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<p>CAP Í T U LO 4 3</p><p>Parede Abdominal, Umbigo, Peritônio,</p><p>Mesentérios, Omento e Retroperitônio</p><p>Richard H. Turnage</p><p>Jason Mizell</p><p>Brian Badgwell</p><p>SUMÁRIO</p><p>Parede Abdominal e Umbigo</p><p>Peritônio e Cavidade Peritoneal</p><p>Mesentério e Omento</p><p>Retroperitônio</p><p>Parede abdominal e umbigo</p><p>Embriologia</p><p>A parede abdominal inicia seu desenvolvimento nos estágios iniciais da diferenciação embrionária a partir da placa lateral</p><p>do mesoderma embrionário. Nesta fase, o embrião é composto por três camadas principais – uma camada externa protetora</p><p>chamada ectoderma, uma camada interna nutritiva, o endoderma, e o mesoderma.</p><p>O mesoderma é dividido por fissuras em cada lado da placa lateral, que, por fim, desenvolve‑se em camadas somática e</p><p>esplâncnica. A camada esplâncnica, com seu endoderma subjacente, contribui para a formação da víscera por diferenciação</p><p>em músculo, vasos sanguíneos, linfáticos e tecidos conjuntivos do trato alimentar. A camada somática contribui para o</p><p>desenvolvimento da parede abdominal. A proliferação das células mesodérmicas na parede abdominal embrionária resulta</p><p>na formação de um tubo em formato de U invertido que, em seus estágios iniciais, comunica‑se livremente com o celoma</p><p>extraembrionário.</p><p>Conforme o embrião se desenvolve e os componentes da parede abdominal crescem em direção um ao outro, a abertura</p><p>ventral, limitada pela borda do âmnio, torna‑se menor. Isso resulta no desenvolvimento do cordão umbilical como uma</p><p>estrutura tubular contendo o ducto onfalomesentérico, alantoide e vasos sanguíneos fetais, que possuem fluxo em ambos os</p><p>sentidos para a placenta. Próximo do final do terceiro mês de gestação, a parede abdominal já se fechou, exceto no anel</p><p>umbilical. Como o trato alimentar se desenvolve em comprimento mais rapidamente que a cavidade celômica aumenta em</p><p>volume, grande parte do intestino em desenvolvimento faz protrusão pelo anel umbilical para localizar‑se no interior do</p><p>cordão umbilical. Conforme a cavidade celômica cresce para acomodar o intestino, este último retorna à cavidade</p><p>peritoneal de tal forma que apenas o ducto onfalomesentérico, o alantoide e os vasos sanguíneos fetais passam pelo anel</p><p>umbilical contraído. No nascimento, o sangue não mais cursa pelos vasos umbilicais, e o ducto onfalomesentérico já foi</p><p>reduzido a um cordão fibroso que não se comunica mais com o intestino. Após a secção do cordão umbilical, o anel</p><p>umbilical regride rapidamente por cicatrização.</p><p>Anatomia</p><p>Existem nove camadas da parede abdominal – pele, tecido subcutâneo, fáscia superficial, músculo oblíquo externo, músculo</p><p>oblíquo interno, músculo transverso do abdome, fascia transversalis, tecido adiposo pré‑ ‑peritoneal e tecido areolar e</p><p>peritônio (Fig. 43‑1).</p><p>FIGURA 431 Nove camadas da parede abdominal anterolateral. (De Thorek P: Anatomy in surgery, ed 2, Philadelphia,</p><p>1962, JB Lippincott, p 358.)</p><p>Tecido Subcutâneo</p><p>O tecido subcutâneo é composto da fáscia de Camper e fáscia de Scarpa. A fáscia de Camper é a camada superficial que</p><p>contém a massa de gordura subcutânea. A fáscia de Scarpa é uma camada mais espessa de tecido conjuntivo fibroso em</p><p>contiguidade com a fáscia lata da coxa. A aproximação da fáscia de Scarpa auxilia no alinhamento da pele no reparo das</p><p>incisões cirúrgicas no abdome inferior.</p><p>Músculos e Fáscias de Revestimento</p><p>Os músculos anterolaterais da parede abdominal incluem os músculos oblíquos externo e interno e o músculo transverso do</p><p>abdome. Esses músculos planos envolvem grande parte da circunferência do tronco e dão origem anteriormente a uma</p><p>aponeurose ampla e plana que reveste os músculos retos do abdome, denominada bainha dos retos. Os músculos oblíquos</p><p>externos da parede abdominal são os maiores e mais espessos dos músculos planos da parede abdominal. Eles se originam</p><p>na borda inferior das sétimas costelas e cursam direcionados de uma posição superolateral para uma inferomedial. As fibras</p><p>mais posteriores dirigem‑se verticalmente para baixo e se inserem na metade anterior da crista ilíaca. Na linha</p><p>hemeclavicular, as fibras musculares dão origem a uma aponeurose forte e plana que passa anteriormente à bainha dos</p><p>retos para inserir‑se medialmente na linha alba (Fig. 43‑2). A porção inferior da aponeurose do músculo oblíquo externo</p><p>apresenta uma dobra em direção posterossuperior sobre si mesmo para formar um sulco no qual o cordão espermático</p><p>repousa. Essa porção da aponeurose do músculo oblíquo externo estende‑se da espinha ilíaca anterossuperior ao tubérculo</p><p>púbico e é denominada ligamento inguinal ou ligamento de Poupart. O ligamento inguinal é a borda livre mais inferior da</p><p>aponeurose do oblíquo externo posteriormente ao qual passam a artéria, a veia e o nervo femoral e os músculos ilíaco,</p><p>psoas maior e pectíneo. As hérnias femorais cursam posteriormente ao ligamento inguinal, enquanto as hérnias inguinais</p><p>são anterossuperiores a esse ligamento. A prega do ligamento inguinal é utilizada em vários reparos de hérnia inguinal,</p><p>incluindo as técnicas de Bassini e a técnica livre de tensão de Lichtenstein (Cap. 44).</p><p>FIGURA 432 A, Oblíquo externo, oblíquo interno e músculos retos do abdome e a bainha do reto</p><p>anterior. B, Vista lateral do músculo oblíquo externo e sua aponeurose, à medida que esta penetra no folheto</p><p>anterior do reto. Detalhe, Origem das fibras músculo oblíquos externos das costelas inferiores e suas cartilagens</p><p>costais. (De McVay C: Anson and McVay’s surgical anatomy, ed 6, Philadelphia, 1984, WB Saunders, pp 477–478.)</p><p>O músculo oblíquo interno abdominal origina‑se da fáscia do iliopsoas, abaixo da metade lateral do ligamento inguinal,</p><p>dos dois terços anteriores da crista ilíaca e da fáscia lombodorsal. Suas fibras cursam em uma direção oposta às fibras do</p><p>músculo oblíquo externo (i. e., de inferolateral para superomedial). As fibras mais superiores inserem‑se nas cinco costelas</p><p>inferiores e suas cartilagens (Fig. 43‑3; Fig. 43‑2A). As fibras centrais formam uma aponeurose na linha semilunar, a qual,</p><p>acima da linha semicircular (de Douglas), divide‑se nas camadas anterior e posterior, que envelopam o músculo</p><p>retoabdominal. Abaixo da linha semicircular, a aponeurose do músculo oblíquo interno cursa anteriormente ao reto</p><p>abdominal, como parte da bainha anterior do reto. As fibras mais inferiores do músculo oblíquo interno apresentam um</p><p>trajeto inferomedial, paralelamente ao cordão espermático para inserir‑se entre a sínfise púbica e o tubérculo púbico.</p><p>Alguns dos fascículos musculares inferiores acompanham o cordão espermático até a bolsa escrotal, constituindo o músculo</p><p>cremaster.</p><p>FIGURA 433 Vista lateral do músculo oblíquo interno. O músculo oblíquo externo foi removido para mostrar o</p><p>músculo oblíquo interno subjacente originado das costelas inferiores e das cartilagens costais. (De McVay C: Anson</p><p>and McVay’s surgical anatomy, ed 6, Philadelphia, 1984, WB Saunders, p 479.)</p><p>O músculo transverso do abdome é o menor músculo da parede anterolateral do abdome. Ele provém das seis cartilagens</p><p>costais inferiores, apófises espinhosas das vértebras lombares, crista ilíaca e fáscia iliopsoas sob o terço lateral do ligamento</p><p>inguinal. As fibras cursam transversalmente para dar origem a uma camada aponeurótica plana que passa por trás do</p><p>músculo retoabdominal, acima da linha semicircular, e anteriormente a esse músculo, abaixo dessa linha (Fig. 43‑4). As</p><p>fibras mais inferiores do músculo transverso do abdome originam‑se da fáscia iliopsoas e passam inferomedialmente às</p><p>fibras inferiores do músculo oblíquo interno. Essas fibras formam o arco aponeurótico do músculo transverso do abdome, o</p><p>qual se posiciona superiormente ao triângulo de Hesselbach e é uma referência anatômica importante no reparo de hérnias</p><p>inguinais, particularmente nas técnicas de Bassini e no reparo do ligamento de Cooper. O triângulo de Hesselbach</p><p>A peritonite bacteriana secundária é causada frequentemente por doença péptica ulcerosa, apendicite</p><p>aguda, diverticulite de cólon e doença pélvica inflamatória.</p><p>Peritonite bacteriana espontânea</p><p>A peritonite bacteriana espontânea (PBE) é definida como infecção bacteriana do líquido ascítico na ausência de uma fonte</p><p>intra‑abdominal de infecção, tal como perfuração visceral, abscesso, pancreatite aguda ou colecistite. Embora seja mais</p><p>associada à cirrose, a PBE também pode ocorrer em pacientes com síndrome nefrótica e, menos comumente, na insuficiência</p><p>cardíaca congestiva. É extremamente raro que os pacientes com líquido ascítico contendo uma alta concentração de</p><p>proteínas desenvolvam PBE, como aqueles com carcinomatose peritoneal. Os patógenos mais comuns em adultos com PBE</p><p>são a flora entérica aeróbica Escherichia coli e Klebsiella pneumoniae. Em crianças com ascite nefrogênica ou de origem</p><p>hepática, o Streptococcus do grupo A, Staphylococcus aureus e o Streptococcus pneumoniae são os agentes comumente isolados.</p><p>A PBE é dificilmente produzida por microrganismos anaeróbicos por causa de sua incapacidade de translocação pela</p><p>mucosa intestinal e pelo elevado volume de oxigênio na parede intestinal e nos tecidos que a rodeiam.26‑30</p><p>Acredita‑se que a translocação bacteriana do trato GI é um passo importante na patogênese da PBE. Acredita‑se que a</p><p>motilidade GI prejudicada em cirróticos altera a microflora intestinal normal e a função imunológica local e sistêmica</p><p>deficiente impede a eliminação eficaz das bactérias translocadas da corrente sanguínea e dos vasos linfáticos mesentéricos.</p><p>Baixa concentração de proteína no líquido ascítico impede uma eficaz opsonização de bactérias e, portanto, o clearance por</p><p>macrófagos e neutrófilos.</p><p>O diagnóstico de PBE é feito inicialmente pela demonstração de mais de 250 neutrófilos/mm3 de líquido ascítico em um</p><p>contexto clínico compatível com esse diagnóstico – ou seja, dor abdominal, febre ou leucocitose em um paciente com ascite</p><p>de baixo teor de proteína. Além disso, o líquido cultivado pode ser apenas monomicrobiano, uma vez que as infecções</p><p>polimicrobianas, particularmente com organismos Gram‑negativos entéricos, levantam a suspeita de peritonite secundária.</p><p>É incomum que se detecte bactéria no líquido ascítico pelo método colorimétrico de Gram, o que retarda a utilização da</p><p>antibioticoterapia apropriada, uma vez que tal conduta só é feita após os resultados provenientes da cultura específica. Este</p><p>fato pode conduzir a superinfecção e a consequente morte do paciente. Triagem do líquido ascítico à beira do leito para</p><p>esterase leucocitária, usando o método colorimétrico com fitas reagentes para esterase leucocitária, tem sido utilizada para</p><p>reduzir o tempo entre a paracentese e o tratamento, embora seu uso difundido permaneça controverso.31,32</p><p>O uso de antibióticos de amplo espectro, como as cefalosporinas de terceira geração, deve ser iniciado imediatamente em</p><p>pacientes com suspeita de infecção do líquido ascítico. Esses agentes cobrem aproximadamente 95% da flora mais</p><p>comumente associada à PBE e são os antibióticos de escolha para pacientes com suspeita de ter PBE.33,34 O espectro de</p><p>cobertura antibiótica pode ser estreitado uma vez conhecidos os resultados dos testes de sensibilidade aos antibióticos. A</p><p>repetição da paracentese com análise do líquido ascítico não é necessária nos casos em que se observa uma melhora rápida</p><p>típica em resposta à antibioticoterapia. Caso o contexto clínico, os sintomas, a análise do líquido ascítico e a resposta à</p><p>terapia sejam atípicos, a repetição da paracentese pode ser útil na detecção de peritonite secundária. O risco de letalidade</p><p>imediata causada por PBE é baixo, particularmente se a doença for reconhecida e tratada oportunamente. Contudo, o</p><p>desenvolvimento de outras complicações da insuficiência hepática, incluindo a hemorragia gastrointestinal e a síndrome</p><p>hepatorrenal, contribui para o aumento da mortalidade durante a hospitalização de muitos pacientes com diagnóstico de</p><p>PBE. A ocorrência de PBE é um marco importante na história natural da cirrose, com taxas de sobrevida de 1 a 2 anos de</p><p>aproximadamente 30% e 20%, respectivamente. Vários estudos, incluindo um ensaio randomizado controlado, mostraram</p><p>que a expansão plasmática com albumina melhora a função circulatória e reduz o risco de mortalidade hospitalar pela</p><p>síndrome hepatorrenal em pacientes com PBE.35</p><p>Peritonite tuberculosa</p><p>A tuberculose é uma doença comum em áreas subdesenvolvidas do mundo e é encontrada com frequência cada vez maior</p><p>nos Estados Unidos e outros países desenvolvidos, em decorrência de fatores como infecção por HIV e aumento do uso de</p><p>medicações imunossupressoras. Outros têm descrito uma associação entre peritonite tuberculosa com cirrose alcoólica e</p><p>insuficiência renal crônica.36 A peritonite tuberculosa é o sexto local mais comum de tuberculose extrapulmonar após a</p><p>linfática, a geniturinária, a óssea e a articular, a miliar e a meníngea. A maioria dos casos resulta da reativação da doença</p><p>peritoneal latente que havia sido previamente estabelecida por via hematogênica de um foco pulmonar primário. Apenas</p><p>aproximadamente 17% dos casos estão associados à doença pulmonar ativa.</p><p>A doença em geral se apresenta de forma insidiosa, e os pacientes desenvolvem os sintomas de várias semanas a meses</p><p>antes do momento da apresentação. Sua apresentação clínica mimetiza as condições inflamatórias como a doença de Crohn</p><p>e as doenças malignas, de modo que a obtenção de um diagnóstico pode por vezes ser problemática. Distensão abdominal</p><p>causada pela formação de ascite é o sintoma mais comum, ocorrendo em mais de 80% dos casos. Da mesma forma, a</p><p>maioria dos pacientes se queixa de dor abdominal de natureza vaga, não localizada. Sintomas constitucionais como febre</p><p>baixa e suores noturnos, perda de peso, anorexia e mal‑estar são relatados em cerca de 60% dos pacientes. A presença</p><p>concomitante de outras condições crônicas como uremia, cirrose e AIDS torna difícil a quantificação desses sintomas.</p><p>Hipersensibilidade abdominal está presente na palpação em aproximadamente 50% dos pacientes com tuberculose</p><p>peritoneal.36 Um teste cutâneo tuberculínico positivo está presente na maior parte dos casos, enquanto apenas cerca de 50%</p><p>desses pacientes terão uma radiografia de tórax anormal. O GASA do líquido ascítico é menor que 1,1 g/dL, consistente com</p><p>uma alta concentração de proteínas no líquido ascítico. O exame microscópico da ascite mostra eritrócitos e número</p><p>aumentado de leucócitos, a maioria sendo linfócitos. A avaliação da atividade da adenosina deaminase no líquido ascítico,</p><p>mesmo na presença de cirrose, e ensaios da reação em cadeia da polimerase têm sido usados como testes não invasivos para</p><p>peritonite tuberculosa. A atividade da adenosina deaminase no líquido ascítico, em particular, parece ser altamente sensível</p><p>e específica para a peritonite tuberculosa.</p><p>Os exames de imagens como ultrassom ou TC podem sugerir o diagnóstico, mas carecem de sensibilidade e</p><p>especificidade. O ultrassom pode mostrar a presença de material ecogênico no líquido ascítico, visto como filamentos</p><p>móveis finos ou como minúsculas partículas. A TC demonstrará o mesentério espessado e nodular com linfadenopatia</p><p>mesentérica e espessamento omental.</p><p>O diagnóstico é feito por laparoscopia com biópsia direcionada do peritônio. Em mais de 90% dos casos, a laparoscopia</p><p>mostra vários nódulos esbranquiçados (</p><p>peritoneal é semelhante à da carcinomatose peritoneal, sarcoidose e doença</p><p>de Crohn, reiterando, assim, a importância da biópsia. A coleta de material peritoneal percutânea cega é muito menos</p><p>efetiva do que sua retirada direcionada, e a laparotomia com biópsia peritoneal é reservada para aqueles casos nos quais a</p><p>laparoscopia não foi diagnosticada ou não pode ser realizada com segurança. O exame microscópico do líquido ascítico à</p><p>procura de bacilos álcool‑acidorresistentes identifica o microrganismo em menos de 3% dos casos, e os resultados da cultura</p><p>são positivos em menos de 20% dos casos. Além disso, a utilidade diagnóstica das culturas micobacterianas é ainda limitada</p><p>pelo tempo despendido para que as mesmas produzam informação definitiva (até 8 semanas).