhos. Romeiro – Eu não tenho filhos, padre. Jorge – No seio de vossa família... Romeiro – A minha família... Já não tenho família. Madalena – Sempre há parentes, amigos... Romeiro – Parentes!... Os mais chegados, os que eu me importava achar... contaram com a minha morte, fizeram a sua felicidade com ela: hão de jurar que me não conhecem. Madalena – Haverá tão má gente... e tão vil, que tal faça? - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - - - 20 - - - - 25 - - - - 30 - - - Vocabulário 1 Terra Santa 2 por serem da minha família Educação literária 107 Ato segundo, cenas XI a XIV | A dimensão trágica 2 Romeiro Madalena – Não façais juízos temerários, bom romeiro. Romeiro – Não faço. De parentes, já sei mais do que queria. Amigos, tenho um; com esse conto. Jorge – Já não sois tão infeliz. Madalena – E o que eu puder fazer-vos, todo o amparo e agasalho que puder dar-vos, contai comigo, bom velho, e com meu marido, que há de folgar de vos proteger... Romeiro – Eu já vos pedi alguma coisa, senhora? Madalena – Pois perdoai, se vos ofendi, amigo. Romeiro que vos não faltará de quê. Madalena – Não, irmão não, decerto. E Ele terá compaixão de mim. Romeiro – Terá... Jorge (cortando a conversação) – Bom velho, dissestes trazer um recado a esta dama; dai-lho já, que havereis mister de ir descansar... Romeiro (sorrindo amargamente) – Quereis lembrar-me que estou abusando da paciência com que me têm ouvido? Fizestes bem, padre; eu ia-me esquecendo... talvez me esqueces- se de todo da mensagem a que vim... Estou tão velho e mudado do que fui! Madalena – Deixai, deixai, não importa, eu folgo de vos ouvir: dir-me-eis vosso recado quan- do quiserdes... logo, amanhã... Romeiro – Hoje há de ser. Há três dias que não durmo nem descanso, nem pousei esta cabeça, nem pararam estes pés dia nem noite, para chegar aqui hoje, para vos dar meu recado... e libertaram, dei juramento sobre a pedra santa do Sepulcro de Cristo... Madalena – Pois éreis cativo em Jerusalém? Romeiro – Era: não vos disse que vivi lá vinte anos? Madalena – Sim, mas... Romeiro – Mas o juramento que dei foi que, antes de um ano cumprido, estaria diante de vós, e vos diria da parte de quem me mandou... Madalena (aterrada) – E quem vos mandou, homem? Romeiro a ninguém mais. Jurei fazer-lhe a vontade, e vim. Madalena – Como se chama? Romeiro – O seu nome, nem o da sua gente nunca o disse a ninguém no cativeiro. Madalena – Mas, enfim, dizei vós... Romeiro – As suas palavras, trago-as escritas no coração com as lágrimas de sangue que lhe vi chorar, que muitas vezes me caíram nestas mãos, que me correram por estas faces. Nin- guém o consolava senão eu... e Deus! Vede se me esqueceriam as suas palavras. Jorge – Homem, acabai! Romeiro «Ide a D. Madalena de Vilhena, e dizei-lhe que um homem que muito bem lhe quis… aqui está vivo… por seu mal!… e daqui não pode sair nem mandar-lhe novas suas, de há vinte anos que o trouxeram cativo». Madalena (na maior ansiedade) - mem... Jesus! Esse homem era... esse homem tinha sido... levaram-no aí de de onde?... de África? - 35 - - - - 40 - - - - 45 - - - - 50 - - - - 55 - - - - 60 - - - - 65 - - - - 70 - - - - 75 - - - 108 2 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa P R O F E S S O R Educação literária 1. No decurso desta cena, D. Madalena começa por acolher simpaticamente o Romeiro. De- pois admira-se e estranha mes- mo o facto de ele dizer que não tinha já família. Revela-se «ater- rada» quando entende que o Romeiro vem de Jerusalém, on- de era cativo, enviado expressa- mente para falar com ela. Lança uma série de exclamações an- siosas quando percebe que quem enviou o Romeiro – que ela não reconhece como D. João de Portugal – foi alguém que foi feito prisioneiro em «África», is- to é, em Alcácer Quibir; e fica «espavorida» quando vê confir- mados os seus piores receios. Finalmente, num momento de intenso dramatismo, perante a prova inatacável, grita a sua per- dição e a da filha. 2. «Perdidas», «desonradas» e «infames» são três adjetivos de grande força dramática que ca- racterizam mãe e filha numa situação em que o casamento deixa de ser válido, dada a sobre- vivência de D. João de Portugal. Estando D. João vivo, o estatuto social de D. Madalena e de Maria caracterizava-se pela degrada- ção e ilegitimidade. 3.1 Tal reconhecimento pode- ria ter-se dado no momento em que o Romeiro diz a D. Madalena que as lágrimas da pessoa que o enviara «me correram por estas faces.» (l. 69): esta confissão po- deria ter precipitado o reconhe- cimento implícito na identidade comum de quem o teria envia- do e do Romeiro – ambos eram a mesma pessoa. Romeiro – Levaram. Madalena – Cativo?... Romeiro – Sim. Madalena – Português?... cativo da batalha de?... Romeiro – De Alcácer Quibir. Madalena (espavorida) – Meu Deus, meu Deus! Que se não abre a terra debaixo dos meus pés?... Que não caem estas paredes, que me não sepultam já aqui?... Jorge – Calai-vos, D. Madalena: a misericórdia de Deus é infinita; esperai. Eu duvido, eu não creio... estas não são coisas para se crerem de leve. (Reflete, e logo como por uma ideia que lhe acudiu de repente). Oh inspiração divina!... (Chegando ao romeiro) Conheceis bem esse homem, romeiro, não é assim? Romeiro – Como a mim mesmo. Jorge conhecê-lo-eis? Romeiro – Como se me visse a mim mesmo num espelho. Jorge – Procurai nesses retratos, e dizei-me se algum deles pode ser. Romeiro (sem procurar, e apontando logo para o retrato de D. João) – É aquele. Madalena (com um grito espantoso) – Minha filha, minha filha, minha filha!... (Em tom cavo e profundo.) Estou... estás... perdidas, desonradas... infames! (Com outro grito do coração.) Oh minha filha, minha filha!… (Foge espavorida e neste gritar.) Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, prefácio de Annabela Rita, Porto, Edições Caixotim, 2004, pp. 116-122 Cenas XII a XIV 1. Apresenta de forma objetiva a evolução do estado de espírito de D. Madalena no decurso da cena XIV. 2. Justifica a pertinência dos vários adjetivos usados por D. Madalena na última fala da cena XIV para caracterizar a sua nova situação. 3. D. Madalena não entendeu que o Romeiro era D. João de Portugal. Contudo, dadas as infor- mações que apresentou, ela podia, pelo menos, ter desconfiado. 3.1 Justifica esta afirmação, recorrendo a elementos textuais pertinentes. - 80 - - - - 85 - - - - 90 - - - - 95 - - - 109 Ato segundo, cena XIV | A dimensão trágica 2 P R O F E S S O R Educação literária 4. Nesta famosa cena,o Romeiro lança a exclamação «Ninguém!» apontando o seu próprio retrato, revelando-se e revelando a sua tragédia pessoal – alguém que tudo perdeu; por seu lado, Frei Jorge, ao prostrar-se dramati- camente no chão, realça o mo- mento trágico e irreparável que atingiu a família do irmão. Gramática 1.1 a. O referente do deítico «vos» é o Romeiro. b. O deítico «amanhã» refere-se ao dia seguinte ao da enuncia- ção, um sábado. 