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Cirrose hepática - fisiopatologia DEFINIÇÃO É uma condição amarelo-castanho do fígado, essa definição veio da visualização macroscópica do fígado. No lóbulo hepático temos a tríade formada por uma vênula, arteríola e um canalículo biliar e temos uma estrutura hexagonal formando o lóbulo hepático com as tríades hepáticas formando seus vértices. Na cirrose temos um grande depósito de tecido cicatricial fibroso e temos vasos chamados sinusoides hepáticos e temos uma grande fibrose em torno dos sinusoides. A cirrose é a destruição do parênquima hepático. CLINICA: HISTÓRIA - BASEADA EM HISTÓRICO, SINAIS CLÍNICOS, ACHADOS SOROLÓGICOS E HISTOLÓGICOS • Doença, na maioria das vezes silenciosa • Sintomas, muitas vezes apenas nos quadros de descompensação • Pesquisar fatores de risco que podem levar a cirrose: obesidade, uso de álcool, histórico de hepatite B/C com seus fatores de risco, histórico pessoal ou familiar de doença autoimune A cirrose não tem muito sinal clínico específico então temos que pesquisar a etiologia da doença. O álcool é o principal dos fatores de risco para a doença. ETIOLOGIA *EHNA = esteatose hepática não alcoolica ETIOLOGIA CIRROSE E ALCOOL Quando a gente consome o álcool quem metaboliza principalmente é o fígado, ele metaboliza através de uma enzima chamada álcool desidrogenase que transforma o álcool em acetoaldeido que é extremamente toxico e vai ser convertido em acetato (usado em vários outros ciclos hepáticos) através da acetatoaldeido desidrogenase. Quem faz isso para a gente é a mitocôndria. Na mitocondria também temos o sistema de enzimas microssomais oxidativas que fazem a oxidação do álcool. Quando faço consumo de alcool em excesso uso o SEMO (sistema de enzimas mitocondriais oxidativas - oxidação do álcool com produção de EROS) para tentar converter também esse álcool em acetoaldeído para depois ser convertido em acetato. O problema é que quando faço uso de alcool em excesso tenho apenas uma enzima para converter o acetoaldeido em acetato, ai o etanol vai ser convertido em acetoaldeido em acetato, mas não vai ter enzima suficiente para converter o acetoaldeido em acetato, acumulando acetoaldeido que começa um processo inflamatório por excesso de EROS e assim vai começar o processo. Esse processo inflamatório que vai começar todo o excesso de cicatrização e perda de hepatócito. O acetoaldeído que deixa a gente com rubor quando exageramos no álcool, pois quando se acumula no fígado extravasa no plasma e tem ação sistemica. O álcool por si só diminui a ação da glutatioma que é super importante para a manutenção das enzimas que trabalham na oxidação, assim limito a minha contenção de EROS, tenho maior esstresse oxidativo se não tenho glutationa. Acetoaldeido em excesso estimula células estreladas no fígado, célula que armazena vitamina lipossolúvel além da B12. com a lesão de célula estrelada diminui o armazenamento dessas vitaminas, deficiencia de vitaminas lipossulúveis. Tecido conjuntivo em azul, deposição de substancia matricial, ou seja, tecido cicatricial, perdendo hepatócito + tc fibroso em volta, perdemos a característica de lóbulo hepático pelo depósito de tecido fibroso. Olhando mais de perto vemos nódulos hepáticos com tecido fibroso ao redor. Essa grande produção de tc fibroso = a célula estrelada é fundamental para armazenar B12 e A, D, E, K. Abraçado na minha célula endotelial do fígado tenho a célula estrelada. Quando tenho alteração e inflamação hepática tenho sinalização para a célula estrelada produzir muito colágeno, toda vez que essa célula é agredida por inflamação hepática ela produz colágeno que se deposita no espaço de disse e por conta disse começa a ter constrição dos sinusoides onde passava um fluxo - menos fluxo saindo do hepatócito para o espaço de disse e vice versa. O sinusoide trás glicose, gordura de cadeia curta, colesterol para o hepatocito armazenar ou metabolizar, quando temos acúmulo de colágeno temos déficit de função hepática pois as substancias não estão chegando ou chegam em menor quantidade. Outra coisa que acontece é a perda de fenestração (a abertura entre uma célula e outra do sinusoide tem que ser grande o suficiente para inclusive permitir a passagem de albumina que é produzida pelo hepatócito) quando tenho aumento dessa camada de colágeno junto com a estimulação da célula estrelada eu perco a fenestração, as células endoteliais ficam juntinhas e a fenestração diminui, começa a perder a passagem do que tem que ser liberado do hepatócito para o sinusoide, por isso temos a perda da captação de albumina - importante para lembrarmos dos sintomas depois. FISIOPATOLOGIA Por conta dessa ativação