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13 Martina Frazão – P5 ANESTESIOLOGIA BLOQUEIO ANESTÉSICO DO NEUROEIXO Também conhecidos como “bloqueios espinais”. Teve início em 1898, utilizando a cocaína no espaço subaracnóideo. É amplamente utilizado em cirurgia, obstetrícia, manejo agudo da dor pós operatória e alivio da dor crônica. ANATOMIA DA COLUNA VERTEBRAL Os bloqueios a nível dural são torácicos e lombares. Na raquianestesia, utiliza-se no nível lombar, para evitar danos à medula. O acesso se dá pelos processos espinhosos. A nível lombar, os processos são mais espaçados (menos angulados). Por isso é que na anestesia lombar a técnica é mais fácil de ser realizada do que no nível torácico, em que há a preferência pela torácica baixa (ângulo maior). Não se realiza a nível cervical nem a sacral. Precisa chegar próximo à medula espinal para que tenha efeito. A agulha entra entre um processo e outro, acessando o canal da medula ao fim desse espaço. A nível lombar, o canal medular é mais triangular. Em níveis torácicos altos, fica mais estreitado e mais ovalado, o que implica espaço menor entre a medula e as estruturas adjacentes, o que ocasiona maior risco de lesão. LIGAMENTOS DA COLUNA VERTEBRAL Importante reconhecê-los porque serão atravessados pela agulha quando da anestesia do neuroeixo. Atravessa pele, tecido subcutâneo (normalmente não tem gordura), ligamento supraespinhoso, ligamento intraespinhoso e ligamento amarelo (mais resistente; por vezes tem resistência parecida com o osso). Passado esse ligamento, chega-se ao canal medular (espaço peridural). O espaço peridural possui raízes nervosas, gordura, vasos linfáticos e vasos sanguíneos. Espaço peridural = ao redor das duras = epidural MEDULA ESPINAL E ENVOLTÓRIOS Ricamente vascularizado por veia e, no ponto mediano, normalmente não existem vasos: por isso que a punção sempre é tentada pela linha mediana. Para fazer bloqueio peridural, para a agulha quando ultrapassa o ligamento amarelo. Em volta da medula estão as meninges: pia-máter (vascularizada), aracnóide (praticamente avascular e muito fina) e dura-máter. Aracnóide é praticamente colada na dura-máter (quando alcança uma, dificilmente não atravessa a outra). Os anestésicos locais têm dificuldade de ultrapassar a aracnóide; quando ultrapassa, deposita muito próximo do SNC, o que é pretendido na raquianestesia, que justamente por isso tem um início de ação mais rápido que o da anestesia peridural. Quando ultrapassa a subaracnóide (ou seja, espaço intratecal), chama-se anestesia subaracnóide ou raquianestesia. . 14 Martina Frazão – P5 ANESTESIOLOGIA LOCALIZAÇÃO DA MEDULA ESPINAL A medula não ocupa todo o canal espinal; no adulto, vai até o corpo de L1 (90%). Esse conhecimento reflete em que não se deve realizar raquianestesia acima de L1. Outros terminam em T12 e outros L3. Ou seja: abaixo de L3, não tem risco de lesão à medula espinal. No RN, vai até L3. Depois muda porque o crescimento ósseo é maior do que o do SNC. Uma lesão da cauda equina é difícil de acontecer, pois são filetes móveis em um espaço com líquor: quando a agulha se aproxima, o paciente pode referir parestesia ou um choque, sinais de que está encostando em alguma das raízes da cauda equina. Na raquianestesia: só tira o mandril da agulha quando chega ao espaço da raqui. Para fazer anestesia, precisa que o líquor goteje antes; o líquor está circulando dentro das meninges. Líquor parece com “água de rocha” macroscopicamente. No espaço peridural, por sua vez, como não tem líquor, pode ser realizada em qualquer nível da coluna e há outra forma de testar. No espaço peridural há uma pressão negativa; utiliza-se seringa adaptada, com baixa resistência, e, quando aperta o êmbolo, ele não consegue