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A Doutrina da Mortificação

Livro de A. W. Pink (trad. e adap. Silvio Dutra, 2017, 42p.) sobre a doutrina da mortificação cristã, abordando a mortificação do pecado, santificação, vida e virtudes cristãs segundo a tradição puritana e o caráter prático da doutrina para a piedade.

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A Doutrina da 
Mortificação 
 
 
 
 
 
A. W. Pink (1886-1952) 
 
Traduzido, Adaptado e 
Editado por Silvio Dutra 
 
 
 
 
Ago/2017 
 
 
 
2 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 P655 
 Pink, A. W. – 1886 -1952 
 A doutrina da mortificação – A. W. Pink 
 Tradução , adaptação e edição por Silvio Dutra – Rio de 
 Janeiro, 2017. 
 42p.; 14,8 x 21cm 
 
 1. Teologia. 2. Vida Cristã 3. Graça 4. Fé. 5.Santificação 
 6. Alves, 
 Silvio Dutra I. Título 
 CDD 230 
 
3 
 
Introdução pelo Tradutor 
O que possuíam em comum todos os puritanos 
históricos que viveram entre os séculos XVI e 
XVIII, e depois deles Jonathan Edwards, John 
Wesley, George Whitefield, Charles Haddon 
Spurgeon, e muitos outros? É fácil responder: a 
verdadeira nobreza do real caráter cristão que 
consiste em várias coisas, e dentre as quais 
destacamos: 
- Uma verdadeira busca do real poder da graça de 
Deus para mortificarem todos os seus pecados, a 
partir da fonte dos mesmos, a saber, da sua 
natureza terrena decaída em razão do pecado 
original. 
- A citada mortificação tinha em vista possibilitar 
o êxito em todo o empenho deles em se revestirem 
de todas as virtudes de Cristo, especialmente 
marcadas por: 
a) uma devoção completa à vontade de Deus 
sobretudo para ser obedecida e praticada nos 
deveres da vida cotidiana. 
b) uma honestidade e sinceridade absolutas. 
c) uma virilidade no trato pessoal que excluía 
todos os tipos de trejeitos, exasperações, 
4 
 
covardias, conversações vãs, maledicências, iras, 
porfias, chocarrices, duplicidade, infâmia, e tudo 
o que fosse contrário à paz e à seriedade no viver. 
d) um amor absoluto e incondicional à verdade, 
tal como se encontra revelada nas Escrituras, para 
ser praticada na vida, a que custo fosse. 
e) um profundo interesse no progresso do Reino 
de Cristo, sobretudo no que se refere à conquista 
e edificação de almas, em cumprimento à Sua 
comissão de se fazer discípulos em todas as 
nações. 
f) uma dedicação real à prática da oração, da 
vigilância e da meditação e prática da Palavra de 
Deus. 
g) o cultivo de uma linguagem sã e irrepreensível 
que glorifique a Deus. 
h) tudo fazer não em interesse próprio mas para o 
de Deus e para a Sua exclusiva glória. 
i) estarem dispostos a renunciar a tudo, inclusive 
aos afetos mais queridos, quando estes se 
interpõem entre eles e a vontade de Deus. 
j) rejeitarem toda a forma de mal, inclusive a 
própria aparência do mal, e sempre vencer o mal 
com o bem. 
5 
 
l) tudo fazer movidos pelo amor a Deus e ao 
próximo, estando dispostos a suportar ofensas e 
perseguições, e a perdoar setenta vezes sete, 
abençoando e nunca maldizendo, a ponto de amar 
inclusive seus inimigos. 
Muitas outras coisas podem ser acrescentadas à 
lista, mas, por estas poucas é possível entender por 
que muitos não têm o mínimo interesse em se 
tornarem cristãos, mas todos quantos têm se 
disposto a isto, têm recebido da parte de Deus o 
Seu bem-vindo à verdadeira nobreza. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
6 
 
"Porque se viverdes segundo a carne, haveis de 
morrer; mas, se pelo Espírito mortificardes as 
obras do corpo, vivereis." (Romanos 8:13) 
O termo "doutrina" tem um significado muito 
mais amplo na Palavra de Deus do que geralmente 
é concebido hoje. Inclui muito mais do que os 
"cinco pontos" do calvinismo. Assim lemos sobre 
"a doutrina que é de acordo com a piedade" (1 
Timóteo 6: 3), que é muito mais do que uma 
espécie de proposição intelectual destinada a 
instruir nossos cérebros, a saber, a enunciação de 
fatos espirituais e princípios sagrados, para o 
aquecimento do coração e para a regulação de 
nossas vidas. 
"A doutrina que é de acordo com a piedade" 
define de uma só vez a natureza da doutrina 
divina, insinuando como faz que seu desígnio ou 
fim seja inculcar uma disposição correta de mente 
e despertamento para a vida de Deus: é pura e 
purificadora. Os objetos que são revelados à fé 
não são abstrações nuas que devem ser aceitas 
como conceitos verdadeiros, nem mesmo 
sublimes e elevados, a serem admirados - que 
tenham um efeito poderoso em nossa caminhada 
diária. Não há doutrina revelada nas Escrituras 
para um conhecimento meramente especulativo, 
mas tudo tem em vista exercer uma poderosa 
7 
 
influência sobre a conduta. O propósito de Deus 
em tudo o que Ele nos revelou, é a purificação de 
nossas afeições e a transformação de nossos 
caracteres. A doutrina da graça nos ensina a negar 
à impiedade e às concupiscências mundanas e a 
viver com sobriedade, justiça e piedade neste 
mundo presente (Tito 2:11, 12). De longe, a maior 
parte da doutrina (João 7:16) ensinada por Cristo 
não consistia na explicação de mistérios, mas sim 
naquilo que corrigia os desejos dos homens e 
reformava suas vidas. Tudo na Escritura tem em 
vista a promoção da santidade. 
Se é um absurdo afirmar que não importa o que 
um homem acredita enquanto ele faz o que é certo, 
igualmente errôneo é concluir que, se meu credo 
for sólido, pouco importa como eu vivo. "Mas, se 
alguém não cuida dos seus, e especialmente dos 
da sua família, tem negado a fé, e é pior que um 
incrédulo." (1 Timóteo 5: 8), pois ele se mostra 
desprovido de afeto natural. Assim, é possível 
negar a fé por meio da conduta, bem como por 
palavras. A negligência de realizar o nosso dever 
é tão real repúdio à Verdade, como é uma renúncia 
aberta, pois o Evangelho, igualmente com a Lei, 
exige que os filhos honrem seus pais. Observe 
como dessa horrível lista de caracteres 
reprováveis mencionados em 1 Timóteo 1: 9,10, é 
dito ser "contrário à sã doutrina" - oposto à sua 
8 
 
