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Rayssa Oliveira Santos 1 Módulo III – Habilidades Clínicas A parede anterolateral do abdome e diversos órgãos situados adjacentes à parede posterior são recobertos em suas faces internas por uma túnica serosa ou peritônio (serosa), que se reflete (dobra-se bruscamente e continua) sobre as vísceras abdominais, como estômago, intestino, fígado e baço. Assim, forma-se uma bolsa ou espaço virtual revestido (cavidade peritoneal) entre as paredes e as vísceras, que normalmente contém apenas líquido extracelular (parietal) suficiente para lubrificar a membrana que reveste a maior parte das superfícies das estruturas que formam ou ocupam a cavidade abdominal. A cavidade abdominal: 1. Forma a parte superior e principal da cavidade abdominopélvica, a cavidade continua que se estende entre o diafragma e o diafragma da pelve. 2. Estende-se superiormente até o 4o espaço intercostal da caixa torácica osteocartilagínea. Consequentemente, os órgãos abdominais mais altos (baço, fígado, parte dos rins e estômago) são protegidos pela caixa torácica. 3. É a localização da maioria dos órgãos do sistema digestório, de partes do sistema urinário (rins e a maior parte dos ureteres) e do baço. A parede do abdome, embora contínua, é subdividida em paredes anterior, laterais direita e esquerda e posterior para fins descritivos. A parede é musculoaponeurótica, exceto a parede posterior, que inclui a região lombar da coluna vertebral. O limite entre a parede anterior e as paredes laterais é indefinido, portanto, costuma-se usar o termo parede anterolateral do abdome. Algumas estruturas, como os músculos e os nervos cutâneos, situam-se tanto na parede anterior quanto nas paredes laterais. A parede anterolateral do abdome estende-se da caixa torácica até a pelve. O limite superior da parede anterolateral do abdome é formado pelas cartilagens das costelas VII a X e o processo xifoide do esterno; o limite inferior é o ligamento inguinal e as margens superiores das faces anterolaterais do cíngulo do membro inferior (cristas ilíacas, cristas púbicas e sínfise púbica). A parede anterolateral do abdome é formada por pele e tela subcutânea, composta principalmente por gordura, músculos, suas aponeuroses e fáscia muscular, gordura extraperitoneal e peritônio parietal. A pele está frouxamente fixada à tela subcutânea, exceto no umbigo, onde está firmemente aderida. A maior parte da parede anterolateral tem três camadas musculotendíneas; as fibras de cada camada seguem em direções diferentes. Essa estrutura tripla é semelhante à estrutura dos espaços intercostais no tórax. d e a b d o m e Rayssa Oliveira Santos 2 Módulo III – Habilidades Clínicas As camadas superficial, intermediária e profunda da fáscia de revestimento recobrem as faces externas das três camadas musculares da parede anterolateral do abdome e suas aponeuroses (tendões expandidos planos) e não podem ser facilmente separadas delas. As fáscias de revestimento são extremamente finas nesse ponto e são representadas principalmente pelo epimísio situado superficialmente aos músculos ou entre eles. A face interna da parede do abdome é revestida por lâminas membranáceas e areolares de espessura variável formando a fáscia parietal do abdome (endoabdominal). A parte que reveste a face profunda do músculo transverso do abdome e sua aponeurose é a fáscia transversal. O revestimento brilhante da cavidade abdominal, o peritônio parietal, é formado por uma única camada de células epiteliais e tecido conjuntivo de sustentação. A parede anterolateral do abdome tem cinco (pares bilaterais de) músculos: três planos e dois verticais. Os três músculos planos são o oblíquo externo do abdome, o oblíquo interno do abdome e o transverso do abdome. As fibras musculares dessas três camadas concêntricas de músculos têm orientações diferentes; as fibras das duas camadas externas são, em sua maior parte, diagonais e perpendiculares entre si, e as fibras da camada profunda são transversais. Todos os três músculos planos continuam anterior e medialmente como aponeuroses fortes, semelhantes a lâminas (Figura 5.6A). Entre a linha medioclavicular (LMC) e a linha mediana, as aponeuroses formam a bainha do músculo reto do abdome, tendínea, aponeurótica e resistente, que envolve o músculo reto do abdome (Figura 5.6B). As aponeuroses então se entrelaçam com as aponeuroses do lado oposto, formando uma rafe mediana (do grego rhaphe, sutura), a linha alba, que se estende do processo xifoide até a sínfise púbica. A decussação e o entrelaçamento das fibras aponeuróticas não ocorrem apenas entre