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Farmacologia do SNA Transmissão colinérgica As fibras colinérgicas incluem todas as fibras autonômicas eferentes pré- ganglionares, a maioria das fibras pós- ganglionares parassimpáticas, umas poucas fibras pós-ganglionares simpáticas e as fibras motoras somáticas (não autonômicas) dos músculos esqueléticos. Receptores Podem ser divididos em 3 classes: musculares (na junção neuromuscular esquelética), ganglionares (nos gânglios simpático e parassimpático) e do SNC (pré- sinapse e serve para facilitar ou inibir a liberação de outros mediadores, como o glutamato e a dopamina). São estruturas pentaméricas (α, β, γ, δ e ɛ) do tipo canal iônico controlado por ligantes. Os subtipos dos receptores nicotínicos geralmente contêm tanto subunidades α quanto β, sendo a única exceção o subtipo homomérico (α7)5 encontrado, principalmente, no cérebro. A ACh se liga nas subunidades α e os dois pontos de ligação para a ACh precisam ser ocupados simultaneamente para desencadear a abertura do canal. São típicos receptores acoplados à proteína G, e são conhecidos cinco subtipos moleculares (M1 -M5). Os subtipos com numeração ímpar (M1, M3 e M5) acoplam- se à proteína Gq para ativar a via de fosfatos de inositol, enquanto os receptores pares (M2, M4) atuam através de Gi para abrir os Farmacologia Por: ANA CLARA MELO canais de potássio (Kir), provocando hiperpolarização da membrana, podendo ainda inibir a adenilato ciclase, embora a quantidade de cAMP intracelular seja em geral baixa. Os agonistas muscarínicos, além dos mecanismos de transdução, também ativam a via das proteinoquinases ativadas por mitógenos. M1 (“neuronais”): encontrados principalmente em neurônios do SNC, em neurônios periféricos e nas células parietais do estômago. Atuam como mediadores dos efeitos excitatórios como, por exemplo, a excitação muscarínica lenta mediada pela ACh nos gânglios simpáticos e em neurônios centrais. Essa excitação é produzida por diminuição da condutância ao K +, que provoca despolarização da membrana. Estão também envolvidos no aumento da secreção ácida do estômago que ocorre após estimulação vagal. M2 (“cardíacos”): presentes no coração e também nas terminações pré- sinápticas de neurônios centrais e periféricos. Exercem efeitos inibitórios, principalmente por meio do aumento da condutância ao K + e da inibição dos canais de cálcio. A ativação desses receptores é responsável pela inibição colinérgica do coração, bem como pela inibição pré-sináptica no SNC e na periferia. Os receptores M2 também são expressos juntamente com os receptores M3 no músculo liso das vísceras e contribuem para o efeito estimulante da musculatura lisa, próprio dos agonistas muscarínicos em vários órgãos. M3 (glandulares/do músculo liso): produzem estimulação das secreções glandulares (salivares, brônquicas, sudoríparas etc.) e contração do músculo liso das vísceras. A ativação dos receptores M3 também provoca relaxamento de alguns músculos lisos (principalmente vascular) por meio da liberação de óxido nítrico de células endoteliais vizinhas. Os receptores M3 também estão presentes em locais específicos do SNC. M4 e M5: grande parte restritos ao SNC, e seu papel funcional não está bem esclarecido. Os agonistas são raramente seletivos, pois a região de ligação do agonista é altamente conservada entre os diferentes subtipos. Entretanto, existe maior seletividade de subtipo entre antagonistas. Etapas da transmissão colinérgica A acetilcolina (ACh) é sintetizada no citoplasma a partir da acetil-CoA e colina por meio da ação catalítica da enzima colina acetiltransferase (CAT). A acetil-CoA é sintetizada nas mitocôndrias das terminações nervosas. A colina é transportada para dentro por meio do transportador de colina (CHT) dependente de Na+ (esse simportador pode ser bloqueado por um grupo de fármacos de pesquisa denominados hemicolínios). Uma vez sintetizada, a ACh é transportada do citoplasma para as vesículas por um transportador associado à vesícula (VAT) que é dirigido por efluxo de prótons. O acúmulo de ACh está relacionado com o grande gradiente eletroquímico associado aos prótons que existem entre as organelas intracelulares ácidas e o citosol; esse acúmulo é bloqueado de modo seletivo pelo fármaco experimental vesamicol. O armazenamento de ACh é completado pelo empacotamento de moléculas de