natureza benéfica e tendência espiritual: essa é a 
conduta que o padrão de Deus exige. 
Observe também como esse espírito de avareza ou 
amor de dinheiro é designado como errante "da 
fé" (1 Timóteo 6:10): é uma espécie de heresia, 
um afastamento da doutrina que é segundo a 
piedade - um exemplo horrível do que temos no 
caso de Judas. 
A mortificação, portanto, é claramente uma das 
doutrinas práticas da Sagrada Escritura, como 
esperamos mostrar em abundância no que se 
segue. 
Romanos 8:13 fornece a descrição mais 
abrangente de nosso assunto a ser encontrada em 
qualquer versículo único da Bíblia, estabelecendo 
como faz o maior número de suas características 
principais: "Pois, se você viver de acordo com a 
carne, você morrerá, mas se você, através do 
Espírito, mortificar as ações do corpo, você 
viverá." Este é um versículo mais solene e de 
busca, e um que tem pouco lugar no ministério 
moderno, seja ele oral ou escrito. Mas muitos se 
recusaram a enfrentar suas afirmações e 
implicações. 
Cinco coisas nele afirmadas requerem a nossa 
melhor atenção: 
9 
 
Primeiro, as pessoas abordadas. 
Em segundo lugar, o horrível aviso aqui 
estabelecido diante deles. 
Em terceiro lugar, o dever encarregado a eles. 
Em quarto lugar, a ajuda efetiva fornecida. 
Em quinto lugar, a promessa feita a eles. 
Quanto melhor para concentrar nossas mentes, e 
para nos permitir lidar com as dificuldades que 
não poucos encontraram no verso, antes de 
procurar preencher nosso esboço, vamos fazer 
uma série de questões pertinentes. 
Qual é a relação entre o nosso texto e o contexto? 
Por que os dois membros estão na forma 
hipotética - "se"? O "você" em cada metade do 
versículo faz referência às mesmas pessoas, ou 
existem duas classes completamente diferentes? 
Se o último for o caso, então, por qual princípio 
válido de exegese podemos explicar isso? Por que 
não mudar um deles para "nenhum" ou "eles"?O que significa "viver segundo a carne"? É 
possível que um verdadeiro cristão faça isso? 
Caso contrário, e se não são pessoas regeneradas 
que são mencionadas, então, por que é dito que 
"morrerão", visto que eles já estão mortos 
10 
 
espiritualmente? Os termos "morrer" e "viver" 
aqui são usados de forma figurativa e 
relativamente, ou literal e absolutamente? O que é 
entendido por "mortificar" e por que "as ações do 
corpo" em vez de "as luxúrias da carne"? 
Se o "você" executar essa tarefa, então, "através 
do Espírito"? Se Ele é o principal trabalhador, 
então, por que é o mortificante também 
convocado a fazer tal trabalho? Se há ação 
conjunta, então, como os dois fatores devem ser 
ajustados? De que maneira a promessa "você 
viverá" será feita boa, já que eles já estão vivos 
espiritualmente? Não conhecemos nenhum 
comentador que tenha feito uma tentativa real de 
lidar com esses problemas. 
Todo o contexto deixa bem claro que classes 
específicas de pessoas são abordadas aqui: 
Primeiro, são os que estão em Cristo Jesus, sobre 
os quais agora não há condenação (versículo 1). 
Em segundo lugar, são aqueles que foram 
libertados da lei do pecado e da morte, e tiveram 
a justiça de Cristo imputada a eles (versículos 2-
4). 
Terceiro, são aqueles que dão a prova de que são 
os beneficiários de Cristo, caminhando não 
11 
 
segundo a carne, mas segundo o espírito 
(versículo 4). 
No que se segue imediatamente, é dada uma 
descrição de duas classes radicalmente diferentes: 
1. Os que estão de acordo com a carne, 
2. Aqueles cuja posição legal não está na carne, 
mas no espírito, que são espiritualmente 
conscientes, porque são habitados pelo Espírito de 
Deus (versículos 5-11). 
Em quarto lugar, a respeito do último - "nós" em 
oposição ao "eles" do versículo 8 - o apóstolo 
descreve uma conclusão simples e prática: 
"Portanto, irmãos, somos devedores, não à carne, 
para viver segundo a carne" (Verso 12) - a 
denominação cativante que Paulo não nos deixa 
em dúvida quanto ao tipo particular de caracteres 
que ele abordava. Thomas Manton escreveu um 
sermão muito capaz sobre este verso, e nós, 
principalmente na nossa própria língua, 
personificamos sua exposição. 
O homem ficaria de bom grado entregue à sua 
disposição. A linguagem de seu coração é "nossos 
lábios são nossos: quem é o Senhor sobre nós?" 
(Salmo 12: 4). Ele afeta a supremacia e reivindica 
o direito de domínio sobre suas próprias ações. 
12 
 
Mas sua reivindicação é inválida, ele foi criado 
por Outro e, portanto, ele é um "devedor". 
Negativamente, não à carne, que é mencionada 
porque esse princípio corrupto sempre exige 
sujeição a ele. Positivamente, ele é devedor 
daquele que lhe deu o ser. 
Os cristãos são devedores tanto como criaturas 
quanto como novas criaturas, sendo inteiramente 
dependentes de Deus por seu ser e seu bem-estar, 
por sua existência e preservação. Como nosso 
Criador, Deus é nosso Proprietário, e sendo nosso 
Proprietário Ele é, portanto, nosso Governador e, 
por consequência, nosso Juiz. Ele tem uma 
propriedade absoluta sobre nós, um poder 
incontestável sobre nós, para comandar e dispor 
de nós como Ele quiser. Não temos nada além do 
que recebemos dele. Somos responsáveis perante 
ele por nosso tempo e nossos talentos. Todo 
benefício que recebemos aumenta nossa 
obrigação para com ele. Não temos o direito de 
nos agradar em nada. Esta dívida é indissolúvel: 
enquanto dependermos de Deus, enquanto 
estivermos ligados a Ele. O pecado não cancelou 
nossa obrigação, pois, embora o homem caído 
tenha perdido o poder de obedecer, o Senhor não 
perdeu o Seu poder de mandar. 
Em virtude de seu ser espiritual, o santo ainda é 
mais devedor de Deus: 
13 
 