2. A utilização de «vos» referin- do um nome no singular justi- fica-se por ser uma forma de tratamento respeitoso no tem- po histórico em que este diálogo ocorre (século XVI). Escrita Apresentação Cenário de resposta: exposição sobre um tema (D. Madalena de Vilhena, personagem trágica) Cena XV Jorge, Romeiro, que seguiu Madalena com os olhos, e está alçado no meio da casa, com aspeto severo e tremendo. Jorge – Romeiro, romeiro, quem és tu? Romeiro (apontando com o bordão para o retrato de D. João de Portugal ) – Ninguém! (Frei Jorge cai prostrado no chão, com os braços estendidos diante da tribuna. O pano desce lentamente.) Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, prefácio de Annabela Rita, Porto, Edições Caixotim, 2004, p. 122 4. Comenta o valor simbólico desta cena, referindo as atitudes de ambas as personagens. Gramática 1. Relê a fala de D. Madalena: «Madalena – Deixai, deixai, não importa, eu folgo de vos ouvir: dir-me-eis vosso reca- do quando quiserdes... logo, amanhã...» 1.1 Considerando o contexto situacional em que decorre, indica: a. o referente do deítico pessoal «vos»; b. o referente do deítico temporal «amanhã». 2. Explica a razão da utilização do deítico pessoal «vos», sabendo que o seu referente é um nome no singular. Escrita Exposição sobre um tema Escreve um texto expositivo, que tenha entre 130 e 170 palavras, no qual, com base na tua experiência de leitura dos atos I e II de Frei Luís de Sousa, apresentes D. Madalena de Vilhena nas suas características de personagem trágica. O teu texto deve apresentar-se estruturado nas três secções habituais e abordar os seguintes tópicos, pela ordem que entenderes: uma personagem perturbada pelo passado; uma personagem amargurada no presente; uma personagem temerosa do futuro; uma personagem presa a presságios e agouros. Segue as fases habituais do processo de produção escrita. Planificação: planifica o teu texto, relendo as cenas das quais podes retirar notas de leitura relativas aos tópicos apresentados. Textualização: redige a exposição, seguindo a planificação. Revisão: revê, finalmente, o texto com a intenção de o aperfeiçoares. Educação literária Caderno de Atividades Oficina de escrita nº 2 Exposição sobre um tema p. 57 Anexo Informativo Géneros textuais Exposição sobre um tema p. 379 A B C 110 2 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa Ficha de apoio nº 4 P R O F E S S O R Ficha de apoio nº 4 1. (C) A dimensão trágica Texto 1 A ação trágica A ação consiste na destruição de uma família virtuosa, atingida por problemas que lhe são pró- prios, mas que se tecem com o desastre portu- guês do final do século XVI. Elaborada com uma hábil estratégia trágica justamente posta em re- levo por toda a crítica, ela agarra desde o início o leitor pela criação de um clima ominoso1 que vai crescendo em tensão até à catástrofe. No ato I, co- nhecemos as inquietações e os pressentimentos que agitam não só a vibrátil Madalena, esposa de Manuel de Sousa Coutinho, mas também a jovem filha de ambos – a frágil e fantasiosa Maria – e o velho aio Telmo, que criara D. João de Portugal (primeiro marido de Madalena, desaparecido na batalha de Alcácer Quibir vinte e um anos an- tes) e depois aquela criança que tanto ama e com quem fala sobre a perdida grandeza da Nação; no final desse ato, o incêndio que Manuel lança ao seu palácio (para não acolher em casa, na salubre Almada, os governadores do país em nome de Castela, que queriam fugir à peste que gras- sava em Lisboa) e a perda nas chamas do seu retrato são fatídicos sinais de desgraça, que se avolumam no ato II, com a mudança da família para um espaço sombrio e habitado pelo Passado que aterroriza Madalena, o palácio que fora de D. João de Portugal; a tensão cresce (quando, após uma semana, tudo parecia acalmar-se) com a chegada do Romeiro que traz novas de cativos, atingindo-se o «clímax» quando ele se identifica como D. João / «Nin- guém»; dão-se, enfim, no ato III, as mortes «injustas» de inocentes – a profissão religiosa de Manuel de Sousa e sua mulher, espécie de suicídio, e o falecimento, por dor e vergonha, de Maria –, que vêm trazer o pressentido desfecho catastrófico. Ofélia Paiva Monteiro, «Frei Luís de Sousa», in Biblos – Enciclopédia Verbo das literaturas de língua portuguesa, volume 2, Lisboa, Verbo, 1997, colunas 689 a 691 1. Seleciona a única afirmação que não pode ser comprovada pelo texto. (A) Os pressentimentos e as inquietações de D. Madalena, presentes na cena II do ato I, vão avolumar-se dramaticamente no decurso da peça. (B) A destruição do retrato de Manuel de Sousa Coutinho, no incêndio por si atea- do ao seu próprio palácio, é um agouro de tragédia próxima. (C) O desfecho da peça caracteriza-se pela morte física das personagens principais. Vocabulário 1 agoirento; que anuncia desgraças - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - - - 20 - - - - 25 - - - 111 Ficha de apoio nº 4 A dimensão trágica 2 Texto 2 Retratos – simbologia e dimensão trágica No caso de Manuel de Sousa Coutinho, é um retrato, presente logo no «Ato Primei- ro», que lhe confere uma verdade indiscutível. O autor não se engana: essa figura precisava desse sublinhado de verosimilhança. E o facto de a tela arder ainda lhe sublinha mais a realidade: uma imagem toda em chamas torna muito mais real o sujeito nela representado. O incêndio no fim do primeiro ato não possui somente a dimensão simbólica habi- tualmente referida: não se trata apenas de anunciar o desfecho trágico da obra. Aquelas chamas desempenham também um papel estético. Iluminados pelo incêndio, os perfis de Manuel, de Telmo, de Maria, de Madalena adquirem uma verdade definitiva. E estamos prontos para o «Ato Segundo», em que um exército de retratos concederá verosimilhança a um cenário equívoco de filme de terror. O retrato de D. João de Portugal possui uma dimensão crucial. Por isso Maria e Telmo conversam sobre ele, assinalando-o ao espetador. Na verdade, será esse retrato que expli- cará a incapacidade que Madalena revela de reconhecer o seu esposo, quando este vol- ta muito envelhecido. Assim, o primeiro ato gira à volta da imagem de Manuel de Sousa Coutinho, e o segundo em redor da tela representando D. João de Portugal. Ambos os quadros são queimados: o do segundo marido de Madalena através das chamas – e o do Romeiro por meio do incêndio verbal contido na sua célebre exclamação: «Ninguém!» Gabriel Magalhães, «O convento – uma leitura de Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett», in