acetilcolina, geralmente 1.000 a 50.000 moléculas em cada vesícula. Os terminais e varicosidades dos neurônios colinérgicos contêm grande número de pequenas vesículas ligadas à membrana, concentradas perto da porção sináptica da membrana celular, bem como um número menor de vesículas grandes com núcleo denso, localizadas mais longe da membrana sináptica. As vesículas grandes contêm uma alta concentração de peptídeos cotransmissores, ao passo que as vesículas claras menores contêm a maior parte da acetilcolina. As vesículas são providas com proteínas de membrana associadas a vesículas (VAMP), que servem para alinhá- las a sítios de liberação na membrana interna da célula neuronal e participam no desencadeamento da liberação do transmissor. O sítio de liberação na superfície interna da membrana do terminal nervoso contém proteínas sinaptossômicas associadas a nervos (SNAP), que interagem com as VAMP. A liberação fisiológica de transmissor das vesículas depende do cálcio extracelular e ocorre quando um potencial de ação atinge o terminal e desencadeia um influxo suficiente de íons de cálcio por meio de canais de cálcio do tipo N. O cálcio interage com a VAMP sinaptotagmina na membrana da vesícula e desencadeia a sua fusão com a membrana terminal e a abertura de um poro para dentro da sinapse. A abertura do poro e a entrada rápida de cátions resultam em liberação da acetilcolina do proteoglicano e na expulsão exocítica para dentro da fenda sináptica. Após sua liberação, a ACh difunde-se através da fenda sináptica e combina-se com os receptores situados na célula pós- sináptica. Parte da ACh perde-se no caminho ao ser hidrolisada pela acetilcolinesterase (AChE), uma enzima que permanece ligada à membrana basal e encontrada entre as membranas pré e pós- sinápticas. Nas sinapses colinérgicas rápidas (p. ex., sinapses neuromusculares e ganglionares), a ACh liberada é hidrolisada muito rapidamente (dentro de 1 ms), de modo que seu tempo de ação é muito curto. A inibição da colinesterase da terminação nervosa provoca um acúmulo de ACh excedente no citosol, que não fica disponível para liberação pelos impulsos nervosos (embora possa sair da terminação através do transportador de colina). A liberação da ACh é regulada por mediadores, inclusive pela própria ACh, que agem sobre os receptores pré- sinápticos. Nas terminações nervosas parassimpáticas pós-ganglionares, os receptores M2 inibitórios participam da autoinibição da liberação da ACh; outros mediadores, como a norepinefrina, também inibem a liberação da ACh. Entretanto, na junção neuromuscular, os receptores nicotínicos pré-sinápticos facilitam a liberação da ACh. No cérebro, os nAChR pré-sinápticos facilitam ou inibem a liberação de outros mediadores. A despolarização causada pela ação da ACh sobre os receptores nicotínicos é devido ao grande aumento na permeabilidade dessa membrana a cátions, particularmente ao Na+ e ao K+ e, em menor grau, ao Ca2+. Essa despolarização mediada por transmissor é denominada potencial de placa terminal em uma fibra muscular esquelética, ou potencial excitatório pós- sináptico rápido na sinapse ganglionar. Se ele for grande o suficiente pode provocar uma contração da fibra muscular ou um potencial de ação na célula nervosa. A tubocurarina bloqueia os receptores pós-sinápticos da nACh, reduzindo a amplitude do peps rápido até que ele não seja mais capaz de dar início a um potencial de ação, embora a célula ainda seja capaz de responder quando estimulada eletricamente. O bloqueio por despolarização ocorre nas sinapses colinérgicas quando os receptores nicotínicos excitatórios são ativados de modo persistente, e resulta da diminuição da excitabilidade elétrica da célula pós- sináptica. A principal razão para a perda da excitabilidade elétrica consiste no fato de que os canais de sódio sensíveis à voltagem se tornam inativados (i. e., refratários) e não são mais capazes de se abrir em resposta a um estímulo despolarizante breve. Outre efeito pode ser observado depois do estímulo persistente, onde a célula se repolariza parcialmente, e sua excitabilidade elétrica retorna; no entanto, apesar disso, a transmissão permanece bloqueada. O principal fator responsável pelo bloqueio secundário parece ser a dessensibilização dos receptores, fazendo com que a ação despolarizante do fármaco bloqueador decline, mas a transmissão permanece bloqueada