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Apostila:
Antiguidade
Oriental
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NOÇÕES PRELIMINARES
1. Introdução aos Estudos Históricos
A preocupação cultural em escrever a História acompanha, principalmente, a
civilização ocidental ou clássica desde a Antigüidade. A História, como ciência, passou por
várias etapas, buscando atualmente uma abordagem mais atrelada às transformações que
alteram as estruturas da sociedade. Torna-se fundamental, nesse novo momento, a
compreensão do processo histórico, em que os fatos, as datas e as personalidades são a
matéria-prima da pesquisa histórica e não se encerram neles mesmos.
O processo histórico deve ser entendido como a evolução ou seqüência dos vários
sistemas organizados pelo homem ao longo de sua existência, ou melhor, toda a produção
cultural da humanidade.
1.1. Cronologia
Para facilitar o trabalho de pesquisa e a compreensão do processo histórico, o
historiador usualmente divide a História em períodos. Essa divisão, por sua vez, é artificial e
fundamentalmente didática, pois o processo histórico é ininterrupto, tornando difícil e
controvertida a divisão ou periodização histórica (datas, calendários, fatos, etc.)
Entre as diversas divisões que existem, aquela que utilizaremos é baseada no
calendário cristão e nas principais datas da História européia ocidental:
• “Pré-História”: do surgimento dos primeiros hominídeos (± 4 milhões de anos atrás) ao
aparecimento da escrita (± 4000 a.C.).
• Idade Antiga: do aparecimento da escrita (± 4000 a.C.) à queda de Roma (476).
• Idade Média: inicia-se com a queda de Roma (476) e se estende até a queda de
Constantinopla (1453).
• Idade Moderna: da queda de Constantinopla (1453) até a Revolução Francesa (1789 –
Bastilha).
• Idade Contemporânea: da Revolução Francesa (1789 – Bastilha) aos nossos dias.
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1.2. Evolução Sistêmica
Ao analisarmos o processo histórico da humanidade, podemos detectar a evolução dos
seguintes sistemas:
I. Sistema Asiático (Modo de Produção Asiático)
Predominante entre as civilizações orientais (Oriente Médio, Próximo e Extremo),
demonstra que essas primeiras civilizações não possuíam uma noção de propriedade
privada, sendo a terra, os escravos e os produtos pertencentes ao Estado e aos Templos.
Dessa maneira, a economia agrária era pouco dinâmica; a sociedade, de estamentos
(origem); o poder político, monárquico-absoluto-despótico-teocrático; a religião, politeísta
(misticismo, ignorância e fanatismo) e a cultura, pragmático-religiosa.
Dentre as civilizações orientais que desenvolveram o sistema asiático, tivemos os
hebreus e fenícios como exceções no plano religioso e no econômico-político (monoteísta,
comércio-marítimo e cidades-Estado).
II. Sistema Escravista (Modo de Produção Escravista)
Podemos dizer que o escravismo na Antigüidade nasceu ao mesmo tempo em que o
homem criou a noção de propriedade privada. Considerado como uma coisa, o escravo
("Instrumento Vocale") passou a caracterizar predominantemente a Antigüidade Clássica
(greco-romana).
Grécia antiga e Roma, principalmente na fase imperial, podem ser consideradas os
maiores exemplos do escravismo. A partir do século III da Era Cristã, a aceleração da crise
geral do escravismo romano possibilitou a estruturação e o nascimento do sistema feudal.
III. Sistema Feudal (Modo de Produção Feudal/Servil)
Marcado pelas relações servis de produção, o sistema feudal ou feudalismo europeu
predominou na História Medieval Ocidental. Nesse sistema, a economia era fechada, rural,
agrária e auto-suficiente (consumo). A sociedade era de caráter estamental (imobilidade),
polarizada entre senhores e servos.
O poder político descentralizado e a forte influência da Igreja (cultura) foram
conseqüências da conjuntura e estrutura de produção medievais. A estagnação do sistema
feudal, a partir da Baixa Idade Média, contribuiu para a aceleração das crises internas e
conseqüente nascimento de uma estrutura mais dinâmica, comercial e pré-capitalista.
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IV. Sistema Capitalista (Modo de Produção Assalariado)
A origem histórica do capitalismo remonta à Baixa Idade Média e aos efeitos mais
gerais da crise do sistema feudal. Ao longo de um processo secular, as estruturas
capitalistas foram se organizando e a sociedade burguesa foi tomando forma. A partir do
século XVIII, o capital acumulado primitivamente na Idade Moderna (capitalismo comercial
ou mercantil) consolidou o sistema através do investimento na produção (Revolução
Industrial – Inglaterra).
A partir daí, sua evolução até os dias atuais foi marcada por crises e contradições que
propiciaram a estruturação de novas idéias: o socialismo.
V. Sistema Socialista
Como vimos, a partir da Revolução Industrial (século XVIII), o capitalismo estruturou-
se como sistema econômico maturado e consolidado historicamente. Com ele, seguiram-se
transformações de tal ordem que garantiram a supremacia do capitalismo sobre as outras
formas de organização existentes no mundo.
Já o socialismo nasceu dos efeitos mais gerais advindos do progresso acelerado e
selvagem da industrialização.
Sua estruturação teórico-ideológica ocorreu no século XIX, a partir principalmente das
idéias de Karl Marx, que propunha a revolução através da qual o operariado instalasse um
Estado igualitário ("ditadura do proletariado"). Esse Estado assumiria a propriedade dos
meios de produção, eliminando todos os vestígios nefastos da propriedade privada e
capitalista.
A Rússia foi a primeira nação a colocar em prática a teoria marxista (Revolução
Bolchevique, 1917).
2. Pré-História
A Pré-História pode ser compreendida como um vasto período que se inicia com o
surgimento do homem em seu estado primitivo sobre a superfície terrestre, há cerca de um
milhão de anos, e termina com o surgimento da escrita (aproximadamente quatro mil a.C.).