Carlos Reis, José Augusto Cardoso Bernardes e Maria Helena Santana (coord.), Uma coisa na ordem das coisas – estudos para Ofélia Paiva Monteiro, Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012, pp. 182-183 (texto adaptado) Texto 3 Simbologia dos retratos no palácio de D. João Na casa de D. João de Portugal, num salão que é galeria de retratos de família, três deles dominam a cena e a imaginação das personagens, com o mesmo protagonismo que têm no imaginário coletivo: D. Sebastião – Camões – D. João de Portugal. Se o aristocrata (cujo apelido o torna personificação do país independente) e o rei sobrevivem de enigmatismo e de potencialidade, Camões define-se no díptico que o representa, o quadro exposto e a descrição de Telmo. Qualquer deles se imortaliza pela tragédia, seja ela a indefinida pela ausência de um corpo morto ou a definida pela morte e enterro. Annabela Rita, «Prefácio» in Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, Porto, Edições Caixotim, 2004,pp. 15 e 16 2. Seleciona a opção correta que permite obter uma afirmação correta. Os quatro retratos referidos nos dois textos anteriores apresentam como caracterís- tica comum (A) uma dimensão trágica. (B) uma dimensão psicológica. (C) uma dimensão histórica. (D) uma dimensão patriótica. D. Sebastião Alonso Sánchez Coello, Rei D. Sebastião de Portugal (1575), Museu de História da Arte, Viena, Áustria Camões Fernão Gomes, Retrato de Luís de Camões (1577), em cópia de Luís de Resende do início do século XIX, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa, Portugal - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - - - - - 5 - - Manuel de Sousa Coutinho D. João de Portugal 112 2 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa Vídeo A dimensão trágica em frei luís de sousa Vê o curto vídeo de uma entrevista inédita feita à Professora Maria Helena Santana, especialista no estudo da obra de Almeida Garrett. 1. Identifica as afirmações verdadeiras (V) e a afirmação falsa (F). Corrige a afirmação falsa. a. D. Madalena é uma personagem marcada por medos e culpas. b. Maria apresenta uma inclinação trágica demonstrada na curiosi- dade doentia que a caracteriza. c. Telmo é a única personagem que escapa ao peso da tragédia. d. O retrato de Manuel de Sousa vestido com o hábito religioso de Cavaleiro de Malta constitui um presságio trágico do seu destino. vista por… P R O F E S S O R 2. (A) A dimensão trágica em Frei Luís de Sousa vista por 1. a. V; b. V; c. F (Telmo revela-se uma personagem de caracterís- ticas trágicas, uma vez que se apresenta dividido entre a leal- dade a D. João de Portugal e o amor por Maria.); d. V Vídeo A dimensão trágica em Frei Luís de Sousa vista por Professora Maria Helena Santana Documento Esquema-síntese da evolução da ação trágica em Frei Luís de Sousa Elementos da tragédia clássica Exemplos Hybris (desafio) – O desafio lançado pelo protagonista após um momento de crise. D. Madalena ama Manuel de Sousa Coutinho ainda durante o casamento com D. João de Portugal. Este «adultério» íntimo constitui um desafio à lei divina, que consagra a santidade do casamento. Agón (conflito) – É o combate ou a luta que surge do desafio. D. Madalena trava uma batalha interior por temer ter sido adúltera perante os olhos de Deus e por recear que D. João não esteja morto. Anankê (destino) – O destino, a força cega à qual nem aos deuses é permi- tido desobedecer. É cruel, imprevisto, implacável, inexorável. O regresso de D. João (sob a forma de «Romeiro») é a mão implacável do destino que se abate, sem aviso, sobre D. Ma- dalena, Manuel de Sousa Coutinho e Maria. Peripeteia (peripécia) – Súbita mu- dança de acontecimentos que altera completamente o rumo da ação. O incêndio do palácio de Manuel de Sousa Coutinho conduz a que a sua família se abrigue no palácio de D. João de Portugal, aproximando D. Madalena do passado que a atormenta… Anagnórisis (anagnórise) – Apareci- mento de um dado novo, o reconheci- mento de uma personagem. O reconhecimento do Romeiro como D. João de Portugal cumpre o destino trágico de D. Madalena, Manuel de Sousa Coutinho e Maria. Katastrophé (catástrofe) – Desenlace fatal que se consuma com a destrui- ção das personagens. D. Madalena e Manuel de Sousa Coutinho recolhem ao con- vento para encobrirem a vergonha da honra indelevelmente manchada (morte simbólica). Maria, imagem dessa mancha, morre… «de vergonha». Elementos da tragédia clássica presentes em Frei Luís de Sousa A proximidade entre Frei Luís de Sousa e a tragédia, como Garrett sublinha na «Memória ao Conservatório Real», permite que possamos encontrar no drama deste autor vários ele- mentos característicos desse género literário clássico. Fotograma da entrevista inédita realizada na Leya, em Alfragide, Edições ASA (2016) 113 Ficha de apoio nº 4 A dimensão trágica 2 P R O F E S S O R Antes de ler 1. O fotograma do filme Quem és tu? mostra um cenário despi- do de adornos, dominado apenas pelo contraste cromático entre o preto e o branco e a presença de três personagens. 2. As figuras vestem-se de branco, mostrando, com o seu posicionamento e as suas ex- pressões faciais, uma grande preocupação com a figura que se encontra prostrada. As três figuras vestem-se de branco, o que simbolicamente se pode re- lacionar com a virtude ou a au- sência de culpa, sugerindo que podem ser vítimas de alguma força que lhes é superior. Vídeo Quem és tu?, de João Botelho (excerto) Ato terceiro Parte baixa do palácio de D. João de Portugal, comunicando, pela porta à esquerda do es- petador, com a capela da Senhora da Piedade na Igreja de S. Paulo dos Domínicos de Almada: é um casarão vasto sem ornato algum. Arrumadas às paredes, em diversos pontos, escadas, tocheiras, cruzes, ciriais e outras alfaias e guisamentos1 de igreja de uso conhecido. A um lado um esquife2 dos que usam as confrarias; do outro uma grande cruz negra de tábua com o letreiro J.N.R.J., e toalha pendente, como se usa nas cerimónias da Semana Santa. Mais para a cena uma banca velha com dois ou três tamboretes; a um lado uma tocheira baixa com to- cha acesa e já bastante gasta; sobre a mesa um castiçal de chumbo, de credência3, baixo e com vela acesa também, e um hábito completo de religioso domínico: túnica, escapulário, rosário, cinto, etc. No fundo, porta que dá para as oficinas e aposentos que ocupam o resto dos baixos do palácio. É alta noite. Cena I Manuel de Sousa, sentado num tamborete, ao pé da mesa, o rosto inclinado sobre o peito, os braços caídos e em completa prostração de espírito e de corpo; num tamborete do outro lado Jorge, meio encostado para a mesa com as mãos postas e os olhos pregados no irmão. Manuel – Oh, minha filha, minha filha! (Silêncio longo.) Desgraçada filha, que ficas órfã!... órfã de pai e de mãe... (pausa) e de família e de nome, que tudo perdeste hoje... (Levanta-se com violenta aflição.) A desgraçada nunca os teve. – Oh! Jorge, que esta lembrança é que me mata, que me desespera! (Apertando a mão do irmão, que se levantou após dele e o está consolando do gesto.) É o castigo terrível do meu erro... se foi erro... crime sei que não foi. E sabe-o Deus, Jorge, e castigou-me assim, meu irmão! Jorge – Paciência, paciência: os seus juízos são imperscrutáveis4. (Acalma e faz sentar o irmão; tornam a ficar ambos como estavam.) - - - - 5 - - - Educação literária As revelações do Romeiro conduzem D. Madalena e a família para um destino fatal que, além do teatro, outras formas de arte, como o cinema, podem também representar. 