porque os receptores estão dessensibilizados a ACh. Efeitos de fármacos sobre a transmissão colinérgica Seus efeitos se assemelham aos resultantes da estimulação parassimpática. Os ésteres de colina são agonistas, tanto de receptores muscarínicos quanto nicotínicos, mas atuam de modo mais potente sobre os muscarínicos. Atualmente, o betanecol (hipotonia da bexiga e TGI), a pilocarpina (glaucoma) e a cevimelina (na Síndrome de Sjögren para aumento da secreção salivar e lacrimal) são os principais utilizados na prática clínica. As variantes da estrutura éster da têm o efeito de reduzir a suscetibilidade do composto à hidrólise pela colinesterase e de alterar a atividade relativa sobre os receptores muscarínicos e nicotínicos. Efeitos cardiovasculares: diminuição de frequência e débito cardíacos devido tanto ao reduzido ritmo cardíaco como a uma baixa contração das aurículas (os ventrículos têm escassa inervação parassimpática e baixa sensibilidade a agonistas muscarínicos). Também ocorre vasodilatação generalizada (mediada pelo óxido nítrico, NO) e, em combinação com um baixo débito cardíaco, produz uma queda acentuada da pressão arterial. Efeitos sobre a musculatura lisa: contração por oposição ao seu efeito indireto por intermédio do NO no músculo liso vascular. A atividade peristáltica do trato gastrintestinal aumenta, o que pode causar dor em cólica, e a bexiga e o músculo liso dos brônquios também se contraem. Efeitos sobre as secreções sudorípara, lacrimal, salivar e brônquica: estimulam as glândulas exócrinas. Efeitos oculares: contração do músculo ciliar tracionando o corpo ciliar para a frente e para dentro e, como consequência, relaxa a tensão sobre o ligamento suspensor do cristalino, possibilitando que o cristalino fique mais abaulado e que sua distância focal fique reduzida (reflexo de acomodação); contração do músculo constritor da pupila levando a miose e reduz a pressão intraocular. Efeitos centrais (principalmente M1): tremores, hipotermia e aumento da atividade locomotora. São antagonistas competitivos, cujas estruturas químicas geralmente contêm grupos éster e grupos básicos na mesma proporção encontrada na ACh, mas apresentam um grupo aromático volumoso em vez do grupo acetil. Os dois compostos de ocorrência natural, a atropina é encontrada na beladona e a hioscina encontra-se no estramônio. São compostos de amônio quaternário suficientemente lipossolúveis para serem facilmente absorvidos no intestino ou no saco conjuntival e, vale destacar, para atravessar a barreira hematoencefálica. Efeitos: Inibição de secreções salivares, lacrimais, brônquicas e sudoríparas. A secreção gástrica é apenas discretamente reduzida. Aumento da frequência cardíaca por inibição do tônus parassimpático tônico. Oculares: pupila dilatada (midríase) e não responsiva à luz. O relaxamento do músculo ciliar causa paralisia de acomodação (cicloplegia); por esse motivo, a visão para perto fica comprometida. A pressão intraocular pode subir. Gastrointestinais: inibe a motilidade gastrintestinal, mas essa inibição ocorre somente com doses maiores que as que desencadeiam os outros efeitos listados, e não é completa. Músculos lisos: provoca o relaxamento da musculatura lisa da árvore brônquica e levemente dos tratos biliar e urinário. A oxibutinina, a tolterodina e a darifenacina (seletivos para M3) atuam na bexiga inibindo a micção, sendo utilizados no tratamento de bexiga hiperativa. Produzem efeitos adversos típicos dos antagonistas muscarínicos, como xerostomia, obstipação e visão turva. SNC: em doses baixas, causa leve inquietação; já doses mais altas provocam agitação e desorientação. A hioscina em baixas doses provoca sedação significativa, mas apresenta efeitos semelhantes aos da atropina em baixa dose. Além disso, apresenta efeitos antieméticos centrais, sendo utilizada na profilaxia do enjoo do movimento. Os antagonistas muscarínicos também afetam o sistema extrapiramidal, reduzindo os movimentos involuntários e a rigidez de pacientes com doença de Parkinson e neutralizando os efeitos colaterais extrapiramidais de muitos fármacos antipsicóticos. Fármacos que afetam os gânglios autônomos A maioria dos agonistas do nAChR atua ou nos nAChR neuronais (ganglionares e do SNC) ou nos receptores musculares estriados (placa motora), mas não em ambos, exceto no caso de nicotina e de ACh. Eles desencadeiam respostas