</p><p>O tratamento da tuberculose peritoneal é feito com substâncias antituberculosas. Os esquemas de tratamento utilizados</p><p>para a tuberculose pulmonar também são eficazes para a doença peritoneal, sendo um esquema eficiente e bastante adotado</p><p>o uso de isoniazida e rifampicina, diariamente, durante 9 meses. A presença de cirrose alcoólica associada pode complicar o</p><p>uso desses agentes por causa de hepatotoxicidade.</p><p>Peritonite associada à diálise peritoneal ambulatorial crônica (DPAC)</p><p>Nos Estados Unidos, cerca de 8% dos pacientes com insuficiência renal crônica são submetidos à diálise peritoneal. A</p><p>peritonite é uma das complicações mais comuns da DPAC, ocorrendo com uma incidência aproximada de um episódio a</p><p>cada 1 a 3 anos. Um estudo recente de todos os pacientes submetidos à diálise peritoneal na Escócia entre 1999 e 2002</p><p>mostrou que um episódio de peritonite ocorreu em cada 19,2 meses de diálise peritoneal. É importante ressaltar que a</p><p>peritonite refratária ou recidivante foi a causa mais comum de falha técnica, respondendo por 43% de todos os casos de</p><p>falha da técnica.37</p><p>Os pacientes apresentaram‑se com dor abdominal, febre e dialisado peritoneal turvo contendo mais de</p><p>100 leucócitos/mm3, com mais de 50% das células sendo neutrófilos. Coloração de Gram detecta microrganismos apenas em</p><p>aproximadamente 10% a 40% dos casos. Cerca de 75% das infecções devem‑se a microrganismos Gram‑positivos,</p><p>com Staphylococcus epidermidis respondendo por 30% a 50% dos casos. S. aureus, bacilos Gram‑negativos e fungos também</p><p>são importantes causas de peritonite associada à diálise.37</p><p>A peritonite associada à DPAC é tratada pela administração intraperitoneal de antibióticos, mais comumente</p><p>cefalosporina de primeira geração. Em geral, 75% das infecções são curadas pela antibioticoterapia orientada pela cultura. A</p><p>taxa de cura para peritonite utilizando antibióticos sem remoção do cateter varia de acordo com o organismo causador; um</p><p>estudo mostrou taxas de 90% com estafilococos coagulase‑negativos em comparação com taxas de 66%, 56% e 0% para o S.</p><p>aureus, bacilos Gram‑negativos e fungos, respectivamente.37 A peritonite recorrente ou persistente exige a retirada do</p><p>cateter de diálise e a retomada da hemodiálise.</p><p>Neoplasias Malignas do Peritônio</p><p>Os tumores primários do peritônio são raros; estes incluem o mesotelioma maligno, o carcinoma peritoneal primário e os</p><p>sarcomas (p. ex., angiossarcoma). A maioria dos tumores que envolvem o peritônio é de metástases transperitoneais</p><p>originárias de carcinomas do trato GI (especialmente o estômago, o cólon e o pâncreas), do trato geniturinário (geralmente,</p><p>ovário) ou, mais raramente, um sítio extra‑abdominal (p. ex., mama). Quando os implantes do câncer metastático cobrem</p><p>difusamente o peritônio visceral e o parietal, as metástases peritoneais são chamadas de carcinomatose.</p><p>Pseudomixoma peritoneal</p><p>O pseudomixoma peritoneal caracteriza ascite mucinosa, originária de uma ruptura de adenocarcinoma ovariano ou</p><p>apendicular. Nessa doença, o peritônio se torna coberto por um tumor secretor de muco que preenche a cavidade peritoneal</p><p>com muco semissólido e grandes massas císticas loculadas. Embora o termo o pseudomixoma peritoneal seja frequentemente</p><p>usado para descrever qualquer condição com acúmulo de mucina intraperitoneal ou ascite mucinosa, aqui enfatizaremos o</p><p>pseudomixoma peritoneal que resulta da ruptura de neoplasias epiteliais do apêndice. A classificação patológica dos</p><p>tumores epiteliais apendiculares pode ser confusa, visto existirem sistemas de classificação diferentes. É mais fácil</p><p>considerá‑los como tumores que se estendem ao longo de um espectro desde cistadenoma mucinoso benigno (também</p><p>referido como adenomucinose peritoneal disseminado) até cistadenocarcinoma maligno, semelhante à sequência adenoma</p><p>carcinoma no câncer colorretal.38 A histologia dos tumores do apêndice é um importante preditor de sobrevida com</p><p>adenomucinose com a melhor taxa de sobrevida (75% em 5 anos) e a carcinomatose mucinosa a pior (14% em 5 anos).39</p><p>O pseudomixoma peritoneal ocorre mais comumente em pacientes com 40 e 50 anos de idade e com igual frequência em</p><p>homens e mulheres. Pacientes geralmente são assintomáticos, no período inicial da doença, e os sintomas sobreveem</p><p>tardiamente no decurso da sua doença. Na apresentação clínica, eles frequentemente descrevem uma deterioração global da</p><p>saúde bem antes que o diagnóstico seja feito. Sintomas de dor abdominal, distensão e queixas inespecíficas são comuns. O</p><p>exame físico pode revelar uma nova hérnia, ascite, distensão do abdome com macicez e, ocasionalmente, uma massa</p><p>abdominal palpável.</p><p>TC de tórax, abdome e pelve podem fornecer informações importantes sobre o diagnóstico e a capacidade de ressecar o</p><p>tumor completamente ou realizar uma citorredução adequada, opção que às vezes é limitada pelo envolvimento do</p><p>intestino delgado e tumor na porta hepatis. Colonoscopia pré‑operatória poderá diferenciar uma neoplasia mucinosa do</p><p>apêndice de uma decorrente do cólon. Muitas vezes, o diagnóstico é feito na laparotomia, quando o cirurgião se depara com</p><p>uma cavidade peritoneal contendo muco semissólido adesivo e grandes massas císticas loculadas. Se o cirurgião não está</p><p>preparado para realizar o procedimento definitivo, a melhor abordagem é estabelecer o diagnóstico pelo procedimento</p><p>menos invasivo possível e aliviar os sintomas de obstrução intestinal, se presente. O paciente pode, então, ser encaminhado</p><p>para um centro com experiência no tratamento dessas entidades.</p><p>O tratamento atual de pacientes com o pseudomixoma peritoneal envolve a ressecção máxima possível do tumor</p><p>(citorredução) e quimioterapia intraperitoneal aquecida (IPI). Tratamento cirúrgico inclui a omentectomia, peritoniectomia</p><p>das áreas acometidas, ressecção de órgãos envolvidos e apendicectomia, se não previamente realizada. Não deve haver</p><p>nódulos tumorais residuais maiores que 2 mm de diâmetro após ressecção para facilitar a penetração da quimioterapia para</p><p>qualquer doença residual. Geralmente, uma hemicolectomia direita é realizada na vigência destes tumores, embora uma</p><p>revisão de 501 pacientes com tumores mucinosos do apêndice tenha sugerido que isso é desnecessário se a margem de</p><p>ressecção na apendicectomia é negativa.40 IPI podem ser realizadas usando a técnica aberta, na qual o abdome é deixado</p><p>aberto para assegurar a distribuição de quimioterapia adequada em toda a cavidade peritoneal, ou uma técnica fechada, na</p><p>qual o abdome é fechado após cânulas de influxo e efluxo serem colocadas. Esta última é utilizada para facilitar a</p><p>manutenção de hipertermia (Fig. 43‑12). Existem muitas variações de administração de quimioterapia e técnica cirúrgica,</p><p>mas uma técnica utilizada foi relatada extensamente por Stewart.41</p><p>FIGURA 4312 Colocação de cateteres peritoneais durante a realização de quimioterapia intraperitoneal</p><p>hipertérmica usando a técnica fechada para administração de quimioterapia.</p><p>Citorredução com IPI está associada a melhor sobrevida para pacientes com o pseudomixoma peritoneal quando</p><p>comparada com controles históricos. Antes da citorredução e IPI, a maioria dos estudos relatou taxas de sobrevida a longo</p><p>prazo de 20% a 30% para pacientes com esta doença passando por uma redução seriada do tumor com quimioterapia</p><p>sistêmica. Gonzalez‑Moreno e Sugarbaker40 relataram taxas de sobrevida em 10 anos de 55% em 501 pacientes submetidos a</p><p>citorredução e IPI. Infelizmente, não é provável existirem ensaios controlados randomizados para essa técnica, dada a baixa</p><p>frequência em que essa doença ocorre, e as taxas de sobrevida melhoradas com o IPI comparado com tratamento histórico</p><p>com cirurgia isoladamente. Além disso, as experiências relatadas são complicadas pelo uso de vários regimes de</p><p>quimioterapia, técnicas cirúrgicas e protocolos de estadiamento pré‑operatório e intraoperatórios.42 Em centros com</p><p>experiência nessa técnica, as taxas de mortalidade de 30 dias são 2% a 3% com 25% a 35% dos pacientes que desenvolvem</p><p>uma complicação. As complicações pós‑operatórias mais comuns são o íleo prolongado e complicações pulmonares,</p><p>embora o sangramento, infecções intra‑abdominais, fístula enterocutânea, pancreatite e supressão da medula óssea também</p><p>sejam relatados.</p><p>Mesotelioma peritoneal maligno</p><p>O tumor peritoneal maligno primário mais comum é o mesotelioma maligno, que resulta da transformação maligna do</p><p>epitélio escamoso simples que reveste a cavidade peritoneal. O mesotelioma peritoneal é raro, com aproximadamente 400</p><p>novos casos por ano, com leve predomínio para o gênero masculino e média de idade na apresentação de aproximadamente</p><p>50 anos.43 Como o mesotelioma da pleura, a maioria dos pacientes com mesotelioma peritoneal tem história de exposição ao</p><p>asbesto.</p><p>A maior parte dos pacientes apresenta perda de peso e dor abdominal. A ascite é comum e muitas vezes intratável. O</p><p>omento pode se tornar difusamente envolvido com o tumor e/ou se apresentar como uma massa epigástrica. A TC mostra</p><p>espessamento mesentérico, disseminação peritoneal, hemorragia intratumoral e ascite. Na laparotomia, o líquido ascítico</p><p>pode variar de um transudato seroso até um líquido viscoso, rico em mucopolissacarídeos. A neoplasia tende a</p><p>comprometer toda a superfície peritoneal, produzindo massas e placas de tumor que são duros e brancos. Em contraste com</p><p>o pseudomixoma peritoneal, a invasão local dos órgãos intra‑abdominais, como fígado, intestino, bexiga e parede</p><p>abdominal pode ocorrer, e envolvimento do intestino e, consequentemente, uma obstrução intestinal maligna. Em alguns</p><p>casos, pode ser difícil diferenciar o mesotelioma peritoneal maligno da carcinomatose peritonial difusa originária de um</p><p>órgão intra‑abdominal, como estômago, pâncreas, cólon ou ovário. A avaliação cuidadosa do padrão de disseminação e o</p><p>exame histológico da biópsia irão, muitas vezes, permitir que essa distinção seja feita. Além disso, o mesotelioma peritoneal</p><p>maligno em geral permanece confinado ao abdome, enquanto os carcinomas intra‑abdominais em estágio avançado muitas</p><p>vezes apresentam metástases pulmonares e/ou extra‑abdominais. A extensão do mesotelioma para uma ou ambas as</p><p>cavidades pleurais é mais provável do que a disseminação hematogênica. Levy.44analisaram as características patológicas e</p><p>radiológicas de malignidades peritoneais.</p><p>A ressecção cirúrgica completa é difícil por causa da extensão da doença. Historicamente, o tratamento cirúrgico consistiu</p><p>em citorredução do tumor e enteroenterostomias para contornar áreas de obstrução intestinal iminente ou real. A</p><p>quimioterapia sistêmica e a radioterapia abdominal têm sido tentadas sem melhora significativa na sobrevida. A</p><p>radioterapia isoladamente, quer usando técnicas de campo aberto, instilação intraperitoneal de agentes radioativos, ou</p><p>irradiação de feixe externo, tem tido sucesso muito limitado e substancial morbidade associada.</p><p>Como no pseudomixoma peritoneal, as abordagens combinadas usando operação e IPI podem oferecer melhoras</p><p>substanciais em comparação com controles históricos. Existem várias séries retrospectivas usando essa técnica, mostrando</p><p>taxas médias de sobrevida de 30 a 60 meses e/ou mesmo taxas de sobrevida de 5 anos de até 50%. À luz desses achados e da</p><p>raridade da doença, foi criado um registro de dados institucionais de oito instituições, incluindo 405 pacientes tratados com</p><p>cirurgia citorredutora e quimioterapia intraperitoneal perioperatória.45 Variados esquemas quimioterápicos (mitomicina</p><p>cisplatina e doxorrubicina eram os mais comumente usados), assim como o momento e a administração da quimioterapia</p><p>foram avaliados. A taxa de morbidade foi de 46% e a de mortalidade foi de 2%. A sobrevida média foi de 53 meses. Taxas de</p><p>sobrevida de 3 e 5 anos foram 60% e 47%, respectivamente, oferecendo uma melhora significativa sobre o que anteriormente</p><p>era considerado uma condição pré‑terminal.</p><p>Mesentério e omento</p><p>Embriologia e Anatomia</p><p>O omento maior e o pequeno omento correspondem a dobras peritoneais complexas que passam pelo estômago ao fígado,</p><p>cólon transverso, baço, ducto biliar, pâncreas e diafragma. Eles se originam da linha média dos mesentérios dorsal e ventral</p><p>do intestino embrionário. Nos estágios mais iniciais do desenvolvimento, o canal alimentar atravessa a futura cavidade</p><p>celômica como um tubo reto suspenso posteriormente por um mesentério dorsal ininterrupto e anteriormente por um</p><p>mesentério ventral na porção cranial da sua extensão. O estômago embrionário sofre uma rotação de 90 graus no seu eixo</p><p>longitudinal, de forma que a pequena curvatura se situa à direita, e a grande curvatura posiciona‑se à esquerda. Grande</p><p>parte do mesentério embrionário ventral é reabsorvida; porém, a porção que se estende da fissura do ligamentum venosum e</p><p>da porta hepatis ao duodeno proximal e à pequena curvatura do estômago (ligamento gastro‑hepático), persiste como o</p><p>omento menor. A borda direita do omento menor é uma extremidade livre que forma a borda anterior da abertura do</p><p>orifício denominado forame de Winslow. Entre as camadas do omento menor e na sua borda direita, estão o colédoco, a veia</p><p>porta e a artéria hepática.</p><p>O meso dorsal embrionário gástrico cresce como uma camada de peritônio que se estende da curvatura maior do</p><p>estômago sobre a superfície anterior do intestino delgado. Após passar inferiormente até quase a pelve, a membrana</p><p>peritoneal dobra‑se sobre si para se dirigir cranialmente para uma linha de fixação no cólon transverso, ligeiramente acima</p><p>daquela do mesocólon transverso. Gordura é depositada nesse “avental” do omento que fornece uma camada isolante de</p><p>proteção das vísceras abdominais.</p><p>Nos estágios iniciais do desenvolvimento, o intestino delgado embrionário se alonga para formar uma alça intestinal,</p><p>orientada anteriormente, que sofre então uma rotação anti‑horária, de modo que o ceco e o futuro cólon ascendente se</p><p>desloquem para a direita da cavidade peritoneal, e o cólon descendente assuma uma posição vertical na parte esquerda da</p><p>cavidade peritoneal. O jejuno e o íleo são sustentados pelo mesentério dorsal coberto por peritônio, tendo no seu interior os</p><p>vasos sanguíneos e os linfáticos. A linha posterior de fixação do mesentério se estende obliquamente da junção</p><p>duodenojejunal, no lado esquerdo da segunda vértebra lombar, em direção à fossa ilíaca direita, para terminar</p><p>anteriormente à articulação sacroilíaca.</p><p>Fisiologia</p><p>O omento e o mesentério intestinal são ricos em linfáticos e vasos sanguíneos. O omento contém áreas de elevada</p><p>concentração de macrófagos, que podem auxiliar na remoção de corpos estranhos e bactérias. Além disso, o omento torna‑</p><p>se densamente aderente a sítios</p><p>intraperitoneais de inflamação, impedindo, muitas vezes, a peritonite difusa nos casos de</p><p>gangrena intestinal ou perfuração, como diverticulite aguda e apendicite aguda.</p><p>Doenças do Omento</p><p>Cistos Omentais</p><p>Os cistos omentais podem ser uni ou multinodulares, contendo líquido seroso, e sua origem acredita‑se estar relacionada</p><p>com a obstrução dos canais linfáticos omentais, congênita ou adquirida. Eles são forrados por um endotélio linfático</p><p>semelhante ao do linfoangioma cístico. Estas lesões são mais comuns em crianças e adultos jovens nos quais os cistos</p><p>pequenos em geral são assintomáticos e descobertos por acaso, enquanto os cistos maiores podem apresentar‑se como</p><p>massa abdominal palpável. Os cistos não complicados em geral são encontrados no abdome médio inferior e são móveis,</p><p>macios e indolores. As complicações são mais comuns em crianças e incluem torção, infecção e ruptura.