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1 Luiza D. V. Torriani ATM 2024/2 Pele e Anexos Introdução: • O sistema tegumentar é constituído pela pele e seus anexos: pelos, unhas, glândulas sebáceas, sudoríparas e mamárias. • A pele é o nosso maior órgão e apresenta seguintes camadas: epiderme (origem embrionária ectodérmica), derme (origem embrionária mesodérmica) e hipoderme (tecido celular subcutâneo – fáscia subcutânea) (não faz parte da pele, apenas lhe serve de união com os órgãos subjacentes. A regra do ABCD é útil para lembrar os sinais e sintomas do melanoma: formato assimétrico da lesão cutânea, borda da lesão irregular, variações de cor, diâmetro da lesão cutânea e lesão com mais de 6 mm têm maior probabilidade de suspeita. Pele no geral: • A pele possui diversas funções, no entanto algumas merecem destaque, como: 1. Proteção desidratação e atrito; 2. Regulação da temperatura (vasos, glândulas, tecido adiposo); 3. Recepção de sensações (tato, calor, pressão e dor; 4. Excreção e Absorção; 5. Proteção raios UV (melanina); 6. Síntese de Vitamina D3. • Ela pode ser encontrada tanto com espessura grossa quanto com espessura fina (a pele espessa é encontrada na palma das mãos, na planta dos pés e em algumas articulações), e como dito na introdução, apresenta 3 estratos sobrepostos. Epiderme: • É constituída por um epitélio pavimentoso estratificado; • A camada queratinizada da epiderme, protege o organismo contra desidratação e atrito. Por meio de suas terminações nervosas sensoriais, recebe constantemente informações sobre o ambiente e as envia para o sistema nervoso central. Graças a seus vasos sanguíneos, glândulas e tecido adiposo, colabora com a termorregulação do corpo. Suas glândulas sudoríparas participam da termorregulação e da excreção de várias substâncias. • Um pigmento que é produzido e acumulado na epiderme, a melanina, tem função protetora contra os raios ultravioleta. • As células mais abundantes nesse epitélio são os queratinócitos. A epiderme apresenta ainda três tipos de células: os melanócitos, as células de Langherans e as de Merkcel. • Apresenta 4-5 estratos sobrepostos que refletem estágios diferentes de maturação da queratina: 1. Camada basal: constituída por células prismáticas ou cuboides, basófilas, que repousam sobre a membrana basal que separa a epiderme da derme. A camada basal, rica em células-tronco (stem cells) da epiderme, é também chamada de germinativa. Apresenta intensa atividade mitótica, sendo responsável, junto com a camada seguinte (camada espinhosa), pela constante renovação da epiderme. As células da camada basal contêm filamentos intermediários de queratina, que se tornam mais numerosos à medida que a célula avança para a superfície. Queratinócitos basais, melanócitos e células de Merckel. 2. Camada espinhosa: é formada por células cuboides ou ligeiramente achatadas, apresentam citoplasma com curtas expansões que contêm feixes de filamentos de queratina (tonofilamentos). Essas expansões citoplasmáticas se aproximam e se mantêm unidas com as das células adjacentes por meio de desmossomos, o que confere a cada célula um aspecto espinhoso. Os filamentos de queratina e os desmossomos têm importante papel na manutenção da coesão entre as células da epiderme e na resistência ao atrito. Na camada espinhosa também existem células- tronco dos queratinócitos e células de Langherans (fagocitam antígenos estranhos a pele e apresentam a linfócitos da própria epiderme e 2 Luiza D. V. Torriani ATM 2024/2 participam das dermatites alérgicas por contato e da rejeição de transplantes cutâneos). 3. Camada granulosa: células poligonais achatadas e citoplasma carregado de grânulos basófilos, chamados grânulos de querato-hialina, que não são envolvidos por membrana. Esses grânulos contêm uma proteína rica em histidina fosforilada e também proteínas contendo cistina. Os numerosos grupamentos fosfato dessa histidina são responsáveis pela basofilia da querato-hialina. Outra característica das células, são os grânulos lamelares, que contêm discos lamelares formados por bicamadas lipídicas e são envoltos por membrana. Esses grânulos se fundem com a membrana plasmática e expulsam seu conteúdo para o espaço intercelular da camada granulosa, onde o material lipídico se deposita, contribuindo para a formação de uma barreira contra a penetração de substâncias e para tornar a pele impermeável à água, impedindo a desidratação do organismo. Queratinócitos granulosos. 