periféricas complexas associadas à estimulação generalizada dos gânglios autônomos. O bloqueio ganglionar pode ocorrer por meio de vários mecanismos: Pela interferência na liberação da ACh, como ocorre na junção neuromuscular Pela despolarização prolongada: após uma estimulação inicial, a nicotina é capaz de bloquear os gânglios dessa forma, assim como a própria ACh quando a colinesterase está inibida, prolongando assim a sua ação sobre a membrana pós-sináptica Pela interferência na ação pós-sináptica da ACh bloqueando os receptores nicotínicos neuronais ou os canais iônicos a eles associados. Os efeitos dos fármacos bloqueadores ganglionares são variados, pois ambas as divisões do sistema nervoso autônomo são bloqueadas de modo indiscriminado. Na prática, o efeito principal é uma queda acentuada da pressão arterial, o que resulta principalmente no bloqueio dos gânglios simpáticos, que causa vasodilatação arteriolar e o bloqueio dos reflexos cardiovasculares. A venoconstrição, que ocorre geralmente quando uma pessoa fica em pé e impede a queda da pressão venosa central e do débito cardíaco, está reduzida. O ato de ficar em pé, portanto, causa queda súbita da pressão arterial (hipotensão postural), que pode causar desmaios. A vasodilatação dos vasos da musculatura esquelética que ocorre durante o exercício físico costuma ser acompanhada de vasoconstrição em outros locais (p. ex., na área esplâncnica) produzida pela atividade simpática. Os bloqueadores ganglionares previnem esse ajuste, de modo que a resistência periférica global cai, levando à hipotensão pós-exercício. Os fármacos capazes de bloquear a transmissão neuromuscular agem na região pré-sináptica, inibindo a síntese ou a liberação de ACh, ou na região pós- sináptica. Todos os fármacos utilizados para este fim têm ação pós-sináptica, seja (a) bloqueando os receptores de ACh (em alguns casos, o canal iônico), ou (b) ativando receptores de ACh, e assim causando uma despolarização persistente na placa motora terminal. → Agentes bloqueadores não despolarizantes Os mais importantes são o pancurônio, o vecurônio, o cisatracúrio e omivacúrio, que diferem essencialmente na duração da sua ação. Todas essas substâncias são compostas de amônio quaternário e, por isso, são mal absorvidas (são administradas por via intravenosa) e normalmente são bem excretadas pelos rins. Não atravessam a placenta, o que é importante para a utilização na anestesia obstétrica. Atuam como antagonistas competitivos dos receptores da ACh situados na placa terminal. A quantidade de ACh liberada por um impulso nervoso geralmente excede em várias vezes o número de moléculas necessário para desencadear um potencial de ação na fibra muscular. Portanto, é necessário bloquear de 70 a 80% dos receptores para que a transmissão seja, de fato, interrompida. Os agentes bloqueadores não despolarizantes também bloqueiam autorreceptores pré-sinápticos facilitadores, inibindo, assim, a liberação da ACh durante a estimulação repetitiva do nervo motor, resultando no fenômeno da “fadiga tetânica”, usada por anestesistas para monitorar a recuperação pós-operatória da transmissão neuromuscular. Os efeitos são resultantes da paralisia motora e efeitos autonômicos. Os primeiros músculos a serem afetados são os músculos extrínsecos do olho (provocando visão dupla), característico da miastenia gravis, que é causada por autoanticorpos contra os nAChR, e os pequenos músculos da face, dos membros e da faringe (causando dificuldade para deglutir). Os músculos da respiração são os últimos a serem afetados e os primeiros a se recuperarem. Um efeito indesejado importante da tubocurarina é a queda da pressão arterial, resultante, sobretudo, (a) do bloqueio simpático ganglionar e (b) da liberação de histamina dos mastócitos, que também pode provocar broncospasmo em indivíduos sensíveis. Os fármacos bloqueadores neuromusculares são administrados por via intravenosa. A maioria dos agentes bloqueadores não despolarizantes é metabolizada pelo fígado ou eliminada de forma inalterada pela urina, com exceção do atracúrio, que sofre hidrólise espontânea no plasma, e do mivacúrio, que, assim como o suxametônio, é hidrolisado pela colinesterase do plasma. A duração da ação varia de 15 min a 1 a 2 h e, após esse período, o paciente recupera força suficiente para tossir e respirar de modo adequado. Para reverter a