os lados direito e esquerdo, mas também entre as camadas superficial e intermediária e entre as camadas intermediária e profunda. Os dois músculos verticais da parede anterolateral do abdome, contidos na bainha do músculo reto do abdome, são o grande músculo reto do abdome e o pequeno músculo piramidal. https://jigsaw.vitalsource.com/books/9788527734608/epub/OEBPS/Text/chapter05.html#fig5-6 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9788527734608/epub/OEBPS/Text/chapter05.html#fig5-6 Rayssa Oliveira Santos 3 Módulo III – Habilidades Clínicas Nove regiões da cavidade abdominal são usadas para descrever a localização dos órgãos, dores ou doenças. As regiões são delimitadas por quatro planos: dois sagitais (verticais) e dois transversos (horizontais). Os dois planos sagitais geralmente são os planos medioclaviculares, que seguem do ponto médio das clavículas (a cerca de 9 cm da linha mediana anterior) até os pontos medioinguinais, pontos médios das linhas que unem a espinha ilíaca anterossuperior (EIAS) aos tubérculos púbicos de cada lado. Os planos transversos são, mais frequentemente, o plano subcostal, que atravessa a margem inferior da 10a cartilagem costal de cada lado, e o plano intertubercular, que atravessa os tubérculos ilíacos (cerca de 5 cm posteriores à EIAS de cada lado) e o corpo da vértebra L V. Esses dois planos têm a vantagem de cruzar estruturas palpáveis. ´ As vísceras do abdome constituem a maior parte do sistema digestório: a parte terminal do esôfago, o estômago, os intestinos, o baço, o pâncreas, o fígado, a vesícula biliar, os rins Rayssa Oliveira Santos 4 Módulo III – Habilidades Clínicas e as glândulas suprarrenais. Quando a cavidade abdominal é aberta para estudar esses órgãos, torna-se evidente que o fígado, o estômago e o baço ocupam quase toda a cúpula do diafragma. Como eles são voltados para a cavidade torácica, recebem proteção da parte inferior da caixa torácica. Pela inspeção, são observadas as alterações da superfície cutânea, a forma e o volume do abdome. Dentre as alterações superficiais mais comumente encontradas estão as cicatrizes operatórias, as estrias, a distribuição anormal de pelos pubianos, as anomalias da cicatriz umbilical e a circulação colateral. O abdome normal é levemente abaulado e simétrico. Em condições patológicas, pode apresentar‐se globoso, proeminente – como na obesidade, ascite e neoplasias – ou retraído, escavado, como nas doenças consuntivas. Durante a inspeção, é importante observar a movimentação da parede abdominal com a respiração. Nos processos inflamatórios agudos, intraperitoneais, pode haver contratura muscular, fazendo com que cessem os movimentos respirató‐ rios abdominais. Os movimentos peristálticos do intestino delgado, que, normalmente, não são observados na inspeção, podem tornar‐ se visíveis em pacientes caquéticos, com adelgaçamento da parede abdominal, ou em condições patológicas, como nas síndromes obstrutivas. É possível observar as contrações peristálticas gástricas na síndrome de estenose pilórica, e o peristaltismo exacerbado do intestino delgado, quando existe um obstáculoao livre trânsito em seu lúmen. O peristaltismo patológico é acompanhado, quase sempre, de ruídos hidroaéreos e dor em cólica. A. Tipo abdominal a. atípico, plano ou em tábua – abdome normal b. escavado – ocorre achatamento no sentido antero-posterior e bem visíveis os rebordos costais, a sínfise púbica e as cristas ilíacas c. globoso – distensão uniforme do abdome ex. obesidade, ascite, meteorismo acentuado d. batráquio – paciente em decúbito dorsal, observa-se distensão acentuada dos flancos ex. pacientes com ascite Rayssa Oliveira Santos 5 Módulo III – Habilidades Clínicas e. avental ou pendular – tônus muscular reduzido no andar inferior do abdome ex. obesidade mórbida, puerpério B. Alterações cutâneas a. cicatrizes cirúrgicas b. sinal de Cullen e Gray Turner i. pancreatite aguda ii. equimose nos flancos iii. Estes achados se devem à drenagem de líquido ascítico hemorrágico ao longo dos planos das fáscias, infiltrando o tecido subcutâneo. c. circulação venosa i. colateral tipo porta (pré-sinusoidal, sinusoidal ou pós-sinusoidal) ii. colateral tipo cava superior – vasos dilatados no andar superior do abdome C. Abaulamentos a. distensão de alças intestinais i. meteorismo/megacolon chagásico b. hérnias na parede abdominal c. visceromegalias d. tumorações i. manobra de Smith Bates 1. contração abdominal 2. se a massa sumir, significa que ela se localiza abaixo dos músculos abdominais 3. se a massa não sumir, indica que pertence a parede abdominal e. aneurisma de