Primeiro, por causa de sua redenção por Cristo, 
pois ele não é dele, mas comprado por um preço 
(1 Coríntios 6: 9). O estado do qual ele foi 
redimido era uma escravidão lamentável, pois era 
escravo de Satanás. Agora, quando um cativo foi 
resgatado, tornou-se a propriedade absoluta do 
comprador (Levítico 25: 45,46). O fim que Cristo 
tinha em vista prova o mesmo: Ele "nos redimiu 
para Deus" (Apocalipse 5: 9). 
Segundo, por causa de sua regeneração. A nova 
natureza então recebida se inclina para Deus: 
somos criados em Cristo Jesus para boas obras 
(Efésios 2:10). Tendo nos trazido da morte para a 
vida, nos renovou à Sua imagem, nos conferiu o 
status e os privilégios da filiação, e devemos, 
nossa força e nosso serviço a Deus como Seus 
beneficiários. A nova criatura é desviada do seu 
uso adequado se vivermos segundo a carne. 
Terceiro, por nossa própria dedicação (Romanos 
12: 1). Uma conversão genuína envolve a 
renúncia ao mundo, à carne e ao diabo, e a entrega 
de nós mesmos ao Senhor (2 Coríntios 8: 5). 
Como a nossa obediência a Deus é uma dívida, 
não pode haver mérito nisto (Lucas 17:10); mas se 
não pagarmos isso, incorremos em dívidas de 
punição (Mateus 6: 12,15). Como a carne não tem 
direito de comando, a gratificação é a rendição a 
um usurpador tirano (Romanos 6: 12,14). Quando 
14 
 
solicitado pela carne, o crente deve responder: 
"Eu sou do Senhor". 
"Pois, se viverdes de acordo com a carne, 
morrereis, mas se pelo Espírito mortificardes as 
ações do corpo, vivereis". Aqui estão duas 
proposições bem contrastadas, cada uma sendo 
expressa condicionalmente. Duas hipóteses são 
claramente apresentadas. Duas suposições são 
mencionadas, e o resultado inevitável de cada uma 
claramente indicado. Ambas as partes do 
versículo afirmam que, se um certo 
comportamento for seguido de forma constante 
(pois está longe de ser ações isoladas a que se 
refere), um certo resultado inevitavelmente se 
seguirá. Esta forma hipotética de apresentar a 
Verdade é bastante comum nas Escrituras. Os 
servos de Cristo são informados de que "se os" 
ministros "do versículo 5," os trabalhadores "do 
versículo 9, forem "servos de Cristo", trabalhem 
cumprindo o que ele construiu sobre ele, ele 
receberá uma recompensa. Se o trabalho de 
alguém [do "ministro"] for queimado, ele sofrerá 
dano" (1 Coríntios 3:14, 15). Outros exemplos 
bem conhecidos são: "porque, se eu ainda 
agradasse os homens, não seria servo de Cristo" e 
"Porque, se torno a edificar aquilo que destruí, 
constituo-me a mim mesmo transgressor." 
(Gálatas 1 : 10; 2:18). "Como escaparemos, se 
negligenciarmos tão grande salvação?" (Hebreus 
15 
 
2: 3 e cf. 10:26). Nosso texto, então, é paralelo 
com: "Porque quem semeia na sua carne, da carne 
ceifará a corrupção; mas quem semeia no Espírito, 
do Espírito ceifará a vida eterna." (Gálatas 6: 8). 
Há duas coisas que o povo de Deus sempre 
precisa: avisos fiéis e incentivos gentis. As 
advertências fidedignas são para conter suas 
propensões pecaminosas - os incentivos gentis são 
pra animar suas graças espirituais ao cumprimento 
do dever, especialmente quando são abatidos 
pelas dificuldades do caminho ou estão de luto por 
seus fracassos. Aqui também, um equilíbrio 
precisa ser cuidadosamente preservado. 
Os crentes inexperientes têm pouca compreensão 
das dificuldades e perigos diante deles, e os 
corações dos mais velhos são tão enganosos que 
cada um precisa ser corrigido de forma clara e 
frequente e exortado a prestar atenção aos sinais 
de perigo que Deus criou ao longo do nosso 
caminho. É impressionante e solene observar com 
que frequência o Salvador soou a nota de aviso, 
não só para os ímpios, mas especialmente para os 
discípulos. Ele lhes mandou: 
"Atender ao que ouvem" (Marcos 4:24); 
"Ter cuidado com os falsos profetas" (Mateus 
7:15); 
16 
 
"Veja, portanto, que a luz que está em você não 
seja escuridão" (Lucas 11:35); 
"Lembre-se da esposa de Ló." (Lucas 17:32). 
"Olhai por vós mesmos; não aconteça que os 
vossos corações se carreguem de glutonaria, de 
embriaguez, e dos cuidados da vida, e aquele dia 
vos sobrevenha de improvisocomo um laço.". 
(Lucas 21:34). 
Para um, que ele curou: "não peques mais, para 
que não te suceda coisa pior." (João 5:14). 
A palavra "carne" é usada na Escritura em vários 
sentidos, mas, em todo o capítulo oitavo de 
Romanos, significa a natureza corrupta e 
depravada que está em nós desde que entramos 
neste mundo. Essa natureza ou princípio do mal é 
designado de diversas formas. É chamado de 
"pecado" (Romanos 7: 8), "guerreando contra a lei 
da minha mente" (versículo 23). Mas mais 
comumente se chama "a carne" (João 3: 6; 
Romanos 7:25; Gálatas 5:17). 
É assim denominado porque é transmitido de pai 
para filho, porque é propagado pela geração 
natural, porque é fortalecido e atraído por objetos 
carnais, por causa de seu caráter vil e degenerado. 
Não foi no homem quando ele foi formado pela 
17 
 
mão de seu Criador e foi pronunciado por Ele 
"muito bom". Em vez disso, foi algo que ele 
adquiriu na Queda. O princípio do pecado como 
elemento estranho, como um extra, como agente 
invasor, entrou nele, viciando todo o seu ser 
natural - à medida que a geada entra e arruína 
vegetais, e quando a praga se apodera deles. 
A "carne" é o inimigo aberto, implacável, 
inveterado e irreconciliável da santidade, sim, é 
"inimizade contra Deus" (Romanos 8: 7) - um 
"inimigo" pode ser reconciliado e não ter tanta 
"inimizade". Então, que coisa má e abominável é 
a carne: em desacordo com o Santo, um rebelião 
contra a Sua Lei! É, portanto, nosso inimigo, sim, 
é de longe o pior inimigo que o crente tem. O 
Diabo e o mundo exterior, fazem todo o seu mal 
às almas dos homens pela carne que está no 
interior deles. 
"A carne é o útero onde todo o pecado é concebido 
e formado, a bigorna sobre a qual tudo é forjado, 
os falsos Judas que nos traem, o inimigo secreto 
dentro da guarnição que está pronto em todas as 
ocasiões para abrir as portas aos assediadores" 
(Thomas Jacomb, 1622-87). 
Devemos distinguir fortemente entre estar na 
carne e viver de acordo com a carne. Assim, "pois 
quando estávamos na carne" (Romanos 7: 5) faz 
18 
 