</p><p>As radiografias simples do abdome podem evidenciar uma lesão de densidade de tecidos moles bem circunscrita na parte</p><p>média do abdome, e exames contrastados do intestino podem mostrar o deslocamento e a compressão extrínseca nas alças</p><p>intestinais adjacentes. Ultrassonografia ou TC mostra uma massa cheia de líquido, complexa, cística com septações internas.</p><p>O diagnóstico diferencial destas lesões inclui cistos e tumores sólidos do mesentério, peritônio e retroperitônio, incluindo</p><p>tumores desmoides. Por último, o diagnóstico é firmado pela excisão do cisto e pelo exame histopatológico da sua parede.</p><p>A excisão local, quer laparoscópica quer aberta, é curativa.</p><p>Torção e Infarto Omental</p><p>A torção do grande omento é definida como a torção axial do omento sobre seu eixo longitudinal. Se a torção for apertada o</p><p>suficiente ou a obstrução venosa tiver duração suficiente, o influxo arterial ficará comprometido, ocasionando infarto e</p><p>necrose. A torção omental é classificada como primária quando não se identifica a condição causadora coexistente ou</p><p>secundária, quando a torção ocorre em associação a uma condição causadora, como hérnia, tumor ou aderência. Torção</p><p>omental primária geralmente envolve o lado direito do omento.</p><p>A torção do omento ocorre duas vezes mais em homens do que em mulheres e é mais frequente em pacientes entre a</p><p>quarta e a quinta décadas da vida. Os pacientes se apresentam com dor abdominal intensa de início agudo, localizada no</p><p>lado direito do abdome em 80% dos pacientes. Sintomas tais como náuseas e vômitos podem estar presentes, mas não são</p><p>achados predominantes. A temperatura do paciente em geral é normal, e a palpação do abdome demonstra</p><p>hipersensibilidade abdominal localizada com defesa, sugerindo peritonite. Uma massa pode ser palpável, caso a porção do</p><p>omento envolvido seja suficientemente grande.</p><p>O diagnóstico diferencial inclui doenças associadas a dor e desconforto abdominal no lado direito, mais frequentemente</p><p>apendicite, colecistite aguda e torção de um cisto ovariano. A TC com frequência mostra uma massa omental com sinais de</p><p>inflamação. Em geral, a apresentação clínica do paciente justifica laparotomia ou laparoscopia, momento em que um</p><p>segmento do omento aparece congestionado e agudamente inflamado. Com frequência existe líquido serossanguinolento na</p><p>cavidade peritoneal. O tratamento consiste em ressecção do omento envolvido e correção de qualquer condição correlata.</p><p>Neoplasias Omentais</p><p>Neoplasia primária do omento é extremamente rara e, em geral, têm origem no tecido mole. O omento é comummente</p><p>invadido por tumor metastático que se disseminou tranperitonial, proveniente de um carcinoma intraperitonial.</p><p>Enxertos e Transposições Omentais</p><p>O suprimento arterial e venoso do omento maior é derivado dos ramos omentais das artérias gastroepiploicas direita e</p><p>esquerda, as quais cursam ao longo da grande curvatura do estômago. A secção da artéria gastroepiploica direita ou</p><p>esquerda e dos vasos retos ao longo da grande curvatura gástrica, com a mobilização do omento, do cólon transverso,</p><p>permite a formação de retalhos vascularizados de pedículo omental. Esse enxerto pode ser utilizado para cobrir feridas no</p><p>tórax e no mediastino, após as ressecções da parede torácica, e para impedir o intestino delgado de penetrar na pelve, após</p><p>a ressecção abdominoperineal (prevenindo, assim, a enterite por radiação durante a radioterapia para carcinoma de reto).</p><p>Por último, a formação de densas aderências entre o omento e o local de perfuração ou inflamação possibilita o seu uso</p><p>como um enxerto tampão para perfurações do duodeno provenientes de úlcera (denominado tampão de Graham, Fig. 43‑</p><p>13).</p><p>FIGURA 4313 Fechamento de uma úlcera duodenal perfurada com um retalho omental (Graham).(De Graham</p><p>RR: The treatment of perforated duodenal ulcers. Surg Gynecol Obstet 64:235–238, 1937.)</p><p>Doenças do Mesentério</p><p>Cistos Mesentéricos</p><p>Os cistos mesentéricos não neoplásicos mais comuns são denominados cistos mesoteliais, com base na ultraestrutura de</p><p>células que forram o cisto. Os cistos contêm linfa ou líquido seroso e podem ocorrer no mesentério do intestino delgado</p><p>(60%) ou cólon (40%). Esses cistos ocorrem com mais frequência em adultos, com média de idade de 45 anos, e são duas</p><p>vezes mais comuns em mulheres do que em homens. Dependendo do tamanho do cisto, os pacientes podem apresentar</p><p>queixas de dor abdominal, febre e vômitos. No exame físico, pode ser palpada uma massa abdominal na linha média. O</p><p>diagnóstico pré‑operatório, geralmente, pode ser feito com ultrassonografia ou TC. A enucleação do cisto na laparotomia é</p><p>curativa e, em geral, pode ser realizada, pois os vasos sanguíneos e a parede intestinal não costumam estar aderidas à</p><p>parede do cisto. A drenagem interna do cisto para a cavidade peritoneal também tem sido empregada com sucesso no</p><p>tratamento de cistos muito volumosos. O tratamento apenas por aspiração apresenta uma taxa de recorrência do cisto muito</p><p>elevada. Naqueles casos em que o cisto não é excisado completamente, o seu conteúdo e a arquitetura interna da parede do</p><p>cisto devem ser cuidadosamente inspecionados e sua parede examinada histologicamente para assegurar uma etiologia não</p><p>neoplásica.</p><p>Linfadenite Mesentérica Aguda</p><p>A linfadenite mesentérica aguda é uma síndrome de dor abdominal aguda no quadrante inferior direito, associada ao</p><p>aumento em volume de linfonodos mesentéricos com apêndice normal. Geralmente, o diagnóstico é feito durante a</p><p>exploração cirúrgica do abdome de um paciente suspeito de ter apendicite aguda, e que apresenta, então, um apêndice</p><p>normal e linfonodos mesentéricos aumentados. Essa síndrome é mais prevalente em crianças e adultos jovens, com igual</p><p>frequência entre os sexos.</p><p>Vários agentes etiológicos têm sido implicados na patogenia da linfadenite mesentérica aguda, incluindo infecções virais,</p><p>bacterianas, parasitárias e fúngicas. Em particular, a Yersinia enterocolitica tem sido associada a essa síndrome em crianças. A</p><p>cultura e o exame histopatológico dos linfonodos aumentados, a coprocultura e a titulação de anticorpos têm sido utilizados</p><p>para identificar os agentes causais, mas não são empregados de forma rotineira na investigação desses pacientes.</p><p>A gama de sintomas associados à linfadenite mesentérica aguda é semelhante à da apendicite aguda e incluem dor</p><p>periumbilical de início recente, que posteriormente se localiza no quadrante inferior direito. O exame físico mostra dor à</p><p>palpação do quadrante inferior direito, com rigidez da parede muscular abdominal e descompressão dolorosa. Podem estar</p><p>presentes também sintomas como náuseas, vômitos e anorexia, mas não são predominantes. Em geral, a temperatura do</p><p>paciente e a contagem de leucócitos são normais ou ligeiramente aumentadas.</p><p>O diagnóstico é feito durante a operação de uma presumida apendicite, e, nesse momento, é encontrado um apêndice</p><p>de</p><p>aparência normal, com linfonodos mesentéricos aumentados. A excisão de um linfonodo hipertrofiado para a realização de</p><p>culturas e a avaliação histológica pode fornecer informações a respeito da etiologia, mas essa conduta não é empregada de</p><p>forma rotineira.</p><p>Mesenterite Esclerosante</p><p>Mesenterite esclerosante é uma doença inflamatória rara, caracterizada histologicamente por fibrose esclerosante, necrose</p><p>gordurosa com macrófagos carregados de lipídios, inflamação crônica com centros germinativos e calcificação focal.</p><p>Precocemente no curso da doença, a mesenterite esclerosante tem um aspecto mixomatoso frouxo que progride para</p><p>inflamação crônica e esclerose densa. Macroscopicamente, essa condição caracteriza‑se por espessamento acentuado do</p><p>mesentério do intestino delgado com áreas irregulares de descoloração sugerindo necrose gordurosa. Também podem</p><p>existir múltiplos nódulos distintos no mesentério, ou a doença pode aparecer como uma única massa emaranhada. O</p><p>processo quase sempre envolve a raiz do mesentério do intestino delgado e com frequência os vasos mesentéricos. Afeta o</p><p>intestino delgado por retração e encurtamento do mesentério sem invasão. Nos casos avançados, a obstrução venosa e</p><p>linfática do mesentério pode estar presente. O mesocólon também pode ser afetado, mas menos frequentemente que o</p><p>mesentério do intestino delgado.44</p><p>Mesenterite esclerosante é duas vezes mais comum em homens do que em mulheres e ocorre geralmente na quinta</p><p>década de vida. A maioria dos pacientes é assintomática, e o diagnóstico é descoberto por acaso na obtenção de imagem</p><p>para uma condição não relacionada. Quando os sintomas estão presentes, dor abdominal ou sintomas de obstrução</p><p>intestinal com náuseas, vômitos e distensão abdominal são mais comuns. Massa abdominal pode ser palpável em mais da</p><p>metade dos pacientes. Os estudos laboratoriais em geral são normais, exceto que a taxa de sedimentação de eritrócito e os</p><p>níveis de proteína‑C reativa podem estar elevados.</p><p>O diagnóstico diferencial de mesenterite esclerosante inclui um grupo heterogêneo de condições que alteram a densidade</p><p>da gordura mesentérica, incluindo causas inflamatórias e neoplásicas. A diferenciação da carcinomatose peritoneal, tumor</p><p>carcinoide e sarcomas mesentéricos e retroperitoneais é particularmente importante. Características tomográficas da</p><p>mesenterite esclerosante são bem descritas46,47 e incluem o seguinte:</p><p>• Uma massa gordurosa surgindo da base do mesentério, que tem margens bem‑definidas separando‑a do</p><p>mesentério normal, uma característica descrita como pseudocápsula tumoral.</p><p>• A presença de tecido adiposo normal circundando os vasos mesentéricos, denominado sinal do anel de gordura.</p><p>• A presença de vasos mesentéricos normais cursando pela massa gordurosa sem evidência de envolvimento</p><p>vascular ou desvio.</p><p>• Uma massa intra‑abdominal que desloca alças intestinais adjacentes sem as invadir.</p><p>A laparotomia ou laparoscopia com biópsia do mesentério envolvido ainda é necessária para o diagnóstico definitivo.</p><p>A maioria dos pacientes com paniculite mesentérica apresenta cura espontânea de seus sintomas. Se os pacientes não</p><p>melhoram, corticosteroides e outros agentes imunossupressores e anti‑inflamatórios podem ser utilizados com sucesso na</p><p>melhora dos sintomas e achados radiológicos. Tratamento cirúrgico é indicado apenas para pacientes nos quais há uma</p><p>incerteza sobre o diagnóstico e para tratamento da obstrução intestinal.</p><p>Hérnias Intraabdominais (Internas)</p><p>Hérnias Internas Causadas por Defeitos no Desenvolvimento</p><p>Há três mecanismos gerais pelos quais as anormalidades no desenvolvimento resultam na formação de hérnias internas: (1)</p><p>fixação retroperitoneal anormal do mesentério, resultando em posição anômala do intestino (p. ex., hérnia mesocólica ou</p><p>paraduodenal); (2) forame ou fossas internas muito largas (p. ex., forame de Winslow e hérnias supravesicais); e (3)</p><p>superfícies mesentéricas incompletas com a presença de aberturas ou orifícios anormais por intermédio dos quais o</p><p>intestino pode herniar (p. ex., hérnias mesentéricas).</p><p>As características anatômicas e radiológicas de hérnias internas adquiridas e congênitas foram examinadas por Martin.48</p><p>Hérnias mesocólicas (paraduodenal)</p><p>As hérnias mesocólicas são hérnias congênitas incomuns nas quais o intestino delgado hérnia para traz do mesocólon. Elas</p><p>resultam de uma rotação anormal do intestino médio e são classificadas em esquerdas ou direitas. Uma hérnia mesocólica</p><p>direita ocorre quando o ramo pré‑arterial das alças do intestino médio falha na rotação sobre a artéria mesentérica superior.</p><p>Isso resulta em um posicionamento da maior parte do intestino delgado à direita da artéria mesentérica superior. A rotação</p><p>anti‑horário normal do ceco e do cólon proximal para o lado direito do abdome e a fixação ao retroperitônio posterolateral</p><p>faz com que o intestino delgado se torne aprisionado atrás do mesentério do lado direito do cólon. Os vasos ileocólico,</p><p>cólico direito e cólico médio se encontram na parede anterior do saco, e a artéria mesentérica superior cursa pela borda</p><p>medial do anel da hérnia (Fig. 43‑14A).</p><p>FIGURA 4314 A, Hérnia mesocólica direita (paraduodenal). Observe que a parede anterior de uma hérnia</p><p>mesocólica direita é o mesocólon ascendente. O orifício herniário se encontra à direita da linha média; a artéria</p><p>mesentérica superior e a artéria ileocólica cursam ao longo da borda anterior do colo da hérnia. B, Hérnia</p><p>mesocólica esquerda (paraduodenal). O orifício da hérnia encontrase à esquerda da linha média, e o intestino</p><p>herniado se encontra atrás da parede anterior do mesocólon descendente. C, Uma hérnia mesocólica direita é</p><p>reparada pela secção das aderências peritoneais laterais do cólon ascendente, refletindoo para o lado esquerdo</p><p>do abdome. O intestino delgado e o grosso assumem então uma posição simulando aquela da não rotação, tanto</p><p>dos segmentos préarterial como pósarterial do intestino médio. A abertura do anel herniário pode lesionar os</p><p>vasos mesentéricos superiores e comprometer a liberação das alças intestinais herniadas. D, Uma hérnia</p><p>mesocólica esquerda é reduzida pela incisão do saco herniário sobre um plano avascular imediatamente à</p><p>direita dos vasos mesentéricos inferiores. (A e B, de Brigham RA, d’Avis JC: Paraduodenal hernia. In Nyhus LM, Condon</p><p>RE, editors: Hernia, ed 3, Philadelphia, 1989, JB Lippincott, pp 484–485. C, D, de Brigham R, Fallon WF, Saunders JR et al:</p><p>Paraduodenal hernia: Diagnosis and surgical management. Surg 96:498–502, 1984.)</p><p>Especula‑se que as hérnias mesocólicas esquerdas possam resultar da projeção do intestino ainda intrauterino entre a veia</p><p>mesentérica inferior e as aderências parietais posteriores do mesocólon descendente ao retroperitônio. A artéria e a veia</p><p>mesentérica inferior são componentes integrantes do saco herniário (Fig. 43‑14B). Cerca de 75% das hérnias mesocólicas</p><p>ocorrem do lado esquerdo.</p><p>Pacientes com hérnia paraduodenais geralmente apresentam sintomas de obstrução aguda ou crônica do intestino</p><p>delgado. As radiografias contrastadas com bário demonstram o deslocamento do intestino delgado para a esquerda ou para</p><p>a direita do abdome. A TC com administração intravenosa de material de contraste pode mostrar o deslocamento dos vasos</p><p>mesentéricos e evidência de obstrução intestinal, se presente.</p><p>O tratamento cirúrgico dos pacientes com hérnias mesocólicas direitas envolve a incisão das reflexões peritoneais laterais</p><p>ao longo do cólon direito com a reflexão do cólon direito e do ceco para a esquerda. Todo o intestino então assume uma</p><p>posição normal de não rotação de ambos os segmentos pré‑arterial e pós‑arterial do intestino médio. A abertura do colo da</p><p>hérnia pode lesionar os vasos mesentéricos e não permitir a liberação do intestino herniado (Fig. 43‑14C).</p><p>O tratamento cirúrgico</p><p>dos pacientes com hérnias mesocólicas esquerdas consiste na incisão das fixações e aderências do</p><p>peritônio ao longo do lado direito da veia mesentérica inferior, com redução do intestino delgado herniado abaixo da veia</p><p>mesentérica inferior. A veia é então liberada para retornar à sua posição normal, no lado esquerdo na base do mesentério do</p><p>intestino delgado. O orifício da hérnia pode ser fechado por sutura do peritônio adjacente à veia, ao retroperitônio (Fig. 43‑</p><p>14D).</p><p>Hérnias mesentéricas</p><p>As hérnias mesentéricas ocorrem quando o intestino se projeta por um orifício anormal no mesentério do intestino delgado</p><p>ou do cólon. A localização mais comum para essas hérnias é próxima à junção ileocólica, embora defeitos no mesocólon do</p><p>sigmoide também tenham sido descritos. Os pacientes apresentam‑se com obstrução intestinal resultante da compressão</p><p>das alças intestinais no colo da hérnia ou por torção do segmento herniado. O tratamento envolve a redução da hérnia e</p><p>fechamento do defeito mesentérico.</p><p>Hérnias Internas Adquiridas</p><p>As hérnias internas adquiridas resultam da formação de falhas no mesentério após procedimentos cirúrgicos ou trauma.