4. Camada lúcida: mais evidente na pele espessa, é constituída por uma delgada camada de células achatadas, eosinófilas e translúcidas, cujos núcleos e organelas citoplasmáticas foran1 digeridos por enzimas dos lisossomos e desapareceram. O citoplasma apresenta numerosos filamentos de queratina, compactados e envolvidos. Ainda se podem ver desmossomos entre as células. 5. Camada córnea: tem espessura muito variável e é constituída por células achatadas, mortas e sem núcleo. O citoplasma dessas células apresenta- se repleto de queratina. A composição dos tonofilamentos se modifica à medida que os queratinócitos se diferenciam. Nessa camada, os tonofilamentos se aglutinam junto com uma matriz formada pelos grânulos de querato-hialina. Nessa etapa da diferenciação, os queratinócitos estão transformados em placas sem vida e descamam continuamente. Corneócitos. Na pele fina, a epiderme é mais simples, faltando frequentemente as camadas granulosa e lúcida e apresentando uma camada córnea muito reduzida. Células: • Melanócitos: se encontram na junção da derme com a epiderme ou entre os queratinócitos da camada basal da epiderme. são células que se originam das cristas neurais do embrião e invadem a pele entre a 12ª e a 14ª semana da vida intrauterina. Apresentam citoplasma globoso, de onde partem prolongamentos que penetram as reentrâncias das células das camadas basal e espinhosa e transferem os grânulos de melanina para as células dessas camadas. Os melanócitos não formam desmossomos com os queratinócitos, mas se prendem à membrana basal por meio de hemidesmossomos. Células dendríticas. A melanina é sintetizada nos melanócitos com a participação da enzima tirosinase. Em razão da 3 Luiza D. V. Torriani ATM 2024/2 ação dessa enzima, o aminoácido tirosina é transformado primeiro em 3,4-di- hidroxifenilalanina (dopa). A tirosinase também age na dopa, produzindo dopa- quinona, que, após várias transformações, converte-se em melanina. No albinismo, não há produção de melanina pela ausência de tirosinase. Essa doença é autossômica recessiva. O bronzeamento da pele por exposição à luz do sol ocorre incialmente em razão do escurecimento da melanina preexistente e da aceleração da transferência de melanina para os queratinócitos. Em uma segunda etapa, a síntese de melanina é aumentada. • Queratinócitos Basais: células colunares a cúbicas e únicas com capacidade divisão. Apresentam queratina em filamentos rudimentares ligados a hemidesmosomas e segregam queratina e peptídeos com propriedades antimicrobianas. • Células de Merckel: se localizam na parte profunda da epiderme, apoiadas na membrana basal e presas aos queratinócitos por meio de desmossomos. Em contato com a base das células de Merkel existe uma estrutura em forma de disco, onde se inserem fibras nervosas aferentes (conduzem impulsos para o sistema nervoso central). As células de Merkel são mecanorreceptores (sensibilidade tátil), embora existam algumas evidências de que elas também participem do sistema neuroendócrino difuso. São esparsas e abundantes nas pontas dos dedos e na base dos folículos pilosos. O carcinoma de células de Merkel (CCM) é um tipo raro, mas altamenteagressivo de câncer de pele, que se desenvolve quando as células de Merkel sofrem proliferação descontrolada. Com mais frequência, surge em áreas da pele expostas ao sol, como a cabeça, o pescoço e os membros superiores e inferiores. O CCM tende a crescer rapidamente e a metastatizar através dos vasos linfáticos em um estágio inicial. • Queratinócitos espinhosos: são de forma poliédrica, ligados entre si por desmosomas -” espinhos” e apresentam tonofilamentos K em rede no citoplasma. • Células de Langherans: muito ramificadas, localizam-se em toda a epiderme entre os queratinócitos, porém são mais frequentes na camada espinhosa. Essas células se originam de células precursoras da medula óssea que são transportadas pelo sangue circulante. As celulas de langerhans são capazes de captar antígenos, processá-los e apresentá-los aos linfócitos T, participando da estimulação dessas células. Em consequência, elas têm um papel importante nas reações imunitárias cutâneas. No citoplasma apresentam os grânulos de Birbeck. A transformação maligna das células de Langerhans é responsável pela histiocitose X (histiocitose de células de Langerhans), um grupo de doenças imunes caracterizadas por aumento e disseminação anormais das células de Langerhans. O acúmulo dessas células anormais pode formar tumores, que podem acometer várias partes do corpo, incluindo os ossos, os pulmões, o crânio e outras áreas e órgãos. • Queratinócitos granulosos: são achatados, possuem núcleo picnótico, k em grãos de queratohialina e na membrana grãos querato- hialina, essa é rica em lipídeos-cimento intercelular. • Corneócitos: células mortas em lâminas sobrepostas, sem núcleo e com citoplasma 4 Luiza D. V. Torriani ATM 2024/2 totalmente substituído por k e grãos querato- hialina cimentados. Derme: • É o tecido conjuntivo em que se apoia a epiderme e une a pele à hipoderme. • Apresenta espessura variável. • Sua superfície externa é irregular, observando- se saliências, as papilas dérmicas, que acompanham as reentrâncias correspondentes da epiderme. As papilas aumentam a área de contato da derme com a epiderme, reforçando a união entre essas duas camadas. As papilas são mais frequentes nas zonas sujeitas a pressões e atritos. • É constituída por duas camadas: 1. Camada papilar: delgada, constituída por tecido conjuntivo frouxo que forma as papilas dérmicas. Possui fibrilas especiais de colágeno, que contribuem para prender a derme à epiderme. Os pequenos vasos sanguíneos observados nessa camada são responsáveis pela nutrição e oxigenação da epiderme. 2. Camada reticular: mais espessa, constituída por tecido conjuntivo denso. Ambas as camadas contêm muitas fibras do sistema elástico, responsáveis, em parte, pela elasticidade da pele. Além dos vasos sanguíneos e linfáticos, e dos nervos, também são encontradas na derme as seguintes estruturas, derivadas da epiderme: folículos pilosos, glândulas sebáceas e glândulas sudoríparas. • Componente celular: predominante na derme papilar: 1. Fibroblastos – sintetizam as fibras colagéneo e elastina e GAG; 2. Células dendríticas imunes / mastocitos / macrófagos / linfócitos. • Componente fibroso: predominante na derme reticular: 1. Fibras de colágeno; 2. Fibras elastina; 3. Substância fundamental – GAG. Hipoderme: • É formada por tecido conjuntivo frouxo, que une de maneira pouco firme a derme aos órgãos subjacentes. • É a camada responsável pelo deslizamento da pele sobre as estruturas nas quais se apoia. • A hipoderme pode ter uma camada variável de tecido adiposo que, quando desenvolvida, constitui o panículo adiposo. Esse, modela o corpo, é uma reserva de energia e proporciona proteção contra o frio. • Dois componentes: 1. Celular – adipócitos – em lóbulos; 2. Fibroso – feixes espessos de colágeno com vasos sanguíneos, linfáticos e nervos. Anexos cutâneos: • São derivados epidérmicos com componente dérmico. 5 Luiza D. V. Torriani ATM 2024/2 • Folículo pilo-sebáceo: é uma invaginação epidérmica contendo estrutura queratinizada, o pelo. É composto por uma haste pilar, um bulbo com células matriciais e melanócitos e uma papila dérmica com vasos e nervos. Possui uma glândula sebácea anexa com drenagem para canal folicular. • Pelos: são estruturas delgadas e queratinizadas, que se desenvolvem a partir de uma invaginação de epiderme (o folículo piloso). A cor, o tamanho e a disposição deles variam de acordo com a cor da pele e a região do corpo. São observados em praticamente toda a superfície corporal, com exceção de algumas regiões bem delimitadas. Os pelos são estruturas que crescem descontinuamente, intercalando fases de repouso com fases de crescimento. A duração das fases de repouso e crescimento é variável de uma região para outra. No couro cabeludo, por exemplo, a fase de crescimento é muito longa, durando vários anos, enquanto a fase de repouso é da ordem de 3 meses. As características dos pelos de determinadas regiões do corpo (face e região pubiana) são influenciadas por hormônios, principalmente os hormônios sexuais. A cor do pelo depende dos melanócitos localizados entre a papila e o epitélio da raiz do pelo que fornecem melanina às células do córtex e da medula do pelo, por processo semelhante ao que ocorre na epiderme. Os pelos são constituídos por medula, córtex, cutícula (EPQ), bainha interna e bainha externa. Além disso, são divididos em três tipos: Lanugo – no útero, Vellus – a maioria e Terminais – cabelos / sobrancelhas / pestanas/ barba / axilas / genitais. • Glândula