referência aos cristãos em sua condição não 
regenerada, como "os que estão na carne não 
podem agradar a Deus" fala dos não salvos; 
considerando que "Mas você não está na carne, 
mas no espírito" (8: 8,9) é relacionado aos crentes. 
"Na carne" se refere à posição e ao estado de uma 
pessoa diante de Deus; viver segundo a carne 
descreve seu curso e conversação. Aquele 
inevitavelmente segue e corresponde ao outro: o 
caráter e a conduta de uma pessoa concordam com 
sua condição e caso. 
A carne é radical e totalmente má: como Romanos 
7:18, declara, não há "nada bom" nela, está além 
da recuperação, sendo incapaz de qualquer 
melhoria. Pode, de fato, vestir um traje religioso, 
assim como os fariseus, mas abaixo não há senão 
a podridão. O fogo pode ser destruído logo que 
disposições sagradas e movimentos sejam 
produzidos pelo pecado residente. Como a 
"carne" opõe-se continuamente àquilo que é bom, 
por isso, ela inclina a alma para o que é mau. 
Porque "caminhar, ou viver segundo a carne" 
(ambos os verbos têm a mesma força) é uma 
pessoa se comportar como todos os não 
regenerados, dominados, motivados e movidos 
por nada além de sua natureza caída. "Viver 
segundo a carne" não se refere a um único ato, 
nem mesmo a um hábito ou a uma série de atos 
em uma direção; mas sim para todo o homem ser 
19 
 
governado e guiado por este princípio vil. Esse é 
o caso de todos os que estão fora de Cristo: seus 
desejos, pensamentos, fala e ações procedem 
dessa fonte corrupta. É pela carne que as suas 
almas estão em movimento e todo o seu curso é 
conduzido. Tudo é dirigido por alguma 
consideração carnal. Eles agem de si mesmos, ou 
para si mesmos. A glória de Deus não é nada para 
eles, a carne é tudo em tudo. 
(Nota do tradutor: Esta última consideração pode 
parecer a muitos que seja algo exagerado, todavia, 
é a mais pura verdade, pois todo aquele que não 
nasceu de novo do Espírito Santo, não possuindo 
portanto uma nova natureza espiritual, tudo pensa 
ou faz segundo o homem natural, de modo que até 
mesmo tudo o que faça de bom, não está 
relacionado aos motivos e à ação do Espírito 
Santo neles, uma vez que todos aqueles que não 
têm a Cristo como Senhor e Salvador, 
consequentemente não tem também o Espírito 
Santo habitando neles. E conforme afirmou Jesus: 
tudo o que é nascido da carne é carne, e somente 
o que é nascido do Espírito é espírito. Conclui-se 
portanto que tudo o que a natureza terrena pode 
produzir é somente aquilo que é relativo à carne, 
da mesma forma que a natureza espiritual não 
pode produzir o que é carnal, senão somente o que 
é espiritual. Não há portanto, necessariamente e 
apenas, um conotação moral no que está sendo 
20 
 
enfocado, senão realidades distintas relativas à 
condição intrínseca de cada pessoa perante Deus: 
se dotada de uma única natureza (a carnal – não 
convertidos) ou de duas (a carnal e a espiritual - 
convertidos). E nisto, pouco importa o que o 
homem julgue possuir, mesmo no caso daqueles 
que pensam estar agindo em nome de Deus, pois 
é possível viver em autoilusão, em autoengano por 
anos sucessivos, até o dia da morte, pensando-se 
que se servia a Deus, quando na verdade, não 
havia qualquer relacionamento real e pessoal com 
Ele, por meio da fé em Jesus Cristo, e mediante a 
habitação do Espírito Santo. Por isso somos 
convocados a buscar evidências de conversão 
naquilo que afirmam as Escrituras e na 
testificação do Espírito Santo com o nosso 
espírito, e não em convicções religiosas que sejam 
o fruto da nossa imaginação ou da influência 
recebida de terceiros que não correspondam à 
verdade revelada.) 
A carne é um princípio dinâmico, ativo e 
ambicioso e, portanto, é falada como sendo uma 
luxúria. Assim, lemos sobre "os desejos da carne", 
sim, da "vontade da carne" (Efésios 2: 3 - 
margem) pois seus desejos são veementes e 
imperiosos. "Mas [o pecado], tomando ocasião 
[sendo agravado] pelo mandamento [" você não 
deve cobiçar"], forçou em mim todo tipo de 
concupiscência" (Romanos 7: 8). 
21 
 
Educação e cultura podem resultar em um exterior 
refinado; treinamento familiar e outras influências 
podem levar a uma amizade à religião, como é o 
caso da grande maioria dos pagãos; considerações 
egoístas podem até mesmo provocar, 
voluntariamente, grandes austeridades e 
privações, como o budista para alcançar o 
Nirvana, o maometano para ganhar o paraíso, o 
romanista para merecer o Céu - mas o amor de 
Deus não conduz a nenhum deles, nem a sua 
glória é o seu objetivo. Embora o cristão seja "não 
na carne" quanto ao seu estado, a carne como 
princípio do mal (sem mudança) ainda está nele, e 
"luta contra o Espírito" (Gálatas 5:17) ou nova 
natureza, E, portanto, somos exortados: "Não 
reine o pecado, isto é, a carne", no seu corpo 
mortal, para que você obedeça as suas 
concupiscências." (Romanos 6:12). 
É preciso apontar que há um duplo andar ou viver 
de acordo com a carne: o mais grosseiro e 
manifesto, e o outro mais indiscernível. 
O primeiro ocorre em concupiscências e atos 
abertos e corporais, como gula, embriaguez ou 
imoralidade: isto é "a imundície da carne". 
O segundo é quando a carne se exerce nas 
concupiscências do coração interno, que são mais 
ou menos escondidas de nossos companheiros, 
22 
 
que estão ardendo e penetrando dentro de nossa 
alma, como o orgulho, a incredulidade, o amor 
próprio, a inveja e a avareza; esta é a imundície 
"do espírito" (2 Coríntios 7: 1). 
Em Gálatas 5: 18,19, o apóstolo dá um catálogo 
das cobiças da carne em ambos os aspectos. Ele 
faz isso para expor uma falácia comum. É 
geralmente assumido que andar ou viver "de 
acordo com a carne" é limitado à primeira forma 
mencionada, e a segunda é pouco considerada. 
Enquanto os homens se abstêm de uma 
intemperança grosseira,palavrões aberrantes, 
sensualidade brutal, eles pensam que tudo está 
bem com eles, enquanto eles podem estar bastante 
livres de todas as práticas grosseiras e ainda serem 
culpados de viver segundo a carne. Sim, tal é o 
caso de todos em cujo coração há afeições 
excessivas ao mundo, um espírito de 
autoexaltação, avareza, malícia, ódio, carnalidade 
e muitas outras concupiscências censuráveis. 
(Nota do tradutor: A isto acrescento a principal 
característica dos que têm a forma da piedade mas 
não o seu poder – a saber, eles não têm qualquer 
consideração para com Deus ou com a Sua 
vontade revelada nos Seus mandamentos, e no 
tipo de vida santificada que exige de todos aqueles 
que pretendem dEle se aproximar. Assim, 
segundo Deus, é de pouco valor mesmo uma vida 
moralmente impoluta, quando Ele é deixado de 
23 
 