</p><p>Esses defeitos resultam, mais comumente, do fechamento inadequado (ou deiscência) das aberturas mesentéricas realizado</p><p>durante gastrojejunostomia, colostomia, ileostomia ou ressecção do intestino. A formação de pequenos espaços possibilita a</p><p>herniação do intestino delgado mediante uma falha mesentérica, com o desenvolvimento de obstrução intestinal.</p><p>Dependendo do tipo de cirurgia realizada, existe variação no tipo de fechamento de rotina do defeito mesentérico. Por</p><p>exemplo, a herniação após colectomia laparoscópica é pouco comum (cerca de 1%), pelo que o defeito normalmente não é</p><p>fechado. No entanto, as taxas de hérnia após uma derivação em Y de Roux laparoscópica (i. e., hérnia de Peterson) são tão</p><p>elevadas quanto 9%, portanto o defeito é geralmente fechado.49 O tratamento destes pacientes é a redução cirúrgica da</p><p>hérnia e o fechamento do defeito peritoneal.</p><p>Tumores do Mesentério</p><p>Semelhante ao que ocorre com o peritônio e o omento, a neoplasia mais comum envolvendo o mesentério é a doença</p><p>metastática proveniente de adenocarcinoma intra‑abdominal. Esse quadro pode resultar da invasão direta do tumor</p><p>primário (ou suas metástases linfáticas) do mesentério ou pela disseminação transperitoneal do tumor para o mesentério. A</p><p>distorção e a fixação do mesentério pelo próprio tumor ou pela reação desmoplástica resultante, como nos tumores</p><p>carcinoides do trato gastrointestinal, podem causar obstrução intestinal. O tumor maligno primário mais comum do</p><p>mesentério é o tumor desmoide.</p><p>Tumores Desmoide Intraabdominal e Mesentérico</p><p>Os desmoides mesentéricos respondem por menos de 10% dos tumores desmoides esporádicos, embora ocorram em 10% a</p><p>15% dos pacientes com PAF. Neste grupo de pacientes, 70% dos tumores desmoides são intra‑abdominais e 50% a 75%</p><p>destes envolvem o mesentério.2,3 A associação entre o tumor desmoide e PAF é particularmente elevada em um subgrupo</p><p>de pacientes com síndrome de Gardner. Os pacientes com PAF e com histórico familiar de tumores desmoides têm 25% de</p><p>possibilidades de desenvolverem um tumor desmoide. Vários estudos mostraram que a cirurgia intra‑abdominal é um fator</p><p>de risco significativo (cerca de três vezes maior) para o desenvolvimento de desmoides.50 Levy.46reviram os achados</p><p>patológicos e radiológicos destes tumores incomuns.</p><p>Desmoides intra‑abdominais são mais letais do que aqueles que ocorrem em outros locais anatômicos pela possibilidade</p><p>de obstrução intestinal ou isquemia. A ressecção é menos frequentemente possível, envolve maior risco para as estruturas</p><p>críticas e pode estar associada a crescimento mais agressivo e progressão nesses tumores. Tumores desmoides intra‑</p><p>abdominais também são mais frequentemente múltiplos do que aqueles em outros locais anatômicos. Ressecção de</p><p>desmoide mesentérico pode requerer sacrifício de segmentos significativos do intestino, deixando o paciente com uma</p><p>superfície de absorção comprometida para manter a nutrição adequada. Finalmente, envolvimento ureteral do tumor pode</p><p>implicar a necessidade de ressecção com reconstrução.</p><p>Embora os tumores desmoides mesentéricos tenham tendência a ser agressivos, há uma variabilidade considerável na sua</p><p>taxa de crescimento durante o curso da doença. De fato, a biologia do desmoide intra‑abdominal pode ser caracterizada</p><p>pelo rápido crescimento inicial seguido por estabilização ou mesmo regressão. O desmoide mesentérico, por sua relação</p><p>com estruturas vitais e sua capacidade de infiltrar órgãos adjacentes, pode, contudo, causar complicações significativas</p><p>locais que requerem tratamento cirúrgico, incluindo obstrução intestinal, isquemia e perfuração, hidronefrose e até mesmo</p><p>ruptura de aorta, o que requer atitutes operatórias. Apesar dessas complicações, a taxa de sobrevida global em 10 anos para</p><p>pacientes com tumor desmoide intra‑abdominal é de 60% a 70%.51</p><p>O estabelecimento da taxa de crescimento pode ser útil para determinar o tratamento ideal de desmoide intra‑abdominal.</p><p>A American Society of Clinical Oncology e a Society of Surgical Oncologists têm revisto o papel da redução de risco de</p><p>cirurgia nas síndromes de câncer hereditário comum.52 Estas recomendações, em adição aos parâmetros da Standards Task</p><p>Force of the American Society of Colon and Rectal Surgeons, sugerem que a cirurgia deve ser reservada para tumores</p><p>pequenos, com uma margem bem‑definida e claramente ressecável.53 As taxas de recorrência de desmoides intra‑</p><p>abdominais são maiores do que para outros locais e variam de 57% a 86%, embora a cirurgia possa ser curativa em</p><p>pacientes selecionados.51 Transplante do intestino delgado tem sido descrito para lesões irressecáveis.</p><p>Dada a alta probabilidade de recorrência e sobrevida prolongada, mesmo no contexto de doença avançada, tem sido</p><p>proposto um ensaio de espera, juntamente com agentes minimamente tóxicos, como sulindac e terapia antiestrógenos, que</p><p>pode ser a melhor estratégia, particularmente em pacientes com sintomas mínimos. Nesta era nascente de terapia biológica</p><p>de alvos específicos, foi relatada resposta clínica ao imatinibe pelos pacientes com tumor desmoide intensamente tratados.</p><p>O mesilato de imatinibe, criado especificamente para inibir a tirosina quinase de Bcr‑Abl convertida em essencial pela</p><p>translocação do cromossomo Philadelphia na leucemia mieloide crônica (LMC), também inibe o receptor de tirosina quinase</p><p>do fator de crescimento derivado de plaqueta (PDGF) e c‑kit. A observação de que pacientes com tumores desmoides têm</p><p>resposta parcial ao tumor e de que a evolução da doença cessa quando estão em tratamento com imatinibe oral oferece uma</p><p>alternativa à ressecção cirúrgica dos tumores desmoides com origem no mesentério.17</p><p>Retroperitônio</p><p>Anatomia</p><p>O espaço retroperitoneal se localiza entre o peritônio e a estrutura parietal posterior adjacente da cavidade abdominal e se</p><p>estende do diafragma ao assoalho pélvico. Esse espaço contém duas fossas contínuas: a lombar e a ilíaca. A fossa lombar</p><p>estende‑se da 12.a vértebra torácica e arco lombocostal lateral superiormente, para a base do sacro, crista ilíaca e ligamento</p><p>iliolombar inferiormente. O assoalho desse espaço é formado pela fáscia que cobre o músculo quadrado lombar e o músculo</p><p>psoas maior. Esse espaço contém quantidades variáveis de tecido adiposo areolar e glândulas adrenais, rins, cólons</p><p>ascendentes e descendentes e duodeno. Esse espaço contém ureter, por vasos renais e vasos gonadais, a veia cava inferior e</p><p>a aorta. A fossa ilíaca é contígua superiormente com a fossa lombar, acima, lateral e anteriormente com os espaços pré‑</p><p>peritoneais, da parede abdominal, e com a pelve,</p><p>inferiormente. O músculo ilíaco e sua fáscia fazem parte do assoalho da</p><p>fossa ilíaca, que contém os vasos ilíacos, ureter, nervo genitofemoral, vasos gonadais e linfonodos ilíacos.</p><p>Abordagens Cirúrgicas</p><p>A aorta, a veia cava, os vasos ilíacos, os rins e as glândulas adrenais podem ser abordados cirurgicamente pelo espaço</p><p>retroperitoneal. Procedimentos cirúrgicos específicos realizados através do retroperitônio incluem operações, como a</p><p>adrenalectomia e nefrectomia e aneurismorrafia aórtica e transplante renal. As vantagens dessa abordagem sobre um acesso</p><p>transabdominal são as seguintes: menor incidência de íleo pós‑operatório, facilitando uma realimentação mais rápida e a</p><p>alta hospitalar mais precoce; ausência de aderências intra‑abdominais, reduzindo, assim, a chance de obstruções</p><p>subsequentes de intestino delgado; menor perda de fluidos por evaporação intraoperatória com perdas menos drásticas do</p><p>líquido intravascular; e menor incidência de complicações respiratórias, como atelectasia e pneumonia</p><p>Desordens Retroperitoneais</p><p>Abscessos Retroperitoneais</p><p>Os abscessos retroperitoneais podem ser classificados como primários, caso a infecção resulte da disseminação</p><p>hematogênica, ou secundários, caso estejam relacionados com algum quadro infeccioso em um órgão adjacente. As</p><p>condições associadas com o desenvolvimento de abscessos retroperitoneais são mostradas na Tabela 43‑2; a relação</p><p>anatômica dos abscessos retroperitoneais com estruturas vizinhas é mostrada na Figura 43‑15. A maioria dos abscessos</p><p>retroperitoneais tem suas origens em processos inflamatórios nos rins e trato gastrointestinal. As causas renais incluem</p><p>infecções relacionadas com a litíase renal ou procedimentos cirúrgicos urológicos prévios. As causas gastrointestinais</p><p>incluem apendicite, diverticulite, pancreatite e doença de Crohn. Em uma determinada série de um centro urbano, a</p><p>tuberculose vertebral destacava‑se como uma causa comum de abscesso retroperitoneal, sendo o Mycobacterium</p><p>tuberculosis o segundo agente bacteriano isolado mais frequente, após a E. coli.54</p><p>Tabela 432</p><p>Causa e a Frequência Relativa dos Abscessos Retroperitoneais*</p><p>CAUSA FREQUÊNCIA (%)</p><p>Doenças renais 47</p><p>Doenças gastrointestinais, incluindo diverticulite, apendicite e doença de Crohn 16</p><p>Disseminação hematogênica a partir de infecções remotas 11</p><p>Abscessos que complicam procedimentos cirúrgicos 8</p><p>Infecções ósseas, incluindo tuberculose da coluna 7</p><p>Trauma 4,5</p><p>Neoplasias malignas 4</p><p>Causas diversas 3</p><p>* Os dados foram de três revisões retrospectivas5557 de 134 pacientes tratados entre 1971 e 2001.</p><p>FIGURA 4315 Relações anatômicas dos abscessos retroperitoneais com estruturas vizinhas. Um abscesso do</p><p>psoas (esquerda) e abscessos perinéfricos são mostrados (direita). (De McVay C: Anson and McVay’s surgical anatomy,</p><p>ed 6, Philadelphia, 1984, WB Saunders, p 735.)</p><p>A bacteriologia dos abscessos retroperitoneais está relacionada com a etiologia. As infecções de origem renal são mais</p><p>comumente monomicrobianas e envolvem bastonetes Gram‑negativos, como Proteus mirabilis e E. coli. Os abscessos</p><p>retroperitoneais associados a doenças do trato gastrointestinal envolvem E. coli, cepas de Enterobacter, enterococos, bem</p><p>como anaeróbicos como Bacteroides. Estas infecções são multimicrobianas e envolvem bacilos Gram‑negativos, enterococos e</p><p>espécies anaeróbicas. As infecções originadas por disseminação hematogênica são mais comumente monomicrobianas e</p><p>relacionadas com os estafilococos. A tuberculose vertebral é uma causa importante de abscessos retroperitoneais em</p><p>pacientes imunocomprometidos e em emigrantes de países subdesenvolvidos.</p><p>Os sintomas mais comuns de abscessos retroperitoneais incluem dores abdominais ou no flanco (60% a 75%), febre e</p><p>calafrios (30% a 90%), mal‑estar (10% a 22%) e perda de peso (12%). Pacientes com abscesso do psoas podem ter dor referida</p><p>no quadril, na região inguinal ou no joelho. Os sintomas geralmente estão presentes por mais de uma semana. Os pacientes</p><p>com abscesso retroperitoneal frequentemente apresentam doenças crônicas concomitantes, como litíase renal, diabetes</p><p>melito, HIV ou câncer. A TC mostra massa de baixa densidade dentro do retroperitônio, com inflamação adjacente. A</p><p>presença de gás pode ser observada em cerca de um terço dessas lesões.54 A TC fornece importantes informações a respeito</p><p>da exata localização do abscesso, bem como a sua relação com órgãos adjacentes e, assim, as prováveis fontes de infecção.</p><p>O tratamento dos abscessos retroperitoneais inclui o uso correto de antibióticos e drenagem apropriada. Muitos relatos</p><p>mostraram a eficácia da drenagem guiada por TC no manejo desse aspecto do tratamento. A drenagem cirúrgica mediante a</p><p>abordagem retroperitoneal é indicada para lesões não suscetíveis a acesso percutâneo ou na vigência de falha. A taxa de</p><p>mortalidade para os pacientes com abscesso retroperitoneal está relacionada, pelo menos em parte, com a presença de</p><p>comorbidades importantes.</p><p>Hematomas Retroperitoneais</p><p>Os hematomas retroperitoneais ocorrem mais frequentemente após lesões contusas ou penetrantes, na vigência de um</p><p>quadro de aneurisma de aorta abdominal ou aneurismas de artérias viscerais, ou após terapia anticoagulante ou</p><p>fibrinolítica aguda ou crônica. O diagnóstico e o tratamento dos hematomas retroperitoneais que ocorrem após trauma ou</p><p>ruptura de aneurisma são considerados detalhadamente nos Capítulos 16, 61 e 63. Hemorragia do retroperitônio também</p><p>pode resultar de terapia anticoagulante para fibrilação atrial e/ou trombose venosa profunda ou cateterização arterial</p><p>durante o cateterismo cardíaco e procedimentos endovasculares. Os hematomas retroperitoneais também foram descritos</p><p>em pacientes submetidos a terapia fibrinolítica para trombose arterial periférica ou coronariana e em pacientes com</p><p>discrasias, como a hemofilia.</p><p>Os pacientes se apresentam com dor abdominal ou dor no flanco que pode ser irradiada para a região inguinal, os</p><p>grandes lábios ou a bolsa escrotal. As manifestações clínicas de hemorragia aguda podem estar presentes dependendo do</p><p>volume de sangue perdido e da velocidade com que o paciente sangrou. Pode estar presente uma massa abdominal</p><p>palpável, bem como evidência física de íleo. Cerca 20% a 30% dos pacientes irão desenvolver uma neuropatia femoral.55O</p><p>hemograma completo pode fornecer evidências de deficiência subaguda ou crônica perda de sangue e/ou de plaquetas. Os</p><p>tempos de protrombina e de tromboplastina parcial podem evidenciar uma coagulopatia. A hematúria microscópica é um</p><p>achado comum no exame de urina. A TC estabelece o diagnóstico ao mostrar uma massa de alta densidade no</p><p>retroperitônio, com cordões adjacentes nos planos teciduais retroperitoneais. Esses achados devem ser prontamente</p><p>distinguidos das massas de baixas densidades, características dos abscessos retroperitoneais.</p><p>Os pacientes que desenvolveram hematomas retroperitoneais, como resultado de anticoagulação, são mais bem tratados</p><p>com restauração do volume da circulação sanguínea e correção da coagulopatia de base. Em raras circunstâncias, a</p><p>arteriografia com embolização de uma artéria sangrante ou a exploração cirúrgica é necessária para controlar o</p><p>sangramento.</p><p>Fibrose Retroperitoneal</p><p>Fibrose retroperitoneal é caracterizada por inflamação crônica e fibrose em torno da aorta abdominal e artérias ilíacas, que</p><p>se estende lateralmente para envolver estruturas adjacentes, especialmente os ureteres. Setenta por cento dos casos são</p><p>idiopáticas (doença de Ormond), enquanto 30% são associadas a várias substâncias (mais frequentemente, os alcaloides do</p><p>ergot ou agonistas dopaminérgicos), infecções,</p><p>trauma, hemorragia retroperitoneal ou operações retroperitoneais,</p><p>radioterapia e/ou tumores primários ou metastáticos. Muitos casos idiopáticos estão associados com aneurismas</p><p>inflamatórios da aorta abdominal; assim, a fibrose retroperitoneal idiopática pode estar relacionada com aneurismas</p><p>inflamatórios da aorta abdominal e fibrose retroperitoneal perianeurismal em consequência de periaortite crônica.56 A</p><p>fibrose é geralmente confinada aos espaços central e paravertebrais situada entre as artérias renais e o sacro e tende a</p><p>envolver a aorta, a veia cava inferior e os ureteres. O processo geralmente se inicia na bifurcação da aorta e apresenta</p><p>progressão ascendente. Em 15% dos casos, o processo fibrótico se estende além do retroperitônio para envolver os espaços</p><p>peripancreático e periduodenal, pelve e mediastino.</p><p>Há consideráveis evidências que sugerem que a fibrose retroperitoneal idiopática é consequência de uma doença</p><p>autoimune sistêmica. Um estudo de casos‑controle de 35 pacientes descobriu que a doença está associada a HLA‑DRB1*03,</p><p>um alelo ligado a várias doenças autoimunes como diabetes melito tipo 1, miastenia grave e lúpus eritematoso</p><p>sistêmico.57 Em alguns pacientes, a doença irá se desenvolver no contexto de um distúrbio autoimune sistêmico bem</p><p>definido (p. ex., lúpus eritematoso sistêmico) ou nas chamadas doenças autoimunes órgão‑específicas (p. ex., tireoidite de</p><p>Hashimoto, colangite esclerosante). Também existem similaridades histológicas entre fibrose retroperitoneal idiopática e</p><p>outras condições inflamatórias sistêmicas, como vasculites de grandes vasos.56 Finalmente, sintomas sistêmicos ou</p><p>constitucionais estão frequentemente presentes, como fadiga, febre baixa, perda de peso e mialgias.