aorta f. útero gravídico D. Movimentos a. peristaltismos visíveis i. obstrução do TGI ii. obstrução no antro gástrico 1. epigástrio e mesogástrio 2. movimento obliquo 3. câncer gástrico iii. obstrução no intestino delgado 1. ondas peristálticas menos calibrosas 2. movimentos rotatórios na região umbilical 3. aumento dos ruídos hidroaéreos iv. obstrução nos cólons 1. mesmo sentido do trânsito intestinal 2. câncer, megacolon chagásico v. peristaltismo de Kussmaul Rayssa Oliveira Santos 6 Módulo III – Habilidades Clínicas E. Cicatriz umbilical a. tipos de cicatriz umbilical i. protusa ii. intrusa iii. sinal da irmã Mary Joseph 1. tumor gástrico Em condições normais, ouvem‐se alguns ruídos hidroaéreos no abdome, produzidos pelo deslocamento de líquidos e gases no lúmen intestinal. Nos casos de diarreia e oclusão intestinal mecânica, os ruídos tornam‐se mais intensos. No íleo paralítico, os ruídos desaparecem por completo, o que constitui o chamado silêncio abdominal. A ausculta abdominal é particularmente útil no pós‐operatório de intervenções cirúrgicas intraperitoneais, quando ocorre o chamado íleo funcional ou paralítico. Habitualmente, os movimentos peristálticos cessam ou se atenuam por um tempo variável, entre 24 e 72 h, dependendo do tipo de cirurgia realizado. Nos casos de infecção peritoneal ou desequilíbrio hidroeletrolítico, esse tempo é mais prolongado. A ausculta abdominal permite ainda detectar sopros sistólicos – hepático, mesentérico, renal, aórtico periumbilical - em casos de aneurisma, fistulas arteriovenosas ou compressões arteriais. Na ausculta abdominal se faz a pesquisa da motilidade intestinal, deve-se observar os ruídos hidroaéreos – aumentado, diminuído, abolido ou normal – e caracterizar a peristalse. Além disse, ainda pode se pesquisar alguma obstrução intestinal. Em casos com obstrução intestinal, em suas fases iniciais, podem‐se perceber ruídos mais intensos e agudos, com timbre especial, denominado metálico. Tipos de peristalse 1. Normal 2. Peristalse de luta 3. Silêncio abdominal – íleo A percussão digital do abdome deve ser feita com o paciente em decúbito dorsal. As vísceras maciças, como o fígado e o baço, Rayssa Oliveira Santos 7 Módulo III – Habilidades Clínicas produzem som maciço, enquanto as vísceras que contêm ar produzem som timpânico. A percussão do hipocôndrio direito é utilizada para determinar os limites superior e inferior do fígado (hepatometria). A obtenção de som timpânico no hipocôndrio direito indica pneumoperitônio ou interposição do cólon entre a parede abdominal e o fígado. O som maciço na topografia do estômago e do cólon indica a presença de conteúdo liquido ou sólido nessas vísceras. A macicez circunscrita é encontrada em massas de natureza inflamatória ou neoplásica. Em presença de ascite, estando o paciente em decúbito dorsal, obtém-se som timpânico, na região mesogástrica, e maciço nas demais regiões. Com a mudança de posição, alteram‐se os limites das zonas de timpanismo e macicez. Nos cistos de ovário, a zona de macicez não se modifica com os diferentes decúbitos. A percussão permite avaliar a intensidade e distribuição dos gases produzindo sons maciços ou timpânicos. Além disso, também é possível perceber, através da alteração dos sons, a presenças de massas viscerais, indicando inflamação ou neoplasias. A. Hepatimetria a. delimitação do tamanho do fígado b. percutindo até o som se alterar – chegou o fígado c. bordo superior – de cima pra baixo d. bordo inferior – de baixo pra cima e. linha externa media – 4 a 8 cm f. linha hemiclavicular direita – 6 a 12 cm B. Ascite a. como saber se é ascite? Presença de macicez móvel i. pedi pro paciente deitar pro lado direito e você percutir desse lado o som será maciço ii. já ao percutir o lado oposto, o som será timpânico pois ainda há ar. b. Semicírculo de Skoda c. Teste de Piparoti A palpação do abdome, salvo em casos especiais, deve ser feita com o paciente em decúbito dorsal, com a cabeça apoiada em travesseiro baixo, com os braços e as pernas estendidos e os Rayssa Oliveira Santos 8 Módulo III – Habilidades Clínicas músculos abdominais relaxados. A flexão das coxas só́ deve ser adotada em situações particulares de afecções dolorosas, acompanhadas de contratura muscular – manobra de Smith Bates . A palpação abdominal é a melhor maneira de avaliar o estado da parede abdominal, reconhecer as condições físicas das vísceras abdominais e explorar a sensibilidade abdominal. A palpação abdominal divide‐se em superficial e profunda, e pode ser feita com uma só́ mão ou com ambas as mãos (palpação bimanual). A mão espalmada será́ colocada