lado, e a pessoa caminha baseando-se em sua 
justiça própria e autoglorificação.) 
Nosso texto nos deixa clara a importância 
fundamental e vital do dever aqui enunciado, pois 
nosso desempenho ou não desempenho é 
literalmente uma questão de vida e morte. A 
mortificação não é opcional, mas imperativa. As 
alternativas solenes são claramente declaradas: a 
negligência garante a miséria eterna, o 
cumprimento disso assegura a felicidade eterna. O 
versículo inteiro é manifestamente dirigido aos 
santos, e eles são fielmente avisados: "Se você 
viver segundo a carne, você morrerá" - isto é, 
morrerá eternamente, como em 5:12, 21; 7:23; 8: 
6, "morte" inclui todas as consequências penais do 
pecado aqui e a seguir; então, em nosso texto, 
"morrer" significa manifestamente "sofrer a 
segunda morte", que é "o lago que queima com 
fogo e enxofre" (Apo 21: 8). A razão expressa está 
aqui citada por que os cristãos não devem viver 
segundo a carne: eles não são devedores a ela para 
fazê-lo (versículo 12): se eles se renderem ao seu 
domínio, o salário do pecado certamente será pago 
a eles. "A carne pertence ao mundo, e o homem 
que cede às suas inspirações está no mundo, 
vivendo como o mundo e perecendo com o 
mundo" (J. Stifler). 
24 
 
Foi ao ceder aos desejos da carne que Adão trouxe 
a morte sobre si mesmo e toda a sua posteridade. 
E se eu vivo segundo a carne, isto é, se sou 
governado e guiado pela minha natureza antiga, 
agindo habitualmente de acordo com suas 
inclinações - pois é um curso de conduta 
persistente e contínuo que é mencionado aqui - 
então, não importa o que seja minha profissão 
religiosa, eu perecerei no meu pecado. É 
gratificando e servindo a carne, em vez da vontade 
de Deus, que arruína as almas eternamente. 
"Pode-se perguntar se alguém que recebeu a graça 
de Deus na verdade pode viver segundo a carne. 
Viver em um curso contínuo de pecado é contrário 
à graça de Deus, mas a carne pode prevalecer e 
influenciar grandemente a vida e a conversação 
por um tempo. Por quanto tempo este pode ser o 
caso de um verdadeiro crente sob o retrocesso, 
através do poder das corrupções e das tentações, 
não pode ser conhecido, mas é certo que não deve 
ser sempre assim com ele." (John Gill). 
Todo o nosso versículo pertence a professantes 
cristãos, e no momento presente. O Apóstolo não 
disse simplesmente: "Se você está na carne", pois 
esse é o caso de toda alma não regenerada. Mas se 
você agora viver segundo a carne, "você morrerá" 
- no pleno significado dessa palavra. É uma 
afirmação geral de uma verdade universal. 
25 
 
Concordamos plenamente com a explicação 
fornecida por B.W. Newton, que era um calvinista 
decidido. "Uma expressão desse tipo é dirigida a 
nós por dois motivos. Primeiro, porque na igreja 
professante o apóstolo sabia que havia e haveria 
crentes nominais e falsos. Portanto, sempre que há 
o endereçamento a corpos coletivos, ele sempre 
usa palavras que implicam incerteza e dúvida, 
porque há jugo entre o trigo. E segundo, os 
próprios crentes verdadeiros (embora a graça 
possa preservá-los) tenham, no entanto, sempre 
uma tendência neles nos mesmos caminhos. 
Portanto, descrições como esta, que são 
verdadeiras para os que meramente professam, 
podem ainda que ser corretamente aplicadas a 
todos os que estão vagando por esses caminhos." 
Exemplos disso são encontrados em passagens 
como Gálatas 4:20 e 6: 8; Efésios 5: 5-7; 
Colossenses 3: 5, 6. 
“Eu bem quisera estar presente convosco agora, e 
mudar o tom da minha voz; porque estou perplexo 
a vosso respeito.” (Gál 4.20). 
“Porque quem semeia na sua carne, da carne 
ceifará a corrupção; mas quem semeia no Espírito, 
do Espírito ceifará a vida eterna.” (Gál 6.8). 
26 
 
“Porque bem sabeis isto: que nenhum devasso, ou 
impuro, ou avarento, o qual é idólatra, tem 
herança no reino de Cristo e de Deus. Ninguém 
vos engane com palavras vãs; porque por estas 
coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da 
desobediência. Portanto não sejais participantes 
com eles.” (Efésios 5.5-7). 
“Exterminai, pois, as vossas inclinações carnais; a 
prostituição, a impureza, a paixão, a vil 
concupiscência, e a avareza, que é idolatria; pelas 
quais coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da 
desobediência; nas quais também em outro tempo 
andastes, quando vivíeis nelas; mas agora 
despojai-vos também de tudo isto: da ira, da 
cólera, da malícia, da maledicência, das palavras 
torpes da vossa boca; não mintais uns aos outros, 
pois que já vos despistes do homem velho com os 
seus feitos, e vos vestistes do novo, que se renova 
para o pleno conhecimento, segundo a imagem 
daquele que o criou;” (Colossenses 3.5-10). 
Deve-se ter em mente que um cristão retrocedente 
se desviou do caminho estreito de negar a si 
mesmo, e que, se ele segue o caminho de 
autoagrado até o amargo final, a destruição o 
aguarda . 
Veja aqui a fidelidade de Deus em tão claramente 
advertir do terrível destino que aguarda todos os 
27 
 
que vivem segundo a carne. Em vez de pensar 
com dureza de Deus por Suas ameaças, devemos 
agradecê-las. (Nota do tradutor: pois nos dá a 
oportunidade de examinarmos pela falta ou 
presença de evidências de um andar no Espírito 
em nós, se estamos ou não de fato na fé, de modo 
a buscarmos lugar de um verdadeiro 
arrependimento que nos conduza à salvação, no 
caso da falta das citadas evidências que são 
citadas abundantemente nas Escrituras.) Veja a 
justiça de Deus. Ter prazer e continuar na 
apostasia da humanidade e, portanto, a sentença 
original (Gênesis 2:17) está em vigor contra os 
que andam somente segundo a carne. É desprezo 
de Deus, e é medido pela grandeza daquele que é 
ofendido (1 Samuel 2:25). Além disso, eles 
recusam o remédio e, portanto, são duplamente 
culpados. 
Veja aqui a sabedoria de Deus ao nomear o maior 
castigo para conter a grandeza da tentação. Os 
prazeres do pecado são apenas por uma 
temporada, mas os caminhos do pecado são para 
sempre: se estes últimos fossem profundamente 
crentes e seriamente considerados, o primeiro não 
prevaleceria tão facilmente conosco. Veja a 
santidade de Deus: uma alma não mortificada é 
imprópria para Sua presença. Os vasos de glória 
devem primeiro ser temperados com graça. A 
28 
 