1. Faz uma breve descrição do fotograma do filme Quem és tu?, de João Botelho, tendo em conta as cores predominantes, o núme- ro de personagens, as roupas usadas e a sua linguagem corporal. 2. Considerando o final do ato II, apresenta possíveis relações de sen- tido entre o fotograma e as personagens principais de Frei Luís de Sousa. 1 objetos 2 tipo de caixão 3 pequena mesa 4 não se podem entender Antes de ler Fotograma do filme Quem és tu?, realizado por João Botelho (2001) 114 2 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa P R O F E S S O R L11 7.2, 7.4, 7.6 (Antes de ler); 7.1, 7.4, 7.5; 8.1 (Fichas de apoio nº 5 e nº 6) O11 4.2, 4.3; 5.1, 5.2, 5.3, 5.4; 6.1, 6.2, 6.3 EL11 14.1, 14.2, 14.3, 14.4, 14.5, 14.7 a), 14.7 b), 14.7 c), 14.9, 14.11 G10 18.1, 18.4 G11 17.1; 18.1, 18.2 E11 10.1; 11.1; 12.1, 12.2, 12.3, 12.4 EL11 Recorte das personagens principais A dimensão trágica Linguagem, estilo e estrutura – características do texto dramá- tico – o drama romântico: caracterís- ticas G11 Retoma (em revisão) dos con- teúdos estudados no 10º ano: funções sintáticas Dêixis: pessoal, temporal e es- pacial Texto e textualidade b) coesão textual: – lexical: reiteração e substitui- ção – gramatical: referencial (uso anafórico de pronomes, frási- ca (concordância), interfrásica (uso de conectores),temporal (expressões adverbiais ou pre- posicionais com valor temporal, ordenação correlativa dos tem- pos verbais) O11 (EO), L11 e E11 Artigo de opinião: explicitação de um ponto de vista, clareza e per- tinência da perspetiva adotada, dos argumentos desenvolvidos e dos respetivos exemplos; discurso valorativo (juízo de valor explícito ou impícito) E11 Exposição sobre um tema: caráter demonstrativo, elucidação eviden- te do tema (fundamentação das ideias), concisão e objetividade, valor expressivo das formas lin- guísticas (deíticos, conectores…) Artigo de opinião Manuel – Mas eu em que mereci ser feito o homem mais infeliz da terra, posto de alvo à irrisão e ao discursar do vulgo?... Manuel de Sousa Coutinho, o filho de Lopo de Sousa Coutinho, o filho do nosso pai, Jorge! Jorge – Tu chamas-te o homem mais infeliz da terra... Já te esqueceste que ainda está vivo aquele... Manuel (caindo em si) – É verdade. (Pausa; e depois, como quem se desdiz). Mas não é, nem tanto: padeceu mais, padeceu mais longamente e bebeu até às fezes o cálix das amarguras humanas... (Levantando a voz). Mas fui eu, eu que lho preparei, eu que lho dei a beber, pelas mãos... inocentes mãos!... dessa infeliz que arrastei na minha queda, que lancei nesse abismo de vergonha, a quem cobri as faces – as faces puras e que não tinham corado doutro pejo5 senão do da virtude e do recato... cobri-lhas de um véu de infâmia que nem a morte há de levantar, porque lhe fica perpétuo e para sempre lançado sobre o túmulo a cobrir-lhe a memória de sombras... de manchas desonra deles... Sei-o, conheço-o; e não sou mais infeliz que nenhum? Jorge – Vê a palavra que disseste: «desonra»; lembra-te dela e de ti, e considera se po- des pleitear6 misérias com esse homem a quem Deus não quis acudir com a morte antes de conhecer essoutra agonia maior. Ele não tem... Manuel – Ele não tem uma filha como eu, desgraçado... (Pausa) adorada, sobre cuja cabeça – oh, porque não é na minha! – vai cair toda essa desonra, toda a ignomínia7, todo o opróbrio8 que a injustiça do mundo, não sei porquê, me não quer lançar no rosto a mim, para pôr tudo na testa branca e pura de um anjo, que não tem outra culpa senão a da origem que eu lhe dei. Jorge – Não é assim, meu irmão, não te cegues com a dor, não te faças mais infeliz do que és. Já não és pouco, meu pobre Manuel, meu querido irmão! E Deus há de levar em conta essas amarguras. Já que te não pode apartar o cálix dos beiços, o que tu padeces há de ser descontado nela, há de resgatar a culpa. Manuel – Resgate! Sim, para o céu: nesse confio eu... mas o mundo? Jorge – Deixa o mundo e as suas vaidades. Manuel – Estão deixadas todas. Mas este coração é de carne. Jorge – Deus, Deus será o pai de tua filha. Manuel – Olha, Jorge; queres que te diga o que eu sei de certo, e que devia ser consola- ção... mas não é, que eu sou homem, não sou anjo, meu irmão – devia ser consola- ção, e é desespero, é a coroa de espinhos de toda esta paixão que estou passando... (Desata a soluçar, cai com os cotovelos fixos na mesa e as mãos apertadas no rosto; fica nesta posição por longo tempo. Ouve-se de quando em quando um soluço comprimido. Frei Jorge está em pé, detrás dele, amparando-o com o seu corpo, e os olhos postos no céu). Jorge (chamando timidamente) – Manuel. Manuel – Que me queres, irmão? Jorge (animando-o) – Ela não está tão mal: já lá estive hoje... Manuel – Estiveste?... Oh! conta-me, conta-me; eu não tenho... não tive ainda ânimo de a ir ver. - 10 - - - - 15 - - - - 20 - - - - 25 - - - - 30 - - - - 35 - - - - 40 - - - - 45 - - - - 50 - - 5 vergonha 6 comparar 7 desonra 8 desgraça 115 Ato terceiro, cena I | Recorte das personagens principais | A dimensão trágica 2 Jorge – Haverá duas horas que entrei na sua câmara, e estive ao pé do leito. Dormia, e mais sossegada da respiração. O acesso de febre, que a tomou quando chegámos de coisa. Doroteia e Telmo… pobre velho, coitado!... estavam ao pé dela, cada um de seu lado... Disseram-me que não tinha tornado a... a... Manuel – A lançar sangue?