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Universidade Federal da Bahia Campus Anísio Teixeira Instituto Multidisciplinar em Saúde O MODO HEGEMÔNICO DE PRODUÇÃO DO CUIDADO FÁBIA LUANE OLIVEIRA SANTOS JOÃO PEDRO MARIA CLARA MARIANA RIOS MATEUS AGUIAR DOURADO Thaís Alves Silva YURI GUIMARÃES BOMFIM VITÓRIA DA CONQUISTA 2021 O MODO HEGEMÔNICO DE PRODUÇÃO DO CUIDADO 1) Discuta a implicação do Relatório Flexner no modelo de formação em saúde; A partir do Relatório Flexner, houve uma grande alteração no modelo de formação em saúde no século passado, mas que persiste até os dias atuais. Desse modo, o ciclo clínico passou a ser fundamentalmente realizado no hospital, dado que este seria o local ideal para se estudar as doenças, portanto, dar-se um enfoque na doença de forma individual e concreta. Sendo assim, a doença passou a ser considerada apenas um processo natural, apenas biológico, sendo o social, o coletivo, o público e a comunidade fatores que não implicariam no processo de saúde-doença, além de não serem de relevância para o ensino médico. Dessa forma, adota-se uma postura apoiada no conhecimento científico, mediante a observação e a experimentação como única fonte confiável e segura para conduzir a prática médica. Assim, essa ênfase em um modelo estritamente biomédico, centrado apenas na doença e no hospital, levou a instauração de programas educacionais médicos como uma visão reducionista e limitada da relação saúde-doença com o indivíduo como um todo. Baseando-se na proposta de Flexner, adotar e propagar esse modelo de saúde-doença unicausal, biológico, excluiria o enfoque e destaque para as dimensões social, psicológica e econômica da saúde, e, além disso, desviaria um olhar inclusivo de amplo espectro da saúde, o que iria além medicina e seus médicos. Cabe salientar que, o trabalho de Flexner foi fundamental para reorganizar e regulamentar o funcionamento das escolas médicas, contudo, induziu um processo de extirpação de todas as propostas de atenção em saúde que não tangesse o modelo proposto. Além disso, a busca pela preparação dos profissionais de saúde, introduzida através de uma racionalidade científica, exclui outros fatores que estão estritamente ligados e que influenciam os impactos da educação médica na prática profissional e na organização dos serviços de saúde. Logo, uma boa educação médica seria o ponto chave para uma prática médica de qualidade, além da melhor distribuição da força de trabalho, o próprio desempenho dos serviços de saúde, e o estado de saúde das pessoas. 2) Discuta a relação entre medicina científica e mercado da saúde; A medicina científica se configura como um modelo de saúde que é baseado em evidências, com um sistema mais rigoroso no diagnóstico do paciente, baseando quais as metodologias que devem ser utilizadas para o atendimento. O objetivo dessa nova abordagem da prática médica é avaliar cientificamente a eficácia e efetividade das intervenções em saúde, usando critérios metodológicos rigorosos para avaliar o trabalho clínico. Já o mercado da saúde se constitui do sistema público e privado de atendimento, sendo que o setor privado é o que mais investe em tecnologia para saúde. Se analisarmos o contexto em que estamos inseridos e os pormenores da saúde, podemos compreender que os cuidados baseados em evidência e a necessidade de obter a saúde ideal (obedecendo um padrão) não é para todos. O sistema de saúde brasileiro e mundial tem características comerciais. Pode-se dizer pelos investimentos que são feitos no serviço de saúde pública (menor que no serviço privado). A desigualdade do acesso também fomenta esse diagnóstico. Nem todos possuem atendimento de qualidade e digno, a renda estipula qual tipo de atendimento você pode vir a ter. Por isso, Foucault já dizia: “saúde como objeto de desejo para uns e de lucro para outros”. 