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03 TRAB INT PSICOL_Cartas a um jovem psiquiatra_Resenha

Resenha do capítulo "Vocação Profissional" (Calligaris) para Introdução à Psicologia: analisa conselhos sobre motivações para a psicoterapia, a pouca expectativa de gratidão, o risco de dependência terapêutica, traços desejáveis no terapeuta e testes de contato com populações vulneráveis.

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03. TRAB INT PSICOL_Cartas a um jovem psiquiatra_Resenha 
PSICOLOGIA – Disciplina Introdução à Psicologia 
10/09/21 
1 
VOCAÇÃO PROFISSIONAL - CAP 1 
A escolha da carta “Vocação Profissional” faz-se considerando o início da formação no curso de 
Psicologia e os conselhos que nos são apresentados pelo autor como forma de avaliar a 
disposição e as características fundamentais que devem ser buscadas dentro de cada 
profissional. 
A disposição das características inicia-se com o relato das experiencias de infância do autor, 
quando presenciava o reconhecimento dos pacientes de seu pai nas festas de final de ano pelo 
trabalho desempenhado como médico e faz uma ponte quanto ao exercício do trabalho do 
psicoterapeuta, o qual não fomenta uma gratidão, um apreço em seus clientes ao ponto de 
receber presentes e cartões de festas. 
se eu tivesse escolhido a profissão de psicanalista e 
psicoterapeuta para receber a mesma variedade e fartura de 
presentes, minha vida seria um fracasso. (Calligaris, Contardo. 
2004. Pg 6). 
 
Alerta aos futuros profissionais, como primeiro conselho, que se a motivação for 
reconhecimento sua escolha profissional deve ser repensada. 
Pois bem, se, por alguma razão (que não precisa ser a mesma 
do meu pai), é importante para você se alimentar no 
reconhecimento e no agradecimento infinitos dos outros, então 
não escolha a profissão de psicoterapeuta. (Calligaris, 
Contardo. 2004. Pg 7). 
 
Reforça a ideia que envolve o conceito do senso comum sobre o profissional que exerce a 
psicoterapia, bem como chega a mostrar a resistência ao profissional – nos oferecendo a ideia 
de que o psicoterapeuta é adivinho dos problemas pessoais de cada indivíduo. O resultado é 
uma recepção que mistura o escarnio com o temor. 
Enquanto segundo conselho, o autor registra que não se espere gratidão de seus pacientes. 
quando tudo dá certo, ele acaba exatamente como um remédio 
que a gente usou e que fez seu efeito: uma caixinha aberta, com 
as poucas pílulas que sobraram, no fundo do armário do 
banheiro. (Calligaris, Contardo. 2004. Pg 7). 
 
Realizando uma analogia com uma caixa de remédios, ele trata a relação de um paciente com 
seu psicoterapeuta como algo esperado e que, ao alcançar os objetivos de cura, nada mais é 
relevante e necessário – diferente do que pode acontecer na relação com o médico, onde 
encontra-se a esperança de cura e deposita-se nele a gratidão pelo alcance dela. 
Adiante, expõe que é necessária esta posição: funcionar como um remédio, almejando a 
dependência do paciente; evitando-se sua eterna admiração e gratidão. Em contrário, a 
construção de uma relação duradoura, de dependência, incorreria no risco de fazer com que a 
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“doença” fosse substituída por um vício (toxicomania); a isto, o autor mais uma vez alerta que 
“[...] se você gosta da ideia de ser um notável na cidade e de se sentir amado, a psicoterapia 
talvez não seja a melhor escolha profissional para você”(CALLIGARIS, 2004). 
Em tempo, relata que existem profissionais que investem no cultivo do amor e da admiração 
durante seus atendimentos; contudo, o tratamento faz-se fatigado a um progresso limitado: 
[...] pela experiência acumulada, pelo talento e pela capacidade 
de inspirar confiança, eles são, em geral, ótimos terapeutas no 
começo das curas. (Calligaris, Contardo. 2004. Pg 8). 
 
O prolongamento do tratamento transforma-se em uma dependência química e, segundo o 
autor, é certo – provavelmente – que o profissional experimente o fim ou a interrupção de uma 
cura como a espécie de uma traição amorosa, realizada por seu paciente. A construção desta 
relação traz malefícios para o psicoterapeuta e para seu paciente. 
No que tange as características que devem ser alimentadas no profissional Calligaris recorta 
traços de caráter, como: 
1) Um gosto pronunciado pela palavra e um carinho 
espontâneo pelas pessoas, por diferentes que sejam de você. 
[...] 
2) Uma extrema curiosidade pela variedade da experiência 
humana com o mínimo possível de preconceito. Você pode ter 
crenças e convicções. 
[...] 
3) [...] gostaria que o futuro terapeuta já tivesse, nessa 
variedade, uma certa quilometragem rodada. 
[...] 
4) O quarto e último traço que gostaria de encontrar no futuro 
psicoterapeuta é uma boa dose de sofrimento psíquico. 
(Calligaris, Contardo. 2004. Pg 9,10,11) 
 