Através da investigação e conseqüente estudo de fósseis, pinturas, desenhos e objetos
rústicos encontrados pelos pesquisadores (ex. arqueólogos), pode-se reconstituir tal época.
De uma condição primitiva, passiva diante da natureza, o homem evoluiu: descobriu o
fogo, criou a agricultura, inventou a escrita e passou a viver em grandes grupos organizados
por meio de usos, costumes, regras e leis. É essa época inicial da história humana que
estudaremos de forma panorâmica.
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2.1. Origem do Homem
O período que vai da origem do homem até a invenção da escrita, há
aproximadamente 4000 a.C., é chamado de Pré-História.
De acordo com a teoria de Darwin, a vida na Terra evoluiu das espécies simples para
as mais complexas. As que não se adaptaram desapareceram, tendo sido o homem o elo
mais complexo desse processo evolutivo.
O ancestral mais antigo do homem, conhecido como Driopithecus, viveu entre 25 e 8
milhões de anos atrás. Por volta de 15 milhões de anos atrás, membros dessa espécie
começaram a andar sobre as patas traseiras.
Aos primatas bípedes dessa espécie os cientistas deram o nome de hominídeos. O
hominídeo mais antigo de que se tem notícia é o Australopithecus. Esses seres viviam em
bando em cavernas da África, coletando alimentos na natureza. Outros indivíduos da família
dos hominídeos pertenciam ao gênero Homo. Há cerca de 2 milhões de anos, viveu o Homo
habilis, que desenvolveu habilidades para manejar instrumentos de pedra e introduziu a
carne em sua alimentação. Depois de 500 mil anos, surgiu o Homo erectus, que construía
seus próprios abrigos, dominava o fogo e era capaz de articular sons.
Há cerca de 350 mil anos surgiu o Homo sapiens. Os indivíduos desse grupo reuniam-
se em bandos de caçadores, introduziram rituais religiosos e provavelmente já se
expressavam por meio da fala.
Outro ramo, surgido há 100 mil anos – o do Homo sapiens sapiens –, aperfeiçoou as
técnicas de confecção dosinstrumentos de caça e produziu diversas obras de arte, com
sentido religioso ou com o objetivo de comunicar-se.
2.2. Os Principais Períodos
A Pré-História é subdividida em três períodos: Paleolítico ou Idade da Pedra Lascada;
Neolítico ou Idade da Pedra Polida e Idade dos Metais.
I. Paleolítico
O Paleolítico se estendeu de 4 milhões de anos atrás até por volta de 8000 a.C.,
período no qual os hominídeos e os homens pescavam, caçavam e coletavam seu alimento
na natureza e começaram a produzir armas e instrumentos de caça.
O resfriamento do planeta, ocorrido há aproximadamente 100 mil anos, obrigou o
homem a encontrar abrigo, a cobrir o corpo para sobreviver e a conseguir alimento além da
caça e da coleta.
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II. Neolítico
No Neolítico (entre 8000 e 5000 a.C.), o homem aperfeiçoou seus instrumentos,
passou a criar animais e cultivar produtos agrícolas. Isso lhe permitiu deixar o nomadismo e
iniciar a vida sedentária.
Nesse período, a população cresceu e surgiram as aldeias, onde se concentrava o
poder político e religioso. O trabalho passou a ser dividido.
III. Idade dos Metais
A partir da descoberta da fundição (5000 a.C.), começou a Idade dos Metais. Os
primeiros objetos foram fundidos em cobre, ao qual se acrescentou depois o estanho –
originando o bronze.
Há 3500 anos, iniciou-se a fundição do ferro, que substituiu a pedra na confecção de
armas. A partir daí, as cidades cresceram em regiões do Egito e do Oriente e começaram a
surgir os primeiros registros escritos – marcos da passagem para a História.
2.3. Das “Comunidades Primitivas” à “Civilização”.
É sempre problemático pensar quais as mudanças que alteraram profundamente a
vida das comunidades primitivas (chamadas erradamente de pré-históricas) e permitiram a
elas atingir um estágio de desenvolvimento cultural chamado polemicamente de
“civilização”.
Dizer que a invenção da escrita foi o momento culminante daquele processo (ou o
limiar da História, como dizem outros) é apenas uma meia verdade. Problemas mais
complexos são colocados: em que ordem as mudanças ocorrem, quais as mais importantes,
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que caminhos tomaram as diferentes comunidades para se organizarem de outra forma, que
influência teve o hábitat natural naquelas mudanças, etc.
Responder por que essas comunidades que viviam na igualdade, na fartura, na
liberdade transformaram-se em sociedades baseadas na desigualdade, na fartura para uns e
no pouco para outros, na liberdade para uns e opressão para a maioria, é um problema que
se coloca para muitos antropólogos e historiadores que estudam esse “momento” ou
“passagem” ainda obscura da História da Humanidade.
Alguns pontos importantes:
1. Uma mudança fundamental na forma de trabalhar. O trabalho deixou de ser
realizado para garantir a sobrevivência do grupo. Ele passou a ser compreendido como uma
obrigação, imposta por uma minoria poderosa, com uma finalidade nova, ou seja, produzir o
máximo possível para acumular riquezas.
2. O aparecimento de sociedade mais complexa, diferenciada internamente em
camadas superpostas, originada a partir da divisão do trabalho, primeiro entre campo e
cidade, depois entre os diversos ofícios e profissões, funções econômicas e políticas.
3. O aparecimento do “Estado”, que serviu como um instrumento de dominação de um
pequeno grupo privilegiado sobre a maioria da população. O poder, nesse instante, já se
apresenta autoritário, opressor, imposto sobre a sociedade para controlá-la.
4. A religião assume um caráter ideológico (daí, sacerdotes, templos, divinização dos
chefes, etc.) para justificar as relações sociais e políticas; o conhecimento e emprego da
metalurgia; o avanço tecnológico na agricultura, que produz, então, excedentes; a
domesticação de animais (Revolução Agrícola); a produção de manufaturas; a criação da
linguagem escrita, etc.