paralisia, é administrado fármacos anticolinesterásicos que ultrapassam a ação inibitória dos agentes não despolarizantes porque a liberação de ACh, protegida da hidrólise, pode difundir- se ainda mais dentro da fenda sináptica e acessar maior área da membrana pós- sináptica. Assim, a chance de uma molécula de ACh encontrar um receptor não ocupado, antes de ser hidrolisada, é aumentada → Agentes bloqueadores despolarizantes O suxametônio é o único agente despolarizante utilizado na clínica. As diferenças entre os bloqueadores não despolarizantes e despolarizantes são: A fasciculação, não ocorre com os fármacos não despolarizantes. A gravidade está ligada à dor muscular pós-operatória experienciada após a administração de suxametônio Desvanecimento tetânico ocorre com os fármacos bloqueadores não despolarizantes, mas não com o suxametônio, que não bloqueia os nAChR pré-sinápticos. O bloqueio despolarizante não é afetado pelos fármacos anticolinesterásicos, nem mesmo aumentado por meio da potenciação da ação despolarizante da ACh endógena. Efeitos indesejados: Bradicardia resultante de ação muscarínica direta. Liberação de potássio devido ao aumento da permeabilidade das placas terminais motoras a cátions faz com que o músculo perca K + e, como consequência, ocorra pequena elevação na concentração plasmática de K +. Aumento da pressão intraocular Paralisia prolongada por variação genética com colinesterase plasmática anômala; uso de fármacos anticolinesterásicos; e em recém- nascidos com colinesterase plasmática de baixa atividade. Hiperpirexia maligna levando a espasmo muscular intenso e elevação surpreendente da temperatura corporal. Fármacos que agem em nível pré-sináptico A etapa limitante da velocidade de síntese da ACh parece ser o transporte da colina para dentro da terminação nervosa. O hemicolínio bloqueia esse transporte e, consequentemente, inibe a síntese da ACh, mas não apresenta aplicação clínica. Seu efeito bloqueador sobre a transmissão ocorre lentamente, à medida que as reservas de ACh se esgotam. O vesamicol, que age bloqueando o transporte da ACh para dentro das vesículas sinápticas, tem efeito semelhante. A liberação da ACh depende da entrada de cálcio na terminação nervosa. Essa entrada pode ser inibida por Mg2+ e vários antibióticos aminoglicosídios (p. ex., estreptomicina e neomicina). Duas neurotoxinas potentes, a toxina botulínica e a β-bungarotoxina, atuam especificamente inibindo a liberação de ACh. A toxina botulínica é uma proteína produzida pelo bacilo anaeróbico Clostridium botulinum. Ela contém várias peptidases que clivam proteínas específicas envolvidas na exocitose, produzindo, desse modo, um bloqueio de longa duração da função sináptica. O envenenamento botulínico causa paralisia parassimpática e motora progressiva, com boca seca, visão turva e dificuldade para deglutir, seguidas de progressiva paralisia respiratória. O tratamento com a antitoxina somente é efetivo quando administrado antes do aparecimento dos sintomas, visto que, após a toxina ligar-se aos receptores, sua ação não pode mais ser revertida. Quando injetada localmente, possui vários usos clínicos e cosméticos como: blefarospasmo, espasticidade, incontinência urinária estrabismo, hiper-hidrose, sialorreia e rugas. A β-bungarotoxina é uma proteína presente no veneno de várias serpentes da família das najas e tem ação semelhante à da toxina botulínica. Contém fosfolipase e α- bungarotoxina que bloqueia os receptores pós-sinápticos da ACh, de modo que, como se vê, esses animais cobrem todas as possibilidades no sentido de causar paralisia de suas vítimas. Anticolinesterásicos e outros fármacos que intensificam a transmissão colinérgica Os fármacos que intensificam a transmissão colinérgica atuam inibindo a colinesterase (o grupo principal) ou aumentando a liberação de ACh. Há dois tipos distintos de colinesterase, a acetilcolinesterase (AChE) e a butirilcolinesterase. Ambas são formadas por subunidades globulares catalíticas, que constituem as formas solúveis encontradas no plasma (BuChE) e no líquido cefalorraquidiano (AChE). Em outros locais, elas se ligam a proteínas acessórias à membrana basal ou das sinapses colinérgicas. Nas sinapses colinérgicas, a AChE ligada age hidrolisando o transmissor liberado e encerra sua ação rapidamente. A AChE solúvel também está presente nas terminações nervosas colinérgicas, em