conformidade com Cristo se adapta ao Céu, e 
onde isso faltar não pode haver entrada. 
"Pois, se viverdes de acordo com a carne, 
morrereis, mas se pelo Espírito mortificardes as 
ações do corpo, vivereis". (Romanos 8:13). O 
conjunto deste versículo pertence aos crentes, que 
são "devedores, não à carne, para viver segundo a 
carne" (versículo 12); mas, em vez disso, 
devedores a Cristo que os redimiu e, portanto, 
para viver para a Sua glória; devedores do Espírito 
Santo que os regenerou e os habitou e, portanto, 
vivem em obediência ao Seu controle absoluto. 
Nesta ocasião, indicaremos muito brevemente o 
que significa "mortificar", dando uma explicação 
mais completa da natureza precisa deste dever. 
Primeiro, por estar aqui colocado em oposição 
com "viver segundo acarne", seu sentido negativo 
é mais ou menos óbvio. Porque "viver segundo a 
carne" deve ser completamente controlado pelo 
pecado interior, estar completamente sob o 
domínio de nossas corrupções inatas. Assim, a 
mortificação consiste em um curso de conduta que 
é apenas o contrário. Importa no seguinte: não 
respeite as exigências da sua natureza antiga, mas 
sim subjugue-as. Não sirva, não aprecie seus 
desejos, mas mate-os: "não façam provisão para a 
carne, para cumprir suas concupiscências" 
29 
 
(Romanos 13:14). Os desejos naturais e os 
apetites do corpo físico requerem disciplina, de 
modo que sejam nossos servos e não nossos 
mestres; é nossa responsabilidade moderá-los, 
regulá-los e subordiná-los às partes mais elevadas 
do nosso ser. Mas os desejos do corpo do pecado 
devem ser prontamente recusados e negados 
severamente. A vida espiritual é retardada apenas 
na medida em que produzimos subserviência às 
nossas paixões do mal. 
A necessidade imperiosa dessa obra de 
mortificação surge da presença contínua da 
natureza do mal no cristão. Ao crer em Cristo para 
a salvação, ele foi imediatamente libertado da 
condenação da lei divina e libertado do poder 
reinante do pecado; mas "a carne" não foi 
erradicada de seu ser, nem suas vis propensões 
foram purgadas ou mesmo modificadas. Essa 
fonte de imundície ainda permanece inalterada até 
o fim de sua carreira terrena. 
Não somente isto, mas é sempre ativa em sua 
hostilidade a Deus e à santidade: "A carne luta 
contra o Espírito [ou nova natureza], e o Espírito 
contra a carne" (Gálatas 5:17). Assim, há um 
conflito incessante no santo entre o pecado 
interior e a graça inerente. Consequentemente, há 
uma necessidade perpétua de mortificar não 
apenas as atuações da corrupção residente, mas 
30 
 
também o próprio princípio. Ele é chamado a se 
envolver em guerras incessantes e não permitir a 
tentação de levá-lo ao cativeiro para suas 
concupiscências. 
A proibição divina é "não ter comunhão com as 
obras infrutíferas das trevas [não entrar em trégua, 
sem aliança], mas sim repreendê-las" (Efésios 
5:11). Diga com Efraim do passado: "O que tenho 
a ver com os ídolos?" (Oseias 14: 8). 
Não é possível uma verdadeira comunhão com 
Deus, enquanto as concupiscências pecaminosas 
permanecem intactas. Permitir o mal. . . 
Entristece o coração de Deus, 
Enreda as afeições, 
Desconjunta a alma e 
Provoca o Santo para fechar Seus ouvidos às 
nossas orações: "Filho do homem, estes homens 
deram lugar nos seus corações aos seus ídolos, e 
puseram o tropeço da sua maldade diante da sua 
face; devo eu de alguma maneira ser interrogado 
por eles?" (Ezequiel 14: 3). 
Deus não pode de modo algum se deleitar em uma 
alma não mortificada; porque Ele fazer isso, seria 
negar a Si mesmo ou agir de forma contrária à Sua 
31 
 
própria natureza. Ele não tem prazer na 
perversidade, e não pode olhar com a menor 
aprovação para o mal. O pecado é uma lama, e 
quanto mais nós pecamos - menos adequados 
somos para os Seus olhos (Salmos 40: 2). O 
pecado é uma lepra (Isaías 1: 6), e quanto mais se 
espalha - menos o Senhor estará conosco. 
Deliberadamente, manter o pecado vivo é 
defendê-lo contra a vontade de Deus e desafiar e 
combater com o Altíssimo. 
O pecado não mortificado é contra todo o desígnio 
do Evangelho - como se o sacrifício de Cristo se 
destinasse a nos livrar do pecado, em vez de nos 
redimir. O propósito da morte de Cristo foi a 
morte do pecado. 
Embora ressuscitados com Cristo, suas vidas se 
esconderam com Ele em Deus, e eles certamente 
aparecerão com Cristo em glória, mas os santos 
são exortados a mortificar seus membros que 
estão sobre a terra (Colossenses 3: 1-5). Pode 
parecer estranho quando notamos quais os 
membros específicos que o apóstolo especificou. 
Não eram pensamentos vãos, frieza de coração, 
caminhadas imprudentes - mas os membros 
visíveis e mais repulsivos do velho homem: 
"imoralidade sexual, impureza, luxúria, desejos 
malignos e ganância, que é idolatria"; e nos 
versículos 8 e 9 ele lhes pede novamente: " 
32 
 
despojai-vos também de tudo isto: da ira, da 
cólera, da malícia, da maledicência, das palavras 
torpes da vossa boca; não mintais uns aos outros, 
pois que já vos despistes do homem velho com os 
seus feitos.” Assustador e solene é achar que é 
exigido dos crentes que mortifiquem pecados tão 
grosseiros e sujos como aqueles - ainda que não 
seja mais do que é necessário. Os melhores 
cristãos na terra têm tanta corrupção dentro deles, 
que habitualmente os dispõe para essas 
iniquidades (tão grandes e hediondas quanto elas), 
e o Diabo se adequará às suas tentações, como 
certamente atrairá suas corrupções para atos 
abertos, a menos que eles mantenham uma mão 
apertada e uma vigilância íntima sobre eles 
mesmos no exercício constante da mortificação. 
Ninguém, senão o Santo de Deus, poderia 
verdadeiramente dizer: "o príncipe deste mundo 
vem e não tem nada em Mim" (João 14:30), que 
pudesse ser acendido por seus dardos ardentes. 
Assim, os servos de Deus não considerem em seu 
julgamento qualquer pecado como sendo 
pequeno, e considerando ser questão trivial, 
dizendo: "(porventura não é pequeno?), e viverá a 
minha alma.” (Gênesis 19:20); então o ministro 
fiel irá pressionar sobre todo o povo de Deus que 
eles não devem desconsiderar nenhum pecado 
porque é grande e doloroso e dizer dentro de si 
mesmos: "Isto não é um grande pecado? E minha 
33 
 