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ANTIGUIDADE ORIENTAL
1. Mesopotâmia
1.1. Localização e Condições Geográficas
Podemos dizer que a Mesopotâmia, do ponto de vista geográfico, é uma estreita faixa
de terra fértil situada na Ásia Menor ou Ocidental e que está inserida entre os rios Tigre
(Tigris) e Eufrates. Do ponto de vista geoclimático, podemos observar certas semelhanças
com o Egito, pois os dois rios fornecem excepcionais condições para o transporte de
produtos, caça e pesca abundantes1. O regime de cheias dos rios está atrelado ao
derretimento da neve das grandes montanhas do interior do continente asiático, que, ao
inundar as terras, permite a irrigação, a fertilização e a concentração de barragens
(diques/açudes).
Seu clima é extremado, pois tem como marca as altas temperaturas do deserto e os
invernos rigorosos.
Civilizações como as dos sumérios, acádios, amoritas, elamitas, assírios e caldeus
mais um grande número de povos disputaram a posse das terras férteis e aráveis. Os povos
das planícies (caldeus), favorecidos pelas cheias (fertilização), dedicaram-se à agricultura e
sofriam o constante assédio dos povos montanheses (assírios) que viviam mais do saque e
do pastoreio (guerra). Dessa forma, as civilizações ou populações ribeirinhas
(hidráulicas/regadio) puderam desenvolver-se mais e, por isso, foram mais evidentes nos
planos cultural e econômico.
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As cheias desses rios alagavam e fertilizavam grande parte das planícies, mas não eram tão regulares como as do rio Nilo
(Egito), o que exigia maior esforço e trabalho para o aproveitamento do ciclo de cheias e fertilização.
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1.2. Panorama Econômico e Social
Podemos afirmar que a base da economia mesopotâmica era a agricultura, favorecida
pelas cheias dos rios (Tigre e Eufrates). Na região da Assíria, ao norte da Mesopotâmia, as
condições climáticas eram bastante duras devido à escassez de vegetação e de chuvas. Ao
sul, na região da Caldéia, as planícies alagadas permitiram grandes plantações e generosas
colheitas, apesar da irregularidade das inundações.
O Estado controlava os trabalhos agrícolas, a utilização das terras e a construção de
açudes e canais de irrigação. Os produtos mais cultivados eram: o trigo, a cevada e o
centeio. O pastoreio de carneiros para a produção de lã, como também o de gado bovino e
eqüino, para transporte e tração, também foram bastante difundidos.
No plano das atividades artesanais, podemos dizer que eram um complemento do
setor agrícola. Seu desenvolvimento maior se deu no campo da confecção de tecidos de lã,
na metalurgia (estanho e cobre), nas jóias e bijuterias.
O comércio local e o regional ativo propiciaram o desenvolvimento de um próspero
comércio externo, que se dirigiu principalmente às regiões do Cáucaso, do Indo
(Índia/Pérsia) e da Ásia Menor ou Ocidental.
As transações comerciais eram feitas basicamente in natura ou trocas, usando-se
também barras de metais preciosos (ouro e prata). Os comerciantes mesopotâmicos
exportavam cereais, tecidos, armas e objetos de metal, e importavam marfim, pedras
preciosas, metais (estanho e cobre) e uma grande gama de matérias-primas.
O desenvolvimento comercial trouxe, como uma de suas importantes conseqüências, a
organização financeira através da instituição de bancos, atividades de crédito e juros
(financiamento). Os mesopotâmicos já usavam recibos, escrituras, cartas de crédito para a
dinamização de suas relações econômico-comerciais.
O Estado recebia os rendimentos sob a forma de tributos. Isso determinou que as
classes sociais ligadas ao Estado, e que o representavam, se beneficiassem com as rendas
resultantes do trabalho da terra (nobreza, alta classe sacerdotal e burocracia).
Como uma típica representante do sistema asiático, a Mesopotâmia tinha nos templos
a instituição que concentrava e dirigia as atividades econômicas do Estado.
Podemos dizer, genericamente, que, na Mesopotâmia, apesar da existência de
escravos(guerras), predominavam os homens livres (campesinato, artesãos e
comerciantes).
No plano social, podemos observar um quadro social caracterizado pela sua forte
rigidez. Comerciantes e proprietários (homens livres) e escravos compunham, ao lado dos
artesãos, médicos, funcionários e escribas, as camadas sociais básicas dos povos
mesopotâmicos.
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A posição social dos comerciantes e proprietários era determinada pela acumulação e
condição econômica. A família, nessa condição social, exercia um papel importante, tendo a
mulher uma relativa independência.
Os escravos, por sua vez, apesar da não-existência de uma sistematização, como
veremos na Antigüidade Clássica, eram vistos e tratados como objetos e instrumentos de
trabalho.
1.3. C. Evolução Histórico-Política
Podemos dizer que, na Mesopotâmia notabilizaram-se quatro povos sucessivamente:
os sumérios, babilônios, assírios e caldeus.
Os sumérios viviam, primitivamente, no sul, e chegaram a desenvolver uma cultura
notável, de 3500 – 2000 a.C. Unificaram as cidades-Estado da região e as dominaram por
séculos. Sua capital, durante um largo período, foi a cidade de Ur. Foram conquistadores e
marcaram as origens civilizatórias da Mesopotâmia.
Os babilônios, conhecidos, a princípio, como amoritas, subjugaram os sumérios, em
2000 a.C. e fixaram sua capital na Babilônia, donde surge sua denominação. Entre seus reis,
destacou-se Hamurábi, pelas suas conquistas e pela adoção do famoso código de leis
(“Código de Hamurábi”). Em 1750 a.C., os babilônios foram dominados pelos cassitas,
vindos da Ásia Menor.
Os assírios eram povos antigos no norte da Mesopotâmia e estenderam seus
domínios sobre ela, a partir de 1300 a.C. Sua capital era Nínive, e profundamente
militaristas e guerreiros violentos e cruéis, chegaram a formar um grande império que
alcançou até o Egito. Entretanto, não puderam mantê-lo, pois a crueldade com que tratavam
os vencidos, levaram os povos dominados a constantes revoltas.