toda das células estreladas, deposição de colágeno, perda de fenestração, constrição de sinusoide, a cirrose vai correr junto com duas condições: hipertensão portal e insuficiência hepática. A cirrose segue com hipertensão portal (células de disse promovendo maior formação de colágeno contraindo só sinusoides, impedindo a passagem do fluxo que esta vindo do baço e intestino, aumentando a quantidade de sangue presente na circulação portal), com isso o paciente pode evoluir com varizes esofágicas, aumento de veias abdominais, e se tenho uma hipertensão portal por acumulo de sangue aumento da pressão hidrostática e posso evoluir com ascite. Ao mesmo tempo por conta do aumento da pressão hidrostática o paciente pode evoluir com peritonite bacteriana espontânea e síndrome hepatorenal. Além da hipertensão portal, paciente com cirrose também evolui com insuficiência hepática e por conta da insuficiencia hepática ele pode evoluir com encefalopatia e ictericia. Esses 4 sintomas clássicos da cirrose ocorrem por conta da obstrução que temos em leito sinusoidal intrahepático. CLINICA - EXAME FISICO Relembrando anatomia: temos a veia mesentérica inferior, superior e a esplenica drenando para a veia porta hepática e da veia porta hepática temos a bifurcação chegando no fígado para levar todos os nutrientes vindos desses locais para serem captados, armazenados ou liberados pelo fígado. Na cirrose o fluxo não consegue passar e acaba simplesmente achando vasos colaterais para fluir. Se eu não consigo levar através da veia porta sangue suficiente para o fígado, começo a fazer com que esse sangue flua por colaterais. A gente tinha inclusive o ligamento redondo no fígado onde passava a veia umbilical (quando éramos fetos) - quando a gente tem esse aumento de volume ne região da veia porta - aumento de volume na veia porta pois não está conseguindo chegar no fígado, começo a jogar esse sangue para a veia umbilical de novo e ai ela começa a levar sangue venoso novamente e acaba fazendo anastomose com as veias epigástricas que ficam na parede abdominal anterior. Além disso, posso fazer outro caminho que é levar sangue da região portal para a veia gástrica levando sangue em maior quantidade para as veias esofágicas que pode fazer uma anastomose nesse local levando para o sistema ázigos. Por conta do aumento de volume na região portal posso ter aumento de volume para o final do colón sigmoide e reto fazendo anastomose com as veias anais, podendo ter hemorroida em paciente com cirose pois temos a não fluidez do sangue nas veias para tentar voltar para a cava inferior. Podemos ter repercussões por conta dessa hipertensão portal por ingurgitamento, aumento de calibre dessas veias nessas regiões: umbilical, anal/colonica, esofágica e gástrica. Quando temos o ingurgitamento nas regiões esofágica e gástrica = varizes esofágicas e gástricas = o problema é que elas sangram com muito mais facilidade do que nos outros locais, o problema é que muitas vezes o paciente com cirrose começa a ter sangramento gastrointestinal. Ao paciente tossir e fazer força pode levar ao rompimento das varizes esofágicas = tossirsangue. É uma doença que tem uma repercussão vascular importante. Por conta da hipertensão portal ainda podemos ter um aumento de volume na região esplâncnica, por conta disso acaba tendo um aumento de pressão hidrostática e tudo aquilo que estava sendo drenada pela veia hepática até o fígado deixa de ser drenado e acaba sendo liberado para o meio intersticial e se pensarmos em intestino esse aumento da pressão hidrostática com o extravasamento pode ir junto uma grande quantidade de bactérias para a região abdominal. Além disso, por conta desse acúmulo em região esplâncnica acaba tendo uma grande dilatação arteriolar para a região esplâncnica - temos um desvio arterial importante para essa região esplâncnica - tudo por conta da hipertensão portal. COMPLICAÇÕES DA HIPERTENSÃO PORTAL Quando o paciente apresenta esplenomegalia o paciente pode evoluir com anemia, leucopenia e trombocitopenia. Se o paciente tem extravasamento de bacterias para o leito abdominal e leucopenia o paciente pode evoluir para uma grande infecção. CLINICA - EXAME FÍSICO Aumento de volume na região abdominal - chamamos isso de cabeça de medusa, isso acontece por conta da hipertensão portal, a veia umbilical começa a ter uma via de escape da grande quantidade de volume da veia porta e começa a fazer abastomose com as veias abdominais, veias gástricas anteriores abdominais - veias dilatadas ao redor do umbigo. Hipertensão portal - a pressão da veia porta tem que estar ≥ 12 mmHg, fazemos isso através do USG Através do USG medimos a pressão da via porta. A pressão da veia porta