sobre a parede anterior do abdome, com os dedos em ligeira flexão, os quais se movimentam à medida que se aprofunda a palpação. O paciente deverá respirar calmamente, aproveitando‐se a fase expiratória, em que se reduz a tensão abdominal, para a palpação profunda. A palpação superficial inclui o exame das estruturas da parede e, eventualmente, das vísceras em contato com a mesma. Além das alterações próprias da pele e do tecido celular subcutâneo, a palpação superficial destina‐se a avaliar a sensibilidade, a temperatura, a espessura e a continuidade da parede abdominal. A. Resistencia ou tonicidade da parede abdominal a. normal b. flacidez c. hipertonia ou abdome de defesa i. localizada ii. generalizada iii. voluntaria iv. involuntária Inicia‐se a palpação pela avaliação da tensão da parede abdominal. Com as pontas dos dedos, produzem‐se dois a três abalos em cada local, percorrendo‐se todas as regiões da parede abdominal de maneira ordenada. Em condições normais, a tensão abdominal é ligeiramente maior no centro do que nos flancos, em razão dos músculos retos abdominais, e, no andar inferior, em relação à região epigástrica. A tensão aumenta com a inspiração e diminui com a expiração. É maior nos jovens que praticam esporte, nos obesos, e reduzida nas crianças, nos idosos, nas multíparas e nos pacientes desnutri‐ dos. O aumento patológico da tensão abdominal pode ter um significado semiológico importante, quando produzido porum reflexo víscero‐motor, que leva a um estado de contração tônica dos músculos parietais, denominado defesa abdominal. A contratura pode ser generalizada ou localizada. A contratura generalizada, conhecida como abdome em tábua, é encontrada nas perfurações das vísceras ocas, sobretudo na úlcera péptica, perfurada em peritônio livre, e nas peritonites agudas difusas. A contratura localizada acompanha os processos infla‐ matórios viscerais, que comprometem o peritônio parietal. Situa‐se na área de projeção topográfica do órgão sede da lesão, tais como fossa ilíaca direita na apendicite aguda, fossa ilíaca esquerda na peridiverticulite, flanco direito na colecistite aguda. É preciso distinguir a contração produzida pelo reflexo víscero- motor da contração psicomotora, frequente em pessoas que ficam nervosas por medo da sensação dolorosa provocada pela palpação. Esse tipo de contração desaparece facilmente quando se tranquiliza ou se distrai o paciente, fazendo‐o respirar profundamente, ou realizando manobras especiais, como a manobra de Galambos, a qual consiste em comprimir outra região do abdome, enquanto se palpa o local desejado. O aumento da tensão pode ser independente do tônus muscular e resultar de aumento da pressão intra‐abdominal, como na ascite, distensão gasosa de alças intestinais, ou crescimento de órgãos ou neoplasias intra‐abdominais. B. Sensibilidade referida ou provocada a. pontos dolorosos b. pontos de dor referida c. ponto de McBurney d. Sinal de Murphy – compressão do ponto cístico i. colecistite ii. palpar na hora da inspiração e verificar se sente dor Rayssa Oliveira Santos 9 Módulo III – Habilidades Clínicas e. manobra de Blumberg f. Sinal de Rovsing i. palpação próximo da crista ilíaca esquerda, provocando cum distensão do ceco O aumento da sensibilidade pode manifestar‐se sob a forma de dor ou hiperestesia cutânea, a qual é pesquisada deslizando‐se suavemente as pontas dos dedos ou um objeto pontiagudo sobre a pele. A hiperestesia pode expressar uma irritação do próprio neurônio, como ocorre nas radiculoneuropatias, ou ocorrer em razão de um reflexo víscero‐sensorial. Nesse caso, a inflamação de uma víscera dá origem a estímulos aferentes que caminham até a medula, estimulando os neurônios somáticos, os quais inervam a parede abdominal no metâmero correspondente. Há determinados pontos na parede abdominal que têm a particularidade de se tornar hipersensíveis, quando há com‐ prometimento dos órgãos a eles correspondentes, e que devem ser pesquisados. Os principais pontos dolorosos são o ponto epigástrico, o ponto cístico, o ponto apendicular e os pontos ureterais. O epigástrico localiza‐se na metade da linha xifoumbilical e mostra‐se muito sensível na úlcera péptica em atividade. O cístico situa‐se no ângulo formado pela reborda costal direita, com a borda externa do músculo reto abdominal. A compressão desse ponto desperta dor nos processos inflamatórios da vesícula biliar. O apendicular localiza‐se na união do terço externo, com os dois terços internos da linha que une a espinha ilíaca anterossuperior à cicatriz umbilical. A dor nesse ponto sugere apendicite aguda, especialmente