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Os caldeus, ou neobabilônios, habitavam o sul e eram os maiores rivais dos assírios,
conseguindo dominá-los em 612 a.C. Apoderaram-se, posteriormente, de grande parte das
terras conquistadas pelos assírios. Seu mais famoso rei foi Nabucodonosor II, célebre
como conquistador e como reformador da capital, Babilônia. Ali, fez construir os “Jardins
Suspensos”, considerados uma das mais belas obras arquitetônicas da Antigüidade. Em 539
a.C., os caldeus caíram sob o domínio persa. Posteriormente, seriam conquistados por
macedônios e romanos.
1.4. Religião e Cultura
De um modo geral, os povos mesopotâmicos adoravam vários deuses (religião
politeísta) ligados à natureza e aos astros, dando-lhes uma configuração humana.
Na verdade, cada povo tinha seu deus preferido, como Marduck entre os babilônios,
Assur entre os assírios, e Ishtar, deusa cultuada por todos os povos mesopotâmicos.
Os mesopotâmicos desenvolveram a magia, a adivinhação e a astrologia como
instrumentos para descobrir a vontade de seus deuses e conseguir proteção para a vida
terrena, já que não cultuavam a vida pós-morte como os egípcios.
Os templos construídos em homenagem aos deuses funcionavam como bancos ou
depósitos para armazenar os cereais. A classe sacerdotal era muito poderosa e interferia no
poder através do misticismo e magia (horóscopos e astrologia).
No plano cultural, os povos mesopotâmicos desenvolveram uma série de atividades
como a Arquitetura, Astronomia, Matemática e a escrita.
A Arquitetura dedicou-se à construção de templos como o zigurate (torres) e palácios
feitos em tijolos de argila. Na Matemática, desenvolveram estudos acerca das operações
matemáticas e dos princípios de geometria aplicada. O estudo de Astronomia, os mapas
estelares, a divisão de ângulos, o calendário de sete dias e os graus foram outras
descobertas feitas nos templos pelos sacerdotes monopolizadores da cultura mesopotâmica.
A escrita cuneiforme (no formato de cunha), grande realização dos sumérios, também
marcou a Mesopotâmia e o Médio Oriente. Caracteres gravados em tabletes de argila
sobreviveram ao tempo, sendo decifrados posteriormente por arqueólogo.
Talvez a maior obra da Literatura mesopotâmica seja o Código de Hamurábi. Apesar
de não ser original, pois é uma compilação de leis sumerianas e costumes semitas, contém
282 leis tratando dos mais variados temas. Suas principais características são: a "pena de
Talião", isto é, "olho por olho, dente por dente", a divisão social em camadas e a busca da
organização do Estado mesopotâmico (Primeiro Império Babilônico).
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2. Egito
2.1. Quadro Natural
Podemos dizer que o Egito Antigo correspondia
à estreita faixa de terra cultivada que se
estendia por ambas as margens do rio Nilo,
desde os confins da África ao delta no mar
Mediterrâneo.
Vários fatores geoclimáticos contribuíram
sobremaneira para o estabelecimento das
populações que, ao longo de milênios, foram se
fixando nas diversas regiões do Oriente Médio.
Ainda no período Pré-Histórico, uma enorme
estiagem tomou grande parte do interior africano.
Os animais e os homens primitivos, movidos pelo
instinto de sobrevivência e pela busca da água,
foram buscar refúgio no nordeste africano, no vale
do Nilo. Portanto, podemos admitir que os
habitantes do Egito começaram a se instalar e fixar
no vale do rio Nilo por volta da primeira parte do
período Neolítico, dedicando-se, a princípio, à caça
e busca da sobrevivência e, posteriormente, à
agricultura.
Nesse contexto é que se deu a ocupação e o
início do desenvolvimento dessa civilização
caracterizada pela existência de desertos e pela
vasta planície banhada pelo rio Nilo.
A natureza tornou possível o
desenvolvimento da civilização egípcia,
principalmente graças à presença do rio Nilo, pois,
na região de suas nascentes (Etiópia, Sudão e
Uganda atuais), caem, a partir do mês de junho até
setembro, abundantes chuvas que provocam
enchentes e alagam todo o vale percorrido pelo rio.
Quando, a partir aproximadamente do mês de
novembro, as águas voltam ao leito normal, deixam
nas terras irrigadas um "limo" extremamente fértil
(húmus). Esse material fertilizador é trazido de
regiões distantes, em conseqüência da erosão
provocada pela correnteza da água.
Era esse húmus ou limo fertilizante, que misturava elementos naturais de origem
animal, vegetal e mineral, que tornava possível a prática da agricultura no Antigo Egito.
Essa ciclotomia do rio é que contribuiu para a formação da peculiar sociedade ou
civilização hidráulica egípcia.
2.2. Panorama Econômico e Social
Desde o período Pré-Histórico, quando tiveram início a ocupação e o povoamento do
vale do Nilo, a natureza do local escolhido favoreceu o desenvolvimento da agricultura. Esta,
por sua vez, seria a responsável maior pela sedentarização do homem e pelo
desenvolvimento de outras atividades humanas.
O Egito, como uma das mais privilegiadas e típicas civilizações ou sociedades
hidráulicas do Médio Oriente, teve na agricultura a base de sustentação e concentração do
seu trabalho. Favorecidas pelo rio, pelo adubo natural (húmus), pelas barragens de
contenção (diques e açudes) e canais (irrigação), as terras revelaram generosidade nas
colheitas e fertilidade.
Ao longo do rio Nilo, desenvolveram-se plantações de trigo, cevada e linho feitas pelos
felás (campesinato) e escravos (populações dominadas), que impulsionaram rapidamente a
agricultura, graças ao aperfeiçoamento técnico para a semeadura e plantio. Arados
primitivos puxados por bois e o uso de metais contribuíram para grandes colheitas, que
transformaram o Egito num grande celeiro do Oriente.