</p><p>Homens são afetados duas a três vezes mais frequentemente do que as mulheres. A média idade de apresentação é de 50</p><p>a 60 anos, embora esta condição tenha também sido relatada em crianças e idosos. Os pacientes podem apresentar sintomas</p><p>de dor lateral e dor nas costas, dor abdominal, bem como edema de membros inferiores. Edema de bolsa escrotal é comum,</p><p>assim como a ocorrência de varicocele e/ou hidrocele. Na maioria dos pacientes, os sintomas localizados precedem ou</p><p>coexistem com sintomas sistêmicos ou constitucionais (ver anteriormente). Testes laboratoriais podem acusar azotemia e</p><p>80% a 100% dos pacientes mostrarão elevada concentração de reagentes de fase aguda (p. ex., velocidade de</p><p>hemossedimentação, proteína‑C reativa). A natureza inespecífica das características clínicas dessa doença contribui para</p><p>retardar consideravelmente o diagnóstico a partir do início dos sintomas. Assim, o envolvimento ureteral está presente em</p><p>80% a 100% dos casos.56</p><p>A avaliação de pacientes com suspeita de fibrose retroperitoneal começa frequentemente com uma TC. Sem a</p><p>administração endovenosa de contraste, a TC demonstrará uma placa de fibrose homogênea em torno da aorta abdominal</p><p>inferior e artérias ilíacas, o que é geralmente isodenso comparado com o músculo circundante. A RM da fibrose</p><p>retroperitoneal benigna inicial pode mostrar áreas com sinal de alta intensidade nas imagens ponderadas em T2, como</p><p>consequência da profusão de líquido e da hipercelularidade associada ao processo inflamatório agudo. Nos estágios</p><p>maduros ou quiescentes da fibrose benigna do retroperitônio, os sinais de baixa intensidade nas imagens ponderadas em T1</p><p>e T2 são semelhantes aos do músculo psoas.</p><p>Os principais objetivos do tratamento dos pacientes com fibrose retroperitoneal idiopática são parar a progressão da</p><p>fibrose e a inflamação retroperitoneal, prevenir ou aliviar a obstrução ureteral, inibir a resposta inflamatória sistêmica e</p><p>melhorar as manifestações constitucionais da doença. A principal linha de tratamento tem sido a administração de</p><p>corticosteroides, que, além de suprimirem a síntese de citocinas pró‑inflamatórias, também inibem a maturação e a síntese</p><p>de colágeno. Isso geralmente irá resultar em uma pronta melhora nos sintomas, redução no tamanho da massa</p><p>retroperitoneal e alívio da obstrução ureteral. Infelizmente, a dose ideal e a duração do tratamento ainda não foram bem</p><p>estabelecidas. Os imunossupressores como micofenolato de mofetila, ciclofosfamida, azatioprina, metotrexato, ciclosporina</p><p>e tamoxifeno também têm sido usados para tratar pacientes com fibrose retroperitoneal idiopática, particularmente</p><p>pacientes cuja doença não responde aos esteroides. O tratamento cirúrgico da fibrose geralmente é realizado para aliviar a</p><p>obstrução ureteral por ureterólise aberta, com transposição intraperitoneal e o enluvamento dos ureteres com omento. Na</p><p>maioria dos casos, quando os achados clínicos e as imagens sugerem o diagnóstico de fibrose retroperitoneal, a colocação</p><p>temporária de próteses ureterais, seguida de terapia médica é o curso de ação recomendado. Ureterólise cirúrgica seria</p><p>reservada apenas para pacientes com doença refratária.</p><p>Quando a fibrose retroperitoneal está associada a aneurisma da aorta abdominal, o reparo do aneurisma é justificado</p><p>quando o diâmetro aórtico excede 4,5 a 5 cm. O efeito da correção de aneurisma com fibrose periaórtica não é claro, pois</p><p>alguns relatos indicam resolução e outros a persistência e/ou mesmo a progressão do processo inflamatório.</p><p>Tumores Retroperitoneais</p><p>Os tumores do retroperitônio podem resultar de:</p><p>• Crescimento extracapsular de uma neoplasia primária de um órgão retroperitoneal, como rim, adrenal, cólon ou</p><p>pâncreas</p><p>• Desenvolvimento de uma neoplasia primária de células germinativas oriundas de células embrionárias</p><p>quiescentes</p><p>• Desenvolvimento de um tumor maligno primário do sistema linfático retroperitoneal (p. ex., linfoma)</p><p>• Metástases de um tumor maligno primário remoto em um linfonodo retroperitoneal (p. ex., câncer testicular)</p><p>• Desenvolvimento de um tumor maligno do tecido mole do retroperitônio (p. ex., sarcomas e tumores desmoides)</p><p>O câncer primário mais comum do retroperitônio é o sarcoma.</p><p>Sarcoma retroperitoneal</p><p>Aproximadamente 12.000 sarcomas de tecidos moles foram diagnosticados nos Estados Unidos em 2014, dos quais 15%</p><p>eram sarcomas retroperitoneais.58 Os subtipos histológicos mais comuns são lipossarcoma e leiomiossarcoma. A irradiação</p><p>é um fator de risco conhecido para o desenvolvimento de sarcomas, e estes tendem a recorrer cerca de 10 anos após a</p><p>exposição. Pacientes com doença de von Recklinghausen (neurofibromatose tipo 1) podem desenvolver transformação</p><p>maligna dos neurofibromas em tumores malignos da bainha do nervo periférico; pacientes com síndrome de Li‑Fraumeni e</p><p>retinoblastoma hereditário também têm uma incidência aumentada de sarcoma.</p><p>A maioria dos pacientes com sarcoma retroperitoneal apresenta‑se com massa abdominal assintomática, frequentemente</p><p>após o tumor primário ter alcançado um tamanho considerável. A dor abdominal está presente em metade dos pacientes e</p><p>sintomas menos comuns incluem hemorragia gastrointestinal, plenitude pós‑prandial, náuseas, vômitos, perda de peso e</p><p>edema de membros inferiores. Os sintomas relacionados com a compressão nervosa pelo tumor, como paresia e parestesia</p><p>de membros inferiores, também têm sido relacionados com sarcoma retroperitoneal.</p><p>TC e RM fornecem informações importantes a respeito do tamanho e localização precisa do tumor primário e sua relação</p><p>com as estruturas vasculares principais (Fig. 43‑16). Estes estudos também irão documentar a presença ou ausência de</p><p>doença metastática no pulmão ou fígado. Geralmente, essas modalidades de imagem também irão fornecer indícios</p><p>importantes, evitando, assim, a necessidade de biópsia guiada por imagem, na maioria dos casos.</p><p>FIGURA</p><p>4316 A, Fotografia intraoperatória de um grande sarcoma retroperitoneal. B, TC do mesmo paciente</p><p>demonstrando o deslocamento da aorta, veia cava inferior e do intestino para a direita do abdome.</p><p>Vários achados ajudam a distinguir os sarcomas retroperitoneais de outros tumores retroperitoneais. Linfoma,</p><p>especialmente com adenopatia retroperitoneal volumosa, pode aparecer como uma massa que se origina no retroperitônio.</p><p>A presença de sintomas essenciais ou primordiais, incluindo febre, sudorese noturna e perda de peso, pode sugerir o</p><p>diagnóstico de linfoma. Uma pesquisa cuidadosa para outras evidências de linfadenopatia é justificada nesses pacientes. A</p><p>disseminação do câncer testicular para os linfonodos retroperitoneais pode também se apresentar como uma volumosa</p><p>massa retroperitoneal. Portanto, a investigação de pacientes do sexo masculino deve incluir um exame testicular e testes</p><p>sorológicos para α‑fetoproteína e gonadotrofina coriônica humana. Finalmente, a extensão local dos tumores originados na</p><p>glândula adrenal ou pâncreas também pode ser considerada no diagnóstico diferencial de pacientes com tumores</p><p>retroperitoneais volumosos.</p><p>O estadiamento prognóstico do sarcoma é difícil porque existem vários tipos histológicos de sarcomas, com locais e graus</p><p>variáveis. A edição mais recente do sistema de estadiamento do câncer do American Joint Commi瓽ee é interessante porque</p><p>inclui grau de invasão e profundidade para a fáscia além dos critérios de estadiamento‑padrão, como tamanho do tumor,</p><p>comprometimento linfonodal e metástases a distância.59 A maioria dos sarcomas retroperitoneais é volumosa e profunda na</p><p>fáscia, então o grau é fator determinante do estágio na doença não metastática. A doença linfonodal previamente</p><p>classificada como estágio IV atualmente é categorizada para o estágio III.</p><p>O objetivo no tratamento do sarcoma é a ressecção em bloco do tumor e de qualquer órgão adjacente que tenha sido</p><p>comprometido. Uma vez que os sarcomas retroperitoneais são tumores raros, com vários subtipos histológicos diferentes</p><p>que podem influenciar o tratamento cirúrgico, uma abordagem consensual de um grupo de peritos internacional foi</p><p>concebida recentemente para auxiliar na estratégia de tratamento.60 Recomendações desta diretrizes de consenso dirigem‑se</p><p>à avaliação pré‑operatória e biópsia, abordagem cirúrgica, tratamento adjuvante e neoadjuvante e seguimento e podem</p><p>servir como um recurso em conjunto com as diretrizes‑padrão do National Comprehensive Cancer Network. Metástases</p><p>para linfonodos provenientes dos sarcomas são raras (</p><p>é o local</p><p>onde ocorrem as hérnias inguinais diretas e é limitado inferiormente pelo ligamento inguinal, medialmente pela margem</p><p>lateral da bainha dos retos e lateralmente pelos vasos epigástricos inferiores. O assoalho desse triângulo é formado</p><p>pela fascia transversalis.</p><p>FIGURA 434 A, Vista anterolateral da fáscia do músculo transverso abdominal e do músculo propriamente dito</p><p>com a fáscia removida (detalhe). Os músculos oblíquos interno e externo foram removidos. Observe também o</p><p>aspecto dos nervos intercostais localizados entre a fáscia do músculo transverso abdominal e o músculo oblíquo</p><p>interno. B, Visão anterior do músculo transverso abdominal (esquerda) e a fascia transversalis (direita). Observe</p><p>que a fascia transversalis é mostrada pela reflexão medial do músculo transverso abdominal sobrejacente. (De</p><p>McVay C: Anson and McVay’s surgical anatomy, ed 6, Philadelphia, 1984, WB Saunders, pp 480–481.)</p><p>A fascia transversalis cobre a superfície profunda do músculo transverso do abdome e, com suas várias extensões, forma</p><p>um envelope fascial completo em volta da cavidade abdominal (Fig. 43‑5; Fig. 43‑4B). Essa camada da fáscia é denominada</p><p>de acordo com os músculos que a cobrem, por exemplo, a fáscia do iliopsoas, a fáscia obturadora e a fáscia inferior do</p><p>diafragma. A fascia transversalis mantém conectados o músculo e os fascículos aponeuróticos em um revestimento contínuo</p><p>e reforça as áreas mais frágeis onde as fibras aponeuróticas são esparsas. Esse revestimento é responsável pela integridade</p><p>estrutural da parede abdominal e, por definição, a hérnia resulta de um defeito na fascia transversalis.</p><p>FIGURA 435 Músculo retoabdominal e conteúdo da bainha do reto. Observe a linha semilunar abaixo da qual a</p><p>bainha posterior dos retos é ausente e o músculo retoabdominal encontrase sobre a fascia transversalis, o</p><p>tecido areolar préperitoneal e o peritônio. (De McVay C: Anson and McVay’s surgical anatomy, ed 6, Philadelphia, 1984, WB</p><p>Saunders, p 482.)</p><p>Os músculos retos do abdome são músculos pareados, que se apresentam como tiras triangulares achatadas que são mais</p><p>largas no seu local de origem nas superfícies anteriores da quinta, sexta e sétima cartilagens costais e do apêndice xifoide, e</p><p>têm sua inserção inferior na crista do púbis e na sínfise púbica. Cada músculo é composto de longos fascículos paralelos,</p><p>interrompidos por três a cinco inserções tendinosas (Fig. 43‑5), que ancoram o músculo retoabdominal à bainha anterior do</p><p>mesmo. Esse tipo de fixação não ocorre na bainha posterior dos retos. Esses músculos encontram‑se adjacentes uns aos</p><p>outros, sendo separados apenas pela linha alba. A contração deles flete a coluna vertebral, complementando a sustentação</p><p>da parede abdominal e protegendo seu conteúdo.</p><p>Os músculos retoabdominais estão contidos dentro dos folhetos fasciais, denominados bainha dos retos, a qual é derivada</p><p>da aponeurose dos três músculos abdominais planos. Na porção superior à linha semicircular de Douglas, a bainha fascial</p><p>envolve completamente os músculos retoabdominais, tendo a aponeurose do músculo oblíquo externo e o folheto anterior</p><p>da aponeurose do músculo oblíquo interno passando anteriormente ao músculo retoabdominal. O folheto posterior da</p><p>aponeurose do músculo oblíquo interno, o músculo transverso e a fascia transversalis passam posteriormente aos músculos</p><p>retos. Porém, abaixo da linha semicircular, todas essas camadas fasciais passam anteriormente ao retoabdominal, exceto</p><p>a fascia transversalis. Nessa localização, a face posterior dos retoabdominais é coberta apenas pela fascia transversalis, pelo</p><p>tecido areolar pré‑peritoneal e pelo peritônio.</p><p>Os músculos retos do abdome estão mantidos firmemente em sua posição, próximos à linha média anterior, pela linha</p><p>alba. A linha alba consiste em uma banda de fibras densas e cruzadas da aponeurose da margem dos músculos largos do</p><p>abdome. Ela se estende do apêndice xifoide até a sínfise púbica, sendo muito mais larga acima do umbigo do que abaixo,</p><p>facilitando assim a realização de incisões cirúrgicas na linha média sem penetrar na bainha direita ou esquerda do</p><p>retoabdominal.</p><p>Espaço Préperitoneal e Peritônio</p><p>O espaço pré‑peritoneal está localizado entre a fascia transversalis e o peritônio parietal e contém tecido adiposo e areolar. Os</p><p>elementos que cursam pelo espaço pré‑peritoneal são os seguintes:</p><p>• Artéria e veia epigástricas inferiores.</p><p>• Ligamentos umbilicais mediais (que são os vestígios das artérias umbilicais fetais).</p><p>• Ligamento umbilical mediano (que é um remanescente fibroso do pedículo alantoide fetal ou úraco, localizado na</p><p>linha média).</p><p>• Ligamento falciforme do fígado estendendo‑se do umbigo ao fígado.</p><p>O ligamento redondo, ou ligamentum teres, está contido na margem livre do ligamento falciforme e representa a veia</p><p>umbilical obliterada cursando do umbigo ao ramo esquerdo da veia porta (Fig. 43‑6). O peritônio parietal é o folheto mais</p><p>interno da parede abdominal. Este consiste em uma delgada camada de tecido conjuntivo denso e irregular, coberto na sua</p><p>superfície interna por uma camada única de mesotélio escamoso. O peritônio é explicado em maior profundidade mais</p><p>adiante neste capítulo.</p><p>FIGURA 436 Umbigo. A, No feto, vêse no nível do umbigo a veia umbilical, superiormente, e inferiormente as</p><p>duas artérias umbilicais e o úraco partindo do umbigo. B, Uma visão do umbigo de dentro da cavidade peritoneal</p><p>mostra o ligamento redondo do fígado (derivado da veia umbilical obliterada), superiormente, e o ligamento</p><p>umbilical medial (derivado do úraco obliterado) e os ligamentos umbilicais mediais (também</p><p>denominados ligamentos umbilicais laterais, derivados das artérias umbilicais obliteradas). (De Thorek P: Anatomy</p><p>in surgery, ed 2, Philadelphia, 1962, JB Lippincott, p 375.)</p><p>Vasos e Nervos da Parede Abdominal</p><p>Suprimento Vascular</p><p>A parede abdominal anterolateral recebe seu aporte arterial das seis últimas artérias intercostais e de quatro artérias</p><p>lombares, das artérias epigástricas superior e inferior e das artérias circunflexas ilíacas profundas (Fig. 43‑7). Os troncos das</p><p>artérias intercostais e lombares, juntamente com os nervos intercostais, ílio‑hipogástrico e ilioinguinal, cursam entre o</p><p>músculo transverso abdominal e o músculo oblíquo interno. As extensões mais distais desses vasos penetram nas margens</p><p>laterais dos folhetos do músculo reto do abdome, em vários níveis, e anastomosam‑se livremente com ramos das artérias</p><p>epigástricas superior e inferior. A artéria epigástrica superior, um dos ramos terminais da artéria mamária interna, alcança a</p><p>superfície posterior do músculo retoabdominal pelo espaço costoxifoide do diafragma. Essa artéria segue trajeto</p><p>descendente no interior da bainha do reto para anastomosar‑se com ramos da artéria epigástrica inferior. A artéria</p><p>epigástrica inferior é derivada da artéria ilíaca externa, proximal ao ligamento inguinal, cursando pelo tecido areolar pré‑</p><p>peritoneal para penetrar no folheto lateral do reto, na linha semilunar de Douglas. A artéria circunflexa ilíaca profunda</p><p>origina‑se da face lateral da artéria ilíaca externa, próximo à origem da artéria epigástrica inferior, e dá origem a um ramo</p><p>ascendente que penetra na musculatura da parede abdominal logo acima da crista ilíaca, próximo à espinha ilíaca</p><p>anterossuperior.