quando há sinais de reação peritoneal. A compressão lenta da parede abdominal no ponto apendicular, seguida de descompressão brusca, produz dor no momento da descompressão quando há inflamação do peritô‐ nio (sinal de Blumberg). Os ureterais localizam‐se na borda externa dos músculos retos abdominais em dois níveis: na interseção com uma linha Rayssa Oliveira Santos 10 Módulo III – Habilidades Clínicas horizontal, que passa pela cicatriz umbilical, e outra que liga as duas espinhas ilíacas anterossuperiores. A maior sensibilidade nesses pontos é encontrada na cólica nefrética durante a migração de um cálculo renal. C. Continuidade da parede a. hérnias b. diástases dos retos c. manobras: i. Vasalva ii. Smith-Bates A continuidade da parede abdominal é avaliada deslocando‐se a mão por toda a superfície da parede. Desse modo, é possível reconhecer diástases e hérnias. A diástase geralmente encontrada é a dos músculos retos abdominais e consiste na separação desses músculos, ao se criar, na linha mediana, uma brecha por onde os dedos podem aprofundar‐se. A diástase dos retos abdominais é mais frequente acima da cicatriz umbilical, porém pode ocorrer no abdome inferior. Quando o paciente procura erguer o tronco, estando em decúbito dorsal, forma‐se uma proeminência de fácil identificação no local da diástase, a qual difere das hérnias por não ter saco herniário nem anel, por meio do qual se insinuam as alças intestinais. A espessura do tegumento cutâneo encontra‐se aumentada na obesidade, pelo aumento do panículo adiposo, e quando há edema, nos casos de anasarca. O edema restrito a uma deter‐ minada região é observado nos abscessos profundos e, nesse caso, acompanhado de aumento da temperatura local. A diminuição da espessura pode ocorrer por perda do tecido adiposo, nos pacientes emagrecidos, ou por desidra‐ tação. Nesse caso, além do adelgaçamento do tecido celular subcutâneo, observa‐se perda da elasticidade e do turgor da pele. Quando se faz uma pequena prega com o polegar e o indicador, há persistência da dobra cutânea por tempo anormalmente longo quando se solta a pele. Passando‐se da palpação superficial à profunda, investigam‐se os órgãos contidos na cavidade abdominal e eventuais massas palpáveis. Em condições normais, não se consegue identificar pela palpação o corpo e antro gástricos, o duodeno, a vesícula biliar, o baço, as alças jejunoileais, o cólon ascendente, o cólon descendente, a bexiga e, na mulher, o útero, as trompas e os ovários. A. tumorações palpáveis a. localização b. forma c. volume d. sensibilidade e. consistência f. mobilidade g. pulsação B. pulsação das vísceras a. fígado i. manobras de Lemos Torres e Mathieu ii. durante inspiração profunda iii. borda arredonda iv. contorno arredondado v. superfície regular vi. tamanho – hepatimetria vii. sensibilidade b. baço i. manobra de Schuster ii. processo inflamatório ou neoplásico Rayssa Oliveira Santos 11 Módulo III – Habilidades Clínicas c. rins i. sinal de Giordano Em condições favoráveis, são palpáveis a borda inferior do fígado, o piloro, o ceco, o cólon transverso e o cólon sigmoide. Dos órgãos retroperitoneais, somente o rim direito tem o seu polo inferior alcançável pela palpação, sobretudo no sexo feminino. Alterações anatômicas ou patológicas tornam reconhecíveis órgãos antes inacessíveis à palpação, como no caso das esplenomegalias, em que o baço se projeta para fora de sua loja. Em certas situações, o médico poderá interpretar como neoplasia estruturas sem qualquer significado patológico. São os chamados tumores‐fantasmas, dentre os quais, podemos citar o rim direito ptótico em grandes multíparas; o rim ectópico; o promontório de pacientes com maior encurvamento da coluna lombar; o cólon sigmoide com fezes endurecidas, e bexiga com retenção de urina, simulando cisto ovariano. Rayssa Oliveira Santos 12 Módulo III – Habilidades Clínicas do abdome localização anatômica dos órgãos 1. Varizes esofágicas Como drenam para os sistemas venosos porta e sistêmico, as veias submucosas da parte inferior do esôfago constituem uma anastomose portossistêmica. Na hipertensão portal (aumento anormal da pressão sanguínea no sistema venoso porta), o sangue não consegue atravessar o fígado pela veia porta, causando inversão do fluxo na tributária esofágica. O grande volume de sanguecausa aumento acentuado das veias submucosas, com formação de varizes esofágicas (Figura B5.7). Esses canais colaterais distendidos podem se romper e causar hemorragia grave, com risco à vida e difícil controle cirúrgico. As varizes esofágicas são frequentes em portadores de cirrose alcoólica do fígado 2. Deslocamento do estomago Os pseudocistos pancreáticos e abscessos na bolsa omental podem empurrar o estômago anteriormente. Esse deslocamento geralmente é visível em incidências laterais do estômago e outras imagens diagnósticas, como a tomografia computadorizada (TC). Após pancreatite (inflamação do pâncreas), a parede posterior do estômago pode aderir à parte da parede posterior da bolsa omental que cobre o pâncreas. Essa aderência se deve à proximidade entre a parede posterior do estômago e o pâncreas. 