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Resenha do texto: QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder e classificação social, In: SANTOS, Boaventura de Sousa & MENESES, Maria Paula (organizadores). Epistemologias do Sul, São Paulo: Cortez, 2013. Quijano, sociólogo peruano, descreve em seu texto a colonialidade a partir da situação latino-americana. O autor é um dos primeiros intelectuais a elaborar um pensamento marxista originalmente latino-americano, e não é diferente no texto onde estabelece diálogo com Marx. Colonialidade do poder, é o conceito criado por Quijano que constata que a modernidade capitalista possui seu fundamento na necessidade da conquista colonial da América, o que moldaria todo o sistema, não apenas no que diz respeito a economia, mas também por introduzir um modelo de poder fundado numa classificação social da população mundial a partir da ideia de raça. A raça consiste numa construção mental da dominação colonial, que atravessa dimensões mais importantes do poder mundial, inclusive sua racionalidade específica que é o eurocentrismo. Inicialmente, na América, a ideia de raça foi o modo de atribuir legitimidade às relações de dominação imposta pela conquista, como o trabalho escravo. A naturalização da raça também permitiu a confirmação dessas relações coloniais de dominação entre europeus e não-europeus. Quijano defende que a raça foi o primeiro critério fundamental para a distribuição da população mundial nas características, lugares e papéis da estrutura de poder, sem dúvidas, o mais eficaz e durável instrumento de dominação social universal. Todavia, o autor deixa claro que, embora possua sua origem na colonialidade, fazendo presença ainda no modelo de poder hegemônico atualmente em escala mundial. Essa coloniadade baseada na raça desenvolveu-se simultaneamente com o capitalismo, sendo portanto, a raça e classe interligadas nesse contexto, mesmo que não fossem necessariamente dependentes um do outro, para sua existência e evolução. Dessa forma, cada forme de controle do trabalho articulava-se com uma raça específica (Índos – servidão, negros – escravidão, nobres – altos postos administrativos/militares, etc.). A superioridade “natural” dos europeus em relação aos outros povos do mundo, pode ser explicado, parcialmente, com a associação entre etnocentrismo colonial e classificação racial universal. De acordo com o eurocentrismo os senhores latino-americanos, donos do poder, tinham interesses opostos ao dos trabalhadores que eram a maioria da população. A dependência dos capitalistas é resultado da colonialidade do seu poder, que os fazia perceber que seus interesses sociais eram idênticos aos dos colonizadores na Europa e Estados Unidos. O autor critica essa visão própria de superioridade natural e destaca as altas culturas que se desenvolveram por todo o mundo e atingiram inegáveis graus de “modernidade”, contudo, o único problema não é como o europeu se vê (o ápice da espécie, o moderno, o único protagonista dessa modernidade), mas como ele conseguiu difundir pelo mundo essa perspectiva histórica como hegemônica. Quijano ainda defende que o eurocentrismo, entendido como um modo de controle da subjetividade mundial, provocou um empobrecimento histórico e político. Conclui que somente com a destruição da colonialidade do poder, enquanto relação de exploração é um dos fatores determinantes da luta contra o padrão universal do capitalismo eurocentrado. O texto nos dá uma nova visão da classificação social pela raça, antes impensada. Sempre falamos sobre “raça” e as classificações sociais em geral sem pensar no seu fundamento e de onde vem. Atribuir certa classificação e ela simplesmente passa a ser utilizada sem questionamento e isso se perpetua socialmente de modo que reverter isso torne quase impossível e o sujeito explorado passa a aceitar sua condição sem questionamento. Lhe é tirado as instâncias básicas de existência e passa a aceitar aquilo como seu destino. O autor defende a libertação das pessoas, individualmente e em sociedade, do poder, de todo poder. Segundo ele, não há outro caminho senão a socialização radical do poder para chegar a esse resultado. Não sei se o ideal seria de fato essa “socialização radical do poder”, mas devolver às pessoas o controle das instâncias básicas da sua existência social é uma emergência.