</p><p>FIGURA 437 Artérias e nervos da parede abdominal anterolateral. (De McVay C: Anson and McVay’s surgical</p><p>anatomy, ed 6, Philadelphia, 1984, WB Saunders, p 501.)</p><p>A drenagem venosa da parede abdominal anterior segue um padrão relativamente simples no qual as veias superficiais</p><p>acima do umbigo deságuam na veia cava superior, por intermédio das veias mamária interna, intercostal e torácica longa.</p><p>As veias inferiores ao umbigo, isto é, as veias epigástrica superficial, circunflexa, ilíaca e pudenda, convergem em direção à</p><p>crossa da safena, na raiz</p><p>da coxa, para penetrarem na veia safena e tornarem‑se tributárias da veia cava inferior (Fig. 43‑</p><p>8). As numerosas anastomoses entre os sistemas venosos supraumbilical e infraumbilical fornecem vias colaterais pelas</p><p>quais o retorno venoso ao coração pode desviar uma obstrução tanto da veia cava superior quanto da veia cava inferior. A</p><p>veia paraumbilical, que passa do ramo esquerdo da veia porta ao longo do ligamentum teres ao umbigo, fornece uma</p><p>importante comunicação entre as veias da parede abdominal superficial e o sistema porta, nos pacientes com obstrução</p><p>venosa portal. Nesse contexto, o fluxo sanguíneo portal é desviado do sistema porta de alta pressão, pelas veias</p><p>paraumbilicais para as veias de baixa pressão da parede abdominal anterior. O aspecto das veias paraumbilicais dilatadas</p><p>nesse contexto é denominado cabeça de medusa.</p><p>FIGURA 438 Drenagem venosa e linfática da parede abdominal anterolateral. (De Thorek P: Anatomy in surgery, ed</p><p>2, Philadelphia, 1962, JB Lippincott, p 345.)</p><p>O suprimento linfático da parede abdominal segue um padrão semelhante ao da drenagem venosa. Os vasos linfáticos</p><p>originados da região supraumbilical drenam para os linfonodos axilares, enquanto os linfáticos de origem infraumbilical</p><p>drenam para os linfonodos inguinais superficiais. Os vasos linfáticos do fígado cursam ao longo do ligamentum teres até o</p><p>umbigo, para se comunicarem com os linfáticos da parede abdominal anterior. É por essa via que os carcinomas no fígado</p><p>podem disseminar‑se, comprometendo a parede abdominal anterior no umbigo (linfonodo da Irmã Maria José).</p><p>Inervação</p><p>Os ramos anteriores dos nervos torácicos seguem um trajeto curvilíneo ao longo dos espaços intercostais, em direção à linha</p><p>média do corpo (Fig. 43‑7). Os seis nervos torácicos superiores terminam próximo ao esterno como ramos sensoriais</p><p>cutâneos anteriores. Os nervos torácicos do sétimo ao 12° passam atrás das cartilagens costais e das costelas inferiores, para</p><p>penetrarem em um plano entre o músculo oblíquo interno e o músculo transverso abdominal. O sétimo e o oitavo nervos</p><p>cursam ligeiramente para cima, ou horizontalmente, para alcançar o epigástrio, enquanto os nervos inferiores apresentam</p><p>uma trajetória progressivamente caudal. À medida que esses nervos cursam medialmente, eles fornecem ramos motores à</p><p>musculatura da parede abdominal. Eles perfuram os folhetos do reto, medialmente, para prover inervação sensorial à</p><p>parede abdominal anterior. Os ramos anteriores do décimo nervo torácico alcançam a pele no nível do umbigo, e o 12°</p><p>nervo torácico inerva a pele do hipogástrio.</p><p>Os nervos ilioinguinal e ílio‑hipogástrico com frequência se originam conjuntamente do ramo anterior do décimo</p><p>segundo nervo torácico e do primeiro lombar, para fornecer inervação sensorial ao hipogástrio e à parede abdominal</p><p>inferior. O nervo ílio‑hipogástrico corre paralelo ao 12° nervo torácico, para penetrar no músculo transverso do abdome,</p><p>próximo à crista ilíaca. Após cursar entre o músculo transverso do abdome e o músculo oblíquo interno, por uma curta</p><p>distância, o nervo penetra no oblíquo interno para percorrer seu trajeto sob a fáscia do oblíquo externo, em direção ao anel</p><p>inguinal externo. Ele emerge superior ao anel inguinal externo, para suprir a inervação sensorial da parede abdominal</p><p>anterior no hipogástrio. O nervo ilioinguinal cursa paralelamente ao nervo ílio‑hipogástrico, estando, porém, mais próximo</p><p>ao ligamento inguinal do que o nervo ílio‑hipogástrico. Ao contrário do nervo ílio‑hipogástrico, o nervo ilioinguinal cursa</p><p>junto ao cordão espermático, para emergir no anel inguinal externo, com seus ramos terminais fornecendo inervação</p><p>sensorial para a pele da região inguinal e da bolsa escrotal e/ou dos grandes lábios. Os nervos ilioinguinal, ílio‑hipogástrico</p><p>e o ramo genital do nervo genitofemoral são com frequência identificados durante a herniorrafia inguinal.</p><p>Anormalidades da Parede Abdominal</p><p>Podem ser congênitas ou adquiridas.</p><p>Anomalias Congênitas</p><p>Hérnias umbilicais</p><p>As hérnias umbilicais podem ser classificadas em três formas distintas: onfalocele e gastrosquise, hérnia umbilical infantil e</p><p>hérnia umbilical adquirida</p><p>Onfalocele</p><p>A onfalocele é um defeito em formato de funil que ocorre na parte central da parede abdominal, por meio do qual há uma</p><p>protrusão visceral na base do cordão umbilical. Essa anomalia é causada por uma falha da junção da musculatura da parede</p><p>abdominal na linha média, durante o desenvolvimento fetal. Os vasos umbilicais podem estar situados sobre as vísceras ou</p><p>deslocados lateralmente. Nos defeitos maiores, o fígado e o baço podem ser encontrados dentro do cordão, juntamente com</p><p>grande parte do intestino. Não há pele cobrindo essas hérnias. Elas são cobertas apenas pelo peritônio e, mais</p><p>superficialmente, pelo âmnio. Dos lactentes que nascem com onfalocele, 50% a 60% terão anomalias congênitas</p><p>concomitantes do esqueleto, trato gastrointestinal (GI) e sistema nervoso, geniturinário ou cardiopulmonar.</p><p>Gastroquise</p><p>Gastroquise é outro defeito congênito da parede abdominal, no qual a membrana umbilical rompe‑se intraútero,</p><p>permitindo a herniação para fora da cavidade abdominal do intestino. O defeito quase sempre ocorre à direita do cordão</p><p>umbilical, e o intestino não é coberto por pele ou âmnio. Normalmente, o intestino não teve a rotação mesentérica completa</p><p>e nem fixação, portanto, o lactente corre risco de vólvulo mesentérico com consequente isquemia intestinal e necrose. As</p><p>anomalias congênitas sincrônicas ocorrem em cerca de 10% dos pacientes. Tanto a onfalocele quanto a gastroquise são</p><p>discutidas com mais detalhes no Capítulo 66.</p><p>Hérnia umbilical infantil</p><p>A hérnia umbilical infantil surge alguns dias ou semanas após o coto do cordão umbilical ter necrosado. Essa anomalia é</p><p>causada por fraqueza na aderência entre o remanescente cicatrizado do cordão umbilical e o anel umbilical. Em contraste</p><p>com a onfalocele, a hérnia umbilical infantil é coberta por pele. Em geral, essas pequenas hérnias ocorrem na margem</p><p>superior do anel umbilical. Elas são facilmente redutíveis e tornam‑se mais proeminentes quando a criança chora. A maioria</p><p>dessas hérnias resolve‑se espontaneamente dentro dos primeiros 24 meses de vida, e complicações como estrangulamento</p><p>são raras. O reparo cirúrgico está indicado para os pacientes nos quais a hérnia venha a persistir por mais de 3 ou 4 anos de</p><p>vida. Essa condição e seu tratamento serão discutidos com mais detalhes nos Capítulos 44 e 66.</p><p>Hérnia umbilical adquirida</p><p>Nesse caso, uma hérnia umbilical se desenvolveu em um período posterior ao fechamento do anel umbilical. Essa hérnia</p><p>ocorre mais comumente na margem superior do umbigo e resulta da fraqueza do tecido cicatricial, que em geral oblitera o</p><p>anel umbilical. Essa fraqueza pode ser consequente a uma distensão excessiva na parede abdominal, tal como ocorre na</p><p>gravidez, durante parto difícil ou ascite. Em contraste com as hérnias umbilicais infantis, as hérnias umbilicais adquiridas</p><p>não se resolvem espontaneamente mas, ao contrário, tendem a aumentar de tamanho progressivamente. O anel herniário</p><p>fibroso e denso, no colo dessa hérnia, torna o estrangulamento do intestino ou do omento herniados uma complicação</p><p>importante.</p><p>Anormalidades resultantes da persistência do ducto onfalomesentérico</p><p>Durante o desenvolvimento fetal, o intestino médio apresenta uma ampla comunicação com o saco vitelino pelo conduto</p><p>vitelino ou onfalomesentérico. À medida que os componentes da parede abdominal se aproximam uns dos outros, o</p><p>conduto onfalomesentérico estreita‑se e passa a se localizar dentro do cordão umbilical. Com o tempo, a comunicação entre</p><p>o saco vitelino e o intestino oblitera‑se, e o intestino é contido livremente na cavidade peritoneal. A persistência</p><p>parcial ou</p><p>completa do ducto onfalomesentérico resulta em várias anomalias relacionadas com o intestino e com a parede abdominal</p><p>(Fig. 43‑9).</p><p>FIGURA 439 Anormalidades resultantes da persistência do ducto onfalomesentérico. A, Cisto do ducto</p><p>onfalomesentérico. B, Ducto onfalomesentérico persistente com uma fístula enterocutânea. C, Cisto do ducto</p><p>onfalomesentérico e seio. D, Cordão fibroso entre o intestino delgado e a superfície posterior do</p><p>umbigo. E, Divertículo de Meckel. (De McVay C: Anson and McVay’s surgical anatomy, ed 6, Philadelphia, 1984, WB</p><p>Saunders, p 576.)</p><p>A persistência da extremidade intestinal do ducto onfalomesentérico resulta em uma anomalia conhecida como</p><p>divertículo de Meckel. Esses divertículos congênitos surgem da borda antimesentérica do intestino delgado, mais</p><p>frequentemente no íleo. A regra dos “2” é frequentemente aplicada a essas lesões em que eles são encontrados em</p><p>aproximadamente 2% da população, localizada a até 2 pés (aproximadamente 60 cm) da válvula ileocecal, costumam</p><p>ter 2 polegadas (aproximadamente 5 cm) de comprimento e contêm dois tipos de mucosas ectópicas (gástrica e pancreática).</p><p>Entre as complicações mais frequentes dos divertículos de Meckel, temos a obstrução, a perfuração, a hemorragia ou a</p><p>inflamação. Hemorragia do trato gastrointestinal é causada pela ulceração péptica da mucosa intestinal adjacente, em</p><p>decorrência do ácido clorídrico secretado pelas células parietais ectópicas localizadas dentro do divertículo. Obstrução</p><p>intestinal associada a um divertículo de Meckel é geralmente causada por intussuscepção ou volvo ao redor de uma</p><p>conexão fibrosa anormal entre o divertículo e a face posterior do umbigo. Essas lesões são discutidas no Capítulo 49.</p><p>O conduto onfalomesentérico pode permanecer patente por todo o seu trajeto, produzindo uma fístula entre o intestino</p><p>delgado distal e o umbigo. Essa condição se apresenta com a saída de mecônio e muco pelo umbigo nos primeiros dias de</p><p>vida. Pelo risco de volvo mesentérico em torno do conduto onfalomesentérico persistente, essas lesões devem ser tratadas</p><p>precocemente com laparotomia e excisão do trajeto fistuloso. A persistência da extremidade distal do ducto</p><p>onfalomesentérico resulta em um pólipo umbilical, o qual é uma pequena saliência da mucosa ductal onfalomesentérica no</p><p>umbigo. Tais pólipos assemelham‑se aos granulomas umbilicais, porém não desaparecem após cauterização com nitrato de</p><p>prata. Eles sugerem a presença de conduto onfalomesentérico persistente ou sinus umbilical e são tratados mais</p><p>apropriadamente pela excisão da mucosa remanescente e do conduto onfalomesentérico subjacente ou sinus umbilical, caso</p><p>este esteja presente. Os sinus umbilicais resultam da persistência do conduto onfalomesentérico distal. A morfologia do</p><p>trato sinusal pode ser prontamente delineada por um sinograma. O tratamento envolve a excisão dos sinus. Por fim, o</p><p>acúmulo de muco em uma porção persistente do conduto onfalomesentérico pode resultar na formação de um cisto, o qual</p><p>pode permanecer ligado ao intestino, ou ao umbigo, por meio de uma banda fibrosa. O tratamento consiste na excisão do</p><p>cisto e do conduto onfalomesentérico persistente associado.</p><p>Anormalidades resultantes da persistência da alantoide</p><p>A alantoide é o componente mais cranial da cloaca ventral embrionária. A porção intra‑abdominal da alantoide é</p><p>denominada úraco e conecta a bexiga urinária ao umbigo, enquanto a parte extra‑abdominal da alantoide está contida</p><p>dentro do cordão umbilical. Ao final da gestação, o úraco é convertido em um cordão fibroso que cursa entre a bexiga</p><p>urinária extraperitoneal e o umbigo, conhecido como ligamento umbilical mediano. A persistência parcial ou total do úraco</p><p>pode resultar na formação de uma fístula vesicocutânea, com o surgimento de urina no umbigo, em um cisto do úraco</p><p>extraperitoneal apresentando‑se como uma massa no abdome inferior, ou em um sinus do úraco com drenagem de muco</p><p>em pequena quantidade. Devido ao risco de complicações incluindo transformação maligna, o tratamento é a excisão do</p><p>remanescente do úraco com o fechamento da bexiga, se necessário.</p><p>Anormalidades Adquiridas</p><p>Diástase dos retos</p><p>A diástase dos retos ocorre por causa do adelgaçamento da linha alba na região epigástrica e é manifestada por uma</p><p>protrusão da parede abdominal anterior na linha média. A fascia transversalis encontra‑se intacta, e, por isso, essa protrusão</p><p>não é considerada uma hérnia. Não há uma margem fascial identificável e não há risco de estrangulamento intestinal. A</p><p>presença de diástase dos retos pode ser observada particularmente nos pacientes durante esforço físico ou ao elevarem a</p><p>cabeça do travesseiro. O tratamento apropriado consiste na orientação ao paciente e aos seus familiares a respeito da</p><p>natureza inócua dessa condição.</p><p>Hérnias da parede abdominal anterior</p><p>As hérnias epigástricas ocorrem em pontos por meio dos quais os vasos e nervos perfuram a linha alba seguindo em direção</p><p>ao tecido subcutâneo. Por essas aberturas, o tecido areolar extraperitoneal, e, às vezes, o peritônio, podem sofrer herniação</p><p>para o tecido subcutâneo. Embora essas hérnias em geral sejam pequenas, podem produzir dor localizada intensa e</p><p>desconforto, por pressão direta do saco herniário e seu conteúdo nos nervos que emergem pela mesma abertura fascial. As</p><p>hérnias de Spiegel ocorrem através da fáscia, na região da linha semilunar, e apresentam‑se como dor localizada e</p><p>hipersensibilidade. O saco herniário raramente é palpável por ser em geral pequeno e tendem a permanecer abaixo da</p><p>aponeurose do músculo oblíquo externo. A ultrassonografia da parede abdominal ou a tomografia computadorizada com</p><p>cortes finos através do abdome podem ser diagnósticas diante da marcação cuidadosa dos locais suspeitos. O tratamento</p><p>consiste na rafia cirúrgica do defeito fascial. Essas hérnias são discutidas no Capítulo 44.</p><p>Hematoma da bainha do reto</p><p>O hematoma da bainha do reto é uma condição incomum caracterizada por dor abdominal aguda e pelo aparecimento de</p><p>uma massa da parede abdominal. É mais comum em mulheres que em homens e em idosos do que em indivíduos jovens.</p><p>Uma revisão de 126 pacientes com hematomas da bainha do reto tratados na Mayo Clinic revelou que quase 70% dos</p><p>pacientes tinham recebido anticoagulantes no momento do diagnóstico. Uma história de trauma ou lesões não cirúrgicas da</p><p>parede abdominal é comum (48%), da mesma forma que a presença de tosse (29%).1 Em mulheres jovens, os hematomas da</p><p>bainha do reto têm sido associados à gravidez.</p><p>Pacientes com hematomas da bainha do reto geralmente se apresentam com início súbito de dor abdominal, que pode ser</p><p>intensa e frequentemente exacerbada pelos movimentos que exigem contração da parede abdominal. O exame físico</p><p>mostrará sensibilidade sobre a bainha do reto, em geral com defesa voluntária. Uma massa da parede abdominal pode ser</p><p>observada em alguns pacientes, 63% nas séries da Mayo Clinic. Equimoses da parede abdominal, inclusive periumbilical</p><p>(sinal de Cullen) e coloração azulada nos flancos (sinal de Grey Turner), podem estar presentes se houver demora desde o</p><p>início dos sintomas até a avaliação médica. A dor e o desconforto associados a esse processo podem ser intensas o suficiente</p><p>para sugerir uma peritonite. Naqueles casos nos quais o hematoma se expande no espaço perivesical e pré‑ ‑peritoneal, o</p><p>hematócrito pode baixar, embora seja rara a presença de instabilidade hemodinâmica.