As terras pertenciam à comunidade como um todo, porém, o Estado coordenava as
atividades produtivas, enquanto os camponeses tinham apenas o direito de usufruto. Uma
parte da produção das boascolheitas era exportada. O comércio era feito ao longo do rio
Nilo por embarcações que subiam e desciam o "rio-deus" (vida e fertilidade), lotadas de
produtos agrícolas (cereais) e artesanais. A fiação, a tecelagem, a produção de gêneros
artesanais derivados das folhas de papiros (planta do delta do rio Nilo) e a ourivesaria
patrocinaram um significativo desenvolvimento do comércio interno, na medida em que
poucas relações eram mantidas com o exterior.
O pastoreio de gados bovino e ovino também poderia ser visto nas regiões de pastos
ribeirinhos. Contudo, podemos dizer que predominava no Egito a economia natural.
O Egito tornou-se, com isso, durante a História, uma imensa civilização que, ao correr
atrelada ao comportamento do rio, dedicou-se a trabalhar o solo e a levar uma vida
relativamente pacífica.
As diferenças sociais, nessas sociedades hidráulicas, tiveram origem quando a disputa
pela posse das terras férteis e cultiváveis colocou, de um lado, os egípcios apenas
possuidores da força de trabalho (massa camponesa ou felás e escravos); de outro, os
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proprietários das terras (obtidas pela força e mantidas através da religiosidade, fanatismo,
misticismo e proteção dos deuses e sacerdotes).
No ponto mais alto da pirâmide social havia o rei (faraó) e a família (nobreza). O rei,
por considerar-se descendente da divindade, possuía prerrogativas únicas.
A classe sacerdotal também ocupava importante posição na hierarquia social, pois,
juntamente com a nobreza, era proprietária das terras e detentora da força de trabalho
(campesinato).
Com o desenvolvimento das atividades comerciais e artesanais (no Médio Império),
conheceu-se o desenvolvimento de uma classe média que chegou, por conta de suas
características empreendedoras, a conquistar alguma posição social e influência sobre o
governo.
Os funcionários ou burocracia do Estado faraônico passaram a ocupar, ao longo da
história do Antigo Egito, um lugar de destaque principalmente no tocante à arrecadação de
tributos dos camponeses.
Existia toda uma hierarquização de escribas cuja posição variava de acordo com a
confiança neles depositada pelo Estado (faraó, nobreza e alta classe sacerdotal).
Os operários tinham uma posição e situação desfavoráveis em relação aos
camponeses, pois eram estes que imortalizavam o deus-rei (faraó). Funcionários especiais
fiscalizavam os felás.
A massa de escravos era submetida aos trabalhos mais duros, como bombear água
para os canais de irrigação e açudes. Os escravos foram mais numerosos a partir do Novo
Império, quando grande número deles foi feito pelas guerras.
Apesar da existência de escolas públicas mantidas pelo Estado faraônico, estas
formavam principalmente escribas que iam trabalhar na administração governamental.
2.3. Evolução Histórico-Política
Como já podemos observar, o Egito limitava-se basicamente, ao vale do rio Nilo, cujas
inundações periódicas irrigavam, umedeciam e fertilizavam a terra. Daí o desenvolvimento
de uma agricultura de regadio. Sua evolução histórico-política pode ser analisada em dois
grandes períodos:
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I) O Período Pré-Dinástico ( 4000 a.C.–3200 a.C.)
Anterior ao aparecimento da primeira dinastia de Faraós, que eram soberanos
absolutos, considerados filhos dos deuses. Nesse período, a população se organizava em
“nomos” (semelhantes a cidades-Estado), governada pelos “nomarcas”. Ao final desse
período, os nomos estavam agrupados em dois reinos, o do norte e o do sul.
II) Período Dinástico (3200 a.C.– 525 a.C.)
a) Antigo Império (3200 a.C. – 2400 a.C.)
Iniciado com a unificação dos dois reinos, feita por Menés, o primeiro faraó. Foi uma
época de grandes realizações, entre as quais a construção das pirâmides de Quéfren,
Quéops e Miquerinos.
Entre 2300 – 2100 a.C. houve um período de instabilidade caracterizado pelo
enfraquecimento do poder faraônico e pelo fortalecimento dos poderes locais (nomarcas).
b) Médio Império (2100 a.C. – 1788 a.C.)
Nesse período o poder central (faraó) foi restabelecido e terminou com a invasão e
dominação do Egito pelos hicsos, povo nômade – guerreiro vindo da Ásia Menor (período de
dominação hicsa 1788 a.C. – 1580 a.C.).
c) Novo Império (1580 a.C. – 525 a.C.)
Foi o período do militarismo e expansionismo egípcio, em que surgiram faraós
famosos por suas conquistas, como Tutmés III e Ramsés II. Após uma fase de esplendor,
marcada, inclusive, por grandes obras públicas (Templos de Cárnac e Luxor), o Egito entrou
em processo de decadência secular, sendo conquistado sucessivamente por assírios, persas,
macedônios e romanos.
2.4. Religião e Cultura
Embora tenha se transformado ao longo dos séculos, a religião egípcia tinha como
características a crença em vários deuses (politeísmo) e a adoração aos elementos da
natureza.
Osíris, Ísis e Set eram os deuses ligados à lenda da origem do Egito, representando
o ciclo natural das cheias do rio Nilo. Posteriormente, outros deuses foram introduzidos,
como Rá e Amon, estes últimos sendo adorados mais tarde como um só.
Os deuses eram representados muitas vezes por figuras antropozoomórficas gerando
com seus poderes uma rica mitologia.
Os grandes templos como Luxor e Cárnac demonstram a importância da religião.
Acreditando que os deuses viviam nos templos, a população peregrinava até eles, em busca
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da bênção e solução dos seus problemas. Daí a importância da classe sacerdotal, pois faziam
o papel de intermediário entre o povo e os deuses.
Os egípcios acreditavam na vida após a morte, para tal era necessário passar pelo
julgamento dos deuses e conservar o corpo intacto. Assim, eles desenvolveram a técnica de
mumificação.