3. Hérnia de hiato A hérnia de hiato é a protrusão de uma parte do estômago para o mediastino através do hiato esofágico do diafragma. As hérnias são mais frequentes após a meia-idade, possivelmente devido ao enfraquecimento da parte muscular do diafragma e alargamento do hiato esofágico. Embora clinicamente haja vários tipos de hérnias de hiato, os dois tipos principais são a hérnia de hiato paraesofágica e a hérnia de hiato por deslizamento (Skandalakis et al., 1996). Na hérnia de hiato paraesofágica, menos comum, o cárdia permanece em sua posição normal (Figura B5.8A). Entretanto, uma bolsa de peritônio, frequentemente contendo parte do fundo gástrico, estende-se através do hiato esofágico anteriormente ao esôfago. Nesses casos, geralmente não há https://jigsaw.vitalsource.com/books/9788527734608/epub/OEBPS/Text/chapter05.html#figB5-8 Rayssa Oliveira Santos 13 Módulo III – Habilidades Clínicas regurgitação do conteúdo gástrico porque o óstio cárdico está em sua posição normal. Na hérnia de hiato por deslizamento, mais comum, a parte abdominal do esôfago, o cárdia e partes do fundo gástrico deslizam superiormente através do hiato esofágico para o tórax, sobretudo quando a pessoa se deita ou se curva para a frente (Figura B5.8B). É possível que haja alguma regurgitação do conteúdo gástrico para o esôfago, pois a ação de clampeamento do pilar direito do diafragma na extremidade inferior do esôfago (“esfíncter inferior do esôfago”) é fraca. 4. Estenose pilórica hipertrófica congênita A estenose pilórica hipertrófica congênita é um espessamento acentuado do músculo liso (hipertrofia) no piloro que afeta aproximadamente 1 em cada 150 recém-nascidos do sexo masculino e 1 em cada 750 recém-nascidos do sexo feminino (Moore, Persaud e Torchia, 2016). Normalmente, a peristalse gástrica empurra o quimo através do canal e do óstio pilórico até o intestino delgado, a intervalos irregulares. Nos neonatos com estenose pilórica, o piloro superdesenvolvido e alongado é endurecido e o canal pilórico é estreito, causando resistência ao esvaziamento gástrico. Pode haver dilatação da parte proximal do estômago secundária à estenose (estreitamento) pilórica. Embora a causa de estenose pilórica hipertrófica congênita seja desconhecida, parece haver participação de fatores genéticos devido à alta incidência desse distúrbio em gêmeos monozigóticos. A estenose pilórica pode ser tratada por uma cirurgia simples, piloromiotomia, na qual o cirurgião secciona a camada muscular circular hipertrofiada do piloro, possibilitando passagem livre. 5. Carcinoma de estômago Quando o corpo ou a parte pilórica do estômago contém um tumor maligno, a massa pode ser palpável. Usando um gastroscópio, os médicos podem examinar a túnica mucosa do estômago insuflado com ar, permitindo a observação de lesões gástricas e a realização de biopsias. A extensa drenagem linfática do estômago e a impossibilidade de remover todos os linfonodos criam um problema cirúrgico. Os linfonodos ao longo dos vasos esplênicos podem ser excisados por remoção do baço, dos ligamentos gastroesplênico e esplenorrenal, e do corpo e da cauda do pâncreas. Os linfonodos acometidos ao longo dos vasos gastromentais podem ser removidos por ressecção do omento maior; entretanto, a retirada dos linfonodos aórticos e celíacos, e daqueles ao redor da cabeça do pâncreas, é difícil. A maioria dos cânceres gástricos é descoberta tarde demais para um bom controle cirúrgico. 