… Se ela deitou o do coração!... Não tem mais. Naquele cor- po tão franzino, tão delgado, que mais sangue há de haver? Quando ontem a arran- quei de ao pé da mãe e a levava nos braços, não mo lançou todo às golfadas aqui no peito? (Mostra um lenço branco todo manchado de sangue.) Não o tenho aqui... o san- gue... o sangue da minha vítima?... que é o sangue das minhas veias... que é sangue da (Beija o lenço muitas vezes.) Oh, meu Deus! meu Deus! eu queria pedir-te que a levasses já... e não tenho ânimo. Eu devia aceitar por mercê de tuas misericórdias que chamasses aquele anjo para junto dos teus, antes que o mundo, este mundo infame e sem comiseração, lhe cuspisse não sei, não tenho ânimo, não tenho coração. Peço-te vida, meu Deus, (ajoelha e põe as mãos) peço-te vida, vida, vida... para ela, vida para a minha filha!... saúde, vida para a minha querida filha!... e morra eu de vergonha, se é preciso; cubra-me o escárnio9 do mundo, desonre-me o opróbrio dos homens, tape-me a sepultura uma lousa10 de ignomínia, um epitáfio que fique a bradar por essas eras desonra e infâmia sobre mim!... Oh, meu Deus, meu Deus! (Cai de bruços no chão... Passado algum tempo, Frei Jorge se chega para ele, levanta-o quase a peso, e o torna a assentar.) Jorge – Manuel, meu bom Manuel, Deus sabe melhor o que nos convém a todos: põe nas suas mãos esse pobre coração, põe-no resignado e contrito11, meu irmão, e Ele fará o que em sua misericórdia sabe que é melhor. Manuel (com veemência e medo) – Então desenganas-me... desenganas-me já... é isso que queres dizer? Fala, homem: não há que esperar?... não há que esperar dali, não é assim? Dize: morre, morre?… (Desanimado). Também fico sem filha! Jorge – Não disse tal. Por caridade contigo, meu irmão, não imagines tal. Eu disse-te a verdade: Maria pareceu-me menos oprimida; dormia... Manuel (variando) – Se Deus quisera que não acordasse! Jorge – Valha-me Deus! - - 55 - - - - 60 - - - - 65 - - - - 70 - - - - 75 - - - - 80 - - - - 9 chacota 10 pedra tumular 11 arrependido 116 2 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa Manuel – Para mim aqui está esta mortalha: (tocando no hábito) morri hoje... vou amor- talhar-me logo; e adeus tudo o que era mundo para mim! Mas minha filha não era do mundo... não era, Jorge; tu bem sabes que não era: foi um anjo que veio do céu para me acompanhar na peregrinação da terra, e que me apontava sempre, a cada pas- so da vida, para a eterna pousada de onde viera e onde me conduzia... Separou-nos o arcanjo das desgraças, o ministro das iras do Senhor que derramou sobre mim o vaso cheio das lágrimas e a taça rasa das amarguras ardentes de sua cólera... (Caindo de tom) Vou com esta mortalha para a sepultura... e, viva ou morta, cá deixo a minha filha no meio dos homens que a não conheceram, que a não hão de conhecer nunca, porque ela não era deste mundo nem para ele... (Pausa) outra vez, vai e vem-me dizer; que eu ainda não posso... mas hei de ir, oh! hei de ir vê-la e beijá-la antes de descer à cova... Tu não queres, não podes querer... Jorge – Havemos de ir... quando estiveres mais sossegado... havemos de ir ambos: des- Manuel – Que horas serão? Jorge – Quatro, quatro e meia. (Vai à porta da esquerda e volta.) São cinco horas, pelo alvor da manhã que já dá nos vidros da igreja. Daqui a pouco iremos; mas sossega. Manuel – E a outra... a outra desgraçada, meu irmão? Jorge – Está – imagina por ti – está como não podia deixar de estar: mas a confiança em escapulário (tocando no hábito em cimo da mesa) para ti e para ela. Foi uma resolução digna de vós, foi uma inspiração divina que os alumiou a ambos. Deixa estar; ainda pode haver dias felizes para quem souber consagrar a Deus as suas desgraças. Manuel – E isso está tudo pronto? Eu não sofro nestes hábitos, eu não aturo, com estes vestidos de vivo, a luz desse dia que vema nascer. Jorge – Está tudo concluído. O arcebispo mostrou-se bom e piedoso prelado nesta ocasião; e é um santo homem, é. O arcebispo já expediu todas as licenças e papéis necessários. Coitado! o pobre do velho velou quase toda a noite com o seu vigário para que não faltasse nada desde o romper do dia. Mandou-se ao provincial, e pela sua parte e pela nossa tudo está corrente. Frei João de Portugal, que é o prior de Ben- fica, e também vigário do Sacramento, sabes, chegou haverá duas horas, noite fe- chada ainda, e cá está: é quem te há de lançar o hábito, a ti e a Dona... a minha irmã. Manuel – Tu és um bom irmão. (Aperta-lhe a mão) Deus to há de pagar. (Pausa) Eu não me atrevo... tenho repugnância... mas é forçoso perguntar-te por alguém mais. Onde está ele... e o que fará?... 85 - - - - 90 - - - - 95 - - - - 100 - - - - 105 - - - - 110 - - - - 115 - - - - 120 117 Ato terceiro, cena I | Recorte das personagens principais | A dimensão trágica 2 P R O F E S S O R Educação literária 1. Os atos de se levantar e de apertar a mão do irmão enquan- to fala denotam o estado de ner- vosismo e de aflição de Manuel de Sousa Coutinho. 2. Manuel de Sousa Coutinho re- fere-se várias vezes, no decur- so da cena, à morte, quer física quer espiritual. Considera, logo na primeira fala, que Maria per- deu já pai e mãe – «órfã de pai e mãe» (l. 2) – no sentido em que ambos vão professar, morren- do espiritualmente. Também considera ser o responsável pe- la morte espiritual de D. Mada- lena (ll. 16-23), pois a arrastou para desgraça com a sua pai- xão. A ideia da morte em Manuel de Sousa Coutinho intensifica- -se depois, quando fala do mais que certo destino de Maria (ll. 40-44), considerando ser se- gura a sua morte física, dado o «sangue» lançado na véspera (l. 58). A morte recai também so- bre ele próprio, que se vai, sim- bolicamente, enterrar numa «mortalha» (l. 85), o seu hábito. 3. A preocupação maior de Manuel de Sousa Coutinho recai sobre o destino de Maria, uma vez que, na nova situação, ela passa a ser considerada filha ile- gítima, perdendo os seus direi- tos sociais. Jorge – Bem sei, não digas mais: o romeiro. Está na minha cela, e de lá não há de sair – que foi ajustado entre nós – senão quando... quando eu lho disser. Descansa: não verá ninguém, nem será visto de nenhum daqueles que o não devem ver. Demais, o segredo de seu nome verdadeiro está entre mim e ti – além do arcebispo, a quem foi indispensável comunicá-lo para evitar todas as formalidades e delongas12, que aliás prometi – não pude deixar de prometer, porque sem isso não queria ele entrar em acordo algum – com quem lhe prometi que havia de falar hoje e antes de mais nada. Manuel – Quem? Será possível?... Pois esse homem quer ter a crueldade de rasgar, fevra quer ver?... Jorge – Não, homem; é o seu aio velho, é Telmo Pais. Como lho havia eu de recusar! Manuel – De nenhum modo: fizeste bem: eu é que sou injusto. Mas o que eu padeço é tanto e tal!... – Vamos; eu ainda me não entendo bem claro com esta desgraça; dize- -me, fala-me a verdade: minha mulher... – minha mulher! com que boca pronuncio eu ainda estas palavras! – D. Madalena o que sabe? Jorge – O que lhe disse o romeiro naquela fatal sala dos retratos... o que já te contei. Sabe que D. João está vivo, mas não sabe aonde: supõe-no na Palestina talvez; é onde o deve supor pelas palavras que ouviu. Manuel – Então não conhece, como eu, toda a extensão, toda a indubitável verdade da nossa desgraça. Ainda bem! Talvez possa duvidar, consolar-se com alguma espe- rança de incerteza. Jorge – Ontem de tarde, não; mas esta noite começava a raiar-lhe no espírito alguma falsa luz dessa vã esperança. Deus lha deixe, se é para bem seu. Manuel Maria!... Essa confio no Senhor que não saiba, ao menos por ora... Jorge – Não sabe. E ninguém lho disse, nem dirá. Não sabe senão o que viu: a mãe quase Manuel – Também eu. Jorge já lhe asseverei – e acreditou-me – que a mãe estava melhor, que tu ias logo vê-la... E assim espero que, até lá por meio do dia, a possamos conservar em completa igno- rância de tudo. Depois ir-se-lhe-á dizendo, pouco a pouco, até onde for inevitável. E Deus... Deus acudirá. Manuel – Minha pobre filha, minha querida filha! Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, prefácio de Annabela Rita, Porto, Edições Caixotim, 2004, pp. 125-134 1. Justifica as indicações relativas às atitudes corporais de Manuel de Sousa Coutinho presentes nas didascálias iniciais desta cena. 2. Comprova que Manuel de Sousa Coutinho é uma personagem romântica, no sentido em que se apresenta dominado pela ideia e pela realidade da morte – quer física quer espiritual, recorrendo a elementos textuais pertinentes. - - - - 125 - - - - 130 - - - - 135 - - - - 140 - - - - 145 - - - - 150 - - - - 155 - 12 demoras 118 2 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa P R O F E S S O R 4. Manuel de Sousa Coutinho desespera-se com a situação de Maria, pois está certo de que ela acabará por morrer perante a «afronta» (l. 44), que lhe é feita: a sua resistência ao que lhe está a suceder será muito fraca, dada a doença de que padece. 5. Ele considera que o Romeiro não é, apesar do que passou, tão infeliz como ele, uma vez que ele próprio, Manuel de Sousa Couti- nho, é o verdadeiro culpado de toda a tremenda desgraça so- brevinda tanto ao Romeiro co- mo à sua família. Neste sentido, ele é mais infeliz do que D. João de Portugal, a sua desgraça é bem maior. 6. Frei Jorge tem a dupla função de informar Manuel de Sousa Coutinho sobre o destino da mu- lher e da filha e de o consolar na sua adversidade. 7. Pelas palavras de Frei Jorge, sabe-se que somente ele próprio e Manuel de Sousa Coutinho co- nhecem a identidade do Romei- ro, o «seu nome verdadeiro». Além disso, vai ser possibilitado a Telmo Pais, a pedido do Romei- ro, esse conhecimento. 8. A relação entre o espaço e a tragédia prestes a consumar-se é sugerida, por um lado, pelo des- pojamento do cenário, que re- mete para o despojamento que vai recair sobre Manuel de Sousa Coutinho e D. Madalena. Por ou- tro lado, a presença de objetos religiosos aponta claramente para o fim da vida profana das duas personagens – que vão pas- sar a habitar a dimensão do sa- grado. O tempo, a «alta noite», aponta também no sentido do trágico. Gramática 1. a. complemento direto b. modificador do nome restri- tivo c. modificador 2.1 a. O deítico «eu» referencia Manuel. b. «nossa» refere-se à desgraça de Manuel de Sousa Coutinho, Maria e D. Madalena. 3. (B) 3. Explica a natureza da preocupação de Manuel de Sousa Coutinho em relação à sua filha Maria. 4. Refere o que está na origem do desespero de Manuel de Sousa Coutinho relativa- mente à situação da filha, no decurso da conversa com Frei Jorge. 5. Compara o destino de Manuel de Sousa Coutinho e do Romeiro, na perspetiva da- quele. 6. Apresenta uma opinião justificada sobre a função de Frei Jorge nesta cena, funda- mentada principalmente nas suas palavras e nas informações que transmite. 7. Identifica as personagens que conhecem a identidade do Romeiro e as que a desco- nhecem, justificando. 8. Tendo em atenção a didascália inicial, relaciona o ambiente sugerido pelo espaço e pelo tempo nela referidos com o clímax trágico que se aproxima. Gramática 1. Indica a função sintática de cada uma das orações subordinadas destacadas nas fra- ses complexas seguintes. a. «eu queria pedir-te que a levasses já...» (l. 64). b. «[…] cá deixo a minha filha no meio dos homens que a não conheceram,» (ll. 92-93). c. «[…] o pobre do velho velou quase toda a noite com o seu vigário para que não faltasse nada desde o romper do dia.» (ll. 112-113). 2. Relê a seguinte fala de Manuel de Sousa Coutinho. «Manuel – Então não conhece, como eu, toda a extensão, toda a indubitável verdadeda nossa desgraça. Ainda bem! talvez possa duvidar, consolar-se com alguma es- perança de incerteza.» (ll. 141-143). 2.1 Considerando o contexto em que ocorrem, identifica a. o referente do deítico pessoal «eu»; b. os referentes do deítico pessoal «nossa». 3. Atenta na frase «[…] o pobre do velho velou quase toda a noite com o seu vigário para que não faltasse nada […]» (ll. 112-113) e seleciona a opção correta. O conector interfrásico nela presente tem a função de (A) expressar uma oposição ou um contraste. (B) indicar um fim ou um objetivo. (C) expressar uma eventualidade. (D) indicar uma consequência. Caderno de Atividades Fichas nº 1 a nº 5: Funções sintáticas pp. 4-16 Ficha nº 10: Dêixis p. 35 Ficha nº 8: Coesão textual p. 24 Anexo Informativo Funções sintáticas pp. 364-366 Dêixis pp. 376-377 Coesão textual pp. 372-373 119 Ato terceiro, cena I | Recorte das personagens principais | A dimensão trágica 2 P R O F E S S O R Educação literária 1. Telmo hesita pois não quer di- zer que Maria nada perguntou sobre a mãe. 2. Maria nada perguntou sobre a mãe nem falou nela porque a considera a culpada pela tragé- dia. Cena II Jorge, Manuel de Sousa, Telmo Telmo (batendo de fora à porta do fundo) – Acordou. Manuel (sobressaltado) – É a voz de Telmo? Jorge – É. (Indo abrir a porta) Entrai, Telmo. Telmo – Acordou. Jorge – E como está? Telmo – Melhor, muito melhor, parece outra. Está muito abatida, isso sim; muito fraca, a voz lenta, mas os olhos serenos, animados como dantes e sem aquele fuzilar de ontem. Perguntou por vós... ambos. Manuel – E pela mãe? Telmo – Não: nunca mais falou nela. Manuel – Oh, filha, filha!... Jorge – Iremos vê-la. (Pega na mão do irmão) Tu prometes-me?... Manuel – Prometo. Jorge – Vamos. (Chamando Telmo para a boca da cena.) – Ouvi, Telmo: lembrais-vos do que vos disse esta manhã? Telmo – Não me hei de lembrar?! Jorge – Ficai aqui. Em nós saindo, puxai aquela corda que vai dar à sineta da sacristia: virá um irmão converso; dizei-lhe o vosso nome, ele ir-se-á sem mais palavras, e vós esperai. Fechai logo esta porta por dentro, e não abrais senão à minha voz. Enten- destes? Telmo – Ide descansado. CENA III Telmo, depois o irmão Converso Telmo (Vai para deitar a mão à corda, para suspenso algum tempo, e depois) – Vamos: isto há de ser. (Ouve-se tocar longe uma sineta: Telmo fica pensativo e com o braço levantado e imóvel.) Converso – Quem sois? Telmo (estremecendo) – Telmo Pais. (O converso faz vénia e vai-se). Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, prefácio de Annabela Rita, Porto, Edições Caixotim, 2004, pp. 134-135 1. Justifica a hesitação de Telmo na sua terceira fala da cena II. 2. Apresenta uma justificação plausível para o facto de Maria não ter perguntado pela mãe nem nela ter falado. - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - - - 20 - - - - 25 - - - Educação literária 120 2 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa Educação literária Cena IV Telmo Telmo (só) – Virou-se-me a alma toda com isto: não sou já o mesmo homem. Tinha um pres- sentimento do que havia de acontecer... parecia-me que não podia deixar de suceder... e cuidei que o desejava enquanto não veio. Veio, e fiquei mais aterrado, mais confuso que ninguém! Meu honrado amo, o filho do meu nobre senhor está vivo... o filho que eu criei - eu esperava sem o crer! Eu agora tremo... É que o amor destrouta filha, desta última filha, é maior, e venceu... venceu, apagou o outro. Perdoe-me, Deus, se é pecado. Mas que peca- Deus, meu Deus, (ajoelha) levai o velho que já não presta para nada, levai-o, por quem sois! (Aparece o romeiro à porta da esquerda, e vem lentamente aproximando-se de Telmo, que não dá por ele.) Contentai-vos com este pobre sacrifício da minha vida, Senhor, e não me tomais dos braços o inocentinho que eu criei para vós, Senhor, para vós... mas ainda não, não mo leveis ainda. Já padeceu muito, já trespassaram bastantes dores aquela alma: esperai-lhe com a da morte algum tempo! Cena V Telmo e Romeiro Romeiro – Que não oiça Deus o teu rogo! Telmo (sobressaltado) Romeiro – Não pedias tu por teu desgraçado amo, pelo filho que criaste? Telmo (à parte) – Já não sei pedir senão pela outra. (Alto) E que pedisse por ele, ou por ou- trem, porque me não há de ouvir Deus, se lhe peço a vida de um inocente? Romeiro – E quem te disse que ele o era? Telmo Romeiro (tirando o chapéu e levantando o cabelo dos olhos) – Ninguém, Telmo, ninguém, se nem já tu me conheces. Telmo (deitando-lhe as mãos para lhas beijar) – Meu amo! meu senhor!... sois vós? Sois, sois. Romeiro – Teu filho já não? Telmo – Meu filho!... Oh! é o meu filho todo; a voz, o rosto... Só estas barbas, este cabelo não... Mais branco já que o meu, senhor? Romeiro – São vinte anos de cativeiro e miséria, de saudades, de ânsias que por aqui passa- ram. Para a cabeça bastou uma noite como a que veio depois da batalha de Alcácer; a bar- ba, acabaram de a curar o sol da Palestina e as águas do Jordão. Telmo – Por tão longe andastes? Romeiro Telmo – Seja feita a sua vontade. Romeiro – Pesa-te1? - - - - 5 - - - - 10 - - - - 15 - - - - 20 - - - - 25 - - - - 30 - - - - 35 - 1 custa-te 121 Ato terceiro, cenas II a V | Recorte das personagens principais | A dimensão trágica 2 Telmo – Oh! Senhor! Romeiro – Pesa-te? Telmo – Há de me pesar da vossa vida? (à parte). Meu Deus! Parece-me que menti. Romeiro Tu és meu amigo? Telmo – Não sou? Romeiro – És, bem sei. E contudo, vinte anos de ausência e de conversação de novos amigos fazem esquecer tanto os velhos!... Mas tu és meu amigo. E se tu o não foras, quem o seria? Telmo – Senhor! Romeiro – Eu não quis acabar com isto, não quis pôr em efeito a minha última resolução sem falar contigo, sem ouvir da tua boca... Telmo Romeiro – Tu, bem sei que duvidaste sempre da minha morte, que não quiseste ceder a nenhu- ma evidência; não me admirou de ti, meu Telmo. Mas também não posso – Deus me ouve – não posso criminar2 ninguém porque o acreditasse: as provas eram de convencer todo o ânimo; só lhe podia resistir o coração. E aqui... coração que fosse meu... não havia outro. Telmo – Sois injusto. Romeiro procuraram, que por toda a parte… ela mandou mensageiros, dinheiro? Telmo – Como é certo estar Deus no céu, como é verdade ser aquela a mais honrada e virtuosa dama que tem Portugal. Romeiro – Basta: vai dizer-lhe que o peregrino era um impostor, que desapareceu, que nin- guém mais houve novas dele; que tudo isto foi vil e grosseiro embuste dos inimigos de... Telmo – E eu hei de mentir, senhor, eu hei de renegar de vós, como ruim vilão que não sou? Romeiro – Hás de, porque eu te mando. Telmo (em grande ansiedade) – Senhor, senhor, não tenteis a fidelidade do vosso servo! É que vós não sabeis... D. João, meu senhor, meu amo, meu filho, vós não sabeis... Romeiro – O quê? Telmo – Que há aqui um anjo... uma outra filha minha, senhor, que eu também criei... Romeiro – E a quem já queres mais que a mim: dize a verdade. Telmo – Não mo pergunteis. Romeiro (Pausa) um filho eles?... Eu não... E mais, imagino... Oh! passaram hoje pior noite do que eu! Que lho Telmo – Meu Deus, meu Deus! que hei de eu fazer? Romeiro (Abraçam-se) Adeus, adeus, até... Telmo – Até quando, senhor? Romeiro – Até ao dia do Juízo. Telmo – Pois vós? Romeiro dia em que sua mulher disse que ele morrera. Sua mulher honrada e virtuosa, sua mulher que ele amava… – Oh Telmo, Telmo, com que amor a amava eu! – Sua mulher que ele já não pode amar sem desonra nem vergonha!... Na hora em que ela acreditou na minha morte, - - - 40 - - - - 45 - - - - 50 - - - - 55 - - - - 60 - - - - 65 - - - - 70 - - - - 75 - - - - 80 - - 2 criticar, culpar 122 2 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa nessa hora morri. Com a mão que deu a outro riscou-me do número dos vivos. D. João de Portugal não há de desonrar a sua viúva. Não: vai; dito por ti, terá dobradaforça: dize-lhe que falaste com o romeiro, que o examinaste, que o convenceste de falso e impos- tor... dize o que quiseres, mas salva-a a ela da vergonha e ao meu nome da afronta. De mim em tuas mãos, Telmo; entrego-te mais que a minha vida. Queres faltar-me agora? Telmo Romeiro – Porque não? Telmo Cena VI Romeiro, Telmo e Madalena (de fora, à porta do fundo) Madalena Romeiro Telmo Romeiro Madalena - te, pelas memórias da nossa felicidade antiga, pelas saudades de tanto amor e tanta ventu- Romeiro Madalena Romeiro (Investe para a porta com ímpeto; mas para de repente). (Vai precipi- tadamente à corda da sineta, toca com violência; aparece o mesmo irmão converso, e a um sinal do romeiro ambos desaparecem pela porta da esquerda.) Cena VII Telmo, Madalena; depois Jorge e Manuel de Sousa Madalena (Ainda de fora) – Jorge, meu irmão, Frei Jorge, vós estais aí, que eu bem sei; abri-me por caridade, deixai-me dizer uma única palavra a meu... a vosso irmão: – e não vos im- portuno mais, e farei tudo o que de mim quereis, e... (ouve-se do mesmo lado ruído de passos apressados, e logo a voz de Frei Jorge). Jorge (de fora) Telmo (abrindo a porta) Madalena (entrando desgrenhada e fora de si, procurando com os olhos os recantos da casa) - Telmo Jorge (vindo à frente) – Telmo estava aqui aguardando por mim, e com ordem de não abrir a Madalena Telmo (aterrado) – Ouvistes? Madalena - - 85 - - - - 90 - 105 - - - - 110 - - - - 115 - - - - - - 95 - - - - 100 - - - - 123 Ato terceiro, cenas V a VII | Recorte das personagens principais | A dimensão trágica 2 P R O F E S S O R Educação literária 1. a. V b. F (Telmo reconhece que o amor que sente por Maria é su- perior, «apagou» (l. 8) o que sen- tia por D. João de Portugal.) c. V d. V e. V f. V g. V 2. O Romeiro equivocou-se ao ouvir a voz de D. Madalena: pen- sava que ela estava a chamar por ele. Apesar de Telmo o ten- tar avisar de que assim não era, ele só compreende o seu engano quando D. Madalena nomeia Ma- nuel (l. 100). 