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Doença inflamatória pélvica (DIP) Síndrome clinica secundária à ascensão (via canalicular) de microrganismos da vagina e/ou colo do útero ao trato genital feminino superior acometendo útero, tubas uterinas, ovários, superfície peritoneal e/ou estruturas contiguas desse trato. → infecção adquirida em comunidade iniciada por um agente sexualmente transmissível (Clamydia trachomatis e Neisseria gonorrhoeae); → infecção polimicrobiana; → sério problema de saúde pública: • Emergência hospitalar: ruptura do ATO (abscesso tubo-ovariano) e pelviperitonive; • Longo prazo: infertilidade, gravidez ectópica e dor pélvica crônica. → padrão clínico subagudo, oligossintomática e dor abdominal em intensidade variável (sintoma obrigatório). CID-10 → doenças inflamatórias dos órgãos pélvicos femininos (CID N70-N77): • DIP gonocócica: N74.3; • DIP clamídia: N74.4. Mulheres jovens (maior chance de recorrência), comportamento sexual de risco, múltiplos parceiros (parceiro portador de uretrite), baixo nível socioeconômico, nuliparidade, história anterior ou atual de IST, uso de DIU (cervicite na época da inserção), tabagismo, uso de duchas vaginais. Polimicrobiana: à medida que ocorre a evolução do processo o ambiente vai se tornando anaeróbio aumentando a presença de microrganismos anaeróbicos. Além do gonococo e clamídia, a infecção pode ser causada também por bactérias da classe Molicutes (Mycoplasma hominis, M. genitalium – frequencia crescente e resistência a antibióticos usuais - e Ureoplasma ureolyticum) e por bactérias presentes na microbiota vaginal (Gardnerella vaginalis, Bacterioides spp. e outros responsáveis por vaginoses – 9 a 23% dos casos) → presença de agentes de vaginoses aumenta em ~2vezes o risco de DIP. 1. cervicite (estádio 0 ou pré-DIP → chance de 20 a 30% de desenvolver DIP sendo maior quanto menor a idade). 2. ascensão e chegada ao endométrio (principalmente na época menstrual ou pós- menstrual imediata – menstruação pode ser um meio de cultura além de alcalinizar o meio, modificação do muco cervical [barreira mecânica]) → endometrite (geralmente fugaz, pode haver sangramento discreto); ** microrganismos da microbiota vaginal também ascendem. 3. ascensão e chegada a tuba uterina, onde há formação de conteúdo purulento a partir da reação tecidual (endossalpinge) → salpingite 4. passagem do conteúdo purulento para o peritônio pélvico a partir das fimbrias → pelviperitonite. ** maior acúmulo do fundo do saco de Douglas (dispaurenia – dor durante ou após o ato sexual – e dor ao toque vaginal, principalmente nessa região). ** alças intestinais e epíplon tendem a bloquear o processo purulento formando o complexo tubo-ovariano. 5. aumento da viscosidade desse conteúdo → fusão das fimbrias tubárias, aprisionamento de pus no seu interior (↓O2, ↑anaeróbios) → piosalpingite. 6. propagação para o ovário → ATO (Abscesso Tubo-Ovariano). ** pode ser esterilizado e formar uma massa multicística com conteúdo citrino estéril (hidossalpinge – sequela do processo inflamatório e infeccioso). ** conteúdo do ATO pode aumentar a tensão intra-abscesso e se romper → quadro grave com grande derramamento de pus no peritônio, choque séptico e até levar a óbito (baixíssima frequência). Dor: resulta da entrada desses agentes na cavidade uterina, torna-se maior quando afeta a cavidade pélvica e máxima quando há ruptura do ATO. Sensação dolorosa diminuída quando há fusão das fímbrias. Ampla variação de sinais e sintomas (sinais leves até dor abdominal intensa). Diagnóstico diferencial em mulheres de 15 a 44 anos. Diagnóstico de certeza é muito difícil pois nem a história clínica, nem o exame físico ou testes laboratoriais são sensíveis ou específicos o suficiente para isso. → diagnóstico clínico + laparoscopia: valor preditivo positivo de 65 a 90%. Paciente pode apresentar-se assintomática (60%) ou ter sintomas (36% leves a moderados e 4% mais graves) como: → dor abdominal ou pélvica (começa com um desconforto e podendo progredir; bilateral); → febre, calafrios; → corrimento vaginal ou cervical, coceira ou odor; → sangramento vaginal (anormal e de pouca quantidade após a menstruação – spotting, comum em mulheres que usam anticoncepcional de baixa dosagem; endometrite fugaz – aumento ou prolongamento da menstruação) → dispaurenia (inflamação dos ligamentos pélvicos/peritonite); → disúria (associado à dor, principalmente quando há uretrite); → dor lombar, náusea e vômitos. Deve ser feito com manifestações