prosseguir. Quando ultrapassa o ligamento amarelo, contudo, esse êmbolo chega a ser sugado pela pressão negativa. Isso é o teste de Dogliotii. Se achar líquor, não deve fazer! DERMÁTOMOS CUTÂNEOS A depender da cirurgia, tem que ter consciência do nível sensitivo que tem que ser operado para sentir dor. O conhecimento dos dermátomos é fundamental para determinar, de acordo com a cirurgia, o nível que tem que ter com a anestesia. Pode deixar em diversos níveis: só sacral (períneo), só MMII, a nível de abdome inferior. Sempre que possível, deve testar para ver se a região foi anestesiada com sucesso. Bloqueio neuronal diferencial baseia-se no tipo de calibre das fibras nervosas: as do SN simpático são mais finas, então são mais facilmente bloqueadas. Assim, tem um bloqueio maior que o sensitivo, que tem bloqueio maior que o motor. Simpático: pode bloquear 2 a 6 acima. Sensitivo: pode bloquear 2 a 3 acima. OBS: Ao garrotear, o nível de bloqueio sensitivo tem que estar mais elevado. Regra prática para testar o bloqueio sensitivo (não consegue testar bloqueio simpático). Coloca algodão molhado no braço do paciente, por exemplo, e pergunta se está quente ou frio. Depois, coloca onde quis bloquear e, se estiver diferente de gelado, está com bloqueio sensitivo térmico, o que é útil para definir onde irá estabilizar o bloqueio. o T2: linha da fúrcula esternal. o T4: linha mamilar o T6: processo xifóide/rebordo costal o T10: cicatriz umbilical o T12: cristas illíacas 15 Martina Frazão – P5 ANESTESIOLOGIA USO CLÍNICO CONTRAINDICAÇÕES À ANESTESIA DO NEUROEIXO EFEITOS DOS BLOQUEIOS NEUROAXIAIS CARDIOVASCULAR: HIPOTENSÃO/BRADICARDIA Diminuição do retorno venoso Diminuição da resistência vascular periférica Diminuição da contratilidade cardíaca (T1-T4) RESPIRATÓRIO: MÍNIMOS ABAIXO DE T4 Abaixo de T4, não tem muita interferência na capacidade ventilatória. Em DPOC ou outras afecções, contudo, pode apresentar algum problema. TRATO GASTROINTESTINAL Aumento da motilidade intestinal. Se tem bloqueio simpático toracolombar, a parte craniana do parassimpático fica livre, aumentando a motilidade intestinal. Discinesia gástrica: náusea e vômitos. ATENUAÇÃO DA RESPOSTA NEUROENDÓCRINA METABÓLICA AO TRAUMA Bloqueio da liberação de Acth, cortisol, adrenalina, NA, vasopressina e sistema renina/angiotensina/aldosterona. SISTEMA URINÁRIO Tendência a retenção urinária. Diminuição do fluxo sanguíneo renal (débito cardíaco) Bexiga – bloqueio sacral (S2 a S4): atonia vesical. Bloqueio eferente simpático (T5-S1): aumento do tônus esfincteriano. PREPARO DO PACIENTE 1. Visita pré-anestésica Consentimento informado Contra-indicações Realizar medicação pré-anestésica: mesmo na urgência, um pouco de midazolam não tira a consciência de paciente que não esteja chocado ou com trauma craniano. 2. Preparo do material – agulhas/seringas/drogas Fonte de oxigênio, aparato para ventilação, laringoscópio e lâminas: pode ser que precise evoluir para uma anestesia geral ou que haja complicações que levem à necessidade de intubar. Tubos endotraqueais, guias, cânulas de Guedel, cateteres para venopunção 3. Monitores e desfibrilador: testados. POSICIONAMENTO Sempre que possível, fazer flexão do tronco sobre as pernas. Pode ser em decúbito lateral ou sentada. Linha de Tuffier: une as duas cristas ilíacas: corpo de L4. Quando não está em L4, está entre L4 e L5; consegue-se determinar visualmente o nível da punção. TIPOS DE AGULHA Touhy: romba na frente, que evita o risco de perfuração da dura-máter. Tem por dentro o mandril; uma vez localizado o ligamento, retira o mandril e coloca a seringa especial de baixa resistência para evoluir enquanto se testa o êmbolo da seringa. No momento em que o êmbolo é empurrado, está no espaço peridural. Coloca o anestésico de forma gradual, sempre aspirando antes. As de raqui tem o ponta de lápis (Witacre) e Quincke (cortante), que perfuram a dura-máter para chegar ao espaço subaracnóide. Quando ultrapassaa dura-máter (2ª resistência), retira o mandril e observa o gotejamento do líquor. Quando acontece, sabe-se que está no espaço correto. 