3. D. Madalena hesita ao espe- cificar quem é o seu «marido»: ela refere-se a Manuel de Sousa Coutinho, mas, na verdade, ten- do ela conhecimento de que seu primeiro marido está vivo, sen- te necessidade de especificar a quem se refere. 4. O Romeiro incumbira Telmo de mentir a propósito da sua identidade, pois arrependeu-se de trazer a desgraça a uma mu- lher que, afinal, tudo fizera para o encontrar antes de casar nova- mente. Telmo tenta convencer Frei Jorge a fazer o mesmo, mas o frade recusa. Manuel (que tem estado no fundo, enquanto Madalena, sem o ver, se adiantara para a cena, vem agora à frente) – Esse homem está aqui, senhora; que lhe quereis? Madalena – Oh! que ar, que tom, que modo esse com que me falas!... Manuel (enternecendo-se) – Madalena... (Caindo em si gravemente.) Senhora, como quereis que vos fale, que quereis que vos diga? – Não está tudo dito entre nós? Madalena – Tudo! quem sabe? Eu parece-me que não. Olha: – eu sei... – mas não daríamos nós, com demasiada precipitação, uma fé tão cega, uma crença tão implícita a essas miste- - ce? Pois dize... Telmo (à parte a Jorge) – Tenho que vos dizer, ouvi. (Conversam ambos à parte.) Manuel – Oh! Madalena, Madalena! não tenho mais nada que te dizer. Crê-me, que to juro na presença de Deus: a nossa união, o nosso amor é impossível. Jorge (continuando a conversação com Telmo, e levantando a voz com aspereza) – É impossível, já agora... e sempre o devia ser. Madalena (virando-se para Jorge) – Também tu, Jorge! Jorge (virando-se para ela) – Eu falava com Telmo, minha irmã. (Para Telmo) – Ide, Telmo, ide onde vos disse, que sois mais preciso lá. (Fala-lhe ao ouvido; depois alto). Não ma deixes um instante, ao menos até passar a hora fatal. (Telmo sai com repugnância e rodeando para ver se chega ao pé de Madalena. Jorge, que o perce- be, faz-lhe um sinal imperioso; ele recua, e finalmente retira-se para o fundo). Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, prefácio de Annabela Rita, Porto, Edições Caixotim, 2004, pp. 136-144 Cenas IV e V 1. Indica as afirmações verdadeiras (V) e a afirmação falsa (F). Corrige a afirmação falsa. a. No seu monólogo, Telmo revela sentimentos contraditórios em relação à chegada do seu antigo amo. b. O amor que Telmo sente por D. João de Portugal é de força idêntica ao que sente por Maria. c. O Romeiro chega a expressar perante Telmo o desejo de ter morrido e, assim, de não ter regressado. d. O Romeiro acusa Telmo de não estar feliz com a sua chegada. e. O Romeiro arrepende-se de ter regressado quando sabe, com certeza, de tudo o que D. Madalena fez para o encontrar. f. D. João de Portugal apresenta uma solução para atalhar o mal que a sua chegada provocou. g. Telmo toma por boa essa solução, sem qualquer dúvida de que assim poderá remediar a situação dos seus amos. Cenas VI e VII 2. Explicita o equívoco do Romeiro na cena VI. 3. Justifica a hesitação de D. Madalena na quarta fala da cena VII. 4. Explica, justificando, a que se refere Frei Jorge ao dizer a Telmo que «é impossível» (l. 130). - 120 - - - - 125 - - - - 130 - - - - 135 - 124 2 Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa P R O F E S S O R Educação literária 1. D. Madalena tenta ainda re- mediar a situação, duvidando. Perguntando a Frei Jorge se tu- do o que aconteceu é inelutá- vel, se não haveria impostura no Romeiro; tenta ainda falar com Manuel de Sousa Coutinho ime- diatamente antes da cerimónia em que vai professar (cena IX, primeira fala); por seu lado, Ma- nuel de Sousa Coutinho mos- tra-se decidido a aceitar o seu destino, chamando a atenção de D. Madalena, na cena VIII, pa- ra a impossibilidade de muda- rem o destino. Ainda lhe chama «Madalena» (l. 5), mas corrige lo- go para «senhora», deste modo afastando-se do seu antigo es- tado. 2. O cristianismo aparece nas palavras e atitudes de D. Mada- lena, cena IX, como o «refúgio» (l. 18) para as adversidades da sua vida. D. Madalena resigna-se cristãmente ao seu destino. Educação literária Cena VIII Madalena, Manuel de Sousa, Jorge Madalena – Jorge, meu irmão, meu bom Jorge, vós, que sois tão prudente e refletido, não dais nenhum peso às minhas dúvidas? Jorge – Tomara eu ser tão feliz que pudesse, querida irmã. Madalena – Pois entendeis?... Manuel – Madalena… senhora! Todas estas coisas são já indignas de nós. Até ontem, a nossa desculpa, para com Deus e para com os homens, estava na boa fé e seguridade de nossas consciências. Essa acabou. Para nós já não há senão estas mortalhas (tomando os hábitos de cima da banca) e a sepultura de um claustro. A resolução que tomámos é a única possível; e já não há que voltar atrás… Ainda ontem falávamos dos condes de Vimioso... Quem nos diria... oh! incompreensíveis mistérios de Deus!... Ânimo, e ponhamos os olhos naquela cruz! – Pela última vez, Madalena... pela derradeira vez neste mundo, querida... (Vai para a abraçar e recua.) Adeus, adeus! (Foge precipitadamente pela porta da esquerda.) Cena IX Madalena, Jorge; coro dos frades dentro Madalena – Ouve, espera; uma só, uma só palavra, Manuel de Sousa!... (Toca o órgão dentro.) Coro (dentro) – De profundis clamavi ad te, Domine; Domine, exaudi vocem meam. Madalena (indo abraçar-se com a cruz) – Oh, Deus, Senhor meu! pois já, já? Nem mais um instante, meu Deus? Cruz do meu Redentor, ó cruz preciosa, refúgio de infelizes, ampara-me tu, que me abando- naram todos neste mundo, e já não posso com as minhas desgra- ças... e estou feita um espetáculo de dor e de espanto para o céu e para a terra! – Tomai, Senhor, tomai tudo... A minha filha também?... Oh! a minha filha, a minha filha... também essa vos dou, meu Deus. E, agora, que mais quereis de mim, Senhor? (Toca o órgão outra vez.) Coro (dentro) – Fiant aures tuae intendentes; in vocem deprecationis meae. Jorge – Vinde, minha irmã, é a voz do Senhor que vos chama. Vai