que parece ter um papel na regulação da concentração de ACh livre, e de onde pode ser secretada. A BuChE apresenta uma ampla distribuição, sendo encontrada em tecidos como fígado, pele, cérebro e musculatura lisa gastrintestinal, bem como no plasma, na sua forma solúvel. Não está particularmente associada às sinapses colinérgicas. No plasma, é importante na inativação de fármacos como procaína, o suxametônio e a propanidida. A maioria deles inibe a AChE e a BuChE de modo aproximadamente igual. Podem ser divididos em: → Anticolinesterásicos de ação curta Ex.: edrofônio. A ligação iônica formada é facilmente reversível, e a ação do fármaco é muito breve. É utilizado principalmente com finalidades diagnósticas, visto que a melhora da força muscular observada com o uso de um anticolinesterásico é característica da miastenia gravis. → Anticolinesterásicos de duração intermediária Ex.: neostigmina (prostigmina), piridostigmina e a fisostigmina. a enzimacarbamilada sofre hidrólise muito mais lentamente, levando minutos em vez de microssegundos. → Anticolinesterásicos irreversíveis Ex.: diflos, paration e ecotiopato. Fosforizam o grupo hidroxila da serina da enzima. Podem ser usados como arma química e pesticidas, devido a sua alta lipossolubilidade e absorção através das mucosas e pele. A enzima fosforilada inativa é geralmente muito estável. Com fármacos como o diflos, não ocorre uma hidrólise apreciável, e a recuperação da atividade enzimática depende de síntese de novas moléculas da enzima, um processo que pode levar semanas. Com outros fármacos, como o ecotiopato, ocorre hidrólise no decorrer de alguns dias, de modo que sua ação não é estritamente irreversível. → Efeitos Sinapses colinérgicas: aumento da atividade da ACh nas sinapses pós- ganglionares parassimpáticas (i. e., aumento das secreções das glândulas salivares, lacrimais, brônquicas e gastrintestinais; aumento da atividade peristáltica; bronco constrição; bradicardia e hipotensão; constrição pupilar; fixação da acomodação da visão para perto; queda da pressão intraocular). Doses grandes são capazes de estimular e, posteriormente, bloquear, os gânglios autônomos, produzindo efeitos autônomos complexos. O bloqueio, quando ocorre, consiste em um bloqueio por despolarização e está associado ao acúmulo de ACh no plasma e nos líquidos orgânicos. A intoxicação aguda por anticolinesterásicos causa bradicardia grave, hipotensão e dificuldade para respirar. Junção neuromuscular: aumentam a força da contração de um músculo estimulado por meio de seu nervo motor, graças à descarga repetitiva na fibra muscular associada a um prolongamento do ppt. Em grandes doses pode provocar espasmos musculares e posteriormente, paralisia. SNC: os compostos terciários, como a fisostigmina, e os organofosforados apolares atravessam livremente a barreira hematencefálica e afetam o cérebro. O resultado é uma excitação inicial, que pode causar convulsões, seguida de depressão, que pode causar perda da consciência e insuficiência respiratória. Toxicidade dos organofosforados: no envenenamento acidental por inseticidas ou gases neuro tóxicos, podem provocar um tipo grave de degeneração tardia de nervos periféricos, que causa fraqueza e comprometimento sensorial progressivos. A exposição crônica de trabalhadores agrícolas e outros profissionais a baixos níveis de pesticidas organofosforados foi associada a perturbações neurocomportamentais. → Uso clínico Reversão da ação de fármacos bloqueadores neuromusculares não despolarizantes depois de uma cirurgia (neostigmina). Tratamento da miastenia gravis (neostigmina ou piridostigmina); Como auxílio diagnóstico de miastenia gravis e para diferenciar a fraqueza causada por superdosagem de um anticolinesterásico (“crise colinérgica”) da fraqueza observada na miastenia propriamente dita (“crise miastênica”): edrofônio, um fármaco de ação curta administrado por via intravenosa; Na doença de Alzheimer (p. ex., donepezila); No glaucoma (colírio à base de ecotiopato). A hidrólise espontânea da colinesterase fosforilada é extremamente lenta. A pralidoxima reativa a enzima ao levar um grupo oxima à estreita proximidade do ponto esterásico fosforilado. No entanto, a enzima fosforilada sofre alteração química (“envelhecimento”) que a torna não mais suscetível à reativação, logo a administração da pralidoxima precisa ser mais rápida possível.