uroginecológicas, gastrointestinais e musculoesqueléticas. Elevada suspeição na presença de um ou mais dos critérios mínimos diagnósticos, implantando terapêutica antibiótica precoce, reduzindo chance de sequelas. Principais: ➢ Gravidez ectópica; ➢ Tumor, torsão ou cisto ovariano; ➢ Aborto séptico incompleto; ➢ Endometriose, adenomiose, leiomioma uterino, endometrioma roto; ➢ Nefrolitiase, pielonefrite, cistite; ➢ Litíase urinaria; ➢ Apendicite, síndrome do intestino irritável e outras doenças gastrointestinais. Hemograma completo (leucocitose e/ou bastonetose – sugestão de processo inflamatório). Exames de urina tipo I e urocultura (afastar infecção do trato urinário). Provas bioquímicas inflamatórias (velocidade de hemossedimentação – VHS – e PCR). ** ajuda no raciocínio diagnóstico mesmo sendo inespecíficas. Exame bacterioscópio (avaliar presença de vaginose bacteriana). Identificação do agente (provas de biologia molecular para diagnóstico de clamídia e gonococo – cultura para este com antibiograma e determinação da resistência). Teste de gravidez (afastar possibilidade de gravidez ectópica). Ultrassonografia transvaginal (USTV): método de escolha para avaliação inicial de dor pélvica, na imagem pode ser visto: ➢ Espessamento da parede tubária maior que 5 mm (100% de sensibilidade); ➢ Septos incompletos intratubários; ➢ Sinal da roda dentada, corte transversal (95 a 99% de especificidade); ➢ Espessamento e liquido tubário; ➢ ATO. ** pode ser útil no diagnóstico da DIP quando apresentar imagens típicas. Outros métodos de imagem: - Tomografia computadorizada da pelve; - Ressonância magnética (maior acurácia que a USTV na DIP, pode substituir a laparoscopia); - Laparoscopia (padrão ouro – usada para confirmar o diagnóstico, necessário avaliar necessidade!!). Toda mulher com DIP deve ser rastreada para clamídia e gonococo e testada para a infecção pelo HIV. Critérios específicos (por si só definem a presença de DIP): - USG endovaginal ou RM ou outro método de imagem sugerindo a presença de ATO ou complexo tubo-ovariano (coleção diversa podendo conter alças intestinais, epíplon e/ou conteúdo líquido em forma associada); - biopsia endometrial demonstrando a presença de endometrite; - laparoscopia demonstrando sinais sugestivos de infecção tubária ou tuboperitonial. Iniciar o mais precocemente possível, antibióticos de amplo espectro (cubram microrganismos presentes na microbiota vaginal envolvidos no processo infeccioso + atingir clamídia, gonococo, mycoplasma). Indicação de internação: emergências cirúrgicas (como apendicite), gravidez, presença de ATO ou peritonite, HIV+ ou imunossuprimidas, uso de DIU, antibioticoterapia oral não tolerada ou não efetiva, estado tóxico e grave de início. Presença de ATO: deve estar presente no esquema a clindamicina ou metronidazol iniciados via EV (hospitalar – mínimo 24 horas). ➢ Paciente melhora + ausência de febre → troca do tratamento para VO (clindamicina 450 mg VO de 6/6h OU metronidazol 500 mg VO de 12/12h) + doxiciclina (100 mg 12/12h) ou azitromicina (500 mg dia) por 14 dias. ➢ Após alta continuar tratamento por mais 3 semanas. Abcessoque se estende até o fundo do saco vaginal ou em fundo de saco de Douglas → drenagem pela via vaginal (coleta do material para pesquisa dos agente) → culdocentese (punção do fundo do saco de Douglas). ** pode ser usado em alguns casos para auxiliar o diagnóstico. ** após drenagem: melhora do quadro da paciente e redução do tempo de internamento/melhora da morbidade. Esquema ampicilina/sulbactam + doxiciclina → amplo espectro (gonococo e clamídia) e eficaz em casos de ATO. Avaliar a resposta ao esquema terapêutico após 48/72 horas; Instruir paciente a retornar ao ambulatório caso haja piora dos sintomas (internação); Como fazer avaliação da resposta ao tratamento? ➢ Melhora do estado geral; ➢ Do quadro térmico (aferição da temperatura na forma de quadro térmico no mínimo a cada 6 horas); ➢ Da dor evidenciada pela palpação e toque vaginal; ➢ Das provas inflamatórias (leucocitose, bastonetose, VHS e PCR), realizadas a cada 2 dias; ➢ Ecografia demonstrando manutenção ou ausência do aumento das dimensões nos casos de ATO (realizado no mínimo a cada 2 dias). Não evidência de melhora → avaliar necessidade de intervenção cirúrgica (possibilidade da existência de abscessos em outros locais – goteiras parietocólicas, subfrênico, peri-hepático na síndrome de Fritz-Hugh-Curtis, etc – ou resistência ao esquema/dose dos antibióticos inicialmente utilizados).