16 Martina Frazão – P5 ANESTESIOLOGIA TÉCNICA ANESTÉSICA Diferenças entre o peridural e o da raqui. A agulha de raqui é muito fina, pode dobrar facilmente; por isso, às vezes usa uma agulha simples como guia para que não deforme. TESTE DA PERDA DA RESISTÊNCIA É o teste de Dogliotti. É para o espaço peridural. Depois que posiciona a agulha nos ligamentos, retira o mandril e adapta a seringa de baixa resistência. Continua avançando delicadamente a agulha e empurra o êmbolo simultaneamente à progressão da agulha; quando chega ao espaço, esse êmbolo facilmente se desloca. ANESTÉSICOS UTILIZADOS 1. Raquianestesia Lidocaína 5%: não muito usada hoje, pois se envolve com síndrome da cauda equina. Bupivacaína 0,5%. o Tem a forma hiperbárica (gravidade interfere na perfusão) ou isobárica (mesma densidade liquórica). 2. Peridural Lidocaína 2% C/A ou S/A (sem adrenalina). o Adrenalina é vasoconstritora. Reduz risco de toxicidade sistêmica e reduz absorção (mantém por mais tempo duração maior do anestésico local). o Alguns pacientes podem ter taquicardia: evita adrenalina. Bupivacaína 0,5% ou 0,75% Ropivacaína 0,75% ou 1% o Não tem a opção de ter com adrenalina porque a ropivacaína tem ação vasoconstritora intrínseca. 3. Baricidade: em relação à densidade do líquor Isobáricos: sempre usada na peridural, porque nesta não tem líquor. Hiperbáricos: muito importante na raquianestesia. FATORES QUE INFLUENCIAM O NÍVEL DA RAQUIANESTESIA Principais determinantes da dispersão: Baricidade da solução: consegue fazer com que migre a nível caudal ou cefálico. Posição do paciente: se deixar em posição de Trendellemburg, o anestésico, por ser mais pesado que o líquor (hiperbárico), vai em direção cefálica. Se ficar sentado, o bloqueio tem tendência de ficar mais baixo. Dose e volume da substância Determinantes secundários da dispersão: Nível da injeção Velocidade da injeção: se quer um baixo, injeta menos volume com menos velocidade. Se quer que atinja níveis mais altos, faz uma velocidade maior. Ainda assim é cauteloso! Se for rápido demais, pode levar a uma parada total. Barbotagem: técnica em que aspira o líquor e injeta na seqüência. Calibre da agulha: mais grossa ou mais fina. Quanto maior, maior a dispersão. Condições físicas do paciente: quanto maior a pressão intrabdominal, esta pressão é transferida para o espaço peridural ou da raqui. Determinantes da duração: Substância empregada Dose injetada: quanto maior a massa de anestésico, mais tempo de anestesia vai ter. Dispersão total do bloqueio: quando tem uma dispersão maior (por exemplo, se vai para cefálico), o tempo é mais curto. Quando fica mais localizado tem mais tempo de ação. Determinantes do nível do bloqueio peridural Volume do anestésico local – máximo 1,6 mL/segmento. Ele vai se distribuir 50% para cima e 50% para baixo; assim, se quer níveis maiores, precisa de volumes maiores. 