3) Quais as possíveis consequências da “medicalização” da sociedade? Vocês conseguem perceber isso no seu cotidiano? Comentem… A medicalização da sociedade se configura como o poder do saber científico da medicina em influenciar e regular a vida coletiva. Em outras palavras, com o avanço da medicina, surgiu um consumo exacerbado de medicamentos, consultas e procedimentos, baseado na ideia de que isso seria a única solução para os problemas relacionados à saúde, independentemente dos fatores que causaram essas enfermidades. Nessa perspectiva, tem-se como consequência a responsabilização individual da doença, enquanto o meio, as autoridades e a própria sociedade eximem-se da incumbência em relação aos fatores que contribuem para o aparecimento das doenças. Ademais, o aprendizado e os modos de ser e agir também são afetados, pois partindo do pressuposto que o “medicamento” tem a função de controlar e de mitigar os efeitos de algo fora da normalidade, bem como é a partir de insatisfações e de questionamentos que se constituem possibilidades de mudança nas formas de ordenação social, logo, a medicalização da sociedade tem assim cumprido o papel de controlar e submeter pessoas, reprimindo questionamentos e desconfortos. Em adição a isso, as consequências da medicalização também podem ser adicção à substâncias, intoxicação pelo uso irracional de medicamento, surgimento de novas enfermidades pelo uso abusivo de métodos terapêuticos, entre outros. Desse modo, observa-se atualmente que problemas de saúde físicos e psicológicos poderiam ser evitados e tratados a partir da qualidade de vida, isto é, com o acesso à educação e saúde de qualidade, trabalho digno e boa infraestrutura em geral, os indivíduos passariam a compreender os efeitos de uma qualidade de vida satisfatória para a saúde. Assim, a medicina científica se tornaria majoritariamente preventiva e não teria seu foco somente para a cura de problemas, os quais possuem causas dispensáveis de medicalização. 4) Comente sobre o processo de trabalho em saúde (encontro profissional-usuário do serviço) O conceito de processo de trabalho em saúde diz respeito à prática dos trabalhadores/ profissionais de saúde inseridos no dia-a-dia da produção e consumo de serviços de saúde. Entretanto, se faz necessário compreender que neste processo de trabalho cotidiano está reproduzida toda a dinâmica do trabalho humano, o que torna necessário introduzir alguns aspectos do trabalho fundamentais para o entendimento do trabalho em saúde. Pensando no conceito de trabalho, pode-se dizer que é um processo de mediação entre homem e natureza, num processo no qual os seres humanos atuam sobre as forças da natureza transformando-as em formas úteis para a vida. Contudo, no processo de produção da sociedade capitalista, esses trabalhos são tornados radicalmente distintos o valor de uso e o valor de troca. E é nesse processo que o agente de saúde pode-se tornar alienado no sentido de vender o seu produto (trabalho), resultando no distanciamento que muitas vezes existe entre o profissional de saúde e usuário do serviço. É preciso pensar então, que o trabalho em saúde só é possível mediante o encontro e a relação entre o profissional de saúde e o usuário e por isso, esse processo deve ser mais cada dia mais humanizado, ao contrário do que vêm se relatado na sociedade capitalista com processos cada vez mais distantes, metódicos, sem possibilitar que o paciente possa falar não somente sobre suas dores, mas o que pode ter levado à elas. Nesse viés da humanização, a comunicação é a peça chave do contexto. Ela possibilita a integralidade da atenção à saúde, pois, numa comunicação em que os sujeitos sejam escutados de maneira qualificada e satisfatória, podem interagir e compartilhar suas vivências. A comunicação possibilita ainda que as condutas sejam pautadas e programadas de acordo com o conhecimento dos aspectos socioeconômicos e culturais. Esse viés de humanização através da comunicação se faz extremamente necessário e vem sendo pauta principal do debate do processo de trabalho em saúde. 5) Comente a frase: “o desenvolvimento científico-tecnológico reforça assim a possibilidade de uma prática quase sem a participação do ‘doente’” (p.57);A frase enfatiza como o desenvolvimento científico-tecnológico na área da saúde criou uma parede perante o contato entre pacientes e os profissionais que atuam nos diversos setores da saúde, assim, tornando a consulta um processo frio e metódico. Os aparelhos que possuem a função de auxiliar a confirmação de um determinado diagnóstico logo após a anamnese e o diálogo com o paciente, passaram a constituir uma fonte de obtenção absoluta de informações na procura de rastros que orientem para uma possível enfermidade. Assim, a conduta para resolução dos males expostos pelos pacientes passou a consistir em prescrever medicamentos antes mesmo de existir um diálogo prévio sobre outras formas de tratamento menos evasivas e mais saudáveis. 