é em torno de 5 a 10 mmHg. Quando o paciente tem hipertensão portal podemos fazer uma cirurgia para diminuir a pressão da veia porta - podemos fazer um SHUNT PORTOCAVA: ligamos a veia porta na cava direto, ou fazemos um SHUNT ESPLENORENAL: podemos ligar a veia esplenica e ligamos na veia renal para ir para a cava depois, meios para fazer um shunt e diminuir a hipertensão portal. Ou podemos fazer um TIPS = SHUNT TRANSJUGULAR INTRAHEPÁTICO PORTO SISTEMICO: colocação de um enxerto para pegar a veia renal e ligar na cava direto que vai para a jugular depois. Preserva melhor a arquitetura hepática, veia esplênica e veia cava como um todo, preserva melhor a arquitetura anatômica vascular. Além da cirrose temos outras situações que levam a hipertensão portal (diagnóstico diferencial) que é uma condição intra hepática (condição dentro do fígado por compressão dos sinusoides). Condições intrahepáticas pre sinusoidal podemos pensar em esquistossomose, cirrose biliar primária, fibrose hepática congênita, alguns tipos de toxinas - todas essas além de uma condição pós sinusnoidal de doença venoclusiva podem levar a uma condição de hipertensão portal intrahepática. Condições pré hepáticas - podemos ter um trombo, impedindo a passagem de sangue para o fígado causando hipertensão portal, ou até mesmo algum tumor abdominal comprimindo a veia porta hepática, impedindo o fluxo causando hipertensão portal. Quando pensamos em condição pós hepática - já passou pelas mesentéricas, pela porta, fígado e fígado não tinha problema nenhum o problema é na cava: estenose da cava inferior (síndrome de Budd Chiari), o sangue não passa pela cava e aumenta para baixo da cava; pericardite constritiva (coração não consegue bater direito, não consegue ejetar o sangue que estava vindo da cava e acaba ficando retido, o mesmo que acontece na icc direita onde o coração não tem competencia para bater e o sangue fica retido na veia cava inferior e o aumento de volume fica para trás). ICTERÍCIA Bilirrubina direta. A bilirrubina é formada principalmente pela destruição de hemácias, a bilirrubina indireta é liberada no plasma que é ligada a albumina, a albumina que vai carrear a bilirrubina indireta, ela entra no fígado e é conjugada e a partir disso ela é chamada de bilirrubina direta. Uma vez que eu tenho bilirrubina direta ela vai ser liberada do hepatócito para o canalículo biliar. Na cirrose hepática além da compressão do sinusoide hepático vamos ter perda do lóbulo hepático por conta do depósito de substancia fibrosa matricial - isso vai causando uma compressão não só do sinusoide, como de todo parênquima que compõe nosso lóbulo hepático, inclusive nossos canalículos. A partir do momento que isso acontece, uma das coisas que acaba extravasando para o espaço de disse e não consegue chegar no canalículo é a bilirrubina. O fígado ainda está apto a converter bilirrubina indireta em direta, mas o que ele não consegue é fazer com que essa bilirrubina direta chegue no canalículo, a quantidade de bile acaba aumentando no espaço intersticial do fígado e acaba chegando na circulação sem chegar no canalículo. Muitas vezes a icterícia por bilirrubina direta é simplesmente porque acaba extravasando bile total para a minha circulação. A bilirrubina direta é jogada junto com o colesterol e sais biliares para o meu canalículo formando a bile (sais biliares + bilirrubina + colesterol). Quando temos essa compressão de canalículo a gente não consegue fazer com que essa bile chegue no canalículo e ela cai no interstício hepático e da lá cai na circulação e da circulação atinge o organismo inteiro. A bilirrubina acaba pigmentando principalmente mucosas e o primeiro lugar é a deposição em palato mole e esclera. Além disso, paciente que tem cirrose muitas vezes pode apresentar prurido - a bile tem colesterol, sais biliares e bilirrubinas - quando falamos de extravasamento hepático estamos falando de BILE e o problema é que os sais biliares são irritantes para a pele e acabam causando prurido sistêmico. Outra coisa que vemos é o eritema palmar e aranhas vasculares na região de tórax do paciente. Pacientes masculinos podem apresentar ginecomastia e perda de padrão masculino de pilificação. Uma das funções do fígado é transformar estrógenos em andrógenos. Ele perde um pouco dessa função pois perde hepatócito e assim reduz a depuração hepática de andrógenos, aumentando a circulação dos andrógenos, aumentando a aromatização periférica aumentando a taxa de estradiol em relação a quantidade de testosterona livre e ai por conta do aumento de estradiol temos uma neovascularizaçao pois estradiol aumenta VGF, fator que aumenta a vascularização, assim podemos ter eritema palmar e