Os túmulos eram muito importantes. Os que se destinavam aos faraós eram
verdadeiros monumentos que abrigavam toda sorte de pertences e objetos, sendo os
maiores exemplos as mastabas, os hipogeus e as pirâmides.
A arquitetura foi a maior realização artística, representada pelos templos e pirâmides.
A pintura e a escultura também tiveram importância, revelando o cotidiano e o caráter
religioso dos egípcios.
O cálculo das construções e a cobrança dos impostos levaram os egípcios ao
desenvolvimento da matemática (aritmética e geometria). A medicina também teve avanços
em função da conservação e estudo dos corpos (mumificação).
A grande contribuição da civilização egípcia foi a escrita que inicialmente era
hieroglífica. Com o passar do tempo, foi simplificada e passou a ser chamada de hierática ou
demótica.
3. A Pérsia
3.1. Localização e Condições Geográficas
Estendendo-se da Mesopotâmia (Oriente Médio) em direção ao vale do rio Indo (Ásia
Maior), encontramos o planalto iraniano. Grande parte desta região é marcada por elevada
altitude (2000 metros).
Seu clima é seco e quente, com poucas chuvas. O solo é árido, com algumas
pequenas faixas de terra fértil nos vales, onde se formam, em meio ao deserto, os oásis.
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Por volta do II milênio a.C., essa região passou a sofrer invasões de tribos de pastores
de origem ariana (indo-europeus), que deram origem a dois reinos principais: ao norte, a
Média e, ao sul, a Pérsia.
3.2. Panorama Econômico e Social
A agricultura ocupou importante posição entre as atividades econômicas dos persas
("vale do Indo"), os quais cultivaram grande variedade de cereais e frutas.
O artesanato de tecidos de luxo, jóias, armas, mobília e mosaicos finos de forte
influência mesopotâmica, aliados ao comércio externo, foram importantes atividades
econômicas entre os persas.
Mas o ambiente econômico teve seu período de maior desenvolvimento sob o governo
de Dario I (século VI a.C.). Através de grandes conquistas e conseqüente formação de um
vasto Império, Dario estimulou o comércio e a agricultura. Introduziu o uso da moeda
(dárico) para articular e organizar o comércio entre as várias partes do vasto Império, o queincrementou sobremaneira a economia e as finanças. Com a abertura de estradas,
dinamizou as comunicações (correios) e assegurou, durante seu governo, o rápido
abastecimento de suas principais cidades (Susa, Persepólis e Pasárgada).
Do ponto de vista social, os nobres privilegiados, donos das melhores e vastas
propriedades, detinham e exerciam grande influência na direção dos negócios políticos e
sobre a massa camponesa.
Os sacerdotes, chamados entre os persas de magos, também possuíam grande
influência social, não só pela função espiritual, mas também pelo poder temporal e cultural
(riquezas dos templos / sabedoria).
Como uma típica civilização hidráulica e asiática, os camponeses constituíam a grande
maioria da população. Viviam principalmente da agricultura ou como nômades nas planícies
e montanhas iranianas, dedicando-se ao pastoreio.
3.3. Estrutura e Evolução Política
A forma de governo predominante entre os persas foi a monarquia absoluta. Com a
morte do mais importante rei da Pérsia, Dario I, os seus sucessores viram o poder real
decair, passando o monarca a sofrer forte influência da nobreza.
A história política dos persas remonta ao século VIII a.C. quando os assírios, no auge
do seu expansionismo militar, dominaram os medos. As tribos, apesar da diversidade de
suas origens e do poderio assírio, uniram-se na luta contra o invasor. Por volta do século VII
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a.C., o reino medo (norte da Pérsia) estava formado, tendo como capital a cidade chamada
Ecbátana.
Os reis medos, durante quase todo o século VII e VI a.C., com um exército bem
armado e disciplinado, tentaram impor o domínio aos persas e aniquilar o militarismo assírio
na região. Apoiados pelos babilônios e pelos citas, apoderaram-se de Nínive (capital da
Assíria).
Por volta da segunda metade do séc. VI a.C., Ciro, príncipe persa, unificou as tribos e
formou o Império persa. A partir desse fato, os persas conquistaram os medos e iniciaram
sua expansão pela Ásia Menor, Fenícia e Palestina. Em 538 a.C., os persas invadiram a
Mesopotâmia, conquistando a cidade da Babilônia. Anos mais tarde, Cambises, filho de Ciro,
promoveu a conquista do Antigo Egito.
O Império persa, com a conquista do Antigo Oriente, tornou-se o maior Império em
extensão da Antigüidade Oriental, e Susa, sua mais importante cidade e capital.
Mas, sem sombra de dúvida, o apogeu do Império persa se deu no reinado de Dario I,
durante o final do século VI e início do século V a.C. Dario promoveu a consolidação do
domínio persa sobre os povos conquistados e expandiu as possessões persas até a Índia.
Todo esse grande Império foi dividido em províncias ou regiões administrativas chamadas
satrapias. Em cada província, foi colocado um funcionário real chamado sátrapa.
Pelo fato de exercerem grande poder sobre os povos vencidos, os sátrapas eram
fiscalizados por funcionários reais ("olhos e ouvidos do rei"). Apesar da divisão
administrativa, o poder monárquico continuou sendo rigidamente centralizado e despótico.
Dario também dinamizou a economia quando cunhou moedas de ouro e prata
(dáricos) e construiu estradas que ligavam as satrapias às cidades onde residia, aperfeiçoou
o sistema de comunicação através de correios.
Todo esse vasto Império começou a ruir por um conjunto de fatores, como: as guerras
constantes, a grande extensão territorial e a incapacidade dos sucessores de Dario I.
No reinado de Dario III, por volta de 330 a.C., o Império persa caiu sob o domínio de
Alexandre, o Grande, da Macedônia.
3.4. Religião e Cultura
O masdeísmo criado por Zoroastro (Zaratustra) tem como princípio básico o
dualismo religioso. Baseado em rígidas normas de moral, tem seus fundamentos inscritos
no Zend Avesta, o livro sagrado dos persas antigos.