17 Martina Frazão – P5 ANESTESIOLOGIA Idade – diminuir 50% do volume em RN (espaços diminutos) e idosos (diminuição dos espaços intervertebrais: sai menos anestésico por esse espaço). Na grávida, por questão hormonal, precisa de menos (cerca de 30%). Dispersão do bloqueio (mais rápido para sentido cefálico). Determinantes do início e duração da peridural Seleção do fármaco Lidocaína tem pKa mais próximo: início mais rápido. Rupivacaína tem pKa mais distante do nosso: início mais lento. Acréscimo de opióide: tem receptores opióides em nervos. Quando associado ao anestésico local na mesma seringa, tem início de ação mais rápido. Ajuste da solução ao pH: caso associe o bicarbonato, tem mais formas não iônicas, diminuindo o tempo de início. Na prática, não usa muito o bicarbonato para diminuir a latência; de rotina, faz-se o acréscimo de opióides. COMPLICAÇÕES DO BLOQUEIO DO NEUROEIXO 1. Raquianestesia Síndrome neurológica transitória é rara: perde sensibilidade e força motora dos MMII. Hipotensão e bradicardia são as mais freqüentes. 2. Peridural Injeção intravascular Injeção subaracnóidea acidental: paciente se mexendo, por exemplo, pode levar a uma invasão na subaracnóide/perfurar a dura-máter. Se continuar a colocar o anestésico no espaço subaracnóideo, pode ter um quadro de parada (“raquianestesia total”). CEFALÉIA PÓS-PUNÇÃO DA DURAMÁTER Simples de ser diagnosticada e, quanto mais precoce esse DDx, menos problemas para o paciente. Múltiplas tentativas já indicam que há cefaléia pós função. Normalmente inicia na região occiptal. Piora quando se levanta e no início some quando deita: muito indicativo de cefaléia pós-raquianestesia (pelo menos tem que ter tomado a raqui ou a peridural!). Pode ter transtornos visuais ou auditivos em uma fase mais avançada do quadro clínico. A fisiopatologia da dor é a perda liquórica pelos orifícios da punção. Um orifício na dura-máter por uma agulha mais calibrosa não irá fechar de imediato; o líquor fica sendo perdido para o espaço peridural, e isso atinge o espaço intracraniano, levando a uma dilatação dos vasos dentro do crânio. Quando está deitado, não permite a queda na pressão liquórica; quando o paciente senta, esses mecanismos são deflagrados pelo corpo, fazendo que cause uma dor. Ocorre dentro de 3 dias. Mais frequente em jovens, mulheres e grávidas. Uso de agulhas de grosso calibre, cortantes, múltiplas tentativas. Cefaléia com irradiação frontal e occipital. Exacerbada pela ortostase. Aliviada pelo decúbito dorsal. Transtornos visuais ou auditivos. 70% melhoram em 7 dias. Conduta: Hidratação. Repouso em decúbito dorsal Cafeína: 300 mg/dia Analgésicos/relaxantes musculares/ansiolíticos Tampão sangüíneo. A cafeína tem efeito vasoconstritor e por isso melhora a sintomatologia, fechando o orifício da punção. Com o uso, melhora rápido. Precisa ficar em repouso, se possível, para não estimular o mecanismo da dor. Pode se prolongar se não for tratado adequadamente, levando a uma via crônica de dor. Pode associar a analgésicos, relaxantes musculares ou ansiolíticos, mas o comprovado mesmo é a cafeína (dorflex, paracetamol DC). Normalmente se passa um anti-enxaquecoso. Tampão sangüíneo: recurso de último momento, quando não responde ao tratamento clínico ou quando tem uma cefaléia incapacitante. Leva para o centro cirúrgico, faz uma punção peridural no mesmo espaço, colhe sangue do paciente no braço e aplica esse sangue no espaço peridural. O sangue, assim, vai formar um coágulo a nível do bloqueio que foi realizado, na tentativa de impedir que aquele “buraco” continue a vasar. De imediato o paciente já refere melhora (mais de 95% não vão ter mais queixa). Há o risco de causar abscesso (sangue no SNC!). ANTICOAGULAÇÃO E BLOQUEIO ESPINAL Sempre deve interrogar o paciente sobre o uso de anticoagulantes. Não deve fazer bloqueio espinal na vigência do uso de anticoagulantes; se está usando e vai fazer cirurgia, o ideal é que suspenda de 3 a 5 dias. Caso tenha necessidade grande de ficar anticoagulado, prescreve-se uma heparina de baixo peso molecular, que pode ser suspendida na véspera do procedimento. Ticlopidina e Clopidogrel são antiagregantes plaquetários, então precisa suspender mais. Heparina tem metabolização mais rápida: suspende a menos tempo.