Quanto ao “carinho espontâneo pelas pessoas”, o autor sugere que o futuro profissional realize 
um teste: converse e permita ser tocado por moradores de rua. A proximidade e a escuta devem 
ser exercidas sem interrupção como forma de se perceber, enquanto profissional, aceitando as 
possibilidades dos diferentes. Se o teste com o primeiro grupo obtiver sucesso, outros grupos 
devem ser testados, como pacientes psiquiátricos numa enfermaria ou num hospício. Neste 
ponto, Calligaris é assertivo quanto a necessidade do profissional perceber sua vocação clínica, 
quanto a aceitação do indivíduo, seu cliente/paciente: a teoria é distante da prática e perceber-
se já no início da formação é importante para o profissional já no início de seus estudos. 
No tocante a característica 2, “curiosidade pela variedade da experiência humana com o mínimo 
possível de preconceito” é fundamental no exercício da profissão: um mesmo sintoma 
observado em um paciente pode ser a razão de sucesso e, em outro, a razão do fracasso de uma 
existência; portanto, observar sem um julgamento pré-concebido é essencial para a realização 
de uma terapia de sucesso com foco na cura. 
A preocupação moral não é estrangeira ao trabalho 
psicoterápico, mas, para o terapeuta, o bem e o mal de uma 
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vida não se decidem a partir de princípios pré-estabelecidos; 
eles se decidem na complexidade da própria vida da qual se 
trata. (Calligaris, Contardo. 2004. Pg 10) 
 
Na possibilidade de se deparar com pacientes que apresentem posições que vão de encontro a 
valores, os quais insultem seu juízo moral o impedindo de manter a observação sem um pré-
julgamento, aconselha-se recomendar seu paciente a outro profissional e considerar este fato 
como seu “limitante”: é o ponto onde você, psicoterapeuta, reconhece seus limites dentro do 
tratamento junto aos seus pacientes. 
Calligari é enfático quando alerta ao profissional que tem uma opinião formada sobre tudo e 
todos: a psicoterapia não é seu campo de atuação. 
É fácil entender que, se você tiver opiniões morais prontas sobre 
a metade dos atos possíveis nesta terra, é melhor deixar a 
profissão de terapeuta para quem tem mais indulgência pela 
variedade da experiência humana. (Calligaris, Contardo. 2004. 
Pg 10). 
 
Em relação ao futuro terapeuta já possuir uma certa “quilometragem rodada” com 
conhecimento em comportamentos e personalidades diversas – características 3 – o autor traz 
a discussão o perfil de Freud, o qual soube lidar com questões que, em sua época, eram tabu e 
não eram discutidas de forma aberta: o que exigia de seu julgamento e consciente uma 
serenidade para descobrir fatos e desenvolver sua teoria, além de maturidade para recepcionar 
seus pacientes. 
Considerando que “é difícil, senão impossível, encontrar ‘desvios’ pelos quais ao menos uma 
parte de nossa mente não se tenha engajado em algum momento” (CALLIGARIS, 2004), ele 
alerta que o profissional psicoterapeuta não deverá ser um modelo de normalidade; portanto, 
deverá prepara-se para encontrar instituições que ainda buscam “não comprometer sua aura 
de respeitabilidade social” (CALLIGARIS, 2004) ou buscar uma outra instituição; posto que, 
instituição ou profissional de psicanálise não deve retratar uma conduta como desvio e sim, 
buscar seu sentido nas vidas singulares. 
“O quarto e últimotraço que gostaria de encontrar no futuro psicoterapeuta é uma boa dose de 
sofrimento psíquico” (CALLIGARIS, 2004). O autor justifica sua afirmativa de duas formas: (i) a 
primeira, como singular e necessário ao profissional de psicoterapia ele mesmo tornar-se 
paciente durante um bom tempo, seja para conhecer o método, seja para resolver questões 
pessoais – conhecer-se melhor; (ii) a segunda razão é ter a certeza que você sabe, ou seja, frente 
a dúvidas quanto a suas práticas clínicas e eficácia de seu trabalho, é necessário ter a certeza de 
que sua terapia curou ao menos você. 
Enfim, os conselhos e as características propostos por Calligari são válidos em todos os aspectos 
para o futuro profissional: conhecer-se, conhecer as teorias, aceitar o indivíduo – os diferentes 
aspectos de seus paciente, trabalhar sem julgamentos, partir do princípio que a cura deverá ser 
construída em um processo de observação e que deve utilizar elementos que existem dentro 
dos indivíduos é fundamental para decidirmos e exercemos a profissão com excelência ainda 
nos dias de hoje. 
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REFERÊNCIA 
CALLIGARIS, Contardo. Cartas a um jovem terapeuta: reflexões para psicoterapeutas, aspirantes 
e curiosos. Vocação Profissional. Rio de Janeiro: Elseviier, 2004.