Essa religião admite a existência de duas divindades opostas e independentes: Ormuz
Mazda e Arimã. Ormuz Mazda é tido como o criador de tudo que é bom na Terra, sendo o
deus da justiça (direito), da felicidade humana, da natureza e da luz. Protegia e favorecia os
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que viviam em família, pregando a verdade e o bem. Por outro lado, Arimã, fonte de todo o
mal, era a divindade da escuridão e das misérias do homem e da natureza (crimes, doenças,
pecados, etc.).
A luta entre o bem e o mal terminaria com a vitória de Ormuz Mazda na concepção
mito-religiosa do masdeísmo; e, com isso, os que ficassem do lado de Arimã seriam
destruídos.
Podemos salientar também que o dualismo persa influenciou o cristianismo no que
toca à dicotomia entre céu e inferno. A religião persa acreditava na imortalidade da alma e
na vinda de um messias. A predição do futuro através do horóscopo mesopotâmico também
marcou o culto persa.
No plano cultural, os persas não foram originais, pois sofreram grandes influências dos
povos conquistados (assírios, babilônios, hititas e egípcios). A Arquitetura, com forte
influência egípcia, teve como maiores exemplos as cidades de Pasárgada e Persepólis.
4. A Palestina
4.1. Localização e Condições Geográficas
A Palestina era um pequeno território
situado entre o mar Mediterrâneo, a Fenícia, a
Síria e os desertos árabes (Oriente Médio). Seu
solo era irrigado e fertilizado pelas águas do rio
Jordão, que cruzam de norte a sul esse
território, desembocando no mar Morto
("crescente fértil").
De um modo geral, as condições
geoclimáticas eram muito duras, dificultando
sobremaneira a atividade agrícola. Por outro
lado, nas margens do rio Jordão, a situação era
diferente, pois existiam água, vegetação e terras
férteis e aráveis. Por conta disso, ocorreram
constantes invasões do território palestino.
Outro fator de ocupação da região era sua
posição estratégica, pois era local de passagem
obrigatória entre a África e a Ásia.
4.2. Panorama Econômico e Social
No plano econômico, o clima árido e a terra seca impuseram aos habitantes da
Palestina o pastoreio de ovinos e caprinos, e a agricultura nas poucas regiões férteis, como o
vale do rio Jordão.
A cultura de cereais, oliveira e figueira não eram suficientes para o sustento do povo
que se via, muitas vezes, assolado pela fome e pelas doenças. Além do pastoreio, que
fornecia o leite, a lã e a pele, nenhuma outra atividade tinha importância econômica.
O comércio e o artesanato eram restritos, havendo, apenas em pequena escala,
transações comerciais com o Egito, Fenícia, Mesopotâmia e Arábia.
Podemos dizer que as tribos que imigraram para a Palestina, de um modo geral, eram
semitas (cananeus, filisteus, hebreus). Tendo como característica inicial o seminomadismo, a
sociedade palestina ou hebraica primitiva tinha como base a família patriarcal, em que os
costumes e a tradição regulavam as relações comunitário-sociais. O pai exercia autoridade
praticamente ilimitada sobre os filhos. A poligamia era tolerada, mas predominava o
casamento monogâmico. O direito à primogenitura era reconhecido, principalmente, nas
questões de heranças familiares.
Como nas outras sociedades orientais e, principalmente, a partir do estabelecimento
da monarquia hebraica (II para o I milênio a.C.), a divisão social era: nobreza (família real),
comerciantes, servos (camponeses) e escravos.
4.3. Estrutura e Evolução Política
A organização política da Palestina era, nos seus primórdios, tribal e baseava-se no
patriarca. Só a partir do II para o I milênio a.C., podemos observar a consolidação dos reis
hebreus. A monarquia era absoluta, sendo considerada uma designação divina. Os
monarcas, como nas civilizações orientais de um modo geral, viviam em uma corte luxuosa,
cercados de um sem número de funcionários (burocracia).
Na evolução política da Palestina na Antigüidade, podemos destacar vários povos,
entre eles: os cananeus, filisteus e hebreus.
Os cananeus, povo de origem semita, fundaram cidades e tentaram impedir a
entrada de outros grupos nômades na Palestinaantiga, também chamada de Canaã.
Por volta do II milênio a.C., iniciaram suas incursões na Palestina outras tribos
nômades e semitas, os hebreus. Na mesma época, vindos do mar, os filisteus
promoveram a conquista do litoral e entraram pelo interior, defrontando-se com os hebreus.
Sem dúvida, os hebreus, originários da Arábia, deslocando-se freqüentemente em
busca de terras férteis e melhores pastagens, tornaram-se, com sua organização econômica
agropastoril e sua estrutura tribal e patriarcal, o grande povo da Palestina antiga.
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Devido a uma grande crise de fome, emigraram para o Egito no período do Médio
Império, onde foram aceitos pelos hicsos, povos de origem semita que haviam dominado o
"país dos faraós".
Após esse período de ocupação, por volta do novo Império no Egito, os hicsos foram
expulsos, seguindo-se também uma grande perseguição aos hebreus que, guiados pelo
grande líder Moisés, retornaram à Palestina (Êxodo).
Organizados em doze tribos, conquistaram a região, combatendo principalmente a
presença dos filisteus. Depois disso, as tribos hebraicas uniram-se, formando um Estado
único, tendo como capital a cidade de Jerusalém, e como primeiro rei, Saul.
Vários reis se sucederam, atingindo o apogeu à época de Salomão. Com sua morte,
ocorreu o "cisma" dos hebreus. Dez tribos reuniram-se ao norte da Palestina, formando o
reino de Israel (Samaria) e duas tribos ao sul fundaram o reino de Judá (Jerusalém).
Com isso, os hebreus, que sempre foram militarmente fracos, foram dominados e
escravizados muitas vezes. O enfraquecimento hebraico permitiu a invasão e a destruição de
Israel pelo rei assírio Sargão II. Judá não resistiu aos babilônios que, conduzidos pelo rei
Nabucodonosor, dominaram e levaram os hebreus para o "cativeiro da Babilônia".