6. Úlceras, H. pylori e vagotomia A maioria das úlceras do estômago e do duodeno está associada à infecção por uma bactéria específica, Helicobacter pylori (H. pylori). As pessoas com ansiedade crônica grave são mais propensas a desenvolverem úlceras pépticas. Com frequência têm taxas de secreção de ácido gástrico muito acima do normal entre as refeições. Acredita-se que o elevado conteúdo de ácido no estômago e no duodeno supere o bicarbonato normalmente produzido pelo duodeno e reduza a eficácia do revestimento mucoso, deixando-o vulnerável ao H. pylori. As bactérias causam erosão do muco protetor que reveste o estômago, inflamando a túnica mucosa e tornando-a https://jigsaw.vitalsource.com/books/9788527734608/epub/OEBPS/Text/chapter05.html#figB5-8 Rayssa Oliveira Santos 14 Módulo III – Habilidades Clínicas vulnerável aos efeitos do ácido gástrico e das enzimas digestivas (pepsina) produzidas pelo estômago. Se a úlcera causar erosão das artérias gástricas, pode haver sangramento com risco à vida. Como a secreção de ácido pelas células parietais do estômago é controlada principalmente pelo nervo vago, tem sido realizada historicamente a vagotomia (secção cirúrgica dos nervos vagos) para reduzir a produção de ácido em algumas pessoas com úlceras crônicas ou recorrentes. O procedimento se tornou relativamente raro em decorrência da pesquisa e do tratamento do H. pylori. A vagotomia também pode ser associada à ressecção da área ulcerada para reduzir a secreção de ácido. A vagotomia troncular (secção cirúrgica dos troncos vagais) raramente é realizada, porque a inervação de outras estruturas abdominais também é sacrificada. Na vagotomia gástrica proximal, o estômago é desnervado, mas são preservados os ramos vagais para o piloro, fígado e ductos biliares, intestino e plexo celíaco. A vagotomia proximal seletiva tenta desnervar ainda mais especificamente a área em que estão localizadas as células parietais, esperando afetar as células produtoras de ácido e ao mesmo tempo poupar outra função gástrica (motilidade) estimulada pelo nervo vago. Uma úlcera gástrica posterior pode causar erosão da parede do estômago para o pâncreas, resultando em dor referida para o dorso. Nesses casos, a erosão da artéria esplênica pode resultar em hemorragia grave para a cavidade peritoneal. Os impulsos álgicos do estômago são conduzidos por fibras aferentes viscerais que acompanham os nervos simpáticos. Esse fato é evidente porque a dor de uma úlcera péptica recorrente pode persistir após vagotomia completa, enquanto pacientes submetidos à simpatectomia bilateral podem ter uma úlcera péptica perfurada e não sentir dor. 7. Dor visceral referida A dor referida visceral de uma úlcera gástrica, por exemplo, é referida na região epigástrica porque o estômago é suprido por fibras aferentes de dor que chegam aos gânglios sensitivos dos nervos espinais T7 e T8 e a segmentos da medula espinal via nervo esplâncnico maior. O encéfalo interpreta a dor como se a irritação tivesse ocorrido na pele da região epigástrica, que também é suprida pelos mesmos gânglios sensitivos e segmentos da medula espinal. A dor originada no peritônio parietal é do tipo somático e geralmente é intensa. O local de sua origem pode ser identificado. A base anatômica para essa localização da dor é que o peritônio parietal é inervado por fibras sensitivas somáticas por intermédio dos nervos torácicos, ao passo que uma víscera como o apêndice vermiforme é inervada por fibras aferentes visceraisno nervo esplâncnico menor. O peritônio parietal inflamado é extremamente sensível ao estiramento. Quando se aplica pressão com os dedos da mão à parede anterolateral do abdome sobre o local da inflamação, há estiramento do peritônio parietal. Quando os dedos da mão do examinador são subitamente retirados, geralmente há dor localizada extrema, conhecida como dor à descompressão súbita. Rayssa Oliveira Santos 15 Módulo III – Habilidades Clínicas 1. Úlceras duodenais As úlceras duodenais (úlceras pépticas) são erosões inflamatórias da túnica mucosa duodenal. A maioria (65%) das úlceras duodenais ocorre na parede posterior da parte superior do duodeno, a 3 cm do piloro. Às vezes, uma úlcera (principalmente se localizada anteriormente) perfura a parede duodenal, permitindo a entrada do conteúdo na cavidade peritoneal e causando peritonite. Como a parte superior do duodeno está intimamente relacionada ao fígado, vesícula biliar e pâncreas, qualquer uma dessas estruturas pode aderir ao duodeno inflamado. Elas podem também sofrer ulceração quando a lesão causa erosão do tecido adjacente. Embora seja comum a ocorrência de sangramento intraluminal de úlceras duodenais, provocando eventualmente hemorragia digestiva alta maciça, a erosão da artéria gastroduodenal (localizada posteriormente à parte superior do duodeno) por uma úlcera duodenal perfurante resulta em sangramento substancial para a cavidade peritoneal (hemoperitônio). 