alma jamais o cometerá.". Assim, devemos 
depender da graça perdoadora de Deus para nos 
preservar da comissão de pecados grandes e 
dolorosos. É por causa de sua autoconfiança e 
descuido que às vezes os mais graciosas e 
experientes de repente se veem surpreendidos 
com as faltas mais terríveis. 
Quando o pregador se dirige aos seus ouvintes, 
exortando-lhe a terem cuidado de não 
assassinarem, não blasfemarem, não se tornarem 
apóstatas em sua profissão de fé, ninguém senão 
somente os autojustos dirão com Hazael: "Que é 
o teu servo, que não é mais do que um cão, para 
fazer tão grande coisa?" (2 Reis 8:13). Não há 
crime, por mais enorme, nenhuma abominação, 
por mais vil que seja, senão o que qualquer um de 
nós é capaz de cometer - se não trouxermos a cruz 
de Cristo nos nossos corações por uma 
mortificação diária! 
Mas por que "mortificar as ações do corpo"? Em 
vista do balanceamento estudado das várias 
cláusulas nesta frase antitética, esperávamos que 
fosse lido "mortifique a carne". No capítulo 
sétimo e nos versículos iniciais do oitavo, o 
apóstolo havia tratado do pecado interior como a 
fonte de todas as ações malignas; e aqui ele insiste 
na mortificação da raiz e dos ramos da corrupção, 
34 
 
referindo-se ao dever sob o nome dos frutos que 
ele tem. 
As "ações do corpo" não devem ser restritas a 
meros trabalhos externos, mas devem ser 
entendidas como incluindo também as fontes das 
quais elas procedem. Como John Owen disse com 
razão: "O machado deve ser colocado na raiz da 
árvore". Em nosso julgamento, "o corpo" aqui tem 
uma dupla referência. Primeiro, à natureza do mal 
ou ao pecado interior, que em Romanos 6: 6 e 7:24 
é comparado a um corpo, a saber, "o corpo dos 
pecados da carne" (Colossenses 2:11). É um corpo 
de corrupção que engloba a alma: daí lemos sobre 
"seus membros que estão sobre a terra" 
(Colossenses 3: 5). As "ações do corpo" são as 
obras que a natureza corrupta produz, ou seja, 
nossos pecados. Assim, o "corpo" é aqui usado 
objetivamente referindo-se à "carne". 
Em segundo lugar, o "corpo" aqui inclui a casa em 
que a alma agora habita. É especificado para 
denotar a maldade degradante que existe no 
pecado, reduzindo seus escravos a viver como se 
não tivessem almas. É mencionado para importar 
a tendência do pecado residente, ou seja, agradar 
e cuidar da parte mais baixa do nosso ser - e a alma 
sendo transformada pelohomem exterior. O corpo 
é aqui referido com o objetivo de nos informar 
que, embora a alma seja a residência original da 
35 
 
"carne", o quadro físico é o principal instrumento 
de suas ações. 
Nossas corrupções são principalmente 
manifestadas em nossos membros externos: é lá 
que o pecado interior é principalmente encontrado 
e sentido. Os pecados são denominados "as ações 
do corpo" não só porque são o que os desejos da 
carne tendem a produzir, mas também porque são 
executados pelo corpo (Romanos 6:12). Nossa 
tarefa, então, não é transformar "a carne", mas 
matá-la: recusar seus impulsos, negar suas 
aspirações, matar seus apetites pecaminosos. 
Mas quem é suficiente para tal tarefa - uma tarefa 
que não é uma obra da natureza, mas totalmente 
espiritual? É muito além dos poderes sem ajuda 
do crente. Meios e ordenanças não podem, por si 
só, afetá-lo. Está além da província e capacidade 
do pregador - a onipotência deve ter a principal 
participação no trabalho. 
"Se você, através do Espírito, mortificar", isto é "o 
Espírito de Deus, o Espírito de Cristo" de 
Romanos 8:12 - o Espírito Santo; pois Ele não é 
apenas o Espírito de santidade em Sua natureza, 
mas também em Suas operações. Ele é a principal 
causa eficiente de mortificação. Deixe-nos 
admirar e adorar a graça divina que nos forneceu 
um ajudante! Reconheçamos e percebamos que 
36 
 
estamos tão endividados e dependentes das 
operações do Espírito como estamos com a 
eleição do Pai e com a redenção do Filho. Embora 
a graça seja forjada nos corações do regenerado, 
ainda não está em seu poder para agir. Aquele que 
transmitiu a graça - deve renová-la, excitá-la e 
direcioná-la. 
Os crentes podem empregar os auxílios da 
disciplina interior e do rigor, e praticar a 
moderação e a abstinência externas, e enquanto 
eles podem, por um tempo, verificar e reprimir 
seus maus hábitos - a não ser que o Espírito opere 
Seu poder neles, não haverá verdadeira 
mortificação. E como ele opera neste trabalho 
específico? De muitas maneiras diferentes. 
Primeiro, no novo nascimento, ele nos dá uma 
nova natureza. Então, nutrindo e preservando essa 
natureza. Ao fortalecer-nos com o Seu poder no 
homem interior. Ao conceder novos suprimentos 
de graça dia a dia. Trabalhando em nós, uma 
repugnância pelo pecado, uma tristeza por causa 
dele, um abandono dele. Ao pressionar sobre nós 
as reivindicações de Cristo, fazendo-nos dispostos 
a assumir nossa cruz e segui-Lo. Ao trazer algum 
preceito ou aviso à nossa mente. Selando uma 
promessa sobre o coração. Ao nos mover para 
orar. 
37 
 