</p><p>A ultrassonografia e a TC confirmam a presença do hematoma e a sua localização na parede abdominal, em quase todos</p><p>os casos. Geralmente, esses pacientes podem ser tratados com sucesso com repouso e analgésicos e, se necessário,</p><p>transfusão de sangue. Na</p><p>série da Mayo Clinic, quase 90% dos pacientes foram tratados com sucesso dessa forma. Em geral,</p><p>as coagulopatias devem ser corrigidas, mas a anticoagulação mantida em pacientes selecionados pode ser prudente,</p><p>dependendo das indicações para essa terapia e da gravidade do sangramento. A progressão do hematoma constitui</p><p>indicação de embolização angiográfica do vaso sangrante ou, raramente, evacuação operatória do hematoma e hemostasia.</p><p>Tumores Malignos da Parede Abdominal</p><p>Os tumores malignos primários mais comuns da parede abdominal são o tumor desmoide e o sarcoma. Embora incomum,</p><p>uma variedade de neoplasias pode se metastatizar por meio da corrente sanguínea para o tecido da parede abdominal,</p><p>onde se apresenta como um tumor de partes moles. O melanoma metastático, em particular, pode se apresentar desta</p><p>maneira. Finalmente, a semeadura transperitoneal da parede abdominal por tumores intra‑abdominais pode ser uma</p><p>complicação das biópsias transabdominais e/ou procedimentos cirúrgicos.</p><p>Tumor Desmoide</p><p>Tumor desmoide, também conhecido como fibromatose, fibromatose agressiva ou fibromatose de tipo desmoide, é uma neoplasia</p><p>incomum que ocorre esporadicamente ou como parte de uma síndrome hereditária, mais notadamente, a polipose</p><p>adenomatosa familiar (PAF) e a síndrome de Gardner, uma síndrome autossômica dominante de pólipos adenomatosos GI</p><p>ou adenocarcinoma, osteomas e tumores de pele e tecidos moles. Estes tumores se originam do tecido fibroaponeurótico e</p><p>se apresentam como uma massa de crescimento lento. Embora eles não possuam potencial metastático, podem ser</p><p>multifocais, bem como localmente agressivos e invasivos, com uma alta propensão para recorrência.</p><p>Os tumores desmoides são normalmente classificados pela localização como extra‑abdominais ou desmoides de</p><p>extremidade (i. e., aqueles tumores que ocorrem nas extremidades proximais ou na cintura articular do membro), tumores</p><p>da parede abdominal e desmoides intra‑abdominais (ver “Tumores Desmoides Intra‑abdominal e Mesentérico”), que</p><p>envolvem a parede intestinal, pelve e/ou mesentério. A frequência dos tumores desmoides na população geral é de 2,4 a</p><p>4,3 casos/milhão; este risco aumenta 1.000 vezes em pacientes com PAF.2,3 A maioria dos tumores desmoides é esporádica,</p><p>usualmente em mulheres jovens durante a gravidez ou dentro de 1 ano após o parto. O uso de anticoncepcionais orais</p><p>também está associado à ocorrência desses tumores. Essas associações, combinadas com a detecção de receptores de</p><p>estrogênio no tumor, sugerem um papel regulador do estrogênio nessa doença.</p><p>Os pacientes com tumores desmoides podem apresentar uma massa assintomática ou com sintomas relacionados com o</p><p>efeito do volume tumoral. Geralmente, há uma associação temporal entre a descoberta do tumor e uma história pregressa</p><p>de trauma abdominal ou operação.3 Uma imagem (TC ou ressonância magnética [RM]) é necessária para delinear a</p><p>extensão do envolvimento tumoral completamente, mas não é necessário realizar o estadiamento de doença metastática. Na</p><p>TC, o tumor desmoide aparece como uma massa homogênea decorrente de tecido mole da parede abdominal (Fig. 43‑10). O</p><p>tumor desmoide aparecerá como uma massa homogênea e isointensa quando comparada com a musculatura nas imagens</p><p>de RM ponderada em T1, enquanto as imagens ponderadas em T2 demonstram uma heterogeneidade maior e um sinal</p><p>ligeiramente menos intenso do que a gordura.</p><p>FIGURA 4310 Tomografia computadorizada do abdome, demonstrando um tumor desmoide que surge dentro</p><p>da bainha do reto esquerda. O tumor aparece como uma massa homogênia de tecido mole.</p><p>A biopsia é necessária para confirmar o diagnóstico. A biopsia com agulha grossa ou a incisional irá mostrar a existência</p><p>de um tumor composto de feixes de células fusiformes e um estroma fibroso abundante. O centro do tumor geralmente é</p><p>acelular, enquanto a periferia contém a maior parte dos fibroblastos. A histologia pode ser semelhante à de um</p><p>fibrossarcoma de baixo grau, mas o diagnóstico geralmente não é difícil porque os fibroblastos são altamente diferenciados</p><p>e com ausência de atividade mitótica encontrada em malignidade. A imuno‑histoquímica pode ajudar a esclarecer o</p><p>diagnóstico difícil; tumores com coloração positivas para β‑catenina, actina e vimentina e coloração negativa para</p><p>citoceratina e S‑100.</p><p>A ressecção do tumor com uma ampla margem de tecido normal foi historicamente considerada o tratamento ideal.</p><p>Muitas vezes, a extensão da ressecção, irá exigir reconstrução da parede abdominal com rotação de retalhos de tecido local</p><p>e/ou tela como próteses. A totalidade da ressecção é um fator prognóstico importante; Stojadinovic et al.4 relataram que 68%</p><p>dos tumores desmoides ressecados com margem positiva recorreram dentro de cinco anos, em comparação com nenhum</p><p>dos tumores em que a margem de ressecção foi livre da doença.</p><p>No entanto, recentemente tem sido aceita uma abordagem para adiar a cirurgia em pacientes com tumores desmoides,</p><p>particularmente para aqueles que necessitariam de cirurgia com risco considerável de morbidade e perda de função.5 Essa</p><p>abordagem, centrada em um período de observação inicial para todos os pacientes, baseou‑se em dados atuais que</p><p>contradizem a relevância das margens cirúrgicas negativas e tem sido suportada pelas elevadas taxas de recidiva apesar do</p><p>tratamento local ótimo.6,7 Os pacientes submetidos a observação necessitam de seguimento rigoroso para identificar o</p><p>crescimento tumoral precocemente e devem concordar com avaliação imaginológica frequente. Os estudos sugerem que</p><p>cerca de 50% dos pacientes não irão progredir durante um seguimento a curto prazo, ocorrendo regressão espontânea em</p><p>até 10%.5,8,9 Uma abordagem conservadora na seleção de pacientes para cirurgia na fibromatose tipo desmoide está se</p><p>tornando o novo padrão de tratamento, sendo necessária mais investigação para identificar subgrupos selecionados que se</p><p>beneficiariam de cirurgia.10,11</p><p>Os tumores desmoides da parede abdominal respondem favoravelmente a radioterapia, embora o efeito do tratamento</p><p>possa ser lento e progressivo ao longo de vários anos. A radioterapia isoladamente é uma opção de tratamento aceitável</p><p>para pacientes com tumores desmoides irressecáveis ou tumores cuja ressecção envolva alta morbidade com riscos de perda</p><p>funcional importante. Uma revisão retrospectiva de M.D. Anderson Cancer Center relatou taxas de recorrência em 10 anos</p><p>de 38% para a operação isolada (27% para aqueles com margens negativas), 25% para cirurgia combinada com radioterapia</p><p>e 24% para radioterapia isolada.6 Também concluiu que a radioterapia pode amenizar o efeito adverso de margens positivas</p><p>na recorrência local do tumor. Vários estudos similares relataram taxas de controle local de aproximadamente 80% com</p><p>radioterapia isoladamente, taxas que se mostraram equivalentes e/ou mesmo superior à cirurgia isolada.12</p><p>A radioterapia adjuvante é controversa, de modo que a maioria dos centros de tratamento reserva esta modalidade de</p><p>conduta para pacientes com margens positivas após as ressecções, por causa de estruturas críticas. O uso de radioterapia</p><p>neoadjuvante tem menor aceitação do que a radioterapia adjuvante devido à resposta por vezes lenta, geralmente de 1 ano</p><p>ou mais, além de tornar a reconstrução da parede abdominal posterior mais trabalhosa, embora alguns estudos mostrem</p><p>um claro benefício.</p><p>Antagonistas do receptor de estrogênio, anti‑inflamatórios não esteroidais e quimioterapia sistêmica têm sido usados com</p><p>sucesso no tratamento de pacientes com tumores desmoides avançados, recorrentes ou irressecáveis. O uso desses agentes</p><p>em um contexto adjuvante ou neoadjuvante carece de mais estudos e poderia ser mais bem avaliado no contexto de um</p><p>ensaio clínico.</p><p>A detecção de receptores de estrogênio</p><p>nos tumores desmoides e sua associação a gravidez e contraceptivos orais pode</p><p>fornecer algum apoio para o uso de antiestrogênios, como o tamoxifeno. Melhora clínica foi relatada em 43% dos pacientes</p><p>que receberam antiestrogênios, embora a taxa de resposta varie entre os diferentes estudos. Respostas do tumor para</p><p>antiestrogênicos são lentas no início, mas frequentemente perduram por vários anos.13,14 A maioria dos relatos de</p><p>tratamento com anti‑inflamatórios não esteroidais usa sulindaco, mas a indometacina também tem sido utilizada. Um</p><p>estudo usando sulindaco e tamoxifeno em altas doses recomenda esse regime como tratamento inicial para tumores</p><p>desmoides associado a PAF.15</p><p>Vários regimes de quimioterapia citotóxica têm sido usados no tratamento de pacientes com tumores desmoides</p><p>inoperáveis. Metrotrexato, vimblastina, terapia de doxorrubicina e regimes embasados em ifosfamida foram relatadas, com</p><p>respostas positivas em 20% a 40% dos pacientes.13,16 Para os desmoides com crescimento rápido, oncologistas clínicos</p><p>podem recomendar terapias normalmente usadas para sarcomas, como doxorrubicina e dacarbazina. Relatos sugeriram</p><p>também imatinibe, um inibidor da tirosina quinase, como outra opção de tratamento eficaz para pacientes com estes</p><p>tumores.17</p><p>Sarcoma da Parede Abdominal</p><p>Sarcomas da parede abdominal são classificados como sarcoma troncular – incluindo do tórax ou na parede abdominal – e</p><p>são responsáveis por 10% a 20% dos sarcomas em geral. Em geral, os sarcomas são raros sendo os da parede abdominal</p><p>mais ainda. Similares aos tumores desmoides, essas neoplasias geralmente se apresentam como uma massa indolor, embora</p><p>até um terço dos pacientes com sarcomas da parede abdominal apresentem dor no local do tumor. Assim como uma</p><p>história de retinoblastoma, PAF, neurofibromatose, radioterapia ou síndrome de Li‑Fraumeni, pode ser pensada. O</p><p>diagnóstico diferencial inclui muitas condições comuns, como lipomas, hematomas, hérnias ventrais, endometriose e</p><p>processos inflamatórios, além de granulomas oriundos de picadas de agulhas em diabéticos. Os subtipos histológicos</p><p>incluem lipossarcoma, fibrossarcoma, leiomiossarcoma, rabdomiossarcoma e histiossarcoma fibroso maligno.</p><p>Imagem axial com RM ou TC irá fornecer informações importantes a respeito da localização e extensão do tumor, bem</p><p>como envolvimento de estruturas contíguas. A TC do tórax deve ser incluída para afastar a possibilidade de doença</p><p>metastática. Porém, o diagnóstico definitivo exige biópsia, a qual pode ser realizada por punção com agulha ou por incisão.</p><p>A acurácia da biópsia com agulha grossa alcança mais de 90% e pode ser realizada sob orientação de TC para lesões</p><p>profundas. Se for realizada uma biópsia incisional, esta deverá ser feita pelo cirurgião que realizará a ressecção definitiva;</p><p>deve ser orientada no mesmo plano muscular subjacente para minimizar as perdas desnecessárias de tecido durante o</p><p>procedimento definitivo e facilitar a reconstrução. Não se deve fazer esforço para criar retalhos de tecidos ao redor da lesão,</p><p>e a hemostasia deve ser realizada meticulosamente para evitar a disseminação do tumor pelos planos teciduais, devido a</p><p>um hematoma pós‑operatório.</p><p>O tratamento definitivo de sarcomas da parede abdominal é a ressecção com margens livres de tumor, com a maioria dos</p><p>cirurgiões tentando obter pelo menos uma margem de 2 cm ao redor do tumor. No entanto, a extensão da ressecção e a</p><p>morbidade associada devem ser equilibradas, uma vez que a doença metastática e não a recorrência local representam o</p><p>maior risco de morte. As metástases ganglionares são raras (2% a 3%). A reconstrução do defeito da parede abdominal pode</p><p>ser conseguida primariamente com retalhos miocutâneos ou telas protéticas, dependendo do local e da extensão da</p><p>ressecção. As taxas de resposta com radiação e quimioterapia em geral são baixas, embora as taxas de resposta específicas</p><p>dependam da histologia e do grau.</p><p>Sarcomas de tecidos moles são discutidos em detalhes no Capítulo 31.</p><p>Doença Metastática</p><p>Metástases para a parede abdominal podem ocorrer por semeadura direta na parede abdominal durante biópsia ou</p><p>ressecção de um tumor intra‑abdominal ou disseminação hematogênica de um tumor avançado. O risco de implantação de</p><p>tumor no local da porta após ressecção laparoscópica do cólon para o adenocarcinoma é 0,9% e foi demonstrada em ensaios</p><p>clínicos randomizados que não mostraram diferença de risco de recorrência de tumor na ferida após a ressecção colônica a</p><p>céu aberto.18 A implantação de tumor na ferida pode ter particular relevância na cirurgia de citorredução com</p><p>quimioterapia intraperitoneal hipertérmica aplicada ao tratamento de uma neoplasia maligna da superfície do peritônio. Os</p><p>pacientes submetidos a cirurgia de citorredução normalmente passaram por uma cirurgia prévia, com cicatrização da</p><p>parede abdominal ou formação de tumor, e com frequência necessitam de ressecção da parede abdominal com reconstrução</p><p>complexa.</p><p>Os tumores mais comuns que metastatizam para os tecidos moles são pulmão, cólon, melanoma e tumores de células</p><p>renais. Embora as metástases para os tecidos moles sejam incomuns, a parede abdominal é o local de tal recidiva em</p><p>aproximadamente 20% dos casos.19 Semelhantes aos tumores desmoides ou sarcomas, metástases para a parede abdominal</p><p>apresentam‑se como uma massa indolor. A coloração imuno‑histoquímica do tumor pode permitir a identificação específica</p><p>do tipo de lesão primária e facilitar a diferenciação de sarcomas primários da parede abdominal. O nódulo da Irmã Maria</p><p>José é muitas vezes descrito e raramente observado, trata‑se de um nódulo palpável na região do umbigo representando</p><p>câncer metastático abdominal ou pélvico.</p><p>Sintomas de Doença Intraabdominal Referida na Parede Abdominal</p><p>A dor abdominal pode ser classificada como visceral, somatoparietal e referida. A dor visceral é causada pela estimulação</p><p>de nociceptores por processos inflamatórios, distensão ou isquemia. A dor é surda e mal localizada na região epigástrica,</p><p>periumbilical ou hipogástrica, dependendo da origem embrionária do órgão envolvido. Processos inflamatórios no</p><p>estômago, duodeno e trato biliar (derivados do intestino anterior embrionário) localizam a dor visceral no epigástrio. A</p><p>estimulação de receptores nociceptivos nos órgãos derivados do intestino primitivo médio (i. e., intestino delgado, apêndice,</p><p>cólon direito e cólon transverso proximal) cursam com dor na região periumbilical, enquanto a inflamação ou distensão dos</p><p>órgãos derivados do intestino inferior (cólon transverso distal, cólon esquerdo e reto) são responsáveis pela sensação</p><p>dolorosa no hipogástrio. A dor é percebida na linha média, pois esses órgãos transmitem aferências sensoriais simpáticas a</p><p>ambos os lados da espinha vertebral. A dor é mal localizada, pois a inervação da maioria das vísceras é multissegmentar e</p><p>contém poucos receptores nervosos, quando comparadas com órgãos altamente sensíveis, como a pele. Em geral, a dor é</p><p>caracterizada como cólica, em queimação ou em aperto, e pode ser acompanhada de sinais e sintomas autonômicos</p><p>secundários como sudorese, cansaço, náuseas, vômitos, perspiração e palidez.</p><p>A dor somatoparietal surge da inflamação do peritônio parietal e é localizada de forma mais intensa e precisa do que a</p><p>dor visceral. Os impulsos nervosos da dor parietal viajam dentro de nervos espinhais somatossensoriais e atingem a</p><p>medula espinhal, nervos periféricos correspondentes aos dermátomos cutâneos da T6 à região L1. A lateralização da dor</p><p>parietal é possível, pois apenas um lado do sistema nervoso inerva uma determinada parte do peritônio parietal.</p><p>A diferença entre a dor visceral e somatoparietal é</p><p>bem ilustrada pela dor associada à apendicite aguda, na qual a dor</p><p>visceral periumbilical vaga inicial é substituída pela dor somatoparietal localizada no ponto de McBurney. A dor visceral é</p><p>produzida pela distensão e inflamação do apêndice, enquanto a dor somatoparietal localizada no quadrante inferior direito</p><p>do abdome é causada pela extensão do processo inflamatório para o peritônio parietal.