6) Como a postura profissional (subjetividade)/valores influencia no cuidado em saúde? A partir da postura profissional muitos impactos podem ser gerados ou interrompidos perante a enfermidade de um indivíduo. A conduta profissional que considera a uniformidade do corpo social, mas resguarda a existência da equidade entre entre a coletividade tem como fator assertivo o acolhimento preparado para receber e efetivar o cuidado em saúde, pois o profissional cria um ambiente com aura segura na sua atuação, dessa forma, o paciente consegue identificar o sentimento de amparo e tende a propagar um diálogo que forneça a maior taxa de informações para a resolução de um impasse que esteja acontecendo na vida desse que pode ou não ser solucionado com o uso de medicamentos. 07) Comente como o texto diferencia as tecnologias (“dura”, “leve-dura” e “leve”). Como elas aparecem nas práticas dos profissionais de saúde? No texto Merhy ao pensar no trabalho médico, diferencia-o em valises, a qual há o estetoscópio, o esfigmomanômetro e outros equipamentos, seriam as tecnologias duras; umas outra valise, que está na cabeça, contendo os saberes estruturados, os conhecimentos técnicos, que seriam as tecnologias leve-duras; uma terceira valise, a das relações, que está entre o trabalhador e o usuário, com as tecnologias leves. Essas tecnologias aparecem na produção do cuidado, a “leve”, por exemplo, é local onde se define a construção de vínculos, acolhimentos e responsabilizações entre o paciente e o profissional de saúde. 08) Discuta o conceito de “clínica ampliada”; Uma clínica que inclua além da doença, a pessoa e seu contexto e se responsabilize tanto com a cura e reabilitação quanto com a prevenção e a proteção individual e coletiva. Uma clínica que consiga compreender de forma ampliada o processo de adoecimento e sofrimento do usuário e elaborar projetos terapêuticos singulares com ações que visem intervir nas diversas dimensões relacionadas ao adoecimento e ao sofrimento. Enfim, uma clínica com compromisso com a produção de saúde, de vida. No entanto, tal prática é pouco encontrada na sociedade atual, percebe-se um cuidado maior ao tratamento das doenças e poucas medidas para a prevenção e promoção à saúde. 09) Comente a necessidade do trabalho em equipe para produção do cuidado em saúde. É possível na vida real? O trabalho em equipe é formado por profissionais de várias áreas diferentes, tendo, assim, conhecimentos diferentes. Dessa forma, o paciente consegue alcançar um tratamento mais humanizado, em que os profissionais de saúde irão enxergá-lo além de uma doença. Assim, haverá uma diminuição da porcentagem de erros e tornará as consultas e o tratamento muito mais humano, confortável e eficaz. No entanto, a agregação de vários profissionais não é uma prática muito vista nos dias de hoje, uma vez que, tornaria mais caro o cuidado à saúde, além de que a própria sociedade se demonstra saciada com os métodos técnico-científicos dos profissionais de saúde. Com isso, para que seja possível ampliar o trabalho em equipe no cuidado em saúde, é importante fazer com que a população entenda a necessidade dessa mudança para que elas aceitem e procurem mais por atendimento multiprofissional. Além disso, a implementação de políticas de saúde é crucial para que o SUS possa aderir a este processo, sendo, assim, mais acessível para a população. 10) Qual a sugestão do grupo para mudança no modo de produção do cuidado das pessoas? Para mudar o atual modo de produção de cuidado em saúde, seria necessário, primeiramente, mudar o método de ensino dos profissionais de saúde, uma vez que, uma didática mais humanizada é pouco encontrada em meio às universidades. A partir disso, os profissionais de saúde iriam conseguir enxergar os pacientes não apenas como uma doença, mas como uma pessoa, surgindo, assim, a necessidade de mais diálogo para se chegar nas reais causas das doenças e, consequentemente, um melhor tratamento. Nesse momento, entraria o trabalho multiprofissional, em que cada profissional, com seu conhecimento, conseguiria auxiliar para que o tratamento fosse o mais eficaz possível, buscando outras formas terapêuticas, além da medicalização, já que existem vários remédios que podem ser muito mais eficazes que um medicamento. Por fim, a equipe deveria dar orientação ao paciente, para que ele entenda o que o deixou doente e o porquê disso. Assim, além de ajudar na prevenção da doença, o profissional irá ajudar o paciente a se sentir mais ativo, passando a enxergar os profissionais de saúde não como protagonistas, mas apenas como um dos meios para se alcançar a saúde. Com isso, a aplicação de uma prática clínica ampliada iria diminuir a medicalização e, assim, a dependência aos serviços de saúde.