aranhas vasculares, pois estou aromatizando mais andrógenos em estrógenos. Na região de mama tenho receptor para estrógeno, quando aumenta estradiol os receptores são estimulados e temos ginecomastia, perda de pilificação de padrão masculino. Além disso o álcool promove lesão testicular diretamente, diminuindo a produção de testosterona. Ainda, o álcool diminui a ligação desses hormônios esteroidais com a globulina - ele fica livre e assim consegue atuar de forma mais intensa. Ainda, em paciente com cirrose acontece a purpura, várias manchinhas roxas pelo corpo pois na cirrose temos esplenomegalia e quando acontece isso temos sequestro de plaqueta, diminuindo a hemostasia primária e assim qualquer lugar que o paciente bate formo um pequeno hematoma. E se eu tenho um déficit de função hepática temos menos fator de coagulação produzido pelo fígado. Podemos ter edema de MMII por conta da diminuição de albumina - lembrando que o fígado tem diminuição da fenestração do sinusoide a albumina produzida pelo fígado não chega no sinusoide. Assim, tenho diminuição da pressão coloidosmótica e assim, menor retorno do liquido para dentro do vaso, portanto formação de edema. Por deficiência de albumina e aumento da pressão hidrostática da veia porta também posso evoluir com ascite. Outra coisa que acontece é o sinal de asterixis - sinal de encefalopatia hepática - déficit de propriocepção de punho, calcanhar e quadril. ENCEFALOPATIA HEPÁTICA Quando temos a hipertensão portal temos uma carga bacteriana sendo extravasada para o meio intersticial e chegando com essa carga bacteriana,fazendo esse shunt não depurado pelo fígado e indo para a cava diretamente. Bactéria intestinal de microbiota a gente fala que ela produz muita amônia e isso acaba extravasando para o meio intersticial ou caindo direto na cava por causa do shunt - quando isso acontece, essa amônia e a carga bacteriana podem chegar na região encefálica e a amônia é muito tóxica para a região encefálica. A encefalopatia é por conta da hipertensão portal. Temos duas hipóteses bastante discutidas hoje em dia: Quando temos hipertensão portal temos o extravasamento ou a saída de bactérias intestinais para a veia cava através do shunt junto pela amônia produzida pelas bactérias. A amônia tem que ser convertida em ureia pelo fígado, só que o fígado não está recebendo fluxo porque tem uma hipertensão portal ali, não consigo converter essa amônia em ureia e ela acaba aumentando na circulação. Com isso, esse aumento de amônia acaba levando a edema de astrócito, lesão de barreira hematoencefálica = lesão neurológica por conta disso, inibindo potenciais de ação por conta disso. A outra hipótese, é que quando existe a cirrose hepática temos um aumento de neurotransmissores neuro esteroidais (não sabemos o porque existe esse aumento) que acabam estimulando os receptores gabaérgicos - aqueles que permitem a entrada do cloreto no neurônio, quando o cloreto entra o potencial de ação diminui, portanto não existe condução de estímulo, assim, existe um aumento de neurotransmissão inibitória. SÍNDROME HEPATORENAL Como falamos no começo, temos um aumento de volume muito grande em circulação esplâncnica (venodilatação e arteriodilatação), desvio de circulação arterial muito importante para a circulação esplâncnica, com isso acaba tendo um desbalanço de vasoconstrição e vasodilatação na circulação sistêmica - vasodilata muito a região esplâncnica e faz vasoconstrição de encéfalo e rim. A endotoxemia pela amônia e translocação bacteriana acaba tendo uma produção em excesso de NO e outros vasos dilatadores na região esplâncnica. Com a vasoconstrição renal temos um aumento de liberação de substancias do SRAA, ADH e do SNS. Com a vasoconstrição tenho uma redução da TFG, levando a um aumento de substancias tóxicas no plasma pois não estou fazendo a depuração. EXAMES LABORATORIAIS Quando a gente fala de exames laboratoriais para comprovar que o paciente tem cirrose podemos usar AST e ALT, lembrando que em hepatite alcoólica temos AST > ALT e aumento de GGT também. Pode ser que o paciente tenha uma cirrose por deficiência de alfa 1 antitripsina (ela impede a ação da elastase - só que se eu não tenho alfa 1 antitripsina a elastase começa a atuar, quebra minhas fibras elásticas e aumenta as fibras colágenas - gatilho genético para cirrose e enfisema pulmonar). IMAGEM USG mostra perfeitamente bem TC Investigação de nódulos hepáticos e é o exame de triagem pré transplante. Na primeira imagem vemos um fígado todo torduoso. BIOPSIA HEPÁTICA Analise patológica ou fazer um elastograma da amostra, verificando a quantidade de tecido fibroso naquele fígado: ENDOSCOPIA Para verificar varizes gástricas e esofágicas