</p><p>A dor referida é percebida em regiões anatômicas diferentes dos órgãos acometidos. Este fenômeno é causado pela</p><p>convergência dos neurônios aferentes viscerais que inervam um órgão lesado ou inflamado com fibras aferentes somáticas</p><p>decorrentes de outra região anatômica. Isso ocorre dentro da medula espinhal no nível dos neurônios de segunda ordem.</p><p>Alguns exemplos bem conhecidos de dor referida incluem a dor no ombro causada por irritação do diafragma, a dor</p><p>escapular associada a doença aguda do trato biliar ou a dor testicular ou labial causada por inflamação do retroperitônio.</p><p>Peritônio e cavidade peritoneal</p><p>Anatomia</p><p>O peritônio consiste em uma camada única de epitélio escamoso simples, de origem mesodérmica, denominado mesotélio,</p><p>disposto sobre um fino estroma de tecido conjuntivo. A área superficial é de 1 a 1,7 m2, cerca da área correspondente à</p><p>superfície corporal total. Nos homens, a cavidade peritoneal é totalmente fechada, enquanto nas mulheres apresenta uma</p><p>abertura para o exterior por intermédio do óstio das tubas uterinas. A membrana peritoneal é dividida nos componentes</p><p>parietal e visceral. O peritônio parietal cobre as superfícies da parede abdominal anterior, lateral e posterior e a superfície</p><p>inferior do diafragma e a pelve. O peritônio visceral envolve a maior parte da superfície dos órgãos intraperitoneais (i. e., o</p><p>estômago, o jejuno, o íleo, o cólon transverso, o fígado e o baço) e a face anterior dos órgãos retroperitoneais (i. e., o</p><p>duodeno, os cólons direito e esquerdo, o pâncreas, os rins e as glândulas adrenais).</p><p>A cavidade peritoneal é subdividida em espaços e compartimentos intercomunicantes por 11 ligamentos e mesentérios.</p><p>Os ligamentos peritoneais ou mesentérios incluem o ligamento coronário, gastro‑hepático, hepatoduodenal, falciforme,</p><p>gastrocólico, duodenocólico, gastroesplênico, esplenorrenal e frenococólico e o mesocólon transverso e o mesentério do</p><p>intestino delgado (Fig. 43‑11). Essas estruturas dividem o abdome em nove espaços potenciais – subfrênico direito e</p><p>esquerdo, sub‑hepático, supramesentéricos e inframesentéricos, goteiras paracólicas direita e esquerda, pelve e bolsa</p><p>omental. Esses ligamentos, mesentérios e espaços peritoneais direcionam a circulação de fluidos na cavidade peritoneal e</p><p>podem ser úteis em predizer o caminho de disseminação de doenças infecciosas e neoplásicas. Por exemplo, a perfuração</p><p>do duodeno por doença ulcerosa péptica pode resultar no movimento de fluidos (e no desenvolvimento de abscessos) no</p><p>espaço sub‑hepático, na goteira paracólica direita e na pelve. O suprimento sanguíneo para o peritônio visceral é derivado</p><p>dos vasos sanguíneos esplâncnicos, enquanto o peritônio parietal é suprido por ramos dos vasos intercostais, subcostais,</p><p>lombares e ilíacos. A inervação do peritônio visceral e do peritônio parietal já foi discutida anteriormente.</p><p>FIGURA 4311 Ligamentos peritoneais e reflexões mesentéricas no adulto. Esses ligamentos dividem o</p><p>abdome em nove espaços potenciais: subfrênicos direito e esquerdo; subhepático, supramesentérico e</p><p>inframesentérico; calhas parietocólicas direita e esquerda; pelve e bursa omental (detalhe, direita). (De McVay</p><p>C: Anson and McVay’s surgical anatomy, ed 6, Philadelphia, 1984, WB Saunders, p 589.)</p><p>Fisiologia</p><p>O peritônio é uma membrana semipermeável bidirecional que controla a quantidade de fluidos dentro da cavidade</p><p>peritoneal, promove o sequestro e a remoção de bactérias da cavidade peritoneal e facilita a migração de células</p><p>inflamatórias da microvasculatura para a cavidade peritoneal. Normalmente, a cavidade peritoneal contém menos de</p><p>100 mL de líquido seroso estéril. As microvilosidades na superfície apical do mesotélio peritoneal aumentam</p><p>significativamente a área de superfície e promovem uma rápida absorção de fluidos da cavidade peritoneal para a</p><p>circulação linfática e para a circulação portal e sistêmica. A quantidade de líquido dentro da cavidade peritoneal pode</p><p>aumentar em vários litros em uma variedade de doenças, como na cirrose, na síndrome nefrótica e na carcinomatose</p><p>peritoneal.</p><p>A circulação de líquidos dentro da cavidade peritoneal é orientada em parte pelo movimento do diafragma. Os poros</p><p>intercelulares no peritônio que cobre a superfície inferior do diafragma (denominados estomatas) comunicam‑se com a rede</p><p>linfática dentro do diafragma. A linfa flui desses canais linfáticos diafragmáticos, via linfáticos subpleurais, para os</p><p>linfonodos regionais e, posteriormente, para o ducto torácico. O relaxamento do diafragma durante a expiração abre</p><p>os estomatas, e a pressão intratorácica negativa drena os fluidos e partículas, incluindo bactérias, para dentro dos estomas. A</p><p>contração do diafragma durante a inspiração impulsiona a linfa por intermédio dos canais linfáticos mediastinais para</p><p>dentro do ducto torácico. Postula‑se que essa bomba diafragmática oriente o movimento dos fluidos peritoneais em direção</p><p>cefálica para o diafragma e para dentro dos vasos linfáticos torácicos. Esse padrão circulatório do líquido peritoneal em</p><p>direção ao diafragma e para o interior dos canais linfáticos centrais é compatível com o rápido surgimento de sepse nos</p><p>pacientes com infecção intra‑abdominal generalizada, bem como o de peri‑hepatite da síndrome de Fi錠‑Hugh‑Curtis em</p><p>pacientes com salpingite aguda.</p><p>O peritônio e a cavidade peritoneal respondem aos processos infecciosos de cinco maneiras:</p><p>1. Bactérias são rapidamente removidas da cavidade peritoneal pelos estomatas diafragmáticos e linfáticos.</p><p>2. Os macrófagos peritoneais liberam mediadores pró‑inflamatórios que promovem a migração de leucócitos da</p><p>microvasculatura adjacente para a cavidade peritoneal.</p><p>3. A degranulação de mastócitos peritoneais libera histamina e outros produtos vasoativos, causando vasodilatação</p><p>local e extravasamento de fluidos proteicos contendo complemento e imunoglobulinas no espaço peritoneal.</p><p>4. Proteínas no fluido peritoneal opsonizam bactérias que, com a ativação da cascata do complemento, promovem a</p><p>fagocitose e a destruição bacteriana mediada por neutrófilos e macrófagos.</p><p>5. As bactérias são sequestradas dentro de matrizes de fibrina, promovendo, assim, a formação de abscesso e</p><p>limitando a disseminação da infecção.</p><p>Distúrbios Peritoneais</p><p>Ascite</p><p>Fisiopatologia e causa</p><p>A ascite é o acúmulo patológico de fluidos dentro da cavidade peritoneal. As principais causas da formação da ascite e suas</p><p>bases fisiopatológicas estão listadas no Quadro 43‑1. A cirrose é a causa mais comum de ascite nos Estados Unidos,</p><p>respondendo por cerca de 85% dos casos. A ascite é a complicação mais comum de cirrose, com aproximadamente 50% dos</p><p>pacientes cirróticos compensados desenvolvendo ascite após 10 anos de diagnóstico. O aparecimento de ascite é um fator</p><p>prognóstico importante para um resultado desfavorável em pacientes com cirrose devido à sua associação com a ocorrência</p><p>de peritonite bacteriana espontânea, insuficiência renal, pior qualidade de vida e maior probabilidade de morte dentro de 2</p><p>a 5 anos.</p><p>Quadr o 4 3 1 P r inc ipa i s Causas de Fo rmação de Asc i t e , C l a s s ificadas de a co rdo</p><p>com a F i s iopa to log ia Sub ja cen te</p><p>Hipertensão Portal</p><p>Cirrose</p><p>Não cirrótica</p><p>• Obstrução venosa portal pré‑hepática</p><p>• Trombose venosa mesentérica crônica</p><p>• Múltiplas metástases hepáticas</p><p>• Obstrução venosa pós‑hepática:</p><p>síndrome de Budd‑Chiari</p><p>Cardiológicas</p><p>Insuficiência cardíaca congestiva</p><p>Tamponamento pericárdico crônico</p><p>Pericardite constritiva</p><p>Lesões Malignas</p><p>Carcinomatose peritoneal</p><p>• Malignidades primárias peritoneais</p><p>• Mesotelioma peritoneal primário</p><p>• Carcinoma seroso</p><p>• Carcinoma metastático</p><p>• Carcinomas gastrointestinais (p. ex., câncer gástrico, cólon, pancreático)</p><p>• Carcinomas geniturinários (p. ex., câncer de ovário)</p><p>Obstrução dos canais linfáticos retroperitoneais</p><p>• Linfoma</p><p>• Metástases para linfonodos (p. ex., câncer testicular, melanoma)</p><p>Obstrução dos canais linfáticos na base do mesentério</p><p>• Tumores carcinoides gastrointestinais</p><p>Diversos</p><p>Ascite biliosa</p><p>• Iatrogênica após operações do trato biliar ou hepática</p><p>• Traumática após lesões do trato biliar ou hepática</p><p>Ascite pancreática</p><p>• Pancreatite aguda</p><p>• Pseudocisto pancreático</p><p>Ascite quilosa</p><p>• Rupturas dos canais linfáticos retroperitoneais</p><p>• Iatrogênica durante dissecções retroperitoneais: linfadenectomia retroperitoneal,</p><p>aneurismorrafia da aorta abdominal</p><p>• Trauma fechado ou penetrante</p><p>• Lesões malignas</p><p>• Obstrução dos canais linfáticos retroperitoneais</p><p>• Obstrução dos canais linfáticos na base do mesentério</p><p>• Anormalidades linfáticas congênitas</p><p>Hipoplasia linfática primária</p><p>Infecções peritoneais</p><p>• Peritonite tuberculosa</p><p>• Mixedema</p><p>• Síndrome nefrótica</p><p>• Serosite na doença do tecido conjuntivo</p><p>Em pacientes cirróticos, os dois principais fatores por trás da formação de ascite são retenção renal de sódio e água e</p><p>hipertensão portal. A retenção renal de sódio é induzida pela ativação de renina‑angiotensina‑aldosterona e sistemas</p><p>nervosos simpáticos, que promovem reabsorção de sódio pelo túbulo renal proximal e distal. Postula‑se que a liberação</p><p>anormal de óxido nítrico na circulação esplâncnica provoca vasodilatação e uma redução do volume sanguíneo circulante</p><p>efetivo. A renina, a aldosterona e outros hormônios são gerados como um mecanismo contrarregulador para restaurar ao</p><p>normal o volume sanguíneo circulante efetivo. A hipertensão portal é produzida por obstrução vascular pós‑sinusoidal</p><p>proveniente da deposição de colágeno no fígado cirrótico. A maior pressão hidrostática nos sinusoides hepáticos e na</p><p>vasculatura esplâncnica induz o extravasamento de líquido da microvasculatura para o compartimento extracelular. Ocorre</p><p>ascite quando a capacidade do sistema linfático de retornar esse líquido para a circulação sistêmica está sobrecarregada.</p><p>Alguns estudos têm revisado o mecanismo fisiopatológico subjacente à formação de ascite, hiponatremia e retenção de</p><p>líquido que caracteriza pacientes com cirrose.20,21</p><p>A obstrução do fluxo sanguíneo portal ou das veias hepáticas, na ausência de cirrose (p. ex., trombose da veia porta ou</p><p>síndrome de Budd‑Chiari, respectivamente), também promove formação de ascite por aumento da pressão hidrostática</p><p>dentro da microvasculatura. Um mecanismo semelhante fundamentado na pressão contribui para a formação de ascite em</p><p>pacientes com insuficiência cardíaca, embora a liberação de vasopressina e renina‑angiotensina‑aldosterona também</p><p>promova retenção de sódio e água nesses pacientes.</p><p>Os pacientes com processos malignos desenvolvem ascite por um de três mecanismos:</p><p>1. Metástases hepáticas múltiplas provocam hipertensão portal por estreitamento ou oclusão de ramos do sistema</p><p>venoso portal.</p><p>2. Células malignas espalhadas por toda a cavidade peritoneal liberam líquido rico em proteína para a cavidade</p><p>peritoneal, como na carcinomatose.</p><p>3. A obstrução dos linfáticos retroperitoneais por um tumor, como um linfoma, provoca ruptura dos canais linfáticos</p><p>principais e o extravasamento de quilo na cavidade peritoneal.</p><p>Por último, a ascite pode resultar do extravasamento de líquido pancreático, bile ou linfa para a cavidade peritoneal após</p><p>ruptura iatrogênica ou inflamatória de um ducto pancreático principal, biliar ou linfático.</p><p>Apresentação clínica e diagnóstico</p><p>O diagnóstico de ascite é firmado com base no histórico clínico e no aspecto do abdome. Obviamente, procuram‑se fatores</p><p>de risco de hepatite ou cirrose, bem como evidência de doença cardíaca, renal ou processo maligno. Um abdome cheio e</p><p>abaulado com macicez dos flancos à percussão é sugestivo da presença de ascite. Aproximadamente 1,5 litro de líquido</p><p>deve estar presente antes da macicez poder ser detectada por percussão. Evidência física de cirrose também é procurada,</p><p>como eritema palmar, veias colaterais da parede abdominal dilatadas e múltiplos angiomas aracnoides. Os pacientes com</p><p>ascite cardíaca têm uma impressionante distensão da veia jugular e outras evidências de insuficiência cardíaca congestiva.</p><p>Análise do líquido ascítico</p><p>Paracentese com análise do líquido ascítico é o método mais rápido e eficaz de determinar a causa da ascite e deve ser</p><p>realizado em pacientes com ascite de início recente. Outra indicação importante para a paracentese precoce no paciente com</p><p>ascite é a ocorrência de sinais e sintomas de infecção, como dor abdominal ou hipersensibilidade, febre, encefalopatia,</p><p>hipotensão, insuficiência renal, acidose ou leucocitose. A paracentese pode ser realizada com segurança na maioria dos</p><p>pacientes, inclusive naqueles com cirrose e coagulopatia branda. É realizada mais comumente no abdome inferior, com o</p><p>quadrante inferior esquerdo sendo preferido ao direito. O ultrassom pode ser útil nos pacientes obesos e naqueles com</p><p>histórico de laparotomia. Runyon22 sugere que apenas a presença de coagulação intravascular disseminada e a evidência</p><p>clínica de fibrinólise são contraindicações para paracentese em pacientes com ascite. Neste estudo, não foram assinalados</p><p>hemoperitônio, morte ou infecção em 229 paracenteses realizadas em 125 pacientes cirróticos. Hematomas abdominais</p><p>ocorreram em 2% dos casos e apenas 50% desses pacientes necessitaram de transfusão de sangue.</p><p>A análise do líquido ascítico começa pela avaliação do seu aspecto macroscópico. O líquido ascítico normal é amarelado e</p><p>transparente. Caso o líquido ascítico contenha mais de 5.000 neutrófilos/mm3, ele será turvo, enquanto amostras de líquido</p><p>ascítico com contagem de neutrófilos menor que 1.000 células/mm3 têm aspecto praticamente límpido. Sangue no líquido</p><p>ascítico pode ser por decorrente de acidente por punção. Nesses casos, o líquido pode ter raias de sangue que muitas vezes</p><p>irão coagular, a menos que o líquido seja imediatamente transferido para um tubo contendo anticoagulante. O líquido</p><p>ascítico verdadeiramente sanguinolento não coagula, pois os fatores necessários já foram consumidos por coagulação prévia</p><p>e lise do coágulo que ocorreu dentro da cavidade peritoneal. A presença de lipídios no líquido, como aquele que</p><p>acompanha ascite quilosa, faz que o líquido pareça opalescente, variando de sombreado a completamente opaco. Caso seja</p><p>colocado no refrigerador por 48 a 72 horas, os lipídios geralmente formam um sobrenadante.</p><p>Os testes laboratoriais mais valiosos na avaliação do líquido ascítico incluem a contagem de células, com diferencial, e a</p><p>determinação das concentrações de albumina e proteína total do líquido ascítico. Os estudos variam, mas a maior parte</p><p>refere que uma contagem leucocitária normal está entre 100 e 300 células/mm3 na ascite cirrótica não complicada, e</p><p>aproximadamente 50% destas células são neutrófilos. Uma contagem aumentada de neutrófilos polimorfonucleares (></p><p>250 células/mm3) sugere processo inflamatório agudo, o mais comum dos quais é peritonite bacteriana espontânea.</p><p>O gradiente de albumina soro‑ascite (GASA) é o método mais confiável para a diferenciação das causas de ascite por</p><p>causa de hipertensão portal da não portal. O GASA é calculado pela determinação da concentração da albumina em</p><p>amostras do soro e do líquido ascítico, e subtraindo‑se o valor encontrado no líquido ascítico</p><p>do valor encontrado no soro.</p><p>Se o GASA for 1,1 g/dL ou mais, o paciente tem hipertensão portal; um GASA menor que 1,1 g/dL é consistente com a</p><p>ausência de hipertensão portal. Exemplos de causas de ascite com gradientes elevados e reduzidos são mostrados</p><p>na Tabela 43‑1. A acurácia dessas medidas em predizer a existência ou não de hipertensão portal é de cerca de 97%.23</p><p>Tabela 431</p><p>Classificação de ascite por gradiente soroascite de albumina</p><p>GRANDE GRADIENTE (≥ 1,1 g/dL) GRADIENTE BAIXO (</p>