No entanto, seja cuidadosamente observado que 
nosso texto não diz: "Se o Espírito mortificar", ou 
mesmo "Se o Espírito através de você mortificar", 
mas, em vez disso, "Se você através do Espírito": 
o crente não é passivo nesse trabalho, mas ativo. 
Não deve ser suposto que o Espírito nos ajude sem 
a nossa concordância, também enquanto estamos 
dormindo como acordado, quer mantendo ou não 
uma vigilância próxima sobre nossos 
pensamentos e obras, e não exercendo mais do 
que um ligeiro desejo ou uma oração lenta para a 
mortificação de nossos pecados. Os crentes são 
obrigados a se comprometerem com seriedade na 
tarefa. Se, por um lado, não podemos cumprir este 
dever sem a habilidade do Espírito - por outro 
lado, ele não ajudará se somos muito indolentes 
para fazer esforços sérios. Então, deixe o cristão 
preguiçoso imaginar que ele nunca conseguirá a 
vitória sobre suas luxúrias. 
A graça e o poder do Espírito não oferecem 
licença para a ociosidade, mas sim nos chamam 
para o uso diligente dos meios e olhando para Ele 
para Sua benção sobre o mesmo. Somos 
expressamente exortados, "nos purifiquemos de 
toda a imundície da carne e do espírito, 
aperfeiçoando a santidade no temor de Deus" (2 
Coríntios 7: 1), e isso deixa claro que o crente não 
é uma parte passiva neste trabalho. As graciosas 
operações do Espírito, nunca foram concebidas 
38 
 
para substituir o dever de serviço do cristão. 
Embora Sua ajuda seja indispensável, ainda assim 
não nos liberta de nossas obrigações. 
"Filhinhos, guardai-vos dos ídolos" (I João 5:21) 
enfatiza a nossa responsabilidade e demonstra que 
Deus exige muito mais do que a nossa espera para 
que nos mova à ação. Nossos corações são 
terrivelmente enganadores, e precisamos estar 
muito prevenidos contra o fato de esconder um 
espírito de apatia sob uma aparente zelosa 
consideração pela glória do Espírito. Não é 
necessário um esforço próprio para escapar das 
armadilhas de Satanás, recusando-se a andar nos 
caminhos que Deus proibiu? Não é necessário um 
esforço próprio para separar-nos da companhia 
dos ímpios? 
A mortificação é uma tarefa para a qual todo 
cristão deve aplicar-se com diligência de oração e 
firmeza resoluta. O regenerado tem uma natureza 
espiritual dentro daquilo que se adapta a eles para 
a ação sagrada, caso contrário, não haveria 
diferença entre eles e os não regenerados. Eles são 
obrigados a fazer valer a morte de Cristo, para 
amargar-lhes pelos pecados neles. Eles devem 
usar a graça recebida para produzir os frutos da 
justiça. 
39 
 
No entanto, é uma tarefa que transcende os nossos 
fracos poderes. É somente "através do Espírito" 
que qualquer um de nós pode aceitável ou 
efetivamente (em qualquer grau) "mortificar as 
ações do corpo". Ele é quem nos pressiona sobre 
as reivindicações de Cristo: lembrando-nos que, 
na medida em que morreu pelo pecado, não 
devemos poupar esforços para morrer para o 
pecado, lutando contra ele (Hebreus 11: 4), 
confessando-o (1 João 1: 9) ), abandonando-o 
(Provérbios 28:13). Ele é quem nos preserva de 
dar lugar ao desespero e encoraja-nos a renovar o 
combate. Ele é o que aprofunda nossos anseios 
pela santidade e nos move a clamar: "Crie em mim 
um coração limpo, ó Deus!" (Salmos 51:10). 
"Se você, através do Espírito, mortificar as ações 
do corpo". Marque, meu leitor, o equilíbrio da 
verdade que está aqui tão cuidadosamente 
preservado: enquanto a responsabilidade do 
cristão é rigorosamente cumprida, a honra do 
Espírito é definitivamente mantida e a graça 
divina é ampliada. Os crentes são os agentes neste 
trabalho, mas eles o realizam pela força de Outro. 
O dever é deles - mas o sucesso e a glória são dEle. 
As operações do Espírito são realizadas de acordo 
com a constituição que Deus nos deu, trabalhando 
dentro e sobre nós como agentes morais. O 
mesmo trabalho é, em um ponto de vista, de Deus; 
e em outro nosso. Ele ilumina o entendimento e 
40 
 
nos torna mais sensíveis ao pecado residente. Ele 
torna a consciência mais sensível. Ele aprofunda 
nossos anseios pela pureza. Ele trabalha em nós 
para querer e fazer a vontade de Deus. 
Nosso negócio é atender suas convicções, 
responder aos Seus impulsos sagrados, implorar 
Seu auxílio, contar com Sua graça. 
"Se você, através do Espírito, mortificar as ações 
do corpo, você viverá". Aqui está a promessa 
encorajadora estabelecida diante do crente 
extremamente provado. Deus não será devedor de 
nenhum homem: sim, é um recompensador 
daqueles que o buscam diligentemente (Hebreus 
11: 6). Se então, pela graça, concordamos com o 
Espírito, negando a carne, buscando a santidade, 
devemos ser recompensados. 
A promessa deste dever se opõe à morte ameaçada 
na frase precedente: como "morrer" inclui todas as 
consequências penais do pecado - então "viver" 
compreende todas as bênçãos espirituais da graça. 
Se, por meio da habilidade do Espírito e nosso uso 
diligente dos meios divinamente designados, 
sinceramente e constantemente nos opusermos e 
recusarmos as solicitações do pecado residente, 
então - mas somente então - viveremos uma vida 
de graça e conforto aqui e uma vida de glória 
eterna E a felicidade a seguir. 
41 
 
Nós mostramos em outro lugar que a "vida eterna" 
(1 João 2:25) é a possessão presentedo crente 
(João 3:36; 10:28) e também o objetivo dele 
(Marcos 10:30; Gálatas 6: 8; Tito 1: 2 ). Ele agora 
tem um título e direito; ele a tem pela fé e na 
esperança; ele tem a semente dela em sua nova 
natureza. Mas ele ainda não tem plena posse e 
fruição. 
"As promessas do Evangelho não são feitas para 
o trabalho, mas para o trabalhador, e para o 
trabalhador não por sua obra, mas de acordo com 
sua obra, por causa da obra de Cristo. A promessa 
da vida, portanto, não é feita para a obra de 
mortificação, mas para aquele que mortifica a sua 
carne, e não para a sua mortificação, mas porque 
está em Cristo, do qual esta mortificação é a 
evidência. Que aqueles que mortificam a carne 
devem viver, é bastante consistente com a verdade 
que a vida eterna é o dom gratuito de Deus, e na 
entrega dele, não há respeito ao mérito do 
receptor. Isto descreve o caráter de todos os que 
recebem a vida eterna e é de grande importância. 
Isto afasta todo o fundamento de esperança 
daqueles que professam conhecer a Deus, mas que 
por suas obras o negam." (Robert Haldane). 
A condicionalidade da promessa, portanto, não é 
a causa de incerteza - mas de coerência e conexão. 
Uma vida de glória não passa da mortificação 
42 
 
como efeito da causa - mas segue apenas sobre 
isto como o fim depende do uso dos meios. A 
estrada da santidade é o único caminho que leva 
ao Céu.

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