2. Isquemia do intestino A oclusão dos vasos retos por êmbolos (p. ex., coágulos sanguíneos formados em outros locais), trombos (coágulos organizados formados localmente) ou oclusão aterosclerótica (placa) resulta em isquemia da parte do intestino acometida. Se a isquemia for grave, há necrose do segmento acometido e desenvolvimento de íleo paralítico. O íleo paralítico é acompanhado por dor intensa de cólica, juntamente com distensão abdominal, vômito e muitas vezes febre e desidratação. Êmbolos oriundos do coração e enviados inferiormente via parte descendente da aorta tendem a se alojar na artéria mesentérica superior ou em seus ramos em vez de se alojar em outros ramos abdominais (p. ex., tronco celíaco e artérias céliaca renal ou mesentérica inferior) porque a AMS se origina da aorta em um ângulo menos agudo. O diagnóstico precoce do distúrbio (p. ex., por meio de arteriografia mesentérica superior) permite desobstruir cirurgicamente o vaso. 3. Diverticulo ileal O divertículo ileal (de Meckel) é uma anomalia congênita que ocorre em 1 a 2% da população. Um remanescente da parte proximal do ducto onfalomesentérico embrionário (pedículo vitelino), o divertículo geralmente apresenta-se como uma bolsa digitiforme. Está sempre no local de inserção do ducto onfalomesentérico na margem antimesentérica (margem oposta à inserção mesentérica) do íleo. O divertículo geralmente está localizado a 30 a 60 cm da junção ileocecal em lactentes e a 50 cm em adultos. Pode estar livre (74%) ou fixado ao umbigo (26%). Embora sua túnica mucosa seja principalmente do tipo ileal, também pode incluir áreas de tecido gástrico produtor de ácido, tecido pancreático, ou mucosa jejunal ou colônica. Um divertículo ileal pode inflamar e causar dor semelhante àquela provocada pela apendicite. 4. Posição do apêndice vermiforme O apêndice retrocecal estende-se superiormente em direção à flexura direita do colo e em greal é livremente móvel. Quando está situado sob o revestimento peritoneal do ceco, pode fundir- Rayssa Oliveira Santos 16 Módulo III – Habilidades Clínicas se ao ceco ou à parede posterior do abdome. Um apêndice vermiforme inflamado nessa posição é mais difícil de retirar, especialmente por via laparoscópica. O apêndice vermiforme pode projetar-se inferiormente em direção à margem da pelve ou através dela. Sua posição anatômica determina os sintomas e o local de espasmo muscular e dor à palpação em caso de inflamação. A base do apêndice vermiforme costuma situar-se no QID, profundamente a um ponto que está a um terço do trajeto ao longo da linha oblíqua que une a EIAS direita ao umbigo (ponto de McBurney na linha espinoumbilical). Todavia, ver ceco sub-hepático em “Apendicectomia” neste boxe Anatomia Clínica. 5. Apendicite A inflamação aguda do apêndice vermiforme, apendicite, é uma causa comum de abdome agudo (dor abdominal intensa e súbita). Em geral, a compressão digital sobre o ponto de McBurney provoca dor abdominal máxima. A apendicite em jovens geralmente é causada por hiperplasia dos folículos linfáticos no apêndice vermiforme, o que oclui o lúmen. Em pessoas idosas, a obstrução geralmente é causada por um fecálito (coprólito), uma concreção que se forma ao redor de um núcleo de material fecal. Quando as secreções do apêndice vermiforme não conseguem sair, há edema do apêndice vermiforme, que distende o peritônio visceral. No início, a apendicite geralmente causa dor vaga na região periumbilical, porque as fibras álgicas aferentes entram na medula espinal no nível de T10. Mais tarde, a dor intensa no quadrante inferior direito do abdome é provocada pela irritação do peritônio parietal que reveste a parede posterior do abdome (formada habitualmente pelos músculos psoas e ilíaco na região do apêndice vermiforme). Assim, a extensão da coxa na articulação do quadril pode causar dor. A infecção aguda do apêndice vermiforme pode resultar em trombose na artéria apendicular, o que costuma resultar em isquemia, gangrena (morte do tecido) e perfuração de um apêndice vermiforme com inflamação aguda. A ruptura do apêndice vermiforme provoca infecção do peritônio (peritonite), aumento da dor abdominal, náuseas e/ou vômito, e rigidez abdominal (enrijecimento dos músculos abdominais). A posição da coxa direita fletida alivia a dor porque causa relaxamento do músculo psoas, um flexor da coxa. 6. Volvulos do colo sigmoide A rotação e a torção da alça móvel do colo sigmoide e do mesocolo – o vólvulo do colo sigmoide – resultam em obstrução do lúmen do colo descendente e de qualquer parte do colo sigmoide proximal ao segmento torcido. As consequências do vólvulo são obstipação (incapacidade de eliminar fezes ou flatos) e isquemia (ausência de fluxo sanguíneo) do circuito em alça do colo sigmoide. O vólvulo é uma emergência aguda e, a menos que se reverta espontaneamente, pode ocorrer necrose (morte tecidual) do segmento afetado se não for instituído tratamento.