A libertação dos hebreus só ocorreu quando Ciro, rei persa (539 a.C.), invadiu e
dominou a Babilônia, permitindo aos hebreus cativos o retorno à "terra prometida".
Embora tivessem readquirido a liberdade e a Palestina, os hebreus continuaram
sofrendo invasões até, finalmente, caírem sob o domínio romano (por volta de 63 a.C.).
Posteriormente, devido às revoltas dos hebreus, os romanos destruíram suas cidades,
o que espalhou o povo hebreu pelo mundo antigo ("diáspora hebraica"). A única forma que o
povo de Judá teve para manter sua união foi a religião, conservando crenças e cultura.
4.4. Religião e Cultura
A religião hebraica era a única marcadamente monoteísta da Antigüidade Oriental. O
monoteísmo dos hebreus ou judeus (Judá) foi resultante de uma longa evolução da religião
original das várias tribos hebraicas de influências orientais (Egito).
O judaísmo, religião surgida a partir do líder hebreu Abraão, caracteriza-se, além do
monoteísmo, pela crença na imortalidade da alma, no juízo final, e na vinda do Messias
("enviado do Senhor"). Jeová, como é chamado seu Deus, é onipresente e todo-poderoso e
como tal não pode ser representado em pinturas ou esculturas.
O decálogo ou "10 mandamentos" são os princípios básicos do judaísmo que, de
acordo com o "Antigo Testamento", foram ditados por Jeová a Moisés (monte Sinai).
O principal documento desta civilização, escrito em hebraico e aramaico, é o chamado
"Antigo Testamento". Os livros do "Antigo Testamento" (Pentateuco, Profetas e Hagiógrafos)
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formam a "Bíblia dos Judeus". O "Antigo" e o "Novo testamento" constituíram a base da
"Bíblia Cristã", que teve em comum com o judaísmo a região e seus princípios religiosos.
Podemos afirmar, portanto, que a maior contribuição dos hebreus no plano cultural
foram os princípios religiosos literários contidos na bíblia (escrita hebraica).
5. A Fenícia
5.1. Localização e Condições Geográficas
A Fenícia localizava-se na região oriental do mar Mediterrâneo (Oriente Médio–
Líbano). Seu território era caracterizado por uma estreita faixa litorânea (200 km) limitada
pelo mar e as montanhas, onde abundava o cedro. Não existia uma grande porção de terra
fértil para a agricultura e o pastoreio.
Povos de origem semita, vindos da costa norte do mar Vermelho, os fenícios foram se
mesclando aos povos de etnias orientais. As características geográficas determinantes
(acidentes geográficos) da região impulsionaram os fenícios desde cedo à navegação.
5.2. Panorama Econômico e Social
Os fenícios praticavam a agricultura nos pequenos vales onde cultivavam oliveiras,
vinhas, cereais, algodão, linho e árvores frutíferas. Apesar de excelentes agricultores, foram
mais conhecidos pela sua "indústria" artesanal e, principalmente, pelo comércio marítimo.
No plano da produção artesanal, desenvolveram a metalurgia, a vidraçaria e a tecelagem.
Confeccionavam tecidos de lã tingidos, vidros coloridos, jóias (ouro e prata), vasos, enfeites
e utensílios domésticos (bronze e cobre).
Mas foi sem dúvida o comércio marítimo sua mais significativa atividade econômica.
Baseando-se na exportação dos seus produtos artesanais e na intermediação, os fenícios
criaram a mais vasta rede de portos e rotas comerciais da Antigüidade Oriental (cidades-
colônia: Cartago, Cádis, Marselha, etc.). A Fenícia se constituiu em uma talassocracia (elite
mercantil).
Do ponto de vista social, havia uma relativa mobilidade ocasionada pela dinâmica
comercial. A sociedade fenícia era constituída de pequenos e grandes comerciantes, artesãos
e escravos, gerados pelo intenso comércio fenício.
A maior parcela da população era constituída de artesãos e navegadores que
trabalhavam em função da oligarquia mercantil dominadora das atividades comerciais
marítimas. Essa elite mercantil detinha não só o poder socioeconômico, mas também, como
veremos, o poder político (cidades-Estado).
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5.3. Estrutura e Evolução Política
Como vimos, os fenícios caracterizaram-se pela excelência do seu comércio marítimo
e artesanato, baseando sua existência, como civilização oriental, na exportação de pescados,
artesanato, objetos variados, como também na prática da pirataria e do comércio de
escravos na orla do Mediterrâneo. Sendo assim, o poder político era exercido pelos ricos
comerciantes e artesãos, nas cidades-Estado. Cada centro desse passou a ter sua oligarquia
mercantil, e, muitas vezes, até um rei, sem contudo atingir o modelo absoluto e teocrático
das civilizações orientais vizinhas (Egito e Mesopotâmia).
Como podemos observar, a Fenícia não era um Estado unificado. Constituía-se de
várias cidades-Estado que possuíam em comum aspectos culturais, mas não constituíam
uma unidade política e econômica. As cidades mais importantes eram: Tiro, Sidon e Biblos.
Tanto nas cidades-Estado, como nas várias colônias, concessões e feitorias fundadas pelos
fenícios no Mediterrâneo, a "aristocracia mercantil" e a classe sacerdotal detinham o poder
na sua totalidade.
5.4. Religião e Cultura
A religião fenícia era, como as demais religiões da Antigüidade Oriental, politeísta.
Adoravam, entre outros deuses, o Sol e a Lua. O culto era, às vezes, bastante violento,
havendo freqüentemente sacrifícios humanos, principalmente de crianças. Cada cidade tinha
seus deuses principais chamados de Baal e Baalat.
No plano cultural, os fenícios, para facilitar a escrituração comercial, criaram um
alfabeto de 22 letras que, junto com as técnicas de navegação, teve grande difusão e
conseqüente evolução na História Antiga.