Sebácea: situam-se na derme e os seus duetos, revestidos por epitélio estratificado, geralmente desembocam nos folículos pilosos (sempre associada ao folículo piloso). Em algumas regiões (lábio, mamilos, glande e pequenos lábios da vagina), os duetos abrem-se diretamente na superfície da pele. As glândulas sebáceas são acinosas. e geralmente vários ácinos desembocam em um dueto curto. Os ácinos apresentam-se formados por uma camada externa de células epiteliais achatadas que repousam sobre urna membrana basal. A atividade secretora dessas glândulas é muito pequena até a puberdade, quando é estimulada pelos hormônios sexuais. As glândulas sebáceas são um exemplo de glândula holócrina, pois a formação da secreção resulta na morte das células. A secreção sebácea é uma mistura complexa de lipídios que contém triglicerídeos, ácidos graxos livres, colesterol e ésteres de colesterol. • Unha: são placas de células queratinizadas localizadas na superfície dorsal das falanges terminais dos dedos. É na raiz da unha que se observa a sua formação, graças a um processo 6 Luiza D. V. Torriani ATM 2024/2 de proliferação e diferenciação das células epiteliais aí colocadas, que gradualmente se queratinizam, formando uma placa córnea. A unha é constituída essencialmente por escamas córneas compactas, fortemente aderidas umas às outras. Elas crescem deslizando sobre o leito ungueal, que tem estrutura típica de pele e não participa na firmação da unha. A unha possui raiz e cutícula. Apresenta uma placa dura de K densamente compactada e um crescimento médio de 0.1mm/24h unhas mãos e metade unhas pés. • Glândulas Sudoríparas: são estruturas tubulares e produzem secreção aquosa (suor, esse é uma solução extremamente diluída, que contém pouquíssima proteína, além de sódio, potássio, cloreto, ureia, amônia e ácido úrico). Essas glândulas são divididas em dois tipos: Écrinas e Apócrinas. 1. Glândulas Écrinas: são invaginações epidérmicas, universalmente distribuídas, mas se apresentam em maior quantidade nas mãos, axilas, região frontal. Sua secreção mínima 0.5l / 24 horase apresenta de composição:água, íons K, Na, cloretos, ureia e amônia. Inervação por fibras simpáticas colinérgicas. Recebem estimulação por calor e estresse. São importantes na hidratação camada córnea. Além disso, apresentam uma porção secretória enrolada profunda/derme reticular e uma porção excretória verticalizada, atravessando D-E e abrindo na superfície cutânea. 2. Glândulas Apócrinas: resíduo filogenético das glândulas de odor sexual em mamíferos (feromonas). Abrem-se nos folículos pilo-sebáceos e são maiores que as écrinas. Axilas, genitais, aréolas são os locais mais presentes. Inervação por fibras simpáticas adrenérgicas. Recebem estímulo emocional e sensorial. Vascularização: • Os vasos arteriais que suprem a pele formam dois plexos: um que se situa no limite entre a derme e a hipoderme e o outro entre as camadas reticular e papilar. Deste último plexo partem finos ramos para as papilas dérmicas. Cada papila tem uma única alça vascular, com 7 Luiza D. V. Torriani ATM 2024/2 um ramo arterial ascendente e um venoso descendente. • Existem três plexos venosos na pele: dois nas posições descritas para as artérias e mais um na região média da derme. Encontram-se frequentemente, na pele, anastomoses arteriovenosas com glomus, que têm papel importante nos mecanismos de termorregulação. • Uma das funções mais importantes da pele, graças à sua grande extensão e à sua abundante inervação sensorial, é receber estímulos do meio ambiente. A pele é o receptor sensorial mais extenso do organismo. Além das numerosas terminações nervosas livres localizadas na epiderme, folículos pilosos e glândulas, existem receptores encapsulados e não encapsulados na derme e na hipoderme, sendo mais frequentes nas papilas dérmicas. • As terminações nervosas livres são sensíveis ao toque e à pressão (receptores táteis), bem como a variações de temperatura, dor, coceira e outras sensações. Os receptores encapsulados são os corpúsculos de Rnffini, Vater-Pacini, Meissnere Krause. Quando são encontrados, eles funcionam como mecanorreceptores. Os corpúsculos de Vater- Pacini e os de Ruffini são encontrados também no tecido conjuntivo de órgãos situados nas partes profundas do corpo, em que provavelmente são sensíveis aos movimentos dos órgãos e às pressões de uns órgãos sobre os outros.